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ROBERTO CHATEAUBRIAND DOMINGUES

ANÁLISE DE FILMES

Trabalho apresentado como requisito parcial para aprovação na disciplina Teoria da Justiça do Curso de Pós-Graduação stricto sensu – Mestrado da Faculdade de Direito da UFMG Profa. Dra. Mônica Sette Lopes

2012

Soledad Villamil. para chegar até o verdadeiro assassino. em especial quando esta é perseguida por trilhas não institucionalizadas e da legitimidade dos meios para se atingir a um fim. pedreiros que estavam próximos à cena do crime e que apresentavam perfil compatível com os “culpados”. e com Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil). para tanto. pouco recomendados. ele conta com a ajuda de Pablo Sandoval (Guillermo Francella). ele rompe com os procedimentos legais e lança mão. mesmo que justo. mas não sabe como declarar o seu amor. seu grande amigo. Pablo Rago. Guillermo Francella. Para dar sequência a seu intento. Ano de produção: 2009 País: Argentina / Espanha Duração: 129 min. O filme conta a história de Benjamin Esposito (interpretado por Ricardo Darín). coloca Benjamin em ação quase como um movimento de deslocamento. Durante as investigações Benjamin conhece Ricardo Morales (Pablo Rago). bem como a sua dor pela perda. por quem é apaixonado. Seguindo pistas não exploradas durante a investigação oficial. de expedientes ilícitos. Inconformado com o desfecho dado ao caso. Benjamim descobre que as confissões foram conseguidas por meio de tortura e insiste em prosseguir com a investigação. ainda que a contragosto de seus superiores. já . a quem promete ajudar a encontrar o culpado. O cenário é o arbítrio da ditadura militar argentina e a investigação é atravessada por interesses distintos e espúrios. Javier Godino.Filme: O segredo de seus olhos Ficha técnica Título original: El secreto de sus ojos Título em português: O segredo de seus olhos Diretor: Juan José Campanella Elenco: Ricardo Darín. inclusive. A paixão do marido pela esposa morta. e. Essa sua atitude faz emergir uma das questões centrais do filme e se refere ao preço da realização da justiça. De modo a oferecer uma resposta rápida e imediata à sociedade. marido da falecida. sua chefe imediata. um oficial de justiça de um tribunal penal recém aposentado que se dedica a escrever um livro sobre um caso de estupro e consequente assassinato de uma jovem que acompanhou no passado. os responsáveis pelo caso elegem dois estrangeiros como culpados. o que frustra aquele homem cujo sentido de justiça lhe guia a existência. Benjamin se apoia no que para ele se mostra o mais sensível: a paixão.

Diante do poder político. retrospectivamente. a legitimação dos procedimentos em uma sociedade. endereçado ao objeto amado. produzem informações e ferramentas para a sua compreensão que garantem o equilíbrio do sistema social. Todo tempo Benjamin se depara com o contraste de sua vida solitária e. O segredo da paixão é destrinchado por quem tem a chave deste misterioso sentimento que é o amor silencioso e é isso que o faz seguir a pista e identificar o suspeito mais provável. o regime de exceção rompe com a esta expectativa. Será. ali. retomando o caso em forma de literatura. Observa-se. uma vez mais. não resta alternativa que não seja a irresignação muda. enfim. O acusado é libertado. de arte. talvez. abertamente nutrida e expressada pelos outros protagonistas do drama. realizando assim. durante a narrativa. moral. Em um dos encontros com o marido da mulher assassinada. Benjamin toma contato com fotos antigas e identifica. Desta feita trata-se da paixão pelo futebol que faz com que o suspeito seja capturado. a sua história 25 anos depois. essa constatação que o fará rever. Não obstante todos os esforços envidados no sentido de fazer justiça. ela transborda e não se esconde. Estes sistemas e subsistemas. a resistência do protagonista é fraturada quando em um atentado. grosso modo. em especial aquele que se sustenta pela violência e força. já que. reconciliando-se com ela. Estes sistemas autônomos e . a clara incidência do que Niklas Luhmann denomina de corrupção sistêmica. em razão de processos comunicacionais. blindado frente as normas legais e penais do país. político. em certa medida. deste modo. se dá por meio da atuação autônoma de sistemas – jurídico. capturando e prendendo o verdadeiro assassino de modo que um julgamento correto seja realizado. No caso em tela. por exemplo. seja fazendo vir a tona a verdade dos fatos. É esta paixão que o compromete a seguir adiante. medíocre. Mais uma vez é a paixão que leva Benjamin pela mão em direção ao autor do crime. em um claro sinal de que o sistema vigente não toleraria insubordinações. é a partir de uma outra paixão que Benjamin encontra a rota que tenderá a deslindar o caso. da paixão. Para este autor. bem como seu adequado funcionamento também entendido como justiça. frustrando-a. e a vibração das cores do amor. apenas elucidado a partir de suposições. passando a integrar o staff da segurança governamental e tornando-se. Porém. o mesmo olhar que ele bem conhece. no outro. o seu desejo vivido em potência.que ali estava expresso os sentimentos que ele mesmo não conseguia vocalizar. o seu amigo é morto.

