Você está na página 1de 54

Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIN.E

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESEISÍTAQÁO
DA EDI9ÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca


depositada em nosso trabal no, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO XXXVII ABRIL 1996 407

"O Deus Bem-aventurado" (1Tm 1,11)


Nestorianos Professam a Fé Católica
Acusacóes e Suspeitas Injustas

Ainda a Ordenacáo Sacerdotal de Muiheres


17 Anos de Pontificado

Encíclica contra o Anti-semitismo

"O outro lado do Esplritualismo Moderno. Para


compreender a Nova Era" por Ricardo Sazaki

"Catolicismo: Verdade ou Mentira?"


por Adelson Damasceno Santos

"A Quem Iremos?" por Evaldo Alves D'Assumpcáo

Livros em Estante
PERGUNTE É RESPONDEREMOS ABRIL 1996
__ Publicacáo Mensal N°407

SUMARIO
Diretor Respofesáfrel
— Estévao Betteneíurt OSB "O Deus Bem-aventurado" (1Tm 11) 145
Autor e Redator de toda a materia
Apagando falhas do passado:
publicada neste periódico Nestorianos professam a Fé Católica.... 146
Carta de Joáo Paulo II aos Bispos da Austria-
Diretor-Administrador: Acusacóes e Suspeitas Injustas 149
D. Hildebrando P. Martins OSB
Un Pronunciamento da Santa Sé:
Ainda a Ordenacáo Sacerdotal de
Mulheres 153
Administracáo e distribuicáo:
EdicSes "Lumen Christi" Joáo Paulo II ultrapassou:
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar - sala 501 17 Anos de Pontificado 156
Tel.: (021) 291-7122
Descoberto o esboco de:
Fax (021) 263-5679 Enciclica contra o Anti-Semitismo 159

Um Dicionário Raro:
Endereco para correspondencia: "O outro lado do Espiritualismo
Ed. "Lumen Christi" Moderno. Para compreender a
Nova Era" por Ricardo Sazaki 164
Caixa Postal 2666
Cep 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ Um Livro polémico:
"Catolicismo: Verdade ou Mentira?",
por Adelson Damasceno Santos 173

Um Manual de Catequese:
ImpressSo e EncademajJo "A Quem Iremos?" por Evaldo Alves
O'Assumpcao 182

Livros em Estante 190

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA


"MARQUES SARAIVA"
GRÁFICOS e EDITORES Ltda. NO PRÓXIMO NÚMERO:
Tais.: (021} 273-9498/273-9447

"Jesús. Urna Biografía Revolucionaria" (John Dominio Crossan). - O Mantra


na Espiritualidade Crista.-"Os Cristaos diante do Divorcio" (Michel Legrain).
- Parapsicología e Religiao. - A Eleicao do Papa por todos os Fiéis? - "Fui
urna Morta-viva. Fui um Vivo-morto".

PARA RENOVACAO OU NOVA ASSINATURA: R$ 25,00


NÚMERO AVULSO R$ 2,50

-O pagamento poderá ser á sua escolha: -

1. Enviar EM CARTA cheque nominal ao Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro, cruzado, ano
tando no verso: "VÁLIDO SOMENTE PARA DEPÓSITO NA CONTA DO FAVORECIDO" e,
onde consta "Cód. da Ag. e o N° da C\C, anotar: 0229 -02011469-5.

2. Depósito no BANCO DO BRASIL. Ag. 0435-9 Rio C/C 0031-304-1 do Mosteiro de S. Bento do
Rio de Janeiro, enviando, a seguir, xerox da guia de depósito para nosso controle.

3. VALE POSTAL pagável na Ag. Central 52004 - Cep 20001-970 - Rio.


Sendo novo Assinante, é favor enviar carta com nome e endereco leglveis.
v Sendo renovacSo, anotar no VP nome e endereco em que está recebando a Revista.
IIBLIÜ1 t-t-
CENTRA

"O DEUS BEM-AVENTURADO" (1Tm 1,11)

Deus é dito "bem-aventurado ou feliz (makários)" apenas duas vezes


em toda a Escritura Sagrada, e precisamente em 1Tm 1,11 ("c tvangelho A, <
da gloria do Deus bem-aventurado") e 6,15 fo bem-aventuradffe único ¡ *
Soberano, Rei dos reis e Senhor dos senhores").

O raro uso do predicado mákares tem seu paño de fundo muito signi
ficativo na cultura grega antiga. Com efeito; Hornero, Hesíodo (séc. VIII a.C.)
falavam dos mákares theoí, deuses felizes. Filón de Alexandria (f 44 d.C),
judeu impregnado de cultura grega, refere-se mu ¡tas vezes ao Deus bem-
aventurado. - Bem-aventurados também eram os Imperadores e Generáis
que vencessem urna batalha; esses heróis eram divinizados e, por isto,
recebiam o título "bem-aventurados"; Julio César (f 44 a.C.) acreditava em
sua felicitas (felicidade), já que fora bem sucedido em suas campanhas.

Ora Sao Paulo, ao falar de "Deus bem-aventurado", parece querer


fazer contraste com os deuses e semi-deuses da cultura greco-romana. -
Observemos que "Deus bem-aventurado", em 1Tm 1,11, está em relacáo
com "o Evangelho da gloria". Evangelho (euaggélion) era outro vocábulo
clássico da cultura antiga; significava originariamente a boa-nova de Vitoria
obtida contra um adversario e levada do campo de batalha para a cidade
vitoriosa por um mensageiro apressado (euággelos). Pois bem; segundo
Sao Paulo, o Evangelho, por excelencia, é a noticia da Vitoria de Cristo
sobre o pecado e "o Príncipe deste mundo" (Jo 12,31); Cristo vem a ser, por
isto, o Deus bem-aventurado por excelencia. Daí as expressoes de ITm
6,15s:"... o bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senho
res, o único que possui a imortalidade, que habita urna luz inacessível, que
nenhum homem viu nem pode ver. A Ele, honra e poder eterno! Amém!".

Essa sua felicidade resultante da Vitoria sobre o pecado e a morte,


Cristo a comunica aos seus, desde que aceitem seguir o itinerario do Se
nhor Jesús, ou seja, desde que aceitem tomar a sua Cruz e morrer para o
pecado com Jesús, a fim de ressuscitar com Ele. O caminho que leva á
felicidade, é enunciado logo no limiar da pregacáo de Jesús, conforme Mt
5,3-13: "Bem-aventurados os que tém o coráceo de pobre,... Bem-aventu
rados os mansos,... Bem-aventurados os puros de coracáo, porque veráo a
Deus". A configuracao a Cristo peregrino leva á plena configuracáo a Cristo
Senhor da vida e da morte.

É o Batismo que nos permite, participar da Páscoa de Cristo (morte e


ressurreicáo), dando um sentido novo, "bem-aventurado", á nossa vida.
Sim; o inicio da bem-aventuranca celeste ocorre já neste mundo para aque
les que ousam dizer um Sim generoso ao Rei dos reis e Senhor dos senho
res!

Possa a Páscoa de 1996 fortalecer nos fiéis cristáos a conviccáo des-


tas verdades fundamentáis da nossa fé!

E.B.

145
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XXXVII - N° 407 -Abril de 1996

Apagando falhas do passado:

NESTORIANOS PROFESSAM
A FÉ CATÓLICA

Em síntese: Os nestoríanos separaramse da Comunhao Católica em


431 porocasiao do Concilio de Éfeso; admüiam em Jesús duas naturezas e
duas pessoas, ao passo que o Concilio defíniu haver em Cristo duas
naturezas e urna só Pessoa. Eis, porém, que em outubro de 1994
reconheceram oficialmente a defínigáo de Éfeso mediante Dedaragáo
assinada pelo Patriarca Dinkha IV, da Igreja Assíría do Oriente, e pelo Papa
Joño Paulo II. Professando haverem Jesús urna só Pessoa e duas naturezas,
reconhecem María como Mee de Deus fe'rto homem. Em outubro de 1995
foram tomadas providencias para que se dissipem os últimos obstáculos a
plena comunhao entre a Igreja Católica e a Igreja Assíría do Oriente.

Em outubro de 1995, foi dado um novo passo para a volta á Comunhao


plena com a Igreja Católica por parte dos cristáos nestoríanos da Igreja
Assíría do Oriente. Trata-se de fiéis de rito caldeu, siro-malabar, cuja matriz
está na India.

Com efeito; no inicio do século V o Patriarca Nestórío de Constantinopla


afirmava queem Jesús havia duas pessoas e duas naturezas (a divina e a
humana); por conseguinte, María tena sido Máe do homem Jesús, que tinha

146
NESTORIANOS PROFESSAM A FÉ CATÓLICA

seu eu humano próprio e que foi assumido pelo Filho de Deus; o eu divino
e o eu humano de Jesús estariam vinculados entre si por lacos moráis, nao
por urna uniáo ontológica. O título Theotókos, Máe de Deus, já bastante
propagado entre os cristáos, era negado por Nestório e seus seguidores
que preferiam falar de Christotókos ou Máe de Cristo. O problema",
aparentemente sutil, afetava a própria nocáo de Encarnacáo e de Redencáo
do género humaho; revestia-se de grande importancia para os antigos
cristáos, que ainda procuravam formular com exatidáo o misterio de Deus
feito homem.

Para tratar da questáo, reuniu-se o Concilio de Éfeso em 431, que,


sob a orientacáo de S. Cirilo de Alexandria, representante do Papa Celestino
I, professou haver em Jesús um só eu (divino) e duas naturezas (divina e
humana); por conseguinte, María é Máe de Deus,... Máe de Deus enquanto
homem (nao em sua eternidade), pois toda máe gera urna pessoa, e a
pessoa gerada por María foi a Pessoa de Deus Filho, que nela assurñiu a
natureza humana; tudo que é do homem (inteligencia, vontade, afetos...)
tem por sujeito o eu divino, nunca um eu humano. Assim se evidencia a
profundidade do misterio da Encamacáo; Deus entrou dentro de tudo o que
é humano; viveu urna vida auténticamente humana, com todos os seus
aspectos, excetuado apenas o pecado. -Afaccáo nestoriana nao aceitou a
definicáo conciliar de Éfeso e rompeu a comunháo com os demais cristáos,
dando origem ao cisma nestoriano, que se prolongou até o século XX.

Ora, aos 11 de outubro de 1994 algo de novo aconteceu. Após


prolongadas conversacóes entre teólogos, ficou evidente que os nestorianos
já nao professam a fé nestoriana, mas convergem com a fé católica formulada
no Concilio de Éfeso. Esta evidencia foi formalizada numa Declaracáo
conjunta assinada naquela data em Roma pelo Papa Joáo Paulo II e pelo
Patriarca Dinkha IV, da Igreja Assíria do Oriente, que conta aproximadamente
500.000 fiéis, segué o rito caldeu e tem sua matriz na India, sendo também
chamada siro-malabar. Assim foram encerradas as controversias teológicas
de 1500 anos. A declaracáo de 1994 afirma que:

"Nosso Senhor Jesús Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem,


periéito em sua DMndade e perfeño em sua humanidade, consubstancial
ao Pai e consubstancial a nos em tudo, exceto o pecado... Por conseguinte,
Jesús Cristo nao é um homem como os outros, que Deus feria adotado para
nele residir e para o inspirar como inspirava os justos e os profetas. Mas o
próprio Verbo de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, sem
comego no tocante á sua DMndade, nos últimos tempos nasceu de urna

147
TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

mae, sem pai, no tocante a sua humanidade. A humanidade que a Bem-


aventurada Virgem María gerou, foi sempre a do próprio Filho de DeusV

O documento, mais adiante, observa que as controversias do passado


suscitaram anatematismos (condenacñes) de pessoas e fórmulas teológicas.
E acrescenta:

"O Espirito do Senhornos dé hoje compreendermelhorque as divisóes


assim provocadas se deviam, em grande parte, a mal-entendidos". Es por
que "as Igrejas católicas particulares (dioceses) e as Igrejas assírias
particulares (dioceses) podem reconhecer-se mutuamente como Igrejas
irmas".

A fim de resolver questóes secundarias ainda pendentes, no mes de


outubro de 1995 ficou estipulado que

- urna Comissáo mista de teólogos estudará tais pontos sob a


presidencia de Mons. Pierre Duprey, Secretario do Pontificio Conselho para
a Promocáo da Unidade dos Cristáos, e do arcebispo Mar Narsai de Baz,
Vigário Patriarcal e Metropolita do Líbano (onde reside), da Siria e da Europa;

- haverá colaboracáo pastoral entre as duas Igrejas (católica e assíria)


em vista da formacáo dos futuros sacerdotes e leigos responsáveis.

É para desejar que esse esforco sincero de reatamento da plena


comunháo, chegue quanto antes a bom termo. Vé-se que os pontos de
divergencia teológica entre cristáos ocidentais e orientáis nao sao decisivos;
em última análise, há concordia nos artigos de fé, sendo as diferencas devidas
a maior ou menor énfase dada a tópicos particulares.

CURSOS POR CORRESPONDENCIA

S. Escritura, Iniciacáo Teológica, T. Moral, Historia da Igreja,


Liturgia, Diálogo Ecuménico, Doutrina Social da Igreja,
Escatologia, Filosofía, Cristologia, Mariologia, Parábolas e
Páginas Difíceis do Evangelho. - Pedidos de informales e
encomiendas a Escola "Mater Eclesiae", Caixa postal 1362,
20001-970 Rio (RJ)

1 Este final querdizer. e natureza humana que María SS. deu á luz, nunca pertenceu
a um eu (ou sujeito) humano, mas (ove sempre por sujeito o eu divino da segunda
Pessoa da SS. Tríndade. SSo assim excluidos dois eu ou dois sujeitos (o divino e
humano) em Jesús Cristo.

148
Carta de Joáo Paulo II aos Bispos da Austria:

ACUSAQÓES E SUSPEITAS INJUSTAS

Em síntese: Os Bispos da Austria e a Santa Sé tém sofrído


campanhas contestatórías é difamatorias por parte de grupos
austríacos; em particular, o Cardeal de Viena e tres Bispos foram
afetados por suspeitas injustas. O Santo Padre Joáo Paulo II escreveu
aos 8/9/95 urna Carta dirigida ao episcopado austríaco, em que
manifesta sua solidariedade e testemunha sua confianga nos Pastores
da Igreja Católica na Austria. Se Jesús Cristo fot perseguido e
caluniado, nño é de estranhar que o sejam também os ministros seus.
Todavía a ressurreigáo de Cristo é o penhor da Vitoria final das
comunidades fiéis a Cristo na provagSo e na tribulagáo.

* * *

Já há alguns anos, a Santa Sé e o episcopado da Austria vém


sendo acerbamente criticados naquele país, especialmente por causa
da nomeacáo de certos Bispos, tidos como insuficientemente abertos
á vida moderna. Além disto, registraram-se em 1995 campanhas contra
o Cardeal-arcebispo Hans Hermann Groér, de Viena, e tres outros
Bispos acusados em sua vida moral. Mais: certas correntes de
católicos austríacos pedem, mediante abaixo-assinados, a "demo-
cratizacáo" da Igreja, a abolicáo do celibato obligatorio para o clero,
a ordenacáo de homens casados e de mulheres. Foi este paño de
fundo que levou o Santo Padre Joáo Paulo II a escrever ao episcopado
austríaco urna Carta, que Ihe testemunha sua confianca e denuncia
um clima doentio de acusacóes e suspeitas. O documento traz a data
de 8/9/95, e foi assinado pelo S. Padre poucos días antes de aceitar
a demissáo do Cardeal-arcebispo de Viena (aos 14/9/95) atingido pelo
limite de idade (75 anos).

