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Sobre a morte e o

morrer
Autora: Elisabeth Kubler-Ross
Tradução: Paulo Menezes
INTRODUÇÃO
Antigamente, a morte de crianças era freqüente e poucas eram as
famílias que não tinham perdido um parente. A medicina progrediu nas últimas
décadas. A vacinação erradicou muitas doenças, a quimioterapia e o uso de
antibióticos, contribuiu para que diminuísse o número de casos de doenças
infecciosas. Uma educação melhor ocasionou um baixo índice da mortalidade
infantil. As várias doenças que disseminaram a população de jovens e adultos
foram dominadas. Cresce o número de idosos, e com isto aumenta o número
de vítimas de tumores e doenças crônicas. Aumentou o número de pacientes
com distúrbios psicossomáticos e problemas de comportamento.

Os médicos cuidam de pacientes mais velhos que procuram não viver somente
com suas limitações e habilidades físicas diminuídas, mas, também aprender a
enfrentar a solidão e o isolamento em que vivem.

O livro “Sobre a morte e o morrer” tenta demonstrar na prática através


de relatos de experiências reais às pessoas diversas situações em que
indivíduos por algum motivo deparam com a morte, seja ele um moribundo ou
um ente que acompanha o estágio final de alguém querido. Além destes relatos
o livro faz comentários interessantes aos profissionais de saúde á equipe
multiprofissional mais precisamente de como lidar com as diversas situações
da morte em si.

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Capítulo I
Sobre o temor da morte

As mudanças ocorridas nas últimas décadas são responsáveis pelo


crescente medo de morrer, pelo aumento dos problemas emocionais e pela
grande necessidade de compreender e lidar com os problemas da morte e do
morrer. Em nosso inconsciente, a morte nunca é possível quando se trata de
nós mesmos. É inconcebível morrer de causa natural ou idade avançada. A
morte está ligada a uma ação má, a um acontecimento medonho.

A criança vê a morte como algo não permanente, quase não diferenciando de


um divórcio entre seus pais. Quando crescemos e percebemos que nossos
desejos mais fortes, não tem força suficiente para tornar possível o impossível,
desaparece o medo de ter contribuído para a morte de um ente querido e,
conseqüentemente some a culpa, mas, o medo de morrer permanece
“escondido”, só enquanto não for fortemente despertado. Uma criança de cinco
anos que perde a mãe tanto se culpa pelo desaparecimento dela, como se
zanga porque ela a abandonou.

A morte constitui ainda um acontecimento medonho, pavoroso, um medo


universal, mesmo sabendo que podemos dominá-lo algumas vezes. Quando
permitimos que um paciente, termine seus dias no querido ambiente familiar,
isto requer dele, uma melhor adaptação da morte. O fato de permitirem que as
crianças continuem em casa, onde ocorreu uma desgraça, e participem da
conversa, das discussões e dos temores, faz com que não se sintam sozinhas
na dor.

Morrer é triste demais sob vários aspectos, sobretudo é muito solitário e


desumano. Morrer se torna um ato solitário e impessoal, porque o paciente é
removido de seu ambiente familiar e levado ás pressas para uma sala de
emergência. O caminho para o hospital é o primeiro capítulo da morte.

Quando um paciente está gravemente enfermo, é tratado como alguém sem


direito a opinar. Quase sempre é outra pessoa quem decide sobre si, quando e
onde um paciente deverá ser hospitalizado. Devemos lembrar que o doente

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também tem sentimentos, desejos, opiniões e acima de tudo, o direito de ser
ouvido. Pouco a pouco, começa a ser tratado como um objeto. Decisões são
tomadas sem o seu parecer.

O paciente está sofrendo bem mais, talvez não fisicamente, mas


emocionalmente. Suas necessidades não mudaram através dos anos, mudou
apenas nossa aptidão em satisfazê-las.

Capitulo II
Atitudes diante da morte e do morrer

O relacionamento humano e interpessoal vem perdendo cada vez mais


espaço na nossa sociedade, sendo substituído pelo contato cada vez menor,
concentrando seu valor nos números e nas massas do que no próprio
indivíduo. Podemos observar essa tendência como o exemplo da substituição
do contato entre o professor e o aluno, pelo ensino a distância, que atinge um
número cada vez maior de pessoas de uma forma despersonalizada. O aluno é
incentivado a desenvolver técnicas, e novas pesquisas, o relacionamento
interpessoal muitas vezes não é enfatizado.

Com o avanço rápido da tecnologia e novas conquistas científicas, os homens


tornaram-se capazes de desenvolver novas armas aumentando seu poder de
destruição em massa, somos forçados a lidar com a morte em grande escala
em várias oportunidades, onde não paramos para refletir sobre tal condição e
muitas vezes em nosso subconsciente, agradecemos por não ter acontecido
conosco. Não pensamos em nossa própria morte não somos capazes de
enfrentar essa possibilidade.

Outro ponto relevante é a religião, antigamente as pessoas viam na morte uma


possibilidade de redenção acreditavam que se sofressem na terra, sua morte
seria um alívio, e também acreditavam na vida após a morte, uma vida melhor
que na terra, hoje em dia a religião tem levado um número menor de adeptos
que vão aos templos mais pelo encontro social do que pela própria crença.

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Em suma não estamos preparados para morrer, nem para lidar com a morte ao
nosso redor simplesmente tentamos evitá-la, como se desse modo
estivéssemos protegidos, seria melhor não falar sobre um tema que não nos é
agradável, porém principalmente em nosso meio, da medicina, precisamos nos
preparar para enfrentar tal situação.

