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Lilia Moritz - Questão racial no Brasil

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7) O NEGRO NA SOCIEDADE BRASILEIRA SCHWARCZ, Lilia Moritz. Questão racial no Brasil.

IN: SCHWARCZ, Lilia Moritz; REIS, Letícia Vidor de Sousa (org). Negras imagens. Ensaios sobre cultura e escravidão no Brasil. São Paulo: edusp, 1996. pp. 153-177. Introdução: “racismo à la brasileira” A questão da raça é antiga no Brasil. Ela aparece na afirmação exótica dos românticos no início do século XIX, nas teorias realistas e negativas de finais do mesmo século, na visão idealizada dos anos 1930, e na interpretação mestiça e mulata dos dias atuais. Por outro lado, há um consenso mudo que naturaliza a discussão. Toda a questão da raça, no cotidiano, se traduz como um grande silêncio, em que se evita o debate e se escamoteia a disputa. O “mito da democracia racial” contém distorções, mas verdades parciais, ao indicar uma singularidade no relacionamento entre as raças. A própria colonização portuguesa de fato teria recebido incentivo à miscigenação como ponto estratégico da política de povoamento. No Brasil, a impressão que se tem – a partir de questionários estudados pela autora – é que o racismo e o preconceito existem, mas são sempre atributos “do outro”. O racismo no Brasil pode ser caracterizado da seguinte maneira: uma espécie de racismo cordial, em que não se tematiza a questão, onde todos são muito amáveis exteriormente, mas que em suas estruturas e práticas reproduz jogos de poder historicamente hegemônicos. A discriminação se dá na intimidade e no cotidiano, embora possa, nos espaços formais, ser reprimida por lei. “A abolição como presente e dádiva” A escravidão nunca foi um problema apenas de cativeiro. Ela foi uma instituição forte que penetrou os poros da sociedade brasileira, marcando-a indelevelmente. Quando o conjunto de leis que pretendiam abolir a escravidão lentamente foi posto em prática, ele encarou a questão como uma questão apenas de cativeiro. “Libertava” os

com seus hábitos higiênicos e alimentares. mas continua a hierarquizar as raças. que já vinha se modificando com o passar dos anos. tida como presente e dádiva aos escravos. Elas desautorizavam a ideia da igualdade e atribuíam aos negros e aos mestiços toda a culpa pelos males da nação. as leis tardaram. com uma postura romântica o Império elegeu o indígena como seu símbolo fundamental. Ademais. ressurge como um malando simpático. aboliu uma realidade que – ao menos do ponto de vista do cativeiro – já não tinha como não ser abolida. As teorias raciais do século XIX: “o mestiço e a degeneração” No início do século XIX. Freyre quebra com as teses racialistas. de suprema vergonha. com sua “religiosidade lúbrica”. Mas as teorias racialistas da transição do século para o século XX começaram a compreender a mestiçagem como um problema por si só. e glorificou a mistura das etinias como boa imagem para se mirar. de degenerado. Freyre teria oficializado a ideia de uma “boa escravidão” no passado do Brasil. Neste ínterim.escravos. Uma série de viajantes. e do negro. Elas tornavam natureza diferenças que eram políticas e sociais. no que diz respeito à realidade. médicos. principalmente com o Gilberto Freyre de Casa-grande & senzala. se torna a nossa positiva singularidade. simplesmente. Anos 1930: “eis que somos o país da democracia racial” Em 1930. acompanhado do indígena. O mestiço. a miscigenação. a identidade nacional vira um modelo a ser exportado e a ser internamente admirado. juristas. A pesquisa da Unesco e a quebra de um mito nacional . Não houve nenhum programa de correção destas sequelas da escravidão como um problema institucional. da seguinte maneira: o branco é sempre o exemplo civilizatório. Até que a lei da princesa Isabel. e mesmo o IHGB contribuíram para uma visão determinista e racialista para a compreensão da nação.

