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A COROA DE LATA

MAHMOUD TEYMOUR

(1894-? - Egito)

Senhor Procurador-Geral, por que Vossa Excelência


insiste tanto em saber do motivo que me teria levado a
matar o Sr. Zahir? Eu não o matei e jamais pensei em
praticar um ato de tal sorte. Sem dúvida, alguém
mentiu a V.Ex.a afirmando semelhante coisa, embora
eu ache que não tenho inimigos que desejem me
prejudicar de maneira tão daninha. Por que razões
formularam tais acusações contra mim, inculpando-me
equivocadamente desse delito, quando todos conhecem
os sentimentos de amizade que eu nutria pelo Sr. Zahir,
diretor do teatro onde representei por mais de vinte
anos?
Eu o estimava muito, respeitava-o muitíssimo. Era-
lhe reconhecido por todos os favores e delicadezas que
sempre teve para comigo. O Sr. Zahir, por outro lado,
demostrava afeto por mim, e sempre que tinha a
oportunidade, me elogiava, exaltando a minha capa-
cidade artística. Será que haverá um só ator da
companhia disposto a me desmentir? Caso houver, faça
que ele seja conduzido até aqui, Excelência. Interrogai-
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o sem maiores pressas e ele deverá admitir que mentiu,


ou que foi levado ao erro.
Por quais motivos haveria eu de assassinar o Sr.
Zahir?
Justamente a mim é que V.Ex.a dirige uma pergunta
de tal ordem? A um homem que, caminhando pelas
ruas, tem todo o cuidado em não esmagar uma
formiga, em não pisar num escaravelho? Nada me dá
tanto horror como o sangue, mesmo que seja de um
bichinho. Detesto as cenas de crime e de combates
mesmo no palco, a tal ponto que meus companheiros
me apelidaram de Rei-Amante-da-Paz, e sempre me
confiaram esse papel. Eu o interpretava maravilhosa-
mente; toda a minha vida profissional demonstra isso:
representando, não tinha necessidade de fingir, pois
aquele era o personagem que eu encarnava
diariamente, na minha existência real. Acredite,
Excelência, não fui eu quem assassinou o Sr. Zahir:
mas, já que deseja me interrogar sobre esse assunto,
vou lhe contar alguns fatos relativos ao meu passado e
às relações que tive, seja com o Sr. Zahir, seja com a
companhia que ele dirigia. Estou convencido que será
do seu interesse.
Ao longo de vinte anos representei o papel de Rei-
Amante-da-Paz. Ao longo de vinte anos vivi em
suntuosos palácios, por entre colunas de ouro,
sentando-me em esplêndidos tronos; trazia à cabeça
uma coroa de pedras preciosas, vestia riquíssimas
vestes cuja cauda era segurada por jovens escravos.
Durante vinte anos, participei de suntuosos banquetes,
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saboreei pratos de imenso requinte e bebi em taças


esplêndidas, enquanto meus súditos se debatiam para
apanhar o ouro que eu lhes atirava a mancheias.
Suplico, V.Ex.a., que não venha a me dizer que
aqueles palácios, aqueles ouros, aqueles ornamentos,
eram apenas papelão e lata pintada de ouro! Não, pode
ter certeza; eram palácios de verdade e nenhum
monarca ou sultão teve mais razões para exultar nas
suas magníficas pousadas do que eu exultava nas
minhas. Os sentimentos do homem, por ventura, não
são revelados e provados precisamente pelo prazer que
ele aufere de semelhantes alegrias e de sua capacidade
de desfrutá-las plenamente? Suponhamos por um
momento, Excelência, que, depois de haver
presenteado com dez toneladas de ouro puro, um tirano
desconhecido lhe enviasse ao deserto para lá viver,
numa região onde a civilização fosse desconhecida e
não habitada por nenhum ser humano. Para que lhe
serviria, num caso assim, essa enorme quantidade de
metal precioso, esse tesouro pelo qual nações inteiras,
e não apenas indivíduos isolados, estariam dispostas a
desencadear uma luta impiedosa? Que prazer vos
adviria de tão cobiçada posse? O papelão e a lata dos
meus fictícios palácios me eram bem mais úteis:
proporcionavam-me maiores prazeres do que as
toneladas de ouro puro e verdadeiro do deserto. Graças
a eles, sentia a importância da realeza, a pompa da
soberania! Sinceramente, aceite, Excelência, minhas
razões. Juro que, quando me levantava de meus
suntuosos banquetes, estava saciado como poderia
estar qualquer homem que tivesse enchido o estômago
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destas iguarias de um esplêndido festim. Conservo


