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FernandoFernando PessoaPessoa

UmUm GénioGénio escondidoescondido numnum modestomodesto empregadoempregado dede escritórioescritório

Ano Lectivo 2011/2012

EscolaEscola SecundáriaSecundária DeDe AlbufeiraAlbufeira

DisciplinaDisciplina dede PortuguêsPortuguês

DossierDossier TTemáticoemático

FernandoFernando PessoaPessoa

UmUm GénioGénio escondidoescondido numnum modestomodesto empregadoempregado dede escritórioescritório

Trabalho realizado por: Ana Sofia Edemundo 12ºA

Ano Lectivo 2011/2012

ÍndiceÍndice

Página

Introdução

4

Um Pouco Da Sua Vida

6

Ortónimo

14

Características Temáticas Estilo De Escrita Modernismo

22

Geração De Orpheu

25

Orpheu

26

A Águia

29

Athena

30

Presença

31

Mensagem

32

Algumas Palavras Sobre Si Mesmo

36

Vida Amorosa – Ophélia Queiroz

41

Misticismo E Ocultismo

44

Heterónimos

46

Ricardo Reis Alberto Caeiro Álvaro De Campos Bernardo Soares, Semi-heterónimo?

66

Livro Do Desassossego

67

Filme Do Desassossego

69

Ano Da Morte De Ricardo Reis

70

Roteiro Turístico

71

“Os Mistérios De Lisboa Or What The Tourist Should See”

79

Fernando Pessoa, O Amante De Cinema

80

Algumas Curiosidades

83

A Poesia

E A Música

84

Homenagem De Sophia De Mello Breyner A Fernando Pessoa

86

Uma Noite Com Fernando Pessoa

87

Portugal Modernista

88

Stencil Art

89

Caricaturas Sobre Pessoa

90

Conclusão

102

Bibliografia

103

IntroduçãoIntrodução

Este livro teve origem a partir da proposta da professora de português de elaboração de um dossier temático cujo tema é Fernando Pessoa. Sobre Pessoa existe tanto para se dizer e contar que são inúmeras as hipóteses de assuntos que podem ser abordados.

O meu objectivo é conhecer melhor esta personalidade e o seu trabalho, como tal, optei por pesquisar sobre a sua vida e obra, sobre os heterónimos e o seu percurso na escrita, tendo também adicionado algumas curiosidades relativamente a Pessoa e às homenagens que a ele têm sido feitas, principalmente homenagens artísticas como caricaturas e poemas.

Decidi pelo formato digital por este ser mais interactivo, de fácil utilização e também por ser algo novo para mim. Quanto à estrutura inicialmente faço uma pequena biografia de Pessoa, passando depois para o seu trabalho enquanto ortónimo, seguindo-se o trabalho com os heterónimos. Por último, tenho algumas curiosidades e homenagens a Pessoa.

UmUm poucopouco dada suasua vida vida

Ilustração 1: Fernando Pessoa com a sua mãe
Ilustração 1: Fernando Pessoa com a
sua mãe

Fernando António Nogueira Pessoa nasce a 13 de Junho de 1888, às 3h20 da tarde, no quarto andar esquerdo do nº 4 do Largo de São Carlos, em frente da ópera de Lisboa. Filho do funcionário publico e crítico musical, Joaquim de Seabra Pessoa, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, uma pequena família de Aristocratas.

Nascido no dia de Santo António, recebeu seu nome, Fernando pelo seu nome de baptismo, Fernando de Bulhões, e António pelo seu nome canónico.

Aos cinco anos o pai morre de tuberculose tal como o seu irmão mais novo. A mãe perante as adversidades foi obrigada a leiloar mobilia e a mudar-se para uma casa mais modesta.

Aos cinco anos o pai morre de tuberculose tal como o seu irmão mais novo.

Aos cinco anos o pai morre de tuberculose tal como o seu irmão mais novo. A mãe perante as adversidades foi obrigada a leiloar mobilia e a mudar-se para uma casa mais modesta.

Em 1895, Maria Magdalena casou-se novamente, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Em razão da profissão do padrasto, o pequeno partiu com a família para Durban, em 1896, onde viveria por muitos anos.

Ilustração 2: Mãe e Padrasto de Fernando Pessoa
Ilustração 2: Mãe e Padrasto de Fernando Pessoa
Ilustração 3: A família em Durban: a mãe Maria Madalena Nogueira com a filha Madalena
Ilustração 3: A família em Durban: a mãe Maria Madalena Nogueira com a filha Madalena
Ilustração 3: A família em Durban: a mãe Maria Madalena Nogueira com a filha Madalena
Ilustração 3: A família em Durban: a mãe Maria
Madalena Nogueira com a filha Madalena Henriqueta
ao colo, Fernando Pessoa, a irmã Henriqueta Madalena,
o irmão Luís Miguel e o padrasto João Miguel Rosa.

Foi na África do Sul que Fernando Pessoa obteve uma educação inglesa que o iria influenciar pelo resto da vida e que viu despertar o seu talento para a literatura, começando a escrever não só em português mas também em inglês.

Em 1903, ao candidatar-se para a Universidade do Cabo da Boa Esperança, não obtém uma boa classificação, mas consegue a melhor nota no ensaio de estilo inglês.

Ilustração 4: Fernando Pessoa Fernando Pessoa regressa definitivamente a Portugal em 1905. Volta sozinho e
Ilustração 4: Fernando Pessoa Fernando Pessoa regressa definitivamente a Portugal em 1905. Volta sozinho e
Ilustração 4: Fernando Pessoa
Ilustração 4: Fernando Pessoa

Fernando Pessoa regressa definitivamente a Portugal em 1905. Volta sozinho e vai viver com a avó e duas tias , em Lisboa, onde se matricula no Curso Superior de Letras.

Em 1907, a sua avó morre deixando-lhe uma pequena herança com a qual ele funda uma pequena tipografia abandonando o curso de letras, mas o negócio não prospera, e em poucos meses vem a falência. A partir de então, passa a trabalhar como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais, vindo a ser a sua profissão o resto da sua vida.

como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais, vindo a ser a sua profissão o resto
como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais, vindo a ser a sua profissão o resto
Ilustração 5: Ophélia Queiroz Em 1920 a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos
Ilustração 5: Ophélia Queiroz
Ilustração 5: Ophélia Queiroz

Em 1920 a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos voltando Fernando Pessoa a viver com a família. Na mesma altura iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz, colega de trabalho, uma relação breve na qual ele trocou algumas cartas de amor. Em 1925, ocorreria a morte da mãe.

Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de São Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.

Levou uma vida relativamente apagada, movimentou-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias
Levou uma vida relativamente apagada, movimentou-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias

Levou uma vida relativamente apagada, movimentou-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa.

Ilustração 6: Fernando Pessoa com Costa Brochado no Martinho da Arcada
Ilustração 6: Fernando Pessoa com Costa Brochado no
Martinho da Arcada

Em 1913 publica as "Impressões do Crepúsculo" (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paulismo) e em 1940 aparecem três dos seus principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.

Fernando Pessoa escreveu uma nota biográfica, dactilografada e assinada pelo próprio a 30 de Março de 1935 como introdução ao poema “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”.

AA suasua vidavida foifoi dedicadadedicada essencialmenteessencialmente àà criação,criação, tantotanto queque atéaté vidavida criou,criou, atravésatravés dosdos seusseus heterónimos.heterónimos. TodoTodo esteeste talentotalento ee necessidadenecessidade dede criarcriar fezfez comcom queque PessoaPessoa deixassedeixasse umum grandiosograndioso legadolegado ee umauma autênticaautêntica arte,arte, derivadosderivados dede umum enormeenorme empenhoempenho ee paixão.paixão.

““TenhoTenho oo deverdever dede meme fecharfechar emem casacasa nono meumeu espíritoespírito ee trabalhartrabalhar quantoquanto possapossa ee emem tudotudo quantoquanto possa,possa, parapara oo progressoprogresso dada civilizaçãocivilização ee oo alargamentoalargamento dada consciênciaconsciência dada humanidade”humanidade”

OO OrtónimoOrtónimo

O O Ortónimo Ortónimo Fernando Pessoa conta a insatisfação da sua alma, a dor de pensar,

Fernando Pessoa conta a insatisfação da sua alma, a dor de pensar, o fingimento poético, a construção da realidade, o desejo do sonho, o ocultismo, a solidão, a nostalgia e a angústia existencial que se dissipam no tédio da vida.

Ilustração 7: Almada Negreiros: Retrato do Poeta Fernando Pessoa, 1954.
Ilustração 7: Almada Negreiros: Retrato do Poeta
Fernando Pessoa, 1954.

Na poesia do ortónimo coexistem duas vertentes, a tradicional uma vez que dá continuidade ao lirismo português, estando presente o desencanto e a melancolia e a modernista que é onde se dá o processo de ruptura, ou seja, os heterónimos.

presente o desencanto e a melancolia e a modernista que é onde se dá o processo
presente o desencanto e a melancolia e a modernista que é onde se dá o processo

OO SujeitoSujeito poéticopoético encontra-seencontra-se nana buscabusca dede umauma identidadeidentidade perdida,perdida, nãonão sabendosabendo definir-sedefinir-se enquantoenquanto sujeito,sujeito, recusandorecusando aa realidaderealidade enquantoenquanto aparênciaaparência acabandoacabando porpor criarcriar umauma consciênciaconsciência dodo absurdoabsurdo dada existência.existência. AoAo mesmomesmo tempo,tempo, existeexiste umum anti-sentimentalismoanti-sentimentalismo queque sese verificaverifica emem estadosestados negativosnegativos dede solidão,solidão, tédio,tédio, angústiaangústia ee cansaço,cansaço, numanuma inquietaçãoinquietação ee dordor dede viverviver ee nana oposiçãooposição entreentre oo sentimentosentimento ee oo pensamentopensamento ee nono pensamentopensamento ee aa vontade.vontade.

NaNa tentativatentativa dede superarsuperar aa dordor dodo presentepresente FernandoFernando PessoaPessoa recorrerecorre àà evocaçãoevocação dada infância,infância, aoao refúgiorefúgio nono sonhosonho ee aoao ocultismo.ocultismo. ParaPara oo poetapoeta aa vidavida éé sentidasentida comocomo umauma cadeiacadeia dede instantesinstantes queque sese vãovão sucedendo,sucedendo, semsem qualquerqualquer relaçãorelação entreentre eles,eles, oo queque provocaprovoca nono poetapoeta oo sentimentosentimento dada fragmentaçãofragmentação ee dada faltafalta dede identidadeidentidade sendosendo oo presentepresente oo únicoúnico tempotempo porpor eleele experimentado,experimentado, aa relaçãorelação comcom oo passadopassado nãonão existeexiste ee oo futurofuturo apenasapenas aumentaráaumentará aa suasua angústiaangústia porqueporque éé oo resultadoresultado dede sucessivossucessivos presentespresentes carregadoscarregados dede negatividade,negatividade, tendotendo umauma visãovisão negativanegativa ee pessimistapessimista dada existência.existência.

CaracterísticasCaracterísticas temáticastemáticas

IInncapacidadecapacidade dede auto-definiçãoauto-definição

Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu.

Neste poema é possível verificar que o ortónimo sente “inveja” da inconsciência do gato, que brinca na rua e é feliz apenas por ser como é, revelando a consciência de saber que não vive com a mesma simplicidade que ele.

Fernando Pessoa não consegue viver instintivamente por ser feliz e efémere, concluindo que a felicidade apenas seria possível se não pensássemos nem tivéssemos consciência do mundo e do que somos.

