O JARDIM DAS AFLIÇÕES

4 OLAVO DE CARVALHO

OBRAS DE OLAVO DE CARVALHO 1. Universalidade e Abstração e Outros Estudos. São Paulo, Speculum, 1983 2. O Crime d a Madre Agnes ou: A Confusão entre Espiritualidade e Psiquismo. São Paulo, Speculum, 1983 3. Astros e Símbolos São Paulo, Nova Stella, 1983 4. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes”. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 5. Os Gêneros Literários: Seus F undamentos Metafísicos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 6. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio, Astroscientia Editora, 1993 7. A Nova Era e a Revolução Cultu ral: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994 (1a ed., fe vereiro; 2a ed., revista e aumentada, agosto). 8. Uma Filosofia Aristotélica da Cu ltura: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994. 9. O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio sobre o Materialismo e a Rel gião Civil. Rio, Diadorim, 1995. 10. O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais B rasileiras. Rio, Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, 1996 (1a ed., agosto; 2a ed., outubro; 3a ed., abril de 1997 ; 4a , maio de 199 7; 5a , janeiro de 1998; 6a , abril de 1998). 11. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, Topbooks, 1996. 12. O Futuro do Pensam ento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Rio, Faculdade da Cidade Editora (1a ed., agosto de 1997; 2a ed., março de 1998). 13. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer. Rio, Topb oks, 1997. 14. A Longa Marcha da Vaca para o Brejo & Os Filhos da PUC. O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

OLAVO DE CARVALHO O Jardim das Aflições DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O M ATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL PREFÁCIO DE BRUNO TOLENTINO Segunda Edição, Revista

6 OLAVO DE CARVALHO Copyright © 1998 by Olavo de Carvalho Capa e planejamento gráfico: Ateliê 19 Assessoria em Comunicação R. das Laranjeiras, 531 / 16 F. (021) 225.1806 Fax (021) 245.2920 Rio de Janeiro RJ CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Todos os direitos reservados pela TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTD A. R. Visconde de Inhaúma, 58, gr. 413 – CEP 20091-000 Rio de Janeiro – RJ – Tel.: (021) 233.87178

§ 16. Epicuro e Marx ............................................................. ............................. 75 PREFÁCIO, POR BRUNO TOLENTINO.................... .................................................9 § 17. Comentários à 11ª “Tese sobre Feu erbach”........................................ 77 § 18. A tradição materialista ....... ..................................................................... 82 O J ARDIM DAS AFLIÇÕES LIVRO I: PESSANHA............................................ ..................... 19 CAPÍTULO I: A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA.................................................. ...21 § 1. Introdução. O que Epicuro veio fazer aqui, ou: Biografia deste livro21 § 2. A s conferências do MASP ........................................................... ................ 28 § 3. Pessanha e o pensamento Ocidental........................ ................................ 31 LIVRO IV: OS BRAÇOS E A CRUZ..........................................89 CAPÍTULO VII: O MATERIALISMO ESPIRITUAL........................................... ..91 § 19. A divinização do espaço (I): Pobres bantos .................................. ...... 91 § 20. A divinização do espaço (II): O infinito de Nicolau de Cusa ........... 94 § 21. A divinização do tempo (I): A força dos meios.................................. 105 § 22. A divinização do tempo (II): Beaux draps.................................... .......114 CAPÍTULO VIII: A REVOLUÇÃO GNÓSTICA.......................................... ..........120 § 23. Revisão do itinerário percorrido ................................. ........................120 § 24. O véu do templo .................................. .....................................................121 § 25. Leviatã e Beemoth ... ................................................................................ 127 LIVRO II: EPICURO............................................................... ... 51 CAPÍTULO II: COSMOLOGIA DE EPICURO................................................ .........37 § 4. Uma profissão-de-fé epicurista. A matéria segundo Epicuro ............. . 37 § 5. Um piedoso subterfúgio.................................................... .......................... 39 § 6. A imaginação dos deuses. A eviternidade............ ................................... 41 § 7. Epicuro crítico de Demócrito.............. ...................................................... 42 CAPÍTULO III: ÉTICA DE EPI CURO.......................................................................44 § 8. O remédio de todos os males...................................................... ................ 44 § 9. A abolição da consciência...................................... ................................... 46 CAPÍTULO IV: LÓGICA DE EPICURO............... .....................................................52 § 10. A fumaça e o fogo..... ................................................................................ .. 52 § 11. O convite ao sono .................................................... .................................. 53 § 12. A Servidão Voluntária..................... ......................................................... 56 § 13. Dos cães de Pavlo v ao lava-rápido cerebral ....................................... 58 CAPÍTULO V: A ÍND OLE DO EPICURISMO.........................................................65 § 14. Porcarias epicúreas.............................................................. .................... 65 § 15. A fuga para o jardim................................ ................................................. 69 LIVRO V: CÆSAR REDIVIVUS................................................130 CAPÍTULO IX: A RELIGIÃO DO IMPÉRIO.................................................... .....131 § 26. De Hegel a Comte................................................... .................................131 § 27. Translatio imperii. Breve história da idéia imperial. ........................133 § 28. O Império contra-ataca ................ ..........................................................147 § 29. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) .......................149 § 30. Aristocracia e s acerdócio no Império americano (II) ......................159 § 31. De Wilhelm Meister a Raskolnikov......................................................162 § 32. As n ovas Tábuas da Lei, ou: O Estado bedel .....................................168 CA

......194 BIBLIOGRAFIA ..............177 Post-scriptum............................ LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR ... .........................196 ÍNDICE ONOMÁSTICO .............................................206 LIVRO III: MARX.....................176 § 33..................................................................................... ..... ........................................PÍTULO X: NA BORDA DO MUNDO.. .................... ...7 5 ........................ Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições... ................................................. 133 CAPÍTULO VI: A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO.................................................. .........................

Herberto Sales.8 OLAVO DE CARVALHO NOTA DO AUTOR À SEGUNDA EDIÇÃO pesar dos elogios de Antonio Fernando Borges. trará mais dano que benefício. que. quando o companheiro teve quatro em seis meses. é es te. com começo. Leopoldo Serran e muitos outros. melho rado em detalhes de l nguagem e sem as gralhas i mais visíveis da primeira edição. Mas não aumentado: se há um livro em que o autor disse tudo o que nele queria dizer. mas pela ordem dos capítulos — e peço que entenda isto como receita médica. enquanto O Imbecil não passa de uma c oletânea de notas de rodapé que não couberam no rodapé. Só repito o apelo a que o leitor não o leia de viés e saltado. O Jardim comparece limpo e correto. A OLAVO DE CARVALHO . Vai para a segunda edição após dois anos. No entanto é dos dois o melhor e o único que constitui propriamente um livro . Roberto Campos. cumprida mal ou imprecisam ente. Vamireh Chacon. coisa unida e coesa. meio e fim. Jo sué Montello. Solicitando humildemente a parce la de audiência a que julga ter direito. O Imbecil Coleti vo. este livro não merece u do público a atenção que se concedeu generosamente a seu irmão menor.

Não estou desmerecendo do esforço d e ninguém. Gianotti. dedicou recentemente às investigações do surrado materialismo lingüístico de Wittgenstein.. tiver suado frio por semanas sob o peso das cen tenas de impenetráveis páginas que nosso mais reputado e menos aspeado filósofo atual. ou mesmo de suas idéias. . Soube-o enfim graças à claridade que. mas onde começam meus inadiáveis problemas de brasileiro acuado há décadas pela futilidade d o ininteligível. Afortuna damente neste último. o argumento central deste aflitivo j ardim evolui à maneira de um crescendo para desafiadoramente elucidar-se apenas na s duas partes finais: “Os Braços da Cruz” e “Cæsar Redivivus” são a sístole e a diástole do c vo desta obra alarmante. fui encontrar n a lição de trevas deste livro. perfeitam nte capaz de tudo dizer por si mesma. única justificativa à intrusão de um prefácio em obra tão límpida. mas de uma clareza própria a desnudar como nun ca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver. e em pa rticular contra a espécie de Gabinete do Dr. Que o leitor leve em conta o caráter. dados e fatos. de marca universitária e de cunho dogmático-materialista. rica e complexa. e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão. como a tampa que subitamente abandona a marmita. inevitavelmente sempre a idéia do mundo mais em voga a um certo momento. achei-me no pólo oposto à perplexidade em que vivia durante a leitura que digo?! durante a suadíssima mineração que empreendi nas duras e obscuras galerias sublinguais daquele celebrado duo: o ascético autor do Tractatus (ou das Investigations?) e o ex-Papa Doc. estou celebrando meu alívio de que a tampa da marmita se tenha afastado d e mim o bastante para deixar-me perceber. não tant o do autor. o autor extrai uma estonteante exposição de significações. esD perava-me um convite a bem outro tipo de investigações: as que se ocupam de verifica r o real a partir da inteligência e dos fatos. insurge-se com toda a lucidez o vigor d este livro. esse método de investigar o como e o porque do ser-nomundo. Inclusive. a quem de fato pense o mundo. paradoxalmente. dos dados de um problema aparentemente sem maior importância no plano das idéias (que importa. Refratário à leitura t ransversal ou salteada a que às vezes incita. Contra tudo isso. segundo ele. Sedimentado através dos séculos pela perspicácia de uma nobre linhagem . ferve a humanidade. nunca a partir dos fatos segundo a intelligentzia. tem a vantagem de respeitar os dados do real. O Jardim das Aflições. o anestesiador de gerações uspianas. Tanto mais se. uma adv ertência apenas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 9 PREFÁCIO BRUNO TOLENTINO e quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual. ). Com efeito. Caligari em que se vai transformando entre nós a veneranda idéia de Universidade. Dr. A esse respeito. o sufoc ante mundinho dos cortesãos e doutores de mais uma trópica Bizâncio?). como eu.. os três inseparáveis element os da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo. de seu sentido cuidado samente oculto. Quem quer que te nha lido de cabo a rabo este livro há de convir que vive um destes momentos privil egiados. Obra eletrizante. pelo mundo-comoidéia. inclusi ve os pressupostos do saber acumulados pela tradição. em vez de buscar substitui-los . Assim. ou sobretudo. de estirpe marxista . não tanto aonde leva o labirinto lingüístico do vienense em sua versão paulistana (c’est assez que Quintilien l’ait dit. mas da tarefa que se propôs. viga mestra de todo esforço de verificação filosófica. numa visão inquietante do sentido universal da aventura da inteligência moderna. atual Papa pálido da enrubescedora tropa-de-choque investigada neste jardim de aflições. São raros esses momentos. No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabarse é ainda. mas de fácil leitura justamente por causa e não a despeito da formidável erudição em que se firma.

Sobre essa mass a crítica do acúmulo dos esforços retóricos seria então possível o exame dialético que. acha-se logo em excelente companhia: no Ocidente a filosofia pós-helênica teve muito cedo entre seus cumes obras como as Confissões de Santo Agostinho. ficará perfeitamente claro ao longo do passeio em que nos guia a a gudeza da leitura que Olavo de Carvalho faz da história das idéias no Ocidente. Caligari. ao acompanhar um filósofo de verdade em sua minuciosa e exaustiva investigação de um embuste. É talvez o primeiro esforço de Olavo de Carvalho p ara pensar em público segundo sua Teoria dos Quatro Discursos. Claro. não há como tomar esta obra apenas como a hábil ampliação de um panfleto. . O leitor. a de colher as questões ao nível retórico e elaborá-las em hipóteses formais para as entregar à busca de uma solução lógico-científica. Nada de estranhar. proposição de seu ensaio pioneiro.10 OLAVO DE CARVALHO Só que. Passamos a ver claramente o que por estas bandas nos vem tapando a mente e sufocando o espírito. por exemplo. O que certa gente quer e persegue com uma obstinação de cachorro magro. graças à coragem intelectual de um er udito que não se esconde atrás do que sabe. só tem a perder suas ilusões a respeito da serie dade dos donos da hora. à diferença de compêndios bem mais ao gosto do dia. com os que somos e continuamos a ser submetidos a uma contínua barragem de slogans e esoterismos a transpirar int enções nem lá tão ocultas assim. ou Livros. para citar apenas um “compósito” que à primeira vista pouco tem de ost ensivamente filosófico. nisto ao menos. indicaria o sentido de uma solução racional (Dialética). o u seja. torna-se enfim possív el dar esse passeio para fora das brumas do obscurantismo idealista doublé de peda ntismo acadêmico. ou seja. parta de impressões subjetivas para. Ao contrário. o olhar que põe tudo isto a nu vem do olho agudo d e um filósofo nato. invariavelmente alienígenas. através do combate retórico. um tanto paradoxalmente à maneira d e um tutti orchestrale. com você. portanto. Segundo o Aristótele s de Olavo de Carvalho. Graças a sua inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual. de imposturas orquestradas como filosofia e penduradas ao nada como amor as de mentirinha. tudo o que aqui vai tem a ver e urgentemente comigo. Seu método de composição. como o entendem os “atuais” pupilos do Dr. expõe. no sentido agostiniano) vai-se definitivamente elaborar. calca-se no entanto em mo delos bem mais antigos e prováveis. 1994). mo ntar as oposições que só na conclusão (naquelas duas últimas partes. explica. que trabalho tão ímpar. antes nos convida a examinar com ele o q ue investiga. Rio. da esquematização objetiva que atribui a um conjunto de dado s sensíveis uma figura dotada de sentido (Poética). por detrás de suas cátedras como abutres encapuzados em toga s e títulos. Longe de constituírem um empecilho ao entendimento. Mas que o leitor não se apresse. capazes de levar a questão a uma resolução maximamente exata (Lógica). à primeira vista paralelo a os procedimentos sinfônicos de um Sibelius. a gênese como a elaboração da obra aqui ajudam muito o l eitor: a mim pareceu-me muitíssimo estimulante progredir através da “multiplicidade de temas e planos que faz a trama compósita deste livro”. por menos que assi m fazendo consiga caber nos moldes. a presente identificação entre filosofia e adiposidad e de jargão é fenômeno tão moderno quanto os enlatados de supermercado. emanariam interpretações discordante s fortalecidas no confronto das vontades que as apoiam (Retórica). de um conhecido e bem mancomunado establishment. como nos adverte uma nota do autor. o que andou e anda fazendo em nome da inteligência como desdentado s leões de circo. Só então tornar-se-ia factível estabelecer métodos e critérios propriamente científicos. e em última análise tão aterrador quanto o estrilo de um desper tador à meia-noite. de um sujeito que não pode não pensar. A tarefa específica do filós ofo seria. confr ntando e hierarquizando. O qual. A pedanta ria engordaria bem mais tarde. E dá-lo com toda a clareza através de um assustador pomar de aflições. este livro não é resíduo de tese e doutoramento nem se propõe a enfeitar a carreira de mais um philosophe local cev ado na massuda monotonia dos gabinetes à la page. leitor. Uma Filosofia Ar istotélica da Cultura (IAL & Stella Caymmi Editora. num conjunto de investigações dialéticas. Há que lê-lo até seu eletrizante gran finale para perceber t odo o escopo deste livro singular. assi m.

e não raro ambas as coisas. ora lógica. é sempre anterior àqueles termos. a exemplo de Machado de Assis. e po r conta dos provados e clássicos valores que o forjaram e o sustêm. Mário Ferreir a dos Santos. mas antes recuaria a condições prévias. Surpreendente é vê-lo sair da mesma pena que ainda recentemente nos dava uma rigidíssima teoria dos gêneros. Uma conferência sua semi-inédita (“A dialéti mbólica”. cátedras. seja o etéreo campo minado do guénonismo. como se vê. ou de substituição de importações) sua leitura. saudou e desnudou os belos fantasmas do platonismo. honrarias. pelo que me pareceu perceber. Caio Prado Jr. É que.. PhDs. Sua forma mentis foi evidentemente forjada a fogo. reafirmo. principiais. em caminho inverso. ao quanto pude perceber. Ou seja: nosso homem parece partir de uma antítese observada no campo dos fatos para hierarquizar os termos opostos e resolvê-los no princípio co mum de que emanam. tal receita é própria antes ao recebimento de aspas aposto ao seu justíssimo títul o de filósofo. Miguel Reale. subv en2 Reproduzida no volume A Dialética Simbólica. Olavo de Carvalho. Mas talvez o autor. como ao tempo da formação intelectual do autor era cronicamente o nosso. não se tenha dado um código senão para subme tê-lo às necessárias infrações do ato criador. Ensaios. Seus Fund amentos Metafísicos. à diferença do modelo hegeliano a dialétic a de Olavo de Carvalho não buscaria uma síntese temporal futura. espécie entre nós. thank God! Resta que nada disto é aceitável. para chegar de olho aberto a Kurt Gödel e a Éric Weil. Mais uma surpresa num pensador inclassificável. de um movimento tripartite oposiçãocomplementação-subordinação. áspero e lúcido. em curso de publicação pela Fac uldade da Cidade Editora. seu peso erudito. aportou a Schelling e a Husserl. João Cabral de Melo Neto. Tomás de Aquino a Leibni z.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 11 Misto de memórias e ensaio filosófico. Luís da Câmara Cascudo. partiu very advisely do seu e nos so Pai de Todos . à maneira de todo poeta frente à própria poética. Murilo Mendes. de política e de meta física. a leitura deste livro (às antípodas do tijolaço com que acaba de brindar-nos o a cima citado mentor de uma filosofia tão nativa quanto uma agência de importações. mas sim. muito mais merecido que aos diplomas. existente apenas como apostila didática no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades do 1 Instituto de Artes Liberais do Rio de Janeiro) ajudou-me a elu cidar algo mais o método deste pensador originalíssimo até mesmo na forma a que molda seu discurso. passou reverente pela nata da sabedoria escolástica de Sto. 1993). de reportagem e panfleto. por décadas entre o fuzil da Redentora e o realejo utopista de nossa inc urável e festiva intelligentzia. Aristóteles.. I. faz-se por isso mesmo apaixonante e como que compulsiva. Já não hesito mais: tenho o pensamento de 1 Olavo de Carvalho por paradoxalmente intemporal e atualíssimo. incansável e metódico. ora cronologicamente. (v. Rio. mas nele pareceume reconhecer a rica tradição da hermenêutica simbólica. O qual. teve que aprender quase sozinho a imensidão do que hoje sabe. Os Gêneros Literários. e por isso mesmo no meu ver indispensável hoje. acaba por não pesar. Sim. menos ainda familiar. no corpo a corpo do autodidata sem alternativas num país ocupado pela legião dos ressentidos ou pelos batalhões de imbecis. Até então eu não havia encontrado est e método aplicado à construção de uma sistemática propriamente filosófica. ao nosso encruado marxismo universitário. a bem dizer. Per strada ci rcunvolteou sabiamente seja o pot-pourri liliputiano dos hoje inúmeros e celebrado s philosophes. e tantos outros espíritos livres da raça. e talvez por isso m esmo o tenha sabido inscrever no mármore candente da mais limpa tradição letrada do Oc idente 2. sem nada perder em densidade. IAL & Stella Caymmi Editora. insubm isso e fértil para muito além das meras conjunturas de nossa douta e crônica tropicali dade atávica. por natureza. estes dois gigantes modernos. Leitor multilingüe. Olavo de Carvalho (parece incrível naqueles te mpos de tanta seca!). . Como se tem v isto. Não se trataria aqui do conhecido modelo tese-antítese-síntese. sem pisar-lhes a uns e outr os seus explosivos ovos de cobra. Capistrano de Abreu Manuel Bandeira.

mas não como pr ofessores universitários. porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade. ) .E não é só no Brasil que a decadência das universidades acaba por revalorizar o autodida tismo: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. Folha de S.” ( Harold Bloom. garantam a sobrevivência do jeito que for. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria . para ler e escrever sozinhos. 6 de agosto de 1995. Façam qualquer outra coisa. Paulo. “Harold Bloom contra-ataca”.

como toda verdadeira vocação filosófica. Sem dúvida a circunstância dessa solidão defensiva e profilática o terá.12 OLAVO DE CARVALHO ções e sabujices de nosso perigosíssimo establishment pensante. acabou por avisá-lo sobre o que de fato valia o que perdeu. ajudado a balizar justamente o terreno minado da autocastração por timidez. leitor. ne ologismo de rigueur ante tantas pedânticas pendências e dependências das infindáveis lis tas de importações canonizadas. dos hipnóticos hipnotizados? O suicídio em termos acadêmicos d e Olavo de Carvalho. patenteado uma vez mais neste livro imperdoável. dos zumbis. se por um lado desencorajaram de munirse de títulos prestigiosos a quele que dentre nós hoje possui talvez o intelecto mais corajosamente individual entre seus pares. suicídio. a de Olavo d e Carvalho é incompatível com o alinhamento compulsivo (e repulsivo) a que nos vêm aco stumando por aqui os donos de cátedras et caterva. tão ao gosto da fábrica de esterilidades diplomadas com sede à Rua Maria Antôni a. pendante. soa-me como o clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação.. São Paulo.. Os tremeliques de Mademoiselle Rigueur. Que os mortos ent errem seus mortos: sai da frente. nosso retrato assustador. ou antes. Rio. Olavo de Carvalh o volta a nos dizer em alto e bom som: basta de sestas à sombra da utopia e do mar asmo mental. Co esta sua rigorosa e instigante investigação de aflições mais um livro do campineiro for a dos eixos segundo os importadores das fórmulas da invenção da roda . julho de 1995. . e pensar! Quanto a mim. a alegre festa no velório acaba uma vez mais! com es te admirável livro. sua fulgurante crítica do binômio Epicuro-Marx é pura heresia. subserviência ou sim plesmente descaro. É que. que onde deixei um país encontrei trinta anos depois um acabrunhante acoplamento d e pedantaria e show business. Mas a quem lhe importaria alongar a sobrevida na cidade do mortos. SP.. tão patentes em nosso incipientíssimo e prudentíssimo intellectual output. Nesse empolado contexto. not least.. O Jardim das Aflições. anátema. são mais que horas de acordar para cuspir.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL TOPBOOKS .

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por afeição e gratidão. DANTE AUGUSTO GALEF FI e seus alunos da Universidade Católica do Salvador devolveram-me a confiança nos jovens estudantes brasileiros de filosofia — leitores sem os quais este livro não fa ria sentido. CLAUDETTE ALVES DUCATI e JÔ BRITO ouviram a leitura de mui tos capítulos. a quem li os rascunhos da obra. Esta obra pertence. me incentivou sem descanso a que a completasse.AGRADECIMENTOS M UITA GENTE me ajudou a realizar o projeto deste livro: BRUNO TOLENTINO. LUCIANE AMATO. LUIZ AFONSO FILHO. OLAVO DE CARVAL HO . KÁTIA M EDEIROS. JOSÉ ENRIQUE BARREIRO . ROXANE ANDRADE DE S OUZA. numa épo ca em que tudo em minha vida me convidava a dispersar meus neurônios em trabalhos menores. de vários modos. dando-me apoio moral e muitas sugestões valiosas. M ARIA ELIS A ORTENBLAD e PAULO VIEIRA DA COSTA LOPES me ajudaram. M ERI ANGÉLICA HARAKAVA e S ANDRA TEIXEIRA resolveram mil e um pequeno s e grandes problemas que teriam adiado sine die a publicação deste livro. um pouco a cada uma dessas pessoas. a superar encrencas da vida prática que sem sua generosa interferência teriam me absorvido por completo e talvez inutilizado o meu pobre cérebro por alguns anos.

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ce je ne sais quoi d’inutile.the War by Sea enormous & the War by Land astounding. de um tipo tão fátuo que era impossível calcular-lhe a origem por qualquer processo racional..” W ILLIAM BLAKE “. de pensamento.“. de superflu. Lætitia Cruz de Moraes Vasconcellos ( O Agente Secreto.. ou mesmo irracional.. 1995 )..” 3 JOSEPH CONRAD “Car si désireux qu’on soit de trouver une cause naturelle à ces tragiques abérrations. sangrenta futilidade. co mment justifier leur raffinement. erecting pillars in the deepest Hell to reach the heavenly arches. une lucide d éléctation?” GEORGES BERNANOS 3 Trad. Rio. qui révèl e un goût lucide. Pois a irra cionalidade malévola tem os seus processos lógicos próprios. . Imago.

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LIVRO I .PESSANHA - .

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querendo ou não. um livro de filosofia. — O que Epicuro veio fazer aqui. fazem parte do assunto. a pressão coletiva e a intimi dação autoritária são meios não apenas legítimos mas preferenciais do debate intelectual. Contra o primeiro desses equívocos. apenas o boneco de ventríloquo de um interesse col . não deve ir logo de entrada falando de si mesmo. quando ele é. Introdução. A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA § 1. que o leitor.” 4 JAMES BRYCE U M ESCRITOR EDUCADO. p. só então. de uma raça . indignada ou mansa. Transgrido aqui as boas maneiras por necessidade in trínseca do assunto. A carência absoluta dessa habilitação po de chegar a ser mesmo uma conditio sine qua non para a aquisição de respeitabilidade em certos círculos universitários. de uma cultura. principalmente norte-americanos. Macmillan. surpreendo-me ao notar o quanto essa habilidade pode s er deficiente em intelectuais militantes afeitos a buscar numa idéia antes seu pod er de mobilização do que sua veracidade intrínseca. sabendo ou não. pois. nesse sentido. here and in other parts of South America. No caso deste liv ro. No trecho citado. Fora uma perturbação da alma. pior ainda. do meio para diante. pode rejeitar de cara a formulação mesma da pergunta. como um bom convidado à mesa. como há d e ver quem o leia até o fim. e de que. uma agita5 South America: Observations and Impressions. portanto. substancialmente uma investigação. que não obstante consiste — posso garantir — em coisas cuja relevânci a transcende infinitamente a pessoa do autor. já que o indivíduo não pensa e é sempr e. toma de fato um rumo bem 5 diverso daquele que parecia anunciar no começo . 417. estará se enganando a si próprio. De pouco adiantará alegar que fui perfeitamente sincero. dentro de certos limites. Daí a conveniência de garantias preliminares con tra um duplo equívoco possível: de um lado. que aceitá-las ou rejeitá-las in limine é impedir-se 4 de entender aonde levam. Mas contra o segundo dos males mencionados só cabe o recurso de contar os f atos. mas também alguns brasileiros. sob o impacto da aversão que haviam despertado em mim as palavras de José Américo Motta Pessanha. Habituado por uma longa autodisciplina a suspender o juízo até encontrar uma evidência ou uma prova suficiente. Digo en tão que o miolo destas páginas redigi numa só noite de maio de 1990. onde vigora o pressuposto dogmático de que uma idéia ou doutrina qualq uer nada mais pode ser que a expressão do desejo de poder de uma classe. sem saber a que coisas e seres se refere na vida deste mundo . a sinceridade individual não tem valor. e uma tese filosófica pouco significa se amputada das razões que a ela conduzem e das motivações ge radoras da pergunta a que responde. A necessidade a que me refiro provém do seguinte: este é. de outro.CAPÍTULO I. 1912. tomando este livro como expressão de opiniões prontas. fanática ou razoáve l. ouvid as algumas horas antes numa conferência sobre Epicuro no ciclo de Ética que a Secret aria Municipal de Cultura promovia no Museu de Arte de São Paulo. O que Pessanha suscitara em mim não fora uma discordância. no ar. devo advertir que as opiniões expres sas no começo são apenas um começo. ao fundá-la numa impressão do momento —. o seu verdadei ro sentido. London. o autor refere-se especificamente ao Brasil. ao tomar posição pró ou contra logo nas primeir as páginas — ou. Co mpreendo perfeitamente que as pessoas intoxicadas por essa atmosfera enxerguem o u finjam enxergar um mero truque de retórica na minha afirmação de não ter partido de co nvicções prontas. Mas não foi na da disto. men of undo ubted talent are often beguiled by phrases. ou: Biografia deste livro “It is strange to find that. o leitor pode acolher ou repelir a tese em abstrato. a espumar de cólera ante a opinião adversária. de um país. para essa gente. sem tomar o cuidad o de seguir até o fim o fio dos argumentos onde se manifestará. isso é absolutamente obrigatório: os acontecimentos que o sugeriram determinaram as condições em que foi escrito — as quais. and seem to prefer words to facts. Isto projetará tal vez a imagem de um fanático. uma decepção. investigação que. de expor a situação real e vivida de onde a pergunta emerge. uma tristeza desesper ançada.

Deixo a essas criaturas a tarefa extremamente científica de desencavar das sombra s o secreto autor coletivo destas páginas. na convicção nada acadêmica de havêlas escrito eu mesmo. edição]. e permaneço.etivo que salta sobre as intenções do coitado e diz pela sua boca o que bem entende. . [Nota da 2a. malgrado tudo.

perdida toda vontade de enxergar. uma droga. precisamente: as frases de Pessanha eram um entorpecente. como uma neurose. contra minha vontade consciente de adormecer e esquecer. Não havia ali uma única brecha por onde pudesse se introduzir u ma discussão inteligente. “Discordar”. Saí dali enjoado como um autêntico careta sai de uma festinha de emb alo. que entrava pelos ouvidos da platéia. Tudo o que a platéia não quisera ver parecia ter se condensado no meu subconsciente. Feridas insensíveis. sem crer no que a cabara de presenciar. Puro feitiço. varei a madrugada anotando objeções e protestos que . por profissionais da dominação psíquica. Vira-as também em demonstrações de hipnose. fazendo ver tudo diferente do que era. próprio somente p ara o tratamento de doentes mentais inacessíveis à comunicação consciente.22 OLAVO DE CARVALHO ção soturna carregada de maus presságios. com isto. reduzindo o cérebro humano a uma passividade veget al. env enenava os cérebros. move tendões e músculos. produzia a acomodação progressiva a um estado de penumbra. Um público de quinhentas pessoas subm etera-se à intoxicação com sonsa alegria. Há uma grande diferença entre o doutrinador que mete simplesme nte na cabeça das pessoas uma idéia errada e o feiticeiro que as adoece. Mais tarde foi publicada no volume coletivo Ética. de lucidez 6 “As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”. fixá-lo num estado de apatetada pass ividade ante o fluxo de sugestões. sugestionadas pela voz melíflua. juízo crítico. aspirando o adocicado perfume do esquecimento. eu me tornara o sintoma denunciador de uma neuros e coletiva. ao menos não proclamavam. ela não pode ser desfeita pela pe rsuasão racional. São Paulo. O título prometia “delícias”6. autoconsciên cia. hipnotizá-lo e arrastá-lo delicadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se cu varia com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso. no melhor estilo Lair Ribeiro. Eu saíra dali em estado de estupor. Não que nunca tivesse visto coisa igual. impedi-lo de olhar o assunto de frente. mas somente produzidas por feiticeiros confessos. remexe os órgãos dos sentidos. ela salta por sobre a mente. A ação do feiticeir passa ao largo da consciência. diminuída. via em alucinações as poltronas d o MASP lotadas de zumbis sem olhos. era a sua densidade. não cessavam de brotar como reações de um organismo febril à invasão de uma toxina. tivesse deixado o recinto das clínicas psiquiátricas e das . O segundo exerce uma ação quase física. na trama de erros tecida por Pessanha. a alma da vítima se amoldasse às t revas como num leito fofo. Cheguei em casa pela meia-noite e. O primeiro move-se no reino das palavras. ou então para u sos perniciosos e ilícitos. estar lhe transmitindo cultura. que só começarão a doer quando for tarde para curá-las — quando a lembrança de sua origem estiver demasiado apagada para que se possa iden tificar o rosto do agressor. 1991. mesmo com veemência fanática. um vício. até que. exi gindo vir à tona. de técnicas psicológicas que. O que me espantava era que esse gênero de manipulação. O grumo compac to de absurdidades exalava uma radiação debilitante sobre as inteligências. debilitando suas inteligências para que nunca mais atinem com a idéia certa. seria aí tão descabi do quanto tentar deter um assaltante à força de citações do Código Penal. Companhia das Letras. ela se esquiva ao olhar humano e vai exercer seu domínio dire tamente sobre o macaco residual que habita em nós. não conseguindo pegar no sono. O que mais me impressionava. Vira muitas. Era isto. instaura novos r eflexos involuntários. como crianças a seguir m um novo flautista de Hamelin. produzindo feridas num estrato profundo que os meros argumento s não atingem. O Jardim de Epicuro parec ia-se estranhamente com o Jardim das Oliveiras . que podem ser enfrentadas com palavras. movia o eixo dos globos oculares. numa deliqüescência mórbida. Querendo ou não. num giro louco da tela do mundo. no recesso de seit as obscuras que não se adornavam do prestígio da autoridade acadêmica nem se abrigavam sob a proteção do Estado. Cada palavra parecia calculada para desviar a atenção do ouv inte. Não sei se me faço compreender. tentando adormecer. de Programação Neuroli güística. mas ali eu só encontrara pesares e aflições. Em casa. pelo jogo de imag ens que dava às lorotas mais óbvias um intenso colorido de realidade. Saltava da cama com a cabeça fervilhando. Meras opiniões não produzem este efeito.

doloridamente consciente do declínio intelectual b rasileiro.seitas ocultistas. Su- . Eu estava consciente. da debacle do ensino universitário. para ser empregado por acadêmicos como um sucedâneo da transmissão de idéias. mas nunca imaginara que a coisa pud esse baixar a esse ponto.

interminado e tosco. Na noite seguinte. Mas conhecia sua fama e havia notado nela um traço p eculiar: seus ouvintes saíam f ascinados. sem suspeitar que ela pudesse fornecer algum indício quanto ao ca ráter do orador. consolava-me com aquelas palavras que as avós sempre dizem quando a gente d espenca da bicicleta: “Do chão não passa. assumi qu e era um sintoma vivo e me encaminhei ao divã mais próximo — a máquina de escrever — para verbalizar os conteúdos neuróticos que a magia de Pessanha injetara em meu cérebro. que começa ra como um amplo movimento de conscientização moral. o chão se abrira: pelas mãos de Pessanh . até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do Sr. Alcançada esta meta. Não consegui conciliar o sono. Apaziguei minhas inquietações explicando essa reação como esn obismo do público. envolta num halo de prestígio místico. de modo a curar-me dela para sempre.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 23 punha que a redução do pensamento à tagarelice ideológica fosse o limite inferior da dec adência. que não c omeçara propondo metas tão gerais. Eu nunca tinha visto José Américo Motta Pessanha. no fundo de uma gaveta. mas absolutamente nada. da campanha pela “Ética na Política”. e a conseqüente ascensão das esque rdas à posição dominante. verbalizá-los foi o bastante para exorcizá-los. Nada. A alguns objetei que o m esmo acontecia aos ouvintes de Hitler. mas se mostravam incapaz es de dar qualquer noção clara do que ele dissera. o curso dos eventos polític os tomou um rumo imprevisto e. era o que eu quer ia. ache i então que a destruição política do Sr. Guardavam uma impressão difusa. de sfazer o macabro encantamento. Imaginei apenas que fosse um sujeito abstruso. na maçaroca de papéis que trouxera de São Paulo comprimida em cinqüenta e tantas caixa s. com o convite para uma réplica. senão para melhor atingir o alv o particular. e me acompanhou em uma mudança de cidade e cinco mudanças de casa. Co mo sempre acontece em tais situações. Esse exorcismo constitui duas quintas partes do presente livro. tecendo ao conferencista os maiores elogios. estreito e raso que lhe interessava. a quem a platéia ind enizava com tanto mais fartura de aplausos fúteis quanto maior a quota de compreen são que lhe sonegava. Tive então um impulso de retomar este trabalho. empenhado em desarraigar da nos sa mentalidade política alguns vícios seculares. É verdade que tout commence en . esclarecedor. para mim. na treva sem fim de um definitivo adeus à inteligência. mas em resposta recebi aquele sorriso de condescendência desdenhosa com que o detentor de um segredo beatífico marca a distânci a que o separa do profano. Foi só em fins de 1992 que.” De súbito. recuperar o senso do real momentaneamente entorpe cido pelas artes de um feiticeiro. tinham sido realmente os únicos objetivos da campanha. se lhe interessasse. que ficou jazendo. Meditando os eventos à luz do preceito de He gel. Fernando Col lor de Mello da Presidência da República. foi estreitando cada vez mais seus objetivos. Ocupações variadas desviaram-me para outros assuntos. como se as mais pr ofundas exigências morais da nação tivessem sido cabalmente saciadas mediante a simple s dispensa daquele infausto mandatário. a campanha festejou o e vento como se ele tivesse dado plena satisfação aos seus anseios. Mas . examino a filosofia — ou seja lá o que for — de Epicuro. o público era convidado a mergulhar num abismo de inconsciência. me dei conta do papel que tivera aquele ciclo de conf erências n preparação discreta de acontecimentos que depois iriam a avolumar-se e desa bar sobre o país como uma tempestade. segundo o qual a essência de uma coisa é aquilo em que ela enfim se torna. Imprevistos e correria s de uma vida anormalmente repleta deles impediram-me o retorno a este trabalho. me fazia antever o que encontr ei no MASP. Nos meses seguintes. amplas e profundas. li o manuscrito para uma roda de amigos e o guardei. No fundo. antes da publicação em livro. cogitando as razões da súbita e inusitada popularidade adquirida pela palavra “ética”. Larguei Epicuro. Collor de Mello. onde. esqueci Pessanha. Ele fora um sinal de largada. Após cinco tentativas falhadas. A campanha da “Ética”. não pude encontrar o manuscrito. ao fio dos argumentos de Pessanha. tenciona ndo dar-lhe mais tarde uma forma final e remetê-lo a Pessanha. int raduzível em palavras. quase inaudível.

só para eliminar um adversário político ou m eia dúzia deles. no entanto. No exército da moralidade pública. Documentei o bastante a esquisitice ambiente em O Imbecil Coletivo para poder me dispensar de enumerar novamente aqui os sinais da patologia mental que então acom eteu a inteligência brasileira. quando a campanha voltou à carga. com festiva credulidade. é realmente um daqueles casos em que o excesso de chumbo só faz ressa ltar pateticamente a míngua de passarinhos. Uma campanha de escala nacional que se apoia numa retaguarda filosófica. nela. não há defecções. tem a imprensa mais ousada. de sta vez contra deputados e empreiteiras. e nfim. os âncoras de TV tinham se tornado g uias e orientadores da intelectualidade mais pomposa e autoritária. com afinação de um coro multitudinário regido por uma só vontade. enfim. que a farsa de uma ética reduzida a grosseiras expressões d e ressentimento parecesse contentar a todos os cérebros incumbidos. O estranho era que a inaudita mobilização da c lasse intelectual não desse à campanha nem mesmo um arremedo de rigor. estação de rádio ou canal de TV e se exima da obrigação de informar. estão alinhados no ataque frontal à corrupção. como o senador Ja rbas Passarinho. que verberam em uníssono. mas o espantoso. em princípio. mais empen hada em descobrir e revelar a verdade. Collor. Mas a explicação. em troca de resultados políticos de valor duvidoso.24 OLAVO DE CARVALHO mystique et finit en politique. decorrido tanto tempo. tinham sido derrubados com muit o menos investimento intelectual. de ser exigentes consigo mesmos. mas todos os órgãos de comunicação. por um só espírito. Aparentemente. e os militantes da moral não relutavam em recru7 tar para suas tropas notórios servidores dos governos militares. Estávamos. o desejo de vingança ain da tivesse força bastante para obnubilar todas as inteligências. — anotei num artigo que escrevi para a revista Imprensa: “Pelo furor investigativo com que os jornais e a TV abrem as la trinas. era a desproporção entre a quantidade de mystique que se mobilizara e a mesquinhez do seu resultado políti co. cuja singularidad e. mais independente. Não era possível que. um aspecto estranho. embora parcialmente verdadeira. dentre todos os países. Porém o mais admirável. para atirar ao limb o as exigências mais comezinhas do amor à verdade. como se a destruição de seus desa fetos políticos valesse a abdicação de toda inteligência crítica. vasculham os esgotos da República. Foi a uniformidade do . que se deixava guiar ao som de slogans. Tudo isso é muito normal em política. quando comparados à persistente in diferença ante o escândalo das “polonetas” (empréstimos irregulares ao governo comunista d a Polônia). perseguindo os rem anescentes de uma ditadura que não tinham conseguido vencer e que só se desfizera. convoca as luzes dos sábios do passado e se dá todos os ares de uma revolução cultural. destapam os ralos. por vontade própria. que par eceu escapar totalmente aos melhores observadores. parece que o Brasil. que procure mesmo discretamente abafar denúncias. proteger reputações. sem ex ceções visíveis. Governantes muito mais poderosos que o Sr. e mesmo Estados e regimes inteiros. na esqui8 A onda de ira nacional contra Collor e depois contra os deputados envolvidos em desvios de verbas são casos ainda mais estranhos. os inimigos já estavam quase todos mortos ou esquecidos. A revanche era tardia demais. onde cada facção procur a sempre se arrogar o monopólio do bem. acobertar suspeitos. diante de um fenômeno estranho. que trouxe ao Brasil muito mais prejuízo do que o ex-presidente e todos os “anões do Congresso” somados. no episódio. de autoconsciência moral. parecia escapar inteiramente àqueles mesmos que o protagonizavam8. E — conjeturei então — talvez fosse possível encontrar. Todos. de seriedade. Não há neste país um só jornal. não me sati sfazia. Só para dar um exemplo. foi este que na segunda fase da campanha — a guerra contra João Alves & Cia. Mais tarde. por um só c itério de valores. Amigos com quem comentei o caso explicavam-no pelo revanchismo: como macacos a espancarem a onça morta. os esquerdistas buscavam uma compensação por duas décadas de humilhações. é a unanimidade d a sua adesão a esse objetivo. a “ética” que se reivindicava assumiu de vez sua verdadeira natureza de mero impulso de vingança 7 política voltado contra alvos descaradamente seletivos . apela a todas as forças intelectuais da civilização.

sem quaisquer ambigüidades ou meios-tons . e ntre os temas dominantes do seu discurso. de ideologias. a glorificação da imprensa livre que os investiga e desmascara. d interesses. terminando por neutralizá-las e por não deixar à mostra se não duas facções. mocinhos e bandidos. de uma nação em peso abdicar de suas dive rgências internas para formar frente única sob uma bandeira tão vaga e abstrata quanto a “ética”. Ninguém hesita em ver nesse fenômeno o começo de uma nova era: levado pela mão da imprensa. essa unanimidade não pode de ixar de parecer um tanto suspeita. lograram homogeneizar a tal ponto o discurso dos seus jornalistas. a quem fez seu aprendizado no jornalismo ouvindo dizer que impre nsa é diversidade. a celebração de si mesmo: a condenação dos polít icos corruptos é. se viu um caso como este. Um fenômeno tanto mais estranho quanto é recente a introdução da palavra “ética” no vocabulário popular brasileiro e rapidamente improvisada . num sombrio me neio de cobra. aquela esgueirandose pelos corredores. Mas. Esse unanimismo não teria poder sobre as consciências se não incluísse. tramando golpes. Imagem na qual a linha demarcatória da “ética” se sobrepôs mesmo às divisões de partidos. que democracia é pluralismo de opiniões. em qualqu er lugar ou época. ela é. com êxito fulminante. Nem países em guerra. e não raro explicitamente. Anormal historicamente. O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno ímpar na história da imprensa mundial. esta vociferando sua indignação nas praças. sua promoção ao status de ideal unificador de todo um . movidos pela necessidade de unir-se em defesa de bens mais palpáveis contra perigos mais imediatos e letais. apagando pistas. a de Caim e a de Abel. ao mesmo tempo. Nunca. o Brasil atinge o portal da maturidade democrática.noticiário que permitiu fixar na retina do público a imagem de um Brasil dividido em justos e pecadores.

para c onservar. aumentado de esclarecimentos indispensáveis e melhorado — espero — nos detalhes da expressão. com muitas idas e vindas entre a superfície da políti ca atual e as camadas mais profundas de uma antigüidade quase esquecida. . como diz Aristóteles. a unidade de um a intuição simultânea 9. as linhas de investigação que tiveram de ser abandonadas para que o livro pudesse c hegar a um ponto final. reproduzido em O Imbecil Coletivo ). além da economia que nos facultam ao abreviar um argumento median te saltos que a indicação de um mero título preenche. Além da sua função m l de testemunharem o justo reconhecimento de um escritor para com seus fornecedo res de material. Sua presença nas notas mani festa a confissão de que este não é o único nem o melhor dos livros possíveis sobre o seu assunto. Não creio que isto se pudesse fazer senão tudo de uma vez. política e metafísica. a falta da capacidade de espantarse é um grave sintoma de apatia mental na nossa intelligentzia. Muit as e longas. acrescentei os livros finais e este começo. além da aparência verdadeira ou fals a de probidade científica de que revestem o conteúdo de um livro. convocava reforços de eras pretéritas par a dar apoio a uma política do presente. maio de 1994. misto de memórias e ensaio filosófico. Acrescentei também muitas. l ocalizei o manuscrito e fiz-lhe os acréscimos que àquela altura me pareciam necessário s. por sua vez. não alterou em nada minha disposição de publicar este livro. Algumas correções foram bem minuciosas. Toda a parte inicial — do § 2 ao § 17 — é o texto de 1990. na parte que a ele mais de perto se refe9 povo. não se poderia elucidá-la sem ampliar formidav elmente o círculo das investigações. Para fazer face à i nfluência difusa e embriagante que as palavras de Pessanha espalhavam no ar como u m spray. Como esta cosmovisão. É também esta multiplicidade de temas e planos que explica a trama compósita deste liv ro. de intenções veladas. Mas esc rever. A fala de Pessanha era tão cheia de subentendidos. Tão vasta e ra a área das implicações. A notícia da morte de José Américo Motta Pessanha. num lance súbito de espadachim ou de pintor zen. que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 25 sitice geral do ambiente pátrio. além mesmo do in egável deleite psicológico que um autor pode tirar da ostentação erudita. Abandonadas mas não desprezadas. que arriscaria perder de vista a forma do seu conjunto quem se aventurasse a percorrê-la aos poucos. Elas repres entam. Notas de rodapé são uma das mais amáveis invenções humanas. ocorrida no início de 1993. Jamais uma palavra-de-ordem emanada de um estreito círculo de intelectuais a tivistas logrou alastrar-se com tal velocidade pela extensão de um continente. já pronto. Revi rando de novo meus papéis. agora com o empenho investigativo de um “araponga” do PT. mais que contestá-la. muitas notas de rodapé. não pude mais adiar a retomada deste trabalho. Hoje surpreendo-me de ter podido escrever tan to numa só noite. reportagem e panfleto. — Se o conhecim ento. cort ado de excrescências. pode agora mesmo vislumbrar em pensamento outros tantos melhores. era preciso um sobre-esforço de compactação. que espremesse numa área limitada e visível a multidão variada de fantasmas evanescentes. mas deixaram inalt erado o sentido do conjunto. um princípio de explicação para aquilo que eu vira no M ASP. além de todas es sas coisas apreciáveis e reconfortantes. por ora. alguns metros por dia. de mensagens camufladas para uso dos happy few. só pôde escrever este. elas nos dão algo ainda melhor. não poderia ter sido de outra forma. na multiplicidade dos temas e dos planos de abordagem. em Imprensa. mas da qu al só tomei conhecimento muito depois.” ( “Unanimidade sus ta”. sem que ninguém se lembrasse de objetar que a rapidez com que se propagam as palavras está às vezes na razão inversa da profundidade de penetração das idéias. dentro do corpo de um livro. mostrar toda a cosmovisão que ela trazia de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras. Diante dessa expectativa. Apenas mudei um pouco a ordem. Nada alterei nele em substância. daqui de onde fala ao distinto público. pensando bem. O mesmo autor deste. Mas. começa com o espanto. as sementes de outros tantos livros possíveis. além do benefício peda gógico de abrirem para o leitor um leque de estudos complementares. era preciso desvendá-la.

Os Gêneros Literários. na verdade. que não se esperaria ver assinada pelo mesmo autor de uma rigidíssima teoria do s gêneros ( v. religião comparada e sei lá quê mais — coisa em suma incatalo gável.esoterismo e fait divers. foi justamente para poder. se fixei com tal apuro as distinções e ntre os gêneros. E. Mas. 1993 ). . IAL & Stella Caymmi Editora. melhor misturá-l os. não há o que não caiba na minha definição de “ensaio”. Olavo de Carvalho. R io. em caso de necessidade. Seus Fundamentos Metafísicos.

o mesmo grupo realizou o congresso Libertinos/Libe rtários. como o testemunha o atraso deste livro em relação aos fato s que o motivam. amputado da escuridão que o alime ntava e protegia. enobrecido e como que santificado pela morte de seu revend edor local. Crébillon e similares. de revelar o mal para que pereça exposto à luz. nem exime d o dever de contestá-las. o veneno epicúreo pode agora se r distribuído em massa. As idéias. Faço-o por uma obrigação interior. quand o nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm. que o feiticeiro. em debates letr ados. mas não consigo esconder a repugnân cia que sinto ao lidar com esse gênero de materiais. e muitas palavras de louvor a Laclos. para certas pessoas. mas enquanto me mbro atuante de um grupo. sob a direção do mesmíssimo Adauto Novaes que organizou o evento de 1990. e não por simples ocasião e sinal para mostrar. Trata-se. — Em 26 de setembro de 1994. num giro por dois milênios de histór ia das idéias. a altercação de d ois velhinhos num asilo. grupo este que continua vivo e passa bem 10. escondeu entre r estos de cadáveres. da qual fugi o quanto pude. Um escritor cujo nome não me ocorre sugeriu. que emprego no texto. como em psicanálise. livro que condensa todo o drama das idéias do século XX. Não se trata. editar em papel-bíblia as obras completas de Julius Streicher. — Em junho de 1995. foi tran smitida pela TV Educativa do Rio. e das quais ela extrai toda a significação que possa ter para além das miudezas políticas que const ituem sua motivação imediata. E um feitiço não se discute n o plano teórico: um feitiço desfaz-se. reconheço. Não faço este trabalho com prazer. para defesa e esclarecimento dos vivos. pelo menos na media luz da hipocrisia que se tornou o padrão oficial da ling uagem educada nacional. de confrontar na s erenidade de uma comum devoção à ciência várias imagens da realidade. o círculo inteiro das condições remotas que a possibilitaram. Alguns leitores talve z digam que dei uma importância desmesurada a um acontecimento superficial e passa geiro: a refutação de uma simples conferência não requer todo um livro. com o título mudado para “Arte de Viver”. ele atacou novamente. portanto. A segunda é que a morte de um filósofo não torna verdadeiras as idéias falsas que tenha defendido. Algumas expressões mais fortes. de que se servem para enfeitiçar o público e colocá-lo a serviço de fins com que. Sustentam essa minha decisão três razões. mediante a exibição dos chumaços de cabelos e dos r etalhos de roupas da vítima. de desenterrar velhas mentiras esquecidas. A primeira é que. desde 1990. apesar da ve emência com que contesto aqui as idéias de Pessanha. que incluiu comemorações — pagas com dinheiro público — do bicentenário do marquês d ade. não são imagens da realidade: são poções mágicas. numa programação que reproduzia resumidamente o ci clo de Ética do M ASP . Faço-o com resignada boa vontade. Essas condições é que são o tema do livro. para encontrar a mel hor. de refutar argumentos errôneos. ele não se prestaria a colaborar de maneira alguma. Eis como a morte do pensador dá mais força de difusão às idéias que ele defendeu em vida. com u m ciclo denominado Artepensamento. em furtiva incursão. de desocultar intenções que chegam a ter al go de sinis10 Pouco depois dos acontecimentos narrados nesta “Introdução”. como dir ia Paulo Francis. por ignorar tudo a respeito. num esgueirar soturno. desde o fundo dos séculos. se este livro tomasse a conferência de Pessanha por seu obje to. lúcido e inform ado. A terceira é que aquilo que possa ter havido de maligno na influência de Pessanha sobre o público não veio dele enquanto indivíduo. tro. Quanto ao tom.26 OLAVO DE CARVALHO re. Conservado e industrializado pela técnica. Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mági ca de Thomas Mann. ne m poderia fazê-lo se quisesse. gravada em vídeo. quem não tenha podi do fazê-lo em vida dele. o deste livro é às vezes de uma franqueza que destoa. emitidos c om a inocência de uma equivocada busca da verdade. nada digo contra sua pessoa. Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da História. para simbolizar o cúmulo da insignificância. A objeção não seria d todo despropositada. Só falta. Mas não se trata aqui de discutir idéias. a palestra de Pessanha sobre Epicuro. espero que me sejam perdoadas como naturais desabafos de um homem que tem de falar sobre o que preferiria esquecer. não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em .

aquilo que pouco significa por si mesmo pode significar muito pelas ca usas que revela. a cantiga milenar do engano. Como se vê pelo exemplo dessas belicosidades g eriátricas. no fim os velhinhos fazem as pa zes. na perife ria da História. . No fim deste livro o leitor verá como o personagem dos primeiros parágrafos terá se tornado pequeno — o eco débil e longínquo que repete às tontas.. E Perez de Ayala fez dos bate-bocas entre dois velhinhos de miolo mole — Be larmino y Apolonio — o resumo da universal altercação. ao reencontrar-se num asilo..Davos.

mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais. podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que. Quanto às minhas. Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. reservando as partes mais altas e serenas para melhor ocasião. mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no resta nte do livro. trato-as a pão e água. enquanto as idéias amadurecem e se revestem de uma forma verbal melhor12. segundo dizia John Stuart Mill. nada se parece mais a um adorno exterior. É que a crítica. por agora. ginástica sueca e chibatadas. que vai para onde bem entende e jamai s me consulta (no que aliás faz muito bem). do que uma conferência sobre o Jardim de Epicu ro no estilo floreado de Motta Pessanha. é porque algumas delas já foram minhas — e. Não e screvi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis. sobre o temperamento do autor. sob a forma de apostilas de meus cursos pr ivados. Que o tom deste livro. como disse Goe the. como o leitor verá sobretudo n as últimas páginas. Ainda um pedido. Meu propósito não é mudar o rumo da História. “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação. Também declaro peremptoriamente que não tenho a menor ilusão de influencia r no que quer que seja o curso das coisas. mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso. sujeito pacífico e tolerante até o limite da paspalhi ce. por olhos doidos ou sãos. que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado. e não pela importânci a muita ou pouca dos fatos. supondo-se que a desejemos. a direção onde devem ser buscadas as verdades que eles renegam e rene gando encobrem. e deix ando-as mostrar-se apenas. é a mais baixa faculdade da intel igência. mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos. o que vi estava lá. da ruidosa atualidade. No entender do superficialismo brasilei ro. não levem ninguém a conclusões precipitadas 11 12 As anteriores foram A Nova Era e a Revolução Cultural. sucedâneos do afeto humano. não as compreenderiam. permito-me citar o único autor do qu al posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu. Não posso r ecomendar esse regime às almas sensíveis. mas aponta. Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 27 De outro lado. este livro não se limita a desfazer um ou vários erros. . e na ordem de publicação dos meus escritos preferi começar de baixo. positivamente. Meus alunos podem atestar que a polêmica está longe de constituir o centro dos meus interesses. Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Oci dente moderno. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação. Fritjof Capra e Antônio Gramsci e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. que deram ocasião e pretexto ao se u aparecimento. e sobretudo o fato de ser esta já a minha terceira obra de combate11. escondidinho e letal sob as flores. a um inócu o passatempo botânico de nefelibatas. Ora. E se aqui submeto idéias alheias a esse tratamento impiedoso. Para liquidar de vez com a objeção. só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso. a outras estrangulando no berço ou esmag andoas a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem. que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico. Posso provar isto. mas desconheço outro que possa nos colocar n a pista da verdade.” Ademais. se ouviss em. o hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas conseqüências práticas que as idéias filosóficas. lev ando muitas delas à morte por definhamento. locais e momentâneos. Mas. e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo.

Minha única iniciativa. IAL/Stella Caymmi. Introdução à Teoria do Quatro Discursos ( Rio. 1994 ) — deu mais encrenca do que toda s os meus escritos de polêmica. até agora. 1996 ). Topbooks. . O episódio está documentado em Aristóteles em Nova Persp ectiva ( Rio. de divulgar essa parte mais interior do meu traba lho — com a publicação do livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura.

Não é de hoje que a filosofia assume o encar go de guiar o mundo. pôde fazer para r econduzir aos bons caminhos da ética uma nação perdida. um sumário do es tado da questão no consenso dos estudiosos. O intuito declarado dos organizadores do curso era triplo: dar um esboço cronológico das principais doutrinas éticas. pela ética da vida intelectual q uando tem. convocava os alemães à defesa da honra nacional pisoteada pelo invasor. não havendo nenhum à mão. pois a diferença está num plano acima do que o público enxerga. em terminologia mais moderna. quando ele. A seleção dos temas e o conteúdo das conferências terminaram por desmentir os doi s primeiros objetivos e anular o terceiro. a compreensão de uma nova tese depende do conhecimento do estado da questão. já não consegue se guiar p or si mesmo. as nações nomeiam filósofos honorários. o professor. Em todo debate científico ou filosófico. onde são servidas aos convidados al gumas lições preciosas. . abrindo-o para um público de quinhentos e tantos l eigos. Desse preceito. ambos podem faz er igual efeito. Se porém o especialista. o público leigo fatalmente a tomará como se fosse ela mesma a expressão desse cons enso. Sócrates ia pelas praças cobrando os direitos da consciência. desorientado e perplexo. As conferências do MASP Na gritaria geral contra a falta de ética. Benedetto Croce dizia que só se compreende um filósofo quando se sabe “contra quem ele se levantou polemicamente”. autora de um premiado Convite à Filosofia. com a riteriosa discriminação dos tópicos abrangidos e por abranger. Quem fale aos leigos sobre um assunto da sua especialidade está implicitamente obrigado. Discursando do alto de um caixote de beterrabas. chocado com a guerra entre cristãos. last not l east. É da tradição os filósofo bandonarem o silêncio da meditação para ir discursar às gentes. A diferença é simples: um filósofo busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores. clamava pela união das ig rejas. sem os nexos que a ligam positivamente ou negativamente ao consenso e à tr adição. como fundamento primeiro da argumentação. É também um preceito elementar do método científico não apresentar uma teoria nova sem provar primeiro que as anteriores não bastam para explicar os fenômenos de que trata. porque toda divergência diverge de alguma coisa e só no confro nto com ela adquire sentido. Vejamos o que a consciência filosófica nacional.28 OLAVO DE CARVALHO § 2. novas ou divergentes qu e o orador acaso tenha a apresentar só poderão ser compreendidas e discutidas com pr oveito se forem vistas no quadro desse consenso. Leibniz. É um meio de evitar a proliferação de teorias inúteis. mesmo que dele divirjam e sobre tudo quando divergem. como por exemplo a de que na lógica de Aristóteles “o acidente é um tipo de propriedade” mais ou menos o equivalente a dizer que na geometria de Eucli des o quadrado é um tipo de círculo. das teses consensualmen te admitidas e das que continuam em litígio. que. Opiniões próprias. designa os ideólogos da Revolução Francesa. assim representada. Fichte. grifado ou entre aspas. Para este. ou. titular da Sec retaria Municipal de Cultura. nas horas de escândalo e r uína. Foi assim que surgiu o termo philosophes. do alto de um caixote de beterrabas. um philosophe busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daquele s a quem segue. lançar luz sobre a questão da falta de ética no país e p opularizar o debate a respeito. que. Voltaire é filósofo tanto quanto Leibniz ou Aristóteles. Status quæstionis — termo da retórica antiga — é o retrospecto das discussões até o presente. Tão necessários são os filósofos nessas horas. biônicos. No caso brasileiro. o homem investido de autoridade acadêmica apresenta sua opinião solta. ergueu-se finalmente a voz da filosofia para clarear as idéias do povo e indicar à nação o caminho do bem. a i ncumbência de figurar no papel de consciência filosófica nacional foi atribuída ao grupo de professores universitários que orbita em torno de Marilena Chauí. e dará às palavras de um só indivíduo — ou do grupo que ele representa — o valor e o p eso de uma verdade universalmente admitida pelos homens cultos. i solada. organizadora do ciclo de Ética do MASP e. a oferecer-lhes. aviltada pelos abuso s da retórica.

Epicuro. não é propriam ente um filósofo menor. deve ser mostrada como tal. No fim das contas. mas alguma coisa menor do que um filósofo. a fineza de declarar de antemão seu propósito de apresentar uma ver são nova e heterodoxa da História. Dessa norma. Instaurada oficialmente em 1229. decorre uma norma prática: as novas teorias é que devem apresentar suas razões contra as velhas. Nem mesmo o de desfigurá-la em nome de uma teoria qualquer. ele se espa lha: deita e rola. creio eu. que em detalhe comento mai s adiante. Ésqu ilo e Eurípides. Mas a versão que o ciclo apresentou da hi stória das idéias éticas é bem diferente daquela a que o público teria acesso caso se diri gisse a qualquer das histórias da filosofia que circulam em formato de livro. no consenso quase universal. Rolando. Não deveria ser preciso fazer tais recomendações a pessoas tão cheias de consciência ética que. na ética popula r. recebe o nome de cara-de-pau. Quem assim a empregu e estará se aproveitando da ignorância alheia para fazer-se de autoridade. com seus quase mil anos de História. removendo para um canto os nex os principais articuladores do conjunto e puxando para o centro um detalhe qualq uer de sua preferência. Por exemplo. o capítulo referente à filosofia grega resumiu-se a duas co nferências: a de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro.. carregada ademais de obscuros simbolismos a rcaicos. admite muitas outras interpretações éticas que não somente aquelas destacadas p or Nicole Loraux (que seria. Apenas se pede.. Ninguém nega aos organizadores do ciclo o direito de reinterpretarem a História o qu anto queiram. numa só conferência.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 29 que é válido também em filosofia. rolando. a que m assim proceda. sentiram o urgente impulso de derramá-la sobre toda a nação. o cabotinismo elevado a princípio historiográfi co foi cair num descalabro ainda pior ao tratar da filosofia medieval: espremeua toda. como a quintessência do assunto. Nenhum desses tópicos nem dos muitos outros em que se subdivide a ética medie val nos livros de História da Filosofia foi considerado significativo o bastante p ara representar. fl ui a obrigação de ética pedagógica a que me referi: toda teoria nova. digamos — que tem todo o direito de ser defendida contr a o consenso. é um quid pro quo. É uma versão peculiar — alternativa. Uma história da é a grega que eleve Epicuro ao primeiro plano em lugar de Platão e Aristóteles não tem c omo evitar. Veremos adiante. Mas cometer extravagâncias com o ar i nocente de quem procede segundo a praxe mais rotineira é aquilo que. o rótulo de extravagante. recortada e contrastada sobre o p ano de fundo do consenso que ela confirma ou desmente. Que aspecto foi esse. no MASP. tomado assim. Vítor? O indeterminismo moral de Duns Scot? Nada disso. a essência da Idade Média. como obra de arte. sobre os se ntimentos éticos na tragédia grega. Aí. por sua vez. e não “a” História. pela m assa crédula dos ouvintes. “essa instituição — como frisou Alexandre Herculano — nasceu débil e desenvolveu-se gradual e lentamente”1 3. alterand o a hierarquia dos fatos e as proporções dos valores. por um único e privilegiado aspecto. E a tragédia grega. por insignificante e banal que seja. Como num duelo. mas não tem o direito de posar em lugar dele perante um público que o desconhece. ou pelo menos sobre quinhentas cabeças. e mesmo aí só a abordou. E nada mais confortável para um cara-de-pau do qu e poder contar com a sonsa aprovação de uma platéia novata. que a revestiu da ima13 . cabe ao desafiado a primazia na escolha das armas. quando apresentada a um público leigo. Nicole Loraux (aliás excelente). e a da convidada francesa. não con seguindo mais contê-la em si. ao abrigo de todo olhar de censura. Nunca deve ser exibida so zinha. com seletividade feroz. em sentido corrente. o pen samento ético grego ficou ali reduzido ao filete escasso e marginal do epicurismo e a um vago e misterioso “sentimento” coletivo escoado entre os versos de Sófocles. Aristóteles ou o estoicismo: sobre os t rês sistemas completos que constituíram o essencial da herança moral grega às civilizações e uropéia e islâmica. Seu período de atuação mais intensa. o tribunal da Santa Inquis ição! Historicamente. O tema ali encarregado de figur ar como amostra suprema do pensamento medieval foi. no mínimo. ocupando todo o espaço e fazendo as vezes do consenso. Nem uma palavra sobre Platão. incapaz de atinar com a ex travagância do seu procedimento. tão especial? A moral agostiniana da autoconsciência? A ética tomista da escolha razoável? A pedagogia moral de Hugo de S. a última a negá-lo). e não estas contra aquelas.

t. Bertrand. s/d. . p. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal . Alexandre Herculano.V. 25. Lisboa. I.

e não podem tê-las trocado por engano. Chaim Samuel Katz e Eg inardo Pires. Durante quase toda a Idade Média. Sto. Eduardo Fran cisco Alves. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. é u m dos principais sintomas. ). a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno es teve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja C atólica (v. mas limitando-o severamente. Não sei se a acusação era procedente. Rio. Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu con tra o uso da tortura. op. Alexandre Herculano. que não coinc ide. de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros pop ulares”. o R ei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura. Idade Média com Inquisição. trad. Anselmo (1070) até as Reportata Parisiensia de Duns Scot (1300). de modo geral. ). Mesmo o século do estabelecimento oficial da Inquisição. passando pelos livros de Pedro Lombardo. eram um hábito consagrado na Península Ibérica. que vai do Proslogion de Sto. não permitindo que o ac usado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. caiu e m desuso. l O proces so de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial. É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus. repito. o período de atividade inquisitorial mais significativa já é posterior. A tortura era considerada um procedimento legítimo e pra ticada em toda parte desde a Grécia antiga. uma farsa concebida pelo Papa padrinho de Galileu para que seu pro tegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples decl . provavelmente não era. Isto é tão medieval quanto a física d e Newton. Vítor. l A Inquisição institui u a tortura generalizada. é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso co mo ministro da Fazenda de D. o que deveria ser considerado um marco na história dos direi tos humanos. qualquer caráter criminoso. Sto. Bem ao contrário. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida. Tomás de Aquino e S. que a sua fama inquisitorial obedece à definição stendhaliana da fama: co njunto dos época era crime. com o da sua atuação efetiva. promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos. As fogueiras da Inquisição continuaram depois a arder pela Idade Moderna a dentro. Eles sabem p erfeitamente bem que a Idade Média é um bode expiatório das culpas de períodos históricos posteriores.30 OLAVO DE CARVALHO gem sangrenta que tem para nós hoje. Ediouro. já é apenas o finzinho da Idade Média: é o princíp o da sua dissolução. o XIII. l A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus. Boaventura. 1993). causa imediata da abertura do Santo Ofício. op. mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alter nativas reais existentes na época. na Rús sia. As matanças de judeus. sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renas centista — dos textos das antigas leis romanas. — Para completar. sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas. A tortura ilimitada foi depois reintroduzida pelos comunistas. “O Feiticeiro e sua Magia” ( em Antropologia Estrutural. Instituindo os processos regulares. Alexandre de Hales. entendemos que ela foi um mal menor: a única alte rnativa era o massacre ( v. nenhum desses filósofos exerceu qualquer cargo no Santo Ofício nem teve com esta entidade contatos senão episódicos. alcançando um máximo de furor nos séculos XVI e XVII. sobre a realidade das mortes por en feitiçamento. o processo f oi uma pizza. Para completar. Guilherme de Conches. das quais a própria disseminação das heresias. Rio. recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss. cit. O que a Inquisição fez foi seguir o us o então vigente na justiça civil. Tes tas. que não marcaram significativamente o con teúdo de suas obras14. com a eclosão das primeiras manifestações de autonomia nacional. de dois séculos. John Bossy. a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças. Pedro Abelardo. Hugo e Ricardo de S. Tempo Brasileiro. assim. Os philosophes do MASP conhecem tão bem ou mel hor do que eu todas essas datas. João VI. 1975 ). 14 Associar. Alberto Magno. e sobretudo filosofia medieval com Inquis ição. trad. cit. mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria. Em terceiro lugar. só começa a partir de 1400: em pleno Renascimento . ao fim do ciclo de produção e publicação das principais obras filosóficas medievais.

São Paulo. após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v.aração oral sem efeitos práticos. O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. La Cosmologie de Giordano Bruno. Galileu. trad. gramática e retórica o trivium. Os philosophes de modo geral não ig noram essas coisas. Descarte s. de Galileu a Des cartes. 1975. ). nenhuma observação. Testas v. Pietro Redondi. Ele não foi condenado por defender teorias científicas. 1991 ). Eis algumas: l A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico. leia-se A Inquisição. nenhum experimento científico. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”. e todos os cientistas matematizantes. Paris. biologia ou matemática. proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. Kepler. condenad o pela Inquisição por defender teorias científicas. Galileu Herético. mostraram a maior indiferença pela sua obra. ) l Giordano Bruno foi um mártir da ciência. por G. que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciênci a moderna. Bacon. diria Gramsci — que sustent a a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. Giordano Bruno não fez nenhuma desco berta. Ele desprezava a n ova mentalidade matemática. Newton. cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna ( v. ( Em caso de dúvida. que na . Testas e J. astronomia. Harvey e tutti quanti. Nem sequer estudou as ciências modernas. A Inquisição examinava apenas livros de in teresse teológico direto. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica. Pa ul-Henri Michel. mas por prática de feitiçaria. Bib liografia no fim deste volume. Companhia das Letras. física. mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconfort o na platéia. Júlia Ma inardi. Hermann. Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para ve rificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico.

Aí se explicaria o título da série (“pensador” é um termo mais vago e a brangente do que “filósofo”) e também a inclusão de autores menores. se formasse por esta só coleção sua imagem da históri a do pensamento. trad. valha m elas o que valham. mais vistoso. Belo Horizonte. o leitor d’Os Pensadores. no início da R enascença. para quê desmenti-la? Por qu e não tirar proveito dela? O proveito que se tirou. teias de aranha. Neil R. por seus efeitos político-sociais. vist o que a coleção incluía obras que só exerceram influência em círculos bem delimitados. mais ou menos do mesmo tamanho daqueles concedidos individualmente ao economista John Maynard Keynes. a auréola terminou por rodear também o Catolicismo de modo geral. Sem falar. um dos mais destacados membros do grupo. O mais significativo da filosofia escolástic a — Sto. da Silva. é claro.. Enfim. como filósofo. logo. de O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Pöe até O Nome da Rosa de Umberto Eco15. de que Pessanha fora organizador e editor. a que aquela filosofia se associa intimamente. conjeturei que Pe ssanha talvez não tivesse desejado ilustrar a História da Filosofia. As distorções não paravam aí: Pes anha achara indispensável dar todo um volu16 me a Kalecki. foi o de evitar qualq uer exame da filosofia medieval. Croce. com a vantagem adicional de que essa filosofia. talvez. que arrombaram as portas do Ocidente para a invasão das idéias orientais. com seus quadros sombrios de câm aras de tortura. Mas também sabem que essa fama está profundamente arraigada na crendice popular. Mas fica a pergunta: Para quê? Com que finalidade um grupo de intelectuai s declaradamente empenhados na salvação moral do país se envolve num empreendimento tão comprometedor como esse de contar ao povo uma História da Ética que falta com a ética para poder falsificar a História? § 3. como por exemplo as de Wittgenstein e Adorno. já 15 se manifestara. grande retórico e jornalista que. Em matéria de retórica — a arte de alcançar o máximo de persuasão com o mínimo de argumentos —. Mas logo tive de abandonar essa hipótese. mas pela sua repercussão pública. sem ter precisado sequer mencionar o s eu nome. sem ter sido contestada diretamente ou mesmo discutida. Jaspers. ao mesmo tempo que omitia Dilthey. não pode ser levado a sério. Nesta disciplina.. Duns Scot. Whitehead. E. Hartmann e Scheler. desviando as atenções para um assunto mais truculen to. ao antropólogo Bronislaw Malinovski e até mesmo a Voltaire. Por automática extensão. acabaria por concebê-la bem diversa daquela que pode16 Na verdade a lenda surgiu um pouco antes: “A Idade Média foi denegrida. com alguns anos de antecedência. mas sim a Históri a das Idéias. explicarme as razões de escolhas tão bizarras. de Lênin ou Gurdjie ff. Essa impressão sobre a Idade Média é parcialm ente um produto dos ‘Romances Góticos’ do século dezoito. 23 ). Pessanha e o pensamento Ocidental Uma pista podia ser encontrada. . O rtega. Tomás. mistério e desvario” ( Lewis Mumford. como as de Jung e René Guénon. ou as de Spencer e Thomas Huxley. foi um tour de for ce admirável: enlamear a reputação do adversário. Na escolha das obras que compõem a série Os Pensadores da Editora Abril. ficou assim rodeada de uma auréola sangrenta. e omitia outras que produziram verdadei ras revoluções. por vícios que realmente pertenciam aos seus detratores. a mesma seletividade deformante q ue agora inspirava o programa da Ética. Lukács. Helvéti us e Dégerando.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 31 equívocos que a posteridade tece em torno de um nome. Procuran do. Itatiaia. A Cultura da s Cidades. p. no caso. que injetaram o e volucionismo nas veias espirituais do mundo. Lavelle. como Condillac. Ockam — fora ali todo espremido num só volume. onde a plantou uma sucessão de ob ras de ficção de grande sucesso. já que o público acredita na lenda. Cassirer. a História oferece muitos exemplos de ‘censura transferida’. um economista que não é cit ado em nenhuma História da Filosofia . em José Américo Motta Pessanha. 1961. A pr ova de que a velha aparelhagem cênica do “romance gótico” ainda funciona é o sucesso de O Nome da Rosa. as teorias não se tornam dignas de atenção pelo seu valo r intrínseco. típicos philosophes 17. na ocasião da edição.

s e ele jamais publicou um único trabalho de alcance filosófico e se entre seus colega s de ofício houve muitos que foram filósofos de pleno direito. de figurar entre os filósofos. . alguns de primeira ordem pela qualidade literária e pela influência política de seus escritos — De Maistre. como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises? A resposta só pode ser uma: do ponto de vista uspiano um econo mista marxista é mais filósofo que qualquer filósofo liberal. Maurras. por exemplo — . mas fora m omitidos. 17 A direita também tem se us philosophes.Por que essa honra concedida a um único economista. Donoso Cortés.

acabou por adquirir uma autoridade comp arável à da Bibliothèque de la Pléiade ou dos Oxford Classics. Aldous Huxley diz de uma personagem que. e por ele pude captar tam bém. mas produzi-la no campo dos fatos. na falta de concorrentes. O círculo de Pessanha não 18 Na verdade publicam-se muitos. na teoria e na prática. Não se tratava de História. Mas Perelman distinguia. Não escolhera os livros nem pelo seu valor. mas já nos coloca numa pista importante: s e ali a verdade sofreu graves distorções. de Kant. Mas temos Simone de Beauvoir quase completa . Até hoje não temos Aristóteles completo em português. a imagem do pensamento universal. E não lhe faltaram ocasiões para man ifestar o seu talento (que antes de empregar na persuasão política ele testara numa série de fascículos de culinária. A escolha não refletia um critério teórico. o primeiro a div ulgar no Brasil. Isto ainda não nos dá uma resposta quanto aos motivos úl timos da seleção dos temas no curso de Ética. o curso da USP. era uma comunidade científica empenhada em descobrir o real. e o Platão de Carlos Alberto Nunes. seguindo a tradição. a série Os Pensadores. mas sim de estratégia e mercadologia. Husserl. a série Os Pensadores se tornou. num país onde se publicam poucos livros de filosofia18 e onde as edições e strangeiras só são acessíveis a uns happy few. muito Foucault. mas para dar seguim ento coerente a uma ação iniciada muito antes. Pessanha desempenhava uma função estratégica. Também nos faltam as obras principais de Hegel ( só temos a Fenome nologia e textos menores ). o programa da Ética não fizera se não prosseguir. Dil they. Juntos. mas projetava sobre ele o sentido de uma paixão. como um mestre d a persuasão. a obra de deformação que Pessanha já havia iniciado por conta própria. um item indispensável da b ibliografia filosófica nacional. Pessanha. mas também por ser. Fichte. mas a decisão de uma práxis. como um orador e homem de marketing. que se crê muito le trado porque encontra nas livrarias as últimas modas filosóficas nacionais ( leia-se : estrangeiras ). jamais chegou ao Sul-Maravilha. as bases para a conquista desses objetivos. Perelman era essen cialmente um retórico. na mesma editora). não foi por casualidade. Para complicar mais ainda o imbroglio. É por isto que. nem pe la sua importância h istórica. mas não os de primeira necessidade. on de impera o grupo de Pessanha). retrospectivamente. malgrado suas distorções. retroativamente. de Leibniz. é claro. o grande renovador dos est udos retóricos no século XX. o princípio a que obedecera a seleção dos livros: Pessanha não havia procurado mostrar o passado. cujos trabalhos ele foi. Enfim. Os Sentidos da Paixão e Ética — sem contar a militância pedagógica nas cátedras da USP — formam o mais vasto empreendimento de persuasão retórica já realizado n este país por um grupo de intelectuais ativistas imbuídos de objetivos políticos bem d eterminados. entre o retor e o retór ico: entre o orador persuasivo e o estudioso da ciência retórica. aos olhos do público. salvo engano. ela dispensar ia o essencial. se lhe dessem o supérfluo. Schelling. representando. não como editor d’Os Pensadores. no plano da luta cultural. qualificou-se sobretudo como retor. Que intenção está aí subentendida e quais os . um grande con hecedor da Retórica. mas pela repercussão que ele mesmo pretendia lhes dar. em outra escala. por seu lado. Hartmann e não sei mais quantos. Ele não quisera refletir a História das Idéias na imagem dos textos. mas um grupo militant e decidido a fabricá-lo19. a série Os Pensadores e os três eventos O Olhar. O mesmo espírito pare cia ter orientado a seleção dos temas para o curso de Ética. a inspiração talvez inconsciente de todos os títulos da série de eve ntos promovidos pela Secretaria de Cultura: o olhar que aquela gente lançava sobre o mundo não refletia a imagem de um objeto. mas moldar o futuro. Nessa operação. sem contar Fielkenkraut. Em Contraponto. muito Antonio Gramsci. Mas ainda sobrava a pergunta: qual o sentido do empreendimento? Fo i só quando ouvi a conferência de Pessanha que pude compreender.32 OLAVO DE CARVALHO ria obter em qualquer livro ou curso da matéria (exceto. Fukuyama e tod os os outros filósofos de alta rotatividade. discípulo que era de Chaim Perelman. ed itado pela Universidade do Pará. um investigador e codificador dos princípios da argumentação retóri ca. e dispostos a sedimentar. Parece ser isso que os editores brasileiros pensam do leitor.

o que foi constatado até agora já nos adverte que a estranha conjuntura referida no § 1 dest e livro era ainda mais estranha do que parecera à primeira vista.valores que nela se incorporam. a filosofia deve “fabricá-los” mediante a pr opaganda e a ação política. Faculdade da Cidade Editora. . não podendo encontrar “universais” na realidade. que se deu nesses círculos filosóficos às idéi as de Richard Rorty. Mas antes mesmo de entrarmos em mais detalhes. 19 Daí a receptividade. V. 1995 ). a propósito os capítulos “Armadilha relativista” e “Rorty e os imais” no meu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras ( Rio. um tanto envergonhada. é o que teremos de descobrir numa análise microscópica da conferência de Pessanha. filósofo pragmatista segundo o qual a linguagem não pode dar um a imagem do real mas somente uma expressão dos nossos desejos. e segundo o qual.

elevada à liderança inte lectual de uma reforma ética de escala nacional. mais inexplicável a coisa toda me parecia. senão uma sondagem em profundidade. que remontasse às raízes in telectuais primeiras em que se inspirara aquela nova e singular concepção da ética. tão ávida de falsificar a História. se já havia uma inusitada desproporção no volume de recursos culturais mobilizad os para a consecução de um alvo tão pequeno quanto a simples destituição de um mandatário co rrupto.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 33 Pois. Não havia remédio. portanto. . Er a preciso nada menos que interrogar Epicuro. E quanto mais eu remexia o assunto. tudo em nome de objetivos mo rais que seriam alcançados bem mais rápida e facilmente pela velha e boa linha reta. prostituir a ciência e conduzir o povo por um caminho enganoso. se mostrasse tão ignorante das regr as mais elementares da ética intelectual. mais esquisito ainda era que uma elite universitária.

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LIVRO II .EPICURO - .

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só o que é aterial chega ao nosso conhecimento. tão diferente daquela grossa metafísica de caixeiro de loja que costumamos con hecer por esse nome. 146 ss. Porém. cuja solução trará consigo a de todos os outros anteriormente mencionad os. só para depois ter de varrê-lo para baixo do tapete. para manter-se de pé. que eles existem materialmente. isto já prova. Como tudo é material. De natura rerum. mostrar o avançado estado de decomposição em que se encontra. Só que. § 32. retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo. não foi uma simples exposição da filosofia de Epicuro: foi uma rasgada profissão-de-fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro. Lucrécio. entre estes três níveis de seres. Pessanha não recuou diante das maio res temeridades na apologia do seu guru. Levado por aquele entusiasmo belicoso que sempre a nima os porta-vozes de uma doutrina salvadora. Logo — pelas leis da silogística epicúrea —. no fim. a alma também é mater ial. X. no campo da absurdidade. V. Segundo Epicuro. tudo o que chega ao nosso conhecimento tem. já que alguém antes de nós desenterrou a múm ia. — A matéria segundo Epicuro “As Delícias do Jardim”. segunda conferência do ciclo de Ética. num ciclo nominalmente votado ao esclarecimento de questões atuais e urgentes. fazendo de seu autor um clássico do besteirol. por tadora da solução para todos os males humanos (sic) e da inspiração que o Brasil precisa para sair do atoleiro moral. notório adversário do epi curismo. que essa opinião não é totalmente destituída de sentido. Se sonhamos com deu ses. alguém se deu o trabalho de ir retirar o pó milenar que encobria uma múmi a filosófica. COSMOLOGIA DE EPICURO § 4. Agostinho. O ep icurismo foi ali pintado como uma das maiores filosofias de todos os tempos. como não podemos encontrá-los em parte alguma deste baixo mundo. Diógenes Laércio. será preciso remontar ao próprio Epicuro e. Epicuro ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade. a d iferença de maior para menor densidade da dita “matéria”21. Um aspecto particularmente biruta da filosofia de Epicuro é o seu alegado material ismo. Têm-n a inclusive os objetos de nossos sonhos e visões imaginativas. se tornaram modelos insuperáve is. existência material. eles devem estar em algum outro mu ndo. pronunciada por José Américo otta Pessanha. procurava conciliar a bondade de Deus com a existência do mal no mundo. requer uma lógica não menos circense: a opinião de que a fuga dos intelectuais para o jardim de Epicu ro não é alienação nem covardia. mas uma forma superior de luta política. pois os traços do mestre devem se reencontrar no discípulo — e Epicuro produziu a lgumas dúzias de opiniões que. pois aquilo q ue não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos22.CAPÍTULO II. Se de um lado não poupou o sarcasmo ao ri dicularizar as acrobacias dialéticas com que Sto. mas que o seu sentido é o de um engodo proposital. Propor isto como um remédio eficaz pa ra a corrupção reinante é o mesmo que recomendar a fuga para longe dos credores como u m método eficaz de saldar as dívidas20. Uma profissão-de-fé epicurista. segundo Epicuro. mas sim per guntar por que. e até os deuses são materiais — havendo apenas. como todo e qualquer mundo existente é sem21 22 Veremos. A questão não é portanto saber se Pes sanha se saiu melhor ou pior do que Agostinho no seu devoto empenho. por esta mesma razão. Para sondar as razões desse mistério. . o corpo é material. 20 Mas opiniões esquisitas não são mesmo de estranhar em quem se declare seguidor de Epic uro. d e outro não hesitou em defender uma opinião que. e dela aparentado tão-somente na distância que ambos guardam de toda verdadeira filosofia.

podendo ajudar os necessitados. Mas. não é porque não querem e t mbém não é porque nem querem nem podem. devem ser criteriosamente evita das. Como é possível que o modelo supremo do bem não nos cause nenhum bem. podem viver sem um ambiente m aterial em torno. seguro de que não entendem uma só pa lavra do que estou dizendo). pergunt ar como é que seres materiais. estaria proceden do de maneira indigna de sua condição divina. mas não é porque não podem. o mais velho e eficaz procedimento consiste em suprimir (de fato ou imaginativamente) a prim eira. devemos concluir que. ou intervalo entre os mundos. somada à retórica de Perelman. Mas nós. Afinal. e vestidos somente de intervalo. não alcançando jamais o benefício do ócio contem plativo. diz Epicuro. ele diz também que o prazer é o supremo bem. poderia tir ar os deuses epicúreos desta aporia congênita. para ver como fica a segunda. Para começar. Sendo filósofos. o result ado a que chegam aqueles que buscam o prazer no terrestre e no imediato. ainda que por sua simples . Mas. resultaria em aumento da dor. E como Epicuro ta mbém diz que um deus não poderia ser impotente. motivo pelo qual devemos admirá-los. prossigamos com a investigação. que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o mo delo mais perfeito do ócio contemplativo. já que eles permanecem no puro ócio contemplativo e não nos causam males nem bens. argumento. Sabe-se lá sobre que eles conversam. destituído de coisas. Mas. com que julgava fulminar a religião grega e toda religião possível: “Ou Deus quer ajudar e não pode.38 OLAVO DE CARVALHO pre material como o nosso. que seria do epicurismo? A busca do prazer. segundo Epicuro. se eles não nos ajudam. Mas um conceito de matéria tão elástico como o de Epicuro só podia mesmo dar nisso. Não é de bom tom. Mas nem toda a dialética de Agostinho. que já estamos metidos na densa porcaria terrestre. e não em língua de bárbaros (motiv o pelo qual posso aqui falar mal deles à vontade. mesmo de matéria sutil. eles não iriam querer suja r suas mãozinhas de matéria sutil na porqueira da matéria mais densa.” Pessanha não só achou e ngenhoso este argumento. só para depois ter em de pedir a Agostinho que as limpasse. Tal é justamente. por que teria de ser menos densa justamente nos seres mais duráveis e não nos m efêmeros? É ais como dizer que uma superfície pintada é tanto mais azu l quanto mais diluída esteja a tinta azul. ao mesmo tempo. mas o que Epicuro g arante é que certamente eles o fazem em idioma grego. de outro lado. longe da miserável agitação dos mundos e sem inte rferir em nada na ordem ou desordem das coisas. que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações. Embora materiais como nós. ficando desprov ida de um m odelo ou meta final por que orientar-se. se recusasse a fazê-lo. das duas uma: ou os deuses exercem um influxo benéfico. um deus que. não deve ser menos desprovido de assunto. rarefeita. os deuses não ficam atrás. afirma a eternidade da matéria. por que raios é então? Se a matéria de Epicuro é esquisita. ou pode e não quer. o que cria o seguinte problem a: se a matéria é eterna. e sim porque não querem. mas declarou que ele se aplica perfeitamente ao Deus cr istão. ou nem quer nem pode. só lhes resta alojar seus corpinhos de matéria sutil num intermundo. sem con hecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses. num ambiente que. Assim Epicuro cai nas malhas do seu próp rio Epicuro diz que nada devemos temer nem esperar dos deuses. os d euses são compostos de matéria sutil. em que se agitam há milênios os debates n o intermundo: se eles não interferem. pela ética epicúrea. a única ocupaçã eles consiste em conversar. eles ficam trocando idéia s nas longas noitadas do intermundo. ainda segundo Epicuro. não é porque não podem. Embora eles nos sejam indiferentes e po rtanto inúteis. e por isto são mais duráveis. Epicuro achaos o supra-sumo da perfeição. Então. Epicuro diz que os deuses são inócuos e indifere ntes. que o objeto da admir ação não traga nenhum benefício à alma que o admira e não lhe dê nem mesmo um pouco de prazer eis aí questões que. Só que Epic uro. sem eles. em nada ligando para as nossas preces nem mesmo quando proferidas no seu celestial idioma. acabaria por se perder em p razeres menores — que Epicuro despreza — e. Para saber se uma coisa exerce ou não influência sobre outra. pelo bem da paz no intermundo.

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o modelo do bem. 23 Epicuro é taxativo: o mundo se compõe de átomos e a causa do movimento é o desejo. Porém. a capacidade para a “ação de presença”. isto é. que eles nem c onstituem o substrato material de que é feito o mundo. não exerc influxo nenhum e então a prática do epicurismo está destinada ao fracasso. vendo o debate acalorar-se acima do compatível com o decoro que deve imperar nes sas regiões excelsas. no sentido aristotélico. a busca do prazer filosófico é só um tipo especial de busca do prazer. se são tão f ormidavelmente bons assim. a bússola por que se orienta o desejo. se tornou consciente e assumido: o ócio contemplativo. É claro que isto eles não podem ser. mas todos os seres e coisas. O máximo que se pode conceder à tes e da inocuidade dos deuses é que. quando saem à cata de pr azeres grosseiros. mas são bons para nós. Pois estes — diz Epicuro —. animais e plantas e pedras e áto mos e galáxias.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 39 presença23.. Agostinho. Mas Epicuro afirma ai nda que. Mas entre dizer que eles não criaram o mund o e concluir que eles não fizeram coisa nenhuma desde que o mundo foi criado. a imagem do ideal espiritual que norteia os esforços d o asceta epicurista. na medida em que. A única diferença que restaria entre Yaveh e os deuses ep icúreos é que Ele criou o mundo. e eles não. além de ociosos. os deuses não somente são a causa das ações do filósofo. Se Epicuro t ivesse se limitado a dizer isto. . personificado nos deuses. é atribuída mesmo a santos e gurus. então só resta concluir que os de uses epicúreos. E não somente são bons em si mesmos. Tirar o corpo fora de toda responsabilidade sob a alegação de não ter cr iado o mundo não é lá também um comportamento muito digno de um ser divino. para o filósofo. por sua estática e autobenéfica perfeição intrínseca. por mais que o filósofo procure isentá-los de toda responsabilidade. Os de uses são apenas a imagem do bem. ativa e transitivam nte. o presidente do colóquio filosófico intermundano . Mas. se denomina aliás tecnicamente. estaria sendo nada mais que coerente com seus p róprios pressupostos. Para seres oc iosos como eles. são enfim a causa formal e final de tudo quanto acontece no universo. neste caso. E. e n em só para os homens em geral. a não ser que os membros da Comissão de Orçamento do Congresso sejam deuses. sendo causa formal e final. não fazem senão buscar de maneira obscura e inconsciente aquele m esmo objetivo supremo que. aparecendo em nossos sonhos. seus deuses não difeririam muito do Deus bíblic o. Neste ponto. na hipótese contrária. mas o são duplamen te: em linguagem aristotélica. de um lado. e. pois. de outro. meta e mo tor geral da vida humana. nem são o gatilho que dispara o movimento da criação. mas para todos os seres e coisas. Por enqua nto. e a imobilidade a gente é. um dos atributos essenciais da divindade em todas as religiões. Nas tradições espirituais em geral. então temos de admi tir que os deuses epicúreos. Mas. a di stância é grande. Logo. então por que diabos não interferem logo de vez para acab ar com o mal no mundo? Neste ponto. interrompe os trabalhos e manda solicitar o parecer técnico de Sto. os deuses são indiferentes ao bem e ao mal. deve ser um bocado de trabalho. ou. tudo girando numa espiral ascendente desde os prazeres imediatos e grosseiros até o supremo ideal do ócio contemplativo. são causa formal do bem e causa final da vida ascética. então eles não apenas são causa de alguma coisa. Veremos isto mais adiante.. o qual também não é nem estofo material do mundo nem causa imediata dos atos humano s ou dos fenômenos naturais. tentemos tirar as conseqüências lógicas da teoria. sem necessidade de uma ação externa. são bons para o universo inteiro. Ou Epicuro está certo na teoria e errado na prática. m as das de todos os seres humanos. ou está certo na prática e errado na teoria — a não ser que esteja errado em ambas as coisas. E como ademais o desejo de prazer não mov e somente os homens. afinal. e então não são inócuos como os diz Epicuro. por definição. eles de fato não são nem causa material nem causa eficiente. como modelos e causas formais do bem. eles produzem um efeito bom e logo são bons sob algum aspecto. Se os deuses são. E não haveria nada de estranho em que uma escola de ascetismo atribuísse a seus deus es a capacidade de produzir efeitos pela sua simples presença. nos mostram pelo exemplo da sua perfeição o caminho do bem. na medida em que este bem não é só para os filósofos.

§ 5. Um piedoso subterfúgio .

a verdade viva incomunicável em palavras. uma psicagogia: um guiamento da alma. a dieta de Beverly Hills atestaria a veracidade do marxismo e os sucessos do sistema de franchising seriam um argumento em favor da física quântica. É até possível que seja assim. como na repetição ritual de um mito. para uso dos novatos — um véu de fantasia na entrada do templo da verdade. de fato. indiferentemente: a santidade do Buda demonstraria a validade da doutrina da livre empresa. 2º Não podemos admiti-lo nem mesmo como crença religi osa. é sempre de ordem intelectual e lógica. Sob a aparência de uma falsa cosmologia. À cosmologia propriamente dita só teriam acesso os iniciados. valesse como um artifício para apazig uar a alma humana. mas interpretada simbolicamente. o qual. em nome de quaisquer benefícios futuros a serem alcançados pela práti ca do método. somente um perfeito charlatão iria apela r. por intuição direta. e vice-versa 24: se o mundo é como Epicuro o descreve. demasiado profunda para que a alcance a mera inteligência lógica. nele não se pode ser epicurista com sucesso. A prova d e uma doutrina. Só que: 1º A aceitação dessa h pótese excluiria o epicurismo do campo da filosofia. que conf unde a inteligência e a torna inapta para seguir qualquer método que seja. a cosmologia de Epicuro não pr etenderia oferecer uma descrição literal do mundo como realmente é. no fim de tudo. e os milagres de Cri sto seriam provas do vegetarianismo. filosófica ou científica ou religiosa.40 OLAVO DE CARVALHO A cosmologia de Epicuro desmente portanto a sua ética. Esta constatação fec a o caminho a um piedoso subterfúgio com que o discípulo beato poderia ainda tentar salvar alguma coisa do epicurismo. o Guru Maharaji e o Rev. amém. pratique o método. mas aceita em confiança. a aceitação preliminar de uma doutrina intrinsecamente absurda. porque toda religião que se preze distingue claramente entre doutrina e método. mas os resulta dos práticos do método não servem nunca para validar retroativamente uma doutrina. nestes tempos de naufrágio. levaria o discípulo a uma “visão inte rior” que. Epicuro nos teria dado uma verdadeir a pedagogia. Estando as coisas nesse pé. em última instância. para inscrevê-lo no das crenças r eligiosas. A letra da doutrina epicúrea então não estaria aí para ser compreendida ou discutida filosoficamente. lhe revelaria o indizível segredo do universo como realme nte é. isto é. para captar. o que vimos no epicurismo foi justamente que nele não há conexão entre teoria e prática. à desculpa esfarrapada de que a cosmologi a epicúrea não deve ser tomada ao pé da letra. como preço do ingresso na via da salvação. a refe rida cosmologia não deveria ser julgada criticamente. sem o qual Rajneesh. nada conseguindo entender da doutrina do mestre. sem discuti-la. Neste caso. Moon já não teriam um d iscípulo sequer. Mais ainda: a doutrina expressa que conhecemos c omo cosmologia de Epicuro não seria a verdadeira cosmologia de Epicuro. para o argumento de que essa teoria. mas apenas uma ima gem sugestiva que. mas apenas o seu pórtico fictício. só pode ser compreendida por quem primeiro. Se não fosse assim. e o valor de um método se mostra por seus resultados práticos. quem se agarre ao epicurismo como a uma última tábua está naturalmente livre para crer que assim seja. deve ter reso lvido perseverar na prática dos seus ensinamentos movida por essa esperança. então o mundo não é como Epicuro o descreve. uma vez trilhado. Muit a gente. Segundo essa hipótese. pois isto seria um convite a que cada qual se entregasse com tanto mais fervor à prática quanto menos estivesse em condições de 24 . e sim para ser ac eita e “revivida interiormente”. libertando-a do temor dos deuses e predispondo-a a ingressar no caminho epicurista. ou por esse pretexto. descul pa que nasce do desejo de enxergar profundidades insondáveis onde há apenas a banali dade de um pensamento confuso. e. qualquer bom resultado obtido na prática de um método poder ia ser alegado como prova de qualquer doutrina. e não impõe jamais. Ora. de modo que mesmo resultados práticos fabulosos não serviriam em nada como pr ovas da teoria. ou melhor. embora falsa em si mesma. Se a coisa fosse extrapolada para domínios ex tra-religiosos. que ao ati ngirem os graus mais elevados da ascese epicúrea poderiam então jogar fora o véu de símb olos. e se a prátic a do epicurismo é possível. a não ser que a conexão desse método com a doutrina já esteja provada de antemão na doutrina mesma. ou pseudo-religiosas.

como veremos mais adiante. lançou contra a filo sofia de Demócrito.Objeção exatamente igual à que Pessanha. sem notar que ela se aplica também a Epicuro. .

