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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanca a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
•r mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
- correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenga católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca no
Brasil e no mundo. Queira Oeus abengoar
este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca depositada
em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
ANOXXXVm JULHO 1997

A Primeira Hora do Dia

A Igreja e os Divorciados de Novo Casados

"Separados, Divorciados. Urna Esperanca Possível",


por Paúl Salaün

Métodos Naturais e Paternidade Responsavel

A Atividade Humanitaria de Joáo Paulo II

"Eunucos pelo Reino de Deus", por Uta Ranke-


Heinemann

A "Folha Universal" diz a Verdade?

O Livro de Urantia

A Igreja e a Mulher

"Deus é como um grande estilista..."


PERGUNTE E RESPONDEREMOS JULH01997
Publica?áo Mensal NM22

SUMARIO
Diretor Responsável
Estéváo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia Á Primeira Hora do Dia 289
publicada neste periódico
Fala o Papa:
A Igreja e os Divorciados
Diretor-Administrador:
de Novo Casados 290
0. Hildebrando P. Martins OSB
Testemunhos eloqüentes:
Administracáo e Distribuicáo: "Separados, Divorciados. Urna Esperanca
Ed¡9óes "Lumen Christi" Possível", por Paúl Salaün 297
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar-sala 501
Fala o Médico:
Tel.: (021) 291-7122 Métodos Naturais e
Fax (021) 263-5679 Paternidade Responsável 309

Endereco para Correspondencia: Com o Coracáo Dilatado:


Ed. "Lumen Christi" A Atividade Humanitaria
de Joáo Paulo II 313
Caixa Postal 2666
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ Contestacáo preconcebida:
"Eunucos pelo Reino de Deus",
Visite o MOSTEIRO DE SAO BENTO por Uta Ranke-Heinemann 318
e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
O Jornal da Igreja Universal:
na INTERNET: http://www.osb.org.br.
A "Folha Universal" diz a Verdade? 325

Fantasía em alto grau:


O Livro de Urantia 328
ImpressSoe EncademacSo
A Igreja e a Mulher 332

"Deus é como um grande estilista..." 336

"margues saraiva" C0M APROVAQAO ECLESIÁSTICA


• GRÁFICOS E EDITORES Ltda. NO PRÓXIMO NÚMERO:
Tels.: (021) 273-9498/273-9447

«Quando Deus andou no mundo, a Sao Pedro disse assim...». - Batismo em favor dos
mortos? - Preservativos ñas Escolas. - Esterilidade Involuntaria. -"Aborto Legal? Isso
nao existe". - Quem sao os Ciganos? - Um Cigano Beatificado. - Transplante de Ór-
gáos e doacáo compulsoria. - Conciliarismo: que é? - A "Folha Universal".

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Caixa Postal 2666
20001-970 Rio de Janeiro - RJ y
A PRIMEIRA HORA DO DÍA

O Cardeal Joseph Bernardin, arcebispo de Chicago (U.S.A.) falecido


aos 14 de novembro de 1996, deixou em suas "Memorias" urna observacáo
digna de especial atencáo:

"Aprendí, há muitos anos, que a única forma de darqualidade á oragáo


era levantar-me cedo pela manha... Assim prometí a Deus e a mim mesmo
que dedicaría á oragáo a prímeira hora de cada día, antes que telefone e
campaínhas tocassem, antes que o correio chegasse".

Nota aínda o prelado que tal prática Ihe custou esíorcos: as preocupa-
cóes e distracóes nao deixavam de o assaltar, como se tivesse que resolver
problemas administrativos precisamente naquela hora do dia... Mas acres-
centava: "Nao estou certo de que possa evitar isso... O importante é que nao
darei aquele tempo a ninguém".

A experiencia desse homem de Deus, muito solicitado por afazeres


vultosos, vale como licáo para todo bom cristáo envolvido ñas tarefas deste
mundo, mas desejoso de sair da ratina e ter urna vida de uniáo com Deus
mais profunda e saborosa. Para quantos Deus nao tica sendo urna palavra
mais ou menos vazia, urna fórmula metafísica... até o fim da vida, sem chegar
a tornar-se um TU dialogante?! A vivencia crista vem a ser entáo urna baga-
gem pesada ou um dever sufocante. Na verdade, porém, Deus nao é um
simples vocábulo; Ele é a prímeira Sabedoria, o primeiro Amor, a primeira
Santidade, da qual tudo mais é reflexo mais ou menos pálido. Ele nao pode
deixar de falar e se manifestar a quem O procura, pois Ele conhece a cada um
desde todo sempre e Ihe quer bem pessoalmente. - O problema é que as
coisas visíveis e sonoras sao táo atraentes e absorventes que a escala de
valores, para muitos, se inverte: a verdade parece estar ñas coisas coloridas
e sensiveis, enquanto Deus é urna realidade supletiva, "para quem nao tem
mais nada que fazer". - Ora é tempo de reagir, pois a qualquer momento os
véus da fé podem rasgar-se e nos fazer comparecer diante dele, que é o único
valor que nao passa, ao invés das criaturas táo brilhantes, mas transitorias.

E as distracóes? - Nao impedem de rezar. Elas acometem até os San


tos, como reconhece Santa Teresa de Ávila: "Nao julgueis que tudo está per
dido quando vos distraís um pouco. Tenho andado, ás vezes, bem apertada
por causa dessa barafunda das distracóes" (Castelo Interior, Quarta Morada
1,7 e 8). O que importa, é nao Ihes dar consentimento; é querer permanecer
na presenca de Deus durante todo o tempo previsto, ainda que seja em luta
constante contra as distracóes. O simples fato de as repelir é eloqüente ato de
fé; é oracáo, á qual Deus saberá dar a resposta adequada, Ele que é o primei
ro a procurar o homem através dos tempos.1

Sirva a experiencia do Cardeal Bemardin a todo discípulo que deseja


sair de urna "santa mediocridade" para viver urna santa profundidade!
E. B.
1 Ver a propósito p. 296 deste fascículo: "Na Confluencia das Escrituras".

289
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XXXVIII -N° 422 - Julho de 1997

Fala o Papa:

A IGREJA E OS DIVORCIADOS DE NOVO


CASADOS

Em síntese: O S. Padre Joao Paulo II, em 24/01/97, proferíu urna


alocugao em que afirma a solicitude da Igreja pelos casáis divorciados e
de novo casados. Exorta-os a nao cair no desánimo nem no desespero
perante Deus. Freqüentem a Igreja, assistam a S. Missa, entreguem-se a
oragao e á prátíca de alguma atividade caridosa em prol dos pobres ou
enfermos. Os pastores da Igreja tém o deverde os acolhercom benevo
lencia fraterna (que nao significa conivéncia bonacha), assim como os
demais membros da comunidade eclesial. Os familiares de tais casáis
colaborem para estimularessaspessoas a mantera féeo vínculo com a
Santa Igreja.
* * *

É doloroso o drama de pessoas católicas que vivem em situacao


conjugal nao reconhecida pela Lei de Deus; casaram-se legítimamente
na Igreja, d¡vorciaram-se e contrairam nova uniao (essa, meramente ci
vil). Se o primeiro casamento foi válido e consumado camalmente, é
indissolúvel, de modo que a nova uni§o carece de valor perante o Evan-
gelho e a Igreja (cf. Me 10,5-9, par). Muitos desses casáis, privados dos
sacramentos por viverem em conúbio religiosamente ilegal, sofrem pro
fundamente, guardam a fé e a consciéncia do que Ihes ocorre. N§o raro
um dos cónjuges foi vítima mais do que réu do fracasso do primeiro ma
trimonio. Outros se afastam da Igreja, porque, desesperanzados, julgam
que as portas Ihes estáo fechadas e levam urna vida alheia aos valores
religiosos.

Ora, visto que o problema é cada vez mais freqüente, a Igreja tem-
se dedicado com especial atencáo ao mesmo, procurando reconfortar os
casáis divorciados de novo casados, estimulando-os a nao se afastarem
da Igreja, onde devem encontrar acolhida caridosa (embora nao coni-

290
A IGREJA E OS DIVORCIADOS DE NOVO CASADOS 3

vente) e a oportunidade de trabalharem pelo Reino de Deus numa obra


social ou numa Pastoral em favor dos irmáos. Consciente da problemáti
ca, e no intuito de despertar esperanga e confianca, o S. Padre Joáo
Paulo II, aos 24/01/97, proferiu um discurso aos participantes da 13a As-
sembléia Plenária do Pontificio Conselho para a Familia, discurso em
que tracava linhas de acáo oportunas para reconfortar os casáis irregu
larmente unidos. Eis o teor de tal alocucao:

I. A PALAVRA DO PAPA

«Senhores Cardeais, Amados Irmáos no Episcopado, Caros Irmáos


e Irmas,

1. Estou feliz por vos acolher e vos saudar por ocasiao da Assem-
bléia Plenária do Pontificio Conselho para a Familia. Agradego ao Car-
deal-Presidente Alfonso López Trujiiio as gentis palavras com as quais
quis comegar este encontró, que se reveste de grande importancia. Com
efeito; o tema da vossa reflexáo - A Pastoral dos Divorciados de novo
Casados - está hoje em dia no centro das preocupacóes e da atencao da
Igreja e dos pastores encarregados da cura de almas, os quais nao ces-
sam de prodigalizar sua solicitude pastoral aqueles que sofrem por causa
das difíceis situacdes que afetam as respectivas familias.

A Igreja nao pode ficar indiferente a esse doloroso problema, que diz
respeito a tantos de seus filhos. Na Exortacáo Apostólica Familiaris
Consortio, eu já reconhecia que, já que se trata de um flagelo que aflige
sempre mais os ambientes católicos, 'é preciso enfrentar urgentemente
o problema com a máxima solicitude' (n° 84). A Igreja, Mae e Mestra,
procura o bem e a felicidade dos lares e, quando estes sao destruidos,
qualquer que seja o motivo, ela sofre com isto e procura urna solucáo,
acompanhando essas pessoas num trabalho pastoral em absoluta fideli-
dade aos ensinamentos de Cristo.

2.0 Sínodo dos Bispos de 1980, tratando da Familia, levou em con-


sideracáo essa situagáo penosa e indicou as orientagoes pastorais opor
tunas para as respectivas circunstancias. Na Exortagáo Apostólica
Familiaris Consortio, levando em conta reflexdes dos Padres Sinodais,
escrevi: 'A Igreja, instituida para levar á salvagáo todos os homens, es
pecialmente os batizados, nao pode abandonar aqueles que, já unidos
pelos vínculos do sacramento do matrimonio, quiseram passar para ou-
tras nupcias. Por conseguinte, ela deve esforgar-se incessantemente por
colocar á sua disposigáo os meios de salvagáo que Cristo Ihe entregou'
(n6 84).

É neste quadro marcadamente pastoral que se situam as reflexóes


do vosso encontró, as quais procuram ajudar as familias a descobrir a

291
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

grandeza da sua vocacáo batismal e a viver as obras de piedade, canda-


de e penitencia. A assisténcia pastoral, porém, pressupoe que a doutrina
da Igreja, claramente exposta no Catecismo, seja reconhecida: 'Nao está
no poder da Igreja pronunciar-se contra as dísposicoes da Sabedoria Di
vina' (n° 1640).

Que todos esses homens e essas mulheres saibam que a Igreja os


ama, que Ela nao está distante deles e sofre com a sua situacáo. Os
divorciados que de novo se casaram, sao e permanecem membros da
Igreja, pois receberam o Batismo e conservam a fé crista. Por certo, urna
nova uniáo após o divorcio vem a ser urna desordem moral, que contrasta
com as exigencia precisas da fé, mas isto nao deve constituir obstáculo
para que os divorciados se dediquem á oracao e ao testemunho ativo da
caridade.

3. Como escrevi na Exortacáo Apostólica Familiaris Consortio, os


divorciados que se casaram de novo, nao podem ser admitidos á Comu-
nháo Eucarística, 'pois o seu estado e a sua condicáo de vida estáo em
contradicáo objetiva com a comunháo de amor existente entre Cristo e a
Igreja tal como ela se exprime e torna presente na Eucaristía' (n° 84). E
isto em virtude da autoridade mesma do Senhor, Pastor dos pastores,
que procura sempre as suas ovelhas. Isto vale igualmente para o sacra
mento da Penitencia, cujo significado duplo e unitario de conversáo e re-
conciliacáo é contraditado pela condicáo de vida dos divorciados de novo
casados.

Todavía nao faltam caminhos pastarais apropriados para ir ao en


contró de tais pessoas. A Igreja considera os sofrimentos e as graves
dificuldades ñas quais se angustiam; e no seu amor materno Ela se inqui
eta tanto por essas pessoas quanto pelos filhos do casamento anterior;
privados do direito de fruir da presenca de seus dois genitores, sao as
primeiras vítimas desses dolorosos acontecimentos.

É preciso logo e com urgencia ativar urna pastoral de preparagáo e


de sustento oportuno dos casáis no momento da crise. O anuncio do dom
e do mandamento de Cristo está em jogo. Os pastores, os párocos em
particular, devem, de coracáo aberto, acompanhar e sustentar tais ho
mens e tais mulheres, dando-lhes a compreender que, mesmo que nao
tenham respeitado o vínculo do matrimonio, nao devem desesperar da
grasa de Deus, que vigia o seu caminho. A Igreja nao cessa de "convidar
seus filhos que se encontram em tais situacoes dolorosas para que se
aproximem da misericordia divina por outros caminhos... enquanto nao
estáo ñas condicoes necessárias para receber os sacramentos" (Exorta
cáo Apostólica Reconciliacáo e Penitencia n° 34). 'Os pastores sao cha
mados a fazer sentir o amor de Cristo e a proximidade maternal da Igreja;
292
A IGREJA E OS DIVORCIADOS DE NOVO CASADOS 5

acolham com amor tais pessoas, exortando-as a se entregarem á miseri


cordia divina e sugerindo-lhes com prudencia e respeito caminhos con
cretos de conversáo e participacáo na vida da comunidade eclesial' (Car
ta da Congregacáo para a Doutrina da Fé sobre a Comunháo Eucarística
e os Fiéis Divorciados de novo Casados, 13/10/1994, n° 2). O Senhor,
impelido pela misericordia, vai ao encontró de todos os que dele preci-
sam, ao mesmo tempo que mantém a exigencia da verdade e o óleo da
caridade.

4. Como nao acompanhar com inquietacáo a situacáo das muitas


pessoas que, especialmente nos países desenvolvidos, vivem em condi-
coes de abandono por causa da sua separacáo, principalmente se se
trata de pessoas a quem nao se pode atribuir o fracasso do casamento?

Quando o casal que estava em situacáo irregular, volta á prática cris


ta, é necessário acolhé-lo com caridade e benevolencia, ajudando-o a
esclarecer o estado concreto de sua condicáo mediante um trabalho claro
e elucidativo. Essa pastoral de acolhida fraterna e evangélica é de grande
importancia para aqueles que haviam perdido o contato com a Igreja: é o
primeiro passo para os inserir numa prática de vida crista. É necessário
aproximá-los da escuta da Palavra de Deus e da oracáo, inclui-los ñas
obras de caridade que a comunidade crista realiza em favor dos pobres e
marginalizados e estimular o espirito de arrependimento mediante obras
de penitencia que preparem o seu coragáo para acolher a graca de Deus.

Um capítulo muito importante diz respeito á formacáo humana e crista


dos filhos da nova uniáo. Dar-Ihes a conhecertodo o conteúdo da sabedo-
ria do Evangelho segundo os ensinamentos da Igreja é obra que prepara
maravilhosamente o coracáo dos genitores que receberem a forca e a luz
necessárias a fim de superarem as dificuldades reais que se encontram
na caminhada e para reencontrarem a plena transparencia do misterio de
Cristo que o matrimonio cristáo significa e realiza. Urna tarefa particular
mente difícil, mas necessária, toca aos outros membros que, de modo
próximo ou remoto, fazem parte da familia. Mediante aproximacáo, que
nao deve ser confundida com condescendencia, háo de procurar ajudar
os seus familiares, especialmente os filhos destes; em virtude de sua pouca
idade, sao os filhos os mais afetados pelas conseqüéncias das opgoes de
seus genitores.

