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COGNIÇÃO ESTÉTICA

0 complexo de Dante

Marcos H. Camargo

 

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação -

 

CIP

C172

Camargo, Marcos H.

 

Cognição estética:

o complexo de Dante.

I

Marcos

I

I.

Camargo. -

São Paulo: Annablume,

2013.

 

324 p.;

14x21 em

ISBN 97R-85-391-0501-4

 

1.

Filosofia.

2.

Estética.

3.

Semiótica.

4.

Comunicação.

5.

:'vlídia.

I.

Titulo.

 
 

CDU

130.22

CDD

149

Catalogação elaborada por Ruth Simão Paul ino

CoGNIÇÃo

EsTÉTICA:

U COMPLEXO

DE

E

DA;-;;~

Proj('to,

Produçúo

t'

CJ.pa

Col<·tivo

Cráficu Annablume

I

mag~m

ri11

capa

hnogr.d1.l de Arn.t!du dl:'

~1do

Conselho Editorial

Eduardo Peimcla CaftiJ.al

Norval

Baitdlo junior

Maria OJila Leite da Silva Dias

Cdia Maria

~hrinho

de Azevedo

Gusravo Bernardo Krausc

~1aria

de

LourJcs

Sekdf

(in

memoriam)

Pedro

Roberto Jacobi

Lucrécia D'Ales.sio Ferrara

la

ediçáo:

janeiro de

2013

©

Marcos

H. Camargo

ANNABLUME editora. comunicação

Tel.

Rua

05~10-021

M.M.D.C., 217. . São Paulo.

Buunrã

SP.

Brasil

e Fax.

(011)

3539-0226- Televendas 3539-0225

www.annablume.com.br

O caminho claro parece escuro. O caminho progressivo parece retrógrado. O caminho plano parece escabroso.

A virtude superior parece um vale.

A grande candura parece 'Vergonha.

A virtude larga parece avara.

A virtudefirme parecejitgaz.

A virtude sólida parece carcomida.

Ogrande quadrado não tem cantos. O grande talento é tardio.

A grande música dilui o som. A grande imagem não temfigura.

LaoTse

Sumário

INTRODUÇÃO

 

9

1.

0

TRIUNFO

DO

LOGOS

 

E

O

EXÍLIO

DA

AISTHESIS

15

2. DIABOLOS

IN

TERRA:

O

RETORNO

DA

AISTHESIS

63

3. COMPLEXO

0

DE

DANTE

 

93

4.

Ü

CONHECIMENTO

ESTÉTICO

 

111

5. UMA TEORIA

PARA

A

COMUNICAÇÃO

ESTÉTICA

141

5.1.

SINAIS

SENSÍVEIS

154

5.2. SINAIS

INCONCEBÍVEIS

174

5.3. INSIGNIFICANTES

SINAIS

 

197

6. DA

EsTÉTICA

PERCEPÇÃO:

UMA

FERRAMENTA

DE

TRABALHO

221

lNCONCLUSÃO

297

REFERÊNCIAS

315

Introdução

A trajetória das reflexões que empreendi por muitos anos praticamente me arrastou para a pesquisa que agora comuni- co por este livro. Mas não é o caso aqui do coroamento de uma longa investigação, senão o seu primeiro resultado teórico, proveniente da defesa de tese de doutoramento em 2010 jun- to ao Instituto de Artes da Unicamp, sob a orientação do Dr. Mauricius Farina. Esta pesquisa trata da multiplicação das mídias do conhe- cimento, a partir do século XIX, e as consequências culturais de sua massificação, especialmente no que conccrne ao campo da estética. O estudo compara as mídias verbais (impressos) c as mídias cineaudiovisuais* c cibernéticas, com a intenção de verificar o peso relativo das mensagens veiculadas por esses meios na constituição da cultura contemporânea. Ao buscar por essas comparações, prontamente coloquei- -me a exigência do estudo das mensagens (textos) constituídas com as diversas linguagens agora veiculadas pelas mídias, ge- rando novos conhecimentos antes impossíveis de serem de- senvolvidos apenas pela escrita verbal. Isso me levou, por via de consequência, a um exame semiótico da cultura produzida

pelas

se afirma entre nós desde fins

letras, em perspectiva com a cultura cineaudiovisual que

da Segunda Grande Guerra.

Ao

proceder aquela visada semiótica sobre

as

linguagens

foi necessário penetrar seus

a

lógica subjacente

ainda restavam muitas coi-

-verbais.

sas não cobertas pelas linguagens, especialmente no âmbito da

som e do movimento, que perfazem a maior parte

das

nas mensagens ci-

neaudiovisuais, não constituem os signos que formam as men- sagens porque fogem da convencionalidade semiótica, embora

nos sejam comunicadas pela sensação que produzem em nossos

estéti-

sentidos

cos', pelo fato de que 'estesia' vincula-se

códigos constituintes, e

tanto

verbais,

como

sondar

os

não-

aos discursos,

Isto

posto, entendi que

imagem, do

mensagens midiáticas.

Certas manifestações, mais abundantes

flsicos.

Chamei

aqueles

fenômenos

de 'sinais

à percepção e sensação.

Os sinais estéticos não chegam a se transformar em signos

de textos porque não se submetem

à lógica dos códigos de ne-

nhuma linguagem. Desse modo, para facilitar a abordagem do

problema, coloquei os sinais estéticos em destaque, em relação

ao

entre os dois. Assim, passei a considerar a 'estética' não mais como

filosofia

como

com a leitura perceptiva dos

los textos

qualquer oposição direta

signo lógico,

porém sem

propor

uma

ou

teoria

campo

da arte,

como

é

comum

se tratar, porém,

ser alcançado

um

de conhecimento que

pode

sinais estéticos emitidos tanto pe-

como

dimensão, coloquei a verbal), em perspec-

a

fato,

(logicidade) e

compõem tantos

da cultura, como pelos fenômenos naturais. E

se

encontram

noutra

(principalmente

percepção. Tais comparações,

das

qualidades lógicas

de que

se

de

os

signos lógicos

com

dão

'lógica' das linguagens

tiva

a 'estética' da

se

pela localização

estéticas

qualidades

os textos

(esteticidade)

da cultura, como os fenômenos naturais.

10

Justifico o esforço desta pesquisa pela necessária análise do

a cultura letrada daí de-

alcance da escritura verbal e de

toda

rivada, em relação

que ambas as culturas produzem e reproduzem conhecimentos

qualitativamente diversos.

atualidade, que vem provocando certa urgência em desenvolver

à cultura cineaudiovisual emergente, de vez

É o embate entre essas culturas, na

uma leitura do mundo pelo viés não-verbal da percepção, posto

em evidência pela onipresença de imagens, sons e movimentos

nos meios de comunicação social do conhecimento.

observação os meios para

circunscrever a leitura lógica do real, explicitando o modo esté-

tico de leitura do

conjunta dos

eficiente de auferir conhecimento.