Com o desenvolvimento de novas tratamentos, estamos prolongando cada vez


mais a vida de nossos pacientes, sem a preocupação com o ser humano, mas
com as máquinas que podem prolongar a vida. Juntamente com essa
preocupação devemos nos ater ao paciente e na relação médico-paciente,
fundamental para esse processo tão difícil de enfrentamento da morte.

Em contra partida o livro procura descrever atitudes das pessoas em


fase terminal diante da morte e o morrer, procura relatar experiências pessoais
extraindo dados que nos auxiliam na compreensão desse processo através da
experiência pessoal de cada um que enfrenta tal condição.

Nesse processo, de entrevistas, foram relatadas inúmeras dificuldades pela


autora, uma vez que a equipe médica não desenvolve o hábito de esclarecer o
paciente sobre a sua real situação, muitas vezes se esquivando desses
pacientes, como se essa atitude fosse diminuir tal sofrimento, e o que foi
percebido foi justamente o contrário, os pacientes desejavam relatar suas
experiências suas angústias seus anseios diante da morte.

Tal trabalho foi feito com auxílio dos padres e estudantes, coletando-se
inúmeros relatos e depois discutindo- se a respeito sob diferentes perspectivas,
religiosas, filosóficas, psicológicas, enfim uma maneira de avaliar essa situação
sob diferentes visões buscando sua compreensão. Através dessas entrevistas
foi feita uma sequência de fases pelas quais o paciente passa, diante da morte
e do morrer. O trabalho foi desenvolvido com muito respeito e cautela para com
os pacientes, de uma forma espontânea, esses pacientes buscavam a equipe
pois os mesmos queriam ser ouvidos, e compartilhar com os demais. Percebe-
se em tal atitude a importância do diálogo e das relações interpessoais, como
são fundamentais nesse processo.

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Capitulo III
Primeiro estágio: negação e isolamento

O primeiro sentimento relatado na pesquisa diante de uma notícia de


doença terminal foi a negação, por parte dos pacientes, independente do modo
como tomaram conhecimento dessa condição, seja pelo médico, no início da
doença ou até mesmo depois, a fase de negação foi observada em todos os
pacientes.

A negação, ou pelo menos a negação parcial, é usada por quase todos os


pacientes, ou nos primeiros estágios da doença ou logo após a constatação, ou
às vezes numa fase posterior. Esses pacientes podem considerar a morte
durante certo tempo, mas precisam deixar de lado tal perspectiva para lutar
pela vida.

Neste estágio, o sentimento de negação funciona como um pára choque, para


que o paciente se acostume com tal situação, porém não significa que o
paciente não queira conversar em um momento oportuno sobre a sua morte
próxima é preciso aguardar tal momento de acordo com os sinais
demonstrados pelo próprio paciente. É melhor falar sobre a morte e o morrer
bem antes que isso ocorra desde que o paciente queira, pois um indivíduo
saudável pode tratar melhor o assunto, e até mesmo a família pode se preparar
de uma forma melhor para enfrentar essa situação.

Após esta fase vem a aceitação parcial, a maioria dos pacientes não se utiliza
da negação por muito tempo, é um estado temporário do paciente do qual ele
se recupera gradualmente á medida que vai se acostumando com a sua
realidade, ele reage. Alguns pacientes utilizam da negação perante alguns
membros da equipe hospitalar e até mesmo são exigentes na escolha dos
familiares que podem ficar a par do seu real estado, para tanto se utilizam da
negação principalmente diante daqueles familiares que ele considera mais
vulneráveis a sua perda e diante de membros da equipe hospitalar que não
passam confiança para o paciente.

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É importante que os médicos e a equipe hospitalar não evitem esses pacientes,
pois os mesmos quando sentem que devem falar abrem a alma e participam
sua solidão para aqueles os quais consideram interessados em seu estado,
que o respeitam. Isso reflete a necessidade de examinarmos nossas reações
em nosso trabalho, pois elas se refletem em nossos pacientes contribuindo até
para o seu bem estar ou piora.

Capitulo IV

Segundo estagio: a Raiva

O sentimento de raiva aparece quando já não é mais possível manter


firme o primeiro estágio de negação, e ele é substituído por sentimento de
raiva, revolta, inveja e de ressentimento. Nessa fase, a pergunta que
permanece nos pensamentos do paciente é: Por que eu? Por que não poderia
estar acontecendo com outra pessoa?

Para a família e amigos, essa é uma fase difícil de lidar. Isso por que o paciente
irradia essa raiva em todas as direções e a projeta nos outros sem justificativa
plausível. O alvo mais comum nessa fase são os enfermeiros, ate pelo tempo
em que permanecem com o paciente, mas, as visitas médicas e de familiares
não sai ilesa da raiva sentida pelo paciente. A reação percebida pelos parentes
normalmente é de choro, pesar, culpa, humilhação, ou então, evitam futuras
visitas, aumentando no paciente o sentimento de magoa e raiva. Apresentam-
se poliqueixoso, e nenhum esforço feito para melhorar seu bem estar será
suficiente, ou ate mesmo percebido. Muitas vezes, é quando o paciente
procura ter certeza de que não esta sendo esquecido, e levanta a voz, faz
exigências, reclama atenção, se queixa, talvez como um ultimo esforço.

Um paciente que é respeitado e compreendido, a quem são dispensados


tempo e atenção, logo terão sua queixas reduzidas, pois se sentirá valorizado
como um ser humano, que necessita de cuidados e é permitido a ele

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expressar-se é capaz. Será ouvido sem necessidade de explosões
temperamentais, visitado sem precisar tocar a campainha com insistência, pois
será um prazer, e não só uma obrigação visitá-lo.