Publicamos, a seguir, esse significativo texto em traducáo


brasileira.

149
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

A CARTA

"Aos meus Veneráveis Irmáos no Episcopado na Austria

Saudacóes e Béncáo Apostólica!

1. As noticias que de vossas diletas dioceses chegam até mlm,


de um lado, me enchem de alegría por tantos aspectos reconfortantes
da vida da Igreja, mas, de outro lado, me causam grande dor por
causa de certas provacóes que vos atingem no exercício de vosso
ministerio pastoral.

Na verdade, como Pastores ciosos do bem de vossas


comunidades, vos as vedes expostas á tentacáo da secularizacáo por
causa do enfraquecimento dessa vida de fé que foi, no decorrer da
historia, urna constante característica dos católicos da Austria.

Com o descréscimp do espirito de fé, alguns véem na Igreja de


Cristo táo somente urna sociedade terrestre, sujeita ao arbitrio dos
seus membros. Nessa ótica, as coisas que no momento agradam á
maioria, sao tidas como normas a seguir. A Igreja é considerada nao
mais como aquela sociedade que deve procurar por em prática na
historia a vontade de Cristo, mas, sim, como a sociedade que deve
seguir os ventos de doutrina mutáveis segundo o alvitre dos individuos.

2. Recentemente tivestes que enfrentar urna provacáo muito dura


por causa de violentos ataques dirigidos contra alguns dentre vos.
Primeiramente afetaram o venerado Arcebispo de Viena; depois, outros
Bispos foram acusados publicamente, sem que se levasse em conta
a sua dignidade na Igreja e, nem mesmo, a sua dignidade humana.

Ao perceberem vossos sofrimentos, numerosos fiéis vos


procuraram, consolidando os vínculos de comunháo eclesial que
devem existir em toda familia diocesana. Neste momento de provacáo
o Sucessor de Pedro, em virtude da sua preocupacáo com o bem de
todas as Igrejas particulares espalhadas pelo mundo, está próximo a
vos e senté o dever de vos exprimir a sua solidariedade e assegurar-
vos sua constante oracáo.

3. 'Eu ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarlo'


(Mt26, 31). Com estas palavras, o próprio Cristo anunciou de antemáo

150
ACUSAgÓES E SUSPEITAS INJUSTAS

os golpes que a Igreja havia de sofrer, reunida em torno dele, ou


seja, a Igreja nascente erguida sobre o fundamento dos Apostólos e
alimentada pelo Evangelho. Essa Igreja primitiva é, a justo título, o
arquetipo de todas as Igrejas até o fim do mundo. Ela o é também
para a Igreja na Austria.

É difícil avaliar em que medida a estrategia que visa a ferir os


Pastores teve sucesso. Se Cristo pronunciou tais palavras, em vista
da provacáo definitiva que o aguardava em Jerusalém, Ele q'uis ajudar
desse modo a nos ñas situacóes e ñas provacóes análogas de nossos
dias. A partir da experiencia da Igreja primitiva, sabemos que, diante
das acusacóes injustas levantadas contra Nosso Senhor, como também
diante da condenadlo á morte, proferida e executada, houve no
comeco urna dispersáo das ovelhas do rebanho. Todavía nao nos
devemos deixar ficar nessa fase, pois sabemos que a ressurreicáo de
Cristo foi o ponto de partida do fortalecimento da comunidade,...
ressurreicáo á qual devemos a existencia da Igreja e o crescimento
do Cristianismo no mundo inteiro.

No caso da Igreja na Austria, espero que a tentativa de destruicáo


nao obterá sucesso, visto que a maior parte dos fiéis austríacos sabe
apreciar devidamente o trabalho generoso de seus pastores e nao
permitirá que o joio das suspeitas, da crítica e da discordia possa
prevalecer ñas vossas comunidades locáis.

4. De resto, bem sabéis que as provacóes nunca faltaram aos


sucessores dos Apostólos. Durante a última Ceia, Cristo disse aos
Doze: 'O servo nao é maior do que o mestre. Se perseguiram a mim,
perseguirlo a vos também' (Jo 15,20). Mas reconforte-vos a outra
promessa logo feita pelo Senhor: "Se observaram a minha palavra,
observarlo também a vossa' (ibd.).

A vida crista, que floresce táo vigorosamente em tantas familias


e numerosas comunidades paroquiais e em ¡numeras instituicóes da
Igreja na Austria, é urna perene confirmacáo da atualidade da
promessa de Cristo e da continuada acáo do seu Espirito, que vivifica
interiormente a Igreja.

5. A cada um dos Bispos da Austria váo as minhas saudacóes


fraternas. Permiti-me, porém, que dirija urna saudacáo particular aos
dois Cardeais: Suas Eminencias Franz Kónig e Hans Hermann Groér.

151
TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

Ao Sr. Cardeal Kónig, que celebra, cheio de gratidáo ao Senhor,


os seus noventa anos de vida, dirijo meus votos mais cordiais e meus
agradecímentos por tudo o que ele faz a servico da Igreja na Austria
e desta Sé Apostólica.

Ao Sr.' Cardeal Groér que, tendo atingido o limite de idade, se


dispóe a deixar o governo da cara arquidiocese de Viena, exprimo a
minha gratidáo pelo servico á Igreja generoso e fiel.

Desejo ao seu sucessor, o Sr. Arcebispo-coadjutor Christoph


Schónborn, urna fecunda atividade apostólica na importante
arquidiocese de Viena, situada no coracáo da Europa.

Ao Sr. Presidente e aos membros da Conferencia dos Bispos da


Austria, asseguro a minha oracáo a fim de que o Cristo, Pastor
Supremo da Igreja, abencoe a sua atividade exercida em colaboracáo
sempre mais estreita e concorde, como deseja o Concilio do Vaticano
II (cf. Christus Dominus 37).
t

A Austria sempre desempenhou um papel importante na historia


da Igreja. Possa a Igreja Católica no vosso país prestar, também em
nossa época, urna poderosa contribuicáo para a nova evangelizacáo
na Europa, a fim de que sejam postas em relevo as raízes cristas da
civilizacao deste continente.

A Igreja inteira, e o Bispo de Roma em particular, imploram o


Espirito Santo, a fim de que conceda á Igreja na Austria a forca que
nasce constantemente do misterio pascal de Cristo. María, venerada
no santuario de Mariazell, vigié convosco na oracáo e no sofrimento:
María, Nossa Senhora das Dores, María ao pé da Cruz.

Como sinal de minha particular estima, concedo-vos, de todo o


coracáo, assim como a vossos sacerdotes e diáconos, a todas as
pessoas de vida consagrada, assim como a todos os fiéis que vos
sao confiados, a minha béncáo apostólica.

Vaticano, 8 de setembro de 1995.

Joáo Paulo II"

152
Um Pronuncia mentó da Santa Sé:

AÍNDA A ORDENAQÁO SACERDOTAL


DE MULHERES

Em síntese: Aos 28/10/95 a CongregagSo para a Doutrina da


Fé emitiu urna Nota que confirma o caráter definitórío e irrevogável do
pronunciamento do S. Padre Joao Paulo II relativo á nao ordenagáo
de mulheres, datado de 22/05/94. O Sumo Pontífice, ao pronunciar
se de tal maneira, apenas fez recolher os dados da Escritura e da
Tradigao relativos ao sacramento da Ordem; nem Jesús Cristo nem
algum sucessor de Apostólo conferiu a ordenagáo sacerdotal a
mulheres, tanto entre os cristaos ocidentais como entre os orientáis.
O respeito a tais antecedentes fundamenta a decisáo irrevogável de
S. Santidade.

Aos 22 de maio de 1994 o S. Padre Joáo Paulo II publicou a Carta


Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, em que declarava que a Igreja
nao recebeu de Cristo a faculdadde de conferir a ordenagáo sacerdotal
a mulheres. O S. Padre, para afirmá-lo, se baseava no procedimento
do próprio Cristo, que nao chamou mulheres para a Última Ceia (na
qual instituiu e conferiu o sacramento da Ordem) como também no
testemunho constante da Tradicáo crista, que nunca ousou ir além do
que Cristo fez. Após argumentar em palavras poucas e claras, o S.
Padre acrescentava:

"Para que se/a excluida qualquer dúvida em assunto da máxima


importancia, que pertence á própría constituigáo da Igreja divina, em
virtude do meu ministerio de confirmar os irmaos (cf. Le 22,32), declaro
que a Igreja neo tem absolutamente a faculdade de conferir a
ordenagáo sacerdotal ás mulheres, e que esta sentenga deve ser
considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja".

O texto da Carta Apostólica de Joáo Paulo II já foi publicado com


alguns comentarios em PR 388/1994, pp. 396-402.

Ora a decisáo do Papa, por mais precisa que fosse, deixou


margem a dúvidas sobre o caráter revogável ou nao de tal sentenca.

153
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

Estaría definitivamente fechada, na Igreja Católica, a questáo da


ordenacáo sacerdotal de muiheres? As dúvidas foram levadas á
Congregacáo para a Doutrina da Fé, que em Nota datada de 28/10/
95 respondeu em favor da irrevogabilidade da sentenca. Eis o texto
da Congregado para a Doutrina da Fé tal como se acha na edicáo
portuguesa de L'OSSERVATORE ROMANO de 25/11/95, p. 10:

Dúvida: Se a doutrina segundo a qual a Igreja nao tem


faculdade de conferir a ordenacáo sacerdotal ás muiheres,
proposta como definitiva na Carta Apostólica "Ordinatio
sacerdotalis", deve ser considerada pertencente ao depósito
da fé.

Resposta: Afirmativa.

Esta doutrina exige um assentimento definitivo, já que,


fundada na Palavra de Deus escrita e constantemente
conservada e aplicada na Tradicao da Igreja desde o inicio, é
proposta infalivelmente pelo magisterio ordinario e universal
(cf. Conc. Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, 25,2).
Portanto, ñas presentes circunstancias, o Sumo Pontífice, no
exercício de seu ministerio próprio de confirmar os irmáos (cf.
Le. 22,32), propós a mesma doutrina, com urna declaracáo formal,
afirmando explícitamente o que deve ser mantido sempre, em
todas as partes e por todos os fiéis, enquanto pertencente ao
depósito da fé.

O Sumo Pontífice Joáo Paulo II, durante a Audiencia


concedida ao abaixo-assinado Cardeal Prefeito, aprovou a
presente Resposta, decidida na reuniao ordinaria desta
Congregacáo, e ordenou sua publicacáo.

Roma, da Sede da Congregado para a Doutrina da Fé, aos


28 de outubro de 1995.

t JOSEPH Cardeal RATZINGER


Prefeito
t TARCÍSIO BERTONE
Arcebispo Emérito de Vercelli
Secretario

A propósito vale notar:

Jesús Cristo instituiu na sua Igreja um magisterio ou o poder de


ensinar e transmitir auténticamente as verdades da fé; cf. Mt 16,17-
19; Le 22, 31s; Jo 21,15-17; Mt 28,18-20. Esse magisterio pode
apresentar-se como

154
AÍNDA AORDENAgÁO SACERDOTAL DE MULHERES 11

- magisterio ordinario: é o ensinamento moralmente unánime


dos Bispos unidos ao Papa, proferido no cotidiano da vida da Igreja;

- magisterio extraordinario: que pode ser 1) urna definicáo


dogmática de Concilio ecuménico ou universal ou 2) um pro-
nunciamento ex-cathedra do Sumo Pontífice em materia de fé ou de
Moral. A Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis de Joáo Paulo II
pertence a este último tipo de magisterio.

A Nota da Congregacao para a Doutrina da Fé atrás transcrita


cita a Constituicáo Lumen Gentium n.25, que reza o seguinte:

"A infalibilidade da qual quis o Divino Redentor estivesse sua


Igreja dotada ao definir doutrina de fé e Moral, tem a mesma extensáo
do depósito da RevelagSo Divina, que deve ser santamente guardado
e fielmente exposto. Esta é a infalibilidade de que goza o Romano
Pontífice, o Chefe do Colegio dos Bispos, em virtude de seu cargo,
quando, com ato definitivo, como Pastor e Mestre Supremo de'todos
os fiéis que confirma seus irmaos na fé (cf. Le 22,32), proclama urna
doutrina'sobre a fé e os costumes. Esta é a razáo por que se diz que
suas definigoes s§o irreformáveis por si mesmas e nao em virtude do
consentimento da Igreja, pois sao proferidas com a assisténcia do
Espirito Santo a e/e prometida na pessoa do Bem-aventurado Pedro.
E por isto nao precisam da aprovagáo de ninguém nem admitem
apelagáo a outro tribunal. Pois neste caso o Romano Pontífice nao se
pronuncia como pessoa particular, mas expóe ou defende a doutrina
da fé católica como Mestre supremo da Igreja universal, no qual, de
modo especial, reside o carisma da infalibilidade da própria Igreja".

Sao estes conceitos que fundamentam o carate r definitório e


irrevogável da Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis. Deve-se
ainda enfatizarque a posicáo assumida pela Igreja Católica nao implica
depreciacáo da mulher, pois, na verdade, o sacerdocio é urna funcáo
de servico muito mais do que urna honra ou promocáo. O único carisma
que realmente se deve almejar, é o ágape ou o amor cristáo (cf. 1Cor
13,1-13). Na sua Carta Apostólica sobre a Dignidade da Mulher (15/
08/1988) o S. Padre lembra que o homem e a mulher sao diferentes e
complementares entre si, de modo que tém suas funcóes específicas
tanto na sociedade civil como na Igreja; os maiores no Reino dos Céus
nao sao os ministros, mas sao os Santos. De resto, observa S.
Santidade que á mulher toca um papel de preeminencia sobre o
homem, que é o de educar o futuro cidadáo, talvez chefe e dirigente
de projecáo na sociedade. Nunca o homem poderá retribuir á mulher
o servico que ela assim Ihe presta; cf. n.18.

155
Joáo Paulo II ultrapassou

17 ANOS DE PONTIFICADO

Em síntese: Váo, a seguir, esbogadas, em números, as principáis


atividades de dezessete anos de pontificado de Joáo Paulo II. Torna
se evidente a enorme capacidade de trabalho do S. Padre, como
também sua irradiagao e projegao para fora da Igreja, entre os homens
e mulheres de poder decisorio do nosso tempo.

* * *

Aos 16/10/1995 o Santo Padre Joáo Paulo II completou dezessete


anos de pontificado ou de governo pastoral de toda a Igreja. A 1o de
novembro do mesmo ano iniciou seu 50° ano de sacerdocio, ordenado
que foi a 1°/11/1946. Por essa ocasiáo a Santa Sé publicou alguns
dados estatísticos sobre as atividades do S. Padre.

