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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR


Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e
passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
Ano xxxvii Agosto 1996 411
O fim do Mundo ou Renovacáo do Mundo?

A Autenticidade dos Fragmentos de Qumran

Destino Existe?

"A Igreja de Jesús", por Rufino Velasco

Madre Teresa de Calcuttá: Vida e Obra

Congelamento de Seres Humanos

A Manipulacáo da Vida Humana


PERGUNTE E RESPONDEREMOS AGOST01996
Publicado Mensal N°411

Diretor Responsável SUMARIO


Estévao.Bettencourt OSB
Fim do Mundo ou
Autor e Redator de toda a materia
Renovacáo do Mundo? 337
publicada neste periódico
Muito se discute:
Diretor-Administrador: A Autenticldade dos Fragmentos
0. Hildebrando P. Martins OSB de Qumran 338

Slm ou Nao?
Administracáo e Distribuicáo: Destino Existe? 343
Edicoes "Lumen Christi" Erudito e questionador:
Rúa Dom Gerardo, 40-5° andar - sala 501 "A Igreja de Jesús",
Tel.: (021) 291-7122 por Rufino Velasco 351
Fax (021) 263-5679 A Grande Figura Femlnina de Nosso Século:
Madre Teresa de Calcuttá:
Vida e Obra 364
Endereco para Correspondencia:
Ed. "Lumen Christi" Sede de Imortalidade:
Caixa Postal 2666 Congelamento de Seres Humanos 372
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
Ciencia e Moral:
ImpressSo e Encademacffo A Manipulacáo da Vida Humana 383

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA


"MARQUES SAfíAIVA "
GRÁFICOS E EDITORES Lte/a. NO PRÓXIMO NÚMERO:
Tels.: (021) 273-9498 / 273-9447

"A Biblia. No Principio (Génesis)", porAndré Chouraqui. -Como é eleito o Papa? -"Por
que María chora?", por J.T.C. - O Dom Inefável", por Charles Chiniquy. - "Quem nao
pode transar, nao pode casar (réplica). -A DistribuicSo de Térras da Igreja. - Dignidade
da Procriac3o Humana em Xeque.

(PARA RENOVACÁO OU NOVA ASSINATURA: R$ 25,00).


(NÚMERO AVULSO R$ 2,50).

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tando no verso: "VÁLIDO SOMENTE PARA DEPÓSITO NA CONTA DO FAVORECIDO" e,
onde consta "Cód. da Ag. e o N° da C\C, anotar: 0229 -02011469-5.

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/6 (os
O FIM DO MUNDO OU RENOVAQÁO DO MUNl O? A:
m jj L
Pululam profecías relativas a catástrofes e flagelos que devem assolaro
mundo nos próximos anos em preparacáo do ano 2000, que deverá ser urna
data de fim da era atual da historia. Essas previsdes apavoram a quem Ihes dá
crédito. A multiplicidade das mesmas parece ser a expressáo de certo desáni
mo da sociedade contemporánea, que nao encontra nos recursos convenció-
nais a solucáo para os problemas que a afligem.

Bem diverso é o pensamento oficial da Igreja. O S. Padre Joáo Paulo II, em


sua Carta Apostólica sobre o Terceiro Milenio, considera com certo otimismo
este fim de século, que coincide com o Jubileu do nascimento de Cristo. O
Papa propoe a renovacao da vida dos fiéis mediante convicta e generosa respos-
ta aos apelos do Senhor: convers3o mais coerente e radical, oracao mais inten
sa háo de ser os exercícios marcantes destes anos. Jesús iniciou sua pregacSo
precisamente com as palavras: "Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está
próximo. Arrependei-vosecrede no Evangelho" (Me 1,15).

Joáo Paulo II deseja que o ano de 1997 seja dedicado a Cristo; será o ano
em que reavivaremos nossa consciéncia de batizados e fortaleceremos nossa
fidelidade ao Senhor, aprofundando a fé que a Igreja nos transmite. O ano de
1998 será dedicado ao Espirito Santo e ao sacramento da Crisma, que nos faz
adultos em Cristo. O ano de 1999 focalizará o Pai e promoverá a redescoberta
do sacramento da Penitencia, via de retomo Áquele que é o Alfa e o Ómega de
toda a historia. O ano de 2000 será o ano da Eucaristía, o sacramento da
unidade; Joáo Paulo II espera que naquela data, entre outros dons do Céu, se
verifique maior aproximacáo dos cristáos separados. - Tal é a atitude oficial da
Igreja diante da perspectiva do Jubileu do nascimento de Jesús; nos escritos do
Santo Padre nao se encontra urna palavra sobre profecías, calamidades, reino
milenar de Cristo... Ora convém aos fiéis católicos "sentir coma Igreja", cami-
nhar fielmente com a Igreja.

O Senhor Jesús recusou-se a revelar o dia e a hora do fim dos témpos; cf.
At 1,7. Muito sabiamente o fez, pois, para o cristáo, mais importante do que a
data da consumacáo dos séculos é a do seü encontró com Cristo no fim desta
caminhada terrestre. É urgente a preparacáo desse momento através de urna
conduta de vida pura e santa. O Evangelho insiste nessa preparacáo, como se
depreende das palavras de Cristo: "Vigiai. porque nao sabéis nem.o dia nem a
hora em que o Filho do homem há de vir" (Mt 25,13). Joáo Paulo II faz eco a esta
exortacáo:

"É necessárío suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade,


um forte desejo de conversSo e renovagSo pessoal, num clima de oragSo cada
vez mais intensa e de solidario acolhimento do próximo, especialmente do mais
necessitado" (Tertio Millennio Adveniente n°42).
E.B.

337
15

PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Ano XXXVII - N° 411 - Agosto de 1996

Muito se discute:

A AUTENCIDADE DOS
FRAGMENTOS DE QUMRAN

Em síntese: O Pe. Ignace de la Potterie S.J., professor emérito do


Pontificio Instituto Bíblico de Roma, examina criteriosamente os argu
mentos pro e contra a autenticidade de umpapiro descoberto em Qumran
(7Q5) e atribuido pelo papirólogo Pe. José O'Callaghan S.J ao Evange-
Iho segundo S. Marcos (Me 6,52s); deveria datar do ano 50 Tal tese
revolucionaria como é, tem suscitado calorosos debates. O Pe de la
Potterie concluí favoravelmente á autenticidade do fragmento, associan-
do-se a bons pesquisadores que julgam poder afirmar estar diante de
um anfíqüíssimo segmento de Marcos.
* * *

Em PR 321/1989, pp. 50-54 foi publicado um artigo que informa


sobre a descoberta de um papiro em Qumran (7Q5) Palestina, que o
papirólogo Pe. José O'Callaghan data do ano de 50 da era crista e iulga
ser portador de um fragmento do Evangelho de Marcos (Me 6, 52s). A
descoberta e sua interpretacáo agitaram e agitam o mundo dos dentis
tas e exegetas bíblicos, pois se trata de urna tese revolucionaría, que
tem implicacóes de vulto na reconstituicáo da origem dos Evangelhos
As idéias de O'Callaghan tém sido discutidas por adeptos e adversarios.
Recentemente o Pe. Ignace de la Potterie S.J., professor emérito do
Pontificio Instituto Bíblico de Roma, escreveu algumas páginas equili
bradas e sucintas a respeito, informando sobre o atual estado da ques-
táo. O artigo foi traduzido para o portugués e enviado á Redacáo de PR
pelo Pe. Paul-André Hébert S.J., professor em Recife (PE). A nossa re-
vista publica de bom grado a valiosa elucidacáo do Pe. de la Potterie e
agradece ao Pe. Hébert a gentil colaboracáo.
O PROBLEMA DA AUTENTICIDADE DOS
FRAGMENTOS DE QUMRAN
Há uns vinte anos, as descobertas de Qumran tém suscitado muito
¡nteresse e provocado mesmo fortes polémicas, sobretudo entre os
especialistas. A questáo foi colocada essencialmente a propósito do frag
mento 7Q5, onde se pensa ter descoberto o texto mais antigo do Evan
gelho de Marcos.

338
A AUTENTICIDADE DOS FRAGMENTOS DE QUMRAN 3

Em artigo precedente foi feita urna breve apresentacáo do conteú-


do das descobertas de Qumran. Resumiremos os dois pontos essenci-
ais. De acordó com a identificacáo proposta em 1972 pelo papirólogo
espanhol J.O'Callaghan, S.J., o fragmento 7Q5 (= o fragmento 5 da gru
ta 7) continha 2 versículos do Evangelho de Marcos (Me 6,52-53) e esse
texto nao poderia ter sido escrito após o ano 50 do primeiro século.

No fragmento 7Q4, ele propós ler duas passagens da primeira epís


tola a Timoteo (1Jm 3,16; 4,1.3), datadas também do ano 50. Esta se
gunda identificacáo, no inicio, atraiu menos atencáo que aquela de 7Q5,
mas ela foi apresentada novamente com insistencia por Carsten Peter
Thiede, professor de papirologia de Paderborn, que, durante muitos
anos, se mostrou favorável as identificacóes propostas por O'Callaghan.
Ele é o mesmo professor que, no ano de 1995, provocou novamente um
certo espanto quando fez conhecer o resultado de urna investigacáo
paralela apresentada em Oxford, sobre a data de um antigo papiro con-
tendo urna passagem de Mateus (16,22).1 Segundo a nova datacáo que
ele propós, o papiro deve ser do primeiro século e até anterior á guerra
judaica de 70. Porém, nos queremos concentrar aqui toda nossa aten
cáo sobre os fragmentos de Qumran. Vamos procurar responder á se-
guinte questáo:

QUAIS SAO OS ARGUMENTOS "PRO" E


"CONTRA" A AUTENTICIDADE?

É preciso aqui ser muito preciso e nao misturar os problemas, como


se fez tantas vezes. Cada questáo deve ser tratada segundo um método
apropriado. A questáo da "autenticidade" apresenta-se sob dois aspec
tos diferentes: o primeiro é aquele da datacáo dos fragmentos; o segun
do é o da identificacáo dos textos. Dito de outra maneira:

a) Por que será que o fragmento 7Q5, materialmente falando, nao


pode ser posterior ao ano 50?

b) Será com certeza que o texto escrito sobre o fragmento é mesmo


o de Me 6.52-53?

A estas duas questóes se junta urna terceira:

c) Se for admitida a autenticidade (nos dois sentidos que acabamos


de ver),quais as conseqüéncias para a origem dos Evangelhos e para o
seu valor histórico? .

- Examinemos primeiro, e por si mesmo, o problema da datacáo


material do fragmento (independentemente da atribuicáo eventual do
texto a Marcos). É evidente que os únicos especialistas competentes
sao os papirólogos; nao devem, nesse estágio, intervir os exegetas, como

1 VerPR 398/1995, pp. 290-294 (N.D.R.).

339
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

iTr
er ee aa SFoíZlS"1 Uma T*suas
datar os textos segundo que teorías,
eleS nomaime^
o que nao ■*> tentados Oa
é científico
r?etod° q-ue Permi<e datar um fragmento como 7Q5 é o da
papirologia, isto e, o estudo da escrita utilizada no fragmento, compara
da com aqueles outros escritos antígos que podem ser datados com
certeza. Ass.m, muitos papirólogos de renome tém manifestado a sua
posicao: para a Austria, H. Hunger; para a Alemanha, C.P. Thiede Qá
atado); para a Italia. S.Daris e O. Montevechi (esta é hoje presidente
honoraria da Associacao Internacional dos Papirólogos); a resposta de-
mLefnUHan4n! em fav2r da data9á0 Pr°P°s«a Por O'Callaghan: o frag
mento de 7Q5 nao pode ter sido escrito depois do ano 50 do primeiro
seculo. O argumento é que o tipo da escrita do fragmento pertence ao
que eles cnamam o 'Zierstil": (o estilo ornamental). Alguns objetam (mas
de novo sao os exegetas, que nao tém competencia paleográfica, e que
procuram defender a teoría habitual da datacáo tardia dos Evangelhos)
que este tipo de escritura esteve em uso muito tempo depois do ano 50
e que 7Q5 podería entáo datar mesmp do fim do I século. A esta afirma-
cáo o papirólogo Thiede respondéjquejsto está totalmente excluido: em
68, a comunidade foi dispersa pelos Romanos (pela Xa Legio Fretensis),
comandados por Vespasiano; em 70, eles iriam destruir Jerusalém; mas
os monges se anteciparam a colocar seus manuscritos a salvo dentro de
jarros, que esconderam ñas grutas dos arredores; lá é que eles foram
descobertos em nossa época. ^

No entanto, a Paleografía nos convida a retroceder a antes de 68


Porque o "Zierstil" clássico foi mais bem estudado nestes últimos anos,
em comparafáo com outros papiros da metade do primeiro século cuja
escrita é muito semelhante áquela de 7Q5. Os papirólogos, sobre a pri-
meira questáo, dáo pbrtanto urna resposta muito clara: o papiro 7Q5
deve ter sido escrito nos inicios do ano 50; e a margem de erros que
eles admitem nao é superior a cinco anos.

- O segundo problema é de butra órdem. Qual é o texto preciso


que está escrito sobre o fragmento 7Q5? Trata-se realmente de Me
6,52-53? Sobre esta questáo ,.da ¡dentificac§o..do texto vamos falar
claramente: somante o computador podé virem socorro da Paleografía
para dar urna resposta precisa. Aqui ¿preciso insistir; porque após a
identificagáo propostapor d'Callaghan,(7Q5 = Me 6, 52-53), houve
muitas propostas de ¡dentificacáo diferentes. Assim, por exemplo, em
1992, veio da Espanha a proposta de umaileitura alternativa de 7Q5;
tratar-se-ia de urna passagem da Biblia grega (apelidada dos LXX): o
texto seria o de Zc 7,4-5. Mas Thiede, também recentemente, num
artigo técnico de Revue Bíblique (1994), mostrou que esta leitura de
7Q5 é impossível, por diversas razóes paleográficase filológicas, que
evidentemente é impos'sivél análisár aqúii O único método científico
possível que resta éntáo, é aquele de recorrer ao computador. 7Q5
foi verificado sobre o sistema informático "Ibykus", de Liverpool, onde
foram registrados todos os textos gregos existentes no mundo. Urna
outra verificacao, baseada sobre o cálculo das probabilidades, acaba

340
A AUTENTICIDADE DOS FRAGMENTOS DE QUMRAN 5

de ser efetuada na Espanha (os resultados seráo publicados muito em


breve) para saber quais sao as probabilidades de 7Q5 poder reproduzir
um texto diferente daquele de Marcos: elas sao praticamente nulas1. As
respostas técnicas e científicas sao invariavelmente as mesmas: o único
texto que corresponde a todos os dados de 7Q5 é aquele de Me 6,52-

Precisemos, porém, que, antes de poder tentar urna identificacáo


do texto tomado como um todo, é preciso anteriormente assegurar-se
da leitura materialmente correta de cada urna das letras (algumas vezes
incompletas) do fragmento. Um problema crucial se póe para urna letra
muito deteriorada da segunda linha de 7Q5: O'Callaghan leu um "nu"
(letra grega que para nos é um "n"), ainda que os editores de Qumran
tenham pensado descobrir outras letras. A questao era decisiva, porque
a identificacáo marcana2 de 7Q5 exigia que, nesse lugar, aparecesse
efetivamente um "nu". Se nao fosse assim, toda a identificacáo marcana
fracassaria. Compreende-se, portanto, que em 1989 um colega inglés,
Gordon D. Fee, tenha declarado a Thiede que, para ele, todo o proble
ma estava ai.

Eis por que 7Q5 foi submetido a um novo exame técnico nos labora
torios da polícia criminal de Israel, em Jerusalém, a 12 de abril de 1992.
Os instrumentos ultramodernos do laboratorio puderam identificar na li
nha dois urna letra cuja tinta tinha desaparecido, mas onde se podiam
ainda discernir os tragos de urna pena sobre o papiro: tratava-se
indubitavelmente de um "nu"; desde entáo as hipóteses concorrentes de
um "iota" (= i) ou de um "rho" (= r) estáo definitivamente descartadas. De
agora em diante, o "nu" é um dos caracteres seguros na decifracáo do
fragmento, talvez o mais decisivo.

Podemos dizer que o problema está inteiramente resolvido? Seria


muito simples, pois muitas questóes permanecem. A análise deve pros-
seguir, como observava recentemente até O. Montevechi, a grande es
pecialista em Papirologia: dever-se-á, por exemplo, examinar mais aten
tamente as relacóes que possa haver entre os diferentes papiros da
gruta; já que esta era ocupada por urna comunidade essénia em Qumran,
será necessário procurar saber mais sobre as relacóes entre essénios e
cristáos nos primordios da Igreja, para explicar um fato inteiramente novo:
que textos cristáos tenham chegado ao abrigo da comunidade de Qumran.
Pistas novas, ricas de promessas, foram abertas aqui também.

