P. 1
Como Fazer Uma Pesquisa Qualitativa

Como Fazer Uma Pesquisa Qualitativa

5.0

|Views: 2.458|Likes:
Publicado porvane.noronha

More info:

Published by: vane.noronha on Jun 03, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOC, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

02/15/2013

pdf

text

original

Como fazer uma pesquisa qualitativa

Acompanhe o desenvolvimento da pesqu isa "O Orkut em minha vida".

Pesquisa qualitativa é basicamente aquela que busca entender um fenômeno específico em profundidade. Ao invés de estatísticas, regras e outras generalizações, a qualitativa trabalha com descrições, comparações e interpretações. A pesquisa qualitativa é mais participativa e, portanto, menos controlável. Os participantes da pesquisa podem direcionar o rumo da pesquisa em suas interações com o pesquisador. Compare esses dois exemplos hipotéticos de trechos de formulários de pesquisa distintos: 1. Pesquisa quantitativa Qual a sua área de atuação profissional?

2. Pesquisa qualitativa Fale sobre sua ocupação profissional :

No primeiro exemplo, a participação das pessoas é restrita a escolher uma dentre algumas opções. Se a área dela não tiver listada, terá que se contentar com um "outro...", sinal de que o seu perfil não interessa muito aos pesquisadores. No segundo exemplo, a pessoa poderá descrever melhor o que faz. Se ela atua em várias áreas ao mesmo tempo, poderá explicar. Se atua no mercado informal, poderá comentar. Pode até mesmo dizer que faz parte de um movimento social alternativo de crítica à ocupação profissional. Como resultado, o primeiro exemplo pode produzir estatísticas do tipo "42,3% dos 1.342 pesquisados atuam na área da Saúde", enquanto que o segundo produz uma série irregular de relatos pessoais que não podem ser comparados em números, mas que levam a uma compreensão mais rica do fenômeno. A pesquisa quantitativa é mais comum nas Ciências Naturais (Engenharia, Física, Matemática, etc), enquanto que a pesquisa qualitativa é mais comum nas Ciências Humanas (Antropologia, Sociologia, Comunicação Social, Psicologia, etc). Para fazer pesquisa qualitativa de qualidade, é preciso entender o Paradigma Interpretativo da Ciência. Não há espaço para discutir

isso aqui neste texto, mas deixo como referência estes

livros

sobre metodologia da pesquisa.

Usarei como exemplo a pesquisa sobre o Orkut, que encontra-se em

estágio de coleta de dados,

para ilustrar alguns pontos que

considero importantes na pesquisa qualitativa. Vale ressaltar que este relato não esgotará todas as possibilidades da pesquisa qualitativa. A partir de minhas leituras no Mestrado em Tecnologia que estou cursando, fiquei cada vez mais interessado nas mediações que o Orkut potencializa na sociedade brasileira. Jesus Martin-Barbero, um comunicólogo da linha dos Estudos Culturais explica que

a

tecnologia da comunicação e a sociedade se desenvolvem mutuamente,
um alterando o outro simultaneamente. Porém, essa

relação não é necessariamente equilibrada. Há constante conflito entre o que a mídia apresenta e o que a sociedade discute. Eu queria entender melhor essa relação, tomando como exemplo o Orkut, pois este representa uma mudança na relação das pessoas com a mídia. O Orkut permite que as pessoas sejam participantes

mais ativos da mídia do que no esquema da televisão aberta, jornal e revista. A questão que me interessa é o que as pessoas estão fazendo com essa possibilidade de participação? Desde que entrei no Orkut, há alguns anos, estou observando o comportamento das pessoas lá, inclusive o meu próprio. Volta e meia pergunto às pessoas que mantenho contato porque elas fizeram uma determinada coisa. Observo não só o que as pessoas fazem, mas o que elas dizem. Os insights mais interessantes a respeito da observação, publiquei nestes textos:
• • • • • •

Orkut é exemplo de Web viciante Identidade e subjetividade em tempos pós-modernos Design de Interação Social Falta dicas no Orkut O design do Orkut incentiva o ciúmes? Hack no Orkut

Mais delicioso do que escrever foi ler os comentários de outras pessoas. Escolhi trabalhar com formulários online devido a limitações de tempo (essa pesquisa é paralela à minha dissertação) e distância geográfica. Mesmo que trabalhasse apenas com alguns orkuteiros na cidade onde moro, poderia obter maior profundidade com

entrevistas face-a-face e

observações presenciais, mas isso

tomaria um tempo que não tenho agora. O formulário online é interessante por um lado porque aproveita a mesma mídia em que é usado o Orkut. A idéia de criar uma

comunidade sobre a pesquisa foi
uma luva ao meu interesse na

muito natural, mas caiu como comunidades

participação ativa. As

do Orkut oferecem um fórum de discussão e uma ferramenta de enquetes que podem e estão sendo usados pelos participantes para explorar questões que eu nem havia pensado. Publiquei neste blog o formulário piloto para a pesquisa usando uma ferramenta excelente chamada

Wufoo.

Tinha dúvidas se as

pessoas seriam capazes de articular respostas aprofundadas às questões que coloquei. Se o Orkut fosse uma "interface transparente" em que as pessoas interagissem entre si sem se dar conta da mediação, então minhas perguntas sobre a mediação seriam alienígenas. Fiquei muito satisfeito em confirmar o que Carlos Scolari chama a atenção em seu

livro Hacer Clic:

quando uma pessoa está usando

um artefato ela parece não prestar atenção diretamente no artefato, mas sim na atividade que ele realiza com a mediação do artefato, entretanto, a atividade é realizada dentro dos limites que o artefato impõe e a pessoa sabe disso. A maioria dos 58 participantes compartilharam reflexões relativamente profundas sobre o papel do Orkut em suas vidas.