executando. com o passar do tempo é mais realizar a conciliação subjetiva com a justiça negada. Benjamin se vê instado a entrar. tanto a profissional. em razão de lacunas que a história ao ser reescrita aponta. . O seu interesse. É baseado nessa lógica que Benjamin lança mão de técnicas subterrâneas. possibilidade de restauração de sua vida. por exemplo. já que os tempos são outros. o efeito colateral deste ato de justiça solitário e não institucionalizado. é esta corrupção que dá ensejo a ações ilícitas. Benjamin retoma o caso. novamente. a prisão perpétua do criminoso. Retornando a uma discussão apenas tangenciada acima. já que são tidas como resistência ao arbítrio. a sentença que julgava a mais justa. quanto pessoalafetiva. o que gera desequilíbrio. Este reencontro mostra-se o ápice da película. desde que ocorra nenhuma corrupção. em contato com personagens centrais da trama e reencontra.independentes. anomia. podendo interagir entre si. fica sugerido pela trama. tomando a cena e provocando injustiças. Para ele esta é a forma encontrada para fechar um ciclo de sua vida. identificada quando um dos sistemas coloniza o outro. com o marido da mulher assassinada. nem que seja por meio da retificação simbólica proporcionada pela escrita. No filme. assim. Porém. Foram 25 anos de silêncio e a redução do outro ao lugar do inexistente. que se torna disfuncional. Aquele que prende se torna também prisioneiro. Vê-se um exemplo claro de corrupção sistêmica e suas consequências nefastas para a sociedade. muito embora diga que o tempo tenha se encarregado de soterrar a história. porém sem que haja a supremacia ou supressão de um pelo outro. Associado ao encarceramento uma outra pena foi cominada ao assassino confesso – a negação da palavra que o desfaz enquanto sujeito. até. A dinâmica funcional desses sistemas geram expectativas que devem ser realizadas. Lembrando da paixão que movia aquele sujeito percebe que algo não se encaixa no discurso sustentado e acaba descobrindo que à revelia do sistema ele tomou as rédeas e fez justiça com as próprias mãos. como a invasão da casa da mãe do suspeito e da desobediência explícita às ordens de seu chefe para não mais se envolver no caso encerrado. Porém. ele mesmo. pois Benjamin localiza este homem que não dá sinais de ter seguido a sua vida. trancafiando o assassino de sua esposa em um porão. Transcorridos vinte e cinco anos. caos e. ao que tudo indica. todavia toleradas. assistimos o sistema político inflar de forma ilegítima. não havendo.

conjur. tanto que o prisioneiro não demandava a liberdade. Legitimação pelo procedimento.com. . em seu Instituição imaginária da sociedade. o castigo maior imposto não era a cadeia. simbolicamente. tanto que. O aprisionamento compulsório era bem mais do que a restrição da liberdade. era a negação do reconhecimento do outro como sujeito de direito.Neste caso. Artigo publicado na Revista Consultor Jurídico. citado por Lenio Streck: O gesto do carrasco é real por excelência. Niklas. mas simbólico em sua essência! Referências bibliográficas LUHMANN. Lenio Luiz. dependia daquele outro para ser humano e não apenas o carrasco. o sentido de viver. Roxin "não sabe nada" e o TJ-SP confirma minha tese. sem saber. a cadeia discursiva. Tradução de Maria da Conceição.br/2012-dez-27/senso-incomum-roxin-nao-sabe-nada-tj-sp-confirmaminha-tese. impunha o interrupção de uma outra cadeia. Acessado em http://www. Assim como advertia Castoriadis. 1980. UNB. cujos efeitos atingiam também aquele que. Brasilia. STRECK. 27 de dezembro de 2012. mas o olhar do outro que lhe devolveria a humanidade.