-Resta-nos dar, em poucas palavras, urna resposta á terceira ques-


táo, aquela que, finalmente, nos interessa mais, mas á qual nao se deve
responder de maneira precipitada, para nao dar espago a urna acusa-
cao varias vezes feita em tempos atrás, contra os defensores da autentici- •
dade: aquela de sermos guiados por urna preocupacáo apologética (o que

1 Ver Apéndice a p. 342 deste fascículo.


2 Adjetivo que, no caso, significa que 7Q5 é portador de Me 6.52s (N.D.R.).
341
"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

evidentemente é o pior dos insultos!). Mas se deve ¡mediatamente retorquir


a esses negadores: por que uma eventual autenticidade despertaría neles
um tal furor, um tal sarcasmo? E que ela contradiría á teoría tradicional (na
exegese moderna) sobre a data tardía dos Evangelhos (entre 70 e 100).
Ponhamos, pois, serenamente a questáo em termos positivos: por que o
problema da autenticidade dos fragmentos tem uma tal importancia? Cons
tatemos, em primeiro lugar, que as descobertas recentes sobre Mateus e
Marcos se inserem numa tendencia geral de nossa época: a de retrodatar
os Evangelhos. É a teoría do anglicano JAT. Robinson (bem conhecido por
ser pouco conformista): ele pensava que o NT. todo inteiro tenha sido com
posto antes de 70. Na Franca, solucóes semelhantes foram propostas so-
bretudo por J. Carmignac, bem como por Cl. Tresmontant e Fr. Le Quéré,
ou aínda, mas dentro de uma outra ótica, por Ph. Rolland1.
Estas novas explicacóes mostram certamente que a velha teoría da
ruptura e do grande intervalo entre o Jesús da Historia e o Cristo da fé (cf.
Bultmann) nao funciona mais. Se Marcos escreveu antes de 50, isso nos
reporta a uma época muito próxima de Jesús, a urna época onde as teste-
munhas oculares (os Apostólos) estavam ainda em vida e teriam certamen-
te protestado se se tivesse tentado introduzir nos escritos evangélicos len-
das ou mitos. Um ponto sobretodo deve ser sublinhado: se Marcos e Mateus
escreveram antes de 70, isto quer dizer que as palavras de Jesús sobre a
destruicáo do Templo nao sao - como se pretende afirmar numa certa
exegese moderna - palavras inventadas muito depois e postas na boca de
Jesús; sao predicóes auténticas da destruicáo do Templo, anuncios pro
nunciados realmente por Jesús antes do acontecimento, e conservados
nos Evangelhos. E vale o mesmo para as narracóes dos milagres e das
apancóes pascáis, e mesmo, guardadas todas as proporcóes, para as nar
rativas da infancia (muito especialmente para as da concepcáo virginal).
Enfim, a autenticidade dos fragmentos de Qumran é um argumento de peso
para o valor histórico dos Evangelhos: eles nao sao uma criacáo tardía da
comunidade crista, com todos os riscos de deformacáo que isto comporta
ría; eles nos dáo verdadeiramente acesso ao Jesús da historia (contraria
mente as teses recentes divulgadas pelo "Jesús" de J. Duquesne).

EM APÉNDICE: A revista espanhola ISIDORIANUM, n° 9, ano 1996,


p. 256, publica uma recensáo de Fernando Camacho ao livro de J.
O'Callaghan intitulado LOS PRIMEROS TESTIMONIOS DEL NUEVO TES
TAMENTO. Córdoba 1995, recensáo em que se lé o seguinte:
"A identificacáo de 7Q5 com Me 6,52s proposta por O'Callaghan é
confirmada por uma margem de erro equivalente a 1 dividido por dez m¡-
Ihóes, segundo os cálculos de probabilidade realizado por A Dou, Doutor
em Matemática, engenheiro e Professor Emérito da Universidade Autóno
ma de Barcelona - o que necessariamente se deverá levar em conta por
ocasiáo da datacáo do Evangelho de Marcos e obrigará a uma revisáo da
cronología do Novo Testamento" (Apéndice da Redacáo de PR).

1 Ver PR 399/1995. pp. 350-353 (N.D.R.).

342
Sim ou Nao?

DESTINO EXISTE?

Em síntese: O Destino ou Fato era reverenciado e temido pelos


mitólogos gregos pré-cristaos, que corsideravam a rigidez de certas leis
da natureza e a inclemencia do curso da historia, indomável ao homem
A filosofía platónica atenuou o conceito de Destino, identifícando-o com
o Bem, que deve reger todas as coisas. Todavía o estoicismo restaurou
o conceito sombrío de Destino, associando-o á nogáo de causalidade
necessáría; os acontecimentos da históría estaríam inexoravelmente en-
cadeados entre si numa sucessáo de causas e efeitos, causas e efei-
tos... - O Cristianismo rejeitou qualquer tipo de destino, forca cega que
governaría as sortes dos homens; reconhece, sim, a Providencia Divina
sabia e santa, que acompanha o homem com bondade e amor através
dos tempos. Em conseqüénda, o crístáo nao eré em despachos, "traba-
Ihos", horóscopo, números azarentos, amuletos... Jesús Cristo libertou
a humanidade de toda forma de medo supersticioso, despertando nos
discípulos o senso da confianga no Deus que criou o homem para o
levar ao consorcio da sua bem-aventuranga.
* * *

Muitas pessoas pensam em destino como forca que cegamente as


impele a tal ou tal desgraca; apavoram-se com isto e, apavoradas mate
se precipitam na desgraca. Há quem atribua aos astros o poder de dirigir
a vida humana, definindo as sortes de cada um. Em suma, a crenca no
destino assume diversas modalidades que podem afligir o público mas
carecem de fundamento.

Procuraremos examinar a questáo sucessivamente á luz das con-


cepcóes pagas e na ótica do Cristianismo.

1. O DESTINO NO MUNDO PAGÁO

Em grego, a paiavra equivalente a Destino é peproméne, derivada


de poro, realizar, fazer que algo chegue ao seu termo. Também se usam
os vocábulos eirmarméne, ananke e moira, sendo que moira significa
parte ou partilha. O Destino seria a parte ou a partilha que é definida
para cada ser humano por um poder superior. - Em latim, usa-se a paiavra
fatum, do verbo fari, dizer; donde fatum vem a ser "o que é dito em toni
definitivo e irrevogável".

Distingamos entre Mitología e Filosofía na Grecia antiga.

343
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996
1.1. Mitología

O Destino (moira) era personificado. Trazia seus símbolos, que sig-


nificavam a sua índole de necessidade cega e for9a ¡nelutável. Sobre a
cabeca tinha urna coroa ornamentada com estrelas; a coroa era o indi
cio do poder,... poder que era cegó, pois ignorava as leis; daí dizer-se
que o Destino era filho da Noite. Ñas máos o Destino tinha um cetro,
sinal de sua realeza; podía também trazer ñas máos urna urna, que con-
tinha as sortes dos seres humanos ou urna balanca, na qual eram pon
deradas e avaliadas a historia e o curso de vida de cada ser humano. Ao
lado do Destino, havia urna roda presa por urna corrente para mostrar a
¡mutabilidade dos decretos do Destino; existia também um livro no qual
esses decretos estavam redigidos desde todo o sempre e no qual os
deuses iam ler os acontecimentos futuros. Debaixo dos pés do Destino,
achava-se a Térra, setor que ele dominava. O Destino, em suma, podía
tudo, exceto mudar os seus decretos; o que estava escrito, ficava escrito
fatalmente. Jamáis o Destino se arrependia. Os seus designios eram
incompreensíveis aos humanos e até ao próprio Destino; ele pairava
ácima dos deuses da mitología.

Pergunta-se: qual seria a razáo pela qual os antigos chegaram a


conceber urna figura táo misteriosa como responsável pelas sortes dos
homens? A pergunta é justificada, pois em nossos dias se admite que os
mitos eram portadores de algum significado ou de alguma filosofía de
vida. - A resposta está no fato de que o homem pagáo se sentía incapaz
de compreender o sentido da vida e inepto para reger suas sortes. Isto o
levava a supor a acáo de urna forca estranha e superior atuando sobre
os acontecimentos de sua existencia de maneira absolutamente impene-
trável.

1.2. A Filosofía Greco-romana

A Filosofía abrandou, em parte, o conceito de Destino, procurando


torná-lo mais compreensível e humano. A razáo foi dissipando as notas
apavorantes do Destino da Mitología, em beneficio de concepcóes reli
giosas mais apuradas e lógicas.

1) Assim Pitágoras (f 500 a.C.) e sua escola procuravam nos


números e na harmonía dos números a explicacáo de todas as coisas.
Em conseqüéncia, ¡dentificavam o Destino com as leis dos números e da
harmonía; a matemática e a música ditavam os decretos que regem a
vida dos homens.

2) Para Platao (f 347 a.C), a idéia do Bem absorve a do Destino. O


Bem é o Principio de todas as coisas; ele vem a ser o Destino, a forca
dominadora, boa e suave. Escrevia Platáo no seu Timeu 29s:

344
DESTINO EXISTE?

"Ele (a Divindade) era bom; e aquele que era bom, nao tinha moda-
lidade alguma de inveja ou ciúme. Eis por que ele quis que todas as
coisas fossem, tanto quanto possível, semelhantes a Ele mesmo Todo
aquele que, instruido porhomens sabios, admite isto como razao princi
pal da orígem e da iormacao do universo, estará dizendo a verdade".

Até mesmo o mal tem seu lugar na harmonía do universo, segundo


Platáo, e concorre para o bem. É algo de necessário, como se depreende
dos dizeres seguintes:

"O mal nao deixará de existir, ó Teodoro; é impossível que ele deixe
de existir. O bem terá sempre o seu contrarío; assim o quera necessida-
de (ananke). É certo que o mal nunca terá sua sede entre os deuses;
mas, a natureza mortal e esta regiSo do universo, ele as envolverá sem
pre" fTeeteta 176).

O perfeito nao pode existir sem o mal, mas este acabará sempre
por se transformar em bem; cf. República X 613; Leis IV 715s.

3) Na filosofía estoica, que comeca no século IV a.C, o.conceito de


Destino se toma mais rigoroso e sombrío, pois é associado ao de causa-
lidade necessária. Sim; para os estoicos, o universo está sujeito á lei dos
encadeamentos necessários, que liga causas e efeitos. Toda causa tem
seu efeito infalível, e este, por sua vez, se torna causa necessária para
o acontecimento seguinte. Mais: toda causa procede da serie de todos
os acontecimentos anteriores e traz em si mesma a marca de cada um
deles.

Esta teoría do Destino suscita, por sua vez, a teoría da adivinhacáo:


com efeito, se os acontecimentos estáo concatenados entre si e os pos
teriores se seguem necessariamente aos anteriores, está claro que quem
conhece um acontecimento, pode prever todos os subseqüentes (conti-
dos na causa como em sua matriz); assim se pode anunciar o futuro,
segundo a arte da adivinhacáo. Esta nao é privilegio da Divindade.
Em conseqüéncia, aoracáo se loma inútil. Os estoicos, em particu
lar Séneca, a rejeitavam, ao menos diante dos grandes acontecimentos
da historia, que sao absolutamente inelutáveis. Acontece, porém, que a
rejeicáo da prece (espontánea como é a todo ser humano) nao foi sus
tentada coma mesma conviccáo por todos os estoicos; alguns distingui-
am entre "necessidades Tnaiores (fata ma¡óra)"e "necessidades meno
res (fata minora)"; estas poderiam ser conjuradas mediante a oracáo.
Em suma, os estoicos se compraziam em admirar o invencível poder
do Destino, que levava todos os seres ao seu termo final, fazendo do
mundo urna cidade bem policiada. O Destino sería a razáo (Logos) que,
dispondo tudo com ordem e medida, faz do mundo inteiro urna obra de
arte perfeita e bela.

345
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

Pergunta-se, porém: onde fica a liberdade de arbitrio do ser huma


no nesse universo táo belo? O determinismo e o fatalismo das causas
encadeadas nao permitem que o homem trace por si mesmo a sua linha
de conduta. Esta conclusáo preocupou Cicero (f 43 a.C), que na sua
obra De Fato (Sobre o Destino) reivindicou os direitos da liberdade e
preferíu a liberdade de arbitrio do homem ao cegó poder do Destino.

2.0 PENSAMENTO CRISTÁO


2.1. Observacoes Gerais

O pensamento cristáo é essencialmente contrario á existencia de


qualquer forca cega que empurre o homem a agir-deste ou daquele modo.
Entre Deus e as criaturas humanas nao há.semideuses nem algum ser
misterioso que obligue o homem a fazer algo. Deus criou o homem livre
e deixa-lhe a liberdade de opjáo e acáo. Nem mesmo o Maligno ou o
Demonio pode coagir alguém a cometer o mal; o demonio pode sugerir o
pecado, tentando a criatura humana,;mas;náo pode forcar ao mal.1 Muito
sabiamente dizia S. Agostinho que o demonio é como um cao acorrentado,
que pode ladrar muito, mas só faz mal a quem se Ihe chegue perto. - O
mundo pagáo antigo admitía o Fato ou Destino,- porque tinha concep-
cóes imperfeitas a respeito da Divindade; concebia-a á semelhanca do
homem, o que dificultava entender o que a linguagem crista chama "Pro
videncia Divina", da qual sediráalgoja seguir.; O Fato da mitología é
figura fantasiosa ou ficticia, como também o encadeamento cegó de cau
sas e efeitos, sufocador da liberdade,- é algo de irreal, decorrente do
panteísmo estoico, segundo o qual o Logos divino (ou a Razio) é a
própria alma do mundo. Jesús Cristo yeio libertar o ser humano de todas
as crendices e de todos pavores derivados da ¡maginacáo e anunciou
ao homem que ele é livre, devendo responder'diretamente a Deus por
suas opcoes e atividades. 3ino'-;:,nsí.c; •:••-.,: ¡ .

2.2. Conseqüéncias ¡mediatas ' r

De tais premissas seguem-se.conclusóes-importantes:.. .

1) Os despachos e trabalhos.das^J¡gi6es;-afrp-brasileiras nada


podem fazer contra quem quer que sejá; ^re'cém.de eficacia oú de for
ca mágica. Verdade é que varios fiéis,católicos'se'afligem, porque sa-
bem que alguém ou algum adversario, e^tá'ífázendo despachos contra
essas pessoas, e váo procurará ígrejaVpará pedir um exorcismo. Há
também quem se julgue desgranado por causa de um "trabalho" de
Umbanda e vá solicitar um exorcismo na Igreja, Oral tal pensar e agir é

1 Excetue-se o caso da possessáo diabólica; nestas circunstancias, porém.


o possesso nao 6 o responsável do mal que comete.

346
DESTINO EXISTE? 11

erróneo; nao existem exus e orixás, de modo que sao totalmente inefíca-
zes as oferendas de galinha preta, farofa, cachaca, charutos... que se
Ihes facam; nenhuma entidade do além acode a essas oferendas. O
demonio, que a Escritura e a fé católica reconhece, nao é exu nem orixá;
é um anjo que Deus criou bom e que se perverteu pelo pecado de so-
berba; recebe agora a autorizacáo de Deus para tentar o homem e levá-
lo ao pecado, se a pessoa tentada consentir ñas sugestóes do Maligno;
o que Satanás quer, é o pecado; nao Ihe ¡mportam a galinha preta, a
farofa, a cachapa e os charutos oferecidos aos pretensos orixás. Por
conseguirte, nenhum despacho de macumba causa desemprego, des-
truicáo de casamento, doenca..., a nao ser que a pessoa alvejada pelo
despacho creía que este é eficaz; se o eré, sugestiona-se, julga-se con
denada a um infortunio e, insegura, pode-se precipitar numa desgraca
ou deixar-se envolver num acídente; em tal caso, a eficacia nao é do
despacho, mas da sugestáo,... sugestáo que a pessoa concebe por ima
ginar que o despacho é eficaz.

2) Nenhum objeto de supersticáo faz bem ou mal a alguém. Daí se


segué que o cristáo nao dá crédito a figas, bentinhos, amuletos... Estes
podem desencadear a sugestáo, sim, que é eficaz, como dito, mas eficaz
por causa de urna atitude subjetiva, sem fundamento objetivo ou real.

3) O cristáo nao eré em horóscopo, como se os astros definissem o


futuro do homem. Verdade é que, desde épocas antigás, os homens
imaginaram estar sujeitos ao poder dos astros, táo belos e pujantes pa-
recem. Os antigos escritores da Igreja relutaram contra tal concepeáo,
remanescente entre os fiéis cristáos. Podem os astros, em alguns ca
sos, influir sobre o físico e o psíquico do homem, causando reacóes
psicossomáticas (melancolía, júbilo, depressáo...), o que nao significa
tragar o futuro do homem.

4) O cristáo também nao eré em cadeias de oracáo, ou seja, em


preces que é preciso copiar urnas tantas vezes e passar adiante sob
pena de sofrer alguma desgraca, caso nao o faca, ou com a perspectiva
de receber algum beneficio, desde que o execute. Nao há fundamento
algum para crer no valor, de tais correntes de oracáo; vém a ser urna
contrafacáo da verdadeira oracáo; esta é um recurso filial a Deus, que
vale pela fé, o amor e a humildade com que a criatura reza ao Pai do
céu.

5) O cristáo também nao aceita a "mística dos números", segundo a


qual alguns números sao portadores de boa sorte e outros sao de mau
agouro. Nem o número 13 é mau, nem o número 666... Ver Curso sobre
Ocultismo da Escola Mater Ecclesiae, Módulo 20.

6) Em suma, o cristáo nao eré que as coisas acontecem porque


Deus as decretou cegamente, sufocando a liberdade do homem. Deus
sabe tudo o que acontecerá no futuro, pois Ele nada pode ignorar. É de

347
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

notar, porém, que preciéncia nao é predefinicáo ditatorial- Deus prevé


que os homens livremente faráo tais e tais coisas; paralelamente alguém
a partir de urna janela, pode prever que dois carros se chocarao entre si-
pode ter certeza disto, sem ser causa do desastre.

O Cristianismo repudra o Fato ou o Destino, conceito mitológico e


em seu lugar, professa a Providencia Divina. ' '

3. A PROVIDENCIA DIVINA
A Providencia Divina se define como a acáo pela qual Deus se dis-
póe a levar todas as criaturas para o seu fim devido; Deus nao abando
na a criatura depois de Ihe ter dado existencia, mas, tendo-a criado em
vista de urna finalidade sabia e grandiosa, prové aos meios para que
cada criatura possa atingir a sua meta (sem destruicio da liberdade de
arbitrio, no caso das criaturas intelectivas); essa meta é a manifestacáo
da bondade, da sabedoria e da santidade de Deus.

