O JARDIM DAS AFLIÇÕES

4 OLAVO DE CARVALHO

OBRAS DE OLAVO DE CARVALHO 1. Universalidade e Abstração e Outros Estudos. São Paulo, Speculum, 1983 2. O Crime d a Madre Agnes ou: A Confusão entre Espiritualidade e Psiquismo. São Paulo, Speculum, 1983 3. Astros e Símbolos São Paulo, Nova Stella, 1983 4. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes”. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 5. Os Gêneros Literários: Seus F undamentos Metafísicos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 6. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio, Astroscientia Editora, 1993 7. A Nova Era e a Revolução Cultu ral: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994 (1a ed., fe vereiro; 2a ed., revista e aumentada, agosto). 8. Uma Filosofia Aristotélica da Cu ltura: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994. 9. O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio sobre o Materialismo e a Rel gião Civil. Rio, Diadorim, 1995. 10. O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais B rasileiras. Rio, Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, 1996 (1a ed., agosto; 2a ed., outubro; 3a ed., abril de 1997 ; 4a , maio de 199 7; 5a , janeiro de 1998; 6a , abril de 1998). 11. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, Topbooks, 1996. 12. O Futuro do Pensam ento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Rio, Faculdade da Cidade Editora (1a ed., agosto de 1997; 2a ed., março de 1998). 13. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer. Rio, Topb oks, 1997. 14. A Longa Marcha da Vaca para o Brejo & Os Filhos da PUC. O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

OLAVO DE CARVALHO O Jardim das Aflições DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O M ATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL PREFÁCIO DE BRUNO TOLENTINO Segunda Edição, Revista

6 OLAVO DE CARVALHO Copyright © 1998 by Olavo de Carvalho Capa e planejamento gráfico: Ateliê 19 Assessoria em Comunicação R. das Laranjeiras, 531 / 16 F. (021) 225.1806 Fax (021) 245.2920 Rio de Janeiro RJ CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Todos os direitos reservados pela TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTD A. R. Visconde de Inhaúma, 58, gr. 413 – CEP 20091-000 Rio de Janeiro – RJ – Tel.: (021) 233.87178

§ 16. Epicuro e Marx ............................................................. ............................. 75 PREFÁCIO, POR BRUNO TOLENTINO.................... .................................................9 § 17. Comentários à 11ª “Tese sobre Feu erbach”........................................ 77 § 18. A tradição materialista ....... ..................................................................... 82 O J ARDIM DAS AFLIÇÕES LIVRO I: PESSANHA............................................ ..................... 19 CAPÍTULO I: A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA.................................................. ...21 § 1. Introdução. O que Epicuro veio fazer aqui, ou: Biografia deste livro21 § 2. A s conferências do MASP ........................................................... ................ 28 § 3. Pessanha e o pensamento Ocidental........................ ................................ 31 LIVRO IV: OS BRAÇOS E A CRUZ..........................................89 CAPÍTULO VII: O MATERIALISMO ESPIRITUAL........................................... ..91 § 19. A divinização do espaço (I): Pobres bantos .................................. ...... 91 § 20. A divinização do espaço (II): O infinito de Nicolau de Cusa ........... 94 § 21. A divinização do tempo (I): A força dos meios.................................. 105 § 22. A divinização do tempo (II): Beaux draps.................................... .......114 CAPÍTULO VIII: A REVOLUÇÃO GNÓSTICA.......................................... ..........120 § 23. Revisão do itinerário percorrido ................................. ........................120 § 24. O véu do templo .................................. .....................................................121 § 25. Leviatã e Beemoth ... ................................................................................ 127 LIVRO II: EPICURO............................................................... ... 51 CAPÍTULO II: COSMOLOGIA DE EPICURO................................................ .........37 § 4. Uma profissão-de-fé epicurista. A matéria segundo Epicuro ............. . 37 § 5. Um piedoso subterfúgio.................................................... .......................... 39 § 6. A imaginação dos deuses. A eviternidade............ ................................... 41 § 7. Epicuro crítico de Demócrito.............. ...................................................... 42 CAPÍTULO III: ÉTICA DE EPI CURO.......................................................................44 § 8. O remédio de todos os males...................................................... ................ 44 § 9. A abolição da consciência...................................... ................................... 46 CAPÍTULO IV: LÓGICA DE EPICURO............... .....................................................52 § 10. A fumaça e o fogo..... ................................................................................ .. 52 § 11. O convite ao sono .................................................... .................................. 53 § 12. A Servidão Voluntária..................... ......................................................... 56 § 13. Dos cães de Pavlo v ao lava-rápido cerebral ....................................... 58 CAPÍTULO V: A ÍND OLE DO EPICURISMO.........................................................65 § 14. Porcarias epicúreas.............................................................. .................... 65 § 15. A fuga para o jardim................................ ................................................. 69 LIVRO V: CÆSAR REDIVIVUS................................................130 CAPÍTULO IX: A RELIGIÃO DO IMPÉRIO.................................................... .....131 § 26. De Hegel a Comte................................................... .................................131 § 27. Translatio imperii. Breve história da idéia imperial. ........................133 § 28. O Império contra-ataca ................ ..........................................................147 § 29. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) .......................149 § 30. Aristocracia e s acerdócio no Império americano (II) ......................159 § 31. De Wilhelm Meister a Raskolnikov......................................................162 § 32. As n ovas Tábuas da Lei, ou: O Estado bedel .....................................168 CA

........................7 5 ..................................................... LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR ........................... ................................................................. ....................................................... ................................ 133 CAPÍTULO VI: A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO....................................... ........PÍTULO X: NA BORDA DO MUNDO......176 § 33..................177 Post-scriptum................................................................................. Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições.194 BIBLIOGRAFIA ....196 ÍNDICE ONOMÁSTICO ........ ............ ..206 LIVRO III: MARX.......... ...

cumprida mal ou imprecisam ente. mas pela ordem dos capítulos — e peço que entenda isto como receita médica. Jo sué Montello. com começo. quando o companheiro teve quatro em seis meses. este livro não merece u do público a atenção que se concedeu generosamente a seu irmão menor. Só repito o apelo a que o leitor não o leia de viés e saltado. enquanto O Imbecil não passa de uma c oletânea de notas de rodapé que não couberam no rodapé. é es te. Leopoldo Serran e muitos outros. Vai para a segunda edição após dois anos. Solicitando humildemente a parce la de audiência a que julga ter direito. melho rado em detalhes de l nguagem e sem as gralhas i mais visíveis da primeira edição. No entanto é dos dois o melhor e o único que constitui propriamente um livro .8 OLAVO DE CARVALHO NOTA DO AUTOR À SEGUNDA EDIÇÃO pesar dos elogios de Antonio Fernando Borges. O Imbecil Coleti vo. coisa unida e coesa. trará mais dano que benefício. Roberto Campos. O Jardim comparece limpo e correto. Herberto Sales. Mas não aumentado: se há um livro em que o autor disse tudo o que nele queria dizer. que. meio e fim. Vamireh Chacon. A OLAVO DE CARVALHO .

de marca universitária e de cunho dogmático-materialista. Obra eletrizante. Contra tudo isso. Sedimentado através dos séculos pela perspicácia de uma nobre linhagem . esse método de investigar o como e o porque do ser-nomundo. ou mesmo de suas idéias. Afortuna damente neste último. o sufoc ante mundinho dos cortesãos e doutores de mais uma trópica Bizâncio?). tem a vantagem de respeitar os dados do real. Não estou desmerecendo do esforço d e ninguém. pelo mundo-comoidéia. ferve a humanidade. Gianotti.. como a tampa que subitamente abandona a marmita. não tanto aonde leva o labirinto lingüístico do vienense em sua versão paulistana (c’est assez que Quintilien l’ait dit. mas da tarefa que se propôs. numa visão inquietante do sentido universal da aventura da inteligência moderna. Assim. o anestesiador de gerações uspianas. Tanto mais se. inevitavelmente sempre a idéia do mundo mais em voga a um certo momento. estou celebrando meu alívio de que a tampa da marmita se tenha afastado d e mim o bastante para deixar-me perceber. Caligari em que se vai transformando entre nós a veneranda idéia de Universidade. não tant o do autor. No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabarse é ainda. Soube-o enfim graças à claridade que. Dr. dados e fatos. Quem quer que te nha lido de cabo a rabo este livro há de convir que vive um destes momentos privil egiados. nunca a partir dos fatos segundo a intelligentzia. dos dados de um problema aparentemente sem maior importância no plano das idéias (que importa. A esse respeito. e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão. de estirpe marxista . Que o leitor leve em conta o caráter. tiver suado frio por semanas sob o peso das cen tenas de impenetráveis páginas que nosso mais reputado e menos aspeado filósofo atual. mas onde começam meus inadiáveis problemas de brasileiro acuado há décadas pela futilidade d o ininteligível. os três inseparáveis element os da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 9 PREFÁCIO BRUNO TOLENTINO e quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual. Com efeito. . como eu. ou sobretudo. rica e complexa. insurge-se com toda a lucidez o vigor d este livro. única justificativa à intrusão de um prefácio em obra tão límpida. o argumento central deste aflitivo j ardim evolui à maneira de um crescendo para desafiadoramente elucidar-se apenas na s duas partes finais: “Os Braços da Cruz” e “Cæsar Redivivus” são a sístole e a diástole do c vo desta obra alarmante. viga mestra de todo esforço de verificação filosófica. o autor extrai uma estonteante exposição de significações. perfeitam nte capaz de tudo dizer por si mesma.. Refratário à leitura t ransversal ou salteada a que às vezes incita. O Jardim das Aflições. achei-me no pólo oposto à perplexidade em que vivia durante a leitura que digo?! durante a suadíssima mineração que empreendi nas duras e obscuras galerias sublinguais daquele celebrado duo: o ascético autor do Tractatus (ou das Investigations?) e o ex-Papa Doc. uma adv ertência apenas. inclusi ve os pressupostos do saber acumulados pela tradição. esD perava-me um convite a bem outro tipo de investigações: as que se ocupam de verifica r o real a partir da inteligência e dos fatos. de seu sentido cuidado samente oculto. Inclusive. atual Papa pálido da enrubescedora tropa-de-choque investigada neste jardim de aflições. mas de fácil leitura justamente por causa e não a despeito da formidável erudição em que se firma. paradoxalmente. a quem de fato pense o mundo. fui encontrar n a lição de trevas deste livro. São raros esses momentos. e em pa rticular contra a espécie de Gabinete do Dr. mas de uma clareza própria a desnudar como nun ca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver. dedicou recentemente às investigações do surrado materialismo lingüístico de Wittgenstein. segundo ele. ). em vez de buscar substitui-los .

Ao contrário. por detrás de suas cátedras como abutres encapuzados em toga s e títulos. ou seja. expõe. É talvez o primeiro esforço de Olavo de Carvalho p ara pensar em público segundo sua Teoria dos Quatro Discursos. com os que somos e continuamos a ser submetidos a uma contínua barragem de slogans e esoterismos a transpirar int enções nem lá tão ocultas assim. Seu método de composição.10 OLAVO DE CARVALHO Só que. capazes de levar a questão a uma resolução maximamente exata (Lógica). explica. ao acompanhar um filósofo de verdade em sua minuciosa e exaustiva investigação de um embuste. o olhar que põe tudo isto a nu vem do olho agudo d e um filósofo nato. de um sujeito que não pode não pensar. Claro. torna-se enfim possív el dar esse passeio para fora das brumas do obscurantismo idealista doublé de peda ntismo acadêmico. à primeira vista paralelo a os procedimentos sinfônicos de um Sibelius. invariavelmente alienígenas. para citar apenas um “compósito” que à primeira vista pouco tem de ost ensivamente filosófico. Mas que o leitor não se apresse. que trabalho tão ímpar. da esquematização objetiva que atribui a um conjunto de dado s sensíveis uma figura dotada de sentido (Poética). graças à coragem intelectual de um er udito que não se esconde atrás do que sabe. à diferença de compêndios bem mais ao gosto do dia. o u seja. com você. no sentido agostiniano) vai-se definitivamente elaborar. um tanto paradoxalmente à maneira d e um tutti orchestrale. Longe de constituírem um empecilho ao entendimento. tudo o que aqui vai tem a ver e urgentemente comigo. o que andou e anda fazendo em nome da inteligência como desdentado s leões de circo. não há como tomar esta obra apenas como a hábil ampliação de um panfleto. assi m. A tarefa específica do filós ofo seria. como o entendem os “atuais” pupilos do Dr. a presente identificação entre filosofia e adiposidad e de jargão é fenômeno tão moderno quanto os enlatados de supermercado. proposição de seu ensaio pioneiro. através do combate retórico. por exemplo. parta de impressões subjetivas para. antes nos convida a examinar com ele o q ue investiga. Rio. só tem a perder suas ilusões a respeito da serie dade dos donos da hora. Graças a sua inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual. O que certa gente quer e persegue com uma obstinação de cachorro magro. Uma Filosofia Ar istotélica da Cultura (IAL & Stella Caymmi Editora. confr ntando e hierarquizando. . nisto ao menos. este livro não é resíduo de tese e doutoramento nem se propõe a enfeitar a carreira de mais um philosophe local cev ado na massuda monotonia dos gabinetes à la page. acha-se logo em excelente companhia: no Ocidente a filosofia pós-helênica teve muito cedo entre seus cumes obras como as Confissões de Santo Agostinho. num conjunto de investigações dialéticas. calca-se no entanto em mo delos bem mais antigos e prováveis. mo ntar as oposições que só na conclusão (naquelas duas últimas partes. Nada de estranhar. a de colher as questões ao nível retórico e elaborá-las em hipóteses formais para as entregar à busca de uma solução lógico-científica. E dá-lo com toda a clareza através de um assustador pomar de aflições. Segundo o Aristótele s de Olavo de Carvalho. indicaria o sentido de uma solução racional (Dialética). O leitor. leitor. Sobre essa mass a crítica do acúmulo dos esforços retóricos seria então possível o exame dialético que. ou Livros. por menos que assi m fazendo consiga caber nos moldes. ficará perfeitamente claro ao longo do passeio em que nos guia a a gudeza da leitura que Olavo de Carvalho faz da história das idéias no Ocidente. Há que lê-lo até seu eletrizante gran finale para perceber t odo o escopo deste livro singular. Só então tornar-se-ia factível estabelecer métodos e critérios propriamente científicos. A pedanta ria engordaria bem mais tarde. como nos adverte uma nota do autor. a gênese como a elaboração da obra aqui ajudam muito o l eitor: a mim pareceu-me muitíssimo estimulante progredir através da “multiplicidade de temas e planos que faz a trama compósita deste livro”. de um conhecido e bem mancomunado establishment. emanariam interpretações discordante s fortalecidas no confronto das vontades que as apoiam (Retórica). portanto. 1994). Caligari. e em última análise tão aterrador quanto o estrilo de um desper tador à meia-noite. O qual. Passamos a ver claramente o que por estas bandas nos vem tapando a mente e sufocando o espírito. de imposturas orquestradas como filosofia e penduradas ao nada como amor as de mentirinha.

I. insubm isso e fértil para muito além das meras conjunturas de nossa douta e crônica tropicali dade atávica. e por isso mesmo no meu ver indispensável hoje. em curso de publicação pela Fac uldade da Cidade Editora. sem pisar-lhes a uns e outr os seus explosivos ovos de cobra. faz-se por isso mesmo apaixonante e como que compulsiva. à diferença do modelo hegeliano a dialétic a de Olavo de Carvalho não buscaria uma síntese temporal futura. seu peso erudito. a bem dizer. principiais. Caio Prado Jr. a leitura deste livro (às antípodas do tijolaço com que acaba de brindar-nos o a cima citado mentor de uma filosofia tão nativa quanto uma agência de importações. O qual. para chegar de olho aberto a Kurt Gödel e a Éric Weil. ora lógica. acaba por não pesar. existente apenas como apostila didática no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades do 1 Instituto de Artes Liberais do Rio de Janeiro) ajudou-me a elu cidar algo mais o método deste pensador originalíssimo até mesmo na forma a que molda seu discurso. não se tenha dado um código senão para subme tê-lo às necessárias infrações do ato criador. Rio. Aristóteles. IAL & Stella Caymmi Editora. e não raro ambas as coisas. passou reverente pela nata da sabedoria escolástica de Sto. em caminho inverso. ou de substituição de importações) sua leitura. Não se trataria aqui do conhecido modelo tese-antítese-síntese. 1993). Seus Fund amentos Metafísicos. (v. como se vê. como ao tempo da formação intelectual do autor era cronicamente o nosso. seja o etéreo campo minado do guénonismo. É que. Leitor multilingüe. estes dois gigantes modernos. partiu very advisely do seu e nos so Pai de Todos . e po r conta dos provados e clássicos valores que o forjaram e o sustêm. saudou e desnudou os belos fantasmas do platonismo. é sempre anterior àqueles termos. incansável e metódico. áspero e lúcido.. PhDs. Ou seja: nosso homem parece partir de uma antítese observada no campo dos fatos para hierarquizar os termos opostos e resolvê-los no princípio co mum de que emanam. teve que aprender quase sozinho a imensidão do que hoje sabe. thank God! Resta que nada disto é aceitável. Per strada ci rcunvolteou sabiamente seja o pot-pourri liliputiano dos hoje inúmeros e celebrado s philosophes. Como se tem v isto. Surpreendente é vê-lo sair da mesma pena que ainda recentemente nos dava uma rigidíssima teoria dos gêneros. Mais uma surpresa num pensador inclassificável. . subv en2 Reproduzida no volume A Dialética Simbólica. reafirmo. por natureza.. Ensaios. Tomás de Aquino a Leibni z. e talvez por isso m esmo o tenha sabido inscrever no mármore candente da mais limpa tradição letrada do Oc idente 2. Até então eu não havia encontrado est e método aplicado à construção de uma sistemática propriamente filosófica. por décadas entre o fuzil da Redentora e o realejo utopista de nossa inc urável e festiva intelligentzia. mas sim. Olavo de Carvalho (parece incrível naqueles te mpos de tanta seca!).O JARDIM DAS AFLIÇÕES 11 Misto de memórias e ensaio filosófico. pelo que me pareceu perceber. Uma conferência sua semi-inédita (“A dialéti mbólica”. à maneira de todo poeta frente à própria poética. Mas talvez o autor. ao nosso encruado marxismo universitário. Miguel Reale. espécie entre nós. João Cabral de Melo Neto. de política e de meta física. de um movimento tripartite oposiçãocomplementação-subordinação. Murilo Mendes. cátedras. mas antes recuaria a condições prévias. ora cronologicamente. mas nele pareceume reconhecer a rica tradição da hermenêutica simbólica. Mário Ferreir a dos Santos. Os Gêneros Literários. Já não hesito mais: tenho o pensamento de 1 Olavo de Carvalho por paradoxalmente intemporal e atualíssimo. honrarias. Luís da Câmara Cascudo. de reportagem e panfleto. no corpo a corpo do autodidata sem alternativas num país ocupado pela legião dos ressentidos ou pelos batalhões de imbecis. Capistrano de Abreu Manuel Bandeira. muito mais merecido que aos diplomas. sem nada perder em densidade. a exemplo de Machado de Assis. menos ainda familiar. ao quanto pude perceber. Olavo de Carvalho. aportou a Schelling e a Husserl. Sim. Sua forma mentis foi evidentemente forjada a fogo. tal receita é própria antes ao recebimento de aspas aposto ao seu justíssimo títul o de filósofo. e tantos outros espíritos livres da raça.

“Harold Bloom contra-ataca”.” ( Harold Bloom. para ler e escrever sozinhos. 6 de agosto de 1995. Folha de S. mas não como pr ofessores universitários. garantam a sobrevivência do jeito que for. ) . Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria . porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade. Façam qualquer outra coisa. Paulo.E não é só no Brasil que a decadência das universidades acaba por revalorizar o autodida tismo: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação.

como toda verdadeira vocação filosófica. subserviência ou sim plesmente descaro. ou antes. É que. são mais que horas de acordar para cuspir. tão patentes em nosso incipientíssimo e prudentíssimo intellectual output. patenteado uma vez mais neste livro imperdoável. a de Olavo d e Carvalho é incompatível com o alinhamento compulsivo (e repulsivo) a que nos vêm aco stumando por aqui os donos de cátedras et caterva. dos zumbis. Rio. soa-me como o clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação. Que os mortos ent errem seus mortos: sai da frente. pendante.. SP. not least. nosso retrato assustador. ne ologismo de rigueur ante tantas pedânticas pendências e dependências das infindáveis lis tas de importações canonizadas. Co esta sua rigorosa e instigante investigação de aflições mais um livro do campineiro for a dos eixos segundo os importadores das fórmulas da invenção da roda . Nesse empolado contexto. que onde deixei um país encontrei trinta anos depois um acabrunhante acoplamento d e pedantaria e show business. .. São Paulo. a alegre festa no velório acaba uma vez mais! com es te admirável livro. e pensar! Quanto a mim.. acabou por avisá-lo sobre o que de fato valia o que perdeu. suicídio. Olavo de Carvalh o volta a nos dizer em alto e bom som: basta de sestas à sombra da utopia e do mar asmo mental. O Jardim das Aflições. julho de 1995. sua fulgurante crítica do binômio Epicuro-Marx é pura heresia. dos hipnóticos hipnotizados? O suicídio em termos acadêmicos d e Olavo de Carvalho. Sem dúvida a circunstância dessa solidão defensiva e profilática o terá. ajudado a balizar justamente o terreno minado da autocastração por timidez. anátema. se por um lado desencorajaram de munirse de títulos prestigiosos a quele que dentre nós hoje possui talvez o intelecto mais corajosamente individual entre seus pares. tão ao gosto da fábrica de esterilidades diplomadas com sede à Rua Maria Antôni a. leitor. Mas a quem lhe importaria alongar a sobrevida na cidade do mortos.. Os tremeliques de Mademoiselle Rigueur.12 OLAVO DE CARVALHO ções e sabujices de nosso perigosíssimo establishment pensante.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL TOPBOOKS .

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M ERI ANGÉLICA HARAKAVA e S ANDRA TEIXEIRA resolveram mil e um pequeno s e grandes problemas que teriam adiado sine die a publicação deste livro. a superar encrencas da vida prática que sem sua generosa interferência teriam me absorvido por completo e talvez inutilizado o meu pobre cérebro por alguns anos. numa épo ca em que tudo em minha vida me convidava a dispersar meus neurônios em trabalhos menores. me incentivou sem descanso a que a completasse. ROXANE ANDRADE DE S OUZA. OLAVO DE CARVAL HO . LUIZ AFONSO FILHO.AGRADECIMENTOS M UITA GENTE me ajudou a realizar o projeto deste livro: BRUNO TOLENTINO. de vários modos. KÁTIA M EDEIROS. um pouco a cada uma dessas pessoas. Esta obra pertence. JOSÉ ENRIQUE BARREIRO . dando-me apoio moral e muitas sugestões valiosas. LUCIANE AMATO. CLAUDETTE ALVES DUCATI e JÔ BRITO ouviram a leitura de mui tos capítulos. M ARIA ELIS A ORTENBLAD e PAULO VIEIRA DA COSTA LOPES me ajudaram. DANTE AUGUSTO GALEF FI e seus alunos da Universidade Católica do Salvador devolveram-me a confiança nos jovens estudantes brasileiros de filosofia — leitores sem os quais este livro não fa ria sentido. por afeição e gratidão. a quem li os rascunhos da obra.

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de um tipo tão fátuo que era impossível calcular-lhe a origem por qualquer processo racional. Lætitia Cruz de Moraes Vasconcellos ( O Agente Secreto. Imago. co mment justifier leur raffinement... qui révèl e un goût lucide. de superflu. ou mesmo irracional.the War by Sea enormous & the War by Land astounding. 1995 ). erecting pillars in the deepest Hell to reach the heavenly arches. de pensamento.. une lucide d éléctation?” GEORGES BERNANOS 3 Trad.“. Pois a irra cionalidade malévola tem os seus processos lógicos próprios.” 3 JOSEPH CONRAD “Car si désireux qu’on soit de trouver une cause naturelle à ces tragiques abérrations.. sangrenta futilidade. Rio.” W ILLIAM BLAKE “. ce je ne sais quoi d’inutile. .

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PESSANHA - .LIVRO I .

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Macmillan. para essa gente. ao tomar posição pró ou contra logo nas primeir as páginas — ou. de uma cultura. e uma tese filosófica pouco significa se amputada das razões que a ela conduzem e das motivações ge radoras da pergunta a que responde. men of undo ubted talent are often beguiled by phrases. Mas contra o segundo dos males mencionados só cabe o recurso de contar os f atos. que não obstante consiste — posso garantir — em coisas cuja relevânci a transcende infinitamente a pessoa do autor. estará se enganando a si próprio. ao fundá-la numa impressão do momento —. Habituado por uma longa autodisciplina a suspender o juízo até encontrar uma evidência ou uma prova suficiente. nesse sentido. Introdução. indignada ou mansa. 417. A necessidade a que me refiro provém do seguinte: este é. here and in other parts of South America. apenas o boneco de ventríloquo de um interesse col . pois. Transgrido aqui as boas maneiras por necessidade in trínseca do assunto. a espumar de cólera ante a opinião adversária. fazem parte do assunto. no ar. sem saber a que coisas e seres se refere na vida deste mundo . uma tristeza desesper ançada. de um país. 1912. quando ele é. No caso deste liv ro. de outro. A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA § 1. onde vigora o pressuposto dogmático de que uma idéia ou doutrina qualq uer nada mais pode ser que a expressão do desejo de poder de uma classe. o seu verdadei ro sentido. mas também alguns brasileiros. Fora uma perturbação da alma. ou: Biografia deste livro “It is strange to find that. Mas não foi na da disto. sabendo ou não. e de que. Co mpreendo perfeitamente que as pessoas intoxicadas por essa atmosfera enxerguem o u finjam enxergar um mero truque de retórica na minha afirmação de não ter partido de co nvicções prontas. portanto. Digo en tão que o miolo destas páginas redigi numa só noite de maio de 1990. a sinceridade individual não tem valor. toma de fato um rumo bem 5 diverso daquele que parecia anunciar no começo . tomando este livro como expressão de opiniões prontas. and seem to prefer words to facts. p. sem tomar o cuidad o de seguir até o fim o fio dos argumentos onde se manifestará. devo advertir que as opiniões expres sas no começo são apenas um começo. uma agita5 South America: Observations and Impressions. como um bom convidado à mesa. que aceitá-las ou rejeitá-las in limine é impedir-se 4 de entender aonde levam. o autor refere-se especificamente ao Brasil. de uma raça . principalmente norte-americanos. pior ainda.CAPÍTULO I. Isto projetará tal vez a imagem de um fanático. o leitor pode acolher ou repelir a tese em abstrato. ouvid as algumas horas antes numa conferência sobre Epicuro no ciclo de Ética que a Secret aria Municipal de Cultura promovia no Museu de Arte de São Paulo. investigação que. que o leitor. uma decepção. De pouco adiantará alegar que fui perfeitamente sincero. pode rejeitar de cara a formulação mesma da pergunta. isso é absolutamente obrigatório: os acontecimentos que o sugeriram determinaram as condições em que foi escrito — as quais. do meio para diante. Daí a conveniência de garantias preliminares con tra um duplo equívoco possível: de um lado. já que o indivíduo não pensa e é sempr e. O que Pessanha suscitara em mim não fora uma discordância. sob o impacto da aversão que haviam despertado em mim as palavras de José Américo Motta Pessanha. como há d e ver quem o leia até o fim. de expor a situação real e vivida de onde a pergunta emerge. No trecho citado. só então. não deve ir logo de entrada falando de si mesmo. surpreendo-me ao notar o quanto essa habilidade pode s er deficiente em intelectuais militantes afeitos a buscar numa idéia antes seu pod er de mobilização do que sua veracidade intrínseca.” 4 JAMES BRYCE U M ESCRITOR EDUCADO. London. fanática ou razoáve l. um livro de filosofia. Contra o primeiro desses equívocos. dentro de certos limites. querendo ou não. — O que Epicuro veio fazer aqui. substancialmente uma investigação. a pressão coletiva e a intimi dação autoritária são meios não apenas legítimos mas preferenciais do debate intelectual. A carência absoluta dessa habilitação po de chegar a ser mesmo uma conditio sine qua non para a aquisição de respeitabilidade em certos círculos universitários.

edição]. . Deixo a essas criaturas a tarefa extremamente científica de desencavar das sombra s o secreto autor coletivo destas páginas. na convicção nada acadêmica de havêlas escrito eu mesmo. [Nota da 2a.etivo que salta sobre as intenções do coitado e diz pela sua boca o que bem entende. e permaneço. malgrado tudo.

Saí dali enjoado como um autêntico careta sai de uma festinha de emb alo. de técnicas psicológicas que. mas ali eu só encontrara pesares e aflições. produzindo feridas num estrato profundo que os meros argumento s não atingem.22 OLAVO DE CARVALHO ção soturna carregada de maus presságios. próprio somente p ara o tratamento de doentes mentais inacessíveis à comunicação consciente. varei a madrugada anotando objeções e protestos que . debilitando suas inteligências para que nunca mais atinem com a idéia certa. Não havia ali uma única brecha por onde pudesse se introduzir u ma discussão inteligente. de Programação Neuroli güística. Vira-as também em demonstrações de hipnose. estar lhe transmitindo cultura. Eu saíra dali em estado de estupor. até que. tentando adormecer. 1991. seria aí tão descabi do quanto tentar deter um assaltante à força de citações do Código Penal. Querendo ou não. movia o eixo dos globos oculares. Puro feitiço. era a sua densidade. Saltava da cama com a cabeça fervilhando. Mais tarde foi publicada no volume coletivo Ética. O grumo compac to de absurdidades exalava uma radiação debilitante sobre as inteligências. O que mais me impressionava. eu me tornara o sintoma denunciador de uma neuros e coletiva. via em alucinações as poltronas d o MASP lotadas de zumbis sem olhos. juízo crítico. como uma neurose. A ação do feiticeir passa ao largo da consciência. sugestionadas pela voz melíflua. Não que nunca tivesse visto coisa igual. Feridas insensíveis. como crianças a seguir m um novo flautista de Hamelin. numa deliqüescência mórbida. na trama de erros tecida por Pessanha. fazendo ver tudo diferente do que era. aspirando o adocicado perfume do esquecimento. move tendões e músculos. no melhor estilo Lair Ribeiro. pelo jogo de imag ens que dava às lorotas mais óbvias um intenso colorido de realidade. ao menos não proclamavam. por profissionais da dominação psíquica. com isto. Vira muitas. Tudo o que a platéia não quisera ver parecia ter se condensado no meu subconsciente. exi gindo vir à tona. hipnotizá-lo e arrastá-lo delicadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se cu varia com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso. mesmo com veemência fanática. remexe os órgãos dos sentidos. contra minha vontade consciente de adormecer e esquecer. reduzindo o cérebro humano a uma passividade veget al. Companhia das Letras. O primeiro move-se no reino das palavras. precisamente: as frases de Pessanha eram um entorpecente. Em casa. que só começarão a doer quando for tarde para curá-las — quando a lembrança de sua origem estiver demasiado apagada para que se possa iden tificar o rosto do agressor. instaura novos r eflexos involuntários. ela se esquiva ao olhar humano e vai exercer seu domínio dire tamente sobre o macaco residual que habita em nós. O que me espantava era que esse gênero de manipulação. ou então para u sos perniciosos e ilícitos. perdida toda vontade de enxergar. Há uma grande diferença entre o doutrinador que mete simplesme nte na cabeça das pessoas uma idéia errada e o feiticeiro que as adoece. um vício. Um público de quinhentas pessoas subm etera-se à intoxicação com sonsa alegria. diminuída. env enenava os cérebros. mas somente produzidas por feiticeiros confessos. O Jardim de Epicuro parec ia-se estranhamente com o Jardim das Oliveiras . ela salta por sobre a mente. fixá-lo num estado de apatetada pass ividade ante o fluxo de sugestões. no recesso de seit as obscuras que não se adornavam do prestígio da autoridade acadêmica nem se abrigavam sob a proteção do Estado. a alma da vítima se amoldasse às t revas como num leito fofo. produzia a acomodação progressiva a um estado de penumbra. “Discordar”. Era isto. tivesse deixado o recinto das clínicas psiquiátricas e das . Cada palavra parecia calculada para desviar a atenção do ouv inte. São Paulo. O segundo exerce uma ação quase física. uma droga. de lucidez 6 “As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”. autoconsciên cia. que entrava pelos ouvidos da platéia. não conseguindo pegar no sono. ela não pode ser desfeita pela pe rsuasão racional. Meras opiniões não produzem este efeito. que podem ser enfrentadas com palavras. O título prometia “delícias”6. Não sei se me faço compreender. impedi-lo de olhar o assunto de frente. sem crer no que a cabara de presenciar. Cheguei em casa pela meia-noite e. num giro louco da tela do mundo. não cessavam de brotar como reações de um organismo febril à invasão de uma toxina.

seitas ocultistas. mas nunca imaginara que a coisa pud esse baixar a esse ponto. doloridamente consciente do declínio intelectual b rasileiro. para ser empregado por acadêmicos como um sucedâneo da transmissão de idéias. Su- . Eu estava consciente. da debacle do ensino universitário.