as duas filhas e o sogro. onde mora com o marido. que desaparece dos relatos e memória de todos. que realiza um trabalho em presídios. Apesar de uma separação familiar drástica no passado. Laurent Grévill Gênero: Drama Duração: 115 min Ano: 2008 O filme conta a história de Juliette (Kristin Scott Thomas) que retorna à sua família e à sociedade depois de passar 15 anos presa. embora cumprida. Sempre que a filha Lys mais velha de Lea pergunta sobre o passado da tia é repreendida pela mãe ou recebe como resposta o silêncio. não apenas pela distância temporal que afastou as irmãs. A presença de Juliette é vivenciada com desconforto. Elsa Zylberstein. fica-se sabendo que a família apagou a figura da filha “criminosa”. Léa. Serge Hazanavicius. a começar pela própria Juliette que faz questão de se ensimesmar. O tempo transcorrido não foi o suficiente para prover a devida elaboração dos fatos e tudo . que não perdoam seu ato.Filme: Há quanto tempo te amo Ficha técnica Título original: Il y a longtemps que je t'aime Título em português: A quanto tempo que te amo Diretor: Philippe Claudel Elenco: Kristin Scott Thomas. que não confia nela e fica apavorado com a simples possibilidade de deixar as filhas sob os seus cuidados. A retomada do convívio é difícil. Um grande segredo é guardado e à medida que Juliette vai se aproximando de todos. o que faz com que sua irmã caçula não mantenha nenhum contato. Apenas um amigo da família. decide abrigá-la em sua casa. não foi o suficiente para restaurar o estado de coisas rompido. Aos poucos. sua irmã mais nova. parece compreender a situação da mulher. Michel. se tornando uma estranha para aqueles que conviveram com ela. Durante o decorrer do filme. ainda que por algumas horas. a trama revela a aparente amoralidade por trás da tragédia que manteve Juliette afastada por tanto tempo da vida real. mas pelo abismo criado entre as duas em razão de um passado interdito. assim. mantendo-se uma distância segura de todos que a cercam. Juliette não recebe a visita dos pais ou da irmã. completamente o contato com a família. em especial pelo seu cunhado. com esta irmã. Fica evidenciado que o crime cometido é hediondo e a pena imposta. perdendo. Durante todo o período que passa na prisão. de quem tão somente guarda lembranças esparsas. ele vai sendo revelado.

o que surge como um verdadeiro obstáculo para que se efetive a reinserção do sujeito após a sua apenação. Mesmo depois de cumprir a sua pena ela mantém o silêncio. Isso fica evidenciado na cena na qual Juliette busca emprego e o seu futuro patrão afirma que para ele pouco importa o crime cometido. durante um jantar entre amigos de sua irmã. não levando a sério a “revelação”. todos creditam a história a um chiste. É no quarto dele que Juliette se sente segura e acolhida. como uma extensão de sua prisão. se comunicando apenas por meio de bilhetes. resignada. aceitando. Não é sem razão que dentro de casa a companhia eletiva de Juliette é o sogro de sua irmã. Juliette não admite falar sobre o indigitado crime nem mesmo com a assistente social designada para garantir o seu reingresso na sociedade. Juliette matou o seu próprio filho. interpretado como mais um item do cardápio de punições que lhes foram impostas. no caso de Juliette. assim. ele a escorraça. O silêncio. mostrando que não há espaço ali para aquele “tipo de gente”. O relacionamento estabelecido com Michel representa o porto seguro que Juliette necessita para iniciar a sua jornada de autocompreensão. A representação que a sociedade constrói sobre crimes e criminosos tende a ser negativa. Porém. contra ela. que deve ser. pela agressividade que Juliette demonstra. muito menos com a sua irmã. nascendo daí a repulsa de todos. que ela mesma não foi capaz de elaborar e processar os fios que tecem a sua história. em juízo. é imposto e mantido como regra. porém é a convivência com sua sobrinha que vai restaurar os laços familiares. O que não foi revelado aos colegas é que ela era uma médica renomada e que o seu afastamento do exercício profissional é. No decurso do filme é revelado o crime cometido. já que seu interesse está circunscrito à produtividade que ela pode apresentar. sobretudo. A inocência da criança e sua disponibilidade em estabelecer uma relação afetiva com a tia faz . É este o fundamento que faz com que o caráter retributivo da pena seja percebido como sempre insuficiente. ao saber o tipo de crime cometido. Por outro lado. a figura aristocrática de Juliette não coaduna com a imagem da criminosa. em seu entendimento. tanto que quando ela revela o porque esteve fora durante tanto tempo. já que não há nada mais perverso do que a vida de um filho ser retirada pela pessoa que lhe deu a luz. um senhor de idade que apresenta problemas de voz e passa os dias em silêncio.indica. No trabalho que ela consegue as reclamações acerca do comportamento arredio de Juliette também são comuns e ele é mantido em função de sua competência técnica. as circunstâncias do crime cometido. O tabu é de tal ordem que. inclusive de si mesma. da mesma forma. perpétua. a punição que lhe foi imposta. fica-se sabendo que ela abriu mão de relatar.

