o jogo e a educação infantil

Tizuko Morchida Kishimoto *

Jogo, brinquedo e brincadeira
Tentar definir o jogo não é tarefa fácil. Quando se diz a palavra jogo cada um pode entendê-Ia de modo diferente. Pode-se estar falando de jogos políticos, de adultos, de crianças, de animais ou de amarelinha, de xadrez, de adivinhas, de contar estórias, de brincar de "mamãe e ftlhinha", de dominó, de quebra-cabeça, de construir barquinho e uma infinidade de outros. Tais jogos, embora recebam a mesma denominação, têm suas especifídades. Por exemplo, no faz-de-conta, há forte presença da situação imaginária, no jogo de xadrez, as regras externas padronizadas permitem a movimentação das peças. Já a construção de um barquinho exige não só a representação mental do objeto a ser constnúdo mas também a habilidade manual para operacionalizá-lo. O que dizer de um jogo político quando se imagina a estratégia e a astúcia de parlamentares e empresários negociando vantagens para conseguir seus objetivos? Ou de uma partida de basquete em que a estratégia do armador é a responsável pela vitória? Ou de um jogo de baralho em que o objetivo maior é o dinheiro a ser ganho na partida? Quais os elementos que caracterizam tais jogos? A Incerteza que paira em qualquer partida, quer seja de basquete ou futebol? A astúcia dos políticos? A estratégia do jogador de xadrez? O prazer que acompanha brincadeiras de pular amarelinha ou soltar pipa? A flexibilidade de conduta que leva o jogador a experimentar novas jogadas, novas situações? O desenvolvimento de lUna habilidade cognitiva, manual ou social subjacente a um jogo de construção? O não-sério, o fútil, que caracteriza o jogo pelo dinheiro? Outras indagações que começam a aparecer, quando se fala em utilizar jogos como a dama para ensinar cálculo matemático ou quebra-cabeças para ensinar formas geométricas. Nesse caso, temos o jogo ou é o ensino que prevalece?
Professora de Faculdade de Educação da Universidade de São· Paulo. PERSPECTWA. Florianópolis, UFSC/CED, NUP, n. 22, p. 105-128

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Qual é a diferença entre um jogo de futebol profissional e um de
várzea? Seria a falta de rigor no cumprimento das regras ou o prazer manifesto no jogo coletivo? Ou ambos? Quais seriam as especifidades de situações como a disputa de uma

partida de xadrez, um gato que empurra uma bola de lã, um tabuleiro com peões e uma criança que brinca com boneca? Na partida de xadrez, há regras externas que orientam as ações de cada jogador. Tais ações dependem, também, da estratégia do adversá-

rio. Entretanto, nunca se tem acerteza do lance que será dado em cada
passo do jogo. Esse tipo de jogo serve para entreter amigos em momentos de lazer, situação na qual predomina oprazer, a vontade de cada um
participar livremente da partida. Em disputa entre profissionais, dois parceiros não jogam pelo prazer ou pela vontade de o fazer mas são obrigados por circunstâncias como o trabalho ou a competição esportiva. Nesse caso, pode-se chamá-lo de jogo? O gato que rola uma bola tem o comportamento igual ao de uma criança que brinca com a bola? Enquanto a criança tem consciência de seus atos, escolhe deliberadamente brincar, ou não, no caso do gato, não seriam os instintos biológicos do animal estimulantes da ação de rolar a bola? Pode-se afirmar que o jogo do animal é semelhante ao jogo infantil? Um tabuleiro com peões é um brinquedo quando usado para fins de brincadeira. Teria o mesmo significado quando vira recurso de ensino, destinado à aprendizagem de números? É brinquedo ou material pedagógico? Da mesma forma um tabuleiro de xadrez feito de material nobre como o cobre ou mármore, exposto como objeto de decoração, teria o significado de jogo? A boneca é um brinquedo para uma criança que brinca de "filhinha" mas, para certas tribos indígenas, conforme pesquisas etnográficas, é símbolo de divindade, objeto de adoração. A variedade de fenômenos considerados como jogo mostra a complexidade da tarefa de defini-lo. A dificuldade aumenta quando se percebe que um mesmo comportamento pode ser visto como jogo ou não-jogo. Se para um observador externo a ação da criança indígena, que se diverte atirando com arco e flecha em pequenos animais, é uma brincadeira, para a comunidade indígena nada mais é que uma forma de preparo para a arte da caça necessária à subsistência da tribo. Assim, atirar com arco e flecha, para uns, é jogo,

O jogo pode ser visto como: 1 o resultado de um sistema lingüístico que funciona dentro de um contexto social.La métaphore ludique. como Gilles Brougere (1981. Há um funcionamento pragmático da linguagem. Considerar que o jogo tem um sentido dentro de um contexto significa a emissão de uma hipótese. Pesquisadores do Laboratoire de Recherche sur le Jeu et le Jouet. Qual é a diferença entre jogo e brinquedo? Para compreender o significado de tais termos foi indispensável a leitura de obras como a de Brougere (Le jeu dans la Pedagogie prescolaire depois le romautisme. em diferentes culturas. a aplicação de uma experiência ou de uma categoria fornecida pela sociedade. As línguas funcionam como fontes disponíveis de expressão. 1993). pressupondo interpretações e projeções sociais. Henriot (Sons couleur de joeur .1993) e Jacques Henriot (1983. veiculada pela lingua enquanto instrumento de cultura . Nossa noção de jogo não nos remete à língua particular de uma ciência mas a um uso cotidiano. Todos os jogos possuem peculiaridades que os aproximam ou distanciam. de onde resulta um conjunto de fatos ou atitudes que dão significados aos vocábulos a partir de analogias. começam a desatar o nó deste conglomerado de significados atribtÚdos ao termo jogo ao apontar três níveis de diferenciações. fala e pensa da mesma forma.o jogo e a educação infantil • 107 para outros. Empregar um termo não é um ato solitário. da Université Paris-Norei. 1989). como mera ação de nomear. 1975). No primeiro caso. Para aumentar a complexidade do campo em questão. o sentido do jogo depende da linguagem de cada contexto social. elas exigem o respeito a certas regras de construção que nada têm a ver com a ordem do mundo. brinquedos. é preparo profissional. o essencial de nosso léxico obedece não à lógica de uma designação científica dos fenômenos. 2 um sistema de regras e 3 um objtto. mas subentende todo um grupo social que o compreende. mas de a manipular simbolicamente pelos desejos da vida cotidiana. mas ao uso cotidiano e social da linguagem. dependendo do significado a ela atribtÚdo. 1989) e Wittgenstein (Investigações Filosóficas. Por tais razões fica dificil elaborar uma definição de jogo que englobe a multiplicidade de suas manifestações concretas. Uma mesma conduta pode ser jogo ou não-jogo. Assumir que cada contexto cria sua concepção de jogo não pode ser visto de modo simplista. outros. entre os materiais lúdicos alguns são usualmente chamados de jogo. Assim. A designação não tem por objetivo compreender a realidade.