A S. Escritura acentúa essa acáo providencial de Deus em muitas


passagens: é Ele quem dá a chuva, os frutos e o alimento no momento
oportuno (Jr 5,24; Dt 11,14s; S1144,15); é Ele quem dá o dia, a noite, as
estagóes (SI 73 (74), 16s; 135 (136), 8s); aos pássaros do céu e aos
lirios do campo Ele fomece o sustento necessário (cf. Mt 6,25-34; Le
12,22-31). Especialmente para com o homem é solícito, de tal modo que
todos os cábelos da sua cabeca estáo contados (cf. Mt 10,29-31).

A Providencia Divina, por abarcar toda a historia da humanidade,


vé mais amplamente do que a mesquinha mente humana. Por isto Ela
nem sempre coincide com o modo de pensar da criatura. Há mesmo os
silencios de Deus ou os momentos em que Ele parece ausente da histo
ria dos homens; todavia a Escritura mostra como também essas fases
obscuras sao acompanhadas pela Sabedoria Divina; é o que vem á bai
la muito claramente na historia do Patriarca vendido a estrangeiros por
seus irmáos invejosos; no fim de táo trágica historia diz José: VEu sou
José, vosso irmáo, que vendestes para o Egito. Mas agora nao vos
entristecais nem vos aflijáis por me terdes vendido, porque foi para pre
servar vossa vida que Deus me enviou diante de vos... Nao fostes vos
que me enviastes para cá, mas Deus, e Ele me estabeleceu como pai
para o Faraó, como govemador de todas as regióes do Egito" (Gn 45,4s.
7s)..Os livras de Rute, Judite, Ester, Daniel... sao outrossim eloqüentes
testemunhos da acáo providencial de Deus em favor dos seus fiéis: Ele
sabe tirar dos males bens maiores; o que, aos olhos dos homens, pare
ce desastre final, Ele o converte em ponto de partida para o derrama-
mentó de novas gracas. O Novo Testamento insiste em que o cristáo se
deve configurar a Cristo mediante a cruz, para participar também da
ressurreicáo; nessa trajetória ele é acompanhado pelo sabio designio
do Pai; cf. Mt 10,24-31. Tenha confianca filial (Rm 8,28-32).

348
DESTINO EXISTE? 13

A propósito vem a temática da oracáo. Esta, nao raro, é tida


como instrumento apto a dobrar a vontade de Deus; nisto há um
antropomorfismo. A vontade de Deus é imutável. - Entáo qual o papel
da oracáo, que o SenhorJesús tanto recomendou? Cf. Le 11,9-13. Ei-lo-
desde toda a eternidade, Deus decretou dar ás suas criaturas os bens
de que precisam; as criaturas ¡(racionáis recebem-nos inconscientemente;
o homem, porém, dotado de inteligencia e vontade, deve recebé-los cons
cientemente. Para tanto, o orante sugere a Deus os bens que Ihe pare-
cem oportunos para que atinja a sua finalidade suprema; sugere mesmo
o pao de cada dia, a saúde, o emprego..., tudo que seja honesto e pare
ja condizer com a auténtica meta do homem; assim este colabora com o
plano da Providencia Divina, que quer dar ao homem..., mas quer dar
mediante a oracáo. Pela oracáo nao é o homem que rebaixa Deus ao
nivel das suas finitas cogitacóes, mas é Deus quem eleva o homem ao
plano da sua sabia Providencia. Assim entendida, nenhuma oracáo é
inútil; desde que realizada em uniáo com Cristo, que dizia: "Pai, se pos-
sível, passe este cálice; mas faca-se a tua vontade, e nao a minha" (Me
14,26), a oracáo encontra sempre resposta; se o Pai nao nos dá aquilo
que, na nossa simplicidade, Ihe sugerimos, dá-nos algo de equivalente
ou melhor.

Dito isto, póe-se a questáo: e o mal produzido pelas criaturas recaí


sobre Deus? Entáo nao seria Deus responsável pelas falhas das criatu
ras? - Em resposta, lembremos que o mal nao é um ser positivo, mas
urna carencia; é a falta de um ser que deveria existir a cegueira é a falta
de olhos, o pecado é a falta de harmonia do agir humano com o seu Fim
Supremo. Ora a carencia nao tem causa direta; indiretamente, ela é cau
sada pela criatura, que é capaz de agir inacabadamente. Deus nao pode
agir imperfeitamente.

E por que permite Deus que as criaturas exercam suas deficienci


as? Porque nao as quer forcar nem violentar, Ele sabe, porém, utilizar
até o mal das criaturas, para produzir bens maiores, como observa S.
Agostinho: "Deus onipotente... sendo sumamente bom, nao deixaria mal
algum em sua obra, se nao fosse táo poderoso e bom que pudesse tirar
até do mal o bem"... "Ele julgou melhor tirar dos males o bem do que nao
permitir que mal algum viesse a existir" (Enquirídio, cap. 11 e 27).

4. JESÚS CRISTO, O DESTINO E AS CRENDICES

Em complemento, publicamos um texto de Roger Garaudy, ex-co-


munista que se aproximou do Cristianismo, e, em sua fase de aproxima-
cáo, escreyeu a respeito de Jesús Cristo, pondo em evidencia a supera-
cáo dos mitos e das crendices por parte do Senhor Jesús e de sua men-
sagem:

PARA VOCÉ, QUEM É JESÚS CRISTO?


"Mais ou menos sob o govemo de Tiberio, ninguém sabe exatamente

349
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

onde nem quando, alguém cujo nome nos é conheddo, dilatou os hori
zontes dos homens...

Por certo, Jesús nao foi nem um filósofo nem um tribuno, mas viveu
de tal modo que toda a sua vida teve um significado... Para proclamar
até o fim a boa-nova, era preciso que ele mesmo, mediante a sua res-
surreicáo, anunciasse que todos os limites, mesmo o limite supremo, a
morte, foram vencidos.

Este ou aquele erudito poderá contestar todos os feitos da existen


cia de Cristo; mas isto nao altera a certeza de que ele mudou a vida.
Acendeu-se um braseiro. Esta é a prova de que havia urna centelha ou
urna chama que fez surgir esse braseiro.

Todas as filosofías até Cristo meditavam sobre o destino e as foreas


cegas que regem o homem. Jesús Cristo mostrou a toucura dessas filo
sofías. Ele, que foi o contrario do destino. Ele, que foi a liberdade, a
criacáo, a vida. Ele que removeu o fatalismo da historia.

Jesús Cristo realizou as promessas dos heróis e dos mártires, que


lutaram pelo grande despertar da liberdade. Ele cumpriu nao apenas as
esperanzas do profeta Isaías ou as iras de Ezequiel. Jesús libertou Pro-
meteu das suas cadeias e Antígono dos muros de seu cárcere. Essas
cadeias e esses muros eram imagens mitológicas do destino; elas caí-
ram diante de Cristo e se pulverizaram. Todos os deuses morreram en-
táo, e o homem comecou a viver. Deu-se como que um novo nascimento
do homem. Olho para a cruz que é o símbolo disso tudo, e pensó em
todos aqueles que alargaram os bracos da cruz. Pensó em Sao Joáo da
Cruz, que, pelo fato mesmo de nada possuir, nos ensina a descobrir o
tudo. Pensó em Kart Marx, que nos mostrou como se pode transformar o
mundo. Pensó em Van Gogh e em todos aqueles que nos fízeram tomar
consciéncia de que o homem é grande demais para bastara si mesmo.

Vos, homens da Igreja, que guardáis escondida a grande esperan-


ca que Constantino nos roubou, devolvei-nos essa esperanca! A vida e
a morte de Cristo pertencem também a nos, a todos aqueles para quem
elas tém sentido. Pertencem a nos que aprendemos de Cristo que o
homem foi criado criador..."

350
Erudito eQuestionador:

"A IGREJA DE JESÚS"


por Rufino Velasco

Em sintese: O autor é adepto da Teología da Liberíagáo ou da


"Igreja dos Pobres". Em conseqüéncia, percone o Novo Testamento e a
historia da Igreja, no intuito de descobrir ai o conceito de urna Igreja que
tere sido urna sociedade igualitaria, de amor mais do que do direito, mas
que se fot transformando, a partir de Constantino (306-337), em socie
dade desigual, com predominancia dos clérigos sobre os higos. - O
Concilio do Vaticano II (1962-65), diz Velasco, pos fímaessa concepgao
de Igreja através dos seus documentos, propugnando o retorno a urna
sociedade igualitaria ou a urna democracia de comunháo. Todavía o avan-
co do Concilio estaría atualmente sofrendo o impacto de urna involucao
ou de um retrocesso aos tempos que o Vaticano II quis encerrar.
O livro é assaz erudito; pde em foco certos quadros da historia da
Igreja muito interessantes, mas omite a consideragio de outros aspec
tos, que nSocondiriamcom a tese do autor. Assim, porexemplo, Velasco
nao leva em conta que a Constituigao Lumen Gentium do Vaticano II
se abre com urna reflexSo sobre o misterio da Igreja, tida como realidade
dMno-humana (capitulo I); somente no capitulo II trata da Igreja como
"Povo de Deus", Povo de Deus que tem sua estrutura jurídica, como
enfatiza o capítulo III. A índole unilateral do livro tira-lhé o caráter de
manual fidedigno, apto a evidenciaras varias facetas da Igreja.
* * *

O Prof. Rufino Velasco, 1930, é especialista em temas de Igreja.


Leciona no "Centro de Estudios Catequeticos La Salle" de' Madri. É autor
de varías - obras.aentre^as1 quais a ■ queseaba :de sertraduzida para o
portugués com o título "A Igreja de desús"'.^ Esteé^um estudo acentua
damente crítico dirigido á Igreja contemporánea, que o autor julga estar
esquecehdo as conquistas do Concilio do Vaticano II para retroceder á
época pré-conciliar. ~ O livro é erudito e apto a calar fundo, impressio-
nando o leitor, de modo que sugere comentarios. <

1.0 CONTEÚDO DO LIVRO


A obra divide-se ém tres Partes: I. A Igreja em suas Origens (pp. 17-

1 Tradugáo de Nancy B. Faria e Wagner de Oliveira Brandáo. - Ed. Vozes.


Petrópolis, 1996, 160 x 225mm. 484 pp.

351
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

93); II. Real¡za9áo Histórica da Igreja (pp. 97-225); III. O Vaticano II: urna
. Mudanca Histórica (pp. 229-443). Como se vé, a mais extensa é a Parte
III, onde o autor-explana a sua tese propriamente dita: o Concilio do
Vaticano II.fpLum^ tentativa de evolucáo da Igreja, acompanhando o
fluxo-da história"em nossos tempos; todavía essa tentativa, pouco de-
pois de ter sido posta em prática, foi sendo solapada, de sorte que
estamos hoje vivendo a Testauracáo" ou a "involucáo" da Igreja; os si-
nais dos tempos vio sendo esquecidos em favor de um retrocessó. Exa
minemos essas tres Partes da obra, como o autor as explana.

1.1. A Igreja em suas Origens

Em sua fonte ou origem, diz Velasco, a Igreja foi urna comunidade


igualitaria; o que distinguía os membros dessa comunidade, nao eram
as funcóes ou os cargos de direcáo e autoridade, mas era o amor ao
Senhore ao próximo. Nao havia preocupacáo com as estruturas da Igre
ja, mas, sim, coma fiel transmissáo da doutrina:

"A regra geral praticada ñas origens da Igreja é a seguíate: 'Com


excegao das cartas pastorais, o Novo Testamento oferece urna imagem
surpreendentemente homogénea: quem toma a decisáo definitiva em
materia de fé e de costumes, nao é um individuo com determinada fun-
gao, mas a comunidade remida. Parece até haverum vestigio de proce-
dimento para ádotar-decísoéspor maioria (2Cor 2,6) quando nao se
chega a urna decisáo unánime' (B. van lersel, Quem tem, segundo o
Novo Testamento, a pálavra decisiva na Igreja? em Concilium 168,
1981, pp. 22-29).

Possivelmente os melhores momentos de renovagáo ou de reforma


da igreja ao longo da historia estáo vinculados a um redescobrimento do
protagonismo da comunidade, tai.como aparece em muitos escritos des-
te período eciesial (Novo Testamento). Resgatar a importancia básica
da condigáo dejdjscípulo'.iahcomo aparece destacada na tradigáo do
Discípulo Amado, ácima idejodo.autoritarismo e dirigismo eciesial, foi e
deveser,sempre¡um ponto dexeferénciae urna fonte de inspiragao para
urna verdadeira)reformarda:lgneja'!¿(p.:,92). >■■ . ■-.*■: ■ m

No texto acinria^ "protagonismo da comunidade" significa "a primazia


da comunidade" semprecque.haja -que. tomar decisóes; estas serao defi
nidas pelo voto da maioria.SJ.Tc,-no? .W( ■.

1.2. Realizacáo Histórica.da Igreja


Percorrendo a historia da.lgreja, o autor se detém na era do Impera
dor Constantino (306-337). Julga que nessa época se foi efetuando a
identificacáo da Igreja ou do "Imperio cristáo" com o Reino de Deus.

"Forja-se aqui urna novidade muito importante...; o Imperio é regido

352
"AIGREJADEJESUS" 17

por um duplo principio de autoridade: a autoridade dos sagrados


Pontificios1 e o poder imperial" (p. 129). A principio terá preponderado o
poder imperial sobre a autoridade da Igreja, ocasionando o
cesaropapismo... Esta situacáo évoluiu ao menos no Ocidente. É o
que Velasco assim propóe:

"Posteriormente, sobretodo sob Carlos Magno, no século IX, já se


tratará de dois principios de autoridade para reger a Igreja, dentro da
qual se sitúa inclusive o poder imperial: urna concepgao que se acentu
ará sob o pontificado de Gregorio Vil, no século XI, e culminaré na Unam
Sanctam de Bonifacio VIII, no principio do século XIV" (pp. 129s).
O primado do Papa vai-se configurando sempre mais nítidamente
conforme esta perspectiva (pp. 135-139).'E, com isto, ha o que o autor
chama "a faraonizajáo dos ministerios":
"Os ministerios, de puros servigos que eram, passam a ser poderes,
e os ministros ou servidores chegaram a adotar até a indumentaria fara
ónica dos poderosos senhores do Imperio Romano e dé outras instanci
as do poder. Até a própria icnografía produziu, sobretudo 'no Oriente, a
fígura do Cristo Pantokrator, adornado com a roupagem regia, que, se
gundo as primeiras comunidades, somente .os inimigos puseram sobre
Jesús para zombar dele (Le 23,11)" (p.131).
Verifica-se assim o "protagonismo do clero dentro da Igreja, em de
trimento do protagonismo do povo"(p. 132)¿O autor enfatiza o "direito",
dos fiéis, de eleger os seus bispos (cf. p.134).
Após Constantino, terá crescido a diferenca entre ricos e pobres
(pp. 139s). Comecaram também,.segundo Velasco, as tentativas de
inculturar a fé ou de penetrar e ilustrar as verdades da fé mediante o
recurso á Filosofía (cf. pp. 140-146).
O autor chega ao século XI. época da,dita "Reforma Gregoriana",
empreendida pelo Papa Sao Gregorio Vir(1073-1085). Este e seus as-
sessores canonistas atribuem ao Papa a máxima autoridade neste mun
do: tocar-lhe-ia o poder de destituir os imperadores e desligar os súditos
do juramento de fidelidade ao Imperador::.' Este concepeáo atinge o seu
auge com o Papa Bonifacio VIII (1294-1303),ique¡definiu: ."Declaramos,
dizemos, definimos que submeter-se:ao-romano pontífice é para toda
criatura humana absolutamente necessário:á salvacáo".(Bula Unam
Sanctam).

Constituiu-se assim urna visáo da Igreja que, "em seus traeos fun
damentáis, vai dominar toda a historia do Cristianismo até b Concilio do
Vaticano II'1 (p. 171):
"Dá-seaqui urna virada radical, que distingue profundamente o pri--
meiro do segundo milenio da Igreja: a antiga e táo arraigada tradigáo
que vé a Igreja básicamente como urna comunháo fíca completamente

1 Talvez fatha de tradugáo. Entenda-se: Sumos Pontífices (N.D.R.).

353
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

soterrada, e a cena fíca totalmente ocupada por urna Igreja entendida


como sociedade perfeita, que procura justificar, com categorías jurídi
cas, sua hegemonía sobre essa outra sociedade perfeita constituida pelo
imperio ou pelos diversos reinos em que se divide a Europa.
Estamos nesse momento histórico em que o trabalho tenaz de
decretistas e decretalistas gregorianos prepara o terreno para os trata
dos sobre a Igreja', istq é, para a consideragSo da Igreja como urna
realidade em si mesma, o que aínda nao acontecía ñas grandes sumas
teológicas.

A profunda juridifícagao da nogáo de Igreja que se produz nestas


circunstancias leva a incipiente eclesiologia dos séculos XIII e XIV a ocu
parse apenas de urna questSó:a do 'poder eclesiástico', normalmente
concentrado no poder papal é, mais concretamente, dos poderes desta
autorídade frente aos poderes da autoridade temporal" (pp. 171s).
■^'Cohcebe-seJa Igreja'cómo urna "sociedade desigual"; em que há a
categoriadós pastores'pu do clero é a dos fiéis ou dos leigos. Sao pala-
vras;def-jo X^o1níc¡o;¥6;'século XX, retomando o perisámento de ante-
passados: •' " -';0- ~ '■''' ' '•
, :r?A lgreja,:por,fórga,de sua própría natureza, é urna sociedade desi
gual.