Pessoa vive numa constante dor possivelmente derivada da sua incapacidade de definição enquanto sujeito neste mundo tendo criado a ideia de que a realidade é apenas uma aparência derivando assim a felicidade do interior de cada um, sendo a nossa visão e vivência no mundo exterior influenciada pelos sentimentos.

a felicidade do interior de cada um, sendo a nossa visão e vivência no mundo exterior
a felicidade do interior de cada um, sendo a nossa visão e vivência no mundo exterior

FFingimentoingimento comocomo elaboraçãoelaboração mentalmental dasdas emoçõesemoções

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A

dor que deveras sente.

E

os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.

  A poesia do ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor que fala e que
  A poesia do ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor que fala e que
 

A poesia do ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor que fala e que se identifica com a própria criação poética, como impõe a modernidade. A expressão dos sentimentos e sensações provêm

de

uma construção mental onde a imaginação é

essencial, criando uma composição poética resultante de um jogo entre palavras que tentam fugir ao sentimentalismo e racionalização não deixando por isso de ser

sincero apenas se trata de uma representação.

O

poeta recorre à ironia para pôr tudo em

causa, inclusivamente a própria sinceridade, concluindo que o poeta é um fingidor.

causa, inclusivamente a própria sinceridade, concluindo que o poeta é um fingidor.

causa, inclusivamente a própria sinceridade, concluindo que o poeta é um fingidor.

DistânciaDistância entreentre oo idealizadoidealizado ee oo realizadorealizado

Tudo o que faço ou medito

Tudo o que faço ou medito Fica sempre na metade. Querendo, quero o infinito. Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim fica Ao olhar para o que faço! Minha alma é lúcida e rica E eu sou um mar de sargaço –

Um mar onde bóiam lentos Fragmentos de um mar de além Vontades ou pensamentos? Não o sei e sei-o bem.

  A sua poesia baseia-se na vivência de estados imaginários, sendo algo pensado e não
 

A sua poesia baseia-se na vivência de estados imaginários, sendo algo pensado e não real.

O ortónimo fala frequentemente sobre os seus sonhos e desejos, tendo incontáveis projectos a correr na sua cabeça mas “Fica sempre na metade”, isto é, os seus projectos não se realizam por inteiro, pois na vida a realidade nunca se encontra com o sonho.

Apesar de todos os seus sonhos e desejos ele é um mar de sargaço pois sente-se impedido de se mover, de caminhar e avançar conforme a sua imaginação.

O sujeito poético deseja encontrar o lugar onde o idealizado poderá ser o realizado deixando ao futuro a hipótese de tal ser possível.

deseja encontrar o lugar onde o idealizado poderá ser o realizado deixando ao futuro a hipótese
deseja encontrar o lugar onde o idealizado poderá ser o realizado deixando ao futuro a hipótese

IntersecçãoIntersecção entreentre oo sonhosonho ee aa realidaderealidade

Chuva oblíqua

o sonho sonho e e a a realidade realidade Chuva oblíqua O sujeito poético revela-se duplo
O sujeito poético revela-se duplo na busca de sensações que o levarão à felicidade surgindo

O sujeito poético revela-se duplo na busca de sensações que o levarão à felicidade surgindo assim o interseccionismo entre o material e o sonho, a realidade e idealidade surge como tentativa para encontrar a unidade entre a experiência sensível e a inteligência.

A sua poesia baseia-se na vivência de estados imaginários, sendo algo pensado e não real, tentando encontrar algo melhor que a realidade não consegue dar.

de estados imaginários, sendo algo pensado e não real, tentando encontrar algo melhor que a realidade

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito

E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios

Que largam do cais arrastando nas águas por sombra Os vultos ao sol daquelas árvores antigas

O

porto que sonho é sombrio e pálido

E

esta paisagem é cheia de sol deste lado

Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio

E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo

O vulto do cais é a estrada nítida e calma

Que se levanta e se ergue como um muro,

E os navios passam por dentro dos troncos das árvores

Com uma horizontalidade vertical,

E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro

Não sei quem me sonho Súbito toda a água do mar do porto é transparente

e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,

Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,

E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa

Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E

chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,

E

passa para o outro lado da minha alma

Anti-sentimentalismo:Anti-sentimentalismo: intelectualizaçãointelectualização dada emoçãoemoção

Isto

Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!

meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê! Para o poeta, a arte

Para o poeta, a arte é resultado da fusão do sentir e do pensar, fornecendo assim à inteligência as emoções necessárias para a produção do poema, emoções estas que têm de ser intelectualizadas, ou seja sentidas com a imaginação e não com o coração.

O poeta tem noção que busca algo inacessível mas fá-lo porque sente a necessidade de encontrar algo mais belo.

O sujeito poético nega o "uso do coração", apontando para a simultaneidade dos actos de "sentir" e "imaginar", apresentando-nos a obra poética como uma espécie de síntese onde a sensação surge filtrada pela imaginação criadora.

a obra poética como uma espécie de síntese onde a sensação surge filtrada pela imaginação criadora.

EvocaçãoEvocação dada infânciainfância ee angústiaangústia existencialexistencial

Pobre velha música!

Pobre velha música! Não sei por que agrado, Enche-se de lágrimas Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te, Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei:

Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

O sentimento que aqui podemos encontrar é a nostalgia, isto é, o sentimento de falta de algo que um dia o fez feliz e o desejo de a poder ter de volta mesmo sabendo que tal não é possível.

A infância por ele representada é uma infância feliz e alegre acabando por revelar a dor que sente pois o pensamento apenas o lembra das angústias escrevendo assim sobre aquilo que deveria pensar pois aquilo que pensa não lhe traz boas recordações, imaginando por vezes que não a viveu e que teve uma infância diferente daquela que realmente presenciou

Pessoa sente a nostalgia da criança que passou ao lado das alegrias e da ternura. Chora, por isso, uma felicidade passada, para lá da infância.

da criança que passou ao lado das alegrias e da ternura. Chora, por isso, uma felicidade

EstiloEstilo dede EscritaEscrita

OO OrtónimoOrtónimo temtem preferênciapreferência pelapela métricamétrica curta,curta, pelapela simplicidadesimplicidade formalformal ee porpor umauma linguagemlinguagem simples,simples, espontâneaespontânea masmas sóbria.sóbria. OO versoverso éé predominantementepredominantemente constituídoconstituído porpor 77 sílabassílabas sendosendo geralmentegeralmente quadrasquadras ouou quintilhas.quintilhas.

ÉÉ dotadodotado dede umauma grandegrande sensibilidadesensibilidade musicalmusical umauma vezvez queque éé possívelpossível encontrarencontrar nosnos seusseus poemaspoemas umauma grandegrande harmoniaharmonia dede sons,sons, aliteraçõesaliterações ee adjectivaçãoadjectivação expressiva.expressiva.

AA nívelnível dede recursosrecursos estilísticosestilísticos usausa frequentementefrequentemente comparações,comparações, metáforasmetáforas ee oxímoros.oxímoros. AlémAlém distodisto fazfaz umum reaproveitamentoreaproveitamento dosdos símbolossímbolos tradicionaistradicionais como,como, água,água, oo rio,rio, oo marmar

ModernismoModernismo

Modernismo Modernismo O Modernismo consistiu num movimento artístico que se deu no início do século XX
Modernismo Modernismo O Modernismo consistiu num movimento artístico que se deu no início do século XX

O Modernismo consistiu num movimento

artístico que se deu no início do século XX num

momento de crise aguda e de dissolução de muitos valores em que os artistas reagiram ao cepticismo social através da agressão cultural, pelo sarcasmo e pelo exercício gratuito das energias individuais, ou então pela entrega às sensações, à grandeza inumana das máquinas,

das técnicas e da vida nas cidades.

inumana das máquinas, das técnicas e da vida nas cidades. Ilustração 8: Eduardo Viana: As três
Ilustração 8: Eduardo Viana: As três aboboras, 1919.
Ilustração 8: Eduardo Viana: As três aboboras, 1919.

As minorias criadoras manifestaram-se por impulsos de ruptura com as diversas ordens vigentes, tentando romper com as camadas conservadoras e redescobrir o mundo através linguagem estética. Na área da poesia recusam-se os temas poéticos já gastos, as estruturas vigentes da poética ultrapassada.

t r u t u r a s v i g e n t e s
t r u t u r a s v i g e n t e s
Ilustração 9: Amadeu Sousa Cardoso: Brut, 1917 A arte entra numa dimensão diferente na qual
Ilustração 9: Amadeu Sousa Cardoso: Brut, 1917
Ilustração 9: Amadeu Sousa Cardoso: Brut, 1917

A arte entra numa dimensão diferente na qual os objectos não-estéticos e a vida quotidiana entram na arte passando a recusar-se o código linguístico convencional surgindo novas linguagens literárias como o uso da desarticulação deliberada e das metáforas, quase inacessíveis ao entendimento comum. O Modernismo encerra um humanismo seminal, incita à plenitude individual, despontando o Sobrerrealismo a par da visão do mundo como algo absurdo e sem suporte.

Como tal, este movimento expressa um desejo de ruptura e redescoberta do mundo. Em Portugal o modernismo pode ser considerado um movimento estético, em que a literatura surge associada às artes plásticas e por elas influenciada, tendo como nomes principais Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros.

Inevitavelmente a corrente modernista reflectiu um espírito de mudança na literatura e nas artes, numa diversidade de experiências de vanguarda, que vão marcar a cultura do início do século, em Portugal.

Almada Negreiros é referido como o introdutor do modernismo em Portugal. Ele foi um escritor
Almada Negreiros é referido como o introdutor do modernismo em Portugal. Ele foi um escritor

Almada Negreiros é referido como o introdutor do modernismo em Portugal. Ele foi um escritor e artista plástico, nascido em S. Tomé e Príncipe em 1893, tendo sido um dos fundadores da revista Orpheu.

Ilustração 10: Auto-retrato, Almada Negreiros
Ilustração 10: Auto-retrato, Almada Negreiros

As duas orientações de busca e criação de Almada Negreiros foram a beleza e a sabedoria. Para ele "a beleza não podia ser ignorante e idiota tal como a sabedoria não podia ser feia e triste". Almada Negreiros foi um pintor-pensador.

Foi praticante de uma arte elaborada que possui uma aprendizagem que implica um

percurso introspectivo e universal não se

esgotando nas

escolas

de

arte.

um percurso introspectivo e universal não se e s g o t a n d o
um percurso introspectivo e universal não se e s g o t a n d o

GeraçãoGeração dede orpheuorpheu

EsteEste grupogrupo dede jovensjovens surgiusurgiu comcom oo inícioinício dada guerra,guerra, emem 1914,1914, quandoquando sese reuniramreuniram factoresfactores dede umum movimentomovimento estéticoestético pós-simbolistapós-simbolista emem Lisboa.Lisboa. Juntaram-seJuntaram-se personalidadespersonalidades comocomo FernandoFernando Pessoa,Pessoa, MarioMario dede CarneiroCarneiro ee AlmadaAlmada Negreiro.Negreiro. AsAs suassuas ideiasideias ee pensamentospensamentos despertaramdespertaram criticas,criticas, nãonão pelapela formaçãoformação ee temperamentotemperamento particularesparticulares queque eleseles possuíampossuíam masmas tambémtambém pelopelo sentimentosentimento geralgeral dede crisecrise latente.latente.

