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HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL

> III
OTTO MARIA CARPEAUX

HISTÓRIA DA
LITERATURA
OCIDENTAL
Faculdade Estadual de Direito
de Maringá

rm > EDIÇÕES O CRUZEIRO


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DA EMPRESA GnÁncA O CRUZEIRO S. A.,
KM MAIO DE 1 9 6 1 , PABA AS EDIÇÕES O C R U Z E I R O ,
RUA DO LIVRAMENTO, 189/203, Rio DE JANEIRO.

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PARTE VI
FDND. U::v. B T . DE MARINGÁ

ILUSTRAÇÃO E REVOLUÇÃO
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BIBLIOTECA
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Universidade Estadual de Maringá


Sistema de Bibliotecas - BCE

Olretor
HERBERTO SALES

DIREITOS ADQUIRIDOS PELA SEÇÃO DE LIVROS DA


EMPRESA GRAPTCA O CRUZEIRO S. A., QUB SE
RESERVA A PROPRIEDADE LITERÁRIA DESTA EDIÇÃO.
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ORIGENS NEOBARROCAS

03detítulos de certas obras historiográficas tiveram a torte


definir, como fórmulas "clássicas", o caráter da
época tratada. O Outono da Idade Média, de Jan Huizinga,
definiu para sempre a feição crespuscular do "gótico flam-
boyant" do século XV. Caso oposto é o caráter primaveril
dos anos entre 1680 e 1715, que minaram ideologicamente
o reinado de Luís XIV, pondo termo ao Barroco e prepa-
rando a Ilustração, o racionalismo do século XVIII. Não
foi possível realizar essa grande revolução espiritual, sem
abalar tudo o que passava até então por santo e sacrossanto.
Havia uma grande crise nas consciências, uma crise de re-
novação e fertilização; continuaremos a chamá-la, segundo
o título do livro em que Paul Hazard a descreveu magis-
tralmente, de Crise da Consciência Europeia (*).
A França, marchando "à la tête de la civilisation" de
1680, transformou-se, quase de repente, em objeto de mu-
danças, operadas no estrangeiro, especialmente na Holanda
e na Inglaterra — fato que coincide com a mudança da
sortç nas guerras do grande rei contra as chamadas "po-
tências marítimas". Esta expressão, lugar-comum da lin-
guagem diplomática do século XVIII, indica bem a origem
do poderio holandês e inglês no comércio e imperia-
lismo coloniais. E essa expansão não deixou de alar-

1) P. Hazard: La crise de la conscience européennc. 3 vols. Paris,


4 1935.
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f t r 01 horizontes espirituais. O encontro com as civiliza- piritual, significa separação nítida entre acontecimentos
ções indiana e chinesa teve efeitos semelhantes à renovação astronômico-geográficos e acontecimentos históricos: por
da ciência historiográfica através das grandes coleções de isso, Bayle não acredita na significação histórica do apa-
documentos dos Maurinos e de Muratori: começou-se a recimento dos cometas. E a independência cartesiana entre
duvidar da infalibilidade dos historiadores antigos, menos corpo e espírito torna impossível a crença na magia, fei-
exatos, e do valor absoluto da civilização ocidental. A tiçaria e possessão demoníaca; extingue-se a crença em
estrutura dogmática do estilo de pensar, comum à Idade bruxas, e o teólogo holandês Balthasar Bekker explica
Média, à Renascença e ao Barroco, começou a desmoronar- como casos de tratamento psicoterapêutico as histórias
se. O efeito incidiu particularmente sobre os protestantes de exorcismo no Evangelho. Agora, é difícil admitir a
franceses, que, depois da revogação do edito de Nantes, intervenção direta de Deus nos negócios terrestres. O con-
em 1685, se refugiaram na Holanda; refugiados por motivo ceito da "lei" científica já excluiu os milagres físicos; e
de diferenças dogmáticas, encontravam-se agora numa at- Swammerdam e Boerhave descobrem leis de valor igual na
mosfera de relativa tolerância religiosa e de dogmatismo biologia ; Newton descobre até uma lei de validade cós-
muito adequado. É típico o caso de Jean Le Clerc, pensador mica: a da gravitação entre os corpos celestes. A ideia
que oscilava entre protestantismo combativo e criticismo de "lei da natureza" renova a segurança, abalada por aquele
teológico. Os próprios católicos contribuíram para a crise. relativismo geográfico-histórico. O homem se sente outra
Bossuet, para desmoralizar os adversários protestantes, de- vez em casa num universo bem policiado, contanto que o
monstrara-lhes as variações contínuas dos seus credos, o próprio "dono da casa" não intervenha de maneira arbi-
que equivalia a um convite para aplicar esse método crítico trária, destruindo as leis por êle mesmo ditadas; Deus é
à história eclesiástica inteira. Pouco depois, tem já Bossuet reduzido â condição de legislador sem direito de modificar
de combater o oratoriano Richard Simon que, defendendo a legislação vigente. É o deísmo. Existe deísmo astronó-
o papel da tradição na dogmática católica contra o bibli- mico, físico, biológico, histórico, e até um deísmo j u r í d i c o :
cismo rígido dos protestantes, revelou as modificações con- o Direito natural, que, outorgado ao homem quando da
tínuas no texto dos manuscritos e das versões da Bíblia, criação, já não permite apelar para o tribunal divino. Com
chegando a resultados críticos que muito inquietaram o Thomasius e Pufendorf, o Direito natural torna-se inde-
grande bispo. Abalou-se a confiança em todos os documen- pendente da sanção teológica; e o fim será uma moral
tos cuja garantia era a fé dos séculos. Por que acreditar laicista. As possibilidades do aperfeiçoamento humano são
nos milagres do cristianismo, se os milagres dos deuses consideradas ilimitadas, e na mofai social de Mandeville
e taumaturgos pagãos, narrados pelos historiadores mais aparecem os próprios vícios, admitidos dentro dos limites
sinceros da Antiguidade, não eram fidedignos? Os ataques de um equilíbrio são, como úteis à sociedade, promovendo-
de Bayle contra a credulidade dos antigos são uma série lhe o progresso pela competição dos egoísmos. Onde fica,
ininterrupta de ataques sutilmente disfarçados contra a pois, o pecado original? Durante todo o século X V I I I ,
credulidade dos cristãos. A arma mais poderosa contra a os últimos jansenistas lutam contra o otimismo pelagiano
fé nos milagres era o cartesianismo, ressuscitado em mo- da doutrina que. afirma que "o homem é bom". Lutam
mento oportuno. A autonomia do mundo físico, indepen- porém num posto perdido. De Shaftesbury a Rousseau
dente, segundo Descartes, das intervenções do mundo es- proclamar-se-á com entusiasmo cada vez maior o direito do
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homem à felicidade terrestre, e as aplicações técnicas das nário, agrupando-se em torno de Boileau, que respondeu
ciências já prometem o paraíso futuro. Reaparecem as com violência agressiva. Ao argumento razoável de que
utopias, desaparecem as leis e convenções absurdas de um os gregos e romanos não eram gente diferente de nós outros
mundo caduco, do mundo medieval-barroco, e acredita-se e de que a natureza humana é capaz de realizar as mesmas
na breve extinção dos últimos vestígios do irracionalismo coisas em todos os tempos, Boileau opôs insultos a respeito
aristocrático e eclesiástico e na racionalização perfeita da do "mau gosto" e da "ignorância" de Perrault, de modo
vida. É o princípio do mundo moderno. que este pôde replicar:
Ao lado dos "preconceitos políticos" e dos "precon-
ceitos religiosos" existem os literários. Agora, acredita-se "Nous dirons toujours des raisons,
muito em "raison"; e não há razão nenhuma para admitir l i s diront toujours des injures."
a infalibilidade literária dos antigos. Um dos primeiros
cépticos fora Alessandro Tassoni, que nos Pensiexi diversi, Evidentemente, o que enfureceu tanto Boileau foi o
já em 1612, ousou afirmar a superioridade de Ariosto e receio de que se abolissem, com o culto dos antigos, as
Tasso sobre Homero e Virgílio. Isso foi pouco antes de "regras" sacrossantas, e de que Be derrubasse o edifício
se estabelecer o domínio absoluto dos modelos antigos: no inteiro do classicismo, voltando a literatura à "barbárie".
classicismo francês, acompanhado do classicismo de Milton, Basta ver que na carta de reconciliação, dirigida em 1700
na Inglaterra, e seguido pelo classicismo da Arcádia, na a Perrault, admitiu a superioridade da literatura francesa
Itália. Com a "crise de la conscience européenne" desperta sobre a latina, contanto que o adversário atribuísse o mérito
novamente o orgulho literário dos "modernos"; rebenta dessa superioridade à imitação dos antigos, sobretudo dos
a famosa "Querelle des Anciens et des Modernes" ( 2 ). gregos. A discussão reacendeu-se a propósito de uma tra-
O culto unilateral dos antigos impediria o progresso, dução da Ilíada, publicada em 1699 pela famosa filóloga
do qual o século já dera provas magníficas. Em 27 de Madame Dacier, e atacada pelo poeta Houdart de La Motte:
janeiro de 1867, Charles Perrault leu na Academia Francesa depois de negar o valor da tradução, negou ele o valor do
um poema, "Le Siècle de Louis le Grand", no qual com- próprio Homero, poeta bárbaro que já não poderia agradar
parou a sua própria época à do imperador Augusto, afir- ao gosto dos tempos ilustrados. La Motte publicou até
mando a superioridade dos grandes escritores franceses outra tradução da Ilíada, abreviada e emendada segundo
sobre os antigos. Nos Parallèles des anciens et des moder- conceitos "modernos".
nes (1688, 1697), Perrault elogiou Racine, La Fontaine,
Entre as duas fases da "Querelle", situa-se um caso
Pascal e Boileau à custa de Sófocles, Esopo, Platão e Ho-
análogo, sugido na Inglaterra. O intermediário foi o último
rácio; e teve a audácia de falar em defeitos de Homero.
dos libertins, que viveu exilado entre os ingleses: Saint-
Os próprios elogiados não concordaram com o revolucio-
Évremond ( 3 ). Foi um espírito de oposição anti-barro-

3) Charles de Marguetel de Salnt-Denís, sieur de Saint-Évremond,


2) H. Rigault: Histoire de la Querelle des anciens et des modernes. 1616-1703.
Paria, 1856. Comédie des Académistes pour la réformaUon de la langue fran-
H. Oillot: La querelle des anciens et des modernes en Trance, de çaise (1643, publ. 1650); Réflexions sur les divers génies du peuple
la "Defense et Illustration de la Langue française" aux "Paral- romain dans les différents temps de la republique (1663); De la
lèles des anciens et des modernes". Paris, 1914. tragedie ancienne et moderne (1672); Sur les poèmes des anciens
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ca, conservando sempre a mentalidade da Fronde e dos será o próprio espírito da literatura inglesa na primeira
précieux e Hbertins, sem deixar, contudo, de ser um pre- metade do século, época de Pope. E na França? O poeta
cursor dos "modernos" em muitos sentidos: as suas re- representativo da "Querelle", Houdart de La Motte ( 5 ) é
flexões sobre história romana antecipam ideias de Mon- uma figura interessante. Não possuía o menor talento poé-
tesquieu. Na "Querelle", o seu ponto de vista foi o único tico: as suas fábulas são involuntariamente ridículas, as
razoável: os antigos são sempre admiráveis, mas nem sem- suas odes não passam de tratadinhos cartesianos metrifi-
pre nos servem como modelos. Saint-Évremond é um dos cados; mas do seu antitalento tirou Houdart a conclusão
primeiros representantes de uma estética relativista, que estranha de considerar inútil e absurda a própria poesia.
derrotará por fim o absolutismo dos classicistas, preparando E a época concordou com as suas teorias. Por que metri-
o catholic tast dos românticos. ficar o que se pode dizer melhor em prosa? Pela primeira
A solução de Saint-Évremond não encontrou os aplau- vez, a própria literatura está em questão; La Motte é um
sos unânimes dos gentlemen de Oxford e Cambridge. Em precursor de certos naturalismos dos séculos X I X e XX.
defensor dos antigos arvorou-se Sir William Temple ( 4 ), Aplicando a sua teoria ao drama, exigiu a abolição do verso,
o primeiro grande ensaísta inglês, epicureu fino e culto, das unidades, do monólogo; enfim, exigiu aquela técnica
dotado de senso prático da vida politica. No seu ensaio teatral que será a de Ibsen e Shaw. Mas nem no teatro
Upon Ancient and Modem Learning, citou com muita foi L a Motte capaz de realizar as suas teorias: saiu coisa
segurança as cartas de Phalaris, famosas mas de auten- diferente. A tragédia Inês de Castro deveu o seu grande
ticidade duvidosa; Richard Bentley, o maior dos filólogos sucesso tão-sòmente ao falso sentimentalismo que substi-
críticos, respondeu na Dissertation upon the Epistles of tuiu a poesia. Certas qualidades líricas se encontram, aliás,
Phalaris (1699), demonstrando a falsidade do documento conforme a afirmação de Lanson, nos Macchabées. O re-
"antigo", arrasando assim o adversário. A vitória do filó- sultado foi nova romantização da tragédia clássica: será
logo científico sobre o humanista letrado é altamente sig- a tragédia classicista de Voltaire.
nificativa; nisso já se antecipa algo do espírito do século O nome de Voltaire lembra imediatamente o traço ca-
XIX. Mas, na literatura do século X V I I I que então se racterístico da maior parte da literatura do século X V I I I :
iniciara, a vitória foi, no momento, de Temple. O espírito a combinação de ideologias progressistas e avançadas com
classicista e, no entanto, prático, desse amigo de Swift, formas literárias meio obsoletas, "reacionárias". Voltaire
luta com grande coragem pelas ideias de tolerância reli-
giosa e de "culto razoável da divindade"; e apesar do seu
(1685); Du merveilleux qui se trouve dans les poèmes des an- conservantismo político de nouveau-riche não deixa de se-
ciens (1688).
Edições de escritos escolhidos por Ch. Giraud, 3 vols., Paris, 1865,
e por R. Planhol, 3 vols., Paris, 1927.
W. Melville Daniels: Saint-Évremond en Angleterre. Paris, 1907.
A.-M. Schmidt: Saint-Êvremond ou L'humaniste impur. Paris, 5) Antolne Houdart de La Motte, 1672-1731.
1932. Odes (1707); Fables 1719 — Les Macchabées (1721); Inii dê
Castro (1723); Oedipe (1730) — Discours sur la poésie (1707) —
4) Sir William Temple, 1628-1699. Réflexions sur la critique (1715).
Miscellanea (1680, 1690, 1701); Upon Ancient and Modem Lear- Edição, de 1754 (11 vols.); Edição dos escritos críticos por O.
ning (1692); Letters (edlt. por Swift, 1701-1703). Julllen, Paris. 1859.
Edição por J. E. Spingarn, Oxford, 1909.
C. Marburg: Sir William Temple. Chicago, 1929. P. Dupont: Un poete philosophe au commencement du XV111n
siècle: Houdart de La Motte. Pari», 1808.

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mear os germes da resistência contra o absolutismo. Todos aristocrática de todas as artes. Existe contradição flagrante
os géneros literários — poesia, tragédia, romance, conto, entre a renovação intelectual e a reaçao artística.
diálogo, tratado, historiografia — lhe servem para divulgar Até há poucos decénios, a historiografia literária não
aquelas ideias. Mas na forma desses géneros, continua tomou muito a sério essa contradição. A fraqueza poética
"clássico", classicista até. Faz do Siècle de Louis le Grand do século X V I I I parecia consequência inevitável da vitória
objeto de um culto apaixonado, defendendo as "regras" cada vez mais acentuada das ideias racionalistas; o racio-
clássicas com o fanatismo d e u m Boileau e a seriedade de nalismo exclui a poesia. O mérito do século X V I I I teria
um Bossuet; só não gosta de Pascal, que é o menos clássico sido "filosófico", quer dizer, ideológico e político, mas
dos clássicos. Toda a literatura francesa do século X V I I I não "literário", no sentido das belles lettres. O racio-
é uma repetição mais ou menos intencional dos modelos nalismo da Ilustração, encontrando uma literatura aristo-
"clássicos" do século precedente; até mesmo a falta quase crático-tradicionalista, não podia fazer outra coisa senão
absoluta de poesia lírica não é consequência de uma vitória destruí-la lentamente, condenando-a à decadência. Esse
do "modernista" antipoético L a Motte, e sim o resultado processo de destruição e decomposição começou durante
extremo das ideias críticas de Boileau, em torno do qual os últimos anos do reinado de Luís X I V com certas velei-
também não existia poesia lírica. Do ponto de vista da dades oposicionistas, as advertências sérias de Vauban e
literatura universal, o problema torna-se mais grave ain- Fénelon, o mau-humor de La Bruyère, as confabulações
da que do ponto de vista da literatura francesa. E n t r e de "ateístas" no salão de Ninon de TEnclos. Depois da
1650 e 1680, o classicismo fora um fenómeno limitado m o r t e . d o rei, a França sentiu-se como libertada de uma
mais ou menos à França. A tentativa inglesa de conseguir pressão; a literatura libertina da "Régence" é uma espécie
uma síntese entre teatro inglês e teatro francês — o drama de caricatura alegre das formas herdadas. Deste modo, não
da Restauração — só dá resultado híbrido e efémero. Mas foi preciso abandonar o conformismo estético do século
no fim do século os poetas italianos voltam ao classicismo; clássico; os géneros tradicionais eram perfeitamente capa-
funda-se a Arcádia, que ajuda à conquista de toda a Europa zes de funcionar como veículos das novas ideias: eis a
pelo classicismo francês, j Na Inglaterra e na Alemanha, fase voltairiana. Depois, celebrar-se-á em metros clássicos
Espanha e Itália, Suécia e Rússia, escrevem-se, depois de e com alusões à Antiguidade a vitória política do racio-
1700 e 1750, odes pindáricas, sátiras horacianas, poemas nalismo: a Revolução.
didáticos, epopeias cómicas à maneira do Lutrin, tragédias Esse esquema dialético "Régence — Ilustração — Re-
racinianas, fábulas, cartas e reflexões moralistas. Os gé- volução" corresponde apenas à evolução da literatura fran-
neros aparentemente novos, como a poesia anacreôntica, cesa, e mesmo assim só superficialmente: deixa de lado
revelam ainda mais a feição alexandrina dessa pretensa o fato de que a Revolução é acompanhada por uma reno-
imitação da Antiguidade, o caráter decadente dessa lite- vação radical e profunda do classicismo — Goethe, Monti,
ratura, para a qual a "crise de la conscience européenne" Foscolo — da qual o representante na França é Chénier;
não parecia ter acontecido. A "Querelle des anciens et des o de que a Revolução é imediatamente seguida, senão já
modernes" fora uma ouverture sem ópera; mas para sair acompanhada, por outra literatura, anti-racionalista, a do
da imagem à realidade é de notar que óperas havia muitas romantismo; e põe ainda de lado o fato de que o romantismo
no século X V I I I , século que idolatrava esse género, a mais se preparou, durante a segunda metade do século X V I I I ,
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por meio de uma renovação da sensibilidade, principalmente e não de origem suíça, como em Rousseau. O "pré-
na Inglaterra e na Alemanha. Tampouco é possível negar romantismo" libertou a literatura francesa do isolamento
que essa nova sensibilidade exerceu poderosa influência em que esteve durante os últimos decénios do século X V I I ,
na própria França: basta citar o nome de Rousseau. Vai reintegrando-a na literatura europeia. A revolução da li-
apenas um passo daí a reconhecer que a Revolução deveu teratura universal seria incompreensível a não admitir-se
o seu élan vital não ao racionalismo da Ilustração, do a fase pré-romântica. O reconhecimento do "pré-roman-
qual herdou a ideologia, mas sim ao irracionalismo das tismo" foi uma das grandes conquistas da historiografia
novas correntes. Verificou-se a coerência dessas correntes literária moderna.
na Europa inteira: o sentimentalismo de Richardson e
Ao lado do velho esquema dialético "Régence-Ilustra-
Rousseau, o novo senso da natureza, a descoberta das mon-
ção-Revolução" aparece agora outro: "Pré-Romantismo —
tanhas e do encanto dos mundos exóticos, o entusiasmo
Romantismo — Realismo". A segunda metade do século
pela poesia popular, Ossian e as baladas inglesas, a des-
X V I I I já não pertence à decadência do passado, e sim à
coberta da poesia na Bíblia, o gosto pelo maravilhoso em
preparação do futuro. O progresso é evidente; contudo,
Milton e na literatura medieval — tudo isso constitui um
não resolve certos problemas. Entre o pré-romantismo e
estilo literário bem definido. Revela muitos traços carac-
o romantismo existe uma diferença fundamental: o pré-
terísticos do romantismo, precedendo-o, porém, cronologi-
romantismo é caracterizado pelo desenvolvimento de novas
camente; recebeu o nome de "pré-romantismo".
capacidades psíquicas, da sensibilidade para conquistar as-
O pré-romantismo — não o nome, mas o conceito — pectos até então ignorados do mundo exterior, da natureza
foi sempre familiar aos historiadores das literaturas inglesa e das relações sociais; o romantismo pretende conquistar
e alemã. Os grandes poetas e escritores da Inglaterra, na novos mundos interiores — o seu terreno de predileção é o
segunda metade do século X V I I I , são todos, ou quase to- sonho. O termo "pré-romantismo", talvez pouco feliz, apro-
dos, pré-românticos. Da Inglaterra partiram o romance xima demais os dois movimentos. A existência de uma
sentimental de Samuel Richardson, a comédia burguês-sen- fase classicista — de Goethe, Chénier, Monti, Foscolo —
timental, de Lillo, a nova poesia descritiva da natureza entre pré-romantismo e romantismo torna-se mais incom-
de James Thomson, a poesia melancólico-meditativa de preensível do que antes. Fora conveniente salientar a
Young, a poesia baladesca, o ossianismo, que conquistaram diferença essencial entre o racionalismo da Ilustração e a
a Europa inteira. Na Alemanha, a primeira fase da lite- nova sensibilidade do pré-romantismo; mas não é conve-
ratura "clássica" de Weimar é um movimento de "angústia niente separá-los inteiramente. Uma das maiores influên-
e tormenta", o "Sturm und Drang", ao qual Goethe e cias do pré-romantismo, o romance sentimental de Samuel
Schiller pertencem com as suas obras da mocidade. Até Richardson, pertence à primeira metade do século X V I I I ;
na Itália existe um pré-romantismo violento, em disfarce e os romances de Marivaux não são imitações do romance
classicista, em Alfieri. Contudo, a introdução do termo inglês, têm a prioridade cronológica, do mesmo modo que
"pré-romantismo" na literatura comparada deve-se aos com- o romance do abbé Prévost. Os dois franceses receberam,
paratistas franceses: a Texte, Baldensperger, Van Tie- porém, a influência dos periódicos morais de Addison e
ghem, Hazard, et pour cause: o pré-romantismo francês Steele, e as comédias deste último preparam já o drama
nasceu de influências estrangeiras, sobretudo inglesas, sentimental do pré-romantismo. Mas ambos, Addison e
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Steele, sofreram fortes influências do classicismo francês. tas. ( 5 " A ). Lessing é deísta e racionalista; mas, no fundo do
O início da influência inglesa na literatura alemã é, às seu pensamento, descobriu Dilthey a fé meio pietista, meio
vezes, datado da tradução das Seasons, de Thomson, pelo maçónica, em um terceiro cristianismo. Shaftesbury o filó-
poeta hamburguês Brockes; mas o tradutor era deísta, u m sofo do moral sense e do entusiasmo estético, é deísta. A
dos primeiros representantes da Ilustração alemã, e até filosofia da história de Viço, dificilmente compatível com
mesmo a sua poesia descritiva, anterior àquela tradução, a ortodoxia, tem como fundamento o anticartesianismo.
tem fontes barrocas. Quanto mais se estudam as origens do Bayle, o mestre do cepticismo irónico, não pode dissimular
pré-romantismo tanto mais parecem recuar no tempo. Os certas ideias maniquéias, produtos de degeneração do pre-
primeiros traços de estética anti-racionalista aparecem nos destinacionismo calvinista. Locke, sensualista e utilitarista,
italianos Muratori e Gravina, em 1706 e 1708. Antes de a é o tradutor dos Essais de morale do jansenista Nicole, o
poesia aprender a chorar, choraram as árias da ópera ita- que lembra as relações entre o jansenismo e a ascensão da
liana. O abbé Chaulieu, um dos libertins da Régence, burguesia. O próprio liberalismo político de Locke é her-
reivindica os direitos do instinto, na Ode contre 1'esprit, deiro da democracia mística das seitas calvinistas. A fé
em 1708. Hazard reconhece a sensibilidade de Rousseau utopística, meio religiosa, que Cari Becker assinala nos
na Lettre sur Jes voyages, que outro suíço, Muralt, escreveu "filósofos" deístas ou ateístas do século X V I I I , é conse-
em 1700. O pré-romantismo parece tão antigo quanto o quência deste fato de importância fundamental: o racio-
século X V I I I , de idade igual ao racionalismo da Ilustração. nalismo da Ilustração e o pré-romantismo têm as mesmas
E isso não é mero acaso. fontes.
O pré-romantismo tem certa feição religiosa: bastam À luz desse fato, todos os aspectos mudam. A tese da
os nomes de Cowper e Rousseau, Klopstock e Jean Paul divisão do século X V I I I em uma primeira metade racio-
para provar esta afirmação. Em geral, a atmosfera espi- nalista e uma segunda metade pré-romântica é insustentá-
ritual da Europa, por volta de 1780, está cheia de senti- vel. Os dois movimentos têm fontes comuns e a mesma
mentos de angústia, mistério e misticismo que a época de idade, podendo ser acompanhados fielmente, desde o co-
Voltaire não conhecia nem teria admitido. Contudo, é o meço da "crise" na França, por volta de 1680, e a revolução
século de Voltaire; religiosidade eclesiástica, ortodoxa, é de 1688, na Inglaterra, através do século inteiro, até a
impossível. O pré-romantismo buscava inspiração nos mo- Revolução Francesa e os começos do romantismo inglês.
vimentos místicos, no iluminismo, em uma espécie de ma- A historiografia literária tem que tirar as conclusões. O
çonaria misticamente interpretada em sociedades secretas. conceito "pré-romantismo" era de ordem estilística; serviu
Na Inglaterra, o metodismo de Wesley tornou-se grande para esclarecer a situação ideológica do século X V I I I ;
influência literária; na Alemanha, foi o pietismo de Spener agora, as ideologias se confundem aparentemente, e só nova
e os Herrnhuter de Zinzendorf; na França, o martinismo. distinção estilística será capaz de distingui-las. A disso-
É a tradição mística da "Terceira Igreja" que ressuscita; lução das formas classicistas é consequência da seculari-
é possível acompanhar, retrocedendo, a filiação desses mo- zação das ideias religiosas que constituíram a base do
vimentos até Fénelon Boehme e os batistas da Holanda e classicismo. Mas o racionalismo não é o único móvel da
da Inglaterra. Todos esses misticismos aparecem, no século
X V I I I , mais ou menos ligados a correntes racionalis-
5A) Fr. Heer: Europaeische Geistesgeschichte. Stuttgart, 1953.
.

11IIH OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1189

dissolução. O Barroco, escondido no seio do classicismo, porâneas do século X V I I I : o classicismo racionalista e


é o outro. No fim do século X V I I reaparece um Neobarroco o pré-romantismo.
— fenómeno estilístico que nunca foi devidamente estu- Uma das mais típicas expressões neobarrocas é a poesia
d a d o ; e esse fenómeno teve grandes consequências. Muito anacreôntica. Imitando assiduamente a poesia do pseudo-
daquilo que, no classicismo do século X V I I I , parece disso- Anacreonte, produto da decadência alexandrina da Grécia,
lução é na verdade uma espécie de "barroquização" ou o século X V I I I revela bem a sua maneira de compreender
"rebarroquização"; e esse Neobarroco é o precursor ime- a Antiguidade clássica; é classicismo decadente, ou pelo
diato do Pré-romantismo. O que resta fazer é a análise menos assim parece. É uma poesia fastidiosa, de falso
estilística de certas expressões típicas, aparentemente clas- idílio, de beijos nunca dados e vinhos nunca bebidos, can-
sicistas, do século X V I I I , para determinar nelas o conteúdo tados por burgueses tímidos, na atmosfera erudita de gabi-
neobarroco. netes de trabalho. As poucas exceções — entre os ana-
A análise compreenderá a arcádia italiana, espanhola creônticos há alguns poetas autênticos e pelo menos um
e portuguesa, a poesia anacreôntica na Alemanha e na grande poeta, Bellman — não são as famosas exceções que
França, o rococó sueco; depois, a ópera séria e a ópera confirmam a regra, mas sim os sintomas de um espírito
bufa, na Itália e por toda a Europa, até à Revolução; diferente que se esconde atrás das formas classicistas da
a tragédia, a comédia e a poesia satírica da Restauração Arcádia: eis o nome significativo, ternamente idílico, da
inglesa; as correntes "oposicionistas" na França — Féne- poesia anacreôntica na Itália, e depois na Espanha e em
lon, La Bruyère, Saint-Simon, Lesage e a literatura da Portugal.
Régence, até Marivaux; finalmente, os primórdios da Ilus- Na Itália, houve precursores, pertencentes à escola
tração, Locke, Bayle, os deístas ingleses, Giannone, Viço, classicista de Chiabrera; o mais notável entre eles foi
Montesquieu. A ordem da exposição obedecerá menos ao Filicaja. Durante o predomínio do naturalismo barroco,
critério cronológico do que a considerações de ordem esti- ainda existe a possibilidade de uma interpretação mais
lística e ideológica — mas tratar de Bellman e Bocage realista do prazer anacreôntico, na fórmula "vinho, mulher
antes de Pope e Voltaire já implica quebra violenta da e música": é o caso de Francesco Redi <fl). Era poeta ele-
cronologia. Com efeito, o fim desta exposição não é narrar gante apesar de sem muito brilho, mas grande cientista;
cronologicamente fatos literários; é antes um corte trans- talvez fosse o realismo da ciência biológica, junto com o
versal pela literatura do século X V I I I , de harmonia com apego à terra e à língua da Toscana, que lhe inspiraram
aqueles princípios estilísticos e ideológicos. Analisar-se-ão a pequena obra-prima Bacco in Toscana, elogio exaltado
aquelas correntes literárias nas quais os resíduos classi- do "Montepulciano, d'ogni vino il ré", com onomatopéias
cistas e as antecipações pré-românticas se conjugam, quer audaciosas da embriaguez e de um crescendo irresistível —
dizer, as correntes da literatura neobarroca, desde os seus
primórdios na Inglaterra da Restauração, e na França da
Régence. Sobre esta literatura neobarroca agem, descen- 6) Francesco Redi, 1626-1694.
Bacco in Toscana (1685); Opere (Venezla. 1712).
dendo de origens comuns, o racionalismo da Ilustração e Edição de uma seleção das poesias por P. Giacosa, Millano. 1927.
o misticismo sentimental; a sua separação final produz as G. Impert: II Bacco in Toscana di Francesco Redi e la poesia
dítirambica. Città di Castello, 1890.
duas literaturas igualmente importantes e quase contem- F. Micheli Pellegrini: Francesco Redi. Flrenze. 1911.
V. Viviani: Vita e opere di Francesco Redi. Flrenze, 1924.
1190 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1191

"Ariannuccia, leggiadribelluccia, Benedetto Menzini ( e ) : canta o vinho e o amor com a


Cantami un p o ' . . . graça de uma borboleta, e é, na realidade, um pobre padre,
Cantami un po*. . . lutando por uma cátedra de professor. A sua erudição é
Cantami un poço, e ricantami tu, inteiramente barroca, assim como a violência das suas sá-
Sulla v i o . . . tiras bem pessoais contra os numerosos adversários, sobre-
Sulla viola, la cuccurucú, tudo contra o hipócrita Curcalione —
La cuccurucú,
Sulla viola la c u c c u r u c ú . . . " " dentro è um Epicuro e fuor Zenone."

Redi, nesta obra, maneja magistralmente os efeitos que As comparações antigas não escondem o espírito de oposi-
serão os da ópera bufa: velocidade vertiginosa da fala, ção anticlerical do padre, e isso já lembra o século X V I I I :
música de acordes humorísticos; no mais, é apenas um Menzini é um "abbé", no sentido francês da época. Mas,
versificador hábil, digno de ser incluído entre os primeiros em geral, os poetas da primeira geração arcádica são homens
membros da Arcádia ( 7 ). Origem dessa famosa companhia de peruca barroca, por mais classicistas que pretendessem
foi o salão literário, em Roma, da rainha Cristina da Suécia, apresentar-se. O modelo de todos eles foi Alessandro Gui-
que tinha abdicado para se converter ao catolicismo. Isso di ( 1 0 ), antigo marinista, depois cantor de odes pindáricas,
se deu por volta de 1656. Depois da sua morte, os amigos pomposas como as decorações de Le Brun em Versalhes;
fundaram, em 5 de outubro de 1690, a "Arcádia, conversa- a ode La Fortuna foi ainda admirada por Leopardi. A
zione di belle lettere", invocando os nomes idílicos de Teó- Arcádia já parece decadente em Frugoni ( n ) , fertilíssimo
crito, Virgílio e Sannazaro, e instituindo-se um verdadeiro autor de poemas para todos os momentos alegres ou tristes
carnaval de costumes e nomes pastoris. Mas do idílio re- da vida dos outros. É um poeta de encomenda. É o tipo
nascentista restava pouca coisa. Sobrevive uma lembrança dos improvisadores italianos que, aproveitando-se da rique-
das conversas teológicas com a rainha, na poesia do conde za da sua língua em rimas melodiosas, se tornaram famo-
Lemène ( 8 ), homem grave, "capaz de versificar a Summa síssimos na Europa inteira. Um desses "internacionais",
de São Tomás inteira", mas que nos seus capricci, já faz
dançar os amoretti nus do rococó. O árcade típico é
9) Benedetto Menzini, 1646-1704.
Rime (1674); Poesie liriche (1680). .
G. B. Magrini: Studio su Benedetto Menzini. Napoli, 1835.
7) I. Oarinl: L'Arcádia dal 1690 ai 1890. Roma, 1891. R. A. Gallenga-Stuart: Benedetto Menzini. Bologna, 1899.
V. A. Arullani: Lirici e lirica nel Settecento. Torino, 1893. I. Rago: Benedetto Menzini e le sue satire. Napoli, 1901.
G. Toffanln: Ueredità dei Rinascimento in Arcádia. Bologna, 10) Alessandro Guidi, 1650-1712.
1923. Poesie liriche (1671); Rime (1704).
M. Fublni: "Arcádia e iHuminismo". (In: Questioni e correnti G. Gapsoni: Alessandro Guidi. Pavia, 1897.
di storia letteraria. Edit. por A. Momigliano. Milano, 1949.) T. L. Rlzzo: Alessandro Guidi. Lecce, 1928.
8) Francesco de Lemène, 1626-1704. 11) Cario Innocenzio Frugoni, 1692-1768.
Trattato di Dio (1684); Poesie diverse (1726). Opere (10 vols., 1779).
A. Oliva: Francesco de Lemène nella letteratura dei suo secolo. C. Calcaterra: Storia delia poesia frugoniana. Génova, 1930.
Milano. 1929. A. Equini: Cario Innocenzio Frugoni. 2 vols. Palermo, 1920/1921.
1192 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1193

Paolo Rolli ( 1 2 ), foi, porém, diferente: verdadeiro mestre se aventurou a continuar as Soledades, de Góngora, trans-
do verso harmónico, elegíaco algo sentimental, dominava formando a paisagem barroca em jardim anacreôntico. De-
todos os estilos: imitou Virgílio, traduziu Racine; tendo pois interveio a influência de Metastásio ( 1 B ), poderosa
vivido na Inglaterra, também traduziu Milton. No seu sobretudo nos poetas menores. Há alguma resistência,
sentimentalismo anuncia-se a poesia pré-romântica. Dizem exceções. Nicolás Fernández de Moratín ( 10 ) preferiu cer-
que as canzonette de Rolli foram cantadas, com acom- tamente às poesias anacreônticas as suas tragédias em estilo
panhamento no cravo, por todas as senhoras europeias, da de Racine, assim como nós outros preferimos a estas e
Espanha à Suécia. As cantoras profissionais, nas casas de àquelas a briosa Fiesta de toros en Madrid, uma das mais
ópera, cantaram, ao mesmo tempo, os versos do mais famoso vigorosas expressões poéticas da tauromaquia espanhola.
dos árcades, Metastásio ( 1 3 ), que era anacreôntico melodio- E Juan Pablo Forner ( 1 7 ), satírico violento a serviço dos
síssimo, artificial como Marino, sentimental como Tasso, ideais do classicismo, é mesmo autêntico poeta lírico;
erótico como Guarini; um compêndio da decadência da Diaz-Plaja redescobriu-lhe o belo soneto "Herido de tu
poesia italiana, mas com rasgos de verdadeira beleza lírica, amor, Silvia, qué e s p e r o ? . . . " . Metastasiano é justamente
sobretudo nas cantatas; sua Galatea é um interessante pen- o maior árcade e maior poeta espanhol do século X V I I I :
dant rococô da fábula de Góngora. Meléndez Valdês, que já revela o sentimentalismo pré-ro-
A poesia da Arcádia parece hoje infantil e afetada; mântico, de que no mestre italiano não há vestígio, e cuja
Croce condena-a sem apelação. Mas convém observar que forma já é tão clássica como convém a um contemporâneo
a Arcádia italiana estabeleceu um respeitável padrão de de Goethe.
honestidade intelectual e moral do poeta. Sua última fase Não da Espanha, mas diretamente da Itália chega a
será a poesia nobre de Parini e o teatro de Goldoni ( , 5 " A ). Arcádia a Portugal. Correia Garção ( I 8 ) parece metastasia-
A influência da poesia metastasiana determinou a evo- no, se julgado pela famosa Cantata de Dido ("Já no roxo
lução da Arcádia espanhola. Lá, o terreno estava preparado
pela tradição anacreôntica de Villegas ( 1 4 ), que foi, no sé-
culo X V I I I , o mais apreciado dos antigos poetas espanhóis. 15) V. Cian: Itália e Spagna nel secolo XVIII. Torino, 1896.
Villegas pertenceu à corrente classicista dentro do Barroco. 16) Nicolás Fernández de Moratín, 1737-1780.
Lucrécia (1763); Hormesinda (1770); Guzmán el Bueno (1777);
Mas a possibilidade duma Arcádia barroca é demonstrada — El Poeta (1784).
por José León y Mansilla que, na Soledad tercera (1718), Edição: Biblioteca de Autores Espanoles, vol. II.
Leandro Fernández de Moratín: Vida de don Nicolás Fernández
de Moratin. Prólogo da edição das Obras póstumas. London. 1825.
J. M. Cossío: Los toros en la poesia castellana. Madrid, 1931.
12) Paolo Rolli, 1687-1765.
Rime (1717); Poetici componimenti (1753). 17) Juan Pablo Forner, 1754-1797.
Edição (com Introdução biográíico-crítica) por C. Calcaterra, Ediçáo: Biblioteca de Autores Espanoles, vol. LXIII.
Torino, 1926. M. Menéndez y Pelayo: Historia de las ideas estéticas en Espana.
F. D. Ragnl: Le Odi Barbare di un settecentista. Udine, 1928. vol. m / I I .
T. Valesse: PaoZo Rolli in Inghilterra. Millano. 1938. M. Jiménes Salas: Vida y obra de Juan Pablo Forner. Madrid,
1944.
13) Cf. nota 42.
18) Pedro António Correia Garção, 1724-1772.
13A) G. Toffanín: L'Arcádia. Saggio storico. Bologna, 1946. Obras Poéticas X1778).
14) Cf. "A Poesia do Culteranismo e o Teatro da Contra-Reforma", Ediçáo por I.A. de Azevedo e Castro, Roma. 1888.
nota 35. Teóf. Braga: A Arcádia Lusitana. Porto, 1899.
1194 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1195

Oriente branqueando "), que ocorre na sua comédia de mento romântico. A poesia de Bocage talvez não seja,
costumes Assembleia ou Partida. É preciso, porém, obser- como se dizia, expressão sintomática da decadência de
var o tom elegíaco, pré-romântico, nas poesias religio- Portugal; ela é antes sintoma da transformação da Arcádia
sas desse classicista horaciano. Correia Garção perten- em poesia pré-romântica. Como resumo exótico dessa evo-
ceu à Arcádia Lusitana, fundada em 1756, em Lisboa. lução aparece, no Brasil, a poesia de Tomás António
Entre esta e a Nova Arcádia, mais "moderna", está Filinto Gonzaga ( 2 1 ). Atribui-se-lhe uma tradução do Pastor Fido,
Elísio ( lft ). Era este escritor um anacreôntico, horaciano, de Guarini; mas o seu erotismo não é artificial, é autêntico.
versificador vazio com veleidaddes de filosofia enciclope- As "liras", que o inconfidente de Minas Gerais dirigiu a
dista até tornar-se vítima da Inquisição, tradutor de La sua amada Marília, constituem um diário psicológico do
Fontaine e também de Wieland, e dos Martyrs, de Cha- seu amor, e o tom elegíaco também não deixa dúvidas sobre
teaubriand. No arcadismo cabe tudo. O que, em Filinto o caráter pré-romântico dessa poesia, talvez a mais popular
Elísio, é mistura caótica, não obstante o caráter calmo, em língua portuguesa, porque a "saudade" nacional e a
enquanto que, em Bocage ( 2 0 ), o mais hábil, não o mais pro- mentalidade pré-romântica ali se encontram. Já Bernardim
fundo dos versificadores portugueses, é a expressão de uma Ribeiro foi, nos começos do século XVI, algo como um
alma caótica. Inúmeros sonetos, magistralmente construídos pré-romântico avant la lettre.
com elementos da maior banalidade, e inúmeros epigramas, Coincidência semelhante dá-se na poesia popular, sem-
mais triviais do que mordazes; sentimentalismo erótico e pre elegíaca, dos povos orientais da Europa. A Bocage
obscenidade brutalíssima; o racionalismo audacioso da Pa- ou Gonzaga pode ser comparado o seu antípoda húngaro
vorosa Ilusão da Eternidade, e as angústias pavorosas dos Csokonai ( 2 2 ), todo rococó nas suas epopeias herói-cômicas,
últimos arrependimentos: tudo isso em conjunto revela, boémio indisciplinado como Bocage na vida, e verdadeiro
por trás do verbalista engenhoso, uma personalidade inte- romântico, mais romântico do que Gonzaga, nas suas Can-
ressante. Hernâni Cidade caracterizou bem o boémio in- ções a Lilla, a primeira produção moderna da poesia hún-
disciplinado de Lisboa como figura de transição entre gara. A poesia anacreôntica serviu até para despertar, poe-
catolicismo tradicional e racionalismo superficial, ideais ticamente, nações que ainda não possuíam literatura; o
sublimes e instintos selvagens, estilo arcádico e tempera-

21) Tomás António Gonzaga, 1744-1810.


19) Francisco Manuel do Nascimento (nome arcádico: Filinto Elísio), Marília de Dirceu (1792).
1734-1819. Edição crítica por A, Rodrigues Lapa. S. Paulo, 1942.
Tr. de Araripe Júnior: Dirceu. Rio de Janeiro, 1890.
Edições das obras completas, 11 vols., Paris, 1817/1819, e 22 vols., Teóf. Braga: Filinto Elísio e os Dissidentes da Arcádia. Porto,
Lisboa, 1836/1840. 1901.
Teóf. Braga: Filinto Elísio e os Dissidentes da Arcádia. Porto, J. Veríssimo: Prefácio da ediçáo de Marília de Dirceu, Rio de
1901. Janeiro, 1908.
20) Manuel Maria Barbosa du Bocage, 1765-1805. 22) Mihaly Vitéz Csokonai, 1773-1805.
Rimas (1791, 1799, 1804); Mágoas Amorosas de Elmano (1805).
Edição (com biografia por Teófilo Braga), 8 volumes, Porto, Batrachomyomachia (1791); Canções anacreônticas (1802); Do-
1875/1876. rothea (1804); Odes (1805).
Teófilo Braga: Bocage. Sua Vida e Época Literária. 2.* ed. Edição: 3 vols.,'Budapest, 1924.
Porto, 1902. J. Haraszti: Csokonai Vitéz. Budapest, 1880 (em húngaro).
Vlt. Nemésio: Vida de Bocage. A Poesia de Bocage. Lisboa, 1943. Z. Ferenczi: Csokonai Vitéz Mihaly. Budapest, 1907 (em húngaro).
11% OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1197

que, aliás, é função típica do movimento pré-romântico. creôntico, porém, é Hagedorn ( 2B ), do qual algumas poesias
Donalitius ( 2 3 ), o primeiro poeta da Lituânia, é uma figura alegres sobrevivem entre os estudantes. A poesia anacre-
complicada: os hexâmetros clássicos do seu idílio As ôntica alemã, depois de Guenther, não é caracteristicamente
Estações, aprendeu-os provavelmente com os pastores pro- alemã; é antes rococó francês, através da mentalidade de
testantes alemães da sua terra, que divulgaram depois a professores e pastores pacatos e dos estudantes menos pa-
sua poesia na Alemanha, porque gostavam do realismo po- catos da Universidade de Leipzig. Anacreôntico do tipo
pular e talvez das reminiscências dos geralmente admirados provinciano, terno e já muito sentimental, é Gleim ( a 7 ),
Seasons, do inglês Thomson. Donalitius, ao qual Lessing famosíssimo no seu tempo; sinal de novas tendências é o
dedicou um elogio, é uma influência sobre poesia ana- seu nacionalismo prussiano, celebrando as vitórias de Fre-
creôntica alemã. derico o Grande. Uma nova e forte influência estrangeira
sobre os anacreônticos alemães veio da Inglaterra: a poesia
Várias influências exerceu a poesia anacreôntica ale-
descritiva de Brockes e Ewald von Kleist, que seria impos-
mã ( 2 4 ), de valor reduzido, mas de considerável impor-
sível sem o modelo de Thomson. Mas a poesia anacreôntica
tância histórica. As suas origens são barrocas. Johann
alemã de inspiração francesa tem vida mais tenaz: os cír-
Christian Guenther (2B) escreveu, quando estudante, uma
culos estudantis de Leipzig continuaram cultivando a poe-
tragédia barroca à maneira de Gryphius; e com sentidas
sia rococó; e entre os poetas-estudantes de Leipzig, por
canções religiosas de arrependimento terminou a curta vida
volta de 1765, encontra-se o jovem Goethe.
de estudantes transviado, ébrio, devasso. As suas poesias
de "vinho e amor" são autênticas, às vezes brutais. É o Influências francesas encontram-se com influências
primeiro poeta alemão que, renunciando ao grande estilo alemãs na Suíça. É suíço o grande anacreôntico Salomon
barroco, volta à inspiração da poesia popular. A sua in- Gessner ( 2 8 ) ; "grande" é, aliás, palavra relativa, porque os
fluência póstuma sobre os pré-românticos e românticos foi Idyllen, em estilo doce e afetado, são hoje ilegíveis, de
considerável; Guenther continua lido até hoje, como modo que não compreendemos os elogios unânimes, dedica-
poeta de sentimento e expressão pessoais; os anacreônticos dos ao "Teócrito alemão". E não foram só elogios alemães.
só o apreciaram como anacreôntico. Verdadeiramente ana- Gessner teve sucesso em toda a Europa, foi traduzido para
todas as línguas, exerceu influência considerável, princi-

23) Kristian Donalitius, 1714-1780.


As Estações (1745).
Edição por J. Nesselmann, Koenigsberg, 1869. 26) Friedrich Hagedorn, 1708-1754.
A. Schleier: Christian Donalitius, lítauischer Dichter. Peters- Oden und Lieder (1742).
burg, 1865. H. Schuster: Hagedorn und seine Bédeutung fuer die deutsche
Literatur. Leipzig, 1882.
F. Tetzener: "Christian Donalitius". (In: Altpreussische Mona-
tsschrift, XXXIV, 1897.) 27) Johann Ludwig Gleim, 1719-1803.
24) F. Ausfeld: Die deutsche anakreontische Dichtung des 18. Versuch in scherzhajten Liedern (1745); Kriegslieder von einem
Jahrhunderts. Strasbourg, 1907. preussischen Grenadier (1768).
25) Johann Christian Guenther, 1695-1723. K. Becher: Gleim, der Grenadier, und seine Freunde. Berlim,
Gedichte (1724). 1919.
Edição por W. Kraemer, Leipzig, 1930/1937. 28) Salomon Gessner, 1730-1788.
A. Heyer e A. Hoffmann: Guenthers Leben. Leipzig, 1909. Daphnis (1754); Idyllen (1756, 1772); Der Tod Abeis (1758).
W. Kraemer: Das Leben des schlesischen Dichters Johann Edição (incompl.) por A. Frey, Stuttgart, 1884.
Christian Guenther. Godesberg, 1950. F. Bergmann: Salomon Gessner. Muenchen, 1913.
1198 OTTO M A R I A C A R P E A U X HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1199

palmente na França ( 2 8 " A ). A poesia anacreôntica francesa literatura "gustaviana", da época do rei Gustaf I I I (1771-
é sobretudo erótica; é contemporânea dos quadros de Bou- 1792) da Suécia. Os leitores de Goesta Berlings saga, de
cher e Fragonard. Típica é a figura de Bernis ( 2fi ), amigo Selma Lagerloef conhecem, um pouco, o ambiente requin-
de Madame de Pompadour, excelente causeur, autor de tado das classes altas da sociedade sueca, na segunda me-
poesiasinhas comparáveis às coisinhas de porcelana de tade do século X V I I I . J á se fazia sentir a influência de
Meissen e Sèvres, que bastaram para torná-lo célebre; Rousseau; "philosophes" franceses e inquietos filósofos
foi nomeado embaixador da França em Roma e cardeal alemães colaboraram para criar uma atmosfera meio revo-
da Igreja Romana. Títulos como Les baisers (1770), de lucionária, da qual a aristocracia mal tomou conhecimento,
Claude-Joseph Dorat, e L'art d'aimer (1775), de Joseph passando o tempo em festas suntuosas, sonhando com um
Gentil-Bernard, respiram a atmosfera de uma Arcádia ovi- Versalhes ou uma Veneza à beira do frio mar Báltico.
diana. Chénier escreverá ainda poesias assim. Influências A Suécia estava afrancesada. O famoso idílio A tis och
da poesia descritiva inglesa anunciam-se em Delille ( 3 0 ), Camilla, de Philip Creutz ( 8 2 ), é um poema francês em
poeta dos jardins da França, mas pensandor também de língua sueca: erótico, ligeiramente epicureu, do mais fino
problemas da Ordem no Universo. Essa feição filosófica alexandrinismo. Com o advento do rei Gustaf I I I , em 1771,
acentua-se em Fontanes ( 3 1 ). poeta oficial de Napoleão I, os sonhos revolucionários pareciam prestes a realizar-se:
lucreciano frio e versificador magistral, "o último dos o rei gostava das ideias da Enciclopédia. Começou então
clássicos"; no fim da vida, chegou a gostar das ruínas uma época fantástica, "danse sur un volcan", um sonho
góticas e foi amigo de Chateaubriand. Até mesmo em de artista (33>. O rei ofendeu terrivelmente a orgulhosa
França, a Arcádia leva ao pré-romantismo. aristocracia sueca, abolindo-lhe as liberdades da Constitui-
ção medieval ao estabelecer o absolutismo real. Empregou
O artificialismo aristocrático do Rococó francês, os
o seu novo poder para introduzir importantes reformas
presságios do pré-romantismo da poesia da natureza ingle-
no sentido da Ilustração racionalista; mas era esteta, seu
sa, e certo realismo germânico, reuniram-se para produzir
verdadeiro objetivo era transformar a sua corte e a cidade
a flor mais encantadora da poesia do século X V I I I : a
de Estocolmo em féerie fantástica. Em 1773 abriu-se a
ópera sueca com Thetis og Peleus, com texto de Wellander
e música do italiano U t t i n i ; começara o domínio de Me-
28 A) Broglie: Die frunzoesische Hirtendichtung des 18. Jahrhundert
in ihrem Verhaeltnis zu Oessner. Leipzig, 1903. tastásio. Mas o gosto literário do rei era rigorosamente
29) François-Joachim de Pierre de Bernis, 1715-1794. francês. E m 1786, fiíhdou a Academia Sueca. O seu ideal
Poésies diverses (1744); Les quatre saisons ou Les Géorgiques era um teatro clássico no género de Racine e Voltaire,
françaises (1763).
O. A. Salnte-Beuve: Causeries du Lundi. Vol. VIU. mas tratando assuntos nacionais, tirados da história sueca.
30) Abbé Jacques Delille, 1738-1813.
Les jardins ou Vart d'embellir les paysages (1782); VHomme des
champs (1802); Les trois règnes de la Nature (1809); La con-
versation (1812). 32) Philip Creutz. 1731-1785.
L. Audiat: Un poete oublié: Jacques Delille. Paris, 1902. Atis och Camilla (1761).
31) Louis de Fontanes, 1757-1821. O. Castrén: Philip Creutz. Stockholm, 1917.
Fragment d'un poème sur la Nature et VHomme (1777); Essal 33) A. H. Llndgren: Sveriges vittra storhetstid. 2 vols. Stockholm,
sur 1'astronomie (1788); Les tombeaux de Saint-Denis (1817). 1895/1896.
A. Wilson: Fontanes. Paris, 1928. O. Levertin: Fran Gustaf III* dagar. 2.» ©d. Stockholm, 1897.
I

1200 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1201

O p r ó p r i o rei e s c r e v e u as p r i m e i r a s p e ç a s ; e, c o m o o seu passou dias e noites nas tabernas de Estocolmo, nos "cafés",
talento de versificação não bastasse, serviu-se da colabo- q u e e r a m e n t ã o g r a n d e n o v i d a d e no N o r t e ; i m o r t a l i z o u
r a ç ã o d o s e u p r e d i l e t o p o e t a d e c o r t e , K e l l g r e n ( 3 *). E s t e m e s m o u m d e l e s , o " T h e r m o p o l i u m B o r e a l e " . L á , en-
virtuose do verso sueco lembra e m m a i s de u m sentido c o b e r t o p o r n u v e n s d e f u m o , e n t r e o t i n i r dos c o p o s ,
as f i g u r a s d e G u e n t h e r e B o c a g e , se o t a l e n t o e o g o s t o tendo nos joelhos sua gorda amante, a "ninfa" Ulla, e o
n ã o o a p r o x i m a s s e m a n t e s d e C h é n i e r . B o é m i o devasso e v i o l ã o n o b r a ç o , e s c r e v e u as s u a s " e p í s t o l a s " e c a n ç õ e s ,
a n a c r e ô n t i c o t e r n o , classicista s e n s u a l e e l e g í a c o d e s e s p e - compondo também a música, para serem cantadas pelos
rado, satírico mordaz, racionalista anticristão e idealista companheiros, membros da " O r d e m de B a c o " : o músico
quase r o m â n t i c o , n ã o c r i o u n a d a d e d e f i n i t i v o , m a s b e l o s m u n i c i p a l B e r g , o s a r g e n t o M o l b e r g e os o u t r o s q u e a p a -
v e r s o s em a b u n d â n c i a e u m a a t m o s f e r a a r t i f i c i a l d e a r t e recem como personagens permanentes naquelas poesias,
pura. A corte contaminou a cidade. A burguesia despertou sobretudo Ulla e Fredman, o pseudónimo do próprio poeta.
do sono do moralismo luterano e começou a imitar os A s poesias de Bellman chamam-se a n a c r e ô n t i c a s ; mas estão
aristocratas. A n n a Maria L e n n g r e n (35) acompanhou com f o r a das c o n v e n ç õ e s a r c á d i c a s ; são s i n c e r a s , d e l i c a d a m e n t e
p o e s i a s a l e g r e s , e l e g í a c a s e s a t í r i c a s essa v i d a b u r g u e s a , i r ó n i c a s ou b r u t a l m e n t e h u m o r í s t i c a s , às v e z e s f u r i o s a s ,
c r i a n d o u m n o v o r e a l i s m o p o é t i c o q u e se c o m u n i c o u aos desesperadas e mordazes, e a sua singularidade é acentuada
b o é m i o s m a i s ou m e n o s p l e b e u s , o s q u a i s , n ã o p e r t e n c e n d o p e l a m ú s i c a q u e o p o e t a l h e s j u n t o u : são m e l o d i a s p o p u l a -
à c o r t e n e m à b u r g u e s i a , l e v a v a m u m a v i d a l i v r e n o s cafés res com acompanhamento de uma curiosa orquestra rococó:
literários da cidade. E i s o ambiente de Bellman. f l a u t a , viola, c o r n e t a e t i m b a l e . C o m o t o d o s os g r a n d e s
B e l l m a n (36) é da estirpe d e V i l l o n e V e r l a i n e : u m poetas, Bellman criou u m m u n d o completo, transfiguração
d o s g r a n d e s p o e t a s p a r a t o d o s os t e m p o s . B o é m i o p l e b e u , d o seu m u n d o r e a l : a t a v e r n a f u l i g i n o s a , cheia d e b a r u l h o
e m ú s i c a p o p u l a r , v e n d o - s e das j a n e l a s o p a l á c i o real, n o
q u a l se c a n t a m as ó p e r a s i t a l i a n a s e as d a m a s d a n ç a m o
34) Johan Henrlk Kellgren, 1751-1795. m i n u e t o f r a n c ê s , e fora d a s salas b e m a q u e c i d a s o gelo
Tragédias, em colaboração com o rei Gustaf I I I : Drottnlng Kris- s o b r e o m a r B á l t i c o , e lá ao l o n g e , n o c r e p ú s c u l o n ó r d i c o ,
tina (1784); Gustaf Wasa (1786); Gustaf Adolf och Ebba Brahe
(1788). espera — n u m famoso poema meio mitológico d e Bellman
Sinnenas foerentng (1778); Mina loejen (1778); Nya skapelsen — a q u e l e q u e a c a b a r á c o m esse m u n d o d e n i n f a s e f a u n o s
(1789).
Edição: 3 vols., Stockholm, 1927. s u e c o s : C h a r o n , n o b a r c o da m o r t e . M e s m o q u e m i g n o r e
G. Ljunggren: Kellgren, Leopold och Thorild. Stockholm, 1873. a língua do poeta não pode deixar de sentir a melodia
O. Sylwan: Johan Henrik Kellgren. 2." ed. Stockholm, 1939.
destes versos imortais:
35) Anna Maria Lenngren, 1754-1817.
Skaldefoersoek (poemas, reunidos em 1819).
K. Warburg: Anna Maria Lenngren. 2.B ed. Stockholm, 1917.
A. Blanck: Anna Maria Lenngren, poet och pennskraft. Stock-
holm, 1922.
Edição critica da Bellman Selskab, 3 vols., Stockholm, 1921.
36) Cari Mikael Bellman, 1740-1795. O. Levertln: Diktare och droemmare, Stockholm, 1898.
Fredmans epistlar (1790); Fredmans sanger (1791); Fredmans N. Erdmann: Cari Mikael Bellman. Stockholm, 1899.
handskrtfter (1813). F. Niedner: Bellman, der schwedische Anakreon. Berlin, 1905.
Edição completa (com as composições musicais do poeta) por J. O. Sylwan: Bellman och Fredmans epistlar. Stockholm, 1943.
G. Carlén. 5 vols., Stockholm, 1856/1861. A. Blanck: Cari Mikael Bellman. Stockholm, 1948.
1202 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1203

" J a g ser Froejas tempel gunga: do grande físico, descobriram que se tinha, até então, es-
Eldar kring i luften ljunga. quecido um elemento essencial da tragédia antiga: o acom-
Full och vat panhamento musical. A favola mitológica, acompanhada
Staer jag i Charons bat." de música simples, em suposto estilo grego, parecia a so-
lução. Assim se representou, em 1594, a Daphne, texto de
A poesia de Bellman não é comparável a nenhuma Ottavio Rinuccini, música de Jacopo Peri, seguida, em
o u t r a ; é a poesia de um mundo encantado, e um golpe 1600, da Euridice, dos mesmos autores. Durante o século
estranho do timbale bastará para despertar-nos violenta- X V I I , o melodrama fêz poucos progressos literários, mas
mente. Devem ter sentido assim o tiro que, na noite de extraordinários progressos musicais, devidos ao génio dra-
15 de março de 1792, em meio ao ruído de um baile de mático do compositor Cláudio Monteverde. Também foram
máscaras, pôs fim à vida do rei Gustaf I I I , vítima de aris- importantes os progressos cénicos: a ópera adotou toda
tocratas descontentes. Quem não conhece a catástrofe da a maquinaria do teatro jesuítico, os bailados, os bosques
ópera Un bailo in maschera, de Verdi f A reminiscência animados e os fogos de artifício, lagos artificiais e má-
não é de todo casual. Com uma ópera começou o sonho quinas de vôo, infernos e céus abertos, coros de demónios
da Arcádia sueca; e uma ópera lhe guarda a última lem- e anjos. Cavalli, chamado a Paris, fêz a música para as
brança, embora desfigurada. A ópera é o centro em torno peças "à máquina", preparando o terreno da ópera francesa:
do qual gira a poesia do sonho da Arcádia: é a sua rea- música do florentino Lulli com textos de Quinault. Cesti,
lização máxima. compositor da corte imperial de Viena, colaborou com o
jesuíta Avancinus nos suntuosíssimos ludi caesarei. As
O maior poeta da Arcádia, Metastásio, é ao mesmo
palavras perderam a significação, nessas festas de sons e
tempo o maior libretista de ópera do século X V I I I . O
arquitetura. A rigorosa separação barroca entre o mundo
elemento heróico-fantástico na sua poesia rococó indica
irreal, no palco, e o mundo real dos espectadores, afastou
origens renascentistas; com efeito, a ópera, género barroco
a ópera barroca definitivamente do ideal da tragédia grega.
que chegou ao auge no século do rococó aristocrático, tem
Insignificância das palavras e irrealidade da cena po-
origens renascentistas, segundo pretensões de filólogos
diam levar a um teatro de bonecas. Algo nesse género é o
eruditos ( 8 7 ).
teatro de António José da Silva ( 3 8 ), chamado o Judeu, por-
Na "favola pastoral", os italianos acreditavam possuir
que a Inquisição de Lisboa mandou queimá-lo por motivo de
de novo a tragédia grega; compararam Tasso e Guarini
heresia judaizante. Foi brasileiro de nascimento, mas por-
a Sófocles e Eurípedes. Aos filólogos, porém, não escapou
tuguês pela vida e expressão literária. A sua obra destina-
a diferença: a falta de vida dramática no Aminta e no
Pastor Fido. Pensavam ter interpretado de maneira errada
a poética de Aristóteles. Nas conversas sobre o assunto,
38) António José da Silva, o Judeu. 1705-1739.
em Florença, em casa do filólogo Vincenzo Galilei, pai Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho
Pança (1733); Esopaiãa (1734); Anfitrião (1736); Guerras do
Alecrim e da Manjerona (1737).
Edição por João Ribeiro. 4 vols., Rio de Janeiro, 1910/1911.
87) P. Raffaelli: II melodramma in Itália, dalVanno 1600 fino ai nostri J. Lúcio de Azevedo: "O poeta António José da Silva e a Inqui-
giorni. Flrenze, 1881. sição". (In: Novas Epanáforas. Estudos de História e Literatura.
A. Solertl: Le origini dei melodramma. Torino, 1903. Lisboa, 1932.)
1204 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1205

va-se ao teatro popular do Bairro A l t o , s o b r e t u d o às festas cómicas d o s grandes compositores, porém, só têm a s i g n i -
de carnaval, e não passa, em geral, de farsas, representadas ficação de divertimentos para os grandes. I n d e p e n d ê n c i a
por bonecas. Contudo, o teatro d o J u d e u é um f e n ó m e n o literária, conservou-a apenas a "ópera bufa" popular do
literário bastante complicado: é uma combinação de co- napolitano Giambattista Lorenzi (*°), que foi justamente
média espanhola "de capa y espada" c o m árias à maneira por isso esquecida p e l o s l i t e r a t o s ; um s é c u l o depois, Set-
italiana, paródias quase "offenbachianas" do O l i m p o clás- tembrini redescobriu essa pequena e modesta maravilha do
s i c o e esboços de imitação da c o m é d i a de costumes de humorismo. A sátira contra o erudito pedante, no Socrate
Molière, com m u i t o espírito, que a l g u n s consideram fran- immaginario, é um e x e m p l o do conservantismo da arte
cês, e com rasgos de um lirismo encantador, que a l g u n s popular: revela, com evidência maior do q u e as grandes
consideram brasileiro, outros arcádico, e ainda outros orien- óperas sérias, o espírito barroco do teatro musicado.
tal, judeu. E embora já tenha havido e l o g i o s exagerados,
A feição barroca da grande ópera é um fato que ainda
o espírito teatral do J u d e u ainda não parece ter sido devi-
espera v e r i f i c a ç ã o ; as mais das vezes, a ópera foi inter-
d a m e n t e apreciado. E m todo o caso, A n t ó n i o J o s é da Silva
pretada como expressão típica do R o c o c ó aristocrático.
n ã o chegou a criar um teatro popular, português. Esse
Mas todo o teatro barroco tem como objetivo a ópera: o
f i m possível da farsa musicada foi a t i n g i d o em Espanha
j e s u í t i c o , em A v a n c i n u s , o espanhol, nas últimas peças de
por Ramón de la Cruz ( S 9 ) , autor de inúmeras peças e
Calderón, o i n g l ê s , em B e a u m o n t e F l e t c h e r e, depois, em
pecinhas da vida madrilena, que não têm só valor de do-
c u m e n t o s e já foram comparadas aos quadros de genre Davenant, o francês, em Quinault. A própria ópera, de
e tapeçarias de Goya. A relativa banalidade de Ramón o r i g e m renascentista, durante m u i t o t e m p o não c o n s e g u i u
de la Cruz, a falta de significação superior nas suas peças, superar a fase da "favola" m i t o l ó g i c a . O primeiro passo
não justifica tal comparação; bastaria dizer que o que n o para a "barroquização" dera-se no s é c u l o X V I I I : a adoção
século X V I I I foi realismo popular, parece-nos h o j e l e m - do aparelho c é n i c o do teatro jesuítico. A s e g u n d a fase,
brança de uma época de e s t e t i c i s m o requintado, do R o c o c ó embora já pertencendo ao s é c u l o X V I I I , está m u i t o con-
espanhol. O que é inferior em Ramón de la Cruz é o espí- forme ao espírito Barroco, com a substituição do assunto
rito m u s i c a l ; não é um Bellman. É o criador de um género m i t o l ó g i c o p e l o assunto histórico. Parece que Sílvio Stampi-
menor, do "sainete" madrileno, da opereta espanhola. glia (1664-1725) ofereceu aos m ú s i c o s primeiramente libre-
tos históricos como "Caio Graco" e "Spartaco". A reforma
A "ópera bufa" italiana escapou à banalidade pela
definitiva neste sentido e a adoção das regras francesas,
atmosfera m e i o irreal da commedia deli'arte. A s óperas
indispensáveis ao g o s t o da época, é obra de A p ó s t o l o Zeno

39) Ramón de la Cruz, 1731-1794.