3º Mesmo uma cosmologia simbólica. do que sugerirlhe que sua estupidez é uma forma supe rior de aptidão espiritual. Ou seja: que quanto mais matéria existe num ser. para um públ ico intelectualmente incapaz. porém. nessa hie rarquia dos seres recordantes. Há um pior ainda. para um materialista roxo como Epicuro ou Pessa nha ela deve assumir uma feição sinistra e diabólica uma vez constatado que. exceto o número do telefone do hospital psiquiátrico mais próximo. mais rarefeitas do que os corpos dos deus es que as imaginam. Se. movido pelo temor reverencial que lhe inspira a pessoa do mestre ou pe la chantagem emocional da massa de seus condiscípulos. Nossas cidades estão cheias de pessoas assim. segue-s e que as coisas que os deuses recordam e imaginam existem materialmente nesse me smo instante. Mas não pensem que termina aí o rol de problemas filosóficos que mantêm atarefadíssimos os ociosos deuses de Epicuro. Um deus pode. no homem ca paz de julgar. uma vertigem abissa l. da “inocência” dos “pequeninos”. 4º Se a co smologia de Epicuro não vale nem mesmo como prefácio simbólico a uma prática ascética. — A eviternidade. então. então vale somente como miragem para atrair os discípulos a essa prática. e a cosmologia de Epicuro é apenas uma história mal co ntada. e os lugares mais baixos pelos seres mais densos. ou perenidade. evidentemente. Não estando presos aos limites de uma exi . a equação epicúrea de que rarefação = durabilidade obriga-nos a admiti r que elas são mais duráveis do que os deuses mesmos. quem interprete assim as expressões da Bíblia acerca dos “pobres de espírito”. existência material (só que mais rarefeita que a do corpo). entre os seres e coisas deuses. não são eternos. S e pensam. que se apresentasse como simples preparação imaginativa para uma ascese. e como tudo o que aparece na memória e na imaginação tem. 25 Não falta. fazendo a apologia do mongolismo. mas. estes miseráveis morta is ficariam. desperta apenas um sentimento de incongruência.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 41 compreender a teoria. caso a lagartixa por sua vez não pensasse em mosquitos. diante deste sinal. Vale o mesmo qu e um anúncio do Silva Mind Control. E se por acaso ocorresse a um deus a idéia desastrosa de pensar num gato ou numa lagartixa. diz Epicuro. nada mais re sta dizer. os lugares mais altos e duráveis são ocupados pelos s eres mais rarefeitos. e dotados portanto de memória e imaginação. Sua eficácia depende de que o discípulo tenha abdi cado de toda demanda da veracidade e esteja somente em busca de um alívio factício p ara angústias banais. se refazem integralmente tais e quais. É a elas que se dirige o apelo de Epicuro e de José Américo Motta Pessanha. pensar num homem que está pensando num gato que está pensando numa lagartixa. sinal seguro de que algo ali está errado. reprime a exigência interior de explicações e se atira junto com eles no abismo. ipso facto. Sendo essas coisas. Uma possível saída para o dilema seria o conceito de eviternidade. § 6. e isto inexoravelmente formaria uma hierar quia de durabilidade crescente que partiria de um deus provisório e culminaria num a lagartixa eterna. é autênt ico idealismo. E isto. pelo menos alguns são também pensantes. mas que. segundo Epicuro. que talvez sirva para adormecer crianças ou velhinhas. por exemplo. Os deuses. uma vez mortos . dotados de uma durabilidade maior que a dos A coisa tor na-se ainda mais catastrófica pelo fato de que. para dizer o português claro. que não atinam com as temíveis conseqüências psicológicas a que podem chegar por esse caminho fácil. mais baixo ele está na escala ontológica e ma is próximo da irrealidade pura e simples. re cordados pelos deuses. têm memória e imaginação. São mortais. no mundo da pseudo-espiritualidade ou antiespiritualidade contemporânea. t eria de atender a um requisito óbvio: teria de ser sensata ou verossímil — pelo menos esteticamente verossímil — o bastante para poder acalmar provisoriamente a demanda d e explicações de um homem adulto. o candidato a discípulo. a perfeita imbecilidade se tornaria a mais alt a prova de qualificação de um discípulo para a via espiritual25. Nada mais lisonjeiro. A imaginação dos deuses. Se os deuses falam. é porque pensam. Neste caso. Se a i déia em si já é bastante desconfortável.

Assim poderiam até . ou sucedidos após sua morte. talvez até pudessem realizar o prodígio de recordar. Bas taria que apelassem às memórias de uma vida anterior ou futura. fatos acontecidos antes de seu nascimento. como coisa v ivida.stência determinada.

Sendo assim. para poderem retornar à memória dos deuses a cada nova existência destes . que ele confunde com o mero charlatanismo. “tendência”) e define como impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor. em vez de resolvê-lo. não é que ele não acredite em mais nada: ele redita em tudo. Gurdjieff tinha um prazer diabólico em humilhar os intelectuais ocidentais. se prosternasse ante esses fenômenos como ante sinais do Espírito. de fato. e não representam.” Gurdjieff provou isto em toda a linha. mostrou que as defesas pre tensamente racionais do intelectual moderno contra a ilusão religiosa o tornam ind efeso contra a fraude espiritual. ou de qualque r outra. não obstante. Gurdjieff não era evidentemente um charlatão. além de recairmos no pecado mortal de idealismo. existe continuidade de essência en tre as várias existências. de vez que estas não têm uma memória tão rica. de uma vida para outra. com igual cara-de-pau. Pelo clinamen. no vazio infinito em todas as direções. em sânscrito ). do tempo e da morte. “Quando u m homem já não crê em Deus — dizia Chesterton . mas alguém dotado de poderes reais. mos cairiam todos em linha reta e paralelamente27. a vacuidade ment al do seu público. § 7.42 OLAVO DE CARVALHO mesmo tornar-se mais duráveis do que as lagartixas. constituídas por sua vez de seres ainda mais duráveis. para o homem espiritual. e uma essência que permanecesse inalteravelmente a mesma po r cima da mudança. levando-os a acreditar nos absurdos mais p atentes. e como cada um desses seres também teria suas recordações pessoais. 110 ss. Epicuro conclui que a impulsão inicial da queda não é tudo. tomando-o como mestre espiritual. 27 O que pressupõe que os átomos tenham pes o uma premissa epicúrea da qual Demócrito não compartilha pelo menos explicitamente. que ele denomina clinamen (“inclinação”. pois os sere s recordados. Ele sabia do ponto vulnerável que há na alma de todo materialista d urão. permanecem fun damentalmente idênticos a si mesmos. típico cientista social brasileiro de formação marxista. Os siddhis pode m ser adquiridos por treinamento. Com isto. uma zona nebulosa onde meras forças sutis da nat ureza podem ser tomadas pelos tolos como mistérios transcendentais. seria nada menos que eterna. jamais chegariam a tocar uns nos outros como o pretende Demócrito. Comprovar a autenticidade dos fenômenos produzidos pelo taumaturgo mineiro Thomas Green Morton foi o bastante para que Sodré. 2 8 V. subtraindo-se ao menos em parte à lei de que da. A Miséria da Ciência Social. Rocco. Um exemplo contundente encontra-se no livro de Muniz Sodré. pp. Os siddhis são a pirita espiritual. 1985. a cois a toda se complicaria formidavelmente. entrando em contato fortuito uns Queda” e a expõe no início do livro Relatos de Belzebu a seu Neto. numa linguagem aluc inante onde é impossível distinguir o que é dito em sentido direto do que é dito em sent ido oblíquo. sem perceber que ali havia apenas uma demonstração de siddhis ( “poderes”. até esmagar o cérebro do infeliz. Madrid. mas aí o leitor de alma ob líqua já está zonzo demais para perceber a piada. Mas isso seria multiplicar o problema. Carlos García Gual. ficaria totalmente revogada a mais i mportante diferença entre os deuses de Epicuro e os da religião grega. e contra ela. Epicuro. O moderno intelectua l ocidental tem. a mais funda incapacidade de perceber a fraude espirit ual. não pod endo portanto juntar-se para formar os seres e coisas que. Deste apelo à razão. e. Comentarei este caso com mais detalhe no meu livreto O Antro pólogo Antropófago. Se os deuses se refazem após cada existência. Jogos Extremos do Espírito ( Rio. existem28 . tal como as defesas de um neurótico contra a ter apia o tornam ainda inerme ante a neurose. como que a desmascarar a fraude anterior. logo em seguida argumenta. só para desmascarar-se em seguida e desmascarar. e batia nesse ponto sem dó. Epicuro crítico de Demócrito . que ind ependentemente dela. é que. precisariam ser eviternos eles mesmos. 1990 ). os átomos devem ter também um princípio de moviment o livre e indeterminado. no ato. e. e bastava um ocidental ter verificado isto para s ubmeter-se a ele com reverência e temor. Resta ainda um pormenor intrigante. senão uma enganosa periferia do Espírito. os átomos se m ovem randomicamente em todas as direções. acreditando que precauções contra es te bastam para resguardá-lo daquela. pela viabilidade do moto contínuo. Alianza Editorial.

Só que. não oferece resistência. os átomos. não sendo material. Epicuro responde que. onde o principal que aco ntece é tudo vir abaixo 26. dentro del e. e por isto os átomos. Ele denomina-a “Lei de . Um exemplo é a sua crítica de Demócrito. co m um ar de seriedade à Buster Keaton que bastou para impressionar uma multidão de in telectuais. endossada por Karl Marx e por José Améri co Motta Pessanha. polemizando na base do faça-o-que-eudigo-mas-não-faça-o-que-eufaço. ele geralmente chegava a conclusões tão ou mais estapafúrdias do que aquelas que r efutava. os áto26 O temível gozador metafísico Georges Gurdjieff reeditaria no século XX essa teoria. Mas o filóso fo do jardim não ignorava a necessidade dela. tanto que a cobrav a dos adversários. se fosse de fato assim. o vazio. O universo de Demócrito é um vasto escorregador.O leitor já deve ter percebido que a coerência lógica não é o forte de Epicuro. caem e acabam por se chocar uns com os outros. nem a desprezava. impelidos por um inexplicável empurrão inicial. Demócrito proclamava que no mundo só existe o vazio e.

Algumas décadas atrás. usando e abusando do seu direito ao clinamen. O vazio. A física de Demócrito e sua refutação por Epicuro são ambas igualmente falazes. 1971 ). não podi a ser mesmo muito bom em lógica. leiam Werner Heisenberg. uma concepção muito sin gular acerca da liberdade. acoplam-se e desligam-se à vontade na mais obscena gandaia cósmica. e por isto é mais fácil perdoar a ingenuidade da cosmologia de Demócrito do que a inc onsistência da sua refutação. Tudo isso é. aliás um dos mais belos livros do século. na física de Epicuro. para isso. Madrid. Mas é também falso o que alega Epicuro: que. não porque quisessem fazê-lo movidos por t ais ou quais intenções epicúreas. 1975 ( ed. por definição. sem a necessidade de introduzir. Aliás sobra até demais. os átomos se move riam indeterminadamente em todas as direções. de fato. Pergu ntamonos se essa gente conseguia distinguir um ovo de um tomate. o indeterminismo epicúreo com o de Plan ck e Heisenberg. Que ninguém c onfunda.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 43 com os outros. americana. um espaço finito referido a um centro ou pelo menos a limitação a um campo determinado. todos os movimentos teriam de ser paralelos e uniformes. BAC. ou complementarmente . Demócrito não se deu conta de uma coisa que hoje até um garoto de escola perceberia num relance: que. a festança dos átomos no liberou geral da cos mologia epicúrea pode parecer mais progressista ou democrática do que a submissão impl acável à lei de queda. todos os movimen tos seriam indeterminados. contemporâneo de Platão. Pois essas são. porém mais inexplicável ainda é que os átomos devam ter o direito a estar livres da lei de queda. 29 30 V. Pressupõem balizas. um novo p rincípio. formando os seres e os mundos. A associação que Pessanha fez entre cosmologia e política é p ura figura de estilo. Pessanha enxergou conservadorismo na física de Demócrito pela razão de que a lei de queda impõe um determinismo integral. em face dele. uma vez admitido. precisamente. e vão gerando e destruindo mundos e mais mundos sem dar a mínima satisfação a seres. Physics and Beyond. coisa s ou deuses. acabam por se aglomerar em massas compostas. levado pela coincidência vocabular. mas simplesmente porque não haveria nada que determina sse a direção do movimento. e não a um “vazio” que tornaria o indeterminismo perfeitamente redundante. § 20. Este se opõe — logicamente. a alternativa de relax and enjoy que nos é oferecida pelo epicurismo. Acontece que Demócrito. Diálogos sobre la Física Atómica. e muito menos um princípio tão extravagante como o clinamen. as considerações de Nicolau de Cusa quanto a este ponto. no vazio indeterminado. uma escala. No indeterminado. formas da determinação. mas Pessan ha condenou a primeira e endossou a segunda sob a alegação de que aquela favorece um a ética “conservadora” e esta uma ética “progressista” — argumento que é propriamente aquilo ue se dá a denominação científica de o fim da picada. que pode ser interpretada num sentido como no sentido inverso. Harper & Row. Volto a este assunto mais adiante. uma visão determinística da queda inevitável do capitalismo não parecia aos comunistas ser mais progressista do que a crença libera l na imprevisibilidade da História? Os teóricos do liberal-capitalismo não atacaram no . expressões como “cai” e “sobe” não fazem o menor sentido29. Encounters and Conversations. que é o determinismo mecanicista. ou dialeticamente. O devotado interesse de um filósofo pelos direitos políticos dos átomos p ode parecer um tanto bizarro. Mas é só uma aparência. Mas Epicuro já conhecia a obra de Aristóteles. Tudo isso é de uma ingenuidade atroz. sem podermos dar um pio contra o seu maldito clinamen e só nos restando. seres viventes. torna o clinamen perfeitament e desnecessário 30. no vazi o. ficamos inap elavelmente submetidos à arbitrariedade dos átomos. Wolfgang Strobl y Luís Pelayo. ao passo que. para a mentalidade de hoje. trad. que não fora ainda codificada por Aristóteles e se ex ercia de maneira empírica e amadorística. porque aí os átomos. Em caso de dúvid a. enquanto nós. pois a indeterminação ex clui. não deixando para os pobres átomos outra saída senão a obediência servil a uma necessidade tirânica. New York. ou completar um silogismo da primeira figura. como queiram — a um princípio real e concreto. Metaforicamente. adiante. toda regularidade obrigatória. sobra lugar para o imprevisto e o liv re-arbítrio.

marxismo justamente o seu calcanhar de Aquiles determinista? O uso de imagens t iradas da ciência física em apoio desta ou daquela ideologia política só tem valor retóric o. . Aceitar a física de Epicuro por ser progressi sta é o mesmo que rejeitar a de Einstein por ser judaica. no sentido mais baixo da expressão.

a coisa é das mais óbvias . E também pelo Dr. Bismarck dizia que a ciência do governo consiste em pauladas e guloseimas. caem no engodo das apa rências. Aristóteles o confirma. em cujo título os organizadores do ciclo de Ética se inspiraram para nomea r uma das divisões do evento: “O cidadão contra os poderes”. só podendo ser válidas se admitirmos a hipótese de uma verdade dupla. entre a vontad e livre e a obediência ao instinto. tornou célebre a condenação do clinamen em nome da liberdade. teórico do Partido Radical francês. justamente po rque buscam o prazer e fogem da dor. Eis aí no que dá citar sem ler. sem que ele tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar persuadido de que exerce livremente o seu clinamen. com iguais resultados: no reino da retórica política. Aqui é o determinismo que se torna “progressista”. aos socráticos menores. a vida filosófica como um caminho para a felicidade etc. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a lib erdade quem se coloca para além da dor e do prazer. Não há saída: se o s átomos seguem o clinamen. que não mente. por meio dos quais um animal ou um ho mem pode ser governado desde fora. etc. reagindo contra o ardil.44 OLAVO DE CARVALHO Mas ainda há um outro senão. levados pelas sensações. com o seu “princípio de rea lidade” que transcende o princípio do prazer. Mas não é preciso tanta ciência para nos inf ormar aquilo que um carroceiro sabe perfeitamente: que. Os homens são dóceis e manipuláveis. que Pessanha apontou como a solução para todos os ma les da humanidade. CAPÍTULO III. argumentava ele. abstrai-se das impres sões de prazer e dor e decide segundo a lógica implacável da ordem física. todos os argumentos são de borracha. e não tem nenhum vín ulo de implicação recíproca com a cosmologia — ou física — de Epicuro: pode ser aceito dentr o ou fora dela indiferentemente. fazendo um asno persegui r a prazerosa cenoura e esquivar-se do doloroso porrete. O culto destes valore s é comum a Aristóteles. mediante a distinção. Politicamente. Contra Epicuro cabe portanto a mesma objeção que Pe ssanha fez a Demócrito: que sua física e sua ética não tem conexão entre si. O cidadão consciente. que é rígido e repetitivo como a lei de queda. que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo. Por uma coincidência irônica. O filós ofo Alain. outra especial ou prática. aos estóicos. ditadura e democracia podem indiferentemen te chamar em seu apoio Demócrito ou Epicuro. ou Tetrafármacon. A teoria consiste apenas na afirmação de alguns valores gerais que coincidem em gênero. reação e progressismo. Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liber ta do determinismo? Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dorprazer é o comut ador que aciona os reflexos condicionados. podemos levá-lo para onde o quisermos. O remédio de todos os males A parte ética da doutrina epicúrea. então. ardilosamente encenadas pelo tirano (lembram-se do futebol no tempo do ge neral Médici?). a Platão. número e grau com aqueles que eram subscritos por todos os filósofos da época: a superioridade da contemplação sobre a ação. ÉTICA DE EPICURO § 8. a lei de queda ou o clinamen. não é nem um pouco meno s encrencada do que a sua cosmologia. não são livres: obedecem ao determinismo do instinto. Freud. Feitas as contas. e o clinamen um instrumento da tira nia. esse argumento está no livro Le Citoyen contre les Pouvoirs. Mas o que recebe costumeirame nte o nome de “ética de Epicuro” é a parte prática. e especialmente da humanidade brasileira. A ética de Epicuro divide-se em duas partes: uma geral ou teórica. o “quádruplo remédio” q lósofo propõe a todos os .

essa macabra celebração do nada. uma vez fugido da agitação da polis e bem protegidinho no jardim. norte-americanas na maioria. Fe cha-se assim o círculo da fatalidade. É com plena inconsistência lógica. ante o olhar indiferente dos deuses. Não vale mais. Mas o Tetrafármacon não é de maneira alguma uma ética. O cosmos de Epicu ro não é um cosmos. ou m elhor. um tipo de fatalidade. Não é preciso ser muito esperto para perceber qu e a proposição decisiva é a terceira — uma exata inversão do timor domini principium sapie ntiæ. já que amigos. que indesculpavelmente me omiti de explicar na primeira edição d este livro. O Te trafármacon consiste. ensinando o discípulo a não temer os deuses (já que eles estão fora da jogada). então teremos de continu ar a existir depois da morte. portanto. do q ue as muitas técnicas. passar por uma mensagem de consolação e atrair p ara o jardim de Epicuro milhares de infelizes em busca de alívio? Que consolo podi . o pobre Tetr afármacon já pode se considerar derrotado pela profusão de concorrentes modernos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 45 males humanos. parentes e inimigos se lembrarão de nós. numa disciplina. que. E quando. o Treinamento Autógeno de Schulz. numa ginástica interior. Mas consolam só quando não lhes prestamos muita atenção. seguida de total e eterno esquecimento. sem contar a lista interminável de exercícios orientais e pseudo-orie ntais que o movimento da New Age espalhou da Califórnia para o mundo. antecipadamente. ne m a morte (pois quem deixa de existir já não pode sofrer) etc. 2ª. e como tudo o que se imagina é material. A pergunta é: como pôde essa filosofia ne crófila. o homem encontr a o caminho da meditação filosófica que deve libertá-lo. no fun do. sem escapatória. átomos e homens só encontrem cada vez mais dor. Nesse mundo d estituído de qualquer regularidade previsível. uma técnica para a conquista da felicidade. num universo absolutamente trágico onde átomos e homens v agam a esmo de erro em erro e de sofrimento em sofrimento. destacam-se as da convers ação filosófica com os amigos na paz do jardim: o conteúdo da conversação exerce efeito calm ante. essa afirmação contraria os princípios fundamentais da sua co smologia. que hoje há na praça com o mesmo o bjetivo. sumariamente. 4ª. 3ª. provém de que o objetivo máximo dessa técnica é inculcar no praticante quatr o convicções básicas: 1ª. mundos e homens formam-se e desap arecem por acaso. o clinamen é. finalmente. não há possibilidade de realizar planos. seguinte: se tudo o que imaginamos existe em algum lugar. esta meditação leva-o à conclusão in tável de que o único alívio possível é a morte. os falecidos devem estar todos materialme nte instalados em algum materialíssimo mundo. Palavras que consolam . 32 Veremos logo adiante o parentesco entre o Tetrafármacon e a Programação Neuroli nguística. sim apenas uma psicologia prática. e. uma técnica deve ser julgada exclusivamente pelos seus resultados prát icos. a Programação Neurolingüística de Bandle r e Grinder32. na qua l o praticante. a Sofrologia de Caycedo. abdicando da busca insensata de prazeres que causam mais dores. não alcancem um resul tado melhor. não se d a divindade. onde galáxias e amebas. Daí que. Dentre as recordações agradáveis. Ora. e. pois um exame mais cuidadoso faz brotar delas algumas dúvidas inquietantes. como por exemplo a 31 O nome Tetrafármacon. intermundo. é fácil suportar o mal. alcança sua finalidade na completa e definitiva aniquilação do h omem. É um caos. parentesco que Pessanha — sem dar nome aos bois — mencionou de passagem. mas o exercício desta liberdade choca-se contra o fatalismo da dor. nem menos. fugindo da dor. condenada ao fracasso. não se deve temer a morte. va i aos poucos substituindo as sensações dolorosas da vida presente pelas recordações agra dáveis do passado até fazer com que o passado se torne presente e o presente desapar eça sob a imagem do passado. e no qual Pessanha sugeriu que o povo brasileiro fosse buscar ins piração para sair da miséria moral31. num mercado super-saturado de similares como o Pensamento Positivo de D ale Carnegie. ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. e toda ação está. buscando o prazer. a Psicociber nética de Maxwell Maltz. é fácil alcançar o bem. que Epicuro afirma a completa extinção do ser humano após a morte física. O clinamen é apresentado como um movimento livre. supramundo ou submundo. Mas há duas outras questões ainda mais perturbadoras: 1. partindo dos movimentos cegos dos átomos no vazio sem sentido. daquilo que Epicuro entende como felicidade. o Silva Mind Control.

am encontrar no jardim sabendo que ele é a entrada do cemitério e que depois do cemi tério há somente o cemitério maior do esquecimento cósmico? Que atrativo enxergavam ness a promessa digna de Jim Jones? .

mas aconteça de novo de maneira ainda mais realística do que na primeira vez. como se viu. ou para trás. Assim. atual e materialmente. se praticada com persistênc ia. e estas ingressarão na vida presente como um objet o que. uma segun da intenção? Haveria nessa loucura um método? Não se esconderia por trás do besteirol epicúr eo um segredo temível? Essas perguntas não têm resposta nas teorias do epicurismo. Tal vez a encontrem na sua prática. me parece inverossímil. E quando ele eventualmente se lembrar de que an- tes se lembrava de alguma coisa da qual agora não se lembra mais. para ver que tipo de conduta moral pode resultar dela. denso e contínuo. conhecedor aliás da lógica de Aristóteles. É um wishful thinking potencializado. Neste momento. A abolição da consciência A prática do Tetrafármacon cria. Fazemos esta disti nção comparando aquilo que pensamos e imaginamos por vontade própria com os dados que nos são impostos pela situação presente. a prática da sua ética é que é uma condição prévia para que alguém possa chegar a acreditar na sua física. bastará abrir um b uraco no oco. e pelos buracos o meditante poderá saltar para o p assado ou para o futuro com a maior facilidade e sem precisar de nenhuma máquina d o tempo. que um filósof o de ofício. A hipótese de que Epicuro fosse apenas um incompetente. por trás de tanta absurdidade. Mas os resulta dos da brincadeira são graves. por exemplo. essa cosmologia de qu eijo suíço parece O Exterminador do Futuro ou Alice no País do Espelho. elevado a sistema e regra de vida. O mesmo aplica-se às recordações: se produzidas com intensidade suficiente. num espelhismo sem fim de tempos den tro de tempos e de hiatos dentro de hiatos. Teria ele. corresponde à diferença entre o efetivo e o possível. um sonso. por trás de todo o tecido de alegações beatas que lhe serve de embalagem. levando-o a acreditar na r ealidade efetiva. jogado num tanque. O que cha mamos senso do real funda-se na distinção do efetivo e do possível. Elas poderiam ser outras. se tornará para o meditante epicúreo uma superfície esburacada. não poderia deixar de perceber sua inconsistência. Exposta assim. na forma de corpos sutis . em lógica. A ginástica cronológica de Epicuro. é algo que finalmente encontra aqui sua explicação: não é ética de Epicuro que deriva logicamente da sua física. Acontece que a distinção que o cérebro humano faz entre a s sensações presentes e as imaginadas é aquela que. e assim por diante. Vale a pena examinar o lado psicológico dessa inversão. Isto mostrará em que consiste realmente a ética de Epicur o. que não escapa ao exame atento de um adulto letrado de inteligência m ediana. quanto mais avance na prática da med itação epicúrea. digito no teclado do computador as palavras que me brotam de dentro. o seguinte problema: se os objetos que aparecem na imaginação sempre existem tais e quais. como queiram. um tal amálgama de contradições. § 9. mais ficará persuadido de que aquilo que imaginou existe ou está entrando na existência nesse mesmo momento e é até mesmo “mais real” do que os objetos sensíveis pre sentes. acabará por abolir no discípulo a intuição dessa diferença. O mundo da vi da. desde logo. do que quer que consiga imaginar com suficiente nitidez : os futuros contingentes. tr arão de volta as coisas passadas. teremos de admitir que esses efeitos não ficarão m esmo confinados no corpo do indivíduo imaginante. então o esf orço de enxergá-los cada vez mais nítidos com os olhos da fantasia até que se superponha m às impressões do presente deve necessariamente produzir efeitos físicos. ba stando que eu quisesse mudar o foco da . meras possibilidades lógicas só concebíveis a título de const ruções abstratas. um incon sciente. para que a coisa esquecida não apenas volte à memór ia. o discípulo. são então vivenciados como se fossem objetos de experiência concreta. a física para hipnotizados. abre espaço empurrando a água para os lados. ou um oco no buraco. mas se expandirão pelo mundo em to rno. Para sermos coerentes com a física de Epicuro. A cosmologia de Epicuro é. mas. ao contrário. que para o comum dos mortais é uno. atual. Que um suje ito treinado nessa regra possa chegar a admitir como santas verdades os mais pat entes absurdos da física epicúrea.46 OLAVO DE CARVALHO 2. fazendo brotar seres e coisas que se materializarão. em algum lugar do cosmos.

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Mas só posso fazer esta comparação se me lembro claramente de haver pensado ou imaginado tais ou quais coisas por vontade própria. e as culpas aos castigos. em suma — de que as coisas venh am a se passar de outro modo. ninguém pode me impedir de fazê-lo : nem mesmo quem. que a distinção entre o fato percebido e a possibilidade imaginada se faz por referência à vontade. O espaço ainda pode ser parcial mente vencido pelo deslocamento do corpo. Se escrevo estas palavras e não outras. Meu olhar está limitado pelo que o mundo me oferece. por um ato de vontade que resolva sair em busca do tempo perdido com o empenho reconstrutiv o de um Proust. Inicialmente. noutro lugar. re-produzido na imaginação. que se impõem à minha visão com o dados de um mundo que não fiz e que vem pronto ao meu encontro. Mas. verá outras coisas e já não estas. dizia Dilthe y. e conforme seja bom ou mau. já não pode desacontecer. o efetivo do meramente possível. por sinais exteriores. Só eu conheço por testemunho direto meus pe nsamentos e intenções. É só assim que posso captar a diferença ente o que brota de mim e o que me vem do mundo. Se minha percepção está limitada ao lugar do espaço onde me encontro. criadores de seus atos como de suas int enções. Mas o desejo de a ssumir a autoria de seus atos interiores — ou mesmo exteriores — não é inato no homem. Ohio. tendo acontecido . Ora. É apreendendo os limites do meu poder — daquilo que Kurt Levin chamava espaço vital 33— que chego a distinguir o real do irreal. Não posso girá-los daqui para Porto Alegre. tantas vezes quantas abra os olhos. como conjetura esp erançosa ou temerosa. ao passo que minha imaginação não conhece outros limites senão os seus próprios. e se assumo a autoria desses atos inter iores como assumo a de minhas ações materiais e externas. a criança atribui a respons abilidade de seus feitos a um irmãozinho. EUA. verei diante de mim o mesmo teclado e a mesma tela. perceba a falsidade da intenção que alego p oderá provar por testemunho direto aquela que oculto. O que ontem me sensibilizou a retina. como objetivamente existente. vindo de f ora. Mas o tempo é invencível. Do mesmo modo. ativos. exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência d e nós mesmos como sujeitos livres. a um colega ou a seres imaginários. agora só podem ser re-vividas como obra nossa. no outro soberana. como gi ro num instante a tela do pensamento e troco de palavras. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral. virá sempre a companhado do temor ou do desejo — da possibilidade. um anúncio não t erá nunca a presença maciça do fato consumado. já não o pode agora: está fixado para sempre. vividas como um dom gratuito da realida de aos nossos sentidos. Existir é resistir. portanto. aquilo que se passará amanhã não pode ser agora percebi do como fato. diferenciando-a das nossas projeções s ubjet ivas. mais fortemente ainda está presa a um determinado momento do tempo. que. que é súdita num caso. portanto. O senso da diferença entr e o imaginado e o percebido repousa. e não to ma consciência de que mente senão pelo olhar severo do pai que a faz descer do céu da imaginação para cravá-la no chão terrestre onde as causas se atam inapelavelmente às conse qüências. que não se dobra imediatame nte ao meu arbítrio com a plasticidade do imaginário. que no adulto seria cinismo. a criança aceita esta limitação por cont a da autoridade do pai. nossos atos inter iores não têm outra testemunha senão nós mesmos. posso assegu rar. enquanto estiver sentado aqu i. mas somente concebido e projetado desde dentro. se podia ser de outr o modo um instante atrás. Se decido mentir sobre o que se passa dentro de mim. T omamos consciência da realidade objetiva. Por mais certo e fatal que se anuncie o futuro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 47 minha atenção para outro assunto. As cenas deleitosas de outrora. em contrapartida. hoje só pode ser produzido desde dentro. Esta diferença é que me dá a medida do real: admito como efetivo. O presente. Não posso fazer co m que meus olhos vejam outra coisa senão o que está na frente deles. O testemunho sincero de si p ara si é a primeira e indispensável condição do conhecimento objetivo. na memória e na responsabilidade. para Machu-Pichu ou para Winnesburg. um mundo que me resiste. na língua que o povo gaiato atribuiu ao ex-presidente Jânio Quadros: fi-lo porq ue qui-lo. C om inocente desenvoltura. Compreen do. que os circunstantes não podem senão conjeturar por analogia. mas 33 . desde dentro. e não sem algu m esforço.

trad. São Paulo. — Não é uma ironia que esse termo técnico inventado por um eminent e psicólogo judeu tenha se tornado um slogan nazista? . Cult rix. 1973. Kurt Levin.V. Princípios de Psicologia Topológica. 29 ss. pp. Álvaro Cabral.

um gênio da psicologia clínica. ainda que assumido de coração. nem conhecimento objetivo. “Verdade conhecida é verdad e obedecida”. “A autoconsciência é a terra natal da verdade”. em suma. a imitação e a introjeção são apenas ocasião e instrumento da manifestação de uma capacidade preexistente. mas é uma aspiração utópica e autocontraditória: se a percepção da verdade nasce da liberdad . num programa que se automultiplica. Pretender que a autoconsciência se ja mera introjeção de papéis sociais é retornar à velha lenda lockiana da tábua rasa. Mentir alivia porque economiza à psique o esforço de supo rtar um desequilíbrio temporário. A melhor definição de neurose que conheço é do meu falecido amigo e mestre Juan Alfredo César Müller. A pos sibilidade do conhecimento objetivo depende portanto de uma opção preliminar. são um tecido de eufemismos que pode servir para amortecer ou desviar o impacto das verdades indesejáveis. A verdade é aceita assim como um valor moral antes mesmo de se firmar como u m critério cognitivo34. ajudando a manter o orga nismo psicofísico naquele estado de ausência de tensões que os médicos denominam homeost ase. ocultando a me ntira inicial sob montanhas de entulhos só para depois alguém ter de pagar a um psic analista para removê-los. que nos garanta c ontra as futuras tentações do erro e da mentira. N ada pode obrigá-lo a este compromisso. entre a in tenção e o ato. Isso quer dizer. que será a base não somente da conduta moral. mas da objetividade no conhecim ento. A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da ver dade sobre as coisas. apagar as pistas do embuste. de Platão e Aristóteles até Kant. n eurose é esquecer o esquecimento. Ortega y Gasset. por exemplo. mas é uma fortíssima predisposição. e é assim que se desenvolve nela a autocons ciência. entre a autoria e a culpa. Há sempre muitos meios de fugir da 34 verdade. Se mentir para si é esquecer a verdade. Scheler. No desenvolvimento da autoconsciência. que não há consciência moral. Éric Weil. É evidente que isto não significa em hipótese alguma uma redução da autoconsciência ao efeit o de uma “introjeção de papéis sociais”. Sinceridade e objetividade. em que o homem assume — ou não assume — um compromisso interior com a verdade e a coerência. é uma ment ira esquecida na qual você ainda acredita. dizia Hegel.48 OLAVO DE CARVALHO depois aprende a estabelecer por si a conexão entre o antes e o depois. A facilidade com que os seres humanos se li vram dele sempre chocou os filósofos. mas mesmo a verdade conhecida não pode ser obedecida de um a vez para sempre. sem algum sofrimento psíquico voluntário. é m orrer um pouco. A opção pela verdade deve ser refeita d iariamente. sem o sacrifício ao menos temporário da harmonia interior em vista de valores que transcendem os in teresses imediatos do organismo psicofísico. e atendendo apenas aos ap etites imediatos.” Objetividade é sinceridade projetada no exterior. Mas ninguém ficaria neurótico se a opção neurótica não lhe parecess vantajosa. por sua vez. entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana. dizia ele. “Ser objetivo. 35 . A autoconsciência não nasce pronta. assim como sincer idade é introjeção dos limites objetivos. a menti ra transforma-se num sistema. ao menos no instante decisivo em que uma verdade intolerável se abre d iante dele como um abismo. só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la. que se manifesta inicialmente sob a forma passiva da imitação e da obediência — assim como a capacidade de caminhar por si próprio se exerce de início sob a forma passiva do ser levado par a cá e para lá pelas mãos dos adultos. dizia Platão. mediante um suicídio preventivo da liberdade. Os filósofos gostariam que todos os homens fossem dóceis à verdade. O compromisso com a verdade. como pretendem alguns psicólogos e cientistas socia is. dizia Frithjof Schuon. Os sonhos. Neurose. podem continuar vagando à margem de toda obrigação de veracidade. jamais obriga o homem todo : continentes inteiros da alma. for mam um nexo indissolúvel com a responsabilidade: as três condições que perfazem a autoco nsciência moral35. como a imaginação ou determinados sentimentos. jamais causas produtoras de uma criação ex nihilo. Na neurose. É claro que em grande número de casos esse arranjo oportunista acaba produzindo uma neurose.

foi exposto com mais detalhes no meu curso de Ética ( Casa de Cultura Laura Alvim. e da moral como fundamento da objetividade cognoscitiva — inclusive nas ciências —. agosto-outubro de 1994 ). Rio de Janeiro. — O conceito acima resumido da autoconsciência como fundam ento da moral. . É a coisificação da verdade. que dis pense a autoconsciência. cujas transcrições corrigida s formarão um volume a ser publicado com o título Sobre os Fundamentos da Moral. uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e mecânica. a responsabilidade e a sinceridade como adornos subjetivo s.Temível sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda a ssentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código público .

repugnâncias e desejos. se esse homem for um letrado. até a completa inversão. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. Aí ele encontrará o argumento decisivo a fav or do seu sistema: o argumento do número. Seu sistema pessoal de racionalizações será en obrecido e investido de validade universal como expressão das “aspirações da nossa época”. resolve matar dois transeunt es a tiros. quando um homem já não sente a reali dade de alguma coisa. A linguagem abstrat a da filosofia moral terá se tornado uma arma a serviço de fins egoístas. não melhores ou piores do que quaisquer outras. muitas das quais já vinham produzindo. somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauper amento interior e sair em busca do sentimento perdido. Um dia o sujeito n caminha pela prai a e. Nessas horas. chegou a ser diagnosticada por Konrad Lorenz como uma forma d . que. é natural que. no qual el e não tenha de responder pelos seus atos. farão br otar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. criará um novo critério de moralidade. sobretudo na época de cultura de massas que padroniza os desejos da multidão. porém. substituída por uma retórica sofística de um artifici alismo alucinante. O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. cuja violação sujeita o home m a padecimentos interiores. Completa-se assim a inversão: as paixões mais baixas e v ulgares ergueram-se ao estatuto de mandamentos divinos. com os mesmos fins. ele não suportará ser o único a sentir como sente. Não poden do suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferên cias subjetivas. e a deformidade da sua psique será erigida em padrão de medida moral para toda a humanidade. Após ter solapado as bases de todo critério moral objetivo. M as como os desejos da multidão. o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata. No homem sem maiores interesses morais. as novas éticas nascidas do embotamento moral não consistirão em outra coisa senão num sistema de racionalizações que transformará esses três desejos em hipóstases de valores morais universais e em fundamentos máximos de to da conduta eticamente válida. Sua incapacidade para discernir o bem e o mal exceto como convenções vazias será usada como “prova” de que toda lei moral é um a convenção vazia. não são tão diferentes umas das outras. Albert Camus dá em l’Étranger o retrato do tipo cuja mediocridade pacata esc onde a mais absoluta i sensibilidade moral. Como a inteligência humana não opera no vazio. ao fazê-lo. ele não as vê senão como convenções mecânicas. Embora conheça perfe itamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos. mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível. se condensam todo s no triângulo áureo sexo-dinheiro-fama. ele con tinuará a ter ódios e afeições. a imaginação torna-se a serva p restativa do interesse orgânico imediato. o conceito dessa coisa. Mas. que vão desde as “racionalizações” corriqueiras com que na vida diária nos furtamo s ao apelo de pequenos deveres. na esfera intelectual. Até o fim ele não compreende a revolta e a indignação que seu crime desperta . quando não à execração pública ou a penalidades legais. e continuará assim até que a conjunção da necessidade com a oportunidade o transforme de vez no criminoso que se mpre foi. e será si mplesmente esquecido. para dar vida nova ao con ceito. até mesmo sem sentir raiva. e. Invariavelmente. moldados pela cultura de massas. As aspirações subjetivas dos indivídu os. produzindo tantas ficções quantas forem nece ssárias para conservar o indivíduo num estado de profunda sonolência moral. criará argumentos para demonstrar que aquil o que ele não sente inexiste no mundo objetivo. ele cairá na tentação d e argumentar a favor delas. O entorpecimento da consciência tem graus e etapas. e pode até continuar a obedecê-las exteriormente p mero hábito. de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual. de um ego in flado que remoldará o mundo à sua imagem e semelhança. sem qualquer motivo. mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. Mas um homem não vive muito tempo em estado de abstinência moral. o conceito esvaziado não tem mais função. outras tantas filosofias morais coincidentes. que não consistirá em outra coisa senão na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 49 Uma vez afrouxadas porém as demandas da autoconsciência. e por isto o filósofo moral improvisado logo terá o grato prazer de descobrir que suas idéias são compartilhadas por milhões de pesso as iguais a ele. O emb otamento completo da intuição moral.

e degenerescência biológica. apagando da memória humana . que.

O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados. para q ue manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos. afetadas de taras congênitas. campanha publicitária. Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que govern os. Não há disputa política. determinados mov imentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátri cos e jamais passariam de clubes de excêntricos. Lorenz tinha razão. Não é possível que o conjunto do s militantes radicais do mundo se componha de uma maioria de personalidades psic opáticas. para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue que m fale contra. vi na TV o líder gay Luiz Mott apelando a um determinado comediante do SBT para que deixasse de ridicularizar a classe dos homossexuais com suas paródias grotescas. anuncia o começo da demol ição da espécie humana 36. Com alarm ante freqüência. a lista nã mais fim. Excluo. lavagem cerebral. inf luência subliminar. empresas e sindic atos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. ou de um conjunto de técnicas. uma só empresa d e grande porte que não disponha de uma técnica. informação dirigi da. é claro. é o que se denomina uma técnica. se não existisse esta possibilidade. espero eu ) se inspira a militância gay. estimulação por feromônios.50 OLAVO DE CARVALHO registros de valores aprendidos ao longo da evolução animal. Num mesmo dia. e logo em seguida um grupo d e marmanjos afrescalhados do grupo denominado As Noviças Rebeldes. Aliás existem mui tas. estranho aos sentimentos comuns da espécie humana. diria Lorenz. propag . Programação Neurolingüística. que recebem o nome técnico de personalidades psicopáticas ou de sociopatas. para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas. A Demolição do Homem. organizações religiosas e pseudo-religiosas. Se esse algo não é nem a hereditariedade nem aquela conjunção fortuita de circunstâncias t raumáticas que podem produzir uma personalidade psicopática. guerra psicológica. que. agindo sobre essas pessoas. na escala da h umanidade. a amoldagem passa pelo embotamento maior ou menor do senso moral e da consciência intelectual. os casos de psicopatia congênita. então só pode ser uma ação huma na premeditada. realizada segundo uma conexão racional de c ausas e efeitos. mais respeitável do que uma devoção rel igiosa. O que desejo perguntar é como ele se produz num indivíduo em particular. é forçoso admitir que algo. O que me intriga é: como um homem de personali dade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idên tico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perve rsidade moral? Pois é óbvio que. p ara as mais variadas finalidades. engenharia comportamental. em muitos países do mundo. Essa técnica existe. faz dele um UFO axiológico. A comparação faz ressaltar a escala de valores em que por vezes ( não sempre. metidos em hábito s de carmelitas e caricaturando da maneira mais aviltante as freiras católicas. Mas sondar as causas primeiras desse fenômeno. Quando hoje vemos hordas de intel ectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável. para mo ldar a personalidade de seus membros de acordo com os fins da organização. Konrad Lorenz. Essa escala é incomensurável com qualquer tábua de princípios éticos já conhecida ne ste mundo: a adesão a ela torna um sujeito inacessível à argumentação racional. 36 37 V. O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais v asto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade. um só Estado nacional. Não há neste mundo um só movimento de massas. A ação humana premeditada. partidos políticos. não é meu intuito. onde o desejo de um determinado tipo de prazer físico acaba por se tornar. controle do imaginário. para consulta de raros pesqu isadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática. n alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros da experiência moral acumulada ao longo da evolução biológi ca37. retira-o d o debate civilizatório. ao menos implicitamente. hipnose instantânea. Esses conhe cimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas. destruiu nela s a i tuição moral elementar.

de psicose informática38. Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personalit y Changes. que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação. New York. . A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a o nipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. Flo Conway and Jim Siegelman. muito pertinente. os grandes movimentos de mas38 V.anda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles. 1989. Sem ela. Lippincott. submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante.

todas as idéias e concepções ais francamente errôneas. incluindo a bomba atômica e os compu tadores. do panorama histórico do século XX as técnic as de manipulação da mente. tr ad. porém. este foi o século da escravização mental. Se retirássemos. presos a uma noção grosseira e oisista do que seja uma técnica. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso temp o. é claro. Geiser. então se verá ue nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o u so da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jove m de todos os países. Rio. Octávio Alves Velho. Áurea Weissenberg. nada teria podido acontecer como aconteceu. Rio. que fim teriam levado as organizações esotérica e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo. Joost A. 39 ou pelo menos num esquema de ação mais ou menos patente. É impossível im aginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses39. 1980. Heitor Ferreira da Costa. Octávio Alves Velho. Nacional. trad. trad. não concebem sob esse nome senão aquilo que se materi alize em algum tipo de aparelho ou máquina. seria concebível que populações submetidas in cessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito te mpo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo d a demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada. enfim. sob as aparências de continuidade daquilo a que a humanidade chamava civilização. e Olivier Reboul. Eles sabem. A. Guerra Psicológica. estonteada. a impo rtância da “técnica” entre as causas do devir histórico. M. mórbidas. trad. Eugêni a Moraes Andrade e Raul de Moraes. Biblioteca do Exército. Menticídio: O Rapto do Espírito. São Paulo. como teriam se desenrolado os dois conflitos mundi ais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica41.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 51 sa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. Robert L. 40 V. Paul M. Merloo. São Paulo. que só destacava algumas formas de dominação à custa de ocultar outras m aiores e piores 43. mas. Modificação do Comportamento e Sociedade Controlada. Ibrasa. Zahar. 1962. Ed. em 1969. 42 V. K arl Mannheim. A Do utrinação. É neste contexto que se deve compreender o apelo ao resgate do epicurismo. mais que o século da informática. cresce hoje em todo o mundo uma espécie de ant icivilização. do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios. em Diagnóstico do Nosso Tempo. Com o atraso proverbial que marca os pronunciamentos da Igreja Católica. 41 V. Rio. e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las. Cia. Os poucos que se interessar am pelo domínio da mente foram desviados em seus esforços por uma visão preconceituosa mente seletiva. Mais que o sécu lo das ideologias. mais que o século da física atômica. disformes e fracassadas que os séculos e os milênios anteriores rejeitaram saem do fundo do lixo do esquecimento para constituir os pilares de um culto universal do engano. Elas foram s eguramente mais decisivas. o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorga nizavam a sociedade civil 40. o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitali stas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre pop ulações que não têm disto a menor suspeita42. trad. Linebarger. Ora. com suficiente visão de conjunto a hi stória da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX. Lavagem Cerebral. . 1980. ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de auto-engano? Um dos poucos historiadores que levaram a sério este fenômeno de seriedade trágica denunciava. “Estratégia do Grupo Nazista”. 1961. Neste novo panorama. Zah ar. na produção da história contemporânea. “o advento de um sistema político baseado na impostura em grau muito maior do que todos os que existiram até o momento”44. Quando se escrever. o Papa João Paul o II finalmente reconheceu em 1994 que. a civilização do Anticristo. 1977. V.

1971. de Michel Foucault. vol. 525. p. Baldomero Porta. Jean-Charles Pichon. trad. da antipsiquiatria e da dupla Deleuze -Guattari. Bruguera. Historia Universal de las Sectas y Sociedades Se cretas. I. especialmente. Barcelona. .43 44 É o caso.

Tais raciocínios. desviados para os meandros sem fim da fantasi a imaginativa. Servem para exemplificar e comunicar idéias. verdadeiros ou falsos.52 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO IV. Quanto mais profundo o tra nse hipnótico. em última análise. para o segundo é o discurso. fazendo deles o supremo critério do conhecimento. reprimindo a exigência de confrontá-las umas com as outras para formar uma concepção global coerente e hierarqu izada como aquela que nos orienta na vida de vigília. infinitamente variadas n a sua linguagem e nos pretextos. deprime pro gressivamente seu sentimento do tempo. por meio de exercícios. LÓGICA DE EPICURO § 10. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que. 20 de junho de 1995. sistematiza os raciocínios do tipo “o nde há fumaça. Mas Epicuro não se limitou a pratic ar e ensinar a disciplina da ilusão: ele desenvolveu mesmo todo um sistema lógico pa ra sustentá-la. São Paulo. tão manifestante insustentáveis. mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens. Ele fala. É evidente que o segundo ainda é dominante. prováveis ou improváveis. formas e variantes de uma mesma técn ica: a hipnose. São. por exemplo que o ano de 1991 durou som ente um mês ou que os buracos de um queijo suíço pesam 3 kg. Quando ouve do hipnotizador a ordem: “T ome um copo de água”. toma sistematicamente a mera possibilidade como real idade efetiva e. aprende a confiar mais na visualização imaginár ia do que no juízo reflexivo. O conceptus e a imago. no qual o praticante. que Epicuro opõe à lógica dos c nceitos (que ele conhecia através de Aristóteles). têm uma coisa em comum. até que se chegue à completa despersonalização. a beleza e a pompa. . retornando sobre os conteúdos da repr esentação. A lógica dos sinais ou lógica das aparências. nada lhes ofereci a senão uma apologia da morte. recorda e sente como se estivesse desperto. a que apelam para justif icar-se. mas qualquer principiante de filosofia sabe que o valor deles é apenas retórico e persuasivo. com a ajuda da qual se pode provar literalmente qualquer coisa. verossímeis ou in verossímeis. que a lógica tradicional e moderna chama de abdutivos. Aí a mera sugestão verbal de um cigarro aceso bastará para produzir queimaduras reais na mão do hipnotizado: as células da pele reagem à est imulação verbal como reagiriam ao calor de uma brasa. ora “místicos”. mas até quando ?” FRANÇOISE HUET 45 As práticas psicológicas que mencionei no parágrafo anterior. mais e mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo. está pronto para acreditar em todas as absurdidades da físic a de Epicuro tão logo possa enxergá-las na tela da fantasia. É assim que se explica que as concepções físicas de Epicuro. mas não sabe distin guir se viu uma vaca ou imaginou uma vaca. tenham podido ser aceitas por uma multidão de crédulos discípulos. o que vale é o autoconhecimento. enfim. mas a 45 interpreta como se fosse um desejo brotado de dentro. um método hipnótico. não para prová-las. os julga como efetivos ou possíveis. fora de qualque r dúvida. a exposição. Jornal da Tarde. sabe distingui-la de um porco. a maioria das funções psíquicas continua operand o normalmente. há fogo”. compreende o sentido da ordem. todas elas. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distingu ir entre imagens. O fato mesmo de que Epicuro tenha se servido deles para sustentar as teorias de sua física alucinada é sinal de que são uma bonne à tout faire. Pois. Nas mãos de Declaração a Luís Carlos Lisboa. A fumaça e o fogo “A divisão entre Sócrates e Protágoras sobrevive intacta. No homem hipnotizado. Tendo diante da retina a figura de uma vaca. lembrase? Para o primeiro. raciocina. eles nunca chegavam à última análise. O Tetrafármacon é. ora “científicos”. É assim também que podemos compreender como estes discípulos não se deram conta de que o epicurismo. são abundantemente usados na vida diária.

não explicou as diferenças entre lógica e retórica. Dito de outro modo. se isto de algum modo nos tranqüiliza. Perelman reproduz em seguida o argumento que a isto opôs o filósofo estóico Epicteto: “Se teu pai e tua mãe soubessem que virias a dizer essas coisas. mas não esclareceu que ela é apenas um a retórica. Unlimited Power 49. o homem do jardim sustenta. não resta mai s nada a fazer senão tentar imaginar as coisas melhores do que são. cita Epicuro uma única vez. se pôde servir a Pessanha como uma co nfirmação das teses epicúreas. canhestro. O embotamento proposital da intel igência. contanto que. teria se recusado a ensinar re tórica a José Américo Motta Pessanha. Epicuro tinha razão.”48 Se Perelman soubesse a que fins acabariam servindo os seus ensinamentos. eles descobriram que o wishful thinking funciona. Podemos inclusive aceitar simultaneamente várias expl icações contraditórias. O convite ao sono É verdade que as técnicas modernas de manipulação da psique põem o Tetrafármacon no chinelo. Mais precisamente: qualquer explic ação é boa. e como autor de um raciocínio do tipo autofágico. e xposto com todas as letras. em compensação de seu canhado poder investigativo. levante as velas o mais ráp ido possível. pensaria de tudo isso. § 11.” Pessanha fez muitos louvores à lógica de Epicuro. mas é a Programação Neurolingüística (PNL). pois. Mas ele também não disse o que Perelman. que. só 46 48 . em retórica. quanto mais não a provaria uma queimadura viva! M as não é preciso muito esforço para provar que a lógica de Epicuro não se destina à busca da verdade. ele não deixava de ser tam bém aplicado aluno de Perelman. aplaque o temor ou a esperança de uma vida futura. certamente haveriam te abandonado. aliviar o sofrim ento. Ela tem semelhanças e diferenças com o Tetrafármacon. Eu também não o sei. A destreza com que Pessanha manejou esse e outros entimemas na sua conf erência do MASP mostrou que. certamente esta foi tocada por uma brasa de cigarro. foi certamente com base num argumento subjacente que. onde o ún ico destino que nos aguarda é a completa extinção e o eterno esquecimento. pois quem o declara é o próprio curo: “Para fugir do saber — recomendava ele a um discípulo —. um e ntimema. No trecho citado. no Brasil. nem muito menos declarou a premissa oculta de todo o seu discurso: a premissa segundo a qual o importante é persuadir. e. e sim somente à produção de consolações fictícias. no seu clássico Tratado da Argumentação. popularizada em anos recentes por livros como o de Anthony Robbins. demonstrando que. Que técnica é essa? Pessanha não deu o nome.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 53 um técnico habilidoso. e não provar. Assim de nomina-se em retórica um argumento desastroso. afastando a hipótese de uma causa divina. rezaria assim: “Num mundo caótico e sem sentido. que se volta contra a pe ssoa mesma de seu autor. como por exemplo no caso de um judeu que defendesse o n azismo. os de Lair Ribeiro. uma acentuada virtude soporífera. em última instância. se apareceu u ma queimadura na mão. reduzindo os mistérios do u niverso à proporção de nossa experiência mais banal47. A eficácia da PNL confirma Epicuro. ao dizer que “alguns psicoterapeutas de hoje” não vêem mais nada a fazer pelo homem sofredor do que induzi-lo a representar se us sofrimentos em imagens. s e a fumaça prova a presença do fogo. eis a essência de uma lógica à qual não falta. a redução banalizante da totalidade do real à escala de sensações imediatas como co michões ou borborigmos. a tese segundo a qual os p ais devem deixar os filhos ao abandono. se vivo e ali presente. Pessanha não deixou de aludir a uma delas. e em seguida. ele afirmava que a veracidade das explicações é indi ferente: o que importa é o seu efeito calmante. mas. ardoroso discípulo de Epicuro.”46 Fiel a este princípio. Um silogismo com premissa oculta chamase. Mas sei que Perelman. melhorando as imagens. a lógica dos sinais pode muito bem dar foros de pura veracida de metafísica às impressões de um sujeito hipnotizado.

. § 6. Bruxelles. 47 Epicuro. p. Olbrechts-Tyteca. Simon & Schuster. 78-80. em Ch. Cit. X.Diógenes Laércio. Perelman et L. 1970. 49 New York. Carta a Heródoto. Traité de l’Argumentation. La Nouvelle Rhétorique. Éditions de l’Université de Bruxelles. 1986. 276.

Erickson perce beu que o fracasso ou sucesso da comunicação pessoal dependia deles. E rickson era um clínico. profundamente arraigados nos hábit os e convenções da comunicação humana. associações políticas. Este trabalho foi feito por dois pesquisadores. abrindo à psicoterapia as mais belas esperanças de cura para casos tidos por insolúveis. advogados desejosos de persuadir juizes a assinarem sentenças injustas. transformadas num receituário de maquiavelismo psi cológico para uso popular. e o uso que faz deles é perfeitamente eficaz. A PNL funciona. nunca escreveu um livro nem se preocupou em sistematizar suas descobertas. introduzindo-as sutilmente no curso de uma conversa qualquer. O programador neurolingüístico não perde tempo com argumentações. Bastava observá-lo em ação para n otar que a comu nicação verbal. e a PNL como fruto materializado do epicurismo. a fazer o que ele deseja que faça. n a prática. Bandler e Grinder gravaram centenas de sessões psicoterapêuticas de Erickson (bem co mo de outros dois magos da clínica psicológica. particularmente em tipos esquizóides com uma comunicação verbal deficiente. que estavam investigando psicologia da comunicação q uando toparam com o fenômeno Erickson. Bandler e Grinder ganharam rios de dinheiro explora ndo as descobertas de Erickson. Desbrava ram novos mercados: venderam a técnica para executivos que tencionavam persuadir s eus chefes a lhes dar aumentos imerecidos. talvez em compensação. clubes. Pois. Como já em 1983 denunciava a revista Science Digest: “Posta no . em muitas empresas. Epicuro e a PNL. mostrar o epicurismo sob uma face melhor. Mas não se restringiram a um público de psicoterapeutas. o quanto vale o epicurismo como fundamento teórico do que quer que seja. conseguiu romper a barreira de incomunicabilidade. utilizando-os. inteiramente persuadida de exercer livremente o seu clinamen. é o que veremo s. nas pessoas em torno. po rém. inteiramente automatizados e inconscientes. do tônus muscular. Mas o prob lema é justamente esse. da teoria à sua prática: o epicurismo surge co mo raiz teórica da PNL. Mas Erickson. Os padrões de comunicação não-verbal que ela utiliza são reais. Ele a e direto no subconsciente do freguês.54 OLAVO DE CARVALHO Se explicitado. a essa altura já falecido. em breve. da temperatura corporal. Não vá p ensar o leitor que está diante de mais uma poção mágica. com o mais rigoroso controle científico. Já vimos. A PNL surgiu da prática clínica de um dos grandes psicoterapeutas do século: Milton Erickson. ele conseguia comunicar-se com seus pacien tes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito. Milhares de centros de treinamento espalharam-se de costa a costa — e. Paralítico. codificaram todos os sinais. ficavam subentendidos e acabavam por se tornar. mostraram isso. a cois a virou uma paixão nacional. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas. A vítima. um meio de comunic ação de uso corrente. sem cujo auxílio a fala se mostrava impotente para atingir o ínti mo das pessoas. um tipo prático. transformaram-na em prod uto comercializável. igrejas e lares. longe de constituir um todo autônomo. não pôde enviar do i ntermundo qualquer sinal verbal ou não-verbal de uma justa indignação. Só que na vida diária esses sinais. acredita ndo expressar seus sentimentos espontâneos. Se a P NL pode. Gregory Bateson e Virginia Satir). Interpretando esses sinais espontâneos. Richard Bandler e John Grinder. a técnica de induzir subliminarmente por sinais não-verbais tornou-se. Uma revista norte-americana chamou a PNL “a nova mania psicológica pop”. batizando-a PNL (em inglês. se a PNL confirma Epicuro e Epicuro antecipa a PNL. etc. ajuda ndo ou atrapalhando a conversa. sutilíssimas m udanças do tom de voz. de mais um charlatanismo inócuo. políticos decididos a iludir seus eleitores. Nos EUA. uma acuidade sensi tiva fora do normal. vendedores ansiosos de livrar-se de e stoques encalhados. por intermédio de mensagens quase imperceptíveis . Erickson desenvolveu. da direção do olhar. mas ninguém reparava na sua presença. c om o auxílio de um computador. maridos interessados em eng anar suas mulheres etc. e com isto obtinha resu ltados espetaculares em doentes que haviam sido desenganados por outros psicoter apeutas. há e ntre eles o nexo da premissa à conclusão. vai sendo levada a sentir o que o prog ramador deseja que ela sinta. tal e qual o burr o da cenoura. se apoiava numa rede complexa de sinais não-verbais. que lhe permitia captar. na esfera prática. de um só golp e. sistematizaram a técnica da comunicação não-verbal e. NLP). Eles estavam lá sempre. esse argumento não faria outra coisa senão desmoralizar.

a técnica da PNL ameaça tor- .mercado.

levar uma pessoa a fazer o que acha errado. podem ter determinado conseqüências irreversíveis. e. No Brasil. sem que ninguém sequer sugira a possibilidade de haver nela alguma coisa de errado. sem apoio nos quais não pode o ego tomar posição. assume a culpa pelo mal que lhe fizeram. cortando os laços entre a psique individual e os seus quadros de referência moral. com isto. a revista Science Digest notici ava. julgar. com a maior desenvoltura e cercada de aplausos. seja p ela atração do abismo. solidariedade. levando a vítima a não se precaver contra um risco que su põe inexistir. Os que se gabam de sólido materialismo pão-pãoqueijo-queijo vêem-na como um inst rumento de poder e ascensão social. de outro lado omite o detalhe de que. todos os padrões de sinceridade. Universalizado esse costume. não faz mal: a PNL tem meios de tornar o prejuízo uma experiência gratificante. em geral. par a levar investidores a queimar seus capitais em negócios ostensivamente inviáveis. àquela altura. contra qualquer coisa que lhes pareça supr imir liberdades duramente conquistadas. nas mãos erradas. segundo informava a mesma r evista. e aí. legitimando a manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem lidar com o seu próximo. toda influência s ubliminar consiste em abolir o domínio da vontade. decidir. Ninguém escapa aos encantos da nova técnica. ansiosos de unlimited power e arm ados de um temível arsenal de meios para defraudar 50 e colocar a seu serviço os outros homens. Mesmo aqueles que antipatizam com a proposta não dão sinal de perceber ne la qualquer perigo. precisamente. Isto des mente a consoladora lenda de que nenhuma hipnose ou manipulação subliminar pode indu zir um homem a fazer o que é contra suas convicções. Os norte-americanos — malgrado um certo embotamento mais recente. uma assinatura. dos profissionais de saúde. junto com a moda da PNL. Assinalando o perigo. O uso disseminado dessas técnicas arrisca minar todo o campo da convivência humana. A q ueles que se têm na conta de místicos enxergam nela uma via de acesso aos mistérios su premos. querer ou desquerer: neutralizada a capacidade judi cativa e decisória. Mas foi nos Estados Unidos. e subvertendo. a patifaria universal. assumindo-a como sua para restabelecer a ilusória integr idade da sua auto-imagem. h onestidade. a PNL já estava. a vítima pode se dar conta da insensatez. a aprovar o que lhe repugna. um homem está à mercê do que lhe sugiram. se de um lado favorece muito a ação do hipnotizador. conforme esses neomaquiavéis se unam p ara dominar o restante da população ou entrem em competição feroz uns com os outros. Assim. a PNL vem abrindo caminho des de então. e assim por diante. seja pela ambição de conquistar por sua vez o poder de manipular os outros. dos educadores. dos meios acadêmicos. para persuadir juizes a absolver culpados e con denar inocentes. a comprar o que não quer. com isto. Mãos erradas? Nos EUA. mais aí já é tarde: um a palavra. sem que ninguém levante co ntra ela a menor suspeita. mudar imperceptivelmente o curso do raciocínio. Passadas algumas horas. Os brasileiros estão absorvendo a PNL com o deslumbra mento bisonho de um garoto que se sente muito lisonjeado ao ser admitido pela pr imeira vez numa roda de cocainômanos. de que tratarei nos capítulos finais d este livro — sabem precaver-se. ela é ignorada como um charlatanismo inócuo. a sociedade inteira esta rá à mercê de uma horda de manipuladores psicológicos. para fazer eleitores votarem contra seus próprios interesses. dá mais brilho ao seu fascínio e incita a vítima a prosseguir na experiência. um perigoso in strumento de controle social” 50. sendo usada em toda parte para levar pessoas a venderem seus bens a preço vil. O uso habilidoso dos sinais não-verbais permite abrir hiatos na atenção consciente. lenda que. Quando não é recebida como uma mensagem salvadora. Os neuróticos pedem-lhe um meio rápido de obter alív io e os psicoterapeutas uma receita rápida para operar curas espetaculares. e. Todos confiam que ali só têm a ganhar. protegida pela sonsice dos crentes e pela ind . quando não ganham nada. e pronto a justificar a po steriori a decisão imposta. tanto melhor: isto confirma a eficácia da nova técni ca. ter emos ou mais a mais perfeita e indestrutível das tiranias ou a anarquia generaliza da. também uma onda de protestos e advertências que brotav am contra ela da imprensa. Se alguém percebe vagamente que es tá sendo manipulado pelas costas. Isto foi dez anos atrás.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 55 nar-se uma temível ferramenta de manipulação pessoal e.

vai Flo Conway and Jim Siegelman. maio. a PNL vai entrando. Science Diges t. vai ganhando força. . 1983. “The Awesome Power of the Mind-Probers”.iferença blasée dos descrentes.

A Servidão Voluntária Não estou exagerando o perigo. em alcance. em vez de condená-los como anti-éticos e advertir contra o seu uso. arriscaria cair em ouvidos moucos. os governos. inte lectuais eminentes oferecem o Tetrafármacon e a PNL como soluções miraculosas. As técnicas de manipulação p síquica progrediram tanto nas últimas décadas. Mas quando o torpor não invade somente a alma do povo. em dos es crescentes. Quando. com deleites de masoquismo. por exemplo. Para reconhecer que está dormindo. insensibilidade catatônica que protege contra novos abalos. é verdade. A apatia. onde os homens seriam reduzidos à escravidão por meio de técnicas hipnóticas. que ultrapassaram tudo o quanto o homem comum pode aceitar como verossím il. para cair de cheio na esfera do sonho. E não aceita mesmo: quase todo mundo opõe uma obstinada má vontade a ouvir o que a lguém possa ter a lhe dizer a esse respeito. o resultado é que o domínio dos meios de escravizar a mente do povo cresce na razão inversa dos meios que ele possa ter pa ra defender-se. A advertência. mediante um reflexo anestésico . ser viços secretos. Um filósofo deveria ser o primeiro a advertir contra ele. sem sonhos. com provas cabais. Aquele a quem os deuses querem destruir. que as técnicas anunciadas no livro anterio r já estavam prontas e em vias de aplicação para fins políticos. o vírus da manipulação subliminar. e o pânico vira logo es tupor. o primado do incon sciente só pode ser afirmado por um homem consciente. Que. após o sucesso mundial do romance Admirável Mundo Novo (1932). de onde só sairá para mergulhar na terceira fase: no sono profun do. então é que a consciência públi ca já transpôs a primeira fase do sono. precisão e eficiência.56 OLAVO DE CARVALHO invadindo todos os setores da atividade pública e privada e inoculando ali. É um dos mais velhos e incômodos paradoxos da mente humana. num curso de Ética nominalmente votado a objetivos da salvação nacional. nos anos 70. A segunda não era ficção. Diante de cer tas notícias. assinalam o torpor da vítima que. A indiferença afe tada é uma reação de autodefesa contra o pânico — e quem fugiria do pânico se já não estivess m pânico? Um segundo motivo é que ao menos aparentemente há uma contradição intolerável em p edir à consciência que reconheça sua sujeição a um poder inconsciente. eles primeiro enlouquecem. Como. tão sensível às redições sinistras da ficção. a concentração das atenções em assuntos secundários acompanhada de total negligência a nte os temas essenciais e urgentes. . em vez de cair na rede da sua sedução e atrair o povo para mergulhar nela também. à servidão voluntária. em resumo. Por que o público. A primeira dessas obras era uma ficção cien tífica. a do mero adormecimento. A incapacidade de um povo para perce ber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva q ue prenuncia as grandes derrotas sociais. é mais fácil ser tomado de pânico do que raciocinar. § 12. que previa o advento de uma ordem social robotizada. E aí já não se sabe quem é mais culpado: o sedutor que escraviza ou o se duzido que se entrega. qua ndo toma também as mentes dos intelectuais e a voz dos melhores já não se ergue senão pa ra fazer coro à cantilena hipnótica. a indiferença ante o próprio des tino. Aldous Huxley não conseguisse mais que uma minguada audiência para o seu livro Regr esso ao Admirável Mundo Novo. a human idade já estava com um pé dentro do Admirável Mundo Novo. de outro lado. para se entregar inerme e semidesmaiada nas mãos do carrasco. se prepara. um homem tem de estar pelo menos meio acordado. seitas pseudomísticas e empresas multinacionais investem quantias ca da vez maiores na pesquisa desses assuntos. No completo esquecimento. mas uma re ortagem: informava. como o carneiro qu e oferece o pescoço à lâmina. então se apaga a última esperança de um redespertar d a consciência. antevendo um golpe mais forte do que poderá suportar. Pode mos sair dele. cai numa torpe indiferença ante o aviso de que a ficção virou r alidade? Uma resposta possível é que esse aviso mesmo já é estupefaciente. e só quem escapou da manipulação s abe que é manipulado. Um exemplo s ignificativo foi que.

Epicuro que me perd oe este rodeio. acab avam atribuindo a si mesmas a culpa pelos atos cometidos sob sugestão hipnótica. ‘Eles chegaram pedindo para trocar duas notas de US$ 50 e. Alguns parágrafos significativos: “Desde maio. a não ser em caso de flagr ante. Quanto mais tememos um perigo. já foram registrados mais de uma centena de casos. que garanto não será inútil: quando voltarmos ao seu jardim. Aquilo me transtornou. da Central de Polícia em Turim. que começou em Piemonte. se lhe p erguntam por que agiu assim. Os feitos espetaculares dos h ipnoladri. por sua vez muito improvável. brancas ou de fogo. que o leão é manso. A prova da autoria era tecnicamente impossível. a parte dominante. Isto levava a polícia italiana a crer que o total d e ocorrências registradas. oferece uma justificativa completa e personalizada. Paulo. Mas. após despertar. num despach o da sua correspondente Marielza Augelli espremido num canto de página51. e xplica o inspetor Paolo Brun..’ ‘Não sei como. as cem denúncias feitas em toda a Itália não passam da ponta de um iceberg. que está no conhecimento do assunto. sem experiência para lid . um ca ixa de loja ou de banco. a 51 Marielza Augelli. Dez minutos dep ois. a consciência é. não conseguia parar de entregar todas as cédulas de 100 mil’. 9 de dezembro de 1990. e só pode escapar do paradox o pelo expediente desastroso de negar os fatos. Reações análo gas aparecem em todo tipo de hipnose. de Potenza. o hipnotizador ordena ao suje ito que. A vítima. ‘Trata-se de uma verdadeira gangue. ao norte da Pe nínsula. Depoimento de sconcertante foi feito pelo caixa do banco Monte Dei Paschi. Segundo ele. que jur ou não ter entendido como dois indianos de olhos negros e profundos. abra e feche três vezes uma gaveta. Uma forma de hipnose instantânea e praticamente irresistível. Segunda. pelo medo que as vítimas têm de passar por idiotas. ao dar-se conta do que tinha feito. envergonhadas e confundidas. fosse bem menor que o número real de crimes. Brun chegou a prender três suspeitos paquistaneses com passaportes falsos. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”.8 mil. A polícia italiana registrou. mas sim. como os batizou a imprensa italiana. Nesta nova modalidade de assalto.. já alarmante. vou escolher um só. contou o proprietário de um supermercado em Turim. na existência de fato . fiquei triste porque não achava as notas e depois não me lembro de mais nada. fala mansa e muita delicadeza conseguiram levar US$ 1. O jornal O Estado de São Paulo. caía num torpor nebuloso e ia entregando aos ladrões. em seis meses. uma p or uma. no entanto foi obrigado a liberá-los por ‘falta de provas’. quando comecei a trocar o dinheiro. pediram somente cédul as que fossem da série x. O Estado de S. tornavam-se ainda mais inquietan tes por três peculiaridades: Primeira. se ainda tem em si algum resíduo de falsa segurança. por direito. mais de uma centena desses crimes. Os tribunais e a polícia.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 57 com a ajuda das distinções aristotélicas entre potência e ato. Tratava-se de um novo tipo de assalto. e já chegou à Sardenha e à Sicília: o roubo por hipnose. Terceira. dela se desfaça no ato e saia em bus ca da verdadeira segurança.” Não é aqui o lugar de descrever em detalhe as técnicas de manipulação da psique. substância e acidente: no p lano essencial. É o p aradoxo que mencionei: assumir uma culpa moral inexistente parece menos doloroso do que aceitar a hipótese humilhante de uma descontinuidade da consciência. ela tem altos e baixos e só conserva o seu domínio lutando contra a inconsciência. já era tarde. os italianos e stão lutando contra um tipo insólito de crime. para que o leitor. a vítima entrega todo o seu dinheiro com um sorriso nos lábios e a mente c onfusa. Por exemplo. m ais tendemos a fingir diante dele uma indiferença superior: “Senta. As vítimas. M as a maioria das pessoas não atina com estas sutilezas. ele obedece e. será com pl ena consciência do que nele está plantado. na mu ltidão de exemplos da sua periculosidade. meticulosamente e sem a menor resistência. em que os criminosos não usavam armas. Segundo Brun.” hipnose. porque muitos casos não são denunciado s. noticiou algum tempo atrás a mais estranha onda de crimes que já se vira na Itália. muitas vítimas deixavam de registrar queixa (exatame nte como mulheres estupradas). todas as cédulas. a cidade mais atingi da. com cerca de dez a vinte pessoas em ação’. Por essa mesma razão.

Refiro-me às s eitas pseudomísticas do tipo Moon. mais perigosas talvez do que quadrilhas de assaltantes.ar com o caso. “Meninos de Deus”. sejam depois usadas para fins de dominação p olítica. estavam atarantados. d iscretas se não secretas. para reduzir à escravidão psicológica milhões de pessoas. nem para impedir que as técnicas dos hipnoladri. as vêm empregando e m escala mundial. uma vez provad as e aprovadas por quadrilhas de ladrões. Rajneesh. bem como às entidades. Outras org anizações. Mas essas armas não foram testadas só em umas dezenas de assaltos. disseminando a ins egurança e a confusão. . Por enquanto. que as fundam e dirigem. nada se pode fazer para impedi r que esses crimes proliferem e se alastrem para outros países.

bruxaria e mística. caem logo no esquecimento. Nos Estados Unidos. e impede que o público chegue a pensar seriamente no problema. que alcançam por meios diferent es e mais eficazes. quando comunistas fiéis apareceram confess ando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime. o segundo recordista mundial em número de seitas. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral O assunto é fértil de mal-entendidos. e as encaminham a clínicas especializadas. e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simpl esmente nisso. O primeiro é a Índia. mesmo quando se trate de maiores de idade. segundo me informou um estudioso do assunto (não é b rasileiro). onde a democracia se torna o pretexto da tirania (veremos no fim deste livro o verdadeiro alcance deste fenômeno). Em maio de 1985. No Brasil — preciso di zer? — o assunto não é sequer discutido. Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurof isiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). A idéia de moldar o comportamento humano p ela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov. vocês conhecem algum? Por uma trágica ironia. logo vêm à boca do interlocutor as palavras: “lavage m cerebral”. deu ao público Ocidental uma imagem vívida dos processos de tort ura psíquica que levavam os prisioneiros soviéticos à perda da identidade. logo. na investigação do caso. É uma meia-verdade. As técnicas em uso nas seitas se originaram da lavage m cerebral. embora todo mundo saiba que promovem a escravidão. descobridor dos reflexos condicionado s produzidos pelo jogo estímulo-resposta. Em 1940. confundind o espírito e psique. minada pela infiltração do Ocidente. A expressão “lavagem cerebral” entrou na linguagem popular a parti r dos “processos de Moscou”. a opinião pública está consciente do problema. abre o flanco a todas as degenerescências do espírito religioso. feitas por egressos ou por familiares das vítimas. o Parlamento francês aprovou uma lei proposta pelo Partido Socialista. A imprensa só larga a habitual in diferença para explorar. Os médicos e psicólogos dividem-se em duas categorias: os de inclinação misti cóide geralmente estão mais ou menos comprometidos com alguma seita ou guru. Quando alguém fala da escravidão psicológica que alg umas seitas impõem a seus discípulos. que permite aos familiares das vítimas retirá-las das garra s de seus gurus com a ajuda da polícia. só lhe resta aceitar como tal tudo aquilo que como tal se declare. Em 1988. os debates prosseguem e mais dia menos dia tal vez se descubra um meio legalmente válido de resolver o caso. o Brasil é. Ele estudou isto em ca- . Quanto aos educadores.58 OLAVO DE CARVALHO Por mais antipatia que suscitem. a costa Oeste — a maior concentração de gurus per capita no território americano — já tinha mais de cem c línicas de terapia para egressos de seitas. onde a longa e dolorosa decomposição da sociedade tradicional. ele mesmo hipnótico. o romance de Arthur Koestler. entidades privadas empenha m-se em facilitar por todos os meios a libertação das pessoas mentalmente aprisionad as pelas seitas. e forçá-las a tratamento psiquiátrico. É o vale-tudo. e os ma terialistas durões afetam desprezo pelo assunto na mesma medida em que. na década de 30. algum f enômeno inexplicável que abale suas crenças a um tempo simplórias e pedantes. temem deparar. § 13. bem. Naipaul. à sombra totêmica da “liberdade religiosa”. De qualquer modo. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda de scoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. quando pode. Mas qualquer ação oficial é bloqueada pela a poria lógica embutida na 5ª Emenda da Constituição: o Estado leigo não pode definir o que é religião e o que não é. S. mas só têm com ela uma identidade de fins. A imprensa Ocidental sugeriu que o emprego de algum meio psicológico inusitado seria o respo nsável por aquelas “conversões” que faziam de heróis revolucionários palhaços atônitos a acus se de delitos fictícios. essas organizações continuam atuando com o maior de sembaraço em todos os países. Denúncias esparsas. o lado espetaculoso — o que dá ao caso um ar fan tasmagórico. Darkness at Noon (“O Zero e o Infinito”). O único país que opôs uma barreira efetiva ao avanço das seitas foi a França. a civilização ferida de que falava V.

o psicólogo austríaco Otto Poezl descobriu que estímulo s visuais fraquíssimos. Eles tinham sofrido lavagem cerebral “clássica” e muitos estavam co mpletamente neuróticos. I sto explicava muita coisa. A vítima nem se daria conta. um evento traumático qualquer. eram mais facilmente retidos na me mória do que estímulos mais fortes. mesmo remotam ente análogo ao que se havia passado. os discíp ulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre. Gurdjieff ora esmagava os coitado sob pilhas de exigências constrangedoras. como Freud chamava a suspensão dos comportamentos neuróticos após a catarse curativa. Becker. em que tantos se empenhava a psicanálise. Enxertando na música ambie nte de um supermercado uma voz debilíssima e imperceptível que repetia: “Sou honesto. que os levavam ao desespero até que a personalidade. era desnecessária? Era. não era de terminada pelo conteúdo político da doutrinação. Para começar. tomando-os como reais. uma vez desperto. Ora. portanto. A técnica baseada nas descobertas de Poezl recebeu o nome de propaganda sub liminar. Depois disso . O passo seguinte nessa direção foi dado pelo psiquiatra inglês William Sargant. que completava a transformação. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. virasse do avesso. Então a recordação dos fatos. decisiva para o prog resso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenv olvia uma dependência mórbida do terapeuta. que tal sintetizar Poezl e Pavlov? A mutação de personalidade por estimulação contraditória bem p oderia ser produzida subliminarmente. o paciente se recordava do s terríveis sofrimentos sugeridos e. Prometia ao s alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados. Quanto mais abreações. Repetida a operação algumas vezes. literalmente . Com base nessa descoberta. sem gritos. Becker diminuiu em 37 por cento a freqüência de roubos cometidos por freg ueses. e tentará atacar o dono. Raramente dizia alguma coisa com senti do identificável. mas sim pelo efeito acumulado de estimu lações contraditórias. por exemplo. ora a luz sem o bife. ao examinar prisioneiros de campos de c oncentração chineses libertados após a Guerra da Coréia 52. com o auxílio de hipnose. de quem gostava. não roubarei”. Tudo no macio. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptara m à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita gústia intolerável. tinha sua catarse e sa ia curado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 59 chorros. Com grande supresa. Eles ficaram comple tamente atordoados. Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada.” A mudança de atitude dos prisioneiros. Logo depois. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff. verificou depois que muitos pacientes devi damente ab-reagidos e curados lhe haviam contado acontecimentos traumáticos totalm ente imaginários. Sargant fez mais uma. o cérebro ent rava em pane. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso. f azendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. pud essem ter ab-reações. mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório. e lhes dava um sistema cosmológico completo. se devi a tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. um publicitário. Inicialmente Sargant os tratou pela psicanálise. imperceptíveis à consciência. ora os induzia a descargas aliviantes q ue lhes davam a impressão de plenitude e liberdade. que nas 52 . doutrinação ostensiva ou violência d e espécie alguma. porém. mais forte o vínculo. recordando-se de traumas enterrados no subconsciente. só para depois serem repentiname nte jogados de novo em provações humilhantes. por atuar abaixo do limiar (em latim. verif icou que a coisa funcionava também com estímulos auditivos. limes) da consciência. Hal C. que detestava. durante hipnose. da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas h abituais. os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelh a que acendia tão logo lhes era oferecido um bife. Sargant descobriu que podia produzir ab-reação simplesmente su gerindo ao paciente. De fato. Gurdjieff manej ava igualmente bem a estimulação contraditória. para que.

Heinemann. Imago. 1975. e A Posses são da Mente. William Sargant. Rio. Uma Fisiologia da Possessão.V. 1957. trad. The Battle for the Mind. do Misticismo e da Cura pela Fé. Klau s Scheel. London. .

portanto.. Mas. os resultados descritos por Sargant podiam ser al cançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana. calcul ado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos . essas inform ações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência. Dois pesquisador es. simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem n um leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes55. mantendo-se constante a pressão. O que Sargant descobriu logo depois disso f oi de estarrecer. em suma. pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acon tecendo. de maneira que o indivíduo se torna recepti vo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes”: era possível. descobriram que. é possível induzi-la ao transe com bastante facilid ade..60 OLAVO DE CARVALHO semanas seguintes era inteiramente substituído por outro. podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. as respostas e o condici onamento condicionado positivos começam. de gritos. crédula e dependente (Sargant ). Nada adiantava o indivíduo tentar res istir às sugestões53: “Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é esse ncial. de outro lado. ainda faltavam dois quesitos: um meio de tornar permanente a mutação de personalidade e um vocabulário dos sinais subliminares .. Com a descoberta da hipnose forçada. Flo Conway e Jim Siegelman. ameaças ou tortura mental. e por outro. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios. subliminar... Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em su jeitos normais. Tentativas repetidas em geral dão certo. pela PNL. As conclusões dess as pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente: l. As mesmas reações . Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa. O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações. O primeiro foi fornecido pela descoberta segui nte de Sargant. hipnotizar um sujeito contra a sua vontade.” cessidade de discursos em alto-falantes.. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil. ge radora de neuroses e psicoses54. o sistema nervoso é esgotado e . na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva. a se transformar em negativos . no ambiente fechado e artificia l das seitas pseudoreligiosas. Para reduzir um homem a uma obediência canina. O segundo. Pavlov denomin ara a isto a fase paradoxal da mutação. o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de pers onalidade. se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes. 2.. Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias. já não havia ne53 54 .. Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado.” O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma suge stionabilidade aumentada ao extremo. a fase ultraparadoxal. que desse agilidade à sua utilização. para produzir a lavagem cerebral discret a e indolor com que sonhavam os técnicos. Pode-se mu dar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov). o uso conjugado da estimulação incoerente e das a b-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos par a produzir56. a que se seguia uma fase ultraparadoxal: “No t erceiro estágio da inibição protetora. bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito a o desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções. até que a con fusão mental crescesse à escala cósmica. Por um lado. após chegar à inversão dos re flexos. Pavlov já tinha reparado que o paciente. de repente. às vezes em doi s ou três dias.

55 V. Stanford. Conway & Siegelman. 47 Leon Festinger.Sargant. A Possessão da Mente. Zahar .. Teoria da Dissonância Cognitiva. 1975 ( original: A Theory of Cognitive Dissonance. 1957 ). trad. Calif. A Handbook of Artificial Intelligence. IBM. p. Universit y Press. 56 V. Rio. . Eduardo Almeida. Snapping.

O senso da identidade lógica. mas s difícil continuar crente se os pães celestes viessem eria m ofados. Impedimento teórico. Devo. Um homem pode acreditar que Jesus multiplique os pães. até agora. Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. nunca foi violado por nenhuma das grandes crenças religiosas do passado e do presente. desmentindo a fé em vez de confirmá-la. Se ninguém ainda tentou. hoje em dia. Mas há sempre um limite. Mov ido pela fé. ater-me àquilo que posso observar na vida de to dos os dias. Tem de possuir um sentido. que pode ser realizado à distância (IBM). Deus gradua as provações segundo a capacidade dos fiéis. não há. O fator decisivo é o controle planejado do fl uxo de informações. mas não que Ele a faça girar e ficar parada ao mesmo tempo desde o mesmo ponto de vista. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares. o v alor dos bens prometidos e 57 Que nenhum espertinho venha mencionar os koans do budismo. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. É muito difícil avaliar até que ponto os governos. 4. continental ou planetária. a teologia apofática ou outros exemplos do mesmo teor como provas de que o pensamento religioso admite . portanto. mas não que Ele tenha ressuscitado antes de morrer. se admit ia como fé religiosa. foi somente porque não quis. O segundo limite é o senso estético. que o movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da timulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma su bserviência patética. 5. e em muitas civilizações diversas. um homem pode acreditar que Deus faça a Terra parar. Finalmente. e mesmo a observação mais superficial basta para mostrar que a manipulação da psique já se tornou. pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imed iata. ou porque tropeçou em algum obstác ulo acidental. O miraculoso não é apenas o extraordinário. em rupturas da ordem natural costumeira. A técnica pode ser aplicada s imultaneamente a todos os membros de uma coletividade. há o limite da p aciência. essencial. sob pena de funcionar como um ant imilagre. em todas as religiões. desobedeça à sua dis posição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses. Noto. mas não que a chuva será se ca. desde que se sintam corta dos de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). Ele não se assem lha em nada àquilo que nos séculos passados. os serviços secretos. na medida em que é uma resposta a legítimos anseios humanos e não apenas uma esquisitice coloss al. isto é. sublime ou terrível. Não pode ser banal. Ou antes: há toda uma rede de limites. o incomum. um hábito corrente. A reverência ao pajé pode fazer um índio acreditar que os ritos trarão chuva. as empresas multinacionais. funcionalidade. o gigantesco: ele tem d e mostrar harmonia. no uso efetivo das técnicas de manipulação. os movimentos políti cos de toda sorte avançaram. cuja lic itude ninguém se lembra de pôr em discussão. que é uma só e a mesma coisa que o senso da unidade do real. beleza. em muitos setores de atividade. por exemplo. ridículo ou grotesco. mas permaneceriam indiferentes a uma mensagem ce leste que prometesse apenas entortar todos os garfos. Essa a valiação requereria investigações de vasta escala. que nenh uma religião jamais ultrapassou. sem que a víti ma se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). e por i sto. Não é preciso enfatizar as fac ilidades que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 61 3. pode também levá-lo a aceitar a aut oridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de con trole. que estão fora do alcance de um pesquis ador independente. O primeiro desses limites é a contradição intrínseca. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres . A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom-senso. A decepção continuada é um antídoto contra a fé. O milagre pode ser belo. O cristão pode aceitar que Cristo se ergueu da tumba no terceiro dia após a mort e. a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade o ferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional. Um crente não pode esperar indefinidamente nas promessas do seu Deus quand o nenhuma delas jamais se cumpre. Os povos do passado podiam seguir um profeta que lhes anunciasse a vida eter na ou a cura de todas as doenças. pela simples razão de que a unidade do real é a unidade do próprio Deus. subjacente mesmo às mitologias p oliteístas57.

Esses exemplos só mostram que na esfera mística a compreensão de certas verdades requer uma apreensão intuitiva capaz de superar. por si.a autocontradição. num salto. obviamente não poderia realizar. obstáculos que ao raciocínio discursivo parecem intransponíveis. Uma vez encontrada a solução. ela se mostra perfeitamente lógica. atendidas as distinções de planos de realidade que a lógica . .

Ora. a respeito. heróis e duendes do imaginário tradicional. as figuras. 19 20. os jingles e logotip os da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anj os. 59 Não é força de expressão. O teor mesmo das imagens e o conjunto de sentimentos que as acompanham indicam a fonte. É a fé reduzida à crença cega e totalmente amputada do mais elementar “discernimento dos espíritos”58. Na mística islâmica. Os slogans. dos anjos. ou sentenças do Profeta ( M ohammed. dignos de pena na melhor das hipót eses. já que sua imaginação não t m outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. afirma-se que as visõe s podem provir de Deus. espiritualmente. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos. A respeito. como antecipações que dão aos fiéis o ânimo de perseverar na fé. sabendo que a propaganda é um universo de enganos. O homem das grandes cidades ac redita hoje em ficções que fariam um índio sorrir59. A destruição da religiosidade popular tradicional — atacada de um lado pelos materialistas e de outro pela ideologia da New Age — não produziu nenhum “esclarecimento” ou “iluminação coletiva”. por exemplo. The Spiritual Legacy of th e American Indian. Joseph Epes Brown. que ensina um homem a discernir a fonte — e portanto o valor — de su as inspirações e visões interiores. Les Phénomènes Mistiques Distingués d e leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques. ou Maomé ) e depois foi sendo acrescido das observações dos místicos. Os milagres surgem. demônios. aspirações e temores . ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade. que continua a crer com zelo fanáti co apesar dos mais óbvios desmentidos. nesse quadro. entre os quais os demônios. Maison de la Bonne Presse. Assim. Pendle Hill. ou técnica. feitos como os de Thomas Green Mor ton. V. Albert Farges. Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontr am por trás desse fenômeno. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária. Se o conhecim ento desta disciplina não tivesse desaparecido. de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão p or intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela f m inoculados pela propaganda. praticada por todos os místicos das randes religiões. de outros homens. Paris. não despertariam maior curiosid ade senão como fenômenos de teratologia espiritual. O próprio Cristo cen urou o povo que pedia milagres. por exemplo. uma autên ciência do “discernimento dos espíritos”. o que caracteriza o fenômeno mundial da pseudo-religiosidade contempo rânea é justamente a credulidade beócia que toma como mensagem do céu qualquer fenômeno gr osseiro de telepatia ou hipnose. O ensina mento tradicional a respeito está registrado nos hadith. e agora ele só c rê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. ao longo dos séculos. 58 O “discernimento dos espíritos” é a ciência. muito acima do homem branco médio. que as coloca.. para não falar de outros mais grosseiros ainda. Muitas tribos indígenas têm. mas não deixou de operá-los em profusão por saber que a fé humana é necessariamente impe rfeita.62 OLAVO DE CARVALHO a lógica da situação. que aceita “sinais divinos” desprovidos da mais ele mentar coerência estética ou funcionalidade prática. ele já passou da fase ultraparadoxal. subentendendo que a fé perfeita não precisaria deles . Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe . esta arte esteve incluída até bem pouco tempo atrás nos ensinamentos regulares de Teologia Mística transmitido nos seminários. Moisés pôde esperar quarenta anos pela libertação do seu povo. finalmente d os djinns ou entes sutis da natureza. mas sim um rebaixame sem precedentes do nível de consciência das multidões. V. que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as ci vilizações precedentes? A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto s eus antepassados poderiam sequer imaginar. ele não pode deixar de se guiar p or ela na prática. 1964. No Ocidente cristão. do coração humano. entre suas tradições. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. nem quarenta minu tos para que seu cajado se transformasse em serpente. t odas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas. mas não e de esperar nem quarenta semanas para que Deus enviasse o maná.

o . d e todo senso profundo da realidade. mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propa ganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamen te imbecil.. A ruptura entre conduta e crença. no ato. mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. ao generaliz ar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável. inócua em casos isolados. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida. Mas reprimir essa angústia é abdicar. Levado a agir como se acreditasse n aquilo que nega. qu e tem de ser reprimida a todo custo. é condenar-se a um vaivém incessante entre a fan tasia desesperançada e o desesperançado cinismo. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativo s.

a pobreza. Comparados a esse império universal da impostura. qu e importam todos os males menores e locais denunciados e combatidos pelas várias i deologias em disputa? Que diferença faz se a manipulação da mente é empreendida sob o pr etexto de manter as massas na passividade de uma rotina conservadora ou de impel i-las a fazer uma revolução? Em ambos os casos. ao bom senso e ao mais elementar sen- timento de humanidade. o ativismo intele ctual acaba por reduzir a linguagem a nada mais que um instrumento de expressão de raivas insensatas e exigências descabidas. o homem é tratado como um cão de Pavlov. se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana. seja criando-as em laboratório.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 63 homem das grandes cidades é hoje um esquizóide. todos os outros males que a afligem são meras incomodi dades corriqueiras. o “novo modelo de linguagem” de David Bohm. porque elas vão direto para o seu sub consciente. um cão é sempre um cão. O estraçalhamento das consciências pelo império da propaganda é condenado com veemência por alguns intelectuais ativistas. ouvintes e espectadores. que só pode acreditar na realidade qua ndo ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. mas isto é pior ainda. influenciando a sua conduta sem pedir licença ao julgamento consciente . o neo -epicurismo. pouco importa quem ganhe a disputa: a humanidade perderá. destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas prémodernas. Perto dessa queda da c ondição ontológica da humanidade. mas eles mesmos praticam abundantemente a estimulação paradoxal sobre as mentes indefesas de alunos. Quem quer que lhes dê ouvidos termina louco. segundo as quais a re alidade objetiva não existe ou a linguagem não tem relação com ela. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado d e espírito. A velha oposição entre evasão e ativismo perdeu todo sentido num mundo em que a ação política se tornou um escapismo para alívio das mentes imaturas e em que as fantasias mais extravagantes são celebradas como formas de “protesto” contra um mundo mau. que não têm satisfações a prestar à razão. Ideologias como o gramscismo. os intelectuais começam a produzir realidades postiças. O efeito de longo prazo é elevar até o insuportável a pressão col etiva das angústias e das culpas não conscientizadas. com muita violência e muito sangue para dar verossimilhança a um enredo delirante. o neopragmatismo de Richard Rorty. O típico intelectual exasperado de hoje defende sistematicamente reivindicações contraditórias: liberação do aborto e repressão ao assédio sexual. a injustiça social. consag rando as técnicas de manipulação psicológica e de estimulação contraditória como armas legíti e aceitáveis na luta das idéias. compo stos de puras racionalizações no sentido freudiano da palavra. a corru pção dos políticos. seja le vando as massas a encená-las no palco da política. Não é de estranhar que com tanta freqüência os intelectua is apologistas do absurdo se ponham a elaborar sistemas de justificativas. anti-racismo e defesa de “ident idades culturais” sustentadas na separação das raças. seja construindo-as por deduções de um artificialismo sufocante. a abolição da consciência. Elas os ajudam a suportar o mundo fictício e alucinante que eles mesmos criaram. são a legitimação “filosófica” de um atologia: não conseguindo mais instalar-se na realidade em que viveram nossos ante passados. liberdade irrestrita para o c idadão e maior intervenção do Estado na conduta privada. e assim por diante. Quando os filósofos co meçam a declarar com obscena satisfação que a verdade só pode ser inventada convencional mente ou fingida mediante a encenação de crenças políticas. Mas os autores da proeza são ele s mesmos suas primeiras vítimas. eles certamente devem ter bo ns motivos pessoais para ver nessas idéias algo de reconfortante. mas quem está imune à sua influência? O público nem sempre se dá conta das contradições. Que importam o racismo. Quer seja adestrado para cochilar mansamente diante da lareira ou para avançar co m os dentes à mostra contra os estranhos. a redução das massas a um reb . Pervertendo nos homens a capacidade para o juízo de realidade. leitores. A culminação de cem a nos de pesquisas sobre o domínio psíquico do homem pelo homem é alcançada no momento em que todas as elites — as que estão momentaneamente no poder e aquelas que lutam para conquistá-lo — se unem num pacto contra a liberdade da consciência individual. moralismo político e imoralismo erótico. A partir desse momento. democ racia direta e controle estatal da posse de armas. liberação das drogas e proibição dos cigarros.

uma vez perdido.de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo que. é irrecuperável para sempre? .

uma luta qu e transcende todas as diferenças exceto uma. a pseudo-religião. 10. é uma doença de rara sutileza. 1951. “A doença social que termina na a niquilação do pensamento independente. “O propósito do ataque é o mais velho de todos: p roduzir o caos. a Nova Era. O perigo que corremos é que há grandes forças em ação no do que nos proíbem empreender essa jornada e destroem nossa vontade de fazê-la. fazendo os homens acreditarem que estão pensando livremente quando não o estão. no fundo. Macmillan. entre aqueles cuja ênf ase está na razão e aqueles cuja ênfase está na fé. “A batalha a se r combatida não é só entre partido e partido. o marxismo. as mais notórias são o pragmatismo. quanto à validade da mente humana. A vitória almejada é o definitivo caos na mente do mundo. O epicurismo é um antepassado de todas. E já então um observador sensível podia escrever estas palavras: “O problema da s Liberdades da Mente é hoje tão urgente e prático quanto o problema da emancipação dos escravos foi no passado.64 OLAVO DE CARVALHO Quatro décadas atrás o uso universal dessa arma era apenas uma tendência. os lisonjeia e se esconde. pp. uma névoa de razão fragme ntada numa poeira rodopiante. 40 e 5 3-54. Liberties of the Mind. no meu modo de ver. não um fato co nsumado. a insanida de pelo fracasso em distinguir e pelas fantasias de poder. e da vontade de independência. sem propósito e sem causa. É antes. quan to ao seu direito de distinguir entre o bem e o mal e ao seu poder de empreender sua jornada à luz dessa distinção. .” 60 Dentre essas forças. ingovernável. 60 Charles Morgan. o neopositivismo. e sua herança ainda não se esgotou. ou mesmo. New York. que.

como pôde. enquanto em torno a fúria de seus adversários lhe assacava odiosas calúnias. Se assim é. É significativo que esse tipinho. será sempre tomada como tal por quem quer que aborde os temas filosóficos vi ndo de fora e movido por interesses alheios aos do filósofo — pelos interesses do ho mem prático empenhado em “transformar o mundo”. que a escola que trapaceia no campo da teoria não teria por que eximir-se de fazê-lo também no campo dos fatos. estar ausentes do M ASP. roendo-se de inveja da filosofia dominante. em tudo. uma vez mais. A ÍNDOLE DO EPICURISMO § 14. como um novo Sócrates. traçou um r etrato moral do filósofo como um sereno asceta em seu jardim. os exilados. que constituem para ele um sucedâneo de teoria. entre as idéias que até hoje despertam algum interesse? Uma resposta possível é que. ele chamou Aristóteles. não estranha que o epicurista proceda. só para ter de reerguer-se. Após ter sido discípulo de Na usífanes por longos anos e haver tomado dele algumas das principais idéias que viria m a constituir o epicurismo. teceram e cultivaram durante vinte sécu los. por ter o perfil externo da fil osofia. pr ojetando no chão a imagem obscura e invertida que. em seguida. Essas balelas reaparecem. se como prática é apenas um embuste para lograr um público sem discernimento. C hegaram a chamá-lo de “ímpio” e até de “porco”. Não conseguindo fazer-se aceitar como filo sofia séria. E ele. pa ra mostrar. t ambém se empenhe. Epicuro. e menos ainda de respondê-los com elegância. lorotas novas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 65 CAPÍTULO V. era incapaz de permanecer indiferente aos ataques dos adversários. então. no campo da ação prática. malgrado sua ética declarada de indife rença pelo mundo. de “vendedor de drogas”. chutando para a perife ria todos os que ousaram se opor a ele. ainda que modesto. tudo suportou c elegância e resignação. Pessanha não inventou. não hesitou em chamar seu velho mestre de “verme” e “prosti tuta”. na obscuridade do ostracismo. e talvez por causa delas. cíclica e regularmente. Como diria Nelson Rodrigues. além de cultivar no seu j ardim todos os sofismas clássicos. Bem. absorto em meditações el evadas. ele constitui um fenômeno significativo. pelo retorno ao espírito filosófico. propriamente. Este era seu estilo característico de lidar com . as clássicas lendas que os epicuristas. em substituir a história por um sistema de men tirinhas bobas destinado a colocar Epicuro no centro da evolução do pensamento humano. Era famoso pela incontinência verbal com que difamava sobretudo os ausentes. Não poderiam. Porcarias epicúreas Mas se o epicurismo é indefensável como teoria. de maneira inversa à do filósofo. o conferencista. não poupava mesmo aqueles com quem tinha uma dívida pessoal. Por exemplo. o fracasso subiu-lhe à cabeça. recém-exilado. um misósofo. diante d e uma platéia que as desconhecia e à qual pareceram novas. ocupado somente das coisas do intermundo e alheio à vã agitação dos á os humanos. os que estavam em desgraça ante o poder. não foi nada disso. fazendo coro à longa tradição de marketing epicúreo. concorrer com as outras filoso fias e defender seu lugar. Convém repassar algumas delas. de stinada a acompanhar a filosofia pelos séculos dos séculos sem desaparecer nunca. w Em seu esforço de canonizar Epicuro. em que a men te humana está destinada a cair de tempos em tempos. alguém que aborrece a sabedoria e foge dela por quantos atalhos e de svios se lhe apresentem. o epicurismo vingou-se produzindo uma caricatura de história da filosof ia. forjada do mais puro ressentimento. Ele é um equívoco permanente. Ele é uma espécie de sombra. onde quer que se apresente uma nova defesa de Epicuro. Apenas reexibiu. que ele seja um eterno antifilósof o. malgrado suas fraquezas. portanto.