■y Compreende duas categorías de pessoas: os pastores e o reba-


nhofios que'est§o> colocados nos varios graus da hierarquia, e a multi-
dáo dos fiéis. E estas categorías sao tSo distintas entre si que somente
na^hierarciuiaresidem odireito e a autorídade necessárias para promo
ver ediogir topos os membros de acordó com os fins da sociedade.
^uantóanjuHídáqfñaqtem outro direito se nao o de deixar-se conduzir
é gúiardócilmentecpor seus pastores" (Encíclica Vehementer Nos, 11/
02/1906, AAS 39, 1906, p. 8s).

m conseqüéncia, diz Velasco, "o reino de .Deus se desloca para a


pútra yidá¡; (p ^182); desaparece o reino de Deus como libertacáo dos
P.9K?i(pr:1^?);^Tep|ogia Escolástica (séculoXIII e segúirites)é criticada
OTJig^-^ijst^ica'^prJd 9.1),: distante da experiencia da fé do povo.
reowSóbreye'miacnseadosséculos XIV, XV eO<VI. O Imperio cristáo se
tórriajabs,o|utistá}iBíjáináo.tqüer colaborar coma Igreja nem aceita a sub-
missibpropugnáda.por Bonifacio VIII; o poder regio e os nobres, pouco
fiéis ccautoridade da igreja, fazem que esta se coloque aos poucos na
defensiva-frente ao mundo,.que vai tomando nova configuracáo. A Igreja
ficaoa™rtevdq:múndq.r.^E.isto se vai acentuando á medida que os sécu-
Icis'pássámtrazéhdo consigo a "Reforma protestante" (século XVI), a
filosofía iluminista ou racionalista (século XVIII), o ateísmo materialista
(séculosiXIXierXX).yXDJ?apa Gregorio XVI (1831-1846) afirmava:
1 >As novas opiniSes, em materia doutrinal, s§o auténticos monstros,
s§óKelás'a causa1 da^ruíria de tantos imperios e culturas; por isso, é
preciso evitar todo afS de novidades, nSo somente em teología, mas tam-
bém nos demais ramos do saber humano, porque os que se deixam le-

354
"AIGREJADEJESUS" 19

var peto desejo mórbido de novidades sao mestres do erro" (citado por
J. M. Castillo, em Varios, Teología y Magisterio. Ed. Sigúeme,
Salamanca 1987, pp. 156s e transcrito por Velasco á p. 217 do seu li-
vro).

Tal era a situacáo da Igreja, conforme Rufino Velasco, quando foi


convocado o Concilio do Vaticano II em 1962.
1.3. O Vaticano II: Urna Mudanca Histórica
O Concilio do Vaticano II devia ser "um novo comeco ou o comeco
de um comeco, mas transformou-se num conflito entre o velho e o novo
com predominio do velho" (p. 229).

"Nestes últimos anos, tiyeram surpreendente éxito posigdes que,


nos anos sessenta, caracterizavam os ambientes mais conservadores
da curia romana e do episcopado. Assiste-se, na verdade, a um claro
retomo de atitudes que o Vaticano II desfez inequívocamente e conse-
guiu superar, e que haviam fícado circunscritas a grupelhos nostálgicos.
Parece espalhar-se urna valorizagáo pessimista da historia, penetrada
de maniqueísmo, urna recusa ao convite do concilio as igrejas para que
voltem a urna atitude peregrina e missionária, como se isto implicasse
abandonar a tradigao e, finalmente, urna reaparigáo da eclesiologia fe
chada do período pós-tridentino, em favor de urna Igreja entrincheirada
como urna fortaleza, zelosa de sua pureza e municiada de condena-
cees" (p. 229).

Qual sería entáo a imagem de Igreja que o autor preconiza?


Velasco é do alvitre de que nao foi Jesús quem fundou a Igreja; cf.
pp. 20s. O autor nao aduz argumentos persuasivos para apoiar a sua
tese: o simples fato de que só Mateus consigna as paiavras de Jesús a
Pedro em Mateus 16,18-19 nao depóe contra» a autenticidades de tais
paiavras, pois elas estáo impregnadas de aramaísmos (Simio Bar-Jona,
Kepha, portas do inferno, ligar-desligar...), que sao o eco das mesmíssimas
paiavras de Cristo (¡psissima verba Christi).
A Igreja deve ser urna democracia..., democracia,de cofnunháo (p.
289). Portante é urna sociedade igualitaria, fraternal, e ñiodesiguál; b
povoxrentedem o direito de elegeros que váo presidirá Igreja/Segundo
Velasco, esta tese se concilla com a afirma5a0.de que "ofurtdámento da
autoridade é o envió apostólico e a sucessáo":: '.' ' >í¡ •■ "' c ^nn:
"O poder na Igreja é o poder da nossa fé,... e é evidente que este
poder reside no povo, em nossa condigáo comumde crentes*fpr287);
Os pobres e oprimidos nao sao apenas "psique deyém;senliberta-
dos e salvos, mas sao também os salvadores é libertadores (cf. p. 441),
O Novo Testamento nao conhece "sacerdotes como pessoal es
pecializado ou como corpo de especialistas religiosos no Jnterior da
Igreja" (p. 327). Jesús inaugurou um novo tipo de sacerdocio emrela-
cáo ao do Antigo Testamento: "Jesús fez de sua vida urna tal oferenda de si
mesmo (Hb 7,27), urna entrega táo radical pela libertacio de seu povo

355
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

que acabou na cruz" (p. 330). O sacerdocio de Jesús tem dois traeos
constitutivos: 1) fazer-se em tudo semelhante a seus irmáos; 2) sua en
trega até a morte; cf. p. 331. Por conseguinte, todo o povo de Deus é
sacerdotal, nao "por um sacerdocio centrado no culto ou ñas celebra-
coes litúrgicas, mas no mundo real, sobretudo nos que vivem num mun
do de miseria e de opressáo" (p. 338). As palavras "culto, liturgia sacri
ficio" significam nao algo de ritual, mas o trabalho em favor dos pobres e
oprimidos (cf. Hb 13,16; Fl 2,17).

Prosseguindo em suas reflexóes, o autor se mostra favorável á or-


denacáo de homens casados (p. 421) e de mulheres (p. 421s). Ora isto
parece entrar em contradicáo com os antecedentes, porque, se todo o
poyo é sacerdotal e se o sacerdocio consiste em lutar pelos pobres, nao
há porque reivindicar a especial ordenacáo de homens casados e mu
lheres.

_•' Em suma, o autor concebe a Igreja estritamente em funcáo da situ-


acáo-sócio-económica dos pobres e vé nela a instancia que se deve
adaptar á luta em prol das mudancas sociais; essa mudanca
correspondería áquilo que a Igreja foi em seus primordios. Tal adapta-
cáVé o que Velasco chama ''historicizar a Igreja", libertando-a de esque
mas preconcebidos e abstratos.

A léitura do livro de Velasco sugere algumas ponderacóes.


2.REFLETINDO...
Os comentarios á obra de Rufino Velasco poderiam ser materia de
um livro inteiro. Como quer que seja, compreenderemos nossas refle-
xóes sob tres ¡tens:

2.1. No Novo Testamento

.,' .-r R.1,Velasco professa um conceito predefinido em funcáo do qual ele


relé o Novo Testamento e a subseqüente historia da Igreja: a Igreja é
urna democracia de comunhio bu urna sociedade igualitaria Este ponto
dé vista preestabelecido falseia a sua visáo de Igreja.
- j(1áf).,autor antepóe Sao Joáo.Apostólo, (símbolo doaamor) a.Sáo
Pedro:(símbolo.)das chaves ou da.leiie:da organtzacáo): Nao..leva<em
conta o fato de que o Apóstalo Pedro é citado-17.1 vezes no Novo.Testa-
mento; o segundo nome de Apostólo mais citado é o de Joáo (46 vezes).
Nos Evangelhos, Pedro aparece com certo relevo:

- é o porta-voz dos Apóstalos: Me 8,29-32; 10,28; Le 12, 41; Jo 6,


67;'- •■■■' ■ ■ .

■'- no catálogo dos Apóstalos é sempre citado em primeiro lugar: Me


3,16-19; Mt 10,1-4; Le 6,12-16; At 1,13;

- nao raro se lé: "Pedro e os seus": Le 9, 32; Me 14, 37; 16,7...

356
"AIGREJA DE JESÚS" 21

„ JréVe*t0S atrii?uem a Pedro ur"a funcáo especial: Mt 16,16-9; Le


¿¿, ais: jo 21,15-17.

É gratuito dizer que os versículos de Mt.16.18s nao sao dos labios


de Jesús e, por conseguinte, nao enunciam o primado de Pedro.

2. Os Apostólos exerciam autoridade na Igreja nascente nao so-


mente para preservar a doutrina da fé, mas também para coibir abusos
e onentar os fiéis: assim Sao Paulo profere o anatema sobre quem pre
gue um Evangelho diferente do que ele pregou (cf. Gl 1,8sV pronuncia a
excomunháo sobre o incestuoso de Corinto (cf. 1Cor 5, 3-5) sobre o
injuriador de Corinto (cf,2Cor 2, 5-11),. sobre os irrequietos da comuni
dade (cf. 2Ts 3,6.14; 1Ts,5,14; Gl-6,1). Sao ¡Redro censura gravemente
Ananias e Safira, resultandodaí amorte do casal (cf. At 5,1-11).

A autoridade exercida pelos,ApóstoloSffoi por estes transmitida a


sucessores. Sao Paulo cuídóu de estabelecer homens apostólicos á frente
de comunidades locáis. Assim ,em IXm 1,3 Ve Jé que Timoteo é constitu
ido responsável pela igréja, ele Éfespíerñ f11(5, Tito aparece como res
ponsável pela comunidade de Creta; Epafrodito, por Filipos em Fl 2, 25;
Epafrás, por Colossasem Cl 4,12;- Diotrefes.por urna comunidade a nos
desconhecida em 3Jo 9; em Hb 13,1 ^há mencáo dos dirigentes da Igre
ja; em At 14, 23 lé-sé que foram constituidos presbíteros ou andaos
para governar as comunidades após.a:partida do Apostólo. Ñas cartas
de S. Inácio de Antioquia (f 107)tjá se revela a drganizacao atual da
Igreja; em cada diocese há um Bispo residente, responsável apenas por
tal porcáo do rebanho do SenhorcEmbora estes sucessores dos Apostó
los nao tivessem a jurisdicáo universal dosApóstolos (que eram os pas
tores de qualquer comun¡dade);:1ais:homens-eram-os auténticos
continuadores da obra.de Paulo e deLqualqueroutro Apostólo em sua
respectiva regiáo ou diocese. Somente um sucessor dos Apostólos guar-
dou a jurisdifáo universal: o Bispo*de Rorha;«hérdeiro das funcóes do
Apostólo Pedro.

A verificacáo destes>dados nao permitetfizep que a Igreja nascente


era simplesmente a Igreja ido lamorÉe'querqs^sRectos-jurídicos foram
nela posteriomente intrbdúzidosiiDásdeífos^éuáíprimórd a Igreja é
comunhao de amor^régidaTporinormásie^astqrés colocados a servico
dos irmáos: O primad6'de-Pedro«stárde]inéádpjá-nos escritos do Novo
Testamento. ; ->■■' ; - • -^ (r¡3 .r ,Z fi'"" -i.>'

1 S.lQuantO'aosacerdócioTio^ovdTestamento,cnote-se o seguinte:
Jesus..CrJstoínaoJoijapenas3um;pregadpr da Boa-Nova, que con-
gregavaídiscípulos-(cf;-p.,331■_■,do-l¡vro5derVe]asco).-Ele foi sacerdote, •
embora diversamente dos sacerdotes do.AntigoTestamento. Estesofe-
reciam vítimas irracionais, que faziam as vezes do homem desejoso de
ofertar-se a peus. Jesús ofereceu sua própria humanidade (corpo e
alma) em nome de todos os homens, na qualidade de segundo Adáo,

357
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

para reparar o agravo feito pelo primeiro Adáo ao Pai. Tomou-se assim
sacerdote (oferente) e hostia (oferecida); a imolacio ou o sacrificio de
Cristo ab-rogou as imolacóes do Antigo Testamento por ser a única imo-
lacao ou o único sacrificio apto a fazer a ponte entre Deúse ohomem. O
trabalho em favor dos pobres vem a ser urna decorrénciá dessa entrega
de Cnsto ao Pai, entrega de que todo cristio participa mediante a S.
Missa; o cnstáo se entrega aos seus irmáos nao por filantropía apenas,
mas em virtude do amor de Cristo que Ihe é comunicado pela perpetua-
cao do sacrificio da Cruz sobre os nossos altares. Com éféito; devemos
dizer que Jesús quis que o seu sacerdocio e o seu sacrificio se p'rolon-
gassem na Igreja que Ele fundou e confiou a Pedro e aos demais Apos
tólos. Para tanto,mstituiü/návéspera de sua" Paixio; a Éücaristiá, rito
que toma presente o seu sacrificio e que hade ser celebrado por minis
tros devidamente ordenados.* É*o que resultardas palavras:"Fazei isto
em memoria de Mim" (cf. Le22,19; ipor 11,23-25). O Novo Testamento
atesta a comunicacáo do sacerdocio de Cristo nao somenté'aos Apostó
los , mas também aos sucessdres dos Apostólos; é o quése ifépreéhde
das epístolas pastarais, onde Sao Paulo menciona a imposicáadas mios
a Timoteo e Tito, seüscontiriuadores ño ministerio apostólico1 i0 ';^ '

"Nao negligencies a gragá que está em tinque fe foiconferida medi


ante pmfeciaJunto com a ¡mposigao das maos do presbiterio^ (1Tm 4,4).
HEute exoño.a reavivar o domde:Deus que há em tipelau'mposicáo
dasminhasmaos"(2Tmi;6):,'Veraínda 1Tm5;!22;:At14}23}i20. 28rc

Nos textos-aquí citados nao se trata de transmitir o ministerio da


palavra ou da direcao da comunidade apenas, pois o sacerdocio cristio
inclui como tarefa palmar a celebracao da Eucaristía, daqualdáo teste-
munho os primeirosescritos cristáos: "Os discípulos mostravam-se assí-
duos aoensinamento dos Apóstelos, á comunháo^fraterha^átfracáo do
pao e^ás oracóes". (At 2j 42; ver 2, 46; 20,7.11;v1Cor!1p¡16;b11v-24).-::.
. ''._.:• •- :''" '" ' ■■i;»1 : ■'i b-tíse^! ■ oíd-*•:.'-■■•
4í Alias.-deve-se notar um principio de ordemcriteriológica pu urna
questáode^rnétodO;;teoló.gico.:N¡nguém pode ¡pretender, estudar,a.S.Es
critura 4esvjacjj|andp-.a^a;)Tradicáo-1oral,Jqueglhe é anteri.QGi&fquetse
tomouja^atr|z^ipíc^rió¿de;intéri)ipta^^
oNovo^e^tarjientó/fazli-éferéndásFaVéssáírr^^^
fezrnuitáscoisás;que.;náo;foramücons¡gnadas;nortéxtol3Íblico;tcf.rJb20,
fitáiááf¡dhéÍ
30s; 21, 24;.2Ts 2, .5s; 2Tm 2, 2: Em conseqüéncia. o siléncioído-Novo
Testamento sobre determinado-ponto de doutrinánáo é argumento sufi-
ciente:paraque5seidiga3OTNovoTestamentO£xclu¡£tal(pontOEde3dbutrina
ou de Moral. A Tradicab oral, proveniente dos Apostólos e mántida viva
na Igreja (náo^qualquer tipp^detradicáo)/explícita^as^erdádes^cbntidas
em'ceme-nós livrosrsagrados;-'ela'abreperspectivas'qúeii"deimodb su
mario, sé encontram ha Escritura Sagrada: '■■ -í i- f - ; ( : :

Este principio é particularmente válido quando se trata de entender


a instituicáo do sacerdocio no Cristianismo.

358
"AIGREJADEJESUS" 23

2.2. A Realizacao Histórica da Igreja


Os principios lancados por Cristo e confiados aos Apóstalos foram
desabrochando aos poucos. Isto foi dificultado até 313, ano em que a
greja deixou de ser perseguida e logrou paz. O longo segmento de his-
tona que entao se abre, há de ser considerado á luz de certas referenciais.
A era constantiniana ou o período de 306 a 337 é marcado pela
atuacao do Imperador Constantino. Este vem a ser urna figura ambigua
ou a figura de um simpatizante do Cristianismo, ainda impregnado de
resquicios do paganismo e movido por interesses políticos. Por ter o
Imperador concedido a paz aos cristáos, muitos Bispos houveram por
bem aceitaras boas grapas do Imperador. Este, em circunstancias diver
sas, proclamou a sua fidelidade ao Cristianismo. Assinvdizia em 315-
Dedico pleno respeito á regular e legítima Igreja Católica", A/inte anos
mais tarde reafirmava: "Professo a mais santa das religióes Ninguém
pode negar que sou um fiel servidor de Deüs" (textos transcritos da obra
de Damel-Rops, L'Eglise des Apotres et des Martyrs. Paris 1948 p
495). j .. ,f-

É certo que o Imperador, com todas as suas falhas, procurou aplicar


os principios do Evangelho á legislado do Imperio: o domingo, dia do
Sol para os pagaos, consagrado pelos cristios ao Senhor Jesús Res-
suscitado; foi equiparado as feríae (dias festivos) do Imperio Romano. O
suplicio da cruz foi proibido, pois a Cruz se tomara um símbolo sagrado
(Constantino tinha em seu palacio de Bizáncio um oratorio particular,
ornamentado apenas com urna cruz, diante da qual ele prava
longamente); foi também proibido marcar o rosto dos condenados á morte
com ferro incandescente, pois, dizia o texto da lei, "o semblante do ho-
mem foi feito á semelhanca da Beleza Divina". Constantino também re-
modelou certas estruturas da sociedade; reorganizou a familia e dimi-
nuiu o poder, outrora absoluto, do paterfamilias; mandou socorrer as
enancas abandonadas; mitigou as condicóes de trabalho dos escravos,
reconhecendo-lhes igualdade moral com os demais homens e facilitan
do o resgate dos mesmos;1 um escravo nao poderia ser separado da
esposa é dos filhos, segundo a lei.

