As sete palavras de Cristo na Cruz

S. Roberto Bellarmino
Tradução: Permanência

Prefácio
Observai-me, agora, pelo quarto ano, a preparar-me para a morte. Tendo-me retirado dos negócios do mundo a um lugar de repouso, entrego-me à meditação das Sagradas Escrituras, e a escrever os pensamentos que me ocorrem nas meditações, para que, se já não posso ser de utilidade pela palavra de boca, ou pela composição de volumosas obras, possa ao menos ser útil a meus irmãos por meio destes piedosos livrinhos. Enquanto refletia, então, em qual seria o tema preferível tanto para me preparar para a morte como para ajudar os outros a viver bem, ocorreu-me a Morte de Nosso Senhor, junto com o último sermão que o Redentor do mundo pregou da Cruz, como dum elevado púlpito, à raça humana. Este sermão consiste em sete curtas mas profundas sentenças, e nestas sete palavras está contido tudo o que Nosso Senhor manifestou quando disse: “Eis que vamos para Jerusalém, e será cumprido tudo o que está escrito pelos Profetas relativo ao Filho do homem” 1. Tudo o que os Profetas predisseram acerca de Cristo pode ser reduzido a quatro títulos: seus sermões à gente; sua oração ao Pai; os grandes tormentos que suportou; e as sublimes e admiráveis obras que realizou. Tudo isto se verificou de modo admirável na Vida de Cristo, pois Nosso Senhor não podia ser mais diligente ao pregar ao povo. Pregava no templo, nas sinagogas, nos campos, nos desertos, nas casas, e, mais ainda, pregava até dum barco à gente que estava na margem. Era costume seu passar noites em oração a Deus, pois assim diz o Evangelista: “e estava passando toda a noite em oração a Deus” 2. Suas admiráveis obras, ao expulsar demônios, curar doentes, multiplicar pães, aplacar as tormentas, lerse-ão em cada página dos Evangelhos 3. Ainda assim, foram muitas as injúrias que se acumularam sobre Ele, como resposta ao bem que fizera. Consistiam tais injúrias não só em palavras insolentes mas também em lapidá-lo4 e despenhá-lo5. Em uma palavra, todas estas coisas verdadeiramente se consumaram na Cruz. Sua pregação da Cruz foi tão poderosa, que “toda a multidão [...] retirava-se, batendo no peito” 6, e não só os corações humanos mas até as rochas se fizeram em pedaços. Ele orou

na Cruz, como diz o Apóstolo, “com grandes brados e com lágrimas, preces e súplicas”, sendo, assim, “atendido pela sua reverência” 7. Sofreu tanto na Cruz, em comparação com o que sofrera no restante de sua vida, que o sofrimento parece pertencer somente à sua Paixão. Finalmente, nunca operou maiores sinais e prodígios do que quando, na Cruz, parecia reduzido à maior fragilidade e fraqueza. Então não só manifestou sinais do céu, que os judeus tinham pedido até ao fastio, senão que, um pouco depois, manifestou o maior de todos os sinais. Pois que, depois de estar morto e enterrado, se levantou dentre os mortos por sua própria força, chamando seu Corpo à vida, e a uma vida imortal. Verdadeiramente então poderemos dizer que na Cruz se consumou tudo quanto estava escrito pelos Profetas com relação ao Filho do homem. Mas, antes de começar a escrever acerca das palavras que Nosso Senhor pronunciou da Cruz, parece apropriado dizer algo da Cruz mesma, que foi o púlpito do Pregador, o altar do Sacerdote Vítima, o campo do Combatente, ou a oficina d’O que opera maravilhas. Os antigos estavam de acordo em dizer que a Cruz era feita de três pedaços de madeira: um vertical, ao longo do qual se punha o corpo do crucificado; um horizontal, a que se prendiam as mãos; e o terceiro, que se unia à parte baixa da cruz, e sobre o qual descansavam os pés do acusado, mas presos por meio de cravos para lhes impedir o movimento. Concordam com esta opinião os antigos Padres da Igreja, como São Justino8 e Santo Irineu9. Mais ainda, estes autores indicam claramente que ambos os pés descansavam na tábua, e não que um pé estava colocado em cima do outro. Segue-se, portanto, que Cristo foi pregado à Cruz com quatro cravos, e não com três, como muitos imaginam, os quais nas pinturas representam Cristo, Nosso Senhor, pregado à Cruz com um pé sobre o outro. Gregório de Túrones10 diz claramente o contrário, e confirma sua opinião apelando para antigas gravuras. Eu, de minha parte, vi na Livraria Real, em Paris, alguns manuscritos muito antigos dos Evangelhos, os quais continham muitas gravuras de Cristo Crucificado e o representavam, todos, com quatro cravos. Santo Agostinho11 e São Gregório de Nissa12 dizem que o madeiro vertical da Cruz se projetava um pouco do madeiro horizontal. Parece que o Apóstolo insinua o mesmo, já que na Carta aos Efésios escreve São Paulo: “[para que] possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” 13. Isto é claramente uma descrição da figura da Cruz, que tinha quatro dimensões: largura na parte horizontal, comprimento na parte vertical, altura na parte que sobressaía e se

projetava da parte horizontal, e profundidade na parte que estava fincada na terra. Nosso Senhor não padeceu os tormentos da Cruz por casualidade, ou contra a sua vontade, pois Ele escolhera este tipo de morte desde toda a eternidade, como ensina Santo Agostinho 14 pelo testemunho do Apóstolo: “[A Jesus Nazareno, depois de Ele,] por determinado conselho e presciência de Deus, vos ser entregue, crucificando-o por mãos de iníquos, vós o matastes” 15. E assim Cristo, já no princípio de sua pregação, disse a Nicodemo: “E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do homem, a fim de que todo o que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna” 16. Muitas vezes falou aos Apóstolos acerca de sua Cruz, estimulando-os a imitar a Ele: “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” 17. Só Nosso Senhor sabe a razão que o levou a escolher este tipo de morte. Os santos Padres, todavia, pensaram em algumas razões místicas, e deixaramnas para nós em seus escritos. Santo Irineu, no trabalho a que já nos referimos, diz que as palavras “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus” foram escritas naquela parte da Cruz onde ambos os braços se encontram para nos dar a entender que as duas nações, Judeus e Gentios, que até então se tinham rechaçado mutuamente, depois foram unidas em um só corpo sob uma só Cabeça: Cristo. São Gregório de Nissa, em seu sermão acerca da Ressurreição, diz que a parte da Cruz que olhava para o céu manifesta que o céu se há de abrir pela Cruz como por uma chave; que a parte que estava fincada na terra manifesta que o inferno foi despojado por Cristo quando Nosso Senhor desceu até ele; e que os dois braços da Cruz que se estendiam para o leste e o oeste manifestam a regeneração do mundo inteiro pelo Sangue de Cristo. São Jerônimo, na Epístola aos Efésios, Santo Agostinho 18, na Epístola a Honorato, São Bernardo, no quinto livro da obra Acerca da Consideração, ensinam que o mistério principal da Cruz foi levemente tocado pelo Apóstolo nas palavras “qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” 19. O significado primário destas palavras aponta para os atributos de Deus: a altura significa seu poder, a profundidade sua sabedoria, a largura sua bondade, o comprimento sua eternidade. Fazem referência também às virtudes de Cristo em sua Paixão: a largura sua caridade, o comprimento sua paciência, a altura sua obediência, a profundidade sua humildade. Significam, mais ainda, as virtudes necessárias àqueles que são salvos por meio de Cristo. A profundidade da Cruz significa a fé, a altura a esperança, a largura a caridade, o comprimento a perseverança. Disto deduzimos que só a caridade, a rainha das virtudes, encontra espaço em qualquer lugar, em Deus, em Cristo, e em nós. Das outras virtudes, algumas são próprias de Deus, outras de Cristo, e outras de nós. Em conseqüência,

Em Dial. 9. Mc 4. Começaremos.Lc 4. Consideraremos depois este eclipse do sol. 17. 4. 19.Lc 18.. Valent. 20. 6. 7. haeres. 120. Jn 6.31. 1.Serm. 5. 6. 9. de Gloria Martyr. que agora vamos explicar. e por fim chegaremos à explicação de todas as demais palavras de Nosso Senhor. v. quando a escuridão estava desaparecendo e a Morte de Cristo estava próxima.Jo 3. 10. 120. 18. liv. 11.Epist. portanto. 16. 20. 14. antes que o sol se escurecesse e as trevas cobrissem a terra. 4. 8. 3. Lc 6. 11.Lc 23. 18. 19.não é de maravilhar que em suas últimas palavras da Cruz. 1.Epist.Mt 8. 15. cum Thyphon. 8. 10.14-15. c. 13.12. por explicar as primeiras três palavras. 12.Advers.Epist i. 14. Cristo tenha dado o primeiro lugar a palavras de caridade.Ef 3. 2. 15.23.Lc 6. vi. i “De Ressur.48. que foram ditas por volta da hora nona20.Ef 3.Mt 27. 17.Hb 5.Atos 2.18. 16. 12.24.Jo 8.18. . 5. 7. 2. ditas por Cristo à hora sexta. 3.Mt 16.” 13.7.Lib.

porque não sabem o que fazem" Cristo Jesus. Razão por que escreveu o Evangelista: “E Jesus dizia” 6. para realizar a tarefa que assumira. três por seu próprio bem.Capítulo 1 Explicação literal da Primeira Palavra "Pai. perdoa-lhes. Pois bem. mais necessitamos é amar nossos inimigos. ao passo que Ele. é que a primeira demanda da caridade é socorrer aqueles que estão necessitados. . porque não sabem o que fazem” 3. Pensou em si mesmo ao final. a primeira foi para seus inimigos. porém. onde a palavra “e” manifesta o tempo e a ocasião desta oração por seus inimigos. discípulos de tão grande Mestre. nunca deixou de nos instruir. e o de que nós. E as petições de Nosso Senhor na Cruz provam quão verdadeiramente falou o Apóstolo São Paulo quando disse: “a caridade [. a razão por que orou. para ser aí preservadas. conquanto nova e nunca antes ouvida. Sua primeira palavra é esta: “E Jesus dizia: Pai. a segunda para seus amigos. cresce com os anos e muitas vezes predomina mais do que deveria. ao passo que o amor a nossos amigos e parentes é fácil e natural. perdoa-lhes. e em sua mesma presença estavam repartindo sua túnica entre si.] não busca os seus próprios interesses” 5. virtude que sabemos muito difícil de obter e que raramente encontramos. das sete palavras que pronunciou nosso Redentor. e a terceira para seus parentes. de suma utilidade e eficácia.. Sua atenção. Suas obras e as obras deles. o Verbo do Pai Eterno. de quem o mesmo Pai dissera: “Ouvio” 1. e realizadas literalmente e em obra. quis o Espírito Santo fosse predita pelo Profeta Isaías nestas palavras: “e pelos transgressores fez intercessão” 4. mas ardentes de amor. zombavam-no e difamavam como embusteiro e mentiroso. do púlpito da Cruz. e em todo o sentido dignas de ser gravadas no coração de qualquer cristão. e põe em contraste as palavras do Sofrente e as palavras dos verdugos. foi primeiro para os demais. meditadas. Das três primeiras palavras que Ele disse. três foram pelo bem dos demais. pois. e aqueles que estavam mais necessitados de socorro espiritual eram seus inimigos. pregounos poucas palavras. Não somente durante sua vida. como se o Evangelista quisesse explicar-se melhor desta maneira: estavam crucificando o Senhor. então.. Prece que. e que dissera de si mesmo: “Porque um só é o vosso Mestre” 2. mas até nos braços da morte. e uma foi comum tanto para Ele como para nós.