Esta pesquisa intenta oferecer

à

mundo, para sugerir em

seguida a utilização

mais

dois níveis

de inferência como um método

Não

pense

o leitor que

a comunicação escrita

desta

pes-

quisa foi

a parte

mais

fácil.

A

palavra resiste

muito

à

auto-

-imolação

no exercício de

sua

crítica. Tanto

é assim,

que sua

força subjaz inclusive no

texto deste

livro, demonstrando

que

o

embate

cultural que

se processa

na atualidade

não apenas

alcança os ordenamentos

da ciência c

da filosofia

contempo-

râneas, mas

pensávamos permanentes.

também

coloca

em

questão

valores estéticos que

Para a consecução deste estudo dentro dos objetivos traba-

seis

lhados na pesquisa que lhe

capítulos e sua (in)conclusão.

deu origem, dividi o livro

em

da

Nos primeiros dois capítulos

(1.

O

triunfo do

logos

e o exílio

aisthesis e 2. Diabolos in terra:

o retorno da

aisthesis) expus

a

trajetória do

conhecimento

entre

os ocidentais, historiando

o

surgimento da lógica e o estabelecimento de

sua estreita re-

lação com a linguística, permitindo assim, que a escrita, como

das

consequências cultu-

lógicas gramaticais. Ainda apresentei as

também a elocução verbal,

se

equipassem

com

a melhor

11

rais e psicológicas do emprego maciço da escrita (imprensa). Também comento a imensa influência do que ficou co- nhecido como cultura letrada, nas instituições sociais, políticas e econômicas dos países ocidentais, e entendi que a presença do logocentrismo na ciência, na filosofia, nas artes e no Estado alcançou seu ponto de mptura em meados do século XX, jus- tamente quando começa a emergir de suas entranhas a cultura cineaudiovisual. No terceiro capítulo (3. O complexo de Dante) começo a descrever o advento das mídias cineaudiovisuais e a veiculação de mensagens inicialmente estranhas à cultura letrada, que rea- giu prontamente ao que lhe pareceu uma intromissão indevida no papel do impresso como única mídia do 'verdadeiro' co- nhecimento. :Mas, nessa parte do estudo já examino a rendição da sociedade ocidental à riqueza dos novos conhecimentos e à diversão catártica possibilitada pelas novas mídias, exigindo- -nos uma ginástica reflexiva para incorporar em nossa vida cognitiva a nascente cultura cineaudiovisual. Era chegada a hora de considerar seriamente aquilo que os sérios pensadores classificavam como lL'Co sensorial. Nos três últimos capítulos da pesquisa (4. O conhecimento

estético, 5. Uma teoria para a comunicarão estética e 6. Estética da perceprão: umaferramenta de trabalho), o 'lixo sensorial' se trans-

forma em conhecimento sensível (cognitio sensitiva), segundo a linha de investigação propugnada por Alexander Baumgarten, ainda no século XVIII. Verifiquei que a lógica (razão) não co- bre a maior parte da realidade com seus processos de inferência intelectual, mas o que fica de fora (o "lixo sensorial") é a porção mais abundante do mundo, que agora pode ser ao menos em parte absorvida como conhecimento sensível, pelo esforço da leitura de seus sinais estéticos.

12

Os principais aspectos dos sinais estéticos são apresenta- dos, de modo a constituir os elementos basilares de um conhe- cimento sensível dos textos da cultura, assim como dos fenô- menos naturais. Desse modo, convenci-me de que a percepção desses sinais é o que oferece combustível (dados da empiria) para que as engrenagens lógicas movimentem o motor da in- telecção, desde que treinemos nossa sensibilidade para realizar a leitura estética do real. Tal educação dos sentidos demanda uma habilidade cognitiva que auferimos, por exemplo, com a arte, que é considerada neste estudo como uma produção (poiesis) cultural humana que, embora indefinível, gera efeitos cognitivos de vital importância para o aprendizado da realida- de.

O objetivo deste livro é alcançado quando demonstro, em consequência, que estética e lógica são dois aspectos comple- mentares do conhecimento humano, não podendo, qualquer delas, ser negligenciada ou suprimida da cognição, de vez que ambas em conjunto oferecem o melhor mapa a nos orientar no mundo. No entanto, esta pesquisa demanda uma continuidade, que não se esgota nesta primeira apresentação dos fenôme- nos e de suas relações lógicas e estéticas. Seus desdobramentos serão comunicados em dois outros livros: Cognição Estética: as

formas diabólicas, e Cognição Estética: o caminho do centauro.

(*)

O neologismo 'cineaudiovisual' tem por objetivo destacar os tipos de registros, mídias e mensagens que comunicam a cincstesia, o som e as imagens, por vezes, ao mesmo tempo, como a fotografia, fonografia, cinematografia, videografia, televisão, internet, meios digitais etc.

13

1.

O triunfo do

fogos

e o

exílio da

aisthesis

'lógica' é uma dessas

palavras, cujas definições são tantas que permitem seu emprego

sua origem, este vo-

que significa

a

cábulo provém dos

Lógica: a gramática da representação-

qualquer contexto.

termos gregos

do

Em

fogos

+

bem

"arte

em praticamente

"ciência

do

techne,

pensamento",

pensar que

conduz

à verdade" e assemelha-se

à

zer "me

d"1r",

"ca1cu 1ar

''

, "pon

d

palavra latina

erar ", "ractonnar·

ratio,

.

que

quer di-

me

mais

". N-ao

quero

aproveitar dessa elasticidade de interpretação para forçar

uma definição entre as existentes, embora me seja útil sua lar-

gueza semântica para propor um dos gica, que será empregado aqui.

modos de entender a ló-

No que concerne a este estudo, a lógica deve significar (ser

signo de) padrão, norma, lei, convenção, regulação,

ordem, or-

ganização, toda

ocorrência de

'repetição' (não

no sentido

de-

leuzeano, mas

no sentido usual

do termo)

por

meio de

um

'molde' e 'identificação' por meio de um 'conceito'. Esta defini-

ção não

aqui é importante ressaltar que tal preceito é uma

construção arquetípica. Explico melhor quando proponho que

sobrevivência e

a lógica tornou-se

lógica, mas

se espera da

difere muito

do

que

convencionalmente

a principal

ferramenta de

adaptação

da espécie humana, ao longo

de nossa evolução no

planeta.

Destituído

de garras, dentes,

carapaças, velocidade, visão

il

i'

I

noturna, olfato sofisticado ou audição acentuada, o ser humano sempre foi o mais frágil e vulnerável entre os animais expostos

entanto, nem é preciso mencionar

nossa capacidade de sobrevivência, adaptação e superação.