as duas se aproximam e a tia tem a oportunidade de apresentar à sobrinha a melodia que ela tocava com a irmã na infância. Juliette deixa seu quarto aberto e um documento em cima de seu criado mudo que é lido pela sua irmã. a não ser em momentos fugazes de lucidez. lançando luz sobre sua história. novamente. cujo o prognóstico indica crescente sofrimento e eminente morte. Lisboa. É a partir dessa singela operação que o processo de autoperdão é colocado em marcha. Em um dia. padece de demência e não mais reconhece suas filhas. Inaugura-se. fazendo com que a família passe. François.“Il y a longtemps que je t'aime”. Trata-se de um exame de sangue que revela uma grave doença degenerativa que acometeu o filho de Juliette. Juliette admite visita-la mesmo sabendo que por todos esses anos seus pais negaram a sua filiação. O silêncio e o segredo começam a desmoronar.com que Juliette. o que anuncia e revela o seu desejo de rever a sua história. capazes de reestabelecer o clima familiar. Confrontada com essa revelação. em razão de atraso. se mostre cada vez menos refratária ao contato e também disposta a abrir o baú de lembranças. A mãe. acompanhou o desenvolvimento da doença do filho desde o diagnóstico. É a deixa para que as irmãs possam se reencontrar afetiva e efetivamente. utilizando-se a terminologia de Ost. nesse momento. . Juliette conta que. que passa a reconhecer na cunhada um membro da família. Porém. antevendo o desfecho trágico da história. Derrubadas as primeiras barreiras. evitando maior sofrimento. as relações familiares começam a se fortalecer. O tempo do Direito. apresentando Léa como filha única. que a renegou no passado. perdido ao longo do tempo. saindo as pressas. Para evitar maior sofrimento. distinto daquele previsto e vaticinado pelos efeitos deletérios do crime praticado no passado. proporcionando ao sujeito a chance de se ligar em um novo futuro. aos poucos. ela leva o seu filho para as montanhas e numa de suas crises ela pratica eutanásia. Ao romper com o silêncio. 1999. inclusive com condão de fazer dissipar as desconfianças nutridas pelo cunhado. revelando o papel imprescindível do outro como aquele capaz de nos confrontar com uma versão passível de ser adotada como possível. como médica. Juliette possibilitou que um outro olhar varresse a cena. Editions Odile Jacob. a se reunir frente ao piano para executar a música tema do filme . Por meio da música. a transmutação da culpa e o passado é “desligado”. resignificando-a. Referências bibliográficas OST.

Carl Foreman (roteiro) Elenco: 
 Gary Cooper. Will Kane. A notícia chega durante a cerimônia de seu casamento e. passando por interesses e vaidades pessoais. que se vê enredado em um dilema a partir do anúncio da chegada de um criminoso que ele ajudou a colocar na cadeia. bem como o Tempo da justiça. apesar dele pedir aos cidadãos para enfrentarem o pistoleiro e seus cúmplices. ele acha que fugirá para sempre se não enfrentar a situação. xerife de um pequeno vilarejo. deixando. assim. Cunningham (história). Para tanto. cumpre o seu dever de prover à cidade segurança e paz. argumentar que devem ir embora. O trem trazendo o temido Frank está para chegar meio-dia em ponto e o xerife tem apenas algumas horas para se organizar de modo a poder enfrentar o bando. Will se vê compelido a enfrentar o criminoso de modo a não permitir que ele espalhe o terror na cidade. como homem da Lei. revelando argumentos díspares para sustentar a recusa. em detrimento da autoridade representada pelo xerife. O tempo de justiça está presente durante toda a trama. que sua recém esposa parta sozinha. O filme trabalha com a tensão da antecipação do momento e opera. Frank Miller (Ian MacDonald). já que protagonista e antagonista avocam para si um determinado senso de justiça. como autoridade que é. Thomas Mitchell. que vão desde o temor e impotência diante do perigo até uma certa reverência frente ao poderoso bandido. deve enfrentar o . em vias de se aposentar.Filme : Matar ou morrer Ficha técnica Título Original : High Noon Título em português: Matar ou morrer Direção: Fred Zinnemann Roteiro: John W. que já espera o chefe na estação ferroviária. Lloyd Bridges. apesar de Amy (Grace Kelly). de maneira explícita. Grace Kelly Gênero: Drama/Faroeste Origem: Estados Unidos Ano da produção: 1952 Duração: 85 minutos Tipo: Longa-metragem O filme Matar ou morrer conta a história de Will Kane (Gary Cooper). Ademais. sua noiva. prometendo se vingar de todos que colaboraram com sua captura e prisão. A população se esquiva sem ajudá-lo. com o conceito de Tempo: Tempo de justiça.

