MILTON HATOUM

Órfãos do Eldorado

COMPANHIA DAS LETRAS

Copyright © 2008 by Milton Hatoum Publicado mediante acordo com a Canongate Books Ltd., Edinburgh
Imagem de capa

Janela em Marabá, Luiz Braga, 2005
Preparação Márcia

Copola
Revisão

Cecília Ramos Valquíria Delia Pozza
Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Hatoum, Milton Órfãos do Eldorado / Milton Hatoum. — São Paulo : Companhia das Letras, 2008.
ISBN 978-85-359-1167-1

1. Ficção brasileira 1. Título.
08-00419 cDD-869.93

índice para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 869.93

[2008]

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EDITORA SCHWARCZ LTDA.

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Para minha mãe

Dizes: "Vou para outra terra, vou para outro mar. Encontrarei uma cidade melhor do que esta. Todo o meu esforço é uma condenação escrita, E meu coração, como o de um morto, está enterrado. Até quando minha alma vai permanecer neste marasmo? Para onde olho, qualquer lugar que meu olhar alcança, Só vejo minha vida em negras ruínas Onde passei tantos anos, e os destruí e desperdicei". Não encontrarás novas terras, nem outros mares. A cidade irá contigo. Andarás sem rumo Pelas mesmas ruas. Vais envelhecer no mesmo bairro, Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas. Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar, Não há barco nem caminho para ti. Como dissipaste tua vida aqui Neste pequeno lugar, arruinaste-a na Terra inteira.

A cidade, 1910
Konstantinos Kaváfis

ÓRFÃOS DO ELDORADO

A voz da mulher atraiu tanta gente, que fugi da casa do meu professor e fui para a beira do Amazonas. Uma índia, uma das tapuias da cidade, falava e apontava o rio. Não lembro o desenho da pintura no rosto dela; a cor dos traços, sim: vermelha, sumo de urucum. Na tarde úmida, um arco-íris parecia uma serpente abraçando o céu e a água. Florita foi atrás de mim e começou a traduzir o que a mulher falava em língua indígena; traduzia umas frases e ficava em silêncio, desconfiada. Duvidava das palavras que traduzia. Ou da voz. Dizia que tinha se afastado do marido porque ele vivia caçando e andando por aí, deixando-a sozinha na Aldeia. Até o dia em que foi atraída por um ser encantado. Agora ia morar com o amante, lá no fundo das águas. Queria viver num mundo melhor, sem tanto sofrimento, desgraça. Falava sem olhar os carregadores da ram11

Desapareceu.pa do Mercado. mas não encontraram a mulher. aí alguém gritou: A doida vai se afogar. cortou e pendurou o pênis do animal na porta da maloca. Florita traduzia as histórias que eu ouvia quando brincava com os indiozinhos da Aldeia. e só muito tempo depois eu entendi por quê. 12 . O corpo foi sumindo no rio iluminado. Os barqueiros navegaram até a ilha. varava a ilha do Espírito Santo e fisgava uma moça lá no Espelho da Lua. E o marido foi morar na beira da água. Lembro que elas choraram e saíram correndo. triste e arrependido. rindo: Cadê a piroca esticada? Lembro também da história de uma mulher que foi seduzida por uma anta-macho. a moça perguntava. Lendas estranhas. Nunca mais voltou. De repente a tapuia parou de falar e entrou na água. Os curiosos ficaram parados. estrangulado. Aí a mulher cobriu o pênis com barro até ficar seco e duro. depois dizia palavras carinhosas para o bichinho e brincava com ele. enquanto ele se contorcia. Diz que ela pulava e gritava de tanta dor. os pescadores e as meninas do colégio do Carmo. Olha só: a história do homem da piroca comprida. Aí o jeito foi mergulhar no rio e virar um sapo. Depois a piroca se enroscava no pescoço do homem. pedindo que a mulher voltasse para ele. Então o marido esfregou muita pimenta no pau de barro e se escondeu para ver a mulher lamber o bicho e sentar em cima dele. e. num encantamento. O marido dela matou a anta. na direção da ilha das Ciganas. tão comprida que atravessava o rio Amazonas. e que a língua e o corpo queimavam que nem fogo. E todos viram como ela nadava com calma. lá no fim da cidade.

quando um pássaro canta e surge a primeira estrela no céu.Lendas que eu e Florita ouvíamos dos avós das crianças da Aldeia. Uma história estranha me assustou: a da cabeça cortada. Duas mulheres. Aí. quem não tinha ouvido falar de Arminto Cordovil? Muita gente conhecia meu nome. nunca mais esqueci. o sonso. Falavam em língua geral. outro homem rouba metade do corpo. uma noite. e a cabeça sai voando e se gruda no ombro do marido. Amando. Mas a história de uma mulher não é a história de um homem? Até a Primeira Guerra. e os olhos não secavam. porque há um momento em que as histórias fazem parte da nossa vida. Uma das cabeças me arruinou. me deixou sozinho na beira desse rio. dormindo e acordando com a cabeça da mulher grudada no ombro. mas viva: podia sentir o mundo com os olhos. O marido não quer viver apenas com a cabeça da mulher. Eu tinha uns nove ou dez anos. à espera de um milagre. Vai se aproximar de . O corpo dela sempre vai atrás de comida em outras aldeias. A mulher dividida. ele a deseja inteira. Passa a vida procurando o corpo. de noitinha. Alguém ainda ouve essas vozes? Fiquei cismado. Assobiando. todo mundo tinha ouvido falar da riqueza e da fama do meu pai. sofrendo. e depois Florita repetia as histórias em casa. A outra feriu meu coração e minha alma. Mas. Cabeça silenciosa. o corpo da mulher volta e se gruda na cabeça. O homem e a cabeça ficam juntos o dia todo. Cabeça com coração. nas noites de solidão da infância. percebiam tudo. Estás vendo aquele menino pedalando um triciclo? Um picolezeiro. filho de Edílio.

Além disso. eu podia comprar a caixa de picolés e até o triciclo. Aí fico calado. e trabalhava que nem um cavalo no calor úmido desta terra. e deixo a noite entrar na vida. a propriedade na margem direita do Uaicurapa.mansinho da sombra do jatobá. Em 1840. Diziam que ele ignorava o cansaço e a preguiça. Só porque passo a tarde de frente para o rio. Sem amor e sem dinheiro. uma voz sai da minha boca. Nossa vida não se cansa de dar voltas. só de pirraça. e só paro de falar na hora que a ave graúda canta. mas eu não acreditava. E olha só: a fortuna cai nas tuas mãos. Nem a esperteza. E não tinha a obstinação do meu pai. e lá perto da igreja do Carmo ele grita: Arminto Cordovil é doido. Joguei fora a fortuna com a voracidade de um prazer cego. no fim da guerra dos Cabanos. a fama do meu avô Edílio. Diziam que morava numa cidade encantada. Amando Cordovil seria capaz de devorar o mundo. plantou cacau na fazenda Boa Vida. Não conheci esse Cordovil. Era um destemido: homem que ria da morte. penas cinzentas. dando adeus à claridade. vai me encarar com olhos de coruja. cor do céu quando escurece. ela sumiu deste mundo. Aí. Quis apagar o passado. liso que nem pau-desebo. Quando decidi viver com a minha amada no palácio. Mas morreu antes de realizar um so- . eu andava enrascado. sai pedalando. e uma ventania varre tudo. Canta. Depois dá uns risinhos. Quando olho o Amazonas. a poucas horas de lancha daqui. Antes. Agora ele sabe que eu não posso comprar nada. a memória dispara. O palácio branco dos Cordovil é que era uma casa de verdade. Macucauá vai aparecer mais tarde. e ainda corria o risco de perder o palácio branco. Eu não morava nesta tapera feia.

Morei num dos quartos do térreo. sem emprego nem estudo. tu vais é morrer sufocado. um deles. Foi mais um brasileiro que morreu com a expectativa de grandeza. Era um sobrado pequeno e antigo na rua da Instalação da Província. com paciência. o Juvêncio. Não disse nada sobre o novo cargueiro da empresa. mas não adianta antecipar. e usava o banheiro ao lado do porão. Um dia vou concorrer com a Booth Line e o Lloyd Brasileiro. Meu pai calou durante toda a viagem. Li no jornal que a embarcação já estava no Manaus Harbour. Florita escapava até a pensão para conversar comigo e lavar minha roupa. Liverpool e Nova York. onde dormiam uns rapazes que haviam fugido do Instituto de Jovens Artífices. Ela não gostava de Juvêncio. Florita estava acostumada ao conforto da chácara em Manaus e do palácio branco em Vila Bela. E detestava o meu quarto da Saturno. eu soube de outras coisas. Conto o que a memória alcança. Devia ter uns vinte anos quando Amando me levou para Manaus. Dizia: Com essa janelinha de cadeia. Faziam biscates. só no desembarque é que disse duas frases: Vais morar na pensão Saturno. dizia meu pai. Amando inaugurou a casa quando casou com minha mãe. andava com uma peixeira. Um barco a vapor com 15 . Quando meu pai estava no escritório. mas ela não me contava tudo. E passou a sonhar com rotas ambiciosas para os seus cargueiros. E tu sabes por quê. tinha medo de ser esfaqueada. ninguém fazia graça com ele. Vou transportar borracha e castanha para o Havre. trabalhavam em padarias e na cervejaria Alemã.nho antigo: a construção do palácio branco nesta cidade. Eu perguntava sobre Amando. No fim.

Em Manaus eu não fazia nada. por isso. Eu ia preparar um jantar. Aqui em Vila Bela diziam a Florita que meu pai era feliz ao lado de minha mãe. pensando no meu pai. me abraçou e me levou para o quarto. Eu esperava alguma coisa. Quando ela morreu. de nenhum. acordava suado. Até o dia em que Amando entrou no meu quarto com uma moça e disse: Ela vai cuidar de ti. Amando não sabia o que fazer comigo. e ela sabia disso. barcaças. Fiquei orgulhoso. Florita ouviu a frase. acreditava que o castigo por ter abusado de Florita era merecido. Leite de índia. Teu pai não quis. apenas lia na sala das refeições. Minha maior dúvida naquela época era saber se o silêncio hostil que nos separava era culpa minha ou dele. Nós três na casa da chácara em Manaus. Florita queria que eu morasse com ela e Amando. ou suco leitoso do tronco de amapá. Tempo de escuridão. Ou com outra coisa. Eu também queria. depois cochilava no calor da tarde. Eu ainda era jovem. Um cargueiro de verdade. Anda preocupado com o pagamento do barco. fabricado no estaleiro alemão Holtz.rodas nas laterais. sem memória. Florita nunca mais arredou o pé de perto de mim. devia suportar o peso dessa culpa. Uma tapuia me amamentou. sem saber o quê. os outros dois eram batelões. e mostrei o jornal para Florita. ela disse. Ia ao bairro dos Ingleses e rondava a chácara com a esperança de falar com o meu pai ou de ser 16 . Não me lembro do rosto dessa ama. por isso sentia falta dela quando morava na Saturno. Até hoje recordo as palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu.

. O homem escapou que nem rato: correu para uma rua escura. Caminhava ao lado de uma mulher. Manaus tinha tudo: luz elétrica. e para sempre. um século de atraso. Quando me lembro. Queria saber se era ele mesmo que estava com uma mulher na calçada da Castelhana. Ele passava a maior parte do tempo em Manaus. Não me deixou entrar nem falar. tinha um apego doentio pela terra natal. Fechou devagar a porta. à noite. Ia de bonde ao escritório e trabalhava até quando estava dormindo. Era uma viagem no tempo.visto por ele. Mas vinha com freqüência para cá. ópera. Observava as janelas da sala e imaginava Amando com o olhar apaixonado no retrato de minha mãe. como ele mesmo dizia. Antes de morar na Saturno. puxando a moça pelos braços. Duvidei se o homem era meu pai quando as mãos dele alisaram a cabeça da mulher. Amando só dava o trocado para o bonde. Não queria voltar para Vila Bela. e pararam em frente ao reservatório da Castelhana. Uma vez. Não tinha coragem de bater à porta e seguia pela calçada arborizada. vi um homem muito parecido com Amando no Boulevard Amazonas. a mesma altura. depois andávamos pela cidade. Florita me levava ao porto flutuante e ao aviário da praça da Matriz. telefone. mãos fechadas. disse: O que fizeste com Florita é obra de um animal. Meu pai gostava de Vila Bela. jornais. penso na lenda da cabeça cortada. como se quisesse desaparecer aos poucos. teatros. fui duas ou três vezes de férias para Manaus. Na porta. O mesmo jeito de andar. olhando os bangalôs e chalés com jardins imensos. No dia seguinte fui à chácara. cinemas. os braços caídos.

o advogado Estiliano apareceu na rua da Instalação para conversarmos. e um emblema da Justiça na lapela. o lago Macuricanã. queria ao menos um olhar. Ele sabia que era uma decisão de Amando. como se estivessem diante de um espelho. Queria que ele me abraçasse ou conversasse comigo. eles se olhavam com admiração. juntos. Essa amizade antiga havia começado nos lugares que eles evocavam em voz alta como se ambos ainda fossem jovens: as praias do Uaicurapá e do Varre Vento. uma punição contra o filho lascivo. A voz rouca e grave de Estiliano intimidava quem 18 .víamos os cartazes dos filmes do Alcazar e do Polytheama. Via o advogado com o mesmo paletó branco. assim meu pai o chamava. A separação de cinco anos não esfriou a amizade. onde pescaram juntos pela última vez. "Meu querido Stelios". Lembrou que eu não podia mofar numa pensão de pés-rapados. Os dois sempre se encontravam era Manaus e Vila Bela. Estiliano era o único amigo de Amando. Quando eu já me considerava condenado para sempre. a mesma calça de suspensórios. mas ouvia sempre a mesma pergunta: Passearam? Aí ele se aproximava da parede e beijava a fotografia de minha mãe. e voltávamos para a chácara no fim da tarde. e. Uma espera angustiada. davam a impressão de que um confiava mais no outro do que em si próprio. antes de Estiliano viajar para o Recife e voltar advogado. Por que eu não estudava para entrar na faculdade de direito? Meu pai seria outro. culpado pela morte de minha mãe. e de Amando casar com minha mãe. Eu esperava Amando na banqueta do piano.

à noite. peixeiros.quer que fosse. Na Cosmopolita conheci a cidade. lia os livros emprestados por Estiliano. e tomava boas garrafas de tinto a qualquer hora do dia ou da noite. A grande área portuária fervilhava de comerciantes. no meu quarto. Juvêncio não ria. Os rapazes do porão riam. Sei que traduzia poetas gregos e franceses. O homem da justiça. Amando. Meu pai seria outro. E cuidava dos assuntos jurídicos da empresa. rapaz de poucas frases. Fui embora da pensão quando entrei na Universidade Livre de Manaus. e passava a tarde carregando caixas e aten19 . era alto e robusto demais para ser discreto. E isso até o último dia. O coração e os olhos de Manaus estão nos portos e na beira do Negro. carvoeiros. Vinho e literatura. fechava os olhos e tapava os ouvidos quando o amigo recitava poemas no restaurante Avenida ou no bar do largo do Liceu. na rua Marquês de Santa Cruz. Muito bem. e eu. com uma janela que dava para os edifícios da alfândega e da guardamoria. estudava de manhã. Quando bebia muito. almoçava no mercado. os prazeres de Estiliano. Arranjei um serviço no empório de um português. Estiliano foi a pessoa mais próxima de mim. no alto da mercearia Cosmopolita. Era um quarto espaçoso. Era esquivo e sisudo. carregadores. falava das livrarias de Paris como se estivesse lá. Passei dois anos estudando na Biblioteca Municipal. mas nunca tinha ido à França. marreteiros. E na mesma semana Juvêncio também saiu da Saturno. O doutor da Saturno. não sei onde ele metia ou escondia o desejo carnal. um homem austero. Ele foi morar na calçada do High Life Bar. Depois de Florita.

e comprava roupa na Mandarim. Eu ia passar na chácara para estender a mão ao orgulhoso. ia atrasar o pagamento do aluguel. do Re Umberto. comecei a trabalhar no embarque e desembarque dos passageiros. mas o acaso fez o encontro. esperei uma palavra. E ganhava roupa. Uma tarde tive que ir ao cais da Escadaria para carregar umas caixas para o empório. Dois dias depois o dono do empório avisou que um sobrinho ia trabalhar com ele. O sujeito nunca me encarava. avisei a Estiliano que estava pagando o aluguel do quarto. Nunca tive certeza se fui demitido a mando do meu pai. apenas gorjetas. Não recebia salário. Mesmo com um ordenado miúdo. Esse gerente imitava tudo do meu pai. Não precisava mais de mim. Não bebia porque o patrão era abstêmio. Rosto com olhos de vidro. o gerente atrás que nem um cachorro. chapéus e livros usados. Conheci o comandante do Atahualpa. Disse ao dono da Cosmopolita que estava sem serviço. 20 . Estava a poucos metros de Amando Cordovil. mas ainda tinha esperança de conversar com ele. sem tempo para estudar. a loja preferida de Amando. Ele sofre com a separação de vocês. Amando estava lá. Passava o dia todo no porto. do Anselm. É um homem orgulhoso demais para estender a mão para o filho. E o que no meu pai era verdadeiro. Como ele tinha amigos no Roadway. do Rio Amazonas. Mostrei os documentos do frete ao guarda-mor.dendo fregueses. com o gerente da empresa. ele olhou meu avental e não falou comigo: caminhou até o quiosque do Mercado. Amando fazia questão de pagar. disse Estiliano. Mas o que me irritava mesmo era o olhar dele. até o jeito de andar. no gerente era quase cômico.

as lembranças chegam com força. Chegava gente de muitos países e de todos os cantos do Brasil. mesmo sem saber. eram loucos para conhecer o teatro Amazonas. depois de uma noitada num cabaré barato da rua da Independência. lembrei que Amando detestava ver o filho com as crianças da Aldeia. Eu me esforçava para esquecer. em Salvador e no Rio de Janeiro. na Booth Line e na HamburgoAmérica do Sul. subíamos nas árvores. Hoje. Quando ele aparecia no alto da Escada dos Pescadores. Às vezes eu acompanhava passageiros estrangeiros a um passeio de canoa nos lagos próximos de Manaus. Lembrei também do desprezo e do silêncio. do La Plata. O problema eram os pobres. Já me acostumava com o trabalho no Roadway. Vi o cargueiro alemão uma única vez. Conversava com jovens que iam estudar no Recife. Sentei no cais flutuante e li a palavra branca pintada na proa: Eldorado. E. E são mais nítidas. desejava me aproximar do meu pai. eu voltava para o palácio branco. De olho no cargueiro. não entendiam como podia existir um colosso de arquitetura na selva. tomávamos banho no rio e corríamos na praia. Naquela época as lembranças apareciam devagar. Outros iam para a Europa. Quanta cobiça e ilusão. Flechávamos peixinhos. andava com eles pelo centro da cidade. na Ligure Brasiliana. o governo não sabia o que fazer com eles. Isso doía mais que as histórias que ele me contava na fazenda Boa Vida. mas não conseguia. no Lloyd Brasileiro. Esses comandantes trabalhavam na Lamport & Holt.Fiz amizade com Wolf Nickels. As praças amanheciam com famílias que dor21 . de madrugada. que nem gotas de suor.

conseguiria ajuda do governo para comprar mais um cargueiro. Bebia de graça a bordo do La Plata e trabalhava como carregador e guia turístico. É a casa dele. Implicância do meu amigo. não era difícil conquistar mulheres dos cabarés famosos. Queria que eu conversasse com Amando em Vila Bela. girava no trapézio. e eu podia ler notícias sobre meu pai nessas folhas amassadas e sujas. Zé Braseiro subia por uma corda. dava um show nas alturas e era aplaudido. Mas tudo isso vai acabar. Às vezes ele repe22 . Se Amando ganhasse. Não sabia se Amando já havia acertado alguma coisa com Estiliano. Os turistas choravam de tanta pena. O que fiz foi me atirar à vida noturna na vizinhança do porto. No mercado Adolpho Lisboa a exibição de Zé Braseiro atraía e horrorizava os turistas. Perguntei por que não nos reuníamos em Manaus. esse ajudante armava um trapézio no galpão da peixaria. Aos sábados.miam sobre jornais velhos. Florita nunca mais me visitou. Ciúme. Andava numa carrocinha empurrada por um ajudante. a notícia mais importante era a concorrência de uma linha de carga de Manaus para Liverpool. Era um rapaz que só tinha braços e mãos. eu disse. Em Vila Bela teu pai está longe dos problemas. Com a roupa que ganhava dos passageiros. mas me faltava lucidez ou malícia para desconfiar de uma armadilha de pai para caçar o filho. Eu não era mais tão jovem. e deixavam dinheiro na carrocinha. as pernas eram dois fiapos de carne. Estiliano confirmou. e disse que meu pai ia precisar de mim.

quando Amando Cordovil festejou na chácara a compra do segundo batelão da em- . do péssimo funcionamento do porto. alguma coisa perturbou a cidade. Vai conversar sobre esse assunto no nosso encontro. do valor das taxas alfandegárias. O movimento portuário diminuiu. Tudo parecia absurdo e violento. Eu teria vivido muito tempo assim. Li nos jornais um desabafo do meu pai: reclamava dos impostos absurdos. Eu via as pessoas irritadas. Enquanto observava a sala. Entrei no jardim. Antes disso.tia o show na praça São Sebastião. em frente ao teatro Amazonas. Em pouco tempo o humor de Manaus se alterou. Como ele soube? Ele sabe tudo. espiei a sala pelas frestas da janela. disse Estiliano. e tu és o único filho. Ainda não. da balbúrdia na nossa política. Não é só por isso que ele está com raiva. Amando soube que abandonaste os estudos e andas por aí. não vi o retrato de minha mãe na parede. Deves desembarcar em Vila Bela antes do Natal. revoltadas. mas o encontro com Amando mudou minha vida. a Primeira Guerra. lembrei de um recital da pianista Tarazibula Boanerges. Não é tarde demais para qualquer acordo com ele? É a oportunidade da tua vida. Não era a guerra na Europa. No começo de dezembro fui à chácara para ver Florita. mas o piano preto estava no mesmo lugar. dormindo nos bordéis da cidade. Um vizinho informou que ela e meu pai tinham viajado para Vila Bela. Ele está envelhecendo.