O brinquedo está em relação direta com uma imagem que se evoca de um aspecto da realidade e que o jogador pode manipular. diferenciando significados atribuídos por culturas diferentes. madeira. implicam. está executando as regras do jogo e. dependendo do lugar e da época. como xadrez. construção. de modo explícito ou implícito. o "brincar" com arcos e flexas não é uma brincadeira. uma vez que. Outros aspectos relacionados ao trabalho. o jogo asswne a imagem. o jogo era visto como inútil. em qualquer jogo. enquanto fato social. ojogo aparece como algo sério e destinado a educar a criança. Tais aspectos permitem uma primeira exploração do jogo. depois do romantismo. mas preparo para a arte da caça e da pesca. uma indeterminação quanto ao uso. No segundo caso. Diferindo do jogo. do loto ou da trilha. desenvolvendo uma atividade lúdica. que se expressa por meio da linguagem. São estruturas sequenciais de regras que permitem diferenciar cada jogo. plástico. O terceiro sentido refere-se ao jogo enquanto objeto. ocorrendo superposição com a situação lúdica. Representar é corresponder . Admite-se que o brinquedo representa certas realidades. cada contexto social constrói uma imagem de jogo conforme seus valores e modo de vida. É este o aspecto que nos mostra por que o jogo aparece de modos tão diferentes. Uma representação é algo presente no lugar de algo. uma estrutura sequencial que especifica sua modalidade. ao mesmo tempo.108 • Tizuko Morchida Kishimoto dessa sociedade. Enfim. jogos. Toda denominação pressupõe um quadro sócio-cultural transmitido pela linguagem e aplicado ao real. ou seja. Se em tempos passados. Dessa fonna. o sentido que cada sociedade lhe atribui. a partir do século xvm. um sistema de regras permite identificar. Brinquedo é outro termo indispensável para compreender esse campo. Em certas culturas indígenas. O xadrez tem regras explícitas diferentes do jogo de damas. pedra ou metais. o desempenho de certas habilidades definidas por uma estrutura preexistente no próprio objeto e suas regras. o brinquedo supõe uma relação com a criança e uma abertura. quando alguém joga. a ausência de um sistema de regras que organizam sua utilização. como coisa não séria. pelas regras e objetos que o caracterizam. Ao contrário. O xadrez materializa-se no tabuleiro e nas peças que podem ser fabricadas com papelão. à inutilidade ou à educação da criança emergem nas várias sociedades em diferentes tempos históricos.

máquinas e monstros. e. Pode-se projEtar sobre ela a esperança de mudança. dependente de percep- . Pode-se dizer que um dos objetivos do brinquedo é dar à criança um substituto dos objetos reais. também. Quais as imagens que o adulto introduz nos brinquedos que cria? Elas variam de acordo com a cultura do adulto. Ao representar realidades imaginárias. A realidade representada sempre incorpora algumas modificações: tamanho. integra predominantemente elementos da realidade. estilizadas ou. como manequins articulados ou super-heróis. a criança como portadora de uma natureza própria que deve ser desenvolvida. Duplicando diversos tipos de realidades presentes. A inf'ancia é. de transformação social e renovação moral. Rousseau. um mito que representa a origem do homem e da cultura. também. A inf'ancia é portadora de uma imagem de inocência: de candura moral. No caso da criança o imaginário varia conforme a idade. Cada cultura tem maneiras de ver a criança. seriados televisivos. no Emílio. animais. mundo encantado dos contos de fada. para que possa manipulá-los. um imaginário pré-existente criado pelos desenhos animados. está carregado de animismo. a criança vista como homem em miniatura revela uma visão negativa: a criança é um ser inacabado. a idade do possível. de outro. ainda. O brinquedo propõe um mundo imaginário da criança e do adulto criador do objeto lúdico. Entre as antigas concepções. mesmo em sua ausência. sem valor positivo. Para o pré-escolar de 3 anos. de 5 a 6 anos. É contra essa visão que. mitos de homens. mundo da ficção científica com motores e robôs. estórias de piratas. Os brinquedos podem incorporar. divulga a especificidade infantil. os brinquedos expressam preferencialmente. por meio de um duplo processo: de um lado. ela está associada a todo um contexto de valores e aspirações da sociedade. antropomórficas. a partir do século XVIII. o brinquedo mEtamotfoseia e fotogafa a realidade. índios e bandidos.o jogo. a natureza e as construções humanas. O brinquedo coloca a criança na presença de reproduções: tudo o que existe no cotidiano.e a educação infantil • 109 a alguma coisa e pennitir sua evocação. A imagem de inf"ancia é reconstituída pelo adulto. imagem associada à natureza primitiva dos povos. de tratar e educar. mas uma totalidade social. sem nada específico e original. formas delicadas e simples. não reproduz apenas objEtos. personagens sob forma de bonecos.