EstaEsta geraçãogeração tinhatinha comocomo propósitopropósito “dar“dar umauma bofetadabofetada nono gostogosto público”(citaçãopúblico”(citação dede Maiakovsky,Maiakovsky, usadausada porpor AlmadaAlmada Negreiros),Negreiros), ouou seja,seja, pretendiapretendia agitaragitar ee escandalizarescandalizar aa inteligênciainteligência ee sensibilidade,sensibilidade, pondopondo todastodas asas convençõesconvenções emem causacausa ee tentandotentando comunicarcomunicar aa novanova mensagemmensagem europeiaeuropeia preocupando-sepreocupando-se apenasapenas comcom aa belezabeleza dada poesia,poesia, artearte pelapela arte,arte, emboraembora proporcionadoproporcionado aa descidadescida àsàs profundezasprofundezas dodo subconscientesubconsciente ee àà fixaçãofixação dada agitadaagitada idadeidade modernamoderna AliadaAliada aoao surgimentosurgimento dodo modernismomodernismo ee destadesta geraçãogeração aa escritaescrita tambémtambém foifoi sofrendosofrendo alterações,alterações, porpor exemplo,exemplo, aa sociedadesociedade materialmaterial integrou-seintegrou-se nana poesia,poesia, oo versoverso livre,livre, aa poesiapoesia insólitainsólita ee nana prosaprosa oo enredoenredo perdeperde aa importância.importância.

OrpheuOrpheu

"reagir em Leonino contra o ambiente"

Orpheu Orpheu "reagir em Leonino contra o ambiente" Ilustração 11: Capa do 1º exemplar da revista
Ilustração 11: Capa do 1º exemplar da revista Orpheu
Ilustração 11: Capa do 1º exemplar
da revista Orpheu
Ilustração 11: Capa do 1º exemplar da revista Orpheu O primeiro número saiu em 1915, correspondente

O primeiro número saiu em 1915, correspondente a Janeiro, Fevereiro e Março. As 83 páginas da revista, impressa em papel de boa qualidade e elegante, abriam com uma «introdução» de Luís de Montalvor, em que se pretendia definir os intuitos da obra a que meteu ombros um grupo de jovens que com frequência se reuniam em alguns cafés da baixa lisboeta. Depois desta apenas saiu mais um número pois deixaram de ter financiamento e apenas o talento e o arrojo não bastam para o sucesso.

A ideia da criação desta revista surgiu de Luís Montalvor tal como O título "Orpheu" , cuja palavra designa uma figura mítica que vai ao mundos dos mortos socorrer a sua mulher, sem nunca poder olhar para trás, tendo a ideia avançado devido ao entusiasmo dos participantes e às possibilidades económicas do pai de Sá-Carneiro.

tendo a ideia avançado devido ao entusiasmo dos participantes e às possibilidades económicas do pai de

Para Montalvor, Orpheu «é um exílio de temperamentos de arte que a querem como a um segredo ou tormento» cujo objectivo seria «formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em Orfeu o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermos».

O primeiro número foi dirigido por Luís de Montalvor e pelo brasileiro Ronald de Carvalho, e o segundo, por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, tendo ambos como editor António Ferro. O número 3 chegou a ser anunciado, mas ficou incompleto e em provas tipográficas, e só em 1984 seria publicado. Sob o impulso entusiasta de Fernando Pessoa e de Mário de Sá-Carneiro, foram seus colaboradores Almada Negreiros, Alfredo Guisado, Armando Cortes Rodrigues, J. Pacheco, Santa-Rita Pintor, entre outros.

Ilustração 12: Mário de Sá-Carneiro Orpheu acabou por ser decisiva precisamente porque não ter sido
Ilustração 12: Mário de Sá-Carneiro
Ilustração 12: Mário de Sá-Carneiro

Orpheu acabou por ser decisiva precisamente porque não ter sido entendida, pois foi o início do rompimento de um passado romântico e simbolista e a marcação de uma nova geração que recusava viver a “herança” dos seus pais. Talvez se tivesse surgido noutra altura o impacto não fosse o mesmo mas a realidade é que o efeito produzido com apenas duas publicações foi o suficiente para abrir novos horizontes e deixar que surgissem novas formas de pensar e agir.

e deixar que surgissem novas formas de pensar e agir. Nesta revista foram possível observar grandes

Nesta revista foram possível observar grandes críticas nomeadamente através da “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos e “Manucure” de Mário de Sá-Carneiro. “Ode Triunfal” marcou o aparecimento do heterónimo Álvaro de Campos sendo um poema que canta o triunfo da técnica, as máquinas, os motores, a velocidade, a civilização mecânica e industrial, o comércio e os escândalos da contemporaneidade. O sujeito pretende transmitir que sentir tudo de todas as maneiras é o ideal, é necessário sentir a histeria de sensações e identificar-se com coisas impensáveis.

AA ÁguiaÁguia

A A Águia Águia A Águia foi uma revista mensal dirigida por Teixeira de Pascoaes, órgão

A Águia foi uma revista mensal dirigida por Teixeira de Pascoaes, órgão da Renascença portuguesa e cujos temas eram literatura, arte, ciência, filosofia e crítica social. Fernando Pessoa estreia-se na edição número 4 da revista com vários estudos sobre a nova poesia portuguesa.

Ilustração 13: Capa da revista A Águia
Ilustração 13: Capa da revista A Águia

Sente-se atraído pela doutrina subjacente a esta publicação o que o faz aderir ao patriotismo, nacionalismo, espiritualismo e à intenção de despertar e espalhar a alma portuguesa. No entanto, em breve surgem discordâncias de Pessoa em relação à doutrina e a alguns dos colaboradores desta publicação levando-o a ampliar dos horizontes do poeta para campos muito diversos daqueles que se cultivavam pelos poetas de A Águia.

O afastamento de Fernando Pessoa do grupo de poetas reunidos em torno do órgão da Renascença Portuguesa culmina em finais de 1914, quando esta publicação mostra um profundo desinteresse em publicar o seu drama estático O Marinheiro, rompendo assim a sua ligação à revista.

um profundo desinteresse em publicar o seu drama estático O Marinheiro , rompendo assim a sua

AthenaAthena

"Dar ao público português, tanto quanto possível, uma revista puramente de arte, isto é, nem de ocasião e início como o Orpheu, nem quase de pura decoração como a admirável Contemporânea."

Fernando Pessoa, em entrevista ao Diário de Lisboa, Novembro de 1924

Foi uma revista dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz, publicada em Lisboa, da qual saíram cinco números, entre Outubro de 1924 e Fevereiro de 1925. Surgindo no seguimento da linha de orientação do Orpheu, tento a maioria do seu interesse literário devido aos textos de Pessoa. Surgiu como alternativa no campo da revista literária, que não pretendia promover um projecto cultural, nem accionar um movimento, nem ser apreciada apenas pelo seu aspecto estético, mas sim ser um espaço de reflexão teórica, de balanço do itinerário percorrido desde Orpheu e de apresentação de novas vias para o modernismo.

PresençaPresença

Presença foi uma das mais influentes revistas literárias portuguesas do Século XX. Foi lançada inicialmente em Coimbra em 1927 por nomes como José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões sendo publicados 54 números até à sua extinção em 1940.

Muito nomes colaboraram nesta revista, entre os quais Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga e Vitorino Nemésio e tinham como objectivo a criação de uma literatura mais viva, livre, oposta ao academismo e jornalismo rotineiro, primando pela crítica, pela predominância do individual sobre o colectivo, do psicológico sobre o social, da intuição sobre a razão. Elegeu como "mestres" os artistas da Revista Orpheu, muitos dos quais ainda colaboraram na Presença, a revista foi importante na difusão de uma segunda fase do Modernismo, desta vez numa vertente mais crítica.

As páginas da Presença eram uma “Folha de Arte e crítica” que servia para a promoção e intercâmbio literário com vários poetas e prosadores brasileiros, à margem das iniciativas oficiais, a divulgação das principais obras e escritores europeus da primeira metade do século e a busca da verdade na sua essência, numa vertente mais intemporal.

MensagemMensagem

“O mito é o nada que é tudo”

Ilustração 14: Capa da obra Mensagem de Fernando Pessoa
Ilustração 14: Capa da obra
Mensagem de Fernando Pessoa
Ilustração 14: Capa da obra Mensagem de Fernando Pessoa Mensagem foi a única obra escrita e

Mensagem foi a única obra escrita e publicada em português por Fernando Pessoa, em 1934 e publicada no dia 1 de Dezembro. Este livro é uma colectânea de poesias breves compostas em épocas diferentes mas que abordam uma mesma temática, a visão mítica da pátria portuguesa, isto é, uma visão sobre figuras ou momentos da história até ao declínio do império. É rico em metáforas e imagens inéditas de uma admirável musicalidade.

A obra possui marcas épicas e líricas onde o leitor pode apreciar a concepção trans-histórica e mítica de Fernando Pessoa onde figura o aparecimento da pátria cultural portuguesa constituinte do V Império.

e mítica de Fernando Pessoa onde figura o aparecimento da pátria cultural portuguesa constituinte do V
e mítica de Fernando Pessoa onde figura o aparecimento da pátria cultural portuguesa constituinte do V

A estruturação da obra revela a sua índole sebastianista uma vez que se encontra dividida em três partes (“Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”), o que corresponde a: os fundadores (a origem), a realização (a vida), a morte (fim das energias). Esta estrutura tripartida é simbólica demonstrando a história cíclica de um povo, o nascimento, o apogeu e a morte.

Em Brasão, estão os construtores do Império, desfilando heróis históricos desde Ulisses a D.Sebastião. O poeta começa por fazer a localização de Portugal na Europa e a sua relação com o Mundo, salientando a sua importância, apresentando também a definição do mito realçando o seu valor na construção da realidade. O povo português é o construtor do império marítimo, assim como revela os predestinados, responsáveis pela construção do país.

Em Mar Português, surge o sonho marítimo e a obra das descobertas, apresentando obras inspiradas no desejo do desconhecido e no esforço da luta com o mar, salientando a grandeza do sonho transformado em acção, unificando a acção humano com o destino traçado por Deus.

Em O Encoberto, há a imagem do Império moribundo, um Portugal triste com a fé de que

a

morte contenha em si o gérmen da ressurreição, o espírito do império espiritual, moral

e

civilizacional na Diáspora lusíada. O poeta considera que chegou a hora de despertar

para uma missão, a constituição de um Quinto Império, um reino de liberdade de espírito

e de redenção, pressagiando a vinda de D.Sebastião. A Mensagem termina com um grito de felicidade e um apelo para que todos lutem por um novo Portugal.

O poema Quinto Império consiste numa oposição entre uma sociedade estagnada, com valores antiquados necessitados de uma renovação cultural, aliando-se assim ao mito sebastianista devido ao tempo de renovação e regeneração, encontrando-se a reminiscência de um passado histórico glorioso recriando o mito na esperança de encontrar o paraíso perdido e a comunhão entre o homem e a vontade divina.

AlgumasAlgumas palavraspalavras sobresobre eleele mesmomesmo

“Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer
“Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou.
Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos
que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer
algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para
mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno
de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio. Tudo para mim é
incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de
significado. Todas as coisas são «desconhecidas», símbolos do
Desconhecido. O resultado é horror, mistério, um medo por demais
inteligente.”
Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa.
(Textos estabelecidos e prefaciados por George Rudolf Lind e Jacinto do Prado
Coelho.)
Lisboa: Ática, 1966.

