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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanca a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanga e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenca católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


-— Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
') controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
i dissipem e a vivencia católica se fortaleca no
Brasil e no mundo. Queira Deus abengoar
este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca depositada


em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
I) ■■

Ano xxxix Outubro 1998 437


O Oitavo Día

A Aposta de Blaise Pascal

As 95 Teses de Martinho Lutero

Indulgencias: Que sao?

Acordó Luterano-Católico sobre a Justificagáo

O protesto de um Bispo

Profecías, adivinhacáo e realidade histórica

"As duas Babilonias"

Necromancia e contaminacáo

i.
PERGUNTE E RESPONDEREMOS OUTUBRO1998
Publica9§o Mensal NM37

SUMARIO
Diretor Responsável
Estéváo Bettencourt OSB O Oitavo Dia 433
Autor e Redator de toda a materia Dialogando com o incrédulo:
publicada neste periódico A Aposta de Blaise Pascal 434

Diretor-Administrador: Pala a Historia:


As 95 Teses de Martinho Lutero 439
O. Hildebrando P. Martins OSB
A Versáo Correta:
Administracáo e Distribuicáo: Indulgencias: Que sao? 457
Edicóes "Lumen Christi"
Horizontes se clareiam:
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5o andar -sala 501 Acordó Luterano-católico sobre
Tel.: (021) 291-7122 a justificado 463
Fax (021) 263-5679
No Paquistáo:
O Protesto de um Bispo 465
Enderezo para Correspondencia:
Ed. "Lumen Christi" Ecos da Copa do Mundo e outros:
Profecias, adivinhacáo e
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realidade histórica 470
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
"A Folha Universal":
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e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" Correspondencia Miúda:
na INTERNET: http://www.osb.org.br Necromancia e contaminado 478
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«O Dia do Senhor». - «Para a Tutela da Fé» (Joáo Paulo II). -A Salvagao fora da Igreja
visível. - Milenarismo: que é? - «Brida». - «Á Margem do Rio Piedra eu sentei e chorei»
(Paulo Coelho). - Religiáo e Prosperidade Material. - «(Até parece) urna Perseguigáo
Religiosa».

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O OITAVO DÍA

"O tempo voa... O tempo nos escapa!", é o que comumente se diz.


O tempo absorve o homem, desgastando-o física e espiritualmente. Cons
cientes disto, já os antigos povos reservavam periódicamente um dia para
rever sua vida ou seu tempo e acertar os ponteiros da caminhada.
Os cristáos herdaram dos judeus este costume; Israel, de sete em sete
días, parava para repousar e louvar a Deus. Os cristáos assumiram o ritmo
dos sete dias com urna diferenca: deslocaram o dia de repouso para o primei-
ro dia da semana judaica após o sábado (sétimo), como se quisessem pro
longar a semana até o oitavo dia, feito dia de repouso; cf. 1 Cor 16,2; At 20,7.
Fizeram-no porque tinham consciéncia de que Cristo ressuscitou no primeiro
dia da semana judaica, apresentando entáo á humanidade a nova criatura;
sete é o número que simboliza a primeira criacáo; oito ficou sendo o número
que significa a nova criacáo; é sete mais urna unidade ou mais um dia, este
sem ocaso, dia em que se antegoza a eternidade; o cristáo deve celebrá-lo
consciente de que a eternidade comeca no tempo; cada qual colherá no além
o que tiver semeado em cada instante do seu tempo. Em portugués, o fenó
meno ficou patente, pois a primeira feira (que nos nao enumeramos) é o
domingo; vindo após o sábado (sétimo), é o oitavo; assim nossa semana
comeca na segunda-feira, mas tem sete dias; ela entra dentro da semana
judaica e a ultrapassa, significando assim que já vivemos um pouco da eter
nidade no tempo. A Eucaristía, ponto central do domingo, faz a insercáo
da imortalidade dentro da mortalidade, do definitivo dentro do passageiro.
O S. Padre Joáo Paulo II, em recente Carta Apostólica, quis lembrar
o valor da observancia do domingo, muito negligenciada em nossa socie-
dade. O domingo vem a ser o dia dos dias, a alma dos outros dias, que
contribui para que o cristáo renové a sua consciéncia do sentido da vida e
procure reger seu tempo, em vez de ser regido e jogueteado pelo tempo.
Escreve S. Santidade:

"O domingo é o anuncio de que o tempo, habitado porAquele que é


Ressuscitado e o Senhor da historia, nao é o túmulo das nossas ilusóes,
mas o bergo de um futuro sempre novo, a oportunidade que nos é dada de
transformaros momentos fugazes desta vida em sementes de eternidade.
O domingo é convite a olharpara a frente, é o dia em que a comunidade
crista eleva para Cristo o seu grito 'Maranatha! Vinde, Senhor!'(1 Cor 16,22).
Com este grito de esperanca e expectativa, ela faz-se companheira e sus
tentáculo da esperanga dos homens. E, de domingo para domingo, Ilumi
nada por Cristo, caminha para o domingo sem fim da Jerusalém celeste,
quando estiver completa em todas as suas feigóes a mística Cidade de
Deus" (Dies Domini, n3 85).
Oxalá os cristáos avivem em si a consciéncia de que no tempo já
experimentam a eternidade!
E.B.

433
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XXXIX - N9 437 - Outubro de 1998

Dialogando com o incrédulo:

A APOSTA DE BLAISE PASCAL

Em sfntese: O filósofo e apologista da fé Blaise Pascal (1623-1662)


concebeu um método apologético singular chamado "a aposta de Pascal".
Em diálogo ficticio com um incrédulo, propóe-lhe o dilema: ou Deus exis
te ou Deus nao existe; nao épossívelfugira tal alternativa, poisjá estamos
embarcados e temos que seguir viagem. Já que urna e outra proposicao
carecem de evidencia, toca-nos escolher a que mais probabilidade tem
de ser verídica. Ora é a primeira que mais segura parece, porque nao nos
faz correr risco algum nem acarreta daño, mesmo que seja falsa. Ao con
trario, a segunda, se for falsa, acarretará o grave daño da condenagáo
postuma.

A aposta de Pascal pode significar algo no século XVII. Hoje tem


menos valor; pois a sociedade pluralista de nossos dias conhece outras
alternativas além das duas propostas. Também ocorre que nao se pode
dizer que será condenada ao inferno aqueta pessoa que de boa fé e
consciéncia tranquila tiver vivido conforme um Credo nao católico (cf.
Constituigáo Lumen Gentlum ns 16). Por último, note-se que a aposta
de Pascal insinúa que a existencia de Deus nao possa serprovada pela
razáo - o que é falso.

Blaise Pascal (1623-1662) foi um matemático e filósofo francés,


genio precoce, que no fim da vida se ocupou com temas de apologética
da fé; daf resultou a colecáo "Pensées (Pensamentos)", na qual se en-
contra a famosa aposta pascaliana (edicáo M. L. Brunschwig, pp. 436ss).
Tal trecho tem sido ensejo de comentarios diversos, que até nossos dias
interessam aos estudiosos. A seguir, será proposto o teor dessa aposta,
ao que se seguirio algumas reflexóes.

434
A APOSTA DE BLAISE PASCAL

1. A Aposta: em que consiste?

1. Pascal imagina estar dialogando com um interlocutor incrédulo.


Quer convencé-lo de que o Cristianismo é a religiáo verdadeira, que pro-
fessa a existencia de um Deus Pai e Remunerador, "o Deus de Abraáo,
de Isaque e de Jaco". Nao o consegue, porém, porque Deus é distante e
sua imagem fica muito pálida para a razáo de quem pesquisa.

Como quer que seja, o incrédulo, se nao aceita a argumentacáo,


está um tanto abalado e disposto a continuar o diálogo. - Pascal entáo
faz como se renunciasse a argumentar: reconhece, no caso, que a exis
tencia de Deus e a religiáo crista nao sao o termo final de um raciocinio
ou nao podem ser a conclusáo de urna demonstracáo lógica rigorosa.
Mas, acrescenta, ¡mpóe-se um dilema: ou Deus existe ou Deus nao exis
te; é necessário optar por urna dessas proposites contraditórias.

O interlocutor Ihe responde que há um terceiro alvitre: nao escolher


coisa alguma, nao se ocupar com o dilema, pois as duas sentencas sao
obscuras. Pascal replica: quem nao se pronuncia a respeito, já se pro-
nunciou, pois ficar indiferente é o mesmo que ser contrario (á existencia
de Deus). Já que, para o interlocutor, nao há evidencia objetiva de ne-
nhum dos dois alvitres, só resta apostar.

O interlocutor insiste em que "o correto é nao apostar" ou nao fazer


opcáo alguma.

Responde Pascal: UÉ preciso apostar. Nao se trata de querer ou


nao querer. Vocé embarcou". Faz-se necessário entáo escolher, dos dois
alvitres, o que tenha mais probabilidade de corresponder á verdade ou o
que faga correr menos riscos. Pois bem; pensando bem, é mais provável
a hipótese de que Deus existe, de modo a fundamentar a aposta. Por
qué? - Porque, se alguém opta pela existencia de Deus, nao arrisca
coisa alguma. Com efeito; verdade é que, se aposto na existencia de
Deus, terei de me coibir, renunciando a prazeres ilícitos; isto, porém, nada
mais é do que o meu dever, a mim imposto pela razáo, mesmo que eu
nao queira apostar; o bom senso mesmo me pede que eu seja bom cida-
dao, leal, temperante, casto - coisas estas excelentes. Caso eu me en
gañe, tendo erróneamente apostado por Deus, mesmo assim nada terei
perdido; antes, terei vivido honestamente - o que é valioso. Por conse-
guinte, se opto por Deus, nada tenho a perder e tudo tenho a ganhar,
pois, se a opcáo for comprovada como correta, terei lucrado a bem-
aventuranca celeste e a vida eterna.

E, caso opte contra Deus, que acontecerá? - Se for falsa tal opgáo,
cairei ñas máos de um Juiz severo, que me condenará, visto que terei
optado consciente e voluntariamente contra Ele. Por conseguinte, diante
dos dois alvitres nao há como hesitar; e, já que é preciso apostar (pois

435
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

estamos embarcados ou em viagem marítima), apostemos por Deus, d¡-


zendo: "Ele existe", e sejamos cristáos por efeito de um cálculo de proba
bilidades e por decisáo de nossa vontade (pois que nao podemos ser
cristáos por conviccao intelectual).

Responde o interlocutor: "Ó! Esse discurso me empolga, me en


canta!".

2. Os comentadores julgam que podem propor um paralelo á apos


ta de Pascal, formulando este outro dilema:

Vocé está para confiar um tesouro ou os seus bens a urna nave,


que os transportará para além-mar. Vocé tem opcáo entre duas naves:

O comandante da primeira Ihe diz: "Confie-me os seus bens. Nada


Ihe posso garantir em caso de tempestade, mas afirmo-lhe (sem o poder
provar) que nao haverá que recear alguma tempestade".

O comandante da segunda nave Ihe diz: "Confie-me os seus bens.


Eu os garantirei contra todo perigo e, em particular, contra as tempesta
des, que (sem que eu possa provar o que digo) sao constantes nos ma
res que vamos navegar".

A qual dos dois comandantes vocé confiaría seus bens? Qual o


alvitre que Ihe parece mais razoável, o único razoável? Na sua ignoran
cia do futuro, nao podendo prever os acontecimentos, vocé raciocinaría
do seguinte modo:

"Se confio na primeira nave, que nao oferece garantías, procederei


como se o perigo de tempestades fosse ilusorio, e, em caso de engaño
meu, perderei tudo o que possuo. Se, ao contrario, confio na segunda
nave, terei salvo os meus bens, caso o comandante esteja dizendo a
verdade, garantindo-me sua solicitude em caso de tempestade; no caso
de nao haver tempestade, nada terei perdido. Portante, só há vantagem
em fazer a segunda opcáo. É urna aposta bem fundamentada".
Diría Pascal: os seus bens sao vocé mesmo, é a sua salvacáo eter
na. Ora vocé está embarcado; vocé vive e tem que dar um rumo á sua
vida, tem que atravessar o mar. Duas filosofías de vida Ihe sao propostas
(e somente duas):

- o racionalismo, que Ihe diz nao haver risco em navegar sem


Deus; a viagem decorrerá calma até o termo final, que será o nada, já
que a morte, para o racionalista, poe fim a tudo;

- a proposta crista, que Ihe diz que a travessia é cheia de impre


vistos e perigos, mas há intencáo do comandante em preservar a carga
confiada aos seus cuidados, levando-a ao porto da vida eterna.

436
A APOSTA DE BLAISE PASCAL

Se vocé é razoável, diante das duas propostas que se Ihe apresen-


tam, vocé optará pela fé. Se a fé é ilusoria, vocé nada perde. Mas, se o
racionalismo é ilusorio, vocé nao vai parar no nada ou no aniquilamento,
e sim no inferno ou na condenacáo eterna; vocé perderá tudo.

Assim Pascal concluí que a atitude da fé é mais vantajosa ou é a


única plausível.

Pergunta-se agora:

2. Que dizer?

Tres observares vém a propósito:

2.1. Defasagem

A aposta de Pascal podia ter significado no século XVII ou no am


biente de Cristandade (já evanescente) do século XVII. Em nossos dias,
porém, sendo a sociedade pluralista, o dilema "Cristianismo ou
Racionalismo" já nao se impóe, visto que muitos Credos e muitas filoso
fías atéias oferecem suas perspectivas aos nao cristáos. Na sua época,
porém, Pascal deve ter impressionado leitores titubeantes na fé.

2.2. Ou cristáo ou condenado?

Nao se pode dizer que todo cidadáo nao cristáo está fadado á con
denacáo postuma. Sem dúvida, o Catolicismo continua a dizer que exis-
tem verdade e erro em materia de religiáo; mas admite que alguém pos-
sa estar professando o erro de boa fé ou consciente de que o erro é
verdade. Se segué os ditames de um Credo erróneo, julgando que sao
imperativos inelutáveis que a consciéncia Ihe impóe, nao será julgado
pelo Evangelho, mas pela fidelidade a tais ditames; essa pessoa estará
seguindo o único Deus dentro dos moldes nos quais Deus se Ihe quis
revelar. A propósito veja-se a Constituicáo Lumen Gentium n916:

"O Salvador quer que todos os homens se salvem (cf. ITim 2,4).
Aqueles, portanto, que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e Sua
Igreja, mas buscam a Deus com coragáo sincero e tentam, sob o influxo
da graca, cumprir por obras a Sua vontade conhecida através do ditame
da consciéncia, podem conseguirá salvagáo eterna. Ea divina Providen
cia nao nega os auxilios necessários á salvagáo aqueles que sem culpa
aínda nao chegaram ao conhecimento expresso de Deus e se esforgam,
nao sem a divina graga, por levar urna vida reta. Tudo o que de bom e
verdadeiro se encontra entre eles, a Igreja julga-o como urna preparagáo
evangélica, dada por Aquele que ilumina todo homem, para que enfim
tenha a vida". Cf. Gaudium et Spes ns 22.

437
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

Este texto nao implica relativismo religioso, pois o Concilio profes-


sa que a Revelacáo de Deus permanece incólume na Igreja Católica (ver
Lumen Gentium ns 8), mas reconhece que muitas pessoas em nossos
dias nao tém como chegar ao lúcido conhecimento da verdade revelada
(nao vém ao caso os que de má fé ou consciente e voluntariamente se
detém no erro).

2.3. Víver como se Deus existisse...

Segundo Pascal, o individuo que apostasse na existencia de Deus,


teria fé manca, pois a fé é um ato da inteligencia movida pela vontade. O
apostador, no caso, continuaría ignorando que Deus existe, mas se afas-
taria de todo comportamento contrario á Lei de Deus gravada no homem
(= lei natural). Ora esta atitude nao pode ser duradoura; será um encami-
nhamento para a fé plena, pois é de crer que Deus se revela com clareza
a quem se esforca por viver conforme a sua santa Lei. Nao há dúvida,
porém, de que o processo proposto por Pascal é válido para desencade-
ar um tipo de vida que, cedo ou tarde, se deve tornar plenamente crista;
a caminhadá para Deus pode comecar por urna aposta. Pascal foi um
genio matemático; em conseqüéncia, concebeu um itinerario religioso
baseado no cálculo das probabilidades. É algo de singular, que merece
respeito e admiracáo, mas nao parece apto a convencer os incrédulos de
nossos dias.