VIAGENS

Joáo Paulo II, como Papa, realizou em dezessete anos de


pontificado 122 viagens na Italia para fora de Roma, e 68 viagens
para o estrangeiro. A duracáo dessas viagens pastorais reunidas
equivale a quase dois anos ou, mais precisamente, a 650 dias, ...
dias de intenso trabalho, falando a Chefes de Estado, Bispos,
sacerdotes, Seminaristas, Religioso(a)s, leigos de diversos setores,
cristáos nao católicos, erantes nao cristáos; também celebrou a S.
Eucaristía ñas condicóes de clima e metereologia mais diversas;
realizou ordenacóes sacerdotais..., ouviu pessoas de variadas áreas
a Ihe referírem noticias, problemas, protestos...

Além disto, Joáo Paulo II efetuou 237 visitas a paróquias de Roma,


que perfazem um total de 331 paróquias. Cada visita implica sempre
encontros diversos, interpelares, solicitacóes da parte do clero e
dos fiéis...

156
17 ANOS DE PONTIFICADO 13

ESCRITOS

Joáo Paulo II escreveu doze Cartas Encíclicas ou Cartas Circulares


(de circulacáo intra-eclesial apenas ou também para fora da Igreja):
entre outras, "Rico em Misericordia", "Redentor do Homem", "Senhor
e Fonte de Vida", "A Máe do Redentor", "Sobre o Esplendor da
Verdade (Teología Moral)", "O Evangelho da Vida ou o respeito á vida
humana", "Sobre o Trabalho Humano", "Sobre a Solicitude Social da
Igreja", "Centesimo Ano da Encíclica Rerum Novarum"...

Escreveu também oito Exortacñes Apostólicas (Sobre os Leígos


na Igreja, Sobre Reconciliacáo e Penitencia, Sobre a Formacio dos
Presbíteros...), oito Constituicóes e trinta Cartas Apostólicas (das quais
urna das mais famosas é a que se refere á dignidade da mulher).

BEATIFICACÓES ECANONIZAgÓES

Á guisa de esclarecimento, seja dito que Canonizacáo é a


inscricáo de alguém no Canon ou no catálogo dos Santos, após
meticuloso processo, que examina a vida, as atitudes, os escritos e
as obras da pessoa em causa; supóe sempre um sinal de Oeus ou
milagre realizado por intercessáo de tal pessoa e devidamente
reconhecido como fato inexplicável pela ciencia de nossos dias, obtido
mediante prece humilde e devota num contexto plenamente honesto.
A canonizacáo equivale a urna definicáo infalível, pois propóe á
veneracáo dos fiéis um modelo de vida que pode ser imitado sem
perigo de desvíos.

Beatificac.áo é o passo necessariamente anterior á canonizacáo.


Supóe o exame ácima descrito e um milagre no sentido proposto. Antes
da Beatificacáo deve haver o reconhecimento da heroicidade das
virtudes da pessoa em causa.

Pois bem; Joáo Paulo II declarou bem-aventurados 731 fiéis e


canonizou 272 outros, num total de 1003 novos Bem-aventurado(a)s
e Santo(a)s.

CONSISTORIOS E CARDEAIS

Á guisa de esclarecimento, seja observado que

- Consistorio é urna assembléia de Cardeais reunidos sob a

157
TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

presidencia do Papa para examinar assuntos de grande importancia


ou realizar atos muito solenes. Há Consistorios secretos, destinados
exclusivamente a Cardeais; há Consistorios semipúblicos, de que
podem participar Bispos e Abades, e há Consistorios públicos, abertos
a leigos.

- Cardeal era antigamente o clérigo que pertencia ao clero de


Roma; podía ser diácono, presbítero ou Bispo suburbicário (Bispo de
diocese vizinha e dependente de Roma). Atualmente os Cardeais ainda
sao titulares do clero de Roma (cada qual tem sua igreja titular em
Roma), mas, na maioria, moram fora de Roma, exercendo suas funcóes
episcopais na Europa, na América, na Asia, na África ou na Oceania.
Aos Cardeais espalhados pelo mundo inteiro toca eleger o Papa em
conclave ou numa assembléia trancada a chave (clavis em latim) para
evitar interferencias estranhas.

Ora Joáo Paulo II convocou seis Consistorios ordinarios, por


ocasiáo dos quais nomeou 137 Cardeais (num total de 162 Cardeais
hoje existentes). Dos 137 nomeados por Joáo Paulo II, 120 ainda vivem.

Além dos Consistorios ordinarios, Joáo Paulo II convocou oito


Consistorios extraordinarios: tres para revero funcionamento da Curia
Romana (em 1979, 1982 e 1985), dois para examinar as financas da
Santa Sé (em 1979 e 1982), tres para estudar respectivamente o
problema das seitas, a defesa da vida e a preparacáo do Jubileu do
ano 2000.

RECEPCÓES OFICIÁIS

Joáo Paulo II, em dezessete anos de pontificado, recebeu mais


de 900 personalidades políticas, das quais 510 Chefes de Estado e
150 Primeiros-Ministros - o que equivale a urna media de urna visita
oficial por semana.

Estes dados evidenciam claramente nao só a grande capacidade


de trabalho do S. Padre, mas também a sua projecáo para fora da
Igreja, no mundo internacional, e sua capacidade de dialogar com os
grandes dirigentes da historia contemporánea.

158
Descoberto o esbogo de:

ENCÍCLICA CONTRA O ANTI-SEMITISMO

Em síntese: Em 1995 foi editado um documento ignorado desde


1938, ou se/a, o esbogo de urna encíclica contra o racismo e o anti
semitismo, que Pió XI teña publicado após a devida revisáo, se nao
houvesse falecido aos 10/02/1938. O esbogo foi redigido por tres
sacerdotes jesuítas - o Pe. John LaFarge (norte-americano), o Pe.
Gustav Gundlach (alemSo) e o Pe. Gustave Desbuquois (francés).
Esses projetos nao chegaram a ser ulteriormente elaborados por Pió
XI, nem deles se fez a tradugSo latina, que sería a verseo oficial. O
teor de tal documento é aínda muito esquemático e pálido, como se
depreende de trechos transcritos no fim deste artigo.

* * *

Foi publicado em 1995 o livro L'Encyclique cachee de Pie XI


(A encíclica oculta de Pió XI)1, da autoría de Bernard Suchechky,
historiador judeu, e Pe. Georges Passelecq, beneditino belga, que
trabalhou na Resistencia ao nacional-socialismo e é o Vice-presidente
da Comissáo Nacional Belga para as Relacóes com o Povo Judeu.
Esta obra é importante porque revela algo da atitude do Papa Pió XI
frente ao anti-semitismo nacional-socialista e fascista.

A seguir, exporemos os principáis dados relativos a tal documento,


á sua origem e ao seu conteúdo.

1. A ORIGEM DO DOCUMENTO

1. O livro ácima mencionado compreende 320 páginas. Destas


cerca de cem apresentam o texto de um esboco de encíclica de Pió XI
sobre o anti-semitismo, esboco que nunca foi ulteriormente elaborado
e, por isto, também nao publicado. Tal encíclica devia comecar pelas
palavras (que seriam também o seu título) Humani Generis Unitas
(A Unidade do Género Humano). O esquema é publicado na íntegra e

1 Edüions La Découverte. París 1995. p. 320 pp.

159
16 ' PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

acompanhado de um prefacio do Prof. Emilio Poulat e de urna longa


apresentacáo de mais de 160 páginas, á qual se segué breve
bibliografía. O subtítulo da obra reza: "Urna ocasiáo perdida para a
Igreja frente ao anti-semitismo".

O prefacio do Prof. Poulat mostra que o texto-esbogo da encíclica


ainda estava muito cru e alinhavado; nao fora feita a redacáo latina
oficial.

2. Qual terá sido a origem desse esquema de encíclica?

É notorio que o Papa Pió XI publicou urna encíclica contra o


nacional-socialismo em 14/03/1937; escreveu-a em alemáo para poder
ser fácilmente lida pelos interessados, iniciando-a pelas palavras Mit
brennender Sorge (Com ardente preocupacáo)1. O Papa verificou que
o Governo fascista de Mussolíni ia seguindo as pegadas do de Adolf
Hitler, e adotava urna política racista ou anti-semita. Daí a intencáo,
de Pió XI, de escrever sobre o assunto. Para tanto, em junho de 1938
pediu a um sacerdote jesuíta, o Pe. John Lafarge, que preparasse os
elementos de urna encíclica que denunciasse o racismo e o anti
semitismo; ao solicitar tal trabalho, Pió XI dava a LaFarge as instrucdes
precisas sobre o teor do mesmo. LaFarge já escrevera contra o
racismo perseguidor dos negros nos EE.UU; era autor do livro
Interracial questions: the negro (Questóes inter-raciais: o negro).
Desejoso de fazer o melhor trabalho possível, LaFarge convidou dois
confrades a que o ajudassem: um alemáo, o Pe. Gustav Gundlach,
futuro teólogo do Papa Pió Xli, e outro, francés, o Pe. Gustave
Desbuquois, Diretor da Action Populaire. Cada qual dos tres
sacerdotes elaborou um texto correspondente, usando a respectiva
língua.

Os textos foram entregues á Santa Sé, mas nao foram revistos


por Pió XI, que morreu na noite de 9 para 10 de fevereiro de 1939,
quando, alias, se dispunha a protestar oralmente contra os desmandos
do fascismo, por ocasiáo da celebracáo do décimo aniversario do
Tratado do Latráo em 11/02/1939; para tanto, o Papa havia convocado
para Roma todos os Bispos da ltáliar anunciaría entio a publicacáo
da nova encíclica prevista para maio de 1939.

é de notar que Pió XI escreveu também em principios de 1937 a encíclica Divini


Redemptoris, em que condenava a comunismo. Quena assim pronunciarse contra
rio és duas grandes ideologías em voga na sua época.

160
ENCÍCLICA CONTRA O ANTISEMITISMO 17

2. O CONTEÚDO DO DOCUMENTO

Qual o conteúdo do esquema tracado pelos respectivos


redatores?

Compreende tres grandes Partes, distribuidas por 179 parágrafos.


A Primeira Parte esboca "a historia das origens da desordem de que
sofre a sociedade contemporánea"; a Segunda Parte considera "a
unidade da vida social", e a Terceira Parte versa sobre "a acáo da
Igreja em favor da unidade da vida humana no tempo". A conclusáo
define "a unidade e a paz como frutos da Redencáo efetuada por
Cristo". Em suma, a intencáo dominante do texto era colocar as bases
filosóficas, científicas e teológicas da unidade do género humano;
todos os homens tém a mesma origem; por conseguinte, sao iguais
entre si; daí serem perversas as discriminacóes de ordem racial,
religiosa, económica, etc. A tónica e a novidade da encíclica estariam
na Terceira Parte, que condenava o anti-semitismo; a encíclica teria
sido o primeiro pronunciamento oficial da Santa Sé em repudio da
perseguicáo aos judeus.

A redacáo do texto é fortemente filosófica, por vezes pesada;


detém-se muito em ponderacóes de ordem geral e só na Segunda
Parte trata dos problemas do racismo e do anti-semitismo. O racismo
é condenado como contrario á unidade do género humano, e como
aves so á liberdade e á dignidade da pessoa humana. A religiáo nao
está subordinada á raca, pois Deus quer salvar todos os homens; as
diferencas entre estes se devem ás influencias de meio e cultura
respectivos.

O anti-semitismo é condenado como urna modalidade de racismo.


O texto repudia a perseguicáo aos judeus, recordando o decreto do
S. Oficio datado de 25/03/1928: "A Sé Apostólica sempre protegeu o
povo judeu contra os injustos ataques de que era vítima; assim como
ela reprova as rixas e as lutas entre as nacóes, assim também, e de
modo muito particular, ela condena o odio ao qual se dá hoje o nome
de anti-semitismo" (p. 290). Segue-se ainda urna explanacáo da qual
resulta que o anti-semitismo provoca ataques ao Cristianismo, visto
que Jesús era judeu (p.292). O arrazoado termina com a rejeicáo de
toda e qualquer violencia e um apelo á oracáo a Deus, que tudo pode:
"Como Israel voltará ao seu Deus? Quando saberá reconhecer a Casa
do Pai, que é a Igreja de Jesús Cristo? É o que Deus tem em seu
segredo" (p. 294).

161
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

A leitura de tais páginas evidencia que aínda estáo muito


esquemáticas; falta-lhes a elaboracáo teológica que as tornaría aptas
á publicacáo. Como tais, nao podiam ser entregues ao público; nao
teriam logrado os almejados efeitos. O Papa Pió XI era de tempera
muito vivaz e enérgica; teria comunicado ao esboco a forja persuasiva
e eloqüente que caracteriza as suas encíclicas.

O Papa Pió XII utilizou fragmentos desse esboco, principalmente


os concernentes á unidade do género humano, em sua encíclica
inaugural do pontificado Summi Pontificatus de 20/10/1939.

Pió XII govemou a Igreja em circunstancias diferentes (muito mais


difíceis e delicadas) das de Pió XI: em vez de falar ou escrever
solenemente contra o nacional-socialismo (o que podía redundar em
píores efeitos), preferiu agir; exerceu, sím, urna acáo muito eficaz em
favor das vítimas da guerra, especialmente em prol dos judeus;
calcula-se que tenha salvo da perseguicáo nazista 700.000 ou 800.000
israelitas.

Em 1972 um jornalista norte-americano encontrou o texto do


esboco entre os papéis do Pe. LaFarge e publicou segmentos dos
mesmos. Esses trechos despertaram nos pesquisadores o desejo de
descobríro texto completo. Após longa procura, encontraram os textos
francés, inglés e alemáo, que deram ocasiáo á publicacáo da obra de
Suchecky e Passelecq, que estamos analisando. - Deve-se notar que
o título da obra dos dois editores é um tanto tendencioso; nao se
trata de urna encíclica, mas de subsidios para a redacáo de urna
encíclica; além do qué, nunca houve urna encíclica escondida de Pío
XI; nem Pió XII ocultou a "encíclica". Se Pió XI nao chegou a publicar o
planejado documento, é certo que se pronunciou repetidamente, por
vía oral e por via escrita, contra o anti-semitismo.

3. CITAQÓES

Eis alguns espécimens do documento em pauta.

Unidade da estirpe humana: "A unidade do género humano


pousa, em prímeiro lugar, sobre um fundamento que é a natureza
humana comum a todos" (n.72).

Misterio do Sangue: "O sangue e o parentesco do sangue


fundamentam a realidade da comunidade dos homens... ligam todos

162
ENCÍCLICA CONTRA O ANTISEMITISMO 19

os homens entre si por aquilo que eles tém de mais profundo, a saber:
as suas relagóes com Deus" (n.75).

Nacionalismo: "Vem a ser auténtica perverséo do espirito. É


gravemente criminoso excitar os homens a que o cultivem" (n. 108).

Racismo: "A teoría e a prática do racismo, distinguindo ragas


superiores e inferiores, ignoram o vínculo da unidade, cuja existencia
está demonstrada" (n.112).