como quis Ele evitar a cólera de Deus. que. ainda assim a aplicação deste castigo foi posposta por quarenta anos. Deus mandou contra eles o exército romano. mas. Lembra-te também de que és seu Pai. “Perdoa”. período durante o qual. Esta palavra contém a petição principal que o Filho de Deus. que sabia provocada pelos enormes crimes. Mas a razão por que a graça da conversão não foi outorgada a todos é que a vontade de Cristo se conforma à sabedoria e à vontade de Deus. E houve muitos que algumas semanas depois se converteram pela pregação dos Apóstolos. e confessaram Aquele que tinham negado. adoraram Aquele que tinham desprezado. quando chorou pela cidade no Domingo de Ramos. enquanto os sobreviventes eram vendidos como escravos e dispersos pelo mundo. pagou com bem o mal. do rei que fez uma boda para seu filho. destruiu suas metrópoles e. um amor de Pai. Todas estas desgraças foram preditas por Nosso Senhor nas parábolas do vinhateiro que contratou obreiros para sua vinha. perdoa-lhes por Mim. e. Faz Tu o mesmo. mais claramente. em meio de todos os meus tormentos. Mostra-lhes. parte de fome durante o sítio. estende Teu perdão a eles. Conquanto não o mereçam. ou exterminados pela fome e pela espada. Houve o centurião que disse “Na verdade este era filho de Deus” 8. se o povo judeu tivesse feito penitência. parte pela espada durante o saque da cidade. Teu Filho. durante o reino de Vespasiano. Houve alguns que “retiravam-se. A palavra “perdoa” pode referir-se tanto ao castigo devido ao crime como ao crime mesmo. Teu Filho. e sofrendo as mais agudas dores nas mãos e nos pés. como advogado de seus inimigos. fazendo-os à Tua imagem e semelhança. A palavra Pai parece conter em si mesma este pedido: Eu. pois. são porém filhos Teus. A oração de Nosso Senhor foi também escutada se é que fazia referência ao crime dos judeus. foi então a oração escutada: pois. teria sido salvo e sua cidade.vendo o que estavam fazendo. e. Chama-Lhe “Pai”. usa o terno nome de Pai. conquanto sejam maus. escutando o que estavam dizendo. Se está referida ao castigo devido ao crime. portanto. pois obteve para muitos a graça da compunção e da reforma da vida. faz a Seu Pai. dado que não fizeram penitência. da figueira estéril. que São Lucas manifesta quando . perdoa-lhes”. porque quis que Ele exercesse a benignidade do Pai e não a severidade de um Juiz. já que este pecado dos judeus demandava que seus perpetradores sentissem instantânea e merecidamente a ira de Deus. batendo no peito” 7. e orou: “Pai. pois os criaste. os perdoei. não Deus ou Senhor. Pai Meu. preservada. matou grande multidão de seus habitantes. sendo consumidos por fogo do céu ou afogados num segundo dilúvio.

portanto. Ele orou por ti a Seu Pai. E assim. Que retribuição. e. farás ao Senhor por tudo o que fez por ti. ou a crueldade dos soldados. de sua Cruz. e repartiram seus vestidos lançando sortes. ter em conta tão doce Protetor.] Seja crucificado” 10. se assim o posso dizer. Cristo. Pode ser também estendida a todos os que foram causa da Paixão de Nosso Senhor: a Pilatos. para ir mais longe. nunca teriam crucificado o Senhor da glória” 12. nosso Sumo Sacerdote. Não te importa. para que não carregasse sobre ti a falta cometida por ignorância. Cristo diminui-se. aos sumos sacerdotes e escribas que falsamente o acusaram.. às pessoas que gritaram: “Seja crucificado. Para que sua oração seja razoável. Pilatos o sabia um homem justo e santo. fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” 11. fez uma comemoração para todos nós. não restou a Ele mais que desculpar-lhes a falta alegando ignorância. “Perdoai-Lhes”. que fora entregue pela inveja dos sumos sacerdotes. Portanto. Ainda assim. Em primeiro lugar é aplicada àqueles que realmente pregaram Cristo na Cruz. Nosso Senhor orou pelo perdão de todos os seus inimigos. naquele sacratíssimo “Memento”. ó alma minha. e. ainda antes de que fosses? Nosso amado Senhor viu que tu também algum dia estarias nas fileiras de Seus inimigos. ao primeiro homem e a toda a sua descendência. se reconhecerá a si mesmo entre os inimigos de Cristo. porém. porque . ou. Ele certamente não podia desculpar a injustiça de Pilatos. [. mais ainda.nos diz nos Atos dos Apóstolos: “E creram todos os que eram predestinados para a vida eterna” 9. nem o povo sabiam que Cristo era o Senhor da Glória. que Ele fez no primeiro Sacrifício da Missa que celebrou no altar da Cruz. Nem Pilatos. e fazer todo o esforço por servi-Lo fielmente em tudo? Não é justo que com tal exemplo diante de ti aprendas não só a perdoar a teus inimigos com facilidade. ou o falso testemunho daqueles que perjuraram. e a orar por eles. nem os sumos sacerdotes. e os sumos sacerdotes sabiam que Ele era o Cristo prometido. Então. com a condição de que Aquele que me deu tão brilhante exemplo me dê também em sua bondade a ajuda suficiente para realizar tão grande obra.. Esta palavra é aplicada a todos por cujo perdão Cristo orou. Pois não sabem o que fazem. nem o tivesses buscado. como ensina Santo Tomás. e isto desejo e tenho o propósito de fazer. conquanto não o tivesses pedido. de acordo com as palavras do Apóstolo: “sendo nós inimigos. até antes de nosso nascimento. mas até a atrair quantos possas a fazer o mesmo? É justo. que pronunciou a sentença. Cada um. que por seus pecados ocasionaram a morte de Cristo. Pois com verdade o Apóstolo observa: “porque. dá a desculpa que possa pelos pecados de seus inimigos. se a tivessem conhecido. ou a ingratidão da gente.

e por esta razão aqueles que escolhem o que é mau o fazem porque o objeto lhes é apresentado sob aparência de bem. e simplesmente realizaram o labor do . porque é voluntária. Mas. Da mesma maneira. senão que o acompanha. o que não é porém desculpa para seu pecado. mas sim só ao que é bom. Enfim. não precedendo. Razão por que o Homem Sábio diz: “Os que praticam o mal erram” 16. é similar a um homem que deseja lançar-se a um rio de um lugar elevado. e assim pode então ser escolhido. aqueles que pecam na malícia de seus corações sempre podem alegar ignorância. que provavelmente ignoravam de todo não só a Divindade do Senhor mas até sua inocência. por que então Nosso Senhor orou: “Perdoa-lhes. não criam nele. portanto. acompanhando. Pois ninguém pode desejar aquilo que é mau com base em sua maldade.] Obcecou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração para que não vejam com os olhos e não entendam com o coração. De acordo com as palavras de São João: “E. Primeiro fecha os olhos e depois se lança de cabeça. aquele que faz um ato de maldade odeia a luz. de igual modo. e eu não os sare” 15. porque a vontade do homem não tende para o mal tanto como para o bem. se uma voluntária ignorância não desculpa o pecador. tendo ele feito tantos milagres em sua presença. porque é voluntária. Um pecador.. e não o faria se suas paixões não o cegassem até ou à vergonhosa infâmia do primeiro e à injustiça do segundo.. tanto o povo como os sacerdotes. e “Eu sou inocente do sangue deste justo” 14. Isto é resultado do desassossego da parte inferior da alma. ainda assim não teriam permanecido neste estado de ignorância se sua malícia não os tivesse cegado. que cega a razão e a torna incapaz de distinguir nada que não seja bom no objeto que busca. assim. pois Pilatos publicamente lhe dissera: “não encontrei nele culpa alguma” 13. pois não o precede. Mas. O filósofo. proclama com verdade que todo o que faz mal é ignorante do que faz. A cegueira não é desculpa para um homem cego. para se cumprir a palavra do profeta Isaías. porque não sabem o que fazem”? A isto respondo que a interpretação mais direta por fazer das palavras de Nosso Senhor é que foram ditas para seus verdugos. o mal que faz. e não se convertam. conquanto os judeus. quando disse: [. o homem que comete adultério ou é culpado de roubo realiza estes crimes porque olha só o prazer ou o ganho que pode obter. e atua sob uma voluntária ignorância que não o desculpa. não soubessem o fato de que Cristo era Senhor da Glória. e por conseguinte se pode dizer dos pecadores em geral: “Não sabem o que fazem”. a gente sabia que Cristo tinha sido condenado injustamente. Assim.não podiam — nem o fizeram — negar que tinha operado muitos dos milagres que os profetas tinham predito que o Messias operaria.

então disse com muita verdade o Senhor: “não sabem o que fazem”.Lc 23. 4. e o deicídio dos judeus teria tido caráter mais atroz se conhecessem a natureza de sua Vítima. perdoa-lhes. portanto.Jo 12. então devemos confessar a caridade de Cristo.Mt 27. Uma vez mais.34. 13. 11. que é tal. 8. mas antes uma sombra de desculpa. .34. Finalmente.Mt 27. Se a ignorância não pode justificar uma falta. 1. 16.5. para mostrar-nos quanta bondade sente com relação ao pecador. e com quanto desejo teria Ele usado uma melhor defesa. pode porém servir como desculpa parcial.23.Mt 23.Is 53.12. disse em verdade o Senhor: “Pai.Atos 13. 9. 7. 14. 6. 8. 2.37-40. 12. 10. se Ele se dirigiu ao Pai em nome de todos os que estavam presentes e sabiam que Cristo era o Messias e um homem inocente.10.24.Lc 23.22.Mt 27. até para Caifás e Pilatos. 16.Prov 13.Mt 17.Lc 23. 14.1Cor 13. Conquanto Nosso Senhor fosse consciente de que tal não era uma desculpa. 13.1Cor 2.48. 5.10.5.verdugo. que ainda não tínhamos nascido. que deseja atenuar o mais possível o pecado de seus inimigos. 6. porque não sabem o que fazem”.Rom 5.48. 1. 11. 12. 3. 9. Para eles. 5. 2. em verdade.54.Lc 23. 7. 4. se uma melhor e mais razoável apologia se tivesse apresentado.14. 15. apresentou-a com insistência.8. se a oração de Nosso Senhor há de ser interpretada como aplicável a nós mesmos. 10. ou àquela multidão de pecadores que eram seus contemporâneos mas que não tinham conhecimento do que estava sucedendo em Jerusalém. 15. 3.

