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| Ve 2007, vol. XI, r° 1, pp.4l-71 © PP.CMCM, -Colégo lnteroto dos Carvahoe ———— CONFLITOS NEGOCIADOS NA ESCOLA _ ESTUDO COMPARATIVO ENTRE ESCOLAS COM CARACTERISTICAS URBANAS, SUBURBANAS E RURAIS. Maria Olimpia Almeida de Paiva Abilio Afonso Lourenco Excola Seeundéria Alexandre Herculono Resumo O aumento das desigualdades e das exclusdes sociais tem conduzido ao ineremento da delinguéncia e da violéncia, quer na sociedade em geral quer na escola em particular, ge- rando, assim, conflitos. O conflito encontra-se, na realidade, nos mais variados sistemas sociais e a sua elevada frequéncia, nas diferentes cenas da vida quotidiana, é uma constata- cio real e indiscutfvel, independentemente do tempo e do meio. Assim, a negociacZo pro- cura resolver o conflito de tal modo que a solugo se torne satisfat6ria para ambas as partes conflituosas, sendo esta facilmente sentida nos diferentes niveis da sociedade e com um tal impacto no bem-estar humano que dificilmente pode ser subestimada. A nivel empfrico, este trabalho teve como propésito averiguar se as varidveis Sexo e Idade possuem importincia relevante na compreensio da eficécia comportamental dos alu- nos como negociadores, assim como pesquisar se 0 meio onde as escolas esto inseridas influencia a forma como os alunos resolvem os conflitos em contexto escolar. A amostra € constituida por 1 010 adolescentes do 3.° ciclo do ensino basico de trés escolas do distrito do Porto (meio urbano. suburbano ¢ rural). Dos resultados desta investigacdo, conclui-se que existem correlagGes significativas entre 0 Meio Ambiente de inserg4o da escola e todos os factores da Eficacia em Negocia gio. No que conceme & varidvel Sexo, os resultados sugerem que ¢ uma varidvel essencial para 0 entendimento da Eficdcia em Negociago, sendo esta eficdcia sempre superior no sexo feminino. Relativamente & varidvel Idade. os resultados revelam que esta nao é pri- mordial para a compreensao da Eficdcia em Negociagao. PALAVRAS-CHAVE: Conflito, negociagao, escola, meio ambiente. Introdusao Actualmente, e na sequéncia da crescente globalizacéo do planeta, é ine- vitavel o aparecimento de conflitos sociais, laborais e organizacionais. Perce- ber as suas dimensées funcionais e disfuncionais para uma gestéo eficaz dos Morode (oddress: Rua do Godim, 869-3" Esq,, 4300-242 Porto, Portugal. E-mail: mopaiva@elix pt een Psicologia, Educacio e Cultura, 2007, XL 1 0 impia Almeida de Paiva. Abtio Afa mesmos é fundamental para o bom funcionamento das sociedades contempo- raneas. Quando o adolescente entra para a escola, as suas percepedes e expecta- tivas de éxito pessoal e social sGo [4 distintas, a partir do momento em que se compara com os seus pares e professores, tomando consciéncia de seu valor pessoal e social relativo. Contudo, alguns factores terdo de ser tomados em consideragtio pelo aluno: na escola existe um conjunto de regras e rotinas. Es- tas regras, ao se apresentarem aparentemente iguais para todos os indivi- duos, constituem-se, na realidade, diferentes para cada um em consequéncia da sua proximidade e tipo de experiéncia anterior com estas (Matos, 2005). A mesma autora, refere, ainda, que durante a adolescéncia a aceitagGo social esté relacionada com diversos factores, nomeadamente a capacidade de se posicionar no lugar do outro, a capacidade de se focalizar em proble- mas criando alternativas e descobrindo solusSes e o sucesso escolar. Os cons- trangimentos na relasdo interpessoal, estéo na origem de uma diversidade de problemas de comportamentos e atitudes sociais do individuo que se revelam, algumas vezes, em isolamento e outras em actos conflituosos. Desta forma, o aparecimento de situagdes de conflito e a respectiva ne- cessidade de as resolver de uma forma negociada comesa, hoje em dia, no jardim de infancia, parece alcancar 0 seu maximo no decurso do 2.° e 3.2 ci- clos do ensino basico e decresce no ensino secundario. Assim, a escola deve propiciar um ambiente isento de provocagées, ameacas, insultos verbais, ofensas, medos, intimidacdes e violéncia (Beane, 2006). Os conflitos surgem e manifestam-se, frequentemente, como dificuldades de convivéncia nas relagdes dos alunos entre si, destes com os professores ou com outros agentes educativos. O desenvolvimento de competéncias e 0 uso de instrumentos com o objectivo de resolver os conflitos num dominio de sere- nidade e equilibrio revelar-se-4 de grande utilidade, quando se tratar de in- terceder educativamente nas questées de convivéncia ou de tipo mais geral (Guerra, 2005). A apreenséio actual da Escola pela problematica relacionada com a ne- gociactio de conflitos em contexto escolar, associada & percepstio social que se foi desenvolvendo ao longo das tltimas décadas, levou a uma correspon- dente necessidade de uma procura crescente de conhecimentos nesta Grea de investigacdo. Como resposta, a negociagéo tem vindo a ser contemplada co- mo uma das formas ideais de pratica social para a resolugéio desses mesmos conflitos. Desde que o ser humano decidiu viver em sociedade, o conflito é uma realidade construida pelos seus elementos, resultante da ruptura do processo o Psicologia, Educago e Cultura, 2007, XI, 1