às intempéries naturais. No

Evolutivamente, o

que

foi

alcançado pelo ser

humano

deveu-se

ciclos

ao hábito

de observação

dos padrões

de

repetição e

de repre-

da natureza, assim como

ao desenvolvimento

signos intercambi-

informações vitais para

todos os membros do grupo. Desse modo, tanto os pensamen-

tos derivados

da necessidade de representar socialmente os pensamentos são fatos fundadores da lógica humana. Ou seja, tanto localizamos

lógica nos padrões da natureza e da cultura, como a simulamos nos processos das linguagens humanas para comunicar aqueles padrões.

primeira

vez, da

para alimentação.

Logo, é

da experiência

sentações

áveis

de tais

observações

na forma de

as

as

que serviram

para transmitir

das observações,

como

linguagens derivadas

Se

a

ingestão de

segunda

e

da

um

fruto

causa

mal-estar

da

terceira vez,

fruto

a repetição

não serve

demonstra um padrão: este

preciso construir signos

socialmente intercambiáveis

para que o

grupo

comunique o

conhecimento

internamente,

assim

como

para

as

gerações futuras.

Os

signos,

por

sua vez,

também

são resultado de

uma convenção

no interior do

gru-

po -

toda vez que um sinal sonoro, visual, olfativo, cinestésico,

dentre

devem atribuir

outros, é emitido por algum

à mensagem

um

membro, todos os

mesmo

demais

significado previa-

mente convencionado entre eles. Assim, as linguagens funcio-

nam de forma lógica, ou seja, por meio da experiência de regras

e padronizações.

16

Ao observar o

mundo por milhões de

anos, as

espécies de

hominídeos

que

evoluíram

até

nós encontraram

padrões

em

toda

a natureza

e significaram tais

ordens

representando-as

por meio

de

signos (palavras, imagens, gestos, rituais etc.), de

modo que "coubessem" em nossas mentes

mentos,

os demais

assim como

padrão

também pudessem

em

um

membros do grupo social.

dado

Encontrar

na forma de pensa- ser transmitidos para

tor-

ambiente, portanto,

nou-se

nos, por que daí dependeu sempre nossa própria sobrevivência

pelo sucesso

da operação cognitiva de perscrutar padrões e leis na natureza, nosso cérebro tenha evoluído para aguçar ainda mais esse pro- cesso em nossa cultura.

dado ambiente per-

como indivíduo

um

comportamento

e espécie.

automático entre

É

bem

provável

os seres

que,

huma-

Encontrar os

padrões

que regem um

mite prever seu comportamento e, assim, antever o que aconte-

eventuais reações o domínio sobre

aspectos vitais da natureza. Em vista daquilo que

riável, móvel, semovente, o padrão é mais estável e permanente (previsível), além de situar-se das bases estruturais de qualquer sistema. Desse modo, na cultura humana, conhecer algo passou a ser conhecer os padrões e leis que o determinam.

exercício

de previsão do futuro. A previsão do futuro implica, obviamen-

te, no

a

regras gerais

cerá com ele no futuro. Tal previsão sobre

em

certo

ambiente garantiu ao

as

homo sapiens

é sempre va-

A lógica ou o pensamento lógico,

seu conhecimento antecipado,

de fato, é um

apriorístico, deduzido de

lógica, de

modo

identificadas e incorporadas

à

antever

os

fatos,

encai.-xando

suas

ocorrências

posteriores

em

modelos

(conceitos)

antecipadamente constituídos

nas

lin-

guagens.

Saber prever

o futuro

-

com

a lógica -

tornou-se a

principal arma de sobrevivência e adaptação da espécie huma-

é pensar em termos de regularidades, é descobrir

na.

"[Prever]

17

que

algo funciona mais

ou

menos sempre da

mesma

forma

e,

com base

nesse dado,

prever que

algo

deverá funcionar

do

mesmo

modo

em

instâncias futuras.

Descobrir regularidades

é o mesmo que generalizar" (PINTO, 2002, p. 76). As genera-

lizações, então,

que não

são previsões

de ocorrências regulares

contemplam o acidental, o inesperado ou a mutação, pois, caso

contrário não

é

mobilidade do

ocorrências regulares das coisas existentes.

haveria

da

(colocar

sua vez, elimina a

real para fixar na mente um diagrama ideal de

base

o que

prever.

A generalização

por

em

gêneros)

abstração que,

o futuro,

percebem

grações, sentem para que lado a presa vai fugir e preparam suas

Bem, mas

as

os

outros

animais

também

prevêem

mudanças

das estações

e providenciam suas

mi-

armadilhas.

Então,

o que

diferencia

a

lógica

humana

da

dos

demais?

Apesar de algumas

bros

de seu

grupo

em

espécies

animais adestrarem os

mem-

determinadas operações lógicas, tais

comunicações

são limitadas. Já entre

os

humanos, o

desenvol-

vimento

das linguagens permitiu grande capacidade

de repre-

sentação

do pensamento

e, por conseguinte, da automatização

de pensar, como o

grande diferencial evolutivo entre os humanos, foi

o gatilho que provocou a especialização cerebral e conduziu-nos ao desenvolvimento das linguagens, assim como em contrapar-

acelerado da

tida as linguagens permitiram o desenvolvimento

lógica entre os humanos. Não é de surpreender, assim, que haja entre nós uma defesa até involuntária e um apego ancestral em

favor do pensamento lógico, racional, abstrato

e intelectual, do

do

comportamento lógico.

O

modo

lógico

(e tem sido)

mesmo

modo

que

um horror arquetípico

a tudo

aquilo que

se

assemelha ao ilógico, irracional, assistemático, irregular etc.

Simulando

a regularidade

do

mundo,

as

linguagens

da

cultura arquitetaram um pensamento

também regular,

ao

pa-

18

dronizar as regras e códigos das próprias linguagens - afinal de contas, para alcançar o melhor modo de prever o futuro é preciso criar representações que obedeçam à mesma lógica que se faz presente no comportamento do real. Visando principalmente a leitura dos padrões evidenciados nos fenômenos, por meio de linguagens simetricamente padro- nizadas tal qual a própria natureza dos eventos, os seres huma- nos privilegiaram o conhecimento "interno" das coisas, de onde deriva a palavra 'inteligência' (Intellegere); 'inteligir' provém de intus (dentro) ou inter (entre) e legere (ler, recolher, escolher) e significa literalmente: "ler dentro das coisas", "ler a essência das coisas", ou seja, ler as causas que operam nas coisas. Qyando buscamos pela inteligência de alguém, queremos falar sobre sua capacidade de 'ler' os padrões, normas e leis que determinam a existência de uma coisa ou evento, podendo prever-lhe o comportamento futuro- essa é uma pessoa inte- ligente, porque conhece as essências e não se deixa levar pelas aparências. Desse modo, a vantagem evolucionária que permitiu aos seres humanos o domínio do ambiente natural hostil, tomou a forma de sistemas abstratos de representações das regulari- dades do real (as linguagens), trazendo-nos o conhecimento do futuro comportamento das coisas; não apenas a previsão das ocorrências, como também a garantia de um determinado modo de ser das coisas, isto é, a melhor previsão do futuro é aquela que se baseia na 'certeza' (que passa a ser uma das obses- sões tanto da filosofia, da ciência, assim como da religião) de que algo sempre se comportará de uma determinada maneira. Desde o período socrático na Grécia clássica até nossos dias, a inteligência ainda é um valor almejado, tendo em vista que toda a cultura ocidental está alicerçada em seus parâmetros de leitura interna do real. Como leitora de regularidades e pa-

