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O Lobo Vermelho - Capítulo 1

O Lobo Vermelho - Capítulo 1

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Primeiro capítulo do romance "O Lobo Vermelho" - conheça a deprimente Avvena, a cidade-quartel, segundo a visão de Guinen Plumbeano, jovem jornalista aficcionado pela história do herói nacional General Petro Velasturvo, conhecido como "O Lobo Vermelho", o mais ilustre e idoso cidadão avvenino.
Primeiro capítulo do romance "O Lobo Vermelho" - conheça a deprimente Avvena, a cidade-quartel, segundo a visão de Guinen Plumbeano, jovem jornalista aficcionado pela história do herói nacional General Petro Velasturvo, conhecido como "O Lobo Vermelho", o mais ilustre e idoso cidadão avvenino.

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Capítulo 1

“Seja bem-vindo à Mansão do General”
Avvena é um lugar inapropriado para quem gosta de sol e calor. Não há um único dia no ano de tempo totalmente estável e sem chuva. É úmida, cinzenta, encardida. Nas ruas, perambulam pessoas cabisbaixas e tristonhas. São raros os dias festivos, e ainda assim, preenchidos de solenidades. Durante séculos, Avvena foi um quartel gigantesco, e a maior parte da população era de soldados; os que não eram militares trabalhavam para eles, e se lhes impunha um regime de ordem e obediência, o que acabava, enfim, sendo a mesma coisa: todos seguiam um regime militar. Depois que as conquistas ao território minguaram e o exército foi incumbido de proteger as fronteiras, muito distantes do Mar, Avvena tornou-se um pólo industrial, porque tinha algo difícil de encontrar em outras províncias: uma massa de trabalhadores obedientes, histórica e culturalmente incapaz de exigir melhores condições de trabalho. Assim, Avvena passou a ser um atrativo, primeiro para as nascentes indústrias, depois, para pessoas que viviam em situação de pobreza e miséria nas áreas rurais desta mesma província, que vinham em busca de trabalho – ou, pelo menos, de um meio de sustento - e por último, para moradores de outras grandes cidades e do interior de outras províncias ao redor do Mar. Avvena inchou, alastrou-se pelo vale que ocupava, tomou a região acidentada que circundava a cidade-quartel, subiu a

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montanha e hoje é um monstro cinzento, frio e empoeirado, insensível aos seus quatrocentos mil habitantes, e nada convidativa para os visitantes. Eu era um visitante, mas não fui até lá por causa dos atrativos inexistentes da cidade. Não tive muito tempo para me preocupar com o mau-humor do clima avvenino, nem prestar atenção nas chaminés quilométricas, nem nos rostos infelizes que compunham a classe trabalhadora às seis da manhã e às sete da noite. Fui porque tinha um grande interesse na vida de um cidadão ilustre, sobre o qual estive pesquisando desde que aprendi a ler: General Petro Velasturvo, o Lobo Vermelho.

Meu contato físico com Avvena começou na estação de trens. Teria começado antes, se eu estivesse acordado, e teria visto praticamente toda a cidade, de cima, pela janela do vagão: os trilhos fazem um percurso em espiral pelo perímetro da cidade velha, pelas encostas da serra, por sobre a absurda muralha que a circunda. Entretanto, os barbitúricos não recomendados pelo médico me fizeram dormir feito um degrau das escadarias do Farol, e só fui acordado, a muito custo, pelo fiscal do trem, quando já estávamos parados. Fui o último passageiro a descer. Um funcionário do governo, muito prestativo e jovem, viera buscar-me com um veículo oficial, desses carros sofisticados que se vêem pouco na Capital. O rapaz apresentou-se com muita cordialidade, e quase nenhuma formalidade. Chamava-se Platin. Eu teria me enganado se concluísse que todos os avveninos eram como ele. Posteriormente, descobri

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que Platin era de um lugarejo perdido na imensidão surenha, e que era tão avesso ao modo de viver avvenino quanto eu e outros estrangeiros. O jovem encarregou-se de carregar minha pouca bagagem, apenas duas malas pequenas, rindo da minha falta de cuidado com o frio que costumava fazer, e em poucos minutos, fez propaganda de duas lojas de roupas de inverno de conhecidos seus. Convidou-me para entrar no carro, sem nenhuma formalidade especial – não que eu precisasse de qualquer formalidade; apenas achei aquilo estranho e divertido para um lugar que eu sabia ser o mais antipático do mundo. Entrei pela porta lateral, e só então percebi que havia mais alguém lá dentro. Era uma mulher.