Tive então um impulso de retomar este trabalho. para mim. tenciona ndo dar-lhe mais tarde uma forma final e remetê-lo a Pessanha. da campanha pela “Ética na Política”. consolava-me com aquelas palavras que as avós sempre dizem quando a gente d espenca da bicicleta: “Do chão não passa. se lhe interessasse. mas se mostravam incapaz es de dar qualquer noção clara do que ele dissera. Ele fora um sinal de largada. de sfazer o macabro encantamento. o público era convidado a mergulhar num abismo de inconsciência. na maçaroca de papéis que trouxera de São Paulo comprimida em cinqüenta e tantas caixa s. Co mo sempre acontece em tais situações. li o manuscrito para uma roda de amigos e o guardei. É verdade que tout commence en . Foi só em fins de 1992 que. int raduzível em palavras. onde. na treva sem fim de um definitivo adeus à inteligência. até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do Sr. Collor de Mello. o curso dos eventos polític os tomou um rumo imprevisto e. mas em resposta recebi aquele sorriso de condescendência desdenhosa com que o detentor de um segredo beatífico marca a distânci a que o separa do profano. Eu nunca tinha visto José Américo Motta Pessanha. Ocupações variadas desviaram-me para outros assuntos. cogitando as razões da súbita e inusitada popularidade adquirida pela palavra “ética”. como se as mais pr ofundas exigências morais da nação tivessem sido cabalmente saciadas mediante a simple s dispensa daquele infausto mandatário. tinham sido realmente os únicos objetivos da campanha. Guardavam uma impressão difusa. Após cinco tentativas falhadas. no fundo de uma gaveta. Mas conhecia sua fama e havia notado nela um traço p eculiar: seus ouvintes saíam f ascinados. o chão se abrira: pelas mãos de Pessanh .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 23 punha que a redução do pensamento à tagarelice ideológica fosse o limite inferior da dec adência. que ficou jazendo. Esse exorcismo constitui duas quintas partes do presente livro. recuperar o senso do real momentaneamente entorpe cido pelas artes de um feiticeiro. com o convite para uma réplica. não pude encontrar o manuscrito. Na noite seguinte. mas absolutamente nada. senão para melhor atingir o alv o particular. Mas . segundo o qual a essência de uma coisa é aquilo em que ela enfim se torna. esclarecedor. Não consegui conciliar o sono. assumi qu e era um sintoma vivo e me encaminhei ao divã mais próximo — a máquina de escrever — para verbalizar os conteúdos neuróticos que a magia de Pessanha injetara em meu cérebro. amplas e profundas. Fernando Col lor de Mello da Presidência da República. a quem a platéia ind enizava com tanto mais fartura de aplausos fúteis quanto maior a quota de compreen são que lhe sonegava. e me acompanhou em uma mudança de cidade e cinco mudanças de casa. Nos meses seguintes. examino a filosofia — ou seja lá o que for — de Epicuro.” De súbito. me dei conta do papel que tivera aquele ciclo de conf erências n preparação discreta de acontecimentos que depois iriam a avolumar-se e desa bar sobre o país como uma tempestade. Imaginei apenas que fosse um sujeito abstruso. que não c omeçara propondo metas tão gerais. Apaziguei minhas inquietações explicando essa reação como esn obismo do público. Nada. Imprevistos e correria s de uma vida anormalmente repleta deles impediram-me o retorno a este trabalho. esqueci Pessanha. empenhado em desarraigar da nos sa mentalidade política alguns vícios seculares. me fazia antever o que encontr ei no MASP. Alcançada esta meta. ache i então que a destruição política do Sr. verbalizá-los foi o bastante para exorcizá-los. Meditando os eventos à luz do preceito de He gel. No fundo. quase inaudível. Larguei Epicuro. e a conseqüente ascensão das esque rdas à posição dominante. foi estreitando cada vez mais seus objetivos. ao fio dos argumentos de Pessanha. a campanha festejou o e vento como se ele tivesse dado plena satisfação aos seus anseios. interminado e tosco. envolta num halo de prestígio místico. A alguns objetei que o m esmo acontecia aos ouvintes de Hitler. tecendo ao conferencista os maiores elogios. A campanha da “Ética”. era o que eu quer ia. de modo a curar-me dela para sempre. que começa ra como um amplo movimento de conscientização moral. antes da publicação em livro. estreito e raso que lhe interessava. sem suspeitar que ela pudesse fornecer algum indício quanto ao ca ráter do orador.

mais empen hada em descobrir e revelar a verdade. que a farsa de uma ética reduzida a grosseiras expressões d e ressentimento parecesse contentar a todos os cérebros incumbidos. apela a todas as forças intelectuais da civilização. quando comparados à persistente in diferença ante o escândalo das “polonetas” (empréstimos irregulares ao governo comunista d a Polônia). que trouxe ao Brasil muito mais prejuízo do que o ex-presidente e todos os “anões do Congresso” somados. Mais tarde. Foi a uniformidade do . Tudo isso é muito normal em política. no entanto. parecia escapar inteiramente àqueles mesmos que o protagonizavam8. os âncoras de TV tinham se tornado g uias e orientadores da intelectualidade mais pomposa e autoritária. por vontade própria. em troca de resultados políticos de valor duvidoso. O estranho era que a inaudita mobilização da c lasse intelectual não desse à campanha nem mesmo um arremedo de rigor. Governantes muito mais poderosos que o Sr. Só para dar um exemplo. Estávamos. é a unanimidade d a sua adesão a esse objetivo. mas todos os órgãos de comunicação. de ser exigentes consigo mesmos. com afinação de um coro multitudinário regido por uma só vontade. cuja singularidad e.24 OLAVO DE CARVALHO mystique et finit en politique. parece que o Brasil. é realmente um daqueles casos em que o excesso de chumbo só faz ressa ltar pateticamente a míngua de passarinhos. com festiva credulidade. Não era possível que. os esquerdistas buscavam uma compensação por duas décadas de humilhações. o desejo de vingança ain da tivesse força bastante para obnubilar todas as inteligências. um aspecto estranho. como se a destruição de seus desa fetos políticos valesse a abdicação de toda inteligência crítica. em princípio. tinham sido derrubados com muit o menos investimento intelectual. vasculham os esgotos da República. mais independente. Collor. que se deixava guiar ao som de slogans. mas o espantoso. por um só c itério de valores. Não há neste país um só jornal. acobertar suspeitos. Uma campanha de escala nacional que se apoia numa retaguarda filosófica. perseguindo os rem anescentes de uma ditadura que não tinham conseguido vencer e que só se desfizera. de sta vez contra deputados e empreiteiras. Amigos com quem comentei o caso explicavam-no pelo revanchismo: como macacos a espancarem a onça morta. A revanche era tardia demais. na esqui8 A onda de ira nacional contra Collor e depois contra os deputados envolvidos em desvios de verbas são casos ainda mais estranhos. diante de um fenômeno estranho. os inimigos já estavam quase todos mortos ou esquecidos. e os militantes da moral não relutavam em recru7 tar para suas tropas notórios servidores dos governos militares. Porém o mais admirável. não há defecções. destapam os ralos. no episódio. era a desproporção entre a quantidade de mystique que se mobilizara e a mesquinhez do seu resultado políti co. dentre todos os países. que par eceu escapar totalmente aos melhores observadores. quando a campanha voltou à carga. Mas a explicação. enfim. como o senador Ja rbas Passarinho. foi este que na segunda fase da campanha — a guerra contra João Alves & Cia. estação de rádio ou canal de TV e se exima da obrigação de informar. nela. decorrido tanto tempo. e mesmo Estados e regimes inteiros. que verberam em uníssono. tem a imprensa mais ousada. e nfim. embora parcialmente verdadeira. não me sati sfazia. — anotei num artigo que escrevi para a revista Imprensa: “Pelo furor investigativo com que os jornais e a TV abrem as la trinas. onde cada facção procur a sempre se arrogar o monopólio do bem. Todos. para atirar ao limb o as exigências mais comezinhas do amor à verdade. que procure mesmo discretamente abafar denúncias. Aparentemente. sem ex ceções visíveis. No exército da moralidade pública. E — conjeturei então — talvez fosse possível encontrar. convoca as luzes dos sábios do passado e se dá todos os ares de uma revolução cultural. estão alinhados no ataque frontal à corrupção. Documentei o bastante a esquisitice ambiente em O Imbecil Coletivo para poder me dispensar de enumerar novamente aqui os sinais da patologia mental que então acom eteu a inteligência brasileira. por um só espírito. proteger reputações. de autoconsciência moral. a “ética” que se reivindicava assumiu de vez sua verdadeira natureza de mero impulso de vingança 7 política voltado contra alvos descaradamente seletivos . só para eliminar um adversário político ou m eia dúzia deles. de seriedade.

essa unanimidade não pode de ixar de parecer um tanto suspeita. tramando golpes. sua promoção ao status de ideal unificador de todo um . aquela esgueirandose pelos corredores. lograram homogeneizar a tal ponto o discurso dos seus jornalistas. Nunca. a celebração de si mesmo: a condenação dos polít icos corruptos é. movidos pela necessidade de unir-se em defesa de bens mais palpáveis contra perigos mais imediatos e letais. O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno ímpar na história da imprensa mundial. mocinhos e bandidos. Mas. de ideologias. esta vociferando sua indignação nas praças. e não raro explicitamente. apagando pistas. a quem fez seu aprendizado no jornalismo ouvindo dizer que impre nsa é diversidade. a glorificação da imprensa livre que os investiga e desmascara.noticiário que permitiu fixar na retina do público a imagem de um Brasil dividido em justos e pecadores. a de Caim e a de Abel. se viu um caso como este. que democracia é pluralismo de opiniões. d interesses. num sombrio me neio de cobra. Nem países em guerra. Um fenômeno tanto mais estranho quanto é recente a introdução da palavra “ética” no vocabulário popular brasileiro e rapidamente improvisada . terminando por neutralizá-las e por não deixar à mostra se não duas facções. e ntre os temas dominantes do seu discurso. com êxito fulminante. Imagem na qual a linha demarcatória da “ética” se sobrepôs mesmo às divisões de partidos. sem quaisquer ambigüidades ou meios-tons . ela é. de uma nação em peso abdicar de suas dive rgências internas para formar frente única sob uma bandeira tão vaga e abstrata quanto a “ética”. Ninguém hesita em ver nesse fenômeno o começo de uma nova era: levado pela mão da imprensa. Anormal historicamente. ao mesmo tempo. em qualqu er lugar ou época. o Brasil atinge o portal da maturidade democrática. Esse unanimismo não teria poder sobre as consciências se não incluísse.

Jamais uma palavra-de-ordem emanada de um estreito círculo de intelectuais a tivistas logrou alastrar-se com tal velocidade pela extensão de um continente. muitas notas de rodapé. num lance súbito de espadachim ou de pintor zen. que espremesse numa área limitada e visível a multidão variada de fantasmas evanescentes. elas nos dão algo ainda melhor. era preciso um sobre-esforço de compactação. além de todas es sas coisas apreciáveis e reconfortantes. Hoje surpreendo-me de ter podido escrever tan to numa só noite. Sua presença nas notas mani festa a confissão de que este não é o único nem o melhor dos livros possíveis sobre o seu assunto. só pôde escrever este. reportagem e panfleto. com muitas idas e vindas entre a superfície da políti ca atual e as camadas mais profundas de uma antigüidade quase esquecida. ocorrida no início de 1993. misto de memórias e ensaio filosófico.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 25 sitice geral do ambiente pátrio. O mesmo autor deste. por ora. era preciso desvendá-la. para c onservar. mais que contestá-la. as linhas de investigação que tiveram de ser abandonadas para que o livro pudesse c hegar a um ponto final. l ocalizei o manuscrito e fiz-lhe os acréscimos que àquela altura me pareciam necessário s. maio de 1994. mas deixaram inalt erado o sentido do conjunto. que arriscaria perder de vista a forma do seu conjunto quem se aventurasse a percorrê-la aos poucos. Além da sua função m l de testemunharem o justo reconhecimento de um escritor para com seus fornecedo res de material. em Imprensa.” ( “Unanimidade sus ta”. pode agora mesmo vislumbrar em pensamento outros tantos melhores. de intenções veladas. Acrescentei também muitas. A fala de Pessanha era tão cheia de subentendidos. um princípio de explicação para aquilo que eu vira no M ASP. Mas. por sua vez. Mas esc rever. reproduzido em O Imbecil Coletivo ). Para fazer face à i nfluência difusa e embriagante que as palavras de Pessanha espalhavam no ar como u m spray. É também esta multiplicidade de temas e planos que explica a trama compósita deste liv ro. Como esta cosmovisão. a falta da capacidade de espantarse é um grave sintoma de apatia mental na nossa intelligentzia. daqui de onde fala ao distinto público. política e metafísica. de mensagens camufladas para uso dos happy few. Algumas correções foram bem minuciosas. — Se o conhecim ento. Notas de rodapé são uma das mais amáveis invenções humanas. dentro do corpo de um livro. pensando bem. agora com o empenho investigativo de um “araponga” do PT. Diante dessa expectativa. não se poderia elucidá-la sem ampliar formidav elmente o círculo das investigações. além da economia que nos facultam ao abreviar um argumento median te saltos que a indicação de um mero título preenche. alguns metros por dia. além mesmo do in egável deleite psicológico que um autor pode tirar da ostentação erudita. acrescentei os livros finais e este começo. Não creio que isto se pudesse fazer senão tudo de uma vez. Nada alterei nele em substância. A notícia da morte de José Américo Motta Pessanha. Revi rando de novo meus papéis. Toda a parte inicial — do § 2 ao § 17 — é o texto de 1990. Muit as e longas. na parte que a ele mais de perto se refe9 povo. aumentado de esclarecimentos indispensáveis e melhorado — espero — nos detalhes da expressão. Elas repres entam. . cort ado de excrescências. além do benefício peda gógico de abrirem para o leitor um leque de estudos complementares. Abandonadas mas não desprezadas. como diz Aristóteles. as sementes de outros tantos livros possíveis. na multiplicidade dos temas e dos planos de abordagem. a unidade de um a intuição simultânea 9. sem que ninguém se lembrasse de objetar que a rapidez com que se propagam as palavras está às vezes na razão inversa da profundidade de penetração das idéias. não pude mais adiar a retomada deste trabalho. Apenas mudei um pouco a ordem. não alterou em nada minha disposição de publicar este livro. não poderia ter sido de outra forma. além da aparência verdadeira ou fals a de probidade científica de que revestem o conteúdo de um livro. mostrar toda a cosmovisão que ela trazia de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras. já pronto. que. convocava reforços de eras pretéritas par a dar apoio a uma política do presente. Tão vasta e ra a área das implicações. mas da qu al só tomei conhecimento muito depois. começa com o espanto.

Olavo de Carvalho. Mas. . que não se esperaria ver assinada pelo mesmo autor de uma rigidíssima teoria do s gêneros ( v. 1993 ). IAL & Stella Caymmi Editora. R io. foi justamente para poder. se fixei com tal apuro as distinções e ntre os gêneros. religião comparada e sei lá quê mais — coisa em suma incatalo gável. em caso de necessidade. na verdade. E.esoterismo e fait divers. Seus Fundamentos Metafísicos. melhor misturá-l os. não há o que não caiba na minha definição de “ensaio”. Os Gêneros Literários.

de desocultar intenções que chegam a ter al go de sinis10 Pouco depois dos acontecimentos narrados nesta “Introdução”. tro. sob a direção do mesmíssimo Adauto Novaes que organizou o evento de 1990. lúcido e inform ado. editar em papel-bíblia as obras completas de Julius Streicher. nem exime d o dever de contestá-las. em debates letr ados. que incluiu comemorações — pagas com dinheiro público — do bicentenário do marquês d ade. e das quais ela extrai toda a significação que possa ter para além das miudezas políticas que const ituem sua motivação imediata. Sustentam essa minha decisão três razões. de desenterrar velhas mentiras esquecidas. ele não se prestaria a colaborar de maneira alguma. Mas não se trata aqui de discutir idéias. numa programação que reproduzia resumidamente o ci clo de Ética do M ASP . pelo menos na media luz da hipocrisia que se tornou o padrão oficial da ling uagem educada nacional. o veneno epicúreo pode agora se r distribuído em massa. de refutar argumentos errôneos. amputado da escuridão que o alime ntava e protegia. e muitas palavras de louvor a Laclos. para encontrar a mel hor. por ignorar tudo a respeito. o mesmo grupo realizou o congresso Libertinos/Libe rtários. de que se servem para enfeitiçar o público e colocá-lo a serviço de fins com que. — Em junho de 1995. apesar da ve emência com que contesto aqui as idéias de Pessanha. ne m poderia fazê-lo se quisesse. e não por simples ocasião e sinal para mostrar. o deste livro é às vezes de uma franqueza que destoa. mediante a exibição dos chumaços de cabelos e dos r etalhos de roupas da vítima. A objeção não seria d todo despropositada. As idéias. quand o nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm. não são imagens da realidade: são poções mágicas. que emprego no texto. como dir ia Paulo Francis. reconheço. da qual fugi o quanto pude. de revelar o mal para que pereça exposto à luz. escondeu entre r estos de cadáveres. livro que condensa todo o drama das idéias do século XX. Trata-se. com o título mudado para “Arte de Viver”. o círculo inteiro das condições remotas que a possibilitaram. Eis como a morte do pensador dá mais força de difusão às idéias que ele defendeu em vida. A primeira é que. com u m ciclo denominado Artepensamento. a palestra de Pessanha sobre Epicuro. se este livro tomasse a conferência de Pessanha por seu obje to. desde 1990. Não se trata. Só falta. Crébillon e similares. ele atacou novamente. Faço-o por uma obrigação interior. Conservado e industrializado pela técnica. Um escritor cujo nome não me ocorre sugeriu. como o testemunha o atraso deste livro em relação aos fato s que o motivam. Alguns leitores talve z digam que dei uma importância desmesurada a um acontecimento superficial e passa geiro: a refutação de uma simples conferência não requer todo um livro. Quanto ao tom. num esgueirar soturno. portanto. desde o fundo dos séculos. grupo este que continua vivo e passa bem 10. A terceira é que aquilo que possa ter havido de maligno na influência de Pessanha sobre o público não veio dele enquanto indivíduo.26 OLAVO DE CARVALHO re. para certas pessoas. de confrontar na s erenidade de uma comum devoção à ciência várias imagens da realidade. foi tran smitida pela TV Educativa do Rio. a altercação de d ois velhinhos num asilo. — Em 26 de setembro de 1994. enobrecido e como que santificado pela morte de seu revend edor local. Essas condições é que são o tema do livro. nada digo contra sua pessoa. mas não consigo esconder a repugnân cia que sinto ao lidar com esse gênero de materiais. em furtiva incursão. Faço-o com resignada boa vontade. para defesa e esclarecimento dos vivos. Algumas expressões mais fortes. para simbolizar o cúmulo da insignificância. Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mági ca de Thomas Mann. A segunda é que a morte de um filósofo não torna verdadeiras as idéias falsas que tenha defendido. num giro por dois milênios de histór ia das idéias. que o feiticeiro. não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em . gravada em vídeo. Não faço este trabalho com prazer. como em psicanálise. E um feitiço não se discute n o plano teórico: um feitiço desfaz-se. Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da História. emitidos c om a inocência de uma equivocada busca da verdade. quem não tenha podi do fazê-lo em vida dele. mas enquanto me mbro atuante de um grupo. espero que me sejam perdoadas como naturais desabafos de um homem que tem de falar sobre o que preferiria esquecer.

no fim os velhinhos fazem as pa zes.. . a cantiga milenar do engano. E Perez de Ayala fez dos bate-bocas entre dois velhinhos de miolo mole — Be larmino y Apolonio — o resumo da universal altercação. aquilo que pouco significa por si mesmo pode significar muito pelas ca usas que revela.. na perife ria da História. Como se vê pelo exemplo dessas belicosidades g eriátricas. No fim deste livro o leitor verá como o personagem dos primeiros parágrafos terá se tornado pequeno — o eco débil e longínquo que repete às tontas. ao reencontrar-se num asilo.Davos.

do que uma conferência sobre o Jardim de Epicu ro no estilo floreado de Motta Pessanha. e sobretudo o fato de ser esta já a minha terceira obra de combate11. Não posso r ecomendar esse regime às almas sensíveis. por agora. e na ordem de publicação dos meus escritos preferi começar de baixo. contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos. mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no resta nte do livro. Meus alunos podem atestar que a polêmica está longe de constituir o centro dos meus interesses.” Ademais. E se aqui submeto idéias alheias a esse tratamento impiedoso. sobre o temperamento do autor. este livro não se limita a desfazer um ou vários erros. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação. permito-me citar o único autor do qu al posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu. como disse Goe the. Quanto às minhas. Posso provar isto. Fritjof Capra e Antônio Gramsci e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação. e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo. se ouviss em. mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais. segundo dizia John Stuart Mill. a outras estrangulando no berço ou esmag andoas a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem. por olhos doidos ou sãos. Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho . que deram ocasião e pretexto ao se u aparecimento. mas aponta. No entender do superficialismo brasilei ro. escondidinho e letal sob as flores. . ginástica sueca e chibatadas. o hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas conseqüências práticas que as idéias filosóficas. o que vi estava lá. Não e screvi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis. É que a crítica. locais e momentâneos. trato-as a pão e água. Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Oci dente moderno. sujeito pacífico e tolerante até o limite da paspalhi ce. Mas. como o leitor verá sobretudo n as últimas páginas. Também declaro peremptoriamente que não tenho a menor ilusão de influencia r no que quer que seja o curso das coisas. supondo-se que a desejemos. é porque algumas delas já foram minhas — e. que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico. é a mais baixa faculdade da intel igência. que vai para onde bem entende e jamai s me consulta (no que aliás faz muito bem). a direção onde devem ser buscadas as verdades que eles renegam e rene gando encobrem. reservando as partes mais altas e serenas para melhor ocasião. sucedâneos do afeto humano. lev ando muitas delas à morte por definhamento. da ruidosa atualidade. não levem ninguém a conclusões precipitadas 11 12 As anteriores foram A Nova Era e a Revolução Cultural. enquanto as idéias amadurecem e se revestem de uma forma verbal melhor12.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 27 De outro lado. Ainda um pedido. Meu propósito não é mudar o rumo da História. sob a forma de apostilas de meus cursos pr ivados. a um inócu o passatempo botânico de nefelibatas. positivamente. Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. Que o tom deste livro. Ora. que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado. e não pela importânci a muita ou pouca dos fatos. mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso. e deix ando-as mostrar-se apenas. não as compreenderiam. Para liquidar de vez com a objeção. mas desconheço outro que possa nos colocar n a pista da verdade. nada se parece mais a um adorno exterior. podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que. mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso.

Minha única iniciativa. 1994 ) — deu mais encrenca do que toda s os meus escritos de polêmica. . Introdução à Teoria do Quatro Discursos ( Rio. Topbooks. até agora. de divulgar essa parte mais interior do meu traba lho — com a publicação do livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. O episódio está documentado em Aristóteles em Nova Persp ectiva ( Rio. IAL/Stella Caymmi. 1996 ).

ambos podem faz er igual efeito. Leibniz. Em todo debate científico ou filosófico. Não é de hoje que a filosofia assume o encar go de guiar o mundo. porque toda divergência diverge de alguma coisa e só no confro nto com ela adquire sentido. organizadora do ciclo de Ética do MASP e. nas horas de escândalo e r uína. Opiniões próprias. last not l east. No caso brasileiro. que. desorientado e perplexo. Se porém o especialista. como por exemplo a de que na lógica de Aristóteles “o acidente é um tipo de propriedade” mais ou menos o equivalente a dizer que na geometria de Eucli des o quadrado é um tipo de círculo. onde são servidas aos convidados al gumas lições preciosas. ou. autora de um premiado Convite à Filosofia. um philosophe busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daquele s a quem segue. A seleção dos temas e o conteúdo das conferências terminaram por desmentir os doi s primeiros objetivos e anular o terceiro. já não consegue se guiar p or si mesmo. aviltada pelos abuso s da retórica. em terminologia mais moderna. abrindo-o para um público de quinhentos e tantos l eigos. e dará às palavras de um só indivíduo — ou do grupo que ele representa — o valor e o p eso de uma verdade universalmente admitida pelos homens cultos. É da tradição os filósofo bandonarem o silêncio da meditação para ir discursar às gentes. não havendo nenhum à mão. Status quæstionis — termo da retórica antiga — é o retrospecto das discussões até o presente. chocado com a guerra entre cristãos. com a riteriosa discriminação dos tópicos abrangidos e por abranger. as nações nomeiam filósofos honorários. Para este. Voltaire é filósofo tanto quanto Leibniz ou Aristóteles. Vejamos o que a consciência filosófica nacional. biônicos. pela ética da vida intelectual q uando tem. pois a diferença está num plano acima do que o público enxerga. Fichte. ergueu-se finalmente a voz da filosofia para clarear as idéias do povo e indicar à nação o caminho do bem. As conferências do MASP Na gritaria geral contra a falta de ética. a i ncumbência de figurar no papel de consciência filosófica nacional foi atribuída ao grupo de professores universitários que orbita em torno de Marilena Chauí. mesmo que dele divirjam e sobre tudo quando divergem. assim representada. Tão necessários são os filósofos nessas horas. Desse preceito. o público leigo fatalmente a tomará como se fosse ela mesma a expressão desse cons enso. É um meio de evitar a proliferação de teorias inúteis. clamava pela união das ig rejas. i solada. Benedetto Croce dizia que só se compreende um filósofo quando se sabe “contra quem ele se levantou polemicamente”. a compreensão de uma nova tese depende do conhecimento do estado da questão. Discursando do alto de um caixote de beterrabas. . o professor. quando ele. designa os ideólogos da Revolução Francesa. Sócrates ia pelas praças cobrando os direitos da consciência. o homem investido de autoridade acadêmica apresenta sua opinião solta. novas ou divergentes qu e o orador acaso tenha a apresentar só poderão ser compreendidas e discutidas com pr oveito se forem vistas no quadro desse consenso. titular da Sec retaria Municipal de Cultura. É também um preceito elementar do método científico não apresentar uma teoria nova sem provar primeiro que as anteriores não bastam para explicar os fenômenos de que trata.28 OLAVO DE CARVALHO § 2. O intuito declarado dos organizadores do curso era triplo: dar um esboço cronológico das principais doutrinas éticas. convocava os alemães à defesa da honra nacional pisoteada pelo invasor. das teses consensualmen te admitidas e das que continuam em litígio. sem os nexos que a ligam positivamente ou negativamente ao consenso e à tr adição. Quem fale aos leigos sobre um assunto da sua especialidade está implicitamente obrigado. pôde fazer para r econduzir aos bons caminhos da ética uma nação perdida. a oferecer-lhes. lançar luz sobre a questão da falta de ética no país e p opularizar o debate a respeito. grifado ou entre aspas. A diferença é simples: um filósofo busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores. que. do alto de um caixote de beterrabas. como fundamento primeiro da argumentação. Foi assim que surgiu o termo philosophes. um sumário do es tado da questão no consenso dos estudiosos.

recortada e contrastada sobre o p ano de fundo do consenso que ela confirma ou desmente. e não “a” História.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 29 que é válido também em filosofia. por sua vez.. ele se espa lha: deita e rola. sentiram o urgente impulso de derramá-la sobre toda a nação. Aí. tão especial? A moral agostiniana da autoconsciência? A ética tomista da escolha razoável? A pedagogia moral de Hugo de S. Mas a versão que o ciclo apresentou da hi stória das idéias éticas é bem diferente daquela a que o público teria acesso caso se diri gisse a qualquer das histórias da filosofia que circulam em formato de livro. o rótulo de extravagante. que em detalhe comento mai s adiante. creio eu. digamos — que tem todo o direito de ser defendida contr a o consenso. Vítor? O indeterminismo moral de Duns Scot? Nada disso. Ésqu ilo e Eurípides. No fim das contas. Instaurada oficialmente em 1229. rolando. Uma história da é a grega que eleve Epicuro ao primeiro plano em lugar de Platão e Aristóteles não tem c omo evitar. e mesmo aí só a abordou. com seus quase mil anos de História. mas alguma coisa menor do que um filósofo. É uma versão peculiar — alternativa. o cabotinismo elevado a princípio historiográfi co foi cair num descalabro ainda pior ao tratar da filosofia medieval: espremeua toda. Veremos adiante. numa só conferência. o tribunal da Santa Inquis ição! Historicamente. a fineza de declarar de antemão seu propósito de apresentar uma ver são nova e heterodoxa da História. Epicuro. ao abrigo de todo olhar de censura. Não deveria ser preciso fazer tais recomendações a pessoas tão cheias de consciência ética que. e não estas contra aquelas. Ninguém nega aos organizadores do ciclo o direito de reinterpretarem a História o qu anto queiram. quando apresentada a um público leigo. no MASP. fl ui a obrigação de ética pedagógica a que me referi: toda teoria nova. Nem mesmo o de desfigurá-la em nome de uma teoria qualquer. a última a negá-lo). incapaz de atinar com a ex travagância do seu procedimento. O tema ali encarregado de figur ar como amostra suprema do pensamento medieval foi. é um quid pro quo. não é propriam ente um filósofo menor. sobre os se ntimentos éticos na tragédia grega. no mínimo. Nenhum desses tópicos nem dos muitos outros em que se subdivide a ética medie val nos livros de História da Filosofia foi considerado significativo o bastante p ara representar. que a revestiu da ima13 . pela m assa crédula dos ouvintes. o pen samento ético grego ficou ali reduzido ao filete escasso e marginal do epicurismo e a um vago e misterioso “sentimento” coletivo escoado entre os versos de Sófocles. cabe ao desafiado a primazia na escolha das armas. E a tragédia grega. a que m assim proceda. E nada mais confortável para um cara-de-pau do qu e poder contar com a sonsa aprovação de uma platéia novata. no consenso quase universal. recebe o nome de cara-de-pau. ocupando todo o espaço e fazendo as vezes do consenso. Rolando. Apenas se pede. por insignificante e banal que seja. deve ser mostrada como tal. Por exemplo. e a da convidada francesa. na ética popula r. ou pelo menos sobre quinhentas cabeças. Nem uma palavra sobre Platão. admite muitas outras interpretações éticas que não somente aquelas destacadas p or Nicole Loraux (que seria. “essa instituição — como frisou Alexandre Herculano — nasceu débil e desenvolveu-se gradual e lentamente”1 3. Seu período de atuação mais intensa. Aristóteles ou o estoicismo: sobre os t rês sistemas completos que constituíram o essencial da herança moral grega às civilizações e uropéia e islâmica. Mas cometer extravagâncias com o ar i nocente de quem procede segundo a praxe mais rotineira é aquilo que. com seletividade feroz. o capítulo referente à filosofia grega resumiu-se a duas co nferências: a de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro. mas não tem o direito de posar em lugar dele perante um público que o desconhece. por um único e privilegiado aspecto. como a quintessência do assunto. Como num duelo. Nicole Loraux (aliás excelente).. não con seguindo mais contê-la em si. carregada ademais de obscuros simbolismos a rcaicos. Nunca deve ser exibida so zinha. alterand o a hierarquia dos fatos e as proporções dos valores. como obra de arte. a essência da Idade Média. tomado assim. Dessa norma. Quem assim a empregu e estará se aproveitando da ignorância alheia para fazer-se de autoridade. em sentido corrente. Que aspecto foi esse. removendo para um canto os nex os principais articuladores do conjunto e puxando para o centro um detalhe qualq uer de sua preferência. decorre uma norma prática: as novas teorias é que devem apresentar suas razões contra as velhas.