Hospital de la moda (1762); Los aguadores de Puerta Cerrada •40) Giambattista Lorenzi, c. 1719-1805.
(1762); El barbero (1764); La Plaza Mayor -por Navidad (1765); Uidolo cinese (1767); La luna ábitata (1768); 11 Socrate immagi-
El Prado por la noche (1765); El teatro por dentro (1768); Las nario (1775), etc.
castaneras picadas (1787); etc, etc. L. Settembrmi: Scritti vari. Napoli, 1879.
Edição: Biblioteca de Autores Espanoles, vol. XXIII. M. Scherillo: Storia letteraria deli' opera buffa napoletana. Na-
E. Cotarelo: D. Ramón de la Cruz y sus obras. Madrid, 1899. poli, 1883.
A. Hamilton: A Study ot Spanish Manners, 1750-1800, from the B. Croce: / teatri di Napoli dal Rinascimento alia fine dei secolo
Plays o; Ramón de la Cruz. Urbana, 111., 1926. decimottavo. 2.» ed. Bari, 1916.
'

1206 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1207

(1668-1750) ( 4 1 ). O resultado foi a "ópera séria", a arte e, dentro dos limites estreitos do seu género, um dos
dominante e a mais internacional do século X V I I I . A grandes poetas da literatura universal. Facilidade de im-
história da música guarda precariamente a memória dos provisador e virtuosismo no verso harmonioso teriam
grandes compositores desse tempo; só nos últimos dois resultado, em Metastasio, um notável poeta lírico, se o seu
decénios revivificaram-se algumas das suas óperas e alguns sentimento fosse mais profundo, menos "teatral"; mas por
dos oratórios que substituíam as óperas por ocasião da isso mesmo preferiu o teatro, e a fraqueza da sua obra
Quaresma. E n t r e os mais notáveis no género podemos citar dramática reside principalmente na hipertrofia do lirismo.
Alessandro Scarlatti, em Nápoles, Galluppi, em Veneza, Poeta foi Metastasio, o último dos poetas barrocos, da
Haendel, na Inglaterra, Hasse, na Saxônia, Caldara, em Vie- estirpe dos eróticos como Tasso, Guarini, Marino. Renovou
na, Cimarosa, na Itália e em França, Jomelli, em Stuttgart, essa arte decadente, introduzindo-a no mecanismo da tra-
Paesièllo, na Rússia, mais outros como Traétta, Sarti, Majo, gédia à maneira francesa, e fê-lo com sucesso absoluto:
na Espanha, Prússia e Suécia. As representações luxuosas Voltaire tinha razão, comparando La clemenza di Tito às
nas capitais dos pequenos principados absolutistas do Ro- obras de Corneille; e o oratório Gioas re di Giuda não é
cocó, hoje cidadezinhas sem importância, lembram as ori- de todo indigno do modelo Racine, que o poeta italiano
gens barrocas da ópera séria: aquelas pequenas capitais tinha estudado muito ( 4 2 " A ). Metastasio criou um drama
sucederam, como centros teatrais, aos colégios provincia- aristocrático, cheio de ações e sentimentos nobres, mas não
nos dos jesuítas. A riqueza melódica dos compositores ita- sem frivolidade íntima; e o seu mecanismo teatral é monó-
lianos uniu-se a um obstinado conservantismo literário: tono mas eficientíssimo. Disso resultaram os aplausos
compuseram música sempre nova, mas sempre sobre os intermináveis dos contemporâneos. Metastasio é o último
mesmos textos, as mais das vezes, textos do "incomparabile" poeta italiano de que o seu povo sabe de cor, até hoje,
Metastasio. certos versos; e é ao mesmo tempo o último poeta italiano
Pietro Metastasio ( 4 2 ), ora elogiadíssimo, ora despre-
zadíssimo, é um dos poetas representativos do século X V I I I
Oratórios: S. Elena ai Calvário (1731); Morte d'Abele (1732);
Giuseppe riconosciuto (1733); Gioas re di Giuda (1735).
41) M. Fehr: Apostolo Zeno und seine Reform des Operntextes. Edição dos melodramas por F . Nlcollnl, 4 vols., Bari, 1920/1921.
Zurlch, 1912. Poesias escolhidas, edit. por E. Bettazzt, Torino, 1912.
42) Pietro Metastasio (pseudónimo de Pietro Trapassi), 1698-1782. A única edição das obras completas, em 12 vols., é a de Paris,
(Cf. nota 13.) 1780/1782.
Poesias: La liberta (1733); Palinodia (1746); La Partenza (1749); F. de Sanctis: "Saggio sul Metastasio". (In: La nuova Antologia,
etc. 1781.)
Melodramas: Didone abbandonata (música de A. Scarlatti, Gual- G. Carducci: Pietro Metastasio. 1882. (Opere, vol. XIX).
luppi, Sarti, e t c ; 1724); Ca tone in Uttca (música de Jommelli, P. Arcari: Uarte poética di Pietro Metastasio. Milano, 1902.
etc:; 1727); Ezio (música de Haendel, Jommelli, Gluck, etc; 1728); A. De Gubematis: Pietro Metastasio. Firenze, 1910.
Semiramide (música de Porpora, Jomelli, Sacchlnl, Cimarosa, e t c ; L. Russo: Píeíro Metastasio. Pisa, 1915.
1729); Adriano in Síria (música de Pergolese, Gallupi, e t c ; 1731); G. Natali: La víta e le opere de Pietro Metastasio. Livorno, 1923.
Issipile (música de Caldara. Pergolese. e t c ; 1732); Olimpíade M. Apollonio: Metastasio. Milano, 1930.
(música de Pergolese, Caldara, Jommelli, Galluppi, Cimarosa, Cl. Varese: Saggio sue Metastasio. Firenze, 1950.
etc; 1733); Demofoonte (música de Jommelli, Galluppi, e t c ; O. Calcaterra: Poesia e Canto. Studi sulla poesie melica italiana
1733); La clemenza di Tito (música de Leo, Sarti, Mozart; e sulla javola per la musica. Bologna. 1951.
1734); Achille in Sciro (música de Caldara, Sarti, Jommelli; 1736; 42A) A. Trigiani: II teatro raciniano e melodrammi di Metastasio.
Temistocle (1736); Attilio Regalo (1740). Torino, 1951.
1208 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1209

que conquistou glória internacional. Nos seus versos fáceis maneira muito mais perfeita do que o próprio Wagner.
aprendeu toda a gente culta do século X V I I I a língua ita- Só depois de Wagner sabemos apreciar um drama que se
liana, que hoje já não é considerada como parte indispen- confunde com a música. Attilio Regolo é uma tragédia
sável da cultura geral. Mas em vez de constituir isso notável. Metastásio é, na literatura italiana, o único criador
motivo de orgulho nacional, suscitou a ira e quase o ódio de um teatro original.
da Itália moderna: consideravam Metastásio como o poeta As apreciações tão diferentes sobre Metastásio são
da decadência, o poeta que transformou a grande Itália de consequências da combinação de elementos estilísticos
outrora em país de ópera e quase de opereta, de maestros, muito diferentes na sua obra. A crítica moderna aprecia
cantores e bailarinas. De Sanctis exprimiu com vivacidade o pré-romantismo em Metastásio, poeta elegíaco e às vezes
esse desgosto, opondo ao aristocrata frívolo Metastásio o trágico. Os contemporâneos elogiaram-lhe a apresentação
burguês sério Goldoni. "Sogni e favole io f i n g o . . . " , disse do erotismo arcádico em formas classicistas. De Sanctis,
Metastásio, e de Sanctis interpretou o verso como confis- embora enganando-se no julgamento estético, adivinhou,
são da decadência de uma sociedade ociosa, minada pela porém, a verdade histórica: Metastásio, criador de um
hipocrisia contra-reformatória. O severo Carducci, admi- mecanismo dramático quase de bonecos, "maitre de plaisir"
tindo a "natureza absurda" da "tragédia" metastasiana, de uma sociedade já anacrónica, poeta que confessa "fingir
salientou-lhe, porém, as belezas líricas, expressão perfeita sonhos e fábulas", é um poeta barroco; e barroca é a sua
de uma época realmente "arcádica". A popularidade de arte, a ópera.
Metastásio não é casual; ao lado dos grandes "olímpicos", A análise da Arcádia e do melodrama arcádico chega
Dante, Maquiavel, Leopardi, ele também representa uma a dois resultados: as relações da Arcádia com o pré-ro-
parcela do caráter nacional, e não a pior. Talvez os ita- mantismo em que sempre desemboca — o que constitui
lianos ainda tenham motivos para lembrar os seus versos: mais um argumento em favor da existência secreta do
pré-romantismo durante o século inteiro; e o caráter intima-
"Ne' giorni tuoi felici mente barroco dessa Arcádia que se dá ares de classicismo
Ricordati di m e ! " rigoroso. Este resultado surpreende, porque o grave Bar-
roco e o ligeiro Rococó sempre são considerados como
A apreciação moderna de Metastásio não acompanha os incompatíveis. Mas será realmente possível interpretar a
julgamentos de De Sanctis e Carducci. Não considera, ópera do século X V I I I como survival do Barroco do
como este último, a poesia metastasiana como renascença século precedente? A prova apresenta-se na ópera inglesa.
do erotismo idílico, nem, com o primeiro, o teatro metas- Henry Purcell ( 43 ) é, sem dúvida, um compositor barroco.
tasiano como simples mecanismo. Na poesia de Metastásio A grande inovação na sua obra-prima Dido and Aeneas
há qualidades líricas que não se encontram em outro poeta (1689) foi a eliminação completa do texto falado; só há
entre o tempo de Tasso e o de Leopardi: é um grande árias e recitativos, e essa eliminação do elemento "racional"
elegíaco. O vocabulário paupérrimo e monótono e a falta é muito significativa, assim como a preferência de Purcell
de colorido não constituem objeções, porque a poesia de
Metastásio é intencionalmente modesta, pretende apenas
servir ao drama e à música; e o mestre conseguiu isso de 43) Henry Purcell, 1659-1695.
D. Arundell: Henry Purcell. Oxford, 1928.
'

1210 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1211

pela adaptação e composição de peças shakespearianas: limita-se a poucas traduções e v e r s õ e s : entre elas, s ó Titus
Midsummer-Nighfs Dream e Tempest reviveram em Fairy and Berenice, de O t w a y , e Mithridates King of Pontus,
Queen e Enchanted Island, adotando-se todas as artes de de Lee, são dignas de notas. É fraca também a influência,
féerie da cena barroca. Purcell também transformou em embora sempre alegada, de M o l i è r e ; um crítico b e m in-
ópera a Bonduca, de B e a u m o n t e F l e t c h e r , que exerceram formado ( 4 6 ) só admite relações entre o Amphitryon, de
tanta influência sobre os dramaturgos da época da Restau-
M o l i è r e e a peça homónima, de D r y d e n , entre o Misan-
ração inglesa, particularmente sobre D r y d e n , para o qual
thrope e o Plain Dealer, de W y c h e r l e y ; e poucas outras.
P u r c e l l escreveu o s n ú m e r o s m u s i c a i s d e Tyrannic Love,
C o m isso, não se pretende absolutamente negar a influência
Amphitryon e King Arthur, e sobre Lee, que pediu a Pur-
cell a música da tragédia Theodosius. O drama da Restau- francesa; apenas permanecem as dúvidas a respeito da na-
ração i n g l e s a foi outrora interpretado como tentativa clas- tureza do a g e n t e influenciador. D r y d e n , n o s seus grandes
sicista, imitação de Corneille, e, quanto à comédia, imitação prefácios teóricos, não depende de Boileau, e s i m dos
de Molière. N a verdade, é uma tentativa de combinar o Discours, de C o r n e i l l e ; o seu i n t u i t o é um compromisso
classicismo com as reminiscências do teatro elisabetano- entre Corneille e Shakespeare. O verdadeiro culto do
jacobeu. O resultado foi uma espécie de N e o b a r r o c o ; e, c l a s s i c i s m o francês é, na Inglaterra, f e n ó m e n o posterior,
na comédia, uma espécie de Rococó. D e s t e modo, é preciso da época de A d d i s o n ( 4 7 ) . U m a das mais fortes influências
reinterpretar a literatura da Restauração inglesa, do m e s m o francesas na Inglaterra é e v i d e n t e m e n t e pré-classicista: a
m o d o que foi reinterpretada a Arcádia. do libertin e x i l a d o Saint-Évremond. A fonte dos dra-
Contra a classificação da literatura da Restauração m a t u r g o s da Restauração em busca de enredos não é o
i n g l e s a como barroca ou neobarroca é possível levantar teatro de Corneille e Racine, e s i m o romance heróico-
objeções sérias. É, em primeira linha, literatura dramática; galante ( 4 8 ) . Mas esse estilo heróico-galante tem precur-
e se o teatro jacobeu-carolíngio já foi caracterizado c o m o s o r e s n o teatro i n g l ê s : e, de fato, os dramaturgos "heróico-
barroco, não se espera então encontrar o m e s m o estilo no galantes" B e a u m o n t e F l e t c h e r exerceram forte i n f l u ê n c i a
teatro da Restauração: interpõe-se o período de 1642 a
sobre o drama da Restauração ( 4 f l ). O período de 1642 a
1660, durante o qual os teatros estiveram fechados p e l o
1660 não s i g n i f i c a interrupção completa. O primeiro dra-
g o v e r n o puritano. E d e p o i s começa a influência francesa,
maturgo que é autenticamente do e s t i l o da Restauração,
modificando tudo ( 4 4 ) . A essa teoria de uma cisão absoluta
entre o teatro jacobeu-carolíngio e o da Restauração —
em curso até há p o u c o na Inglaterra — não aderiram o s
críticos franceses mais s e n s í v e i s às "heresias" contra o 46) D. H. Miles: The Influence of Molière on Restoration Comedy.
New York, 1910.
classicismo ( 4 5 ) . A influência direta de Corneille e Racine
17) A. F. B. Clark: Boileau and the French Classical Critics in
.England. Paris, 1925.
48) Cf. "Pastorais, Epopeias e Pícaros", nota 50.
44) D. Canfield Fisher: Corneille and Racine in England. New 49) A . C . Sprague: Beaumont and Fletcher on the Restoration Stage.
York, 1904. Cambridge Mass., 1926.
45) C. Charlanne: Uinfluence française en Angleterre au XVHe J. H. Wilson: The Influence of Beaumont and Fletcher on Res-
siècle. Paris, 1906. toration Drama. Columbus, Oh., 1928.
1212 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1213

William Davenant ( 6 0 ), pertence cronològicametne à época grandes mestres do verso satírico, o criador do teatro mo-
carolíngia; é também autor de uma epopeia heróica, Gon- derno, da prosa "coloquial" e da crítica literária. Os crí-
dibert; as suas peças são quase óperas, que o colocam p e r t o ticos estrangeiros pouco se ocuparam com Dryden; se o
de Purcell; mas foram escritas e representadas d u r a n t e a fizessem, insistiriam provavelmente nas incoerências da sua
época de Cromwell, na qual se apresentou mais do que u m teoria dramatúrgica, no pouco valor atual do seu teatro, e
espetáculo teatral, embora em círculos fechados. As p r i - negar-lhe-iam, principalmente, o título de grande poeta,
meiras peças de Davenant, The Siege of Rhodes e The ou mesmo de poeta autêntico. De fato, a poesia lírica de
Cruelty of Spaniards in Peru, são verdadeiras óperas, e no Dryden tem poucos encantos. As famosas odes Song for
longo título da primeira indica-se claramente outra g r a n d e St. Cecília's Day e Alexandefs Feast são bombásticas,
inovação: "the art of prospective in scenes", o uso do barrocas no sentido pejorativo da palavra; antecipam os
palco em perspectiva com as suas máquinas barrocas. grandes coros de Haendel, mas sem o esplendor da música.
Davenant deu uma versão do Tempest, que serviu de base O poema elegíaco To the Memory of Mr. Oldham não su-
ao Enchanted Island, de Dryden e Purcell. Além disso, porta comparação com Lycidas. Dryden não é poeta lírico;
deixou poesias que o colocam entre os "metaphysical poets". mas existem outras espécies de poesia. Religio Laici e
Os aspectos multiformes de sua obra anunciam a figura The Hind and the Panther são grandes poemas didáticos;
proteica de Dryden. o leitor moderno estranhará a engenhosídade igual com que
John Dryden (B1) apresenta aspectos diferentes, visto
da Inglaterra ou visto de fora. Para os ingleses, é um dos-
loger (1671); Almanzor and Almahide (1672); Mariage à la Mode
(1673); Aureng-Zebe (1676); Ali for Love, or the World well
50) Sir William Davenant, 1606-1668. Lost (1678); Mr. Limberham (1680); The Spanish Friar (1681);
Poema épico Gondibert (1651). Amphitryon (1690); Don Sebastian, King of Portugal (1690);
Tragedy of Albovine (1629); The Siege of Rhodes Maãe a Repre- King Arthur (1691); Cleomenes (1692).
sentation by the Art of Prospective in Scenes, And the story sung Prosa: Of Dramatick Poesie (1668); The Grounds of Criticism in
in Recitative Musick (1656); The Cruelty of the Spaniards in Tragedy (1679); Examen Poeticum (Dedication) (1693); Preface
Peru (1658); The Tempest or the Enchanted Island (1670). to Fables Ancient and Modem (1700).
Edição por I. Maidment e W. H. Logan, 5 volumes, Edinburg P Edição das Obras completas por G. Saintsbury, 18 vols., Edinburg
1872/1874. 1882/1892.
A. Harbage: Sir William Davenant. Philadelphla, 1935. Edição das obras poéticas por W. D. Christie e C. H. Firtl,
A. H. Nethercot: Sir William Davenant. London, 1939. Oxford, 1911.
Edição das obras dramáticas por M. Summers, 6 vols., London,
51) John Dryden. 1631-1700. 1931/1932.
Poesia: Astraea Redux (1660); Annus Mirabilis (1667); Absalom Edição dos ensaios críticos por W. P. ker, 2." ed., 2 vols., Oxford
and Achitophel (1681/1682); The Medall (1682); Mac Flecknoe, 1926.
or a Satyr upon the True-Blew-Protestant Poet (1682); Religio G. Saintsbury: John Dryden. London, 1881.
Laíci (1682); To the Memory of Mr. Oldham (1684); Threnodia R. Garnett: The Age of Dryden. 2.a ed. London, 1907.
Augustalis (1685); To the Pious Memory of Mrs. Anne Killigrew A. W. Ward: "John Dryden". In: The Cambridge History of
(1686); The Hind and the Panther (1687); A Song for St. Ceci- English Literature. Vol. VTII. 2.» ed. Cambridge. 1920.)
lia's Day (1687); Alexandefs Feast (1697). M. Van Doren: The Poetry of John Dryden. 2.* ed. New York
Traduções: The Satires of Juvenal and Persius (1693); The Works 1931.
of Virgil (1697); Fables Ancient and Modem (1700). T. S. Eliot: John Dryden: The Poet, the Dramatist, the Critic.
Teatro: The Rival Ladies (1664); The Indian Queen (1665); The New York, 1932. •
Indian Emperour (1667); Secret Love or the Maiden Queen
(1668); The Wild Gallant (1669); Tyrannick Love (1670); The L. I. Bredvold: The Intelectual Milieu of John Dryden. Ann
Conquest of Granada by the Spaniards (1670); The Mock-Astro- Arbor. 1938.
K. Young: John Dryden. London, 1954.
1214 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1215

Dryden defende, no primeiro poema, a Igreja anglicana Don Sebastian tem até poder emotivo, e AU for Love,
contra o catolicismo, e no segundo — quando já estava versão "heróica" de Antbony and Cleópatra, é segundo a
convertido — o catolicismo contra a Igreja anglicana. A opinião unânime dos críticos, uma peça melhor construída
poesia de Dryden é polémica, retórica. Na sua famosa e mais eficiente do que a grande obra de Shakespeare. Abo-
tradução de Virgílio não conseguiu interpretar bem o li- lindo as convenções do teatro elisabetano-jacobeu, criou
rismo das Églogas; foi mais feliz na poesia didática da Dryden um teatro de complicações e desfechos lógicos,
Geórgica, e transformou a Aeneis em narração de grande diálogo espirituoso ou retórico, problemas geralmente hu-
eloquência. Ao tradutor de Juvenal cabe a primazia da manos, efeitos sentimentais e até melodramáticos: é, em
sátira inglesa. Absalom and Achitophel, satirizando o par- suma, o teatro moderno, inferior ao antigo em muitos
tido protestante dos whigs, envolvidos numa conspiração sentidos; mas é o nosso teatro. Dryden está mais perto
malograda, zomba dos vencidos, vestindo-os com nomes de Ibsen e Shaw do que Shakespeare e Webster; quando
bíblicos, caricaturando-os de maneira implacável; os retra- muito, tem algo de comum com Ben Johnson. Daí, ao lado
tos de Shaftesbury como Achitophel, de Buckingham como da inteligência, o pendor do grande satírico pela comédia,
Zimri tornaram-se inesquecíveis para os ingleses, quase na qual êle mesmo se julgou infeliz. Mas The Spanish
proverbiais. E o poema Mac Flecknoe, dirigido contra o Friar é superior ao modelo, a peça de John Fletcher, e
poetastro Shadwell, é a sátira literária mais amarga, mais Marriage à la mode e Amphitryon podem muito bem ser
eficiente que existe em qualquer língua. O estilo de Dry- comparadas às Précieuses ridicules e ao Amphitryon, de
den é erudito; mas qualquer leitor alcança o espírito que Molière. A obra-prima, Mr. Limberham, só não goza da
mata o adversário — com tanto vigor falam as imagens e fama merecida, porque é extremamente indecente. Mas
as rimas. Essa poesia, de domínio absoluto da língua e mesmo a esta peça tem T . S. Eliot estendido sua tentativa
do metro, é toda objetiva, anti-romântica, isto é, barroca, de reabilitação do teatro Dryden.
intelectual. Dryden é, acima de tudo, uma grande inteli-
Dryden tinha consciência das hesitações do seu estilo
gência.
dramático. Tornou-se por isso o maior crítico de teatro
A inteligência de Dryden não se podia conformar com da literatura inglesa. Se bem que as suas comparações
as inverossimilhanças grosseiras e a construção incoerente entre o teatro inglês e o teatro francês não chegassem a
do teatro elisabetano-jacobeu. Por isso, adotou o sistema resultados definitivos, os seus prefácios são muito supe-
francês; e para conseguir efeitos poéticos acessíveis à sua riores aos de Corneille. Dryden é u m grande crítico lite-
própria natureza poética, substituiu o verso branco do tea- rário, e o seu gosto é "catholic": adota o sistema francês
tro nacional pelo "heroic couplet", que oferece oportuni- — por mais "razoável" — reconhece, no entanto, a grandeza
dade para rimas engenhosas e eloquentes. Pensava em poética de Shakespeare, e as suas preferências classicistas
imitar Corneille, mas imitou antes Beaumont e Fletcher, não o impediram de redescobrir e celebrar o génio do
criando uma tragédia "heróica" de amor e "panache". Ne- esquecido Chaucer, o grande "pecado" do crítico Dryden
nhuma dessas peças é uma obra-prima. Mas a inteligência é o menosprezo de Donne e da "metaphysical poetry".
de Dryden brilhou na composição e na eficiência do diá- Censurou a poesia erótica de Donne porque este "perplexes
logo. AlmazoT and Almahide e Aureng-Zebe são as melho- the minds of thé fair sex with nice speculations on phi-
res tragédias barrocas (ou neobarrocas) do teatro inglês; losophy" — quer dizer, Dryden exige a simplificação da
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poesia barroca em favor do novo público que será menos Durante a vida de Dryden deu-se o acontecimento mais
culto e em grande parte composto de mulheres. Para este importante da história inglesa moderna: a revolução de
novo público traduziu Dryden as grandes obras da lite- 1688, que estabeleceu a monarquia parlamentar; significou
ratura antiga. Para este novo público escreveu ele sobre isso a eliminação definitiva dos ideais políticos do Conti-
os problemas difíceis da crítica literária, na mesma lin- nente nas Ilhas Britânicas, a afirmação da insularidade
guagem clara, vigorosa, "coloquial" sem deixar de ser lite- inglesa. Dryden é o último escritor inglês de formação
rária, dos seus poemas satíricos e didáticos. T. S. Eliot europeia, assim como o seu rei Jaime I I foi o último rei ca-
chama-lhe o criador da língua literária moderna. tólico e quase absoluto da Inglaterra. Veja-se mais uma vez,
Dryden é, porém, algo mais: é o criador da literatura a atitude do "bom europeu" (se bem que americano nato) T.
moderna, não somente pela linguagem poética, pelas novas S. Eliot, depois da Revolução Comunista. A obra de Dryden
convenções teatrais que estabeleceu, pela prosa, mas ainda é, na verdade, tão pouco "clássica" como a de Eliot — é mo-
pela atitude. É o primeiro inglês que foi conscientemente nárquica, anglo-católica, retórica, heróica e satírica; quer
e profissionalmente "homem de letras". Os escritores da dizer, barroca. E esse Barroco é tão artificial como as velei-
sua época, ainda sem grande público, estavam à mercê dos dades absolutistas do último rei da dinastia Stuart; é um
mecenas aristocráticos. Dryden conservou-se independente, neobarroco consciente do seu caráter reacionário contra o
tornou-se autoritário: da sua mesa em "Will's coffee- classicismo republicano da época de Cromwell e Milton.
house" dominava a literatura da época. As suas mudanças Luta em vão contra os gérmens do novo em seu próprio
políticas e a conversão ao catolicismo, muitas vezes cri- seio. Dryden é classicista mais no sentido de Addison e
ticada como "pouco sincera", não foram ditadas por um Pope, do século X V I I I , do que de Milton, contra o qual
adesionismo qualquer. A ambiguidade religiosa de Dryden reagiu. Na sua meditação constante, sincera mas não pro-
é mais uma expressão da via media anglicana; mas já funda, sobre problemas religiosos, não é capaz de dissi-
não é a ambiguidade de Donne e sim a hesitação de um mular o cepticismo a respeito do dogma; Religio Laici é
intelectual moderno em face de dogmas exigentes. E um título do qual gostarão deístas e racionalistas. No mo-
Dryden escolheu, na Inglaterra protestante, o dogma da ralismo de Dryden — até a indecência das suas comédias
minoria. As suas oscilações confirmam, desse modo, sua pretende denunciar o vício — já existe muito da menta-
independência, são passos para conseguir um ponto firme lidade burguesa. E o sentimentalismo dos seus efeitos
no ambiente do cepticismo geral da sua época. Por isso, melodramáticos anuncia a sensibilidade pré-romântica.
e não por motivos pessoais, o literato autoritário foi par- Dryden sintetiza o passado e o futuro da literatura inglesa;
tidário da autoridade política e eclesiástica, do Rei e da para os estrangeiros significa pouco, mas para os ingleses
Igreja. É o primeiro grande tory, conservador, da lite- é quase um Goethe.
ratura inglesa, e nisso também tipicamente inglês. Está
entre o republicano Milton e o tory Samuel Johnson, Está aí um grande nome, grande demais. Mas assim
politicamente e literariamente. A sua atitude parece com como se pode falar em "época de Goethe", deve falar-se
a atitude atual de T. S. Eliot, homem de letras, clas- em "época de Dryden". Os outros, são todos discípulos
sicista, monarquista e anglo-católico: Eliot aprecia muito e imitadores seus. Embora várias vezes — sobretudo na
Dryden, et pour cause. comédia — mais felizes do que o mestre. A literatura da
I2\n OTTO M A R I A CABPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1219

Restauração é principalmente dramática ( o s ) : os dryde- defini-la como barroca — considerando-se que já foi defi-
nianos criam um teatro, talvez não de valor permanente, nida como barroca a tragédia jacobeu-carolíngia. A última
mas moderno. O caráter transicional da época contribui tragédia elisabetana carece de standards morais; a tragédia
para diferenciar nitidamente a tragédia, afirmação positiva da Restauração erige o standard do heroísmo teatral: os
do ideal heróico-barroco, e a comédia, reação moralista con- ideais aristocráticos de Beaumont e Fletcher, como lição
tra o trend hostil — antibarroco — da época. moral do teatro. Para explicar esse didatismo, o crítico
A tragédia da Restauração ( 68 ) é obra de "poetes americano Cleanth Brooks chamou a atenção para a in-
maudits"; a tentativa de síntese entre espírito teatral in- fluência do filósofo Hobbes, ao qual Dryden deve realmente
glês e forma francesa não era realizável; os seus repre- muito. Hobbes ( " ) foi inimigo da "metaphysical poetry";
sentantes acabaram na loucura ou na miséria. As opiniões censurou a poesia metafórica, exigindo uma poesia expo-
sobre os tragediógrafos da Restauração são ainda contra- sitiva, capaz de sugerir admiração pelas virtudes heróicas
ditórias. O século X V I I I , incapaz ou apenas parcialmente — como filósofo do absolutismo totalitário, não admite ou-
capaz de aceitar a tragédia de Shakespeare, admirava em tra poesia a não ser uma poesia "útil". Brooks ( 65 ) pretende
Otway e Lee os restos que conservam do teatro jacobeu; explicar, deste modo, o fim da tragédia elisabetana: com
os elogios exagerados daquela época ainda sobrevivem em a metáfora desaparece a "ambiguidade", para tornar possí-
certos manuais tradicionalistas. Desde que começou a ido- vel o fim didático da poesia; com a "ambiguidade" cai o
latria de Shakespeare e, depois, o culto dos seus contem- "double plot" — e fica a tragédia heróica sem elemento
porâneos, a crítica pronunciou os julgamentos mais duros cómico. Na verdade, trata-se antes da dissociação completa
sobre os "génios fracassados" da Restauração, que teriam da síntese elisabetana; e eis porque cai o "double plot".
sido, na verdade, talentos fracos, de ambição desmesurada. A eliminação do elemento cómico é uma tentativa de res-
Otway e Lee decepcionam, quando lidos; e as suas peças tabelecimento dos valores morais: uma "rebarroquização"
já não se representam. Mas são mestres notáveis do mero do teatro barroco, quer dizer, um neobarroco. O grave
efeito teatral. São de todo indignos de ser comparados a burguês Dryden não compreendeu o fantástico dessa ta-
Shakespeare, Jonson, Middleton e Webster; mas são su- refa: as suas tragédias são brilhantes exercícios de estilo
cessores dignos da tragédia fantástico-heróica de Beau- teatral. Os mestres da tragédia da Restauração — Otway
mont e Fletcher. e Lee — são "poetes maudits", génios fantásticos de estilo
A crítica de Dryden não é um guia muito seguro para heróico e vida trágica.
•determinar o caráter da tragédia da Restauração. Classicista, Thomas Otway ( 60 ) ainda vive dos interesses dos seus
pretendeu ela ser, mas não foi; por outro lado, não convém enredos: Don Carlos lembra Alfieri (Filippo) e Schiller

63) A. W. Ward: History of English Dramatic Literature to the 64) Cf. nota 101.
Death of Queen Anne. Vol. m , 2.» ed. London, 1899.
A. Nicoll: A History of Restoration Drama, 1600-1700. Cam- 55) Cl. Brooks: "A Note on the Death of Elizabethan Tragedy". (In:
bridge, 1923. Modem Poetry and the Tradition. Chapei Hill, 1939.)
A. Nicoll: A History of Early Eighteenth Century Drama, 1700- 66) Thomas Otway, 1652-1685.
1750. Cambridge, 1925. Don Carlos Prince of Spain (1676); The Orphan (1680); The
53) B. Dobrée: Restoration Tragedy. Oxford, 1929. Soldiers Fortune (1681); Venice Preserv'd (1682).
Edição por J. C. Ghosh, 2 vols., Oxford, 1932.
1220 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1221

(Don Carlos). Venice Pieserv'd lembra uma v e z mais Tornaram-se notórias as injúrias grosseiras de T h o m a s
Schiller (Fiesco) foi imensamente elogiada durante o sé- R y m e r contra S h a k e s p e a r e : em A Short View of Tragedy
culo X V I I I e a primeira metade do s é c u l o X I X , e seria (1693), chamou a Otelo "farsa sangrenta sem espírito".
realmente uma poderosa tragédia romântica — no s e n t i d o Mas R y m e r gostava de B e a u m o n t e F l e t c h e r ; e o q u e pre-
em que é romântico o teatro jacobeu — e um interessante t e n d e u exprimir, em l i n g u a g e m grosseira, foi apenas a
e s t u d o p s i c o l ó g i c o do conspirador fracassado Jaffier, s e incompatibilidade d o a n t i g o teatro c o m o g o s t o d o p ú b l i c o
não fosse a retórica vazia, a falsa poesia. D o e f e i t o n o moderno — c o n c e i t o j u s t i f i c a d o pelas inúmeras tentativas
palco, que f ê z estremecer o público do s é c u l o X V I I I , dá malogradas de "adaptar" Shakespeare. R e s p o s t a a R y m e r
alguma ideia a versão moderna, alemã, de Hofmannsthal. foi, em 1709, a primeira edição moderna de Shakespeare,
A obra mais original de Otway é a comédia The Soldiers por N i c h o l a s R o w e ( 5 8 ) , que já considerava Shakespeare
Fortune, na qual se reflete a sua própria vida de boémio, não como força viva do teatro, e sim como leitura literária.
ator, soldado e desgraçado. E O t w a y era ainda feliz em Para o teatro, era preciso "adaptar" as peças elisabetanas,
comparação com Nathaniel L e e ( B 7 ) , que acabou na embria- e R o w e adaptava com muita habilidade. U m a v e z até con-
g u e z e n o m a n i c ô m i o . L e e foi u m grande talento. Lembra s e g u i u quase uma obra-prima: The Fair Penitent é uma
até Marlowe, pela fúria infernal das p a i x õ e s que se desen- tragédia fina e comovente, melhor construída e elaborada
cadeiam no s e u teatro. The Rival Çueens é p e l o m e n o s do que o m o d e l o , o poderoso e a l g o rude Fatal Dowry, de
igual à obra mais famosa de O t w a y ; mas o público de hoje Massinger e F i e l d . E m outras obras, R o w e limitou-se a
mal suportaria a representação dessa obra, de eloquência diluir o estilo elisabetano: as tragédias históricas Jane
torrencial, porém, falsa e pouco sincera. L e e não é "o úl- Shore e Lady Jane Grey atenuam os assuntos sangrentos
t i m o elisabetano"; é antes o primeiro dos m u i t o s esquisitões a p o n t o de s e tornarem peças sentimentais. E m v e s t e s
entre o s poetas i n g l e s e s m o d e r n o s — entre eles há um reais do passado, a g e m b u r g u e s e s e burguesas chorosas d o
S h e l l e y e u m B e d d o e s — que pretenderam a t o d o c u s t o s é c u l o X V I I I . R o w e transforma a tragédia neobarroca e m
revivificar o teatro elisabetano, mas que só l h e imitaram drama burguês, que será género t í p i c o do pré-romantismo.
a violência dos contrastes p o é t i c o s e cénicos. A comédia de Restauração ( 6 9 ) também não saiu ex-
O ano de 1688 acabou com os ideais heróico-fantásticos. nihilo. Mas o s e u modelo não foi a comédia fantástica
O próprio D r y d e n quis, então, abandonar o teatro. Certos de B e a u m o n t e Fletcher, mas a comédia de c o s t u m e s de
d i s c í p u l o s seus começam a atacar o a n t i g o teatro inglês. Massinger, Shirley, e sobretudo de M i d d l e t o n , em que os
comediógrafos da Restauração encontraram o realismo frio
na apresentação de c o s t u m e s depravados; o que acrescen-
K. Luick: Thomas Otioay. Wien, 1902.
R. G. Ham: Otway and Lee. Newhaven, 1931.
A. M. Taylor: Next to Shakespeare. Otway's Venice and Orphan. 58) Nicholas Rowe, 1674-1718.
Durham, N. C, 1950. Tamerlane (1702); The Fair Penitent (1703); Tragedy of Jane
57) Nathaniel Lee, c. 1653-1692. Shore (1714); Tragedy of Lady Jane Gray (1715); The Works
The Rival Queens (1677); Theodosius (1680); Caesar Borgia of William Shakespeare (1709).
(1680); The Massacre of Paris (1690). Edição parcial (Tamerlane, Fair Penitent e Jane Shore) por
A única edição existente é a dos Dramatick Works, 3 vols., Lon- J. R. Sutherland, London, 1929.
don, 1734/1736. O. Jutze: Nicholas Rowe. Leipzig, 1910.
R. O. Ham: Otway and Lee. Newhaven, 1931. 59) B. Dobrée: Restoration Comedy. Oxford, 1924.
1222 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1223

taram foi o espírito jocoso de uma sociedade antipuritana grande comédia, o Tartuffe — o capitão Manly é um homem
e intencionalmente amoralista. Este amoralismo é, aliás, a como Wycherley gostaria de ver os outros: rude e honesto.
própria atmosfera da comédia; e a comédia da Restauração O comediógrafo já nem repara que a vida desse homem de
é sensivelmente superior à comédia elisabetana. bem também é irregularíssima. Na mesma tendência en-
O mais decente entre eles é George Etherege ( 0 0 ). quadram-se, com seriedade menor, as comédias lascivas de
Provém diretamente da comédia fina de Shirley, e revela Aphra Behn ( 8 2 ), que também pretendeu opor ao deboche
influências de Molière, mas apenas das farsas. Os seus aristocrático a "liberdade" franca — pelo mesmo motivo
personagens são mais realistas que os dos seus suces- simpatizava ela com os escravos pretos, no seu romance
sores, embora os enredos sejam complicados como os de Oroonoko. Tendências parecidas — desta vez, do ponto
"capa y espada". O diálogo vivacíssimo de The Man of de vista da moral burguesa — inspiraram as comédias obs-
Mode, não foi superado. Em comparação parece Wycher- cenas de Dryden; T. S. Eliot chegou a defender, com muita
ley ( 0 1 ), à primeira vista, um cínico ordinário. É divertidís- coerência, o ideal secreto de moralista em Mr. Limberham;
simo, tem instinto infalível pela comicidade das situações e os discípulos de Eliot estenderam a defesa à comédia da
sexuais, apresentando-as com vigor de naturalista. Na sua Restauração "em bloco" ( 6 3 ). Uma interpretação mais "his-
obra-prima, The Country Wife, coloca entre aristocratas toricista" daria resultado diferente: justamente em Mr.
ingleses, de costumes quase selvagens, o enredo arquivelho Limberham, costumes aristocráticos e comentário burguês
do Eunuchus, de Terêncio: um cavaleiro que alega ser estão em plena contradição.
eunuco para tranquilizar os maridos e seduzir-lhes as mu- O equilíbrio estabelece-se em Congreve ( 6 4 ). É o co-
lheres. E Wycherley realiza uma obra superior a todas as mediógrafo mais admirado da literatura inglesa: causeur
versões anteriores do tema. Wycherley é um grande criador espirituoso, técnico habilíssimo da cena, cínico sem exces-
de caracteres "humanos, humanos demais"; e não o seria siva obscenidade. Comparam-no a Wilde. Mas este não
se não fosse movido — por mais incrível que pareça — seria capaz de escrever The Way of the World, peça digna
por sérias tendências morais: representa o deboche gros- de Molière; os diálogos entre Mirabell e a encantadora
seiro para protestar contra a indecência requintada. Em Millamant, brigando sempre até tomar afinal "o caminho
The Plain Dealer — Hazlitt lembrou a propósito desta

62) Cf. "Pastorais, Epopeias, Picaros", nota 52.


60) Slr George Etherege, c. 1633-1691. 63) J. Symons: "Restoration Comedy". (In: Kenyon Review, VTI/2.
The Comical Revenge (1664); The Man o/ Mode (1676), etc. 1945.)
Edição incompleta por H. F. B. Brett-Smith, 2 vols., Oxford, 64) William Congreve, 1670-1729.
1927. The Old Bachelor (1693); The Double Dealer (1694); Love for
F. S. Mac Camle: Sir George Etherege. A Study in Restoration Love (1695); The Mourning Bride (1697); T%e Way of the World
Comedy. Cedar Rapids, 1931. (1700).
61) William Wycherley, 1640-1715.1 Edições por M. Summers, 4 vols., London, 1923, e por F. W. Ba-
Love in a Wood, or St. James Park (1671); The Qentleman Dan- teson, London, 1930.
cing-Master (1672); The Country Wije (1675); The Plain Dealer E. Oosse: William Congreve. London, 1888.
(1677). D. Protopopescu: William Congreve, sa vie, son oeuvre. Paris,
Edição por M. Summers, 4 voLs., London, 1924. 1924.
Ch. Perronat: Wycherley, sa vie, son oeuvre. Paris, 1921. D. C. Taylor: William Congreve. Oxford, 1931.
W. Connely: Brawny Wycherley. New York, 1930. I. C. Hodges: William Congreve, the Man. New York, 1944.
1224 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1225

do mundo", casando-se — lembram o Shakespeare de Much <6*), o notável arquiteto dos grandes castelos da época do
A do About Nothing. Mas é um diálogo de brilhantes con- duque de Marlborough — Sacheverell Sitwell considera-o
cetti antitéticos, à maneira barroca. O século XVIII como o maior arquiteto do Barroco inglês; para diverti-
admirava ainda mais a tragédia The Mourning Bride, que mento seu e dos seus amigos nobres, escreveu farsas obs-
o gosto moderno, acostumado à tragédia elisabetana, já não cenas, de uma habilidade cénica que lembra a "comédia de
capa y espada" espanhola. Em uma dessas farsas apareceu,
aprecia. Tomava-se demasiadamente a sério a afirmação
pela primeira vez, no palco inglês uma cama aberta. Sus-
do próprio Congreve de não ser poeta e sim apenas gentle-
citou a ira especial dos adversários, porque apresentava
man e diletante. Hodges, o último biógrafo de Congreve, com a mesma indecência o ambiente burguês zombando
revela que este era gentleman num sentido muito elevado do sentimentalismo hipócrita. Essa polemica e a influência
do termo, homem cultíssimo, artista consciente — mas de moralizadora da corte da rainha Ana refletem-se na obra
modo algum gentleman vitoriano. A "moralidade" da ex- de George Farquhar ( 6fl ): os seus enredos continuam a
pressão e das situações não lhe importava, talvez porque ser indecentes — tratando sempre de sedução bem conse-
não pretendeu fotografar costumes reais; o seu intuito era guida — mas a linguagem é moderada, e o amor dá-se ares
a criação de um mundo fantástico de criaturas sem respon- românticos. Farquhar é, aliás, entre todos esses comedió-
sabilidade — é o dramaturgo da Fancy. Congreve é — a grafos tão hábeis, o maior técnico da cena: The Beaux'
sua prosa clássica o confirma — um poeta sem emoção, Stratagem é, do ponto de vista puramente teatral, a comédia
máxima da literatura inglesa, cheia de verve e interesse,
poeta da inteligência pura. E assim também é The Mour-
e não sem certa poesia da paisagem dos "midlands", dos
ning Bride, peça fora de todas as normas do teatro inglês,
*'castles", "inns" e "highways" do Rococó inglês — roman-
e que Johnson considerava digna de Racine. Em Congreve,
tismo em "plein air". Mas o estilo da Restauração não
o neobarroco de Dryden, Otway e Wycherley apresenta-se suportava essa linguagem moderada. Sem o cinismo, per-
perfeitamente calmo, tendo recuperado a compostura aris- dia-se o moralismo secreto, transformando-se em moralismo
tocrática, tornou-se Rococó. aberto, sentimental. A comédia "honesta" de Steele já é

Mas esse Rococó era incompreensível ao espírito pu-


ritano da classe que vencera com os whigs rebeldes de 1688: €5) John Vanbrugh, 1664-1726.
a burguesia. Revoltando-se contra a comédia indecente, The Relapse (1697); The Provok'd Wife (1697); The Confederacy
(1705); The Provoked Husband (1718), etc.
pretendeu defender a moral pública; mas chegou a atacar Edição por B. Dobrée e G. Webb, 4 Vols., London, 1927.
a própria arte. "A Short View of the Immorality and Pro- M. Dametz: John Vanbrughs Leben und Werke. Wlen, 1898.
66) George Farquhar, 1677-1707.
fanenness of the English Stage" (1698), panfleto vigoroso The Constant Couple (1699); Sir Harry Wildair (1701); The In-
do pastor dissidente Jeremy Colher, denuncia com certa constant (1702); The Twin-Rivals (1702); The Recruitlng Officer
(1706); The Beaux1 Stratagem (1707).
razão o carnaval permanente de adultérios e deboches no Edição por C. Stonehlll, 2 vols., London, 1930.
palco inglês de então; mas falha completamente pela exi- D. Schmid: George Farquhar. Wien, 1904.
H. E. Perry: The Comic Spirit in the Restoration Drama.
gência de uma arte que promovesse a moral pública. O Nevhaven, 1925:
W. Connely: Young George Farquhar. The Restoration at Twl-
comediógrafo mais visado por Collier foi John Vanbrugh light. London, 1949.
1226 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1227

assim; é transição para o drama burguês e o romance psi- damas como se fala nas comédias de Wycherley e Van-
cológico. b r u g h ; adultério, rapto e estupro eram espetáculos comuns
Durante o século X I X , a comédia da Restauração e quase públicos. O maior devasso da corte e amigo íntimo
constituía a "região proibida" da literatura inglesa: na d o rei, o Earl of Rochester ( e 8 ), confirmou pela vida a
crítica de Hazlitt ainda se encontra um eco da grande autenticidade do panorama moral da comédia da Restau-
admiração que o século X V I I I dedicava a Wycherley, Con- ração; e também pela sua literatura. Rochester é o Dryden
greve e Farquhar; porém Macaulay já achou que "this de um mundo de bêbedos e prostitutas; mas a comparação
part of our literature is a disgrace to our language and não ofende o grande homem de letras. Rochester, apre-
our national character". E toda a época vitoriana, profun- sentado outrora como inventor ocasional de alguns versos
damente envergonhada, deu-lhe razão. felizes, desperdiçou um talento extraordinário — a crítica
A valorização atual da comédia da Restauração vem moderna chega a lamentar um génio que a literatura inglesa
dos anos de 1920; o libertinismo literário do após-guerra, teria perdido. Uma tragédia, Valentinian, revela em Ro-
entusiasmado pelo ambiente finamente pitoresco do Rococó chester o discípulo de Beaumont e Fletcher, o emulo de
inglês, descobriu na comédia da Restauração um mundo Otway. Sodom, OT the Quintessence of Debauchery é o
artístico de qualidades superiores — esta apreciação pode último produto da "Cavalier Poetry". O motivo psicológico
ser considerada definitiva — não se preocupando com a d o deboche de Rochester foi um cepticismo amargo, algo
"imoralidade" de um teatro ao qual os manuais e antologias misantrópico; a sua Satire against Mankind aproxima-se
destinados ao grande público só aludem em poucas e pru- mais de Swift do que de Dryden; e revela ao mesmo tempo
dentes palavras como se se tratasse de escândalo. Até um mestre do verso inglês. As poesias de Rochester não
mesmo um "moderno" como Archer ( 67 ) tradutor de Ibsen são meros "vers de société". O sentimento do devasso é
e amigo de Shaw, achara a comédia da Restauração "stupid, mais sincero na poesia do que na vida. Os versos iniciais
nauseous and abominable". A indignação foi tão grande, de Love and Life —
porque interpretaram essa comédia como espelho fiel da
sociedade de então: as obras de Wycherley e Vanbrugh "Ali my past life is mine no more;
seriam a imagem dos costumes ingleses entre 1660 e 1710 T h e flyng hours are gone,
( 6 7 A ), e o fato de que tais costumes teriam sido possíveis Like transitory dreams given o'er
na terra de Dickens e Tennyson escandalizava o mundo Whose images are kept in store
vitoriano. By memory alone."
Existem certos motivos para aceitar a equação entre
68) John Wilmot, Earl of Rochester, c. 1647-1680.
a comédia e a sociedade de 1660. Após o regime puritano, Sodom or the Quintessence of Debauchery (1684?; a edição ori-
a Restauração da monarquia aristocrática teve como con- ginal não existe; editado por L. S. A. M. Roemer, Paris, 1904);
Poems on Several Occasions, with Valentinian, a tragedy (1691).
sequência um alívio súbito, degenerando logo em deboche Edição por J. Hayward, London, 1926.
e cinismo. Na corte do rei Carlos I I , falava-se com as J. Prinz: John Wilmot, Earl of Rochester, his Life and Wrttings.
Leipzig, 1927.
V. de S. Pinto: Rochester. Portralt of a Restoration Poet. Lon-
don, 1935.
67) W. Archer: The Old Drama and the New. New York, 1929. Ch. Williams: Rochester. London, 1935.
67A) J. Palmer: The Comedy of Manners. London, 1913. J. H. Wilson: Court Wits of the Restoration. Princeton, 1948.
• •

1228 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1229

— exprimem um conceito barroco, com a profundidade literária. O grande valor do Diary está, em primeiro plano,
emotiva e na forma simples de um Cowper, de um pré- na sinceridade absoluta do diarista. Com um " . . . a n d to
romântico. Contudo, o génio poético de Rochester não tem bed" terminam todas as anotações; Pepys escreve, por as-
nada que ver com sua qualidade de testemunha em favor sim dizer, nu, sem se enfeitar, revelando-se da maneira
da veracidade da comédia da Restauração. Mas há outra mais completa. É um homem u misto", tal como a maioria
testemunha, mais genial e mais comprobatória: Pepys. imensa dos homens, cheio de qualidades e defeitos con-
Os diários de Samuel Pepys ( 69 ) constituem o docu- traditórios. Político e administrador eminente, gentleman
mento mais singular da literatura inglesa: não pertencem culto e quase erudito, já preferindo as ciências naturais
à literatura propriamente dita, porque Pepys não os desti- à filologia humanista, avarento e generoso, devasso e amá-
nava à publicação. Taquigrafou-os, criando inúmeras difi- vel, é Pepys um aristocrata inglês não-puritano — os wighs
culdades à decifração, de modo que até as melhores edições do século X V I I serão assim. É um tipo de liberal inglês,
não estão isentas de erros. Além disso, estão incompletas, também liberal com respeito à verdade. Talvez fosse Pepys
porque ninguém ainda se atreveu a transcrever o relata o único homem do mundo que se revelou tão francamente.
de certas aventuras eróticas do diarista. O próprio Pepys, Mostra assim 'Thumaine condition" que, segundo Mon-
em ocasiões assim, inseriu palavras estrangeiras entre as taigne, todo homem representa. O seu diário é, no dizer
inglesas, para enfeitar a verdade; mas nunca traiu esta de Stevenson, "a Bible of human being", um comentário
última. O Diary é a mais completa auto-revelação de qual- • permanente da maneira de ser homem. A outra grande
quer homem em qualquer época e literatura. Não fazendo qualidade do Diary reside no seu enorme tamanho: é com-
distinção alguma entre qualidades respeitáveis e pequenas pleto. O homem Pepys é centro do seu mundo. Reflete
vaidades, atitudes duvidosas e vicios sórdidos, assuntos d a os grandes acontecimentos da época — coroação do rei,
maior importância política e ocupações de mesquinhez ri- guerra com a Holanda, incêndio e peste em Londres; e
dícula, Pepys anotou tudo nos seus cadernos: sessões n o também a vida quotidiana, as intrigas políticas da corte
Conselho do rei e horas com Doll Lane na taverna, repre- e do parlamento, aventuras e adultérios, brigas de família,
sentações de Shakespeare e Dryden e observações sobre teatro, ópera, cafés, reuniões científicas, a Bolsa, os piratas,
café e chocolate, os trabalhos sérios no Almirantado e comerciantes, judeus, levantinos, o porto de Londres, as
com os cientistas da Royal Society, orgias desenfreadas livrarias e os bordéis. Está tudo ali. É o panorama mais
e aborrecimentos em casa com a mulher ciumenta, horas completo que existe de qualquer época, pintado sem pre-
dormidas na igreja durante o sermão, brigas com o alfaiate, tensões de composição literária — um Universo literário
administração da sua fortuna considerável, meditações re- como o de Dante ou Balzac.
ligiosas — tudo isso misturado, sem a menor preocupação
A qualidade comum entre Pepys e o seu mundo é a
paixão desenfreada pelos prazeres e divertimentos, sobre-
69) Samuel Pepys, 1633-1703. tudo os prazeres sexuais. Neste sentido, Pepys autentifica
Diary (1 de janeiro de 1660 a 31 de maio de 1669; primeira pu- a comédia da Restauração. Para êle, o mundo é um lugar
blicação por Lord Braybrooke em 1825). em que a gente se distrai, uma festa permanente, um espe-
Edição por H. B. Wheatley, 10 vols., London, 1893/1899.
G. Bradford: The Soul of Samuel Pepys. Boston, 1924. táculo divertido. À atitude de Pepys é essencialmente a
A. Bryant: Samuel Pepys. 4 vols. Cambridge, 1933/1938 (2.*
edição, 1947/1949). do artista "pour qui le monde visible existe"; assim, êle
1230 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1231

se tornou artista, inconsciente e, por isso mesmo, maior. menos ou mais abertamente, à sexualidade. Afasta-se cada
Mas aquele libertino não é o Pepys todo. Existe também vez mais do mundo real, criando mundos fantásticos do
o Pepys administrador, o cientista e burguês respeitável; amor livre. Lamb, o grande ensaísta inglês, foi o primeiro
e no seu mundo há negócios — política, comércio, trabalho que observou — em The Artificial Comedy of the Last
— dos quais a comédia da Restauração não toma conheci- Century (1822) — essa índole da comédia da Restauração:
mento. Os comediógrafos são artistas de uma outra espécie. segundo êle, seria um reino de sonhos e fadas, comple-
A atitude de Pepys é a do espectador impressionista; a tamente irreal, fora de todas as normas morais. A época
atitude daqueles é a de artistas conscientes que escolhem vitoriana não compreendeu essa definição estilística; estra-
no material dado um setor, um fragmento, tratando-o sem nhou a "defesa da imoralidade", da "mancha da literatura
responsabilidade perante o mundo real, sentindo-se res- inglesa". Não são hoje muitos os que assinariam as fortes
ponsáveis apenas perante o foro da arte. Em comparação expressões de Macaulay ou de Archer. E os últimos par-
com a compreensiva "comédie humaine" de Pepys, a co- tidários obstinados da correspondência perfeita entre cos-
média de Wycherley é de uma grosseria fantástica, a de tumes e comédia da Restauração não deixam de limitar a
Congreve de uma delicadeza não menos fantástica, a de tese por meio de considerações de natureza sociológica:
Vanbrugh e Farquhar mero teatro, fantástico e irrealista a comédia de Wycherley e Congreve, contemporânea da
como o teatro de Gozzi. A comparação com Pepys define literatura de Milton e Bunyan, não seria um panorama
o estilo da comédia da Restauração, estilo que só em Con- completo da sociedade inglesa da Restauração, mas apenas
greve se revela completamente: é Rococó. de um pequeno setor aristocrático, daquele que aplaudiu
e, em parte, escreveu aquelas comédias ( 7 0 ). Mas quanto
A propósito da Arcádia verificou-se o mesmo fenó-
a esses círculos, estudos recentes sobre as causas de adul-
meno estilístico. Não faz muito tempo que os historiadores
tério e divórcio perante os tribunais da época confirmaram
literários admitiram o termo "Barroco"; o termo "Rococó",
de novo o realismo brutal e sincero dos comediógrafos ( 7 1 ).
j á perfeitamente definido na história das artes plásticas,
Essa maneira de tratar a literatura de ficção para
ainda não se admite na historiografia literária. Quando
arranjar documentação sociológica é perigosa, tanto para
muito, foi usado para caracterizar a pequena poesia ana-
a sociologia como para a literatura; confunde arte e rea-
creôntica, alemã ou francesa, ou os poemas herói-cômicos
lidade. A lógica da composição cénica e do diálogo, na
da espécie do Rape of the Lock, de Pope. Arcádia e co-
comédia da Restauração, não é a da realidade; obedece
média da Restauração revelam a importância do Rococó
a certas convenções teatrais, não muito diferentes das do
na história literária. Talvez seja Marivaux o seu maior
vaudeville parisiense e da opereta vienense. Mas vaudeville
representante. O Rococó literário seria então uma fase
e opereta não refletem a realidade de Paris e Viena. O nível
intermediária entre dois classicismos, o de Racine e o de
Goethe. Mas a cronologia do classicismo inglês, de Pope
a Johnson, não está de acordo com isso. É preciso prosse-
guir na análise. Em todo o caso, Rococó e realismo são 70) J. W. Krutch: Comedy and Conscience after the Restoration.
conceitos que se excluem. O Rococó estiliza a realidade, New York, 1924.
K. M. Lynch: The Social Mode of Restoration Comedy. New
escolhendo os aspectos graciosos, empregando todo o espí- York, 1926.
rito engenhoso de inteligências requintadas para aludir, 71) G. S. Alleman: Matrimonial Laws and the Materials of Resto-
ration Comedy. Wallingíord Pe., 1942.
1232 OTTO M A R I A CARPEATJX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1233

literário muito mais alto da comédia inglesa é um argu- é obsceno. Para encontrar, na França, imoralidades se-
mento em favor da tese de Lamb. Defendeu-a recentemente melhantes, é preciso descer vários decénios, até à Régence,
o crítico americano Stoll ( 7 2 ), definindo a comédia da essa explosão de indecência na vida e na literatura, depois
Restauração como mera criação artística. Será preciso ve- da morte de Luís XIV, verdadeira "Restauração" francesa.
rificar a origem literária dessa criação. E aí se abre um Mas isso acontece meio século depois da Restauração in-
problema difícil da cronologia. glesa; e são os próprios ingleses que exportam para Paris
Em favor da tese de Lamb e Stoll pode-se alegar que as suas obscenidades. Há um verdadeiro intercâmbio entre
a comédia da Restauração sobreviveu aos costumes da Res- Dancourt e Vanbrugh. A comédia da Restauração não é
tauração. Continuou a florescer sob o governo da mora- uma criação francesa em solo inglês. E n t r e Restauração e
líssima rainha Ana; e algo do espírito da Restauração Régence existe a relação da analogia; e o estudo da litera-
ainda vive nas sátiras de Pope e Swift e nos romances tura da Régence promete esclarecimentos mais completos
de Fielding. Não existe literatura mais espirituosa, cínica quanto às origens do estilo da Restauração.
e intencionalmente amoral do que as cartas que Lady Mon- A "oposição", na França, começou nos últimos anos
tagu (7:1) escreveu de Viena, de Constantinopla e da Itália; do século X V I I , quando as desgraças políticas e militares
isso é "literatura da Restauração de 1660", escrita por se acumularam sobre Luís, o Grande, e a França "gloriosa
volta de 1730. Também os começos não estão certos. Middle- e exausta" já não estava gloriosa, mas tão-sòmente exausta.
ton, Beaumont e Fletcher, Massinger, Shirley escreveram O rei ouviu — ou deixou de ouvir — diversas advertências,
comédias que antecipam o estilo de Etherege e Wycherley. nenhuma tão insistente, porque nenhuma tão prudente como
A intensificação desse estilo depois de 1660 não se explica, a de Fénelon ( 7 4 ). O arcebispo de Cambrai é uma das
no entanto, por motivos literários; pelo menos não se personalidades mais fortes da história espiritual da França;
encontram motivos para isso dentro da literatura inglesa. tão forte que sobreviveu à sua obra, a de um precursor sem
Os críticos antigos mostraram-se satisfeitos com essa cir- discípulos diretos. Quase toda a sua literatura hoje ilegível
cunstância que lhes permitiu limpar a casta Inglaterra, já não é conhecida senão em trechos seletos das anto-
imputando-se a responsabilidade à influência dos "france- logias escolares. O estilo de Fénelon, fluido, elegante,
ses devassos". Mas não há nada disso. A influência, já cheio de imagens convencionais, untuoso, ondoyant, é a
verificada, do romance heróico-galante sobre a tragédia
da Restauração não pode ser qualificada de imoral. As
relações dos comediógrafos ingleses com Molière são fra- 74) Fran?ois de Salignac de la Mothe-Fénelon, 1651-1715. (Of. "Teatro
cas; e Molière é decente nas situações e no diálogo, nunca e Poesia do Barroco Protestante", nota 17.)
Traité de Véducation des filies (1687);" Lettre à Louis XIV (1693);
Les Maximes des Saints (1695); Télémaque (1699); Dialogues
des Morts (1700, 1712, 1718); Lettre à VAcadérnie française (1716).
etc. etc.
Edição de Salnt-Sulplce, 10 vols.. Paris, 1851/1852.
72) E. E. Stoll: "The Beau Monde at the Restoration". (In: From P. Janet: Fénelon. Paris, 1882.
Shakespeare to Joyce. New York, 1944). H. Bremond: Apologie pour Fénelon. Paris, 1910.
73) Mary Pierrepont, lady Montagu, 1689-1762. J. Lemaitre: Fénelon. Paris, 1910.
Letters (1763). A. Chérel: Fénelon au XVIIIe siècle en France. 2 vols. Paris.
Edição por W. M. Thomas, 2 vols., London, 1861. 1918.
Q. Paston: Lady Mary Montagu and Her Times. London, 1907. A. Chérel: Fénelon on La religion du pur amour. Paris, 1934.
I. Barry: Portrait of Lady Mary Montagu. London, 1928. E. Carcassonne: Fénelon. Paris, 1946.
1234 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1235

expressão perfeita da sua personalidade inquieta, que se França antiga, porém, adivinhou o perigo em Fénelon.
esconde atrás de maneiras polidas. A inteligência curiosa Bossuet combateu-o com uma acrimônta que os objetos
desse grande aristocrata escapa às definições. Êle mesmo da polémica nem sempre justificaram; e "monseigneur de
confessou: " J e ne puis expliquer mon fond". Começou Cambrai" nunca foi perdoado. Ao contrário, o amor que
a carreira eclesiástica como catequista de moças protes- os católicos liberais e o seminário de Saint-Sulpice con-
tantes, convertidas ao catolicismo, e guardou sempre, como servaram por êle, contribuiu para manter no ostracismo
educador e como homem, uma atitude meio feminina, en- sua memória. O abbé Bremond, modernista que não rompeu
tregando-se aos outros com amor exaltado, mas reservando com a Igreja e humanista que propagou o romantismo,
para si mesmo a parcela mais íntima, inacessível, da sua escreveu-lhe a apologia que vale como confissão. Na "Que-
alma. Por fora era o tipo do capelão de corte, amável, um relle des anciens et des modernes", Fénelon esteve ao lado
pouco complacente, elegante; mas atrás disso escondeu a dos clássicos; mas quis um classicismo "modernizado", sen-
ambição desmesurada do aristocrata orgulhoso. A carreira timental e colorido, meio romântico. Por amor dos pobres
eclesiástica devia servir-lhe para tornar-se bispo, arcebispo, e humilhados recomendou ao rei um governo mais suave,
talvez cardeal, talvez ministro como foram ministros Ri- menos belicoso, mais social; mas o seu filantropismo não
chelieu e Mazarin. O fim já parecia quase alcançado, quan- tocava no poder absoluto nem nos privilégios da aristo-
do foi nomeado educador do Dauphin, quer dizer, futuro cracia; é um filantropismo de grande senhor patriarcal —
ministro do futuro rei da França. Fénelon tinha o génio De Maistre podia aprová-lo. O seu misticismo é da mesma
pedagógico, comum a todos os grandes precursores. Atraiu espécie: uma religião dos eleitos do amor, de uma aristo-
os homens, irresistivelmente, e sobretudo as mulheres. O cracia da Corte de Deus. Fénelon pertenceu em todos os
próprio método pedagógico de Fénelon, poupando a na- sentidos à classe dirigente do século X V I I , mas — "je
tureza do aluno mas insinuando-se na sua alma, tem algo ne puis expliquer mon fond"; não podia porque no fundo
de feminino; pela primeira qualidade, antecipou a peda- da sua alma estava o sentimento, inexplicável por definição.
gogia de Rousseau; pela segunda, Fénelon foi educador Pelo sentimento, o aristocrata barroco pertenceu à oposição
nato de príncipes. Educar o herdeiro da coroa, para depois aristocrática contra "ce grand roi bourgeois" e à oposição
se tornar seu ministro e senhor, eis um plano bem barroco, sentimental, já pré-romântica, do século X V I I I . Fénelon
executado como por um daqueles "secretários" do "ma- antecipa o que será a oposição da Régence: neobarroco,
quiavelismo" lendário. Mas o plano fracassou. Fénelon caiu "liberal" como os futuros classicistas, sentimental como os
na desgraça. Foi nomeado arcebispo, sim, mas na província, futuros pré-românticos e, falando muito em amor, se bem
em Cambrai, e em vez de receber o barrete de cardeal, que nem sempre no amor místico.
foi condenado como herético. Fénelon tornou-se oposi-
A Régence é a vitória da "oposição" contra o regime
cionista, mas não "propter hoc": o seu plano barroco fra-
de Luís XIV. Mas o que foi o objetivo da rebelião? Re-
cassou, porque os seus fins não foram barrocos.
volta contra a administração burguesa e mercantilista do
O pensamento de Fénelon não pertence ao mundo da rei, ou contra a hipocrisia clerical e o absolutismo arbitrá-
Ilustração. O arcebispo não era racionalista nem liberal. rio? Na Régence confundem-se duas oposições diferentes:
Apenas, o seu pensamento prestava-se a interpretações me- uma, reacionária, que pretende voltar à política barroca, e
nos ortodoxas. Não é o pensador da França moderna. A outra, progressista, que pretende destruir o regime. De
1236 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1237

ambos os lados há aristocratas e burgueses, por motivos erros involuntários e mentiras intencionais. Como político
diferentes. E n t r e os reacionários, o aristocrata Saint-Simon e como historiador, Saint-Simon seria completamente es-
ataca as novas classes ascendentes, e o burguês mal-hu- quecido, se não fosse um grande escritor, um verdadeiro
morado La Bruyère ataca os resíduos do espírito aristo- "imortal". Saint-Simon talvez seja em toda a história da
crático. Os "progressistas" são de u m lado os libertins literatura universal a maior testemunha do valor autónomo
do Rococó: Regnard, Dancourt, Gresset e tutti quanti da literatura.
pretendem divertir a aristocracia libertada da hipocrisia; Um lugar-comum convenu define Saint-Simon como
ou então burgueses-artistas que requintam a sensibilidade o Tácito de Luís XIV. Nenhuma definição poderia ser
livre, como Marivaux — artista do Rococó burguês — e mais inexata. Tácito, rangendo os dentes, condensa o seu
literatos profissionais que preparam o advento dos plebeus, estilo em julgamentos epigramáticos; Saint-Simon, após
como Lesage. A distinção entre "reacionários" e "progres- a s humilhações verdadeiras ou imaginárias de u m dia na
sistas" da Régence é relativamente fácil, menos na ideo- corte, derrama a sua ira em extensos panoramas caricatu-
logia do que no estilo: aqueles escrevem com gravidade rais. Tácito pretende definir e representar a atitude do
barroca, estes com ligeireza rococó. homem independente em face da tirania; Saint-Simon gos-
Saint-Simon ( 7 5 ), orgulhosíssimo da sua nobreza, odian- taria de humilhar todos os outros, estabelecer a tirania
do furiosamente os "inferiores", os bastardos do rei, a das árvores geneológicas. Existe entre Tácito e Saint-
pequena aristocracia, a burguesia, representa uma oposição Simon só uma verdadeira analogia: a dos pontos de vista
absurda. Não tem o direito de falar em nome da verdadeira políticos, do ''republicano histórico", na época dos impe-
nobreza medieval, nem da aristocracia culta, nem da guer- radores tirânicos, e do "frondeur", na época de Madame
reira nem da administrativa. É, no fundo, um hobereau Maintenon. É a comunidade do anacronismo. Além disso,
estúpido, sem ideias políticas definidas, sem tendência ra- é Tácito um advogado da inteligência superior e Saint-
zoável. Nem é capaz de servir para "savoir le mieux qu'il Simon um fidalgo inculto, Tácito um juiz e Saint-Simon
pourrait les affaires de son temps", como pretendeu, porque um espectador, se bem que apaixonado. É fácil dizer que
falsifica a imensa documentação das suas Mémoires, por a inatividade forçada do cortesão lhe impôs essa atitude de
espectador, de artista; mas nem todos os aristocratas ocio-
sos se tornam artistas. Não existe outro caso em que o
75) Louis de Rouvroy, duc de Saint-Simon, 1675-1755. génio fosse tão individual, tão resistente a todas as expli-
Mémoires (primeiras publicações 1788/1789 e 1791; primeira pu- cações pelo ambiente, a época e a raça. No resto, quase
blicação completa 1829/1830). não é possível dizer algo de novo sobre o estilo de Saint-
Edição por A. de Boislisle, J. de Boislisle e L. Levestre, 43 vols.,
Paris, 1879/1931. Simon depois da análise magistral de Taine e das obser-
H. Taine: "Saint-Simon, "Les Mémoires"". (In: Easais de critique vações de Auerbach: o estilo em que reside o seu valor
et d'histoire, 5* ed. Paris, 1887.)
O. Boissier: Saint-Simon. Paris, 1892. inteiro e que é como um fenómeno isolado, suspenso no
A. Le Breton: La comédie humaine de Saint-Simon. Paris, 1914. ar. A linguagem de Saint-Simon é arcaica, é a da primeira
R. Doumic: Saint-Simon. La France de Louis XIV. Paris, 1919.
P. Adam: La langue du duc de Saint-Simon. Paris, 1921. metade do século X V I I I ; e as Mémoires não foram publi-
E. Auerbach: Mimesis. Bem, 1946. cadas antes do fim do século X V I I I . Os dois fatos são
F. R. Bastide: Saint-Simon par lui-même. Paris, 1953.
Mme. Saint-René Taillandier: En compagnie de Saint-Simon. símbolos do anacronismo político e literário de Saint-Si-
2 vols. Paris, 1953.
1238 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1239

mon. A sua composição é confusa como a dos prosadores e nisso é êle mesmo um imbecil; mas tem razão quanto aos
antes da reforma de Jean Louis de Balzac; a sua expressão resultados. Suas caricaturas vivem e viverão sempre, por-
é "rara" como a dos poetas antes da reforma de Malherbe. que a gente é sempre assim nas cortes, nas antecâmaras
Nesses defeitos reside a sua grandeza. Um substantivo e e nas assembleias. Contudo, Saint-Simon não é um cari-
um adjetivo juntos dão-lhe sempre uma imagem, quase caturista, porque o grande estilista não possui a capacidade
sempre uma metáfora inédita. Duas ou três proposições de estilizar; para isso lhe falta a calma. É um pintor, che-
não constituem para êle uma frase coordenada, um período, gando ao cume da sua arte quando se trata de descrever
mas uma torrente de palavras, cobrindo de injúrias e ver- as reuniões daquelas caricaturas: morre um príncipe, e
gonhas um adversário odiado. Saint-Simon é tão grande Saint-Simon observa o desespero mal dissimulado dos que
estilista, porque não aspira a ter estilo; nele poder-se-ia perderam os empregos e a alegria não dissimulada dos
aprender a escrever, se não fosse impossível aprender esse herdeiros, enquanto o cadáver é posto para fora como
degrau máximo da arte literária. um cão m o r t o ; reúnem-se os grandes para abolir o testa-
A singularidade de Saint-Simon dentro da literatura mento do grande rei, e Saint-Simon perde a cabeça de
intensamente social francesa reside no caráter a-social do alegria por ver humilhados os favoritos e cortesãos, mas
memorialista. Se pudesse, faria ir pelos ares toda essa não lhe escapa a imbecilidade dos vencedores. É um in-
gente que não vale nada. Saint-Simon não tinha nenhum ferno, e Saint-Simon o seu Dante. Tem uma visão concreta
direito moral de julgar assim os o u t r o s ; mas a ironia da onde os outros só viram abstrações clássicas. É homem e
história quis que êle tivesse razão: não valiam nada. Daí escritor barroco entre sombras literárias razoáveis. É o
a veracidade do seu relato, apesar das inexatidões e calú- maior poeta da sua época.
nias. Maquiavel acrescentaria: " . . . e a gente é sempre Desculpando-se das incorreçÕes da sua linguagem,
assim" — e com efeito, as Mémoires são um comentário Saint-Simon afirma: "Je ne fus jamais un sujet acadé-
permanente da baixeza humana. A psicologia de Saint- mique". Se o tivesse sido, não seria o grande poeta que
Simon é a de La Rochefoucauld: vaidade e interesse são foi. Os seus "sucessores", no único sentido em que Saint-
os únicos motores dos atos humanos. A expressão con- Simon podia ter sucessores, foram os que permaneceram
dition humaine, tão cara a Montaigne e Pascal, muda de em oposição irredutível à evolução do classicismo — para
sentido nas mãos de Saint-Simon: sem piedade, mostra virar expressão burguesa: foram os académicos — seriam
as suas vítimas por assim dizer nuas, despidas de tudo que dignos de figurar como personagens nas Mémoires de
não é essencial, de modo que só se vê a humaine condi- Saint-Simon. Jean-Baptiste Rousseau ( T8 ) é o mais aca-
tion: a extrema decadência moral e física. Caíram por démico de todos os poetas franceses, virtuose da retórica
terra as solenidades do estilo e indumentária oficiais: retumbante e vazia, figura ridícula de "profeta contra os
aparecem nus os miseráveis. O duque Fulano, um imbecil;
o conde Beltrano, um vendido; a duquesa, uma prostituta,
a condessa, uma burrinha, o ministro, um ladrão, o general,
76) Jean-Baptlste Rousseau, 1671-1741.
um fanfarrão covarde, o bispo, um hipócrita infame — Oeuvres poétiques (.Êpitres, Êpigrammes, Odes, Cantates, etc.)
Saint-Simon acha que são assim porque chegaram aos seus (1743).
lugares sem a porção suficiente de sangue-azul nas veias, Edição (com introduç&o) por A. de Latour. Paris, 1868.
C.-A. Sainte-Beuve: Portaits Uttéraires. Vol. I.
H. A. Grubbs: Jean-Baptiste Rousseau. Paris, 1941.
1240 Oiro MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1241

tempos" mas "in-douze". Mas quando Voltaire opinou que Do ponto de vista dos valores literários, não é possível
a sua Ode à la Postéríté não chegaria ao endereço, errou reunir Jean-Baptiste Rousseau e Le Franc de Pompignan
pelo menos em parte: pois Jean-Baptiste Rousseau foi o na mesma classe com Saint-Simon; pertencem, no entanto,
poeta francês mais lido no Século X V I I I e até à revolução à mesma categoria dos "estilistas": estilo como expressão
romântica; encarnou o espírito d e resistência do "ancien pessoal ou como norma académica. E m todo o caso colocam
regime", político e literário. Quem lhe escreveu o famoso a expressão acima da ideia, e isso é comum a todos os que
necrológio poético, Le Franc de Pompignan ( 7 7 ), não gozou se opõem a uma corrente literária. Mas os "reacionários"
da mesma sorte, senão graças a um epigrama de Voltaire. não se encontram apenas entre os defensores da ordem
E r a poeta bem superior a Rousseau, e as suas versões dos aristocrática. Reacionário burguês é La Bruyère ( 7 8 ), e
salmos — pois foi sinceramente religioso e mostrou cora- •este é estilista num terceiro sentido: nem muito pessoal,
gem pessoal, ao tomar atitude contra os "pilosophes" — nem impessoalmente académico, mas um artista extraordi-
mereceriam respeito. Em vez disso, a sua tradução pouco nário da palavra, da frase, do parágrafo. Neste terceiro
feliz de Jeremias ofereceu a Voltaire oportunidade para sentido é La Bruyère o maior dos prosadores de língua
fazer o epigrama mais famoso da literatura francesa: francesa; e o superlativo não é exagerado. O objetivo de
La Bruyère é "attirer l'attention" para o que tem que dizer;
e o "dizer" torna-se para êle assunto principal. La Bruyère
"Savez-vous pourquoi Jeremie •é o único escritor das literaturas modernas a assimilar
A tant pleuré pendam sa vie? perfeitamente os preceitos da retórica antiga: usa com a
C e s t qu'en prophète il prévoyait maior virtuosidade todas as artes e também os truques
Qu'un jour Le Franc le traduirait." dos oradores políticos e forenses de Atenas e de Roma,
a escolha eficiente de palavras concretas e pitorescas, o
La Harpe conta que Voltaire chegou, no entanto, a admirar requinte dos desfechos surpreendentes das frases, a com-
a Ode sur la mort de Jean-Baptiste Rousseau, de Le F r a n c ; posição engenhosa de "retratos", que eram a sua maior
apesar de certas qualidades da ode, isso só prova o gosto especialidade. É artista puro. O conteúdo, o pensamento
reacionário de Voltaire em matéria de poesia. Em 1765, contam menos. "Tout est dit, et l'on vient trop tard depuis
a ode pindárica já era um género — género barroco — sem plus de sept mille ans qu'il y a des hommes, et qui pen-
sentido. Insistindo nesse género, chegou a estragar-se o sent." Não é pensador, nem pretende ser. É um espectador
talento apreciável de Malfilâtre ( r 7 - A ) , que foi recen-
temente redescoberto como precursor de Chénier.
78) Jean de La Bruyère, 1645-1696.
Les Caracteres de Théophraste, traduits du grec, avec les Carac-
teres ou les Moeurs de ce siècle (1688) última edição, 1694).
77) Jean-Jacques Le Franc de Pompignan, 1709-1784. Edição por O. Servois, 2.â ed., 6 vols., Paris, 1923.
Poésies sacrées (1751). L.-A. Prévost-Paradol: Êtudes sur les moralistes français,
F. A. Duffo: Jean-Jacques Le Franc, mar quis de Pompignan, Paris, 1865.
poete et magistrat. Paris, 1915. M. Pellisson: La Bruyère. Paris, 1892.
M. Lange: La Bruyère, critique des condittons et des institutions
77 A) Jacques-Charles-Louis de Clinchamp de Malfilâtre, 1732-1767. sociales. Paris," 1909.
Êglogues; Narcisse dana 1'ile de Vénus; Le soleil fixe au milieu E. Magne: La Bruyère. Paris, 1914.
des planeies (1759). O. Michaut: La Bruyère et Théophrast. Paris, 1936.
I

1242 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1243

da sociedade aristocrática da qual depende, e o espetáculo « t qu'ils remuent avec una opiniâtreté invincible... ils mon-
torna-o mal-humorado até à indignação. É um {rondem, trent une face humaine; et en effet, ils sont des hommes."
como Saint-Simon, mas não tem sequer força para fazer São os camponeses. O estilo de La Bruyère é uma lição
oposição clandestina; o seu pessimismo é todo passivo, é permanente da arte de escrever. A sua virtuosidade não
o pessimismo de um estóico resignado. A sua psicologia tem limites; as suas veleidades oposicionistas, sim.
— que é a de La Rochefoucauld — admite exceções, de O grande estilista sabe escolher; e na sua galeria de
amor e bondade; admite até uma espécie de moral laicista, retratos satíricos falta o auto-retrato, o do burguês. Eis
conquanto que o indivíduo não s e torne livre-pensador. o maior, o mais "défendu" dos "grands sujets défendus."
Odiava os "espirits forts", aos quais dedicou uma parte E m 1880, La Bruyère seria "republicain du centre". A
polemica do seu livro, por sinal a mais fraca. Arte da sua condição social produz a oposição, o seu espírito bar-
retórica, pessimismo estóico e não sem religião, tudo isso roco não a deixa passar além do "mécontement" do mora-
é bem barroco, e La Bruyère é, com efeito, o mais barroco lista. "Je ne veux être, si je le puis, ni malheureux, ni
dos escritores franceses. A sua prosa situa-se entre Que- h e u r e u x ; je me jette et me refugie dans la médiocrité."
vedo e Thomas Browne, mas modificada pela moderação A última palavra tem aqui o sentido de "juste-milieu";
do burguês bem educado. Assim como o estilista La Bruyè- mas sem a arte exímia de La Bruyère, o resultado fatal
re sabe escolher as palavras, assim o satírico La Bruyère <la sua atitude seria a verdadeira mediocridade. Eis o des-
sabe escolher os assuntos. Lamenta que um "homme né tino de Destouches ( 7 9 ), que se serviu dos "caracteres"
chrétien et Français se trouve contraint dans la satire; les de La Bruyère como de máquinas animadas da psicologia
grands sujets lui sont d é f e n d u s . . . " Então, diminui "les cartesiana, colocando-os em enredos e intrigas de desen-
grands sujets" — é uma versão original do "desengano" volvimento lógico e desfecho satisfatório, acreditando ter
barroco. Na corte, vê 'Tor qui éclate sur les habits de feito comédias tão boas como as de Molière: L'Irrésolu,
Philémon", os ornamentos, o relógio do personagem, que Le Médisant, Le Gloneux, UAmbitieux. O século lhe deu
c uma obra-prima da joalheria, os diamantes nos dedos, razão; um lógico implacável da crítica teatral como Lessing
e conclui " . . . . il faut voi du moins des choses si précieu- chegou a preferi-lo a Molière. As comédias de Destouches
ses: envoyez-moi cet habit et ces bijoux de Philémon, j e são melhores do que a sua fama admite; o que lhes falta
vous quitte de la personne." E m outra companhia, menos é a força cómica, por falta de sentimento humano. A ten-
aristocrática, La Bruyère tem oportunidade de comparar tativa de introduzir este sentimento deu, em pleno Rococó,
a atitude de Giton, de saúde esplêndida, falando alto, as-
soando-se com estrondo, dormindo bem, informado dos
grandes negócios políticos, e a atitude de Phédon, magro,
sonhador de ar um tanto estúpido, sempre aderindo à opi- •79) Philippe Néricault Destouches, 1688-1754.
UIngrat (1712); Ulrrésolu (1713); Le Médisant (1715); Le phi-
nião dos outros, tímido, cheio de "chagrin contre le siècle", losophe marié (1727); Le Glorieux (1732); Le tambour nocturne
(1736) ; L'Ambitieux (1737).
— e conclui: "Giton est riche"; "Phédon est pauvre." Ediç&o Crapelet, 6 vols., Paris. 1822.
E. Lindemann: Destouches" Lében und Werke. Oreiíswald, 1896.
Enfim, observa "certains animaux farouches, des males et E. Deberre: Quid sit sentiendum de Philippi Destouches lega-
des femelles, répandus par la campagne, noirs, livides, et torii procuratoris necnon poetae moribus. Dijon. 1901.
J. Hankiss: Ph. N. Destouches, 1'homme et Voeuvre. Debrec-
tout brulés du soleil, attachés à la terre qu'ils fouillent zen, 1920.
1244 OTTO MARIA CABPEAUX HISTÓRIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1245

c sentimentalismo choroso de Nivelle de La Chaussée ( 8 0 ) ; e x e m p l o d e M o l i è r e : i m p o r t a - l h e s a a t u a l i d a d e dos a s s u n -


está a u m p a s s o d o d r a m a b u r g u ê s do p r é - r o m a n t i s m o , m a s t o s , a s á t i r a c o n t r a as d i f e r e n t e s classes sociais, s o b r e t u d o
pelo verso, que conserva como elemento indispensável da as n ã o - a r i s t o c r á t i c a s . É a s s i m a c o m é d i a d e D a n c o u r t ( 8 2 ) ,
" a l t a c o m é d i a " , i d e n t i f i c a - s e La C h a u s s é e a o b u r g u ê s " r e a - q u e a p r e s e n t a n o p a l c o as b u r g u e s a s q u e g o s t a r i a m d e
cionário". p a s s a r p o r g r a n d e s d a m a s , as d a m a s m e n o s g r a n d e s d o
A outra das duas "oposições" que compõem a literatura demi-monde, o s nouevaux-riches. Lembra A u g i e r ; mas,
da R é g e n c e , n ã o é f a t a l m e n t e " p r o g r e s s i s t a " ; t a m b é m p o d e distinguindo-se desse burguês, D a n c o u r t não está nunca
sê-lo a p e n a s p e l a s c o n s e q u ê n c i a s . P o r v o l t a d e 1710, a moralmente indignado. A indecência dos seus personagens
p a l a v r a libertin j á c o m e ç a a m u d a r d e a c e p ç ã o ; já n ã o p a r e c e - l h e n a t u r a l n u m m u n d o t ã o i n d e c e n t e . N ã o foi ca-
significa principalmente "livre-pensador", mas antes "de- s u a l m e n t e q u e D a n c o u r t foi i m i t a d o p o r V a n b r u g h e i m i -
v a s s o " . O s l i b e r t i n o s da R é g e n c e são m e n o s os s u c e s s o r e s t o u , p o r s u a vez, o u t r o s i n g l e s e s ; n e n h u m c o m e d i ó g r a f o
d o s causeurs a t r e v i d o s d o salão d e N i n o n d e 1'Enclos q u e francês se aproxima tanto da comédia d a Restauração in-
d o s bon-vivants aristocráticos do Templo. Os seus interes- glesa. M u i t o m a i s f r a n c ê s é R i v i è r e - D u f r e s n y ( 8 3 ) , h o m e m
ses l i t e r á r i o s l i m i t a m - s e a e p i g r a m a s e s p i r i t u o s o s , p e q u e n a s espirituoso, ao qual, afirma-se, Montesquieu deveu a ideia
poesias obscenas e comédias divertidas. O tipo caracte- d a s Lettres persanes. D u f r e s n y foi i n o v a d o r a u d a c i o s o ,
r í s t i c o d o s e p i g r a m i s t a s é P i r o n , a o q u a l i m p e d i r a m o in- inventor de complicações cénicas e diálogos alusivos que
g r e s s o na A c a d e m i a — preparam o género de Marivaux.