— É um prazer, Senhor Plumbeano. Entre. Está muito frio aí. — e imediatamente, eu soube de quem se tratava. Era Agatha Pietra Velasturvo, tataraneta e assistente pessoal do General.

Ela não parecia um militar, pelo menos, não estava vestida como um. Ao telefone, sua voz era melodiosa e grave, como a das pessoas que estudam técnica vocal. Em sua presença, tive a impressão de que era uma personagem de rádioromance, ou ao menos, era tal qual eu imaginara, quando criança, a figura de heroínas como Semmpat de Ture ou Felixcia Luna – com a diferença óbvia de que estas não eram humanas. Entretanto, Agatha Velasturvo era, definitivamente, uma pessoa diferente, talvez dotada de uma aura não-humana como a

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das heroínas de minha imaginação. Lendo a respeito da história pessoal do General Petro, chega-se facilmente à conclusão de que nunca confiara em ninguém, e que sempre fora assessorado por um familiar. Ela, Agatha, estava como sua fiel escudeira desde os primeiros passos. A mim, lembrava uma diva do rádio.

Ao longo dos cinco quilômetros entre a estação e o hotel, Agatha expôs-me a situação, de modo muito sucinto, claro e objetivo. Em poucas palavras, agendou a primeira entrevista para as sete da manhã em ponto do dia seguinte, durante o desjejum do General. Deixou-me a par do estado de saúde do herói nacional, que já avançava para a casa dos cento e vinte anos. Deu-me também algumas explicações, sem espaço para dúvidas, sobre como referir-me aos tritões na presença do General, porque este jamais acatara os acordos de paz assinados mais de cinquenta anos antes. Tampouco considerara a Confederação das Cidades-Estado do Mar de Luna uma única nação, e por isso, também é um assunto delicado. Por fim, quando o carro já se encontrava diante das portas do hotel, Agatha estendeu-me a mão, ao que correspondi, dando-me o aperto de mãos mais pesado que já havia recebido na vida. “Amanhã”, disse ela, “Platin virá buscá-lo bem cedo. Não abuse dos barbitúricos dessa vez”. O ângulo dos seus lábios me fez entender que se tratava de uma piada. Talvez, o mais perto que um militar avvenino tenha chegado de uma.

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Choveu continuamente durante toda a madrugada. O hotel tinha um sistema de calefação eficaz e moderno, o que me possibilitou uma noite agradável, inevitavelmente sem sono. Dei-me o luxo de pedir que o serviço de quarto trouxesse um bule de café e alguns biscoitos, para começar a esboçar minha entrevista sem precisar descer ao restaurante. Enquanto esperava, tentei olhar pela janela, e tudo o que vi foi a fachada da fábrica de botas que ocupava a metade da quadra do outro lado da rua, e duas vezes a altura do hotel. Também não se via naquele quarteirão mais do que a luz de um poste tímido permitia: uma imensa parede de tijolos, uma guarita, um contêiner de lixo abarrotado, uns quantos gatos de rua embolados em uma caixa de madeira que lhes servia de casa. Assim que o relógio do alto da entrada da fábrica marcou meia-noite, um guarda caminhou de uma esquina até a outra. Era um bovineu, e estes sempre foram muito respeitados na infantaria do exército avvenino, e ainda mais respeitados na guarda municipal. Já estaria aí o assunto para um tratado, a diferença de tratamento dado àquela raça, começando nas caçadas da Capital, passando pela escravatura, culminando na posição de destaque no exército e na polícia de Avvenin. Certamente trataria deles na biografia do General Petro, já que um de seus companheiros no início da vida de soldado foi Unmonu, que veio a ser herói tanto de seu próprio povo quanto do nosso, e que lhes garantiu a alforria oficial e definitiva, mas não o fim do preconceito. Assim que chegaram o café, os biscoitos e potes com geléias – os avveninos são pouco sociáveis, mas sabem comer bem – tomei

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meu bloco e uma caneta. Esqueci-me completamente da rua, da chuva fina, do guarda bovineu que caminhava pesada e silenciosamente na calçada em frente, e esbocei minhas perguntas.