Depois que tua mãe morreu. e então decidi que ia largar o trabalho e viajar para Vila Bela. Leontino Byron. Amando abraçou um jovem convidado e disse: Tens vocação política. Eu tinha uns dezesseis anos. . Foi uma das poucas vezes que vi Amando entusiasmado. seu Amando não gostou de mais ninguém. respondeu meu pai. Ela me beijou na boca. Com essas lembranças me afastei da casa fechada. Durante o jantar. o primeiro beijo. Disse ao dono da Cosmopolita que não ia mais alugar o quarto. Disse a ela que não queria morar com Amando. quis que eu conhecesse sua filha. deves ser candidato a prefeito de Vila Bela. belos olhos e feições. Eu ainda observava a brancura quase transparente quando Amando disse ao amigo: Não vale a pena. só que pálida demais. boa e bela em tudo. Ela sorria para o teclado: boa dentadura. O jovem. diretor da Manaus Tramway. nem no palácio branco nem na chácara de Manaus. a pele da cor do papel. quis saber por qual partido. Meu filho é louco pelas indiazinhas. só dos malditos cargueiros. Um deles. O que importa é ganhar. Isso é o de menos. e pediu que eu tivesse paciência. e até fiquei contente quando ele me apresentou aos convidados daquele jantar. Repeti essas palavras com o gosto do beijo de Florita.presa. Lembro que saí da sala e fui com Florita até o quintal. Apontou uma mocinha ao lado do piano. Voltou a falar do batelão e dos fretes. Louco pelas indiazinhas.

filhos de Vila Bela e deste rio Amazonas. senti a emoção e o peso de quem volta para casa. e fiquei surpreso quando o dono da mercearia me entregou uma passagem para Vila Bela no La Plata e um bilhete datilografado: Reunião na casa do advogado Stelios às 17 horas do dia 24 de dezembro. arrumado. com o mosquiteiro estendido sobre a . me deu um abraço espremido. Senti as mãos fortes passeando nas minhas costas. Podia ter sido escrito por Estiliano. Olha só no que deu nossa tarde de brincadeira. o navio. AC. Soube que meu pai não estava em casa porque Florita. Os cargueiros do teu pai têm futuro. Aqui eu era outro. só de camisola. Quer dizer. Desembarquei em Vila Bela às duas horas da tarde de 24 de dezembro e. respondeu. Tu e teu pai não conseguem viver longe daqui. Meu quarto. Notei que a rede de Amando estava armada no mesmo lugar da sala. Perguntei se ela sabia que eu vinha. Anos depois desconfiei da autoria do bilhete. Mas o fato é que viajei com a expectativa de conversar com meu pai. eu mesmo: Arminto. abaixei a cabeça e cochichei: Os caseiros têm faro de cachorro. demorado. a hora e o lugar do encontro. Amando havia calculado tudo: a data do embarque. filho de Amando Cordovil.O serviço no Roadway não era mesmo para um Cordovil. quando avistei o palácio branco. Disse isso e foi preparar meu banho. Tive a impressão de que todos conheciam meus passos. neto de Edílio Cordovil. Ela afrouxou as mãos e me olhou com um sorriso sem culpa: Não queres mais? Foi só aquela tarde? Aquela tarde seria motivo de ciúme para uma vida inteira.

Lembro do barulho de um barco. advertiu. Florita me avisou que a banheira estava cheia. eu disse. Estava ajoelhado diante da cabeça quando senti o cheiro de essências da perfumaria Bonplant. Florita. Foi ver a diretora. eu costumava olhar o rosto jovem. Fui até a Ribanceira e esperei na sombra da cuiarana. Nem fez a sesta. Não haviam perdido o hábito subserviente que tinham de me chamar de doutor desde a época em que eu era menino. Desde pequeno. No quintal. Almerindo e Talita foram morar nos fundos do palácio branco quando Amando abandonou a fazenda Boa Vida para se dedicar aos cargueiros. Mas antes quero ver o velho. Tudo parado no calor da tarde. peixe na brasa e farofa com ovos de tartaruga. tratava os caseiros como se fossem estranhos. Onde ele está? No colégio das carmelitas. ruídos de um rio 26 . Nosso encontro é às cinco horas. que Amando mandara esculpir quando ela morreu. Vila Bela se escondia do sol forte. cinzentos. falei com o caseiro e a mulher dele. Cuidado pra não azedar o Natal. os olhos de pedra. sabendo que Florita já sabia. caiava a fachada depois das chuvas do inverno.cama. Talita cuidava do quintal e limpava a cabeça de pedra no centro da fonte. Depois do banho ela serviu o almoço: feijão com jerimum e maxixe. que pareciam me interrogar. A cabeça de minha mãe. por birra ou ciúme. como se eu não tivesse saído de casa. Está de bom humor? Em Vila Bela ele só falta abraçar a lua. Teu pai se fartou de tanto comer. Depois ia passar na casa do doutor Estiliano. Almerindo fazia reparos na casa.

e hesitei. massageando seu peito. Fiquei atrapalhado. A cabeça brilhava no canto da praça. Dobrou as pernas lentamente e ficou de joelhos. mas ele se contorceu. Florita chegou tão desesperada que me empurrou aos gritos e chorou de joelhos. Quieto. o homem grande se debruçou sobre Amando. Eu não tinha força para carregá-lo sozinho. virou o corpo e tomou a direção da rua do Matadouro. Os curiosos se afastaram. o olhar em algum ponto na sua frente.que nunca dorme. e o homem alto e forte apareceu. ele me olhava. O homem que eu mais temia estava nos meus braços. Tive medo do confronto. Alguém deu uma notícia inútil: o único médico de Vila Bela fora para Nhamundá. Quando saí da sombra. e os curiosos cercaram o corpo. o único abraço. O cabelo bem penteado parecia uma armadura. arriou de costas. O homem ia cair de boca. O jardineiro do colégio abriu o portão. Estiliano apareceu uns minutos depois. como se ele abraçasse o próprio corpo. Ele não usava chapéu. . Entre nós dois havia a sombra de minha mãe: o sofrimento que ele suportava desde a morte dela. Em pouco tempo a cidade despertou. beijou seu rosto e com um gesto delicado fechou os olhos dele. e as mãos cruzadas agarraram o ombro. ele ergueu a cabeça para o sino da torre. Para Amando. Meu pai caminhava para o palácio branco. Ele andou com passos rápidos. Paletó e calça escuros. Depois. Pensei que seria o momento certo para antecipar nossa conversa. Acho que havia decidido ir logo à casa de Estiliano. no pai morto. o rosto engelhado de dor. No fim da praça. Gritei o nome dele e corri. as mãos fechadas como se os dedos tivessem sido amputados. eu era o algoz de uma história de amor. parou. Deitado.

E foi embora. como se não estivesse ali. da ilha das Onças. porque os elogios ao finado contrariavam a imagem do pai vivo. me deram os pêsames. Madre Joana Caminal veio sozinha. Durante o enterro. Depois de sua morte. a moça e as outras órfãs atrás dela.Eu tinha passado uns quatro ou cinco anos sem pisar em Vila Bela. eu soube que ele havia sido um verdadeiro filantropo. um vício que herdei e mantive por muito tempo. Dava roupa e comida ao orfanato das carmelitas. o rosto acavalado e triste. me deu os pêsames e disse secamente: O senhor Amando Cordovil era o homem mais generoso desta cidade. o Denísio Cão. Uma delas tinha jeito de moça crescida. Olhei tanto que a diretora do colégio do Carmo se aproximou de mim. As órfãs do Sagrado Coração de Jesus também estavam no cemitério. um favor que fez ao governo e aos moradores. Meninas. Usava um vestido branco e olhava para o alto. percebi como ele era querido. Eu não conhecia a moça. Isso me deixou confuso. Vamos rezar por sua alma. E também um barqueiro esquisito. Parecia uma mulher de duas idades. E lembrava como fora caridoso nos festejos da Virgem do Carmo. práticos de confiança de Amando. ajudara a construir o palácio episcopal e a restaurar a cadeia pública. Nem Amando ia com os cornos dele. com o mesmo traje: saia marrom e blusa branca. Até pagou o ordenado dos carcereiros. De repente o olhar me encontrou e o rosto anguloso sorriu. como se não estivesse em lugar nenhum. todas juntas. desde o momento em que Amando foi velado na igreja do Carmo. Eu sabia que ele gostava de dar esmolas. Denísio se ajoelhou e fez o sinal-da-cruz. e. Ulisses Tupi e Joaquim Roso. 28 .

com firmeza. viajei com Estiliano para Manaus. um pouco constrangido. Contrata outro advogado. Ele me entregou uma caixa da loja Mandarim com a papelada que Amando guardava na chácara. Assim podia ver a rampa do Mercado e o rio. soube que meu pai era proprietário de uma área no bairro de Flores. o abrigo dele em Vila Bela. Estiliano. Durante a sesta. Essa generosidade de Amando com o querido Stelios não me irritou. podia sentir a vida que vinha das águas. Florita reagiu com muita tristeza à morte do patrão. Usava roupa branca em vez de luto fechado e não deixou de cozinhar os pratos preferidos do meu pai. 29 . Ele deixou para o amigo um bom pecúlio e uma casa na beira da lagoa da Francesa. vizinha ao hospício. às vezes ela arrumava no centro da mesa o prato e os talheres de Amando. Estiliano falou de um empréstimo bancário para pagar o estaleiro Holtz: como eu podia pedir tanto dinheiro? Não ia permitir. Só mudei o lugar da rede na sala. Quando Estiliano abriu o inventário. Mas só um Stelios. e mencionei o valor da retirada mensal. No começo do ano. disse que o pecúlio seria o vinho para a velhice. Encurtei os cabos e aproximei a rede da janela do meio. ele disse.O quarto onde ele dormia no palácio branco permaneceu do mesmo jeito. Por distração ou hábito. eu comia sozinho. Pedi ao advogado que fosse meu representante na empresa. eu disse. e não olhava o lugar vazio. Há muitos em Manaus. depois pedi dinheiro para viver. E a casa. o corpo de Amando barrava a passagem para as janelas.

Quando ele me acuava para tomar uma decisão. eu pedia ajuda a Estiliano. E ele mesmo sugeriu que o dinheiro fosse enviado pelo malote postal do Lloyd.. Passava no escritório. e então pensava que a minha vida dependia daquele cargueiro navegando no Amazonas. Esqueci o barco no dia em que meu . Amando confiava no gerente. Vim morar aqui. taxas alfandegárias. Quando insisti para que dirigisse a empresa. O advogado sentava na cadeira do meu pai.. Podes morar em Vila Bela e passar uns dias em Manaus. Eu era o herdeiro. Às vezes me criticava porque eu era ríspido com o gerente. interrompi.Chegamos a um acordo sobre a retirada. e isso o surpreendeu. E cuidar da fazenda Boa Vida. demissão ou admissão de empregados. Não podia adivinhar o pensamento dele. via a papelada sobre a escrivaninha. nem tinha a serenidade de Estiliano para suportar o olhar frio que procurava o retrato do meu pai na parede do escritório. devia ficar à frente. e me enervava com problemas de todo tipo: peças de máquina. mas não agüentava dois meses sem ir para Manaus. recusou: dali a alguns anos ia morar em Vila Bela. lamentava: Se Amando estivesse aqui. ou com um silêncio altivo. Não tenho experiência nem vontade. O gerente respondia às minhas dúvidas com poucas palavras.. eu só me lembrava do gerente e da empresa quando via o Eldorado a uns cem metros do palácio branco. interferia no preço do frete. Fui o patrão antes do tempo. Por que olhava tanto para o patrão morto? Em Vila Bela.. Com uma voz de cachorro rouco. lia os documentos que eu devia assinar. impostos. carga extraviada.

o olhar vivo no rosto anguloso. sem conhecer a órfã. E percebi que era tarde demais para desfazer o destino. Era mais fútil. que só depende do acaso. e às óperas no teatro Amazonas. um funcionário do porto me entregava o cardápio de bordo e me informava sobre os passageiros. eu ia jantar e dançar no salão do navio. de dar pena. e adiei essa decisão até o limite da vaidade. do olhar. quando um deles atracava em Vila Bela. Às vezes embarcava para Manaus e me divertia nos bailes do Ideal e do Luso. sujeito fofoqueiro e bajulador. Tudo voltou: o sorriso. Quando Estiliano me ouviu falar de Dinaura. Dinaura. um Cordovil embeiçado por uma mulher que veio do mato. desdenhou: Essa é boa. Quando ele dizia que tinha visto moças lindas no convés. ia às matinês do Alcazar. nunca encontrei. Depois passava no Chalet-Jar- . esperava ansioso pelos navios que vinham da Europa e subiam o Amazonas. disse que o olhar dela era só feitiço: parecia uma dessas loucas que sonham em viver no fundo do rio. sim. O olhar de Dinaura era o que mais me atraía. A mulher de duas idades.olhar encontrou a moça do enterro de Amando. Uma índia? Procurei a origem. Às vezes um olhar tem a força do desejo. quer penetrar na carne da pessoa amada. Desde que me mudei para cá. Não lembrava com nitidez do rosto. Rever o que foi apagado pela memória é uma felicidade. Depois o desejo cresce. de um único momento da vida. Encontrei outra coisa. E Florita. Vazia. Não sei se a minha vida era menos triste que a dela. olhos mais puxados que os meus. Eu queria viver com Dinaura. dos olhos. O nome dele era Arneu. do Rio Branco e do Polytheama.

E o diabo é que ele me reconheceu e entrou no bar. murmúrios. subia na árvore da Ribanceira e pensava em Dinaura até o sol iluminar o dormitório do orfanato. A freira não respondia. Próximo da floresta. e. O Juvêncio. Tomava café no bar do Mercado. E depois dava uma . ouvia palavras em língua indígena.dim para conhecer as cantoras italianas. e sim dinheiro. um vapor que descia o Amazonas para Belém. via barcos pesqueiros atracados na rampa do Mercado. O doutor da Saturno. mas Juvêncio não queria afago nem cortesia. eu perguntava por Dinaura. e ele riu mostrando a gengiva sem dentes. passava a noite bebendo vinho e lendo libretos de ópera. barcos carregados de frutas. via os casebres tristes da Aldeia. oferecendo a mão espalmada. eram velhos insones na escuridão. Dei dinheiro. fazia cara de cruz-credo. e logo voltou para a rua. Ele já era um homem. eu continuava: Ela vai cair fora do orfanato. Então saía de madrugada pelas ruas de terra desta cidade malcuidada. Quando eu voltava para Vila Bela. ainda vi Juvêncio num tumulto próximo do mesmo bar. quando voltava pela beira do rio. e o High Life estava falido. via o vulto de cabeças no vão das janelas. não sei se riam ou acenavam para mim. Antes do amanhecer ficava melancólico. a última edição do Pathé-Journal e jornais velhos. quando tomava cerveja no High Life. Uma tarde. depois rondava a praça do Sagrado Coração de Jesus. vi na rua um dos rapazes da pensão. Anos depois. Quando uma carmelita me via sentado num galho da árvore. caminhava até a Escada dos Pescadores. Ia apertar a mão dele. vai morar comigo. ele disse.

Uns anos antes da morte do meu pai. o emprego. vamos desaparecer. com neblina espessa. O idílio venceu. uma risada que parecia obscena mas era puro desejo. Em casa. Podia ser Dinaura. E a vida mundana morreu com a euforia de uma época. Eu vivia entre esse idílio e as viagens para Manaus. Alguma coisa com a tua mulher encantada. mas ela saiu em silêncio. Os sonhos e o acaso me levavam para um caminho em que Dinaura sempre aparecia. Ou invenção do meu olhar. não um capricho. e esperei outras palavras sobre o sonho. Na tarde de um domingo Dinaura passou na frente do palácio branco e sorriu para mim com lábios vorazes. corri até a margem. o comércio. Como tudo muda em pouco tempo. Olhei desconfiado para Florita. as pessoas só falavam em crescimento. Até a prostituição. Muito cedo. a exportação de borracha. Manaus. e ainda aumentam os impostos. Só Estiliano ficava com um pé atrás. manhã sem sol. o turismo..risada que assustava a religiosa. Um dia Florita entrou no meu quarto para apanhar a roupa suja e disse: Tive um sonho ruim. Ninguém. Lembro de ter visto na beira do rio uma mulher parecida com ela. Nos bares e restaurantes as notícias dos jornais de Belém e Manaus eram repetidas com alarme: Se não plantarmos sementes de seringueira. Podia ser uma insensatez. Lembrei da tapuia que foi morar numa cidade encantada. tudo crescia. Tanta ladroagem na política. Ele estava certo. A mulher caminhou na margem. 33 . até sumir na neblina. as palavras não eram menos amargas..