A s comédias de Dancourt e Rivière-Dufresny estão


"Ci-git P i r o n , qui ne fut rien, i n j u s t a m e n t e e s q u e c i d a s . Q u a n d o a F r a n ç a passar, u m dia,
Pas même académicien." p o r u m a m o d a R o c o c ó c o m o a i n g l e s a d e 1920, s e r ã o r e c o -
nhecidas como peças excelentes, comparáveis às melhores
O t i p o p a d r ã o d e s s e s " p o e t a s " é G r e s s e t ; m a s e n t r e eles de Wycherley, Vanbrugh e Farquhar. Mas não às de Con-
encontra-se também um Montesquieu, autor do Temple greve; porque o modelo de Molière e La Bruyère impôs
de Gnide (1725). C o m é d i a d i v e r t i d a é a c r i a ç ã o d e R e g - a q u e l a r e g u l a r i d a d e c a r t e s i a n a q u e e x c l u i a e l e g â n c i a fan-
n a r d ( 8 1 ) , em q u e é p o s s í v e l , n o e n t a n t o , e s t u d a r o q u e tástica do grande inglês. Os comediografos que trabalha-
separa a Régence da época a n t e r i o r : os tipos de R e g n a r d
são os d a " c o m m e d i a d e l l ' a r t e " , as s u a s c o m p l i c a ç õ e s có-
micas passam-se n u m m u n d o abstrato, permanente, irreal. 82) Florent Carton, dit Dancourt, 1661-1725.
Le chevalier à la mode (1687); La maison de campagne (1688);
O s c o m e d i o g r a f o s d a R é g e n c e s e g u e m m a i s d e p e r t o o- Les bourgeoises à la mode (1692); Les bourgeoises de qualité
(1700); Le galant jardinier (1704); Les agíoteurs (1710).
Edição em 8 vols., Paris, 1742.
Ch. Barthélemy: La bourgeoisie et le paysan sur le théâtre du
80) Pierre-Claude Nivelle de La Chaussée, 1692-1754. XVJIe siècle; la comèdie de Dancourt. Paris, 1883.
Le préjugé à la mode (1735); Mélanide (1741); Uécole des mères I. Lemaitre: La comédie aprés Molière et le théâtre de Dancourt.
1744); etc. 2.» ed. Paris, 1903.
Edição Sablier, 5 vols., Paris, 1762. 83) Charles Rivière-Dufresny, 1648-1724.
G. Lanson: Nivelle de la Chaussée et la comédie larmoyante. L'esprit de contradiction (1700); La joyeuse (1709); La coquette
2.» ed. Paris, 1903. de village (1715); La réconciliation normande (1719).
W. Domann: Dufresntfs Lustspiele. Leipzig, 1904.
81) Cf. "Oposições Barrocas", nota 38.
1246 OTTO M A B I A CARPEAUX
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1247

ram para o divertimento do público aristocrático tampouco


reiro, alquimista, professor de matemática, padre — é um
souberam escapar à mania de retratar "caracteres". Pi-
dos documentos mais divertidos do século X V I I I : um
ron ( 8 4 ), o epi grama ti sta, colocou-se a serviço do movimento
indivíduo inteligente e esclarecido, mas incapaz de livrar-se
"moderno" contra a poesia, na Métromanie, que forneceu
das superstições sociais do seu ambiente; um pícaro que
à linguagem do século X V I I I uma porção de réplicas espi-
acaba como padre. Se fêz sermões, foram por certo tão
rituosas: "J'ai ri, me voilà desarme". Gresset ( M ) é o
barrocos como os do "famoso predicador fray Gerúndio"
último representante da comédia de caracteres; é autor
do qual Islã ( " ) zombou com mais liberdade de espírito,
de poemas cómicos, nos quais o ex-jesuíta zomba do clero.
já contaminado pelas ideias francesas. Islã fêz a tradução
Piron e Gresset cultivaram géneros mortos. O tempo exi-
magistral do Gil Blas para o espanhol, e então Be revelou
giu as complicações mais finas que Rivière-Dufresny ima-
a diferença profunda entre o romance picaresco espanhol
ginara; e encontrá-las-á em Marivaux. Mas a transição
e o primeiro romance realista da literatura francesa.
estilística de Molière e Destouches a Marivaux não foi
fácil; precisava-se antes de uma transformação do "Espirito Com respeito a Lesage ( 88 ) não acaba essa discussão
objetivo" da época quanto a temperamento e ideologia. Mo- inútil da "originalidade": se o Gil Blas é um plágio do
lière também estava na oposição; mas é, como todos os mo- Obregón, de Espinel, ou uma imitação, ou uma criação
ralistas do século X V I I , pessimista, ao passo que a oposição independente. Tanto é certo, porém, que Lesage tenha
do século X V I I I acredita no progresso. O ponto de par- tomado emprestados episódios do romance espanhol, como
tida da evolução estava nas comédias realistas e sociais igualmente certo é que o Gil Blas de Santillane seja uma
de Dancourt; junto delas situa-se o Tutearei, de Lesage, criação original, sem modelo na literatura espanhola. Os
que conseguiu transformar o pessimismo sombrio de Ale- autores dos romances picarescos espanhóis eram homens
mán em aceitação risonha de um mundo em que se pode de ação — fossem políticos aristocráticos como Quevedo,
viver e subir. A importância da modificação torna-se evi-
dente pela comparação do Gil Blas com os últimos roman-
87) José Francisco de Islã, 1703-1781.
ces picarescos espanhóis. A autobiografia de Torres y Historia dei famoso predicador fray Gerúndio de Campazas
Villarroel (8fl) — seminarista, curandeiro, bailarino, tou- (1758/1770); tradução do Gil Blas (1787).
Edições: Biblioteca de Autores Espafioles, vol. XV, e por V. E.
Lidforss, Leipzig, 1885.
P. Gandeau: Le Père Islã et son Fray Gerúndio. Paris. 1891.
84) Alexis Piron, 1689-1773. 88) Alain-René Lesage, 1668-1747.
La Métromanie (1738). Le diable bolteux (1707); Crispin, rival de son maitre (1707);
P. Chaponnlère: Piron, se vie et son oeuvre. Paris. 1910. Turcaret (1709); Gil Blas de Santillane (1715/1735); tradução do
85) Louls Gresset, 1709-1777. Guzman d'Alfarache (1732); etc.
Vert-Vert (1734); Le méchant (1747). Edição do Gil Blas por A. Dupouy. Paris, 1935.
Edição das obras completas por Renouard, 3 vols., Paris, 1811. Edição do Teatro, Gernier, Paris, 1911.
J. Wogue: Gresset, sa vie et ses oeuvres. Paris, 1894. A. Barberet: Lesage et le Théâtre de la Foire. Nancy, 1887.
86) Diego de Torres y Villarroel, 1693-1770. L. Claretle: Essai sur Lesage romancier. Paris, 1890.
Vida, ascendência, nacimiento, crianza y aventuras dei dr. don F . Brunetière: "Autour de Turcaret". (In: Les époques du théâtre
Diego de Torres y Villarroel (1743/1758) . français. Paris. 1892.)
Edição por F. de Onís (Clásicos Castellanos). E. Lintilhac: Lesage. Paris, 1893.
A. Garcia Boiza: Don Diego de Torres y Villarroel. Ensayo bio- J. Galli: Le réalisme pittoresgue chez Lesage et ses prédeces-
gráfico. Salamanca, 1911. seurs. Grenoblè, 1910.
S. B. Hallonquist: Diego de Torres y Villarroel. New York, 1949. I. Cassou: "Lesage". (In: Tableau de la Lxttérature Française,
de Corneúle à Chénier. Paris, 1939.)
1248 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1249

fossem aventureiros plebeus como Alemán — que conden- ciosa do classicismo. Nasceu assim um panorama encan-
saram as suas experiências. Lesage é comediógrafo e lite- tador do mundo rococó e um comentário permanente da
rato a serviço dos atôres e editores; é autor profissional. natureza e vida humanas, sem enfeite e sem acrimônia. É
Leituras extensas suprem as lacunas da sua experiência um dos livros mais agradáveis e mais inteligentes do mun-
própria que é a de um observador agudo do mundo de do. A "filosofia" de Lesage é serena, alegre mesmo; ele
Dancourt. As digressões moralizantes de Alemán causa- tem confiança na vida. A fonte imediata dessa sua "fé" é
ram-lhe desgosto. Enquanto Lesage teve intenções satíri-
a observação das modificações sociais no seu ambiente: os
cas, soube esconder tão bem o moralismo como os come-
banqueiros batem a aristocracia, os burgueses tornam-se
diógrafos da Restauração inglesa. A imoralidade geral
superiores aos fidalgos empobrecidos — será então possível
preocupava-o pouco; só o irritava o orgulho dos imbecis e
a ascensão também dos plebeus. Esse rococó de Lesage é
malandros poderosos. Quando conseguiu vencer na vida —
uma sociedade em movimento. J á não é preciso consolar-
e o teatro das suas vitórias foi o próprio teatro — recon-
se cristãmente da permanência das desgraças neste vale
ciliou-se logo com a realidade, compensando-a pelo riso.
de lágrimas. Traduzindo o Guzmán de Alfarache, Lesage
Turcaret é a comédia mais cómica do século X V I I I francês,
suprimiu as meditações estóico-pessimístas que o aborre-
antes de Beaumarchais — menos satirica do que a comédia
de Dancourt, porém mais realista. A classe dos banqueiros ceram; substituiu .o miilismo moral do pícaro pela fé na
e nouveaux-riches constitui para Lesage assunto inesgo- vida. Esse otimismo, bem antibarroco, é o único ponto de
tável; esses intermediários entre a velha organização so- contato entre Lesage e Marivaux; o único, mas de impor-
cial e a nova organização económica são sujeitos tão có- tância essencial, sintoma da transição do Barroco para o
micos quanto sérios, e tornaram-se ridículos entre gente Rococó. Marivaux não seria possível em atmosfera trágica.
melhor educada sendo burlados pelos plebeus fantasiados Marivaux ( 8B ) é o mestre da nuance. Todos os per-
de máscaras da commedia deli'arte. Da mania de essa sonagens das suas numerosas comédias têm os mesmos
gente se divertir vivem atôres e barbeiros, bailarinas,
alfaiates, músicos, garções e comediógrafos como Lesage.
Os personagens são os mesmos que no romance picaresco; 89) Pierre Carlet de Chamblaln de Marivaux, 1688-1763. (cf. "Clas-
contudo, Gil Blas de Santillane é menos naturalista do que sicismo da Ilustração", nota 5.)
Arlequin poli par 1'amaur (1720); Surprise de 1'amour (1722); La
realista. O dinheiro já não é uma miséria indispensável; ãouble inconstance (1723); Uile des esclaves (1725); La seconde
surprise de 1'amour (1728); La nouvélle colonie (1729); Le jeu de
é o meio da ascensão social. Lesage precede Balzac. 1'amour et du hasard (1730); Uécole des mères (1732); Les ser-
ments indiscrets (1732); Uheureux sttatagème (1733); La mère
Gil Blas de Santillane não é uma grande obra de arte. confidente (1735); Le legs (1736); Les fausses conjidences (1737);
Uépreuve (1740); Le préjugé vaincu (1746); —
É um excelente romance para leitura de divertimento, cheio Pharsamon (1712; publ. 1737);
de espírito e "bonhommie"; é um livro que será legível La vie de Marianne (1731/1741); Le paysan parvenu (1735/1736).
através dos séculos — distinção que obras muito maiores Iliade travestie (1716).
Edição: 12 vols., Paris, 1781; dai a reimpressão das peças dra-
não conseguiram. De maneira incomparável, Lesage sabe máticas, por E. Fournler, Paris, 1878. Edição das peças por M.
reunir fidelidade realista na apresentação dos costumes ale- Arland, 2 vols.. Paris, 1949.
Numerosas edições modernas de peças escolhidas e dos romances.
gres da Régence e certo elemento de permanência típica I. Fleury: Marivaux et le marivaudage. Paris, 1881.
na sua caracterização e no desenvolvimento, herança pre- F. Brunetière: "Marivaux". (In: Êtudes critiques sur Vhistoire de
la litterature française. Vol. n . Paris, 1881.)
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1251
1250 OTTO M A R I A CARPEAUX

e encontrou nele uma mistura de vaidade, egoísmo, ambi-


nomes: Arlequin, Lisette, Sylvie, Dorante, Araminte, An-
ções e sensualidade. Marivaux estudou os obstáculos que
gélique, Trivelin, Lucidor; e todas as comédias têm, mais
a convenção social erige entre o amor e o homem enamorado
ou menos, o mesmo enredo: por exemplo, dama e criada
— as "niches" em que a vaidade, a timidez, a desigualdade
trocam os vestidos para provar a fidelidade dos amantes
de condições sociais espreitam os amantes — e encontrou
respectivos, e amante e criado fazem o mesmo, e apesar
em toda a parte amores recalcados e dissimulados, prestes
das complicações, os pares se encontram. Também os tí-
a desenvolver-se na atmosfera mais propícia da comédia.
tulos são significativamente parecidos: o Jeu de 1'amour
"J'ai guetté dans le coeur humain toutes les niches diffé-
et du hasard repete-se sempre, com inúmeras Surprises de
rentes ou peut se cacher ramour." E o amor é capaz
1'amour, vitoriosas de todos os obstáculos ao amor, que o
de vencer os vícios, os ressentimentos, os preconceitos.
poeta inventa e a delicadeza dos personagens lhe inspira.
"Quand ramour parle, il est le maitre." Trata-se apenas de
No entanto, sempre é outra coisa. Marivaux não cansa,
fazê-lo falar. Nem sempre é isso fácil, sendo as moças
porque atrás dessas sutilezas artificiais, dos "marivauda-
tão tímidas e os moços ainda mais tímidos, as criadas tei-
ges", está a verdade psicológica: complicações e desfechos
mosas, e os arlequins sem jeito. Marivaux já deu a im-
servem para revelar os movimentos infinitesimais na alma.
pressão — inexata, aliás — de ser o poeta do amor nascente
Marivaux é o Leibniz do amor. Como Leibniz, descobriu
dos adolescentes. Na verdade, os "marivaudages" são obs-
sentimentos subconscientes, nuanças inesperadas com con-
táculos para toda a gente que não sabe amar bem, de ma-
sequências estranhas, e, como Leibniz, acreditava Mari-
neira fina, requintada. Os personagens do teatro francês
vaux na harmonia preestabelecida no melhor dos mundos:
antes de Marivaux sabiam perfeitamente amar, até demais;
o mundo do amor. Complicações sentimentais que poderiam
daí muitas tragédias. Aos amantes de Marivaux, é preciso
facilmente degenerar em casos trágicos, desenrolam-se da
ensinar-lhes o amor. A primeira peça séria de Marivaux
maneira mais elegante, e o fim é sempre o cume da feli-
chama-se Arlequin poli par 1'amour; e o título é um pro-
cidade burguesa: um bom casamento. Marivaux é estu-
grama. É também uma advertência para o crítico literário.
dioso assíduo da psicologia humana, como um dos grandes
Como Molière e Lesage, com os quais não tem o mínimo
"moralistes" do século X V I I , mas o resultado dos seus
parentesco dramatúrgico, Marivaux partiu da commedia
estudos não é negativo. La Rochefoucauld analisou o amor
delVarte italiana. Aqueles chegaram à comédia de carac-
teres e costumes, este à comédia psicológica. O mundo
exterior pouco lhe importa, e o estudioso de minúcias psi-
O. Larroumet: Marivaux, sa vie et ses oeuvres. Paris, 1882 (2.» cológicas não se preocupa com a elaboração de caracteres
edição 1894). completos. Para os seus fins, bastam os personagens típicos
F. Brunetière: "Marivaux". (In: ttudes critiques sur Vhistoire de
la littérature française. Vol. III. Paris, 1883.) da comédie italienne com os nomes sempre iguais, as in-
J. Lemaltre: Impressions de théãtre. Vol. II. Paris, 1889. trigas estandardizadas, a decoração fixa de um salão irreal,
J. Lemaltre: Impressions de théâtre. Vol. IV. Paris, 1891.
G. Deschamps: Marivaux. 2.» ed. Paris, 1907. de uma casa irreal. Deste modo, Marviaux aproxima-se
E. Meyer: Marivaux. Paris, 1930. mais da atmosfera fantástica da commedia delVarte, subs-
M. Turnell: "Marivaux". (In: Scrutiny, XV/1, 1947.) tituindo apenas o* ar veneziano à Tiepolo pelo ar francês
C. Roy: Lire Marivaux. Paris, 1947.
M. Arland: Marivaux. Paris, 1950. à Watteau. Daí o encanto poético do seu teatro que se
F. Deloffre: Marivaux et le marivaudage. Paris, 1953.
P. Gazagne: Marivaux par lui-même. Paris, 1955.
1252 OTTO M A R I A CAHPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1253

situa entre as comédias fantásticas de Shakespeare e as mundo tudo pode melhorar. Marivaux tem esperanças. O
comédias românticas de Musset. Marivaux é mais espiri- poeta do Rococó foi um pensador corajoso. Fournier des-
tuoso do que os epigramatistas espirituosíssimos da Régen- cobriu no Mercure galant, de 1750, o resumo de uma comé-
ce; o seu diálogo é irresistível. Mas o amor vence sempre dia inédita de Marivaux, La nouvelle colonie ou la ligue
o espírito. "Quand 1'amour parle, il est le maitre". E o des femmes, na qual o poeta trata, em 1729, da igualdade
resultado dessa união e n t r e sentimento e espírito é o pre- das condições sociais entre os sexos. Só nos últimos anos
ciosismo poético do Rococó, do qual Marivaux é o maior se chamou a atenção devida para outra comédia, L'ile des
poeta. "Arlequin poli par la poésie." esclaves, na qual o problema da igualdade social é apre-
Marivaux é hoje um dos autores mais representados sentado de maneira inquietante. Apesar disso, Marivaux
do teatro clássico francês. Essa revalorização moderna não pode ser considerado como revolucionário; quando
está, no fundo, de acordo com as censuras pouco amistosas muito, situa-se na transição entre o liberttnismo da Ré-
de Lesage, que não encontrou em Marivaux o seu próprio gence e as reivindicações da Enciclopédia. Não passou
realismo de observador. Apenas, aquilo que para Lesage mais adiante, porque a sua própria reivindicação, a do sen-
foi um defeito, nós consideramos como poesia. Mas é pos- timento, excluiu exteriorizações maiores. Mas até isso é
sível que estejamos enganados quase da mesma maneira mais revolucionário do que conformista. A tese "Quand
que o autor de Turcaret. Marivaux não se preocupa com 1'amour parle, il est le maitre" anuncia a superioridade do
a apresentação realista do ambiente social, porque só lhe sentimento sobre as convenções sociais e também sobre o
importa o realismo psicológico da revelação dos sentimen- esprit racional; e isso já é pré-romantismo. Também é
tos íntimos. E a vitória do sentimento sobre o espírito — pré-romântica a leve melancolia de Marivaux. Melancoli-
que nos parece poética e fantástica — talvez seja conse- camente, êle sabe que "dans ce monde, il faut être un peu
quência dramatúrgica de outro realismo, tão profundo como trop bon pour 1'être asser". Mas a gente não é tão boa
o psicológico. assim, infelizmente. É isso que vemos naqueles vivazes pa-
Marivaux foi sempre comparado com Racine: a técnica noramas da vida parisiense de 1920, nos dois romances de
dramatúrgica e a psicologia são parecidas. Diferente é "só" Marivaux — La vie de Marianne e Le paysan parvenu. Têm
o desfecho, o happy-end, em vez do fim trágico; mas o importância histórica; mas também estão no pequeno nú-
desfecho não é coisa que se acrescenta arbitrariamente. É mero dos romances perfeitamente legíveis do século X V I I I .
preciso definir e explicar a diferença entre Racine e Ma- J á se observou que não são tão morais como se apresentam:
rivaux. Quanto à definição, já foi fornecida por Brunetière: revelam a licenciosidade da Régejice; e a maneira como
"La comédie de Marivaux, c'est la tragedie de Racine, Marianne, calculando bem, evita o perigo da sedução, con-
transportée de 1'ordre de choses ou les événements se dé- seguindo a segurança do casamento, revela mais esprit do
nouent par la trahison et la mort, dans 1'ordre de choses que amour. Os romances de Marivaux são — como as suas
ou les complications se dénouent par le mariage." Marivaux comédias — mais psicológicos do que realistas. O realismo
é o "Racine bourgeois", e o caráter burguês da sua comédia reside na escolha do ambiente, que desta vez não é burguês,
revela-se pelo otimismo. Este é o seu ponto de contato e sim plebeu. De longe, anuncia-se o popularismo e pri-
com o antípoda Lesage. Marivaux escreve comédias, não mitivismo de Rousseau. Em Marivaux, o Rococó revela
porque no seu mundo tudo esteja bem, mas porque no seu certas possibilidades revolucionárias e várias possibilidades
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pré-românticas. O Rococó contém, no germe, o século Borromini. O próprio Rococó pode ser interpretado como
X V I I I inteiro com as suas consequências. Neobarroco ( 9 1 ). Também na literatura, o Rococó ana-
Em comparação com o classicismo L u í s XIV, o Rococó creôntico é resultado de uma reação neobarroca contra o
é revolucionário em todos os sentidos: nos costumes, nos classicismo rigoroso ( 92 ) e essa evolução é muito marcada
sentimentos, na expressão e na ideologia. É o estilo dos na literatura francesa ( 9 8 ).
modernes contra o dos anciens. Marivaux é o poeta que O precursor da literatura da Régence é Donneau de
saiu da "Querelle". Na época da segunda "Querelle", o Vise ( ° 4 ) ; o Mercure galant, que fundou em 1672, tornou-se
jovem Marivaux escreveu — isto é verdade — obras pouco a revista literária mais influente do século X V I I I . O seu
"modernas": uma Iliade travestie à maneira de Scarron, e colaborador de redação é Thomas Corneille, dramaturgo de
um romance Pharsamon, autêntico romance heróico-galante. tradições barrocas. O próprio Donneau de Vise é inimigo
O "moderno" parece muito "reacionário"; e é isso mesmo, do classicismo, defendendo a volta ao preciosismo do Hotel
revelando mais um motivo da fúria de Boileau contra os de Rambouillet. Em 1684, Amelot de la Houssaye publica
modernes: o estilo do Rococó é précieux, significa um uma tradução de Gracián, e o sucesso é tão grande que
retrocesso para o Hotel de Rambouillet. É, a seu modo, várias outras traduções aparecem. O "lirismo" à maneira
tão neobarroco como é barroca a gravidade retórica de L a da ópera, que Lanson observou nos Macchabées, de Houdart
Bruyère. A ideologia do Rococó é a do Antibarroco, tão de La Motte, é barroco. O género preferido do Rococó
século X V I I como o aristocratismo barroco de Saint-Simon. é a própria ópera, arte de grande representação, ilusionismo
Neste sentido, o Rococó é realmente uma "reação", embora suntuoso e expressão irracional em língua cantada, último
uma reação burguesa. resultado do teatro barroco. Barroca, mais do que classi-
Sendo "Rococó" um conceito da historiografia das ar- cista, é a retórica cristã de Jean-Baptiste Rousseau. Mais
tes plásticas que até há pouco não foi usado na historio- barroca do que classicista também é a tragédia Manlius
grafia literária, será preciso procurar o esclarecimento das Capitolinus, de Antoine de la Fosse ( e õ ), famosíssima du-
suas origens na história daquelas artes ( 9 0 ). O Rococó
parecia antigamente produto da decomposição do classicis-
m o ; em analogia, o Rococó literário seria produto da dis- 91) R. Sedlmaier: Qrundlagen der Rokokoornamentik in Frankreich.
solução da poética de Boileau pelo libertinismo da Régence. Wien, 1917.
O estudo das artes decorativas da época desmentiu essas H. Rose: Spaetbarock. Berlin, 1922.
teses ( e o ' A ) . Na Itália, Alemanha meridional e Áustria, o 92) E. Ermatinger: Barok und Rokoko. Leipzig, 1928.
H. Cysarz: "Llterarisches Rokoko." (In: Weltraetsel im Wort.
Barroco transf orma-se imediatamente em Rococó. Na Fran- Wlen, 1948.
ça interpoe-se entre classicismo e Rococó uma fase neo- 93) F. Schuerr: Barock, Klasstzismus und Rokoko in der franzoesis-
barroca, no fim do século X V I I , obra de discípulos de chen Literatur. Leipzig, 1928.
94> Jean Donneau de Vise, 1638-1710.
P. Mélèse: Donneau de Vise, fondateur du Mercure galant.
Paris, 1936.
90) F. Kimball: Le Style Louis XV. Origine et évolution du Rococó. 95) Antoine de la Fosse, 1653-1708.
Paris, 1949. Manlius Capitolinus (1698).
90 A) P. Jessen: Das Ornament des Rokoko und seine Vorstufen. A. Johnson: La Fosse, Otwap, Saint-Réal, origines et transfor-
Berlin, 1894. mations d'un thème tragique. Paris, 1901.
1256 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1257

rante o século inteiro, na qual ainda Talma brilhará perante pela missão de Hamilton (° 7 ), memorialista inglês em lín-
Napoleão I ; e o fato de essa tragédia revelar forte influên- gua francesa, o representante mais perfeito e mais gracioso
cia do Veaice Preserv'd, de Otway, não deixa de ser sig- do novo "libertinismo" rococó da Régence. Hamilton, assim
nificativo. Finalmente vem Crébillon ( 90 ) : a sua tragédia, como Pepys, parece confirmar a veracidade da comédia da
cheia de horrores sangrentos, foi sempre interpretada como Restauração; mas o problema da relação entre teatro e
a última degeneração da tragédia clássica. Crébillon teria realidade social já está em segundo plano. Stoll observa
ofendido, intencionalmente, as "bienséances", apresentando que aos doze teatros londrinos da época shakespeariana
no palco fortíssimos efeitos melodramáticos, para tonificar sucederam só duas casas de espetáculos, na época da Res-
o género já afrouxado; e teria conseguido apenas a volta tauração; a comédia de Wycherley e Farquhar reflete,
ao romantismo "melodramático" dos começos hispanizantes quando muito, somente os costumes da classe aristocrática.
do teatro francês. Mas Crébillon não tem nada com o Mas o crítico americano esqueceu-se de acrescentar que
naquelas duas casas não se representaram apenas comédias;
teatro espanhol, e um título como Atrée et Thyeste já
havia também a tragédia de Dryden, Otway e Lee, heróica
basta para verificar a origem da sua tragédia de horrores:
como a de Corneille e sangrenta como a de Crébillon; e
Crébillon voltou-se para Séneca, supremo modelo do teatro
os autores das tragédias e das comédias eram várias vezes
barroco. E essa tendência não acabou com êle. Na Sémi-
as mesmas pessoas. Repete-se na Inglaterra, duas gerações
ramis, de Voltaire, reaparece o espectro, personagem in-
antes da Régence, o caso de duas correntes simultâneas,
dispensável das tragédias senequianas; e as famosas refor-
do neobarroco grave de Saint-Simon e la Bruyère, do neo-
mas cénicas de Voltaire — expulsão dos espectadores do
barroco "libertino" de Dancourt e Marivaux. A tragédia
palco, maior fidelidade histórica dos costumes e decorações
de Dryden e Lee apresenta ao público o ideal aristocrático
— servem todas para aumentar a ilusão; são heranças do da época passada; é "restauração" dramatúrgica. A comédia
teatro barroco dos jesuítas, guardadas e revivifiçadas pelo de Dryden, Wycherley e Congreve pretende distinguir en-
antigo aluno do Collège Louis-le-Gran, onde Voltaire, tre o "libertinismo autêntico e legítimo" das almas aris-
quando colegial, assistiu às representações das peças do P. tocráticas, do Plain Dealer, de Mirabell e de Millamont,
Porée S. J. e o falso libertinismo dos hobereaux grosseiros ou damas
A literatura rococó da Régence é um neobarroco. É perversas, como Sir John Brute, Lord Foppington e Lady
uma analogia perfeita da literatura da Restauração inglesa, Fancyfull. Para a representação desse contraste, serve, aos
que também é neobarroca. A Inglaterra tinha recebido comediógrafos da Restauração, o paralelismo dos "double
Saint-Evrémond como embaixador das letras francesas, tra- plots" da convenção elisabetana; existe essa tendência mo-
zendo a mensagem dos libertins do século X V I I . Retribuiu ralizante até no meio das maiores obscenidades. Neste
sentido, T. S. Eliot considera Mr. Limberham uma comédia
"moralíssima". O aparente imoralismo da comédia da Res-
96) Prosper Jolyot de Crébillon, 1674-1762.
Jdoménée (1706); Atrée et Thyeste (1707); Rhadamiste et Zénobie
(1711); Xerxès (1714); Sèmiramis (1717). 97) Anthony Hamilton, 1646-1720.
Edição por A. Vitu, 2 vols. Paris, 1885. Mémoires de la vie du comte de Grammont (1713).
M. Dutrait: Étude sur la vie et le théâtre de Crébillon. Bor- W. Kissenberth: Anthony Hamilton, sein Leben und seine Werke.
deaux, 1895. Rostock, 1907.
1258 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1259

tauração não é imoralidade; esconde um sistema moral. O -Os mesmos conceitos serviram à "direita" e à "esquerda"
crítico americano Krutch ( 9 8 ), interpretando a comédia da — a papas, reis e revolucionários — e a troca contínua das
Restauração como panorama fiel dos costumes aristocrá- posições e atitudes é, às vezes, vertiginosa. É preciso re-
ticos da época, admite, no entanto, que a evolução da "su- velar os motivos daquilo que se chama racionalismo e Ilus-
per-estrutura" literária precedeu a evolução da estrutura tração, porque tais motivos, em parte, não são racionais nem
social: a dissolução moral dos personagens aristocráticos revolucionários.
no palco é menos resultado dramatúrgico da observação
A dissolução do conceito teocrático do poder monár-
da realidade do que das concepções filosóficas da época.
quico é um processo secular ( 1 0 °): tem, paradoxalmente,
O atomismo físico de Hobbes ( 90 ) agiu no mesmo sentido,
origens místicas, e passa, mais paradoxalmente ainda, atra-
ao passo que o seu didatismo estético é responsável pelo
vés da elaboração do conceito do direito divino da monar-
moralismo da comédia da Restauração. Mas Hobbes é ain-
quia. Quando o papado medieval se arrogou direitos de
da, ao mesmo tempo, o teórico do absolutismo monárquico:
soberania sobre os reis, estes não foram capazes de opor-lhe
o filósofo que foi derrotado pela Revolução de 1688. É
uma teoria leiga da soberania, porque eram reis feudais; o
o último pensador barroco, um dos fundadores da física
feudalismo, com a sua distribuição e subdistribuição inter-
moderna e da estética classicista. Para compreender esse
minável dos direitos de soberania entre vassalos e sub-
duplo papel, é preciso observar duas evoluções paralelas
vassalos não podia ter um conceito coerente de soberania.
do pensamento inglês no século X V I I : a construção de
Enfim, os franciscanos espiritualistas, de Occam a Marsi-
uma nova filosofia da vida e a destruição da antiga.
lius de Pádua, puseram à disposição dos imperadores uma
No começo da evolução está a grande figura de Bacon. teoria do Estado leigo, baseado em um pacto direto entre
É dele o programa de uma ciência autónoma e utilitária. Deus e povo, rei e povo, de modo que a intervenção do
O Philosophical College, fundado em 1645 e dispersado papado ficava excluída. A origem dessa teoria "moderna"
pela revolução puritana, reuniu-se novamente em 1660; em do século X I V é de alta significação. Os franciscanos he-
1662 recebeu autorização real como Royal Society. Foi o réticos que a elaboraram, eram partidários da "Ecclesia
berço das ciências empíricas e experimentais. É, porém, spiritualis", da "Terceira Igreja", prevista como fim da
difícil traçar uma linha reta entre Bacon e Locke; a nova evolução histórica, depois da época da Igreja visível. Ima-
ciência de Newton destruiu justamente o neobaconismo da ginaram a possibilidade de um melhoramento progressivo,
época da Restauração, introduzindo na física conceitos ma- na história da Igreja e do cristianismo. Essa ideia otimista
temáticos alheios ao empirismo. E Newton, discípulo dos do progresso histórico vai reaparecer no século X V I I I ,
platonistas de Cambridge, era admirador de Boehme. São, com feição muito diferente.
paradoxalmente, as ideias "reacionárias" que levam direta-
A nova teoria política chocou-se com as doutrinas
mente à revolução, primeiro à revolução política, depois à
aristotélico-tomistas ( 3 0 ° - A ) . O S gregos acreditavam que os
intelectual. Não há linhas retas na evolução das ideias.
homens, antes de terem Estados, viviam nas florestas como

98) I. W. Krutch: Comedy and Conscience after the Restoration. 100) J. N. Figgis: The Divine Rlghts of Kings. 4.a ed. Cambridge,
New York, 1924. 1934.
99) Cf. nota 54. 100 A) E. K. Winter: Sozialmetaphysik der Scholastik. Wien, 1929.
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indivíduos isolados e selvagens, comparáveis aos ciclopes. físico às relações sociais, atomizou a sociedade em indi-
Os teólogos cristãos, porém, encontravam, na Bíblia, como víduos isolados e selvagens — os "ciclopes" são os próprios
origem da sociedade, a família de Adão, o que excluiu súditos pacificáveis apenas pela delegação contratual da
aquela "teoria ciclópica". Inventou-se, então, o conceito própria soberania ao Estado absoluto. A Igreja anglicana,
de dois Direitos naturais, antes e depois do pecado original, porém, não se podia conformar com essa filosofia da socie-
para reconciliar as duas teorias: a de um Estado "patriar- dade; lembrou-se de conceitos medievais. O último Stuart,
cal", baseado no amor entre os membros da mesma família, católico clandestino, baseava as suas pretensões no Pa~
e a de um Estado "ciclópico", baseado na força empregada triarcha (1680), de Robert Filmer, que procurava a origem
para garantir a observação do contrato de paz entre os do Estado na família de Adão, atribuindo ao rei os poderes
"ciclopes". O jesuíta espanhol Francisco Suárez, em De absolutos do pater famílias patriarcal. A argumentação era,
legibus, serviu-se dessa teoria contra os príncipes heré- no entanto perigosa: baseando o poder real em relações
ticos : quando um Estado pretendia basear a sua soberania naturais, o rei — "ciclope" é o rei católico — expôs-se ao
só na força, o papa estava autorizado a desligar os povos outro Direito natural, o da força: e à força ele sucumbiu
de compromissos que não se harmonizassem com o Direito em 1688. Hobbes, como teórico do absolutismo, estava
divino — o "ciclope" é o rei herético. Os defensores pro- vencido; mas vencera como filósofo de uma sociedade ato-
testantes da monarquia leiga já haviam previsto esse peri- nizada, e o sinal desta vitória é a adoção da sua teoria
g o ; apoderaram-se da teoria contratual do Estado, atri- estética — da poesia didático-classicista.
buindo ao pacto entre rei e povo o caráter irrevogável do Os vencedores concluíram novo pacto, entre o rei e o
pacto bíblico entre Deus e o povo de Israel, de modo que parlamento; a doutrina da monarquia parlamentar inglesa
a intervenção papal era excluída — o "ciclope" é o Anti- tinha as mesmas origens da teoria do Direito divino dos
cristo lá em Roma. Na França, Bodin argumentou assim reis ( 102 ) — apenas mudara a natureza das altas partes con-
em favor da monarquia absoluta, investida da soberania tratantes. Quando, no século X V I , os reis se arrogaram
por aquele pacto. O Direito divino dos reis, imaginado em o direito de mudar a religião dos seus súditos, os sectários,
defesa do Estado leigo contra a Igreja, torna-se instru- herdeiros da "Ecclesia spiritualis" e fundadores da "Ter-
mento do absolutismo monárquico. Os reis da casa de ceira Igreja", entrincheiraram-se atrás do pacto entre rei
Stuart pretenderam introduzir no Direito constitucional e súditos, revogável pela superioridade do Direito natural
inglês aquela doutrina francesa, para estabelecer o abso- de origem divina. "É preciso obedecer mais a Deus do
lutismo real. Hobbes (101)> instruído pelas experiências das que aos homens" — esse lema bíblico, que servira aos
guerras civis na Inglaterra, voltou-se inteiramente à teoria teóricos da Contra-Reforma católica, tornou-se doutrina
"ciclópica". Aplicando a sua teoria atomística do mundo democrática. Johannes Althusius, o autor da Política me-
thodice digesta (1603) é o primeiro grande teórico da
doutrina contratual democrática. Os seus argumentos
101) Thomas Hobbes, 1588-1679. servem à oposição puritana contra os Stuarts, aos indepen-
Elements of Law, Moral and Politick (1650); Leviathan, on the
Matter, Form and Power of a Commonwealth, Ecclesiastlcal and
Civil (1651); De Corpore (1655); De Homine (1658).
F. Toennles: Hobbes, der Mann und der Denker. Leipzig, 1912.
Cl. De Witt Thorpe: The Aesthetic Theory of Thomas Hobbes. 102) G. P. Gooch: English Democratic Ideas in the Seventeenth
Ann Arbor, 1940. Century. 2." ed. Cambridge, 1927.
1262 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1263

dentistas de Cromwell, a Milton e, finalmente, a Algernon o matemático Newton, leitor assíduo de Boehme, será mais
Sidney, cujas ideias prepararam a revolução de 1688. O influente do que todos os empiristas da Royal Society, e
ponto final dessa evolução encontra-se em Locke ( 1 0 8 ). O os vencedores definitivos de 1688 não serão os aristocratas
seu empirismo epistemológico decide a luta em favor da liberais e sim os dissenters burgueses, os descendentes dos
teoria contratual moderada, da distribuição justa dos po- sectários da "Terceira Igreja". Na França, o racionalismo
deres entre o rei e o parlamento, delegados da soberania introduziu-se como neocartesianismo, substituindo tempo-
nacional. É a famosa "harmonia dos poderes" da Consti- rariamente o baconismo pragmatista e iniciando nova era
tuição inglesa, que Montesquieu fará admirar na Europa de historiografia anti-histórica.
inteira; uma doutrina otimista no que diz respeito ao con-
A figura principal do neocartesianismo não é um car-
teúdo do direito natural e à natureza humana: os "ciclopes"
tesiano ortodoxo: é Pierre Bayle ( 104 )- Descartes foi para
são substituídos por englishmen pacificados, livres, e no
êle o mestre do "método claro"; mas os resultados não lhe
entanto obedecendo às ordens razoáveis do "constable".
agradaram. Havia neles metafísica demais e muita mate-
Locke é o fundador do liberalismo inglês, e ao mesmo
mática, enquanto Bayle desejava aplicar o método carte-
tempo um dos fundadores do otimismo europeu do século
siano à história. O resultado inevitável foi o cepticismo,
XVIII. O seu direito natural já não precisa de interven-
porque a filosofia cartesiana, rigorosamente racionalista,
ções divinas para garantir o progresso infinito.
nunca admitirá verdades históricas. Mas Bayle não se per-
Por mais modernas que pareçam essas doutrinas polí- deu no cepticismo devido apenas às suas origens calvinistas.
ticas, a forma da sua exposição foi, as mais das vezes, Da controvérsia teológica chegou à dialética, que dá tanto
muito barroca. Ao lado da história dos ciclopes e da família vigor picante aos seus ataques contra o cristianismo, dissi-
de Adão estudam-se a dissipação das nações pelo dilúvio, mulados em ataques contra a credibilidade da mitologia e
a origem hebraica de todas as línguas, a correspondência historiografia greco-romanas: a distinção entre a ordem
entre nações cristãs e personagens da mitologia pagã; cer- dos pensamentos e a ordem das coisas, que aprendeu, atra-
tas dessas correspondências aparecem nas grandes telas vés de Martel, em Mersenne e Hobbes, e que o levou à
político-mitológicas de Rubens. As formas barrocas dessa crítica histórica subversiva, e ao mesmo tempo à transfor-
"sociologia" são análogas às formas barrocas da literatura mação do seu predestinacionismo calvinista em maniqueís-
antibarroca e da sua continuação, da literatura neobarroca. mo universal. Mas essa conclusão, não a aceitou o século
A tragédia heróica da Restauração é pendant do atomismo XVIII, que foi otimista: a Ilustração contentou-se com
moral da comédia da época. A voga de Gracián prepara
o neopreciosismo de Donneau de Vise e Marivaux. Os
começos do racionalismo, que será o futuro vencedor, não
104) Pierre Bayle, 1647-1706.
são integralmente racionalistas, cartesianos. Na Inglaterra, Pensées sur la comete (1682); Commentaire philosophique sur le
Compelle intrare (1686); Dictionaire historique et critique (1697);
— Nouvelles de la Republique des Lettres (1684/1687).
A. Cazes: Pierre Bayle; sa vie, ses idées, son influence, son
103) John Locke, 1632-1704. oeuvre. Paris, 1905.
Tvx> Treatises of Government (1690); An Essay concerning J. Devolve: Essai sur Pierre Bayle. Paris, 1906,
Human Understanding (1600). C. Lacoste: Bayle critique et nouvelliste littéraire. Paris, 1929.
Oh. Bastide: John Locke, ses théories politiques et leur influenct P. André: Le jeunesse de Bayle, tribun de la tolérance. Genève.
en Angleterre. Paris, 1906. 1953.
1264 OTTO M A R I A C A R P E A U X HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1265

as dúvidas irresolúveis quanto ao dogma ortodoxo, divul- picos de uma organização europeia para a manutenção d a
gadas pela língua maledicente e pena espirituosa de F o n - paz perpétua, de um governo colegiado para a França, e
tenelle ( l 0 5 ) — um cartesiano, o mais importante mesmo, dos de mil outros. O abade é utopista; quer dizer, o seu espírito
neocartesianos. Estilista habilíssimo, criador da eloquência cartesiano trabalha com muito método, mas fora das limi-
académica e da literatura de divulgação científica — porém tações históricas da razão. Cartesianismo histórico e ana-
algo mais do que um "bel esprit" e "diseur de bonmots". cronismo são idênticos.
Pelo menos, as consequências foram maiores do que o h o - A doutrina mais anti-histórica da época é a do deísmo
mem. A desmoralização meio cartesiana, meio céptica das inglês: os dogmas e ritos das religiões históricas não
tradições e fables convenues da história é a contribuição passam de deformações, em parte fraudulentas, de uma
de Fontenelle à "Querelle des anciens et des modernes". revelação original e universal, comum à Humanidade in-
Fortaleceu a convicção d a superioridade intelectual dos teira, e cujas teses não contradisseram a Razão; o irrazoável
"nossos" tempos sobre os tempos idos; o céptico Fontenelle e o absurdo nas religiões positivas, eis o produto da evo-
é testemunha sorridente a favor do progresso; no fundo, lução histórica. É verdade que os polemistas do século
um progresso inofensivo. Assim como Bayle, interessado X V I I I , Voltaire em primeira linha, gostavam de empregar
só em controvérsias teológicas e filológicas, que ficara
essas conclusões para ridicularizar o cristianismo. Mas é
à margem da oposição política dos últimos tempos de L u í s
um erro de cronologia atribuir esse deísmo ao próprio
X I V , também Fontenelle, o inimigo dos padres-mestres,
século X V I I I . O seu precursor é Lord Herbert of Cher-
faz figura de conformista elegante nos salões da Régence.
bury ( 1 0 7 ), irmão do "metaphysical poet" George Herbert
Quando o progressismo sai do salão, para entrar nas dis-
e autor de poesias no mesmo estilo. As obras mais impor-
cussões políticas do "Club de 1'Entresol", revela outra vez
tantes dos "free-thinkers" ( 108 ) publicaram-se no começo
as suas origens cartesianas, ainda meio dogmáticas. O co-
do século X V I I I ; mas Toland, Collins, Tindal são homens
laborador mais assíduo dos trabalhos do clube é o abade
do século X V I I , tão assíduo em pesquisas históricas e de
de Saint-Pierre ( l o e ) , o famoso fabricante de projetos utó-

105) Bernard le Bouvier de Fontenelle. 1657-1757. 107) Edward Lord Herbert of Cherbury, 1583-1648.
Dialogues des morts (1683); Entretiens sur la pluralité des mon- De veritate (1642); De religione gentilium (publ. 1663); Auto~
des (1686); Histoire des oracles (1687); Eloges des académiciens biography (publ. 1764).
de VAcadémie royale des sciences morts depuis de Van 1699 Edição das poesias por G. C. Moore» London, 1923.
(1708/1719). A. Renusat: Herbert de Cherbury. Paris, 1874.
F. Brunetière: "La formation de 1'idée du progrès". (In: Êtudes 108) Matthew Tindal. 1657-1733.
critiques sur Vhistoire de la littérature française. Vol. V. Paris, Christianity as Old as the Creation (1730).
1893.)
John Toland, 1670-1722.
A. Laborde-Milaa: Fontenelle, Paris, 1905.
F . Grégoire: Fontenelle. Paris, 1947. Christianity not Mysterious (1696); Adeisidaemon (1709).
Anthony Collins, 1676-1729.
106) Charles-Irénée, abbé de Saint-Pierre. 1658-1743. A Discourse on Free-Thinking (1713).
Projet de paix perpétuelle (1713/1717); Discours sur la Polys- G. V. Lechler: Geschichte des englischen Deismus. Stuttgart,
ynodie (1718); etc. 1841.
I . Drouet: L'abbé de Saint-Pierre, 1'homme et Voeuvre. Paris, L. Stephen: A History of English Thought in the Eighteenth
1912. Century, 2 vols. London, 1876.
1266 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1267

perfeita incompreensão histórica. Ao século X V I I I per- Giannone ( 1 0 ) é de quatro anos mais novo, mas a sua for-
tence somente o último dos deístas, Bolingbroke ( 1 0 9 ) : o mação é do século X V I I . O furor da sua polémica anticle-
criador dos princípios do partido conservador inglês, que rical lembra Giordano B r u n o ; o seu idealismo utópico, as-
foi, na prática, como secretário de Estado e como chefe sim como a crítica religiosa do Triregno, exposição perfeita
da oposição contra Walpole, o último representante do do protestantismo em termos católicos, lembra Campanella.
"secretário" diabólico, do político maquiavelista à maneira O objetivo político da sua Storta Civile dei Regno di Napoli
do século X V I I . A serviço dessa atuação estavam os escri- é o de Sarpi e de todos os polemistas do Estado leigo do
século X V I I : a destruição do poder temporal do clero. A
t o s históricos e políticos que publicou. A sua influência
história do reino de Nápoles aparece, na obra de Giannone,
literária limita-se a Pope, que encontrou no deísmo de
perturbada através dos séculos pelas contínuas intervenções
Bolingbroke argumentos em favor do seu próprio otimismo
ilegítimas do papado. Mas o relato, por mais documentado
ilustrado, e a Voltaire, que aprendeu em Bolingbroke o
que seja, carece de toda a crítica desses documentos. Mu-
conceito pouco histórico e muito moralista da História, ratori ( m ) é o maior dentre os colecionadores de documen-
como manual de lições para a posteridade. Os escritos tos — à maneira barroca — e o mais perspicaz de todos na
propriamente deístas de Bolingbroke não foram publicados eliminação de fables convenues. Assim como Giannone, Mu-
durante a sua vida, menos por prudência que por ter o ratori defendeu o Estado leigo contra o Papado medieval;
deísmo saído dá moda. Quando Mallet os editou, em 1754, mas a Idade Média já lhe inspira simpatias estéticas. O seu
causaram a impressão de resíduos anacrónicos do século senso crítico chega a quebrar o rigor do dogma classicista;
anterior. como crítico literário, dá o primeiro esboço de doutrinas
pré-românticas. O seu gosto estético é neobarroco; e, pelo
O deísmo vitorioso do século, o de Shaftesbury e Pope,
senso histórico, êle é superior aos maiores entre os seus
j á é diferente: é a exaltação otimista da ordem do Universo
sucessores na historiografia: Voltaire e Gibbon.
que não precisa de intervenções milagrosas para ficar em
equilíbrio perfeito. A circunstância de ter o primitivo deís- A contribuição de Voltaire ( 112 ) à historiografia não
mo inglês acabado tão cedo, no começo do século X V I I I , reside no panorama do Siècle de Louis XIV, obra de admi-
é significativa. A Ilustração não pensou de maneira tão
a-histórica como seus adversários, os românticos conser-
110) Pietro Giannone, 1676-1748.
vadores de 1800, acreditavam. Para compreender a dife- Storia civile dei Regno di Napoli (1723); II Triregno (publ. 1895).
rença do pensamento histórico entre o século X V I I e o S. B. Dattino: II Triregno di Pietro.Giannone. Napoli, 1876.
R. Biamonte: La Storia Civile e il Triregno. Napoli, 1878.
século X V I I I , basta comparar Giannone a Muratori. Pietro F. Nicollni: Vita di Pietro Giannone. Napoli, 1905.
F. Nicollni: Gli scritti e la fortuna di Pietro Giannone. Bari,.
1913.
111) Lodovico António Muratori, 1672-1750.
109) Henry St. John, Viscount Bolingbroke, 1678-1751. Delia perfetta poesia italiana (1706); Riflessioni sopra il buon
Letters on the Study anã Use of Hlstory (1735); A Letter on gusto nelle scienze e nelle arti (1708); AnUquitates italicae me-
the Spirit of Patriotism (1736); The Idea of a Patriot King dii (1738/1742); Annali d'Itália (1744/1749); Rerum italicarum
(1749); Works (publ. por D. Mallet, 1754). scriptores (1723/1751).
C. Bertoni: Muratori. Roma, 1927.
W. Sichel: Bolingbroke and His Times. 2 vols. London, 1901/
1902. 112) Cf, "O Classicismo da Ilustração", nota 33.
1268 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1269

ráveis qualidades literárias, nem no relato quase novelístico imaginaram Gibbon como um romântico, chorando entre
da Histoire de Charles XII, e ainda menos nos seus ataques ruínas a grandeza do passado. Na verdade, aquela data tem
jornalísticos contra tradições do passado. O Essai sur les outro sentido: em 1763 concluíra-se o tratado de paz de
tnoeurs et Vesprit des nations já não é l i d o ; correm apenas Hubertusburg, em que a França cedeu à Inglaterra os di-
os ditos maliciosos e epigramáticos nele contidos, fazendo reitos sobre o Canadá e a Índia; fundou-se novo Império.
esquecer a erudição considerável da obra e o mérito de Gibbon pensava, como racionalista autêntico, menos no
t e r concebido um "anti-Bossuet", uma história universal passado do que no futuro; nos obstáculos formidáveis que
segundo conceitos puramente humanos; anti-Bossuet, aliás, a massa das tradições acumuladas opunha ao progresso, até
1*0 espírito estritamente pessimista do século X V I I : a his- o triunfo final da Razão. Gibbon sabia que muitas outras
tória revela-se, na definição de Voltaire, como "le tableau ruínas sobreviriam, nesse caminho, e uma angústia íntima
•des crimes et des malheurs", merecendo ironia em vez de lhe dizia que a casa aristocrática do gentleman inglês tam-
interpretação progressista. "Erudição e ironia" — já foi bém seria ameaçada. Contra essa angústia defendeu-se
proposta essa definição para a historiografia de Voltaire, Gibbon pela ironia, desmoralizando o passado consagrado.
•e a preponderância da ironia sobre a erudição provém do A ironia levou-o a uma atitude quase nietzschiana de
«spíríto lógico, cartesiano, do autor, da interpretação mais ""transvalorização de todos os valores"; lembrando-se das
racional do que orgânica dos acontecimentos. Mas a maior alegorias barrocas do "Triunfo da Religião na História",
das "pseudomorfoses" racionalistas do pensamento univer- afirmou: "I have described the triumph of barbarism and
sal do Barroco é a obra de Gibbon ( 1 1 8 ). "Erudição e iro- religion." Gibbon estava consciente de que essa atitude
nia" é a sua fórmula também, mas a ironia não é a do inverteria todas as fables convenues, e a ironia voltairiana
panfletário e sim a do gentleman culto do século X V I I I , não lhe parecia instrumento bastante forte; serviu-se da
que desdenha ligeiramente o passado bárbaro da humani- documentação imensa dos bolandistas e outros coleciona-
dade, sem se poder defender de uma leve admiração pelos dores barrocos para provar a tese blasfema de que os cris-
tempos idos. A ironia de Gibbon não serve ao ataque; serve tãos primitivos não eram mártires e sim revolucionários
â autodefesa. Após uma mocidade inquieta que quase o que o Estado devia perseguir e condenar. Contudo, o pró-
levou ao malogro, Gibbon, contemplando do alto do Capi- prio cardeal Newman considerava-o como o mais competen-
tólio as ruínas do Fórum Romanum, concebeu, no dia 15 te entre os historiadores ingleses da Igreja. O estilo solene,
de outubro de 1764, a ideia de contar a história da destrui- algo barroco, de Gibbon não deve iludir a crítica: a History
ção do Império. Essa anedota é por demais conhecida; of the Decline and Fali of the Rpman Empire não é um
grande panorama retórico da história universal, e sim uma
obra de erudição séria. Onde Gibbon errou, não o fêz por
113) Edward Gibbon, 1737-1794. leviandade ou por espírito sectário, mas porque a ciência
History oj the Decline and Fali o/ the Roman Empire (1776/ da sua época não lhe podia oferecer a documentação sufi-
(1778).
Edição por J. B. Bury, 7 vols., London, 1896/1900. ciente. E n t r e as obras existentes da historiografia é a sua
J. M. Robertson: Gibbon. London, 1925. a mais antiga das que ainda se podem consultar com pro-
E. Blunden: Edward Gibbon and His Age. Bristol, 1935.
D. M. Low: Edward Gibbon. London, 1937. veito; é grande literatura, mas não é apenas literatura. O
G. M. Young: Gibbon. 2.» ed. London, 1949. valor literário reside no poder admirável de composição e
G. Giarrizzo: Edward Gibbon e la cultura europea dei Sette-
cento. Napoli, 1955.
1270 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1271

construção, na coerência lógica dos inúmeros fatos rela- de Voltaire e Gibbon é consequência da falta de leis his-
tados: decadência dos romanos, ascensão do cristianismo, tóricas; o método cartesiano não admitira leis científicas
queda do Império pela aliança entre a Igreja e os bárbaros, fora do mundo físico-matemático; e a história perdeu o
a longa noite dos dark ages sobre a Europa ocidental, a sentido.
sobrevivência precária da civilização antiga em Bizâncio e
Foi isso o que os românticos censuraram acerbamente;
o fim definitivo do império pelos novos bárbaros, os turcos.
mas ao mesmo tempo criticaram o otimismo insensato do
A conclusão é a de Lucrezio, responsabilizando a religião
racionalismo que não teria reconhecido o caráter trágico
por todos os males: "Tantum religio potuit suadere ma-
da história. As duas censuras não se harmonizam bem; e
lorum." É uma conclusão rigorosamente lógica, lógica até
Voltaire e Gibbon não foram otimistas. Na verdade, coe-
demais. Gibbon não é responsável pela omissão dos fatôres
xistiam no século X V I I I duas atitudes perante a história:
económicos na história; a época inteira os ignorou. Mas é
o otimismo progressista e o pessimismo racionalista. O
responsável pela incompreensão racionalista da relativa ra-
primeiro levou, evidentemente, ao reconhecimento de pro-
zão de ser de todas as fases históricas. A History of the
Decline and Fali of the Roman Empire é, em forma épica, gressos contínuos no passado também, a uma certa revalo-
a maior das tragédias históricas do Barroco; ou, antes, do rização desse passado e, afinal, até ao medievalismo dos
Neobarroco, porque a eliminação do "mito religioso" do pré-românticos e românticos. Neste sentido reabilitou
Barroco pelo racionalismo castesiano já tornara incompre- Dilthey os méritos do século X V I I I pela descoberta do
ensível a catástrofe, privando-a da "catarse". O resultado mundo histórico ( 1 1 4 ). A outra atitude, a pessimista, con-
seria uma noção vaga do predomínio do Mal no mundo: tínua conceitos do Barroco. Na época da Ilustração,
último vestígio do maniqueísmo de Bayle. E esse pessi- "história" significa progresso no Reino do Bem. Para o
mismo historigráfíco está em contradição evidente com o Barroco, "história" significa uma série de convulsões e de-
progressismo e pragmatismo da burguesia. Bacon parece cisões trágicas no Reino do Mal. Por isso, o Barroco culti-
totalmente esquecido. vou a tragédia histórica; mas pretendeu, ao mesmo tempo,
fugir da história real, interpretando-a como mera ilusão,
A intenção da historiografia de Voltaire e Gibbon é
sonho inspirado pelo Demónio. Sentido tinha apenas a his-
destrutiva: pretende servir à eliminação das convenções
tória sacra, a bíblica com a sua continuação até o Juízo final,
filosóficas e sociais que o passado nos deixou, demons-
porque dirigida pela Providência. Negando-se esta última,
trando-lhes o anacronismo absurdo. A eliminação do fator
restou apenas o panorama "des crimes et des malheurs",
"Providência", sem substituí-lo por outro fator determi-
do qual está ausente a força reguladora da razão cartesiana.
nante, transformou a história em mera sucessão de fatos
Resulta o paradoxo — um dos muitos paradoxos na história
isolados, como átomos históricos. A própria ideia do pro-
das ideias — de que o cartesianismo historiográfico conti-
gresso, tão cara ao século da Ilustração, não aparece na-
queles panoramas da história universal. Por isso, a história nua a atitude pessimista do Barroco em face da história.
é, para Voltaire, "le tableau des crimes et des malheurs";
e a Gibbon afigura-se um milénio e meio da história como
períodos de "decline" permanente, o que não é perspectiva 114) W. Dilthey: Das' 18. Jahrhundert und die geachichtliche Welt.
rnuito confortadora para o futuro. O pessimismo histórico 1901.
(.Gesammelte Schriften, vol. III. BerUn, 1927).
1272 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1273

O outro paradoxo, correspondente, é a criação — ou •convicção dogmática. Sobretudo o dogma do pecado ori-
renovação — da ideia progressista da história por meio de ginal sofreu toda espécie de atenuações pelagianas, semi-
uma transformação platónica e mística do cartesianismo. pelagianas, arminianas, até se transformar em dogma da
Este estabelecera legislação matemática para os corpos, igualdade de todos os homens, nascidos bons no seio da
fossem eles animados ou não. O mundo das almas, rigoro- Igreja universal da Natureza. Os deístas colocaram essa
samente separado do mundo físico, ficou sem apoio, a não Igreja de Religião Natural nos começos da história, sofren-
ser na graça arbitrária de Deus. Transformar esse apoio d o ela desde então as deturpações das religiões positivas,
incerto em apoio constante foi a reivindicação filosófica pela "fraude dos sacerdotes". Os sectários e místicos, ao
de Malebranche (11B) : um platónico de inclinações místicas contrário, colocaram a Igreja universal no fim da história,
que restabelece a independência do mundo ideal dos espíri- como último resultado da evolução do cristianismo. Volta
tos, apoiando-a na intervenção divina, contínua, em todas as a ideia, já otimista e progressista, da Ecclesia spiritualis.
ocasiões de contato com o mundo físico. O "ocasionalismo" O s sectários não negaram o cristianismo; imaginaram ape-
<le Malebranche, verdadeiro cartesianismo espiritualista, nas a possibilidade de uma evolução progressista da religião
tem consequências surpreendentes. Nega ao "cogito, ergo cristã — e esse "apenas" revelou-se muito perigoso ao
sum", de Descartes, o caráter de certeza matemática, e cristianismo. Lessing, na Educação do género humano,
contribui com isso para a reabilitação de conceitos cientí- chegou à ideia de uma evolução religiosa da humanidade
ficos de caráter não matemático, como são os históricos. A para além do cristianismo; fala de uma época na qual a
história, por sua vez, transforma-se em sucessão de inter- humanidade já não precisará da Bíblia; e o otimismo ame-
venções divinas que já não têm, porém, a feição de milagres ricano do século X I X condensar-se-á na fé em "novas Bí-
providenciais; essa sucessão constitui, por assim dizer, a blias", fé de Emerson que era místico, aproximando-se do
lei histórica do ocasionalismo. Nem sequer é preciso acre- swedenborgianismo.
ditar realmente em Deus para aceitar essa salvação do
A ideia do progresso entrou na historiografia com
sentido divino na história. Daí há apenas um passo para
Johannes Coccejus (1669): os conceitos "oeconomia tem-
o otimismo da ideia do progresso automático.
porum" e "processio regni", que os místicos empregaram
A origem do progressismo encontra-se em correntes para interpretar a seu modo o Apocalipse, empregou-os
místicas; e isso não é paradoxal, porque a observação im- Coccejus para definir o processo histórico. Porém o mero
parcial da vida e do mundo não levaria à ideia do progresso, progressismo não basta para conferir sentido à história;
e sim ao tragicismo histórico do Barroco. Os primeiros seria apenas pessimismo histórico às avessas. E r a preciso
ataques contra esse pessimismo vieram da parte dos sectá- substituir os objetivos misteriosos da Providência divina
rios da "Terceira Igreja". A grande esperança de Grotius, por outros valores finais da história; sem isso, o progres-
Comenius e de todos eles foi a reunião das Igrejas sepa- sismo seria logo desmentido pelos fatos, voltando o pessi-
radas, e a esse irenismo sacrificaram mais do que uma mismo barroco. E se o pessimismo histórico do Barroco
fosse despido dos seus acentos religiosos, então voltaria
a ideia pagã dos ciclos históricos nos quais a humanidade
115) Nicolas Malebranche, 1638-1715.
De la récherche de la vérité (1674/1675). se movimenta, chegando aos cumes da civilização só para
V. Delbos: Êttide sur la philosophie de Malebranche. Paris, voltar, logo depois, às origens bárbaras da História e reco-
1925.
1274 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1275

meçar de novo. É a ideia d e Maquiavel e Políbio. Eis o a erudição bizarra do B a r r o c o ; e n o próprio começo da
problema de V i ç o . sua filosofia da história aparecem os famosos ciclopes,
A história literária póstuma de Giambattista V i ç o ( n 6 ) morando nas florestas como individualistas s e l v a g e n s . E s s e
é das mais curiosas. Durante a vida, o m o d e s t o padre E s t a d o p r i m i t i v o da humanidade acaba pela domesticação
napolitano foi desconhecido. A s suas ideias influíram d o s c i c l o p e s : p e l o temor dos deuses. Por m e i o de uma
poderosamente em Montesquieu, Herder, H e g e l e Michelet, emancipação s u c e s s i v a s e g u e - s e à era dos d e u s e s a dos
sem que os influenciados tivessem t i d o sempre ideia clara heróis, e e n f i m a dos homens, c o m a plenitude da civili-
do influente. Quando, enfim, B e n e d e t t o Croce o redesco- zação. Mas já se preparam invasões de n o v o s bárbaros que
briu, revelando-o como um d o s grandes g é n i o s da h u m a - destroem t u d o ; e o c i c l o histórico p o d e recomeçar de novo.
nidade, admitiu-se o génio precursor de V i ç o , explicando-se E i s o s f a m o s o s ricorsi de V i ç o : para os s é c u l o s X V I I I e
o l o n g o esquecimento de sua obra pela mistura esquisita X I X , progressistas, foi esta a mais anacrónica das suas
de ideias antiquadas e ideias avançadas, de m o d o q u e os i d e i a s ; não se acreditará na possibilidade de nova barbárie
s é c u l o s X V I I I e X I X não foram capazes de compreendê-lo. (a não ser n o sindicalismo revolucionário d e Georges S o -
Com efeito, a forma de V i ç o é barroca, não s o m e n t e a rel). Com e f e i t o , só em Nápoles, com a sua velha tradição
forma estilística, mas também a "forma do pensamento", filosófica e c o m a lembrança viva de inúmeras mudanças
o m o d o de pensar, enquanto os resultados não puderam e derrotas históricas — g r e g o s , romanos, bárbaros, bizan-
ser plenamente compreendidos antes de ter aparecido a tinos, árabes, normandos, franceses, espanhóis — foi pos-
dialética hegeliana. V i ç o não é um grande escritor em sível conceber, em pleno s é c u l o X V I I I , essa teoria cíclica
s e n t i d o l i t e r á r i o ; é obscuro e confuso, em parte porque a da história. T a l v e z o espetáculo da decadência italiana e
abundância de ideias não l h e permite encontrar expressão d o triste fim da grande civilização da Renascença também
adequada, em parte porque a imaginação autenticamente tenha influído na m e n t e de V i ç o , aproximando-o de Ma-
poética de V i ç o excede as possibilidades da prosa. À s quiavel que n ã o ignorava os c i c l o s históricos de Políbio.
v e z e s , ele é fantástico, e não somente n o estilo. E x i b e toda E m Maquiavel aprendeu V i ç o o m é t o d o de usar a história
romana como m o d e l o de todas as histórias, como e x e m p l o
de uma "storia ideale eterna". Mas em V i ç o , o termo 'idea-
l e " tem outro sentido. O f i l ó s o f o napolitano não procura
116) Giambattista Viço, 1668-1744. l i ç õ e s de política prática, e s i m a própria "ideia" da história.
De antiquíssima italorum sapientia (1710); De universi júris
uno -principio et fine uno (Diritto universale) (1720); Principii É um platónico, rebelado contra o racionalismo anti-histó-
di una Scienza Nuova intorno alia comune natura delle nazioni r i c o d e D e s c a r t e s . E m compensação, t e m a maior conside-
{Prima Scienza Nuova) (1725); Cinque libri de'prtncipii di una
Scienza Nuova (Seconda Scienza Nuova) (1730). ração por B a c o n — nesse neobaconismo reside parte da
Edição da Seconda Scienza Nuova por F. Nicollni, 3 vola., Bari, sua importância transcendental. O b e d e c e n d o aos c o n s e l h o s
1911/1916.
B. Croce: La filosofia di Giambattista Viço. Bari, 1911. do precursor i n g l ê s , V i ç o pretende limitar-se aos dados
M. Longo: Giambattista Viço. Torino, 1921. empíricos que a historiografia fornece, para chegar a l e i s
O. Gentíle: Studi vichiani. Firenze, 1927.
R. Peters: Der Aufbau der Weltgeschichte bei Giambattista d e evolução histórica. S e V i ç o fosse um espírito s e c o ,
Viço. Stuttgart, 1929. esse m é t o d o tê-lo-ia levado ao p o s i t i v i s m o . A sua imagi-
M. Fubini: StUe e umanità di Giambattista Viço. Bari, 1946.
E. Paci: Ingens sylva. Saggio su Giambattista Vici. Milano, nação poética não permitiu, porém, a abstração; demorou-se
1949.
1276 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1277

nas particularidades das épocas e das nações, reconheceu em favor da burguesia. O grande opositor é o racionalismo
as diferenças raciais e nacionais, a "sapienza volgare" dos cartesiano que não reconhece leis históricas, admitindo
povos. Descobriu os valores particulares da poesia popular, apenas leis naturais. P o r isso, quando Hobbes pretendeu
anónima e coletiva, chegou a duvidar da individualidade justificar o mesmo absolutismo, teve de recorrer à analogia
poética de Homero, antecipando a estética de Herder e do entre a sociedade, composta de indivíduos, e o Universo,
romantismo. Tudo o que é abstração pareceu-lhe raciona- composto de átomos. De Locke até Rousseau e Fichte
lização posterior, falsificação consciente ou inconsciente identificaram-se as reivindicações burguesas com as cláu-
dos conceitos primitivos. Deste modo evitou os anacro- sulas do Direito natural, de uma maneira que contradiz
nismos típicos do século X V I I I , tornando-se o precursor todas as experiências históricas. Só Viço, o anticartesiano,
do historismo dos românticos alemães e de Hegel. Sabendo teve a coragem de estabelecer leis históricas, independentes
tirar conclusões tão "modernas" da sua teoria cíclica, Viço das leis da Natureza; salvou o maquiavelismo para os fins
pretendeu no entanto ficar com a ortodoxia católica; à da burguesia. A filosofia da Natureza de Viço é pré-
história sacra dos judeus concedeu um lugar fora do ciclo cartesiana; é baconiana, e por consequência pragmatista
dos ricorsi — o que, no século X V I I I , já é ciência ana- — pragmatismo que serve igualmente à burguesia e à histo-
crónica. Em compensação, esse "defeito" do pensamento riografia. O século X V I I I não compreendeu, porém, o rea-
vichiano aproxima-o dos sectários que tomaram a história lismo filosófico de Viço; e Montesquieu voltou a basear as
sacra dos judeus como modelo da evolução futura do cris- leis da evolução histórica em fatôres naturais — clima e
tianismo. Essa aproximação permite situar Viço dentro raça. Contudo, ò fato de Montesquieu ter conhecido obras
das correntes de teoria política do seu tempo ( 1 1 7 ). de Viço já não se apresenta como mero acaso. Ambos,
o criador da estética e jurisprudência comparadas e o autor
Em Maquiavel, a teoria cíclica da história também está
das Lettres persanes, são relativistas; o relativismo histó-
de certo modo limitada, se bem que não por motivos d e
rico é a conclusão que tiram da "Querelle des anciens et
ortodoxia eclesiástica. O objetivo das lições políticas,
des modernes". A grande preocupação do padre italiano
tiradas do ciclo funesto da história romana, é o estabele-
e do aristocrata francês é o destino futuro da civilização,
cimento de um Estado forte, capaz de impedir a decadência
que significa para eles o resultado do trabalho dos séculos
e a rebarbarização; o Estado forte garantirá o progresso
e o grande tesouro da humanidade. Neste sentido, o sa-
político e económico, necessário para salvar a civilização
cerdote ortodoxo é tão moderne e otimista como o libertin
italiana. Maquiavel defende a burguesia das Repúblicas-
da Régence que se tornou pensador político: Montesquieu,
Cidades do "Quattrocento" contra o nascente Barroco es-
Na mocidade, Montesquieu ( 118 ) frequentava os cír-
panhol. Reconhecem-se no seu "passadismo" de humanista
culos dos libertins; cultivou, êle mesmo, a poesia alegre
os germes de uma futura filosofia burguesa da história:
o Estado como protetor e fiador do trabalho progressista
dos seus súditos. Richelieu, Napoleão I, Fichte, Hegel são
maquiavelistas nesse sentido, apologistas do absolutismo 118) Charles-Louis de Secondat, baron de Montesquieu. 1689-1755.
Lettres persanes (1721); Le Temple de Gnide (1725); Considé-
rations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur
décadence (1734) ;* UEsprit des Lois (1748) .
117) H. Horkheimer: Diz Anfaenge der buergerlichen Geschichts- Edições por E. R. de Laboulaye, 7 vols., Paris, 1875/1879, e por
philosophie. Frankfurt, 1927. R. Cillois, 2 vols., Paris, 1949/1951.
1278 OTTO M A R I A CABPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1279

ou obscena, e conservou sempre o hábito de falar e escrever reza. Filho da Natureza é o homem: é ela que o ajuda
em tom zombeteiro, espirituoso, tanto em ocasiões conve- e eleva; e o homem prejudica-se a si mesmo, afastando-se
nientes como não convenientes. As Lettres persanes, cri- das bases saudáveis, das origens. O abstrato Direito natural
ticando a civilização da Régence do ponto de vista de um transforma-se, para Montesquieu, em concretas condições
asiático esclarecido, são a obra-prima do relativismo cép- naturais da existência humana. As particularidades geo-
tico, que foi o último resultado da "Querelle des anciens gráficas, o clima, as qualidades e os defeitos da raça, a
et des modernes". Talvez fosse esse cepticismo que o levou correspondência ou não das instituições jurídicas e mili-
a considerar a decadência e o fim das civilizações. Assim tares com aquelas condições — eis o que ocupa em Mon-
como outro Hbertin, Saint-Êvremond, conservou Montes- tesquieu o lugar da Providência de Bossuet; a religião tem
quieu o gosto pelos estudos históricos, especialmente pela apenas a mesma importância de várias outras repartições
história romana, considerada como fonte de lições de sabe- da administração pública. Montesquieu parece antecipar
doria política, nas tragédias de Corneille, nos ensaios de a Taine. Mas a perspectiva histórica é a oposta. Taine é
Saint-Évremond, e finalmente na historiografia do dile- um pessimista do fim do século X I X ; tira o resumo de
tante Montesquieu, grande senhor, que, como Montaigne, uma civilização burguesa que aborrece os seus instintos
vivia retirado na província. Montesquieu é uma espécie estéticos. Montesquieu é um otimista do século X V I I I ;
de síntese de Montaigne e Corneille, bonhomme como à civilização aristocrática, que satisfaz os seus instintos
aquele e dado aos grandes assuntos como este. Mas um de bonhomme culto e algo libertino, pretende indicar o
Montaigne-Corneille que passara pelo otimismo modernista caminho para a reconciliação com a Natureza. A harmo-
da "Querelle" e pelo alegre relativismo moral da Régence. nia montaigniana é o seu ideal, na vida particular e na vida
Nem a política romana nem o cristianismo constituem, para pública — uma harmonia razoável que será o ideal de todos
êle, valores absolutos; o próprio homem está encarregado os intelectuais franceses. Nesse sentido, esboçou Montes-
da tarefa de realizar os desígnios que se atribuíram ou- quieu, no Esprit des lois, o quadro ideal da Constituição
trora à Providência. Neste sentido é Montesquieu um inglesa, pretensa harmonia perfeita entre os três poderes:
anti-Bossuet. Gibbon também é um anti-Bossuet, e os dois executivo, legislativo e judiciário. Criou o ideal do libe-
historiadores têm um problema comum: preocupa-os a pos- ralismo moderno. No fim do século, o tory Burke, defen-
sibilidade da decadência da civilização aristocrática do seu derá os ideais de Montesquieu contra os revolucionários
tempo. Gibbon passara por angústias religiosas na moci- franceses. Os próprios ingleses chegaram, deste modo, a
dade: na sua solução do problema, a religião ocupará lugar interessar-se pelas ideias "inglesas" de Montesquieu, nas
preeminente, embora negativo. Montesquieu é da estirpe quais os americanos basearam a sua Constituição.
de Montaigne; dá menos atenção às influências nefastas
Montesquieu é, no entanto, menos inglês do que se
da "superstição" do que às influências benéficas da Natu-
pensava. Os seus erros a respeito da Constituição inglesa
não contam muito; se tivesse conhecido mais de perto a
mistura pouco "natural" de dispositivos razoáveis e resí-
A. Sorel: Montesquieu. Paris, 1887. duos medievais na vida pública inglesa do século X V I I I ,
I. Dedieu: Montesquieu. Paris, 1913.
V. Klemperer: Montesquieu, 2 vols., Lelpxig, 1814/1915. teria escrito outras Lettres persanes. O ideal de Montes-
I. Dedieu: Montesquieu. Paris, 1943. quieu, de uma harmonia entre Natureza e Razão, é um ideal
P. Barrière: Montesquieu. Paris, 1946.
1280 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1281

francês; e francês é o método de sua exposição desse ideal. Assim como o primeiro classicismo, o do "siècle d'or",
Sendo embora um grande diletante na literatura, Montes- assim o classicismo internacional do século X V I I I também
quieu é "homme de lettres" nato. Os estudos históricos é pseudomorfose estilística da nova classe dirigente, da
e jurídicos só lhe servem de pontos de apoio. O resultado burguesia, que tolera ou antes imita os costumes aristocrá-
é literatura. As Lettres persanes: uma sátira mordaz, mas ticos. A decomposição da ascese cristã pelo novo otimismo
sempre elegante. As Considérations: um romance histó- permite enfim o reconhecimento por assim dizer oficial dos
rico. O Esprit des lois: uma coleção de ensaios e aforis- conceitos económicos da burguesia. Em Mandeville, o
mos. Montesquieu é uma das encarnações mais brilhantes egoísmo económico já aparece como atitude legítima; em
do génio literário francês. Desde Montesquieu, os "hommes Adam Smith, todos os egoísmos em conjunto dão o resul-
de lettres" se arrogam o direito de opinar sobre as coisas da tado da harmonia preestabelecida da sociedade. "Whatever
história, do Direito, da vida pública. A literatura francesa is, is right", na vida social também. Dessa harmonia ficam,
conquistou, com Montesquieu, "les grands sujets", ainda porém, excluídos os poetas, porque a sua atividade não tem
proibidos na época de La Bruyère; tornou-se política. Mas sentido económico. Começa, então, a separação entre a
o ideal secreto dos literatos politizados será sempre o de poesia e o público; os literatos profissionais saem dos
Montesquieu: a vida particular independente do indivíduo salões, retirando-se para os cafés boémios. Ao otimismo
esclarecido, garantida pela harmonia entre a Razão e a Na- burguês, o poeta responde com a melancolia pessimista
tureza. do pré-romantismo, sonhando com belezas medievais, com
Em toda a parte, o século X V I I I encontrou garantias primitivismos populares, com o idílio exótico das ilhas no
de harmonia universal. As leis astronómicas de Newton Pacífico, com os costumes bárbaros mas poéticos dos esco-
garantiram a harmonia entre os movimentos dos corpos ceses de Ossian e do Norte escandinavo. Com isso, fecha-se
celestes. Em Leibniz, a harmonia aprasenta-se preestabe- um ciclo: a melancolia e o pessimismo do Barroco voltam.
lecida, ordem divina do Universo. Realiza-se o sonho A grande fonte, se bem que subterrânea, do sentimento
filosófico de Giordano Bruno. Do entusiasmo de Bruno pré-romântico é a mística, a dos iluministas franceses, a
reaparece uma parcela, aristocraticamente moderada, em dos pietistas alemães, a dos metodistas ingleses; e a origem
Shaftesbury. Até os estóicos, tão sombrios no Barroco, comum desses misticismos é a "Terceira Igreja". No pré-
tornam-se relativamente otimistas, confiantes na Natureza, romantismo, o neobarroco cumpre a sua última tarefa des-
como Vauvenargues. E os próprios maquiavelistas aceitam trutiva.
a ideia de um Universo filantrópico: entre os amigos de Por motivo da relação subterrânea entre o neobarroco
Shaftesbury encontra-se Bolingbroke, e de Bolingbroke do fim do século X V I I e o pré-romantismo da segunda
provém o otimismo de P o p e : metade do século X V I I I , não é possível determinar exata-
mente os começos do pré-romantismo. Revelando-se já em
"Whatever is, is right." Marivaux, Richardson e o abbé Prévost, o pré-romantismo
invade a mentalidade europeia desde os primeiros decénios
Esta é, na boca do poeta mais classicista do século, a pro- do século, tendo como porta de entrada o romance, porque
fissão de fé do classicismo liberal. É a base metafísica do só este género não tinha tradição antiga e não podia nem
futuro "laissez faire, laissez aller". devia obedecer a normas classicistas. Deste modo, o pré-
1282 OTTO M A R I A CARPEAUX

romantismo acompanha a Ilustração: esta é a expressão


da burguesia que se emancipa do feudalismo; aquele é a
expressão da Intelligentzia que se emancipa da sociedade.
Pela atitude da sua classe dirigente, o século X V I I I é
otimista e classicista. Pela atitude da sua classe intelectual,
o século X V I I I é melancólico e pré-romântico. O pré-
CAPÍTULO II
romantismo é o reverso da Ilustração; e o reverso do
pré-romantismo será a Revolução da burguesia. O pré-ro-
CLASSICISMO RACIONALISTA
mantismo não é — como a nomenclatura infeliz sugere
— a preparação do Romantismo, mas o companheiro anti-
tético da Ilustração classicista. A sintese dessa contradição
dialética é, no fim do século, o novo classicismo de Goethe, O S últimos anos do século X V I I e os primeiros do sé-
culo X V I I I assistiram a um acontecimento dos mais
Alfieri e Chénier: espécie de classicismo pré-romântico ou memoráveis na história da literatura universal: o primeiro
pré-romantismo classicista. Na perspectiva da literatura encontro entre literatura e jornalismo. Não se tratava,
universal, os classicistas Goethe e Alfieri já são românticos. porém, do jornalismo político: este nascera, no século
Chénier só será descoberto um quarto de século depois de X V I I , com as notícias de propaganda divulgadas pelos
sua morte, em pleno romantismo. governos e as informações de certas casas comerciais, pu-
blicadas para uso dos frequentadores das Bolsas. Ao lado
deste jornalismo existiam no século X V I I dois outros: o
popular e o erudito. O jornalismo popular dirigiu-se às
classes médias, mais ou menos cultas, mais ou menos iso-
ladas das fontes de informação, dando-lhes relatórios men-
sais ou anuais sobre guerras, batalhas, tratados de paz,
. concílios, nascimentos e mortes nas casas reais, peste e
fome, cometas, monstros e outras maravilhas da natureza,
com previsões astrológicas e conselhos para a vida domés-
tica. O tipo dessas publicações é o Theatrum Europaeum,
fundado por Hans Merian, em Francfurt sobre o Meno,
em 1618, e continuado até 1718 por seus herdeiros. Parece-
se um pouco com os almanaques que ainda hoje correm
entre as camadas menos cultas do povo; distingue-se deles
por seus ares de erudição enciclopédica e por uma angústia
íntima que vivifica o estilo seco de relatório que o carac-
teriza: no Theatrum Europaeum revela-se o pavor do
homem barroco face ao espetáculo caótico e trágico da
'