mesmo que no limite. a partir da lógica do vencido e do vencedor.facínora. para quem as recebe e para a sociedade. insistentemente. . intimida. Por sua vez. mas alguma outra justiça dita noutro recanto concedeu-lhe a liberdade. De certa forma. O embate encenado confronta a concepção de Justiça formal. no mínimo. Por sua vez. o filme revela elementos importantes para a reflexão. a parte irresignada que tenderá a se auto-representar como injustiçada e que alimentará. o tempo da justiça também se revela e é. mesmo que este não encontre razões possíveis para sustentar a sua posição subjetiva frente a história. injustiçado. A percepção sobre a distribuição da justiça mostra-se distinta para aqueles que a aplicam. ainda que utilizando tintas carregadas para retratar esta questão. desde então. institucionalizada e balizada pela legalidade com o acerto de contas daquele que avalia ter sido privado de sua liberdade e. No momento em que a força da Lei não mais encontra sustentação. lembrado por meio da figura do relógio que acompanha a trama. reforçando-lhe a ideia de uma “injustiça” cometida no passado com sua prisão. a figura fantasmática de Frank Miller passa a encontrar adeptos. a lei da força reivindica o seu reconhecimento e exige aplicação. Ele deseja se vingar de todos/as que contribuíram para a subtração de anos de sua vida durante o tempo que passou na prisão. Não há argumentação racional capaz de fazer frente ao ódio alimentado atrás das grades. até mesmo entre aqueles que um dia foram afetados pelos seus atos de terror e maldade. nem mesmo o reconhecimento de que. a ponto de fazer com que a cidade. máscara pouco sutil do que se conhece como vingança. É este o sentimento que move Frank Miller ao retornar à cidade depois de anos encarcerado. Ainda sendo apenas uma ameaça que vai se corporificando com o decorrer do tempo. que sempre existirá. Evidencia-se na trama. O poder da força encanta ou. um claro anseio de realização de uma (suposta) justiça. portanto. os atos cometidos e que ensejaram a apenação não encontram eco de aprovação na sociedade. Frank Miller reclama o seu direito de acertar as contas com aqueles que julga tê-lo prejudicado. tais como a fragilidade da concepção do processo judicial como instrumento de pacificação social e os limites da lei (ou da racionalidade) como mecanismo da efetivação da justiça. Não se sabe o que ocorreu. antes agradecida ao Xerife. lembrando que o tempo está no comando e exige respostas. seja moral ou legalmente.

aja da melhor maneira que julgar necessário. alegando ser um alvo prioritário do bandido que se aproxima. em sua maioria. Mesmo reconhecendo o papel legitimado da autoridade há o distanciamento da Lei provocando um claro contraste com a opção pelo o uso da força. O Juiz de Direito é o primeiro a sair da cidade. via de consequência. se recuse. ainda que autorizado pela comunidade. A princípio ele busca o apoio dos moradores locais. paulatinamente. denotando o esgotamento dos mecanismos oferecidos pelo Direito. sem cogitar a possibilidade de um chamamento à ordem e à lei.se retraia e manifestamente. A consequência imediata desse estado de coisas é a privatização da distribuição da justiça. ele somente vislumbra o embate brutal como desfecho da trama. Têm-se um evidente processo de legitimação da lei da força que é naturalizada e. produtores da norma que regulam as relações em sociedade. de . a engrossar as fileiras da lei e enfrentar aquele que pode romper com a tênue paz reinante no local. No filme. personificação da lei associada ao dever ético de proteger a cidade. armado. Cabe ressaltar que o apoio demandado pelo xerife circunscreve-se à identificação de homens capazes de manejar armas. pertine chamar atenção para a aridez das imagens e da paisagem que revelam e ressaltam o isolamento da cidade. a força da Lei é. Por mais que se possa argumentar que o risco proporcionado pelo criminoso não pode ser contido por meio do poder racional e uso adequado das leis. aquele que queira. desacreditada e enfraquecida. O filme mostra uma cidade sem contato com o mundo exterior que. cabe ao Xerife. Há neste momento a rendição da lei e a abertura para que. pode dizer muito sobre o frágil equilíbrio de uma comunidade em que a Lei não encontra sustentação em instituições fortes e sólidas e sim em sujeitos que a corporificam. Todavia. colocaria em risco todos. Neste ponto. De certa forma isso oferece pistas que explicam o deslocamento da responsabilidade comunitária para um único sujeito como se a Lei não fosse resultado de um processo coletivo no qual todos os destinatários são. como resposta à chegada daquele que. paradoxalmente. restando a força bruta como resposta. ao mesmo tempo. A resistência é mantida pelo Xerife Will Kane. não se deve rejeitar. decidir a forma como lidar com a ameaça. metaforicamente. sem êxito. seja lá porque razões sirvam para este fim.