ainda nas narinas o perfume das carnes opíparas que
então comia, e o meu paladar continua impregnado do
sabor do raro vinho que me era servido em taças
incrustadas de gemas. Neste momento, posso até
saborear de novo a felicidade que me enchia o coração
quando perdoava um criminoso arrastado diante de
mim pelo carrasco, para que lhe decretasse o castigo.
Na verdade, Excelência, a lembrança daquele infeliz que
fixava seus olhos súplices em mim e me agradecia por
ter sentido piedade por ele faz ainda que meu coração
bata mais rápido e meus olhos se encham de lágrimas.
Que me perdoe, Excelência, este pranto, mas eu lhe
suplico, pelo amor de Deus, não rieis de mim.
Na verdade, Excelência, eu gozei de todo o luxo, a
comodidade e a beleza que tornam agradável a vida dos
soberanos. Poderei por acaso esquecer aquelas longas
filas de nobres e de militares que, desfilando à minha
frente, dobravam o joelho no chão, com a mais humilde
dignidade? Poderei esquecer as deliciosas festas que me
eram oferecidas, com belas bailarinas, cantoras de voz
melodiosa, as jovens virgens que acionavam o ritmo
dos pandeiros? Aquelas festas onde cada homem podia
livrar-se das vestimentas para envergar os hábitos do
Monarca Louco? Não esquecerei jamais as radiosas
donzelas que me circundavam, jogando-me olhares
sedutores; quando uma delas conseguia fazer jus a um
dos meus fugitivos sorrisos, considerava-o na medida
de um tesouro sem preço.
Por vinte anos, Excelência, vivi como um grande
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monarca, com súditos, soldados, príncipes, servos e um


número infinito de escravos. Por vinte anos, saboreei as
sensações do poder; uma simples palavra de meus
lábios tornava-se lei, um só olhar de meus olhos era
uma ordem sagrada. Passei os meus dias nessa
atmosfera, sem um lar onde me refugiasse depois do
espetáculo. O palco era meu único asilo; como não me
agradasse sentar-me no café para deixar o tempo
passar em frívolas fofocas com meus colegas, gastava
todas as minhas horas livres no teatro, naquele
ambiente estranho, entre personagens interessantes e
faustosos palácios. À minha volta, havia sempre
bastidores, trajes e praticáveis.
Assim se encaminharam as coisas, até o dia em que
o Sr. Zahir, chamando-me ao seu escritório, acolheu-me
com um belo sorriso, ofereceu-me um cigarro e me o
acendeu. Depois começou a falar em termos elogiosos
da minha arte:
- Com certeza você sabe - disse - quanto é grande o
afeto que lhe consagro e a estima em que o tenho,
senhor Mahfouz. Mas quero dar-lhe uma prova concreta
disso. - Senhor - respondi em tom alegre -, não posso
desejar melhor recompensa do que a declaração que
me acaba de fazer.
- A vida de um ator é fatigante - prosseguiu ele. -
Há mais de vinte anos que você trabalha na minha
companhia, partilhando de incertezas e vicissitudes de
toda a sorte. Você nos deu os melhores anos de sua
vida, mas agora é a hora de descansar. Não lhe
pedimos mais para representar e, no entanto, como no
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passado, continuaremos a lhe pagar salário.