““JamaisJamais houvehouve almaalma maismais amanteamante ouou ternaterna dodo queque aa minha,minha, almaalma maismais repletarepleta dede bondade,bondade, dede compaixão,compaixão, dede tudotudo oo queque éé ternuraternura ee amor.amor. Contudo,Contudo, nenhumanenhuma almaalma háhá tãotão solitáriasolitária comocomo aa minhaminha ―― solitária,solitária, note-se,note-se, nãonão mercêmercê dede circunstânciascircunstâncias exteriores,exteriores, masmas simsim dede circunstânciascircunstâncias interiores.interiores. OO queque queroquero dizerdizer é:é: aa parpar dada minhaminha grandegrande ternuraternura ee bondade,bondade, entrouentrou nono maumau caráctercarácter umum elementoelemento dada naturezanatureza inteiramenteinteiramente oposto,oposto, umum elementoelemento dede tristeza,tristeza, egocentrismo,egocentrismo, portantoportanto dede egoísmo,egoísmo, produzindoproduzindo umum efeitoefeito duplo:duplo:

deformardeformar ee prejudicarprejudicar oo desenvolvimentodesenvolvimento ee aa plenaplena acçãoacção internainterna daquelasdaquelas outrasoutras qualidades,qualidades, ee prejudicar,prejudicar, deprimindodeprimindo aa vontade,vontade, aa suasua plenaplena acçãoacção externa,externa, aa suasua manifestação.manifestação. Hei-deHei-de analisaranalisar isto;isto; umum diadia hei-dehei-de examinarexaminar melhor,melhor, destrinçar,destrinçar, osos elementoselementos queque constituemconstituem oo meumeu carácter,carácter, poispois aa minhaminha curiosidadecuriosidade acercaacerca dede tudo,tudo, aliadaaliada àà minhaminha curiosidadecuriosidade porpor mimmim própriopróprio ee pelopelo meumeu carácter,carácter, conduzconduz aa umauma tentativatentativa parapara compreendercompreender aa minhaminha personalidade.”personalidade.”

Páginas íntimas e de auto-interpretação, Fernando Pessoa

AA primeiraprimeira nutriçãonutrição literárialiterária dada minhaminha meninicemeninice foifoi aa queque sese encontravaencontrava emem numerososnumerosos romancesromances dede mistériomistério ee dede aventurasaventuras horríveis.horríveis. PoucoPouco meme interessavaminteressavam osos livroslivros ditosditos parapara rapazesrapazes ee queque relatamrelatam vivênciasvivências emocionantes.emocionantes. NãoNão meme atraíaatraía aa vidavida saudávelsaudável ee natural.natural. Anelava,Anelava, nãonão pelopelo provável,provável, masmas pelopelo incrível,incrível, nemnem sequersequer pelopelo impossívelimpossível emem grau,grau, masmas simsim pelopelo impossívelimpossível porpor natureza.natureza.

AA minhaminha infânciainfância decorreudecorreu serenaserena (

),( ),

recebirecebi umauma boaboa educação.educação. Mas,Mas, desdedesde queque tenhotenho

consciênciaconsciência dede mimmim mesmo,mesmo, apercebi-meapercebi-me dede umauma tendênciatendência natanata emem mimmim parapara aa mistificação,mistificação, parapara aa mentiramentira artística.artística. Junte-seJunte-se aa istoisto umum grandegrande amoramor pelopelo espiritual,espiritual, pelopelo misterioso,misterioso, pelopelo obscuro,obscuro, que,que, aoao fimfim ee aoao cabo,cabo, nãonão eraera senãosenão umauma formaforma ee umauma variantevariante daqueladaquela outraoutra minhaminha característica,característica, ee aa minhaminha personalidadepersonalidade seráserá completacompleta parapara aa intuição.intuição.

1906?1906?

PáginasPáginas ÍntimasÍntimas ee dede Auto-Interpretação.Auto-Interpretação. FernandoFernando Pessoa.Pessoa.

“Estou cansado de confiar em mim próprio, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar com lágrimas, sobre o meu próprio eu. Acabo de ter uma espécie de cena com a tia Rita acerca de F. Coelho. No fim dela senti de novo um desses sintomas que cada vez se tornam mais claros e sempre mais horríveis em mim: uma vertigem moral. Na vertigem física há um rodopiar do mundo externo em relação a nós: na vertigem moral, um rodopiar do mundo interior. Parece-me perder por momentos, o sentido da verdadeira relação das coisas, perder a compreensão, cair num abismo de suspensão mental. É uma pavorosa sensação esta de uma pessoa se sentir abalada por um medo desordenado. Estes sentimentos vão-se tornando comuns, parecem abrir-me o caminho para uma nova vida mental, que acabará na loucura. Na minha família não há compreensão do meu estado mental - não, nenhuma. Riem-se de mim, escarnecem-me, não me acreditam. Dizem que o que eu pretendo é mostrar-me uma pessoa extraordinária. Nada fazem para analisar o desejo que leva uma pessoa a querer ser extraordinária. Não podem compreender que entre ser-se e desejar-se ser extraordinário não há senão a diferença da consciência que é acrescentada ao facto de se querer ser extraordinário. É o mesmo caso que se dava comigo brincando com soldados de chumbo aos sete e aos catorze anos, no primeiro caso os soldados eram para mim coisas e no segundo coisas e coisas-brinquedos ao mesmo tempo: no entanto o impulso para brincar com eles subsistia e esse é que era o real e fundamental estado psíquico.”

Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa.

VidaVida amorosaamorosa OphéliaOphélia QueirozQueiroz

Ilustração 15: Ophélia Queiroz
Ilustração 15: Ophélia Queiroz
Ophélia Queiroz Queiroz Ilustração 15: Ophélia Queiroz Em toda a sua vida, uma única mulher fez

Em toda a sua vida, uma única mulher fez parte da sua biografia. O seu nome era Ophélia Queiroz, de 19 anos,

uma colega de trabalho com quem teve um breve namoro e trocou cartas de amor, nas quais ela se dirigia

a Ferdinand Personne, ou “Monsieur Personne”. Esta

relação iniciou-se no momento em que se encontrava numa grande solidão, de dia trabalhava como modesto escriturário e tradutor e à noite bebia e fazia poesia publicada em algumas revistas literárias.

O romance,dividiu-se em duas fases, a primeira durou poucos meses e, nas cartas, Pessoa começava a tratá-la como uma criancinha. Todos os críticos e estudiosos estão de acordo que este tom infantil não é inocente. Ophélia entra no jogo da 'infantilidade perversa' e da dupla personalidade, recebendo e respondendo cartas em que Álvaro de Campos a adverte que Fernando Pessoa não deveria ser levado a sério.

recebendo e respondendo cartas em que Álvaro de Campos a adverte que Fernando Pessoa não deveria
recebendo e respondendo cartas em que Álvaro de Campos a adverte que Fernando Pessoa não deveria

Ophélia muda para o outro lado da Cidade, a morte do padrasto e a volta da mãe para Lisboa somados ao estado dos nervos do poeta, que se reconhece muito doente, arrefecem o pequeno entusiasmo que impulsionava a relação e a 29 de Novembro de 1920, envia uma mensagem na qual encerra o namoro:

"O amor passou

O meu destino pertence a outra Lei, cuja existência a Ophelinha ignora,

e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam "

Quase 10 anos depois, Carlos Queiroz, sobrinho de Ophélia e amigo de Pessoa, envia-lhe uma foto de “Fernando Pessoa em flagrante delito” o que reacendeu a relação sentimental com Ophélia iniciando-se aqui a segunda fase de cartas de amor.

Sabe-se que o poeta teria confidenciado a Agostinho da Silva que estaria arrependido de ter escrito as cartas de amor a Ophélia pois apenas o teria feito movido pela sua “fantasia heteronímica” e não por nutrir uma verdadeira paixão por ela, tendo terminado a relação no momento em que percebeu que Ophélia estaria apaixonada por ele enquanto que ele vivia apenas um amor fictício, não sendo ela merecedora de tal sofrimento.

~

As cartas de amor nos remetem a Ricardo Reis, a Alberto Caeiro e a Álvaro de Campos. Ainda que enviadas a Ophélia Queiroz é com estes que dialogam. «Ophelinha» praticamente não existiu, é bom dizer que Ophélia Queiroz, esta sim, teve vida de facto e o espaço ocupado por Ophélia não é um espaço dela sendo as cartas trocadas entre eles cartas entre Fernando Pessoa e Fernando Pessoa. Toda a situação abalou Ophélia Queiroz, mas após uma fase de perplexidade acabou por casar com o teatrólogo Augusto Soares com quem se casou três anos após a morte de Pessoa.

Ilustração 16: Aleister Crowley
Ilustração 16: Aleister Crowley

MisticismoMisticismo ee OcultismoOcultismo

Se a vida amorosa foi feita de mistério, também se diz que Pessoa praticou o misticismo e ocultismo mas sobre isso pouco se sabe ou existem “lacunas de informação”. Sabe-se de uma suposta ligação com a Maçonaria e com a Rosa Cruz mas tal nunca foi provado, apenas se sabe que defendia publicamente estas escolas e fraternidades, por exemplo, no “Diário de Lisboa”. Pessoa dizia-se um cristão gnóstico e, iniciado nas tradições místicas, estudou a fundo astrologia, chegando a pensar em estabelecer-se em Lisboa como astrólogo. Elaborou mapas astrológicos para a maioria dos seus heterónimos e para Portugal, fazendo também consultas astrológicas para si mesmo. Foi um estudioso profundo das “ciências Ocultas”, tendo deixado bastantes anotações sobre temas esotéricos.

O poeta apreciava também o trabalho do famoso ocultista Aleister Crowley, tendo certa vez detectado erros no horóscopo de uma publicação inglesa de Crowley, escrevendo-lhe para os corrigir. Os seus conhecimentos de astrologia impressionaram Crowley e, como este gostava de viagens, veio a Portugal conhecer o poeta, num encontro que ocorreu com algum sensacionalismo, dado o Poeta Inglês ter simulado o seu suicídio na Boca do Inferno, o que atraiu várias polícias europeus e a atenção dos média da época. Pessoa estaria dentro da encenação, tendo combinado com Crowley a notificação dos jornais e a redacção de um "romance policiário" cujos direitos reverteriam a favor dos dois poetas. Apesar de ter escrito várias dezenas de páginas, essa obra de ficção nunca foi concretizada.

Ilustração 17: O mago Aleister Crowley e Pessoa em Lisboa, em Setembro de 1930.
Ilustração 17: O mago Aleister Crowley e Pessoa em
Lisboa, em Setembro de 1930.

HeterónimosHeterónimos

pluralplural comocomo oo universo”universo”

Ilustração 18: Carta de Fernando Pessoa dirigida a Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos
Ilustração 18: Carta de Fernando Pessoa dirigida a
Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos
heterónimos.
a Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos heterónimos. Pessoa foi o escritor dos heterónimos, dos

Pessoa foi o escritor dos heterónimos, dos pseudónimos e das múltiplas personalidades, possuindo desta forma uma obra única. A criação de heterónimos nasceu não só de uma capacidade mas também de uma necessidade, tendo criado o seu primeiro apenas com 6 anos, Chevalier de Pass, com o objectivo de se cercar de amigos que nunca existiram. Dentro de um grande numero de heterónimos surgem nomes como Thomas Cross, Miguel Otto, José Rasteiro, Barão de Teive, Francisco Reis, Maria José, António Mora e José Rasteiro, mas de todos existem três que se destacam, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

Mora e José Rasteiro, mas de todos existem três que se destacam, Alberto Caeiro, Álvaro de
Mora e José Rasteiro, mas de todos existem três que se destacam, Alberto Caeiro, Álvaro de

RicardoRicardo ReisReis

“Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)”

(excerto da carta a Adolfo Casais Monteiro, 1935)

Segundo a Carta escrita a Adolfo Casais Monteiro, Ricardo Reis foi imaginado de relance pelo

Segundo a Carta escrita a Adolfo Casais

Monteiro, Ricardo Reis foi imaginado de relance pelo poeta por volta de 1912. Nasceu no Porto, recebeu uma educação clássica num colégio de

formou-se

em

Viveu no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico, na sequência da derrota da rebelião monárquica do Porto contra o regime republicano. É um latinista por educação, e um semi-helenista por educação própria.