Guia Literario da Biblia, por vanos autores, organizado por Robert


Alter e Frank Kermode. Tradugáo de Raúl Fiker. - Ed. Unesp, Sao Paulo
1997, 235 x 160mm, 725 pp.

Eis urna Introdugáo á Biblia muito divulgada pela imprensa; apre-


senta cada qual dos livros sagrados, além de temas gerais como o canon
bíblico, midraxe e alegoría, as tradugóes Inglesas da Biblia... Cada uni-
dade tem seu autor próprio, sendo todos protestantes, interessados por
atingir principalmente o público de língua inglesa. O propósito dos cola
boradores é literario, ou seja, o estudo da lingüística e da composigáo do
texto sagrado, sem entrar em questóes de índole doutrinária. O leitor
perceberá que a orientagáo é protestante liberal, como se deduz da posi-
gao do respectivo autor ao tratar do canon: a Biblia parece ser urna cole-
gáo de livros independentes, reunidos mais ou menos ao acaso (cf. p.
17); "a formagáo do canon é atetada pelo que parecem ser torgas políti
cas, económicas e tecnológicas sem relevancia religiosa ou literaria ¡me
diata" (p. 642). A leitura da obra supoe conhecimento previo da temática,
nao se prestando a formagáo ¡mediata dos principiantes.

438
Fala a Historia:

AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO

Em síntese: Latero teve urna personalidade muito sensível. Edu


cado e/77 regime familiar austero, foi formado na Filosofía nominalista e
voluntarista de Guilherme Ockham. Entrou no convento para cumpriruma
promessa feita a Santa Ana por ter escapado da morte numa tempesta-
de. Na Vida Religiosa, sentíase angustiado por nao saber como tornar
Deus propicio á sua pessoa; o conceito de Deus insondável o atormenta-
va, por mais que orasse e jejuasse. Em conseqüéncia, foi descobrir em
Sao Paulo a solugao do problema: para salvar-nos, basta a fé, mesmo
que nao tenhamos boas obras. Esta tese foi distanciando Lutero da teo
logía tradicional, que levava em conta também a epístola de Sao Tiago,
arauto das boas obras. A distancia aumentou quando o frade se insurgiu
contra a pregagáo de indulgencias. O seu protesto se exprimiu em 95
teses datadas de 31/10/1517; teve inicio entáo a reforma protestante, da
qual urna pilastra é a doutrina da justificagáo pela fé sem as obras.

Após o Concilio do Vaticano II, o diálogo católico-luterano tem re


visto tal doutrina e vai superando as antíteses, de modo a aproximar sem-
pre mais católicos e luteranos no tocante á teología da justificagáo.

Sabe-se que a reforma protestante comecou pela proclamacáo de


95 teses propostas por Martinho Lutero em 31/10/1517. Exprimem as
primeiras réplicas do frade agostiniano ao Papado e á prática das indul
gencias. Essas teses sao pouco conhecidas entre os fiéis católicos. Daí
a conveniencia de as abordarmos, colocando-as sobre o paño de fundo
respectivo, a saber: breve esboco da figura de Lutero e da sua época.

1. Martinho Lutero: evolucio do pensamento

Martinho Lutero nasceu aos 11/11/1483 em Eisleben (Turíngia), de


pai mineiro um tanto rude e máe austera. O ambiente de casa era severo;
nele foi educado o menino até os doze anos de idade. A familia era cató
lica fervorosa, mas impregnada de supersticóes correntes na época: acre-
ditavam em misteriosas torcas sobre-humanas, como serjam duendes,
demonios íncubos e súcubos, bruxas, que apareciam aos homens como
se tivessem seu habitat nos ares, ñas aguas, ñas térras de pantano ou
desertas; trovoes e relámpagos eram atribuidos á acáo de espíritos ma
lignos ou infernáis; as doencas eram tidas como causadas pelo Maligno.

439
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

Mais de urna vez na sua vida, Lutero acreditou que vía e ouvia Satanás
sob forma de cao ou outro animal, que o incomodava. Ao lado de estórias
apavorantes, Lutero recebeu instrucao religiosa muito válida; aprendeu a
celebrar as grandes festas da Liturgia e a venerar os Santos, como os
Apostólos, Sao Martinho, Sao Jorge, Santa Ana...

A religiáo que Martinho aprendeu até os doze anos de idade, foi de


temor mais do que de confianca, mais externa e formalista do que interior
e profunda.

Estudou humanidades em Mansfeld, Magdeburgo e Eisenach. Em


1501 Martinho comecou os estudos universitarios em Erfurt (Turíngia),
matriculando-se na Facuidade de Artes ou Filosofía.

A filosofía que Lutero aprendeu na Universidade, era o aristotelismo


interpretado por Guilherme Ockham (t 1347) e sua escola; era a chama
da "vía moderna", também dita "Nominalismo" ou "Terminismo". Afirmava
que nao há conceitos universais, que exprimem a esséncia de alguma
coisa; assim, quando se diz "humanidade", nao se exprime o essencial
do ser humano ou aquilo que está em todos os seres humanos, mas
apenas se caracteriza um individuo em particular; os conceitos univer
sais seriam meros nomes, nao correspondentes a algo de objetivo ou á
esséncia comum a todos os individuos da mesma especie. A conseqüén-
cia desta tese é que o intelecto humano nao é capaz de apreender as
esséncias ou de atingir o que é essencial a cada objeto; só percebería-
mos um conjunto de notas acidentais. Desta maneira a razáo humana
era depreciada. A metafísica era posta de lado; entravam em seu lugar
as ciencias meramente experimentáis, que verificam os fenómenos e fa-
zem estatísticas. Somente a fé nos levaría a falar dos valores transcen-
dentais; pela razáo nao se provaria a existencia de Deus nem a imortali-
dade da alma - o que redunda em fideísmo anti-racional. Mais: se a ra
záo e a metafísica sao depreciadas, valoriza-se a vontade ou o volun
tarismo; isto significa que o bem e o mal sao tais únicamente porque
Deus o quer e determina; o mal (matar, roubar, caluniar...) poderia ser um
bem se Deus o quisesse. O Nominalismo levava assim ao conceito de
Deus Soberano Arbitrario, mais terrível do que amável, identificado com
urna vontade todo-poderosa e quase caprichosa e tiránica, que tanto pode
ria condenar um justo como salvar um pecador sem apagar o pecado deste.

A estas idéias se associava também o descrédito do magisterio


pontificio, em favor do conciliarismo, que admitía a supremacía do Conci
lio Geral (congregando todos os Bispos) sobre o Papa; a última instancia
decisoria na Igreja seria o Concilio Geral e nao o sucessor de Pedro.

Tendo adquirido o mestrado em Artes ou Filosofía, Lutero se matri-


culou na Facuidade de Direito em Erfurt.

440
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO

Aos 2 de julho de 1505 deu-se um fato decisivo: quando voltava da


casa de seus pais para Erfurt, onde morava, quase foi fulminado por um
raio. Impressionado, exclamou entáo: "Ajuda-me, Santa Ana, e serei fra-
de!". Confessou posteriormente que se arrependeu de ter feito tal voto;
os amigos o quiseram dissuadir de cumpri-lo, mas Lutero julgava-se obri-
gado a fazé-lo; nem o pai conseguiu desviá-lo do propósito. Sendo as-
sim, quatorze dias após proferir o voto, ou seja, aos 16/07/1505, Lutero,
com vinte e dois anos de idade incompletos, entrou no convento dos
Agostinianos de Erfurt, tido como urna casa religiosa de observancia fer
vorosa.

Mais tarde, isto é, em 1521 Lutero escrevia a seu pai, confessando


ter entrado constrangido na Vida Religiosa:

'Tu receavas, com paternal ateto, por minha fraqueza, porque eu


era um adolescente de 22 anos incompletos, idade em que a adolescen
cia fervilha... e porque conhecias muitos casos em que a vida monástica
resultara infeliz para nao poucos. Tu, ao contrario, me preparabas um
honesto e opulento matrimonio... Porfim cedeste e submeteste tua von-
tade á vontade de Deus, mas sem deixar de recear por minha causa.
Pois tenho muito presente na memoria que, quando, já acalmado, con-
versavas comigo e eu te dizia que o céu com seus terrores me tinha
chamado, visto que eu nao me fazia frade porgosto nem de bom grado,
muito menos por amor do corpo, mas porque, assediado pelo terror e a
angustia da morte repentina, fiz um voto forgado pela necessidade, tu me
replicaste: 'Oxalá nao haja ai engaño ou alucinagao!'"(WeimarerAusgabe
8,573s)1.

Pergunta-se: por que Lutero ficou no convento, se tinha conscién-


cia de ter optado constrangido ou a contragosto? - A explicacáo é dada
pelo desejo de evitar o pecado e salvar sua alma fugindo do mundo em
que as tentacóes eram fortes; o perigo de se perder espiritualmente sus-
citava fases de melancolía no jovem Lutero. No convento o frade improvi
sado procurou cumprir a Regra, orando, jejuando, obedecendo, vivendo
em castidade. Todavía sentia-se angustiado e inquieto pelo temor de nao
estar agradando a Deus. De modo especial perturbava-o a incerteza da
predestinado: estaría ele irremediavelmente destinado ao inferno? Era-
Ihe difícil conceber urna resposta, visto que a filosofía ockhamista
nominalista que aprenderá, Ihe insuflava a idéia de um Deus misteriosa
mente arbitrario em seus designios e tremendamente justiceiro, em vez
do conceito de um Pai misericordioso, cuja vontade salvífica universal se

1 A Weimarer Ausgabe (edigáo de Weimar) ó a edigáo das obras de Lutero efetuada


em Weimar a partir de 1883. Sao 94 volumes, tidos como a edigáo mais completa e
exata dos escritos de Lutero. Será citada como WA.

441
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

evidencia no fato de haver entregue seu Filho pela salvacáo dos homens.
Em sua crise, confessa Lutero que "nao amava, mas odiava o Deus jus-
ticeiro, que castigava os pecadores e, se nao blasfemava em silencio, ao
menos murmurava, terrivelmente indignado contra Deus" (WA 54,185).

Atormentado por dúvidas e remorsos, corría a confessar-se, acu


sando culpas que talvez nao fossem tais senáo em sua imaginacáo alta
mente excitada. Afinal o Deus tiránico que ele forjara, nao era o Deus da
Tradicao crista, mas sim o Deus sugerido pelo regime de educac/áo seve
ra e pela formacáo filosófica que recebera. Para tentar acalmar a sua
alma, Lutero entregava-se á oracao, ao trabalho, ao jejum e á penitencia,
mas isto tudo Ihe parecía inútil, porque continuava a sentir em seu íntimo
a tendencia ao pecado ou movimentos de ira, odio, concupiscencia des-
regrada...; as obras ascéticas e virtuosas que praticava, de nada Ihe ser-
viam; sentia-se acusado interiormente; ele, que entrara no convento es
perando conseguir paz de consciéncia e sentir Deus propicio, via-se frus
trado - o que muito o afligía.

Eis alguns testemunhos do próprio Lutero a respeito do seu estado


de alma:

"Quanto mais me esforgava por cultivara contrigáo, tanto maiorera


a forga com que se levantavam as angustias da minha consciéncia; nao
me era possível aceitar a absolvigáo e outras consolagoes que os meus
confessores me ministravam. Pois pensava comigo mesmo: Quem me
garante que posso acreditar nessas consolagoes? Aconteceu logo casu
almente que, talando com meu Mestre e lamentando-me com muitas lá
grimas por sentir essas tentagóes que eu padecia com freqüéncia por
causa da minha idade, ele me disse o seguinte: 'Filho, que fazes? Nao
sabes que o Senhor nos mandou ter esperanga?' Esta única palavra me
deu forga para crer na absolvigáo" (WA 40,2. p. 412).

Todavía essa confianca era efémera. Voltava a ser atormentado


pela incerteza de estar na gra?a de Deus. Escreveu entao:

"Por que suportei os mais pesados trabalhos no mosteiro? Por que


macerei meu como com jejuns, vigilias e frío? Porque eu me esforgava
porchegará certeza de que assim conseguiría o perdió dos meus peca
dos" (WA 43, 3255).

"Quando eu era monge, nada conseguía com minhas penitencias,


porque nao quería reconhecer meu pecado e minha impiedade... Em con-
seqüéncia, quanto mais eu corría e desejava chegara Cristo, tanto mais
se afastava Ele de mim... Após a confissáo e a Missa nao podia dar satis-
fagáo a mim mesmo, porque a consciéncia nao podia encontrar firme
consolagáo ñas obras praticadas" (WA 43,537).

442
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO

"No mosteiro eu nao pensava em mulher nem em dinheiro ou ou-


tros bens, mas o coragáo temía e estremecía pensando em como tomaría
Deus propicio a mim mesmo" (WA 47, 589s).

Em 1515 Lutero foi designado pelos Superiores da Ordem de S.


Agostinho para lecionar as epístolas de Sao Paulo. Lendo e meditando
tais textos, o frade foi descobrindo a solucáo do seu problema, que cons-
tava de dois principios básicos:

- o pecado deteríorou irremediavelmente a natureza humana,


de modo que o homem é incapaz, por si, de praticar o bem, nem tem
liberdade para isto. Precisa da graca para fazer obras boas; mas mesmo
as obras boas dos Santos sao más: "Mesmo praticando boas obras, pe
camos (idcirco enim bene operando peccamus)" (WA 56, 289). O pe
cado permanece sempre porque a concupiscencia desregrada sempre
permanece; o Batismo nao a extingue;

- se somos sempre pecadores, nao sao nossas boas obras que


nos salvam, mas a fé ou a confianza em Cristo. Se alguém tem fé,
Deus deixa de imputar os seus pecados e Ihe aplica os méritos de Cristo.
Esta modal¡dade de justificacáo é por Lutero chamada "imputativa, foren
se, judiciária e nao ontológica". Nao há regeneracáo e santificacáo real
da alma humana. O homem é simultáneamente justo e pecador; pecador
na realidade e justo na aparéncia que Deus dele faz; justo porque tem fé
em Cristo, pecador porque nao cumpre a lei e nao está isento da concu
piscencia desregrada:

"De modo nenhum nos condena o fato de sermos pecadores,


contanto que desejemos serjustos... Convém, pois, permanecer nos pe
cados e gemer por nos libertarmos deles na esperanga da misericordia
de Deus" (WA 56, 266).

Desenvolvendo tais concepcóes, Lutero chega a professar a


predestinacáo ao inferno e rejeita a universalidade da vontade salvífica
de Deus.

Existem declaracóes do próprio Lutero que manifestam o seu esta


do de alma angustiado e desesperado na década de 1510:

"Bastava o nome de Jesús Cristo nosso Salvador para que eu tre-


messe dos pés á cabega" (WA 44, 716).

Tenho feito a experiencia de que, quando alguém caí em tentagáo


ou quando a morte o atemoriza ou corre algum perigo, vem-lhe a vontade
de desesperar e fugir de Deus como do demonio" (WA 46, 660).

"Quando eu estava no mosteiro, metido em minha cogula, era táo

443
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

inimigo de Cristo que, se eu visse urna escultura ou pintura que o apre-


sentasse crucificado, eu me aterrorízava, de modo que fechava os olhos
e tena preferido ver o diabo" (WA 47, 310).

"Muitas vezes me assustei ao nome de Jesús; quando eu contem-


plava Jesús na cruz, parecia-me que me fuiminava um raio e, quando se
pronunciava o seu nome, teña preferido ouvir o do demonio" (WA 47,
590).

As portas do inferno terrificante pareciam abrir-se áquele frade


desesperado:

"Conhego um homem (o próprío Lutero) que sofría tais penas em


muitas ocasioes, ainda que por brevíssimo intervalo de tempo; eram tao
grandes e táo infernáis que nem a língua o pode dizer nem a pena escre-
ver, nem o pode crer quem nao o tenha experimentado. Em conseqüén-
cia, se essas penas se consumassem plenamente ou se protraissem por
meia-hora ou mesmo só pela décima parte de urna hora, esse homem
perecería e todos os seus ossos se reduziríam a cinzas. Deus se apre-
sentaría horrívelmente irado, e com Ele também todas as criaturas. Entáo
nao é possivel fugir, nao há consolagáo nem interna nem externa, mas
tudo é acusagáo... Nao pode crer que seja temporaria aqueta pena, só
Ihe resta um simples desejo de auxilio e um horrendo gemido; nao sabe
ele a quem pedir socorro" (WA 1, 557).