Pois nesta passagem o Apóstolo nos informa. seus parentes. nossa próxima tarefa será esforçarmo-nos para recolher alguns de seus frutos mais preferíveis e vantajosos. ó caridade. usou seu diadema de espinhos. e. aumentando por seu peso as feridas nos pés e mãos. como se não sofresse. e não seus inimigos. exposto ignominiosamente à vista do vulgo. Seu corpo estava desnudo. Pois quando sofremos qualquer dor forte. em sua obra acerca de São Mateus. perdoa-lhes”. e portanto se segue que Ele não podia mover a cabeça para trás nem movê-la de um lado para o outro sem dor adicional. clamou fortemente a seu Pai: “Pai. e. que arde com fulgor mais brilhante que o que possamos conhecer ou imaginar. ou se tivessem sido seus amigos. que se torna incapaz de qualquer esforço. pelo mistério da Cruz. numa bárbara e contínua agonia. O que mais nos impressiona na primeira parte do sermão de Cristo na Cruz é sua ardente caridade. não estando solícito senão à salvação de seus inimigos. ou uma dor nos olhos. ou em qualquer outro membro do corpo. quando Cristo foi pregado na Cruz. nossa mente está tão atada a isto. Toscos cravos lhe sujeitavam as mãos e pés. seus traidores e parricidas? Verdadeiramente. Ele não pensou em seus tormentos. desgastado pelo cruel flagelo e pelo intenso ir-e-vir. Todas estas coisas combinadas foram origem de muito sofrimento. pela maneira como lhe dilaceravam a carne. Não obstante. Que teria feito Ele se esses infelizes fossem as vítimas de uma perseguição injusta. já que se estende para além da capacidade de nosso limitado intelecto. Mas. e por Orígenes. por Tertuliano. Observo vosso coração no meio de tal tormento de injúrias e sofrimentos. ou seus filhos.Capítulo 2 O primeiro fruto que se há de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz Tendo dado o significado literal da primeira palavra dita por Nosso Senhor na Cruz. em seu livro contra os judeus. entre os Padres gregos. como está claramente expresso nos escritos dos antigos Padres. como se fossem outras tantas cruzes. ó benigníssimo Jesus! vossa caridade ultrapassa nosso entendimento. que excede toda a ciência” 1. verdadeiramente a ultrapassar nosso entendimento. como uma dor de dente. ocasionavam doloroso e longo tormento. de acordo com o que escreveu São Paulo aos Efésios: “e conhecer também aquele amor de Cristo. Então não estamos com humor para receber os amigos nem para continuar com o trabalho. entre os Padres latinos. como uma rocha no meio do . como a caridade de Cristo ultrapassa nosso entendimento. ou uma dor de cabeça. desejando cobrir-lhes a pena dos crimes.

nem os rios terão força para o submergir” 2. não pode extinguir o fogo da caridade que ardeu no peito de Cristo. que possuiu o coração de Santo Estêvão. com freqüência. Ainda assim. mas como um Pai que trata com os extraviados filhos. Pois vedes que vossos inimigos não estão satisfeitos com infligir ferimentos mortais a Vosso Corpo. digo eu. blasfemos. As muitas águas são os muitos sofrimentos que nossas misérias espirituais. os quais representavam as paixões obscuras de nosso coração. e do Espírito Santo. mas os compadeceis. todavia. o teria expulsado do céu. E não só foram estas muitas águas incapazes de extinguir a caridade de Cristo. Mas da consideração da Humanidade de Cristo ascendamos à consideração de Sua Divindade. no dia último. e aqueles que se enrolam no estandarte do . visíveis e invisíveis. Vós não estais aborrecido com eles. e uivar triunfalmente com os maus tratos. estar de bem com todos os homens. Assim. que um mar de sofrimento não poderá apagar a chama da caridade. e resplandeceu brilhantemente em sua oração: “Pai. se tivesse sido capaz. não como um inimigo que mede o adversário. senão que têm de escarnecervos a paciência. pregado a uma cruz. Quem pode conceber a caridade que Deus tem para com tão ingratas e malvadas criaturas? Deus não poupou os anjos quando pecaram. Isto é o que é cantado no Cântico do amor acerca da virtude da perfeita caridade: “As muitas águas não puderam extinguir o amor. e vivendo pacificamente com aqueles que odeiam a paz. Por isso a caridade de Cristo foi maior que tal transbordamento de muitas águas. Este é o efeito da verdadeira caridade. a caridade de Cristo. não considerando nenhum como inimigo. nem lhes deu tempo para arrepender-se. Enfim. também nem sequer depois de anos puderam as tormentas da perseguição sobrepujar a caridade dos membros de Cristo. que fora culpada de atos de inimizade para com seu Criador. não podia ser esmagada pelas pedras com que foi martirizado. perdoalhes”. que se pode dizer com verdade. de dores. que foi propagada nos corações de mártires e confessores. como um médico que escuta os desvarios de um paciente que delira. como tormentas do inferno. Estava viva então. e assassinado. suporta pacientemente o homem pecador.oceano que permanece imutável e pacífica. E os olhais. não lhes imputes este pecado” 3. para que Ele os cure e os deixe inteiros. até o fim do mundo. e os confiais ao cuidado de Vosso Pai Todo-poderoso. e do Pai. ainda que as ondas choquem furiosamente contra ela. infligem a Cristo através dos judeus e dos gentios. esta inundação de águas. combateu tão tenazmente os ataques de perseguidores. e que. mas maior foi a caridade de Cristo como Deus. a perfeita e invencível caridade de Cristo. Grande foi a caridade de Cristo como homem para com seus verdugos. para com toda a humanidade. quer dizer. e ele orou: “Senhor.

Deus esperou pacientemente o progresso que teriam os Apóstolos por sua pregação na conversão do mundo. os inimigos de sua Divina Majestade. mostra seu amor a seu inimigo com a intenção de fazê-lo amigo seu. e Deus inspirou a este Mediador pagar o mal com o bem orando por seus perseguidores. os anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas. porque “n’Ele vivemos. como torna a dizer adiante. Portanto. “Príncipe da Paz’9. em verdade. mas tenha vida eterna” 12 — ultrapassa todo e qualquer conhecimento. E. e deu o primeiro passo para a paz. e os eleva a tronos temporais. dando seu Filho. não nos ocupando aqui de várias características da caridade que Deus sente pelos homens malvados. São Tiago escreve: “Portanto. todo aquele que quiser ser amigo deste século constituise inimigo de Deus” e “a amizade deste mundo é inimiga de Deus” 8. portanto.demônio. ao amar este mundo. para que por seu intermédio o mundo possa ser reconciliado com Deus. não há nele o amor do Pai” 7. Assim. extermina-os o juízo final de Deus. cada uma das quais requereria um volume se as tratássemos singularmente. seu inimigo. como Nosso Senhor nos diz no Evangelho segundo São Lucas. enquanto lhes aguarda pacientemente o regresso da senda da iniqüidade e perdição. e paz na terra” 10. Deus. desta primeira palavra de Cristo aprendemos. O mundo é o inimigo de Deus. que a caridade de Deus Pai — que “amou de tal modo o mundo. e nos movemos. Tampouco nosso Bom Senhor meramente alimenta e cria. ao nascer Cristo. que lhe deu seu Filho Unigênito”? 5. . dando-lhes talentos. E. Àqueles que não se tiverem arrependido após tão paciente tolerância. Orou e “foi atendido pela sua reverência” 11. senão que amiúde acumula seus favores sobre eles. e existimos” 4. como nos diz São João. e até os alenta e sustém. alenta e sustém seus inimigos. acresceu sua culpa. Tampouco preserva somente o justo e bom. Seu inimigo. porque “todo o mundo está sob o [jugo do espírito] maligno” 6. Aqueles que tiverem feito penitência têm o perdão. como diz o Apóstolo. mas igualmente o homem ingrato e malvado. O mundo não recebeu Cristo. rebelou-se diante do único Mediador. Pois “Deus amou de tal modo o mundo. limitar-nos-emos agora àquela singular bondade de Cristo que estamos tratando. que pode trazer a reconciliação sofrendo a pena devida a seu inimigo. Deus amou o mundo. que lhe deu seu Filho Unigênito. Por isso. para que todo o que crê n’Ele não pereça. Com este propósito enviou seu Filho. tornando-os honrosos. e não só os suporta mas também os alimenta e cria. “se alguém ama o mundo.

Jo 3. 12.28. 3. 9. 8.Jo 3. 7.16.15. 2. 2. 5. 9.4. 6. 10.16.14.Tg 4.Lc 2. 5.6. 1.Atos 17.19. 4.7. . 11. 8. 11.Atos 7.Cant 8.7.Hb 5. 6.Is 2. 10.1Jo 2. 3.1.Ef 3. 7. 12.59.19.1Jo 5. 4.

O exemplo de Cristo e da Santíssima Trindade há de ser um poderoso argumento para nisto nos persuadirmos. Tal argumento é falso. Ninguém pode achar falta em um homem que se defende por uma causa . atacam de forma selvagem seus inimigos quando os vêem. que apenas seguem o instinto natural. rezou por eles com as palavras de Nosso Senhor: "Pai. e assim forçassem seus inimigos a converterem-se em amigos. Não faz distinção entre a defesa própria. e os subjugam com garras e dentes. espera seu arrependimento. e quão facilmente alcançariam graus notáveis de honra e glória pelo domínio das várias agitações de suas almas e desprezo magnânimo dos pequenos e triviais insultos.Capítulo 3 O segundo fruto que se há de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz Se os homens aprendessem a perdoar sem murmurações as injúrias que recebem. e o espírito de vingança. tiraríamos uma segunda e muito salutar lição da meditação da primeira palavra. que é inválido. que razão pode ser alegada para que um cristão não atue de modo semelhante com seus inimigos? Se Deus. Objeta-se que agiriam contrariamente à natureza caso se permitissem ser injustamente rechaçados com desprezo ou ultrajados por obra ou palavra: se os animais selvagens. na hora de sua morte. sentimos o sangue a ferver e o desejo de vingança aflorar. especialmente se recordamos que o perdão de uma ofensa obtém grande recompensa? Lemos na história de São Egelberto. nosso Criador. certamente não seriam tão duros de coração e tão obstinados contra o indulto e o perdão. Perdoalhes". se os cristão aprendessem quão facilmente poderiam obter tesouros inesgotáveis. se apenas o quisessem. Ó. onde recebeu a coroa e a palma do martírio. assassinado por alguns inimigos que o estavam esperando. que é válida. e foi revelado que este gesto foi tão agradável a Deus. e posta no meio do coro dos mártires. que sua alma foi levada ao céu pelas mãos dos anjos. Arcebispo de Colônia. e o convida à paz e à reconciliação com a promessa de perdoar as traições feitas à Divina Majestade. por que uma criatura não poderia imitar esta conduta. o Senhor e Juiz de todos os homens. que. também nós. o qual tem o poder de vingar-se imediatamente do pecador. Pois se Cristo perdoou e rezou por seus verdugos. à vista de nosso inimigo. e sua sepultura tornou-se famosa por realizar muitos milagres.