19

drões, a inteligência utiliza-se da lógica como um instrumen-

que devem

to para

adequar-se hermeneuticamente à realidade.

desde

os gregos socráticos, mas principalmente a partir de Aristóte-

les -

pensadores e cientistas

aperfeiçoado por filósofos,

ao longo dos séculos, vindo a se tornar

a

criação

de

moldes abstratos

do

mundo,

Nessa

num

operação intelectual,

a lógica

constitui-se

-

método constantemente

numa

espécie

de

'gramática

da

representação

do

mundo'

em

nosso pensamento.

 

Como

se

representam

as

qualidades fixas e estáveis

de

algo

por

meio

de

um

signo previamente codificado, uma

das

grandes tendências do

pensamento

ocidental já entre

os

gre-

gos, foi buscar pelas regularidades

e permanências que

se

en-

contram

nas

leis

que

atuam

no

real,

evitando

o

emaranhado

das singularidades que constituem as coisas.

O

nascimento

do pensamento grego: fluxo

e permanência -

o

pensamento

grego (ocidental) nasce

fazendo

praticamen-

te

mundo:

e

mas leis

as

mesmas

muda?

que

perguntas que

O

se

fizeram

coisas

em

outras partes

do

o que são as coisas, o que as criou, o que é permanente

segue algu-

o que

movimento das

(devir)

podem ser conhecidas, ou estamos imersos

num

mundo

de

mistérios insondáveis?

Portanto, o

nascimento

do

pensamento

ocidental ocorre

quando

a

sensação de

ignorân-

cia emerge

como

uma

severa preocupação naqueles

que pela

primeira vez entre

nós

ousaram pensar o mundo fora do mito.

Dentre

as

inúmeras

em

questões centrais

debate

pelos

mente

e derivadas, que

gregos pré-socráticos,

dos pensadores: o

já foram colocadas

delas

ainda

somente

enquanto

duas

que permanece e o que se transforma. Heráclito

zia que

ria,

identidade e

hoje inquietam a

a mudança

é real

de Eleia

e

a

de

Éfeso

di-

permanência

é ilusó-

Parmênides

"afirmava

que somente a

a permanência eram reais

e a mudança, ilusória"

(CHAUÍ, 2005, p.lOS).

20

Passados mais de dois mil e quinhentos anos os pensadores

admitem

que

coisas

que

permanecem

por

mais

tempo

idênticas a si mesmas, em relação a outras que se transformam com mais facilidade. Até aí, tudo bem, porque desde Aristóte-

les se sabe que Heráclito e Parmênides não tinham razão isola- damente, e que o mundo é dotado de lentas mutações (que nos

de permanência) e transformações

A

mais rápidas.

dão sensação

questão de

fundo, no

dado

às

entanto, estabeleceu-se permanências, com relação

com o

exces-

ao franco

sivo peso (valor)

desprezo demonstrado em relação às mutações.

sempre

coisas de acordo com padrões

e leis (que nos parecem eternos e imutáveis)

leitura interna

(intelectual)

minimiza as ocorrências fenomênicas singulares e

individuais das

tações regulares, padronizáveis c codificáveis que "mesmificam"

A inteligência, ou seja, a leitura interna do mundo

visou pensar as relações entre as

metem no

mundo

natural,

como

a que estas se sub-

na cultura. A

coisas, para focar-se tão

somente nas

manifes-

as coisas, de modo a criar categorias, gêneros, classes e espécies,

o

conceito abstrato possa compreender e definir a ideia da coisa.

(com a ilusão de imitar

num

processo

de

identificação

que

vai ser

a

base

para

que

Desse modo, o que permanece fL'<o

as

leis

da natureza)

é

o

conceito

da coisa,

independentemen-

conceito é

te das

é, para sua significação

acordo social

estável. As linguagens (principalmente a verbal e a matemáti-

ca) capturam a ideia da coisa, que

identitários, ou

comuns encontráveis

suas

manifestações individuais. A fixidez

fruto de

um

do

fundamental para sua codificação, isto

numa

linguagem

-

que

é sempre

é formada pelos elementos

seja, pelas

características

em vários indivíduos, que agora podem se postar num gênero

definido. Portanto,

messa de permanência, em que a ideia da coisa busca manter- -se a mesma, sem transformações, pelo maior tempo possível.

a identidade não

é mais

do

que

uma pro-

21

a

busca pelo mesmo, por aquilo que é igual e que se manifesta do

mesmo

manece. Devido ao grande apego que a maioria dos pensadores

de inteligência,

ocidentais demonstra

identidade e igualdade, não é difl:cil verificar que Parmênides, e

não Heráclito, prevaleceu até recentemente.

nas coisas,

resíduos sensoriais e

quase sempre tratados

sensitivos que deviam ser minimizados ou eliminados

Identidade, portanto,

modo

é

um

processo

de

"mesmificação",

é o

que per-

em qualquer

em

situação

favor

dos

ou tempo -

conceitos

Os

sinais

de

mutação

em primeiro lugar, foram

por pro-

como

indesejáveis

lugar, foram considerados

cedimentos racionais

materialida-

de não passa de ilusão dos

que conside-

rava o mundo das ideias, anterior, fundamental e maior do que

o mundo material, visto como mera primeiro.

sombra impermanente do

pensamento de

que prevalece é o

desprezíveis efeitos

e,

em

segundo

um

colaterais de

mundo, cuja

sentidos. Aqui, o

Platão,

discípulo

de Parmênides,

bal,

Desse modo, principalmente

por

meio

o

modo

lógico de

pensar incmstou-se

linguagem ver-

na gramática grega

da

e, daí, chegou até nós como um logocentrismo naturalizado que

sempre busca em nossa consciência linguística a identidade no

diverso.

'lógica'

compreende um amplo conjunto de definições que impede uma

caracterização mais compreensiva. Desse

vários tipos de lógica. Porém, a lógica que interessa a este estudo

tem certidão de nascimento nos livros do

Lógica e gramática: dos gregos aos modernos-

o

modo,

Organum

termo

lato senso,

aristotélico.

A obra do

tutor

de Alexandre não

poderia existir, no

en-

:'I''

'111!:·1·'

.