No fim da tarde. Atravessei o caminho de terra e sentei no lugar onde ela estivera lendo. Como Dinaura não falava com ninguém. e. Enquanto as meninas brincavam. Nadou e deu um mergulho tão demorado que senti falta de ar. Dinaura lia um livro à sombra de uma mangueira. senti o corpo tremer de desejo. antes de vê-la correr para a praça do Sagrado Coração. onde hoje é o bairro Cegos do Paraíso. ainda toquei nos ombros dela. atalhei por uma escada de barro e lá em cima parei diante de Dinaura. Dinaura já estava vestida e andava à frente das meninas. ela e as meninas desceram o barranco pela Escada dos Pescadores. riam e davam beliscões na bunda e nas coxas de Dinaura. com o vestido enrolado no pescoço. Nem lembrei da Escada dos Pescadores: desci correndo o barranco. quando me aproximei do rio. No porto de Vila Bela. Disse que queria conversar com ela. Usava um vestido de chitão florido. Segui o vestido molhado até a rampa da Ribanceira. o sorriso nos lábios grandes e molhados. E que eu devia quebrar o encanto antes de ser transformado numa criatura diabólica. fiquei lambendo aquele corpo na luz do fim da tarde. De longe. alguém espalhou que a órfã era uma cobra sucuri que ia me devorar e depois me arrastar para uma cidade no fundo do rio. Dinaura deixou o livro na areia e entrou sozinha na água. Fui atrás do grupo. Quando ela apareceu nua. porque as meninas apontavam para mim. Tenho certeza de que me viu.Acompanhava umas meninas do orfanato para a Aldeia. Vi os olhos de espanto no rosto fora do mundo. surgiram 34 . e só parava de ler para contemplar o rio.

rumores de que as pessoas caladas eram enfeitiçadas por Jurupari. Queria ver. Quis ajudar. aquela espanhola. Denísio Cão. A religiosa espanhola estava lá. perdeu todas. Era uma cigana no céu branco de tanta luz. Os jogadores olharam sério para o barqueiro. Denísio cuspiu para o lado. 0 intruso se chateou. apontando uma ave. E então.. rindo: É que hoje cedo transportei um velho e duas vacas para o rio Arari. o barqueiro esquisito. Ouvi Ulisses dizer o nome de um pássaro e imitar seu canto. disse: A madre chefona. detestava perder. Era uma freguesia depois da boca do Espírito Santo. mas a espanhola braba não deixou. Ulisses amarrou o cabo da lancha no tronco de uma árvore. Ninguém na porta das taperas cobertas de palha.. E tua órfã também. Na praia do Arari. Cadê a moça. a madre? Paciência. Salomito guardou as peças na caixa: que fossem jogar no bar do Mercado. As duas plantavam pimenta nas canoas cheias de terra. Ulisses Tupi me levou para lá. Joaquim Roso desarrumou as peças do dominó e foi embora. será que é virgem que nem santa? Queria ver. disse Ulisses. Uma fileira de canoas velhas. sem mais nem menos. se intrometeu no jogo e perdeu uma partida. Segui o vôo pesado da ave até a mata alagada. Num sábado. Joaquim Roso e Ulisses Tupi me convidaram para jogar dominó na pensão de Salomito Benchaya. queria ver. Homem sem sorte. virou o rosto para mim. deus do Mal. Dei35 . apoiadas em forquilhas cravadas na areia.

Florita. Disse que ele era advogado. vi a imagem de madre Caminal e escutei uma zoada. me disse que eu era o diabo para as carmelitas: um aproveitador de moças. E o meu sentimento? Não seja cínico. como se lessem as . lá na praia da Ponta da Piroca. Mas logo a testa se enrugou. as taperas fechadas. Mas uma mentira repetida não é um arremedo de verdade? Pedi a Estiliano que me ajudasse a convencer madre Caminal de que eu não era o diabo que diziam por aí. mareado pelo banzeiro de um barco. Dinaura apareceu no sonho com o mesmo vestido de chitão. e suava. cortados da noite. Nunca trouxe mulher para Vila Bela. Acordei com o barulho do motor da lancha. quando puxei o corpo para perto de mim.tei na proa e fechei os olhos. um solteirão sem uma gota da honra do meu pai. Arminto. Que me viam desembarcar com marafonas de Manaus na rampa do Mercado e nadar com elas na maior sem-vergonhice. A diretora é responsável pelo zelo moral das órfãs. o lugar deserto. Vi o rosto dele cheio de orgulho. Insisti com uma solenidade disfarçada. Os olhos de feitiço. disse Ulisses. Pensava no sonho. Acho que era lorota daquele Denísio Cão. ninguém ficava surdo quando ele falava. os olhos tensos no meu rosto. Agarrei os braços dela e. Comecei a conhecer o rosto de Dinaura. e senti o que não havia sentido nos namoros da juventude. que escutava as conversas de Vila Bela. Levantei e dei uma olhada na praia: as canoas suspensas. um pouco rasgados. e escuros.

diziam. na perfumaria de Horadour Bonplant e no bar do Mercado para contar conquistas amorosas. Esquece aquela moça. esse mesmo edifício. A verdade é que Dinaura enchia meu pensamento. Florita foi averiguar na porta do colégio e voltou com um sorriso engasgado. Um leso. eram machos vencidos. Não sei se escapava: era o silêncio que dava impressão de fuga. Mas. Florita tinha um jeito curioso de ser ciumenta.páginas de uma tragédia. Isso aconteceu depois de várias tentativas. ia até a Ribanceira e olhava as janelas do orfanato. Uns idiotas riam de mim. A hora da tristeza?. na tarde em que Dinaura me encontrou na praça do Sagrado Coração. da família Adel. Não sei se falava da empresa ou da órfã. Alguma coisa no seu olhar inibia mais que uma voz ou um gesto. Disse que só meu pai conseguia falar com madre Caminal. Por quê? Medo. todos eles viram. E. Esquece antes de chegar a hora da tristeza. Eu vestia um paletó branco de linho. sem a menor vergonha de mentir. É. quando Dinaura andava na cidade. Eles se reuniam na taberna dos Viajantes. Com medo. de maldade disfarçada. A órfã queimou a cabeça dele. Pôs as mãos no meu ombro: estava muito preocupado. Ela não vai ser tua mulher. Lembro que durante um bom tempo não vi Dinaura nos lugares aonde costumava ir sozinha ou com outras órfãs. Nunca vai ser amada quem não é de ninguém. perguntei. co37 . Os dois se entendiam. Ela escapava sem dizer palavra. Nenhum falava com a mulher. os homens iam atrás. só ele era recebido pela espanhola. e.

nós dois olhando uma canoa na água escura. Fazia tempo que eu não pisava em Manaus. Quando o advogado veio passar o mês de julho em Vila Bela. um tempo absurdo. Pensei em Estiliano. a cabeça curvada sobre . Era como se ele falasse disso com o olhar. Sentamos na varanda. Madre Caminal controla a vida das órfãs. o homem grandalhão bebendo calado e eu adivinhando seu pensamento. enquanto bebíamos juntos. uma hora. Não é um capricho. lisa e calma como uma lâmina de cobre. Rondamos em silêncio o nome de Dinaura. a voz rouca que diria: É um absurdo ignorar a empresa que herdaste do teu pai. Olhei para a sala: ele estava sentado diante de um livro aberto.. levantou e entrou na sala. Nada de dor nem compaixão. percebi que ele me censurava com o olhar. Não vais dar uma mãozinha ao filho do teu amigo? Apenas me olhou como um velho olha um jovem: o olhar que pode ser complacente ou altivo. Esperei uns minutos. Bebi mais uma taça e me encorajei. e. ficava sem fala diante dessa mulher que cuidou de mim como uma mãe. Pegou a taça de vinho. A guerra e as mudas de seringueiras plantadas na Ásia. o laço mais forte de Amando com a diretora do Carmo. e eu sabia que a guerra na Europa prejudicava a exportação da borracha. em silêncio. fui à lagoa da Francesa no meio da tarde e ofereci a ele umas garrafas de vinho.. olhando a canoa parada na água escura. Sabes por que vim aqui? A moça que veio do mato. Estiliano. até o céu avermelhar.mo eu me impressionava com o que me dizia. Ele continuou a beber.

Copiava palavras do livro. tomando vinho. pegou as duas folhas e leu o poema espanhol com entonação forte. Florita levou ao colégio do Carmo o poema e o bilhete. peças de cerâmica. Madre Caminal me ofereceu uma cadeira. só não gostava mais porque esse grego é agnóstico. o homem não parava de escrever. O nome do primeiro carmelita que pregou por aqui estava gravado na parede. soprou a folha de papel para secar a tinta e releu em silêncio. A simplicidade do ambiente me impressionou. A sala parecia um museu pobre e improvisado. com os olhos no papel. As imagens e o sentimento cresciam com os sons das palavras. copiar. Nasceu aqui. me entregou duas folhas de papel e disse com uma voz contrariada: Manda isso para a diretora e escreve um bilhete dizendo que teu sentimento está nesses versos. Teu pai gostava muito dele. Respirava como um animal cansado depois da caça. mas nunca rezou na nossa igreja. Voltou à varanda. No chão. na penumbra. mais que um milagre. Li os versos ali mesmo. copiado de algum livro espanhol. Madre Caminal me chamou para uma conversa na sala da diretoria. nasceu no Amazonas e estudou no Recife. 39 . O corpo avantajado enchia a sala. Leu todo o poema e. Não é grego. Um poema misterioso. entre as pinturas a óleo do rosto de santa Teresa e de são João da Cruz. Entrou de novo na sala e me deixou sozinho na varanda. disse: Caligrafia do advogado Estiliano. Que pode fazer um poema? Para mim.uma folha de papel. máscaras de rituais e cacos de urnas funerárias de tribos indígenas que já não existiam. Invejei a voz da mulher. Quando terminou.

Teu pai deu muito. É difícil seguir o raciocínio dessas moças. Mas a riqueza não foi suficiente.Então falou da órfã. Nunca se aproxime do dormitório do orfanato. mas fui um jovem vistoso. 40 . na nossa vida. Podia ter sido uma carmelita. no dia seguinte já esqueceram tudo. Isso conta. Ela até ficou animada. Se a minha órfã quiser. Ela queria namorar comigo. Às oito da noite tocava o silêncio. Madre Caminal me devolveu as folhas de papel: Leia esse poema de vez em quando. Depois das orações. Os regulamentos do orfanato eram severos. até a velhice. não havia folga para outras tardes de amor. serva do Senhor. a vizinhança ouvia uma religiosa gritar: Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. O toque do sino acordava as meninas às cinco da manhã. vai te encontrar às cinco horas na praça. Não é preciso dar nada para a nossa Ordem. uma moça trabalhadeira e inteligente. Rezam com devoção e não acreditam em nada. nem entre mais aqui. o coro das órfãs respondia: Para sempre. mas desistiu. Quer dizer. dava uma pancada na mesa. não é? Era o que eu pensava. A gente se encontrava aos sábados. Agora sou uma carcaça. E só aos sábados. Minha história com Dinaura começou naquela semana. não serviu para muita coisa. Mas não desta ilha. Deus escolhe o melhor caminho. E ainda tinha posses. De onde ela veio? De um lugar qualquer. Mas. Comiam caladas no refeitório do internato. quando uma órfã queria ir ao banheiro. ao meio-dia e antes de dormir. Um dia querem uma coisa. Rezavam às seis horas.

Eu pensava que as órfãs só rezavam. assombrada com alguma coisa que o sonho não revelava. com a voz que eu só ouvia nos sonhos. Triste. A mais velha do orfanato. estudavam o português e eram proibidas de conversar em língua indígena. rezando o rosário inteiro diante do Coração de Jesus iluminado pela chama de uma vela. depois das aulas. E me acostumei com o silêncio. como se fosse morrer. Foi um namoro silencioso. No começo foi assim: nós dois sentados no banco da praça. Duas delas.e a irmã regente inspecionava o dormitório. Só uma tinha vindo de muito longe. desta cidade. De repente ela ficava muda. espanavam o altar e as estátuas dos santos. eu escutava a voz de Dinaura nos sonhos. Uma voz mansa e um pouco cantada. costuravam e estudavam. e ajudavam a limpar o dormitório e as salas do colégio. de Nhamundá. de mãos dadas. Num sábado me surpreendia com um sorriso. os lábios no lugar. iam até a capela para dar graças e rezar com as carmelitas. o rosto parado. e na outra semana com uma tristeza terrível. Florita me disse que várias órfãs falavam a língua geral. como dois amantes daquela época. do paraná do Ramos. Nunca revelou quando havia entrado no orfanato. que falava de um mundo melhor no fundo do rio. mas elas faziam muito mais: de manhã trabalhavam na horta. Soube também que faziam um retiro semanal. Às vezes. No fim da tarde. haviam sido raptadas por regatões e depois vendidas a co- . e a única com permissão para namorar. lá do Alto Rio Negro. ela era mais bonita. e de outros lugares do Médio Amazonas. Vinham de aldeias e povoados dos rios Andirá e Mamuru. Cada órfã ficava sozinha num quarto escuro.

uma cobra-grande iluminada na margem do Amazonas. Fiquei rígido e duro que nem pau. pediam à Virgem proteção para Amando. um mendigo da praça entregou um envelope para Florita. Esperava com ânsia o sábado seguinte. Em julho o homem esbanjava mesmo. As mulheres mais carolas mandavam recado por Florita: meu pai tinha razão. Em outros sábados. Pagava os enfeites da praça. e. Vamos? A festa é na noite de 16 de julho e até hoje afogueia a cidade. quando eu ia abraçá-la. a pintura da . madre Joana Caminal era conhecida como a Juíza de Deus. as pessoas que passavam pela praça do Sagrado Coração viam Dinaura se afundar nas minhas pernas. Dormiam e comiam no barco. eu era um aproveitador de índias e de pobretonas. e via os fiéis no convés com uma vela acesa na mão. Ao diabo tudo isso. Eu ouvia as preces. Quando o sino das seis da tarde tocava. ela sentou com vontade no meu colo. Certa vez. deu um solavanco e saiu correndo.merciantes de Manaus e gente graúda do governo. Mas em nenhum sábado ela apareceu na praça para nos vigiar. porque proibia o escambo de crianças e mulheres por mercadorias. Lembro que meu pai trazia muitos fiéis de Manaus. Era um bilhete de Dinaura: Festa da Santa Padroeira. depois da reza. os olhos fechados e as mãos no peito. Num dia de julho. amigo da diretora. Dinaura se ajoelhava para a igreja. Parecia um barco em labaredas. e denunciava os homens que espancavam a esposa e as empregadas. à noite. Foram conduzidas ao orfanato por ordem de um juiz. Vinham romeiros do interior do Amazonas e do Pará. e me rendia ao olhar de um rosto calado. Em Vila Bela.

dos mosteiros e paróquias. Nas outras noites deitei numa rede. me caçaram pela cidade. Na segunda. Quando ele entrou. os dedos grossos nas mãos grandes. Almerindo. Depois da missa ele oferecia uma tartarugada para o povo. Vi as filhas de famílias ricas separadas das órfãs. ele ordenou. Todas gostavam da festa da 43 . a limpar o quintal. Então Florita confessou que tinha mentido. a comer a comida deles. Impossível reagir: meu pai era um Cordovil pesado. fugi. O estalo chiava como um inseto preso na minha cabeça. Florita levantou e abriu a janela para afrouxar o ódio de Amando. quer dizer: não consegui dormir de tanto calor. e só rne encontraram de manhã cedo. e me forçou a morar um mês com os caseiros. Na primeira noite dormi no porão. Ainda era menino quando Amando me arrastou duas vezes para a festa. fechei os olhos. Eu já era um homem. No ano seguinte. Disse que eu estava com enjôo e desarranjo. Amando me obrigou a ir à festa da Virgem. ao relento. Obedeci. Ninguém usava uniforme. a roupa nova dos leprosos. a capa e o cordão dos devotos à Virgem.igreja do Carmo. deu outro de mão aberta na minha orelha. O primeiro tabefe esquentou meu rosto e me jogou de volta para a rede. Amando ameaçou expulsá-la de casa. sem abrir os olhos. Sai dessa rede. e Amando Cordovil estava morto. ele se curvou. Ele e o caseiro. Lembrei disso quando li o convite de Dinaura. e uma roda de meninas tapuias encolhidas pela timidez e pobreza. deitado com Florita na rede do quarto dela. Na tarde de 16 de julho as órfãs e as internas entraram na praça do Sagrado Coração de Jesus em fila indiana.

mas eu não quis saber se era verdade. só da última. Sentiu a cabeça latejar. Quando anoiteceu. Tinha uns doze anos e já era órfã quando viu sangue escorrer de sua vagina e tomou um susto. e gritou tanto de dor que seu tio levou a coitada para ser curada por um pajé da aldeia.Padroeira porque era o dia mais livre do ano. Não me lembro das outras penitências. Magrinha e baixa. Meu sangue era um pesadelo. meu corpo estava amolecido por um suadouro. e por isso o rio Amazonas inundou sua casa. Ouvi o coral das internas. não parava de sonhar com sangue. O que eu mais queria era ver Dinaura. Podiam atolar os dentes na comida e nos doces. um chocalho indígena. Maniva foi proibida de entrar na casa. disse a penitente. e. porque o sangue da menstruação era ma44 . Depois ela se ajoelhou e rezou para expulsar da mente essa história profana. Antes de morar no orfanato de Vila Bela. A primeira contou que numa noite de chuva ela foi possuída pela Cobra-Grande e ficou tão agitada que toda a ilha começou a tremer. Diz que três ou quatro órfãs engravidavam na noite de devoção à Virgem. quando a moça parou de falar. diz que veio de muito longe para trabalhar na casa de um vereador e acabou no orfanato. Os lampiões já iluminavam a praça. por isso falava português. O nome da penitente era Maniva. depois o Trio Tavares tocou modinhas com cavaquinho. o bispo pediu ao povo que ouvisse em silêncio a penitência de sete órfãs. podiam dançar e cantar até as dez da noite. O primeiro sangue. Ela havia estudado nas missões do Alto Rio Negro. violino e nhapé. As mais afoitas escapavam para a beira do rio e se enxeriam para os rapazes de Manaus e Santarém.

via a alma viajar para muito longe. Ele via o que eu não via. A moça ouviu isso: quando o pajé chupa o sangue. Via os ossos do próprio corpo. caminho para o outro céu. mas só os pajés podem cheirar o pó do cipó e ver o mundo. disse Maniva. a cabeça de Maniva não latejava mais. O pajé mais antigo mora lá em cima. Um céu todo branco e prateado. Viajando e sonhando com sangue até encontrar madre Caminal e rezar com ela para apagar o 45 . quer dizer. Então o pajé contou que o criador do mundo chupou o rapé-paricá da vagina de sua sobrinha que estava menstruada. mais antigo. Sangue sagrado. e aí traz o outro mundo para o nosso. criar e curar os seres. Proibido. só eles têm o poder de abrir a visão e depois transformar. depois veio com um regatão para Vila Bela. o começo de tudo.léfico para os pajés. os peixes e até o espírito dos mortos. até chegar à boca do rio que corre no fundo da terra. o que nenhum de nós vê. a alma dele sai do corpo e viaja para o outro mundo. senta e cheira várias vezes o paricá com o osso da perna de um gavião. Um novo mundo. Quando o pajé olhava as nuvens em movimento. Quando o pajé parou de falar. as águas. e assim ele podia agir no mundo humano. ele morre. ela viajou para Manaus. abraça o céu e canta. dormindo. na última escada. Ele abre os braços para as nuvens. Era enviado pelos espíritos da natureza: os trovões. Uma parte do pó caiu na terra dos povos da Amazônia e se espalhou por toda a floresta. dizia que estava no mundo sagrado e eterno. Depois ele continuava a subir por uma escada. Nunca mais ela sentiu dor. quando o tio morreu. Mas os pesadelos com sangue atormentavam sua vida. o pó. Céu sem doença. E.