comum tanto à raça humana como à criação selvagem. são boas. Ninguém nos impede tomar as precauções necessárias para nos preparamos contra um ataque. e o vício ou o pecado que é mau e não procede de Deus. Quanto ao argumento de que um animal é levado por sua própria natureza a atacar o animal inimigo de sua espécie. Cristo. que deu esta lei para guia de seus seguidores. ao contrário. Objeta-se que isto é uma prova demasiado difícil e severa para homens de nascimento nobre. A tarefa é fácil. assim como um médico que ama seus pacientes e lhes prescreve com o devido cuidado. estendendo a eles atos de bondade. Ele praticou o que ensinou ao rezar por seus inimigos. No entanto. criadas por Deus. porque não sabem o que fazem". que. Da mesma maneira. nosso Mestre. ao passo que os homens espirituais não estão sujeitos a estes movimentos da carne. destruí-la. que amava: "Pai. deve amar a pessoa de seu inimigo e odiar o insulto. mas não praticavam o que ensinavam. E assim. Ele clama e diz: "A mim me pertence a vingança. hão de traçar uma linha entre a natureza ou a pessoa. se parecem difíceis e severos. a razão pela qual a visão de um inimigo faz que em algumas pessoas o sangue ferva em suas veias. pois sabem como mantê-los controlados. não é assim. e. sob o domínio da razão.justa. e deve antes se compadecer dele que se perturbar com ele. que são dotados de razão. os quais devem ser zelosos de sua honra. mas ao magistrado público. O castigo de uma injustiça pertence não ao indivíduo privado. como afirma São João. mas que odeia a enfermidade e luta com todos os recursos a sua disposição para afugentá-la. como testemunha o Evangelista. quando um homem for insultado. Quando subiu ao púlpito da Cruz. é esta: são animais que não aprenderam a trazer as moções da parte inferior da alma. Cristo Nosso Senhor. e sua carga ligeira"3. "o jugo" de Cristo. eu retribuirei" 1. "é suave. Porém. mas a lei de Deus nos proíbe que sejamos vingativos. se compadecem. e não se turbam com aqueles que os injuriaram. e orai pelos que vos perseguem e caluniam" 2. torná-la inofensiva. ensina quando diz: "Amai os vossos inimigos. pois. e. por isso que Deus é o Rei dos reis. respondo que isto é o resultado de serem animais irracionais. E isto é o que o Mestre e Doutor de nossas almas. e seus “mandamentos não são custosos” 4. e a natureza nos ensina a rechaçar a força com a força — mas não nos ensina a vingar-nos nós mesmos uma injúria que tivermos recebido. parecem também pelo pouco ou . senão que. fazei bem aos que vos odeiam. Mas os homens. Perdoalhes. se esforçam por levarlhes a paz e a unidade. que não podem distinguir entre a natureza e o que é vicioso na natureza. não é como os Escribas e Fariseus que se sentavam na cátedra de Moisés e ensinavam.

no momento em que era objeto de escárnios. somos difamados e rogamos"7 . e tenha me acalmado após o primeiro arrebatamento de indignação. que por muito tempo procurou matá-lo. aí haverá pranto e ranger de dentes. e seu corpo inteiro era presa de torturas dolorosas. Ele é o verdadeiro e único Mestre. clamou no céu no momento de sua morte: "Senhor. cuja voz a devem escutar todos que não serão guiados ao erro: a Ele se referiu o Pai Eterno quando uma voz se ouviu do céu dizendo: "Ouviu-o". e lançai-o nas trevas exteriores. não o matou. mas escolherei o tempo que me apraze fazê-lo. Por acaso não se assombrariam enquanto Nosso Senhor pronuncia sua sentença: "Atai-o de pés e mãos. Se pudesses perguntar a opinião de Salomão sobre qualquer assunto. porque não sabem o que fazem". e fossem encontrados sem o traje da caridade. pois nada é difícil para aquele que ama. Continuo ainda a ouvir objeções. E na Sagrada Escritura lemos como Davi. não lhes impute este pecado" 6. "Pai. tenha quase esquecida a injustiça que me foi feita. não tendo a veste nupcial?" 8. tudo sofre"5." 9. tudo crê. Nele estão "todos os tesouros da sabedoria e da ciência" de Deus 10. Mas pode haver alguns que continuem argumentando: não nego que devemos perdoar nossos inimigos. a todos superou — pois o Santo Patriarca José amou com amor especial a seus irmãos que o haviam vendido à escravidão. a maldição com a benção. perseguem-nos e o sofremos. Este resultado não se dará. Age melhor e com prudência agora. E sob a lei da graça. logo após o exemplo de Cristo. o proto-mártir Santo Estevão imitou o exemplo de Cristo ao fazer esta oração enquanto o apedrejavam à morte: "Senhor. resignou-se com as perseguições de seu inimigo Saul. perdoa-lhes". que rezou a seu Pai. mas "aqui está quem é mais que Salomão" 11. pois de ordinário. os infames se tornarão aprumados. quando o sangue caía gota a gota de seus pés e mãos. Mas. e imita a conduta de Cristo. poderias com segurança ter seguido seu conselho. é benigna. em verdade. quando. Nem foi Cristo o único que amou a seus inimigos — ainda que. perdoa-lhes. não encontraram nenhuma dificuldade em cumprir este mandamento. tudo desculpa. Bispo de Jerusalém. muitos mártires e inumeráveis outros. como disse o Apóstolo: "A caridade é paciente. Se decidimos retribuir o mal com o bem. na perfeição com a qual praticou a virtude. os maus se tornarão insolentes. quando pôde Davi tirar a vida de Saul. os justos serão oprimidos. que foi lançado de cabeça desde o cume do templo. quais seriam os pensamentos destes se fossem então chamados a prestar as contas finais. . com muita paciência. tudo espera. e que. E São Paulo escreve de si mesmo e de seus companheiros apóstolos: "amaldiçoam-nos e bendizemos. E Santiago Apóstolo. Enfim.nenhum amor que temos por Deus. o insulto com a bondade. e fossem perguntados: "como entraste aqui. e a virtude calcada sob seus pés.

conduzam estes à exaltação e honra. reis e príncipes. é como um homem que corta uma parte dos seus pés para calçar sapatos menores. o faz. passemos revista aos muitos e grandes inconvenientes que sofrem aqueles homens que. está continuamente nos observando e. um mal maior não há de ser cometido para que se possa obter alguma compensação por um menor. cuidando para que as ocasiões em que os malvados crêem que humilharão os virtuosos. de um modo imprevisível. Em primeiro lugar. Segue-se que. estiveste furioso com o mártir. estão obstinados a se vingar daqueles que lhes fizeram qualquer mal. se até seus instrumentos de tortura foram tomados em triunfo?". por conseqüência. pois que trouxe mais reputação e glória ao patriarca José que a perseguição de seus irmãos? O ter sido vendido por inveja aos ismaelitas foi ocasião para que se convertesse em senhor de todo Egito e príncipe de todos seus irmãos. e prover meios para que os homens honestos vivam uma vida tranqüila e pacífica? E se em alguns casos a justiça humana é tardia. apenas para escapar de uma sombra de desonra diante dos homens. e . que nunca permite que um ato malévolo passe sem castigo ou um ato bom sem recompensa. Pois é um princípio considerado certo em toda parte. um homem que remedia o mal de uma injúria cometendo um crime. Pois que inventaste em tua ingenuidade que se voltasse em tua honra. a um tempo. sem dúvida. ó perseguidor da Igreja de Deus. pois. "a resposta branda aquieta a ira" 12. recebe o que é chamado de mal da injúria: aquele que se vinga de uma injúria. Assim. agem como estultos ao preferir um mal maior a um menor. a Providência de Deus. há alguns homens tão cegos a seus interesses reais. no entanto. que não temem ofender mortalmente a Deus para escapar daquilo que tem aparência de desgraça. miserável e malvado. e aumentaste sua glória aumentando sua dor. o que é um ato de total loucura. mas. Ninguém comete tal insensatez em suas preocupações temporais. é culpável do que se chama de mal do crime. no entanto. Pelo menos assim o diz São Leão: "Estiveste furioso. e o persuade a estender a mão da amizade. não necessariamente o torna mau. Um crime. esquecemos que o Estado nomeia magistrados. Aquele que recebe a injúria. Ora. ainda que a ofensa possa tornar um homem miserável. cujo dever é fazer que os malvados sintam a severidade da lei. o crime o priva tanto do bem temporal como do eterno. e que nos foi declarado pelo Apóstolo nestas palavras: "Não façamos o mal para que venha o bem" 13. Mas. A injúria priva o homem do bem temporal. O mesmo deve ser dito de todos os mártires e santos da antiga lei.no dizer do Homem Sábio. Ademais. a desgraça de cometer um crime é maior que a desgraça de ter de suportar a injúria. a paciência de um homem justo não poucas vezes enche de admiração seu opressor. omitindo estas considerações. Por outra.

Rm 3. 6. 3. E cada um deve refletir com calma quão desgraçado não é quem agrada o inimigo mais feroz da raça humana e desagrada o Cristo. Acrescente-se a isto que realizam um ato dos mais agradáveis ao diabo e seus anjos.3. 4. com o propósito de semear a discórdia e a inimizade no mundo. e o mate.Mt 12. 10. 13. 12. e perderão a honra sem fim de habitarem no céu.At 7.1 Cor 4. Caem. 12. todos os que são sábios escutarão a doutrina que Cristo. 9.4-7.3. se sucede que o homem injuriado que ambiciona vingança fira mortalmente a seu inimigo. a menos que se corrijam a tempo e façam penitência. . Por isso. 8. e tanto ele como sua família viverão uma existência miserável.42. 7. pois. 6.Mt 11. 11. 10.1 Cor 13. 13. 9.Rm 12. 1.30. que urgem a este homem fazer algo de injusto a aquele outro. 12-13.1 Jn 5. se nega a reconciliar-se com seus inimigos. e serem reconhecidos como herdeiros de reino mais vasto e mais durável. o melhor dos Reis. o Senhor de tudo. e na Cruz com suas obras. 2. ao menos.59.1. 1.Pr 15.19. que se fazerem servos e amigos de Cristo. é forçado ao exílio.Mt 5. e.Mt 22.13.Cl 2. Ademais.Mt 21. nos ensinou no Evangelho com suas palavras.para manter um semblante de honra aos olhos dos homens. 5. 4. 5.44. 7.8. 8. e toda a sua propriedade é confiscada pelo Estado. ou. e se expõe ao desastre total.12. 3. é ele ignominiosamente executado por assassinato. sob o desagrado e a ira de Deus. 2. posto que o homem insensato. Assim é como o diabo joga e como se ri daqueles que escolhem antes se aprisionar com as ataduras da falsa honra. 11. terão que suportar a desgraça e o tormento eterno. apesar do mandamento de Cristo.