O problema é que poucos de nós nos colocamos no lugar do paciente e


perguntamos de onde vem essa raiva, e o que faríamos de nossa raiva, senão
extravasá-la nos mais próximos. Ao fazermos essa analise, percebemos que ao
invés de auxiliar o paciente em seu processo, nós por vezes, assumimos esse
sentimento de forma pessoal, quando nada ou pouco, tem a ver com as
pessoas a quem o sentimento é descarregado. Reagindo pessoalmente, a
família ou profissionais, por sua vez, retribuem com uma raiva ainda maior,
alimentando o comportamento hostil do paciente. Isso é percebido em visitas
encurtadas, evitando contato com o paciente e quando se entra em atrito
desnecessário em defesa de sua posição.

A seguir, serão dados como exemplo três casos, onde podemos ver o
sentimento da raiva se externando de diferentes formas:

O primeiro é referente a um senhor que estava internado há vários meses e já


à beira da morte, ele tinha uma enfermeira particular que o acompanhava e
cuidava. Nesse caso, poderemos ver a raiva racional, provocada pela
enfermeira. Como o paciente se encontrava gravemente enfermo, seus únicos
desejos eram que a grade da cama não fosse levantada ao seu lado, pois isso
lhe trazia a sensação de estar um caixão e que mudassem sempre sua
posição. Mas a enfermeira que não simpatizava com ele, concordou a principio,
mas sempre elevava a grade com temor que ele caísse e para não ser
interrompida em suas leituras. Isso trazia extrema revolta ao paciente, que a
acusava de mentirosa.

Esse tipo de comportamento da enfermeira, de manter-se distante emocional e


fisicamente do paciente demonstrava profundo constrangimento por estar
prestando cuidados a um doente terminal e pelo seu temor da morte. Defendia-
se com a fuga, isolamento, isto é, cumpria seu dever. Essa atitude refletia no

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paciente como solidão. Não tinha com quem conversar, sentia-se isolado, sem
alguém que compreendesse sua agonia e crescente raiva.
Outro caso que podemos observar, é quando o paciente é acostumado a
controlar tudo a vida inteira, e reage com raiva ao se ver forçado a abandonar o
controle.

Paciente, acometido pela mal de Hodgkin, recusava-se a aceitar sua doença,


alegando que ele mesmo tinha sido o responsável por tal, e a delegar as
atribuições de sua empresa a quem pudesse realizar. Mantinha-se controlador,
dominador e exigente. Isso afastava sua esposa e a enfermagem. Uma
estratégia utilizada para minimizar essa sensação e raiva, foi de dar a ele o
controle de algumas situações que não comprometeriam seu tratamento. Sua
esposa passou a ligar e marcar o melhor horário para as visitas, que passaram
a ser mais curtas, freqüente e agradável, visto que era ele quem determinava a
hora e duração. Para a enfermagem, deu-lhe mais autonomia da hora que
desejava seu banho ou mudança da roupa de cama, e o resultado foi que ele
escolheu quase os mesmos horários de antes, mas agora, sem qualquer
sentimento de raiva ou má vontade.

Esses tipos de paciente são os mais solitários, seja por que são difíceis de
lidar, ou por que rejeitam de imediato qualquer ajuda, só aceitando quando lhe
é conveniente. Provocam a rejeição e raiva, apesar de serem os mais
desesperados de todos.

Por fim, o ultimo caso, trata-se de uma freira que sofria de Mal de Hodgkin, e
se mostrava irascível e exigente, e era hostilizada por muitos dentro e fora do
hospital por seu comportamento, principalmente pela equipe de enfermagem.
Ela realizava visitas diárias aos colegas de quarto e interferia nos cuidados de
enfermagem prestados pela equipe. Estava moribunda, em sua ultima, das 11
internações anteriores, quando conversou com a Doutora e o Capelão meses
antes de seu falecimento. Na conversa ela fala desde o seu diagnóstico, que foi
dificultado, por que, sendo ela uma pessoa tão autoritária e passando por
problemas psicológicos (o falecimento do pai, a venda da empresa da família, a
herança, a perda do cargo de professora), os sinais que apresentava eram

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vistos como somatização pelos médicos que a atendiam. Ela por sua vez,
como enfermeira, não aceitou o diagnostico proposto e teve que lutar para
provar que estava fisicamente adoentada, ao contrario da maioria, que se
costuma ver, que preferem rejeitar sua doença. Com a recusa do diagnóstico,
deixaram de oferecer a ela os devidos cuidados até que ela readquirisse o bom
senso.

Quando foi questionada quanto a sua juventude, e o fato de ter reconhecido


que sua doença lhe tiraria a vida e talvez em pouco tempo, respondeu que não
se sentia mais tão jovem, por ter visto morrer outras pessoas mais jovens que
ela da mesma doença, disse: “Não quero morrer, gosto da vida”. Seu maior
medo era na verdade a solidão, quando por vezes percebeu que não havia
alguém por perto, ou que ninguém iria aparecer quando sentia fortes dores,
acrescentou ainda: ”Não incomodo as enfermeiras quando se trata de algo que
eu mesma possa fazer, daí eu deduzi, que não sabem exatamente como estou.
Isso porque elas não entram e perguntam... elas não me visitam
sistematicamente, nem fazem comigo o que costumam fazer com os outros
pacientes que acham que estão doentes. Acho ate que ignoram como estou.
Eu é que tenho que dizer o que esta errado comigo.” Demonstrando o seu
destemor pela morte, mas sim pela solidão e o relacionamento frio que
mantinha com a equipe de enfermagem.

Mais adiante, pontua outra questão relacionada aos cuidados de enfermagem,


quando aborda o tratamento medicamentoso. Afirma que a enfermeiras temem
que as medicações viciem os pacientes, quando estes nem viverão o suficiente
para tanto, quando de fato, o que eles aguardam é que alguém seja caridoso e
traga um alívio.