',

,,

iii

de dois mil

anos de pensamento ocidental, sem o imprescindível auxílio da

tanto, nem

sequer chegar a nós

ou influenciar mais

li escrita, a principal mídia do conhecimento até o século XIX de

nossa era.

22

A linguagem verbal foi certamente necessária ao desenvol-

vimento da lógica aristotélica, simplesmente porque a 'arte do bem pensar que conduz à verdade' imbrica-se com as palavras, entendidas como traduções do pensamento. Assim, o 'bem pensar' só é alcançado tão somente quando as palavras trans- mitem o "sentido correto", que conduz à verdade. Aristóteles, então, seguiu pelo caminho de utilizar a língua grega como base para suas construções lógicas, tais como os silogismos, proposições, categorias etc. A lógica aristotélica é um edifício magnífico, cujos sólidos alicerces se encontram na gramática da língua, que pôde se desenvolver mais concretamente a partir do surgimento da escrita. Se há uma conexão entre o pensamento humano e a rea- lidade do mundo, este vínculo é uma questão necessária que passa pela simulação da natureza, operada pelo pensamento, e sua tradução em palavras-, aqui nasce a primeira lógica.

[Os] filósofos pré-socráticos identificaram duas forças vitais:

phj.rú, a natureza, o poder inexorável que governa o mundo vi- sível; e nómos [ou thésis, convenção], a crença, costume ou lei instituída por ação divina ou humana. No plano da linguagem, os gregos se perguntavam se a conexão entre as palavras e aquilo que denotavam provinha da natureza, phjsei, ou será imposta pela convenção, thései. (WEEDWOOD, 2002, p. 25)

O antigo humanismo dos gregos clássicos oferecia ao ser

humano um lugar privilegiado na natureza, de vez que acre- ditavam ser o homem a medida (metron) de todas as coisas, entendendo que as palavras que proferiam tinham vínculos naturais com o mundo em sua volta. Além de se perguntar se a palavra humana também pertencia à natureza, ou derivava do poder humano de dar nomes às coisas, os gregos clássicos já

23

entendiam que as regras de

padrões da natureza.

sua linguagem deviam espelhar os

Na Grécia clássica, "a necessidade de um vocabulário técni-

co e conceitual para ser usado na análise lógica das proposições

resultou num sistema das partes do discurso que acabou tendo

exigências

imediatas

desenvolvimento da escrita e da gramática gregas

acelerou-se

um desenvolvimento

dos

filósofos

que

ultrapassou

em

muito

as

"

(WEEDWOOD,

2002,

p.

17).

O

com

o

advento

da primeira lógica e, a partir daí, até

o século

XIX

de nossa era, lógica e gramática se (con)fundiram muitas

vezes, lançando mão de recursos mútuos para a consecução de

seus objetivos. Assim, a "especificidade do

festou,

sa-

beres, a lógica e a gramática, construídos, um, sobre o domínio

1992,

Ocidente

se

mani-

de

muito

cedo, na permeabilidade

entre

dois tipos

da enunciação, e outro, sobre o das línguas" (AUROUX,

p.17).

Os estudos sobre a língua (grega)

são antigos, e se iniciam

já entre os pré-socráticos e os primeiros retóricos, ampliando-

-se

os

estóicos e, posteriormente, com os alexandrinos.

a língua não era uma preocupação independente, mas Platão já

questões linguísticas

pensa-

e

escreve um diálogo (Crátilo) dedicado

com

Sócrates, Platão

e Aristóteles,

depois avança

com

No princípio,

às

foi

o

mento

primeiro

linguístico

a

distinguir substantivos

de Aristóteles,

e verbos.

O

no entanto,

está espalhado

por toda sua obra retórica e lógica.

Dentre

outras contribuições

à gramática, como

a

intro-

dução do terceiro gênero, o intermediário, deve-se a Aristóte-

les a criação

explicar

de

"categorias

aristotélicas", que mais tarde se transformaram nas "categorias

a

para a

categoria aristotélica

gramaticais" e, finalmente,

das categorias

real,

de

pensamento para dar conta

conhecidas

como

de palavras".

Assim,

passou

o

mundo

também

nas "classes

denominada

"substância"

24

gramática como "substantivo"; a categoria da "ação" transmutou-

o rápido

-se

em verbo; a de relação

em

conjunção,

etc. Desde

imbricamento das

classes de palavras,

entre lógica e linguagem verbal

realizadas pelos gramáticos de todos os séculos, pensar, falar, ler e escrever no ocidente tornou-se sinônimo de expelir e/ou engolir lógica aristotélica.

da atualidade que, embo-

ra

diretamente das

de os

conceitos lógicos das categorias não corresponderem diretamen-

séculos

seguintes que basearam as regras de suas línguas na lógica aris- totélica. Contudo, alguns autores, como Umberto Eco, conside- ram que Aristóteles, pelo contrário, teria se servido da gramática

te aos

ter sido o inverso que

suas categorias lógicas da língua grega, parece

categorias aristotélicas

às

além das

outras aproximações

É do conhecimento de linguistas

se tenha dito que Aristóteles derivou

categorias gramaticais

se provou verdadeiro: além do fato

foram

os

gramáticos dos

elementos gramaticais,

grega para compor seu conjunto de categorias lógicas.

Os filósofos gregos identificavam na língua grega a língua da ra-

suas categorias com base

zão, e Aristóteles constrói a listagem de

nas categorias gramaticais do grego. Não que isso constituísse uma afirmação explícita de prioridade do grego: simplesmente se iden-

pois Logos

dos discursos dos

bárbaros pouco se sabia.

era pensamento, Logos o discurso, e a respeito

tificava o pensamento com o próprio veículo natural,

(ECO, 2002-B, p. 29)

O debate, ainda candente, sobre se a lógica fundamentou a

que ambas são

a um

gramática ou vice-versa,

'irmãs

só reforça a certeza de

uma

está noutra,

siamesas' e que

conduzindo-nos

modo lógico-gramatical de pensar e representar nosso mundo.

Todavia, é importante lembrar que a gramática desenvolve- -se ao sabor da evolução cultural da própria língua, o que nem

25

sempre se

processa logicamente. Assim,

a gramática (como

também o léxico) se estrutura no embate com fatos reais, como

também suas regras gramaticais são fruto

de hábitos

sedimen-

tados por longos períodos

de uso. E

as

crenças instituciona-

lizadas firmam-se

como

lógicas

do

pensamento, devido

sua

longa e

constante aplicação,

incorporando-se

na

língua

por

meio, principalmente, de

suas

regras

gramaticais, sintáticas

e

morfológicas.