1284 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1285

história. É realmente um "theatrum", um teatro barroco. Addison ( 2 ) era um burguês de puritanismo atenuado, for-
Como um antídoto neobarroco aparecem, a partir de 1684, mação e gosto classicistas; um Marvell sem poesia. O seu
as Nouvelles de la Republique des Lettres, fundadas por relato de uma viagem para a Itália está cheio de reminis-
Pierre Bayle, periódico de combate à intolerância católica cências de leituras; cada lugar evoca-lhe alguns versos
contra os protestantes, à intolerância protestante contra os latinos, e não faltam as digressões de erudição arqueológica.
livres-pensadores, às crenças barrocas, consideradas como Tornou-se, no entanto, modelo dos inúmeros itinerários
superstições. É uma revista de crítica histórica e literária, de viajantes ingleses, e certas frases suas ainda aparecem
escrita por eruditos para eruditos. A meio caminho en- citadas em guias modernos. Não sentiu a poesia da Itália;
contra-se o Mercure Galant, que Donneau de Vise fundou a epístola poética Letter from Italy é amostra de uma ver-
em 1672 e dirigiu até 1724. É a revista dos novos précieux, sificação retórica, hábil e fria, iniciando no entanto a era
informando-os sobre "la cour et la ville" e particularmente da poesia intelectual na Inglaterra, tão diferente da poesia
sobre o movimento literário, sempre em tom do chevalier intelectualista dos "metaphysicals". A tragédia, segundo
elegante e espirituoso da Régence. Os aristocratas ingleses o conceito lógico da época, devia tornar-se a aspiração
contemporâneos, os lordes devassos e bêbedos da comédia máxima de u m talento como o dele: na verdade, Caro, a
de Wycherley e Vanbrugh, não careciam de uma publicação primeira tragédia inglesa em estilo rigorosamente francês,
como esta; mas. entre eles havia gentlemen educados em não é destituída de valor; mas, se tirarmos as alusões ha-
Oxford e Cambridge, que preferiam a companhia de pro- bilmente insertas à atualidade política daqueles dias, resta
fessores, vigários e até de burgueses cultos; a transforma- um drama burguês em roupas romanas. É o grande estóico
ção política de 1688, resultado da aliança entre o partido transformado em gentleman algo choroso. No entanto, até
aristocrático dos whigs e a burguesia não conformista, os mesmo esta obra marcará época. Um Addison diferente
antigos puritanos, alargou esses círculos, criando afinal revela-se na comédia The Drummer: comédia regularíssi-
um novo público com novas exigências de leitura. A esse ma, que mereceu ser traduzida por Destouches como Le
novo público se destinaram os "semanários morais" de tambour nocturne. Mas o humorismo de Addison, fino,
Addison e Steele, que iniciaram uma nova época da lite- irónico, cheio de simpatia humana, anuncia a presença de
ratura inglesa e mesmo da europeia (*)• um grande prosador, de um ensaísta que entende das ques-
tões, grandes e pequenas, da vida.
Nem Addison nem Steele são escritores realmente
grandes. O momento histórico serviu-lhes bem, conferindo
a quase tudo que escreveram importância descomunal; e 2) Joseph Addison, 1672-1719.
quando se encontraram, colaborando, saiu uma obra que Remarks upon Several Parts of Italy (1705); Coto (1713); The
Drummer (1715); The Spectator (com Steele — março de 1711
marcou época, e que é, ainda hoje, legível e admirável. até dezembro de 1712; junho até dezembro de 1714); The Guar-
dian (com Steele, 1713).
Edição das obras por G. Green, 6 vols., New York, 1856.
Edição do Spectator por G. A. Aitken, 8 vols.. 1868.
1) I. Ashton: Social Life in the Reign of Queen Anne. London, Th. B. Macaulay: "Life and Writings of Addison", 1843. (In:
1883. Criticai and Historical Essays.)
O. 8. Marr: The Periodical Essayists of the Eighteenth Cen- W. I . Courthope: Addison. London, 1884.
tury. London, 1923. H. V. Routh: "Addison and Steele". (In: The Cambridge His-
W. Granam: The Beginninga of English Literary Periodicals, tory of Literature. Vol. IX, 2.a ed. Cambridge, 1920.)
1665-1715. New York, 1930. P. Smlthers: The Life of Joseph Addison. Oxford, 1954.
1286 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1287

O ponto de partida de Steele foi a comédia. Mas já os problemas do dia e os permanentes, porta-vozes do autor.
não é a comédia obscena da Restauração. Os ataques puri- Assim, Isaac Bickerstaff, personagem principal do sema-
tanos de Jeremy Collier acertaram bem. Clibber ( 3 ), embora nário The Tatler, tornou-se proverbial. Com êle surgiu
exprimindo-se com bastante licenciosidade, ostenta fins vitorioso um novo género: a revista semanal com causeries
morais, e, como habilíssimo homem de teatro, conhece bem sobre os temas mais diversos, desde a política, até literatura
o seu novo público: sabe arrancar lágrimas. Steele ( 4 ) é e problemas da vida doméstica, com fins educativos e mo-
o mestre da comédia sentimental. No Funeral, de grande rais — um género bem inglês. Com a colaboração de Addi-
eficiência cómica, prevalece ainda a expressão da Restau- son, multiplicaram-se os personagens; nasceu uma espécie
ração; Steele não será jamais um puritano. The Tender de ensaio dialogado.
Husband supera as comédias de Cibber em sentimenta- The Spectator, a obra de colaboração de Addison e
lismo; mas somente na sua obra-prima dramática, The Steele, apresenta os membros de um clube que discutem
Conscious Lovers, aparece com clareza a força motriz da questões do seu interesse, e — são dois grandes jornalistas
comédia sentimental: o ideal do gentleman inglês, cordial que falam — do interesse geral da nação. Na criação desses
e firme, cristão sem hipocrisia, alegre sem excesso, senti- personagens revela-se o talento dramático de Steele: Sir
mental sem fraqueza. Steele esboçou esse ideal no tratado Roger de Coverley, hobereau que se mudou para a cidade
The Christian Hero, não sem influências de Gracián, e para levar uma vida mais confortável; W i l l Honeycomb,
tão longe do "miles christianus" de Erasmo como o Cato "elegant" já além dos melhores anos, esquisitão muito sim-
de Addison está longe do estóico romano. Steele criou o pático ; Sir Andrew Freeport, o comerciante de honestidade
ideal de uma nação. O drama burguês viverá a suas ex- exemplar; capitão Setry, o marujo rude com um coração
de ouro — esses tipos gravaram-se profundamente na me-
pensas; o romance psicológico, de Samuel Richardson até
mória da nação inglesa. Serão os tipos do romance realista
Jane Austen, imitar-lhe-á a atitude e os processos. O talen-
inglês, de Fielding até Dickens. O génio do ensaísta
to dramático de Steele revelou-se excepcionalmente vigo-
Addison reveia-se na diversidade agradável das conversas,
roso na sua obra jornalística, na capacidade de integrar
resumida magistralmente por Macaulay: "Segunda-feira,
as opiniões do jornalista em personagens vivos, discutindo
uma alegoria engenhosa à maneira de Luciano; têrça-f eira,
um apólogo oriental; quarta-feira, um retrato moral no
estilo de La B r u y è r e ; quinta-feira, uma cena comovente
3> Colley Cibber, 1671-1757. da vida quotidiana, como Goldsmith as descreverá; sexta-
Love'8 Last Shift (1696); The Careless Husband (1704).
F. D. Sénior: The Life and Times of Colley Cibber. London, feira, uma sátira horaciana contra* as loucuras da gente
1028. à la mode; sábado, uma meditação religiosa, tão fina como
4) Richard Steele, 1672-1729. as melhores páginas de Massillon." E há excelentes ensaios
Comédias: The Funeral (1701); The Tender Husband (1705);
The Conscious Lovers (1722); — The Christian Hero (1701); literários, com acentuada preferência por Milton. Addison
The Tatler (abril de 1709 até Janeiro de 1711). está reabilitando o grande poeta que a Restauração lançara
Sobre Spectator, Guardian e edições do Spectator, cl. nota 2.
Edição das comédias por O. A. Aitken, 2.» ed., London, 1903. no ostracismo; erige o puritano e classicista em clássico
Edição do Tatler por G. A. Aitken, 4 vols., London, 1898/1899. da família inglesa. As qualidades morais de Milton so-
G. A. Aitken: Richard Steele. 2 vols. London. 1889.
H. V. Routh: cf. nota 2. bressaem, na apreciação, às poéticas; os costumes são mais
w. Connely: Sir Richard Steele. London. 1934.
I

1288 OTTO MARIA CARPEAUX H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1289

importantes do que os versos. Addison e Steele cultivam sophe (1728) e Le Cabinet du philosophe (1734). Outro
o h á b i t o i n g l ê s d e fazer s e r m õ e s . S e r m õ e s n a l i n g u a ele- g r a n d e i n t e r m e d i á r i o e n t r e as l i t e r a t u r a s i n g l e s a e francesa,
g a n t e , fina, i r ó n i c a d o s é c u l o X V I I I , a p r e g o a n d o a " f i l o - o abbé P r é v o s t , p u b l i c o u d e 1733 até 1740 Le Pour et le
sofia" do "christian hero", divulgando-a entre um grande Contre; o t í t u l o d e s t a r e v i s t a l e m b r a v a g a m e n t e A b e l a r d o ,
p ú b l i c o . O p r ó p r i o Spectator explica o seu fim: " . . . . t o chamando a a t e n ç ã o p a r a a possibilidade de os "semanários
b r i n g p h i l o s o p h y o u t of c l o s e t s a n d l i b r a r i e s , s c h o o l s a n d m o r a i s " d i v u l g a r e m i d e i a s d i a l é t i c a s , talvez a t é r e v o l u c i o -
c o l l e g e s , t o d w e l l in c l u b s a n d a s s e m b l i e s , a t t e a - t a b l e s a n d nárias. O exemplo francês — não diretamente o inglês —
coffee-houses." O programa é altamente significativo: foi i m i t a d o n a H o l a n d a p e l o Hollandsche Spectator (1731/
s e n t e - s e l i g e i r a oposição c o n t r a o e r u d i t i s m o d o s g r e c i s t a s 1735) d e J u s t u s V a n E f f e n , d e d i c a d o à d i v u l g a ç ã o d o g o s t o
e latinistas, cultores de línguas inacessíveis aos burgueses; classicista. E s e m e l h a n t e foi o Svenska Argus, do sueco
s e n t e - s e a v o n t a d e d e p r e f e r i r o c l u b e , o café, a casa d e Dalin (6), poeta de g r a n d e talento, imitador das comédias
família a o salão a r i s t o c r á t i c o . D e s t e m o d o , o Spectator t l e M o l i è r e e a t é d a Henriade, de Voltaire, na epopeia
r e v e l a as p r e f e r ê n c i a s e o g o s t o d e S i r A n d r e w F r e e p o r t , Svenska Friheten. A í , a f o r m a i n g l e s a e n c o b r e i d e i a s fran-
p e r s o n a g e m q u e m a r c a é p o c a : p e l a p r i m e i r a vez, n a l i t e - cesas a v a n ç a d a s .
r a t u r a inglesa, u m burguês desempenha papel sério. Pois Os interesses literários prevaleceram nos "semanários
esse c o m e r c i a n t e r e p r e s e n t a o p ú b l i c o d o Spectator. Foram m o r a i s " a l e m ã e s ( 7 ) , e m b o r a o Vernuenftler (1713) e o
os F r e e p o r t s q u e g a r a n t i r a m o s u c e s s o i m e n s o d o s " s e m a - Patriot (1724/1726), a m b o s e d i t a d o s na c i d a d e m u i t o a n g l i -
nários m o r a i s " ; primeiro na Inglaterra, depois na E u r o p a c i z a d a d e H a m b u r g o , t i v e s s e m n o m e s algo s u s p e i t o s . Com
inteira. os Discourse der Mahlern ( Z u e r i c h , 1721/1723), o s c r í t i c o s
A s tentativas de Steele para continuar no género — o suíços Bodmer e Breitinger, interessados pela literatura
Guardian (1713) e o Englishman (1713/1714) — n ã o con- inglesa, p r e t e n d e r a m opor-se ao classicismo afrancesado
seguiram ê x i t o ; Addison e Steele p e r t e n c e r a m ao partido d o " p a p a " l i t e r á r i o G o t t s c h e d , em L e i p z i g , q u e r e s p o n d e u ,
d o s whigs, q u e foi d e r r o t a d o n e s s e s a n o s , e a i n t e r v e n ç ã o p o r s u a vez, com o s e m a n á r i o Die Vernuenftigen Tadle-
d a p o l í t i c a n o s " s e m a n á r i o s m o r a i s " n ã o se r e v e l o u v a n t a - xinnen (1725). O s p a r t i d á r i o s d e B o d m e r e n t r e os a l e m ã e s
j o s a . O m e s m o a c o n t e c e u c o m o Examiner (1710/1713), na Dinamarca publicaram em Copenhague o Nordischer
q u e d e f e n d e u os i n t e r e s s e s d o s torys e n o q u a l S w i f t cola- Aufseher (1758/1761), n o q u a l K l o p s t o c k c o l a b o r a v a e q u e
borava. E m compensação, apareceram na Inglaterra, até a já defende a poesia pré-romântica e o pietismo. Os próprios
m e t a d e d o s é c u l o , m a i s d e cem o u t r o s " e n s a i o s p e r i ó d i c o s " , dinamarqueses, aliás, não gostaram dessa tendência, que
testemunhando o sucesso do género. E n t r e os primeiros
imitadores continentais de Addison e Steele encontra-se
6) Oloí von Dalin, 1708-1763.
u m g r a n d e n o m e : M a r i v a u x ( 6 ) , q u e r e d i g i u , d e 1722 a t é Svenska Argus (1732/1734); Svenska Friheten (1742); — Den
1724, Le Spectateur français, s e g u i d o do Indigente Philo- Afundssjuke / 1738).
K. Warburg: Olof von Dalin. Stockholm, 1882.
M. Lamm: Olof von Dalin. Stockholm, 1908.
7) E. Hilberg: Die moralischen Wochenschriften des 18. Jahrhun-
5) Cf. "O Neobarroco, etc", nota 89. derts. Meissen, .1880.
E. Dmbach: Die dentschen moralischen Wochenschriften und der
Edição do Spectator )'rançais por P. Bonnefou, Paris, 1921. Spectator von Addison und Steele. Strasbourg, 1911.
E. Gossot: Marivaux moraliste. Paris, 1880.

1290 OTTO M A R I A CARPE AUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1291

l h e s parecia reacíonária. O Dansk Spectator ( 1 7 4 4 ) , de- mente, e com a r g u m e n t o s absurdos, Calderón e Quevedo,
Frederik Christian E i l s c h o w já havia s i d o racionalista, e j u l g a n d o "imorais" o s autos sacramentais; aparentemente
o Patríotiske Tilskuer (1761/1763), de J e n s Sneedorf, era com o fim d e defender o g o s t o classicista, mas, em reali-
francamente voltairiano. dade, com o o b j e t i v o d e ferir as tradições católicas. Clavijo
N e m sempre o periodismo moralista estava l i g a d o ao deve a notoriedade às suas brigas com Beaumarchais, que
classicismo dogmático dos afrancesados. Gasparo G o z z i ( 8 ) , Goethe, em Clavigo, dramatizará. I s s o deu-se nas vésperas
o editor da Gazzeta veneta e do Osservatore veneto, não <la R e v o l u ç ã o da burguesia.
gostava d o s ataques d o s classicistas à literatura italiana
A burguesia foi o n o v o público que assinou e leu os
antiga ; a sua Difesa di Dante, ridicularizando as c e n s u r a s
"semanários morais". D e feição burguesa é o ideal do
absurdas do jesuíta voltairiano Bettinelli ao poeta nacional,
gentleman Sir A n d r e w Freeport, que é, ao mesmo tempo,
é uma das sátiras mais mordazes da l í n g u a . O anticlassi-
rico comerciante e cristão i m p e c á v e l : duas qualidades que
c i s m o d e Gozzi não tinha, porém, nada d e pré-romântico;
n e m sempre foram consideradas compativeis. N o s países
Gozzi foi antes um clássico autêntico, i n d i g n a d o contra
c a t ó l i c o s do s é c u l o X V I I e ainda do s é c u l o X V I I I , o
os falsos. Os Sermoni de Gozzi, sátiras e m estilo horaciano,
comerciante enriquecido é s u s p e i t o de ter empregado prá-
revelam o equilíbrio de u m espírito ático, seja ao censurar
ticas i l í c i t a s ; um "comerciante cristão" como Mr. Freeport
o l u x o ruinoso d o s aristocratas venezianos, s e j a ao descrever
seria "res miranda populo". T a m b é m pensariam assim os
d e l i c i o s a m e n t e os costumes da V e n e z a d o R o c o c ó , seja ao
luteranos alemães. Mas decididamente já não se pensa
contar as desgraças pessoais da vida inquieta de Gozzi. O
d e s s e m o d o n o s países c a l v i n i s t a s : na Holanda, nos círculos
m e s m o humorismo amável e sereno d i s t i n g u e os "retratos"
puritanos ("dissenters") da Inglaterra, na Suíça francesa.
morais e o s ensaios d o jornalista veneziano, cenas encan-
A l i , o s u c e s s o do grande comerciante, d o banqueiro, do
tadoras no género d o s quadros de L o n g h i . Gozzi repre-
industrial é considerado como sinal do favor de D e u s :
senta, n u m e s t i l o verdadeiramente clássico, a honestidade
o s predestinados para a beatitude n o outro m u n d o já gozam
da burguesia italiana na época do c r e p ú s c u l o pitoresco da
nesta vida de s u c e s s o s merecidos.
corrompida aristocracia veneziana. N a Espanha, ainda bar-
roca, a mesma atitude t o m o u feição agressiva. J o s é Clavijo A conhecida teoria de Max W e b e r ( 9 ) sobre o espírito
y Fajardo, o editor de El Pensador (1762), atacou feroz- calvinista como força motriz e expressão da nova mentali-
d a d e capitalista n ã o tem ficado indiscutida. Também há
quem pense de maneira inversa: a mentalidade capitalista
ter-se-ia apoderado do instrumento de um espírito calvi-
8) Gasparo Gozzi. 1713-1786. (Cf. "O Pré-Romantlsmo", nota 124.) nista atenuado para obter sanção religiosa dos s e u s objeti-
Sermoni (1750/1755); Difesa di Dante (1758).
11 mondo morale (1760) La gazzetta veneta (1760/1761); Vosser- v o s económicos. Como quer que seja, foi aquela combinação
vatore veneto (1761/1762).
Edição dos Sermoni por A. Pompeati, Milano, 1914.
Edição do Osservatore por B. Spagni, Firenze, 1900; da Gazetta 9) M. Weber: "Die protestantische Ethik und der Gelst des Kapi-
por A. Zardo, Firenze. 1915. talismus". (Primeiro in: Archiv fuer Sozialwissenschaft und So-
A. Malmignati: Gasparo Gozzi e i suoi tempi. Padova, 1890. zialpolitik, 1904/1905; depois, in: Aufsaetze zur Raligionssoziologie,
R. Guastalla: La vita e le opere di Gasparo Gozzi. Livorno, vol. I, Tuebingen, 1920.)
1925. R. H. Tawney: Èeligion and the Rise of Capitalism. London, 1926.
G. de Beauville: Gasparo Gozzi, journaliste vénitien du XVIHe J. B. Kraus: Scholastik, Puritanismus und Kapitalísmus.
siècle. Paris, 1937. Muenchen, 1931.
1292 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1293

de calvinismo e capitalismo que formou o novo pública contra a "usura pública", isto é, contra u m empréstimo
burguês da literatura inglesa do século X V I I I . público da cidade de Verona, então o burguês abastado
Muito mais difícil foi a transformação da mentali- Maffei defendeu o "impiego dei danaro", e defendeu-o
dade económica nos países católicos. Groethuysen descre- com argumentos dos jesuítas. Pode parecer acaso —
veu ( 9 A ), com dialética quase dramática, a luta desesperada mas não é — que o mesmo Maffei tivesse escrito a
do catolicismo e particularmente do jansenismo sobrevi- tragédia Merope, na qual as complicações eróticas do
vente, contra a ascensão do espírito burguês na França teatro raciniano são substituídas pelo amor comovente
do século X V I I I : a dissolução dos conceitos cristãos de entre a mãe e um filho perseguido; Merope é, apesar dos
inferno, pecado e morte, a substituição das recompensas trajes gregos dos personagens, um drama burguês, senti-
celestes pelo sucesso económico, a eliminação das limitações mental, choroso, e que obteve sucesso tão grande na Itália e
ascéticas da ganância. Os jansenistas consideravam como na França que o próprio Voltaire resolveu apoderar-se da
responsáveis por essa evolução os jesuítas, que teriam co- peça reescrevendo-a: é sua Merope. Maffei, historiador
meçado com a atenuação dos preceitos cristãos; por isso, crítico, teórico de problemas monetários e dramaturgo sen-
aliaram-se ao galicanismo dos reis católicos, conseguindo timental, é cronologicamente o primeiro escritor completo
a expulsão dos jesuítas e, finalmente, a dissolução da da burguesia.
Companhia. E dessa forma, os reis absolutos e os jan- Um ano após a primeira representação da Merope,
senistas, em aliança paradoxal, ajudaram eficientemente o publicou-se na Inglaterra o panfleto mais eficiente contra
anticlericalismo dos encyclopédistes e a emancipação ideo- os preconceitos económicos da Europa feudal e cristã:
lógica da burguesia. The Fable of the Bees, de Mandeville ( n ) . Esse apólogo
Uma figura significativa dessa evolução é Scipione pretende demonstrar que os vícios podem ser tão úteis à
Maffei ( 1 0 ). Como historiador bem documentado da sua sociedade como as virtudes. Parece uma inversão diabólica
cidade de Verona, Maffei empregou os processos críticos dos valores, quase à maneira de Nietzsche. O fato de ser
da historiografia de Muratori, com o qual tinha em comum Mandeville inimigo da moral ascética não pode ocultar as
a aversão aos jesuítas; Maffei era jansenista; escreveu uma fontes irracionalistas do seu racionalismo. Mandeville é
história das doutrinas da Graça. Mas quando os domini- céptico como Bayle; e como Bayle, êle é maniqueu secreto,
canos, fiéis à proibição canónica dos juros, protestaram quer dizer, acredita que o mal no mundo não pode ser
eliminado. Mas em vez de cair no pessimismo de La Ro-
chefoucauld, Mandeville pretende "to make the best of
9 A) B. Groethuysen: Origines de VEsprit bourgeois en France. i t " ; pretende incorporar o mal ao sistema da vida, servir-se
Paris. 1927. dos egoísmos e dos vícios individuais para o objetivo da
10) Scipione Maffei, 1675-1755. felicidade geral. De maneira semelhante, Gracián acreditava
Merope (1713); Verona illustrata (1732); DaWimpiego dei danaro
(1744); Storia teológica delia dottrina delia grazia (1745); Museo na capacidade da pedagogia para transformar os defeitos
veronese (1749).
Edição dos dramas por A. Avena, Bari, 1928.
T. Copelli: II teatro di Scipione Maffei. Parma, 1907.
Studii maffejani, edlt. por vários autores, Torino, 1909.
O. Gasperoni: Scipione Maffei e Verona settecentesca. Verona, 11) Bernard Mandeviile, c. 1670-1733.
1955. The Fable of the Bees (1714).
G. Silvestri: Un europeo dei Settecento. Treviso. 1955. Edição por F. B. Kaye, 2 vols., Oxford, 1924 (com introdução).
1294 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1295

em qualidades; e Gracián é, segundo Azorín, o Nietzsche aborrecem-lhe as fronteiras internas; mais tarde, exigirá a
do século XVII — o mesmo Gracián, que desde mais ou abolição de todas as fronteiras económicas, o livre câmbio
menos 1680 se tornou ura dos autores mais lidos na E u r o p a internacional. Na época burguesa, já se derrubam muitas
inteira, substituindo o maquiavelismo dos príncipes pelo fronteiras religiosas, sociais e morais, formando-se um novo
maquiavelismo dos indivíduos particulares. Mandeville deu público de descendência indefinida, anónimo. Eis o público
nova expressão a esse maquiavelismo da burguesia. A sua dos "semanários morais". A mudança de público implica
época, porém, só viu o resultado, a harmonia das forças modificações importantes na situação social do homem de
particulares no universo da sociedade. É mais uma versão letras.
da harmonia preestabelecida de Leibniz, antecipando o Ainda no século X V I I , o homem de letras é um aris-
liberalismo económico de Adam Smith. O jogo livre de tocrata diletante, ou então "secretário" ou "protege" de um
todos os egoísmos dá, como resultado, uma harmonia per- aristocrata assim ou do próprio rei; só o literato eclesiás-
feita, comparável à harmonia newtoniana do Universo. tico não depende de uma pessoa física, mas de um poder
Entre a revolução inglesa de 1688 e a revolução fran- coletivo, da "opinião pública" da Igreja. No século X V I I I ,
cesa de 1789 decidiu-se a vitória da burguesia, já preesta- torna-se comum o caso de o homem de letras depender
belecida na ideologia de Newton e Leibniz e confirmada de uma opinião coletiva. Por enquanto, ainda é uma opinião
na ideologia de Adam Smith. As consequências literárias aristocrática, a dos "gens de qualité", reunidos nos famo-
da modificação da estrutura social só aparecem tarde no sos salões em que se fêz a literatura francesa do século
no estilo das belles-lettres; mas cedo se fazem sentir na X V I I I ( 13 ) — ou antes se fizeram e desfizeram as reputa-
situação dos literatos dentro da sociedade. O sucesso dos ções. O neopreciosismo da Régence tinha como centro,
"semanários morais" revela a existência de um novo públi- entre 1710 e 1773, o salão da marquesa de Lambert, fre-
co. Até então, não havia opinião pública, ou antes, havia quentado por Houdart de La Motte e outros modernes,
várias opiniões públicas separadas: a da corte, a da aris- membros do "club de 1'Entresol" como o abbé de Saint-
tocracia independente, a da Igreja; e às diferenças entre Pierre e o marquês d'Argenson, Montesquieu nos seus tem-
as religiões e seitas acrescentaram-se as diferenças linguís- pos de Paris, e Marivaux. Os mesmos homens de letras
ticas entre as nações. As fronteiras religiosas foram as frequentavam depois o salão de madame de Tencin, outro
primeiras que caíram, pelo irenismo e depois pela crescente centro dos bel-esprits mais ou menos inquietos. O salão
indiferença dogmática. Agora, anglicanos, presbiterianos de madame Geoffrin, por volta de 1750 e até 1777, já tinha
e batistas ingleses podiam formar um público homogéneo. feição diferente: recebeu estrangeiros de espírito subver-
Na França católica, já não existia o preconceito invencível, sivo como Galiani, eruditos como Caylus e os primeiros
"bossuetano", contra as produções espirituais dos países encyclopédistes, Helvetius e D'Alembert. A opinião cor-
protestantes, assim como também o protestante inglês dei- rente, segundo a qual a história dos salões é a própria
xará de desconfiar das literaturas dos países católicos. O
intercâmbio literário entre a França e a Inglaterra inten-
sifica-se de maneira inesperada; em toda a Europa começa 13) A. Feulllet de Conches: Les salons de conversatton au XVIIIe
siècle. Paris, 1883.
uma atividade febril dos tradutores e adaptadores. A C. Fischer: Les salons. Paris, 1929.
burguesia precisa de regiões amplas para explorá-las; R. Picard: Les salons littéraires et la société française. New
York, 1943.
1296 OTTO MARIA CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1297

história da literatura francesa do século X V I I I , apóia-se café "Procope", reuniram-se Fréret, Piron, Diderot, Rous-
principalmente nos anais do salão da madame Du Deffand, seau, enquanto outros se encontraram no café "Gradot"
em que se reuniram, entre 1730 e 1780, Marmontel, La ou no café d a viúva Laurent. A influência dos cafés na
Harpe, Sedaine, Turgot, Condorcet, Horace Walpole, terre- literatura é t ã o grande ou maior que a dos salões. A res-
no comum da aliança entre o gosto classicista mais ortodoxo peito de Lesage, dizia Joubert que os seus romances pare-
e as ideologias já avançadas de reforma social e política; ciam escritos no café, de noite, após uma representação
e estas últimas tendências se acentuaram quando, em 1764, no teatro. A literatura se "plebeíza", e isto não acontece
a companheira de madame Du Deffand, mademoiselle de somente na França. Os salões aristocráticos de Milão e
Lespinasse, abriu um salão de "concorrência", em que Turim são superados pelo famosíssimo café "Florian", em
D'Alembert era a figura principal, ao lado de Marmontel, Veneza, lugar das discussões de Goldoni, Gasparo e Cario
Turgot, Condorcet e Condillac. Contudo, não convém exa- Gozzi, Parini, Casanova, enquanto Guardi andava de mesa
gerar a importância daqueles centros de "causerie". Depois em mesa, vendendo os seus quadros. Os salões brilhantes
de Marivaux, as maiores figuras da literatura francesa do de Estocolmo não podiam competir — pelo menos na opi-
século X V I I I não pertenceram ao mundo dos salões, nem nião da posteridade — com o "Thermopolium Boreale",
Voltaire, nem Diderot, nem Rousseau, nem Beaumarchais, onde pontificava Bellman. Mas a pátria do café literário
nem Chénier. Os salões, reprises do Hotel de Rambouillet, fica lá onde nasceram os "semanários morais": na Ingla-
retomaram no século X V I I I o papel das précieuses no terra. O Tatler já prometeu aos seus leitores notícias de
século X V I I : tornar sociável a literatura francesa. Por "White's Chocolate-House", "St. James Coffee-house", do
isso, as maiores figuras — os individualistas — ficaram "Graecian" e de "WiH's Coffe-house", este último consa-
fora, e a importância dos salões é menos literária do que grado pela memória de Dryden. Addison, Steele, Swift,
sociológica. Primeiro, emanciparam os escritores, até então Gay são os primeiros "literatos de café". O Café literário
sujeitos à ditadura do gosto da corte. A coexistência dos corresponde a um novo público: em substituição ao público
salões da marquesa de Lambert e de madame de Tencin, dos salões — amigos pessoais do escritor — o público
depois a dos salões de madame Du Deffand e de Mademoi- anónimo que toma assinaturas dos periódicos. O café lite-
selle de Lespinasse, criou um pluralismo de centros, que rário é sintoma de uma nova situação social do escritor:
contribuiu para tornar mais independentes os escritores. em vez do "protege", surge o profissional das letras. É
Em vez de sutilizar a politesse, os salões adotaram um tom a mudança social mais importante que a literatura sofreu
de conversa cada vez mais livre. O salão da marquesa de em toda a sua história, entre Homero e a primeira guerra
Lambert assemelhava-se a uma "corte d'amor" provençal; mundial.
no salão de Mademoiselle de Lespinasse, já se zombava
das bienséances. Enfim, os homens de letras tomaram o Até ao século X V I I I , os poetas viveram em simbiose
caminho da auto-emancipação; fugindo da tutela feminina, com a aristocracia "f ainéante", como "cleros", "troubadours",
retiraram-se dos salões para os cafés, e com isso inicia-se "secretários"; eram, de qualquer maneira, propagandistas,
uma nova época da literatura francesa ( 1 4 ). No famoso com função determinada dentro de uma "leisure class".
Essa situação foi destruída no século X V I I I . Lesage ataca
os banqueiros de Êaris e Fielding zombará dos banqueiros
14) F. Fosca: Histoire des cafés de Paris. Paris, 1935. de Londres. A condição de harmonia preestabelecida na
1298 OTTO MARIA CARPEATJX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1299

sociedade burguesa é a utilidade económica de todas a s "Hail, sacred peace! hail, long-expected days,
funções parciais no Universo social. Os revolucionários d o That Thames's glory to the stars shall r a i s e ! . . . "
século X V I I I censuram amargamente a "ociosidade" da
aristocracia; mas dessa "ociosidade", quer dizer, da falta A corte inglesa já não tinha força para determinar o gosto
de funções económicas, são tarribém culpados os poetas. literário. Mas intervieram os castelos aristocráticos, e o
Para eles, não há lugar na nova sociedade. As cortes j á gosto que impunham era o da França vencida. Dryden e
perderam a função de Mecenas; o "salão literário", lugar Temple foram os precursores. O seu contemporâneo John
de aliança entre a aristocracia e a literatura, sucumbiu à Tillotson (1630-1694), arcebispo de Canterbury, rompeu
radicalização política dos espíritos. O s homens de letras com a sublimidade barroca de Donne e Jeremy Taylor,
encontraram novo lar no "café literário" e nova função n o introduzindo no sermão anglicano a clareza lógica e clássica
jornalismo. Nasceu a Bohême. Em Paris, é o ambiente de Bourdaloue. O talento extaordinário dos ingleses para
pré-revolucionário do Palais Royal, com os seus jornalistas, assimilar valores estrangeiros, anglicizando-os, afirma-se
poetas vagabundos, atôres, desocupados, prostitutas. E m na analogia entre a comédia de Molière e a de Congreve.
O Cato, de Addison, por mais fraco que seja, teve bastante
Londres, é Grub Street, a rua dos jornais, das casas edi-
força para encerrar definitivamente o ciclo do teatro na-
toras, dos diaristas literários, tradutores famintos, dos
cional inglês. Enfim, os preceitos de Boileau a respeito da
ghost-writers redigindo obras que um diletante abastado
poesia encontraram a sua realização mais completa fora da
compra e assina com seu nome; enfim, dos primeiros repór-
França: em Alexander Pope. Nesta Inglaterra, o exilado
teres ( , 5 ) . Neste ambiente, não há lugar para crenças dog-
Voltaire podia sentir-se como em casa. Contudo, a Ingla-
máticas; tudo depende do gosto do público anónimo que
terra tornou-se-lhe a grande revelação da sua vida, porque
lê jornais e compra livros. As modas literárias começam
as formas classicistas esconderam outro conteúdo: o da
a mudar com rapidez inédita. A estética dogmática do
crítica do espírito burguês contra os resíduos barrocos. Os
classicismo tem que fazer concessões, as antigas "escolas ingleses adotaram as formas francesas porque a tradição
de poetas" desaparecem, substituídas pelas facções e par- literária nacional fora interrompida pelo puritanismo. Ven-
tidos literários. No ambiente da Grub Street escreveu cedoras em 1688, as classes médias atenuaram os seus ideais
Samuel Johnson, em 1755, a famosa carta a lord Chester- calvinistas; começa um processo de secularização, de trans-
field, denunciando a inutilidade do mecenismo aristocrá- formação da ascese e predicação religiosas em espírito
tico. É a Declaração de Independência da literatura. mercantil e jornalismo, processo bem sucedido que levou
A literatura inglesa do século X V I I I é feita por es- a burguesia inglesa a uma prosperidade económica sem
critores burgueses para um público burguês. Sugere, no precedentes. A Escócia, ninho do calvinismo ortodoxíssimo
entanto, a impressão de uma literatura aristocrática. A e, antes, um dos países mais pobres e mais atrasados da
paz de Utrecht inicia um "século de oro", de "paz augus- Europa, transformou-se entre 1720 e 1750 em região mais
téia", que Pope cantou: próspera e mais progressista das ilhas britânicas; ao mesmo
tempo encheu-se a cidade de Edimburgo de edifícios pú-
blicos e particulares rigorosamente classicistas — cidade
15) A. Beljame: Le public et les homnes de lettret en Angteterre, de colunas dóricas, de grecistas e latinistas ao lado d e
1660-1775. 2.» ed. Paris, 1897.
A. S. Colllns: Authorship in the Days of Johnson. London, 1927.
»

1300 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1301

f í s i c o s , industriais e comerciantes. O classicismo é, para picarescos e m o r a i s , a s o c i e d a d e contemporânea. O ideal de


empregar a terminologia de Veblen, expressão da "cons- "nature" não encontrou realização mais eficiente do que o
p i c u o u s consumption" da burguesia enriquecida, i m i t a n d o romance em q u e uni h o m e m perdido da natureza selvagem
o g o s t o e estilo de viver da aristocracia afrancesada. de uma ilha deserta e forçado a recriar, como autodidata, a
A literatura "augustéia" representa, como t o d o classi- civilização, l a n ç a os f u n d a m e n t o s de uma nova comunidade
c i s m o , um equilíbrio precário. É c l a s s i c i s t a e burguesa ao humana: o Robinson Crusoe. T o d a s as tendências de D e f o e
m e s m o tempo, mantendo a sua razão d e ser pela crítica eram determinadas pela sua origem s o c i a l : pertencia à
incessante aos resíduos barrocos. A revolução de 1688, obra classe média puritana. O s u c e s s o escasso das suas empresas
da aliança entre os aristocratas whigs e os dissenters, fora de c o m e r c i a n t e de meias e fabricante de t i j o l o s explica-se
i n c o m p l e t a : os fundamentos do E s t a d o , sociedade e I g r e j a pela pouca habilidade comercial de um escritor n a t o ; e,
continuavam meio feudais. U m a literatura de controvérsia tal como tantas outras e x i s t ê n c i a s fracassadas depois, D e f o e
continua a revolução. É uma literatura crítica e— m u i t o dedicou-se, finalmente, à profissão dos não profissionais,
ao gosto dos comerciantes puritanos — essencialmente d i - ao jornalismo. Encontrara a sua vocação.
dática. A s qualidades mais apreciadas são wit e judgement
D e f o e é u m d o s maiores jornalistas de t o d o s os tempos.
— wit já não significa sutilidade metafórica e s i m habili-
Com isso alude-se m e n o s à sua atividade de jornalista po-
dade prática — e o ideal é nature, quer dizer, a vitória da
lítico a s e r v i ç o dos whigs — escreveu a l g u n s panfletos
"verdade" social, burguesa, sobre as "falsas" c o n v e n ç õ e s da
esplêndidos — do que aos seus trabalhos de repórter: o
sociedade aristocrática.
Journal of the Plague Year, sobre a grande p e s t e em L o n -
D a n i e l D e f o e ( 1 6 ) é u m dos maiores wits do jornalismo d r e s ; o guia A Tour through the Whole Island of Great
i n g l ê s . Representa a sua é p o c a ; e julga, n o s seus romances Britain; e sobretudo a estupenda reportagem ocultista A
True Relation of the Apparition of one Mrs. Veal, na
16) Daniel Defoe. 1859-1731. qual a aparição de um espectro é descrita de maneira tão
An Essay upon Projects (1697); The Shortest Way tuith Dissen- c o n v i n c e n t e que o leitor acaba acreditando. N e s t a s obras
ters (1702); A True Relation of the Apparition of one Mrs. Veal jornalísticas, D e f o e criou o s e u m é t o d o narrativo: narração
(1706); Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson
Crusoe (1719/1720); Memoirs of a Cavalier (1720); Life, Adven- lenta, c o m u n i c a n d o fatos e s ó fatos, passo por passo, s e m
tures anã Piracies of the Famous Captain Singleton (1720);
Journal of the Plague Year (1722); Fortunes and Misfortunes of arte de construção do conjunto mas com coerência lógica
the Famous Moll Flanders (1722); The History and Remarkable d o s pormenores. M é t o d o de um realista que quer fazer
Life of the truly Honouráble Colonel Jacque (1722); A Tour
through the Whole Island of Great Britain (1721/1726); Roxana acreditar, mas que também, êle mesmo, acredita. S e g u n d o
(1724); The Compleat English Tradesman (1725/1727); Augusta toda a probabilidade, D e f o e acreditava até em espectros,
Triumphans (1728); Memoirs of an English Officer, by Captain
George Carleton (1728). assim como a classe média inglesa revelou sempre simpatias
Edição dos romances por G. A. Aitken, 16 vols., London, 1895/
1911.
Edição dos romances e outros escritos seletos pela Shakespeare P. Dottin: Daniel Defoe et ses romans. 3 vols. Paris, 1924.
Head Press, 14 vols., Oxford. 1927/1928. A. W. Secord: Studies in the Narrattve Method of Defoe.
W. P. Trent: Defoe and How to Know Him. Indianopolis, 1916. Chicago, 1924.
W. P. Trent: "Defoe". (In: The Cambridge History of English R. Q. Stamm:.Der anfgeklaerte Puritanismus Daniel Defoe's.
Literature. Vol. IX. 2.a ed. Cambridge. 1920.) Zuerich. 1936.
H. Werich: Defoe's Robinson. Oeschichte eines Weltbuches. J. R. Sutherland: Defoe. London, 1937.
Zuerich, 1924. Fr. Watson: Daniel Defoe. London, 1952.
1302 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1303

pelo espiritismo — e por que não acreditar se existem fatos, é tratadista moralista; e também é tratadista economista.
confirmados por testemunhas fidedignas? Defoe é uma O Essay upon Projects ainda lembra os "arbitristas" dos
encarnação do empirismo inglês. "Matter-of-fact" é o seu quais Cervantes zombou no Colóquio de los perros, inven-
ideal literário, e o seu desejo foi que as invenções da sua tores de projetos engenhosos e meio absurdos. O Compleat
imaginação, publicadas para ganhar dinheiro, fossem con- English Tradesman é título que dispensa explicação: é
sideradas como reportagem de fatos verdadeiros. Defoe um manual de contabilidade, correspondência comercial,
conseguiu tão bem realizar o seu intuito que nem sempre arte de comprar barato e vender caro. A intenção íntima
é fácil distinguir entre as suas invenções de romancista e é a do género "como tornar-se milionário". O Robinson
os materiais autênticos dos quais se serviu. Os Memoirs Crusoe também é um "livro de conseguir sucesso", isto
oi Captain Carleton pertencem a esta categoria de narrações é, de como estabelecer uma sucursal numa ilha deserta.
meio históricas. Mas as Adventures of Captain Singleton, O "deserto" não é apenas geográfico, mas também histórico:
Moll Flanders e Roxana já são romances realistas, narrados Defoe faz o experimento de abstrair das dificuldades e
com tanta capacidade de produzir a ilusão da verossimi- obstáculos q u e a sociedade meio feudal ainda opunha às
lhança, que os destinos dos heróis e heroínas nos ficam na intenções comerciais da sua classe; faz tabula rasa de todas
memória — a nós, leitores modernos — como destinos vistos as convenções, colocando Robinson na própria nature. E
e vividos. Isso é tanto mais digno de nota, lembrando-se a história do mundo começa de novo. Robinson Crusoe é
que os romances se passam em ambientes hoje inteiramente o mais picaresco dos romances "picarescos" de Defoe. Os
desaparecidos, no mundo pitoresco dos aventureiros e pros- heróis dos seus outros romances são pícaros que têm de
titutas do começo do século X V I I I . O caminho de vida construir as suas vidas; Robinson é o pícaro que tem de
de Moll Flanders, heroína da obra-prima de Defoe, começa construir uma sociedade. A obra pode ser interpretada
na prisão de Newgate, passa pelo acampamento de ciganos, como manual do escoteiro na solidão selvagem — por isso
casas de prostituição, vários casamentos, crimes, deporta- tornou-se leitura infantil — mas também como história da
ções, para terminar com uma conversão contrita. O esquema, sociedade burguesa que é uma sociedade de indivíduos
em Moll Flanders e em outros romances de Defoe, é o do isolados, lutando cada um por sua ventura. Defoe revela
romance picaresco espanhol, que lhe serviu de modelo. fortes sentimentos religiosos: o fim da vida, de uma vida
Tampouco falta o fatalismo estóico, modificado, porém, no de comerciante em uma sucursal nas colónias, é a glori-
sentido da predestinação calvinista: a pecadora Moll Flan- ficação de Deus; Robinson ensina ao selvagem Friday
ders é vítima das desgraças que a Providência lhe enviou religião, ao lado de conhecimentos que são úteis ao próprio
para guiá-la à conversão final. Essa modificação revela Robinson. Mas a pedagogia de Robinson é antes raciona-
que o romance picaresco forneceu a Defoe apenas um es- lista. É uma espécie de autodidática, muito conforme à
quema literário; o objetivo é diferente. Defoe não pretende nature, situando-se no meio-caminho entre Comenius e
dar um exemplum vitae humanae, mas uma advertência Rousseau. O Andrenio, de Gracián, no Criticon, aprende
prática de como se deve agir ou não, na vida, para con- assim, e para fins semelhantes: Gracián ensina o maquia-
seguir sucesso sem infringir as leis da religião e da moral. velismo individualista do homem neobarroco; Defoe ensina
Em forma picaresca, dá-nos tratadinhos puritanos, mas já o maquiavelismo meio comercial, meio religioso da bur-
daquele puritanismo que sabe fazer bons negócios. Defoe guesia inglesa. Bastiat, o teórico do liberalismo económico,
1304 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1305

era leitor assíduo do Robinson Crusoe; e a educação de •do pré-romantismo. A época de Defoe, cheia de controvér-
Friday antecipa certos aspectos do imperialismo colonial. sias, não é a da "paz augustéia", de longa época de paz
Defoe é o autor da única utopia que já se realizou. No depois do Tratado de Utrecht, que se exprime em formas
projeto fantástico de uma cidade modelar, em Augusta de classicismo mais equilibrado ( n ) . A revolução incom-
Triumphans, Defoe confessa-se mesmo utopista. Foi a parte pleta de 1688 deixou os espíritos perplexos e as frentes
de poeta no grande jornalista; e Defoe era poeta. As suas perturbadas: um deísta e íree-thinker como Bolingbroke é
intenções moralizantes modificaram-lhe o realismo fiel de o chefe do partido conservador, e os wbigs aliam-se aos
repórter, e o seu espírito poético transformou essas mo- devotos dissenters da burguesia de Londres. O espírito
dificações em visões algo grandiosas. Daquelas intenções prático dos ingleses, inclinando-se sempre para os compro-
moralizantes nasceu o aspecto histórico-sociológico de Ro- missos da "via media", procurou e achou soluções de
binson Crusoe, como bíblia da burguesia. Aquele realismo, equilíbrio, dos quais a Analogy oi Religion, do bispo
capaz de imortalizar, em Moll Flanders, a Londres pitoresca Butler ( l s ) , foi a mais definitiva: em estilo de clareza
de 1700, criou os pormenores tão verossímeis de Robinson clássica, algo seco, com acessos de sublimidade poética,
Crusoe, encanto permanente do maior livro infantil da lite- quase pré-romântica, quando se trata da maravilhosa har-
ratura universal. E aquele espírito poético revelou-se na monia do Universo, o bispo refuta os deístas e restabelece
angústia quase religiosa, inglêsamente reservada, do homem a fé no Deus dos cristãos; o seu método de demonstração,
perdido nos desertos infinitos do Oceano, existência sem porém, é realista e empirista, adotando os processos lógicos
horizontes definidos — não um exemplum vitae humanae, dos adversários, de modo que o Deus de Butler não se
mas uma visão da condição humana. distingue muito, afinal, do Deus dos deístas sinceros; não é,
Na história da literatura inglesa, Defoe é como um decerto, o Deus de Tindal e Toland, mas o de Locke e
Robinson Crusoe. Será difícil apontar-lhe precursores; e Newton. Poucos livros exerceram influência tão profunda
não tem, no sentido estrito, sucessores. O jornalismo inglês sobre o espírito inglês como a Analogy of Religion, ma-
não seguiu os caminhos de Defoe, e sim os de Addison e nual de um cristianismo razoável. Desde então, a sátira,
Steele, e a evolução da técnica novelística preferiu outro a crítica, já não eram as armas dos "libertadores", e sim
género; o romance sentimental. A situação histórica de as dos reacionários em retirada, que defenderam o huma-
Defoe é de ordem ideológica: êle contribuiu para secula- nismo ortodoxo das Universidade, o pessimismo barroco e
rizar o espírito puritano dos dissenters, transformando-o o amoralismo herdado da Restauração. Resume-se nisso o
em espírito burguês. Neste sentido, Defoe é companheiro
de Steele, que criou, do espírito trágico do teatro barroco
da Restauração, o drama sentimental, fonte imediata do
romance sentimental de Samuel Richardson. Este, porém, já 17) O. Elton: The Augustan Ages. Edlnburg, 1899.
não pertence à geração de Defoe, nem cronológica nem G. Saintsbury: The Peace of the Augustan Ages. London, 1916.
18) Joseph Butler, 1692-1752.
literariamente; da sua obra está ausente o espírito de con- The Analogy of Religion, Natural and Revealed, to the Consti-
trovérsia, de polémica política e religiosa, característica tution and Course of Nature (1736). etc.
Edição das obras completas por J. H. Bernard, 2 vols., London,
de Addison, Steele, Defoe, Swift, Pope. Richardson, com- 1900.
panheiro de geração de Pope, situa-se entre os precursores E. C. Mossner: Bishop Butler and the Age of Reason. New
York, 1936.
1306 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1307

programa dos três grandes satíricos: Arbuthnot, Swift, Igreja da qual era sacerdote — é um dos maiores satíricos
Gay. da literatura universal, talvez o maior de todos. Gullivefs
Arbuthnot ( 1 8 ), médico da rainha Ana, partidário apai- Traveis é o livro mais cruel que existe. A s atividades
xonado dos tories, escritor diletante, imortalizou-se por essa febris e inúteis dos anões de Lilliput ridicularizam a vida
coisa raríssima: a criação de um tipo que vive para sempre, parlamentar na Inglaterra do século XVIII e em todos os
como Don Juan, Don Quixote e Fausto: num dos seus países e épocas de política constitucional e profissional.
panfletos políticos aparece a figura de John Buli, encar- Esboçando esse panorama político, Swift lembrou-se dos
nação do bom-senso inglês. Arbuthnot antecipa algo de seus tempos de panfletário a serviço do partido conserva-
Chesterton, e assim como nele, o "bom-senso" de Arbuthnot dor, dos tories; é uma sátira mordaz contra os whigs. Mas
é instinto reacionário. O mesmo bom-senso inspirou-lhe a logo depois, Swift descreve o regime patriarcal no reino
sátira Memoirs of Martin Scribíerus, mais famosa do que dos gigantes de Brobdingnag; e este não é nada melhor.
lida. Scribíerus é outro tipo imortal: o escritor ou jorna- Ao contrário, o tamanho dos gigantes torna grotescamente
lista plebeu, de conhecimentos mais multiformes do que enormes todos os pormenores, isto é, as infâmias das "clas-
profundos, de inquietação íntima e ação demagógica. Em ses conservadoras". Tampouco são melhores os intelectuais
suma, Scribíerus é um tipo antipático de intelectual, tal
como Maurras o esboçaria. Contra o progressismo super- Universal Use of Irlsh Manufactures (1720); The Drapiefs Let-
ficial desse novo tipo de escritor, Arbuthnot defende o ters (1724); Traveis Into Several Remote Nations of the World,
by Lemuel Gulliver (1726); A Short View of the State of Ireland
espírito de elite dos humanistas do velho estilo, e com (1727); Modest Proposal for Preventing the Children of Poor
tanto espírito que traços do seu génio de diletante se en- People in Ireland from Being a Burden to their Parenta or Coun-
try, and for Making Them Beneficiai to the Public (1729); Ca-
contram em toda parte, nos escritos dos seus amigos denus and Vanessa (1730); On the Dead of Dr. Swift (1731); A
Complete Collection of Genteel and Ingenious Conversation, Ac-
Swift, Gay e Pope, e, uma geração mais tarde, em Johnson. corãing to the Most Polite Mode and Method (1738).
O traço comum em Swift, Gay, Pope, é a mordacidade Edição das obras em prosa por T. Scott, 12 vols., London, 1897/
1908.
satírica, um espírito veementemente agressivo. Pope es- L. Stephen: Swift. London, 1882.
maga, como Arbuthnot, os literatos e intelectuais; Gay S. Smith: Dean Swift. London, 1910.
ataca os fundamentos morais da sociedade; em Swift, enfim, W. A. Eddy: Gulliver's Traveis, a Criticai Study. Princeton,
1923.
a sátira dirige-se contra a própria humanidade, negando-lhe O. Van Doren: Swift. London. 1930.
W. D. Taylor: Jonathan Swift. London, 1933.
todos os valores, desejando o fim deste mundo miserável. M. M. Rossi e J. M. Hone: Swift. or The Egoist. London, 1934.
Jonathan Swift ( 2 0 ), — clérigo humanista, fiel-infiel à M. A. Korn: Die Weltanschanung Jonathan Swifts. Jena, 1935.
R. Quintana: The Mind and Art of Jonathan Swift. New York,
1936.
A. E. Case: Four Essays on Gulliver's Traveis. Princeton, 1945.
19) John Arbuthnot, 1667-1735. M. Johnson: The Sin of Wit. Jonathan Swift as a Bet. Syracuse,
Memoirs o/ Martin Scribíerus (publ. 1741); The History of John 1950.
Buli (1712). J. M. Bullítt: Jonathan Swift and Anatomy of Satire. Cam-
Edição (com biografia) por G. A. Aitken, Oxford, 1892. bridge, Bass., 1953.
20) Jonathan Swift, 1667-1745. W. B. Ewald: The Masks of Jonathan Swift. Oxford, 1953.
The Battle of the Books (1704); The Tale of o Túb (1704); An J. M. Murry: Jonathan Swift. A Criticai Biography. London,
Argument to Prove that the Abolishing of Christianity in England 1954.
May, As Things Now Stand, Be Attended with Some Inconve- K. Williams: Jonathan Swift and the Age of Compromise. Lon-
niences (1708); Journal to Stella (1710/1713); A Proposal for the don, 1959.
1308 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1309

que, no país de Laputa, vegetam como imbecis completos. " . . . u b i saeva indignatio ulterius cor lacerare nequit." Basta
Na última parte, o elogio dos Houyhnhms, isto é, dos cava- isso. Swift vive na história da literatura inglesa como
los, mais nobres e mais inteligentes que os homens, é a con- encarnação do ressentimento, como o mais cínico dos mi-
denação absoluta do género humano in totum. Enfim, o epi- santropos.
sódio dos Struldbrugs, que devem ao progresso científico A crítica moderna prefere salientar a nobreza moral
a imortalidade da vida, não escapando, porém, às doenças, em Swift: a sua indignação feroz contra a injustiça e
fraquezas e senilidade da extrema velhice, e que não con- a opressão. A campanha contra o regime funesto dos in-
seguem morrer, já condena a própria vida. As inúmeras gleses na Irlanda constitui a glória da sua vida fracassada.
digressões espirituosas e mordazes — a descrição dos hor- Não existe panfleto político mais eficiente do que as Dra-
rores da guerra como se fossem as coisas mais naturais pier's Letters, exceto o panfleto do mesmo Swift sobre
do mundo, o escárnio dos dogmas e ritos cristãos, incrível Irísh Manufactures, no qual propõe queimar todas as mer-
na boca de um alto dignitário da Igreja — revelam em cadorias de importação inglesa menos o carvão; e o Moclest
Swift o representante mais radical do racionalismo da Ilus- ProposaJ, propondo o estabelecimento de um matadouro
tração; nem sequer Voltaire ousou tanto. Os ingleses ja- de crianças irlandesas para aliviar a situação económica dos
mais gostaram de um radicalismo assim. Para desinfetar pais e abastecer de carne delicada os ingleses. O estilo
o livro venenoso, alegaram que a sátira, referindo-se a fatos dessas sátiras é eficientíssimo, pelo tom seco e equilibrado
e pessoas do século X V I I I , já perdera a atualidade. E, de das afirmações mais extravagantes, pela dissimulação cuida-
fato, várias alusões são hoje tão pouco compreensíveis quan- dosa da emoção veemente, pela expressão sonora e bem
to as do único satírico comparável, as de Dante. Sendo fraseada de ideias morais — sejam antecipações do socia-
assim, dizia-se, seria preferível tirar do livro toda a sátira, lismo, sejam lugares-comuns clássicos. É a prosa mais
deixando subsistir apenas a narração de uma viagem fan- clássica da língua inglesa. Swift fora aluno do Trinity
tástica, à maneira de Cyrano de Bergerac; e Gulliver's College e secretário de William Temple; na Battle of the
Traveis transformou-se em leitura infantil, divulgadíssima. Books defendera os anciens contra os modernes. Era hu-
Desinfetado o livro, restava explicar o profundo pessimis- manista. Aqueles lugares-comuns morais, porém, não são
mo do autor, e para isso serviu a biografia: o casamento "antigos". Grande sátira não é possível sem rigorosos cri-
clandestino e infeliz com Esther Johnson, à qual foi dedi- térios morais; o satírico é satírico porque os seus critérios
cado o Journal to Stella; as graves decepções do antigo morais são mais rigorosos do que os do seu ambiente. O cri-
secretário de William Temple na carreira política, de modo tério de Swift é o do cristianismo primitivo, quando ainda
que o tory Swift perdeu, durante o meio século de governo incompatível com as instituições profanas, quando os cris-
dos whigs, todas as esperanças, nunca conseguindo o bispa- tãos se recusaram a adorar a imagem do imperador e a pres-
do ardentemente ambicionado, terminando a vida no exílio tar o serviço militar. Swift só é comparável a Tertuliano; e
de Dublin como decano, em ostracismo político e literário; a crítica moderna já não duvida do seu cristianismo. The
depois, as relações infelizes com Esther Vanhomrigh, a Tale of a Tub é uma sátira incrível contra a história ecle-
"Vanessa" dos seus poemas, que morreu alquebrada pela siástica: Swift zomba de Peter que escondeu dos irmãos
atitude impiedosa do amante; enfim, a doença mental, a o testamento do pai e baseava a fé no uso de vestidos rica-
morte em desespero, e o epitáfio, escolhido por ele mesmo: mente ornamentados; de Martin que tirou apenas alguns
1310 OTTO M A R I A CARPEATJX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1311

ornamentos e acreditava tudo resolvido; e de J a c k que, entre assunto e estilo, sugerir o horror. O pessimismo
tirando todos os ornamentos, rasgou o próprio terno e ves- cristão de Swift é o do homem barroco. Mas o instrumento
tiu-se de farrapos — Swift zomba do catolicismo, do lu-
de agressão é o racionalismo; o resultado é a dissimulação,
teranismo e do puritanismo. A Igreja Anglicana, a da via
a "pseudomorfose" do estilo clássico, das frases sonoras e
media, é poupada. Isso não quer dizer que Swift s e tivesse
bera construídas. A ambiguidade é a dos poetas "metafí-
identificado com a Igreja oficial, da qual era dignitário
e pretendeu ser bispo; no panfleto contra os deístas, sobre sicos", embora à s avessas: o riso veemente e como reflexivo
Abolishing of Cbristianity, defende a religião de maneira de Swift é a imposição de uma inteligência lucidíssima a
muito estranha, salientando-lhe a capacidade de fornecer uma grande alma, nobre e ferida.
pretextos e subterfúgios para consagrar as atividades mais A o lado de Swift, seu amigo John Gay ( 21 ) parece
profanas e até infames. Como religião autêntica, Swift poeta menor e satirista manso da sociedade do Rococó
só admite o cristianismo hostil ao mundo, o pessimismo inglês e das suas modas; na verdade, é êle que tira, com
cristão. Essa atitude é bem a de um satírico — todos os a inocência de uma criança amoral, as últimas conclusões
grandes satíricos são pessimistas — mas não a de um revo- do pensamento swiftiano. A sua poesia é realmente "me-
lucionário; revolução e pessimismo são incompatíveis. Aí nor" : são "vers de société" meio anacreônticos — mas esse
está a contradição em Swift: entre o rigorismo cristão poeta da sociedade saberá ferir mortalmente. Gay é dos
do seu critério moral positivo, e o racionalismo subversivo
primeiros boémios da literatura inglesa; o seu ambiente é
da sua crítica negativa. As contradições de Swift podem
Londres, a primeira grande cidade europeia, cheia de um
ser explicadas, em primeira análise, pela sua psicologia mór-
proletariado de ladrões, mendigos e prostitutas, o lixo da-
bida, de homem impotente, fracassando nos amores, cheio
quela sociedade aristocrática do Rococó, os destroços mi-
de raiva contra a "sujeira fisiológica" que a natureza lhe
negara e que é a fonte da continuidade da espécie. Desse seráveis do êxodo dos campos, dos quais os lordes e os
modo, Swift pretendeu purificar a humanidade, desejando, burgueses enriquecidos se apoderaram. Trivia é o primeiro
ao mesmo tempo, o fim radical do género humano. Para a poema da grande cidade na literatura europeia. Gay já sabe
sátira, Swift usou, por assim dizer, os instrumentos científi- fazer debunking: desmascarar as fachadas brilhantes, re-
cos recém-descobertos do seu tempo: o telescópio e o mi-
croscópio, nos quais as criaturas observadas parecem anãos
ou gigantes. Mas a mentalidade de Swift é menos "moder- 21) John Gay, 1685-1732.
Rural Sports (1713); The Shepherd'8 Week (1714); Trivia, or the
na". Suas poesias revelam-lhe a incapacidade de modelar Art of Walking the Streets (1716); Fables (1727, 1738); —
a frase poética como P o p e ; e os seus períodos não se pare- The Beggars Opera (1728); Polly (1729) .
XJiúc& edição das obras completas (com introdução, por Sam.
cem com os períodos ciceronianos de Johnson. Pela con- Johnson), 6 vols., London, 1795.
dição social de "secretário" e clérigo, Swift é "arcaico", Edição de obras escolhidas por G. C. Faber, London, 1926.
pertencendo à época anterior a Addison e Steele, até an- Edição da Beggar's Opera por F. W. Bateson, London. 1934.
L. Melville: Life and Letters of John Gay. London, 1921.
terior a Dryden. A famosa clareza da sua prosa, nos pan- W. E. Schultz: Gay"s Beggar"s Opera. Newhaven, 1923.
fletos, não tem nada com a clarté dos clássicos franceses; W. H. Irving: John Gay'$ London. London, 1929.
não serve para esclarecer o assunto, mas para, pelo contraste W. Empson: Somi Versions of Pastoral. London, 1935.
W. H. Irving: John Gay Favorit of the Wits. Durham, 1940.
S. M. Armens: John Gay, Social Critic. New York, 1955.
1312 OTTO M A R I A CABPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1313

velar os fundamentos podres. As suas poesias pastoris, "pseudomorfose" que criou o classicismo francês. A prosa
"Rural Sports" e "Shepherd's Week", paródias humorís- classicista de Swift é expressão semelhante, mas de pro-
ticas da falsidade bucólica, denunciam diretamente a misé- funda s e r i e d a d e ; Swift não é jamais esteticista. Quando,
ria da crise agrária. Enfim, aconselhado por Swift, Gay porém, a consciência moral cede o lugar à consciência me-
escreveu um "Newgate pastoral", a égloga dos criminosos ramente artística, nasce uma literatura de "ficção", não
profissionais de Londres; mas desta vez, o ataque é indireto, no sentido do género "ficção", mas no sentido de apresentar,
et pour cause. The Beggar's Opera dá-se ares de paródia intencionalmente, apenas jogos da imaginação. O fenómeno
da grande ópera italiana, que Haendel tinha importado
é algo comparável ao da literatura hedonista da Contra-
para a Inglaterra; apresenta os ladrões e prostitutas dos
Reforma italiana. Os "vers de société" de Gay pertencem
bas-fonds de Londres como se fossem aristocratas heróicos
a esse género de poesia, antecipado pelos oportunistas
e grandes damas, cheios de nobres sentimentos de honra.
Waller e Cowley; e não foi por mero acaso que Cowley
O amofalismo da peça é o mesmo da comédia da Restau-
ração: o vício triunfa. A vítima da sátira é a nova bur- foi considerado, durante o século X V I I I , como um dos
guesia que, assim como aqueles ladrões no palco, macaqueia maiores poetas de língua inglesa. Prior ( 23 ) seria o repre-
os costumes da aristocracia. Desse modo, o sentido da sentante principal, ao lado de Gay, da Arcádia inglesa.
sátira é reacionário e revolucionário ao mesmo tempo: os Assim como Gay, Prior fêz tentativas de poesia popular;
ladrões modernos, pretende Gay dizer, parecem-se mais com Henry and Emma é uma versão famosa, mas mal sucedida,
os aristocratas de outrora do que os "nobres" de hoje. Como da balada popular The Nut-brown Maid — em todo o caso,
sempre, nos começos de transições sociais, o plebeu alia-se antecipação longínqua do popularismo pré-romântico. Em
à classe vencida contra os vencedores. Passada a crise so- poemas didáticos como Alma, or the Progress oí the Mind,
cial, a Beggafs Opera deixou apenas a impressão de u m Prior aproxima-se do pessimismo de Swift. Mas não chega
quadro Rococó encantador, valorizado pelo humorismo dos ao amoralismo plebeu de Gay. O máximo da sua expressão
pormenores policiais. As versões modernas que, no século é ligeira sensualidade, herança do libertinismo da Restau-
XX, renovaram o sucesso da velha peça, revelaram-lhe o ração. Prior é um La Fontaine menor, e quase goza, na
sentido mais geral e permanente: a inversão de todos os Inglaterra, da popularidade permanente do poeta francês
conceitos morais acompanha sempre as grandes crises so-
na França; essa popularidade sobreviveu às mudanças do
ciais. A sátira amoralista da Beggafs Opera é a última
gosto literário, e não vale discutir o poeta menor. A dis-
conclusão da sátira moralista de Swift.
cussão começa quando se trata, dentro do mesmo estilo,
Existência e obra de Swift desmentem a identificação de um poeta maior; e Pope corresponde a essa definição.
habitual do racionalismo com o espírito burguês ou até
revolucionário; o racionalismo presta os mesmos serviços
ao pessimismo barroco de Swift e ao otimismo plebeu de
23) Matthew Prior. 1664-1721.
Gay. A síntese seria um otimismo aristocrático, que toma Poems on Several Occasions (1709-1718).
a sério a fachada da nova sociedade inglesa, que se dá Edição por A. R. Waller, 2 vols., Cambridge, 1905/1907.
ares de aristocratismo, embora sendo fundamentalmente F. Bickley: Life of Matthew Prior. London, 1914.
L. G. W. Legg: Matthew Prior, a Study of his Public Career and
burguês. Essa mentalidade é, até nos pormenores, a da Corresponãence. London, 1921.
1314 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1315

Por isso, Alexander Pope ( 24 ) gozou durante o século Elegy to the Memory of an Unfortunate Lady. A epopeia
X V I I I de uma fama imensa e internacional; depois, nega- herói-cômica The Rape of the Lock — "Puffs, powders,
ram-lhe a própria qualidade de poeta. P o p e teria sido ape- patches, Bibles, b i l l e t - d o u x . . . " — quadro encantador da
nas artista frio; Wordsworth e Keats odiavam-no, e todos vida ociosa d o s aristocratas ingleses do Rococó, parecia
os victorianos lhe desprezaram a poesia satírica, carecendo de "uma insignificância perfeita" a Hazlitt, ao passo que
da famosa "high seriousness" de Matthew Arnold. Mas De Quincey salientou, com razão, o parentesco desse mundo
por volta de 1920, houve um "Pope Revival": Edith Sitwell feérico com o reino das fadas de Shakespeare. Hoje, parece-
celebrou a qualidade incomparável do seu verso. A crítica nos outra vez, "monumento de uma época, construído de
já não achou paradoxais os elogios que Byron dedicara "vers de société". O elogio de Byron compreende-se me-
a Pope, "o mais impecável dos poetas ingleses", e à sua lhor, prestando-se atenção aos últimos versos da famosa
poesia, "o único templo grego em língua inglesa". A moda norma de estilo poético de P o p e :
de 1920 passou. Fala-se hoje de Pope com entusiasmo me-
nor. Mas admite-se que foi artista extraordinário; só artista,
"True ease in writing comes from art, not chance,.
mas revelando, às vezes, emoções poéticas. Ao Windsor
As those move easiest who have learn'd to dance."
Eorest não se pode negar o sentimento fresco da natureza
inglesa. Pope é capaz de melancolia comovida, como na
Nietzsche, o grande admirador da Dança, teria gostado
dessa definição da poesia, talvez comparando Pope a Mo-
zart, ou mesmo a Racine. Pois, assim como o francês, Pope
24) Alexander Pope, 1688-1744. sabe transformar em ligeireza divina tudo o que é pesado,
Essay on Criticism (1711); The Rape of the Lock (1712); Windsor
Forest (1713); The Iliad (1715/1720); Elegy to the Memory of an até a regularidade do seu metro, o "heroic couplet", versos
Vnfortunate Lady (1717); Odyssey 1725/1726); Dunciad (1728/ aforísticos de trivialidade evidente, rimados sem "enjam-
.1742); Moral Essays (1731/1735); Essay on Man (1732/1734); Imi-
tations of Horace (1733/1793). bement", de concisão epigramática e construção perfeita.
Edição por W. Elwin e W. J. Courthope, 10 vols., London, 1871/ Os limites dessa arte revelam-se na tradução de Homero,
1889.
L. Stephen: Alexander Pope. London, 1880. digna de Dryden como obra de uma grande inteligência
J. Dennis: The Age of Pope. London, 1894. artística, mas feita pelo espírito mais anti-homérico de to-
Ed. Sitwell: Alexander Pope. London, 1930.
E. Andra: Uinfluence française dans Voeuvre de Pope. Paris, dos os tempos. Pope não é clássico, é apenas classicista,.
1931. o mais impecável dos classicistas. Pelo rigor da doutrina
R. K. Root: The Poetical Career of Alexander Pope. Princeton. e pela arte de rimar, no Essay on Criticism supera o pró-
1938.
G. Tillotson: On the Poetry of Pope. Oxford, 1938. prio Boileau. Pela trivialidade conformista do pensamento,
W. Sypher: "Arabesque in Verse". (In: Kenyon Review, VTI/3, o Essay on Man bate os classicistas franceses mais fasti-
1945.)
B. Dobrée: Alexander Pope. London, 1951. diosos. Este Essay on Man forneceu, porém, à língua in-
G. Wilson Knight: Laureate of Peace. On the Genius of Ale- glesa um tesouro maior de citações e locuções proverbiais
xander Pope. London, 1954.
R. W. Rogers: The Major Satires of Alexander Pope. Urbana. do que qualquer outro livro, excetuados a Bíblia e Hudibras
1955. — que é a expressão perfeita do common sense; e o século
A. L. Williams: Pope's Dunciad. A Study of his Meaning. Lon-
don, 1955. X V I I I descobriu no Essay on Man até profundidades filo-
R. P. Parkin: The Poetic Workmanship of Alexander Pope. sóficas.
London, 1956.
1316 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1317

"Ali are but parts of one stupendous w h o l e . . . nha, uma horda de Martins Scriblerus, e contra eles lançou
Ali Nature is but Art, unknown to thee; as suas brilhantes sátiras literárias. A Dunciad não tem a
Ali Chance, Direction, which thou canst not s e e ; força moral das sátiras de Dryden, mas é mais venenosa.
Ali Discord, Harmony not understood; Esse classicista ortodoxíssimo era uma revoltado insatis-
Ali partial Evil, universal G o o d . . . " feito, uma natureza subversiva. De Quincey já advinhou
nele os instintos de anarquista. Justamente na Dunciad,
— a harmonia preestabelecida de Leibniz, versificada; uma Pope eleva-se, uma vez só, à grandeza de uma visão poética:
teodicéia do otimismo racionalista, culto do Universo tão
belo e perfeito que já não precisa de intervenções divinas. "Lo! thy dread Empire, Chãos! is restor'd;
Pope, católico por nascimento, aproximou-se bastante do Light dies before thy uncreating word:
deísmo do seu amigo Bolingbroke; e, como este, foi rea- Thy hand, great Anarch! lets the curtain fali;
cionário político. O sentido imediato do famoso verso: And Universal Darkness buries Ali."