Observamos que além de seu temor pela solidão, ela gostaria que a morte
fosse sem agonia, sem dor e sem solidão. Relata: “Quando estamos doentes
eles (os amigos) se afastam, imaginando que não queremos conversar;
mesmo quando não podemos, se eles se sentam a cabeceira, sentimos que
não estamos sós”.

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Por fim, a freira fala sobre sua decisão de ser freira. Menciona que era
integrante de uma numerosa família de dez irmãos, e que seu desejo era se
sobressair, onde fosse diferente das irmãs que eram tão bem aceitas pela mãe.
Não acreditava que seria boa mãe e esposa. E mesmo nessa numerosa
família, nunca teve alguém com quem pudesse trocar idéia. Sempre foi vista
como forte e arrogante, que seria auto-suficiente, ate mesmo por suas colegas
freiras. Estas não a visitavam com freqüência e quando iam, mesmo pedindo
que voltassem a freira não acreditava que retornariam, pois julgavam que ela
tinha muita força, que vivia melhor sozinha e elas não eram importantes. E
assim, a freira não implorava seu retorno. Dizia: “Não posso implorar aos
outros aquilo de que preciso”. É importante ao paciente manter sua dignidade e
não ter de implorar, mas também não ser oprimido, nem manobrado.

Esta entrevista mostra claramente as necessidades da paciente. Vivia


cheia de magoas e ressentimentos que parecem ter origem na infância, quando
se sentia uma estranha na própria família. Parte se seu ressentimento com as
freiras é reflexo do que sentia com a mãe e irmãs, a falta de aceitação por
parte delas, é uma repetição de seus sentimentos de rejeição. Sendo assim, as
pessoas ao redor, ao invés de entenderem a origem de sua magoa, assumiram
as dores e a rejeitaram ainda mais. Durante a entrevista ela foi compreendida e
não julgada. Isso possibilitou que retirasse o peso e agir da forma a qual
realmente é: acolhedora, afetuosa, capaz de amar, de ver as coisas com
profundidade. Na continuidade das visitas, foi percebido que ela já não fazia
tantas visitas aos outros pacientes e se mostrava mais acessível ao pessoal de
enfermagem. Na despedida, não demonstrava mais ser a freira aborrecida que
afastava todo mundo, mas uma mulher que encontrara um pouco de paz ou ate
aceitação. Pouco tempo depois veio a falecer em casa. Muitos ainda recordam
dela, não como a pessoa que causava tantos problemas, mas pelas lições que
deixou. Em seus últimos meses de vida, conseguiu tornar-se o que tanto
gostaria de ser: uma pessoa diferente das outras, não por seu aspecto
negativo, mas por ser amada e aceita.

No texto a autora traz a importância de tolerarmos a raiva: “Isso só pode


ser feito quando não estamos tão temerosos, tão esquivos. Temos de aprender

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a ouvir nossos pacientes e ate, as vezes a suportar alguma raiva irracional,
sabendo que o um alivio proveniente do fato de não tê-la externado contribuirá
para melhor aceitar as horas finais. Só poderemos fazer isso quando tivermos
enfrentado o medo da morte, os nossos desejos de destruição e nos tivermos
compenetrado de nossas próprias defesas, que podem interferir nos cuidados
com o paciente.”

Capitulo V

Terceiro estágio - Barganha

O terceiro estágio é a barganha, menos conhecido, porém muito útil ao


paciente.

É o momento em que o paciente começa a ter algumas reações com


esperança de receber o que quer de Deus, uma possibilidade de cura. Isso
acontece muito com pacientes terminais, quando almeja um prolongamento de
sua vida. A barganha, na realidade, é uma tentativa de adiantamento, uma
promessa; tem de incluir um prêmio oferecido “por um bom comportamento”.
Psicologicamente, as promessas podem estar associadas a uma culpa
recôndita, devendo ser consideradas pela equipe hospitalar.

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Capitulo VI

Quarto estágio - Depressão

Quando o paciente em fase terminal não pode mais negar sua doença,
sendo forçado a diversos procedimentos como cirurgias, hospitalizações,
sentindo sintomas diferentes e estar mais debilitado, ele não pode mais
esconder sua doença. O paciente começa a perder coisas importantes para ele
como sua própria identidade. Os encargos financeiros elevados fazem com que
estes pacientes tenham que dispor de muitos recursos dos quais muitas vezes
não o tem, ou abrir de mão de muitos sonhos, principalmente relacionados á
família. Muitos perdem seus empregos e se afastam do convívio com a família
por causa das hospitalizações o que aumenta o sentimento de culpa dos
mesmos.

Estes fatores de depressão são bastante conhecidos por todos os que tratam
dos pacientes. O que, no entanto, não nos esquecemos é a aflição inicial a qual
o paciente em fase terminal é obrigado a se submeter para preparar quando
tiver que deixar este mundo.

Uma pessoa compreensiva não terá dificuldade em detectar a causa da


depressão e sem se aliviar um pouco da culpa ou da vergonha irreal que
normalmente acompanham a depressão.

A melhor ação para com as pessoas que estão tristes é tentar animá-las,
encorajá-las. Quando a depressão é um instrumento na preparação da perda
iminente de todos os objetos amados, requer muita conversa e até
intervenções ativas por parte dos outros em muitos assuntos, para que o
paciente não tenha uma depressão silenciosa. Só os pacientes que conseguem
superar suas angústias e ansiedades são capazes de alcançar o estágio de
paz e aceitação. Quando a confiança é compartilhada com a família muita
angústia pode ser evitada.