Não queria mais recordar as palavras do pajé. De repente me largou. todo mundo estava enlouquecendo? Parecia alucinação. depois estendeu os braços para o céu e gritou o nome de Deus e da Virgem do Carmo. a coxa tremia. os pés batiam no chão. possuída pela dança. ninguém. e não eram gritos de devoção. Ela apareceu sem que eu percebesse. os lábios de Dinaura tocaram meu rosto. as religiosas. se ajoelhou e chorou. e me acariciou com as mãos mornas que me deixaram febril. de uma só vez. Maniva. Fez o sinal-da-cruz. porque. Os músicos. em meio aos vivas à Virgem. um arrepio no pescoço. sacudindo o corpo. e não olhava para mim. as órfãs. Dinaura apertava meu braço com a mão suada. os ombros ficaram nus. E. os sons dos tambores. Uns minutos assim. Ela imitava os movimentos e o ritmo da outra. e eu fiquei pensando na penitente e nos pesadelos com sangue. Dançaram juntas como se tivessem ensaiado. fortes que nem trovoadas. sozinha. Era bonito ver a dança no silêncio.pesadelo. senti um cheiro de lavanda. Senti o corpo de Dinaura e comecei a suar. quando me virei. Foi uma gritaria. A dançarina disse em voz alta que eles iam fazer uma homenagem à Virgem. quietos. Os romeiros e as órfãs aplaudiram com muita zoada. correu até o coreto e começou a dançar. Cega para o mundo. A surpresa da noite. Então ela começou a dançar. e. e sim para o céu. e ela só se afastou quando três tocadores de tambor e uma dançarina entraram no coreto. Acho que não enxergava nada. Um dos homens acendeu uma tocha e esticou com o calor do fogo o couro de cobra dos tambores. no meio do coreto. os romeiros. Eram músicos do quilombo Silêncio do Matá. No fim se abraça46 .

o rosto de Dinaura surgiu contra o sol. Na confusão. só encontra silêncio. nem para me erguer: vi os olhos pretos. Tentei falar. sem ilusões. A voz nervosa de Florita perguntando: E se for alguma coisa urgente?. cheguei mais cedo à praça.ram. que eu rasguei com raiva. e Dinaura saiu por trás do coreto. senti a respiração inquieta. dizendo: Vai ver que o doutor Estiliano quer falar contigo. mais de susto que de dor.. No prazer do beijo. Como eu podia entender uma mulher tão volúvel. o tremor e o suor nos lábios abertos que roçavam meu rosto.. sem ler. Não tive tempo de perguntar sobre a dança. Então acariciei com os dedos a boca de Dinaura. Quando as cinco badaladas me despertaram. os romeiros voltaram para os barcos e para casa. Sumiu. Os telegramas enviados de Manaus. sem nem mesmo abrir. 47 . Podia ser um sonho? Mas eu não queria sonho. e catava os pedaços de papel. tentando juntar palavras e dar algum sentido às mensagens. Soltei um grito. Florita soube que ela queria viajar para a cidade submersa. eles não conheciam Dinaura. senti uma dentada feroz. de alma tão instável? Fui conversar com os músicos e a dançarina. grandes e assustados. Ainda me lembro das tardes de desolação e saudade. As órfãs e as internas entraram no colégio. dos dias lentos e das noites maldormidas. A gente quer entender uma pessoa. Dinaura escapou. deitei no banco morno e dormi. uma das internas disse que eu tinha agarrado Dinaura para beijá-la à força. Na manhã de uma sexta-feira. quatro ou cinco. No colégio do Carmo. minha língua sangrava. Fiquei sozinho na praça. desejava a mulher ali. Numa tarde de dezembro.

a dentada feroz que sangrou minha língua. Os Becassis.Quem te contou essa doideira? Iro. uma mulher e um rapaz. no porto. O nome 48 . E acrescentou: O gerente quer conversar contigo. e o Anselm. Amanhã o Anselm vai atracar em Vila Bela e depois sobe até Manaus. Perguntou se eu não tinha lido os telegramas. Eu estava mais ansioso que ele. Essa moça te embriagou. Estiliano tinha razão: eu estava embriagado por Dinaura. Fui atrás de Iro. por que a dança. Olhei contrariado para Estiliano: Amanhã? Sábado? Não posso. Não pode mais pagar os empregados. Disse a ele que ia comer em casa. uma família de Belém. Algum passageiro ia ficar na cidade? Arneu apontou três passageiros: um velho. e me esforcei para engolir a curiosidade. Desconfiei: Estiliano não tinha dito tudo. ele disse. o beijo oferecido. Ainda ouvi a voz rouca insistir que eu devia viajar. mas Estiliano me alcançou na rampa do Mercado e me levou até o cais. queria entender por que ela escondia o passado. A empresa anda mal? A exportação de borracha despencou. Arminto. ele disse. nem enviar teu dinheiro. O sábado amanheceu nublado. Ele estava no vapor Atahualpa e ia passar uns dias em Belém antes de se mudar para Vila Bela. O recadeiro que mora na praça. se abastecia de lenha. Não jantei nem puxei conversa com Florita. Arneu passou no palácio branco para saber se eu queria almoçar a bordo do navio.

O apito. ela andava de mãos dadas com o filho. o filho é Azário. senti o corpo entorpecido. Depois foi com a filha e o neto para a pensão de Salomito. o barulho de cachoeira das rodas laterais. Por teimosia eu não estava a bordo do Anselm? Por paixão e desejo.da mulher é Estrela. Almocei sem vontade e. uma sonolência pesada me levou a um lugar estranho. Ele era prestativo. mas tinha a mania de se engraçar com qualquer dona. O velho Becassis ia atrás da carroça que transportava a bagagem. como era cedo para ir à praça. A ventania que vinha do rio aumentou a quentura na sala. segui com os olhos os três forasteiros. Na calçada da taberna dos Viajantes. Diz que vão morar em Vila Bela. isso sim. tudo foi se apagando. deitei na rede da sala e fiquei pensando em Estrela. babava por uma mulher que não era para ele. Quando vi o rosto. começou a dizer que era a mulher mais linda do Anselm e que ia endoidar os homens de Vila Bela. E se exibia para mim. Pela primeira vez vi. o cabelo cacheado de Estrela. A visão de Estrela foi uma pausa no meu transtorno. e ouvi sua voz dizer com calma que só poderíamos viver em paz numa ci49 . Podia ver com nitidez os cabelos de Estrela ondulando na água que nem labaredas. de longe. o velho Becassis parou para conversar com Genesino Adel. pensava nela para não sofrer com mais uma desfeita de Dinaura. Não gostei de ouvir isso. A fumaça da chaminé cobriu o vão da janela. reconheci Dinaura. E quanta gorjeta havia recebido só para dar informações sobre passageiros? Enquanto ele se afastava. Arneu olhava apalermado o corpo da forasteira. o ronco da máquina.

Antes das cinco. Quando me viu na pinta e perfumado. Eu disse alguma coisa em voz alta. como num sonho. Eu guardava as palavras no meu pensamento. Quando ela falava assim. respirando como um asmático. No chão. E eu confiei na minha intuição. . nem disse nada. olhar ameaçador. Para disfarçar. o tronco cheio de flores. Então ela apareceu sozinha. Estava sozinho numa cidade desconhecida. Ela olhava a outra margem do Amazonas. pedi a ela que perfumasse a banheira com essência de canela. os braços nus. Fiquei assustado com as palavras de Florita. Ouvi uns gritos de afogado e vim te socorrer. o lugar onde vi Amando morrer. deserta. nem se esquivou do meu abraço. O desejo no olhar cresceu. fui até a Ribanceira e fiquei encostado no tronco da cuiarana. usando um vestido branco. Medo de alguém que nos conhece. Estava tão ansioso que tremi ao ouvir as cinco batidas do sino. flores arrancadas pela ventania. Ela não se assustou com as trovoadas. Um dia viajaríamos juntos. e admirei o rosto dela. Apalpei a camisa molhada e vi o rosto de Florira.dade no fundo do rio. Acariciei os braços e os ombros de Dinaura. Por quê? Não respondeu. na agitação da água barrenta. a imagem sumiu. Ventava com força. Qualquer palavra era inútil para o amor urgente. A rua do Matadouro. Sentamos sob a árvore. senti falta de ar. Depois. Não fiz pergunta. Acordei de boca aberta. Um céu que nem o desta tarde: nuvens grandes e grossas. disse que eu não devia sair de casa. parecia adivinhar meus sonhos. vi o rosto de um homem sério. conheceríamos outras cidades.

como se fugisse de uma ameaça. Deus é Pai.Íamos casar e depois viver em Manaus ou em Belém. depois rolamos na terra até a mureta da Ribanceira. esperei por ela no mesmo lugar. me vesti. amando como dois famintos. nua. Os olhos diziam não. ficou de pé. Saiu correndo. Ela deitou na terra molhada. O mendigo recadeiro segurava um guarda-chuva preto. As flores caíam molhadas e cobriam meus olhos. E o que pude ler nos lábios: uma história. Dançarina. . Queria mais. Qual? Ela se vestiu e fez um gesto: que a esperasse. ele esperava restos de comida do refeitório do colégio. Estropiado. o pano do vestido colado na pele morena. Encostei o ouvido nos lábios de Dinaura. Tirei do bolso uma nota molhada e joguei na barriga do homem. Parecia que estávamos sozinhos na cidade e no mundo. a árvore. acasalados. Fui atrás dela e parei no meio da praça. mas a chuva nos ensurdecia. Chamei por Dinaura. De joelhos. me aproximei e vi um homem caído. Acordei com os estalos da chuva no rosto. Mal pude ver a beleza do corpo. o corpete e o sutiã. Queria tocar a pele. e tirou minha roupa e me lambeu e chupou com gana. Quis esquecer isso e olhei o céu. a torre da igreja. A chuva se aproximou com uma zoada de cachoeira. Iro soltou uns gemidos. se despiu sem pressa. voltava logo. O ciúme me queimou. e cometi a imprudência de beijar Dinaura com um desejo quase violento. beijar o corpo dela. sentindo a quentura nas entranhas da carne. a anágua. quem sabe no Rio. Ainda chovia quando alguém apareceu na entrada do colégio. Não sei quanto tempo ficamos ali. e voltamos para perto da árvore. abismado com o jeito dela. de amar. Voltei.

Entrei na taberna dos Viajantes. pensando qual seria o segredo de Dinaura. Entrei em casa e desabei na rede da sala. Dia e noite chovendo. o cheiro de lavanda. Não senti culpa: senti ciúme de alguém que eu podia conhecer mas não sabia quem era. o corpo beijado e possuído com tanta ânsia na noite chuvosa. mas um dos filhos dele nos apartou. e eu via escárnio no riso. Recordei cada rosto conhecido. me atiçou: O povo só fala no teu casamento com a órfã. sentado na calçada. De que riam? 0 velho Genesino. entrei na taberna. canoas e barcos de bubuia. Deixei a garrafa na calçada. Saí aturdido com outras lembranças: a pele molhada. O Amazonas arrastava tudo: restos de palafitas. o dono da taberna. Genesino Adel contornou o balcão para me enfrentar. uma semana inteira assim. Acordei num domingo de dilúvio. Fiquei diante do colégio do Carmo. Que povo? Teus fregueses de merda? Ele alisou o bigode e bateu com força na caixa registradora: Aqui não entra cristão da laia do teu avô. me remoendo de raiva e ciúme.Sujeito esquisito. Levantou. marombas com bois amarrados. rindo. atravessou a praça. Quando voltava para casa. berran- . A má fama de Edílio Cordovil ainda estava viva na memória dos mais velhos. Olhavam para mim. parou na rua do Matadouro e deu uma risada. pedi uma garrafa de vinho e tomei sem pressa. Riso sem razão. suportando o olhar dos Adel e dos fregueses. odiei todos os homens de Vila Bela. vi dois homens bebendo no gargalo. Ou a história que ela queria contar.

Então soube que ela ia ficar em retiro absoluto. que ele tinha desviado a rota para ver uma amante em São Francisco da Jararaca. Perda total da carga e da embarca53 . O porto de Santa Clara ficou submerso. O matadouro. que a chuva e o excesso de carga tinham provocado o acidente. e passavam a noite cantando e rezando para a chuva parar. Os restos foram enterrados longe da cidade. entre Curralinho e o Farol do Camaleão. O colégio das carmelitas e o orfanato. Um mês sem ver ninguém. Os caseiros armaram redes sob o telheiro. tive que suportar o fedor de carniça do matadouro. Diziam que o comandante do Eldorado estava bêbado. próximos da Ribanceira. e sim uma decisão de Dinaura.do de pavor. na beira dos rios. enquanto esperava uma notícia. lá pro lado de Breves. eu e Florita andamos no alto do barranco. mas o cheiro de podridão obrigou o prefeito a sair de casa. na ponta da ilha do Caim. Mas. quando parou. no Baixo Amazonas. Mas a pior notícia chegou num telegrama do gerente da empresa: Naufrágio Eldorado no Pará. Lembro desse episódio porque naqueles dias tentei falar com Dinaura e. Não era uma ordem da diretora. E. Os rumores no porto eram desencontrados. Vila Bela era uma cidade anfíbia. não estavam inundados. Membros e tripas boiavam na água suja até a porta da casa do prefeito. os rios Macurany e Parananema inundaram a parte baixa da cidade. Venha para Manaus com urgência. um lodaçal de carcaças e pelancas sob um céu de urubus. O comandante de um navio da Ligure Brasiliana me deu uma informação mais exata: colisão com banco de areia.

ção. sem brilho. Florita me viu na rede da sala e sentou no assoalho. A noite de amor com Dinaura. na taberna dos Viajantes. Mas como podia viver sem dinheiro? Florita me tirou da sinuca. a família de Genesino Adel comemorou o naufrágio. Soube que. o desejo de estar com ela. Vi o sujeito quase nu amarrado a uma carroça puxada por um cavalo. Repetiu tantas vezes que me convenci de que estava certa. e eu não sabia quando ele ia voltar. Filho assim não será capaz de continuar nosso nome nem de prosperar a empresa. Que estás esperando? Embarca logo para Manaus.. Dinheiro. ou passeata. li um romance emprestado por Estiliano.. disse Florita. Uma madrugada. Festejaram a tua desgraça. Pensei num protesto. Depois da leitura.. Isso mesmo. Minha indecisão durou alguns dias. um pai: Não quero um filho inútil.. triste. Era o linchamento de um ladrão. ela disse com voz calma que eu devia embarcar para Manaus no vapor seguinte. Ape54 . Lembro das palavras de um personagem. aquele. Mandei um moleque avisar o gerente da empresa que eu ia ao escritório na manhã do dia seguinte. Um bando de exaltados corria e gritava na avenida Sete de Setembro. E foi assim que cheguei a Manaus num fim de tarde. Estiliano estava em Belém. Embarquei no vapor índio do Brasil com essas frases na cabeça e. Dia azarado. fiquei melancólico. Eu não queria viajar. Atrasei mais de uma hora por causa de um tumulto no centro. na noite de insônia rio acima. Antes de amanhecer. preocupado. e as outras noites da nossa vida. Disse que ia arrumar a casa para a festa do meu casamento com Dinaura: um mês de ausência não afogava uma paixão.

Quando passaram perto de mim. a Companhia de Navegação da Amazônia e outras grandes empresas haviam reduzido o preço do frete. Teu pai não autorizava ninguém a assinar apólices de seguro. Eu não conseguia encarar Amando. Perguntei ao gerente o que ele estava dizendo. o cavalo e a carroça. Depois a polícia arrastou o ladrão. mas não abafava a dor humana. Eu não sabia de nada. Estiliano não sabia disso? Era um assunto do doutor Cordovil. a ignorância era a minha fraqueza. o rosto tenso. Permaneceu mudo. as taxas portuárias não haviam sido pagas para a Manaus Harbour. O animal relinchava.. Ouvi alguém dizer em voz baixa: Covarde. Murmurei: A empresa afundou. reconheci o rapaz da Saturno. Então o gerente continuou: no naufrágio do Eldorado a Companhia Adler tinha perdido oitenta toneladas de borracha e castanha. Nem sentou para dizer que o Lloyd Brasileiro. nem na parede. os dedos na testa. na mesma posição. e movia um processo contra a empresa.drejavam o infeliz e lascavam o cinturão nas costas dele. mãos nos bolsos da calça. Pela primeira vez me encarou. Meu pai não tinha renovado o seguro do Eldorado. O retrato do 55 . Ele ia renovar. O gerente parou de falar. e a empresa ainda devia muito dinheiro ao banco inglês.. o olhar de admiração e saudade na fotografia do meu pai. mas morreu. sentou e apoiou os cotovelos na escrivaninha. Juvêncio nem pôde me reconhecer: os olhos vermelhos pareciam mortos no rosto inchado. O falatório desastroso me irritou. O gerente assistia à cena da janela do escritório.

Antes só bebia vinho. Ou minha memória repetia o que eu tinha ouvido tantas vezes? Então naquela manhã fui com o gerente ao banco inglês. Fui as duas coisas. Só de pensar. Não quis perder tempo. Agora bebo uns goles de tarubá. senão me dá falta de ar.. Era a voz de Amando Cordovil. Já sabia de tudo: eu tinha sido ingênuo ou irresponsável. Posso falar de olhos fechados.meu pai parecia me desafiar. Explicou que os dois batelões estavam atracados no Manaus Harbour. cachaça boa que ganho dos índios saterés-maués. com os diretores do banco e da Adler. Mas fiz questão de dizer que só meu pai fazia a renovação do seguro. O que tinha valor era o cargueiro alemão: o Eldorado. Acusei o gerente de leviano. Quando esquenta assim. Acho que vai chover. Então fico quieto e fecho os olhos.. confiscados pela justiça. Conversei com o juiz. Não serves para nada. o mormaço. prosseguiu. Saí tonto. E as lembranças vêm sem desespero. Senti o mesmo sufoco quando o diretor do banco me mostrou os documentos assinados por Amando. Essas barcaças velhas não valiam muito. ele disse. mas era possível vendê-las. Vim antes porque li a notícia do naufrágio nos jornais de Belém. A dívida. E então revelou que estava em Manaus havia uma semana. pensei. fico agoniado. Uns dez dias depois ele apareceu. O empréstimo. uma fortuna. Esse bafo. podia ter evitado essas . Alivia o sufoco. As mesmas palavras. Covarde. peguei o bonde para a chácara e esperei Estiliano em Manaus. tenho que tomar um gole.

vi palafitas e casebres no subúrbio e na beira dos igarapés do centro.dívidas. podes ser preso. Tudo isso só aumentou a saudade que eu sentia de Dinaura. Saía da chácara para acom57 . Cego. Como eu ia admitir? Queria casar com Dinaura. disse Estiliano. te deixou sem razão. viajar com ela. Aquela moça arrancou tua cabeça. Mas era preciso vender os dois batelões? Vais ter que vender tudo: esta chácara. escrevi que estava louco para vê-la. vi crianças ser enxotadas quando tentavam catar comida ou esmolar na calçada do botequim Alegre. Estiliano não se alterou: o gerente era uma sombra do meu pai. E que eu não podia voltar logo para Vila Bela. Fui derrotado pela espera. As pequenas companhias de navegação da Amazônia estão falidas. o edifício da empresa e o terreno de Flores. Não era uma fatalidade. Estiliano era obcecado pela história do meu pai. Não há fatalidade nessa história. Não me interessava o sonho de Amando nem a linhagem dos Cordovil. e acampamentos onde dormiam ex-seringueiros. mais do que eu dizia gostar. da Fábrica de Alimentos Italiana e dos restaurantes. Se não venderes tudo. vários sobrados e lojas à venda. contei o que tinha acontecido. muito mais do que eu mesmo sabia. mas sabia que nem Amando poderia evitar a falência. Eu me debatia agora com a falta de dinheiro. Sai desta chácara e anda pela cidade. e uma sombra não podia pensar em tudo. Na carta que lhe enviei. Andei de bonde pela cidade. Vives em outro mundo. que gostava muito dela. A cadeia da Sete de Setembro estava lotada.