Perseguicáo dos judeus: "Aqueles inflexíveis doutrínadores


proclamam, como valor soberano, a unidade da nagáo; lá um guia de
povos empolga os ánimos com o apelo embriagante á unidade da
raga, enquanto o Leste Europeu faz ao mundo inteiro a promessa,
aureolada de terror e sangue, de urna humanidade renovada pela
unidade do Proletariado.

Tornase claro que a luta em prol da pureza da raga acaba por


sertao somente a luta contra osjudeus, luta que, em seus verdadeiros
motivos e em seus métodos, nao difere - a nao ser pela crueldade
sistemática - das perseguigóes desencadeadas em toda parte contra
os judeus em épocas remotas". Tais perseguigóes foram
estigmatizadas mais de urna vez pela Santa Sé, principalmente quando
se recobriam com o manto do Cristianismo.

"Urna vez iniciada a perseguigáo, milhóes de pessoas sño


despojadas, sobre o próprio solo da sua patria, dos direitos e dos
privilegios mais elementares dos cidadáos; recusa-se-lhes a protegáo
da lei contra a violencia e o furto; o insulto e a desonra estao de
emboscada; é afíxado o sinal da infamia a pessoas que até aquele
momento respeitaram escrupulosamente as leis do seu país. Até
aqueles que combateram valorosamente pela patria sao tratados como
traidores; os fílhos dos que caíram nos campos de batalha se tornam
banidos pela lei, pelo simples fato do seu parentesco.

Até mesmo os pagaos, após a sua conversao á verdadeira fé e


sua incorporagáo na Igreja de Cristo, precisam de recordarse de tais
coisas. Gragas ás raízes e á seiva da velha árvore é que eles gozam
da vida sobrenatural. Os cristáos, nascidos de pagaos, em vez de
carregar as raízes da árvore, sao por esta sustentados; o que quer
dizer: nao é Israel que recebe a salvagao dos pagaos, mas é o
contrarío" (n. 138).

163
Um Dicionário Raro:

"O OUTRO LADO DO ESPIRITUALISMO


MODERNO. PARA COMPREENDER
A NOVA ERA"

por Ricardo Sazaki

Em síntese: O livro de Ricardo Sazaki pode ser tido como um


Dicionário dos novos movimentos religiosos filiados a um dos principáis
troncos: Protestantismo, Espiritismo, Ocultismo e Orientalismo. O leitor.
encontra al a origem, o histórico e as principáis doutrinas de cada
urna dessas correntes religiosas. O autor é francamente contrario a
tais movimentos e favorece sete grande tradigdes religiosas: a hindú,
a taoísta, a judaica, a xamánica, a budista, a crista e a islámica.
Segundo R. Sazaki, as grandes religióes sempre foram fiéis ás suas
tradigdes oráis; os escritos respectivos sao sempre posteriores á via
oral e sujeitos á interpretagáo que Ihes dá a transmissSo oral de
doutrinas; ora muitas e muitas das correntes religiosas modernas
partem de um livro ou de urna intuigao subjetiva, sem levar em conta
as tradigdes oráis que iluminam tal livro ou tal intuigao. O autor assim
se posiciona na linha do Catolicismo, que muito estima a Tradigño
oral e a tem como criterio para entender a S. Escritura; mas nem por
isto se revela profundo conhecedor do Catolicismo, pois incide em
erros ao se referir á doutrina católica. - O livro vale como fonte de
informagoes preciosas a respeito dos Novos Movimentos Religiosos
de nossos dias.

* * *

Ricardo Sazaki nao se identifica. É certamente um estudioso da


historia das Religióes; caracteríza-se pela estima dos valores religiosos
tradicionais e, por isto, se mostra assaz crítico em relacáo ás novas
correntes religiosas dos últimos séculos, que ele descreve e propóe
como "a Religiáo da Nova Era"1 (p.8). O livro "O Outro Lado do
Esplritualismo Moderno"2 pode ser classificado como um Dicionário

1 Jé am PR 379/1993, pp. 554-572 foi apresentada a "Nova Era". Em poucas pala-


vras. 6 um amalgama da crengas religiosas a postulados fílosófícos. que pode falar
a qualquer pessoa religiosa despreparada, pois no seu ecleticismo parece
corresponder a Cristianismo, hinduísmo, espiritismo, satanismo....

2 O Outro Lado do Esplritualismo Moderno. Para Compreender a Nova Era, por


Ricardo Sazaki. Ed. Vozes. Petrópolis 1995, 160x230 mm. 277 pp.

164
"O OUTRO LADO DO ESPI RITUALISMO MODERNO, PARA COMPREENDER A NOVA ERA" 21

das comentes religiosas modernas, agrupadas sob um dos quatro


títulos principáis: Protestantismo, Espiritismo, Ocultismo, Orientalismo.
O autor propóe a origem, a historia e as principáis doutrinas de cada
um dos ramos e sub-ramos derivados do respectivo tronco.

No final da obra (pp. 249-258) Ricardo Sazaki apresenta o que


ele chama "os Caminhos Espirituais" ou as sete grandes Tradicóes
Religiosas da humanidade: a hindú, a taoísta, a judaica, a xamánica,
a budista, a crista e a islámica. Nao as critica como critica as correntes
religiosas anteriormente expostas (pp.17-241).

O livro é muito rico em informales, assaz crítico e, por vezes,


sarcástico em relacáo aos movimentos religiosos modernos. Ñas
páginas seguintes, poremos em relevo alguns dos tópicos do autor
que mais significativos parecam. A fim de elucidar a mentalidade que
inspira Ricardo Sazaki, vale a pena transcrever as primeiras
observacóes de seu Prefacio:

"Ñas últimas décadas o mundo moderno, o ocidental em particular,


vem passando por transformacóes drásticas no campo religioso e
espiritual, transformacóes que, acreditamos, tém sido bem poüco
conscientes e notadas pela maioria das pessoas, mas sentidas de
forma evidente pelos homens e geracóes que até entáo seguiram
aiguma das tradicóes religiosas ortodoxas existentes no mundo e que
hoje véem a sua fé atropelada pelo se m-nú mero de seitas e
denominacóes religiosas que crescem como coelhos ávidos por
alimento.

Tais geracóes, que estudavam e conheciam a fundo a fé


transmitida por seus antepassados, vém sendo substituidas por
geracóes perdidas no campo da espiritualidade e que, sem criterio,
razáo ou profundidade, estáo prontas para rápidamente aceitar
qualquer doutrina que se diga espiritual e que Ihes bata á porta" (p.7).

1. RELIGIÁO E TRADigAO

Um dos pontos mais importantes da obra de R. Sazaki é a


afirmacio, muito enfatizada, de que toda corrente religiosa clássica
supóe urna transmissáo oral de crencas, que podem passar para a
escrita, mas que nunca perdem seu valor, de modo que "urna religiio
do livro apenas" é algo de estranho e desvirtuado:

"Em todas as religióes, a tradicáo escrita sempre veio junto com


a transmissáo oral, condicáo essencial para o seu correto-
entendimento. É o caso do Judaismo, cuja Torah vem acompanhada

165
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

do Talmud, do Midrash e da tradicáo de comentarios rabínicos; do


Islam, cuja interpretacáo daqueles que pertencem á corrente (silsilat)
é básica para o entendimento do Coráo; do Buddhismo, cujo Tipitaka
vem acompanhádo do ensinamento que passa de 'coracáo para
coracáo1 através da cadeia de mestres; ou do Hinduísmo, cujos Vedas
vém acompanhados dos Upanishads e comentados pela tradicáo oral
brahmánica.

O Protestantismo, negando o valor e a natureza fundamental da


Tradicáo Oral, abriu o caminho para a livre interpretacáo do texto
sagrado. Esta é sua característica básica, e com isso iniciou a confusáo
e a baderna"1 (p.18).

"Religiáo sem esta linhagem (ou seja, sem tradicáo - do latim


'aquilo que traz1) nao é senáo formalismo, invencáo, literalismo,
religiosismo, exotismo e superficialidade" (p.251).

"A transmissáo oral é característica de todas as tradicóes, as


quais tiveram seus ensinamentos originalmente transmitidos por via
oral antes de, após muito tempo, serem convertidos para a escrita.
Estes, por sua vez, constituem aínda apenas urna parte dos
ensinamentos, já que todas as tradicóes vivas conservam a tradicáo
oral" (p. 255).

"É a fidelidade á esséncia da tradicáo revelada e praticada por


urna cadeia de homens no decorrer dos séculos que garante ao
caminhante seu verdadeiro progresso na via e sua protecáo contra
os múltiplos desvíos que o caminho pode ter. Um caminho espiritual
independente, isto é, desligado de urna tradicáo específica de
ensinamento, equivale assim á tentativa de empreender urna viagem
sem mapas, ou, o que é pior, com urna variedade de mapas, os quais,
ao invés de ajudarem, confundem aínda mais, pois que sao escritos
em línguas diferentes e segundo pontos de vista variados. Isto é tanto
mais perígoso na medida em que varios desses 'mapas' sao frutos da
pura fantasía e ¡maginacáo" (p. 249).

Sao muito sabias as ponderacóes de R. Sazaki; levam a pensar


ñas muitas denominacóes protestantes que, em nossos días, váo
surgindo sem o mínimo contato com a Tradicáo, como se pudessem
recomecar o Cristianismo hoje ou como se séculos de vida crista
tivessem cedido ao erro total. Alias, já o luteranismo e o calvinismo no

1 Deve-se reconhecer que a linguagem do autor nem sernpre 6 reverente, chegando


mes/no á mordacidade. Esta observacao repetir-se-á no deconer das citagdes que
se seguem a esta. Com a venia do tettor...

166
"O OUTRO LADO DO ESPIRITUALISMO MODERNO. PARA COMPREENDERA NOVA ERA" 23

século XVI cederam a tal tentacáo, gerando as antinomias e


arbitrariedades do protestantismo desde entáo até hoje. - Nao se
pode dizerque Sazaki faca urna profissáo de Catolicismo; ao contrario,
como veremos na Conclusáo destas páginas, ele parece nao estar
milito consciente de tudo aquilo que o Catolicismo professa. Como
quer que seja, o que ele escreve nos textos até aqui apresentados,
corresponde fielmente ao que o Catolicismo ensina.

Consideremos algo do que o autor observa a respeito de tres


dos troncos donde procedemos Novos Movimentos Religiosos.

2. PROTESTANTISMO

1. Partindo das premissas atrás expostas, o autor é severo em


relacáo ao protestantismo:

"Ao instilar a livre interpretacáo bíblica, isto é, a possibilidade de


avaliar e interpretar o texo sagrado da forma que bem se quiser, o
Protestantismo deu lugar ao individualismo e ao humanismo - a visáo
do homem individual desconectado do Cosmos e das esferas
superiores; incentivou as fantasías e os desejos do ego, o qual, a
partir de entáo, pode utilizar até mesmo o texto sagrado para seus
próprios proveitos e lucros através do desvirtuamento, intencional ou
inconsciente, das paiavras reveladas (como é bem fácil notar em certos
movimentos evangélicos); mais ainda, negando a Tradicáo Oral vai
contra a própria Biblia onde se diz: "Assim, irmáos, ficai firmes e
conservai os ensinamentos que de nos aprendestes, seja por paiavras
(isto é, pela Tradicáo Oral) seja por carta (isto é, a Biblia escrita)'
(2Ts 2,15).

Ou, quando dizem que todo o ensinamento de Jesús está na Biblia


escrita, parecem nao ter lido o Evangelho de Joáo, que diz: 'Jesús fez
ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas urna por urna, pensó
que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam
escrever' (Jo 21,25).

É esta mesma livre interpretacáo que dá origem ao curioso


fenómeno da proliferacáo indefinida de igrejas protestantes. Cada
pastor, tendo 'sua' interpretacáo, funda a 'sua' igreja, a qual difere de
outras igrejas ñas doutrinas e opinióes a respeito de Cristo e seus
ensinamentos. Que outra razio se poderia dar ao número indefinido
de seitas protestantes pelo mundo? Ora o próprio fato de o pastor ter
'sua' opiniáo e nao 'a' interpretacáo única dos fundamentos do texto
sagrado, tal como transmitida a partir de Cristo, já é mostra suficiente
de suas ilusóes" (pp. 18s).

167
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

2. A pessoa de Lutero, certamente religiosa, é apresentada de


maneira a por em relevo os aspectos passionais do "reformador":

"Em 10 de dezembro de 1520 reuniu os livros que criticavam


doutrinas suas, colocou fogo e gritou: Por teres conturbado o Santo
do Senhor (o próprio Lutero), conturbe-te o fogo eterno' ... Publica o
Passional Christi et Antichristi ou Antithesis figurata vitae Christi
et Antichristi, contendo fortes acusacóes ao Papa e á Igreja. A obra
vem acompanhada das ilustracóes feitas porCranach com caricaturas
indecorosas e sarcásticas sugeridas por Lutero. O mesmo Lucas
Cranach pintava Lutero com a cabeca envolta em urna auréola que
reluzia entre todo o povo. Era o Santo do Senhor. Esta é considerada
a obra onde Lutero desceu o mais baixo em termos de moralidade e
decadencia" (p.25).

"Em 1540, por razóes políticas, Lutero consente com a bigamia


de Filipe da Hássia, um de seus protetores, apesar das leis vigentes,
que mandavam que a bigamia fosse punida com a morte. Muitos se
revoltam contra Lutero, o qual havia aconselhado o rei a manter
segredo sobre este seu consentimento...

Um ano antes de morrer, publica outro documento contra a Igreja,


o Contra o Papado de Roma fundado pelo Diabo (1545), outra
vez cheio de caricaturas. TSo odiosa e baixa foi esta declaracáo, que
muitos de seus contemporáneos imaginaram que havia enlouquecido
ou sido tomado pelo demonio" (p.27).

3. Sobre Calvino o autor faz a seguinte observacáo:

"A idéia utilitaria e produtiva do trabalho fez que as idéias de


Calvino penetrassem com grande facilidade, principalmente nos
grandes centros industriáis da época, como os Países Baixos, a Suíca,
a Franca e a Escocia. A burguesía nao tardou a perceber que tais
idéias ou a nova religiáo serviría ¡mensamente ao crescimento de seu
próprio mercado, muito mais do que as doutrinas católicas.

Já foi dito que Cristo curou o cegó e fez andar o paralítico, mas
nao deu dinheiro aos pobres, pois a pobreza, ao contrario da miseria,
nao é um estado de humilhacáo humana, mas, pelo contrario, um
estado procurado mesmo pelos Santos de todas as religióes. Calvino,
porém, justificou 'religiosamente' o dinheiro, o trabalho produtivo e a
aquisicáo de lucros, como meio de salvacáo. Enquanto a usura era
proibida durante a Cristandade Medieval, Calvino nao a condenava;
pelo contrario, ele mesmo incentivava o lucro, considerando que
acumular riquezas era urna prova de santidade, desde que se tivesse

168
"O OUTRO LADO DO ESPIRITUAUSMO MODERNO. PARA COMPREENDER A NOVA ERA" 25

fé. Tal doutrina era extremamente adequada aos ideáis do capitalismo


nascente..." (p.32).