As suas obras iniciais terão sido publicadas na revista Athena em 1924 e mais tarde, oito odes, entre 1927 e 1930, na revista Presença, de Coimbra.

Ilustração 19: Caricatura de Ricardo Reis
Ilustração 19: Caricatura de Ricardo
Reis
tarde, oito odes, entre 1927 e 1930, na revista Presença , de Coimbra. Ilustração 19: Caricatura

CaracterísticasCaracterísticas temáticastemáticas ee dede escritaescrita

Epicurismo É uma doutrina baseada num ideal de sabedoria que busca a tranquilidade da alma e para isso a morte não deve ser temida pois é a única certeza que temos na vida, devem procurar-se os simples prazeres da vida em todos os sentidos e sem preocupações com o futuro, o designado carpe diem, mas sem excessos e vivendo cada instante como se fosse o último. Outra característica é a fuga à dor, ou seja, a razão sobreposta à emoção no sentido de defesa contra o sentimento.

Estoicismo

É uma doutrina que tem como ideal ético a apatia, isto é, a ausência de

envolvimento emocional excessivo com o objectivo de atingir a liberdade de forma

a que seja possível alcançar a felicidade; não como estado de alegria mas como um contentamento inconsciente. O estoicismo tem como características o domínio das paixões para evitar ter desilusões, de modo a que nada perturbe

a serenidade e a razão, e porque este é

uma inutilidade e está já condenado, uma vez que tudo na vida tem um fim e a aceitação da ordem universal das coisas, incluindo a morte.

Na sua escrita, Ricardo Reis procura atingir a paz e o equilíbrio sem sofrer através da autodisciplina e das disciplinas gregas epicurismo e estoicismo, procurando assim atingir a ataraxia (ausência de preocupação).

Ele admite a limitação e a fatalidade da condição humana, pretendendo chegar à morte de mãos vazias de modo a não ter nada a perder e inspirado na mitologia clássica, considera a vida como uma viagem cujo fluir e fim é inevitável. A sua poesia tem muitas alusões mitológias, com uma linguagem culta e precisa, sem espontaneidade e uso de um vocabulário culto e alatinado

Na sua escrita é possível encontrar a renúncia da vida através da recusa do amor, a consciência da “rapidez” com que o tempo corre, elogio à vida campestre, o fatalismo e a aceitação calma e tranquila do destino, verificando-se uma influência do Neopaganismo. Quanto ao estilo de escrita usa um vocabulário preciso mas coloquial recorrendo frequentemente a arcaísmos, ao gerúndio e ao imperativo. As suas formas estróficas e métricas possuem influência clássica e a escrita uma influência latina.

DadosDados IncoerentesIncoerentes

Na biografia de Ricardo Reis existem alguns dados incoerentes, por exemplo, para o seu nascimento, Fernando Pessoa estabeleceu datas distintas. Primeiro afirma, de acordo com o

texto de Páginas Íntimas e de Auto- Interpretação que este nasce no seu espírito no dia 29 de Janeiro de 1914: «O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, que se ia desenvolvendo.».

Mais tarde, numa carta a Adolfo Casais Monteiro datada de 13 de janeiro de 1935, altera

a data deste nascimento afirmando que Ricardo Reis nascera no seu espírito em 1912.

Fernando Pessoa considera que este heterónimo foi o primeiro a revelar-se-lhe, ainda que não tenha sido o primeiro a iniciar a sua actividade literária. Se Ricardo Reis está “vivo” desde o ano de 1912, a julgar pela carta mencionada, é só em Março de 1914 que

o autor das Odes inicia a sua produção até 13 de Dezembro de 1933.

Foi no dia 8 de Março de 1914 que Fernando Pessoa teve o que ele chamou do seu "dia triunfal", isto é, o dia em que nasceu Alberto Caeiro.

, isto é, o dia em que nasceu Alberto Caeiro. AlbertoAlberto CaeiroCaeiro Ilustração 20: Caricatura de
AlbertoAlberto CaeiroCaeiro Ilustração 20: Caricatura de Alberto Caeiro
AlbertoAlberto CaeiroCaeiro
Ilustração 20: Caricatura de Alberto Caeiro

Este é considerado o “Mestre” pelos heterónimos e

““NumNum diadia emem queque finalmentefinalmente desistiradesistira ―― foifoi emem 88 dede MarçoMarço dede 19141914 ―,―,

pelo próprio Pessoa pois ao contrário destes,

acerquei-meacerquei-me dede umauma cómodacómoda alta,alta, e,e, tomandotomando umum papel,papel, comeceicomecei aa

consegue submeter o pensar ao sentir, conseguindo

escrever,escrever, dede pé,pé, comocomo escrevoescrevo sempresempre queque posso.posso. EE escreviescrevi trintatrinta ee

assim viver sem dor, envelhecer sem angústia e

tantostantos poemaspoemas aa fio,fio, numanuma espécieespécie dede êxtaseêxtase cujacuja naturezanatureza nãonão

morrer sem desespero, não procura encontrar

conseguireiconseguirei definir.definir. FoiFoi oo diadia triunfaltriunfal dada minhaminha vida,vida, ee nuncanunca podereipoderei

sentido para a vida e para as coisas que lhe

terter outrooutro assim.assim. AbriAbri comcom umum título,título, «O«O GuardadorGuardador dede Rebanhos».Rebanhos». EE oo

rodeiam, sente sem pensar e é um ser único, não

queque sese seguiuseguiu foifoi oo aparecimentoaparecimento dede alguémalguém emem mim,mim, aa quemquem deidei desdedesde

fragmentado.

logologo oo nomenome dede AlbertoAlberto Caeiro.”Caeiro.”

Segundo a sua biografia Alberto Caeiro nasceu em

Lisboa, órfão de mãe e pai tendo vivido grande

(excerto(excerto dada cartacarta aa AdolfoAdolfo CasaisCasais Monteiro,Monteiro, 1935)1935)

parte da sua vida no Ribatejo com a sua tia-avó idosa, onde escreveu o Guardador de Rebanhos e O pastor Amoroso. Estudou apenas até ao 4º ano, não tendo assim exercido qualquer profissão. Com apenas 26 anos morreu de tuberculose, tendo vivido ainda uns tempos em Lisboa, onde escreveu Os Poemas Inconjuntos.

CaracterísticasCaracterísticas temáticastemáticas ee dede escritaescrita

Alberto Caeiro foi um poeta ligado à natureza, que despreza e repreende qualquer tipo de pensamento filosófico, afirmando que pensar não permite ver o mundo como ele realmente é ("pensar é estar doente dos olhos") e que, ao pensar, entramos num mundo complexo e problemático onde tudo é incerto e obscuro. Ele possui um grande interesse pela natureza, pelo verso livre e pela linguagem simples e familiar, apresentando-se como um simples "guardador de rebanhos" cuja sensação é a única realidade, sendo assim o poeta das sensações verdadeiras, do olhar, dos 5 sentidos.

Caeiro defende um panteísmo naturalista, isto é, Deus não é uma entidade divina por si só, a divindade preside em Deus, na Natureza e no Universo, estando aasim na simplicidade e presente em todas as coisas. O poeta vive em simbiose com a natureza pois necessita dela para viver e ser feliz, é dela que provém a sua felicidade.

viver e ser feliz, é dela que provém a sua felicidade. Ilustração 21: Pintura de Julien
Ilustração 21: Pintura de Julien Dupré, pintor naturalista.
Ilustração 21: Pintura de Julien Dupré, pintor
naturalista.
21: Pintura de Julien Dupré, pintor naturalista. A sua escrita apresenta-se com um estilo discursivo, uma

A sua escrita apresenta-se com um estilo discursivo, uma linguagem simples e concreta, liberdade estrófica e métrica, usa frequentemente a comparação e o substantivo concreto em detrimento das metáforas e do adjectivo.

OO GuardadorGuardador dede RebanhosRebanhos

““EuEu nãonão tenhotenho filosofia:filosofia: tenhotenho sentidos…sentidos… SeSe falofalo nana NaturezaNatureza nãonão éé porqueporque saibasaiba oo queque elaela é.é. MasMas porqueporque aa amo,amo, ee amo-aamo-a porpor isso,isso, PorquePorque quemquem amaama nuncanunca sabesabe oo queque amaama NemNem porpor queque ama,ama, nemnem oo queque éé amar…amar…””

ExcertoExcerto dede “O“O GuardadorGuardador dede Rebanhos”,Rebanhos”, AlbertoAlberto CaeiroCaeiro

OO GuardadorGuardador dede RebanhosRebanhos éé umum poemapoema constituídoconstituído porpor 4949 textostextos escritosescritos porpor AlbertoAlberto

CaeiroCaeiro emem 1914,1914, numanuma noitenoite dede insóniainsónia dede FernandoFernando Pessoa,Pessoa, tendotendo marcadomarcado oo diadia dodo surgimentosurgimento destedeste heterónimo,heterónimo, “o“o diadia triunfal”.triunfal”. ForamForam publicadospublicados emem 19251925 nasnas 4ª4ª ee 5ª5ª ediçõesedições dada revistarevista AthenaAthena,, comcom excepçãoexcepção dodo 8º8º poemapoema dodo conjuntoconjunto queque sósó viriaviria aa serser

publicadopublicado

emem

1931,1931,

nana

revistarevista PresençaPresença

OsOs poemaspoemas mostrammostram aa formaforma simplessimples ee naturalnatural dede sentirsentir ee dizerdizer dede seuseu autor,autor, voltadovoltado parapara aa naturezanatureza ee asas coisascoisas puras,puras, transmitindotransmitindo umauma visãovisão dede umum mundomundo pagãopagão nono séculoséculo vinte.vinte. AA suasua formaforma permitepermite queque oo poemapoema sese alonguealongue comcom repetiçõesrepetições dede motivosmotivos queque passampassam dede textotexto parapara textotexto nãonão resolvidosresolvidos ouou porpor resolver,resolver, numanuma recombinaçãorecombinação sucessiva,sucessiva, guardandoguardando assimassim pensamentospensamentos queque sãosão sensações.sensações. OO rebanhorebanho éé umum símbolosímbolo queque representarepresenta oo limitelimite dada existênciaexistência humana,humana, ondeonde residereside aa liberdade.liberdade.

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.”

Fernando Pessoa/Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; Escrito entre 1913-15; Publicado em Atena nº 5, Fevereiro de 1925.

«Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Ricardo Reis tem outra disciplina diferente: as coisas devem ser sentidas, não só como são, mas também de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regras clássicas.».

Páginas íntimas e de Auto-interpretação, Fernando Pessoa

Ricardo Reis tal como Alberto Caeiro aceita a vida sem pensar, mas a diferença preside no facto de Reis sentir em si mesmo a opressão da Natureza e da vida, confiando em deuses incertos e vagos e ressentindo-se na realidade gerando em si sofrimento enquanto que Caeiro aceita ingenuamente a realidade acreditando num Deus fora de si que é um Deus disforme, feito de Natureza, sendo feliz assim mesmo.