"One truth is clear, Whatever Is, Is Right" Passagens como estas são raríssimas em Pope. Prevalece,
em geral, o tom do ceptcismo mundano, limitando-se à
é filosófico, mas Pope tira uma conclusão dura: expressão inequívoca de verdades geralmente aceitas. A
poesia "filosófica" de Pope parece trivial quando inter-
"Order is heaven's first l a w . . . pretada como metrificação de um sistema metafísico; é,
Some are, and must be, greater than the rest, porém, o cume de um classicismo autêntico quando inter-
More rich, more w i s e . . . " pretada como equilíbrio precário de um mundo poético,
continuamente ameaçado pela realidade caótica. O próprio
A doutrina serviu tão bem à Constituição aristocrática Pope foi uma alma caótica, mantida em equilíbrio pela
("more wise") da Inglaterra, como às aspirações da nova clareza racional de uma grande inteligência, inteligência
burguesia inglesa ("more rich"). O "templo grego" da poe- de aleijado que chega a dançar nos versos. Pope foi mais
sia de Pope é uma antecipação da arquitetura política de feliz do que Swift; não na vida, mas na poesia.
Maurras. Como este, Pope é surdo. É um grande arquiteto, O acorde "classicismo — pessimismo — racionalismo",
sem senso pela música das esferas. A sua poesia — a expres- que se encontra assim apenas na literatura inglesa e, mesmo
são mais perfeita do Rococó — é uma série de "variazioni nela, só na primeira metade do século XVIII, produzido
senza tema"; daí a indispensabilidade do metro rigoroso, pela desarmonia entre a evolução progressista da sociedade
lei secreta de uma "arte de arabescos" em torno de uma inglesa e a situação incerta do escritor inglês, já sem patrão
sociedade de escravocratas. A sua alma poética tem a cla- aristocrático e ainda sem público certo. Samuel Johnson ( 2 5 ),
reza diáfana de vidro; por dentro, há — no próprio poeta
— os instintos de dominação. Pope, aleijado, doente, bri-
25) Samuel Johnson, 1709-1784.
galhão, vaidoso, estava cheio de ressentimentos. A fantasia London. A Põem (1738); The Vanity of Human Wishes (1749);
do Rape of the Lock é o seu sonho de beleza; na realidade Irene (1749); The Rambler (1750/1752); The Idler (1758/1760);
The History of Rasselas (1759); A Dictionary of the English Lan-
só acreditava encontrar concorrentes imbecis e sem vergo- guage (1755); Lives of the English Poeta (1779/1781). (A vida de
1318 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1319

o último (dir-se-ia póstumo) representante daquele classicis- nário, na crítica e na s u a própria literatura de imaginação.
mo reacionário, estava consciente da situação. Na biografia As sátiras — London, A Põem, The Vanity of Human
de um amigo malogrado, o poeta Richard Savage, exprimiu Wishes — imitações de Juvenal, exprimem o mesmo pessi-
toda a amargura das suas próprias experiências dolorosas mismo cristão de Swift mas sem a veemência dele, o mesmo
de escritor mercenário, sofrendo fome, fazendo traduções protesto social de Gay mas sem coragem revolucionária.
miseravelmente pagas e trabalhos de ghost writer para os The History of Rasselas é um romance satírico, de mora-
editores da Grub Street; enchendo-se, como correspondente lismo trivial. The Rambler e The Idler são "semanários
parlamentar do Gentleman's Magazine, de indignação contra morais", quarenta anos depois de o género sair da moda.
o falso liberalismo dos políticos; pontificando como boémio Irene, uma tentativa infeliz de tragédia clássica. Enfim,
sujo entre os amigos de condição igual, em Turk Head's The Lives of the English Poets, obra-prima do classicismo
Cofee-house. E este Johnson, scholar de erudição anti- míope, elogio desmesurado de Cowley e Pope, censuras
quada, moralista sonoro e trivial, estilista pomposo, chegou absurdas contra Donne e Milton e biografias respeitosas
a impor a sua vontade ditatorial à literatura inglesa. Pri- de uma turma de poetas esquecidos, tudo isso numa prosa
meiro, dominou pela grosseria da conversa os amigos do artificialíssima, ciceroniana, complicada e sublime — um
seu clube — os Goldsmith, Garrick, Burke, Reynolds. De- pesadelo dos colegiais ingleses aos quais se costuma dar
pois, pelo grande Dictionary of the English Language, a obra como presente de Natal. Johnson, apesar de tudo,
chegou a tornar-se ditador da língua inglesa. Finalmente, chegou a ser um grande escritor — assistimos atualmente
impôs à posteridade a sua glória literária. Johnson é reacio- a uma verdadeira revalorização de Johnson. A sua sátira
não tem a grandeza de um Dryden nem a graça de um
Pope, mas algo da fúria de Swift — é hoje o próprio J.
S. Eliot que lhe acha dignas de Juvenal as sátiras, pela
Richard Savage é de 1744.)
Edição das obras completas, 16 vols., New York, 1903. precisão do verso, pela justeza do sentimento disciplinado.
Edição das sátiras por T. S. Eliot, London, 1930. Nas poesias religiosas — Johnson foi homem de profunda
Edição das poesias por D. Nichol Stnith e E. L. Mac Adam,
London, 1941. religiosidade — treme uma angústia secreta, tanto mais
Edição das Lives of the Poets por G. B. HM, 3 vols., Oxford, comovente nesse boémio vaidoso e desesperado; a elegia
1905.
L. Stephen: Samuel Johnson. London, 1878. em homenagem ao Dr. Levet e o "poema horaciano" são
T. Secombe: The Age of Johnson. London, 1899. considerados, pelo crítico americano Gregory, como obras
W. Raleigh: Síx Essays on Johnson. London, 1910.
I. Bailey: Dr. Johnson and His Circle. London, 1913. permanentes. Talvez Johnson tivesse sido grande poeta
P. H. Houston: Dr. Johnson, a Study in Eighteenth Century entre os "metaphysical poets" que o seu classicismo dou-
Humanism. Cambridge, Mass., 1923.
H. Kingsmill: Samuel Johnson. London, 1933. trinário desprezou. Johnson teve a coragem de estar contra
W. K. Wimsatt: The Prose Style of Samuel Johnson. New o seu tempo, no estilo e na política, êle, o tory, conservador,
Haven, 1941.
Ch. G. Osgood: "Johnson". (In: Poetry as a Means of Grace. partidário do rei e da Igreja. As vezes, "contra o tempo"
Princeton. 1941.) significa "mais avançado do que o tempo". Apesar de fazer
H. Gregory: "Dr. Johnson's Poetry". (In: The Shield of Achil- restrições, contribuiu poderosamente para a reabilitação de
les. New York, 1944.)
J. W. Krutch: Samuel Johnson. New York, 1944. Shakespeare. Johnson é crítico puramente intelectual, cheio
J. H. Hagstrum: Samuel Johnson's Literary Criticism. Minnea- de preconceitos extraliterários, mas às vezes de penetração
polis, 1952.
W. J. Bate: The Achievement of Samuel Johnson. Oxford, 1955.
1320 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1321

surpreendente. Subjugou os criticados, fossem eles mortos todos os tempos. Estudos recentes e a descoberta da massa
e vivos. Soube impor-se. imensa de papéis inéditos de Boswell, diários de viagens,
Hoje, impõe-se de novo. O século X I X , intimamente diários íntimos, e t c , revelaram um Boswell diferente, um
romântico, desprezou-o, porque Johnson, homem da cidade, homem de g r a n d e talento literário, talvez superior ao bio-
da Grub Street, foi um anacronismo já na época da melan- grafado. Em todo o caso, o Johnson da biografia é superior
colia paisagística do pré-romantismo. J . S. Eliot e os seus ao Johnson d a realidade. É, com os seus hábitos de mestre-
discípulos ingleses e americanos classicistas, porque estão escola e boémio, pobre jornalista e ditador literário, opo-
contra o tempo, apreciam-no de novo como uma espécie sicionista obstinado e angustiado religioso, gigante sujo,
de "republicano histórico". Na poesia de Johnson há um meio imbecil, meio penetrante, uma figura humana com-
equilíbrio seguro entre o grande gesto "romano" e a me- pleta; uma grande criação. Magistral é também a descrição
lancolia religiosa — equilíbrio mais seguro do que na sátira do ambiente, o clube dos Goldsmith, Garrick, Burke, Rey-
barroca de Swift e nos arabescos rococó de Pope. Johnson nolds, em t o r n o de Johnson, e o leitor admira-se apenas
parecia reacionário, porque foi o único que continuou com de que o crítico haja dominado toda essa gente superior,
autoridade a obra de Dryden — atitude de homem de letras mais avançada em todos os sentidos. Em comparação com
autêntico. eles, Johnson é um reacionário, inimigo de Milton e admi-
O maior monumento da autoridade indestrutível de rador hesitante de Shakespeare em época de pleno pré-
Johnson não é uma obra do próprio Johnson, mas a bio- romantismo. Na verdade, Johnson impôs-se pela sua per-
grafia dele, que o discípulo James Boswell ( 26 ) escreveu. sonalidade moral. É reacionário no sentido de que a sua
Esse panorama literário, teatral e político, da Londres de existência boémia se parece mais com a de Dryden do que
1760, com Johnson no centro, tem algo de um pequeno com a de Wordsworth ou Byron. Com Johnson, o escritor
Universo, comparável ao Diary de Pepys, também pelas profissional conquistou a independência a que Dryden
minúcias ridículas que o discípulo fidelíssimo notou com aspirava. A carta, em que Johnson rejeita a proteção de
respeito comovente. Entre os historiadores da literatura Lord Chesterfield para o Dictionary — carta cheia de in-
inglesa existe o hábito de zombar de Boswell, da sua leal- dignação e de orgulho justificado — é a "declaração de
dade quase imbecil a respeito do mestre que divinizou. independência" da literatura. Johnson significa o fim de
O instinto da nação inglesa, porém, reconheceu na Life of uma época e o começo de uma nova era.
Samuel Johnson a maior biografia da língua e talvez de O elemento reacionário em Johnson é a forma, o clas-
sicismo doutrinário, realizado nos poetas da época, todos
parecidos pela monotonia do estilo. Nenhum deles tem a
26) James Boswell, 1740-1795. perfeição de Pope, nem sequer a graça de Prior e Gay.
Journal of a Tour to the Hebrides with Samuel Johnson (1789);
The Life of Samuel Johnson (1791). Foram famosíssimos na época, em parte graças à crítica
Edição por A. Glover e A. Dobson, 3 vols., London, 1901. benevolente de Johnson; e seus nomes perpetuam-se ainda
The Private Papers from Malahide Castle, edit. por G. Scott e
F. A. Pottle, 18 vols., Oxford, 1928/1934. na memória da nação, pelas apreciações de Hazlitt, pelas
C. B. Tinker e F. A. Pottle: A New Portrait of James Boswell. citações como epígrafes de capítulos nos romances de W a l -
Cambridge, Mass., 1927.
C E . Vulliamy: James Boswell. London, 1932. ter Scott, por algumas amostras conhecidíssimas nas anto-
D. B. Wyndham Lewis: The Hooded Hawk or The Case of Mr. logias. E m geral, constituem o setor mais esquecido da
Boswell. London, 1946.
1322 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1323

história da poesia inglesa; e provavelmente nunca voltarão muito, mas j á c o n h e c e a melancolia das ruínas góticas. É
a ser lidos. Mas exprimem uma parcela da alma inglesa, o canto de c i s n e da v e l h a Inglaterra patriarcal. Contudo,
e a leitura paciente revela grande diversidade de menta- a poesia de u m S h e n s t o n e e a de u m Jago n ã o se continua
lidades e atitudes atrás da monotonia do couplet rimado. na poesia pré-romântica, da qual esses companheiros de
Matthew Green ( 2 7 ), o cantor do spleen, é um sectário que geração de J o h n s o n j á são contemporâneos; continuar-se-á
se tornou livre-pensador, epicureu à maneira do "Pensero- — e isso é destino digno da poesia "prosaica" do classicismo
so" de Milton, melancólico e divertido — um "metaphysi- — na prosa clássica dos conservadores Burke e Walter
cal" atrasado. Akenside ( 2 8 ), rico em versos espirituosos Scott, e na poesia satírica do "Anti-Jacobino" Canning.
e citáveis, é retórico demais para o nosso gosto; recente- Quer dizer, ao racionalismo da Ilustração corresponde
uma poesia de estilo reacionário, e neste sentido Johnson
mente apreciam-se de novo os seus acessos de entusiasmo
não é um anacronismo: entendeu bem a significação revo-
shaftesburiano. Shenstone ( , e ) , outrora famoso pelas pom-
lucionária do pré-romantismo e pretendeu opor-se-lhe. É
posas odes pindáricas, foi um apreciável poeta elegíaco e
antes um precursor do conservantismo inglês de 1800; a
teria sido, em outra época, um grande idilista. The School-
Inglaterra, protegida pela sua situação insular, só então
mistress antecipa Goldsmith, e os versos comoventes Writ- sentiu o perigo. No Continente, havia anteriormente e
ten at an Inn at Henley, que constam de todas as antologias, haverá depois alguns classicístas reacionários assim, iso-
têm algo de Wordsworth. Shenstone, amante da poesia lados como em linhas no mar da excitação revolucionária.
popular, é um pré-romântico. E o mesmo se pode dizer O francês Gilbèrt ( 31 ) foi uma dessas exceções; pobre boé-
de Richard Jago ( 3 0 ), pobre vigário em Warwickshire: os mio, cristão devoto em meio dos philosophes da Encyclo-
seus versos classicístas respiram a atmosfera da paisagem pédie, satirista epigramático, um malogrado Pope francês.
inglesa. Jago cansa pelas descrições minuciosas e moraliza Portugal, país política e literariamente atrasado, perma-
necerá uma ilha assim durante muito tempo; viverá até
depois da Revolução de Julho o padre José Agostinho de
Macedo ( 3 2 ), lembrando Johnson pela obstinação em fazer
27) Matthew Green, 1696-1737.
The Grotto (1733); The Spleen (1737). poesia classicista — os seus poemas didáticos são melhores
Edição por R. K. Wood, London, 1925. do que a sua fama — e pelo desrespeito à poesia nacional
28) Mark Akenside, 1721-1770.
The Pleasures of Jmagination (1740).
Edições por G. Gilfillan, Edinburg, 1857, e por A. Dyce, London,
1894. 31) Nicolas-Joseph-Laurent Gllbert, 1751-1780.
Oh. T. Houpt: Mark Akenside, a Biographical and Criticai Study. Ode sur le jugement dernier (1773); Le XVIIImg Siècle (1775);
Philadelphia. 1945. Ode tmitée de plusieurs psaumes (1780).
Edição de poesias escolhidas por P. Perret, Paris, 1882.
29) William Shenstone, 1714-1763. A. Laffay: Le poete Gilbert, elude biographique et littéraire..
Poems upon Various Occasions (1737); The Schoolmistress (1742); Paris, 1898.
Pastoral Ballad (1755); Works (1764).
Edição por G. Gilfillan, Edinburg, 1854. 32) José Agostinho de Macedo, 1761-1831.
A. R. Humphreys: William Shenstone. London, 1937. O Oriente (1814); Newton (1815); Os burros (1827), etc., etc.
Cast. Branco Chaves: "José Agostinho de Macedo". (In: Estudos
30) Richard Jago, 1715-1781. Críticos. Coimbra, 1932.)
Edge-Hill or the Rural Prospect Delineated and Moralized (1767). Cari. Olavo: A Vida Turbulenta do Padre José Agostinho de Ma-
C. H. Poole: Warwickshire Poeta. London, 1914. cedo. Lisboa, 1939.
1324 OTTO MARIA CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1325

a n t i g a ; e ainda p e l a s a t i t u d e s d e b o é m i o m e i o v a g a b u n d o comédia, para a qual o g r a n d e zombador não revelou talento


e de violento panfletista reacionário. O fato mais curioso — faltava-lhe o amor cervantino para criar personagens
é q u e esses católicos a n t i v o l t a i r i a n o s a d m i t e m , e m m a t é r i a cómicos. No r e s t o , conseguiu iluminar todos os assuntos,
l i t e r á r i a , u m só d e u s e m o d e l o : V o l t a i r e . E m V o l t a i r e , a até os mais rebeldes, pela sua inteligência extraordinária.
forma reacionária é menos significativa porém mais carac- A própria epopeia, a Henriade, perfeitamente ilegível hoje
t e r í s t i c a d o que o c o n t e ú d o s u b v e r s i v o . A s á t i r a s u b v e r s i v a em virtude da mistura incoerente de símbolos cristãos e
d e S w i f t e o classicismo d o u t r i n á r i o d e J o h n s o n , u n i d o s intenções deístas, é melhor do que a fama que deixou;
p e l a p o e s i a d e P o p e — eis V o l t a i r e . O " d e s a c o r d o equi- surpreende a força de certas passagens, sobretudo das "pa-
l i b r a d o p e l a i n t e l i g ê n c i a " d á a s í n t e s e d o c l a s s i c i s m o da trióticas", sublimidade falsa e monótona. Voltaire não era
Ilustração. poeta autêntico, nem sequer poeta satírico: a epopeia he-
róico-burlesca Pucelle d'Orléans tem mais espírito do que
Voltaire (s3) cultivou todos os géneros, e todos com
graça e nada d a força dos satiristas ingleses. Mas êle do-
sucesso, menos a grande epopeia, cujo t e m p o passara, e a
mina magistralmente os géneros menores da poesia — o
epigrama, os "vers de société", o poema didático. Em tudo
o que disse há certo lirismo leve, um perfume como do tem-
33) Françols-Marie Arouet, dit Voltaire, 1694-1778. (Cf. "O Neo-
barroco", nota 112.) po entre W a t t e a u e Mozart, crepúsculo suave da época aris-
Epopeia: Henriade (1723/1728); epopeia herói-cómica: La Pucelle tocrática. Até no pessimismo arrasador dos romances satí-
d'Orléans (1755/1771).
Poesia: Epxtre à Uranie (1722); A Afile. Lecouvreur (1729); A ricos, em Zadig, Micromegas, e sobretudo em Candide,
Mme. du Chàtelet (1733); Epitre sur la philosophie de Newton existe algo da ironia poética dos ingleses, se bem que atrás
(1736); Le Mondain (1736); Discours en vers sur VHomme (1737);
Au roi de Prusse (1740); Poème de Fontenay (1745); La loi natu-
rélle (1756); Poème sur le desastre de Lisbonne (1756>; A Mlle.
Clairon (1765); A Horace (1772); numerosas odes, epístolas, epi-
gramas, etc. de Boulainvilliers (1767), etc, etc. Correspondence (mais de
Tragédias: Oedipe (1718); Marianne (1724); Brutus (1730); Zaire 10 000 cartas).
(1732); Adelaide du Guesclin (1734); La mort de César (1735); Edições das obras completas por P . C. de Beaumarchais (edição
Alzire (1736); Le janatisme ou Mahomet (1741); Mérope (1743); de Kehl), 70 vols., 1784/1787, e por L. Moland, 52 vols., Paris,
Sémiramis (1748); Oreste (1749); Rome sauvée (1752); UOrphelin 1877/1883.
Correspondência: primeira edição completa por T h . Besterman
de la Chine (1755); Tancrède (1760); Octave et le jeune Pompée (60 vols. previstos), 1953 seg.
(1767); Les Guèbres (1769); Les lois de Minos (1733); Irene G. Desnoireterres: Voltaire et la société au XVIHe siècle. 8 vols.
(1778). Paris, 1867/1876.
Comédias: Uenfant prodigue (1736); La prude (1740); Nanine J. Morley: Voltaire. London, 1874.
ou Le préjugé vaincu (1749); UÊcossaise (1760). E. Deschanel: Le théâtre de Voltaire. Paris, 1886.
Romances e contos: Zadig (1747); Memnon (1750); Micromegas E. Champion: Voltaire, études critiques. Paris, 1892.
(1752); Candide ou 1'Optimisme (1759); Ulngénu (1767); Uhomme E. Faguet: Voltaire. Paris, 1895.
aux quarante écus (1768); La princesse de Babylone (1768). L. Crouslé: La vie et les oeuvres de Voltaire. Paris, 1899.
Obras historiográficas: Histoire de Charles XII (1731); Le siècle G. Lanson: Voltaire. Paris, 1906.
de Louis XIV (1751); Essai sur les moeurs et 1'esprit des nations G. Brandes: Voltaire, 2 vols. Kjoebenhavn, 1916/1917.
(1756); Histoire de la Russie sous Pierre le Grand (1763). J. M. Robertson: Voltaire. London, 1922.
Panfletos, crítica e t c : Essai sur la poésie épique (1728); Le tem- A. Bellessort: Essai sur Voltaire. Paris, 1926.
ple du goút (1733); Remarques sur les Pensées de M. Pascal N. L. Torrey: Voltaire and the Enlightenment. New York, 1931.
(1734); Lettres philosophiques ou lettres sur les Anglais (1734); E. Faguet: Histoire de la poésie française de la Renaissance au
Êléments de la philosophie de Newton (1738); Extrait des senti- Romantisme. Vol. ^ H . Paris, 1934.
ments de Jean Meslier (1762); Traitè sur la Tolérance (1763); R. Naves: Le goút de Voltaire. Paris, 1938.
Dictionnaire philosophique portátil (1764); Le dlner du comte J. O. Wade: Studies on Voltaire. Princeton, 1947.
1326 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1327

de um estilo muito diferente, estilo lúcido, que é a essência * Assim como Pope, Voltaire mal pode ser apreciado
da sua literatura, sobrevivendo aos géneros que êle cultivou como poeta depois de termos passado pelo subjetivismo
e à sua ideologia de burguês abastado e céptico. Voltaire romântico e p e l o fart pour 1'art simbolista. A sua poesia
pode contradizer-se mil vezes; a unidade da sua obra imensa é mero instrumento de u m homem de ação. A sua obra de
e multiforme é garantida pela permanência do estilo, per- maior importância histórica — as Lettres philosophiques
sonalíssimo sem profundidade, claro e irónico e seco. É a ou Lettres sur les Anglais, que abriram o horizonte fechado
arte da inteligência pura, sem emoção íntima, algo opor- do classicismo francês, introduzindo na França as contro-
tunista e daí sem coerência ideológica nas atitudes literá- vérsias religiosas e sociais dos ingleses — é uma obra de
rias. Nada mais inexato do que a definição de Voltaire, ação social; 30 anos mais tarde, o Dictionnaire phiíosophi-
proposta por F a g u e t : " . . . . un chãos d'idées claires". Vol- que continua da mesma maneira; e os inúmeros panfletos
taire parece-se com Pope e todo o classicismo inglês, pela da velhice constituem a ação eficiente de um jornalista
arte de construir simetrias perfeitas de materiais incoeren- sem par. Séculos futuros compararão provavelmente Freud
tes, de ideias vagas que não se deu o trabalho de analisar a Voltaire, o lutador pela tolerância sexual ao lutador pela
a fundo. A obra de Voltaire é, por assim dizer, um Cosmos tolerância religiosa; assim como muitas coisas que antes
de ideias obscuras. Daí a razão pela qual quase todas as de Freud só era possível cochichar se dizem agora franca-
suas obras sucumbiram ao tempo, tornando-se ilegíveis; mente, assim Voltaire abriu também a boca à humanidade.
mas a obra, como conjunto, permanece, constituindo o maior • Sobretudo os romances e contos satíricos constituem ver-
monumento literário do século X V I I I . dadeiros breviários, menos do livre-pensamento do que do
pensamento livre. Voltaire pode ter errado inúmeras vezes,
"Whatever Is, Is Right." Voltaire vive pela sua enorme pode ter tratado da maneira mais superficial ou frívola os
importância histórica, já passada, e que é preciso explicar assuntos mais sérios — a humanidade deve-lhe a liber-
estilística e sociologicamente. Os géneros que Voltaire dade de poder tratar esses assuntos como cada um entende,
cultivou morreram; a ideologia que professou está aban- conforme a sua capacidade de raciocinar. Outros criaram
donada; as ideias pelas quais se bateu, a tolerância religiosa, a liberdade de procurar a verdade; Voltaire criou a liber-
o bom-senso filosófico, o pacifismo, tornaram-se lugares- dade de errar, talvez a mais preciosa de todas. O seu sorriso
comuns. O que permanece é a versão eficiente que deu a malicioso matou onde o dogmatismo matara. Justamente
certas opiniões, suas ou alheias. Voltaire é em toda a lite- os muitos lugares-comuns bem estilizados de Voltaire nos
ratura francesa a mina mais rica de epigramas, aforismas, lembram a frase de Renan sobre aquele estúpido livre-pen-
chistes, ditos — é o maior daqueles diseurs de bon-mots sador, personagem de Flaubert: " C e s t M. Homais qui a
que Pascal condenara. Escrevendo, não é capaz de supri- raison. Sans M. Homais nous serions tous brulés vifs."
mir um bon-mot que lhe ocorra, seja injusto, embora; o
estilo do qual é dono, acaba dominando-o. Voltaire é um M. Homais era voltairiano. Mas Voltaire não é um M.
estilista. Adotou as convenções do classicismo razoável, Homais. E n t r e o personagem de Flaubert e o autor de
porque lhe permitiram estilizar a Razão, tornar eficiente Candide há precisamente a diferença que existe entre a
a expressão das ideias. Voltaire é um escritor intencional. imbecilidade a inteligência. Depois, a diferença entre os
A sua obra inteira serve às suas tendências. É o maior estilos de viver de dois séculos: entre o estilo cinzento
"instrumentalista" da literatura universal. da época burguesa e os délices pitorescos do Rococó. Por

l
1328 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1329

isso, um é farmacêutico e o outro um grande artista. Vol- considera mais útil saber inglês do que grego; desconfia
taire, burguês de Paris em todos os seus hábitos de pensar, do reacionarismo dos scholais universitários. Até nisso,
é aristocrata pelos instintos artísticos. Representa uma Voltaire não é um Homais, um supersticioso das ciências
burguesia quase nobre, admitida nos salões porque é capaz positivas; o seu anti-humanismo também tem raízes barro-
de participar da "conspicuous consumption" do século e cas. É discípulo dos jesuítas, pelos quais guardou sempre
sabe fazê-lo com espírito e com graça. Voltaire não é um certa ternura, defendendo-os contra o rigorismo dos jan-
nouveau-riche moderno nem um bourgeois-gentilhomme senistas; contra Pascal, o anti jesuíta por excelência, Vol-
barroco; é grande-burguês de uma estirpe muito especial, taire sentiu a mais viva aversão, ao passo que a atitude
de uma época anterior àquela em que "grande-burguês" de uma Mariana lhe inspirou simpatia. Existe uma filiação
significa grande industrial ou grande capitalista. Parece-se entre o autor do Ingeriu e Baltasar Gracián. Com jesuítas
um pouco, pelos negócios financeiros e pelas preferências aprendeu Voltaire a apreciação puramente estilística dos
literárias, aos Pirckheimer e Amerbach da Renascença ale- antigos e o uso "instrumentalista" da literatura para fins
mã, comerciantes cultíssimos, e a sua corte literária em tendenciosos, sobretudo no teatro.
Ferney lembra, muito de longe, a corte dos Medíeis; apenas Aos contemporâneos de Voltaire e a êle mesmo, o seu
com a diferença de que Voltaire não revela simpatias pelo teatro parecia um cume da a r t e ; hoje, as tragédias de Vol-
humanismo nem compreensão da Antiguidade. Voltaire ••, taire já não se representam, já não se lêem; mas um esque-
é o Colbert da literatura. É, sociologicamente, um grande- cimento tão completo não deixa de ser algo injusto. Merope
burguês de estilo barroco; imita, com felicidade, o modo e La Rome sauvée são peças bem construídas; nem a Zaire
de andar da aristocracia. Por isso, o grande liberal cultiva nem a Alzire é possível negar a poesia dos efeitos cénicos;
um liberalismo da elite, desconfia das expressões plebeias e Brandes chamou a atenção para UOrphelin de la Chine,
na literatura e na política. Mas é independente. Fazendo expressão suprema das simpatias do século X V I I I pela
negócios de banqueiro e especulador, Voltaire resolveu, China, país "razoável", sem superstições e cheio de gene-
para si pessoalmente, o problema que Dryden, Pope e rosidade filantrópica. Em geral, porém, o teatro de Voltaire
Johnson não resolveram por completo. A essa situação merece a sua fama. Aborrece-nos o uso da mitologia grega
privilegiada — trata-se de privilégios aristocráticos de um e do metro de Racine para afirmar que
burguês — deve Voltaire a independência do seu pensa-
mento e a liberdade de expressão. Pensar e falar assim
"Nos prêtres ne sont pas ce qu'un vain peuplt
e não derrubar, no entanto, a situação social que conseguira,
pense;
só era possível dentro dessa sociedade meio aristocrática,
Notre crédulité fait tout le"ur science."
meio burguesa, dentro da pseudomorfose do classicismo
francês, prolongada durante todo o século X V I I I ; e esse
O dramaturgo Voltaire é um jornalista tendencioso, ser-
estilo é a única tradição que Voltaire nunca atacou nem
vindo-se de uma extrema habilidade para acumular efeitos
traiu.
cénicos a fim de transformar o palco em tribuna e púlpito
Do espírito da Antiguidade está esse classicismo mais do liberalismo; teatro jesuítico às avessas. A lógica e a
longe do que qualquer outro estilo. Com efeito, Voltaire psicologia dramatúrgicas não o preocupam; o efeito é tudo.
não é humanista; participa da mentalidade burguesa que Daí as complicações "românticas" e melodramáticas, pelas
1330 OTTO M A R I A CARPEAUX
H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1331

quais pretendeu "melhorar" a tragédia raciniana, fazendo,


lingbroke: p r e t e n d e tirar d a história lições para se livrar
na verdade, libretos de ópera sem música, sem verdadeira
do peso das tradições históricas. No fundo, esse conceito
poesia. Ao efeito também servem as famosas "inovações"
moralizante e pragmatista da historiografia serve aos in-
de Voltaire que acreditava ter aprendido no teatro inglês:
tuitos pessoais de Voltaire: negando a tradição, pretende
os assuntos exóticos, os trajes e decorações historicamente
fazer esquecer a sua origem burguesa. Só assim pode co-
exatos e mais alguns artifícios da mise-en-scène. N a ver-
meçar um novo mundo.
dade, a diversidade dos enredos e aqueles efeitos têm outra
Na apreciação desse futuro, Voltaire justifica aquela
fonte: o teatro jesuítico, que Voltaire conheceu nos seus
frase: " un chãos (Tidéees claires." Tem razão em todos
tempos de colégio. Com os jesuítas também aprendeu o
os detalhes, e não tem razão no conjunto. O pessimismo"
uso do teatro para fins moralizantes, se bem que a sua
de Voltaire, herança do Barroco, viu na história apenas
"moral" fosse diferente: já antecipa a thèse do drama
"le tableau des crimes et des malheurs"; o otimismo de
burguês. O duplo anacronismo do teatro voltairiano reside
Leibniz e Pope ensinou-lhe que "le présent accouche de
na deformação racionalista dos assuntos históricos, e, por
1'avenir". Pretendeu "écraser rinfâme", mas esse porta-
outro lado, na antecipação do teatro burguês do século
voz maior do anticlericalismo francês não acreditava na
X I X — Augier e Dumas Filho traduzirão a linguagem
possibilidade d e extirpar o mal; e a última conclusão do
dramatúrgica de Voltaire para a prosa do juste-milieu.
seu pessimismo é a expressão perfeita de um outro ideal
Voltaire, antecipando-se anacreônticamente ao seu tempo e
francês, mais modesto: " . . . . mais il faut cultiver son jar-
ao seu próprio estilo, terminou a obra de Dryden: destruiu,
din". O "presente accouche" nos versos
agindo por dentro, a tragédia clássica, criando as conven-
ções do teatro moderno; mas o anacronismo classicista da
sua forma assegurou-lhe o fim ambicionado, o sucesso con- "Si 1'homme est créé libre, il doit se gouverner;
temporâneo, embora não fosse sucesso permanente. Si 1'homme a des tyrans, il les doit détrôner."

"Anacronismo" é a palavra-chave da obra de Voltaire.


não é mais do que versificação trivial dos exercícios de
Mas esta palavra nem sempre significa uma censura. Gran-
retórica in tyrannos, no colégio dos jesuítas. No mesmo
de literatura é sempre anacrónica. O anacronismo pode
colégio aprendeu Voltaire que "certes erreurs sont réser-
servir até à literatura historiográfica, porque não é possível
vées aux philosophes, d'autres au peuple"; e o profeta das
compreender épocas remotas sem certas deformações da
"semences d'une révolution qui arrivera immanquablement"
"verdade" dos documentos. Voltaire, como historiógrafo,
("Les jeunes gens son bien hereux;.ils verront de belles
documentou-se bem. Preconceitos veementes impediram-
choses", diz Voltaire numa carta de 1764) tinha bastante
lhe a compreensão da Idade Média; mas sem preconceitos
"espírito de elite" para escrever dois anos depois: "II est
ter-se-ia perdido no relativismo, teria sido incapaz de acei-
à propôs que le peuple soit guidé et non pas qu'il soit
tar a época de Luís XIV, teria sido incapaz da construção
instruit." Os padres Tournemine e Porée teriam reconhe-
imponente do Essai sur les moeurs et Vesprit des nations,
cido, nesta frase, o aluno. Voltaire é prudente, um "grande-
o primeiro esboço de uma verdadeira história universal
burguês" prudente. ( Muito do que parece superficialidade
da civilização. O anacronismo da historiografia de Voltaire
é reserva intencional — mais um aspecto do seu instru-
não é casual. Na aparência obedece aos conselhos de Bo-
mentalismo pelo qual êle é o antípoda de Pascal. Voltaire,
H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1333
1332 OTTO M A R I A CARPEAUX

discípulo indireto do maquiavelismo pragmatista de Gra- tori. embora antimarinista, aparecem veleidades heréticas,
cián, é discípulo direto do empirismo de Locke. Os "es- que se acentuam na estética de Gravina ( 8 4 ) : este con-
paces infinis" da ciência não o assustam, mas parecem-lhe terrâneo de Campanella e contemporâneo de Viço antecipa
símbolos do progresso infinito. Influenciou-o sobretudo o certos conceitos pré-românticos; mas Gravina também é,
pragmatismo dos ingleses — a filosofia burguesa. Até os afinal, o legislador d a Arcádia, e quem lhe realizou os
efeitos cénicos do seu teatro exprimem a vontade de agir ideais literários foi Metastásio. A Itália de Maffei, Gol-
com prudência e eficiência. Nenhum outro escritor do doni e Parini não deixará de ser classicista, se bem que
século X V I I I foi tão capaz de transfigurar em expressões com espírito burguês muito marcado. O legislador poético
artísticas o espírito prático, antiartístico, da classe em as- da Espanha burbônica, Ignacio de Luzán ( a o ), tampouco
censão ; mas Voltaire pertenceu só pela metade a essa classe. renegou de t o d o as tradições nacionais; está mais do lado
A burguesia francesa não tem as mesmas origens espiri- de Muratori q u e do de Boileau, e o seu liberalismo estético
tuais da anglo-saxônica; era meio jesuítica, meio janse- criou um ambiente favorável à crítica de Feijóo e à rápida
nista, em todo o caso meio barroca. Em virtude das origens evolução de sentimentos pré-românticos na Arcádia espa-
barrocas da sua situação de "grande-burguês", Voltaire foi nhola. Ao lado da tragédia classicista de Montiano, Nico-
capaz de adaptar aos novos fins o estilo do passado, de- lás Fernández de Moratín e Garcia de la Huerta, aparece
teriorando-o, mas agradando a todos. Não estava bem a comédia burguesa de Leandro Fernández de Moratín, e
consciente dessa situação; mas no reino das construções o sucessor espanhol de Metastásio já se chama Meléndez
conscientes, se bem que artificiais, a sua inteligência triun- Valdês.
fou. Construiu, de "idées peu claires", um "cosmos", a As nações germânicas e eslavas aceitaram com maior
expressão completa da sua época. Para nós, hoje, a sua facilidade o classicismo voltairiano; faltavam-lhes ou es-
obra em conjunto já não existe. Morreu para sempre o tavam interrompidas as tradições nacionais; e em alguns
antipascaliano Voltaire; mas vive para sempre Candide, o casos parecia a imitação francesa o caminho indicado para
pessimista mais inteligente de todos os tempos. E por que revivificar literaturas sonolentas ou criar literaturas novas.
vive Candide? Porque as maldades e imbecilidades que lhe O afrancesamento mais rápido deu-se na Holanda, onde
encheram o mundo, ainda não desapareceram de todo. Cer- o "humanismo barroco" de um Hooft e um Vondel prepa-
tas reivindicações, muito razoáveis, de Voltaire são hoje_ rara os caminhos do classicismo; a estagnação política,
tão atuais como em 1759. Não adianta negar a atualidade
de Voltaire, porque o seu Universo literário seria minús-
culo, um palácio de paredes de vidro, habitado por esta- 34) Gian Vincenzo Gravina, 1664-1718. tOf. "O Pré-romantismo",
nota 133.)
tuetas de porcelana ao gosto do Rococó — o palacete de Delia ragion poética (1708).
Ferney estava iluminado por uma luz intensa, de lugares- Edição por G. Natali. Lanciano, 1920.
F. Moffa: Gian Vincenzo Gravina. Napoll, 1907.
comuns imortais, que ainda não se apagou. G. Natali: Gian Vincenzo Gravina, letterato. Mllano, 1920.
35) Ignacio de Luzán, 1702-1754.
Com Voltaire, não com Racine ou Boileau, venceu o La Poética o regias de la poesia en general y de sus principales
classicismo na Europa inteira. Houve resistência, no início, espécies (1737).
M. Menéndez y Pelayo: Historia de las ideas estéticas en Espana.
quase só na Itália, onde não foi fácil reconciliar a herança Vol. m / t . I. Madrid, 1891.
humanista com as regras francesas. Na estética de Mura- J. Lano: La poética de Luzán. Toronto, 1928.
1334 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1335

acompanhada de prosperidade económica permanente, é o landa foi a vitória do classicismo na Polónia, país muito
fundamento da chamada "pruikentijd", "época das peru- afrancesado, o n d e Stanislaw Konarski, tradutor de Corneil-
cas", na qual as forças populares da nação se afrouxaram le, precedeu o bispo voltairiano Krasicki e tragediógrafo
e os burgueses vestiram as perucas da corte de Versailles. Felinski; a Zofiowka, de Stanislaw Trembecki, (1723-1812)
Andries Pels, poeta horaciano que morreu em 1681, já tivera é, aliás, um dos melhores poemas descritivos naquele estilo.
oportunidade de traduzir a Art poétique de Boileau, recém- Na Rússia, enfim, o classicismo voltairiano significa o co-
publicada. O século X V I I I holandês foi representado por meço da literatura nacional. Vassili Kirillovitch Tredia-
classicistas como Feitama e os irmãos Van Haren. Ainda kovski (1703-1761), tradutor de Boileau e Fénelon e autor
no começo do século XIX, Bilderdijk, por ser classicista de uma Telemaqueide horrível, é o criador do verso russo; a
ortodoxo, será festejado como "o maior poeta holandês", prioridade cronológica cabe a ele, e não a Lomonossov (ut>),
opinião esquisita que ainda se encontra em manuais escritos que é, no entanto, o primeiro génio da literatura russa:
por estrangeiros. A Holanda será um dos últimos países plebeu, teve carreira vertiginosa, poeta, historiador, filó-
europeus a abrir as portas ao romantismo. Em nenhum logo, cientista cujos conhecimentos enciclopédicos cons-
país germânico, exceptuada a Inglaterra, a civilização es- tituíam uma Academia inteira, Lomonossov realizou o mila-
tava tão fortemente latinizada. Na Escandinávia, o classi- gre de vivificar a ode no estilo de Boileau, tornando-a vaso
cismo entrou sem encontrar resistência, quando o marinis- de emoções profundas, de autêntica dignidade nacional,
mo, depois de ter abolido a tradição nacional, se esgotara. de sentimento da natureza e angústia religiosa. Puchkin,
Em 1721, o sueco Samuel Triewald fêz a primeira tradução que tinha penetrante senso crítico, reconheceu em Lomo-
de Boileau; e Dalin ( s e ) juntou às formas classicistas a nossov o seu predecessor imediato, e a crítica moderna
propaganda do voltairianismo. A intervenção do rei Gus- considera-o como uma das maiores expressões poéticas da
taf I I I , criando no alto Norte uma Arcádia voltairiana, alma russa. Em compensação, Puchkin desprezou o então
transformou o classicismo sueco quase em arte nacional; famoso Derchavin ( 3 8 " A ), cuja ode Deus figurava em todas
o próprio rei colaborou com Kellgren em tragédias clas- as antologias escolares da época tzarista; contudo, os sim-
sicistas. ( 87 ) Na Dinamarca, o atraso político impediu evo-
lução semelhante, não obstante o classicismo molièriano
de Holberg, que era menos voltairiano do que partidário
38) Michail Vassilievitch Lomonossov, 1711-1755.
de Bayle; a aliança entre classicismo e radicalismo político, Meditação Noturna sobre a Majestade de Deus, a propósito da
à maneira de Gustaf I I I , encarnou-se na Dinamarca na Aurora Boreal (1743); Ode sobre a Coroação da Imperatriz Isabel
(1747), etc.
pessoa do ministro Struensee, alemão de nascimento, e o Edição por M. I. Suchomlinov, 5 vols., Pétersburg, 1891/1902.
resultado foi uma reação nacional e tradicionalista. Brun, M. S. Menchutkin: Michail Vassilievitch Lomonossov. 4.* ed.
Pétersburg, 1912.
tragediógrafo voltairiano, aliás natural da Noruega, foi A. Martel: Michel Lomonossov et la langue Uttéraire russe.
esmagado pela sátira de Wessel, e o pietismo vencedor Paris, 1933.
aliou-se ao pré-romantismo. Tão duradoura como na Ho- 38A) Gabriel Romanovitch Derchavin, 1743-1816.
Odes (1776); Deus (1784); A Cachoeira (1791); etc.
Ediçáo da Academia Russa, 7 vote., Pétersburg, 1867/1888.
J. K. Grot: Derchavin. 2 vote. Pétersburg. 1888.
J. Tynyanov: "Â Ode Russa do Século XVIíi". (In: Arcaicos
36) Cf. nota 6. e Inovadores. Leningrad, 1929. Em russo.)
37) Cf. "O Neobarroco como base, etc", nota 34. V. F. Khodassevitch: Dershavin. Paris, 1931. Em russo.
1336 OTTO M A R I A CABPEAUX
H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1337

bolistas russos de 1900 preferiram a sua m ú s i c a verbal à francesa; t a m p o u c o lhe reconheceram os grandes méritos
retórica lomonossoviana. Derchavin converteu-se, aliás, pela purificação da l í n g u a e u m conceito m a i s d i g n o da
mais tarde, ao ossianismo. E m toda a parte, o classicismo literatura. Mas c o m o pioneiro, c o m o reformador literário,
foi derrubado pelo pré-romantismo i n g l ê s o u então p e l o Gottsched s i t u a - s e ao lado de O p t i z e até de L u t e r o . A t é
romantismo dos alemães. hoje se e s c r e v e em alemão como êle escreveu. Mas isso
N a Alemanha, a influência francesa c h e g o u a criar um s e refere apenas às formas gramaticais. O classicismo fran-
caso nacional: depois de um m o m e n t o de vitória absoluta, c ê s era r e a l m e n t e incompatível c o m o espírito alemão; a
s o f r e u o classicismo o s ataques mais duros, e dessa guerra ditadura de G o t t s c h e d f o i absoluta, mas efémera. Os con-
dos espíritos resultou a literatura alemã moderna ( 8 Ô ). O tra-ataques d o s suíços a n g l ó f i l o s Bodmer e Breitinger
Barroco não conseguira criar uma literatura nacional, culta não demoraram; e já p o u c o d e p o i s a crítica implacável de
e popular ao mesmo tempo. Por volta de 1680, justamente L e s s i n g se a p r o v e i t o u da incapacidade criadora de Gotts-
na época em que B a c h e H a e n d e l criarão a maior música ched e da e s t r e i t e z a d a sua estética para entregá-lo a
alemã, a literatura da nação entra numa fase de s i l ê n c i o escárnio e d e s p r e z o imerecidos. Gottsched exercera, n o
m i s t e r i o s o ( 3 9 " A ); durante vários decénios só há poetastros entanto, i n f l u ê n c i a profunda. E x p e r i m e n t o u a desgraça de
lamentáveis. A o s melhores espíritos da época afigurava-se haverem m o r r i d o antes do t e m p o os seus m e l h o r e s discí-
o classicismo francês como o ideal de uma autêntica cultura pulos, os t r a g e d i ó g r a f o s Cronegk e Brawe, e J o h a n n E l i a s
nacional, merecendo a imitação mais assídua. A o m e s m o Schlegel ( 4 1 ) , e x c e l e n t e comediógrafo e um d o s primeiros
tempo, o novo conteúdo desse estilo, o racionalismo, s i g n i - descobridores d e Shakespeare n o Continente. Partidários
ficava para os patriotas na Alemanha atrasadíssima uma d e Gottsched t a m b é m foram Gottlieb W i l h e l m Rabener,
grande esperança. Gottsched ( 4 0 ) , patriota sincero, pre- autor de sátiras espirituosas (Sammlung satirischer Sch-
tendeu estabelecer uma ditadura literária, à maneira de riften, 1751/1755), e sobretudo o famosíssimo fabulista
B o i l e a u , para exterminar o s resíduos barrocos e introduzir, Gellert. O classicismo triunfara n o s géneros menores. O
em formas francesas, o racionalismo da Ilustração. Este maior "classicista ilustrado" alemão, W i e l a n d , é um poeta
aspecto filosófico e social da atividade de Gottsched não menor.
foi devidamente apreciado p e l o s historiadores do s é c u l o
X I X , nacionalistas que detestavam qualquer influência O classicismo da Ilustração fracassou em toda a parte
n o s géneros já irremediavelmente c o n d e n a d o s ; a epopeia
e a tragédia heróica. E m compensação t r i u n f o u em dois
géneros menores, i g u a l m e n t e o b s o l e t o s : a fábula e a epo-
39) F . J. Schnelder: Die deutsche Dichtung vom Ausgang des Barock p e i a herói-cômica, que se prestaram melhor a v e í c u l o s do
bis zum Beginn des Klassizismus, 1700-1785. Stuttgart, 1924.
L. Reynaud: Histoire génerale de Vinjluence française en Alle-
magne. Paris, 1924.
39A) R. Benz: Deutsches Barock, Stuttgart, 1949.
40) Johann Chrlstoph Gottsched, 1700-1766. 41) Johann Elias 8chlegel, 1719-1749.
Versuch einer critischen Dichtkunst vor die Deutschen (1730); Tragédias: Hermann (1743); Canut (1747) .
Der sterbende Cato (1731); Grundlegung einer deutschen Sprach- Comédias: Die stumme Schoenheit (1747); Der Triumph der
kunst (1748); Noetiger Vorrat zur Geschichte der deutschen dra- guten Frauen (1748).
matischen Dichtkunst (1757/1765). R. Benz: Deutsches Barock. Stuttgart, 1949.
E. Reichel: Gottsched. 2 vols. Berlin, 1908/1912. E. M. Wilkinson: Johann Elias Schlegel. A German Pioneer in
Aesthetics. Oxford, 1945.
H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1339
1338 OTTO M A R I A CARPEAUX

pensamento racionalista. Pelo mesmo motivo, conseguiu-se A tragédia classicista tem outro ponto de partida: o
a transformação da comédia molièriana em género novo, Cato (1713), d e Addison, e a Merope (1713), de Maffei
a comédia burguesa de tendências críticas e até revolucio- — a coincidência cronológica não é mero acaso — são
nárias. Em geral, o panorama dessa literatura não é muito menos heróicos do que sentimentais; é o caminho do abur-
simpático. As mediocridades prevalecem. Mas até a enu- guesamento. Trata-se d e uma simplificação e humaniza-
meração seca dos fatos serve para demonstrar a unifor- ção, deliberadas, do teatro clássico-barroco. Tanto Cato
midade internacional do estilo, o último estilo europeu como Merope — peças pré-voltairianas — opõem-se à ópera
antes da desagregação nacionalista da Europa pela Revo- aristocrática. N a Inglaterra e na França, o resultado final
lução e pela contra-revolução romântica. dessas tentativas será o drama burguês de Lillo e de Di-
Quanto à epopeia, o sedutor foi Voltaire. Exceção é derot. Na Espanha, essa tendência encontrou-se com os re-
o Abraham de aartsvader (1726), do holandês Arnold síduos, ainda vivos, do teatro nacional, o que abriu possibili-
Hoogvliet, quase a única epopeia religiosa entre Milton dades a uma síntese entre a tradição e o gosto literário.
e Klopstock; mas não conta. Não compreendemos, hoje Surgiram primeiro os afrancesados "ortodoxos". A Vir-
em dia, o sucesso enorme da Henriade; mas o século X V I I I gínia (1750) e o Ataulio (1753), de Atigustín Montiano
acreditava ter encontrado na obra de Voltaire, a forma y Luyanda, q u e o próprio Lessing admirava, são fracas
adequada de uma epopeia nacional, "patriótica", "cristã" imitações do modelo voltairiano. Nicolás Fernández de
e "razoável" ao mesmo tempo. Não houve nação que não Moratín ( 4 2 ), autor de uma Lucrécia (1763) e Hormesinda
desejasse possuir apoteose assim. A Enriqueida (1741), do (1770), lutou em vão contra os embaraços da forma rígida;
português Francisco Xavier de Menezes, conde de Ericeira; nem o assunto nacional de Guzmán el Bueno (1777) o aju-
De Gevallen van Friso (1741), do holandês Willem van dou. A síntese foi tentada pelo dramaturgo fecundo Vi-
Haren, e os De Geuzen (1776), de seu irmão Onno Zwier cente Garcia de la Huerta ( 4 3 ), voltairiano ortodoxo e
van Haren; A guerra de Chotim (1780), do bispo polonês admirador de Calderón; a sua Raquel, tragédia imponente,
Ignat Krasicki — sempre é a mesma coisa: a monotonia reúne, com efeito, qualidades do teatro nacional espanhol
do estilo e da construção esquemática destrói as intenções com um rigor quase grego da forma, e não sem revelar
de tonificar o sentimento patriótico. Do modelo aproxima- certo sentimentalismo pré-romântico; a Raquel está digna-
se mais Svenska Friheten (1742), do sueco Olof von Dalin mente situada entre duas versões mais famosas do mesmo
— na aristocracia sueca estavam vivas certas tradições assunto, Las paces de los reyes, y Judia de Toledo, de
constitucionais — enquanto que Hermann oder Das befreyte Lope de Vega, e Die Juedin von Toledo, de Grillparzer.
Deutschland (1751), do gottschediano alemão Christian É, na Europa inteira, a melhor obra do estilo.
Otto von Schoenaich já atravessava a fronteira do humo-
rismo involuntário. Até o grande Lomonossov esboçou uma
Petreida; e a Rossiada (1779), de Michail Cheraskov, en-
42) Of. "O Neobarroco como Base, etc.", nota 16.

1
controu ainda leitores entre os personagens de Turgueniev. 43) Vicente Garcia de la Huerta, 1734-1787.
A intenção da epopeia classicista é evidentemente o culto Raquel (1778).
do Estado absolutista, do "absolutismo ilustrado", protetor Edição por E. Fernández Marquês.
do progresso burguês. Cí. E. Cotarelo: Iriarte y su época, Madrid, 1897, e o prólogo
1340 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA. LITERATURA OCIDENTAL 1341

O intuito de celebrar patriòticamente tradições nacio- cos e, imitando imediatamente Corneille e Racine, preparar
nais, vistas anacrônicamente através do absolutismo ilus- um autêntico t e a t r o b u r g u ê s ( 4 4 ), do qual a Merope, de
trado, aparece nos Herrmann (1743) e Canut (1747), de Maffei, fora o primeiro esboço. Martello ( 45 ) tornou-se
Johann Elias Schlegel, sendo a segunda tragédia inspirada notório pela introdução infeliz do verso alexandrino no
em tradições dinamarquesas, porque o alemão Schlegel era teatro italiano; foi imitador obstinado de Corneille, exceção
súdito do rei da Dinamarca; o século X V I I I ainda ignora rara no século X V I I I , raciniano. Interveio o sentimenta-
as bases étnicas, meta-políticas, da nacionalidade. O pa- lismo de Maffei, que influenciou, por sua vez, Voltaire.
triotismo de outros dramaturgos alemães da época veste-se Este sentimentalismo voltou para a Itália, aparecendo como
à antiga: o Codrus (1758), de Johann Friedrich von Cro- racinianismo em António Conti ( 4 6 ), tradutor da Athalie,
* le gk, gottschediano ao qual Lessing não recusou certa de acentos pré-românticos. Conti parece frio porque lhe
admiração; e o Brutus (1758), de J o h a n n Wilhelm von falta o subjetivismo do individualista Alfieri, em cuja obra
Brawe, que já adota o verso branco de Shakespeare. Do- a tragédia clássica, suprema expressão da pseudomorfose
mesmo modo, o Fabricius (1720), do holandês Sijbrand burguesa, saudará a Revolução da burguesia.
Feitama, e o Agon (1769), do seu patrício Onno Zwier
Na fábula, do século X V I I I , que já não é a poética
van Haren. Depois, o francês Pierre-Laurent Buyrette d e
de La Fontaine e sim uma lição moral versificada, nota-se
Belloy criou os modelos da "tragédia nacional": Le siège
tendência semelhante de evolução. No alemão Gellert ( 4 7 ),
de Calais (1765) e Gaston et Bayard (1771). Neste modelo
é moralizante, amavelmente espirituosa, bastante sentimen-
inspiram-se as tentativas do rei Gustaf I I I e do seu poeta
tal, já burguesa, destinada ao público dos "semanários
Kellgren de criar um teatro nacional sueco em alexandrinos,
morais"; introduzindo a língua coloquial na poesia alemã;
(Drottning Kristina, Gustaf Adolf, Gustaf Wasa och Ebba
Gellert tornou-se o autor mais lido da nação no século
Brahe); e o classicismo frio de Karl Gustaf Leopold, autor
X V I I I . Nas fábulas do espanhol Iriarte ( 48 ) aparece a
de Odin (1790) e de uma Virgínia (1803), sobreviverá mes-
mo à experiência política do rei. Na Dinamarca, a Zarine
(1772), do norueguês Johan Nordal Brun, teve sucesso 44) Ch. Dejob: La tragedie française en Italie et la tragedie ita-
efémero; sucumbiu logo à famosa paródia de Wessel. E lienne en France au XVIlie et XIXe siècles. Paris, 1886.
só os especialistas da literatura comparada conhecem de 45) Píer Jacopo Martello, 1665-1727.
Teatro (Alceste, Perselide, I Taimingi, etc; 1715).
nome a Barbara Radziwil (1811), do polonês Alois Felinski. M. Carmi: Píer Jacopo Martello. Firenze, 1906.
É um cemitério literário, não tão vasto, mas tão me- 46) António Conti, 1677-1749.
Quattro tragedie (Giulio Cesare, Giunio Bruto, Marco Bruto,
lancólico como o da epopeia heróica do Barroco, se bem Druso; 1751).
que por motivos contrários. A epopeia do século X V I I A. Zardo: Un trágico paãovano dei secolo scorso. Padova, 1884.
falhara como expressão do falso heroísmo de evasão de uma 47) Christlan Fuerchtegott Gellert, 1715-1789. (Cf. o "Pré-roman-
tismo", nota 85.)
aristocracia humilhada; a tragédia clássica falhou como Fabeln und Ezaehlungen (1746/1748); Das Leben der schwedis-
expressão de veleidades aristocráticas de uma burguesia chen Graefin von G. (1747/1748).
Edição por F. Behrend, 2 vols.. Berlin, 1910.
vencedora. Só na Itália existia uma burguesia não de G. Michael: Christian Fuerchtegott Gellert. Leipzig, 1917.
itouveaux-riches, mas de tradições respeitáveis; ali era até 48) Tomas de Iriarte, 1750-1791.
possível eliminar da tragédia voltairiana os resíduos barro- Fábulas literárias (1782).
E. Cotarelo: Iriarte y su época. Madrid, 1897.
1342 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1343

sátira, pouco mordaz, dirigida contra o mundo dos literatos mais esquisito que pareça, o mesmo da epopeia e tragédia
boémios, cuja existência é um sintoma da ascensão bur- heróicas: celebrar o E s t a d o "nacional" do absolutismo
guesa. Krylov ( 4 9 ), o "La Fontaine russo", que forneceu ilustrado, atacando-lhe satiricamente os inimigos "inter-
à língua mais citações correntes do que qualquer outro nacionalistas", os monges e a Igreja romana. O português
autor, não é nada lafontainiano; é um russo à antiga, gros- Dinis da Cruz e Silva ( B0 ) apoiou com o Hyssope a cam-
seiro, inculto, bem humorado, maledicente, empregando panha antieclesiástica d e Pombal. Na ocasião parecida da
expressões que esmagam. Não é nada revolucionário; o guerra do imperador austriaco José II contra os monges,
seu patriotismo russo revolta-se contra a europeização do Aloys Blumauer imitou as burlescas paródias francesas da
Império meio asiático, e neste sentido é precursor dos Aeneis (Abenteuer des frornmen Helden Aeneas, 1784). Até
eslavófilos. Mas o seu instinto poético é menos reacionário um bispo polonês, Ignat Kraisicki, se lembrou da Batra-
que o seu credo; os versos que diz o pássaro em uma das ehomyomachia homérica para zombar dos monges (Mona-
suas fábulas — chomachia, 1781). Tudo isso parece hoje mais inofensivo
do que foi naqueles dias. Discutível é, porém, a inocência
"Um grande segredo vou a vocês confiar: do Rape oí the Lock, de P o p e : o poema pode ser interpre-
Nas garras de um gato não é cómodo cantar.'* tado como glorificação cómica da vida ociosa e frívola do
"beau monde" inglês, mas também como sátira contra a futi-
— tornaram-se o lema da literatura russa do século X I X . lidade aristocrática do Rococó. Os imitadores preferiram a
Na epopeia herói-cômica do Barroco já havia os germes primeira interpretação; e talvez tenha nascido assim outro
da sátira religiosa e social: o antipuritanismo de Butler, quadro pitoresco e encantador da época das porcelanas,
o anticlericalismo de Forteguerri, a tendência antiaristo- como J3er Renommist (1744), do alemão J u s t u s Friedrich
crática de Tassoni. O século X V I I I começou atenuando. Wilhelm Zachariae, cenas humorísticas da vida dos estu-
E m lugar do antipuritanismo de Butler, a obscenidade dantes de Leipzig.
monótona da Pucelle d'Orléans, de Voltaire. Em vez do A transformação da epopeia herói-cômica em arma lite-
anticlericalismo furioso de Forteguerri, toma-se como mo- rária da luta de classes tem, no entanto, como ponto de
delo a ironia moderada do Lutrin, de Boileau; Gresset partida a variedade graciosa do género, e não o anticle-
o imitou em Vert-Vert. Mas já não se trata da indignação ricalismo de monges foragidos e magistrados galicanos.
de intelectuais contra padres intolerantes. O intuito da Para dar sentido social ao género do Rape of the Lock,
epopeia herói-cômica do século X V I I I é diferente; é, por foi preciso uma consciência social, inexistente no indivi-
dualista rancoroso Pope, mas viva na velha burguesia ita-
49) Ivan Andreievitch Krylov, 1768-1844. liana. Clima propício encontrou-se, na segunda metade do
Fábulas (1809/1811).
Edição crítica por V. V. Kallas, 4 vols.. Petersburg, 1904/1905.
J. Fleury: Krylov et ses fables. Paris 1869. 50) António Dinis da Cruz e Silva. 1731-1799.
W. R. Ralston: The Great Fabulist Krylov anã His Fables. 2.* O Hyssope (publ. 1802).
ed. London, 1871. Edição por J. Ramos Coelho, Lisboa, 1879.
J. I. Alchenwald: "Krylov". (In: Silhuetas Literárias Russas. K. Reinhardstoettner: "Der Hyssope des António Denlz In seinem
Vol. I. Berlln, 1923. Em nisso.) Verhaeltnls zu Boileau's Lutrin". (In: Aufsaetze und Abhandlun-
L. Archangelski: "A obra de Krylov". (In: Literaturi i marksism, f/en, vornehmlich zur Literaturgeschichte. Berlin, 1887.)
IV/V, 1930. Em russo.) T. Braga: A Arcádia Lusitana. Porto, 1899.
1344 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1345

século, na Lombardia, sob o regime suave e ilustrado dos fera de uma velha e fina civilização agonizante na qual
últimos Habsburgos. Vice-reis austríacos como o conde respira a alma nobre d e um grande poeta. Parini se carac-
Firmian promoveram reformas culturais e económicas de terizou a si mesmo, n a ode A la Musa:
toda a espécie, renovaram as Universidades, protegeram
os literatos, permitiram a importação do subversivo pensa- "Colui cui diede il ciei plácido senso
mento francês que tomou, entre os italianos, a feição do E p u r i affetti e semplice costume...
humanitarismo filantrópico. Quando Voltaire, por ocasião E cerca il vero; e il bello ama innocente;
do caso dos protestantes perseguidos, se bateu pela huma- E pasa 1'està sua tranquilla, il core
nização do direito penal, encontrou argumentos nos escritos Sano e la mente."
do seu admirador italiano Cesare Beccaria, no famoso livro
Dei delitti e delle pene (1764), em que se exigiu a abolição Era assim o velho padre, devoto sem superstição, erudito
da tortura e da pena capital. Beccaria pertenceu ao círculo sem arrogância, filantropo sem fraqueza; o último e o mais
de / / Caffè, revista de fins morais e científicos, principal nobre representante de uma Arcádia ideal. Mas já não
órgão da Ilustração na Itália. O seu editor Pietro Verri ( 5 1 ) brinca. É homem sério. J á pode também dizer, com cólera
foi o fundador da economia política moderna na Itália, digna de D a n t e :
partidário da nova psicologia inglesa, o primeiro historia-
dor crítico da cidade de Milão. Eis o ambiente de Parini.
"Me n o n nato a percotere
Mas não foi o ambiente racionalista que criou o poeta
Le dure illustri p o r t e ;
Parini ( 6 2 ) ; em torno da sua obra há outra aura, a atmos-
Nudo accorrà, ma libero,
II regno delia morte.
51) Pietro Verri, 1728-1797. No, ricchezza nè onore
II Caffè (1764/1766); Meditazione sulVeconomia politica (1771); Con frode o con viltà
Discorso sulVindole dei piacere e dei dolore (1773); Storia di
Milano (1783). II secol venditore
Edição do Caffè por L. Collino, Torlno, 1930. Mercar non mi vedrá."
A. Ottolini: Pietro Verri e i suoi tempi. Palermo, 1921.
N. Valeri: Pteíro Verri. Milano, 1937.
52) Giuseppe Parini, 1729-1799. E n t r e esses dois pólos está a poesia de Parini. Primeiro,
11 Oiorno (II Mattino, 1763; 11 Mezzogiorno, 1765; 11 Vespro, La é poeta lírico, não dos maiores, mas dos mais verdadeiros
Notte, 1801/1804); Odi (1780; 1801/1804).
Edição por G. Mazzonl, Firenze, 1925. do século. É classicista atenuado -à maneira do Rococó,
F. De Sanctis: "Giuseppe Parini". (In: Saggi critici, vol. m.) cheio de lugares-comuns: um horaciano como tantos ou-
G. Carducci: "Studi su Giuseppe Parini". (In: Opere, vols. XHI
XIV.) tros, prosaico e didático em odes como La salubrità de
F. Bellorlni: La vita e le opere di Giuseppe Parini. Llvorno, 1926. Varia, VEducazione, II Bisogno. De Horácio não tem
E. Bertana: Studi pariniani. Aquila, 1927.
P. Arcari: Parini. Milano, 1929. apenas o espírito e os metros, mas também a fina cultura,
D. Petrini: La poesia e 1'arte di Giuseppe Parini. Bari, 1930. o equilíbrio de um poeta de uma civilização elevada e
A. Momigliano: "Parini discusso". (In: Studi di Poesia, Bari,
1938). antiga; Parini é mais literato, mais artista, do que poeta.
M. Cilento: VArcádia in Parini. Messina, 1938. De Horácio tem também o ligeiro epicureísmo, atenuado
G. Natali: Giuseppe Parini, uomo e poeta. Bologna, 1952.
L. Caretti: Parini e la critica. Torino, 1953. pela consciência de sacerdote católico, embora meio rácio-
1346 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1347

nalista. Daí resulta uma profundidade do sentimento que o seu coração. Em Parini existe algo de um crepúsculo
o romano ignorava: em odes como "A Silvia", "II pericolo", melancólico m a s sem tristeza, algo da música meio sensual,
"La caduta" há uma sensualidade terna, acabando em me- meio celeste d e Mozart. E não se pode dizer coisa maior
lancolia comovida. Foi sempre o pobre padre, o preceptor sobre um poeta do Rococó nas vésperas da Revolução.
em casas aristocráticas, admirando de longe e sem esperança Dentro da literatura italiana, a poesia de Parini signi-
as senhoras da nobreza de Milão; relegado a segundo plano fica, pelo estilo autenticamente clássico e pela ideologia,
sem amargura, porque a grande força moral na sua alma unia renascença completa: uma nova dignidade viril após
o apoiava. Num mundo de efeminados, era o único homem; dois séculos de degradação moral. Alfieri, Foscolo, Monti
no ambiente de uma aristocracia degenerada, esse plebeu admiravam-no; Manzoni lhe deve algo do seu liberalismo
era o único verdadeiro aristocrata. católico; e Leopardi aprendeu em Parini o uso dos metros
À aristocracia decadente da Lombardia e da Europa clássicos. Dentro do panorama da literatura universal,
dedicou Parini o seu poema. II Giorno é a descrição épica Parini constitui o fim da evolução que começara com P o p e ;
de um dia, de um dia futilíssimo na vida de um "giovin ao mesmo tempo, II Giorno corresponde à carta que John-
signore", do "lever" até a noite no teatro. Muitos amores, son dirigiu a Lord Chesterfield. Foi, enfim, um homem
nenhum trabalho, tudo divertimento e tudo tédio, descrito independente, um verdadeiro intelectual, tão independente
com aquela ironia contínua, mantida, que é uma das coisas que nem podia conformar-se com a Revolução que profe-
mais difíceis em arte. O elemento burlesco do género tizara. Devia pensar assim, por ser italiano. Na verdade, a
desaparececeu de todo, em P a r i n i ; e a frivolidade elegante Revolução que desiludiu tantos entusiasmados da primeira
de Pope é substituída pelo sorriso, ora benevolente, ora hora, destruiu a vida aos numerosíssimos poetas, músicos,
quase cruel. Às vezes, as invenções graciosas de Parini coreógrafos, bailarinos, pintores, cantores italianos que vi-
chegam a ser símbolos assombrosos, como a descrição da veram em Madrid e Petersburgo, Londres, Viena e Esto-
madrugada que significa ao "giovin signore", o bocejo do colmo, parasitas da aristocracia; nos tumultos de rua de
tresnoitado, e ao homem do povo o despertar para o tra- Paris perderam a própria razão de ser da sua existência;
balho. As vezes, disfarça-se de ideia fantástica uma ameaça os plebeus da "Terreur" cantavam a Marselhesa em vez
tremenda: de árias e recitativos, e com a vitória da burguesia mudou
o gosto literário e musical. O porta-voz dessa desilusão é
o abade Giambattista Casti ( B S ): um padre desmoralizado
"Forse vero non è; ma un giorno è fama e intrigante, autor de óperas bufas chistosas e de Novelle
Che fur gli uomini eguali, e ignoti nomi galanti, obsceníssimas; sob todos os aspectos é o contrário
F u r Plebe e N o b i l t a d e . . . " de Parini. Mas Casti tinha o bom-senso italiano. Embora
cheio de indignação e desprezo pelos grandes senhores
Mas isso é raro em Parini. Não dissimula certa ternura
pelo seu herói futilíssimo. É muito feliz a expressão com
que De Sanctis definiu o Giorno: "A Geórgica da ocio-
53) Giambattista Casti, 1721-1803.
sidade." Parini não odiava a aristocracia; desdenhava-a Poema tártaro (1778); Novelle galanti (1793); OH animali par-
porque ela decaiu, levando consigo para o abismo a civi- lanti (1802); etc.
Edição dos Animali parlanti por T. Ruspantini, Roma, 1893.
lização aristocrática, à qual Parini estava ligado com todo C. Piermattei: Giambattista Casti. Torino, 1902.
1348 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1349

que o pagavam, desconfiava das reformas anticlericais do marquês, e, d e precocidade enorme, era, aos 10 anos de
imperador J o s é I I , advertindo-o a respeito, no Poema tár- idade, s u b o f i c i a l do e x é r c i t o e com 15 anos aluno da
taro, sátira d e mordacidade inédita. Passada a grande tem- Universidade e m Copenhague. F u g i u de casa, estudou em
pestade revolucionária, descreveu-a na epopeia burlesca L e y d e n e O x f o r d , foi preceptor em Leipzig, percorreu a
Gli animali parlanti, na qual o s b i c h o s de La F o n t a i n e França e a I t á l i a c o m o estudante-vagabundo, voltou para
representam as principais figuras da p o l í t i c a europeia. a Dinamarca, tornando-se b u r g u ê s abastado, professor e
E s s a alegoria é a última das epopeias herói-cômicas, e em reitor da U n i v e r s i d a d e ; foi nobilitado e, s e p u l t a d o na Ca-
certo sentido a maior de t o d a s : um v a s t o panorama da tedral d e S o r o e , ao l a d o dos arcebispos medievais, como
Europa pós-revolucionária, resumo das experiências de uma um santo da nação. É uma vida picaresca, mais do século
época passada; um epílogo de melancolia amarga, fim de X V I I do que d o X V I I I . E m certo sentido, H o l b e r g per-
u m v e l h o pecador, muito v e l h o e desesperado. maneceu s e m p r e h o m e m barroco, se bem que em trajes
A epopeia herói-cômica, na sua forma original, morreu rococó. A s u a crítica histórica — criou a historiografia
ainda no s é c u l o X V I I em que se criara o g é n e r o ; o s é c u l o dinamarquesa — e a sua audaciosa crítica religiosa, não
X V I I I adaptou-o para f i n s diferentes, e essa adaptação são v o l t a i r i a n a s ; baseiam-se antes no estudo do Dictionnai-
não foi, e m geral, bem s u c e d i d a : mera graça em Pope, re historique et critique, de B a y l e , seu livro de predileção,
burlesca em Voltaire, ao passo que as obras de Parini e em que aprendeu a esconder, atrás de m e d i t a ç õ e s morali-
Casti, e x p r e s s õ e s de burguês-humanista e de intelectual- zantes, alusões obscenas. A sua poesia didática — Moralske
plebeu, se afastam m u i t o do esquema. II Gioino e Gli Tanker e Epistler — t e m m u i t o de A d d i s o n , m e n o s o ideal
animali parlanti são obras sui generis. E s s e género barroco de gentleman cristão. N o latim de Erasmo, H o l b e r g es-
não se prestava b e m à expressão i d e o l ó g i c a da burguesia creveu um romance fantástico, Nicolan Klimii iter sub-
em a s c e n s ã o ; mas podia prestar-se a exprimir reivindica- terraneum, ao g o s t o barroco, situando-se entre Campanella,
ç õ e s populares, d e camadas baixas contra as n o v a s classes
d i r i g e n t e s . E s s a s reivindicações já apareceram, como sátira,
n o teatro: a Beggar's Opera, de Gay, é uma obra assim, e kandestoeber; Jeppe paa Bierget; Barselstuen; Den Stundesloese;
Erasmus Montanus; Jean de France; Pernilles korte Froeykens-
a s e u lado está só mais uma comédia do s é c u l o : Jeppe paa tand; Henrik og Pemille; Gert Westphaler; Don Ranudo de Coli-
Bierget, de H o l b e r g , que também escreve a única epopeia brados; Jacob von Tyboe; Diederich Menschenskraek; De Vsyn-
lige; Hexeri eller blind Allarm; Julestuen; Vlysses von Ithacia;
burlesca de i d e o l o g i a m e i o barroca, m e i o revolucionária: Det lykkelige Skibbrud.
o Peder Paars. Edições por J. Martensen, 12 vols., KJoebenhavn, 1807/1908, e por
C. 3 . Petersen, 20 vols., Kjoebenhavn, 1913/1938.
H o l b e r g ( 5 4 ) é uma das figuras mais interessantes d o R. Prutz: Ludvig Holberg, sein Leben und seine Schriften.
Btuttgart. 1857.
s é c u l o X V I I I . N a s c e u na N o r u e g a , então território dina- O. Skavlan: Holberg som Komediefor/atter. Oslo, 1872
J. Paludan: Om Holbergs Niels Klim. KJoebenhavn, 1878.
G. Brandes: Ludwig Holberg, et Festskrift. 2* ed. Kjoebenhavn,
1898.
54) Ludvig Holberg, 1684-1754. O. I. Campbell: The Comedies of Holberg. Cambridge, Mass.,
Peder Paars (1720); Satirer og Skjemtedigter (1722); Dantnarks 1914.
Historie (1732); Nicolai Klimii iter subterraneum (1741); J. Bing: Ludvig ^Holberg. KJoebenhavn, 1917.
Moraliske Tanker (1744); Epistler (1748/1754); etc. H. Brix: Ludivig Holberg. Kjoebenhavn, 1920.
Comédias, publicadas nas coleções Hans Mákkelsens Komedier H. Brix: Ludvig Holbergs, komedier. Kjoebenhavn, 1942.
(1723/1725) e Den danske Skueplads (1731/1754): Den politiske F. Boeoek: Holberg's visdom. Stockolm, 1942.
1350 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1351