falar da alegria de ter soltado balões quando na verdade não o fez. São seus devaneios que permitiram o retorno à inÍancia e a expressão de diferentes visões de criança em sua vasta produção literária. modos de pensar e agir e oimaginário presente no criador do objeto. inútil de ausência de brinquedos. sua imaginação que recriam situações de retorno à infância como a satisfação de soltar balões. essa abertura para o mundo. 93-137). também. Daí nem sempre a memória ser aceita como documento factual em trabalhos de história. Bachelard. com novo olhar. o passado. alimenta o devaneio. a memória dos tempos passados. se a imagem de inf'ancia reflete o contexto atual. café com pão. ideais e vontades. café com pão. em Vestida de Preto (1943. que se manifesta no momento da solidão. Virge Maria que foi isto maquinista?" (Manoel Bandeira. 1986). na Rua do Sabão!" ou "café com pão. Graciliano Ra- . de uma visão idealizada do passado do adulto. a feliz. Assim. p. São suas fantasias. cada uma delas com graus diferentes de memória e imaginação. Reconstituir a imancia expressa no brinquedo é reconstituir o mundo real com seus v<llores. esconder doces pela casa e pedir para achar. Há em nós wna imancia represada que emerge quando algumas imagens nos tocam. em APoética do Devaneio (1988. apud Faria. Muitas vezes. dinamizando-o com a imaginação criativa. com novo brilho. Por ser o devaneio composto de memória e imaginação. Bachelard considera as imagens que sobrevêm do fundo da imancia como resultado de dois elementos: a memória e a imaginação. que incorporam memórias de seu tempo de criança. Mário não foi criança de soltar balão.110 • Tizuko Morchida Kishimoto ções próprias do adulto. Assim como a poesia. gostava de brincar com os sobrinhos. os jogos infantis despertam em nós o imaginário. p. nos mostra que há sempre uma criança em todo adulto. Os fatos ocorridos são metamorfoseados pela imaginação. apertar a campainha das portas e sair correndo. que contempla sua própria imancia. é que se entende Mário de Andrade. que o devaneio sobre a maneia é wn retomo à maneia pela memória eimaginação. Os devaneios retornam as lembranças de infância. Suas obras retratam diferentes imagens de infância: a miserável. Em Infincia (1984). Quantas memórias de inÍancia povoam a imaginação quando nos deparamos como as poesias: "cai cai balão. ela é carregada. que recria as situações. 1994. Apoesia é o estimulante que permite esse devaneio. 130). para o cósmico. mas quando adulto. mas também nossos sonhos.

vamos explorar mais detalhadamente o termo jogo. Considere. por exemplo. que reconhecem o papel do brinquedo. Após as distinções iniciais entre jogo. Por tais razões.o jogo e a educação infantil • 111 mos recorda seu cotidiano de criança pobre. 1993). a imagem de inf'ancia é enriquecida. É o estimulante material para fazer fluir o imaginário infantil. em Menino de Engenho (1969). trepava nas árvores. Pode-se dizer que é o lúdico em ação. Desta forma não se pode confundir jogo com brinquedo e brincadeira. os processos que chamamos de jogos".mas veja se algo é comum a eles todos . torneios esportivos etc. que construía brinquedos de barro e invejava os meninos que possuíam brinquedos mecânicos. brincadeira e brinquedos. por assumir múltiplos significados. em Curiosités Esthétiques (apud Brougere. também. da brincadeira. como fator que contribui para o desenvolvimento e para a construção do conhecimento infantil. de cartas. se . Baudelaire. se não se chamariam jogos". de bola. em Investigações Filosóficas (1975. A "família"do jogo Wittgenstein. os quais se relacionam diretamente com a criança. cultural e técnica. E a brincadeira? É a ação que a criança desempenha ao concretizar as regras do jogo. com contornos vagos. Hoje. estuda a grande família composta por diferentes tip~s de jogos e suas analogias. . é sempre suporte de brincadeira. com o auxílio de concepções psicológicas e pedagógicas. pois conota criança e tem uma dimensão material. Em contraposição. 42-3). O que é comum a todos eles? Não diga: "Algo deve ser comum a eles. p. ajogo de tabuleiro. Refiro-me. o brinquedo contém sempre uma referência ao tempo de inf'ancia do adulto com representações veiculadas pela memória e imaginação. Enquanto objeto. trocava frutas roubadas da despensa com piões que dormiam nas mãos dos espertos moleques da senzala.Pois. analisando a grande família que o caracteriza. ao mergulhar na ação lúdica. relembrando seus tempos de inf'ancia em que nadava nos rios. relembra o menino burguês que deixa seus brinquedos sofisticados para olhar interessado o brinquedo vivo (rato) do menino maltrapilho. O vocábulo "brinquedo"não pode ser reduzido à pluralidade de sentidos do jogo. São também sugestivas as poéticas páginas de José Lins do Rêgo. Diz ser o jogo um termo impreciso. "66.

Semelhanças de conjunto e de pormenor. inclui o jogo de dados. E como é diferente a habilidade no xadrez e no tênis.112 • Tizuko Morchida Kishimoto você os contemplar. Se passamos agora aojogo de bola. pois assim se envolvem e se cruzam as diferentes semelhanças que existem entre os membros de uma família: estatura. e para o outro." O autor conclui que o jogo se ramifica em uma família e que seu conceito é impreciso. este traçodesaparoceu. pense agora nos brinquedos de roda: o elemento de divertimento está presente. São todos 'recreativos'? Compare o xadrez com o jogo da amarelinha. Para contornar as dificuldades inerentes à definição. E tal é o resultado desta consideração: vemos uma rede complicada de semelhanças. Agora passe para os jogos de cartas: aqui você encontra muitas correspondências com aqueles da primeira classe. que se envolvem e se cruzam mutuamente. mas muitos traços COtnW1S desaparecem e outros surgem. e até toda wna série deles. os jogos de tabuleiro. O conceito de jogo dos dois protagonistas apresentam limites distintos: para um. com seus múltiplos parentescos. na sua representação sobre o jogo. O que pode significar exatamente essa imprecisão? Vejamos um exemplo: Quando alguém diz: Ensine um jogo às crianças! Se proponho jogar dados a dinheiro. muitos pesquisadores começam a buscar as características mais comuns presentes em toda a rede de manifestações do jogo. É exatamente o ponto que Wittgenstein ressalta: o termo se explicita no cotidiano. . parentescos. Veja que papéis desempenham a habilidade e a sorte. mas quantos dos outros traços característicos desapareceram! E assim podemos percorrer muitos.Considere. ou uma concorrência entre os jogadores? Pense nas paciêlcias. etc. muita coisa comum se conserva. Nos jogos de bola há um ganhar e wn perder. 67. uma vaga idéia fez excluir o jogo de dados quando se falou em ensino. Não posso caracterizar melhor essas semelhanças do que com a expressão "semelhanças de família". o andar. no uso que se faz dele. mas semelhanças. alguém pode me dizer: "Não tive em mente um jogo como esse!". Certamente. mas se uma criança atira a bola na parede e a apanha outra vez. mas muitas se perdem. mas veja! . Ou há em todos um ganhar e wn perder. o temperamento. por exemplo. não verá na verdade algo comwn a todos. traços fisionômicos. cor dos olhos. Como disse: não pense. o exclui. .E digo: os 'jogos' formam uma família. muitos outros grupos de jogos e ver semelhanças swgirem e desaparecerem.