Estas ponderales, em parte, contribuem para responder á


pergunta: por que os países protestantes sao, económicamente
falando, ricos e prósperos, ao passo que nem sempre o mesmo se dá
com países católicos? Calvino inspirou a tenacidade comercial de seus
seguidores. Criou também um clima despótico em Genebra:

"Entre 1536 e 1538, Calvino governou Genebra com punho de


acó, até ser expulso de lá. Mas volta ao poder em 1541, mandando
queimar aqueles que eram contrarios as suas idéias. Livros sao
proibidos de ser lidos, a danca e varias artes sao perseguidas. Urna
mulher é queimada por entoar cancóes consideradas ¡moráis. Torturas
em praca pública passam a ser comuns contra aqueles que ousavam
criticar o ditador" (p.33).

Esta noticia leva a tomar consciéncia de que a Inquisicáo nao foi


fenómeno típico do Catolicismo. De resto, seria injusto avaliá-la
segundo as categorías do pensamento contemporáneo; só a pode
julgardevidamente quem reconstituí os parámetros filosófico-religiosos
dos séculos passados.

3. ESPIRITISMO

Ricardo Sazaki alude ao fato de que o espiritismo é fator de


doencas psíquicas e físicas, pois afeta seriamente o sistema nervoso
do médium e de seus consulentes:

"A própria Madame Blavatsky, criadora do Teosofismo, lembra o


seguinte: 'Os melhores, os mais poderosos médiuns, todos sofreram
em seus corpos e em suas almas. Lembrem-se do fim deplorável de
Charles Foster, que morreu de loucura furiosa em um asilo de
alienados; lembrem-se de Slade, que é epiléptico, de Eglinton, o
principal médium da Inglaterra neste momento, que sofre do mesmo
mal..., de Dunglas Home... que durante anos sofreu de urna terrível
doenca da espinha dorsal e que nao era mais que ruina quando
morreu' (A Chave da Teosofía). O proprio sucessor de Alian Kardec,
Léon Denis, admite que 'o médium é um ser nervoso, sensível,
impressionável; ...a acáo fluídica prolongada dos espíritos inferiores
pode-lhe ser funesta, arruinar sua sanidade, provocando os
fenómenos de obsessáo e de possesáo..., estes casos sao numerosos;
alguns chegaram mesmo até a loucura' (No Invisível). Esta
explicacáo de 'espíritos inferiores' é ademáis a explicacáo comum que

169
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

se dá quando qualquer médium cometa a demonstrar os síntomas de


perda de juízo..." (p. 84),

A respeito da psicografia lé-se ás pp. 72s:

"Amauri Pena, sobrinho de Chico Xavier, também psicografou


¡números poemas de famosos escritores brasileiros. Mas em 1958,
fazendo as pazes com sua consciéncia, resolve chamar a imprensa é
declarar: 'Tudo o que tenha psicografado até hoje, apesar das
diferencas de estilo, foi criado por minha própria imaginacáo, sem
que precisasse de interferencia de almas de outro mundo1. E
prossegue: 'Sempre encontrei muita facilidade em imitar estilos. Por
isso os espiritas diziam que tudo quanto saía do meu lápis eram
mensagens ditadas pelos espíritos desencarnados. Revoltava-me
contra essas afirmativas, porque nada ouvia e sentía de estranho
quando escrevia. Os espiritas, entretanto, procuravam convencer-me
de que era médium. Levado a meu tío, assegurou-me ele, depois de
ler o que eu escrevera, que deveria ser seu substituto. Isso animou
bastante os espiritas... Passei a viver pressionado pelos adeptos da
chamada Terceira Revelacáo. Cansado, enfim, cedi, dando os
primeiros passos no caminho da farsa constante... Vi-me entáo diante
de duas alternativas: mergulhar de vez na mentira e arruinar-me para
sempre, ou levantar-me corajosamente para penitenciar-me diante
do mundo e de mim mesmo, libertando-me definitivamente. Foi o que
resolví fazer, procurando um jornal mineiro e revelando toda a farsa...
Nao desmascaro meu tio como homem, mas como médium. Chico Xavier
ficou famoso pelo seu livro 'Parnaso de Além-Túmulo'. Tenho urna
obra idéntica, e, para fazé-la, nao recorrí a nenhuma piscografia'.
Quem dera a maioria dos espiritas tivesse a sinceridade e a clareza
mental de Amauri Pena" (pp. 72s).

A respeito das irmás Fox, cujas experiencias deram origem ao


espiritismo, escreve R. Sazaki:

"Margareth revela o que achava realmente do Espiritismo: 'Seja


qual for a forma sob a qual o Espiritualismo se apresenta, ele é, tem
sido e sempre será urna praga e urna armadilha para todos que nele
se metem. Nenhum homem ou mulher em bom juízo poderia pensar
de outra forma'.

Katherine Fox, a outra irmá, declararía na edicáo seguinte de 10


de outubro do mesmo jornal (New York Herald): 'O espiritismo é,
desde o principio até o fim, um engaño. É o maior engaño deste século.
Maggie e eu nos lancamos nele como criancas, demasiado jovens e

170
"O OUTRO LADO DO ESPIRITUALISMO MODERNO. PARACOMPREENDER A NOVA ERA" 27

inocentes para saber o que fazíamos. Nossa irmá maior tinha 23 anos
mais que nos. Lancadas neste caminho e animadas por ela,
continuamos'.

Em 21 de outubro Margareth dá urna exibicáo de producáo dos


ruidos e batidas na Academia de Música de Nova lorque, comentada
na edicáo de 22 de outubro do diario The World da cidade. Sobre
urna caixa de ressonáncia e com urna rara habilidade nos dedos dos
pés, ela fomecia aos participantes todos os tipos de batidas e sons
que pediam" (p. 63).

4. ORIENTALISMO

Muitos aspectos sao abordados; todavía Nmitar-nos-emos a citar


algumas referencias á Igreja da Unificacáo (Moonismo), fundada por
Sun Syung Moon na Coréia em 1954:

"O reverendo Moon diz ter conversado com Jesús Cristo, sendo
informado entáo de que um segundo Messias surgiría para a
humanidade e nasceria na Coréia porvolta do ano de 1920, ano em
que curiosamente o próprio Senhor Moon nasceu. O reverendo Moon
prega que a missáo de Jesús Cristo era a de se casar com urna moca
pura e perfeita e assim dar inicio a urna nova raga de seres humanos.
Entretanto, devido ao 'acídente' da crucificacáo, nao pode cumprir
sua missáo e ficou a cargo do segundo Messias, o reverendo Moon, o
trabalho de levar a humanidade á perfeicáo. Jesús falhou, mas Moon
nao falharia. Sendo assim, separa-se de sua mulher, e casa-se com
urna fiel, sendo preso, por adulterio, em 1949" (p. 239).

"Moon afirma que Caim foi filho de Eva com Lucifer e Abel o filho
que Eva teve com Adáo. Moon é aquele que trará a redencáo que
Jesús nao conseguiu trazer: 'O novo Messias vem como pai da
Humanidade. Casar-se-á e tornar-se-áo os verdadeiros Pais da
Humanidade' ... Eis o grande dia da vinda do Senhor*" (p.240).

"Se os dirigentes e a familia de Moon sao millonarios, os seus


adeptos tém urna vida bastante austera. Há um trabalho intenso de
doutrinacáo hipnótica. Nos seminarios que realiza e que podem durar
até urna semana continua, os participantes comem, bebem e dormem
pouco, e sao sujeitos a atividades intensas sem intervalos. Jogos,
brincadeiras, conferencias e cantos sao realizados continuamente,
minando a resistencia física e psicológica dos novos adeptos. O

171
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

importante é nao ter tempo para pensar e, assim, mais fácilmente


assimilar as idéias deste segundo Messias. O lema de Moon, repetido
varias vezes aos seus discípulos, é: 'Nao pensem! Ajam! Doravante
eu serei o cerebro de voces!1 " (p. 241).

Passemos a urna

5. CONCLUSÁO FINAL

O livro de Ricardo Sazaki pode desagradar por seu estilo, ás


vezes sarcástico e pungente, mas nao deixa de referir grandes
verdades, que, conforme o próprio autor nota, nem sempre estáo
presentes á consciéncia do cidadáo contemporáneo, interpelado por
urna multidáo de correntes religiosas. O panorama de nossos días é
táo variado e contraditório que, nessa floresta de crencas religiosas,
o observador pode ter dificuldade de distinguir das respectivas
contrafacóes as características da auténtica religiáo.

O autor muito favorece a posicáo católica mediante as suas


ponderacóes, que nao parecem provir de urna pena católica; assim,
por exemplo, R. Sazaki se mostra imperito em materia de Catolicismo
nos seguintes pontos:

- á p.19 fala da "Divindade de Maria", que Lutero teria rejeitado;

-á p.67 afirma que a antropología ternaria, admitindo corpo, alma


e espirito no ser humano, é própria das religióes tradicionais e que o
espiritismo é que reduziu o homem á composicáo binaria de corpo e
alma. Ora isto é falso, pois a Teología tomista, que a Igreja recomenda,
professa a dualidade (nao o dualismo) de corpo e alma;

- ás pp. 45-58 o autor critica severamente a Renovacio


Carismática Católica como sendo "urna nódoa dentro do Catolicismo"
(p. 45) ou algo de "lamentável" e "humilhante" (p. 46). R. Sazaki
caricatura a RCC a fim de acusá-la como se substituisse "o
conhecimento doutrinal sólido em favor de emocóes" (p.46). Nao
admite a possibilidade de auténtica intervencáo do Espirito Santo nos
grupos de oracáo carismática católica - o que é exagerado e
demasiado sumario.

Em suma, o lívro de Ricardo Sazaki é útil e instrutivo, feitas as


ressalvas que a crítica sadia Ihe deve fazer.

172
Um livro polémico:

"CATOLICISMO: VERDADE OU MENTIRA?"

por Adelson Damasceno Santos

Em síntese: O livro em pauta acusa a Igreja Católica de falsa e


mentirosa recorrendo a falsidades e mentiras. Propoe caricaturas do
Catolicismo para atacar pretensamente a Igreja. Na verdade, o autor
repete chavóes da bibliografía protestante popular, destituida de valor
científico, caindo por vezes em contradigóes ou incoeréncias e
servindo-se de sátira. O que A.D. Santos escreve, nao impressiona a
quem conhece o assunto, mas pode incomodar o leifor despreparado,
pois é fortemente agressivo. Neste artigo sao apontadas algumas
inverdades e incoeréncias do livro.

Os protestantes tém lancado ampia bibliografía, especialmente


folhetos e pasquins, que agridem a Igreja Católica; acusam-na de
mentirosa, servindo-se eles mesmos de inverdades e falsas
proposicóes, que revelam flagrante ignorancia dos temas abordados.
Entre outros, está o livro de Adelson Damasceno Santos (A.D.S.)
intitulado "Catolicismo: Verdade ou Mentira?". Quem percorre as
páginas deste livro, percebe odio preconcebido, que se exprime por
calúnias e mentiras, a fim de chegar á "conclusáo" de que a Igreja
Católica é mentirosa. O livro contém afirmacóes levianas e falsas,
sátiras, gratuitamente apresentadas, sem a mínima documentacáo
comprovante. Tem-se a impressáo de que o autor mal sabe o que
está dizendo, pois copia de colegas, que, por sua vez, copiam de
outros colegas, sem que haja consulta de fontes ou de documentos
origináis. Quem nao está iniciado em doutrina de fé e em historia da
Igreja, pode-se deixar impressionar por quanto lé no opúsculo de
Adelson Santos e nos livretos congéneres.

Se quiséssemos comentar capítulo por capítulo de tal obra,


escreveríamos outro livro. Em conseqüéncia, contentar-nos-emos, ñas

173
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

páginas subseqüentes, com a apresenta9áo de alguns tópicos, que


serviráo de amostragem do restante do livro.

1. OBSERVACÁO GERAL

O autor do opúsculo, com a Biblia na máo (interpretada segundo


o livre exame do leitor, ou seja, de maneira subjetiva e pessoal, cf.
p.39), quer julgar a Igreja Católica e suas expressóes. Supóe ele que
a Biblia (o Novo Testamento, de modo especial) seja anterior á Igreja
e criterio para avahar a Igreja. Ora é precisamente o inverso que se
dá¡ na verdade, a Igreja é anterior á Biblia (Novo Testamento) e dá
origem á Biblia (Novo Testamento). Jesús nao escreveu a Biblia, mas
pregou de viva voz e fundou a sua Igreja (Mt 16,17-19), á qual confiou
a missáo de pregar a todos os povos (cf. Mt 28,18-20); decenios após
a fundacáo e o inicio da pregacáo da Igreja é que comecou a ser
posta por escrito a Palavra de Jesús e da Igreja; por conseguinte a fé
da Igreja é anterior á Palavra escrita; ela abona e interpreta a Palavra
escrita; a fé da Igreja, assistida pelo Espirito Santo (cf. Jo 14,13-15),
distingue a auténtica Palavra de Deus e a Palavra apócrifa. Donde se
vé que é falsa a posicáo de Adelson Santos e a dos protestantes em
geral, que partem da Biblia, como se fosse um Absoluto,' para julgar a
Igreja.

A prava de que nao é a Biblia que julga a Igreja, mas é a Igreja


que abona e*interpreta a Biblia, está no seguinte: como sabem os
protestantes que determinado livro é inspirado por Deus? E como
sabem que tais e tais - e nao outros - livros formam o canon ou o
catálogo sagrado? - A própria Biblia rfáo define o seu catálogo: seráo
66 ou 73 ou mais ou menos... os livros inspirados? Somente a Palavra
oral que vive na Igreja, é apta a delimitar o catálogo bíblico. De fato,
os protestantes recebem a Biblia de urna fonte anterior á Biblia; o
catálogo bíblico do Antigo Testamento adotado peios protestantes é
o que os judeus estipularam em Jámnia no ano 100 d.C. apro
ximadamente, e o catálogo do Novo Testamento protestante é o que a
Igreja Católica reconheceu e explicitou, definindo-o em 393 (Concilio
regional de Hipona).

Se os protestantes acusam os católicos de usar palavras do seu

Nem pode ser um Absoluto dentro do protestantismo, pois cada protestante tem o
dimito de exercero livre exame ou de interpretara Biblia como Ihe parece - o que dá
origem a interpretagóes contraditórias: sábado versos domingo, Batismo de crian-
gas versus Batismo de adultos, Batismo por infusáo versus Batismo por aspersáo,
hierarquia episcopal versus congregacionalismo... Assim 6 relalivizada a autorida-
de da Biblia em favor de subjetivismo múltiplo e arbitrario.

174
"CATOLICISMO: VEROADE OU MENTIRA7' 31

linguajar sacro que nao estáo na Biblia, pode-se-lhes propor análoga


objecáo: onde estáo na Escritura Sagrada as expressóes "Biblia", "livre
exame", "ordenanca", "Igreja evangélica", "Sao Paulo viúvo"...?