O ladrão fora feliz por sua solidariedade ao Cristo na Cruz. Pois bem.. Não obstante.. serrados ao meio . vestidos de pele de ovelha e de cabra” 2. Mais ainda. tu que sofres no mesmo suplício?” 4.” A segunda palavra. ali crucificados. conforme observa Santo Agostinho no trabalho “Sobre a Harmonia dos Evangelhos”. mesmo se considerarmos que ambos vituperavam o Senhor. já em outro. porque não sabem o que fazem” — contradiz manifestamente a narração evangélica. uma vez que São Lucas diz que o ladrão começou a blasfemar contra o Cristo tão logo Ele fizesse essa oração. mas é mais provável que os dois evangelistas usem o plural para se referirem ao número singular. a opinião dos que sustentam que um dos ladrões blasfemadores se converteu pela oração do Senhor — “Pai. Assim São Paulo. proclamado seus louvores. daí estarmos inclinados a adotar a opinião de Santo Agostinho e de Santo Ambrósio.. A promessa foi feita nas seguintes circunstâncias: dois ladrões foram crucificados juntos ao Senhor. não existe razão para que um mesmo homem não haja amaldiçoado em um momento e. diz dos profetas: “taparam bocas de leões . De fato. dizendo: “se és o Cristo. um só profeta houve — Daniel — que fechou a boca dos leões. Perdoa-lhes.... um desses acrescentou a seus crimes do passado o pecado de blasfemar de Cristo. blasfemava contra Ele” 3. um só profeta — Jeremias — que foi apedrejado. zombando de sua falta de poder para salvá-los. que dizem que um só dos ladrões o vituperou. um só profeta — Isaías — que foi serrado. segundo o testemunho de São Lucas. este é o sentido pleno de sua . outro a sua esquerda. Os raios da Luz Divina que logravam penetrar na obscuridade da alma o levaram a exprobrar no companheiro a maldade e a convertê-lo a uma vida melhor. como freqüentemente se faz nas Sagradas Escrituras. Conforme essa narração. Sem embargo. Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso.. salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!” 1. a magnífica promessa feita ao ladrão. que disse de maneira mui clara: “um dos malfeitores. o bom ladrão exprobrou o blasfemador: “nem sequer temes a Deus. em sua Epístola aos Hebreus.. São Mateus e São Marcos acusam ambos os ladrões desse pecado. nem São Mateus nem São Marcos são tão explícitos a respeito desse ponto como São Lucas. um a sua mão direita. apedrejados . enquanto o outro o glorificou e defendeu. andaram errantes. ou a segunda frase. que pendia em uma cruz a seu lado.Capítulo 4 Explicação textual da segunda palavra: “Amém. pronunciada por Cristo na Cruz foi.

Quem foi o instrutor de segredos tão sagrados e sublimes? Ninguém. disse aos apóstolos: “Não era necessário que o Cristo padecesse e entrasse deste modo em Sua Glória?” 8. lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino” 6. Ele há de vir com seu reino. mas que voltaria no último dia.exprobação: “tu. Do que podemos inferir que o ladrão não figurou o reino de Cristo como temporal — como o imaginavam os judeus — mas que após sua morte Ele seria Rei para sempre. ferido. recompensando cada homem de acordo com sua conduta na vida. que iria ao Céu. Reputam-se por livres e seguros. acrescenta: “Jesus. e não receiam castigo. é. galgando de virtude em virtude. diz que após sua morte. no Céu. Entretanto. quando param de viver. o ladrão. Mas acaso tu. para outra vida. a fim de ser investido da realeza e depois regressar” 9. que fostes crucificado por tuas enormidades. Logo. quando de sua Ressurreição. proclama em alta voz que o Cristo — por intermédio de Sua morte — herdaria um reino. Nosso Senhor disse tais palavras pouco tempo antes de sua Paixão. fomos condenados “com razão” à morte de cruz. pois. não temes a justiça vingadora de Deus? Por que cumulas pecado sobre pecado?”. senão o Espírito de Verdade. i. confessando que o Cristo era Rei no momento mesmo em que o não cercava nenhuma aparência de realeza. que está mui distante da terra. insultado. Quem instruiu o ladrão em mistérios tão profundos? Chama de Senhor esse homem que vê desnudo. ou. auxiliado pela crescente graça de Deus. o ladrão o confessou quando Ele estava pendurado na Cruz. Finalmente. porquanto se ufanam da vitória que crêem ter alcançado ao pregar o Cristo numa cruz. confessa seus pecados e proclama que Cristo é inocente. à luz crescente da graça em sua alma. mas este não fez mal nenhum” 5 . desgraçado. contemplando o Cristo — Que vira subjugado no patíbulo — não duvida de que Ele será Rei após sua morte. param de reinar. em outras palavras. iria a um país distante. Admirável a graça do Espírito Santo que se derramou no coração do bom ladrão! O apóstolo Pedro negou seu Mestre. Os reis reinam durante a vida e. queres imitar a blasfêmia dos judeus. que o aguardava com suas mais doces bênçãos. para nos mostrar que. O ladrão pede com confiança: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. sem embargo. rebaixado. Os discípulos que iam a Emaús disseram: “esperávamos que seria Ele a libertar Israel” 7. o ladrão milagrosamente o previu. o ladrão. “Nós”. para receber um reino grande e eterno. mediante sua morte. seja com . que é aquele que o Senhor refere nesta parábola: “um homem ilustre foi para um país distante. “porque a merecemos por nossos feitos. diz. O apóstolo São Tomé declara que não creria na Ressurreição até que visse ao Cristo. decerto. que ainda não aprenderam a temer os juízos de Deus. pendido a uma cruz a seu lado. Cristo.

cria de jumenta” 16. mas que a receberia como sua própria. que nasceu?” 10 E o mesmo Cristo disse a Pilatos: “Sim. e por isso os Reis Magos inquiriam insistentemente: “Onde está o Rei dos Judeus. pode receber glória e . Deste reino. Para isso nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” 11. desde o Rio até aos confins da terra” 13. o ladrão disse sabiamente: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. já tenho eu consagrado a meu rei meu monte santo” 12. a lesões. submetendo-os tão-somente a Deus. disponho um Reino para vós” 20. humilde e montado em um asno. o bom ladrão: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. tu o dizes. Cristo gozou desde o momento de sua concepção. diz-se que iria “a um país distante. e tampouco. E o ladrão observou sabiamente: “quando retornardes com vosso reino”. o reino do Cristo não é sinônimo de poder ou soberania régia. E conforme Zacarias: “Exulta à larga. um filho nos foi dado. desta feita. entrou no gozo da Glória que lhe pertencia. sou Rei. e à morte. “Dominará de mar a mar. não era Cristo Nosso Senhor Rei antes de sua morte? Sem dúvida o era. para quem servir é reinar.prêmio. Assim. na parábola do advento do Reino. Mas. porque o exercera desde o princípio. conforme estes versículos dos Salmos: “Em Sião. e pelo qual fora posto acima de todas as suas obras. Entrementes — como seu Corpo sempre fora glorioso — imediatamente após a morte. Nessa passagem. E conforme Isaías: “Porque uma criatura nos nasceu. praticará o direito e a justiça. Cristo não se referia a um poder soberano. Não digo que Ele a adquiriria da parte de outro. A isso se referiu — após a Ressurreição — nestes termos: “não era necessário que o Cristo padecesse e entrasse deste modo em sua Glória?” Essa glória Ele chama sua própria — pois está em seu poder fazer outros partícipes dela. mas a dita do corpo — que era sua por direito — não a gozou efetivamente até sua Ressurreição. Com respeito a esse reino. fome e sede. filha de Jerusalém! Eis que aqui vem a ti teu rei: justo ele e vitorioso. sendo humilhado e mal recebido pela maioria. na parábola que vimos de citar. e por essa razão Ele é chamado “Rei da Glória” 17 e “Senhor da Glória” 18 e “Rei dos Reis”19. seja com castigo. em verdade. um burrico. grita de júbilo. Por isso. de inefável dita à alma. E conforme Jeremias: “Suscitarei a Davi um Rebento justo: reinará um rei prudente. filha de Sião. Ele. a fim de ser investido da realeza”. do que é meu. na terra” 15. Mas Ele era Rei neste mundo tal como um viajante entre estranhos. que o Cristo receberia imediatamente após sua morte. daí não ser reconhecido como tal senão por uns tantos. estava submetido a fadigas. que liberta o homem da servidão e da angústia dos assuntos temporais. em sua petição. Uma vez que fora um forasteiro neste vale de lágrimas. O senhorio habitará por sobre seu ombro” 14. feridas. mas ambos falavam dessa perfeita dita. e retornaria. pode-se objetar. dizendo Ele mesmo a seus apóstolos: “Eu.

não. mas tão simplesmente reza: “lembrai-vos de mim”. lembrai-vos de mim”. mas nós não podemos alcançar nem um nem outro. chama-o Senhor. Atentemos agora à resposta do Cristo: “amém. e não no nosso próprio. lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. e. reconhecendo que o Cristo é seu Redentor. Santo Agostinho não duvidara em afirmar que essa palavra era. Senhor.. pois sei que sois Todo-Poderoso e tudo sabeis. concluir que Nosso Senhor realizava um juramento cada vez que usava a palavra “amém”. não podia ser um juramento. a observação de Santo Agostinho — de que a palavra “amém” não é um juramento. Entrementes. não devemos pôr de lado as muitas excelentes virtudes que se manifestam na oração do santo ladrão. que não buscam nada perecível e vão. fomos pois convidados a entrar “no gozo do teu Senhor” 21. ou melhor. Não disse: “se puderes. “Amém” era um termo habitual em seus lábios. Enfim. Ele afiança gravemente o que diz. ponho minha confiança em vossa bondade e vosso amor”. e quando o Cristo diz: verdadeiramente vos digo. pois. inclinando vossos benignos olhos sobre mim. por conseguinte. Senhor. Com . por conseguinte. para mostrar que se considera a si como servo. mas uma espécie de juramento — é perfeitamente justa. reinar convosco em vosso Reino”. lembrai-vos de mim”. Não podemos. Assim. amém”. Seja vossa linguagem: sim. é que vos dignais recordar-me. por isso. a expressão tem quase a mesma força de um juramento. Logo acrescenta um pedido simples. mas cheio de fé. como um escravo redimido. Em primeiro lugar. sim. Um breve bosquejo delas nos preparará para a resposta do Cristo à petição: “senhor. não pede nenhum favor especial. uma sorte de juramento. amor. pois tem inteira confiança em sua caridade e compaixão. esperança. porque o sentido da palavra é “verdadeiramente”: em verdade. Este é então o reino de que falou o bom ladrão quando disse: “quando retornardes com vosso Reino”. mas com “amém. de acordo com as palavras do Cristo: “Pois vos digo que não jureis de modo algum. Por certo..” A palavra “amém” era usada pelo Cristo cada vez que queria fazer uma declaração solene e grave a seus seguidores. Eu te digo: hoje estarás comigo no Paraíso. pois a humildade o proibia. como se dissesse: “tudo que desejo. Senhor.reino. na boca do Senhor. Não disse: “desejo. senão que aspiram a algo eterno e sublime. e em algumas oportunidades não apenas precedia suas afirmações com “amém”. devoção e humildade: “lembrai-vos de mim”. o que passa além disso vem do Maligno” 22. pois acredita firmemente que o Cristo pode de fato fazê-lo. não. Não disse: “por favor. Isso fica claro com as palavras conclusivas de sua oração: “quando retornardes com vosso reino”.