deixa de ser jogo. situações estremamanete dolorosas. há esforço e desprazer na busca do objetivo da brincadeira. ela o faz de modo bastante compenetrado. encontramse Caillois (1967). a separação dos fenômenos do cotidiano. Quando a criança brinca. Se imposto. Há regras explícitas. Huizinga (1951. porque em certos casos.o jogo e a educação infantil • 113 Características do jogo Entre os autores que discutem a natureza do jogo. na maioria das vezes. Ao descrever o jogo como elemento da cultura. mais recentemente. Huizinga (1951). como diz Wittgenstein. A psicanálise também acrescenta o desprazer como constitutivo do jogo. FrombergeChristie(1991 a e 1991 b). o caráter "não-sério". Finalmente. entra no mundo imaginário. apontando as caracteristicas: o prazer. A existência de regras em todos os jogos é uma característica marcante. há casos em que o desprazer é o elemento que o caracteriza. ao riso. Ao postular a natureza livre do jogo. Quando brinca. Embora Huizinga não aprofunde essa questão. especialmente ao demonstrar como a criança representa. ela merecerá a atenção de psicólogos que discutem o papel do jogo na construção da representação mental e da realidade. em processos catárticos. a liberdade. 3-31) omite os jogos de animais e analisa ap~as os produzidos pelo meio social. São regras internas. todo jogo acontece em um tempo e espaço. regras implícitas como na brincadeira de faz-de-conta em que a menina se faz passar pela mãe que cuida da filha. Henriot (1989) e. "semelhanças de família". como no xadrez ou amarelinha. considerado atividade séria. Embora predomine. ocultas que ordenam e conduzem a brincadeira. . na maioria das situações. o caráter fictício ou representativo e sua limitação no tempo e no espaço. A pouca seriedade a que faz referência está mais relacionada ao cômico. o ato lúdico e se contrapõe ao trabalho. p. as regras. com uma seqüência própria da brincadeira. Huizinga o coloca como atividade voluntária do ser humano. a criança toma certa distância da vida cotidiana. Vygotsky é um dos que afirmam que nem sempre o jogo possui essa característica. O caráter "não-sério"apontado por Huizinga não implica que a brincadeira infantil deixe de ser séria. suas características ou. que acompanha. o prazer como distintivo do jogo.

nunca se tem o conhecimento prévio dos rumos da ação do jogador. apontando pesquisas atuais que o distinguem de outros tipos de comportamentos. não está preocupada com a aquisição de conhecimento ou desenvolvimento de qualquer habilidade mental ou fisica. tem a semelhança de jogo. de fatores internos. a incerteza que predomina.114 • Tizuko Morchida Kishimoto Seguindo quase amesma orimtação de Huizinga. externamente. 1985. sempre. King. acompanhando o raciocínio de Wittgenstein. o pesquisador consegue identificar um jogo. Mais recentemente. que dependerá. ao observar brincadeiras infantis. O que importa é o processo em si de brincar que a criança se impõe. também. 1983. Caillois (1967. pot ser uma ação voluntária da criança. Smith e Vollstedt. a separação do jogo em limites de espaço e tempo. o eixo comum que as une. Quando ela brinca. Rubin e outros. O que diferencia o primeiro momento (não brincar) Jio segundo (brincar) é a intenção da criança. nem riqueza e suas regras. Da mesma forma. supondo uma situação concreta e um sujeito que age de acordo com ela. um fim em si mesmo. de motivações pessoais. o pesquisador se depara com situações em que a criança. não visa aum resultado final. 1977. a autora elabora os critérios para identificar seus traços: . entra na brincadeira. 1979.4) rediscute as características do jogo infantil. Nem sempre. Entende-se que o jogo. Henriot (1989). aincerteza presente em toda conduta lúdica éoutro ponto que merece destaque. Todo e qualquer jogo se diferencia de outras condutas por uma atitude mental caracterizada pela incerteza dos resultados. como a conduta de outros parceiros. o que mostra a grande dificuldade de realizar pesquisas empíricas sobre o jogo infantil. dentro da multiplicidade de concepções. estar em perfeita simbiose com o jogador para identificar em sua atitude o envolvimento no jogo. não pode criar nada. ausência de obrigação em seu engajamento. bem como de estímulos externos. No jogo. o caráter improdutivo de não criar nem bens. Um novo elemento introduzidp pelo autor é a natureza improdutiva do jogo. uma vez que se pode manifestar um comportamento que. Muitas vezes. logo em seguida. diz: "Agora eu não estou brincando". É preciso. "brincando". mas não está presente a motivação interna para o lúdico.p. Christie (1991 b p. 4243) aponta as caracteósticas do jogo: a liberdade de ação do jogador. identifica. mas. Utilizando estudos de Garvey.

5). São exemplos de situações em que o sentido não é literal o ursinho de pelúcia servir como filhinho e a criança imitar o irmão que chora.as crianças estão mais dispostas a ensaiar novas combinações de idéias e de comportamentos em situações de brincadeira que em outras atividades não-recreativas. O jogo educativo.no jogo infantil. O sentido habitual é substituído por um novo.as situações de brincadeira caracterizamse por um quadro no qual a realidade interna predomina sobre a externa. 2 efeito positivo . o efeito positivo. é trabalho ou ensmo. a criança o demonstra por meio do sorriso. O jogo infantil só pode receber essa designação quando o objetivo da criança é brincar. nesse caso. a direção do professor. à aprendizagem de noções e habilidades.enquanto a criança brinca.o jogo infantil é normalmente caracterizado pelos signos do prazer ou da alegria. 3 tlexibilidade . sua atenção está concentrada na atividade em si e não em seus resultados ou efeitos. A ausência de pressão do ambiente cria um clima propício para investigações necessárias à solução de problemas. entre quais o sorriso. moral e social da criança. não oportuniza aos alunos liberdade e controle interno. 5 livre escolha . Predomina. a flexibilidade e a fmalidade em si. muitas vezes dE"lsvirtua esse conceito ao dar prioridade ao produto. Segundo Christie (1991b. Estudos como os de Bruner (1976) demonstram a importância da brincadeira para a exploração. Para auxiliar pesquisadores na tarefa de discriminar se os professores concebem atividades escolares como jogo ou trabalho. são os próprios jogadores que detenninam o desenvolvimento dos acontecimentos.o jogo e a educação infantil • 115 1 a não-literalidade . utilizado em sala de aula. o ensino.o jogo infantil só pode ser jogo quando escolhido livre e espontaneamente pela criança. Quando o professor utiliza um jogo educativo em sala de aula. Quando brinca livremente e se satisfaz. brincar leva a criança a tornar-se mais flexível e buscar alternativas de ação. p. de modo coercitivo. Assim. Esse processo traz inúmeros efeitos positivos aos aspectos corporal. 6 controle interno . 4 prioridade do processo de brincar . Caso contrário. os indicadores mais úteis e relativamente confiáveis do jogo infantil podem ser encontrados nas quatro primeiras características: a não-literalidade. .