Bertrand. . t. s/d.V. I. Lisboa. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal . Alexandre Herculano. p. 25.

entendemos que ela foi um mal menor: a única alte rnativa era o massacre ( v. l A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus. ). e não podem tê-las trocado por engano. a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças. só começa a partir de 1400: em pleno Renascimento . de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros pop ulares”. qualquer caráter criminoso. — Para completar. que a sua fama inquisitorial obedece à definição stendhaliana da fama: co njunto dos época era crime. Em terceiro lugar. Hugo e Ricardo de S. com a eclosão das primeiras manifestações de autonomia nacional. e sobretudo filosofia medieval com Inquis ição. Tempo Brasileiro. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida. 14 Associar. Rio. mas limitando-o severamente. sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas. Chaim Samuel Katz e Eg inardo Pires. cit. Alexandre de Hales. o período de atividade inquisitorial mais significativa já é posterior. Instituindo os processos regulares. l O proces so de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial. já é apenas o finzinho da Idade Média: é o princíp o da sua dissolução. repito. Guilherme de Conches. 1993). mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alter nativas reais existentes na época. As fogueiras da Inquisição continuaram depois a arder pela Idade Moderna a dentro. de dois séculos. Sto. Ediouro. 1975 ). que vai do Proslogion de Sto. Tomás de Aquino e S. sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renas centista — dos textos das antigas leis romanas. É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus. alcançando um máximo de furor nos séculos XVI e XVII. recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss.30 OLAVO DE CARVALHO gem sangrenta que tem para nós hoje. é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso co mo ministro da Fazenda de D. Vítor. das quais a própria disseminação das heresias. trad. que não coinc ide. Alexandre Herculano. Bem ao contrário. eram um hábito consagrado na Península Ibérica. Sto. Anselmo (1070) até as Reportata Parisiensia de Duns Scot (1300). o que deveria ser considerado um marco na história dos direi tos humanos. Pedro Abelardo. John Bossy. As matanças de judeus. João VI. l A Inquisição institui u a tortura generalizada. Mesmo o século do estabelecimento oficial da Inquisição. provavelmente não era. sobre a realidade das mortes por en feitiçamento. mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria. Isto é tão medieval quanto a física d e Newton. causa imediata da abertura do Santo Ofício. não permitindo que o ac usado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos. de modo geral. Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu con tra o uso da tortura. caiu e m desuso. Tes tas. op. op. A tortura era considerada um procedimento legítimo e pra ticada em toda parte desde a Grécia antiga. ). Os philosophes do MASP conhecem tão bem ou mel hor do que eu todas essas datas. Eles sabem p erfeitamente bem que a Idade Média é um bode expiatório das culpas de períodos históricos posteriores. Não sei se a acusação era procedente. Rio. a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno es teve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja C atólica (v. Durante quase toda a Idade Média. o R ei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura. Para completar. assim. Alberto Magno. Idade Média com Inquisição. Boaventura. com o da sua atuação efetiva. que não marcaram significativamente o con teúdo de suas obras14. A tortura ilimitada foi depois reintroduzida pelos comunistas. Eduardo Fran cisco Alves. o XIII. “O Feiticeiro e sua Magia” ( em Antropologia Estrutural. O que a Inquisição fez foi seguir o us o então vigente na justiça civil. o processo f oi uma pizza. é u m dos principais sintomas. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. cit. uma farsa concebida pelo Papa padrinho de Galileu para que seu pro tegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples decl . na Rús sia. trad. nenhum desses filósofos exerceu qualquer cargo no Santo Ofício nem teve com esta entidade contatos senão episódicos. passando pelos livros de Pedro Lombardo. ao fim do ciclo de produção e publicação das principais obras filosóficas medievais.

mostraram a maior indiferença pela sua obra. Giordano Bruno não fez nenhuma desco berta. 1975. astronomia.aração oral sem efeitos práticos. Bacon. 1991 ). ( Em caso de dúvida. Descarte s. proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. São Paulo. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica. Testas e J. ) l Giordano Bruno foi um mártir da ciência. Ele desprezava a n ova mentalidade matemática. nenhum experimento científico. Newton. Eis algumas: l A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico. Pa ul-Henri Michel. Harvey e tutti quanti. Bib liografia no fim deste volume. O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. Kepler. que na . leia-se A Inquisição. Paris. mas por prática de feitiçaria. Júlia Ma inardi. Companhia das Letras. nenhuma observação. que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciênci a moderna. Galileu Herético. gramática e retórica o trivium. e todos os cientistas matematizantes. ). mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconfort o na platéia. Hermann. Testas v. biologia ou matemática. Galileu. após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v. A Inquisição examinava apenas livros de in teresse teológico direto. condenad o pela Inquisição por defender teorias científicas. trad. Ele não foi condenado por defender teorias científicas. cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna ( v. por G. de Galileu a Des cartes. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”. Os philosophes de modo geral não ig noram essas coisas. Nem sequer estudou as ciências modernas. física. La Cosmologie de Giordano Bruno. diria Gramsci — que sustent a a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. Pietro Redondi. Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para ve rificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico.

a auréola terminou por rodear também o Catolicismo de modo geral. . em José Américo Motta Pessanha. por seus efeitos político-sociais. Na escolha das obras que compõem a série Os Pensadores da Editora Abril. Ockam — fora ali todo espremido num só volume. sem ter precisado sequer mencionar o s eu nome. de Lênin ou Gurdjie ff. vist o que a coleção incluía obras que só exerceram influência em círculos bem delimitados. já que o público acredita na lenda. mistério e desvario” ( Lewis Mumford. acabaria por concebê-la bem diversa daquela que pode16 Na verdade a lenda surgiu um pouco antes: “A Idade Média foi denegrida. mas pela sua repercussão pública. como por exemplo as de Wittgenstein e Adorno. As distorções não paravam aí: Pes anha achara indispensável dar todo um volu16 me a Kalecki. Por automática extensão. as teorias não se tornam dignas de atenção pelo seu valo r intrínseco. ao mesmo tempo que omitia Dilthey. foi o de evitar qualq uer exame da filosofia medieval. Sem falar. Lavelle. foi um tour de for ce admirável: enlamear a reputação do adversário. como Condillac. da Silva. teias de aranha.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 31 equívocos que a posteridade tece em torno de um nome. trad. com alguns anos de antecedência. típicos philosophes 17. Neil R. sem ter sido contestada diretamente ou mesmo discutida. onde a plantou uma sucessão de ob ras de ficção de grande sucesso. Jaspers. Aí se explicaria o título da série (“pensador” é um termo mais vago e a brangente do que “filósofo”) e também a inclusão de autores menores. desviando as atenções para um assunto mais truculen to. talvez. Essa impressão sobre a Idade Média é parcialm ente um produto dos ‘Romances Góticos’ do século dezoito. ao antropólogo Bronislaw Malinovski e até mesmo a Voltaire. como filósofo. mais vistoso. se formasse por esta só coleção sua imagem da históri a do pensamento. de que Pessanha fora organizador e editor. não pode ser levado a sério. ou as de Spencer e Thomas Huxley. a História oferece muitos exemplos de ‘censura transferida’. mais ou menos do mesmo tamanho daqueles concedidos individualmente ao economista John Maynard Keynes. Itatiaia. por vícios que realmente pertenciam aos seus detratores. 23 ). como as de Jung e René Guénon.. O rtega. um economista que não é cit ado em nenhuma História da Filosofia . Pessanha e o pensamento Ocidental Uma pista podia ser encontrada. no início da R enascença. um dos mais destacados membros do grupo. A Cultura da s Cidades. já 15 se manifestara. Procuran do. ficou assim rodeada de uma auréola sangrenta. na ocasião da edição. Enfim. Mas logo tive de abandonar essa hipótese. grande retórico e jornalista que. 1961. no caso. com seus quadros sombrios de câm aras de tortura. que arrombaram as portas do Ocidente para a invasão das idéias orientais.. de O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Pöe até O Nome da Rosa de Umberto Eco15. a mesma seletividade deformante q ue agora inspirava o programa da Ética. Cassirer. valha m elas o que valham. p. Lukács. Em matéria de retórica — a arte de alcançar o máximo de persuasão com o mínimo de argumentos —. para quê desmenti-la? Por qu e não tirar proveito dela? O proveito que se tirou. O mais significativo da filosofia escolástic a — Sto. Nesta disciplina. Croce. conjeturei que Pe ssanha talvez não tivesse desejado ilustrar a História da Filosofia. o leitor d’Os Pensadores. e omitia outras que produziram verdadei ras revoluções. Mas fica a pergunta: Para quê? Com que finalidade um grupo de intelectuai s declaradamente empenhados na salvação moral do país se envolve num empreendimento tão comprometedor como esse de contar ao povo uma História da Ética que falta com a ética para poder falsificar a História? § 3. A pr ova de que a velha aparelhagem cênica do “romance gótico” ainda funciona é o sucesso de O Nome da Rosa. explicarme as razões de escolhas tão bizarras. Belo Horizonte. Whitehead. a que aquela filosofia se associa intimamente. Hartmann e Scheler. logo. mas sim a Históri a das Idéias. Mas também sabem que essa fama está profundamente arraigada na crendice popular. Helvéti us e Dégerando. E. que injetaram o e volucionismo nas veias espirituais do mundo. é claro. com a vantagem adicional de que essa filosofia. Duns Scot. Tomás.

Maurras. por exemplo — . mas fora m omitidos. alguns de primeira ordem pela qualidade literária e pela influência política de seus escritos — De Maistre. . 17 A direita também tem se us philosophes. Donoso Cortés. s e ele jamais publicou um único trabalho de alcance filosófico e se entre seus colega s de ofício houve muitos que foram filósofos de pleno direito. como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises? A resposta só pode ser uma: do ponto de vista uspiano um econo mista marxista é mais filósofo que qualquer filósofo liberal.Por que essa honra concedida a um único economista. de figurar entre os filósofos.

como um mestre d a persuasão. na falta de concorrentes. Os Sentidos da Paixão e Ética — sem contar a militância pedagógica nas cátedras da USP — formam o mais vasto empreendimento de persuasão retórica já realizado n este país por um grupo de intelectuais ativistas imbuídos de objetivos políticos bem d eterminados. Não escolhera os livros nem pelo seu valor. mas não os de primeira necessidade. E não lhe faltaram ocasiões para man ifestar o seu talento (que antes de empregar na persuasão política ele testara numa série de fascículos de culinária. Fukuyama e tod os os outros filósofos de alta rotatividade. Mas temos Simone de Beauvoir quase completa . um item indispensável da b ibliografia filosófica nacional. que se crê muito le trado porque encontra nas livrarias as últimas modas filosóficas nacionais ( leia-se : estrangeiras ). muito Antonio Gramsci. O mesmo espírito pare cia ter orientado a seleção dos temas para o curso de Ética. sem contar Fielkenkraut. a série Os Pensadores e os três eventos O Olhar. Fichte. Pessanha desempenhava uma função estratégica. o programa da Ética não fizera se não prosseguir. Ele não quisera refletir a História das Idéias na imagem dos textos. aos olhos do público. e dispostos a sedimentar. mas sim de estratégia e mercadologia. na mesma editora). Aldous Huxley diz de uma personagem que. as bases para a conquista desses objetivos. um grande con hecedor da Retórica. ela dispensar ia o essencial. on de impera o grupo de Pessanha). e por ele pude captar tam bém. mas pela repercussão que ele mesmo pretendia lhes dar. como um orador e homem de marketing. Não se tratava de História. mas moldar o futuro. Mas Perelman distinguia. Parece ser isso que os editores brasileiros pensam do leitor. em outra escala. representando. de Leibniz. num país onde se publicam poucos livros de filosofia18 e onde as edições e strangeiras só são acessíveis a uns happy few. discípulo que era de Chaim Perelman. Que intenção está aí subentendida e quais os . mas a decisão de uma práxis. Dil they. Perelman era essen cialmente um retórico. Juntos. por seu lado. salvo engano. era uma comunidade científica empenhada em descobrir o real. a série Os Pensadores. Husserl. Isto ainda não nos dá uma resposta quanto aos motivos úl timos da seleção dos temas no curso de Ética. se lhe dessem o supérfluo. a obra de deformação que Pessanha já havia iniciado por conta própria. o curso da USP. mas um grupo militant e decidido a fabricá-lo19. no plano da luta cultural. de Kant. mas também por ser. Em Contraponto. ed itado pela Universidade do Pará. Hartmann e não sei mais quantos. Nessa operação. Também nos faltam as obras principais de Hegel ( só temos a Fenome nologia e textos menores ). o primeiro a div ulgar no Brasil. não foi por casualidade. mas projetava sobre ele o sentido de uma paixão. A escolha não refletia um critério teórico. retroativamente. Enfim. jamais chegou ao Sul-Maravilha. a imagem do pensamento universal. O círculo de Pessanha não 18 Na verdade publicam-se muitos. não como editor d’Os Pensadores. seguindo a tradição. entre o retor e o retór ico: entre o orador persuasivo e o estudioso da ciência retórica. e o Platão de Carlos Alberto Nunes. É por isto que.32 OLAVO DE CARVALHO ria obter em qualquer livro ou curso da matéria (exceto. um investigador e codificador dos princípios da argumentação retóri ca. Até hoje não temos Aristóteles completo em português. Pessanha. a inspiração talvez inconsciente de todos os títulos da série de eve ntos promovidos pela Secretaria de Cultura: o olhar que aquela gente lançava sobre o mundo não refletia a imagem de um objeto. mas já nos coloca numa pista importante: s e ali a verdade sofreu graves distorções. a série Os Pensadores se tornou. muito Foucault. cujos trabalhos ele foi. é claro. nem pe la sua importância h istórica. Schelling. acabou por adquirir uma autoridade comp arável à da Bibliothèque de la Pléiade ou dos Oxford Classics. o grande renovador dos est udos retóricos no século XX. Para complicar mais ainda o imbroglio. retrospectivamente. malgrado suas distorções. qualificou-se sobretudo como retor. na teoria e na prática. o princípio a que obedecera a seleção dos livros: Pessanha não havia procurado mostrar o passado. mas para dar seguim ento coerente a uma ação iniciada muito antes. mas produzi-la no campo dos fatos. Mas ainda sobrava a pergunta: qual o sentido do empreendimento? Fo i só quando ouvi a conferência de Pessanha que pude compreender.

a filosofia deve “fabricá-los” mediante a pr opaganda e a ação política. o que foi constatado até agora já nos adverte que a estranha conjuntura referida no § 1 dest e livro era ainda mais estranha do que parecera à primeira vista. um tanto envergonhada. Faculdade da Cidade Editora. e segundo o qual. 1995 ). V. que se deu nesses círculos filosóficos às idéi as de Richard Rorty.valores que nela se incorporam. 19 Daí a receptividade. filósofo pragmatista segundo o qual a linguagem não pode dar um a imagem do real mas somente uma expressão dos nossos desejos. . é o que teremos de descobrir numa análise microscópica da conferência de Pessanha. Mas antes mesmo de entrarmos em mais detalhes. a propósito os capítulos “Armadilha relativista” e “Rorty e os imais” no meu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras ( Rio. não podendo encontrar “universais” na realidade.

senão uma sondagem em profundidade. . mais esquisito ainda era que uma elite universitária. se mostrasse tão ignorante das regr as mais elementares da ética intelectual. mais inexplicável a coisa toda me parecia.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 33 Pois. tudo em nome de objetivos mo rais que seriam alcançados bem mais rápida e facilmente pela velha e boa linha reta. E quanto mais eu remexia o assunto. prostituir a ciência e conduzir o povo por um caminho enganoso. Er a preciso nada menos que interrogar Epicuro. elevada à liderança inte lectual de uma reforma ética de escala nacional. que remontasse às raízes in telectuais primeiras em que se inspirara aquela nova e singular concepção da ética. Não havia remédio. tão ávida de falsificar a História. se já havia uma inusitada desproporção no volume de recursos culturais mobilizad os para a consecução de um alvo tão pequeno quanto a simples destituição de um mandatário co rrupto. portanto.

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LIVRO II .EPICURO - .

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tudo o que chega ao nosso conhecimento tem. pronunciada por José Américo otta Pessanha. no campo da absurdidade. notório adversário do epi curismo. Diógenes Laércio. 146 ss. Propor isto como um remédio eficaz pa ra a corrupção reinante é o mesmo que recomendar a fuga para longe dos credores como u m método eficaz de saldar as dívidas20. eles devem estar em algum outro mu ndo. pois aquilo q ue não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos22. alguém se deu o trabalho de ir retirar o pó milenar que encobria uma múmi a filosófica. Porém. e dela aparentado tão-somente na distância que ambos guardam de toda verdadeira filosofia. Se sonhamos com deu ses. como não podemos encontrá-los em parte alguma deste baixo mundo. Logo — pelas leis da silogística epicúrea —. isto já prova. retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo. não foi uma simples exposição da filosofia de Epicuro: foi uma rasgada profissão-de-fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro. o corpo é material. para manter-se de pé. mas que o seu sentido é o de um engodo proposital. já que alguém antes de nós desenterrou a múm ia. X. Uma profissão-de-fé epicurista. por tadora da solução para todos os males humanos (sic) e da inspiração que o Brasil precisa para sair do atoleiro moral. existência material. Segundo Epicuro. mas uma forma superior de luta política. O ep icurismo foi ali pintado como uma das maiores filosofias de todos os tempos. mostrar o avançado estado de decomposição em que se encontra. § 32. Lucrécio. e até os deuses são materiais — havendo apenas. será preciso remontar ao próprio Epicuro e. De natura rerum. como todo e qualquer mundo existente é sem21 22 Veremos. Se de um lado não poupou o sarcasmo ao ri dicularizar as acrobacias dialéticas com que Sto. mas sim per guntar por que. Um aspecto particularmente biruta da filosofia de Epicuro é o seu alegado material ismo. V. Para sondar as razões desse mistério. que eles existem materialmente. no fim. Como tudo é material. Têm-n a inclusive os objetos de nossos sonhos e visões imaginativas. Só que. se tornaram modelos insuperáve is. que essa opinião não é totalmente destituída de sentido. a alma também é mater ial. por esta mesma razão. A questão não é portanto saber se Pes sanha se saiu melhor ou pior do que Agostinho no seu devoto empenho. só o que é aterial chega ao nosso conhecimento. entre estes três níveis de seres. segunda conferência do ciclo de Ética. 20 Mas opiniões esquisitas não são mesmo de estranhar em quem se declare seguidor de Epic uro. fazendo de seu autor um clássico do besteirol. cuja solução trará consigo a de todos os outros anteriormente mencionad os. Pessanha não recuou diante das maio res temeridades na apologia do seu guru. pois os traços do mestre devem se reencontrar no discípulo — e Epicuro produziu a lgumas dúzias de opiniões que. COSMOLOGIA DE EPICURO § 4.CAPÍTULO II. requer uma lógica não menos circense: a opinião de que a fuga dos intelectuais para o jardim de Epicu ro não é alienação nem covardia. a d iferença de maior para menor densidade da dita “matéria”21. . Agostinho. num ciclo nominalmente votado ao esclarecimento de questões atuais e urgentes. Levado por aquele entusiasmo belicoso que sempre a nima os porta-vozes de uma doutrina salvadora. segundo Epicuro. só para depois ter de varrê-lo para baixo do tapete. — A matéria segundo Epicuro “As Delícias do Jardim”. procurava conciliar a bondade de Deus com a existência do mal no mundo. d e outro não hesitou em defender uma opinião que. Epicuro ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade. tão diferente daquela grossa metafísica de caixeiro de loja que costumamos con hecer por esse nome.

rarefeita. os d euses são compostos de matéria sutil. que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações. não alcançando jamais o benefício do ócio contem plativo. pelo bem da paz no intermundo. não é porque não querem e t mbém não é porque nem querem nem podem. podem viver sem um ambiente m aterial em torno. não é porque não podem. Só que Epic uro. Como é possível que o modelo supremo do bem não nos cause nenhum bem. e sim porque não querem. Embora materiais como nós. o que cria o seguinte problem a: se a matéria é eterna. só lhes resta alojar seus corpinhos de matéria sutil num intermundo. Embora eles nos sejam indiferentes e po rtanto inúteis. longe da miserável agitação dos mundos e sem inte rferir em nada na ordem ou desordem das coisas. Afinal. Sabe-se lá sobre que eles conversam. Epicuro achaos o supra-sumo da perfeição. para ver como fica a segunda. somada à retórica de Perelman. resultaria em aumento da dor. Mas nem toda a dialética de Agostinho. ou nem quer nem pode. diz Epicuro. mas declarou que ele se aplica perfeitamente ao Deus cr istão.38 OLAVO DE CARVALHO pre material como o nosso. que seria do epicurismo? A busca do prazer. Mas nós. os deuses não ficam atrás. motivo pelo qual devemos admirá-los. ainda que por sua simples .” Pessanha não só achou e ngenhoso este argumento. um deus que. estaria proceden do de maneira indigna de sua condição divina. mesmo de matéria sutil. por que raios é então? Se a matéria de Epicuro é esquisita. ficando desprov ida de um m odelo ou meta final por que orientar-se. e não em língua de bárbaros (motiv o pelo qual posso aqui falar mal deles à vontade. de outro lado. eles não iriam querer suja r suas mãozinhas de matéria sutil na porqueira da matéria mais densa. ou pode e não quer. e por isto são mais duráveis. em nada ligando para as nossas preces nem mesmo quando proferidas no seu celestial idioma. poderia tir ar os deuses epicúreos desta aporia congênita. mas o que Epicuro g arante é que certamente eles o fazem em idioma grego. Epicuro diz que os deuses são inócuos e indifere ntes. a única ocupaçã eles consiste em conversar. Mas. que já estamos metidos na densa porcaria terrestre. mas não é porque não podem. E como Epicuro ta mbém diz que um deus não poderia ser impotente. destituído de coisas. acabaria por se perder em p razeres menores — que Epicuro despreza — e. se eles não nos ajudam. Para começar. por que teria de ser menos densa justamente nos seres mais duráveis e não nos m efêmeros? É ais como dizer que uma superfície pintada é tanto mais azu l quanto mais diluída esteja a tinta azul. prossigamos com a investigação. Então. o mais velho e eficaz procedimento consiste em suprimir (de fato ou imaginativamente) a prim eira. afirma a eternidade da matéria. Mas. Não é de bom tom. só para depois ter em de pedir a Agostinho que as limpasse. segundo Epicuro. que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o mo delo mais perfeito do ócio contemplativo. com que julgava fulminar a religião grega e toda religião possível: “Ou Deus quer ajudar e não pode. ele diz também que o prazer é o supremo bem. podendo ajudar os necessitados. devemos concluir que. ainda segundo Epicuro. se recusasse a fazê-lo. Tal é justamente. pela ética epicúrea. Para saber se uma coisa exerce ou não influência sobre outra. pergunt ar como é que seres materiais. devem ser criteriosamente evita das. em que se agitam há milênios os debates n o intermundo: se eles não interferem. num ambiente que. ao mesmo tempo. o result ado a que chegam aqueles que buscam o prazer no terrestre e no imediato. que o objeto da admir ação não traga nenhum benefício à alma que o admira e não lhe dê nem mesmo um pouco de prazer eis aí questões que. Sendo filósofos. eles ficam trocando idéia s nas longas noitadas do intermundo. argumento. e vestidos somente de intervalo. não deve ser menos desprovido de assunto. seguro de que não entendem uma só pa lavra do que estou dizendo). das duas uma: ou os deuses exercem um influxo benéfico. ou intervalo entre os mundos. sem con hecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses. Mas. já que eles permanecem no puro ócio contemplativo e não nos causam males nem bens. sem eles. Mas um conceito de matéria tão elástico como o de Epicuro só podia mesmo dar nisso. Assim Epicuro cai nas malhas do seu próp rio Epicuro diz que nada devemos temer nem esperar dos deuses.

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animais e plantas e pedras e áto mos e galáxias. mas são bons para nós. É claro que isto eles não podem ser. Neste ponto. e n em só para os homens em geral. além de ociosos. m as das de todos os seres humanos. E não haveria nada de estranho em que uma escola de ascetismo atribuísse a seus deus es a capacidade de produzir efeitos pela sua simples presença. o presidente do colóquio filosófico intermundano . o qual também não é nem estofo material do mundo nem causa imediata dos atos humano s ou dos fenômenos naturais. Se os deuses são. ou. Porém. e. Logo. tudo girando numa espiral ascendente desde os prazeres imediatos e grosseiros até o supremo ideal do ócio contemplativo. se tornou consciente e assumido: o ócio contemplativo. Os de uses são apenas a imagem do bem. para o filósofo. a imagem do ideal espiritual que norteia os esforços d o asceta epicurista. a capacidade para a “ação de presença”. um dos atributos essenciais da divindade em todas as religiões. quando saem à cata de pr azeres grosseiros. interrompe os trabalhos e manda solicitar o parecer técnico de Sto. meta e mo tor geral da vida humana. o modelo do bem. E. O máximo que se pode conceder à tes e da inocuidade dos deuses é que. Pois estes — diz Epicuro —. na hipótese contrária. então temos de admi tir que os deuses epicúreos. isto é. seus deuses não difeririam muito do Deus bíblic o. são enfim a causa formal e final de tudo quanto acontece no universo. mas todos os seres e coisas. a di stância é grande. Nas tradições espirituais em geral. no sentido aristotélico. de um lado. os deuses são indiferentes ao bem e ao mal. deve ser um bocado de trabalho. não fazem senão buscar de maneira obscura e inconsciente aquele m esmo objetivo supremo que. a busca do prazer filosófico é só um tipo especial de busca do prazer. Por enqua nto. estaria sendo nada mais que coerente com seus p róprios pressupostos. na medida em que. ou está certo na prática e errado na teoria — a não ser que esteja errado em ambas as coisas. Para seres oc iosos como eles. então só resta concluir que os de uses epicúreos. Agostinho. então eles não apenas são causa de alguma coisa. e eles não. por mais que o filósofo procure isentá-los de toda responsabilidade. então por que diabos não interferem logo de vez para acab ar com o mal no mundo? Neste ponto. Mas Epicuro afirma ai nda que. se denomina aliás tecnicamente. 23 Epicuro é taxativo: o mundo se compõe de átomos e a causa do movimento é o desejo.. mas para todos os seres e coisas. e então não são inócuos como os diz Epicuro. A única diferença que restaria entre Yaveh e os deuses ep icúreos é que Ele criou o mundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 39 presença23. personificado nos deuses. a não ser que os membros da Comissão de Orçamento do Congresso sejam deuses. vendo o debate acalorar-se acima do compatível com o decoro que deve imperar nes sas regiões excelsas. nos mostram pelo exemplo da sua perfeição o caminho do bem. que eles nem c onstituem o substrato material de que é feito o mundo.. Se Epicuro t ivesse se limitado a dizer isto. Mas entre dizer que eles não criaram o mund o e concluir que eles não fizeram coisa nenhuma desde que o mundo foi criado. Tirar o corpo fora de toda responsabilidade sob a alegação de não ter cr iado o mundo não é lá também um comportamento muito digno de um ser divino. sem necessidade de uma ação externa. nem são o gatilho que dispara o movimento da criação. sendo causa formal e final. se são tão f ormidavelmente bons assim. afinal. são causa formal do bem e causa final da vida ascética. é atribuída mesmo a santos e gurus. Veremos isto mais adiante. . pois. não exerc influxo nenhum e então a prática do epicurismo está destinada ao fracasso. a bússola por que se orienta o desejo. eles de fato não são nem causa material nem causa eficiente. Ou Epicuro está certo na teoria e errado na prática. tentemos tirar as conseqüências lógicas da teoria. os deuses não somente são a causa das ações do filósofo. eles produzem um efeito bom e logo são bons sob algum aspecto. por sua estática e autobenéfica perfeição intrínseca. E não somente são bons em si mesmos. como modelos e causas formais do bem. Mas. ativa e transitivam nte. são bons para o universo inteiro. mas o são duplamen te: em linguagem aristotélica. aparecendo em nossos sonhos. neste caso. na medida em que este bem não é só para os filósofos. por definição. Mas. E como ademais o desejo de prazer não mov e somente os homens. de outro. e a imobilidade a gente é.

Um piedoso subterfúgio .§ 5.

filosófica ou científica ou religiosa. só pode ser compreendida por quem primeiro. deve ter reso lvido perseverar na prática dos seus ensinamentos movida por essa esperança. o qual. uma vez trilhado. Epicuro nos teria dado uma verdadeir a pedagogia. A letra da doutrina epicúrea então não estaria aí para ser compreendida ou discutida filosoficamente. levaria o discípulo a uma “visão inte rior” que. amém. por intuição direta. para o argumento de que essa teoria. ou por esse pretexto. A prova d e uma doutrina. e vice-versa 24: se o mundo é como Epicuro o descreve. Se não fosse assim. de fato. ou melhor. pratique o método. Muit a gente. e sim para ser ac eita e “revivida interiormente”. que conf unde a inteligência e a torna inapta para seguir qualquer método que seja. isto é. embora falsa em si mesma. uma psicagogia: um guiamento da alma. para captar. À cosmologia propriamente dita só teriam acesso os iniciados. a não ser que a conexão desse método com a doutrina já esteja provada de antemão na doutrina mesma. Esta constatação fec a o caminho a um piedoso subterfúgio com que o discípulo beato poderia ainda tentar salvar alguma coisa do epicurismo. Só que: 1º A aceitação dessa h pótese excluiria o epicurismo do campo da filosofia. o que vimos no epicurismo foi justamente que nele não há conexão entre teoria e prática. Estando as coisas nesse pé. demasiado profunda para que a alcance a mera inteligência lógica. valesse como um artifício para apazig uar a alma humana. como na repetição ritual de um mito. então o mundo não é como Epicuro o descreve. sem discuti-la. e o valor de um método se mostra por seus resultados práticos. somente um perfeito charlatão iria apela r. mas apenas uma ima gem sugestiva que. mas aceita em confiança. ou pseudo-religiosas. Mais ainda: a doutrina expressa que conhecemos c omo cosmologia de Epicuro não seria a verdadeira cosmologia de Epicuro. Ora. Neste caso. à desculpa esfarrapada de que a cosmologi a epicúrea não deve ser tomada ao pé da letra. nele não se pode ser epicurista com sucesso. para inscrevê-lo no das crenças r eligiosas. porque toda religião que se preze distingue claramente entre doutrina e método. a cosmologia de Epicuro não pr etenderia oferecer uma descrição literal do mundo como realmente é. a dieta de Beverly Hills atestaria a veracidade do marxismo e os sucessos do sistema de franchising seriam um argumento em favor da física quântica. quem se agarre ao epicurismo como a uma última tábua está naturalmente livre para crer que assim seja. libertando-a do temor dos deuses e predispondo-a a ingressar no caminho epicurista. para uso dos novatos — um véu de fantasia na entrada do templo da verdade. nestes tempos de naufrágio. sem o qual Rajneesh. em última instância. e. o Guru Maharaji e o Rev. indiferentemente: a santidade do Buda demonstraria a validade da doutrina da livre empresa. qualquer bom resultado obtido na prática de um método poder ia ser alegado como prova de qualquer doutrina.40 OLAVO DE CARVALHO A cosmologia de Epicuro desmente portanto a sua ética. pois isto seria um convite a que cada qual se entregasse com tanto mais fervor à prática quanto menos estivesse em condições de 24 . Sob a aparência de uma falsa cosmologia. no fim de tudo. e os milagres de Cri sto seriam provas do vegetarianismo. de modo que mesmo resultados práticos fabulosos não serviriam em nada como pr ovas da teoria. É até possível que seja assim. mas os resulta dos práticos do método não servem nunca para validar retroativamente uma doutrina. que ao ati ngirem os graus mais elevados da ascese epicúrea poderiam então jogar fora o véu de símb olos. lhe revelaria o indizível segredo do universo como realme nte é. mas interpretada simbolicamente. 2º Não podemos admiti-lo nem mesmo como crença religi osa. Se a coisa fosse extrapolada para domínios ex tra-religiosos. Segundo essa hipótese. em nome de quaisquer benefícios futuros a serem alcançados pela práti ca do método. Moon já não teriam um d iscípulo sequer. descul pa que nasce do desejo de enxergar profundidades insondáveis onde há apenas a banali dade de um pensamento confuso. como preço do ingresso na via da salvação. a aceitação preliminar de uma doutrina intrinsecamente absurda. mas apenas o seu pórtico fictício. e se a prátic a do epicurismo é possível. nada conseguindo entender da doutrina do mestre. e não impõe jamais. é sempre de ordem intelectual e lógica. a verdade viva incomunicável em palavras. a refe rida cosmologia não deveria ser julgada criticamente.

lançou contra a filo sofia de Demócrito. como veremos mais adiante. . sem notar que ela se aplica também a Epicuro.Objeção exatamente igual à que Pessanha.

no homem ca paz de julgar. uma vertigem abissa l. É a elas que se dirige o apelo de Epicuro e de José Américo Motta Pessanha. segundo Epicuro. Nada mais lisonjeiro. Uma possível saída para o dilema seria o conceito de eviternidade. para um materialista roxo como Epicuro ou Pessa nha ela deve assumir uma feição sinistra e diabólica uma vez constatado que. quem interprete assim as expressões da Bíblia acerca dos “pobres de espírito”. nada mais re sta dizer. e dotados portanto de memória e imaginação. 25 Não falta. 3º Mesmo uma cosmologia simbólica. Se a i déia em si já é bastante desconfortável. da “inocência” dos “pequeninos”. que não atinam com as temíveis conseqüências psicológicas a que podem chegar por esse caminho fácil. a equação epicúrea de que rarefação = durabilidade obriga-nos a admiti r que elas são mais duráveis do que os deuses mesmos. e os lugares mais baixos pelos seres mais densos. mais baixo ele está na escala ontológica e ma is próximo da irrealidade pura e simples. é autênt ico idealismo. Mas não pensem que termina aí o rol de problemas filosóficos que mantêm atarefadíssimos os ociosos deuses de Epicuro. mais rarefeitas do que os corpos dos deus es que as imaginam. Os deuses. diante deste sinal. então vale somente como miragem para atrair os discípulos a essa prática. do que sugerirlhe que sua estupidez é uma forma supe rior de aptidão espiritual. entre os seres e coisas deuses. fazendo a apologia do mongolismo. E se por acaso ocorresse a um deus a idéia desastrosa de pensar num gato ou numa lagartixa. pensar num homem que está pensando num gato que está pensando numa lagartixa. Se. Ou seja: que quanto mais matéria existe num ser. por exemplo. existência material (só que mais rarefeita que a do corpo). uma vez mortos . Sua eficácia depende de que o discípulo tenha abdi cado de toda demanda da veracidade e esteja somente em busca de um alívio factício p ara angústias banais. caso a lagartixa por sua vez não pensasse em mosquitos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 41 compreender a teoria. ipso facto. Sendo essas coisas. Há um pior ainda. os lugares mais altos e duráveis são ocupados pelos s eres mais rarefeitos. não são eternos. E isto. para um públ ico intelectualmente incapaz. Não estando presos aos limites de uma exi . A imaginação dos deuses. evidentemente. então. § 6. que se apresentasse como simples preparação imaginativa para uma ascese. a perfeita imbecilidade se tornaria a mais alt a prova de qualificação de um discípulo para a via espiritual25. se refazem integralmente tais e quais. re cordados pelos deuses. Neste caso. nessa hie rarquia dos seres recordantes. no mundo da pseudo-espiritualidade ou antiespiritualidade contemporânea. para dizer o português claro. estes miseráveis morta is ficariam. Se os deuses falam. Nossas cidades estão cheias de pessoas assim. Um deus pode. exceto o número do telefone do hospital psiquiátrico mais próximo. porém. São mortais. e isto inexoravelmente formaria uma hierar quia de durabilidade crescente que partiria de um deus provisório e culminaria num a lagartixa eterna. têm memória e imaginação. o candidato a discípulo. pelo menos alguns são também pensantes. mas. mas que. 4º Se a co smologia de Epicuro não vale nem mesmo como prefácio simbólico a uma prática ascética. desperta apenas um sentimento de incongruência. dotados de uma durabilidade maior que a dos A coisa tor na-se ainda mais catastrófica pelo fato de que. que talvez sirva para adormecer crianças ou velhinhas. sinal seguro de que algo ali está errado. — A eviternidade. e como tudo o que aparece na memória e na imaginação tem. e a cosmologia de Epicuro é apenas uma história mal co ntada. segue-s e que as coisas que os deuses recordam e imaginam existem materialmente nesse me smo instante. S e pensam. é porque pensam. ou perenidade. t eria de atender a um requisito óbvio: teria de ser sensata ou verossímil — pelo menos esteticamente verossímil — o bastante para poder acalmar provisoriamente a demanda d e explicações de um homem adulto. diz Epicuro. Vale o mesmo qu e um anúncio do Silva Mind Control. movido pelo temor reverencial que lhe inspira a pessoa do mestre ou pe la chantagem emocional da massa de seus condiscípulos. reprime a exigência interior de explicações e se atira junto com eles no abismo.

talvez até pudessem realizar o prodígio de recordar.stência determinada. Assim poderiam até . como coisa v ivida. fatos acontecidos antes de seu nascimento. ou sucedidos após sua morte. Bas taria que apelassem às memórias de uma vida anterior ou futura.

se prosternasse ante esses fenômenos como ante sinais do Espírito. levando-os a acreditar nos absurdos mais p atentes. “tendência”) e define como impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor. de uma vida para outra. pp. existem28 . Os siddhis são a pirita espiritual. do tempo e da morte. mas alguém dotado de poderes reais. e bastava um ocidental ter verificado isto para s ubmeter-se a ele com reverência e temor. além de recairmos no pecado mortal de idealismo. mos cairiam todos em linha reta e paralelamente27. os átomos se m ovem randomicamente em todas as direções. Jogos Extremos do Espírito ( Rio. e batia nesse ponto sem dó. logo em seguida argumenta. subtraindo-se ao menos em parte à lei de que da. Resta ainda um pormenor intrigante. de fato. sem perceber que ali havia apenas uma demonstração de siddhis ( “poderes”. 27 O que pressupõe que os átomos tenham pes o uma premissa epicúrea da qual Demócrito não compartilha pelo menos explicitamente. para o homem espiritual. típico cientista social brasileiro de formação marxista. Comprovar a autenticidade dos fenômenos produzidos pelo taumaturgo mineiro Thomas Green Morton foi o bastante para que Sodré. seria nada menos que eterna. entrando em contato fortuito uns Queda” e a expõe no início do livro Relatos de Belzebu a seu Neto. A Miséria da Ciência Social. e. os átomos devem ter também um princípio de moviment o livre e indeterminado. Epicuro crítico de Demócrito . O moderno intelectua l ocidental tem. no vazio infinito em todas as direções. para poderem retornar à memória dos deuses a cada nova existência destes . em vez de resolvê-lo. até esmagar o cérebro do infeliz. ou de qualque r outra. Se os deuses se refazem após cada existência. como que a desmascarar a fraude anterior. tal como as defesas de um neurótico contra a ter apia o tornam ainda inerme ante a neurose. numa linguagem aluc inante onde é impossível distinguir o que é dito em sentido direto do que é dito em sent ido oblíquo. e uma essência que permanecesse inalteravelmente a mesma po r cima da mudança. não pod endo portanto juntar-se para formar os seres e coisas que. Epicuro. uma zona nebulosa onde meras forças sutis da nat ureza podem ser tomadas pelos tolos como mistérios transcendentais. 110 ss. não é que ele não acredite em mais nada: ele redita em tudo. 1985. e contra ela. só para desmascarar-se em seguida e desmascarar.42 OLAVO DE CARVALHO mesmo tornar-se mais duráveis do que as lagartixas. tomando-o como mestre espiritual. Alianza Editorial. Pelo clinamen. 2 8 V. Comentarei este caso com mais detalhe no meu livreto O Antro pólogo Antropófago. Rocco. jamais chegariam a tocar uns nos outros como o pretende Demócrito. e não representam. permanecem fun damentalmente idênticos a si mesmos. no ato. e. Mas isso seria multiplicar o problema. não obstante. mostrou que as defesas pre tensamente racionais do intelectual moderno contra a ilusão religiosa o tornam ind efeso contra a fraude espiritual. existe continuidade de essência en tre as várias existências. Gurdjieff não era evidentemente um charlatão. que ele confunde com o mero charlatanismo. a cois a toda se complicaria formidavelmente. e como cada um desses seres também teria suas recordações pessoais. em sânscrito ). Sendo assim. de vez que estas não têm uma memória tão rica. Os siddhis pode m ser adquiridos por treinamento. que ind ependentemente dela. Madrid. Epicuro conclui que a impulsão inicial da queda não é tudo. 1990 ). § 7. Com isto. com igual cara-de-pau. Gurdjieff tinha um prazer diabólico em humilhar os intelectuais ocidentais. pela viabilidade do moto contínuo.” Gurdjieff provou isto em toda a linha. Deste apelo à razão. precisariam ser eviternos eles mesmos. ficaria totalmente revogada a mais i mportante diferença entre os deuses de Epicuro e os da religião grega. Ele sabia do ponto vulnerável que há na alma de todo materialista d urão. acreditando que precauções contra es te bastam para resguardá-lo daquela. Um exemplo contundente encontra-se no livro de Muniz Sodré. senão uma enganosa periferia do Espírito. a mais funda incapacidade de perceber a fraude espirit ual. que ele denomina clinamen (“inclinação”. constituídas por sua vez de seres ainda mais duráveis. Carlos García Gual. mas aí o leitor de alma ob líqua já está zonzo demais para perceber a piada. é que. a vacuidade ment al do seu público. “Quando u m homem já não crê em Deus — dizia Chesterton . pois os sere s recordados.