a questão da raça tem voltado com força. A volta da mestiçagem Nos dias de hoje. expressões como “você sabe com quem está falando?” assumem o lugar. ganham espaço os diversos movimentos sociais: feministas. O MNU cumpriu com outros grupos o papel de trazer à tona a fala e os valores das minorias. do samba). Para Lilia. mas uma situação de luta de classes e de total assimetria. comida temperada. sem descartar algumas verdades de Freyre. seja na interpretação mais negativa do racismo. .A partir dos anos 1950. Como se pautou no tipo de racismo que acontecia nos EUA e não no Brasil. As discriminações não precisam sequer vir a tona: elas estão cotidianamente assentadas. que pela primeira vez representou a existência de uma organização negra política reivindicatória no país. Segundo Florestan Fernandes. corporizada em uma divisão econômica. onde – com o domínio do privado prevalecendo – torna as relações mais hierárquicas uma espécie de cordialidade. Segundo a Folha de São Paulo. e quando se radicaliza. cultos). uma série de autores começa a chamar atenção para o fato de que a “democracia racial” disfarçava e dissimulava uma evidente discriminação racial. lésbicas e negros” Com o processo de abertura política de fins dos anos 1970. Negro Unificado). mas tem vergonha de ter preconceito. Neste contexto é fundado o MNU (Mov. e a linguagem da diferença. seja na novidade de uma moda afro-baiana (música. ecologistas. é a origem que determina o preconceito. vir de família negra é ser negro). nem somente uma cultura particular. há no Brasil um racismo cordial. o MPU fazia avaliações que não condiziam com a realidade brasileira – lá. do carnaval. o brasileiro não evita. complementando. Mas a inspiração no modelo reivindicatório norte-americano deixou um fosso entre os valores do MNU e o da população que pretendia representar. enquanto aqui a cor marca junto com a condição econômica (nos EUA. seja na versão mais amena e exótica (exaltação da morena. Os movimentos sociais: “somos todos gays. movimento homossexual. o que explicava a sociedade brasileira não era a raça. e associações congregadas à questão negra. Seria preciso adotar as explicações marxistas. Falando de nós mesmos.

ao lado de um preconceito retroativo – de ‘um preconceito de ter preconceito’ – afirma-se um sistema classificatório muito particular. No entanto. mas para não incorrer no erro de comprar receitas prontas do combate ao racismo em outros países. trinta anos mais tarde. no mínimo. de um estilo de vida partilhado. em que a origem não é um dado fundamental e em que se impõe uma forma múltipla e não bipolar de classificação. Convivem no país o modelo da democracia racial e a lembrança de um país de forte experiência escravocrata.Além disso. as políticas públicas anti-racismo são falhas. Elas possuem um abismo entre a teoria e a prática por não tratarem do racismo específico que há no Brasil. “Em um país como o nosso. Esse determinaria a existência de uma essência comum ou.” Concluindo: procurar pelo modelo local É preciso compreender o racismo na forma como ele se dá especificamente no Brasil. que fala.” O racismo no Brasil é mais vivido que afirmado. da maneira como historicamente se deu o padrão de miscigenação neste país. . mas também não é apenas de ordem cultural. “Como se percebe. Não para essencializar a experiência nacional e torná-la imune ao tempo. as conclusões de Fernandes permanecem bastante vivas. Mesmo as políticas públicas que simplesmente abordam a questão racial parecem encontrar um abismo frente à dinâmica cotidiana. difícil de ser encontrado quando partimos da noção de que a cultura é dinâmica e que seu significado está em constante construção. é impossível ficar apenas com a imagem da mistura. é no mínimo complicado defender o uso do termo afro-brasileiro. Com efeito. por sua vez. Essa se fez e se faz em situações de muito desequilíbrio e a partir da discriminação de vastos setores da população. O problema não é apenas de ordem econômica.