as regras (implícitas ou explícitas). atividade: a criança faz coisas. sociólogos e antropólogos. São tais características que permitem identificar os fenômenos que pertencem à grande fanúlia dos jogos. apontando o que não era contrapos-se ao trabalho e às atividades consideradas sérias. julgamos poder esclarecer o jogo do pré-escolar buscando paradigmas elaborados por filósofos. Após as distinções iniciais entre jogo. significação: permite relacionar ou expressar experiências. regrado: sujeito a regras implícitas ou explícitas. como o de Costas (1991). os autores assinalam pontos comuns como elementos que interligam a grande família dos jogos: liberdade de ação do jogador ou o caráter voluntário e episódico da ação lúdica. não se terá jogo. Em síntese (excetuando os jogos de animais). quando começaram a aparecer informações mais detalhadas sobre sua relevância. a imaginação e a contextualização no tempo e no espaço. educadores. mas trabalho.116 • Tizuko Morchida Kishimoto os dois últimos são os mais indicados. a relevância do processo de brincar (o caráter improdutivo). Já existem estudos no Brasil. a incerteza de resultados. voluntário ou intrinsecamente motivado: incorporar motivos e inte- resses. psicológos. Retomando as percepções acerca do jogo desde os primórdios da civilização greco-ramana. que demonstram que as crianças concebem como jogo somente as atividades iniciadas e mantidas por elas. pretende-se avançar nos múltiplos sentidos que o jogo asswne. o "não-sério"ou o efeito positivo. e episódico: metas desenvolvidas espontaneamente. Para Fromberg (1987. ao útil e ao sério Em tempos passados não se chegou a definir o jogo em si. a não literalidade ou a representação da realidade. Significado do jogo enquanto oposição ao trabalho. ojogo infantil inclui as características: simbolismo: representa a realidade e atitudes. Entre as preocupações ftmdamentais deste trabalho destaca-se a busca dos paradigmas utilizados por certas épocas e culturas. Se a atividade não for de livre escolha e seu desenvolvimento não depender da própria criança. para comprOO1der a multiplicidade de significados do jogo e seu reflexo na educação infantil. biólogos.36). p . . lingüistas. o prazer (ou desprazer). brinquedo e brincadeira e as características comuns aos jogos.

" . Aristóteles considera-o parte da educação por sua importância para o descanso da mente. preferível ao trabalho e.p. 6. é necessário buscar o que se deve fazer para utilizá-lo.. coosidera o prazer advindo de atividades lúdicas como o repouso necessário para o trabalho intelectual. lazer. pois recorremos a ele com vista à continuidade de nossa atividade. "Pode-se procurar o repouso do espírito pelos jogos. relaxamento. O re1axamauo. pois disso se concluiria ser. e temos necessidade de relaxamento porque não podemos trabalhar continuamente. esforçar-se e trabalhar por causa de entretenimentos parece tolo e extremamente pueril. Ele permite ao homem sábio e virtuoso utilizar tais relaxamentos" . o descanso é indubitavelmente. c 1985.o jogo e a educação infantil • 117 As primeiras representações postulam o jogo como recreação. seja em palavras. Sua utilidade está no descanso da mente para uma nova jornada de trabalho. quando se buscam os prazeres. usá-los a título de remédio. 159). "(apud Brougere. 1993 p. 201).. por certo. Mas divertir-nos para trabalhar ainda mais. Não se trata. o prazer a finalidade da existência. utilizando a argumentação de Aristóteles de que o jogo serve para relaxamento do espírito.1177 a. descanso do espírito para o duro trabalho intelectual ou dispêndio de energia física.. de simples prazeres. tem seu fim normal: o repouso do espírito graças ao qual nós podemos em seguida nos dedicar às atividades sérias. aparece como contraponto do trabalho.. em geral. como se apenas se desejasse. pois o entretenimento é uma espécie de relaxamento. não é wna finalidade. Sem discutir o conceito de jogo. Livro X. "Se o trabalho e o descanso são ambos precisos. o filósofo introduz o jogo no pensamento cristão. Na Suma Teológica e Contra Gentiles. Ora. 1966. parece correto. se não é possível ser assim. 52). "O jogo em si. o jogo. O trabalho provoca sempre esforço e cansaço. seja em ações. pois é exatamente quando se está cansado que se tem necessidade de descansar. . malgrado as aparências. p. A política. atentar para o instante próprio para deles fazer uso.. Aí está por que é necessário. que chama de atividade de entretenimento. como diz Anácarsis. Tomás de Aquino. É6ca à Nicômaco. então. Para Aristóteles. O movimento que o exercício transmite ao espírito livra-o e descansa-o pelo prazer que lhe confere"(Aristóteles. é antes no tra- balho que se tem de buscar distração. como algo não-sério. na esteira de Aristóteles. para nós.."(Aristótelt:s.

