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LIVRO: O DOENTE, A PSICOLOGIA E O HOSPITAL AUTORES: Valdemar Augusto Angerami-Camon Heloisa Benevides de Carvalho Chiattone Edela Aparecida

Nicoletti

CAPÍTULO 1 - PSICOLOGIA HOSPITALAR: PIONEIRISMO E AS PIONEIRAS Falar de Psicologia Hospitalar é falar de Matilde Neder e Bellkiss Wilma Romano Lamosa, as duas pioneiras na área. Em 1954, Matilde Neder deu ínicio à Psicologia Hospitalar no Brasil, desenvolvendo uma atividade na então Clínica Ortopédica e Traumatológica da USP. Foi ela deu os primeiro passos conceituais e práticos neste campo da Psicologia. No ano de 1959, Neder participou do 1º Seminário de Reabilitação da Faculdade de Medicina da USP e nele discorreu sobre a Psicologia na Reabilitação, colocando em discussão alguns pontos importantes para aquele momento inicial em que a ciência psicológica entra no hospital. Como ponto de partida em sua fala no seminário, a psicóloga em questão discute a necessidade do serviço de Psicologia no hospital, conceituando reabilitação, conceito este que embasou sua proposta de intervenção na clínica de ortopedia. Reabilitação, sempre vista na totalidade, é a ação coordenada e contínua de uma equipe de técnicos competentes junto à pessoa portadora de deficiência física ou mental, com o fim de auxiliá-la a desenvolver suas potencialidades e objetivos físicos, sociais, psíquicos e profissionais, de modo a alcançar um melhor controle sobre si mesma e de seu ambiente, enfrentando a realidade da vida. Matilde Neder fala também sobre quem seria a pessoa do paciente portador de deficiência: uma pessoa humana, que é um todo e que reage como um todo; esse ser humano se caracteriza e diferencia por sua personalidade que é uma totalidade integrada e funcional. Propõe também uma discussão sobre quem é o psicólogo e como ele trabalha. Para ela, o profissional psicólogo, numa equipe de reabilitação, arca com uma responsabilidade maior que os demais membros por ser o único com formação, treino e experiência para estar apto a pesar e avaliar todos os fatores que influenciam na atitude do paciente e traduzi-los aos demais companheiros. Para tanta responsabilidade, ele precisa ser um especialista. E esta especialização só é alcançada com uma boa formação acadêmica, não só na graduação, mas e, principalmente, com os cursos de pósgraduação. Quando discorre sobre o papel do psicólogo, Matilde Neder fala também sobre os testes psicológicos, os quais, em sua opinião acabam perdendo sua validade se o profissional não souber explora-lo em todo seu alcance e nas suas limitações. A psicóloga finaliza sua palestra falando sobre como deve ser a relação do psicólogo com os demais membros da equipe multidisciplinar e da importância de haver cooperação e inter-relação entre eles, para existir um entrosamento e complementariedade no tratamento proposto ao paciente. No ano de 1974, Bellkiss Wilma Romano Lamosa é convidada para organização e implementação do Serviço de Psicologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas (USP). Em 1983 é realizado em São Paulo o I Encontro Nacional de Psicólogos da Área Hospitalar, promovido pelo Serviço de Psicologia do Hospital das Clínicas, sob responsabilidade de Bellkiss. E é nesse encontro que ela, na conferência de abertura,

discute sobre a atuação do Psicólogo na Cardiologia, atuação esta que segue a mesma linha mestra da proposta de Matilde Neder, que vê o paciente como um todo (a pessoa em si, em relação com diferentes grupos e em situação hospitalar) e que dá grande importância a uma equipe multidisciplinar coesa, garantindo um tratamento que dê conta de todos os âmbitos da vida do paciente. Em março de 1987 é criada a Divisão de Psicologia do Instituto Central do Hospital das Clínicas da USP, sob responsabilidade de Matilde Neder. E desde então, a Psicologia Hospitalar vem se estruturando cada vez mais e melhor, graças as propostas iniciais e bem-sucedidas de Matilde Neder e Bellkiss, as duas psicólogas pioneiras que ajudaram a Psicologia não mais de limitar a um ambiente elitista (prática clínica), ampliando seu campo de atuação para um ambiente mais popular (Institucional), que abrange muito mais pessoas de classe distintas. E é essa Psicologia dentro do hospital que ajudou (e ajuda cada dia mais) na humanização da prática dos profissionais da saúde dentro deste contexto e inovou a maneira de compreender o ser doente, não como uma doença, mas sim como um ser humano total.