Caros Irmáos e Irmas, a recomendacáo que hoje procede do meu


coracáo é a de terdes confianca naqueles que vivem situacoes táo dramá
ticas e dolorosas. É preciso que nunca deixemos de 'esperar contra toda
esperanca1 (Rm 4,8) que aqueles que se acham em situacáo nao confor
me á vontade do Senhor, possam, eles também, obter a salvacáo de Deus,
desde que perseverem na oragáo, na penitencia e no verdadeiro amor.

293
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

Para terminar, eu vos agradeco a colaborado em prol da prepara


do do Segundo Encontró Mundial das Familias que ocorrerá no Rio de
Janeiro aos 4 e 5 de outubro pf. Dirijo as familias do mundo inteiro o meu
convite paternal para prepararem esse Encontró pela oracáo e pela refle-
xáo. Para os casáis que nao poderáo comparecer a tal assembléia, sei
que foi preparado um instrumento útil a todos; trata-se de catequeses que
serviráo para esclarecer os grupos paroquiais, as associacóes, os movi-
mentos familiares, estimulando urna reflexáo apropriada sobre os gran
des temas referentes á familia.

Eu vos asseguro de que me recordarei de vos na oracáo, a fim de


que vossos trabalhos contribuam para restituir ao sacramento do matri
monio todo o conteúdo de alegría e vigor eterno que o Senhor Ihe confe-
riu, elevando-o á dignidade de sacramento.

Augurando que sejais testemunhas generosas e atentas da solicitu-


de da Igreja pelas familias, eu vos concedo de todo o coragáo a minha
Béncao estensiva a todas as pessoas que vos sao caras».

II. REFLETINDO...

Procuremos agora compendiar em poucas sentencas as grandes li-


nhas do discurso do S. Padre:

1) A Igreja se preocupa com os casáis divorciados e de novo casa


dos. Compreende a angustia de seus coracóes e exorta-os a nao cairem
no desánimo ou desespero frente a Deus. Se a Igreja nao pode derrogar
á leí divina da indissolubilidade do matrimonio, Deus pode fazer que a
situacáo irregular venha a ser legitimada mediante a ocorréncia de um
fato novo (viuvez de urna ou de ambas as partes).

2) Muitos casáis irregularmente unidos nao se podem separar, de


vendo continuar a viver sob o mesmo teto por causa da educacáo de
filhos aínda pequeños. Estáo impossibilitados de comungar em tal situa
cáo; mas, se consentirem em víver como irmáo e irmá sob o mesmo teto,
poderáo receber os sacramentos da Reconciliacáo e da Eucaristía; ver
Familiaris Consortio n° 84.

3) Tais casáis freqüentem a Igreja; assistam á S. Míssa. Dediquem-


se á oracáo e á prática da caridade, exercendo alguma obra social da
paróquia, a fim de manterem vivo o vínculo com a comunidade eclesíal.

4) Eduquem os filhos na fé católica. O fato de nao estarem legalmen-


te unidos perante Deus nao os deve impedir de procurar o Batismo para
seus filhos e de Ihes ministrar instrucáo religiosa. Esta norma vale tanto
para os filhos do matrimonio legítimo fracassado como para os da segun
da uniáo. A Igreja nao deve recusar o Batismo de tais enancas, visto que

294
A IGREJA E OS DIVORCIADOS DE NOVO CASADOS 7

nao tém culpa do modo de vida dos genitores. O que interessa á Igreja, no
caso, nao é a situacáo legal ou ilegal dos pais, mas a probabilidade de
educacáo religiosa da enanca batizada; se esta for assegurada pelos pró-
prios pais, pelos padrinhos ou pela paróquia, nao há por que excluir da
graca do Batismo tais chancas.

5) Tenham os pastores da Igreja o zelo da acolhida (que nao será


conivéncia bonachá) para com tais casáis. O mesmo amor fraterno esteja
no coracáo dos demais membros da comunidade paroquial frente a tais
pessoas.

6) Os familiares dos casáis irregularmente unidos desempenhem um


papel de ajuda crista em favor tanto dos genitores como dos filhos de tais
pessoas. Procurem estimular os adultos a nao perderem a confianca na
Providencia Divina e tenham interesse pela educagáo religiosa das enancas.

7) Os pastores da Igreja acompanharáo com especial solicitude os


casáis legítimamente unidos que estejam em crise. Déem-se-lhes apoio
e estímulo para evitar o desastroso desfecho da separacáo conjugal.

Como se vé, a Igreja se interessa ao máximo pelos casáis divorcia


dos de novo casados e procura atrai-los ao convivio da paróquia, na es-
peranca de que Deus responda as preces de tais pessoas, abrindo-lhes o
caminho para a legitimacáo de sua situacáo e para a salvacao eterna.

APÉNDICE

A fim de completar os dizeres do Santo Padre atrás transmitidos,


parece oportuno transcrever aqui trechos da Exortacáo Apostólica
Familiaris Consortio, a que alude S. Santidade e que foi publicada com
a data de 22/11/1981:

«Exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a


ajudaros divorciados, promovendo com caridade solícita que eles nao se
considerem separados da Igreja, podendo, ou melhor devendo, enquanto
batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de
Deus, a freqüentar o Sacrificio da Missa, a perseverar na oragSo, a
incrementaras obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor
dajustiga, a educaros filhos na fé crista, a cultivar o espirito e as obras de
penitencia para assim implorarem, día a dia, a graga de Deus. Reze por
eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mae misericordiosa e sustente-os na
fé e na esperanga.

A Igreja, contudo, reafirma a sua praxis, fundada na Sagrada Escritu


ra, de nSo admitirá comunháo eucarística os divorciados que contraíram
nova uniáo. Nao podem ser admitidos, do momento em que o seu estado
e condigóes de vida contradizem objetivamente aqueta uniáo de amoren-

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

tre Cristo e a Igreja, significada e realizada na Eucaristía. Ha, além disso,


um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem estas pessoas á Eu
caristía, os fiéis seriam induzidos em erro e confusSo acerca da doutrina da
Igreja sobre a indissolubilidade do matrimonio.

A reconciliagáo pelo sacramento da penitencia - que abriría o cami-


nho ao sacramento eucarístico - pode ser concedida só aqueles que,
arrependidos de ter violado o sinal da Alianga e da fidelidade a Cristo,
estao sinceramente dispostos a urna forma de vida nao mais em contradi-
gao com a indissolubilidade do matrimonio. Isto tem como conseqüéncia,
concretamente, que, quando o homem e a mulher, por motivos serios -
quais, porexemplo, a educagáo dos filhos-nao se podem separar, assu-
mem a obrigagao de viver-em plena continencia, isto é, de absterse dos
atos próprios dos cónjuges.

Igualmente o respeito devido querao sacramento do matrimonio quer


aos próprios cónjuges e aos seus familiares, querainda á comunidade dos
fiéis proibe os pastores, por qualquer motivo ou pretexto mesmo pastoral,
de fazerem favor dos divorciados que contraem urna nova uniáo, cerimóni-
as de qualquer género. Estas dariam a impressáo de celebragao de novas
nupcias sacramentáis válidas, e conseqüentemente induziriam em erro sobre
a indissolubilidade do matrimonio contraído validamente.

Agindo de talmaneira, a Igreja professa a própria fidelidade a Cristo e


a sua verdade; ao mesmo tempo comportase com espirito materno para
com estes seus filhos, especialmente para com aqueles que sem culpa,
foram abandonados pelo legítimo cónjuge.

Com firme confíanga ela vé que, mesmo aqueles que se afastaram do


mandamento do Senhor e vivem agora nesse estado, poderao obter de
Deus a graga da conversáo e da salvagao, se perseverarem na oragáo, na
penitencia e na caridade».

Na Confluencia das Escrituras. Iniciagáo á Lectio Divina, por


Ghislaine Salvail. Tradugao de María Stela Gongalves e Adail Ubirajara
Sobral. Colegao "Temas de Espirítualidade" n° 29.-Ed. Loyoia, Sao Paulo
(SP) 1996, 140x210mm, 79 pp.

A oragáo é a respiragao da alma e o termómetro da vida espiritual.


Tomase, porém, difícil ao homem entreter-se com Deus, que é invisível.
Daí o recurso a métodos e escolas de oragáo. Entre outros, acha-se a
Lectio Divina (leitura divina ou leitura espiritual); é urna tática muito antiga
e fácil, que consiste em ler e meditar (de preferencia, a S. Escritura) para
prorromperem oragáo e contemplagáo. O iivro de Ghislaine Salvail expóe
com muita clareza as etapas do método, tomándose útil subsidio a quem
deseja progredirnas vias da oragáo.

296
Testemunhos eloqüentes:

"SEPARADOS, DIVORCIADOS.
UMA ESPERANQA POSSÍVEL"
por Paúl Salaün

Em síntese: O livro de Paúl Salaün é urna coletánea de depoimen-


tos de pessoas infelizes em seu casamento, mas fiéis ao mesmo, apesar
da separagáo e do divorcio civil. O próprio autor do livro propóe seu teste-
munho pessoal e se estende em consideragóes sobre as razóes alegadas
(sem consistencia) para fundamentar nova uniáo de pessoas divorciadas.
Percebe-se, através de suas páginas, o caréterde um cristáo fiel, corajo
so e humilde, acompanhado de muitos homens e mulheres que comparti-
Iham seu modo de ver.

A leitura de tais depoimentos, como também de cada página de Paúl


Salaün, é rica em sugestóes e abre ao leitor horizontes ignorados, pois o
que mais salta aos olhos de quem acompanha a sociedade de hoje, sao
sombras e ¡acunas; é realmente gratificante averiguar que, ao lado délas,
existem focos de verdadeiro amor, fiel até a morte, amor, porém, que nao
faz o alarde que o mal costuma fazer.

Paúl Salaün é um fiel católico leigo francés, que fez a experiencia


de um casamento infeliz, o qual acabou em divorcio civil no ano de 1979,
nove anos após contraído; tinha entáo trinta anos de idade. O sofrimento
foi grande, mas Paúl encontrou em Deus a forca para manter fidelidade
ao vínculo sacramental, que o divorcio civil nao rompeu. Foi procurar re
conforto na Abadía de Timadeuc (Morbihan), onde o Pe. Guilherme Ihe
assistiu valiosamente a ponto de chegarem a fundar com outros divorcia
dos nao recasados a "Comunháo Nossa Senhora da Alianca". Após seis
anos de existencia, esse grupo contava mais de urna centena de mem-
bros (dos quais um terco de homens) provenientes da Franca mesma e
da Bélgica.

O autor relata num livro precioso1 a sua experiencia pessoal, asse-


melhando-a á da Paixao de Cristo (pp. 25-69); a seguir, apresenta elo-

1 Paúl Salaün, Separados, Divorciados. Urna Esperanga Possível. Tradugao do


francés pelo Pe. Joáo Augusto da Silva C.SS.R. - Ed. Santuario, Rúa Padre Claro
Monteim342, 12570-000 Aparecida, 1997, 138x207mm. 220 pp.

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10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

qüentes testemunhos de pessoas que também passaram por experiencia


conjugal infeliz e guardaram fidelidade ao vínculo sacramental (pp. 71-
136); porfim, tece consideracoes, cita outros textos e testemunhos sobre
cristáos separados e divorciados que continuam a sua vida de cristáos na
Igreja Católica (pp. 137-209). Encerra a obra com indicacoes bibliográfi
cas e oracdes (pp. 211-220).

O livro é precioso. Revela fé, coragem e lealdade nao somente do


autor, mas de multas pessoas que por ele falam e que sao desconheci-
das, pois em nossos días o que mais salta aos olhos é a dissolucáo de
unióes matrimoniáis, as quais outras se sucedem, nem sempre felizes,
provocando o drama tanto dos cónjuges como dos filhos do primeiro, do
segundo, do terceiro... casamento. É realmente interessante tomar co-
nhecimento de quanto escreve ou transcreve o autor. As ponderacdes
que este faz, analisando os argumentos em prol de sucessivas unioes,
evidenciam lucidez de mente, clara escala de valores e intrepidez na vi
vencia da fé católica.

Nao sendo possível comentar todos os aspectos positivos dessa


obra, deter-nos-emos, ñas páginas seguintes, em alguns traeos especial
mente significativos.

1. Dados Numéricos

Com relagáo á Franca, o autor afirma que em vinte e cinco anos o


número de divorcios se triplicou, passando de 35 mil em 1965 a cerca de
110 mil... O problema é cada vez mais ampio, afetando numerosos cris
táos; cf. p. 177. A pressáo social em favor de novo casamento dos sepa
rados é muito forte, dificultando a fidelidade nao somente na sociedade
civil, mas também no interior da Igreja. Aos 22/04/1987, o jornal La Croix
publicou os resultados de urna sondagem segundo a qual 69% dos cató
licos desejavam que a Igreja autorizasse os divorciados a se casar de
novo sacramentalmente, se o desejassem; só 22% nao queriam que mu-
dasse sua posicáo.

O autor refere-se também a um questionário que perguntava a se


parados ou divorciados se tinham sido aconselhados a se casar de novo.
Vinte dentre eles (um terco) responderam que sim, nove vezes por um
padre, onze vezes por outras pessoas. É da familia que, antes do mais,
parte o convite; dizia alguém:

"Foram os membros da minha familia ou da de meu sogro que me


falaram em novo casamento, sem dúvida, para se desculpabilizar e para
que eu me casasse e os deixasse tranquilos" (p. 191).

Também os filhos fazem a mesma proposta: "Minha filha mais ve-


Iha me aconselhou a assumir alguém" (p. 191).

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"SEPARADOS, DIVORCIADOS. UMA ESPERANQA POSSlVEL" 11

Os amigos "bem intencionados" diziam o mesmo: "Algumas amigas


me estimularam a refazer a minha vida, dizendo-me: 'Nao é culpa tua, se
estás só; foi ele que te deixou cair'" (p. 192).

Em idéntico sentido falam pessoas que projetam seus próprios pro


blemas: pessoas solitarias, divorciadas, pessoas que tém familiares
recasados. Prescindem da fé e valem-se de argumentos meramente hu
manos.

A esta altura é de notar que á Igreja nao é lícito modificar os escri


tos do Novo Testamento, que sao peremptórios ao afirmar a
indissolubilidade do casamento; cf. Me 10,11s; Le 16,18; 1Cor 7,10s; Mt
5,31 s; 19,9.1 Por isto também nao compete aos padres aconselhar novas
nupcias aos cónjuges separados; nem mesmo a compaixáo bem intenci
onada pode prevalecer sobre a disposicáo da lei de Deus. De resto, o
autor refere outrossim a atitude de padres que estimulam a fidelidade
matrimonial; apoiam-na também os grupos de Oracáo, os Focolares, Re
ligiosas, casáis cristáos.

Paúl Salaün analisa alguns dos argumentos aduzidos em prol do


recasamento.

2. O Problema da Solidáo

A solidáo como tal é penosa para muitos divorciados. O problema


se torna mais grave quando acompanhado de poucos recursos materiais,
dificuldades para conseguir emprego, fadiga do trabalho fora de casa e
em casa, ausencia de parceiro(a) para educar os filhos ("eles precisam
de presenta masculina/feminina"). Há psicólogos que recomendam novo
casamento como necessário para o desabrochamento sexual da pessoa.

O problema se torna ainda mais pungente quando a separagáo ocor-


re em idade ainda jovem: "Tu és jovem (27 anos), podes refazer tua vida";
"Tu és jovem, acaba com tua solidáo, casando-te de novo"; "Pensa em
teus dias de velhice"; "Tu nao podes envelhecer na solidáo" (p. 113).

Responde Paúl Salaün:

«Os que dao tais conselhos projetam sua própria angustia e tém
tendencia de confundir solidáo e isolamento. Está-se só em nossas cida-
des superpovoadas, mas o eremita em seu deserto nao está só, porque
está em comunhao com Deus e, místicamente, com toda a humanidade.
De fato, tudo está na maneira de vivera solidáo: 'Pessoalmente, nao acho
que seja difícil viversó. Sinto-me agora mais feliz, mais equilibrada, mais
bem acompanhada, mais bem abastecida na vida de oragáo e na Eucaris-

1 Os textos de Mt 5,31 s e 19,9 tém suas peculiaridades que, devidamente considera


das, nao autorizara a dissolugáo do casamento. VerPR 408/1996, pp. 216-218.

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12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

tía freqüente. Fago catequese e distribuo a Comunháo aos membros da


Fratemidade dos doentes'.