Entretanto. o que não rlermite estabelecer seu valor educativo. Sem relação com a sobrevivência. 1988). A Idade Média vê a atividade lúdica se desenvolver no centro da vida social mas às margens da religião oficial. É essa imagem que revela o educador dos primeiros tempos da República. A impossibilidade de participar de atividades sérias leva os seres a gastar essa energia em atividades supérfluas como o jogo e a arte. em Princípios de Psicologia. sua improdutividade aos olhos da sociedade. já surgem outras visões que associam o jogo à criança e à educação. perda de fortuna e honra.118 • Tizuko Morchida Kishimoto A mesma idealização aparece mais tarde. de cartas e dados. embora a segunda tenha suas especificidades e deixe seus traços em produtos. p. o jogo se expande pelos séculos seguintes com a proliferação do jogo de azar. p. nos teatros. à novidade. as atividades estéticas e lúdicas são admitidas como luxo e gasto de energia. apontando os jogos froebelianos como um luxo e o desperdício do dinheiro público com tais passatempos pedagógicos (Kishimoto. ao criticar os jardins de iníancia no Estado de São Paulo. Outra rq>resmtação coloca o jogo em oposição às atividades sérias. mostra o significado do jogo no século XVII. ao não-sério. associando o jogo à arte. 2 uso de jogo para . É nas festas. João Kõpke. divertimento. Nos textos daquele período. 1993. de Diderot e D'A1embert. nas festividades de organizações de juventude que o jogo preserva a identidade dos grupos. considera o jogo como resultado de um excesso de energia. 1993. As relações entre o jogo infantil e a educação: paradigmas Antes da revolução romântica destacam-se três concepções que relacionam o jogo infantil à educação: 1 recreação. 42). Associados ao dinheiro. mas reivindicar sua inutilidade essencial. nos carnavais. como uma oposição ao útil. que a abominava. Spencer (1855). que diverte pela esperança do ganho (apud Brougere. acaso. Jogo e arte aparecem opondo-se às atividades sérias da sociedade. no fim do século com Kant e Schiller. Trata-se de conceber a arte em seu papel de decoração. as obras de arte (Brougere. ao trabalho produtivo. sagacidade. A Encyclopédie. o jogo aparece como ocupação frívola. xvn. 92). O caráter não-sério do jogo de azar de~taca-se como um dos paradigmas para a análise do jogo. uma espécie de convenção para usar habilidade.

Recomenda brincar de ossinhos. crou madame. hábitos saudáveis de higiene. Sêneca. Erasmo. para recuperar brincadeiras dos tempos passados. simulação. é entendida como o relaxamento necessário para atividades que exigem esforço físico. Ao atender necessidades infantis. Se na educação inadequada de Gargântua o jogo aparece como inutilidade e futilidade.d. A recreação. vê-se a brincadeira como conduta livre que favorece o desenvolvimento da inteligência e facilita o estudo.d. Quintiliano. Rabelais critica o jogo como futilidade.p. (Aristóteles. até.o jogo·e a educação infantil • 119 favorecer o ensino de conteúdos escolares e 3 diagnóstico da personalidade infantil e recurso para ajustar o ensino às necessidades infantis. surgem novas perspectivas. O autor satiriza os sofistas da época mostrando a deseducação de Gargântua. Em Gargântua e Pantagruel. como não-sério. na educação do sábio pedagogo o jogo é instrumento de ensino: de matemática e outros conteúdos.p. aparecem os de cartas. aluette. nos dias de chuva enquanto se discute corn. Por longo tempo. a brincadeira fica limitada à recreação. e o valoriza como instrumento de educação para ensinar conteúdos. 93-9). Tomás de Aquino. jogos de seleção como par ou impar. de movimentos. considerado período de "compulsão lúdica".. seleção. gerar conversas. intelectual e escolar.. Rabelais (s. jogos tradicionais da época. Rabelais. Socrates). enfim. Entre os passatempos cita cerca de 204 jogos em que predominam os de azar. vinte e um. aliado ao dinheiro. além de outros como o trunfo. de alimentação etc. bebidas e divertimento.o povos do passado pensam e brincam (s. com uso de cartas. cara ou coroa e uma .) utiliza personagens da época para desenvolver a trama de suas histórias. Com o advento do Renascimento. adotada desde os tempos greco-romanos. A partir do Renascimento. passatempo. 110-14). à palmatória vigente. que não valorizava conhecimentos. No fundo. para se contrapor aos processos verbalistas de ensino. já desaparecidos. Basedow comungam dessa perspectiva. ilustrar valores e práticas do passado ou. Critica a educação dos sofistas (ou deseducação): excesso de comida. Assim. Erasmo e Rabelais encarnam o espírito brincalhão da época. que fizeram a desgraça de muitos jogadores como os lesquenet. o jogo infantil torna-se forma adequada para a aprendizagem dos conteúdos escolares.d. Entre os jogos citados por Rabelais (s. o pedagogo deveria dar forma lúdica aos conteúdos.

quebra-cabeça. semelhante à alma do poeta.120 • Tizuko Morchida Kishimoto grande quantidade de jogos tradicionais como volante. desprezando outras modalidades. conforme ensinava a tradição cristã. 1612. Critica sutilezas como os acrósticos. mas sublinha sua espontaneidade. Privilegiajogos que valorizam a escrita. chicote queimado. e não negativo. Tal forma de perceber o jogo está relacionada com a visão de criança vigente no Renascimento: dotada de valor positivo. A poesia. Assim. O Romantismo constrói no pEnSamento da época um novo lugar para a criança e seujogo. coosiderando o jogo sua forma de expressão. momento adequado para observar a criança. pular o carneiro. não se interessando pela exploração espacial da linguagem. o Romantismo. É dentro dos quadros do Romantismo que o jogo aparece como conduta típica e espontânea da criança. dotada de espootaneidade e liberdade. Filosófos e educadores como Jean-Paul Richter. carniça. Vives (Traité de I'enseignemeot. Ainterpretação dramática propiciada pelo faz-se conta é forma de cultivar a intertextualidade. Montaigne divulga o caráter educativo do jogo. em particular. é o escritor. 1982). 108) vê o jogo como um meio de expressão de qualidades espontâneas ou naturais da criança. apud Brougere. no sentido de Roland Barthes. Hoffinann e Froebel consideram jogo como conduta espontânea e livre e instrumento . Para Montaigne. e a dança. como passatempo (Rigolot. como re-criação. que expressa através dele sua natureza psicológica e inclinações. a das regras e da razão é o que interessa. perspectiva que irá fixar-se com o Romantismo. não por meio de acrósticos e nem por conter moralidades e verdades.. Considera inúteis os jogos de caça. Considera o estudo como jogo. com sua cmsciência podica do mundo. embora transitórias. Recornndo à mEtáfora do destnvolvimEnto infantil como recapitulação da história da humanidade. deve ser aprendida pelo prazer do texto. Como Rabelais. tida como lazer popular. a criança é vista como ser que imita e brinca. p.. bilboquê. o j9go é um instrumento de desenvolvimento da linguagem e do imaginário. passatempo dos nobres. Somente a boa poesia. Uma tal concepção mantém ojogo à margem da atividade educativa. Mais que um ser em desEnvolvimento com características próprias. a sua prioridade. ou pela motivação analógica do significante. o poeta. reconhece na criança uma natureza boa. catavento. beliscão. valoriza apenas jogos defaz-de-conta. natureza que se expressa e se desenvolve.