A fachada do palácio branco não tinha sido caiada. desde a morte do meu pai. A última vez que entrei lá. Não é pouco para quem não faz nada. as paredes da sala e dos quartos estavam manchadas de umidade. na verdade. . Um casarão de valor. fazendo cálculos medrosos. vítima da gripe espanhola. acrescentou. com uma calma ferina. porque não contestaram a avaliação dos bens. Ele já havia comprado minha passagem de volta. insultei o gerente e quis expulsá-lo de um lugar e de um cargo que. e evitava passar na empresa. E a fazenda Boa Vida. E ainda disse que tive sorte. nunca me pertenceram. Dizem que morreu no fim da Primeira Guerra. Sem contar os anéis de minha mãe. Podia conseguir algum dinheiro pelo piano e pelas porcelanas da casa da chácara. contei o dinheiro nota por nota. com a razão que algum deus deu a ele. Um mês depois. Em Vila Bela. eu disse com raiva. Eu invejava aquele homem que agia com o cérebro. pela primeira vez. Nunca mais vi o gerente. Vamos leiloar os objetos da chácara e o material de escritório. E ainda tens uma propriedade em Vila Bela. Florita me recebeu sem euforia. ela disse. Não mandaste dinheiro para arrumar a casa. Um comerciante italiano arrematou os objetos do leilão. Estiliano me puxou para um canto da sala e sussurrou: No momento do fracasso é melhor agir com a cabeça.panhar Estiliano ao tribunal. Estiliano fez um acordo com a Companhia Adler e com o banco inglês. Não tenho dinheiro nem para voltar para Vila Bela.

Olhei para a religiosa e perguntei em voz muito alta por que mentia para mim. Corri até o colégio das carmelitas. No portão. não. Só uma ficou de pé. Costuravam em silêncio. Não merecias aquela moça. as mãos segurando o escapulário da Virgem do Carmelo. Quando Florita embirrava. madre Caminal deu a notícia: Dinaura anda por aí. Como podes ser filho de Amando Cordovil? O nome do meu pai atrapalhou meus sentidos. e eu não quis esperar. todas se calaram. A mulher apareceu aos poucos. Não mora aqui. As meninas estavam sentadas em círculo. o crucifixo de prata. o corpo muito magro coberto pelo hábito marrom.. Perguntei por Dinaura. só faltava engolir a língua. Quando me viram. Foi essa irmã que me pediu que saísse do dormitório. Eu não queria fazer encrenca nem escândalo. um burburinho. Nunca dormiu? Ouvi cochichos. Que aconteceu? Notou meu nervosismo. Em Vila Bela? Ninguém sabe.Mas não é por isso que estás com essa cara. a irmã regente. Um corpo quase da minha altura. Ao lado de madre Caminal. Nunca dormiu. parada. Nós nos olhamos como dois dementes. recuou até a parede. O no59 .. atravessei o pátio e subi aos saltos a escada do edifício do orfanato. De repente. Não pude ler nada nos olhos dela. subindo devagar a escada: os olhos verdes e atentos no rosto moreno. Ficou catando palavras. levantaram e se esconderam na rede.

Mas eu dava arroz. Carta de amor não lida é mau presságio.me e a pergunta. Iro. Mas alguma coisa me tentava. e na Ribanceira parei sob a cuiarana e remoí o destino de Dinaura. Era o alimento deles. Procurei o sujeito. mas eu não podia conservar a propriedade. criavam porcos e galinhas. isso sim. o mendigo da noite chuvosa. ele jogou o guarda-chuva perto de mim e gritou: Vais morrer afogado. o guarda-chuva inútil preso no sovaco. medo das palavras do mendigo. continuei a andar. Evitava olhar o banco da praça. Afogado. Estendeu a mão ossuda. Não era só por capricho que eu queria manter a casa. Morrer afogado? Vamos penar na miséria. pão-duro filho-da-puta. não queria recordar as palavras de Iro. Chutei o guarda-chuva. Virei o rosto. café e sabão. Medo de não encontrá-la. Fechado. o banco estava vazio. Mal falavam comigo. Então contei o que ouvi do mendigo. Ela sabia que Dinaura havia fugido? Que não dormia no orfanato? Não quis responder: apenas me entregou o envelope com a carta que eu tinha enviado para Dinaura. en6o . O medo se intrometeu na saudade que eu sentia de Dinaura. feijão. Em casa. Almerindo e Talita plantavam mandioca e banana. O palácio branco era o lugar da minha infância. disse Florita. açúcar. Florita disse que a minha cara era de alma sofrida. Ainda era dono da fazenda e do palácio branco. O sino da igreja parecia uma sombra escondida na torre amarela. Iro deixou aqui. estava sentado num banco da praça. trocavam a sobra por peixe.

no cemitério. o político que havia sido apadrinhado por Amando. Talita me odeia porque pensa que sou tua amante. E por que deixaste? Porque Amando deixava Almerindo meter a mão nas camisas puídas.travam e saíam pelos fundos. Nos fundos da casa eles tinham comida e porão. só iam arredar o pé do quintal se eu arranjasse casa e emprego para os dois. um or61 . porque era interesseira. Recusaram. Essa intimidade me irritava. dava uma viola para o caseiro e um par de sapatos para Talita. O político me recebeu com abraços. antes das eleições ele ia ao quintal pedir votos para um candidato. Deputado. Byron sonhava ser graúdo. quem não deve favores para Amando? Então arranjou uma casinha de madeira lá no fim da cidade. Lembro que meu pai tolerava a algazarra. Cantavam e falavam alto. Hoje mesmo. Perguntei a Florita quando eu devia pôr os caseiros na rua. Para eles. Às vezes. como se fossem donos do quintal. calculada. E o homem. Teu pai dizia: Ele pensa que está roubando. eu era um filho desprezado e fraco. numa barulheira enxerida. A solução era falar com Leontino Byron. Almerindo deixava entrar no quintal os parentes do interior. eles eram para Amando apenas isto: criados. No fundo. sem a mão pesada de um Cordovil. Pedi que ajudasse os caseiros do meu finado pai. porque peguei ele roubando tua roupa velha. E disse assim mesmo: Mano. Então eu disse aos caseiros que fossem morar na fazenda. E também um serviço braçal: limpeza do cemitério. e eu penso que estou doando.

Muito menos uma amante arrependida. de tanto conviver com índios e ribeirinhos. Quando Florita viu os três barcos no meio do Amazonas. Não é uma escolha fácil. Esperou meu olhar de interrogação e acrescentou: Dinaura foi morar numa cidade encantada. Como tu sabes? Quem sonha com outro mundo não pode estar aqui. Florita jurou que ela não estava em Vila Bela. os moradores ainda se lembravam dos presentes e favores de Amando: o emprego numa repartição pública. um brinquedo. uma rede. O primeiro a aparecer foi Denísio Cão. Perguntava por minha amada e ouvia o nome de Amando. Esses práticos conheciam remansos e furos escondidos e. Ia de porta em porta. Encontrei o prático encostado na amurada. ele não gostava de Dinaura. Então chamei Joaquim Roso e Ulisses Tupi. mas me livrei do casal que endeusava Amando. uma passagem de barco e até dinheiro. disse: Tudo isso por uma mulher que te largou? O ciúme de Florita era menos estranho que o silêncio de Estiliano. Comecei a procurar Dinaura na cidade. E contra a minha vontade. mas me convenceu de que Dinaura não estava em Vila Bela. um vestido de noiva. Onde ela estava? 62 . Denísio Cão. Um silêncio terrível. fumando. Birra de solteirão? Ou raiva de uma mulher que me afastou de vez da empresa e de Manaus? Esperei ansioso pelas notícias dos barqueiros. No meu pensamento. Florita não falava sério. entendiam a língua geral.denado mixuruca.

mas fiz essa caridade. Quase criança. ele disse. disse o barqueiro. uns miseráveis: pareciam mais condenados que os detentos. um povoado abaixo da serra de Parintins. . e tinha sido deflorada pelo pai. uma pocilga. Quanto pagaste por essa criatura? Confessou: tinha dado uns trocados ao pai da menina. Quando entrei na cadeia pública. Afastei as abas e vi o rosto assustado de uma menina. disse que a cunhantã era a cara da minha noiva. nem o boto tinha triscado nela. E o pior é que Denísio pulou do barco e saiu rindo por aí. Não encontrei Dinaura. desisti de qualquer justiça. e os carcereiros. E virgem. Quando Joaquim Roso soube disso. Levei-a ao palácio branco e fui avisar a polícia. E o pai ofereceu a filha para mim. Ela perdeu a mãe. Denísio não usava faca na cintura. Dei um tabefe no rosto do mentiroso. Contratei um velho prático de confiança e mandei a menina de volta para o Caldeirão. filha de um povoado do Uaicurapá.Denísio esticou o beiço para uma rede no convés. Ele não esperou minha pergunta. quis livrar a filha do animal paterno. O sangue ruim dos Cordovil. e na viagem para Vila Bela abusou da coitada. Era uma menina do paraná do Caldeirão. Era órfã de mãe. apagou o cigarro. o rio da fazenda Boa Vida. o rostinho moreno. cheio de dor e silêncio. Joaquim Roso chegou uns dias depois com outro pesadelo: uma menina sem nome. Senti o sangue esquentar. O edifício. satisfeito. os olhos fechados de medo e vergonha. A mocinha me deixou zonzo: um anjo triste. dono de tanta malvadeza.

que vivem com suas sombras e visões. Dinaura foi atraída por um ser encantado. com ruas e praças bonitas. famoso por encontrar saída nos labirintos dos nossos rios. Quando essas notícias se espalharam em Vila Bela. mas não no nosso mundo. a mesma que eu tinha escutado na infância. Ele conhecia os segredos do fundo do rio e podia conversar com Uiara. Jurou que Dinaura estava viva. o grande curandeiro xamã de Maués. Mandei Florita ao colégio das carmelitas: que pedisse à madre Caminal para cuidar da mocinha. Parecia outro. como se a felicidade e a justiça estivessem escondidas num lugar encantado. Só pode ser maldade do pensamento. Sugeriu que eu fosse atrás de dom Antelmo. ouviu de caboclos solitários. Ele ouviu isso nas palafitas de beira de rio. A Cidade Encantada era uma lenda antiga. E descreviam o lugar onde ela morava: uma cidade que brilhava de tanto ouro e luz. Surgia na mente de quase todo mundo. chefe de todos os encantados que viviam na cidade submersa. Uns diziam que 64 . E então esperei Ulisses Tupi. Ulisses Tupi queria que eu conversasse com um pajé: o espírito dele podia ir até o fundo das águas para quebrar o encanto e trazer Dinaura para o nosso mundo. sanha do demônio.Isso me perturbou: era o destino de muitas filhas pobres da Amazônia. barba tão crescida que escondia os olhos. Chegou de surpresa. Morava na cidade encantada. fui perseguido por um inferno de rumores. Era cativa de um desses bichos terríveis que atraem mulheres para o fundo das águas. mas era uma mulher infeliz. diziam. Eu me perguntei por que um pai sente esse desejo estranho de possuir sua própria cria. com regalias de rainha. nas freguesias mais distantes.

Um sujeito metido a conquistador que se tornava impotente quando uma mulher de branco aparecia durante a noite. Gastei dinheiro com os barqueiros. puro fel. escreveu que dormia na beira do Amazonas e cantava para o rio quando o sol nascia.Dinaura havia me abandonado por um sapo. Jogamos os peixes para os urubus do matadouro. Um homem que sonhava com uma inscrição milenar numa pedra no rio Nhamundá e se dizia imortal porque os encantados não morrem. Cansou de ser metade bicho metade mulher. Eram atraídos pela voz e pelo cheiro da sedução. Lembro da manhã em que Florita encontrou uma cesta cheia de peixes na porta do palácio branco. quando sumiu o cheiro de vísceras e fel. guelras e vísceras com sangue. E o que trouxeram para mim? Mitos e meninas violentadas. Peixes de ventre aberto. Uma grávida. o cheiro de ovas espocadas. outros sussurravam que ela aparecia à meia-noite num barco iluminado e dizia aos pescadores que não suportava viver na solidão do fundo do rio. cantando a mesma canção de amor. Florita me provocava? A crença em seres sobrenaturais sumia de manhã e voltava à noite. Florita pe- . um boto ou uma cobra sucuri. Que diabo era isso? Tua amada mandou para ti. recebi cartas e bilhetes de pessoas que tinham sido seduzidas e depois perseguidas por seres do fundo das águas. todos vítimas de um ser encantado que surgia em sonhos. E várias histórias de homens e mulheres. disse Florita. um peixe grande. e alguns enlouqueceram com essas visões e pediram ajuda a um pajé. com medo de dar à luz uma criança com cara de boto.

meu coração não secou. os bois. A fazenda ficava numa área de várzea do Uaicurapá. Depois decides se é melhor vendê-la. Estiliano me encarou com pessimismo. ele disse. os empregados. pagar um prático e comprar comida. só os políticos podem dormir e acordar de bom humor. Não me lembro em que noite do passado vi Amando apon66 . A papelada de Amando. quando o tempo já afogava a ânsia e a esperança. que é mais doloroso que o insulto. Quando fiquei sem dinheiro. Levei Florita e a caixa da loja Mandarim. Deves visitar a fazenda. a qual. E mesmo depois.diu que eu parasse com essa loucura e desistisse de vez: Dinaura nunca mais ia voltar. e o corpo pedia sossego. Ele me deu dinheiro para alugar uma lancha. corria atrás do desejo. E vou viver de quê? Podes vender uma propriedade. Meu pensamento corria atrás dela. Não desisti. Fiz uma proposta a Estiliano: podíamos reativar a Boa Vida. ele escavava na minha memória. exportar carne. Vivi algum tempo com essa alucinação. com documentos que eu não tinha lido. Até Horadour Bonplant quer vender a perfumaria. o transporte do gado durante a enchente. Com que dinheiro? O pasto. o guarda-chuva em frangalhos no colo. sem querer. Nesta terra. Ia aos sábados à praça do Sagrado Coração com a esperança de vê-la no fim da tarde. percebi que muito tempo tinha passado. Prenunciava meu futuro? Notou que a palidez no meu rosto vinha de alguma lembrança terrível. fugia do mendigo sentado no mesmo banco.

Os cacaueiros. A diferença é que aqui tem muita água e peixe. Florita olhou com tristeza o antigo pasto: um capinzal com tocos de árvores queimadas. Os cupinzeiros avançavam nos tabiques e vigas da casa. próximo do paraná do Ramos. Fazia tanto tempo que eu não pisava na Boa Vida. Ela viveu para mim até o dia em que te pariu. entre a arma e o chapéu. dizia. Dois homens seguiram a balsa e se divertiram. Só a casa sobreviveu. atirando no pescoço do cadáver. Os urubus gostaram. Enquanto Florita e o prático limpavam os quartos e a varanda. Estiliano conhecia essa história? E Florita e madre Caminal? O que um amigo sabe de um amigo? Ou cala? Eu me sentia mal na Boa Vida. Ele já estava morto quando atirei na corda. Um safado que trabalhava na Boa Vida mexeu com a tua mãe. meu pai dizia. com guarás-vermelhos e jaçanãs no céu e nas árvores. O corpo caiu na água e depois foi colocado numa balsa que o rio levou. o chapéu e as botas de Amando pendurados na parede do quarto. O rifle. Ninguém. e aqui vou colher muito cacau. Lugar lindo.tar o céu e comparar o tamanho da Boa Vida com o da lua. As 67 . Foi enforcado num galho alto. Lá embaixo. Esse sonho agrícola foi destruído pelas pragas. espetaram a cabeça do atrevido numa estaca. com folhas enferrujadas. eu olhava a velha sumaumeira na margem do rio. Florita pensou que ele estava endoidando. A árvore mais alta deste mundo. com a varanda e a sala de frente para o rio. E a fotografia do rosto dele. mortos. porque se dirigia à lua e falava da plantação de cacau. e ninguém nunca mais mexeu com a tua mãe.

sombreando a casa que uns colonos ocuparam durante a Segunda Guerra. e me lembrava de outra: a da cabeça cortada. Voz. quando eu furava peixes com um arpão e brincava sozinho na praia. Joguei o rifle e o chapéu no chão. A Boa Vida virou casa de campo. Histórias diferentes. Amando gostava de repetir esse episódio. Os olhinhos de brasa faiscaram. não queria sombras no 68 . o vulto de um homem armado apareceu na parede. Num vôo torto um morcego se enganchou na tela de arame da janela e soltou um guincho. Não era o prático da lancha. tentei dormir no quarto dos meus pais. Não era o lugar que me perturbava: era a lembrança do lugar. Os filhos dos empregados se aproximavam da varanda e paravam para observar a casa. Apenas o rifle e o chapéu do meu pai. mas as palavras de Amando me amedrontavam ainda mais. Eu acreditava nessa história. Então meu pai queimou a floresta para fazer pasto. mesmo. Crianças caladas. filhos de homens calados. Porque ele acreditava no que dizia. E também porque ignorava meu medo. Diz que a plantação de cacau gorou em pouco tempo. Patos-do-mato e marrecos gritavam na copa da sumaumeira. de madrugada um chiado me despertou. Ninguém. Acendi a lamparina. até comprou uma barcaça e começou a transportar borracha. Decapitado. Ele prosperou.águas escuras e espelhadas do Uaicurapá. a ilha que surgia na vazante. castanha e madeira do Médio Amazonas para Belém. só a de Amando: voz para ser obedecida. como se estivesse viva. e certa vez não se dirigiu à lua nem a mim: falava com minha mãe. O homem enforcado. O morcego sumiu. Naquela noite. Sombras. A árvore deve estar lá.

uma tarde em que ela dormia na rede. Florita. passou uma mulher. me levou para dentro da rede. A mulher veio na direção da janela. Almerindo e Ta69 . tirou minha roupa. eu escutava os gritos dos patosdo-mato e via a sumaumeira crescer no céu avermelhado pelo sol ainda escondido. largou a família para trabalhar e viver melhor. também em Vila Bela. Lá fora. Voltou de mãos vazias. festejado. Em Vila Bela ela estudou e ganhou um nome. Eu ia gritar o nome de Dinaura. A tarde em que Amando se embrenhou na floresta para trazer de volta uma família de empregados fugidios. e que ele respeitava e até ajudava as pessoas de confiança. Saltei da rede com o coração na boca e me aproximei da tela de arame. Tinha sido capturada por Almerindo. na beira do rio. Vai dormir. Escutei um barulhinho. disse Florita. Armei a rede na varanda e deitei. e lhe comprou roupa e sandálias. Foi só um sonho. com batismo cristão.quarto. Antes de clarear. o estalo das castanhas que caíam das mãos dos macacos. Amando dizia que era uma cunhantã de confiança. Essa moça me criou. A primeira mulher na minha memória. dizia Amando. Pobre e corajosa. Anos depois. o cheiro das frutas que eu arrancava das árvores. Não quis fugir com os preguiçosos. Tive um susto quando ela se levantou. As lembranças da Boa Vida me deixaram de olhos abertos: os sons das cigarras e dos sapos. entrei no quarto e fiquei observando o corpo nu. Quase vazias: uma moça malvestida e descalça vinha atrás dele. Meu pai levou a moça para o palácio branco. que depois foi ser caseiro em Vila Bela.