ÁlvaroÁlvaro dede CamposCampos

““AparecidoAparecido AlbertoAlberto Caeiro,Caeiro, trateitratei logologo dede lhelhe descobrirdescobrir —— instintivainstintiva ee subconscientementesubconscientemente —— unsuns discípulos.discípulos. ArranqueiArranquei dodo

seuseu falsofalso paganismopaganismo oo RicardoRicardo ReisReis latente,latente, descobri-lhedescobri-lhe oo nome,nome,

ee ajustei-oajustei-o aa sisi mesmo,mesmo, porqueporque nessanessa alturaaltura jájá oo viavia

repente,repente, ee emem derivaçãoderivação opostaoposta àà dede RicardoRicardo Reis,Reis, surgiu-mesurgiu-me impetuosamenteimpetuosamente umum novonovo indivíduo.indivíduo. NumNum jacto,jacto, ee àà máquinamáquina dede

escrever,escrever, semsem interrupçãointerrupção nemnem emenda,emenda, surgiusurgiu aa «Ode«Ode Triunfal»Triunfal» dede ÁlvaroÁlvaro dede CamposCampos —— aa OdeOde comcom esseesse nomenome ee oo homemhomem comcom oo

tem.”tem.”

nomenome

dede

E,E,

queque

(excerto(excerto dada cartacarta aa AdolfoAdolfo CasaisCasais Monteiro,Monteiro, 1935)1935)

Ilustração 22: Caricatura de Álvaro de Campos Segundo a sua biografia, Álvaro de Campos nasceu
Ilustração 22: Caricatura de Álvaro de Campos
Ilustração 22: Caricatura de Álvaro de
Campos

Segundo a sua biografia, Álvaro de Campos nasceu em Tavira em 1890, teve uma educação normal de liceu tendo depois ido estudar engenharia mecânica e naval na Escócia. Fez uma viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário tendo também sido marcante na sua restante obra poética. Campos apesar de português sentia-se estrangeiro em qualquer parte do mundo.

Foi o único dos heterónimos a manifestar diferentes fases poéticas, começa como decadentista, depois como futurista e no final assume-se com uma veia intimista.

Fisicamente tem um tom de pele entre o branco e o moreno, cabelo liso e normalmente apartado ao lado, usa monóculo.

FasesFases ee estiloestilo dede escritaescrita

É possível verificar que existiram três fases na escrita de Campos, a decadentista, é a que mais se aproxima da nossa poesia de final do século, a modernista, corresponde à experiência de vanguarda iniciada com Orpheu e a intimista, na qual a angústia de existir e ser mais se evidencia e se radicaliza.

Na fase Decadentista o poeta exprime o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações,

tendo resultado daqui a sua obra Opiário. Esta fase expressa-se como a falta de um sentido para

a vida e a necessidade de fuga à monotonia, com preciosismo, símbolos e imagens apresenta-se marcado pelo Romantismo e pelo Simbolismo.

Na fase futurista Álvaro de Campos celebra o triunfo da máquina e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atracção quase erótica pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida. Exalta o progresso técnico, essa “nova revelação metálica e dinâmica de Deus”. A “Ode Triunfal” ou a “Ode Marítima” são bem o exemplo desta intensidade e totalização das sensações. A par da paixão pela máquina, há a náusea, a neurastenia provocada pela poluição física e moral da vida moderna. O futurismo nesta fase é visível no elogio da civilização industrial e da técnica, na ruptura com o subjectivismo da lírica tradicional e na transgressão da moral estabelecida.

Por último, a fase Intimista é aquela em que, perante a incapacidade das realizações, traz de volta o abatimento que provoca um enorme cansaço. Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido, sofrendo fechado em si mesmo, angustiado, destacando-se como temáticas a solidão interior, a incapacidade de amar, a descrença em relação a tudo, a nostalgia da infância, a dor de ser lúcido, a estranheza e a perplexidade, a oposição sonho/realidade,, a dissolução do “eu”, a dor de pensar e o conflito entre a realidade e o poeta.

A sua escrita caracteriza-se por poemas muito extensos e outros curtos, versos brancos e versos rimados, assonâncias, onomatopeias exageradas, aliterações ousadas e um ritmo crescente, decrescente ou lento nos poemas pessimistas. A nível morfo-sintáctico, podem-se distinguir na fase futurista o excesso de expressão: enumerações exageradas, exclamações, interjeições variadas, versos formados apenas com verbos, mistura de níveis de língua, estrangeirismos, neologismos, desvios sintácticos e na fase intimista, a moderação do nível de expressão, sem abandonar a tendência para o exagero.

O poeta utiliza bastantes apóstrofes, anáforas, personificações, hipérboles, oximoros, metáforas ousadas e polissíndetos.

PoemaPoema tabacaria,tabacaria, ÁlvaroÁlvaro dede camposcampos

NãoNão sousou nada.nada. NuncaNunca sereiserei nada.nada. NãoNão possoposso quererquerer serser nada.nada. ÀÀ parteparte isso,isso, tenhotenho emem mimmim todostodos osos sonhossonhos dodo mundo.mundo.

((excertoexcerto dodo poemapoema Tabacaria,Tabacaria, ÁlvaroÁlvaro dede Campos)Campos)

OO tematema dodo poemapoema éé aa dimensãodimensão dada solidãosolidão interiorinterior faceface àà vastidãovastidão dodo UniversoUniverso exterior.exterior. AA TabacariaTabacaria acabaacaba porpor serser umum símbolosímbolo queque nãonão temtem valorvalor própriopróprio -- verdadeiramenteverdadeiramente importanteimportante éé queque esseesse símbolosímbolo fazfaz nascernascer emem CamposCampos aa necessidadenecessidade dede analisaranalisar aa suasua própriaprópria existênciaexistência faceface àà existênciaexistência dada TabacariaTabacaria enquantoenquanto coisacoisa fixafixa ee real.real.

BernardoBernardo Soares,Soares, semi-heterónimo?semi-heterónimo?

BernardoBernardo SoaresSoares éé consideradoconsiderado umum semi-heterónimosemi-heterónimo dede FernandoFernando PessoaPessoa poispois apesarapesar dada suasua personalidadepersonalidade nãonão serser comocomo aa dede PessoaPessoa éé semelhantesemelhante àà sua,sua, comocomo eleele explica:"nãoexplica:"não sendosendo aa personalidadepersonalidade aa minha,minha, é,é, nãonão diferentediferente dada minha,minha, masmas umauma simplessimples mutilaçãomutilação dela.dela. SouSou eueu menosmenos oo raciocínioraciocínio ee afectividade."afectividade."

EraEra ajudanteajudante dede guarda-livrosguarda-livros nana cidadecidade dede Lisboa,Lisboa, ondeonde viveuviveu todatoda aa suasua humildehumilde vidavida dede empregado.empregado. ViviaVivia sozinho,sozinho, nana Baixa,Baixa, numnum quartoquarto alugadoalugado pertoperto dodo escritórioescritório ondeonde trabalhavatrabalhava ee dosdos escritóriosescritórios ondeonde trabalhavatrabalhava Pessoa,Pessoa, tendo-setendo-se conhecidoconhecido numanuma pequenapequena casacasa dede pastopasto habitualmentehabitualmente frequentadafrequentada porpor ambos,ambos, casacasa estaesta ondeonde deudeu aa lerler aa FernandoFernando PessoaPessoa oo seuseu "Livro"Livro dodo Desassossego".Desassossego".

LivroLivro dodo DesassossegoDesassossego

Livro Livro do do Desassossego Desassossego Este livro foi escrito em forma de fragmentos e apesar

Este livro foi escrito em forma de fragmentos e apesar de fragmentário é uma “autobiografia sem factos”. O livro é considerado uma das obras fundadoras da ficção portuguesa no século XX, uma vez que possui o pragmatismo da condição humana e o absurdo da própria literatura tendo o drama das reflexões humanas que vêm ao de cima na insistência de uma escrita que se reconhece inviável e imperfeita, à beira do tédio, do trágico e da indiferença estética. Bernardo Soares é, dentro da ficção de seu próprio livro, um simples ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

Os estudiosos de Pessoa têm procurado demonstrar que é exactamente o jogo de máscaras de Bernardo Soares, entre a heteronimia e a semi-heteronimia, o que permite pensar que é relativo o estatuto de ortónimo que Fernando Pessoa confere a si mesmo quando escreve em nome de sua própria personalidade literária.

"Escrevo demorando-me nas palavras, como por montras onde não vejo, e são meios-sentidos, quase-expressões o que me fica, como cores de estofos que não vi o que são, harmonias exibidas compostas de não sei que objetos. Escrevo embalando-me, como uma mãe louca a um filho morto."

(Excerto Livro do Desassossego, Bernardo Soares)

FilmeFilme dodo DesassossegoDesassossego

Filme Filme do do Desassossego Desassossego Sinopse: «Lisboa, hoje. Um quarto de uma casa na Rua

Sinopse:

«Lisboa, hoje. Um quarto de uma casa na Rua dos Douradores. Um homem inventa sonhos e estabelece teorias sobre eles. A própria matéria dos sonhos torna-se física, palpável, visível. O próprio texto torna-se matéria na sua sonoridade musical. E, diante dos nossos olhos, essa música sentida nos ouvidos, no cérebro e no coração, espalha-se pela rua onde vive, pela cidade que ele ama acima de tudo e pelo mundo inteiro. Filme desassossegado sobre fragmentos de um livro infinito e armadilhado, de uma fulgurância quase demente mas de genial claridade. O momento solar de criação de Fernando Pessoa. A solidão absoluta e perfeita do EU, sideral e sem remédio. Deus sou eu!, também escreveu Bernardo Soares.

O realizador, João Botelho, confessou que o filme não pretende ser o livro, tendo-se baseado especialmente em dois dos textos pertencentes à obra, um sobre a autonomia grandiosa do som dos textos e outro sobre a noção do tempo e das ideias que se ajustam na perfeição.»

OO AnoAno dada mortemorte dede RicardoRicardo ReisReis

Na biografia de Ricardo Reis não consta a data da sua morte, como tal José Saramago criou uma obra na qual situa a sua morte em 1936. Este romance foi publicado em 1984 e merecedor do Prémio Nobel da Literatura em 1998.

A personagem principal é o heterónimo de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, sobre o qual Saramago

constrói uma narrativa baseada nos seus dados biográficos, na qual ele é um médico exilado no

Brasil, desde 1919, por motivos políticos e que regressa a Portugal, em Dezembro de 1935, sendo

a história dos nove meses passados por Ricardo Reis em Lisboa até à data da sua morte, em

1936.

Quando chega à capital portuguesa, o Poeta instala-se num quarto de hotel e posteriormente num apartamento. Durante a sua permanência em Lisboa, vive situações curiosas: é seguido pela polícia, relaciona-se amorosamente com duas mulheres, Lídia e Marcenda, figuras das suas odes, e recebe várias visitas do fantasma de Fernando Pessoa.

Em 1936 o leitor apercebe-se da importância dos contextos históricos, em que se situa a acção, e que constituem elementos preponderantes na obra, tais como a ditadura Salazarista e a Guerra Civil em Espanha, podendo-se verificar um ambiente sombrio em que o fascismo se afirma na sociedade.

Em "O Ano da Morte de Ricardo Reis", a escrita de Saramago possui uma forte marca de intertextualidade uma vez que tem presentes nomes como Marcenda e Lídia das "Odes” de Ricardo Reis. Possui também referências a Luís de Camõesbem como a presença do escritor argentino de ascendência portuguesa Jorge Luís Borges. Toda esta multi- referencialidade que perpassa pelo livro transforma "O Ano da Morte de Ricardo Reis" num romance que se transcende a si próprio, posicionando-o numa tradição literária simultaneamente clássica e moderna, portuguesa e internacional.

clássica e moderna, portuguesa e internacional. Para além do Prémio Nobel o romance ganhou o Prémio

Para além do Prémio Nobel o romance ganhou o Prémio PEN Club Português em 1984, o Prémio D. Dinis da Fundação da Casa de Mateus, em 1986, e Prémio Grinzane-Cavour em

1987.