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Capitulo VII

Quinto estágio - Aceitação

O quinto estágio decorre sobre a aceitação da doença sem depressões


decorrentes ao seu estado de saúde. Este paciente já passou pela fase de não
aceitação da enfermidade e não mais sentirá raiva quanto ao seu destino. Ele
terá externado seus sentimentos, sua inveja pelos vivos e sadios e sua raiva
por aqueles que não são obrigados a enfrentar a morte tão cedo. Terá
lamentado a perda iminente de pessoas e lugares queridos e contemplara seu
fim próximo com certo grau de tranqüilidade e expectativa. Ele estará cansado
e bastante fraco, na maioria dos casos, sentindo a necessidade de cochilar e
dormir com freqüência em intervalos curtos diferindo da fase de dormir da
depressão. Não e um sono de fuga, nem um instante de descanso para aliviar
a dor e sim uma necessidade gradual e crescente de aumentar as horas de
sono. Isso indica o fim da luta, mas com um significado de aceitação.

Na explanação dos casos relatados vimos duas versões diferentes desta


aceitação onde uma queria que o marido aceitasse sua partida e este demorou
a entender esta realidade e o outro caso relata um profissional da área de
saúde que tem uma doença grave e esta doença vai aproximar e amadurecer
sua família levando estes a ter muita esperança na cura mas aceitando o que
acontecer e uma equipe hospitalar preocupada com a relação medico paciente
para que assim se estabeleça a melhor destas relações e que os pacientes
sejam beneficiados com isto.

Capitulo VIII

ESPERANÇA

De todos os estágios pelos quais as pessoas passam quando diantes de


problemas trágicos, a única coisa que persiste é a esperança. Até os pacientes
mais conformados com sua situação terminal, sempre deixam transparecem
que sentem um sinal de esperança. Normalmente eles sentem que há uma
possibilidade de cura, que de repente foi descoberto um novo produto, uma

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nova droga e ele foi escolhido pelos médicos para um projeto de pesquisa
exitoso que vai aparecer de um dia para o outro. Esse sentimento sustenta os
dias, meses e anos desses pacientes, isso é esperança ( um misto de
racionalização dos sentimentos com uma forma de negação temporária).

Pacientes sentem maior confiança nos médicos que conservaram essa


esperança nele. Quando um paciente perde a esperança, geralmente é o
prenúncio para o fim, é quando eles chegam a dizer “é o fim” ou, “Doutor, eu
não agüento mais” e foi observado que muitos desses pacientes morreram num
intervalo de 24 horas ou pouco mais após. Esse estágio era de aceitação.

Também há uma sensação de angústia vinda da esperança: 1º, a


substituição da esperança pela desesperança, tanto da equipe hospitalar
quanto da família, quando essa ainda era importante para o paciente e 2º, a
incapacidade da família em aceitar o estágio final de um paciente, a família se
agarra a uma esperança milagrosa quando o paciente já estava preparado para
morrer.

A Síndrome pseudo-terminal significa que o paciente havia sido


desenganado pelos médicos, mas apresentou melhora considerável após o
tratamento, esses pacientes são capazes de achar que sua recuperação foi um
milagre, uma nova chance.

Por isso, deve-se proporcionar a cada um a oportunidade do melhor


tratamento possível, sem considerar a gravidade do enfermo, ou seja, não
desistir de salva-lo. Desistir desse paciente pode fazer com que ele se
entregue.... Continuar tentando faz com que ele veja seu médico como um
amigo próximo que ficará com ele até o fim.

Evitando tocar no assunto sobre morte e morrer pode ser prejudicial aos
pacientes do que encontrar tempo para ouvi-lo e compartilhar esse momento
com ele (a maioria deseja compartilhar seus problemas e angústias com
alguém trazendo-o alívio). Nem sempre o paciente quer falar, mas quando ele
está mais sociável e deixa transparecer que continua esperando, geralmente é
a hora de mostrar a ele que estamos prontos para ouvi-lo e então ajuda-lo a
manter viva a sua esperança.

Capitulo IX

A família do paciente - mudanças no lar e efeitos sobre a família.

Na fase terminal a família exerce um papel preponderante interferindo


nas ações da equipe, se não houver uma interação entre a equipe e os
familiares, o paciente não poderá ser ajudado com eficiência.

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As relações familiares com o paciente, união familiar, capacidade de
comunicação interpessoal, a presença de amigos íntimos ou mesmo de um
medico de confiança irão ajudar na evolução do paciente interferindo
positivamente nas suas reações. O fragmento de uma entrevista transcrito
demonstra a interferência dos profissionais para sanar uma relação sem boa
comunicação: “Sei que tenho muito pouco tempo de vida, mas não contem isso
à minha mulher, porque ela não suportaria isto”. Quando conversamos com sua
mulher ela repetiu praticamente as mesmas palavras. Os problemas entre os
pacientes e os familiares devem ser solucionados para que o paciente consiga
evoluir bem para aceitação da morte eminente diminuindo o sofrimento para
ambos; paciente e familiar.

Durante o processo é importante que o paciente e seus familiares consigam


sanar antigas desavenças ou esclarecer situações que levaram ao
aparecimento de culpa ou ate mesmo aquele sentimento de ter falhado para
com o paciente, sentimento freqüente entre os familiares. A presença de um
dos membros da equipe, um medico de confiança ou mesmo um amigo intimo
que possa intermediar e estimular a solução destes problemas será de grande
beneficio ao paciente e seus familiares.