182). poder-se-ia mtender a inf'ancia como idade do imaginário. Groos adota o pressuposto biológico da necessidade da espécie e acrescenta a vontade e a consciência infantil em busca do prazer para justificar os processos psicológicos. Emtempos passados. Para Groos. e. axioma que parte do princípio de que o mundo. a Psciologia da Criança recebe forte influência da Biologia e faz transposição dos estudos com animais para o campo infantil. ele é necessário para a espécie para o treino de instintos herdados. um ato voluntário (apud Brougere. surge a metáfora que correlaciona a inf'ancia do indivíduo à da humanidade. as teorias da recapitulação e do pré-exercício associadas ao dalWinismo recebem nova roupagem que dão estatuto ao jogo. p. que coosidera o jogo pré-exerácio de instintos herdados. Groos retoma o jogo enquanto ação espontânea natural (influência biológica) prazerosa e livre (influência psicológica) e já antecipa sua relação com a educação (treino de instintos). de expressão de tendências infantis. maturidade e velhice) eram comparadas às da humanidade. as fases da vida do indivíduo (inf'ancia. A seleção natural justifica a sobrevivência apenas das espécies animais que se adaptam às novas condições de vida.121 de educação da pequena inf'ancia. urna pmte entre a Biologia e a Psicologia. o jogo é uma necessidade biológica. Supondo existir uma equivalência Entre povos primitivos e a inf'ancia. 1933). Daí ter sentido a afinnação de que ojogo é uma conduta espontânea. Nessa abordagem. Ao observar as brincadeiras infantis e a capacidade imitativa da criança. universal e biológico. Dessa fonna. recebe os sopros do darwinismo no fim do século XIX. da poesia. Dessa forma. livre. por influência de Rousseau que inicia a perspectiva genética em sua obra. Com o Romantismo. Vista como elemento participante dessa seleção. o jogo recebe um estatuto científico nos quadros do daIWinismo (Brougere. Essa teoria denominada recapitulação. Assim. em sua inf'ancia. e seu foco na criança. influenciada pelo positivismo.humanidade. O Emílio (1968). psicologicamente. um instinto. emerge a teoria de Groos. O uso metafórico do jogo como conduta prazerosa e espontânea tem suas origens nas teorias da recapitulação. Se o jogo remete ao natural. Ao surgir no século XIX. 1993. era composto de povos poetas. à semelhança dos povos dos tempos da mitologia. o século xvm erige o conhecimento da criança como via de acesso à origem da .o jogo e a educação infantil. a conduta explica a adaptabilidade dos animais que se tornam mais aptos para a sobrevivência. permitindo sua divulgação no seio da Psicologia e .

o referencial escolanovista. mas serve pará revelar mecanismos cognitivos da criança. defesa' contra predadores. Entretanto. procurando conceituar pedagogicamente a brincadeira. Piaget (1978. praticar comportametltos adultos.l0). inputs sensoriais que estimulamo sistema nervoso central. bem como para condutas adaptativas dentro da escola evolutiva. O conteúdo da inteligência não tem a relevância da estrutura men- . Piaget mostra o pouco valor que lhe atribui. Na teoria piagetiana a brincadeira não aparece em si. estabelcer relações de dominância. É pela brincadeira e imitação que se dará o desenvolvimento natural. vínculos sociais. papel sexual. se considerarmos a inadequação da transposição de estudos no campo da etologia animal para os seres humanos. método natural de educação e instrumento de desenvolvimento. torMndo-se um conceito pouco objetivo e questionável. mas empresta características metafóricas como eSpontâneo. Ao colocar a brincadeira dentro do conteúdo da inteligência e não na estrutura cognitiva. tais pressupostos só têm validade para a etologia animal. como postula a Psicologia e a Pedagogia do escolánovismo. A capacidade simbólica ea consciência são os traços distintivos fundamentais que permitem ao ser humano a entrada no imaginário e que o distinguem do animal. Para0 autor. elabora· um quadro demonstrativo das funções que acuriosodade e dos jogos dos mamíferos· podem desempenhar: proporciOnar exercício físico. aumentar a flexibilidadecomportamental e outros. controlara agressão.·em conseqüência. prazeroso. ao dar destaque à imitação. facilitar inovações adaptativas. em parte. Bichara (1994. restrito à assimilação. familiaridade com objetos/instrumentos. Todavia. provenientes do Romantismo e da Biologia. 1977) adota. relegando o jogo infantil a plano secundário. A variedade e riqueza de funçÕes atribuídas ao jogo dos animais permitem antever sua importância para o desenvolvimento de instintos da espécie. embebida de influências da Biologia edo Romantismo. aprendizagem da comunicação e da cultura da tropa. revendo as pesquisas de etologia animal citadas por Baldwin e Baldwin (1977). que participa de processos de acomodação. o jogo continua assentando na metáfora das idades da humanidade. desenvolver percepção social. Claparooe (1956).122 • Tizuko Morchida Kishimoto da Pedagogia. p. É urna forma de expressão da conduta que não parte de um conceito específico. habilidades motoras. o jogo infantil desempenha papelimportante como o motor do auto-desenvolvimento e. recorre à Psicologia da Criança.