; ■ Tais medidas nao resultaram numa cristianizacáo perfeita da^socie-


dade.rhas ihegavelmente contribuirármpará uma-transfprmacáo valiosa
da mesma segundo os principios do Evangelhb;-aos ppucos, no decor-

1 Segundo alguns historiadores, Constantino tere pensado em abolir por


completó.a escravatura. Apenas tero recuado diante das necessidades eco
nómicas: o tipo de civilizagáo da época entraría em colapso total se nSo
fosse^a mSp-de-obra escrava. O próprioS. Agbsiinhoinófímdo secuto IV,
recontíécla a escravatura cómo fato contra o qual hada se podía fazer. Era
preciso que os tempos ainda evoluissem e'tferecessem aos homens novos
dados para que percebessem. em termos concretos e práticosi que todos
seo iguais diante de Deus e, por isto, gozam dos mesmos direitos básicos
na sociedade.

359
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

rer dos cem próximos anos, os costumes do paganismo iriam cedendo


aos do Cristianismo; a sociedade paga se tornaría (tanto quanto possí-
vel á fraqueza humana) urna sociedade crista; o Imperio pagáo se faria
Imperio cristáo (dir-se-ia sob Carlos Magno em 800: "o Sacro Imperio
Romano da Nacáo Franca"). O domingo e as grandes festas da Liturgia
- Páscoa, Pentecostés e Natal - tomariam o lugar das festas pagas. A
face visível das cidades foi-se transformando: em muitos lugares ergue-
ram-se igrejas de grandes dimensóes - as ditas "basílicas
constantinianas" -, que faziarh a antiga arquitetura romana servir ao
culto do verdadeiro Deus; ñas esquinas e encruzilhadas das rúas as
estatuas de divindades pagas foram substituidas por oratorios de San
tos. A arte crista sajú das catacumbas para se expandir em plena luz. No
linguajar de cada día as palavras e expressóes, cristas se^ multiplicaran!,
os nomes próprios.foram sendo sempre maisios de mártires e Santos.
' Mediante ásúalégjslacáo social, Constantino contribuiu para sal
var da caducidadee da ruina a própria civilizacáo romana; ás bases
desta achavam-se abaladas esem vitalidades foi o Cristianismo, injetado
por urna nova legislacáo a partir de Constantino, que salvou da dissolu-
cáo a cultura antigás Assim procedendo, Constantino lancou os funda
mentos de urna civilizacáo crista, com a qual sonhou posteriormente S.
Agostinho (t 430) na sua obra monumental sobre "ACidade de Deus" e
que os Imperadores carolíngios (século IX),e otón icos (século X), com
seuspredicados e suas deficiencias, procuraram realizar em colabora-
9a0.com o papado. : , , . , . ._

■ Deve-se todavía reconhecer que as boas grasas do Imperador para


com a Igreja tivéram, para esta, nao sonriente conseqüéncias positivas,
mas também incidencias negativas e penosas, que inevitavelmente de-
corriam da fragilidade humana. Seja citado, por exemplo, o fato de que
muitos cidadáos se converteram á fé crista sem ter as devidas convic-
9óes; asJ vantagens, repentinamente outorgadas aos cristáos em lugar
das perseguicóes; ocasionaram em muitos a tibieza e o aburguesamento.
-f.i;;!;! ' ■_■ .■•■!•■' ■■".>"■■"'• ■ . , '.■" '. ' ■ . -
-': .'Hotiye prelados que.se prestaram a secundar as pretensóes do
Imperador, movidos por atitude subserviente para com o "Grande Prote-
tor*.'; a liberdade súbitamente concedida por Constantino á Igreja des-
lumbrou oscristáos e. os .tornoupropensos :náo somentea obedecer ao
Imperadorjírnas^porvezesitambéma pedirá intervencao do mesmoem
quéstóes religiosas (como fizerám, por exemplo,. os donatistas, Jiereges
do Norte da África). Estes fatos se tomaram nocivos á Igreja oriental no
decorrer dos séculos IVA/1; no Ocidente, o mesmo nao ocorreu, pois as
popula9óes ocidentais nao merecíamos cuidados dos Imperadores
bizantinos; estes chegavam a desprezá-las, de sorte que a Igreja latina
pode, com liberdade-seguir o seu curso de expansao e implantacáo. O
fato "de^ter Constantino transferido a capital do Imperio de Roma para
Bizáncib.ém 330 tornáva Roma, á sede de Pedro e de seus sucessores,
isenta do influxo imperial ou mesmo apta a se opor a este quando
exorbitava. A.propósito téñha-se em vista o que aconteceu por ocasiáo
das controversia teológicas dos séculos IV-VII (Roma sempre resistiu ás

360
"AIGREJADEJESUS" 25

formulas de fé forjadas pelos Imperadores); considere-se outrossim o


episodio do Imperador Teodósio, que, censurado por S. Ambrosio bispo
de Milao, por causa de injusto morticinio cometido em Tessalónica se
submeteu a penitencia pública e foi absolvido como qualquer frágil cria
tura no Natal de 380.

A ingerencia dos Imperadores bizantinos nos assuntos internos da


Igreja, de um lado, e, de outro lado, a subserviéncia de Bispos orientáis
sao males que tiveram inicio sob o reinado de Constantino. Faz-se mis-
ter reconhecé-los como tais; ao mesmo tempo, porém, deve-se afirmar
que nao deturparam a estrutura e a doutrina da Igreja. A mensagem do
Evangelho foi, através de tais vicissitudes, vivida pelo povo de Deus de
modo a poder transmitir-se íntegra as geracóes subseqüentes. O fato
de terem cooperado entre si a Igreja e o Imperio nao é um mal em si; nao
na por que rejeitar de antemáo o bom ehtendimento entre aquela e este,
a menos que se professe um manlqueísmo sócio-político. Se um Impera
dor se diz católico e nada prava que nao é sincero, a Igreja tem o direito
e o dever de contar com ele como um filho seu, a quem compete procla
mar o Evangelho a partir do trono imperial.

É compreensível que os cristios concebessem, logo que puderam


gozar de liberdade, o ideal da Cidade de Deus, em que o Estado fpsse
cristáo, e cojaborasse com a Igreja na implantacáo do Reino de Deus; o
Estado estaría submetjdoaos criterios da Palavra de Deus oral e escrita,
cujo porta-voz credenciado por Cristo era (e é) o Papa; na verdade,
cada cristáo, individualmente ou em grupo, tem seu comportamento moral
norteado pelo Evangelho, do qual o Bispo de Roma é o arauto abaliza
do. S. Agostinho (t 430) e mestres posteriores acalentaram a imagem
da Cidade de Deus ou do regime de Cristandade, que nao foi possível
realizar adequadamente por causa da frágilidade humana. - Em nossos
días, dado o pluralismo de crencas e filosofías existentes na sociedade,
já nao se pode pensar em instaurar a Cidade de Deus homogénea neste
mundo; todavía, para nao cometer injusticas, temos que julgar os anti-
gos á luz do que eles sabiam e experimentavam, nao á luz do que, sécu-
los depois, nos sabemos e experimentamos. De boa fé e com santo zelo
concebiam eles o Estado subordinado á Igreja em materia ética, tornan
do, assim.visível o reino.de Deus na térra. Algumas expressóes dps Pa
pas Gregorio Vil, Gregorio XVI, Pió X e óütros podem parecer chocantes
á mentalidade moderna, mas na sua época eram condizentes com o modo
de pensar-dos cristáos.

2.3. O Vaticano II: urna Mudanca Histórica? -'

1. R. Velasco apoia-se na Constituifáo Lumen Gentium do Vaticano


II para afirmar.que o Concilio quis por fim á era da "Igreja = sociedade
desigual" para retomar ao conceito de "Igreja = sociedade igualitaria".
Para tanto, baseia-se no capítulo H'dessa Constituicáo, que propóe'a
Igreja como Pqvo de Deus... Povo significaría igualitarismo, democracia
de comunháo, em suma:... os conceitos que Velasco julga encontrar vi-

361
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

gentes nos primeiros decenios da Igreja. - A propósito sejam feitas as


seguintes ponderacóes:

a) A Constituicáo Lumen Gentium, antes de falar do Povo de Deus


falada Igreja como Misterio (capítulo I). Misterioé tomado ai no sentido
de sacramento" ou realidade divino-humana, realidade humana porta
dora e transmissora do Divino. É este o primeiro e mais característico
aspecto da Igreja. Ela nao pode ser estritamente enquadrada dentro
dos conceitos da sociología ou da estruturagáo de urna sociedade mera
mente humana, pois ela transcende tal categoría. - Isto implica que só
se pode reconhecer a Igreja mediante um olhar de fé. Muito sabiamente
dizia S. Cipriano: "Nao pode ter Deus por Pai quem nao tem a Igreja por
Mae (De Catholicae Ecclesiae Unitate, cap. 6). O mesmo olhar de fé
que o cristáo Janea sobre Deus Pai e seu misterio de vida manifestada
na criacáo, ele o lanca sobre a Igreja;, a fé em Deus Pai é inseparavel da
fe em Jesús Cristo, e esta é inseparavel da fé no Corpo de Cristo que é
a Igreja. Tal tríade nao pode ser desmontada, conforme a Teología dos
antigos Padres da Igreja, que se compraziam em falar da Igreja como
"nossa Máe"1.

b) O olhar de fé passa a considerar a Igreja no capítulo II da Lumen


Gentium como povo de Deus. É um povo que vive segundo os criterios
da fé. Existe em todos os seus membros urna igualdade fundamental,
sem dúvida. S. Agostinho, com razio, dizia aos seus fiéis: "Atemoriza-me
o que sou para vos; consola-me o que sou convosco. Pois para vos sou
Bispo; convosco sou cristáo. Aquilo é um deven isto, urna graca. O pri
meiro é um perigo; o segundo, salvacáo" (sermáo 340,1).
Dentro dessa igualdade fundamental, porém, há funeñes que sao
servicos, mas servicos que conferem a necessária autoridade aos man
datarios para que exercam eficazmente o seu ministerio de celebrar a
Liturgia, guardar e transmitir a fé, orientaros fiéis no caminho da salva
cáo.

. É precisamente este.desdobramento de funcóes hierárquicas que o


capítulo III da Lumen Gentium apresenta, dando assim á notar que a
Igreja nao é urna comunháo desarticulada nem mesmo articulada segun
do-criterios humanos, mas organizada segundo os criterios da fé e á luz
dgrmístério^sacrameñto. A seguir, 6 capítulo IV da Lumen Gehtiunrvol-

1 S. Irenau (t 202) falava da Té vivificante com a quala Igreja. mais fecunda do


que a antiga sinagoga, alimenta seus filhos" fDemonstracáp V 94)., ^

Orígenes (f 254) desejava que seus ouvintes fossem "a alegría de sua Máe, a
Igreja" (cf. J.C. P/um, Mater Ecclesia, pp. 69-80;. '

-Tertuliano (t 220) celebrava Domina mater Ecclesia (a Senhora Mñe Igreja),


vera Mater viventlum (a verdadeira MSe dos vivos) fAd Martyres 1; De Anima 10).

S§o Cirilo de Jerusatém (t 387) dizia aos catecúmenos que "Igreja Católica 6 o
nome próprio dessa sania Máe de todos nos" fCatequese 18. c. 26).

362
"A IGREJA DE JESÚS" 27

ta a considerar a igualdade básica de todos os membros da Igreja


enfatizando que todos tém a mesma vocacáo fundamental: a vocacáo á
santidade, santidade que é vivencia a partir da fé, da loucura e do es
cándalo da Cruz, nem sempre segundo os parámetros do saber humano
(cf. 1Cor 1,23). Clérigos e leigos se igualam entre si na procura de urna
meta que nao podem perder de vista: a santidade ou a perfeita imitacáo
de Cristo. ^
2. Quanto á afirmacáo de que os pobres devem ser considerados
salvadores do mundo, exige distincio: os pobres que a S. Escritura elo
gia e valoriza, nao sao aqueles que simplesmente nao possuem bens
materiais, mas, sim, aqueles que, antes do mais, se sentem clientes de
Deus e se voltam para Deus com fidelidade e confianca." Estes sáq jus
tos e colaboram com Cristo para á salvaicáo do mundo, como membros
.da Comunháo dos Santos. Ver a propósito a Iristrucáo da Congregacáo
para a Doutrina da Fé Libertatis Nuntius (6/8/1984).
■ ■ ' ■ • !•■'"v...:t-' r- ■•'■*'-■ ■>■-'>■- ■ ■ ■'. '. ■;■.
A Igreja nao.está alheia á questáo social eás injustas que man-
cham a;soc¡edade. Para atender a tal problema; porém, nao é necessá-
rio aderir á Teología da Libertacáo (cuja insplrá^áoié mais política e so
ciológica do que teologal); existe jhpbutriná Social da Igreja, formulada
em encíclicas papáis, que, desde áRerumNovarum de LeáoXIll (1891),
vém acompanhando a questáo do relacionamento de patróes e operari
os, povos ricos e povos subdesenvolvidos, trabalho objetivo e trabalho
subjetivo... A Igreja nao tem cessado de se pronunciar a tal propósito
com muita clareza ecoragemraliáslra;motivacáo religiosa é a mais forte
e eficaz para se empreender qualquer reforma social. > ' -

3.CONCLUSÁO

As observacóes até aqui propostas par'ecefn evidenciar que o livro


de Rufino Velascoé tendencioso. Afinal o autor quer "provar" que a Igre-
ja está hoje em rétrocesso ou em tnvolucáo, após a abertura dada pelo
Concilio Vaticano II, que terá posto fim a umá era de^eclésiológia fecha
da pós-tridentina. Para xomprovarsua tese, iRíiVelasco^percorre as Es-
crituras;.do;Novo Testamento e.a'historia.da lgrejaiPtencionando desco-
brirraífOSisinais de :uma!greja4ida\corjnoiso.ciedadeigualitaria, que se foi
transfomiando em5oc¡edade:deslguali\óuila>sista^^ o
autorpoe émfoco muitonítido certos^quadro'sda.história da,lgreja;infe-
lizmente, porém, nao considera outros, quádrbs.yqüe.nao condizem com
sua<tese.Jnjomomento,presente,yeláscoléiadeptpdaíTeologiada Liber-
tapápiíque'I'aéúénfaseíao^ignjfjcaddihis^
pobres corposeus destinatánosprivilegiádbs,%praticáVdá justiga... Com-
preender^será*.ent§p/qüé;^per^pecbVá
esta, e;sorhente ésta: Igreja dos pobresM;j[pp.;4255). Ora esta conclusio
é unilateral ou parcial, nao levando em conta o misterio ou o sacramento
da Igreja de que fala o próprio Concilio do Vaticano II na Constituicáo
Lumen Gentium, cap. I. A resposta católica ab problema social de nos-
sos dias nao é a Teología da Libertacáo, mas a Doutrina Social da Igreja.

363
A Grande Figura Feminina do nosso Século:

MADRE TERESA DE
CALCUTTÁ: VIDA E OBRA

Em síntese: Madre Teresa de Calcuttá nasceu em 1910 na


Albania, filha de pais católicos em país preponderantemente
mugulmano. Em 1928 entrou na Congregagáo das Irmas do Lóretoña
Irlanda, desejando ser missionáría na India, onde tais Irmas tinham
casa. Em Daneelíng (india) fez seu noviciado e prpferiu'seüs votos.
Em 1948, após ter lecionado Geografía e Catecismo num colegio das
Irmas do Loreto em Calcuttá, obteve a licenga para se dedicar aos
mais pobres dos pobres. Fundou entao ta.CongregagSo^das
Missionárias da Caridade, que hoje conta'com seis ramos} úns^átivos,
outros contemplativos. A CongregagSo foi aprovada pela'Santa Sé
em 1950; nunca deixou de serprocurada^por numerosos candidatos
e candidatas, de modo que hoje está espalhada pelos cinco
continentes. < ...

As páginas subseqüentes apresentam depoimentos de ¡Madre


Teresa e de Irmas desua Congregagáo a respeito da oragáo e do
trabalho que realizam.

Madre Teresa é considerada urna das dez figuras femininas de


maior relevo em nossos tempos e a maior figura da caridade em nosso
mundo. - - v^ ...

* *, *

Urna das,persona!idades mais notáveis de nossos días é:a de


Madre Teresa de ealcuttá, "a maiorfiguradoamorto século XX"'(John
Caimse LucianaVarteyy-Suaprbjepaoernnodososcincócontinéntés
é algo de raro?-güeTázt<fnlrastefcó"nfa^simpíicidáde é o despojamehto
dessa mülhén Éiirn sinál éxpréssivópara o mundo crente tfñáó crente.
Dar a conveniencia de-Ihe dedicarmos-álgurhas páginas érhjPR,
valendo-nos-dp livro déíMadre-Terésa:: Un Chérnirrtout simple (PJoh/
Mame'1995)|: soÍictóaaJRor3rhigosf.tóadre
e ai propóe o Tnjstério tje süa vidavoú o segredo de süa obra,lsehdp
responsáveis pela edi^p; John'.C^ims e Lucinda V
há.Vp'essóas"cujo'corhpórtamento,1sobressairido sobre o comum,
desperta a justa curiosidade de se saber qual a mola oü qual o motivo
íntimo de táo significativa vivencia. Sem dúvida, tal é o caso de Madre
Teresa.