"Quem pode amar a quem trata os pecadores segundo a justiga?"


(WA 40, 2 p. 445).

"Minha vida se aproxima do inferno e cada dia estou pior"


(Bríefwechsel 560).

Em particular quanto ao Oficio Divino (Liturgia das Horas), Lutero


refere o seguinte:

"Muitas vezes passava eu días inteiros lendo, pregando quatro ve


zes ao dia, com omissáo das horas canónicas. Quando chegava o sába
do, eu me encerrava na cela o dia inteiro em jejum, fatigando-me com
assíduas oragóes. Levei a coisa táo longe que a cabega tonteou, e du
rante cinco semanas nao pude ver a luz do dia. Nessas cinco semanas
acumulei boa provisáo de horas canónicas. Tendo recuperado a saúde,
determine'! cumprir tudo aqui, mas sentía tantos incómodos que nem po-
dia ver o livro" (Tischreden 6077 V 474-75).

"Eu costumava acumular minhas horas canónicas por quatorze dias


ou quatro semanas, quando tinha muito que fazer...; a seguir, reservava
urna semana inteira ou um dia ou tres, em que me encerrava no aposen
to, sem comer nem beber até ter rezado tudo" (Tischreden 5428 V137).

444
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO 13

"Certa vez assisti á promogáo de doutores (na Universidade) e des-


cuidei-me das minhas horas. Durante a noite estourou urna violenta tem-
pestade. Entáo levantei-me e rezei minhas horas, pois julguei que por
causa de mim tivera orígem a tormenta" (Tischreden 4919IV 580).

O simples tato de sentir impulsos desregrados o atormentava como


se tivesse cometido graves pecados:

"Eu experimentava diversos remedios, confessava-me todos os dias,


etc., mas nao aproveitava nada, porque sempre voltava a concupiscen
cia da carne; por isto nao me podia tranquilizar, mas me atormentava
constantemente com esses pensamentos: 'Cometeste tal ou tal pecado.
Além disto, sofres de inveja, impaciencia, etc. Por conseguinte, em vio te
fízeste Religioso e sacerdote; todas as tuas boas obras sao inúteis'" (WA
40,2p.91s).

A Teología ensina que o sentir a concupiscencia nao é pecado se o


cristao nao Ihe dá consentimento. Mas, em virtude de sua formacáo
ocamista, Lutero valorizava o sentir mais do que o raciocinio, de modo
que sentir o desmando, mesmo sem Ihe consentir, já Ihe parecía ser pe
cado.

Em síntese, Lutero julgava que a concupiscencia desregrada é o


próprio pecado original. Visto que aquela jamáis se extingue no homem,
segue-se que o pecado original nao é apagado pelo Batismo; por isto
todo homem é corrupto e rejeitado pela santidade de Deus; em tudo o
que ele faga (mesmo ñas boas obras), ele peca; a vontade nao é livre
para praticar o bem. Donde se concluí que a justificacáo se faz única
mente pela fé, dom de Deus, sem colaboracáo ativa do homem.

Foi sobre este paño de fundo que sobreveio o episodio das indul
gencias.

2. As Indulgencias

A temática das indulgencias geralmente é mal entendida e relata


da por historiadores profanos que descrevem a reforma luterana. A ver-
sáo auténtica e objetiva do assunto é proposta no seguinte artigo deste
fascículo. Nestas páginas apresentaremos apenas os fatos como se de-
ram na época de Lutero, influindo sobre as atitudes do frade agostiniano.

Em 1514 teve origem na Alemanha urna situacáo pouco honesta.


Com efeito, Alberto de Hohenzollern, com 24 anos de idade, foi nomeado
Arcebispo de Magdeburgo (em fevereiro) e Administrador Apostólico de
Halberstadt (em setembro). No ano seguinte, o cabido de Mogúncia o
elegeu para esta diocese primacial da Alemanha. Caso aceitasse a elei-
cáo, teria que renunciar as duas outras dioceses. Suplicou, porém, ao

445
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

Papa Leáo X que Ihe permitisse acumular as tres dioceses - o que nao
era oportuno para a vida pastoral dos diocesanos. Todavia o Pontífice Iho
permitiu, por razóes de conveniencia ocasional, contanto que pagasse á
Cámara Apostólica 10.000 ducados de ouro por tal dispensa, além dos
14.000 florins renanos já desembolsados para receber o palio (insignia)
de arcebispo e a confirmacáo pontificia. Para pagar tal divida, Alberto
resolveu pedir emprestado ao banqueiro Tiago Függer, de Ausburgo, a
quantia de 21.000 ducados e 500 florins, equivalente aproximadamente
a 29.000 florins renanos.

A fim de conseguir reembolsar ao banqueiro, os príncipes eleitores


Alberto e seu irmáo Joaquim se entenderam com a Curia Romana no
sentido de se promover a pregacáo de indulgencias ñas tres dioceses de
Alberto e no territorio de Brandenburgo submetido a Joaquim de
Hchenzollern, sob a condicao de que a metade do dinheiro arrecadado
se destinasse á construcáo da basílica de Sao Pedro em Roma e a outra
metade ficasse para Alberto, arcebispo de Mogúncia. Em outubro de 1515
o Imperador Maximiliano interveio exigindo durante tres anos a contríbui-
cáo de mil florins anuais em favor da igreja de Sao Tiago em Innsbruck.

A pregacáo dessas indulgencias foi confiada ao frade dominicano


Joáo Tetzel, ardoroso pregador, de costumes íntegros, mas orador popu
lar mais do que auténtico teólogo. Com retórica tratou de comover e con
vencer os fiéis a dar sua contribuicáo. Nao vendía bulas papáis que pro-
metessem o perdáo dos pecados, como se tem dito, mas soube usar de
dialética abusiva e imprudente - o que, em parte, se compreende pelo
fato de que seu trabalho era controlado por funcionarios do banqueiro
Függer. Tetzel seguia as normas estabelecidas por Alberto de Mogúncia
no libelo Instructio Summaria pro Subcommissariis.

Deve-se confessar que todo esse plano de arrecadar dinheiro e as


suas finalidades nao merecem aprovacáo.

3. As Teses de Lutero

Quando a Instructio Summaria chegou ás máos de Martinho


Lutero, este se insurgiu "como um cávalo cegó", e protestou enérgica
mente junto ao respectivo autor, Alberto de Mogúncia.

É comum dizer-se que Lutero concretizou tal protesto ao meio-dia


de 31/10/1517, afixando ás portas da Schlosskirche (igreja do castelo)
de Wittenberg 95 teses sobre as indulgencias e convidando todos os
eruditos para urna disputa pública a respeito das mesmas. Na verdade,
porém, esta versao é lendária. Ninguém mencionou tal facanha enquan-
to Lutero viveu. O primeiro a referi-la foi Melancton em 1546; nao se sabe
donde tirou a noticia, nem ele cita fonte alguma; em 1517 Melancton nao

446
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO 15

se achava em Wittenberg, mas sim em Tübingen; portante nao foi teste-


munha do alegado. De resto, sabe-se que Melancton nem sempre é exa-
to quando narra pormenores da juventude de Lutero. Pode-se supor que,
lendo as 95 teses e o convite de Lutero para um debate público, tenha
Melancton imaginado que se tratava do anuncio de urna disputa acadé
mica, anuncio que se fazia geralmente afixando proclamas as portas das
igrejas.

O fato certo é que, aos 31/10/1517, Frei Martinho Lutero escreveu,


indignado, urna carta de protesto ao arcebispo de Mogúncia, enviada
com um exemplar de suas teses. A carta pedia que fosse retirada de
circulacáo a Instructio e corrigido o modo de pregar as indulgencias.
Examinemos atentamente as teses, conscientes de que o autógrafo de
Lutero nao numerava as suas afirmacóes e interrogares. A numeracáo
se deve aos tipógrafos que as imprimiram em fins de 1517, de acordó
com as copias oferecidas por Lutero e seus amigos. - Eis o texto respectivo:

"Por amor a verdade e no empenho em eluddá-la, discutir-se-


á o seguinte em Wittenberg, sob a presidencia do R. P. Martinho
Lutero, Mestre de Artes e de Santa Teología e Professor Catedrático
desta última, naquela localidade. Por esta razáo ele solicita que os
que nao possam estar presentes e debater com ele oralmente, o 1a-
gam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome de nosso Senhor
Jesús Cristo. Amém.

1. Ao dizer 'Fazei penitencia' etc., nosso Senhor e Mestre Jesús


Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitencia.

2. Esta expressáo nao pode ser entendida no sentido do sacra


mento da penitencia (isto é, da confíssáo e satisfagáo celebrada pelo
ministerio dos sacerdotes).

3. Ela também nao se refere apenas a urna penitencia interior; sim,


ela nao seria penitencia se externamente nao produzisse toda sorte de
mortificagóes da carne.

4. Por isto a pena também perdura enquanto houver o odio da pes-


soa contra simesma (isto é, a verdadeira penitencia interior), ou seja, até
a entrada para o reino dos céus.

5.0 papa nao quer nem pode dispensar de quaisquer penas senáo
daquelas que ele impós por decisáo própria ou dos cánones.

6. O papa nao pode fazer cessar culpa alguma, senáo declarar e


confirmar que ela foi perdoada por Deus. Além disso, ele pode sem dúvi-
da remiti-la nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a
culpa permanecerá por inteiro.

447
16 - "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

7. Deus nao perdoa a culpa de quem quer que seja, sem que se
sujeite em completa humildade ao sacerdote como a seu substituto.

8. Os cánones penitenciáis (que sao a prescrigáo do modo de con-


fessar e expiar) sao apenas impostos aos vivos; nada se deve impor aos
moribundos com base nos mesmos.

9. Porisso o Espirito Santo nos beneficia através do papa, quando


este, em seus decretos, sempre excluí a circunstancia da morte e da ne-
cessidade extrema.

10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes


que aínda reservam aos moribundos penitencias canónicas para o pur
gatorio.

11. Essa erva daninha, de se poder transformar a pena canónica


em pena do purgatorio, foi semeada enquanto os bispos estavam obvia
mente dormindo.

12. Antigamente se impunham as penas canónicas nao depois, mas


antes da absolvigáo, como verifícagáo da verdadeira contrigáo.

13. Através da morte os moribundos pagam tudo ejá estáo mortos


para as leis canónicas, tendo, por direito, isengáo das mesmas.

14. Piedade ou amor1 imperfeitos no moribundo necessariamente


trazem consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.

15. Este temor e horror por si só já basta (para nao falar de outras
coisas) para produzir a pena do purgatorio, urna vez que estáo muito
próximos da angustia do desespero.

16. Inferno, purgatorio e céuparecem diferir da mesma forma que o


desespero, o semi-desespero e a seguranga2.

17. Tudo indica que é necessário diminuir o horror das almas no


purgatorio, bem como promover o amor3.

18. Parece nao ter sido provado, nem á base da razao nem da
Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou da possibi-
lidade de crescimento no amor.

19. Também parece nao ter sido provado que as almas no purgato
rio estejam certas e seguras de sua felicidade, ao menos nao todas, mes-
mo que nos, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

1 Se. amor a Deus.


2 Se. da salvacáo.
3 Se. amor a Deus.

448
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO 17

20. Portanto, sob remissáo plena de todas as penas o papa nao


entende simplesmente todas as penas, mas somente aquetas que ele
mesmo Impós.

21. Erram, portanto, aqueles apregoadores de indulgencias que


afirmam que a pessoa é libertada e salva de toda pena pelas indulgenci
as do papa.

22. Com efeito, ele nao dispensa as almas no purgatorio de um


único castigo que elas, segundo os cánones (da igreja), deviam ter sal
dado nesta vida.

23. Se é que se pode dar algum perdáo de todos os castigos a


alguém, este se dará somente aos mais períeitos, isto é, pouqufssimos.

24. Por isso a maior parte do povo está sendo necessariamente


ludibriada com essa magnífica e indistinta promessa de absolvigáo do
castigo.

25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatorio de modo


geral, todo bispo e cura dalmas também o tém em sua diocese e paróquia
em particular.

26.0 papa faz muito bem ao dar remissáo as almas nao pelo poder
das chaves (que ele nao tem)*, mas por meto de intercessáo.

27. Pregam doutrina humana aqueles que dizem que, táo logo tilintar
a moeda ¡angada na caixa, a alma sairá voando (do purgatorio).

28. Ceño é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o


lucro e a cobiga; a intercessáo da igrejas, porém, depende apenas da
vontade de Deus.

29. E quem é que sabe se realmente todas as almas no purgatorio


querem ser resgatadas? Diz-se que este nao foi o caso com S. Severíno
e S. Pascoal.

30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrigáo, muito


menos de haver conseguido plena remissáo.

31. Táo raro como o que é penitente de verdade é o que recebe


auténticamente as indulgencias, ou seja, é raríssimo.

32. Seráo condenados em eternidade, juntamente com seus mes-


tres, aqueles que sejulgam seguros de sua salvagáo através de carta üe
indulgencia.

* Se. para este fim.


5 Isto é, sua aceitagáo.

449
J8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as
indulgencias do papa aquela inestimável dádiva de Deus, através da qual
a pessoa se reconcilia com Deus.

34. Isso porque aqueles favores das indulgencias se referem so-


mente as penas de satisfagáo sacramental, determinadas por homens.

35. Nao pregam cristámente os que ensinam nao ser necessária a


contrigáo aqueles que querem resgatar as almas ou adquirir privilegios
confessionais.

36. Qualquer cristáo verdadeiramente arrependido tem direito á


remissáo plena de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgencia.

37. Qualquer cristáo verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem partici-
pagáo e/77 todos os bens de Cristo e da igreja, por dádiva de Deus, mes
mo sem carta de indulgencia.

38. Mesmo assim a remissáo e a participagáo da mesma pelo papa


de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constitu-
em declaragáo do perdáo divino.

, 39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo conciliar,


perante o pavo, ao mesmo tempo a liberalidade das indulgencias e a
necessidade de verdadeira contrigáo.

40. A verdadeira contrigáo procura e ama os castigos, ao passo


que a abundancia das indulgencias os afrouxa e faz odiá-los, havendo
ocasiáo para tanto.

41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgencias apos


tólicas9, para que o povo nao asjulgue erróneamente como preferíveis as
demais boas obras de caridade.

42. Deve-se ensinar aos cristáos que nao é pensamento do papa


que a compra de indulgencia possa de alguma forma ser comparada com
as obras de misericordia.

43. Deve-se ensinar aos cristáos que, dando ao pobre ou empres


tando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indul
gencias.

44. Ocorre que através da obra de caridade cresce o amor e a


pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgencias ela nao se
torna melhor, mas apenas mais livre de castigo.

45. Deve-se ensinar aos cristáos que quem vé um carente e o ne


gligencia para gastar com indulgencias, obtém para si nao as indulgénci-

6 Isto é, papáis.

450
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO 19

as do papa, mas a ira de Deus.

46. Deve-se ensinar aos cristáos que, se nao tiverem bens em abun
dancia, devem conservar o qus é necessário para sua casa, e de forma
alguma desperdigar dinheiro com indulgencias.

47. Deve-se ensinar aos cristáos que a compra de indulgencias é


livre, e nao constituí obrigagáo.

48. Deve-se ensinar aos cristáos que o papa necessita mais de


oragóBS dsvotas a seu favor e portanto as deseja mais, ao distribuir in
dulgencias, do quB o dinhBiro que se este' pronto a pagar.

49. Dbvb-sb ensinar aos cristáos que as indulgencias do papa sao


útBis, enquanto nao depositam nelas a sua confianga, porém muitopreju-
diciais quando, de posse délas, perdem o temor de Dbus.

50. DevB-se ensinar aos cristáos que, se o papa soubesse das


extorsóes feitas pelos apregoadores de indulgencias, ele preferiría redu-
zir a cinzas a basílica de S. Pedro a edificá-la com pele, carne e ossos de
suas ovelhas.