Passemos agora ao exame de

2. CONTRADigÓES E IMPRECISÓES

O autor do livreto está táo pouco seguro do que diz, que cai em
contradicóes e imprecisóes, mostrando assim que nao entende o que
escreve. Além do mais, afirma, sem poder mostrar a fonte e as provas
do que afirma. Eis alguns exemplos:

1) A p.11 lé-se: "Anos 33-196 - Durante todo este periodo nao


houve mudancas significativas, especialmente nada que se
caracterizasse como anti-bíblico". - Mas á p.8 o autor havia dito: "A
hierarquia romana passou a ser exercida de fato através do Bispo
Aniceto entre os anos de 154 a 165 d.C; agora possuidora do poder
político-temporal, comecou a subjugar as demais igrejas que a ela se
submetiam".

Além da contradicáo, podemos notar grave erro historiográfico:


até 313 a Igreja esteve perseguida, vivendo sob o signo do martirio,
portante muito longe de possuir poder político-temporal.

2) Á p.12 lé-se: "Ano 400... foí introduzida urna das maiores


heresias da igreja: a oracáo pelos mortos". Todavía á p.13 está dito:
"Ano 593... o dogma do purgatorio comeca a ser ensinado". - Ora o
dogma do purgatorio é inseparável da prática de rezar pelos mortos.
Á p.17 a ignorancia se revela de novo modo quando o autor escreve:
"Em 1439 o Papa transformou o purgatorio em artigo de fé".
Realmente Adelson Santos acusa sem saber o que está dizendo: um
dogma é um artigo de fé; se o purgatorio era dogma de fé em 593,
era também artigo de fé.

Na verdade, a crenca na existencia do purgatorio comeca na era


pré-cristá, ou seja, entre os judeus do Antigo Testamento; veja-se
2Mc 12,36-45.

3) Á p.15 está escrito: "Ano 1115... a confissáo auricular é


transformada em artigo de fé". - Mas á p.16 se lé: "Ano 1215... o 4o

175
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

Concilio do Latráo ... definitivamente transforma a confissáo auricular


como doutrina". - O autor parece ignorar que artigo de fé é doutrina
e dogma; além do qué, a frase da p. 16 é confusa e mal redigida.

Á p.13 está dito que em 758 "por influencia de Religiosos do


Oriente introduz-se como dogma em todos os dominios da Igreja
Católica Romana a confissáo de pecados aos padres, conhecida como
confissáo auricular". Na base de tais afirmacóes pergunta-se: afina!
qual a data certa, segundo A.D.S.: 758, 1115 ou 1215?

Ademáis A.D.S. nao leva em conta o texto bíblico: em Jo 20,21-


23 Jesús confere aos Apostólos a faculdade de perdoar ou nao
perdoar os pecados - o que supóe a manifestacáo da consciéncia do
pecador ao ministro da Igreja.

4) Á p.17 é dito: "Ano 1864... Através de um Concilio realizado


no Vaticano faz-se a declaracáo da autoridade papal sobre toda a
Igreja. E seis anos depois, em 1870, de que ele é infalível". - Na
verdade, o Concilio do Vaticano I nao se realizou em 1864, mas em
1870. Em 1864 houve a publicacáo do Syllabus, que, contra erros da
época, defendeu a autoridade papal. Mais: nessa colcha ilógica de
acusacóes, pergunta-se: afinal, quando comeca o Papado?

- Á p.8 seria entre 154 e 165. Á p.12 seria em 440 com Leáo I.
Á p.13 seria em 609. Á p.17 seria em 1864 e 1870. Onde está a
coeréncia? Onde está o historiador entendido no assunto?

Na verdade, o Papado comeca na pregacáo de Jesús Cristo: Mt


16,17-19; Le 22,31s (texto que Adelson nao cita) e Jo 21,15-17 (texto
também omitido pelo autor).

5) Á p.12 lé-se: "Ano 370... Basilio de Cesaréia e Gregorio de


Nazianzo introduzem o culto aos Santos". - Mas á p.13 ocorre: "Ano
789... Realiza-se o segundo concilio de Nicéia, quando decidem os
Bispos introduzir por decreto o culto de imagens de escultura e
reliquias religiosas". Ora o culto de veneracáo dos Santos implica o
culto de veneracáo (relativa) das ¡magens. Em Nicéia (787 e nao 789)
apenas se fez confirmar o culto dos Santos e das imagens, que data
dos primordios da Igreja.

6) Á p.12 lé-se: "Ano 370... aparecem o incensario, paramentos


176
"CATOLICISMO: VERDADE OU MENTIRAr 33

e altares, mostrando a forte influencia dos pagaos". - O autor parece


ignorar que incensó, paramentos e altares estáo na Biblia do Antigo
e do Novo Testamento; vejam-se

Ex 29,5: "Tomarás a vestimenta, e poras em Aaráo a túnica, o


manto, o efod e o peitoral e o cingirás com o cinto do efod. Por-lhe-ás
o turbante na cabeca". Cf. Ex 28,39; 39,1.22-26...

Ap 8,2: "Outro anjo veio postar-se junto ao altar com um turíbulo


de ouro. Deram-lhe grande quantidade de incensó para que o
oferecesse com as oracóes de todos os santos sobre o altar de ouro,
que está diante do trono". Ver também Ap 5,8; 6,9...

7) Á p.12 lé-se: "Comeca surgir María no cenário católico romano.


A Virgem Maria é proclamada oficialmente 'a Máe de Deus' ". - O
autor ignora que já no fim do século III Maria era invocada como "Máe
de Deus", conforme antiga oracáo descoberta no Egito.

8) Á p.16 lé-se: "1264 - Pela primeria vez realiza-se a festa do


Sagrado Coracáo de Jesús". Sao dizeres falsos, pois a festa do S.
Coracáo de Jesús só comecou a ser celebrada em 1765 como forma
de culto ao Amor de Deus.

9) A p.16 ocorre a seguinte noticia: "Ano 1414 - Define-se que a


hostia deveria ser o único elemento a ser usado ñas missas, em
detrimento do pao usado pelo Senhor Jesús na última ceia bem como
pelos discípulos na Igreja Primitiva". - Afirmacáo aberrante, pois desde
os primeiros decenios se celebrou a S. Missa com pao ázimo como
usado pelo Senhor Jesús. A hostia nao é senáo pao ázimo.

10) Á p.16 está dito: "1215 - Aparece pela primeira vez o dogma
da transubstanciacáo e já transformado em artigo de fé". - Talvez
A.D.S. nem saiba o que é transubstanciacáo; na verdade,
"transubstanciacáo" é a palavra que exprime em linguagem técnica o
que o Senhor Jesús ensina no Evangelho, ao declarar que o pao
consagrado é seu corpo, e o vinho consagrado é seu sangue. Portanto
o conceito de transubstanciacáo é bíblico e nao se tornou artigo de fé
táo somente em 1215.

11) A p.13 está escrito: "Ano 819 - Pela primeira vez... encontra
se o registro da observancia á festa da Assuncáo de Maria. Isto é,
admitia-se oficialmente que Maria tinha subido ao céu em forma

177
34"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

TV P- 1? 'é"Se: "An01950 " A ¡9reia transforma em


de fe a assuncáo de Maria". - É falso dizer que em 819 já se
celebrava a festa da Assuncáo de Maria. ■

12) A p. 17 encontra-se: "Ano 1573 - A Biblia sofre outro ataque


da chamada Igreja Católica; acrescenta-lhe os livros deute-
rocanonicos, ou, como sao mais conhecidos, apócrifos" - Os
deuterocanónicos (Tobías, Judite, Baruque, Sabedoria, Eclesiástico
1/2Macabeus) já se encontravam na Biblia desde os primeiros séculos'
como dito, em 393 o Concilio de Hipona definiu-os como livros
canónicos; Lutero nao os aceitou, embora os tenha traduzido para o
alemáo. Em 1573... o autor parece querer aludir erróneamente ao
Concilio de Trento, que em 1546 definiu o canon bíblico como era
professado desde remotas épocas, inclusive pelo Concilio de Hipona.

13) A p. 12 tem-se: "Ano 197 - Comeca um movimento herético,


comandado pelo Bispo de Roma contra a Divindade de Jesús". - Que
heresia é essa? Que Bispo de Roma a comandou? - O autor nao
saberia responder, porque o que ele alega é falso.

"Ano 217 - A heresia toma mais corpo ainda, desta feita sob a
lideranca de um novo Bispo chamado Calixto, trazendo ainda mais
confusáo á combalida Igreja". - Como tomou corpo a heresia ficticia?
Que heresia é essa? Vale a pena tornar a perguntar.

14) A p.13 está escrito: "Ano 600... o Iatim passa a ser usado
como língua oficial ñas cerimónias religiosas". - A.D.S. nao sabe que
o Iatim era a língua usual dos povos ocidentais nos séculos VI/VII? Em
que língua se deveria celebrar a liturgia senáo na língua comum aos
homens da época? Ademáis era usual na Liturgia muito antes de 600.
15) A p.14 se lé: "Ano 998... cria-se o dogma da Quaresma". -
A.D.S. parece nao saber o que é dogma e o que é Quaresma. Dogma
é úm artigo de fé; Quaresma é o tempo litúrgico de preparacáq da
Páscoa. Ora a Quaresma nao pode ser um dogma ou um artigo de fé;
é urna época do ano litúrgico.

16) A p. 14 está dito: "Ano 1000 - É estabelecido definitivamente


o canon da Missa". - A.D.S. sabe o que é o Canon da Missa? - É a
Oracáo Consecratória do pao e do vinho. Esta nunca foi única; havia
outrora o Canon Romano, o Canon Milanés, o Canon Visigodo, o
Canon de S. Joáo Crisóstomo, o Canon de S. Basilio, o Canon
Melquita..., todos muito anteriores ao ano 1000.

178
"CATOLICISMO: VERDADE OU MENTlRAr 35

17) A p. 14 está escrito: "Ano 1074 - O Papa Gregorio Vil proibe


o casamento dos padres; no ano seguinte decreta que todos os padres
já casados deveriam divorciar-se de suas esposas compulsoriamente"
- A palavra "divorciar-se "nao tem cabimento, pois nao havia
casamento de padres no Ocidente, mas unióes ilegítimas ou
concubinárias. Ademáis o celibato do clero data dos primeiros sáculos
da Igreja; é praxe já vigente no tempo do Concilio de Elvira (305
aproximadamente).

18) Á p.15 está dito: "Ano 1095 - O Papa estabelece as


indulgencias plenárias. Quando o fiel, através de urna quantia
estabelecida pelo clero, teria o perdáo de seus pecados por um
período pré-determinado". - Há confusáo ai entre varios elementos:
as indulgencias nunca foram o perdáo dos pecados, mas sim a
re mis sao de penitencia devida a pecados já perdoados. Nao se
vendiam indulgencias, mas fazia-se urna obra boa para ganhar
indulgencia (obra boa que, entre outras, podia ser urna esmola). Nunca
houve perdió de pecados por um período pré-determinado; O perdáo
de Deus é definitivo.

19) Lé-se: "Ano 1186 - Neste ano surgiu a... mal fadada Santa
Inquisicáo. Quantos males trouxe ao povo de Deus!". - O autor talvez
ignore que Joáo Calvino, um dos reformadores, estabeleceu cruel
regime de Inquisicáo em Genebra no século XVI - o que nos leva a
dizer: "Quem tem telhado de vidro, nao atire pedra no telhado do
vizinho". Sem dúvida, a Inquisicáo de Calvino nao teve as proporcóes
da Inquisicáo Medieval e Ibérica, mas importa salientar que o
protestantismo nao está isento de urna "mal fadada Inquisicáo". - De
resto, nao podemos julgar acontecimentos de séculos passados sem
levar em conta os parámetros da cultura da época ou sem considerar
o que os antigos tinham na conta de valores e desvalores.

20) A p.15 lé-se: "Ano 1160 - O Papa estabelece como dogma e


regra de fé os sete sacramentos". Mas á p.17 está escrito: "Ano 1547
- O concilio de Trento transforma em lei os sete sacramentos". - Afinal
qual a data certa de ¡ntroducao dos sete sacramentos na praxe da
Igreja, segundo A.D.S.? Será 1160 ou 1547?

21) Ap.16 afirma-se: "Ano 1229 - Realiza-se o Concilio de Tolosa,


e proibe-se aos leigos a leitura da Biblia". - A alegacáo é inexata. O
que houve, é propriamente o seguinte: na Idade Media apareceram
correntes dualistas e heréticas que se valiam da Biblia para apoiar
suas concepcóes erróneas. Tal foi, por exemplo, o caso dos cataros,
avessos á materia como se esta fosse, por si mesma, má. Em
conseqüéncia, o Concilio regional de Tolosa (Franca) em 1229 proibiu

179
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

o uso de traducóes vernáculas da Biblia; esta disposicáo foi revogada


pelo Concilio de Tarragona (Espanha) em 1233. O povo simples
outrora, como hoje, podia-se deixar levar por falsas interpretacóes
da Biblia lida em vernáculo.

Estas poucas reflexóes bastam para evidenciar quanto sao falsos


e injustos ou caluniosos os ataques do protestantismo á Igreja Católica;
tais acusacóes mostram o baixo nivel cultural da teología de certos
arautos do protestantismo, que pretendem ser doutores da verdade.
- Já o linguajar portugués de seus libelos depóe contra os respectivos
autores. No libelo de A.D.S. podem-se indicar os seguintes erros, que
parecem nao ser falhas meramente tipográficas:

pp. 42 e 62: ressussitou ... á respeito

43: "muito bonito, mais deve ser rejeitado..."

58: adimira

62: crucifixado

23: pretencáo

47: Ts; trata-se de 1Ts ou 2Ts?

60: "Thomás de Aquino. A respeito dessa autoridade


afirmou que, os Papas Bento XV e Pió XI, disseram que a sua doutrina
é a própria doutrina da Igreja". - Onde fica a sintaxe? Que significa
esta frase?

61: "encíclica Fausto Epetente Die de 29 de junho de


1921". - Citacáo indefinida ou nao identificável.

3. E AS INOVAQÓES PROTESTANTES?

Em réplica, pode-se apontar o catálogo de centenas de


denominacóes protestantes que nao existiam no tempo de Cristo e
dos Apostólos e que nao tém seu nome registrado na Biblia. Sao,
portante, inovacóes (estas sim!), que deturpam e depauperam cada
vez mais o Cristianismo através dos quatro últimos séculos. Quanto
mais o subjetivismo arbitrario, decorrente do livre exame, impera no
protestantismo, tanto mais se dilui o Credo, a ponto de algumas
denominacóes já nao aceitarem a Divindade de Jesús Cristo e o

180
"CATOLICISMO: VERDADE OU MENTIRA7' 37

misterio da SS. Trindade. Eis algumas das múltiplas denominacóes


protestantes com a sua data de origem e o nome do respectivo
fundador:

DENOMINAgÁO FUNDADOR DATA LOCAL

CATÓLICA JESÚS CRISTO 30 PALESTINA

Luterana Mart'nho Lutero 1517 Alemanha


Episcopal (ou Anglicana) HenriqueVIll 1534 Inglaterra
Reformada (Calvinista) Joáo Catvino 1541 Genebra (Sufca)
Menonita Menno Simons 1550 Holanda
Presbiteriana John Knox 1567 Escocia
Congregacional Robert Browne 1580 Inglaterra
Batista John Smyth 1604 Holanda
Quaker John Fox 1649 Estados Unidos
Metodista JohnWesley 1739 Inglaterra
Mómncn Joseph Smith 1830 Estados Unidos
Adventista WíBamMiler 1831 Estados Unidos
Exército da Salvacio William e Catarina Booth 1865 Inglaterra
Ciencia Crista Mary Baker 1875 Estados Unidos
Pentecostais Charles Parham e discípulos 1900 Estados Unidos
Testemunhas de Jeová Charles-Taze Russel 1916 Estados Unidos
Amigos do Homem Alexandre Freytag 1920 Suíca
Igreja Universal do
Reino de Deus Edir M acedo 1976 Rio de Janeiro

CORRESPONDENCIA MIÚDA
"Depois de anos participei - e nao somente assisti - de urna Missa.
Há dez anos nao me confessava, mas mesmo assim comunguei. Foi pe
cado?". S. L. O. (Rio).