364
MADRE TERESA DE CALCUTTÁ 29

1. QUEM É MADRE TERESA?

Agnes Gonxha Bojaxhiu nasceu em Slopje (Albania) aos 26/08/


1910, de familia católica domiciliada em país preponderantemente
muculmano. Desde menina, manifestou o desejo de ser missionária.
Aos dezoito anos de idade, encaminhou-se para essa meta, entrando
na Congregafáo das Irmas do Loreto na Irlanda, que tinha casa na
India, país reconhecidamente pobre. Fez o seu noviciado em Darjeeling
(India) em 1928. De 1929 a 1948 lecionou Geografía e Catecismo no
Colegio Saint Mary (Calcuttá). Ao pronunciar seus votos de Religiosa
em 25/05/1931, escolheu como padroeira Santa Teresa do Menino
Jesús de Lisieux, cujo'nome ela adotou. Aprendéu o hiñdi e o bengali.
Em 1944 tornou-se a Responsável do Colegio; tendo aumentado a
carga de trabalho ao mesmo tempo que a alimenta9áo era racionada,
Madre Teresa caiu doente de tuberculose.

Teve que deixar Calcuttá; no trem em que viajava para Darjeeling,


aos'10/09/1946, recebeu seu segundo chamado: o de servir a Jesús
nos mais pobres dentre os pobres, ñas rúas e ñas favelas das grandes
cidades. Sámente em 1948 a Religiosa obteve a licenga para sair do
convento e dedicar-se a tal obra. .

Com muito empenho aplicou-se á nova tarefa, embora tivesse


saúde fraca; era fortalecida por seu ánimo vigoroso e seu espirito de
Iideran9a pioneira. Encontrava estímulo na ora9áo, pois tinha a
conviccao de que a uniáo com Deus é o segredo de toda atividade
apostólica. Dizia que "a santidade é obrigagáo de todos; a santidade
é necessária a todos os homens e mulheres".

Em 1949 Madre Teresa assumiu a nacionalidade indiana. Em 1950


a Congrega9áo das Missionárias da Caridade qué ela fundara em
Calcuttá, foi aprovada pela Santa Sé. Em 1960 já havia virtte e cinco
casas das Irmas na India, destinadas a mendigos, desabrigados,
leprosos, crian9as abandonadas... ' r

Em 1965 abriram a primeira casa fora. da India, ou seja, em


Cocorote (Venezuela). Em 1966 foi fundado o ramo dos Irmáos
Missionários da Caridade, tendo o Irmáo Andrew como Servidor Geral.
Em 1965 a Congrega9§o das Missionárias chegou ¿Australia,
fundando lá algumas'casas. Em 1976 foi fundado o ramo contemplativo
da Obra; eram as Irmas do Verbo. Em 1985 foi criado em Nova lorque
o primeiro abrigo para aidéticos; Em 1988 as Missionárias se
estabéleceram na Rússia comunista. Em 1991, entravam em Tirana'
(Albania); neste mesmo ano a Congrega9§o contava 168 casas
somente na India. Nunca deixou de ser procurada por numerosos
candidatos ecandidatas mesmo nos anos de mais intensa crise
religiosa.

365
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

Atualmente a Obra de Madre Teresa conta seis ramos- as Irmas


l* IV™38 C°ntemP>at¡vas. os Irmáos AtivoT os frS
Contemplativos, os Padres Missionários, os Miss
os Padres Missionários, os Missionáriosleíaos os
ssistentes Doentes e Sofredores
Voluntarios bu Assistentes 9 '
_ A fundacáo do ramo dos Voluntarios Doentes e Sofredores tem
orjgem in eressante. Com efeito; quando Madre Terela Se^e^Tr
3¿3h? eP.obres "as ruas de Calcuttá, encontrou-se com urna
£¡!rf¡ nXy*' Chamada Jac«ueline ^ Decker. Esta deixara sua
ííniP dedicar-se a popula9áo carente de Madras (India).
Jacquelme, ao saber das .ntencoes de Madre Teresa, aderiuá obra
da Religiosa; quena ser sua mais próximá.colaborádora. Eis ;porém
que, guando cpmecou a trabalhar nos báírros pobres de Calcuítá'
^rSSikS^f mܡt? fOrteScna C0luna vertebral, que a !paralisavame
impediam de continuar. Foi submetida a tratamento intensivo mas
sern resultado. Ameacada de morte próxima, voltou para a Béigica
n)H!|?eaj)«M|da. PP's se julgava fracassadae condenada.a,ser inútil e
S&ífcTO-í!6 sua.missáo. Ora certo dia.Madre Teresa Ihe escreveu
V.njajartaj-aizendo^lhe que tencionava fundar urna alianca entre
^frepAresjncapazes de agir, mas cheios de amor aos mais pobres e
capazes de'rezar. Tais foram as palavras da Madre: " '

hoje urna proposta que, a encherá de alegría


y%&r8uer\ser a minha irmSgémea e. tornarse realmente urna
Missipnána-da-Oaridade? Com o corpo na Bélgica, mas a alma na
'/W'?.?.. l/n/ndo-se espiritualmente aos nossos, esfqrgos, vocé
P^Mp'P^'P^a oferta de seus sofrimentos e suas oragóes, no nosso
trabalho nos bairros pobres, Nossa tárela é, gigantesca e precisa de
muitos operarios. Mas necessita também de almas como a sua, que
^Qfrem.e rezam pelo bom éxito do nosso empreendimento. Vocé quer
aceitaroferecer os seus sofrimentos pelas suas irmSs de equipe, para
darrJhescadadia, a. forga de realizar, a sua,obraje misericordia?"
i£l;r. .. . ,,.lM, ._; , .;

' as?'m ^"e teve origem o ramo (Jaqueles que¡ jconfigurando-


éiéP&fo en> sua Paixáo Redentora, contribuem para a salvacáo do
muridó^ibasBadosiem;S§o Paulo-(Cl 1,24); t: />; ; - .:»• -
*o*£ki"CI.e'¿li o,--..-. -. ..,, •...•■■- ■■•■.- ■■..■■; •- - ■
!¿1é£xaminemos agora a espirítualidade de Madre Teresa de Calcuttá.
j:ÍÍ¿|i¿c.i.'ív. -• - ■■:•■■.- i,- ■•• ■"■ - - . ■ •
üy^jqr,vii! c 2.,UM CAMINHO MUITO SIMPLES
filf^ól-wó'í :."■ .'. --."•,"
n¿ sy.nl-ía.dm¡rador indiano de. Madre Teresa, homem de negocios,
m9,n,P°Mí,;uni dia.imprimir para ela;um carta ode cor amarelaportador
desc¡nco~ljnhas. A Madre chama isso "seu cartáo de visita", que ela
distnbui amplamente, pois explica toda a misteriosidade de sua obra,
jpssasgcincoiinhas correspondem ás cinco etapas da caminhada por
ela trilhada e proposta ao mundo:

366
MADRE TERESA PE CALCUTTÁ

"O fruto do silencio é a ora?ao.


O fruto da oracáo é a fé.
O fruto da fé é o amor.
O fruto do amor é o servico.
O fruto do servico é a paz".

Este programa de cinco etapas decorre da experiencia e da


reflexáo de Madre Teresa e de su as Irmas. Como se vé, dá lugar de
relevo á oracáo; desta as Irmas tiram a coragem para enfrentar as
mais arduas tarefas. Madre Teresa explica isto ao falar da primeira
etapa do seu programa:

"É preciso, antes do mais, consagrar tempo ao silencio e á


contemplacáo, principalmente se nos vivemos ñas grandes cidades,
em que tudo é agitado. Eis por que resolví abrir nossa primeira casa
de Irmas Contemplativas - cuja vocacáo é rezar durante a maior parte
do dia - em Nova lorque, e nao no Himalaia, pois eu sentía que as
grandes cidades é que mais precisam de silencio e de contemplacáo.

Comeco sempre a rezar fazendo silencio; é no silencio do coracáo


que Deus fala. Deus é o amigo do silencio, e nos O devemos escutar,
porque nao sao nossas palavras que pesam, mas, sim, aquilo que Ele
nos diz, e o que Ele diz através de nos. O que o sangue é para o
corpo, a oracáo é para a alma; ela a aproxima de Deus e purifica
nosso coracáo. Entáo, tendo o coracáo purificado, nos podemos ver
a Deus, falar-lhe e descobrir seu amor na pessoa de cada um de
nossos irmáos. Se o seu coracáo está puro, voces sao transparentes
diante de Deus, voces nada Ihe escondem; e somente entáo voces
Ihe oferecem livremente o que Ele espera de voces.

Se voces desejam ir á procura dé Deus sem saber como o fazer,


aprendam a rezar; obriguem-se simplesmente a rezar urna hora por
dia. Voces podem rezar em qualquer lugar, a qualquer momento. Nao
é necessário que estejam numa cápela ou numa igreja. Voces podem
rezar enquanto trabalham;o'trabalho náointerrompe a oracáo, nem
a oracáo interrompe o trabalho...

Sem a oracáo,- eu nao conseguiría realizar meu trabalho, mesmo


que só durasse meia-hora. Eu recebo de Deus a minha forca mediante
a oracáo. Todas as Irmas estáo de'acordó neste ponto. Oucam o
testemunho de Irma Dolores, que já passou 35 anos em nossa
Congregacáo e atualmente administrá9Nirínal Hriday, nosso larde
Calcuttá para os moribundos e abandonados:

'Todas as manhas, desde que acordam, as Irmas sabem que


provagóes as aguardam, provagñes muito penosas, por vezes. A
oragao Ihes dá forgas; sustenta-as e as acompanha; ela nos dá

367
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

STwi ale9rí* nec?SSária para cumP"'rmos o que temos de


fazer. Comegamos a jornada pela oragáo e a Missa, e a terminamos
?S£¿2£ af°??a° dia1te *semJeSUS
a
Tr*te'ht7
Fo¡ a orafáo que ¡nspirou a Madre Teresa um texto significativo
que se encentra anxado numa parede do lardas criancas Shishu Bavan
em Calcutta:

"As pessoas sio desarrazoadas, ilógicas e egocéntricas.

Apesar de tudo, ama-as.

Se praticas o bem, as pessoas te atribuem motivos egoístas


e calculistas.

Apesar de tudo, pratica o bem.

Se tiveres éxito, ganharás falsos amigos e verdadeiros


inimigos.

Apesar de tudo, procura ter éxito.

O bem que hoje praticas, amanhá será esquecido.

Apesar de tudo, pratica o bem.

A honestidade e a franqueza tornam-te vulnerável.

Apesar de tudo, sé honesto e franco.

O que levaste anos para construir, pode ser destruido de


um día para o outro.

Apesar de,tudo,,constrói.

Os pobres tém realmente necessidade de socorro.


Mas alguns poderáo atacar-te, se tu. os ajudares.

Apesar de tudo, ajuda-os. . .

Se das ao mundo o melhor de ti,


Corres o risco de-deixar.no mundo algumas penas.

Apesar de tudo, dá o que tens de melhor".


Estas palavras dáo testemunho vivo de amor puro e livre de
interesses pessoais.

368
MADRE TERESA DE CALCUTTA 33

Madre Teresa se refere agora as suas funda9óes:

"Tanto nos pedem que abramos novas casas no mundo inteiro


que nos nao cessamos de fundar novos lares. Estamos presentes em
mais de cem países. E um auténtico dom de Deus poder assistir de
todo o coracáo e gratuitamente aos mais pobres dentre os pobres
nos quatro cantos do mundo. Recentemente abrimos casas para
aideticos na Espanha, em Portugal, no Brasil e em Honduras. Na África
tambem temos fundacóes, mas nao sao casas especializadas O
mesmo acontece no Haití. Nos Estados Unidos também temos lares
para aidéticos em Nova lorque, Washington, Baltimore, Dallas, Atlanta
San Francisco e estamos criando outros aínda. Na india estamos
abrindo a primeira casa para aidéticos em Bombaím... Há muito temos
a esperanca de poder abrir uma casa na China. Cada día nos traz
mais trabalho, hoje mais do que ontem, e menos do que amanhá" (ob
citada, pp. 124s).

Segue-se o depoimento de uma esteticista e modista:

"Como varias voluntarias que encontrei, cheguei em Calcuttá por


acaso. Apenas devia fazer escala ali em viagem para a Australia. Eu
era esteticista; naquele momento acabara de me divorciar, e uma velha
amiga me pagara a viagem para que eu fosse visitá-la na Australia.
Passei por uma das casas das Missionárias e fui logo acolhida por
uma voluntaria de servico, que me disse: 'Rezei para ter uma
companheira, e eis que vocé está aquí*. Ela me convidou para
acompanhá-la até os tugurios a fim de chamarmos as enancas para
uma festa de Natal na casa matriz das Irmas. Eu trajava uma saia
curta colante e saltos altos. Voces podem imaginar o que isto
significava...

Alguns dias mais tarde, fui, pela primeira vez, a Kalighat. Isto me
traumatizou horrivelmente. Como modista, eu estava acostumada a
ver tudo bonito, chique e perfumado. Que choque nao sofri! Quando
uma das Irmas me pediu que desse banho a urna muíher, acreditei
que nao o conseguiría. Eu era incapaz de o fazer. Flquei imóvel onde
estava e a Irma me chamou ádistáncia:"Penny- seguren, por favor!.
Limitei-me a chorar e a dizer que nao o podia fazer. Entao me disse:
•Está bem! Venha comigo'. Ela entáo levantou aquele pacotezinho de
ossos - pois era o que aquela mulher se tornara - e a carregou para
a sala de banhos. Ainda choro ao lembrar-me disto. Nao havía muita
luz no recinto, e eu estava lá, arrasada... Entáo, de repente, a
sala se iluminou. Um minuto antes, eu dizia: 'Nao possol1, mas naquele
mesmo momento percebi que eu o conseguiría.

Ao olhar para uma das imagens afixadas as paredes, como seria


a imagem de Cristo crucifixado, tomei consciéncia repentina de que

369
34 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

qualquer pessoa pode ser o Cristo. Nao apenas urna velhinha coberta
de sujeira, mas o mundo inteiro é o Corpo de Cristo. Dei-me conta de
qüaqíé T6" ^^ ^ ""^ PeSS°a *" ° pOde fazer Porc'uem
Atualmente, quando as pessoas idosas me dizem que sao velhas
demais para mudar, eu Ihes respondo: Infelizmente nao concordo
pois fiz a experiencia do contrario: com 48 anos de idade, mudei por
completo a minha vida'" (ob. cit, pp. 139-142).

Eis o que relata um voluntario norte-americano:

"Comecei meu voluntariado com as Missionárias da Caridade no


principio de 1994, após estar sentado diante da televisa o e ter
considerado os horrores de Ruanda e da Somalia. Minha esposa estava
em viagem de negocios. Eu portanto estava independente e sem
constrangimento. Ao ver as noticias, eu me dizia: "Que diabol Haverá
muito que fazer em muitas partes para por um pouco de ordem nisso
tudo. Alguém deveri a ir lá e realizar alguma coisa. Estás sentado na
tua poltrona... Póe-te á obra ou, se nao, cala-tel1...

Quando Madre Teresa, há alguns anos, passou por Washington,


lembro-me de que no Capitolio, numa recepcáo do Congresso, um
Senador Ihe disse: 'Madre, a Sra. faz um trabalho maravilhoso'. Ela
replicou: 'É o trabalho de Deus'. Continuou o senador: 'Na india, onde
há tantos problemas, pode a Sra. estar feliz com as suas rea lizacóes?
Nao é inútil tentar sanar os problemas?'. Respondeu Madre Teresa:
Veja, senhor Senador, nao somos sempre chamados a ser felizes,
mas somos sempre chamados a ser fiéis'. - A resposta da Madre me
penetrou díretamente no coracáo".

Fala agora a Irma Dolores relatando suas experiencias com os


enfermos, áos quais falava da oracáo: .

"Muitos homens que vém aos nossos lares, todos os aidéticos,


chegam totalmente desesperados. Mas após os cuidados solícitos das
nossas Irmas e dos voluntarios, a paz entra em seus coracóes. Por
isso nossas casas se tornam para eles auténticos lares.Muitos dizem:
'Este será o último lugar onde eu viverei, onde eu estarei'. Sempre
respondí: 'Nao; será o penúltimo. É daqui que vocé partirá.para ir
para o seu verdadeiro lar, onde nosso Pai do céu o espera*. Muitos
entáo ficam impacientes na expectativa de ser acolhidos em sua
morada celestial.

Quando estou com alguém que vive os seus últimos momentos e

370
. MADRE TERESA DE CALCUTTÁ 35

vejo essa pessoa em paz ao deixar este mundo, eu digo a mim mesma
que todos acabaremos passando por essa fase. Entáo rezo para ser
capaz, também eu, de partir em paz e de maneira táo bela. Todos nos
fomos feitos para ir para Deus. Nos vimos dele, e voltamos para Ele,
de modo que, dando assisténcia aos outros naquela hora suprema, é
a nos mesmas que estamos ajudando" (pp. 167s da obra citada).

A respeito da morte reflete Madre Teresa:

"Todo ser humano é capaz de ir para o céu. É lá que está nossa


morada. Alguns me interrogam a respeito da morte, e perguntam-me
se me alegro de antemáo por ela. 'Sem dúvida, respondo, pois voltarei
para minha casa". A morte nao é um fim, mas um comeco. A morte é
a continuacáo da vida. Ela é sinónimo de vida eterna; é por ela que
nossa alma vai para Deus, a fim de ficarem sua presenca e contemplá-
Lo, falar-Lhe e continuar a amá-Lo com todo o nosso coracáo, com
toda a nossa alma, com todo o nosso ser. Somente nossos despojos,
nos os entregaremos á morte; nosso coracáo e nossa alma sao
¡moríais.