51. DsvB-se ensinar aos cristáos que o papa estaría disposto -


como é seu dever-a dardo seu dinheiro aqueles muitos de quem alguns
apregoadores de indulgencias extraem ardiiosamente o dinheiro, mesmo
se para isto fosse necessário venderá basílica de S. Pedro.

52. Váé a confianga de salvagáo conferida pelas cartas de indul


gencias, mesmo que o comissário7 ou até mesmo o próprio papa dessem
sua alma como garantía pelas mesmas.

53. Sao inimigos de Cristo e do papa aqueles que por causa da


pregagáo de indulgencias fazem caiarpor inteiro a paiavra de Deus ñas
demais igrejas.

54. OfendB-SB a paiavra de Deus quando, em um mesmo sermáo,


se dedica tanto ou mais tempo as indulgencias que áquela paiavra.

55. A atitude do papa é necessaríamente esta: se as indulgencias


(que sao menos importantes) sao celebradas com um toque de sino, com
pompa e cerímónia, o Bvangslho (que é o mais importante) deve ser anun
ciado com urna centena de sinos, pompas e cerimónias.

56. Os tesouros da igreja, dos quais o papa concede as indulgenci


as, nao sao suficientemente mencionados nem conhecidos junto ao povo
de Cristo.

7 Comissário era o incumbido da pregagáo de indulgencias, no caso, Alberto de


Mogúncia.

451
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

57. Os tesouros da Igreja, com certeza, nao devem ser de natureza


temporal, senáo muitos dos pregadores de indulgencias nao os distribui
rían) com tanta facilidade, antes apenas ficaríam a ajuntá-los.

58. Tampouco consistem eles nos méritos de Cristo e dos santos,


pois estes sempre operam, sem o papa, a graga para o homem interiore
ao mesmo tempo a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.

59. S. Lourengo disse que os pobres da igreja sao os tesouros da


mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60. Nao exageramos ao dizer que as chaves da igreja, que Ihe


foram proporcionadas pelos méritos de Cristo, constituem este tesouro.

61. Pois está claro que, para a remissáo dos castigos e para a
absolvigáo em determinados casos9, o poder do papa por sisó é suficiente.

62. O verdadeiro tesouro da igreja é o santíssimo evangelho da


gloria e da graga de Deus.

63. Este tesouro, entretanto, é muito odiado, e com razio, porque


faz com que os primeiros sejam os últimos.

64. Em contrapartida, o tesouro das indulgencias é com razáo o


mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.

65. Por esta razáo os tesouros do evangelho foram as redes com


que outrora se pescavam os homens de grandes riquezas.

66. Os tesouros das indulgencias, por sua vez, sao as redes com
que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67. As indulgencias apregoadas pelos seus vendedores como sen


do a mais sublime graga, realmente podem ser entendidas como tal, na
medida em que dáo boa renda.

68. Estas sao, entretanto, as gragas mais ínfimas, se comparadas


com a graga de Deus e a devogáo á cruz.

69. Os bispos e curas de almas tém a obrigagáo de admitir com


toda reverencia os comissários de indulgencias apostólicas.

70. Tém, porém, a obrigagáo aínda maiorde observar com os dois


olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários nao
preguen) os seus próprios sonhos, em lugar do que Ihes foi incumbido
pelo papa.

71. Quem fala contra a verdade das indulgencias apostólicas, seja


excomungado e maldito.

3 Cf. tese 6.

452
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO

72. Aquele, porém, que se empenhar zelosamente contra a devas-


sidáo.e licenciosidade de palavras do pregador de indulgencias, seja
bendito.

73. Assim como o papa com razáo fulmina aqueles que de alguma
forma procuram defraudar o comercio das indulgencias,

74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indul
gencias, defraudam a santa caridade e verdade.

75. A opiniáo de que as indulgencias papáis sao táo eficazes a


ponto de absolver um homem que tivesse violentado a máe de Deus,
caso isso fosse possível, é loucura.

76. Em contrapartida, afirmamos que as indulgencias papáis nao


podem anular sequer o menor dos pecados veníais no que se refere á
sua culpa.

77. A afirmagáo de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa


atualmente, poderia conceder maiores gragas, é blasfemia contra Sao
Pedro e o papa.

78. Afirmamos, ao contrario, que também este ou qualquer outro


papa tem gragas maiores a dar, quais sejam o evangelho, as virtudes
espirituais, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Corintios 12.

79. Dizer que a cruz com as armas do papa, altivamente erguida9,


se equipara a cruz de Cristo, é blasfemia.

80. Teráo que prestar contas de sua atitude os bispos, curas de


almas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difun
didas entre o povo.

81. Esta licenciosa pregagáo de indulgencias faz com que nao seja
fácil, nem para homens doutos, defender a dignidade do papa contra
calúnias ou perguntas, sem dúvida argüías, dos leigos.

82. Por exemplo: Por que o papa nao evacúa o purgatorio, por
santíssimo amor as almas e pela suprema necessidade das mesmas,
sendo esta de todas as causas a mais justa, já que ele redime ¡numeras
almas por meio do táo miserável dinheiro para a construgáo da basílica,
que constituí urna causa táo insignificante?

83. Ou: Por que se mantém as missas em prol dos defuntos e a


memoria dos aniversarios de falecimento e nao se restituí ou se permite
que se recebam de volta as doagoes efetuadas em favor deles, quando
já nao é justo orar pelos redimidos?10

9 Se. ñas igrejas.


10 Se. redimidos por indulgencias.

453
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

84. Ou: Que nova piedade, de Deus e do papa, é esta, que se


permita ao fmpio e inimigo" redimir urna alma piedosa e amiga de Deus
mediante dinheiro em vez de redimir por amor esta mesma alma piedosa
e dileta gratuitamente?

85. Ou: Estando os preceitos penitenciáis em sijá de há muito re-


yogados e morios de lato por desuso, por que razáo sao eles assim mes-
mo pagos com dinheiro, pela concessáo de indulgencias, como se aínda
estivessem em pleno vigor?

86. Ou: Porque o papa, cuja fortuna hoje é maiorque a do riquíssimo


Crasso12, nao constrói com seu próprío dinheiro, ao invés do dinheiro de
seus pobres fiéis, ao menos esta basílica de Sao Pedro?

87. Ou: O que é que o papa perdoa e concede aqueles que pelo arre-
pendimento completo tém direito ao pleno perdió e ás béngaos?**

88. Ou: Que beneficio maior se poderla proporcionar a igreja, se o


papa, como agora o faz urna vez14, concedesse estas remissóes e bén-
cáos cem vezes ao día a qualquer dos fiéis?

89. Já que com as indulgencias ele procura mais a salvagáo das


almas do que o dinheiro, por que suspende ele as cartas de indulgencias
outrora já concedidas, se sao igualmente eficazes?

90. Rebater estes muito perspicazes argumentos dos leigos so-


mente pela forga e sem motivos razoáveis, significa expor a igreja e o
papa á zombaria dos inimigos e desgracar os cristáos.

91. Se, portanto, as indulgencias fossem apregoadas em conformi-


dade com o espirito e a opiniáo do papa, estas objegóes poderiam ser
fácilmente dissipadas e nem mesmo teriam surgido.

92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de
Cristo "Paz, paz!" sem que haja paz!

93. Abengoados, porém, sejam todos os profetas que dizem aopovo


de Cristo "Cruz! cruz!", sem que haja cruz!

94. Admoestem-se os cristáos a que procurem seguir sua cabega,


Cristo, através de penas, da morte e do inferno.

95. E assim confiem entramo céu passando antes pormuitas tribu-


lagóes do que pela seguranga da paz infundada".

11 Se. de Deus.
12 Referencia a Marco Licfnio Crasso, prototipo do homem rico na Antigüidade.
13 Cf. teses 36 e 37.
" Ñas cartas de indulgencia constavam as seguintes palavras: "Urna vez na vida e
em caso de morte".

454
AS 95 TESES DE MARTINHO LUTERO 23

4. Observacoes ao Texto

Algumas das proposites de Lutero se ressentem de falso concei-


to de indulgencias: o reformador as entendia como aquisicáo material de
urna bula papal donde resultaría o perdáo dos pecados; nao levava em
conta o conceito correto de indulgencias, que exigia o arrependimento e
a confissáo dos pecados; nao se vendia o perdáo dos pecados; ver o
artigo seguinte neste fascículo. Ao escrever suas teses, Lutero já havia
concebido sua noció de justificacáo pela fé e de penitencia crista, nocáo
incompatível com a da Teología clássica. Quem lé as 95 teses, pode tera
impressáo de que foram lancadas sem muita ordem nem encadeamento
de idéias; váo sendo propostas as vezes em tom passional, as vezes em
vestes de humildade; estáo sujeitas a repeticóes e ¡mprecisóes. O que
tém de válido, é a preocupacáo, presente em quase todas as teses, com
a necessidade de compuncao interior mais do que de obras exteriores;
infelizmente, porém, o estilo extremado e temperamental das teses leva
a exageras improprios a um teólogo.

A variedade das proposicoes permite distinguir rumos diversos entre


elas. Assim há

- teses aceitáveis ao Catolicismo: ne 1. 2. 3. 7. 26. 38. 41;

- teses demagógicas: n9 92. 93. 94. 95;

- teses que supóem o conceito luterano de justificacáo: n9 5. 20.


21.25.32.56.58.62;

- teses que procuram reconhecer o magisterio do Papa: ns 42.50.


51.53.55.70.91;

- teses sarcásticas: n9 65. 66. 82. 86.

Lutero proferiu suas teses sem a intencáo de se afastar da Igreja.


O fato, porém, é que se tornaram o ponto de partida público de urna
ruptura que foi crescendo até a consumacáo do cisma em 1521.

5. Conclusáo

O cisma perdura até nossos dias; é a conseqüéncia de um proble


ma pessoal, problema de urna personalidade fogosa e temperamental
(há quem seja mais severo), que projetou o problema e sua falsa solucáo
no mundo de sua época. A nacao alema aproveitou-se da rebeldía de
Lutero para desabafar suas tendencias anti-romanas, que haviam carac
terizado a política dos Imperadores germánicos durante a Idade Media.
O ambiente predisposto pela política contra Roma favoreceu o cisma de
Lutero, que tem sido visto pelos alemáes nao somente como figura religi-

455
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

osa, mas também - e muito - como porta-voz das reivindicares da na-


gao germánica do século XVI.

Atualmente verifica-se que as circunstancias que levaram ao cis


ma, estao ultrapassadas; donde se pode crer que a dissidéncia luterana
poderá ser superada, de algum modo, em favor de fraterna reaproximacao.
A doutrina luterana é, como dito, a expressao de um problema pessoal
de Lutero apavorado, problema que o reformador resolveu a seu modo,
tranqüilizando-se por uma re-leitura tendenciosa das epístolas de Sao
Paulo. Tal solucáo foi lancada ao público como sendo a auténtica moda-
lidade de entender o Cristianismo. Deste problema pessoal de Lutero
originou-se o protestantismo, que é uma forma mais suave de se viver o
Evangelho, mas uma forma subjetiva, concebida por Martinho Lutero
apavorado para Martinho Lutero. Verdade é que a época de Lutero (pri-
meiras décadas do século XVI) foi um período infeliz na historia da Igreja
Católica, cujas mazelas podiam provocar críticas e censuras, mas nao
fundamentavam uma ruptura ou um cisma chefiado por um homem mui
to religioso, mas pouco equilibrado como foi Lutero.

O cisma vai sendo, hoje em dia, revisto por luteranos e católicos,


de tal modo que se tém realizado sessóes de estudos reunindo as duas
partes; destes coloquios tem resultado consentimento sobre pontos im
portantes relativos á justificacáo, consentimento que se espera vá mais e
mais progredindo. A propósito ver as pp. 463s deste fascículo.

A bibliografía sobre Lutero é ¡mensa, ora justificando, ora critican


do o reformador. Entre as varias obras publicadas, citamos RICARDO
GARCÍA-VILLOSLADA, Martín Lutero, vols. I e II. BAC, Madrid. 1976.

O Espiritismo e a Doutrina Crista. Orientacáo para os cristáos,


por Roberto Andrade Tannus. Colegáo "Paulo Apostólo" ne 13. -Ed. San
tuario, Aparecida, 1998, 140 x 210mm, 62 pp.

A Renovagáo Carismática Católica está interessada em proporcio


nar aos seus membros uma sólida formagáo doutrinária; pelo qué possui
uma colegáo de quatorze volumes destinados ao estudo dos fiéis católi
cos. O presente volume analisa as teses espiritas e as compara com os
artigos da fé católica, pondo em evidencia a impossibilidade de alguém
ser católico e espirita ao mesmo tempo. A obra tem seu valor.

Na mesma colegáo merece especial atengáo o volume intitulado


"Se Testemunhas de Jeová baterem á sua porta" de Denis Bougerie.
Elucida o pensamento dessa corrente e ajuda a responder ás suas ale-
gagóes.

456
A versáo correta:

INDULGENCIAS: QUE SAO?

Em sfntese: As indulgencias nao significam venda do perdió de


pecados, como se diz freqüentemente, mas sao obras boas que devem
ser praticadas com profundo amor a Deus e total repudio do pecado já
absolvido pelo sacramento da Penitencia, a fim de que o amor a Deus
assim excitado apague os resquicios do pecado que costumam perma
necer no cristáo mesmo após a absolvigáo sacramental. O fiel católico
que lucra urna indulgencia, pode aplicá-la ás almas do purgatorio, á gui
sa de sufragio, isto é, pedindo a Deus que o amor ao Senhor existente
naquelas almas acabe de erradicar qualquer vestigio de amor desregra-
do. Deve-se reconhecer que nao é fácil ganhar indulgencias, pois o ape
go ao pecado (ainda que leve) muñas vezes está profundamente arraiga
do no íntimo do cristáo.

A esmola, implicando caridade ou amor a Deus e ao próximo, pode


ser urna obra indulgenciada. É este aspecto que deu origem á falsa interpre-
tacao de que se vendía e comprava o perdáo dos pecados no sáculo XVI.

O tema das indulgencias, que freqüentemente suscita mal-enten


didos, será especialmente considerado nestas páginas.

1. Indulgencias: que sao?

Para ter noció do que sao as indulgencias na Igreja, devemos


aprofurtdar sucessivamente quatro proposicoes doutrinárias, a saber:

1) Todo pecado acarreta necessidade de expiacáo ou reparacáo.

2) Em vista da reparacáo, existe na Igreja o tesouro infinito dos


méritos de Cristo, que frutificou nos méritos da Bem-aventurada Virgem
María e dos demais Santos.

3) Cristo confiou a sua Igreja o poder das chaves para administrar


o tesouro da Redencáo.

4) Fazendo uso deste poder, a Igreja, em determinadas circunstan


cias, houve por bem aplicar os méritos de Cristo aos penitentes dispos-
tos a expiar os pecados.

Examinemos mais profundamente estas proposicóes

1.1. Necessidade de Expiacáo

O pecado nao é somente a transgressáo de urna lei, mas é tam-

457
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

bém a violacáo da ordem de coisas estabelecida pelo Criador. Por isto,


para que haja plena remissáo do pecado, é necessário nao somente que
0 pecador obtenha de Deus o perdáo, mas também que repare a ordem
violada (é o que se chama "expiacáo"). Assim quem rouba um relógio,
nao precisa apenas de pedir perdáo a quem foi lesado, mas deve tam
bém devolver o relógio ao seu proprietário. Quem caluniou alguém, nao
deve somente pedir-lhe perdáo, mas haverá de restaurar o bom nome e
a fama de quem foi injusticado. Mesmo os pecados meramente internos
de pensamentos e desejos exigem, além do perdáo de Deus, também a
restauracáo da ordem interna do pecador, pois os pensamentos e dese
jos culposos excitam ou alimentam paixóes e afetos desregrados no ínti
mo do respectivo sujeito.

A necessidade dessa reparacáo é muito lógica. Dizia sabiamente


S. Agostinho: "Aquele que te criou sem ti, nao te salva sem ti"1 - A própria
Escritura dá a ver que o Senhor Deus, mesmo após haver perdoado a
culpa do pecador, exigiu a reparacáo da ordem violada. Ver 2Sm 12,13s;
Nm20,12s;Tb4,11s.