E.lita ouviram. no outro. E. Cavei dois buracos entre a sumaumeira e o rio. se não visitas mais o túmulo dele? O cemitério de Vila Bela é um matagal só. ajoelhada. de prefeitos. Encontrei mensagens de fiscais de mesas-de-rendas. Para quê. o chapéu. no fundo da caixa. Ia enterrar também a fotografia de Amando. e num deles enterrei a caixa com a papelada. o rifle e as botas. Florita não se desculpou nem foi punida pelo patrão. em Manaus. Amando me obrigou a morar na pensão Saturno. Amanheci com essas lembranças. Florita estava lá. e que "tudo devia ser planejado com sigilo". ela disse. Meses depois. Mas Florita quis guardar o retrato. e outra pelo governador do Amazonas. Uma manhã em que fui visitar o túmulo de minha mãe. Até plantou um cajueiro ao lado do jazigo dos Cordovil. contaram tudo para o meu pai. Ela ia ao cemitério e deixava bromélias na lápide do patrão. vasculhei os documentos guardados na caixa da Mandarim. Não esqueci o que ela me disse logo depois do enterro de Aman- . casas de caridade e pelo vigário-geral do Médio Amazonas. Mencionavam uma concorrência para o transporte de carga para a Inglaterra. eu disse. Mentiu olhando a imagem de Amando. deputados. Hoje. Li cartas enviadas por prelazias. uma carta assinada por um funcionário de um ministério. Pensava nisso quando ouvi Florita perguntar que dia íamos voltar para Vila Bela. rezando e aguando o pé de caju. o rosto voltado para o fundo da terra. Agradeciam as doações de Amando. como não conseguia dormir.

Então ele apontou a barba de patriarca para uma mesa e disse que Becassis procurava um lugar para morar e instalar uma . "Façanhas de um civilizador". minha última propriedade valiosa. quero vender meu palácio. pensei na mãe que não conheci. A única saída era vender o palácio branco. ou rompante: palavras sem pensamento. uma elegia ao pai dele. Um sobrevivente deve ter gravado os crimes do tenente-coronel Edílio Cordovil no tronco de uma árvore secular. Mas outras vozes desmentiam esse heroísmo.. Sei que Amando e meu avô tinham inimigos. Não sei se ela morreu para se livrar do meu pai. e fiquei com pouco dinheiro. sério. um dos líderes da contra-revolta. Entrei na pensão dos Benchaya e disse: Salomito. Amando queria escrever um livro.do: Teu pai era ganancioso que nem anta. O Amazonas todo aprendeu. apesar da baixeza.. Em Vila Bela. Depois dessa matança. Eu confirmei. Amando contava atos heróicos de Edílio: a coragem com que ele e seis soldados derrotaram mais de trezentos revoltosos na batalha do Uaicurapá. Aprendeu a gostar dele. os cargueiros sugaram toda a sua energia e tempo. Salomito pensou que era conversa mole. paguei o prático e o aluguel da lancha. Dei a fotografia para Florita e olhei a Boa Vida como quem olha um lugar que não deve mais ser lembrado. se conheceres alguém interessado. Na viagem de volta para Vila Bela. diziam que em 1839 Edílio havia comandado um massacre contra índios e caboclos desarmados. ele tomou posse de uma área imensa na margem direita do Uaicurapá. Não escreveu nada. mas aprendi a gostar dele.

o rosto bem talhado. Eu ainda não sabia que era filha dele. a primeira havia sido só de longe. era de pai. Observei o corpo empinado. não queria mostrar a beleza. e os mais velhos costumavam casar com mocinhas. 0 velho notou que eu estava hipnotizado por Estrela. Minha Flor ficou calada. Becassis se impressionou com as janelas altas em ogiva. parou para admirar as louças e os azulejos portugueses do banheiro. Eu disse. gravei na memória a impertinência de Azário e acompanhei Becassis à casa. com o tamanho da sala. O assoalho encerado por Florita brilhava. sem exagero: É o palacete branco na avenida Beira-Rio. A mulher sorriu. que escondia alguma coisa no fundo dos olhos cinzentos. Ela era altiva. Ela vivia como uma cativa. Velho corajoso: teimava em vender óleo aromático numa época que cheirava a fome e destruição. De- . um rapaz esquisito. Quer dizer. Como admirei os olhos da forasteira. Era a segunda vez que via a mulher. Ele me apresentou a filha e o neto.pequena perfumaria em Vila Bela. Becassis levantou e perguntou pela casa. aqui e na Europa. as mãos delicadas. e eu não liguei. O que não brilhava era o olhar dela. Becassis estava sentado entre Estrela e Azário. O ciúme nos olhos dele não era cisma de esposo. os judeus marroquinos e os árabes tinham fama de mulherengos. e quis ver a casa na hora. o cabelo comprido e cacheado roçava a borda da mesa. Ou eu é que senti alguma coisa que me afastava dele? Nem me cumprimentou. dos quartos e da cozinha. o rapaz me olhou de banda e cruzou os braços. Não sei se ficou invocado comigo.

porque o preço incluía a Boa Vida. e nos despedimos. É um preço muito baixo para as duas propriedades. a pérgula de madeira coberta por um maracujazeiro. Ele quer assinar 73 . A fazenda Boa Vida.pois andamos pelo quintal. esfregou-a nas mãos e cheirou. como se fosse a de outro. BreuPreto? Tem tudo. Muito esquisita. respondi. Arrancou uma folha da trepadeira. Estiliano me informou a oferta de Becassis. O rosto seco e duro de Becassis não se alterou. O senhor tem outra propriedade? Uma área de várzea no rio Uaicurapá. disse Estiliano. O comprador devia saber que eu andava de cuia na mão. O doutor Estiliano. perguntou Becassis. Sobretudo do preço. Duas semanas depois. Na calçada. Quando perguntou pelo preço. Tem plantas com raízes aromáticas? Breu-Branco. Mas tu mencionaste a fazenda e deste a entender que ias vendê-la. meu advogado. a voz saiu cortada. e eu disse a ele que aquela era uma das poucas casas de Vila Bela que tinham uma fossa decente. dei a ele o endereço de Estiliano. Como Becassis sabia que estava à venda? Soube por mim. protestei. a fonte de pedra do tempo de minha mãe. Ele observou tudo: as árvores frutíferas. menti. Depois disse uma verdade que me interessava: Tem até escritura lavrada em cartório. Becassis é o único que pode pagar. trata disso. Até do preço?.

as mãos que preparavam minha comida. passavam.duas promissórias para serem descontadas em Belém. e lavavam. não faz assim. E ainda concordou em pagar tua passagem. lábios grossos e cabelo escorrido. engomavam e perfumavam minha roupa? Gostei dela desde o dia em que a vi no meu quarto: a moça de rosto redondo. Pensei em tudo isso e perguntei a Estiliano: Não foi meu pai. Tinha Florita. põe a língua pra fora e agora me lambe: a brincadeira que foi a despedida da minha juventude virgem e me castigou com a temporada na pensão Saturno e quatro ou cinco anos de desprezo de Amando. Não podia contar. perguntou Estiliano. e disse ao advogado que só venderia as propriedades se Florita ficasse no palácio branco. Abandonar Florita? Como eu podia abandonar a intérprete dos meus sonhos. não numa casa de estranhos. Tentei convencer Florita de que. pega aqui. eu não teria mais nada. o olhar terno e triste que foi adquirindo malícia e dureza no convívio com Amando.. eu compraria uma casa no bairro de Santa Clara. Queres vender a casa e abandonar Florita?. aperta minha bunda.. ao voltar de Belém. onde mo74 . a quem sustentava. Pensei num plano. Florita sentia ciúme de mim por eu ter dormido com ela uma única vez na rede: a brincadeira que ela me ensinou. que trouxe Florita para trabalhar em casa? Na casa de Amando Cordovil. Concordei com a oferta de Becassis. teu amigo. e não contei a ninguém. dizendo: Faz assim. Sem as duas propriedades. cortado em forma de cuia.

da bancarrota da empresa. minhas mãos esfriaram com essa má lembrança. foi um comprador de peito aberto. Becassis repreendeu o neto. Lembrei do empréstimo. Becassis não escutou essa voz íntima. A beleza daquela mulher não diminuiu minha saudade de Dinaura. Becassis disse que uma empregada da pensão de Salomito ia trabalhar na casa. Por acaso olhei Azário e me irritei. Ela se aproximou de mim com um sorriso de comadre e ternura nos olhos. Na nossa presença. ele disse. A secura do nosso primeiro encontro havia sumido. que fazia uma careta de diabo. Ia comprar a per75 . apenas amoleceu. roçou os lábios no meu cangote e lambeu minha orelha até me deixar arrepiado. apontando as promissórias. mas notou meu rosto amarelado de medo. O rosto de Estrela me reanimou. Isso é dinheiro. pensei em voz alta. Mas desta vez não vai te cobrar. eu disse a Florita.raríamos juntos. disse Estiliano. mas a idéia de perder o palácio branco me desnorteava. Becassis me interrogou com um olhar apreensivo. E de boca também: falou de seus planos e revelou o nome da perfumaria: Tânger. E então sussurrou com ódio: Vais voltar de Belém com o demônio no coração. Não digo que o velho se derreteu para mim. como se eu fosse desfazer o negócio. e sim pagar. E o medo cresceu quando vi o timbre de um banco inglês nas notas promissórias. Vais ganhar uma família até eu voltar. Becassis parecia entusiasmado com a compra da propriedade. O mesmo banco.

ia exportar para a Europa. Sugeriu que com o dinheiro da venda eu comprasse duas casas: uma para morar e outra para alugar. Estiliano sabia disso? Ele levantou. Estiliano e Florita não entendiam meu estado de ânimo: eu tinha acabado de vender as duas últimas propriedades e não estava abatido. conti- . Quando me despedi de Estrela. Queria vender o cheiro da floresta para todo o Brasil. Não quero ver um Cordovil na rua. depois de fuçar a papelada guardada na caixa da Mandarim.fumaria Bonplant e extrair folhas e raízes da mata da Boa Vida. Então decidi tocar num assunto que podia esfolar o coração dele. descobri que Amando Cordovil tinha sido um contrabandista e sonegador. toquei na sua mão delicada. que foi o único amigo do meu pai. depois apertei essa mão. corpo teso. imaginando os frascos de óleo aromático nos fundos do palácio branco. Estás a meio passo da pobreza. mãos grandes demais para a idade dele. Estiliano quis saber o que eu ia fazer depois. E um amigo. Ele intuiu que eu maquinava alguma coisa e me visitou na última semana em que dormi no palácio branco. Depois? Não tens mais chão nem teto. rapaz estranho. e. Se desse certo. Disse que na Boa Vida. Embolsei as promissórias. um aperto demorado. E esqueci o filho da viúva. de promessas íntimas. antes que andasse até a porta. antes de entregar as chaves a Becassis e embarcar para Belém. Tenho Florita.

Os políticos faziam chantagens com teu pai. depois desembarcava tudo numa ilha perto de Manaus e sonegava outra vez. dava carroças para recolher o lixo. Subornava o empregado da mesa-de-rendas. sofrendo com a reação que contrariava seu temperamento. todos sabiam. Meu pai sonegava e depois dividia o lucro com eles. a grande concorrência antes da Primeira Guerra: borracha e mogno para a Europa. subornava até o diabo. mas justo. O rosto suado. A morte súbita de Amando deixou-o vulnerável. vermelho. ele ficou parado. a ganância era maior que a vida. O coração não agüentou. pagava os reparos do matadouro e da cadeia. Não foi a ganância. o salário dos carcereiros. Eu mesmo me assustei com o descontrole do advogado. brilhava. O suor escorria do queixo e gotejava no assoalho.nuei: a carne verde e a castanha que Amando exportava para Manaus. Disse que Amando era um homem ambicioso. A voz alta assustou Florita. Eram os aliados. Transportava a carga até outras freguesias para não pagar impostos em Vila Bela. repetiu Estiliano. disse Estiliano. Os fazendeiros só pensavam 77 . Não teve tempo para queimar o passado. aí ajudava a prefeitura. se exaltou Estiliano. dava os cavalos e bois que puxavam as carroças. eu disse. para um funcionário do Ministério da Viação Pública. Não foi a ganância. os sócios dele. Florita sabia disso. Depois fez a mesma coisa com o frete das barcaças e do Eldorado: escrevia para o governador do Amazonas. Morreu porque perdeu uma licitação vantajosa.

disse Estiliano. e assim não faria dano a ninguém. Algumas pessoas podem morrer por ganância. Antes de ir embora. com desdém. Amando foi o primeiro a vender carne barata em Vila Bela. Florita ainda resmungou: eu não devia ter vendido o palácio branco. estava sendo tão teimoso e bruto quanto Amando Cordovil. Os resmungos de Florita não me abalaram. queria carne para todo mundo. Com esse alento abracei Florita e esperei que ela soluçasse de saudade. Ele nunca me falou dessas cartas. E então ele disse o que eu mais queria ouvir: Quando voltares de Belém. mas até para isso tinha que molhar as mãos dos políticos.. A lealdade cega de Estiliano ao meu pai me enervou. como um caroço numa fruta podre. . Mas não.em exportar carne para Manaus. O Hildebrand ia atracar em Vila Bela num sábado. Minha filha vai gostar. vou te convidar para jantar em casa. assinei os documentos no cartório e entreguei as chaves para Becassis. ia me arrepender para o resto da vida. Sem que eu percebesse. Não foi a ganância. Ele queria que o povo comesse. ele advertiu: que eu não gastasse o dinheiro. Li toda a correspondência que ele recebeu. Queria a cadeia limpa. Não conheci esse homem. Nem sequer uma palavra. Eu teimava em ser a casca. eu disse bruscamente. mas não. mas uma sombra do meu pai estava dentro de mim. Na manhã de sexta-feira. com comida e catre.. Deve ter sido outra coisa. não gastasse todo o dinheiro em Belém. Queria ser diferente. queria ser jogado fora.

e quase ao mesmo tempo lembrei de uma promessa de Amando. Ele costumava visitar o túmulo de um parente no cemitério dos Ingleses. Não contou que tinha um filho. e perguntou como ele estava. É o único desocupado. Entrou no palácio branco com um rosto de prazer e triunfo. o velho lamentou. em vez de falar dos cargueiros e da empresa. até os lençóis de cambraia. os casarões. Coitado do doutor Cordovil. no meu rosto. até Belém. Percebeu a surpresa. Um velho recepcionista perguntou se eu era parente de Amando Cordovil. só desgraça. de águas misturadas. talvez o assombro. Próximo de Breves lembrei do naufrágio do Eldorado. disse. as louças. O mar amazônico. respondi. Os ossos do meu avô estavam enterrados em Vila Be79 . E o mar. E disse que eu ia viajar no camarote preferido do meu pai. Morto. Nas conversas a bordo. o Grande Hotel. já tinha esquecido a promessa. Parecia um navio de náufragos. igrejas e praças magníficas. Viajei onde meu pai havia dormido. e. o relógio de parede. o Porto do Sal.Deixei tudo na casa: os móveis. E a memória do homem me perseguiu rio abaixo. Ele prometeu que iríamos juntos na viagem seguinte. Então eu quis conhecer a cidade. Ele se lembrava das viagens de Amando para Belém. Só não deixei a memória do tempo em que morei lá. Isso foi no dia em que ele voltou de uma viagem ao Pará. Elogiou a bondade e as gorjetas do hóspede. mencionou as belezas de Belém: a Cidade Velha. mas foi sozinho. Quando voltou. eu disse. O Grande Hotel era um edifício fabuloso. O comandante do Hildebrand reconheceu meu sobrenome. Filho.

Cordovil. no banco inglês. E que diabo eu fazia ali? Um rosto atraiu meu olhar. Podia sentir o prazer que Amando sempre me proibiu. Fui ao Grande Hotel para mudar de roupa e esperar a chuva passar. Depois. Eu não sabia nada de minha avó nem de outros parentes. morto num naufrágio na costa da Guiana Inglesa.la. quando segurei o pacote de dinheiro. E podia gastar sem a vigilância de um pai ou tutor. O nome e também o rosto daquele Cordovil: anguloso. ri do mau pressentimento. Andei pelo pequeno campo-santo. começou a chover. A curiosidade me levou ao cemitério dos Ingleses. Ele me pediu um documento de identidade. Como podia estar morto. Eu me esbaldei no Café da Paz e nos bares da Cidade Velha. se me olhava com o mesmo olhar do meu pai? Tive medo de cair numa armadilha. as sobrancelhas espessas. de não receber o dinheiro das promissórias. tiravam toadas e modinhas com flauta. violino e cavaquinho. Eu pagava a bebida das noitadas e os ingressos das operetas da trupe Chat Noir no teatro Moderno. Saí do cemitério com esse mau presságio. por exigência de Estiliano. dei ao gerente as duas promissórias. conheci o Mestre Chico e outros boêmios e músicos que tocavam canções de pau e corda. o queixo proeminente. Fiquei aliviado e. O nome do barco naufragado parecia atado ao meu destino: Eldorado. mas parecia seguir meus passos. Eu me aproximei da lápide: Cristóvão A. lendo epitáfios em lápides de mármore de Carrara. mal sentei num banco de pedra. violão. no largo de Na8o . O retrato de um morto. Era meio-dia. Amando não estava em lugar nenhum. entreguei também uma carta que Becassis havia escrito e assinado.

e com essa face ele idealizou o homem inteiro e sua alma. Mais de dois meses vivendo assim. E olha só: o rosto do velho molhou de alegria. Porque minha Flor conhecia os dois homens de sua vida: eu e meu pai. desperdiçada em Manaus. de comer e beber nos melhores restaurantes. E. passei na livraria Alfacinha e levei uma caixa de livros franceses para Estiliano. mas era como se fossem para Dinaura. Estiliano só conhecia uma face de Amando. quando os vendedores do Ver-O-Peso me ofereceram essências do Pará. gastar. Como ia casar com ela se pensava o tempo todo em Dinaura? Viajei para Vila Bela com essa dúvida e um pouco de dinheiro. mudei de idéia: dez vezes era suficiente." A frase de Florita era mais temerosa que as advertências de Estiliano.zaré. a filha de Becassis. Ia dar a ele vinte vezes mais. No hotel. de antes de conhecer Dinaura. Mixaria. Não conseguia esquecê-la. Depois aluguei uma lancha e vi o mar pela primeira vez. comprei roupa e sapatos para mim e para Florita. e tinha pouca esperança de encontrá-la. A notícia de que eu era um rico de mão aberta agitou o porto. Quando descontei a segunda promissória. Quando abri a carteira. perguntei ao velho recepcionista quanto meu pai lhe dava de gorjeta. Amanhecíamos no Porto do Sal. Na loja Paris n'América comprei peças de organdi suíço e de seda italiana e francesa. Fiquei enjoado de tanto comprar. a mesma vida fútil. farrear. Presentes para Estrela. Às vezes o presságio não é mais poderoso que a razão? 81 . "Vais voltar com o demônio no coração. mas acabei dando cinco libras esterlinas. pensei na perfumaria Tânger e no encontro com Estrela.

ele continua a me ajudar. entre uma carroça cheia de caixas e uma mulher humilhada. quando vi Florita empurrando um tabuleiro com rodas de madeira. não senti cheiro de óleo perfumado. Dei os presentes para Florita e disse que podíamos passar uns dias na casa de Es82 . Decidi enfrentar Azário e acompanhei o carroceiro ao palácio branco. Mas.Quando desembarquei em Vila Bela. Contornei a casa até o fim do quintal. No dia seguinte Florita teve que sair da casa. nenhum aroma. disse Florita. Dois amigos do teu pai me tiraram da rua. Becassis vendeu as duas propriedades para a família Adel. E Leontino Byron deu a Florita um tabuleiro para vender beijus e queijo de coalho. Esse fedelho me perturbava. um carregador pôs toda a bagagem numa carroça. Alguma coisa nele lembrava meu pai. Uma semana depois da minha partida. com raiva. Os Becassis devem ter ido à Boa Vida. E Florita? Bate o pé por aí. Mesmo morto. Era estranho contemplar as fachadas cegas da casa. Estiliano alugou um quartinho para ela no porto de Santa Clara. Cheiro de bosta de boi e cavalo. pensei. Eu estava na rua de terra. Antes de visitar Estiliano. decidi entregar à filha de Becassis as caixas com as peças de tecido. Onde estavam os moradores? O carroceiro não sabia. E olha o que fizeram contigo. Vai atrás dela. percebi que ela não morava mais no palácio branco. Contou que não tinha perfumaria coisa nenhuma. Lembrei que não tinha comprado nada para Azário. isso sim.