Acontece mesmo que a situagao se inverte: 'Com muita gentileza,


alguns amigos temiam que a solideo para mim fosse muito difícil de ser
vivida. Doravante o problema se inverteu: acontece-me refletir com ca
sáis para ajudá-los a acabar com... a solideo!'» (pp. 193s).

3. O Direito á Felicidade

O segundo grande argumento apresentado para justificar o


recasamento é o do direito á felicidade: "Um padre me disse que Deus
quer a felicidade dos homens e que Ele nao pode aceitar tal sofrimento.
Ele me aconselhou a casar-me de novo e foi por isto que o fiz. Mas foi um
novo fracasso" (p. 194).

O autor nota que "o nosso mundo fez da vida sexual urna condicáo
sine que non da felicidade; é urna forma de idolatría" (p. 196).

"Nosso mundo diz: 'Felizes os que tém vida sexual bem sucedida".
Hoje muitos imaginam que, para serfeiiz, basta trocar o Evangeiho pelas
obras de Freud ou dos seus discípulos, os livros de moralistas pelos dos
sexólogos... Mas, se aspessoas sao liberadas em relagao a sexualidade,
nem por isto sao felizes, e o número impressionante dos divorciados ai
está para o confirmar" (pp. 9s).

Paúl Salaün nota que a felicidade verdadeira está, antes do mais,


em manter fidelidade a Deus. Este nao se subtrai jamáis a quem O pro
cura; promete até "a bem-aventuranca aos que tém um coracáo puro,
porque veráo a Deus" (Mt 5,8). Há testemunhos muito eloqüentes neste
sentido: "Quando me encontram serena, surpreendem-se por ver que
vivo sozinha há dezesseis anos e que jamáis tive amante, Meu amor é o
Cristo Ressuscitado" (p. 197).

Há quem alegue o direito ao erro e a obrigagáo de cada um ser fiel


a si mesmo. Sao duas alegacóes ambiguas.

Está claro que todo ser humano é falível e está sujeito a errar, mas
isto nao quer dizer que tenha sempre o direito de recomecar. Quando,
por exemplo, alguém em juventude estraga a sua saúde, com ou serti
culpa própria, nao tem como recomecar a ser jovem e sadio. - A fidelida
de de alguém a si mesmo geralmente é entendida em sentido subjetivo e
egocéntrico - o que nao acarreta felicidade a ninguém. Com efeito; nin-
guém é suficiente referencial para si mesmo. Todo ser humano é peque-
no demais para as capacidades do coracáo humano, de modo que, se
alguém faz de seus interesses o criterio de seu comportamento, cedo ou
tarde experimentará tedio e dolorosa frustracáo.

300
"SEPARADOS, DIVORCIADOS. UMA ESPERANZA POSSÍVEL" 13

O Santo Padre Joáo Paulo II, em York (Grá-Bretanha), aos 31/05/


1982, assim se expressou a propósito:

«O próprío Cristo, fonte viva de graga e de misericordia, está perto


daqueles cujo casamento conheceu a provagao, o sofrimento, a angus
tia. No decurso dos séculos, inúmeros esposos hauriram no misterio pascal
da Cruz do Cristo e de sua Ressurreigño a forga de dar como cristáos -
ás vezes em momentos muito difIcéis - o testemunho da indissolubilidade
do casamento cristáo. E todos esses esforgos do povo cristáo para teste-
munhar fielmente a leí de Deus nao foram em vao. Esses esforgos sao a
resposta humana dada com o auxilio da graga a um Deus que nos amou
primeiro e que se deu por nos.

Como jé expliquei em minha Exortagao Apostólica Familiaris


consortio, a Igreja sente-se envolvida de maneira vital pelo cuidado pas
toral da familia nos casos dificéis. Devemos inclinar-nos com amor - o
amor do Cristo - sobre os que conhecem o sofrimento do fracasso no
casamento, sobre os que conhecem a solideo quando é preciso educar
sozinho urna familia, sobre aqueles cuja vida familiar é dominada pela
tragedia ou pelas doengas do espirito ou do corpo. Louvo todos os que
ajudam as pessoas feridas pelo fracasso de seu casamento, mostrando-
Ihes a compaixáo do Cristo e aconselhando-os segundo a verdade» (p
150).

4. A Severidade da Igreja

Eis alguns títulos de acusacáo feita á Igreja:

1) A Igreja é tida como "desumana", intransigente, retrógrada. "A


fidelidade está ultrapassada; estamos no século XX" (p. 197). Ao contra
rio, Deus seria todo misericordia e perdáo.

Em resposta, lembra Paúl Salaün que hoje há quem atribua a Deus


urna misericordia que desdenha as leis que Ele mesmo estabeleceu. Je
sús nunca separou Amor e Verdade; nao condenou a mulher adúltera,
mas nem por isto aprovou o adulterio, pois Ihe disse: "vai e nao peques
mais" (Jo 8,1-11). De resto, a Igreja tem manifestado especial solicitude
para com os divorciados e recasados, como atestam as pp. 291-293 des-
te fascículo.

Refere o autor o seguinte episodio:

«Um homem, tendo ficado só com filhos novos depois da saída de


sua esposa, vivia em coabitagao com urna mulher, mas sentía urna culpa-
bilidade que nao podía evitar. Esperava do padre urna atitude firme; ora,
seu pároco, achando a Igreja severa demais, aprovava sua coabitagao e
o escusava, 'jé que tinha sido abandonado por sua esposa, quepartiu com

301
114 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

um outro'. Mas este homem nao estava convencido por este falso argu
mento: 'Para mim, em toda ruptura de casal, os dois cónjuges tém sua
parte de responsabilidade'» (pp. 198s).

2) Há também quem acuse a Igreja de ser mais intransigente do


que os cristáos ortodoxos e protestantes.

Pode-se reconhecer a veracidade de tal alegacáo. Mas observa


Salaün que os «irmáos ortodoxos ou protestantes ficam murtas vezes
irritados com as reflexóes simplistas dos que os interpelam sobre este
assunto: eles mantém a fidelidade em alta estima e neo aceitam o
recasamento senáo como urna concessSo á fraqueza humana. Além dis-
so, entre os ortodoxos, o ritual das segundas nupcias traz oragóes de
penitencia» (p. 199).

3) Também acusam a Igreja de fazer discriminacáo, pois aceita o


casamento religioso dos padres reduzidos ao estado laical.

Em resposta, é de notar que o sacramento da Ordem nao é, por si,


incompatível com o do Matrimonio; no OrieTite o clero católico é casado
(casa-se antes de receber o sacerdocio, nao depois). Ao contrario, o sa
cramento do Matrimonio é, por sua própria índole, indissolúvel. A Igreja
pode.reconhecer a nulidade de um casamento, desde que se evidencie
que foi contraído com algum impedimento dirimente (disparidade de cul
to, profissáo religiosa, dolo...); mas nunca anula um casamento
validamente contraído e consumado, pois isto escaparía á sua jurisdicáo.

«Os cristSos que escolhem a fidelidade sao mais numerosos do


que se eré, e, como sublinha Joao Paulo II, seu testemunho tem um valor
profético. Sua atitude de perdáo interpela seu círculo de relagoes: 'Nao
se compreende que eu nao tenha rancor de meu marido nem de sua
amante porsuas ofensas a minha pessoa. Muitos gostariam que eu tives-
se urna atitude mais violenta'. Seu testemunho de fidelidade atualiza a
missao de Oséias e, se alguns nao a compreendem, ao menos a respei-
tam» (p. 201).

«Os separados e divorciados nao recasados nao só tém o direito de


comungar, mas podem aínda exercer todas as fungóes abertas aos leigos:
animagao, leitura, distribuigao da comunhao, coral.

Como todos os balizados, eles podem também participar na manu-


tengao da igreja e nos servigos, visitar os doentes, fazer a catequese,
peregrinagóes, sermembros de equipes de agao católica e de grupos de
oragáo...

Bem mais, no seio da comunidade, dáo 'um auténtico testemunho


de fidelidade' (Joao Paulo II, Familiaris consortio, 20,6) e muitos foram

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"SEPARADOS, DIVORCIADOS. UMA ESPERANZA POSSlVEL" 15

convidados a manifestar publicamente ou a professar este testemunho:


diante dosjovens que sepreparampara a Crisma; num encontró deA.C.O.
(Agáo Católica Operaría); por ocasiSo de urna reuniáo de casáis; num fim
de semana diocesano das Equipes de Nossa Senhora; numa assembléia
diocesana de oragéo pelas familias; em reunióos da Renovagáo; num lar
de Carídade; diante de um grupo de padres...» (p. 186).

5. O Drama dos Filhos

«Hoje, 1,5 milháo de changas vivem divididas entre seu pai e sua
máe.

Quando seus pais separados se encontram e discutem diante dele,


um menino se interpóe e diz: 'Parem de brigar, voces dois!'

Chancas, morando em Brest, nao véem senáo cada dois anos seu
pai que mora em Toulon.

Tres adolescentes, cujos pais estáo separados há sete anos, ja


máis reviram seu pai, que mora muito perto, mas nao se interessa por
eles.

Um rapaz explode em solucos diante de um lar unido, porque o


marido tem o mesmo nome e exerce o mesmo oficio que seu pai.

Urna adolescente diz a seus pais: 'Sou vossa filha e vós'me cortastes
em duas; mas nao escutais meus gritos1.

'Muitas changas apresentam disturbios de comportamento: enurese,


disturbios intestinais, insónia, retardamento escolar e até cleptomanía
para compensar seu sentimento de abandono' (urna juíza).

'Os filhos de divorciados tém muita dificuldade de se imaginar mais


tarde como um casal feliz" (urna psicanalista).

'Muitas changas cujos pais s3o separados, vivem um episodio


depressivo nos anos que seguem' (urna psicóloga).

O divorcio nao é acolhido como um alivio senáo quando p6e fim a


urna situacáo anterior intolerável (alcoolismo, violencia...).
Para ajudar o filho, a atitude dos pais é essencial. Ora, eles mesmo
estáo extremamente perturbados ou ausentes... Duas atitudes negativas
os espreitam: ou o abandono, que é mais freqüentemente o caso dos
pais; ou urna atitude possessiva, que mais comumente é o caso das máes.
Algumas, com efeito, levantam seus filhos contra o pai, exigem que es-
colham entre ele e elas e ás vezes reconstituem urna especie de casal
com um filho ou de casulo com os filhos, onde o pai nao tem lugar.

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16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

É preciso que o filho possa ver regularmente cada um dos pais, fora
do clima de tensáo; e que receba de cada um deles a afeicáo de que tem
sede. Efetivamente, o maior temor do filho quando a ruptura do casal é de
se sentir abandonado por seus pais e as vezes ele até se senté culpado
por esta ruptura; entáo, tem necessidade de ser tranquilizado!» (pp. 21 s).

6. Dois Depotmentos eloqüentes

Por último, extraímos do livro de Paúl Salaün dois depoimentos al


tamente expressivos de dor, coragem e Vitoria dos valores cristáos.

6.1. «Preferí a Eucaristía ao Recasamento

Encontrei-me só aos trinta e um anos, com dois filhos para cuidar


(oito e nove anos). Sem ajuda financeira, porque separada de fato, com
meu marido quase sempre sem trabalho ou tendo poucos rendimentos.
Nada de resposta aos meus cartóes de festas, aos convites da escola etc.
Era duro. Urna ou duas vezes por ano, urna visita de um ou dois dias e era
tudo. Recebíamos meu marido do melhor modo, os filhos tendo aceitado
(a contragosto) este pai que vivia longe deles. Contudo, eles o tratavam
com carinho, tendo aprendido, com a graca de Deus, a amar sem julgar.

Assim se foram os anos, com o desejo de guardar fielmente a ima-


gem da felicidade fúgida. Mas, a separacáo de corpos tendo vindo de-
pressa, veio também a tomada de consciéncia mais profunda de um náo-
retorno. Neste momento, porque eu era mais vulnerável, ou talvez por
que o amor tivesse desaparecido, eis que um outro homem entrou em
minha vida. Foi rápido, inesperado, desconcertante.

Ele me propunha o casamento, o conforto, a ternura. Era um ho


mem decidido, que, contrariamente a meu marido, tinha fé, podia parti-
Ihar comigo urna dimensáo espiritual. Era aberto e aceitava meus filhos.
Ele mesmo era divorciado, mas nao se colocava nenhum problema quanto
á sua prática religiosa.

Eu me pus a amá-lo (nao era senáo paixáo, soube-o mais tarde);


mas como, na esperanca reencontrada (eu diría agora: no sonho), anali-
sar seus próprios sentimentos? Nao coabitávamos, pois este homem vi
via ainda por alguns meses no estrangeiro; mas nos escrevíamos de dois
em dois dias, as vezes todos os dias. Minhas cartas eram totalmente
cheias de alegría e de esperanca ou cheias de dúvida, de tristeza, de
desejo de abandonar este projeto de vida futura. Ele compreendia que
eu estava muito indecisa, dava-me mil razóes para acalmar minha cons
ciéncia, escrevendo-me ás vezes duas cartas por día.

Por que eu nao era feliz? Por causa de minha fé! A fidelidade ao
sacramento do casamento tinha alimentado minha vida durante tanto tem-

304
"SEPARADOS, DIVORCIADOS. UMA ESPERANCA POSSlVEL" 17

po que renunciar a ela era para mim uma dilaceracáo. Porém, outras
vezes, me parecía uma dilaceragáo mais profunda aínda abandonar esse
novo amor. Eu estava táo perturbada que meus filhos, percebendo-o, me
pediam que resolvesse a questao de uma vez por todas: 'Se amas e
pensas ser feliz, entáo nao penses mais no passado, mamae1; ou 'Se
tens medo de ser infeliz, entáo é preciso romper; mas nao esperes mais,
mamáe, porque estás te destruindo'. Caros filhos, como os amava! Eu
tinha-lhes ensinado a amar seu pai sem o julgar; como eu os amava por
sua delicadeza e sua abnegagáo!

Entáo escrevi a amigos, a todos os meus amigos padres, a Roma,


de onde recebi uma resposta por intermedio do bispado e de meu páro-
co. Nenhuma resposta definitiva: remetiam-me á minha consciéncia e
isso era bem mais terrível. Á minha consciéncia, isto é, á minha verdadei-
ra relacao com o Senhor.

Entáo tomei uma decisáo. Eu conhecia a posicáo da Igreja diante


do casamento; sabia que nao se pode ir comungar em sua própria paró-
quia sem dar um mau testemunho; e eu nao quería causar um mal á
Igreja da qual era uma filha querida, sobretudo durante meu sofrimento
nesse periodo.

E o que sabia, sobretudo, é que me era impossível viver sem Je


sús. Para mim Jesús nao estava ñas nuvens nem era alguém que eu
aceitava como amigo, com a condicáo de que nao me ¡ncomodasse de-
maís. Oh! nao; para mim Jesús era 'o Vívente' presente junto de mim; eu
tinha necessidade do alimento que ele me dava em seu Corpo e Sangue,
tinha necessidade desse alimento ao mesmo tempo espiritual e concre
to. E de repente compreendi que era esse Corpo Sagrado que era minha
vida, meu essencial. Só ele podía fazer inclinar a balanca da decisáo que
eu tinha de tomar.

Certamente, nao foi fácil; rezei a Deus, chamei-o em socorro de


todas as minhas forcas. Eu sabia que, se me casasse de novo, nao po-
deria mais comungar. Entáo, para saber se poderia víver sem receber a
Eucaristía, varios domingos em seguida tentei assistir á Missa sem co
mungar; aplícava-me a rezar mais, a comungar espiritualmente... Foi pre
ciso que me rendesse á evidencia: nao poderia, todo o resto de minha
vida, suportar os sofrímentos da separacao sem meu Jesús na Eucaris
tía. Ir comungar ás escondidas em uma outra paróquia... de que me servi
ría? Meu coracáo nao estaría em paz. Meu amor era Jesus-Hóstia e, esse
amor, eu quería poder vivé-lo ás claras.

Entáo tomeí minha decisáo; escrevi mínha carta de ruptura. O ho-


mem nao ficou, apesar de tudo, por demais decepcionado: tinha aprendí-

305
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

do a me conhecer e, já havia muito tempo, duvidava um pouco de minha


escolha, embora guardando um tanto de esperanca.