Cyrano de Bergerac e Swift; a sátira "geográfica" de uma çado e encantador de miniaturas teatrais — só dois dos
viagem alegórica, zombando das diferentes nações euro- personagens típicos, o conservador mal-humorado Jeroni-
peias e de suas instituições, lembra recursos de Voltaire; mus e o raisonneur racionalista Leonard, lembram a Ilus-
mas baseia-se, no fundo, no ressentimento do "estudante- tração e as tendências radicais do autor.
errante" contra todas as ordens estabelecidas. O autor do Holberg ê tendencioso; um "instrumentalista". Do
Klim não está em casa em parte alguma, nem mesmo na palco, considerado como púlpito pretende ensinar, morali-
Dinamarca. As viagens da mocidade abriram-lhe os olhos zar, divulgar as ideias novas. Ainda assim, não dissimula
para ver a mesquinhez da vida pátria, o afrancesamento as origens barrocas da sua ideologia: Den politiske Kan-
ridículo dos costumes, o despotismo dos burocratas e ofi- destoeber, a famosa comédia de um picheleiro, apaixonado
ciais alemães, a hipocrisia luterana dos burgueses-comer- pela política, ao qual metem na cabeça que foi nomeado
ciantes, a situação lamentável do camponês-servo. E esta prefeito — é um assunto bem barroco, lembrando a separa-
última observação entra como novidade num poema de ção rigorosa das classes; também é barroco o desfecho, a
Holberg, moldado nas regras de Boileau, ridicularizando desilusão do pequeno-burguês que tem de voltar às suas
burlescamente a epopeia virgiliana: eis Peder Paars, a antigas ocupações; Holberg não é, no entanto, anacrónico.
história de um comerciante dinamarquês que naufragou O seu acentuado anti-humanismo é surpreendentemente
numa viagem costeira e encontrou na ilha de Anholt o moderno. O personagem mais ridículo em Erasmus Mon-
panorama "en miniature" da sociedade dinamarquesa. É tanus não é o sacristão supersticioso, que pretende negar
uma das sátiras mais maliciosas do século. as descobertas científicas, inclusive a cosmologia de Copér-
nico, mas o seu adversário, o jovem estudioso Rasmus,
Se os cidadãos de Anholt fossem transformados em
cheio de orgulho progressista e terrivelmente humilhado
bonecos e colocados num palco, eis o pessoal das comédias,
pelo bom-senso dos camponeses ignorantes; não é acaso
com as quais Holberg criou o teatro dinamarquês — palco
que o "herói" derrotado da comédia tem o nome do maior
pequeno, mas um teatro grande e de repercussão europeia.
dos humoristas. Ulysses vort Ithacien é uma sátira igual-
A primeira vista, Holberg parece imitar Molière; e a in-
mente mordaz contra o uso da mitologia na literatura e
fluência do grande francês é inegável na técnica teatral,
contra o estilo gongórico da tragédia barroca; e quando,
na sátira contra aristocratas orgulhosos (Don Ranudo de
nesta comédia, se fala dos habitantes da lua, Holberg não
Colibrados) e costumes ridículos (Barselstuen), em tipos
esboça uma utopia fantástica — prefere enumerar todas
como o Stundesloese, digno de figurar entre os Fâcheux.
as injustiças sociais, com o refrão monótono: "Tout comine
Mas o teatro holberguiano é, antes, informado pelo imo-
chez nous." Como estão as coisas "entre nós", Holberg o
ralismo da comédia inglesa da Restauração; os assuntos
dirá na maior das suas comédias, na dramatização do mundo
são os antigos enredos de Plauto; os personagens típicos,
de Peder Paars: em Jeppe paa bierget. Mais uma vez,
vlotando sempre com os mesmos nomes, são os da commedia
parece uma comédia barroca, a do camponês bêbedo, ao
deWarte. Holberg é comediógrafo da mais autêntica estirpe
qual o senhor da aldeia faz crer que é êle o barão, para
europeia. Conseguiu transformar em comédia "internacio-
despertá-lo cruelmente no dia seguinte. É o enredo do
nal" toda a vida da pequena Copenhague do Rococó, os
Rusticus imperans, do jesuíta Masen, e do prólogo da
eruditos, pastores, oficiais, dandys afrancesados, criados,
Taming of the Sbrew, de Shakespeare. Mas Jeppe, na
comerciantes, funcionários e charlatães, um mundo engra-
1352 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1353

comédia de Holberg, difere n u m ponto essencial dos s e u s n o r u e g u ê s , q u e d e i x o u a sua pátria, então rudíssima, para
predecessores imbecis: ele tem razão. Porque o barão, o respirar os a r e s c i v i l i z a d o s da capital dinamarquesa. A l i
vigário, o prefeito, são m i s t i f i c a d o r e s ; o "idealismo" aris- fundou, em 1772, a " N o r s k e Selskab" com o fim de pro-
tocrático, religioso, patriótico de todos e l e s é uma mentira, mover as a t i v i d a d e s literárias entre os m u i t o s estudantes
e o materialismo violento d o s desejos de s o n h o d o bêbedo noruegueses d a U n i v e r s i d a d e de Copenhague. A "Norske
justifica-se pela miséria da sua vida de servo. "A g e n t e Selskab" foi, p o r a s s i m dizer, u m café de boémios, parecido
diz que Jeppe bebe; mas não diz por q u e bebe." E esta com o " T h e r m o p o l i u m Boreale"; e W e s s e l tem a l g o em
frase lapidar anuncia uma Revolução. comum com B e l l m a n : não o g é n i o lírico, m a s o espírito
H o l b e r g não era poeta. Mas criou a prosa dinamarquesa, zombador. B e l l m a n , o poeta, p ô d e conformar-se com o
renovando-a no espírito da l í n g u a coloquial, dos provérbios classicismo fantástico da corte de Gustaf I I I ; W e s s e l , ia-
do p o v o . N ã o pretendeu outra coisa senão moralizar. M a s génu da N o r u e g a , aborreceu-se c o m o falso classicismo da
a força moral da sua acusação ainda não acabou. H o l b e r g tragédia Zarine, do s e u patrício B r u n : destruiu-a pela
é o único autor que teve a honra de ficar citado nominal- paródia v e e m e n t e Kjaerlighed uden Stroemper. A comédia
m e n t e nas peças de Ibsen. E será citado, mais de uma vez, ,parece-se um p o u c o c o m a Beggar's Opera: enredo e mo-
no futuro. t i v o s m e s q u i n h o s , apresentados em grande e s t i l o retórico,
árias sonoras com t e x t o s trivialíssimos. N ã o há sátira
N a s comédias de Holberg, l o g o traduzidas para todas
social. W e s s e l destrói apenas uma falsa celebridade lite-
as línguas e de repercussão profunda na Europa inteira,
rária. Mas a paródia sobreviveu — e sobrevive no teatro
havia várias possibilidades de sátira teatral contra as con-
dinamarquês até hoje — à tragédia esquecida, porque ataca,
v e n ç õ e s falsas, já obsoletas, da época aristocrática: a sátira
a l é m da arte falsa, o s e n t i m e n t o falso que também é imortal.
literária; a sátira de c o s t u m e s l o c a i s ; a sátira social. N ã o
P o r isso, Kjaerlighed uden Stroemper é uma comédia
é possível separá-las n i t i d a m e n t e ; confundem-se. A comédia
imortal. Mereceria o e l o g i o de ser "la más asombrosa sátira
de costumes de Goldoni, em país de civilização tão antiga
literária en alguna lengua", que M e n é n d e z y P e l a y o tri-
c o m o a Itália, é sátira social ao m e s m o t e m p o ; a sátira
b u t o u a La comedia nueva o El café, de Leandro Fernández
social de Griboiedov, em país tão atrasado como a Rússia,
d e Moratín ( B 6 ) : esta e x c e l e n t e comédia, cheia de perso-
é, em primeira linha, comédia de costumes o b s o l e t o s ; a
n a g e n s engraçados e situações cómicas, quadro encantador
comédia de c o s t u m e s de Beaumarchais, na França pré-
i evolucionária, já não é mera sátira s o c i a l : é m e s m o sinal
de revolução.
D a melhor comédia literária do século, a Europa não •56) Leandro Fernández de Moratín, 1760-1828.
JEÍ viejo y la nina (1790); La comedia nueva o El Café (1792); El
t o m o u n o t a ; o autor, W e s s e l ( 6 5 ) , foi como H o l b e r g um si de las ninas (1801); La mojigata (1804); La escuela de los
maridos (1812); — La derrota de los pedantes (1789).
Edição das poesias: Biblioteca de Autores espaftoles, vol. II.
Edição das comédias por J. Ruiz Morcuende (Olãsicos Castella-
55) Johan Herman Wessel, 1742-1785. nos, vol. LVII).
Kjaerlighed uden Stroemper (1771); Samlede Skrifter (1787). A. Alcalá Galiano: Juicio critico sobre el poeta cómico Leandro
Ediçfto por I. Levln, 2* ed., Kjoebenhavn, 1918. Fernández de Maratin. Madrid, 1856.
A. H. Winsnes: Det norske Selskab. Oslo, 1924. J. Ruiz Morcuende: prólogo da edição citada.
S. Thomsen: Kun en Digter. En Bog om Johan Herman Wessel. J. Sarrailh: "Notes sur le Café de Moratín". (In: Bulletin His-
Kjoebenhavn, 1942. panique, XXXVI, 1934.)
1354 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1355

da Madri do Rococó, não se dirige contra falsidades imor- O advogado v e n e z i a n o tinha, como a sua época inteira, a
tais e sim apenas contra uns poetastros insignificantes.. m a n i a do t e a t r o ; o p a l c o parecia sucessor do púlpito, quase
N a verdade, Moratín não soube bem o q u e pretendeu fazer. o fundamento i n d i s p e n s á v e l de uma civilização nacional.
P r o f e s s o u o liberalismo político, bajulando ao mesmo t e m - Goldoni, grande patriota, c o m e ç o u com tragédias que da-
po a corte absolutista. Lutou pela estética moralizante d o riam hoje m a i s para rir do que as suas farsas. Atribuiu
classicismo e conseguiu em meio das suas o d e s frias a l g u n s o i n s u c e s s o à commedia delVarte e às arlequinadas que
acertos de profundo sentimento r e l i g i o s o . Foi o primeiro dominaram o teatro v e n e z i a n o , e pretendeu substituí-las
historiador do teatro nacional espanhol e pretendeu des- pela comédia séria, d e caracteres, à maneira de Molière.
truir a tradição de L o p e e Calderón, f a z e n d o versões, ótimas O grande s u c e s s o d e s s a sua tentativa foi devido, porém,
aliás, d e Molière. Combateu os resíduos da literatura bar- aos e l e m e n t o s não m o l i è r i a n o s que introduziu e que tinham
roca, p e l a s á t i r a La derrota de los pedantes, que é o ú l t i m o o e f e i t o de d e s c o b e r t a s : assuntos ingleses (Pamela), farsas
modelo de grande prosa barroca em língua espanhola. N o à maneira de R e g n a r d (II giocatore), enredos espanhóis
f u n d o , o próprio Moratín era um literato pedante, zom- {II bugiardo); e, em parte, à adaptação perfeita de t o d o s
bando de si m e s m o na comédia melancólica El si de las e s s e s e l e m e n t o s a l h e i o s ao ambiente veneziano. Goldoni
ninas, a última comédia terenciana da literatura e u r o p e i a ; tinha o senso b e m i t a l i a n o da realidade, i n c l u s i v e das coisas
e esta ironia crepuscular, a propósito da qual já se lembrou h u m i l d e s . Suas c o m é d i a s são construídas à maneira fran-
o n o m e de Mozart, justifica enfim o poeta. cesa, não há quase decoração cénica, e c o n t u d o a atmosfera
é i n c o n f u n d í v e l , a das pequenas praças arborizadas entre
Sátira literária é o p o n t o de partida da atividade d o
o s palácios m u d o s da aristocracia decadente e as bodegas
maior comediógrafo do século X V I I I : Cario Goldoni ( 5 7 ) .
p o p u l a r e s ; e s e n t e - s e no ar o cheiro salgado das lagunas.
/ / Campiello é uma comédia assim. O Ventaglio é um
57) Cario Goldoni, 1707-1793. quadro d o s m a i s encantadores do R o c o c ó veneziano, m e i o
La donna ãi garbo (1747); La putta onorata (1748); La vedova tradicional, m e i o afrancesado; e na Bottega dei caffè mo-
scaltra (1748); II vero amico (1750); Le donne puntigliose (1750);
La famiglia dei antiquário (1750); La finta ammalata (1750); vem-se personagens como os dos quadros de L o n g h i . N ã o
Pamela nubile (1750); II bugiardo (1750); La bottega dei caffè é conveniente, porém, tecer e l o g i o s assim para incitar a
(1750); II teatro cómico (1750); II giocatore (1760); La serva
amorosa (1752); La moglie saggia (1752); La figlia ubbidiente ler G o l d o n i : o e f e i t o da leitura seria contraproducente.
(1752); La locandiera (1753); II cavaliere di spiríto <1755); II
avaro (1758); II Campiello (1756); Pettegolezzi delle donne (1757);
La sposa sagace (1758); Lo spirito di contraddizione (1758); Le
gelosie di Lindoro (1759); / rusteghi (1760); Pamela maritata G. Ortolani: Delia vita e delVarte di Cario Goldoni. Venezia,
(1760); Le baruffe chiozzote (1760); La casa nova (1761); Sior 1907.
Todero Brontolon (1761); GVinnamorati (1761); Le smanie per A. De Gubernatis: Cario Goldoni. Firenze, 1911.
la villeggiatura (1761); Una delle ultime sere dei carnavale A. Momlgliano: "La comicità e 1'ilarità di Goldoni". (In: Giornale
(1761); II ventaglio (1762); II poeta fanático (1770); Le bourru Storico delia letterature italiana, LXI. 1953.)
bienfaisant (1771); etc. e t c ; Mémoires pour servir à Vhlstoire de H. C. Chatfield-Taylor: Goldoni, a Biography. New York, 1913.
sa vie et à celle de son théâtre (1787). J. Spencer Kennard: Goldoni and the Venice o/ His Time. New
Edição do Município de Venezia, por E. Maddalena C. Musatti e York, 1920.
G. Ortolani, 25 vols., Venezia, 1907/1937. M. Apollonio: Vopera di Cario Goldoni. Milano. 1932.
Edição das Mémoires, por G. Mazzoni, Firenze, 1907. E. Rho: La missione teatrale di Cario Goldoni. Bari, 1935.
P. Molmenti: Cario Goldoni. Venezia, 1880. E. Gimmelli: La poesia di Goldoni. Pisa, 1941.
V. Brocchi; Cario Goldoni e Venezia nel secolo XVIII. Bologna^ G. B. de Sanctis: Corto Goldoni. Padova, 1948.
1907. M. Dazzi: Cario Goldoni e la sua poética sociale. Torino, 1957.
«V

n.l Orro MARIA CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA ' i AI. 1355

da Madri do Rococó, não se dirige contra falsidades imor- O advogado v e n e z i a n o tinha, como a sua época inteira, a
tais • sim apenas contra u n s poetastros i n s i g n i f i c a n t e s . mania d o t e a t r o ; o p a l c o parecia sucessor do púlpito, quase
Na verdade, Moratín não soube b e m o que pretendeu fazer. o f u n d a m e n t o indispensável de uma civilização nacional.
P r o f e s s o u o liberalismo p o l í t i c o , bajulando ao m e s m o tem- Goldoni, g r a n d e patriota, c o m e ç o u com t r a g e d i a i que da-
po a corte absolutista. L u t o u pela estética moralizante d o riam h o j e m a i s para rir do que as suas farsas. Atribuiu
classicismo e conseguiu em m e i o das suas odes frias a l g u n s o i n s u c e s s o à commedia deWarte e às arlequinadaa que
acertos de profundo s e n t i m e n t o religioso. Foi o primeiro dominaram o teatro veneziano, e pretendeu substituí-la»
historiador do teatro nacional espanhol e pretendeu d e s - pela c o m é d i a séria, de caracteres, à maneira de Molière.
truir a tradição de L o p e e Calderón, fazendo versões, ótimas O grande s u c e s s o d e s s a sua tentativa foi d e v i d o , porém,
aliás, de Molière. Combateu os resíduos da literatura bar- aos e l e m e n t o s não molièrianos que introduziu e que tinham
roca, pela sátira La derrota de los pedantes, q u e é o ú l t i m o o e f e i t o de d e s c o b e r t a s : assuntos ingleses (Pamela), fartas
m o d e l o de grande prosa barroca em l í n g u a espanhola. N o à maneira d e Regnard (11 giocatore), enredos espanhóis
f u n d o , o próprio M o r a t í n era u m literato pedante, z o m - (II bugiardo); e, em parte, à adaptação p e r f e i t a de todos
bando de si mesmo na comédia melancólica El si de las esses e l e m e n t o s alheios ao ambiente v e n e z i a n o . Goldoni
ninas, a última comédia terenciana da literatura e u r o p e i a ; t i n h a o s e n s o b e m italiano da realidade, i n c l u s i v e das coisas
e esta ironia crepuscular, a propósito da qual já se lembrou humildes. S u a s comédias são construídas à maneira fran-
o n o m e de Mozart, j u s t i f i c a e n f i m o poeta. cesa, não há quase decoração cénica, e c o n t u d o a atmosfera
é i n c o n f u n d í v e l , a das pequenas praças arborizadas entre
Sátira literária é o p o n t o de partida da atividade d o
o s palácios m u d o s da aristocracia decadente e as b o d e g a s
maior comediógrafo do s é c u l o X V I I I : Cario Goldoni ( 5 7 ) .
p o p u l a r e s ; e sente-se no ar o cheiro salgado das lagunas.
/ / Campiello é uma comédia assim. O Ventaglio é um
57) Cario Goldoni, 1707-1793. quadro d o s mais encantadores d o Rococó veneziano, m e i o
La donna di garbo (1747); La putta onorata (1748); La vedova tradicional, m e i o afrancesado; e na Bottega dei cafiè m o -
scaltra (1748); II vero amico (1750); Le donne puntigliose (1750);
La famiglia dei antiquário (1750); La Jinta ammalata (1750); vem-se p e r s o n a g e n s como os d o s quadros d e L o n g h i . N ã o
Pamela nubile (1750); II bugiarão (1750); La bottega dei caffè é conveniente, porém, tecer e l o g i o s assim para incitar a
(1750); II teatro cómico (1750); II giocatore (1750); La serva
amorosa (1752); La moglie saggia (1752); La jiglia ubbidiente ler G o l d o n i : o e f e i t o da leitura seria contraproducente.
(1752); La locandiera (1753); II cavaliere di spirito (1755); II
avaro (1758); II Campiello (1756); Pettegolezzi delle donne (1757);
La sposa sagace (1758); Lo spirito di contraddizione (1758); Le
gelosie di Lindoro (1759); I rusteghi (1760); Pamela maritata G. Ortolani: Delia vita e deWarte di Cario Goldoni. Venezia,
(1760); Le baruffe chiozzote (1760); La casa nova (1761); Slor 1907.
Toãero Brontolon (1761); OVinnamorati (1761); Le smanie per A. De Gubernatis: Cario Goldoni. Firenze, 1911.
la villeggiatura (1761); Una delle ultime sere dei carnavale A. Momigliano: "La comicità e rilarità di Goldoni". (In: Giornale
(1761); II ventaglio (1762); II poeta fanático (1770); Le bourru Storico delia letterature italiana, LXI, 1953.)
bienfaisant (1771); etc. etc; Mémoires pour servir à 1'histoire de H. C. Chatfield-Taylor: Goldoni, a Bioaraphy. New York, 1913.
sa vie et à celle de son théâtre (1787). J. Spencer Kennard: Goldoni and the Venice of His Time. New
Edição do Município de Venezia. por E. Maddalena C. Musatti e York, 1920.
G. Ortolani, 25 vols., Venezia, 1907/1937. M. Apollonio: Uopera di Cario Goldoni. Milano, 1932.
Edição das Mémoires, por G. Mazzoni, Firenze, 1907. E. Rho: La missione teatrale di Cario Goldoni. Bari, 1935.
P. Molmenti: Cario Goldoni. Venezia, 1880. E. Gimmelli: "La poesia di Goldoni. Pisa, 1941.
V. Brocchi; Cario Goldoni e Venezia nel secolo XVIII. Bolognar G. B. de Sanctis: Cario Goldoni. Padova, 1948.
1907. M. Dazzl: Cario Goldoni e la sua poética sociale. Torino, 1957.
1356 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1357

É preciso ver essas comédias representadas no palco por tuomo, de roupas elegantes à maneira do Rococó, e o seu
atôres italianos. A construção dramática é de simplicidade ódio profundo contra a aristocracia orgulhosa não excluiu
desconcertante, os enredos e desfechos quase infantis, os a comunidade do estilo de viver; e justamente nisso reside
caracteres são tipos sem vida individual, em cada página o encanto de "coisa antiquada" das suas comédias, como
importunam o leitor discursos de moralismo trivialíssimo. objetos de arte na loja do antiquário. Além disso, Goldoni
Goldoni é o campeão das virtudes burguesas contra os víz é sentimental. P r e t e n d e u abolir a farsa popular e a tra-
cios da aristocracia, sobretudo, como na Bottega dei caffè, gédia aristocrática, porque "as alegrias e tristezas no palco
contra o vício nacional de Veneza, o jogo, que arruina as só comovem quando s ã o de gente igual a nós outros". E i s
famílias. Também combate os dissipadores veraneios n a s a dupla raiz do seu sentimentalismo de burguês e do seu
estações de águas (Les manie per le villeggiatura), com uma realismo de observador quase sociológico. Mas o modelo
evidente simpatia pelos arruinados que lembra O jardim de Molière e o seu próprio génio teatral abriram-lhe as
das cerezas, de Tchekov. Com o seu século, Goldoni é fronteiras do regionalismo. Don Marzio, o aristocrata de-
utilitarista; a intriga amorosa, indispensável na comédia caído e maledicente, na Bottega dei caiiè, é uma das maio-
depois de Marivaux, leva sempre a vantajosos contratos de res criações do teatro cómico. "I miei caratteri sono umani,
núpcias. Em geral, essas comédias são ilegíveis; mas con- verisimili, forse veri, ma io li traggo dalla turba universal
vém observar que Goldoni era um génio teatral, e que as degli uomini, e vuole il caso che alcuno in essi si riscontri."
suas peças não se destinam à leitura. É preciso vê-las É ó processo de abstração do classicismo, o segredo da sua
representadas por boa companhia italiana; então, são irre- permanência. O preço que Goldoni pagou por essa uni-
sistíveis. Então se revela também outro motivo do grande versalidade foi a falta de poesia. Poeta, Goldoni só é
sucesso contemporâneo: Goldoni não tinha realmente abo- quando renuncia aos grandes fins da sua arte, escrevendo
lido, pelo menos totalmente, a commedia deWarte. A n t e s aquelas saborosas farsas em dialeto popular veneziano como
renovou-a, atualizando-a e localizando-a em Veneza. Da Le baruffe chiozzote, que o próprio Goethe admirava. O
commedia deWarte tem o diálogo vivíssimo, rápido e espi- teatro de Goldoni é mais alegre que cómico; mas no ar,
rituoso, que constitui a própria ação. Da mesma fonte entre os bastidores, há a melancolia das coisas que se foram
provêm os seus caracteres-tipos que são as velhas máscaras para sempre — o ar de Veneza.
disfarçadas de venezianos "modernos", e essa mistura de
Goldoni foi, afinal, um vencido. O público que aplau-
realismo fiel e teatralidade fantástica deu como resultado
dira as suas comédias, voltou arrependido à commedia
figuras que se gravam na memória: os quatro Rusteghi,
deWarte. A guerra literária em torno do.género chegou
o velho Sior Todero Brontolon, e sobretudo a graciosa
ao delírio de impor ao dramaturgo o ostracismo e o exílio.
Mirandolina, a heroína da Locandiera, o papel mais querido
"Mi scordarme de sto pase?", pergunta um personagem da
das atrizes italianas.
Una delle ultime sere di carnavale, "de la mia adoratissima
Goldoni não é tão simples ou simplista como parece. pátria? dei mii patroni? dei mii cari amici? No xe questa
O seu génio é multiforme como a própria vida. É, sobre- la prima volta che vago; e sempre, dove son stà, ho porta
tudo, o amigo do povo veneziano; assim o representa hoje el nome de Venezia scolpio nel cuor." No exílio de Paris,
o seu monumento, em tamanho natural, no meio de um erigiu à sua Veneza o monumento das Mémoires; e lá mor-
mercado da cidade. Mas não é um plebeu: é um galan- reu, velho, faminto, durante os dias mais tempestuosos
1358 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA L I T E R A T U R A OCIDENTAL 1359

da Revolução, que este burguês manso não quisera e que Gozzi derrotou Goldoni; mas a história literária italiana
significará o fim da sua República; o fim da velha Veneza não lhe perdoou a vitória; despreza-o até hoje. H á um
à qual Wordsworth dedicou o famoso soneto: "— the século e meio, só o apreciam os estrangeiros. Cario Gozzi
Shade oí that which once was great is passed away." Mas foi um humanista erudito à antiga — assim afirma a crítica
aí estão as peças de Goldoni, última lembrança de "una italiana; não compreendia o espírito da comédia popular;
delle ultime sere di carnavale", dizendo-nos como aquele escreveu fiabe, porque êle, o aristocrata orgulhoso, con-
personagem da comédia: "Conserveme el vostro amor, cari siderava o público como multidão de crianças sem inteli-
amici, el cielo ve benedissa, ve lo digo de cor." gência. Essas "fábulas" dramatizadas não têm nada do
realismo grosseiro da commedia deWarte; o teatro de Gozzi
O mais poderoso dos inimigos que expulsaram Goldoni
é sem psicologia, a sua imaginação sem responsabilidade,
da sua "adoratissima pátria" foi a encarnação do espírito
sua técnica é puramente espetacular como a do melodrama
d a grande aristocracia decadente: Cario Gozzi ( 6 8 ), o irmão
de Metastásio. Gozzi seria um dos últimos produtos da
do grande e amável jornalista Gasparo. Mas Cario era
decadência nacional, um inimigo literário da fututra Itália
diferente: indivíduo orgulhosíssimo, conde empobrecido,
moderna; e desterraram-no para o limbo da história lite-
literato fracassado e invejoso, gramático pedante. Em
rária.
suma, o contrário de um poeta, e que realizou, paradoxal-
mente, a obra mais poética de quantas tem produzido o Os estrangeiros não pensaram assim ( 6 0 ). Os român-
século X V I I I . O sucesso das comédias goldonianas enfu- ticos — sobretudo os irmãos Schlegel, E. T. A. Hoffmann
receu o patriota estreito contra "essa maneira francesa" e e Musset — admiravam-no a ponto de chamar-lhe "Shakes-
o público que a aceitara, e na cólera jurou que o mesmo peare italiano". A mistura estranha de enredos fabulosos
público aplaudiria os contos de fadas mais infantis, quando lazzi alegres das máscaras, imaginação fantástica e ambiente
dramatizados. Do Cunto de li cunti, de Basile, extraiu os veneziano, exerceu durante decénios atração irresistível.
enredos das suas fiabe, nas quais voltaram as máscaras da Grillparzer pretendeu traduzir a mais dramática das íiabe,
commcdia deli'arte: Pantalone e Tartaglia, Truffaldino e II Corvo, e Musset a mais poética, La donna serpente. A
Brighella. Realmente, o público aplaudiu delirantemente. combinação realmente extraordinária do jogo fantástico das
máscaras venezianas com uma tremenda tragédia chinesa,
Turandot seduziu um Schiller à tradução e, ainda em
58) Cario Gozzi, 1720-1806.
V amare delle tre melarance (1761); II Corvo (1761); Re Cervo nossos dias, Puccini à composição. Na novela fabulosa
(1762); Turandot (1762); La Donna Serpente (1762); Zobeide Prinzessin Brambilla, o grande E. T. A. Hoffmann con-
(1763) VAugellin belverde (1764); — Marfisa bizarra (1772);
— Memorie inutili (1797). densou a atmosfera das fiabe, erigindo a Gozzi um dos
Edição das Fiabe por E. Masi, 2 vols., Bologna, 1885. mais belos monumentos, admirado por Baudelaire. Depois
Edição da Marfisa bizzarra por C. Ortlz, Bari, 1911.
Edição das Memorie inutili por O. Prezzolini, 2 vols., Bari, 1910. do romantismo, os melhores conhecedores da Veneza do
0 . B. Magrini: Cario Gozzi e le fiabe. Cremona, 1876. século X V I I I , Jules e Edmond de Goncourt, John Adding-
1. A. Symonds: The Memoirs of Cario Gozzi. London, 1890 ton Symonds, Philippe Monnier, confessaram-se encantados
(tradução com estudo).
E. Masl: Studi sul teatro italiano nel secolo XVII1. Firenze, por Gozzi. Os simbolistas russos dedicaram-lhe verdadeiro
1891.
Ph. Monnier: Venise au XVIHe siècle. Paris, 1907.
A. Guerrieri: Le fiabe di Cario Gozzi. Venezia, 1924.
T. Mantovanl: Cario Gozzi. Roma, 1926. 59) H. Hoffmann-Russack: Gozzi in Germany. New York, 1930.
1360 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1361

culto, e Prokofief fêz a m ú s i c a para o Amore delle tre bastante e o s problemas sociais de Holberg e Goldoni con-
melarance. tinuaram a inquietar o s espíritos. Um Goldoni menor da
Gozzi era um reacionário obstinado. E m seu redor, Polónia seria o chamado "Molière polonês", o conde Fre-
v i u cair em ruínas o m u n d o aristocrático, e „vingou-se, dro ( f l 0 ), aristocrata e s p i r i t u o s o e comediógrafo diletante,
ridicularizando as ciências naturais, a economia política, do qual os b u r g u s e e s d o país dos latifundiários gostavam
a nova filologia, o s enciclopedistas, a t e í s t a s e burgueses. ainda n o s é c u l o X X ; consideram-no, com razão, "clássico".
Contra o utilitarismo dos "filósofos m i l a n e s e s " e a p o e s i a U m " c l á s s i c o " mais bárbaro é o Fidalgo d o russo F o n -
antiaristocrática de Parini escreveu o curioso poema he- visin ( 6 1 ) , s á t i r a holberguiana contra a m o d a europeizante
róico-fantástico "La Marfisa bizzarra", para celebrar o dos aristocratas-intelectuais da época da tzarina Catarina;
heroísmo inútil e as "superstições" dos bons t e m p o s idos. um grande problema r u s s o do s é c u l o X I X anuncia-se nessa
Pretendeu, pela última vez, reproduzir o m u n d o do A r i o s - comédia que reflete o choque entre os c o s t u m e s bárbaros
t o ; mas em vez disso saiu u m poema burlesco, ao g o s t o da R ú s s i a a n t i g a e uma civilização importada. A peça de
do Barroco. E i s aí as raízes da sua arte. Cario Gozzi não Fonvisin não e n v e l h e c e u até h o j e ; ainda continua s e n d o
t e m nada e m c o m u m c o m Shakespeare, mas m u i t o com representada na Rússia. Mas supera-a em valor e atua-
o teatro espanhol. Calderón figura entre os seus m o d e l o s , lidade p e r m a n e n t e a grande comédia de Griboiedov ( c 2 ) ,
o último Calderón das peças fantásticas. A t é a sua teoria
da arte como expressão da imaginação fantástica é a de
Guarini, é barroca. D o p o n t o de vista italiano, Gozzi é 60) Alexander Fredro, 1793-1876.
realmente um fenómeno da decadência nacional, s u r g i d o Pan Geldhab (1821); Damas e Hussardos (1825); A Vingança
(1834), etc. etc.
exatamente n o m o m e n t o que precede o renascimento da Edição em 13 vols., Warszawa, 1880.
nacionalidade. D o ponto de vista do s é c u l o X V I I I europeu, 8t. Tarnowski: As Comédias de Fredro. Krakow, 1896 (em po-
lonês) .
Gozzi é u m retardatário e s q u i s i t o : a m i s t u r a d e imaginação J. Chrzanowski: As Comédias de Fredro. Krakow, 1917 (em
fantástica e realismo popular, próprios do e s t i l o barroco, polonês).
W. Folkierski: Fredro e a França. Warszawa, 1925 (em polonês).
tornou-se no s é c u l o da Ilustração arbitrariedade subjetiva
61) Dionys Ivanovltch Fonvisin, 1744-1792.
de um sonhador reacionário — mas isso seria uma das O Fidalgo (1782)— Edição das obras por P. Vedenski, Petersburg,
definições p o s s í v e i s do romantismo. V i s t o da Alemanha, 1893.
J. Patouillet: Le théâtre de moeurs russes des origines à Oa-
França, Inglaterra do c o m e ç o do s é c u l o X I X , Gozzi é um trowski. Paris, 1912.
pré-romântico; por isso, encantou os estrangeiros. H o j e , A. Veselovski: Fonvisin. Petersburg, 1914 (em russo).
D. J. Blagoj: Fonvisins Moscou, 1945 (em russo).
já é cada vez m e n o s l i d o ; mas o s e u valor não depende
Alexander Sergeievítch Griboiedov, 1795-1829.
da admiração efémera que uma c o n t i n g ê n c i a histórica l h e Inteligência prejudica à gente (c. 1816/1824, representada 1831.
conquistou. A sua arte é produto de uma "heure exquise", publ. 1833).
Edições das obras completas por J. Sliapkin, 2* ed., 3 vols.
o último s o n h o de um m u n d o agonizante, mas b e l o ; e a s s i m Petersburg, 1911/1914; e Por N. Piksanov, Moscou, 1929.
permanecerá. N. Vesselovski: Biografia de Griboiedov. Petersburg, 1877 (em
russo).
Or. Míller: A Vida e Correspondência de Griboiedov. Peters-
A comédia do t i p o H o l b e r g - G o l d o n i d i f i c i l m e n t e podia burg, 1879 (em russo).
sobreviver à R e v o l u ç ã o ; a não ser n o s países atrasados da O. Kramaseva: Griboiedov, sa vie, ses oeuvres. Paris, 1907.
J. Patouillet: Le théâtre de moeurs russes des origines à Os-
Europa oriental, n o s quais a R e v o l u ç ã o não repercutiu trovski. Paris, 1912.
1362 OTTO M A R I A CABPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1363

Inteligência Prejudica à Gente. E i s mais uma prova da O s m o t i v o s literários e sociais desse género combinam-
repercussão imensa do género "comédia burguesa", ao qual se em S h e r i d a n ( 0 3 ) : a sua primeira peça, The Duenna,
pertence, se bem q u e fora da c r o n o l o g i a : m a s a R ú s s i a é uma ópera c ó m i c a que revela as ligações com o melodrama
de 1825 ainda se encontrava na situação social d o s é c u l o italiano; The Rivais é caricatura alegre do sentimentalismo
X V I I I . Inteligência Prejudica à Gente — outra tradução burguês; The Critic, p a r e c e n d o - s e um pouco c o m El Café
reza: A Desgraça de Ter Razão — representa o R o c o c ó de Moratín, é m a i s uma sátira mordaz contra o sentimen-
racionalista russo. F o n v i s i n pretendera defender-se do eu- talismo e a shakespeariomania da literatura pré-romântica,
confirmando a atitude i d e o l ó g i c a do autor, que deu na
r o p e í s m o ; Griboiedov já pretende criar, em s o l o russo, um
School for Scandal a obra-prima do género. S e g u n d o a
teatro comparável aos teatros europeus d o s é c u l o X V I I I ,
opinião geral, Sheridan é o herdeiro da comédia da R e s -
e conseguiu esse objetivo c o m o m e s m o s u c e s s o de todas
tauração; realmente, u m a das suas peças, A Trip to Scar-
as grandes comédias d o t i p o : a obra entrou na consciência
borough, é v e r s ã o do Relapse, de Vanbrugh. Sheridan teria
c o m u m da inteligência russa, fornecendo à l í n g u a coloquial
apenas e l i m i n a d o o cinismo sexual, devendo a essa emenda
o maior tesouro de provérbios e l o c u ç õ e s proverbiais depois
hábil o s u c e s s o permanente da sua obra que sobreviveu à
das fábulas d e Krylov. A s s i m como H o l b e r g e Goldoni,
época da hipocrisia v i t o r i a n a A crítica i n g l e s a moderna,
Griboiedov pretendeu imitar M o l i è r e ; e c h e g o u a criar
novamente entusiasmada pela comédia da Restauração,
u m t i p o permanente. T c h a t s k i , o herói da peça, é um A l -
compraz-se em desvalorizar Sheridan que, de fato, não é
c e s t e r u s s o ; voltando da Europa, acha t u d o na Rússia anti-
comparável a W y c h e r l e y ou Congreve. Parece-se com e l e s
quado, convencional e falso. Choca-se v i o l e n t a m e n t e com menos p e l o s valores da sua obra do que p e l o e s t i l o da s u a
a sociedade. É o primeiro representante d o reformismo vida: grande orador parlamentar e dandy endividado,
ocidentalista à maneira de B i e l i n s k i e T u r g u e n i e v . Gri- "leão de salão" espirituosíssimo e bebedor terrível. No-
b o i e d o v é m e s m o o precursor da "literatura de acusação palco, porém, Sheridan é m a i s manso. J á foi c h a m a d o
social" à maneira de G o g o l e T o l s t o i . M a s o c o m e d i ó g r a f o figura de transição entre Beaumarchais e W i l d e ; mas n ã o
é superior ao seu p e r s o n a g e m e ao s e u enredo. Condena, tem o espírito revolucionário do primeiro n e m o imora-
igualmente, os conservadores petrificados e os inovadores l i s m o c o n s c i e n t e do outro. A confrontação do hipócrita
insolentes. D e Griboiedov descendem, igualmente, o s "vai- J o s e p h Surface e do sincero Charles Surface, na School for
d e n p l i k s " e os "eslavófilos" russos do s é c u l o X I X . Com Scandal, revela fins morais parecidos com os de W y c h e r -
ele, o g é n e r o "comédia burguesa" d e m o n s t r o u e v i d e n t e - l e y ; apenas, o moralismo já não parece subversivo p o r q u e
m e n t e as suas possibilidades imensas, "à c o n d i t i o n d'en
sortir"; mas o próprio género já estava morto.

63) Ríchard Brinsley Sheridan, 1751-1816.


The Duenna (1775); The Rivais (1775); The School for Scandal
(1777); A Trip to Scarborough (1777); The Critic (1779).
N. Plksanov: O Ambiente Social de "Inteligência prejudica à Edição por R. C. Rhodes. 3 vols., Oxford, 1928.
Gente". Berlin, 1928 (em russo). Marg. Oliphant: Sheridan. London, 1883.
W. Sichel: Sheridan. 2 vols. London, 1909.
M. O. Gerschenson: A Moscou de Griboiedov. 3.» ed. Moscou, R. C. Rhodes: Harlequin Sheridan. Oxford, 1933.
1928 (em russo). L. Gibbs: Richard Brinsley Sheridan, his Life and his Theatre.
N. K. Plksanov: História das Origens da Criação de "Inteli- New York, 1948.
gência prejudica à Gente". Moscou, 1929 (em russo).
1364 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1365

a ascensão da burguesia havia transformado os escritores tirem os c o m e ç o s de uma comédia social e m Dancourt e
da vanguarda em porta-vozes de uma classe poderosa. S h e - L e s a g e . Será preciso procurar as razões na estrutura anti-
ridan faz o processo satírico da alta s o c i e d a d e inglesa, as- barroca da c o m é d i a d e Molière e nas consequências esti-
s i m como Shaw fará o da middle class, e com eficiência lísticas do c l a s s i c i s m o , limitando a capacidade da evolução
semelhante. O seu diálogo, m e n o s fino d o que o de Con- do género. E m toda a parte, os autores da comédia burguesa
greve, é o mais rápido, o mais v i v o que já se ouviu no palco acreditavam imitar M o l i è r e , enquanto criaram o n o v o g é -
i n g l ê s ; e como criador de caracteres cómicos, o autor d o s nero; só no f i m do s é c u l o aparece na França também a
escandalosos Sir B e n j a m i n Backbite e L a d y Sneerwell, da comédia burguesa, c o m Beaumarchais; mas o seu teatro sig-
extravagante Lydia L a n g u i s h e da desgraçada Mrs. Ma- nifica o abandono d e f i n i t i v o d o modelo de Molière. T a n t o
laprop, do escritor Sir F r e t f u l Plagiary e do crítico Puff, tempo se precisava — seria e s t e o motivo s o c i o l ó g i c o da
só c e d e a B e n Johnson. Mas em Sheridan desaparece de- demora — para que a burguesia francesa rompesse a pseu-
finitivamente a tradição nacional do teatro i n g l ê s , s e n d o domorfose aristocrática, imbuindo-se da consciência de
substituída pela forma d o teatro europeu internacional da classe que a l e v o u a fazer a Revolução.
filiação Molière — H o l b e r g — Goldoni. T o d o s os come-
diógrafos i n g l e s e s do s é c u l o X I X , até o advento das tra- A s comédias de Beaumarchais ( 8 4 ) c o n s t i t u e m na his-
d u ç õ e s de Ibsen, imitarão Sheridan, figura da transição tória d o teatro francês no s é c u l o X V I I I uma novidade
entre W y c h e r l e y e W i l d e . absoluta: pela primeira vez depois das farsas de Molière,
a g e n t e pôde rir, e rir às gargalhadas, enquanto a comédia
Mas nenhum deles será um grande comediógrafo. A de D e s t o u c h e s e Marivaux permitira apenas o sorriso.
Inglaterra burguesa do século X I X não terá um teatro Beaumarchais faz critica social mais forte do que o autor
de valor literário. E m compensação, terá um grande ro- d o Georges Dandin e d o Bourgeois-gentilhome, e em sen-
mance. E o romance i n g l ê s inspirou-se m u i t o em e x p e r i ê n - t i d o oposto. D e Molière, parece conhecer apenas aquelas
cias dramatúrgicas. Samuel Richardson foi beber inspi- farsas alegres que a crítica severa do classicismo condenara.
ração na comédia sentimental de Cibber e S t e e l e ; F i e l d i n g Quer dizer, Beaumarchais não s e filia na tradição da co-
c o m e ç o u com farsas satíricas; o verdadeiro sucessor d e média séria que se i n i c i o u c o m Molière, mas à tradição
Sheridan é Jane A u s t e n , à qual os m e l h o r e s críticos elogia- da farsa m a l d i z e n t e que com Molière acabara. Daí o s ele-
ram a força de caracterizar dramaticamente os personagens.
A t é D i c k e n s , apaixonado do teatro, será da mesma tradição
q u e demonstra, mais uma vez, o alcance do género "comédia
64) Pierre Caron de Beaumarchais. 1732-1799.
burguesa".
Eugénie (1767); Mémoires (1775); Le Barbier de SeviUe (1778);
E n t r e as literaturas que cultivaram esse género, falta Le Mariage de Figaro (1784); La mère coupable (1782).
Edição do teatro por E. Fournier, Paris, 1876.
a francesa. N e m a esquematização de M o l i è r e por D e s t o u - G. A. Sainte-Beuve: Causéries du Lundi. Vol. V.
ches, n e m a farsa de Regnard, nem a comédia p s i c o l ó g i c a L. de Loméruo: Beaumarchais et son temps. 4.* ed. 2 vols.
Paris. 1880.
de Marivaux podiam produzir u m H o l b e r g ou Goldoni. E. Lintilhac: Beaumarchais et ses oeuvres. Paris, 1884.
V o l t a i r e , que dominava t o d o s o s géneros e parecia c o m e - A. Hallays: Beaumarchais. Paris, 1897.
diógrafo nato, não produziu nenhuma comédia apreciável. A. Bettelheim: Beaumarchais. 2.* ed. Leipzig, 1911.
F . Gaiffe: Le Mariage de Figaro de Beaumarchais. Paris, 1928.
O fato causa estranheza tanto maior quanto é certo e x i s - L. Latzarus: Beaumarchais. London, 1930.
1366 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1367

mentos pré-molièrianos e estrangeiros, italianos e espa- falara o porta-voz da burguesia inteira, da época, do con-
nhóis, do seu teatro: a gaillardise gauloise, a vivacidade tinente, um grande satírico, um mestre do riso que mata.
rapidíssima do diálogo como nos recitativos da ópera bufa Mas não matou sem lágrimas. "Je me presse de rire
italiana, a caracterização dos personagens que se parecem de tout, de p e u r d'être obligé d'en pleurer." Às vezes,
muito com as máscaras da commedia deli'arte; até o ambien- Beaumarchais chorou mesmo, nas apóstrofes super-eloquen-
te espanhol, em que se passam as duas comédias máximas,
tes dos Mémoires, em comédias sentimentais como Eugénie
parece reminiscência das origens longínquas da comédia
e La mère coupable, e nos últimos atos do Mariage de
francesa. Todos esses elementos juntos renovam a farsa
Figaro. E esse sentimentalismo é o sintoma mais seguro do
tradicional, a farsa da burguesia medieval francesa, confe-
caráter burguês do seu teatro. Do ponto de vista psico-
rindo-lhe nova significação: serve, agora, às reivindicações
lógico, o sentimentalismo é o reverso da sensualidade, e
sociais mais ousadas. "Métier d'auteur, métier d'oseur",
esta, nas comédias de Beaumarchais, já é expressão do
dizia Beaumarchais, escrevendo famoso monólogo de Fí-
mais crasso materialismo: "Boire sans soif et faire 1'amour
garo, em que compara as vantagens do nascimento no seio
en tout t e m p s ; il n'y a que ça qui nous distingue des autres
da nobreza com as dificuldades de carreira da roture;
mas o grito de revolução "finit par des chansons". Farsa betes." Mas ainda há em Beaumarchais um reflexo de
musical como expressão das reivindicações da burguesia, poesia do Rococó francês: a sensualidade ligeiramente
cujo porta-voz, no caso, é um "ouseur", ou antes um perversa da figura de Chérubin pertence ao mundo de Bou-
"brasseur d'affaires". A literatura de Beaumarchais é um cher e Fragonard. Beaumarchais, apesar de toda a agres-
incidente na sua vida aventurosa de proletário parisiense, sividade e maledicência, não dissimula simpatias pelo seu
relojoeiro, mestre de música das princesas reais, agente conde Almaviva. Beaumarchais pretende destruir uma
secreto, fornecedor de armas, editor das obras completas ordem social fora da qual a sua arte não será possível.
de Voltaire, e novamente "brasseur d'affaires" na Repú- Daí resulta certa poesia melancólica nas entrelinhas, poesia
blica. Um técnico brilhante, embora autodidata, dos gran- que encontrará a sua expressão plena só na música de
des negócios — fato ao qual corresponde a sua brilhante Mozart. O que "finit par des chansons" foi a pseudomor-
técnica dramatúrgica que consegue efeitos excitantes com fose aristocrático-classicista da burguesia "à la Voltaire",
elementos de inverossimilhança evidente. Não pensava em do qual Beaumarchais foi, não por acaso, o editor das obras
reivindicar os direitos mais elementares dos proletários completas, algo como um testamenteiro.
parisienses, ocupado como estava em tornar-se burguês e A Revolução veio; e não demorou em revelar o seu
milionário. E só gritou quando a magistratura e a admi-
caráter estritamente burguês, depois capitalista. Ao povo
nistração do ancien regime lhe dificultaram esse caminho.
ficou apenas o jus murmurandi. A comédia de Beaumar-
Então escreveu um grande monólogo de súdito indignado,
chais sofreu, nos seus sucessores, transformações análogas,
os muito eloquentes Mémoires contra o juiz Goezman; e
dissociação dos seus elementos contitutivos: perdeu a at-
continuou-o com o monólogo subversivo de Fígaro. Beau-
mosfera poética, substituindo-se a agressividade pelo mora-
marchais falou em seu próprio nome; daí a violência das
lismo, conservando-se apenas a nova técnica de construção
acusações e o esprit mordaz que burla e destrói a censura;
dramatúrgica que será a técnica do burguês pacífico Augier
e quando tudo terminara em chansons, reparou-se que
e do moralista grave Dumas Filho. E o espírito alegre e
^1

1368 OTTO M A R I A CABPEAUX

maldizente de Beaumarchais retirou-se para onde viera,


para os subúrbios populares de Paris, sobrevivendo no
vaudeville, em que se diz tudo, franca e alegremente, e em
que "tout finit par des chansons".

CAPÍTULO III

O PRÉ-ROMANTISMO

O S historiadores das literaturas inglesa e alemã tiveram


sempre consciência da preparação vagarosa do futuro
lomantismo, d u r a n t e o século X V I I I : Thomson e Young,
Gray e Cowper são os precursores de Wordsworth e Co-
leridge, e o sentimentalismo de Samuel Richardson, ainda
na primeira metade do século, liga-se ao Werther, de
Goethe. Este, por sua vez, pertence ao movimento alemão
do "Sturm und Drang", que antecipou muitos elementos
do romantismo, do qual, no fundo, só o episódio classicista
de Weimar o separa. O caso francês é diferente: o começo
oficial do romantismo seria a publicação das Méditations
poétiques et religieuses, de Lamartine, em 1820, seguida,
no teatro, 1830, pela decisiva "bataille d'Hermani". Os
precursores franceses, Chateaubriand e madame de Stael, já
são contemporâneos do pleno romantismo anglo-alemão.
O que existe de "romântico" na literatura francesa do sé- n
culo X V I I I não chega a constituir um movimento coerente.
Resta o caso de Rousseau. Mas as consequências do pensa-
mento rousseauiano, românticas na Alemanha e na Ingla-
terra, foram revolucionárias na França; e os anti-românti-
cos franceses gostam de considerar o suíço Rousseau como
estrangeiro, atribuindo-se os sentimentalismos "pré-român-
ticos" do Rococó francês também a influências estrangeiras,
principalmente inglesas. Na França não haveria, pois, uma.
elaboração lenta do romantismo, e sim uma invasão revo-
1370 OTTO M A B I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1371

lucionária de "pré-romantismos" de origem estrangeira. na França, o pré-romantismo rousseauiano já na sua pleni-


Este conceito, por mais inexato que seja, revelou-se porém tude, não o criaram, foram, antes, motivadas por êle. Con-
muito útil para fins de esquematização, de modo que foi trário — mas levando a conclusões semelhantes — é o caso
aceito pelos historiadores das literaturas inglesa e alemã. de Milton, que durante o século XVIII exerceu em toda
Em vez de falar em "romantismo avant la lettre" do século a Europa influências de cunho pré-romântico, menos na
X V I I I , adotaram o termo "pré-romantismo", interpretado França; as traduções do Paradise Lost, por Dupré de Saint-
como suma dos movimentos românticos na Europa do sé- Maur (1729) e Louis Racine (1755), chegaram cedo demais
culo X V I I I , inclusive na França de Rousseau. e não encontraram repercussão. Os franceses sentiram
O Pré-Romantismo ( J ) é um fenómeno muito bem de- Milton como "poeta cristão", e as intenções e personali-
finido: uma nova sensibilidade poética, sendo mais íntimo dades dos tradutores — que eram classicistas "reacionários"
da natureza, inclinações religiosas e místicas, sentimenta- — confirmaram o preconceito racionalista; só Chatcau-
lismo, revolta contra as convenções estéticas do classicismo, briand será, até certo ponto, "miltoniano" em sentido pré-
gosto pela poesia popular e primitiva — em suma, uma romântico. As verdadeiras influências inglesas, incontes-
mentalidade que oscila entre tristeza melancólica e pro- táveis já durante a primeira metade do século, são de outra
testo revolucionário. Mas além da definição estilística, o" natureza. O Spectator, de Addison e Steele foi traduzido
problema histórico do pré-romantismo apresenta-se difícil: já em 1714. Grande foi a glória francesa de P o p e : Robeton
a transformação dele em romantismo, assim como o conhe- traduziu o Essay on Ciisticism em 1717; madame Caylus
cemos, mal teria sido possível sem as influências rous-
verteu, em 1728, o Rape oi the Lock, e Le Franc de Pom-
seauianas, provenientes da França. Na França, porém, o
pignan publicou em 1740 a versão de uma poesia religiosa
sentimentalismo inglês transformou-se em emoção revo-
de Pope, La Prière universelle. Pope foi recebido na Fran-
lucionária. O problema histórico do pré-romantismo reside,
ça como classicista, poeta Rococó e "reacionário" religioso;
pois, nas relações literárias anglo-francesas; eis o motivo
nada de pré-romântico. Uma nova perspectiva abriu-se, em
por que o estudo do Pré-romantismo começou justamente
1734 com as Lettres philosophiques, de Voltaire: revelaram
na França, embora considerada "país sem pré-romantismo
aos franceses uma Inglaterra tolerante, deísta, racionalista,
bem definido". O estudo daquelas relações anglo-france-
o oposto quase do pré-romantismo, com suas inclinações
sas ( 2 ) dá, porém, resultados inesperados. As traduções de
Thomson por madame Bontemps (1760), de Young (1769) místicas e sentimentais. Mas Voltaire não tem a prioridade.
e de Ossian (1777) por Letourneur, (após as primeiras J á em 1731, os franceses haviam conhecido a Inglaterra
tentativas de T u r g o t e Suard, em 1760 e 1761) encontraram, pelo volume V das Mémoires et aventures d'un homme de
qualité, do abbé Prévost ( 8 ), cuja Manon Lescaut, de 1731,
precede de 9 anos a Pamela, de Richardson. A mesma rela-
1) M. Lamm: Upplysningstidens Romantik. 2 vols. Btockholm, ção se dá, aliás, entre Pamela e a Vie de Marianne, de
1918/1920.
P. Van TJeghem: Le préromantisme. 3 vols. Paris, 1948. Marivaux, de modo que já se pensava em influência, muito
2) J. Texte: Jean-Jacques Rousseau et les origines du cosmopoli-
tisme littéraire. Êtude sur les relations littéraires de Io France
et de VAngleterre au XVIlie siécle. Paris, 1895.
D. Mornet: Le romantisme en France au XVII le siècle. Paris. 3) Edição crítica do vol. V das Mémoires et aventures d'un homme
1912. de qualité do abbé Prévost por M. E. J. Robertson, Paris, 1927.
Sff' 1
1372 OTTO M A R I A CABPEAUX
H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1373

improvável aliás, do francês sobre o pré-romântico in- exemplo importantíssimo — é Shaftesbury ( 7 ). A oposição
glês ( 4 ). Mas é certo que o sentimentalismo pré-romântico do nobre lorde contra as convenções morais e religiosas
tem relações, se bem que subterrâneas com a sensualidade da sua terra e a s suas relações íntimas com os deístas não
dos libertinos da Régence, e não só da Régence. Sabemos-' são provas de racionalismo autêntico. O deísta acredita
hoje (fl) que as ideias de Prévost acerca da Inglaterra numa perfeição e harmonia tão grande do Universo que
já estavam preconcebidas antes das suas primeiras via- intervenções divinas — milagres e revelações — se tornaram
gens àquele país. A Inglaterra que ele apresentou aos supérfluas. Shaftesbury aceitou esse otimismo cósmico,
franceses, é fruto de leituras em Wycherley, Vanbrugh, mas por motivos diferentes, irracionalistas. A influência
Farquhar, Otway e nos romances picarescos de Defoe. dos platonistas de Cambridge levou-o a uma interpretação
É a Inglaterra da tragédia e comédia da Restauração, entusiástica da "Harmonia Universal", à maneira de Gior-
país de sedutores aristocráticos, prostitutas e ladrões, de dano Bruno, n o qual o inglês aprendeu a crença na per-
uma moralidade muito duvidosa, comum à Restauração fetibilidade do mundo e do homem, garantida pela comu-
e à Régence. E Cleveland, o herói do romance de aven-"7 nhão entre as criaturas e o Universo, assim como entre
turas de Prévost, é um homem "sombre, capricieux, neu- os objetos e as ideias platónicas. O velho problema do
rasthénique, exalte, torture par les scrupules, le spleen et platonismo, a relação entre as ideias e os objetos e criaturas
le vent d'Est": enfim, um pré-romântico. particulares, resolveu-o Shaftesbury à maneira da filosofia
estóica: os germes do bom e do belo estão espalhados por
A análise das relações literárias anglo-francesas con- toda a parte, comunicando vida superior às realidades
firma a tese sobre o Neobarroco licencioso da Restauração materiais. Daí a fé antiempirista de Shaftesbury em ideias
e Régence como ponto de partida comum da Ilustração inatas, que domina a sua estética e a sua ética. As ideias
e do pré-romantismo ( 8 ). A relação íntima entre sensua- estéticas inatas explicam as atividades do "génio" nos ar-
lidade e sentimentalismo é fato conhecidíssimo da psicolo- tistas; e as ideias éticas inatas permitem estabelecer uma
gia. Resta explicar a transição do otimismo racionalista ética do sentimento sem sanções divinas.
da "Harmonia do Universo" em pessimismo e melancolia,
Shaftesbury é o grande filósofo do pré-romantismo.
e os motivos psicológicos e sociais da atitude revolucio-
nária. A estética do entusiasmo genial rompeu as cadeias das
regras classicistas; agirá assim ainda em Schiller, grande
A resposta será: o otimismo da "Harmonia do Uni- admirador de Shaftesbury. O "moral sense" como princípio
verso" não tem só raízes racionais. O exemplo — um de uma ética laicista foi adotado pelos sensualistas ingleses,

4) A questão das relações entre Marivaux e Rlchardson é estudada 7) Anthony Ashley Cooper, Earl of Shaftesbury, 1671-1713.
em: H. S. Hughes: "Translations of the "Vie de Marianne" and Characteristics of Men, Manners, Opinions, Times (1711).
theír Relation to Contemporary English Fiction". (In: Modem Edição por J. M. Robertson, 2 vols., London, 1900.
Philology, XV, 1917.) B. Rand: The Life, Letters and Philosophical Regimen of Shaf-
tesbury. London, 1900.
5) O-E. Engel: Labbé Prévost en Angleterre. Paris, 1939. J. M. Robertson: Shaftesbury. London, 1907.
6) Of. os últimos parágrafos do capítulo "O Neo-barroco como Base E. Tiffany: Shaftesbury as Stoic. New York, 1923.
da Ilustração e do Pré-romantísmo". R. L. Brett: The Third Earl of Shaftesbury. A Study in Eigh-
teenth-Century Theory. London, 1950.
1374 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1375

e reaparece em Adam Smith, que deu à "Harmonia do literário e s i m apenas o "público" anónimo, amorfo, cada
Universo" a interpretação económica no sentido da bur- leitor separado e independente do outro, assim como todo
guesia. E a sensibilidade como princípio filosófico geral autor está separado e independente do outro. "Imitação" já
encontrou um partidário poderosíssimo em outro grande não existe, nem no sentido humanista, nem no sentido dou-
admirador de Shaftesbury: Rousseau. trinário, nem no sentido social. Será preciso substituir a
No otimismo entusiástico de Shaftesbury encontram-se "imitação" por outro princípio estético, tarefa da qual se
os germes espirituais da ética e revolução burguesas e incumbe uma nova disciplina filosófica: a estética ( 8 ).
da estética pré-romântica. Não tardará, porém, o conflito A palavra aparece pela primeira vez em 1735 num
entre as suas consequências contraditórias. Na nova so- tratado de Alexander Amadeus Baumgarten, o mesmo que
ciedade utilitarista que então se esboça, não há lugar para publicou depois, em 1750, a primeira grande Aesthetica.
o artista que, tendo perdido os protetores aristocráticos, O nome da nova disciplina foi escolhido para definir-lhe
se retira para a boémia dos cafés literários. A literatura as fontes: é scientia cognitionis sensitivae, ao passo que
está livre das cadeias da estética classicista; mas serve-se as outras ciências se ocupam da cognitio rationalis. Essa
da nova liberdade para dar ao otimismo e racionalismo dos teoria irraçionalista da arte, derivando imediatamente da
burgueses revolucionários uma resposta melancólica e pes- psicologia de Leibniz, não é de todo nova. A teoria do
simista. Ao industrial e ao comerciante, livres das limita- pré-romantismo encontrou seus primeiros defensores, muito
ções da legislação feudal e mercantilista, corresponde agora cedo, na Itália ( 8 " A ). São os teóricos italianos do começo
o escritor, livre das limitações do dogma classicista. Mas do século, em Delia perfetta poesia italiana (1706), de Mu-
enquanto os burgueses constituem nova sociedade, ao lado ratori, e em Delia ragion poética (1708), de Gravina, que
e ao mesmo tempo em lugar da velha, os artistas ficam admitem e reconhecem o papel criador da imaginação livre
excluídos: em vez de depender da corte ou do salão aristo- ao lado do papel regulador da doutrina literária; já estão
crático, dependem agora de um poder anónimo, do público. perto da teoria do entusiasmo criador e do "sense of beau-
Duas qualidades caracterizam o novo público: é anó- ty", de Shaftesbury, que por essa época residia na Itália.
nimo, e não dispõe, em geral, de formação humanista, clás- A arte, pois, não é produto das reflexões da razão, e sim
sica. É então que a língua latina perde defintivamente a produto dos movimentos inconscientes da imaginação, da
função de língua internacional; o mesmo se dá na literatura inspiração. Resta saber como foi possível que quase toda
científica. As letras greco-latinas, até então propriedade a literatura, desde a Renascença até ao classicismo, tivesse
comum de todas as pessoas cultas, tornam-se monopólio renunciado a essa liberdade de inspiração, submetendo-se
dos eruditos, já não podem fornecer o critério dogmático aos modelos greco-romanos e às bienséances da sociedade.
de toda a atividade literária. Na "Querelle des anciens et Esse problema histórico foi resolvido por Viço: a poesia
des modernes" vencem afinal os "modernes": cai o prin-
cípio da imitação dos antigos, mas cai também o princípio
da "imitação da natureza". Já não existem "regras" obri- 8) M. Menéndez y Pelayo: Historia de las ideas estéticas en EspaUa.
Vol. m . Madrid, 1891.
gatórias; a atividade poética é regulada pelas capacidades B. Croce: Estética come scienza dellespressione e linguistica
individuais, e a sociedade já não impõe as limitações das generale (p. II).* 6." ed. Bari, 1928.
bienséances: porque já não existe "sociedade" em sentido 8 A) I. G. Robertson: Studies in the Génesis of Romantic Theory
in tlie Eighteenth Century. Cambridge, 1923.
*m

1376 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A D A LITERATURA OCIDENTAL 1377

dos povos primitivos, na mocidade das nações, obedece ape- A história do conceito "génio" (°) pode ser acompa-
nas à inspiração, enquanto que, com o progresso da civili- nhada através das traduções do Cortegiano, de Castiglione,
zação, começam a prevalecer a reflexão e os elementos nas diversas línguas europeias. "Genius", o espírito tutelar
racionais. dos antigos, é secularizado, transformado em espírito au-
A estética vichiana incluiu o germe de uma revisão tónomo do indivíduo, enciclopèdicamente formado e feito
e revolução de todos os critérios estéticos; o século da capaz de vencer era todas as tarefas de um cortegiano.
Ilustração não estava preparado para aceitá-la, e Viço caiu, Todos os ingegni são considerados iguais, assim como todos
então, em olvido completo. E m vez da sua estética, surgiram os cortegiani são iguais. Na própria Renascença, as limi-
tentativas diferentes de salvar o princípio da "imitação", tações das bienséances aristocráticas excluem a interpre-
dando-lhe novo fundamento psicológico ou limitando-lhe tação individualista do conceito. Só um pensador meio
a aplicação: Les beaux-arts réduits à un seul príncipe religioso como Cardano salienta o papel da inspiração na
(1746), do abbé Batteux; A Philosophical Enquiry into formação dos "génios"; e um pensador prebarroco como
the Origins oi our Ideas oi the Sublime and the Beautiful Juan Huarte acentua o papel da imaginação livre. Depois,
(1765), de Burke; Lakoo oder Ueber die Grenzen der Ma- o desejo de brilhar nas reuniões académicas, no Hotel de
lerei un Poesie (1766), de Lessing. Tratava-se de evitar Rambouillet, nos salões, acrescentou à "formação" do génio
a anarquia literária. O pensamento vichiano venceu, po- uma outra qualidade para êle sobreviver no struggle for
rém, por intermédio do maior crítico literário do pré-ro- life dos espíritos: a originalidade. Marinismo, gongoris-
mantismo, Herder: em vez de basear a atividade poética mo, conceptisrrio apreciam a metáfora nova, a "ideia" nova.
no génio individual, irresponsável e caprichoso, baseava-a Agudeza y arte de ingenio, de Gracián, é u m manual de
no génio nacional, nas estruturas mentais características originalidade. Mas sempre se trata de uma qualidade da
das diversas nações. Herder deu a explicação teórica do inteligência, do esprit; maneiras, costumes, sentimentos
gosto da segunda metade do século X V I I I pelas poesias submetem-se à ditadura da sociedade. Só quando o poeta 1
"nacionais": a escandinva, a escocesa; pela poesia popular, se retirou do salão, tornando-se boémio, às vezes malcriado
na qual o génio nacional se exprime com a maior pureza; e sórdido, como um Johnson, às vezes libertino, como um
e do gosto pela poesia medieval, isto é, de antes da imi- Diderot, e quase sempre cheio de spleens e caprichos, como
tação racional dos antigos. Os génios individuais foram, um Rousseau, foi que se descobriu o valor da originalidade
desta vez, considerados como expressões máximas do génio do sentimento como fonte da originalidade na poesia. En- J
das suas respectivas nações e épocas; fortaleceu-se o culto tão publicou Edward Young, que foi a própria encarnação
de Shakespeare, génio da nação inglesa e da época da do spleen inglês, as Conjectures on Original Composition
Renascença. Esta já não foi vista através dos óculos das (1759). O poeta definiu-se, então, por dois versos de Sha-
regras do classicismo francês, não porque tais regras fos- kespeare —
sem falsas, mas porque eram de outra época e de outra
nação. Cada época, cada nação tem as suas próprias "re-
gras". Agora, o conceito "génio" já não incluiu a ideia do 9) H. Wolf: Versuch einer Geachlchte dea Geniebegriffs. Leipxig,
individualismo anárquico; tornara-se capaz de substituir o
conceito "imitação". E. Zilsel: Die Eiitstehung des Geniebegriffs. Tuebingen, 1926.
P. Grappins: La théorie du Génie dana le préclassicisme allemand.
Paris. 1952.
1378 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1379

" T h e lunatic, the lover, and the poet, Smith e H e n r y Brougham, órgão principal do liberalismo
Are of imagination ali compact" britânico, que em plena guerra contra a França não se
tornou inteiramente hostil à Revolução francesa — este
— comparando a inspiração aos estados semiconscientes^ órgão, dos avançados em matéria política, será uma forta-
da alma. A infância é considerada como a idade poética leza da reação literária, do culto de Pope em pleno roman-
por excelência, e os produtos literários da infância da tismo. Os grandes campeões da liberdade política são quase
humanidade — a Bíblia, Homero, a poesia popular e me- todos reacionários em matéria literária. Talvez o mais
dieval — são cada vez mais idolatrados, ao passo que o poderoso porta-voz d o liberalismo em todo século X V I I I
ideal da perfeição artística cai por terra. fosse o autor anónimo das "Letters of Junius", hoje iden-
É uma revolução dos valores literários. Causa estra- tificado, pela maioria dos pesquisadores, como Sir Philip
nheza, porém, o fato de a revolução estética não coincidir Francis ( l l ) . Alto funcionário da administração colonial
totalmente com a revolução política e social que se prepara da índia, Philip Francis, imbuindo-se lá-bas da dignidade
ao mesmo tempo. Quase acontece o contrário. Decerto, real de todo cidadão inglês, revoltou-se depois, na pátria,
existem exceções como Diderot; e a maior de todas é Rou- contra as tentativas insípidas do rei Jorge I I I para limitar
seau. Mas são exceções. E m geral, não são os pré-român- essa dignidade e as prerrogativas do Parlamento. Mani-
ticos que apresentam as reivindicações políticas e sociais; festo da oposição liberal foram as suas cartas, publicadas
deixam esse papel dos classicistas. Do classicismo ortodoxo J sob o pseudónimo de Junius, no Public Advertiser, reivin-
de Voltaire, subversivo em todos os outros sentidos, já não dicando a liberdade da imprensa contra os reis que não
é necessário falar. Classicista ortodoxíssimo é La Har- querem ouvir a verdade — a carta XXXV, endereçada ao
pe ( 1 0 ), autor de tragédias voltairianas; como crítico do próprio rei, é uma das peças mais extraordinárias de prosa
Mercure de F rance, desde 1764, exerceu uma ditadura lite- inglesa; uma prosa muito latinizada, de grandes períodos
rária ferrenha, e ainda no fim do século o seu Cours de ciceronianos, de elevação clássica.
Iittérature ancienne et moderne é bíblia e código do clas-
O poeta daqueles dia agitados, que precederam a revo-
sicismo; mas esse La Harpe professa ideias políticas avan-
lução americana, foi Charles Churchill ( I 2 ) , o colaborador
çadas e revolucionárias. Em muitos dos grandes órgãos
da renovação literária — as Novelle letterarie (desde 1758),
de Giovanni Lami, em Florença, as Bríefe, die neueste
Literatur betreffend (desde 1759), de Lessing e Men- 11) Sir Philip Francis, 1740-1818.
"Letters of Junius" (publ. no Public Advertiser, Janeiro de 1769
delssohn, o Teutscher Merkur (desde 1773), de Wieland até janeiro de 1772).
Edição por C. W. Everett. London, 1927 (com introdução, contes-
— reina neutralidade política. Em compensação, The Edin- tando a autoria de Francis).
A tese da autoria de Francis, afirmada desde 1813 por John Tay-
burgh Review (desde 1802), de Francis Jeffrey, Sydney lor, conta com o apoio de Th. B. Macaulay no ensaio sobre
Warren Hastlngs, 1841.
12) Charles Churchill, 1731-1764.
10) Jean-François de la Harpe. 1739-1803. Rosciad (1764); Prophecy of Famine (1763); Eplstle to William
Warwick (1763); Philoctète (1783); Coriolan (1784); Virginie Hogarth (1763); Gotham (1764).
(1786); etc. Edição por D. Laver, 2 vols., London, 1933.
Lycée ou Cours de Iittérature ancienne et moderne (1799/1805). F. Putschi: Charles Churchill, sein Leben und seine Werke.
C-A. Sainte-Beuve: Causeries du Lundi. Vol. V. Wien, 1909.
1380 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A D A LITERATURA OCIDENTAL 1381

do jornalista e agitador radical John Wilkes, no North como no epigramático, corresponde ao ideal demosteniano.
Briton. Churchill é considerado por alguns como promessa O tribuno é u m clássico. As analogias não acabam aí. Uma
de um génio que morreu cedo demais; e é verdade que geração mais tarde, e m pleno romantismo, é Courier ( 15 )
os seus versos duramente modelados revelam um espírito o maior panfletista da oposição liberal. Oficial do exército
de poeta satírico, digno de Dryden, se bem que com menor napoleónico, retirado para os campos e levando a vida de
força moral e com mais amargura. O q u e lhe falta, porém,
um vinhateiro, não s e podia conformar com o patriarca-
é originalidade. Gotham tem elementos pré-românticos;
lismo reacionário da Restauração burbônica: lançou contra
mas a sua obra principal, o poema satírico Rosciad, não se
ela os seus panfletos mais espirituosos do que violentos
afasta do estilo de Pope. O radical é classicista rotineiro.
Os radicais franceses oferecem o mesmo espetáculo. e de grande eficiência jornalística. O individualismo indo-
Chamfort ( 1 3 ), o revolucionário quase anarquista e autor mável de Courier é simpático. Mas a releitura dos panfletos
dos aforismos mais mordazes em língua francesa, escreveu é uma decepção. Courier revela o mau humor de um bur-
uma tragédia voltairiana Mustapha et Zéangir, e também guês que tem de pagar imposto; acabou assassinado, mas
os elogios académicos de Molière e L a Fontaine. Mira- não por agentes do governo e sim por camponeses que
beau ( ' ' ) , a grande voz da razão revolucionária, talvez maltratara. A ironia permanente do seu estilo acaba can-
seja o maior orador político do século; dos oradores liberais sando o leitor; é o artifício do grecista erudito que consi-
dos parlamentos do século X I X êle se distingue pela grande derava como obra principal da sua vida a tradução do
verve, que não é, porém, consequência de improvisação. idílio Dafne e Cloe, de Longos. O panfletista liberal é o
Os discursos de Mirabeau foram elaborados com grande
último representante do classicismo ilustrado; em plena
cuidado literário e depois pronunciados com o temperamen-
luta constitucional não esqueceu a Arcádia anacreôntica.
to de um grande ator. Entre todos os oradores modernos
foi Mirabeau o que mais se aproximou dos processos de Isso acontecerá quase u m século depois do apareci-
trabalho da eloquência antiga; e o seu estilo, no sublime mento do pré-romantismo, movimento que não conhece
fronteiras nacionais e tampouco fronteiras cronológicas.
As origens neobarrocas do pré-romantismo e a sua inde-
13) Sébastien-Roch-Nlcolas Chamfort, 1741-1794.
Mustapha et Zéangir (1776); Pensées, maximes et anecáotes pendência do movimento político manifestam-se num curio-
(1803).
Edição das Maximes et Pensées por A. Van Bever, Paris, 1923, e
dos Caracteres et anecáotes por A. Van Bever, Paris, 1924.
M. Pellisson: Chamfort, étude sur sa vie, son caractere et ses 15) Paul-Louls Courier, 1772-1825.
écrits. Paris, 1895. "Pétition aux deux Chambres" (1816); "A Mesaieurs les Juges du
J. Teppe: Chamfort, sa vie, son oeuvre, sa vensée. Paris, 1950.
14) Gabriel-Honoré de Riquetti, comte de Mirabeau, 1749-1791. tribunal de Tours" (1818); "Simple discours de Paul-Louls Cou-
Discursos: "Sur le veto (1 de setembro de 1789); "Sur la contri- rier, vigneron de la Chavonnière" (1821); "Pamphlet des pam-
bution du Quart (28 de setembro de 1789); "Sur le drapeau phlets (1824); etc. — tradução de Daphnis et Chloé, de Longos
tricolore (21 de outubro de 1790); "Sur la constitution civile du (1810).
clergé (novembro de 1790, janeiro de 1791); "Sur rémigration" Edição por R. Oaschet, 2 vola., Paris, 1925.
(fevereiro de 1791), etc. R. Gaschet: La jeunesse de Paul-Louis Courier. Paris, 1911.
Edição dos discursos por L. Lumet, Paris, 1912.
E. Rousse: Mirabeau. Paris, 1891. R. Gaschet: Paul-Louis Courier et la Restauration. Paris, 1913.
01. Ferval: La jeunesse de Mirabeau. Paris, 1936. P. Arbelet: Trois solitaires. Paris, 1934.
1382 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA. LITERATURA OCIDENTAL 1383

sissimo monge espanhol, o beneditino Feijóo ( lfl ), filho escreveu, em 1733, os tratados "Razón dei gusto" e "El
do século X V I I , dono de uma cultura enciclopédica — no sé qué", publicados no volume VI do Teatro crítico
partindo da teologia e chegando através das letras, até a universal, que se situam entre Gravina e Viço e os teóricos
biologia e a medicina — como só os eruditos barrocos sa- ingleses e alemães do pré-romantismo. Como Gravina e
biam reunir. Ortodoxia católica não se discute com um Shaftesbury, salienta Feijóo a importância do "entusiasmo"
monge espanhol, seja êle embora do século X V I I I , que foi na produção poética, pronunciando-se contra o estilo solene
o século em que o Papa Benedito XIV aceitou a dedicatória e elevado, assim como o fará Wordsworth. A data de 1733
de Le Fanatisme ou Mahomet le Prophète, de Voltaire. na folha de rosto daqueles tratados confirma uma vez mais
"Em necessariis unitas, em dubiis libertas", é um velho a independência do pensamento pré-romântico a respeito
lema católico; e ao P. Feijóo muitas coisas parecem duvi- dos outros movimentos do século. O fator cronológico
dosas. É um grande lutador contra as superstições popu- é tão secundário como o político.
lares e um grande divulgador de conhecimentos científicos Feijóo é menos crítico literário do que crítico da
e úteis; Bacon é o seu modelo de pensar. Evidentemente civilização, no sentido em que hoje se dá esse nome a
não pretende purificar ou reformar a Igreja Romana. O pensadores como Burckhardt e Spengler. O século X V I I I '
que lhe importa é a reforma da sua pátria decadente; é criou essa disciplina do espírito. A força dominante, o
um reformador por patriotismo; e visando a esse fim di- "Zeitgeist", do século X V I I I é o racionalismo; contra êle
vulga as ideias da Ilustração francesa. E sobretudo pela dirige-se a crítica, reivindicando os direitos do sentimento.
tolerância, e a sua discussão com um judeu de Bayonne O reivindicador é, no entanto, a inteligência, que é anti-sen-
é um modelo de dignidade sacerdotal e simpatia filantró- timental por definição. A consequência é uma contradição.,
pica. Mas justamente por tolerância rejeita o racionalismo dialética, pela qual o otimismo sentimental de Shaftesbury
intolerante. Revela o maior respeito pelas grandes tradi- se decompõe, cedendo a uma mentalidade melancólica e,
ções nacionais e eclesiásticas da Espanha, pelo ascetismo por fim, pessimista.
e pela mística, e o seu culto pela literatura francesa não
O ponto de partida dessa evolução é o próprio pensa-
exclui a admiração por Lope de Vega e Calderón, que os
mento de Shaftesbury: é otimista porque acredita na per-
seus contemporâneos afrancesados desprezavam. Nesse
fectibilidade do homem e do mundo, o que implica em
sentido, o padre não merece o apelido de "Voltaire espa-
negação do pecado original; como todos os pensadores de
nol" que os seus inimigos lhe deram. A sua tolerância é
estilo burguês, Shaftesbury é antipascaliano. Mas a perfec-
estética também; não admite o dogma de Boileau. E assim
tibilidade não se identifica com o progresso dos raciona-
listas; não se realiza por meio de descobertas científicas
e libertações antitradicionalistas, mas por meio de entu-
16) P. Benito Jerónimo Feijóo, 1676-1764.
Teatro critico universal (1726/1739); Cartas eruditas y curiosas siasmos estéticos e generosidades morais que põem o ho-
(1742/1760). mem em contato imediato com a alma do Universo. O
Edição de textos seletos por A. Millares Cario (Clásicos Caste- entusiasta Shaftesbury é o oposto do maniqueu céptico
lianos) e na Biblioteca de Autores Espafioles, vol. LIV.
E. Pardo Bazán: Examen crítico de las obras dei P. Feijóo. Bayle; não cairá no pessimismo de Voltaire, pessimismo
Madrid, 1877. que é a tentação permanente dos racionalistas. É um estóico,
M. Morayta: El P. Feijóo y sus obras. Valência, 1913.
G. Delpy: UEspagne et Vesprit européen. UOeuvre de Feijóo. sim, mas não da estirpe dos estóicos pessimistas do Barroco.
Paris, 1936.
1384 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1385

Se Shaftesbury fosse homem de ação, professaria o estoicis- cristã, ou pelo menos antijansenista. O pecado original
mo viril, de resistência, de Lucano; quando muito, seria não é de importância capital, pois "il y a des semences
melancólico. de bonté et de justice dans le coeur de 1'homme." Não
O homem da ação e espírito melancólico foi Vauve- há nada de mais oposto ao pessimismo de La Rochefoucauld.
nargues ( 1 7 ). Aristocrata empobrecido, chegando a oficial Vauvenargues tinha fé na bondade da natureza humana;
da guarda real à custa de grandes sacrifícios financeiros por isso, Voltaire o saudou como a um aliado contra Pascal.
e da saúde, dedicando-se a estudos literários na solidão Mas a fé de Vauvenargues não se baseava nas forças da
das guarnições provincianas, foi enfim reformado, termi- razão cartesiana. Como Shaftesbury, confiava-se ao moral
nando em meio das maiores privações uma obra fragmen- sense, aos instintos que a Natureza nos deu e que corres-
tária que o próprio Voltaire reconheceu como genial; e pondem aos "germes divinos" da doutrina estóica. "La
morreu com trinta anos: Vauvenargues é o representante raison nous trompe plus souvent que la nature". Quer
ideal de um estoicismo viril, de resistência profunda. Como dizer, a Natureza não é razoável. A famosa frase de Vau-
estóico sempre foi considerado, e o seu gosto de diletante venargues, sempre citada — "Les grandes pensées viennent
literário pela poesia de Lucano confirma a opinião geral. du coeur" — não é um lugar-comum de moralista; é um
Mas Vauvenargues era aristocrata e oficial, um cavaleiro protesto vigoroso contra o racionalismo do século e uma
de velha estirpe; só a fraqueza da saúde lhe destruiu os volta ao esprit de finesse de Pascal, em oposição ao esprit
sonhos de ação gloriosa. Não admite o ideal estóico da géométrique. Vauvenargues, enfermo como Pascal e leitor
"ataraxia" imperturbável. Confessa-se "domine par les pas- infatigável das Pensées, é um irmão espiritual do pensador
sions les plus aimables"; perguntaria, com Young, se de Port-Royal, não pela fé mas pelo cepticismo. Certo
apenas a razão foi batizada, não o sendo as paixões. "Si cepticismo, resíduo anti-racionalista do cristianismo aban-
vous avez quelque passion qui élève vos sentiments, qui donado, impediu o deísta Vauvenargues de tirar as últimas
vous rende plus généreux, plus compatissant, plus humain, conclusões do seu culto da energia, que o teriam aproxi-
qu'elle vous soit chère!" Eis o entusiasmo de Shaftesbury mado de Nietzsche — que foi outro grande admirador de
em um homem nato para a ação. Já se chamou a Vauve- Vauvenargues. Tendo em vista esse cepticismo poder-se-ia
nargues "professeur d'énergie"; Stendhal, que o adorava, situar Vauvenargues entre o pessimismo de Pascal e o
reconheceu nele sua preferência pelas grandes almas apai- otimismo de Rousseau; ou então entre o otimismo do
xonadas, mesmo que fossem menos virtuosas que as dos cristão Pascal e o pessimismo do sentimental Rousseau.
burgueses tímidos. A psicologia de Vauvenargues é anti- Precisamente entre otimismo e pessimismo se encontra a
disposição mental que dá às páginas de Vauvenargues o
encanto de simpatia humana ligeiramente triste: a melan-
colia. A contradição entre razão e sentimento levou o abbé
17) Luc de Chapiers, marquls de Vauvenargues, 1715-1747.
Jntroductión à la connaíssance de 1'esprit humain, suivie de Re- Galiani ( 1 8 ), italiano afrancesado nos salões parisienses,
flexiona et Maximes (1746).
Edição por P. Varillon, 3 vols., Paris, 1929.
C.-A. Salnte-Beuve: Causeries du Lundi. Vols. IH, XIV.
M. Wallas: Vauvenargues. Cambridge, 1928.
G. Lanson: Le mar quis de Vauvenargues. Paris, 1930. 18) Ferdinando Galiani, 1728-1787.
F. Vial: Une philosophie et une morale du sentiment. Luc de Delia moneta (1750); Dialogues sur le commerce des òlés (1770);
Clapiers, marquis de Vauvenargues. Paris, 1938. etc.
1386 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1387

um passo mais adiante: a uma revisão racional dos valores de uma civilização finíssima, condenada à morte. Em Ga-
sentimentais. O padre napolitano, causeur espirituosíssimo, liani há algo de Mozart, da alegria abundante de Don
centro admirado do salão de madame Geoffrin, deixou aos Giovanni e dos acordes metálicos do "convidado de pedra".
franceses principalmente lembrança do seu ingegno além O conflito entre sentimento e razão chega à plena
da sua correspondência, monumento alegre da época bri- autoconsciência em Lichtenberg ( l t t ). Como no caso de
lhante de Paris, nas vésperas da Revolução. Os escritos Vauvenargues e Galiani, o legado literário do professor
que êle mesmo publicou tratam, em estilo vivo mas de de física de Goettingen consiste apenas em aforismos; o
maneira muito séria, do valor da moeda e do comércio de cepticismo, imposto pela irresolubilidade do conflito, im-
trigo. Nessas questões, cuja discussão se impunha a todos, pediu realizações maiores. Como os dois outros, Lichten-
angustiados pela crise económica da França, o padre napo- berg é precursor: a sua inteligência lucidíssima recalcou
litano foi diletante; mas o conhecimento do relativismo os instintos violentos e perversos de um aleijado e des-
histórico do seu grande patrício Viço e o realismo político mascarou, ao mesmo tempo, o recalque, reconhecendo a
da sua inteligência — "je suis machiaveliste né" — deram- significação dos desejos vagos e dos sonhos, antecipando
lhe a superioridade sobre as generosidades abstraías dos a psicanálise. "Quando Lichtenberg faz um bon-mot, des-
racionalistas. Galiani chegou ao esboço de uma nova eco- cobriu-se um problema", dizia Goethe, e os problemas que
nomia política, baseada numa teoria dos valores; anteci- esse enfant terrible do racionalismo levantou foram os da
pação espantosa da teoria do marginalismo, que só um conduta humana, problemas irresolúveis pela razão. Lich-
século mais tarde, na época dos Jevons e Boehm-Bawerk, tenberg é o último racionalista e o primeiro romântico.
se tornará ciência reconhecida. Essa teoria dos valores — E n t r e Vauvenargues, Galiani e Lichtenberg existe a
o valor dos objetos depende das necessidades subjetivas comunidade dos problemas. Seria até possível construir
— aplicou-a Galiani à política e à psicologia. Acabou com entre eles uma linha de evolução que continuaria até
o valor absoluto das instituições políticas: profetizando Nietzsche, até a falência da civilização racionalista signi-
a Revolução e a transformação da Revolução em nova ordem ficaria interpretar de maneira anacrónica os problemas do
burguesa. Acabou com o valor absoluto da moral cristã, século X V I I I , pretendendo-se resolvê-los segundo o ponto
antecipando o pragmatismo de Nietzsche. Galiani foi o de vista do fim do século XIX. A época da Ilustração
maior anti-racionalista do século; só deixou subsistir os chegou a outras conclusões: à substituição da razão indi-
instintos subjetivos. Mas o seu "sentimentalismo" subver- vidual pelo sentimento coletivo. O cepticismo de Vauve-
sivo serviu-se dos instrumentos da inteligência racional. nargues, Galiani e Lichtenberg encontra o porto de novos
Matou os adversários pelo esprit, pelo riso, atrás do qual
se revela, em raros momentos, a melancolia crepuscular
19) Georg Christoph Lichtenberg, 1742-1799.
Aphorismen (1800).
Edição por A. Leitzmann, 5 vols., Berlin, 1902/1908.
Edição da Correspondência por L. Perey e G. Maugras, 2 vols., W. Bouillier: Georg Christoph Lichtenberg. Paris, 1914.
Paris, 1881; edição de textos escolhidos por F. Flora, Bari, 1927. E. Bertram: Georg Christoph Lichtenberg. Bonn, 1919.
F . Nicolini: II pensiero deli' abate Galiani. Bari, 1909. W. Grenzmann: Georg Christoph Lichtenberg. Salzburg, 1938.
W. Biermann: Der abbé Galiani ais Politiker, Nationaloekonom O. Deneke: Lichtenbergs Leben. Muenchen, 1943.
und Philosoph. Berlin. 1912. P. Rippmann: Werk und Fragment. Georg Christoph Lichtenberg
M. Palmarocchi: Ferdinando Galiani e il suo secolo. Roma, 1930. ais Schriftsteller. Bem, 1954.
^