- Meu caro amigo, para recebera ComunhSo Eucarística, requer-se o es


tado de graga ou a ausencia de qualquer pecado mortal (pecado mortal é o que
se comete em mataría grave de maneira consciente e voluntaria). Se em dez
anos vocé nunca pecou mortaimente (por exemplo, se nunca faltou á Missa
dominical a nao ser em casos de doenga sería ou de ponderoso impedimento),
podía comungarsem se confessar. Mas, se vocé tinha um único pecado grave
que fosse, nao podía comungar sem se reconciliar previamente mediante o
sacramento da Penitencia. Este nño obliga a quem neo tenha pecados moríais,
mas é a via necessáría para a remissSo dos pecados moríais ou graves.
181
Um Manual de Catequese:

'A QUEM IREMOS?"

por Evaldo Alves D'Assumpcio

Em sfntese: O livro do Dr. Evaldo A. D'AssumpgSo apresenta-se


como um manual de doutrína da fé, em varios pontos, válido, mas deficiente
no tocante á antropología e á escatologia ( doutrína dos últimos fíns),
chegando mesmo a destoar do ensinamento oficial da Igreja. Com afeito;
concebe o ser humano como um composto de corpo, alma e espirito
inseparáveis entre si; em conseqüéncia, quando o homem morre,
ressuscüa ¡mediatamente, visto que nSo pode existir alma separada do
corpo, segundo tal concepgSo. - A Igreja rejeita este modo de pensar,
añrmando que a ressurreigio se dará no fím dos tempos; entre a morte
do homem e a consumagSo da historia, a alma permanece separada do
corpo; é o que se deduz de textos da Escritura Sagrada como Jo 6,44;
1Cor 15,23; 1Ts 4,16; 2Cor 5,2-4, como também do ensinamento de
toda a TradigSo Cristi. Nesta perspectiva o homem se compóe de corpo
material e alma espiritual, que se separam um do outro na hora da
morte, sendo a alma dotada deimortalidade e capacidade de sobreviver
sem corpo, até o dia do juízo final, quando se dará a ressurreigSo da
carne.

* * *

O Dr. Evaldo Alves D'Assumpcáo é cirurgiáo plástico, membro da


Academia Mineira de Medicina, católico fervoroso, que houve por bem
iniciar em 1993 um "Curso Básico de Religiáo Católica para Adultos". As
apostilas desse Curso, transformadas em livro, sao entregues ao público
sob o título ácima1, é preciso reconhecer as benemerencias da obra e o
zelo do autor em difundir a doutrína católica, embora ele mesmo diga
que "nao se julga profundo entendedor do assunto, mas alguém que
estuda bastante a sua religiáo" (p. 14).

O livro tem suas falhas, de certo modo graves, quando trata da


antropología e da escatologia ou quando aborda o conceito de homem e
a doutrína atinente aos últimos fins. Examinemos de perto estes dois
pontos.

1 A Quem Iremos?, por Evaldo Alves D'AssumpgSo. - Ed. Vozes, Petrópolis 1994.
130x200 mm, 252 pp.

182
"AQUEM IREMOSr 39

1. ANTROPOLOGÍA

1.1. O que o livro diz

O Dr. Evaldo professa existirem no ser humano tres substancias-


corpo, alma e espirito. Sao tres partes inseparáveis entre si:

"O homem, a exemplo de Deus, por quem fot criado á sua imagem
e semelhanga, tem urna estrutura também trinitaria e inseparável Ou
seja, o homem é corpo, alma ípsyché = mente) e espirito (pneumaj.
Essas tres partes sao substancias na defínigSo aristotélica... Nao pode
haveralma, nem espirito, nem corpo existindo de forma independente
e ¡solada" (p. 229).

O autor alude á doutrina de S. Tomás de Aquino como se fosse


favo ráve I a seu modo de pensar, dizendo:

"Tomando textualmente Tomás de Aquino em sua Summa


Theologiae: 'O homem nao é apenas alma, mas um conjunto que
resulta composto de alma e corpo'. Portanto nao existe urna separagao
entre corpo e alma, mas ambos constituem juntos a realidade que é o
homem" (p. 228).

A propósito vale observar:

- S. Tomás nao fala de tres elementos constitutivos do ser


humano, mas apenas de corpo e alma;

- o fato de ser um composto de corpo e alma nao fundamenta a


ilacáo: "Portanto nao existe separacáo".

O autor parece admitir urna preexistencia do ser humano anterior


á conceicáo no seio materno. As suas palavras sao obscuras e um
tanto incoerentes:

"Quando fomos fecundados,... viemos de urna súbita existencia


no pensamento de Deus... Durante nossa existencia, vivenciamos a
realidade divina em sua plenitude. E experienciamos, aínda que num
flash, a suprema e total felicidade de estar em Deus. Essa experiencia
nos marcou indelevelmente, e com ela fomos inseridos no espago-
tempo para iniciar nossa trajetória nesta vida" (p. 231).

Segundo estes dizeres, entramos na vida presente (espaco-


tempo) já tendo feito a experiencia da realidade divina. E é esta
experiencia que nos faz procurar a felicidade durante toda a nossa

183
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

caminhada terrestre. As mesmas idéias ocorrem em outra passagem


obscura:

"Ao sermos criados, tivemos urna experiencia 'momentánea' da


plena felicidade que existe em Deus. Isso ocorreu quando ele nos
pensou antes de tomarmos vida pela uniao do espermatozoide com o
óvulo. Vivendo por um instante 'no pensamento' de Deus,
experimentamos a felicidade perfeita e é porisso mesmo que passamos
toda a nossa vida terrestre tentando ser felizes. Sabemos que a
felicidade total existe e queremos reencontrá-la" (pp. 234s).

O texto é confuso a mais de um título:

- ao "pensar-nos" ou ao conceber-nos em seu pensamento, Deus


nos terá criado. - Isto é falso; Deus nos concebeu desde toda a
eternidade, mas tirou-nos do nada ou criou-nos no tempo;

- quem é o sujeito que gozou de felicidade plena em Deus antes


de tomar vida pela uniáo do espermatozoide com o óvulo? - O autor
nos diz que corpo, alma e espirito sao inseparáveis entre si; segue-
se daí que, já antes da conceicáo no seio materno, nos existíamos
em nosso corpo?

- tomamos vida pela uniáo de espermatozoide e óvulo... Antes


dessa uniáo, nao tínhamos vida? Ou, se tínhamos vida para
experimentar a felicidade de Deus, que vida era essa?

1.2. A Doutrina da Igreja

A Igreja professa com S. Tomás de Aquino a existencia de duas


substancias incompletas no ser humano: corpo (materia) e alma
(espirito). Elas se unem entre si como materia e forma (no sentido
aristotélico), de modo a vir a ser urna só substancia. Nao há lugar
para um terceiro componente do homem na doutrina do hilemorfismo
(materia e forma). A alma humana é espiritual e, como principio vital
único, preenche todas as funcóes vitáis do ser humano: vegetativas,
sensitivas e intelectivas.

Sendo forma do corpo, a alma humana é criada por Deus no


momento da fecundacáo do óvulo pelo espermatozoide, e é infundida
diretamente no novo ser. Portanto nao preexiste; nem tem experiencia
previa de felicidade. O que há na alma humana, é a tendencia natural
para o bem e o Bem Infinito, tendencia que a leva a aspirar sempre á
felicidade plena ou ao Bem como tal, sem restricóes.

184
"AQUEM IREMOS?" 41

A doutrina assim concebida nao pode ser tachada de dualismo.


Este implica distincáo e oposicao entre dois elementos, como ocorre
no maniqueísmo, que julga ser a materia má ontologicamente ou por
si mesma e o espirito bom por si mesmo. O dualismo nao é cristáo.
Mas, para evitar o dualismo, nao é necessário cair no monismo,
que professa a identidade entre dois ou mais elementos. Entre
dualismo e monismo existe a dualidade, que implica distincáo, sem
oposicáo, entre dois termos, como sao, por exemplo, homem e mulher.
E portanto falso dizer que a distincáo e, conseqüentemente, a
separabilidade de corpo e alma vém a ser dualismo,... o dualismo de
Platáo e dos órficos gregos; Aristóteles, o principe dos filósofos gregos,
distingue entre materia e forma (corpo e alma) sem cair no dualismo.

A Congregacáo para a Doutrina da Fé, órgáo da Santa Sé


encarregadó das questóes de fé, publicou urna Instrucáo sobre
Questóes de Escatologia, na qual formula as seguintes proposicóes:

3) A Igreja afirma a sobrevivencia é a subsistencia, depois da


morte, de um elemento espiritual, dotado de consciéncia e de vontade,
de tal modo que o eu humano subsista, aínda que sem corpo. Para
designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra alma, consagrada
pelo uso que déla fazem a S. Escritura e a Tradigáo. Sem ignorar que
este termo é tomado na Biblia em diversos sentidos, Ela julga, nao
obstante, que nao existe qualquer razao sería para o rejeitar, e
considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento
verbal para sustentar a fé dos crístáos

5) A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a


gloriosa manifestagáo de Nosso Senhor Jesús Cristo (cf. Constituigao
Dei Verbum 14), que Ela considera como distinta e diferida em relagao
áquela condigno própria do homem imediatamente após a morte.

6) A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem


após a morte, excluí qualquer explicagáo que tire o sentido á Assungáo
de Nossa Senhora naquilo que ela tem de único, ou seja, o fato de
ser a glorifícagao corporal da Virgem Santíssima urna antecipagáo da
glorifícagao que está destinada a todos os outros eleitos".

Como vemos, o texto oficial da Santa Sé só reconhece, no ser


humano, corpo e alma e afirma a subsistencia, após a morte, de um
núcleo da personalidade chamado alma, que existirá, separada do
corpo, até o momento da ressurreicáo da carne no fim dos tempos.

185
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

As considerares até aqui propostas evidenciam que, sem nocóes


claras de Filosofía, nao se consegue elaborar urna antropología válida
e correta.

Passemos agora á
2. ESCATOLOGIA

1) O Dr. Evaldo afirma que, na hora da morte, "manteremos nossa


unidade de corpo, alma e espirito, que sao inseparáveís, e sao
transformados em realídade espiritual" (cf. p.91)\

Parece admitir que, no momento de morrer, a pessoa "toma a


última e mais importante decisáo de sua existencia: voltar ao Criador
ou recusá-lo radicalmente" (cf. p.233).

-A propósito, já vimos que a alegada trilogía e a inseparabilidade


dos tres elementos sao insustentáveis aos olhos da doutrina da Igreja
e da sá Filosofía. A morte é, precisamente, a separacio da alma, que
deixa o corpo desgastado, para viver a sua vida ¡mortal. Quañto á
tomada de decisáo mais importante na hora da morte, é um postulado
gratuito. Sabemos, sim, que muitas pessoas morrem esclerosadas ou
inconscientes, incapazes de raciocinar, de modo que é antinatural ou
paradoxal pleitear que facam um ato decisorio plenamente lúcido e
de importancia máxima naquele momento. A pessoa se decide por
Deus ou contra Deus enquanto goza da lucidez de sua mente e do
bom uso de suas faculdades mentáis; nao há por que postular um ato
de clarividencia superior aos anteriores precisamente quando a
pessoa está moribunda ou inconsciente.

2) Quanto ao purgatorio, o autor parece duvidar da existencia do


mesmo, depois de afirmar que existe e constituí um dogma de fé na

1 Assaz confuso é o texto da p. 240:


"Resta esclarecer nossa ressurreigéo após a morte. Dissemos que o ser huma
no é composto de corpo, mente e espirito inseparáveis. Conseqüentemente, quando
morrermos. nao ocorrerá qualquer separagáo. mas. enquanto nosso corpo material
irá decompor-se e as suas moléculas serao devolvidas ao mundo material ao qual
pertencem, sua esséncia será transformada em corpo espiritual (1Cor 15,44)".
Pergunta-se: afínal que é a "esséncia do corpo materiar? A Filosofía ensina
que esséncia é aquele principio intrínseco que faz alguma coisa ser o que ela 6. As
moléculas, que sao "devolvidas ao mundo material", nao sSo partes constitutivas do
corpo humano e essenciais a ele?
De resto, 'corpo espiritual", conforme SSo Paulo em 1Cor 15.44. é o corpo
material do homem (nao há corpo que nao saja material), transfigurado, porém. ou
tornado glorioso, porque transparente para a graca do Espirito Santo, que habita ñas
almas dos justos.

186
"AQUEM IREMOS?" 43

base de 2Mc 12,43-46 e 1Cor 3,10-15, assim como por definicáo do


Concilio de Trento. Eis as palavras do Dr. Evaldo:

"Se existe (o purgatorio) e como será, somente iremos descobrír


depois de nossa passagem pelos umbrais da morte" (p.239).

Na verdade, o purgatorio é objeto de artigo de fé, como afirma o


Catecismo da Igreja Católica:

"Aqueles que morrem na graga e na amizade de Deus, mas nao


estao completamente purificados, embora tenham garantida a sua
salvagáo eterna, passam, após a sua morte, por urna purificagao, a
fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegría do
Céu" (§ 1030).

"A Igreja denomina Purgatorio esta purificagao final dos eleitos,


que é completamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja
formulou a doutrina da fé relativa ao Purgatorio sobretudo nos
Concilios de Florenga e de Trento".

3) Um sofisma grave é afirmar que pela morte passamos do tempo


para a eternidade:

"Pela morte sairemos do tempo e, fora dele, nSo existirá passado


ou futuro, mas somente o continuo presente que denominamos
eternidade" (p. 239).

O sofisma consiste em confundir vida ¡mortal (sem fim) e vida


eterna. Com efeito, distingamos tres tipos de duracáo:

- tempo: duracáo que tem comeco e fim, própria das criaturas


corpóreas;

- eternidade: nao tem comeco nem fim; exclusiva de Deus;

- evo: duracáo dos que tiveram comeco, mas nao teráo fim,
própria dos anjos e da alma humana, que sao criaturas ¡moríais.