Por ocasiáo da nossa morte, estaremos com Deus e com todos


aqueles que tivermos conhecido. Eles nos precederam, eles nos
esperam. O céu deve ser algo de maravilhoso.

Cada religiáo tem seu modo de ver a eternidade e a vida no além.


Os que tém medo da morte, sao aqueles que julgam que ela é o fim
de tudo. Nao conheco ninguém que tenha morrido no medo, após ter
conhecido o amor de Deus. Basta apenas que nos coloquemos em
regra com Ele na paz, como nos todos fazemos. Há sempre pessoas
que morrem de repente; isto pode acontecer-nos a cada momento. O
día de ontém já passou; o de amanhá ainda nao chegou. Por isto
devemos viver cada dia como se fosse o último, de modo a podermos
responder ao chamado de Deus e estarmos prontos para morrer com
a alma e o coracáo puros".

Muitos outros depoimentos podem ainda ser acolhidos no tesouro


de declaracóes de Madre Teresa e suas Religiosas. É de crer, porém,
que os que foram até aqui transcritos, apresentam genuinamente um
pouco do segredo dessa personalidade de mulher físicamente franzina,
mas interiormente rica do Espirito de Deus, que Ihe proporciona a
irradiacáo de que goza no mundo de hoje.

371
Sede de imortalidade:

CONGELAMENTO DE SERES HUMANOS

Em síntese: A crioterapia ou o tratamento através do


congelamento de corpos humanos sujeitos á morte clínica tem
progredido. A revista ISTO É, 21/2/96, pp. 34-36, transmite recentes
noticias a respeito: os pacientes, tidos como morios de morte clínica
(nao morte real), sao colocados em saco de dormir, depois de
devidamente preparados pelos médicos, e mergulhados em nitrogénio
líquido a 196° negativos. Esperase que um dia a medicina disponha
de recursos adequados para curar as doengas de que sofrem tais
enfermos e que hoje parecem incuráveis. O congelamento detém o
processo de decomposigáo das células do organismo, que pode
(segundo se diz) permanecer anos congelado sem se deteriorar, á
espera de reanimagSo e tratamento mais apurado, destinado a sanar
o que hoje é insanável.

Do ponto de vista moral, nada há a censurar no caso, desde que


ninguém seja coagido ao congelamento. Seja ele solicitado pelo
paciente, que deve ser informado a respeito dos riscos que tal
processo acarreta: o organismo pode nao resistirá baixa temperatura;
caso resista, e venha a ser descongelado, será cercado de um
ambiente novo, desconhecido ao enfermo - o que Ihe tornará a vida
mais difícil e estranha.

Como quer que seja, a crioterapia nao ressuscita mortos, mas


estanca um processo de deterioragao; o principio vital ou a alma
humana espiritual permanece no corpo congelado, que tem vida
latente na expectativa de reanimagSo eventual e recuperagáo da
saúde. - Tal avango da medicina nada tem de imoral; é necessário,
porém, que os homens nao percam a consciéncia de que sao moríais
e, cedo ou tarde, morreráo e daráo contas ao Criador do desempenho
de sua conduta durante os anos passados neste mundo.

A revista ISTO É, edicio de 21/2/96 pp. 34-36, publicou um artigo


intitulado "Eternidade. Á espera do futuro. Nos Estados Unidos, 64
pessoas apostam no congelamento para um dia ressuscitar". Já este

372
CONGELAMIENTO DE SERES HUMANOS 37

título é impreciso por duas razóes: 1) nao se trata de entrar na


eternidade, que é exclusiva He Deus só'; 2) nem se pode pensar, no
caso, em ressurreicáo, pois na verdade nao há volta á vida, mas há
congelamento e descongelamento de um corpo no qual o principio
vital ou a alma permanece latente.

Ñas páginas subseqüentes examinaremos mais de perto o artigo


e as questóes que ele suscita.

1. HIBERNAQÁO OU CONGELAMENTO: QUE É?

Por "hibernacáo" entende-sc "a maneira de passar o invernó".


Trata-se da faculdade que certos seres vivos tém, de se adaptar ás
condicóes de clima de invernó rigoroso, com sua baixa de temperatura,
diminuicác da duracáo dos dias...

A adaptacáo, no caso, consiste em reduzir as manifestares vitáis,


ou seja, reduzir o gasto de energía. Os vegetáis, os animáis
invertebrados e os vertebrados obtém este resultado mediante táticas
diversas quando coagidos pelo clima.

O homem tem procurado fazer o mesmo em favor da própria


humanidade, a partir da primeira metade deste século: os cientistas
tentarñ submeter certos individuos a baixas temperaturas a fim de
mais fácilmente atender á saúde dos mesmos: desacelerar a circulacáo
do sangue, reduzir o consumo de oxigénio em ambiente de baixa
temperatura permitem intervencóes cirurgicas sem sangramento, como
se dirá adiante.

A tática de hibernacáo ou congelamento, para o homem, foi


concebida por Robert C.W. Ettinger, dentista norte-americano,
professor de Física, Astronomía e Matemática na Universidade de
Wayne. Ettinger, numa tese muito categórica intitulada "A imortalidade
está á vista!", asseverava que desde já o homem pode ressuscitar ou
reviver físicamente após a morte. Chegava a apregoar a fundacáo da
"Sociedade dos futuros I moríais", reconhecendo todavía que seria
necessário um verdadeiro exército de vigias especializados para
guardaros túmulos, ou melhor, os "dormitórios-geladeiras" (como dizia
o próprio Ettinger) desses aparentes cadáveres. Ao mesmo tempo,
perguntava se o nosso planeta podería dar abrigo e alimentacáo a
tantos milhóes de homens "ressuscitados", pois já hoje em dia o
problema da alimentacáo é grave, e tende a se agravar cada vez mais,

1 O ser humano 6 chamado á vida sem fim. Todavía essa vida teve comeco; poristo
nao é eterna (só Deus é eterno), mas é ¡mortal.

373
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

dado o extraordinario aumento da populacáo mundial. Ettinger, porém,


aínda se consolava, lembrando que os processos de hibernacáo,
dispendiosos como seriam, nao estariam ao alcance de todos os
homens; a congelacáo de um corpo humano saina, sim, por 4 milhóes
de antigos francos franceses.

Verdade é que uma grande Companhia que explorava a industria


do frió, foi interpelada sobre as possibilidades de sua colaboracáo
nesse terreno; respondeu estar, sim, interessada pelo problema e
disposta a examinar com atencáo qualquer proposta concreta que
Ihe fosse feita.

O método imaginado por Ettinger para obter a imortalizacáo do


individuo (como composto de corpo e alma, nao apenas como alma)
era em si muito simples: ensinava que, no momento da morte de uma
pessoa, se deveria congelar o seu cadáver em temperatura próxima
do zero absoluto (273° abaixo do zero comum). Nessa temperatura,
julga-se que a materia já nao é capaz de atividade; fica por completo
parausada, de modo a nao poder sofrer deterioracáo ou destruicáo
alguma. Tal efeito se poderia alcancar mergulhando o organismo em
helio líquido, cuja temperatura é de - 269°. Feito isto, esse mesmo
organismo seria posto em um "dormitório-geladeira". E os médicos
aguardariam...

- Que aguardariam?

- Duas coisas... que a medicina estivesse em condicóes de


progresso tal que já pudesse curar a doenca do corpo congelado, e
que pudesse descongelar o organismo convenientemente, de modo
a Ihe aplicar o remedio descoberto.

A congelacáo, porém, (observam os dentistas) exigiría que os


trabalhos a ser executados no momento do desenlace do doente se
efetuassem com toda a rapidez possível. Com efeito, a imobilizacáo
do coracáo (que caracteriza a morte) acarreta a asfixia progressiva
dos tecidos do organismo; ao cabo de 5 ou 6 minutos, as células do
córtice cerebral (que sao as primeiras atingidas) sucumbem de modo
tal que doravante já nao é possível conseguir a reanimacáo do corpo;
faz-se mister, por conseguinte, aproveitar os 5 ou 6 minutos que
decorrem entre a paralisacáo do coracáo e a conseqüente asfixia das
células cerebrais.

Eis as idéias e os planos de Ettinger e de seus colaboradores.

374
CONGELAMIENTO DE SERES HUMANOS 39

2. O HISTÓRICO DO PROCEDIMIENTO

As técnicas de hibernacáo ou de congelacáo dos organismos se


devem principalmente aos estudos do sabio francés Henri Laborit.
Este pesquisador verificou que, baixando de 37° para 30° a
temperatura de um corpo vivo, o processo de asfixia das células do
cerebro se torna mais lento; em vez de durar 5 ou 6 minutos apenas,
já dura 15 minutos; este intervalo já fornece ao médico maior margem
para intervir no organismo, efetuando ai alguma operacáo cirúrgica
que Ihe possa ser benéfica. Acontece, porém, que, quando a
temperatura do organismo baixa a 25°, os tecidos geralmente se
destroem de maneira fatal. Por conseguinte, a arte dos médicos em
tal setor de trabalho deverá consistir em congelar o organismo segundo
ritmo táo lento e suave que a progressiva diminuicáo de temperatura
se torne como que algo de natural.

Conscientes disto, os sabios tém realizado experiencias com


animáis irracionais, a fim de averiguar as suas reacóes e as possíveis
aplicacóes á hibernacáo do homem.

Já em 1780 o jesuíta italiano Pe. Spallanzani conseguiu conservar


em vida animáis que vivem em musgo, os Rotíferos e os Tardígrados,
congelando-os á temperatura de - 19°. Em conseqüéncia, tais
pequeños animáis foram chamados "ressuscitantes". No ano de 1950,
o dentista francés Becquerel colocou esses mesmos seres em
ambiente de temperatura próxima ao zero absoluto; depois aqueceu-
os de novo e reidratou-os, verificando que voltavam a viver como
outrora. A experiencia foi certamente digna de nota, mas nao permite
conjeturar o que se daría com o homem, pois Rotíferos e Tardígrados
sao seres elementares, capazes de se desidratar sem perder a vida.
Em animáis de sangue quente, a reacáo seria diferente. Nao se pode
desidratar um corpo humano sem Ihe tirara vida; e, caso alguém queira
congelar um organismo humano sem o ressecar previamente, verifica
que a agua dos tecidos se transforma em gelo e assim destrói os
próprios tecidos.

Outras experiencias tém sido efetuadas.

Assim em 1946 Jean Rostand comunicava á Academia das


Ciencias da Franca que pudera conservar vivo o esperma de rá
durante 20 dias, em vez das poucas horas habituáis, recorrendo, para
isto, a urna solucáo de glicerina.

Em 1949 um grupo de cientistas ingleses dirigido pelo Prof. Parkes


demonstrou que a glicerina permite conservar espermas de aves e
mamíferos a - 70° durante varias semanas.

375
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

Em 1953 os americanos Bunget e Sherman, usando do mesmo


método, conservaram esperma humano durante mais de um mes á
temperatura de - 79°; depois, reaqueceram-no e com ele praticaram
a inseminacáo artificial em tres mulheres, que tiveram filhos normáis.
Em 1956, o iugoslavo Giaja e seu discípulo Andjus congelaram
alguns ratos á temperatura de - 6o, conseguindo reanimá-los
posteriormente. Verificaram entáo que esses ratos eram mais robustos
e resistentes do que os seus semelhantes nao congelados. Em
particular, o seu coracáo era mais forte. O metabolismo vital do
organismo nao se interrompera, mas apenas diminuirá notoriamente
avelocidade do seu ritmo. A maior parte da agua contida nesses corpos
nao se reduzira ao estado de cristais nocivos aos tecidos.
Em 1958, o sabio francés Louis Reyfoi mais longe ainda. Congelou
um coracáo de embriáo de galinha, mergulhando-o em azoto líquido
á temperatura de - 196°. Nesse caso houve vitríficacáo, isto é, o
coracáo se tornou duro como uma pedra; mas, depois de haver sido
aquecido em banho líquido conservado ao calor de 37°, tal coracáo
recomecou a bater.

Enfim no mes de marco de 1963 o biólogo russo Lesinalozinski


mergulhou vinte larvas da borboleta de milho em helio liqüefeito e
reduzido á temperatura de - 269°. A seguir, averiguou que treze dessas
larvas voltaram a manifestar a vida de outrora.

3.ATÁTICAHOJE
Conforme a revista ISTO É. n° citado, p. 35, tal é o procedimento
a ser observado para congelar alguém:

"É fundamental que o processo de crionizacáo seja feito o mais


rápido possível em relacáo ao último suspiro...

O corpo é transferido envolto em pedras de gelo comuns. Uma


vez na mesa de operacáo, todo o sangue do paciente é retirado para
evitara coagulacáo e a expansáo das células (se o sangue congelasse,
se expandiría e destruiría todas as células). Em seu lugar é irijetado
glicerol (um alcool) misturado com heparina (anticoagulante), vitaminas
e fortificantes para os tecidos. Outras duas substancias sao aplicadas:
urna para o corpo nao tremer durante a operacáo e outra para o morto
nao abrir os olhos. Isso é apenas uma garantía para nao assustar a
equipe médica. Uma máquina de respiracáo artificial é acionada para
que as substancias circulem. Todo esse processo sucede sob uma
temperatura nao inferior a 4o C. Terminada a fase da operacáo, o
paciente é colocado em uma caixa de madeira e aluminio e fica coberto
por gelo seco por tres dias. Ao final dos tres dias, o corpo atinge 74°C
negativos.

376
CONGELAMENTO DE SERES HUMANOS 41

O próximo passo consiste em envolver o paciente em um saco de


dormir tradicional e deitá-lo sobre um caixáo de aluminio. Um guindaste
levanta o caixáo e coloca-o de cabeca para baixo em uma cápsula de
aluminio, onde outros tres pacientes já dividem o mesmo cilindro.
Tampa-se tudo e o nitrogénio líquido encarrega-se de abaixar a
temperatura até os 196°C abaixo de zero necessários. Detalhe: a
pessoa é colocada de cabeca para baixo, pois, se algum acídente
acontecer, o nitrogénio irá evaporar de cima para baixo, maniendo
assim o cerebro, parte mais importante do ser humano, mais tempo
protegido. Uma vez dentro do cilindro de acó, o paciente poderá resistir
por mais de mil anos. Quando for retirado para a futura reanimacáo,
o corpo estará exatamente como no dia em que entrou. Os cábelos!
as unhas e as fisionomías das pessoas estaráo perfeitos. A única
diferenca será a coloracáo da pessoa, que será mais branca por causa
da ausencia de sangue. Quatro fundacóes americanas dedicam-se á
criogenia - a técnica de resfriamento usada para manter congelados
os corpos. A mais famosa délas é a Alcor Life Extensión
Foundation, com sede na cidade de Phoenix, no Arizona...

O processo todo funciona assim: uma pessoa assina um contrato


com a Alcor permitindo que, após a constatacáo de sua morte clínica
e cerebral, seu corpo possa ficar congelado sob a responsabilidade
da fundacáo. Depois disso, o futuro congelado recebe uma pulse ira
com seus dados, número de socio e instrucóes básicas para caso de
morte. Paga US$ 324 pela manutencáo anual deste direito. Estudantes
tém 50% de descontó. Os US$ 120 mil necessários para cobrir as
despesas de congelamento e manutencáo do corpo normalmente sao
pagos por apólices de seguro de vida, cujo beneficiario indicado é a
própria fundacáo...

'Quem está aqui é porque quer ver o futuro com os próprios olhos.
Nossos pacientes nao viveram o suficiente e querem dar uma
esticadinha', diz Brian Shock, administrador da Alcor. Dos 31 pacientes
... que estáo armazenados na Alcor, o mais velho hibernou aos 99
anos e o mais jovem, aos 23. O mais antigo é o psiquiatra James H.
Bedford, criador da fundacáo e o primeiro homem a ser congelado.
Obcecado pela criogenia, o dr. Bedford seguiu passo a passo os
mandamentos de Robert Ettinger, inventor da técnica... Antes de morrer
de cáncer aos 73 anos, em 1967, o psiquiatra teve longas conversas
com Ettinger para preparar sua passagem para o futuro. Com todas
as informacóes, dicas e dinheiro levantado (US$ 200 mil), o processo
de congelamento foi executado pelo próprio Ettinger e sua equipe. A
familia, aínda chorosa com o passamento do patriarca, manteve-o
congelado por quinze anos em sua casa".

377
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

4. QUE DIZER?

Responderemos em duas etapas:

4.1. Ressurreicáo de morto?

1. Mediante o congelamento, nao se pretende ressuscitar um


defunto. Mais precisamente, eis o que tal processamento supóe e
intenciona:
A medicina distingue morte clínica e morte real.

A morte clínica é a que o médico declara, quando verifica que o


coracáo do paciente já nao pulsa e a respiracáo cessou. Todavía nao
se sepulta alguém que esteja clinicamente morto senáo 12 ou mesmo
24 horas depois de ocorrido o óbito: na verdade, é extremamente
improvável que, com a última pulsacáo do coracáo, o organismo se
modifique de tal modo queja nao possa ser vivificado pelo seu principio
vital, ou seja, pela alma humana; esta deve ai permanecer latente por
mais algumas horas após o óbito clínico, até dar-se morte a real.
Alias, a experiencia mesma ensina que pes.soas clinicamente mortas
recupéraram suas funcóes vitáis.

Com efeito, em 1970, por exemplo, na Inglaterra, registrou-se o


caso de uma jovem iraniana que em Brighton ingeriu pesada dose de
barbitúricos. Foi transportada para o hospital, onde o médico de
servico nela averiguou todos os sinais de morte clínica. Todavia na
cámara mortuária a jovem comecou a se agitar; estava apenas em
coma profundo. Foram-lhe entáo aplicados os processos de
reanimacáo, mediante os quais a paciente se recuperou e, sadia, deixou
o hospital cinco semanas mais tarde.

