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O VÔO DA GUARÁ VERMELHA - AUTORA MARIA VALÉRIA REZENDE

O Vôo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende, é um livro sóbrio e envolvente. Um hino à vida, à
beleza e ao amor, completamente desprovido da pieguice em que geralmente se banham romances que fazem
dessas matérias inconsúteis (amor, beleza e vida) a carpintaria da história que contam.
"Das fomes e vontades do corpo há muitos jeitos de se cuidar porque, desde sempre, quase todo o viver é
isso, mas agora, crescentemente, é uma fome da alma que aperreia [...]". Assim começa a obra, falando de fomes,
de carências; porque este é um livro que trata de necessidades afetivas e de suas possíveis superações.
Sacando recursos inventivos, Maria Valéria Rezende constrói uma narrativa sofisticada e ao mesmo
tempo simples. Dessa escolha estética, aos poucos o leitor vai extraindo a essência das personagens e a
compreensão de seus passados. A narrativa de O vôo da guará vermelha mistura elementos da cultura popular —
especialmente da literatura de cordel e de oralidades — com textos clássicos tais como D. Quixote e As mil e uma
noites. Os capítulos têm nomes de cores que remetem ao conteúdo da história (cinzento e encarnado; verde e
negro; ocre e rosa). A descrição alterna passado e presente com encadeamento perfeito.
A história se narra pela boca de um narrador sofisticado, que ora empresta a voz para suas personagens,
ora fala delas em terceira pessoa. Sempre de olho no leitor, a voz que narra não poupa artimanhas para envolver
esta instável figura – o leitor – em sua solidariedade para com Irene e Rosálio.
Pairando na história, sabores e cheiros que arrematam o forte substrato sensorial do texto, onde é
recorrente a imagem de um sagüi e de uma guará, lembranças fundamentais na vida das personagens centrais:
Irene e Rosálio.
Ela, Irene, é uma mulher que chega do Norte e, em São Paulo, se torna uma prostituta com Aids. É uma
prostituta barata: doente e envelhecida, mal consegue os clientes necessários para o dinheiro que precisa levar
semanalmente para a velha que lhe cria o filho. Embaixo do colchão deformado, um caderno e um lápis aguardam
a história que ela acredita que um dia vai escrever. No passado, Romualdo, um grande amor desaparecido. E no
futuro muito próximo, a morte inevitável por doença terminal. O exame médico traz a sentença indelével, as vozes
na mente, os conselhos da assistente social insistindo para que leve outra vida. Ela viveu no passado, uma história
de amor e tragédia. Do amor que prende, que mata, que deixa saudade e culpa. Da espera do jovem que promete
ir buscá-la.
Ele, Rosálio da Conceição, é um servente de pedreiro que vive na cidade grande. Filho de mãe solteira,
Rosálio começa por ter de adotar um nome: era conhecido como Nem Ninguém, nome sugestivo da negatividade
quase absoluta de sua existência; depois passa a ser Curumim e, finalmente, Rosálio da Conceição na
documentação que lhe dá existência civil. Esta invenção de um nome para si mesmo é o primeiro gesto pelo qual
Rosálio começa a construir-se como sujeito de sua própria história. Traz consigo uma caixa de pau-d’arco, a qual
nunca abandona, saem alguns velhos pertences: um bodoque, um pião e vários livros, objetos estes que remeterão
o leitor ao passado do servente de pedreiro. Especialmente dos livros, é que será extraída a essência de Rosálio,
que, mesmo analfabeto, cultiva carinhosamente os volumes, desejando ardentemente aprender a ler para deles
melhor usufruir o conteúdo. Rodou o mundo, impulsionado pelo desejo de aprender a ler, a ler os livros que trazia
nas mãos. Buscou errante onde parecia óbvio, deu voltas e voltas até que encontrou Irene.
Mas essas personagens não arredarão pé do destino a que estão submetidas. Não se trata de resignação.
Pelo contrário. É a condição humana, os ditames que os levam a viver sua doce história de amor.