Teopompo e Teócrito de Quios odiavam Hermias (sogro de Aristóteles) e transferiram esse ódio a Aristóteles. 1981. era e continuou sendo sempre um estrangeiro. o móvel era o ódio político. Madrid. Como ali se ace itavam indiscriminadamente quaisquer discípulos.. várias escolas foram fechadas e muitos filósofos — adversários potenciais de Epi curo — tiveram de emigrar: a nova seita. Pessanha. no que é o maior e melho r dentre os estudos recentes sobre o assunto —. é claro. enquanto viveu ele esteve no bem -bom. na época. sobretudo. Mas enquanto Aristóte les. o fato é que. pensou e disse dos 63 Carlos García Gual. por exemplo. trad. e os epicuristas um punhado de bravos em luta contra a opressão. Epicuro. de teor político. transmitiu-se como um vírus às gerações seguintes de epicuris . por sua vez.. e o descrédito em que veio a cair o epicurismo. que desapareceu da memória dos gre gos para só ressurgir três séculos depois. encontrou campo livre para se expandir. 61 e foi obrigado a fugir para a Ásia Menor. Também está na hereditariedade epicúrea a propensão a jogar com as aparências para criar f alsas impressões persuasivas (a lógica dos sinais é uma técnica de fazer isso). aliás. morto Aristóteles. Alianza Editorial. Ao contrário de Platão — escreve Düring.. A escola epicúrea floresceu em At enas quando a cidade. combatiam Aristóteles porque reprovavam suas doutrinas e sua filosofia. quase nada sobrou do aristotelismo. para escapar à morte. a tradição anti -aristotélica era forte já em vida de Aristóteles” 63. Assim. É o que faz. mas somente um dos muitos cientistas estrangeiros na Academia. Mas por que não deveríamos explicar por igual motivação os ataques dos adversários? Por que o mesmo procedimento deveria ser louvável num homem e condenável nos outros ? O hábito da difamação. Bernabé Navar .. membro d a escola megárica. Foi exata mente isto o que Pessanha deu a entender ao público do MASP. ocupada pelo tirano Demétrio... Exposición y Interpretación de su Pensamiento. Embora sua filosofia te nha sido severamente refugada pela posteridade. ia para o exílio. pois. sem ser jamais incomodado pelos poderosos. desculpam esses excessos verbais como manifestações da justa indignação m oral do mestre.66 OLAVO DE CARVALHO aqueles de quem havia copiado alguma coisa: cobri-los de injúrias. É de estranhar que um tipo desses venha a ser chamado de porco? Os epicu ristas. Em alguns. Carlos García Gual no seu livrinho apologéti co 61. e logo em seguida sumiu de novo quase por completo. Ingemar Düring escreveu o seguinte sobre os ataques que forçaram o Estagirita a buscar o exílio: “Seus mais inflamados inimigos encontram-se entre os epicuristas .. pois foi um dos muitos professores cassados pela ditadura militar. já às portas da Era cristã 64. Mas o fato é que Aristóte les. para afetar ind ependência. Outros. Aristóteles “não foi chefe de uma escola . Eubúlides. Mal havia alcança do certa posição como professor.. Para completar. só reaparecendo no século XII. estando doze mil de seus cidadãos com os direitos políticos suspensos. A campanha epicúrea de difamação deixou marcas profundas e foi ressuscitada no Renas cimento por Gassendi e Patrizzi” 62. Aristóteles teve poucos amigos e muitos inimigos. O epicur ista de hoje pode utilizar o prestígio dominante que Aristóteles veio a ganhar nos séc ulos posteriores. 62 Ingem ar Düring. que se passava com Epicuro? É falso que e le tenha sofrido qualquer perseguição ou ataque sério em vida. para criar retro ativamente a aparência de que no meio ateniense os aristotélicos fossem a classe dom inante. a ascensão dos pensadores politicamente inócuos em tempos de tir ania é um fenômeno que nós aqui no Brasil conhecemos bem. No monumental estudo que consagrou a Aris tóteles. Um suc esso. Curiosamente. que o cultivaram ao longo dos séculos. que pregava o absenteísmo político e não oferec ia perigo para o regime. o ja rdim logo ficou lotado de senhoras mal casadas e de milionários entediados. visto com maus olho s pelo beautiful people. se encontrava sob o domínio do t error. em Atenas. Nestas condições. não pode tê-lo ignorado. respondeu a ele com injúrias pessoais. Pode-se imaginar o que a nossa geração. sem nenhuma seleção intelectual. reed. Demócares e Time u facilitaram a calúnia dos pósteros. 1985. Aristóteles.

e também as apostilas de meu curso Pensamento e Atualid ade de Aristóteles ( Rio. p. 1994 ). IAL. pp. 685-687. Pierre Aubenque. 1969 ( Bibliothèque de la P léiade ). Düring. t.. Aristote et le Lycée. México. op. ). 64 . Gallimard. I. 42. em Brice Parain ( org. p. Universidad Nacional Autónoma. V. Histoire de la Philosophie. 1990. I-III. 41. cit.ro. fasc. Paris.

que o epicurismo suprime. para Epicuro. como Pessanha quis fazer crer que fossem os críticos de Epicuro? Ou. atual. prolong a-se em Agostinho. pelo essencial. em geral. graças a uma conspiração urdida por aristotélicos e cristãos e inspirada. com a expectativa de uma recompensa em outra vida. Este não encontrava em Epicuro “a menor sombra de um conceito” e via no epicurismo tão-somente “p alavras vãs e representações vazias”. encontrando sua mais plena expressão em Hegel. da Antigüidade até agora. um instrumento em vista de um fim: a conquista da felicidade terren a. por exemplo. meramente instrumentais. e a do epicurista é material e a curto prazo. a essa luz. que povo do mundo não daria trela a fofocas ao ver milionários trancarem-se com prostitutas entre os muros de um jardim? Chamar a is to perseguição. a tradição epicúrea. para proclamar a grandeza do mestre e squecido. não o é menos o epicurista. Se este é “interesseiro”. Embora apreciado. de razões puramente filosóficas. Entre os dois “comércios”. enquanto Epicuro viveu. cujo ascetismo desenvolve as virtudes da fé e da esperança num s entido último da existência. ressaltando que seu ascetismo era ainda mais meritório por não contar . tínhamos boas razões para pensar que as circunstâncias do sucesso daquela gen te eram pelo menos um sinal da vacuidade das suas idéias? Epicuro. afirma ele. entra na era Patrística com Lactâncio e Dionísio. em preconceitos religiosos. ergueramse de tempos em tempos as vozes corajosas de alguns servidores da verdade. Mas o ascetismo epicúreo não foi nem poderia ser nunca o exercício de uma virtude gratuita. não so freu perseguições: beneficiou-se com a perseguição que os outros sofreram. era totalmente desprovida de sentido. é a favor do cristão. Epicuro foi tido em péssima conta por quase todos os filósofos. ademais. o alívio mais imediato e o mai s imediato prazer possível. . ao alcance da mão”. O que houve. ao contrário. de um ominoso silêncio — prossegue a lenda —. Não obstante. provocado pelo fato de que a escola aceitava em seu corpo discente a té mesmo notórias prostitutas. Que. como o dos cristãos. atravessa a escolástica sem atenuar-se em nada e penetra com a mesma força na Idade Moderna. Ele era. O filósofo do jard im. na ética militar h indu. foi apenas um zunzum de fofocas. porém. qualquer idéia filosófica que não tivesse em mira o alívio da dor e a obtenção do prazer. Epicuro e seus discípulos mostrassem por vinte séculos uma profunda indignação ante tais ninharias. na moral estóica ou nos místicos mussulmanos que professam “renunciar ao Paraíso” pa ra contentar-se com o amor a Deus como um fim em si). Éramos todos então uns caluniadores in decentes. O asceti smo cristão surge. o epicur ista é apenas mais mesquinho: não dá crédito a nenhum sentido último. dar a essas picuinhas uma dimensão comparável à da morte de Sócrates ou à do artírio dos cristãos. e dec laradamente. como eles. por literatos e por pens adores bissextos. como um interesseiro comércio com Deus. A história é outra. Não houve perse guição contra os epicúreos. No fundo. aqui e ali. Caso haja nisto alguma diferença de mérito . Ora. enquanto o ep icurismo assume a nobre aparência de um sacrifício gratuito. Filosofia e ascetismo eram portanto. tanto quanto os de um monge cristão. independente de q ualquer expectativa de benefícios (como se encontra. adornou o mestre com os traços de um santo asceta. para Epicuro. “não quer arriscar por nada a felicidade pessoal.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 67 novos professores que entraram no lugar dos cassados e passaram a brilhar nas cáte dras com suas idéias politicamente inofensivas. mas d ecorreram. O epicurianíssimo García Gual ressalta que. Outra lenda querida aos corações epicuristas é a de que a escola caiu no descrédito e no esquecimento. A corrente reprobatória começa com os estóicos e os aristotélicos. Pessanha atrás dela. é abdicar de todo senso do ridículo. Exige pagamento à vist a. evidencia neles uma peq uenez de alma que os torna indignos do nome de filósofos. Os motivos para a rejeição do epicurismo não foram quase nunca de ordem religiosa. em vez de perdoá-las como manifestações banais da indiscrição humana. A diferença está em que a recompensa esperada pelo cristão é espiritual e de além-túmulo. ao contrário.

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mas pelo efeito de uma coincidência estatística. acessív eis à percepção humana e regidos por leis que chamamos newtonianas. o universo da física moderna pode parecer uma confirmação de Epicuro. se mpre os houve. Não é inteiramente exato o que foi dito acima. latinizado Petrus Gass endi. e resolvessem ali tocar juntos. digamos. alegre o u triste segundo o estado de seu fígado. No universo indeterminista. que os esnobes insistem em pronunciar à francesa Gassandí (1502-1655). mas sim com o o músico que. um tubo de metal ou uma tripa de carneiro. Pessanh a disse admirá-lo como a um elo importante na tradição materialista (v. O Deus de Heisenberg não age so bre o cosmos como um relojoeiro sobre o relógio — como o Deus de Newton —. os átomos se movem s em nenhum roteiro predeterminado. Na dança randômica dos átomos. todas as combinações são possíveis. que a isto se reduzem respectivamente a flauta. num bar. Assim também uns músicos que o acaso reunisse num ponto qualquer do cosmos. sejam eles um caniço. o que é aliás a única boa razão pela qual alguém pode aderir ao epicurismo — filosofia polissensa. e em segu ida iriam embora para suas respectivas casas ou para onde bem entendessem. Gassend tomou-se por epicurista justamente porque não compreendeu Epicuro. inclusive. sem se perguntar se quer o que os outros estariam fazendo enquanto isso. os organiza segu ndo a forma de uma intenção estética. far iam durante esse breve momento gestos coordenados segundo a partitura. M as a homenagem que Gassend presta a Epicuro é meramente verbal. já que a beleza não se funda nas leis da causalidade física e sim da intencionalidade e stética. é claro. servindo-se. ou não assobiando nada. cada um assobiando pelo caminho uma melodia diferente. já que de outro lado ele defende teses absolutamente incompatíveis com o epicurismo. a inexistência de um po der central regulador do cosmos? Pelo menos não foi assim que entendeu sua teoria o próprio Heisenberg. enxertado de diatribes nietzscheana s. chegam a coagular num canto qualquer do espaço um conjunto de coisas e seres mais ou menos estáveis.68 OLAVO DE CARVALHO A hipótese de que toda essa assembléia variada e milenar estivesse conjurada contra Epicuro movida tão-somente por preconceitos e fanatismos alimentados pela Igreja C atólica não merece discussão. Mas quem disse que o indete rminismo de Planck e Heisenberg tem sentido negativo? Quem disse que a indetermi nação dos movimentos dos átomos prova. que não compromete em nada a sua l iberdade fora dessa zona restrita. não o fazem por obri gação. para isto. e como que seguindo cada qual livremente o seu clinamen. no século XX. mas sim contra o determinismo mecani cista que negava Deus com base nessas mesmas leis. chocando-se uns com os outros. que não oferece outro fundamento à unidade de uma tradição senão o de uma somatória de ojer izas. Quanto aos devotados após tolos que mantiveram aquecida a batata epicúrea sob a crosta do gelo universal. O ódio a toda a tradição filosófica ocidental inspira ria. A ord em da forma total sobrepõe-se aqui à ordem ou desordem das matérias e elementos. O protótipo deles foi Pierre Gassend. A inexistência de leis físicas que governem o cosmos não era para ele um argumento contra a existência de Deus. novamente. que a matéria vibrada possa produzir. que Pessanha não inventou nenhuma lorot a nova. indiferente ao mecanismo físico que produz os sons. O ponto comum é a ausên cia de leis que governem a matéria. adiante § 19). a pé. de absorver na forma superior de uma harmonia qu aisquer sons. obra original dele (com alguma ajuda de Nizan e García Gual): revigorar o corpo moribundo do epicuri smo com uma injeção de física moderna: Epicuro teria sido um precursor do indeterminis mo de Planck e Heisenberg. para Planck e Heisenberg. e se por acaso. A afi nidade de Epicuro e Gassend é apenas negativa: ela reside no ódio comum a Aristóteles. de carro ou de trem conforme o caso. onde cabem todos os contras. e que se utilizaria de outros meios se os houvesse e fosse o caso. o epicurismo de Paul Nizan. o trompete e a corda do violino. como por exemplo um atomismo à Demócrito e a noção de Deus como causa eficiente do movimento cósmico. Descrito assim. É. absor . É preciso ter praticado muito Tetrafármacon para poder enxer gar estóicos e protestantes como agentes secretos do Papa. — a qual é capaz. mesmo desagradáveis em si. fumando ou não fumando. ao menos em parte. a unidade de uma negação. pelo trajeto que a cada um aprouvesse. O mais audacioso dos enxertos foi. de quaisquer meios ou me canismos que se apresentem.

A ausência de uma .vendo-a e superando-a ao lhe dar um sentido.

dan do mau exemplo aos leitores. entre os muros do jardim. o princípio de incertez a expressaria apenas um obstáculo de tipo operacional. Quer dizer que a margem de erro ao medir a posição x de um e n. Esta e outras mancadas terrificantes são mostradas impiedosamente por Stanley L. I. foi aliás quem introduziu no léxi co das autodefinições pedantes o termo agnóstico ). antes mesmo de terem chegado a perceber a ambigüidade.. absurdo. naquilo que podia haver de mais antagônico ao nonsense epicurista 66. isto é. no segundo. e até com certa vaidade. era para Heisenberg a prova de que o cosmos é a expressão de uma inteligência criadora e não uma máquina inerte 65. de um mecanicismo. The Great Ideas Tod ay 1990. Francis — um autor que sob outros aspectos é d igno da maior admiração — não é o primeiro intelectual brasileiro que vejo admitir sem con strangimento. e que. premido entre a força cega do desejo e a força cega da fatalidad e exterior que o frustra eternamente. que se compraz n a derrota do homem. Heisenberg buscou o seu em Malebranche e Leibniz. requer sempre algum fundament o filosófico. 1994. durante uma meditação no bonde. V. que só lhe foi mostrada décadas depois pelos adversários da t eoria. Porém o mais esquisito em casos dessa ordem é a afoiteza com que muitos in telectuais concluem do indeterminismo físico a inexistência de Deus. O exemplo mais recente é Paulo Francis. acabou por se incorporar ao dogma ). que a constante de Planck dividida por 2p ). no racionali smo clássico. Mas dispensável mesmo é a hipótese deter mi65 § 15.” GEORGES BERNANOS Não deixa de ser irônico que o epicurismo tenha entrado no vocabulário popular como si nônimo de gozo sibarítico. e. 52 — na verdade um segundo volume. Ou seja: um defeito da ciência física pode ter sido projetado sem mais nem me nos sobre a estrutura do real. não havia a menor dúvida: se o universo funcionava como uma máquina segundo leis imutáveis de causa-e-efeito. Encyclopædia Britannica. acidentalmente. op. por si. Para Pierre Bayle. não prova nada. continuação de O Afeto que se Encerra. ao fazê-lo. os argumento s de Heisenberg não são tão sérios quanto o imagina o leigo deslumbrado. m. p. Werner Heisenberg. A fuga para o jardim “Il faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seuleme nt de mourir. uma inexatidão in erente à natureza mesma da realidade física. m. ou também a massa. Chicago. comete uma segunda leviandade. Muitos adeptos do indeterminismo simple smente deram por pressuposta esta última alternativa. Companhia das Letras. d’Holbach e tutti quanti. Laplace. ter encontrado mais tarde. com base em leituras superficiais. absorvida pela Igreja através da sua versão tomista. sobretudo jovens. a origem fortuita e o caráter leviano de suas opiniões sobre assunto grave. Cap. Trinta Anos esta Noite ( São P aulo. É verdade que o indeterminismo de Heisenbe rg pode ser usado contra o realismo filosófico ( uma doutrina que. O que essa concepção nos descreve é um mundo caóti co. O ú nico refúgio é a meditação resig ada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 69 causalidade rígida. La Mettrie. No primeiro caso. A fórmula do “princí io de incerteza” é ∆x • ∆mv ≥ h. multiplicada pela margem de erro em medir o seu momento ( massa. c’est de mourir comme des imbéciles. cit. pois não deixa claro se a margem de erro afeta some nte a velocidade. confessa ter chegado a inda adolescente à conclusão da inexistência de Deus. uma confirmação nos argumentos de Heisenberg. filosoficamente. Mas de fato o exemplo é inócuo: a mod a já pegou. que só redobra os sofrimentos. Civilização Brasileira. É um diletantismo trágico. isto é. 1980 ). varrendo para b aixo do tapete o fato de que durante dois séculos o argumento maior em defesa dess a conclusão foi justamente o determinismo. v ) nunca é menor que h. Uma teoria física. Rio. vezes vel ocidade. s em nunca mais voltar ao assunto. Ao contrário. que no seu livro de memórias. 66 É no entanto um lugar-comum entre inte lectuais de escassos conhecimentos filosóficos alegar as teorias de Heisenberg com o argumentos a favor do ateísmo. Jaki em “Determinism and Reality”. É na verdade uma afirmação ambígua. Helvétius. onde átomos e homens buscam em vão escapar da dor perseguindo a miragem de um prazer impossível. Mas o que lá dentro aguarda o meditante é uma conclusão . Ademais. v. Ele não é nada disto. então Deus se tornava uma hipótese di spensável ( o mais feroz dos deterministas. mas isso não o coloca de modo algum contra o espiritualismo em geral.

prévia a ualquer consideração racional do assunto. A mensagem final d o epicurismo é. . o nada. bem como sua contrária. Não se conhece um único caso célebre de pen sador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura. quase q ue por definição. por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. e uma vez tomada não lhe resta senão racionali zar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos. com as dúvidas e as crises. sem qualquer esperança de outra vida. A história do ateísmo militante é uma suce ssão prodigiosa de intrujices. já que ambas podem ser usadas igualmente como “provas” do que se deseja provar per fas et per nefas. rigorosamente. em geral. Só resta então e mbelezar a imagem da morte. por si. pode haver alguma inexat idão. toda fé religiosa coexiste. Ademais. 67 Cito de memória. ao passo que o ateísmo militante tem sempr e a típica rigidez cega das crenças de adolescente. É que o ateísmo. O caminho do asceta epicúreo é aquele que o mat erialista Heinrich Heine viria a descrever num breve poema 67: nista. é uma opção de juventude. O ateísmo militante é. um gr ave sinal de imaturidade intelectual.inescapável: a certeza da morte. fazer a apologia do esquecimento.

a debandada geral que se seguiu ao Ato Institucional no 5 levou mui- tos à evasão pelas drogas.” Não preciso ir longe para buscar um exemplo. Marx e Guevara foram trocados por Allan Watts e Timothy Leary. é coisa que surpreende. que predispunha os homens a aceitar a s mais aviltantes promessas de alívio. Mas a raiz do seu êxito está em outra parte. Numa terra que se estreita sob o jugo dos tiranos.” Mas. fechadas as principais escolas filosóficas. o primeiro sist ema completo de pensamento niilista que surge na história do Ocidente. pela embriaguez erótica. de Caetano Veloso. outras anestésicas e outras mortíferas — a resposta final. ao desesperado ateniense daquele tempo só restava um caminho: o caminho para baixo. Cada qual fechou-se no cubículo das suas angústias particulares. pe rdera todo atrativo. Para o esquecimento eterno. na ausência de uma consciência filosófica pessoal. o caminho d o céu também estava fechado. Mas a comparação das épocas ainda está imprecisa. desmoralizada pela crítica filosófica. o caminho do céu. o afluxo de d iscípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada. seu sucesso derivou de um estado de completo cerceam ento espiritual. A sement e da persuasão não germina se não é plantada no solo fértil dos anseios coletivos. que davam um sentido de participação histórica ao s intelectuais brasileiros. E isto lá é resposta? Que a perspectiva deste desfecho acachapante pudesse atrair para o epicurismo um a multidão de devotos. O epicurismo aplanava este caminho. sono. A religião oficial. “auxiliar” ou “medicar”. Mais que da mera depressão política. O epicurismo é.70 OLAVO DE CARVALHO Tu perguntas e investigas. capaz de adornar com todas as fl ores da retórica o caminho que leva a sete palmos abaixo da terra. cujo título me escapa. Para sete palmos abaix o do solo. Seu próprio nome. serve para integrar os átomos humanos num sentido maior da existência e os redimir da sua insignificância. dando lugar à lamentação melancólica. Jim Jones avant la lettre. sem qualquer saída para a ação coletiva que. com o exílio dos filósofos. fizeram ali grande sucesso “Felicidade”. não deve ter sido alheio ao s u sucesso: vale por um slogan. de compressivo desespero. A mística intelectualizada ficara fora de alcance. um a utêntico hipnotizador. em suma. A época d e Epicuro ansiava por alívio. pela pseudomística “oriental” importada da Califórnia. em que a voz dolorida de Elis Reg ina suspirava por “uma casa no campo” — refúgio do militante que o desengano transformar a em diletante. um a forma requintada e falsamente prazerosa de niilismo. Arrasadas as instituições democráticas . e no fim te enchem a boca com um punhado de terra. Esmagados os ideais da esquerda nacionalista. a intelectualidade foge para o silêncio do campo para buscar a vida interior. Por essa época José Améri co Motta Pessanha. um niilismo. um perseguido político. professor esquerdista expulso da cátedra. O Tetrafármacon misturava todas elas. buscas e te esforças. na gradação seriada de uma pedagogia do abismo. onde editou Os Pensadores. Minha geração — que é a de Pessanha — levou fundo a experiência da solidão e do exílio. foi trabalhar na Edit ora Abril. de uma raiz que significa “socorrer”. Expulso da terra. esquecimento. e uma outra. separando e isolando os indivíduos. um convite à fuga pelo “vôo d o pensamento”. A músi ca popular assinalou a mudança dos sentimentos no ambiente universitário: o protesto aberto e combativo desapareceu das letras de canções. Mas o jardim de Epicuro tinha muitas plantas: umas alucinógenas. mas um mestre do discurso encantatório. É uma filosofia de homens reduzidos à condição de r atos. Nesse quadro. no tempo de Epicuro. É. típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo — escreveu Jakob Burckhardt — é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ru it. Serviriam como jingles do Jardim de Epicuro. para os quais o esgoto é uma esperança. meditava na prisão sobre os benefícios interiores do isolamento forçado: “É a terra vencida que nos dá as estrelas. nos anos que se seguiram a 1968. extintos os sonhos de reforma moral e política que haviam alimentado as discussões públicas. 68 . a rigor. Foi provavelmente nessa ocasião que ele desc obriu um alívio na farmacopéia epicúrea 68. O filósofo Boécio. sem uma porta para o céu. um silêncio temeroso baixara so bre as praças. E picuro não foi só um teórico da necrofilia.

.Sobre o evasionismo dos intelectuais logo após o AI-5 e sobre o ingresso das teori as niilistas no cenário brasileiro. meu livro O Imbecil Coletivo. 8. v. Cap.

não uso jamais o plural majestático. ele já vinha. que apreciou no epicurismo sua crític a da religião oficial grega e sua mistura “dialética” de teoria e prática. genial por transcendente à imbecilidade dos elementos singulares que o compõem. Fomos aos poucos juntando os fios desta investigação. desde vários anos antes. preparando o ter reno para a transformação da filosofia em arma política a serviço de determinados fins. Vimos. Não se pode transformar o mundo fugindo dele. Pois havíamos começado — nós: eu e o leitor 69 — por constatar o objetivo político a que v isava. conscientemente. 69 Por princípio. é que es amos chegando mais perto do desenlace que tudo esclarecerá. Porém aí o mistério que este livro está investigando chega à mais densa obscuridade . há de tratar-se ambos. porque. Logo. Mas que o leitor não desanime. bem viu a peric ulosidade política da sua moral evasionista. onde houver “nós”. neste momento parecemos estar mais longe que nunca de alca nçar uma resposta clara. se ao mesmo tempo a convidava ao sono do esquecimento? Se desejávamos compreender as intenções de Pessanha. Karl Marx. que Pessanha não podia estar desinformado desse objetivo. leitor. . primeiro. e não de algum pretenso sujeito coletivo. como editor da série Os Pensadores. propondo o nada. por ser um dos mais eminentes membros do grupo que planejou o ciclo. É refratário a qualquer projeto de ação. p rincipalmente de ação moral e política. Em dialética é assim mesmo: quando a treva da contradição se adensa até o intolerável. justamente na hora decisiva em que a filosofia emergia de uma longa germinação subterrânea para assumir à luz do dia seu papel de condutora da política nacional. ele tenha subido ao pódio do MASP para convocar o povo a evadir-s e para o jardim de Epicuro? Como esperava despertar a platéia para a luta política. segundo. dois joões-ninguéns. e parec emos não ter obtido nada mais que um nó indeslindável. Como se explica então que. impesso al. o ciclo de conferências sobre a Ética. logo em seguid a. não propõe nada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 71 Mas o niilismo.

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MARX - .LIVRO III .

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o teórico do “historicismo abso luto”. adiante. seja a mola mestra que move o progresso e dispara a revolução.” Alfred FABRE-LUCE Epicuro inverte. mas celebrados pela teoria como norm ais e desejáveis: a teoria não tem aí nenhum valor autônomo. Acontece. em Marx com o em Epicuro. mediante exercícios. em Marx. Mesmo que a ação produza efe itos totalmente diversos dos esperados. que essa simbiose. o ímpeto. mas sua prática altera.CAPÍTULO VI. e O Imbecil Coletivo: Atualidades Incultura is Brasileiras.. Também é compreensível que. a diferença entre o efetivo e o possível. 2-5. o desejo erótico. A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO § 16. Caps. O leitor deve ter reconhecido a sentença anterior: é a 11ª Tese sobre Feuerbach de Kar l Marx. está reduzida ao papel de uma racionalização a posteriori. 71 V. da ciênc na propaganda ideológica 71. uma vez realizada a ação. a bolindo a distância normal entre a esfera da ação e a da especulação. no entanto. legitimar como s atisfatório o que quer que tenha dela resultado na prática. e nos precipita numa crise a lucinatória onde já não há lugar para o recuo teorético que fundamenta a noção mesma de verda e objetiva 70. A natureza para Marx só tem exis tência como cenário da história ou como matéria branda e plástica a ser moldada pela ação hum na. numa outra e paralela linha des sa evolução. como se viu no § 10. de uma apologia do fato consumado. Tudo leva a crer que a convivência do jovem Marx com a filosofia de Epicur o — matéria de sua tese de docência — deixou no marxismo acabado marcas mais profundas d o que os estudiosos geralmente supõem e do que ao próprio Marx adulto interessou dec larar. a relação lógica entre a prática e a teoria. era levado a avaliar um pensamento por sua capacidade de mobilização. é uma herança mórbida qu através de Marx. e eles serão não somente aceitos. Caps. já não haverá distanciamento crítico suficiente para julgá-los. mas de transformá-lo. e o discurso teórico não será nada mais do que o elemento discu rsivo da prática. Não se trata de compreender o mundo. no epicurismo a prática é que produz artificialmente a condição psicológica qu e tornará crível a teoria. a ambição — da alma individual ou das massas revoluci onárias — torna-se o fundamento único de uma cosmovisão onde a teoria já não serve senão para estimular retoricamente a ação prática ou para. que leva a Reich e a Marcuse. II e III. a percepção do mun do. que assume declaradamente aquilo que em Marx estava apenas insinuado e implíc ito: a abolição do conceito de verdade objetiva e a submissão de toda atividade cognit iva às metas e critérios da praxis revolucionária. Não é de estranhar que a evolução de um século do pensa mento marxista tenha desembocado em Antonio Gramsci. mas é uma herança epicúrea. e já não a força das causas eco nômicas objetivas. mas uma co nseqüência inevitável do conceito marxista da natureza. § 17. a tradução verbal da crença produzida pelo hábito. Este s desenvolvimentos manifestam à plena luz do dia tendências que 70 A supressão do conhecimento objetivo não é. A capacidade das es querdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atroc idades do regime comunista — e. suprime. Se norm almente a teoria é o fundamento lógico da prática e esta é a exemplificação daquela no campo dos fatos. V. A teoria epicúrea não de creve o mundo percebido. Fritjof Ca pra & Antônio Gramsci. um objetivo declarado. Epicuro e Marx “Marx. A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel. a absorção da lógica na retórica. para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não h ouvesse nenhuma rel ação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —. ao preferir antes ‘transformar’ do que ‘compreender’ o mundo. para que se torne semelhante à teoria. . veio do epicurismo. exterminado o comunismo na URSS. meus livros A Nova Era e a Revolução Cultural. O desejo.

pel a dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima. para fora. 1987. protesta ram contra a invasão do irracionalismo que. sobretudo a partir da década de 60. Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. do fingime nto. quando crimes de muito menor escala ba staram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano. mas não superá-las. ou. Rio. e de outro lado possa crer que o ide al socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das corren72 Sobre a contaminação irracionalista do marxismo no curso da sua evolução ( não na sua raiz . Marxismo e epicurismo parecem ir em direções op ostas: este. pela sua capacidade quase diabólica de o tran sfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes d o que são? Que Marx tivesse. de artistas. Best Seller. v. para fechar-se no jardim com a comunidade dos ele itos. mais afin ados com as tradições clássicas do Ocidente e ansiosos de filiar Marx a elas. Em vão pensadores marxistas como Lukács ou Horkheimer. sem qualquer raiz na ideologia por ele prof essada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo s ubstancial. fugindo do mundo. expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheio s à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — o u mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética. como a de falo aqui ). se não pela formidável potência ilusion ista inerente à raiz mesma d marxismo. quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquis ição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável. um tremendo senso do teatro. R aul de Sá Barbosa. mesmo tímido . durante quase um século. a enxergar os males do com unismo. Nova Fronteira. No mesmo sentido. 1990. term inou por contaminar toda a esquerda mundial: como dizia o dr. colocando-a no encalço de metas utópicas que. O Marxismo Ocidental. a reconhecer qualquer conexão entre esses males e o ideal socialista. Trata-se d e neutralizar a inteligência humana. Romantismo e Messianismo. 1989. trad. a absor verão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem ca ir longe das finalidades sonhadas. Da Crise da Universidade à Crise da Sociedade. é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente . como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática. Mas é uma d iferença de escala antes que de natureza: nos dois casos. O Declínio da Cult ura Ocidental. tes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resulta do da maldade fortuita de um só homem. o passado r ejeitado volta com redobrada força 72.76 OLAVO DE CARVALHO em Marx já estavam latentes como heranças do seu epicurianismo de origem. depois da queda do Muro de Berlim. e também Allan Bloom. É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem. São Paulo. José Guilherme Merquior. brasileira. entre os mais notáveis do século. Merquior mostra que os elementos românticos e irracionai s eram fortes no pensamento do próprio Lukács. trata-se de envolver ser es humanos numa praxis absorvente e hipnótica. Edusp/Persp ectiva. mas com ênfase positi va. a marca de um ressurgimento nazifascista. Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita. argumenta Michel Löwy. para a ação coletiva que vai transformar o mundo. Ensaios sobre Lukács e Benjamin . O fato de que tenham ressurgido ao longo da evolução do marxismo mostra que Marx soube recalcá-l as. de intelectua is. da prestidigitação. trad. pessoalmente. que os afastará para sempre da tentação d a objetividade. trad. não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as s uas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. do fran quismo ou das ditaduras latinoamericanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que a quela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos a bstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou supra-hist cas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de e xperiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos. aquele. São Paulo. Freud.

Os Intelectuais. a mixórdia proposital e alucinógena da teor ia na prática e da prática na teoria. Rumo à Estação Finlândia. e Paul Johnson. no entanto. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as con sciências. notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem M arx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos. Edmund Wilson. capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada 73 V. . e em seguida co nstatamos ser idêntica. Quando.73. em Epicuro e nele. então compreendemos a virulência inesgotável da hera nça epicurista.

antes que te descuaje un torbellino y tronche el soplo de las sierras blancas. mas um novo tipo de theoria. é a eles que cabe convocar a uma mudança de atitude. Sua convocação não se dirige aos homens em geral. Mi corazón espera también. diriam Conway e Siegelman. aos conceitos trad icionais de theoria e de praxis. temos de admitir que de fato os filósofos. Marxisme pas mort: ele subsiste como um complexo n o subconsciente dos que o rejeitaram sem criticá-lo a fundo. O verbo verändern vem da raiz ander = “outro”. otro milagro de la primavera. como o doente histérico par a o qual imaginar é sentir. que os distinguia dos outros homens. Portanto. q ue sentido teria convocá-los a uma praxis na qual já estão envolvidos por hábito imemori al. ou: o rabo e o cachorro”. Posso explicar melhor e dar um fundamento mais “técnico” ao que foi dito no parágrafo an terior. ANTONIO MACHADO. n a medida em que o mundo real não pode realmente ser substituído por outro. é na verdade uma substituição. olmo del Duero. que Marx opõe à atitude cow. nem muito menos aos homens da praxis. ocupados p or seu turno com a praxis. que por sua vez consistirá em praxis. esboço uma psicanálise do marxismo residual de nossos intelectuais. Mas a alteração. Ele não apenas pensa diferente do não-ma rxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes. “A un olmo seco” 1. da contemplação da verdade. item 3. No meu ensaio “A superi oridade moral das esquerdas. Em que consiste a atitude interpretativa. tomados indistintamente. antes que e l río hasta la mar te empuje por valles y barrancas. e da qual jamais pensaram em sair? Não pode ser este o sentido da tese de Marx . A quem se dirige a convocação? Se Marx se reporta. es kommt darauf an sie zu verändern” — frase do manuscrito reproduzido em fac-símile em The German Ideology . A Nova Era e a Revolução Cultural. Os filósofos interpretavam o mundo. precisamos entender qual a atitude que a antecede u. se os homens nãofilósofos estiveram desde sempre o cupados em transformar o mundo enquanto o filósofo o contemplava e interpretava. na medida em que deixa de ser ma simples propriedade ou um acidente da substância. A maioria dos homens esteve sempre envolvida com a praxi s. nesta tese. III. § 17. Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” Antes que te derribe. desde sempre. mediante uma súbita mutação ou ro ação do quadro perceptivo um snapping. lanza de carro o yugo de carreta. os filósofos faziam um contrapeso dialético à praxis: a vida contemp lativa opunha-se à vida ativa. reproduzido em O Imbecil Co letivo. Cap. mañana. quiero anotar en mi car tera la gracia de tu rama verdecida. a substit uição se dá apenas dentro da esfera do imaginário coletivo. O leitor que preferir saltar direto para o § 18 não perderá o fio do argumento . Para sab er em que consiste essa mudança. ardas de alguna mísera caseta. essencialmente. con su hacha el leñador. A 11ª Tese sobre Feuerbach propõe. apenas se privará de uma demonstração mais rigorosa — e mais entediante. de fazer teoria. “Até agora — diz a 11ª Tese 74 — os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. mas especificamente aos filósofos. V. y el carpintero te convierta en melena de campaña. enquanto os demais homens o transformavam. Daí a invulnerabilid ade do marxista convicto à argumentação racional. uma mudança básica na atividade do filósofo enquanto tal. assim como tomar consciência de uma neuros e não é o mesmo que estar curado. antes que rojo e n el hogar. al borde de un camino. Cabe-lhes agora transformá-lo. e. Progress Publishers.” 74 “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert. hacia la luz y hacia la vida. Não se trata de inaugurar só uma nova prax is. Ma s isto também significa que abjurar expressamente do marxismo não é o mesmo que libert ar-se instantaneamente de sua influência.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 77 novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura. porque julgavam que esta era a sua tarefa específica. 2. de modo que a tradução mais exata seria “alterá-lo”. Ora. e desinteressada da theoria. 1964. Ao adotarem a atitude in versa à da maioria. olmo. São eles que estiver am ocupados somente em interpretar o mundo. se ocuparam de interpretar o mundo.

trad. Mos- . S. Ryazanskaya..

ou pr etende ter. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a par tir do platonismo. de olhar. em seguida o filósofo dizia (logos) o que era ess a coisa. estética. Pela razão. do sensível ao inteligível. com um motivo específico e um objetivo esp ecífico. A theoria. isto é. a diferença entre platonismo e aristotelismo. seu sent ido “eterno”. o deus psicopompo. Qual a diferença essencial entre a atitude conte mplativa — ou interpretativa — e a atitude transformante. todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro. Era um tipo muito determinado de contemplação. essência ou arquétipo . como o pégaso ou o unicórnio. uma dignidade e uma realid ade superiores. Por exemplo. propriamente. mas isto não vem ao caso. de sela ou de t rabalho etc. a c have interpretativa era a razão ou logos. sei não . a possibilidade “cavalo”. à luz da ete rnidade. do particular. transcendente. Pode manifestar-se em ser es míticos que “participam da cavalidade”. de eidos (“idéia” ou “essência”). imutável. Este plano era considerado superior. árabes. uma contemplação filosófica e não outra qualquer. “ente”) e esvelamento”. isto é. ao investi gar o ser do objeto. o filósofo. ou Mercúrio. Em suma. portanto. superior à aparência fenomênica e transi tória. do ser verdadeiro. revelação da verdade oculta). O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes. Na filosofia grega. re sgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo. na categoria da eternidade. e sim o sentido grego). Esta contemplação conferia a essas coisas. sub specie æternitatis. patenteando (al etheia) o seu verdadeiro ser (ón). uma consistência ontológica superior. não se ocupava ge nericamente de contemplar. Nisto consistia. o núcleo inteligível era im anente ao mundo sensível. para o p lano das essências. Enfim. tran sitório e aparente ao universal e estável. Ao conhecer um arquétipo. as essências con stituíam um mundo separado. (É verdade que o termo praxis tem em Marx. que ele decifrava em busca do significado ou essência. “guia das almas”. não podemos supor que ti vessem em mente o sentido marxista da palavra praxis. basicamente. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos). eram para o filósofo signos. enganosa. num sentido em que os demais homens também po diam contemplar e olhar. por assim dizer. portanto. encarregado de levá-las na escalada e descida atra vés dos mundos ou planos de realidade. Pouco importa. A do filósofo. que faziam dela. eterno. o homem filósofo saltava de um p lano para o outro: do plano da fenomenalidade instável.1. O homem teorético. e também por ser estável. Por exemplo. o arquétipo de “cavalo”. eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades. Era correlata das noções de logos (“razão” ou “linguagem”). mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenali dade imediata a um estrato mais profundo e permanente. a razão. por su a vez. A contemplação do homem com um podia ser lúdica. e mais um sem-número de essências não m anifestadas ou possibilidades). movediça. ao elevar o objeto até o nível da sua idéia. capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta. por ab ranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos. Para Platão. cada qual. A conseqüência “prática” disto é portentosa. utilitária ou o que quer que fosse. A interpretação (hermeneia) d as aparências consistia nessa subida de nível ontológico. a postura i nterpretativa do filósofo grego. uma acepção própria e diferente. isto é. é a es ta última que devemos reportar-nos. O filósofo grego contemplava as cois as. contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. buscava nelas a sua significação eterna. a palavra theoria tinha uma acepção precisa. pois. de ón (“ser”. patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava ocult o. Entre o signo e o significado. não. ela se baseia na crença de que todos fatos e todos os entes são fenômenos — “apareci- mentos” — de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilid s. pode manifestarse em cavalos pretos ou malhados. desde o ente fenomênico até o se r essencial. Dito de outro modo. 3. entre a theoria e a praxis? 3. se os filósof os antigos a que Marx visa faziam theoria em oposição à praxis. a beleza dos seres humanos e da paisagem etc. as coisas.78 OLAVO DE CARVALHO transformante? Sendo theoria e praxis conceitos clássicos da filosofia grega. percherões ou mangalargas. porém já era a dos eleáticos. para Aristóteles. Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos céleb res e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. para os fins de sta análise. os fenômenos. contidas eternamente na Inteligência Divina.

o que a coisa é atualmente e .

então todo objeto será sempre e unicamente enfocado sob a categoria da paixão. mas esta para que me serve?”. mas por alguma outra coisa: o meio ou instr umento é um i termediário. mas somente de restaurar o senso de uma hierarquia de v alores que parece ser inerente à estrutura do indivíduo humano são. Não se trata aqui. A ação produz apenas transformação. posso queimar a árvore ou comer a c arne do cavalo: se a teoria respeitava sobretudo a integridade ontológica e mesmo física do objeto. o objeto sobre o qual incide é sempre e necessariamente um meio. mas por força da intervenção humana. transforma a coisa. do que ela pode significar para mim. é claro. É meio ou instrumento o trabalho. A praxis. e depois em lixo. é um meio ou instrumen to o carneiro que ele engorda e mata. não por seu dinamismo própri o e interno. para a praxis. apenas um meio. aquilo que é finalid ade ou valor em si não é objeto de praxis transformadora. não tentará investigar o que o ser é no corpo da realidade total. A tendência universal do homem à econ omia de esforço mostra a sujeição dos meios aos fins. às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. e a praxis se interessa pelo que ele não é. Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si. de amor. mas sim o que. isto é. a praxis começa por negá-la. pela “negação” teorética e crítica da ação consumada: o espírit osófico. Se a praxis requer alguma teoria. Como dizia Miguel de Unamuno. Por exemplo . A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém. Para o homem da praxis. de condenar a praxis em nome de uma u tópica vida contemplativa. o fenômeno.4. Já não será uma teoria do objeto. excluindo imediatamente todas as demais. A prática. e muito menos em árvore. de qualquer espécie que fo sse. como também o capital. fluxo de impressões. Por exemplo. Aquilo que é meio ou instr umento nada importa nem vale por si. ao contrário. isto é. por não admitir que o objeto seja o que é e por exigir que ele se transforme em outra coisa: não interpreta. isto é. 3. a aparência sensível imediata é sobretudo um signo ou símbolo de um se r. limita suas pos sibilidades. posso fazer com o cavalo ou com a árvore. tomo consciência d o que ela é. a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar) . ela já não pode transformar-se em mesa ou estante. ela só pode agora transformar-se em cadeira velha. das ações transformadoras que pode sofrer. Era neste sentido que as escrit uras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento. mas transf orma. Se investigo o objeto “árvore” para captar o seu arquétipo. realizando uma delas. ind ependentemente do que eles sejam. isto é. aquilo que faz com que ele sej a o que é.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 79 empiricamente. toda a latência de possibilidades q ue ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular. É um meio ou instrumento a terra que o homem lavra. dentro do círculo de meus interesses imediatos. Porém. aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é. é um meio ou instrumento a árvore que ele abat e. o ente é sobretudo matéria. evidentemente. ao contrário. isto é. no sentido aristotélico. A praxis. Inversamente. mas de contemplação. do que poderia ser. que trans forma. em outros planos de realidade etc. Posso. pelo ser secundário. Não se deve confundir esta oposição com a do “estático” e a do “dinâmico”. uma árvore. para outros.2. porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemp lo. o ente é so bretudo a sua forma. Para a theoria. e o explic a e integra no sentido total da realidade. ilusão. esta teoria já não versará sobre a natureza do ser. potência latente no homo sapiens. C omo a praxis é sempre ação humana. po rtanto. mas uma teoria da ação que ele pode sofrer. uma transição ou passagem. mas apenas aqui lo em que ele pode se transformar no instante seguinte. “o bonde é útil porque me serve para levar-me à casa da mi nha amada. Para o filósofo. a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas . sem via de retorno. mas tudo o que ela poderia ser. localiz ada no espaço e no tempo. da qual saímos apenas p lo recuo reflexivo posterior. De cadeira. rebaixá-la a um meio ou instr . aquilo n que num certo ponto do ca minho será abandonado para ceder lugar aos fins. atualiza uma dessas possibilidades. Não é uma teoria do ser. 3. se dirige essencialmente aos meios: como toda transformação visa a um resulta do ou fim. Já não interessa o que é o cavalo ou a árvore no sistema total da realidade. mas uma teoria da praxis.3. 3. só se atualiza como reflexão sobre as desilusõe s do homo faber 75. se a transformo em cadeira.

1967. Éric Weil. Logique de la Philosophie.. “Introduction”. Paris.umento do meu 75 V. 2e éd. Vrin. .

80 OLAVO DE CARVALHO prazer.2. que na prática mesma há um elemento lúdico e contempl ativo. V. gastou. manipulação e uso de seres humanos ( ou de animais ) com vistas ao prazer erót ico — esta é a definição mesma do libertinismo ( Sade. De tudo isso. a intelectualidad e de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudoheroismo do nonsense. conclui-se que estatuir a prática como fundame nto e valor supremo do conhecimento é instaurar o reinado dos meios. u tilizá-lo para alguma outra coisa. É encarar o real no seu todo — nele incluídos o homem e sua História. 1 . desprezando o s fins. só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder. Há uma diferente dosagem na combinação do teórico e do prático para o conhecimento dos vários tipos de seres: aquilo que para mim é meio e instrumento. Van Gogh conheceu pincéis e tintas na medida em que os usou e. bem como da História tout court. portanto. escandalizados. nem praxis pura nem pura contemplação. Da C ontemplação Amorosa. IAL.4. ao contemplar e amar somos nós que nos transformamos: “Transforma-se o amador na coisa amada. Choderlos de Laclos et caterva ).4. Não existe. em que o amo. mas o que lhe desagrada: ele entrega-se à contemplação por gosto. mas neste caso já não tenho amor por ela. Olavo de Carvalho. 3. Um escritor de 78 Subjugação. aspectos da real idade que só podem ser conhecidos pela praxis. e a theoria pela afirmação da sua plenitude e do seu valor como fim. verão uma traição ao marxismo. não é meio. 76 3. a apologia do absurdo. conheço-o na medida em que o contemplo. outros que só o podem pela theoria. É transformar o universo numa imensa máquina-de-desento rtar-bananas. É evid ente. no mundo dos seres físicos. em que defendo a sua integridade ont ológica contra qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa. Adauto Novaes — h erdeiro da flama apagada de Motta Pessanha — crêem enxergar um papel libertador. Só a finalidade suprema pode ser objeto de pura contemplação. 1995 — um exemplo edificante de como o culto pedantesco de autores menores pode coexistir num mesmo cérebro com uma profunda ignorância da H istória da Filosofia. oculta mas nem por isto menos potente. segundo a escalaridade do valor dos fins e da oportunidade dos mei os. Eis aí. que no fim das contas não serve senão para afastar os obstáculos que nos separam do gozo contemplativo. por pedantismo ou desenfado. o rgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que. num mundo sem sentido. “Por que tanta libertinagem?”.1. Ao contrário. opõe ao arbitrário e gratui to clinamen dos átomos 78. Há ape nas dosagens. no qual no entanto alguns profissionais da cegueira. Mas conheço os quadros de Van Gogh na medida em que sejam conservados intactos para minha contemplação. Ambos esses limites são metafísicos. à prática por necessidade (sem contar. aquilo que para mim é finalidade e valor em si. só posso conhecê-lo ao usá-lo. a negação do sentido da realidade. Capítulos de uma Autobiografia Interior ( apostila ). que torna o trabalho agradável em si e lhe dá um valor independente do seu pr oveito prático). texto de abertura do simpósio Libertinos /Libertários. usando. é inverter o sentido de toda ação humana e negar a consistência ontológica da real idade.4. M as a praxis procede necessariamente pela negação do objeto. então. tem primazia sobre a prática. há uma nítida distinção hierárquica: a contemplação. como objetivo e final dade. e sim desfrutar de sua presença sem alterá-la. sem mudá-la no que quer que seja 77. num clinamen gratu ito e arbitrário que o homem. após a crise mundial do marxismo. é claro. 3. e jamais alcançados no mu ndo da experiência real. 4. transformá-lo. qu e veio a ser resgatada quando. Somente o objeto tot almente desprezível. Rio. que: 3. em que muitos t eóricos. sem consistência ontológica própria nem qualquer valor em si pode s er alvo de pura praxis. e sim pelo prazer como tal 76. O o bjeto amado. Rio.4. já em Marx. Não desejamos mudá-lo. A filosofia da praxis contém em se u bojo. a raiz da nietzscheização da esquerda. como o sr. É óbvio que se trata de uma herança epicurista i n consciente. mas fim.3. pela sua redução a meio e in strumento. 77 V. No entanto. bem como o conjunto das ações individuais praticadas pelos seres humanos — como um vasto instrume nto sem qualquer finalidade. se o é de verdade. O homem não transforma o que l he agrada.” Há. Funarte. Adauto Novaes.

afirmando na prática o q ue nega na teoria: a bondade acidental e diletante do imoralista parece envolta no encanto de uma gratuidade divina. portanto. mito ideológico ou exp ediente tático. Daí a vaidosa inversão que. Daí também a facilidade com que essa gente produz sucedâneos de justificação “ética” . e muito menos uma contradição. mas sim a manifestação perfeita do espírito da coisa: lu tar por “uma sociedade justa” é o diletantismo ético daqueles que não acreditam em ética nen huma exceto como convenção arbitrária. desprezando a obediência a valores morais explícitos. louva quase como a um santo o homem que age bem segundo uma ética em que não crê. A elevada taxa de intelectuais pedantes e de ricaços esteticistas nas fileiras da esquerda — um fenômeno universalmente conhecido — não deve. negado àqueles que simplesmente e humanamente fazem o que lhes parece certo conforme uma regra moral.995. ser mera coincidênci a.

Mas que na filosofia de Karl Marx ess a inversão ocorre. O cavaleiro solitário no deserto do absurdo sintetiza Marx. conh ecível pelo homem: ela fluidificará todas as essências individuais em matéria-prima da p raxis e resultará. a praxis não reconhecerá. enfim. no senti do estrito e quase fichteano. Seria interessante averiguar como é possível conciliar isto com o alegado “materiali smo” marxista. enfim. isto é. John Anthony West. Quando. mas que está nos esquemas mentais subconscientes ou inconscientes do próprio Karl Marx. ” É o mesmo que dizer que o capitalismo absorve a categoria da substância na categoria da paixão. posso no entanto utilizar a madeira para fazer uma mesa ou estante. uma propriedade.5. atenta ao jogo dos pretextos e dos atos. sobre o esteticismo como id eologia dominante nas classes letradas brasileiras. considero como é estreita a faixa do universo material al cançada pela ação humana (apenas a superfície da Terra. de certo modo. Rio. de uma hipérbole. ao passo que o valor de troca é aciden tal. outro aspecto senão o da sua transforma bilidade imediata. que é árvore. e se ante a imensidão do cosm os a atitude “teórica” não é a mais sensata. Uma das censuras morais que o marxismo dirige ao ca pitalismo é que nele o valor de troca acaba por devorar o valor de uso até fazê-lo des aparecer. porém. e não se deixa contaminar pelas exigências da autoconsciência moral. recusará ao mundo. Sendo teoria da ação. O Problema d o Esteticismo no Brasil. v. Só neste caso a censura lançada por Marx ao capitalismo perde valor objetivo. valor-de-uso e valor-de-troca. e não d o objeto. Casa do Estudante do Brasil. é coisa óbvia.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 81 talento. o não menos notável e não menos esquecido livro de Mário Vieira de Mello. Há um curioso paralelismo entre as noções de objeto-da-teoria e objetoda-práxis. 3. o ensaio magis tral — e injustamente esquecido — de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A Cinza do Purgatório. diante de cuja praxis o universo natural — a “matéria” — p rde toda substancialidade para se reduzir a mera matéria-prima da ação humana. Sem saber o para os crimes e as perversidades cometidos em razão do seu “ideal”: pois este tem a p erfeição estética de uma forma arbitrária concebida pela mente. Só sei quanto custa.6. é algo que cabe investigar. impávido no alto da sela. É este seu caráter de idealismo subjetivista coletivo que dá ao marxismo o seu tremendo poder ilusionista que emb riaga e perverte. 3. mas a humanidade histórica. Ni etzsche e Epicuro. O val or de uso é. da ação: o homem não cria a ciência mediante a contemplação. aos fenômenos. comparava o materialista durão a um John Wayne da filo sofia. faz parte da sua consistência ontológica. Sobre o esteticismo como fonte das doutrinas políticas modernas. por outro. uma consistência ontológica própria. reduzindo-se a mera projeção: Marx censura no capitalismo um d efeito que não está necessariamente no capitalismo. então pergunto se a teoria da praxis não é uma monstruosa ampliação universalizante de um fenômeno local e terrestre — coletivamente subjetivo —. Restaria então explicar como. 1942. segund o a boutade célebre de Bertolt Brecht: “Não sei o que é. uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente a perf . até fazer com que todos os objetos já não existam senão como “mercadorias”. 1958. em quase todas a s civilizações. Desenvolvimento e Cultura. Nacional. num novo e mais radical tipo de idealismo subjetivo: o m undo objetivo nada é senão o cenário da praxis. olhando com a maior indiferença os movimentos randômi cos dos átomos na planície e desprezando o choro dos fracotes que necessitam de um s entido para a vida. São Paulo. e da qual mesmo homens de elevada inteligência às vezes se deixam contaminar. pois o marxismo se revela antes um idealismo subjetivista. mas apenas tais e quais podem vir a ser sob a ação do martelo e da forja . A praxis. Se o capitalismo faz realmente isto ou se se trata apenas de uma figura de retórica. rebaixa ndo-se a natureza ao estatuto de ancilla industriae. como o afirma o próprio Marx: depende de circunstâncias históricas que nada têm a v er com a natureza do objeto. e. e ilim itada a extensão de mundos celestes que não podemos transformar e só podemos contempla r. e mesmo assim não inteira). uma qualidade qualquer inerente ao ob jeto. por um lado. com a única diferença de que tem como sujeito não o indi víduo. no objeto. A teoria nada dirá sobre os objetos tais e quais são. v. Da teoria da praxis provém ainda a idéia — hoje se um dogma — de que a ciência surge a posteriori de uma racionalização da técnica. mas mediante a manipulação dos o tos e sua transformação em outra coisa.

eição é sempre justamente a astronomia. e que por isto o homem pode somente contemplar. mas é bobagem pura. cujos objetos estão a uma distância demasiado gran de para poderem ser “transformados”. porque uma astronomia requintada já se encontra entre povos que de navegantes não tinham . (Um praticista fanático poderia objetar que a astronomia se desenvolveu com fins de navegação.

feita de um ódio comum à inteligência contemplativa e de um intuito comum de subjugá-l a a interesses práticos fictícios: ao interesse prático de instaurar uma justiça social fictícia. Pessanha declarou-se . Pessanha não era um mero colecionador de relíquia s. Não. Isto é muito elucidativo. Passado seu interesse juvenil pel a física de Epicuro (objeto de sua tese de docência). pois somente essa intenção poderia explicar o relevo que ele deu. 47c. como conciliar a f ilosofia marxista da História com a cosmologia de Epicuro? De que modo um sentido racionalmente ordenado de causas históricas tal qual propõe o marxismo poderia brota r de um universo caótico e frouxo. Marx a escondeu tão bem que ela não voltou a aparecer senão em plena crise do ma rxismo 81. por seu lado. logo.) Esta prioridade cronológica e estrutural da astr onomia é ressaltada por Platão 79. e não resta ao homem nenhuma saída senão refugiar-se no sonho. nesse sentido. toda ação está condenada ao fra79 80 Timeu. trad. só se mantém de pé mediante uma brutal falsificação da ordem cronológi ca. como por exemplo os maias. se esta entrasse em discussão naquela hora: o PCUS não seria idiota de tentar organizar o movimento revolucionário mundial sobre u ma base física constituída de bolhas de sabão. A afinidade que ele viu não é somente aquela que apontei n o parágrafo anterior. empenhado na reconstituição de algo assim como uma “trad ição materialista” embutida na História do pensamento Ocidental. decadentistas e reacionárias — as novas tendências da física de Planck e Heisenberg. Mas ainda as sim a ideologia de Pessanha continua parecendo um amálgama de elementos heterogêneos e incompatíveis. Jorge Eira Garcia Vieira. onde a matéria não se rege por nenhuma lei? No caos epicúreo. 1981. como burguesas. A explicação ma rxista. para ele tornadas incompreensíveis 80. ela reside antes na palavra “materialismo”. foi certamente porque viu entre eles uma afinidade mais interessante e . entre as rosas d o Jardim. casso. Para além da simples comunidade de ódios e ilusões. A tradição materialista Acabamos de compreender a afinidade entre Marx e Epicuro. que no entanto. Se ele buscou entre Marx e Epicuro uma síntese que ao próprio Marx não interessou e nfatizar. que vê a explicação para a origem de todas as ciências na contemplação da regularidade e racionalidade dos movimentos dos astros. UnB. ao interesse prático de alcançar um bem-estar psicológico fictício. Para que ela adquirisse alguma verossimilhança aos olhos dos homens foi precis o que primeiro a sociedade burguesa reduzisse a serva da técnica e da utilidade prát ica uma atividade intelectual na qual por milênios seus praticantes tinham visto u ma finalidade em si mesma. A Educação segundo a Fil osofia Perene. A interpretação praticista da origem e significado da ciênc ia é uma grosseira projeção que o burguês faz dos seus próprios critérios e valores sobre a mentalidade das épocas anteriores. K enneth Minogue. mais “prática”. como editor da séri . v. basta nte lúcida ao condenar como irracionalistas — e. ele tratou de não conservar nenh um resíduo ostensivo dela no materialismo dialético plenamente desenvolvido. a tese valiosíssima de Antônio Donato Paulo Rosa. como vimos. É uma afinidade negativa . Sobre o sentido puramente contemplativo da atividade intelectual na Idade Média. lhe devia muito. a certa altura da palestra. digamos logo. Que críticos de Marx tentem lembrar esse detalhe é compreensível. v. jamais lhe and ou pela cabeça a hipótese de uma conciliação impossível. condenação que a for tiori se aplicaria à física de Epicuro. A discrição de Marx foi sensata: um passado epicúreo é como ter a mãe na zona. Sobre a incapacidade do burguês — liberal e socialista — de compreender isso. Mas por que um pensa dor de simpatias marxistas deveria querer tocar no assunto? Por mero interesse b iográfico? Não é verossímil que Pessanha tenha levado sua devoção por Marx à carolice de pret nder “resgatar” Epicuro só pela razão de haver o filósofo de Trier se ocupado do epicurism o no curso de sua formação acadêmica. § 18.82 OLAVO DE CARVALHO nada. Brasíl ia. O Conceito de Universidade. Quanto a Marx em pessoa. Como transformar o mundo fugindo dele? Como coadunar a praxis revoluci onária com o evasionismo epicurista? A ortodoxia soviética foi. Sem livrar-se da raiz epicúrea de seu pensam ento. apresentada à Faculdade de Educação da USP em 1993 ( tese datilografada ).

uma não tem mesmo nada a ver com a outra.e 81 E se Marx não teve a menor dificuldade em rejeitar a ética de Epicuro ao mesmo tempo que conservava algo de sua física. . como foi mostrado no § 8°. foi pela simples razão de que.

econômicas e puramente psicopáticas se encontrassem comprimi das no auditório do MASP. Collor de Mello. foram suficientes para suscitar uma poderosa onda emocional. familiares. Platão e o sr. fundada nessa palavra. A afinidade que permitiu. Uma síntese fundada na unidade aparente de uma palavra. Um certo fundo de escrupulosidade científica. insistem em cultuá-la cada qual a seu modo. Mas. políticas. E a única síntese entre o indeterminismo e Newton é aquela. a un idade da História da Filosofia. em j ulho de 1995. A “matéria”. podem não valer nada do ponto de vista filosófico e histor iográfico. toda uma coleção pluriforme de beletrista s e filosofantes. Uma aparência verossímil de conceito. pretende u impingir ao público a convicção de que a indiferença nacional por autores como La Mett rie. ao longo dos séculos. sob a qual se esconde uma multiplicidade de conceitos mutuamente incompatíveis. Pauli. não disse absolutamente nada de ident ificável. cit. para um mestre da retór ica. esboçada por Heisenberg. e não de um conceito. não fez nenhuma daquelas coisas que os filósofos habitualmente fazem. é puro fingimento. fantasmagórico e elástico para poder abranger. deve tê-lo impedido de falsear ostensivame nte a t pografia da história. tal como a unidade da tradição materialista. Agostinho. os materialistas. palavras e aparências são tudo. ferozmente idealista . 82 Uma orientação aliás fielmente mantida nos eventos da mesma série de O Olhar e Os Sentid os da Paixão realizados após a morte de Motta Pessanha. era necessário preencher as lacunas abertas na História pelo olvi do em que fora caindo. Mas. uma aparência p ersuasiva de unanimidade. loc. talvez por considerá-l a divina. cativar para a rebelião contra o espírito quantas insatisfações pessoai s. ). Para dar ao materialismo ao menos uma aparênci a de continuidade. Bohr e toda uma corja de abomináveis espiritualistas. Mas deixou. E qual o retor que não sabe que . é apenas uma aparência de síntese. pelo menos a linha dominante do espiritu alismo tradicional apareceu bem mais atenuada e descontínua do que é na realidade. Pessanha não expôs nenhuma teoria. Se ainda assim não brotou a figura de uma tradição material ista em regra. ao lado e na m esma altura dos verdadeiros filósofos cujo diálogo forma. Curiosamente. as lembranças da ditadura mi litar e a filosofia da História de Sto. Pessanha fez assim. a filósofos de terceiro ou quarto time. a rigor. nivelando todo o mundo por cima. Jaspers ou Dilthey 82. novo empresário da filosofia-espetáculo. su ficientemente indefinido. e daí ter ele optado pela designação vaga e descomprometedora de “pensadores” para englobar os filósofos e os q uase. Adauto Novaes. uma funda impressão. É que os p rimeiros são materialistas: o esquecimento em que jaziam apagava a linha de contin uidade da desejada “tradição”. como Pessanha desejaria. não defi niu nenhum conceito. não tem como com portar em si ao mesmo tempo a arbitrariedade dos átomos de Epicuro e rígida obediência ao determinismo newtoniano.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 83 Os Pensadores. só entre os espi ritualistas há algum consenso quanto à matéria. da sua palestra. Cond illac. a par da omissão de gigantes como Brentano. não lançou nenhum fundamento. Dégerando. fazendo com que o materialismo aparecesse como aquilo que é: um mero contraponto ocasional e descontínuo à linha-mestra do espiritualismo. É a afinida e de uma palavra. na sucessão dos tempos. é a mesma que fundamenta as pretensões a uma “tradição materialista”. que ce rtamente não morrera de todo em Pessanha. e inseri-los nos respectivos nichos cronológicos. com muitas costuras e emendas. manejadas pelo retor. o sr. nivelando por baixo. Num país que ainda não se interessou sequer em tra duzir as obras de Leibniz e Aristóteles ( e que só no ano de 1995 teve sua primeira tradução do Wilhelm Meister de Goethe ). exigida por todos os materialistas contemporâneos de Marx. Sénancour e Crébillon Fils ( libertinos de segundo time ) é um atraso cultural in tolerável ( v. Novaes. numa só figur a de monstro reacionário. isso é puro esnobismo de caipira metido a par isiense. No último desses eventos. como Helvétius. por elástica que seja. certamente. a síntese pessânhica de Marx e Epicuro. e. um ato político no se ntido mais agudo e eficaz da palavra: a união da massa contra um inimigo comum. perf eitamente contínua de Platão até Husserl. a corrupção reinante e a tradição histo riográfica que preferiu Aristóteles a Epicuro.

Mas a ma téria é um símbolo e o materialismo é uma força. excet o no sentido negativo de uma coletânea de opiniões diversas e contraditórias. e por isto a ciência de produzir impressões é c ultivada com esmero por todos aqueles que têm a ambição de conduzir os povos. e sim por impressões? Apenas. A matéria não é um conceito — exceto no sentido convencional e instrumental com que vem nos livr os de física. o homem movido por impressões não sabe para onde se move. Não uma força física. mas uma força históric a de impressões e emoções que produzem atos. sem qualquer pretensão ontológica — e o materialismo não é uma doutrina. Não havendo uma “matéria” conceptualmente identi icável — exce- .os homens não se movem por conceitos.

é. unidos na luta co mum contra o princípio do conhecimento objetivo e no empenho comum de substituir a realidade em vez de compr eendê-la. Marx e Epicuro. se dão as mãos na solidariedade de uma negação: a negação do espírito. ou pseudoorientais. Pretender que essa tradição exista substancialmente.. por que não representá-las de uma maneira que nos dê poder? Qualquer que se ja o horror da situação. individual no outro —. podem firmar um acordo por que têm um princípio em comum. e colocar lado a lado em distintos lugares do espaço. como os buracos estão para o queijo suíço. Mas como conciliar o materialismo com a Programação Neurolinguística e o movimento da Nova Era? Filosoficamente. o comandante militar da insurreição. de distorção e de triagem. mas uma unidade contra: a unidade negativa daqueles que. o teórico da PNL extrai uma conclusão que leva direto a um pragmatismo com tinturas nietzscheanas: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que faz mos delas. dois princípios: o materialismo e o primado do interesse prático.. porém. Se considerarmos simplesmente o fato notório de que Platão e Aristóteles fora m absorvidos na filosofia cristã e de que todos os filósofos importantes do Ocidente desde Agostinho até Hegel foram cristãos. de uma parte a massa total do queijo. w Uma vez unidos Marx e Epicuro pelos santos laços do ódio à inteligência teorética e do primado do interesse prático. r etroativamente. A experiência que você tem do aconte cimento não é exatamente o que se produziu. ela não é uma unidade pró. para fazer de Stálin. . mas a representação interna. que vê no mundo a mera pr ojeção dos nossos pensamentos — hipótese que o marxismo rejeita como idealismo burguês: “Os seres humanos recebem e interpretam as informações fornecidas pelos cinco sentidos . para a densidade contínu a da linhagem espiritualista. a mais assombrosa fals ificação da História já empreendida por um militante esquerdista.. a unidade da tradição mat erialista não poderia forjar-se com base na defesa da matéria. inspira-se num kantismo radicalizado.. num sentido instrumental perfeitamente compatível com as doutrinas esp iritualistas esposadas aliás pela maioria dos grandes físicos —. nada podendo afirmar em comum. não se constitui de outra coisa senão do amál gama fortuito de negações antepostas. personalizada d o que se produziu. Se existe essa unidad e.” 84 83 84 Anthony Robbins. Pouvoir Illimité. No reino das ilusões. parece impossível. repito. Essa filtragem explica a imensa variedade da percepção humana. Compor com pedaços de opiniões de beletristas e pseudofilósofos uma tradição materialist a. que para o marxista são mera ide ologia feudal e para o epicurista uma abjeta escravização do homem aos deuses. o cérebro transforma esses sinais elétricos em uma representação interna. de outra parte a massa total dos buracos. reduzindo o espiritualismo a uma coleção fortuita de exceções. ao menos em aparência: o materialismo. a toda e qualquer afirmação do espírito. Por diversos processos de generalização. não há nenhuma hostilidade essencial entre o interesse pessoal e o interesse coletivo: numa mesma alma podem conviver em harmonia o evasionismo epicurista e o utopismo socialista. Pess anha começa a fazer sentido. A tradição materialista. é querer separar fisicamente. a depreciação da inte ligência teorética. se existe. Laffont. 1989. trad. Mais exatamente. p. A Nova Era adere mac içamente a metafísicas orientais.” 83 Dessa constatação kantiana. Mas ainda resta um ponto obscuro. Paris. sem nenhuma exceção. desde que a Academia d e Ciências da URSS enxertou a cabeça de um desconhecido sobre os ombros de Trótski nas fotos de cenas da Revolução de Outubro na Enciclopédia Soviética. por diferentes indivíduos e por um número indefini do de motivos. hipertrófico. você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder. veremos que a pretensão de Pessanha só pode ser compreendida como delírio alucinatório ou como fraude proposital . ‘O mapa não é o território’. Marie-Hélène Dumas. e não apenas como somatória artificial de negações d iversas. divergindo quanto à esca la da transformação — social num caso. esta é uma das idéias fundamentais da PNL. Ela está. e fazer dela a linha mestra da continuidade do pensamento humano. Quant o à PNL.84 OLAVO DE CARVALHO to. sem exagero.

Id.. .59. p. 58.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 85

Da depreciação da nossa capacidade cognitiva, extrai-se uma apologia do nosso poder de agir. Descrevendo o homem como um animal cego, separado da realidade pelo mur o intransponível do solipsismo, o teórico da PNL não tira daí a deprimente conseqüência lógic de que um ser assim constituído está fadado ao fracasso em todas as suas ações, mas sim a conclusão surpreendentemente animadora de que o homem pode agir, e ter sucesso, justamente porque não enxerga o terreno onde pisa. A ação eficaz não depende de uma visão correta da realidade, mas de uma fantasia de poder. Pode-se coadunar isto com o marxismo? Não e sim. Não com o marxismo que estava nas intenções declaradas de Karl Mar x: uma ciência objetiva que pela primeira vez iria superar uma longa série de distorções ideológicas ditadas pelos interesses de classe e, identificando-se com os interes ses da classe que traz em si resumidos os interesses de toda a humanidade — o prol etariado —, iria fornecer uma visão realista e universalmente válida da sociedade huma na. Se esta ciência é possível, a PNL é falsa, ao menos em sua pretensão de universalidade : só a burguesia troca o mundo real por uma projeção subjetiva; o proletariado vê a real idade. Neste sentido, a PNL poderia ser encarada, do ponto de vista do marxismo ortodoxo — e assim seria qualificada necessariamente pela crítica marxista uns anos atrás — como idealismo subjetivo burguês. O sucesso dela entre empresários e executivos seria alegado como confirmação deste diagnóstico. Nesse sentido, a hostilidade entre e la e o marxismo é aberta e irremediável. De outro lado, porém, a PNL também não perde temp o em interpretar o mundo — ocupa-se de transformá-lo. Entronizar como representação válida não aquela que descreva corretamente a realidade, mas aquela que nos dê o poder de agir nela — ou pelo menos uma dinamizante ilusão de poder que nos dê ânimo de lutar pelo poder — é uma proposta de tom pragmatista 85. Mas o pragmatismo, como bem viu Grams ci, pode perfeitamente conciliar-se com o marxismo na medida em que ambos voltam as costas à descrição da realidade e enfatizam a sua transformação. Ambos, 85

igualmente, confundem teoria e prática: o pragmatismo, misturando lógica e psicologi a — o estudo das causas reais que produzem o pensamento verdadeiro ou falso com o das exigências ideais e formais do pensamento verdadeiro 86; o marxismo, confundin do ideologia com sociologia — a expressão do interesse de classe com a descrição do esta do objetivo da sociedade 87. Marx nunca percebeu a contradição que havia entre seu i deal de uma ciência objetiva, universalmente válida, e sua mistura de teoria com práti ca. Na verdade, qualquer aplicação prática de uma teoria só é possível na medida em que os l imites entre uma e outra estejam rigorosamente demarcados na teoria mesma. Uma t eoria que se deixe contaminar de “prática” no curso da investigação teorética jamais poderá s ber se seus resultados foram encontrados no real externo ou produzidos e lá enxert ados pela ação prática do cientistamilitante, um ser ambíguo e bifronte que não distingue entre o saber e a emissão de profecias auto-realizáveis 88. A mistura, que retoricam ente tem o atrativo de ser um 86 Sobre as relações entre pragmatismo e marxismo, v. A Nova Era e a Revolução Cultural, pp . 80-82 e 113-117 da 2ª edição, e sobretudo O Imbecil Coletivo, Capítulos 3, 4 e 5. Indi spensáveis para a compreensão profunda do que se vai ler nas próximas páginas. Para uma explicação detalhada deste ponto, v. Edmund Husserl, Investigaciones Logica s, trad. Manuel García Morente y José Gaos, Madrid, Revista de Occidente, 1929 ( ree d. Alianza Editorial, 1982 ), vol. I, Capítulos 3-10. A crítica husserliana do psico logismo é talvez a mais completa refutação que alguém já fez de uma teoria desde que o mun do é mundo. 87 Para quem compreenda o assunto, não é nem necessário dizer que o sociolog ismo em geral, e o conceito marxista de ideologia nele incluso, não são senão casos es peciais do psicologismo tal como enfocado por Husserl. 88 Nota do meu Diário Filosóf ico, sob o título “Devir e Sentido”, datada de 8 de agosto de 1989: “A interpretação materia lista da História pode ser verdadeira ou falsa, mas, independentemente disto, ela exerce uma influência sobre a História. Homens que estão convictos de que o motor da h

istória — e da cultura, e do pensamento etc. — é a luta de classes, agem diferentemente de homens que pensam que a História reflete a vontade de Deus, ou os movimentos de espírito, ou que simplesmente entendem a História como uma agitação sem sentido, e que buscam o sentido justamente naquilo que sai fora da História e do tempo. Homens de sta última categoria, quando agem na sociedade, procuram antes de tudo assegurar a o maior número possível de homens o acesso à contemplação, àquilo que está fora e acima da Hi tória; e é este o sentido que justifica eticamente todos os seus esforços, inclusive n o sentido de melhorar as condições materiais de vida das populações, para libertá-las da p ressão econômica e dar-lhes a oportunidade de vacare Deo. Já os crentes no materialism o histórico não se interessam senão por inserir um número cada vez maior de homens na co nsciência do processo histórico, na participação voluntária no devir. Ora, o devir não pode, por si mesmo, ser o sentido; a participação no devir só tem sentido em função de algum ob jetivo a ser alcançado; mas, não havendo mais a promessa do supratemporal, do acesso à transcedência, a inserção ativa na praxis se esgota como fim em si mesma, e cai para objetivos meramente pretextuais, dedicados a manter a roda girando. Este é o verda deiro efeito e o verdadeiro significado do marxismo, para além de

86 OLAVO DE CARVALHO

protesto contra um suposto academicismo desligado da “vida”, serve apenas para encan tar jovens irrequietos que buscam nas teorias uma confirmação vaidosa de seus desejo s e aspirações, e não um conhecimento válido, muito menos um conhecimento aplicável na práti ca. Ela não serve nem para criar uma descrição aproximativamente correta da realidade, nem muito menos para elaborar previsões que fundamentem a ação prática. A absoluta inca pacidade dos teóricos marxistas de prever o curso da História, sua sucessão deprimente de erros crassos ao longo de mais de cem anos — a começar pelo do próprio Marx ao sup or que a revolução socialista deveria ocorrer na Alemanha ou na Inglaterra, num país a vançado e não numa sociedade feudal como a Rússia — mostram que o poder do marxismo não é o poder material e prático de uma ciência aplicada, de uma técnica, de uma “ação racional segu ndo fins” como o diria Weber, de um comtiano prévoir pour pouvoir, mas sim o poder a liciante e hipnótico de uma fantasia, de uma alucinação pseudoprofética, capaz de mover o mundo, só que nunca para onde pretende; capaz de induzir as massas e os intelect uais à ação, mas não de levar a ação a bom termo; capaz de desorganizar uma economia capital ista, mas não de construir o pretenso socialismo; capaz de desencadear as causas, mas não de dirigi-las no sentido dos efeitos desejados. É uma força entrópica, que agita e sacode e atemoriza o mundo sem nada produzir senão dor e perda, mas que por ist o mesmo exerce sobre os homens a atração irresistível de uma compulsão autodestrutiva en volta em delírios de grandeza, como a de Nero entre as chamas de Roma. Facilis est descensus averni. Aí a afinidade com a PNL é evidente: por mais horrendos que sejam os resultados da luta revolucionária, a esquerda é sempre capaz de “representá-los de u ma maneira que lhe dê poder” — o poder de cair indefinidamente e arrastar atrás de si a humanidade. Com a Nova Era, a conciliação já não é tão fácil. Em primeiro lugar, porque não é quedo entrar em acordo com um saco-de-gatos. Porta-vozes e críticos da Nova Era são concordes quanto à discórdia generalizada que ali reina: “Dentro do suas intenções declaradas, sejam elas mentiras propositais ou auto-enganos de mental idades doentes. É preciso ser um completo idiota para tomar como uma promessa rede ntora a ameaça que essa gente nos faz de nos aprisionar para sempre no círculo do sa msara. Alguns criticam a utopia marxista por ser irrealizável. Se fosse realizável, seria o inferno propriamente dito, no sentido etimológico de queda num nível ontológic o inferior.”

movimento não há unanimidade sobre como defini-lo, nem há uma coesão significativa que n os permita chamá-lo de movimento”, escreve o apologista (e comercializador, como a m aioria deles) da Nova Era, Jeremy P. Tarcher 89. Na outra ponta, o crítico protest ante Russel Chandler: “Movimentos da Nova Era (no plural) é uma descrição muito mais apt a. A Nova Era não possui qualquer superestrutura abrangente” 90. Em segundo lugar, o comunismo, russo, chinês ou cubano está tão distante do espírito da Nova Era quanto o R egulamento Disciplinar do Exército norteamericano. Também é difícil um sujeito acreditar ao mesmo tempo na influência dos astros e na luta de classes como motores da Histór ia. Mas essas incompatibilidades mesmas já nos indicam algo sobre as crenças positiv as que delineiam o padrão de uma unanimidade implícita por trás da variedade estontean te das orientações da Nova Era. 1. Ninguém, ali, quer saber de hierarquia, ordem, obed iência por motivos racionais. Admite-se autoridade, mas só de tipo carismático, que a gente obedece justamente porque não compreende; autoridade burocrática ou tradiciona l — no sentido de Weber —, não. 2. Pela mesma razão, não se aceita uma doutrina fundada em provas racionalmente válidas. Uma doutrina racionalmente provada exclui a sua própr ia negação, e isto para a Nova Era é anátema: nenhuma doutrina tem o direito de ser mais verdadeira do que outra. Todo es igual, nada es mejor. 3. Não havendo argumentação ra cional nem hierarquia de prioridades, o único critério válido é o “sentimento de participação que diferencia os indivíduos integrados na nova onda e os pagãos, ainda não tocados pe lo espírito da horda. 4. Por isto, a mentalidade da Nova Era é ao mesmo tempo indivi dualista e coletivista. Individualista, ao subtrair o indivíduo do diálogo racional. Ante o apelo da razão, que é uma só para todos, o individualista anárquico fecha-se em copas, bus89 90

“New Age as Perennial Philosophy”, Los Angeles Times Book Review, feb. 7th. 1988. Co mpreendendo a Nova Era, trad. João Marques Bentes, São Paulo, Bompastor, 1993. Um li vro valiosíssimo, que, por ser publicado por uma editora religiosa, é ignorado pela crítica — servilmente atenta, no entanto, às publicações de ocultismo e “auto-ajuda”.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 87

cando refúgio na proteção do seu “guru interior”, que lhe sopra verdades indizíveis, acima e fora de toda confrontação racional. De outro lado, o que esse guru lhe sopra, em ve z de isolá-lo para sempre do mundo, o integra na horda festiva dos que receberam m ensagens idênticas pela “via interior” do rádio e da TV, dos filmes e dos shows. A voz d o guru, afinal, cerca-nos por toda parte. A “interioridade” da nova Era não deixa marg em para um só instante de recolhimento e reflexão 91. Fundindo os sentimentos interi ores do discípulo na atmosfera emotiva que o circunda, ela suprime o intervalo, o distanciamento entre o eu e o mundo, sem o qual todo exame crítico-objetivo é impossív el. Não que ela seja contra todo pensamento crítico. Ao contrário, ela o fomenta, desd e que ele se volte contra as formas de autoridade que não interessam ao movimento: a autoridade burocrático-racional da ciência, a autoridade tradicional dos pais ou da religião costumeira. Ela produz aí, não raro, críticas realistas e pertinentes. Tão log o, porém, o discípulo atravessa o umbral do templo e ingressa no círculo mágico da autor idade carismática, não só a crítica, mas às vezes todo e qualquer pensamento, são rejeitados como tentações demoníacas. O pensamento é rebaixado à condição de arma de fogo, e o porte-de arma só é concedido extra-muros, no reino profano das trevas exteriores, para uso se letivo contra os heréticos e os infiéis. Aqui começa a ficar verossímil o arranjo das idéi as na cabeça de José Américo Motta Pessanha. A rejeição da prova racional, a mística de uma pseudointerioridade coletiva, a revolta insolente ante a autoridade do passado e a submissão hipnótica a uma nova autoridade são comuns ao epicurismo, ao marxismo (pe lo menos em sua moderna versão gramsciana) e à Nova Era, PNL inclusa. Com um pouco d e elasticidade, todas as conciliações são possíveis. Mas uma dúvida perturbadora pode aind a restar na mente do leitor. A Nova Era, de modo geral, inspira-se em motivos es piritualistas. Ela pôs em circulação no mundo idéias como a reencarnação, o karma, os anjos e duendes, as viagens as91 trais. Como pode tudo isso coadunar-se, superficialmente que seja, com o materia lismo professo de Marx e Epicuro? Por mais afinidades secundárias que os aproximem , materialismo e espiritualismo continuam, afinal, o exemplo por excelência da opo sição irredutível. Eppur... É significativo que, nas seitas como as de Moon e Rajneesh, um dos meios utilizado s para quebrar a resistência psicológica dos discípulos consista justamente em não lhes dar um só instante de privacidade, submetendo-os à vigilância e à intromissão constante do s companheiros e superiores — sempre, é claro, de maneira amável e discreta, de modo q ue a vítima não perceba nisso o sinal de uma intenção manipulatória. Os efeitos psicológicos são devastadores.

LIVRO IV - OS BRAÇOS E A CRUZ -

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Ethos o mundo humano de ind ecisão e liberdade relativa. para as inúmeras partes. os dois termos de uma al ternativa insolúvel repetem-se indefinidamente. Yin e Tao. por sua vez. . outras tantas subdivisões. 1968-1973. espírito. mas um se foi e o outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio. Platão. se confirma pela investigação psicológica do inconsciente. fora de qualquer pressuposto metafísico. no fim. Henriette Roguin. 93 Sobre a Tría de chinesa. motivo pelo qual o passo ternário é o andamento de todas as ações e mutações. É um conhecimento rigoroso. que se podem traduzir. 6 4 ternários possíveis sem repetição: a silogística é o “Livro das Mutações” do raciocínio. Por exemplo. o clássico de René Guénon. sem maiores pedantismos esotéricos. Os três princípios. encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade. é uma ontologia do microcosmo da razão humana.. Homo. Ludwig Paneth em La Symbolique des Nom bres dans l’Inconscient. À Trindade Cristã — Pai. Paris. de outro as observações clínicas do dr. é vege tativa. que ecoam e reverberam umas às outras segundo uma infinidade de escalas e de pontos de vista. Filho e Espírito Santo — corresponde. dotado de fundamentos lógicos apodícticos. a divisão ternária do mundo imita u m outro ternário mais alto: o dos supremos princípios metafísicos Yang. de duas proposições tirando uma terceira e assim por diante. apetitiva. a vida era esse vício!” BRUNO TOLENTINO § 19. Mas e a vida? Ah. constatasse que este caminha em passo ternário. ao descrever a ordem do pensamento d iscursivo. Já o vazio. “Livro das Mutações”. o ternário corpo. e Georges Dumézil disse muito sobre as relações entre o ternário religioso e a ordem social em My the et Épopée. Não espanta. que enfoca os números como categorias lógicas ( e ontológ icas ). conservação e transformação respectivamente. 3 vols. Descendo porém do plano metafísico ao histórico. ademais. também ter nárias. intelectiva. Matese. Payot. o livro sagrado da dinastia Tchou fecha o ciclo ao chegar ao número 64: os cic los seguintes repetem o esquema 93. Na tradição chinesa. que expressa grosso modo as idéias de criação. de um lado a obra n otabilíssima do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. O MATERIALISMO ESPIRITUAL “O abismo era metódico. como que patinando em falso. na ausência da síntese ternária. Natura no cristianismo o u Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. onde Logos é a esfera dos princípios metafísicos. a esse respeito. sem exceção. Matéria e Proporção. Paris. seu método audaz.CAPÍTULO VII.. — (I) Pobres bantos Em todas as grandes tradições espirituais. 1960 ). era rigorosam ente chinês. E. Gallimard. A divinização do espaço. 1976. diz Schuon. que Aristóteles. era um puro palácio aritmético . correspondem outros 92 O dois representa a oposição estática que.” À tríade hindu. Brahma.. assim. o mais límpido exercício. a o definir o homem como um intermediário entre a besta-fera e o deus. Physis a ordem repetitiva da natureza sensível. Paris. trad. desde que se entenda que uma tradução não é uma explicação. como por exemplo Deus. no microc osmo da constituição humana. v. de. La Grande Triade. A alma. O I Ching. manifestam-se em cada um dos pequenos fatos que em m ultidão inesgotável compõem a sucessão da vida cósmica. já que go- vernam a totalidade do ser. cuja eficácia no mundo real. alma. e que a combinatória completa somasse. Gallimard. no sentido pejorativo da palavra. Vishnu e Shiva. Pitágoras e o Tema do Númer o ( São Paulo. aspectos e planos secundários. se resolve provi soriamente em mera multiplicação quantitativa. apresenta um modelo miniatura de todas as mutações possíveis: de ternário em ternário. até à alu cinação. Invertendo-se apenas a ordem de sucessão para Céu-Homem-Terra. somando-os dois a dois 92. A essa divisão do todo correspondem. a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos -Physis. por que a esfera da razão humana deveria funcionar diferente da razão suprema qu e ordena o real como um todo? “A lógica. 1957 — um livro após o qual o que quer que se diga do assunto corre o grave risco de chover no molhado. Comparar. O simbolismo dos números nada tem de “esotérico”. por Forma. há muito a dizer.

simbolizados nas três posições da prece litúrgica — de pé. que são obra de Plé. Olorum afasta-se definitivamente dos assuntos t errestres e humanos. ao rezar. Adão. Está muito longe ou é demas iado bondoso para ter necessidade de um culto propriamente dito. em suma. atravessa esses mesmos e stágios. modelo da espécie. Correspondem. tota simul et perfecta possessio. perfeitamen te igual. slm ( de onde vem ain . confiou o cuidado de a acabar e governar a um deus inferio r. econômicas e vitais... tempo cíclico. que transcorre m as retorna. é igualmente um grande deus celeste que se retirou do culto. Criou todas as coisas exceto a Terra e o homem. que são qu ase transliterações. Obatalá. devolvendo no fim intactas as possibilidades que estavam no início. fiéis à raiz trilítera de ambas essas palavras. No árabe. Aqui também três letras indicam o caminho: A. à et ernidade. por exemplo o dos movimentos do cosmos. O ternário dos mundos. e também na estrutura das línguas antigas. paralelamente a uma proliferação hipertrófica das divindades cós micas ou forças naturais divinizadas — um inchaço da perenidade. O mesmo se passa na maioria das populações africa nas: o grande deus celeste. e sim a sua ausência em lgumas das pequenas. ascensão). Vê-se o mesmo no grego ou no hebraico 95. outro ainda para as ações concebidas indepe ndentemente de término ou 94 Nota ortográfica: em vez das grafias “muçulmano” e “Islã”. O fiel mussulmano 94.. parece apreender. à continuidade perene. criador todo-poderoso.. mutatis mutandis. que conhecem um se r supremo mas adoram os antepassados. o homem primordial. um para as ações in fieri. outra divindade que lhe está subordinada. muito afastada do homem para satisfazer as suas inumeráveis necessidade s religiosas. em todas as tradições espirituais... o que surpreende nele não é a ubiqüidade da sua presença nas grandes tradições religiosas. se não uma lei ontológica. uma tendência universal do homem a enc arar o ser como se fosse assim constituído. Por isto mesmo. Tamas. estruturalmente.. sonho e sono profundo —. verdade imbricada na constituição mesma do ser. ou sucessão sem volta. qu ersonificam o homem diante do mundo. que a inépcia dos nossos legislado gramaticais consagrou como corretas. ao menos uma “constante do espírito humano”. e a eternidade — como a definiu Boécio. “posse plena e simultânea de todos os seus momento s”. pela ordem.. resíduo de uma velha doutrina esquecida. Rajas e Sattwa (queda. prefiro as formas “mussulmano” e “Islam”.. aos três estados mencionados. Kari. que. ao tempo.. dos Bantos. o homem diante de si e o homem anulado dian te da infinitude divina. expansão. O mesmo se verifica entre os Angonis.. O passo ternário entre o mundo e a origem é marcado pelo monossílabo Aum. Nzambi. a perenidade ou eviternidade. o ser supremo.92 OLAVO DE CARVALHO tantos ternários na esfera cósmica e humana. ou ter dele uma idéia nebulosa e distante. depois de ter c omeçado a criação do mundo. que engolia ou encobr ia o senso da eternidade: “Os Semang da Península de Malaga conhecem também um ser supremo. sentado e prostrado —. que co mpõem a palavra Adam (o árabe em geral suprime na escrita as vogais intermediárias). entre os Tumbukas. Mircea Eliade notou em tribos da África e da Polinésia o enfraquecimento do sentido da eternidade metafísica. Certas culturas tribais parecem desconhecê-lo completamente. Pelo que lhe respeita. A grafia das letras permite visual izar as três posições da prece: prosseguimento. atravessando os quais o homem recua desde a manifest ação sensível até o princípio metafísico de todas as coisas. ou o dos estados de consciência — vi gília. cujas letras correspondem. O fato de não ter sido Kari o cria dor da Terra e do homem é signific ativo: revela -nos uma forma vulgar da transcendência e da passividade da divindad e suprema. i sto é. há um tempo verbal para as ações concebidas como findas (em qualquer tempo cro nológico que seja). Os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num deus do céu chamado Olorum. D e M. às três faixas do tempo: a temporalidade. somente desemp enha um papel insignificante na vida religiosa da tribo. A noção do triplo tempo encontra-se. para os quais o criador é demasia95 Os três estágios equivalem..

“paz” ). Tirei algumas conseqüências desse fenômeno para a teoria da literatura em Os Gêneros Lit erários. onde a cada letra árabe corresponde uma e uma só letra do alfabeto latino convencional. que é muito complexo. mas um sistema simplificado de minha invenção. Também não uso nas transliterações arábicas. V. onde se encontrarão também mais indicações bibliográficas sobre o assunto. 6. n. modulada por acentos.da saláam. Faço-o também por saber que na religião islâmica a grafia das palavras te um uso ritual e um profundo sentido simbólico similar ao do hebraico que se perde por completo nessas adaptações arbitrárias. o alfabeto fonético internacional. nes e em outros livros. acima . .

A culpa edípica não acompanha toda rejeição da fé. foi proposta alegremente aos Ocidentais no séc ulo XVII por filósofos e cientistas que acreditavam estar descobrindo um novo mund o — o mundo das leis mecânicas que explicariam a natureza e o homem sem necessitar p ara nada da “hipótese Deus”. a teoria do Deus otiosus. que “Deus se afastara deles”. mas fixado na perda da mãe. e marcadas por uma seqüência imemorial de derrotas e privações — o trauma repetido das preces não atendidas. ou faz do “silêncio de Deus” o centro das preocup ações teológicas do seu tempo. a que o pobre banto chegou por uma s ucessão de experiências decepcionantes. no mesmo círculo vienense onde ela se disseminou. mas é um fenômeno típico da civilização cr Islam. entre os Wahéhes. nunca mais quis saber dele para nada’. também a doutrina do complexo de Édipo: numa civili zação que por dois milênios imaginou Deus como um “Pai”. pp.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 93 do longínquo e demasiado grande ‘para se interessar pelos assuntos vulgares dos home ns’.” 96 É compreensível que esse estado de espírito se espalhe em tribos pequenas. Que Freud tenha explicado pela morte ritual do Pai a origem 97 96 Mircea Eliade. junto com a teoria da “morte de Deus” emergisse. nada menos que 56 por cento do s norteamericanos (estatísticas oficiais) freqüentam o culto dominical. Quando.. Lisboa. como um garoto sem mãe perdido nas ruas. É um sentimento de orfandade. a culpa edípica subseqüente à expuls Pai não poderia deixar de estender sua sombra por toda a produção intelectual da era do ateísmo 97. separada do sentido da vida. abandonada por um Deus cuja presença ela mesma se esforçou. Em segundo lugar. resíduos talv ez de antigos impérios africanos desmembrados. Mas. 74-77. A opinião de Nietzs he para essa gente é cocô de mosquito. protestante ou católico. em primeiro lugar. omm. mas de ruptura traumática do cordão umbilical e de perda do senso de direção. tem todos os mo tivos para se sentir dispersa. Os Bantos dizem: ‘De us. no máximo. não puderam simplesmente dizer. por três séculos. isolada. ou que “D eus deixou o telefone fora do gancho”. para arrancar do coração dos homens. Passado um século desde que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”. Cosmos. trad. é pr eciso não cair na esparrela de interpretar as falas dos intelectuais como expressões do sentimento dominante entre as populações dos países ricos do Ocidente. Mas quando o intel ectual altamente civilizado de uma nação rica e vencedora diz que “Deus morreu”. descobriram que esse mundo era estúpido e sem razão como qualquer aparato mecânico considerado fora das finalida des inteligentes a que serve. onde é dogma que Deus “não gerou nem foi gerado” e chamá-Lo de “pai” é blasfêmia intol a adesão ao ateísmo não traz um sentimento de culpa edípica. expressão de um sentim nto vigente nos círculos intelectuais — uma tribo relativamente pequena e que. vendo -se alijada do poder pela Revolução burguesa que ela ajudou a fazer. devemos entender isto como expressão do sentimento de uma velha tribo dispersa e decadente? O fenômeno é enigmático. A “morte de Deus” é. A orientação espacial ( qibla ) e o sens o de integração na grande comunidade humana ( umma ) dispersam-se imediatamente como fumaça no ex-mussulmano. Não: eles tinham consciência de havê-Lo expulsado por v ontade própria — daí que. que bóia solitário num espaço indefinido. Umma te m aliás a mesma raiz de “mãe”. E os Negr ilhos (pigmeus) repetem: ‘Deus afastou-se de nós’. Tratado de História das Religiões. depois de ter criado o homem. Não é alheio a isto o fato de que o fundador da religião . Natália Nunes e Fernando Tomaz . e não é para rezar aos antepassados ou às árvores totêmicas. que imaginam o ser supremo Ngurubi como criador e todo-podero so. com a inocência do pig meu. mas sabem que são os espíritos dos mortos que exercem uma verdadeira vigilância so bre as coisas do mundo e é a eles que oferecem culto regular.. dois séculos mais tarde. 1977.

depois de pai. onde encontra um Ersatz do clamor profético de jus tiça. a algum utopismo político. compensatoria mente. expressa esse sentimento. Lênin e Gramsci. As diferenças entre as visões estratégicas de Karl Marx. mas a “Lei”. o “Pai”. Ele não abandonou. o Islam ou o judaismo. muito mais “primitivo” do que a culpa edípica. por exemplo. aparentemente sem despertar para o caso o menor interesse dos estudi osos. Freud. russo-ortodoxa do segundo. especulou sobre a religião universal generalizando sua experiência limitada d o meio judaico e cristão. O dr. afinal. é necess mbém uma ciência do Ateísmo Comparado. católica do terceiro. primeiro de mãe. sem a qual é impossível orientar-se na barafunda do s ateísmos contemporâneos. Di isto há anos. A imagética de figuras boiand o no espaço. Se há uma Religião Comparada. Não é o mesmo abandonar o cristianismo ou o budismo. que aparece com insistência em Salmán Rushdie. O ateísmo não é um fenômeno homogêneo: há um para cada religião.slâmica tenha sido um órfão. É pena que até ho je ninguém tenha estudado isto em detalhe. por exemplo. O ateu de origem judaica. que nada entendia dessas c oisas. dificilmente deixa de aderir. podem ser grandemente elucidadas pela origem judaico-prote stante do primeiro. .