pronto. tendo ele à frente. prontas para o combate final. o mal personificado pelo bando de Frank. já que no que tange a justiça a sua administração é intrinsicamente relacionada ao bem comum. o que a torna incompatível com a sua redução a esfera privada. em especial. o que não parece ter sido a consequência proposta pelo desfecho da trama. Frank Miller é abatido por um tiro que não sai da arma do representante da lei. causada seja pelo medo. o seu título em português. a razoabilidade. quando a vingança (ou Justiça. se dirige à cidade de modo a cumprir a promessa de fazer a sua justiça. No filme. O confronto se conforma em uma cidade aparentemente deserta. mesmo quando esta vem revestida de uma imaginária ideia de coletividade. representando tão somente uma evidente fratura moral da coletividade. representado pelo Xerife e. de outro. nesse contexto. mesmo quando esta possibilidade se afasta no horizonte. Matar ou Morrer. seja pela atração pelo poder que se anuncia. O maniqueísmo esquemático se revela quase pedagogicamente. . a alternativa dada pelo Direito. pois não se vislumbra naquele cenário desolado outra possibilidade. o que coloca fim ao drama. De um lado o bem. ficando apenas as partes. mostra que a dicotomia é falsa. Nesta perspectiva a lógica mostra-se razoável. o deslocamento da responsabilidade do dever para um único sujeito não apresenta o condão de transferir para ele esta competência institucional. a decisão está tomada. o filme. de acordo com o ponto de vista que se analisa a cena) está para se concretizar. com cada parte defendendo a sua posição que é sustentada por argumentos próprios e desprovidos de suporte racional capaz de garantir adesão dos que cercam os atores do drama. Contudo. ainda que se possa afirmar que o tempo de/da justiça tenha cumprido o seu ciclo. frente a frente. reforçado em sua certeza pelo poder das armas. No último instante. mas de sua esposa que desistiu de partir sozinha. Todavia. pois não é por meio da eliminação daquele que ameaça a ordem que se garante a concretização da Justiça e sim na possibilidade de se restaurar o tecido social esgarçado. Frank Miller é recepcionado pelo seu bando e. já que a Justiça em terreno anômico é administrada de forma privada. é uma figura retórica. O trem chega e com ele toma corpo a ameaça. independente da legitimidade apresentada. Porém.

A opção pelo tiro disparado pelas mãos da esposa parece ser a saída mais adequada encontrada para dar cabo ao impasse colocado pelo filme que já se sabia perene. Referências bibliográficas GRINOVER. Se o bandido atirasse e matasse o Xerife seria a vitória da força sobre a Lei e a instalação do arbítrio. Habermas e o Direito brasileiro. Fosse qual fosse o “vencedor”. Cândido Rangel. fundado no amor. a começar pela pró pria instituição Justiça. naquele momento. Cintra. São Paulo: Editora Malheiros. quem sabe. pode ser absolvido até mesmo quando resulta em uma solução que. 2008. não garante a justiça pretendida por todos. 2ª Edição. 28ª Ed. O contrário. Antonio Carlos Araujo. todos sairiam perdendo. ainda que pelo avesso. Ada Pellegrini. CRUZ. O ato. Dinamarco. traria a mesma consequência. como a cena final aponta. ao fim e ao cabo. . Álvaro Ricardo de Souza. embora com um verniz de pseudolegalidade ofertada pela legitimidade da função exercida que. Rio de Janeiro: Lumen Juris Editora. Teoria Geral do Processo. 2012.O paradoxo proposto pelo filme levaria a uma impasse insolúvel. estava afastada já que Wil se comportava como justiceiro (mesmo que o espírito de época assim o autorizasse).