Eu mesmo fui conversar com ele. e que eu queria saber o que havia por trás da farsa. Amando. Quando me viu. Por que farsa? São negócios. Numa época de prosperidade isso seria apenas desperdício. Onde ele entra nessa história? Que tu queres dizer? Azário. disse Estiliano. Eu disse que Becassis e Adel eram farsantes. aí Becassis se enfezou e decidiu vender as duas propriedades para Genesino Adel. o mesmo olhar do meu pai. Aumentava o preço a cada semana. Ela pôs os embrulhos no tabuleiro e foi embora sem dizer nada. . Mas neste tempo de penúria é suicídio. Recusei.tiliano. largou a colher e me convidou para almoçar. eu disse a Estiliano. E nos bolsos. Passa na perfumaria e pergunta ao Bonplant. Não acredito nisso.. Perdeste tudo. interrompi. bebia e fazia uma pausa para ler um dos volumes. não é? Perdeste o palácio branco e a Boa Vida. coloquei os livros franceses na mesa. Pensava nisso enquanto caminhava para a lagoa da Francesa.. Estiliano almoçava no centro da mesa. As mãos grandes. Na tua cabeça só cabe fantasia. ao redor do prato. ele sorriu com prazer. Arminto. A teimosia é uma estupidez que destrói nossa vida. Horadour Bonplant desistiu de vender a perfumaria. O rapaz azedo que nem Amando. o filho de Estrela. Levantou e andou ao redor da mesa. Mastigava. livros abertos. Fui teimoso e petulante em desprezar o presságio de Florita. Tu não entendes nada disso. fechando os livros. sobrou algum dinheiro? Não sobrou nada. mas o francês pediu uma fortuna.

. Se Florita sabia disso. Só naquela época eu soube que Edílio Cordovil tinha abusado de uma portuguesa. largava a noiva e procurava outra moça. Dizia que o fim da tarde o inspirava e incomodava. preocupado com a minha solidão. uma das noivas abandonadas por Edílio. Nas outras visitas. Pior foi a decisão de não morar mais comigo. Genesino Adel nem me devolveu os móveis e objetos do palácio branco. Às vezes. Ele odiava meu avô. esbanjei à vontade. Salomito Benchaya me contou isso quando passei no bar do Mercado para tomar um trago. Tive que aprender a viver sem a Flor da minha infância e juventude. ele perguntou. Bebia duas garrafas de tinto. comprei esta tapera. e que sentia nesse momento do dia um desejo absurdo de sofrer. revelou Salomito. Mas uma tarde revelou que ficara muito abalado com a morte do meu pai. Estiliano vinha conversar. Me vinguei. Não falava da vida dele. e que os dois planejavam viajar para Paris. Vingança? Que há depois da morte?.Fiquei no melhor hotel de Belém. Amando deve ter agido da mesma maneira com a filha de Becassis. Meu pai nem falou de mim para o recepcionista do hotel. tua última moradia. e antes . mãe de Genesino.. tentei desafogar a saudade de Dinaura. Com o dinheiro que sobrou. Não foi só a mãe do velho Genesino. prometia casar. Só vocês dois? Sim. Diz que teu avô noivava. comentava os livros que eu havia comprado em Belém. Agora vamos procurar uma casa. há pessoas que morrem com seus segredos. decidiu calar o bico.

recitava poemas e oferecia vinho e licor de taperebá aos poucos leitores de Vila Bela.". disfarçada sob outro nome. outra vida. que tinha escrito poemas de amor quando combatera na Primeira Guerra.. trouxe de Manaus uma biblioteca que assombrou a cidade. Estiliano não deixava nenhum livro morrer nas estantes da sala. não quero mais saber de leis. do passado. Mas só os poetas sabem dizer. dos cargueiros. nada disso. Quando Estiliano terminou de ler. Quando ele se mudou para cá. Os versos insuflaram ainda mais o desejo da minha amada. Deixava livros que eu demorava a ler. porque parava numa página e pensava em Dinaura. quase sem voz: Isso é uma tortura. Só de ler. eu disse. Ia embora meio bêbado. e até me deu a primeira parte dessa tradução. recitou poemas de brasileiros e portugueses.de anoitecer lia poemas de Cesário Verde e Manuel Bandeira. É a nossa vida quando não dá certo. Passou muito tempo sem . e nas nossas conversas evitávamos falar de Amando. a voz rouca e grave dizendo: "A vida passa. e a mocidade vai acabar. Durante algum tempo Estiliano ainda me visitou. Lembro que naquela época ele começou a traduzir um poema grego. e também de um poeta francês. ou abria qualquer página e minha amada estava lá. códigos. que nunca mais voltei. Dizia: Quando parar de trabalhar. Caminhava de manhãzinha até o porto de Santa Clara e voltava para ler. Na tarde de um sábado me arrastou para o sarau literário na lagoa da Francesa. ele corrigiu. Ele me mostrou o livro de onde copiou o poema que enviei a madre Caminal. a vida passa.. Aos sábados. muito moderno. Saí do sarau com tanta saudade de Dinaura.

ele e a palavra escrita e toda a poesia do mundo. Não o procurei mais. que Estiliano falou de mim e dos Cordovil. Choro de saudade de uma mulher que tu odeias. Juntou tanta gente ali na porta. Estiliano disse. e. No jantar oferecido por Genesino Adel. levantou e disse que eu devia entender uma coisa: as paixões são misteriosas como a natureza. os homens não saíam de perto das grã-finas. desde a tarde chuvosa em que falava de seus poetas queridos. quando quatro turistas paulistas passaram por Vila Bela. Comia tudo. caboclos. até piranha frita. Ia mandar Estiliano ao diabo. Escritor. a palavra escrita é o único alento. Três mulheres e um homem. Ele pôs os livros na pasta de couro. Elas eram elegantes e posudas. enquanto ele folheava um livro. Nunca te vi chorar por um poema. No dia seguinte as paulistas me visitaram. eu contemplava o rio e chorava. declamando versos deles.. E não se cansava de anotar o nome de plantas e bichos. Foi um alvoroço. e viviam molhadas de tanto calor. Alguém mentiu para mim. Estiliano era o único convidado que sabia alguma coisa do escritor.pisar aqui. Não choro pelas palavras. artesãos e compositores de toadas. A madre espanhola mentiu. O escritor puxava conversa com todo mundo: índios. até Florita veio ver as turistas. Os quatro foram recebidos pelo prefeito e homenageados pelo Conselho Municipal. ganhei um dinheirinho. Uns anos depois. e eu lambia lágrimas. Quando alguém morre ou desaparece. Contei a elas que havia herda86 . todas vestidas de preto. As mulheres ficaram tão admiradas com o palácio branco. mas o homem já estava na rua de terra. nem para pedir dinheiro..

do o palácio branco e agora morava aqui. Quiseram conhecer o casebre, e saíram angustiadas com tamanha pobreza. Então mostrei as peças de organdi e seda da Paris n'América. Queria vender tudo, por qualquer preço. Compraram. Uma delas, a mais velha, quis saber para quem eu ia dar tanto tecido maravilhoso. Para minha amada Dinaura. Morreu? Não, anda por aí, em alguma cidade encantada. Mas um dia ela volta. Se vocês ouvirem esse nome, é ela, não tem outra no mundo. As três mulheres me olharam como se eu fosse um demente, e eu me acostumei com esse jeito de ser olhado. Dei uma parte do dinheiro para Florita e guardei um pouco para dias piores. Depois embaralhei o tempo, perdi a conta dos dias, esperando por um milagre. Mudava de humor: hoje, esperança; amanhã, desespero. Essas árvores foram plantadas por Florita. De vez em quando ela trazia guisadinho de carne com maxixe e arroz com folhas de jambu ensopado em molho de tucupi, iguarias que costumava preparar no palácio branco. Dizia que eu estava desmiolado de tanto pensar em Dinaura: não suportava me ver assim, alesado, com cara de sapo triste. Servia meu almoço, colhia frutas no quintal, e, quando batiam as cinco pancadas do sino, ficava perto de mim, só para sentir minha ansiedade e me ver agitado. Então resmungava: Faz tanto tempo, e tu ainda sonhas com aquela ingrata. Depois ela ia embora. Ciumenta e orgulhosa, empurrando o tabuleiro. Nunca mais lhe dei moedas, nem pedi um centavo. Agora éramos iguais.
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Uma manhã em que ela estava aqui, um menino veio deixar um canudo de papel. Seu Genesino Adel mandou, disse ele. Desenrolei, e vi a fotografia dos meus pais recémcasados. Rasguei o papel no meio, dei para Florita o rosto de Amando, e pendurei a imagem de minha mãe, Angelina, na parede do único quarto desta tapera. Esperei mais dois anos para entrar no palácio branco. Isso foi quando Genesino Adel vendeu o imóvel para o tribunal de justiça. Não visitei a casa, entrei pelos fundos só para rever no meio da fonte a cabeça esculpida de minha mãe. Beijei os olhos de pedra, beijei o rosto amornado pelo sol, e pedi ao juiz que me autorizasse a trazer a cabeça para o meu quarto. Ele negou. Jurei: não ia mais pisar no palácio branco. Olhei pela última vez o rosto de pedra e pedi a minha finada mãe que me ajudasse a encontrar Dinaura. Comprei uma canoa grande e atraquei ao porto, oferecendo um passeio aos passageiros da Booth Line. Depois, quando o Hilary inaugurou a linha Liverpool—Manaus, recebi gorjetas gordas. Era um colosso de navio, muito maior que os da Hamburgo-América do Sul. Nos passeios de canoa víamos garças no lombo de búfalos e, às vezes, um gavião-real voando sobre um lago de águas pretas. Lembro de um grupo de turistas que queria ver índios. Eu disse: É só observar os moradores da cidade. Um dos turistas insistiu: Índios puros, nus. E então os acompanhei até a Aldeia da minha infância e mostrei a eles os últimos sobreviventes de uma tribo. Se vocês quiserem conversar com eles, conheço uma tradutora, eu disse, pensando em Florita. Não queriam conversar, e sim fotografar. E depois

perguntei se desejavam ver os leprosos da ilha do Espírito Santo, e um dos turistas disse: Não, um não seco, definitivo. No fim do passeio eu mostrava a fachada do palácio branco e dizia que a casa havia pertencido à minha família. Depois contava o sumiço de Dinaura, mas acho que não acreditavam em mim, pensavam que eu fosse doido. Fui proibido de entrar no restaurante e nos salões do Hilary, e todo o luxo de uma época acabou numa lembrança amarga. Um dia, no tumulto de um desembarque, quando eu tentava convencer um casal inglês a passear no Macurany, ouvi um lamento em voz alta: Beiju fresquinho... Florita gritava, como se os ingleses entendessem português. Não vendeu nada. O casal inglês escolheu outro barqueiro, e eu fiquei sem gorjeta. Quando o Hilary apitou, os passageiros deram adeus e jogaram moedas nas ubás dos índios. Se eu fosse mais nova, ia embora desta terra, disse Florita. Para onde? Para outro mundo. As máquinas do navio fizeram um estrondo, a fumaça nublou o céu, os canoeiros sumiram. E o porto deserto, com o cais em silêncio, me deixou melancólico. Olhei para o chão e vi os pés de Florita. Inchados, sujos de terra, as pernas também inchadas. O rosto já não escondia a velhice. Pus as mãos em sua cabeça e disse que meu plano era casar com Estrela só para não perder o palácio branco. Um plano que não ia dar certo porque eu amava Dinaura. Mas eu não tinha desconfiado de Becassis e Adel. Ela pensava mesmo que eles iam me enganar?

murmurou: Meu corpo está doído. 90 . pensei na mulher: a tapuia que ia morar com o amante no fundo do rio. Pôs as mãos nas costas. subiu o barranco e andou até a Ribanceira. Juntou no chão as flores da cuiarana e sentou no mesmo lugar da minha única noite de amor com Dinaura. não. Arminto. com o arco-íris que parecia uma serpente no espaço. Traduzi torto. Saiu da água. de costas para mim. As meninas do Carmo. Por isso. Mas ela falava em língua geral. Por quê? Agora estou sentindo o que a mulher dizia. quando a gente andava na beira do Amazonas. quando meu pai andava por Manaus ou Belém e Florita traduzia as histórias que ouvíamos na Aldeia. Empurrei o carrinho até aqui. disse: Não foi isso que ela contou. entenderam e saíram correndo. Comemos beiju. Antes ganhava um pedaço de carne com osso no matadouro. Lembrei o céu esquisito. disse Florita. e tu traduzias. No fim da tarde. Arminto. Não agüentava mais passar o dia vendendo merenda por mixaria. tomamos um pouco de tarubá e relembramos as noites da minha infância. e sentamos na sombra do jatobá.O que eu sei é que todo mundo me enganou. Florita se lembrava daquela tarde? Ela entrou na água e. Só agora estás contando. as indiazinhas. Tudo mentira. e que ela ia morrer no fundo do rio porque não queria mais sofrer na cidade. agora nem isso. Mentira? E eu ia contar para uma criança que a mulher queria morrer? Dizia que o marido e os filhos tinham morrido de febres.

para o teu desejo. A gente se encontrava em cada escala do Hilary. o Oyama. eu perguntava. Florita me deu um olho de boto. não queria me culpar. Fundaram outras colônias no rio Andirá. e ele ria e balançava a cabeça. Olho esquerdo. se despediu e nunca mais apareceu. Insisti mais uma vez: que morasse comigo. Ele perguntava alguma coisa. deixasse de ser orgulhosa. e eu me fartei. Quer dizer: eu não falava japonês. bem na boca do paraná do Ramos. Agradeci e enfiei o olho no bolso da calça.Tu ainda tiveste uns dias de felicidade. Plantaram arroz. E tu lá moras sozinho? Moras com uma visagem. disse. e eu dizia sim. e eu disse jatobá. nem ele português. e ele tatalava. Antes de ir embora. Dei a ele frutas do quintal e mudas de plantas. No fim era bom. Quem nunca teve isso merece viver? A voz de Florita não me recriminava. Trouxe um peixe preparado à moda japonesa. Parei de ir ao porto porque muitos jovens de Vila Be- . lá na terra dos saterés-maués. Oyama parou ali no canto e perguntou com um gesto o nome da árvore que dá tanta sombra. Quando ela me via com Oyama. E nem era voz de ameaça. e depois começamos a conversar. Às vezes eu tagarelava. sem olhar para mim. ela disse. e conseguiram a proeza de plantar juta. os dois tentando ganhar um dinheirinho de passageiros europeus. A chegada dos japoneses animou a cidade. porque um não entendia nada do que o outro dizia. feijão e milho. eles construíram uma vila com casas japonesas lá na ponta do rio Amazonas. Muito amável. grandes agricultores. Depois ele curvou a cabeça. deixava uns beijus e ia embora.

outros músicos. O cheiro da flor é forte que nem perfume de rosa. grande e pesado como cabeça de homem. via um barco atracado balançar. pétalas espessas. sobrava. depois. No fim da tarde. durante um aguaceiro. A festa acabava à meia-noite. cortando meu sossego. e saíam com turistas para passear de canoa. E me espremia de tanta saudade. recordava a dança. só a minha. o sol ainda manso. a mesma cuiarana que nos abrigou numa noite de chuva e prazer. as risadas femininas que varavam a escuridão. E todo ano. eu me deitava sobre as flores e relembrava aquela noite. Voz. E o fruto. sem palidez: amarelas. Alguma coisa tinha mudado. em julho. De manhã cedo. Quando cai e fica esquecido no chão. estragada. Faziam uma zoada danada para chamar atenção. E eu. faziam graça para os passageiros do Hilary. Cuiarana: árvore de flores lindas. Queria o silêncio. O assombro delicioso do gozo. O silêncio escondia alguma coisa obscura? Nenhuma palavra. nenhum som. graça e cara de súplica.la eram barqueiros ou canoeiros. Ou até mais tarde. Eu ouvia a voz das penitentes. Assim eu podia pensar no silêncio de Dinaura. depois ouvia outras risadas com cochichos de prazer. para mim. essa mudez crescia e parecia uma faca que me ameaçava. cheira a coisa podre. na noite da festa da Padroeira. os sons dos músicos. Numa manhã de 17 de julho. pensei em conver92 . Então me afastei do mundo. escutava ruídos de passos apressados e furtivos. com mímica. o corpo de Dinaura rodopiando ao lado da dançarina do quilombo Silêncio do Matá. envelhecido. Nem os porcos comem. róseas. 16 de julho. eu saía para caminhar até a Ribanceira e ficava encostado no tronco da árvore. quase vermelhas.