1.2. O tesouro dos méritos de Cristo confiado á Igreja

Em vista da expiacáo dos pecados, existe na Igreja um tesouro


infinito de méritos que Cristo adquiriu mediante a sua Paixáo e Morte;
esse tesouro frutificou nos méritos da Bem-aventurada Virgem Maria e
dos Santos. É chamado "o tesouro da Igreja".
Cristo confiou á sua Igreja as chaves para administrar o tesouro da
Redencao, como se depreende de textos, como o de Mt 16, 16-19; 18,
18; Jo 20, 22s.

1.3. A aplicacáo dos méritos de Cristo ou a instituícáo das in


dulgencias

Consciente do poder das chaves que Cristo Ihe concedeu, a Igreja,


no decorrer dos tempos, resolveu aplicá-lo em favor dos cristáos peniten
tes que aínda tivessem de prestar expiacáo por seus pecados.

Com efeito. Sabemos que nos primeiros séculos os pecadores que


desejassem a absolvicáo de suas faltas, deviam primeiramente prestar
satisfacáo por elas, tentando extirpar do seu íntimo as raízes do pecado.
Por conseguinte, a Igreja Ihes impunha urna penitencia que, para ser
medicinal, costumava ser rigorosa (assim, por exemplo, urna Quaresma
de jejum, em que o penitente se vestia de sacos e cilicio); essa peniten
cia tinha por objetivo excitar e fortalecer, no penitente, o amor a Deus que

1 Verdade é que nenhuma criatura faz algo de bom sem a grapa de Cristo (cf. Jo
15,5), mas é preciso que a criatura corresponda á graga que Ihe é oferecida.

456
INDULGENCIAS: QUE SAO? 27

extinguiría o amor ou as tendencias desordenadas do sujeito. Em conse-


qüéncia, julgava-se que, quando o pecador era absolvido (na Quinta-
feira Santa, geralmente), ficava isento nao apenas da culpa, mas tam-
bém das raízes do pecado; teria seu amor purificado ou teria reparado a
ordem violada em seu íntimo.

Acontece, porém, que essa praxe penitencial, com o tempo, se tor-


nou insustentável; nao só exigía especiáis condicóes de saúde, mas tam-
bém acarretava conseqüéncias penosas para todo o resto da vida de
quem a ela se submetesse. Eis por que aos poucos foi sendo modificada.

Com efeito, a partir do século VI foi introduzido novo costume: o


pecador, tendo confessado suas faltas, recebia logo a absolvicao, mas,
depois disto, ainda prestaria urna satisfacáo correspondente á gravidade
de suas culpas, a fim de extinguir dentro de si todo apego ao pecado.

Este novo modo de administrar o sacramento da Reconciliacáo ain


da era assaz penoso; a dura e prolongada penitencia (jejum, cilicio...)
nao podía ser praticada por todos os pecadores.

Consciente disto, a Igreja instituiu as "comutacoes" ou "redencóes"


de penitencias. Estas tem seu fundamento na própria S. Escritura: a Lei
de Moisés enumerava casos em que as obrigacóes dos fiéis eram legíti
mamente comutadas e mitigadas, desde que se tornassem demasiada
mente onerosas1.

Em que consistiam propriamente as comutacóes de penitencias na


Igreja do século IX?

Como dito, a Igreja é depositaría dos méritos de Cristo que frutifi-


caram nos méritos da SS. Virgem e dos Santos, constituindo o tesouro
da Igreja. Ora os Bispos julgaram oportuno, a partir do século IX, aplicar
esses méritos em favor dos pecadores absolvidos que se deviam subme-
ter a rigorosas penitencias. As duras obras de penitencia foram sendo
substituidas (comutadas) por outras mais brandas, obras ás quais a S.
Igreja associava diretamente os méritos satisfatórios de Cristo; assim em
lugar de jejuns podiam ser impostas oracóes; em vez de longa peregrina-
gao, o pernoitar num santuario; em vez de flagelacoes, urna esmola...

' Ver Lv 5,7-11:


"Se o homem nao tiver recursos para oferecer urna res de gado miúdo, trará a Javé,
em sacrificio de reparagáo pelo pecado que cometeu, duas rolas ou dois pombinhos,
um deles para sacrificio pelo pecado e outro para holocausto...
Se ele nao tiver recursos para oferecer duas rolas ou dois pombinhos, trará como
oferenda pelo pecado cometido um décimo de medida de flor de farinha; nao pora
nela azeite nem incensó, pois é um sacrificio pelo pecado".

459
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

A estas obras mais brandas a Igreja, num gesto de indulgencia,


anexava algo da expiacáo sumamente meritoria do Senhor Jesús. Fo-
ram chamadas "obras indulgenciadas" (enriquecidas de indulgencias). A
remissáo da pena satisfatória obtida pela prática de tais obras tomou o
nome de "indulgencia".

Compreende-se, porém, que tal indulgencia nao se ganhava de


maneira mecánica; era sempre necessário que o penitente, ao realizar a
obra indulgenciada, já tivesse recebido a absolvicáo de seus pecados, e
nutrisse em si o horror ao pecado e o férvido amor a Deus que ele teria se
fosse prestar urna quarentena ou mais de jejum e de cilicio... Sem tais
disposicoes, nao ganharia a indulgencia proposta.

No século XI, os bispos comecaram a conceder indulgencias ge-


rais, isto é, oferecidas a todos os fiéis, sem se exigir a intervencáo direta
de um sacerdote. Em outros termos: os Bispos determinaran! que, pres
tando tal ou tal obra (visita a um Santuario, oracóes especiáis, esmo-
las...), os fiéis poderiam obter a remissáo da satisfacáo correspondente
aos seus pecados já absoividos. Assim quem colaborasse na construcao
de um santuario ou peregrinasse a um lugar sagrado, lucraría urna indul
gencia de 100 dias, 1 ano, 7 anos (isto é, os frutos da penitencia realiza
da durante cem dias, um ano, sete anos), desde que o fizesse com o
horror ao pecado que animava os penitentes da Igreja antiga.

Esta praxe ficou em vigor até os tempos recentes da Igreja. Quan-


do, antes do Concilio do Vaticano II (1962-1965), se falava de "indulgen
cia de 100,300 dias, um ou mais anos", nao se designava um estágio no
purgatorio, pois neste nao há dias nem anos. Com essa contagem, indi-
cava-se o perdáo da expiacáo que outrora alguém prestaría fazendo 100,
300 dias, um ou mais anos de penitencia rigorosa, avaliada segundo a
praxe da Igreja antiga. Em nossos dias a terminología mudou, como se
dirá mais adiante.

2. Reflexóes Teológicas

As consideracóes até aqui propostas comprovam que a Igreja, ao


instituir as indulgencias, teve em vista auxiliar os seus filhos que tenham
obtido o perdáo de seus pecados, mas aínda devam prestar reparacáo
pelos mesmos. A Igreja reconhece que na Comunhio dos Santos os fiéis
vivos podem obter indulgencias em favor dos irmáos falecidos que no
purgatorio ainda tenham de prestar satisfacáo por pecados cometidos
nesta vida.

É muito importante notar que ninguém pode lucrar indulgencia sem


que tenha previamente confessado as suas faltas graves (as obras
indulgenciadas nao obtém o perdáo dos pecados como tal) e sem que

460
INDULGENCIAS: QUE SAO? 29

excite em si o espirito de contricáo que o levaría a prestar as rigorosas


penitencias da Igreja antiga; sem este ánimo interior, nada se pode ad
quirir. Donde se vé que a praxe das indulgencias está longe de reduzir a
religiáo a formalismo e mercantilismo.

Deve-se observar também que a Igreja nunca vendeu o perdáo


dos pecados, nem vendeu indulgencias. Mais: quando a Igreja
indulgenciava a prática de esmolas, nao intencionava dizer que o dinhei-
ro produz efeitos mágicos, mas quería apenas fomentar a caridade ou as
disposicoes íntimas do crístáo como fator de purificacáo interior. Nao há
dúvida, porém, de que pregadores populares e muitos fiéis cristáos dos
sáculos XV/XVI usaram de linguagem inadequada ou errónea ao falar de
indulgencias. Foi o que deu origem aos protestos de Lutero e dos
reformadores. Na verdade, é muito difícil ganhar urna indulgencia plená-
ria. Quem, ao recitar breve prece indulgenciada ou ao fazer visita a um
santuario, pode ter certeza de estar contrito dos seus pecados a ponto de
nao Ihes ter mais o mínimo apego? O velho homem, mais ou menos
arraigado em cada crístáo, é caprichoso e sorrateiro; para dominá-lo, é
necessária assídua vigilancia com o auxilio da graca.

3. A praxe atual

Após o Concilio do Vaticano II, o Papa Paulo VI procedeu a urna


revisáo da instituicáo das indulgencias, que era e é válida, mas se pres-
tava a equívocos, principalmente pela contagem de días, meses e anos
de indulgencia...; esta terminología supunha condicóes históricas que
haviam caído no esquecimento do público.

Eis alguns traeos da respectiva Constituicao Indulgentiarum


Doctrina datada de 1967:

1) A Igreja continua a conceder indulgencias plenárias e indulgen


cias parciais. Aquelas significam a remissao de toda a satisfacáo corres
pondente a pecados já absolvidos; estas, a remissao de parte desta sa
tisfacáo.

Fica, porém, abolida a indicacáo de dias e anos de indulgencia


parcial. O valor das indulgencias parciais é doravante expresso em ter
mos mais compreensíveis.

Com efeito. Sabemos que toda boa obra (prece, esmola, mortifica-
gao...) tem anexo a si um determinado mérito; se alguém realiza tal obra
em espirito de contricáo, adquire a remissao de urna parte de sua satisfa
cáo purgatoria. Pois bem; Paulo VI determinou que as pessoas que pra-
ticam urna acáo indulgenciada pela Igreja, obtém (além da remissao anexa
ao ato bom como tal) urna igual remissao devida á intervencáo da S.
Igreja. Isto significa, em última análise, que a medida das indulgencias

461
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

parciais é a medida do arrependimento e do amor a Deus com que al-


guém pratica a acao indulgenciada; se o cristáo a realiza com ánimo
rotineiro e tibio, pouco lucra; ao contrario, quanto mais fervor ele empe-
nhar na execucao da obra indulgenciada, tanto mais também será ele
indulgenciado.

Vé-se como esta disposicáo é apta a fazer do instituto das indul


gencias um estímulo para o afervoramento da piedade dos fiéis.

2) Para que alguém possa lucrar indulgencia plenária, requer-se


que, além de executar a obra indulgenciada, faca urna confissáo sacra
mental, receba a Comunháo Eucarística, ore segundo as intencdes do
Sumo Pontífice (um "Pai Nosso" e urna "Ave María", por exemplo) e nao
guarde o mínimo apego a qualquer pecado, ainda que seja leve.

Se alguém puder cumprir, mas de fato nao cumprir estas condi-


cóes, só lucrará indulgencia parcial.

A confissao sacramental pode ser efetuada alguns dias antes ou


(se nao houver pecado grave) depois da obra indulgenciada. A S. Comu
nháo, porém, e a oracáo pelo Sumo Pontífice deveráo ocorrer no dia
mesmo em que se realizar a obra.

Basta urna Confissao sacramental para se adquirir mais de urna


indulgencia plenária. Requer-se, porém, urna Comunháo e urna oracáo
pelo S. Padre para cada indulgencia plenária.

3) O novo catálogo de indulgencias assinala varias obras de pieda


de cerno indulgenciadas. Antes do mais, porém, propóe tres grandes con-
cessóes:

a) É concedida indulgencia parcial a todo cristáo que, no cumpli


mento de seus deveres e no suportar as tribuíales da vida presente,
levante a mente a Deus com humildade, confianca, proferindo ao mesmo
tempo alguma invocacáo piedosa (com os labios ou só com a mente).

b) É concedida indulgencia parcial ao cristáo que, movido por espi


rito de fé e misericordia, coloca a sua pessoa ou os seus bens ao servico
dos irmáos que padecem necessidade.

c) É concedida indulgencia parcial ao cristáo que, movido por espi


rito de penitencia, se abstenha espontáneamente de algo que Ihe seja
lícito e agradável.

Mediante estas tres normas, a Igreja visa a estimular os seus furtos


a urna vida fervorosa, animada por espirito de fé, de amor e de configura-
cáo a Cristo.

462
Horizontes se clareiam:

ACORDÓ LUTERANO-CATÓLICO
SOBRE A JUSTIFICADO

Em síntese: O diálogo entre luteranos e católicos iniciado em 1967


sobre a questáo da justificagáo está chegando a resultados muito positi
vos: em 1997 foi redigida urna Declaragáo por teólogos católicos e
luteranos que admite acordó sobre pontos fundamentáis, embora fiquem
diferengas abertas, como as que se relacionam com o modo de entender
o pecado original, a concupiscencia, a colaboragáo ativa do homem com
a graga. Tais questóes serio consideradas em ulterior sessáo de estudos.
* * *

Justificagáo, em linguagem teológica, é o processo pelo qual al-


guém se torna justo ou amigo de Deus, passando do pecado para a gra
ga. Vimos no artigo das pp. 439-456 deste fascículo que Lutero afirmou a
justificagáo forense ou meramente jurídica: o pecado original nao é apa
gado pelo Batismo, mas permanece ¡ndelevelmente no cristáo, repre
sentado pela concupiscencia desregrada (que é pecado, mesmo quando
nao há o consentimento do individuo). Em conseqüéncia, o cristáo é jus
tificado ou feito amigo de Deus únicamente porque Jesús Cristo o reco
bre com seu manto de justica ou santidade; assim no seu íntimo o cristáo
é pecador, mas Deus o tem na conta de justo.

Esta doutrina, proferida numa fase de crise de Martinho Lutero, vai


sendo revista em nossos dias por teólogos credenciados luteranos e ca
tólicos, os quais tém mostrado que o tema da justificacáo nao é a barreira
intransponível que deva continuar a separar católicos e luteranos.

As Etapas Percorridas

Sao tres as etapas percorridas no diálogo entre a Igreja Católica e


a Federacáo Luterana Mundial, que congrega 124 comunidades, ou seja,
90% dos luteranos:

- a primeira, em 1967-1972, terminou com o Relatório de Malta,


que declarou: "Atualmente está em vias de desenvolvimento um acordó
de vasto alcance relativo ao sentido da justificacáo";

- a segunda, em 1980, concluiu-se com a Declaragáo Todos sob


um só Cristo", que afirmava em termos mais explícitos: "Emerge um ampio
consentimento sobre a doutrina da justificagáo, que foi de importancia
decisiva para a Reforma";

463
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

- a terceira, de 1994-1997, encerrou-se com urna longa Declara-


cao, que compreende 44 artigos, os quais receberam a aprovacáo unáni
me da Federacáo Luterana Mundial aos 16/6/1998 e foram objeto de um
pronunciamento oficial da Igreja Católica. Esta emitiu urna Nota a respei-
to, na qual afirma claramente que "um alto grau de acordó foi realizado;
... a justo título está dito que existe um consentimento sobre verdades
fundamentáis da doutrina da justificacáo". Por isto já nao tém aplicacáo
as sentencas condenatorias proferidas de parte a parte no século XVI.
Observa, porém, a Nota que nao se pode dizer que há plena identidade
de concepcóes sobre a justificacáo entre luteranos e católicos. Entre as
diferencas está o modo de entender a cobica desregrada e espontánea
do ser humano: para os luteranos, ela é pecado; para os católicos, nao,
visto que todo pecado propriamente dito supóe consentimento conscien
te e deliberado da parte do pecador; a concupiscencia desregrada é algo
de involuntario e pré-deliberado; só se toma pecado se a pessoa a aceita
consciente e voluntariamente.

Por isto deve realizar-se urna quarta etapa do diálogo católico-


luterano, que estudará as diferencas restantes na concepcio de justifica
cáo e considerará as ulteriores questóes debatidas, como o relaciona-
mento entre Palavra de Deus e magisterio da Igreja, autoridade na Igreja,
ministerios, sacramentos...