Essa renuncia nao foi táo fácil como talvez pareca nestas linhas.
Mas quantas gracas me foram dadas após essa renuncia! É-me impossí-
vel narrá-las todas para vos. Dizer-vos a alegría de meu marido, também
nao posso dizer.

Mas o que posso dizer-vos é que nao a lamentei jamáis. E dou


gracas ao Senhor pela ternura profunda que nasceu entre mim e meu
marido, para nossos encontros, para nossos telefonemas, para nossa
confianca mutua. Ele nos admira, meus filhos, meus netos e a mim mes-
ma, mas ele, nao obstante seu re-casamento, nao é muito feliz; é possí-
vel? Rezo sobretudo para que meu marido tenha um dia a alegría de
conhecer o Senhor.

Em todo o caso, a Eucaristía é verdadeiramente 'o caminho, a ver-


dade e a vida'.

Wanda» (pp. 117-119)

6.2. «Encontrei o Amor Verdadeiro

Pensó que no fim de dezessete anos de separacáo de Claudio, de-


pois de altos e baixos, é-me necessário precisar a situacao para que,
através destes anos que Deus me deu, eu possa louvá-lo e agradecer-
Ihe todos os beneficios de que me cumulou.

Tudo remonta, pensó, a agosto de 1954, quando, após um aciden-


te, nosso pequeño Bernardo, segundo filho, voltou para seu Criador. Es
perando María Paula, eu me agarrei física e moralmente a Claudio, como
a urna tábua de salvacáo. Oito meses de cama, urna crianca doente treze
meses, o nascimento de urna outra crianca doente: tive de cuidar deles
durante muitos anos. Custei muito a me recuperar do desaparecimento
de Bernardo, apegando-me a Claudio, mas apesar de tudo rezava sem-
pre, ou melhor, exercitava-me.

Vivemos nossa vida de casal no meio de múltiplas dificuldades de


filhos e de trabalho: Claudio estava terminando seus estudos, depois veio
o sen/ico militar, depois mais estudos, depois dois anos como médico,
tres anos em duas residencias médicas, depois urna doenca que o obri-
gou a mudar de profissáo, depois mais estudos em diversos lugares.
Depois do diploma, um emprego de tres anos, depois outro.

Tudo isso nos leva a maio de 1968!

Eu havia aceitado essas mudancas por amor a Claudio, com o sen-


timento de que era a vcntade de Deus para nos.

306
"SEPARADOS, DIVORCIADOS. UMA ESPERANZA POSSÍVEL" 19

Nao me haviam dito: 'Deus nao pede mais do que podemos supor
tar; é urna graga do Senhor que nos prova assim seu Amor por nos; é
preciso ganhar o seu Céu sobre a Térra", etc.

Estávamos verdadeiramente cheios de g ragas!

Mas, infelizmente, as confusoes de maio de 68 iam fazer soar o


golpe de graga de nosso casamento com a chegada em nossa casa de
urna prima em dificuldades, com tres filhos de quatro anos a dezoito me
ses; espancada por seu marido, ela havia fúgido de seu lar e nos podía
mos arranjar-lhe trabalho, comida e teto, e eu podia ocupar-me com seus
filhos. Essa prima, pouco tempo depois, encontrou Claudio para consolá-
la...

Pensó agora (sem por isso o aprovar) que ela fez Claudio desper
tar de um longo sonó, ou que ele saiu de nossa relacáo como um cao sai
da agua bufando. Tinha eu um amor demasiado manipulador? fechando
nosso casamento sobre si mesmo e sobre os filhos? com problemas de
saúde e de trabalho? na rotina de urna vida monótona? Diante desta rui
na, na qual meu amor e minha boa vontade tinham também sua respon-
sabilidade, fiz tres tentativas de suicidio, crendo que meu desapareci-
mento, devolvendo a Claudio sua liberdade, Ihe permitiría ocupar-se en-
fim com os meninos. Infelizmente, extasiado com suas novas descober-
tas, ele nos abandonou.

Eu estava ao mesmo tempo no fundo do poco e no inicio de minha


luta pela vida e por eles: 'Pegar o touro pelos chifres ou morrer, nao há
outra solugáo'.

Legalmente, pedi apenas a separacáo de corpos em 1972, e conti


nua sempre assim. Luto com mais baixos do que altos, mais desespero
que alegría; mas, gracas ao Padre Pascal, pude comecar a transformar
meu amor, perdoando o melhor possível a Claudio, decidindo ficar-lhe
fiel e tentando cumprir sozinha o que tinha prometido diante de Deus ao
me casar 'para o melhor e para o pior'. Eu estava com Jesús no Jardim
das Oliveiras, meditacao que foi a minha durante muitos anos em que,
única oracSo com a Eucaristía, eu oferecia ao Senhor minha impossibili-
dade de amar meu esposo, meus filhos, e de rezar por eles. Eu era '5'
sozinha.

Por ocasíáo de um retiro, encontrei meu antigo assístente da ENS


(Equipes de Nossa Senhora); depois que Ihe contei o que eu tentava
viver e disse que nao tinha encontrado na ACGF e na "Renascenga" (Agáo
Católica Geral Femínina e "Renascenga": Movimento cristáo de mulhe-
res separadas, divorciadas) as exigencias espirituais de que tinha neces-
sidade, ele me aconselhou a tentar entrar de novo numa equipe de Nos-

307
20 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

sa Senhora. Obediente, passei urna tarde na casa de um casal respon-


sável pelas equipes.

Conhecia Ana Maria desde 1981, na "Renascenca", já á procura do


que seria mais tarde a "Comunháo Nossa Senhora da Alianca".

Primeiramente encontrei minha unidade no Senhor. 'O Senhor te


escolheu, ele te chamou por teu nome, ele te fez caminhar em seus cami-
nhos.' 'Com a menor das sementes o Senhor faz brotar a mais bela das
árvores'. 'Se tivesses a Fé, grande como urna sementé de mostarda, des
locarias as montanhas'. 'Se o grao nao morrer...1 (Retiro de Délémont na
Suíca, pregado para divorciadas; éramos 15).

Em seguida, encontrei a liberdade dos filhos de Deus. Os meus, que


tanto amo, tinham acabado de me sufocar.

No nascimento da 'Comunháo Nossa Senhora da Alianca', quando


Ana Maria me propós fazer parte, pulei de alegría porque tinha enfim en
contrado o que procurava havia muito tempo: um lugar de reabastecimen-
tb espiritual e de trocas com meus semelhantes, irmáos e irmás na sepa-
racáo e no divorcio.

Gracas á oracáo e a numerosos pequeños sinais, reencontrei o Amor


verdadeiro, Amor humano e divino, mesmo com um passo atrás, dois á
frente!

Estou numa Paz profunda e agradeco todos os dias ao Senhor num


Magníficat, imperfeíto certamente, mas sincero.

Que seria de mim se nao tivesse tido este sofrimento? Nao sou eu
que o posso dizer. Mas pensó, malgrado tudo, que por meio dele reencon
trei um sentido para o Amor, urna liberdade total, um sentido profundo de
minha vocacáo de esposa diante de Deus, de máe e agora de avó, numa
alegría que nao tinha experimentado antes e que vivo agora plenamente.
Desejo a todos e a todas que reencontrem, gastando menos tempo
que eu, este Amor, esta Paz, esta unidade, esta liberdade que Deus nos
dá, mesmo e sobretudo ñas situacdes mais penosas ou difíceis.

María Paula» (pp. 83-85)

A leitura de tais depoimentos, como também de cada página do


livro de P. Salaün, é rica em sugestóes e abre ao leitor horizontes ignora
dos, pois o que mais salta aos olhos de quem acompanha a sociedade de
hoje sao sombras e lacunas; é realmente gratificante averiguar que, ao
lado délas, existem focos de verdadeiro amor, fiel até a morte, amor, po-
rém, que nao faz o alarde que o mal costuma fazer.

308
Fala o Médico:

MÉTODOS NATURAIS E
PATERNIDADE RESPONSÁVEL

Em síntese: O Dr. Joao Evangelista dos Santos Alves mostra que


os métodos naturais de contengáo da natalidade sao os únicos que indis-
cutivelmente nao prejudicam a saúde da mulher, além do que proporcio-
nam ao casal urna cooperagao que os métodos artificiáis dispensam, ge-
ralmente com detrimento para a mulher que recorre a meios artificiáis.

Continuamos a publicar a serie de artigos do Dr. Joao Evangelista


dos Santos Alves, ginecologista e mastologista (CRM 52 01135-7), a res-
peito da reprodugáo humana. Após ter abordado os meios artificiáis de
contengSo da natalidade, inclusive o aborto, o autor considera agora os
métodos naturais.

1. Os Métodos Naturais: como funcionam

É obvio que a fertilidade humana nao constituí doenca a ser tratada.


Pelo contrario, é sinal de saúde e por isso mesmo convém ser cuidadosa
mente preservada. Nao se justifica, ética e científicamente, qualquer tipo
de procedimento clínico ou cirúrgico que direta e intencionalmente prejudi-
que a fecundidade humana. Nao significa isso que urna paciente portado
ra de doenca no útero, ñas trompas ou nos ovarios nao possa ser devida-
mente tratada, se a melhor conduta consistir na retirada desses órgáos, o
que resultaría em esterilidade definitiva. O mesmo ocorreria em relacáo
ao homem e a seus órgáos reprodutores. Nao há dúvida de que pode e
deve receber o tratamento adequado, do mesmo modo que pode, com fim
terapéutico, submeter-se a urna gastrectomia (retirada cirúrgica do estó
mago) ou a urna amputacSo de perna, etc. No caso da extirpacáo dos
órgáos reprodutores doentes a esterilidade seria urna conseqüéncia inevi-
tável e n§o o propósito do procedimento terapéutico. Da mesma forma é
lícita a prescricáo de pílulas hormonais ou outros medicamentos, para o
tratamento adequado de alguma doenga, ainda que cause, como conse
qüéncia inevitável, a esterilidade. Aplica-se, nesses casos, o principio do
duplo efeito, que esclarece e justifica a atitude ética, sempre que se prati-
ca um ato bom ou indiferente (no caso, a retirada de um órgáo doente ou a
prescricao de um remedio) para se alcancar um fim bom (a cura do porta-

309
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

dor da doenca), mas que provoca, paralelamente, urna conseqüéncia má,


porém inevitável (a esterilidade).

A própria expressáo paternidade responsável excluí, por ser inco-


eréncia, a utilizacáo de métodos contraceptivos, posto que estes, por si,
negam a mesma paternidade.

É bom, porém, que a fértil¡dade feminina - com seus longos perío


dos inférteis - seja bem conhecida pelos casáis, para que estes, no exer-
cício da paternidade responsável, a possam controlar fisiológicamente,
optando pela abstencáo sexual no período fértil, utilizando apenas o pe
ríodo infértil para a expressao física do amor conjugal, desde que, por moti
vo justo e nao egoísta, se vejam obligados a espagar a geracao de filhos.

A muiher normal apresenta um ciclo menstrual1 com variacáo perió


dica dos níveis hormonais no sangue, o que influencia todo o organismo.
Mais ou menos no meio do ciclo menstrual, ou melhor, entre 12 e 16 dias
antes do inicio da menstruacáo seguinte, o ovario libera um óvulo, o qual
só se mantém fecundável durante o tempo máximo de 24 hs. Os
espermatozoides mantém a capacidade fecundante durante o período de
3 a 5 dias. Somados estes dias ao da ovulacáo e a mais dois ou tres dias
de garantía após a data ovulatória presumida, o período fértil se estende-
ria por 6 a 9 dias, sendo todos os demais dias do ciclo considerados
inférteis, num total de 19 a 24 dias em cada ciclo de 28 a 30 días. O reco-
nhecimento dos dias férteis nao é difícil, pois, durante os dias que prece-
dem á ovulagáo, as células cilindricas do coló uterino2 secretam um muco
catarral, escorregadio e filante, tipo "clara de ovo cru", que desee através
da vagina e pode ser fácilmente identificado pela muiher nos seus órgáos
genitais externos, caracterizando o período fértil, pois o muco desapare
ce após a ovulacáo (período infértil).

Outros síntomas - como a dor pélvica no período ovulatório, a dis


creta elevacáo da temperatura basal e a dor mamaria no período pós-
ovulatório, etc. - podem servir de parámetros para auxiliar a identificacáo
dos períodos férteis e inférteis em certos casos (chama-se método sin-
to-térmico). Na grande maioria das mulheres, basta a observacáo do
muco cervical para a identificagáo do período fértil (chama-se método
Billíngs em homenagem a seu descubridor, ou método do muco cervical
ou método da ovulacáo).

1 MENSTRUAQÁO - Fluxo sanguíneo periódico (geralmente mensal) procedente da


cavidade uterina - devido á descamagao da mucosa que a reveste (endométrio) - e
que se exterioriza através das vias genitais da muiher.
2 COLÓ UTERINO - Parte mais estreita e inferior do útero, que se projeta na parte
superior da vagina. O coló uterino é atravessado por um conduto (o canal cervical)
revestido por urna mucosa secretora, que produz o muco cervical. No trabalho de
parto o coló se dilata e se apaga para darpassagem ao bebé.

310
MÉTODOS NATURAIS E PATERNIDADE RESPONSAVEL 23

As observares práticas feitas pelas próprias mulheres, identifican


do o muco catarral e, portanto, o periodo fértil, foram checadas com exa
mes ginecológicos e com dosagens hormonais no sangue e na urina,
comprovando-se científicamente a validade do método. Pode-se afirmar
que o método natural é o único verdaderamente científico, pois se funda
menta na fisiologia do aparelho reprodutor, preservando sua integridade
e respeitando a natural realizacáo e evolucao do ato sexual.

Inclui-se também entre os métodos naturais o chamado método do


calendario ou da "tabela" ou método de Ogino-Knaus. Foi muito usa
do tempos atrás e aínda o é hoje, mas sua eficacia é menor que a dos
modernos métodos naturais atrás referidos.

A eficacia do método Billings é considerada das mais elevadas


(98,5%), quando corretamente usado. Foi comprovada pela Organizacáo
Mundial de Saúde, que o aplicou em países como india, Filipinas, Nova
Zelandia, El Salvador e Irlanda.

Esse método tem a vantagem de ser inocuo, de n§o necessitar de


algum tipo de medicamento ou de instrumento, nem de calendario. É útil,
além disto, porque a mulher pássa a conhecer melhor o seu organismo e
aprende a identificar a sua própria fertilidade.

O aprendizado é fácil e nao exige pessoal especializado, podendo


0 próprio casal ensinar a outro casal, ou servir de instrutor para grupos de
casáis. É pequeño o número de falhas, mas, ocorrendo - o que pode
acontecer em qualquer método.-, a mulher saberá respeitar a nova vida
humana concebida em seu ventre, pois aprendeu, com o método, a res
peitar as próprias fontes da vida.

Nos casos em que a possível ocorréncia de urna gravidez cor


responder a serio risco para a máe, o índice de eficacia do método Billings
poderá ser elevado a praticamente 100%, desde que se amplié o número
de dias considerados férteis. E ainda mais seguro será, se for associado
ao método da temperatura basal corporal, reduzindo-se a quase zero o
Índice de falha, embora com diminuicáo dos dias ¡nférteis.

O método Billings é prático, porque pode ser aplicado em todas as


situacóes da fisiologia feminina: na menacme (período da vida em que a
mulher menstrua), nos ciclos regulares ou irregulares, na pré e pós-meno-
pausa1, no puerperio2, na amamentacáo, etc.

1 MENOPAUSA - CessagSo fisiológica da menstruagáo, que ocorre geralmente entre


os 40 e 55 anos. Ocorrendo antes dos 40 anos, chamase menopausa precoce. Se
ocorre devido a urna intervengao cirúrgica (retirada dos ovarios ou do útero), chama
se menopausa cirúrgica,
2 PUERPERIO - Estado da mulher após o parto. Periodo de aproximadamente 6
semanas, tempo suficiente para o útero voltar ao seu volume nonval.

311
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

O conhecimento do período fértil é útil também para facilitar a gravi


dez, quando for este o desejo do casal, usando-se, entáo, para este fim,
os dias mais férteis, com muco mais abundante e mais filante.

"De acordó com a OMS, mulheres de todos os padróes culturáis e


educacionais podem aprenderá observare usar o aspecto do muco cervical
para reconhecer quando elas ovulam" (BRITISH MEDICAL JOURNAL,
307: 725.1993)1.