nesse momento. como se houvesse sofrido por nome de Cristo. Eu te asseguro do modo mais solene que posso sem prestar juramento: uma vez que o ladrão poderia negar — por três razões — dar crédito à promessa do Cristo. e sem Ele. Nem tampouco: “consolar-te-ei dentro de alguns meses ou dias”. poderia se negar a crer por razão de sua indignidade ao ser o receptor de um prêmio tão grande. fazer um favor a seus amigos. Maravilhosa é a liberalidade do Cristo. firmara Sua promessa com esta garantia: “amém. Nem disse: “levar-te-ei a um lugar de descanso. a morte que sofreu em companhia do Cristo merecera um prêmio tão grande diante de Deus. ao ladrão prometeu não apenas sua companhia. e onde eu estiver. no Dia do Juízo”. poderia se negar a crer por razão da pessoa que fez a promessa. Se Nosso Senhor quisesse dizer: “hoje mesmo tu estarás comigo em um lugar de repouso. mas também o Paraíso.grande razão. ao ver que Ele estava. dirigiu-se assim ao ladrão. Isaque e Jacó”. como vai ser capaz de assisti-los depois da morte?” Por último. só essa benção seria inefável ao ladrão. Santo Agostinho. Sem embargo. Eu te asseguro”. os judeus interpretavam a palavra “Paraíso” em referência ao corpo e à alma — pois sempre a usavam no sentido de um Paraíso terrestre. reduzido ao extremo da pobreza. sem passar pelo Purgatório. considera. Cristo prometeu o Paraíso. . Se Nosso Senhor não fizesse outra promessa senão: “hoje estarás comigo”. junto a Abraão. quando nem sequer os apóstolos se atreveram a pronunciar palavra a Seu favor. e que sua alma foi diretamente ao Céu. é. Em verdade. que o ladrão pode ser considerado um mártir. ali também estará meu servo” 23. de um favor tão elevado. o ladrão o creria facilmente. Pois bem. passarás comigo do patíbulo da cruz às delícias do Paraíso”. i. se Ele não a asseverasse solenemente. maravilhosa também é a boa fortuna do pecador. Eu te asseguro”. O bom ladrão pode ser chamado mártir pois que confessou Cristo publicamente. e por causa dessa confissão espontânea. podendo o ladrão por isso ter argumentado: “se este homem não pôde. mas como não quis dizer isso. em meio aos justos. antes que o sol se ponha. que me siga. “Hoje”. logo após sofreres alguns anos no Purgatório”. durante sua vida. algum bem?”. Cristo não fizera uma promessa trivial aos que o seguem quando disse: “se alguém me serve. Não disse: “por-te-ei à Minha mão direita. poderia se negar a crer por razão da mesma promessa. em seu trabalho “Sobre a Origem da Alma”. conforme escreve Santo Agostinho: “Onde pode haver nele algum mal. mas “hoje mesmo. da debilidade e do infortúnio. dizendo: “amém. Pois quem imaginaria que o ladrão seria de pronto trasladado de uma cruz para um reino? Em segundo lugar. com São Cipriano. Em primeiro lugar.

pois naquele mesmo dia comunicaria. que consiste na visão de Deus – este é realmente um Paraíso de delícias. por causa de tua aliança de sangue. águas límpidas e uma deliciosa suavidade no ar. não um Paraíso corpóreo ou extenso. ao explicar os profetas: “subindo às alturas. essa glória da visão de Deus que Ele recebera em Sua concepção. Não disse: “hoje estareis no Paraíso”. Tampouco se pode aplicar a palavra “Paraíso” ao Limbo. glória interminável. libertarei os teus cativos da fossa sem água” 25. onde as palavras “teus cativos” e “a fossa sem água” apontam evidentemente não às delicias do Paraíso. lhe disse: “hoje estarás comigo no Paraíso”. Mais ainda. tanto à alma do bom ladrão como às dos santos no Limbo. com grande verdade e propriedade. No Paraíso celestial. Sobre isso. é igualmente certo que a palavra “Paraíso” — falemos do Paraíso celeste. nem alegria. as palavras “estarás comigo” não se cumpririam. em seu reino. glorioso. este é o gozo supremo do Paraíso Celeste. Não terá o bom ladrão por companheiro seu. porque nesse dia o Cristo não entrou em Seu reino — não entrou até ao dia da Ressurreição. não parece haver fundamento para a discussão. nem prazer. Por essa razão. e Sua Alma desceu ao Limbo. Não se pode aplicar ao sepulcro. Mas no Limbo. mas “hoje estarás comigo no . quando Seu Corpo tornou-se imortal. contudo. no último dia. no Paraíso terrestre haviam flores e frutas. Pois é seguro — porque é artigo de fé — que no mesmo dia de Sua morte. mas “estarás comigo no Paraíso”. até a ressurreição de todos os homens. É de se admirar mormente a escolha das palavras utilizadas pelo Cristo. delícias sem fim. está é pois a verdadeira Glória e felicidade essencial. Sem embargo. já que a esperança da redenção e a perspectiva de ver a Cristo era motivo de consolo e gozo para eles. a essa ocasião. se o Cristo falasse meramente do sepulcro. levou os cativos” 24. já não sendo passível de servidão ou sujeição nenhuma.Ainda que algumas pessoas tenham discutido acerca do sentido da palavra “Paraíso” neste texto. impassível. onde as almas dos justos estavam detidas. ou do terrestre — não se pode aplicar nem ao sepulcro. se conservavam como cativos na prisão. Por isso. Pois “Paraíso” é um jardim de delícias — inclusive. não havia luz. o Corpo do Cristo foi colocado no sepulcro. mas um espiritual e celestial. mas à obscuridade de uma prisão. pois era um lugar mui triste — a primeira morada dos cadáveres — e o Cristo foi o único enterrado nele: o ladrão o foi em outro lugar. a palavra “Paraíso” só poderia significar a Bemaventurança da alma. nem ao Limbo. além dos lugares dos Bem-aventurados. certo. ao pedido do ladrão — “Lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino” — o Senhor não respondeu “hoje estarás comigo” em meu reino. essas almas não estavam sofrendo. conforme o Apóstolo. na promessa do Cristo. e conforme Zacarias: “quanto a ti.

4.1 Cor 2.Is 9. 11. 2.39. 5. 8.29.5.37.26. 16.8.Hb 11.Sl 72. 2.Jo 18.Zc 9. 14. 18. 9.Lc 23. mas aconchegado no seio do Paraíso”. 6.Mt 5.Lc 22.Jo 12.21.40.8.9.37. 1.Lc 23. 14. 22. 17.33-37. 1.26. da seguinte maneira: “hoje.Lc 24. 17. 12.Mt 25. mas tu não estás comigo no Paraíso — Paraíso este atinente à parte superior de minha alma.11. 15. como se quisesse se explicar mais amiúde.Ap 19. 8.Paraíso”.Mt 2.34. 7.Sl 2. 24.2. 20. 25. 11.12. 9.Lc 24. em pouco tempo — hoje mesmo — tu estarás comigo. Mas. não tão-só liberto da Cruz. 6.Lc 19. 19. 4.21.Zc 9.Lc 23. 24. 23.Lc 23. 7. 25.Jr 23.Lc 23.6. 12.16. 19. 18. 21. 5.5.8.Ef 4. 13. 13.Sl 24.8. 10.41. 22. . 21. 16. estás tu comigo na Cruz.42. 3. 23. 3. 20. 10.39. 15.

e de como é bom e útil servi-lo. foram feitos por Ele “príncipes de toda a terra"2. faz. é igualado aos principais de seu povo. Sua caridade proibira-lhe permanecer em silêncio. de sua glória e de todos os seus bens. exceto algumas palavras bondosas e o desejo cordial de o assistir. submetendo-lhes demônios. Entre esses não raro vemos os que terão gasto os melhores anos de sua vida ao serviço de príncipes. os patriarcas e os profetas. mas. “estarás comigo no Paraíso”. para não nos demorarmos em muitas outras promessas de recompensa. Das mãos do bom ladrão não recebe nenhum serviço. transbordante"1. pois. poderiam ser alegadas como escusa para não escutar a petição do ladrão. e me deste de comer. porque é paciente. Quando é ultrajado não abre a boca. em Sua caridade divina. preferiu olvidar Suas próprias dores atrozes a não escutar a oração de um pobre pecador penitente. Esse mesmo Senhor não respondeu nada às maldições e imprecações dos sacerdotes e soldados. poderia o . quando um pecador confessa sua culpa. Podemos colher alguns frutos. serpes e toda casta de enfermidades. com que grande prêmio o retribui! Nesse mesmo dia.Capítulo 5 O primeiro fruto que se há de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz. estava desnudo. um Amo verdadeiramente magnânimo.. As muitas dores que Ele. mas ante o clamor de um pecador a se confessar. Se algum homem deu por esmola alimento ou vestimenta aos pobres em nome de Cristo. e. um ofício de coletor de impostos ou um lar — para servir ao Cristo. Mas o Cristo é um Príncipe verdadeiramente liberal. escutará estas palavras consoladoras no Dia do Juízo: “Tive fome. e entra na posse do meu Reino Eterno. àquele mesmo dia. O que Deus diz. o Cristo o eleva para partilhar de sua mesa. Tampouco difere essa recompensa para algum dia longínquo.. de Sua liberalidade? Os que servem a um chefe temporal com freqüência obtêm uma magra recompensa por muitos labores. porque é bondoso. mas. derrama em seu seio “uma medida boa. O ladrão não é o único que experimentara a liberalidade do Cristo. tirados da segunda palavra dita na Cruz. Que dizer. cheia. fala. de sua dignidade. Os apóstolos. como galardão. finalmente. recalcada. sofria. e me vestiste" 3. que tudo abandonaram — seja um barco. Nosso Senhor. todos os pecados que cometera durante sua vida são perdoados. Enfim. “Hoje”. e se retiram em idade avançada com mirrado salário. O primeiro fruto é a consideração da imensa misericórdia e liberalidade do Cristo. disse. a saber. e. receba tua recompensa.

ou os filhos. por outro lado. Em primeiro lugar. pois. desejam fazer-se escravos de Mamón. Ao perguntar-lhe. clamou com voz forte: “Tudo o que dissestes. darei um exemplo para mostrar que até um homem carnal pode apreciar os deleites e as riquezas espirituais. Assim é porque o homem carnal não pode ver o cêntuplo que Cristo prometeu. da luxúria? Mas os que ignoram aquilo que Cristo considera como verdadeira riqueza poderiam obstar que estas promessas não passam de palavras. nobre e rico. respondeu-lhes: . ou os campos. oh! Senhor Jesus.homem crer na quase inacreditável liberalidade do Cristo. abandonou toda sua fortuna e fez-se monge cisterciense. receberá uma dupla recompensa em adição à vida de valor incomparavelmente maior que a pequenez da que se deixara. esquálidos. ou outras coisas semelhantes. numa certa ocasião. pelo amor do Cristo. num livro de exemplos sobre os varões ilustres da ordem Cisterciense. receberá um gozo ou dom espiritual nessa vida. se não fosse o mesmo Deus quem prometesse que “todo o que deixar a casa. pois não tem olhos com que possa vê-los. em particular no final de sua vida. os que estavam presentes. abandona tudo nesta vida presente. abandonando as bandeiras de tal monarca. pois muitas vezes verificamos que os amigos diletos do Senhor são pobres. não participará jamais desse gozo durável. Lemos. vivendo sob a autoridade de São Bernardo. Em segundo lugar — como se Deus Todo-poderoso considerasse tal recompensa como de pequeno ou nenhum valor — o feliz comerciante que troca bens terrenos por celestiais receberá no outro mundo a vida eterna. Deus testou a virtude desse homem mediante dores amargas e muitos tipos de sofrimentos. a maneira por que o Cristo. quando sofria mais agudamente que de costume. que se diz tão magnífica. mostra sua liberalidade aos que se entregam sem reservas aos seus serviços. Contudo. o grande Rei. que engendra uma consciência pura e um verdadeiro amor de Deus. chamado Arnulfo. palavra esta que contém um oceano de todo o bem. que um certo homem. ou o pai ou a mãe. receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna" 4? São Jerônimo e os outros santos doutores interpretam o texto acima citado desta maneira: se um homem. da gula. um homem espiritual escolheria antes conservar esse dom à substituí-lo por cem casas ou campos. Essa é. nunca enxergamos a tal recompensa centuplicada. por causa do meu nome. é verdade”. cem vezes mais precioso que o objeto temporal que pelo Cristo desprezara. abjetos e sofridos e. Não são estultos os homens que. qual a razão de sua exclamação. ou os irmãos ou irmãs.