O jornal O GLOBO, em sua edicáo de 27/7/98, p. 7, publicou o


artigo de Leineide Duarte intitulado "A Reconciliacáo do Vaticano com
Lutero". A autora, que é protestante, usa de estilo jornalístico e insinúa
que a Igreja Católica reconhece a doutrina de Lutero - o que nao
corresponde á verdade, como se depreende de quanto acaba de ser dito.
Afirma que a reforma luterana segué somente a Biblia, ao passo que "o
catolicismo continua aceitando os dogmas e as tradicóes incorporadas
através dos séculos". Nisto há grave equívoco. Note-se que a reforma
luterana nao segué somente a Biblia, pois ela é incapaz de provar pela
Biblia que os livros sagrados sao 66 e nao 73 (com outras palavras: o
catálogo bíblico nao é definido pela própria Biblia, mas pela tradicao oral,
que Ihe é anterior e que bercou a Biblia). Mais: a Igreja Católica sabe,
pela própria Escritura (cf. Jo 20,30s; 21,24), que muitos ditos e feitos de
Jesús nao foram consignados nos Evangelhos, mas ficaram na tradicáo
(transmissáo) oral; por isto a Igreja Católica guarda a Tradicao oral, nao
quaisquer tradicóes, mas a Tradicáo divino-apostólica ou aquela que vem
de Cristo e dos Apostólos (como seria o caso do Batismo de enancas, a
veneracáo dos Santos e de suas imagens, a guarda do sétimo dia no
domingo e nao no sábado...). Na verdade, é impossível usar somente a
Biblia prescindindo da palavra viva oral que Ihe deu origem e que conti
nua a ressoar através dos séculos no magisterio da Igreja, ao qual Jesús
prometeu sua assisténcia infalível (cf. Mt 28,18-20; 16,17-19; Jo 14,26...).

464
No Paquistio:

O PROTESTO DE UM BISPO

Em síntese: O Paquistáo é urna República Islámica, onde vivem


135 milhóes de habitantes, dos quais menos de dois milhóes sao católi
cos. Está em vigor naquele país a "lei da blasfemia", segundo a qual é
condenado á prisáo, á tortura e até a morte o cidadao que injurie a me
moria do profeta Maomé ou o livro do Coráo; as pessoas que acusam
alguém de ter assim blasfemado, nao precisam de comprovar a sua acu-
sacao para encontrarem crédito da parte das autoridades judiciárías. Isto
tem dado ocasiáo a arbitrariedades e graves injustigas, pois os mugulma-
nos pouco escrupulosos tém ñas máos urna poderosa arma para perse
guir gratuitamente os crístáos. Contra tal situagáo insurgiu-se durante
algum tempo o bispo paquistanense Mons. John Joseph, que, em sinal
de protesto contra a condenagáo de umjovem católico tido como blasfe
mo, pos fim á sua própria vida. Tal ato foiporalguns Bispos do Paquistáo
considerado como urna atitude de defesa da justiga e nao propriamente
como um suicidio. Só Deus vé o íntimo das consciéncias e pode avaliar
tal ato, que certamente foi cometido com tranqüilidade e seguranga.

Aos 7 de maio pp. suicidou-se no Paquistáo o Bispo Mons. John


Joseph, de Faisalabad, a terceira maior cidade do país, desferindo um
golpe de pistola na própria boca. Ele o fez precisamente num corredor da
Corte de Sahiwal, tencionando protestar contra a condenacao do jovem
católico Ayub Massih, cuja pena de morte tora decretada a 27/04/98 por
ter blasfemado contra o profeta Maomé; na verdade, o jovem havia de
fendido publicamente os "Versos Satánicos" do escritor indiano Salman
Rushdie (condenado á morte em 1987 pelo Governo do Ayatollah do Irá).

O suicidio de Mons John Joseph deu ocasiáo a tensoes e manifes-


tacóes públicas no Paquistáo e no estrangeiro. A fim de se elucidar o
caso, seja atentamente considerado ñas páginas subseqüentes.

1. Paquistáo: onde? Como?

O Paquistáo é urna República do Sul da Asia no subcontinente


indiano, limitada ao Norte pela China, ao Sul pelo mar da Arabia, a Leste
pela india e a Oeste pelo Irá e o Afeganistáo. Tem o nome oficial de
República Islámica do Paquistáo (Térra de Pureza), cuja capital é a cida
de de Islamabad. A populacáo consta, em maioria, de punjabis.

465
34 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

O país foi criado em 1947, em conseqüéncia da reparticáo do Im


perio Británico das indias; destinava-se a abrigar os muculmanos da re-
giáo. A principio era formado por duas partes geográficamente separa
das urna da outra: o Paquistáo Ocidental (atual Paquistáo) e o Paquistáo
Oriental; este rompeu com o homónimo ocidental em 1951, dando orí-
gem á República do Bangladesh; a cisáo foi devida a desentendimentos
constantes entre as duas partes; a religiáo foi insuficiente para superar
as divergencias étnicas e culturáis.

O Paquistáo tem vivido fases de instabilidade política e social. Em


1978 os militares destituiram o Primeiro-Ministro All Bhutto, que foi con
denado á morte e, em 1979, executado.

Em 1984 o ditador Z¡ Ul Haq promulgou a "lei da blasfemia", segun


do a qual há pena de prisáo para qualquer cidadáo que insulta o Coráo
de Maomé e condenacáo á morte para quem cometa qualquer afronta
contra o profeta Maomé. Esta lei tem suscitado mal-estar e tumultos no
país, como se verá a seguir.

2. A Perseguicáo

Os católicos vém a ser menos de 2% (um pouco menos de dois


milhoes) da populacáo do Paquistáo, que é preponderantemente mucul-
mana e conta 135 milhoes de cidadáos.

A lei permite aos cidadáos acusar de blasfemia qualquer seme-


Ihante seu, sem fundamentar a acusacáo. Se o acusador repete perante
o juiz a blasfemia alegada, toma-se ele mesmo blasfemo; em conseqüén
cia aquele que denuncia está dispensado de apresentar provas. Disto se
segué que quase qualquer cidadáo pode afirmar que um cristáo blasfe-
mou contra Maomé ou o Coráo; segue-se logo um processo judiciário,
cujo desfecho é inexoravelmente a condenacáo do acusado. Tal lei tem
dado ensejo a graves abusos; o muculmano que queira apoderar-se de
bens de um cristáo, pode simplesmente acusá-lo de blasfemia e é bem
sucedido em seu projeto.

Contra tal situacáo tomou posicáo, entre outros, o Bispo Mons. John
Joseph, considerado por alguns paquistanenses como "o melhor arauto
do movimento nacional em prol dos direitos humanos". Já em 1992 o
Bispo empreendeu duas greves de fome contra a injusta aplicacáo da lei
da blasfemia. No relató rio que elaborou em sua defesa, Mons. John Joseph
citou varios casos de ofensa á dignidade humana: assim quatorze pes-
soas, na área de Faisalabat, foram acusadas de violar a lei da blasfemia,
e em conseqüéncia se viram encarceradas, torturadas, condenadas á
morte. Urna menina de doze anos de idade, Salamat Mashi, em 1995, foi
acusada de blasfemar, mas absolvida pela Corte Suprema do Paquistáo;

466
O PROTESTO DE UM BISPO 35

Salamat teve que fugir da sua regiao residencial. Catarina Shaheen, no


mesmo ano, foi acusada do mesmo crime; em conseqüéncia, viu-se pri
vada do seu salario, ameacada de morte e vive escondida. Um frade
franciscano e uma freirá dominicana foram assassinados, um menino de
dez anos foi torturado; toda uma familia crista foi brutalmente agüitada.
Mons. John Joseph refere também a conversao forcada de menores cris-
táos para o Isla, o rapto de meninas cristas, a destruícáo de igrejas e
outros lugares de culto cristáo; no mes de fevereiro de 1997 quatorze
igrejas foram destruidas na regiao de Faisalabat.

A tensáo chegou ao extremo quando a 27/04/98 o jovem católico


Ayub Masshi foi condenado á morte. Mons. John Joseph devia entáo
participar do Sínodo dos Bispos da Asia em Roma, falando em 7/05/98
sobre "Desafios do Fundamentalismo Religioso e Violencia Social". Can-
celou sua viagem para ficar no país defendendo o jovem condenado. O
Bispo declarou ao Governo do Paquistáo, naquela ocasiáo, que faria um
"protesto surpreendente", se as autoridades nao suspendessem a "ridi
cula" sentenca de morte. Ninguém imaginava que surpresa ia sendo pre
parada.

Já que nao Ihe foi dada resposta satisfatória, Mons. John Joseph
preparou seu suicidio escrevendo uma carta ao jornal "Trie Dawn", que
seria o seu testamento espiritual: incitava cristaos e muculmanos a unir
se e agir eficazmente nao sonriente para que fosse cancelada a senten
ca de morte contra Ayub Massih, mas também para que fosse revisto o
artigo 295 B e C do Código Penal (artigo que impóe a pena capital a
quem blasfema), "sem medir os sacrificios que teremos de oferecer". E
acrescentava, talvez aludindo ao seu futuro suicidio: "As pessoas que
tém uma missáo, nao calculam os custos respectivos". Dizia aínda: "Eu
me considerarei ¡mensamente feliz, se, na minha missáo de derrubar
barreiras, o Senhor aceitar o sacrificio do meu sangue em beneficio do
seu povo. Seja como Sao Paulo escreve: 'Agora me regozijo pelos sofri-
mentos que padeco em favor de todos vos, completando em minha carne
o que falta á Paixáo de Cristo em prol do seu corpo, que é a Igreja'.
Estaremos nos prontos para aceitar o desafio e carregar a Cruz sobre os
nossos ombros? Somos capazes de beber o cálice até o fundo da sua
amargura?"

3. Após o Suicidio

Os funerais de Mons. John Joseph ocorreram em clima tenso. No


decorrer da cerimónia, alguns representantes cristaos se manifestaram
contra a lei da blasfemia, ameacando continuar o protesto mediante uma
greve em 15/05, caso a lei nao fosse ab-rogada. O cotidiano paquistanense
"The Dawn", aos 11/05 noticiou que a policía usara gas lacrimogénio para

467
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

dispersar uma assembléia de 500 jovens que haviam atacado o bairro


cristáo, no centro de Faisalabad; saquearam lojas comerciáis e residen
cias, aproveitando o fato de que muitos dos 6000 membros da regiao
estavam ausentes para participar dos funerais do Bispo.

Calorosos protestos ainda foram levantados posteriormente por


cristáos do Paquistáo; milhares de pessoas assediaram o tribunal que
condenou Ayub Massih; outros muitos, provenientes de diversos pontos
do país, enfrentaram uma chuva incessante, efetuando a marcha até a
aldeia de Khuspur, onde Mons. John Joseph nascera 66 anos atrás.

Um primo do jovem Ayub, o Sr. Akram Grill, declarou em nome de


toda a sua familia, que, "se a condenacáo for executada, nos, os familia
res, já decidimos matar-nos um após o outro; o sacrificio do Bispo nos
motivou para lutarmos pelos nossos direitos".

A imprensa no Brasil noticiou que a Corte Paquistanense de Lahore


suspendeu a condenacáo á morte de Ayub Massih, a fim de examinar a
possibilidade de um recurso por parte de Massih. De acordó com a agen
cia católica Cwnews, atualmente sao 26 os cristáos detidos por terem
participado das manifestacdes lideradas por Mons John Joseph a favor
da abolicáo da lei da blasfemia e contra a condenacáo de Massih.

Pergunta-se agora:

4. Que pensar?

Comentando o gesto do falecido Bispo, o Arcebispo de Lahore,


Mons. Emmanuel Yousuf Maní, declarou: "Nao o devemos considerar um
suicida, pois o Bispo John Joseph sacrificou a sua vida, batendo-se con
tra a injustica". Semelhante observacáo foi feita pelos Bispos do Paquis
táo que participaram, em Roma, do Sínodo para a Asia: havia tempos
que ele decidirá oferecer a sua vida em prol da abolicáo da lei repetida
mente manipulada contra minorías inocentes.

Em suma, só Deus vé o íntimo dos seres humanos. É de crer que


Mons. John Joseph julgasse ser dever de consciéncia protestar contra a
injustica infligindo a morte a si mesmo. Deve ter estado tranquilo em seu
modo pessoal de encarar a situacio, pois cometeu um suicidio bem pre
meditado e seguro de que o devia fazer. Deus o tenha em sua santa paz!

Objetivamente falando, porém, nao é lícito a alguém tirar a própria


vida (nem com pistola nem mediante greve de fome) á guisa de protesto,
que costuma ter pouca eficacia.

Uma coisa é entrar em guerra ou em revolucáo armada e outra


coisa é tirar voluntariamente a sua própria vida. Quem entra numa revo-

468
O PROTESTO DE UM BISPO 37

lugao armada, certamente corre um risco de vida, mas nao está extin-
guindo necessariamente a própria vida; correr risco por urna causa nobre
é lícito; veja-se o principio da causa com duplo efeito'. Seja enfatizado
que correr risco de vida nao é a mesma coisa que extinguir a própria vida
de maneira consciente e voluntaria.

1 Imaginemos urna causa que produza duplo efeito: um bom e outro mau. No caso
que estamos considerando, entrar em guerra implica dois efeitos: a possivel extin-
gáo de urna injustiga (coisa boa) e o perigo de vida para o guerreiro (coisa má). É
lícito acionar tal causa, contanto que se preencham as seguintes condicóes:
1) O ato (ou a causa) como tal seja bom ou moralmente indiferente. Nunca é licito
cometer o mal (mentir, adulterar, roubar..) mesmo que tal ato seja portador de efeitos
salutares; cf. Rm 3,8. Ora o suicidio como tal é um ato moralmente mau.
2) O efeito bom deve decorrer ¡mediatamente do ato, e nao após o efeito mau;
este deve ser secundario em relacáo áquele. Isto quer dizer, porexemplo, que, para
salvar a honra de urna jovem solteira, nao é licito cometer o aborto.
3) A finalidade de quem assim age, deve ser honesta. Com outras palavras: a
pessoa deve intencionar diretamente o efeito bom e apenas tolerar o efeito mau
como algo nao desojado, mas inseparável do efeito bom.
4) Haja motivo proporcionalmente grave para permitir o efeito mau. Isto quer
dizer que o efeito bom deve ser vultoso e importante, de modo a compensar o efeito
mau.

5) Nao haja outro recurso para obter o efeito bom senáo o da causa com duplo
efeito.
Ora nada disto acontece quando alguém póe fim diretamente á própria vida para
obter um hipotético efeito bom.

Hipnose. Considera?des Atuais, por Antonio Carlos de Moraes


Passos e Isabel Cristina Labate Marcondes. - Ed. Ateneu, 0800-267753
Sao Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, 160x230mm, 159pp.

Tem-se aqui a obra de dois abalizados mestres, seguros em sua


doutrina: em dezesseis capítulos abordam a historia da hipnose, suas
teorías, a metodología, as aplicacóes clínicas e psicoterapéuticas, assim
como as contra-indicagóes e o mau uso da hipnose porparte de leigos no
assunto. Capítulos especiáis explanam minuciosamente as técnicas e as
indicacóes da hipnose em Pediatría, Ginecología e Odontología. Tratase
de um trabalho de vulto, que vem preenchera grande lacuna existente na
literatura nacional sobre hipnose; tomase, pois, obra muito útil e oportu
na.

469
Ecos da Copa do Mundo e outros:

PROFECÍAS, ADIVINHAQÁO E
REALIDADE HISTÓRICA

Em síntese: A disputa da Copa do Mundo em junho-julho pp. deu


ensejo a varías previsóes da parte de adivinhos... Os tatos históricos
subseqüentes demonstraran) o vazio de tais e de outras predigóes.

Quem percorre a imprensa, tem a ocasiáo de averiguar como os


presságios dé adivinhos sao desmentidos pela historia. Dentre outros,
sejam citados os seguintes.

1. Romário e a Copa

Aos 29/05/98 o jornal O DÍA, p. 1 noticiava:

«Máe se opera para salvar Romário

Dona Lita, máe de Romário, se submeteu a urna cirurgia espiritual


com o médium JandyrMotta, em Caxias, para curara contusáo do filho.