Na entrevista com a senhora F fica evidente a importância da interferência em


determinadas situações. Algumas considerações da autora a respeito desta
entrevista:

“A Sra. F. era uma mulher negra, doente em fase terminal e fortemente


debilitada, que jazia imóvel no leito havia semanas. Olhar para seu
corpo de pele escura contrastando com os lençóis brancos da cama
lembrava-me, com certa repulsa, raízes de árvores. Devido á doença
deformante, era difícil definir o contorno do corpo ou mesmo das feições.
Sua filha, que vivera com ela a vida inteira, ficava sentada a seu lado,
igualmente imóvel e sem proferir palavra.”
“Disse-lhe que estávamos levando sua filha por alguns
momentos, pois estávamos preocupados com ela por estar só. A
paciente olhou para mim e eu compreendi duas coisas: primeiro, que ela

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estava absolutamente ciente do que acontecia e seu redor, apesar da
aparente incapacidade de falar; segundo lição inesquecível jamais
classificar alguém na categoria de “vegetal”, mesmo que pareça não
reagir a muitos estímulos.”
“No final da entrevista, a filha já deixava transparecer alguns
sentimentos de culpa, ambivalência e ressentimento não só por ter
vivido uma vida isolada como, talvez mais, por ter sido abandonada. Nós
a encorajamos a externar seus sentimentos mais amiúde, a voltar a
trabalhar por meio período para ter alguma ocupação fora do quarto da
doente, e nos pusemos à disposição para quando precisasse de alguém
com quem conversar.”
“Suas visitas, não mais carregadas de ambivalência nem
sentimentos de obrigação e ressentimento, eram agora cheias de
sentido. Voltou a conversar com outras pessoas, dentro e fora do
hospital, fazendo algumas amizades novas antes da morte da mãe, que
se deu alguns dias mais tarde, num clima de bastante paz”.

Outro fator que deve ser observado com atenção são as acomodações
dos familiares de pacientes em UTI, que deve ser confortável reservada onde
propicie interações entre os parentes de outros pacientes que poderão trocar
experiências, melhorarem a relação da equipe da UTI com estes familiares e
proporcionar mais tempo entre os familiares e o doente.

Outro momento delicado e quando a noticia da morte eminente e dada,


os parentes passam por algumas fazes:

 Negação, busca de opinião de outros médicos;


 Aceitar a realidade, que mudara sua realidade drasticamente. A
partir deste momento e necessário que haja comunicação franca
entre todos e isto evitara um pesar maior depois do óbito do
paciente.

As mascaras de força que alguns familiares utilizam costuma soar como


falsidade ao paciente causando maior sofrimento. Durante os momentos de

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raiva dos pacientes os familiares refletem na equipe porem e importante que
todos os sentimentos sejam extravasados e deve ser compreendido pela
equipe. Todas as situações onde ocorra extravasamento dos sentimentos tanto
entre os familiares e paciente como direcionado a equipe deve ser
compreendido e estimulado, se não for destrutivo. Isto tornara o pesar futuro
menos doloroso. Quando o paciente entra na fase de aceitação e se isola pode
ser mal interpretado pelos familiares e deve ser esclarecido.

Outro aspecto importante e a evolução da doença, que quando e de


evolução mais lenta da mais tempo ao paciente e familiares passar por todas
as etapas e é mais fácil para a equipe lidar com estes. Quanto as reações das
crianças esta relacionada com a etapa de desenvolvimento psicológico delas:
• Ate os três anos, só se preocupa com a separação;
• De três a cinco anos, se preocupa com a mutilação, a morte não e
um fato permanente;
• De cinco a nove anos a morte e personificada;
• Acima de nove anos as crianças tem reações diferentes como;
isolamento, afastamento silencioso, pranto convulso.Nesta fase
não existe o discernimento entre desejo e ação podendo levar a
criança a se culpar pela morte por te desejado isto para o
paciente em algum momento.

Capitulo X

Algumas entrevistas com pacientes em fase terminal.

A Sra S. tinha dois anos e meio quando seus pais se divorciaram e foi
criada por parentes. Sua única filha morreu de tuberculose com dois anos e
meio, no tempo em que seu marido servia o governo, e ninguém mais lhe era
tão chegado quanto a menina. Logo depois, perdeu seu pai no sanatório, onde
também precisou ficar internada por causa da tuberculose. Depois de vinte e

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dois anos de casamento, seu marido à abandonou com dois filhos pequenos,
por outra mulher. O médico da família, em quem depositava uma confiança
ilimitada, morreu quando mais precisava dele, isto é, quando notou um caroço
suspeito, que mais tarde descobriu ser maligno. Criando os filhos sozinha,
adiou o tratamento até que a dor se tornou insuportável e a doença já
espalhara pelo corpo. No meio de toda esta miséria e solidão, sempre
encontrou alguns amigos fiéis, com que pode dividir seus anseios. Também
eles eram substituto, como o namorado substituiu o marido; a vizinha, a irmã
que nunca teve. Com esta última, o relacionamento era mais profundo, pois ela
se tornou uma mãe substituta para a paciente e para as crianças, quando a
doença se complicou. Essa prestação de serviço veio preencher uma de suas
lacunas e foi realizada com grande sensibilidade, sem intromissão.

A assistente social desempenhou um papel preponderante nos cuidados com


esta paciente mais tarde, inclusive seu médico, informado de que ela queria
tratar com ele de assuntos mais pessoais.

Entrevista com a Sra. S. é um típico caso de paciente que teve muitas


perdas ao longo da vida.

Trechos de comentários de alguns pacientes:

...“Oh, morte, teu servo bate à minha porta. Ele cruzou o mar
desconhecido e trouxe ao meu lar o teu chamado...”

...“A noite é como breu e meu coração treme de medo; mesmo assim,
tomarei da lâmpada, abrirei os portões e farei vênias em sinal de boas-
vindas. É o teu mensageiro que esta em minha porta...”