1388 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1389

valores absolutos no sentimentalismo democrático de Rous- política e a revolução literária não coincidem. A atitude
seau ( 2 0 ). As mais das vezes, é ele considerado como um pré-romântica j á vem, como revela o caso de Muratori e
dos maiores otimistas de todos os tempos: êle, que acre- Gravina, do Neobarroco, e acompanha sempre o raciona-
ditava tão fortemente na bondade da natureza humana que lismo da Ilustração, desde os começos do século. O pré-
construiu em sua própria base novos sistemas da educação, romantismo torna-se poderoso, preponderante, já muito
da sociedade e do Estado. Outros, porém, salientam o
antes da revolução política, entre 1740 e 1760; coincide com
pajsimismo paradoxal do misantropo Rousseau, perseguin-
uma revolução social que, por sua vez, não coincide com
do e perseguido, acabando como paranóico. Na verdade,
a revolução política, nem cronologicamente nem nos seus
Rousseau foi otimista e pessimista simultaneamente. Não_j
admitiu, nisso, contradição, porque não reconheceu a razão motivos e fins. Os literatos pré-românticos não exprimem
lógica como juiz supremo. Nem havia contradição, porque nem antecipam a mentalidade da burguesia que venceu em
otimismo e pessimismo não são sistemas filosóficos e sim 1794, derrubando Robespierre e os jacobinos e estabele-
états d'âme, expressões de temperamentos e temperaturas cendo o Diretório, o primeiro governo puramente burguês
variáveis da alma e do ambiente. Vauvenargues, Galiani, na Europa. Aqueles boémios são antes os porta-vozes das
Lichtenberg representam, dentro da mesma situação, tem- vítimas da grande crise social que precedeu a Revolução
peramentos diferentes e já conhecidos — o gentilhomme e culminou na explosão de 1789: revolta do povo em sentido
estóico, o cortcgiano neobarroco e antibarroco, o moralista mais nítido. A relação entre pré-romantismo e crise social
céptico — e a temperatura do ambiente ao qual o seu é o reverso sociológico da relação literária entre o senti-
pensamento tem que adaptar-se é o racionalismo otimista.
mentalismo de Richardson e o plebeísmo de Rousseau.
Rousseau é um tipo inteiramente novo: é o primeiro plebeu^
com plena consciência da sua classe; o "entusiasmo" do E n t r e 1740 e 1760 foi que o pré-romantismo se tornou
seu mestre Shaftesbury serve-lhe para apoiar o otimismo poderoso; mas é possível determinar com precisão maior
das suas esperanças sociais e políticas. Mas o ambiente o momento histórico em que o pré-romantismo se revelou
que o rodeia, tem outro clima: é a melancolia dos literatos como a primeira potência literária da Europa. Em 1755,
boémios, retirados da sociedade aristocrática e, no futuro, Samuel Johnson escreveu a famosa carta a Lord Chester-
excluídos da sociedade burguesa. A contradição íntima field, na qual rejeitou a proteção do aristocrata. Ê a De-
em Rousseau explica o paradoxo dos pré-românticos rea- claração de Independência da literatura. Depois, os eman-
cionários ou neutros e dos panfletários radicais, raciona- cipados organizam-se; e para isso também é possível fixar
listas, otimistas e por isso fiéis do classicismo. Ao mesmo uma data aproximada.
tempo desaparece o problema cronológico do pré-roman-
Por volta de 1750, o salão mais importante de Paris é
tismo. Assim como Rousseau precede a Revolução, assim
o de madame Du Deffand; em 1764, a sua companheira,
também o pré-romantismo precede Rousseau. A revolução
mademoiselle de Lespinasse, a abandona, fundando outro
salão, que será o mais importante dos anos de 1770. Os
amigos são em grande parte os mesmos — Marmontel, T u r -
20) Of. nota 172 e: got, Condorcet — e a importância da secessão parece limi-
J. Chaxpentier: Jean-Jacques Rousseau ou le démocrate par tar-se a uma questão de ciúmes entre duas sabichonas. Mas
dépit. Paris, 1931.
1390 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1391

não é assim. Madame Du Deffand ( 21 ) é como que a bem a diferença ao compor-se as gravuras de livros cien-
encarnação do esprit claro e seco do racionalismo. O s e u tíficos e técnicos dos séculos X V I I I e XIX. Até mais
fim de vida, prolongado durante decénios dolorosos de ou menos 1760 ou 1780, os intrumentos físicos e químicos
cegueira, é um deserto de ennui de uma alma culta e vazia; e até as máquinas estão enfeitados de ornamentos; as ilus-
dá testemunho disso a sua correspondência com a única trações das obras biológicas de Malpighi e Swammerdam
pessoa que amou, o inglês Horace Walpole, vazio como são autênticas obras d e arte. Depois, os laboratórios cien-
ela, e que, por diletantismo e para divertimento, criou u m tíficos transformam-se em sóbrias salas de trabalho, as
género romântico, o "romance de horrores". No salão de máquinas exibem só rodas e alavancas, as usinas perdem
madame Du Deffand dominava a figura de La Harpe, o aspecto de pitorescas casas de campo, apresentando-se
pontífice do classicismo ortodoxo. Mademoiselle de Les- como barracões fumosos. A ciência, até então expressão '
pinasse ( 22 ) era de todo diferente: parece uma reincarnação, da curiosidade pura d o espírito, torna-se criada da técnica
mais emancipada, da "religieuse portugaise" Mariana Alco- industrial. É a vitória do utilitarismo. Utilidade e beleza
forado. As suas cartas de amor ao marquês de Mora e ao separam-se. A beleza, expulsa do reino das atividades úteis,
conde de Guibert revelam as paixões violentas que a con- liga-se às coisas inúteis, à natureza não cultivada, às mon-
sumiam. Nela, a literatura sentimental do pré-romantismo tanhas e prados desertos, até às coisas inúteis por defini-
torna-se realidade dolorosa. E a figura dominante do seu ção : às ruínas. A natureza e as ruínas, eis o que inspira
salão não é um Walpole, filho de um primeiro-ministro aos homens da segunda metade do século X V I I I uma gran-
de sua Majestade Britânica, mas D'Alembert, enjeitado de ternura e uma melancolia comovida, como de protesto
encontrado à porta de uma igreja e criado pela mulher de contra a vitalidade arrogante das coisas úteis. A modi-
um vidreiro parisiense. D'Alembert é, aliás, por muito ficação do gosto literário corersponde à diferença entre
tempo, o último cientista metido em coisas da literatura. o esprit claro, seco e ocioso de madame Du Deffand e a
Os matemáticos, físicos, biólogos dos séculos precedentes paixão sentimental, instintiva e revoltada de mademoiselle
estavam em relações com a filosofia e a cultura geral das de Lespinasse. Ao ano de 1764, em que as duas damas se
suas épocas; alguns, como Galileu e Buffon, eram até separaram, atribui Monglond ( 23 ) a importância de uma
grandes escritores. Os Cuvier e Darwin, Gauss e Faraday data histórica: significaria a vitória do pré-romantismo,
e Kelvin não têm relações com literatura e arte. Observa-se na França. Na história literária inglesa não há data corres-
pondente. Mas 1760 seria, segundo Arnold Toynbee, o
começo aproximado do grande movimento que transformou
21) Marie de Vichy, marquise Du Deffand, 1697-1780. a Inglaterra agrícola em país industrializado: da chamada
Correspondance (1809). "revolução industrial".
Edição por M. De Lescure, 2 vols., Paris, 1865.
O.-A. Sainte-Beuve: Causeries du Lundi. Vols. I. XIV.
Cl. Ferval: Madame Du De/fand. L'esprit et Vamour au XVIII» "Revolução industrial" é uma expressão imprópria,
siècle. Paris, 1933. porque não se trata de modificações súbitas, revolucioná-
22) Julie de Lespinasse, 1732-1778. rias, e sim de uma evolução vagarosa. Indústria e indus-
Lettres (1809).
Ediçáo por A. Asse, Paris. 1876. trialização na Inglaterra são fenómenos muito anteriores
C.-A. Sainte-Beuve: Causeries du Lundi. Vol. n .
A. Beauiiier: La vie amoureuse de Julie de Lespinasse. Paris,
1925. 23) A. Monglond: Le préromantisme /rançais. Vol. I. Paris, 1930.
1392 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1393

à segunda metade do século X V I I I , e não só na Inglaterra; panheiro" literário de W a t t é Cowper: o autor de The
foi possível descobrir os primeiros vestígios da "revolução Task (1785) introduz n a poesia sentimental o elemento da
industrial" na Inglaterra do século X V I I e no continente, angústia religiosa que predominará no próprio romantismo.
na França, muito cedo no século X V I I I ( 2 8 _ A ). Só a indús- Assim, o pré-romantismo é elemento integral de toda a
tria pesada inglesa é um fenómeno dos primeiros decénios literatura inglesa do século X V I I I ( 23 - B ).
do século XIX. Quer dizer, Toynbee teve mais razão do
que até há pouco se pensava. Por volta de 1760, a indústria O caráter melancólico da nova poesia não surpreende;
inglesa já está utilizando as máquinas; inicia-se a aliança os poetas não podiam participar do otimismo da prosperida-
entre o capitalismo e a técnica. de burguesa. O que surpreende é a preferência pela paisa-
gem, pelos aspectos rurais da Inglaterra em plena industria-
As datas encontram-se em qualquer história das inven-
lização ; parece manobra evasionista; mas o contrário, porém,
ções técnicas. J á em 1733, Kay inventara o flying shuttle,
é certo. Durante a primeira metade do século X V I I I ,
a lançadeira volante, que multiplicou a velocidade do tra-
balho na indústria têxtil. E m 1764, no ano da separação Londres foi o centro comercial da Inglaterra; a literatura
entre madame Du Deffand e mademoiselle de Lespinasse, classicista é principalmente urbana. A industrialização
Hargreaves inventou a Spinning-Jenny, que já não permite desloca os centros de atividade económica para os mi-
o trabalho dos tecelões em casa, exigindo a construção de dlands; começa a era da prosperidade de Warwickshire,
usinas; inicia-se o ciclo da grande indústria têxtil. A pri- Shropshire, Lancashire e sobretudo da Escócia. A nova
mitiva máquina a vapor, que Newcomen inventara em 1715, indústria também é "rural". Um dos motivos principais
servia apenas para serviços de mineração; a de James W a t t da deslocação é a miséria das populações rurais; isso per-
é de 1769; e o novo modelo de 1782 tornou-se capaz de abas- mite pagar salários mais baixos do que na cidade. Porque
tecer de força qualquer empresa industrial. A revolução a revolução industrial é acompanhada de uma revolução
poética acompanha a industrial com pontualidade mate- agrária. A indústria têxtil precisa de lã; é preciso trans-
mática. As Seasons, de Thomson precedem precedem ape- formar muitos terrenos cultivados em campos de pastagem.
nas de três anos o invento de Kay; os Night Thoughts Agora, acabam com os últimos restos da pequena proprie-
(1754), de Young, e a Elegy Wrote in a Country Church dade, criando latifúndios imensos, entre os quais fumegam
Yard (1751), de Gray, anunciam a invenção de Hargreaves as usinas. No começo dessa revolução agrária, houve um
que coincide precisamente com a edição dos poemas ossiâ- grande êxodo dos campos; a população do interior foi
nicos (1762/1765), por Macpherson, e a publicação dos para a cidade, constituindo uma massa subproletária de
Reliques oi Ancient English Poetry (1765), de P e r c y ; o mendigos, ladrões e prostitutas, os personagens da Beggar's
Deserted Village (1769), de Goldsmith, situa-se entre a Opera, de Gay. Depois, consegue-se a fixação do prole-
Spinning Jenny e a Mule Jenny; e do mesmo ano de 1769 tariado rural nos novos centros industriais, e a paisagem
é a Waterframe, o tear hidráulico de Arkwright. O "com- inglesa mudou de aspecto; Wordsworth lamentará que

as A) J. TJ. Nef: War and Human Progress. An Essay on the Rlse 23 B) H. A. Beers: A History o/ English Romanticlsm in the Eigh-
o/ Industrial Civilization. London, 1950. teenth Century. London, 1899.
1394 OTTO M A H I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1395

" . . . the smoke of u n r e m i t t i n g fires pleta na poesia i n g l e s a e universal; contudo, está m u i t o


H a n g s permanent, and p l e n t i f u l as wreaths ligado à s tradições do c l a s s i c i s m o . O seu p o n t o de partida
Of vapor glittering in the m o r n i n g sun." é a p o e s i a de P o p e : c o m o este, Thomson não é musical;
prefere o g é n e r o d e s c r i t i v o , porque êle é uma natureza
Mas justamente através da fumaça reconhecem os poetas didática. A sua i d e o l o g i a é o racionalismo, atenuado pelo
a beleza modesta da paisagem inglesa, as colinas e o s prados s e n t i m e n t a l i s m o de u m moralista — mistura tipicamente
verdes, as pequenas florestas nas quais brincaram outrora inglesa. Por isso, êle t o r n o u - s e poeta nacional, lido e querido
as fadas do Midsummer-Night's Dream; descobre-se a ma- como p o u c o s outros. C o n t r i b u i u para esta popularidade o
jestade das catedrais medievais nas cidadezinhas sonolentas, seu patriotismo. O s e n t i m e n t o nacional não foi alheio a
e pela primeira vez os poetas do país protestantes reparam P o p e : Windsor Forest celebra "Liberty" como "Britannia's
nas ruínas d o s conventos, abandonados d e s d e a Reforma. Goddes", profetiza "future navies", "rich industry" e o
A nova poesia será poesia rural, a princípio m u i t o pare- tempo em que a Inglaterra será
cida c o m a poesia pastoril da A r c á d i a ; só lentamente se
libertará do estilo de P o p e ; a diferença reside no predo- "The W o r l d ' s great oracle in times t o come."
m í n i o da melancolia, e também em um n o v o senso da natu-
reza, que é considerada como um U n i v e r s o vivo, cheio de São os valores da paz, valores cosmopolitas, dos quais a
criaturas alegres ou demoníacas. N o fundo, é um s e n s o monarquia i n g l e s a é campeã. T r ê s decénios mais tarde, o
da natureza muito a n t i g o , o d o s p o v o s germânicos que patriotismo i n g l ê s é guerreiro, agressivo, embora sempre em
costumavam personificar as forças elementares, senso da n o m e daqueles m e s m o s ideais de 1688. Na Masque of Al-
natureza que constituíra, desde Chaucer, através de Spenser fred, peça em e s t i l o classicista-restauração, insere T h o m s o n
e Shakespeare até Milton, uma grande tradição da poesia a famosa canção
inglesa. D e s s e modo, T h o m s o n , admirador d e Spenser, é
um "reacionário" que revolucionou a poesia inglesa, des-
"Rule, B r i t a n n i a ! Britannia rules the w a v e s ;
pertando na Europa inteira o entusiasmo pela poesia ingle-
B r i t o n s never shall be slaves!"
sa e, em geral, pela poesia da natureza ( 2 4 ) .

James T h o m s o n ( 2 5 ) merece, como p o u c o s outros, o na qual as reivindicações da Liberdade e do imperialismo


título de poeta de transição. Operou uma revolução com- marítimo se confundem. T h o m s o n representa bem o senso
i n g l ê s das realidades. A capacidade de transfigurar poeti-
camente a realidade revela-se n o poema alegórico The Cas-
24) M. Reynolds: The Treatment of Nature in English Poetry bet- tle of Indolence, spenseriano na alegoria e no metro.
ween Pope and Wordsworth. 2.* ed. Chicago, 1909.
J. Arthos: Tfie Language of Nature Description in XVIII th
Century Poetry. Ann Arbor, 1949.
26) James Thomson, 1700-1748. E. Cory: "Seasons, Thomson and Romanticism". (In: Publica-
The Seasons (1726/1730); The Masque of Alfred (1740); The tions of the Modem Languages Association. 1911.)
Castle of Indolence (1748). A. H. Thompson: ."Thomson". (In: The Cambridge History of
Edição por J. L. Robertson, Oxford. 1908. English Literature. Vol. X. 2.B ed. Cambridge, 1921.)
w. Bayne: James Thomson. Edinburg, 1898. A. D. Mc Killop: The Background of Thomson's Seasons.
O. O. Macaulay: Thomson. London, 1908. Minneapolis, 1942.
1396 OTTO MABIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1397

Thomson afirma-se como poeta autêntico pela harmonia inspiração romântica n a tradução das Seasons (lida pelos
perfeita entre a intenção e o metro que escolhe: era muito contemporâneos em manuscrito, depois publicada em 1844)
moço quando começou o famoso poema descritivo The pela poetisa Leonor de Almeida Portugal Lorena e Len-
Seasons, e contudo já teve a coragem de abandonar o heroic castre, marquesa de Alorna. Uma literatura nova, a norue-
couplet de Pope e voltar ao verso branco de Milton, o guesa, inagura-se com o thomsoniano Tullin ( afl ), teólogo
metro nacional da poesia inglesa. Embora seja o poema erudito e patriota prático, descobridor das belezas de maio
composto de numerosas passagens bonitas e mais numerosos no alto Norte. O seu Maidag impressionou alemães e
versos brilhantes, o conjunto é hoje pouco legível; a época suecos. Gustaf Gyllenborg encheu o seu Winter (1760)
da poesia descritiva já passou; o lugar de Thomson no de uma mistura de radicalismo racionalista e pessimismo
coração dos ingleses e nas estantes das suas bibliotecas desesperado, da qual os suecos alegres do Rococó não gos-
fica hoje ocupado por Wordsworth. Sente-se muito, nas tavam. Mas justamente na Suécia a influência de Thomson
Seasons, o modelo da poesia pastoril de Virgílio; mas foi profunda e decisiva ( 2 7 ). Um poeta tão rococó como
para os contemporâneos, classicamente formados, foi este Creutz ( 28 ) imitou o Summer, e Oxenstjema ( " ) tornou-se
mais um motivo de encanto — e os camponeses e caçadores mesmo o maior poeta descritivo da Escandinávia; descre-
de Thomson parecem-se bastante com as figuras de porce- vendo os aspectos cambiantes do dia, do amanhecer até à
lana do Rococó. Mas a paisagem de Thomson é a paisagem noite, combinou de maneira admirável a elegância aristo-
concreta inglesa. O "Spring" do poeta inglês não conhece crática e a melancolia já rousseauiana, exercendo influên-
as flores convencionais da poesia pastoril mediterrânea; cia considerável sobre o romantismo sueco. Por outro lado,
mas há os primeiros ventos quentes, e o camponês impa- houve contra-influências atenuantes. O Rotterstroom, do
ciente prepara o arado. No "Summer" sentimos o calor holandês Dirck Smits (1700-1752), é prejudicada pela elo-
abafante antes do temporal, e as chuvas terminam o idílio quência barroca, herança de Van der Góes. Na Itália ainda
robusto dos ceifeiros. "Autumn" oferece ocasião para a recalcitrante contra influências germânicas, o poeta ana-
caça às raposas, bem inglesa, e no "Winter" olha um sol creôntico Giovanni Meli ( 30 ) preferiu escrever os seus
vermelho pelas nuvens cinzentas sobre o campo de neve,
onde entre árvores sem folhas jaz o mendigo, morto de
frio; e só o cão fiel lhe lambe a mão gelada. Nos melhores 26) Christtan Braunman Tullin, 1728-1765.
En Maidag (1758).
momentos de Thomson sente-se uma ternura já romântica, Reedição por K. L. Rahbek, Kjoebenhavn, 1790.
e às vêzeB — raras vezes — uma angústia quase religiosa. Henr. Jaeger: "En Krlstlania-poet fra íorrlge aarhundrede".
(In: Literaturhlstoriske Pennetegninger. Kjobenhavn, 1878.)
Saindo do salão do Rococó, o poeta dera um passo para Fr. Buli: Fra Holberg til Nordal Brun. Oslo, 1916.
fins incertos; descobrindo a countryside, tornou-se refor- 27) W. Q. Johnson: ThoTnson's Influence on Swedish Literature in
mador da literatura inglesa e europeia. the Eighteenth Century. Urbana Hl., 1836.
28) Cf. "O Neobarroco como Base", etc", nota 32.
Thomson, além de conquistar admiração internacional, 29) Johan Gabriel Oxenstjema, 1750-1808.
tem tido mais outro privilégio dos poetas de primeira or- Dagens stunder (1785).
M. Lamm: Johan Gabriel Oxenstjema. Stockholm, 1911.
dem: despertar literaturas que dormiam ou, então, inaugu- 30) Giovanni Meli, 1740-1815.
rar-lhes nova época. A poesia portuguesa, adormecida entre Bucólica {Primavera, Está, Autumnu, Invernu; 1787).
Edição por E. Alíano, 2 vote., Palermo, 1914/1915.
os convencionalismos da Arcádia, encontrou a primeira G. A. Cesáreo: La vita e Varte de Giovanni Meli, Palermo, 1924.
1398 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1399

poemas thomsonianos no dialeto da sua ilha, a Sicília. A até assombroso. Os contemporâneos não foram capazes de
influência de Thomson foi grande na França ( 8 1 ), desde compreender a poesia d e Brockes superada logo depois por
a primeira tradução das Seasons (1760), por Mme. Bon- outros estilos, mais "modernos"; até hoje figura êle nos
temps. Mas Les Saisons (1769), de Jean-François de Saint- manuais de história literária como velho burguês meio
Lambert, e Les móis (1779), de Jean-Antoine Roucher, ridículo. Na verdade, foi um precursor audacioso, com um
distinguem-se pouco dos idilios anacreônticos; e é difícil coração de grande poeta lírico. A vitória de Thomson na
acompanhar a influência thomsoniana através de Delille, Alemanha deu-se através da poesia anacreôntica. Ewald
Chénier e Fontanes até aos românticos. von Kleist ( a 4 ) deve sua modesta glória menos ao poema
Na Alemanha encontrou Thomson um terreno já pre- thomsoniano Der Fruehling, anacreôntico e já não lido
parado ( 3 2 ). A tradução alemã das Seasons é de Broc- hoje, do que à morte heróica de oficial do exército prussia-
kes ( 8 3 ), em 1745; mas não se pode dizer que as imitou, no de Frederico o Grande, no campo de batalha, e aos elo-
menos talvez nas últimas partes do seu poema descritivo gios exagerados do seu amigo Lessing. Mas Kleist é real-
"Irdisches Vergnuegen in Gott" iniciado 5 anos antes de mente mais romântico que Thomson; nas suas odes já
Thomson principiar as Seasons. Brockes traduzira, na bramam as tempestades frias e descem as névoas nórdicas.
mocidade, Marino, e o seu estilo poético ressente-se do Depois da descoberta da paisagem, descobriram-se a
Barroco; por outro lado, foi tradutor de Pope, deísta, e aldeia e os seus habitantes. O mais famoso poeta de idílios
até mesmo deísta radical, inimigo resoluto do cristianismo. do século X V I I I , o suíço Gessner ( s s ) , ainda é meio ana-
O seu poema torna-se fastidioso pelas digressões intermi- creôntico e muito Rococó. No entanto, é seu sucesso inter-
náveis sobre "as obras de Deus na Natureza", isto é para nacional que inicia a era do "idílio" pré-romântico, já algo
provar que essa Natureza tão maravilhosa já não precisa menos evasivo, menos enfeitado ( 3 a ) ; ali, as menores dife-
de intervenções divinas. Às vezes revela Brockes, no en- renças estilísticas têm profundos motivos ideológicos ( 8 T ) :
tanto, o írisson da religiosidade barroca e a grande elo- reconhece-se a verdadeira situação do camponês. O "New-
quência musical da ópera italiana, então em voga na sua gate Pastoral", de Gay, já parodiara o falso bucolismo, não
cidade de Hamburgo; além disso, a paisagem modesta do apenas por motivos estilísticos, mas com acentos de sátira
estuário do Elba é descrita com realismo inconvencional, social. Só dois decénios mais tarde, na Elegy Wrote in
a Country Chuich Yard, de Gray, o lugar-comum da igual-

31) M. M. Cameron: Uinfluence des Saisons de Thomson sur la 34) Ewald von Kleist, 1715-1759.
poésie descriptive en France. Paris, 1927. Der Fruehling (1749); Ode an die preussische Armee (1757);
32) K. Gjerset: Der Einfluss von James Thomsons Jahreszeiten auf Cissides und Paches (1759).
die deutsche Literatur des 18. Jahrhunderts. Heidelberg, 1898. Edição por A. Sauer, 2 vols., Berlin, 1881/1882.
33) Barthold Heinrlch Brockes, 1680-1747. A. Chuquet: Êtudes áe littérature allemande. Vol. n. Paris, 1902.
Irdisches Vergnuegen in Gott (1721/1748); — Edição de poesias H. Guggenbuehl: Ewald von Kleist. Zuerich, 1948.
escolhidas por R. Delius, Braunschweig, 1917. 35) Cf. "O Neobarroco como Base, etc", nota 28.
Traduções: Strage degli Innocenti de Marino (1715); Essay on 36) P. Van Tieghem: "Les idylles de Gessner et le rêve pastoral".
Man de Pope (1740); Seasons de Thomson (1745). In: Le Préromantisme. Êtudes d'histoire Httéraire europénne.
A. Brandi: Barthold Heinrich Brockes. Jnnsbruck, 1878. Vol. II. Paris, 1948.)
G. Zanton: Barthold Heinrich Brockes. Firenze, 1927.
K. Lohmeyer: Brockes in seinen Gedichten. Hambura, 1934. 37) W. Empson: English Pastoral Poetry. New York. 1935.
1400 OTTO M A B I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1401

dade do rico e do pobre no cemitério, se abre, de repente, supera o patriotismo d e Pope e Thomson pela melancolia
em perspectiva revolucionária — do pensamento na vida sacrificada. Outra vez, Collins
parece inspirado ao p o n t o de vivificar metros já obsoletos:
"Fui! many a flower is born to blush unseen a ode pindárica The Passions, an Ode to Music faz esquecer
And waste its sweetness on the desert a i r . . . " —; as tentativas de Cowley e Dryden. O desejo de

na interpretação de Empson ( 37_A ) evidencia-se o subten- "Revive the j u s t designs of Greece,


dido do contexto: "por que só igualdade na morte? P o r q u e Return in ali t h y simple state!"
não há a igualdade na vida." No século X V I I I , a poesia
pastoril muda de sentido: de expressão evasionista trans- antecipa a interpretação romântica da poesia grega como
forma-se em expressão revolucionária, atenuada pela me- primitivismo genial; mas é exprimido, de maneira nada
lancolia pré-romântica. simples, pelas alegorias spenserianas — neste classicismo
Nem a língua poética de Pope nem a de Thomson era romântico anunciam-se os "just designs of Greece" de
capaz de exprimir essa nova atitude. William Collins ( 38 ) Keats. O poema inacabado Ode on the Popular Supersti-
não criou a nova língua poética; nem é possível qualificar tions of the Highlands of Scotland é clássico, erudito de
Collins de precursor, porque as poucas poesias que o pobre mais para valer como antecipação do ossianismo; mas já
demente escreveu nos seus momentos lúcidos, são de equi- o supera pela melodia individual do senso melancólico das
líbrio clássico, perfeitas como poucas outras em língua coisas que se foram. Melodia verbal é o apanágio de Col-
inglesa. Em Collins não há ambiguidades "interessantes" lins. Na mais famosa das suas poesias, Ode to Evening,
à maneira da "metaphysical poetry"; mas sim ambiguidades é menos importante o senso hiperestético das mudanças
entre forma classicista e assunto pré-romântico, entre lín- atmosféricas — da distinção entre o lingering light do
gua alta e sentimento primitivo. Às vezes parece que Col- verão e o troublous air do inverno; Thomson também teria
lins dá nova profundidade a atitudes já encontradas: o sido capaz disso — do que a fusão musical desses semitons.
patriotismo da Ode, Written in the Year 1746 — Collins é o primeiro e único poeta classicista que sabe fazer
música verbal. Os poetas pré-românticos valeram-se da
"How sleep the Brave, who sink to rest sua melodia sem a sua forma clássica. Dentro dos limites
By ali their Country's wishes b l e s t ! . . . " — estreitos da sua arte foi Collins um génio; infelizmente,
um poeta raro.

"37 A) W. Empson: Some Versions of Pastoral. London. 1936. Thomas Gray ( 89 ) realizou o que Collins prometera;
38) William Collins, 1721-1759. além de aludir à amizade entre os dois poetas, significa
Odes on Several Descriptive anã Allegorical Súbjects (1746).
Edições por M. Thomas, 3.» ed., London, 1894, e por E. Blunden,
London, 1929.
H. W. Garrod: Collins. Oxford, 1928. 39) Thomas Gray, 1716-1771.
A. 8. P. Woodhouse: "Collins and the Creative imaglnation." (In: Six Poems (1753); Pindaric Odes (1757); Poems (1768).
Studies in English. Toronto, 1931.) Edição das obras completas (incl. ensaios e cartas) por E. Gosse,
E. O. Ainsworth: Poor Collins. His Life, His Art and His In- 4 vols., London, 1884.
fluence. Ithaca N. Y., 1937. Edições das poesias por A. F. Bell, Oxford, 1915, e por A. L.
F. Rota: William Collins. Padova, 1953. Poole, Oxford, 1948.
1402 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1403

isso que Gray empregou a língua poética de Collins para professores de Cambridge e Oxford que, durante séculos,
resolver os problemas que a época apresentou à poesia. E compõem versos nas horas de ócio; é o maior scholar poet.
isso, por sua vez, significa que Gray não era um poeta Erudição literária e finíssimo gosto artístico elevaram-no,
original. A aparente inspiração espontânea dos seus versos no dizer da última frase do "Progress of Poesy",
é, na verdade, produto de elaboração cuidadosa, e aparente
riqueza de pensamentos — Gray forneceu à língua inglesa "Beyond the limits of a vulgar fate."
numerosas e frequentes citações — revela-se como abun-
dância de lugares-comuns bem estilizados. Mas Gray era Com efeito, Gray, poeta antológico por excelência, nunca
um artista tão superior que as suas soluções daqueles pro- é vulgar, e isso lhe valeu os ataques mordazes de Words-
blemas logo se tornaram definitivas; depois de Gray só worth, defendendo os direitos da poesia em língua colo-
pode haver plagiários ou revolucionários; e deste modo quial contra a poesia erudita. Só uma vez, Gray atravessou
alcançou o supremo fim da arte, se bem que não da poesia. a fronteira da arte elaborada, e isso justamente quando
O humorismo pensativo, bem inglês, de Gray revela-se pôs essa arte a serviço do "vulgo". "An Elegy W r o t e in
melhor nas suas deliciosas cartas que em poesias como a Country Church Yard" talvez seja o poema mais famoso
"Ode on the Spring" e "Ode on the Death of a Favorite da língua inglesa. Basta citar —
Cat"; a época da "poésie de société" à maneira de Prior,
já havia passado. O moralismo da época exprime-se através " F a r from the madding crowd's ignoble s t r i f e . . . " —
de sensações collinsianas da natureza, em "Hymn to Adver-
sity" e "Ode on a Distant Prospect of Eton College",
e todo inglês sabe continuar de cor, até os semicultos.
aquela a mais elaborada, esta a mais clássica das suas poe-
A Elegia de Gray reúne de maneira incomparável o senso
sias. Romantismo aparece, em formas clássicas, na ode pin-
da natureza —
dárica "The Progress of Poesy", reabilitação poética da
memória de Shakespeare e Milton, documento poético de
"Now fades the glimmering landscape on the sight,
importância histórica e de excelência insuperável de me-
And ali the air a solemn stillness h o l d s . . . " —
lodia verbal. As preocupações pré-românticas pela poesia
nórdica e pela Idade Média encontraram, em Gray, ex-
à melancolia romântica do cemitério de aldeia, em que as
pressão — de maneira algo paradoxal — em mais outras
inscrições comoventes dos túmulos constituem
odes pindáricas: " T h e Bard", " T h e Fatal Sisters", " T h e
Descent of Odin". Em suma, Gray é o ideal dos inúmeros
"the short and simple annals of the p o o r . . . " ,

e à religiosidade livre e digna do " E p i t a p h " :


E. Gosse: Gray. London, 1882.
D. C. Tovey: "Gray". (In: The Cambridge History of English
Literature. Vol. X. 2.» ed. Cambridge, 1921.) "Here rests his head upon the lap of Earth
A. L. Reed: The Background of Gray's Elegy. A Study in the
Taste of Melancholy Poetry, 1700-1750. New York, 1924. A youth, to Fortune and to Fame unknown;
R. Bartln: Essai sur Thomas Gray. Paris, 1934. Fair Science frown'd not on his humble birth
R. W. Ketton-Cremer: Thomas Gray, a Biography. London,
1935. (2.* ed. Cambridge, 1955.) And Melancholy mark'd him for her o w n . . .
*-.

1 UM OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1405

No farther seek his merits to disclose, a forma clássica. Êle é um dos maiores pintores e um dos
Or draw his frailties from their dread abode, piores músicos entre o s poetas ingleses; por isso, esse
(There they alike in trembling hope repose), poeta do povo nunca s e pôde tornar popular. A sua arte
The bosom of his Father and his God." provém de terras longínquas, da poesia realista dos gregos;
o seu pensamento t e n d e para o pessimismo fatalista de
A "Elegy" seria o idílio mais nobre que existe em qualquer Hardy. Não é possível citá-lo: a arquitetura formal dos
língua, se fosse um idílio. Na verdade, o key-word do seus poemas é rigorosa demais para permitir o desmem-
poema, forgetfulness, encerra o protesto indignado contra bramento de versos e frases. Crabbe é o poeta da miséria
o esquecimento do poor, ao qual o mundo negou Fortune da qual Gray fora o artista. O ciclo do idílio pré-romântico
e Fame. É o protesto do plebeu Gray que deveu tudo aos estava fechado.
seus próprios esforços, que rejeitou proteção aristocrática Em toda a parte, o idílio pré-romântico percorre o
e até a dignidade do poet laureate. Gray é o poeta clássico mesmo caminho, da melancolia através do realismo para o
da revolução agrária; mas gravou-se na memória da nação, protesto. Na poesia alemã, Hoelty ( 42 ) representa o lado
porque never spoke out o que sentiu. Era um inglês típico. melancólico da poesia anacreôntica. As suas variações do
O momento idílico da poesia de Gray aparece em toda carpediem são bastante artificiais; quando adota o tom da
a pureza, não da forma mas do sentimento, no Deserted poesia popular, aproxima-se, porém, às vezes, da inspiração
Village (1770), de Goldsmith ( 4 0 ), descrição comovida e de Goethe. Moerike o admirava, e Brahms pôs-lhe em mú-
sentimental da paisagem da revolução agrária, e por isso sica uma ode. Hoelty morreu cedo, é uma figura como-
muito popular. A própria revolução — ou antes as conse- v e n t e ; com mais arte, em língua mais madura, teria sido
quências dela — aparece, e em versos clássicos, na poesia o Gray alemão. O aspecto realista do idílio pré-romântico
de Crabbe ( 4 1 ), que é por isso um dos poetas menos popu- aparece, como fase transitória, na obra de Friedrich Mueller
lares da Inglaterra; mas dos mais fortes. O seu objetivo que, sendo pintor, era chamado Maler Mueller (Aa): na
foi poesia descritiva com intenção moralística: mostrar a mocidade era violento, escrevendo tragédias no estilo do
aldeia, "as T r u t h will paint it, and as Bards will not." movimento pré-romântico "Sturm und D r a n g " ; passou a
É o protesto do "radical", do pensador humanitário, contra velhice em Roma, convertido ao catolicismo, oráculo dos
o falso idílio enfeitado. Wordsworth estava na mesma românticos cristãos. Os seus "idílios" são realistas como
oposição; mas Crabbe é igualmente anti-romântico, por
aversão contra a consolação religiosa que pretende ador-
mecer o pobre, e porque o seu realismo implacável exige 42) Ludwig Christlan Hoelty, 1748-1776.
Gedichte (1782/1783).
Edição por W. Michael, 2 vols., Weimar, 1914/1918.
H. Ruete: Hoelty, sein Leben und Dichten. Ouben, 1883.
40) Cf. nota 107. E. Albert: Das Naturgefuehl Hoelty's. Boon, 1910.
41) George Crabbe, 1754-1832. 43) Friedrich Mueller, dito Maler Mueller, 1749-1825.
The Village (1783); The Parish Register (1807); The Borough Idílios: Die Schaafschur (1775); Das Nusskernen (1775); etc.
(1810); Tales of the Hall (1819). Tragédias: Fausts Leben dramatisiert (1778); Niobe (1778); Golo
Edição por A. J. Carlyle e R. R. Carlyle, 2.a ed., Oxford, 1914. und Genoveva (1781).
R. Huchon: Un poete realiste anglais, George Crabbe. Paris, 1906. Edição dos idílios por O. Heuer, 3 vols., Leipzig, 1914.
J. H. Evans: The Poems of George Crabbe. London, 1933. B. Seuffert: Maler Mueller. Berlin, 1877.
L. Haddakin: The Poetry of Crabbe. London, 1955. w. Oeser: Maler Mueller. Berlin, 1925.
1406 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1407

quadros de Brouwer ou Teniers, desmentidos vigorosos à expediente de Ley Agraria, conjunto de propostas em favor
ternura de Gessner, mas sem intenção social. O sentido de melhoramentos r u r a i s e progressos sociais nos campos.
social do género manifesta-se nos idílios de Voss ( 4 4 ), o Pelo amor à vida rural, Jovellanos parece aproximar-se de
famoso tradutor alemão de Homero — mas observa-se uma Rousseau, embora sejam antes convicções de economista
distinção notável. Quando escreveu em língua literária, fisiocrático e senhor de terras filantrópico. Enquadra-se
adotou as formas classicistas dos ingleses, acreditando no movimento filantrópico da segunda metade do século
aproximar-se do realismo clássico de Homero; os dois idí- X V I I I ; tem mesmo u m coração terno, e escreveu o primeiro
lios narrativos Der siebzigste Geburtstag e Luise, ideali- drama sentimental da literatura espanhola, El delincuente
zações da vida dos pastores luteranos da aldeia, têm o honrado. Apenas é notável que se trate, nessa peça bur-
mérito de ter sugerido a Goethe a ideia e forma de Hermann guesa, de um conflito de honra: é o tema de Calderón.
und Dorothea. Mas quando Voss empregava o dialeto rude O liberal Jovellanos é de velha estirpe. Compreende a
da sua terra, de Mecklemburgo, o plattdeutsch, então era Espanha antiga; talvez fosse o primeiro que, junto com o
diferente. O Winterawend (A Noite de Inverno) descreve historiador das artes plásticas Ceán Bermúdez, chamou a
com toda a franqueza a situação miserável dos camponeses atenção para as catedrais góticas da Espanha. É este o
sob a servidão feudal, e nos Geldhappers (Os prestamistas) lado pré-romântico de Jovellanos, revelando-se também na
transforma-se a advertência em protesto, em ameaça de melancolia das suas poesias ocasionais. Em geral, porém,
revolução — quinze anos antes da Revolução, que nunca Jovellanos é um diletante do bucolismo arcadiano; torna-se
chegou, aliás, àquelas regiões nórdicas. poeta autêntico quando a tristeza do mar, dos campos e
da miséria humana o abate. A natureza parece-lhe
O protesto revolucionário, tão frequente no fim da evo-
lução pré-romântica, assustou muita gente. Burke, W o r d s -
worth, Coleridge tornar-se-ão reacionários; mas estes eram " . . . . r e c i n t o umbrío y silencioso,
ex-liberais ou ex-radicais, convertidos. Os conservadores Mansión la más conforme para un t r i s t e " ;
legítimos tomaram outra atitude. Um espanhol de velha
estirpe, Jovellanos ( 4 5 ), aparece como representante de e na epístola "Fábio a Anfriso" levanta a voz, depois de
muitos correligionários seus em toda a parte da Europa, um século de silêncio classicista, o antigo estoicismo es-
que pretendiam salvar o ancien regime por meio de refor- panhol.
mas mais ou menos fundamentais e orgânicas. Jovellanos A melancolia pré-romântica exprime-se não raramente
vive na história espanhola como autor do Informe en el de maneira mórbida, com acentos .de religiosidade pato-
lógica; e isso não apenas na poesia de místicos mais ou
menos perturbados como Smart e Cowper, mas também em
44) Cf. nota 123. poetas de religiosidade vaga e independente como Blair
45) Gaspar Melchior de Jovellanos, 1744-1811. e Young. Não basta, para explicá-lo, recorrer ao spleen
Poesias (na edição das Obras. vol. I, Barcelona, 1839); El delin-
cuente honrado (1773); El informe en el expediente de Ley Agra- inglês e lembrar a preocupação de um Thomas Browne
ria (1795). com fantasias fúnebres. A Europa inteira imitou Young,
Edição: Biblioteca de Autores Espafioles, vols. XLVI, L.
O. Gonzalez Blanco: Jovellanos, su vida y su obra. Madrid, 1911. e até poetas independentes dessa "Graveyard School" re-
Azorln: "Un poeta". (In: Clásicos y Modernos. Madrid, 1913.) velaram tendências parecidas. Assim Albrecht von Hal-
Fr., Ayala: Jovellanos, su vida y su obra. Buenos Aires, 1945.
140» OITO MARIA CABPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1409

ler ( 4 0 ), grande cientista e patrício orgulhoso de Berna, dominante, e as angústias religiosas são muito acentuadas.
cuja constituição aristocrática defendeu, contra as corren- Mas Blair deve o sucesso — 15 edições em meio século,
tes democráticas» nos romances políticos Alfred e Usong. a última delas com a s gravuras de Blake — ao sucesso
Haller parece, no entanto, um rousseauiano antes de Rous- muito maior do seu rival Edward Young ( 4 8 ), um dos
seau; o seu poema "Die Alpeh" ("Os Alpes"), de 1734, é poetas de influência m a i s profunda na literatura universal,
a primeira poesia europeia sobre os Alpes, e o grande estilo embora as qualidades poéticas não o justifiquem de todo.
de Haller antecipa, de maneira mais robusta, mais suíça, Young é um poeta fastidioso. Aos leitores modernos abor-
a linguagem poética de Klopstock, Schiller e Hoelderlin. rece a poesia didática de lugares-comuns cristãos, os
O pietismo intolerante da sua velhice interpreta-se como sermões metrificados sobre a vaidade da vida e a imor-
reação contra a democracia. Mas Haller foi sempre pie- talidade da alma, a monotonia do estilo sublime. Os con-
tista; o seu cristianismo místico harmonizava bem com temporâneos consideravam esse estilo como miltoniano,
pesquisas fisiológicas. O "grande estilo" de Haller é me- porque viram Milton através dos óculos do classicismo de
nos pré-classicista do que pósbarroco, e o seu sentimento P o p e ; e Young era classicista. As suas tragédias são mol-
da natureza é pré-romântico em função de uma religiosi- dadas em Dryden e Corneille; as suas sátiras são imitadas
dade angustiada que lembra Gryphius; os temas fúnebres de Pope. Mas a eloquência bombástica da tragédia Revenge
voltam sempre, como uma obsessão. lembra Otway e L e e ; e entre as sátiras, aquela contra o
O tema fúnebre de Gray exerceu profunda influência, "not fabulous Centaur", a Volúpia, revela os complexos de
na Inglaterra ( 46 - A ) e no mundo inteiro, pois a Elegia foi violenta sensualidade recalcada em um clérigo de fé duvi-
traduzida para todas as línguas. Mas coube sucesso muito dosa. Com todas as suas frases-feitas sobre Deus e imor-
maior à combinação do tema elegíaco e fúnebre com as talidade, é Young um deísta ou até panteísta que finge ser
angústias da noite: é o assunto poético da "Graveyard cristão. Realmente cristão, em Young, é só o pessimismo
School". A prioridade parece caber ao escocês Robert do desiludido. Disso resulta o prazer em evocar imagens
Blair ( 4 T ) : o título do seu poema, The Grave, dá o acorde de noite, morte, túmulo, cemitério, putrefação — assunto
dos Night Thoughts — e disso também são provenientes
as súbitas explosões de anarquismo moral:
46) Albrecht von Haller, 1708-1777.
Versuch schweizerischer Gedichte (1732); a 2.» ed., de 1934, con-
tém, entre outros poemas novos, Die Alpen; li. 8 ed., 1777); Usong
(1771); Alfred (1773).
Edição por H. Maync, Leipzig, 1923. 48) Edward Young, 1683-1765.
A. Frey: Haller und seine Bedeutung juer die deutsche Literatur. Busiris (1719); The Revenge (1721); The Brothers (1728); Love
Leipzig, 1879. of Fame, or the Universal Passion (1728); The Complaint, or
St. d'Irsay: Albrecht von Haller. Eine Studie zur Geistesgeschichte Night Thoughts on Life, Death and Immortality (1742/1745);
der Aufklaerung. Leipzig, 1930. Conjectures on Original Composition (1759).
Ad. Haller: Albrecht von Haller $ Leben. Bem, 1954. Edição das obras completas por J. Doran, 2 vols., London, 1854.
46 A) J. W. Draper: The Funeral Elegy and the Rise of English Edição dos Night Thoughts por G. Gilfillan, Edinburg, 1853.
W. Thomas: Le poete Edward Young. Paris, 1901.
Romanticism. New York, 1929. H. C. Shelley: The Life and Letters of Edward Young. London,
47) Robert Blair, 1690-1746. 1914.
The Grave (1743). H. Mutschmann's Englische Kultur in sprachwissenschaftlicher
Edição por G. Gilfillan, Edinburg, 1854. Deutung. Leipzig, 1936.
C. Mueller: Robert Blair's Grave und die Grabes- und Nacht- K. Laux: Dos pseudoklassizistische und das romantische in Ed-
dichtung. Jena, 1909. ward Young's Night Thoughts. Muenchen, 1938.
1410 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1411

"Are passions then the Pagans of the soul, É muito marcada a s u a influência na Alemanha ( 5 1 ), nas
Reason alone baptized?" obras de filosofia moral de Gellert, nas odes religiosas de
Klopstok, nos romances sentimentais de Miller, e até no
Eis o protesto romântico de Young, e a fonte das suas Werther, de Goethe. E isto não é tudo: as ideias de Young
angústias. Pretendeu justificar aquele anarquismo ínti- sobre originalidade literária e sobre Homero e Shakespeare
exerceram na Alemanha influência tão profunda que se
mo por uma nova teoria poética (Conjectures on Original
pode dizer que sem Young, a literatura alemã do pré-ro-
Composition), condenando a imitação erudita dos antigos
mantismo e de W e i m a r não teria sido o que foi. Em certo
e celebrando o pretenso génio instintivo de Homero e
sentido, um elemento característico da mentalidade alemã,
Shakespeare; teoria revolucionária que agradou muito aos
a busca de originalidade "titânica", encontrou em Young o
pré-românticos. Na realização, Young não foi além de primeiro apoio teórico.
exclamações enfáticas e, às vezes, de versos famosos pela
Estilo e pensamento de Young sofreram a maior trans-
expressão epigramática da melancolia fúnebre ("Death
formação na Itália ( 5 2 ) . As Notti clementine (1775), de
loves a shining mark, a signal blow"). Os contemporâneos
Aurélio de Giorgi Bertola, ainda são mera imitação. Em
foram mais capazes do que nós outros, hoje, de sentir a
Young, e também em Gray, inspira-se o Carme sui Sepolcri,
angústia pessoal por trás da retórica; Young exprimiu do grande poeta Ugo Foscolo ( ° 3 ) :
em forma clássica e em símbolos cristãos a melancolia an-
gustiada, pré-revolucionária, da época. Daí o sucesso imen- "AH* ornbra de' cipressi e dentro 1'urne
so, do qual participaram os graveyards menores como Blair Confortate di p i a n t o . . . " ;
e Hervey ( 4 0 ) ; este, poeta bombástico sem significação
literária, é digno de nota pela sua religiosidade metodista. o pré-romantismo estético do poeta manifesta-se no pro-
testo contra as leis utilitaristas do governo napoleónico na
Em Oxford, foi um dos primeiros discípulos de John
Itália, que restringiram o luxo dos funerais e túmulos. Mas
Wesley, revelando-se assim a relação íntima entre a gra-
daí, Foscolo chega a outra conclusão:
veyard school e as corerntes místicas da segunda metade
do século. "A egregie cose il forte animo accendono
Ao sucesso na Inglaterra corersponde, pelos mesmos L' urne de' f o r t i . . . "
motivos, o muito maior sucesso internacional de Young ( 5 0 ). Com a ideia bem italiana da "glória", Foscolo volta às
alusões mitológicas e históricas, indicando à poesia italiana
os caminhos de um novo classicismo patriótico. Em 1805,
49) James Hervey, 1714-1758. Ippolito Pindamonte, a quem os Sepolcri foram dedicados,
"Meditations among the Tombs (in: Meditations and Contem-
plations, vol. I. 1746); "Contemplations on the Night (In: Medi-
tations and Contemplations, vol. II, 1747).
L. Tyerman: The Life and Times oj Wesley. Vol. I. London, 51) J. Barnstorff: Youngs Nachtgedanken und ihr Einfluss auf die
1870. deutsche Literatur. Bamberg, 1895.
J. L. Kind: Edward Young in Germany. New York, 1906.
60) P. Van Tleghem: "La poésie de la nuit et des tombeaux en Europe
au XVTHe slècle". (In: Le Préromantisme. Êtudes d'histoire 52) G. Muoni: Poesia notturna preromantica. Milano. 1908.
litttéraire europeenne. Vol. II. Paris, 1948.) 53) Cf. "O Último Classicismo Europeu", nota 77.
1412 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1413

respondeu com um poema já r o m â n t i c o (53"A). Na E s p a n h a t o r n o u - s e poefs poetry: L a m a r t i n e lembrar-se-á d o i n g l ê s


p a s s a r a m d e c é n i o s e n t r e a t r a d u ç ã o , e m 1789, d o s Night ao d a r ao seu p r i m e i r o v o l u m e d e versos o t í t u l o Médita-
Thoughts, p o r J u a n d e E s c a i q u i z , e as r e m i n i s c ê n c i a s tions poétiques et religieuses, e Musset já estava usando
y o u n g i a n a s n a poesia r o m â n t i c a d e E s p r o n c e d a . N o i n t e r - u m l u g a r - c o m u m p o é t i c o , d a n d o à s suas m e d i t a ç õ e s t í t u l o
v a l o a p a r e c e r a m as f a m o s a s Noches lúgubres, que consti- d e Nuits. N o s o u t r o s p a í s e s e u r o p e u s n o t a m - s e Het Graf
t u e m problema bibliográfico. F o r a m publicadas entre as (1791), d o h o l a n d ê s P e i t h ( r,fl ), e a t r a d u ç ã o p a r c i a l d e
o b r a s d e J o s é Cadalso ( 8 4 ) ; m a s é d i f í c i l a t r i b u i r a r e t ó r i c a Y o u n g p e l o n o r u e g u ê s T u l l i n ( 6 7 ) . A s o b r e v i v ê n c i a da
v i o l e n t a da o b r a a esse p o e t a a n a c r e ó n t i c o , m u i t o a f r a n c e - graveyard school verif i c a - s e , d e m a n e i r a s u r p r e e n d e n t e , n a
sado, patriota e partidário da I l u s t r a ç ã o francesa. N a s América. P h i l i p F r e n e a u (58) tornou-se conhecido, d u r a n t e
Cartas marruecas, imitadas das Lettres persanes, de M o n - o século X I X , como o poeta patriótico e satírico, apaixo-
t e s q u i e u , z o m b a r a êle, d e m a n e i r a m u i t o e f i c i e n t e , d o obso- n a d a m e n t e antiinglês, d a g u e r r a de Independência ameri-
l e t o t r a d i c i o n a l i s m o e s p a n h o l : m o r r e u c o m o oficial v a l e n t e cana. A s u a " v i s ã o " T h e H o u s e of N i g h t (1779), é m a i s
na luta pela fortaleza de Gibraltar. O motivo pelo qual do que uma c u r i o s i d a d e bibliográfica: é a p r i m e i r a poesia
l h e foi a t r i b u í d a a q u e l a o b r a é u m e p i s ó d i o b i o g r á f i c o : a u t ê n t i c a , n a s c i d a n o s E s t a d o s U n i d o s . R e c e n t e m e n t e cha-
Cadalso, apaixonado pela atriz Maria Ignacia Ibanez, mou-se a atenção para certas poesias patrióticas de Freneau,
d e s e s p e r o u - s e d e tal m o d o d e p o i s da m o r t e r e p e n t i n a d a celebrando o índio, e j á se disse que teria sido o primeiro
a m a d a , q u e e n l o u q u e c e u e fêz u m a t e n t a t i v a d e e x u m a r poeta americanista, conceito que o seu estilo classicista
o c a d á v e r , p a r a ficar c o m êle. T a l v e z as Noches lúgubres, n ã o j u s t i f i c a . O s c r í t i c o s m o d e r n o s não r e v e l a r a m a m e s m a
descrição impressionante da tentativa, fossem escritas por indulgência para com B r y a n t ( 5 e ) , talvez porque já havia
um anónimo, impressionado pelo episódio; talvez o próprio
Cadalso tenha m u d a d o de estilo com o a s s u n t o : em todo
c a s o e s s e s Night Thoughts realmente "realizados" não dei- 56) Cf. nota 88.
x a m de ser u m fascinante, embora repulsivo sintoma da 57) Cf. nota 26.
mentalidade da época pré-romântica. 58) Philip Freneau, 1752-1832.
Poems (1786); Poems Written Between the Years 1768 e 1794
(1796).
Young deixou memória superficial, mas prolongada na Edição por L. F. Pattee, 3 vols., Prlnceton, 1902/1907; edição crí-
F r a n ç a ( 5 5 ) . A t r a d u ç ã o d e P i e r r e L e T o u r n e u r (1769) tica por H. H. Clark, New York. 1929.
P. E. More: "Freneau". (In: Shelburne Essays, vol. V. New
York, 1908.)
F . L. Pattee: "The Modernness of Freneau". (In: Side Lights
53 A) Cf. "O Último Classicismo Europeu", nota 76. on American Literature. New York, 1922.)
H. H. Clark: Introdução da edição citada.
54) José Cadalso y Vázquez. 1741-1782. L. Leary: That Rascai Freneau. A Study in Literary Failure.
Cartas marruecas (1793); Noches lúgubres. (In: Obras, edição New Brunswick, 1941.
de 1803, vol. m ) .
Edição: Biblioteca de Autores EspaUoles, vol. LXI. 5») William Cullen Bryant, 1794-1878.
J. Tamayo Rubio: "Cartas marruecas", Estúdio crítico. Granada, Thanatopsis (1817); Poems (1821); The Fountain and Other
1927. Poems (1842); etc.
O. Diaz Plaja: Introducción ai estúdio dei romanticismo espanol. Edição por H. C. Sturges e R. H. Stoddard, New York, 1903.
Madrid. 1936. P. Godwin: A Biography of William Cullen Bryant. 2 vols. New
York, 1883.
65) F. Baldensperger: "Young et ses Nults en France". (In: Êtudes J. Bigelow: William Cullen Bryant. Boston, 1890.
d'histoire littéraire. Paris, 1907.) W. A. Bradley: William Cullen Bryant. New York, 1905.
1414 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1415

sido festejado demais, ao passo que Freneau é uma redes- ropa. É sintoma, um entre vários, de um renascimento
coberta dos últimos tempos. O poema Thanatopsis é, sem religioso durante o século X V I I I , tão racionalista na
dúvida, uma obra nobre; visão, digna de um grande poeta, aparência. É sintoma disso a discussão sobre o milagre e
essa visão da humanidade como caravana em marcha para sobre os milagres na poesia. O Barroco contra-reformatório
o fim de cada um e de todos na cova — não quis admitir os milagres dos deuses pagãos, recomen-
dando aos poetas os milagres operados pelos santos cristãos.
" T h e innumerable caravan, which moves Mas a distinção era perigosa. Charles Blount, na tradução
To that mysterious realm, where each shall take dos Two First Books of Philostratus, concerning the Life
His chamber in the silent halls of death." of Apollonius Tyaneus (1680), pretendeu demonstrar que
os milagres atribuídos a esse taumaturgo grego estão tão
Com esses versos — e com o fim, moralizante e trivial bem autenticados por testemunhos como os do Novo Testa-
do poema — Bryant arrancou aos ianques do começo do mento; e propôs a alternativa: acreditar em todos os mi-
século XIX, hostis a qualquer atividade literária, o reco- lagres ou em nenhuma milagre. Bayle, no Dictionnaire
nhecimento da poesia como força viva na vida humana. historique et critique, zombou dos milagres pagãos, para
Depois, Bryant levou mais 60 anos de atividade poética, desacreditar indiretamente os milagres cristãos. Desde os
quase sempre medíocre; descobrindo, é certo, a paisagem estudos de Conyers Middleton, os numerosos milagres, re-
americana, mas contando com pedantismo as folhas das latados por Heródoto e Lívio, desapareceram das historiai
flores desconhecidas na Europa, à maneira da poesia didá- modernas de Grécia e Roma. A poesia classicista já nãc
tica do século X V I I I . Bryant era um homem do século admitira o milagre desde Boileau e Pope. Nesse mesmo
X V I I I , como grande jornalista liberal e inimigo da demo- momento, os teóricos do pré-romantismo começaram a rei-
cracia turbulenta das ruas americanas. Não é um começo: vindicá-lo na poesia. O suíço Johann Jakob Bodmer es-
é um fim. O meio esquecido Freneau não tinha a perfeição creveu, contra o classicista Gottsched, Von dem Wunder-
formal de Bryant, mas uma imaginação muito mais quente. baren in der Poesie (1740), referindo-se a Milton, para
The House of Night não deve ter, aliás, escapado à atenção demonstrar a eficiência poética dos milagres cristãos; e
de Poe, que em várias poesias renovou as angústias fúne- o bispo inglês Richard Hurd lembrou nas Letters on
bres de Young e tratou, no conto "Berenice", um caso de Chivalry and Romance (1762) a credibilidade poética dos
necrofilia, parecido com o de Cadalso. Através de Fre- milagres que ocorrem na literatura medieval e em Shakes-
neau e Poe, a graveyard poetry voltou à Europa, impres- peare. Pela primeira vez surgiu a id'éia de que um milagre
sionando Baudelaire e os simbolistas; também no pré-ra- que não admitiríamos na vida real, pode ser perfeitamente
faelita Dante Gabriel Rossentti, que chegou a repetir a aceitável numa obra de ficção. Era o tempo em que o pró-
terrível façanha de Cadalso, se encontram vestígios dela. prio Voltaire ousou apresentar, em Sémiramis, um espectro
no palco. No século do racionalismo e da Ilustração, essa
A relação entre a melancolia pré-romântica e uma teimosia em reivindicar o milagre poético não era atitude
religiosidade vagamente mística, relação que se manifesta "reacionária"; pelo contrário, era de não conformistas. Mas
an graveyard school, é da maior importância para a história o século X V I I I também é o de Haller, cientista e pietista
da literatura universal e para a história espiritual da Eu-
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1416 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1417

ao mesmo tempo; é o século de Swedenborg ( 6 0 ), minera- •dição imensa, a Unpartheyische Kirchen-und Ketzerhisto-
logista, geólogo, engenheiro e visionário fantástico, que rie (História imparcial da Igreja e dos heréticos): todas
conversou diariamente, com anjos e demónios. A religio- a s Igrejas estabelecidas, diz Arnold, estavam sempre erra-
sidade de Swedenborg teve, sem dúvida, fundo patológico; das; quem estava sempre com a razão eram os heréticos.
mas a dos graveyards também era mórbida. Essa religio- Com essa obra criou Arnold, quase sem sabê-lo, a moderna
sidade mística do século X V I I I tinha passado e continuou historiografia crítica d a Igreja. Sem sabê-lo, porque esse
a passar pelas desilusões frias do racionalismo; não podia precursor do racionalismo tológico visava a fins diferentes:
aderir às Igrejas constituídas, todas então mais ou menos pretendeu desmoralizar os dogmas que separam a cristan-
contaminadas pelo racionalismo e o deísmo. A religio- dade, para unir todos os homens numa Igreja espiritual
sidade mística refugiu-se nas seitas; e o sectarismo do do futuro. Reconhece-se aqui a herança dos franciscanos
século X V I I I é um fenómeno de grande importância, ins- heréticos da Ecclesia espiritualis do século X I I I , dos joa-
pirando, muito além do setor literário, todos os movimentos •quimitas; é a ideia d a "Terceira Igreja", dos anabatistas
espirituais da época, embora sempre clandestinamente, in- e outros sectários revolucionários do século XVI. É de
clusive os políticos ( 8 0 - A ). notar que o centro do pietismo subversivo se encontrava
na Renânia, na mesma região dos anabatistas, entre as
Importância e possibilidades do misticismo revelam-se
vítimas da revolução agrária do século X V I e entre as
em uma personalidade como Gottfried Arnold ( e i ) . Es-
da revolução agrária e industrial do século X V I I I . Mais
tudioso da história da Igreja, convertido por Spener ao
um século, e os mesmos proletários renanos hesitarão entre
pietismo, Arnold partiu de um quietismo do amor divino
o conventículo pietista e o comício em que fala o seu
à maneira de Fénelon, para chegar a especulações fantás-
patrício Friedrich Engels. O misticismo do século X V I I I
ticas, à maneira de Swedenborg, sobre as relações entre a
é um aliado subterrâneo do racionalismo; e talvez fosse
religião e a sexualidade — Arnold é um representante típico
mesmo precursor da Revolução, se não entendermos Re-
do misticismo herético. Mas a sua heresia foi mais longe.
volução burguesa. A variante burguesa do mesmo misticis-
Não encontrando nos credos oficiais o amor cristão como
mo é o sentimentalismo.
o entendia, começou a convencer-se que o cristianismo in-
teiro estava errado. Para demonstrá-lo, escreveu, com eru- As relações entre misticismo e sentimentalismo de um
lado e a literatura pré-romântica do outro, são inegáveis,
mas nem sempre manifestas: romance e comédia senti-
60) Emanuel Swedenborg, 1688-1772. mentais, graveyard poetry, reivindicação do milagre na
Arcana Coelestia (1749); De Coelo et de Inferno (1758); De nova
Hierosolyma (1758); etc. poesia têm raízes no misticismo. Mas os movimentos mís-
M. Lamm: Swedenborg. 2* ed. Stockholm, 1925. ticos que contribuíram para a mudança do gosto literário
E. Benz: "Immanuel Swedenborg ais geistlger Wegberelter des
deutschen Ideallsmus und der deutschen Romantik". (In: Deuts- são mais ou menos subterrâneos, ocultados pelo raciona-
che Vierteljahrsschrift fuer Literaturwissenschaft, 1941.) lismo predominante do século; parecem-se com os rios
60 A) Fr. Heer: Europaeische Geistesgeschichte. Stuttgart, 1953. intermitentes que desaparecem da superfície da terra para
61) Gottfried Arnold, 1666-1714. reaparecer em outro lugar onde ninguém os esperava. Assim
Die erste Liebe, das ist die wahre Abbildung der ersten Christen
nach ihrem lebendigen Glauben und heiligen Leben (1696); a grande corrente da mística europeia desapareceu depois
Unpartheyische Kirchen-und Ketzerhistorie (1699). da Reforma; reaparece no século X V I I I , mantendo-se à
E. Seeberg: Gottfried Arnold. Berlln, 1923.
1418 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1419

margem da Ilustração, mas ligada a ela por mais de um f a c e d a qual os r i t o s e p r e c e i t o s d a Igreja se t o r n a m s e c u n -


fio secreto, alimentando a contra-corrente pré-romântica d á r i o s ; a f r o u x a - s e a m o r a l , em favor d o s e n t i m e n t o , e, u m
e conferindo-lhe, de repente, força explosiva. As duas p a s s o m a i s a d i a n t e — d e í s m o v a g o em lugar d o c r i s t i a n i s m o
fontes principais do movimento são a mística hispano- d o g m á t i c o — t e r e m o s r e l i g i ã o d o coração, d o a m o r a p a i -
francesa e a mística holandesa da "Terceira Igreja" com x o n a d o , d a Nouvelle Héloise. C o m efeito, à q u e l e c í r c u l o
as suas ramificações anglo-saxônicas; e é possível notar d o s q u i e t i s t a s v a u d e n s e s p e r t e n c e u madame d e W a r e n s , a
distinção entre misticismo de tendência quietista e misti- amiga de Rousseau (tt4).
cismo de tendência entusiasta. N o r a m o r e n a n o d o q u i e t i s m o salienta-se P i e r r e P o i -
Na Espanha subsistiram subterraneamente, no século- r e t ( 6 5 ) , d o q u a l os h i s t o r i a d o r e s d a l i t e r a t u r a n ã o t o m a r a m
X V I I , resíduos da mística herética dos "iluminados", não c o n h e c i m e n t o e q u e é , n o e n t a n t o , uma d a s f i g u r a s m a i s
como movimento coerente mas em indivíduos isolados, i m p o r t a n t e s d a h i s t ó r i a l i t e r á r i a d o século X V I I I . F i l ó -
capazes, no entanto, de alterar as doutrinas místicas de s o f o a n t i c a r t e s i a n o , e s t u d o u a d o u t r i n a d e S a n J u a n d e la
Santa Teresa e de impressionar com isso outros indivíduos, C r u z e d e S a n t a T e r e s a , e d i t o u os t r a t a d o s d e m a d a m e
outros movimentos e, finalmente, a Europa inteira. De G u y o n , e f u n d o u , em 1688, u m eremitage d e q u i e t i s t a s em
fato, Santa Teresa foi, involuntariamente, precursora de R h y n s b u r g : o p r i m e i r o c e n t r o do quietismo místico na
Molinos ( 0 2 ), fundador do quietismo, doutrina da passi- região renana, fundação de consequências transcendentais.
vidade da alma humana em face do amor de Deus, espécie O c o n c e i t o c e n t r a l d a d o u t r i n a d e P o i r e t e r a a alma her-
de misticismo niilista. Na ortodoxíssima Espanha não ha- mosa, e n c o n t r a d a em S a n t a T e r e s a ; o i t i n e r á r i o m í s t i c o
via lugar para desvios assim. Na França, porém, o quietismo levaria a u m a transformação da alma humana em vaso de
substituiu a mística ortodoxa berulliana, esmagada pelo sentimentos belos e divinos. "Schoene Seele" é a expres-
catolicismo "razoável" dos classicistas e pelo antimisticismo são s i n ó n i m a , e m l í n g u a a l e m ã , e essa e x p r e s s ã o t e r e s i a n a
dos jansenistas cartesianos. Apóstolo do quietismo, na encontra-se com frequência surpreendente nos místicos d o
França, tornou-se madame Guyon (° 3 ), cujo talento ex- século X V I I I e na literatura sentimental, pré-romântica,
traordinário de persuasão seduziu até um Fénelon. Na do mesmo século, em Gellert e W i e l a n d , Klopstock e Miller,
querela do quietismo, a ortodoxia, representada por Bos- n a s r e g i õ e s a l t a s e b a i x a s d a l i t e r a t u r a a l e m ã . P o i r e t é,
suet, foi vitoriosa. Fénelon submeteu-se. Os quietistas mais s e m e x a g e r o , o pai d o s e n t i m e n t a l i s m o p r é - r o m â n t i c o a l e -
obstinados refugiaram-se em países protestantes, na Suíça, m ã o ( ° 6 ) . P o r i n t e r m é d i o d o filósofo h o l a n d ê s F r a n s
a Renânia. Na Suíça, os pietistas do Vaud conservaram
a tradição de uma religiosidade mística do coração, em 64) E. Seillière: Madame Guyon et Fénelon, précurseurs de Jean-
Jacques Rousseau. Paris, 1918.
65) Pierre Poiret, 1646-1719.
62) Miguel de Molinos. 1627-1696. Fundamenta atheisml eversa (1685); etc.
Guia espiritual (1675). M. Wieser: Peter Poiret, der Vater der romantischen Mystik in
P . Dudon: Le quiétiste espagnol Molinos. Paris, 1921. Deutschland. Berlin, 1932.
63) Jeanne-Marie Bouviers de la Mothe Guyon, 1648-1717. 66) M. Waldberg: Zur Entwickungsgeschichte der schoenen Seele bel
Le moyen court et três facile de faire Voraison (1685). ãen spanischen Mystikern. Berlin, 1910.
A. Guerrier: Madame Guyon, sa vie ses doclrines et son influ- M. Wieser: Der sèntimentále Mensch, gesehen aus der Welt hol-
ence. Orleans, 1881. laendischer und deutscher Mystik im 18. Jahrhundert. Berlin,
M. Masson: Fénelon et Mme. Guyon. Paris, 1907. 1924.
1420 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA. LITERATURA OCIDENTAL 1421

Hemsterhuis, aliás adepto do "entusiasmo" moral e esté- dos sentimentais; e aquela expressão, corrente até hoje em
tico de Shaftesbury, o conceito entrou na estética, influen- língua alemã, caracteriza bem o misticismo de tendência
ciando as doutrinas literárias de Goethe e Schiller. Mas quietista.
Goethe, na mocidade, já pertencera a um grupo de quie- A revivificação da "Terceira Igreja" operou-se na In-
tistas renanos, onde conheceu Susanne von Klettenberg, glaterra, entre os restos do sectarismo revolucionário —
autora de uma espécie de memórias espirituais; dono do aí aparece o misticismo de tendência entusiasta — e através
manuscrito, Goethe incluiu-o no romance Wilhelm Meisters de influências estrangeiras, de Jacob Boehme e de Come-
Lehrjahre, como "Bekenntnisse einer schoenen Seele", nius. Este último renovara a ideia da união das Igrejas
"confissões de uma alma hermosa", que impressionaram separadas, fortalecida pelos projetos paralelos de Leibniz
os primeiros românticos. Naquele tempo, a tradição de e particularmente cara aos Quakers, representantes de uma
Poiret já estava dissociada em dois ramos: um católico, religiosidade tipicamente entusiasta. Os Quakers trouxe-
outro protestante. No ramo católico dominava, na Vestfália, ram essa ideia da fraternidade universal para a América,
a princesa de Gallitzin, centro de um grupo de românticos onde a cidade fundada por William Penn recebeu o nome
convertidos ao catolicismo, destacando-se entre eles Stol- significativo de Philadelphia. A Ilustração secularizará
berg e Brentano. Do ramo protestante saiu Juliane von essas ideias, transformando-as em programa de tolerância
Kruedener, que levou para a Rússia as profecias fantásticas religiosa e filantropia humanitária: o programa da Ilus-
do místico alemão Heinrich Jung-Stilling, perturbando a tração anglo-saxônica ( 6 8 ). O ramo alemão desse movimento
cabeça do tzar Alexandre I com sonhos de reunião das religioso, fortalecido por influências diretas de Comenius,
Igrejas separadas; reminiscências de tudo isso encontram- é o Pietismo ( 6 9 ). O fundador do pietismo alemão, Spe-
se nos Três diálogos, de Soloviev, e em Dostoievski. ner ( 7 0 ), assemelha-se aos puritanos ingleses, menos no
A influência de Poiret não se limitou aos círculos espírito de resistência política. Não pretendeu destruir
intelectuais; na Renânia, com as suas grandes tradições a Igreja luterana, mas apenas conquistá-la internamente,
de misticismo popular, alcançou também as camadas baixas. pela atividade pacífica de conventículos de leigos; pacífica,
Aí surge a figura de Gerhard Tersteegen ( e 7 ), operário, mas eficiente: e esses conventículos foram os berços do
depois pregador e autor de poderosos hinos em língua so- sentimentalismo pré-romântico. E n t r e os discípulos de
lene, barroca: a única grande poesia que o calvinismo ale- Spener estavam August Hermann Francke, o grande edu-
mão produziu. Tersteegen está na região e na tradição da cador que preparou os caminhos à pedagogia de Rousseau,
mística holandesa, da "Terceira Igreja". É um "Stiller im e aquele Gottfried Arnold, místico fantástico que exerceu
Lande", um dos "quietos no país", que foram os precursores

68) Br. Bauer: Der Einjluss des englischen Quakertums auf die
67) Gerhard Tersteegen, 1697-1769. deutsche Kultur. Berlin, 1878.
Ge:'sí2ic/ies Blumengaertlein ínniger Seelen (1727); etc.
Edição por T. Klein, Muenchen, 1925. 69) A. Ritschl: Geschichte des Pietismus. 3 vols. Bonn. 1880/1886.
J. Zwetz: Die dichterísche Persoenlíchkeit Tersteegens. Jena, W. Mahrholz: Der deutsche Pietismus. Berlin, 1921.
1915. 70) Philipp Jakob Spener, 1635-1705.
F . Forsthoff: "Tersteegens Mystik". (In: Monatshefte juer rhei- Pia desideria (1675).
nische Kirchengeschichte, XTI/XIV, 1918/1920.) P. Gruenberg: Philipp Jakob Spener. 3 vola. Goettingen, 1903/
O. Wolter: Terateegen's geistliche Lyrik. Marburg, 1929. 1906.
1422 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1423

a maior influência sobre os racionalistas mais teimosos. Mas o metodismo não é, embora pareça, a forma religiosa
Lessing pareceu sempre, e na realidade é, a maior figura do "entusiasmo" de Shaftesbury, que é uma fé de intelec-
da Ilustração alemã; mas as ideias de Lessing sobre a tuais, enquanto que aquele é um movimento de religiosidade
história, como série de revelações divinas e a educação da pequeno-burguesa e popular. Essa origem — em parte
humanidade para além do cristianismo, para uma "Terceira origem puritana — j á se revela nos precursores poéticos
Igreja" maçónica, têm origens místicas ( 7 1 ). O ramo mais como Isaac W a t t s ( 7 S ), que corresponde mais ou menos a
"entusiasta" do pietismo alemão é a seita do Herrnhuter Tersteegen, mas é mais tipicamente inglês do que este é
ou "Irmãos da Morávia", inspirada indiretamente por Co- alemão; um hino de W a t t s —
menius. O fundador, Graf Zinzendorf ( 7 2 ), é um modelo
de religiosidade perversa, contaminada por complexos re- "Our God, o u r help in ages past,
calcados; os hinos de Zinzendorf chegam a incluir metá- Our hope for years to come,
foras obscenas ou nauseabundas. Mas isso não impediu a Our shelter from the stormy blast,
eficiência da propaganda da seita: missão em todos os And our eternal h o m e . . . "
continentes e fortíssima influência espiritual na Europa.
O conceito central dos Herrnhuter, a religiosidade indivi- — gravou-se na memória do povo inglês pela simplicidade
dual, combinou-se com as perspectivas históricas de Lessing popular, tão diferente do tremor barroco de Tersteegen:
em um discípulo do seminário herrnhuteriano em Niesky,
na Silésia, que se tornou o filósofo do classicismo alemão e "Gott ist gegenwaertig! Lasset uns anbeten
o Padre da Igreja da "Kultur" alemã: Schleiermacher. E und in Ehfurcht vor ihn treten.
Schleiermacher também foi um dos grandes patriotas ale- Gott ist in der Mitten! Alies in uns schweige
mães na luta contra Napoleão, em 1813. O pietismo acabou, und sich innigst vor ihm beuge."
paradoxalmente, como patriotismo ( 7 2 _ A ).