Por outro lado, o fato já demonstrado, de que os gramáti-

cos clássicos empregaram a lógica aristotélica para disciplinar

a empiria dos

possível

ser veículo

de

de

que sua principal tarefa

fatos linguísticos

conduz

ao

entendimento

máximo

era providenciar o

as

recursos

lógicos para que

línguas pudessem

privilegiado

da verdade

e da razão. Assim, ao

se

acreditar no

preceito aristotélico

de

que a lógica é a 'arte

do

bem pensar

que

revela

a verdade', porque

não

adotá-la para regularizar a

língua por

meio de

uma gramática que

garanta um

discurso

razoável?

 

conti-

nuadores serviram-se majoritariamente da língua grega (assim

como

os seus princípios de

todos

século XIX,

De qualquer modo, o certo

do latim e

é que Aristóteles e seus

conceber e

até

o

firmar

do vernáculo) para

lógica que vigoraram

quando a matemática assumiu definitivamente o papel de ve-

da lógica contemporânea. Neste imenso perí-

ículo semiótico

odo histórico, que vai desde o pensador de Estagira até nossos

dias, o uso

filosófica e científica só faz reforçar a ideia de que as principais

línguas

foram gramaticalmente concebidas para

conduzir o usuário (pensador, falante, leitor, ouvinte e escritor)

da linguagem verbal para a comunicação da lógica

ocidentais

por uma interpretação basicamente

lógica

do mundo.

Também é preciso recordar, como já foi

grego

fogos

+

mencionado, que

sua eti-

a palavra 'lógica' provém do

techne

e em

26

mologia significa tanto 'a ciência da palavra', quanto a 'ciência do pensamento', aproximando inequivocamente a lógica, da gramática. Nos tempos clássicos, portanto, parece nunca ter havido qualquer dúvida de que o bem pensar implicava o bem dizer, isto é, lógica e gramática partilham a mesma genética. Exemplo disso são as regras da escritura verbal ensinadas nas escolas. Tais regulamentos visam comunicar um texto ver- bal com toda a potência de sua lógica interna, com a intenção de manifestar inequivocamente a verdade - que é o objetivo último da lógica aristotélica. A representação verdadeira só se alcança quando o texto verbal preocupa-se em obedecer 'li- teralmente' aos princípios lógicos fundamentais: identidade, não-contradição, terceiro excluído e a causalidade. Nos manuais de redação, cada um desses princípios lógi- cos é transportado para dentro do discurso, com a obrigação de refletir a verdade, por meio da adequação do pensamento ao mundo, universalidade das proposições e leitura interna via substantivação; o texto deve submeter-se à coerência, atenden- do à gramaticalidadc, padronização c uniformidade; necessita buscar pela objetividade, apelando à clareza, simplicidade, con- cisão c descrição; c obedecer à causalidade, prestando atenção ao significado, finalidade, sentido, razão e valor. Desse modo, segue-se a consequência: as gramáticas das línguas ocidentais constituíram-se de tal modo a privilegiar um discurso altamente voltado à lógica, cuja meta é a verdade - aqui bem entendida como a leitura interna (intelectual) do mundo. E o que é importante destacar está no fato de que não apenas os processos internos das línguas europeias (sua gra- mática), mas também a ideologia formal de seus discursos têm por base um pensamento lógico-inferencial. Um simples bate- -papo em um vernáculo europeu trata-se de uma construção lógica, das mais refinadas.

27

De volta

à história, é fato amplamente sabido que os roma-

nos absorveram praticamente toda a cultura grega, bebendo da

fonte

própria cultura itálica. Não

gregas para o latim, como também transpuseram a maior parte

a gramática da

das

língua latina, importando

sua

apenas adaptaram muitas palavras

de seus

artistas

e filósofos, para dar embasamento

à

regras gramaticais

do

grego

para

formar

os pressupostos lógicos que

os

gra-

máticos alexandrinos haviam encravado no grego.

Por mil anos, desde

a fundação

de Roma,

até

o início

do

período medieval, a lógica aristotélica prosperou, não

apenas

como

simulada no interior da gramática latina.

"A lingüística grega e a romana formam um

medieval:

(e, de maneira limitada, desenvolveram-nas), enquanto os pen-

gregos

a

modus

operandi

do

pensamento filosófico europeu, mas

basearam

nas

continuum

iniciativas

dos

com

também

fortemente

os

romanos

se

sadores medievais estudaram, digeriram e transformaram a ver-

são

romana

da tradição lingüística antiga".

(WEEDWOOD,

2002,

p.

23)

Qyando

o

ocidente

ingressa

em

seu

período medieval, a

gramática latina torna-se

superiores

rículos

os

uma disciplina obrigatória nos cur-

participar de

das

decisivo dentre

nascentes universidades.

a

que unia

modo

a língua de

toda

e

irá

conhecimentos

Roma,

constituintes

o

erudição -

medievo,

Desde

até

o latim era

intelectualidade e

a língua internacional

todos

os

cristãos letrados, bem

como

a língua mais

bem

des-

crita

à

disposição

do

linguista e

do

filósofo.

Na "Europa me-

dieval os professores universitários eram quase todos membros

universidade

Igreja".

fazia

do

clero.

parte

A

instituição

de

uma

relativamente

muito

nova da

instituição

mais antiga, a

(BURKE, 2003,

p.

39)

Não devemos nos esquecer que a influência religiosa e tem-

poral

da igreja latina durante o

medievo

28

indicava justamente

que a língua do poder político e da reflexão teológico-filosófica que governava a sociedade europeia era o latim.

te

O fundo

ex-

plica por si só a homogeneidade conceptual dessas disciplinas, o

que podemos considerar como sua identidade de metalinguagem

aquela das lín-

guas

à

qualquer outra surgida nas mesmas condições, haverá uma certa

equivalência entre

as gramáticas das diferentes línguas redigidas

latino constitui um fator de unificação teórica que não

das ciências

da linguagem.

Ele

tem equivalente na história

[gramática],

(

que vão

) qualquer que seja

(de fato

será

mesma

se impor na Europa das nações,

terá mais ou

menos

a

do Renascimento

estrutura

de

época moderna),

em qualquer dos vernáculos em uso.

(AUROUX,

1992, p.43)

O cimento cultural do cristianismo que unifica o ociden-

a poderosa ferra-

tinha entre seus elementos aglutinadores

menta do latim, cuja gramática identificada com a lógica aris-

totélica

curopcias.

serve

agora

de base

para

as

gramáticas

vernaculares

No baixo medievo,

as

línguas vernacularcs começaram

a florescer.