O evo nao se avalia pela sucessáo de dias e noites, mas também


nao consiste na posse simultánea de toda a sua existencia, pois supde
comeco e vir-a-ser; quem comeca, é essencialmente sujeito á
sucessáo continua de atos. Assim a alma humana, ao deixar o corpo,
nao recupera a parte de sua existencia que já passou, mas continua
a existir olhando para o seu futuro e exercendo urna serie de atos de
conhecimento e de vontade. É esta duracáo que se chama evo ou
tempo psicológico. É despropositado dizer que alguém, ao morrer
em 1996, já presenciará o juízo final, ao qual compareceráo criaturas
que aínda nao nasceram.

187
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

4) Dentro das concepcóes até aquí apresentadas, a ressurreicáo


ocorrerá no fim dos tempos, e nao logo depois da merte. Esta última
senten9a contradiz claros textos bíblicos como

Jo 6,44: "Eu o ressuscitarei no último día", diz o Senhor;

1Cor 15,23: "Cada um ressuscitará em sua ordem: como


primicias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasiao
da sua vinda".

1Ts 4,16: "Quando o Senhor, ao sinal dado, á voz do arcanjo e


ao som da trombeta divina, descer do céu, entáo os mortos em
Cristo ressuscitaráo primeiro".

2Cor 5,2-4: "Gememos pelo desejo ardente de revestir por cima


da nossa morada terrestre a nossa habitacáo celeste - o que será
possível se formos encontrados vestidos e nao ñus. Pois nos, que
estamos nesta tenda, gememos acabrunhados, porque nao queremos
ser despojados da nossa veste, mas revestir a outra por cima desta,
a fim de que o que é mortal seja absorvido pela vida".'

A Igreja, fiel a estes textos bíblicos, professa a ressurreicáo no


fim dos tempos, como se depreende da Instrucáo da Congregacáo
para a Doutrina da Fé atrás citada:

"5) A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a


gloriosa manifestagáo de Nosso Senhor Jesús Cristo (cf. Constituigáo
Dei Verbum 14), que Ela considera como distinta e diferida em relagao
áquela condigáo própria do homem ¡mediatamente após a morte.

6) A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem


após a morte, exclui qualquer explicagao que tire o sentido á Assungáo
de Nossa Senhora naquilo que ela tem de único, ou seja, o fato de
ser a glorífícagáo corporal da Virgem Santissima urna antecipagao da
glorífícagáo que está destinada a todos os outros eleitos".

5) No tocante a Maria SS., o Dr. Evaldo também é ambiguo. Afirma


que "María nao passou pela morte como todos os seres humanos
passaráo". Doutro lado, porém, diz que "Maria 'dormiu' (existe em
Jerusalém a 'igreja da Dormicáo1 no local onde o seu corpo terá sido

1 Sao Paulo compara o corpo humano a urna veste. Diz que, por ocasiao da segunda
vinda de Cristo, poderemos ser encontrados sem tal veste ou "ñus", isto é, alma sem
corpo, pois a ressurreigáo da carne se dará quando Cristo voltar. Apenas os que
estiverem vivos naquele dia, teráo o privilegio de escapar da morte, sendo entáo
diretamente glorificado o seu corpo. Ver 1Ts 4,16; 1Cor 15.51.

188
"AQUEM IREMOS?" 45

depositado e ¡mediatamente assumido ao céu" (p. 24). Pergunta-se:


que significa a "deposicáo" do corpo de María? Que significa "a
dormicáo" de María? - Sao expressóes estas que indicam morte. Alias,
a sentenca mais comum e tradicional da Teologia ensina que María
morreu ("adormeceu") e foi sepultada (pois em Jerusalém se mostra a
sepultura de María).

6) O Or. Evaldo parece dar crédito as "revelacóes" feitas por


pessoas que estiveram em coma e voltaram á consciéncia lúcida.
Descreveram o além, como dáo a entender os seus depoimentos. Eis
as palavras do Dr. Evaldo:

"Através de experiencias narradas por pessoas que tiveram o que


chamamos 'morte clínica', tendo sido reanimadas depois de urna
parada cardíaca, podemos delinear urna tenue imagem do que
viveremos no momento decisivo. ...A pessoa vivencia coisas que sao
urna pálida amostra do que vivera um día de forma definitiva" (p.236).

Ora tais "revelacóes" apresentam o além como um parque, ao


qual se chega mediante um túnel; lá se encontram familiares e
amigos... numa edicáo melhorada e ampliada do que aquí ocorre. Por
certo, tais relatos sao mera projecáo da fantasía humana, sem
correspondente no além; na outra vida nao haverá lugares, espacos,
jardins, parques..., mas sim o encontró face-a-face com Deus, que é
Puro Espirito e será contemplado com os olhos da mente e nao com
os olhos da carne.

Sabemos como é difícil falar dos últimos, fins, a respeito dos quais
a Revelacáo Divina é sobria e dos quais nenhum vívente na térra tem
experiencia direta. Por isto é oportuno que o cristáo nao se entregue
a hipóteses e contenha sua imaginacáo a propósito, aguardando o
día do encontró definitivo com "Aquele que o olho nao viu, o ouvido
nao ouviu, o coracáo do homem jamáis percebeu" (1Cor 2,9).

Sao estas algumas considerares que a leitura da obra do Dr.


Evaldo Alves D'Assumpcáo sugere. O livro é válido em alguns pontos,
sem dúvída, mas apresenta-se gravemente falho em capítulos
importantes, porque se ressente da falta de conceitos claros e de
linguagem concatenada; pretende remover concepcóes antigás, que
o autor caricatura, para propor outras mais recentes, mas
inconsistentes (ver principalmente pp. 227s). - É indispensável rever
a obra á luz do Catecismo da Igreja Católica; após a publícacáo do
Catecismo, já nao há como hesitar em questóes de fé e de Moral; nao
se constitua um "magisterio paralelo".

189
LIVROS EM ESTANTE

Jovens em Renovaglo, por Aliño J. Pedrini S.C.J. - Ed. Loyola,


Sao Paulo 1993, 140 x 210 mm, 160 pp.

O autor tem-se dedicado á Pastoral da Juventude e, como fruto


de seus trabalhos, vem publicando livros, dos quais o presente é dos
mais representativos; trata da espiritualidade, da afetividade e da
sexualidade dosjovens. Tal obra apresenta muitos elementos valiosos,
oríentagáo e aconselhamento úteis. Todavía nos capítulos 9 e 10, ao
abordar a sexualidade do e da jovem, propoe algo que foge és
diretrizes da Moral católica. Com efeito, quando considera a
sexualidade masculina, o autor distingue entre masturbagao e
ejacuiagáo. Aqueta seria pecado grave, desde que cometida consciente
e voluntariamente por mero prazer. Ao contrario, a ejaculagáo sería
um ato meramente biológico, provocado pela própria natureza
humana, que precisa de eliminar o excesso de material sexual
(espermatozoides); nao seria pecaminosa, mesmo quando a pessoa
colaborasse para que houvesse ejacuiagáo. - Tal sentenga é muito
ambigua: está claro que a coiaboragao inconsciente ou involuntaria
com os pensamentos e desejos eróticos nao é pecaminosa,
precisamente por que nao consciente e voluntaria; todavía, se é
consciente e voluntaría, a coiaboragao se torna pecaminosa, pois leva
a produzirum ato narcísico ou de retorno do individuo sobre si mesmo;
pode-se dizer que, se há coiaboragao, jé nao há simples ejacuiagáo
biológica, mas há masturbagao. Quem, alias, pretende legitimar a
coiaboragao consciente e voluntaria com os pensamentos e afetos de
auto-erotismo ou de narcisismo, está abrindo o caminho para a
masturbagao como hábito, que deturpa e escraviza a pessoa humana.
Qualquer concessáo feita aos afetos desregrados, é urna brecha
incutida á castidade, que póe em perígo a castidade mesma do jovem.

A S. Igreja, mediante a Congregagáo para a Doutrína da Fé,


publicou a propósito a Declaragáo Persona Humana: afirma a
iliceidade de qualquer tipo de auto-erotismo, sem admitir o caso que
Aliño Pedrini propde como legítimo:

"Com freqüéncia hoje póe-se em dúvida ou negase expres-


samente a doutrína tradicional católica segundo a qual a masturbagao
constituí urna grave desordem moral. A psicología e a sociología, diz-
se, demonstram que, sobretudo entre os jovens, ela é um fenómeno

190
LIVROS EM ESTANTE 47

normal da evolugao da sexualidade. Nisso nao haveria falta real e


grave senao na medida em que o sujeito cedesse deliberadamente a
urna auto-satisfagáo fechada sobre si mesma ... porque entáo nesse
caso o ato seria radicalmente contrario á comunháo amorosa entre
duas pessoas de sexo diferente, sendo esta, como afirmam alguns,
aquilo que constituí o principal objetivo no uso da faculdade sexual.

Esta opiniáo contradiz a doutrína e a prática pastoral da Igreja


Católica. Se/a qual foro valor de certos argumentos de ordem biológica
ou filosófica de que se serviram algumas vezes os teólogos, de fato
tanto o magisterio da Igreja, na linha de urna tradigao constante,
quanto o sentir moral dos fiéis, afirmaram eem hesitagóes que a
masturbagao é um ato intrínseca e gravemente desordenado. A razáo
principal disso é a seguinte: qualquer que saja o motivo que o
determine, o uso deliberado da faculdade sexual fora das relagoes
conjugáis normáis contradiz essencialmente á sua finalidade. Falta-
Ihe, de fato, a relagáo sexual exigida pela ordem moral, aqueta relagáo
que realiza o sentido integral de urna doagao recíproca e da procriagao
humana, num contexto de auténtico amor" (n.9).

A mesma posigao firme é professada pelo Pe. Joao Mohana,


médico e escritor, em suas numerosas obras. A atitude pode parecer
rígida e severa demais; todavía é certamente um alvitre seguro, apto
a garantir a coeréncia de vida de um cristáo.

Do Jordáo á Betánia. Contemplando os misterios da Vida


Pública de Jesús, por Alvaro Barreiro S. J.. Colegáo "Experiencia
Inaciana" n° 18. - Ed. Loyola, Sao Paulo (SP) 1993, 135 x 210 mm,
229 pp. •

O autor apresenta ao público os frutos de suas pesquisas


científicas e meditagóes sobre a vida pública de Jesús desde a partida
de Nazaré e o Batismo no Jordáo (Contemplagáo n° 1) até a
Ressurreigáo de Lázaro (Contemplagáo n" 12). O Pe. Barreiro se
baseou em comentarios exegéticos importantes, deixando de lado
discussoes de ordem técnica para assumir tao somente os dados que
possam enriquecer a oragáo pessoal. A finalidade do livro é fomentar
a prática da espiritualidade inaciana com seu método de oragSo
próprio; todavía "muitas das pessoas interessadas em conhecer mais

191
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 407/1996

profundamente Jesús Cristo a partir dos Evangelhos poderao tirar


proveito, através de urna leitura orante dos misterios evangélicos aqui
apresentados" (p. 10); seriam, entre outros, "os participantes de um
Círculo Bíblico ou de urna Comunidade Eclesialde Base" como também
"um cristao de formagao universitaria" (p. 12). O conteúdo do livro é
realmente interessante, pois equivale a um comentario orante ou
contemplativo de Evangelho, que fácilmente suscita a oragño profunda
com seus quatro momentos: adoragao, agáo de gragas, expiagao e
súplica. O livro termina com longa lista de obras que podem ajudar o
leitora desenvolverá temática. O trabalho do Pe. Barreiro é certamente
útil aos cristaos e benemérito.

O Cristianismo e as Multidóes, por Donato Vaglio. Ed. PIME,


Centro de AnimagSo Missionária, Rúa Id Azem 43, Brooklin, 04707-
100, Sao Paulo (SP) 1995, 140 x 215 mm, 120 pp.

O livro se deve a um missionárío do Pontificio Instituto para as


Missoes Estrangeiras (PIME) e aborda os métodos de evangelizagao
dos povos. Julga que o Cristianismo é feito para as multiddes, nao
porém, para as massas; estas despersonalizam os seus componentes;
despersonalizados ou ignorados como pessoas individuáis, muitos
cristáos se afastam da Igreja, e os que estáo fora desta nao se deixam
atrairpela massificagáo. Daí a insistencia do autor sobre a necessidade
de urna pastoral que leve em conta cada fiel com suas necessidades
e expectativas. Para tanto requer-se um esforgo especial a fím de
multiplicar o número de sacerdotes, sem pensar em extinguir o celibato
sacerdotal; a multipiicagSo de ministros leigos nao parece ser solugao,
conforme o autor. O livro apresenta páginas muito interessantes sobre
a experiencia missionária e a historia da Igreja. A leitura é fácil e
agradável. Vem a ser um forte apelo á*renovagSo da pastoral e dos
métodos de evangelizagáo, levando em conta o anseio, hoje existente
em todos os coragóes humanos, de que cada individuo seja tratado
como tal ou como pessoa singular. Especialmente digno de nota é o
capítulo XI sobre "O Celibato nao tem Culpa", capítulo que faz bela
apología do celibato sacerdotal, que muitos questionam sem ter a
experiencia do mesmo, mas que muitos nao-católicos respeitam como
nítida expressáo da fé em Cristo e do amor a Deus e ao próximo.

E. B.

192
powa,
Cóntem: Nota histórica eteológica-Instru-
gáo "Immensae Caritatis" - Culto
Eucaristía» fora da Missa.
A - Ritos de distribuicáo da Comu-
nháo:
1. Durante a Missa; Fora da Mis
sa, sem Sacerdote (rito solene
e rito simples).
2. Em casa do enfermo (solene e
simples).
3. Sob a forma de Viático.
B- Investidura dos Ministros (com e
sem Missa).
C - ApresentagSo á Comunidade.
(9í edicáo) = R$ 4,80 D - Rito de delegado.
LITURGIA PARA O POVO DE DEUS, 4a ed. por D. Cario Fiore SDB e D. Hildebrando
É a Cons°?u1cao sobre a Liturgia (Sacrosanctum Concilium) explicada aos fiéis,
em todo o seu canteado (Principios gerais, AcSo Pastoral, o M.sténo da,Euca-
riSia os Sacramentos (com os seus ritos), o Oficio d.v.no o Ano l.turg.co a
Música e a Arte sacras), com breves questionários para estudo em Qrupos-
215págs
gao do dia, os diversos elementos da Li
ao longo do ciclo anual, Celebracáo comunitaria). -100 págs
Eucarísticas, com acréscimo das aclamares e novos ^ ^ ^
108 págs
Pedidos pelo Reembolso Postal.
EDIQÓES "LUMEN CHRISTl"
Mosteiro de SSo Bento - Caixa Postal 2666
20001-970 - Rio de Janeiro. RJ
Urna visita a igreja e ao claustro do Mosteiro

aosom

laneiro

Iivraria11 LUMEN CHRISTT


Dom Gerardo, 40 -5o andar
CxPostal: 2.666 Cep: 20090-030
Rio de Janeiro - RJ
MOSTEIRO DE SAO BENTO
ia.:(021)291-7122 Rio de Janeiro

R$ 65,00

E M VIDEO

RENOVÉ QUANTO ANTES SUA ASSINATURA DE PR.

RENOVACÁOOU NOVA ASSINATURA: 1996: R$ 25,00.


NÚMERO AVULSO R$ 2,50.