CAPÍTULO 2 - AIDS NO CONTEXTO HOSPITALAR A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) é uma doença de etiologia viral, provocada por um retrovírus, que inicialmente instala-se no interior dos linfócitos humanos, causando lentamente alterações no sistema imunológico, o que predispõe o doente a desenvolver uma infinidade de patologias, dentre as quais as mais freqüentes são as infecções oportunistas e as neoplasias. As formas de transmissão do vírus atualmente aceitas são: contaminação sexual, transfusão de sangue e materno-fetal. Pela forma como foi introduzida a doença no Ocidente, entende-se a diferença na distribuição dos contaminados, pois enquanto na África o vírus é comum entre heterossexuais e crianças, nas Américas e Europa os grupos mais afetados são os homossexuais, usuários de drogas injetáveis e politransfundidos. Os chamados “grupos de risco” de contaminação com o vírus HIV hoje são mais bem definidos como “comportamentos de risco”, já que a Aids deixou de ser exclusiva de determinados grupos. Ela é vista atualmente como uma doença crônica mais controlável, uma vez que uma gama maior de medicamentos e terapias surge a cada dia, fazendo a carga estigmatizante da doença diluir-se. A ênfase maior na atualidade é dada à prevenção e esclarecimentos em todos os seguimentos da sociedade. Atualmente estima-se que existam dez milhões de pessoas infectadas no mundo, e que no Brasil esse número chegue a 500 mil pessoas. Criou-se um estigma que acompanha estas pessoas, o que muitas vezes dificulta ou até mesmo impede o convívio destas nos meios sociais. Isso acaba agravando a situação do paciente que geralmente já pertence a um grupo frequentemente discriminado, e que se vê subitamente frente a uma rejeição ainda maior por conta da doença. Existem muitos tipos de estigmas: os que são autocontroláveis (obesidade, uso de drogas etc.), e outros que não o são (defeitos congênitos, câncer etc.), o que implica diretamente no modo como os portadores destes estigmas são julgados e na reação que provocam frente à sociedade. Um caso a parte é o dos portadores da Aids. Inicialmente, essa doença foi relacionada a homossexualismo e ao uso de drogas, sendo intensamente estigmatizada e

provocando reação de raiva e segregacionismo, misturado a medo e desprezo. Com o passar do tempo, foram surgindo os casos de doenças transfusionais, heterossexuais contaminados e transmissão materno-fetal, o que foi modificando a visão popular do problema. Somando-se a isso, as campanhas de esclarecimento e prevenção desencadeadas em todo o mundo, tem-se hoje um quadro em modificação, tendendo a haver uma maior aceitação e compreensão do problema. Os sintomas das doenças relacionadas à Aids são frequentemente visíveis às outras pessoas e normalmente interrompem as interações do paciente com a sociedade. O que se percebe, diante destes fatos, é que o paciente com Aids é envolvido por um alto grau de ansiedade, o que acarreta uma dificuldade ainda maior em lidar com o stress social e psicológico. Outro fator que complexifica ainda mais a situação é a noção generalizada de que Aids e morte têm uma estreita relação. O paciente que recebe o diagnóstico passa a conviver com o stress diário de saber-se portador de um vírus potencialmente mortal, contra o qual ainda não há um tratamento efetivo. Na sociedade atual, não há um adequado preparo para a morte, vivendo-se a ilusão da