SCHWARCZ. 11-22) No final do século XIX. tiraram conclusões semelhantes acerca da miscigenação. atualizou o que combinava e descartou o que de certa forma era problemático para a construção de um argumento racial no país. onde foram acolhidas com entusiasmo principalmente por centros e instituições científicas de ensino e pesquisa. Quer compreender a especificidade das teorias raciais neste contexto. em seu esforço de adaptação. já que não podem ser compreendidas como mera deformação das teorias raciais europeias. quando teve início o processo de abolição da escravidão (com a Lei do Ventre Livre de 1971). Aguardava-se por um bem-vindo branqueamento. sendo colocada como obstáculo a ser superado para o desenvolvimento da nação. São Paulo: Companhia das letras. instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. que serviram de modelo para os intelectuais aí formados. O espetáculo das raças. As teorias raciais datam de meados do século XVIII na Europa. A mestiçagem era por todos tanto descrita como adjetivada. 1993. portanto. Este momento coincidiu com a década de 1970. ao longo do século XIX. Lilia Moritz. O espetáculo da Miscigenação. Mais interessante é refletir sobre a originalidade do pensamento racial brasileiro que. Cientistas. e chegam tardiamente ao Brasil. A maioria destes intelectuais considerava que o país era miscigenado. “O desafio de entender a vigência e absorção das teorias raciais no Brasil não está. mas que também estava em transição. (pp. havia a opinião corrente no país de uma espécie de “espetáculo brasileiro da miscigenação”. A pergunta que Schwarcz fará com o livro é a respeito do paradoxo de se ter um modelo liberal de atuação política e de concepção do Estado convivendo com o racismo das teorias da intelectualidade nacional.” Breve história intelectual (com base nos textos introdutórios de cada cap) . Mas essa imagem não se restringia ao circuito interno: diversos naturalistas que aqui passaram. em procurar o uso ingênuo do modelo de fora e enquanto tal desconsiderá-lo. Introdução. e também com a chegada de um novo ideário positio-evolucionista em que os modelos raciais de análise cumprem um papel fundamental. Esta opinião por parte de muitos intelectuais de dentro do país tinha um tom de exclusividade nacional.

o darwinismo e o evolucionismo. As Faculdades de Direito. assim como outros institutos históricos regionais. Antes de técnicos ou mestres de erudição. a Biblioteca. o Real Horto. suas decorrências teóricas distintas.Com a vinda da Família Real. governadores e deputados. solidificar mitos de fundação. A fundação do Instituto Histórico e Geográfico em 1838 responde à lógica do contexto que segue à emancipação política do país. O IHGB. e o Museu Real davam o tom cultural das mudanças recentes. Não havia na época uma só interpretação ou uma só visão. especializados na produção de um saber de cunho oficial. senadores. Entre 1870 e 1930 os museus nacionais (o Museu Paulista. . enquanto a de Recife seguiu mais o modelo racial de explicação da nação. Era preciso provar para fora e para dentro que o Brasil imperial era de fato independente. etc. seus membros eram diferentes dos membros de outros tipos de instituição de ensino e pesquisa: funcionavam como sociedades da corte. Antes a vida cultural institucional ficava só a cargo das escolas dos jesuítas. que deveria separar seus destinos dos da antiga metrópole europeia. guardando-se suas conclusões singulares. Destas fileiras saíram ministros. criado logo após a independência do Brasil. o que se buscava formar era uma elite independente e desvinculada dos laços culturais que nos prendiam a Portugal. e em suas mãos estava a responsabilidade de criar uma história para a nação de um “monarca ilustrado” e centralizador. ordenar fatos buscando homogeneidade. Financiados pelo imperador. recriar um passado. o Museu Nacional e o Museu Paranaense de História Natural) desempenharam um papel central na dedicação à pesquisa etnográfica e com relação ao estudo das ciências naturais. vinculadas à lógica e dinâmica que marcam a independência de 1822. não só com novas leis. visavam responder às necessidades novas. tinha como incumbência organizar a história nacional (ou regional) em alguma unidade. Com sede no Rio de Janeiro. A Faculdade de São Paulo seguiu um modelo mais liberal. A partir de 1870 chegam ao Brasil teorias de pensamento como o positivismo. A Imprensa Régia. tentando formar uma inteligência local apta a enfrentar os problemas específicos da nação. profundamente vinculados aos parâmetros biológicos de investigação e aos modelos evolucionistas de análise. tem início uma vida cultural institucional no país. mesmo que a noção de evolução social fosse recorrente. Esses modelos foram usados aqui de forma particular. Muitos museus floresceram na época. mas também com nova consciência. ou por seus sócios. o IHGB surgia fortemente ligado à oligarquia local.

