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Psicologia Educacio e Cultura 2004, vol. Vl, af 1, pp. 121-140 ©PP.CM.CM, - Colagio Internato dos Carvolhos NEGOCIACAO DE CONFLITOS EM CONTEXTO ESCOLAR Abilio Afonso Lourenco Maria Olimpia Almeida de Paiva Excola Secundéria Alexandre Herulano, Port, Portugal Resumo A apreensdo actual da Escola pela problemitica relacionada com a negociacao de conflitos em contexto escolar revela de uma forma distinta que nao se trata, unicamente, de ‘um assunto em voga para os professores e investigadores, mas que nos defrontamos, tam- bém, com uma procura crescente de conhecimentos, resultado da percepgdo social que se foi desenyolvendo. A negociacao tem vindo a ser contemplada como uma das formas ideais de pratica social Neste estudo pretende-se averignar se as varidveis Sexo e Idade possuem importéncia ma compreensio da eficécia condutual dos negociadores. A amostra € constituida por 242 alunos do 3° ciclo do ensino basico de uma escola secundaria do centro do Porto. Os resultados sugerem que o Sexo ndo & uma varidvel essencial para o entendimento da eficdcia em negociacdo. No que concerne & Idade, comprova-se que a eficdcia negocial aumenta com a idade dos negociadores PALAVRAS-CHAVE: Conflito, contexto escolar, negociagao. Introdusdo Quando nascemos, pertencemos a um determinado grupo social. A nossa familia, 0 nosso bairro, a nossa cidade, 0 nosso pais, sdo exemplos de cate~ @prias sociais a que pertencemos. Pouco a pouco vamos tomando consciéncic. }da nossa pertenca a estes grupos, através da lingua que falamos, das normas [de conduta que aprendemos, enquanto nos desenvolvemos e do meio em que jarescemos. Com o desenvolver da personalidade surgem os conflitos de varia ordem, Iprimeiro num proceso de interiorizacéo no individuo, na busca de uma solu- Igo de deniro para fora, para, logo de imediato, na impossibilidade de reso- Go interna, passar para a dissolugdo do problema externamente, gerando itas vezes novos conflitos. (address: Escola Sacundario Alexcndre Herculane, Avenida Camilo, 4300-096 Porto, Portvgal. cavesnmamesceanmmnemacs Psicologia, Educagdo e Cultura, 2004, VIIL 1 g 0 Lourengo, Maria Oi E nesta linha de orientacéo — conflito e negociacéo - que se pretende direccionar este trabalho de investigagdo. Nao existe a pretensdo de privile- giar nenhuma vivéncia pessoal/profissional, mas sim realizar uma aborda- gem a mais objectiva possivel, aproveitando, apenas, o facto de os autores exercerem a profissdo num dos lugares onde, actualmente, se desenvolvem os mais diversos focos de violéncia e indisciplina - a Escola. Esta é um local “privilegiado” de conflitos que estéio associados a comportamentos disrupti- vos e estes, por sua vez, sdo influenciados por algumas varidveis, nomeada- mente o Sexo, a Idade, o Autoconceito e a Repeténcia, entre outras, confor- me nos é referido num estudo de Paiva (2003). Outra pesquisa realizada por Lourenco (2003), diz-nos que existe uma relacdo significativa entre o grau de gravidade dos comportamentos inadequados em sala de aula e do grau de importancia das causas do fenémeno da indisciplina na escola, com 0 Sexo e a Idade dos alunos. Assim, optou-se por fazer uma aborda- gem 4 eficacia de negociagéo, analisando variaveis sécio-demograficas (sexo e idade] que nos ajudem a compreender 0 modo de agir dos alunos perante uma situagdo negocial. Para tal, é importante ter presente que o facto de haver uma Escola Multi- cultural implica, forcosamente, a presenca de conflitos. Para compreender os conflitos que advém da existéncia dessa Escola, devemos conhecer as causas que 0s provocam, as caracteristicas e as condi¢des de vida de todas as cultu- ras com as quais convivemos no dia-a-dia escolar. Assim, Girard e Koch (1997) definem conflito como sendo a luta aberta entre, pelo menos, duas partes interdependentes que possuem objectivos in- compativeis, recursos limitados e interferéncia da outra parte para a obtencéo dos objectivos, controversa ou desacordo e oposicéo. Ainda a propésito do mesmo conceit, Serrano (1996) nao definindo propriamente o conceito mas referindo-se 4 natureza do mesmo, adianta que 0 conflito aparece em pratica- mente todos os campos da vida social. O mesmo que dizer que nem todos os conflitos so iguais, nem pela sua intensidade, nem pela sua qualidade. Mas pode afirmar-se que se trata de situagdes com alguns pontos comuns e outros especificos. Numa definigéo mais restrita 0 conflito constituira ”... uma percebida divergéncia de interesse, ou a crenca de que as actuais aspiracdes das par- tes ndo podem ser alcancadas simultaneamente” (Pruitt e Rubin, 1996, p. 4). © conflito podera ser definide, ainda, de modo amplo, como “... uma percepcdo de incompatibilidades entre dois ou mais actores e a amplitude de comportamento associado com tais percepsdes” (Bercovitch, 1984, p. 128). E Psicologia, Educacio e Cultura, 2004, VIII, 1 sresrcasnionssieenensn