a neutralidade política do dramaturgo chama a atenção. A princípio Dreyman mantém. considerado por muitos o modelo perfeito de cidadão para o país. sendo isolados da vida civil a começar pela interdição ao direto ao trabalho. de que ele deveria ser vigiado. Ele mantém um relacionamento afetivo com atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Ulrich Mühe País de Origem: Alemanha
 Gênero: Drama
 Tempo de Duração: 132 minutos
 Ano de Lançamento: 2006
 A vida dos outros narra a história de Georg Dreyman (Sebastian Koch). ele é um dos poucos intelectuais da República Democrática Alemã (RDA) capaz de tal proeza de forma insuspeita. um renomado dramaturgo da Alemanha Oriental. O primeiro e mais bombástico relata os casos de suicídios na Alemanha e que nunca são divulgados. mas por conveniência e interesse em manter o seu lugar como o dramaturgo apreciado pelo regime. por quem o ministro Bruno Hempf (Thomas Thieme) se interessa. o interesse o ministro por . realmente. que monta uma estrutura em que Dreyman e Christa-Maria Sieland possam ser vigiados 24 horas.Filme: A Vida dos Outros Ficha Técnica Título Original: Das Leben der Anderen Título no Brasil: A Vida dos Outros 
 Direção: Florian Henckel von Donnersmarck Elenco
 Sebastian Koch. sob pseudônimos. Sabedores de que não há como ser adepto de um sistema corrupto sem uma contrapartida clara. Martina Gedeck. que a princípio não vê nada de errado com Dreyman mas é alertado por Gerd Wiesler (Ulrich Mühe). Além disso. não exatamente por convicção. o que denuncia a autoimagem do regime e o reconhecimento do arbítrio como opção de governo. Grubitz passa a tarefa a Wiesler. uma posição de neutralidade política. Todavia. ao verificar que colegas e amigos próximos estavam sofrendo perseguição política. Antes mesmo das denúncias postadas na imprensa internacional os dirigentes da República Democrática Alemã (RDA) passam a desconfiar da fidelidade de Dreyman. Ele passa esta tarefa para Anton Grubitz (Ulrich Tukur). para o ocidente. seu subordinado. Aliás. Thomas Thieme. Será esse desejo que faz com que ele decida acompanhar os passos do casal de modo a descobrir se Dreyman tem algo a esconder. ele resolve agir e passa a denunciar os arbítrios do governo enviando artigos. já que não contesta o governo nem seu regime político.

no caso Dreyman. engendra-se um processo de retificação subjetiva que faz com que aquele que tem acesso às informações possa rever seus conceitos e . mesmo sem romper de forma brutal com ele. para o convidado. sua intimidade e pensamentos. Como nos ensina Alain Montandon em seu prefácio à obra que ele coordena “O livro da Hospitalidade” . sob a vigilância implacável do agente Gerd Wiesler. ele cruza uma fronteira e se intromete naquele espaço. fisicamente sofisticada. da mesma forma que pode construir realidades diversas. pois ele tem acesso a dados que nem mesmo os observados acessam. mesmo sem o saber. embora o seu inverso o seja.Christa-Maria faz com que a aparelhagem de espionagem seja direcionada para acompanhar a vida do casal. Em outras palavras."A soleira marca uma fronteira. sendo instado. sua história e motivações. vá construindo um mosaico com informações diversas sobre a vida dos outros. O encanto provocado faz com que este agente compreenda a dinâmica das relações ali estabelecidas e. ele passa a repensar a sua fidelidade ao Partido e. A compreensão adquirida nesse processo. com a diversidade. é montada uma estrutura de escuta. faz com que Gerd Wiesler possa romper com o binarismo cartesiano reinante e perceber que a diversidade de pensamento e posições não. ficando fascinado com a vida que eles levam. a aceitar as regras do outro. Gerd Wiesler passa a acompanhar todos os passos do casal e de seus amigos. no apartamento de Dreyman capaz de auscultar todos os diálogos ali empreendidos. necessariamente. O olhar do outro possui o condão de revelar facetas que podem ser desconhecidas para aquele que é observado. empaticamente. que abre espaço para a convivência. ainda que tensionada. A invasão do domínio do outro é um problema ao mesmo tempo de proxêmica e de propriedade. é uma ameaça. uma passagem. Este é um ponto que merece discussão e que o filme trabalha de forma exemplar. no sentido em que o trecho acima transcrito aponta. o caráter unívoco e totalizante do pensamento imposto heteronomamente ao outro pode ser bem mais desastroso do que a liberdade de expressão. Para tanto." Ainda que Gerd Wiesler não tenha sido convidado. e sua transposição implica tacitamente. a aceitação das regras do outro. inclusive com informações privilegiadas. Ao entrar em contato com a vida do casal. movido pelo conhecimento. fantasiosas ou não. De certa forma é isso que se opera com Gerd Wiesler. Ao conhecer o outro. passa a fazer concessões até então impensáveis para com aqueles que é obrigado a espionar. como as ações intestinas do regime. que faz com que o expectador se transforme e passe a enxergar o mundo de outra forma.