'Romano está curado e vaijogara Copa'. O diagnóstico do médium


Jandyr Motta nao é o mesmo da comissáo técnica da Selegáo. Zagallo,
Zico e o Dr. Lidio Toledo nao se entendem sobre o destino do Baixinho».

Mas Romário nao jogou a Copa.

2. Cantor Leandro e Dr. Fritz

Aos 5/08/98 o jornal O DÍA, p. 2 noticiava:

"A partir de hoje o cantor Leandro comega a fazer tratamento á


distancia com o Dr. Fritz. Pessoa ligada á produgáo do artista irá, na
parte da tarde, ao galpao onde o médium Rubem de Farias Jr. atende, no
bairro do Ipiranga, em Sao Paulo, capital, para pegar os paninhos bran-
cos usados na cura espiritual.

O médium informou que fora procurado por Leandro antes da via-


gem do cantor aos EUA. 'Dr. Fritz aconselhou que ele fizesse os exames
e prometeu que iría ajudá-lo no tratamento', contou Rubem, que é forma
do em engenharía de telecomunicagóes pelo Instituto Militar de Enge-
nharia (IME). O médium, porém, nao pode afirmar que o espirito do cirur-

470
profecías, adivinhacáo e realidade histórica 39

giáo irá curar o cantor. 'O caso de Leandro é grave. Mas, Dr. Fritz prome-
teu que iría ajudar'.

Milhares de pessoas participam do tratamento á distancia ministra


do por Dr. Fritz. Pacientes sao orientados a colocar o paninho branco
sobre o local da doenga e orar. Isso ocorre diariamente entre 21h e 21h30,
quando os doentes e pessoas ligadas ao médium fazem uma mentaiizacao
que tem provocado excelentes resultados, segundo a mulherdo médium,
Rita Costa, responsável pela administragáo dos hospitais do Rio e de
Sao Paulo: 'Recebemos muitas cartas atestando a cura e em diversas as
pessoas devolvem os paninhos, como prova de afeto e respeito pelo Dr.
Fritz', concluiu".

E á p. 2 de 6/06/98 o mesmo jornal acrescentou:

«Leandro já se trata com Doutor Fritz

O cantor já está fazendo o tratamento á distancia com o Dr. Fritz.


Na tarde de quinta-feira, uma pessoa da produgáo do artista esteve no
galpáo do bairro do Ipiranga, na capital paulista, onde o médium Rubem
de Farias Jr. também atende á clientela do médico alemáo, para pegar
os paninhos brancos usados na cura. Os panos sao colocados sobre o
local da doenga, entre 21h e 21h30, quando doentes espalhados por
todo o país rezam e fazem mentalizagáo, formando uma corrente de
energizagáo.

Perguntado sobre as chances de o cantor vencer o cáncer, Dr. Fritz,


incorporado no médium, respondeu que sao grandes. 'Ele tem muita fé e
demonstra uma incansável luta pela vida. E isso, certamente, aínda o
levará a muitos lugares', afirmou. Dr. Fritz mais uma vez prontificou-se a
ajudar Leandro: 'Estarei a sua disposigao, quando ele puder me procu
rar', concluiu, enquanto o cantor entrava no segundo dia de uma nova
batería de quimioterapia».

Leandro, porém, foi chamado a Casa do Pai. Pedimos ao Senhor


que o receba em sua santa paz.

3. O Babalorixá falou...

Ainda O DIA, aos 25/05/98, p. 18 escreveu:

"Segundo o babalorixá Paulo Guerreiro de Oxalá, Taffarel e Júnior


Baiano fícaráo de fora de alguns jogos devido a contusoes em campo,
enquanto que Edmundo e Ronaldinho 'seráo perseguidos por energías
negativas'. O animal levará a pior: será expulso em um dos jogos. Os
búzios de Paulo ainda orientam Zagallo a inclinar os ouvidos para o coor
denador técnico da selegáo. 'Zico está com boas intuigdes', aponta".

471
40 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

Na verdade, Taffarel e Júnior Baiano nao ficaram fora de alguns


jogos.

4. Oracóes e Copa

Na mesma edicáo e página, o jornal O DÍA informou:

«Reza brasileira na Copa da Franca

Biblias, patuás, santinhos, oragóes. A selegáo brasileira vai mos


trar na Franga que futebol nao é somente urna caixinha de surpresas. É
também um pacote de crengas. Dos jogadores á comissáo técnica, há
quem diga que a selegáo do Zagallo vai precisar mais do que de futebol
para conquistar o penta. Quando os jogadores pisarem o gramado, vale
tudo: entrar com o pé direito, ajoelhar no campo e orar, recitar trechos
bíblicos ou fazer figa. Alguns atletas levaram sua mandinga na bagagem.

Sao Ronaldinho, venerado pelos italianos, buscou sua béngáo no


Vaticano. Entra em campo com o dom de fazer gols e a camisa nove
abengoada pelo Papa Joáo Paulo II. Promete usar a mesma camisa em
todas as partidas. Já o zagueiro Júnior Baiano prefere crer que santo de
casa faz milagre. Apelou, nos terreiros da Bahia, as gragas do Senhordo
Bonfim e á reza forte da benzedeira tía Quinha. 'Nao costumo fazer isso
com freqüéncia, mas as coisas andam meio esquisitas na Selegáo', con-
fessou.

A superstigáo está na zaga. Gongalves nao sai de casa sem terna


carteira de dinheiro a imagem de Nossa Senhora Aparecida e urna nota
de um dólar. 'Épara darsorte', ensina ojogador, que só entra em campo
com o pé direito. Quando o assunto é Biblia, Taffarel langa para César
Sampaio que faz tabelinha com Giovanni. Atletas de Cristo, os tres se
revezam em estudos bíblicos. 'Sempre oro pedindo a Deus equilibrio
emocional para a equipe', proclama César Sampaio, queja valiendo as '
Escrituras no aviáo. 'Tenho pavor á turbulencia', entregase».

Estes textos atestam que o senso religioso está muito vivo no Bra
sil (e no mundo... por que nao o dizer?), mas é mais emotivo e fantasioso
do que racional ou orientado pela inteligencia. Na verdade, a fé é um ato
da inteligencia movida pela vontade ou é um ato das mais nobres facul-
dades do homem, lúcido e nao cegó. Estudar as verdades da fé é urna
das mais sublimes atividades que a pessoa humana possa exercer.

A experiencia vai ensinando quanto é inútil consultar advinhos e


necromantes. Á guisa de complemento ver pp. 478-480 deste fascículo.

472
"A FOLHA UNIVERSAL":

"AS DUAS BABILONIAS"


por Mary Schultze

Em síntese: Ojornal "A Folha Universal" continua agredindo a Igreja


Católica com invectivas falsas e caluniosas. A escritora Mary Schultze no
artigo "As Duas Babilonias"afirma gratuitamente ou sem provas nem fun
damento que a Igreja Católica assumiu concepgoes e práticas da religiáo
babilónica, que cultuava o Sol, a Lúa, as estrelas... O despropósito de
tais alegagóes depóe contra a honestidade científica da autora, que co
mete erros diversos em virtude de sua intengáo preconcebida de destruir
(caso fosse possfvel) a Igreja Católica.
* * *

A Sra. Mary Schultze, apresentada como pesquisadora de religiáo,


costuma escrever no jornal "A Folha Universal" atacando a Igreja Católi
ca com alegagóes levianas ou mesmo falsas. Os fiéis católicos, impres-
sionados por tais invectivas, pedem-nos explicacóes. Vamos, pois, con
siderar um dos mais veementes e caluniosos artigos da escritora intitulado
"As duas Babilonias".

De ponta-a-ponta os dizeres da Sra. Schultze sao preconceituosos,


de modo que urna refutacáo de tudo quanto é alegado exigiría muitas
páginas. Daí limitarmo-nos a alguns tópicos mais salientes.

1. A Tese Central

Eis o que escreve M. Schultze explicando o título do seu artigo:

"Alexander Histop descobriu todos os detalhes da ligagáo do Cris


tianismo romano com a antiga Babilonia paga, o bergo do ocultismo. Lá
na capital da Torre de Babel, Ninrode e sua máe/amante Semíramis inici-
aram as religióes de misterios, que se voltavam contra o Criador, adoran
do as coisas criadas, como o Sol, a Lúa, as estrelas, os minerais, os
animáis, os pássaros, os insetos e as plantas, prática condenada na Biblia".

Que dizer?

1) Nunca um historiador conceituado derivaría da Babilonia^) Cato


licismo. E isto por varios motivos:

- o imperio babilónico caiu em outubro de 539 a.C. sob os golpes


do rei Ciro da Pérsia, que dominou a regiáo até 331 a.C., quando Alexan-

473
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

dre Magno da Macedónia venceu os persas e passou a governar a


Babilonia. O imperio de Aiexandre se esfacelou em 323 a. C, quando a
Babilonia ou a Mesopotámia foi entregue a um general (diádochos) do fale-
cido Aiexandre. Nos tempos iniciáis do Cristianismo, a reiigiáo e a civilizacao
da Babilonia haviam sido recobertas e absorvidas por outras culturas.

- Os crístios eram ciosos da sua identidade e nao toleravam qual-


quer concessao ao paganismo, a ponto de sofrerem o martirio para nao
trair a sua fé.

2) O ocultismo e a idolatría nao tiveram origem na Babilonia. Sao


expressoes religiosas dos mais antigos tempos da humanidade. Os egip
cios eram cultores do Sol (Ra) antes dos Babilonios.

3) As religióes de misterios sao posteriores a queda da Babilonia;


tiveram inicio no imperio greco-romano no século I a.C. Cultuavam Mitra,
Cibele, Atis, Baco...; nao tinham que ver com Nemrod e Semíramis.
Nemrod, alias, é figura lendária, que vem mencionada em Gn 10,8-11
como fundador de um reino na Mesopotámia e cacador valente.

Quanto a Semíramis, é também rainha lendária, viúva de Nemrod


(ou Niños), portanto nao máe nem amante. Foi regente do reino da
Babilonia em lugar do seu filho, conforme a lenda. Nao se vé por que M.
Schultze associa essas figuras mitológicas babilónicas ao Cristianismo,
pois nem o judaismo (que as conheceu de mais perto e era propenso a
adotar deuses pagaos; cf. 2Rs 21,1-26) as assimilou.

2. Tópicos particulares

1) Escreve M. Schultze:

"A Madona da reiigiáo crista romana, que téve varios nomes desde
Semíramis até Diana, é urna das muitas idéias importadas e aproveita-
das da reiigiáo de misterios da Babilonia".

Tal afirmacáo é totalmente gratuita ou destituida de fundamento. A


autora nao cita urna fonte ou um documento que comprove a sua alega-
cáo. Diz, pois, o adagio latino: "Quod gratis asseritur, gratis negatur -
O que é afirmado gratuitamente, é gratuitamente negado". Na verdade,
nao se encontra um testemunho antigo que atribua á Máe de Jesús os
nomes de Semíramis e Diana.

A devocáo a Maria SS. é fundamentada na própria Escritura Sa


grada e nao em ámbito pagáo. Tenham-se em vista os seguintes textos:

Le 1,48: "Bem-aventurada me chamaráo todas as geracóes".

Le 1,43: "Donde me vem que a máe do meu Senhor (Ktfrios) me


visite?". A palavra Senhor traduz o grego Kyrios, que, por sua vez, tra-

474
"AS DUAS BABILONIAS" 43

duz o hebraico lahweh. Donde se deduz o título "Máe de Deus"


(Theotókos), já encontrado em urna oracáo do século III.

Jo 2,3-11: María, por sua intercessáo, obtém o primeiro milagre de


Jesús, promovendo, de certo modo, a antecipacáo da "hora do Senhor
Jesús".

Jo 19, 25-27: Jesús entrega Joáo, representante da humanidade,


a María, apresentando-o como filho, e vice-versa. María assim se torna
Máe de todos os homens e continua seu papel de intercessora qualifica-
da através dos séculos, papel iniciado em Cana da Galiléia.

Gn 3,15: A mulher cuja descendencia esmaga a cabeca da ser-


pente, é, de ¡mediato, Eva, a única mulher presente á cena do proto-
Evangelho. Essa mulher Eva (= Máe da Vida) se torna plena em María
SSma., que é por excelencia a Máe da Vida. Desde cedo ou desde o
século II María foi tida como a nova Eva ou aquela que resgatou o papel
da primeira Eva; cumpriu a vontade do Pai, que a primeira Eva se recu-
sou a cumprir.

Rm 8, 29: Fomos predestinados a ser conformes á imagem do


Primogénito. Ora em Jesús havia dois sentimentos predominantes: o amor
ao Pai, que o enviara (cf. Jo 5,37; 6,38s; 14, 24...), e o amor á sua Máe,
de quem recebera tudo o que nele havia de humano. Em conseqüéncia,
todo cristáo há de nutrir em si os mesmos afetos: o amor a Deus Pai, ao
qual vamos por Cristo no Espirito Santo (cf. Ef 2,18), e o amor a María.
Se o cristáo é chamado a ser configurado a Cristo, ele será para María
um outro Jesús. Assim a devocáo a María nao desvia do Cristocentrismo
a piedade crista; o cristáo é um outro Cristo, e, por isto, filho devoto de
María, como Jesús foi devoto filho de sua Máe SSma.

2) Mais adiante escreve Mary Schultze:

"No Egito, o deus Sol (Osiris) era adorado na forma de um biscoito


redondo. Os membros da religiáo egipcia comiam o seu deus para dele
colherem a forga e a luz. Dafa orígem do 'deus hostia' do catolicismo".

A autora, que, como protestante, deveria conhecer bem a Biblia,


parece ignorar os textos do Evangelho em que Jesús afirma:

"Eu sou o pao da vida... Eu sou o pao vivo descido do céu. Quem
comer desse pao, vivera eternamente. O pao que eu darei, é a minha
carne para a vida do mundo" (Jo 6, 48.51).

Será que Jesús plagiou da religiáo egipcia os seus dizeres? Veja


se ainda:

"Em verdade, em verdade eu vos digo: se nao comerdes a carne

475
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

do Filho do Homem e nao beberdes o seu sangue, nao tereis a vida em


vos... A minha carne é verdadeiramente urna comida e o meu sangue é
verdaderamente urna bebida" (Jo 6, 53.55).

Outros textos poderiam ser citados para fundamentar a Comunháo


Eucarística.

De resto, se Jesús está realmente presente sob as aparéncias do


pao e do vinho (como afirma o Evangelho), é lógico que os fiéis O ado-
rem na qualidade de Deus e homem feito sacramento da vida eterna.

3) Lé-se aínda:

"Até as iniciáis HIS foram copiadas do paganismo, pois o significa


do délas é ¡sis, Horus, Set, tres deuses que vinham logo abaixo do deus
Sol. O catolicismo adaptou essa sigla dizendo que o significado é 'Jesús
Homem Santo'".

A autora está longe da verdade, pois as tres letras citadas sao do


alfabeto grego e nao do latino: o H é o E longo (eta) dos gregos, de modo
que a transliteracáo deve ser ÍES, as tres iniciáis do nome grego IESOYS
(JESÚS).

4) Mais:

"A Religiáo de Ninrode e Semframis se espalhou pelo mundo intei-


ro, quando os povos foram dispersos na confusáo das línguas".

Na verdade, o episodio da torre de Babel, que resultou na disper-


sao dos respectivos construtores, é um quadro da pré-história bíblica ou
de época imemorável: o próprio nome Babel atribuido pelo autor sagra
do ao lugar da torre nao indica necessariamente a Mesopotámia; o autor
sagrado deriva Babel da raíz bil (= confundir), quando Babel vem de
bab-ílani (= Porta dos deuses). O episodio da torre de Babel nao tem
que ver com Nemrod e Semframis. Nem se pode dizer que a dispersáo
dos povos mencionada em Gn 11,8s deu ocasiáo á difusáo da religiáo
paga de Nemrod e Semíramis. A autora se perde num grave anacronis
mo, pois o reino da Babilonia, ainda que tivesse sido fundado por Nemrod
(figura mitológica), é oriundo do século XIX a.C, ao passo que o episodio
da torre de Babel Ihe é anterior.