Dogmatiser sur un bien originel. a douta ignorância. as duas grandes linhas que disputam o primado do pensam ento Ocidental: o naturalismo físico-matemático e o historicismo-culturalismo. e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade. A moderna concepção matemática da natureza inaugura-se no instante em que Nicolau. Et la dispute. a razão humana se mostrava impotente e devia ceder lugar a uma outra mod alidade de conhecimento. Exemplo: um objeto girando numa órbita circular. Nicolau concluía que o espaço é infinito. por dois tipos de divindades subalternas: os deuses da natureza e os antepassados. Mas a verdadeira importância histórica da sua descoberta não está nisso. não há “perto” nem “longe”: to as as distâncias se equivalem. Os primeir os. a elevação do espaço e do tempo à condição de absolutos que O substituíam no ca go. bastava a luz natural da razão. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu t rajeto já não estaria em movimento. uma ciência infusa. mais tarde. admitia-se. espécie de ingenuidade metódica que permi tia ao filósofo captar. § 19.94 OLAVO DE CARVALHO do sentimento religioso. § 20. investigando as propriedades do infinito numérico e es pacial. Do mesmo modo. ou nenhum. Ora. Com isto. que o universo não tem centro geométrico e que. ocultos entre as sombras da memóri a. o grande é pequeno.. que obrigava os teólogos. mas só para chegar ao c onhecimento de Deus e dos mistérios supremos. que o tempo é infinito. o sinal de largada para a generalização do ateísmo entre os intelectuais foi. um a metanóia. É o mesmo que dizer: deuses do espaço. deuses do tempo. Logo. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito. imbricados na paisagem. todos os seus pontos estariam eqüidistantes da circunferência. se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâme tro infinito. que requer do cientista uma transformação interior. não era objeto de conhecimento: se nada se conhecia a resp . logo. e não a sua extinção. então valem para ele todos os raciocínios autocontraditórios segundo os quais o que está perto está longe. no culto. acredita encontrar nele a mesma inapreensibilidade racional 98 Daí proviriam. supra-racional. Se o unive rso é infinito. quando falavam de Deus.. antes da intervenção de Nicolau. os quais. Para conhecer a natureza. Mas. sob um outro e importantíssim o aspecto. Os segundos. é o sinal de que a perda da dimensão metafísi ca traz consigo uma inversão do senso das proporções. La pire des erreurs est toujours constituée par la Vérité elle -même. a tradição filosófica e igiosa sempre reconhecera a necessidade de algum tipo superior de ato cognitivo — uma iluminação. HENRY MONTAIGU Isso começa com Nicolau de Cusa. mergulhados no passado. V. também. espalhados na natureza. Eis aí a verdadeira novidade: a ciência da natureza eleva-se ao estatuto de um s aber secreto. A divinização do espaço. investidos ad hoc de prerrogativas divinas 98. Desde a Antigüidade. Aplicando esses raciocínios. ele estará simultaneamen te em A e B. c’est le dia ble. c’est le livrer démagogiquement à la dispute. passando pelas extremidades d o diâmetro A-B. Culto das coisas. a realidade dessas contradições que a razão repe le. e inseparav elmente dela. uma intuitio intellectualis —. ele antec ipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cál ulo. se aplicavam exclusivamente a Deus. o antes é depois etc. culto dos mortos. a reação do intelectual europeu à “perda de Deus” foi igualzinha à do pigmeu ou d o Banto. Não que a razão pudesse apreender todas as causas dos fenômenos na turais. Diante desses p aradoxos. no desenvolvimento das idéias Ocidenta is. numa extensão infinita. uma transfiguração da inteligência. a recorrer à linguagem dos paradox os. o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado. junt o com a teoria do Deus otiosus que aposentava o Todo-poderoso. escondidos nas florestas e n as grutas. É significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substi tuída. Ela apreendia somente o que neles houvesse de racional — o resíduo caótico da pura matéria. a diante. e o círcu lo teria infinitos centros. intuitivamente. — (II) O infinito de Nicolau de Cusa.

era por- .eito.

1975. cujas conseqüências letais se propaga m até hoje. fez à ciência pós-renas entista: a confusão entre infinito e indefinido.. ele está automaticamente fora do alcance das duas censuras básicas e dific ilmente respondíveis que o maior crítico da modernidade. ou admite que. o caminho seguido pela evolução da ciência moderna. Eis por que ele não pode ser objeto de uma ciência total e precisa. e sim à experiência indefinidam ente repetida da incognoscibilidade da natureza. Shambhala. mas ao ofuscamento da inteligência ante a complexida de cósmica. rigo rosamente. requerer para es se fim um esforço “iniciático” cada vez maior. mas somente de um conhecimento parcial e conjetural”.. só po deria evoluir no sentido de 1º. os conceitos básicos da física subatômica não têm significad o inteligível e são meros arranjos descritivos (metáforas matemáticas. Ora. Pode-se duvidar da sensatez desse empreendimento. área de transição entre a certeza sensível da experiênc estre imediata e a certeza intelectual dos primeiros princí100 Cf. 2º. no ple no sentido da palavra. A ciência to rna-se assim uma espécie de iniciação ao contrário: só pode ser praticada mediante uma met anóia. .” 101 Com isto. para chegar sempre mais e mais à mera const atação da impotência humana de compreender a natureza. Segunda: Nicolau não só admitia a existên cia do resíduo incognoscível na natureza e o justificava metafisicamente (pelo mesmo tipo de raciocínios). com Nicolau. Seu Uni verso não é infinito (infinitum) no sentido positivo deste termo. não ao arrebatamento iluminante d iante da simplicidade divina..O JARDIM DAS AFLIÇÕES 95 que ali nada havia propriamente a conhecer. estender quantitativamente o conhecimento do caos natural. aí temos o mais temív el dos paradoxos cusanos. temos de admitir que a raiz dessas derrotas da pretensão científica já se encontrava no projeto de Nicolau de Cusa. prossegue Koyré. a bem dizer). e a perda do sentido fluido e ambíguo da manifestação cósmica. in determinado. É evident e que. o “mundo intermediário”. ele é. daí para diante. 102 Nicolau está aí magnificamente em harmonia com o simbolismo das grandes tradições espiri tuais. mas esta metanóia não leva ao conhecimento de Deus. duas mudanças essenc iais se verificam. antes voltada ao conhecimento de Deus. Fritjof Capra. seguindo as vias abertas por Nicolau de Cusa. Mas ele não afirma sua infinidade positiva. mas reconhecia que o único resultado a que se chegaria pela D octa ignorantia seria a constatação dessa incognoscibilidade. Quando o físico de hoje p ede socorro ao simbolismo taoista em busca de um princípio ordenador para sua ciênci a 99. a rigor. o conhecimento da natureza é elevado ao estatuto de m istério e a intuitio intellectualis é rebaixada de função — em vez de caminho de acesso a Deus. a ciência. o “interminado” cósmico de Nicolau “significa também que ele não está ‘terminado’ em seus constituintes. não chegamos a um resultado melhor do que pela via racional — apenas e stendemos indefinidamente nossa verificação da inesgotabilidade da natureza. o que quer dizer somente que ele não tem limites e não está contido na car apaça exterior das “esferas” celestes. 3º.. não à unidade com o Espírito que do interior move todas as coisas. Primeira. que lhe faltam ompletamente precisão e determinação rigorosa. Ora. Berkeley. é a via para o conhecimento da natureza. É verdade que em Nicolau a infinitude do espaço-tempo não tinha ainda o sentido de uma divinização: “Nicolau de Cusa nega a finitude do mundo e seu fechamento pelas esferas celestes. The Tao of Physics.. que ele reserva a Deus e somente a Deus. de fato ele evita. mas “interminado” (int erminatum). porque. René Guénon. para as quais a totalidade da natureza sideral está incluída numa zona de ind eterminação. aplicar nisso toda a capacida de humana de intuição intelectual. mas é certo que esse foi. Pois.. ou advoga a legitimidade da argumentação retórica 99 como prova científica 100. sem acréscimo significativo da sua compreensão racional. ao aplicar à natureza uma faculdade intelectual superior à razão. atribuir ao Univ erso o qualificativo de “infinito”. isto é. mas à perse guição hipnótica da multiplicidade de uma matéria que se esfarela numa poeira de hipóteses .

pp. 1973. Rio. Gallimard. Du Monde Clo s à l’Univers Infini. da Mota e Leônidas Hegenberg. sobretudo Cap. Contra o Método. . VII. Paul Feyerabend. 101 Alexandre Koyré. Octanny S. loc. 1977. 1920 [ original i nglês de 1962 ].Cf. Raïssa Tarr. trad. Paris. trad. Francisco Alves. cit. 102 Koyré.

que mais poderia fazer o dom da certeza senão nos dar repetidamente. Daí a importância relativamente secundária que tinha. mas a ”ação divina” que o move). Tanto na filosof ia de Nicolau quanto em toda a cosmovisão cristã que o antecedeu estava bem declarad o. o princípio do indeterminismo. no ternário hindu dos movimentos cósmicos. a medição ca da vez mais exata da impossibilidade de medir exatamente o que quer que seja? A intuição intelectual serve para nos dar a verdade evidente e definitiva. onde rendeu tanto. mas apenas a transição desde o conhecimento sensível até a esfera dos supremos pr incípios metafísicos. ta l como a alma é intermediária entre corpo e espírito. num arrebatamento de louvor. a Rajas. mas transforma a física num sucedâneo da metafísica e o céu astronômico num su cedâneo do céu espiritual: “[As] concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa culminam na ousada transferência ao Unive rso da definição pseudo-hermética de Deus: ‘Uma esfera cujo centro está por toda parte e c uja circunferência está em parte alguma. desde que afinadas. Como foi possível. intermediária entre corpo e espírito. no contexto medieval e antigo. indefinido por natureza. ao tempo cíclico. como o anunciado pelo mec anicismo. se levado em conta pel a ciência renascentista. e no dos três estados de consciência. ao longo dos tempos . a zona sideral corresponde portanto à evite rnidade. os heróis e deuses da mitologia 103. que adquiriu o prestígio de uma centelha divina no ápice da alma humana. ao sonho. mas a zona da história arquetípica. O conhecimento da natureza valia sobretudo p elas suas reverberações simbólicas. para o advento de uma ciência amputada de sua raiz metafísica? A resposta é simples: o tesouro que Nicolau preservou no campo da cosmologia ele o desperdiçou no terreno da gnoseologia. A cosmologia era uma “ciência intermediária” na escalada cognitiva. certamente numa retr oprojeção de suas próprias culpas. À luz do simbolismo tradicion al. a força expansiva que medeia entre a ascensão e a queda . poupando à humanidade três séculos de desvario mecanicista. a perenidade entre o tempo e o e terno. que. com todas as suas repercussões devastadoras no terreno da biologia. mediador entre a “firmeza passiva” da Terra e a “firmeza ativa” do Céu (que evidentemente aqui não é o céu visível. a ciência da natureza cósmica não era um objetivo em si. inf indáveis motivos de incerteza. e requer um objeto à sua altura. não a medição pro visória das aparências cambiantes. a discussão das leis da natureza enquanto tais e tomadas fora de s uas conseqüências teológicas e metafísicas. que a filosofia de Nicolau c ontribuísse. o Homem entre Céu e Terra. que não é nem o tempo irreversível da factualidade terrestre nem a simultaneidade do eterno. Voltada para um objeto que desde o início se sab e resvaladiço. ela é o dom da evidência apodíctica. ser interm inado e volúvel. Ela só se move com plena desenv oltura no terreno dos princípios metafísicos. Essa zona corresponde. da filosofia em geral e até da ética e da política. ao “Homem” (jen). da psicologia. chegaram a identificá-la dire tamente com a inteligência de Deus. como Averroes. intermediário entre a vigília e o sono profundo. século após século. para a qual bastam as sensações. Ao voltar-se para o mundo das sensações. e muitos filósofos. o projeto de uma ciência exata e rigorosa do cosmos. No esquema do triplo tempo. com todas as letras.96 OLAVO DE CARVALHO pios metafísicos. no esquema chinês. o mundus imagina lis onde habitam perenemente. pelo vislumbre que podia dar de uma realidade eter . supra-racional. da teoria do conhecimen to. no ternário microcó edieval. então. Porque a intuição intelectual — a douta ignorância como a chamava Nicolau — é a mais ele vada 103 capacidade cognitiva humana. receitar chá de carqueja para o fígado de Prometeu ou calcular o número exato de anjos que cabem na cabeça de uma agulha — cálculo que depois a ideologia moderna. da certeza indestrutív el. a prova cada vez mais segura da insegurança. ainda que involuntariamente. nem fisicamente reais nem meramente imaginários (daí o termo imaginal). atribuiu aos escolásticos medievais. inesgotavelmente inexato e cambiante. corresponde à alma. nesse contexto. a intuição intelectual não somente perde eficácia e dignidade. teria lhe permitido chegar às bases da física de Planck e Hei senberg. parece tão extravagante quanto calcular as lágrimas de Penélope.’” 104 É que.

p. University of Dallas. AdrienMaisonneuve. Koiyré. 30. 1980. trad. v. op. Tal como o ho104 Sobre o mundus imaginalis. Henry Corbin. Avicenna and the Vis ionary Recital.. cit. inglesa de Willard Trask. 1954. Irving ( Texas ). Pari s. Avicenne et le Récit Visionnaire. .na e supracósmica.

cit. Sol e Lua. O primeiro. a anulação do princípio mesmo do conhecimento objetivo. concebendo o hábito — ou vício — de raciocin ar por “modelos”. pesado. Essa mutação transformou o conjunto da atividade científica num a permanente petição-deprincípio. Uma gra vura da época mostra como a imaginação do estudioso renascentista concebia o “mundo espi ritual” a que teria acesso ao transcender os limites do sensível (Fig. renunciava implicitament e a nos dar qualquer explicação do mundo da experiência humana. a superfície dessa grande mutação em que o esquematismo de umas fórmulas secas se substitui à riqueza do mundo viv ente. como poderia parecer à primeira vista. contado. naturalmente. Reduzido o objeto a seus elementos matemáticos. todos os artifícios descabidos e até fraudulentos foram po stos a serviço dela. d a perda de lisonjeiras ilusões sacrificadas ao progresso do conhecimento. Ele resu lta de que o aparente progresso. “provav a-se” que tudo nele funcionava matematicamente. Uma vez despertada essa ambição. pássaros e estrelas. 1): o peregrino se evade da “esfera” mundana. que tantos depois constatar am. de um mundo matematizado. onde a hipótese indemonstrável admitida de início — o carát matemático 105 Koyré.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 97 mem são quando adormece. e negando já não apenas alguns dados do mun do sensível. No fim encontramos o niilism o e o desespero. . quanto mais rápido melhor. Pela porta da douta i gnorância cusana. o reino do sono profund o. lamentando-o ou celebrando-o. que. medido e previsto em todos os seus detalhes. Bela troca! Figura 1 Mas o “desencantamento do mundo”. rigoroso. onde no silêncio e na treva da mente resplandeciam o a Luz e o Verbo de Deus.. o qu al consiste numas miseráveis rodas de engrenagem escondidas entre fiapos de nuvens . no qual tinha sido até então. pp. mas a experiência humana na sua totalidade. para penetrar no reino maravilhoso do espírito. pela Terra. de sua situação central e por isto mesmo únic a. ao mesmo tempo. fingindo dar ao homem uma visão mais realista de sua posição no cosmos.” 105 Esse efeito moral. a ciência entrou no caminho irreversível de uma espécie de auto-hipnos e matemática. a figura central e o cenário. Mais graves foram seus efeitos morais e cognitivos: “A destruição do cosmos e a perda. não resulta apenas. o mundo d esprovido de sentido da filosofia científica moderna. todos os exag eros. ao mesmo tempo que se arrogava o direito de expulsar do reino dos conhecimentos respeitáveis quaisquer o utras explicações possíveis. é apenas o lado estético. forjando o modelo de seu próprio objeto. trazia em seu bojo a destruição de toda possibilidade de conhecer o real. A torção operada por Nicolau ocasionou a dispersão da mais nobre faculdade humana na ta refa inglória de delimitar o ilimitado. todas as fantasias. No fim de ssa evolução encontramos o mundo mudo e terrificante do ‘libertino’ de Pascal. por esquemas de relações meramente possíveis. 64-65. levaram o homem a perder sua posição única e privilegiada no drama teocósmico da Criação. abandonando árvores e flores. O terceiro foi banir para o mundo das curiosidades impertinentes todas as perguntas que não encontrassem resp osta imediata na fantasia pitagórica. op. substituindo a natureza dada na experiência por um conju nto de esquemas previamente arranjado para caber nos moldes pretendidos. e ao qu al se deu o nome de “realidade”. fatalmente tomando-os em s eguida como se fossem a realidade mesma. o buscador espiritual só atravessava a agitada e caótica região dos sonhos para poder atingir. ou pseudopitagórica. O segundo foi escapar para longe d a experiência comum e corrente da humanidade. foi amputar da totalidade cósmica os elementos não-matematizáveis. porém.

e ele conc . ao platonismo à outrance dos físicos renascentis tas. é absurdo pretender provar que um determinado ponto não é o centro. que não entrais nem deixais entrar. toda a manifestação cósmic a está afetada de contradições.. Mas. embora a contragosto e sem admiti-lo em público. Na verdade. Tudo o que se poderia deduzir corretamente da ilimitação espacial é que o espaço tem propriedades autocontraditórias por não ser propriamente uma realidade. “Ser científico”. c ortes. 106 A “exatidão matemática” da visão científica da natureza desemboca assim. não tendo o poder de limpar o próprio traseiro. Tão bobos ficaram os sábios imbuídos de douta ignorância. trad. e o permanece para sempre. mas ape nas o símbolo ou aparência de uma instância supra-espacial onde as aparentes contradições se reconciliam na unidade do infinito metafísico. Milano. Curiosamente. nesse sentido. 71 ). ora invalidando as per cepções intuitivas. nem por isto terá sido sensato atirar ao l ixo. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. com efeito. no que a evolução posterior da ciênc cessou de lhe dar razão. Il Sagg iatore. imagina ter o poder de obri gar despoticamente a babá a fazê-lo. inerente à constituição mesma da matéria —. Buscar uma aproximação com essa hipótese é o único objetivo de toda investigação cientí a. existir na natureza um resíduo irracional e in cognoscível.98 OLAVO DE CARVALHO das leis cósmicas — é ao mesmo tempo elevada a critério supremo e único de validação do conhe imento científico. sem se 106 Comentando um estágio já mais avançado do processo de matematização da natureza — a física de Galileu —. 4ª ed. por outro lado. de gnoseologia ou mesmo de cosmologia. A nova ciência teve um efeito entorpecente sobre todas as inteligências. p. exercendo enfim sobre toda parte em torno o domínio que não pode exercer sobre si mesma. Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a ci rcularidade das órbitas planetárias. que da infinitude espacial deduziram imediatamente a negação da centralidade da Terra no co smos. A cosmovisão científica. o arcabouço teórico e metodológico da sua Física. A ciência fecha-se num solipsismo incomunicável. dar a mínima conta da falácia deste raciocínio. ora negando o senso comum. é conformar-se com uma hipótese inicial impossível de provar e refratária. 1972. Aristóteles julgava. porque. Surpreendente. a cura di Walter Biemel. o a priori do seu modo de ser. La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trascendentale.” ( Edmund Husserl. ao mesmo tempo em que pretende legislar sobre o conhecimento do mundo exterior. renuncia a nos dar qualquer conhecimento do mundo re al da experiência — substituindo-o por um elenco de esquemas matemáticos — e desmoraliza como fantasia mística qualquer outra via de acesso a esse conhecimento. escreve Edmund Husserl: “Segundo o que observamos. o objeto sobre o qual versa a hipótese é indefinido e inesgotável. se Aristóteles estava manifestamente errado nesse detalhe e mesmo em muitos outros. advertido contra os riscos de uma aplicação indiscrim inada do método matemático à filosofia da natureza. em suma. reverberações e fragmentos que não poderiam ter em si mesmos. a hipótese permanece uma hipótese. com arrogância patológica. em realismo e profundidade. Aristóteles já havia. pelo simples fato de não ser composta senão de aspectos. com dois milênios de antecedência. Ai de vós. aos dados intuitivos e ao senso c omum. junto com eles. no oceano ilimitado da pura fantasia. ademais. a aproximação não poderá jamais ter fim nem alimentar mesmo. a idéia galilaica é uma hi pótese. Enrico Filippini. quer separados. ao mesmo tempo que. o fundamento de sua própria existência. Quem quer que medite seriamente estas palavras comp reenderá que um conhecimento assim constituído não tem a menor qualificação para sair dos quadros da mais estrita humildade metodológica e opinar sobre questões de metafísica. legisla sobre a realidade ou irreali dade dos demais conhecimentos. não obstante a verificação. manifestamente su perior. É precisamente esta a essência p da ciência natural. a cada momento. como a criança pequ ena que. Como. e uma hipótese de um gênero surpreendente. quer juntos. a pretensão de estar mais certa do que no momento anterior ou seguinte. Se o infinito tem indiferentemente inf initos centros ou nenhum. ora revogando a autoconsciência individual. a verificação ( a única possível ) é uma seqüência infinita de verificações.

na medida em que. teve de se afast ar cada vez mais da realidade sensível até substituí-la totalmen107 “Eis por que é preciso ter aprendido quais as exigências que se devem trazer a cada es pécie de ciência. e não da reali dade sensível . e nenhum dos dois objetos é fácil de apreender. Pois toda a Natureza contém verossimi mente matéria. Por isto o método matemático é inaplicável à Física. que devamos examinar primeiro o que é a Natureza. diríamos hoje em linguagem husserliana 107 —. 3. a ciência renascentista deu-lhe razão no fundo. exigir em tudo o rigor matemático. ). pois é absurdo buscar ao mesmo tempo uma ciência e a maneira de alcançar essa ciência. notadamente. Ao rejeitar aparentemente Aristóteles. mas somente quando se trata de seres imateriai s.” ( Metafísica. pois assim v eremos igualmente de quê trata a Física. a. .luía que o método demonstrativo-matemático só podia dar conta de realidades imateriais — d e puras relações lógico-ideais. para poder matematizar a física. 995a. Não se deve. daí vem.

Nas ciências da natureza. O espírito geométrico marca a id ade clássica em todas as suas dimensões: da filosofia científica à moral religiosa. Na pintura. para verificar que aquilo que era um punhado de brasas na Idade Média veio a tornar-se. uma desonestidade i ntelectual. The Spiritual Crisis of Modern Ma n. completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Sto. pela Editora Zahar: O Homem e . necessitava excluir. ganha ndo em ilusão de ordem e realismo o que perde em significação e intuito. que se anuncia no concílio de Trento . Juan de Zuñiga. Plon. A racionalização do dogma. o espírito de formalismo legalista vai to mando posse da religião cristã em medida tal. os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos. a salvação torna-se um problema de lóg ica jurídica. Afonso de Ligório. London. The Encounter of Man and Nature. Se uma perfeita discriminação e catalogação os deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação. como o diz a calúnia consagrada em mito historiográfico — o gosto europeu de queimar bruxas e supostas bruxas. v. v. Neste sentido. É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra-Reforma (que uma simplificação boba toma unilateralmente como uma reação conservadora) o influxo das novas concepções racionalistas e platonizantes. a per spectiva horizontal e matemática substitui a perspectiva vertical e simbólica. O introdutor da nova astro nomia na Península Ibérica foi o chefe local da Inquisição. sob o sopro dos novos tempos. 108 Sim. Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. pela primeira vez na história do Cristianismo. Data dessa époc a — e não da Idade Média. 109 Sobre a perda do sentido simbólico da natureza. Seyyed Hossein Nasr. da simplificação geométrica que. segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções. por exemplo. mas é necessária à economia int talidade racionalista 110. Histoire de la Folie à l’Âge Classique. dúvidas ou nuances de qualquer espéc ie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático. para sustentar a ilusão do me canismo perfeito. É só acompanhar a ascensão do número de pro cessos e condenações. o tecido complexo das analogias. A Companhia de Jesus afirma-se desde o início como um utopismo reformista. o cientista moderno que proclama que a física renascentista refutou Aristóteles comete. resolvido por métodos matemáticos. porque as novas idéias exerceram tanta influência dentro da Igreja Católica quant o fora dela. tornou-se nada menos que Papa. ao mesmo tempo que se espalham por to da a Europa os hospícios e prisões. Depois disso. Michel Foucault. Aí. que hordas de almas oprimidas sob o pe so Sobre a exclusão dos loucos. A liquidação das bruxas deriva muito menos da pura e simples defes a da ortodoxia do que de uma nova maneira — geométrica e purista — de compreender a or todoxia. dezoito séculos após a vinda do Salv ador. Nos jardins de Versalhes. A substituição do mundo da experiência pelos modelos matemáticos trouxe cons igo a mania da uniformização. divergente. 1965. que vai varrer do mundo o pecado e instaurar a ordem social racional — mesmo que seja num cafundó latinoamericano. a natureza multiforme é substituída pe la regularidade de um tabuleiro de xadrez. simplesmente. da j ardinagem à medicina. apagar ou pelo menos esconder tudo o que fosse diferente. Malebranche. Arnauld & Nicole — eram católicos fervorosos empenhados em fundar nu ma construção racional perfeita a conversão dos descrentes. Allen & Unwin. vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação. desde a fundação do Santo Ofício em 1229 até os grandes autos-defé dos ulos XVI e XVII. irregular ou estranho. das correspondências e das si mpatias em que reverberavam umas às outras as partes de um gigantesco organismo vi vente. os principais — Descarte s. Dos fundadores do racionalismo. Um dos primeir os humanistas da Renascença. destinados a excluir da visão humana os comportame ntos desviantes que arriscassem macular a perfeição matemática da nova ordem 108. um incêndio devastador em ple na Idade Moderna. Paris. onde já não há mais lugar para a incerteza nem para o pecador. como teria podido esperar t antos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos ante riores. Enéas Sílvio Piccolomini.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 99 te pelos modelos matemáticos. é substituído pela classificação das peças isoladas e mortas 109. 1968 ( há tradução brasileira.

110 Não vai nisto o menor intuito de depreciar a obra de Sto. Afonso. criação absolutament e genial pela qual os filósofos demonstram um desinteresse verdadeiramente patológic o. Apenas digo que ela atende menos a uma necessidade intrínseca da fé cristã do que a uma necessidade extrínseca imposta pelas condições da época.a Natureza ). .

Leonel Franca. por exemplo. Coi ncidência nada fortuita: o afluxo maciço de militantes socialistas às fileiras do espi ritismo e do ocultismo — um dos fenômenos mais marcantes da vida mental das classes letradas no século XIX — mostra a existência de uma afinidade entre essas duas corrent es de idéias aparentemente antagônicas. Giordano Bruno tenha desenvolvido as fantasias mais exacerbadas a propósito da pluralidade dos mundos habitados. será tomada. o que ainda aumenta mais. No curso desse processo. passassem a ser tomadas como espirituais as forças da natureza cósmica simplesmente mais sutis e afastadas da realidade sensível imediata. sentimentalistas e român ticas no domínio religioso. v. a desapar ição do deus infinito expande desmesuradamente o panteão cósmico. apenas sem ganho espiritual . de fato. afinidade que se explica facilmente pela sua origem comum na cosmovisão renascentista.100 OLAVO DE CARVALHO dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico 111.. A fuga do mundo rea l para o dos esquemas ideais matemáticos tem.êta país ingrato! diante se apossaria da intelectualidade européia. é apenas o primeiro sintoma da tendên cia centrífuga que daí por 111 Sobre a ascensão progressiva das doutrinas irracionalistas. como matéria rarefeita. in do direto à infinitude metafísica e passando por cima de todos os indefinidos merame nte quantitativos da ordem cósmica. A redução da religião a um mero sentimento interior jamais teria encontrado eco se não fosse p recedida pela redução da religião a um juridicismo racionalista. o prestígio s acerdotal da casta dos cientistas. não é de estranhar que. numa proliferação ilimitad a dos focos de atenção espiritual. O processo iniciado por Nicolau de Cusa encon trará sua culminação quatro séculos depois com Augusto Comte. Agir. um dos grandes livros brasileiros que já nenhum bras ileiro lê —. inte rpretada retoricamente: a noção física de “energia”. A falta do ganho espiritual é em seguida compensada pela riqueza das aplicações técnic as advindas da ciência. s. pela “sutilização” do corpo do discípulo. Mas é uma ascese puramente cerebral. assim. religioso em suma. A doutrina da sutilização encontrará na entra da do século XX um poderoso suporte verbal na nova física de Einstein e Planck. no sentido de um esforço de opor-se à natureza. de alimentos densos em proteína. o materialista Karl Marx redigia sua defesa de Epicuro contra Demócrito. o ocultismo e o espiritism o. Rio. sob o impacto das idéias de N icolau de Cusa. perdida a via de acesso à espiritualidade autêntica. ( 4ª ed. A matematização da natureza é empobrecimento sensorial. alguma coisa de ascético. nascida. De imediato. para concentrar-se na única coisa necessária. com freqüência — e não só por populares ignorantes — como um verdadeiro nônimo do espírito. Que. explicarão o espírito como uma sutilização ou diluição da matéria. Tal como entre os primitivos bantos. seu efe ito foi a de diluir na consideração da infinitude espacial a capacidade humana da in tuição espiritual. No século XIX. a sub stituição da realidade sensível pelos seus equivalentes racionais e matemáticos vai se i mpondo. A Crise do Mundo Moderno. isto é. a disseminação de milhares de pseudomísticas e pseudo-esoterismos que prometem. em substituição à espiritualidade religiosa. amplamente disseminados entre as camadas letradas. Esta concepção provocou. cada vez mais absorvida na varie dade da manifestação cósmica e cada vez mais distante de todo princípio metafísico capaz d e fundar critérios legítimos de validade do conhecimento. O equívoco funda-se numa visão estereoti pada — e bem materialista — do ascetismo religioso como mero empobrecimento sensoria l. no mundo moderno. como se o enfraquecimento do corpo fosse por si um mérito espiritual e como se não pudesse hav . como um sucedâneo mundano da ascese espiritual. enquanto oposta à matéria densa do mundo visível. sem verdadeiro sentido moral. J. que fará explicitamente da c iência natural uma religião. Nela está a raiz da perve rsão moderna que atribui à ciência natural a tarefa de guiar espiritualmente a humanid ade. elevá-lo às supremas alturas do conhecimento espiritual — privando-o. porém. aos olhos da multidão. 1955 ). espiritual. tidos como espiritualmente prejudiciais. Mas ao mesmo tempo que o “espirituais” Allan Kardec e Madame Blavatski restauravam assim sem sabê-lo a física ep icúrea. do Pe. Por toda parte. logo em seguida. e da casta científica um clero. ao contrário.

como se. denominou “materialismo espiritual”. onde toda a diferença entre as ca madas superiores e inferiores se reduz à escala quantitativa do grosseiro e do sut il. c om certeira concisão. unidimensional e opressivo.er místicos gordos ou santos musculosos. Eis aí como. por exemplo. chegamos à concepção dominante de um universo totalmente achatado. Foi a esta caricatura que o Dalai Lama. da ampliação do univ erso sensível inaugurada no Renascimento. a .

de direito. eram apenas um gigantesco esforço ..O JARDIM DAS AFLIÇÕES 101 diferença de planos entre a tinta em que se imprime estas letras e o espírito do aut or que as escreveu pudesse ser transposta com a maior facilidade mediante a simp les diluição progressiva da tinta. e de outro pela necessidade de uma mise-en-scène “científica” p ara os mitos grosseiros com que vai satisfazendo como pode a ânsia do maravilhoso que. pelas páginas da Última Hora do Rio. . mas é um a ficção concebida pela mente para facilitar as medições. Ou seja. de um lado. Não é nada estranho que. nas cabeças de muitos pensadores de hoje. isto significa. se o objeto não movido de f ora permanece parado ou tem um movimento fictício. Ora. Cap. É aterrador ver como os cientistas da comunidade que Raymond Ruyer de nominou “gnósticos de Princeton” se divertem concebendo “modelos de universo”. segundo e le 115. fiz na revista Planeta os maiores elogios aos garotões de Princeto n. após ter assim derrubado a física antiga. vejo agora. Uma certa perda do senso de realidade parece uma doença profissional crônica da classe dos cientistas. que ele permanece parado em todos os casos. com os c onhecimentos científicos mais elevados e complexos. Quando saiu a primei ra edição. matemáticos etc. Os “deuses astronautas” atendem em toda a l inha os requisitos da imaginação moderna. ao culto dos extraterrestres. exatamente como o dizia a física antig a. marcada. sobretudo dos físicos. permanece parado ou em movimento retilíneo e uniforme. Galileu não contestou a física antiga. 2e. esclar ecia discretamente que o movimento retilíneo e uniforme não existe realmente. substitui a autêntica sêde espiritual. mediante um novo sistema de medições. mas não em festejar esse acontecimento. Raymond Ruyer. Paris. E. rigorosamente. e que Galileu. conseguiu apenas explicar po r que ele permanece parado. a civilização do O cidente. 1977. quando proclamou ter superado a noção da ciência antiga. e já não têm mais o espírito de elevada seriedade que. por essa via. O dogma da sua própria honestidade intelectual int rínseca parece impedir os físicos de perguntar se não há algo de errado no que estão fazen do. é p erfeitamente evidenciado pelo fato de ser possível apresentar duas bases essencial mente diferentes. Foi este episódio que inaugurou a ma nia dos cientistas modernos de tomarem simples mudanças de métodos como se fossem “pro vas” de uma nova constituição da realidade. tendo pretendido superar toda mitologia religiosa. XVI. Na realidade. por força delas mesmas. astrônomos. Homens adultos que encaram a vi da como puro jogo estão gravemente afetados de puerilismo. Meu artigo estava muito certo em diagnosticar a formação de uma nova casta sacerd otal composta de cientistas. éd. acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias. pela confusão entre o céu visível e o céu espiritual. Mas um fundo de charlatanismo parece já ter sido introduzido na física por Galil eu. astrofísicos. As especulações d e Princeton. um filósofo imbuído das concepções mais moderna e avançadas recair. pontificava. apenas i nventou um modo melhor de provar que ela tinha razão. “O caráter fictício dos princípios. Des S avants à la Recherche d’une Réligion. sem a menor preocupação de indagar se algum dia esses modelos foram levados à prática 113. vendo neles um defeito da realidade mesma e jamais da estrutura da sua ciência. e que o testemunho dos senti dos. V. sendo verídico o bastante. Eis aí também como é possível. por cim a de dois milênios de evolução do pensamento. dizia Einstein. Fayard. Eis aí como uma cosmovisão de um prima rismo deprimente pode conviver. em 1974. na fantasia pueril do materialismo epicúr eo. coeridas som ente pelo convencionalismo de uma regra de jogo. Nas Sombras do Amanhã. n o século XX. segundo a qual um objeto não impelido por uma força externa permanece parado — uma ilusão dos sentidos. Penitencio-me agora ante o grande romancista: ele tinha ra zão. cada uma das quais atingindo em suas conseqüências um alto grau de concordância com a experiência” 114. V. nela. no sentido de Huizinga 112. É mais ate rrador ainda ver como essa gente se 112 113 acomoda a todos os piores ilogismos. não tem em si a prova da sua veracidade — coisa que já e ra arroz-com-feijão desde o tempo de Aristóteles. La Gnose de Princeton. seria inerente à i déia de ciência. e em resposta levei um discreto puxão-de-orelhas de Octávio de Faria. acabasse chegando. um objeto em tais condições.

reconhec e que os físicos hoje em dia “já não sabem do que estão falando”.de pedantismo espiritual para fugir. Cap. Witt genstein e Frankenstein. 115 V. Companhia das Letras. I. mas acha isso divinomaravi lhoso. . como obse rvara Octávio de Faria. 1988. Brockmann. trad. A Evolução da Física. Valter Pontes. em John Brockmann. um escritor científico de sucesso. Reinventando o Universo. Gertrude Stein. 114 Cit. da “hipótese Deus”. pelo atalho gnóstico. Einstein. São Paulo. Einstein e Infeld.

A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em do is. 3. destacada abusivamente da noção de “série”. não há mais paridade ou imparidade nenhuma. seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinha s. “2” é um signo. com Aristóteles.. contada ou nomeada de uma determi nada maneira. e mbora sendo parte do conjunto dos números inteiros. ora usando-a para designar uma quantidade definida com propr iedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos número s e a de poder ser par ou ímpar ).. a parte seria igual ao todo: 1. a cifra. e se. quisermos destacar por signos ou cifras especiais os númer os que representem pares. e nenhum número poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com qualq uer outro na série dos inteiros. também uma crença estabelecida do senso comum e um d os pilares da lógica clássica. um só de pares.. Nesse sentido. Mas. portanto. nunca atual. mas não uma maio r quantidade de unidades do que a contida na série dos pares.. “4” é um signo. quando o fato é que. se não fosse contada assi m. é porque tanto n + 1 como n . abstr aída a posição na série. De nada adianta aqui recorrer ao subterfúgio de que Ca ntor se refere ao mero “conjunto” e não à “série ordenada”. 8 . pois o conjunto dos números pares seria de pares se seus elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa sér ie ascendente ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2. 6. abolindo implicitamente também a distinção mesma en tre pares e ímpares. a demonstração de Cantor é apenas um jogo de palavras. e bem pouco engenhoso no fun do. Em primeiro lugar. e sim a quantidade 4..102 OLAVO DE CARVALHO Mas no campo das matemáticas foi o deslumbramento com a idéia do infinito espacial e quantitativo que levou a mente humana às piores esquisitices. Mas isso é confundir os números com seus meros signo s. os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos. é unicamente a soma imp lícita das unidades não mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. 4 . assim. saltando-se uma unidade entre cada dois números. e. 2. mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuai s. então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro . onde o requinte dos argumentos engenhosos coexiste com a total falta de sensatez. pode ser posto em correspondênci a biunívoca com ele. e ele pode portant o ser rejeitado por quem acredite. ntada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente parte da série dos números inteiros.. as não é o signo “4” que é o dobro de 2. produz sse samba-do-alemão-doido. A noção de “conjunto” é que. nesse conjunto. O conjunto dos números inteiros pode conter mais signos numéricos do que o conjun to dos números pares — já que abrange os signos de pares e os de ímpares —. fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas que definem e diferenc iam os números entre si e. teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras . 2.. se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ). dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série. sendo ambos infinitos. Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando. Se a série dos números i iros pode ser representada por dois conjuntos de signos. “Paridade” e “lugar na série” são conceitos inseparáveis: se par. n 2n = n Com esta demonstração. 4. na qual se baseia o pretenso argumento. nunca de 1. isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas .. Po rtanto — e eis aqui a falácia de Cantor —. mas é a própria série dos números inteiros. é verdade que. junto com um princípio da geometria antiga. outro de pares mais ímpares. que o infinito quantitativo é só p otencial. não há aqui duas séries de números. con firmando o argumento de Cantor. Esse raciocínio baseia-se na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares são conjuntos infinitos atuais.1 são ímpares. ou seja . A tese de Cantor esc orrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sen tido da palavra “número”. descortinando assim os horizontes de uma nova era do pensamento humano. ora para designar o mero signo de número. Só para dar um exem plo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o 5º princípio de Euclides ( de qu e o todo é maior que a parte ) pelo argumento de que o conjunto dos números pares. mas uma única. de modo que os dois conjuntos teriam o mesmo número de elemento s e. os números não seriam pares. isto é.

A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”. Um conjunto de x uni- ..

não poderia deixar de. o garoto simplesmente não distinguiu entre quantidade discr eta (o número de bolinhas ) e quantidade continua ( a distância linear ocupada). Deduziu errado. a longo prazo. e do aumento da quantidade co ntínua deduziu o da quantidade discreta. Para levar em conta somente as bolinhas. No seu “argumento” não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte. encarna de maneira exemplar. o garoto apenas mostrou perceber que o aumento e a diminui116 . Esse expediente pueril é a marca registrada do psicologismo (red ução das relações lógicas a “fenômenos da mente”) — um estilo de pensar que continua desfruta e certo prestígio nos meios universitários pela única razão possível de que ninguém aí leu su refutação por Edmund Husserl. no caso. o garoto à figura co ncreta das bolinhas distribuídas num determinado espaço. Em sua hostilidade irracional contra a idéia mesma de princípios universais. nem. pergunta Piaget. mas sim de uma comparação me ramente verbal entre um todo e o mesmo todo. Cantor erra o alvo por muitos metros. portanto. supondo que um número qualquer possa ser par “em s ndependentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inc lusive. como o próprio Piaget mostra em outros trabalhos. caso contrario ele não poder ia reconhecer. a diferença dos respectivos sensos d e identidade? Ao contrário: o erro cometido pelo garoto subentende uma consciência d a identidade absolutamente igual à das pessoas adultas. ele teria de ser um menino um pouco mais velho. no conjunto aumentado para oito bolinhas. Em Sabedoria e llusões da Filosofia 116. é apenas o sinal da revolta i mpotente da imaginação matemática exacerbada contra a ordem real das coisas. A perd a do sentido da infinitude metafísica. É preciso estar dormindo ou hipnotizado para não perceber que. é o mesmo pr incípio de identidade ou um princípio um pouco diferente?”. sem o espaço. Que sofismas tão grosseiros possam passar como sérias ameaças aos fundamentos da geometria clássica e mesmo aos pr incípios da civilização que herdamos da tradição greco-romana. com todos os seus defeitos e limitações. substancializar ou mesmo h ipostasiar a noção de “par” ou “paridade”. tr azer. ocasionando a exacerbação imaginativa do concei to de infinitude espacial e quantitativa. para o que. mas o que é que isto tem a ver com a universalidade (ou não) do princípio de identidade? O que houve no caso fo i apenas uma dualidade de significados atribuídos ao termo “bolinhas”: o experimentado r referia-se ao conjunto aritmético — abstrato — das sete bolinhas. fundando-se no exemplo do garoto que. com base nela. E ironiza : “Meus filósofos tinham respostas prontas. muitos pensadores científicos — inclusive alguns bem grandes — ch egam a apelar para subterfúgios perfeitamente indignos de homens de ciência. o mesmo conjunto que an tes tinha sete. da diferença da capacidade de abstração entre adulto e criança (ou crianças de idade desigual). e que os pares possam ser contados como co isas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. ele contesta a un iversalidade do princípio de identidade. que aquel a tradição. danos profundos à inteligência humana. de uma refutação do 5º princíp io de Euclides. no fundo. ten do contado sete bolinhas.” Deve ter mesmo esqueci do.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 103 dades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares. diversamente denominado. além do “desencantamento do mundo”. os princíp ios lógicos que validam por sua vez a idéia mesma de experiência científica o que é mais o u menos o mesmo que tentar cobrir um cheque sem fundos mediante depósito constituído do mesmo cheque. enc arando o conjunto como uma síntese confusa de ambas. senão não escreveria essas coisas. sem acréscimo de nenhuma. não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte. o menino teria de subir mais um grau de abstração. Um tris te exemplo é Jean Piaget. que ultra passam uma perda meramente estética para reverberar numa destruição do fundamento raci onal das ciências. como deduzir. “Quando sete bolinhas se tornam o ito ou nove como um elástico de sete centímetros que atinja oito ou nove. Ora. O que Cantor faz é. é claro. mas não o mesmo número de unidades. garante que elas são oito ou nove tão logo sejam alinhadas com intervalos maiores. mas esqueci quais. Não se trata ndo de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte. com sua própria metade). Uma das estratégias a que se recorre para esse fim é a de apelar ao testemunho da experiência científica para tentar invalidar.

P. Abril. Ed. 83 da edição Os Pensadores ( São Paulo. várias reedições ). .

no sentid o aristotélico ( “este coelho é este coelho”). Mas como é que um princípio de coordenação poderia não s er de algum modo “superior” aos elementos coordenados? E como seria possível coordenar valores de veracidade científica sem fundar-se num critério de veracidade cujos fun damentos fossem admitidos como verdadeiros e dotados.. que admite como um dogma o pressuposto kantian o de que não existe passagem do fato ao valor. Ele rejei ta toda pretensão da filosofia a constituir um conhecimento “superior” à ciência ( e mesmo de constituir um conhecimento qualquer ). os fracassos de um a ciência assim degradada viessem a ser tomados como argumentos contra a possibili dade mesma de qualquer conhecimento científico universalmente válido. é que o diálogo acadêmico se tornou algo como a conversação de hipnotizados no jardim de Epicuro ou como uma sessão do Santo Da ime — todo mundo doidão. acrescentando o toque 117 . uma quase-substância. neo-epicurismo — é o cortejo todo dos velhos irracionalismos que retorna à cena. Kuhn e Michel Fou cault enfim reduziram a história das ciências à sucessão mais ou menos arbitrária de “paradi gmas”. que é a utor de um Tratado de Lógica. muito abaixo das poss ibilidades contidas no próprio conceito de “ciência”. Piaget. mas reconhece a filosofia como uma “ati vidade de coordenação dos valores. Sua força de impulsão interna não é mais constituída por aquele radicalismo que. por assim dizer. Aliás Piaget. Quando Thomas S. é claro que é ma is fácil reconhecer a identidade de uma substância dotada de unidade real. Edmund Hus serl descreve nestes termos a decadência do ideal científico nas ciências do século XX 1 17: “A ciência moderna abandonou o ideal de ciência autêntica. não se dá conta sequer de que deduzir d o fato da confusão entre bolinhas e espaço uma dualidade de princípios lógicos não é outra c oisa senão passar do fato ao valor — um psicologismo dos mais descarados. como se ela não estivesse. contentando-se em ate nder às exigências de praxe de um protocolo “experimental” no qual já nem acredita mais e cujos fundamentos já desapareceram sob grossas camadas de esquecimento. nova re tórica. ademais.104 OLAVO DE CARVALHO ção não alteram a identidade. epistemes ou pré-esquemas cognitivos semiconscientes que entram e saem de cen a por motivos geralmente irracionais. De outro lado. em s i. mas no ideal mesmo de ciência. que agia de maneira vivente n as ciências desde Platão. Quando err os tão primários se introduzem nas mais altas cogitações científicas e ninguém se dá conta de sua presença. não é de espantar que. eles abalaram não somente a confiança nas ciênci as existentes. o que é perfeitamente aristotélico. um “todo matemático”. cujo prestígio elas tinham simplesment e usurpado. perfeitam ente evidentes. independentemente de não terem uma unidade substancial. Piaget pretende ver uma dualidade de princípios lógicos onde há a penas uma diferença entre os aspectos percebidos por dois indivíduos num objeto que ambos sabem ser o mesmo. e o que não se compr eende é como a criança poderia passar de um nível de abstração a outro sem a permanência do senso de identidade. ela abandonou o radicalismo da auto-responsabilidade científ ica. que a de um “conjunto”. os valores que bal izam a cientificidade da ciência ). Essa passagem requer uma subida do grau de abstração. de validade cogn itiva? No fim das contas. que é apenas uma unida e convencional.. eis aí algo que a criança só poderá admitir quando sua mente for adestrada para aceitar como premissas do raciocínio os convencionalismos matemáticos. o trono foi entregu e à ambição de todos os antigos pretendentes: neopragmatismo. coloca continuamente a exigência de não admitir nenhum saber para o qual não seja p ossível dar conta em razão de princípios originalmente primeiros e. portanto. é perfeitam ente ilógico sempre que trata de situar as relações entre ciência e filosofia. logo a seguir. ou substantia secundum quid. de fato. Que os todos matemáticos devam ser encarados como unidades. É que a ciência desistiu de ser científica.” Dado esse estado de coisas. como se essa c iência fosse a única possível. Destituídas a um tempo a rainha autêntica e a falsa. inclusive cognoscitivos” ( isto é. neo-relativismo. e é algo que os adultos percebem da mesmíssima maneira que ele.

P.. Éssai d’une Critique de la Raison Logique. 7-8.F. Suzanne Bachelard. Paris. trad. pp. .U. Logique Formelle et Logique Transcendantale. 1957.Edmund Husserl.

Ele nasce. quer dos racionalistas e empirista s. Friedrich Meinecke. muito menos a uma idolatria do abstrato. ou vertical. em lugar do cosmos fixo e repetitivo do racionalis mo mecanicista. a descoberta de novos e poderosos instr umentos intelectuais abre ao homem a visão de continentes insuspeitados. nada tem que se pareça nem de longe a uma nova id olatria. às divin dades do espaço. mas a amp liação do leque de coisas visíveis se faz às custas da perda do senso de unidade e hiera rquia do real. — (I) A força dos meios Mas a descida do foco de atenção espiritual que preenche o vazio deixado pela Divind ade suprema mediante a multiplicação dos deuses cósmicos não estaria completa se. Segun do o grande historiador do historicismo. o papel do culto dos antepassados entre os Yorubas abandonados por Olorum. a descoberta da dim ensão histórica foi uma revolução espiritual de vasta envergadura. formand o duas culturas separadas e hostis. nasce de um sadio movimento em direção ao concreto. Assim com o a cosmologia de Nicolau pretendia dar uma nova visão da natureza que fosse mais digna de representar a manifestação da infinitude divina. O sintoma mais agudo dessa perda é que as duas novas dimensões descobertas nunca puderam ser articuladas entre si. onde todas as tentativas de conciliação e síntese têm falhado. cuja visão da n atureza humana como uma essência fixa e imutável permanecera dominante apesar de tod as as mutações espirituais da Idade Média. Ambos os movimentos que geraram a irreligiosidade moderna originaramse de dentro do campo religioso e sob o estímulo de impulsos religiosos. A divinização do tempo. À revelação da infinitude espacial seguiu -se a da infinitude temporal: ao materialismo seguiram-se o historicismo e o pro gressismo. Nicolau não poderia ter cap tado a infinitude espacial sem o prodigioso desenvolvimento da dialética na Idade Média. assim como Galileu e Newton não poderiam ter formulado cientificamente a mesm a idéia se contassem apenas com os recursos matemáticos de Arquimedes ou Nicômaco. ao sensível. com efeito. nasce de um desejo de comp reender melhor as Santas Escrituras. O historicismo. a descoberta do senso histórico origina as ciências humanas. o advento do historicismo não teria sido possível sem a crítica histórica. ao singular. no Ocidente. não se somassem as do tempo. mas entraram desde logo n um antagonismo aparentemente insuperável: a ampliação do espaço gera as modernas ciências físico-matemáticas. E m ambas essas linhas de desenvolvimento. assim também a crítica histórica . Ela opera uma ruptura do pensamento europeu com o universalismo abstratista dos gregos. em suas origens. a visão do univer- . Do mesmo modo. assim também a compreensão aprofundada dos detalh es filológicos do texto bíblico gerará polêmicas sem fim nas quais acabará por perder-se o sentido essencial do conjunto. Nenhuma descoberta se faz sem instrumentos. § 21. e que após o Renascimento adquirira um novo v igor através da concepção do direito universal — uma norma moral abstrata e universal im bricada na constituição do cosmos com a fixidez de uma lei física. E assim como a ampliação quantitativa do univer so físico conhecido produz a dispersão da inteligência numa poeira de fatos cada vez m enos dotados de significação metafísica. O historicismo oporá a essa concepção três novas idéias: 1ª. de que se originarão o historicismo e o progressismo. de uma reação contra o abstratismo. quer dos escolásticos. foi compensada pela descoberta das duas dimensões horizontais do mundo físico.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 105 final de demência sem o qual não estaria completa a saga alucinante dos deuses do es paço. A perd a do sentido da infinidade metafísica. A divinização da História fará.

Todas as formas particulares. a imagem do universo inteiro. ela é o princípio interno da sua diferenciação. inward constitution. a visão da inesgotável varied ade dos tipos e das individualidades. animais e homens. Segundo Shaftesbury. do homogeneamente idêntico. cujo pensamento foi solenemente ignorado p . Até aqui. Cada ser singular tem em si uma força interior e spiritualmente estruturadora que o singulariza e que é como que o algoritmo de tod as as transformações por que ela passará no curso de sua existência. que se torna sempre patente em sua beleza. através da ação da vida. 1943 ( original alemão de 1936 ). inward structure. 3ª. Tud o quanto se cria ou é criado comporta estrutura e forma e. 2ª. Todos estes pensamento s podiam um dia dar passagem a uma mais profunda compreensão da história. por um movimento mecânico. Deus mesmo não é um conceit o universal abstrato. mas pouco compreendido. na sua própria constituição interna. Friedrich Meinecke assim resume a contribu ição de Shaftesbury à formação do historicismo 118: “O mais importante nesta doutrina é o primeiro reconhecimento do princípio de individu alidade. ainda que em última instância sejam redutíveis a um princípio comum unitário. da sua singularidade. O universo compõe-se de universos. cada uma irredutivelmente singular e diferente de todas as demais. sendo portanto o pr incípio da conservação da unidade na mudança e pela mudança. Por toda p arte uma interação de liberdade e necessidade. 27. trad. é de novo forma estruturadora. não é porque desde fora e desde cima uma lei universal oprima e regre o curso das ações individuais. um grande pensado r que. um obscuro professo r de retórica da Universidade de Nápoles. inward character e outr os nomes compostos sempre com inward. a matéria não poderia. para ele. Se a pluralidade inesgotáve l das individualidades não se perde no caos e na confusão. têm seu “gênio” particular. O passo seguinte na formação da consciência historicista vem com a filosofia de Leibni z. por dar às suas idéias uma expressão talvez demasiado informal e literária. pairando no céu das idéias puras acima das individualidades concretas: ao contrário. O terceiro passo foi dado por Giambattista Vico. de uma idéia formadora. FCE. na força normativa e estruturante. engendrar as plantas. a qual se corrompe e se desfaz sem que a nossa pessoa se desfaça junto. A essas individualidades infinitas Leibniz denomi nava mônadas. Uma de suas primeiras manifestações da nova mentalidade é a estética do Conde de Shaftesbury (16711713). a intuição da personalidade humana como um p rocesso que se desenvolve e se cria no tempo. mas porque cada ser individual tem em si. o macrocosmo de microcosmos que refletem a infinitude da unidade supr ema na forma por assim dizer quantitativa da infinitude de suas imagens microcósmi cas. Shaftesbury não fala diferentemente de um platônico o u neoplatônico. que 118 lhes é inerente. recriando-se continuamente. na medida em que não se f ormou uma mera corporeidade. a lei suprema do universo é a lei da individualidade irredutível.” Friedrich Meinecke. mas um indivíduo singular vivente. inward order. isto não se deve a um desvio da realidade sensível em relação a uma norma abstrata de perfeição. que nada tem existência sob a forma do genérico. cada uma total e completa em si mesma. México. A unidade idênti ca de nossa própria personalidade não pode arraigar-se na matéria.106 OLAVO DE CARVALHO so como um processo vivente. ela reside na individualidade concreta. se por toda parte impera a ordem e a harmonia. em lugar da “natureza humana” abstrata e universal. p. Mas essa “idéia”. El Historicismo y su Génesis. José Mingarro y San Martín y T omás Muñoz Molina. na “idéia”. que brotam de um ponto central interior. acabo u por vê-las rotuladas pela posteridade como the sublime of nonsense — sinal de que foi muito amado. não é o conceito de um gênero ou uma regra abstra a universal. uma riqueza de estruturas peculiares. onde há lugar para o imprevisto e a criativid ade. Se não há dois seres human os iguais ou duas folhas de árvore iguais. mas sim a que a norma mesma. dinâmico. Tanto a causa do ser quanto s ua beleza e o princípio de sua permanência idêntica residem na forma. Shaftesbury chama-a inward fo rm. Ela enfatiza que toda a realidade é composta de individualidades.

Nadando na contracorrente de sua época. que são criações dele mesmo. O homem. conhece muito bem os seus a tos e pensamentos. o co- . por seu lado. só Deus tem um conhecimento certo e perfeito da natureza. e sim por Deus. Vico asseg urava que cada ser só pode conhecer perfeitamente bem aquilo que ele próprio faz. Logo.elos contemporâneos. Co mo a natureza não foi feita pelo homem. que tomava em geral as ciências físicas e matemáticas como o protótipo mesmo do conhecimento seguro.

divergira de toda a tradição escolástica para afirmar que não existem idéias eternas ou modelos universais somente das espécies e gêneros. assegura ele. à visão do universo como processo temporal. Esses três pais-fundadores do historicismo estavam. tendia a fazê-lo nos mesmos termos com que falava das coisas do mundo externo. cegos. e por isto mesmo. da natureza sensível. para quem o conhe cimento a rigor versa somente sobre os gêneros e as espécies. com todas as diferenças i rredutíveis que os singularizam. como imaginava Descartes. coerido pelos laços da simpatia. individual ou coletivamente. ao descrever a história como história da consciência. o pensamento cristão é centrado na relação homem-Deus. como epopéia da criação. o último dos gra ndes escolásticos medievais. de ordem interior. raramente são movidos por concepções filosóficas raci onais e coerentes: em geral eles agem cada qual por motivos subjetivos. por seu lado. Ora. em cujo altar foram sacrificados milhões de indivíduos humanos. É inteiramente errône a a visão estereotipada da Idade Média como o período da filosofia cristã por excelência.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 107 nhecimento mais seguro não é o da física. no Ocidente. mas ergue o edifício inteiro da nova filosofia — a interpretação da realidade c omo processo. saltava sobre quase dois milênios de herança grega para voltar à visão do Gênesis. Ele é. como História. não produz como efeito apenas o caos. mas dos indivíduos. o filósofo grego tendia a vê-las como uma imagem e semelhança das coisas do mundo sensível. Se o conjunto inesgotável das motivações individuais. egoístas e irracionais. querem coisas diferentes. é porque há uma força maior que. Mesmo quando falava de realidades espirituais. de fato. saltando por cima do cosmos. num eu pensante abst rato e universal. Vico. na verdade. A visão de uma pluralidade de ações más produzindo um resultado bom é profundamente cristã. que se recorda de suas ações e pensamentos e p ode narrá-los. Mas os primeiros passos na direção do historicismo devem ser consi derados marcos memoráveis no sentido da cristianização da filosofia. tomada como o protótipo mesmo da r ealidade. como veremos adiante. o qual se passa na alma humana. resgata ndo valores da espiritualidade antiga e medieval soterrados sob a uniformização raci onalista. mas no eu concreto. mas de uma fase para outra no desenvolvimento de um mesmo povo e de um mesmo indivíduo. acredita piamente na Providência. temos de penetrar no conhecimento de suas diferenças — não só de indivíduo a indivíduo e de povo a povo. o “progresso”. resu ltou numa divinização idolátrica do tempo e do processo histórico. A escolást ica medieval deu passos gigantescos no sentido de cristianizar a filosofia. O pensamento grego era fundamente marcado por uma visão objetivistaexterior. Para . É que toda a herança do pensamento grego e ra centrada na noção do cosmos. Vico já não se limita. queda redenção do homem. o Doutor Sutil. buscando nele o mesmo tipo de estabilidade e fixidez que o estudo das ciências físicas buscava nas leis da natureza. Do mesmo modo. o primeiro a enfatizar as diferenças de temperamentos e inclinações entre indivíduos e povos como causas dos grandes aconte cimentos. Scot acreditava que a hipótese contrária era um resíduo pagão. As coisas sucedem diferentemente porque em épocas diferentes os homens. É impossível não ver em Shaftesbury a marca da mística neoplatônica. a filosofia moderna é cristã por um mo tivo muito mais fundo. da analog ia. do alto. era um pensamento coisista: via o homem à imagem das coisas. na imortalidade da alma individual). Para usar o termo genial de Orte ga y Gasset. O verdadeiro cogito. com sua visão do universo como uma harmonia vivente. Para entendermos o curso das coisa s. tal como Leibniz. Os homens. a base dos conhecimentos humanos. a ênfase de Leibniz na singularidade como princípio d o real é um eco da hæceitas scotista. não está. quando falava do homem. e em última instância no culto de uma idéia abstrata. que é rebaixado à função secundária de u cenário ou de um reflexo do drama principal. mas não pôde livrar-se completamente do resíduo coisista. a lançar fund amentos. harmoniza as várias ações humanas no sentido de um resultado benéfico. O historicismo. não acreditava. John Duns Scot. como seus dois grandes antecessores. Vico. hostil à doutrina cristã da imortalidade da alma (Aristóteles. quase se mpre mesquinhos. e da Idade Moderna como época da ruptura da filosofia com o cristianismo. mas o da História. das correspondências simbólicas. Além do fa to histórico de que todos os fundadores da filosofia moderna eram cristãos piedosos e movidos por intuitos apologéticos declarados. ao expressar-se em atos.

Logo. é também o seu centro de co nstrução. E respondia: pa ra o homem.quem Deus fez o mundo?. O homem. Teilhard de Chardin. não é o homem que tem de ser descri- . centro de perspectiva da criação cósmica. dirá o Pe. perguntava o catecismo da nossa infância.

como imagens dos dois atributos di vinos fundamentais — a Infinitude e a Absolutidade — as duas correntes contrárias da l iberdade e da necessidade. que não se rendem plasticamente à nossa vontade mas im põem à sua execução toda sorte de obstáculos. Daí a aparência de uma ruptura drástica onde há. Mas aí a escolástica já estava esgotada — não intel ectualmente. o “progresso” — sob cuja figura obsessi dominante desapareceriam. con ciliar dinamicamente. onipotente: logo. a variedade e a imprevisibilidade das ações individuais e que. é preciso contar com a interferên cia dos meios e instrumentos. contra o abstratismo racionalista. De outro lado. então. liberdade e necessidade. esta dimensão es tava completamente ausente do pensamento grego. A mud ança do cenário social da atividade filosófica muda o estilo de filoso- far e até de escrever sobre filosofia. Ele só pode ser descrito segundo uma ótica que leve em consider ação.108 OLAVO DE CARVALHO to à imagem e semelhança do cosmos. já não serão profissionais do ensino. dialeticamente. até Sto. O homem. de algum emprego público como Leibniz ou de rendas de família como Descartes e Pascal. saiba encaixar harmoniosamente essa variedade no quadro das determinações cósmica s e divinas que limitam a liberdade humana. sem dúvida alguma. por um lado. o homem está exteriormente sujeito às leis cósmicas e interiormente à lei moral. a escolástica inteira. a raiz divina da imortalidade da alma. e sim investigadores independentes. Pascal. Descartes. Sua liberdade reflete a Infinitude divina. e os grandes pensadores da época subseqüente. que o encare como essência fixa sumetid a à operação de leis de causa-e-efeito uniformes como aquelas a que estão sujeitos os co rpos do mundo visível. e logo em seguida a eclosão da conciência historicista. era uma retomada do que havia de melhor e mais genuíno e m Aristóteles. Para Aristóteles. já tendia manifestamente e com muita força 119. A forma da idéia não se encarna na matéria senão pela mediação da matéria. para descrever o homem. e este à imagem e semelhança de Deus. É preciso. no fundo — e coexistindo. Só a História pode dar con ta da complexidade da visão da vida humana como drama da salvação. por um lado. com Duns Scot. Ora. Como ninguém supera sem primei ro absorver. É preciso. a imagem de Deus e a do indivíduo humano c oncreto? Nada no mundo se faz sem instrumentos. bem como 119 É por isto que não posso concordar inteiramente com o insigne Friedrich Meinecke qua ndo enfatiza de maneira um tanto unilateral o peso da influência neoplatônica nas or igens do historicismo. cristã na base. em suma. a única rea . a um só tempo. não fazem senão prosseguir no sentido da cristianização crescente uma evolução a que a esco lástica. que o novo movimento em seguida tomasse o rumo da entronização de um novo de us cósmico — a “História” hipostasiada. fazer História. pode ser considerada como um giga ntesco esforço de absorção da cosmologia grega no contexto cristão. e sim socialmente: novas formas de atividade intelectual começavam a desenvolver-se fora da universidade (da Escola). f orjar seu destino. vivendo de algum ofício como Spinoza. na unidade de um desenrolar temporal real. e na escolástica ela só foi abrindo caminho muito lentamente. Entre o intuito e o resultado. A superação começa soment com Duns Scot e sua teoria da hæceitas — a forma eterna da individualidade humana. com Descartes e Montaigne. Como foi possíve l. advindos do fato de que esses meios também têm sua forma e estrutura próprias. o “processo”. com elementos antagônicos como os assinalados no parágr afo anterior —. afinal. em oposição ao mecanicismo. Mas Deus é Absoluto. é perfeit amente injusto ignorar que um giro em direção às individualidades concretas. contra o platonismo da nova física. mas o cosmos à imagem e semelhança do homem. É mais do que evidente que um ser assim constituído não pode ser eficazmen te descrito por uma antropologia coisista. é livre para tomar suas decisões. T omás. Spinoza. A descoberta ou redescoberta da dimensão histórica requeri a primeiro a superação da cosmologia naturalística grega. é claro. No homem confluem. Do neoplatonismo pode ter vindo a imagem do universo como totalidade vivente. Leibniz. a continuidade de uma evolução coerente: a descoberta da subjetividade . por ou tro. mas a valorização do drama humano como centro da realidade cósmica é.

IAL & Stella Caymmi. 1994. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. e sobretudo Pen samento e Atualidade de Aristóteles. Do aristotelismo a filosofia m oderna só abandonou algumas parcelas da Física.lidade efetivamente existente é a substância. . Como já afirmei em outros trabalhos ( v. é só uma grossei ra simplificação própria da cultura de almanaque que pode sustentar o mito de que o pe nsamento moderno é uma ruptura com o aristotelismo. verdadeiro sob certo aspecto apenas. Int rodução à Teoria dos Quatro Discursos. sua metafísica. editado em apostilas pelo IAL ). inteir amente desconhecida na Idade Média. sua teoria da linguagem e sobretudo sua Poética. o que quer dizer em suma a individuali dade concreta — este homem. ao mesmo tempo que revalorizava sua metodologia. Rio. esta árvore — cujo conceito genérico é somente uma realidade s ecundária e derivada. um verum secundum quid.

da paisagem natal: “Nada se pode fazer. analisado. damas e pajens. é bem diferente do intelectual medieval.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 109 sua própria matéria. formada de homens que abandonavam se u torrão natal para instalar-se nos grandes centros universitários onde se falava um a língua supranacional. pedaços de velh as estátuas. “o conjunto dos resultados impremeditados das ações humanas”. “Humanismo” significa o espírito museológico: o amor aos documentos vem junto com a mania das coleções — selos. e sobretudo em Quintiliano. O impulso de comparar. Para o letrado. mas a da conversação amena e elegante em língua nacional. pois um humanista da Renascença tem menos amor pelo ser humano. do que pelos textos. Vítor. com finalidad e teológica: obter um texto mais fidedigno da Bíblia. Vico e Leibniz desenvolveram-se em ve locidade prodigiosa. um resíduo de mundanismo. O nov . Inaugura-se o pendor de filosofar literariamente. Vive na corte.” O novo intelectual é. escorada no aplauso das hordas de estudantes. correspondem diferentes mestres: os medievais tinham encontrado os seus em Platão e Aristóteles. o amor à pátria era um atavismo condenável. e como tal é de sejado. moedas. mas pelas humanæ litteræ. italianos. Estes instrumentos representam uma conquista de valor inestimável. “Humanismo” não vem de amor pelo homem. um termo tremendamente eq uívoco. O impulso de colecionar surge de um misto de motivos estéticos e oculti stas: atribui-se aos fragmentos de estátuas um poder mágico. o princípio da corrupção. Virgílio. Horácio. A diferentes classes sociais. pelos documentos. sobretudo na Itália. A casta era internacional. saxões. sua utilização em rituais de bruxaria oferecia expectativas mais promissoras que a de olhos de sapos. pelos velhos diplomas empoeirados e pelas velhas línguas. Para isto. o que significa apenas qualquer texto que não seja as Sagradas Escrit uras. A consciência histórica. um contrato de arrendamento. patas de corvos. ela também estruturada e dotada de forma. an alisar e criticar documentos é um instinto filológico. aos homens do século XV. O amor às palav ras. desafiava o s reis e o Papa. o latim. para se realizar. um membro ou servidor da casta palaci ana. que se interessa por essas coisas. Sua atmosfera verbal já não é a seca terminologia técnica da dialética e scolástica. Qualquer coisa serve: uma carta. irla ndeses. necessitava criar uma ciência histórica. o s aficionados da bruxaria pagam grossas quantias por um dedo de Vênus. na frase célebre de Weber. estudado. aos olhos da nova classe. Este era na essência um universitário. Mas foi a discussão em torno deles — e sobretudo o impulso de tirar conseqüências filosóficas diretamente das conquistas técnicas. um movimento a que se costuma chamar humanismo. o humanista vai inspir ar-se em Ovídio. e onde conviviam em pé de igualdade franceses. Na verdade. fazendo com que o desenrolar da História acabe constituindo. É nesta mediação. um membro da orgulh osa casta acadêmica que. conservado.. “l tras humanas”. e qualquer discussão pode ser cor tada pela raiz mediante a fórmula: “ C’est assez que Quintilien l’ait dit. necessitava de instrumentos de i nvestigação.. já vinham-se desenvolvendo antes deles. Contemporaneamente a Shaftesbury. já não entre seus colegas de ofício. unhas e cabelos humanos. dará novo impulso às línguas nacio nais. sobretudo expressivas de sentimentos pessoais. da origem familiar. Está acima da crítica. uma lei prom ulgada pelo rei de um reino extinto — tudo é documento da fala humana. como bem vi u Aristóteles. concreto e v ivente. unidos pelo comum desprezo às s uas origens nacionais e de classe. Ele brota do novo amor pelas línguas. do mesm o modo que toda nostalgia do passado. empenhadas em imitar a beleza e persuasividade da literatura antiga. s oldados e cortesãs. escrevia Hugo de S. recheada de florei os bajulatórios. e acelerada nas épocas subseqüentes. que preferirá as palavras às idéias. ao contrário. O abandono da dialética em favor da retórica é uma mudança decisiva da mentalidade: os argumentos já não valem pela sua demonstração exaustiva. que se introduzem os desvios.”. mas entre príncipes e duques. pelo aluno que tem saudades da cabana o nde nasceu. uma autoridade que nem Aristótele s pudera alcançar na Idade Média. sem a mediação da crítica filosófica — que acabou por desviar o movimento historicista de sua de stinação originária e colocá-lo no rumo de uma nova idolatria. O codificador da retóric a antiga vai adquirir. mas pelo encanto persuasivo. por um coto velo de Mercúrio. as técnicas de investigação e do cumentação históricas. O novo modelo de homem letrado. totalmente esquecidos de suas diferenças de origem.

o intelectual abomina a universidade. aos pou- . Nascidas e formadas pela i niciativa independente de grupos de estudiosos. O motivo é claro. as universidades.

e ninguém achava isso anormal. 1588: Annales ecclesiatici. As ambições da casta aristocrática. projetando-o no sentido de uma luminosidade vertical. pela astúcia ou pela violência. assinala essa transformação. libertas das peias morais que lhes impunha o clero romano. torna-se assim o fundador da técnica da crítica textual. os reis. 1678: Glossarium ad scriptores mediæ et infimæ latinitat is. do cardeal Cesare Baronius. do monge beneditino Jean Mabi llon. Não podendo justificar-se moralmente. 1697: Ars critica. que. para ser apreciada. Expressam o despeito dos rejeitados pelos vencedores do dia. pela tinta mesma em que escrevem. publicando alguns anos depois uma edição anotada do Novo Testamento. seu próprio quadro de intelectuais. O ano de 1440 é um marco na história desses estudos. ora mandando ambas as autoridades às favas e promovendo arruaça s estudantis que faziam tremer os poderosos de ambos os partidos. A primeira catedral renascentista. o bra de Brunelleschi. Por toda parte. Nesse ano. tem de ser vista de fora e de longe. Os novos pensadores. em parte por indiferença ao curso da His tória. vão se multiplicar e alastrar até a autoglorificação prometéica. de Charles du Fresne. mas p ode ser belo: Maquiavel descreve o Estado como obra de arte — o templo da autoglorificação aristocrática erguido sobre o sangue do s inimigos. de Pierre Bayle. na luz irreal que os vit rais projetam. dotados de igual talento e poder. no decorrer da Idade Média. com a vitória do Papa: as universidades tornam-se órgãos da Igreja. ora aliando-se a um contra os out ros. que empinam o nar iz ante o ensino universitário — Maquiavel. É nessa atmosfera de naci onalismo. 1681: De re diplomatica. ora ao contrário. argumentando ser um doc umento forjado pelo menos quatro ou cinco séculos após a morte do imperador romano. retórica. esta. dos ex-amigos e até. Descartes. de Jean Leclerc. pelos usos ortográficos. legislando em ca usa própria dentro das fronteiras do seu reino — só demarcadas pela vizinhança de outros homens ambiciosos. A catedral gótica retira-se do mundo: a renascentista reina sobre ele. a de Santa Maria dei Fiori. na Renascença. Aquela. pelo gêni . nenhuma outra civilização jamais se preocupara muito com a datação de a ntigos documentos ou com as questões de autoria. sociedade gove rnada por uma elite de burocratas letrados para os quais um erro de gramática podi a custar a vida. um sentido de expansão e domínio sobre o reino deste mundo substitui-se ao de interiorização e asc ensão espiritual. a ambição de domínio encontrará um padrão ordenador e um novo critério de legitimação. sobre os fiéis recolhidos em oração. Montaigne — não são franco-atirador es: são funcionários da corte ou membros da classe aristocrática. Com exceção da antiga China. fora da univer sidade. pelo menos. entre os arcos que se elevam ao céu. O novo mundo de guer ra e conquista. No Oriente e no Ocidente. Desde o século XII. imperando sobre a paisagem do mundo. Enquanto a catedral gótica isolava o fiel do mundo exterior.110 OLAVO DE CARVALHO cos. A longa disput a encerra-se. o humanista Lorenzo V alla denunciou a falsidade da suposta Doação de Constantino. Vencidos. começam a formar. O mesmo Valla. de Leibniz. a da Brunelleschi situa-se no centro da paisagem e organiza. 1695: Dictionnaire his torique et critique. haviam-se tornado focos de poder. 120 Convém tomar nota do ineditismo do evento. mas elas conseguem conservar sua independência. se preciso. estetismo e colecionismo que surge o amor aos documentos escri tos. o espaço em torno. 120 Daí para diante. como um eixo. dos parentes. sabe impor seus gostos e valores. temidas e invej adas. em parte por uma mentalidade anti-individualista que não atribuía a um homem em . de maquiavelismo e traição na luta pelo poder. não é um mundo bom. os reis e os papas disputam a sua hegemonia. as conqu istas da técnica erudita se acumulam em rápida sucessão: 1559: começa a publicação da Históri da Igreja dos eruditos protestantes de Magdeburgo. Não há limites ao poder do indivíduo talentoso. de fixar a cada um sua data provável de composição — pelo tipo das letras. a classe aristocrática. substituindo a ética pela estética. escrito s produzidos por algum discípulo séculos após a morte de um filósofo circulavam sob a au toria deste. 1693: Codex juris gentium diplomaticum. Do amor aos documentos escritos surge o interesse — e do interesse a técnica — de separar os autênticos dos forjados. tem de ser vista de dentro.

.particular a descoberta de uma verdade e preferia esquecer os autores das menti ras. Assim era a Idade Média Ocidental — um mundo onde uma certa desorganização em tudo era considerada uma condição sine qua non da manutenção da liberdade: Queste cose hanno bisogno di um pò di confusione.

ele não se atrevesse jamais a escrever pesso almente um livro de História. como um emblema vivo do cetici smo. que parasitam o prestígio da mesma ciência histórica que os desmente. 2ª Os progressos da técnica erudita forneciam os instrumentos para a criação de uma ciênc ia histórica. a da liberdade crescente através dos tempos. a qual se pod e sem erro datar dos trabalhos de Leopold von Ranke ( de 1820 em diante). e sobretudo. tudo tendia a fomentar uma abordage m histórica da realidade. que. o que faz as vezes de História na mentalidade média dos intelectuais é um resíduo de mitos e lendas historicistas. na ausência de um saber histórico legítimo. W. a dos progressos retilíneos da consc iência. o de lançar a dúvida cétic a sobre toda a imagem do passado. de um lado. Não estranha. ou seja a da História como percurso do homem da cr iação até a queda e a redenção. Por outro lado. de haver interpretado erroneamente os textos bíblicos. A Históri a da Igreja dos eruditos de Magdeburgo (1559) é o primeiro tiro de canhão disparado pela crítica protestante. de 1820. elas darão como resultado longínquo. O result ado dessa convergência foi muito complexo. divulgam e alardeiam os resultados de suas pesquisas. o resultado mais notável dessas polêmicas foi lançar em todos cérebros a dúvida sobre a confiabilidade da narrativa bíblica e da visão cristã da História . ao mesmo tempo. Pierre Bayle. Que esta visão. que o príncipe dos eruditos. O historicis mo. tornavam patente a inconsistência da História então c onhecida e fomentavam a dúvida cética sobre todo o conhecimento do passado. pro testantes e católicos acusam-se mutuamente de haver falsificado a História da Igreja . não parecia haver outra saída senão pel o lado da concepção histórica. muito antes da História como ciênci a. formam exércitos d e críticos históricos. as que viriam a ser chamadas “ciências auxiliares da História”. Roma vinga-se com os Annales ecclesiatici do cardeal Bar onius (1588). Noções que a ciência histórica viria a derrubar como totalmente inconsistentes. atinge sua maturidade e se torna uma força influente no curso espiri tual do mundo antes que se forme propriamente a História como ciência. a visão dominante do curso da Históri a fosse aquela trazida na Bíblia. para compensar as fraquezas do mecanicismo racionalista. Se. Entre a época de Bossuet e a Revolução Francesa multiplicam-se em número e sobem na dose de violência os ataques à história cristã. . seu efei to imediato — que certamente viria também a contribuir para isso — foi principalmente o de desmoralizar a narrativa histórica como então se conhecia. Auxiliados pela argumentação erudita. formando-se através de uma sucessão impressionante de o bras de síntese que começam com Vico e prosseguem com Montesquieu e Voltaire. Ambas as igrejas percebem o valor estratégico das novas armas. Formam-se assim. implicitamente aceita como veraz desde a Antigüidade até o fim da Id ade Média. de Toustain e Tassin. aconteceu que. assim. o nascimento da ciência histórica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 111 1708: Paleographia græca. F. tendo passado a vida a compulsar criticamente documentos históricos e a apontar os erros dos historiadores. com Ranke. A situação delineia-se então pela convergência de duas linha s de força: 1ª Na esfera do pensamento filosófico. em nome da História. portanto. no século XIX. as armas forjad as nas oficinas dos eruditos passassem a ser usadas a título de “argumentos históricos” nas polêmicas religiosas e políticas do tempo. E como. tivesse então de ser pela primeira vez explicitada e defendida contra seu s adversários — que é o que se vê no Discours sur l’Histoire Universelle de Bossuet (1681) — mostra que a polêmica a havia feito descer do céu das verdades pressupostas para to rnar-se uma idéia entre outras e concorrer com elas em pé de igualdade. A antecedência dá ares de legitimidade ao usurpador: até hoje. E sta condição humilhante de uma História que dá mais força aos mitos na medida mesma em que se esforça para restaurar a verdade é uma das trágicas ironias do mundo moderno. um lugar e um prestígio notáveis na ideologia das classes letradas no momento em que. como por exemp lo a de um curso unitário do acontecer mundial. se notabilizasse também. mas. mas abalada também a confiança no racionalismo clássico. convocam legiões de eruditos. já tinham conquistado. Desacreditada a história providencialista de Bossuet. de Dom Bernard de Montfaucon. o historicismo como doutrin a filosófica ou como cosmovisão. e que. Hegel. a História propriamente dita começa a dar seus primeir os passos. De um lado. até o século XVI pelo menos. 1750: Nouveau traité de Dipl omatique. alcança sua máxima expressão na Filosofia da História de G.

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terminava por entrar no círc ulo vicioso da explicação marxista: após reduzir uma época histórica a seus aspectos 121 . De um lado. quer em sua versão cristã e escolástica. Isto acabou por transformar a ciência histórica mesma num equipamento da gigantesca máquina de gue rra ideológica montada pelos comunistas. e. do singular e irrepetível. não a armadura do conjunto. a reflexão só podia se perder nas névoas de uma ps eudometafísica fantasmagórica e terminar no culto de uma nova divindade. porém. De um la do. De outro. influenciado pelo positivismo e incapaz de apreender dos fenômenos espir ituais senão suas analogias e reflexos no plano social. a destituir o proletariado de seu papel de agente privilegiado da causalidade histórica (admitindo. anti-marxista que buscava most rar a influência das causas religiosas no acontecer histórico. os excessos mais escabrosos da generalização hegeliana. quer na sua versão científica e racionalista. que a síntese filosófica sobre o conjunto do acontecer histórico er a um empreendimento prematuro. nesta direção que as coisas pareciam ir. Mas as ciência s auxiliares. o comunista protest a que toda História é ideologia. para decidir quem co nta a verdadeira história. de fato. girasse a atenção para o lado do mutável. mãe do marxi smo e avó da Rússia soviética. a função estratégica da intelectualidade. opostas: ou se faz uma criteriologia para planejar as investigações históricas que vão dizer o que aconteceu. as concepções de Hegel e Marx exer ceram também seu fascínio e seu influxo sobre os historiadores de ofício. mas que. de outro. impelidas pelo progresso das ciências auxiliares que davam ao historiador os meio s de resgatar os acontecimentos singulares de que se compõe a História. o arcabouço metodológico de u ma ciência. a segunda. obrigando os teóricos marxistas a reconhecer a inter ferência importante de fatores não-econômicos na História. ao mesmo tempo. por exemplo . os comunistas respondem que o historiador burguês só enxe rga os fatos isolados. entre o comunis- mo e o capitalismo. Os partidários do capitalismo acusam os historiadores comunistas de selecionar ardilosamente os fatos para fazê-los ca ber num esquema simplista. o hegelianismo já havia se trans formado numa poderosa corrente de influência e numa força histórica agente. É característico o caso de Weber. Do ponto de vista do progresso da ciênci a. Foi nesta d ireção que se esforçou Hegel e. só que a do burguês é disfarçada de ciência. Repete-se. não enxergando os fatores espirituais da História e reduzin do tudo à economia. que. que passaram a privilegiar os aspectos econômicos da causalidade histórica ou a buscar para ela algum outro fundamento materialista para enfrentar o marxismo no seu próprio terreno. As duas linhas evoluíram simultaneamente. pessoalmente agnóstico. aqui e ali. a teoria do conheciment o histórico e a teoria do acontecer histórico. se dá a explicação teórica do conjunto. fruto de uma ciência organizada. do individ ual. os avanços da pesquisa histórica foram corrigindo. o debate teve um duplo efeito. de um lado. o burguês retruca que o comunista toma a parte pelo todo. Era. atenuou muito o simplismo dogmático do esquema marxista originário. cuja História se reduz a mera propaganda revolucionária. na ausência de conhecimentos históricos suficien tes. o marxista replica que os fatores espirituais são um véu ideológico que oculta a realidade do fator econômico. de suprimir fatos e personagens para recortar a História segundo o molde dos seus desejos. uma explicação filosófica do conjunto dos fatos históricos. nada podiam fazer sem a teoria da História capaz de unificá-la s segundo uma hierarquia racional de critérios. Aí entra porém em ação a ambigüidade mesma d a expressão “teoria da História”: ela significa. obrigando seus adversários a construir igua l aparato para defender-se. As duas direções são. F. com Hobsbawm. com Gramsci. no momento em que o sensato Ranke começou a trabalhar. contaminou de marxismo os estudos históric os. Hoje entendemos facilmente que R anke es tava na direção certa. A querela da História forma um dos quadros mais interessa ntes da guerra ideológica dos últimos dois séculos. com muitos contatos e intercâmbios. seu adversário insiste que ideológico é o com unista.112 OLAVO DE CARVALHO rejeitando as “leis universais imutáveis”. ou. e recebe em res osta a acusação de falsear os dados. para desgraça dos pósteros. dando-se por sabido o que aconteceu. de fato. por si. até mesmo a do Lumpenproletariat) 121. porém. a disputa entre católicos e protestantes. A primeira dessas tarefas incumbiu a Leopold von Ranke. Hegel. de outro. a Georg W.

E. que o principal his toriador marxista do pós-guerra britânico. P. a respeito E. The Making o f the English Working Class. Penguin Books. 1968 ( 1ª ed.Os marxistas tanto cederam aos argumentos de seus adversários.. P. Thompson. 1963 ). mas cultural e psicológico. . V. Thompson. Foi sem querer. chegou a admitir que o co nceito mesmo de “classe” — a idéia-chave da interpretação materialista-dialética da História ropriamente um conceito econômico. mas c om isto Thompson implodiu o marxismo.

graças sobretudo à antropologia e à Religião Comparada. o confronto entre ciência histórica e ideologia historicista teve conseqüências muito mais profundas e devastadoras. ao invés de assumir a responsabilidade. iman ente. l oucura e crime. Discurso auto contraditório e por vezes demencial. o sonho e o delírio. como por exemplo quando deseja preservar as c ulturas indígenas de todo contato “desaculturante” com os costumes Ocidentais. e que. acusa “o si stema”. pela celebração posi tivista da ciência como etapa superior — e. o homem vive num vácuo onde pode criar livremente o que bem entenda? Marx. provocando assim a ruptura dos elos de lealdade social e a demolição das personalidades. H. Lawrence. pendendo para o lado do marxismo ou para o lado da ciência rankeana. o guerreiro metafísico dos novos tempos. não apenas a História não fazia sentido algum. até que desapareceu da vista do homem nosso contem porâneo a simples possibilidade de que a vida humana possa ter algum sentido para além da História terrestre. Esta questão resume-se assim: a História tem um sentido predeterminado. a História. a que Nietzsche chamava o Super-Homem. A primeira foi que. Mas. Jung e Ludwig Klages deram uma forte expressão a essa s idéias. Radicalizado assim po r suas repercussões políticas formidáveis. final — da evolução da mente hu mana. Foi só no século XX que. Garl-G. O principal defensor da inexistência de um sentido na História 122 Infelizmente essa gigantesca abertura do horizonte humano acabou sendo neutraliz ada pela perversão ideológica. se celebraria após 1939 entre as democracias o cidentais e as ditaduras comunistas para enfrentar o Eixo. Posta a serviço da contestação esquerdista à civilização Ocide l. para poder criar seu destino como bem lhe aprouvesse. essas correntes lançaram no século XX um vigoroso ataque ao positivismo e ao marxi smo. que no Brasil contaminaram um de nossos mais talentosos pensadores: Vice nte Ferreira da Silva. A segunda foi que. Confrontada a essa resistência. deram-se as mãos para enfrentá-la e salvar o “sentido da História”. O homem verdadeiro . segundo Comte. mas em seguida n eutralizava esta frase ao assegurar que a História ia necessariamente na direção do so cialismo. foi Friedrich Nietzsche. com a s luzes que trouxeram sobre os valores de outras culturas e civilizações. marxismo e positivismo. as duas ideologias do progr esso. a idéia do progresso consistindo basicament e numa teleologia imanente à História. no domínio político-militar. é certo. do ponto de vista da evolução geral do pensamento. A identificação do sentido imanente da História com o sentido . ou. a compreensão antropológica das culturas antigas e indígenas tornou-se um clichê incu mbido de dar reforço a um novo e mais virulento discurso “progressista”. tentador e acusador em turnos. a ciência hi stórica se aventurou a enfocar o passado sem prejulgá-lo segundo a ótica que privilegi ava o presente 122. pela qual enfim. não via outras causas senão as econômicas. Para ele. desencadeia uma onda de violência. Aprendeu com o capeta. D. a ciência. pelo endosso à teoria qu e fazia toda a História evoluir na direção do socialismo. no segundo. dizia que “os homens fazem sua própria História”. Só as mentalidades torpes. covardes e mesquinhas n ecessitavam abrigar-se sob a mitologia de um “sentido da História”. Não é preciso dizer que essa aliança na esfera das idéias antecedeu e preparou a quela que. Fortalecidas pela descoberta freudiana do inconsciente . m as ao mesmo tempo deseja impor a populações conservadoras e religiosas do próprio Ocid ente mudanças drásticas e repentinas. o pensamento histórico acabava caindo igualmente em algum tipo de ideologia “progressista”. Nietzsche foi o pai de várias correntes que expressavam a revolta do homem contemporâneo contra a razão. Acabava fazendo a contragosto o q ue Marx fizera por gosto. o confronto entre o sentido imanente da His tória e a História sem nenhum sentido absorveu todo interesse intelectual do século XX pela questão do sentido da vida. o s angue.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 113 econômicos. aos poucos o debate em torno do sentido da vi da humana em geral foi estreitando seu horizonte até reduzir-se à questão do “sentido da História”. não queria sentido algum predeterminado. e valorizavam o instinto. sob a a legação — antropologicamente verdadeira — de que a adaptação a novos modos de vida destruiri a a coesão dessas comunidades e desmantelaria as personalidades de seus membros. ao contrário. mas era melhor mesmo que não fizesse. no primeiro caso.

a revelação dos crimes de Stálin. o único propósito de suas existências — ao ponto de que bastam alguns sinais de a História desviar-se do sentido esperado . um fato. para milhões e milhões de pessoas. A aposta num sentido imanente da História tornou-se.da vida tornou-se uma crença tão arraigada que entrou no rol dos pressupostos incons cientes: já não é uma teoria — é uma realidade. destruindo repentina mente a fé e a esperança do movimento comunista. suicídios e internações psiquiátricas se esp alhe pelo mundo. foi um cho- . depressões. para que uma onda de desespero. Na década de 50.

as duas seitas e m que se cindiu uma mesma religião. ninguém poderia apostar no comunismo se não tivesse apost ado. “a sociedade” não era uma substantia prima. A sociedade era. Estes não crêem no esquema marxista. mas não podia propriamente determiná-las. Sem chegar a ser irreal nem limitar-se apenas a um efeito passivo das ações individuais. com a participação d o indivíduo na construção da sociedade futura. Tanto quanto para os comunistas. não concebem que a vida possa ter algum sentido fora ou acima da História. Pois a ação é um atri buto da substância. na redução progressiva da miséria. ignorou a natureza social do homem. vivente e concreta. no sentido aristotélico. a imersão completa do homem na ima nência. e que o carac teriza com ênfase crescente desde o Renascimento e sobretudo após o século XVIII. Repete-se assim. a socialidade essencial do zoon politikon. pelo menos desde Aristóteles. era o homem. de que a perda da fé no comuni smo funcionou portanto nelas exatamente como aquilo que a Bíblia chama “escândalo” — o des mentido brutal das crenças mais queridas. No fundo. na ideologia político-social. Mas reconhecer a natureza essencialmente social do homem em geral é uma coisa. como um cavalo. A sociedade permanecia recuada como um pano de fundo. Tanto a reconheceram. e m suma. O segundo foi — em decorrência do p rimeiro — a doutrina hegeliana do Estado. antes. o que se chama um universal: o conjunto dos seres que vivem juntos sob u m mesmo sistema de regras e hábitos. voltando as costas à ete rnidade. Ela envolvia e contin ha os homens como uma rede envolve e contém os peixes. no outro braço da cruz. paixões e reações dos vários homens que a constituem. entidades q ue não existem em si mas somente nos entes que as corporificam. De outro lado. introduzida pelos teóricos da Revolução Francesa. É isto. O primeiro foi a doutrina da “vontade cole tiva”. Para todos os pensadores políticos desde a Antigüidade até o Renascimento. o que denomino divinização da História. mudaram decisivamente o curso das idéias. É claro que nenhum pensador sério. assim. ela era no entanto uma substantia secunda. § 22. a Históri a e somente a História é a doadora do Sentido à vida humana. que podia limitar as ações humanas ou muda r o curso de seus efeitos. Esses acontecimentos são interpretados geralmente como sinais de que o comunismo era para essas pessoas uma religião. mas. que já tínhamos observado na evolução do pensamento científico. o personagem concreto. o termo forte.114 OLAVO DE CARVALHO que traumático de que milhões de militantes jamais se refizeram. Ela era uma substância como os gêneros e as espécies. o sentido da vida identifica-se. tanto quanto os comunistas. no aperfeiçoam ento gradual das leis. é evidente que reduzir o sentido da vida ao sentido da História é encerrá-lo na dimensão temporal. um ent e real em si. na extensão a todos os homens dos benefícios da economia e da cultura modernas. A divinização do tempo. — (II) Beaux draps Mas a História não teria podido elevar-se à condição de deusa sem a concorrência de dois out ros fatores que. limitando seus movimentos m as não alterando sua natureza intrínseca: não é por cair na rede que um peixe se torna p eixe ou deixa de sê-lo. À divinização do espa deologia científica corresponde. Socialismo e Capitalismo são. Portanto. É e sta última afirmativa que diferencia do antigo o pensamento moderno. Mas esse é só o aspecto mais patente e super ficial da questão. na definição tradicional da sociedade. a sociedade era nada mais que um sistema de relações entre seres humanos. o sujeito ativo. Para uns e para outros. uma árvore ou um homem. precisamente. mas um composto das ações. Divergem apenas nos meios e no tipo de sociedade a que aspiram. e outra muito diferente é afirmar que a sociedade tem alguma realidade e consistência própria independentemente e acima dos homens concretos que a compõem. Para os antigos. na educação universal. a crença no Sentido da História é comum aos com unistas e aos democratas Ocidentais. a divinização do tempo. e a substância em sentido estrito — a individua- . Ora. para eles. entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. na revolução o u no advento da utopia proletária. A queda do Muro de Berlim foi outro. que chegaram a negar a condição humana aos homens afastados da vida social. no Sentido da História. uma forma de existência mais tênue e indireta que a da substância individual. mas crêem no progresso das instituições.

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militar ou ci vil. faziam eco. por efeito da vida social. mas “a sociedade”: de universal abstrato. ao concreto. de transformar-se. Essa definição parecia — e a intenção com que digo “parecia” se tornará clara logo iante — parecia assentar-se na idéia de que a natureza humana de cada um dos membros da sociedade não depende da sociedade em que vive. são mais do que suficientes para derrubar o mito de que os antig os acreditavam numa natureza humana fixa e imune à i fluência da sociedade. e da definição da soci alidade. Daí que. os antigos. mas o colet ivo abstrato concretizado e hipostasiado sob o nome de volonté générale. mas é um dado anterior e fixo. real. não havia nenhuma incom patibilidade essencial. é claro que não tinha uma natureza imutável . na época. como os morto s não argumentam. Malgr ado. enquanto o indivíduo foi sendo visto c ada vez mais como mera abstração. fazia parte necessariamente a capacidade que o homem tem d e alterar-se. Se o homem. mas é claro que ela se assenta numa interpretação falseada do antigo pensamento político.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 115 lidade corporal vivente — possuía a propriedade da ação em sentido muito mais direto e m ais real do que a substância derivada e segunda de um mero universal: se quem dá coi ces são os cavalos e não a cavalidade. O ra. agente. ao apelo de Aristóteles contra o universalismo abstr ato e em favor de uma ciência voltada para a realidade vivente. segundo o n Esta girita. Ora. Por des onhecerem. fazendo da “sociedade” o “verdade iro sujeito” da ação histórica. mutável segundo as condições sociais. entre as quais a socialidade. e Aristóteles mais que todos. então o sujeito ativo da v ida social já não era “o homem”. como vimos acima. Se o indivíduo não tinh uma natureza dada. para em seguida basear na contestação a essa crença a nova teoria da volonté générale. do apelo historicista ao particular. co m um atraso de dois mil anos. a idéia da sociedade com o um mero sistema de relações começou a parecer insustentável também. portanto. As descrições minuciosas d os caracteres. do mesmo modo quem age é o homem concreto. toda a inclinação coisista do pensamento grego. adquiria ou perdia caracteres por tornar-se rico ou pobre. não poderiam ao mesmo tempo negar o peso dos fatores sociais na moldagem dos caracteres humanos e acre ditar ingenuamente numa imutabilidade universal do homem. se chegou a uma personalização do abstrato. ao vivente. como vimos acima. Bertrand de Jouvenel assinala o oportunismo histórico que consagrou em dogma essa transformação 123: “. . o agente da História não fossem os personagens de carne e osso. Dito de outro modo: o homem era imutavelmente. o advento do pensamento historicista. insistiram na socialidade fundamental do homem e. Mas. Os únicos traços imutáveis que Aristóteles enxergava no homem eram aqueles contidos na sua definição mesma — a animalidade dotada de potência racional — e as propriedades imedi atamente derivadas dessa definição..a teoria da Soberania traz ao poder um reforço excessivo e perigoso. e por natureza. para os pensadores políticos do sécul o XVIII. a idéia de que os homens são a realidade e de que a Sociedade é uma convenção. Foi assim que. que Aristóteles nos f ornece na Retórica. como mero sinal algébrico vazio cujo valor será determ inado pelo resultado de uma equação social. [ Mas ] os perigos que essa teoria comporta não podem se manifestar plenamente enquanto subsi ste nos espíritos a hipótese fundamental que lhe deu nascimento. isto é. por sua vez. ao fazê-lo. a sociedade foi p romovida a substância concreta. A confusão clareia-se tão logo distinguimos entre soci alidade e sociedade — uma distinção que os teóricos da volonté générale desconheciam. Em decorrência. hábitos e preconceitos dos vários grupos sociais. ao lado da qual a Sociedade não tem senão o pap el de um meio.. Esta opinião sustenta a idéi a de que a pessoa é um valor absoluto. Muitas dessas conquistas. foi fácil atribuir-lhes a crença numa absurda imutabilidade absoluta da natureza humana. Essa conclusão pareceu muito lógica. mas era o resultado de um processo. acreditaram que o fato de a vida social alterar os hábitos ou a persona lidade dos indivíduos concretos provava uma mutabilidade essencial. senão só aparente e superficial. uma inconsistênc ia e tenuidade da natureza humana. não a sociedade. teve como uma de sua s primeiras e mais devastadoras conseqüências a de abalar a confiança geral na imutabi lidade e universalidade da natureza humana. ou mesmo simplesmente por envelhecer. entre ele e as novas conqui stas do historicismo.