(…)(…)

Hé-láHé-lá asas ruas,ruas, hé-láhé-lá asas praças,praças, hé-la-hóhé-la-hó lala foule!foule! TudoTudo oo queque passa,passa, tudotudo oo queque párapára àsàs montras!montras! Comerciantes;Comerciantes; vadios;vadios; escrocsescrocs exageradamenteexageradamente bem-vestidos;bem-vestidos; MembrosMembros evidentesevidentes dede clubesclubes aristocráticos;aristocráticos; EsquálidasEsquálidas figurasfiguras dúbias;dúbias; chefeschefes dede famíliafamília vagamentevagamente felizesfelizes EE paternaispaternais atéaté nana correntecorrente dede oirooiro queque atravessaatravessa oo coletecolete DeDe algibeiraalgibeira aa algibeira!algibeira! TudoTudo oo queque passa,passa, tudotudo oo queque passapassa ee nuncanunca passa!passa! PresençaPresença demasiadamentedemasiadamente acentuadaacentuada dasdas cocotes;cocotes; BanalidadeBanalidade interessanteinteressante (e(e quemquem sabesabe oo quêquê porpor dentro?)dentro?) DasDas burguesinhas,burguesinhas, mãemãe ee filhafilha geralmente,geralmente, QueQue andamandam nana ruarua comcom umum fimfim qualquer,qualquer, AA graçagraça feminilfeminil ee falsafalsa dosdos pederastaspederastas queque passam,passam, lentos;lentos; EE todatoda aa gentegente simplesmentesimplesmente eleganteelegante queque passeiapasseia ee sese mostramostra EE afinalafinal temtem almaalma dentro!dentro! (Ah,(Ah, comocomo eueu desejariadesejaria serser oo souteneursouteneur distodisto tudo!)tudo!) (…)(…) [Ode[Ode Triunfal,Triunfal, ÁlvaroÁlvaro dede Campos]Campos]

RoteiroRoteiro TurísticoTurístico

Fernando Pessoa criou em 1925 um roteiro turístico da cidade de Lisboa, inicialmente escrito em inglês e intitulado Lisbon: what the tourist should see, cujo objectivo era dar a conhecer a sua amada cidade. O texto original possui mais de cem verbetes com locais indicados pelo escritor e dicas de como os aproveitar ao máximo.

~

Com este guia Pessoa pretendia demonstrar que viajar é muito mais do que ver paisagens e monumentos, é o conhecer de uma nova cultura e um poderoso instrumento de reflexão e pensamento.

Este é de facto marco da cultura portuguesa, tendo sido em muito influenciado pela cidade onde viveu e veio a morrer. Lisboa e os seus pormenores aparecem reflectidos na sua vasta obra quer no campo da poesia, quer na prosa, e é com base nesses textos, que este roteiro nasce.

PercorramPercorram aa PraçaPraça dosdos RestauradoresRestauradores ee decidamdecidam alugaralugar umum tremtrem,, umum automóvelautomóvel ouou umum «side-car»«side-car».”.”

EstaEsta éé umauma dasdas sugestõessugestões dede PessoaPessoa nesteneste seuseu guiaguia queque nosnos fazfaz recuarrecuar aoao séculoséculo XX,XX, ondeonde nasnas ruasruas sese vêmvêm asas senhorassenhoras dede chapéuchapéu clochecloche ee osos senhoressenhores dede chapéuchapéu alto,alto, eventualmenteeventualmente dede lunetas,lunetas, ee nana malinhamalinha unsuns binóculosbinóculos parapara aa óperaópera dada noite.noite.

''O''O turistaturista queque tenhatenha tempotempo dede sobrasobra nãonão devedeve deixardeixar dede subirsubir aa esteeste grandegrande castelo,castelo, construídoconstruído numnum altoalto dede ondeonde sese dominadomina umauma amplaampla vistavista dodo TejoTejo ee dede grandegrande parteparte dada cidade.cidade. OO castelocastelo temtem trêstrês portasportas principais,principais, conhecidasconhecidas comocomo dada Traição,Traição, dede MartimMartim MonizMoniz ee dede S.S. Jorge.Jorge. TodasTodas elaselas sãosão muitomuito antigas.antigas. OO própriopróprio castelocastelo éé assazassaz notável”.notável”.

AA TorreTorre dede Belém,Belém, vistavista dodo exteriorexterior,, éé umauma magníficamagnífica jóiajóia dede pedrapedra ee éé comcom espantoespanto ee crescentecrescente simpatiasimpatia queque oo estrangeiroestrangeiro observaobserva suasua peculiarpeculiar beleza.beleza. ÉÉ renda,renda, ee dada maismais perfeita,perfeita, nono seuseu delicadodelicado trabalhotrabalho dede pedra,pedra, queque branqueiabranqueia aoao longe,longe, dandodando imediatamenteimediatamente nasnas vistasvistas aa quemquem vemvem aa bordobordo dosdos barcosbarcos queque entramentram nono rio.rio. OO interiorinterior éé igualmenteigualmente belo,belo, ee dosdos varandinsvarandins ee terraçosterraços tem-setem-se umauma vistavista dodo riorio ee dodo marmar,, aoao fundo,fundo, queque nãonão esqueceesquece facilmente”.facilmente”.

““ChegamosChegamos agoraagora aa maiormaior dasdas praçaspraças dede Lisboa,Lisboa, aa PraçaPraça dodo Comércio,Comércio, outroraoutrora

TerreiroTerreiro dodo Paço,Paço, comocomo éé aindaainda geralmentegeralmente conhecida;conhecida; estaesta éé aa praçapraça queque osos inglesesingleses conhecemconhecem porpor PraçaPraça dodo CavaloCavalo NegroNegro ee éé umauma dasdas maioresmaiores dodo mundo.mundo. ÉÉ umum vastovasto espaço,espaço, perfeitamenteperfeitamente quadrado,quadrado, contornado,contornado, emem trêstrês dosdos seusseus lados,lados, porpor edifíciosedifícios

dede tipotipo uniforme,uniforme, comcom altasaltas arcadasarcadas dede pedra.pedra. (

)( )

OO quartoquarto lado,lado, ouou ladolado Sul,Sul, dada

praçapraça éé bordejadobordejado pelopelo Tejo,Tejo, muitomuito largolargo nesteneste sítiosítio ee sempresempre cheiocheio dede

embarcações”.embarcações”.

Estes são alguns excertos da sua obra. As propostas de Fernando Pessoa são inúmeras, passando pelo Aqueduto das Águas Livres, até ao Palácio das Necessidades.

Esta obra tem um estilo seco e demasiado extenso não fazendo dela uma das suas maiores referências mas no entanto é um dos guias mais comprados por turistas na Casa de Fernando Pessoa. Fazendo jus à sua criação, é um guia cuja língua original é a inglesa (com tradução para português de Maria Amélia Santos Gomes), a pensar nos estrangeiros e no que devem saber acerca desta cidade.

SobreSobre setesete colinas,colinas, queque sãosão outrosoutros tantostantos pontospontos dede observaçãoobservação dede ondeonde sese podempodem desfrutardesfrutar magníficosmagníficos panoramas,panoramas, espalha-seespalha-se aa vasta,vasta, irregularirregular ee multicoloridamulticolorida massamassa dede casascasas queque constituiconstitui Lisboa.Lisboa. ParaPara oo viajanteviajante queque chegachega porpor marmar,, Lisboa,Lisboa, vistavista assimassim dede longe,longe, ergue-seergue-se comocomo umauma belabela visãovisão dede sonho,sonho, sobressaindosobressaindo contracontra oo azulazul vivovivo dodo céu,céu, queque oo solsol anima.anima. EE asas cúpulas,cúpulas, osos monumentos,monumentos, oo velhovelho castelocastelo elevam-seelevam-se acimaacima dasdas massasmassas dasdas casas,casas, comocomo arautosarautos distantesdistantes destedeste deliciosodelicioso lugarlugar,, destadesta abençoadaabençoada região.”região.”

FernandoFernando PessoaPessoa,, OO queque oo TuristaTurista devedeve verver

OsOs MistériosMistérios dede LisboaLisboa oror WhatWhat thethe TouristTourist ShouldShould See”See”

“Os Mistérios de Lisboa or What the Tourist Should See” é um filme realizado por José Fonseca e Costa no ano de 2009. Foi feito a partir de trechos escolhidos do guia de Fernando Pessoa e de excertos de poemas de Álvaro de Campos dando a conhecer uma cidade tanto familiar como desconhecida, à qual se chega e da qual se parte pelo Tejo, sempre presente, sombrio e luminoso. A cidade que Pessoa tanto amava, aparece nestas imagens não como uma cidade estática e sem evolução mas também repleta de recantos e vielas preenchida de segredos e da sua luminosidade.

FernandoFernando Pessoa,Pessoa, oo amanteamante dede CinemaCinema

Já foi referido Fernando Pessoa como um homem dos “sete ofícios”. Sabe-se que se interessa por diversas áreas entre as quais a astronomia, a física, a filosofia, a poesia, entre muitos outros, tendo ele em si mesmo uma enorme fonte de inspiração e criatividade. Já era sabido que Pessoa foi autor de vários argumentos cinematográficos mas hoje conhece-se a existência de documentos que revelam que o autor tinha vários projectos acerca de pôr a funcionar uma produtora cinematográfica (a Ecce Film) e uma empresa que poderia substituir a Sociedade de Propaganda Portugal (a Cosmopolis).

Patricio Ferrari e Cláudia Fischer publicaram Argumentos para filmes, onde se reúnem seis argumentos de Pessoa e cujo objectivo desta publicação é o estudo do espólio de Fernando Pessoa. Os seis argumentos que agora se publicam, dois deles inéditos, abordam temas reconhecíveis na obra pessoana, desde as trocas de identidades, às viagens em grandes navios onde as personagens procuram preciosidades inexistentes.

Escritos em vários idiomas os argumentos são curtos, mas suficientes para confirmar um interesse do autor pelo cinema que parece contradizer o desprezo assumido na sua correspondência e em algumas notas críticas. Afinal, quando Pessoa refere o consumo massificado e a falta de dimensão artística e vital no cinema, está a referir-se a um determinado tipo de filmes e não à arte cinematográfica em geral.

Ilustração 23: Esboços de logótipos da Ecce film, elaborados por Fernando Pessoa.
Ilustração 23: Esboços de logótipos da Ecce film, elaborados por Fernando Pessoa.
Ilustração 23: Esboços de logótipos da Ecce film, elaborados por Fernando Pessoa.
Ilustração 24: Manuscritos sobre a criação de uma empresa cinematográfica; Ilustração 25: Manuscritos sobre os
Ilustração 24: Manuscritos sobre a criação de uma empresa cinematográfica; Ilustração 25: Manuscritos sobre os
Ilustração 24: Manuscritos sobre a criação de uma
empresa cinematográfica;
Ilustração 25: Manuscritos sobre os objectivos da
Cosmopolis.