eternidade. Soma-se a isso o fato de que a Aids é uma síndrome que acomete uma faixa etária jovem (de 20 a 49 anos); resultado: implicações psicológicas extensas, caracterizadas principalmente por culpa, raiva, autocompaixão e medo. A reação da família não costuma ser melhor que a do paciente. Nem sempre a estrutura familiar é bem organizada, sendo que alguns pacientes não possuem família. Naqueles que as possuem, observa-se a dificuldade de aceitar e compreender a doença, tornando difícil a reintegração do paciente. Especialmente complicada é a situação do parceiro sexual de um contaminado. O uso de preservativos é recomendado e faz parte da orientação dada aos casais, mas inegavelmente o relacionamento conjugal é bastante afetado. A fim de diminuir o nível de ansiedade, a função do terapeuta é a de permitir e estimular que o paciente verbalize sobre sua condição. Sem dúvida, entrar em contato com um diagnóstico de HIV positivo significa deparar-se com uma ameaça de morte. É vital o respeito, por parte do psicólogo, as idiossincrasias individuais do paciente, adaptando-se a terapia a ele, conforme a situação. É importante perceber que, muito antes do sofrimento físico, a Aids impõe uma vivência de intensas perdas. Perde-se a identidade corporal, a identidade social, o trabalho, a autonomia e a privacidade e ainda perdem-se as relações afetivas. Como a síndrome acomete uma população jovem, o diagnóstico acaba por interromper de forma abrupta um projeto de vida, de futuro, gerando sentimento e sensações de raiva, medo, angústia, revolta e desespero. Essa interrupção associada ao medo da dor, da deteriorização do corpo e de um sofrimento psíquico e físico é talvez mais terrível que a própria morte. O paciente aidético, ao entrar na enfermaria ou durante uma consulta, pode demonstrar um comportamento extremamente variável – vergonha frente ao profissional entrevistador, falar apenas de aspectos negativos, omitir dados, não responder as questões, ou ainda negar a própria doença. Muitos apresentam na sua evolução distúrbios neurológicos e psiquiátricos, não sendo incomuns pacientes confusos, com alucinações e reações paranóides. A depressão é bastante freqüente nestes pacientes, indicando as perdas que o paciente vem sofrendo desde o conhecimento de sua doença. Outra situação comum é quando o paciente esconde sua condição de seus familiares por ter que esconder também o seu comportamento de risco (por exemplo, ser homossexual).

Sem dúvida, as melhores respostas são obtidas com aqueles pacientes que se conscientizam de sua doença, conseguindo falar claramente e aceitar a realidade. Após um bom trabalho de base, é possível discutir claramente os aspectos envolvidos com a patologia, definindo em conjunto com o paciente as melhores atitudes a tomar, e qual a melhor forma de lutar pela vida, não só pelo tempo, mas pela qualidade de vida. Para isso, faz-se necessário um autoconhecimento e um resgate da auto-estima do paciente. O portador de Aids é uma pessoa que exige muita dedicação e compreensão por parte de toda a equipe multidisciplinar, não só pelo risco iminente que ele corre como também precisa ser conscientizado do seu problema, inclusive com fins de diminuir a transmissão do vírus. É urgente que se criem melhores condições de informação e atendimento, para prevenir o caos que poderá se instalar nos próximos anos em virtude do número de casos já existente.