Veja a resposta dada por um participante sobre a pergunta " Foi fácil ou difícil preencher o seu perfil? Porquê?"

No começo foi difícil. Todo mundo escrevia como se a página do perfil fosse um manual de instruções. Aos poucos foram criando comunidades para tudo qualquer coisa e seguindo o fluxo, colocava "Você descobre mais sobre mim olhando minhas comunidades" mas isso era muito vago. Até que depois de fazer um teste de personalidade, que encontrei em uma comunidade, e resolvi me descrever usando uma linguagem de programação. O problema foi quando começaram a aparecer os emos, os manos e os desconhecidos de outros estados adicionando sem mais nem menos, então o perfil acabou se tornando um manifesto pessoal contra essas pessoas e seus rótulos. Acho que só agora, 2 anos e uns meses (sim, já faz tudo isso de tempo) depois de ter criado meu perfil é que encontrei uma maneira clara e objetiva de me descrever.

Algumas pessoas responderam essa questão como se a facilidade ou dificuldade estivesse relacionada à interface do formulário:

Fácil, com perguntas simples e os campos são opcionais.

O que eu queria saber na realidade é a dificuldade ou facilidade de expressar a personalidade usando a ferramenta. Mudei o texto da pergunta para "Como foi sua experiência ao preencher seu perfil no Orkut? " Se quero deixar aberto o espaço das respostas, não posso restringir as pessoas de escolherem dentre as opções simplistas "fácil" ou "difícil". As pergunta fechadas demonstraram-se praticamente inúteis para a pesquisa . Perguntei se as pessoas queriam mais ou menos

amigos, fãs e etc e a esmagadora maioria respondeu que é indiferente. Se são indiferentes, então o número de amigos, fãs e etc para elas não é importante.

Eu esperava entender com essas perguntas a motivação das pessoas para usar o Orkut. Minha hipótese era que tais números tivessem alguma influência na motivação, mas já pude perceber que não. Desmembrei a questão da motivação em duas perguntas abertas:
• •

O que motiva você a ver o perfil das outras pessoas? Você acha divertido usar o Orkut? Porquê?

A pergunta "O que mudou na sua vida depois que você começou a usar o Orkut?" foi respondida em profundidade por poucas pessoas, talvez por ser ampla demais. Entretanto, pelas poucas respostas aprofundadas que recebi já valeu à pena.

Pontos positivos: voltei a ter contatos com pessoas que não via desde o colegial, com colegas de universidade, com amigos distantes e familiares com muito mais facilidade e rapidez.

Pontos negativos: A exposição - fofoqueiros de plantão, inclusive no trabalho, há um certo monitoramento da sua vida. Meu marido não tem orkut, embora insista para que ele faça, o que eventualmente causa ciúmes de um amigo com um perfil mais ousado. Embora eu sempre seja muito carinhosa nas minhas relações afetivas, o que se reproduz no orkut, e quem me conhece sabe bem disto. Às vezes causa mal entendidos.

Mantive essa pergunta, pois ela faz uma boa sequência com uma outra que não tinha feito no formulário piloto: "Se você pudesse mudar alguma coisa no Orkut, o que mudaria? "

Veja a relação completa de respostas no

relatório gerado pelo

Wufoo

e tire suas próprias conclusões.

Enquanto analisava as respostas ao formulário piloto, ia testando novas perguntas com amigos no MSN. O certo seria fazer mais um formulário piloto, mas o tempo impedia. Em alguns minutos pude confirmar que as alterações citadas acima estavam sendo entendidas como eu precisava e algumas perguntas novas não valiam à pena serem feitas (por ex: "Como você aprendeu a usar o Orkut? Como você aprendeu que o recado se responde no scrapbook do outro?")

Quando terminei o

formulário final,

veio aquela idéia básica de

pedir ao participante que indique outras pessoas a participar. Mas aí fiquei pensando o que motivaria alguém a deixar os emails dos amigos ali. Eu faria isso porque sou o pesquisador interessado, mas

os participantes não necessariamente. Se eles pudessem ser os pesquisadores, então teriam o mesmo empenho. Pois foi isso que fiz: o participante da pesquisa não responde apenas, mas também reflete e comenta sobre o que os seus amigos indicados respondem. Através do email e da comunidade podem se estabelecer conversas paralelas à pesquisa a respeito do assunto. Estou inspirado pelo método de pesquisa etnográfica chamado

Cultural Probes,

na qual os participantes levam máquinas

fotográficas, diários e outras ferramentas de registro para o seu dia-a-dia e vão eles mesmos fazendo o recorte da pesquisa, sem a presença de um pesquisador no local. Não sei se vai dar certo, mas vamos aproveitar para experimentar!

O

Rafael Dourado me

ajudou a programar o sistema da pesquisa

e pretende ajudar na síntese e reflexão sobre os resultados. Você também pode participar. Se você respondeu o formulário piloto, copie e cole suas respostas do

relatório do Wufoo.

Depois que

você enviar as respostas, você poderá convidar amigos por email ou por um link no seu blog. Em ambos os casos, você receberá as respostas das pessoas indicadas no seu email e poderá contribuir para a pesquisa com suas conclusões a respeito.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->