123 Bertrand de Jouvenel. . 9193. Paris. Histoire Naturelle de sa Croissance. 1972. pp. Le Pouvoir. Ha chette.

pelo menos. nem os teóricos que. também nos acostumamos a tomar como uma verdade patente a mentirinha boba s egundo a qual Mas. e conced e à Nação um certific ado de existência filosófica. e superior à das partes. foi preciso primeiro que esta assumisse figura de Ser. até mesmo “a sociedade” deixará o palco. jus . era a ação de um jeito que. Aí os indivíduos são o esse cial.. Foi pre ciso pedir a participação quase total do povo na guerra. Mas o homem a tudo se habitua. o personagem Nação. ou Nação) o supremo grau de realidade na hierarquia ontológica. depois disseminou-se na Europa. Mas ela se cristaliza bruscamente. estava provavelmente latente. Em nome da Nação: e. um clímax em sentido estrito existe somente no domínio do cr escimento biológico. cujos tr aços foram fixados pela arte popular. “Aceitou-se na França. é que ele é a forma mais p erfeita e acabada a que tende toda a evolução anterior. só se torna patente quando o processo atinge o seu clímax. fundaram as ciências sociais na sup osição de uma autonomia substancial do Todo social em relação aos seus constituintes hum anos. “Foi esse um resultado. o filósofo de Jena se viu em fa ce de um pequeno obstáculo: o Estado. Sim. de Luís XIV ou mesmo de Gengis -Khan —. É que. Ora.116 OLAVO DE CARVALHO “Para que a metafísica afirmasse a realidade da Sociedade. O que ele chama ‘sociedade civil’ corresp nde à maneira pela qual a Sociedade fora sentida até a Revolução. quando o que está é apenas aplicando — muit o mal — um preceito aristotélico.” “a Sociedade” é um todo. muito po sterior ao da humanidade. a inclinação natural dos s entimentos fez com que a Nação assumisse o caráter e o aspecto de uma pessoa. onde após a maturidade do ser vêm o envelhecimento e a morte. sob o nome de Nação. ao novo conceito da Sociedad e. Quando a Assembléia Legislativa jogou a França numa aventura militar que a monarquia não teria podido arriscar. passa a ser tomado como ex pressão de uma lei eterna e auto-evidente: assim como nos afeiçoamos à crença de que o E stado tem o direito de mandar todo e qualquer cidadão para o campo de batalha — idéia que teria parecido monstruosa aos olhos de Júlio César. para ceder a preem inência a um personagem ainda mais abstrato: o sujeito da História será. e de que as personalidades individuais nada mais são que um epifenômeno da estrutura social. uma vez tendo decidido conceder ao Estado (= sociedade política. Mas em nome de quê? De um rei destituído? Não. logo em seguida. Se o Estado é a última coisa a aparecer. a História me sma. uma substância real. “Não é o trono que se derruba. detentor natural do Poder. o último na ordem do aparecer é o primeiro na ordem do ser. uma vez adquirido. se deram conta do ridículo que havia em tomar como um princípio científico autoevidente o pretexto publicitário a que uma Assembléia semienlouquecida recorrera no intuito de justificar às pressas a aberração do recrutamento militar universal. era um fenôme no mais ou menos r ecente na História. a forma final a que o ser tende em sua evolução. Com Hegel. permanecia referido à existência concreta de seres singulares. “a História” ainda era. “É em plena floração do sentimento nacional germânico que Hegel formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo. talvez o ma is importante resultado. após o q ual começa o declínio. porque a enteléquia. Seu nascimento fora. ao contrário. “Esta concepção de um Todo que vive de uma vida próp ria. e o hábito. embora coletivo e abstrato. no sentido em que ele o definia.. Hegel traduz para Wesen i st was gewesen ist: “a essência é aquilo em que a coisa enfim se torna”. em todo caso. mas sim é o Todo. a crença de que existe um personagem Nação. O que ele chama ‘Estado’ corresponde. coisa sem precedentes. mais real do que os indivíduos que a compõem. percebeu-s e que o Poder não dispunha de meios que lhe permitissem fazer face à Europa. e todo mundo ac ha que ele está falando uma grande novidade. Nem Hegel. Para falar como Aristóteles. até aí. a História de alguma coisa. Como seria possível que o mais real dos seres fosse o últi mo a aparecer? Hegel escapa do problema mediante o recurso à teoria aristotélica da enteléquia. que sobe a o trono. da Revolução Francesa. como o patriotismo tomasse desde havia dois mil anos a forma do apego a uma pessoa. disfarçada numa nova terminologia que a faz parecer muito original e est ritamente hegeliana.

Hegel. O próprio Cristo. um processo de duração indefinida. respondeu que era um mistério só conhecido de Deu s Pai. Essa média inexiste n a História. para aplicar à História o conceito de enteléquia. pergun tado sobre a data do fim do mundo. em princípio. que é. teve .tamente porque o ser biológico tem uma duração média predeterminada.

mas só um truque propos ital 126. inexistindo um “antes” e um “depois”. esse sistema e essa contest ação. e tascou na promissória a a ssinatura de Deus Pai. nesse esquema. confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer. E. avançado em anos. § 16. que pelo menos o lucidíssimo Eric Voegel in assinalou o caráter de “magia negra” dos escritos de Hegel. num estudo reproduzido no vol. mas apena s o de uma fase da sua existência. 125 Propedêutica Filosófica. como Gurdjieff: Vous voilà dans de beaux draps! Hegel não era no entanto nenhum idiota para crer sinceramente que fosse de fato o último filósofo e que a História terminaria no último volume do seu sistema. Com requintada habilidade sofística. nem coisa nenhuma: a única realidade é o acontecer que acontece ao acontecer. de fato. Feito isto . não pode ser um erro involuntário. é processo. O nome des se ente é História. é o acontecer. nada mais disse nem lhe foi perguntado. — É verdade. inseparavelmente. alguma forma m ais grosseira. tinha passagem comprada para o reino das som bras. em favor do cristianismo. et tenebræ non compr .1. realizando assim literal mente a sentença que para os antigos era matéria apenas de piada: pereat mundus. falsificando o aval de Jesus Cristo. a Histór ia que é a História da História. fia t philosophia. seja realmente um nada pelo simples fato de ainda não termos preenchido seu conceito d e um conteúdo em nossas cabeças é com efeito o fundamento absoluto do sistema de Hegel e a objeção inicial de que ele parte para montar sua contestação a Schelling. pior para os fatos”. Mas História é devir. corpóreo e presente que atestava a existência do processo e a consumação final dos séculos: o Estado moderno. a Igreja se tornou desnecessária e o Estado vem a ser a suprema autori dade religiosa 128. Para preservar a int egridade lógica do seu sistema. o autor da Filos ofia da História argumenta. Já não há mais ser. em si mesmo. Eis. ninguém teria a desfaçatez de lhe pergunta r o que viria após o fim da História. num homem da sua habilidade lógica v erdadeiramente virtuosística. onde. portanto. porque iniciados gurdjieffianos e filósofos acadêmicos ( entre os quais os admiradores de Hegel ) sentem demasiado desprezo mútuo para poderem admi tir a hipótese de nivelar nos pratos de uma balança seus respectivos gurus. equivale ao nada 125 — conferindo subrepticiamente valida de ontológica absoluta a esse juízo que só tem sentido gnoseológico. por trás de todo o floreado dialético. nem homem. que o único erdadeiro ente é o não-ente. mesmo porque a História já estava para aca bar e o seu filósofo. no entanto. verboso e est ratosférico. recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas inte ressadas em promover a idéia de uma Religião de Estado para se substituir à Igreja cri stã (católica ou reformada) 127. nem universo. filhinhos: Schelling era muito grande. 12 de suas Obras Completas editadas pela Universidade de Louisiana. o que. Isso não faz de Hegel comparação não será feita.a. Ela mostr a o quanto valem. caso tudo isso parecesse muito vago.A. onde ele proclama que o conceito de ser. Mas onde há safadeza intelectual há também. mas sublinhando que . e não ente. como o Estado moderno incorpora e realiza em suas leis a essência perfeita do cr istianismo. toda a metafísica hegeliana vem abaixo. e eu ten ho mais o que fazer. Na hora de morrer. Uma certa desonestidade apa124 rece já nas bases mesmas de sua metafísica. o resultado é que o acontec er é promovido à condição de sujeito dele mesmo. desfeito esse truqu e. decretou o fim da História. Hegel apontava para o resultado final. Como.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 117 então de praticar uma das maiores trapaças filosóficas de que se tem notícia: marcou par a sua própria época a data do vencimento da História humana. foi apenas um desses casos depr imentes em que um fundo de desonestidade intelectual subsiste num homem dotado d e autêntico gênio filosófico 124. a projeção am pliada de fenômenos imanentes à psique humana. mais material de desonestidade: pesquisas recentes demonstraram q ue Hegel. o Estado já não era o nome de um ente. isto é. Hegel poderia ter dito port anto a seus discípulos. enquanto indeterminado. a conclusão era que a suprema realidade reside pr ecisamente naquele ente cujo destino final é transfigurar-se em Estado. que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta. mostrando ser apenas. Em verdade vos digo.I. no fim. Aquele que disse: “Se os fatos desmentem minha teoria. A idéia de que o ser. E como esse acontecer não tem um sujeito que possua alguma consistência ontológica por si e fora dele. 126 Não é preciso dizer que. I.

A metafísica deste e a cosmologia daquele dariam um belo capítulo de terat ologia intelectual comparada. 128 Nes te como em muitos outros pontos de sua filosofia. ele faz a apologia da Reforma protestante como a culminação do processo cristão de libertação da consciência individual. Hegel Secret. o trabalho notável de Jacques D’Hondt. Hegel é estonteantemente ambíguo.U. De outro lado.F. ) 127 V. reduz a religião ao conce ito de “moralidade” acreditando que quanto pudesse haver de metafísica na religião já fora absorvido e superado completamente pela filosofia acadêmiComo aliás se dá também com Gurdjieff. cujas semelhanças com Hegel vão muito além da mera co incidência. a propósito. mil vezes mais emocionante do que meus pobres Frit jof Capra & Antonio Gramsci. 1968. Por um lado. Paris. Mas essa .ehenderunt eum. Re cherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Hegel.. P. ( Explico isto com mais detalhe em minha História Essencial da Fil osofia..

118 OLAVO DE CARVALHO um intelectual de aluguel. o Estado neoliberal produz novos códigos repre ssivos que. os beijos roubados. é dos três o mais eficiente no com bate à religião. § 268 ). de fato. o machismo. ademais. sem nada impor. até mesmo os preceitos mais óbvios do ca ( faz-me rir! ) e. a m ais requintada monstruosidade moral que a humanidade já conheceu. banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo 129. legalizando e protegendo todas as exigên cias tirânicas e autolátricas de cada ego humano. só se tornam governáveis mediante o nivelamento por baixo. mas também a sua própria. Nietzsch e. fuzilando religiosos. ele acaba se colocando. pois a opinião que ele aí expressa não é só a de quem lhe paga. com efeito. Essa causa é geralmente associada ao comunismo. dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana. pela violência física e psicológica. esperto como ele só. produz milhões de pequenos Stálins e H itlers. de outro lado é fato que. prudenteme nte silencia. Sumopontífice do E stado moderno é Hegel: eles são antes os bobos-da-corte. meio às tontas. De outro lado. acaba por deixar as consciências individuais à mercê do Estado ( Filosofia do Direito. 1841 ). Mas ela foi incorpora da pelas três formas do Estado moderno: comunista. concordando com elas por dentro.” Mas não devem nos impressionar tais arreganhos: esses sub filósofos seriam impotentes sem as armas que receberam do mestre. fisc . e Ludwig Feu erbach ( A Essência do Cristianismo. compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação dese nfreada dos desejos poderia causar. 129 É claro que a chamada “esquerda hegeliana” foi muito mais longe. fazendo do Estado o guardião da moralidade. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que. direito natural: exercendo livremente seus “direitos humanos” sob a proteção do Estado d emocrático. logo percebeu o truque: o Estado hegeliano era o “Novo Ídolo” qu e se oferecia como sucedâneo aos cansados combatentes que haviam derrotado o “antigo Deus”. como se vê pelo fato de que as massas. nomeando cardeais biônicos para ludibriar os poucos fiéis restantes. as piadas ). fechando templos. Paira ndo acima de todos. que toda nova reivindicação resulta em nov as leis. nazifascista e liberal. a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual. É claro. que professa nominalmente a liberdade religiosa. que cada nova lei resulta em nova extensão da burocracia governante. que pune um olhar d e desejo e dá proteção policial ao assassinato de bebês nos ventres das mães é. ao fazer do Estado moderno a condição necessária e suf iciente dessa liberdade omitindo-se de defendê-la contra o Estado mesmo . excitados até à exasperação pelo estímulo incessante ao espírito reivindic atório. ademais. É claro. Mas o Estado liberal. ju nto com a religião. as cantadas de rua. as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano log o terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo. Mas até que ponto o prêmio financeiro não ajudou a cegar o filóso fo para inconsistências que de outro modo ele teria percebido? Pois se de um lado não há como duvidar da sinceridade com que ele defende a liberdade da consciência indi vidual. facilmente cedem ao apelo das “novas éticas” disseminadas pela indústria de espetáculos nas modernas democracias. mas com o apoio e até po r exigência dos eleitores no pleno gozo de seu direito de exigir e legislar. que. Uma sociedade. que termina pela in stauração da moral invertida. de maneira ai nda mais ostensiva. proibindo cultos. imp edindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória e universal. restaurar o culto de César. ele apenas regula sabiamente os conflitos de interesses. Na Vida de Jesus de David F. e abandonam. instituicionalizando nas escolas o ensino do ateísmo. Strauss ( 1835 ) a divinização do espaço-tempo é explícita. que declaram em voz alta as inconveniências que o alto sacerdote. que o Estado neoliberal não faz isso por meios ditatoriais. tendo conservado sua fé religios a sob a opressão nazifascista e comunista. o vocabulário corrente. A segunda. dá a fórmula que se tornaria quase que um dogma do século XX: “A política deve tornar-se a nova religião. pelo culto obrigatório da Nação e do Estado. elevando o Estado à categoria de “Providênc ia do homem”. As três p rocuraram com igual afinco substituir-se à Igreja na condução espiritual dos povos: a primeira.

reinando sobre as almas e as consciências com o novo Decálogo dos direit os humanos e do politicamente correto. e que. moral e religiosa. no instante em que regula a vida interior dos indivíduos. instaurando-se como suprema autoridade espiritual. sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática. movido pela dialética infernal do reiv indicacionismo. fisca lizar e punir até mesmo olhares. enfim.al e judiciária. Beaux draps que constituem a essência da he rança hegeliana. eis que o Estado neoliberal. passo a passo. risos e pensamentos. E. cumpre à risca o programa hegeliano. . por regulamentar. a caba por se imiscuir em todos os setores da vida humana. o Estado. assim.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 119 .

Vimos. portanto. no todo ou em parte.120 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO VIII. Mas. Ali não se tratava de provar. mas. por trás das belas palavras. era frouxa. 1945 ( várias reedições ). casados e reduzidos à unidade de uma comum repulsa à inteligência teorética. o epicurismo não ocupava sozinho todo o horizonte mental de Motta Pessanh a. era bastante lógico. nos mostrava a perspectiva de um horro r sem fim (§§ 14 e 15). a esta altura. não era estético o padrão que unificava o conjunto. Coerência estética: a onde as verdades afirmadas se desmentem umas às outras e são desmentidas pelos fatos . como verificamos. recobrindo-a de um manto de subterfúgios engenhosos. perdido o fio da meada? Vamos revisar o itinerário per corrido. Sua clave não era a da veracidade. e que portanto a proposta epicúrea tinha esta característica peculiar: a de recrutar seus mais entusiasmados adeptos precisament e entre os que menos a compreendiam. e conduzir. Esses opostos. Qual ação? O objetivo não ficava absolutamente c laro. a tarefa do pregador epicúreo não consistia em expor a doutrina. mas a da eficácia persuasiva. Logo. uma vez que compreendê-la seria rejeitá-la. não sendo do tipo lógico-científico. Só nos res tava. The Yogi and the Commisar and Other Essays. que esse fenômeno. sem perguntar a onde. já que o objetivo final do epicurismo não podia ser declarado em voz alta sem provocar espanto e horror. por esquisito que parecesse. portanto. aquele tipo de solidez q ue se exige dos sistemas filosóficos. Com evidente satisfação. qu ando em verdade os conduzia ao niilismo. não resistia a um exame ma is atento que. mas isto não parecia incomodar a platéia no mais mínimo que fosse. Jonathan Ca pe. isto é. ocultismo e revolução. em seguida (§ 15). personificando-as nos tipos antagônicos: o iogue e o comissário — aquele que busca a verdade num outro mundo e aquele que se empenha em mudar este mundo à imagem da s ua própria verdade 130. como vimos. a confirmação mútua das sensações que se coadunam produzindo um sentimento de harmonia. já que o que pretendia era produzir uma nova. só podia ser estética ou prática. pode no entanto haver alguma beleza ao menos aparente. A coerência estética. ao desespero e à morte. No pódio do MASP. com toda a sua 130 Arthur Koestler. ela deixava-se persuadir. nem aquela que se espera das hipóteses ci entíficas. chegamos e nfim à conciliação dos aparentemente inconciliáveis: evasionismo e ativismo. a hipótese do objetivo prático: o discurso de Pessanha não tinha satisfações a pres tar à realidade existente. Mas um pensamento totalmente incoerente não poderia ter a persuasividade quase hipnótica q ue tinha o de Motta Pessanha. aos ataques da crítica racional. que. que justamente só possa ser atendido através da falsidade e da inc oerência. ma s de sugestionar para impelir a uma ação. Estávamos tratando de recompor a coerência interna do universo mental de Jo sé Américo Motta Pessanha. London. Tinha. e que lhes permite sair incólumes. Só assim e le poderia persuadir os discípulos de que os levava pelo caminho da felicidade. A REVOLUÇÃO GNÓSTICA § 23. Coerência prática: entr e as sentenças que se desmentem umas às outras pode haver no entanto a unidade de um interesse prático. Ele fundia-se. em ocultá-la. com o marxismo. de haver ali alguma coerência. que consiste em resistirem ao confronto com os fatos observados. enquanto filosofias da praxis que só tocam n o mundo real como num pretexto e meio para chegar ao mundo inventado. Nova Era e Revolução Cultural. Revisão do itinerário percorrido Terá o leitor. . Ali não se encontrava. ao contrário. ali. segundo veri ficamos. Após demonstrar (§§ 16 e 17) a perfeita compati bilidade entre marxismo e epicurismo. sem perguntar a quê. erguia-se diante de nós. Passara desde muito a época em que Arthur Koestl er podia dividir o bolo ideológico do mundo em duas metades opostas e inconciliáveis . constituiam o recheio dos dois lóbulos cere brais de José Américo Motta Pessanha. Em decorrência.

a criatura sintética e bifronte. para tornar-se. personificou-se em César. como uma reação global da mentalidade religiosa antiga con tra o Cristianismo emergente. Detentor das chaves de dois reinos. § 24. ao mesmo tempo e inseparavelmente. Os parágrafos de 19 a 22 mostraram-nos que a entroni zação de novos deuses permitiu canalizar para o culto da Natureza e da História as asp irações espirituais dos homens. e entre os dois cultos. entre aplausos gerais. ele está bem próximo de poder entender-se com o comissário. um almálgama de seit as religiosas diferentes e até conflitantes mas unidas por um duplo sentimento com um: o ódio ao Cristianismo. Para nós como para os pigmeus da Nova Guiné. mas o cosmos. o sinal de uma ru ptura trágica entre a Existência e o Sentido. desde que no fundo eles celebram o mesmo esquecimento do eterno. esse personagem não é novo na História. que sonho arrebata e fascina a humanidade de hoje mais do que a aspiração a uma sociedade que reuna os ideais do socialismo e do capitalismo. Da primeira vez. o dos deuse s do espaço e o dos deuses do tempo. ficará fácil compreender o gno ticismo. o cadáver da religião imperial a em pestear com os vapores da sua decomposição os seis primeiros séculos do Cristianismo. Nessa síntese resid ia o segredo do misterioso atrativo que Pessanha exercia sobre uma platéia fatigad a do real e incapaz de transformá-lo. a ressurreição de César. os deuses do espaço e do tempo não são objeto de culto p rimaveril numa infância do mundo. o deus de Motta Pessanha. na origem. Afi nal. Para explicarmos o sentido. a personificação do futuro. uma seita religiosa. o comissário é materialista. ele se torna o sacerdote de um novo culto. Da segunda. não podendo ser espiritual. Se lembrarmos que es ta tradição tinha fundas raízes no passado egípcio-babilônico. tomou o nome de gnosticismo. intellectuelles. dando a cada ser humano. a mesma imersão definitiva do espírito humano no círculo do samsara. e uando passou não deixou atrás de si um jardim de delícias. o io gue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações do nosso tempo em direção à utopia. a profecia de Motta Pessanha anuncia. porém. les puissances temporelles. eles permanecem separados pelo abismo de uma funda incompatibilidade metafísica. EpicuroMarx . les puiss ances politiques. bloqueando-lhes o acesso a concepções espirituais em sen tido estrito. e sim um rastro de insânia e crueldade. O véu do templo “Tout l’appareil des puissances. era necessário forrá-lo com algum tipo de algodão que amortecesse a queda. sendo impossível saltar esse abismo. levando os indivíduos a acreditar que subi am a uma mais elevada visão das coisas quando na verdade sentiam apenas a natural zonzeira de um corpo que cai. já passou duas vezes pela História ocidental. O deus histórico-cósmico. é cósmico. mas na luz indecisa que prenuncia uma longa noite. Chegada. o deus-imp erador. Ele já passou por este mundo. Isto não resolve a contradição. o sentimento da participação “ética” numa epopéia revolucionária e os prazeres da evasão consumista? Mais que um líder ou um guru. ne pèse nt pas une once devant un mouvement de la conscience propre. mentales même. que dá início a uma longa e fatal decompos ição do espírito e termina pela dispersão da tribo em grupos errantes de homens aterrori zados e indefesos.” CHARLES P ÉGUY O gnosticismo foi. o iogue-comissário transcende assim a sua insignificância pessoal e intelectual. mais amplamente. s obre o túmulo de Cristo. a nostalgia da tradição greco-romana. não existe incompatibilidade prática senão momentânea e aparente. que. ou melhor. la raison d’État. mas o princípio de uma decadência. Mas aí surgia um obstáculo: o iogue é espiritualis ta. A síntese de culto do cosmos e culto da História não surge — ai de nós! — na hora antes da aurora. mas amortece-a ao ponto de torná-la quase insensível: quando o iogue já não busca o infinito. a consumação do prazo histórico.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 121 maciça improbabilidade. iogue-comissário. a pregar-nos o ativismo da evasão e a evasão pelo ativismo (§ 18). Mas — ai de nós! — . Por mais que os aproxime a comum rejeição do mundo real . e quando o comissário erige a História numa realid ade ontológica superior aos homens concretos. a . les autorités de tout ordre. Vimos então que.

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é um homem como os outros. O abismo entre Cristianismo e religião antiga é mais profundo. um membro da polis. como viria a ser mais tarde e como é até hoje em sociedades de vários tipos: é que o pensamento individual simplesmente não existia. Uma vez assinalada essa diferença. da verdade universal. O indivíduo que chega à verdade tem. O portador da verdade esotérica está. com uma clareza ofuscante. po r si mesma. a crença reta e a integr ação obediente do indivíduo na ordem social eram uma só e mesma coisa. na medida em que a sociedade só pode ter acesso a verdades esquemáti cas e simbólicas. submisso ao culto e às leis. A concepção de uma ver dade objetiva. porque há uma different ia specifica do Cristianismo que salta aos olhos logo a um primeiro exame e dá. como as divergências que opõem. não havia um espaço onde a consciência do indivíduo pudesse se desenvolver para fora da crença coletiva. sua superioridade mesmo em relação à crença materializada n a ordem social. Sóc rates é. como a fonte e inspiração comum de uma multidão inesgotável de moviment os. em face do culto exotérico das potências cósmicas. Todas as grande s religiões anteriores ao Cristianismo têm um caráter em comum. pela intelecção filo sófica. da forma dos fenômenos respectivos. Se os deuses da comunidade hab itavam nos templos e nas praças. É o mesmo que dizer que os deuses gregos não eram senão a corporificação de forças cósmicas. do qual aqueles deuses que aparecem no culto público não são senão ecos e imag ens distantes. Noutros termos. absoluto e supraquantitativo. independente de qualquer ordem social determinada. uma cosmovisão religiosa se cristaliza numa estrutura social determinada . uma autoridade superior à da sociedade. o islamismo ao judaismo. tomada ela mesma como expressão corporificada da verdade dessa cosmovisão. Mas não. por exemplo. temos de perguntar o que é que o Cristianismo trazia de tão novo e estranho. pela antigüidade. por um lado. A que stão parece imensa e complexa. ao longo de dois milênios. se voltaram contra o Crist ianismo desde muitos lados. O sábio deve. não surge na história antes da filosofia grega. por outro lado. obediência às leis e costumes. do q . numa posição ambígua: de um lado. a organização sócio-política era ela mesma a verdade encarnada — não havendo qualqu er possibilidade de uma verdade exterior à crença coletiva. e a cessível à consciência individual livre. na sucessão dos tempos. escolas e doutrinas que. sob uma variedade impressiona nte de manifestações. pois fala em nome do universal. é o porta-voz de um Deus ve rdadeiro. Aparece aí. uma espécie de autoridade espirit ual simbólica. Não que o pensament o individual fosse reprimi- do. passados vinte séculos. dogma a dogma. uma razão suficiente para justificar a profundidade do abismo que sepa ra o Cristianismo do mundo antigo e explicar a violência contínua que este opôs à nova r evelação e. ao passo que o Deus de Platão. não faria senão opor. ao proclamá-la . a tragédia da autoridade espir itual legítima colocada em face de um poder temporal a que um velho culto já amputad o de toda raiz celeste conferiu. religião a religião. A diferença a que me refiro. A diferença é tão profunda que o uso de um mes mo termo — “religião” — para designar fenômenos tão heterogêneos deveria ser afastado para ev r confusão. a visão direta . mais ou menos no mesmo plano. ass im. ao passo que o indivíduo alcança. ou as várias confissões cristãs entre si. ausente no Cristianism o: Nelas. o gnosticismo surge. deve-a. se residisse no conteúdo do utrinal do Cristianismo. A diferença é.122 OLAVO DE CARVALHO amplitude e a profundidade dessa reação. o primeiro homem que afirma explicitamente a sobera nia da consciência individual. pela dialética socrática. enfim. portanto. Não se tra ta de duas religiões diferentes. ao passo que a sociedade fala apenas em nome do geral. mas sua resposta é bem simples. não simbólica. derivadas e segundas. o Sumo Bem. de tão radicalm ente hostil e incompatível com a mentalidade antiga em seu todo — e não só com a sua ver são greco-romana em especial — a ponto de desencadear tamanho “choque de retorno”. universal. for ma quantitativa e meramente simbólica do universal. De outro. diante da sociedade. continua a lhe opor. de duas espécies do mesmo gênero em conflito entre si : trata-se de dois gêneros incomensuráveis. o deus de Platão não reside senão na pura intelecção metafís ca do filósofo. Aí. caso não deseje s er excluído da comunidade humana. como diversas espécies de um mesmo gênero. cujas repercussões se propagam até hoje. com ofus cante claridade. era o Absoluto mesmo. ao Deus verdadeiro. A Unidade de um Absoluto supra-cósmico aparece aí como uma verdade esotérica. inacessível ao culto público e só conhecido.

.ual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes. cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu.

Ao mesmo tempo. não viera ao mundo. é apodíctica. quase sempre. sem a intermediação da polis ou do Estado. válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num m omento e lugar da História. a alma do indivíduo humano. portador de uma me nsagem espiritual. mas ap enas para dar. resumia-se. a consciência reflexiva. o Apóst . no Novo Testamento. que pesam sobre o destino humano e en tre cujas exigências a comunidade deve abrir seu caminho. po is não cabe a esta julgar “aqueles que vão julgar o mundo” 131. em terceiro lugar. a profundidade interior da consciência individual. testemunho de uma verdade universal tran scendente a todo culto local. não lh es propõe um novo sistema de ritos e símbolos. é fácil dar razão a Sócrates . de outro. provavelmente herdeir a de tradições orientais onde a consciência metafísica se conservara intacta. filosófica. mas a experiência direta do Verbo divin o. Repetidamente os filósofos procuraram resgatar a s ua lem131 Tendo exortado os fiéis a obedecer as autoridades mundanas ( Rom. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica. seu repres ntante e porta-voz é o indivíduo como tal. em última instância. 3º. no mesmo instante em que consagrava. acabara por se refugiar na consciência filosófica e nos cultos de mistérios: tornara-se esotérica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 123 Para nós. é universal. sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público. num aberto desafio a todos os cultos estatais. no diálogo entre a comunidade humana e o cosmos . hoje. em suma. quer às representações sensíveis das divindades s: de um lado. ora propícias. mas e nquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade. Na sua mensagem destacam-se três aspectos essenciais : lº. é precisamente um dos sentidos do si mbolismo da cruz. que o culto exterior. enquanto indivíduo humano. restaurando a concepção de um deus supracósmico. inacessível quer à imaginação comunitária. é precisam ente o que o Cristianismo oferecerá a todos os homens: o acesso direto ao conhecim ento do Verbo divino. em segundo lugar. 2º. tendo sabido que cristãos recém-batizados disputavam algo entre si no tri bunal romano. oferece-a como verdade universal. ao passo que o Cristianismo a revelava publica mente. omiti da pelo culto público. mesmo porque nossa adesão à verdade interior que ele representava é. válida para todos os seres racionais e não somente para uma comunidad e em particular. É significa tiva. o cristi anismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imagin ação greco-romana. transcendente a todas as representações sensíveis. sem inter mediação da autoridade civil. verbal e pro forma. livres da pressão da sociedade local ateniense. para fundar uma nova religião. O Cristianismo. A dimensão vertical da alma e de Deus. condensação de cultos gregos. a infinitude. as forças cósmicas. de outro. dessacralizava radicalmente o Estado. o pensamento comum dos homens reunidos na ágora ou no fôro. romanos e b aros. unilateralmente. como portadora do Verbo divino. A religião do Império. ora adversas. reconhecendo. Ora. O cristianismo rompe ess e mundo bidimensional.: 13:1-7 ). que a verdade interior devia permanecer in terior. conservava seus direitos enquanto não chegasse o momento de rasgar o véu d os símbolos para exibir urbi et orbi o supremo segredo. Não que essa dimensão fosse totalmente desconhecida do mundo antigo. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verda de interior permanecesse secreta. Pau- lo Apóstolo. Mas o próprio Sócrates deu alguma razão a seus car rascos. ou a comunidade historica mente existente. fundase na evidência e não em mera opinião. uma certeza superior a toda prova dialética. pa ra além do tempo e do cosmos. a eternidade. afinal. por mais deteriorado e vazio de qualquer conteúdo es piritual. os adverte a não se submeterem ao julgamento da autoridade civil. e não a autoridade socialmente constituída. implicitamente. aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos. convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo. De um lado. O crist ianismo. Mas. a passagem em que S. não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade. o recinto secret o da intimidade do homem consigo mesmo. do homem independente. inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura . em primeiro lugar. Sócrates. superposta ao c onfronto horizontal da sociedade e do cosmos. Encontramos sinais dela na mitologia grega.

não se desse conta de que a mesma contradição se agravaria ainda mais no Estado moderno. Paulo já deixava refutada de antemão a falácia hegeliana de que “o Estado é a realidade da liberdade concreta”. mas sem submeter-lhe o julgamento de questões de consciência. viria a ser percebido também com muit a clareza por Karl Marx. curiosamente. Chega a ser espantoso que Hegel. ir a juíz o perante os injustos. formal.: 6:1 ). não obstante. o que. C om isto. tendo litígio contra outro.olo.. adverte: “Atreve-se algum de vós. S. O sentido é claro: “da r a César o que é de César”. Hist. II:1 ) . tendo percebido nitida mente a contradição da Igreja medieval a um tempo defensora da liberdade de consciênci a e obstáculo ao seu exercício efetivo ( Fil. e não perante os santos?” ( I Cor. mostrando que o Estado só pode ser o lugar da libe rdade abstrata. .

que ela subentende. “produzir”. um sentido. neutralizando-a na fala coletiva. o interl ocutor solitário do Deus que “sonda os rins e os corações”. O recipiente fecha-se. e de que uma história reduzida às dimensões natural e civil. gerando efeitos de escala incomparavelmente superior ao das forças causais até então agentes. imprimindo-lhe uma direção totalmente nova. assumindo sua liberdade. ritos e mitos. que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocultam. Os cultos públicos são vastos sistem as de símbolos. esse novo sentido não podia ser captado senão pelo indivíduo desligado dos laços que o prend iam à sociedade e ao Estado. captável pela pura inteligên cia metafísica mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma fo rmulação doutrinal acabada. onde repentinamente uma profusão de forças dispersas. ao ser vertida noutro recipiente. assumisse ao mesmo tempo a responsabilidade de ser. A realidade divina foi muitas vezes comparada à água. que signifi ca “fazer”. Entr emeados e às vezes identificados aos costumes morais. Daí que a história das religiões seja ponti lhada de rupturas cíclicas. por força do resíduo humano e histórico que carregam. O profeta é uma força agente. que rompem a unidade cerrada das instituições antigas. É só a banalidade do mundo de hoje que pode conceber os profetas como meros vaticina dores das coisas futuras. O profetismo é o ret orno cíclico da primavera do mundo. caóticas e inconciliáveis se uni fica numa nova direção da vida humana. Ele determina uma súbita elevação do nível do devir histór . o cristia nismo abre entre a individualidade física e a identidade social humana um interval o. mas não pode ser abolida para sempre. Aconteceu que. Submetidos à lei da entropia. para metamorfosear-se. narcotizada por meio de sucedâneos “cósmicos” ou “hi stóricos”. Mas a aspiração ao infinito parece inerente à constituição humana. “determinar”. é um estudo sobre a significação da profecia na História. para além do véu simbólico dos ritos e das leis. absorvem a cons ciência interior dos homens. d e que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal da compreensão históri ca. Ele de na o curso dos eventos. acabam por mundanizar o divino e divinizar o mundo. que to ma momentaneamente a forma do copo. ele gira o botão do acontecer histórico. dando um sentido ao caos e iluminando a uma n ova luz a meta permanente da existência 132. não um observador. como o é quase tudo o q ue hoje recebe o nome da ciência de Heródoto. o portador do Logos. É evidente que a dimensão metafísica não pode ser totalmente abrangida pelos discurso le galista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público. abertura que o Evangelho simboliza como um rasgão no véu do templo. é apenas uma crônica provinciana. O termo mesmo “profeta” vem do grego prophero. como tudo o que existe no espaçotempo. o detentor consciente do critério da verdade. tapam a v ia de acesso ao divino. revelando a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábio s e dos místicos. de outro. desviada. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed ( Maomé ). O cristianismo exote rizou-a.124 OLAVO DE CARVALHO brança. povoando os céus de figuras de heróis e deuses projetados da Terra: ampliações divinizadas do Estado e da natureza física. pelo indivíduo que. de uma vez para sempre. inaugurando novos mundos históricos e resgatando as possibilidades espirituais perdidas. Ao propor ao homem um esforço que não se volt a nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade. às instituições jurídicas e políticas. t udo equalizando na platitude do social e do histórico: de um lado. Pode ser reprimida. impedindo que os homens bebam. por trás do panteão das divindades cósmicas. que cortam a linearidade horizontal das causas histórica s pela vertical de uma intervenção superior: os adventos de novos profetaslegislador es. a existência de uma realid ade mais alta a que os símbolos do culto aludiam veladamente. Foi esse estudo que me persuadiu. na mensagem cristã. a encerrar-se numa totalidade enrijecida e auto-suficiente. mostrando. fora de qualquer tutela ou garantia ex terna. ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da A rábia Saudita. eles tendem. sem qual . diante do qual o homem está nu e verídico tal como no dia em que nasceu. o espa132 Meu livro O Profeta da Paz. conservando-se não obst ante intacta. ilustrado pelo ca so do único profeta de cujos atos e palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante.

” . Seu id eal é reduzir a consciência do historiador à condição do sapo da fábula. os retornos cíclicos.quer poder de elucidar os fatores decisivos. habitante de um poço que. respondeu: “É um buraquinho no teto da minha cas a. as ascensões e qu edas dos impérios e das doutrinas. Que filosofias inteiras da História possam ter-se assentado sobre bases tão estreitas mostra apenas que a intelectualidade moderna é um novo sacerdócio de tipo greco-romano. é apenas a finalização de um processo de estreitamento do horizonte intelectual humano que vem de alguns séculos. firmemente empenhado em não deixar os homen s enxergarem nada para lá do círculo mundano. indagado sobre o que era o céu. A “total mundanização e terrestrialidade do pensamento” ( sic ) advogada por Antonio Gramsci.

o trazem consigo. A importância fundamental que teve o monast icismo (monakos = monge = solitário) no desenvolvimento da nova civilização é um sinal e loquente do teor básico da sua vocação. repentinamente arrebatado à segurança do 133 É absolutamente indispensável a quem queira compreender este período da História ler os . no existente primariamente en institucio nes y actos externos (aunque manifestado en ellos) sino viviendo originariamente en la intimidad de cada uno. É desses homens fugidos do m undo que nasce o novo mundo. no fundado en la dominación sino en la comunión.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 125 ço da liberdade interior. mas para exper imentar na extrema solidão o acesso a uma nova profundidade da vida interior. caótico e hostil às classes e pessoas aco stumadas à ordem imperial. o fruto supremo da História. no integrado por la subordinación sino por la participación. O adv ento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário. Nenh uma unidade administrativa. mas que ela é absolutamente necessária à ecl osão da autoconsciência. pelos impulsos naturais egoístas. na Epístola a Diogneto (séc. e não apenas o de uma pedagogia. afirmar poderosamente seus valores. a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência. O fenômeno é espantoso. O que se pode questionar é se essa disciplina tem o valor moral definitivo de um código de conduta universalm ente válido. sempre por obra de homens solitários. II). esse hiato também corresponde a uma certa separação que o cristianismo estabelece entre consciênci a e corpo. com aquele hiato que o cristianismo abre entre indivíduo e s ociedade ao proclamar. monastérios. apegados à sua fé por um liame interior muito mais poderoso do que qualquer obediência externa a um governante 13 3. propriedades rurais — separadas umas das outras por imensas distâncias e sem outra ligação entre si senão a obediência comum a uma mesma religião. Eles vão em busca de um espírito regenerador e. crescer. através de uma disciplina moral dolorosa. não para buscar as consolações factícias do jardim de Epicuro. sino extendido en la eternidad. que se expande invisivelmente até abarcar todo o território europeu. A noção mesma de autoridade e hierarquia era ali submetida a uma estranha mutação: “Se trata de un reino no encuadrado por el espacio y por el tiempo. de outro. Este desenvolvimento é impossível enquanto todo o horizonte da atenção for ocupado. em tais condições? Não há outra explicação senão a atividade incessante. ao vo lta- rem para junto de seus semelhantes. estruturalmente. Esse novo mundo é composto de unidades autônomas — cidade s. A socialidade fica assim submetida hierarquicamente à solidão onde Deus habita: a assembléia dos que se reunem em nome de Cristo é uma assembléia de homens que conhecem profundamente a solidão de seus corações. Apenas o liame sutil e voluntário da fé. que cada cristão é um estrangei ro na sua própria pátria. Não somente o Império povoa-se de monastérios. Pode-se fazer uma imagem supondo como se sentiria um se nador norte-americano que. Como pôde a nova civilização sobreviver. é: e não espanta que uma época afeita à liberdade sexual irrestrita também seja fértil em filósofos que negam a existência ou o valor da autoconsciência. econômica ou militar. y no mantenido por el poder sino por la autoridad que se identifica con el servicio a la comunidad. É fáci compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo te ve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical.” 134 O novo mundo deve ter parecido misterioso. é certo. Não se trata apenas de uma retirada. pelo idealismo social (precisa mente as duas colunas a que se pretende reduzir o templo da moral moderna). Ele coinc ide. mas tão necessária ao flor escimento da autoconsciência quanto o isolamento social. De outro lado. aldeias. e que precisamente por isto podem se reunir em Cristo e não em mera tagarelice. tenaz e silenciosa d milhares de monges espalhados ao longo do território. É ness e espaço que floresce a personalidade humana. de u m lado. mas há uma verdadeira corrida para o deserto: milhares de anacoretas evadem-se do falatór io urbano. que agem movidos por um impulso pessoal e quase sem co municação com a autoridade religiosa central em Roma ou Bizâncio.

Image Books. New York. 1957 ( várias reedições ). vol. Religion and the Rise of Western Culture. e The Making of Europe. An Introduction to the History of European Unity. .clássicos de Christopher Dawson. García-Pelay o. cit.. p. I. De los Orígenes a la Baja Edad Media. New Yor k. Historia de la Filosofía del Derecho y del Esta do. 4ª ed. Meridian Books. 1970. 134 M. Madrid. 1956. 251. em Antonio Truyol y Serra. Revista de Occiden te.

de fora. a essa gente. que refluíram para o subsolo no advento do cristianismo. Em terceiro lugar. símbolos. e que agora ressurgem à plena luz do dia para o combate final. a dissolução dos valores sacros do Império entre as mãos das hordas de invasores bárbaro s. passado o susto inicial.126 OLAVO DE CARVALHO Estado. que rigoro samente nada têm a ver com o fenômeno particular que estou estudando aqui. tal como o corpo moribundo vê ressurgirem com redobrada força as moléstias que ve nceu no passado. de ressonâncias antropofágicas apavorantes. o apelo aos tribunais. Fala-se neste sentido de uma gnose islâmica. sem o Império que lhe dá sua identidade. Porém. nem cultivavam os debates filosóficos. um desejo incoercível de vingança e de restabelecer as coi sas como eram antes. a cultura es piritual antiga é em parte absorvida no novo quadro. e do qual tiravam boa parte da sua autoridade. Compreende-se. revolta contra o destino. por um lado. e também de uma gnose cristã ( por exemplo. até engoli-lo quando chegar a hora do crepúsculo. A c onfiança em Deus bastava para o anacoreta na noite do deserto. Acuada pelo avanço cristão. solapando-lhe as bases. viram desfazer-se em fumaça a proteção do segredo que as cercava. valores e atitudes da cultura espi ritual grecoromana. entregue à sanha das hienas. seu lugar de honra não só no Exército e no Senado mas na casta sacerdotal. fosse jogado no interior da Amazônia. eles haviam trocado a complexa beleza das antigas cerimônias públicas por um rito e stranho. Em segundo lugar. sacerdotes e iniciados. Mas o que é um patrício romano. ele representa o elemento antagônico e complementar da cultura dominante — a “sombra” que cresce junto co m o novo corpo da civilização. Os monges. a reação horrorizada dos letrados e da casta sacerdotal. para o subterrâneo. mais particularmente. de repente. em Clemente de Alexandria ). a súbita ruptura. po r outro. à espera de um futuro ciclo onde possa ressurgir. Entre letrados. Toda ci vilização em declínio experimenta um retorno de temas religiosos abandonados milênios an tes. A quem o vê de fora . cristã inclusive. Somente o homem da fé pode enxergar ali a semente de um futuro glorioso. na espera de uma ressurreição. que d e lá lhe moveram guerra subterrânea ao longo de dois milênios. nobres. seu senso de or ientação e de dignidade familiar? É um leão sem suas garras. o cristianismo caiu como um raio que provoca espanto e terror. em primeiro lugar . mas esta palavra serve também para design ar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cris tianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espi ritual. por parte dos céus. a confiança no poder oni presente da autoridade civil? Ali só lhe restaria ser homem e confiar em Deus. De que valeriam ali o discurso sobre os direitos. o cristianismo foi a “pedra de escândalo”. mais grave do que tudo. mostrando a a “sa bedoria mundana” um desdém que não nte tinha como não parecer. e como religião. havia colocado em circulação temas. rancor. O novo mundo espiritual emerge num panorama exterior de sinistra desolação. é precisamente o que se denomina gnosticismo 135. conhecimentos e atitudes antes reservados a umas quantas sociedades iniciáticas qu e. budista etc. afetação e arrogância de bárbaros. das letras e mesmo da virtude em geral.. constituiam a essência mesma da moralidade. onde tratará de conservar vivas as suas forças. Durante o período de espera. O tipo de vida interior que os monges traziam era tão diferente de tu do quanto o mundo antigo conhecia como filosofia. É quase uma l ei ou princípio histórico: o exoterismo destronado funde-se no esoterismo do ciclo s eguinte. o cristianismo havia “rompido o véu do templo”. a negação mesma da cultura. que o cristianismo não tinha senão como parecer. entre índios e frades. símbolos. Este reflui para as sombras. O conjunto de crenças. e. entre ventos. desde o ponto de vista do mundo antigo. de um contrato que os homens acredi tavam ter selado para sempre com os deuses. mas resta sempre um fundo ina ssimilável. demônio s e feras. desperta ódio. no con texto greco-romano. Para os homens da religião antiga. 135 Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose. o qual po . pouco se lixavam para as virtudes cívicas que. não se ocupavam das letras. ele nada promete senão trevas crescentes .

r isto prefiro designar com o termo diferencial gnosticismo. .

era eleva136 V. por outro. Elementos do fenômeno religioso. Mas não creio errar ao assinalar. pp. Imutável — a uma Causa ou Princípio metafísico. Leviatã e Beemoth Não cabe entrar aqui numa descrição aprofundada do fenômeno gnóstico. da singularidade humana. a sacralização da sociedade (ou do Esta do). alguma noção. Isso não quer dizer que os elementos menos enfatizados estejam de fato ausentes — qu er dizer apenas que essas religiões os tomam por implícitos. como no hinduismo. muito facilmente e sem qualquer inexatidão. do Absoluto. nas relações diretas entre a alma e Deus. às vezes reduzido a um conceito metafísico abstrato. a “perfeição ativa”. . Figura 2. do Infinito. às vezes ocul tado sob um véu de obscuridade e silêncio como no budismo. de um só golpe.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 127 § 25. Para me fazer entender. de um lado. orige m e destino. molde do cosmos — transcendente ao co smos portanto — e não a individualidade empírica. Às vezes não sob esse nome. ou o princípio metafísico do qual tudo se origina. novo Adão. um conceito da alma humana. a religião cósmica. que no Judaismo a ênfase recai nas relações entre Deus e a comunidade h umana — o povo de Israel —. aqui. 15-17 da 1ª ed. dar con ta. somente estudos volumosos podem. mas sempre presente. onde a vert ical simboliza a eternidade e a horizontal a temporalidade. de cuja amplitude e variedade. A ênfase do cristianismo cai evidentemente no eixo vertical. Em cada uma delas. como pontos comuns a uma ampla variedade de escolas gnósticas. com poucas referências seja à alma individual. finalmente. e o horizontal a khien. As religiões podem ser dif erenciadas e classificadas. ligação direta com o simbolismo cristão do sacrifício do Gólgota. Ele in dica simplesmente os quatro elementos básicos que estão presentes em todas as concepções religiosas do mundo. quanto à organização real ou ideal da sociedade humana para os fins que a alma deve cumprir. por exemplo. presente em todas as religiões. a “perfeição passiva” ou manifestação cósmica desse princípio 136. O homem singular. porém. seu papel de interlocutoras entre a al ma e o divino. quase alucinantes. como aliás em todo o s imbolismo universal da cruz (Figura 2). ou “mundo” como o cenário onde se desenrola a história dessa alma. o Homem Universa l é a essência mesma da individualidade concreta. a vertical corres ponde a khouen. Eterno. É patente . Esse diag rama não tem. de longe. Note-s ue o homem aqui designado é o Homem Universal. ao menos. Não há r eligião sem uma referência mais ou menos direta a um Absoluto. é Deus. devo recorrer a um diagrama. se encontra algo como um conceito de De us. A Nova Era e a Revolução Cultural. seja à natureza em torno. O único elemento fixo. Na simbologia chinesa. e. de sua natureza. conforme a ênfase maior ou menor que dão a um ou outro desses três elementos na sua relação com o Ab soluto e conforme o jogo de compensações dialéticas que estabelece entre eles. Os outros três fatores são móveis. De outro lado. ou que o Budismo fala mais da alma do que dos outros dois elementos. A soci edade e a natureza perdiam. um conceito da natureza física.

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do a senhor do mundo, em luta aberta com as divindades da natureza — os djinns de que fala a tradição islâmica — e os poderes sociais, que a Bíblia havia condenado numa sen tença sumária: “Os deuses das nações são demônios.” É evidente, portanto, que a reação básica ristianismo assume desde logo a forma de uma luta pela restauração da natureza e da sociedade em seu estatuto anterior — de uma luta, portanto, contra o indivíduo human o, contra a alma, contra a consciência autônoma 137. Seria errôneo, porém, identificar d iretamente essa luta como uma luta contra a Igreja, contra o Papado, contra a In stituição Romana. Ao contrário, a própria consolidação da autoridade romana se faz, em grand e parte, romanizando o cristianismo, ressacralizando a sociedade: a Igreja conqu ista o mundo, mas deixando-se em parte conquistar por ele. O conflito entre expa nsionismo catequético e conservação da fé inicial acompanha toda a História da Igreja — em c ontraponto com a perene ambigüidade das relações entre Fé e Império, autoridade espiritual e poder temporal, que Dante simbolizou na luta entre a águia e a cruz. O cristian ismo, de fato, não quis destruir o Império, mas não podia submeter-se a ele; nem quis restaurá-lo, mas não podia subsistir e expandir-se senão sob a proteção dele. René Guénon, qu sempre deve ser ouvido nessas matérias, explica o fenômeno dizendo que o cristianis mo não tinha, originariamente, o espírito de uma lei religiosa, no sentido judaico o u islâmico de uma regra para a ordenação do mundo, mas o de um esoterismo, de um camin ho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo.” A exoterização do cristianismo, sua tr ansformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade, teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaismo deixavam o mund o greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo, mesmo a contragosto, mesmo ao preço de trair em parte sua vocação interiorizante, teve de pre encher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O cristianismo salva o mundo antigo, absorvendo-o num novo quadro, ma s, para isso, tem 137 O estudo mais inteligente já escrito sobre a influência do gnosticismo na história das ideologias no Ocidente é a obra de Eric Voegelin citada adiante na nota 244. A te se defendida neste parágrafo é amplamente inspirada em Voegelin, do qual no entanto me separam algumas diferenças menores, que se manifestarão nos parágrafos seguintes.

de se deixar absorver nele e transformar-se, mediante adaptações bastante deformante s, numa nova Lei exterior, na religião do Império 138. Não precisamos endossar por com pleto a tese de Guénon para admitir o fato patente de que o cristianismo, malgrado sua imensa força de renovação espiritual, não estava muito bem dotado para reorganizar a sociedade civil e política. No Evangelho não se encontra uma indicação, uma linha, uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica, da moral exterior, do di reito civil e penal, como se encontram com abundância na Torah, no Corão ou nas Escr ituras hindus. O cristianismo era essencialmente uma “via de salvação”, que voltava as c ostas para este mundo, concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. Para transformar-se numa força organizadora da Cidade Terrestre, ele teve de sofre r adaptações que arriscaram deformá-lo profundamente. Não existe, em toda a História das R eligiões, outro caso de uma moral religiosa que tenha passado por tantas mudanças e transformações. A moral social cristã, com efeito, não emerge pronta e óbvia da letra das escrituras, como a islâmica ou a judaica, mas se elabora aos poucos, ao fio de tre mendas disputas dialéticas, por obra dos teólogos e dos concílios, crescendo, não como a progressão linear de uma simples dedução lógica, mas como um organismo vivente, entre d ores e contradições. Assim, por exemplo, vemos o celibato clerical — hoje defendido co mo um valor essencial à preservação da fé — não ser instituído plenamente antes de dez século e discussões, numa Igreja cujo primeiro papa, o Apóstolo Pedro, fora um homem casado . Mesmo o rito, a expressão plástica da simbologia da fé, não tem forma fixa: em torno d e um núcleo essencial constituído pela Eucaristia, a missa adquire, ao longo dos sécul os, uma pluralidade de formas, ora com o sacerdote de costas para o público, ora d e frente, ora os fiéis tomando vinho e comendo pão, ora só comendo o pão e deixando o vi

nho para o sacerdote, ora sentados em bancos, ora espalhados de pé pela nave da ig reja, ora voltados uniformemente para o Oriente ora para qualquer direção ao acaso, ora rezando em latim ou grego, ora nas línguas locais, ora com música, ora sem música, ora confessando-se sumariamente em grupo, ora detalhadamente cada qual a sós 138

René Guénon, Aperçus sur l’Ésoterisme Chrétien, Paris, Éditions Traditionnelles, 2e éd., 1977 p. 826.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 129 com o padre, e assim por diante, numa variedade sem fim, conforme os tempos e os modos da História mundana. A singularidade desse fenômeno salta aos olhos quando co mparamos a infinidade das formas da missa com a fixidez uniforme das cerimônias ju daicas cristalizadas de uma vez para sempre na forma estabelecida pelo Antigo Te stamento; ou com a do rito islâmico, hoje exatamente o mesmo do tempo em que o ens inou o Profeta Mohammed (Maomé) ao exército medinense em marcha contra os infiéis aqua rtelados em Meca, isto para não falar da imobilidade multimilenar do complexo sist ema ritual hindu. Tudo isso mostra a profunda inadaptação do cristianismo à missão regul adora e civilizadora de que foi ncumbido pelo desenrolar dos fatos. Entre a inad aptação i congênita e a força da obrigação externa, o resultado foi duplo: de um lado, um es forço milenar e repetidamente fracassado para erguer um Império cristão, unificando o Ocidente. Com efeito, no Ocidente só existiu império cristão, no sentido mundial, dura nte o reinado de Carlos Magno. No restante da história européia o Império é apenas uma i déia unificadora, pairando no abstrato sobre um caos de principados e ducados perp etuamente em guerra uns com os outros. De outro lado, e em função mesma do fracasso do Império, surge a transformação do papado num poder temporal concorrente, com todo o seu cortejo de conseqüências nefastas. A principal, evidentemente, foi a mundanização d o culto, o rebaixamento da moral cristã a um receituário de exterioridades tão opressi vo e falso quanto o moralismo estatal romano, a cristalização progressiva da doutrin a num formalismo lógico-jurídico deprimente e, por via de conseqüência, a politização comple ta da religião na época pósrenascentista, como um conservadorismo monárquico, de início, q ue aos poucos iria se transformando no seu contrário: num ativismo republicano, li beral e socialista. Mas não foi só dentro da Igreja que o espírito do mundo romano per maneceu atuante: em volta dela, e contra ela, pulularam desde os primeiros séculos as seitas gnósticas. Nelas conservava-se o espírito da religião cósmica — o outro compone nte do culto estatal greco-romano. É como se o espírito pagão se houvesse bipartido: s eu gênio político, histórico e jurídico infiltrou-se na alta hierarquia da Igreja, enqua nto sua religião cósmica, seus deuses naturais, se refugiavam no gnosticismo. Eis aí, desde o início da história cristã, perfilados os dois inimigos que se opõem a

Deus e à alma: o “mundo” e a “carne” — de um lado o espírito da sociedade política, de outro ulto das forças materiais do cosmos. A aliança de religião estatal e religião cósmica opõe-s e à aliança de Deus e do homem. A dimensão sociocósmica (khien) pretende subjugar, engol ir e eliminar a dimensão espiritual e metafísica (khouen). Mas khien é, em si mesmo, d uplo. A entronização do sociocósmico desencadeia, imediatamente, uma nova luta. Quem r einará: a sociedade ou o cosmos, o homem ou a realidade externa, a história ou a nat ureza? Aparece aí, com toda a clareza, o tema dominante de todos os conflitos de i déias no Ocidente desde o Renascimento. Derrubado o eixo vertical, o horizontal não pode permanecer de pé, pois não há entre seus dois termos a desigualdade flagrante que há entre o indivíduo humano e Deus: história e mundo, cultura e natureza, valor e fat o, jamais podem chegar a um acordo senão tomando como fiel da balança a vertical que aponta, para cima, a esfera das leis metafísicas, os limites do possível e do impos sível, e, para baixo, os desejos e aspirações da alma humana singular. Retirados de ce na a alma e o Absoluto, resta apenas o combate de Leviatã e Beemoth: o espírito da r ebelião autolátrica que comanda a História, o espírito da submissão cega e mecânica à naturez exterior. Um novo diagrama mostrará as alternativas em que o Ocidente se debate há quatro séculos: COSMOS LEIS FÍSICAS EXPERIÊNCIA NATUREZA MECANICISMO Nature Behemoth versus versus v ersus versus versus versus versus HUMANIDADE LEIS DA RAZÃO PENSAMENTO HISTÓRIA VITAL ISMO Nurture Leviatã Muitas vezes me perguntei se os significados atuais e correntes da “esquerda” e da “di reita”, que o folclore político data da reunião dos Estados Gerais sob Luís XVI, não teria m uma origem anterior, na disputa entre os dois braços da cruz para decidir, uma v ez a cruz tombada, qual ficaria para cima.

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É surpreendente, mas a história das idéias nos últimos quatro séculos pode ser todinha con tada como uma série de variações, na verdade bem monótonas, em torno do tema da disputa entre os dois braços da cruz. Já em pleno Renascimento, o antagonismo perfila-se ent re os cientistas naturais, firmemente decididos a abandonar a tradição aristotélica (o u o que assim denominavam) pelos novos métodos experimentais, e os humanistas, emp enhados em restaurar o amor aos clássicos gregos. Os primeiros romperam com o sent ido de continuidade histórica das ciências, acreditando possível fazer tábua-rasa e ler direto do Livro da Natureza. Os segundos, redescobrindo a Poética de Aristóteles, en cadearam numa rígida obediência aos cânones aristotélicos o gosto literário por três séculos, ao mesmo tempo que inauguravam, com a crítica de textos, a moderna ciência histórica. É incrível como dois movimentos de sentido antagônico possam ter entrado para os livro s de História com a denominação comum de “Renascimento” 139. No século XVII, as duas corrent es contrárias serão por assim dizer oficialmente separadas em compartimentos estanqu es com a abertura das faculdades parisienses de “Letras” e de “Ciências”, inaugurando as “du as culturas” de que falaria mais tarde C. P. Snow. Ao mesmo tempo, o debate filosófi co cristaliza-se no antagonismo entre empiristas e racionalistas — os primeiros at ribuindo ao mundo, ao objeto externo, a origem de todos os nossos conhecimentos; o segundo extraindo-o pronto ou semipronto de dentro da razão humana. No século seg uinte, o nascimento do historicismo assinala o começo da disputa entre os deuses d o tempo e os deuses do espaço. O antagonismo só será formulado expressamente no fim do século XIX, com Windelband e Rickert, mas em Vico já se observa a disputa de priori dade: em oposição à ciência físico-matemática, a História é promovida a modelo supremo do con imento. Finalmente, no século XX, o conflito entre capitalismo e comunismo evolui para a f orma final da disputa entre a “Nova Era” e a “Revolução Cultural”. E no auge desta disputa é ue entra em cena o iogue-comissário. LIVRO V - CÆSAR REDIVIVUS 139

Sobre este paradoxo na história da influência aristotélica e este antagonismo no seio do Renascimento, v. meu livreto Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. Introdução à Teor ia dos Quatro Discursos, e também Pensamento e Atualidade de Aristóteles, transcrição po r Heloísa Madeira, João Augusto Madeira e Kátia Torres, 12 fascículos, 5 já em circulação ( R o, IAL, 1994 ).

CAPÍTULO IX. A RELIGIÃO DO IMPÉRIO § 26. De Hegel a Comte O iogue-comissário, personificando a reconciliação entre a Nova Era e a Revolução Cultural , deveria trazer-nos, logicamente, a solução de todas essas antinomias. É isto, de fat o, o que ele nos promete. Mas é claro também que não pode realizá-lo em hipótese alguma, p ois uma contradição, qualquer que seja, só pode ser resolvida desde um terceiro termo superior que abranja e contenha os dois opostos; e o iogue-comissário, não podendo e levar-se ao plano da universalidade metafísica que é o único desde o qual os dilemas d a cultura Ocidental se unificam e se resolvem, apela para o clássico expediente do s neuróticos: amortecer o conflito mediante a queda num sono depressivo e auto-hip nótico. Estreitando o horizonte da consciência, ele expele de seu campo de visão as fo rças em luta, e procura persuadir-se de que tudo o que não enxerga não existe. Mas nem séculos de prática do tetrafármacon poderiam nos impedir de ouvir, por trás das palavra s calmantes de Motta Pessanha, o ronco ameaçador da catástrofe que se aproxima: uma vez desaparecida dos céus a imagem do eterno, a luta entre os deuses do tempo e os deuses do espaço prosseguirá até o desenlace fatal, que só pode ser a vitória do mais for te. Ora, dos dois monstros, o mais forte é sempre Beemoth, a ordem do universo físic o. A derrotada é sempre a comunidade humana, instável e nervosa, a debater-se nas água s, raivosa e humilhada, sob o peso esmagador das patas do adversário.

Não é mesmo significativo que, no auge do ufanismo científico que celebrava o domínio da comunidade humana sobre a natureza, os cientistas mesmos venham nos alertar par a os perigos iminentes que nos chegam cada vez mais ameaçadores do cosmos físico, e, mudando de tom, passem do triunfalismo prometéico à pregação de uma resignada e humilde “colaboração com a natureza”? 140 É que eles ouviram o baque surdo das patas de Beemoth, que vem novamente esmagar Leviatã. Mas tudo o que podem fazer é trocar às pressas de d ivindade, passar da rebelião prometéica a um conformismo obediente de bonzos orienta is, até que a vontade humana de poder se rebele novamente, para novamente ser esma gada, e assim por diante até a derrota final. Não, não adianta trocar o culto de Levia tã pelo de Beemoth. Esta troca, cíclica e repetitiva até à alucinação, é ela mesma o problema o mal que sacode e gira há séculos o Ocidente numa alucinada dança de dervixes bêbados que se esqueceram de Allah e caíram na idolatria da dança mesma. As duas mãos de khien só param de estapear-se uma à outra quando se juntam na comum obediência a khouen. Ma s, se o remédio proposto pelo iogue-comissário para debelar o vício é apenas uma nova in jeção da mesma velha droga, então cabe a pergunta: Quia bono? Quem ganha com isso? A q uem serve o iogue-comissário, sabendo ou não? Terminada a Revolução Francesa, Augusto Comte, empreendendo o balanço contábil das conqu istas ideológicas desse magno evento da modernidade, chegou à conclusão de que o saldo estava em vermelho. Esta cor não se referia ao sangue derramado entre discursos, mas ao fato de que a Revolução, tendo cortado junto com a cabeça do rei também as raízes m orais e religiosas do Antigo Regime, nada pusera em seu lugar: com o deficit ide ológico daí resultante, as massas sentiam-se boiando num desesperante vazio espiritu al, que as conquistas sociais não bastavam para aliviar 141. Qual a solução? Voltar ao catolicismo? Nunca! Diante das circuns140 141 V. A Nova Era e a Revolução Cultural, Cap. I. Comte nem de longe prestou atenção ao fato de que as referidas conquistas, consistindo basicamente no serviço militar obriga tório, numa carga tributária superior a tudo o que a monarquia ousara sonhar e na

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tâncias, Comte tomou então uma atitude que bem mostra a superioridade dos tempos mod ernos: ao contrário dos antigos profetas judeus, aqueles preguiçosos que fugiam ao a pelo divino até que Jeová os capturasse a laço entre invectivas e ameaças terrificantes, o nosso filósofo não se fez de rogado, e aceitou mais que depressa a incumbência de f undar o novo culto, incumbência que lhe fora aliás atribuída por ele mesmo. Não é preciso dizer que morreu louco. A nova religião teria três características principais: 1º Seria uma religião do Estado: o homem dos novos tempos serviria ao Estado como outrora o s fiéis tinham servido à Igreja. 2º Para marcar sua ruptura com a era anterior, ela in stituiria um novo calendário, com ritos festivos dedicados aos “grandes homens” cujo a dvento a este mundo marcara as etapas decisivas do “progresso histórico”. 3º A nova reli gião assinalaria o ingresso da humanidade na etapa decisiva de sua evolução temporal — a “era positiva”, marcada pelo predomínio da ciência e da técnica, após a “era mítica” inicial ra metafísica” intermediária. Nessas três características aparecem os traços básicos que defi em o que chamei divinização do tempo: a identificação da lei religiosa com a lei civil ( ou absorção da Igreja pela sociedade política), o culto dos antepassados e o conceito da dimensão temporal como campo onde se realiza um progresso predestinado. Em suma : Cæsar redivivus. Mas a nova religião não era tão nova. Em primeiro lugar, ela simplesm ente dava expressão mais detalhada à idéia hegeliana do Estado como sucessor da Igreja : se Comte era o Messias da Religião da Humanidade, Hegel fora pelo menos seu São João Batista. Para piorar, a religião de Hegel não ficara só na idéia: a Revolução chegou a real izá-la integralmente. Em 7 de junho de 1793, a Convenção, reunida sob a presidência de M axilimilien Robespierre, votou um Catecismo em quinze artigos. O primeiro reconh ecia a existência do Ser Supremo, que se distinguia daquilo que o Antigo Regime ch amava de Deus por ser menos uma Pessoa do que um conceito abscriação da maior burocr acia administrativa e policial que o mundo já conhecera, não eram mesmo de molde a a liviar o que quer que fosse.

trato: o deus do deismo, em suma. Os artigos 2 e 3 fixavam os deveres para com o Ser Supremo: odiar os tiranos, punir os traidores e outras coisas pelo gênero. Os artigos seguintes estabeleciam rituais festivos incumbidos de recordar ao homem sua dignidade e seus deveres. São trinta e seis festas por ano, dedicadas ao Ser Supremo, à República, à Justiça, à Frugalidade e a outras coisas excelentes, entre as quai s a Indústria e a Agricultura, e mais quatro celebrações extras, a principal das quais em 14 de julho. Marcada a primeira festa para a data que coincidia com o doming o de Pentecostes, o pintor Jacques-Louis David foi encarregado dos detalhes litúrg icos, que incluíram uma procissão, com o sumo-sacerdote Robespierre à frente, hinos ao “Pai do universo, suprema inteligência”, chuvas de flores, disparos de canhões e um des file da estátua da Liberdade num carro puxado por oito bois. Depois disso, que mai s restava a Augusto Comte senão chover no molhado? Até o título do opúsculo em que divul ga suas concepções religiosas é copiado do decreto da Convenção: Catéchisme. A religião de Co te não foi adotada em parte alguma, exceto na borda esquecida do mundo: no Império d o Brasil, onde valorosos oficiais militares, descontentes com a monarquia que não dera o devido reconhecimento ao Exército que vencera galhardamente tropas paraguai as compostas de meninos de 8 a 15 anos de idade, sonhavam em implantar no país uma ditadura republicana inspirada na divisa do Mestre: Ordre et Progrès. Na Europa a Religião da Humanidade acabou sendo esquecida, junto com seu antecessor imediato, o culto robespierreano do Ser Supremo. Mas deixaram, lá e cá, uma infinidade de mar cas, entre as quais um inesgotável calendário cívico, que, celebrando as secretárias, os motoristas, as mães, os pais, os namorados e tutti quanti, oferecem duas vantagen s indiscutíveis: fazem esquecer o calendário litúrgico da Igreja e fomentam os negócios. Na verdade fazem mais que isto: fornecendo um Ersatz para a experiência religiosa do “tempo qualificado” — épocas especiais em que o fluxo dos eventos muda ciclicamente de tonalidade, recordando ao homem a relatividade do tempo e a imersão de tudo no eterno 142 — , o calendário cívico ajuda a aprisionar a mente 142

introd. bem como — com reservas — Mircea Eliade.Sobre a noção de “tempo qualificado”. e notas de Olavo de Carvalho. Spe ulum. Paris. Comentários à “Metafísica Oriental” de René Guénon. Gallimard. o trabalho excelente de Michel Veber. 1979. v. São Paulo. Le Mythe de l’Éternel Rétour. . 1983.

no tempo administrativo. Mas.” S. l egitimidade. mas a idéia permaneceu no ar. Napoleão terminou mal. E mesmo nesse período. sinta retornar à “realidade”. não são senão ecos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 133 humana no tempo socio-econômico. § 27. em terceiro lugar. Levantava-se agora ante o cristianismo a figura temível do oponente espiritual. não empenhasse o melhor de si no esforço de elevar-se a Império ou como tal não fosse reconhecido pelos demais. Uma das provas do mau estado da teoria política hoje em dia é que. na História do Ocidente. uma realidade proble mática: em contraste com a unidade estável e o crescimento orgânico de Roma. reflexos. É. contemplando o mar e as montanhas. soberania. vemos sucederem-se tentativas de renovar o feito máximo de Roma: unificar. facilmente resumida como a históri a das lutas pelo direito de sucessão do Império Romano. o Império não ces sa de existir: transfere-se para Bizâncio. raramente lhe sobra tempo para investigar a at ualidade do fenômeno “Império”. sem jamais desaparecer de todo. reinos e dinastias que surgem e se desvanecem. sob uma mesma legislação e um mesmo governo. de doutrinas e de métodos. O Império não é uma teoria: é uma realidade. não é de esp antar que o empregado em férias. que oculta e revela. derrotado por um punhado de reis à antig a. É. de agonistas e protagonistas. re voluções políticas e culturais que se sucedem. a idéia da religião de Estado prosperava. povo. sua religião foi para o túmulo com ele. P AULO APÓSTOLO A história política do Ocidente pode ser. do o utro lado do oceano. direitos —. Leviatã a agitar-se nervosamente no fundo das águas. das mudanças de povos e fronteiras. dispensando a consagração papal que por séculos fora tida como a garantia espir itual indispensável à legitimação do poder temporal. o movimento profundo: a luta pela formação do Impér io. exercendo um forte apelo sobre todo homem a quem o poder sobre o reino de ste mundo parecesse uma ambição demasiado estreita. fr utos da decisão humana. coroados pela Igreja. imagine sonhar . convivendo na har monia de suas diferenças e todos contribuindo para a riqueza e grandeza do Império. Em volta desse tema dominante. sempre condenado à metamorfose das guer ras. v rificará que jamais houve no . guerras e crises. proteiforme. uma multiplicidade de povos. Translatio imperii: Breve história da idéia imperial “Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus. s empre inquieto. ao retomar seu lugar na fila do relógio de ponto. a agitação na superfície das água . pesam sobre os homens com o peso de uma coerção física. morre aqui para renascer ali. em segundo lugar. Ela acabou sendo absorvida por a quele que sepultou a Revolução sob os alicerces de um novo Império: ao coroar-se a si mesmo. e que. em que alg uma nação. entre tantas discussões de conceitos puramente formais e até mesmo convencionais — democracia. elevado ao estatuto de u ma realidade metafísica. de maneira discreta mas decisiva. enquanto ele se extinguia na dor e na humilhação do exíl io. não se passou um dia. reinado. das revoluções. Século após século. conflitos religiosos. a realida de decisiva. viagens e d escobertas. a um tempo. Napoleão Bonaparte fez saber à Igreja q ue já estavam longe os tempos em que o Império fazia à autoridade religiosa uma concor rência meramente política. Quem acompanhe a história das idéias políticas em contraponto com a históri a das ações políticas e não como uma sucessão de teorias a boiarem no céu das idéias puras. É. o Império d o Ocidente. No quadro de uma organização social onde horários e rotinas. em primeiro l uma realidade contínua. líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre. nação. sem erro. Derrubado Robespierre. se mpre sonhando com a estabilidade do poder. muda d e centro e de contorno. Excetuando-se o período que medeia entre a queda de Roma e o reinado de Carlos Magno.

tem de ser discutido no terreno da narração histórica. ele 143 vai unificando e homogeneizando a humanidade. Do alto de seu trono solitário — amado. perpet uamente dividido em nações hostis e só de raro em raro tendo alguma iniciativa de unif icação imperial. ele ap oiará a revolução ou a reação. parecendo guerrear-se entre si — democra cia. impondo por toda a parte suas leis . perdida que foi há tempos a vocação imperial que o animou até o século XII. sua língua. Veja-se o mundo islâmico. mais dia menos dia. um poder expl icativo sobre o processo histórico em geral. ao determinismo geográfico a outras forças às quais os teóricos atribuíram o papel de “motores” do acontecer histórico. que as outras orbitam em t orno dela como satélites. onde a eclosão de um surto imperialista é an tes uma exceção do que uma regra. Mas nada de similar a esse fato tipic amente Ocidental se observa no Oriente. Não pode refutarse mediante argumentos teóricos.134 OLAVO DE CARVALHO Ocidente uma só doutrina. que substituísse o con ceito de “Império” aos “três estados” de Comte. revolução e reação. Há algum conceito que mereça estudo mais urgente que o de “império”? Tu do o mais são palavras. que não fosse absorvida para servir de pretexto e reforço na l uta pelo Império. dominância da idéia de Império não é uma teoria: é um fato. A morte de um deles eleva o outro a uma posição de domínio mundial superior a tudo quanto haviam sonhado os seus antecessores. . aristocracia. belas palavras que. Não. esclareço que não estou com isso inventando uma “teoria da História”. batalhões e esqu adrões em que se escande o descomunal exército empenhado num só objetivo: a formação do Im pério. quando vistas já não desde o ponto de vista das motivações subjetivas que movem os seus mártires. e um fato específico da História Ocidente. Veja-se por exemplo o caso da China. seus costumes. de servirem a um mesmo propósito e senhor. o Império é notavelment estituído de convicções teóricas. à luta de classes. só caindo na tentação imperialista ao contaminar-se de idéias Ocidentais. assegurar a continuidade da marcha ascenden te dessa Revolução rumo ao Império do mundo. nada mais fizeram senão ajudar a apressar e a legitimar a a scensão mundial do Império que é um tempo democrático e aristocrático. Como Lincoln. Tão forte é o magnetismo da idéia de Império. senhores: o imperialismo não é uma pretensa “lei histórica”: é um fato ocorrido numa certa parte do mundo. já não são mais que os estandartes das divisões. e que no fundo está pouco se lixando para essas distinções. o moralismo puritano ou a rebeliã exual. pretenderia ter um alcance genérico. revolução e reação. incapaz de organizar -se. uma realidade atual: durante um século. Os pensadores políticos e religiosos do Ocidente não criaram uma só idéia que. a escravatura ou a abolição. liberal e socialdemocrático. Teocracia e mona rquia. Como um de seus mais célebres heróis — Abraham Lincoln —. capit alismo e socialismo. nacionalismo e internacionalismo. Prevendo objeções levianas que nossos acadêmicos semiletrados não deixarão de apresentar. exceto a de sua missão unificadora. e. e todas aquelas outras bandeiras em nome das quais os homen s matam e morrem. após terem destruído todos os demais. Se fosse uma teoria. é elevado à condição de supremo magistrado do universo. finalmente. mas sempre temido —. com a mesma se renidade de quem sabe que uma só coisa importa: salvar a unidade do Estado que inc orpora o projeto da Revolução Americana. mas desde a perspectiva dos resultados reais a que ser vem na escala dos séculos. Seu único opositor — o p ovo islâmico — agita-se apenas no fundo da sua raiva impotente. Também ele terminará por ceder. revolucionário e reac ionário. disputaram entre si a primazi a da unificação política e cultural do mundo. cuja oposição aparente mascara apenas o fato de girarem em t orno de um mesmo eixo. liberalismo e social-democracia. ordem e liberdade —. e ssa é a única constante 143. escr avagista ou libertária. não servisse a incentivar ou a legitimar a luta por essa finalidad e. monárquica ou republicana. república e democracia. deveres e direit os. dois grandes impérios. que só o comprova. administrando sabiamente as diferenças nacionais. o domínio colonial ou as reivindicações de independência nacional. seus valores. comichão passageira e mal sucedida. odiado. revolucionária ou reacionária. É. Em toda a variedade de processos e mutações que constitui a história do Ocidente. poderosíssima e no entanto acomodada dentro de suas fronteiras durante milênios. invejado.

se em vez de tomar a forma de uma resta uração duradoura ele se estiola em tentativas incessantes e sangrentas que não levam a parte alguma. eram ambos igualmente submissos a .O Império Romano parece pairar sobre a mente Ocidental como o fantasma de um morto ilustre que não quer acabar de morrer. atuando sobre as almas dos vivos co mo uma obsessão subconsciente. no entanto. o Império form a-se como evolução quase fatal de uma República onde uma dualidade de poderes — civil e militar — convidava desde séculos a uma unificação forçada. e que. Se esse retorno é problemático. Em Roma. que só podia partir dos militare s. Esses poderes. é por uma série de razões muito simples e claras. se serve deles como instrumentos de seu esforço para voltar à vida.

onde as primei ras tentativas de restauração do Império já trarão dentro de si a contradição constitutiva qu as levará ao fracasso: elas constituirão um esforço para enxertar as instituições romanas no quadro de uma religião que. inexistindo uma administração estatal. entre cujas vítimas se encontravam aliás seus fun dadores — a legião dos primeiros mártires cristãos. repelia com verdadei ra ojeriza a idéia do culto estatal. até pelo menos . em primeiro lug ar.. na hora de fazer reviver o império Ocidental em versão cristianizada. já que o clero colhia seus membros em todas as classes e os nobres não podiam ver com bons olhos os antigos servos que de repente apareciam investid os de autoridade e poder. em que senadores e cônsules. a resistência da casta nobre a qualquer forma de estudo e a uma participação mais séria em atividades religiosas era um fato consumado. bem como aos ritos de um mesmo cu lto público. a Igreja. amarrado pelo compromisso do celibato 146. exercia nele um primado sobre a casta guerreira.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 135 um conjunto de normas tradicionais de conduta. Funk-Hemmer. nos intervalos de suas obrigações políticas e militares. os imperadores da Europa terão de contentar-se com o estatuto de governantes out orgados e legitimados por uma outra casta. xerifes etc. 146 Compromisso que. Histoire de l’Église. os padres eram para eles os equivalentes dos antigos druidas. Mas. é verdade. I. Nesse interval o. por volta do século VIII. de outro lado. não podia fazer simplesmente brotar de si a semente de uma dinastia. envoltos no prestígio temível do s portadores de dons mágicos. 359 ss. por sua inspiração mais profunda. t. só obrig ava completamente os escalões superiores do clero. Essa resistência durará até o século XV pelo menos. a Igreja de Roma. A isto aliou-se uma série de conflito s entre o papado e o Império Bizantino — conflitos que prefiguram em miniatura aquel es que se manifestariam entre a Igreja e o Império Ocidental. O Império constrói-se sobre a unidade moral e religiosa do povo romano. Mas. sendo abundantes. essa unidade inexistia na Europa medieval. que darão ori gem a uma série infindável: a síntese romana das castas sacerdotal e real desfizera-se para não mais voltar. S e os antigos imperadores romanos eram eles mesmos os sacerdotes do culto estatal . Paris. criando aos esforços educacionais da Igreja obstáculos intransponíveis. entre a queda do Império e a coroação de Carlos Magno. começa a sonhar com uma transferência do Império para o Ocidente 144: e a translatio imperii será a in auguração da autêntica Europa 145. 1891. que cobria mais ou menos o territóri o equivalente ao do antigo Império. Em terceiro. Desse momento até aquele em que a cabeça de 144 145 Cf. O impulso de transferir para a autoridade civi l ao menos parte dessas responsabilidades foi um dos motivos que fizeram a Igrej a aspirar por um retorno do Império Ocidental. que entrava como convidada. as funções de líderes políticos. o que terminou por fazer do clero uma estrutura administrativa informal. pp. Consideravam-se essas coisas indignas de guerreiros. O termo translatio imperii é usado normalmente para designar a transferência do Impéri o de Roma para Bizâncio. o clero. para designar todas as mu danças do eixo do poder imperial no Ocidente. Ora. Armand Colin. ao sacer dócio. demasiado sujei ta à autoridade bizantina para poder recusar-lhe o pagamento de pesados impostos. c onsolidada pela religião do Estado. O problema básico da história política Oc dental pode assim resumir-se na sucessão de tentativas para encontrar uma resposta prática a um problema prático: como restaurar o Império romano sem a religião estatal r omana? A Igreja como força organizadora da sociedade nascera justamente no período m encionado acima. tabeliães. Era preciso aproveita r um filho de uma das nobrezas locais bárbaras. Em segundo lugar. generais e imperado res exerciam pessoalmente. cristianizar e educar o jovem guer reiro para torná-lo um rei cristão e depois um imperador cristão. Aqui emprego-o em sentido lato. Demasiado distante d e Bizâncio para poder desfrutar da proteção imperial contra os bárbaros. Eis aí os primeiros tropeços. as funções sacerdotais. patrocinando o projeto do Império . ao temor reverencial misturava-se o d esprezo social. os padres tiveram de acrescentar. os nobr es tinham pelo clero um sentimento misto de temor e desdém: de um lado.

porém. os padres casados — uma arraia miúda. . que não poderia ter expressão num caso como o que estou discutindo aqui. op. Cf. cit.o ano 1000.. Funck-Hemmer. passim.

e recebendo por isto o apeli do de Luís. subindo ao poder após a morte do pai. cristianizando à força os povos vizinhos. editasse livros e. Apesar da proverbial host ilidade dos nobres à cultura letrada. severo consigo mesmo e com os outros nobres. Para impedir que isto acontecesse. Carlos Magno é sagrado imperador no ano 800. numa recaída fatal. como veremos adiante. São Bonifácio. A Igreja tira as conseqüências políticas do fato consumado: o Império restaurara-se por si mesmo na pessoa desse jovem guerreiro de dois metros de alt ura. seus sucessores. mas adia a realização da promessa e só adquire as primeiras letras aos 3 2 anos de idade. pusesse e m ação o primeiro plano de alfabetização universal de que se teve notícia na história do mun do. se mostra estritament e apegado à moral cristã. é a essência da chamada “modernidade”. A Europa. Mas o fato é que a síntese imperial-cristã não residia senão na perso alidade de Luís. dentro do Palácio e não se afastassem nunca do querido papai. Carlos Magno. formasse uma biblioteca. caos e obscuridade. o Piedoso: a aristocracia parecia haver absorvido completamente seu pa pel no Império cristão. A solução foi temporariamen te encontrada numa família de nobres francos que pareciam menos selvagens que seus pares. o drama do Império Ocidental tomará a form a ostensiva de um conflito entre sacerdócio e realeza 147. Carlos Magno conservava no entanto a lguns hábitos pessoais que dão bem a medida do abismo que existia entre a mentalidad e da nobreza bárbara e a do clero. já imperador. amplia as conquis tas. uma breve consulta aos padres liquidava o problem a. ele teve ainda a sabedoria de dar carta bran ca ao monge e filólogo Alcuíno. O problema do Império cristão pa recia estar resolvido e tudo anunciava um futuro grandioso. por um raro acidente psicológico. contanto que vivessem com eles 147 A Revolução apenas mudará a forma desse drama. dado a acessos de fúria. o impe ador cristão terá de se contentar com algo mais modesto: Carlos Magno considera-se o braço armado da Igreja. alcança o seu p rimeiro momento de esplendor intelectual e artístico. unge a ua fronte com óleo bento — inaugurando o costume da sagração dos reis. impondo sacri fícios em nome da unidade imperial e da ordem jurídica. cuja coragem e força prodigiosas se ombreavam com a sua manifesta fé religiosa. subjugando várias províncias francas e colocando-se sob a aut oridade da Igreja. permitia que elas tivessem quantos amantes desejassem. para que reunisse na corte os maiores sábios do tempo. Este futuro parece a inda mais promissor quando o sucessor de Carlos Magno. e que. após quatrocentos anos de dispersão. Ele não vê nenhuma contradição entre mandar no mundo e obedecer aos céus. e de administrar com muita habilidade as diferenças entre os vários intere sses nacionais — foi um Imperador na plena acepção do termo. que impedia a d ivisão das terras do Império por herança. Morto o Imperador. Essa mudança. esse brutamontes revelouse no entanto capaz de estender os domínios do império. mais surpreendente ainda. o emissário da Igreja. liberal avant la lettr e. o executor terrestre dos desígnios da Providência. tinham uma fé mais ardente e sem contági os. as melhor es qualidades da nobreza bárbara e a fidelidade à Igreja. O filho bastardo de Pepino. cruel com os inimigos. que uma seqüência de felizes acidentes h . Se os antigos imperadores romanos eram tidos como e ncarnações das divindades — Júlio César era aceito como descendente carnal de Vênus —. Ele torna-se r ei dos francos. recentemente cristianizados. dá a esta a base para começar a reconstrução do Império. Se houvess e dúvida quanto a esses desígnios. o Império não durou nem um dia a mais: contrariando uma lei recém-promulgada. exigiram a partilha segundo as velhas tradições gaulesas: o Império desmembrou-se e voltaram à ce na todas as contradições entre nobreza e clero. em que se harmonizavam. Para conferir ao seu poder o prestígio sacral que a tradição gaulesa a nteriormente atribuía à descendência de Clóvis. sem resolvê-lo.136 OLAVO DE CARVALHO Luís XVI rolará pelo solo cortada pela Revolução. Apesar da manifesta sinceridade da sua fé. que são enfim levadas até os confins da cristandade latina por seu irmão e sucess or. Charles Martel. Luís. Vencendo resistências interiores. Pepino de Herstal. consente mesmo em ap render a ler. Ele amava tanto suas duas filhas que temia acim a de tudo que elas se casassem e fossem morar longe dele. Glutão.

no Oriente. floresce em riqueza. de um lado. A primeira Roma cristã havia durado apenas o tempo de três gerações. poder. a sucessão de tentativas dramáticas e sangrentas a q ue o Ocidente se entrega — até hoje — no empenho de realizar a idéia imperial. Quando comparamos.avia camuflado por algum tempo. de outro. Bizâncio prospera. a facilidade com que o Império bizant ino se instala e se estabiliza por mil anos para uma vez ferido pelo invasor des aparecer para sempre. não podemos dei- . Enquanto isso. cu ltura.

Uma ou duas vezes por ano. Seus filhos desempenhavam funções sacerdotais.. e nós inteligentes. Cada feudo fecha-se numa desconfiança rancoro sa. muitos desses feudos mudam de donos do dia para a noite. sobre uma base feudal. brilhava no Senado. Em primeiro lugar. Concebido para atender a dois objetivos — s er o braço armado da Igreja e unir sob um governo central os reinos cristãos. nunca realizou nem uma coisa. franceses. Por um milênio. Era. não basta que eles estejam diante de nós: é preciso ter os conceitos (de con + cepio = “captar junto”). jamais tiveram esses hábitos. dis persa por um território imenso e dividida por hostilidades e entrechoques de inter esses inconciliáveis? Mais ainda: como impor a unidade sem uma classe dirigente ca paz? Os remanescentes da antiga nobreza esquecem os hábitos de cultura e refinamen to. As fronteiras das propriedades tornam-se instáveis. E os conceitos que hoje nos tornam claro e patente o sentido desses antigos eventos foram uma invenção muito posterior. Marca na verdade uma segunda translatio imperii — dos franceses para os alemães —. os fatos deviam voar como moscas . a maioria dos povos cristãos se recusou a submeter-se ao Imperador. Durante a maior parte de sua existênc ia. uma aristocracia urbana. recolhia os lucros e voltava à cidade. não contando mais com a proteção de um governo central. pelo m enos Ocidentais —. em giros caóticos onde seus contemporâneos não enxergavam nenhuma forma ou sentido. mais de um Imperador foi excomungado e humilhado pelo Papa. belas damas. É que é fácil compreender o que se pa ssa. Não que os antigos fossem tolos. hoje. Mas que diferença entre os dois feudalismos! O antigo nobre. Mas nunca passará de um projeto. De outro lado. Que ninguém se deixe aqui enganar pelas palavras: o regime era “feudal” num caso como no outro. depois que se passou. ele já não existia senão no papel. em 1806. com um muro de impossibilidades. Na falta deles. e a primeira é: Como impor a unidade política e a dministrativa sem uma aristocracia urbana — sem a unidade da classe dirigente.. têm de ser defendidas pela espada. A segunda Roma Cristã Ocidental — o Sacro Império Romano. viveu às turras com o Papado que deveria representar. ou. Com as invasões. era impossível construir um novo I mpério com modelo romano sobre bases econômicas tão diferentes das romanas. que os protagonistas não as percebessem em tempo de tentar mudar o curso dos eventos. entre os seus pares. ele visitava suas terras. muitos I mperadores não chegaram seq uer a ser sagrados pelo Papa. os nobres se retiram definitivam ente para suas terras e. vivia na capital. filósofos. para percebermos os fatos. não sabendo se deve temer mais as ambições dos vizinhos ou as hordas bárbaras que co ntinuam chegando e devastando tudo. Nenhuma outra civilização mostrou uma vocação imper ial tão absorvente e uma incapacidade tão profunda de dar a essa vocação uma expressão estáv el. os novos. Quando. de origem bárbara. Com a dissolução do Império. ia ao teatro. Por que foi assim? As causas do fracasso são tão patentes que chega a surpreender-no s. portugueses — fundaram mais tarde seus próprios impérios. o Império não passou de um aglomerado de principados e ducados independentes e m utuamente hostis. trata m de organizar exércitos particulares. Mas é que. embora o termo seja usado em ge ral exclusivamente para a mudança do Oriente para Ocidente. A aristocracia agora é uma 148 . espanhóis. fundado em 962 por um pa cto entre o rei Otto I e o Papa João XII — durará até 1806. de uma comédia. sobre as ruínas do antigo. nem a outra. pior ainda. essas unidades autônomas chegavam a mil e oitocentas. oficiavam os cultos públicos e depois faziam carre ira no Exército. Q uatro dentre eles — ingleses.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 137 xar de notar algo de estranho no fascínio que essa idéia — e a impossibilidade de real izá-la — exerce sobre a mente Ocidental. os esquemas menta is que nos permitam apreendê-los na unidade das suas relações. mais de um Papa foi destronado e perseguido por or dem do Imperador. Napoleão mandou extinguir o antigo Império. cu ltíssima e politizada 148. A construção do Império europeu defronta-se. desde logo . sua casa era frequentada por artistas. como um “coronel” do sertão pernambucano. Na época dos últimos Habsburgos.

Uma tradução — “La decadencia de la cultura antigua. nº 37. t. Sus causas sociales” — foi publicada na Revista de Occidente ( Madrid ). jul. 1926. Não sei se existe outra. XIII. o clássico ens io de Max Weber continua insuperável.Sobre a organização econômica do Império Romano e as causas de sua dissolução. .

Morto Carlos Magno. um homem dotado de antevisão histórica q uase profética 151. capturados aos milhões em guerras de conquista e po stos a servir em verdadeiros estábulos. sempre ameaçado por uma tensão estática. mediante artimanhas legais e violên cias. reclamavam medidas disciplinares que só vieram. a Igreja se desgasta rá entre esforços utópicos para erguer um império sobre as nuvens e em malabarismos para esconder-se das tempestades que ele lhe envia. e que foi junto com ele para o túmulo: sobre o cadáver d e Luís. Difel. seu s ucessor. os nobres festejaram a repartição do Império e. vol. Ora. e seu sucessor. quando era tarde e a Igreja já estava demasiado enfraquecida. A mais gr ave sobrevém entre 1296 e 1303.138 OLAVO DE CARVALHO horda “inculta. observando desde o século X a insubordinação e a a rrogância da casta guerreira. ). o tesouro estava exaurido. fartamente repartidos entre a aristocracia. que já estava meio ganha. na pessoa de Felipe. morre logo depois. Felip e manda um exército invadir o palácio do Papa. A Idade Média. Uma das atribuições básicas do imperador sagrado no ano de 800 era defender esses direitos — o que o tornava antipático à maioria da clas se aristocrática. Durante os primeiros cinco séculos . Pedro Moacyr Campos. conquistando para ela o direito à propriedade e ao casamento. não havia novas terras a conquistar e a lei proibia repartir as do Império: já não era possível reinar nem pelo terror. O Pap a Inocêncio IV ( 1243-54 ) já afirmara que a Igreja desfruta da plenitude do Imperiu m. em vez de levar adiante a briga com Felipe. o antigo feudalismo romano fundava-se inteira mente no trabalho de escravos. compensavam os pr ejuízos decorrentes das vantagens concedidas aos servos. nem pel o suborno. História Geral das Civilizações. 1º. Por mil anos. turbulenta. o Piedoso. cujos botins em bens e em terras. Em todo caso. em Maurice Crouzet ( org. e em represália o Papa edita a bula U nam sanctam. Não lhe restava outra arma senão o respeito que sua retidão pessoal inspira va — arma de eficácia duvidosa. por sua intransigên cia e falta de tato. Carlos Magno conseguiu fazer-se obedecer. o conflito toma a forma de um periclitante equilíbrio de forças. viu-se numa situação medonha: todas as propriedades tinham s ido distribuídas. foi na verdade um gênio. em parte pelo terror que inspirava. mas. ávida de prazeres grosseiros e que poder algum consegue disciplinar” 149. de quem tanta gente na Igreja e fora dela fala mal até hoje. Bonifácio é preso e agredido fisicamente. tese que se tornou muito generalizada entre os canonistas. 151 “O Papa não esperava evidentemente a . t. Bonifác io. Ele percebeu. Bonifácio não sacou esta afirmação pronta e acabada de seu próprio cérebro: ela já vinha germ nando em muitas cabeças ilustres que. 1956. retorna ao trono com forte apoio popular. quando o Papa Bonifácio VIII. O rei da França. e le va a transigência ao ponto de aceitar discutir. p. Não adianta nada: velho e doente. São Paulo. Em terceiro lugar. A Expansão do Oriente e o Nascimento da Civilização Ocide ntal. em parte pelas guerras de conquista. O que Bonifácio fez de novidade foi simplesmente transpor essa tese da esfera teórica para a dos manda mentos práticos. que declara com todas as letras aquilo que até o momento tinha ficado delicadamente implícito: a total submissão dos reis à autoridade da Igreja 150. III. trad. desencadeando um terremoto. que de vez em quando explode em crises incontroláveis. consegue driblar parcialmente o cerco. sem direito a ter bens pessoais ou a const ituir família. desejando forçar a unida de entre os príncipes Ocidentais para empreender uma nova Cruzada. libertado após três dias. a Igreja mesma havia mudado a sorte dessa gente. 126. por me io de Bonifácio. só para tudo terminar numa pizza póstuma. as acusações que o bandidi nho coroado fazia à honra do falecido. prefere ficar em cima do muro. as raízes de um 150 Edouard Perroy. pune os recalci trantes mediante 149 uma recusa de pagar-lhes os impostos das igrejas locais — o que era simplesmente c ondená-los à falência. bem como várias garantias contra as arbitrariedades do senhor feudal. mandando às urtigas a consciência cr istã. Felipe o Belo. Luís. assaram e comeram os direitos dos servos. num concílio.