2. Filosofía Básica dos Métodos Naturais

Os métodos anticoncepcionais (contraceptivos) de controle da na-


talidade manipulam as fontes da vida, quebrando o primeiro elo de res-
peito á vida humana; estimulam a promiscuidade sexual, promovendo
assim a difusáo de doencas venéreas e favorecendo a prática do aborto;
por tudo isso contribuem para banalizar a sexualidade humana e minar a
estrutura básica da familia e da sociedade.

Outra é a filosofía dos métodos naturais de planejamento familiar,


conforme os principios da paternidade responsável:

- O Método Natural n§o é anticoncepcional, porque nao utiliza ne-


nhum tipo de contraceptivo, pois respeita as fontes da vida e o processo
biológico da reproducáo humana, optando pela realizacao do ato sexual
somente no período infértil.'com abstencáo no período fértil;

- Respeita a mulher e o homem em sua mutua fertilídade, integrida-


de e dignidade;

- Promove o diálogo conjugal, favorecendo o conhecimento mutuo


dos cónjuges e urna atitude conjunta e responsável diante da sexualida
de;

- Possibilita um controle generoso do número de filhos pelo conhe


cimento dos períodos férteis e inférteis; a identificacáo do periodo fértil
favorece a concepcáo, quando for esse o desejo do casal;

- Valoriza o amor conjugal, reforcando a uniáo de almas e o enten-


dimento mutuo, a fim de possibilitar a periódica abstencáo sexual;

- Enobrece a sexualidade humana, assumindo-a, ambos, como fonte


de amor mutuo e nao de egoísmo, e respeitando sua natureza e finalida-
de intrínsecas.

1 "According to the WHO. womem of all cultural and educational backgrounds can
team to use cervical mucus symptom observation to recognise when they ovulate"
(BRITISH MEDICAL JOURNAL, 307:723 - 726, 1993 - "NATURAL FAMILY
PLANNING").

312
Com o Coracáo Dilatado:

A ATIVIDADE HUMANITARIA DE JOÁO PAULO II

Em síntese: Mediante órgaos adequados, o S. Padre Joao Paulo II


te/77 exercido intensa atividade caritativa no mundo inteiro, sem distingáo
de religiáo, em favor de povos ou regióes flageladas por calamidades
naturais ou pela guerra. A América Latina, inclusive o Brasil, tém sido
considerados com generosidade, como demonstram estátisticas recém-
publicadas pela Santa Sé.

Diz o Senhor: "Nao saiba a tua mao esquerda o que faz a tua direi-
ta" (Mt 6,3), proibindo assim alardear a caridade praticada. Todavía o pró-
prio Senhor também exortou: "Brilhe a vossa luz diante dos homens, para
que, vendo as vossas boas obras, giorifiquem vosso Pai, que está nos
céus" (Mt 5,16). É preciso que os homens se possam regozijar com as
boas obras de seus irmaos e dar gracas a Deus por causa délas. Ora a
Igreja Católica exerce urna atividade beneficente pouco divulgada; é rea
lizada através de organismos fundados precisamente para atender ás gran
des necessidades de populacóes flageladas ou carentes em qualquer parte
do mundo, sem distingáo de raga ou religiáo. O principal desses organis
mos é o Pontificio Conselho Cor Unum (Coracao Uno), que tem por pre
sidente Mons. Josef Cordes e por Secretario Mons. Iván Marín; abre-se
amplamente a diversos tipos de calamidades. Além desse, existe tam
bém a Fundacáo Joáo Paulo II para o Sahel, voltada para os projetos de
luta contra a seca e a desertificacáo no Norte da África; foi fundada por
Joáo Paulo II em 22/02/1994. Há outrossim a Fundacáo Populorum
Progressio, criada em 22/02/1984, para as populacoes afro-americanas,
indígenas, mesticas e agrícolas pobres da América Latina e do Caribe, o
Santo Padre o Papa é o constante animador dessas instituicoes de assis-
téncia; sempre que se registra algum fenómeno calamitoso no mundo,
tem-se feito presente pela sua palavra e pelos subsidios que a Santa Sé
envia aos povos flagelados.

Assim tém sido aplicadas notáveis quantias de dinheiro ao alivio


das condicdes de penuria existentes em varios países. Especialmente o
Conselho Cor Unum tem-se dedicado ao problema da fome, que afeta
800.000.000 de pessoas sobre a face da térra. Faz-se oportuno divulgar
os beneficios efetuados por tais vias, a fim de que os homens giorifiquem
o Pai, que está nos céus, como diz o Evangelho.

313
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

Seguem-se dois quadros que a presenta m o montante enviado ás


regioes flageladas em 1996'.

I. COR UNUM

1o Semestre de 1996

País Catástrofe Quantia enviada

Bangladesh Furacao e InundacBes US$ 30.000


Bósnia-Herzegovinia SituacSes de urgencia no in
vernó 30.000
Burundi Vitimas de conflitos armados
socorridas com alimentos 15.000
Chile Sitúa?oes de urgencia devidas
ao problema habitacional 50.000
China Terremoto na Provincia de
Yunnan 15.000
Colombia Familias sem teto 15.000
Coréia InundacSes 20.000
Costa Rica Inundacdes 15.000
Equador Terremoto 15.000
Guatemala Inundacóes em 1995 15.000
Italia Assisténcia alimentar aos ¡mi
grantes 5.000
Líbano Refugiados 15.000
Libéria Assisténcia sanitaria ás vitimas
da guerra 15.000
Madagascar Ciclone 15.000
Nigeria Ajuda ás vitimas de conflitos
tribais 15.000
República Centro-africana Refugiados ruandenses 15.000
Ruanda Alojamento para repatriados 60.000
Tailandia Refugiados vietnamitas 10.000
Trinidad e Tobago Incendio 10.000

2o Semestre de 1996

Camboja Refugiados 4.000


Camaroes Camponeses refugiados 10.000
Colombia Terremoto 10.000
Croada InundacSes 10.000

1 Tais noticias sSo extraídas do jornal L'Osservatore Romano, edigSo francesa de 4/


3/1997, pp. 6e7.

314
A ATIVIDADE HUMANITARIA DE JOAO PAULO II 27

Guiánia Inundares
1 raque Situares de urgencia ligadas 15.000
á saúde e á alimentacáo 20.000

Italia Estudantes de Ruanda e do


Burundi 10.000

Quénia Seca 10.000


Mongólia Incendio 10.000

Nepal Inundacóes 20.000

Paquistáo Inundacóes 15.000

Perú Terremoto 15.000

Ruanda Refugiados repatriados 50.000


Tanzania Refugiados 5.000

Zaire Refugiados 15.000

II. FUNDACÁO POPULORUM PROGRESSIO


1996

País Número de Projetos1 Financiamento

Antilhas 1 US $ 10.000
Bolívia 18 127.650
Brasil 8 66.900
Chile 13 98.100
Colombia 13 104.000
Costa Rica 1 10.000
Cuba 1 5.000
El Salvador 9 81.200
Equador 22 71.975
Guatemala 6 52.700
Haiti 3 29.000
Honduras 1 10.000
México 12 94.500
Nicaragua 11 76.300
Panamá 5 49.400
Paraguai 3 22.300
Perú 17 136.300
República Dominicana 9 84.900
Uruguai 2 19.600
Venezuela 3 30.000

1 Tratase de projetos para a agricultura, a irrigagao, a saúde, a venda e o transporte


de produtos, a educagáo e a formagao profissional, a promogáo das muiheres, as vias
de comunicagao...

315
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

A Santa Sé assim redistribuiu as contribuicoes que os fiéis do


mundo inteiro Ihe enviam anualmente1. Deseja intensificar tais obras
de atendimento em vista do ano de 1999, que será dedicado especial
mente á caridade em preparacáo do ano 2000. A solidariedade com os
que sofrem é condicao Índispensável para urna auténtica celebracáo
do ano bimilenar. Vé-se deste modo que a Santa Sé, dependente ela
mesma da caridade alheia, sabe dar um lúcido testemunho de amor
aos homens.

APÉNDICES
I. 800 milhoes de pessoas sofrem de desnutrió.áo

Segundo o Fundo das Nacóes Unidas para a Agricultura e Alimenta-


cáo (FAO), 800 milhoes de pessoas sofrem de desnutriólo crónica no
mundo, e 200 milhoes de crianzas até 5 anos tém deficiencias agudas por
falta de alimentos.

Sao 82 os países em estado mais grave, sendo 47 na África, 19 na


Asia e no Pacífico, sete na América Latina e no Caribe e nove na Europa.
Sao estes os 12 que abrigam mais famintos no planeta, ressaltando-se
que o Brasil figura em 15° lugar, com 9,7 milhoes de vítimas (6% da popu-
lacáo):

1o Afeganistao 12,9 milhóes de famíntos (73% da populacho)

2o Somalia 6,4 milhóes (72%)

3o Haití 4,6 milhóes (69%)

4o Burundi 2,9 milhóes (50%)

5o Bolívia 2,9 milhóes (40%)

6o Zaire 14,9 milhóes (39%)

T Senegal 2,3 milhóes (30%)

8o Nicaragua 1,0milháo (25%)

1 Sabemos que essas contribuigóes destinadas ao exercicio da caridade por parte do


Santo Padre sao enviadas anualmente á Santa Sé sob o titulo de Óbolo de SSo Pedro.
Este é coletado em todas as partes do mundo todos os anos na festa dos SS. Apostó
los Pedro e Paulo (29/06).
A contribuigao do Brasil para o Óbolo de Sao Pedro tem aumentado gradativamente
nos últimos quatro anos. Em 1994, foi de US$ 294.194,10; em 1995, de US$ 919.591,56;
e em 1996, de US$ 989.155,53. O Brasil ocupa o décimo segundo lugar entre os
países que mais tém contribuido para o Óbolo de SSo Pedro; sao estes, em ordem
decrescente de contribuigao: Estados Unidos, Italia, Alemanha, Franga, México, Es-
panha, Manda, Países Baixos, República da Coréia e Hong-Kong. Como se vé, ácima
do Brasil estSo países com número bem menor de dioceses e de populagao católica.

316
A ATIVIDADE HUMANITARIA DE JOÁO PAULO II 29

9o Chile 2,9milh5es (22%)

10° india 184,5 milhóes (21%)

11° Colombia 5,9 milhóes (18%)

12° China 188,9 milhóes (16%)

II. Joáo Paulo II, O Homem do Ano de 1996

O jornal suí?o L'Écho de Lausanne, em sua edicáo de 18/01/1997,


publicou a seguinte noticia:

"O hebdomadario americano Newsweek escolheu o Papa Joáo Paulo


II como o homem do ano no cenário internacional, em seu número con
sagrado ás cem personalidades maís em evidencia no ano de 1996. Base-
ando-se sobre urna mensagem junto aos leitores, Newsweek identifica
como integrantes do grupo das pessoas mais fascinantes e mais impor
tantes do ano também o ator Tom Cruise, o presidente Bill Clinton e o
doutor suicida Jack Kevorkian.

No plano internacional o Papa está á frente do líder iraquiano Sadam


Hussein, conforme a sondagem de Newsweek, que indica que, para a
maioria dos norte-americanos, o Iraque é o país mais perigoso para os
Estados Unidos.

A revista estima que, durante os dezoito anos do seu pontificado,


Joáo Paulo II 'dominou o cenário internacional, viajando mais longe e mais
freqüentemente do que qualquer Chefe de Estado1. Como personagem
público que suscita interesse internacional, 'é o único que tenha proposto
urna filosofía coerente dos direitos do homem', e traz 'urna visáo de espe
ranza para a humanidade num momento em que o mundo se aproxima de
novo milenio'".

"...E vos, quem dizeis que eu sou?". Um esclarecimento para o


Povo, por Egionor Cunha. Serie "Verdade". - Ed. Ave-María, Rúa Martim
Francisco 656, 01226-000 Sao Paulo (SP) 1996, 140x210mm, 80 pp.
O Pe. Egionor Cunha é o autor de urna serie de livros que visam a
habilitar os fiéis católicos a responder ás objegóes das Testemunhas de
Jeová. O presente volume trata de Jesús Cristo, que as Testemunhas tém
na conta de criatura. Ao refutaras concepgóes das Testemunhas, o autor
expóe a nogáo católica de Jesús Cristo, de modo que o livro se torna um
bom manual de iniciagáo á Cristologia. Alias, os dez volumes da serie muí-
to se recomendam pelo estudo profundo que fazem dos temas "imagens,
María SSma., inferno, fim do mundo, SSma. Tríndade...".

317
Contestacáo preconcebida:

"EUNUCOS PELO REINO DE DEUS"


por Uta Ranke-Heinemann

Em síntese: O livro da Sra. Uta Ranke-Heinemann parte do pre-


conceito de que o prazer consiste únicamente (ou quase únicamente) na
cópula sexual. Ora a Igreja terá odiado o prazer e, poristo, tere feito cons
tantes restrigóes á vida sexual de seus fiéis, sacrificando especialmente
as mulheres. A autora, em conseqüéncia, admite que Jesús foi casado
(comopoderia nao ter a alegría da cópula conjugal?) e nega a virgindade
de María ao conceber e depois do parto de Jesús (como nao terá tido o
prazer da uniáo camal?). A partir destas premissas preconceituosas, a
Sra. Uta percorre a historia da Igreja tentando apontar casos de odio ao
prazer por parte dos clérigos celibatários. Ao fazé-lo, foge aos trámites de
um trabalho científico, serio e objetivo, para realizar urna obra passional e
tendenciosa. O livro pode impmssionaro leitorporsua erudigáo, mas "langa
areia nos olhos" sem convencer a quem tenha algum senso crítico e co-
nhega um pouco o assunto.
* * *

A Sra. Uta Ranke-Heinemann, "considerada a maior teóloga do mun


do" (Rose Marie Murara) escreveu um livro veemente com o título "Eunucos
pelo Reino de Deus" e com o subtítulo "Mulheres, Sexualidade e Igreja"1.
Acusa a Igreja, especialmente a sua hierarquia, de ter menosprezado as
mulheres, odiado o prazer sexual e desfigurado a mensagem de Cristo. O
livro tem tido grande repercussáo; editado na Alemanha pela primeira vez
em 1988, chegou á terceira edic§o no Brasil em 1996. É obra farta em
documentacáo; a autora leu muito a respeito da historia da Moral na Igreja,
de modo que suas páginas, á primeira vista, se impóem ao leitor como se
fossem a última expressáo da erudigáo teológica.

Na verdade, o livro, aparatoso como é, nao resiste a um exame


atento de suas afirmacóes, que se revelam preconceituosas e passionais
ou isentas de objetividade. É o que passamos a ver.

1 TradugSo do alemSo por Paulo Froes. - Editora Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro
1996 (3a. edigao), 140 x 210 mm, 383 pp.

318
"EUNUCOS PELO REINO DE DEUS"

Percorrendo a Obra...

A autora considera o uso do sexo ou a genitalidade1 com olhar me


ramente humano, como se fosse um imperativo inelutável e a grande fon-
te de prazer para o ser humano. NSo leva em conta os apelos típicamente
cristáos para a vida una ou indivisa, que Sao Paulo formula em 1Cor 7,25-
35 (texto jamáis citado ñas 383 páginas do livro). Quem lé a obra, espon
táneamente se recorda das palavras do Apostólo:

"O homem psíquico (entrege únicamente á sua natureza) neo aceita


o que vem do Espirito de Deus. Para ele, é urna ioucura, neo o pode com-
preender, pois isso deve serjulgado segundo o Espirito" (1Cor 2,14).
Entende-se entáo que, abstraindo da luz do sobrenatural ou da fé, a
Sra. Uta nao compreenda a posicáo da Igreja frente á genitalidade. Dal a
interpretacáo distorcida e tendenciosa que ela propSe para os documen
tos da Igreja. Analisemos alguns casos em que isto ocorre.

1. Jesús Casado?

Um espécimen muito significativo da argumentacáo da Sra. Uta


aparece logo no inicio do livro.