dos quais não consentiria libertar-me. O leitor.Mt 19. após. a vida eterna.”O Senhor.36. Porque. Compreendo largamente a força e a gravidade desta promessa.17. em verdade.Lc 6. poderá julgar em quão grande estima se há de ter a virtude vinda do céu da esperança infalível. que brota do presente”. ainda que a cem vezes o valor da matéria mundana que abandonei. Em verdade. 1. .Sal 45. 2. da felicidade eterna. diz que os que abandonam suas riquezas e todas as coisas por Ele receberiam o cêntuplo nesta vida e. em Seu Evangelho. 2.35. a alegria espiritual que se concentra na esperança do que há de vir ultrapassa cem vezes toda alegria mundana. e reconheço que estou agora a receber o cêntuplo por tudo que abandonei.Mt 25. 3. 4. 29. 4. 3. ao ponderar estas palavras. que me estenderão os sofrimentos. 1. a grande amargura desta dor me é tão agradável por causa da esperança [que tenho] na Divina Misericórdia.38.

nem pela escuridão temporã. pelas rochas fendidas ou pela conduta dos que. ingressou no gozo do Senhor. Se algum homem quer conhecer o poder da graça de Deus.Capítulo 6 O segundo fruto que se há de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz. e encomendou-se humilde e devotamente a Cristo. quando as portas do céu lhe pareciam cerradas. O segundo fruto que se há de colher da consideração da segunda palavra é o conhecimento do poder da divina graça e da debilidade da vontade humana. com a salvação em jogo. nem pela admoestação e exemplo do companheiro. se por um lado. Por outro lado. e o pecador tão afastado da vida eterna quanto possível – fora de súbito iluminado desde o alto: seus pensamentos dirigiram-se ao canal apropriado e confessou Cristo por inocente e Rei do Mundo que há de vir e. Tudo isso se sucedeu depois da conversão do bom ladrão. outro. tal conhecimento é o de que a melhor política consiste em depositar toda a confiança na graça de Deus. nada havia que pudesse aconselhá-lo ou assisti-lo. um pode se converter sem auxílios. Por tal circunstância. Poder-se-ia argumentar: por que Deus dera a graça da conversão a um e negou-lha a outro? Contestar-se-ia que a ambos se deram a graça suficiente para a conversão. Era notório pecador. retornaram à cidade golpeando o peito. Ouvia também seu companheiro exprimindo-se perversamente em termos similares. Contudo. em realidade. com a assistência da graça de Deus. é. ou. Embora estivesse bem próximo a seu Salvador. e em desconfiar inteiramente da própria força. persuadindo-o de seu arrependimento. pecara durante o perverso curso de sua vida até ao momento em que fora subjugado à cruz. e até o Mesmo Cristo não refutava as blasfêmias e maldições. tão logo morrera. com todos os auxílios. Em suma. após a morte de Cristo. Não havia boa palavra em favor de Cristo. o mau ladrão se não converte nem pela imensa caridade de Cristo — o Qual orou com amor profundo por Seus executores — nem pela grandeza dos próprios sofrimentos. e os adros infernais abertos a recebê-lo. volte os olhos ao bom ladrão. não pôde. ouvia tão-somente os sumos sacerdotes e fariseus a declará-Lo sedutor e homem ambicioso que buscava alcançar poder soberano. recebeu o prêmio com os que vieram à hora primeira. para nos permitir ver a magnitude da debilidade humana. ao momento quase derradeiro de sua vida. censurou o ladrão que o acompanhava. foram tão perfeitas suas disposições que as dores da crucificação compensaram todo sofrimento que pudesse guardar para o purgatório. nesse momento crítico. como ministro de Deus. não quis ser convertido. . fica evidente que se não deve desesperar da salvação. para nos mostrar que. de tal modo que. pois o ladrão que entrou na vinha do Senhor à hora duodécima. i.

ainda que por um só dia. sabe que a regra é os homens terminarem uma vida perversa com uma morte miserável. eis a lição que nos respeita de forma imediata. caindo em perdição para sempre. pois. já não há redenção. não é comum que os que vivem bem e santamente tenham um fim triste e miserável. o outro a rechaçou.e que se um pereceu. se o outro se converteu. por outro lado. ousam permanecer em estado de pecado mortal. mas não podem ser injustos. como aquilo de Agostinho. não sem a cooperação de sua própria vontade livre. mas não penetrar. Ainda que um dos ladrões cooperasse com a graça de Deus no último momento. . Todavia. de sorte que é exceção o pecador morrer feliz. são por demais néscias e presunçosas. como disse o Apóstolo [Rm 9. 14]. pereceu por culpa própria e. em assunto de tal monta como a felicidade ou tormento eternos. capaz de sobrepujar o mais endurecido dos corações? A razão de que assim não sucedera é um desses segredos que podemos admirar. poder-se-ia perguntar: por que Deus não dera a ambos a graça eficaz. uma vez no inferno. Quem estuda história. ou observa o que se lhe sucede ao redor. foi convertido por graça de Deus. devemos repousar no pensamento que não há injustiça em Deus. mas sim que muitas pessoas boas e piedosas entrem. porquanto após a morte não há lugar para arrependimento e. Aprender com esse exemplo a não adiar a conversão até à proximidade da morte. As que. os juízos de Deus podem ser secretos. na posse dos gozos eternos. depois da morte.

e “Havendo Jesus tomado do vinagre. se é de teu agrado. estava por se cumprir. Cristo pudera então exclamar ao momento da morte. 14). Quanto à segunda missão. Em verdade. Em verdade. 4). conclui-se que Nosso Senhor queria manifestar que o que se predissera por boca dos profetas sobre sua Vida e Morte já estava feito e acabado. Proferira tais palavras por ocasião do discurso de despedida aos discípulos. Acrescenta S. pois o cálice do sofrimento foi tomado até às fezes. Santo Agostinho. na Última Ceia. tomar o cálice amargo. 11). disse: “Tenho sede”. temos oportunidade de aplicar a palavra com grande razão e vantagem a diversos mistérios. Terminei a obra que me deste para fazer” (Jo 17. e em outro passo: “Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu? (Jo 18. todas as predições se comprovaram. 22). 30). Por isso. 30). nada se pode acrescentar a tais palavras: “Está tudo consumado”. explicaram o que se cumpriu. “No instante que soubera Jesus do cumprimento de todas as coisas. E inclinando a cabeça. é. João. Seu nascimento em Belém: “Mas de ti. já dissera o Cristo: “Eu te glorifiquei na terra. como nem Nosso Senhor. Entretanto. o que havia por cumprir estava cumprido. disse: Está tudo consumado” (Jo 19. pregar o Evangelho. quando perguntou aos dois filhos de Zebedeu: “Podeis vós beber o cálice que eu devo beber?” (Mt 20. não houve tardança. Já ali cumprira a primeira obra que lhe impusera o Pai Celestial. 42). Sua concepção: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7. apesar de seres a menor do clã da família de . Quanto à primeira. senão que estava a obra da Paixão aperfeiçoada e completa. sofrer pela humanidade. Pois entre o Senhor dizer “Tenho sede”. para se cumprirem as Escrituras. como remate da missão: Está tudo consumado. e ainda: “Pai. afasta de mim este cálice!” (Lc 22. a segunda. Belém Efratá. i. nem São João.Sobre a Sexta Palavra de Cristo na Cruz Introdução Explicação Literal da Sexta Palavra: “Está tudo consumado”. mui concisos no que disseram. Aludira a isso. 28. expirou (Jo 19. refere a palavra ao cumprimento de todas as profecias do Testamento Velho. nada mais me resta senão morrer. disse: Tudo está consumado” (Jo 19. 30). e tomar o vinagre oferecido. João: “Havendo Jesus tomado do vinagre. A sexta palavra que disse Nosso Senhor na Cruz está como que unida à quinta palavra mencionada por S. Impusera Deus Pai duas missões a seu Filho: a primeira. comentando este passo.

anunciar a remissão dos cativos e a liberdade aos encarcerados” (Is 61. ele é simples e vem montado num jumento. os iníquos se apoderaram do Cristo terminou com a exclamação “Está tudo consumado”. A pregação do Evangelho: “O espírito do Senhor repousa sobre mim. 31). 17). .” (Jo 16. vós que sois o seu salvador no tempo da desgraça. Zacarias e outros mais predisseram a Paixão como se a testemunhassem. 28). viajante de uma noite apenas?” (Jr 14. Jeremias. Seus milagres: “O próprio Deus há de vir e os salvará. e me enviou para evangelizar os pobres. 4-6). seu servo. Então abrir-se-ão os olhos do cego. para que na predição dos profetas encontre-se. Davi no Salmos. e se fatigava. justo e vitorioso. com a permissão de Deus. findara: “É ele o nosso Deus. e Israel. O cavalgar sobre o burrinho: “Eis que vem a ti o teu rei. 2). e a feridas e a morte. 1). de ti sairá aquele que há de governar Israel” (Mq 5. quando dizia estar próxima sua Paixão: “Vede. findara o poder de seus inimigos sobre Ele. São João Crisóstomo diz que a palavra “Está tudo consumado” manifesta que o poder dado a homens e demônios sobre a pessoa do Cristo acabara-se com sua morte. seu favorecido. 9). e sujeitava-se a atritos e flagelos. 10). disse: “Está tudo consumado”. Em segundo lugar. conforme predissera Baruque. E saltará o coxo como o cervo e desatarse-á a língua dos mudos” (Is 35. O período durante o qual. 36-38). a verdade. no potro de uma jumenta” (Zc 9. por que sentia fome e sede. 8). e dormia. pois lá se há de cumprir o que escreveram os profetas sobre o Filho do Homem” (Lc 18. Deste modo. galardoando com ela Jacó. por que sois qual estrangeiro nessa terra. onde permanece entre os homens. 53).Conhece a fundo os caminhos que conduzem à sabedoria. Acabava a sujeição de sua natureza à morte. a partir de agora. aludia ele a esse poder.Judá. quando o Cristo na Cruz exclamou “Está tudo consumado. É o significado das palavras de Nosso Senhor. e inclinando a cabeça expirou”. esperança de Israel. Do que se havia de cumprir. A adoração dos Reis: “Oferecer-te-ão dádivas os reis de Tarsis e das ilhas. aliviar os aflitos de coração. Isaias. e os reis da Arábia e de Sabá trarão presentes” (Sl 71. porque o Senhor me ungiu. terminou sua condição de vivente e mortal. e os ouvidos dos surdos. subamos a Jerusalém. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai. E juntamente com a peregrinação. Foi então que ela apareceu sobre a terra. O termo da peregrinação foi como aquilo do profeta Jeremias: “Senhor. pois a peregrinação do Filho de Deus entre os homens. Quando disse Nosso Senhor aos Sumos Sacerdotes e doutores do Templo “esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22. A aparição de uma nova estrela: “De Jacó nascerá uma estrela” (Nm 24. com ele nenhum outro se compara. tudo terminado. concluiu-se o caminho daquele que dissera “Saí do Pai e vim ao mundo.” (Br 3.