Na verdade, o fundador do reino da Babilonia foi o amorita Sumu-


Abu, que soube espertamente aproveitar a rivalidade entre as cidades-
estados acádicas Larsa e Isin e, por causa da divisáo de seus adversari
os, soube impor-lhes a supremacía da cidade de Bab-ilani (Babel) por
volta de 1830 a.C. O sexto rei da dinastía é o célebre Hamurabi (1728-
1686), que criou um Estado bem organizado e é conhecido principalmen
te por seu código de leis.

476
"AS DUAS BABILONIAS" 45

5) Ainda:

"Como o imperador Constantino (que foi realmente o primeiro papa


do catolicismo) era um monarca pagáo ocultista, adorador do deus Sol,
essas aberragóes comegaram a penetrar na Igreja crista e daf vieram
todas as aberragoes que existem nesse sistema religioso".

A propósito observamos:

O Papado foi instituido por Jesús Cristo, que confiou o primado a


Pedro, conforme textos que nenhum auténtico estudioso da Biblia (nem
a Sra. Mary Schultze) pode ignorar: Mt 16,13-19; Le 22, 31 s; Jo 21,15-
17. Tais textos já foram amplamente comentados em PR 436/1998, pp.
424-429.

Á vista destes textos, é falso e injurioso dizer que um Imperador


pagáo foi o primeiro Papa. Constantino (306-337) foi-se convertendo
paulatinamente ao Cristianismo após cultuar Apolo-Sol numa especie de
monoteísmo sincretista; depois da Vitoria sobre Maxéncio em 312, sobre
a ponte Mílvio, colocou-se francamente a sen/ico dos cristáos, embora
só tenha sido batizado no leito de morte.

Constantino nao foi ocultista. Mary Schultze faz uso indevido desta
palavra, a qual significa um sistema de doutrinas e práticas reveladas
únicamente a iniciados privilegiados; tal nao foi o caso de Constantino.

Em suma, tem-se a impressio de que, se Mary Schultze (e seus


colegas) lessem a Biblia mais atentamente e sem preconceitos, nao diri-
am os despropósitos que vém afirmando ñas páginas do infeliz jornal "A
Folha Universal". O cristáo ama a verdade sem preconceitos. Quem se
furta preconcebidamente á verdade, furta-se á luz e torna-se filho das
trevas.

Entra! pela Porta Estreita, por Felipe Aqulno. - Ed. Cléofas, Cai-
xa postal 100, Lorena (SP) 12600-970, 135x210mm, 199pp.

Este livro trata das questdes mais candentes dos nossos días, como
aborto, esterilizagáo de homens e mulheres, eutanasia, suicidio, divor
cio, camisinha, pena de morte, invasóes de térras, religióes alternativas,
seitas, bebés de proveta, liberdade sexual..., propondo em termos bre
ves e claros o pensamento da Igreja a respeito. A orientagáo é sólida e
devidamente documentada.

O mesmo autor na mesma editora publicou outros livros de doutri-


na católica muito valiosos, dentre os quais seja destacado o que tem por
título "A minha Igreja"; parafraseia a assergáo de Paulo VI: "Quem nao
ama a Igreja, nao ama Cristo".

AJ7
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

CORRESPONDENCIA MIÚDA

NECROMANCIA E CONTAMINApÁO

"Sei que nao há contaminagáo espiritual (virus ou bacterias espiri-


tuais). Entáo como entenderá contaminagáo a que se refere Lv 19,31:

'Nao vos voltareis para os necromantes nem consultareis os adivi-


nhos, pois eles vos contaminariam. Eu sou o Senhor vosso Deus'?

Há quem interprete esse texto como ameaga de urna certa opres-


sáo do Maligno que afasta a pessoa da fé, causando-lhe tibieza, acedía...
É esta urna questáo que merece análise (F. A.)".
Meu caro amigo, realmente nao existe contaminacáo espiritual.
Nenhum objeto é portador de desgraca ou infelicidade. Sería supersticáo
crer que isto possa ocorrer. Nao há virus ou bacterias espirituais.

O texto de Lv 19,31 se coloca no conjunto do que se chama "impu


reza ritual". Esta era, no Antigo Testamento, algo que tornava a pessoa
inepta ou inadequada para o culto divino, sem que por isto houvesse
pecado. A impureza ritual dizia respeito apenas ao foro externo ou jurídi
co e nao ao foro interno ou da consciéncia. - É assaz ampio o catálogo
dos elementos que produzem impureza ritual entre os antigos judeus.
Provinha do contato com

- doenca (lepra): Lv 13-14; 2Rs 7,3;

- imundícies (excrementos): Dt 23,13-15;

- cadáveres: Nm 19,11-14; 2Rs 23,12s;

- alimentos tidos como impuros (porco) ou animáis impuros (lagar


to, rato...): Lv 11,1-47.

Eram motivo de impureza ritual também certos fenómenos fisioló


gicos, como fluxo de sangue, ejaculacao, menstruacáo, parto... Ver Lv
12,1-8; 15,1-30.

A raiz da suposicao de que esses elementos tornavam a pessoa


ritualmente impura, era dupla:

- preocupado com a higiene. Pode-se admitir que certos pre-


ceitos de ordem médica, na antigüidade, eram levados ao foro da religiáo
para receberem a cháncela e a sancáo dos preceitos religiosos;

- protecao contra o paganismo. Com efeito; os pagaos comiam

478
NECROMANCIA E CONTAMINAQÁO 47

carne de porco e ofereciam em seu culto sangue de porco; cf. Is 66,3. Daí
o reforco da proibicáo de carne de porco, tido como animal, como tal,
impuro. Israel acreditava que a térra de Canaa estava poluída pela pre-
senca de seus habitantes pagaos; por isto os despojos de guerra eram
condenados ao anatema; cf. Js 6,24-26; os frutos da térra foram proibi-
dos ao povo de Israel nos tres primeiros anos de sua estada em Canaá;
cf. Lv 19,23-25:

"Quando tiverdes entrado na térra e tiverdes plantado alguma ár-


vore frutífera, considerareis os seus frutos como se fossem o seu prepucio.
Durante tres anos seráo para vos como coisa incircuncisa e nao se co
merá deles.

No quarto ano, todos os frutos seráo sagrados em urna festa de


louvor ao Senhor. No quinto ano podereis comer os seus frutos e reco-
Iher vos mesmos o seu produto. Eu sou o Senhor vosso Deus".

Como motivo especial para se julgar que certas funcóes fisiológi


cas tomavam a pessoa impura, podem-se apontar: a) o abuso que da
sexualidade faziam os pagaos na prostituicáo sagrada e em suas orgias,
e b) a consciéncia de que as funcóes genitais sao sagradas ou tocam o
dominio do divino. O sagrado parecía estar repleto de urna forca temível;
cf. 2Sm 6,6-8; Ex 25,15; Nm 4,5.15.20.

Para livrar-se das impurezas rituais, era necessário lavar o corpo


ou as vestes:

Toda pessoa, cidadáo ou estrangeiro, que comer um animal morto


ou dilacerado, deverá lavar suas vestes e banhar-se com agua; ficará
impuro até a tarde, e depois ficará puro. Mas, se ele nao as lavar e nao
banhar seu corpo, levará o peso de sua falta" (Lv 17,15s).

A impureza ritual era apagada também pela oferta de sacrificios


expiatorios; cf. Lv 12,6s:

"Quando a mulher tiver cumplido o período de sua purificagáo, seja


por um menino, seja por urna menina, levará ao sacerdote, a entrada da
Tenda da Reuniáo, um cordeiro de um ano para holocausto e um pombi-
nho ou urna rola em sacrificio pelo pecado. O sacerdote os oferecerá
diante do Senhor; realizará por ela o rito da expiagáo e ela ficará purificada
do seu fluxo de sangue".

Como se vé, a nocáo de impureza ritual, no Antigo Testamento, é


complexa; explica-se pela conjugacáo de diversos fatores, todos ligados
á cultura e á mentalidade dos antigos. O Senhor Deus serviu-se dessas
concepcóes para levar seu povo a um ideal superior ou a aproximar-se
da santidade de Deus. No Novo Testamento a mesma meta - imitar a

479
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 437/1998

Deus - continuou sendo proposta; deve, porém, ser atingida por vías
menos rudimentares ou primitivas, ou seja, pela prática do amor aos pro-
prios inimigos (pois nisto é que consiste a mais perfeita ¡mitacáo do com-
portamento do Senhor Deus). Comparem-se entre si dois textos básicos:

Lv 11,43-45 Mt 5,44-48

"Eu sou Santo. "O vosso Pai Celeste é perfeito.

Por feto seréis santos Por feto vos, filhos, seréis perfeitos.

Para tanto nao comeréis Para tanto amareis os vossos

carne de animáis impuros", inimigos".

Como se vé, a mesma tendencia perpassa o Antigo e o Novo Tes


tamento, exprimindo-se em concepcoes ora mais rudes, ora mais eleva
das, de acordó com a compreensáo e a cultura dos respectivos destina
tarios.

Esta explanacáo dá a ver que é gratuita ou sem fundamento a in-


terpretacáo segundo a qual a contaminacáo de Lv 19, 31 vem a ser, no
Novo Testamento, a opressáo do demonio que afasta a pessoa da fé, e
causa tibieza. O demonio existe, sim, e tenta os homens, mas nao se
pode dizer que todo cristáo que consulte um adivinho ou um necromante
está sob a acáo do Maligno nem todo pecado é provocado por tentacáo
diabólica, embora todo pecado, por ser pecado, faca arrefecer o amor e
suscite a tibieza do pecador.

Estévio Bettencourt O.S.B.

Familia "Santuario da Vida", peloProf. Felipe Aquino. Ed. Cléofas,


Caixa postaH00, 12600-000 Lorena (SP), 135x210mm, 199pp.

O Prof. Felipe Aquino tem-se revelado um fecundo e abalizado es


critor sobre temas de espiritualidade. Aborda questóes relativas a fami
lia, a juventude, á Igreja... Acaba de publicar mais um livro, desta vez
sobre Familia como Santuario da Vida, com o subtítulo "Vida Conjugal e
Educagao dos Filhos"; considera o namoro, a harmonía conjugal, a har
monía sexual, o papel dos pais na educagao dos filhos... Por último, ex-
póe os impedimentos que tomam nulo o casamento religioso e oferece
um conjunto de Oragoes pela Familia. É muito rica a documentagáo teo
lógica utilizada pelo autor, que fala nao somente na base de suas pesqui
sas, mas também em fungáo de sua experiencia no campo da familia e
da educagao. - Muito se recomenda tal obra.

480
Y Edifóes "Lumen Christi"

CÜT AB EXCELSIS é um CD de música sacra interpretada por D. Félix


Ferrá, osb, contendo arranjos instrumentáis de quatorze composicóes de
Palestrina e Lassus, os dois maiores músicos católicos de todos os tem-
pos R$ 12,00.

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Urna visita á igreja do Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro, guiada por Dom Marcos
Barbosa, OSB ao som dos sinos, do órgáo e das vozes de seus monges em canto
gregoriano.
Quatrocentos anos de trabalho e louvor em 20 minutos, frutos da paz e paciencia beneditina.
Roteiro e locugáo: Dom Marcos Barbosa, OSB.
Produgáo: Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro

ALGUNS LIVROS DE DOM ESTÉVÁO, DISPONÍVEIS EM NOSSA LIVRARIA:


- CRENQAS, RELIGIÓES & SEITAS: QUEM SAO? Um livro indispensável para a familia
católica. (Coletánea de artigos publicados na revista "O Mensageiro de Santo Antonio")
2a edicáo. 165 págs. 1997 R$ 7,00.
- CATÓLICOS PERGUNTAM. Coletánea de artigos publicados na secáo de cartas da
revista "O Mensageiro de Santo Antonio". 1997. 165 págs R$ 7,00.
- PÁGINAS DIFÍCEIS DO EVANGELHO. (O livro oferece-nos um subsidio seguro para
esclarecer as dúvidas mais freqüentes que se levantam ao leitor de boa vontade, trazen-
do-nos criterios claros e levando-nos a compreender que todas as palavras de Cristo sao
de aplicacáo perene e universal), 2a edigáo. 1993, 47 págs R$ 5,00.
- COLETÁNEA - Tomo I - Obra organizada por Dom Emanuel de Almeida, OSB e Dom
Matías de Medeiros, OSB. Publicagáo da Escola Teológica da Congregagáo Beneditina
do Brasil. Esta obra foi feita em homenagem a Dom Estéváo. Além do esbogo bio-
bibliográfico de Dom Estéváo, encontram-se artigos de amigos e admiradores de Dom
Estéváo. Sao professores da Escola Teológica, do Pontificio Ateneu de Santo Anselmo
em Roma, que ministraram varios cursos nesta e outros que o estimam. Sumario: His
toria, Bíblica, Histérico-Dogmática, Dogmática, Canónica, Litúrgica, Pedagógica, Litera
ria e Noticias Biográficas. 1990. 315 págs R$ 14,50.
- DIÁLOGO ECUMÉNICO, TEMAS CONTROVERTIDOS. Seu autor, D. Estéváo
Bettencourt, considera os principáis pontos da clássica controversia entre católicos e
protestantes, procurando mostrar que a discussáo no plano teológico perdeu muito de
sua razáo de ser, pois, nao raro, versa mais sobre palavras do que sobre conceitos ou
proposigoes. 3a edigáo. 1989, 380 págs R$ 18,40.
Pedidos pelo Reembolso Postal ou pagamento conforme 2a capa.

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RENOVACÁOOU NOVA ASSINATURA 1998: R$ 30,00.


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Encadernado em percalina, 590 págs. com índice
(Número limitado de exemplares) R$ 50,00.
NOVI DA D E

Dom BENTO SILVA SANTOS, O.S.B.

A imortalidade da alma no "Fédón" de Platáo. Porto Alegre,


EDIPUCRS (em preparacáo).

Trata-se de um estudo sobre a dimensáo místico-ascética de Platáo, isto é, acerca


da conviccáo da existencia de urna vida para além da morte. "Na morte de Sócrates,
homem justo, Platáo deixa entrever ao leitor um lampejo de ¡mortalidade e simultanea-
mente a sua concep?áo radical da filosofía como 'exercício de morte' (...) Mesmo que
seja afirmada através de raciocinios inseguros e limitados, a imortalidade da alma tra-
duz na obra de Platáo urna ansia profunda de busca de explicacoes acerca do problema
existencial humano de todos os tempos: com a morte termina tudo ou há urna vida para
além da dissolucáo do corpo?" (Conclusáo do livro).

Outros livros de Dom Bento Silva Santos, O.S.B.:

- Teología do Evangelho de Sao Joño, Aparecida(SP), Ed. .Santuario, 1994,


421 págs.. „.. RS 28,80.

"Devoparabenizá-lo pelo éxito neste emprendimento. Estou ceño de que sua teolo
gía joanina será um instrumento muito útil para o estudo de Sao Joao tanto nos semina
rios e cursos superiores de teología quanto em cursos de teología para leigos" (Padre
Jaldemir Vitório, S. J., Carta, 3.07.1995).

- Fe e Sacramentos no Evangelho de Sao Joao. Aparecida (SP), Ed.Santua


rio, 1995,134 págs. R$ 12,50.

"Os escritos de Dom Bento demonstram urna ampia e bem organizada leitura das
obras importantes para os estudos que vem fazendo. A questao que o presente volume
estuda é o da reiacáo entre fé e sacramentos. 'A salvacao provém de urna confianza
subjetiva (sola fides) ou de urna mediacáo sacramental?'" (Padre Paschoal Rangel,
S.D.N., Atualizagáo 256 [1995] 382).

-A experiencia de Deus no Antigo Testamento. Aparecida (SP), Ed..Santua


rio, 1996,144 págs .........R$9,00.

"Este livro dá continuidade a duas obras precedentes do autor, que versam sobre os
escritos joaninos, adotando sempre a mesma metódica: explanar o sentido religioso ou
teológico do texto sagrado... explanacáo esta que deve ser o ponto de partida da exegese
católica. Exorta o Concilio Vaticano II: 'A Sagrada Escritura há de serlida e interpretada
segundo aquele mesmo Espirito por quemfoi escrita'(Const DeiVerbum, na 12)" (Dom
Estévao Bettencourt, O.S.B., Apresentacáoda obra).

Pedidos pelo Reembolso Postal ou pagamento conforme 2- capa.