Á p. 15 cita ela urna sentenca do Tribunal Distrital de Hamburgo,


secgáo 144, proferida aos 14 de julho de 1981,... sentenca que termina
afirmando que Jesús "foi livre de qualquer pecado e de qualquer prazer
sensual". A Sra. Uta traduz estas palavras como se significassem que
Jesús nao teve alegría em sua vida terrestre (pp. 15 e 17). E nao teve,
porque nao gozou do prazer sensual. A alegría estaría na sensualidade.
Se a traducáo brasileira, devida a Paulo Froes, está correta, isto significa
que alegría só existe na sensualidade, palavra que, conforme o Dicionário
de Aurelio, querdizerlubricidade, volúpia, lascivia, luxúria, amor aos pra-
zeres materiaís". É para desejar que tenha havido um equívoco de tradu
jo; caso, porém, nao o haja, revela-se o ponto de partida da Sra. Uta:
nao se diga que ela proclamou a felícidade exclusiva para a libertinagem
sexual, mas, sim, que ela só vé a felicídade na prática da genítalidade ou
no consorcio sexual.

Em conseqüéncia, a autora admite que Jesús foi casado, pois o


casamento era comum entre os judeus, a ponto que os próprios rabinos o
contraiam:

1 Usamos a palavra genitalidade no sentido do uso do sexo, á diferenga de sexual!-


dade, que indica o ser sexuado (masculino ou feminino), e que caracteriza todo ser
humano (timbre de voz, tipo de pele, cábelos, dedos, andar...). Enquanto a sexualida-
de é comum a todos, a genitalidade ó algo que sobrevém, podendo ser livremente
posta em prática.

319
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

"A/So nos deve surpreender por nada ouvirmos sobre o casamento


de Jesús, pois também nada ouvimos sobre a sua educagáo enquanto ch
anga, sobre o seu treinamento e prática vocacionais. Só ficamos sabendo
que retomou a Nazaré para vivera vida absolutamente normal de umju-
deu"(p.57).

O texto se estende tongamente no intuito de insinuar que Jesús foi


casado. Ora tal proposicáo foge por completo a quanto a TradicSo oral e
escrita ensina a respeito de Jesús; é totalmente gratuita e arbitraria.

De resto, Jesús, mesmo celibatário, foi alegre, como refere Sao


Lucas no seu Evangelho: "Naquele tempo Jesús exultou de alegría sob a
acao do Espirito Santo e disse: 'Eu te louvo, ó Pai...1" (10,21); cf. Jo 17,13:
"Tenham a minha alegría completa em si mesmos".
2. María e o prazer sexual

A autora desenvolve as suas premissas considerando María SSma.


Afirma que Maria nao foi vírgem nem ao conceber Jesús nem após o
respectivo parto, porque isto a privaría do prazer de ter relacóes sexuais
com Sao José e de ter mais filhos. E concluí a Sra. Uta pretendendo inter
pretar a doutrina da Igreja:

"Terfilho é, portanto, urna falta de continencia, um mergulho no pra


zer, conceber urna crianga, exceto pelo Espirito Santo, é urna violagáo e
urna imundície" (p. 17).

A própria conceicáo virginal de Jesús é tida como lenda e como


metáfora (p. 42). O Protoevangelho de Tiago, apócrifo que data de 150
aproximadamente, terá sido o primeiro testemunho de que "os irmáos e
irmás de Jesús foram transformados em meios-irmáos ou em filhos de
um primeiro casamento de José, que, viúvo, se tería casado com Maria"
(P-43).

Ora estas afirmacQes manifestam claramente o modo de pensar da


Sra. Uta. É quase obsessiva; em tudo ela procura defender o prazer genital
e acusar a Igreja de o ter condenado. Assumindo preconceitu osa mente a
idéia de que alegría e felicidade vém táo somente do prazer carnal, ela
combate tudo o que nos Evangelhos e na Tradicáo do Cristianismo seja
pregacáo de continencia em vista do Reino dos céus. Chega a imaginar
Jesús casado, contradizendo o quanto sempre ensinaram as geracoes
cristas durante vinte séculos. A estima crista da continencia e da vida una
seria devida á influencia da literatura paga, da filosofía estoica e do
gnosticismo dualista. Afirmando isto, a autora mutila b pensamento de
Sao Paulo, que apregoa a virgindade e o celibato (nao como praxe obri-
gatória para todos os cristáos, mas como carismas ou dons de Deus); o
Apostólo justifica a sua posicáo evocando o fato de que o Eterno já se fez

320
"EUNUCOS PELO REINO DE DEUS" 33

presente no tempo, dando inicio ao Reino de Deus; por conseguinte, o


interesse do cristáo que tem consciéncia disto, consiste em livrar-se de
tudo o que o possa dividir para consagrar-se inteiramente ao sen/ico do
Reino na vida una ou indivisa:

"Eis o que vos digo, irmaos: o tempo sé fez curto. Resta, pois, que
aqueles que tém esposa, sejam como se nao tivessem; aqueles que cho-
ram, como se nao chorassem; aqueles que se regozijam, como se nao se
regozijassem; aqueles que compram, como se nao possuissem; aqueles
que usam deste mundo, como se nao usassem plenamente. Pois passa a
figura deste mundo.

Eu quisera que estivésseis isentos de preocupagóes. Quem nao


tem esposa, cuida das coisas do Senhor e do modo de agradar ao Se
nhor. Quem tem esposa, cuida das coisas do mundo e do modo de agra
dar á esposa, e fica dividido. Da mesma forma, a mulher nao casada e a
virgem cuidam das coisas do Senhor, a fím de serem santas de corpo e de
espirito. Mas a mulher casada cuida das coisas do mundo; procura como
agradar ao marido" (1Cor 7,29-34).

3. AIgreja e o Casamento

A Igreja nunca foi contraria ao casamento; nunca o julgou algo de


impuro, nem o poderia julgar, pois a S. Escritura refere que o matrimonio
é "um misterio (sacramento) grande em vista de Cristo e da Igreja" (cf. Ef
5,32); o marido faz as vezes de Cristo e a esposa as vezes da Igreja no lar
cristáo, conforme esta significativa passagem de Sao Paulo. Em 1Cor 7,2,
o Apostólo chega a aconselhar o casamento para que o homem e a mu
lher possam atender a seus impulsos naturais; pouco adiante, o mesmo
autor afirma: "O marido nao cristáo é santificado pela esposa e a esposa
nao crista é santificada pelo marido cristáo. Se nao fosse assim, os vossos
filhos seriam impuros, quando na realidade sao santos" (1Cor 7,14). Em
1Tm 4,2 o autor sagrado condena os gnósticos que rejeitam o casamento
como se fosse algo de impuro.

Estas idéias bíblicas nunca perderam seu significado na Igreja. Acon


tece, porém, que na própria S. Escritura é apresentada a vida una ou
indivisa como atitude lógica de quem sabe que o Reino de Deus já che-
gou; cf. 1Cor 7,25-35. Ora esta outra perspectiva também calou fundo no
ánimo dos cristáos, dando origem á vivencia do celibato e da virgindade
consagrados a Deus, desde os tempos mesmos do Apostólo, que escre-
via aos corintios em 56.

Entre os Padres da Igreja, especialmente nos séculos IVA/, houve


quem enfatizasse excessivamente a excelencia da vida una, dando a en
tender urna certa depreciacáo do consorcio conjugal, sem, porém, o con-

321
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

denar como algo de indigno para o cristáo. A Sra. Uta se volta com vee-
méncia contra S. Agostinho (t 430), que ela tem na conta de neurótico
juntamente com outros autores antigos (ver p. 88):

"O homem que fundiu o Cristianismo com o odio ao sexo e aoprazer


numa unidade sistemática foi o maiordos Padres da Igreja, S. Agostinho"
(P- 88).

Na verdade, é falso atribuir a S. Agostinho e ao Cristianismo em


geral odio ao sexo e ao prazer. O próprio celibatário nao odeia o sexo nem
a genitalidade; apenas pratica a continencia por urna vocacáo especial...
vocagáo muito justificada e nobre. A-Sra. Uta freqüentemente repete a
expressao "odio ao prazer" como se fosse atitude permanente e normal
da Igreja - o que nao é correto (ver pp. 18.31. 313. 351).

Nao se pode negar que S. Agostinho tenha ido longe demais ao


afirmar a deterioracáo humana como efeito do pecado original. Todavía
neste ponto ele nao é referencial para a Teología. A Sra. Uta pode criticar
S. Agostinho, mas nem por isso ela está criticando a Igreja, já que esta
nao endossa integralmente as proposicSes de Sto. Agostinho.

N3o há dúvida, os autores cristáos antigos e posteriores nao soube-


ram valorizar a mulher como ela o merece. Todavía as afirmacoes que
punham a mulher em segundo plano, nunca foram dogmas; eram devidas
a fatores culturáis de épocas passadas e, por isto, mudado o contexto
cultural em nossos días, a Igreja nao hesita em proclamar a dignidade e o
importante papel da mulher no passado e no presente da historia; tenha-
se em vista a Carta Apostólica de Joao Paulo II sobre a Dignidade da
Mulher (1988) como também a Carta do mesmo dirigida a todas as mu-
Iheres do mundo antes da Conferencia Internacional de Pequim (1995);
nesta última, lé-se, entre outros trechos importantes, o seguinte:

"Fago votos, caríssimas irmSs, para que se reflita com particular aten-
g§o sobre o tema do genio da mulher, nao só para nele reconhecer os
tragos de um precioso designio de Deus, que há de seracolhido e honra
do, mas também para Ihe darmais espago no conjunto da vida social bem
como no da vida eclesial" (n° 10).

4. A Continencia Periódica

Á p. 97, a autora aborda a questáo dos métodos naturais e antinaturais


(ou artificiáis) para conter a natalidade. E afirma: "O Papa pede aos teólo
gos que descubram a diferenca entre uns e outros, onde nao há nenhuma
diferenca, teológicamente falando, sendo táo somente médica a única dis-
tincáo".

É estranho que a Sra. Uta nao veja a diferenca entre seguir a nature-
za e contrariara natureza; há ai urna diferenca contraditória, como ensina

322
"EUNUCOS PELO REINO DE DEUS" 35

a Lógica. Ora a natureza foi criada por Deus, que Ihe imprimiu as leis do
seu funcionamento; por isto nao é lícito ao ser humano aplicar métodos
que contrariam a natureza, pois eles violam a Lei de Deus. É nisto que se
baseia a Moral católica ao rejeitar os anticoncepcionais. Para se compre-
ender quanto esses sao nocivos tanto no plano moral quanto no plano
fisiológico, basta Iembrar que a pílula é um preparado farmacéutico dado
a um organismo que funciona bem para que nao funcione bem; ora isto
nao pode deixar de fazer mal á mulher.

Ao contrario do que julga a Sra. Uta (p.97), o Papa tem o direito e o


dever de se pronunciar sobre a limitagao da prole e os métodos usuais,
na medida em que tal assunto tem conotagóes éticas ou se prende de
algum modo á Lei de Deus. A Igreja é chamada a ser a porta-voz dos
ditames do Senhor para o bem da humanidade.

A Sra. Uta surpreende-se ao averiguar que a Moral católica permite


a cópula sexual entre esposo e esposa nos dias de esterilidade da mu
lher. Julga que isto é urna concessáo ao prazer - o que contraria, segundo
ela, o odio ao prazer alimentado pelos celibatários (clérigos). - Este trago
do iivro da Sra. Uta bem manifesta que a Igreja nao tem odio ao prazer. A
natureza mesma anexou o prazer a certas funcóes do organismo a fim de
que a pessoa as execute com mais espontaneidade; tais sao as funcoes
do comer e de se reproduzir sexualmente. É lícito ao homem desfrutar
esse prazer, contanto que o faga segundo as leis da natureza; por conse-
guinte, mesmo que a própria natureza permanega estéril em varios dias
do mes, fica sendo permitido ao casal o relacionamento sexual; este tem
porfinalidade nao somente a prole (que a natureza nem sempre proporci
ona), mas também a complementagao mutua psíquica e física. Nao há
por que rejeitar o prazer, se ele é derivado da natureza e vivenciado con
forme as leis da natureza1.

5. Observagoes Complementares

1) Ainda outra expressáo preconceituosa da Sra. Uta é a frase se-


guinte: "Jesús foi um amigo das mulheres, o primeiro e praticamente o
último amigo que as mulheres tiveram na Igreja" (p.132). - Ora nao há
quem nao perceba quanto estes dizeres sao falsos. Nao é preciso refletir
muito para Iembrar os Santos e Santas que se ajudaram mutuamente na
procura da perfeigáo: Sao Bento e Santa Escolástica, Sao Francisco de
Assis e Santa Clara, Sao Francisco de Sales e Santa Joana Frémiot de
Chantal... Deve-se mencionar outrossim a ascendencia que varias mu
lheres exerceram na historia da Igreja: assim Santa Hildegarda de Bingen
(t 1179), consultada por reis, príncipes, Bispos e Papas; Santa Catarina
1 Esta afírmagño nao pretende invalidara ascese e a penitencia. Estamos tratando do
problema especifico das relagoes matrimoniáis dentro do casal.

323
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

de Sena (t 1380), que obteve a volta, do Papa, de Avinháo para Roma em


1376; Santa Teresa de Ávila (f 1582), a reformadora do Carmelo. Escreve
a propósito o Papa Joao Paulo II:

"Em cada época e em cada país encontramos numerosas mulheres


perfeitas (cf. Pr 31,10), que - neo obstante perseguigóes, dificuldades e
discríminagóes - participaram na missáo da Igreja. Basta mencionar aqui
Ménica, mae de Agostinho, Macrína, Olga de Kiev, Matilde de Toscana,
Edviges da Silesia e Edviges de Cracovia, Eiisabete da Turíngia, Brígida
da Suécia, Joana d'Arc, Rosa de Lima, Eiisabete Seaton e Mary Ward,
O testemunho e as obras de mulheres cristas tiveram um influxo
significativo na vida da Igreja como também na da sociedade. Mesmo dian
te de graves discriminagóes sociais, as mulheres santas agiram de modo
livre, fortalecidas pela sua uniao com Cristo.

Também em nossos dias a Igreja nao cessa de enriquecerse com o


testemunho das numerosas mulheres que realizan) a sua vocacao á santi-
dade"(n°27).

2) Nao se compreende que a Sra. Uta, teóloga como é, diga que a


Igreja anula casamentos, como se lé as pp. 358s (ou haveria erro de tradu-
cáo?). - A Igreja nao tem o poder de anular ou cancelar um contrato matri
monial válido e consumado, pois isto contrariaría ao Evangelho (cf. Me 10,
5-12; Le 16,18; Mt 5,32; 19,9; 1Cor 7,1 Os). Mas a Igreja pode, mediante
um processo, tentar averiguar se determinado casamento foi validamente
contraído. Caso se comprove que houve um impedimento dirimente por
ocasiáo do contrato matrimonial, a Igreja simplesmente declara que tal
contrato foi nulo; simplesmente verifica um fato que estava latente e se
torna patente.

Murtas observacóes poderiam ser feitas á obra da Sra. Uta Ranke


Heinemann. É falha por sua tendenciosidade obsessiva ou cega, que a
leva a tomar posicoes arbitrarias, nao fundamentadas e, por conseguirte,
pouco científicas. Pode "lancar areia nos olhos do leitor", pois ¡mpressiona
por sua erudicáo e pelo grande número de documentos e fatos que cita. O
sarcasmo e o deboche também podem calar no ánimo do leitor despreve
nido; mas deve-se notar que nao é em tom passional e zombeteiro que se
defende urna posicao doutrinária merecedora de consideracáo; o sarcas
mo e a ironía sao as armas dos fracos, como se costuma dízer.

Em suma, é para desejar que aqueles que venham a ter em máos


esse livro, estejam conscientes de que é unilateral e tendente ao deboche.
Nao há dúvida, muitos tragos de verdade ai se encontram, mas o leítor há
de exercer um certo senso crítico para distinguir da verdade o que de
subjetivo e preconcebido se encontra ñas explanacoes da autora.
324
O Jornal da Igreja Universal:

A "FOLHA UNIVERSAL" DIZ A VERDADE?