Donde se vé que a cessacio das pulsacóes cardíacas e da


respiracáo nao indica a morte real do individuo.

2. Mais precisamente, no tocante ao coma, convém notar o


seguinte: o coma é um estado caracterizado pela perda (total ou'
parcial) da consciéncia e a cessacáo mais ou menos total das funcóes
de sensibilidade e motricidade. Distinguem-se seis graus de coma,
segundo a respectiva profundidade e gravidade. Oesses seis, sejam
mencionados ao menos quatro graus: o coma leve ou de vigia, o coma
de gravidade media, o profundo e o ultrapassado.

No coma profundo aínda há síntomas de que o cerebro esteja


vivo, pois o sistema vegetativo aínda se manifesta espontáneamente.
Somente no coma ultrapassado (que já nao é propriamente coma) é

378
CONGELAMENTO DESERES HUMANOS 43

que o cerebro já nao funciona e a vida vegetativa central está extinta.


O eletroencefalograma se conserva constantemente liso. O colapso
do organismo é total. Nessas circunstancias, os peritos já tentaram
de todos os modos restabelecer as funcdes cerebrais, mas em váo.
Já nao há recuperacáo.

Conclui-se, pois, que, entre o estado de morte clínica (declarada


por have re m cessado respiracáo e pulsa9óes cardíacas) e o de coma
ultrapassado irrecuperável, há urna gama assaz variada de estados
do organismo suscetíveis de reativacáo e recuperacáo para a plena
vida.

3. Conscientes disto, os médicos, desde que verifiquem a morte


clínica de alguém, podem supor que o principio vital (ou a alma) desse
paciente perdure no respectivo organismo até que se dé tal destruicáo
dos órgáos e tecidos que já nao possa mais subsistir ai um principio
de vida (ou a alma humana).

Interessa, pois, aos médicos deter o processo de deterioracáo


do organismo em virtude do qual se dará a morte real. Ora, para deter
tal processo, nao há (segundo dizem muitos) recurso mais indicado
do que o congelamento. Este parausa as atividades todas do
organismo (inclusive a deterioracáo); conseqüentemente, conserva
se presente na pessoa em coma a respectiva alma. Pode-se entáo
esperar que, em época futura, o organismo esteja em condicóes de
ser descongelado e receber medicamentos ou tratamentos novos, que
a medicina esteja para descobrir. Caso tal medicacáo seja aplicada
com éxito e o paciente recupere a vida plena, nao se dará a
ressurreicáo de um morto, mas apenas a reativacáo de um organismo
inerte.1

Fica naturalmente a dúvida: será que a baixa temperatura,


parausando as funcdes do organismo, nao constituí um clima violento
ou artificial demais para a vida humana? Será que o organismo do
homem pode subsistir a 79° Celsius abaixo de zero ou a temperaturas
aínda mais baixas? Será que os corpos até hoje congelados aínda
estáo vivos? - Quem julgar poder responder afirmativamente, nao
terá dúvida em admitir que o congelamento ou a crioterapia é aceitável
do ponto de vista medicinal.

Todavía póe-se agora urna dúvida de consciéncia:

1 Nótese bem: a palavra precisa, no caso, é realmente reativagáo, isto 6.


volta ás atividades; neo reanimagáo (o que poderia significar volta da ani
ma, alma, ao corpo).

379
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

4.2. Será lícito congelar?

A resposta abrange dois aspectos:

4.2.1. Congelamento do organismo e plano de Deus

A prática do congelamento se enquadra tranquilamente dentro


do programa geral da medicina, que é "preservar a vida humana e
defendé-la contra as ameacas da morte". Nao há dúvida, trata-se de
recurso novo da medicina e, por isto, raro e dispendioso; além do
mais, os seus resultados sao incertos e fortemente hipotéticos,
podendo mesmo ser nulos. Em conseqüéncia, nenhum paciente tem
a obrigacáo de pedir tal tratamento, nem médico algum tem o dever
de aplicar tal processo.

É certo que o congelamento em vista de urna reativacáo posterior


nao derroga aos designios do Criador. O homem deve morrer tanto
segundo as lei naturais da biología (os órgáos se desgastam pelo
uso e perdem sua vitalidade) como segundo as proposicóes da fé (a
morte é o salario do pecado, diz Sao Paulo em Rm 6,23). Seria utópica
e va a pretensáo de livrar da morte o composto "corpo e alma" que
peregrina sobre a térra; cedo ou tarde, este deve ceder á
decomposicáo para ser restaurado sob forma gloriosa, em
configuracáo a Cristo ressuscitado (apenas a alma humana, e nao o
composto "corpo e alma", é, por sua natureza, ¡mortal).

Ademáis o sabio cristáo tem consciéncia de que as conquistas


positivas da medicina em nada derrogam ao poder e á soberanía de
Deus. É por graca e dom do Criador que o homem consegue progredir
nos setores da ciencia e da técnica; tais avancos tém levado muitos
dentistas a reconhecer aínda mais evidentemente a sabedoria e a
grandeza de Deus no mundo criado. É, pois, para desejar que a ciencia
continué a desenvolver-se, contanto que respeite sempre as leis de
Deus e a dignidade do ser humano (imagem e semelhanca do Criador).

Tenham-se em vista as palavras do Concilio do Vaticano II:

"Bem longe de julgar que as obras produzidas pelo talento e a


energía dos homens se opóem ao poder de Deus, e de considerar a
criatura racional em competigio com o Criador, os cristáos estáo antes
convictos de que as Vitorias do género humano sSo um sinal da
magnitude de Deus e fruto de seu inefável designio" (Const. Gaudium
et Spes n" 34c).

4.2.2. E a deontologia médica?

Dois tópicos vém ao caso:

380
CONGELAMENTO DE SERES HUMANOS 45

1) Visto que o congelamento ainda é recurso extraordinario e


incerto, nao deve ser aplicado a um paciente adulto sem o
consentimento deste - consentimento dado previamente em estado
de lucidez mental. Muitas pessoas, embora nao tentem o suicidio,
aspiram a terminar seus dias na térra e repousar-se da fadiga
cotidiana. A fé crista reconhece a legitimidade de tal atitude. É lícito a
alguém desejar a morte para si mesmo, contanto que nao o faga por
covardia, mas, sim, para unir-se a Deus mais plenamente; tenham-se
em vista as palavras de Sao Paulo:

"Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro... Sinto-me coagido


por esta alternativa: de um lado, o desejo de partiré estar com Cristo,
o que é muito melhor. Mas, de outro iado, por vossa causa, é mais
necessário permanecer na carne" (Fl 1,21.23).

Note-se também que o paciente congelado está sujeito a voltar á


vida pública dentro de decenios, quando as circunstancias ambientáis
e a civilizacáo se rao muito diversas das atuais. Poderá readaptar-se
ao ambiente? Sentir-se-á á vontade, sem poder contar com o ápoio
dos familiares e amigos que o acompanharam anteriormente? - Tal
sorte nao deve ser imposta a pessoa alguma. Sabe-se que sao
rejeitadas pela consciéncia moral as experiencias in anima nobili
(no ser humano) cujo resultado seja incerto.

Ao se tratar de criancas pequeñas, a responsabilidade do


processo pode ser compartilhada pelos genitores e pelos médicos;'
julgaráo em consciéncia se o congelamento poderá ser benéfico ao
pequenino.

2) A congelacáo de paciente supóe a morte clínica devidamente


averiguada; somente depois desta pode ser empreendida. Como se
entende, nao seria lícito a um médico antecipar-se á morte clínica
para provocar o congelamento do individuo, pois tal processo extingue
a consciéncia psicológica e moral do enfermo, sem garantía de
recuperacáo da mesma.

Em suma, o novo processo de defesa da vida humana ainda está


envolto em numerosas interrogacóes, apresentando traeos de
fantástico. Nao deve ser desprezado nem condenado, porque se
baseia em premissas aceitáveis, tem sua lógica e nao recorre a meios
ilicitos; pode-se talvez tornar fator de progresso da ciencia. Contudo
requer-se sobriedade e uso de raciocinio quando se pensa em aplicar
concretamente tal tipo de tratamento e prever os seus efeitos; que o

381
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

bom senso e o realismo prevale9am sempre sobre a fantasía e a


imaginacáo mirabolantes!

5. APÉNDICE

Eis até aqui o que, dentro dos limites permitidos pela seriedade,
se pode^ e deve dizer sobre o assunto, á luz da ciencia humana e da
fé crista. Outras divagacóes já parecem pertencer ao dominio da
fic9áo, dominio mais ou menos arbitrario e, por isto, alheio ao controle
do raciocinio.

Exemplo de ficcáo nesse setor é o romance de Edmundo About:


"O homem de orelha quebrada". Tem por herói um coronel do exército
do Imperador Napoleáo Bonaparte, da Fran9a, o qual é congelado,
ressecado e depois reanimado com éxito. - About parece ter escrito
esta obra após urna conversa com o cientista francés Claude Bernard,
que julgava possível congelar ras e fazé-las recuperar as atividades
vitáis.

A título de curiosidade, pode-se também registrar que há mais


de 200 anos, em 1766, o fisiólogo inglés Hunter já escrevia:

"Se alguém quisesse consagrar os dez últimos anos de sua vida


a um regime de sonó e trabalho alternados, podería atingir a duragáo
de mil anos; descongelado de cem em cem anos, ele poderla ser
informado do que teña acontecido durante o período de cqngelagSo
anterior".

Como se vé, Hunter preconizava, numa ¡ntu¡9§o genial, a


prolonga9§o da vida humana pela aplica9áo do frío; estava, porém,
longe de conhecer as vias precisas pelas quais tal resultado se poderia
obter.

Na mesma época, o sabio francés Réaumur, por sua vez,


observava:

"Imaginemos alguém que tenha concebido o ideal de viver oitenta


anos... Como nao ¡he agradaría a perspectiva de durar dez ou doze
séculos, durante os quais ele n§o tena senSo oito ou nove anos de
verdadeira vida ativa em cada sáculo?"

382
Ciencia e Consciéncia:

A MANIPULAQÁO DA VIDA

Em síntese: O Dr. Marco Antonio Machado expoe os graves


inconvenientes que decorrem dos procedimentos científicos destinados
a obter seres humanos por vias artificiáis. Sendo processos antinaturais,
nao somente ferem as ieis do Criador, mas afetam também a sensibilidade
das pessoas envolvidas em tais práticas.
* * *

A Redado de PR recebeu do Dr Marco Antonio Machado o artigo


que se segué. O autor é advogado no Rio de Janeiro e membro da Ordem
dos Advogados Brasileiros. A revista PR agradece ao Dr. Marco Antonio
a gentileza da colaborado.
"A imprensa mundial divulgou, no ano passado, que nascera em
Roma urna menina cuja máe havia falecido dois anos antes, constituindo-
se em mais um 'primeiro caso do género no mundo'. Um óvulo congelado
da máe da crianca fora fecundado cqm espermatozoides do pai e
implantado no útero da ¡rmá deste.
Desde a primeira fecundacáo in yitro com sucesso, como se
convenciónou chamar o procedimento inicial da gestacáo realizada fora
do seu habitat natural, varios passos foram dados no sentido de se
obter um dominio total do processo de manipulacáo artificial do sublime
ato de se transmitir a vida, até entáo possível somente segundo a ordem
estabelecida por Deus no universo.
A questáo deve ser vista sob dois aspectos: o primeiro, menos
profundo e complexo, dizrespeito á manipulacáo da gestacáo somente;
o segundo, bem mais complexo, diz respeito as pesquisas que sao
realizadas no momento, tendo em vista o mapeamento genético dos vinte
e tres pares de cromossomos humanos, o que permitiría diagnosticar
com precisáo muitas doencas graves em diversas fases da vida. Este,
pelo menos em tese, é um dos objetivos do Projeto Genoma Humano,,
lancado no jnício da década atual nos Estados Unidos. ,
O problema é que, assim como aconteceu e acontece coma energía
nuclear, sempre haverá o risco dos conhecimentos dai pbtidosrserem
utilizados de formas amorais numa proporcáo difícil de se conceber,,uma:
vez que nesse género de coisas - tal é o grau de maldade =de ¡que o
homem nao se cansou de dar pravas ao longo da Historia, e tal como
acontece com o amor e o odio, sentimentos considerados muito próximos
- os bons propósitos e as monstruosidades mais^inexcogitáveis.podenv
nao permanecer muito distantes urnas das outras. -j ■ ?¡-

Urna vez plenamente dominados esses dois campos.do conhecimentó *


humano, que podem ser complementares, as possibilidades de mau uso
que daí surgiráo dependeráo apenas do grau de fantasía e de capricho
de cada um ou de cada urna: bem podera ser urna mulher que se dirige
a um banco de sémens e lá escome num book o biótipo do filho que
deseja ter mediante a inseminacáo artificial, como bem poderá ser um

383
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 411/1996

governante demagogo ou ditador que sonha destilar para o seu país


urna raga por ele considerada ideal. A simples fertilizacáo in vitro e todas
as outras possibilidades nessa materia tal e qual exisfem hoie, com toda
a certeza ná sessenta anos teriam feito a alegría de um certo austríaco
um tanto ambicioso e belicoso.

E nao se diga que esse cenárío é exagerado, pois em parte ele já é


perfectamente factível. O que impediría, por exemplo, de surgir nos dias
atuais um vigoroso comercio de sémens de top models, tal como se faz
com gado? Talvez urna débil reserva moral somente, já que varios outros
passos foram dados nesse sentido, como se afirmou no inicio. Trata-se
de um processo pelo qual a cada novo dominio de urna técnica segue-
se a queda de urna barreira moral. Todos se lembram bem da celeuma
criada em tomo da primeira inseminacáo artificial; no entanto, constituí
ela hoje urna prática considerada normal e até ultrapassada, com varias
outras possibilidades, como a que foi há pouco anunciada.

Para se utilizar urna expressáo muito em voga entre aqueles que se


dedicam ao estudo da questáo, o homem brinca de ser Deus. Isto diz
tudo e demonstra bem a sua gravidade. Resta saber até onde o próprio
Deus permitirá ao homem chegar. Ressalte-se, de passagem, que a
simples fertilizacáo in vitro constituí um processo antinatural.
Condenável, portanto.

Só essa primeira etapa do processo (a fecundacáo artificial) já fez


surgir questóes moráis e jurídicas muito complexas, de difícil solucáo.
Por exemplo, quem é a máe verdadeira da enanca no caso aqui posto
em foco? Quem se atrevería a afirmar com total seguranca que é a
falecida esposa do pai ou a irmá deste? Como evitar que quem nutre em
seu ventre durante nove meses urna enanca, ve todo o seu ser
transformar-se física e psicológicamente por causa déla, senté as dores
do parto e, por fim, a dá á luz, nao se sinta. com muita propriedade, a
sua verdadeira máe? Ou poderá ter urna enanca duas máes? Se so o
inicio da bríncadeira levanta tantas e tio graves questóes, imagine-se a
brincadeira completa!
Como estancar e prevenir tudo isso? Esta é a pergunta que se faz
em Seminarios, Congressos, Comissoes de Estudos e artigos publicados
pelo mundo afora. E é ai que entra o Direito, que, para ser perfeito, deve
espelhar o direito natural, ou seja, a ordem posta por Deus no universo.
Urna Constituicáo, pela sua própria natureza, deve tracar as linhas-
mestras do destino de urna nacáo. Deve tratar, portanto, de coisas
relevantes somente. Estamos em tempos de revisáo do texto
constitucional. A nossa, que bem a propósito no seu preámbulo invoca a
protecáo de Deus, dever-se-ia adiantar na Historia e cpnter um dispositivo
pelo qual se considere crime, nos termos da lei, a manipulacáo da geracáo
da vida. O Brasil, com isttí, daría um belo e corajoso exemplo ao mundo
nao só pelo ineditismo, irrelevante no caso, mas pela seriedade e gravidade
com que a questáo deve ser encarada.
E pecamos a Jesús que faca ao Pai a mesma prece que fez quanto
aos homens do seu tempo: 'Perdoai-lhes, nao sabem o que fazem"'.

Estéváo Bettencourt O.S.B.

384
Cóntem: Nota histórica e teológica-Instru-
cao "Immensae Caritatis" - Culto
Eucarístico fora da Missa.

A - Ritos de distribuicao da Comu-


nháo:

1. Durante a Missa; Fora da Mis


sa, sem Sacerdote (rito solene
e rito simples).

2. Em casa do enfermo (solene e


simples).

3. Sob a forma de Viático.

B- Investidura dos Ministros (com e


sem Missa).

C - Apresentagáo á Comunidade.
(9i edicao) = R$ 4,80
D - Rito de delegacao.

LITURGIA PARA O POVO DE DEUS, 4a ed. por D. Cario Fiore SDB e D. Hildebrando
Martins OSB.
É a Constituicao sobre a Liturgia (Sacrosanctum Concilium) explicada aos fiéis
em todo o seu conteúdo (Principios gerais. Acao Pastoral, o Misterio da Euca
ristía, os Sacramentos (com os seus ritos), o Oficio divino, o Ano litúrgico, a
Música e a Arte sacras), com breves questionários para estudo em grupos -
215Pá9s • R$7,20 i
LITURGIA DAS HORAS, Instrucáo geral: (importancia da Oracáo na vida da Igreja, a ^
Santificacao do dia, os diversos elementos da Liturgia das Horas, Celebracdes 4
ao longo do ciclo anual, Celebrado comunitaria). -100 págs R$ 4,801

LITURGIA DA MISSA - Ordinario para celebracio da Eucaristía com o povo. 25a!


edicao atualizada, em preto e vermelho. Traducáo oficial da CNBB, contendo as^l
11 Oracoes Eucarísticas, com acréscimo das aclamacSes e novos textos.. -|
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