CAPÍTULO 3 – IMPLANTAÇÃO DO SERVIÇO DE ATENDIMENTO AOS CASOS DE URGÊNCIA E SUICÍDIO NA CIDADE DE SÃO PAULO Neste capítulo são descritos quatro relatos de experiências na cidade de São Paulo, que mostram que a Psicologia Hospitalar vê como possível a construção de uma outra realidade de saúde mais humana. 1. Atuação junto à Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) Face ao grande número de usuários do Metrô que tentam suicídio no interior das estações, a companhia procurou a Secretaria de Saúde de São Paulo para pedir a implementação de um Serviço de Atendimento aos Casos de Suicídio. Na primeira etapa, o levantamento de dados, constatou-se que a maioria dos casos de tentativa de suicídio no Metrô era composta de pessoas que se atiravam na frente do trem tão logo esse surgia na estação, além de muitas outras, às vezes consumadas, que ocorriam no interior das estações das mais diversas formas. Percebeuse também que muitas das tentativas de suicídio eram feitas no Metrô por este ser um local de socorro mais iminente. Numa segunda etapa, houve a sensibilização sobre a extensão do ato de tentativa de suicídio, seu significado, sua abrangência e o desespero contido em cada gesto. No terceiro momento foi delimitado que os casos de tentativas de suicídio atendidos na via férrea seriam realizados pelos funcionários do Metrô que já teriam deliberações e procedimentos a serem adotados e quando algum caso precisasse de hospitalização imediata seria acionado o Depto. De Controle Centralizado que enviaria uma ambulância ao local para remover a vítima a uma unidade hospitalar. Desta maneira se asseguraria que todos os casos de tentativa de suicídio no Metrô seriam acompanhados desde o atendimento inicial até a alta hospitalar. 2. Atuação junto ao Serviço Funerário do município de São Paulo O Serviço Funerário do município de São Paulo procurou a Secretaria da Saúde de São Paulo visando desenvolver uma atividade com os funcionários daquele setor. Umas das queixas principais do setor era o alto índice de alcoolismo nos funcionários; o

índice era tão alarmante que quase abrangia a totalidade dos funcionários (só conseguiam trabalhar sob efeito do álcool). O resultado das entrevistas realizadas para a coleta de dados mostrou que a morte sempre estava presente no depoimento daqueles funcionários e que a permanência nessa atividade decorria única e exclusivamente da total falta de perspectiva profissional alternativa. Com os funcionários da marcenaria do Serviço Funerário levantou-se a hipótese de que o confronto direto com a morte através da construção dos caixões, trazia uma angústia e um sofrimento somente atenuados com a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas. Deliberou-se, inicialmente, que seria trabalhado com os elementos do Setor de Recursos Humanos a temática da morte para que eles pudessem desenvolver um trabalho de suporte emocional junto àqueles funcionários. Foram programados encontros sistematizados que sedimentariam este apoio emocional sobre o qual o trabalho seria estruturado. Durante os encontros percebeu-se que o alcoolismo era praticamente inerente à própria atividade do serviço funerário, como se ele fosse uma das ferramentas necessárias para o enfrentamento daquela atividade. Quando a discussão girou em torno de quando a ingestão de bebidas havia começado, a maioria dos depoimentos demonstrou que os funcionários exerciam suas tarefas no limite suportável até ocorrer a morte de algum familiar ou pessoa próxima; a partir desse momento, para que conseguissem suportar trabalhar precisavam beber, pois todos os instrumentos de trabalho os faziam lembrar da morte do ente querido, como se tudo que fizessem fosse para o ritual fúnebre de seu familiar. Os depoimentos eram claros e precisos: o álcool era procurado com o fim específico de destruição e abreviamento do sofrimento. A constatação do sofrimento presente nas entrevistas fez com que o grupo revisse a própria conceituação de morte e do ato de morrer e discutisse de maneira profunda e ampla essa temática a fim de perceber como o tema repercutia dentro do trabalho realizado pelos funcionários, o qual estava diretamente ligado ao ritual fúnebre. A intenção e objetivo desse projeto foi lidar com questões do alcoolismo e morte junto aos trabalhadores do serviço funerário, propiciando uma retaguarda mais efetiva aos casos de acidentes do trabalho, doenças ocupacionais e a condição de saúde como um todo. 