Em síntese: O Sr. Alberto Rivera, escrevendo no jornal "Folha Uni


versal" da Igreja Universal do Reino de Deus, comete grave faina, ou seja,
cai na inverdade de afirmar que "debaixo da basílica de Sao Pedro em
Roma existem varios quilómetros de tunéis, com milhóes de livros e docu
mentos desde os primordios da humanidade". Ora quem conhece a basílica
de Sao Pedro sabe que em seu subsolo há um cemitérío romano antigo no
qual foi sepultado Sao Pedro; tendo sido recentemente escavado esse
subsolo, apareceram vestigios da tumba do Apostólo e urna ossada que
pode ser de Pedro. É descabido supor que em baixo disso naja muitos
quilómetros de tunéis. Ademáis nos primordios da humanidade nao havia
livros nem documentos, pois os homens da pré-história nao conheciam
nem o papiro nem o pergaminho. - Estas inverdades colhidas em flagrante
na "Folha Universal" sugerem a pergunta: seríam inverdades ¡soladas, sin
gulares? Ou nao será que fazem parte do estilo da "Folha Universal", que
preconcebidamente tenta denegrirá Igreja Católica?

O jornal "Folha Universal" do Sr. Edyr Macedotem publicado artigos e


noticias altamente agressivas á Igreja Católica. Em varios casos, verifica-se
que se trata de afirmacoes superficiais, chavóes transcritos sem o mínimo
senso crítico ou sem interesse pela verdade, no intuito principalmente de
denegrir ou atacar inescrupulosamente. Em particular, os artigos de alguém
que assina "Dr. Alberto Rivera, ex-padre jesuíta" sao polémicos efantasiosos.

Nao é costume da Igreja Católica envolver-se em polémica, des-


cendo ao plano dos que preconcebidamente a agridem. Parece mais no-
bre guardar o silencio de quem sabe que se trata de falsas acusacóes e
nao se perturba com a malvadeza dos agressores. Todavía por vezes
essa agressividade é táo baixa e falsaria que se faz necessário esclare
cer o público a respeito, pois muitas pessoas despreparadas se dáo por
perplexas com a leitura de tais invectivas e pedem elucidado.

Vamos, pois, ñas páginas subseqüentes, examinar um artigo de


Alberto Rivera, espécimen muito significativo do pensamento e do estilo
desse autor como também de seu jornal. Tem por título "A historia de
Semíramis" e foi publicado na edigao de domingo 6/4/1997, p. 2.
O autor, que se diz ex-jesuíta, refere-se ao seu passado e escreve:

325
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

«Durante décadas de estudo, tive acesso a maior e mais completa


biblioteca do mundo: a do Vaticano. Localizada exatamente sob a Basílica
de Sao Pedro, o maior arquivo histórico do planeta se estende por varios
quilómetros de tunéis, com milhóes de livnos e documentos, desde os
primordios da humanidade.

Ali estáo registrados os nomes de todos os "espías" da instituigao


católico-romana ao longo da Historia; seus cargos, a "defesa indefesa"de
suas vitimas, as torturas e as respectivas execugóes».

Este texto sugere alguns comentarios:

1) Quem conhece a basílica de Sao Pedro, em Roma, sabe que ela


foi construida sobre um antigo cemitério romano, onde ainda no século I
(67?) foi sepultado o Apostólo Pedro após ter sofrido o martirio. Sob Pió
XII (1939 -1958) foram feitas escavacóes profundas no subsolo da basílica,
que chegaram ao nivel mais baixo, onde se encontrou o presumido túmu
lo de SSo Pedro, identificado por inscricóes de fiéis visitantes e urna ossada
que bem pode ser do Apostólo; ver nosso livro "Diálogo Ecuménico", Ed.
Lumen Christi, pp. 102s. Por conseguinte, nao tem cabimento dizer que sob
a basílica de SSo Pedro existem varios quilómetros de tunéis; a superficie
da basílica nao enquadra os varios quilómetros de tunéis nem estes seriam
possíveis em tal local. Somente a ignorancia do Sr. Alberto Rivera ou (pior) a
má fé ou o desejo de denegrir (ainda que caluniosamente) explicam a afirma-
cao publicada na "Folha Universal". Tal procedimento nao é cristáo.

2) Quanto á alegagáo de que nesses quilómetros de tunéis existem


milhóes de livros e documentos desde os primordios da humanidade,
observamos que os primordios da humanidade ocorreram há cerca de
dois milhóes de anos; os mais antigos fósseis foram descobertos em
Quénia (África). Os primeiros homens nao usavam livros nem documen
tos, pois nao conheciam nem papiro nem pergaminho. Daí o despropósto
de falar de livros e documentos desde os primordios da humanidade.

3) Cabe aqui urna interrogacáo: as inverdades colhidas em flagran


te no artigo que analisamos, nao seriam um espécimen da mentalidade
que inspira os artigos de Alberto Rivera? A inverdade só se encontra urna
vez sob a pena desse autor, e nunca mais em seus artigos? Ou será a
falsidade preconcebida para tentar destruir a Igreja Católica urna das linhas-
mestras de tal autor? O próprio título "Dr. Alberto Rivera, ex-padre jesuíta"
corresponde a um personagem real histórico? Ou será um pseudónimo pom
poso utilizado por algum pastor da Igreja Universal desejoso de ganhar status
e pretensa autoridade? E nao se pode dizer que a "Folha Universal" segué o
mesmo estilo da mentira?... mentira cujo pai é Satanás, conforme Jo 8,44.

4) A associacáo de Maria SSma. e Semíramis, deusa paga, é abso


lutamente arbitraria. Para inicio de conversa, pode-se lembrar que urna

326
A "FOLHA UNIVERSAL" DIZ A VERDADE? 39

¡magem de María SSma. com o Menino Jesús nos bracos foi atribuida a
Sao Lucas evangelista. Embora esta concepgáo nao seja fidedigna, ela
revela que os antigos cristáos retrocediam até o evangelista para explicar
a representacáo de Maria SSma. com seu Divino Filho nos bracos. Será
que Rivera ignora tal tradicáo?
Quanto a Semíramis, já foi considerada em PR 412/1996, p. 426. É
figura lendária da Assíria datada do século IX a.C. Terá tido influencia
sobre os cristáos nove séculos após ter sido proposta pelos antigos
mesopotámios?
Os bons autores sao muito sobrios em relacáo a Semíramis, em
vez de a apresentar como Rainha-Máe adorada por todos os povos do
Oriente. Doutro lado, é muito compreensível que, a partir das próprias
prerrogativas de Maria apontadas pelo Evangelho, se tenham desenvolvi
do a veneracáo á Santa Máe de Deus. Longe de a adorar, os fiéis católi
cos reconhecem a grandeza única que Ihe cabe em virtude de sua funcáo
de Máe de Deus... Máe que Jesús quis fosse também a Máe dos homens
(cf. Jo 19,25-27).

Temos indicios de veneracáo a Maria, Máe de Deus, nos fins do


século I ou no comeco do século II, quando S. Inácio de Antioquia (t 107)
escreveu:

"Nosso Deus, Jesús Cristo, tomou carne no seio de Maria segundo


o plano de Deus...

Permaneceu oculta aoprincipe deste mundo (cf. Jo 12,31; 14,30) a


virgindade de Maria e seu parto, como igualmente a morte do Senhor, tres
misterios de grande alcance, que se processaram no silencio de Deus"
(aos Efésios n' 18 e 19).
Embora S. Inácio combata os docetas, que negavam a realidade
plenamente humana do corpo de Jesús, nao deixou de afirmar o modo
singular como essa humanidade foi concebida e nasceu: a Máe de Jesús
foi Virgem. - O santo julga que este misterio ficou oculto ao demonio,
como haviam de pensar outros escritores antigos. Por falta de dados mais
precisos referentes ao demonio, nao nos é possível aprofundar a afirma-
cáo de Inácio sobre esse "silencio de Deus".
É, pois, evidente que, desde o inicio da era crista, a veneracao a
Maria SSma.'já era elemento integrante da piedade crista, decorrente de
fiel compreensáo da Palavra de Deus. Donde se evidencia quáo despro
positado é afirmar que a figura de Maria, Máe de Deus feito homem em
seu seio, tem algo a ver com a lendária deusa Semíramis.
Donde se evidencia também quáo inescrupuloso ou falso é o jornal
que abona mentiras e calúnias.

327
Fantasías em alto grau:

O LIVRO DE URANTIA

Em síntese: O Livro de Urantia, do qualsáo apresentados textos em


brochura difundida no Brasil, pretende revelar urna cosmología nova, com
universos numerosos sobrepostos em tres degraus. O nosso planeta se
chamaría Urantia e sería o cenárío da vida de Micael, que neste mundo é
conhecido como Jesús de Nazaré. O livro narra urna pretensa viagem de
Jesús, anteríorao seu ministérío público na Palestina, pelas regioes do
Mediterráneo, epropóe a expectativa de urna nova e mais ampia revelagao
de Jesús depurada de dogmas religiosos. - Tal obra é expressao de alta
fantasía descontrolada e foge aos trámites de um trabalho sérío, de índole
científica, que merega consideragao.

Está sendo difundida no Brasil urna obra intitulada "Trechos de O


Livro de Urantia", sem indicacao de data de edicáo, sob a responsabilida-
de da Urantia Foundatlon, que tem sua sede central em Chicago (EE.
UU.); essa entidade se ramifica na Inglaterra, na Franca, na Espanha, na
Finlandia e na Australia. Visto que tal obra tem impressionado varios leito-
res, segue-se breve resenha da mesma.

1. O Conteúdo da Obra

Urantia, segundo se depreende do texto, é o planeta Térra. Este se


acha localizado, junto com muitos outros planetas, no chamado "Universo
local de Nebadon". Este, por sua vez, juntamente com outros similares,
constituí o Supremo Universo de Orvonton, cuja capital é Uversa. Há "sete
superuniversos evolucionários do tempo e do espaco que circulam a cria-
gao sem principio e sem fim da perfeicáo divina - o universo central de
Havona. No coracáo deste universo eterno e central encontra-se a estaci
onaria ilha do Paraíso, o centro geográfico da infinidade e a morada do
Deus eterno". - Estes dizeres, que se encontram logo no inicio da obra em
foco, sao um espécimen de como é complexo e difícil ou obscuro o pensa-
mento de quem confeccionou o livro; tem urna concepcao cosmológica
altamente fantasiosa, que a ciencia nao comprova e que nao tem respaldo
em nenhum dado objetivo.

As demais especulacoes ou teorías de ordem filosófico-religiosa que


o livro propoe, sao do mesmo estilo: recorrem a muitos adjetivos, que
pouco significam, e apresentam-se em frases que carecem de nexo lógico
328
O LIVRO DE URANTIA 41

entre si, de modo que formam o que se poderia chamar urna "verborragia"
(efusáo de palavras vazias), sem conteúdo apreciável. Eis mais duas
amostras deste trago característico:

«Os Ajustadores sao a realidade do amor do Pai encamado ñas al


mas dos homens; sao a verdadeira promessa da carreira eterna do ho-
mem, aprisionada dentro da mente mortal; sao a esséncia da personalida-
de finalista aperíeigoada do homem, a qual ele pode pressentir no tempo á
medida que domina progressivamente a técnica divina de chegara vivera
vontade do Pai, passo a passo, através da ascensáo de universo a univer
so até que realmente alcance a presenga divina de seu Pai do Paraíso...

Todo mortal que tenha visto um Filho Criador viu ao Pai Universal, e
o mortal que é habitado por um Ajustador divino é habitado pelo Pai do
Paraíso» (p. 71).

A brochura intitulada "Trechos de O Livro de Urantia", com suas 101


páginas, 150 x 220mm, apresenta trechos de um livro mais ampio dito
"Livro de Urantia". Este consta de quatro partes: 1) O Universo central e
os Superuniversos; 2) O Universo local; 3) A Historia de Urantia; 4) A Vida
e os Ensinamentos de Jesús. As tres primeiras partes tém em vista des-
crever o ambiente no qual se diz que Jesús apareceu, ou seja, pretendem
preparar a quarta parte da obra, que é a principal.

O que pode chamar a atengáo nesta quarta parte, é a descrigáo de


urna imaginaria viagem de Jesús pelas regióes do mar mediterráneo e
pelo Oriente próximo (o texto chega a insinuar que Jesús esteve na india;
ver p. 68),... viagem anterior ao ministerio público de Jesús. Nessa via
gem Jesús terá aprendido muitas coisas, que Ele apregoou na Palestina
por ocasiáo de seus ensinamentos aos Apostólos e ás'multidoes.

O ministerio público de Jesús n§o é relatado nos "Trechos de O


Livro de Urantia". Todavía, como se lé á p. 97 desta obra, o Livro tenciona
apresentar "a vida e os preceitos de Jesús em sua forma original, livres de
tradicoes e dogmas"; espera-se "urna nova revelagáo de Jesús", "urna
ressurreigáo de Jesús, que sairá do sepulcro da teología tradicional e será
apresentado como o Jesús vivo á Igreja que carrega seu nome e a todas
as outras religióes". Isto tudo é afirmado sem o mínimo comprovante ou
em tom absolutamente gratuito.

2. Comentando...

Os trechos do Livro de Urantia fogem ás normas da seriedade lite


raria e científica. Nada dizem que mereca consideracSo mais atenta. O
que sé refere á viagem de Jesús anterior ao seu ministerio público, é ro
mance', e romance altamente imaginoso. Jesús vem apresentado como
"soberano do nosso universo local; seu nome é Micael, o Filho de Deus e

329
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

o Filho do Homem, conhecido neste mundo como Jesús de Nazaré" (cf. p.


96). A expectativa de nova revelagáo de Jesús é arbitraria e infundada.
Nao há por que nos detenhamos sobre o assunto.

Quanto á parte filosófico-religiosa especulativa da obra, é táo sem


nexo que difícilmente se pode depreender o que o texto quer dizer, como
se percebe através da leitura dos trechos atrás transcritos.

O Livro de Urantia vem a ser mais uma expressáo dos anseios do


homem contemporáneo, que deseja uma renovacáo do mundo e da his
toria. Circulam atualmente numerosos escritos, de índole esotérico-
ocultista ou nao, que apregoam uma intervencáo de Deus no curso dos
acontecimentos. O fim de um milenio sugere, quase inconscientemente,
a quem está insatisfeito, uma entrada drástica de Deus na historia da
humanidade a fim de por termo á perversáo e inaugurar uma fase de paz
e bonanca sobre a térra. Esta expectativa é uma especie de consolacáo
para quem nao vé solucáo a partir dos recursos convencionais (ciencia,
ética, educacáo...) do género humano,... consolacáo precaria, porém,
porque nao se pode crer que os problemas da humanidade se resolverá©
pondo-se de lado o raciocinio, o bom senso e o espirito crítico, para dar
expansáo á fantasía romancista descontrolada.

É de estranhar que a Fundacáo Urantía tenha seus núcleos em


países do Primeiro Mundo, países em que o grau de cultura costuma ser
elevado, ou países nos quais os cidadáos estáo acostumados a usar da
sua inteligencia para estudar e trabalhar. Tem-se a impressáo de que, no
tocante á filosofía de vida e á cosmovisáo, toda a humanidade está hesi
tante; táo ingentes sao os problemas da hora atual que qualquer "profe
ta", anunciando "Boas Novas" a partir de uma fonte oculta e inédita, encon-
tra audiencia.

Somente a fé no Evangelho como é guardado e proclamado pela


Igreja que Cristo fundou e entregou a Pedro, pode trazer uma solucáo
para os problemas da humanidade. Muito a propósito escreveu o S. Pa
dre Joáo Paulo II na sua Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente:

«36. Numerosos Cardeais e Bispos desejaram que se fizesse um


serio exame de consciéncia, principalmente sobre a Igreja de hoje. No limi-
ardo novo milenio, os cristáos devem pór-se humildemente diante do Se-
nhor, interrogándose sobre as responsabilidades que Ihes cabem também
nos males do nosso tempo. Na verdade, a época atual, a par de muitas
luzes, apresenta também muitas sombras.

Como calar, por exemplo, a indiferenga religiosa, que leva tantos


homens de hoje a viverem como se Deus nao existisse ou a contentarem-
se com uma religiosidade vaga, incapaz de se confrontar com o problema

330
O LIVRO DE URANTIA 43

da verdade e com o dever da coeréncia? A isto, há que ligar também a


difusa perda do sentido transcendente da existencia humana e o extravio,
no campo ético, até mesmo de valores fundamentáis como os da vida e da
familia. Impóe-se, pois, um exame aos filhos da Igreja: em que medida
estao eles também tocados pela atmosfera de secularismo e relativismo
ético? E que parte de responsabilidade devem eles reconhecer, quanto ao
progressivo alastramento da irreligiosidade, por nao terem manifestado o
genuino rosto de Deus, pelas deficiencias da sua vida religiosa, moral e
social?