com uma grande dose de desilusão. cada vez mais. O resultado foi uma interpretação que. classificar as espécies. se a discussão sobre a higiene pública (que implicava uma grande atuação médica no dia-a-dia das populações contaminadas por moléstias infecto-contagiosas) mobiliza boa parte das atenções até os anos 1880. como a febre amarela e o mal de Chagas. ou.Sobre as Faculdades de Medicina: “Assim. Nos institutos históricos. com a abolição e a República. localizar os pontos de atraso. sobre as causas das diferenças entre os homens. perguntavam-se. céticos com as promessas de igualdade. ao mesmo tempo. por sua vez. Misto de descobridores e missionários. para nos anos 1930 ceder lugar ao eugenista. nos anos 1890 será a vez da medicina legal. por exemplo. de outro. Entre o veneno e o antídoto. mas. uma visão otimista. católica e patriótica. ora se debruçavam com temor sobre o país. uma concepção determinista e evolutiva da nação. coletavam no local exemplares preciosos que atestavam as especificidades desse “exótico país”. Nos museus etnográficos. mas também ajudavam a comprovar a origem do problema racial. nesses meios.” Enquanto os médicos da faculdade do Rio de Janeiro buscavam sua originalidade e identidade na descoberta de doenças tropicais. Algumas considerações finais (Espécie de resumo pela própria autora:) “O fin-de-siécle brasileiro era vivenciado dessa forma. apesar de monogenista. propondo . nos anos 1920. pro meio da raça. se entendia a criminalidade. os médicos baianos farão o mesmo ao entender o cruzamento racial como o nosso grande mal. se promoviam programas “eugênicos de depuração”. a entrada tardia de modelos deterministas levou à acomodação de explicações variadas: de um lado. nossa suprema diferença. modelo já tradicional desses estabelecimentos. Dialogando com o exterior. recorreu a conclusões darwinistas sociais quando se tratava de justificar. hierarquias sociais consolidadas. que passa a separar a população enferma da sã. a ampla utilização de argumentos evolucionistas permitiu explicar cientificamente as diferenças. Com efeito. com a nova figura do perito – que ao lado da polícia explica a criminalidade e determina a loucura –. esses “homens de sciencia”. Era a partir da miscigenação que se previa a loucura. esses cientistas ora encontravam uma nova nação para admirar.

Se para “os homens de direito” a responsabilidade de conduzir a nação estava vinculada à elaboração de um código unificado. Visto por esse prisma.reformas e saídas que dependiam da atuação deles. para os profissionais médicos somente de suas mãos sairiam os diagnósticos e a cura dos males que assolavam a nação. de outro a lei. constatavam as doenças e propunham projetos higienistas e saneadores.” . o antídoto na mão dos outros. Instaurada uma espécie de disputa pela hegemonia e predomínio científico. percebem-se dois contendores destacados: de um lado o remédio. bacharéis acreditavam encontrar no direito uma prática acima das diferenças sociais e raciais. o veneno previsto por uns. Enquanto os pesquisadores médicos previam a degeneração. talvez o debate tenha mesmo se concentrado entre as escolas de direito e medicina.

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