)” (Is 53. (Ele não abriu a boca. é. Dom. ultimou o sacrifício dos sacrifícios. quando vier o Senhor para julgar”. nem genealogia. era o Homem-Deus. porque lemos na Escritura que Melquisedeque não tinha pai. i. 8). com outras palavras. digo. as figuras se converteram em verdade. nem mãe no Céu. o fogo para o holocausto a caridade. a reconciliação do mundo com Deus. e também o Precursor: “Eis aqui o Cordeiro de Deus. já que canta “O sinal da cruz no céu aparecerá. a Cruz há de ser vista mais brilhante que o sol no esplendor do meio-dia. 29). que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver. chamam-no também de “o cordeiro imolado desde o princípio do mundo” (Ap 13. é o imenso amor que ardeu no Coração do Filho de Deus. o sacerdote é Homem-Deus. nem mãe. mas pelo precioso sangue de Cristo. desde os dias da eternidade” (Mq 5. Assim como o tempo que o Cristo sofreu sobre o madeiro era sinal de grande ignomínia. A vítima foi o Cordeiro de Deus. mas também pelos de todo o mundo. continua: “A oblação única de teu Corpo e Sangue é superior à variedade dos antigos holocaustos” (Serm. converteu-se a Lei nos Evangelhos”. 2). os da Lei Antiga consideram-se como meras sombras e figuras. o Santo dos Santos apartou-se dos sacerdotes indignos. Ante o real e verdadeiro Sacrifício. e por último São Pedro: “Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis. como um cordeiro que se conduz ao matadouro. que o consome e perfaz. e a lua não tiver claridade” (Mt 24. Na sua primeira epístola. 3). pois quando se rasgou o Véu do Templo. o Cordeiro imaculado e sem defeito algum” (1Pd 1. “Eu te gerei antes da aurora” (Sl 109. o fruto do Sacrifício foi a expiação dos pecados de todos os filhos de Adão. qual ardente fogueira que as muitas águas da Paixão não extinguiram. totalmente inocente e imaculado. e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Finalmente. não abriu a boca.” (1Jo 2. Neste único Sacrifício do Cristo. manifestaram-se as profecias. Senhor. porque o mérito do sacrifício já o previra Deus. o altar a Cruz. De Pass. São João Crisóstomo confirma essa opinião. a vítima o Cordeiro de Deus. A Igreja aplica à Cruz as palavras do Evangelista: “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem. 8). de acordo com a ordem de Melquisedeque. O altar foi a Cruz. 2). O fogo do holocausto. o fruto do sacrifício a redenção do mundo. 7).Em terceiro lugar. 18-19). e não somente pelos nossos. O sacerdote. Disse São Leão: “Atraiste tudo para ti. e nada há de maior: “Tu és sacerdote para sempre. segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 109. a ideia de São João Batista: “Eis aqui o Cordeiro de Deis. assim agora está dignificada e enobrecida. e observa que quando “o sol se escurecer. em benefício daqueles que viveram antes da vinda do Cristo. e o Cristo não tinha Pai na terra. recebida por tradição de vossos pais.).” (Mt 24. o que é dizer. Mais adiante. 29). 8. pois “Quem contará sua geração?” (Is 53. 4). eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1. disse São João: “Ele é a expiação pelos nossos pecados. No Apocalipse. 30). como a prata e o ouro. eis o que . “saiste desde o princípio. e no último dia aparecerá no céu mais resplandecente que o sol. e com justiça. nem genealogia. de quem fala Isaias: “Foi maltratado e resignou-se.

valeu-se o Senhor destas palavras: “Agora é o juízo deste mundo. cometeria um sacrilégio e não ofereceria um sacrifício. príncipes deste mundo tenebroso” (Ef 6. e o domínio sobre a humanidade. Por muito tempo. porque vencera o primeiro homem. e toda a obediência pertencem ao Cristo. porque dou a minha vida para a retomar. mas ainda assim ofereceu um sacrifício real. Foi batalha de foro. de modo maravilhoso dispôs-se que todo o mal. por morte do Cristo findou-se a batalha entre o Salvador e o príncipe deste mundo. 31-32). São Leão expressa com elegância e economia este pensamento: “Ele permitiu as mãos impuras se voltassem contra si. que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor” (Ef 5. 2). como na exclamação do Salmo: “Porque os deuses dos pagãos. Nem soldados o prenderiam. segundo o exemplo de Cristo. sofrendo pacientemente a morte. Toda a virtude. sobre Pilatos e os soldados. afirma São Paulo: “Progredi na caridade. sejam quais forem. pois se o fizesse. reconciliar a humanidade com Deus. Foi batalha entre dois demandantes. nem a morte – não obstante tivesse pregado à Cruz – se apoderaria dele se ele assim não o quisesse. e não de dois exércitos rivais. Paulo aos demónios de “principados e potestades.” (Jo 10. porque pronta e alegremente se ofereceu a si à morte por glória de Deus e salvação dos homens. Mas foi o Senhor quem criou os céus” (Sl 95. com muita propriedade disse Isaias: “Ofereceuse porque o quis” (Is 53. até o mesmo Cristo chama ao demónio “príncipe deste mundo”. Como disséramos. Eis que o demónio não quisera apenas ser príncipe. não passam de ídolos. senão que de sacrílegos. 7). Aparece aqui um embaraço: como é possível o Cristo ser ao mesmo tempo sacerdote e vítima. E quando eu for levantado da terra. Portanto. nem cravos trapassariam suas mãos e pés. saciar a justiça divina. e salvar a raça decaida de Adão. Na alusão desta luta. e morte de Cruz. que se ofereceu a si como vítima a Deus. Em quarto lugar. e dele e seus descendentes fizera-os escravos. e toda a santidade. e todo o crime da condenação à morte do Cristo recaissem sobre Judas e os judeus. atrairei todos os homens a mim” (Jo 12. e disse Nosso Senhor: “O Pai me ama. Com mais claridade. o demónio lançara a mão com dolo para possui-lo. Ninguém a tira de mim. e já então se convertiam em colaboradores da Redenção no momento em que cometiam um abominável pecado”. e não de milícia. Eles não ofereciam sacrifício. e não mereciam o título de sacerdotes. mas eu a dou de mim mesmo. chama S. para apaziguar a ira do Pai. 12). 5). É verdade que o Cristo não se matou a si. posto que fosse dever do sacerdote matar a vítima? Certamente o Cristo não se matou a si.tira o pecado do mundo” (Jo 1 . Em consequência. Satanás disputou com o Cristo a possessão do mundo. agora será lançado fora o príncipe deste mundo. senão que foram culpados de sacrilégio. Por essa razão. mas arvorar-se em deus deste mundo. e todo o pecado.29). Nos . 17-18). nem havia de fazê-lo.

na que há de vir? Respondo-o com uma palavra: querem-no. abriu aos justos a porta dos céus. e lhes não inculcara o ódio injusto por que perderia o domínio sobre os cativos. Exultante. Este homem principiou a edificar. Envia os pregadores da Palavra a toda parte do mundo. e todavia perseguira até à morte. Primeiro. conforme dá-la-emos com suas próprias palavras: “Se o orgulhoso e cruel inimigo conhecesse o plano da misericórdia de Deus. instituiu os Sacramentos. Assim Deus. Era justíssimo que o demónio perdesse toda a autoridade sobre os escravos do pecado. pelos méritos de seu sangue: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23. verdadeiro e legítimo herdeiro do universo. é. como é possivel tantos estarem submissos ao poder do demónio nesta vida. 4). Esta consideração é de muitíssimo peso. ao atacar em falso a liberdade daquele que nada devia”. e o juizo se pronunciou em favor de Jesus Cristo. Cristo Nosso Senhor usa dela. e a humildade da morte do Filho de Deus na Cruz redundou em maior honra do Pai. clama a Igreja: “Tu. nos méritos de seu Filho. nem havia pecado. arrancando-se ao poder do demónio a mesma humanidade. A obediência do Filho ao Pai Eterno superou a desobediência do servo ao Senhor. vitorioso sobre o aguilhão da morte. Por outro lado. e não pela míngua do poder ou da vontade do Redentor. a que aduz São Leão. Assim Nosso Senhor franqueou o caminho para todos adquirirem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. 30). porque na Cruz expiou à saciedade os pecados do primeiro homem e seus filhos. 16). demandou para si o principado deste mundo. da esperança e da caridade. e se “quer que todos os homens se salvem” (1Tm 2. Em quinto lugar. e lhe rendiam culto de sacrifício de cordeiros e vitelos. que têm poder de perdoar pecados e conferir a graça. a proclamar: “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16. ao se referir a um edifício: “Hic homo coepit aedificare et non potuit consummare. se reconciliou com a humanidade. porque se atrevera a pôr as mãos sobre o Cristo. e “nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado” (Cl 1. Segundo. se é terminada a batalha. i. alcançada por meio da fé. 13). o Filho de Deus. 43). se é vitorioso o Filho de Deus. que estavam cerradas desde a queda de Adão até aquele dia. outorgando à raça humana dois favores inefáveis. Ensinam os Padres que o estabelcimento das fundações da Igreja deu-se no batismo do . que o orgulho do servo em sua desonra.ídolos dos gentios. adorava-se Satanás. a palavra “Está tudo consumado” é possível aplicá-la ao término do edifício. e atormentados no inferno. mas não pode terminar” (Lc 14. Há outra razão. a Igreja. reprimira as paixões dos judeus. morrem pela própria culpa. e se há quem se recuse a nele entrar. que não era escravo seu. A sentença da lide deu-se na Cruz. Ora se este é o caso. abriste aos crentes o Reino dos Céus”. em que pronunciou a justificação do ladrão. Cristo saiu vitorioso da disputa.

e o término da construção na sua morte. e não “formou”. no terceiro livro contra os herejes. 17). faz figura da Igreja. c. . Desde então Nosso Senhor começou a pregar e reunir discípulos. fluindo daquela chaga sangue e água. Todos os sacramentos tiram sua eficácia da Paixão do Cristo. estando já morto. no último da Cidade de Deus. com as palavras do Salmista. não sem razão. desde o grande rio até os confins da terra. e Santo Agostinho.”. os tipos dos dois principais sacramentos da Igreja. O reino do Cristo. que foram os primeiros filhos da Igreja. era sinal dos sacramentos. mostram que Eva. Podemos concluir que se consumou a edificação da Igreja quando Cristo disse: “Está tudo consumado”. feita da costela do Adão adormecido. prova que o edificio da Igreja começa no batismo do Cristo: “Ele dominará de um ao outro mar. Fluirem sangue e água das costelas do Cristo. 8). e não sua instituição. apesar de terem aberto o costado de Nosso Senhor quando já estava morto. se iniciou no batismo recebido das mãos de São João. consagrou as águas e instituiu o sacramento que é a sua porta de entrada. feita da costela do Cristo adormecido na morte.” (Sl 71. 8). porque só lhe restava morrer. o livro do Génesis usa o termo “construiu”. advertindo que. I. foi nesse momento que se escutou claramente a voz do Pai nos céus: “Eis meu Filho muito amado em quem me comprazo” (Mt 3.Cristo. já que pagara o preço de nossa redenção. Santo Agostinho (“De Civit. o que logo acontenceu. a Igreja. 27. Epifánio.

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