Eu colhia jambos rosados quando um homem 93 . Nem se despediu de mim. eu disse. quando andei na cidade pela última vez. Madre Caminal. com as mãos cheias de flores. já esquecida: "A mulher encantada". Quanta alegria diante da casa de Deus. sua vida de rainha infeliz no fundo do rio. e sim Dinaura. Nossa veneranda quis morrer na Catalunha. a mais jovem uma noviça. as cinzas da fogueira. disse a noviça. por sorte não vi Iro. senhor.sar com madre Caminal. cantaram. Vi duas religiosas. Quanta vivacidade. eu disse. alguma coisa tinha mudado. pularam corda. o recadeiro azarento. onde vi as bandeirolas do festejo no coreto. Elas me olharam com incompreensão. Um homem de meia-idade que queria ver a diretora. acordava com uma voz que me perguntava se era eu mesmo que estava debaixo da chuva. E isso me deu esperança. e roupa velha. garrafas de guaraná e cerveja no chão. A tristeza que senti naquela tarde começou no meio da manhã. rindo ou chorando. deram as mãos às órfãs. Abri o portão. e num rompante saí daqui e atravessei a praça do Sagrado Coração de Jesus. Nem sombra da minha amada. vi um grupo de meninas jogando peteca no jardim. com despeito. mas está viva. Isso faz anos. fizeram uma roda. Estranharam a presença de um homem com olhos tristes no rosto pálido. Depois se afastaram. A canção contava a história de Dinaura. porque essas órfãs já não trabalhavam durante a manhã. o tablado vazio. Quando cochilava depois do almoço. Ela nos deixou há seis anos. Um cancionista da ilha até compôs uma toada. Voltei para cá com o demônio da saudade. Por um segundo intuí que não ia encontrar a diretora do colégio. Nossa veneranda Joana Caminal? Está na Espanha.

e parou ali na beirada da rua. sozinho. Empurrava bem devagar o tabuleiro de Florita. Toda a cidade foi aplaudir o homem na praça do Sagrado Coração. em respeito ao meu pai. E pela primeira vez um presidente da República visitou Vila Bela. Eu. Ulisses Tupi ou Joaquim Roso deixavam um peixe ali na porta. e depois os hidroaviões levavam a carga para os Estados Unidos. Eu. O presidente Vargas disse que os Aliados precisavam do nosso látex. que nem Amando. com muita farinha pra encher o bucho. e que ele e todos os brasileiros fariam tudo para derrotar os países do Eixo. Os cargueiros voltaram a navegar nos rios da Amazônia. E não queria futuro para homens da minha laia. era o meu almoço. não saí deste casebre. Os sonhos e as 94 .apareceu. Aos domingos. A morte de Florita rompeu os laços com o passado. O último choro da minha vida. Chorei que só diante do jazigo da família. Fui ver o que ele queria e vi minha Flor deitada no tabuleiro. Era um vizinho de Florita. O homem tirou o chapéu e disse: Acordou morta. perguntei. Então milhares de nordestinos foram trabalhar nos seringais. Dormindo no sol?. era o passado e o presente dos Cordovil. que só vivia para Dinaura e podia morrer por ela. Foi velada na capela do Carmo. Até os mortos estavam lá. E me abismou. Morreu assim de repente. Acabei assim? Só que minha vida ainda deu outra volta. transportavam borracha para Manaus e Belém. A Segunda Guerra chegou até aqui. Soldados da borracha. Tudo vai acabar neste corpo de velho. e uma banana que eu pegava no quintal. Eu salgava e secava as postas.

qualquer lugar que o olhar alcança.. Para onde olho. Minha imaginação corria rio abaixo até o mar. De madrugada eu não conseguia dormir. quase todos cegos pela defumação do látex. Olha só: um corpo parado com a imaginação solta.. Lá onde ficava a Aldeia. imaginando a mulher ao meu lado. e eu não esqueci nunca. em outro lugar. Passavam que nem fantasmas na noite. Copiei o poema grego traduzido por Estiliano. E eu permaneci sob este telheiro. Quem mais eu conhecia? Cordovil era apenas um nome sem memória.promessas também voltaram. O paraíso estava aqui. e isso me assanhava. só vejo miséria e ruínas". foi o barco Paraíso. pensando no pedido que fiz a minha mãe. e fundaram o Palmares. Eu olhava o brilho inútil das estrelas. Ouvia o barulho dos barcos e saltava da rede. Ulisses Tupi e Joaquim Roso eram apenas mãos generosas que deixavam peixes para o meu sustento e iam embora. e li esse poema tantas vezes que até decorei uns versos: "Vou embora para outra terra. Atracou aí embaixo. na beira do barranco. era o que se dizia. Angelina. Pensava na órfã quando os hidroaviões sobrevoavam Vila Bela. no Amazonas. pensava na vida com Dinaura. E um novo bairro surgiu: Cegos do Paraíso. encontrar uma cidade melhor. Os mais antigos da cidade estavam enterrados. às ve95 . bebia. Outros seringueiros ocuparam a beira da lagoa da Francesa e do rio Macurany. E dizia em voz alta que ia encontrá-la e que nós dois íamos partir. Dizia essas palavras olhando o rio e a floresta. Esse corpo sobrevive. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. com as idéias agitadas. o prefeito mandou derrubar a floresta para construir barracos. O que existiu. Conversava com ela.

nesse banquinho que ganhei de um sateré-maué. Não sabia o que fazer quando estava acordado. E esse rumor trouxe um visitante. Arminto. Passava o dia fugindo dessas coisas irreais. Todos nós vamos. Ele balançou a cabeça e suspirou: Palavras inúteis. até ele dizer duas palavras: Vou morrer. O poema grego. Digo as mesmas palavras sem arredar o pé. um rosto inchado. então falava sozinho para esquecer os pesadelos. mas ainda robusto. desfigurado. me pedindo esmola. Ele acreditava. E um pouco corcunda. E quantos pesadelos: naufrágios que nunca terminavam. Os peixeiros e barqueiros diziam que a minha cabeça estava oca. mas que pareciam tão vivas que me davam medo. Tua tradução do poeta grego. continuou. acordava com a imagem do rosto de Juvêncio. as mãos espalmadas. olhando o Amazonas e as ilhas. sem razão. sem olhos. . com a cabeça descaída para a terra. Estiliano sentou aí mesmo. Nenhum dos dois saía mais de casa. meu único e último amigo. a tradução que não terminaste. Fazia tempo que não nos víamos.zes dormia aqui mesmo. Repeti as palavras. o emblema com as balanças da Justiça na lapela. Acordava com imagens de colisão de barcos e sons estrondosos. Usava o mesmo paletó branco. Ficamos algum tempo em silêncio. absurdas. Estiliano. na umidade do sereno. Que tu andas falando na cidade? Não vou mais à cidade. Muito velho. Vou morrer antes de ti.

E então disse em voz baixa: Dinaura voltou para a ilha. Só isso me dá ânimo. a tua cidade vai atrás de ti.. Dinaura tinha um segredo para contar. Faz muito tempo. Guardou no bolso o envelope. Mesmo se encontrares. Porque não era só ternura: era como se ele olhasse meu pai. por quê? Porque. Vais perambular pelas mesmas ruas até voltares para cá. eu disse. E agora é tarde demais. nenhum barco vai te levar para outro lugar.. Mas o segredo de Dinaura. Mas não morreu por causa disso. Levantei e me aproximei dele: Ilha? Que estás querendo dizer? Pediu que eu sentasse e não ficasse nervoso. Uma vida com Dinaura.. Sei que Amando dependia de relações com políticos. se fores embora. mastigou e engoliu.. Teu pai quis conversar comigo na chá97 . Disse que queria me contar antes de morrer. Estiliano tirou do bolso do paletó um envelope com pó de guaraná. cor de sangue. disse Estiliano. não vais encontrar outra cidade para viver. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. Era um segredo entre ele e meu pai. me olhou com demora. Pôs um pouco de pó na boca. tu ainda moravas na pensão Saturno e estudavas para entrar na faculdade de direito. Mas ele não sabia tudo. Não há outro lugar. disse Estiliano. Ela acreditava. Apostou tudo na concorrência de 1912 e perdeu para uma grande companhia de navegação. fome e abandono as pessoas acreditam em tudo. Neste tempo de guerra. com uma ternura que me embaraçou.Inúteis.

Por isso ela quis ir embora. Um erro moral. Minha irmã?. Tu estavas em Manaus. porque ela gostava de ler. caso ele morresse antes de mim. Disse que sustentava uma moça órfã. Depois disse que não era só caridade. Dinaura. Por pura caridade. Tinha idade para ser as duas coisas. E me pediu que não contasse para ninguém. Meio-irmã. Quase não reconheci o homem. Foi um erro de Amando. Quando voltei de Belém. passei dois dias aqui. Descobri que a mãe nasceu numa ilha do rio Negro. Até hoje não sei quem ela é. Ela está viva? Onde fica a ilha? 98 .. E sempre fiquei na dúvida. e eu mandava livros. Dinaura me escreveu uma carta. disse para madre Caminal que era uma afilhada dele e que devia morar com as carmelitas. Ele estava nervoso. engasgado. No começo pensei que fosse filha dele. Ou madrasta. pedindo para morar lá. Pediu que a diretora guardasse esse segredo. Conversei com madre Caminal e ajudei Dinaura. Nós tivemos uma noite de amor. Foi a única vez que teu pai me confundiu e me magoou. Por isso não queria te contar. Prometi ao teu pai que ia cuidar dela. Sei que Dinaura morava sozinha numa casa de madeira que Amando construiu atrás da igreja. Foi na época do naufrágio do Eldorado. corrigiu Estiliano. Não me disse se era filha ou amante. depois mudei de idéia. eu disse. Essa é a minha dúvida.. Queria ir embora de Vila Bela.cara do bairro dos Ingleses.. eu disse. Na mesma carta ela escreveu que a história de vocês só existia nos romances. angustiado. Mas ele queria morar aqui e ficar perto dela. Vivia com regalias.. comida boa. Ele trouxe a moça para cá.

muito ocupado com a morte dele. Não quis me dizer. Teu pai queria 99 . Por isso vim aqui. E ela foi embora. Já foram sinônimos. Por Deus. Não sei. o Eldorado. por engano ou malícia. disse Estiliano. Não. Sorriu. A ilha fica a poucas horas de Manaus. disse para madre Caminal que Dinaura tinha uma doença grave. disse ele. Dinaura deve estar no Eldorado. Ela pode ter incutido na cabeça que estava doente. Alguém. Disse a ele que não tinha um centavo mas estava decidido a vender este casebre para ir a Manaus e à ilha. Meu pai. Quero doar tudo para Vila Bela e realizar um desejo do meu amigo. não foi teu pai. Os colonizadores confundiam Manaus ou Manoa com o Eldorado. um velho senil. Tirou do bolso um maço de notas e pôs sobre os meus joelhos. Viva ou morta.Estiliano abriu uma folha de papel e me mostrou um mapa com duas palavras: Manaus e Eldorado. Li em voz alta as palavras e olhei para Estiliano. Eu é que não queria morrer com esse segredo. Madre Caminal concordou. Essa era a verdadeira cidade encantada. fazia quanto tempo que eu não via dinheiro. sem complacência. E o mapa? Dinaura está em Manaus ou na ilha? Ela foi morar no povoado da ilha. Buscavam o ouro do Novo Mundo numa cidade submersa chamada Manoa. Então ele disse que estava com pressa. E também por amizade ao teu pai. Acho que só teu pai arrancava uma palavra daquela mulher. E explicou: Tenho que assinar no cartório os termos de doação da minha casa e dos meus livros. Naquele momento pensei: pobre Estiliano.

E assim vi Estiliano pela última vez. Uma visão feia a poucos quarteirões da empresa que eu havia herdado e perdido. Dormi numa rede na terceira classe. usando o paletó branco. Muita zoada. ao coração esquivo da mulher que eu amava. Viajei numa embarcação velha: um vapor do Mississippi. Nada disso era importante. um cheiro azedo de suor e sujeira. quando o barco se aproximava de Manaus. E a comida. da pensão Saturno e da mercearia Cosmopolita. Pendurei no pescoço o olho de boto que ganhei de Florita e enfiei no bolso da calça a fotografia de minha mãe. ele costumava dizer. Angelina.construir uma biblioteca nesta pobre cidade. O cheiro me deu enjôo. no convés da linha-d'água. O destino é o que há de mais imponderável na vida. subi à cabine de comando para ver as torres da catedral e a cúpula do teatro Amazonas. calça de suspensórios e sapatos velhos. fui cercado por vendedores de objetos deixados pelos americanos durante a Se100 . Lembrei da chácara no bairro dos Ingleses. Guardei o poema espanhol. o último que navegava na Amazônia. Não viveu para tanto. Foi enterrado no jazigo dos Cordovil. No porto da Escadaria. Levantou e me deu um abraço. as pélas de borracha empilhadas pareciam um monte de urubus mortos. do trabalho no empório do português e no Manaus Harbour. Morreu quando eu estava navegando para o Eldorado. e até hoje guardo o mapa da ilha. aves e porcos amarrados. porque aquela podia ser a viagem da minha vida. um batelão descarregava látex. Bem cedinho. uma babugem. No cais. Stelios da Cunha Apóstolo.

E uma dúvida para sempre. Costelas de areia branca e estirões de praia em contraste com a água escura. A ânsia e as lembranças da Boa Vida. Mas isso não é tudo? Por vingança e por prazer pueril eu tinha jogado fora uma fortuna. ele disse. e ilhas que pareciam continente. A doença que Dinaura escondia? Imaginei a beleza destruída. Seria possível encontrar uma mulher naquela natureza tão grandiosa? No fim da manhã alcançamos o paraná do Anum e avistamos a ilha 101 . Sei que tem uma vila de leprosos numa das ilhas das Anavilhanas. Doentes que fugiram da colônia de Paricatuba. Mostrei o mapa a um prático experiente e disse a ele que procurava um povoado na ilha do Eldorado. lagos cercados por uma vegetação densa. Ninguém reconheceu um Cordovil do passado. isso sim. O prático me viu abatido. Mas eu também não fazia parte dessa história? Saímos de Manaus numa lancha pequena. e no meio da manhã navegamos no coração do arquipélago das Anavilhanas. a diferença é que minha história era outra. poças enormes.gunda Guerra. perguntou se eu estava mareado. E a paisagem da infância reacendeu minha memória. Raiva. Eu até podia estar na pele de um dos marreteiros. formadas pela vazante. pensei no silêncio dos nossos encontros. tanto tempo depois. Se Dinaura fosse filha de Amando ou se tivesse sido amante dele era uma história entre os dois. A visão do rio Negro derrotou meu desejo de esquecer o Uaicurapá. A ânsia de encontrar Dinaura me deixou desnorteado. E olha só: não me arrependo. Não comprei nada.

Um ruído no lugar. O prático amarrou os cabos da lancha no tronco de uma árvore. No fim do povoado encontramos uma casa de farinha. ela disse. Os sons dos pássaros só aumentavam o silêncio. Escondeu o corpo. difícil. Entrei e vasculhei os dois cômodos separados por um tabique da minha altura. Morreram e foram embora? 102 . Numa casa com teto de palha pensei ter visto um rosto. Era a única coberta de telhas. e nada. Poucas casas de madeira entre a margem e a floresta. Senti um abafamento. Escutamos uns latidos. quase azulada. a imensidão do lago e da floresta. Onde estão os outros? Morreram e foram embora. Bati à porta.do Eldorado. E silêncio. Fui até lá. Nenhuma criança. No fim do atalho. Na porta vi o rosto de uma moça e fui sozinho ao encontro dela. Um volume escuro tremia num canto. depois procuramos o varadouro indicado no mapa. esticando o beiço para o outro lado do lago. com uma varanda protegida por treliça de madeira e uma lata com bromélias ao lado da escadinha. Não havia beleza igual. Aquele lugar tão bonito. A água preta. E a superfície lisa e quieta como um espelho deitado na noite. vimos o lago do Eldorado. o cheiro e o asco dos insetos me deram um suadouro. que a gente sempre vê nos povoados mais isolados do Amazonas. e eu perguntei se morava ali. A caminhada de mais de duas horas na floresta foi penosa. me agachei e vi um ninho de baratas-cascudas. era habitado pela solidão. o Eldorado. Lá fora. o prático apontou uma casa na sombra da floresta. Nenhuma voz. Moro com minha mãe.

eu e minha voz de doido. Foi um alívio expulsar esse fogo da alma. Trabalhava nesta casa? Passo o dia aqui. o que ia acontecer. Aí tu entraste para descansar na sombra do jatobá. Aí a nossa noite começa. Voltei para Vila Bela e fiquei escondido aqui. Parei perto do corredor estreito. Espero o macucauá cantar no fim da tarde. A sala era pequena. Pensas que passaste horas nesta tapera ouvindo lendas? 103 . Ninguém quis ouvir essa história. Duas janelas abertas para o lago do Eldorado. pediste água e tiveste paciência para ouvir um velho. Estás me olhando como se eu fosse um mentiroso. E apareceu aos poucos. dois tamboretes. como se rezasse. Por isso as pessoas ainda pensam que moro sozinho. Dinaura? Recuou um pouco. cheia de livros.. O mesmo olhar dos outros.Ela confirmou. juntou as mãos. o prático e a moça me olhavam. com poucos objetos: uma mesinha. uma estante baixa.. e virou a cabeça para o interior da casa. quanta coisa ela não pôde ouvir de mim. Ouve só esse canto. Conhecia uma mulher. A gente não respira no que fala? Contar ou cantar não apaga a nossa dor? Quantas palavras eu tentei dizer para Dinaura. mas estava muito mais vivo. sem entender o que estava acontecendo. Antes de eu entrar no quarto. até mostrar o corpo inteiro. retraído pela timidez e desconfiança.

quando ainda não havia TV no Amazonas. na vida. Muitos nativos e ribeirinhos da Amazônia acreditavam — e ainda acreditam — que no fundo de um rio ou lago existe uma cidade rica. Na verdade. ele me convidaria para conversar à sombra de um jambeiro. Era uma história de amor. numa de suas viagens ao interior do Amazonas. meu avô me contou uma das histórias que ouviu em 1958. Eu nunca recusava esses convites. depois de comer os quitutes preparados pela minha avó.Posfácio Num domingo de 1965. pois sabia que. com um viés dramático. que eu interrompia apenas com perguntas. era um monólogo. às vezes. esplêndida. Essa história evocava também um mito amazônico: o da Cidade Encantada. Naquela tarde. como ocorre quase sempre na literatura e. exemplo de har105 . meu avô me chamou para almoçar na sua casa.

conversar com seus moradores e. Anos depois. Porque os mitos. Ele morava na mesma casa que meu avô tinha descrito. Quando meu avô me contou a história dos órfãos. ao ler os relatos de conquistadores e viajantes europeus sobre a Amazônia. onde as pessoas vivem como seres encantados. que. para um regatão que passou por aqui e teve a gentileza de me ouvir.monia e justiça social.. Anos depois. cujo corpo ou espírito tem o poder de viajar para a Cidade Encantada. eu quis saber onde ele a havia escutado. viajam e estão entrelaçados. percebi que o mito do Eldorado era uma das versões ou variações possíveis da Cidade Encantada. na Amazônia. Ele se recusou a contar sua história: "Já contei uma vez." 106 . e só voltam ao nosso mundo com a intermediação de um pajé. eventualmente. Pertencem à História e à memória coletiva. Mitos que fazem parte da cultura indoeuropéia. procurei o narrador na cidade indicada. Elas são seduzidas e levadas para o fundo do rio por seres das águas ou da floresta (geralmente um boto ou uma cobra sucuri). sem força. e estava tão velho que nem sabia sua idade. assim como as culturas. Agora minha memória anda apagada. que escutei magnetizado por sua eloqüência e seus gestos teatrais.. Lembro que meu avô passou algumas horas contando essa história. mas também da ameríndia e de muitas outras. trazê-los de volta ao nosso mundo. é referida também como uma lenda. ao viajar pelo Médio Amazonas.

e aos meus amigos e editores Luiz Schwarcz. Outros amigos que leram os originais sabem que sou grato pela sua leitura paciente e dedicada. foi importante para a compreensão dos tupinambás da Amazônia e para refletir sobre este romance. da Canongate. Agradeço ao editor Jamie Byng. de Eduardo Viveiros de Castro. que se interessou pelo projeto deste livro e o incluiu na coleção Mitos. Wright sobre mitos da Amazônia brasileira. Maria Emília Bender e Márcia Copola. 107 . a leitura do ensaio A inconstância da alma selvagem.Agradecimentos Usei livremente algumas poucas narrativas indígenas e passagens dos livros de Betty Mindlin. que. Um agradecimento muito especial a Ruth Lanna. Candace Slater e Robin M. Samuel Titan Jr. me deram ótimas sugestões. Embora esta ficção não se refira diretamente aos índios ou à cultura indígena. como sempre.

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