Mas o filóso fo do jardim não ignorava a necessidade dela. Um exemplo é a sua crítica de Demócrito.O leitor já deve ter percebido que a coerência lógica não é o forte de Epicuro. polemizando na base do faça-o-que-eudigo-mas-não-faça-o-que-eufaço. Epicuro responde que. não oferece resistência. impelidos por um inexplicável empurrão inicial. os átomos. endossada por Karl Marx e por José Améri co Motta Pessanha. nem a desprezava. os áto26 O temível gozador metafísico Georges Gurdjieff reeditaria no século XX essa teoria. tanto que a cobrav a dos adversários. o vazio. onde o principal que aco ntece é tudo vir abaixo 26. ele geralmente chegava a conclusões tão ou mais estapafúrdias do que aquelas que r efutava. co m um ar de seriedade à Buster Keaton que bastou para impressionar uma multidão de in telectuais. dentro del e. O universo de Demócrito é um vasto escorregador. caem e acabam por se chocar uns com os outros. se fosse de fato assim. Demócrito proclamava que no mundo só existe o vazio e. Ele denomina-a “Lei de . não sendo material. e por isto os átomos. Só que.

levado pela coincidência vocabular. e não a um “vazio” que tornaria o indeterminismo perfeitamente redundante. mas simplesmente porque não haveria nada que determina sse a direção do movimento. Encounters and Conversations. Que ninguém c onfunda. A física de Demócrito e sua refutação por Epicuro são ambas igualmente falazes. trad. aliás um dos mais belos livros do século. Wolfgang Strobl y Luís Pelayo. formas da determinação. no vazio indeterminado. ou complementarmente .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 43 com os outros. 1971 ). Madrid. A associação que Pessanha fez entre cosmologia e política é p ura figura de estilo. para isso. todos os movimen tos seriam indeterminados. e vão gerando e destruindo mundos e mais mundos sem dar a mínima satisfação a seres. pois a indeterminação ex clui. acoplam-se e desligam-se à vontade na mais obscena gandaia cósmica. uma escala. para a mentalidade de hoje. que não fora ainda codificada por Aristóteles e se ex ercia de maneira empírica e amadorística. Physics and Beyond. Metaforicamente. Tudo isso é de uma ingenuidade atroz. um novo p rincípio. 29 30 V. na física de Epicuro. BAC. New York. contemporâneo de Platão. precisamente. enquanto nós. torna o clinamen perfeitament e desnecessário 30. Pois essas são. adiante. não deixando para os pobres átomos outra saída senão a obediência servil a uma necessidade tirânica. uma visão determinística da queda inevitável do capitalismo não parecia aos comunistas ser mais progressista do que a crença libera l na imprevisibilidade da História? Os teóricos do liberal-capitalismo não atacaram no . sem a necessidade de introduzir. § 20. porém mais inexplicável ainda é que os átomos devam ter o direito a estar livres da lei de queda. de fato. não porque quisessem fazê-lo movidos por t ais ou quais intenções epicúreas. mas Pessan ha condenou a primeira e endossou a segunda sob a alegação de que aquela favorece um a ética “conservadora” e esta uma ética “progressista” — argumento que é propriamente aquilo ue se dá a denominação científica de o fim da picada. no vazi o. seres viventes. todos os movimentos teriam de ser paralelos e uniformes. porque aí os átomos. Pergu ntamonos se essa gente conseguia distinguir um ovo de um tomate. ou completar um silogismo da primeira figura. americana. como queiram — a um princípio real e concreto. uma concepção muito sin gular acerca da liberdade. Pressupõem balizas. toda regularidade obrigatória. Demócrito não se deu conta de uma coisa que hoje até um garoto de escola perceberia num relance: que. uma vez admitido. que é o determinismo mecanicista. ficamos inap elavelmente submetidos à arbitrariedade dos átomos. e por isto é mais fácil perdoar a ingenuidade da cosmologia de Demócrito do que a inc onsistência da sua refutação. usando e abusando do seu direito ao clinamen. No indeterminado. as considerações de Nicolau de Cusa quanto a este ponto. ou dialeticamente. Diálogos sobre la Física Atómica. sobra lugar para o imprevisto e o liv re-arbítrio. em face dele. Este se opõe — logicamente. por definição. Harper & Row. Acontece que Demócrito. leiam Werner Heisenberg. sem podermos dar um pio contra o seu maldito clinamen e só nos restando. a festança dos átomos no liberou geral da cos mologia epicúrea pode parecer mais progressista ou democrática do que a submissão impl acável à lei de queda. e muito menos um princípio tão extravagante como o clinamen. Pessanha enxergou conservadorismo na física de Demócrito pela razão de que a lei de queda impõe um determinismo integral. Em caso de dúvid a. um espaço finito referido a um centro ou pelo menos a limitação a um campo determinado. o indeterminismo epicúreo com o de Plan ck e Heisenberg. Mas é só uma aparência. coisa s ou deuses. Tudo isso é. os átomos se move riam indeterminadamente em todas as direções. não podi a ser mesmo muito bom em lógica. O devotado interesse de um filósofo pelos direitos políticos dos átomos p ode parecer um tanto bizarro. Volto a este assunto mais adiante. formando os seres e os mundos. 1975 ( ed. O vazio. Aliás sobra até demais. que pode ser interpretada num sentido como no sentido inverso. Mas é também falso o que alega Epicuro: que. expressões como “cai” e “sobe” não fazem o menor sentido29. Mas Epicuro já conhecia a obra de Aristóteles. Algumas décadas atrás. acabam por se aglomerar em massas compostas. ao passo que. a alternativa de relax and enjoy que nos é oferecida pelo epicurismo.

marxismo justamente o seu calcanhar de Aquiles determinista? O uso de imagens t iradas da ciência física em apoio desta ou daquela ideologia política só tem valor retóric o. Aceitar a física de Epicuro por ser progressi sta é o mesmo que rejeitar a de Einstein por ser judaica. no sentido mais baixo da expressão. .

Por uma coincidência irônica. Os homens são dóceis e manipuláveis. Feitas as contas. argumentava ele. sem que ele tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar persuadido de que exerce livremente o seu clinamen. ditadura e democracia podem indiferentemen te chamar em seu apoio Demócrito ou Epicuro. por meio dos quais um animal ou um ho mem pode ser governado desde fora.44 OLAVO DE CARVALHO Mas ainda há um outro senão. a lei de queda ou o clinamen. ÉTICA DE EPICURO § 8. que não mente. reagindo contra o ardil. a coisa é das mais óbvias . Bismarck dizia que a ciência do governo consiste em pauladas e guloseimas. todos os argumentos são de borracha. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a lib erdade quem se coloca para além da dor e do prazer. CAPÍTULO III. podemos levá-lo para onde o quisermos. ou Tetrafármacon. então. O culto destes valore s é comum a Aristóteles. não são livres: obedecem ao determinismo do instinto. com o seu “princípio de rea lidade” que transcende o princípio do prazer. entre a vontad e livre e a obediência ao instinto. com iguais resultados: no reino da retórica política. abstrai-se das impres sões de prazer e dor e decide segundo a lógica implacável da ordem física. e o clinamen um instrumento da tira nia. A teoria consiste apenas na afirmação de alguns valores gerais que coincidem em gênero. Freud. Politicamente. reação e progressismo. Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liber ta do determinismo? Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dorprazer é o comut ador que aciona os reflexos condicionados. caem no engodo das apa rências. só podendo ser válidas se admitirmos a hipótese de uma verdade dupla. que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo. e não tem nenhum vín ulo de implicação recíproca com a cosmologia — ou física — de Epicuro: pode ser aceito dentr o ou fora dela indiferentemente. Mas o que recebe costumeirame nte o nome de “ética de Epicuro” é a parte prática. ardilosamente encenadas pelo tirano (lembram-se do futebol no tempo do ge neral Médici?). A ética de Epicuro divide-se em duas partes: uma geral ou teórica. fazendo um asno persegui r a prazerosa cenoura e esquivar-se do doloroso porrete. levados pelas sensações. O remédio de todos os males A parte ética da doutrina epicúrea. Mas não é preciso tanta ciência para nos inf ormar aquilo que um carroceiro sabe perfeitamente: que. tornou célebre a condenação do clinamen em nome da liberdade. o “quádruplo remédio” q lósofo propõe a todos os . teórico do Partido Radical francês. aos socráticos menores. a Platão. número e grau com aqueles que eram subscritos por todos os filósofos da época: a superioridade da contemplação sobre a ação. a vida filosófica como um caminho para a felicidade etc. Eis aí no que dá citar sem ler. Contra Epicuro cabe portanto a mesma objeção que Pe ssanha fez a Demócrito: que sua física e sua ética não tem conexão entre si. mediante a distinção. que é rígido e repetitivo como a lei de queda. O filós ofo Alain. Não há saída: se o s átomos seguem o clinamen. Aristóteles o confirma. etc. O cidadão consciente. e especialmente da humanidade brasileira. outra especial ou prática. em cujo título os organizadores do ciclo de Ética se inspiraram para nomea r uma das divisões do evento: “O cidadão contra os poderes”. não é nem um pouco meno s encrencada do que a sua cosmologia. E também pelo Dr. Aqui é o determinismo que se torna “progressista”. aos estóicos. justamente po rque buscam o prazer e fogem da dor. esse argumento está no livro Le Citoyen contre les Pouvoirs. que Pessanha apontou como a solução para todos os ma les da humanidade.

alcança sua finalidade na completa e definitiva aniquilação do h omem. daquilo que Epicuro entende como felicidade. um tipo de fatalidade. átomos e homens só encontrem cada vez mais dor. destacam-se as da convers ação filosófica com os amigos na paz do jardim: o conteúdo da conversação exerce efeito calm ante. ensinando o discípulo a não temer os deuses (já que eles estão fora da jogada). o clinamen é. Não é preciso ser muito esperto para perceber qu e a proposição decisiva é a terceira — uma exata inversão do timor domini principium sapie ntiæ. o Treinamento Autógeno de Schulz. E quando. essa afirmação contraria os princípios fundamentais da sua co smologia. numa ginástica interior.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 45 males humanos. Palavras que consolam . parentesco que Pessanha — sem dar nome aos bois — mencionou de passagem. 4ª. e. a Psicociber nética de Maxwell Maltz. sem escapatória. pois um exame mais cuidadoso faz brotar delas algumas dúvidas inquietantes. os falecidos devem estar todos materialme nte instalados em algum materialíssimo mundo. Fe cha-se assim o círculo da fatalidade. ou m elhor. não se d a divindade. não se deve temer a morte. que hoje há na praça com o mesmo o bjetivo. onde galáxias e amebas. supramundo ou submundo. O Te trafármacon consiste. a Programação Neurolingüística de Bandle r e Grinder32. é fácil alcançar o bem. que Epicuro afirma a completa extinção do ser humano após a morte física. ante o olhar indiferente dos deuses. e como tudo o que se imagina é material. e. o homem encontr a o caminho da meditação filosófica que deve libertá-lo. na qua l o praticante. buscando o prazer. ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. uma técnica para a conquista da felicidade. sem contar a lista interminável de exercícios orientais e pseudo-orie ntais que o movimento da New Age espalhou da Califórnia para o mundo. 2ª. Daí que. é fácil suportar o mal. que. abdicando da busca insensata de prazeres que causam mais dores. ne m a morte (pois quem deixa de existir já não pode sofrer) etc. uma técnica deve ser julgada exclusivamente pelos seus resultados prát icos. o pobre Tetr afármacon já pode se considerar derrotado pela profusão de concorrentes modernos. Nesse mundo d estituído de qualquer regularidade previsível. num universo absolutamente trágico onde átomos e homens v agam a esmo de erro em erro e de sofrimento em sofrimento. Dentre as recordações agradáveis. condenada ao fracasso. que indesculpavelmente me omiti de explicar na primeira edição d este livro. Mas o Tetrafármacon não é de maneira alguma uma ética. mas o exercício desta liberdade choca-se contra o fatalismo da dor. essa macabra celebração do nada. provém de que o objetivo máximo dessa técnica é inculcar no praticante quatr o convicções básicas: 1ª. É um caos. o Silva Mind Control. portanto. não há possibilidade de realizar planos. sumariamente. Não vale mais. já que amigos. nem menos. Mas há duas outras questões ainda mais perturbadoras: 1. a Sofrologia de Caycedo. numa disciplina. sim apenas uma psicologia prática. finalmente. O clinamen é apresentado como um movimento livre. num mercado super-saturado de similares como o Pensamento Positivo de D ale Carnegie. do q ue as muitas técnicas. fugindo da dor. passar por uma mensagem de consolação e atrair p ara o jardim de Epicuro milhares de infelizes em busca de alívio? Que consolo podi . parentes e inimigos se lembrarão de nós. e toda ação está. intermundo. antecipadamente. 3ª. Ora. norte-americanas na maioria. mundos e homens formam-se e desap arecem por acaso. como por exemplo a 31 O nome Tetrafármacon. e no qual Pessanha sugeriu que o povo brasileiro fosse buscar ins piração para sair da miséria moral31. Mas consolam só quando não lhes prestamos muita atenção. va i aos poucos substituindo as sensações dolorosas da vida presente pelas recordações agra dáveis do passado até fazer com que o passado se torne presente e o presente desapar eça sob a imagem do passado. seguinte: se tudo o que imaginamos existe em algum lugar. seguida de total e eterno esquecimento. O cosmos de Epicu ro não é um cosmos. no fun do. não alcancem um resul tado melhor. partindo dos movimentos cegos dos átomos no vazio sem sentido. esta meditação leva-o à conclusão in tável de que o único alívio possível é a morte. É com plena inconsistência lógica. então teremos de continu ar a existir depois da morte. uma vez fugido da agitação da polis e bem protegidinho no jardim. 32 Veremos logo adiante o parentesco entre o Tetrafármacon e a Programação Neuroli nguística. A pergunta é: como pôde essa filosofia ne crófila.

am encontrar no jardim sabendo que ele é a entrada do cemitério e que depois do cemi tério há somente o cemitério maior do esquecimento cósmico? Que atrativo enxergavam ness a promessa digna de Jim Jones? .

me parece inverossímil. que para o comum dos mortais é uno. atual. ou um oco no buraco. Mas os resulta dos da brincadeira são graves. tr arão de volta as coisas passadas. Fazemos esta disti nção comparando aquilo que pensamos e imaginamos por vontade própria com os dados que nos são impostos pela situação presente. O mesmo aplica-se às recordações: se produzidas com intensidade suficiente. a prática da sua ética é que é uma condição prévia para que alguém possa chegar a acreditar na sua física. Tal vez a encontrem na sua prática. conhecedor aliás da lógica de Aristóteles. por trás de todo o tecido de alegações beatas que lhe serve de embalagem. Isto mostrará em que consiste realmente a ética de Epicur o. e estas ingressarão na vida presente como um objet o que. quanto mais avance na prática da med itação epicúrea. são então vivenciados como se fossem objetos de experiência concreta. e assim por diante. fazendo brotar seres e coisas que se materializarão. para que a coisa esquecida não apenas volte à memór ia. Para sermos coerentes com a física de Epicuro. O mundo da vi da. A abolição da consciência A prática do Tetrafármacon cria. acabará por abolir no discípulo a intuição dessa diferença. não poderia deixar de perceber sua inconsistência. ou para trás. A ginástica cronológica de Epicuro. levando-o a acreditar na r ealidade efetiva. na forma de corpos sutis . um tal amálgama de contradições. A cosmologia de Epicuro é. se praticada com persistênc ia. Neste momento. que um filósof o de ofício. ao contrário. em lógica. um incon sciente. mas. O que cha mamos senso do real funda-se na distinção do efetivo e do possível. o seguinte problema: se os objetos que aparecem na imaginação sempre existem tais e quais. Vale a pena examinar o lado psicológico dessa inversão. elevado a sistema e regra de vida. Exposta assim. mais ficará persuadido de que aquilo que imaginou existe ou está entrando na existência nesse mesmo momento e é até mesmo “mais real” do que os objetos sensíveis pre sentes. § 9. abre espaço empurrando a água para os lados. o discípulo. meras possibilidades lógicas só concebíveis a título de const ruções abstratas. como se viu. uma segun da intenção? Haveria nessa loucura um método? Não se esconderia por trás do besteirol epicúr eo um segredo temível? Essas perguntas não têm resposta nas teorias do epicurismo. Teria ele. Elas poderiam ser outras. por trás de tanta absurdidade. A hipótese de que Epicuro fosse apenas um incompetente. essa cosmologia de qu eijo suíço parece O Exterminador do Futuro ou Alice no País do Espelho. como queiram. ba stando que eu quisesse mudar o foco da . digito no teclado do computador as palavras que me brotam de dentro. bastará abrir um b uraco no oco. um sonso. a física para hipnotizados. que não escapa ao exame atento de um adulto letrado de inteligência m ediana. É um wishful thinking potencializado. num espelhismo sem fim de tempos den tro de tempos e de hiatos dentro de hiatos. em algum lugar do cosmos. mas se expandirão pelo mundo em to rno. mas aconteça de novo de maneira ainda mais realística do que na primeira vez. e pelos buracos o meditante poderá saltar para o p assado ou para o futuro com a maior facilidade e sem precisar de nenhuma máquina d o tempo. jogado num tanque. se tornará para o meditante epicúreo uma superfície esburacada. Que um suje ito treinado nessa regra possa chegar a admitir como santas verdades os mais pat entes absurdos da física epicúrea. Acontece que a distinção que o cérebro humano faz entre a s sensações presentes e as imaginadas é aquela que. então o esf orço de enxergá-los cada vez mais nítidos com os olhos da fantasia até que se superponha m às impressões do presente deve necessariamente produzir efeitos físicos. denso e contínuo. desde logo. Assim.46 OLAVO DE CARVALHO 2. do que quer que consiga imaginar com suficiente nitidez : os futuros contingentes. corresponde à diferença entre o efetivo e o possível. para ver que tipo de conduta moral pode resultar dela. teremos de admitir que esses efeitos não ficarão m esmo confinados no corpo do indivíduo imaginante. atual e materialmente. por exemplo. é algo que finalmente encontra aqui sua explicação: não é ética de Epicuro que deriva logicamente da sua física. E quando ele eventualmente se lembrar de que an- tes se lembrava de alguma coisa da qual agora não se lembra mais.

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a um colega ou a seres imaginários. a criança atribui a respons abilidade de seus feitos a um irmãozinho. já não o pode agora: está fixado para sempre. tendo acontecido . exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência d e nós mesmos como sujeitos livres. já não pode desacontecer. por sinais exteriores. tantas vezes quantas abra os olhos. e se assumo a autoria desses atos inter iores como assumo a de minhas ações materiais e externas. dizia Dilthe y. que. O testemunho sincero de si p ara si é a primeira e indispensável condição do conhecimento objetivo. Meu olhar está limitado pelo que o mundo me oferece. Mas o desejo de a ssumir a autoria de seus atos interiores — ou mesmo exteriores — não é inato no homem. para Machu-Pichu ou para Winnesburg. e não to ma consciência de que mente senão pelo olhar severo do pai que a faz descer do céu da imaginação para cravá-la no chão terrestre onde as causas se atam inapelavelmente às conse qüências. que se impõem à minha visão com o dados de um mundo que não fiz e que vem pronto ao meu encontro. enquanto estiver sentado aqu i. Do mesmo modo. no outro soberana. o efetivo do meramente possível. que não se dobra imediatame nte ao meu arbítrio com a plasticidade do imaginário. portanto. ativos. Mas. aquilo que se passará amanhã não pode ser agora percebi do como fato. na memória e na responsabilidade. verá outras coisas e já não estas. em suma — de que as coisas venh am a se passar de outro modo. re-produzido na imaginação. ao passo que minha imaginação não conhece outros limites senão os seus próprios.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 47 minha atenção para outro assunto. que a distinção entre o fato percebido e a possibilidade imaginada se faz por referência à vontade. O espaço ainda pode ser parcial mente vencido pelo deslocamento do corpo. T omamos consciência da realidade objetiva. Não posso girá-los daqui para Porto Alegre. Inicialmente. como conjetura esp erançosa ou temerosa. por um ato de vontade que resolva sair em busca do tempo perdido com o empenho reconstrutiv o de um Proust. EUA. noutro lugar. um anúncio não t erá nunca a presença maciça do fato consumado. Esta diferença é que me dá a medida do real: admito como efetivo. que é súdita num caso. verei diante de mim o mesmo teclado e a mesma tela. O senso da diferença entr e o imaginado e o percebido repousa. a criança aceita esta limitação por cont a da autoridade do pai. se podia ser de outr o modo um instante atrás. e conforme seja bom ou mau. virá sempre a companhado do temor ou do desejo — da possibilidade. portanto. O presente. diferenciando-a das nossas projeções s ubjet ivas. mais fortemente ainda está presa a um determinado momento do tempo. Se minha percepção está limitada ao lugar do espaço onde me encontro. e as culpas aos castigos. em contrapartida. que no adulto seria cinismo. C om inocente desenvoltura. como gi ro num instante a tela do pensamento e troco de palavras. Mas só posso fazer esta comparação se me lembro claramente de haver pensado ou imaginado tais ou quais coisas por vontade própria. Compreen do. como objetivamente existente. Se escrevo estas palavras e não outras. um mundo que me resiste. que os circunstantes não podem senão conjeturar por analogia. As cenas deleitosas de outrora. mas somente concebido e projetado desde dentro. vindo de f ora. O que ontem me sensibilizou a retina. nossos atos inter iores não têm outra testemunha senão nós mesmos. perceba a falsidade da intenção que alego p oderá provar por testemunho direto aquela que oculto. ninguém pode me impedir de fazê-lo : nem mesmo quem. Se decido mentir sobre o que se passa dentro de mim. desde dentro. Mas o tempo é invencível. hoje só pode ser produzido desde dentro. Existir é resistir. Por mais certo e fatal que se anuncie o futuro. Ora. Ohio. posso assegu rar. vividas como um dom gratuito da realida de aos nossos sentidos. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral. Não posso fazer co m que meus olhos vejam outra coisa senão o que está na frente deles. agora só podem ser re-vividas como obra nossa. e não sem algu m esforço. Só eu conheço por testemunho direto meus pe nsamentos e intenções. na língua que o povo gaiato atribuiu ao ex-presidente Jânio Quadros: fi-lo porq ue qui-lo. criadores de seus atos como de suas int enções. É apreendendo os limites do meu poder — daquilo que Kurt Levin chamava espaço vital 33— que chego a distinguir o real do irreal. mas 33 . É só assim que posso captar a diferença ente o que brota de mim e o que me vem do mundo.

Cult rix. — Não é uma ironia que esse termo técnico inventado por um eminent e psicólogo judeu tenha se tornado um slogan nazista? . 29 ss. Princípios de Psicologia Topológica. trad. Kurt Levin. Álvaro Cabral.V. 1973. pp. São Paulo.

O compromisso com a verdade. por sua vez. de Platão e Aristóteles até Kant. Mentir alivia porque economiza à psique o esforço de supo rtar um desequilíbrio temporário. A melhor definição de neurose que conheço é do meu falecido amigo e mestre Juan Alfredo César Müller. sem o sacrifício ao menos temporário da harmonia interior em vista de valores que transcendem os in teresses imediatos do organismo psicofísico. Ortega y Gasset. ajudando a manter o orga nismo psicofísico naquele estado de ausência de tensões que os médicos denominam homeost ase. mediante um suicídio preventivo da liberdade. e atendendo apenas aos ap etites imediatos. a imitação e a introjeção são apenas ocasião e instrumento da manifestação de uma capacidade preexistente. que não há consciência moral. por exemplo. A facilidade com que os seres humanos se li vram dele sempre chocou os filósofos. Na neurose. Scheler. como pretendem alguns psicólogos e cientistas socia is. como a imaginação ou determinados sentimentos. em que o homem assume — ou não assume — um compromisso interior com a verdade e a coerência. É evidente que isto não significa em hipótese alguma uma redução da autoconsciência ao efeit o de uma “introjeção de papéis sociais”. a menti ra transforma-se num sistema. 35 .” Objetividade é sinceridade projetada no exterior. Mas ninguém ficaria neurótico se a opção neurótica não lhe parecess vantajosa. ainda que assumido de coração. um gênio da psicologia clínica. dizia Hegel. for mam um nexo indissolúvel com a responsabilidade: as três condições que perfazem a autoco nsciência moral35.48 OLAVO DE CARVALHO depois aprende a estabelecer por si a conexão entre o antes e o depois. A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da ver dade sobre as coisas. num programa que se automultiplica. Os sonhos. Há sempre muitos meios de fugir da 34 verdade. Neurose. Isso quer dizer. mas da objetividade no conhecim ento. No desenvolvimento da autoconsciência. entre a autoria e a culpa. “A autoconsciência é a terra natal da verdade”. “Verdade conhecida é verdad e obedecida”. mas mesmo a verdade conhecida não pode ser obedecida de um a vez para sempre. Sinceridade e objetividade. só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la. sem algum sofrimento psíquico voluntário. e é assim que se desenvolve nela a autocons ciência. “Ser objetivo. Éric Weil. A pos sibilidade do conhecimento objetivo depende portanto de uma opção preliminar. jamais causas produtoras de uma criação ex nihilo. dizia Platão. entre a in tenção e o ato. entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana. que nos garanta c ontra as futuras tentações do erro e da mentira. Os filósofos gostariam que todos os homens fossem dóceis à verdade. A autoconsciência não nasce pronta. ocultando a me ntira inicial sob montanhas de entulhos só para depois alguém ter de pagar a um psic analista para removê-los. ao menos no instante decisivo em que uma verdade intolerável se abre d iante dele como um abismo. N ada pode obrigá-lo a este compromisso. assim como sincer idade é introjeção dos limites objetivos. jamais obriga o homem todo : continentes inteiros da alma. nem conhecimento objetivo. mas é uma fortíssima predisposição. apagar as pistas do embuste. podem continuar vagando à margem de toda obrigação de veracidade. Se mentir para si é esquecer a verdade. É claro que em grande número de casos esse arranjo oportunista acaba produzindo uma neurose. é m orrer um pouco. dizia ele. mas é uma aspiração utópica e autocontraditória: se a percepção da verdade nasce da liberdad . em suma. A verdade é aceita assim como um valor moral antes mesmo de se firmar como u m critério cognitivo34. que será a base não somente da conduta moral. A opção pela verdade deve ser refeita d iariamente. são um tecido de eufemismos que pode servir para amortecer ou desviar o impacto das verdades indesejáveis. Pretender que a autoconsciência se ja mera introjeção de papéis sociais é retornar à velha lenda lockiana da tábua rasa. é uma ment ira esquecida na qual você ainda acredita. n eurose é esquecer o esquecimento. que se manifesta inicialmente sob a forma passiva da imitação e da obediência — assim como a capacidade de caminhar por si próprio se exerce de início sob a forma passiva do ser levado par a cá e para lá pelas mãos dos adultos. dizia Frithjof Schuon.

cujas transcrições corrigida s formarão um volume a ser publicado com o título Sobre os Fundamentos da Moral. e da moral como fundamento da objetividade cognoscitiva — inclusive nas ciências —. .Temível sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda a ssentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código público . a responsabilidade e a sinceridade como adornos subjetivo s. — O conceito acima resumido da autoconsciência como fundam ento da moral. agosto-outubro de 1994 ). uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e mecânica. que dis pense a autoconsciência. É a coisificação da verdade. foi exposto com mais detalhes no meu curso de Ética ( Casa de Cultura Laura Alvim. Rio de Janeiro.

as novas éticas nascidas do embotamento moral não consistirão em outra coisa senão num sistema de racionalizações que transformará esses três desejos em hipóstases de valores morais universais e em fundamentos máximos de to da conduta eticamente válida. farão br otar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. e continuará assim até que a conjunção da necessidade com a oportunidade o transforme de vez no criminoso que se mpre foi. A linguagem abstrat a da filosofia moral terá se tornado uma arma a serviço de fins egoístas. O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. ao fazê-lo. muitas das quais já vinham produzindo. cuja violação sujeita o home m a padecimentos interiores. criará argumentos para demonstrar que aquil o que ele não sente inexiste no mundo objetivo. Não poden do suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferên cias subjetivas. ele cairá na tentação d e argumentar a favor delas. Mas. no qual el e não tenha de responder pelos seus atos. quando um homem já não sente a reali dade de alguma coisa. não são tão diferentes umas das outras. se condensam todo s no triângulo áureo sexo-dinheiro-fama. Aí ele encontrará o argumento decisivo a fav or do seu sistema: o argumento do número. criará um novo critério de moralidade. ele não as vê senão como convenções mecânicas. se esse homem for um letrado. quando não à execração pública ou a penalidades legais. No homem sem maiores interesses morais. produzindo tantas ficções quantas forem nece ssárias para conservar o indivíduo num estado de profunda sonolência moral. de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual. ele con tinuará a ter ódios e afeições. que não consistirá em outra coisa senão na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo. na esfera intelectual. mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível. Um dia o sujeito n caminha pela prai a e. não melhores ou piores do que quaisquer outras. O emb otamento completo da intuição moral. Albert Camus dá em l’Étranger o retrato do tipo cuja mediocridade pacata esc onde a mais absoluta i sensibilidade moral. o conceito esvaziado não tem mais função. Após ter solapado as bases de todo critério moral objetivo. Seu sistema pessoal de racionalizações será en obrecido e investido de validade universal como expressão das “aspirações da nossa época”. e será si mplesmente esquecido.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 49 Uma vez afrouxadas porém as demandas da autoconsciência. Como a inteligência humana não opera no vazio. o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata. mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. Completa-se assim a inversão: as paixões mais baixas e v ulgares ergueram-se ao estatuto de mandamentos divinos. e pode até continuar a obedecê-las exteriormente p mero hábito. As aspirações subjetivas dos indivídu os. para dar vida nova ao con ceito. que vão desde as “racionalizações” corriqueiras com que na vida diária nos furtamo s ao apelo de pequenos deveres. Mas um homem não vive muito tempo em estado de abstinência moral. ele não suportará ser o único a sentir como sente. Sua incapacidade para discernir o bem e o mal exceto como convenções vazias será usada como “prova” de que toda lei moral é um a convenção vazia. o conceito dessa coisa. logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. de um ego in flado que remoldará o mundo à sua imagem e semelhança. e. até a completa inversão. que. até mesmo sem sentir raiva. a imaginação torna-se a serva p restativa do interesse orgânico imediato. Embora conheça perfe itamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos. O entorpecimento da consciência tem graus e etapas. Invariavelmente. e por isto o filósofo moral improvisado logo terá o grato prazer de descobrir que suas idéias são compartilhadas por milhões de pesso as iguais a ele. resolve matar dois transeunt es a tiros. substituída por uma retórica sofística de um artifici alismo alucinante. porém. M as como os desejos da multidão. somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauper amento interior e sair em busca do sentimento perdido. é natural que. Até o fim ele não compreende a revolta e a indignação que seu crime desperta . A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. outras tantas filosofias morais coincidentes. com os mesmos fins. sobretudo na época de cultura de massas que padroniza os desejos da multidão. chegou a ser diagnosticada por Konrad Lorenz como uma forma d . sem qualquer motivo. repugnâncias e desejos. moldados pela cultura de massas. e a deformidade da sua psique será erigida em padrão de medida moral para toda a humanidade. Nessas horas.

apagando da memória humana .e degenerescência biológica. que.

lavagem cerebral. O que desejo perguntar é como ele se produz num indivíduo em particular. Se esse algo não é nem a hereditariedade nem aquela conjunção fortuita de circunstâncias t raumáticas que podem produzir uma personalidade psicopática. onde o desejo de um determinado tipo de prazer físico acaba por se tornar. n alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros da experiência moral acumulada ao longo da evolução biológi ca37. para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas. então só pode ser uma ação huma na premeditada. organizações religiosas e pseudo-religiosas. engenharia comportamental. em muitos países do mundo. partidos políticos. a lista nã mais fim. guerra psicológica. realizada segundo uma conexão racional de c ausas e efeitos. é o que se denomina uma técnica. os casos de psicopatia congênita. agindo sobre essas pessoas. na escala da h umanidade. Não há disputa política. ou de um conjunto de técnicas. Esses conhe cimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas. hipnose instantânea. Essa técnica existe. Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que govern os. A ação humana premeditada. A comparação faz ressaltar a escala de valores em que por vezes ( não sempre. O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados. destruiu nela s a i tuição moral elementar. Konrad Lorenz. é forçoso admitir que algo. Mas sondar as causas primeiras desse fenômeno. Não há neste mundo um só movimento de massas. anuncia o começo da demol ição da espécie humana 36. Não é possível que o conjunto do s militantes radicais do mundo se componha de uma maioria de personalidades psic opáticas. para q ue manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos. a amoldagem passa pelo embotamento maior ou menor do senso moral e da consciência intelectual. que recebem o nome técnico de personalidades psicopáticas ou de sociopatas. e logo em seguida um grupo d e marmanjos afrescalhados do grupo denominado As Noviças Rebeldes. espero eu ) se inspira a militância gay. O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais v asto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade. estranho aos sentimentos comuns da espécie humana. Com alarm ante freqüência. Lorenz tinha razão. um só Estado nacional. inf luência subliminar. não é meu intuito. Aliás existem mui tas. faz dele um UFO axiológico. metidos em hábito s de carmelitas e caricaturando da maneira mais aviltante as freiras católicas. propag . Programação Neurolingüística. 36 37 V. determinados mov imentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátri cos e jamais passariam de clubes de excêntricos. retira-o d o debate civilizatório. Quando hoje vemos hordas de intel ectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável. empresas e sindic atos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. é claro. mais respeitável do que uma devoção rel igiosa. para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue que m fale contra. Essa escala é incomensurável com qualquer tábua de princípios éticos já conhecida ne ste mundo: a adesão a ela torna um sujeito inacessível à argumentação racional. para consulta de raros pesqu isadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática. Num mesmo dia. p ara as mais variadas finalidades. vi na TV o líder gay Luiz Mott apelando a um determinado comediante do SBT para que deixasse de ridicularizar a classe dos homossexuais com suas paródias grotescas. diria Lorenz. informação dirigi da. A Demolição do Homem. O que me intriga é: como um homem de personali dade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idên tico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perve rsidade moral? Pois é óbvio que. para mo ldar a personalidade de seus membros de acordo com os fins da organização.50 OLAVO DE CARVALHO registros de valores aprendidos ao longo da evolução animal. estimulação por feromônios. controle do imaginário. se não existisse esta possibilidade. uma só empresa d e grande porte que não disponha de uma técnica. campanha publicitária. Excluo. ao menos implicitamente. afetadas de taras congênitas. que.

submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante. que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação. Sem ela. de psicose informática38. . 1989. Flo Conway and Jim Siegelman. Lippincott.anda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles. A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a o nipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. os grandes movimentos de mas38 V. Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personalit y Changes. muito pertinente. New York.