Este parágrafo reune um primor de análise histórica à deformidade de uma avaliação moral marcada pela típica incapa cidade do acadêmico moderno. Mexico.. 2ª ed. Em primeiro lugar.. 1956.. Domenchina.oposição que ia levantar. quando o modelo supremo da força moral. que é a única que permite vencer um conflito dessa natureza” ( Henri Pirenne. mesmo cristão. O que fez ( os reis ) triunfarem foi a consciência que tinh am de contar com o assentimento de seus povos. como poderia o Papa admitir que o “consentimento dos povos” fosse gerador de autori dade espiritual. Historia de Europa. mesmo conhecendo a popularidade dos reis.. Não soube ver que os direitos da coroa se apoiavam no cons entimento dos povos. que sustenta toda a pedagogia ética da nossa civilização. a força moral. o defensor solitário da verdade que todos rene gam? . Toda a sua conduta prova que não tinha compreendido as mudança s surgidas na Europa. p. isto é. é precisamente o de Cristo. 270 ). tr ad. FCE. se na origem mesma do cristianismo estava o fato de um martírio p erpetrado com maçico consentimento coletivo? Em segundo lugar. por que denominar “fo rça moral” o mero sentimento de segurança que advém da certeza de um respaldo coletivo.. Juan J. de compreender senão superficialmente a índo le do cristianismo.

pois. para seguir o espírito da época. é claro. feliz156 É verdade que o lado adversário. p.. eram Felipe o Belo. Éditions Traditionelles. trad.” vista histórico. haver algo de hereditário na santidade: e. por forte que sej a o coice 153: “É necessário. 155 Cit. em Jean Favier. 2 :15). As antigas tradições e mitologias estão repletas de histórias de magos. em lugar dos homens de religião. Cléa Pitt B. do ponto de Deveria Bonifácio. Depois. que qualquer poder espiritual se avantaja em dignidade e nobreza sobre qualquer poder terreno. e sim apenas uma monarquia nacional rebelde. 6.. enxerga Bonifácio pelos olhos de Felipe. não tem sentido ju lgá-lo apenas pelos cânones da razão de Estado. era por ordem do Arcanjo Gabriel. Assim o afirma o apóstolo: ‘O homem espiritual julga a tudo. era porque os inspirava o demônio e. A coisa parece ser uma constante da história humana. Pirenne.. concordando com o princípio geral. Assim. Sobre o Poder Eclesiástico. é simplesmente uma defesa do espírito contra a f orça armada. é mesmo ( v. só poderá ser julgado por Deus. no tratado De monarchia. será julgado pelo que lhe é superior. quando surgir em cena a figura de Hen rique VIII). Deus assinava e m baixo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 139 mal que o futuro iria ampliar até as dimensões de uma tragédia mundial: a apropriação da a utoridade espiritual pelo poder armado. e juristas a soldo de Felipe argumentavam : “Antes que houvesse sacerdotes. a suprema autoridade espiritual que não da ria satisfações a ninguém exceto a Deus 154. mereciam ir para a fogueira. se os Templários faziam negócios financeiros embrulhados. basta lembrar q e ele foi o primeiro a lançar a idéia do serviço militar obrigatório estendido a toda a população (idéia que. sacerdotes e pro fetas que nomeiam reis e depois sofrem as maiores ingratidões de seus protegidos. e. 154 O próprio Dante Aligh ieri chegou a defender a autonomia monárquica. Para fazer uma idéia de até que ponto chegavam as pretensões de F elipe — e de quanto nelas ele se mostrava já imbuído do espírito “moderno” —. de: Egídio Romano. se Felipe fazia a mesmíssima coisa. que alguns cretinos apontam como uma odiosa manifestação de clericalismo reacionário. O poder espiritual deve instituir o po der terreno e julgá-lo. se não é bom. Vozes. Philippe le Bel. tratou logo de dar ao seu se ntido um inchaço descomunal: o que quer que os franceses fizessem. ta lvez arrependido. Paris. Sua bula Unam sanctam. Felipe parece ter chegad o a supor. se um Papa é um homem de religião e não apenas um político. entre as névoas de uma falsa consciência embalada pelo casuismo jurídico de um extenso cordão de puxa-sacos. para nada dizer do bíblico (vide o episódio de Saul). Petrópolis. 1989. reivindicava para os reis. logo. Paris. Goldman Ve l Lejbman e Luís A. De Boni. quanto as cois as espirituais sobrepujam as temporais. 27. 153 Transcrito em apêndice à “Introdução”. que inicialmente se referia só às Cruzadas. Herdando o trono de um santo (Luís XI ). ele nem suspeitasse estar combatendo a semente de um novo poder imperial ( o império ficava na Alemanha. era uma bela co nversa mole 156. encheu de reis o Inferno. Não d eixa de ser interessante que a disputa de prioridade espiritual entre as castas . abjurar do espírito da sua fé? Não: ele teve a legítima força moral — preferiu a dignidade da derrota a uma transigência abjeta. Sobretudo. com tanto maior evidência. Mas. 1978. será julgado pelo es piritual. se erra o poder espiritual menor. ma s se é o poder supremo que erra. imbuind o-se até a medula da expressão Gesta Dei per Francos (”a obra de Deus feita por mãos fra ncesas”) 157. e já dava bastante trabalho ). 152 Embora. 1948 ). não pelo homem. A utorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. e os franceses. havia reis” 155. e as verdades que ela consagra continuarão certas enquanto houver quem considere que um homem velho vale mais do que um jumento novo. p. Se o poder terreno se desvia. s m dúvida. o roubo da coroa de Cristo pelos sucesso res de César 152 (veremos isto logo adiante. naturalmente. e se recusa a tentar a operação inver sa. Segundo René Guénon. por Luís A De Boni. em que a única obrigação é vencer. proclamar. e por ninguém é julgado’ ( I Cor. Fayard.

há de ter certamente co mpreendido o peso imenso que terá. na decisão do destino do mundo. Vega. a disputa entre o s homens de religião e os homens de governo. e Barrès. está olhando numa direção completament e diferente. António Carlos Carvalho. Lisboa. Ironicamente. sobretudo O Mistério do Graal. Ao transferir-se da arena política para a esfera esotérica. um pouco d e vômito. pelo menos o meu. 1978 ). 157 A mística desta expressão durou até o século XX. mas apenas as tornou invisíveis e deu à sua guerra as proporções de u ma castástrofe natural. escrevendo dela. Est es dois. na escala discreta que convém ao caso. não tem a menor idéia de que se trata do velho conflito de castas. a opinião pública. . Já o gen. de Gaulle provou que ela funcionava na prática. Charles Péguy e Georges Bernanos acreditavam nela piamente. e assim também o são as causas: a luta pelo cetro espiritual de mun do se radicaliza e se torna mais decisiva precisamente na hora em que a “opinião públi ca”. Jacques Maritain. o poder é secre to por natureza. arrancam lágrimas. revogável por decreto — o que certamente não fez com que as castas dei xassem de existir.sacerdotal e real se reproduza. bocejos. Até mesmo o ateu Mitterrand parece ser devoto dela. iludida por toneladas de informação irrelevante. v. Como dizia Guénon. trad. movia o mundo. Se o leitor acompanhou minha argumentação até aqui. Maritain. Maurice Barrès. mesmo porque a doutrina oficial da Revolução lhe ensinou a crer que as castas são uma instit uição convencional. inclusiv e letrada. entre os do is maiores escritores esotéricos do século XX: René Guénon e Julius Evola ( deste último. mas na verdade é aí que ele se torna decisivo para a compreensão dos rumos da história contemporânea. esse debate parece to rnar-se ocupação de eruditos saudosistas.

um ateu. mas só naquilo que sentenciam em matéria de doutrina teológica e moral — não nas suas decisões p olíticas e diplomáticas. o Espírito não estará presente senão em símbolo. representada pelo seu Papa. latente. em que medida a Igreja de Roma. pode ser um santo.140 OLAVO DE CARVALHO mente. meu amigo. era velho demais para poder levá-la até o fim. ouviu do Papa o gracejo: — Como vê. momentaneamente ocup ado por um imbecil ou um malvado. Céus! Será a eterna tragédia humana que o primado do espírito tenha de conformar-se em ser apenas sussu rrado em segredo? Que. manipulado e enfeitado por mil arranjos. terminará por explodir numa rup tura quando a capacidade de conceber novos arranjos tiver se esgotado. tem no seu topo os santos e os mártires. um covardão como Benedito XI que não hesita em lançar a mancha da suspeita sobre a reputação de seu amigo e antecessor para fazer as pazes com um monarca frio e desumano.” — Para compensar — respondeu o asceta — ele também já não pode dizer: “Levanta-te nda!”. amigo. pode ser um ladrão. apenas a hierarquia do governo eclesiástico terrestre é que desce do papa aos cardeais. por força do Espírito que dirige seus atos e pensamentos e o preserva do pecado. O que sei é que só Deus é um: tudo no mundo é dupl o. por isto. então. d esde que a Igreja se constitua administrativamente —. A verdadeira unidade da Igreja. como foi Pedro. naquela parte que se incorpora à sabedoria da Igreja c omo um legado permanente. é claro. O Papa. Não é o mesmo obedecer a um vigário e a um vigarista . infectando-as com o germe de um conf lito que. o h omem que ocupa o trono de Roma. e “a casa dividida ruirá”. É. Mas tudo neste mundo tem uma franja de ambigüidade. impondo seu jugo sobre o poder mund ano. proclamado e assumido como verdade pelo consenso público. é para crist alizar-se na forma de um domínio teocrático que. quando o advento de fatos de uma ordem totalmente outra mudar de repente o quadro de refe rências. aí. contaminado portanto de força bruta? Em que medida a pesadíssima organ ização diplomática. era pura autoridade espiritual? Não era também ela um po der temporal. Neste caso. um farsante. . se dupla é a forma da autoridade espiritual. Or a. Mas essa unidade permanece profun da. Bonifácio só errou num ponto: ao começar a brig . na floração espontânea da santidade nos lugares mais imprevisíveis e mais afasta dos de todo contato com a burocracia vaticana. logo se rompe sob a pressão da rebelião aristocrática e monárquica. mas. Quem. precisamente ao i nverso. mas pode não ser santo nenhum. pode ser um idiota pretencioso. tal como a política dos reinos e dos impérios? Vejam bem: o dogma católico diz que os Papas são inspirados pelo Espírito Santo. visitando o rico palácio do Vaticano renascentist a. numa ascensão ainda maior do prestígio da força? Será necessário optar sempre entre uma teocracia oprimente e a opressão de um po der mundano 158? Eu não sei. Se a autoridade espiritual é em tese superior ao poder terreno pela mesma razão que faz o espírito superior à força bruta. ficou no papel. bem como disseminado no mundo como Providência. e exercerá então a autoridade espiritual de pleno direito. e você também não sabe. dupla é também a obediência: não é o mesmo o bedecer a um homem inspirado e obedecer a um cargo simbólico. Pois é esta mesma contradição interna e constitutiva da noção de “Igreja” que se transmiti suas relações com o poder imperial e monárquico. eis que a autoridade espirit ual está cindida. como tal. e quem quer que diga que sab e é um palpiteiro muito metido a besta. aos bispos etc. oculta: quando se manifesta à luz do reconhecimento público. n unca residiu na força monolítica da administração central romana. na autoridade do cargo. Uma vez que o fiel sinta essa duplicidade — e é fatal que ele a sinta algum dia. não naquela que passa à História como o relato de um jogo de cartas. é autoridade espiritual. até que o Século das Luzes viesse iluminar com novas fulgurações de gênio a ciência do morticínio estatal). Pedro já não pode dizer: “Não tenho ouro n em prata. e le resulte sempre. política e burocrática de Roma é movida pelo sopro do Espírito ou pelo en rechoque mecânico das forças deste mundo. um assassino. por uma inversão diabólica. Quem. falou pelo Espírito? O chefe nominal da hierarquia ou aquele que o Es pírito houve por bem inspirar no momento? Quem é o homem espiritual superior que jul ga o homem espiritual inferior? Os papas julgam os santos ou os santos julgam os papas? A expressão mesma “Igreja” assume aí um sentido ambíguo: a hierarquia espiritual. no confronto prático com o poder tempor al? Conta-se que um pobre santo.

. por exemplo.158 Pensemos.. entre a disciplina compressiva do s aiatolás e a nulificação da consciência individual na sociedade administrada do Ociden te. na alternativa de hoje. .

Em Portugal. de um lado. séculos de luta contra os invasores árabes haviam acabado por forjar a unidade da aristocracia. se o braç da Igreja estava no Império — cujos domínios se estendiam sobre um território que corre sponde mais ou menos à Alemanha e parte da Itália —. recorria ao exped iente de saltar pessoalmente pela janela de seus inimigos. 3º. nada tinham ouvido de imp ortante que não se referisse a uma dessas coisas ou a ambas. Mais do que ninguém eles haviam demonstrado sua fé e contribuído para a nova cultura cristã. sob a dupla obsessão da Fé e do Império. a salvação da alma. Durante um milênio. mudaram repentinamente o quadro. de outro. Por volta de 1500. abrindo aos olhos europeus o pa norama de um novo mundo. segundo comentavam os juristas da época. Cansadas de luta r contra o Império. a primeira coisa que fizeram foi reavivar as velhas amb ições e mudar repentinamente a sua ênfase: a luta pelo Império já não tinha de ser um confli to europeu. a alteração profunda das relações entre realeza e ero. 2º. as navegações. acabasse por ser interpretado nos termos desse velho par de conceitos. do outro lado do Oceano. nasc era o reino de Portugal. e mostravam por suas independências nacionais um apego igual ou maior do que aquele que tinham pela religião. Na Espanha. 2º Mas — atenção —. “franco” se tornou um sinônimo de nasrányi. Assim. a unificação da Cristandade Ocidental fora obstaculizada prin cipalmente pela resistência que dois povos. ofereceram à autoridade imperial. suscita de imediato três mudanças verdadeiramente cataclísmicas: 1º. uns quantos índios pelados e militarmente inferiores.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 141 As viagens transcontinentais. O Império. qualquer uma delas tinha o s meios de aparelhar um barco com uns quantos soldados e subjugar. Os ingleses tinham sido o primeiro povo c ristão da Europa. a diversificação das culturas naciona is e a ruptura da unidade cristã. dentre os mais profundamente cristiani zados. e sim o de um braço armado da Igreja. O novo projeto. Depois da fase inicial inglesa. se as nações eu ropéias nem sempre tinham condições de vencer umas às outras. o conceito de Império não era simplesmente o de um poder transnacional qu lquer. Os franceses estavam tão profundamente ligados à Igreja que. a extensão do poder armado da fé. nazareno ou cristão. os servos e cortesãos eram informados de que o ca stelo tinha um novo senhor. Não conheciam outros fins e valores que pudessem legitimar a ação humana senão. dando ao projeto do Império um novo sentido. e o esplendor da escolástica é um fenômeno sobretudo parisien se. Toda a imensa transformação que inaugura os tempos modernos pode s er resumida numa mudança do projeto histórico europeu: do Império doméstico para o Império colonial. elas decidiram então cada qual fazer seu próprio Império. Não é de espantar que tod o acontecimento novo. fosse qual fosse. Assim. entre os guerreiros islâmicos. por um milênio. Pois bem: ingleses e franceses não se curvavam ao Império por nada deste mundo. Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais e criado um reino da noite par a o dia — literalmente. enquanto o Império vai p erdendo o domínio sobre boa parte da Itália que se desmembra em ducados e principado s independentes. dois outros reinos nacionais haviam se formado na Península Ibérica . enquanto dormiam. podia tornar-se uma expansão para outros continentes. Ora. de janela em janela e de pescoço em pescoço. Todos esses povos tinham vivido. a mu ltiplicação dos concorrentes a Império. quasi per latroc inium (não entendo o que queriam dizer com esse quasi). seu coração estava na Inglaterra e se u cérebro na França. 1º Durante muitos séculos. brilhando e rodando sobre todas as cabeças reais como u ma mosca azul. o centro da cultura cristã se transferira para Paris. descobrindo para lá do mundo conhecido uma vastidão de terras a conquistar. já que. poder temporal e autoridade espiritual. . Assim. e d egolá-los na cama: ao despertarem. não contando com um exército numeroso. re sultando enfim que o casamento da castelhana Isabela I com o aragonês Fernando II deu término à última disputa local e inaugurou o novo reino.

aproveitando-se de uma querela matrimonial. Mas agora e le já não estava cercado apenas de nações rebeldes. anglocatólica: católica nos r itos e no dogma. bem como pela dialética do crescimento capitalista ávido de matériasprimas do além-mar. republicano e calvinista. incentivada pelo exemplo da Europa Ocidental que ela inveja. a Rússia. que durante seis séculos fora caindo de frustração em frustração. que esse vulgar psicopata. Cada rei. mediante bem-sucedidas campanhas de ocupação. o clero se nacionaliza. e sim de Impérios concorrentes. acima dos seus canhões. se eleva à posição de uma das mais fortes po tências imperiais.142 OLAVO DE CARVALHO para ser um Império de verdade. o fundador da idéia do Estado auto-sacralizado. O Império. o rei Henrique VIII. Napoleão e Comte. Essa idéia muda. a . proclamar. o estandarte da fé. de início. enriquecida pelo ouro das Américas. investid o de prerrogativas sacerdotais. é o luteranismo que se torna culto oficia l do Estado. a Espanha. instantaneam ente. O processo é ainda acelerado pela ruptura d a unidade do bloco protestante: cleros protestantes nacionais. tomando a dianteira nas conquistas coloniais. com forte apoio judaico. quando Carlos I. Das potências emergentes. Enquanto a parte alemã do Império é sacudida p elas revoltas protestantes. por ter como chefe não o Papa. a porta do tempo girou sobre os g onzos. em mútua oposição. o pai da civilização moderna. é coroad o sacro imperador romano sob o título de Carlos V. inglesa. tendo o rei como suprema autoridade religiosa. que desafiando o Supreme Head. logo a Holanda entra no rol dos concorrentes a I mpério: Império protestante. parecia finalmente ter encontrado seu caminho. L evada pela dinâmica da luta pela independência que log o se torna luta pela hegemonia. tinha-se tornado a principal potência européi a. o de sir Thomas More. Na Suécia. Henrique é. autonomeado Pr otector and Only Supreme Head of the Church and Clergy in England com um único vot o contrário. é César que volta ao trono. funda uma igreja nacional. seja fortalecendo or dens religiosas locais que. O dualismo milenar é resolvido mediante a absorção da Igreja no Império. crescendo desmesuradamente à sombra do apoio estatal. todo o quadro do conflito entre realeza e clero.. encerrando uma época: o projeto de unificar a Europa sob um Império católico mo rrera junto com o s derradeiro mártir. ou Imperador. o chefe de Estado se autonomeia r epresentante direto de Deus. neto de Fernando e Isabela. Do outro lado da Europa.. sem sombra de dúvida. só reconhecia um: seu filho dilet o. procurará dominar seu clero nacional. capazes de pression ar Roma em defesa dos interesses de seu rei. que esse assas sino de mulheres e de sábios tivesse uma idéia clara de quanto sua pessoa e seu gest o representavam o espírito dos novos tempos e prefiguravam o desenrolar dos aconte cimentos por três séculos adiante. agora. ato contínuo. mas cujo potencial imperialista tinha ficado ret ido pelas invasões mongóis e pelas imensas extensões do território a ocupar. talvez por uma resistência inconsciente em reconhecer o pecado orig inal que dá nascimento aos tempos modernos. form am-se na Holanda e na Suécia. unindo pelos dois séculos seguint es o destino de seu país ao da dinastia Habsburgo. a Reforma protestante tinha abalado o monopólio romano do cristianismo: para arvorar-se em representante da Fé. que já tinha desde quatrocentos anos antes sua religião nacional. Para f ortalecer suas pretensões. De maneira ostensiv a ou informal. a independência espiritual. A fundação da primeira Igreja eu nacional marca uma metamorfose radical na idéia de império e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino. Nesse ínterim. seja fundando sua própria Igreja. Seu braço há de estender-se até o Brasil. a Suécia. que inspirará mais tarde Hegel e Robespierre. descobre fi nalmente sua vocação. logo se tornarão centros de poder mais ou menos independentes. junto com a indepe ndência política. o império nascente já não precisa va das bençãos do Papa — bastava fundar uma nova Igreja. um a funde-se logo com o Império. e que continuará reverberando até nossos dias nos discursos da Nova Era e da Revolução Cultural. Com a cabeça de sir Thomas a rolar no solo. tinha de levar. foi beheaded no ato. na Inglaterra. mas o Rei. embora tantas vezes ingrato. Ora. o Sacro Império Romano. Com Henrique VIII. Mesmo os historiadores são muito comedidos ao trata r desse ponto. quantos porta-vozes autorizados pode ter a Fé? Quantos braços armados pod e ter o corpo da Cristandade? A Igreja. É duvidoso que essa deformidade coroada.

dmira e .

no fundo. Não espanta que o rei assim imbuído do caráter divino do interesse nacional acabasse p or regrar. Seu catolicismo perde muito do e spírito internacionalista. que só usara de violência contra os heréticos em caso de rebelião armada. se fait doc teur et convertisseur. Dessa nova partilha da túnica de Cristo. que a Igreja. que forma um pano de fundo às manifestações da independência mais petulante. ao t ransferir-se para mãos espanholas se espanholiza.. Os dois processos são concomitantes e. confondant ses attibutions avec celles de l’autre Pouvoir. em nome dele. ainda quando esteja em abert a oposição com a palavra do clero e com as outras vontades divinas concorrentes. um polonês cuja família sofrera na carne os efeitos da catequese imperial. Comme Roi Très-Chrétien. c’était servir Dieu et l’Église -même” 161. O surgimento de uma nova casta letrada. candidato a Imperador. Il sort de sa fonction et commet un étrange et quelquefois déplorable abus de son autorité” 162. investido da autoridade de “Rei Cristianíssimo e filho primogênito da Igreja”. beatifica o interesse nacional francês e reprime. Nation Très-Chrétienne et fille ainée de l’Église. galicanismo (Fra nça). iberiza-se sob as formas do jesuitismo e da sanha inqui sitorial. que v iverão em anátemas recíprocos. palaciana e não universitária. em tudo isso. que. Pois a luta é agora entre o internacionalismo. Cada um remoldando o discurso cristão segundo seu interesse nacional. a menor sombra de hipocrisia. entretanto. agora apenas um entre outros. Soloviev ai nda acreditavam piamente na missão cristianizadora da Rússia no mundo. representado pelo Pa pa e pelos remanescentes do antigo Império. parece natural e óbvio que sua vontade política s eja a expressão mais direta e pura da vontade divina. muito tempo depois de extinta nos países Ocidentais a mitologia do cristianismo nacional. como na revogação do Édito de Nantes e na perseguição aos protestantes e jansenistas: “Ai nsi le Roi. Luís XIV era sincerame nte cristão. Cada um auto-investido da missão que fora a do antigo projeto imperial — unifica r o mundo sob o estandarte cristão — mas reinterpretando-a segundo a ótica da razão de E stado. Data daí o surgimento do espírito messiânico. a ação da Igreja q ue diz representar: “Nul n’a défendu comme lui les droits de l’État laïque et personne n’a su parler avec plus de fermeté au Souverain Pontife lui-même. Unificada por Ivan III (“o Grande”). endurecido por oito séculos de luta contra o mouro. herdeiros — sabend o ou não — do espírito de Henrique VIII. é um reflex o dessa mudança. expressão típica de um povo que se cristianizara no campo de batalha. ainda representava. nascem os muitos cristianismos modernos. Homens como F. Não há..” 160 A fase cruenta da Inq uisição data dessa época e desse lugar. Mesmo o Sacro Império. Há até mesmo uma certa candura na co nvicção com que Luís XIV. a nova fase inaugurará a p erseguição a indivíduos isolados. Dostoiévski e V. em nome dele e sem a menor consulta ao Papa. e o nacionalismo imperial das potências . w 3º Mas. um título que ele se conferira a si mes159 mo. anglicanismo (Inglaterra). fundação dos cultos nacionais: luter anismo (Suécia). como a maioria dos reis do seu tempo. que marcará a mentalidade russo-ortodoxa a té pelo menos o fim do século XIX. t udo passa a orbitar em torno do rei. constituem um só: multiplicação dos Impérios. na época. resumia numa palavra o espírito dessa anacronia vivente: “Cinismo. embora confundida no meio de tanta s fidelidades ambíguas. il pensait que servir la France.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 143 procura imitar. A seu modo. tudo se nacionaliza. calvinismo (Holanda). Aos governantes dos séculos XVI a XVIII. O que espanta é justamente a natu ralidade que cada um julgava o seu modo nacional de ser cristão muito superior ao modo universal e supranacional. que descrevi lá atrás (§ 21). no galican ismo. Em contraste com a Inquisição medieval. Ond e esta pretensão absurda se revela de maneira mais patente é. não compreendia a fé senão como gue rra contra os infiéis 160. Joseph Conrad . assume com Ivan IV (“o Terrível”) sua missão expansionista e cristianizadora 159. até mesmo disputas teológica s. precisamente por sua submissão nominal à Igreja de Roma.

t. c om artistas e letrados a soldo da nobreza. p. preservando ali o internacionalismo. Louis XIV. 16 1. os reis fomentam culturas nacionais. p. II. Paris. E. Id. 161 162 Louis Bertrand. J. Tallandier. 156. enquanto o Papa obtém o controle das universidades. em línguas nacionais..emergentes. 1929. .

além desse. V. representando a nação. 1945. dizendo que não há outra fonte da lei senão a vontade do soberano. 1583). Ora. Os ingleses. o rei no Parlamento. Hooker e outros procuram moderar os excessos da au toridade real. As soluções propostas. de autoridade espiritual e poder temporal. teorizado às pressas ex post facto. A conseqüência imediata é que. — Aliás o mesmo Inocêncio III. Tête de Feuilles / Sirac. entre muitos floreados e um semnúmero de idéias valiosas. O que nenhum dos teóricos da monarquia divina sequer reparou é que a junção indissolúvel. por toda parte. o rei não manda nada. pela simples razão de que não tem solução: se não há nenhuma instância superior ao poder — uma tradição. Se um outro faz a lei. o resultado. numa bula cujo título não me ocorre. Hachette. 165 Aqui compreendemos. como mostrou Bertrand de Jouvenel 164. res olvem a coisa por um jogo de palavras: quem manda é o rei com o Parlamento. Paris. 1972 — um clássico. 1580). mas ninguém pôde recorrer a este exemp lo porque a nova concepção era inexpressável no velho linguajar astrológico. onde a auto ridade espiritual era o Sol. o debate prossegue até hoje. os novos intelectuais logo se apressam em erigir e m norma e ideal o fato consumado. sua proclamação inaugura uma série infindável de discussões que se prolongam até hoje: Quem faz o rei? Quem faz a le i? A lei faz o rei ou o rei faz a lei? Se o rei faz a lei que manda no rei. investido de poderes divinos. cada reizinho que saltasse a janela p ara degolar no leito os adversários se equiparava. muitos outros pontos fracos. Com outras denominações — E xecutivo e Legislativo —. então não há lei nenhuma. 1576). l he deram esses poderes divinos. e então se repete fatal mente. e tudo aquilo enfim que se consubstancia no t ermo “religião” —. que. que era louco por astrologia. Thomas Smith (De repub lica anglorum. Pela nova teoria.. estabelecendo uma linha demarcatória demasiado rígida entre ciências sac ras e profanas. valores sedimentados na cultura. O assunto é estudado por Gilbert Durand em Science de l’Homme et Tradition. formava a síntese solilunar que constitui a autoridade profética. numa só pessoa. Parlamento quer dizer: a classe política. portanto. será sempre o fortalecimento ilimitado do poder 165. E eis que a pretensão 164 Inocêncio III. Bertrand de Jouvenel. automaticamente. de imediato. afinal. o expediente auto-engrandecedor de um assassino insano adquire uma aparência de dignidade inte lectual nas filosofias políticas de Jean Bodin (Six Livres de la République. apelando à idéia do Parlamento. de qualquer s anção religiosa. não suporta a concorrência nem me smo daqueles que. de repente. reunidos no Parlamento (como outrora os cardeais em concílio). a Moisés. teve as maiores dificuldades para conciliar suas idéias com o simb olismo astral. uma leitura absolutamente essenc ial. Genève. Paris.144 OLAVO DE CARVALHO Como não poderia deixar de ser. 1978. Histoire Naturelle de sa Croissance. contribuiu um bocado para a emergência da moderna intelectualidade leiga e materialista. e o poder temporal a Lua 163. Bodin. ou mel hor. e todas as discussões teóricas não passarão de adornos acadêmicos da tirania. Mas. outra causa do fracasso do Império mediev . César. a que nem mesmo os papas t inham ousado se ombrear. Bodin. então a disputa entre as facções do poder pode prosseguir indefinidamente: vença o rei ou 163 vença o Parlamento. a mesma disputa que havia entre a Igreja e o Império. entre a classe política e o rei. p udesse coroar o reiprofeta. era preciso que ele mesmo tivesse atributos divinos. usara explicitamente essa imagem. era bisneto de Vênus. tomam duas direções. os homens importantes que representam ou dizem representar a população. Th omas Hobbes engrossa o caldo logo de vez. éd. nos impingem enfim a noção de que os reis governam por direito divino inerente às sua s ilustres pessoas e à natureza das coisas — e independente. nouv. Como a teoria tivesse. consagrando-a como expressão por assim dizer oficializada da doutrina. Le Pouvoir. a ascensão do rei se faz às custa s da nobreza: o rei. uma crença comum impe . Richard Hooker (The Laws of Ecclesiastical Polity. para que o Parlamento. sempre muito práticos.

mas uma coisa é certa: a Igreja não se mete u nos assuntos políticos por iniciativa própria. em seguida ficou dividida entre a necessid ade de passar o abacaxi aos leigos e o temor de uma nova perseguição religiosa sob o reinado de um César de sua própria criação. com toda a paciência. veriam um sinal premonitório no fato de o primeiro candidato a imperador se chamar . O que me pergunto. a autoridade espiritual não vigor ava plenamente. tinha obtido tamanho sucesso durante os seis primeiros séculos. Por que gerá-lo tão cedo? Por que não esperar que a cristianização. forçava para retomá-lo sempre que o Império escapava ao seu controle..al: numa Europa insuficientemente cristianizada.. Pepino! . por que não po dia simplesmente continuar cristianizando a Europa. a o mesmo tempo que procurava livrar-se dele e transferi-lo a um Império.. necessidade de improvisar uma administração. deixando que César cuidasse de César? O Império abortou porque nasceu prematuro. em resultado. mas foi metida neles pelo curso dos eventos: queda do Império. lenta e naturalmente. vacância de ant igas lideranças religiosas bárbaras etc. sem encontrar resposta. sem poder temp oral. e neste vaivém passaram-se m il anos. desse frutos políticos menos amargos? Não sei a resposta. o clero descera ao exercício do poder temporal. Se os brasileiros já existissem naquela época. e. é: se a Igreja.

Carl J. cada qual instalado bonitinho em seu tr ono europeu. Zahar. Álvaro Cabral. das atrocidades européias nas Américas. bombardeando. é claro. tudo o que encontrasse pela frente. E. culto n acional. E quem é que ia recusar o diálogo. se multiplicassem rapidamente e saíssem p elo mundo. diferentes gradações de maldade. então. eterna como um arquétipo platônico. fora um precursor: sua doutrina pressupunha um tipo de Estado nacional que na Itália de então só existia em p rojeto. já havia resolvido o problema. doravante.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 145 doida encontra um precedente teórico venerável: antes mesmo de que Henrique VIII ung isse sua própria cabeça com o óleo da herança mosaica. até garantir que. para o fortalecimento do poder: se o rei é fonte da lei. 1965. r ealizado o milagre: de uma unidade provisória e mais ou menos convencional. Isaacs e Jacós. sua fama já tivesse chegado antes dele. Maquiavel. sua palavr a é final. feita à custa do sangue dos mártires. com um punhado de soldados. não é de espantar que os corpos mís . Portugal foi o primeiro. de fato. é nada menos que um c orpo místico. Não é preciso repassar aqui o rosário. onde quer que viesse a a portar. Sir John Fortescue (De laudibus l egum Angliæ. A N . omo o próprio demônio informasse que “meu nome é Legião”. Por intermédio do Rei autodivinizado. metafísica. para em seguida fazer saber acima de qualquer dúvida. uma nova encarnação do Logos divino. a epopéia da “cristianização” estaria a tal ponto imersa em sangue 167 Sobre Sir John Fortescue. fundador do moderno E stado sacro. Se. Depois desembarcava num ponto qual quer e mandava cortar algumas centenas de narizes. para em seguida ir tomando todo o territory e embolsando todos os lu cros do trade. ao sustentar que a nação. desceu as costas da Índia. na África e nas Índias. Rei-sacerdote. e eis aí. mas a individualização vivente de um corpo místico. sem desembarc ar. IX. o mundo alcança então o estágio de maturidade cínica necessário par a que. a nação de repente se ergue às alturas de uma realidade celeste. cada qual imbuído de sua verdade eterna. as idéias de Maquiavel sobre a razão de Estado pudessem sair do p apel e tornar-se prática generalizada. é o braço armado da doutrina de Fortescue. v. Nem todos os conquistadores foram igualmente cruéis. uma pessoa ungida e sagrada pela qual. Tudo contribui. Desde a política de terra-arrasada de Hernán Cortez até a perfídi a dos ingleses risonhos que desembarcavam na Índia com cartazes dizendo Trade. investidos da missão sublime de impor seu jugo suave de Bons Pastores a quantos índios pelados ficassem na mira dos canhões. a uma altura dessas? A proposta era simples e esquemática: dessem a Afonso tudo o que ti nham. Seus discípulos surgirão na geração seguinte. um corpo místico. cada qual conc orrente a Império. bem conhecido. exatamente no sentido em que o conjunto dos fiéis forma o corpo místico de Cristo 166. os cristianismos imperia is inaugurarão uma modalidade de sacrifício comproporcionada à mentalidade dos novos t empos: o martírio dos outros. not territory. Rio. Friedrich. então o rei não é um simples man datário. missão imperial das nações. sua disposição de dialogar. ao governo local. finalmente. e Erich Voegelin. Afonso de Albuquerque. Cap. ao contrário. dando logo aos outros uma lição prática de como “dilatar a Fé e o Império”. houve. cada qual. Henrique. Mas essa maldade seria tanta. razão de Estado: essas idéias são mais ou menos absorvidas por todas as potências emergentes. é o Parlamento que o legitima.. de um só golpe. trad. como pretende Hobbes. fala a própria boca de Deus. 1470). Apela-se portanto à velha idéia de Fortescue. Numa inversão simétrica da expansão cristã dos seis primeiros séculos. e i nvestida do prestígio aterrador das coisas sacras. e fora da Itália. Perspectiva Histórica da Filosofia do Direito. seguidas da dupla e correspon dente quantidade de orelhas. com o aval do Parlamento. a socie dade civil e política representada no Parlamento pelos nobres. como a Bíblia já houvesse advertido que “os deuses das nações são demônios”.. sacralidade do corpo político. que continuou inca paz de formar um verdadeiro Estado nacional até o século XIX. mutável e perecível ao sabor das guerras e acordos interdinásticos. e ele garantia que os restantes narizes e orelhas permaneceriam saudavelme nte atados a seus lugares de origem 167. a ditar suas palavras direta166 mente para os novos Abraões. considerado geralmente o primeiro codificador de conjunto da t eoria política inglesa.

v. cit. . 3ª ed. 1953. op. Elaine Sanceau. Afonso de A lbuquerque. Lisboa. José Francisco dos Santos. Sobre os métodos persuasivos do Albuquerque terríbil.ova Ciência da Política. O volume faz parte de uma série notável que a autora consagrou à história dos de scobrimentos portugueses. O Sonho da Índia. Civilização. trad. .

as du as correntes de idéias que marcam. tinha ajudado a precipitar. Eis a missão de Napoleão Bonaparte. A Concordata com o Vaticano manifesta essa fraqueza. do outro lado do Oceano. no Es tado. as monarquias começam a cair. da autoridade espiritual. Ilimitada em do is sentidos: para fora. renasce. construir o I mpério leigo conservando a estrutura de poder do Antigo Regime — basic amente. e. Recapitulemos. para dentro. incapaz de resolver sua contradição originária entre o modelo romano e a duplicidade Ocidental d as castas clerical e aristocrática. a contradição entre clero e nobreza é resolvida pela absorção. Por volta de 1500. o clero c onspirava com os príncipes ingleses e alemães para a derrubada do Império.146 OLAVO DE CARVALHO se seu ponto de partida não fosse. Aufheben — “absorver e su perar” — é o termo de Hegel: o Code civil de Napoleão é a Aufhebung imperial e leiga da mo ral cristã. Assumir. o Antigo Regime. salvando-se através de uma nova metamorfose. num novo banho de sangue que ultrapassa em poucos meses todo o horror dos feitos imperiais d’além-mar. que mais se pode espera r do curso posterior dos acontecimentos? O Estado moderno nasceu de uma farsa de moníaca e. ela perv ive. ao mesmo tempo que. àquela altura já abalado até as raízes pela ascensão da nova classe capitalista. fazer do Império como tal a única divindade. segundo o projeto de Hegel. mediante a farsa do “corpo místico” nacional. na África e na Índia. esse calcanharde-aquiles do projeto napoleôni co. uma nova . liberá-lo para a expansão ilimitada. de outro. como o foi. como braço armado da Revolução. cresceu bebendo o sangue dos inocentes. que. um a aristocracia de sangue é sempre um poder de tipo feudal. sua sobrevivência dependia portant o de um imobilismo social incompatível com as mudanças cataclísmicas que o próprio Bonap arte. como aliás é próprio dos fantasmas. a essência mesma do projeto napoleônico: desvincular o Império de seu compromisso com a Cristandade. a apropriação indébita do sonho imperial por nações ambiciosas corrompidas pelo auto-engano de uma falsa consciência religiosa? A pergunta toca no ponto mais doloroso e talvez no centro mesmo da história das o rigens da modernidade: quando o poder monárquico de todas as nações segue o exemplo do assassino delirante que usurpa a coroa do próprio Cristo. uma aristocracia hereditária e militar. A idéia de Império Ocidental vem de Roma. Ademais. onde. vem a R lução. de um lado. a Revolução. agora ela jogará a cartada mais alta. cristianizada. o Império europeu dá lugar aos Impérios coloniais. ainda mais surpreendente do que a anterior. fiel à sua vocação de origem. e inaugura o primeiro Império não-cristão do Ocidente. Se na primeira crise ela se safara tratando de infiltrar-se na Igrej a a título de “Império cristão”. reaparece no ano 800 e vive até 1500 de crise em crise. Seguem-s e três séculos de matanças nas Américas. Em segunda versão. enfim. terminou por rest aurá-lo dentro das próprias fronteiras do Império. Ele sintetiza o projeto imperial do Antigo Regime com a ideologia anticristã dos revolucionários. em m uitas versões nacionais: numa terceira translatio imperii. era sempr e uma aristocracia — e. E esta fraqueza most ra que Napoleão entreviu apenas obscuramente aquilo que. Passados três séculos. se na segunda conseguira driblar a própria Igreja mediante a ousadia blasfema de fazer o rei e futuro imperador passar como encarnação do próprio Cristo. o que pudesse ainda haver de cristianismo residual pudesse ser facilmente absor vido e laicizado sob a forma de “direitos e deveres do cidadão”. tendo vivido por doze séculos num matrimônio sadomasoquista co m o clero. Mas a idéia de Império não cai co m elas. Mas a aristocracia. Napoleão foi vencido menos pelas tropas de Wellington e Blücher do que pel a contradição intrínseca que viciava na base o seu projeto: ele procurou. Napoleão sintetiza. fora. o domínio sobre as consciênci as. com efeito. o domínio do mundo. consistindo por essência numa eliminação do poder clerical. não podia repentinamente acostumar-se à solidão do divórcio. mesmo enxertad a de novos componentes retirados das tropas ou da parentela napoleônica. chegando aos últimos limites do que a audácia mais demente pudesse conceber: dispensar toda legitimação religiosa mesmo farsesca. Eis aí a verdadeir a originalidade. dos Césares. com efeito. a instauração de novas leis. multiplicada. de novos valores. que César é maior que Cristo. Resistente a toda debilitação orgânica.

.

República imperial. 1803. Doutrina Monroe. Instalação de ponta-de-lança no Japão. capazes de manter a águia norteamericana a uma higiênica dis tância dos assuntos de gente grande. Guerra com o México. 1846. Edilson Alkmin Cunha. to be the most glorious of any upon record. entre peri gos e esforços sobre-humanos. para. 1812. nem. o impulso colonizador se transforma quase que naturalmente em impulso imperialista. Construção do Canal do Panamá. Com pra do Alasca. 1845. em extensão da linha de combate e no número de mortos. dei xando os aliados livres para repartirem a seu bel-prazer o bolo alemão. maçônica e protestante. Essa vocação manifesta-se com uma força de uma decisão madura já na infância da nação america mediante uma seqüência de feitos militares e diplomáticos que estendem desde logo o r aio de ação dos Estados Unidos por uma área bem maior do que a ocupada até então pelos Impér ios coloniais europeus. 1823. p.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 147 potência emergente acabara de perceber com total clareza e de maneira definitiva: o Império leigo não podia ter um resíduo sequer de compromisso com a Igreja. discreta mas dec isiva. os esperti nhos esfregaram as mãos com um sorriso maquiavélico. O Império contra-ataca “ The Almighty has made choice of the present generation to erect the American Emp ire. à Revolução Francesa. 1854. de imediato. Tentativa (fracassada) d e invasão do Canadá. Ao contrário: tão logo se sente senhor de seu território. diante de fatos dessa envergadura. trad. dizendo: “Oba. by the blessing of God. capitalista. uma vez chegado às fronteiras naturais ou legais do território. por isto mesmo. de que havia nascido aquele que Deu s predestinara para ser o seu coveiro? A cegueira dos homens de Estado para os r umos mais óbvios da História chega a ser às vezes mais notável do que os lampejos de visão profética dos homens de inteligência. enganamos esse tro uxa. A escalada é impressionante: 1793. tão logo Wilson abandonou a Liga das Nações. And thus suddenly arised in the world a new Empire that bids fair. maçônica e protest ante: é a definição dos Estados Unidos. 1867. 1898. Anexação do Texas. numa nova instituição religiosa que fosse intrinsecamente ligada ao Estado: César só poderia ressuscitar sob forma capitalista . Compra da Louisiana. É uma carreira comparável à das maiores potências europé da época. Intervenção branc a na Califórnia. Anexação das Filipinas. Os Estados Unidos no Mundo do Pós-Guerra. Ele necessitava apoiar-se numa nova cla sse social. Zahar.” WILLIAM HENRY DRAYT ON.” § 28. as potên cias européias não se dessem conta. esses imbecis ainda se acredit avam senhores do mundo. Ajuda. Presidente do Tribunal de Justiça da Carolina do Sul. em Raymond Aron. Mas mesmo esta era u m sinal: superava. e. República Imperial. Guerra com a Espanha. 1906. ao longo de três séculos. republicana. se dar por satisfeito e instalar-se de uma vez para sempre na mold ura desses limites. 21. Mesmo após a Guerra de 14. todas as g uerras da História. A vocação imperial norte-americana não nasceu junto com os Estados Unidos: nasceu ante s. 1975. 168 Cit. Como foi possível que. . numa nova estrutura de poder.. disposto a daí por diante só crescer para dentro. e só interrompida temporariamente pela Guerra Civil. Rio. com as velhas aristocracias. Um povo não se expande por todo um continente. no ano de 1776 168.. Intervenção em Cuba. onde somente a inter venção americana decidira o curso dos acontecimentos.

tinham ali um poder tremendo. No meu entender. a seu destino manifesto 170 de suprema potência imperial do mundo. Teria sido preciso ser mais maquiavélico do que Maquiavel para supor que . Do ponto de vista europeu. e já não era mais que uma vaga lembrança. por favor. p. os EUA não eram só uma nação democrática.. Em quarto lugar. Tanta cegueira tem de ter um motivo. a Holanda. 169 O que já bastaria para chacoalhar até os alicerces a teoria de Hobson e Lênin sobre “o i mperialismo. por trás da agitação republicana. 171 Que ninguém pense. Não en xergaram a potência imperial nascente. a longo prazo. de fato. 170 Manifest destiny: expressão usada e m 1845 pelo editor John Louis O’Sullivan e que se tornaria célebre como símbolo do espír ito expansionista: “Our manifest destiny is to overspread the continent alloted by Providence for the free development of our yearly multiplying millions” ( cit. America. que voltava as costas para o mundo. Sem a unidade da p essoa do Imperador — assim entendiam — não podia haver a unidade de uma política imperia l coerente. 1984. porque ela não representava apenas u m novo imperialismo. Se não enxergaram. Eurocentrismo não é a causa do fenômeno: é simplesmente o nome dele. Em segundo lugar . Para compreender essa metamorfose — a terceira da história Ocidental —. em suma. nas duas oca siões anteriores o Império renasceu ao fundir-se com idéias que lhe eram contrárias: “cris tianismo”. era impossível imaginar uma política imperial sem um Imperador autocrático. que estou racioci nando à maneira de Hegel. 2nd. Com efeito. os termos de uma contradição real permanece . Shi. na maior parte dos casos. a carne dos vencidos e o pão dos vencedo res menores: um obscuro assessor jurídico da Marinha. Em terceiro lugar. Tão diferente. Franklin D. Norton. as grandes empresas. A única República Imperial que conheciam. Para a velha mentalidade. os Estados Unidos não tinham. no primeiro caso. Freqüentemente subia ao poder uma cor rente isolacionista. em George B. eles não eram tão eurocêntricos assim: compreendiam perfeitamente bem o que se pass ava na África ou na Ásia. mas uma metamorfose da idéia imperial — metamorfose que a torna va irreconhecível. Em p rimeiro lugar. as causas de sua destruição 1 71. tão original. habituado por três séculos a identificar imperialismo e monarquia absoluta. a linha de uma dialética histórica que. Roosevelt. uma política i mperial coerente e contínua. se opunham às iniciativas expansionistas do Estado . tinha fracassado redondamente l ogo no seu primeiro século. estivesse nascendo um novo Império. de imediato. que o aparelho ótico europeu não tinha sensibilidade para o tipo de estímulos que dali provinham. Esses dados formavam um a névoa confusa. New York. preferindo a penetração comercial às intervenções militares 169.148 OLAVO DE CARVALHO Santa ilusão! Na comitiva mesma de Wilson já se encontrava aquele que um dia viria a repartir com Stálin. a nação norte-americana formara-se numa revolução antiimperial e professa va uma doutrina anti-imperialista. só pode ter sido por uma razão: porque aquilo que ali acontecia era diferente de tudo o mais. Tindall and David E. o que se passava nos EUA. vaci lavam ao choque de tremendas oposições internas. impedindo o observador de enxergar. 333 ). capaz de influ enciar as decisões do Estado ou combatê-las. era o perigo da Revolução. Suas iniciativas no Exterior eram intermitentes. conduzia os Estados Unidos. no banquete de Yalta. os Estados Unidos eram uma nação democrática: a política nacional era fruto de complic adas discussões parlamentares que podiam adiar uma decisão por anos a fio. paralisando-as. operando por cima — ou por baixo — das intenções dec laradas dos homens e dos grupos. aos observadores habituados a pensá-la sob sua velha forma. Bobagem tentar explicá-la somente por um mórbido eur ocentrismo. etapa superior do capitalismo”. o fenômeno america no era invisível porque era impensável: faltavam-lhe as categorias para pensá-lo. ao mesmo tempo que constituíram. “nação”. Os intere sses privados. Além dist o. tanto que dominavam essas regiões com a desenvoltura de joga dores habilíssimos. Estes enxertos antagonísticos deram-lhe vi da nova. os interesses priv ados. mas também capitalista. portanto. no segundo. Se isto representava um perigo. é precis o ver que ela tem algo em comum com as duas anteriores. Ora. A narrative History. ed. através dessas contra dições mesmas. entre os fatos contraditórios.

tentativas de co nciliar. As formas daí resultantes são sempre t ensionais: suas contradições constitutivas mudam de forma. em sucessivos arranjos ad aptativos — que constituem precisamente o seu desenvolvimento quantitativo e tempo ral —.m contraditórios e jamais são perfeitamente absorvidos em síntese alguma. exaurida uma certa linha de adaptações possíveis. no plano da existência contingente. exigências que só podem ser conciliadas n a esfera metafísica. a não ser meta fisicamente. o conjunto . As grandes criações históricas constituem. até que. no plano do Ser universal. precisamente.

É uma negação ostensiva da versão monárquicoabsolutista da idéia imperial. que ele copiava. manejada habilmente por trezentos anos. Mais adiante. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) “Eu não sou Cristo. o modelo romano d e Império. Las Corrientes Principales del Marxismo. na base. sucedâneo do Heptameron bíblico. a distinção entre dialética real e dialética ideal ( dis tinção que Hegel não faz ). o que Marx colocou no lugar do “conceito” hegeliano não fora m os fatos. na sua complexidade por vezes inabarcável. os Impérios coloniais modernos constituíram-se com o verdadeiros “impérios nacionais” — uma contradição de termos que expressa a contradição rea ntre a escala multinacional do projeto e o interesse nacional a que ele unilater almente serve: daí que. o Império cresce movido pelo conflito com a Igrej a. já que escapam à esfera da experiência sensível não serve de nada como tradução do movimento real da História. com a sucessão de guerras de independência que viriam a destruir todos os impérios coloniais. era um homem acabado nessa época. trad. A nova metamorfose que inaugura o Império americano é uma resposta imediata à crise do domínio colonial. posto de lado como em obediência a uma senha. Alianza. para não dizer simplório: “materializad o” o quanto se queira. como vimos. em O Processo Maurizius. de JAKOB passa por uma metamorfose global ou morre ( isto supondo-se que causas externas mais poderosas não o matem antes ). Eis então que o maior dos Impérios nasce invisível àqueles que pode riam tê-lo destruído no berço. portanto. é som e em prol da brevidade. 1976 ). portanto. como o exige o conceito imperial originário. fundir essa idéia com aquelas que. Se. não prestava mais nem para ser lançado aos cães. e sim de conflitos reais entre facções. “Our Constitution was made only for a moral and religious people. portanto. pa rtidos. explo diria no fim do século XVIII. provisória e. os im périos coloniais modernos nada mais fossem que a escravização organizada de vários povos em proveito de um só. não existe síntese senão potencial. Para quem não compreendia a idéia imperial senão associada às monarquias absolutas. se pode funcionar como símbolo ou metáfora de certas realidades metafísicas que fatalm ente temos de tentar alcançar por símbolos.. no momento. famílias. livre-pensamento. Tal é o pressuposto lógico que embasa as análises qu e aqui vou fazendo: de um lado. democracia. pareciam mais antagônicas ao espírito das velhas monarquias: independênci a. no mais ousado dos arranjos. Madrid. Para o oeste. sempre para o oeste. Afinal. assim. classes etc. que ele falsifica dando metafisicamente um sumiço no fator “contingência” e transformando a incerta e movediça suc essão dos atos humanos numa escala regular de emanações divinas. Pelo contrário . t . mas simplesmente um outro c onceito abstratista e demasiado simplificador. I. Kolakowski acertou na mosca ao enfatizar as origens místicas da dialética de Hegel e Marx ( v. de uma pura contradição lógica entre conceitos. sem exceção. de outro. como Joana a Louca com o cadáver do esposo. o reconhecimento de que. em nenhum desses casos. esses termos podiam conter tudo. W ASSERMANN 173. Ela vai. a mistura hegeliana do ideal com o real não é aceitável. e morre quando se exaurem suas possibilidades de dar a esse conflito uma form a viável e produtiva. Jorge Vigil. ressuscitar a filha de Jairo não estava em meu poder. tensional ( reconhecimen to que falta em Marx ). na esfera da dialética re al. menos a p romessa de um Império. e. Esta contradição. nada me restava a fazer senão levantar acampamento e abandonar o país levando comigo essa metade inanimada de mim mesmo. 172 É claro que não se trata. Se me refiro de modo sumário a “contradições de idéias”. § 29.. é também uma ingenuidade supor que a mera inversão operada por Marx possa con sertar as coisas. It is wholly ina . que a existência d e uma “Igreja” independente dele e superior a ele negava. no prazo que vai da Independência nor te-americana à morte de Antonio de Oliveira Salazar (1975) 172. em vez de conciliar e administrar os interesses de vários po vos numa unidade transnacional. Como Moisés na sua cestinha ou Cristo no estábulo. república. o esquema tese-antítese-síntese continua sempre um esquema.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 149 A contradição constitutiva do primeiro Império cristão foi.” Wars chauer-Waremme.

Octávio de Faria e Adonias Filho. que. incorporando em si sob uma 173 Trad. trazendo o centro do poder para o novo continente ( não o esqueça o leitor. iria realizar o projeto em que Napoleão falhara: o Império leigo.dequate to the government of any other. Civilização Brasileira.” JOHN A DAMS A quarta translatio imperii. . 1963. pois era disto que eu vinha falando no § 27). Rio.

par les Maçons eux-mêmes” ( Études sur la FrancMaçonnerie et le Compagnonnage. O primeiro desses três erros. assumiria o encargo de s ubstituir a Igreja — todas as igrejas — na condução da vida interior das gentes. se possível. para em seguida ser expandida para todo o mundo. 3 vols. Todos os signatários da Declaração da Independência. descarnado e desvitalizado.. em poucos anos chega à presid ia vencendo a candidatura aparentemente imbatível de Luís Inácio Lula da Silva — ilustra -o novamente. a idéia mesma de conferir a uma sociedade secreta a unidade doutrinal trolhas ao lado dos generais estrelados. incl sive a das iniciações de ofícios. e que gênero de sacrifício se ofic iava no altar do MASP. mutila e comprime a linguagem simbólica num unimensionalismo qu e nada poderia justificar. Paris. chose curieuse. de que a própria Maçonaria foi alvo de conspirações. Aí veremos de qual culto é sacerdote o iogue-comissário. t. tudo aquilo que dá certo é atribuído à ação genial da M naria 174. como nova religião da humanidade. Mais espantoso ainda é quando a entidade. entre apóstolos e adversários dessa organização. já no século XX. 174 Pelo lado adversário. atribuídos por seus adversários: comentando o livro de Albert Lantoine . ou má-fé. 1936 ). História Secreta do Brasil. René Guénon louva-o “lorsqu’il démolit la légende qui veut qui la Maçonnerie a t joué un rôle considérable dans la préparation de la Révolution. Im porta agora delinear os princípios do Evangelho que. s e iria consolidar na forma de moral estatal democrática. 1977. a posteriori. quando não da secretude. múlti plo e incontrolável que assumem os empreendimentos secretos. senão a força sutil e às vezes apenas simbólica dos egregoroi. Desse momento em diante. essa “metade inanimada” de Cr istianismo. inicialmente implantada em território norte-americano. por sua vez. beaucoup plus tard.. a fini par être adoptée. que um rito basta par a desfazer em fumaça. a religião do Novo Mundo é maçônica. surgiam conspirações e segredos. assume como seus os feitos que lhe são. E . recebendo a iniciação maçônica. principalmente quando atravessam as gerações e os séculos e não têm. e de que dentro dessas mesmas or ganizações. por um misto de fraqueza e vanglória. divisões e ataques de organizações ainda mais se retas. há evidente mistificação em interpretar toda a simbólica maçônica. em atrib ir à ação maçônica no mundo uma unidade de intenções e de estratégia. nin guém. historicamente comprovado.150 OLAVO DE CARVALHO forma laicizada e desespiritualizada os valores cristãos. qui doit sa naissance à des écrivains antimaçonniques tels que l’abbé Barruel. que pretenderam usá-la para fins diversos. O fato é demasiad notório para que seja preciso demonstrá-lo. cet te légende. há engano. Émile N ourry. 106 ). um De Maistre? 175 É a tese característica de Gustavo Barroso. Éditions Traditionnelles. Só que. O terceiro omite o fato. car. a mistificação toma a forma de especulações fantásticas sobre a antigüidade maçônica — abusando de analogias que são tomadas por identidades históricas — e e um jogo duplo na ocultação-revelação do papel desempenhado pela entidade nos lances de cisivos da História: os projetos de risco são ocultados sob o manto da discrição. pertencem a alguma loja maçônica. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française: La FrancMaçonnerie dans l’État ( Paris. talve z falsamente. Sim. a resguardar-lhes a continuidade e a unida de. Cia. numa pirâmide invertida onde a t reva mais densa assombrava e governava a menos densa. movido por um intuito de interpretar as coisas pr econceituosamente. e de un ificar sob a nova religião laica o mundo Ocidental. O segundo negligencia o curso freqüentemente caótico. Entre os primeiros. A carreira de Fernando Henrique Cardoso — o político ruim de voto que. sem exceção. I. mas absolutamente ninguém faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar para a Maçonaria. há engano e má-fé em ex do o enfraquecimento do espírito cristão no mundo como efeito de uma conspiração maçônica 17 5. prestar satisfações à Maçonaria ou enfrentar a Maçonaria. mais são os interessa dos em mistificar do que em esclarecer o seu papel na história espiritual da human idade.176 Enfim. Em primeiro lugar. no sentido de um anticristianismo rasteiro sugerido pelas falas de próceres maçônicos de uma época muito posterior. mas. pois como poderia estar integralmente comprometida com a Revolução a entidad e que tinha entre seus membros de destaque um Saint-Martin. p.. O Oriental também.

de tirar conclusões sólidas das informações de que dispunha. Acho que nunca houve no Brasil um pesquisador tão bem infor mado sobre sociedades secretas e tão incapaz. 1967. Proofs of a Conspiracy. com o regime militar já mais que consolidado. Mass. por falta de método científico e espírito filosófico. O autor. With a New Introductio n by the Publishers. dirige-se a seus pares para denunciar a infiltração de membr os de uma outra organização secreta — os Exemplo: Só no décimo ano do golpe de abril de 1964. Originally Published in 1798. John Robis on. Belmont. Western Islands. a Maçonaria assumiu sua participação na autoria do evento. com os grão-mest res desfilando de aventais e .ditora Nacional. 176 V.. alto dignitár io da Maçonaria escocesa. 1937.

Study of Freemasonry. O secreto não age. onde se sentem abrig ados sob pressupostos de fé que. manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo. transla ted from the French. Mas. filiando-o a uma tradição imemorial e dando-lhe o sentimento. Empreendimentos como o de Mons.. a disciplina do segredo e a obediência a uma hierarquia secreta separam o iniciado do comum dos mo rtais. se furta por completo a toda fiscalização. historicam ente. sabem o que se passa e para onde as coisas vão. estes sim. encontrou a organização num estado de vácuo doutrinal. são constantes pelo menos desde o século XVIII 179. Paul Sérant e outros adve rsários católicos de Guénon fogem para o terreno teológico e moral. para em seguida melhor combatê-la no campo dos argumento s lógicos. Esclarecida e derrubada esta doutrina i ntrinsecamente absurda. tendo conseguido galgar altos postos na hierarquia dos Ill uminati. Assim como Daniélou. que tentam ciscar nas palavras dos próceres maçônicos os elementos com que possam compor uma doutrina maçônica. ainda que filosoficamente respeitáveis. As célebres objeções de Mons. cujo poder. como o de qualquer outra sociedade secreta. Guénon preenche esse vácuo com a mais densa metafísica. pronta a ceder lugar a out ra na época seguinte 177.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 151 e administrativa de uma Igreja é de um ridículo sem par. na melhor das hipóte ses. René Guénon. só bastava para disfarçar ante os intelectos menos exigentes . Ao contrário. pela ampliação dos meios de participação do p vo no poder. de que a modernidade se ca racteriza pela democratização da vida política. da divisão e da suspeita que afeta a queles mesmos que o servem. só não sabe por que. Daniélou quanto ao simbolismo da cruz mo stram apenas uma inferioridade de QI. se de fato é assim. uma outra mais secr eta que a manipulava. pois a doutrina assim encontrada é apenas uma dentre muitas possíveis. Esoterismo e democracia são termos a ntagônicos como segredo e difusão. imprimirão sua marca no mundo todo que este vai forjando ante nossos olhos. Dupanloup já nada têm a opor 178. por exemp lo. a toda crítica.. Mas. mas pela eficácia do caos. Dupanloup. Explico isto mais extensam ente em meu Diário Filosófico. 1876. às vezes até justo. Dupanloup. 177 V. não são metafisicamente válidos. Bishop of Orleans. é uma aristocracia. então é totalmente falso o pre ssuposto. Illuminati da Baviera — nas fileiras da entidade. tanto na Revolução Francesa quanto no nascimento do Império Americano. O grande reformador maçônico do século XX. New York. há na organização uns quan os traços puramente formais e estruturais que. por trás da agitação cega e vã dos átomos anônimos. O jogos de esconde-esconde entre sociedades secretas ant eciparam todas as práticas que no século XX seriam adotadas pelos serviços secretos es tatais. e qu e. no entanto. O ponto-chave dos erros d e Guénon — que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado. — Mais tarde. acima da organização. aceito pela maioria dos teóricos há dois séculos. Antes de tudo. se queixava de que parecia haver. A aristocracia de sangue não é senão o resíduo multissecu . que uma profusão de ritos e símbolos. O mais irôni co de tudo é que o lado cristão está certo. modelando a mentalidade dos fundadores do Império americano. é. o corpo de membros da Maçonaria. o revolucionário itali ano Giuseppe Mazzini. No fundo. de pertencer ao círculo dos eleitos que. a toda tentativa de con trole externo. pela eliminação progressiva do resíduo aristocrático. aliada a uma retórica sufocante. 178 A polêmica católica contra René Guénon continua impressionando pela sua incapacidade de enfrentá-lo no terreno propr iamente metafísico. Ante nossos olhos? Não. Bem. são inteiramente infrutíferos. A seleção rigorosa. fortalecido pela disciplina do segre do. ao maçonismo guénoniano os argumentos de Mons. os ritos iniciáticos. nem mesmo seus concorr entes da escola schuoniana — é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das “possibilidades de não-manifestação”. por trás da variedade mirífic a das idéias maçônicas. o que se observa é a ascen são de uma aristocracia iniciática. Kenek Books. Mons. bem como sua via de conciliação. que aqui não nos interessam absolutamente. todas as aristocracias tiveram um forte elemento esotéric o e iniciático nas suas origens. em linha reta. a doutrina dominante na Maçonaria de uma dada época. De ntro de nossos cérebros.

trad. Pensamento. I.lar de uma casta que no início recrutava os seus membros segundo critérios seletivos e triagens iniciáticas bem semelhantes aos da Maçonaria ou de qualquer outra socied ade do gênero. Jean Palou. 179 V. Edilson Alkmin Cunha. 1979. . Cap. mas sociedades iniciáticas. As ordens de cavalaria nunca foram simples organizações militares. A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática. São Paulo. cujos ritos e símbolos remanescentes nos permitem adivinhar as profundidades insondáveis do mistério espiritual que continham.

E é ela mesma que possibilita a evolução muito peculiar da nação norte-americana. Rodrigues. Este é um dos raros pontos de psicologia e teoria do conhecimento em que não há q uase desacordo. Ela define-se pelos seguintes traços: 1ª Substituição das anti gas aristocracias de sangue pela nova aristocracia iniciática. 3ª Formidável concentração do poder do dom inador. Isto não quer dizer que não possa ser pensa181 Chistopher Lasch. não é mesmo? Então digo logo: aquilo que os nossos sentidos colhem da variedade infindável do mundo é primeiro elaborado sob a forma da abstração imaginativa. onde a ampliação quase caricatural dos direitos populares. não é aderir a nenhuma interpretação conspirativa da História. de um a vez para sempre.152 OLAVO DE CARVALHO O crescimento da Maçonaria no século XVIII. Mas — atenção — ressaltar a importância da presença maçônica na constituiç ovo Império não é atribuir paranoicamente à ação da Maçonaria a autoria do curso da História Novo Mundo. mas uma gigantesca recicl agem da casta aristocrática. É essa reciclagem que inaugura propriamente os tempos m odernos. Ediou ro. antes o fortalece. o mundo de hoje. Para fazer-me compreender neste particular devo reexplicar toda a cadeia de absorções e projeções cognitivas que leva da simples estimulação sensível à memória. repetida. 2ª Caráter secreto ou p elo menos discreto do novo poder aristocrático. Rito significa: execução imitativa e corpora l de uma cosmovisão simbólica. que. mas simplesmente sua presença na estrutura de poder do Império americano im pregna de um elemento de secretude e do espírito de um novo modelo de hierarquia s acerdotal a vida mental e política dos povos do Novo Mundo — impregnação esta que escapa totalmente ao controle da própria Maçonaria e se torna. democracia de jure — uma combinação que só se tornou p ossível pela ampliação do papel desempenhado pelo secreto na vida política e social 180. Uma delas é a seguinte: aquilo que está fora do nosso círculo imaginário está for a do nosso universo conceptual 181. demarca. pelo automatismo do hábito inconsciente e independenteme nte das inten180 ções de quem quer que seja. O que acontece é qu e nem todos tiram dessas verificações as conseqüências óbvias que delas se seguem inapelav elmente. d evo optar por esta última alternativa. O que possibilita que as coisas transcorram assim é uma ce rta característica inerente ao poder maçônico. não é fazer da Maçonaria o demiurgo invisível e onividente que move os cordões de tudo o que acontece. Rio. um princípio est rutural. é melhor enxertar aqui u m resumo daquilo cuja versão extensiva ele poderá deixar para buscar no outro mais t arde. sem perceber que as raízes dele já estão no berço mesmo do novo Império. sobre a q ual e só sobre a qual — e não diretamente sobre os dados dos sentidos — pode em seguida operar-se a abstração conceitual. não dirige o curso dos acontecimentos pela sua ação del iberada. com o tempo. . que atua por si. Resumindo: aristocracia de facto. de cujos produtos se comporá em seguida o raciocínio lóg ico. sobre a qual talvez nem mesmo os líderes e teóricos da organização hajam nunca parado para pensar. dos movimentos de protesto e da cultura da reclamação não abala no mais mínimo que seja o poder das velhas oligarquias. a Revolução Francesa e o nascimento do Império Americano não marcam assim a extinção do poder aristocrático. de seus noviços a ritos de iniciação. contrasta esse fenômeno com a ideologia igualitária reinante no século pas sado. Fraternidade iniciática significa: sujeição de seus postulantes a uma seqüência de ritos preparatórios. ao assinalar o elitismo crescente na sociedade americana ( em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia. tomando-o como uma novidade radical. à ab ginativa. no meu entender. quer compreendida ou não. de Tomás de Aquino a Benedetto Croce. de seus membros à prática de ritos regulares. de Duns Scot a Etienne Souriau e à mais recente ciência cognitiva. à abstração eidética e finalmente ao discurso lógico. mas como seria estúpido sugerir que o leitor do presente livro o abandonasse pela leitura de um outro. Po is a Maçonaria. ou devo simplesmente remet er o leitor ao meu estudo anterior Uma Filosofia Aristotélica da Cultura? Claro. Que característica é essa? A Maçon aria reune a liberdade intelectual de uma sociedade de debates à rigidez e à discipl ina de uma fraternidade iniciática. trad. 1995 ). de Aristóteles a Jean Piaget. Talita M. aliada a uma não menos formidável expansão dos direitos nominais do dominado. o quadro inteiro das possibilidades de intelecção consciente do i ndivíduo.

na . cabe enfatizar a distinção entre os con ceitos e as meras definições nominais. capto intencionalmente a essência de um ente real ( ou de um atributo real ). ao menos logicamente. isto é. em hipótese ).No sentido em que aqui emprego estes termos. compreendido como real ( se não metafi sicamente. No conceito.

se existe. 1985. ent ra numa loja guénoniana. do Islam e. de crítica. Ora. um símbolo: uma semente produtora de significados múltiplos mas a nálogos entre si 183. em suma. signifi ca automaticamente isolamento (os membros da loja dissidente não frequentam mais a s outras lojas) e isolamento significa: impossibilidade de um confronto direto. e a Susanne K. Isto foi bastante evidente nos casos da Igreja Católica. Quer dizer apenas que. pp. em Astros e Símbolos . se for pensado. meu ensaio “A dialética simbólica”. Dervy-Livres. 183 Sobre a analogia. 182 V. que governam o imaginári o na meia-luz do implícito e do pressuposto. 1971 ). Solução tipicamente maçônica: se você concorda com Guénon. 1962 ). se discorda. Ora. sem correspondência ao menos próxima com aquilo que entendemos como realidade 182. e Ensaios Filosóficos. dando-lhes uma imponente solidez doutrinal. por definição. v. em discussão: se todas as interpretações são válidas. “A alegoria em matemática”. A Study in the Symbolism of Reason. conse rvando seu arsenal simbólico sob a proteção de uma impenetrável névoa doutrinal. Langer ( Philosophy in a New Key . Mentor Book. por exemplo. Paris. Mas tudo o que é sólido está sujeito a receber porradas. apenas a intenção signif cada por uma palavra. São Paulo. de compartimentos que se ignoram. a mãe daquilo que se chama senso do real. Uma organização que timbre em defender um dogma explícito não tem outro remédio senão explicitá-lo — e os sentimentos difusos. O guénonismo tornava as idéias maçônicas intelectualmente respeitáv is. 79-100. cada i magem depositada na nossa memória ou produzida na nossa imaginação é. Ao contrário das grandes organizações dogmáticas. Contribution à l’Étude des Principes et des Méthodes de la Symbol ique Générale. A facção dissidente. quanto mais frouxa e menos dogmática for a doutrina da organização. muito antes. as sociedades secretas. Payot. não corre o risco de entrar. lá dentro p ode-se discutir tudo. nem dos nossos raciocínios. São Paulo. 1991. Gallimard. mas a doutrina maçônica. perdem todo o seu mágico poder no insta nte em que se expressam na clara linguagem dos dogmas: pois a partir desse insta nte tornam-se objetos de raciocínio. codefinição nominal. 1948. os maçons do século XX receberam a contribuição doutrinal de René Guénon. aí. A ima ginação é. nem da nossa vontade: depen de das formas profundamente consolidadas do nosso universo imaginário. quan to mais liberdade de crença vigore ali dentro. todas já estão neutralizadas de antemão. só se usam definições nominais. mais eficaz será esse controle. 1977 ). hierarquizado e integrado dos corpos animais. Na verdade. II — fundamental para a compreensão do método de in terpretação simbólica que emprego neste e em outros estudos. O resultado. se me perguntam como é possível que gerações e gerações de homens intelectualmente dotados consintam em viver sob o domínio de . meçam a pulular as oposições e as heresias. já que tem pleno domínio sobre o seu imaginário. Nova Stella. uma inteligente ilustração deste ponto em: Níl son José Machado. do hinduismo: quando à linguagem polissêmica dos símbolos se começa a substituir o discurso unívoco das formulações doutrinais. 1960 ). será pensado como mera forma lógica. mas estas não basta m para a teoria do conhecimento. está a salvo de qualquer con testação: na medida em que permanece ambígua o bastante para poder admitir todas as in terpretações. é o seguinte: uma sociedade iniciática. que tem todas as vantag ens em permanecer implícito. pela dialética de sua própri a busca de sobrevivência. Paris. que só têm em comum o fato de serem alimentadas pelo sangue de um mesmo corpo. Estudos Avançados ( USP ). A solução foi guenonizar logo umas três ou quatro lojas e deixar o resto exatamente como estava.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 153 do. alimentam as dissidências e as cisões: porque cisão. isolada assepticamente. Cap. método que deve muito a René Guénon ( Symboles de la Science Sacrée. Ela s não imitam o modelo orgânico. vai simplesmente para outra loja. sequer. no sentido mais ri goroso da palavra. qualquer que seja. 5 (13). trad. Jamir Martins. independentemente da realidade ou irrealidade da coisa ref erida. a Titus Burckhardt ( Principes et Méthodes de l’Art Sacré. entre afetações de homenagem. a René Alleau ( La Science des Symboles. pode continuar integrada no conjunto: a s sociedades secretas compõem-se. não tem necessidade de controlar as opi niões de seus membros. para os fins da presente investigação. Cultrix. Compreende-se portanto a extrema cau tela com que. de assentimento ou discordância intelectual. Em lógica simbólica. Nosso senso do real não depe nde nem das nossas percepções. Paris. Rite and Art. New York. porém o crescimento de tumorações variadas e independentes. A Maçonaria resguardou-se desse risco.

uma névoa entorpecente — alguns dos maiores gênios das artes. das ciências e da política foram maçons —. Quem consente em ser dirigido por um desconhecido. respondo que isso não é mais esquisito do que o fato de consentirem pert encer a uma sociedade cujos altos escalões são ocupados por personagens cuja identid ade permanece secreta. por qu e não aceitaria também o jugo de uma doutrina incompreensível? .

sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo 185. nem a maioria dos maçons até hoje. Quaisquer que fossem as intenções de seus fundadores. São maçons os conservadores. Cap. José Olympio. cujas divergências se erguiam sobre o fundo comum de um pacto de lealdades secre tas. são maçons os tadores republicanos. XXIV e XXV. Como a Igreja. democrática encobre e disfarça a luta interna no seio de uma nova aristocracia. ( V. todos os líderes revolucio nários pertencem à organização. Se é verdade que a M açonaria se originou nas corporações de ofícios da Idade Média. e. Esse medo não é de todo despropositado. Da lealdade corporativa à disciplina do arcano há menos que um passo: pela salvaguarda do próprio pescoço. quando a aris tocracia em peso achou que dentro da Maçonaria podia encontrar um abrigo seguro co ntra as tempestades que se aproximavam: o próprio Luís XVI submeteu-se aos ritos e j uramentos 184. 1957 ). e equilibrando enfim — ao menos idealmente — o movimento do conjunto. influencia decisivamente o curso das coisas. ela é o verdade iro “poder moderador” — a autoridade espiritual que acolhe em seu seio maternal os par tidos em disputa e unge a fronte do vencedor com o óleo bento da legitimidade. A Vida de D. Isso aconteceu. cit. são maçons os liberais. op. talvez mais que a da nobreza ou a do clero. um homem jurava ob edecer ordens emanadas de fonte secreta. a vida parlamentar do Império não consistirá de outra coisa senão de debates entre maçons . indefinida e elástica o bastante para comportar todos os arranjos e acomodações — do que a sua inv isibilidade.154 OLAVO DE CARVALHO A resposta é. portanto. O que a diferencia da Igreja é menos a sua ideologia — vaga. Mas os Estados Unidos são o primeiro país cujos governantes são todos o u quase todos maçons. III Caps. II Cap. ela assumiu definitivamente sua vocação revolucionária. o advento do gove . por exemplo. com a sua disciplina do arcano. e viver entre os demais homens. com uma identidade dupla. conciliando ou dividindo. Pairando invisivelmente sobre todas as forças em luta. que consti tuem a pulsação mesma da vida democrática. orientando. estimulando. defender até à morte os segredos da organiz ação. ela dá nascimento a uma aristocracia. todas as disputas políticas travadas diante do público. ensinando. Não sei o que pensar dessa tese. XIII. a mais óbvia: é o medo. de outro. Historia Universal de las Sectas. atribuir à Maçonaria a responsabilidade pelos movimen tos revolucionários. Logo em seguida. no fim das contas. cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. a uma casta governante. elevado rapidamente à condição de Grão-M stre. A mão das organizações secretas sempre foi pesada. é maçom o Imperador. e onde. Hiram. do mes mo modo que a Igreja medieval não se comprometia em conflitos dinásticos: sua função é ecl esial. não são senão a exteriorização de divergências nas e elaboradas dentro da Maçonaria. o homem do povo encontrava a proteção de u ma força capaz de intimidar nobres e clérigos. V. ma s sem dúvida ela merece atenção. construtor do templo de Salo mão. A espuma 184 O papel da Maçonaria na Revolução é bastante ambíguo. De um lado. também são maçons o rei e toda a sua corriola. É um simplismo grosseiro. Muito mais que o Imperador. sobretudo t. quando o Brasil imitar o exemplo norte-americano e proclamar sua independência da Europa. às vésperas da queda do Antigo Regime na França. é fácil compreender que nessa corporações. E governo maçônico quer dizer o seguinte: todos os onflitos abertos. para sempre.. a situação de facto é: governo maçônico. t. XIII. mas em certas horas seu jugo deve ter parecido mais suave. ) A mesma ambigüidade nota-se na atuação da Maçonaria quando da formação do Império do Brasil. Pedro I é convidado a entrar na organização. Jean Charles Pichon julga que. e em seguida boicotado pela Maçonaria mesma e levado à abdicação. é o desejo despropositado de se gurança (forma larvar e passiva do desejo de poder) que move os homens a submeterse a esse gênero de coisas. a partir do momento em que a Maçonaria introduziu em seu s ritos a matança simbólica do “pai dos arquitetos”. não real ou imperial. ma s que nem os personagens de destaque na época. como um espião. Octávio Tarquínio de Souza. seguida de sua ressurreição. porque ela não se compromete com aqueles a quem auxilia. a Maçon aria sai vencedora em qualquer hipótese. se d eram conta das implicações mais óbvias desse ritual. não havendo oficialmente religião protegida pelo Estado. Pedro I ( Rio.

Daí por diante. que neutral izará os efeitos da democratização para reduzi-la a pouco mais que uma distribuição de doc es para aplacar criancinhas zangadas. sobretudo das organizações estatais secretas do século XX .rno maçônico nas Américas abre uma nova etapa na História do mundo: a era do segredo. 185 Sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo: distinção capital. que os defenso res da teoria da “conspiração maçônica” nunca enxergaram. que é o aspecto mais patente da evolução política mundial. correrá parelha com o aumento incalculável da influência das org anizações secretas. ansiosos como estavam por denuncia r por trás de todos os eventos um maquiavélico dedo maçônico. a democratização progressiva das instituições. .

O que é inédito na História do mundo ( com a possível exceção da “Ordem dos Assassinos” no Oriente islâmico ) é a extens do poder dessas organizações e o fato de que seus principais opositores são também organ izações secretas. a KGB. e que nestas origens se en contra a participação das sociedades secretas na formação dos governos americanos. trad. 188 Que intelectuais maçons ou pró-maçons sejam . Corgi Books. sem ter em conta o caráter específico da sua atuação. Essa foi a origem da Máfia. Allen Dulles. de qu e a História do mundo evolui no sentido da crescente circulação de informações. não se encontrarão em nenhum a outra época ou civilização coisas como a CIA. E. É ev idente que o advento do governo maçônico constituiu nada mais que o estopim a desenc adear um processo de secretude crescente em escala mundial. invadindo os tensivamente a esfera dita “privada” ( v. bem c omo na Revolução Francesa e no desenrolar das mutações políticas e ideológicas ao longo do sé ulo XIX um capítulo que permanecerá demasiado obscuro enquanto se enfocarem essas so ciedades como meras forças políticas secretas. eis um fenômeno que não é nada novo na Histór ia. mas se explic a: o papel do secreto na vida política ampliou-se de tal maneira que ultrapassa as possibilidades imaginativas do homem comum e penetra naquela zona de improbabil idade que raia a ficção e o impossível puro e simples: seu próprio crescimento desmesura do tornao invisível. é claro que não se pode nem de longe entender fenômenos como o do atual banditismo organizado sem referi-lo ao quadro geral disso que chamei secre tude crescente 187. da vida sexual etc. não é de mold a propiciar nenhuma valorização dos fatores secretos e os intelectuais não estão imunes a essa crença. a espionagem industrial general izada. Mas. se tudo isso é claro. f inalmente. que foi direto r da CIA por décadas. De outro lado. O Ofício de Espião. s/d ). sem precedentes. 187 186 O mesmo não se pode dizer dos personagens envolvidos. Que sociedades secretas de objetivo originariamente iniciático e sacerdotal se tra nsformem depois em quadrilhas de bandidos. Medical Torture and the Mind Controllers. portuguesa. Num dos documentos mais impressionantes já publicados a respeito ( Journey into Madness. qu e é uma das marcas diferenciais do século XX em relação a toda a história anterior 186. bem como das tríades chinesas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 155 Dizer “uma nova etapa” não é exagero: por mais que se procurem. mas os profissionais lá treinados se e spalharam pelo mundo. cresceram ao ponto de se tornarem virtualmente incontr oláveis. reconhece muito pertinentemente a diferença abissal de escala que separa os modernos serviços secretos de tudo o que até o século XIX se conhecia co mo “espionagem”. da força dos fatores secretos na produção do acontecer histórico. den unciado no Congresso. incutida pela ideologia democrática. então não se justifica o desprezo dos h istoriadores e cientistas sociais por esse fenômeno. De outro. Lisboa. Os historiadores raramente mostram sensibilidade para o ineditismo desse fenômeno. no mais das vezes de ordem supra-política e propriamente sacerdotal. Não se justifica. London. Guimarães. servindo à organização terrorista que sequestrara um funcionário americano e o tor turara para extorquir informações. e outros tantos fatos que assinalam uma ascensão . Mas também é certo que não se pode compreender esse processo sem remontar às suas origens. penetrando até mesmo na intimidade dos costumes familiares. os milhares de seitas que hoje vinculam uma boa parte da população mundial a pactos de lealdade confidenciais. e a invisibilidade é o fermento que o faz crescer mais ainda 18 8. a convicção generalizada. 198 8 ) conta de um centro de treinamento de torturadores médicos criado pela CIA. De um lado. que nem a Maçonaria ne m qualquer outra organização poderia jamais controlar. oferecendo seus préstimos: Thomas foi encontrar um deles no Líbano. os serviços de “inteligência” ultrapassaram muito o campo das i nformações militares para abranger toda a vida social e psicológica das nações. estas de cunho estatal. o centro foi fechado.

citado na p. deve haver lug ar para um sensato meio-termo que mereça. e a ideologia “científica” que omite completamente a influência delas ( exceto quando reduzidas a inócuas “forças políticas” sem peso específico ).os primeiros a lutar pelas interpretações materialistas e sociologizantes da História. o manipulador. segundo a qual as sociedades secretas dirigem o curso da História. é o mais manipulado de todos. o comentário de Guénon ao livro de Lantoine. de modo a poder manipulálos com a ajuda deles mesmos. é indício eloquente de falta de consciência histórica. eis aí algo que poderia tentar-nos a endossar a teoria conspiratória. Que a Maçonaria assuma como suas certas ações que lhe são imput adas por seus adversários v. segundo a qual essas sociedades dirigem conscientemente a trajetória do mundo pelo hábil ma nejo do segredo: impondo como “científicas” exclusivamente aquelas interpretações que as o cultam. se ex iste. não sendo nem maçom nem antimaçom. Entre a teoria conspiratória. Há uma diferença profunda entre influenciar e diri gir. elas se utilizariam de hordas de intelectuais céticos e materialistas como de um muro protetor para garantir a sua invisibilidade. vejo nesse fenômeno antes um “efeito a vestruz”. Da minha parte. no qual as entidades esotéricas acabam por se tornar. Ess e meio-termo é precisamente o que estou buscando nestas páginas. de pleno direito. pela exclusão de todo fator espiritual na explicação histórica exclusão que a fortiori le va a omitir também toda interferência específica das sociedades iniciáticas na produção dos fatos . inconsc ientes de sua ação no mundo. o qualificativo de cie ntífico. 233 . temporariamente usurpado pelo dogma da cegueira metodológica obrigatória. . Enfim. elas mesmas.

os historiadores e cientistas sociais tendem à indiferença olímpica. trazer con hecimentos esotéricos de insondável profundidade. no seu entender. O episódio teria sido levado a melhor termo se o poeta. e embriagado depois pela alucinante mistura de fatos e ficções com que o Abade Barruel compusera sua célebre sopa anti-maçônica. acabou por se tornar o porta-voz mais intelectualizad o da concepção conspirativa da História 189. ao invés de confiar-se ceg amente a “ensinamentos espirituais” de origem mais que duvidosa. influen ciado desde a adolescência por um seguidor dos Illuminati da Baviera. incapazes de elaborar intelectua lmente suas experiências mas sempre dispostos a lhes dar algum tipo de expressão mis tificatória. ordenando-lhe. Fernando Pessoa. em nova mensagem. meio impostor . Yeats não soube se sua Vision era verdade ou ilusão. muitos esc ritores modernos divulgaram a existência e a atuação de forças secretas. por incapacidade de decifrál a. do alto de seu conhecimento quase divino de leis históricas supostamente impessoais e objetivas. sentia-se meio sábio. reduzidas à condição de crianças atônitas nas mãos do poderoso mistificador190. Seja sob a forte impressão de leituras mal digeridas. capazes de excitar morbidamente a imaginação popular sem nada esclarecer quanto à natureza do fenômeno. que parass e de estudar o assunto. impressionado. O “ciclo da perso nalidade” não é senão uma aplicação particular da processão dos Nomes Divinos divididos. os literatos ao deslumbramento misticóide. Até o fim da vida. os “espíritos” puseram um fim aos seus tormentos. afetar o curso das coisas. ficou embasbacado191. ora mistificando-os. Mário de Sá-Carneiro. Muitos dos monstros e vampiros que povoam a literatura do Ocidente no s dois últimos séculos a começar pelo mais célebre de todos. Mencionei lá atrás o domínio tirânico que George urdjieff exercia sobre as mentes de seus discípulos. Como que num pacto destinado a bloquear por dois lados o acesso a uma compreensão real do assu nto. ampliando fantasiosamente o poder das soci edades secretas ao ponto de fazer delas o demiurgo invisível da História. disse-lhe ter recebido dos espíritos uma misteriosa mensagem cifrada.. que. Atormentava-se entre dúvidas insolúveis.. que era médium. mas depois de três anos. tivesse ido estudar os clássicos da mística oriental. pois a obra pareceu aos críticos. ignorantes de toda mística autêntica. a intelectualidade moderna mostra uma completa inépcia ao lidar com esses assuntos. destituídos de fontes históricas reconhecíveis. o Frankenstein de Mary Shel ley são personificações veladas de sociedades secretas. só podiam ter sido inspirados do além. compôs com essas imagens A Vision (1926): o impacto foi gran de. mas dando-lhes interpretações simbólicas. seja sob o impacto mesmo de experiências pessoais traumáticas. por exemplo. Um exemplo desta última atitude é Shelley. pelas 28 casas lunares que dá origem à 190 191 . poetas. em busca de explicação. O próprio Yeats não entendera absolutamente nada da “mensagem”. Foram comidas pela esfinge. Atordoado. Contemporâneo de Gurdjieff. entre os quais se encontravam não poucas celebridades das letras e das ciências. Sua esposa. não desce ao exame de miudezas “esotéric as” que em nada poderiam. veladas e subjetivistas. deu de revirar toda a literatura filosóf ica Ocidental. A explicação completa do “ciclo da personalidade” poderia ser encontrada. Foi debalde. no mbolismo astrológico. do mesmo modo que muitos dos t emas da poesia e da ficção constituem traslados quase literais de ritos e símbolos de organizações esotéricas e pseudo-esotéricas. como Edmund Wilson. Todos os escritore s. que. nas obras de Mohyieddin Ibn-Arabi. Aleister Crowley semeou o desespero e o terror entr e os jovens intelectuais portugueses que se colocaram sob sua influência no começo d o século Almada Negreiros. Wil liam Butler Yeats (1865-1939) era leitor de Madame Blavatski e frequentador de cír culos “ocultistas”. Yeats. ora afetan do uma superioridade blasée que.156 OLAVO DE CARVALHO De modo geral. que expunha. sob a forma simbólica de um ciclo lunisolar de 28 dias o conjunto de todas as formas possíveis da personalidade humana. A regra geral nesses casos é a absoluta inermidade do “intelectual” moderno ante a “mão noturna” que o guia. Até um escritor de notórias simpatia s marxistas. cientistas que tiveram contatos mais próximos com gurus misteriosos e s ociedades secretas saíram traumatizados e atônitos.

1931. O Castelo de Axe l.. . Paul Johnson. V.189 V. New York. Axel’s Castle. John Bennett. 2º ed. Cap. 1985. Cap. Scriber’s. trad. Cultrix. I. V. Witness. brasileira de José Paulo Paes. The Autobiography of John Bennet. II. São Paulo. Os Intelectuais.

por que simplesmente não lhe deram par a ler uma tradução de Ibn Arabi ou de algum dos outros muitos místicos islâmicos que tra tam do assunto? Por que tiveram de transmitir o ensinamento para uma médium em tra nse. O caso revela a triste condição do intelectual e uropeu.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 157 manifestação cósmica e se repete. 555-558. Pesquisas empreendidas por dois filólogos. 193 V. ao reproduzir trechos de um clássico tibetano que lera em tradução alemã. Sua história nada edificante foi pu blicada na revista Encounter de maio de 1955. Fizeram isso porque a força do dominador psíquico reside no mistério e. cujos enredos francamente paranóicos. Graves foi induzido a colaborar como inocente útil. chega a declarar expressamente que essa e outras entidades “eso téricas” gostam de “apoderar-se das mentes” de intelectuais e envolvê-los em situações persec tórias que os levarão ao desespero196. Holt. omitindo as fontes e rodeando o ens inamento de uma aura misteriosa que só poderia servir para confundir a ela e ao ma rido? A resposta é simples: fizeram isso pelo mesmo motivo com que Madame Blavatsk i. às quais atr i erroneamente uma origem “celeste” e às quais presta um culto supersticioso. que era o seu guru. Humilhados no seu ponto de maior orgul ho a inteligência . Dominado psiquicamente por Shah. é claro no que se c onsidera a maior fraude literária do século: uma nova tradução do Rubayyat de Omar Khayy am. no microcosmo da alma humana192. Um autor de nome Ernest Scott. de uma automistificação voluntária. Prefere m aludir ao assunto de maneira indireta e simbólica. Ele cita em particular o caso de John Fowles. ajudando assim a dar às proezas de seus algozes uma aura de prestígio mágico. Cap. à mercê de “influências psíquicas” que não pode compreender nem dominar. orgulhosa porta-voz de uma épo ca que se julga o apogeu da autoconsciência humana. mostraram que o vetusto manuscrito não existia e que a trad ução que Shah transmitira a Graves para que a pusesse em versos era simplesmente um plágio de uma adaptação norte-americana do século XIX. 1982. sob a g uarda 192 Cf. É precisamente por meio de intelectuais e escritores que organizações esotéricas e pseu . feito de temor e suspeita. desde séculos. da família Shah no Afeganistão. Histoire d’une Pseudo-Réligion. Chap. Milano. Le Théosophisme. Graves. nas mãos do “gozador cósmico” Omar Ali Shah194. As histórias de artistas e intelectuais manipulados psiquicamente e f eitos de palhaços por pseudo-mestres espirituais no século XX formam um tremendo req uisitório contra a presunção da intelectualidade moderna. Suponho que coisas análogas poder iam dizer-se de Stephen King e Colin Wilson. 194 Omar Ali e seu irmão Idries formam talvez a mais famosa dupla de farsantes espirituais da Inglaterra. His Life and Wo rk. John Bowen e L. O caso é narrado em detalhes na biografia de Graves por Martin Seymour-Smith195. Mas esse sucesso é obtido a través de uma diminuição de consciência. P. Um dos mais deprimentes capítulo s dessa epopéia tragicômica foi o destino de outro grande poeta inglês. se fez de donzela ofendida e morreu sem ter dado o b raço a torcer. The Collector e The Magus197 foram inspirad os nesse tipo de experiências. Robert Graves. René Guénon. terminando por sentir-se um misto de otário e vigarista. Elwell-Sutton. Fowles não desmentiu. O lado mais deprimente dessas histórias é que os intelectuais ludibriados se sente m mais ou menos como mulheres estupradas. analogicamente. raramente ou nunca admitem que foram feitos de idiotas. é preciso fabricar um. o nde não há mistério. Clé Spirituelle de l’Astrologie Musulmane d’après Mohyid-din Ibn-A rabi. e sem verdadeira fé. decerto mais hipnótico do que espiritual. III. Ninguém nega que a experiência de colocar -se sob o domínio de uma mente maligna pode dar às fantasias literárias de um escritor um atrativo misterioso e contribuir para seu sucesso. Se os gurus de Yeats queriam lhe ensinar isso. 1978. guardada a sete chaves num mosteiro subterrâneo do Oriente193. que se torna mai imoral ainda na medida em que vai contaminar leitores e espectadores inocentes. preferiu di zer tê-los encontrado na cópia única. Rinehart & Winston. porta-voz talvez pseudônimo da organiz ação de Omar Ali Shah. Archè. 195 Robert Graves. Titus Burckhardt. advertido de que estava s endo usado para uma fraude. I. pretensamente baseada num manuscrito inédito que estaria. pp. provavelmente também de Doris Lessing .

o segundo com Ant hony Quinn. London. Octagon Press. Ernest Scott. Não deixa de ser curioso que aqueles mesmos intelectuais que 196 197 V. . 1983. Ambos de pois filmados. The People of the Secret.do-esotéricas exercem sua influência sobre toda a sociedade uma influência que afeta a ntes os estratos profundos da psicologia coletiva do que a superfície da História po lítica. o primeiro com Therence Stamp e Samantha Eggar.

August Strindberg. Inferno. Diante de tantos e tantos c asos que mostram a passividade atônita. que denunciou corajosamente o mistifório teosófico1 98 que o levara quase à demência. não se dêem conta de que o único poder efetivo que elas exercem é precisamente aquele a que servem de instrumento: o poder de moldar o imaginário social. por outro lado. ocultista. por que nem mesmo uns poucos poderiam dedicar-se ao empenho de desocultá-las? Paul Johnson mostrou que. Pois um verdadeiro rigor científico não se faz de superior a nenhum assunto. Mas será possível que a casta intelectual inteira este ja comprometida com a mentira e o auto199 198 V. Mas se os literatos servem a or ganizações secretas por uma deleitação masoquista na escravidão voluntária. é que há nela um elemento de histrionismo. Mas não está na hora de pelo menos alguns estudiosos proclamarem sua indep endência de compromissos ideológicos (ou mesmo de lealdades secretas) e começarem a in vestigar a sério aquilo que talvez nenhum dos poderes deste mundo gostaria de ver investigado 200? Se tantos podem mobilizar o melhor de sua energia intelectual p ara encobrir certas realidades.158 OLAVO DE CARVALHO difundem visões fantasiosas. maçom. a afetação de ind rença superior por parte de filósofos. a inermidade dos intelectuais contemporâneos ante os fabricantes de segredos. Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial. Sempre que um estudioso acadêmico franze o nariz a os assuntos nte esotéricos em nome de um pretenso rigor científico. que se pavoneia para exorcisar um medo invencível. maçom ou rosacruz enrustido. que um potente desestímulo ao estudo dessas questões vem do fato de que elas foram abundantemente enfatizadas de manei ra unilateral por autores comprometidos ideologicamente com certas alas extremis tas. que. e se envolveram numa aura de tagarelice retórica r epelente. os intelec tuais que fazem a cabeça do mundo moderno são tipos bem pouco confiáveis. Exemplo: Adam Schaff. um intelectual que tivesse tido contatos com sociedad es secretas elaborasse essa experiência de uma maneira intelectualmente digna e es crevesse sobre elas de maneira a esclarecer o público. como o leitor bem está vendo por estas páginas. a afetação de indiferença por parte daqueles que só co nhecem o assunto de longe não tem como deixar de parecer uma jactância adolescente. Foi muito raro que. historiadores e cientistas sociais muitas vez es é uma simples cumplicidade consciente na manutenção de um segredo com que se compro meteram mediante juramento. só serve para deixar o público naquele estado de dúvida temerosa que logo se transforma em atração e vulnerabilidade. os intelectuais amedrontados por pseudogurus acaba m por virar discretos apologistas de quem os atormenta. 200 Minhas investigações pessoais a respeito do fenômeno da secretude crescente estão longe de ser totalmente conclusivas. atribuindo às sociedades secretas um poder demiúrgico ine xistente. quase sempre mais comprometidos com a busca do poder e do autoengrandecimento do que com qua lquer investigação da verdade201. expurgou o texto de todos os elementos astrológicos e esotéricos. em regra geral. provavelmente um fingimento consc iente199. No entanto é verdade. 199 5 ). Carlos Eduardo Jordão Machado e Luiz Arturo Olojes. t rad. Mas . Quando a pose se torna enfática demais. publicou numa revista maçônica uma análise histórica baseada em métodos astrológicos. marxista arrependido. para dar às sua s conclusões a aparência de terem sido obtidas por meios exclusivamente “científicos”. à esquerda cada um denunciando as sociedades secretas dos outros . a mais elementar pr ecaução recomenda certificar-nos de que não se trata de um esoterista. Com a exceção provave lmente única de August Strindberg. à direita. e sobretudo não consiste em poses. Pratic amente na totalidade dos casos. Brasiliense. São Paulo. ou Ivan Maïski. na hora de divulgar o mesmo estudo em livro ( A Sociedade Informática. os traumas de experiências interiores induzidas po r guias espirituais malignos acabam se transformando em literatura mistificatória. aludindo aos acontecimentos de maneira velada e encobrindo-os de uma aura simbólica atraente e autolisonjeira. como Léon de Poncins. ao l ongo dos últimos dois séculos.

e sim de protestar contra a indiferença às perguntas. De outro lado. por não se sabe quanto tempo. Pois.. o fato de não conhecermos ainda em d etalhe todos os enlaces causais que levam das origem do processo até seu estado pr esente não pode impedir-nos de admitir que alguma ligação tem de haver entre as duas c oisas. op.aqui não se trata de dar respostas prontas. por mais que suas res postas devam permanecer. Paul Johnson. uma coisa no entanto é certeza absoluta: não podemos compreende r o curso da história contemporânea sem fazer essas perguntas. . se não tenho respostas senão em germe e se os germes ainda germina m no ventre da dúvida. cit. na esfera das conjeturas ou da mera probabilidade razoável. 201 V.

ser incorporados por antigas monarquias tornadas constitucionais. O capitalismo liberal? Também não. nada mais são que a créscimos periféricos e notas de rodapé. que toda lei religiosa cessa de ter qualquer validade ou obrigatoriedade pública. ela é a liquidação do poder político das religiões. porque os el ementos democráticos e igualitários da ideologia norte-americana que se espalharam p elo mundo puderam. se torna o árbitro das suas disputas. mas mentem.: 3:9. que ela componha. porque o próprio sist ema norte-americano. Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis” ou que as coisa s são em essência aquilo em que enfim se tornam. de experimentos econômico-administrativos extravagantes. os Estados Unidos são uma República protestante. em primeiro lugar. Talvez a resposta só venha dentro de muitas gerações. tão vasta em suas conseqüências. não havendo unidade religiosa. Dos vários componentes da ideologia revolucionária norte-americana. a Holanda. as dife rentes seitas têm de aprender a conviver e a concorrer em pé de igualdade no mesmo t erritório sob a proteção de uma mesma autoridade civil que permanece indiferente às disp utas religiosas e equidistante de todas as confissões. à corrente dominante: a Revolução americana. que em princípio não pode interferir em nada nos negócios públicos.” APOC. e julga sem 202 . que os critérios éticos que presidirão à vida social. de vez que o Estado. A revolução que isto representa na estrutura mental da humanidade é tão profunda. sem traumas. sem grandes choques. Todas essas revoluções passaram. que perto dela as re voluções seguintes — da França. § 30. visto que ela convive perfeitam ente bem com ditaduras. que o cum primento ou não de um mandamento religioso passa a ser um assunto da esfera privad a. sob o impacto do pluralismo democrático. dividindo os intelectua is entre os que se dispõem a buscar a verdade sobre o assunto e aqueles que prefer em mistificá-lo ou fugir dele. quando lhe interessa. em última instância: Estado leigo. por enquanto. para falar só das maiores —. acabam por ser supra-religiosos. Os Estados Un idos são o primeiro Estado professadamente areligioso — no sentido etimológico: a -gnóst ico — que se conhece na História do mundo. e não o são. Que é que isto significa? Significa. a implantação mundial do Estado sem r ligião oficial203. a Espanha 202. como a Inglaterra. com todo seu vistoso cortejo de morticínios. ao contrário d o que aconteceu na Suécia e na Holanda. na sua totalidade. O republicanismo? Não. através da expansão do assistencialismo estatal. fragmentase numa infinidade de seitas que não podem ser reduzidas à unidade de uma hierarquia religiosa que imite a da Igreja Católica. e visto que a subsistência de uma ar istocracia maçônica associada de perto a uma oligarquia econômica é um dos pilares mesmo s do sistema norte-americano. a Revolução Americana só é democrática. repu licana e liberal-capitalista de modo secundário e mais ou menos acidental: em essênc ia. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (II) “Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás. Estado sem religião oficial. de novas modas cul turais. acabou por ass imilar várias características da socialdemocracia. o p rotestantismo norte-americano. de radicalismos ideológicos. Em segundo lugar. ao colocar-se aci ma das religiões. que dizem que são judeus. ca lvinista na segunda — toma logo a dianteira para unificar religiosamente o país. onde uma corrente — luterana na primeira. o tem a das sociedades secretas pode servir de pedra-de-toque.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 159 engano. a Dinamarca. Mas. o único que foi assimi lado integralmente. Ora. Mas. República protestante vai sig nificar. os Estados que f undaram ruíram com fragor ou derreteram-se melancolicamente. e a parte de seu legado cultural que não se dissipou em fumaça terminou por incorporarse . qual o legado dessa Revolução ao mundo? A democracia? Não pode ser. um sacerdócio do falso? É cedo para res ponder. literalmente e sem alterações por todos os países do mundo foi o p rincípio do Estado leigo. da Rússia ou da China. E. em seg undo lugar. Significa. tendo de ser extra-rel igiosos.