Amanheceu. Tomei o último gole de um café amargo e frio, sem conseguir mais olhar para biscoitos. Pude ver Platin e o carro oficial – cor-de-madeira-vermelha com detalhes em dourado nas extremidades, nos paralamas e nos faróis dianteiros, luxuoso mesmo para um carro do governo – subindo a rua. O dia não estava muito menos escuro nem menos chuvoso que a madrugada, e Avvena não era mais simpática na claridade pálida do dia.

Seguindo a estrada na direção sul, depois de uma sequência de sobes-e-desces ainda dentro do subúrbio, atravessamos os portões do primeiro nível de suas muralhas. Diferente do centro da cidade, o bairro que circundava a estrada parecia ainda não ter amanhecido, e foi um custo perceber alguma coisa além dos muros altíssimos. Era como se a avenida percorresse o fundo de um canal, e o bairro ficasse para além de suas margens. Não fosse pelas pequenas portas de metal, ao longo de um passeio estreito, eu diria que por ali só passavam carros. Assim, antes de chegar à zona rural, tudo o que vi da parte mais pobre de Avennin foi uma rua espremida entre dois algos muros de alvenaria. Seria lógico que eu tivesse perguntado algo a Platin, o motorista, mas preferi ficar quieto. Concen-

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trei-me na história de meu personagem principal. E, sim, a ideia que eu fazia dele era a de uma entidade mitológica, e isso certamente não era culpa minha.

Para o bem ou para o mal, o Lobo Vermelho era tido como uma figura folclórica. Para seus detratores e a grande maioria dos ativistas contrários à Confederação das Províncias, ele era um monstro, um demônio, ou na melhor das hipóteses, uma marionete da Imperatriz. Para seus admiradores, era um herói lendário, capaz de proezas bélicas acima da capacidade humana, dono de uma coleção inigualável de façanhas e o mais importante dos humanos depois dos primeiros filhos de Adanno. Para aqueles que permanecem céticos, e que têm algum interesse nos fatos como eles realmente aconteceram – como eu – Petro Velasturvo fora um militar competente, um homem dotado de grande inteligência e poucos escrúpulos. E eu sei que posso escrever isso assim, sem nenhum medo de represálias, porque estas não são as minhas palavras, mas as dele.

Eu precisava de um foco para minha entrevista. A história dele era realmente muito intensa, e havia demasiados fatos para tão pouco tempo. Fiquei grato por ter um motorista guiando – ainda que eu soubesse conduzir um veículo daqueles, jamais me arriscaria a fazê-lo dentro de uma neblina tão densa. Além do mais, não me distraí com a rica paisagem rural de Avvena, pelo fato de parecer que o carro estava todo envol-

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to em lençóis brancos e molhados. Em um momento, tive a nítida impressão de que Platin estava apenas mantendo o carro em movimento, deixando que a máquina sozinha seguisse pelo caminho que conhecia. Saquei o bloco e a caneta do bolso do casaco. Para retomar o fio de raciocínio, que perdera assim que saí do quarto do hotel, tentei lembrar da primeira façanha que tinha ouvido a respeito do General.