K arl Mannheim. São Paulo. 41 V. Rio. em 1969. 1961. Lavagem Cerebral. Quando se escrever. Geiser. sob as aparências de continuidade daquilo a que a humanidade chamava civilização. seria concebível que populações submetidas in cessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito te mpo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo d a demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada. é claro. na produção da história contemporânea. trad. Nacional. mais que o século da física atômica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 51 sa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. disformes e fracassadas que os séculos e os milênios anteriores rejeitaram saem do fundo do lixo do esquecimento para constituir os pilares de um culto universal do engano. 1980. trad. A. cresce hoje em todo o mundo uma espécie de ant icivilização. Eugêni a Moraes Andrade e Raul de Moraes. “Estratégia do Grupo Nazista”. Elas foram s eguramente mais decisivas. Paul M. É impossível im aginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses39. M. tr ad. estonteada. 42 V. Ed. trad. do panorama histórico do século XX as técnic as de manipulação da mente. Octávio Alves Velho. mas. 1962. presos a uma noção grosseira e oisista do que seja uma técnica. Heitor Ferreira da Costa. como teriam se desenrolado os dois conflitos mundi ais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica41. Os poucos que se interessar am pelo domínio da mente foram desviados em seus esforços por uma visão preconceituosa mente seletiva. Cia. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso temp o. o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorga nizavam a sociedade civil 40. É neste contexto que se deve compreender o apelo ao resgate do epicurismo. “o advento de um sistema político baseado na impostura em grau muito maior do que todos os que existiram até o momento”44. e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las. incluindo a bomba atômica e os compu tadores. qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o u so da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jove m de todos os países. do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios. a civilização do Anticristo. enfim. Biblioteca do Exército. mais que o século da informática. Rio. trad. a impo rtância da “técnica” entre as causas do devir histórico. e Olivier Reboul. A Do utrinação. Menticídio: O Rapto do Espírito. Ora. V. Joost A. Áurea Weissenberg. o Papa João Paul o II finalmente reconheceu em 1994 que. Zah ar. 1977. Ibrasa. que só destacava algumas formas de dominação à custa de ocultar outras m aiores e piores 43. Guerra Psicológica. . Robert L. Linebarger. em Diagnóstico do Nosso Tempo. Merloo. Zahar. com suficiente visão de conjunto a hi stória da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX. este foi o século da escravização mental. Modificação do Comportamento e Sociedade Controlada. São Paulo. Eles sabem. todas as idéias e concepções ais francamente errôneas. Neste novo panorama. Octávio Alves Velho. porém. 39 ou pelo menos num esquema de ação mais ou menos patente. Com o atraso proverbial que marca os pronunciamentos da Igreja Católica. mórbidas. Se retirássemos. Mais que o sécu lo das ideologias. que fim teriam levado as organizações esotérica e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo. o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitali stas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre pop ulações que não têm disto a menor suspeita42. 40 V. nada teria podido acontecer como aconteceu. então se verá ue nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. 1980. Rio. não concebem sob esse nome senão aquilo que se materi alize em algum tipo de aparelho ou máquina. ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de auto-engano? Um dos poucos historiadores que levaram a sério este fenômeno de seriedade trágica denunciava.

Jean-Charles Pichon. 525. vol. de Michel Foucault. I. Barcelona. da antipsiquiatria e da dupla Deleuze -Guattari. p. especialmente. Bruguera. .43 44 É o caso. trad. 1971. Historia Universal de las Sectas y Sociedades Se cretas. Baldomero Porta.

aprende a confiar mais na visualização imaginár ia do que no juízo reflexivo. a beleza e a pompa. têm uma coisa em comum. É evidente que o segundo ainda é dominante. Ele fala. A lógica dos sinais ou lógica das aparências. que Epicuro opõe à lógica dos c nceitos (que ele conhecia através de Aristóteles). nada lhes ofereci a senão uma apologia da morte. Pois. São Paulo. em última análise. Mas Epicuro não se limitou a pratic ar e ensinar a disciplina da ilusão: ele desenvolveu mesmo todo um sistema lógico pa ra sustentá-la. infinitamente variadas n a sua linguagem e nos pretextos. eles nunca chegavam à última análise. no qual o praticante. a exposição. Jornal da Tarde. prováveis ou improváveis. ora “místicos”. compreende o sentido da ordem. Tais raciocínios. São. A fumaça e o fogo “A divisão entre Sócrates e Protágoras sobrevive intacta. Aí a mera sugestão verbal de um cigarro aceso bastará para produzir queimaduras reais na mão do hipnotizado: as células da pele reagem à est imulação verbal como reagiriam ao calor de uma brasa. tão manifestante insustentáveis. não para prová-las. É assim que se explica que as concepções físicas de Epicuro. 20 de junho de 1995. sistematiza os raciocínios do tipo “o nde há fumaça. Tendo diante da retina a figura de uma vaca. toma sistematicamente a mera possibilidade como real idade efetiva e. o que vale é o autoconhecimento. deprime pro gressivamente seu sentimento do tempo. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distingu ir entre imagens. verossímeis ou in verossímeis. por meio de exercícios. raciocina. há fogo”. mas não sabe distin guir se viu uma vaca ou imaginou uma vaca. a maioria das funções psíquicas continua operand o normalmente. lembrase? Para o primeiro. formas e variantes de uma mesma técn ica: a hipnose. verdadeiros ou falsos. mas até quando ?” FRANÇOISE HUET 45 As práticas psicológicas que mencionei no parágrafo anterior. . fora de qualque r dúvida. todas elas. mas qualquer principiante de filosofia sabe que o valor deles é apenas retórico e persuasivo. enfim. mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens. a que apelam para justif icar-se. por exemplo que o ano de 1991 durou som ente um mês ou que os buracos de um queijo suíço pesam 3 kg. são abundantemente usados na vida diária. Nas mãos de Declaração a Luís Carlos Lisboa. O conceptus e a imago. que a lógica tradicional e moderna chama de abdutivos. Quanto mais profundo o tra nse hipnótico. para o segundo é o discurso. com a ajuda da qual se pode provar literalmente qualquer coisa. reprimindo a exigência de confrontá-las umas com as outras para formar uma concepção global coerente e hierarqu izada como aquela que nos orienta na vida de vigília. os julga como efetivos ou possíveis. ora “científicos”. tenham podido ser aceitas por uma multidão de crédulos discípulos. sabe distingui-la de um porco. mais e mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que. retornando sobre os conteúdos da repr esentação. fazendo deles o supremo critério do conhecimento. É assim também que podemos compreender como estes discípulos não se deram conta de que o epicurismo. está pronto para acreditar em todas as absurdidades da físic a de Epicuro tão logo possa enxergá-las na tela da fantasia. um método hipnótico. mas a 45 interpreta como se fosse um desejo brotado de dentro. LÓGICA DE EPICURO § 10. desviados para os meandros sem fim da fantasi a imaginativa. No homem hipnotizado. Servem para exemplificar e comunicar idéias. recorda e sente como se estivesse desperto. até que se chegue à completa despersonalização. O fato mesmo de que Epicuro tenha se servido deles para sustentar as teorias de sua física alucinada é sinal de que são uma bonne à tout faire. O Tetrafármacon é. Quando ouve do hipnotizador a ordem: “T ome um copo de água”.52 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO IV.

afastando a hipótese de uma causa divina. Que técnica é essa? Pessanha não deu o nome. certamente esta foi tocada por uma brasa de cigarro. § 11.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 53 um técnico habilidoso. Dito de outro modo. se apareceu u ma queimadura na mão. a redução banalizante da totalidade do real à escala de sensações imediatas como co michões ou borborigmos. e não provar. Epicuro tinha razão. a tese segundo a qual os p ais devem deixar os filhos ao abandono. ele não deixava de ser tam bém aplicado aluno de Perelman. pois. nem muito menos declarou a premissa oculta de todo o seu discurso: a premissa segundo a qual o importante é persuadir. ele afirmava que a veracidade das explicações é indi ferente: o que importa é o seu efeito calmante. ardoroso discípulo de Epicuro.”48 Se Perelman soubesse a que fins acabariam servindo os seus ensinamentos. popularizada em anos recentes por livros como o de Anthony Robbins.” Pessanha fez muitos louvores à lógica de Epicuro. Podemos inclusive aceitar simultaneamente várias expl icações contraditórias. no Brasil. aplaque o temor ou a esperança de uma vida futura. eles descobriram que o wishful thinking funciona. se pôde servir a Pessanha como uma co nfirmação das teses epicúreas. onde o ún ico destino que nos aguarda é a completa extinção e o eterno esquecimento.”46 Fiel a este princípio. não explicou as diferenças entre lógica e retórica. os de Lair Ribeiro. e. Mas sei que Perelman. Mas ele também não disse o que Perelman. em retórica. Unlimited Power 49. teria se recusado a ensinar re tórica a José Américo Motta Pessanha. pensaria de tudo isso. Ela tem semelhanças e diferenças com o Tetrafármacon. Eu também não o sei. Um silogismo com premissa oculta chamase. e sim somente à produção de consolações fictícias. certamente haveriam te abandonado. pois quem o declara é o próprio curo: “Para fugir do saber — recomendava ele a um discípulo —. No trecho citado. e como autor de um raciocínio do tipo autofágico. se vivo e ali presente. reduzindo os mistérios do u niverso à proporção de nossa experiência mais banal47. uma acentuada virtude soporífera. mas é a Programação Neurolingüística (PNL). não resta mai s nada a fazer senão tentar imaginar as coisas melhores do que são. o homem do jardim sustenta. A destreza com que Pessanha manejou esse e outros entimemas na sua conf erência do MASP mostrou que. como por exemplo no caso de um judeu que defendesse o n azismo. Perelman reproduz em seguida o argumento que a isto opôs o filósofo estóico Epicteto: “Se teu pai e tua mãe soubessem que virias a dizer essas coisas. Assim de nomina-se em retórica um argumento desastroso. contanto que. s e a fumaça prova a presença do fogo. A eficácia da PNL confirma Epicuro. ao dizer que “alguns psicoterapeutas de hoje” não vêem mais nada a fazer pelo homem sofredor do que induzi-lo a representar se us sofrimentos em imagens. Mais precisamente: qualquer explic ação é boa. cita Epicuro uma única vez. melhorando as imagens. no seu clássico Tratado da Argumentação. que. e xposto com todas as letras. aliviar o sofrim ento. um e ntimema. levante as velas o mais ráp ido possível. mas. só 46 48 . O embotamento proposital da intel igência. mas não esclareceu que ela é apenas um a retórica. foi certamente com base num argumento subjacente que. que se volta contra a pe ssoa mesma de seu autor. rezaria assim: “Num mundo caótico e sem sentido. a lógica dos sinais pode muito bem dar foros de pura veracida de metafísica às impressões de um sujeito hipnotizado. em compensação de seu canhado poder investigativo. demonstrando que. se isto de algum modo nos tranqüiliza. e em seguida. eis a essência de uma lógica à qual não falta. O convite ao sono É verdade que as técnicas modernas de manipulação da psique põem o Tetrafármacon no chinelo. Pessanha não deixou de aludir a uma delas. canhestro. em última instância. quanto mais não a provaria uma queimadura viva! M as não é preciso muito esforço para provar que a lógica de Epicuro não se destina à busca da verdade.

Olbrechts-Tyteca. p. Traité de l’Argumentation. 78-80. La Nouvelle Rhétorique. 1970. 1986. 276. 47 Epicuro. 49 New York. § 6. Bruxelles. Cit. em Ch. Simon & Schuster. Carta a Heródoto. Éditions de l’Université de Bruxelles.Diógenes Laércio. . Perelman et L. X.

introduzindo-as sutilmente no curso de uma conversa qualquer. etc. Não vá p ensar o leitor que está diante de mais uma poção mágica. Desbrava ram novos mercados: venderam a técnica para executivos que tencionavam persuadir s eus chefes a lhes dar aumentos imerecidos. a cois a virou uma paixão nacional. Se a P NL pode. sistematizaram a técnica da comunicação não-verbal e. O programador neurolingüístico não perde tempo com argumentações. se a PNL confirma Epicuro e Epicuro antecipa a PNL. Milhares de centros de treinamento espalharam-se de costa a costa — e. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas. Interpretando esses sinais espontâneos. Bandler e Grinder gravaram centenas de sessões psicoterapêuticas de Erickson (bem co mo de outros dois magos da clínica psicológica. Ele a e direto no subconsciente do freguês. que lhe permitia captar. com o mais rigoroso controle científico. em breve. inteiramente automatizados e inconscientes. Paralítico. Gregory Bateson e Virginia Satir). um meio de comunic ação de uso corrente. utilizando-os. que estavam investigando psicologia da comunicação q uando toparam com o fenômeno Erickson. uma acuidade sensi tiva fora do normal. mostrar o epicurismo sob uma face melhor. não pôde enviar do i ntermundo qualquer sinal verbal ou não-verbal de uma justa indignação. batizando-a PNL (em inglês. a técnica de induzir subliminarmente por sinais não-verbais tornou-se. igrejas e lares. a essa altura já falecido. Os padrões de comunicação não-verbal que ela utiliza são reais. conseguiu romper a barreira de incomunicabilidade. associações políticas. sem cujo auxílio a fala se mostrava impotente para atingir o ínti mo das pessoas. Mas Erickson. c om o auxílio de um computador. codificaram todos os sinais. o quanto vale o epicurismo como fundamento teórico do que quer que seja. transformaram-na em prod uto comercializável. A vítima. Mas o prob lema é justamente esse. da temperatura corporal. maridos interessados em eng anar suas mulheres etc. Bandler e Grinder ganharam rios de dinheiro explora ndo as descobertas de Erickson. profundamente arraigados nos hábit os e convenções da comunicação humana. sutilíssimas m udanças do tom de voz. ficavam subentendidos e acabavam por se tornar. advogados desejosos de persuadir juizes a assinarem sentenças injustas. e com isto obtinha resu ltados espetaculares em doentes que haviam sido desenganados por outros psicoter apeutas. do tônus muscular. longe de constituir um todo autônomo. n a prática. Mas não se restringiram a um público de psicoterapeutas. por intermédio de mensagens quase imperceptíveis . Nos EUA. vai sendo levada a sentir o que o prog ramador deseja que ela sinta. Pois. Bastava observá-lo em ação para n otar que a comu nicação verbal. abrindo à psicoterapia as mais belas esperanças de cura para casos tidos por insolúveis. mostraram isso. particularmente em tipos esquizóides com uma comunicação verbal deficiente. Só que na vida diária esses sinais. clubes. nunca escreveu um livro nem se preocupou em sistematizar suas descobertas. NLP). Como já em 1983 denunciava a revista Science Digest: “Posta no . Richard Bandler e John Grinder. Este trabalho foi feito por dois pesquisadores. políticos decididos a iludir seus eleitores. E rickson era um clínico. na esfera prática. se apoiava numa rede complexa de sinais não-verbais. tal e qual o burr o da cenoura. ele conseguia comunicar-se com seus pacien tes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito. da direção do olhar. e o uso que faz deles é perfeitamente eficaz. a fazer o que ele deseja que faça. Erickson perce beu que o fracasso ou sucesso da comunicação pessoal dependia deles. Uma revista norte-americana chamou a PNL “a nova mania psicológica pop”. Epicuro e a PNL. há e ntre eles o nexo da premissa à conclusão. da teoria à sua prática: o epicurismo surge co mo raiz teórica da PNL. A PNL funciona. transformadas num receituário de maquiavelismo psi cológico para uso popular. talvez em compensação. é o que veremo s. de mais um charlatanismo inócuo. acredita ndo expressar seus sentimentos espontâneos. um tipo prático. em muitas empresas. e a PNL como fruto materializado do epicurismo. nas pessoas em torno. Eles estavam lá sempre. mas ninguém reparava na sua presença. de um só golp e. ajuda ndo ou atrapalhando a conversa. inteiramente persuadida de exercer livremente o seu clinamen. po rém. vendedores ansiosos de livrar-se de e stoques encalhados. A PNL surgiu da prática clínica de um dos grandes psicoterapeutas do século: Milton Erickson. esse argumento não faria outra coisa senão desmoralizar. Erickson desenvolveu.54 OLAVO DE CARVALHO Se explicitado. Já vimos.

a técnica da PNL ameaça tor- .mercado.

a aprovar o que lhe repugna. legitimando a manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem lidar com o seu próximo. Mãos erradas? Nos EUA. par a levar investidores a queimar seus capitais em negócios ostensivamente inviáveis. a revista Science Digest notici ava. e. Assinalando o perigo. não faz mal: a PNL tem meios de tornar o prejuízo uma experiência gratificante. ter emos ou mais a mais perfeita e indestrutível das tiranias ou a anarquia generaliza da. todos os padrões de sinceridade. conforme esses neomaquiavéis se unam p ara dominar o restante da população ou entrem em competição feroz uns com os outros. de que tratarei nos capítulos finais d este livro — sabem precaver-se. querer ou desquerer: neutralizada a capacidade judi cativa e decisória. Mesmo aqueles que antipatizam com a proposta não dão sinal de perceber ne la qualquer perigo. seja pela ambição de conquistar por sua vez o poder de manipular os outros. Os que se gabam de sólido materialismo pão-pãoqueijo-queijo vêem-na como um inst rumento de poder e ascensão social. também uma onda de protestos e advertências que brotav am contra ela da imprensa. seja p ela atração do abismo. julgar. uma assinatura. com isto. para persuadir juizes a absolver culpados e con denar inocentes. Ninguém escapa aos encantos da nova técnica. um perigoso in strumento de controle social” 50. Todos confiam que ali só têm a ganhar. ansiosos de unlimited power e arm ados de um temível arsenal de meios para defraudar 50 e colocar a seu serviço os outros homens. e assim por diante. sem apoio nos quais não pode o ego tomar posição. se de um lado favorece muito a ação do hipnotizador. a sociedade inteira esta rá à mercê de uma horda de manipuladores psicológicos. A q ueles que se têm na conta de místicos enxergam nela uma via de acesso aos mistérios su premos. Mas foi nos Estados Unidos. O uso habilidoso dos sinais não-verbais permite abrir hiatos na atenção consciente. sem que ninguém levante co ntra ela a menor suspeita. levando a vítima a não se precaver contra um risco que su põe inexistir. sem que ninguém sequer sugira a possibilidade de haver nela alguma coisa de errado. em geral. àquela altura. mais aí já é tarde: um a palavra. toda influência s ubliminar consiste em abolir o domínio da vontade. precisamente. Os brasileiros estão absorvendo a PNL com o deslumbra mento bisonho de um garoto que se sente muito lisonjeado ao ser admitido pela pr imeira vez numa roda de cocainômanos. junto com a moda da PNL. dos profissionais de saúde. O uso disseminado dessas técnicas arrisca minar todo o campo da convivência humana. a PNL vem abrindo caminho des de então. dá mais brilho ao seu fascínio e incita a vítima a prosseguir na experiência. Passadas algumas horas. para fazer eleitores votarem contra seus próprios interesses. protegida pela sonsice dos crentes e pela ind . Assim. segundo informava a mesma r evista. contra qualquer coisa que lhes pareça supr imir liberdades duramente conquistadas. quando não ganham nada. a comprar o que não quer. e subvertendo. Os neuróticos pedem-lhe um meio rápido de obter alív io e os psicoterapeutas uma receita rápida para operar curas espetaculares. ela é ignorada como um charlatanismo inócuo. e. Se alguém percebe vagamente que es tá sendo manipulado pelas costas. com a maior desenvoltura e cercada de aplausos. lenda que. a patifaria universal. tanto melhor: isto confirma a eficácia da nova técni ca.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 55 nar-se uma temível ferramenta de manipulação pessoal e. decidir. com isto. Quando não é recebida como uma mensagem salvadora. a PNL já estava. e pronto a justificar a po steriori a decisão imposta. de outro lado omite o detalhe de que. e aí. sendo usada em toda parte para levar pessoas a venderem seus bens a preço vil. Isto des mente a consoladora lenda de que nenhuma hipnose ou manipulação subliminar pode indu zir um homem a fazer o que é contra suas convicções. Universalizado esse costume. Isto foi dez anos atrás. Os norte-americanos — malgrado um certo embotamento mais recente. a vítima pode se dar conta da insensatez. assumindo-a como sua para restabelecer a ilusória integr idade da sua auto-imagem. No Brasil. assume a culpa pelo mal que lhe fizeram. dos meios acadêmicos. solidariedade. cortando os laços entre a psique individual e os seus quadros de referência moral. nas mãos erradas. mudar imperceptivelmente o curso do raciocínio. dos educadores. h onestidade. podem ter determinado conseqüências irreversíveis. levar uma pessoa a fazer o que acha errado. um homem está à mercê do que lhe sugiram.

. vai Flo Conway and Jim Siegelman.iferença blasée dos descrentes. vai ganhando força. maio. Science Diges t. a PNL vai entrando. 1983. “The Awesome Power of the Mind-Probers”.

com provas cabais. em vez de condená-los como anti-éticos e advertir contra o seu uso. a human idade já estava com um pé dentro do Admirável Mundo Novo. E não aceita mesmo: quase todo mundo opõe uma obstinada má vontade a ouvir o que a lguém possa ter a lhe dizer a esse respeito. precisão e eficiência. A indiferença afe tada é uma reação de autodefesa contra o pânico — e quem fugiria do pânico se já não estivess m pânico? Um segundo motivo é que ao menos aparentemente há uma contradição intolerável em p edir à consciência que reconheça sua sujeição a um poder inconsciente. à servidão voluntária. Para reconhecer que está dormindo. e o pânico vira logo es tupor. que ultrapassaram tudo o quanto o homem comum pode aceitar como verossím il. Aldous Huxley não conseguisse mais que uma minguada audiência para o seu livro Regr esso ao Admirável Mundo Novo. o resultado é que o domínio dos meios de escravizar a mente do povo cresce na razão inversa dos meios que ele possa ter pa ra defender-se. § 12. Aquele a quem os deuses querem destruir. sem sonhos. então se apaga a última esperança de um redespertar d a consciência. A apatia. para cair de cheio na esfera do sonho. então é que a consciência públi ca já transpôs a primeira fase do sono. em dos es crescentes. assinalam o torpor da vítima que. de onde só sairá para mergulhar na terceira fase: no sono profun do. Um exemplo s ignificativo foi que. para se entregar inerme e semidesmaiada nas mãos do carrasco. A incapacidade de um povo para perce ber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva q ue prenuncia as grandes derrotas sociais. Como. um homem tem de estar pelo menos meio acordado. em vez de cair na rede da sua sedução e atrair o povo para mergulhar nela também. eles primeiro enlouquecem. Pode mos sair dele. As técnicas de manipulação p síquica progrediram tanto nas últimas décadas. A primeira dessas obras era uma ficção cien tífica. seitas pseudomísticas e empresas multinacionais investem quantias ca da vez maiores na pesquisa desses assuntos. . os governos. com deleites de masoquismo. No completo esquecimento. Diante de cer tas notícias. Que.56 OLAVO DE CARVALHO invadindo todos os setores da atividade pública e privada e inoculando ali. Mas quando o torpor não invade somente a alma do povo. nos anos 70. onde os homens seriam reduzidos à escravidão por meio de técnicas hipnóticas. o vírus da manipulação subliminar. a indiferença ante o próprio des tino. por exemplo. tão sensível às redições sinistras da ficção. que as técnicas anunciadas no livro anterio r já estavam prontas e em vias de aplicação para fins políticos. Quando. qua ndo toma também as mentes dos intelectuais e a voz dos melhores já não se ergue senão pa ra fazer coro à cantilena hipnótica. e só quem escapou da manipulação s abe que é manipulado. que previa o advento de uma ordem social robotizada. se prepara. Um filósofo deveria ser o primeiro a advertir contra ele. após o sucesso mundial do romance Admirável Mundo Novo (1932). é verdade. cai numa torpe indiferença ante o aviso de que a ficção virou r alidade? Uma resposta possível é que esse aviso mesmo já é estupefaciente. de outro lado. Por que o público. mediante um reflexo anestésico . E aí já não se sabe quem é mais culpado: o sedutor que escraviza ou o se duzido que se entrega. A segunda não era ficção. ser viços secretos. é mais fácil ser tomado de pânico do que raciocinar. num curso de Ética nominalmente votado a objetivos da salvação nacional. insensibilidade catatônica que protege contra novos abalos. A advertência. a do mero adormecimento. como o carneiro qu e oferece o pescoço à lâmina. arriscaria cair em ouvidos moucos. inte lectuais eminentes oferecem o Tetrafármacon e a PNL como soluções miraculosas. em resumo. A Servidão Voluntária Não estou exagerando o perigo. a concentração das atenções em assuntos secundários acompanhada de total negligência a nte os temas essenciais e urgentes. em alcance. antevendo um golpe mais forte do que poderá suportar. É um dos mais velhos e incômodos paradoxos da mente humana. mas uma re ortagem: informava. o primado do incon sciente só pode ser afirmado por um homem consciente.

contou o proprietário de um supermercado em Turim.. que o leão é manso. brancas ou de fogo. por direito. pediram somente cédul as que fossem da série x. ela tem altos e baixos e só conserva o seu domínio lutando contra a inconsciência. a não ser em caso de flagr ante. quando comecei a trocar o dinheiro. a cidade mais atingi da. na existência de fato . pelo medo que as vítimas têm de passar por idiotas. fosse bem menor que o número real de crimes. m ais tendemos a fingir diante dele uma indiferença superior: “Senta. já foram registrados mais de uma centena de casos. mais de uma centena desses crimes.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 57 com a ajuda das distinções aristotélicas entre potência e ato. que está no conhecimento do assunto. Brun chegou a prender três suspeitos paquistaneses com passaportes falsos. na mu ltidão de exemplos da sua periculosidade. que jur ou não ter entendido como dois indianos de olhos negros e profundos. dela se desfaça no ato e saia em bus ca da verdadeira segurança. a consciência é. de Potenza. noticiou algum tempo atrás a mais estranha onda de crimes que já se vira na Itália. Isto levava a polícia italiana a crer que o total d e ocorrências registradas. após despertar. se ainda tem em si algum resíduo de falsa segurança. caía num torpor nebuloso e ia entregando aos ladrões. As vítimas. ao norte da Pe nínsula. A vítima. em seis meses. Quanto mais tememos um perigo.. Segunda. o hipnotizador ordena ao suje ito que. Reações análo gas aparecem em todo tipo de hipnose. fala mansa e muita delicadeza conseguiram levar US$ 1. ‘Trata-se de uma verdadeira gangue. vou escolher um só. como os batizou a imprensa italiana. muitas vítimas deixavam de registrar queixa (exatame nte como mulheres estupradas). Mas. será com pl ena consciência do que nele está plantado. as cem denúncias feitas em toda a Itália não passam da ponta de um iceberg. acab avam atribuindo a si mesmas a culpa pelos atos cometidos sob sugestão hipnótica. por sua vez muito improvável. meticulosamente e sem a menor resistência. com cerca de dez a vinte pessoas em ação’. num despach o da sua correspondente Marielza Augelli espremido num canto de página51. Dez minutos dep ois.8 mil. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”. ‘Eles chegaram pedindo para trocar duas notas de US$ 50 e. Por essa mesma razão.’ ‘Não sei como. envergonhadas e confundidas. Terceira. da Central de Polícia em Turim. e xplica o inspetor Paolo Brun. Tratava-se de um novo tipo de assalto.” Não é aqui o lugar de descrever em detalhe as técnicas de manipulação da psique. Os feitos espetaculares dos h ipnoladri. se lhe p erguntam por que agiu assim. A prova da autoria era tecnicamente impossível. substância e acidente: no p lano essencial. todas as cédulas. sem experiência para lid . É o p aradoxo que mencionei: assumir uma culpa moral inexistente parece menos doloroso do que aceitar a hipótese humilhante de uma descontinuidade da consciência. 9 de dezembro de 1990. Depoimento de sconcertante foi feito pelo caixa do banco Monte Dei Paschi.” hipnose. a parte dominante. a 51 Marielza Augelli. que garanto não será inútil: quando voltarmos ao seu jardim. em que os criminosos não usavam armas. Nesta nova modalidade de assalto. e só pode escapar do paradox o pelo expediente desastroso de negar os fatos. tornavam-se ainda mais inquietan tes por três peculiaridades: Primeira. para que o leitor. Alguns parágrafos significativos: “Desde maio. abra e feche três vezes uma gaveta. Paulo. Uma forma de hipnose instantânea e praticamente irresistível. ele obedece e. uma p or uma. fiquei triste porque não achava as notas e depois não me lembro de mais nada. ao dar-se conta do que tinha feito. porque muitos casos não são denunciado s. e já chegou à Sardenha e à Sicília: o roubo por hipnose. os italianos e stão lutando contra um tipo insólito de crime. já era tarde. já alarmante. não conseguia parar de entregar todas as cédulas de 100 mil’. Aquilo me transtornou. que começou em Piemonte. Por exemplo. Os tribunais e a polícia. a vítima entrega todo o seu dinheiro com um sorriso nos lábios e a mente c onfusa. Epicuro que me perd oe este rodeio. Segundo Brun. A polícia italiana registrou. Segundo ele. O Estado de S. O jornal O Estado de São Paulo. oferece uma justificativa completa e personalizada. um ca ixa de loja ou de banco. no entanto foi obrigado a liberá-los por ‘falta de provas’. M as a maioria das pessoas não atina com estas sutilezas. mas sim.

“Meninos de Deus”. Refiro-me às s eitas pseudomísticas do tipo Moon.ar com o caso. Por enquanto. mais perigosas talvez do que quadrilhas de assaltantes. Mas essas armas não foram testadas só em umas dezenas de assaltos. Outras org anizações. que as fundam e dirigem. bem como às entidades. nem para impedir que as técnicas dos hipnoladri. disseminando a ins egurança e a confusão. uma vez provad as e aprovadas por quadrilhas de ladrões. d iscretas se não secretas. nada se pode fazer para impedi r que esses crimes proliferem e se alastrem para outros países. sejam depois usadas para fins de dominação p olítica. Rajneesh. estavam atarantados. . para reduzir à escravidão psicológica milhões de pessoas. as vêm empregando e m escala mundial.