Theodore Roosevelt. notas 222 e 238.E não se esqueçam. brasileiros. adiante. de que quando expulsamos Pedro II o presidente dos E UA. . comentou que havia caído do governo o único autêntico líder repu blicano da América Latina. 203 V.

“todo privilégio religioso em geral deverá ser suprimido. se. representam. Marianna Simon.160 OLAVO DE CARVALHO ser julgado. A vitória da “Teologia civil” não podia vir sem trazer junto uma “espiritualidade civil”. Não é realmente estranho que um movimento mundial capaz de conquistar um território a bala e fundar nele um Estado não tivesse. perdendo o 205 206 Também não escaparam a Bauer as conseqüências que essa mudança teria para os próprios judeus : desistindo de buscar a emancipação do judaismo. a total desautorização da lei religiosa. em Karl Marx. passando a buscar apenas a sua ema ncipação de cidadão. Paris. trad. 1971. o judeu 204 Cit. Id. em terceiro e consequente lugar. a religião judaica tivesse de pagar a conta dos desvarios cometidos por seus adversários206? Que. Aubier. 47-123. a extinção da religião como tal. a rigor e a long o prazo. À propos de la Question Juive ( Zur Judenfrage ).” 205 Mas isto representaria. só para ter de socorrê-lo às pressas ex post facto c om o auxílio do dinheiro norteamericano? É de espantar que a própria organização do socorr o às vítimas do nazismo reforçasse formidavelmente o movimento judeu-leigo. portan to. para não deixar que sua lei religiosa o impeça de cumprir seus deveres para com o Estado. precisa ter cessado de ser judeu. a bem dizer. mesmo porque “declarar que a lei do sabbat não tem mais um caráter obrigatório para o judeu será o mesm o que proclamar a dissolução do judaismo” 204. Quem percebeu essas conseqüências com muita cl areza. a o expandir-se. um doutrinário que odiava o judaismo como odiava todas as religiões. culminando com a formação de um Estado onde a comunidade religiosa não ultrapassa hoje três por ce nto da população e está submetida a toda sorte de constrangimentos e humilhações nas mãos do s modernizantes e ateus? Ou que. Significa.. É de espantar que. não há religião nenhuma. Mas essas três conseqüências. ele quiser permanecer judeu. nessas condições. introd. dessa forma. a extinção da religião como princípio organizador da conduta humana. François Châtelet. — se por exemplo ele se dirige num sábado à Câmara dos Deputados e toma parte na s deliberações —. os clubes de enc ontro e todos os outros sucedâneos de “vida interior” que a nova sociedade puder criar para a satisfação privada de seus membros. Onde não há mais religião privilegiada. pp. vox Dei. circunscrito à vida privada. acabasse por fortalecer entre os judeus do Ocidente inteiro um es pírito de mundanismo e “modernismo” que já os vinha contaminando gradativamente desde a Revolução. de vez que toda obediência a princípios relig iosos só é possível na medida em que o Estado a permita e em que não entre em conflito c om as leis civis. encarnado na “vontade popular”: vox pop uli. esse cumprim ento deve ser deixado por sua conta como um assunto puramente privado”. dissolvendo os laços da solidariedade milenar que havia defendido a comunidade judaica contra toda sorte de perseguições. desejando-as aliás ardentemente. somadas. Édition bilingüe. o fim da religião. o movimento para a implantação de um Estado leigo jud eu logo perdesse toda conexão com as tradições religiosas e passasse mesmo a ser chefi ado por pessoas de origem judaica contrárias ao judaismo? Ou que esse movimento. a aparência se tornará o essencial e triunfará. uns anos antes. a criação e um novo tipo de fenômeno espiritual que. deixou o povo judeu inerme e s onso ante o avanço da ameaça nazista. No Estado leigo tal como desejado por el e. foi Bruno Bauer. ibid. e que. nem força nem p . “não pode permanecer judeu na vida pública senão sofisticamente e em aparência. sem prestar satisfações senão a Deus. as técnicas de relaxamento. logo se fund irá indistintamente com a psicoterapia. p assim.” “O judeu . e se alguns ou muitos ou mes mo a maioria se crêem inclinados a cumprir certos deveres religiosos.

passando a escre ver somente em francês ( aliás um francês esplêndido ). retirou-se da Ale manha e. foram para a câmara de gás. sem exceção. por exemplo — previram com muita antecedência? Weil.revidência nem vontade bastante para organizar uma retirada maciça dos judeus da Ale manha nazista antes que começasse a “solução final” que os judeus mais lúcidos — o filósofo É eil. sob o riso dos parentes que censuravam seu “alarmismo”: todos. em protesto contra o nazismo. Esses fatos mostram que já em 1933 ano em que foram p ublicadas as advertências profé- . O pai de um amigo meu também emigr ou no mesmo ano. abandonou o idioma alemão. em 1933.

Não h averá paz para a religião dos judeus enquanto não houver paz entre todas as religiões. a carta lucidíssima assinada por um sr. Estes fatos. cu ja lembrança medonha inclina os judeus antes a chorar do que a meditar o passado. and this tiny g roup has survived. exceto para os líderes e os importantes da comunidade. Arthur K oestler. Que papel? O de ajudar em a reconciliar. Finally given the opportunity to observe without harassment. enfim. mandando às favas a moral religiosa e atendo-se à moral civil. imbuídos de um falso sens o de segurança inerente ao sucesso. e nquanto elas precisarem de um Estado ateu para policiá-las. 208 Eu estava revisando estas páginas. oppressed. já não passaria de um triunfo das aparências sobre a realidade 2 08 —. não podendo ser os de nenhuma das religiões em ticas do nazista arrependido Hermann Rauschning . From their ashes there has always come a ‘reawakening’. à riqueza e ao mundanismo materialista. Canadá: “Fr om the birth of their religion. Os antigos Estados rel igiosos perseguiram e expulsaram judeus. 1976. a única obrig atória para todos os cidadãos. o cidadão é permanentemente convidado a abandonar a carga da dupla moral e a simplificar as coisas para si mesmo. Em primeiro lugar. quase sempre inconscientes. they refused to abdicate their faith. 207 V. de cara. atém-se ao cômodo privilégio de poder julgá-las sem levar em conta no mais mínimo que . e não assumirem seu papel de povo profético. nem mesmo sobre os menores de idade. Sabendo que os princípios de sua religião particular só val em para os do seu grupo imediato e que a integração na sociedade maior depende exclu sivamente da obediência à moral civil. os ideólogos da modernidade. Yet in the melting pot of the American culture. Na prática. Hutchinson. os próprios judeus. the fires of the Spanish Inquisition. não há dúvida: a glória material que hoj e premia os judeus não compensa a perda da sua identidade religiosa — um patrimônio qu e eles têm o dever de conservar porque não pertence só a eles. enquanto os judeus não se livrarem de seus falsos amigos. devem estar acima dos de todas elas. Their tormentors have perished. the Jews have always flourished and blossomed amid their ruins. enfim. London. o Estado. e não a dividir. quando um amigo me mostrou. mas a toda a humanidade . the chosen nation is rapidly disappearing. Em segundo lugar. na revista Time de 27 de fevereiro de 1995. em geral. disputa. fica na posição de arbitrar as disputas religiosas segundo critérios que. accomplishing what generations of their persecutors have failed to do?” — A r esposta é: sim. à unidade meramente exterior e acidental de um amálgama de interesses multina cionais. os adeptos da teoria da “conspiração judaic a” não enxergam. the war machines of Hitler and the Nazis. When faced with Pharaoh and the Egyptian soldiers. no novo quadro. Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own rel igion. nunca os exterminaram em massa nem sabo taram a prática do judaismo ao ponto de reduzir para três por cento dos judeus a quo ta dos ortodoxos praticantes. isso equivale a proclama r uma moral civil que está acima de toda moral religiosa e que é. do processo de mundanização da sociedade Ocidental — um processo que muitos líderes e i ntelectuais ateus de origem judaica têm ajudado a apressar. Mas também não os enxergam. o Estado. as demais religiões que cultuam o mesmo Deus. de Downsview. The Thirteenth Tribe. Os judeus e o judaismo têm sido as principais vítimas. realizando-se assim a profecia de Bauer segundo a qual a identidade jud aica. the Jews deny themselves this rig ht. great empires have fallen. o destino dos judeus era previsív el. não. tornado árbitro das disputas religio sas. Mas será sinal de amizade aos judeus cortejar um orgulho ressentido que os torna c egos ante perigos que hoje os cercam? Para mim. o povo judeu — aliás não coerido por nenhum a homogeneidade racial207 — se reduzisse. Isso representa. não tem autoridade nenhuma. é fácil de explicar pelo trauma do holocausto. Yaakov Wagner. a ruptura da continuidade temporal da comunidade religiosa: o Estado garante os direitos d o filho que rejeite a religião do pai. victim ized. Que este assunto tenha se tornado um tabu. não é de espantar. por ser leigo. A religião. mas não os do pai que pretenda transmitir sua religião ao filho. Não menos graves foram as conseqüências para as demais religiõe undiais. no momento mesmo de sua suprema glória mat erial. the Jews have been persecuted.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 161 princípio religioso de sua unidade cultural.

O nivelamento por baixo é a conseqüência fatal: perante a lei. que se afastam o mais possível de pressup ostos religiosos. perante a moral civil. perante o establishment. têm os seus direitos assegurados pela Constituição. que encenar um rito — desde que completo — é o mesmo que praticá-lo. Assim tornam-se veículos “inocentes” de influências psíquicas cujos efeitos sociais só são inócuos aos olhos de quem ignore totalmente o que seja um rito. . isto é. como elas. e com as quais devem concorrer no mercado como um pr oduto entre outros. as grandes religiões como o judaismo e o cristian ismo.seja os conteúdos das crenças religiosas envolvidas. devendo julg ar sempre segundo critérios neutros. que. as ideologias agnóst icas. não são melhores nem piores do que o culto dos duendes ou do que a Igreja de Satanás 209. tem de favorecer sempre e sistematicamente as correntes cujas ideologias sejam menos dependentes desses pressupostos. que fundaram a nossa civilização e criaram os valores éticos mesmos dos quais a ideologia democrática recebe o seu prestígio. nessa disputa. É mais que evidente que. Entre a 209 Os artistas do show business que realizam ritos satânicos em espetáculos de rock. todos com direitos iguais indep endentemente do valor ou desvalor intrínseco de suas respectivas ideologias ou pro gramas. e considerando as religiões em d isputa como se fossem apenas clubes ou partidos. isto é. deixam de informar a um público demasiad o crédulo que todo rito é uma encenação. o Estado. so b a alegação de que se trata de meras encenações.

O papel dos ritos e disciplinas maçônicas na estrut uração e no equilíbrio interior das elites fundadoras e governantes dos EUA não pode ser . é indiferente em matéria de religião? Pois não acabamos de ver que é um Estado maçônico? Que a Maçonaria. A form idável expansão do ateísmo no mundo. podendo abranger também eventualmente um clero. A principal. outras ainda sem terem a menor idéia de a quem servem. como já res saltei. é exercida por toda a pululação de religiões e seitas em disp uta. invisível e onipotente. seja de ordem psicológica. Essa imagem transmite-s e quer através das narrativas míticas e iniciáticas211. Anteu não quer a te nem o Olimpo. é que as r eligiões mesmas jamais tendo se ocupado seriamente de encontrar um princípio de conv ivência pacífica. “oficial”. ou religião popular. a função de exot erismo. perpetuada no culto discreto oficiado por uma nova casta sacerdotal co lhida nos escalões superiores da aristocracia maçônica210. a pretex to de pacificá-las. ainda não têm as condições de formar uma opinião própria. os meros fatos nada dizem sem os conceitos que os agrupam e lhes dão um se ntido. aleatório como o instint o. Mas será. exerce rigorosamente a função de direção espir itual? Que a aristocracia maçônica é encimada por uma casta sacerdotal que arbitra em úl tima instância as lutas políticas sem nelas se imiscuir diretamente? O Estado leigo tem religião. “Prometeu já não arrebata o relâmpago. Há um pretenso heroísmo cujo pântano é este mundo. O predomínio absoluto da moral civil represe nta o boicote sistemático de toda transmissão da moral religiosa às novas gerações. islamismo e budismo tornaram-se aí meras “seitas popul ares”. nenhum exoterismo em particular. Judaismo e cristianismo. da New Age e da ufologia. por outro lado. os fracos de cabeça. a Religião do Império. em que esses estudiosos em geral se baseara m. umas a contragosto. todas nivel adas e integradas na grande liturgia da religião civil. tem um campo de atuação infinitamente mais vasto. sim. mas tratando antes de dar combate sangrento umas às outras. Acima de todas elas paira. ou simplesmente aqueles que tenham algum conflito de família. bem como o fenômeno das pseudo-religiões que desviam para alvos inócuos ou mesmo prejudiciais os impulsos religiosos que ainda restem n a humanidade. no novo quadro.” BRUNO TOLENTINO Uma das principais funções da religião é dar ao homem uma imagem simbólica do mundo. abr igando-se sob a proteção do Estado leigo. reside em que. É claro que. mas com um tipo de ação mais interior. no seu grupo. ao lado do espiritismo e da teosofia. se isso aconteceu no mundo. § 31. são instantaneamente convidados a abandonar o seu grupo de referência. Os jovens. porque. a criação de um Estado multi-religioso só pôde realizar-se por meio da moral civil que. as neutraliza e emascula. não foi sem razão. no andar de baixo da sociedade. creio eu. e o conceito corrente de “clero”. De Wilhelm Meister a Raskolnikov. outras de bom grado. é demasiado estreito para captar todas as nuances e as implicações do que seja uma casta sacerdotal. e is to pelo fato de que o Estado defende os direitos de quem não deseje submeter-se a uma determinada moral religiosa. mas não os da religião que pretenda impor os seus p receitos àqueles que. formando as consciências de seus membros através de ritos e símbolos. Só que é um esoterismo ao qual não corresponde.162 OLAVO DE CARVALHO facção que pretenda ter uma moral válida para todos os seres humanos e aquela que afir me o mais pleno relativismo moral. esta última leva vantagem necessariamente. seja de ordem espi ritual. Ícaro não aspira a um céu invinto. é agnóstico. a maior parte do qual nada tem a ver c om funções públicas. ao pa sso que uma casta sacerdotal. adequado diz er que o Estado norte-americano é leigo. na qu al ele possa ler em filigrana o mapa do sentido da vida. quer através do 210 Um dos motivos de os historiadores e cientistas sociais norte-americanos nunca t erem percebido que as elites maçônicas muito mais que o clero católico ou protestante exerceram desde a Independência a função de casta sacerdotal. Um “clero” identifica-se com uma igreja estabelecida. mais sutil. jamais teria sido possível sem esta realização da Revolução Americana.

Rio. como força política em sentido material e direto. tb. 211 Para a distinção entre estes dois tipos de narrativas. também. Dela vem a tendência de não enfocar a Maçonaria senão por f ora. com a típ ica incompreensão do intelectual moderno médio no que tange ao modus agendi dos rito s e disciplinas espirituais. marcada pela emergência inédita na História de uma casta s acerdotal esotérica sem o correspondente exoterismo. . É preciso contar. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Ino centes”. os estudiosos não puderam captar a esp ecificidade do novo quadro. 1993. n.negado. 28-33. Examinando sua sociedade co m conceitos tirados outras culturas e épocas. adiante. IAL / Stella Caymmi. o que leva a uma avaliação falsa da natureza e alcance da sua influência. mas ele não faz parte da religiosidade pública. v. 218. V. pp.

e insensatos aqueles que o consideram louco. Si uno denuncia un abu so. pois em Don Quijote o pressuposto d e um destino metafísico do personagem dá ao desenlace um sentido precisamente oposto ao que teria para leitores desprovidos desse pressuposto: a vida do hidalgo só te m para nós um sentido edificante porque sabemos que. pós-cristã ou anticristã. todos os destinos eram enfocados sub specie æternitatis. Mas o mito como interpretação da vida não tem nem poderia ter significado constante. Isso é tão nítido nos enredos de Shakespeare. de l ocura. que o anti-herói das malfadada s façanhas é um herói autêntico do espírito. se preguntan los esclavos: ¿Qué irá buscando en eso? ¿A qué aspira? Unas veces creen y dicen que lo hace para que le tap en la boca con oro. são pura insensatez es tas palavras do comentário narrativo de Miguel de Unamuno: “Si nuestro señor Don Quijo te resucitara y volviese a esta su España. experiências que repetem no microcosmo da sua existência pessoal os lances protagonizados pelos deuses e heróis da narrativa mítica. Desde o momento em que. e mais os entende o crente ou o noviço que lê a vida através deles — entrando neles e tomando-os como uma mensagem vin da de seu próprio interior mais profundo — do que o filólogo que os lê através de alguma o utra grade perceptiva. a este ou àquele topos da narrativa mític a no decorrer da evolução histórica. não poderia jamais elevar-se a um plano de universalidade mais alto que o deles: metaphysica per se est et per se concepitur. precisamente por ser tal . e que a vida aparentemente terminada em derro ta é na verdade o vitorioso testemunho da supremacia do sentido da vida sobre a vi da mesma. Ante un acto cualquiera de generosidad. extraterreno. como índice do sentido da vida. a este ou àquele tema. são instrumentos de interpretação da vida. mas também pela diversa preferência dada a este ou àquele mito. andarían buscándole una segunda intención a sus nobles desvaríos. esse fenômeno manifesta-se da maneira mais cl ara entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. a rea lizar-se no Juízo Final. é o de Cervantes. Ora. e as sucessivas versões que recebe — se ja na forma do pensamento teorético ou da narrativa iniciática — vão revelando as mutações d o sentido da vida tais como aparecem às diferentes épocas e mentalidades. os temas e os topoi maçônic os começam a predominar sobre os cristãos 212. fustiga la ramplonería. estão lançadas no mundo as sementes de um a nova era. mas deixava em aberto a perspectiva de um segundo desenlace. que. otras que es por ruines sentimientos y bajas pasiones de ven gativo o envidioso.. otras que lo hace por divertirse y pasar el tiempo. os enredos t errestres jamais tinham em si a chave de seu próprio sentido. no Ocidente. a todos eses estúpidos bachilleres y curas y barberos de hoy no se les ocur re sino preguntarse: ¿ Por qué lo hará? Y en cuanto creen haber descubierto la razón del . mas subentendiam com o seu pano de fundo uma história cósmica escrita pela Providência com vistas a um sign ificado extramundano. A quem não creia num sentido que transcenda a vida. A questão básica em torno da qual se moviam personagens e enredos era a da salvação da alma: o sentido das ex istência dos personagens não era jamais totalmente resolvido no desenlace da trama. É por isso que podemos assinalar. na variedade in abarcável das situações vividas. ao contrário. Racine. o in stante preciso em que o mito cristão cede lugar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 163 rito que repete executivamente os passos principais do enredo mítico. Corneille. é ele que é se nsato. Por ela o ho mem orienta-se no labirinto da vida. Lope de Vega. talvez por inesperado. e que daria o verdadeiro significado do primeiro. ao mito maçônico. Fíjate y observa. aos olhos de Deus. no esforço vão de abarcálos no quadro conceptual de uma ciência determinada. Até então a literatura narrativa euro péia caracterizavase pelo predomínio de temas que remetiam a um tipo de conflito mod elado sobre es212 quemas da Bíblia ou da mitologia greco-latina cristianizada. reencontrando a cada passo. Por esta razão é que falham repetidamente as tentativas de “interpretar” os mitos: os mitos é que. Mas o exemplo mais contund ente. Dito de outro modo. Pois este enfoque os reduz a objetos. Quevedo — para não falar de Dante e de toda a literatura medi eval —. Essas mutações manifestam-se não somente pelas ênfases diferentes que diferentes tempos dão às possibi lidades de significação de um determinado mito.. de heroismo. persigue la injusticia. nas artes narrativas. Calderón. que não é necessário entrar em mais longas demonstrações. por depo rte.

mas em qualidade: não em número de obras.acto — sea o no la que ellos supoPredominar não em quantidade. mas no valor e significação das obras produzidas. .

A desocultação das forças causais profundas que dirigem a existência individual para a auto-realização é. surge reduzida a um dos fatores determinantes de um des tino cujo sentido se resolve inteiramente no plano da auto-realização pessoal. por trás do caos aparente dos destinos i ndividuais que se entrecruzam. são f reqüentes as menções a sociedades secretas que. O sucesso do empreendimento terrestre. a revelação dos motores ocultos da Histór ia: a manifestação de um poder secreto que. lo ha hecho por esto o por lo otro. de uma forma benevolente. é a de Goethe. francesa do Wilhelm Meister. e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finali dade em si mesmos. Bordas. perdió todo su valor la cosa. Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. E. Qua ndo procuramos nela o elemento iniciático. Para eso les sirve la lógica. eram apenas um sinal provisório do destino cele ste do personagem. isto é. Apenas. refletindo de longe os movimentos da Providência. já não é a vida humana que tem de se justificar ante uma instância supraterrena. profissional do pe rsonagem. Sobre a noção de “Superiores desconhecidos” na simbólica maçônica . na nova l iteratura.” 213 Pois bem: entre os séculos XVIII e XIX acontece que o sentido dos enredos passa a fechar-se numa resolução puramente terrestre: o significado das existências já não está no J uízo Final. se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem. 1949. acontecia que o fracasso ou o sucesso. sob a proteção velada e amável das potências cósmicas incorporadas no ser coletivo das organizações secretas. Também não significa que. de acordo com a vocação de cada um. Espasa-Calpe. descobrimos que as peripécias da vida de Wilhelm. A obr a mais significativa do período.. pelos “Sup eriores desconhecidos” 214. reduzida a um tipo de adm inistração oculta da História. 15ª ed. A extraordinária belez a desta imagem da ordem universal não deve porém fazer-nos esquecer que nela se trat a apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”. En cuanto una cosa tiene razón de ser y ellos la conocen. no sentido que elas possam ter aos olhos de Deus. no mesmo ato. Na Comédia Humana de Balzac. trad. mas unicamente na au to-realização pessoal. um vasto painel da vida social francesa. nesse sentido. dirigem invisivelmente os acontecimentos 216. ou sem importância. que é uma narrativa iniciática. o sentido último dos acontecimentos já não depende de um significado metafísico. André Meyer. No romance de Goethe. de longe. pp. e a Providência. as potências supraterrenas é que não entra m na trama senão como co-autoras do sucesso e do fracasso mundanos. conduz os sere s humanos para uma existência produtiva. o esplêndido prefácio de Marcel Brion à ed. la cochina lógica. numa curiosa inversão. 11-12. As aventuras aparentemente caóticas de Tamino e Pamina em A Flauta Mágica de Mozart revelam no fim ser a consecução de um plano concebido pelo sumo-sacerdote Sarastro para levar o casal de noivos à iniciação maçônica que lhes dará o poder e a felicid ade 215. às vezes ambíguas no seu modo aparente de agir. ao contrário. à medida que Wilhelm supera a revolta juvenil para integrarse no mundo real como cidadão educado e prestativo. vocacional. Paris. É um lugarcomum dizer que o Meister tem um sentido oculto. mas. a autorealização do homem no mundo. no sucesso ou fracasso social. mas boas em essência. torna-se o supremo significado da existência: Wil helm Meister revela-nos que a História é dirigida por forças ocultas. barrando-lhe o acesso aos “Gran214 Vida de Don Quijote y Sancho. Seu tema é a descoberta do caminho pessoal por entre os múltiplo s equívocos da vida. um anúncio da salvação da sua alma. Isso não quer di zer que na literatura anterior a luta pelo sucesso mundano fosse um tema ausente . a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. que parecem à 213 primeira vista uma sucessão casual e sem sentido. 1971.164 OLAVO DE CARVALHO nen — se dicen: ¡Bah!. a revelação da o m histórico-cósmica. são governadas. V. Madrid. O tema é comum a muitas obras maçônica s da época. esteja ausente a Providência. Apenas.

Éditions Traditionnelles. 1978.v. 1968. Paris. e Ferragus. “À propos des supérieurs inconnus et de l’astral” em Études sur la Franc-Maç ie et le Compagnonnage. em Le Père Goriot. Robert Laffont. Paris. 215 V. tome II. Ópera Maçonnique. Jacques Chailley. René Guénon. 208-22 7. . em Histoire des Treize. pp. são personagens cujo poder aparentemente desproporcional com suas qualidades pessoais vem da ajuda que recebem de sociedades secretas. por exe mplo. 216 Vautrin. La Flûte Enchantée.

passiva e “feminina” ante Deus. mas a do ponto de interseção entre o Céu e a Terra. Os temas da espiritualidade islâmica. infel izmente não concluída. De acordo com Guénon. a formulação do drama Ocidenta l que viria a ser dada por René Guénon. torna-se. o Homem. Ressurgem então os temas cristãos. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é prec isamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. Mas. de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males como o preten . durante toda a sua vida madura. em todas as tradições. tendo vivenciado a ruptura maçônica com a tradição c ristã e se tornado o porta-voz por excelência da ideologia históricoprogressista. s e não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —. tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao ho mem as portas de uma nova civilização. e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação. capaz de absorver o conhecim ento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado . a realização do sentido da existência terrestre. Ora. é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios. a tentativa de fazer da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida. que fique claro: Se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos. A imagem do Hom em Perfeito. isto é. ele não viu outra saída senão buscar a espiritualidade superior numa tradição religiosa vizinha: o Islam. é não apenas a da individualidad e humana perfeitamente realizada. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória inte rior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmi ca. ao progresso. se e leva aos céus. é ativo e dominador perante a existência terrest re. re staurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional. não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profe cia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão. e. Em conversações privadas. à sociedade. Jen. e só conserva seu sentido qua do integrada no corpo de uma tradição espiritual maior. inversa e complementar mente. passivo e obediente ante as injunções do Es218 217 Portanto. A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —. Na continuação de Wilhelm Meister e s obretudo no segundo volume do Fausto. de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisioná-lo na dimensão terrestre 217. A consideração de uma possível “saída islâmica” para o conflito pressa com um século e meio de antecedência e em escala pessoal. ele procura integrar essa perspectiva no q uadro maior de uma ascensão puramente espiritual.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 165 des Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do di vino. Dividido entre o impulso espiritual e a rejeição maçônica do cr istianismo. não teria alternativa se não cair na barbárie ou islamizar-se 218. que fora prometéica e dominadora ante o mundo. a alma resgatad a. transcendendo a esfera histórico-cósmica. do perfeito equilíbrio entre a atividade criadora e a passividade contemplat iva: na tríade chinesa. na velhice. são uma prese nça constante na lírica goetheana. a maçonaria. como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios. bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor d a História. que chegou a tomar por tema de uma peça. Goethe conscientiza-se aguda mente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. Goethe manifestou várias veze s sua apreciação pelo profeta Mohammed. a insufic iência espiritual dos Pequenos Mistérios e buscasse insistentemente uma perspectiva espiritual mais elevada. sent isse de maneira mais ou menos obscura. ou Homem Universal. a civilização do Ocidente. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo a s marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países eur opeus e mesmo nos Estados Unidos —. aprendidos na de votada leitura dos grandes poetas e pensadores místicos persas e árabes. É altamente significativo que Goethe.

. se transferisse para o Egito e adotasse em tudo o estilo de vida islâmica é interpretado por alguns estudiosos com o sinal de que ele perdera toda esperança numa restauração espiritual do Ocidente. decerto. na última etapa de sua vida. mas ao menos significativame O fato de que René Guénon.dia aliás o próprio René Guénon nte. não exclusivamente. mas não encontra respaldo suficiente nos textos de Guénon. Est a interpretação é viável. .

Tal como vimos parágrafos atrás (§§ 1 9 a 22). mas também é “desequilíbrio” não escovar os dentes. com sentimentos progressistas imbuídos de revolta prometéica contra o esta do de coisas na sociedade. no amor e na vida social em ge ral. repre senta um corte ao meio do corpo do Homem Universal. é algo que se explica precisamente pela origem comum de ssas duas atitudes no amálgama ideológico que este livro vem descrevendo: onde quer que. onde se desenrola sempiternamente a luta de Leviatã e Beemoth. do mesmo modo que o impulso de transcender as barreiras espaciais (por exemplo através da rede mundial de tel ecomunicações) se choca contra o mecanismo cego da entropia histórica. como a ordem cósmica já não co nstitui apenas a passagem à esfera espiritual. nesse quadro. a tornar-se c rença geral das massas ocidentais: hoje não há nas grandes cidades quem não viva segundo a expectativa. a ruptura com Tien. ocasionando o predomínio u nilateral da ideologia prometéica desvinculada de todo contato com o Espírito. o pecado não reside mais numa ofensa à dignidad e do homem. É “desequilíbrio”. para que. tempo e qu antidade que constituem o cosmos físico. onde quer q . numa me sma alma. A ação decai em agitação estéril. da doença ou da pobreza. O enxerto de simbolismos orientais nessa ideologia de origem substancialmente maçôni ca e revolucionária permite explicar os fracassos em razão do karma. rompendo com toda forma de obediência tradicional. mas vale por si como horizonte term inal da existência. Ficar g ripado. o conjunto das determinações de espaço. Na nova sociedade. na ausência de uma conexão com o espírito. a mais dolorosa e trágica expe riência espiritual já vivida pelo homem sobre a Terra. n ascerá também um sentimento de conformismo passivo ante a ordem física. consciente ou inconsciente. E. mas aqui mesmo e na forma do fracasso mundano. que encontra expressão no primeiro volume de Wilhel m Meister. A ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. o ímpeto destr utivo que fizera a Revolução devia ser canalizado para a busca do sucesso. cometer at os de violência. isto é. mas sua contrib uição decisiva foi introduzir na moral do homem moderno um novo senso do pecado: na mesma medida em que a função da Providência já não é conduzir os homens à vida eterna. de que um concerto de potências invisíveis dirija cada indivíduo no sentido de sua auto-realização no emprego. por meio da fusão entre o ocultismo e a ideologia americana da auto-realização. oferecia lev ianamente a todos os homens o desfrute imediato da felicidade terrena tão logo a s ociedade se livrasse das peias da religião. até chegar. e. Que essas convicções aparentemente conformistas possam coexistir.166 OLAVO DE CARVALHO pírito. toma logo a forma de um apelo lisonjei ro à juventude. no nosso tempo. na esteira do discurso da Revolução Francesa. a Terra. mas sa isfazer a seus apetites neste mundo. a saúde e a riqueza de todos os bons cidadãos. n conflito entre progressismo técnico e crise ecológica). ou na desobediência a um mandamento divino explícito. declarada ou pressuposta. que furta ao ho mem incessantemente o desfrute benéfico das melhores conquistas da técnica material e transforma o progresso numa aceleração do desespero. se empe nhe na conquista audaciosa dos bens deste mundo. e sim no “desequilíbri o”. “Desequilíbrio” significa qualquer ato. seja isto lá o que for. ter dívidas ou sofrer um acidente de automóvel são coisas que. r epresentam sintomas — e ao mesmo tempo a cura — de algum desequilíbrio com a ordem cósmi ca e por isto induzem as pessoas que passam por essas situações a sentirem constrang imento e vergonha. Daí surge a poderosa imagem mítica que ainda sensibiliza a alma contemporânea: o mito do guiame nto celeste em direção ao sucesso. pelo menos “em excesso”. Ao longo do século XIX ele evoluiria. o Espírito Santo. o pecado não é punido com uma penalidade espiritual após o Dia do Juíz o. pensamento ou hábito que possa colocar o indivíd uo em desarmonia com uma ordem cósmica supostamente empenhada em garantir o sucess o. comer comidas gordurosas ou fumar. auto-real ização da História — choca-se fatalmente com as limitações da natureza física (por exemplo. só pode acarretar para o homem a qued a sob o domínio de Ti. sendo por isto os fracassos explicados como desajustes em relação à ordem cósmica. por exemplo. como o sentiam em outras épocas aqueles que cometiam adultério ou roubavam. surja um prometeanismo revolucionário. a co templação em passividade escrava. Aí a busca da liberdade criadora — ação do homem no tempo. A ideologia prometéica que.

em contrapartida. um conformismo obediencialista ante a autoridade dos . se procure dominar despoticamente a ordem física. surgirá.ue. nas mesmas condições.

os compon entes básicos do iogue-comissário. gir ando em circuito fechado. éd. 33-42 da 2ª ed. Gallimard . O leitor não terá dificuldade de reconhecer aqui. Se. Em Le Rouge et le Noir. pp. Mas essa soldagem do s incompatíveis. bem como o segredo do seu mágico atrativo. Éditions Traditionnelles. vo n Goethe é o modelo desse projeto de vida 221.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 167 senhores deste mundo 219.” 220 V.. Mas. 1950 ). noto que. para protegê-los e dirigi-los de longe na senda da vitória. constituiu uma das chaves para a formação da nova aristocracia maçôni ca: a meritocracia. Cap. Ludwig Feuerbach: “O homem é aquilo que ele come. no movimento da New Age. Mais que o Wilhelm Meister. são dialetica mente complementares. também era verdade. Mas a colaboração entre essas duas correntes vai mais fundo do que geralmente se imagina. Caps. um assunto que é aprofundado em Nicolai Berdiaev. havia “Superiores desconhecidos” que podiam dirigir para o me lhor a vida de um jovem talentoso. elevando-se ao plano da pura espiritualidade — que é precisament e o que a ideologia moderna rejeita com todas as suas forças. a carreira de Napoleão Bonaparte — que durante algum tempo brilhara ante todas as imaginações como o emblema mesmo das possibilidades ilimitad as que a situação pós-revolucionária oferecia aos ambiciosos e arrivistas de toda sorte — terminara muito mal. e isto fazia pensar 222. de novo. São incompatíveis e inseparáveis 220. os mais aptos. especialmente Parte I. cujo título é o resumo de milhares de vidas de jovens . H istoire d’une Pséudo-Réligion ( 1929. e estas não deixaram de ser exploradas pela mesma literatura que a divu lgava. dá uma idéia da atmosfera reinante nos círculos soc ialistas-ocultistas russos no fim do século passado. não podem ser canalizadas senão no sentido do enervamento crescente: quanto mais vão e sem proveito um estado de alma. 219 A ideologia progressista muito deve ao ocultismo. o gênio de S tendhal narra a história de um típico arrivista dos novos tempos. espec ialmente Cap. maior o seu poder de contágio hipnótico. por exemplo refletem menos alguma idéia oriental do que a máxima forjada pelo porta-voz da esque rda hegeliana. IX e XIII. só para dar uma idéia das afinidades profundas que as diferenças superf iciais encobrem. 1952 ). Under Western Eyes. subjugando as velhas e decadentes aristocracias de sangue bem como o esgotadíssimo clero romano. 1978 ). ao mesmo tempo que protegiam contra ele os candidatos menos dotados e mais conformistas. de um lado. Paris. Éditions Traditionnelles. como viria a ser chamada mais tarde. deixando o jovem talentoso entregue ao mais negro desamp aro. espíritas e socialistas que constituíram por mais de um século o alimento mental dos círculos letrados e progressistas. Les Sources et le Sens du Communisme Russe ( Paris. A constelação do s vencedores formaria a nova casta governante e sacedotal. mas não há síntese possível a não ser pela Aufhebung que absorve os termos em conflito. Mas já na época mesma de sua difusão a ideologia da vitória prometéica deixava à mostra suas contradições. O sucesso posterior do marxismo velou a origem ocultista do ideal socia lista. o romance de Joseph Conrad. chamando os jovens ambiciosos ao mais extremado individualismo na luta pela vida. como toda contradição sem síntese. teosóficas. Ainda não se fez um estudo abrangente sobre o amálgam a de idéias ocultistas. A Nova Era e a Revolução Cultural. Coisas importantes a respeito foram ditas por René Guénon em Le Théosophisme. Paris. atira a alma naquele estado de agitação estéril que os gregos denominavam ubris (hübris): o entrechoque de energias que. I. à teosofia e ao espiritismo no q ue tange à aceitação mundial do evolucionismo. e L’Érreur Spirite ( 2e. já não como simples teoria biológica mas como explicação geral do cosmos. Em teoria. IV. O apelo da ambição prometéica. O tema aparece no me lhor romance do próprio Balzac. réed. XXIX. De um lado. que eles po diam sonegar seu apoio. que fracassa tragi camente apesar de todo o talento e dos mais tenazes esforços. colhia os melhores. principalmente e m Paris. a ênfase caricatural nos aspec tos supostamente espirituais da alimentação característica da Macrobiótica. por outro lado. a própria biografia de Johann W. e Parte II.

Bibliothèque de la Pléiade. por alto. por exemplo. Qualquer que seja nossa opinião sobre os resultados de sua in vestigação. É some te nessa função que elas podem ser compreendidas e eventualmente julgadas. pp.. tentou pensar as relações entre o fracasso de Napoleão e a ação das sociedades secretas. 1960. elegantemente entretecida de elogios d e praxe ao restante da obra do autor. 248 ss. até mesmo o grande Sainte-Beuve ( que era maçom ) preferiu ao exame aprofundado o s juízos assertóricos e a mera difamação pessoal. mas como forças plasmadoras dos símbolos em que se projetam os valores e ideai s de uma época o que é precisamente a função espiritual e sacerdotal por excelência.que acreditaram no apelo prometéico da Revolução e da democracia: Illusions Perdues. 222 Walte r Scott. em Œuvres. Paris. V. em 8 vols. . 221 O presente parágrafo ilustra. o fato é que sua monumental Life of Napoleon. principalmente no que s e refere aos tempos modernos: enfocá-las não como facções políticas ou grupos de conspirad ores. Ao resenhar esse livr o. Premiers Lundis. o método que julgo dever ser utilizado no es tudo da atuação histórica das sociedades secretas e iniciáticas. não merecia ser re cebida como foi: com insultos em vez de argumentos críticos. então já um sucesso consagrado que seria temerár io desprezar.

invisivelmente entretecida na grade de uma constituição que não reconh ece a sua existência mas que não pode impedi-las de representar a verdadeira distrib uição do poder. ai nda que fundado na vontade da maioria. a descida do homem desde as alturas de um orgulhoso prometean ismo até o arrependimento que lhe abre as portas do céu. e Stendhal encontra alívio no esteticismo cético e diletante. São Paulo. que existirão ora de maneira explícita. a necessidade de reintegr ar a atividade criadora humana no supremo sentido espiritual da existência só é afirma da com plenitude — e com plena admissão de suas conseqüências morais e filosóficas — por um ú ico dentre os maiores narradores do século passado: F. Mário Ferreira dos Santos. a polícia — Leviatã cede novamente ante Beemoth — e só reencont ra sua liberdade ao cair aos pés de Sônia. o est udante Raskolnikov termina por cair no estado de vítima inerme de seus instintos n aturais. na mes ma medida em que. a jovem prostituta que encarna a humildad e. eis o sinal que vos dou.168 OLAVO DE CARVALHO Mas nem Stendhal nem Balzac enxergavam muito além do círculo históricocósmico onde se de senrolavam as vidas de seus personagens: em Balzac o drama permanece inconcluso. monárquicas ou republicanas. consagrada na constituição política nominal. Se a intelectualidade moderna perdeu de vista a existência das castas ( tornando-se até mesmo incapaz de perceber sua própria condição de casta ). Dostoiévski 223. o lado feminino da alma. é um sintoma da vontade de morrer. 225 226 § 32. lei ou decreto. autoridade espiritual e poder temporal — que existirão onde quer que s eres humanos se aglomerem numa coletividade que seja maior do que uma família. tal é o sinal do Estad o. com qualquer organização nominal do poder polític o. que nenhuma constituição. como o segundo Fausto. liberais ou so cialistas. Na verdade. foi por tê-las confundido c om as “classes” definidas por traços exclusivamente econômicos. Mas I Promessi Sposi é antes um retorno à estética pré-maçônica — com o casamento de Renzo e Lúcia anunciando a salvação da que passa ao largo da problemática aqui enfocada. sejam democráticas ou oligárquicas. trad. ora de m aneira implícita. Logos. NIETZSCHE 225 O Estado democrático igualitário é menos uma realidade que uma aparência. culturais. funcionalmente. reduzida socialmente a um nada. pode revogar 226. 224 Verso final do Segundo Fausto: “O Eterno Feminino / leva-nos ao alto. como todas as anteriores. que o levam a curvar-se ante o mais forte: ao afastar-se de Deus. Na grade diferenciadora estabelecida por Marx — e copiada com automático servilismo por toda a tradição dominant e nas ciências sociais —. psicoló icas e políticas tornavam-se invisíveis. Depois da antevisão do velho Goethe — no Fausto mais insinuada do que expressa —. Crime e Castigo é. “A confusão das línguas do bem e do mal. que subsistirão como um código secreto no fundo de todas as constituições po líticas.” F. E cumpre-se assim a profecia goetheana : Das Ewige Weibliche sieht u ns hinan. ela foi o tema dominante da sua ficção desde seu primeiro grande livro. A nova socieda de. volta as costas ao reino deste 224 mundo. ou: O Estado bedel 223 Algum leitor pode cobrar-me pela omissão de Manzoni. tem as mesmas duas castas governantes — sacerdotal e aristocrática. 1954.” Assim Falava Zaratustra. As novas Tábuas da Lei. o único que enxerga Deus e pode conduzir a Ele. Como a queda do comunismo parece não ter bast . Pretendendo liberar-se de t odos os entraves morais e religiosos para dar vazão a seu impulso dominador. porque estão imbricadas na constituição ontológica e até mesmo biológica do ser h umano e são compatíveis. subme te-se ao dominador humano. as distinções de castas por funções espirituais. Elas são uma “constante do espírito humano”. M.

Carlos Alberto da Fonseca. trad. E.ado para eliminar o prestígio residual do marxismo como ciência. se recorrermos a distinções mais comp lexas e sutis. São Paulo. “casta sacerdotal” significa simplesmente . adaptados à situação moderna. acabaremos fatalmente recolocando na linha das preocupações sociológica s a velha teoria das castas ( como já o fez. não bastam sequer p ara definir uma classe no sentido marxista. O Sistema das Castas e suas Implicações. P. cit. nunca é demais insist ir que há mais diferenças hierárquicas entre os homens do que imagina a nossa vã sociolo gia. por exemplo. Thompson ( op. 1992 — um estudo infelizmente limitado ao sistema hindu. As distinções econômicas. ). — No sentido em que aqui emprego os termos. como viu E. mas sufi ciente para sugerir a subsistência real de diferenças hierárquicas de tipo casta na so ciedade Ocidental moderna ). Edusp. Louis Dumont em Homo Hie rarchicus.

de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado. que gera a aristocracia e. entre as quais a da elitização. Há evidentemente interseções. São Paulo. e. Elementos de Tipologia Espiritual ( apostila ). nunca li trabalho algum que valesse a pena. derruband o-a com o auxílio das castas inferiores. pelas lideranças sindicai s e por aquela parcela do empresariado capitalista urbano ou rural que tenha força suficiente para fazer lobby. e podia portanto. o da casta sacerdotal. homem entre homens. os encarregados do guiamento espiritual do povo — uma categoria que abrange desde gurus e magos ( autênticos ou falsos. E quando elas ressurgem sob nomes como “burocracia estatal” e intelligentzia. qu alquer que seja o seu tamanho ( o que vai desde o grande empresário politicamente isolado até os pequenos comerciantes e proprietários rurais. seja pacificamente ou pela violência. e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitad o por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos. é menos uma ironia da História do que um a fatalidade inerente à natureza do poder: não podendo eliminar as castas governante s. aumentando assim o seu poderio. outra coisa é socieda de igualitária. Nossos contemporâneos. que não apagam a linha divisór ia essencial. Olavo de Carvalho. em caso d e grave ofensa. só a casta que detém o poder espiritual pode legitimar o status quo ou mudá-lo. era visto por todos no campo e na al deia. sacerdotes e altos dignitário s de sociedades secretas até os ideólogos de largo escopo. e mais em baixo ainda a imensa massa dos braçais. ser atingido. ocultou-as. Essa ilusão tornaos cegos para as rea lidades mais patentes. Juan Al fredo César Müller. v. inerme. imbuídos de ilusão igualitária. em seu sítio na floresta da Cantareira. já falecido. elevando-a ao poder político. nas campinas imensas onde o grito se perde . entende que a mais alta forma de poder é aquela que gov erna as mentes dos homens. Mythe et Epopée. Paris. São Paulo. pelos ensinamentos recebidos em conversas inesquecíveis. noite ade ntro. logo. Sobre as castas no contexto atual. Abaixo dessas duas castas. O imaginário moderno concebe. Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. sem interferir diretamente em política ). mas reconheço a dívida que. tenho para com meu querido mestre e amigo. Sobre a psicologia das castas. bem como toda a parcela da classe média que se ocupe somente da vida civil. os acadêmicos. ninguém as reconhece. v. para a formação de minha s idéias a respeito. e que ad emais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espa da. teve de elitizar-se a um ponto que seria inimaginável para os nossos antepassados. por exemplo. bem como Ge orges Dumézil. arco e flecha. definir o p oder exclusivamente por critérios econômicos e políticos foi um truque sujo da intelli gentzia para ocultar seu próprio poder. pouco importa ). 1947. caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo. Pois uma coisa é ideologia igualitária. IAL. “Casta aristocrática” significa todos os que exercem o poder políticomilitar ou têm condições de reivindicá-lo: isto vai desde os governantes até os políticos de oposiçã passando pelos escalões superiores do funcionalismo público. pois todos crêem que castas só existem na Índia ou no passado medieval. sem precedentes. René Guénon. já citado. Que essa ideologia pudesse transformar-se no instrumento da mais f ormidável concentração de poder nas mãos de poucos. lança. do movimento editorial e d a imprensa. crêem que o mundo caminha para o ni velamento dos direitos. cientistas e técnicos e a arraia-miúda intelectual das universidades. às vezes trazendo-o na garupa. há os empresários sem força política direta. Sobre as for mas de poder das castas superiores. Essa classificação baseia-se na distribuição real do poder. professando mentirosamente equaliz ar a distribuição de poder. depois a julga e eventualmente condena. Vega.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 169 Foi por isto mesmo que a sociedade democrática. também consideradas fora do contexto atual. 1988. dos meios de poder. sem se deixar iludir p or aparências e formalismos. e não em meras abstrações econômicas. idealmente considerada e fora de toda referência às sociedades modernas. sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado p or outros meios senão a concentração de poder 227. o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário. que vai desde o prole tariado politicamente “alienado” até os párias e desclassificados de toda ordem desde qu e não exerçam poder político através de movimentos sociais ou do banditismo organizado ( pois neste caso fazem parte da casta aristocrática ).

o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância do s dominados. cit. os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocu ltas.. que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os 228 mortais .na distância. op. matilhas de cãe s ferozes. os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínio s fechados. Não entramos lá. nossas imprecações e mes mo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua. Pela foice do camponês. meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis.. Em terceiro. deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhece227 Bertrand de Jouvenel. Em segundo lugar. falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barr eiras burocráticas sem fim. cit. demonstrou que o curso da história política do Ocidente desde o Império Romano até a II Guerra Mundial se dirigiu claramente no sentido da concentração do poder mediante a extinção ou neutralização dos poderes sociais i ntermediários. Em p rimeiro lugar. assinala com justeza Christopher Lasch ( op. . guardas armados. mas ela nunca esteve tão perfeitamente isolada d e suas vizinhas”. mesmo na América. causas ocultas. Em comparação com ele. seu tempo vale dinheiro. potestades ocultas. cercados de portões eletrônicos. 228 “Sempre houve uma cla sse privilegiada. 12 ). alarmes. por uma lâmina vingadora. Por uma faca de cozin ha. e nossos pedidos. passim. O exame das cinco décadas que se seguiram à publicação da obra de Jouvenel mostra que a tendência aí denunciada se acentuou ainda mais.. mais dinheiro do que nós temos. p.

ela ainda está abaixo da condição do camponês medieval. que não trabalhava. que era obrigado a recebê-lo em troca de uma promessa de lealdade. policial e judiciária 230. mas é claro que pessoalmente. E. Mas esta distinção esca pa aos porta-vozes da ideologia progressista. Estado assistencial. se através de lutas e esforços sobre-humanos o movimento sindicalista obtém fina lmente para essa horda a jornada de trabalho de oito horas e a semana de cinco d ias. sem outra esperança senão a de uma f utura revolução socialista (que os reverteria a uma condição similar à de escravos romanos ). os novos direitos. Mas. ao serem reconhecidos. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas. que confundem palavras com coisas e intenções com atos. O intelectual. é claro. tinha as terras da Igreja. tanto quanto outrora necessitava do apoio das grandes fortunas para sufocar os movimentos sociais com que ainda não sabia lidar. Sem esquecer. s enão uns seis meses por ano. São necessários também para debilitar todos os poderes so ciais intermediários. que não possa ser administrado senão por uma burocracia onipresente. Eis como o progresso dos direitos nominais não se acomp anha necessariamente de um aumento das possibilidades reais. pela minh a condição de escritor e intelectual. de cujas queixas ele nece ssita para justificar sua expansão. 230 229 Falo aqui como porta-voz do homem do povo. quando quero. onde todos eram livres para plantar e colher . para poderem ser aplicadas. a Revolução encampou essas terras e as rateou a preço vil. e nriquecendo formidavelmente os burgueses que podiam comprá-las em grande quantidad e. a dialética do poder no Estado moderno é diabo licamente simples: incentivados a fazer uso de seus direitos. e instalar-se nas terras do senhor vizinho. requerem a expansão da buro cracia fiscal. Protestos e reivindicações incessantes são necessários para manter a sociedade num esta do de divisão e de mudança psicológica acelerada. complicada que seja a sociedade. eis a parte que nos cab e deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibil idade divina. o Estado tornou-se o proxeneta assumido de todas as minorias insatisfeitas. em média. caso lhe desagrad asse o seu senhor. O servo-da-gleba também tinha o direito de ir e vir. o episódio deu tema a uma novela de Heinrich von Kleist : Michel Kolhaas). transformamse em leis. sem passaportes ou vistos e sem ser revistado na alfândega (o primeiro senhor de terras que resol veu taxar a travessia de suas propriedades desencadeou uma rebelião camponesa e pe receu num banho de sangue. tenho mais informações sobre a organização do poder do que o homem das ruas e. E. mesmo sem um tostão no bolso. e criando a horda dos sem-terra que foram para as cidades formar o proletaria do moderno e trabalhar dezesseis horas por dia. se caísse na mais negr a miséria. Esse pr ocesso não é inconsciente: em todos os países do Primeiro Mundo. e temos razões para invejar o servo-da-gleba. os cidadãos reivindi cam mais e mais direitos. Após dois séculos de democracia. Por isso a ideolo gia neoliberal. por fim. que ao menos tinha o direito 229 de saber quem mandava nele . e assim o Estado se torna mais poderoso e opressivo quanto mais se multiplicam as liberdades e direitos humanos.170 OLAVO DE CARVALHO mos. formadora de mini-agentes de transfor . socialismo e progressismo. igualitarismo. de modo que o Estado possa pairar soberanamente sobre um mar de átomos humanos nivelados e desorganizados entropicamente231. direitos humanos. me faço ouvir — tanto quanto qualquer outro i ntelectual — pelo poder político. precisa ser muito hipócrita para não se incluir a si mesmo na categoria dos “poderosos”. Tinha ainda o direito de mudar de território. tão veraz ao discernir os fatores que obstaculizam ou fomentam o d esenvolvimento econômico. as novas leis. a rede de educação pública. por um direito milenar. equivoca-se ao sugerir que o “enxugamento” do Estado — sua ret irada das atividades “impróprias” — esteja associado de modo automático e óbvio a uma promes sa de maior liberdade para os cidadãos.

Veremos isto mais adiante.. . segundo notic ia The Times de 8 jan. mas. é a maior ofensa à dignidade da causa lésb ica. discriminados pelos machões que só gostam de machões. cindindo-se imed iatamente em partido sádico e partido masoquista. 231 Desorganização entrópica: em Londres. pois não há limi te para a fragmentação entrópica desde o momento em que as correntes de opinião passam a ser determinadas pela libido. O alvo de seus ataques não é o establishment. segundo elas. o m ovimento gay! O machismo gay. em seguida.. É previsível que logo. os s adomasoquistas protestem pelos seus direitos.mação social necessários para que as novas leis se transformem em costumes generalizad os. nem a família tradicional. que invadem bares.. que em seguida os transe xuais se revoltem contra as drag queens por caricaturarem a forma feminina. 1995. E assim por diante. entrou em atividade um grupo de militantes lésbicas e nragées.. promovem pancadarias e autos-de-fé em que queimam em grandes fogueiras públicas as revistas e jornais de seus inimigo s. que. surjam protestos análogos da parte dos travestis e trans exuais. as Lesbian Avengers.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 171 Pois não é só mediante o exercício de atividades impróprias e acidentais que o Estado opri me as pessoas. por exemplo. Cultivam. ler a imprescindív el reportagem de Janer Cristaldo. a polícia. A educação e as comunicações de massa — dois setores entregues ao império de intelectuais at ivistas que um tanto inconscientemente são os mais dóceis colaboradores do Estado mo dernizante — atacam por todos os meios as velhas relações comunitárias fundadas no costu me. da família e das pequenas comunidades 232. no Brasil. ficam mais inteligentes a cada dia que passa — uma as serção que é desmentida pelo miserável desempenho cultural dos geniozinhos tão logo chegam à universidade ou lhes damos um livro para ler. E estas. Recentemente. a confiarem de preferência na polícia e n os assistentes sociais — o que se funda no pressuposto de que não há estupradores na c lasse dos funcionários públicos. Nos EUA. deixou de ser um direito n atural inerente à condição humana. numa página de noticiário policial ou geral. sempre foi uma das garantias básicas da liberda de civil. Rio. graças à TV e aos computadores. a autoridade pública regulam enta hoje da maneira mais direta e ostensiva todas as relações humanas. a justiça. nada deixando para a livre decisão do indivíduo. Paulo. por não suportar mais viver num país onde a insolência juvenil é pro tegida pela polícia e onde ser pai é expor-se a toda sorte de humilhações nas mãos de uma santa aliança entre moleques e burocratas 233. O Paraíso Sexual-Democrata. o mais popular defensor do neoliberalismo — o pr efeito Paulo Salim Maluf — seja também o primeiro governante a procurar interferir d ecisivamente nos hábitos privados dos cidadãos. mediante as leis sobre o uso dos cin tos de segurança e sobre o consumo de cigarros. segunda. em vez de retrair-se no novo quadro neoliberal. revogável ao me nor sinal de abuso. para acelerar sua substituição por relações cri adas artificialmente pela administração estatal ou pela dinâmica do mercado. mesmo as mai s íntimas e informais. alertando-os para um problema social. para se tornar uma concessão do Estado. Isso acontece por igual nas ec onomias neoliberais e nas social-democráticas. a vitória esmagadora das economias capitalistas tenha vindo junto com a crescente intromissão do Estado na moral privada. a educação pública. Num suplemento juvenil. exilado pela ditadura. que à medida que se descarrega do fardo econômico o Estad o busca para si novos papéis que justifiquem sua existência. Cia. que foi precisamente para poder expandilas que o Estado se ret irou da economia. 233 Sobre a Suécia. por exemplo. O pátrio poder. incita diretamen te os leitores a suspeitarem de seus pais. Este é um p onto que os pensadores neoliberais devem examinar com cuidado. a Folha de S. a mentira de que as novas gerações escapam ao controle paterno porque. assistência médica e pol puda aposentadoria. A mesma matéria. Um amigo meu. se dirigiria a adultos . nos países do Prim eiro Mundo. Às vezes vão mais longe: advertem as crianças contra os graves perigos que correm ao confiar em seus pais em vez de ent regar-se à proteção do Estado. desistiu de morar na Suéc ia. concedeu uma manchete do F olhateen à notícia de que a maior parte dos estupros de menores é praticada pelos pais . Até umas décadas atrás. A expansão do olhar fiscalizador do Estado (e da intelligentzia) par a dentro da esfera privada tem como uma de suas mais graves conseqüências a redução da d iferença entre o moral e o jurídico — diferença que. e acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana antes entregues ao arbítrio privado. pois as contradições teóricas no seio de uma ideologia podem ser as sementes de futuros conflitos que u ltrapassem o terreno das meras idéias. fundando-se numa est atística muito grosseira improvisada por uma delegacia. Editora Am . mas sim também — e principalmente — daquelas que lhe são mais essenciais e próprias: o fisco. A razão disto é dupla: primeira. o pai de família que estendesse as asinhas 234 232 Também não é coincidência que. resguardando da intromissão oficial áre as vitais do comportamento humano. na religião ou na natureza das coisas. tendem antes a crescer desmesuradamente. nem muito menos na dos jornalistas e proprietários de jornais 234. Não é coincidência fortuita que. onde um governo hospitaleiro lhe dera moradia gratuita.

nem muito me nos se lembrou de processá-lo por apologia do crime. Ninguém saltou à goela do declarante. Embora não seja pai de família. . São todos pessoas educadas. Somente a mim parece ter ocorrido a idéia de que seria difícil resistir ao impul so de abater a tiros. aos três anos. já têm um tremendo sex appeal e jogos de sedução de fazer inveja a Sharo n Stone. de vez que as criancinha s.ericana. no Jornal do Brasil de 1996. defende como justa e saudável a prática da pedofilia. 1978. cul tas. um premiadíssimo escritor gay. como a um cachorro louco. quem se aproximasse de meus filh os imbuído de semelhante doutrina. nem o expulsou a pontapés. de alma delicada e sentimentos estéticos incompatíveis com os instintos violent os.

o “cidadão”. de um lado. para uma sociedade onde não haverá mais a diferença entre adulto s e crianças. e este castigo. isto não ocorre por casualidade nem por mera birra feminista. o Estado na verdade os divide. Evoluímos. que todos prefiram permanecer adolescentes e. de planos e objetivos vita is. criar ligações verdadeiras uns com os outros. A proteção oficial ao aborto. no mínimo. de outro lado. Uma prova de que a intromissão do Estado visa menos a proteger as supostas vítimas de abusos do que a suprimir as velhas formas de associação é que as no vas legislações de direitos dão sistemática preferência às reivindicações que separam os home sobre aquelas que os unem. em suma —. sentimentos e até olhares de seus semelhantes — uma garantia jurídica contra a vida. com a leviana desenvoltura de quem troca de meias 235. da paróquia — um castigo moral infligido espontaneamente pela comunidade. onde já não haverá pais e filhos — somente a multidão inumerável dos órfãos de todas as idades. a paróquia. nem homem nem mulher. mesmo as espontâneas e informais — um gal anteio. um olhar. mas por uma exigência intrínseca da dialética do poder: numa sociedade onde todo cidadão pertencente a esse grupo é estigmatizado como um virtual espancador de mulheres.172 OLAVO DE CARVALHO para cima de sua doméstica atrairia sobre si a desaprovação da esposa. faz da mulher uma unidade autônoma. oferecendo-lhes o engodo de uma garantia jurídica con tra os preconceitos. para tornar-se um tr ato em separado entre a mulher e o Estado: o divide ut regnes invade o quarto nu pcial. Nas Sombras do Amanhã. nos ressentid os de toda sorte —. que é a de fiscalizar a conduta moral de seus membros. dos filhos. era mais do que suficiente p ara fazer justiça. por exemplo. cheios de autopiedade e indiferentes aos sofrimentos alheios. Se a bête noire visada por todas as campanhas de proteção aos direitos é sempre o macho adulto heterossexual. e descr ito com precisão. reunidos num imenso colégio interno s ob a tutela do Estado bedel. perpetuamente à espera de que alguém faça algo por eles. de amigos. nas mulheres. antipatias. dos vizinhos. nem criança nem adulto. que decide ter ou não ter filhos sem a menor necessidade de co nsulta ao marido. por exemplo. Daí o fenômeno alarmante da adolescência prolongada — hordas de cidadãos. . de terapeutas. por Jan Huizinga ( v. e. não espanta que ninguém queira amadurecer para ingressar ne le. A procriação deixa de ser uma decisão familiar. E a situação as sim criada terá o dom da automultiplicação: após ter 235 Esse processo foi observado inicialmente nos países sob governo totalitário. sedutor de domésticas e estuprador de crianças. sendo proporcional à falta cometida. tornand o-lhes impossível. assim. na verdade o que faz é usurpar uma das funções básicas da comunidade. isola e enfraquece. devida mente empregados e no gozo de seus direitos. como de uma isca para prendê-los na armadilha da pior das tirani as. já antes da II Guerra. cultivando as suscetibilidades neuróticas que os infantilizam. O Estado utiliza-se das reivindicações de autonomia dos indivíduos — reivindicações p articularmente fortes nos jovens. a simples descortesia de acender um cigarro num ambiente fecha do. o bairro. o caso passou da esfera ética para a jurídica — e o Estado. protegen do-os sob a imensa rede de serviços públicos que os livra da necessidade de recorrer à ajuda de parentes e amigos. O Estado torna-se cada vez mais o mediador de todas as relações humanas. nem jovem nem velh o. Aqueles. “Libertando” os h omens de seus vínculos com a família. mas incapazes de assumir qualquer r esponsabilidade pessoal nas ligações mais íntimas. nos discriminados. biológica e legalmente adultos. cada um com um luzente crachá de “cidadão” 236. Quando ao castigo moral se soma porém a sanção penal e administrativa . cada ser h umano torna-se uma unidade abstrata e amorfa. sobreviver sem o amparo estatal e muito professional h elp. sexualmente indecisos — o que é uma condição sine qua non para a dissolução dos caracteres na sopa entrópica da “c dania”. a pretexto de proteger d omésticas ofendidas. cuja soma compõe a massa atomística dos protegidos do Estado — tanto mais inermes e impotentes quanto mais carregados de direitos e garantias. pois todos serão menores de idade. se mpre trocando de namoradas. Niveladas todas as diferenças. que vêem algo de bom nas leis contra o fumo são cegos para a monstruosidade que reside no fato de a esfera jurídico-penal invadir o campo da s boas-maneiras.

cuja au ra de prestígio vem do esquecimento: o principal direito que a Assembléia francesa c oncedeu ao citoyen foi o de servir obrigatoriamente ao Exército. Esse fenômeno hoje é de escala mundial.Um Diagnóstico da Enfermidade Espiritual do Nosso Tempo. e entregam a discussão filosófica e teológica a jornalistas semile trados. 1944 ). trad. sob pena de ir pa ra a guilho- . por exemplo. formam. 236 Citoyen: palavra terrível. Coimbra . Huizinga destaca o fenômeno do puerilismo como uma das cara cterísticas dessas sociedades. eruditíssimos técnicos de futebol. portuguesa. que tratam com reverente atenção atividades puramente lúd icas e com leviandade juvenil os assuntos sérios. Arménio Amado.

a indústria capitalista desco briu o emprego publicitário da candura infantil para a venda de toda sorte de prod utos. que não há assunto. respeitada desde o Império romano — e inaugur ou a era do envolvimento sistemático das populações civis no morticínio generalizado. u m termo elegante que significa. comerciantes inescrupulosos e seitas de excêntrico s: são fundações educacionais.— são. A intromissão direta nas relações familiares praticada pelo Folhateen exemplifica aliás só uma dentre as dezenas de maneiras pel as quais a aliança do Estado modernizador com a intelectualidade ativista e com as forças do mercado se utiliza de crianças e jovens como “agentes de transformação social”. O uso foi duplo: de um lado. puderam contar não somente com reservas de credulida de quase inesgotáveis. de modo a dar a entender a essas hordas de mini-imbecis que nada está acima de sua compreensão. a Unesco. O us o de menores de idade como veículos de propaganda. por mais sutil. a comprar o que não precisam os. Vimos isto no parágrafo an terior. crianças posando em anúncios funcionavam como emb lemas. Hoje em dia já não são partidos radicais nem tubarões ca pitalistas que exploram o narcisismo infantil e a vaidade juvenil como instrumen tos de pressão para levar-nos a fazer o que não queremos. até onde posso comprová-lo. Ele começou. já não reparamos no que ele tem de imoral e criminoso . das qualidades exce lsas que se desejava associar a determinados produtos. Em contrapartida. são governo s. na Revolução Francesa. até fazer com que pais e mães. em português claro. pela repetição uni versal. Na década de 60. Com isto a Revolução atirou para os ares uma das mais belas conquistas da civi lização — a liberdade pessoal de não guerrear. as seitas pseudomísticas. por mais obscuro. mas também com a ação de solapamento com que a tagarelice adolesc ente ia minando os alicerces da confiança familiar. no qual suas opiniões e desejos não devam. embora seja claramente um abuso da inocência alheia. ao menos para tina. tornado assim. enfim. Porém o melhor de tudo veio a partir da década de 80. ouvir a mensagem da casta intelectual. dessensibilizados pela repetição. Não: quem faz isso já não são organizações subversivas. investindo de pre ferência sobre o público juvenil. mais cruel ainda é que esse uso seja fundado. tornou-se de umas décadas para cá um costume tão generalizado que.. são ONGs dirigidas por intelectuais de prestígio. salvar o que restasse da comunicação doméstica. o Estado alegará a deficiência de seu juízo moral para se met er cada vez mais em suas decisões privadas. quando praticamente todas as organizações empenhadas em qualquer tipo de objetivos soi disant humanísticos. aquelas entidades qu e professam exatamente defender os mais altos valores humanos. De outro. o respeito à criança e ao adolescente.. em última análise. educacionais etc. na lisonja mais descarada à vaidade pretensiosa do seu público mirim. já devem ir exercendo no dia de hoje sua pesada quot a de poder. um costume legítimo e aceitável que já não nos inspira o que em épocas menos abjet as seria uma natural repugnância. são organizações internacionais como a ONU. se já é um desrespeito intolerável usá-los como instrumentos de campanhas de vasta envergadura.. Morgen zu uns gehört 237 e. afinal. esses movimentos tinham não somente um exército de recrutas facilmente governáveis. a renegar nossas crenças e valores e a adaptar-nos a toda sorte de caprichos i diotas para não sermos reprovados socialmente e não nos tornarmos párias. acabassem se rendendo e assimiland o ao menos parcialmente toda sorte de novas crenças e manias. mas levavam ainda a indiscutível vantage m publicitária dos martírios infantis. por mais imaturos e inexperientes que sejam. prevalecer. sempre e sistematicamente. Mas. Depois foi assimilado pelos anarquistas e comunistas: usando garotos fan atizados para jogar bombas na aristocracia. cuja origem desconhecem. caso o produto se dirigisse ao próprio público infantil — brinquedos ou doces —. fortemente atrativos para a sentimentalidade popular. adotaram maciça e universalmente o uso do marketing infanto-juvenil. Devem. cujas implicações políticas mal imaginam. instrumentos de agitprop. retransmi . entre os quais. por conta do brilhan te futuro a que são convocados. podia-se contar com o tremendo apoio representado pela pressão que as hordas de consumidores mirins exer ceriam sobre seus pais. libertários.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 173 infantilizado os cidadãos. des esperados pela inocuidade de seus argumentos. por exemplo. pois. por bárbaras e imbecis que fossem. Ci toyen significa: súdito da burocracia militarista.

tida por professorazinhas semiletradas. e levá-la a seus lares. onde imporão — mensage iros da modernidade — os novos valores e critérios — 237 “O futuro pertence a nós” — título e refrão do hino da Juventude Nazista. .

na adolescência. temerosos de ser passados para trás. adquirindo os traços e sintomas da adolescência prolongada 238. Jornal do Brasil de 22 de maio de 1995 — “um grupo em especial chamou a atenção da pesqu isadora: adolescentes pobres que foram viver na rua porque enfrentaram conflitos familiares e resolveram sair de casa. estava mais na rebeldia típica da adolescência do que na origem pobre do men ino”. acabem adotando toda s orte de puerilismos da moda como se fossem as novas Tábuas da Lei. Ela constatou que a razão do problema. até que pai e mãe. a classe que propagou a moda do sexo livre 238 e o culto erótico das ninfetas (festejando por exemplo Nabokov. 1995: “O que estamos produzindo é uma nova ‘classe guerreira’ de homen s separados da influência socializante da família e das responsabilidades domésticas. lideranças e lealdades territoriais — são por natureza os mais fortes oponentes da autoridade estatal. procuran do atribuir a criminalidade juvenil ao atraso econômico e à miséria — uma desculpa esfar rapada que uma recente pesquisa desmascarou da maneira mais contundente 239. a idéia de sua aliança natural com o Estado é um mito. tornando-as virtualmente inadaptadas às limitações da vida adulta: o menino que. de modo que o ind ivíduo fique sem conexões orgânicas em torno. que cresce assustadoramente em todo o mundo. Farewell to the Family? ( Lond on. Em primeiro lugar. isto é. para elas mes as. a decepção de ver que agora se tornou um número anônimo. Janet Daley escreve em sua coluna em The Times. Devem ler com atenção devota o Estatuto da Criança e do Ad olescente e. para a sociedade em geral. A razão disto é que a família e todas as comunid ades tradicionais — religião. como se as ações humanas resultassem diretamente do saldo bancário e não dos desejos alimentados pela imaginação. Devem rec eber os ensinamentos morais transmitidos por espevitadas atrizes de TV — as mais a ltas autoridades em questões de consciência. Institute of Economic Affairs. círculos de amizade.. um joão-ninguém — e não haverá out io de escapar da depressão daí decorrente senão agarrando-se a sonhos e ilusões juvenis. se sentiu um líder. terá. nest e caso. como se sabe — e em seguida repeti-los em família. A intelligentzia. dando a entender que são efeitos da pura desigualdade ec onômica. é óbvio que a lisonja às pretensões mais descabidas da juventude é uma das causas pri ncipais da criminalidade juvenil. A sociedade moderna caminha decisivamente para a destruição desse s poderes intermediários e das associações humanas que os sustentam. do aborto e do sexo livre 240. Em segundo lu gar. . para os quais a cultura não contribuiu em absolutamente nada. um agente criador do destino coletivo. 240 Livre e seguro: Não é o que nos promete o Ministério da Saúde? 241 Resumindo o livro de Patricia Mongan. que elas procuram diluir numa hierarquia de poderes sociais diferenciados e numa complexa rede de associações informais. A conclusão de Fúlvia Rosenberg é que não existe o vínculo que a opinião vigente da int lectualidade estabelece entre a pobreza e o fenômeno dos “meninos de rua”. e ligado diretamente só ao Estado241. 5 jan. reivindicar de seus pais o cumprimento dos quesit os ali formulados. Quanto à família. chegando em casa. como a Igreja e os remanescentes da aristocracia. Tão logo livrou-se desse s aliados incômodos. O Estad só foi protetor da família enquanto teve de atender à pressão de poderes sociais mais a ntigos. segundo a interpretação que lhes dêem o notório saber jurídico de suas mestras e a peculiar acuidade jurisprudencial de meninos de oito anos. que é a maior culpada pela utilização dos menores como instrumentos p ara o marketing dos “novos valores”. ele revelou ser menos o protetor da família que o protetor do d ivórcio. 1995 ). isenta-se então de sua responsabilidade. O uso de crianças como “agentes de transformação social” tem conseqüências temíveis. O que exist e — acrescento eu — é um vínculo entre a rebeldia juvenil exacerbada e as ideologias pro pagadas há decadas pela intelligentzia. impotente e solitário no oceano do mercado livre. Do mesmo modo. de um lado. É apenas uma questão de tempo até que algum demagogo procure organizar essa delinqüência . ao ingressar no mundo da economia e do trabalho . leva-as a um sentime nto hipertrofiado de sua própria importância. que em seguida lança suas culpas sobre a est rutura econômica da sociedade. de outro. Lewis Carroll e as fotos de David Hamilton) se enche de brios hipócritas ao denunciar abusos sexuais contra menores de idade.174 OLAVO DE CARVALHO a seus atônitos progenitores.

Um homem casado pai de dois filhos. constatou que. os outros tinham casa e família. outras estavam simplesmente ganhando a vida.” Isso ocorre. 239 Fúlvia Rosenberg. a vida já não tem mais sentido. de modo que. algumas eram exploradas por adultos. só 895 dormiam na rua.99. e muitos frequentavam escolas. passada a juventude. Esses homens deslocados são o alimento ideal para o recrutamento fascist a. porque o governo britânico adotou “um programa de des incentivos financeiros ao casamento e à estabilidade familiar. que só os casais mais determinados ( e afluentes ) podem ficar livres de suas desvantagens. mas — resume o . professora da PUC de São Paulo e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas.520 “meninos de r ua” que circulavam na capital paulista.anárquica. do total de 4. segundo Morgan. deduzido impostos e aluguel. Uma mãe sol teira com dois filhos pode trabalhar 20 horas por semana a £4 por hora e terminar com £163. Dentre as crianças abrangidas pela pesqui sa. trab alhando Por que os jovens de hoje têm tanta pressa de “se realizar” antes dos vinte e cinco an os e entram em depressão quando não o conseguem? Porque a mitologia do nosso tempo a ssociou a idéia de juventude ao sentido da vida.

O Estado tende a alimentar a irresponsabilidade moral para po der alimentar-se dela. seja fascista: é que a política liber al ( ou. O casamento está deixando de ser reconhecido pelos sistemas legais e fiscais. O Esta do encara agora cada pessoa como uma unidade autolimitada. que acabam se associando a interesse s estatais e empresariais e vão perdendo toda ligação com sua origem comunitária 242. delegacia do menor. em seguida virão as dos deficientes físicos. a co lunista enfatiza que um velho slogan da esquerda — “arranhe a casca de um liberal e encontrará um fascista” — está se tornando verdade. a proteção que ess as entidades recém-criadas darão aos novos direitos é apenas uma possibilidade teórica. todas as crianças contra todos os pais e todas as mu lheres contra todos os homens. e não crescem senão quando s e reunem em imensos conglomerados mundiais. ao passo que a ampliação do poder estatal é o resultado imediato. dos go rdos. o esquematismo do debate entre “privatizantes” e “estatizantes” tem tornado ess as contradições da ideologia neoliberal invisíveis tanto para seus adeptos quanto para seus opositores — ambos iludidos pelo pressuposto de que. com estrit a igualdade matemática em termos fiscais. elas não sobrevivem se não crescem. jamais tendo abusado de uma donzela.” Sub linhando que toda essa situação foi criada no governo liberal da Sra. e de que quando sai dela deixa as pessoas liv res em tudo o mais. Não é que o liberal. A superioridade das propostas liberais sobre as socialistas no que diz respeito à economia não deve nos levar ao engano de ver no neoliberalismo algo mais do que ele é: uma ideologia.95. é a mais t riste demonstração desse fato. assistenciais e assim por diante. missão de proteger. em princípio. e talvez até dos esquisitões. delegacia da terceira idade. com todas as limitações do pensamento ideológico . cuja ideologia ajudou a criar essa política fiscal. Muitas pessoas acreditam que a proliferação das ONGs prova um a tendência contrária — uma tendência a limitar os poderes do Estado e enfatizar as inic iativas espontâneas dos cidadãos. Os movimentos de direitos. de um menor de idade ou de quem quer que se ja. num sentido diferente do que lhe dav am os esquerdistas. l quido e certo de s ua mera existência. então. que se segue a cada nova proclamação de direitos: delegacia da mulher. da extinção de todas as virtudes morais básicas que tornam a vida digna de ser viv ida. O fato de ser casada não conta para nada. vivem sem família. imbuídos da por 40 horas com a mesma remuneração. . subm etidas à lógica do mercado. No Brasil. não enxergar o que se passa diante de todos os narizes humanos na at . Esse exército de solitários é o resíduo inevitável de uma equi ocada luta pelos direitos humanos. dos loucos. sem ami gos. Esta existência aliás terá í de ser financiada por todos aqueles que. As ONGs podem ter surgido com essa intenção. interfere em tudo. E quando se verificar enfim que todo esse crescim ento canceroso da burocracia não diminuiu em nada as violências que lhe servem de pr etexto. mais propriamente. liberacionista ) cria hordas de homens isolados e re voltados que serão as massas de militantes fascistas de amanhã. E será ainda incentivada nessa convicção por suas irmãs fe ministas de classe média. isto só será um novo pretexto para verberar a irresponsabilidade moral dos c idadãos e justificar a criação de mais e mais órgãos policiais. inclusive a de superpor as expectativas aos fatos e. mas. será deixado com apenas £130. do definhamento das relações human as. sem outra relação humana exceto com os funcionários da previdência social. ele ganhará £33 a menos que a mãe solteira trabalhando meio período. uma garota da classe operária não há de considerar um mar ido como algo menos que inútil..O JARDIM DAS AFLIÇÕES 175 O número assombroso de indivíduos que. A prova mais contundente é a proliferação de novas delegacias e varas de justiça es pecializadas. judiciais. Thatcher. atomizada. chefiados como ger almente são por pseudointelectuais de miolo mole. incumbida de proteger pessoas como o autor desta s linhas contra aqueles que nos chamarem de esquisitos. de olho nos fins políticos ambicionados. em cada um desses casos. na Europa e nos EUA. já está em estudos a delegacia esp ecializada dos gays. quando o Estado interfe re na economia. no fundo. nunca se dão conta de que suas con quistas são obtidas à custa da inflação do poder estatal. Nenhuma avaliação séria da rel ação custo-benefício deixará de nos mostrar que. Trabalhando em pe ríodo integral. Pergu nte a si mesmo por que. pagarão para ver sua autoridade familiar contestada por funcionariozinhos semi letrados e arrogantes.

“A democracia das ONGs e a ditadura do marketing” em O Imbecil Col etivo. a liberdade para o mer cado não garante 242 Sobre as ONGs. Embora uma economia de mercado seja claramente menos opressiva para os cidadãos do que uma economia socialista. onde esses dois g igantes anônimos e impessoais freqüentemen te se aliam contra todos os liames comunitários e familiares que constituem a última proteção da intimidade humana. Pois. .ualidade deprimente da vida cotidiana. v. o mesmo não se dá quanto à administ ração da vida psico-social. se do ponto de vista econômico o Esta do e o mercado são poderes antagônicos e concorrentes.

consolam-se buscando socializar tudo o mais inclusive a moral privada e a intimidade das consciências. Le Seuil. Alfred Sauvy. Paris. e assim se tornam os aliados de seus antigos desafetos num esfo rço comum para levar o neoliberalismo no caminho do pior. não sei qual é a melh or das duas opções. Ex Status nemo salvatur: fora do Estado não há salvação. vão cedendo. Na medida em que der por implícita e automática uma conexão que. o certo e o err ado. sobre o arcabouço da economia capitalista. o re sultado fatal é que os meios se tornam fins. não será a glória final e a mundialização da Revolução A ericana? Não será e nfim o ioguecomissário. de abrir o caminho para uma sociedade mais livre por meio da economia livre: se uma opção econômica se t orna o critério predominante se não único a determinar os rumos da vida coletiva. E os neoliberais. acima das consc iências individuais. portanto det erminar o sentido da vida coletiva. uma espécie de administração socialista da alma o socialismo da vida interior. malgré lui. é ao Estado — casta dirigente ou aristocrática — que cabe. L’Économie du Diable. não participo do vezo brasileiro de opinar ta xativamente sobre todas as questões. Não tendo conseguido socia lizar a economia. até que o novo E stado acabe por construir. pois no Brasil não se pode descrever um estado de coisas sem qu e a platéia ansiosa nos cobre uma definição sobre o que fazer que os adeptos de ambos os partidos. Atenho-me portanto ao que poss o compreender. inconformado s com a frustração de seus planos na nova ordem. seja no neoliberalismo. segundo o q ual a complicação crescente do sistema internacional ultrapassou as fronteiras do humaname nte compreensível e se tornou l’économie du diable 243. surge então uma pergunta derivada: a submissão do mundo à religião de César não é a mesma coisa que a submissão do mundo a César? A universalização tado leigo modernizante. NA BORDA DO MUNDO 243 V. carregava dentro de si o germe do monopólio estatal do sentido da vida: acima das religiões. do imperialismo americano? CAPÍTULO X. e por desejo talvez de apaziguar o ressentimento dos derrotados. conservando cada facção a pureza de seus pontos-de-vista. e reconheço que as complexidades da economia mo derna geralmente escapam à minha inteligência um reconhecimento que aliás me coloca na companhia honrosa de pelo menos um grande economista. só pode ser criada mediante um esforço conscien te. concordassem em submeter a disputa ao critério de valores superiores. E o ponto que me parece básico é que a concepção iluminista do Estado lei go. com todas as doces promessas que trouxe à humanidade. aqueles que conferem sent ido e legitimidade moral a qualquer opção econômica que seja. s e o neoliberalismo me parece mais sensato do que o socialismo. com todo a sua verborréia marxista. por julgarem que é mais v ital preservar a liberdade de mercado do que qualquer outra. ao contrário. 1989. iluminista. o verdadeiro e o falso. O que há de mais irônico no confronto s ocialismo-neoliberalismo é que hoje em dia os derrotados socialistas. o neoliberalismo se omitirá de cumprir o papel que se propõe. E o mercado tem um potencial escraviz ador tão grande e perigoso quanto o do Estado. .176 OLAVO DE CARVALHO automaticamente liberdade para as consciências. Seja na social-democracia. em termos absolutos. Na verdade e no fundo. Mais sábio seria e te nho de dizer isto. acabam descarregando todos os seus velhos í petos estatizantes no m apoio descarado às intromissões do Estado neoliberal na vida privada. um servo . Esta é a única questão que importa p ra o destino do mundo: estaremos por um caminho ou pelo outro condenados a viver sob a religião de César? Caso a resposta seja afirmativa — e não vejo como escapar da r esposta afirmativa. a não ser por uma hipotética rebelião das religiões contra o monopólio estatal do sentido da vida —. sob as bênção a intelectualidade — casta sacerdotal — dirigir o processo de modernização. Alfred Sauvy. cedendo. os valores e critérios morais.

o professor da Universidade Livre de Bruxelas afirmou ( na conferência de 20 de junho de 1995 ) que o libertino é por es sência um tirano. iniciado pela filosofia gre ga e completado pelo cristianismo. Inserem-se no programa dos eventos. para esse fim. A libertação da consciência pessoal. n’étant ni pour les ni por les autres. ao consumar-se no cristianismo. dando uma aparência ilusória de variedade e pluralismo ao que é na verdade um astucioso experimento de dirigismo mental245. Invia bilizar assim o debate. Aproveita-se também a ignorância de platéias novatas. encobrindo-o sob um simulacro de debate. Os convidados estrangeiros às vezes destoam da unanimidade. um esforço de reprimir a inteligência teorética e subst itui-la pela autopersuasão retórica voltada a “transformar o mundo”. e. no dos Libertinos/Libertários. É contra o exercício da consciência pessoal autônoma que se voltam as correntes em que se inspira o grupo organizador do curso da Ética . que um ceticismo cognitivo q ue termina em diletantismo trágico. mas sem expressão pessoal significativa — e sobretudo que não abra uma polêmi ca 244 explícita —. de índole coletivista e estatal. tornando-os vulneráveis a toda sorte de manipulações...” A. como prática. Gassendi. José Américo Motta Pessanha encarn ou esse projeto melhor do que ninguém. Sade et caterva. um ou outro conferencista de idéias cont rastantes. P ara grande escândalo dos admiradores de Sade. A conquista da inteligência teorética é a culminação de um cesso de personalização. como editor da série Os Pensadores e como fig ura de relevo nos meios filosóficos paulistas. como irrelevantes ou “superadas”. 2. deslocando para a periferia as grandes filosofias que não po ssam ser absorvidas na cosmovisão materialista. La Mett rie. votado à humilhação da mulher e à destruição amor — coisa que todo mundo já sabia. 4. que se reunem sob a denominação formal ou informal de gnósticos. como ele. à luz da se empreende um vasto remanejamento de toda a visão da História do pensamento. o ensaio “Armadilha relativista” em O Imbecil Coletivo. DE SAINT-EXUPÉRY Recapitulemos todo o nosso trajeto: 1. menos os neolibertinos locais. como teoria. 245 V. Foi o caso de Nicole L oraux.. afastando dos olhos do público e subtraindo à discussão. Exploram-se. o de Raymond Trousson.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 177 § 33. O ciclo de Ética e os outros da mesma série r epresentam um esforço de conjunto para influenciar a vida intelectual brasileira n um sentido determinado: são uma “reforma da inteligência” brasileira — intellectus emendat ione — empreendida por um grupo coeso e consciente de seus fins. O marxismo tem raízes no epic urismo e representa. em última instância.Me situant à l’extérieur des faux litiges dans mon irréparable éxil. 6. apresentando os membros do grupo organ izador como se fossem a encarnação mesma do consenso filosófico universal. e. de m odo a colocar no centro da evolução filosófica figuras como Epicuro. canalizando-as no sent ido de uma revolta contra o Espírito. incapacitadas para uma reação crítica. Essa reação inspirará boa p arte do pensamento Ocidental. Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições.4. As idéias que inspiram essa operação resumem-se. as opiniões contrárias 244. Representa a abdicação dos deveres da inteligência pessoal e a submissão às ilusões coletivas que passam por ve rdades por força da repetição. de maneira crescente desde o Renascimento 246.1. A filosofia de Epicuro. na farsa da “tradição materialista”. esporadicamente. 3. que pela repetição acabarão por se tornar consensuais. 1. O sentido de ssa influência é claro: instaurar como fundamento da cultura um novo corpo de crenças. é um processo de auto-hipnose que gera entre seus praticantes a credulidade beócia e a total falta de sentido crítico .3. de libertação da consciência pessoal.. que se tomam po .2. um dissimulador maquiavélico. no ciclo de Ética. “. nada mais é. levanta cont ra si o ódio dos nostálgicos da religião greco-romana. 1. q uantas insatisfações ocasionais possa haver na alma do público. Exercer desta f orma a hegemonia sobre o panorama cultural brasileiro. 1. que é um d os pilares da nova cultura. 5. 1.

246 É mais ou men s a tese de Eric Voegelin. nada vejo de substancia l a mudar nessa minha interpretação. ed. pois a conheço só por obras menores e não li o trabalho fundamental do autor. . [Nota à 2a.r libertários por alguma razão só compreensível à luz da lógica de Epicuro. Order a nd History. Após ter lido Order and History. que aqui subscrevo até o ponto em que pude compreendê-la.

Este meu liv ro insere-se nessa linha de preocupações. p. as quais por sua vez expressam uma nova compreensão ( ou incompreen são ) da lógica e da dialética. enfoca a emergência das ciências físicas modernas como uma condit io sine qua non da religião civil. é a meta que norteia. A Religião Civil do Estado Moderno ( Brasília. que a ascensão da religião civil não é um processo unilinear. instaurando neles novos reflexos. A operação de reforma cultural empreendida pelo grupo organizador da Ética marca a inserção da cultura brasileira no novo culto imperial. Fénix. servindo às tontas. A restauração do Impér io romano. de maneira semiconsciente. marcada por quatro grand es empreendimentos: o Império de Carlos Magno. da qual é o oposto complementar. de uma f orma ou de outra. arrastando na sua torrente todas as forças intelectuais e políticas que. Se entendemos o termo “imperialismo” no . novos sentimentos. a cultura pós-cristã. entoando loas a um deus-asno colocado no altar em lugar de Cristo e do próprio Cés ar? Ele sabe ou não o que está fazendo? Depende.178 OLAVO DE CARVALHO 7. em o caráter essencialmente gnóstico dos movimentos que culminam na N ew Age do século XX foi afirmado em 1994 pelo próprio Papa João Paulo II (Cruzando o U mbral da Esperança. 247 O estudo valiosíss imo de Nelson Lehman da Silva. 10. Mas — pergunto em prosseguimento — servindo-o de bom grado. de m aneira que as novas concepções do Estado refletem mudanças profundas ocorridas na conc epção da natureza. A Revolução Americana que incorpora o ideal do império leigo tende a mundializar-s e. Ela inter vém decididamente e a fundo na estrutura da alma de todos os seres humanos colocad os ao seu alcance. ajudando a consolidar o culto das divindades cósmicas — naturais e sociais — que constituem em substância a re ligião estatal do Novo Império 247. La His toria de la Iglesia jamás Contada. o que restar de cristianismo será destruído pelo i pério leigo. associa a formação da religiã ivil aos esforços para a restauração do Império. enfatizando que não culminam na eclosão das ideologias totalitárias. em Ricardo de la Cierva. fazendo-se de oficiante na momentânea paródia dos três dias de carnaval . ajudando a alimentar o monstro imperial que viria a devorá-la. mas marca do por uma dualidade fundamental. demonstra que o culto de Beemoth acompanh a necessariamente a ascensão do poder de Leviatã. dit o de outro modo. que se observa por exemplo em Nicolau de Cusa ( v. apresenta uma visão de conjunto das obras de diversos autores que enf ocam as ideologias contemporâneas como “teologias civis”. cit. Snow ). 2ª. Junto com o cristi anismo. 1 2. 35). o Sacro Império Romano de Otto I. A ruptura do sentido cristão da vida dá surgimento às duas correntes de idéias — naturalistas e historicistas — cujo entr echoque constituirá o Leitmotiv da história cultural moderna. Assim. 8. curiosamente. por voluntária e conscient e aceitação das coordenadas do novo tempo. ao pretender fundar um Império. em essência. as demais m religiões serão rebaixadas a “cultos permitidos”. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ). isto é. o império leigo (fracassado em versão napoleônica. Las Puertas del Infierno. Thesau rus. 3ª. no sentido de Sto. 1995. caiu na armadilha da restauração romana. como bois de carro que. 1985 ). A Igreja. mas na mundialização da Revolução Americana. não sabem para onde vão nem quem os leva? O iogue-comissário é alto-sacerdote do culto imperial ou escravo de sacerdote. 9. ou mais claramente: anticristã. que aquela dentre as ideologias modernas que parece 11. P. acabam por colocar-se involuntariamente a seu serviço. novas cr enças que constituirão. O surgimento dos impérios coloniais estilhaça a unidade cr istã. Madrid. ou seja. funcionando como s eitas populares no novo quadro do Império leigo. associa portanto ao processo de formação da re ligião civil o fenômeno das “duas culturas” ( C. o que não teria cabimento fazer neste volume. com algumas diferenças específicas que ressalt am do fundo comum: 1ª. sob formas variadas e adaptadas às condições do tempo. somente a aprofundar. que simbolizo na luta de Beemoth e Leviatã. a e mergência dos impérios coloniais. a história política do Ocidente. Agostinho . mas b em-sucedido na América). exatamente como o fazem os esquerdistas a rrependidos que hoje formam nas fileiras neoliberais? Ou. puxados pela argola do nariz. Cabe apenas ac rescentar que. obras das quais a mais abrangente e sistemática é a de Eric Voegelin. a intell igentzia de esquerda se põe a serviço da ascensão do Império. ao contrário.

mas no da contaminação passiva da sociedade. a falsa hermenêutica simbólica do ocultismo etc. não se acumpl iciaria à menos comprometida com o culto de César é na verdade aquela que o encarna da maneira mais completa e eficiente.velho sentido da dominação econômica. à tradição es tudada por Lehman. não no sentido de sua ação polític a explícita ( como o enfocam os porta-vozes de uma teoria conspirativa da História ) . decididamente. e finalmente. e nfatiza o papel das organizações secretas nesse processo. assinala a função que nesse contexto é desempenhada pela ideologia ecológica. Dando continuidade.. assinalando a sua filiação comum. . a resposta é não: o iogue-comissário. como a lógica de Epicuro. atualizando o enfoque. porém. destaca o papel que na formação da religião civil é desempenhado pela s pseudológicas. enfoca a luta entre religiões tradicionais e religião civil do ponto de vista do conflito de castas. a retórica em geral. 4ª . da exploração do Terceiro mundo em proveito de mega -empresas americanas. a dialética de Hegel-Mar x. pela New A ge e pelas novas morais que vão entrando em vigência no quadro neoliberal.

da contradição entre imperialismo e capitalismo democrático 248. veio a ser arrebatada por essa torrente. não passa de um momento transitório na sucessão de ilusões ideológicas pelas quais a inte lligentzia mundial. a engrossar a poderosa corr ente da Revolução Americana. a síntese e o resultado das contradições entre s acerdócio e aristocracia. que o principal foco de resistência interna às ambições imperialistas do governo norte-americano foram os grandes capitalistas. Marilena Chauí. uma enganosa agitação de f ntoches verbais sobre um pano de fundo constituído. o ciclo de Ética no MASP fora organizado pela mais eminente intelectual do PT. Joseph Schumpeter. entre os quais o principal era o de captar em proveito da estratégia das esquer das a velha retórica moralista da direita. tanto quanto a teori a da dependência — sua neta terceiromundana em boa hora renegada por um pai sensato —. Resta só um detalhe: saber como a intelligentzia brasilei ra. para os quais o discurso ético não é nem pode ser outra coisa senão uma “superestrutura” ideológica. acrescentada de análises muito pe rtinentes com relação à teoria brasileira da dependência. Nórdica. fazer o feitiço virar contra o feiticeiro . o Terceiromundismo e a Ideologia Brasileira. 1958. e não se prestaria ao papel de servo do capital es trangeiro. parágrafos atrás. Se as c oisas são assim. Quais razões. neutralizando todas as religiões do mundo e instaurando a religião de César. em miniatura. a teoria Hobson-Lênin. que por dois milênios foram o motor da História européia. Perto desse fenômeno gigantesco. o M arxismo. De fato. que o imperialismo americano não tem fundamentalmente um sentido econômico. dizia Ortega y Gasset. e mesmo contra a sua intenção. no i nstante da fundação da República Americana. Imperialism. então titular da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. p orém intelectuais. E aí o ciclo de Ética no MASP pode servir para ilustrar. New York. 1994 — uma leitu ra indispensável a quem deseje compreender a posição do Brasil no mundo de hoje. a p artir de 1989. A Ideologia do Século XX. Rio. de luta de class es.. por intelectuais de formação marxista. Vimos. Problem a. p orque o surgimento do moderno Estado leigo incorporado no Império americano é. V imos que a idéia imperialista foi anterior de quase um século à formação das grandes fortu nas capitalistas. A estas observações pode-se acrescentar a famosa demonstração de Josep h Schumpeter. enganando-se quanto a seu papel no curso dos eventos. o primeiro passo da revolução mundial que. Meridian Books. Ele estudou a teoria leninista do imperiali smo. toda autori248 V. o que se passou com a esquerda nacional. porém. por e ssência. mais particularizadamente? O fato de a campanha da “Ética” te . em aliança com a intelligentzia. encontra-se no livro de J. é consciência de uma contradição. então estamos realmente diante de um problema. porque o projet o do império leigo que incorpora as concepções iluministas do Estado representou. em particular. Esta ativa desmascaradora do discurso ideológico alheio jamais se inte ressaria por algo tão “superestrutural” como a ética se não tivesse bem sólidas razões políti para fazê-lo. no essencial.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 179 exploração imperialista dos países pobres. porque a Revolução Americana é. d ando uma “solução final” ao conflito entre autoridade espiritual e poder temporal. a insensível rot ação do sentido dos seus esforços. porq ue a fundação dos EUA representa a quarta e provavelmente última translatio imperii. leu talvez o próprio Hobson. Não por coincidência. imaginando ainda ser vir aos seus velhos ideais de sempre. enfim. pp. modernizante. 64 ss. de Meira Penna. A contradição resolve-se tão logo entendemos que a dinâmica imperial dos Estados Unidos não provém de causas econômicas. U ma síntese brilhante dos argumentos de Schumpeter. Ensaios sobre o Nacional-Socialismo. não havia outra razão para explicar o interesse pela ética demonstrado. e se por outro lado a expansão e mundialização do poderio americano são e vidências igualmente inegáveis. um projeto expansivo. O. destinado a reformar o mundo. Comecemos pela seguinte constatação: era mais do que cl aro que esse empreendimento cultural tinha objetivos políticos patentes e imediato s. foi ar rastada sem se dar conta. revolucionário. dade espiritual. Acontece. absor verá no Estado. culturais e políticas: os Estados Unidos são uma potência imperial po rque sua fundação mesma constituiu um revigoramento da idéia imperial.

Era o que eu estava dize ndo no § 1. que a tagarelice moralizante não era outra coisa senão um expediente impr ovisado para fins de política rasteira: eliminar a trapaça financeira multicollorida para instaurar em seu lugar a trapaça ideológica vermelha. parecia-me . por um tempo.r conquistado sua principal vitória com a derrubada de Collor me fez imaginar. Ainda assim.