3. Atendimento aos casos de violência contra a mulher e a criança A Secretaria de Saúde de São Paulo criou um serviço de atendimento para os casos de violência contra a mulher e a criança. Foram elencadas algumas unidades hospitalares para a implantação do serviço; a escolha foi baseada na freqüência de ocorrências nas regiões em que se localizavam essas unidades. Os profissionais das unidades escolhidas foram informados do atendimento e quem quisesse, por livre e espontânea vontade, trabalharia com os casos de violência. O grupo de profissionais de saúde que aceitou participar do serviço passou, primeiramente, por um processo de sensibilização sobre a problemática (violência contra a mulher e a criança). O segundo passo foi a estruturação de um programa semanal de supervisão para que os atendimentos pudessem ser discutidos. A primeira temática a ser discutida pelo grupo foi a violência propriamente dita. Havia um sofrimento por parte dos profissionais marcado pela indignação diante dos

casos de violência contra a mulher e a criança, casos estes que na verdade eram apenas os excessos daquilo que acontecia normalmente e nada se fazia. Questões morais também foram discutidas, envolvendo a sexualidade, pois o estupro acima de tudo representava o total desrespeito aos valores ético-morais das vítimas. Mas quando a discussão foi sobre quais práticas realizar diante destes casos (aborto, métodos anticoncepcionais,...), o grupo divergiu suas opiniões. Essa divergência não ocorreu quando o tema foi a violência infantil; o consenso foi praticamente absoluto. Isso porque nestes casos, apesar de se abordar questões polêmicas como na violência contra a mulher, se atinge as emoções mais profundas do ser humano – o asco diante do escarro da condição humana cometido contra crianças que desprotegidas pela própria vida são violentamente castigadas pelas mãos dos adultos. Pode-se perceber seguramente que nos casos atendidos por este serviço não houve possibilidade de se adotar um distanciamento profissional. 4. Atendimento aos casos de tentativas de suicídio nos pronto-socorros de São Paulo O suicídio sempre foi rechaçado das discussões a partir de todo um julgo moral existente sobre o tema. Imbuídos neste princípio sistematizou-se uma normatização de procedimentos necessários à implantação do serviço de atendimento aos casos de suicídio nos pronto-socorros de São Paulo. A primeira dificuldade surgida é a mudança de postura e de procedimentos sobre a questão do suicídio. A sensibilização por parte dos profissionais da saúde diante desta temática é para que eles compreendam o paciente da forma mais ampla, humana e digna possível. O suicídio, ao contrário do que afirmam alguns sofismas, não é um ato de coragem, nem tampouco de covardia, mas sim de um ato de desespero. Mesmo naqueles atos de morte fulminante ou sem sinais de dor física, a violência é muito grande. Tomando como base esta visão do suicídio, torna-se impossível implantar um atendimento eficaz para estes casos se não houver o desapego de conceitos que possam prejudicar o desenvolvimento dessa atividade, conceitos estes enraizados nos profissionais da saúde, principalmente os médicos, os quais vêem seu trabalho sendo desrespeitado por estas pessoas que atentam contra sua vida, ferindo a premissa fundamental da Medicina: manter sempre, a qualquer custo, a chama da vida. Resultado: o paciente vítima da tentativa de suicídio é alguém que, na visão médica, está ferindo a dignidade profissional de tantos quantos estejam de plantão num ProntoSocorro para acudir aqueles casos em que a Medicina não precisa de conceitos éticos e filosóficos para promover o respectivo atendimento. A primeira providência tomada para a implantação do serviço de atendimento aos casos de urgência e suicídio foi a criação de um curso abordando a temática do suicídio destinado aos profissionais de saúde pertencentes à Secretaria Municipal da Saúde. Após o curso foi então possível sedimentar e estruturar o atendimento às vítimas da tentativa de suicídio, pois, ainda que de maneira genérica, os profissionais da saúde estavam sensibilizados para o início das atividades. O modelo de atendimento utilizado se dava da seguinte maneira: tão logo o paciente mostre condições clínicas de atendimento dá-se início ao acompanhamento psicológico. A condição clínica implica numa recuperação das funções básicas relacionadas, portanto, aos meios utilizados para a tentativa de suicídio.