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Esta história fundamenta-se na incansável busca de Rosálio por alguém que o ensine a ler os livros que
herdou do falecido Bugre, índio desgarrado que terminou de criá-lo, depois de ser por ele salvo de morrer de febre,
fome e sede. Os caminhos do aprendizado são tortuosos e cheios de curvas: com o protagonista, o leitor perambula
por madeireiras, garimpos, canteiros da construção civil. O encontro com Irene é quase que por acaso e o que se
impõe a partir daí é a beleza como celebram a vida porque o fazem de forma terna, simples e profunda.
Desse ponto da história começam a aparecer casos do passado, como o que dá nome ao livro: Rosálio,
ainda jovem, encontra uma triste ave de penas rubras, um animal ferido, enrolado nos galhos de um espinheiro.
Rosálio vai até o pássaro, descobre que é uma guará vermelha. Tenta ajudar o bicho, mas este foge-lhes das mãos.
E alça vôo. O lindo vôo da guará vermelha. Anos depois, Rosálio, ao encontrar Irene, ambos revivem o simbolismo
dessa cena com a ave.
O livro mostra a imensa capacidade do espírito de extrapolar o mundo físico, ainda que o cenário se
descortine em uma realidade material que nega o vôo. Irene vive finalmente o tão sonhado amor nos braços de
Rosálio e parte suavemente nas asas de um passarinho. Rosálio ao buscar a palavra, busca a sua consciência e ao
encontrar as letras com as quais pode ler o seu nome, sai do estado de cinza/inconsciência para a luz que se
descortina num arco-íris de cores da consciência. Rosálio, o contador de histórias, com o seu instrumento de
trabalho e vida eterniza a si mesmo assim como o faz a sultana de Mil e Uma Noites.
Rosálio aprende a ler com Irene, da forma mais bela e digna que é aprender ensinando, receber, dando. E
juntos, na cama velha e estreita, decifram as letras dos livros herdados de Bugre. No caderno de Irene, ela registra
a lápis as histórias que Rosálio conta. Homem e mulher que se fazem um na linguagem e no texto. No corpo e na
cama, na vida e na morte.
Os personagens desta obra sobrevivem na obscuridade humana, discretos e anônimos na sua miséria,
mas intensos nos seus sonhos de um dia viver, porque não?, como os outros vivem, com alegria e alguma
esperança. Irene tem muito a ensinar para Rosálio, e ele também a dizer para Irene – até que a linda guará
vermelha consiga alçar vôo.
Extremos de pobreza, de solidão e de doença, fundidos, se transfiguram. Transfigurados, parecem dar
sentido à vida e até à morte. Pois embora celebre a vida, o enredo é misturado por mortes, desencontros,
sofrimentos. É entremeado, sobretudo, de histórias, que se destacam graficamente da fala do narrador,
elaborando os entremeios.
Aos poucos, linguagem, escrita, livros, papéis, lápis e histórias de boca e de leitura vão crescendo no
enredo, construindo o ponto de encontro dos protagonistas. Daí para frente, multiplicam-se e ficam cada vez mais
encorpadas as formas de linguagem de que se valem as personagens. Aliás, a linguagem e os diálogos que ela
engendra representam, talvez, a idéia fundadora e a tese do livro, se é que se pode falar de tese a propósito de um
livro sutil como O Vôo da Guará Vermelha.
Maria Valéria Rezende traça um painel de um Brasil profundo, onde, apesar das diversas agruras — como
analfabetismo, doenças e escravidão moderna; tudo contido no livro —, ainda é capaz de fazer nascer histórias
densas e humanas para nos fazer pensar a realidade de forma solidária, para nos dar esperança em possíveis e
belos vôos de guarás vermelhas.

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RESUMO DA BIOGRAFIA DE MARIA VALÉRIA REZENDE

Maria Valéria Rezende nasceu em Santos, São Paulo, onde viveu até aos 18 anos. Em 1965 entrou para a
Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho. Dedicou-se sempre à Educação Popular, primeiro
em São Paulo, e a partir de 1972 no Nordeste, vivendo em Pernambuco e na Paraíba, no meio rural, até se fixar em
João Pessoa, onde vive atualmente. Em 2001 publicou o livro de contos, Vasto Mundo, e em 2005 O Vôo da Guará
Vermelha, o seu primeiro romance. Revolucionária, educadora e escritora polêmica, Maria Valéria Rezende deixou
o convento e transformou a vida religiosa numa aventura radical.
A autora destaca que a sua vivência se infiltra em seus livros. Veja a transcrição da fala de Maria Valéria
Rezende: “Desde cedo eu tinha muito contato e me preocupava com as condições de vida e educação de pessoas
mais pobres. Também assumi uma atitude de engajamento pela transformação profunda da sociedade brasileira,
em direção a mais justiça e igualdade, como a maioria dos estudantes da minha geração - por outro lado, na
adolescência me converti com entusiasmo ao Evangelho de Jesus, querendo tomá-lo como meu guia de vida. Daí
minha vida tomou um rumo que tentou ser fiel a tudo isso e me levou por inúmeros caminhos e experiências que
certamente me modelaram e se infiltram no que eu escrevo, quer eu queira, quer não”.[...] “Mesmo quando estou
escrevendo um romance, mantenho uma prática constante de escrever contos, como um desafio, estimulada pela
participação semanal no Clube do Conto da Paraíba, que exige o esforço de criar alguma coisa a partir de um mote
definido pelo grupo. Uma coisa não atrapalha a outra, ao contrário, ajuda, mantém a imaginação em exercício
constante. São atividades com exigências bem diferentes para o autor, quanto a tempo e disponibilidade externa e
interna, ambas demandam esforço e dão prazer. O que mais me agrada é fazer o melhor que posso, seja um conto,
seja um romance. Só sei se fiz bem quando os outros o lêem... “

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