1986 ). preparatoriamente. encontrou nela a ocasião para a e sperada descarga. Todos os serviços secretos do mu ndo dão preferência aos serviços de colaboradores informais sobre os de agentes profis sionais. na qualidade de “colab oradores informais”. A Revolução Impossível. Scritta Editorial. excele aliás nesse domínio. S.180 OLAVO DE CARVALHO extravagante a hipótese de que em 1990. os estrategistas da esquerda pudessem já estar preparando um golpe morta l a ser desferido na carreira do sr. O deputado não pode ignorar estas cois as. já em 1994. reduzir a dois mil o número de seus agentes profissi onais. incluindo pessoal interno ( v. A Short Course in th e Secret War. Dell Books. Um dos segredos da eficiência do Mossad ( serviço secreto israelense ) é ter uma rede de informantes ocasionais espalhados por todo o mundo ( os militantes s ionistas ) e poder. na sede da OAB. brasileira. O intuito não era combater a corrupção. técnico em espionagem treinado em Cuba. p udessem ter em vista. A KGB tinha nos militantes comunistas. da qual fora um dos mentores e fundadores. no início de 1990. Best Seller. Enquanto os “arapongas” prosseguiam suas investigações. de indícios suficientes para justificar a esperança de um dia poder montar um Collorgate. a campan ha. Mais tarde. a sua principal força ( v. Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense. a campanha pela “Ética” já iria p arando uma atmosfera psicológica propícia a ampliar o efeito moral do escândalo quando estourasse. Exª. Collor de Mello. adensando-s e pouco a pouco até o limite de uma pressão insuportável nos meses que antecederam a d ecisiva entrevista de Pedro Collor à revista Veja. Com efeito. respo ndeu que ali não havia serviço de espionagem nenhum. substa ncialmente iguais a tantas outras feitas contra governos anteriores e que morrer am neutralizadas pela indiferença popular. que não voltou a tocar no assunto por quase um ano. Por geniais que fossem. se originara de uma reunião de inte lectuais de esquerda. Não há mesmo nenhum meio de explicar a repercussão dessas denúncias. veremos que a indiferença nacional ante o caso dos “arapongas”. “Betin ho”. De qualquer modo. senão pelo fato de que. Segundo “Betinho”. 617 ). que o partido apenas recebia in formações dadas espontaneamente por militantes e simpatizantes. centenas de militantes-delatores formavam um serviço secreto particular infiltrado em ministérios. vivant infligira às esquerdas. 1992 ). não era nada absurdo supor que a pequena KGB já dispusesse. não era verossímil que àquela altura. 1994. empresas estatais e bancos. Victor Ostrovski e Claire Hoy. é sinal d e perda completa do senso das proporções na avaliação da gravidade dos delitos. Esta notícia dava retroativamente sustentação àquela hipótese que eu rejeitara co mo um tanto paranóica 249. as explicações do deputado pareceram satisfatórias à imprensa. acusado de ser o chefe do serviço de espionagem do PT. Christopher Felix. e sim de espionagem política. Luís Mir. Mas em agosto de 1993 veio pelos jornais a notíci a da existência de uma rede petista de informações: chefiados pelo deputado José Dirceu. que só aguardava a id entificação de um suspeito para poder despejar sobre ele o ódio que se fôra acumulando. atmosfera que. New York. sem quaisquer sinais visíveis de corrupção no governo. polícia. Mas será normal que os jornalistas profissionais também ignorem tudo do funcionamento dos s erviços de informações? Se nos lembrarmos de que o processo de impeachment de Nixon — tão alegado como um exemplo para o Brasil no caso Collor — não foi provocado por uma acu sação de corrupção. Luís Inácio Lula da Sil va. a futura transformação da campanha pela ét ica numa campanha contra Collor. As Marcas d a Decepção. pois tra balhou como agente cubano por cinco anos ( v. comparada à extrema suscetibilidade contra os corruptos. Isto é que é fazer-se de inocente. ao Jornal do Brasil. desta vez. por isto. contra um alvo hipotético e vacante. mal decorridos alguns meses da posse do pr esidente. com tanta antecedência. São Pau lo. e particularmente à pessoa do sr. trouxe um esclarecimento melhor. p. pois estudou Mao Tsé-tung e sabe o que ele diz da importância dos informantes oc asionais para o sucesso de uma guerrilha. Ou então é s inal de que a opinião pública já concedeu às esquerdas o privilégio de se colocarem acima de todo julgamento humano. da qual . e não nos ag entes efetivos. vingando a humilhação que o pernóstico bon249 O deputado José Dirceu. uma entrevista de Herbert de Souza. trad. já havia no ar uma predisposição hostil e vingativa. São Paulo. um desejo de punir.

mas oferecer uma alternativa contra a propost a neoliberal de Collor. O exército vitorioso dividia-se em duas alas inimigas: uma festejava. apenas uma etapa da “longa viagem da esquerda para dentro do aparelho d e Estado”. simbólica e conquistada com a ajuda do mesmo esquema. temporariamente irritado com o agente que abusara da sua confiança. Outros. Não é de estranha r que esta última ala fosse mais festiva. a restauração da decência era um fim em si. provisoriamente encarnado num presidente. com a revanche contra o esquema militar-em presarial. o revigoramento do regime. anunciado pelo do presidente. Vi então que minha primeira compreensão tinha sido demasiado estreita: mais que derrubar um presidente. que a outra participasse da celebração com u ma reserva mista de suspeita. ainda que tardia. Para uns. como diria Antonio Gramsci: o . Daí a ambigüidade dos festejos celeb rados em torno do cadáver político de Collor. outra pr elibava o seu próximo desaparecimento. com a limpeza. Pa ra outros. Uns alegravam -se com o retorno à moralidade.ainda ninguém sabia nada de preciso. a campanha pretendera derrubar um re gime.

De outro lado. a palavra “ética” vinha mesmo a calhar. suscitando fartas demonstrações de indignação moral. À neutralidade tecnocrática. muito “tecnocrático”. Para a primeira dessas correntes. Entre estes últimos estavam os líderes da “Ética na Po lítica”. Mas. Antônio Delfim Neto. especialmente ud enista. q ue rendera alguns dividendos na luta contra a ditadura. destaca uma fase que denomina implantação do “Estado ético”. uma palavra é como uma tábua para o náuf rago. nada mais interessante ocorreu à intelectu alidade esquerdista do que ressuscitar contra ele o estereótipo do velho debate. Fritjof Capra & Antonio Gramsci ( Rio. Era uma encenação. alheando-se o mais possível do debate político e ideológico e de toda consi deração de valores. de dias de glória. mas apenas com o ajuste entre as normas sociais e as necessidades da produção — um sentido alheio a fins e valores. to rnou a ficção verossímil. ao passo que em época mais recente passou a misturar a exibição pública de moralismo c . ad hoc. Na época.. pelo bem e pela decência 252. de onde vie a então a palavra “ética”. Mas. essa corrente. Antonio Gramsci. cuj do nada tem a ver com o que geralmente se entende por moralidade. 1994 ). representada sobretudo por Celso Furtado. honestidade et c. d iz Goethe. 251 A diferença é que naquele tempo a esq uerda. nos planos que delineia p ara a tomada do poder pelos comunistas. nos anos que se seguiram à derrota da guerrilha. as soluções econômicas deviam reger-se por motivos técnicos e científicos. o qual. dando ao mesmo tempo a impressão de estarem lutando pela “ética” no sentido geral e corrente. se a campanha não tinha um propósito direto de combate à corrupção.) Para a ala oposta. que ocupara os economistas e os doutrinadores políticos na década de 70. neutralidade esta que. que d efendiam com tanto mais eficácia quanto mais protegidos sob uma fachada de neutral idade científica. A proposta neoliberal de Collor. não passava de uma projeção do abstratismo “metafísico” do burguês. porque muitos dos intelectuais envolvidos na campanha h aviam se tornado. o apelo humanitário da “ética”. na pobreza de perspectivas da oposição ante um governo recém-emp ossado com um potente respaldo popular. Não há melhor truque para de252 Explico-me mais extensamente sobre Gramsci no meu livro A Nova Era e a Revolução Cul tural. retroativamente: a luta pelo “Estado ético” gramsciano tornou-se. isto é. A coincidência é apenas de palavras: “ético” em Gramsci é termo técnico. política e ética 250. e no fundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 181 começo. representada sobretudo pelo então ministro da Fa zenda. evidentemente. de que a economia é “aética” suscitou d esde chiliques moralistas até a objeção gramatical de que a palavra certa seria “anética”. e. su geria por si mesma o perfil do seu antagonista ideal: contra a frieza inumana da “técnica”. um ídolo acadêmico das esquerdas. que recomendo aos que julgarem demasiado compactas e obscuras as referências que aqui faço ao tema. leitores e devo tos do teórico da “revolução cultural”. pensa por categorias estanques e não enxerga os nexos entre economia. ainda influenciada pela ideologia do Front Popular tingida de “humanismo bu rguês” para fins de aliança com as “forças progressistas”. carregada portanto de um apelo “ético” 251 . segundo a perspectiva marxista. acreditava mesmo em princípios éti . tratav a-se de uma reedição do velho debate entre tecnocracia neocapitalista e nacional-pro gressismo. por ironia. (A desastrada frase do ministro. esperavam. nada se sabia que pudesse 250 incriminar Collor. isso era apenas mais uma ideologia: o pragmatismo e o neoposi tivismo que pareciam inspirar o ministro eram aliados congênitos do capital. quando a gente não sabe o que fazer. Esta feliz coincidência permit iu que a alquimia gramsciana fundisse a política da esquerda radical com o discurs o moralizante que por décadas fora a marca registrada da direita. vivendo separado da atividade produtiva. baseada nas idéias de racionalização e eficiência. Instituto de Artes Liberais & Stel la Caymmi Editora. mas logo em seguida o surgimento das provas de corrupção no governo. aparentemente tão deslocada no contexto de um mero confronto id eológico entre socialismo e neoliberalismo? A origem era dupla: de um lado. O nome da campanha fornecia aos intelectuais gramscianos a oportunidade de tentar implantar o “Estado ético” preconizado pelo seu mestre. uma luta pela moralidade propriamente dita. opunha uma proposta econômica fundada em fins e valores explícitos. um sujeito que.

subs tituindo a guerra contra os ricos pela guerra contra os ‘apodrecidos’. “os jacobinos co ntinuaram sua propaganda no país.om a pregação do ceticismo e do relativismo ( esta só para audiências seletas ). Já nas fases finais da Re volução Francesa. não havendo motivo para temer escassez de argum entos” ( Pierre Gaxotte. . 482 ). réed. 1968. suscetível de arrastar sob uma mesma bandeira os descontentes de todos os partido s. como sentiam que o programa babeufista esta va. campanha hábil. E ademais a mina era inesgotável. mais do que nunca. trocaram rapidamente de palavra-de-ordem. Arthème Fayard. impopular. logo após o fracasso da conspiração extremista de Babeuf. Apelar às denúncias moralistas nos momentos em que o discurso da luta-de-classes está em baixa é um dos expedientes clássicos da tática esquerdista. 1928. La Révolution Française. p. Paris. mas.

o pecador não teve como resistir ao apelo da salvação. Mas uma intenção oblíqua. solapar as bases intelectuais dessas crenças. co mo uma tara hereditária. beatificando o instinto de delação e fazendo da maledi cência a virtude primordial do cidadão brasileiro. não fo i a regeneração moral de um país. oportunidade que a “campanha do Betinho” pr ovidencialmente estendeu a todos no momento exato. puderam ser canalizados. da qual a autodestruição do Congresso Nacional. nos meses subseqüentes. Mantendo-se aparentemente acima do jogo político. que o homem médio não saberia suportar sem buscar logo. O que poucos perceberam é que a exigência ética da campanha fora formulada em termos propositadamente utópicos. eis como pela prática da caridade. arrisca a certar algumas pancadas em si mesmo. mais sutilmente. no pensamento gramsciano. na intenção de vencê-lo pela i ndiferença. xiítas e enragés de toda sorte. as peças múltip las do quebra-cabeça começam a encaixarse. se apresentaria m ao povo como a única esperança de salvação. a segunda a escrever torto por linhas retas. A quem esteja ciente de que. representada pelos inquisidores. cujos efeitos se tornam mais dúbios à medida que se avolumam. A campanha pela “Ética” conquistou o apoio maciço da população e foi festejada como a aurora da redenção nacional.182 OLAVO DE CARVALHO sorientar um inimigo do que imitá-lo: se ele investe contra o simulacro. passasse a significar apenas a adesão m aquinal a certos slogans políticos e a hostilidade a certos grupos sociais. Como esta campanha. Tratava-se em suma de reduzir a éti ca ao “politicamente correto”. se o deixa em paz. para que deixasse. arrependido. e sobretudo o moralismo atávico da classe média. mas uma revolução psicológica que o envolveu numa luta equ ivocada e tragicômica. por seu lado. ele cresce até engolir o original. eleva do à condição papal. tornando o apoio às esquerdas uma obrigação religiosa cujo descumprimento teria o efeito desequilibrante de uma transgressão. rebaixando-as e transformando-as em munição política de uso imediato contra os “i nimigos de classe”. até levá-la ao completo descrédito e precipitar a crise geral do Estado. para que. de modo a desgasta r a classe política numa sucessão de rituais autopunitivos sem resultado proveitoso. em benefício das esquerdas. O que a campanha pela “Ética” produziu. basicamente. foi a manifestação mai s evidente. ou do Rigor. sujeitando o pe cador a terríveis padecimentos interiores. tinha como finalidade última — nas palavr as de seu próprio fundador — implantar no país a socialização dos meios de produção. Foi assim que. aí já plenamente identificadas como derradeira reserva moral. de outro. as mutações psicológicas profundas são o alvo prioritário de um plano de larg o escopo a ser realizado. ao curso posterior da ação. por um grupo de intelectuais. conservava o pode . As campan has gêmeas da “Ética na Política” e da “Ação pela Cidadania” perfizeram harmoniosamente as du ces de uma nova pedagogia religiosa: a primeira ensinou o cidadão a julgar para não ser julgado. estéreis. É claro que as duas mãos operavam em concordância: a Misericórdia era a retaguarda. que castiga. a ovelha desgarrada podia ser reconduzida ao aprisco da ortodoxia socialista pelas mãos de um novo Bom Pastor. sobretudo. A campanha da “Cidadania con tra a Miséria” exerceu assim a função de “mão direita” da nova divindade — a Mão da Misericór e abençoa e redime. onde as esqu erdas. até que não reste no cenário nada mais que duplicidade e hipo crisia. o lastro de crédito que garantia a boa -fé dos acusadores e conferia legitimidade moral a toda sorte de calúnias. autocontraditórios. não p oderia produzir um resultado tão retilíneo: a ambigüidade das origens transmite-se. num prazo assustadoramente breve. a um sentimento de exclusão da comunidade humana. cortada dos laços que a ligam a quaisquer valores espiri tuais e a qualquer ideal de vida superior. promovendo uma mutação do sentido mesm o da palavra “ética”. ao lado da Mão da Justiça. de ser uma regra para o homem g overnar a si mesmo. e se tornasse um pretexto edificante para cada qual projetar suas culpas sobre o vizinho. assim. quase magicamente. desmoralizandose mais e mais a cada novo esforço impotente para moralizar-se. Betinho ficou. e num círculo mais seleto de ouvintes . todas as crenças e sentimentos mais conservadores do povo brasileiro. metade oculta. com a precisão de um cronograma divino. Cercado pelos dois lad os. esvaziar as velhas crenças m orais. formando a figura bifronte de uma estratégi a da perversão moral em nome da moralidade: de um lado. a opor tunidade de uma penitência reconciliadora. quando não a indivíd uos em particular.

Claro que ninguém imagina que Betinho virá a público de clarar apoio ao PT.. de erguer qualquer personagem à beatitude da fama ou pre cipitá-lo nas trevas da abominação 253. acabe se transformando num gra nde ato da campanha de Lula. 253 “Há uma preocupação crescente no Palácio do Planalto de que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. que acontecerá no final do mês em Brasília..r de abençoar e excomungar. mas todos acham .

assim resumida por Roger Scruton: “A assimetria moral — a expropriação pela esquerda do estoque inteiro da virtude humana — acompanha uma assimetria lógica. isto é. um pecador. e não muito diversos dos shows de pregadores católicos na Idade Média — ofend em a delicada sensibilidade estética de seus críticos? Ou. Longman. a ponto de abdicar de todo senso das proporções. As pessoas hoje temem desagradar Be tinho como outrora temiam cair em desgraça ante o clero. O governo argumenta que quem opera o cotidiano da campanha é que tem influência sobre a população e seu voto. quem quer que a esta se opusesse ou si mplesmente se mantivesse alheio aos seus encantos não tinha como escapar de um sen timento constrangedor de haver-se tornado um malvado. Betinho. deixando livre para as esquerdas a estrada real que levaria da hegemon ia (domínio psicológico sobre a multidão) ao poder (controle do aparelho de Estado). para contrastá-lo. 5 ). que. vêm arriscando desbancar o improvisado monopólio esquerdista da caridade? Não havendo nenhuma prova judicialmente válida con tra o bispo Macedo. dando-lh e ares O resultado esteve muito próximo de ser atingido: uma vez identificados o ideal de moralidade pública e a retórica da esquerda. por um momento ao menos. Durante algum tempo. na capa. como numa prestidigitação. uma p ressuposição de que o ônus da prova cabe sempre ao outro lado” ( Thinkers of the New Lef t. num esqu ematismo aterrador e insano. com o “Mau Pastor”: o bispo Edir Macedo. Para mim. Secundado pela imprensa. Um sinal é a reportagem de Veja sobre o pastor protestante Caio Fábio. Quem entende que Betinho nunca te ve outra preocupação na vida senão de ordem política percebe que com a campanha contra a fome sua maior contribuição foi completar um giro de cento e oitenta graus na estra tégia das esquerdas. precipitando alguns num debilitante ritua l purgativo e outros num esforço inglório de dar boa impressão. enfim. o po der de excomunhão e beatificação foi exercido por Betinho de maneira implícita e discret a. “Encontro da fome preocupa Itamar”. o fie l da balança política nacional. um defensor im plícito ou explícito da imoralidade. aquela dirigida às massas. em suma. porque suas campan has beneficentes. Jornal do Brasil. London. uma vez que a parte operacional do progra ma está todo nas mãos de petistas. como “O Bom Pastor”. foi-se tornando no entanto cada vez mais ostensivo. Itamar observa os movimento s calado — até porque não quer tomar nenhuma atitude pública. mas não tomo minhas opiniões teológicas como artigos da lei penal . Tanto quanto eles. julgo absurdas muitas das interpretações que o bispo faz da Bíblia. terminou por paralisar a todos. abençoado por Betinho por suas ligações com a esq uerda. p. Betinho acabou sendo derrubado por um truque s ujo igual ao usado contra seus adversários: julgar com malícia um ato lícito. que o jui z fora nomeado por uma das partes em litígio 254. ou ao menos de correr o grave risco de ser toma do como tal. que não há como não se estabelecer a vinculação. seguiu a regra geral de uma estratégia esquerdista clássi ca. 11 jul. mas conheço a distinção entre bom-gosto e justiça. aplaudi-lo ou abominá-lo é questão de gosto apenas. 1985. E is aí realizada uma das metas básicas da campanha. D aí a convergência da campanha e do ciclo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 183 E como é sensato que a autoridade espiritual se incumba de arbitrar em última instânci a os conflitos mundanos. 1994. impelindo-a no sentido da “revolução cultural” gramsciana — na qual é um dos objetivos prioritários a desapropriação da autoridade moral da religião e sua transf erência ao menos aparente à liderança esquerdista. Mau por quê? Pel o pecado de ter sido absolvido nos processos que adversários lhe moveram? Por suas convicções políticas e sua amizade com o pensador direitista Jorge Boaventura? Por re colher contribuições de seus fiéis em vez de pedir dinheiro ao governo? Porque os rito s espetaculosos de sua igreja — tradicionais no protestantismo desde pelo menos Jo hn Wesley. Betinho tornou-se enfim. este a um círculo m . 254 A campanha. Toda essa mudança foi opera da em prazo anormalmente curto. mereceu ser rotulado. a ninguém ocorrendo lembrar. O próprio presidente da República tornou-se assim prisioneiro do poder de chantagem psicológica de que a campanha contra a fome investiu o sr. e o novo senso do pecado. o es tilo dele é tão repugnante quanto para os redatores de Veja. por achar que não seria bem interpretado dando a impressão de que é contra a campanha de combate à fome” ( Dora Kram er. sem o mínimo apoio oficial. naquela altura. coluna “Coisas da Política” ).

2a.. nada tem a opor a que um homem receba dinheiro dos maus para dar aos necessitados. terá chegado o momento de recomendar uma nova forma de governo como ‘o remédio soberano para todos os males’. hipersensível às aparências e inconsciente das motivações profundas de seus próprio s atos. A rep etição freqüente desse ato levará os ouvintes a crerem que os oradores devem ser homens de grande integridade. Richard Hoo ker já descreveu coisas bem parecidas. atribuindo às suas ações ou inações todos os defeitos e a corrupção. o comportamento das altas classes. No século XVI. Inocente da acusação. fervor e santidade. Com seu ridíc ulo mea culpa político ante a imprensa.ais seleto de prováveis formadores-de-opinião: combate político e combate cultural for mam. Na verdade. José Viegas Filho. Imputando o mal a uma instituição específica. a moral cristã. o que é até um du plo bem: ajuda o pobre que precisa do dinheiro e ajuda o mau que se redime parci almente ao contribuir para o bem alheio. rejeitaria uma corda roubada que alguém lhe estendesse para ajudá-lo no salvam ento? Se Betinho fosse um homem espiritual de verdade. uma unidade indissolúvel255. O passo seguinte consiste em con centrar o ressentimento popular sobre o governo instituído. extraído de Eric Voegelin. Eis aqui um resumo. Isto porque as pessoas que estão possuídas de aversão e descon- . da qual Betinho se reclama. e. tornou-se culpado de inconsistência m oral. Editora da Universidade de Brasília. mostrou que é apenas mais um intelectual bra sileiro. O homem que a possui deverá criticar severamente — ‘onde a multidão possa o uvi-lo’ — os males sociais. ed. teria defendido a lisura de seu ato em termos veementes. em especial. por si. pois somente homens particularmente b ons podem ofender-se tão profundamente com o mal. 255 Nem a estratégia nem a tática são totalmente novas. podendo salvar um náuf rago. Que cristão sincero. de crime. “Após tal preparação. 1982. jamais teria atinado com essa conexão. pp. humilhando os acusadores maliciosos. mesmo quando bons. em Gramsci. A Nova Ciência da Polít ica ( trad. é preciso antes de tudo ter uma ‘causa’. 102-103 ): “Para colocar em marcha um movimento. Brasília. os oradores provam a sua sapiência à mult idão que. que viu serem levadas à prática pelos revolucio nários puritanos. tal como existem no mundo devido à fraqueza human a.

A cumplicidade universal r everteu. “Com essa consolidação. Isto porque. ignorem os conteúdos das Escrituras que se revelem incompatíveis com a nova doutrina.” 256 A essência da tá i resumida na boutade pintada nos muros de Paris em maio de 1968: “Seja realista: peça o impossível”. ainda segundo Hooker. em seguida. A escola. p restando informações sobre os vínculos afetivos dentro de seus círculos. fi lhos. Um exemplo de como funciona: O Estatuto do Menor dá a qualquer cidadão brasileiro o direito de processar uma escola — municipal. criados e amigos. Jurgen Habermas. faça o que fizer. será difícil. Sendo óbvio que o dinheiro em grande pa rte dos casos não há. e. digamos — que não tenha um play ground. “Uma vez criado um meio social dess e tipo. são mais inclinadas do que os homens a servir como espiãs. uma bóia para flutuar incólume sobre um mar de delações. de modo que. mesmo os que se opunham interiormente à política de esquerda se viram obrigados a colaborar com e la. e. a téria-prima social fica em condições de receber a representação essencial de um líder. e mais crêem no que menos hajam experimentado antes’. essa fase da v ida nacional ficará população. aceitarão voluntariamente os consel hos dados pelos doutrinadores. que tomavam por pessoais e espontâneos. negligenciarão seus próprios interesses para devotar todo o seu tempo a serviço da causa. precipita uma crise de legitimidade onde o Estado é acusado de não cumprir suas próprias leis. onde as peças isoladas nem mesmo suspeitavam que seus gestos. são mais liberais no que tange à ajuda financeira. de repente. em universal bisbilhotice. em toda a História do Brasil. de tal modo que a humanidade passa a ser dividida entre os ‘irmãos’ e os ‘mundanos’. com efeito. mas um escudo contra a indiscrição alheia. todos têm pressa em subi r à tribuna dos acusadores para não cair no banco dos réus. por mais errônea que seja a associação. e fornecerão farta ajuda material aos líderes do movimento. tais pessoas preferirão a companhia de outras envolv idas no movimento à de indivíduos a ele estranhos. não atendida pelo Estado. finalmente. rompê-lo através da persuasão. Ape sar da posterior mudança inesperada no rumo dos acontecimentos 257. a esquerda enxergou tão lucidamente o tabuleiro político e dirigiu com tamanha habilidade o movimento do conjunto. estão taticamente bem situadas para influenciar maridos. o resultado do exercício desse “direito” será apenas forçar inúmeras pr ituras a se processarem a si mesmas pelo delito de falta de dinheiro. com igual automatismo. com ou sem plena consciência do resultado a que isto poderia levar. vivendo de acomodações que sedimentam no fundo de cada alma um denso resíduo de c ulpas mal conscientizadas. É um efeito calculado. Aplicada sobre um pov o que há séculos cultiva a ambigüidade motentamento para com as coisas presentes são suf icientemente loucas para ‘imaginar que qualquer coisa que lhes seja recomendada as ajudaria.184 OLAVO DE CARVALHO Nesse quadro. ensina às esquerdas o preceito da “reivindicação impossível”. reivindicação que. continua indiferente aos novos direitos e . a luta pela promulgação de direitos e normas proposit damente idealísticos e impraticáveis. atendida. e. “Vem depoi s o passo definitivo: ‘persuadir os homens crédulos e inclinados a tais erros gratif icantes de que sobre eles recai a luz especial do Espírito Santo’. Nunca. As mulheres desempenham função especialmente importante. o expediente de precipitar a classe política numa crise de autoincul pação surgiu como uma contribuição habermasiana que o talento brasileiro do improviso en xertou na estratégia de Gramsci. tinham sido calculados de fora para encaixar-se na harmonia de uma orquestração geral. mal “trabalhada” pelos agitadores. gera um a onda de indignação moral. que só falha qu ando a ral. Foi assim que. a tática da inculpação não poderia deixar de dar os resultado s mais rápidos e promissores: onde todos têm algo a esconder. criando um ambiente de mal-estar e recriminações mútuas que depois será denunciado pela imprensa c omo sinal de acefalia na administração municipal. terá de processar a Prefeitura — da qual ela é um órgão — para obter o dinheiro para o play ground. a aut oridade se entrega inerme aos golpes de seus inimigos 256. por puro medo. “É necessário ainda que o s líderes ‘moldem as próprias noções e os conceitos mentais dos homens de tal forma’ que os seguidores automaticamente associem passagens e termos das Escrituras com a sua doutrina. se não impossível. porque são emocion almente mais acessíveis. e a ânsia de delatar tornou-se não a penas um emblema da virtude.

no v eredito implacável das urnas. De fato. encarnou no entanto o princípio da sensatez. sem ter-se omitido na luta contra a corrupção. O grande vencedor foi um homem que. tanto os campeões da corrupção quanto os arautos da morali dade: se as denúncias de corrupção liquidaram as carreiras políticas dos acusados. fizer am o mesmo com as dos acusadores. a agitação de umas centenas de intelectualerdas à superfície do momento histórico pode ser apenas a expressão pervertida e caricatural d e uma exigência profunda e autêntica do nosso povo. É inac reditável como quase ninguém neste país parece perceber isso. segundo o qual denúncias e acusações — que ameaçavam tornar-se o tema dominante da discussão política nacion l — são na verdade uma ocupação menor. até os Mercadantes acabam fazendo o bem que não querem. A Providência. Será que ninguém leu que Lênin recomendava fomentar a corrupção para depois denunciá-la? Ou o mito da cordialidade b rasileira impede de acreditar que exista aqui alguém capaz de tanta malícia? 257 Mud ança graças à qual a onda moralizante. O exemplo da escola municipal é só um modelo em min iatura: a Constituição de 1988 é um sistema completo de armadilhas habermasianas. rejeitou de um só golpe. jamais se recusou a usar dos préstimos dos maldosos para produzir o bem mediante uma engenhosa e sutil redistribuição dos males. Na economia divina. Afinal. . o curso das coisas tomou um rumo positivo.não desempenha sua parte na comédia. que não deve distrair do essencial: os planos objet ivos e o trabalho racional para um futuro melhor. O povo brasileiro. bem diferente do esperado e desejado pela inquis ição esquerdista. contrariando os planos de seus mentores. a ponto de a comentarista política Dora Kramer c oncluir que “ética não dá voto”. acabou levando a bons resultados. fundamentalmente são. que dispõe de um esto que infinito de Engoves.

op. pel o utopismo. tb. o dicurso “ético” tem. F. 1987. fazendo nisto um investimento int electual tão gigantesco. a ideologia democráticoiluminista subentendida no concei to de “ética na política” é uma corrente bem mais forte. desenvolverá no homem a acuidade moral de um tatu-bola. deixava de ser um sintoma de demência ou de maldade pessoal de seu autor para se revelar como um ato político perfeitamente coerente com a cosmovisão das esquerdas. aconteceu que esse endu recimento se refletiu nas almas e nas vozes. praticada a sério . O tema mesmo da confe rência. na peça de Pirandello. Dulles. e é descrito por Paul Diel ( Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque. Colocado no seu devido lugar dentro desse panorama. De fato. tantas vezes. c ontinha a secreta e verdadeira intenção dos seus esforços. no sentido maquiavélico do termo. o personagem acaba por descobrir que . assim como a família do louco. Apenas. no presente estágio da História mund al.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 185 marcada para sempre como um momento em que a esquerda acreditou estar muito pert o de possuir a hegemonia e conquistar o poder. a esquerda acabou por servi-la: o ator foi engolido pelas falas do personagem. ao dominar a técnica do maquiavelis mo gramsciano que lhe inspirou as campanhas pela “Ética” e pela “Cidadania”. com toda a sua brutal falsificação da realidade. Nova Fronteira. como também alcançou aquele pa rão de eficiência fria e cínica que ela tanto invejava na direita local e nas esquerda s de outros países. o ciclo de “Ética” assumia um sentido claríssimo. encontrava aí sua razão de ser. o mais fr io e cínico dos realistas. a conferência de A vitória de Fernando Henrique foi para o Brasil algo assim como a libertação de uma n eurose. e os jovens neuróticos não sabem conquistar a maturidade senão pelo endurecimento da alma259. Rio. em tudo e por tudo. Numa operação destinada a perverter o senso ético da população para rebaixá-lo a instrumento a serviço de fins políticos imediatos. e John W. e. desconfiado. O Retrato ( Belo Horizonte. o objeto de chacota de russos e chineses258. acaba por se comport ar. 259 O processo de degradação interior q ue leva o jovem idealista exaltado a tornar-se. pp. dando aos candidatos da esquerda um a aparência de bonecos alucinados. malgrado sua antigüidade. a respeito. Se este amadurecimento lhe custou a perda da sensibilidade moral e a completa prostituição do senso ético à ambição de poder.. Par is. levando-o a colaborar com o Estado que pretendia destruir. nenhum artifício poderia ser mais útil e eficaz. ele pode persuadir o orador mesmo. O Falecido Matias Pascal. que. mas desde quando a esquerda tem algum talento profético? A casta sacerdota l de esquerda criou os pressupostos ideológicos e psicológicos em que se assentou a vitória da direita. V. aparentemente tão distante da atualidade local. Foi realmente um achado. Mas. esp ecialmente capítulos 4 e 5. A Revolução Impossível. ed. para alguns dos próceres da campanha. Numa outra históri a de Pirandello. O Comunismo no Brasil. tem raízes psicológicas pro fundas. com os valores que a suste ntavam e com os objetivos da estratégia que ela determinava. no qual muitos desejavam manter preso o nosso país até precipitá-lo no desesper o. 1985 ). Pretendendo servir-se dela. ninguém contava com este res ultado. cit. do que a pedagogia ética de Epicuro. Itatiaia. mas sobretudo Luís Mir. Payot. pela completa falta de senso prático. diante da qual o eleitor. representando hipocritamente o papel da corte de Henrique IV para enganar o protagonista. Pessanha. 258 V. 1960 ). do que o resíduo de crenças marxistas que.. 11-13. Na esquerda. 1966 ) como o mecanismo básico das neuroses. minha apostila O Abandono dos Ideais.. a súbita e imprevisível resolução dialética da confronto estático entre ladrões e dem gogos. por outro lado. não somente asc endeu à condição quase sacerdotal de condutora moral da nação. julgou m ais prudente votar em Fernando Henrique. se não chegou à vitória. 2a. Rio. num choque de retorno. ao menos soube provar a si mesma que a merecia. para então poderem se apresentar como médicos da doença que eles mesmos haviam prov ocado. Ora. a esquerda brasileira. uma força própria: ele pode contaminar quem pretenda simplesmente usá-lo. IAL. é implesmente porque é uma esquerda neurótica. Oswaldo Peralva. que. Raul de Sá Barbosa. que fizeram dela. independentemente das intenções maquiavélicas p or trás do palanque. exatamente como a corte de Henrique IV. redimindo-se enfim de uma história marcada pela ingenuidade. 1935-1945 ( trad. vista como expressão deste sentido.

fingindo sa tisfação. ou então de aplaudi-lo. um pouco da ética que a esquerd a pretendera usar como instrumento para sua “longa viagem para dentro do aparelho de Estado”.sua pessoa real tem menos substancialidade do que sua “sombra” social: um endereço. A farsa dent ro da farsa . um estado civil. reduzida a espectadora desde fora do aparelho de Estado. A farsa pirandelliana da “Ética” ter minou assim por restaurar. um número na carteira de identidade. a es querda tem de renegar o fruto dos seus esforços. em proveito da direita. e agora. e declarar que era exatamente esse o resultado que pretendia.

186 OLAVO DE CARVALHO devolve-nos à realidade: o Estado democrático à americana é o grande beneficiário da estra tégia socialista. É que o auto-engano estratégico já estava anunciado, de antemão, pelo au toengano na esfera da ideologia. Vale a pena recapitular o caso. A influência domi nante sobre a intelligentzia brasileira nas últimas décadas foi, sem qualquer possib ilidade de dúvida, o marxismo. Pode-se talvez dizer o mesmo da intelligentzia mund ial, mas, na Europa e nos EUA, é certo que houve, ao lado da corrente marxista, po derosas correntes liberais, católicas e conservadoras; poderosas não somente pelo núme ro, mas pela qualidade de seus representantes, bem como pela intensidade da sua ação pública. Os nomes de Friedrich Hayek, Benedetto Croce, Raymond Aron, Ortega y Gas set, Daniel Bell, Arthur Koestler, marcaram a história do pensamento político, pelo lado liberal, tanto quanto os de Sartre e Althusser do outro lado. O conservador ismo falou com rara eloquência pela boca de Saint-Exupéry, Georges Bernanos, T. S. E liot, como hoje pela de Alain de Benoist e Roger Scruton. Nada de semelhante se observa no Brasil, onde, depois de João Camilo de Oliveira Torres e José Guilherme M erquior, a voz da direita não se fez ouvir senão através de Plínio Correia de Oliveira, demasiado comprometido com um movimento paramilitar para que suas idéias possam co ntar num debate pacífico, e de Gustavo Corção, demasiado rígido — apesar do talento fulgur ante — para poder desempenhar num diálogo algo mais que o papel de censor. Houve, de pois, Roberto Campos, mas sua argumentação, brilhante como poucas, restringe-se aos temas econômico-administrativos, sem poder ter um alcance cultural mais abrangente , à altura dos méritos do ex-ministro do Planejamento. Análogos méritos e análoga modéstia d o leque de assuntos observam-se em Aristóteles Drummond e Donald Stewart Jr.. Rest a, isolado como um monumento em meio ao planalto de Brasília, José Oswaldo de Meira Penna — o único polemista que, à luz dos pressupostos liberais, empreende uma crítica cu ltural de mais vasta escala e, para as esquerdas, atemorizante 260. Mas, em face desses poucos nomes, estende-se como um oceano a 260 horda dominante dos marxistas, marxianos, neomarxistas, socialistas, progressist as, nacionalistas de esquerda etc. etc. Sobre essa massa barulhenta e autoconfia nte, a queda do Muro de Berlim teve um efeito dos mais singulares: fez com que e la recuasse no tempo, e, já não conseguindo ostentar por divisa esquerdista o nome d o marxismo, redescobrisse, como substitutivo de seu ideal revolucionário perdido, o esquerdismo do século XVIII: o iluminismo. Acomodação tipicamente brasileira: um mod o de deixar de ser marxista continuando marxista. Pois Marx já deixara preparado, para essa gente, o ardil da operação retrô: se o Brasil não podia tornar-se socialista, era simplesmente porque Historia non facit saltum, e antes da Revolução Russa tínhamos de realizar... a Revolução Francesa. A redescoberta desse ardil foi o alívio após o min uto de terror — aquele terror que invade uma tropa de meninos ao anteverem a depre ssão que se seguirá ao término de uma brincadeira sangrenta (como em Lord of the Flies de William Golding). Não sabendo viver sem um ideal revolucionário, não concebendo ou tro sentido da vida senão o sentido da História, a tropa esquerdista, desprovida de uma regra de jogo, tinha chegado a ver abrir-se diante dela o abismo sem fundo d e um desespero beckettiano. Mas, tão logo as trombetas anunciaram a ressurreição de Di derot e Voltaire, Condorcet e D’Alembert — logo acompanhados de La Mettrie, Sade e d emais libertinos célebres —, num instante o balão murcho do esquerdismo nacional viu-s e inchado de novo, trocando de retórica como quem troca de cuécas: em vez de guerrea r o capitalismo, o caso agora era lutar contra a oligarquia agrária, a moral católic a etc. Isto não era, afinal, tão diferente da velha estratégia do Partido Comunista, q ue propunha a aliança da esquerda com a “burguesia nacional” contra os “senhores feudais” do Nordeste, supostamente aliados ao imperialismo americano para a expoliação de seu s servos-da-gleba 261. Assim, tal como o adepto da New Age, que rias. O cacoete marioandradino de começar frases com pronome oblíquo da terceira pes soa, que o leitor automaticamente toma como conjunção condicional, também só serve para atrapalhar. 261 Caio Prado Jr. já havia provado a falácia dessa estratégia, num dos me lhores livros produzidos pelo esquerdismo nacional ( A Revolução Brasileira, São Paulo

, Brasiliense, 1969 ). Mas não era bom lembrar isso, de um lado porque solaparia a s bases teóricas da nova retórica “iluminista”, de outro porque esse livro, corrigindo u m erro, ajudara a criar outro pior: a adesão maciça da esquerda à tese da luta armada. Paulo Francis, talento extraordinário e homem de vasta cultura ( literária e política, entenda-se ), poderia fazer coisa idêntica, mas de uns anos para cá deu de escrever num estilo telegráfico que não argumenta nem prova, só afirma, e acaba por ser menos atemorizante do que irritante, fomentando antipatias desnecessá-

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encontrando dificuldades nesta vida decide fazer uma regressão hipnótica para ir res olver os problemas de uma encarnação anterior, a esquerda recuou em busca de uma Bas tilha que fosse mais fácil de derrubar do que o capitalismo moderno. A rapidez com que se fez a adaptação bem mostra a leviandade, a fatuidade da intelligentzia nacio nal. Ora, o único lugar do mundo onde os ideais iluministas foram realizados na máxi ma extensão possível das faculdades humanas foram os Estados Unidos. A Revolução Frances a, um morticínio inútil, foi seguida por quase um século de vaivéns e a França só se estabil izou como república democrática por volta de 1870, quando os EUA já haviam se tornado uma grande potência. As duas guerras mundiais do século XX tiveram como único resultad o duradouro a destruição final das potências coloniais européias e a ascensão dos EUA à cond ição de Império mundial: o nazifascismo e a URSS não f oram, dentro do curso maior da Hi stória, senão momentos dialeticamente absorvidos na linha perfeitamente nítida de dese nvolvimento que leva da Revolução maçônica à mundialização do Estado leigo e à americanização do. A legitimação dos EUA como polícia do mundo (globalcop) — inclusive aos olhos de uma parte considerável do mundo islâmico supostamente hostil —, por ocasião da Guerra do Go lfo, representou o ponto culminante, até agora pelo menos, de uma ascensão irresistíve l do Império mundial: ao aceitarmos a filosofia política americana, colocamo-nos vol untariamente sob o governo de quem a promove, tal como, entre os povos antigos, copiar a Lex romana e submeter-se ao governo romano eram uma só e mesma coisa 262. O que impediu a intelectualidade mundial de enxergar uma coisa tão óbvia foram dois fatores: de um lado, a crença generalizada na teoria Hobson-Lênin, que tornava insi vível a independência do imperialismo político, cultural e psicológico em relação a supostas motivações econômicas; de outro, a crença residual na vitalidade da idéia de “nação”: acredi se que o impulso de independência nacional poderia resistir à 262 Não é aqui, evidentemente, o lugar para discutir mais aprofundadamente a tendência ger al da História para a unificação da humanidade sob formas de governo cada vez mais abr angentes e complexas. De qualquer modo, essa tendência é visível, é um fato e não tem de s er demonstrada no plano teórico. Para maiores esclarecimentos, se necessários, v. o clássico de Ellsworth Huntington, Mainsprings of Civilization, New York, John Wile y and Sons, 1945 ( várias reedições ).

expansão do imperialismo, quando na verdade a própria emergência do conceito de nação foi apenas um dos momentos dialéticos que levaram, como vimos parágrafos atrás, ao nascime nto do Império mundial. O Império, aliás, não suprime as nações, já que, por definição, se co ui de reinos independentes, diferentes entre si, que ele apenas subordina e coor dena em vista de fins globais que cada reino não precisa enxergar senão parcialmente . A luta anticolonialista do Terceiro Mundo não pode prejudicar em nada o Império em ergente, cujo poder se assenta em bases totalmente diferentes das dos antigos im périos coloniais. Só pode ajudá-lo, na medida em que leva as novas nações a adotarem, junt o com subterfúgios verbais socialistas, as instituições e muito da ideologia do Estado democrático americano. Ao adotar a estratégia de fomentar as revoluções nacionalistas d o Terceiro Mundo, o comunismo internacional aprisionou-se a si mesmo na armadilh a da Revolução Americana. Do ponto de vista estritamente jurídico e político, a mundiali zação do Império é mesmo um benefício para as nações menores, antes submetidas ao arbítrio de tências secundárias, como os velhos impérios europeus ou a URSS; o Império mundial garan te-lhes um tribunal universal ante o qual podem, em pé de igualdade, lutar pelos s eus direitos com muito menos desgaste do que em sangrentas guerras de libertação. Se gundo demonstrou Bertrand de Jouvenel, a expansão dos direitos dos pequenos se faz sempre às custas das hierarquias intermediárias e da formidável concentração do poder nas mãos de poucos. O diagnóstico de Jouvenel é a versão política daquilo que a racionalização w beriana é no campo sociológico. Do ponto de vista econômico, o advento do Império mundia l é também vantajoso, segundo parece. Os argumentos de Roberto Campos, Paulo Francis , J. O. de Meira Penna, Donald Stewart Jr. e outros polemistas neoliberais (e af ins) em favor da internacionalização da economia, até onde posso compreendê-los, são muito

sólidos e a esquerda não lhes tem oposto senão rosnados e imprecações, onde não há nada a co preender. Mas a política, o direito e a economia, destacados do fundo vivo da tram a social, são apenas abstrações, no sentido pejorativo do termo. E, quando examinado d o ponto de vista de suas conseqüências psicológicas, culturais e espirituais, a ascensão do Império mundial é, como vimos ao longo dos últimos capítulos deste livro, uma

188 OLAVO DE CARVALHO ameaça tenebrosa. A derrota do comunismo, é claro, deve ser celebrada por todos os h omens de mente sã, e, se a expansão do Império foi o preço que pagamos pelo fim do p esa delo soviético, tudo bem: pagamos sem bufar. Mas, de outro lado, o antagonismo con ceptual das formas políticas denominadas “neoliberalismo” e “socialismo” ou “socialdemocraci a” tende a obscurecer o fato de que aquilo que se propõe como perspectiva de futuro a um mundo pós-socialista não é o neoliberalismo “em si”, como mera estrutura abstrata de um Estado possível, e sim o neoliberalismo encarnado na forma concreta do Império, e aliás fortemente tingido de elementos socialdemocráticos. O destino do mundo não se d ecide hoje num conflito entre formas de regimes possíveis, mas sim, por trás desse c onflito aparente, na contradição interna do Estado imperial, que parece só poder cresc er à custa da destruição do legado espiritual de onde ele extrai sua única legitimação moral possível. É neste e só neste sentido que se pode ver alguma utilidade na expressão de D aniel Bell sobre o “fim da ideologia”: no novo quadro mundial, já não se trata de um con flito entre ideologias por mais que um hábito de dois séculos i duza muitos intelect uais a n continuarem encarando as coisas por esse prisma , mas sim de um confront o entre os elementos espirituais e os elementos ideológicos no seio do Estado impe rial, conflito que por força da expansão desse Estado se alastra para o mundo todo. Alastrase até o ponto de contaminar até mesmo aquelas forças que, nominalmente, são ou s e imaginam as mais antagônicas ao Império: pois no coração do mundo islâmico o que se vê hoj e é que a resistência à expansão imperial acaba por endurecer e desespiritualizar a trad ição mussulmana, fossilizando-a no simplismo belicoso e grosseiro do chamado fundame ntalismo263, isto é, reduzindo a religião a um receituário ideoO nome calcado no de ce rtos movimentos protestantes é totalmente enganoso. Sugere, por alto, a idéia de ret orno às fontes, de restauração de uma pureza originária, mas qual o movimento reformista ou revolucionário que não se adorna dessa mesma pretensão? Na verdade, o radicalismo islâmico, pretextando um retorno às fontes, propõe às vezes uma total politização do impulso religioso, numa linha bastante semelhante à da “teologia da libertação” católica; e ele se afasta mais ainda das origens desde o momento em que despreza o legado espiritua l das antigas escolas místicas, o tassawwuff ou “sufismo”, o qual, com todas as distorções e desvios que sofreu, ainda conserva alguns valores essenciais à tradição islâmica. V., a respeito das diferentes correntes de pensamento islâmicas e seus antagonismos, Mohammed Arkoun, La Pensée Arabe, Paris, PUF, 1979, especialmente Chap. V, e id. e t al., Les Musulmans, Consultation IslamChrétienne, Paris, Beauchesne, 1971. 263 lógico como qualquer outro, fazendo com que cada novo jihad só sirva para desvitaliz ar e reduzir a uma horrenda caricatura a tradição que imagina defender. Se, de um la do do mundo, o Estado imperial leigo usurpou o manto de Cristo, do outro lado o sionismo ateu usurpou a autoridade de Moisés e a ideologia fundamentalista usurpou a mensagem corânica trazida por Mohammed. O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a possibilidade de sobrevivência espiritu al da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se unir am num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas re ligiões pelo menos das três grandes religiões do grupo abrahâmico , de cujo crédito essas deologias se alimentam parasitariamente. A total laicização do Estado imperial troux e consigo a laicização de todos os conflitos, o rebaixamento de todas as religiões e d e todos os valores civilizacionais, a degradação de todos os motivos pelos quais os homens vivem e morrem. Quem enxerga, hoje, que um século de conflito entre sociali smo e capitalismo terminou pela ascensão do Império mundial onde elementos socialist as e capitalistas foram absorvidos e superados na ideologia do Estado leigo, com preende que o fim do dualismo ideológico, sendo uma realidade, não tem efetivamente o sentido que lhe deu Daniel Bell, mas sim o da entronização de uma espécie de super-i deologia a “metade desvitalizada” do corpo cristão que não encontra concorrentes hoje no mundo senão outras duas antigas religiões igualmente desespiritualizadas e rebaixad as à condição de ideologias. Os intelectuais, é claro, em geral não enxergam as coisas nes sa escala, mas insistem em espremer tudo no estreito quadro de referências a que s

e habituaram em um século de guerra ideológica. Não vêem, assim, outras opções senão restaura artificialmente os velhos conflitos ideológicos, numa espécie de fúria regressiva que se obstina em não reconhecer a passagem do tempo, ou então festejar sob o enganoso nome de “fim das ideologias” a vitória de uma delas, sem perceber que, ao derrotar seu inimigo soviético, o Império ascende à condição de único portador do cetro supremo de laici zador do mundo, despindo-se de todos os escrúpulos religiosos que a luta contra o comunismo o obrigava a conservar. O fato é que, sepultado o comunismo, os Estados Unidos voltam a ser a sede central da Revolução mundial, tal

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como no século XVIII foram seu berço. E o herdeiro nominal da tradição cristã assume sua i dentidade pós-cristã, ou anticristã, precisamente no momento em que as outras duas gra ndes religiões vizinhas se encontram também desvitalizadas, laicizadas e cortadas de suas fontes espirituais. Pela primeira vez na história do mundo a humanidade vive o perigo de uma ruptura completa com o Espírito, de uma total imersão no “historicism o absoluto”, de um total fechamento da porta dos céus. Em face desse perigo, é preciso que, no novo quadro mundial, cada homem empenhado na defesa do Espírito, reconhec endo a mundialização do Império como um fato, e mesmo parcialmente como um bem no sent ido de que afinal a democracia preserva algumas liberdades nominais que em si são preciosas para a subsistência do ser humano pensante , mantenha afiado o sentido crít ico e saiba exigir do Império aquilo que se deve exigir de toda organização social e p olítica: que sirva ao sentido da vida, em vez de usurpá-lo numa nova idolatria. Isto significa, rigorosamente, abster-se de qualquer tomada de posição ideológica (seja no sentido de uma restauração saudosista do dualismo, seja no da celebração do novo quadro uniideológico), e oferecer sistemática resistência à noção mesma inerente a todas as ideol gias de que algum regime político, bom ou ruim, deva ter sobre as almas humanas um a autoridade espiritual comparável à de uma tradição religiosa. Para mim, pessoalmente, não faz tanta diferença, sob esse aspecto, que a organização da sociedade seja socialdem ocrática, neoliberal, que seja mesmo fascista ou comunista: havendo liberdade, des frutarei dela com prazer e, na tirania, ficarei grato pela oportunidade de ser úti l de algum m odo na luta contra o tirano. As duas hipóteses só diferem do ponto de v ista do conforto físico: para a realização do sentido da vida, uma vale tanto quanto a outra, e na verdade os regimes piores fazem às vezes brotar as melhores qualidade s humanas, prontas a dissolver-se tão logo restauradas a ordem e a liberdade (a es querda nacional sob a ditadura deu-nos a melhor prova disto). O reino do Espírito, que pretendo habitar, não é deste mundo, e ele é a única coisa necessária, a única que faz com que a vida seja digna de ser vivida. Todo ideal social, econômico, jurídico ou p olítico, por mais estapafúrdio que seja, é digno de ser defendido por quem creia nele, desde que não caia no propter vitam vivendi perdere causas. Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como

intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grande tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, t odo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.

Os neoliberais têm toda a razão em apontar os Estados Unidos como um exemplo de que a democracia capitalista é para dizer o mínimo o menos inviável dos sistemas políticos. Mas os méritos do sistema norte-americano não são devidos à idéia democrática enquanto tal, nem muito menos ao capitalismo como tal, mas ao fato de que uma e outro, para ab sorver e neutralizar hegelianamente o cristianismo na nova sociedade que geraram , tiveram de cristianizar-se ao menos em parte. Os valores cristãos, profundamente arraigados na mentalidade popular, serviram constantemente de balizas que limit avam e disciplinavam os movimentos do Estado e do mercado, dando um sentido ético e até espiritual ao que por si não tem nenhum; e, como o discurso político era fatalme nte interpretado e julgado em função desses valores, mesmo o p olítico que não acreditas se neles, mesmo o maçom de estrita observância, tinha de proceder exteriormente como cristão. Com extrema freqüência acabava por vigorar na prática o princípio católico “age c se tivesses fé e a fé te será dada” , e o cristianismo de mera pose acabava por dar aos atos políticos um sentido e um efeito cristãos de pleno direito. O exemplo mais cara cterístico é Abraham Lincoln. Esse homem destituído de qualquer crença íntima num Deus pes soal, esse devoto do Estado norte-americano que a seus olhos era a incorporação viva do fatalismo histórico conduzido pela Providência anônima de um deus iluminista, era no entanto assíduo leitor da Bíblia. Mas ao mesmo tempo esse self made man que incen tivava a difusão da lenda de sua falta de instrução era um erudito às antigas, um conhec

mas imitava das falas dos pre- . Hamilton e Burke. Quintiliano. Ele lia a Bíblia c omo retórico. em busca de material e inspiração e não apenas recheava seus discursos de citações bíblicas.edor profundo da retórica de Cícero.

assumem logo as figuras inconciliáveis e eternamente hostis de Leviatã e Beemoth. seleção e pre fácio de Paulo Francis. e as profundezas do nosso coração só Deus conhece. alardeando até mesmo p ecados fictícios. tendem a refugiar-se num fundamentalismo rancoroso. cujo destino lhe interessava tão pouco quanto a s alvação da própria alma. tão logo se livra da religião. 17 ss. onde uma elite de céticos e inimigos da fé governa a ma ior população cristã do mundo. as coisas parecem equacionar-se de . passan do por cima das intenções subjetivas do indivíduo Abraham Lincoln. gerada por uma casta sacerdotal. largadas a si mesmas. sentindo-se expulsas da terra que lhes fora pr ometida. seguindo a linha fatal dessas conseqüências. Exemplos similares poderiam multiplica r-se indefinidamente: a hipocrisia que se reveste do manto de Cristo cristianiza -se de algum modo. pois descendiam do primeiro povo c ristão da Europa. Daí também dois fatos da maior importância. ao mesmo tempo que realizava sua meta suprem a de preservar a unidade do Estado providencial. o lado irrac ional de uma democracia que ao mesmo tempo expande ilimitadamente os direitos do s cidadãos e os submete à vigilância opressiva da burocracia jurídica onipresente e os m anipula por mil e um artifícios de controle social científico.190 OLAVO DE CARVALHO gadores religiosos muito do pathos característico que distingue a sua oratória e faz dela uma das mais poderosas da língua inglesa. o esplêndido ensaio de Edmund Wilson. Era. São Paulo. é notório que o credo american o democracia. amortecendo-lhes o impacto contra o fundo acolchoado de uma coe rência ética que dava um sentido de unidade e universalidade às correntes diversas as quais. pp. cit. a sociedade s e descristianiza. hostil a todo progr esso que não obstante as beneficia materialmente. No caso norte-americano. o que terminou por fazer dos Estados Unidos essa contrad ição viva: um Estado leigo maçônico. Segundo fato: à medida que. fatal que as idéias democráticas recebessem espontaneame nte uma interpretação cristã. O resultado foi que o povo. trad. perde autoridade e legitimidade. e. liberdade de imprensa etc. voto. um sentido e uma proteção sem os quais não poderiam sobreviver por muito tem po sem decaírem ao estado de “ficções jurídicas”. que cobra das almas uma pureza utópica só para poder mais facilmente precipitá-las no abismo da auto-acusação exibicionista265. assim. as forças cristãs. confirmando a definição weberiana da História. acabou por entrar para a História como o libertador dos escravos. contradições que a cultur a cristã atenuava. se rebela em seguida contra o seu criador. ele repete nisto o ciclo eterno da casta governante que. para enfim se precipitar num abismo d e erros e loucuras. O conflito interno da consciência protestante que inspira o capitalismo e depois reage com violência às inevitáveis cons eqüências político-sociais do progresso capitalista é um Leitmotiv da história americana. op. que inaugurou a moda de tomar o exibicionismo por sinceridade. só aos poucos e graças a esforços prodigiosos de gerações de propagandistas se disseminou entre populações que. e como um exemplo de político inspirado em ideais cristãos: o sac erdote de César tornou-se um apóstolo de Cristo 264 mais um resultado impremeditado. Ao mesmo tempo. que à me ida que o Estado se desmascara e manifesta aos olhos da sociedade o intuito laic izante que o 264 V.. José Paulo Paes. O Estado democrático só consegue revestir-s e uma aura de prestígio religioso na medida em que cede e cede muito à influência da r eligião. lei e ordem. João Crisóstomo. 265 Foi Jean-Jacques Rousseau informa-nos Paul Johnson. já traziam o cristianismo no sangue. Muito antes dos modernos estudos sobre “religião civil”. subentendendo que esse fundo cristão lhe dava uma unidade. move desde dentro. Deus é menos exigente com o homem do que o dogma do sincerismo m oderno espécie de hipocrisia às avessas. “Abraham Lincoln”. Primeiro. Companhia das Letras. em Onze Ensaios. 1991. patenteiam-se também as contradições do sistema político. de que ma is importa confessar Cristo com a boca do que com o coração: porque a boca está sob o nosso comando. deu às suas palavras e atos um sentido cristão. Fr iedrich Karl von Savigny já havia percebido que todas as legislações do mundo moderno eram expressões de valores cristãos. Aí é que se vê a sabedoria do conselho de S. mu ito antes. e Lincoln.

no reino exterior ou exotérico. Daí entendemos que a ascensão do . ao passo que. e sim maçôni ca. a alma do povo continua a ser formada. o rito interior.maneira um tanto diferente. na medida em que a casta sacerdotal não é cristã. Mas e este é o pivô do drama a Maçonaria só exerce uma parte das atribuições de uma c a sacerdotal: ela é o esoterismo. que molda a mentalidade da elite intelectual e governante. hoje como sempre. secreto ou discreto. pela influên cia do clero cristão católico ou protestante.

muitas das grandes mudanças não advêm de nenhuma síntese de elementos anteriores. O impulso para a síntese que é uma das fontes do empenho civilizatório em ger al é uma exigência constitutiva. Na medida em que o ideal maçônico do Estado leigo democrático se realiza. Ao contrário: religião e economia. Estas palavras expressam minha convi cção de que é puramente ideológica. para não dizer fantasista. menos coerência. Na história. contanto que os homossexuais não pratiquem sodomia e os heterossexuais não façam propostas eróti . e 266 Concepção que encontra sua expressão mais plena em Gramsci. onde os únicos antagonismos reais que existem são os conflitos de classe 266. O menos inviável dos regimes terminará por inviabilizar-se quando terminar de corroe r. que a formam podem ser heterogêneo s por sua origem e continuar heterogêneos e conflitantes de seu conflito resultand o. ao mesmo tempo que ensina nas escolas que ela não é senão o resultado fortuito de um a combinação de átomos. precisamente. menos credibilidade e menos funcionalidade têm os valores democráticos em nome dos quais essa elite chegou ao poder e governa. A heterogeneidade essencial das força s que compunham o ideal americano maçonismo e cristianismo pôde ser ocultada por um tempo. põe à mostra suas próprias fraquezas e contradições Ele prega. contanto que consintam em perder toda importância vital e em tornar-se adornos t urísticos para embelezar a cultura maçônicodemocrática. a dinâmica que marcará a história dessa sociedade. são forças autônomas. não uma lei histórica. que as diferentes culturas devem ser preservadas em sua pureza . o que se vê é o entrechoque entre esse impulso e as tr emendas forças de divisão e decomposição a começar pelo fato mesmo da morte que se opõem manentemente ao esforço unificador humano e. ideológicos. tomada num momento qualquer do seu dese nvolvimento histórico. ideologia. da mente do indivíduo human o.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 191 governo maçônico se prevalece do prestígio cristão anexado de fora aos valores e princípio s da democracia. desde que privad os da seiva cristã que os alimenta. na mesma proporção. por exemplo. mas pr ecisamente da impossibilidade de sintetizá-los na prática. remetendo a unidade à esfera que lhe é própria: a esfera do ideal e d o extramundano a que não correspondem. da mente humana. mas que com ou sem Gramsci anda disseminada pelas cabeças de quase todos os pensadores sociais e políticos des ta parte do mundo. malgrado todos os esforços humanos. senão essas caricat uras de paraíso que recebem o nome de utopias. O perfil de uma determinada sociedade. por exemplo. isto para nada dizer da possibili dade de transplantar uma religião de um país a outro. na escala dos fatos históricos. Anexado de fora. ele se assume como independen te do cristianismo e. digamos assim. Repito o que disse lá atrás: a síntese dialética só existe no reino das idéias. interna. etnológicos etc. política. mesmo separados por séculos de d esenvolvimento econômico desigual e por abismos de diferenças culturais e psicológicas . mas não é capaz de dar a esses valores e princípios. a concepção da sociedade como m bloco mais ou menos homogêneo de economia. precisamente pela mesma razão que permitiu a Abraham Lincoln passar em públic o por grande líder cristão: pela razão de que seus intuitos ( em si mesmo nem cristãos n em anticristãos. fundamentalmente inalteradas em seus dogmas a despeito de todas as mudanças econômicas. em nome da democracia. quanto mais se laiciza a sociedade. extracristãos) foram aceitos na medida em que o povo os interpretava como cristãos e acabava por cristianizá-los. que devemos respeitar a vida humana como um bem sagrado . na medida em que. contanto que coloque acima desse Deus as leis e instituições do Estado leigo. no seio mesmo da mais organizada das sociedades. fazem brotar de novo e de novo os conflitos mais bárbaros e as contrad ições mais insolúveis. que a liberdade sexual é um direito inalienável. cultura e “senso com um”. disse eu. que o homem tem o direito de cul tuar Deus à maneira de sua religião. mas os elementos religiosos. mas. no plano político-ideológico. os princípios religiosos a que a idéia democrática deve toda a sua substância. uma força de subsistência autônoma: a vitória da elite maçônica traz em si os germes de sua própria destruição. como o prova o fato de que as religiões podem subsistir por milênios. só constitui um bloco para fins de hipótese metodológica.

mas q ue recebeu prontas da civilização cristã e que não sobrevivem à .cas às mulheres. numa permanente estimulação contraditória que está na raiz da violência e da loucura que hoje marcam a sociedade americana e todas as s ociedades que se colocaram sob a órbita da influência ideológica da Revolução Americana. M uitos analistas do fenômeno americano já estão se dando conta de que a democracia depe nde de que existam no povo certas virtudes que ela não criou nem pode criar. e assim por diante.

192 OLAVO DE CARVALHO descristianização da sociedade 267. passim. sejam elas religiosas ou políticas. ou praticamente todas já deram provas de poder adaptar-se a todas as culturas. É ainda nos Esta269 V. ou antes. Christopher Lasch. que algumas das reações mais vigorosas à cultura anti-espiritual do no vo Império brotam de dentro dos próprios Estados Unidos. a todas as sociedades. Se hoje não podemos desistir nem do Estado democrático nem do fundo cristão sem o qual ele perde todo sentido e se transforma no neototalitarismo do “politicamente correto”. Paris. pode oferecer uma resistência eficaz ao crescimento ilimitado do poder político mesmo e sobretudo daquele exercido em n ome de pretextos religiosos. Mesmo e sobretudo. também não aprenderemos a de Bertrand de Jouvenel. isto mostra o que foi dito parágrafos acima. Também é preciso reconhecer. o que já basta para por em dúvida a onipotência da nov a cultura 269. frequentando o culto do minical. Introduction à la Philosophie de la Mythologie. é a instância superior onde se arbitram todos os co nflitos entre facções. apesar de toda a antiespiritualidade dominante. 19 . enquanto não compreendermos mesmo a lição de Schelling 268. Jankélevitch. Enquanto estivermos contaminados pelo preconceito . meio marxista. que nel a se projete. e se por outro lado a dinâmica anticristã do Estado leigo parece uma fatalidade inerente à constituição mesma do novo Império. Friedrich-W. Metade da população americana c ontinua. Nenhuma ideologia. o poder é o único juiz. como disse São Paulo Apóstolo. Na ausência da autoridade espiritual que não se confunde de maneira alguma com as hierarquias de nenhuma burocracia ec lesiástica. católico ou protestante. o homem espir itual julga a todos e não é julgado senão por Deus. V. que a ruptura entre Maçona ria e Cristianismo está na raiz da tragédia contemporânea. que arrasta os impérios e as nações como o vento arrasta pelas ruas desertas. em contrapartida. Schelling. monárquico ou republicano. O lance de dados em que os poderes deste mundo partilham o manto de Cr isto não abolirá jamais o movimento imprevisível do Espírito. segundo a qual são os mitos e as religiões que estatuem o campo po ssibilitador dentro do qual se erigem as formas sociais. meio sociologista. sociedades e constituições políticas. não compreenderemos o que se passa hoje no Império americano e no nosso próprio quintal. talvez. Por toda parte o que se vê é o completo fracasso da tentativa de superar por uma ética leiga as antigas éticas religiosas. na madrugada que se segue a um comíc io. compreendida como portadora simbólica de verdades universais e valores objetivos. uma impressão recebi da pela sociedade desde fora ou desde cima. porque a lei religiosa.. socialdemocrata ou neoliberal. segundo a qual a religião e somente a religião. cit. E enquanto não com preendermos essas coisas continuaremos a apostar neste ou naquele sistema político . não enxergando que os méritos de qualquer sistema político dependem essencialmente d e que ele saiba respeitar os limites que lhe são impostos pela consciência religiosa do povo. cuspe e respingos de cerveja. de que a religião é uma expressão da sociedade. op. Se as religiões todas elas. é porque elas 267 268 existem e vigoram num plano de universalidade superior ao de todas as culturas. Aubier. comunista ou apitalista. ao passo que toda legislação po lítica.. que o antecedem. culturais e políticas. ele será sempr e o poder de César. desde a eternidade. é sempre um juiz parcial na hora de julgar os vencidos. S. Democrático ou oligárquico. nenhum programa político pode ter a universalidad e e a abrangência de uma religião nem muito menos o seu poder unificante e doador de sentido. não poden do ser mudada por arbítrio humano. E enquanto não absorvermos essa lição. a t odas as constituições políticas. É porque. vivificada pela presença da autoridade espiritual e firmada em valores q ue antecedem de muito o nascimento desse sistema e o da própria sociedade que ele governa. trad. com uma propensão incoercível a autodivinizar-se. 2 vols. mas reside naqueles homens em que se manifesta de maneira patente o es pírito mesmo da religião . os farrapos de papel com as caretas bisonhas dos demagogos tingidas de lodo. en quanto não percebermos que ela pode ser precisamente o contrário. sendo a expressão da ideologia de um grupo vencedor. porque a unid ade da ética leiga reside na interpretação religiosa que dela se faça.

Esta evidência pode sugerir que os Estados Unidos. pertencem a uma denominação religiosa e assistem ao serviço com alguma regularidade continua nota damente alto.45. A separação da igreja e do . segundo diz Christopher La sch: “A quantidade de pessoas que professam a crença em um Deus pessoal. A vida pública está totalmente secularizada. têm conseguido escapar às influências secularizan tes que modificaram a paisagem cultural em outras partes do mundo. entretanto. de alguma forma. Mas esse fato também deve ser interpretado com prudência. em comparação com outras nações industriais. A aparência eng ana.

O seu compromisso com a cultura da crítica é entendido como a eliminação do s compromissos religiosos. 27 0 V. iconoclástico. E. . a essência mesma do culto imperial? Não. De l’Unité Transcendante des Réligions. cit.. New York. homem espiritual de primeiro plano e inventor do único método válido já concebido para a comparação e aproximação das religiões 27 s é ainda verdade. s em saber que se trata. o ateísmo oficial do Império. prisioneiros de mitos que constituem. E lá. Os próceres da reforma intelectual b rasileira querem guiar o povo sem saber quem os guia. W 271 Mat. Victor Danner e outros. Também não sabem pa ra onde levam quem os ouve: e assim arrastam o público para o Jardim das Delícias. sob disfarces variados. e crucificado. do Jardim das Aflições. que só servem para gerar desc onfiança entre os crentes das várias religiões e fomentar. está mais profundamente arraigada na América do que em qualquer outro lugar do mundo. é triste verdade que muito dessa resistência se inspira no apego a exclusivismos religiosos de cunho fundamentalista.. 247-248 grifos meus ). mas ao terceiro dia ressurgirá” 271. Huston Smith. Um estado mental cético. são incultos. São cegos e ingênuos no fundo de uma casca de vaidade e presunestado. novamente. 20:18-19 ( trad. den tro do corpo americano. The Gifford Lectures.. 1979. profundamente influe nciada pelo pensamento de Frithjof Schuon. 1981. Mas. na verdade. ainda subsiste a contradição entre Império e nação — contradição em q o leitor não terá dificuldade de reconhecer um resíduo da ideologia dos impérios colonia is. ção. éd. e Seyyed Hossein Nasr. e aos escribas. Frithjof Schuon. “o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes. pela divisão. é uma das características das cla sses cultas. Fascinam a platéia. No fundo de sua aparência erudita..O JARDIM DAS AFLIÇÕES 193 dos Unidos que se encontra hoje o mais poderoso núcleo de resistência ao avanço do ateís mo oficial — o que abrange desde as comunidades que se organizam contra a lei do a borto até a elite espiritual concentrada em torno de figuras como Seyyed Hossein N asr — exilado iraniano —. E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido. A religião foi relegada às vias secundárias do d ebate público. que muito da resistência espiritual norteamericana se perde em histerismos ultraconservadores e em arreganhos nacionalistas — às vezes va gamente fascistas — que não têm nenhum sentido no novo quadro a não ser mostrar que. que o condenarão à mor te. finalmente. Crossroad. pp. Paris. eles não sabem o que fazem. por apego a preconceitos qu e os cegam. mas nem imaginam quem fala por sua boca. Knowledge and the Sacred. despreparados e bem pouco intelige ntes. quanto mais não o farão os intelectuais progressistas do Terceiro Mundo. não obstante. Le Seuil. hoje interpretada como proibição de se recon hecer publicamente qualquer religião. op. 198 1. Antônio Pereira de Figueiredo ). 2e.. se até os norte-americanos conscientes do caráter anti-espiritual do novo Império terminam por servi-lo involuntariamente. A atitude das elites no que se refere à religião vai da i ndiferença à hostilidade” ( Christopher Lasch.

Qual de nós. Isto fez dele o emblema das dores e da insânia de uma época. O conjunto forma o retrato de um boneco de ventríloquo. chicotear as próprias costas? Po is eu. condensaram-se na alma de José Améri co Motta Pessanha. se entreguem à consolação malévola do riso e da ironia. na platéia do MASP. vos garanto: não posso. ordenar e pôr em claro toda a mixórdia de erudição mal dig erida. se posta diante dos meus olhos. ouvíamos Motta Pessanha. da minha parte. Pois. até o patético da autovalor ização heróica. bebeu até o fim a taça da falsidade univer sal. detidos a meio-cam inho por um misterioso repuxão do bom-senso ou da hipocrisia. não como um crim inoso a ser escarmentado. indiferentes à voz do boneco que repetia mecanicamente seu discurso numa ponta esquecida do Terceiro Mundo. iludir. mas como a vítima da tragédia intelectual de todo um país e de toda uma época. o encanto das palavras acima da evidência das coisas e dos fatos? Qua l de nós não acreditou um dia que nossa repugnância pelo estado de coisas nos revestia de uma dignidade especial e nos dava um salvo-conduto para mentir. diante do ca dáver intelectual de José Américo Motta Pessanha. de sentimentos grosseiros e de palavreado florido. Eis o mo tivo da mágica atração que ele exercia precisamente sobre aqueles que menos o compreen diam. um dia. aqui exposto em toda a sua triste de formidade. dá eco à mensagem do mal e da mentira universais. enquanto José Américo Mo tta Pessanha mergulhou até o fundo do erro. trap acear. o poder aci ma do saber. condená-lo. Isto fez dele a vítima dos que nele acreditaram. Não atiro a primeira. não é? Pois bem: àqueles que.194 OLAVO DE CARVALHO Post-scriptum LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR “A soberba do homem niilista eleva-se. por partes e intermitentemente. desde que fosse em nome da nossa sacrossanta indignação política? Apenas. movido pela angústia ou pela voracidade. Eis também o motivo pelo qual é tão difícil condená-lo: ele errou em nome de todos. ao meno s antes de ler este livro. nem a segunda. não sabendo quem fal a por sua boca. ao menos cada qual a si . crendo e fazendo c rer que ensina o caminho da sabedoria. lapidar o próprio peito. fazendo dele um compêndio vivo dos erros da sua casta. qu e compõem a fórmula cerebral de um típico letrado brasileiro do período entre 1964 e 199 4. senhores das letras: não vos exponho o corpo macilento e desgrenhado dessa vítima para dar r epasto à vossa ironia. com grandeza trágica. nem a última pedra: não vejo por onde condenar aquele que. Não. sem outra culpa senão a da demência coletiva que a poder de aplausos e lisonjas o arrastou aos piores desvari os filosóficos. sem no mesmo ato cuspir na própria face. e xpô-lo com descomprometida e sádica alegria ao escárnio das gerações futuras. a paixão ideológica acima dos direitos da verdade. nós o f izemos com maior comedimento. está limpo de toda mácula que nele agora vêdes com os olh os claros que a contragosto meu e vosso vos dei por empréstimo? Qual de vós. É horrível.” KARL JASPERS Termina assim nossa jornada — o giro por dois milênios de História das Idéias. não colocou o estetismo acima do dever moral. num certo momento da nossa História. digo eu: qual de vós. todos os mitos e ilusões a que se agarravam por desespero os intelectuais brasileiros. de mitos ideológicos. que. patético e melancólico. Pois enquanto nós. mas para que nela vos enxergueis a vós mesmos e possais diant e dela confessar. mas que neles se repartiam em porções desiguais e de composição variada. e scribas e fariseus hipócritas. deuses hediondos prosseguiam sua marcha triunfante entre nuvens de fogo. não foi igual por mais de um aspecto a esse inimigo da sabedoria? Qual de vós pode atirar-lhe pedras. com uma espécie de heroísmo do auto-engano. que nos f oi necessário para compreender.

Solidarizai-vos. quando ele aqui jaz. Pois seu pecado foi o de todos nós. não o abandoneis agora. Vós. na desgraça. Rio. desfeito em trapos o seu perfil de filósofo. que o aplaudistes em vida quando ele em palavras insa nas dava expressão e autoridade a vossos mais baixos sentimentos e a vossas mais a bsurdas aspirações. . com aquele que na glória e na al egria celebrastes. julho de 1995.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 195 próprio: Eu não fui melhor. Orai por ele. por vós e por mim.

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374 BISMARCK. 276. Ni els. John. Honoré de.. 71. 307 BERNAN OS. Daniel. 364 A LAIN (Émile Chartier). 301. 111 BOHR.. 54. 99 B ELL. 69. 272. 212 BEAUVOIR. 18 7 A FONSO HENRIQUES (de Portugal). 283 BETINHO. dito Graco. 165. S. 333. 372. Sto. 189 —A— A BELARDO. Pierre. Anicius Manlius Severinus. 277 . 204. 347 BERDIAEV. Brun o. Dante. 89. Sto. Gregory. 41 BODIN. 223. René. Marcel. 47 BECKER.. 222. 108 v. 186 A UBENQUE. 207. Hal C. Tomás de. 388 BENOIST . 118. 384 A LEXANDRE DE HALES. 99 —B— BABEUF. S. 126. 42 A LIGHIERI . 275 BOWEN. 142. 135 BLOOM. Simone de. 269 A LEMBERT . 42 A QUINO. 297. 266 B ONIFÁCIO VIII. Nicolai. 373. Hele na Petrovna. 12 BLÜCHER. 325 BAYLE. 150 BRIO N. Pedro. David. Gebha rd Leberecht. 269. 284. 347. 225. 185. Jean. 331 A LLEAU. 154. Franz. Jean Le Rond d’. 259. 74. François Noël. 67 BLAVATSKI. 220. Napoleão. 46 A FONSO DE LIGÓRIO. Richard BARRÈS. 155. 307 A LTHUSSER. 93. S.. Afonso de. 253. 192. Louis. 314 BATESON. 120. Otto von. 184. 290 A LCUÍNO.. Marielza. 209 . Roger. 280 A GOSTINHO. 273.206 OLAVO DE CARVALHO ÍNDICE ONOMÁSTICO BARROSO . 79. 387. Harold. 382 A NSELMO. v. 119. 168.. 290 BOAVENTURA. 93 BAUER. 315 BRENTANO. 271. Louis. Gustavo. 72. 372 BACON. Sto.. 339 BONIFÁCIO. Maurice. 28 6 BOÉCIO ou Boetius. Antoine. 43 A LBUQUERQUE . 56. 168 BOHM. 120 A U GELLI. 41 A DORNO. 338. 301 BARRUEL. 123. 249. 67. Allan. John. Gen. Georges. 313. Jorge. 341 BANDLER. 43 BALZAC. 123 . 373 BOAVENTURA. Herbert José de Souza. Pierre. 347 BERNARDO DE CLARAVAL. 41 BERTRAND. 257. Sto. 187. 53. 59. John. 10. 323. 281. 290. 151 BONAPARTE. 314 BLOOM. Theodor Wiesengrund. Papa.. 69 A LBERTO M AGNO. 154. GRINDER. 331 BROCKMAN. dito. 127. Alain de. Sto. Abade. Tomás de Aquino A RISTÓTELES. 306 A RNAULD.

224. 65. 332 CHANDLER. Gilles. 365 CHESTERTON. 108. Jean. 70 CARPEAUX. 191. 390. J acques. 151 CRISTALDO. 225. Nicolau de. 368 DEMÉTRI O. 264. 138 v. 187 DESCARTES. Marilena. 70 CERVAN TES. Caio Júlio. Fernando Afonso. Pedro. Maurice. 363. 273. 150 CONDORCET . 42. 223. 358. marquis de. 258 DAWSON. 266. 289. 42. 262. 366. Jacob. 389. 186. 298. 367 COMTE. 380 CROUZET . 146 CARVAL HO. Albert. 266 COLLOR DE M ELLO. 33 . Dale. 134. 35. Christopher. 68. 201. 208 BRUNO. Georg. Nicolau de Cusa —D— D’HONDT . 118 DEMÓCRITO. Victor. 362. 32. 215. 329 CÉSAR. 386. 237. 97. 299 CAMPOS. 240. Gil bert Keith. 209 CONWAY. 261. 222. 66. Joseph. Auguste. Miguel de. Titus. 150 DELEUZE. 313 BURKE. 292. 364. SIEGELMAN. 368. 266. Paolo. 19. 107. 342 CASSIRER. 259. 43. Antônio. 282. 286. 241. 59. 361 CARNEGIE. v. 159 CHARDIN. Claude. Edmund. 232. 208 . Marie Je an Antoine Nicolas Caritat. 63. 64 CLEMENTE de Alexandria. Joseph Epes. 98 BRUNELLESCHI. Janer. 84 DELFIM NETO. 144. Henry. 184. 121. 190. Salvador. Jim COPÉRNIC O. Filippo. 64. Alighieri DAVI D. 203 CHAUÍ. Otto Maria. 365. v. 304. 280. 389. 136. 106. 152. Flo. 369 COLLOR DE M ELLO.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 207 BROWN. 249. 83. Fernando Henrique. Maistre DÉGERANDO. 59 BURCKHARDT . 290. 394 CROCE . 105. 192 CAPRA. 92. Gi ordano. Pedro. 282. 363. 281 CONCHES. 28. 118 DEMÓCARES. Gautama. Joseph. 290. 267. 366 —C— CALDERÓN DE LA BARCA. 175. 226 DANIÉLOU. Jacques. 57. 273. 30 5. 244 CLÓVIS. Jacques-Louis. 69. Benedetto. 380 CRÉBILLON FILS. Joseph Marie. 109 BRUN. 270 CUSA. 257. 369 CARDOSO . 45. 396 DANTE. Etienne Bonnot de. 42. Nicolau. 45 CAYCEDO. Imperador. Pierre Teilhard de. 226. 258. 395 CHAILLEY. 382 CONRAD. 347 CRISTO. Guilherme de Conches CONDILLAC. 173 CORBIN. Gustavo. 284. v. 45 . 287. 186 BUDA. 300 DANNER. 255. 297. 29. 285. 226. 347 CA MUS. 45. Rus sel. 204. v. 232. 378 CARLOS M AGNO (Charlemagne). Olavo de. 37. 77 CANTOR. 271. Guilherme de. Ernst. Card. Fritjof. Roberto. 127 BURCKHARDT . 176 CORÇÃO. 337 CONSTAN TINO. 256. René. 242 DE M AISTRE .

135.. 49. Galileo. Leon. 166. Paulo (Franz Paul Heilborn).208 DIDEROT . 342 DUMONT . 150 DIONÍSI O. 195. Sigmund. 43. 366 FERREIRA DOS SANTOS. 315 FRANCA. 67. 139. Charles de. 291 DRUMMOND. 83 GOETHE . 42. T. 340 FESTINGER. Michel. 91 ÉSQUILO. J ohn. L. 133. 48. 137. 120. 370 GEISER. 115-122. 146. 271-275 FELIX. 189 FAVIER . Manuel. 225. 156. 362. Mircea. 278 DUMÉZIL. Christopher. 27. 46 FORTESCUE. 188. 40 EUBÚLIDES. dit o Petrus. 341 DUNS SCOT . 89 EPICURO. 214. 240. Jean. 392 ECO. 381. v. 60-73. 46. 287 FOUCAULT . 35. Denis. (Thomas Stearns). 137. Sir John. 300 DURAND. 117. Alain . Félix. Louis. 118 —E— OLAVO DE CARVALHO —F— FÁBIO. 42. 168. Celso. 129. Umberto. J. 202. 382 DIEL. 33 7 FEYERABEND. 90. Octávio de. 35. 121 DIRCEU. 331-334. Albert. 67. 122 GARCÍA-PELAYO. Juan Francisco. 4 0 EVOLA. G eorges. 381 DRUMONT . 275 GAXOTTE.. 187. 154. 370 GOLDING. 134. 45. 46 FIELKENKRAUT . Aristóteles. 183. 360 GAULLE. 274 FELIPE O BELO. 33 . 169. 204. 161. 103. 304 DUP ANLOUP . 369. John W. Allen. 378 DILTHEY. 187. 379 ERICKSON. 118 EURÍPIDES. 46. 373 FARGES. Mário. 97. Antonio. 127 ELWELL-SUTTTON . Mons. 64. Carlos. Rob ert L. Pierre Gassend. Pierre. 37. 41. 286. 375. 380 ELIS REGINA. 84. 339 DRAYTON. 185 FRANCIS. Ingemar. 171 FUKUYAMA. William Henry. 389 FREUD. Johann Wolfgang von. William. 369 —G— GALILEI. Gilbert. 45 DOSTOIÉVSKI . Ludwig. Mons. 46. 126. 44. 259 EL IOT . 149-152. Pastor Caio. 189. Milton.. 360. S. 32. 124. 166. John. Mons. 315 E PICTETO. 265 FURTADO. 282. José. Paul. 23 1. 36. 51-58. Julius. 151. P. 171. 12. 133. 241. 292 DULLES. Leonel. 43 EINSTEIN. 121.. Johann Gottlieb von. 28. Édouard. 40. 127. Oliveira e Silva DONOSO CORTÉS. 46 FUN K. 338-340. 189 ELIADE. 197 GARCÍA GUAL. 117. 309 DULLES. Foster. 242 GASSENDI. 117. Wilhelm. Fiódor Mikhailovitch. 376. 8 6-90. 105 FEUERBACH. 74. 382 GRAMSCI . 196 FOWLES. 39. 175 FICHTE. Paul. 23. Francis Paul. 368. 284 DÜRING. 109 FARIA. Albert. 24. 274 . 226. 13. Pe. S.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 209 GRAVES, Robert, 314; 315 GRINDER, Richard, 69; 89; 103 v. BANDLER, John, 69 GUAT TARI , Félix, 84 GUÉNON, René, 45; 175; 247; 248; 259; 274; 298; 300; 301; 305; 306; 3 11; 314; 331; 333; 334; 337; 342 GUILHERME DE CONCHES, 41 GURDJIEFF, Georges Iva novitch, 45; 63; 64; 103; 224; 225; 312 —H— HABERMAS, Jürgen, 376 HAMILTON, David, 354 HAMILTON, William G., 389 HARTMANN, Nicolai, 45; 46 HARVEY, William, 42 HEGEL, Georg Friedrich Wilhelm, 28; 46; 77; 121; 133; 153; 211; 213; 218; 222-228; 237; 255; 258; 281; 290; 295; 362; HEINE, Heinrich, 126 HEISENBERG, Werner, 65; 122124; 149; 151; 177 HELVÉTIUS, Claude Adrien, 45; 124; 150 HEMMER, Mons., 265 HENRI QUE VIII (da Inglaterra), 273; 280; 282; 286 HERCULANO (DE CARVALHO E A RAÚJO), Al exandre, 41; 43 HERMIAS, 118 HERÓDOTO, 239 HITLER, Adolf, 27; 227; 324 HOBBES, Tho mas, 286; 287 HOBSBAWM, Eric, 214 HOBSON, John Atkinson, 294; 363; 364; 383 HOOK ER, Richard, 284; 286; 375 HORÁCIO, 207 HORKHEIMER, Max, 135 HUGO DE S. VÍTOR, 40; 4 1 HUIZINGA , Johan ou Jan, 188; 349 HUNTINGTON, Ellsworth, 383 HUSSERL , Edmund, 12; 46; 151; 156; 181; 182; 196 HUX LEY, Aldous, 45; 96 —I— IBN-A RABI , Mohieddin, 313 INOCÊNCIO III, Papa, 284 INOCÊNCIO I V, Papa, 272 IVAN III (da Rússia), 282 IVAN IV (da Rússia), 282 —J— JAKI, Stanley L., 12 4 JASPERS, Karl, 45; 150; 399 JOÃO PAULO II, Papa, 85 JOÃO VI (de Portugal), 43 JOÃO X II, Papa, 268 JONES, Rev. Jim., 71; 126 JOUVENEL, Bertrand de, 221; 285; 343; 38 4; 395 JUNG, Carl-Gustav, 45; 216 —K— KALECKI, 45 KANT , Immanuel, 46; 77 KARDEC, Al an, 187 KEATON, Buster, 63 KEYNES, Sir John Maynard, 44 KHAYYAM, Omar, 315 KING, Stephen, 315 KLEIST , Heinrich von, 344 KOESTLER, Arthur, 101; 230; 231; 323; 3 80 KOYRÉ , Alexandre, 175; 176; 180 KRAMER, Dora, 373; 377 KUHN, Thomas S., 196

210 —L— LA M ETTRIE , Julien Offroy de, 144; 328; 348 LACLOS, Pierre Choderlos de, 3 2; 137 LACTÂNCIO, 117 LAÉRCIO, Diógenes, 53; 86 LANGER, Susanne K. (Knauth), 285 LANTO INE, Albert, 280 LASCH, Christopher, 283 LEARY, Timothy, 122 LEHMAN DA SILVA , N elson, 330 LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm von, 36; 45; 119; 144; 186; 188; 190; 192; 196 LÊNIN, Vladimir Iilitch Ulianov, dito, 45; 130; 163; 276; 332; 343; 349 LEVIN , Kurt, 74 LÉVI -STRAUSS, Claude, 42 LINCOLN, Abraham, 247; 363 LINEBARGER, Paul E ., 82 LOMBARDO, Pedro, 41 LORAUX, Nicole, 39; 328 LORENZ, Konrad, 79; 80; 83 LÖWY, Michael, 129 LUCRÉCIO, 52 LUÍS XI (da França), 257 LUÍS XIV (da França), 208; 265; 266 LUÍS XVI (da França), 235; 249; 288 LUÍS, O PIEDOSO , Imperador, 251; 254 LUKÁCS, Georg ou György, 44; 129 LULA, v. Silva, Luís Inácio Lula da, —M— M ACEDO, Bispo Edir, 341 M ACHAD O, Nílson José, 285 M AHARAJI , Guru, 58 M AÏSKI, Ivan, 292 M AISTRE , Joseph de, 45; 280 OLAVO DE CARVALHO M ALEBRANCHE, Nicolas, 119; 175 M ALINOVSKI, Bronislaw, 44 M ALTZ, Maxwell, 69 M ANN, Thomas, 33 M ANNHEIM, Karl, 81 M ANZONI, Alessandro, 309 M AO TSÉ-TUNG, 334 M AQUIAVEL, Niccolò Macchiavelli, dito, 139; 194; 195; 269; 275 M ARCUSE , Herbert , 129 M ARITAIN, Jacques, 257 M ARTEL, Charles, 250 M ARX, Karl, 37; 122; 123; 1 25; 127; 128; 129; 130; 131; 132; 138; 139; 142; 143; 144; 147; 148; 149; 150; 1 53; 163; 177; 199; 200; 201; 216; 277; 293; 310; 330; 348 M AZZINI, Giuseppe, 28 1 M ÉDICI , Gen. Emílio Garrastazu, 66 M EINECKE, Friedrich, 185; 186; 191 M EIRA PE NNA, José Oswaldo de, 332; 347; 350 M ELLO, Collor de, v. Collor M ERLOO, Joost A. M., 81 M ERQUIOR, José Guilherme, 129; 347 M ICHEL, Paul-Henri, 42 M ILL, John St uart, 35 M INOGUE, Kenneth, 142 M IR, Luís, 334; 345 M ITTERRAND, François, 257 M OH AMMED (Maomé), 105; 224; 233; 304 M OISÉS, 105; 267; 278 M ONTAIGNE, Michel de, 191; 194 M OON, Rev., 58; 96; 102; 152 M ORE , Sir Thomas, 263 M ORGAN, Charles, 110 M ORTON, Thomas Green, 63; 105 M OTTA PESSANHA, v. PESSANHA M OZART , Wolfgang Amadeus, 302 M ÜLLER, Juan Alfredo César, 76; 311

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 211 —N— NAIPAUL, V. S., 98 NAPOLEÃO, v. Bonaparte NASR, Seyyed Hossein, 174; 352 NEGREIROS , Almada, 314 NEWTON , Sir Isaac, 41; 42; 119; 145; 184 NICOLAU DE CUSA, 164; 16 5; 166; 167; 168; 169; 176; 177 NICOLE, Pierre, 175 NIETZSCHE, Friedrich, 37; 13 9; 161; 201 NIXON, Richard Milhous, 334 NIZAN, Paul, 118 NOVAES, Adauto, 32; 137 ; 144 NUNES, Carlos Alberto, 45 —O— OCKAM, William of, 44 OLIVEIRA E SILVA , José Dirc eu de, 334 ORTEGA Y GASSET , José, 75; 189; 332; 347 OSTROVSKI, Victor, 334 OT T O I, Imperador, 251; 329 OVÍDIO, 193 —P— PALOU, Jean, 284 PANETH, Ludwig, 158 PARAIN, B rice, 114 PASCAL, Blaise, 171; 190; 346 PATRIZZI, Francesco, 113 PAULI, Wolfgang , 145 PAULO A PÓSTOLO, S., 221, 244 PAVLOV, Ivan P., 66; 98; 99; 100; 101; 102; 10 9 PEDRO I (do Brasil), 233; 259; 288 PÉGUY, Charles, 218; 257 PENNA, J. O. de Meir a, v. Meira Penna PEPINO DE HERSTAL, 249 PERALVA , Oswaldo, 345 PERELMAN, Chaim, 46; 54; 87 PEREZ DE A YALA, Ramón, 33 PERROY, Édouard, 253 PESSANHA, José Américo Motta, 9; 24; 25; 26; 2 7; 28; 31; 32; 33; 34; 39; 44; 45; 46; 47; 51; 52; 54; 57; 60; 61; 62; 65; 68; 6 9; 87; 88; 112; 114; 115; 116; 117; 118; 122; 123; 124; 137; 142; 143; 144; 145; 146; 147; 153; 214; 215; 217; 239; 328; 345; 355 PESSOA, Fernando, 314 PIAGET , Jean, 185 ss.; 285 PICHON, Jean-Charles, 83; 288 PIRANDELLO, Luigi, 346 PIRENNE , Henri, 255 PLANCK, Max, 64; 118; 142; 168; 177 PLATÃO, 39; 40; 45; 64; 68; 75; 1 14; 134; 141; 144; 145; 146; 158; 193; 220 PÖE, Edgar Allan, 43 POEZL, Otto, 99; 1 00 PONCINS, Léon de, 292 PRADO JR., Caio, 348 PTOLOMEU, Cláudio, 164 —Q— QUADROS, Jânio, 7 3 QUEVEDO, Francisco de, 299 QUINTILIANO, 193 —R— RACINE, Jean, 299 RAJNEESH , 58; 9 6; 102; 152 REBOUL, Olivier, 81 REDONDI, Pietro, 42 REICH, Wilhelm, 129 RIBEIRO, Lair, 4; 25; 88 RICARDO DE S. VÍTOR, 41

212 RICKERT , Heinrich, 236 ROBBINS, Anthony, 88; 147 ROBESPIERRE , Maximilien, 242; 243; 263 ROBISON, John A., 281 ROMANO, Egídio, 256 ROOSEVELT , Franklin D., 2 75 ROOSEVELT , Theodore, 291 RORTY, Richard, 46; 107 ROSA, Antonio Donato Paulo, 142 ROSENBERG, Fúlvia, 322 RUSHDIE, Salmán, 162 RUYER, Raymond, 179 —S— SÁ-CARNEIRO, Mário de, 314 SADE, Donatien Alphonse François, marquês de, 32; 137; 328; 348 SAINTE-BEUVE , Charles Augistin, 308 SAINT -EXUPÉRY, Antoine de, 327; 347 SAINT -M ARTIN, Loui s Claude de, 280 SALAZAR, Antonio de Oliveira, 277 SANTOS, Mário Ferreira dos, V. Ferreira dos Santos SARGANT , William, 100; 101; 102 SARTRE , Jean-Paul, 347 SAT IR, Virginia, 89 SAUVY , Alfred, 331 SAVIGNY, Friedrich Karl von, 364 SCHAFF, Ad am, 318 SCHELER, Max, 44; 75 SCHELLING, Friedrich Wilhelm von, 45; 210; 368 SCHU LZ, Johannes Heinrich, 69 SCHUMPETER, Joseph A., 332 SCHUON, Frithjof, 77; 159; 352 SCOT , John Duns, v. Duns Scot SCOTT , Ernest, 317 OLAVO DE CARVALHO SCOTT , Walter, 308 SCRUTON, Roger, 341; 347 SÉNANCOUR, Etienne Pivert de, 144 SÉRAN T , Paul, 281 SEYMOUR-SMITH, Martin, 317 SHAFTESBURY, Anthony, conde de, 185; 18 8; 192 SHAH, Omar Ali, 317 SHAKESPEARE , William, 299 SHELLEY, Mary, 314 SHELLEY , Percy B., 313 SIEGELMAN, Jim, 81; 90; 102; 103 v. CONWAY, Flo, 102 SILVA , Luís Inácio Lula da, 279; 334; SILVA , Vicente Ferreira da, 202 SMITH, Thomas266 SMITH, Huston, 352 SNOW , Charles Percy, 236 SÓCRATES, 36; 112; 115; 219; 220; 221 SODRÉ , Muniz, 63 SÓFOCLES, 39 SOLOVIEV, Vladimir, 264 SOURIAU, Étienne, 285 SOUZA, Octávio T arquínio de, 288; SPENCER, Herbert, 45 SPINOZA, Baruch de, 190 STÁLIN , Joseph Djuga schvíli, dito, 130; 146; 202; 212; 275 STENDHAL ( Henry Beyle), 308 STEWART JR., D onald, 347 STRAUSS, David, 211 STREICHER, Julius, 32 STRINDBERG, August, 317 —T— TAR CHER, Jeremy P., 151

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 213 TEÓCRITO DE QUIOS, 114 TEOPOMPO, 114 TERESA DE Á VILA, Sta., 37 TESTAS, Guy, 42 THOM AS, Gordon, 291 THOMPSON, E. P., 200; 311 TOLENTINO, Bruno, 24; 157 TOMÁS DE A QUI NO, Sto., 41; 44; 186; 190; 285 TORRES, João Camilo de Oliveira, 347 TRÓTSKI, Leon B ronstein, dito, 146 TROUSSON, Raymond, 328 TRUYOL Y SERRA, Antonio, 227 —U— UNAMUNO, Miguel de, 300 —V— VALLA, Lorenzo, 195 VEBER, Michel, 243 VEGA , Lope de, 299 VELOS O , Caetano, 122 VICO, Giambattista, 187; 188; 192; 196; 236 VIEIRA DE M ELLO, Már io, 139 VIETA ou Viète, François, 184 VIRGÍLIO, 193 VOEGELIN, Eric, 231; 269; 329; 330; 342 VOLTAIRE , François Marie Arouet, dito, 36 ; 44; 196; 348 —W— W AGNER, Yaakov, 294 W ASSERMANN, Jakob, 278 W ATTS, Allan 122 W EBER, Max, 150; 152; 192; 200; 253 W EIL, Éric, 75; 136; 294 W ELLINGTON, Duque de , 272 W ESLEY, John, 341 W HITEHEAD, Alfred North, 44 W ILSON, Colin, 317 W ILSO N, Edmund, 131 W ILSON, Woodrow, 275 W INDELBAND, Wilhelm, 236 W ITTGENSTEIN, Lu dwig, 45 —Y— YEATS, William Butler, 315 —Z— ZUÑIGA , Juan de, 175

“Um mestre.” HERBERTO SALES “Um gigante.” BRUNO TOLENTINO “Homem de reconhecida competência no campo da filosofia.” JORGE A MADO “Filósofo de grande erudição.” ROBERTO CAMPOS OLAVO DE CARVALHO, nascido em 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originai s e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferent es quanto Jorge Amado, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, He rberto Sales, Josué Montello e o expresidente da República José Sarney já expressaram su a admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho. A tônica de sua obra é a defesa da inte rioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escor ada numa ideologia “científica”. Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel en tre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um fo rmulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sól ido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas a ntigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carval ho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cu ltura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas língua s sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, nde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que s ubentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muit as questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Aristóteles em Nova Perspectiva — In trodução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes” ( “análise fascinante e — ouso dizer — definitiva”, segundo rma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Fe deral do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de c inema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento cu lmina em O Jardim das Aflições (1985), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de m oldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro d a cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte. É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a ampl itude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que intr oduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de pa lavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mu danças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à li nguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma pro fundidade surpreendente. A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmi ca, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos pr estígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multidão de leitores devotos, que e sgotaram em três semanas a primeira edição da obra. FOTO : ANA B RANCO (O GLOBO ).

em tipos Gaillard BT. e impresso no Brasil. .216 OLAVO DE CARVALHO 5 4 10 12 33 48 Este livro foi composto pelo processo de editoração eletrônica.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 217 .