O objetivo inicial do primeiro atendimento psicológico é estabelecido de um sustentáculo emocional para que o paciente possa, em seguida, descobrir novas possibilidades e alternativas para sua vida. Nesse primeiro atendimento também se delineia a deliberação do encaminhamento do caso a uma ajuda posterior. Esta proposta inicial de atendimento visava apenas suprir esse paciente de condições ideais para que, posteriormente, possa ser efetivado um trabalho de maior profundidade sobre os conflitos emocionais que o levaram de encontro ao desespero contido no ato da tentativa de suicídio. CAPÍTULO 4 – UMA VIDA PARA O CÂNCER O ser humano é uma unidade muito complexa, composta de diversos sistemas biológicos diferentes, mas coordenados que permitem uma interação eficaz entre o mundo interno e externo do indivíduo. Todo o sistema, então encontra-se complexamente entrelaçado, formando uma unidade total. Além disso, o sistema abarca a integração do indivíduo total, como uma unidade existencial que vivencia flutuações físicas, químicas e biológicas do meio e se vê constantemente diante de impactos que as relações sociais, interpessoais, acarretam à emotividade e fisiologia. O homem, portanto, deve ser considerado como um indivíduo total, integrado. A mente e o corpo não podem ser considerados dissociadamente, pois a mente e o corpo são inseparáveis. A polêmica em torno do tema mente-corpo (interação ou separação?) sempre ocorreu. De um lado, o Monismo, que acreditava existir um só princípio (mente ou corpo); e do outro, o Dualismo, dizendo que existia tanto do corpo quanto da mente. O Dualismo era divido entre o Hilomorfismo, que acreditava que corpo e alma formam uma única substância, e o Interacionismo, que acreditava que o corpo e a mente eram diferentes e separados, mas se influenciavam reciprocamente. Um dos seguidores do Interacionismo foi Descartes e foi essa divisão cartesiana que acabou por influenciar a prática da assistência à saúde em vários aspectos, como por exemplo a separação: médico cuida do corpo e psiquiatras e psicólogos da mente. Esse hiato entre esses grupos de profissionais trouxe uma grande desvantagem para a compreensão das doenças, pois impediu os médicos de reconhecerem e estudarem os papéis do estresse e dos estados emocionais nas doenças. Os estudos do câncer são típicos. A ligação entre estados emocionais e câncer é perfeitamente conhecida desde o final do século XIX, e as provas relatadas na literatura psicológica são substanciais. O estado psicológico de uma pessoa, evidentemente, não é só importante na geração da doença, mas também crucial para o processo de cura. Este reconhecimento de uma unidade funcional mente-corpo dirigiu a atenção dos cientistas para o nascimento da medicina psicossomática. Formado inicialmente por psicanalistas, o movimento psicossomático passou a estudar objetivamente o fenômeno do adoecer somático, a partir das relações mente e corpo e das constatações das influências psíquicas nas doenças. Os estudos demonstram que a doença engloba muito mais do que uma lesão orgânica em si; que as doenças evoluem para a cura, para a cronicidade ou para a morte; que existem doenças psicogênicas; que a história de vida do indivíduo é fator muito importante no aparecimento e na patogenia das doenças; que o passado, o presente e o futuro podem ser fatores causais e interferirem na dinâmica patológica; que os estados

emocionais vivenciados ou imaginados e sentidos como verdadeiros atuam nos pacientes e produzem modificações bioquímicas, funcionais e orgânicas. Jaspers foi quem utilizou primeiramente o termo Somatopsicologia, caracterizando a interação orgânica e psíquica do Homem dentro de seu contexto sociocultural. Nesse sentido, se considera que o ser humano adoece sempre como uma totalidade, como uma unidade vital somato-psicológica, apresentando muito mais do que uma doença crônica com sua sintomatologia, pois junto a ela estão a consciência e os sentimentos frente à enfermidade, com as repercussões próprias e pessoais na maneira de viver, de adaptar-se ao estresse vital e delinear seu próprio destino. Parestrello diz que a doença é um modo do indivíduo expressar-se em situações críticas. Ela seria a expressão máxima da crise existencial do indivíduo, espelhando o seu modo de ser, de agir numa concretização de suas atitudes. O autor ensina que compreendendo, ao invés de explicar, se buscará no próprio Homem os motivos do adoecer. Paralelamente aos estudos sobre o câncer em si como doença orgânica, surgiram questões pertinentes que apontaram para o desenvolvimento da psico-oncologia. O contato diário com pacientes cancerosos evidencia a ocorrência de variáveis psicológicas na aparição e desenvolvimento do câncer. O doente canceroso é o