...”Eu o venerarei de mãos postas e com lagrimas nos olhos. Eu o


venerarei, colocando a seus pés o tesouro do meu coração...”

...“Ele retornará com a missão cumprida, deixando uma sombra escura


na manhã do meu dia; e, em meu lar desolado, só permanecera o meu
desamparado ser, ultima oferta de mim para ti...”

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Primeira entrevista com a Sra C

A Sra C é uma mulher bastante preocupada com sua família,


principalmente com sua filha pequena e seu filho com problemas mentais.
Então a morte era um pensamento que a tormentava constantemente, pois
quem iria cuidar da família após a sua morte. Essas preocupações estavam
prejudicando sua recuperação, deixando-a deprimida e zangada. Uma das
formas de escape para seus problemas era reclamar com a equipe de
enfermeiros do hospital, pois não estava conversando com profissionais sobre
suas preocupações domesticas.

Era uma mulher que tinha um bom relacionamento conjugal, com uma fé
fervorosa e aceitava o profissional facilmente, reclamava até da falta de tempo
dos médicos para conversar com ela. Tinha medo de parecer feia no caixão,
traduzindo suas preocupações, ouvindo os pacientes gritando alto, talvez
perdendo sua dignidade , ou quando teme perder sua consciência.Reconheceu
que não podia mais se preocupar com todo mundo .Isso fez com que o capelão
e assistente social interviessem p/ ajudar seu filho doente.Só depois que todos
esses assuntos foram devidamente resolvidos que a Sra C. sentiu paz e
deixou se de preocupar com sua aparência no caixão.

Segunda entrevista com a Sra L.

Era um mulher que estava sob tratamento para o câncer há muitos


anos. Tinha dois filhos um com 17 e outro com 28 anos, que não a visitava no
hospital, pois eles não gostavam de vê-la sofrendo. Tinha algumas seqüelas
importantes do tratamento mas não perdia a esperança de se recuperar e ficar
boa novamente. Não era de ficar reclamando ou julgando, Deus sobre sua
doença, aceitava o câncer naturalmente e mantinha sua fé.

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Era uma mulher determinada e resignada com sua cura. Preocupava-se com
sua saúde desde cedo, o que lhe fez procurar o medico no primeiro sinal da
doença, e instituir o tratamento precoce pra o câncer, apesar deste ser maligno,
não lhe faltaram forças e expectativa de vida. Não temia a morte, e somente
pensava em viver maior tempo possível pra ver seus netos e bisnetos. Para
isso matinha a maior confiança possível nos médicos, seu maior desejo era sair
do hospital direto pra sua casa e cuidar do marido, pois o mesmo era diabético
e tinha a visão prejudicada pela doença. Ela gostava de consolar outras
pessoas, mas não gostava de ser consolada, relutava em pedir ajuda
profissional.

Capitulo XI

Reações ao seminário sobre a morte e o morrer

Os seminários sobre a morte e o morrer eram baseados em entrevistas


com pacientes moribundos que levavam o paciente, e também a família, à
consciência e aceitação da iminência da morte. Ela os entrevistava, sempre
respeitando sua conveniência e a hora de acabar uma sessão quando não lhes
eram mais possível encarar os duros fatos da morte.

Inicialmente a equipe hospitalar era relutante ao seminário, às vezes até com


demonstrações públicas de hostilidade. Era quase impossível à equipe de
atendimento consentir que os pacientes fossem entrevistados. Os médicos
eram os mais resistentes, porém os que participaram contribuíram muito para a
adesão de novos médicos. As enfermeiras mudaram de comportamento mais
rápido do que os médicos, pois descobriram que a franqueza e a honestidade
com os pacientes, familiares e com a equipe de tratamento valiam mais do que
palavras amáveis. À equipe de administradores e supervisores apoiaram o
seminário assim como os assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e os
terapeutas de inalação. A maioria dos capelães, pastores, rabinos e
sacerdotes aderiam ao seminário e passaram responder as perguntas dos
pacientes.

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Assim á medida que a equipe hospitalar compreendia as razões de suas
defesas e aprendia a vencer os conflitos, analisando-os, aumentava sua
contribuição, tanto para o bem estar do paciente, como para o amadurecimento
e a compreensão dos outros participantes.

Quase todos os estudantes se inscreveram no seminário sem saber o que


esperar exatamente, ou porque ouvira dos outros alguns aspectos que lhe
interessavam muito. Entretanto, perceberam durante o seminário que são
enormes os problemas enfrentados por alguns médicos e começaram avaliar
melhor tanto o papel do paciente, como os conflitos e responsabilidades dos
diferentes membros da unidade de tratamento.

Os paciente, inusitavam, ao começo de tais entrevistas, falavam abertamente


sobre seus receios, culpas, desejos e sentimento que estes tinham pelo fato de
estarem vivendo aquela etapa da vida. O sentido das entrevistas era
compreender os sentimentos dos pacientes, e de seus familiares, tornando a
morte muito mais aceitável e tranqüila, possibilitando a passagem por ela com
menos dor e desespero, percorrendo por diversos estágios, que vão da
negação a aceitação. A morte é um acontecimento que ninguém pode evitar, e
passar por ela com naturalidade deveria ser essencial para todo ser humano.