Em razão disso,

a

surge

uma gramática de boa

das línguas

na-

ser escritas e

a necessidade de fornecer

procedência, que enriquecesse

sua literatura,

ao vernáculo

as

significações

cionais

europeias. Assim,

a lógica gramatical das línguas ver-

náculas

foi

fielmente simulada a partir do latim, uma vez que

esta língua já estava muito bem estudada. Daí segue o fato

que

da naqueles

europeias de toda a lógica inferencial aristotélica (mentalista e metafísica), até hoje ensinada nas escolas.

de

a filosofia

(ideologia) dos

gramáticos medievais,

inspira-

da antiguidade, proveu as gramáticas vernaculares

O lento desenvolvimento

de incubadora

sociopolítico no período medie-

europeias

val serve

em

que

as

diversas línguas

29

vão

erudição,

religião e administração.

algu-

mas

ocorre o maior número de publicações de gramáticas vernacu-

lares na Europa já renascentista.

se

firmando culturalmente

do

fato

certa

de que

o latim

entre o

ainda

povo,

independente-

da

entre

mente

é

a língua

Após

consolidação geográfica e cultural

das mais importantes

nações, ali pelos séculos XV e XV1

Vamos nos dar o longo prazo da história e considerarmos global-

mente o

européias

em um período que vai da época tardo-antiga (século V de nos-

desenvolvimento das

concepções lingüísticas

sa era) até

o fim

do século XIX.

No

curso desses treze

séculos

de história

vemos

o desenrolar de

um processo único

em seu

gênero: a

güística inicial (a tradição

gramatização massi·va,

a partir de uma só

tradição lin-

mundo.

no

greco-latina), das línguas do

depois

do

advento da

Esta gramatização constitui -

escrita

terceiro

milênio antes de

nossa era- a

segunda revoluçiio técnico-

-lingüística.

Suas

conseqüências práticas para

a

organiza~·ão

das

sociedades humanas são consideráveis.

(AUROUX,

1992, p.

35)

Como

os

impressos

tornaram-se

na

fronteira ideológica

entre as trincheiras da reforma protestante e da contra-reforma

católica durante a renascença, a crescente necessidade de uma boa alfabetização da população demandava a utilização de gra-

máticas sempre mais

fez aumentar a influência da lógica aristotélica na constituição

dos

contas, só

especializadas

que, no

fim das

vernáculos nacionais, e

no pensamento

do crescente

con-

tingente de alfabetizados. "A tradição ocidental é marcada por uma importante e ir-

século

ativida-

seu caráter fundamentalmente alterado no

reversível

XV. A lingüística,

de intelectual, teve

mudança

de direção

como

todos

que ocorreu

os

durante

da

o

outros campos

30

Renascimento.

mais adequada"

sensível transformação

ocorrida na renascença se deve quase exclusivamente à inven-

ção da imprensa de tipos móveis, por Gutenberg, que permitiu

a rápida disseminação das

(

)

Uma

divisão entre

é,

23).

lingüística

pré-renas-

centista e pós-renascentista

(WEEDWOOD,

2002,

p.

quase sempre,

Essa

gramáticas

necessárias

a

uma

efi-

ciente alfabetização,

tendo

em

vista que

a multiplicação

ex-

ponencial dos

livros

exigia

a capacidade

de leitura de

textos

desconhecidos e

satisfatoriamente interpretados desde que conhecedor da gramática de sua língua.

não tradicionais,

os

quais

só poderiam ser

o leitor fosse

bom

Ela [a gramatização

desenvolvimento [da

genciável de seu

dos vernáculos

imprensa]

e este

é

é por isso que

se

europeus] acompanha seu

não negli-

deve considerar que

uma

causa

sucesso;

as

duas [gramatização

e imprensa]

fazem parte

da mesma re-

volução

técnico-lingüística.

A imprensa permite,

com efeito, a

multiplicação do mesmo texto, e diminuindo consideravelmente

o

custo de cada exemplar, aumenta sua difusão. Com a imprensa,

o

fenômeno

da escrita da língua muda de dimensão. (

) Como

teve conseqüências sobre

) Com a imprensa, não apenas

a multiplicação do mesmo

dos vernáculos

sional. A ortografia,

concerncm aos impressores tipográficos (com ou sem o concurso

e mesmo contra eles) inicialmente

dos autores e dos gramáticos,

no seio de cada ateliê,

a consti-

ma língua:

livro impresso

depois para todos que trabalham na mes-

a pontuação e a regularização da morfologia

operação material,

a imprensa, enfim,

a gramatização dos vernáculos.(

é incontornável, como a normalização

se torna uma questão de estandardização profis-

a difusão

do

impõe, então,

tuição de um espaço ilimitado no qual cada idioma, liberado da

variação geográfica,

se torna isótopo.

(AUROUX,

1992, p.

52)

31

Finalmente, a lógica aristotélica encravada nas gramáticas do grego e do latim - transmitindo sua ideologia logocêntrica para as línguas vernáculas -,encontra na imprensa seu veícu- lo de disseminação geral. A gramatizaçâo massiva não é outra coisa, senão a aristotelização generalizada que se processa no ocidente, impondo ao pensamento do crescente número de leitores - por conta da universalização de regras gramaticais, morfológicas e ortográficas- uma ordem lógica sem preceden- tes na história.

O desenvolvimento do impresso -

os escribas, cujo negó-

cio estava ameaçado pela nova tecnologia, deploraram desde o início a chegada da imprensa. Para os homens da Igreja, o problema básico era que os impressos permitiam aos leitores que ocupavam uma posição subalterna na hierarquia social e cultural estudar os textos religiosos por conta própria, em vez de confiar no que as autoridades eclesiásticas lhes ensinavam. O surgimento de jornais no século XVII aumentou a ansieda- de sobre os efeitos da nova tecnologia. Na Inglaterra da década de 1660, sir Roger L'Estrange, o censor-chefe de livros, ainda questionava se "mais males que vantagens eram ocasionados ao mundo cristão pela invenção da tipografia". (BRIGGS e BURKE, 2004, p. 99)

Qyando uma nova tecnologia é introduzida no ambiente social, ela não cessa de agir nesse ambiente até a saturação de todas as instituições. A tipografia influiu em todas as fases de desenvol- vimento das artes e das ciências nos últimos quinhentos anos. Seria fácil documentar os processos pelos quais os princípios da continuidade, uniformidade e repetibilidade se tornaram as bases do cálculo da mercadologia, da produção industrial e das ciências. (McLUHAN, 2003, p. 203)

32

O impresso é a primeira grande mídia de massa da história

ocidental. Embora haja várias definições para a palavra "mídia",

uma aqui nos interessa de perto. Mídia significa um meio físico

tecnológico que

serve como veículo

através

qual

se transporta

uma mensagem no espaço e no tempo. Segundo esta definição,

não

apenas

o livro, mas o jornal, o folheto,

mapas, calendários

etc.

se encaixam

comodamente

como sendo

tipos

de mídia,

cuja principal

mensagem

encontra-se

no

teor abstrato

deco-

dificado

de

seus textos.