resultado de um processo de cancerização que envolve uma maneira de “estar no mundo” O processo de redução da enfermidade à doença levou os médicos a se distanciarem do paciente como Ser total. Assim, enquanto a enfermidade seria uma condição do ser humano total, a doença seria a condição de uma parte do corpo. Dessa forma, os médicos, em vez de tratarem de pacientes que estão doentes, concentram suas atenções no tratamento das doenças. Os problemas emocionais do paciente e seus conflitos podem continuar afetando a saúde e, quase sempre, se não forem superados, determinarão um recidiva da doença. O câncer é pensado como o resultado do desequilíbrio e da desarmonia do organismo, em conseqüência, frequentemente, da falta de integração que se manifesta em vários níveis do indivíduo. Estudos americanos referem que o paciente canceroso sempre assumiu uma “vida de relação”. Na vida social deste indivíduo existiria uma “vocação de serviço”: “servir o outro em troca de nada”. Seriam pessoas extremamente sérias, sensatas, responsáveis, ativas, “o bonzinho do grupo” que prontamente atende a todos. Histórias de vida marcadas por fracassos, desesperança, desistência, desânimo, beirando o desespero, são extremamente comuns quando avaliamos pacientes cancerosos. Leshan verificou que pacientes com câncer apresentavam total impossibilidade de sentir prazer na existência ou descobrir o sentido da vida. Seriam indivíduos fadados ao fracasso, desanimados, desvitalizados. Na infância, viveram isolados e solitários e vivenciaram perdas traumáticas, com intensos sentimentos de sofrimento e abandono. Mesmo tendo em algum momento da vida mostrado vitalidade, uma perda importante, redetermina novamente a perda do sentido para a existência, condenando o sujeito a tudo que sempre temeu: solidão, rejeição, morte; e a solução seria deixar de existir. Intimamente correlacionados a comportamentos de desistência, sentimentos de fracasso e exaustão frente à vida estão o stress e as perdas significativas na história anterior à doença. Entretanto, o estudioso Lewis diz que a perda em si não é significativa no desenvolvimento da doença, mas sim a maneira pela qual a pessoa reage a tal perda (formas de enfrentamento).

A ligação entre estresse e doença sugere que a vivência de perdas ou ameaças de perda determinam situações e vivências altamente estressantes suprimem o sistema imunológico do indivíduo, desequilibrando as defesas naturais contra o câncer. Uma outra importante característica encontrada em pacientes cancerosos referese ao controle sobre seus sentimentos e o seu comportamento; ou seja, eles estariam fadados a reter emoções e diante de situações conflitivas, estressantes, o indivíduo reprimiria suas emoções e as canalizaria para si, somatizando-as, “guardando suas emoções no corpo”, tumorizando-as. O diagnóstico de câncer, para a grande maioria, ainda é sentença de morte. Esta inaceitabilidade social do câncer pode ser atribuída a muitas causas, das quais a mais relevante refere-se ao medo de todos os indivíduos ao prolongado sofrimento no decorrer do tratamento e nas etapas da doença. É freqüente, também, que o tratamento deforme o corpo e comprometa de alguma forma suas funções normais. Outro fator estigmatizante refere-se a que, por medo do contágio, os amigos e familiares costumam separar-se ou afastar-se do paciente. Além disso, o medo de seu próprio destino (a morte), ao visualizar o outro doente, determina um afastamento inconsciente para negar o medo da morte. Assim, o paciente muitas vezes se vê só, numa situação em que impreterivelmente merecer apoio e re-equilíbrio de suas forças vitais. O estigma do câncer é algo que se encontra arraigado às pessoas. As expectativas e fantasias negativas, inadequadas muitas vezes, fazem aumentar o sofrimento do paciente. Por outro lado, muitas vezes, os profissionais da área da saúde também se encontram contaminados pelo próprio estigma. Os pacientes têm de se defrontar com uma nova batalha, além de todas aquelas durante o desenvolvimento da doença: é a batalha de serem aceitos novamente na sociedade. Muitos pacientes sentem uma rejeição tão forte da sociedade que temem revelar seu “segredo” - o câncer. No entanto, se a sociedade impele os ex-pacientes a agirem assim, evidentemente ficará para sempre a impressão de que todos os cancerosos morrem. A proposta, portanto, é romper esse ciclo de temores, esse tabu, os preconceitos; e romper o tabu do câncer é romper o tabu da morte. Aqueles que com sabedoria assumirem a postura de luta frente à vida, com certeza serão mais felizes, adoecerão menos, não precisarão ir buscar na morte o cessar de seu sofrimento. A morte não será mais assustadora nem dolorosa, mas sim um cessar em paz do funcionamento do corpo.