Quase todos os pacientes em estágio terminal reagiram do mesmo modo em


relação às má notícias, isto é, com choque e descrença. A maioria dos
pacientes passou por cinco estágios, sendo o primeiro representado pela
negação, que poderia durar alguns segundos até meses dependendo da
intensidade de defesa. Depois surge um segundo estágio onde a raiva e a
revolta são manifestados pela inveja dos que poderiam viver e agir. Havendo
deixado de lado a Negação e percebendo que a raiva também não resolveu, a
pessoa atinge o terceiro estágio onde passa por um período temporário de
barganha, seguido pela Depressão que representa o quarto estágio.
Finalmente atingem o quinto estágio que é representado pela Aceitação.
Nesse estágio o paciente já não experimenta o desespero e nem nega sua
realidade.

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Capitulo XII

Terapia com os doentes em fase terminal

O ultimo capitulo do livro “Sobre a morte e o morrer”, apesar de ter como titulo
a terapia em doentes de fase terminal, a autora usa-o mais como momento
para refletir e concluir o livro.
É narrado como é importante a atenção especial aos doentes em fase
terminal e ao seus parentes que estão ali desamparados, ansiosos e aflitos a
espera da morte de alguém tão importante. É colocado também a importância
dos profissionais preparados e dispostos a partilhar momentos com um
paciente moribundo, e para isso é necessário que o profissional tenha
maturidade e experiência de vida, tendo este que analisar sua posição diante
da morte e do morrer para que possa passar tranqüilidade e segurança ao
paciente no seu estagio terminal.
Foi colocado pela autora a importância do primeiro encontro entre paciente e
terapeuta, médico, ou o profissional que estará naquele momento atuando
como amparo e suporte ao moribundo. Citando exemplos tais como ao do Sr.
E, paciente internado como grave anorexia que após exames médicos foi
encaminhado ao psiquiatra residente. O profissional ao fazer a primeira
entrevista com o Sr. E. detectou seu comportamento agressivo com as
enfermeiras, familiares e forma como referia-se à sua esposa, não passava de
sentimentos recalcados e confusos que passou a ter após a morte dela, que
aconteceu enquanto ele estava viajando, e como não pode estar próximo no
momento sentia-se culpado por sua ausência. Após aconselhar-lhe em
arrancar de si sem se envergonhar todos aqueles sentimentos de fracasso,
angustia, solidão e rancor, eles desaparecerão. No dia seguinte o residente
retornou no quarto e surpreendeu ao ver o Sr. E. cheio de planos, desejos de
realizar coisas pós internação, socializando-se sem dores e sintomas de sua
doença. Este exemplo mostra como entrevistas são importantes em doentes
terminais e aqueles que simplesmente não conseguem superar a perda de
alguém importante.

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Quanto ás terapias em grupo a autora relata ter a intenção de
futuramente realizá-las, mas por enquanto pretende deixa o intercambio por
parte dos pacientes, onde eles participariam assim que sentissem necessidade.
Grupos também de pacientes com doenças crônicas são de interesse, pois
estes pacientes apresentavam um comportamento interessante, pois ao virem
alguém morrer sentiam-se aliviados e potencializados por não o serem, sendo
assim estes que se sentiam mais fortes procuravam ajudar os colegas que
sofriam dos mesmos maus que o seu, porem bem mais eficiente que os
próprios profissionais. A presença de pessoas como tais em grupos de terapia
são de grande valia, pois alem da análise de seus comportamentos eles
ajudariam a equipe entender melhor a situação daqueles mais precisados da
atenção de alguém que pudesse entender aquela situação o qual estava
passando.

O silencio que vai além das palavras


Quando chega o momento em que as dores cessam, a mente entra num
estado de torpor, a necessidade de alimentação na há mais, é o momento em
que palavras são desnecessárias, intervenções médicas também, porem ainda
cedo demais para a separação. Este momento em que para o parente próximo
ali ele deseja que tudo passe e que termine ou agarra-se fortemente ao que
esta prestes a perder, agora é interessante que alguém da equipe de
profissionais estejam prontos pra amparar os familiares, e ate mesmo
substituí-lo quando necessário, para proporcionar ao moribundo uma hora
tranqüila.
“Aqueles que tiverem a força e o amor para ficar ao lado de
um paciente moribundo, com o silencio que vai além das palavras, saberão
que tal momento não é assustador nem doloroso, mas um cessar em paz do
funcionamento do corpo...”

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Conclusão

A autora é bastante explicita na naturalidade a que se trata da morte e o


morrer, é esse sentimento de calmaria e consolo em que nós profissionais da
saúde devemos ter bem claro, para lidarmos nas adversidades de nossas vidas
e das de nossos pacientes. Termos firme o pensamento de ajudar o próximo
nos faz sentir grandiosos e o fato de sermos finitos gera um medo inicial,
porem ao pensarmos de uma outra forma onde o morrer é voltar pra casa ao
encontro de um Ser Divino, nos traz calmaria e conforto.

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"Depois de passar por todas as provas para as quais fomos mandados à
Terra como parte de nosso aprendizado, podemos então nos formar.
Podemos sair de nosso corpo, que aprisiona a alma como um casulo
aprisiona a futura borboleta e, no momento certo, deixá-lo para trás. E
estaremos livres da dor, livres dos medos e livres das preocupações ...
livres como uma linda borboleta voltando para casa, para Deus ... em
um lugar onde nunca estamos sós, onde continuamos a crescer, a
cantar, a dançar, onde estamos com aqueles a quem amamos e
cercados de mais amor do que jamais poderemos imaginar."

“Escutem o som de suas vozes. Escutem como se o chamado fosse


música, uma linda música. Posso garantir que as maiores recompensas
da vida virão do fato de vocês abrirem seus corações para os que estão
precisando. As maiores bênçãos vem sempre do ajudar aos outros.”
A roda da Vida - Elisabeth Kübler-Ross

“Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me


encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas
cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos
humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria.
Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se
transforma numa casca de cigarra vazia.”
Sobre a morte e o morrer – Rubem Alves

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