Embora o impresso seja o registro de

formas, isto é, de formas

icônicas e alfabéticas impressas sobre

papel e decifradas

sagens veiculadas pelo impresso provém do significado de suas palavras.

ser chamada

é

de

com o auxílio do

olho,

o sentido

das

men-

A escrita, especialmente

mídia porque

ela não

a impressa, já pode

num

contexto.

se insere

A escrita

do lei-

mídias de

massa, cujos emissores/produtores não se encontram presentes

no mesmo ato de

leitores/espectadores.

receptores/

tor, tornando-se

uma

via de

mão única

que

não

considera

a resposta

às

demais

os

assim muito

semelhante

em

comunicação

que estão

Em primeiro lugar é preciso distinguir o alcance social da

influência da

pressa. Enquanto a escrita era conhecida e utilizada apenas por

sociedades constituíam-se

orais, porque a esmagadora maioria da

população

e intelec-

tuais

móveis, o baixo custo dos livros coincide com a crescente alfa- betização da sociedade europeia, quando tem início as grandes transformações culturais. A partir do momento em que a cultura tipográfica impõe-

-se

escrita manufaturada,

em

relação

à

escrita

im-

uma elite pensante e governante, as

por meio das

tradições

não experimentava

da leitura. Porém, com

a

os

efeitos cognitivos

invenção

da imprensa de tipos

à cultura oral secundária e que a maioria da sociedade (eu-

33

ropeia e norte-americana) ocidental é composta de indivíduos

efeitos culturais

causados pelo letramento, em sua modalidade impressa.

de vários

alfabetizados, então

podemos considerar os

humano

se processa

por

O

pensamento

meio

sistemas de

signos (linguagens) de

comunicar sentimentos,

modo

a elaborar ideias,

conceitos e

tanto

quanto

manipular

e construir as

coisas. Portanto, são

as linguagens

que estão por

detrás das

formações

culturais, e

a veiculação

de

seus textos

através das

mídias influencia a forma como

se apresenta uma

determinada cultura.

O poder fracionador e analítico da palavra impressa sobre a nossa

vida psíquica deu-nos aquela 'dissociação da sensibilidade', que é

o primeiro item que

) Esta mes-

se procura eliminar das

artes (

ma separação entre visão, som e significado, peculiar ao alfabeto

fonético, se estende também aos seus

cos. O

sensória, emocional c imaginativa.

efeitos

sociais c psicológi-

sua vida

homem letrado sofre uma compartimentação de

(McLUHAN, 2003, p. 198)

A

tipografia

não

inventou

a causalidade,

a simetria, a

uniformidade,

a univocidade, a

linearidade, a teleologia,

nem

sequer

a lógica,

de vez que

tais

conceitos

são conhecidos

dos

regularidade

seres

homogênea com que as palavras são dispostas em um impresso, a isomorfia gramatical, morfológica e ortográfica de seus textos

oferecem tamanha materialidade e densidade concreta aos pre- ceitos lógico-linguísticos, que ao longo dos últimos quinhentos anos a cultura ocidental conformou-se completamente àqueles

humanos

desde

muito

tempo.

Contudo,

a

valores, constituindo

com eles

os

fundamentos

da consciência

moderna sobre o mundo.

A língua

se fala pelo

st!}eito

-

em

alguns

de

seus estudos,

Freud

menciona seriamente

a influência da linguagem verbal

34

sobre o pensamento. O

de algum modo, a linguagem verbal conduz à consciência. Se-

fundador da psicanálise considera que,

gundo o médico austríaco, desde que nascemos nossas faculda-

des cognitivas buscam o conhecimento do mundo, que se torna 'consciente' apenas quando aprendemos a associar o sentido das

palavras com as

nos tornamos conscientes de que somos objeto do pensamento

e do julgamento que os outros exercem sobre nós, dando início

à construção de nossos superegos. Assim, para Freud, a consci-

experiências. Nesse momento também

nossas

ência é formada de pensamentos aos

quais damos

um símbolo

verbal,

enquanto

que ideias e

afetos reprimidos

permanecem

inconscientes

trada. Levando-se em conta-

até

que

sua correspondência verbal seja

encon-

segundo a teoria freudiana - que

a maioria dos pensamentos é inconsciente, a linguagem verbal

influencia decisivamente

desde que consideremos a consciência como efeito colateral do desenvolvimento da linguagem verbal.

O pensamento consciente, para Freud, formado com a lín-

apenas do

de palavras e frases, mas principalmente pelo arranjo lógico da

gramática. O

-se como pessoa por meio da linguagem, ou da dimensão que

a linguagem lhe permite alcançar de si mesmo. Por outro lado,

a dissociação entre o corpo humano e aquilo que a construção

linguística fàla de nós (ao ajudar a formar nosso superego), gera

o "mal estar da civilização", observado por Freud.

a 'conscientização'

do pensamento,

gua, não seria o resultado

sentido semântico obtido

ser humano é coisa do mundo real, mas entende-

Ao longo do século XX vai se procedendo, portanto, a uma

desilusão acerca da antiga crença na autonomia do pensamento

relação

inclusive o

clássica

luiu-se em objeto de um discurso.

condiciona

problemática a

humano

em

à

linguagem,

de

o

mundo,

vez

que nos

modo

de ver

tornando

oposição

sujeito-objeto,

mesmo

porque

o sujeito

di-

35

"Já existe claramente em Heidegger a idéia de um ser atin-

gível

guagem

apenas

que

através

não

está

se

da dimensão da linguagem:

do

pensa mas

de

no

uma lin-

em

poder

homem

se

porque não é o

homem''

homem

que nela

ela que

pensa

(ECO,

1971, p.

339). Para Umberto Eco, "a ordem do

simbó-

lico não é constituída pelo homem (ou pelo espírito que cons-

324).

E em consonância Lacan evidencia que em relação à língua "o sujeito é mais falado do que fala" (1998, p. 284). A linguagem verbal, especialmente fortalecida pela escrita e

pela tipografia

e independen-

cuja exis-

tes),

tência e propagação dependem do conjunto de usuários que, no entanto, não a possui como algo próprio, mas se submete às suas regras quando precisa se comunicar. As regras da linguagem ver-

bal, que foram constituídas pelo ser humano, agora constituem o ser humano quando fala dele, por meio da fala de seus usuários.

no

ocidente está encharcado de lógica aristotélica, e só oferece ao

usuário

ou

seja, um conceito de ser humano, um conceito de si- mas nem

titui o homem)

mas

constitui o homem."

(ECO,

1971, p.

(registros

mnemônicos

externos

é uma

construção coletiva de

milhares

de anos,

O discurso verbal que constrói

da

linguagem uma

a ideia de ser humano

(intelectual),

"leitura interna"

sequer uma mimese

sentidos da linguagem. No- da linguagem verbal que,

não apenas empresta vida psíquica às coisas, como também nos

te-se,

que auxiliaram na construção dos

-,antecipadamente concebido por outros

plasmática

portanto,

a força

computa como sua própria criação.

Vale dizer, portanto, que

a cultura de

uma sociedade

re-