distanciar demais. . agora com indicações precisas e preciosas sobre o que se passa ali. inocentando o espionado. por seu turno. o que faz com que todos se sintam livres para falar e escrever o quanto queiram. encantado que está. Com isso. Porém. exigindo-lhe favores sexuais em troca de sua permanência em cena. Gerd Wiesler altera a cena e esconde as provas. O apartamento de Dreyman. ao que parece. O véu da ignorância. especialmente por correlacionar o suicídio do melhor amigo de Dreyman. é exatamente o saber das coisas que provê maiores chances de acerto e justeza do caminho eleito para ser trilhado.tomar decisões de outra ordem. já que. Christa-Maria. no campo do espionado. ameaçada e vulnerabilizada por aqueles que a forçaram a trair o seu amor. como atriz. Ocorre. Evidencia-se que a neutralidade do dramaturgo é falsa e que ele pode representar uma ameaça ao governo. Gerd Wiesler filtra informações e repassa somente o que julga ser o suficiente para satisfazer os interesses do Ministro. Gerd Wiesler se esforça para garantir a sua perenidade. pode impedir a visão detalhada de suas formas e razões de ser. se mata. quanto dos interesses escusos que a colocou em curso. mesmo que contra hegemônicas. é novamente vistoriado. se sente aprisionado pelo controle do Sistema e. talvez por isso mesmo. o Ministro não se convence. por seu turno. mostra-se temerário. violada em seus direitos básicos. desde que ele não seja apaixonado a ponto de impedir o discernimento necessário para perseguir o que é justo. o olhar atento e crítico. No campo do Sistema. mais justas e adequadas. em decorrência da perseguição que sofre com o artigo publicado no Ocidente sobre o tema. O Ministro que já vinha cercando Christa-Maria. anuncia-se como uma alternativa interessante para criar um ambiente favorável à uma boa decisão. a ilusão de que o ambiente é protegido. Portanto. uma vez que não encontra outra saída para o drama vivido. gera. A liberdade insuflada pode ser considerado um dos elementos-chave para aquele que. antes já revistado. ainda que possa ser reivindicado como um estratagema que garanta a imparcialidade de dada decisão ou ação. Se chegar muito próximo dos espinhos pode-se furar os olhos. Gerd Wiesler maneja a situação quase como uma figura onipresente. o caminho do meio. tanto aquelas obtidas por meio da espionagem. ainda que frustrando-o. De posse de informações privilegiadas. a impele a delatar o companheiro. que já se misturado com a trama. informando ao Governo o seu modus operandi. por essa razão. porém.

caso revelasse ao Governo o que de fato ocorreu teria que assumir o caráter risível. e a partir desta situação. o eu não tem direito à palavra. Dreyman reconstrói a sua história percorrendo os arquivos do Regime Comunista. por anos. ao verificar que Dreyman acessou a verdade dos fatos. SENAC. . embora carregue a sua cruz. dar significado à ação. agora aberto ao público interessado. Neste momento. revela-se a Gerd Wiesler o reconhecimento de seus atos pelo outro. pode colocar palavras. tem acesso as informações acerca dos acontecimentos que marcaram a sua vida. Gerd Wiesler e Dreyman conseguiram perceber o que o filósofo quis dizer. atividade legítima. alheio aos obstáculos que lhes foram impostos. Nos sistemas totalitários. Emmanuel. O livro da hospitalidade – A acolhida do estrangeiro na História e nas culturas. em especial sobre aquele que pairou sobre a sua vida. ao se encantar com a vida dos outros. MONTANDON. Porém. em um porão em serviços burocráticos. e isto seria já de por si mesmo. Nesse percurso. Entre Nós: ensaios sobre a alteridade. consegue vislumbrar as peças que faltam para o quebracabeça e pune o seu subordinado isolando-o. dedicado a ele. Petrópolis: Vozes. já que. 2011. Ao que tudo indica. Para Levinas. uma justiça que pode se concretizara a partir da relação direta com o outro. sem testemunha e apenas de posse dos relatos das escutas transcritas que não ofereciam nenhum indício de traição. São Paulo: Ed. limite máximo da punição. diariamente.Sem provas concretas. 1997. ao fazer entrega de cartas e encomendas. muitas vezes hilário. tendo como base a sua realidade própria e não a generalidade proposta pelo anonimato. Gerd Wiesler se vê livre do castigo imposto pelos seus superiores. protegendo-o. o que parece ser a recompensa suficiente para aquele que suporta o peso de ter feito justiça. o que mudou o rumo da história. mas infinitamente aquém de sua formação e competências intelectuais. Alain. Com a queda do muro de Berlin. Referências bibliográficas LÉVINAS. o Ministro é obrigado a encerrar a operação. Pode-se dizer que o seu calvário encontra termo ao se deparar com o livro de Dreyman. do sistema de espionagem mantido pelo governo Alemanha Oriental. a verdadeira justiça estaria no acolhimento do rosto e reconhecimento do outro como único. reconhecer todos os outros que estão na sua mesma situação e que são também meus próximos. Gerd Wiesler. uma injustiça. desgastado e desacreditado.