Embora dotada de grande consistrocia. incluindo suas brincadeiras. as regras da gramática permitem compreender o que pertence a uma frase ou não. vmdo-o como um meio de expressão natural. A compreensão de que as regras . toda conduta do ser humano. . Sendo o número de sentenças infinito. utiliza a lingüística para referendar sua teoria sobre os jogos infantis. Para Vygotsky (1988. ao manifestar a conduta lúdica. Assim. focalizam o contexto sócio-culturale a estrutura da linguagem para subsidiar o estudo da brincadeira. e revista em 1965. Outros teóricos. Assim como em qualquer ciência busca-se conhecer as hipóteses para fazer suas generalizações. Chomsky entende a linguagem de um povo como o conjunto de todas as possíveis sentenças e a gramática. 1982). Bruner. Entretanto. geradores de novos modos de vida. Da mesma forma. que a criança expressa por sua vontade e pelo prazer que lhe dá. 1987. Desta forma. fatores que modificam o modo de pensar do homem. Considerada situação imaginária. Na obra Syntactic Structures. o jogo infantil é o meio de estudar a criança e perceber seus comportamentos. Melanie Klein usa o jogo como meio de diagnóstico de problemas da criança. Em síntese. são construidas como resultado de processos sociais. como as regras que distinguem as sentenças das não-sentenças. para psicólogos. Para o autor. espontânea. o centro de seu estudo psicológico. Seus paradigmas para explicar o jogo infantil localizam-se na filosofia marxista-Ieninista. publicada em 1957. especialmmte freudianos. a teoria piagetiana não discute a brincadeira em si. São os sistemas produtivos.o jogo e a educação infantil-123 tal. a brincadeira é uma conduta predominante a partir de 3 anos e resulta de influências sociais recebidas ao longo dos anos anteriores. existe a possibilidade de se criar sempre novas sen"' tenças a partir de outras regras. como Vygotsky e Bruner. a prática usual de delimitar as sentenças faz parte de pressupostos arbitrários aceitos pela comunidade para facilitar a comunicação. que concebe o mundo como resultado de processos histórico-sociais que alteram não só o modo de vida da sociedade mas inclusive as formas de pensamento do ser humano. Não estuda a especificidade do jogo. Piaget adota o uso metafórico vigente na época. com forte influência de Chomsky. Chomsky vê semelhança entre a linguagem e a teoria científica. a criança apenas demonstra o nível de seus estágios cognitivos. de uma conduta livre. os processos psicológicos são construídos a partir de injunções do contexto sócio-cultural.

1993. excetuando os trabalhos do grupo do Laboratoire de Recherche sur le Jeu et le Jouet. mas na acepção de Chomsky.124 • Tizuko Morchida Kishimoto geram as sentenças e de que é possível criar novas sentenças a partir de outras regras é a chave para a compreensão da linguagem. Especialmente na Psicologia. de conduzir à descoberta das regras. o jogo da criança aparece como um processo metafórico relacionado a comportamentos naturais e sociais. que serve de microcosmo para a comunicação eo estabelecimento de uma realidade compartilhada. impedem a autonomia. 1933. cria um esquema previsível de interação.1986. Mead (1972) identifica o jogo como uma estrutura heurística. Em outras obras. No campo da Antropologia e Sociologia. Nessa mesma linha. geralmente não há discussão do jogo em si. 61-2). ao interagir com a criança. Gogo político.1983. a toda regra fixa. jogo diplomático). mas um uso metafórico sem a explicitação de seu significado. o modelo empregado é a estratégia do jogo de xadrez. Jean Cazeneuve. não no sentido romântico. Em síntese.· que dá significado aos gestos equepermiteàcriançadecodifícarosoontextos e aprender a falar. Aaprendizagem da língua materna é mais rápida quando se inscreve no campo lúdico. prisões e conventos (1961) mostra como certas instituições. que entende jogo como uma tática para evitar o constrangimento qu~ a prática social exerce sobre cada indivíduo (Brougere. 1976). não discutem seu significado e utilizam o modelo heurístico sem questionar o jogo . O jogo fornece um modelo simplificado para compreender essa interdependência. ojogo infantil estimula a criatividade. é um exemplo desse emprego em que o jogo é visto como o símbolo de nossa autonomia (apud Brougere. Entre os paradigmas construídos com referenciais já apontados. em Manicômios. p. 60-65). Para alguns autores o jogo é livre. sem constrangimentos. A mãe. Embora alguns autores construam um conceito operatório de jogo. O sentido do jogo é o da ação comunicativa que se desenrola nas brincadeiras entre mãe e filho. teóricos do jogo infantil têm procurado elaborar conceitos que tentam se erigir como científicos a partir da observação da conduta infantil. Goffinan. em La vie dans la societé modeme. p. ao controlarem o cotidiano infantil. noção presente na obra de Pierre Bourdieu. se opõe à norma. Brougere mostra que as metáforas do jogo aparecem em várias áreas. para Bnmer (1978. a ação livre da criança. em que jogos coletivos como o futebol apresentam analogias com as relações que se estabelecem entre os indivíduos dentro de uma sociedade.

Com Henriot se buscam os traços centrais do jogo. transformar o real por meio do possível e llie dar a dimensão do imaginário.o jogo e a educação infantil • 125 em si. O brinquEdo denonúnado quebra-cabeça toma-se um jogo educativo quando se llie associa o ensino. que ampliam a base de estudo. wna espécie de definição stricto sensu. O enraizamento de tais concepções não impede o aparecimento de novos paradigmas como os de Bruner e yYgotsky. É também. O cerne da questão está na estreita articulação entre dois conceitos: conduta e situação. p. Para Henriot. 7). constatável). não se pode chegar ao jogo se não há a conjunção de uma conduta (subjetiva) e uma situação (objetiva. Para o autor. quando se pretende ensinar formas geométricas de wna forma lúdica pàa manipulação desse objeto. à futilidade ou reivindicar o sério e associá-lo à utilidade educativa. em sua grande maioria. Ou seja. Para que exista jogo é necessário que o sujeito esteja nessa situação dispondo dos meios para perceber e imaginá-la. os paradigmas sobre o jogo infantil parecem equiparar o jogo ao "não sério". ''pode-se chamar de jogo todo processo metafórico resultante da decisão tomada e mantida como um conjunto coordenado de esquemas conscientemente percebidos como aleatórios para a realização de um tema" deliberadamente colocado como arbitrário" (Henriot 1989. ultrapassar o presente no sentido do futuro. é preciso que o sujeito tenha consciência de que está jogando e manifeste conduta compatível com a situação. Segundo o autor. dentro do processo metafórico que se compremde a expressão jogo educativo. . Como já foi visto. o jogo é um processo mEtafórico: é-llie próprio tomar ausÊncia como matéria. partindo de pressupostos sociais e explicitando o papel de brinquedos e brincadeiras na educação da criança pré-escolar. um referencial dos tempos do Romantismo.

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