Realmente nao se pode negar que, em muitos cristSos, a vida espiri


tual atravessa um momento de incerteza que repercute nao só na vida
moral, mas também na oragao e na própría retidáo teologal da fé. Esta, jé
posta a prava pelo confronto com o nosso tempo, vé-se ás vezes ainda
desorientada porposigdes teológicas erróneas, que se difundem também
por causa da crise de obediencia ao Magisterio da Igreja».

Estas palavras do Papa Joáo Paulo II s§o aptas a suscitar a genuína


resposta que os fiéis católicos háo de dar ás fantasiosas divagacóes do
Livro de Urantia e a escritos congéneres.

Catecismo Integral, porLadisIau Dybowski, Curitiba 1995. Livro do


Catequista: 140x210mm, 172 pp.; Livro do Aluno: 140x210mm, 175pp.
O autor, em colaboragáo com peritos da Catequética, publica valiosa
obra em preparagao para a Primeira Eucaristía. O que distingue os dois
volumes dos congéneres, é que propóem a doutrina da fé ao comentarem
os livros do Antigo e do Novo Testamento. Assim oferecem tanto urna inici-
agáo ao Credo católico como um bom aprendizado bíblico. O método peda
gógico é válido, pois, além do texto doutrinário, apresenta, após cada ¡¡gao,
perguntas para o diálogo entre o mestre e os discípulos, texto para canto,
urna oragao. Em Apéndice encontram-se as principáis preces do cristao.

A obra é muito recomendável, principalmente pelo fato de propor re


almente a doutrina da fé sem se deterpreponderantemente no plano huma
no e social. Observa o Papa Joáo Paulo II na sua Exortagáo sobre A
Catequese Hoje: "Algumas obras catequéticas desorientam os jovens e
até mesmo os adultos, querpela omissao, consciente ou inconsciente, de
elementos essenciais á fé da Igreja, querpela importancia excessiva dada
a certos temas, com prejuízo de outros, sobretudo por vma perspectiva
demasiado horizontalista, nao conforme ao ensino do Magisterio da Igreja".
Os pedidos podem ser dirigidos á Livraria da Sociedade do Verbo
Divino, Caixa postal 1108, 80001-970 Curitiba (PR). Fone: (041) 222-0136.
331
A IGREJA E A MULHER

Realizou-se em margo pp. no Rio de Janeiro o 8o Congresso Inter


nacional voltado para o tema "Mulher e Saúde". Foi ocasiáo de severas
críticas á Igreja e ao Papa, como sendo intensos ao bem-estar da mulher,
visto que nao aceitam a prática do aborto e condenam intervencoes artifi
ciáis no curso da natureza humana. As invectivas partiram principalmente
de urna sociedade dita "Católicas pelo Direito de Decidir", presidida pela
Sra. Francés Kissling, ex-Religiosa. Tal entidadefoi fundada nos Estados
Unidos com o nome "Catholics for a Free Choise" (CFFC), e publica em
Montevideo um boletim intitulado "Católicas por el Derecho de Decidir".
Trata-se de urna organizacáo abortista, nao reconhecida pela Conferen
cia dos Bispos dos Estados Unidos, cujo presidente, o Cardeal William H.
Keeler, declarou em 16/03/1995:

"Nenhum grupo que promova o aborto pode legítimamente chamar


se católico. Usar o nome católico para promover a eliminagao da vida
inocente é ofensivo nao apenas para a Igreja Católica, mas também para
quantos esperam retidáo no discurso público".

O Cardeal Keeler retomou urna observacáo da mesma Conferencia


dos Bispos americanos, que, sem meio-termos, já em 4 de novembro de
1993, afirmava que a organizacáo CFFC "nao tem filiacao nem formal,
nem de outra natureza, com a Igreja Católica".

E acrescentou claramente:

"Com efeito, a CFFC está associada ao lobby pró-aborto de Wa


shington, DC. Ela atrai a atengao pública porsuas agressoes contra prin
cipios básicos da moral e da doutrína católica; suas agressoes alcanga-
ram dimensóes de destaque por sua divulgagáo na mídia, querendo dar,
assim, á CFFC aparéncia de urna respeitável voz de dissenso católico".
Também a Santa Sé, em declaracáo de 21 de margo de 1995, devi
da ao seu Observador Permanente junto as Nacóes Unidas, afirmava:

"A palavra 'católico' significa 'universal', no sentido de 'se manter


com o todo' e significa uniáo com o ensinamento da Igreja Católica, do
Papa e dos Bispos. Essa organizagao promove o assassinato de changas
náo-nascidas, o qual diretamente contradiz o ensinamento da Igreja, do
Papa e dos Bispos. No entanto, a Santa Sé nao pode aprovar o creden-
ciamento de um grupo que pretende ser católico e, ao mesmo tempo, falha
332
A IGREJA E A MULHER 45

no reconhecimento e na defesa da dignidade e do valor de cada ser huma


no. Além disto, cabe somente a jurísdigáo da Santa Sé e da hierarquia
católica determinar quais organizagóes podem usar o título de 'católico'."

A seguir, reproduzimos um artigo publicado pelo O GLOBO aos 20/


03/97 em resposta á Sra. Francés Kissling, que no mesmo diario escreveu
sobre o Papa e a Saúde da Muiher em 14/03/97:

O Papa e a Dignidade da Muiher

"O Papa e a Saúde da Muiher", eis o título de um artigo polémico da


Sra. Francés Kissling, que causou especie porsuas afirmacóes passionais,
n§o comprovadas, mas levianamente redigidas em assunto de máxima
importancia. Acusa "a lideranca hierárquica da Igreja Católica Romana
de ser um dos mais persistentes opositores aos avancos das mulheres"
(O GLOBO, 14/03/97, p. 7). De modo especial, é atingido o Papa Joáo
Paulo II.

A bem da verdade, impoem-se consideracoes de ordem genérica e


outras de caráter mais particular.

De modo geral, deve-se dizer que o Papa Joáo Paulo II, em seus
ditames de ordem moral, nao está seguindo concepcóes pessoais, subje
tivas, mas, sim, o legado da Palavra de Deus, que Ihe é transmitida pelas
Escrituras e a Tradicáo; ele é ministro e servidor da Palavra, que Ihe com
pete transmitir incólume aos homens de hoje. Isto nem sempre é condi-
zente com as tendencias do mundo de nossos dias; daí o caráter espi-
nhoso da missáo da Igreja que, precisamente por isto, mostra guardar
fidelidade a Cristo, sem comprar o favor dos homens. Pode-se lembrar
que em 1534 a Igreja perdeu o reino da Inglaterra por nao ter concedido o
divorcio ao rei Henrique VIII, divorcio que o Evangelho nao aceita (ver Me
10,5-11 e paralelos).

Ademáis quem considera a historia universal com olhar objetivo e


sem preconceitos, pode observar que a muiher na Idade Media crista exer-
ceu, nao raro, papel de relevo. Com efeito, para nao nos alongarmos,
diremos que a rainha era coroada como o rei. A última rainha a ser coro-
ada foi Maria de Mediéis em 1610 na cidade de Paris. Algumas rainhas
medievais desempenharam ampias funcoes, dominando a sua época; tais
foram Leonor de Aquitánia (t 1204) e Branca de Castela (t 1252); no
caso da ausencia, da doenca ou da morte do rei, exerciam poder
¡ncontestado, tendo a sua chancelaria, as suas armas e o seu campo de
atividade pessoal. A enciclopedia mais conhecida do século XII se deve a
uma muiher, ou seja, á abadessa Herrade de Landsberg; tem o título "Hortus
Deliciarum" (Jardim de Delicias) e fornece as informacóes mais seguras
sobre as técnicas do seu tempo. Algo de semelhante se encontra ñas obras
333
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 422/1997

de S. Hildegarda de Bingen. Foi somente no fim do séc. XVI, por um de


creto do Parlamento Francés de 1593, que a mulher foi explícitamente
afastada das funcóes públicas naquele país. E isto, por influencia do Direi-
to Romano, que mais e mais ia sendo adotado pelas legislacóes pós-me-
dievais; foi entáo confinada áquilo que outrora e sempre foi o seu dominio
privilegiado: o lar e a educacáo dos filhos.

Nos tempos atuais a Igreja se mantém fiel aos principios do Senhor


Deus. Estes, além de formulados ñas Escrituras e na Tradicáo, estáo ins
critos na lei natural, que todo homem traz em si. Daí o Nao ao aborto, que
nao só é um homicidio ou o assassinio de um inocente, mas também vem
a ser um trauma infligido á mulher; esta tem a sensibiiidade apurada para
a vida, de modo que o assassinio do própfío filho costuma causar-lhe
graves seqüelas psicológicas (arrependimento, depressáo, pranto,...) por
longos anos, como demonstram pesquisas médicas; a propósito pode-se
ler o relatório da Dr11 Mary Simón, psicóloga da Clínica Ginecológica de
Würzburg (Alemanha) publicada na Revista Deutsche Tagespost (04/
07/92). Pouco se pensa no fato inegável de que o aborto fere a própria
máe: a angustia posterior ao aborto é pior do que a angustia anterior ao
mesmo, como já se tem dito em órbita médica.

A Igreja também é contraria aos preservativos e aos métodos anti-


concepcionais em geral, porque contribuem para violar a índole do amor
humano; este por si é unitivo (une os cónjuges entre si) e fecundo; excluir
a fecundidade significa contrariar a natureza, cujas leis provém do Cria
dor e constituem sadio referencial para o comportamento do homem e da
mulher. Ademáis a imprensa mesma vem noticiando a ineficacia do pre
servativo em muitos casos, a ponto que o Ministerio da Saúde tem retira
do de circulacáo sucessivos modelos de preservativo, cujos poros sao
maiores do que o virus do HIV ou mesmo do que o espermatozoide. -
Contraria aos anticoncepcionais, a Igreja nao é natalista; ela apregoa a
paternidade responsável ou o planejamento familiar, a ser levado a efeito
mediante a aplicagáo dos métodos naturais, mais favoráveis á saúde da
mulher; nem mesmo a necessidade de mais sacerdotes sugere a procria-
cao indiscriminada de filhos.

O artigo termina com a citacáo de dizeres misóginos atribuidos res


pectivamente ao abade Odo de Cluny e a S. Tomás de Aquino. Infelizmen
te a Sr3 Francés Kissling nao indica as respectivas fontes - o que dá ás
suas alegacóes um caráter de gratuidade, que nao pode ser levado em
conta por quem deseja argumentar com seriedade e exatidao científica.

Alias, o artigo menciona pretensos pronunciapnentos do Papa em


Uganda e no Brasil, sem precisar as suas referencias. Isto enfraquece ou
mesmo invalida a argumentacáo. Seria para desejar que, em materia de

334
A IGREJA E A MULHER 47

tanto peso, as afirmacóes fossem fundamentadas e comprovadas para


poderem merecer consideracáo. Da maneira como foram feitas pela arti
culista, carecem do valor desejável para se poder formular um juízo obje
tivo sobre o assunto.

De resto, o pensamento de Joáo Paulo II a respeito da mulher é


formulado com muita énfase na carta assinada por S. Santidade aos 29/
06/95, em vista da Conferencia de Pequim, da qual seja citada a seguinte
passagem: "Obrigado a ti, mulher, pelo simples fato de seres mulher! Com
a percepcáo que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreen-
sáo do mundo e contribuís para a verdade plena das relacóes humanas"
(n° 2).
Pe. Estéváo Tavares Bettencourt O.S.B.

Dando prosseguimento ao debate, foi publicada urna carta no O


GLOBO de 25/04/97:

«Em resposta á Sra. Carolina Teles Lemos em seu artigo sobre a


lgreja e o aborto, desejo observar que toda a argumentacáo em favor do
aborto caí por térra desde que se considere que o aborto é um homici
dio..., e homicidio tal como nao ocorria nem mesmo nos campos de con-
centrac&o nazistas (onde havia cámaras de gas e fuzilamentos). No abor
to a crianca é dilacerada, despedacada...; tem urna tesoura fincada no seu
pescoco; o seu cerebro é sugado, de modo a causar o colapso do bebé,
que vem finalmente arrancado do seio materno. E isto tudo é cometido
geralmente a pedido da máe ou com o consentimento déla. Tal prática fere
nao somente a crianca, mas também o senso humanitario de qualquer
criatura mentalmente sadia; fere principalmente o senso maternal da mu
lher. Muito mais nobre, da parte da máe, é nao matar o filho, deixá-lo nas-
cer e entregá-lo a um casal ou a urna instituicáo (se nao o quer ou nao o
pode educar). Alias, quem é contrario á pena de morte para um criminoso,
com mais razáo deve ser contrario á pena de morte para urna crianca
inocente. Quanto á posicáo da lgreja frente ao aborto através dos séculos,
a Sra. Carolina faz alegacóes sem indicar as fontes - o que debilita o
arrazoado. O fato é que a lgreja sempre considerou ilícito o aborto, mes
mo quando se pensava que a animacáo do feto se dava no 40° ou no 80°
dia; seria sempre o morticinio de um ser humano em formacáo».
Pe. Estévao Tavares Bettencourt O.S.B.

335
"DEUS É COMO UM GRANDE ESTILISTA.
EU O SEI, PORQUE MUITO DESFILEI"

Com estas palavras apareceu no dia 9/5 pp. num palco da sala Nervi
no Vaticano a ex-modelo Antonella Moccia, feita noviga de urna Congrega-
cáo Religiosa. Isto ocorreu no encerramento de um Congresso sobre Vo-
cacoes Religiosas, durante o qual tomaram a palavra algumas pessoas
de vulto que ingressaram na Vida Religiosa.

Quanto a Antonella Moccia, foram primeiramente exibidas cenas de


seus desfiles em passarela ao ritmo de Blue Eyes (Olhos Azuis); os seus
trajes refletiam todas as cores do arco-iris. Depois disto, entrou em cena,
ao vivo, a própria Antonella, com seus trinta anos de idade, contrastando
fortemente com as imagens anteriores; vestia-se modestamente, embora
muito digna.

Agradeceu a Jesús, que "a fitou nos olhos como o mais belo dos
jovens deste mundo". Agradeceu á Virgem SSma., que, pelo Santo Rosa
rio, Ihe prestou ajuda constante. Com profunda religiosidade, disse ainda:
"Nao me bastarao os anos para agradecer a Deus o ter-me chamado para
ser sua esposa... A fé me levará aonde eu nao sei; existe Alguém que me
quer levar por um caminho que ainda estou por descobrir". Agradeceu
outrossim ao seu diretor espiritual, porque "todos precisamos de alguém
que nos guie e leve nao para onde queremos, mas para onde Ele quer, a
fim de testemunharmos sempre mais vivamente o amor de Deus".
Ainda pediu desculpas á numerosa platéia que assistia, dizendo:
"Muita gente falou de mim. Mas espero que isto sirva para proclamar que
Deus existe".

Finalmente um coro de quatrocentas novicas entrou no palco. Por


último, apareceu o Santo Padre Joáo Paulo II, que proferiu palavras de
saudacáo e estímulo.

(Noticias extraídas do jornal "Corriere della Sera" de 10/5/97, p. 19)

Estéváo Bettencourt O.S.B.

336
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neiro.

' Palavras do renomado arquiteto Lucio Costa:

"Esse mosteiro - este monumento - é, sem dúvida, a áncora da cidade do Rio


de Janeiro. - Em boa hora o intelectual e fotógrafo Humberto Moraes Franceschi
que já nos deu a obra-prima "O Oficio da Prata", resolveu fazer, com o pleno apoio
do engenheiro-Abade D. Inácio Barbosa Accioly (falecido a 26 de maio dé 1992) -
impecável dono da casa - este definitivo inventario visual, velho sonho de D
Clemente da Silva Nigra."

De D. Abade Inácio Barbosa Accioly:

"Hoje o Mosteiro é realmente a áncora da cidade do Rio de Janeiro. É igual


mente foco de luz ardente que, sem qualquer ostentacáo ilumina todos aqueles
que aqui vivem, que aqui vém louvar o Senhor ou que aqui encontram alimento
para a chama misteriosa de sua fé - pois o Mosteiro nao é um simples monumento
ou ummuseu, mas urna casa viva a irradiar a presenca de Deus." RS 123,00.

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