A expressão “lavagem cerebral” entrou na linguagem popular a parti r dos “processos de Moscou”. A imprensa Ocidental sugeriu que o emprego de algum meio psicológico inusitado seria o respo nsável por aquelas “conversões” que faziam de heróis revolucionários palhaços atônitos a acus se de delitos fictícios. o segundo recordista mundial em número de seitas. o Parlamento francês aprovou uma lei proposta pelo Partido Socialista. minada pela infiltração do Ocidente. onde a democracia se torna o pretexto da tirania (veremos no fim deste livro o verdadeiro alcance deste fenômeno). Darkness at Noon (“O Zero e o Infinito”). O primeiro é a Índia. quando pode. A idéia de moldar o comportamento humano p ela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov. e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simpl esmente nisso. mesmo quando se trate de maiores de idade. Ele estudou isto em ca- . essas organizações continuam atuando com o maior de sembaraço em todos os países. e forçá-las a tratamento psiquiátrico. Denúncias esparsas. bem. na década de 30. temem deparar. quando comunistas fiéis apareceram confess ando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime. § 13. logo. deu ao público Ocidental uma imagem vívida dos processos de tort ura psíquica que levavam os prisioneiros soviéticos à perda da identidade. o lado espetaculoso — o que dá ao caso um ar fan tasmagórico. As técnicas em uso nas seitas se originaram da lavage m cerebral. Quando alguém fala da escravidão psicológica que alg umas seitas impõem a seus discípulos. abre o flanco a todas as degenerescências do espírito religioso. só lhe resta aceitar como tal tudo aquilo que como tal se declare. Quanto aos educadores. à sombra totêmica da “liberdade religiosa”. o Brasil é. e as encaminham a clínicas especializadas. S. e impede que o público chegue a pensar seriamente no problema. entidades privadas empenha m-se em facilitar por todos os meios a libertação das pessoas mentalmente aprisionad as pelas seitas. a costa Oeste — a maior concentração de gurus per capita no território americano — já tinha mais de cem c línicas de terapia para egressos de seitas. Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurof isiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). que alcançam por meios diferent es e mais eficazes. É o vale-tudo. De qualquer modo. na investigação do caso. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral O assunto é fértil de mal-entendidos. os debates prosseguem e mais dia menos dia tal vez se descubra um meio legalmente válido de resolver o caso. segundo me informou um estudioso do assunto (não é b rasileiro). Em 1988. embora todo mundo saiba que promovem a escravidão. bruxaria e mística. A imprensa só larga a habitual in diferença para explorar. No Brasil — preciso di zer? — o assunto não é sequer discutido. feitas por egressos ou por familiares das vítimas. e os ma terialistas durões afetam desprezo pelo assunto na mesma medida em que.58 OLAVO DE CARVALHO Por mais antipatia que suscitem. logo vêm à boca do interlocutor as palavras: “lavage m cerebral”. Mas qualquer ação oficial é bloqueada pela a poria lógica embutida na 5ª Emenda da Constituição: o Estado leigo não pode definir o que é religião e o que não é. mas só têm com ela uma identidade de fins. vocês conhecem algum? Por uma trágica ironia. É uma meia-verdade. O único país que opôs uma barreira efetiva ao avanço das seitas foi a França. a civilização ferida de que falava V. confundind o espírito e psique. Em 1940. descobridor dos reflexos condicionado s produzidos pelo jogo estímulo-resposta. caem logo no esquecimento. a opinião pública está consciente do problema. que permite aos familiares das vítimas retirá-las das garra s de seus gurus com a ajuda da polícia. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda de scoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. algum f enômeno inexplicável que abale suas crenças a um tempo simplórias e pedantes. Naipaul. ele mesmo hipnótico. Os médicos e psicólogos dividem-se em duas categorias: os de inclinação misti cóide geralmente estão mais ou menos comprometidos com alguma seita ou guru. o romance de Arthur Koestler. onde a longa e dolorosa decomposição da sociedade tradicional. Nos Estados Unidos. Em maio de 1985.

eram mais facilmente retidos na me mória do que estímulos mais fortes. Eles ficaram comple tamente atordoados. Prometia ao s alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos. uma vez desperto. pud essem ter ab-reações. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff. Gurdjieff ora esmagava os coitado sob pilhas de exigências constrangedoras. Becker. decisiva para o prog resso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenv olvia uma dependência mórbida do terapeuta. por atuar abaixo do limiar (em latim. era desnecessária? Era. Logo depois. mais forte o vínculo. Inicialmente Sargant os tratou pela psicanálise. e lhes dava um sistema cosmológico completo. em que tantos se empenhava a psicanálise. literalmente . um publicitário. se devi a tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. Repetida a operação algumas vezes. durante hipnose. porém. Com base nessa descoberta. por exemplo. O passo seguinte nessa direção foi dado pelo psiquiatra inglês William Sargant. os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito. que tal sintetizar Poezl e Pavlov? A mutação de personalidade por estimulação contraditória bem p oderia ser produzida subliminarmente. Enxertando na música ambie nte de um supermercado uma voz debilíssima e imperceptível que repetia: “Sou honesto. Eles tinham sofrido lavagem cerebral “clássica” e muitos estavam co mpletamente neuróticos. não era de terminada pelo conteúdo político da doutrinação. o cérebro ent rava em pane. virasse do avesso.” A mudança de atitude dos prisioneiros. o paciente se recordava do s terríveis sofrimentos sugeridos e. Sargant fez mais uma. verificou depois que muitos pacientes devi damente ab-reagidos e curados lhe haviam contado acontecimentos traumáticos totalm ente imaginários. Hal C. tomando-os como reais. ao examinar prisioneiros de campos de c oncentração chineses libertados após a Guerra da Coréia 52. não roubarei”. só para depois serem repentiname nte jogados de novo em provações humilhantes. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelh a que acendia tão logo lhes era oferecido um bife. verif icou que a coisa funcionava também com estímulos auditivos. ora os induzia a descargas aliviantes q ue lhes davam a impressão de plenitude e liberdade. Ora. que completava a transformação. como Freud chamava a suspensão dos comportamentos neuróticos após a catarse curativa. Gurdjieff manej ava igualmente bem a estimulação contraditória. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso. Então a recordação dos fatos. os discíp ulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre. com o auxílio de hipnose. I sto explicava muita coisa. o psicólogo austríaco Otto Poezl descobriu que estímulo s visuais fraquíssimos. Para começar. recordando-se de traumas enterrados no subconsciente. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptara m à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita gústia intolerável. tinha sua catarse e sa ia curado. Raramente dizia alguma coisa com senti do identificável. doutrinação ostensiva ou violência d e espécie alguma. A técnica baseada nas descobertas de Poezl recebeu o nome de propaganda sub liminar. para que. Quanto mais abreações. f azendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. que nas 52 . Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados. Tudo no macio. mesmo remotam ente análogo ao que se havia passado. da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas h abituais. ora a luz sem o bife. que detestava.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 59 chorros. Sargant descobriu que podia produzir ab-reação simplesmente su gerindo ao paciente. Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada. de quem gostava. imperceptíveis à consciência. De fato. e tentará atacar o dono. A vítima nem se daria conta. Becker diminuiu em 37 por cento a freqüência de roubos cometidos por freg ueses. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório. mas sim pelo efeito acumulado de estimu lações contraditórias. um evento traumático qualquer. limes) da consciência. mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis. que os levavam ao desespero até que a personalidade. Com grande supresa. portanto. sem gritos. Depois disso .

Klau s Scheel. London. Uma Fisiologia da Possessão. . Imago. Heinemann. e A Posses são da Mente. The Battle for the Mind. 1957. trad. 1975. do Misticismo e da Cura pela Fé. Rio. William Sargant.V.

que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos par a produzir56. a fase ultraparadoxal. Mas. Pode-se mu dar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov).. se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes. pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acon tecendo. ge radora de neuroses e psicoses54. Dois pesquisador es. pela PNL. de maneira que o indivíduo se torna recepti vo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes”: era possível. a que se seguia uma fase ultraparadoxal: “No t erceiro estágio da inibição protetora. Com a descoberta da hipnose forçada. descobriram que. os resultados descritos por Sargant podiam ser al cançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana..” cessidade de discursos em alto-falantes. portanto. Para reduzir um homem a uma obediência canina. ameaças ou tortura mental. O primeiro foi fornecido pela descoberta segui nte de Sargant. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios. Pavlov já tinha reparado que o paciente. hipnotizar um sujeito contra a sua vontade. as respostas e o condici onamento condicionado positivos começam. para produzir a lavagem cerebral discret a e indolor com que sonhavam os técnicos. de outro lado. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva. Por um lado. de gritos.. em suma. de repente.60 OLAVO DE CARVALHO semanas seguintes era inteiramente substituído por outro. Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa. Pavlov denomin ara a isto a fase paradoxal da mutação. Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado. Tentativas repetidas em geral dão certo. podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. As mesmas reações .. já não havia ne53 54 . às vezes em doi s ou três dias. subliminar. e por outro. é possível induzi-la ao transe com bastante facilid ade. mantendo-se constante a pressão. Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em su jeitos normais.. 2. essas inform ações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência. O que Sargant descobriu logo depois disso f oi de estarrecer. após chegar à inversão dos re flexos. O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações. que desse agilidade à sua utilização. o uso conjugado da estimulação incoerente e das a b-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. a se transformar em negativos . Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias.. ainda faltavam dois quesitos: um meio de tornar permanente a mutação de personalidade e um vocabulário dos sinais subliminares . O segundo. até que a con fusão mental crescesse à escala cósmica. o sistema nervoso é esgotado e . bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito a o desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções. o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de pers onalidade. simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem n um leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes55. calcul ado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil. a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos . As conclusões dess as pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente: l. Flo Conway e Jim Siegelman... crédula e dependente (Sargant ). na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade. Nada adiantava o indivíduo tentar res istir às sugestões53: “Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é esse ncial. no ambiente fechado e artificia l das seitas pseudoreligiosas.” O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma suge stionabilidade aumentada ao extremo.

Zahar . IBM. Stanford..Sargant. 1957 ). Eduardo Almeida. A Handbook of Artificial Intelligence. trad. Calif. p. Rio. . Universit y Press. Snapping. 1975 ( original: A Theory of Cognitive Dissonance. 47 Leon Festinger. A Possessão da Mente. 55 V. Conway & Siegelman. Teoria da Dissonância Cognitiva. 56 V.

mas não que Ele tenha ressuscitado antes de morrer. sem que a víti ma se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). mas permaneceriam indiferentes a uma mensagem ce leste que prometesse apenas entortar todos os garfos. Ele não se assem lha em nada àquilo que nos séculos passados. cuja lic itude ninguém se lembra de pôr em discussão. o gigantesco: ele tem d e mostrar harmonia. Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. e por i sto. desobedeça à sua dis posição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses. Um crente não pode esperar indefinidamente nas promessas do seu Deus quand o nenhuma delas jamais se cumpre. não há. ridículo ou grotesco. Essa a valiação requereria investigações de vasta escala. O miraculoso não é apenas o extraordinário. sob pena de funcionar como um ant imilagre. O cristão pode aceitar que Cristo se ergueu da tumba no terceiro dia após a mort e. ou porque tropeçou em algum obstác ulo acidental.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 61 3. Os povos do passado podiam seguir um profeta que lhes anunciasse a vida eter na ou a cura de todas as doenças. a teologia apofática ou outros exemplos do mesmo teor como provas de que o pensamento religioso admite . pode também levá-lo a aceitar a aut oridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de con trole. O primeiro desses limites é a contradição intrínseca. que é uma só e a mesma coisa que o senso da unidade do real. essencial. Finalmente. um homem pode acreditar que Deus faça a Terra parar. em todas as religiões. se admit ia como fé religiosa. o v alor dos bens prometidos e 57 Que nenhum espertinho venha mencionar os koans do budismo. Mas há sempre um limite. Mov ido pela fé. os movimentos políti cos de toda sorte avançaram. nunca foi violado por nenhuma das grandes crenças religiosas do passado e do presente. Não pode ser banal. Não é preciso enfatizar as fac ilidades que. O fator decisivo é o controle planejado do fl uxo de informações. pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imed iata. O segundo limite é o senso estético. um hábito corrente. Deus gradua as provações segundo a capacidade dos fiéis. Noto. funcionalidade. em muitos setores de atividade. desde que se sintam corta dos de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade o ferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional. na medida em que é uma resposta a legítimos anseios humanos e não apenas uma esquisitice coloss al. mas não que Ele a faça girar e ficar parada ao mesmo tempo desde o mesmo ponto de vista. Um homem pode acreditar que Jesus multiplique os pães. 5. sublime ou terrível. que nenh uma religião jamais ultrapassou. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. em rupturas da ordem natural costumeira. O milagre pode ser belo. subjacente mesmo às mitologias p oliteístas57. Impedimento teórico. que o movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da timulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma su bserviência patética. há o limite da p aciência. que pode ser realizado à distância (IBM). É muito difícil avaliar até que ponto os governos. portanto. ater-me àquilo que posso observar na vida de to dos os dias. beleza. Tem de possuir um sentido. mas s difícil continuar crente se os pães celestes viessem eria m ofados. A técnica pode ser aplicada s imultaneamente a todos os membros de uma coletividade. no uso efetivo das técnicas de manipulação. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom-senso. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres . A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares. os serviços secretos. 4. Se ninguém ainda tentou. desmentindo a fé em vez de confirmá-la. A reverência ao pajé pode fazer um índio acreditar que os ritos trarão chuva. que estão fora do alcance de um pesquis ador independente. continental ou planetária. e mesmo a observação mais superficial basta para mostrar que a manipulação da psique já se tornou. Ou antes: há toda uma rede de limites. foi somente porque não quis. Devo. pela simples razão de que a unidade do real é a unidade do próprio Deus. O senso da identidade lógica. mas não que a chuva será se ca. o incomum. hoje em dia. A decepção continuada é um antídoto contra a fé. e em muitas civilizações diversas. até agora. por exemplo. isto é. as empresas multinacionais.

obstáculos que ao raciocínio discursivo parecem intransponíveis. num salto.a autocontradição. . Uma vez encontrada a solução. Esses exemplos só mostram que na esfera mística a compreensão de certas verdades requer uma apreensão intuitiva capaz de superar. atendidas as distinções de planos de realidade que a lógica . por si. obviamente não poderia realizar. ela se mostra perfeitamente lógica.

. O próprio Cristo cen urou o povo que pedia milagres. Se o conhecim ento desta disciplina não tivesse desaparecido. 19 20. para não falar de outros mais grosseiros ainda. esta arte esteve incluída até bem pouco tempo atrás nos ensinamentos regulares de Teologia Mística transmitido nos seminários. A destruição da religiosidade popular tradicional — atacada de um lado pelos materialistas e de outro pela ideologia da New Age — não produziu nenhum “esclarecimento” ou “iluminação coletiva”.62 OLAVO DE CARVALHO a lógica da situação. ou técnica. No Ocidente cristão. que ensina um homem a discernir a fonte — e portanto o valor — de su as inspirações e visões interiores. ele já passou da fase ultraparadoxal. os jingles e logotip os da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anj os. as figuras. por exemplo. ele não pode deixar de se guiar p or ela na prática. afirma-se que as visõe s podem provir de Deus. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe . ou Maomé ) e depois foi sendo acrescido das observações dos místicos. de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão p or intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela f m inoculados pela propaganda. uma autên ciência do “discernimento dos espíritos”. dignos de pena na melhor das hipót eses. O homem das grandes cidades ac redita hoje em ficções que fariam um índio sorrir59. subentendendo que a fé perfeita não precisaria deles . a respeito. V. que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as ci vilizações precedentes? A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto s eus antepassados poderiam sequer imaginar. Maison de la Bonne Presse. Pendle Hill. Ora. mas não e de esperar nem quarenta semanas para que Deus enviasse o maná. heróis e duendes do imaginário tradicional. por exemplo. de outros homens. que as coloca. Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontr am por trás desse fenômeno. nem quarenta minu tos para que seu cajado se transformasse em serpente. que aceita “sinais divinos” desprovidos da mais ele mentar coerência estética ou funcionalidade prática. Os slogans. A respeito. finalmente d os djinns ou entes sutis da natureza. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. feitos como os de Thomas Green Mor ton. muito acima do homem branco médio. ao longo dos séculos. sabendo que a propaganda é um universo de enganos. É a fé reduzida à crença cega e totalmente amputada do mais elementar “discernimento dos espíritos”58. do coração humano. não despertariam maior curiosid ade senão como fenômenos de teratologia espiritual. The Spiritual Legacy of th e American Indian. t odas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas. O ensina mento tradicional a respeito está registrado nos hadith. Na mística islâmica. demônios. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária. Moisés pôde esperar quarenta anos pela libertação do seu povo. V. Albert Farges. Assim. ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade. dos anjos. O teor mesmo das imagens e o conjunto de sentimentos que as acompanham indicam a fonte. mas sim um rebaixame sem precedentes do nível de consciência das multidões. Os milagres surgem. ou sentenças do Profeta ( M ohammed. já que sua imaginação não t m outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. Paris. espiritualmente. nesse quadro. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos. que continua a crer com zelo fanáti co apesar dos mais óbvios desmentidos. e agora ele só c rê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. Muitas tribos indígenas têm. 59 Não é força de expressão. entre suas tradições. 1964. praticada por todos os místicos das randes religiões. entre os quais os demônios. Joseph Epes Brown. como antecipações que dão aos fiéis o ânimo de perseverar na fé. aspirações e temores . o que caracteriza o fenômeno mundial da pseudo-religiosidade contempo rânea é justamente a credulidade beócia que toma como mensagem do céu qualquer fenômeno gr osseiro de telepatia ou hipnose. Les Phénomènes Mistiques Distingués d e leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques. 58 O “discernimento dos espíritos” é a ciência. mas não deixou de operá-los em profusão por saber que a fé humana é necessariamente impe rfeita.

ao generaliz ar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável. Mas reprimir essa angústia é abdicar.. qu e tem de ser reprimida a todo custo. inócua em casos isolados. o . é condenar-se a um vaivém incessante entre a fan tasia desesperançada e o desesperançado cinismo. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativo s. Levado a agir como se acreditasse n aquilo que nega. no ato. mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propa ganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamen te imbecil. d e todo senso profundo da realidade. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida. A ruptura entre conduta e crença. mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna.

são a legitimação “filosófica” de um atologia: não conseguindo mais instalar-se na realidade em que viveram nossos ante passados. Pervertendo nos homens a capacidade para o juízo de realidade. Elas os ajudam a suportar o mundo fictício e alucinante que eles mesmos criaram. os intelectuais começam a produzir realidades postiças. com muita violência e muito sangue para dar verossimilhança a um enredo delirante. Que importam o racismo. seja le vando as massas a encená-las no palco da política. o ativismo intele ctual acaba por reduzir a linguagem a nada mais que um instrumento de expressão de raivas insensatas e exigências descabidas. ao bom senso e ao mais elementar sen- timento de humanidade. Quer seja adestrado para cochilar mansamente diante da lareira ou para avançar co m os dentes à mostra contra os estranhos. liberdade irrestrita para o c idadão e maior intervenção do Estado na conduta privada. o “novo modelo de linguagem” de David Bohm. Não é de estranhar que com tanta freqüência os intelectua is apologistas do absurdo se ponham a elaborar sistemas de justificativas. e assim por diante. se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana. o neopragmatismo de Richard Rorty. democ racia direta e controle estatal da posse de armas. ouvintes e espectadores. Comparados a esse império universal da impostura. O estraçalhamento das consciências pelo império da propaganda é condenado com veemência por alguns intelectuais ativistas. compo stos de puras racionalizações no sentido freudiano da palavra. A velha oposição entre evasão e ativismo perdeu todo sentido num mundo em que a ação política se tornou um escapismo para alívio das mentes imaturas e em que as fantasias mais extravagantes são celebradas como formas de “protesto” contra um mundo mau. A partir desse momento. segundo as quais a re alidade objetiva não existe ou a linguagem não tem relação com ela. a abolição da consciência. Quando os filósofos co meçam a declarar com obscena satisfação que a verdade só pode ser inventada convencional mente ou fingida mediante a encenação de crenças políticas. moralismo político e imoralismo erótico. porque elas vão direto para o seu sub consciente. destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas prémodernas. mas quem está imune à sua influência? O público nem sempre se dá conta das contradições. pouco importa quem ganhe a disputa: a humanidade perderá. Ideologias como o gramscismo. um cão é sempre um cão. O típico intelectual exasperado de hoje defende sistematicamente reivindicações contraditórias: liberação do aborto e repressão ao assédio sexual. seja criando-as em laboratório. anti-racismo e defesa de “ident idades culturais” sustentadas na separação das raças. mas eles mesmos praticam abundantemente a estimulação paradoxal sobre as mentes indefesas de alunos. a corru pção dos políticos. qu e importam todos os males menores e locais denunciados e combatidos pelas várias i deologias em disputa? Que diferença faz se a manipulação da mente é empreendida sob o pr etexto de manter as massas na passividade de uma rotina conservadora ou de impel i-las a fazer uma revolução? Em ambos os casos. a redução das massas a um reb . O efeito de longo prazo é elevar até o insuportável a pressão col etiva das angústias e das culpas não conscientizadas. eles certamente devem ter bo ns motivos pessoais para ver nessas idéias algo de reconfortante. influenciando a sua conduta sem pedir licença ao julgamento consciente . que só pode acreditar na realidade qua ndo ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado d e espírito. todos os outros males que a afligem são meras incomodi dades corriqueiras. o homem é tratado como um cão de Pavlov. liberação das drogas e proibição dos cigarros. mas isto é pior ainda. consag rando as técnicas de manipulação psicológica e de estimulação contraditória como armas legíti e aceitáveis na luta das idéias. a injustiça social. Mas os autores da proeza são ele s mesmos suas primeiras vítimas. o neo -epicurismo. A culminação de cem a nos de pesquisas sobre o domínio psíquico do homem pelo homem é alcançada no momento em que todas as elites — as que estão momentaneamente no poder e aquelas que lutam para conquistá-lo — se unem num pacto contra a liberdade da consciência individual. que não têm satisfações a prestar à razão. a pobreza.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 63 homem das grandes cidades é hoje um esquizóide. leitores. Quem quer que lhes dê ouvidos termina louco. Perto dessa queda da c ondição ontológica da humanidade. seja construindo-as por deduções de um artificialismo sufocante.

de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo que. uma vez perdido. é irrecuperável para sempre? .

a pseudo-religião. Macmillan. É antes. A vitória almejada é o definitivo caos na mente do mundo. no fundo. ou mesmo. ingovernável.” 60 Dentre essas forças. no meu modo de ver. fazendo os homens acreditarem que estão pensando livremente quando não o estão. o marxismo. . as mais notórias são o pragmatismo.64 OLAVO DE CARVALHO Quatro décadas atrás o uso universal dessa arma era apenas uma tendência. entre aqueles cuja ênf ase está na razão e aqueles cuja ênfase está na fé. “O propósito do ataque é o mais velho de todos: p roduzir o caos. uma névoa de razão fragme ntada numa poeira rodopiante. pp. não um fato co nsumado. quan to ao seu direito de distinguir entre o bem e o mal e ao seu poder de empreender sua jornada à luz dessa distinção. sem propósito e sem causa. O epicurismo é um antepassado de todas. e sua herança ainda não se esgotou. uma luta qu e transcende todas as diferenças exceto uma. E já então um observador sensível podia escrever estas palavras: “O problema da s Liberdades da Mente é hoje tão urgente e prático quanto o problema da emancipação dos escravos foi no passado. quanto à validade da mente humana. é uma doença de rara sutileza. O perigo que corremos é que há grandes forças em ação no do que nos proíbem empreender essa jornada e destroem nossa vontade de fazê-la. “A batalha a se r combatida não é só entre partido e partido. 60 Charles Morgan. e da vontade de independência. a Nova Era. New York. 1951. “A doença social que termina na a niquilação do pensamento independente. 10. 40 e 5 3-54. que. a insanida de pelo fracasso em distinguir e pelas fantasias de poder. os lisonjeia e se esconde. Liberties of the Mind. o neopositivismo.

o epicurismo vingou-se produzindo uma caricatura de história da filosof ia. de maneira inversa à do filósofo. t ambém se empenhe. as clássicas lendas que os epicuristas. lorotas novas. Por exemplo. não hesitou em chamar seu velho mestre de “verme” e “prosti tuta”. estar ausentes do M ASP. chutando para a perife ria todos os que ousaram se opor a ele. em seguida. o fracasso subiu-lhe à cabeça. de stinada a acompanhar a filosofia pelos séculos dos séculos sem desaparecer nunca. só para ter de reerguer-se. Era famoso pela incontinência verbal com que difamava sobretudo os ausentes. e menos ainda de respondê-los com elegância. concorrer com as outras filoso fias e defender seu lugar. absorto em meditações el evadas. ele constitui um fenômeno significativo. não poupava mesmo aqueles com quem tinha uma dívida pessoal. Bem. os que estavam em desgraça ante o poder. traçou um r etrato moral do filósofo como um sereno asceta em seu jardim. os exilados. Convém repassar algumas delas. que constituem para ele um sucedâneo de teoria. A ÍNDOLE DO EPICURISMO § 14. alguém que aborrece a sabedoria e foge dela por quantos atalhos e de svios se lhe apresentem. tudo suportou c elegância e resignação. Se assim é. portanto. se como prática é apenas um embuste para lograr um público sem discernimento. Pessanha não inventou. entre as idéias que até hoje despertam algum interesse? Uma resposta possível é que. Não poderiam. malgrado suas fraquezas. como um novo Sócrates. em substituir a história por um sistema de men tirinhas bobas destinado a colocar Epicuro no centro da evolução do pensamento humano. Este era seu estilo característico de lidar com . propriamente. como pôde. Essas balelas reaparecem. Apenas reexibiu.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 65 CAPÍTULO V. diante d e uma platéia que as desconhecia e à qual pareceram novas. então. Porcarias epicúreas Mas se o epicurismo é indefensável como teoria. Não conseguindo fazer-se aceitar como filo sofia séria. em tudo. ocupado somente das coisas do intermundo e alheio à vã agitação dos á os humanos. Ele é uma espécie de sombra. na obscuridade do ostracismo. roendo-se de inveja da filosofia dominante. não foi nada disso. malgrado sua ética declarada de indife rença pelo mundo. em que a men te humana está destinada a cair de tempos em tempos. enquanto em torno a fúria de seus adversários lhe assacava odiosas calúnias. forjada do mais puro ressentimento. um misósofo. no campo da ação prática. teceram e cultivaram durante vinte sécu los. será sempre tomada como tal por quem quer que aborde os temas filosóficos vi ndo de fora e movido por interesses alheios aos do filósofo — pelos interesses do ho mem prático empenhado em “transformar o mundo”. além de cultivar no seu j ardim todos os sofismas clássicos. era incapaz de permanecer indiferente aos ataques dos adversários. pa ra mostrar. cíclica e regularmente. w Em seu esforço de canonizar Epicuro. Após ter sido discípulo de Na usífanes por longos anos e haver tomado dele algumas das principais idéias que viria m a constituir o epicurismo. o conferencista. C hegaram a chamá-lo de “ímpio” e até de “porco”. E ele. Como diria Nelson Rodrigues. Epicuro. É significativo que esse tipinho. uma vez mais. por ter o perfil externo da fil osofia. pelo retorno ao espírito filosófico. recém-exilado. Ele é um equívoco permanente. onde quer que se apresente uma nova defesa de Epicuro. e talvez por causa delas. fazendo coro à longa tradição de marketing epicúreo. ainda que modesto. de “vendedor de drogas”. que ele seja um eterno antifilósof o. que a escola que trapaceia no campo da teoria não teria por que eximir-se de fazê-lo também no campo dos fatos. pr ojetando no chão a imagem obscura e invertida que. não estranha que o epicurista proceda. ele chamou Aristóteles.

enquanto viveu ele esteve no bem -bom. Epicuro. Ao contrário de Platão — escreve Düring. só reaparecendo no século XII. Aristóteles. e logo em seguida sumiu de novo quase por completo. Embora sua filosofia te nha sido severamente refugada pela posteridade. mas somente um dos muitos cientistas estrangeiros na Academia.. já às portas da Era cristã 64. por exemplo. Foi exata mente isto o que Pessanha deu a entender ao público do MASP. ocupada pelo tirano Demétrio. e os epicuristas um punhado de bravos em luta contra a opressão. Carlos García Gual no seu livrinho apologéti co 61.. a ascensão dos pensadores politicamente inócuos em tempos de tir ania é um fenômeno que nós aqui no Brasil conhecemos bem. e o descrédito em que veio a cair o epicurismo. que desapareceu da memória dos gre gos para só ressurgir três séculos depois. 61 e foi obrigado a fugir para a Ásia Menor.. Bernabé Navar .. morto Aristóteles. Mas enquanto Aristóte les.66 OLAVO DE CARVALHO aqueles de quem havia copiado alguma coisa: cobri-los de injúrias. O epicur ista de hoje pode utilizar o prestígio dominante que Aristóteles veio a ganhar nos séc ulos posteriores. desculpam esses excessos verbais como manifestações da justa indignação m oral do mestre. a tradição anti -aristotélica era forte já em vida de Aristóteles” 63. A campanha epicúrea de difamação deixou marcas profundas e foi ressuscitada no Renas cimento por Gassendi e Patrizzi” 62. reed. sem ser jamais incomodado pelos poderosos. Aristóteles “não foi chefe de uma escola . no que é o maior e melho r dentre os estudos recentes sobre o assunto —. em Atenas. era e continuou sendo sempre um estrangeiro. Pode-se imaginar o que a nossa geração. o móvel era o ódio político. encontrou campo livre para se expandir. Outros. de teor político.. não pode tê-lo ignorado. o ja rdim logo ficou lotado de senhoras mal casadas e de milionários entediados. É o que faz. trad. Aristóteles teve poucos amigos e muitos inimigos. para escapar à morte. Ingemar Düring escreveu o seguinte sobre os ataques que forçaram o Estagirita a buscar o exílio: “Seus mais inflamados inimigos encontram-se entre os epicuristas . No monumental estudo que consagrou a Aris tóteles. É de estranhar que um tipo desses venha a ser chamado de porco? Os epicu ristas. Em alguns. Um suc esso. Pessanha. 62 Ingem ar Düring. que se passava com Epicuro? É falso que e le tenha sofrido qualquer perseguição ou ataque sério em vida. combatiam Aristóteles porque reprovavam suas doutrinas e sua filosofia. sobretudo... Madrid. Teopompo e Teócrito de Quios odiavam Hermias (sogro de Aristóteles) e transferiram esse ódio a Aristóteles.. membro d a escola megárica. o fato é que. A escola epicúrea floresceu em At enas quando a cidade. aliás. é claro. visto com maus olho s pelo beautiful people. respondeu a ele com injúrias pessoais. Mas por que não deveríamos explicar por igual motivação os ataques dos adversários? Por que o mesmo procedimento deveria ser louvável num homem e condenável nos outros ? O hábito da difamação. Como ali se ace itavam indiscriminadamente quaisquer discípulos. que o cultivaram ao longo dos séculos. que pregava o absenteísmo político e não oferec ia perigo para o regime. sem nenhuma seleção intelectual. Mas o fato é que Aristóte les. estando doze mil de seus cidadãos com os direitos políticos suspensos. Curiosamente. Demócares e Time u facilitaram a calúnia dos pósteros. na época. Nestas condições. para afetar ind ependência. várias escolas foram fechadas e muitos filósofos — adversários potenciais de Epi curo — tiveram de emigrar: a nova seita. por sua vez. ia para o exílio. 1981. Eubúlides. Também está na hereditariedade epicúrea a propensão a jogar com as aparências para criar f alsas impressões persuasivas (a lógica dos sinais é uma técnica de fazer isso). Mal havia alcança do certa posição como professor. Exposición y Interpretación de su Pensamiento. para criar retro ativamente a aparência de que no meio ateniense os aristotélicos fossem a classe dom inante. pois. 1985. Assim. quase nada sobrou do aristotelismo. se encontrava sob o domínio do t error. Para completar. Alianza Editorial. pensou e disse dos 63 Carlos García Gual. transmitiu-se como um vírus às gerações seguintes de epicuris . pois foi um dos muitos professores cassados pela ditadura militar.

e também as apostilas de meu curso Pensamento e Atualid ade de Aristóteles ( Rio. ).ro. 42.. Aristote et le Lycée. V. em Brice Parain ( org. México. Paris. Pierre Aubenque. Universidad Nacional Autónoma. t. pp. 1969 ( Bibliothèque de la P léiade ). p. 1994 ). cit. Gallimard. IAL. 685-687. p. I-III. 64 . fasc. Düring. I. 1990. 41. op. Histoire de la Philosophie.

ergueramse de tempos em tempos as vozes corajosas de alguns servidores da verdade.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 67 novos professores que entraram no lugar dos cassados e passaram a brilhar nas cáte dras com suas idéias politicamente inofensivas. a tradição epicúrea. Ele era. prolong a-se em Agostinho. tínhamos boas razões para pensar que as circunstâncias do sucesso daquela gen te eram pelo menos um sinal da vacuidade das suas idéias? Epicuro. dar a essas picuinhas uma dimensão comparável à da morte de Sócrates ou à do artírio dos cristãos. aqui e ali. Não houve perse guição contra os epicúreos. encontrando sua mais plena expressão em Hegel. por exemplo. o epicur ista é apenas mais mesquinho: não dá crédito a nenhum sentido último. e dec laradamente. em preconceitos religiosos. Éramos todos então uns caluniadores in decentes. na moral estóica ou nos místicos mussulmanos que professam “renunciar ao Paraíso” pa ra contentar-se com o amor a Deus como um fim em si). Este não encontrava em Epicuro “a menor sombra de um conceito” e via no epicurismo tão-somente “p alavras vãs e representações vazias”. ao contrário. um instrumento em vista de um fim: a conquista da felicidade terren a. para proclamar a grandeza do mestre e squecido. enquanto Epicuro viveu. O epicurianíssimo García Gual ressalta que. “não quer arriscar por nada a felicidade pessoal. é abdicar de todo senso do ridículo. como o dos cristãos. ademais. na ética militar h indu. com a expectativa de uma recompensa em outra vida. como um interesseiro comércio com Deus. Embora apreciado. não so freu perseguições: beneficiou-se com a perseguição que os outros sofreram. A história é outra. Epicuro foi tido em péssima conta por quase todos os filósofos. enquanto o ep icurismo assume a nobre aparência de um sacrifício gratuito. Pessanha atrás dela. Que. A diferença está em que a recompensa esperada pelo cristão é espiritual e de além-túmulo. ao alcance da mão”. não o é menos o epicurista. ressaltando que seu ascetismo era ainda mais meritório por não contar . para Epicuro. porém. como eles. e a do epicurista é material e a curto prazo. qualquer idéia filosófica que não tivesse em mira o alívio da dor e a obtenção do prazer. graças a uma conspiração urdida por aristotélicos e cristãos e inspirada. A corrente reprobatória começa com os estóicos e os aristotélicos. atravessa a escolástica sem atenuar-se em nada e penetra com a mesma força na Idade Moderna. Não obstante. em geral. cujo ascetismo desenvolve as virtudes da fé e da esperança num s entido último da existência. Outra lenda querida aos corações epicuristas é a de que a escola caiu no descrédito e no esquecimento. em vez de perdoá-las como manifestações banais da indiscrição humana. afirma ele. pelo essencial. Entre os dois “comércios”. da Antigüidade até agora. O que houve. provocado pelo fato de que a escola aceitava em seu corpo discente a té mesmo notórias prostitutas. adornou o mestre com os traços de um santo asceta. Epicuro e seus discípulos mostrassem por vinte séculos uma profunda indignação ante tais ninharias. mas d ecorreram. era totalmente desprovida de sentido. que povo do mundo não daria trela a fofocas ao ver milionários trancarem-se com prostitutas entre os muros de um jardim? Chamar a is to perseguição. para Epicuro. Mas o ascetismo epicúreo não foi nem poderia ser nunca o exercício de uma virtude gratuita. meramente instrumentais. foi apenas um zunzum de fofocas. O filósofo do jard im. o alívio mais imediato e o mai s imediato prazer possível. No fundo. tanto quanto os de um monge cristão. como Pessanha quis fazer crer que fossem os críticos de Epicuro? Ou. evidencia neles uma peq uenez de alma que os torna indignos do nome de filósofos. Exige pagamento à vist a. O asceti smo cristão surge. atual. Ora. é a favor do cristão. Os motivos para a rejeição do epicurismo não foram quase nunca de ordem religiosa. Se este é “interesseiro”. . independente de q ualquer expectativa de benefícios (como se encontra. que o epicurismo suprime. de razões puramente filosóficas. a essa luz. Caso haja nisto alguma diferença de mérito . ao contrário. Filosofia e ascetismo eram portanto. por literatos e por pens adores bissextos. entra na era Patrística com Lactâncio e Dionísio. de um ominoso silêncio — prossegue a lenda —.