Meu pai era aficcionado por objetos históricos, um pesquisador entusiasta, profundamente avesso à academia e, hoje posso admitir, à Igreja. Em uma sala construída em nossa casa, especialmente para isso, meu pai guardava sua coleção. Não era como o museu da Universidade do Farol Púrpura, mas sem dúvida, era um dos maiores acervos particulares da Capital. Eu, bem como os poucos amigos que tive na infância, tínhamos uma simpatia enorme pelos artefatos de guerra, os uniformes dos soldados do império, e, principalmente, as armas. Havia, dentre todas aquelas peças às quais não podíamos fazer nada além de olhar, uma espada; um sabre para ser mais exato. No pedestal onde ela ficava, havia a reprodução de um quadro da época, que retratava um oficial do Exército a frente de uma quantidade incontável de soldados em marcha, e esse oficial empunhava, apontando para o alto, aquele mesmíssimo sabre. Meu pai contava que aquela não era uma peça original, mas era uma cópia fiel da Guardiã do Mar, e que seu dono, o homem que a empunhava, era o Lobo Vermelho, o maior herói da guerra contra os invasores delfins. Então, meu

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pai contava todo tipo de história sobre ele, e que eu e meus amigos costumávamos reproduzir em nossas brincadeiras, amarrando toalhas e lençóis às costas como capas, e cada um com uma “Guardiã do Mar” feita das pernas de uma cadeira velha. Fazíamos um sorteio, todas as tardes, para decidir quem seria o Lobo Vermelho, depois, quem seria Unmonu, seu companheiro de aventuras, e, por fim, quem seriam os adversários: príncipes delfins, lordes adormecidos, bruxos linces, guerreiros bárbaros. E eu recordo de sempre gostar mais de interpretar os vilões, enquanto meus amigos se estapeavam para disputar quem seriam os heróis. Ao final da brincadeira era sempre eu, ou melhor, o inimigo do Mar de Luna, quem tinha a pior sorte, mas não antes de ter deixado muitos soldados caídos, ter derrubado o “Bovineu Invencível” e decepado uma das pernas do Lobo Vermelho – e eu nunca tinha certeza se era a direita ou a esquerda.

Havia dezenas de versões explicando a razão de o General Velasturvo usar uma perna mecânica, e a maior parte delas era, no mínimo, fantasiosa. A minha preferida era esta:

Numa tarde de inverno, Petro e seus colegas praticavam luta no pátio da escola, quando foram surpreendidos por um lobo selvagem. Eles ainda não o haviam percebido porque era um lobo branco, e se esgueirou na neve até chegar perto o suficiente para atacar de surpresa. Os outros meninos fugiram apavorados, mas Petro não teve a

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mesma sorte: o lobo saltou em sua direção e, para impedir que fugisse, abocanhou sua perna e o derrubou. O menino teve o sangue frio de fingir-se de morto. Quando o predador soltou sua perna para conferir se a presa estava realmente abatida, Petro reagiu. Com presteza, enfiou as duas mãos no focinho do animal, segurando suas mandíbulas fechadas e avançou com os dentes contra o pescoço peludo do lobo. A fúria de Petro era tão grande que o couro do predador rasgou-se como um trapo velho, e músculos e veias iam-se rompendo à medida que o menino mordia. Só depois disso é que o professor de luta veio em seu auxílio, mas aí, o lobo, que era branco, já estava morto, todo tingido de vermelho. A perna do menino Petro teve de ser amputada. Todos, a partir daquele dia, passaram a temê-lo e respeitá-lo. Como um pedido de desculpas, a esposa do professor de luta fez para o menino um casaco feito da pele do lobo, que nunca mais pode ser alvejado, manchado de sangue para sempre.

Eu ri sozinho no banco de trás do carro. Como aquelas historietas eram marcantes para as crianças! Era bem provável que, se eu perguntasse para qualquer um dos meus amigos de infância, eles teriam lembrado desta, “O menino e o lobo branco”, talvez com as mesmas palavras. Percebendo que eu ria – devo até ter falado sozinho, em voz alta – Platin olhou-me pelo espelho, devolvendo-me o sorriso.

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— Já conhece o General, Senhor Plumbeano? Digo, já o viu alguma vez? — Pode me chamar apenas Guinen, Platin. Só vi o General em fotografias. Por que a pergunta? — Porque a última vez que ele foi visto em público, ele estava bem diferente — respondeu, enfático. — Diferente como? — eu quis saber. — Não precisa se preocupar. Você já vai ver. Chegamos. Seja bem-vindo à Mansão do General.

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