Fiquei pálido.
- O senhor quer que eu ... me retire do palco?
- Sim, mas conservando o salário integral.
Abaixei a cabeça, sem lhe dar resposta. Tinha aqui
dentro de mim todo o tipo de pensamento e não sabia
de que lado começar ou acabar; entre um confuso
sobrepor-se de cenas dramáticas, me via rodeado de
uma multidão de amigos, de príncipes, de ministros, da
corte habitual de militares e escravos. Tinham vindo
para me dizer adeus, ao saberem que eu ia deixá-los.
Ouvia os alaridos das trompas anunciarem minha
partida com tristes notas amargas e, enquanto descia a
escada de mármore do palácio real, via os súditos mais
fiéis se apertarem à minha volta para espargir copiosas
lágrimas sobre o farrapo do meu manto ...
Depois chegou até mim a voz do Sr. Zahir. Pusera a
mão sobre meu ombro e me sacudia com força.
- Que aconteceu? - perguntou. - Você está se
sentindo mal? Acorde, meu caro Mahfouz!
Fixei-o com os olhos brilhantes de lágrimas.
- Que coisa mais inconcebível! - disse ele. - Não
ficou satisfeito?
- Senhor, senhor ... - consegui responder. -
Não quero receber o salário integral.
Não quero nada. Mas me deixe continuar traba-
lhando no seu teatro ... Não me aposente, por favor!
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- O que você está dizendo? Eu não estou te


aposentando, ao contrário, quero lhe dar uma prova da
estima que lhe dedico. Reflita comigo: talvez você
esteja cansado; vá descansar e depois examine a
proposta e volte a me procurar de modo que possamos
falar sobre ela com mais calma.
O pedido que fiz ao Sr. Zahir não foi levado em
consideração: pelo contrário, me pareceu que todos
criticavam a minha atitude e admiravam a ele pela
generosidade com que me havia tratado. Realmente,
seria difícil encontrar uma pessoa mais magnânima do
que ele. Conseqüentemente, me convenci de que eu
estava errado e, abandonando o trabalho, decidi me
retirar e fui viver num bairro da periferia. Aluguei um
quarto com a intenção de me afastar para sempre e por
completo do teatro, de modo a não ver mais coisa
alguma que pudesse reavivar a minha dor, o meu
sofrimento. Meus esforços de aceitar o julgamento do
destino, sem acrimônia ou azedume, com a mesma
resignação filosófica que representara tantas vezes no
palco, quando o meu papel me havia constrangido a
suportar os fatos diante dos quais até um rei devia
inclinar-se em silêncio. Tentei me ligar por amizade a
alguns vizinhos do prédio, pensando que poderiam
aliviar um pouco a minha dor e que ao lado deles a
minha alma se sentiria consolada e propensa ao
esquecimento.
Os primeiros três meses na nova moradia,
Excelência, foram serenos. Sentia-me bem com os
amigos e à noite procurava o café para passar as horas
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em agradáveis conversas. Quando me interrogavam a


respeito do passado, eu contava algum episódio
interessante da vida que levara à luz da ribalta,
vestindo trajes imperiais. E de que outra coisa poderia
eu falar? De repente, depois do primeiro gole, apenas
sentado à mesinha do café, me sentia novamente
possuído pela personalidade do "Monarca”. Revia a
imponente sala dos banquetes, com suas altas colunas,
mesas cobertas de preciosos pratos, as taças
incrustadas de gemas, as delicadas iguarias; revia as
multidões apertadas contra mim, os postulantes que se
ajoelhavam para formular suas súplicas, os súditos que
abriam alas para eu passar e me aplaudiam. Depois,
ouvia as claras vozes de "Hosana", a música
arrebatadora, o rufar dos tambores, o chocar das
espadas.
Assim passava eu as horas em companhia dos meus
novos amigos. Em seguida, voltando para casa, eu me
deixava vencer pelo sono, e uma vez mais vivia em
magníficos palácios, em pleno fausto do meu régio
poder.
Sim, Excelência, nada tenho contra o fato de admitir
que atravessei aqueles meses em paz e serenidade.
Certa noite, no entanto, enquanto eu estava sozinho no
café, me caiu sob os olhos uma filipeta do teatro. Por
uns tempos segurei-a entre as mãos, brincando com ela
distraidamente, sem intenção de lê-la. Estava admirado
que uma publicidade daquele tipo, tendo chegado até o
subúrbio, caísse justamente nas minhas mãos. Seria
aquilo uma simples coincidência? Ou quem sabe uma
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brincadeira do predisposto Destino? O coração me batia