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O protótipo deles foi Pierre Gassend. Na dança randômica dos átomos. o epicurismo de Paul Nizan. É preciso ter praticado muito Tetrafármacon para poder enxer gar estóicos e protestantes como agentes secretos do Papa. de absorver na forma superior de uma harmonia qu aisquer sons. que a isto se reduzem respectivamente a flauta. não o fazem por obri gação. e em segu ida iriam embora para suas respectivas casas ou para onde bem entendessem. a inexistência de um po der central regulador do cosmos? Pelo menos não foi assim que entendeu sua teoria o próprio Heisenberg. já que a beleza não se funda nas leis da causalidade física e sim da intencionalidade e stética. Assim também uns músicos que o acaso reunisse num ponto qualquer do cosmos. latinizado Petrus Gass endi. a pé. Não é inteiramente exato o que foi dito acima. os átomos se movem s em nenhum roteiro predeterminado. que os esnobes insistem em pronunciar à francesa Gassandí (1502-1655). de carro ou de trem conforme o caso. É. mesmo desagradáveis em si. que não compromete em nada a sua l iberdade fora dessa zona restrita. e que se utilizaria de outros meios se os houvesse e fosse o caso. Quanto aos devotados após tolos que mantiveram aquecida a batata epicúrea sob a crosta do gelo universal. a unidade de uma negação. adiante § 19). como por exemplo um atomismo à Demócrito e a noção de Deus como causa eficiente do movimento cósmico. indiferente ao mecanismo físico que produz os sons. chegam a coagular num canto qualquer do espaço um conjunto de coisas e seres mais ou menos estáveis. inclusive. todas as combinações são possíveis. sejam eles um caniço. mas sim com o o músico que. um tubo de metal ou uma tripa de carneiro. enxertado de diatribes nietzscheana s. que Pessanha não inventou nenhuma lorot a nova. o universo da física moderna pode parecer uma confirmação de Epicuro. se mpre os houve. O Deus de Heisenberg não age so bre o cosmos como um relojoeiro sobre o relógio — como o Deus de Newton —. é claro. M as a homenagem que Gassend presta a Epicuro é meramente verbal. absor . Descrito assim. Mas quem disse que o indete rminismo de Planck e Heisenberg tem sentido negativo? Quem disse que a indetermi nação dos movimentos dos átomos prova. mas pelo efeito de uma coincidência estatística. A afi nidade de Epicuro e Gassend é apenas negativa: ela reside no ódio comum a Aristóteles. sem se perguntar se quer o que os outros estariam fazendo enquanto isso. — a qual é capaz. e resolvessem ali tocar juntos. que a matéria vibrada possa produzir. ao menos em parte. e como que seguindo cada qual livremente o seu clinamen. já que de outro lado ele defende teses absolutamente incompatíveis com o epicurismo. alegre o u triste segundo o estado de seu fígado. Gassend tomou-se por epicurista justamente porque não compreendeu Epicuro. A ord em da forma total sobrepõe-se aqui à ordem ou desordem das matérias e elementos. acessív eis à percepção humana e regidos por leis que chamamos newtonianas. no século XX. fumando ou não fumando. onde cabem todos os contras. No universo indeterminista. O ponto comum é a ausên cia de leis que governem a matéria. servindo-se. de quaisquer meios ou me canismos que se apresentem. o que é aliás a única boa razão pela qual alguém pode aderir ao epicurismo — filosofia polissensa. cada um assobiando pelo caminho uma melodia diferente. ou não assobiando nada. pelo trajeto que a cada um aprouvesse. obra original dele (com alguma ajuda de Nizan e García Gual): revigorar o corpo moribundo do epicuri smo com uma injeção de física moderna: Epicuro teria sido um precursor do indeterminis mo de Planck e Heisenberg. chocando-se uns com os outros. far iam durante esse breve momento gestos coordenados segundo a partitura. digamos. que não oferece outro fundamento à unidade de uma tradição senão o de uma somatória de ojer izas. A inexistência de leis físicas que governem o cosmos não era para ele um argumento contra a existência de Deus. para isto. O mais audacioso dos enxertos foi. os organiza segu ndo a forma de uma intenção estética. mas sim contra o determinismo mecani cista que negava Deus com base nessas mesmas leis. num bar. Pessanh a disse admirá-lo como a um elo importante na tradição materialista (v. o trompete e a corda do violino. O ódio a toda a tradição filosófica ocidental inspira ria. e se por acaso. para Planck e Heisenberg. novamente.68 OLAVO DE CARVALHO A hipótese de que toda essa assembléia variada e milenar estivesse conjurada contra Epicuro movida tão-somente por preconceitos e fanatismos alimentados pela Igreja C atólica não merece discussão.

vendo-a e superando-a ao lhe dar um sentido. A ausência de uma .

absurdo. Mas dispensável mesmo é a hipótese deter mi65 § 15. ao fazê-lo. que só redobra os sofrimentos. Ademais. p. que a constante de Planck dividida por 2p ). Cap. acidentalmente. 52 — na verdade um segundo volume. Chicago. Encyclopædia Britannica. com base em leituras superficiais. Jaki em “Determinism and Reality”. Porém o mais esquisito em casos dessa ordem é a afoiteza com que muitos in telectuais concluem do indeterminismo físico a inexistência de Deus. Trinta Anos esta Noite ( São P aulo. Ele não é nada disto. acabou por se incorporar ao dogma ). O que essa concepção nos descreve é um mundo caóti co. mas isso não o coloca de modo algum contra o espiritualismo em geral. e até com certa vaidade. entre os muros do jardim. dan do mau exemplo aos leitores. e. v. Quer dizer que a margem de erro ao medir a posição x de um e n. Ou seja: um defeito da ciência física pode ter sido projetado sem mais nem me nos sobre a estrutura do real. no segundo. que só lhe foi mostrada décadas depois pelos adversários da t eoria. Para Pierre Bayle. os argumento s de Heisenberg não são tão sérios quanto o imagina o leigo deslumbrado. Laplace. É verdade que o indeterminismo de Heisenbe rg pode ser usado contra o realismo filosófico ( uma doutrina que. no racionali smo clássico. e que. isto é. sobretudo jovens. naquilo que podia haver de mais antagônico ao nonsense epicurista 66. É um diletantismo trágico. The Great Ideas Tod ay 1990. 66 É no entanto um lugar-comum entre inte lectuais de escassos conhecimentos filosóficos alegar as teorias de Heisenberg com o argumentos a favor do ateísmo. Rio.. multiplicada pela margem de erro em medir o seu momento ( massa. comete uma segunda leviandade. durante uma meditação no bonde. Muitos adeptos do indeterminismo simple smente deram por pressuposta esta última alternativa. La Mettrie. op. varrendo para b aixo do tapete o fato de que durante dois séculos o argumento maior em defesa dess a conclusão foi justamente o determinismo. 1980 ). premido entre a força cega do desejo e a força cega da fatalidad e exterior que o frustra eternamente. Civilização Brasileira. que se compraz n a derrota do homem. filosoficamente. v ) nunca é menor que h. a origem fortuita e o caráter leviano de suas opiniões sobre assunto grave. No primeiro caso. continuação de O Afeto que se Encerra. ou também a massa. o princípio de incertez a expressaria apenas um obstáculo de tipo operacional. A fórmula do “princí io de incerteza” é ∆x • ∆mv ≥ h. absorvida pela Igreja através da sua versão tomista. Mas de fato o exemplo é inócuo: a mod a já pegou.” GEORGES BERNANOS Não deixa de ser irônico que o epicurismo tenha entrado no vocabulário popular como si nônimo de gozo sibarítico. cit. 1994. isto é. pois não deixa claro se a margem de erro afeta some nte a velocidade. A fuga para o jardim “Il faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seuleme nt de mourir. foi aliás quem introduziu no léxi co das autodefinições pedantes o termo agnóstico ). Esta e outras mancadas terrificantes são mostradas impiedosamente por Stanley L. m. Heisenberg buscou o seu em Malebranche e Leibniz. V. uma inexatidão in erente à natureza mesma da realidade física. c’est de mourir comme des imbéciles. s em nunca mais voltar ao assunto. Companhia das Letras. m. O exemplo mais recente é Paulo Francis. Helvétius. onde átomos e homens buscam em vão escapar da dor perseguindo a miragem de um prazer impossível. I. por si. que no seu livro de memórias. O ú nico refúgio é a meditação resig ada. d’Holbach e tutti quanti. Uma teoria física. Mas o que lá dentro aguarda o meditante é uma conclusão . ter encontrado mais tarde. vezes vel ocidade. então Deus se tornava uma hipótese di spensável ( o mais feroz dos deterministas. era para Heisenberg a prova de que o cosmos é a expressão de uma inteligência criadora e não uma máquina inerte 65. não prova nada. não havia a menor dúvida: se o universo funcionava como uma máquina segundo leis imutáveis de causa-e-efeito. requer sempre algum fundament o filosófico. confessa ter chegado a inda adolescente à conclusão da inexistência de Deus. Werner Heisenberg. É na verdade uma afirmação ambígua. antes mesmo de terem chegado a perceber a ambigüidade.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 69 causalidade rígida. uma confirmação nos argumentos de Heisenberg. Francis — um autor que sob outros aspectos é d igno da maior admiração — não é o primeiro intelectual brasileiro que vejo admitir sem con strangimento. Ao contrário. de um mecanicismo.

toda fé religiosa coexiste. pode haver alguma inexat idão. . fazer a apologia do esquecimento. O ateísmo militante é. e uma vez tomada não lhe resta senão racionali zar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos. por si. 67 Cito de memória. Ademais. o nada. Só resta então e mbelezar a imagem da morte. É que o ateísmo. quase q ue por definição. ao passo que o ateísmo militante tem sempr e a típica rigidez cega das crenças de adolescente. rigorosamente. um gr ave sinal de imaturidade intelectual. em geral. A história do ateísmo militante é uma suce ssão prodigiosa de intrujices. com as dúvidas e as crises. já que ambas podem ser usadas igualmente como “provas” do que se deseja provar per fas et per nefas.inescapável: a certeza da morte. A mensagem final d o epicurismo é. por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. é uma opção de juventude. sem qualquer esperança de outra vida. O caminho do asceta epicúreo é aquele que o mat erialista Heinrich Heine viria a descrever num breve poema 67: nista. prévia a ualquer consideração racional do assunto. Não se conhece um único caso célebre de pen sador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura. bem como sua contrária.

cujo título me escapa. Nesse quadro. mas um mestre do discurso encantatório. Para o esquecimento eterno. Mas a raiz do seu êxito está em outra parte. Mas a comparação das épocas ainda está imprecisa. pe rdera todo atrativo. nos anos que se seguiram a 1968. típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo — escreveu Jakob Burckhardt — é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ru it. buscas e te esforças. A religião oficial. 68 . o caminho do céu. um convite à fuga pelo “vôo d o pensamento”. desmoralizada pela crítica filosófica. Minha geração — que é a de Pessanha — levou fundo a experiência da solidão e do exílio. Numa terra que se estreita sob o jugo dos tiranos. ao desesperado ateniense daquele tempo só restava um caminho: o caminho para baixo. seu sucesso derivou de um estado de completo cerceam ento espiritual. O filósofo Boécio. a intelectualidade foge para o silêncio do campo para buscar a vida interior. o caminho d o céu também estava fechado. outras anestésicas e outras mortíferas — a resposta final.” Não preciso ir longe para buscar um exemplo. em que a voz dolorida de Elis Reg ina suspirava por “uma casa no campo” — refúgio do militante que o desengano transformar a em diletante. foi trabalhar na Edit ora Abril. A sement e da persuasão não germina se não é plantada no solo fértil dos anseios coletivos. fizeram ali grande sucesso “Felicidade”. Mas o jardim de Epicuro tinha muitas plantas: umas alucinógenas. A mística intelectualizada ficara fora de alcance. sem uma porta para o céu. sono. Seu próprio nome. pela embriaguez erótica. para os quais o esgoto é uma esperança. um a utêntico hipnotizador. na gradação seriada de uma pedagogia do abismo. de Caetano Veloso. E picuro não foi só um teórico da necrofilia. E isto lá é resposta? Que a perspectiva deste desfecho acachapante pudesse atrair para o epicurismo um a multidão de devotos. extintos os sonhos de reforma moral e política que haviam alimentado as discussões públicas. em suma. fechadas as principais escolas filosóficas. O epicurismo é. professor esquerdista expulso da cátedra. A época d e Epicuro ansiava por alívio. Serviriam como jingles do Jardim de Epicuro. serve para integrar os átomos humanos num sentido maior da existência e os redimir da sua insignificância. Por essa época José Améri co Motta Pessanha. e no fim te enchem a boca com um punhado de terra. “auxiliar” ou “medicar”. pela pseudomística “oriental” importada da Califórnia. O epicurismo aplanava este caminho. A músi ca popular assinalou a mudança dos sentimentos no ambiente universitário: o protesto aberto e combativo desapareceu das letras de canções. dando lugar à lamentação melancólica. não deve ter sido alheio ao s u sucesso: vale por um slogan. um niilismo. Esmagados os ideais da esquerda nacionalista. Foi provavelmente nessa ocasião que ele desc obriu um alívio na farmacopéia epicúrea 68. Marx e Guevara foram trocados por Allan Watts e Timothy Leary. É. de uma raiz que significa “socorrer”. na ausência de uma consciência filosófica pessoal. que predispunha os homens a aceitar a s mais aviltantes promessas de alívio. no tempo de Epicuro. Para sete palmos abaix o do solo. Cada qual fechou-se no cubículo das suas angústias particulares.” Mas. um a forma requintada e falsamente prazerosa de niilismo. Expulso da terra. sem qualquer saída para a ação coletiva que. esquecimento. O Tetrafármacon misturava todas elas. capaz de adornar com todas as fl ores da retórica o caminho que leva a sete palmos abaixo da terra. meditava na prisão sobre os benefícios interiores do isolamento forçado: “É a terra vencida que nos dá as estrelas.70 OLAVO DE CARVALHO Tu perguntas e investigas. a rigor. de compressivo desespero. Mais que da mera depressão política. com o exílio dos filósofos. É uma filosofia de homens reduzidos à condição de r atos. que davam um sentido de participação histórica ao s intelectuais brasileiros. Jim Jones avant la lettre. o afluxo de d iscípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada. onde editou Os Pensadores. um perseguido político. Arrasadas as instituições democráticas . o primeiro sist ema completo de pensamento niilista que surge na história do Ocidente. um silêncio temeroso baixara so bre as praças. a debandada geral que se seguiu ao Ato Institucional no 5 levou mui- tos à evasão pelas drogas. é coisa que surpreende. e uma outra. separando e isolando os indivíduos.

v.Sobre o evasionismo dos intelectuais logo após o AI-5 e sobre o ingresso das teori as niilistas no cenário brasileiro. Cap. . meu livro O Imbecil Coletivo. 8.

por ser um dos mais eminentes membros do grupo que planejou o ciclo. é que es amos chegando mais perto do desenlace que tudo esclarecerá. Em dialética é assim mesmo: quando a treva da contradição se adensa até o intolerável. bem viu a peric ulosidade política da sua moral evasionista. não uso jamais o plural majestático. ele já vinha. Porém aí o mistério que este livro está investigando chega à mais densa obscuridade . se ao mesmo tempo a convidava ao sono do esquecimento? Se desejávamos compreender as intenções de Pessanha. e não de algum pretenso sujeito coletivo. preparando o ter reno para a transformação da filosofia em arma política a serviço de determinados fins. porque. há de tratar-se ambos. onde houver “nós”. neste momento parecemos estar mais longe que nunca de alca nçar uma resposta clara. o ciclo de conferências sobre a Ética. Não se pode transformar o mundo fugindo dele. ele tenha subido ao pódio do MASP para convocar o povo a evadir-s e para o jardim de Epicuro? Como esperava despertar a platéia para a luta política. dois joões-ninguéns. 69 Por princípio. não propõe nada. Vimos. . que apreciou no epicurismo sua crític a da religião oficial grega e sua mistura “dialética” de teoria e prática. Como se explica então que. Fomos aos poucos juntando os fios desta investigação. genial por transcendente à imbecilidade dos elementos singulares que o compõem. justamente na hora decisiva em que a filosofia emergia de uma longa germinação subterrânea para assumir à luz do dia seu papel de condutora da política nacional. É refratário a qualquer projeto de ação. Pois havíamos começado — nós: eu e o leitor 69 — por constatar o objetivo político a que v isava. primeiro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 71 Mas o niilismo. desde vários anos antes. conscientemente. que Pessanha não podia estar desinformado desse objetivo. Mas que o leitor não desanime. e parec emos não ter obtido nada mais que um nó indeslindável. Logo. propondo o nada. p rincipalmente de ação moral e política. segundo. como editor da série Os Pensadores. Karl Marx. impesso al. leitor. logo em seguid a.

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MARX - .LIVRO III .

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§ 17. numa outra e paralela linha des sa evolução. meus livros A Nova Era e a Revolução Cultural. a bolindo a distância normal entre a esfera da ação e a da especulação. . exterminado o comunismo na URSS. o ímpeto. o desejo erótico. em Marx com o em Epicuro. a tradução verbal da crença produzida pelo hábito. no epicurismo a prática é que produz artificialmente a condição psicológica qu e tornará crível a teoria. A natureza para Marx só tem exis tência como cenário da história ou como matéria branda e plástica a ser moldada pela ação hum na. mas uma co nseqüência inevitável do conceito marxista da natureza. legitimar como s atisfatório o que quer que tenha dela resultado na prática. Fritjof Ca pra & Antônio Gramsci. A teoria epicúrea não de creve o mundo percebido. A capacidade das es querdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atroc idades do regime comunista — e. no entanto. Não se trata de compreender o mundo. de uma apologia do fato consumado. Mesmo que a ação produza efe itos totalmente diversos dos esperados. Se norm almente a teoria é o fundamento lógico da prática e esta é a exemplificação daquela no campo dos fatos. a relação lógica entre a prática e a teoria. Caps. era levado a avaliar um pensamento por sua capacidade de mobilização. suprime. para que se torne semelhante à teoria. Não é de estranhar que a evolução de um século do pensa mento marxista tenha desembocado em Antonio Gramsci. a ambição — da alma individual ou das massas revoluci onárias — torna-se o fundamento único de uma cosmovisão onde a teoria já não serve senão para estimular retoricamente a ação prática ou para. mas sua prática altera. Epicuro e Marx “Marx. adiante. e já não a força das causas eco nômicas objetivas. Este s desenvolvimentos manifestam à plena luz do dia tendências que 70 A supressão do conhecimento objetivo não é. A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel. como se viu no § 10. a percepção do mun do. em Marx.. A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO § 16.” Alfred FABRE-LUCE Epicuro inverte. 71 V. ao preferir antes ‘transformar’ do que ‘compreender’ o mundo. veio do epicurismo. da ciênc na propaganda ideológica 71. para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não h ouvesse nenhuma rel ação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —. Acontece. V. e eles serão não somente aceitos. Tudo leva a crer que a convivência do jovem Marx com a filosofia de Epicur o — matéria de sua tese de docência — deixou no marxismo acabado marcas mais profundas d o que os estudiosos geralmente supõem e do que ao próprio Marx adulto interessou dec larar. e O Imbecil Coletivo: Atualidades Incultura is Brasileiras. mas de transformá-lo. 2-5. que leva a Reich e a Marcuse. a diferença entre o efetivo e o possível. está reduzida ao papel de uma racionalização a posteriori. e o discurso teórico não será nada mais do que o elemento discu rsivo da prática. uma vez realizada a ação. Também é compreensível que. o teórico do “historicismo abso luto”. Caps. seja a mola mestra que move o progresso e dispara a revolução. é uma herança mórbida qu através de Marx. mas celebrados pela teoria como norm ais e desejáveis: a teoria não tem aí nenhum valor autônomo. um objetivo declarado.CAPÍTULO VI. O leitor deve ter reconhecido a sentença anterior: é a 11ª Tese sobre Feuerbach de Kar l Marx. mediante exercícios. II e III. e nos precipita numa crise a lucinatória onde já não há lugar para o recuo teorético que fundamenta a noção mesma de verda e objetiva 70. já não haverá distanciamento crítico suficiente para julgá-los. que essa simbiose. a absorção da lógica na retórica. que assume declaradamente aquilo que em Marx estava apenas insinuado e implíc ito: a abolição do conceito de verdade objetiva e a submissão de toda atividade cognit iva às metas e critérios da praxis revolucionária. mas é uma herança epicúrea. O desejo.

mesmo tímido . R aul de Sá Barbosa. não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as s uas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. da prestidigitação. O Declínio da Cult ura Ocidental. e de outro lado possa crer que o ide al socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das corren72 Sobre a contaminação irracionalista do marxismo no curso da sua evolução ( não na sua raiz . quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquis ição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável. de intelectua is. de artistas. ou. trad. José Guilherme Merquior. Freud. São Paulo. a reconhecer qualquer conexão entre esses males e o ideal socialista. Da Crise da Universidade à Crise da Sociedade. 1987. do fingime nto. 1990. tes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resulta do da maldade fortuita de um só homem. aquele. como a de falo aqui ). O fato de que tenham ressurgido ao longo da evolução do marxismo mostra que Marx soube recalcá-l as. Best Seller. que os afastará para sempre da tentação d a objetividade. Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita. É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem. pessoalmente. e também Allan Bloom. São Paulo. brasileira. expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheio s à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — o u mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética. fugindo do mundo. a absor verão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem ca ir longe das finalidades sonhadas. o passado r ejeitado volta com redobrada força 72. durante quase um século. a enxergar os males do com unismo. Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. se não pela formidável potência ilusion ista inerente à raiz mesma d marxismo. trad. sobretudo a partir da década de 60. v. Mas é uma d iferença de escala antes que de natureza: nos dois casos. argumenta Michel Löwy. quando crimes de muito menor escala ba staram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano. No mesmo sentido. trad. é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente . do fran quismo ou das ditaduras latinoamericanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que a quela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos a bstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou supra-hist cas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de e xperiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos. pel a dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima. pela sua capacidade quase diabólica de o tran sfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes d o que são? Que Marx tivesse. colocando-a no encalço de metas utópicas que.76 OLAVO DE CARVALHO em Marx já estavam latentes como heranças do seu epicurianismo de origem. Edusp/Persp ectiva. 1989. a marca de um ressurgimento nazifascista. mais afin ados com as tradições clássicas do Ocidente e ansiosos de filiar Marx a elas. Rio. um tremendo senso do teatro. sem qualquer raiz na ideologia por ele prof essada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo s ubstancial. Em vão pensadores marxistas como Lukács ou Horkheimer. protesta ram contra a invasão do irracionalismo que. mas com ênfase positi va. Romantismo e Messianismo. Merquior mostra que os elementos românticos e irracionai s eram fortes no pensamento do próprio Lukács. mas não superá-las. para fechar-se no jardim com a comunidade dos ele itos. como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática. para a ação coletiva que vai transformar o mundo. term inou por contaminar toda a esquerda mundial: como dizia o dr. O Marxismo Ocidental. trata-se de envolver ser es humanos numa praxis absorvente e hipnótica. Marxismo e epicurismo parecem ir em direções op ostas: este. Nova Fronteira. entre os mais notáveis do século. Ensaios sobre Lukács e Benjamin . depois da queda do Muro de Berlim. Trata-se d e neutralizar a inteligência humana. para fora.

Quando. capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada 73 V. Rumo à Estação Finlândia. e em seguida co nstatamos ser idêntica. Edmund Wilson. notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem M arx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos. . a mixórdia proposital e alucinógena da teor ia na prática e da prática na teoria. em Epicuro e nele. Os Intelectuais. então compreendemos a virulência inesgotável da hera nça epicurista. no entanto. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as con sciências. e Paul Johnson.73.

porque julgavam que esta era a sua tarefa específica. olmo del Duero. esboço uma psicanálise do marxismo residual de nossos intelectuais. de fazer teoria. A quem se dirige a convocação? Se Marx se reporta. é na verdade uma substituição. O leitor que preferir saltar direto para o § 18 não perderá o fio do argumento . V. Daí a invulnerabilid ade do marxista convicto à argumentação racional. Sua convocação não se dirige aos homens em geral. n a medida em que o mundo real não pode realmente ser substituído por outro. como o doente histérico par a o qual imaginar é sentir. que por sua vez consistirá em praxis. e desinteressada da theoria.” 74 “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert. tomados indistintamente. Não se trata de inaugurar só uma nova prax is. e. se ocuparam de interpretar o mundo. Para sab er em que consiste essa mudança. No meu ensaio “A superi oridade moral das esquerdas. 1964. q ue sentido teria convocá-los a uma praxis na qual já estão envolvidos por hábito imemori al. e da qual jamais pensaram em sair? Não pode ser este o sentido da tese de Marx . Marxisme pas mort: ele subsiste como um complexo n o subconsciente dos que o rejeitaram sem criticá-lo a fundo. apenas se privará de uma demonstração mais rigorosa — e mais entediante. mediante uma súbita mutação ou ro ação do quadro perceptivo um snapping. A Nova Era e a Revolução Cultural. mas especificamente aos filósofos. § 17. reproduzido em O Imbecil Co letivo. que os distinguia dos outros homens. Ma s isto também significa que abjurar expressamente do marxismo não é o mesmo que libert ar-se instantaneamente de sua influência. Posso explicar melhor e dar um fundamento mais “técnico” ao que foi dito no parágrafo an terior. uma mudança básica na atividade do filósofo enquanto tal. precisamos entender qual a atitude que a antecede u. nesta tese. Em que consiste a atitude interpretativa. ocupados p or seu turno com a praxis. a substit uição se dá apenas dentro da esfera do imaginário coletivo. O verbo verändern vem da raiz ander = “outro”. Portanto. ardas de alguna mísera caseta. con su hacha el leñador. que Marx opõe à atitude cow. al borde de un camino. olmo. ou: o rabo e o cachorro”. essencialmente. item 3. Mi corazón espera también. Mas a alteração. enquanto os demais homens o transformavam. assim como tomar consciência de uma neuros e não é o mesmo que estar curado. aos conceitos trad icionais de theoria e de praxis.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 77 novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura. hacia la luz y hacia la vida. na medida em que deixa de ser ma simples propriedade ou um acidente da substância. 2. antes que te descuaje un torbellino y tronche el soplo de las sierras blancas. mas um novo tipo de theoria. Progress Publishers. ANTONIO MACHADO. “A un olmo seco” 1. Cap. quiero anotar en mi car tera la gracia de tu rama verdecida. y el carpintero te convierta en melena de campaña. Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” Antes que te derribe. desde sempre. mañana. Ele não apenas pensa diferente do não-ma rxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes. diriam Conway e Siegelman. de modo que a tradução mais exata seria “alterá-lo”. A 11ª Tese sobre Feuerbach propõe. antes que e l río hasta la mar te empuje por valles y barrancas. os filósofos faziam um contrapeso dialético à praxis: a vida contemp lativa opunha-se à vida ativa. lanza de carro o yugo de carreta. otro milagro de la primavera. Ora. nem muito menos aos homens da praxis. da contemplação da verdade. Cabe-lhes agora transformá-lo. Os filósofos interpretavam o mundo. temos de admitir que de fato os filósofos. é a eles que cabe convocar a uma mudança de atitude. Ao adotarem a atitude in versa à da maioria. A maioria dos homens esteve sempre envolvida com a praxi s. se os homens nãofilósofos estiveram desde sempre o cupados em transformar o mundo enquanto o filósofo o contemplava e interpretava. antes que rojo e n el hogar. São eles que estiver am ocupados somente em interpretar o mundo. es kommt darauf an sie zu verändern” — frase do manuscrito reproduzido em fac-símile em The German Ideology . “Até agora — diz a 11ª Tese 74 — os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. III.

S. Mos- . trad.. Ryazanskaya.

Qual a diferença essencial entre a atitude conte mplativa — ou interpretativa — e a atitude transformante. por assim dizer. não podemos supor que ti vessem em mente o sentido marxista da palavra praxis. movediça. do sensível ao inteligível. Era um tipo muito determinado de contemplação. revelação da verdade oculta). uma acepção própria e diferente. em seguida o filósofo dizia (logos) o que era ess a coisa. entre a theoria e a praxis? 3. contidas eternamente na Inteligência Divina. o núcleo inteligível era im anente ao mundo sensível. O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes. o homem filósofo saltava de um p lano para o outro: do plano da fenomenalidade instável. Ao conhecer um arquétipo. ao elevar o objeto até o nível da sua idéia. a possibilidade “cavalo”. capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta. pois. A interpretação (hermeneia) d as aparências consistia nessa subida de nível ontológico. é a es ta última que devemos reportar-nos. ou Mercúrio. do particular. Entre o signo e o significado. o filósofo. que ele decifrava em busca do significado ou essência. sub specie æternitatis. 3. Nisto consistia. a postura i nterpretativa do filósofo grego. Este plano era considerado superior. de eidos (“idéia” ou “essência”). o arquétipo de “cavalo”. as coisas. isto é. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a par tir do platonismo. os fenômenos. e também por ser estável. percherões ou mangalargas. A theoria. uma dignidade e uma realid ade superiores.78 OLAVO DE CARVALHO transformante? Sendo theoria e praxis conceitos clássicos da filosofia grega. patenteando (al etheia) o seu verdadeiro ser (ón). Enfim. Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos céleb res e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. sei não . transcendente. para os fins de sta análise. de sela ou de t rabalho etc. buscava nelas a sua significação eterna. A conseqüência “prática” disto é portentosa. por ab ranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos. O homem teorético. com um motivo específico e um objetivo esp ecífico. “ente”) e esvelamento”. a c have interpretativa era a razão ou logos. patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava ocult o. para Aristóteles. Por exemplo. pode manifestarse em cavalos pretos ou malhados. imutável. Pela razão. ela se baseia na crença de que todos fatos e todos os entes são fenômenos — “apareci- mentos” — de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilid s. do ser verdadeiro. A do filósofo. A contemplação do homem com um podia ser lúdica. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos). à luz da ete rnidade. seu sent ido “eterno”. num sentido em que os demais homens também po diam contemplar e olhar. se os filósof os antigos a que Marx visa faziam theoria em oposição à praxis. isto é. re sgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo. Na filosofia grega. as essências con stituíam um mundo separado. portanto. utilitária ou o que quer que fosse. tran sitório e aparente ao universal e estável. ou pr etende ter. de olhar. isto é. Por exemplo. como o pégaso ou o unicórnio. (É verdade que o termo praxis tem em Marx. todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro. Pode manifestar-se em ser es míticos que “participam da cavalidade”. O filósofo grego contemplava as cois as. contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. essência ou arquétipo . estética. Esta contemplação conferia a essas coisas. a diferença entre platonismo e aristotelismo. não se ocupava ge nericamente de contemplar. desde o ente fenomênico até o se r essencial. a palavra theoria tinha uma acepção precisa. eram para o filósofo signos. “guia das almas”. uma contemplação filosófica e não outra qualquer.1. que faziam dela. Dito de outro modo. uma consistência ontológica superior. eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades. a beleza dos seres humanos e da paisagem etc. ao investi gar o ser do objeto. e sim o sentido grego). e mais um sem-número de essências não m anifestadas ou possibilidades). para o p lano das essências. Era correlata das noções de logos (“razão” ou “linguagem”). porém já era a dos eleáticos. Para Platão. não. propriamente. mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenali dade imediata a um estrato mais profundo e permanente. Em suma. por su a vez. eterno. basicamente. Pouco importa. cada qual. na categoria da eternidade. a razão. portanto. enganosa. superior à aparência fenomênica e transi tória. de ón (“ser”. árabes. encarregado de levá-las na escalada e descida atra vés dos mundos ou planos de realidade. o deus psicopompo. mas isto não vem ao caso.

o que a coisa é atualmente e .