O irmão inglês do pietismo alemão é o Metodismo, cujo Tersteegen é mais calvinista, W a t t s é mais teresiano. Ad-
papel poderoso na formação do pré-romantismo não pode mirador de Santa Teresa (e admirador secreto de Boehme)
ser exagerado. Na sua formação cooperaram vários fatô- foi ainda William Law ( T 4 ) ; o seu Serious Call é o livro
res e influências: Herrnhuter e pietismo, lembranças de de devoção mais lido em língua inglesa, mas não se pode
Boehme e Comenius, resíduos do platonismo de Cambridge.
73) Isaac Watts, 1674-1748.
Horae lyricae (1706); Hymns (1707); Psalms of David (1719).
Edição de poesias escolhidas por W. M. Stone, New York, 1918.
71) W. Dllthey: "Gotthold Ephraim Lessing". (In: Dos Erlébnis und E. P. Hood: Isaac Watts, His Life and Writings. London. 1875.
die Dichtung, 7.' ed. Leipzig, 1920.) V. de S. Pinto: "Isaac Watts and His Poetry". (In: Wessex,
72) Nikolaus Ludwig Graf von Zinzendorf, 1700-1760. 3, 1935.)
B. Becker: Zinzendorf im Verhaeltnis zur Philosophie und Kir- 74) William Law, 1686-1761.
chentum seiner Zeit. Leipzig, 1886. A Serious Call to a Devout and Holy Life. Adapted to the State
O. Pflster: Die Froemmigkeit des Grafen Ludwig von Zinzendorf. and Conâition of.All Orders of Christians (1728).
Wien, 1910. Edição por C. Bigg, London, 1899.
72 A) K. Plnson: Pietism as a Factor in the Rise of German TJatio- S. Hobhouse: William Law and Eightsenth Century Quakerism.
nallam. New York, 1934. London, 1927.
1424 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1425

desconhecer, em sua e em qualquer mística, um elemento informados pelo dogma de Calvino, o Metodismo devia
de religiosidade de "elite", dos círculos eleitos. Disso d á afigurar-se cripto-católico. Daí os conflitos permanentes
testemunho o destino dos Quakers. Mas a situação religiosa de Wesley com os calvinistas, que já representavam a gran-
na Inglaterra não permitiu aquela limitação; em meio de de burguesia, enquanto que os sermões de Wesley se diri-
transições sociais transformou-se o quietismo de Law em giam aos oficiais mecânicos, camponeses comerciantes: à
metodismo wesleyano. Os dissenters, os descendentes dos pequena-burguesia. M a s não surgiu de novo o sectarismo
puritanos, estiveram no início, abertos a influências místi- místico dos séculos X V I e X V I I nem as tendências de
cas; Bunyan fora batista, e W a t t s pertenceu aos congre- revolução social. O robusto realismo inglês de Wesley, do
gacionalistas. Mas depois de 1688, os dissenters constituem qual o estilo do seu Journal dá testemunho, não suportava
o núcleo da nova burguesia. O seu representante mais lido, as sombras da mística, e a amplitude social da sua influên-
o presbiteriano Richard Baxter, encerra nos seus livros cia não permitiu a limitação a conventículos de eleitos.
edificantes lições morais que, segundo Max Weber, cons- Quando o obrigaram a separar-se da Igreja oficial, orga-
tituem o germe da mentalidade capitalista. O grande jorna- nizou logo outra Igreja, a metodista, tornando-se fundador
lista dos dissenters no século X V I I I , é o congregacionalista de uma das grande potências espirituais do mundo anglo-
Defoe. Com rapidez inesperada, o pensamento puritano saxônico. O elemento místico que existia no metodismo
seculariza-se, transformando-se em liberalismo político e refugiou-se na poesia.
económico. O misticismo refugia-se na Igreja anglicana;
A poesia oficial do metodismo, tal como está repre-
ali, é Law o seu representante principal. Mas também lá
sentada por Charles Wesley, irmão do fundador, não difere
se não aguenta. A Igreja anglicana é uma instituição esta-
da hinografia de um Isaac W a t t s ; não tem pretensões lite-
tal, dirigida pelos políticos aristocráticos, mais ou menos
rárias. Só os "intelectuais" de dentro do movimento se
cépticos; a Igreja estava-se tornando um pendant aristo-
permitiram expressões diferentes, nas quais as raízes mís-
crático do não conformismo burguês.
ticas do metodismo reaparecem. Assim é a poesia do meto-
Contra essa tendência revoltou-se J o h n Wesley ( 7 B ), dista Hervey, estabelecendo a ligação entre o movimento
o fundador do metodismo, o Spener inglês; e com a repa- religioso e a Graveyard School. Desde então, pela primeira
ração da burguesia desaparecem logo os elementos quie- vez depois de Milton, se pode falar de poesia teológica na
tistas. Assim como os pietistas alemães, não pretendeu Inglaterra: Cowper é o seu maior representante, o mais
ele sair da Igreja, mas revivificar-lhe a vida religiosa por literário; o pietismo entusiástico revela-se mais nitidamente
um novo "método" de conduta religiosa, método de ilu- em Smart. Mas são, ambos, aleijados, em sentido físico
minação repentina, tipicamente entusiasta. Aos dissenters, e em sentido social: vozes no deserto de um ambiente
antipoético.
O nome de Christopher Smart ( 7 e ) não figura em
75) John Wesley, 1703-1791.
Journal (1791); etc, etc. manuais mais antigos da história literária inglesa, e com
Edição do Journal por N. Curnock, 8 vola., London, 1909/1916.
L. Tyerraan: The Life and Times of John Wesley. 3 vols. London,
1870/1871.
B. Dobrée: John Wesley. Oxford, 1933. 76) Christopher Smart, 1722-1771.
O. Kamin: John Wesley und die englische Romantik. Leipzig, A Song to David (1763); Poems (sem as poesias escritas no ma-
1939. nicômio; 1791).
1426 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1427

certa razão: as sátiras e poesias em estilo classicista que — e depois glosá-los e m inúmeras estrofes, das quais cada
dele se conheceram, não têm importância, e o fim do poeta uma começa com um dos adjetivos, lembra OB poetas mís-
no manicômio tornou-o suspeito para Johnson e todos os ticos espanhóis. Mas S m a r t distingue-se mesmo dos outros
que juravam nas palavras do grande crítico. Smart é um místicos pelo modo d e rezar: sempre fala como membro
"caso". Era descendente de gente pobre, o que o predis- de um coro. A sua poesia é altamente litúrgica. Às vezes
punha para o misticismo. Protetores aristocráticos ajuda- lembra Péguy, mas é mais artificial, o que causa tranheza
ram-no nos estudos, e Smart, em ambiente alheio, perdeu num poeta encerrado no manicômio. O fenómeno Smart
o equilíbrio: caiu em deboche, à maneira da Restauração seria já suficiente para justificar as teorias pré-românticas
— e escreveu em estilo classicista. O metodismo conver- sobre o génio instintivo.
teu-o, produzindo nele a mania religiosa; e no manicômio E m Cowper ( 7 7 ), a mesma combinação de emoções
escreveu A Song to David, que os editores das suas poesias, religiosas e sensações patológicas constitui a matéria de
assustados, não recolheram, e que é uma das grandes obras inspiração de um poeta classicista, da escola de Pope; mas
da poesia inglesa do século X V I I I . Está ao lado das poe- o homem é diferente. Um pobre-diabo, sujeito a acessos de
sias de San Ivan de la Cruz, como expressão assombrosa melancolia mórbida com tentativas de suicídio, perturbado
do êxtase místico — pelos sermões e advertências terrificantes dos pregadores
metodistas, levando uma vida que êle mesmo definiu no
" T h e world, the clustering spheres H e made, verso:
The glorious light, the soothing shade,
Dale, champaign, grove, and hill; "I was a stricken deer that left the herd."
T h e multitudinous abyss,
Duas almas habitavam o corpo do inválido. Uma que cantou
W h e r e secrecy remains in bliss
Deus em hinos simples, que são a expressão poética má-
And Widsdom hides her skill."
xima do metodismo; outra, que compôs sátiras e poesias
humorísticas, à maneira de Pope, e com o mesmo talento
Smart já foi comparado a Blake. Mas não é comparável
de construir versos epigramáticos —
3 nenhum outro poeta. A maneira de enumerar em três
versos os atributos de David —
"God made the country, and man made the town."
"Great, valiant, pious, good, and clean.
Sublime, contemplative, serene, 77) William Cowper, 1731-1800.
Olney Hymms (1779); Poems (1782); The Task and Other Poems
Strong, constant, pleasant, w i s e ! . . . " (1785); The Castaway (1799); Tradução de Homero (1791).
Edição por H. S. Milford, 3.a ed„ London, 1926.
H. Child: "Cowper". (In: The Cambridge History of English Li-
terature. Vol. XI. 2.» ed. Cambridge, 1022.)
Edição do Song to David (com introdução importante) por R. A. H. J. Fausset: William Cowper. London, 1928.
Streatfleld, London, 1901; Edição das poesias completas por N. D. Cecil: The Stricken Deer, or The Life of Cowper. London,
Callan, 2 vols., London, 1949. 1929.
K. A. Mac Kenzie: Christopher Smart, sa vie et ses oeuvres. N. Nicholson: William Coiv.per. London, 1951.
Paris, 1925. M. J. Quinlan: William Cowper, a Criticai Life. Minneapolis,
L. Binyon: The Case of Christopher Smart. Oxford, 1934. 1954.
M2« OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1429

Este verso encontra-se na obra mais ambiciosa de Cowper, Blake ( 7 8 ), poeta lírico de inspiração simples e mu-
The Task, poema descritivo à maneira classicista, cântico sical, é, ao mesmo tempo, o porta-voz de todos os anjos
da modesta paisagem inglesa que a revolução industrial e demónios do Universo; a sua obra é das mais vastas e
destruiu; às vezes rebentando em versos de eloquência mais difíceis jamais criadas por um poeta inglês. Até o
magnífica. Mas Cowper era um infeliz, doente, precisando advento do simbolismo, Blake só era conhecido como autor
de ajuda como uma criança. Os seus versos mais como- de pequenas poesias cantáveis e como gravador de ilus-
ventes são de agradecimento a Mary Unwin, sua compa- trações fantásticas para edições de Dante, Chaucer, Young
nheira e enfermeira: e Gray; as notícias biográficas — as suas ideias revolu-
cionárias que o levaram a ser perseguido pela justiça por
". . . T h e r e is a Book alta traição; as irregularidades sexuais da sua vida parti-
By seraphs writ with beams of heavenly light, cular ; enfim, a loucura — não contribuíram para esclarecer
On which the eyes of God not rarely look, os críticos burgueses da era victoriana. Os pré-rafaelitas
A chronicle of actions just and bright — guardaram conhecimento mais íntimo de Blake como se
There ali thy deeds, my faithul Mary, shine." fosse segredo de uma seita. Só os simbolistas abriram a
porta do tesouro; e então se manifestou, enfim, um dos
Ela havia preparado ao stricken deer o lar, o home do qual
Cowper foi o cantor mais inspirado e mais querido entre
todos os poetas de língua inglesa. Mas por fim, perdeu
essa segurança também. Acreditava-se condenado pela ira 78) William Blake. 1757-1827.
Poetical Sketches (1783); Songs of Innocence (1789); The Book
de Deus, e comparou, no poema The Castaway, a sua alma of Thel (1789); Tiriel (1789); The Marriage of Heaven and Hcll
a um marinheiro perdido no temporal em alto-mar: (1790); The French Revolution (1791); Visions of the Daughters
of Albion (1793); America (1793); Songs of Experlence (1794);
Europa (1794); The Book of Urizen (1794); The Book of Los
"No voice divine the storm allay'd, (1795); The Four Zoas (1797); Auguries of Ima 1803);
Milton (1818); The Everlasting Gospel (1818); Jerusalém (1820);
No light propicious shone; The Ohost of Abel (1822).
When, snatch'd from ali effectual aid, Edição das obras completas por G. Keynes, 3 vols., London, 1925.
Edição das poesias por J. Sampson, Oxford. 1918.
W e perish'd, each alone: Edição dos livros proféticos por D. J. Sloss e J. P . R. Wallis,
But I beneath a rougher sea, 2 vols., Oxford, 1926.
A. Symons: William Blake. London, 1907.
And whelm'd in deeper gulfs than he." P. Berger: William Blake, Mysticisme et Poésie. Paris, 1907.
S. F. Damon: William Blake, His Philosophy and Symboltsm.
Boston, 1924.
"Each alone" é uma expressão significativa. A mania vi- M. Plowman: An Introduction to the Study of Blake. London,
sionária de Smart e o isolamento mórbido de Cowper ini- 1927.
M. Wilson: The Life of William Blake. 2.» ed. London, 1928.
biu-lhes o sentimento coletivo. A poesia do entusiasmo A. Clutton-Brock: William Blake. London, 1933.
místico não encontra eco no metodismo organizado. A J. M. Murry: William Blake. London, 1933.
M. Schorer: William Blake. The Politica of Vision. New York,
poesia mística do fim do século X V I I I é francamente 1946.
herética, e nela os sentimentos coletivos manifestam-se com W. P. Wittcutt: Blake, Psychological Study. London, 1947.
S. O. Davies: Thè Theology of William Blake. Oxford, 1948.
fortíssimos acentos revolucionários: a combinação, que é R. Blackstone: English Blake. Cambridge, 1949.
característica de Blake. M. Margoliouthe: William Blake. Oxford, 1951.
1430 OTTO M A R I A GAHPEAUX H I S T Ó R I A DA. LITERATURA OCIDENTAL 1431

poetas mais celestes e mais demoníacos de todos os tempos. festejando a santidade do ato sexual. Se Blake foi um
"Manifestou-se" é maneira de dizer; porque conhecer a louco, então f o i o louco mais lúcido de todos os tempos.
vida de Blake, poeta, místico, revolucionário e louco, e Porque mais cedo do q u e os outros reconheceu os motivos
estudar as múltiplas influências de Boehme e Swedenborg, sociais da Revolução e adivinhou-lhe a degeneração em
dos gnósticos e de Rousseau na sua obra, ainda não basta vitória da burguesia. Songs of Experience apresenta um
para encontrar caminho certo na floresta desse Universo quadro tremendo, "dantesco", da miséria humana; poesias
poético. É um Universo particular, e por ser criação de como "Holy Thursday", "London", "The Chimney Swee-
um doido, não deixa de ser completo. Penetrando nele, o per" constituem a expressão máxima das consequências da
leitor sente a verdade dos versos de Blake: revolução industrial.
Daí em diante, Blake recebeu revelações celestes e
" . . . Around me night and day infernais à maneira d e Swedenborg, manifestando-se-lhe
Like a wild beast guards my way." a relação secreta entre as tempestades históricas e as revo-
luções do Universo; ou então, poder-se-ia dizer, segundo
A primeira coleção de Blake, os Poetical Sketches, apre- um ponto de vista diferente, que Blake enlouqueceu, co-
senta-nos um poeta classicista, logo redimido pelas leituras meçando a compor cosmogonias e mitos fantásticos, nos
de Shakespeare e Ossian; nos Songs of Jnnocence alcançou quais seres sôbre-humanos e infra-humanos, munidos de
a plena liberdade de expressão, abandonando os artifícios nomes esquisitos, resolvem os destinos do m u n d o ; litera-
que Cowper não soube eliminar, antecipando o estilo colo- tura à maneira dos livros que costumam publicar os para-
quial de Wordsworth. Songs oi Jnnocence é o livro mais nóicos. The Book of Urizen, The Book of Los, The Four
"puro" de Blake, "puro" no sentido do simbolismo neo- Zoas iniciam uma série de "livros proféticos", culminando
em Milton, The Everlasting Gospel e Jerusalém. Vasta
romântico; a obra de
literatura religiosa ou pseudo-religiosa, constituindo uma
espécie de anti-Bíblia na qual as noções divinas e demo-
"The blue regions of the air
níacas trocaram as posições. Milton, emendado de seus
Where the melodious winds have birth."
"erros cristãos", aparece como profeta de Lúcifer, anun-
ciando a abolição dos punições eternas e o perdão de todos
Logo no ano seguinte, começa a elaboração de uma grande
os pecados. A carne e os seus prazeres são santificados,
profecia em prosa, ou antes, um enorme discurso de elo-
e a "Nova Jerusalém" da humanidade redimida não é senão
quência irresistível: The Marriage of Heaven and He//.
uma "Nova Albion", uma Inglaterra purificada dos crimes
Revolucionário, que passara pela escola de Swedenborg,
desumanos da revolução industrial e transfigurada em pai-
ataca com a maior violência os dualismos da religião cristã
sagem verde da Liberdade. T u d o isso em estilo por vezes
e da tirania política, as distinções entre o Bem e o Mal,
eloquente, por vezes epigramáticos, interrompido por poe-
alma e corpo, autoridade e povo, pregando a identidade
sias fascinantes, de hermetismo "metafísico", voltando-se
de Deus e Homem. The French Revolution celebra a liber-
logo para os personagens tremendos de uma mitologia
tação política como se fosse um acontecimento transcen-
particular e para ura simbolismo dificílimo que as pesquisas
dental nos céus; e The Visions of the Daughters of Albion
mais pacientes não conseguiram esclarecer totalmente. A
exige o complemento da revolução pela libertação moral,
1482 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1433

história das religiões e da Igreja oferece analogias: as "The Senses roll themselves in fear,
mitologias fantásticas dos gnósticos que, nos século I I e And the f lat E a r t h becomes a Bali;
I I I da nossa era, pretenderam reunir o cristianismo e o T h e Stars, S u n , Moon, ali shrink a w a y . . . "
paganismo greco-oriental, muitas vezes com o propósito
de inverter os conceitos morais, declarando que "iair is — como a dos gnósticos; evasão de um génio perturbado
foul, and foul is fair." Blake conheceu as doutrinas gnós- para o caos. A palavra "evasão", no entanto, não serve
ticas através de vastas leituras ocultistas, e a ideia da inver- para definir Blake, porque os seus símbolos gnósticos re-
são moral surgiu-lhe em face dos horrores da revolução presentam realidades sociais. A visão de liberdade politica,
industrial, na qual os algozes das crianças, nas usinas, pro- social e sexual, em Blake, está bem caracterizada como
fessavam hipocritamente a moral cristã. Por outro lado, utopia:
aquelas mitologias fantásticas não se limitam a séculos
longínquos: os paranóicos, nos manicômios modernos, con-
" . . . above Time's troubled fountains,
tinuam a fabricar religiões particulares dessa espécie.
On the great Atlantic Mountains,
Blake está situado entre profeta e louco; a verdade das
In my Golden House on h i g h . . . " ;
suas visões reside na sinceridade do amor humano que é
a base das suas conclusões revolucionárias, e a expressão
dessa verdade divina é uma poesia de pureza celestial. mas é uma utopia mais radical do que a ideologia dos revo-
lucionários mais radicais do fim do século X V I I I . E as
A poesia de Blake possui um diploma de autenticidade visões infernais de Blake ("Dark satanic m i l l s . . . " ) só
mística. Os grandes místicos de todos os tempos, ortodoxos transfiguram a sua visão naturalista das ruas de Londres
e heréticos, concordariam com o "caminho" que Blake pro- nos primeiros tempos da revolução industrial, dos mendi-
põe: gos, prostitutas e das crianças de sete anos, exaustas por um
dia de trabalho de doze horas.
"To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower, "I wander through each chartered street
Hold infinity in the palm of your hand, Near where the chartered Thames does flow
And eternity in an hour." And mark in every face I meet
Marks of weakness, marks of woe.
A eliminação de tempo e espaço é o método comum das In every cry of every Man
ascensões para o céu dos místicos e das descidas para o In every Infant's cry of fear
abismo do subconsciente, do qual brota a inspiração de In every voice, in every ban
Blake. Será difícil explicá-la sem recorrer à psicanálise, T h e mind-forged manacles I hear.
que conhece bem as fantasias sexuais, as personificações How the chimney sweeper's cry
monstruosas, a torrente de imagens simbólicas. A literatura Every blackening Church appals
de Blake perde assim o aspecto de singularidade absoluta. And the hapless Soldier's sigh
É poesia cósmica e caótica — Runs in blood down Palace walls."
[43 I OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1435

Blake é Dostoievsky em verso: proclama a responsabili- deficiente e leituras desordenadas, com acessos de grafo-
dade de todos por todos. Como Dostoievski, é anarquista mania. Apenas, era u m génio.
espiritualista, mas o seu fim é mais real, é a realização do Blake ficou isolado porque é — anacreônticamente — a
socialismo revolucionário: voz de tradições milenárias, místicas, em favor do prole-
tariado. A burguesia, f eudalizando-se pela compra de lati-
"I will not cease from Mental Fight, fúndios e ligando-se à aristocracia, constituindo assim a
Nor shall my Sword sleep in my hand gentry, participava da direção da Igreja anglicana, aristo-
Till we nave built Jerusalém crática e meio céptica. A burguesia comercial — os dissen-
ters puritanos — estava a caminho do liberalismo político
In England's green and pleasant land."
e filosófico. O campo de ação social do metodismo ( 70 )
é a burguesia média e pequena, na qual é possível distinguir
As muitas maiúsculas são um sintoma, a música verbal
três camadas de leitores: a classe dos artífices comerciali-
é o u t r o : Blake é um simbolista avant la lettre, mas sem o zados, urbanos, à qual Wesley destinava a sua obra de
evasionismo social dos simbolistas. As comparações não evangelização; a classe dos pequenos intelectuais — prin-
servem, tampouco bastam as interpretações psicológicas e cipalmente vigários — nas cidadezinhas e aldeias; e a classe
sociológicas para explicar a existência daquela poesia, das dos leitores propriamente incultos, dos recentemente alfa-
mais puras. Blake tem algo da imaginação cósmica e da betizados. Constituem apenas parcelas do "povo" em geral;
inteligência descontrolada de Victor Hugo, algo da embria- a expressão francesa "populisme" não serve bem para defi-
guez intelectual de Hoelderlin, algo do espírito profético nir-lhes o gosto e as preferências literárias. Será mais
de Dante. Com eles, está acima dos tempos, uma voz de conveniente falar em "plebeísmo", sem significação pejo-
mundos eternos: rativa: todos aqueles são plebeus, por certa vulgaridade
antiaristocrática do estilo e dos sentimentos e por certa
"Hear the voice of the Bard, deficiência de cultura; na hostilidade contra a formação
W h o present, past, and future s e e s . . . " clássica das classes tradicionais revela-se, também, o uti-
litarismo geral da época. Verifica-se aversão contra as
A palavra "Bard" chama-nos rudemente para a expressões da linguagem culta e da inteligência racional,
preferindo-se as expressões do sentimento "simples". A
realidade literária; é reminiscência do gosto pré-romântico
simplicidade é um slogan da época, refletindo as condições
pelos assuntos nórdicos e célticos. A diferença entre Blake
sociais do novo público e alimentando-se da "simplicidade"
e os seus contemporâneos reside em parte no seu estilo,
religiosa dos conventículos pietistas e metodistas, dos
que é o dos dramaturgos elisabetanos e da metaphysical
"quietos no país". O denominador comum dessa literatura
poetry; e em parte, na maneira caótica, — fora e longe de
é o sentimentalismo.
todas as atenuações pelo racionalismo da época — da qual
ele assimilou os elementos pré-românticos: Young e Ossian,
Bíblia e Homero, "Shakespeare Revival", Milton e as né- TO) w. j . Warner: The Wesleyan Movement in the Industrial Re-
voas escandinavas. O artista gráfico Blake está "fora da volution. London) 1930.
M. Lee: The Historical Background of Early Methodíst Enthu-
literatura; parece-se com certos artesãos, de formação siasm. New York, 1931.
1436 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A D A LITERATURA OCIDENTAL 1437

A porta de entrada é o romance. É o mais novo dos a França, é o autor d e um romance de primeira ordem, de
géneros, sem herança de tradições classicistas, capaz de uma daquelas obras q u e se gravaram indelevelmente na
tratar qualquer assunto novo; depois vem o teatro, em que memória da humanidade. Basta pronunciar o título Manon
os pré-românticos já encontram o género da comédia bur- Lescaut, e todos nós vemos, como se tivéssemos assistido
guesa apenas aguarda a sentimentalização. Aquelas três a tudo isso, o encontro de Manon e Des Grieux, no ponto
camadas preferem expressões diferentes: a classe média da diligência em Amiens, a visita de Manon ao seminarista
urbana, o romance sentimental e o drama sentimental; a Des Grieux em St. Sulpice, a cena na casa do jogo, a prisão
classe média rural, o idílio sentimental; as classes baixas de mulheres, a deportação para a América francesa. O
de leitores, o romance "romântico" ou — como se dizia leitor que se lembra do Don Quijote e da Princesse de Clè-
então — "gótico", vulgarização e plebeização do misti- ves, fica logo sabendo que Manon Lescaut é o primeiro
romance realmente moderno, o primeiro em cujas cenas
cismo, desta vez no sentido pejorativo das palavras. Todos
e personagens leitores modernos se podem reconhecer; o
esses géneros novos terão — com a ascensão da burguesia
que não acontece com Gil Blas nem com Moll Flandeis,
no século XIX — um grande futuro: são os pontos de
embora esta última seja algo parecida. Manon Lescaut
partida do romance psicológico, da "pièce à thèse", d a
é uma obra permanente; e isso é tanto mais digno de nota
conto rústico, e do romance policial.
quanto é certo que não faz falta à obra o encanto pitoresco:
O romance sentimental, tanto o do abbé Prévost como é um quadro perfeito do mundo Rococó, entre Watteau
o de Richardson, tem suas bases no libertinismo da Res- e Marivaux, com reminiscências religiosas do grand siècle
tauração e da Régence — libertinismo franco em Prévost, e antecipações libertinas da época pré-revolucionária. Deste
libertinismo recalcado no puritano Richardson, que no en- modo, Manon Lescaut parece perfeitamente situada: a obra
tanto se sentiu bem no ambiente de aristocratas devassos significa a transição do classicismo, da Princesse de CJèves,
e mulheres mais ou menos duvidosas na íashionable esta- ao revolucionarismo, da Nouvelle Heloise, através da
ção de águas de Bath. A força que contribui para formar influência do sentimentalismo inglês, do qual Prévost,
a nova expressão das paixões — "Are passions then the tradutor de todos os romances de Richardson, foi repre-
Pagans of the soul?" — é o misticismo. Richardson é puri- sentante na França. De fato, os outros romances de Pré-
tano e o abbé Prévost é um padre défroque. vost, hoje quase esquecidos, passam-se na Inglaterra; e
O abbé Prévost ( 8 0 ), escritor de segunda categoria, na sua revista Le Pour et le Contre o abbé fêz muito para
benemérito do intercâmbio literário entre a Inglaterra e

Edição do vol. V das Mémoires et aventures por M. E. J. Ro-


80) Abbé Antoine-François Prévost d'Exiles, 1697-1763. bertson, Paris, 1927.
Mémoires et aventures d'un homme de qualité (vol. I-IV, 1728; C.-A. Sainte-Beuve: Causeries du Lundi. Vol. IX.
vol. V-VTI, 1731; no vol. VII: Histoire du chevalier des Grleux F. Brunetière: "Prévost". (In: Êtudes critiques sur Vhlstoire de
et de Manon Lescaut); Le philosophe anglais ou Histoire de la littérature française. Vol. m . Paris, 1883.)
Monsleur Cleveland (1732); Le Doyen de Kíllerine (1735/1740); H. Harrisse: Uabbé Prévost. Paris, 1896.
semanário Le Pour et le Contre (1733/1740); tradução dos ro- V. Schroeder: Uabbé Prévost, sa vie, ses romans. Paris, 1899.
mances de Richardson: Pamela (1742); Clarissa Harlowe (1751); P. Hazard e outros: Êtudes critiques sur Manon Lescaut. Chicago,
Grandisson (1755). 1929.
Edição das obras completas, 55 vols., Paris, 1810/1816. C.-B. Engel: L'abbé Prévost en Angleterre. Paris, 1939.
Inúmeras edições de Manon Lescaut. H. Rodier: Uabbé Prévost. Paris, 1955.
U38 OTTO M A R I A CARPEAUX H I S T Ó R I A DA LITERATURA OCIDENTAL 1439

divulgar as letras inglesas n a França. Acontece, porém, é eterno. E i s porque Manon Lescaut permanece entre todos
que não somente Manon Lescaut, mas também Monsieur os romances sentimentais, perfeitamente legível: é que do
Cleveland e Le Doyen de Killerine foram publicados antes naufrágio de uma literatura inumerável, salvaram-se dois
do primeiro romance de Richardson. H á mais: a Inglaterra personagens, entrando n o panteão dos poucos tipos imortais
romanesca de Prévost não é a Inglaterra real, que êle co- da espécie humana.
nheceu relativamente tarde, mas é, antes, fruto de leituras
O mesmo não se afirmava, até há pouco, a respeito
dos dramaturgos e romancistas da Restauração inglesa, uma
dos romances de Samuel Richardson (Si); ninguém negou
Inglaterra romântica de ladrões e esquisitões, malandros
a grande importância histórica do precursor de Rousseau
e prostitutas. É a Inglaterra de Dryden e Otway, Vanbrugh
e do Werther; mas o público recusou-se a ler esses monu-
e Defoe, vista pelos olhos de um padre défroqué, teste-
mentos de tamanho enorme. Além deste motivo alegava-se
munha da libertinagem da Régence ( 8 1 ). Daí resultam certa
o u t r o : o moralismo quase escandaloso de Pamela, Clarissa
saudade nos seus quadros de vida fácil e o sentimentalismo
e Grandison, romances de sedução, nos quais a virtude
que acompanha as imagens de sensualidade recalcada; a
vence de maneira a mais fabulosa. Richardson, puritano e
situação de homem excluídos daquelas alegrias sensuais
filho de puritanos, começou a escrever com mais de 50
aproxima-o da situação dos pequenos-burgueses que obser-
anos de idade, após ter feito a sua vida de proprietário
vam de longe, com um sentimento misto de indignação
abastado de oficina tipográfica; seu pai era carpinteiro; e
moral e inveja ardente, o modo de viver dos aristocratas.
esse foi bem o ambiente social sobre o qual Wesley exerceu
Por isso, Prévost substitui o desfecho moralizante, satis-
tanta influência. Os romances de Richardson seriam ver-
fatório, da Princesse de Cleves, pelo desfecho trágico de
sões dialogadas da literatura edificante do puritanismo, das
uma paixão vivida até as últimas consequências, pois Ma-
"apostilas" que constituíam a única leitura permitida nas
non Lescaut é a primeira obra da literatura em que a paixão
tardes de domingo. A mistura de sentimentalismo e mo-
puramente sexual, embora enfeitada dos ornamentos do
ralismo explica o sucesso fabuloso, quase inacreditável, dos
Rococó, encontra expressão totalmente franca. É uma data
romances de Richardson, traduzidos e imitados em todas
na história da literatura francesa. É uma obra moderna. O
sentimentalismo é o fundo psicológico de Manon Lescaut,
mas a intenção da obra não é sentimental. O que parece
sentimental ao leitor moderno é o estilo ornado que e antes 82) Samuel Richardson, 1689-1761.
neobarroco e que fora já anacrónico, quando o romance Pamela or Virtue Rewarded (1740); Clarissa or the History of
a Young Lady 1747/1748); Sir Charles Grandison (1753/1754) .
saiu, em 1731; e anacrónico em dois sentidos, porque tam- Edição por w. Lyon Phelps, 18 vols., New York, 1901/1903, e por
E. M. Mac Kenna, 20 vols., London, 1902.
bém antecipava o estilo pré-romântico. Visto assim, o ro- A. Dobson: Samuel Richardson. London, 1902.
mance não é absolutamente Rococó; o ambiente de 1720 L. Schuecking: "Die Grundlagen des Richardson'schen Romana".
é mais adivinhado por nós que descrito pelo autor. O abbé (In: Germanisch-Romanische Monatsschrift, XII. 1920.)
L. Cazamian: "Richardson". (In: The Cambridge History of
Prévost não escreveu o romance de um ambiente pitoresco, English Literature. Vol. X. 2." ed. Cambridge, 1921.)
mas as aventuras de duas almas desvairadas; e esse assunto E. Damielowsky: Richardson's ersier Roman. Berlin, 1917.
B. w. Downs: Richardson. London, 1928.
J. W. Ea-utch: Fiye Masters. New York, 1930.
P. Dottin: Samuel Richardson. Paris. 1931.
A. D. Mac Killop: Samuel Richardson, Prínter and Novelist.
81) Cf. nota 6. Chapei Hlll N. C , 1936.
1440 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1441

as línguas, recebidos com cachoeiras de lágrimas; um ho- Richardson fêz o possível para tornar convincentes os seus
mem como Klopstock escreveu que o fim de Clarissa lhe romances; como jogos gratuitos da imaginação, o puritano
custou cinco lenços molhados. não os teria escrito. O esforço para alcançar verossimi-
Richardson não recuperará nunca mais essa popula- lhança manifesta-se sobretudo no processo novelístico que
ridade; sobretudo o tamanho desses romances interminá- empregou, e que é mais uma inovação decisiva: o método
veis é obstáculo definitivo mas a crítica moderna interpreta epistolográfico. Não analisa diretamente os personagens;
esse defeito como consequência inevitável das análises psi- eles mesmos revelam, trocando cartas, os seus sentimentos;
cológicas exatíssimas, e daí extensas, de um precursor de e este método, típico do romance sentimental do século
Proust. O antigo favorito do grande público é hoje alta- X V I I I , é um processo eminentemente dramático. Em vez
mente apreciado pelos high-brows, pela elite mais exclusiva de colocar-se acima dos personagens, de antemão ciente
do mundo literário anglo-saxônico. Análises psicanalíticas dos seus destinos e comentando-lhes os atos, o romancista
descobriram a libido mal recalcada em Pamela e Clarissa, deixa falar as suas criaturas. É o método do dramaturgo
santas do puritanismo, e no virtuoso Sir Charles Grandison, e tem fontes dramatúrgicas. A arte de Richardson não
colocado entre as mulheres sedutoras Harriet Byron e Cle- provém dos tratados edificantes, mas do teatro da Restau-
mentina delia Poretta. Richardson é um conhecedor incom- ração: daí os villains terríveis, as heroínas eloqttentes, o
parável da alma feminina; e já não se desconhece a simpatia moralismo meio libertino. Sua fonte imediata é a comédia
secreta que nutre pelo seu famosíssimo sedutor Lovelace. sentimental dos últimos tempos da Restauração: em Pa-
De onde vêm ao tipógrafo puritano esses requintes psico- mela ocorrem discussões sobre The Tender Husband, de
lógicos? Steele, e sobre The Distressed Mother, versão sentimental
Richardson, quando começou a escrever, era um homem de Andromaque, por Ambrose Philips; no posfácio de Cla-
abastado. A companhia de aristocratas, na famosa estação rissa, Richardson defende o fim trágico da heroína, que
de águas de Bath, foi o seu maior prazer; tratou os aristo- não corresponde aos preceitos de justiça dramática, refe-
cratas, na vida e na literatura, com a gentileza submissa rindo-se às teorias dramatúrgicas da época; Charles Gran-
de um vendedor diante do freguês. Não era tão puritano dison, assemelhando-se no assunto a The Conscious Lovers,
como parece; tolerava até a companhia do clero da Igreja de Steele, é, em parte, romance dialogado em vez de epis-
oficial e achou admissíveis certos pequenos divertimentos tolográfico. O método dramático de Richardson está, his-
inofensivos. Pretendeu fazer as pazes com a literatura das toricamente entre a maneira de narrar em primeira pessoa,
classes altas. Moralizou o romance heróico-galante, substi- dos romances picarescos e de Defoe, e a oniscência do
tuiu os ladrões e prostitutas de um Defoe por mártires romancista objetivo. Mas não é um método de mera impor-
da virgindade e heróis da virtude; deixou adivinhar o tância histórica. Sem Richardson não haveria, ou não
possível perdão do sedutor Lovelace no outro mundo; e existiriam assim, os complicados métodos narrativos de
notou com satisfação os resultados práticos da resistência Henry James e Conrad. Richardson, porém, pagou caro a
ao vício: Pamela obterá um casamento dos mais vantajosos. exatidão das suas análises psicológicas; pagou com proli-
A virtude vence e faz bem à gente. Nisso, Richardson é xidade imensa; Clarissa parece ser o mais longo dos ro-
o menos realista dos romancistas ingleses. A vitória per- mances em língua inglesa, e o esforço de ler essas obras
manente das forças do Bem é um expediente infantil. Mas por inteiro será sempre raro e heróico. Mas compensa.
1442 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA r»A LITERATURA OCIDENTAL 1443

Um crítico observou que a lentidão meticulosa de Richard- O romance sentimental, entrando no período pré-revo-
son simboliza o ritmo da própria vida. Richardson foi um lucionário, não m u d o u de técnica, mas de desígnio. La^
homem banal e um grande artista. Nouvelle Héloise (1760) ( 8e ) não apresenta aqui a vingança
O romance sentimental é mais uma grande-potência da virtude ofendida, mas o protesto do coração injuriado;
internacional do mundo pré-romântico ( 8 3 ). Na própria em consequência, o personagem principal já não é a mulher,
Inglaterra, o seu sucesso foi maior do que a vontade de mas o homem, embora um herói fraco, um intelectual que
imitar o modelo. Contudo, Sarah Fielding ( 8 3 A ), a irmã não resiste à paixão. O romance de Rousseau conquistou
do grande romancista humorístico e inimigo cordial de o mundo pelo sentimentalismo forçado, violento, que podia
Richardson, apresentou uma variante notável do romance passar por revolucionário. Werther (1714) ( 8T ) confessa aJ
sentimental: The A aventures of David Simple in Quest natureza pessoal, individual, dos seus males; o intelectual
of a Friend, que acrescenta elementos de realismo social, pequeno-burguês pré-romântico preferiu amaldiçoar o Uni-
de sorte que lembra ligeiramente Dickens. Na França an-
verso e meditar o suicídio, em vez de fazer revolução. Foi
tecipou-se às traduções de Prévost o romance Les époux
mais fácil sentir a poesia intensa de Werther do que repetir
malheureux, ou Histoire de M. et Mme. de la Bédoyère
as frases eloquentes e agressivas de Saint-Preux. Havia
(1745), de François-Thomas de Baculard d'Arnaud. Sucesso
uma "moda de W e r t h e r " internacional, antecipação do
grande e internacional alcançaram alguns romances de ma-
Weltschmerz romântico, que é, por sua vez, o epilogo da
dame Riccoboni ( 8 4 ), mais curtos e mais sóbrios do que os
Revolução. Nenhum dos romances wertherianos se aproxi-
de Richardson, e que ainda hoje seriam legíveis. A pos-
ma, nem de longe, do valor do modelo, e a maior parte erra
teridade foi também injusta para com a Schwedische Grae-
85 pela formidável abundância de lágrimas; mas o wertheris-
fin, do fabulista Gellert ( ), romance bastante melhor do
que sua fama. Em compensação, La filosofia italiana, mo em geral possui o mérito de vários outros movimentos
avventure delia marchesa N. N. (1753), do abate Pietro pré-românticos, isto é, ter despertado literaturas velhas,
Chiari, inimigo de Goldoni, distingue-se pela insipidez sonolentas, e outras, novas. Os próprios alemães já não
extraordinária. careciam disso, desde que possuíram no Werther o primeiro
grande romance moderno da sua literatura; o Siegwart
(1776), de Johann Martini Miller, deveu o seu sucesso no-
83) Er. Schmidt: Richardson, Rousseau und Goethe. 2.» ed. Leipzig.
1902. tável apenas à moda. Mas os romances wertherianos de
G. F. Singer: The Epistolary Novel. Philadelphia, 1933. Feith ( 8 8 ), graveyard poet, dramaturgo sentimental e poeta
P. Van Tieghem: "Le roman sentimental en Europe de Richard-
son à Rousseau". (In: Revué de Littérature Comparée 1940.) lírico apreciável, operaram uma renascença da literatura
.83 A) Sarah Fielding, 1710-1768. holandesa; sua Júlia foi até traduzida para várias línguas. A
Adventures of David Simple in Quest of a Friend (1744).
G. Pfuegge: Sarah Fielding ais Romanschriftstellerin. Leipzig,
1908. 86) Cf. nota 172.
A. Dobson: Henry Fielding. 2.° ed. London, 1925.
87) Cf. "O Último Classicismo Europeu", notas 42 e 43.
«4) Jeanne-Marie Riccoboni, 1714-1792.
Letíres de Milady Juliette Catesby à Milady Henriette Campley 88) Rhijnvis Feith, 1753-1824. (Cf. nota 66.)
(1769); Histoire de Miss Jenny (1764). Júlia (1783); Ferdinand en Constantia (1786); — Johanna Gray
E. Grosby: Une romancière oubliée, Mme. JRíccoboni. Paris, 1924. (1791); Het Graf (1791); Oden en Gedichten (1796/1814).
H. G. ten Bruggencate: Rhijnvis Feith. Een bijdrage tot de
Of. "Classicismo da Ilustração", nota 47. kennis van zijn werken en persoonlijkheid. Haarlem, 1911.
Faculdade Eriadual de Direito
de Maringá

1444 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1445

literatura novelística húngara começa com A Herança de Enfim, o personagem do sedutor Lovelace encontrou a úl-
Fanni (1794), de Jozsef Kármán, romance, aliás, mais ri- tima encarnação no Eugênio Onegin, de Puchkin, que é por
chardsoniano que wertheriano; e na literatura russa desem- sua vez o primeiro dos "homens inúteis" da literatura de
penha o mesmo papel A Pobre Lisa (1792), do historiador Turgueniev, Gontcharov e Tolstoi.
romântico Karamisin ( 8 9 ). No século X I X , essa função do O drama sentimental ( 92 ) é expressão da mesma classe
romance sentimental ainda não acabara: a Maria, do poeta urbana e tem as mesmas origens na comédia sentimental de
colombiano Jorge Isaacs ( 0 0 ), famosa pela simplicidade co- Steele, cujo ideal de gentleman burguês foi oposto ao falso
movente do idílio sentimental e pelas descrições da natureza gentleman aristocrático. Pretende refutar o motivo secular
tropical, é o primeiro romance autêntico das literaturas do Rusticus imperans e Jeppe paa bierget, o motivo da
hispano-americanas. Não esqueceremos, nessa altura, o fa- inferioridade fatal das classes não-aristocráticas.
moso romance sentimental brasileiro a Inocência, de Tau-
Exprime ainda a comiseração da pequena burguesia
nay (°°- A ); mas neste também são perceptíveis os pontos pela sua própria situação social; mas já instituiu um novo
contato com Paul et Virginie, isto é, com o idílio pré- código de valores: honestidade chorosa vale mais que no-
romântico. breza alegre.
No romance sentimental havia várias possibilidades de A fonte da energia dramática do novo género é, mais
evolução. Uma, que aparece ocasionalmente no Werther, uma vez, o misticismo; mas não pode ser o misticismo
a ambição pessoal frustrada como motivo secundário do quietista, e sim o misticismo entusiasta que permite e fa-
desespero, transíormou-se em ambição patriótica nas Ulti- vorece a exteriorização teatral dos sentimentos ( 9 8 ). O
me lettere di Jacopo Ortis, de Foscolo (e1)» o único roman- quietista, confiando na ascensão lenta, não se preocupava
ce digno de ser lembrado junto com o modelo. O mesmo muito com os desígnios da Providência divina; podia che-
motivo da ambição pessoal, já isolado do conjunto, sobre- gar a reconciliar-se com o providencialismo naturalista dos
viveu às guerras napoleónicas, reaparecendo em Le Rouge deístas. O romance sentimental — provindo diretamente
et Le Noir. Do wertherismo provém, por sua vez, o Adol- do quietismo — reflete isso mesmo no método epistolográ-
phe, de Benjamin Constant. E assim Richardson pode ser fico: o romance que dsempenha, com respeito aos perso-
considerado como precursor do romance de análise do bur- nagens que criou, o papel de Deus, não é oniscientc, nem
guês derrotado, do romance psicológico do século X I X . sequer preciente. O místico entusiasta, ao contrário, pre-
cisa em todo momento da Providência que lhe guia os
passos; em compensação, sabe possuir a Graça, sente a
89) Cf. "Romantismos de Evasão", nota 57 sua própria bondade, está certo da sua superioridade de
80) Jorge Isaacs, 1837-1895.
Maria (1867).
A. Aría Robalino: Jorge Isaacs y su Maria. Quito, 1937.
M. Carvajal: Vida y pasión de Jorge Isaacs. Santiago de Chile, 92) A. Eloesser: Das buergerliche Drama im 18. und 19. Jahrhundert.
1937. Berlln, 1898.
90 A) Alfredo d'Escragnolle, Visconde de Taunay, 1843-1899. E. Bernbaum: The Drama of Senaibllity. Boston, 1915.
Inocência (1872).
Ph. Serpa: Visconde de Taunay. Rio de Janeiro, 1952. F. O. Noite: Early Class Drama. Lancaster Pe., 1935.
93) I. L. DaviB: "Mystical versus Enthusiastic Senslbility". (In: Jour-
91) Cf. "O Oltimo Classicismo Europeu", nota 77 nal of the History of Ideas, TV,'3, 1943.)
1446 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1447

u m man of feeling, se b e m q u e s u j e i t o às d e s g r a ç a s d a p e ç a s d o a r t e s ã o S e d a i n e (°°), m a i s r e v o l u c i o n á r i o nas p e -


v i d a doméstica e da s u a c o n d i ç ã o s o c i a l ( 0 4 ) . ç a s d o p o l í g r a f o M e r c i e r ( 0 7 ) ; a t é B e a u m a r c h a i s , e m Eu-
génie e La mère coupable, cultivou o drama burguês (98).
A p r i m e i r a " t r a g é d i a d o m é s t i c a " d o s é c u l o X V I I I foi
O p o n t o d e v i s t a m o r a l é a n t e s t r a d i c i o n a l i s t a no Delin-
The London Merchant or the History of George Barnwell,
cuente honrado, d e J o v e l l a n o s ( ° ° ) , e n q u a n t o Kabale und
d e George L i l l o ( 6 5 ) . P o r s e r u m d o s p i o r e s d r a m a s da
Liebe, do jovem Schiller (10°), opondo violentamente à
literatura universal, não deixa de merecer a observação de
d e g e n e r a ç ã o m o r a l da c o r t e a h o n r a d e z e d e s g r a ç a da casa
t e r m a r c a d o é p o c a : p e l a p r i m e i r a vez, u m b u r g u ê s a p a r e c e u
burguesa, é a tragédia mais revolucionária do século X V I I I .
n o p a l c o c o m o h e r ó i t r á g i c o ; t r á g i c o é, aliás, m o d o d e
O género de D i d e r o t , voltando à Inglaterra, encontrou o
d i z e r ; a peça que emocionou p r o f u n d a m e n t e o século s e u r e p r e s e n t a n t e p r i n c i p a l em C u m b e r l a n d ( 101 )> a cujo
X V I I I , p r o d u z i u na o c a s i ã o d e r e p r e s e n t a ç õ e s m o d e r n a s , Jew se e s t e n d e o r a i o d e ação d o s e n t i m e n t a l i s m o , i n c l u i n d o
g a r g a l h a d a s i n t e r m i n á v e i s . The Gamester (1753) d e E d w a r d o mais novo membro da nova burguesia, o judeu. Enfim,
M o o r e é a l g o m e l h o r , e t e m , p o r s u a vez, o m é r i t o d e t e r i m i t a d o r d e C u m b e r l a n d foi o a l e m ã o K o t z e b u e ( 1 0 2 ) , d r a -
i n s p i r a d o a Miss Sara Sampson, d e L e s s i n g . V á r i a s comé- m a t u r g o h a b i l í s s i m o e s u p e r f i c i a l í s s i m o , d e f e r t i l i d a d e es-
d i a s d e G o l d o n i , c o m o II v e r o amico, p a r e c e m - s e c o m o n o v o p a n h o l a ; e n t r e as s u a s c e n t e n a s d e c o m é d i a s e n c o n t r a - s e ,
g é n e r o , ao qual d e c e r t o p e r t e n c e m v á r i a s o u t r a s p e ç a s d o aliás, uma e x c e l e n t e farsa, Die deutschen Kleinstaedter
dramaturgo v e n e z i a n o : Pameía nubile, II padre di iamiglia, i m i t a d a d e Clasina, d e P l a u t o , e m o d e l o d e i n ú m e r o s vau-
e, e s c r i t o e m francês, Le bourru bienfaisant. M a s os d o i s devilles f r a n c e s e s . K o t z e b u e escreveu a p e ç a m a i s r e p r e -
ú l t i m o s já são i m i t a ç õ e s d a s o b r a s d o r e n o v a d o r d o g é n e r o : s e n t a t i v a e m a i s r e p r e s e n t a d a do g é n e r o " d r a m a b u r g u ê s " :
D i d e r o t ( f l B A ) . Le fils naturel e Le père de famille reúnem
o moralismo sentimental e o protesto contra convenções
s o c i a i s obsoletas, d e u m a m a n e i r a q u e p ô d e s e r e n t e n d i d a 96) Michel Sedaine, 1719-1797.
como afirmação das virtudes tradicionais em sujeitos hu- Le philosophe sans le savoir (1765); La gageure imprévue (1768).
L. Guenther: Uoeuvre dramatique de Sedaine. Paris, 1908.
m i l d e s , e t a m b é m c o m o a p e l o aos s e n t i m e n t a i s r e v o l u c i o - 97) Sébastien Mercier, 1740-1814.
nários, não sem certa dose de sensualidade mal dissimulada. Le juge (1774); La brouette du vinaigrier (1775).
L. Béolard: Sébastien Mercier, sa vie, son oeuvre, son temps.
D i d e r o t n ã o foi g r a n d e d r a m a t u r g o ; m a s , n e s s e g é n e r o Paris. 1903.
assim como em todos, um grande precursor. E assim o 98) Cí. "O Classicismo da Ilustração", nota 64.
novo género conquistou a E u r o p a : mais sentimental nas 99) Cí. nota 45.
100) Cf. "O último Classicismo Europeu", nota 41.
101) Richard Cumberland, 1732-1811.
The West Indian (1771); The Jew (1794); etc.
94) O. H. Peake: Domestic Tragedy in Relation to Theology in the S. T. Williams: Richard Cumberland. Hi$ Life and Dramatic
First Half of the Eighteenth Century. (Tese, Ann Arbor, 1941; Works. Newhaven, 1917.
citada por I. L. Davls. Cf. nota 93.)
102) August Friedrich Ferdinand von Kotzebue, 1761-1819.
95) George Lillo, 1693-1739. Menschenhass und Reue (1789); Die deutschen Kleinstaedter
The London Merchant or the History of George Barnwell (1731). (1803); etc, etc.
Edição por B. Dobrée, London, 1949. Ch. Rabany: Kotzebue, sa vie et son temps. Paris, 1893.
L. Hofíman: Qeorge Lillo. London, 1888. L F. Thompson: Kotzebue. A Survey of His Progress in France
05 A) Oí. nota 158. and England. Paris, 1928.
11111 OTTO MARIA CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1446

Menschenhass und Reue. Foi muito mais famosa do que levou para as cidadezinhas e aldeias; em primeira linha, o
todas as peças de Goethe e Schiller, e sob o título The pastor protestante.
Stranger, dominou durante decénios os teatros ingleses e O racionalismo d o século X V I I I minou o dogma menos
norte-americanos; registraram-se representações em Madri do que se pensa; fora da alta sociedade e dos círculos dos
e Moscou, Nápoles e Amsterdã. Nenhuma qualidade lite- intelectuais avançados, a fé permaneceu firme, antes encon-
rária justifica essa glória; mas a técnica dramatúrgica é trando novo apoio n o s reivindicados direitos do coração
nova e eficiente. É a técnica que Scribe, Augier, Dumas contra a "Razão fria". O que mudou foi a situação do
Filho e Ibsen adotarão. sacerdote em relação aos leigos: não pelo racionalismo,
mas pelo utilitarismo. A sociedade quis ver os frutos pal-
Romance sentimental e drama sentimental são, como
páveis da catequese cristã, melhoramentos morais e agrá-
todos os sentimentalismos, expressões de um profundo
rios. Aconteceu, então, que pastores se aproveitaram do
egoísmo: a pequena-burguesia urbana luta pela igualdade
evangelho de Natal para fazer um sermão sobre as vanta-
dos direitos sociais, pretende arrancá-la pelas lágrimas, mas
gens da estabulação, enquanto outros trabalharam mesmo
ignora de propósito as consequências da revolução agrária
no campo para dar o exemplo de vida honrada. Mesmo
e industrial. É preciso abrir exceção, até certo ponto, para
assim não conseguiram encher todas as horas de ócio que
Marmontel ( 1 0 3 ), literato meio sentimental e meio revo-
a administração eclesiástica protestante deixa ao vigário
lucionário, meio racionalista e meio rousseauiano. Em cha-
durante os dias úteis. Leu-se e estudou-se muito nas casas
mados romances históricos lutou pela tolerância religiosa
do cura. O vigário protestante do século X V I I I é, antes
e contra a escravidão, e nos Contes moraux, uma das obras
de tudo, um intelectual de descendência pequeno-burguesa;
mais divulgadas do século X V I I I , apresenta os usuais
nos campos, êle é o único intelectual em todo o distrito.
tableaux de famille, para reivindicar os direitos do coração
Muitos escritores ingleses, alemães e escandinavos do sé-
contra as falsas convenções sociais, sobretudo quando se
culo, são vigários rurais; decerto, a grande maioria é com-
trata do coração enamorado; ousa defender a mãe ilegítima
posta de filhos deles. J á se disse que a literatura alemã
e as uniões de nobres com as filhas inocentes dos campo-
moderna nasceu na casa do cura protestante; e o mesmo
neses. Considera os lavradores superiores aos habitantes
acontece com respeito ao pré-romantismo inglês. Enquanto
degenerados da cidade; recomenda, como Rousseau, a vida
essa gente continuou nos campos, elaborou um novo género
"natural", apresentando cenas de convívio amistoso entre
de literatura, pré-romântico, sentimental, religioso e uti-
gente da alta sociedade e campônios simples. Eis um pro-
litário, idílico e, às vezes, revolucionário ao mesmo tem-
grama, embora puramente teórico, sem conhecimento de
po ( 1 0 4 ). O mais venerável desses modestos homens de
causa. Esse conhecimento só era acessível a uma outra
D e u s é o famoso White of Selborne ( 1 0 B ): passou a vida
camada pequeno-burguesa, que viveu em contato com a
população rural: a daqueles intelectuais que a profissão
104) H. Schoeffler: Protestantismus und Llteratur. Neue Weae zur
englischen Literatur des 18. Jahrhunderts. Leipzig, 1922.
105) Gilbert White (White of Selborne), 1720-1793.
103) Jean-Françols Marmontel, 1723-1799. (Cf. nota 162.) Natural Historji and Antiquities of Selborne (1789).
Contes moraux (1761); Bélisaire (1766); Les Incas (1777). R. Holt-Whlte: Life and Letters of George White of Selborne.
S. Lenel: Un homme de lettres au XVIIle siècle: Marmontel. London, 1901.
Paris, 1902. W. S. Scott: White of Selborne. London, 1960.
M50 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA D A LITERATURA OCIDENTAL 1451

como vigário de Selborne, comunidade rural à qual deve Oliver Goldsmith ( 10T ) é um poeta menor que o destino
o apelido e que lhe deve a imortalidade: tão fielmente adverso lançou a todas as desgraças, para colocá-lo, enfim,
no templo algo classicista da glória. A sua obra mais como-
descreveu, em prosa simples e evocativa, o ciclo das ativi-
vente é a sua própria vida. Filho de um pobre vigário
dades do homem rural, seus trabalhos, tristezas e alegrias;
protestante irlandês, conseguiu estudar no Trinity College,
e demonstrou, ao mesmo tempo, uma curiosidade pela flora
em Dublin, sofrendo todas as humilhações, fracassando
e fauna que lembra o Dr. Thomas Browne. Mas é um como estudante de teologia e de medicina, viajou a pé por
homem simples como Isaac W a l t o n ; e seu livro tornou-se, toda a Europa, buscando uma profissão e ganhando a vida
como o Compleat Angler, companheiro inseparável do in- como músico, e acabou na mais miserável das profissões
glês médio, ao lado da Bíblia. de então, como escritor profissional. Foi membro do clubt
O contato com a população rural e o cristianismo levado de Samuel Johnson, a o lado de Burke, Garrick e Reynolds,
alvo das mofas dos outros por sua inabilidade inata para
a sério produziram intensa compaixão pelos camponeses; o
falar e agir; e vingou-se, dias antes de morrer, com a sátira
mesmo cristianismo e a situação dos vigários como inte-
"Retaliation" certamente a mais suave da literatura inglesa.
lectuais e pequenos-burgueses, dependentes dos terra-te- Goldsmith foi escritor de talentos muito variados. The
nientes, inibem as conclusões revolucionárias. O resultado Traveller é um poema moral e descritivo, em estilo clas-
é o idílio; não o idílio côr-de-rosa da poesia anacreôntica, sicista, com acessos de melancolia pré-romântica. Golds-
mas um idílio triste, sentimental, pré-romântico. O estilo mith é mais poeta na sua prosa, quer no humorismo inti-
é o da "apostila", do livro edificante, leitura das tardes mista dos Essays quer na sátira muito "ilustrada" do
de domingo, da qual Richard Baxter havia dado os maiores Citizen of the World, em que um chinês, imitando as
modelos e que é um dos géneros literários mais cultivados Lettres persanes, de Montesquieu, remete a um amigo, na
do século X V I I I ( 1 0 5 - A ). pátria, as suas impressões da Inglaterra. O grande humo-
rista que em Goldsmith se perdeu, revela-se na comédia
A grande massa dessa bibliografia não tem valor literá- She Stoops to Conquer, uma das farsas mais brilhantes do
rio. Mas a razão não é a falta de sinceridade do idílio, antes teatro inglês, mais digna de figurar na sucessão de Far-
pelo contrário. Publicações documentárias ( 10 °) dão teste-
munho eloquente disso. Aquela literatura peca pela inge- 101) Oliver Goldsmith, 1728-1774. (Cf. nota 40.)
The Citizen of the World (1760/1761); The Traveller (1764);
nuidade do realismo, pela representação da vida real sem Essays (1765); The Viçar of Wakefield (1766); The Good-
esforço estilístico. O valor literário nasceu em Goldsmith, Natur'd Man (1768); The Deserted Village (1769); She Stoops
to Conquer (1771).
quando a realidade foi vista pelos olhos úmidos da saudade. Edição por J. W. M. Gibbs, 5 vols., London. 1884/1886.
Edição das poesias e peças dramáticas por A. Dobson, 2 vols.,
London, 1889.
Edição critica do Viçar of Wakefield por C. E. Doble, Oxford, 1909.
J. Forster: Oliver Goldsmith. 2 vols. London, 1864. (Muitas
105 A) J. M. Creed e J. S. Boys: Religious Thought in the Eighteenth edições.)
Century Ilustrated from Writers of the Period. Cambridge, A. Dobson: Oliver Goldsmith. London, 1888.
1934. A. Mendt: Goldsmith ais Dramatiker. Leipzig, 1911.
St. Gwynn: Oliver Goldsmith. London. 1935.
106) J. Woodíorde: The Diary of a Country Parson. (Publicado por W. Freeman: Oliver Goldsmith. London, 1952.
J. Beresíord, 5 vols. London, 1926/1931.) R. M. Wardle: Oliver Goldsmith. Kansas City, 1957.
1452 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1453

quhar do que a School for Scandal. Mas a corrente literária hexâmetros homéricos: Luise e Der siebzigste Geburtstag,
e o destino pessoal tornaram-no sentimentalista. O poema que continuam a ser legíveis e atraentes. Ali, Goethe en-
The Deserted Village é um clássico da língua inglesa; só controu a inspiração p a r a Herrmann und Dorothea.
uma vez, só aí, se reuniram de maneira perfeita o estilo Antes de tudo, Goldsmith ensinou a romantizar e poe-
equilibrado de Pope, o talento descritivo de Thomson, a tizar paisagens modestas que pareceram prosaicas. Neste
melancolia de Young, e uma calorosa simpatia social para sentido, o seu maior discípulo é Washington Irving ( 1 0 9 ),
com a gente simples e pobre, simpatia que é o apanágio nova-iorquino finamente educado, um aristocrata anglici-
de Goldsmith. Encontrou a expressão definitiva dessa zado entre os nouveaux-riches americanos. Como escritor,
simpatia lembrando-se com saudades da infância em casa era clássico no sentido de Pope, estilista apurado, espiri-
do pai, o pobre vigário rural. Então nasceu, transfigurada, tuoso; homem do século X V I I I . Na "velha" Inglaterra
a realidade, o idílio autêntico. The Viçar of Wakeiield estava em casa; o Sketch-Book das suas impressões de
não é uma obra-prima da literatura. É uma novela bastante viagem na Inglaterra, românticas, shakespearianas, humo-
incoerente, muito sentimental, cheia de reminiscências de rísticas, sentimentais, é a sua obra-prima, obra goldsmithia-
Richardson — e, no entanto, uma obra pessoal e até vi- na — Irving escreveu uma biografia de Goldsmith — e
gorosa. Goldsmith é, em sentimento e humorismo, um dos obra pré-dickensiana, exercendo forte influência sobre o
maiores poetas do home inglês, que, visto através da nos- autor do Pickwick Club. Irving é autor americano pela
talgia do traveller inquieto, se transfigurou para êle em Knickerbocker's History of New York, paródia da obra
paraíso. O vigário Primrose é um herói da ingenuidade pomposa de um patrioteiro, história humorística dos go-
que sofre; nas suas exortações comoventes e ligeiramente vernadores holandeses da antiga colónia de Nova Amsterdã,
ridículas esconde-se a sabedoria resignada de uma vida com alusões satíricas à Nova Iorque americana de 1800.
cheia de desilusões mas sem desespero. É difícil admirar Como complemento dessa obra "historiográfica" escreveu
muito Goldsmith; mas também é difícil não amá-lo. Irving alguns contos americanos, que incluiu no Sketch-
Book: são, como " T h e Legend of Sleepy Hollow" e "Rip
Goldsmith foi, porém, muitíssimo admirado; basta di-
Van Winkle", pequenas obras-primas, nas quais realiza o
zer que o Viçar of Wakefield foi, durante 60 anos, livro da
milagre de transfigurar poeticamente a paisagem prosaica
predileção de Goethe. Embora não sendo muito original,
em redor de Nova Iorque. E isso Irving tinha aprendido
é Goldsmith um escritor tão pessoal que não pôde ser imi-
em Goldsmith. Um pouco mais de realismo burguês, e sur-
tado; a sua influência espalhou-se um pouco por toda a
parte, encontrando-se em Wordsworth, Scott e Dickens, em
Herder e Goethe, em Diderot e Manzoni. Na Alemanha
impressionou, em círculos parecidos, a glorificação da casa 109) Washington Irving, 1783-1859.
A History of New York, by Diedrich Knickerbocker (1809); The
do vigário rural, com a vida idílica e a boa biblioteca, os Sketch-Book (1819/1820); Bracebridge Hall (1822); The Li/e of
filhos estudantes e as filhas noivas, a veneração dos cam- Oliver Goldsmith (1849); etc. etc.
Edição completa pelo próprio autor, 40 vols. New York, 1848/
poneses pelo benfeitor modesto. Parecia um quadro ho- 1861.
mérico. Voss ( 10B ) imitou-o em idílios, metrificados em Edição crítica da Knickerbocker1s History, por St. Williams e Th.
Mac Dowell, New York, 1927.
C. D. Warner: Washington Irving. New York, 1881.
G. S. Hellman: Washington Irving, Esquire. New York, 1925.
108) Cí. nota 123. St. T. Williams: The Life of Washington Irving. New York, 1935.
HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1455
ira OTTO M A R I A CARPEAUX

no Wilhelm Meister, de Goethe, aparece uma sociedade


g l r l o Auerbach, Georges Sand, Turgueniev e o conto rús-
secreta, dirigindo os destinos da gente. Um teólogo racio-
tico do século X I X ; e Dickens.
nalista como Bahrdt considera a atuação de Jesus como a
A terceira forma de literatura "plebeia" é plebeia
de mensageiro de uma maçonaria judaica. A "religião na-
mesmo, no sentido pejorativo da palavra: escrita por dile-
tural" dos deístas serve-se de rituais bem esquisitos. As
tantes desdenhosos ou por grafomaniacos meio loucos, ou
sociedades secretas pretendem autenticar-se, dar-se pres-
então profissionais espertos e ávidos de dinheiro; litera-
tígio a si mesmas, alegando origem em épocas longínquas
tura destinada às grandes massas de leitores semicultos e
e sabedorias esquecidas. A "sabedoria dos sacerdotes egíp-
incultos. Assim nasceu o género ao qual os ingleses cha-
cios" ganha grande consideração. Outros referem-se aos
mam gothic romance, os franceses roman noir e os alemães
templários e semelhantes ordens misteriosas da Idade Mé-
Schauerroman ( 1 1 0 ). Trata-se de uma reação contra o ra-
dia. O medievalismo desses ocultistas não tem nada de
cionalismo, de uma busca do milagre, mas não do mila-
comum com o medievalismo dos literatos pré-românticos,
gre literário, autenticado pela poesia como em Shakes-
impressionados pelas catedrais, ruínas e epopeias. Ê um
peare e Milton, e sim do milagre atualizado, imediato,
"medievalismo" espetacular e pitoresco, mero expediente
para excitar os nervos. Essa busca encontra-se com um
para impressionar leitores ingénuos. A origem raciona-
movimento poderoso da segunda metade do século X V I I I :
lista dessa imagem deturpada da Idade Média aparece cla-
as sociedades secretas. É a época da decadência da maço-
" ramente no papel sinistro que os monges desempenham; a
naria, transformada em conventículos de charlatães e de
Inquisição, com os seus terrores horripilantes, é apre-
iludidos, que pretendiam (ou fingiam pretender) reformar
sentada como instituição tipicamente medieval. Castelos
a Humanidade. Para esse fim, serviam-se igualmente de
mal-assombrados, com quartos misteriosamente fechados e
slogans humanitários e de espetáculos terrificantes nas
adegas horríveis, quadros de antepassados que começam a
lojas maçónicas, impresisonando os ingénuos e assustando
falar, armaduras que se mexem — todo esse "romantismo de
os tímidos. É a época de Cagliostro; a Zauberfloete, de
objetos" (os alemães usam a expressão Requisitenromantik)
Mozart, apresenta tal mistura de milagres infantis e altos
que enche até hoje os produtos do romantismo baixo da
ideais humanitários. Em parte, os empresários de aparições
literatura popular, tem origem naquele racionalismo às
de espectros acreditavam no seu negócio, assim como mais
avessas do fim do século X V I I I ; servia, então, como hoje,
tarde os espíritas; e deste modo criou-se nas sociedades
à necessidade de evasão, pela leitura, de massas incultas.
secretas uma mentalidade "romântica" ou, antes, pré-român-
É a origem do thriller.
tica ( i n ) . A seriedade é inegável no martinismo de De
Maistre e no rosenkreuzerismo dos românticos alemães; até Quem frequentou, porém, aquelas sociedades secretas
e conventículos maçónicos, foi principalmente a alta aris-
tocracia. E acontece que o autor do primeiro e mais famoso
110) E. Bírkhead: The Tale of Terror. London, 1921. "romance de terror", Horace Walpole, também é um grande
A. M. Killen: Le roman terrifiant et le roman noir. Paris, 1923. aristocrata. É evidente que o "ocultismo" do século X V I I I
J. BrauchU: Der englische Schauerroman um 1800. Zuerich, 1928. e o gothic romance também podem ser interpretados como
H. Garte: Kunstform Schauerroman. Berlin, 1935.
H. P. Lovecraft: Supernatural Horror in Literature. A Study in movimento esteticista ou pseudo-esteticista, reação de can-
English Gothic and Romantic Fictíon. New York, 1945. saço contra o racionalismo e o utilitarismo que dominavam
111) A Viatte: Les sources occultes du romantisme. Paris, 1928.
1456 OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1457

a sociedade; pois a alta burguesia já participava, de certo nhece o motivo do incesto dos avôs, com consequências
modo, do poder. Resta explicar por que o público pequeno- misteriosas e funestas na família inteira.
burguês aceitou avidamente o novo género ( 1 1 2 ). Esse Entre os "góticos" apareceu só mais um caso assim,
público também reage, à sua maneira, contra os princípios de diletantismo criador: William Beckford ( 1 1 4 ), milio-
morais, racionalistas e utilitaristas, que são os da grande nário cheio de spleen, descobridor dos encantos pitorescos
burguesia. Prefere os valores estéticos e "estéticos" da aris- de Portugal e Espanha — chegou a influenciar Byron, no
tocracia que continua a admirar. Prefere, às casas comer- primeiro canto de Child HaroId's Pilgrimage. Arruinou-se,
ciais, os castelos. Mas esses leitores são protestantes, im- construindo um palácio enorme em falso estilo "gótico",
buídos de religiosidade quietista: o passado medieval e os com 35 alas para os prazeres dos cinco sentidos, o que não
países católicos inspiram-lhes horror. Estão indecisos entre deixará de impressionar o Des Esseintes de Huysmans. Os
os valores estéticos da aristocracia e o código moral bur- sonhos orientais a que nenhum arquiteto soube satisfazer,
guês. O resultado dessa ambiguidade é u m "mito falso", um Beckford depositou-os na History of the Caliph Vathek,
romantismo de superfície, sem profundidade humana, até legando ao romantismo as suas ideias fantásticas sobre o
mesmo um mito desumano: uma acumulação de horrores Oriente árabe.
absurdos.
O romance "gótico", porém, preferiu os castelos ita-
O romance "gótico" é criação de Horace Walpole ( u 3 ) ,
lianos e espanhóis — atração irresistível dos "mistérios do
o amigo de Madame Du Deffand, grande aristocrata e dile-
catolicismo" para ingénuos leitores protestantes do século
tante nas letras, considerado como o maior epistológrafo
racionalista. Ann Radcliffe ( m ) , não recuando perante as
da língua inglesa. No Castle of Otranto pretendeu imitar
inverossimilhanças mais absurdas, estava como em casa em
Shakespeare, que ao racionalista parecia poeta "medieval"
castelos misteriosos e conventos habitados por monges dia-
— será difícil dizer se se trata de incompreensão profunda
bólicos. Além disso, teve a ideia esplêndida de introduzir
da literatura nacional por parte do classicista desdenhoso,
as aparições sobrenaturais, chegando a assustar a Europa
que escreve para se divertir, ou então se pretendeu escrever
inteira. A dama tinha algum talento literário, que Sir
uma paródia que se tornou meio séria. Em todo caso, W a l -
pole criou um novo género, inventando tudo o que os seus Walter Scott analisou com lucidez. Contudo, não voltare-
sucessores apresentam depois em mil variações; até já co- mos a lê-la. É importante, todavia, saber que Mrs. Radcliffe
foi o autor mais lido e mais divulgado do século X V I I I .
Os contemporâneos compararam-na a Shakespeare; hoje
112) W. Sypher: "Social Ambiguity In a Gothic Novel". (In: Partisan
Revieto, XII/1, 1945.)
113) Horace Walpole. 1717-1797. 114) William Beckford, 1760-1844.
Letters (1732/1797); The Castle of Otranto (1765). History of the Caliph Vathek (1787).
Edições das cartas por P. Toynbee, 19 vols., London, 1903/1925, e Edição por R. Garnett, 2.» ed., London, 1900.
por W. S. Lewis. 12 vols., Newhaven, 1937/1944. J. W. Oliver: The Life of William Beckford. Oxford, 1932.
A. Dobson: Horace Walpole. London, 1910. G. Chapman: Beckford. London, 1937.
P. Yvon: Horace Walpole. Paris, 1924.
K. H. Mehrotra: Horace Walpole anã the English Novel. Oxford, 115) Ann Ward Radcliffe, 1764-1823.
1934. The Mysteries of Udolpho (1794); The Italian (1797); etc, etc.
R. D. Ketton-Oremer: Horace Walpole. A Biography. London, A. A. S. Wieten: Mrs. Radcliffe. Her Relation towards Roman-
1940. ticism. Amsterdam, 1926.
145B OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1459

falariam em Dostoievski. O Monk, de Gregory Lewis ( u a ) , tico, purificados pelo conhecimento melhor da Idade Média,
tornou-se tão famoso que o seu autor andou pela vida com reaparecem em Walter Scott e todos os seus imitadores, de
o apelido de "Monk Lewis"; a história horrorosa do monge Hugo a Alexis, excetuando-se em Manzoni. O elemento
espanhol, apaixonado pela própria irmã e caindo vítima fantástico transfigurou-se artisticamente em E. T. A. Hoff-
do Demónio, deixou vestígios em Byron, Tieck, Hoffmann mann. A deformação fantástica da realidade social tor-
e Poe. O único escritor notável entre os "góticos" é Ma- nou-se o processo novelístico de Sue, de Hugo, nos Misé-
turin ( m ) : em Melmoth the Wanderer emprega todos os re- rables, e de Dostoievski. Mas isso não é tudo. Um dos
cursos do romance de terror para salientar u m personagem "góticos" mais curiosos é o americano Charles Brockden
interessante, mistura de Fausto, J u d e u Errante e Holandês- Brown ( 1 1 8 ), talento inculto e vigoroso, como revelam as
Fantasma. Essa obra, que impressionou Hugo, Balzac e cenas de febre amarela em Ormond. A sua obra principal,
Baudelaire, criou um tipo da literatura romântica; contudo, Wieland, ainda hoje pode impressionar; só é decepcionante
está hoje esquecida; mas uma imortalidade inexplicável o fim, em que Brown, racionalista impenitente, pretende
coube ao seu semelhante Frankenstein (1818), de Mary dar uma explicação pseudocientífica dos acontecimentos
Shelley, esposa do grande poeta. pseudo-sobrenaturais que envolvem, no romance, o grande
crime. Mas justamente esse desfecho é de importância
Um dos romances góticos mais bem escritos é Der
histórica. Brown exerceu grande influência sobre P o e ; e
Geisterseher (O Mágico) (1789), de Schiller; observa-se
a continuação lógica daquele desfecho é o conto "cientí-
como o género encantou todo mundo. Os alemães preferi-
fico", isto é, a narração de um acontecimento misterioso,
ram, porém, uma variante: o romance do ladrão generoso.
desemaranhado depois por meio de silogismos engenhosos;
Rinaldo Rinaldini, der Raueberhauptmann (1798), de Au-
e isso é a definição do romance policial, último descendente
gust Vulpius, alimentou a imaginação de milhões de leito-
do romance "gótico".
res, foi traduzido para todas as línguas e inspirou várias
óperas; Vulpius, aliás, era cunhado de Goethe. Romance sentimental, drama burguês, idílio rústico e
O romance "gótico" correspondia a uma necessidade romance "gótico" eram absolutamente incompatíveis com
espiritual das massas, e não só das massas. A sua reper- a estética classicista; neste sentido, eram géneros revolu-
cussão literária excede de maneira assombrosa os limites cionários. Mas não desempenharam função revolucionária.
do género. Os elementos pseudo-históricos do romance gó- A classe que os criou — a dos intelectuais a serviço do
novo público — não era capaz de fazer a Revolução nem
o pretendeu; e esse fato sociológico revela-se nas qualidades
116) Matthew Gregory Lewis, 1775-1818. estilísticas: pretendeu-se fazer alta literatura para uso do
The Monk (1796).
Edição por E. A. Baker, London, 1907.
O. Bartone: Fra il voto e 1'amore. Note critiche sul Mónaco 118) Charles Brockden Brown, 1771-1810.
di Lewis. Napoli, 1908. Wieland, or the Trans/ormation (1798); Ormond (1799); Arthur
117) Charles Robert Maturin. 1780-1824. Mervyn (1799/1800).
Melmoth the Wanderer (1820). Edição por J. Mac Kay, 5 vols., Philadelphia, 1887.
Edição Bentley, London. 1892. Edição de Wieland em American Authors Series, New York, 1927.
N. Idman: Charles Robert Maturin. Oxford, 1923. D. Lee Clark: A Criticai Biography of Charles Brockden Brown.
W. Scholten: Charles Robert Maturin, the Terror-Novelist. Philadelphia, 1923.
Amstcrdam, 1933. H. R. Waríel: Charles Brockden Brown. Gainesville, Fia., 1950.
I-HiO OTTO M A R I A CARPEAUX HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL 1461

novo público, e esse experimento acabou em subliteratura, a sua herança cristã, as mais das vezes através dos misti-
em plebeização. A literatura dos intelectuais "para o povo" cismos subterrâneos.
não teve consequências revolucionárias. Estas surgiram Plebeísmo e populismo são, ambos, literaturas de eva-
quando os intelectuais começaram a fazer literatura "pelo são. Romance e drama sentimentais, idílio rústico, romance
povo", quer dizer, apoderando-se das formas literárias ge- "gótico" permitem ao novo público a evasão para fora da
nuinamente populares. São, de novo, os intelectuais à monotonia cinzenta da vida pequeno-burguesa. Ossianismo,
procura de expressões novas; daí a semelhança aparente escandinavismo, poesia popular permitem às classes cultas
entre o sentimentalismo burguês e a melancolia pré-român- a evasão para fora do estilo aristocrático de viver. No
tica. Mas o sentimentalismo é próprio do novo público, terreno da teoria estética, o evasionismo produz a revolta
e a melancolia é própria dos literatos, colocados à margem contra o classicismo. A "Querelle des anciens et des mo-
da evolução social. Quando estes procuram a confirmação dernes" volta, apresentando novos aspectos; desta vez, a
da sua mentalidade em criações da poesia popular, conse- revolta é tão radical que não se contenta com rejeitar os
guem evitar a plebeização; nasce então um "populismo" modelos antigos. Ousa-se negar a própria qualidade clássica
literário, do qual, no século X V I I I , o ossianismo é a expres- dos próprios clássicos antigos. Houdart de la Motte negara
são mais forte entre muitas outras. É preciso notar que a o valor de Homero; Robert Wood exaltará Homero, não
distinção entre "plebeísmo"