AlgumasAlgumas curiosidades:curiosidades:

- Pessoa media 1,73 m de altura, de acordo com o seu Bilhete de Identidade;

- O assento de óbito de Pessoa indica como causa da morte “bloqueio intestinal”;

- A Universidade Fernando Pessoa (UFP), com sede no Porto, foi criada em homenagem ao poeta;

- Numa tarde em que José Régio tinha combinado encontrar-se com Pessoa, este

apareceu, como de costume, com algumas horas de atraso, declarando ser Álvaro de Campos e pedindo perdão por Pessoa não ter podido comparecer ao encontro;

- O jornal Expresso e a empresa Unisys criaram, em 1987, o Prémio Pessoa, concedido

anualmente à pessoa ou às pessoas de nacionalidade portuguesa que, durante o ano transcorrido e na sequência de actividade anterior, se tenham distinguido na vida científica, artística ou literária;

- Coisa que Pessoa não conseguia ver era um lápis sem ponta. Antes de escrever, ele

costumava apontá-los. Consta também que o grande poeta português também mantinha o

hábito de escrever em pé;

- Ao chegar algumas horas atrasado em um encontro com o escritor português José Régio, o poeta declarou ser Álvaro de Campos e pediu perdão por Fernando Pessoa não poder comparecer ao encontro;

- Dizem que Fernando Pessoa foi o responsável pela introdução do planeta Plutão

(rebaixado recentemente para a categoria dos planetas anões) nos mapas astrológicos;

- Das quatro obras que Fernando Pessoa publicou em vida, três são em inglês;

- Além de poeta, Pessoa trabalhou como tradutor, jornalista, crítico literário, editor,

publicitário e até inventor. Ele também arranjava tempo para exercer o ativismo político;

- Em 2008, o o Bureau Internacional das Capitais da Cultura revelou que Fernando Pessoa

foi eleito uma das 50 personalidades mais influentes da cultura européia, ao lado de Da Vinci, Mozart e Einstein;

AA poesiapoesia ee aa música:música:

O cantor brasileiro Caetano Veloso compôs a canção “Língua”, em que existe um trecho inspirado num artigo de Fernando sobre o tema “A minha pátria é a língua portuguesa”;

Já o compositor Tom Jobim transformou o poema O Tejo é mais Belo em música;

Vitor Ramil, cuja música “Noite de São João” tem como letra a poesia de Alberto Caeiro;

A cantora Dulce Pontes musicalizou o poema “O Infante”;

O grupo Secos e Molhados musicalizou a poesia “Não, não digas nada”;

Os portugueses Moonspell cantam no tema Opium um trecho da obra Opiário de Álvaro de Campos;

O cantor Renato Braz traz no seu CD “Outro Quilombo” duas poesias musicadas: “Segue o teu destino”, de Ricardo Reis, e “Na ribeira deste rio”, de Fernando Pessoa.

HomenagemHomenagem dede SophiaSophia dede MelloMello BreynerBreyner aa FernandoFernando PessoaPessoa

FernandoFernando PessoaPessoa

Teu canto justo que desdenha as sombras Limpo de vida viúvo de pessoa Teu corajoso ousar não ser ninguém Tua navegação com bússola e sem astros No mar indefinido Teu exacto conhecimento impossessivo

Criaram teu poema arquitectura

E

és semelhante a um Deus de quatro rostos

E

és semelhante a um Deus de muitos nomes

Cariátide de ausência isento de destinos Invocando a presença já perdida

E dizendo sobre a fuga dos caminhos

Que foste como as ervas não colhidas.

Sophia de Mello Breyner

(1919-2004)

UmaUma noitenoite comcom FernandoFernando PessoaPessoa

Uma noite noite com com Fernando Fernando Pessoa Pessoa Ilustração 26: Quarto de Fernando Pessoa A
Uma noite noite com com Fernando Fernando Pessoa Pessoa Ilustração 26: Quarto de Fernando Pessoa A
Ilustração 26: Quarto de Fernando Pessoa
Ilustração 26: Quarto de Fernando Pessoa
Pessoa Pessoa Ilustração 26: Quarto de Fernando Pessoa A casa Fernando Pessoa criou um “evento” chamado
Pessoa Pessoa Ilustração 26: Quarto de Fernando Pessoa A casa Fernando Pessoa criou um “evento” chamado
Pessoa Pessoa Ilustração 26: Quarto de Fernando Pessoa A casa Fernando Pessoa criou um “evento” chamado

A casa Fernando Pessoa criou um “evento” chamado Uma noite com Pessoa que tem como objectivo pôr escritores como Lídia Jorge a dormir no mesmo quarto em que Fernando Pessoa dormiu nos seus últimos 15 anos de vida, escrevendo depois sobre essa noite. O objectivo é juntar os relatos de todas estas experiências e junta-los num livro.

Portugal Modernista

Portugal Modernista é uma marca que nasceu em 2010 e que comercializa diversos tipos de materiais inspirados no Modernismo português das primeiras décadas do século XX. Os seus produtos são inspirados em artistas como Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro e Fernando Pessoa. O objectivo é recuperar os modernistas portugueses e também actualizar esse Modernismo, dando-lhe através do design exclusivo novas formas e imagens.

Stencil Art

A Stencil Art é uma arte em forte expansão em Portugal, sobretudo em Lisboa, onde se podem observar uma grande variedade de trabalhos que variam desde a crítica social até às imagens humorísticas, passando por referências à cultura portuguesa. Nas paredes do Bairro Alto, é possível observar imagens sobre Fernando Pessoa.

CaricaturasCaricaturas sobresobre PessoaPessoa

Caricaturas Caricaturas sobre sobre Pessoa Pessoa Ilustração 27: Caricatura sobre Fernando Pessoa de Hermenegildo

Ilustração 27: Caricatura sobre Fernando Pessoa de Hermenegildo Sábat

Hermenegildo Sábat é um Caricaturista Uruguaio, elaborou um conjunto de 21 caricaturas em homenagem a Fernando Pessoa.

É residente na cidade de Buenos Aires desde 1966 e cidadão argentino desde 1980, há mais de 25 anos que os seus comentários jornalísticos, sob a forma de caricatura, são publicados no jornal matutino Clarín, tendo- se tornado, sobretudo em períodos em que a liberdade de expressão esteve seriamente limitada, numa das vozes mais reconhecidas.

É Artista plástico e professor tendo publicado 30 livros sobre as suas paixões: a pintura,

É Artista plástico e professor tendo

publicado 30 livros sobre as suas paixões:

a pintura, a música, a literatura, a

actualidade argentina e internacional. Dois dos seus livros foram editados no Rio

de Janeiro, outros dois em Madrid e outro

ainda em Portugal.

O seu trabalho foi distinguido com vários prémios importantes.

Ilustração 28: Caricatura sobre Fernando Pessoa de Hermenegildo Sábat
Ilustração 28: Caricatura sobre Fernando Pessoa
de Hermenegildo Sábat
distinguido com vários prémios importantes. Ilustração 28: Caricatura sobre Fernando Pessoa de Hermenegildo Sábat

Para além de Hermenegildo Sábat outros artistas elaboraram caricaturas e pinturas sobre Fernando Pessoa em forma de homenagem, como tal aproveito para “divulgar” os seus trabalhos juntamente com alguns dos poemas de Pessoa e seus heterónimos que mais me “tocaram” e com os quais consegui, de certa forma, identificar-me.

Ilustração 29: Celito Medeiros, Artista brasileiro
Ilustração 29: Celito Medeiros, Artista
brasileiro

Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me, Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida

E

outra vida que é pensada,

E

a única vida que temos

É

essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira

E qual errada, ninguém

Nos saberá explicar;

E vivemos de maneira

Que a vida que a gente tem

É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Não sei quantas almas tenho Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem, Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser.

O

que segue não prevendo,

O

que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: <<Fui eu?>> Deus sabe, porque o escreveu.

Ilustração 30: Julio Pomar, Pintor português
Ilustração 30: Julio Pomar, Pintor português

Fernando Pessoa

Ilustração 31: Gilmar Fraga, Cartunista brasileiro
Ilustração 31: Gilmar Fraga, Cartunista brasileiro

A miséria do meu ser

A miséria do meu ser,

Do ser que tenho a viver, Tornou-se uma coisa vista. Sou nesta vida um qualquer Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou Nem eu mesmo me conheço E, se me conheço, esqueço, Porque não vivo onde estou. Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,

Salvo onde caio e sou visto, Porque cair é sensível Pelo ruído imprevisto Sou assim. Mas isto é crível?

Fernando Pessoa

Se penso mais que um momento Se penso mais que um momento Na vida que

Se penso mais que um momento

Se penso mais que um momento Na vida que eis a passar, Sou para o meu pensamento Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos

É quanto vive quem vive),

Eu, anseios e enganos, Eu, quanto tive ou não tive,

Deixarei de ser visível Na terra onde dá o Sol, E, ou desfeito e insensível, Ou ébrio de outro arrebol,

Terei perdido, suponho,

O contacto quente e humano

Com a terra, com o sonho, Com mês a mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face Dos dias, o espaço mudo Lambra-nos que isso é disfarce

E que é a noite que é tudo.

Fernando Pessoa

Ilustração 32: João Abel Manta, Cartunista Português
Ilustração 32: João Abel Manta, Cartunista Português
a noite que é tudo. F e r n a n d o P e s
Ilustração 33: Jeff Aerosol, Artista português
Ilustração 33: Jeff Aerosol, Artista português

Tenho pena e não respondo

Tenho pena e não respondo. Mas não tenho culpa enfim De que em mim não correspondo Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente. Para mim sou quem me penso, Para outros --- cada um sente O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar. Não me sonhem nem me outrem. Se eu não me quero encontrar, Quererei que outros me encontrem?

Fernando Pessoa

Quando estou só reconheço Quando estou só reconheço Se por momentos me esqueço Que existo

Quando estou só reconheço

Quando estou só reconheço Se por momentos me esqueço Que existo entre outros que são Como eu sós, salvo que estão Alheados desde o começo.

E se sinto quanto estou

Verdadeiramente só, Sinto-me livre mas triste. Vou livre para onde vou, Mas onde vou nada existe.

Creio contudo que a vida Devidamente entendida

É toda assim, toda assim.

Por isso passo por mim Como por cousa esquecida.

Fernando Pessoa

Ilustração 34: Julio Pomar, Pintor português
Ilustração 34: Julio Pomar, Pintor português
mim Como por cousa esquecida. F e r n a n d o P e s
Ilustração 35: João Pestana
Ilustração 35: João Pestana

Olhando o mar, sonho sem ter de quê

Olhando o mar, sonho sem ter de quê. Nada no mar, salvo o ser mar, se vê. Mas de se nada ver quanto a alma sonha! De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos, Em ruas ou em estradas ou sob ramos, Temos esta certeza e sempre e em tudo Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta Parecem, por longínquas, 'star em festa. Quanto acontece porque se não vê! Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive. Quem ontem fui já hoje em mim não vive. Bebe, que tudo é líquido e embriaga, E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser Motivos coloridos de morrer? Mas colhe rosas. Porque não colhê-las Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

Fernando Pessoa

ConclusãoConclusão

O caminho percorrido permitiu-me conhecer melhor Pessoa e realmente perceber a magnitude do seu trabalho. Fernando Pessoa é por muitos considerado o fundador de uma língua portuguesa moderna, tendo trabalhado as palavras como ninguém, descrevendo a tragédia da existência, a incerteza da vida e da morte, os sonhos, as ambições, as ilusões e as desilusões e as falhas dos diversos “eus” existentes em nós, como só ele mesmo o conseguiria fazer.

Este trabalho com certeza enriqueceu-me pois foi possível aprender algo mais e identificar-me com algumas das suas palavras. É um facto que Pessoa dá aos seus heterónimos uma maior importância que a si mesmo, transmitindo-lhes uma coerência e consistência inigualáveis mas que não tiram a genialidade da poesia ortonímica.

Desta forma, considero que os meus objectivos iniciais foram atingidos e guardo para mim novas aprendizagens e conhecimentos que só tenho plena noção que este trabalho não exprime nem metade daquilo que pode ser dito sobre Pessoa mas também não acredito que tal seja possível pois tal genialidade tem tanto para se contar que não existem livros suficientes para o exprimir.

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