forte quando, finalmente, abrindo o papelucho em cima
da mesinha, me inclinei para observá-lo. Naquela noite,
justamente aquela noite, o grupo dirigido pelo Sr. Zahir
levaria "O Rei dos Reis", a minha peça, aquela que me
havia dado glória e renome - e o Sr. Zahir em pessoa
iria encarnar o personagem.
Saindo rapidamente do café, me percebi correndo
loucamente pela rua. As pessoas se viravam para ver,
estupefatas, perguntando-se que loucura havia me
dado: mas continuei a correr sem prestar maior
atenção aos transeuntes. Chegando ao teatro num esta-
do de completo esgotamento, atirei-me no chão num
canto escuro, junto à porta de saída dos fundos. Só
quando consegui me recuperar um pouco, me levantei e
deslizei rápido pela porta sem ser visto por ninguém.
Provavelmente, Excelência, vós não conheceis o
espírito que impera nos teatros; não tendo jamais
subido num palco, ignorais aquela atmosfera palpitante
de pura comoção. Não podeis, portanto, ter sequer uma
idéia dos sentimentos que me animavam, enquanto,
depois de longa ausência, eu girava por entre as caixas
de cenários e mobílias dispersas por toda a parte.
Como em sonho, assim que encontrei a porta do
camarim que fora meu, procurei no armário o cetro, a
coroa, as vestes do "Rei dos Reis". Vestida a roupa,
comecei a me caracterizar, e só quando terminei a
função, ergui os olhos para o espelho.
Que o céu me proteja! Eis-me de novo o "Rei dos
Reis", como se tivesse ressurgido da morte para voltar
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ao mundo depois de uma interminável ausência. Não


me lembrava sequer que sobre esta terra existia um
homem chamado "Hahfouz". Por que motivo deveria eu
saber de sua existência? Aquele personagem satisfeito
com sua esquálida vida não podia contar nada, era um
ser insignificante, um pobre freqüentador dos cafés de
bairro que nada tinha em comum comigo.
Com um passo lento e solene, depois de colocar no
rosto a barba do rei, saí do camarim. Todos me
aguardavam: na frente, os portadores de tochas, atrás
deles, os portadores de estandartes. Enquanto soavam
as trompas a sua altissonante saudação, os soldados
levantavam as lanças para me prestar homenagens; ao
entrar na grande sala, olhei-a com os olhos de sempre:
ela com suas paredes cobertas de afrescos, belas
colunas de ouro e, ao centro, o trono encimado por um
balanquim de veludo vermelho. Ao redor, tudo eram
príncipes e ministros agrupados. Finalmente, eu estava
de volta ao meu reino, tinha reconquistado a minha
soberania.
Devagar e majestosamente, aproximei-me do trono,
saudando com um furtivo sorriso os fiéis servidores que
me rodeavam. Mas naquele momento me surgiu pela
frente uma estranha figura: um personagem
desconhecido, vestido de "Rei dos Reis". Apesar de
cheio de indignação, pedi-lhe amavelmente que se
afastasse e que abdicasse, pois era ele um usurpador.
Ele me respondeu com uma arrogância difícil de
agüentar. Em vão tentei dominar a raiva que me
invadia, nem mesmo o mais paciente dos homens pode
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suportar o desdém quando a ofensa alcança e supera


todos os nossos limites.
Levantei então o cetro numa atitude de ameaça e
defesa; depois tudo escureceu à minha volta e perdi a
consciência ... Foi aí que acabaram me trazendo diante
de vós.
Eis, pois, Excelência, a minha história. Contei-vos
tudo. Agora dizei-me: estais ou não persuadido de que
eu tenha alguma culpa da morte do Sr. Zahir?

Tradução de Afonso Schmidt

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