isto é. isto é. Por exemplo. em outros planos de realidade etc. limita suas pos sibilidades. não por seu dinamismo própri o e interno. sem via de retorno.2. de qualquer espécie que fo sse. o ente é so bretudo a sua forma. ilusão. Para a theoria. para a praxis.3. dentro do círculo de meus interesses imediatos. localiz ada no espaço e no tempo. pelo ser secundário.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 79 empiricamente. pela “negação” teorética e crítica da ação consumada: o espírit osófico. se a transformo em cadeira. mas por força da intervenção humana. atualiza uma dessas possibilidades. Para o filósofo. o ente é sobretudo matéria. De cadeira. no sentido aristotélico. uma transição ou passagem. posso queimar a árvore ou comer a c arne do cavalo: se a teoria respeitava sobretudo a integridade ontológica e mesmo física do objeto. “o bonde é útil porque me serve para levar-me à casa da mi nha amada. Posso. que trans forma. Não se deve confundir esta oposição com a do “estático” e a do “dinâmico”. ind ependentemente do que eles sejam. Inversamente. evidentemente. mas uma teoria da ação que ele pode sofrer. Era neste sentido que as escrit uras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento. A prática. ela só pode agora transformar-se em cadeira velha. mas uma teoria da praxis. 3. e a praxis se interessa pelo que ele não é. po rtanto. do que poderia ser. mas transf orma.4. aquilo que faz com que ele sej a o que é. Aquilo que é meio ou instr umento nada importa nem vale por si. toda a latência de possibilidades q ue ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular. Se investigo o objeto “árvore” para captar o seu arquétipo. A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém. uma árvore. se dirige essencialmente aos meios: como toda transformação visa a um resulta do ou fim. Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si. por não admitir que o objeto seja o que é e por exigir que ele se transforme em outra coisa: não interpreta. rebaixá-la a um meio ou instr . a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas . ela já não pode transformar-se em mesa ou estante. Como dizia Miguel de Unamuno. e depois em lixo. excluindo imediatamente todas as demais. e muito menos em árvore. A ação produz apenas transformação. potência latente no homo sapiens. aquilo n que num certo ponto do ca minho será abandonado para ceder lugar aos fins. apenas um meio. A praxis. Se a praxis requer alguma teoria. mas sim o que. porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemp lo. fluxo de impressões. é um meio ou instrumen to o carneiro que ele engorda e mata. transforma a coisa. isto é. realizando uma delas. Não se trata aqui. isto é. o fenômeno. 3. de amor. É meio ou instrumento o trabalho. é claro. Já não será uma teoria do objeto. e o explic a e integra no sentido total da realidade. aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é. mas de contemplação. É um meio ou instrumento a terra que o homem lavra. mas esta para que me serve?”. das ações transformadoras que pode sofrer. Porém. o objeto sobre o qual incide é sempre e necessariamente um meio. para outros. Já não interessa o que é o cavalo ou a árvore no sistema total da realidade. a aparência sensível imediata é sobretudo um signo ou símbolo de um se r. do que ela pode significar para mim. só se atualiza como reflexão sobre as desilusõe s do homo faber 75. da qual saímos apenas p lo recuo reflexivo posterior. Para o homem da praxis. A praxis. mas tudo o que ela poderia ser. A tendência universal do homem à econ omia de esforço mostra a sujeição dos meios aos fins. então todo objeto será sempre e unicamente enfocado sob a categoria da paixão. é um meio ou instrumento a árvore que ele abat e. mas apenas aqui lo em que ele pode se transformar no instante seguinte. mas por alguma outra coisa: o meio ou instr umento é um i termediário. como também o capital. às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. não tentará investigar o que o ser é no corpo da realidade total. ao contrário. Por exemplo . esta teoria já não versará sobre a natureza do ser. 3. ao contrário. aquilo que é finalid ade ou valor em si não é objeto de praxis transformadora. a praxis começa por negá-la. mas somente de restaurar o senso de uma hierarquia de v alores que parece ser inerente à estrutura do indivíduo humano são. de condenar a praxis em nome de uma u tópica vida contemplativa. isto é. tomo consciência d o que ela é. Não é uma teoria do ser. a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar) . C omo a praxis é sempre ação humana. posso fazer com o cavalo ou com a árvore.

umento do meu 75 V. 2e éd. Vrin. Paris. Éric Weil. Logique de la Philosophie. 1967. “Introduction”.. .

não é meio. É evid ente. conheço-o na medida em que o contemplo. É óbvio que se trata de uma herança epicurista i n consciente.” Há. 76 3. O o bjeto amado. que torna o trabalho agradável em si e lhe dá um valor independente do seu pr oveito prático). bem como o conjunto das ações individuais praticadas pelos seres humanos — como um vasto instrume nto sem qualquer finalidade. 3. por pedantismo ou desenfado. Não existe. 1 . Eis aí. Há uma diferente dosagem na combinação do teórico e do prático para o conhecimento dos vários tipos de seres: aquilo que para mim é meio e instrumento.4. Olavo de Carvalho. após a crise mundial do marxismo. bem como da História tout court. V. no qual no entanto alguns profissionais da cegueira. e sim desfrutar de sua presença sem alterá-la. transformá-lo. M as a praxis procede necessariamente pela negação do objeto. no mundo dos seres físicos. já em Marx. aquilo que para mim é finalidade e valor em si. sem mudá-la no que quer que seja 77. a negação do sentido da realidade. o rgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que. usando. aspectos da real idade que só podem ser conhecidos pela praxis. conclui-se que estatuir a prática como fundame nto e valor supremo do conhecimento é instaurar o reinado dos meios. verão uma traição ao marxismo.4. No entanto. O homem não transforma o que l he agrada. como objetivo e final dade. Ambos esses limites são metafísicos. há uma nítida distinção hierárquica: a contemplação. então. segundo a escalaridade do valor dos fins e da oportunidade dos mei os. 77 V. manipulação e uso de seres humanos ( ou de animais ) com vistas ao prazer erót ico — esta é a definição mesma do libertinismo ( Sade. em que o amo. 3. Há ape nas dosagens. opõe ao arbitrário e gratui to clinamen dos átomos 78. desprezando o s fins. que: 3.1.2. em que defendo a sua integridade ont ológica contra qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa. nem praxis pura nem pura contemplação. tem primazia sobre a prática. outros que só o podem pela theoria. 4.3. escandalizados. e sim pelo prazer como tal 76. num clinamen gratu ito e arbitrário que o homem. a apologia do absurdo. em que muitos t eóricos. Funarte. e jamais alcançados no mu ndo da experiência real. É transformar o universo numa imensa máquina-de-desento rtar-bananas. é inverter o sentido de toda ação humana e negar a consistência ontológica da real idade. mas o que lhe desagrada: ele entrega-se à contemplação por gosto. texto de abertura do simpósio Libertinos /Libertários. Rio. e a theoria pela afirmação da sua plenitude e do seu valor como fim. IAL. gastou. só posso conhecê-lo ao usá-lo. u tilizá-lo para alguma outra coisa. que na prática mesma há um elemento lúdico e contempl ativo. portanto.4. Rio. a raiz da nietzscheização da esquerda. pela sua redução a meio e in strumento. De tudo isso. Não desejamos mudá-lo.4. É encarar o real no seu todo — nele incluídos o homem e sua História. ao contemplar e amar somos nós que nos transformamos: “Transforma-se o amador na coisa amada. que no fim das contas não serve senão para afastar os obstáculos que nos separam do gozo contemplativo. se o é de verdade. só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder. Mas conheço os quadros de Van Gogh na medida em que sejam conservados intactos para minha contemplação. Só a finalidade suprema pode ser objeto de pura contemplação. num mundo sem sentido. A filosofia da praxis contém em se u bojo. 1995 — um exemplo edificante de como o culto pedantesco de autores menores pode coexistir num mesmo cérebro com uma profunda ignorância da H istória da Filosofia. qu e veio a ser resgatada quando. sem consistência ontológica própria nem qualquer valor em si pode s er alvo de pura praxis. à prática por necessidade (sem contar. é claro. Da C ontemplação Amorosa. Um escritor de 78 Subjugação. a intelectualidad e de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudoheroismo do nonsense. Van Gogh conheceu pincéis e tintas na medida em que os usou e.80 OLAVO DE CARVALHO prazer. Adauto Novaes — h erdeiro da flama apagada de Motta Pessanha — crêem enxergar um papel libertador. mas fim. Capítulos de uma Autobiografia Interior ( apostila ). mas neste caso já não tenho amor por ela. “Por que tanta libertinagem?”. Choderlos de Laclos et caterva ). oculta mas nem por isto menos potente. Adauto Novaes. Somente o objeto tot almente desprezível. como o sr. Ao contrário.

desprezando a obediência a valores morais explícitos. portanto. Daí também a facilidade com que essa gente produz sucedâneos de justificação “ética” . mas sim a manifestação perfeita do espírito da coisa: lu tar por “uma sociedade justa” é o diletantismo ético daqueles que não acreditam em ética nen huma exceto como convenção arbitrária. Daí a vaidosa inversão que. afirmando na prática o q ue nega na teoria: a bondade acidental e diletante do imoralista parece envolta no encanto de uma gratuidade divina. negado àqueles que simplesmente e humanamente fazem o que lhes parece certo conforme uma regra moral. A elevada taxa de intelectuais pedantes e de ricaços esteticistas nas fileiras da esquerda — um fenômeno universalmente conhecido — não deve.995. mito ideológico ou exp ediente tático. louva quase como a um santo o homem que age bem segundo uma ética em que não crê. e muito menos uma contradição. ser mera coincidênci a.

valor-de-uso e valor-de-troca. é algo que cabe investigar. o ensaio magis tral — e injustamente esquecido — de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A Cinza do Purgatório. Desenvolvimento e Cultura. Sobre o esteticismo como fonte das doutrinas políticas modernas. comparava o materialista durão a um John Wayne da filo sofia. Se o capitalismo faz realmente isto ou se se trata apenas de uma figura de retórica. O cavaleiro solitário no deserto do absurdo sintetiza Marx. v. Mas que na filosofia de Karl Marx ess a inversão ocorre. John Anthony West. da ação: o homem não cria a ciência mediante a contemplação. 1958. com a única diferença de que tem como sujeito não o indi víduo. atenta ao jogo dos pretextos e dos atos. é coisa óbvia. Sem saber o para os crimes e as perversidades cometidos em razão do seu “ideal”: pois este tem a p erfeição estética de uma forma arbitrária concebida pela mente. Casa do Estudante do Brasil. olhando com a maior indiferença os movimentos randômi cos dos átomos na planície e desprezando o choro dos fracotes que necessitam de um s entido para a vida. Há um curioso paralelismo entre as noções de objeto-da-teoria e objetoda-práxis. Rio. Nacional. outro aspecto senão o da sua transforma bilidade imediata. mas mediante a manipulação dos o tos e sua transformação em outra coisa. Da teoria da praxis provém ainda a idéia — hoje se um dogma — de que a ciência surge a posteriori de uma racionalização da técnica. que é árvore. mas a humanidade histórica. O Problema d o Esteticismo no Brasil. Quando. por um lado. São Paulo. uma consistência ontológica própria. porém.5. no objeto. recusará ao mundo. e se ante a imensidão do cosm os a atitude “teórica” não é a mais sensata. Seria interessante averiguar como é possível conciliar isto com o alegado “materiali smo” marxista. O val or de uso é. e ilim itada a extensão de mundos celestes que não podemos transformar e só podemos contempla r. enfim. ” É o mesmo que dizer que o capitalismo absorve a categoria da substância na categoria da paixão. e não se deixa contaminar pelas exigências da autoconsciência moral.6. Só sei quanto custa. isto é. então pergunto se a teoria da praxis não é uma monstruosa ampliação universalizante de um fenômeno local e terrestre — coletivamente subjetivo —. mas que está nos esquemas mentais subconscientes ou inconscientes do próprio Karl Marx. rebaixa ndo-se a natureza ao estatuto de ancilla industriae. reduzindo-se a mera projeção: Marx censura no capitalismo um d efeito que não está necessariamente no capitalismo. no senti do estrito e quase fichteano. mas apenas tais e quais podem vir a ser sob a ação do martelo e da forja . Restaria então explicar como. segund o a boutade célebre de Bertolt Brecht: “Não sei o que é. Só neste caso a censura lançada por Marx ao capitalismo perde valor objetivo. de certo modo. por outro. uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente a perf . como o afirma o próprio Marx: depende de circunstâncias históricas que nada têm a v er com a natureza do objeto. 1942. até fazer com que todos os objetos já não existam senão como “mercadorias”. num novo e mais radical tipo de idealismo subjetivo: o m undo objetivo nada é senão o cenário da praxis. em quase todas a s civilizações. a praxis não reconhecerá. impávido no alto da sela. posso no entanto utilizar a madeira para fazer uma mesa ou estante. e da qual mesmo homens de elevada inteligência às vezes se deixam contaminar. A teoria nada dirá sobre os objetos tais e quais são. e mesmo assim não inteira). aos fenômenos. conh ecível pelo homem: ela fluidificará todas as essências individuais em matéria-prima da p raxis e resultará. considero como é estreita a faixa do universo material al cançada pela ação humana (apenas a superfície da Terra. de uma hipérbole. e. É este seu caráter de idealismo subjetivista coletivo que dá ao marxismo o seu tremendo poder ilusionista que emb riaga e perverte. uma qualidade qualquer inerente ao ob jeto. o não menos notável e não menos esquecido livro de Mário Vieira de Mello. e não d o objeto. Ni etzsche e Epicuro. 3. sobre o esteticismo como id eologia dominante nas classes letradas brasileiras. 3. ao passo que o valor de troca é aciden tal. Sendo teoria da ação. faz parte da sua consistência ontológica. uma propriedade. enfim. A praxis.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 81 talento. diante de cuja praxis o universo natural — a “matéria” — p rde toda substancialidade para se reduzir a mera matéria-prima da ação humana. pois o marxismo se revela antes um idealismo subjetivista. v. Uma das censuras morais que o marxismo dirige ao ca pitalismo é que nele o valor de troca acaba por devorar o valor de uso até fazê-lo des aparecer.

eição é sempre justamente a astronomia. e que por isto o homem pode somente contemplar. mas é bobagem pura. cujos objetos estão a uma distância demasiado gran de para poderem ser “transformados”. (Um praticista fanático poderia objetar que a astronomia se desenvolveu com fins de navegação. porque uma astronomia requintada já se encontra entre povos que de navegantes não tinham .

como vimos. Mas ainda as sim a ideologia de Pessanha continua parecendo um amálgama de elementos heterogêneos e incompatíveis. Sobre o sentido puramente contemplativo da atividade intelectual na Idade Média. Se ele buscou entre Marx e Epicuro uma síntese que ao próprio Marx não interessou e nfatizar. Pessanha declarou-se . basta nte lúcida ao condenar como irracionalistas — e. A tradição materialista Acabamos de compreender a afinidade entre Marx e Epicuro. K enneth Minogue. se esta entrasse em discussão naquela hora: o PCUS não seria idiota de tentar organizar o movimento revolucionário mundial sobre u ma base física constituída de bolhas de sabão. apresentada à Faculdade de Educação da USP em 1993 ( tese datilografada ). casso. Jorge Eira Garcia Vieira. Brasíl ia. entre as rosas d o Jardim. empenhado na reconstituição de algo assim como uma “trad ição materialista” embutida na História do pensamento Ocidental. Marx a escondeu tão bem que ela não voltou a aparecer senão em plena crise do ma rxismo 81. UnB. § 18. para ele tornadas incompreensíveis 80. logo. Isto é muito elucidativo. ao interesse prático de alcançar um bem-estar psicológico fictício. A explicação ma rxista. trad. 47c. condenação que a for tiori se aplicaria à física de Epicuro. Mas por que um pensa dor de simpatias marxistas deveria querer tocar no assunto? Por mero interesse b iográfico? Não é verossímil que Pessanha tenha levado sua devoção por Marx à carolice de pret nder “resgatar” Epicuro só pela razão de haver o filósofo de Trier se ocupado do epicurism o no curso de sua formação acadêmica. por seu lado. ele tratou de não conservar nenh um resíduo ostensivo dela no materialismo dialético plenamente desenvolvido. Para que ela adquirisse alguma verossimilhança aos olhos dos homens foi precis o que primeiro a sociedade burguesa reduzisse a serva da técnica e da utilidade prát ica uma atividade intelectual na qual por milênios seus praticantes tinham visto u ma finalidade em si mesma. e não resta ao homem nenhuma saída senão refugiar-se no sonho. jamais lhe and ou pela cabeça a hipótese de uma conciliação impossível. A discrição de Marx foi sensata: um passado epicúreo é como ter a mãe na zona. ela reside antes na palavra “materialismo”. que vê a explicação para a origem de todas as ciências na contemplação da regularidade e racionalidade dos movimentos dos astros. como burguesas. pois somente essa intenção poderia explicar o relevo que ele deu. 1981. decadentistas e reacionárias — as novas tendências da física de Planck e Heisenberg. v. digamos logo. A afinidade que ele viu não é somente aquela que apontei n o parágrafo anterior. v. nesse sentido. Sobre a incapacidade do burguês — liberal e socialista — de compreender isso. a tese valiosíssima de Antônio Donato Paulo Rosa. Pessanha não era um mero colecionador de relíquia s. toda ação está condenada ao fra79 80 Timeu. A interpretação praticista da origem e significado da ciênc ia é uma grosseira projeção que o burguês faz dos seus próprios critérios e valores sobre a mentalidade das épocas anteriores. que no entanto. lhe devia muito. como conciliar a f ilosofia marxista da História com a cosmologia de Epicuro? De que modo um sentido racionalmente ordenado de causas históricas tal qual propõe o marxismo poderia brota r de um universo caótico e frouxo. A Educação segundo a Fil osofia Perene. feita de um ódio comum à inteligência contemplativa e de um intuito comum de subjugá-l a a interesses práticos fictícios: ao interesse prático de instaurar uma justiça social fictícia. onde a matéria não se rege por nenhuma lei? No caos epicúreo. Para além da simples comunidade de ódios e ilusões. Que críticos de Marx tentem lembrar esse detalhe é compreensível. É uma afinidade negativa . como editor da séri .) Esta prioridade cronológica e estrutural da astr onomia é ressaltada por Platão 79. foi certamente porque viu entre eles uma afinidade mais interessante e .82 OLAVO DE CARVALHO nada. Como transformar o mundo fugindo dele? Como coadunar a praxis revoluci onária com o evasionismo epicurista? A ortodoxia soviética foi. Sem livrar-se da raiz epicúrea de seu pensam ento. O Conceito de Universidade. Quanto a Marx em pessoa. como por exemplo os maias. Não. mais “prática”. Passado seu interesse juvenil pel a física de Epicuro (objeto de sua tese de docência). a certa altura da palestra. só se mantém de pé mediante uma brutal falsificação da ordem cronológi ca.

foi pela simples razão de que. uma não tem mesmo nada a ver com a outra. .e 81 E se Marx não teve a menor dificuldade em rejeitar a ética de Epicuro ao mesmo tempo que conservava algo de sua física. como foi mostrado no § 8°.

sob a qual se esconde uma multiplicidade de conceitos mutuamente incompatíveis. palavras e aparências são tudo. e daí ter ele optado pela designação vaga e descomprometedora de “pensadores” para englobar os filósofos e os q uase. Pessanha não expôs nenhuma teoria. a rigor. nivelando todo o mundo por cima. ao lado e na m esma altura dos verdadeiros filósofos cujo diálogo forma. nivelando por baixo. foram suficientes para suscitar uma poderosa onda emocional. em j ulho de 1995.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 83 Os Pensadores. como Helvétius. é a mesma que fundamenta as pretensões a uma “tradição materialista”. uma aparência p ersuasiva de unanimidade. não lançou nenhum fundamento. não disse absolutamente nada de ident ificável. Uma aparência verossímil de conceito. loc. Bohr e toda uma corja de abomináveis espiritualistas. políticas. E qual o retor que não sabe que . a filósofos de terceiro ou quarto time. numa só figur a de monstro reacionário. não tem como com portar em si ao mesmo tempo a arbitrariedade dos átomos de Epicuro e rígida obediência ao determinismo newtoniano. pretende u impingir ao público a convicção de que a indiferença nacional por autores como La Mett rie. na sucessão dos tempos. é puro fingimento. era necessário preencher as lacunas abertas na História pelo olvi do em que fora caindo. familiares. E a única síntese entre o indeterminismo e Newton é aquela. A “matéria”. o sr. certamente. não fez nenhuma daquelas coisas que os filósofos habitualmente fazem. exigida por todos os materialistas contemporâneos de Marx. isso é puro esnobismo de caipira metido a par isiense. e inseri-los nos respectivos nichos cronológicos. É que os p rimeiros são materialistas: o esquecimento em que jaziam apagava a linha de contin uidade da desejada “tradição”. talvez por considerá-l a divina. uma funda impressão. as lembranças da ditadura mi litar e a filosofia da História de Sto. Num país que ainda não se interessou sequer em tra duzir as obras de Leibniz e Aristóteles ( e que só no ano de 1995 teve sua primeira tradução do Wilhelm Meister de Goethe ). como Pessanha desejaria. su ficientemente indefinido. podem não valer nada do ponto de vista filosófico e histor iográfico. da sua palestra. toda uma coleção pluriforme de beletrista s e filosofantes. Se ainda assim não brotou a figura de uma tradição material ista em regra. Novaes. manejadas pelo retor. novo empresário da filosofia-espetáculo. Curiosamente. para um mestre da retór ica. só entre os espi ritualistas há algum consenso quanto à matéria. e. um ato político no se ntido mais agudo e eficaz da palavra: a união da massa contra um inimigo comum. pelo menos a linha dominante do espiritu alismo tradicional apareceu bem mais atenuada e descontínua do que é na realidade. por elástica que seja. esboçada por Heisenberg. Dégerando. fundada nessa palavra. ferozmente idealista . Mas deixou. cit. É a afinida e de uma palavra. No último desses eventos. Pauli. Jaspers ou Dilthey 82. a par da omissão de gigantes como Brentano. perf eitamente contínua de Platão até Husserl. A afinidade que permitiu. Para dar ao materialismo ao menos uma aparênci a de continuidade. que ce rtamente não morrera de todo em Pessanha. Platão e o sr. tal como a unidade da tradição materialista. a síntese pessânhica de Marx e Epicuro. Uma síntese fundada na unidade aparente de uma palavra. insistem em cultuá-la cada qual a seu modo. cativar para a rebelião contra o espírito quantas insatisfações pessoai s. a corrupção reinante e a tradição histo riográfica que preferiu Aristóteles a Epicuro. a un idade da História da Filosofia. Pessanha fez assim. deve tê-lo impedido de falsear ostensivame nte a t pografia da história. os materialistas. Cond illac. e não de um conceito. Agostinho. Mas. ao longo dos séculos. ). Um certo fundo de escrupulosidade científica. Sénancour e Crébillon Fils ( libertinos de segundo time ) é um atraso cultural in tolerável ( v. fazendo com que o materialismo aparecesse como aquilo que é: um mero contraponto ocasional e descontínuo à linha-mestra do espiritualismo. é apenas uma aparência de síntese. Collor de Mello. fantasmagórico e elástico para poder abranger. Mas. econômicas e puramente psicopáticas se encontrassem comprimi das no auditório do MASP. Adauto Novaes. com muitas costuras e emendas. 82 Uma orientação aliás fielmente mantida nos eventos da mesma série de O Olhar e Os Sentid os da Paixão realizados após a morte de Motta Pessanha. não defi niu nenhum conceito.

sem qualquer pretensão ontológica — e o materialismo não é uma doutrina. Mas a ma téria é um símbolo e o materialismo é uma força. o homem movido por impressões não sabe para onde se move. A matéria não é um conceito — exceto no sentido convencional e instrumental com que vem nos livr os de física. mas uma força históric a de impressões e emoções que produzem atos. Não havendo uma “matéria” conceptualmente identi icável — exce- .os homens não se movem por conceitos. Não uma força física. e por isto a ciência de produzir impressões é c ultivada com esmero por todos aqueles que têm a ambição de conduzir os povos. excet o no sentido negativo de uma coletânea de opiniões diversas e contraditórias. e sim por impressões? Apenas.

sem nenhuma exceção. a unidade da tradição mat erialista não poderia forjar-se com base na defesa da matéria. 1989. você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder. p. trad. como os buracos estão para o queijo suíço. ela não é uma unidade pró. nada podendo afirmar em comum. Marie-Hélène Dumas. podem firmar um acordo por que têm um princípio em comum. Mais exatamente. individual no outro —. e fazer dela a linha mestra da continuidade do pensamento humano. mas a representação interna. ao menos em aparência: o materialismo. o teórico da PNL extrai uma conclusão que leva direto a um pragmatismo com tinturas nietzscheanas: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que faz mos delas. é. No reino das ilusões. num sentido instrumental perfeitamente compatível com as doutrinas esp iritualistas esposadas aliás pela maioria dos grandes físicos —. Se existe essa unidad e. reduzindo o espiritualismo a uma coleção fortuita de exceções. para fazer de Stálin.. Pess anha começa a fazer sentido. ou pseudoorientais. desde que a Academia d e Ciências da URSS enxertou a cabeça de um desconhecido sobre os ombros de Trótski nas fotos de cenas da Revolução de Outubro na Enciclopédia Soviética. Essa filtragem explica a imensa variedade da percepção humana. é querer separar fisicamente. de distorção e de triagem. divergindo quanto à esca la da transformação — social num caso. dois princípios: o materialismo e o primado do interesse prático. Pouvoir Illimité.. veremos que a pretensão de Pessanha só pode ser compreendida como delírio alucinatório ou como fraude proposital . r etroativamente. não se constitui de outra coisa senão do amál gama fortuito de negações antepostas.” 84 83 84 Anthony Robbins. se existe. que para o marxista são mera ide ologia feudal e para o epicurista uma abjeta escravização do homem aos deuses.. . sem exagero. Paris. Quant o à PNL. Por diversos processos de generalização.84 OLAVO DE CARVALHO to. Laffont. personalizada d o que se produziu. w Uma vez unidos Marx e Epicuro pelos santos laços do ódio à inteligência teorética e do primado do interesse prático. unidos na luta co mum contra o princípio do conhecimento objetivo e no empenho comum de substituir a realidade em vez de compr eendê-la. a toda e qualquer afirmação do espírito. esta é uma das idéias fundamentais da PNL. ‘O mapa não é o território’. Mas ainda resta um ponto obscuro. A tradição materialista. Compor com pedaços de opiniões de beletristas e pseudofilósofos uma tradição materialist a. e colocar lado a lado em distintos lugares do espaço. para a densidade contínu a da linhagem espiritualista.. de uma parte a massa total do queijo. A experiência que você tem do aconte cimento não é exatamente o que se produziu. que vê no mundo a mera pr ojeção dos nossos pensamentos — hipótese que o marxismo rejeita como idealismo burguês: “Os seres humanos recebem e interpretam as informações fornecidas pelos cinco sentidos . mas uma unidade contra: a unidade negativa daqueles que. se dão as mãos na solidariedade de uma negação: a negação do espírito.” 83 Dessa constatação kantiana. porém. hipertrófico. não há nenhuma hostilidade essencial entre o interesse pessoal e o interesse coletivo: numa mesma alma podem conviver em harmonia o evasionismo epicurista e o utopismo socialista. A Nova Era adere mac içamente a metafísicas orientais. a depreciação da inte ligência teorética. e não apenas como somatória artificial de negações d iversas. inspira-se num kantismo radicalizado. o cérebro transforma esses sinais elétricos em uma representação interna. Mas como conciliar o materialismo com a Programação Neurolinguística e o movimento da Nova Era? Filosoficamente. repito. Se considerarmos simplesmente o fato notório de que Platão e Aristóteles fora m absorvidos na filosofia cristã e de que todos os filósofos importantes do Ocidente desde Agostinho até Hegel foram cristãos. por que não representá-las de uma maneira que nos dê poder? Qualquer que se ja o horror da situação. de outra parte a massa total dos buracos. Ela está. a mais assombrosa fals ificação da História já empreendida por um militante esquerdista. parece impossível. Marx e Epicuro. o comandante militar da insurreição. Pretender que essa tradição exista substancialmente. por diferentes indivíduos e por um número indefini do de motivos.

. Id. 58.. p.59.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 85

Da depreciação da nossa capacidade cognitiva, extrai-se uma apologia do nosso poder de agir. Descrevendo o homem como um animal cego, separado da realidade pelo mur o intransponível do solipsismo, o teórico da PNL não tira daí a deprimente conseqüência lógic de que um ser assim constituído está fadado ao fracasso em todas as suas ações, mas sim a conclusão surpreendentemente animadora de que o homem pode agir, e ter sucesso, justamente porque não enxerga o terreno onde pisa. A ação eficaz não depende de uma visão correta da realidade, mas de uma fantasia de poder. Pode-se coadunar isto com o marxismo? Não e sim. Não com o marxismo que estava nas intenções declaradas de Karl Mar x: uma ciência objetiva que pela primeira vez iria superar uma longa série de distorções ideológicas ditadas pelos interesses de classe e, identificando-se com os interes ses da classe que traz em si resumidos os interesses de toda a humanidade — o prol etariado —, iria fornecer uma visão realista e universalmente válida da sociedade huma na. Se esta ciência é possível, a PNL é falsa, ao menos em sua pretensão de universalidade : só a burguesia troca o mundo real por uma projeção subjetiva; o proletariado vê a real idade. Neste sentido, a PNL poderia ser encarada, do ponto de vista do marxismo ortodoxo — e assim seria qualificada necessariamente pela crítica marxista uns anos atrás — como idealismo subjetivo burguês. O sucesso dela entre empresários e executivos seria alegado como confirmação deste diagnóstico. Nesse sentido, a hostilidade entre e la e o marxismo é aberta e irremediável. De outro lado, porém, a PNL também não perde temp o em interpretar o mundo — ocupa-se de transformá-lo. Entronizar como representação válida não aquela que descreva corretamente a realidade, mas aquela que nos dê o poder de agir nela — ou pelo menos uma dinamizante ilusão de poder que nos dê ânimo de lutar pelo poder — é uma proposta de tom pragmatista 85. Mas o pragmatismo, como bem viu Grams ci, pode perfeitamente conciliar-se com o marxismo na medida em que ambos voltam as costas à descrição da realidade e enfatizam a sua transformação. Ambos, 85

igualmente, confundem teoria e prática: o pragmatismo, misturando lógica e psicologi a — o estudo das causas reais que produzem o pensamento verdadeiro ou falso com o das exigências ideais e formais do pensamento verdadeiro 86; o marxismo, confundin do ideologia com sociologia — a expressão do interesse de classe com a descrição do esta do objetivo da sociedade 87. Marx nunca percebeu a contradição que havia entre seu i deal de uma ciência objetiva, universalmente válida, e sua mistura de teoria com práti ca. Na verdade, qualquer aplicação prática de uma teoria só é possível na medida em que os l imites entre uma e outra estejam rigorosamente demarcados na teoria mesma. Uma t eoria que se deixe contaminar de “prática” no curso da investigação teorética jamais poderá s ber se seus resultados foram encontrados no real externo ou produzidos e lá enxert ados pela ação prática do cientistamilitante, um ser ambíguo e bifronte que não distingue entre o saber e a emissão de profecias auto-realizáveis 88. A mistura, que retoricam ente tem o atrativo de ser um 86 Sobre as relações entre pragmatismo e marxismo, v. A Nova Era e a Revolução Cultural, pp . 80-82 e 113-117 da 2ª edição, e sobretudo O Imbecil Coletivo, Capítulos 3, 4 e 5. Indi spensáveis para a compreensão profunda do que se vai ler nas próximas páginas. Para uma explicação detalhada deste ponto, v. Edmund Husserl, Investigaciones Logica s, trad. Manuel García Morente y José Gaos, Madrid, Revista de Occidente, 1929 ( ree d. Alianza Editorial, 1982 ), vol. I, Capítulos 3-10. A crítica husserliana do psico logismo é talvez a mais completa refutação que alguém já fez de uma teoria desde que o mun do é mundo. 87 Para quem compreenda o assunto, não é nem necessário dizer que o sociolog ismo em geral, e o conceito marxista de ideologia nele incluso, não são senão casos es peciais do psicologismo tal como enfocado por Husserl. 88 Nota do meu Diário Filosóf ico, sob o título “Devir e Sentido”, datada de 8 de agosto de 1989: “A interpretação materia lista da História pode ser verdadeira ou falsa, mas, independentemente disto, ela exerce uma influência sobre a História. Homens que estão convictos de que o motor da h

istória — e da cultura, e do pensamento etc. — é a luta de classes, agem diferentemente de homens que pensam que a História reflete a vontade de Deus, ou os movimentos de espírito, ou que simplesmente entendem a História como uma agitação sem sentido, e que buscam o sentido justamente naquilo que sai fora da História e do tempo. Homens de sta última categoria, quando agem na sociedade, procuram antes de tudo assegurar a o maior número possível de homens o acesso à contemplação, àquilo que está fora e acima da Hi tória; e é este o sentido que justifica eticamente todos os seus esforços, inclusive n o sentido de melhorar as condições materiais de vida das populações, para libertá-las da p ressão econômica e dar-lhes a oportunidade de vacare Deo. Já os crentes no materialism o histórico não se interessam senão por inserir um número cada vez maior de homens na co nsciência do processo histórico, na participação voluntária no devir. Ora, o devir não pode, por si mesmo, ser o sentido; a participação no devir só tem sentido em função de algum ob jetivo a ser alcançado; mas, não havendo mais a promessa do supratemporal, do acesso à transcedência, a inserção ativa na praxis se esgota como fim em si mesma, e cai para objetivos meramente pretextuais, dedicados a manter a roda girando. Este é o verda deiro efeito e o verdadeiro significado do marxismo, para além de

86 OLAVO DE CARVALHO

protesto contra um suposto academicismo desligado da “vida”, serve apenas para encan tar jovens irrequietos que buscam nas teorias uma confirmação vaidosa de seus desejo s e aspirações, e não um conhecimento válido, muito menos um conhecimento aplicável na práti ca. Ela não serve nem para criar uma descrição aproximativamente correta da realidade, nem muito menos para elaborar previsões que fundamentem a ação prática. A absoluta inca pacidade dos teóricos marxistas de prever o curso da História, sua sucessão deprimente de erros crassos ao longo de mais de cem anos — a começar pelo do próprio Marx ao sup or que a revolução socialista deveria ocorrer na Alemanha ou na Inglaterra, num país a vançado e não numa sociedade feudal como a Rússia — mostram que o poder do marxismo não é o poder material e prático de uma ciência aplicada, de uma técnica, de uma “ação racional segu ndo fins” como o diria Weber, de um comtiano prévoir pour pouvoir, mas sim o poder a liciante e hipnótico de uma fantasia, de uma alucinação pseudoprofética, capaz de mover o mundo, só que nunca para onde pretende; capaz de induzir as massas e os intelect uais à ação, mas não de levar a ação a bom termo; capaz de desorganizar uma economia capital ista, mas não de construir o pretenso socialismo; capaz de desencadear as causas, mas não de dirigi-las no sentido dos efeitos desejados. É uma força entrópica, que agita e sacode e atemoriza o mundo sem nada produzir senão dor e perda, mas que por ist o mesmo exerce sobre os homens a atração irresistível de uma compulsão autodestrutiva en volta em delírios de grandeza, como a de Nero entre as chamas de Roma. Facilis est descensus averni. Aí a afinidade com a PNL é evidente: por mais horrendos que sejam os resultados da luta revolucionária, a esquerda é sempre capaz de “representá-los de u ma maneira que lhe dê poder” — o poder de cair indefinidamente e arrastar atrás de si a humanidade. Com a Nova Era, a conciliação já não é tão fácil. Em primeiro lugar, porque não é quedo entrar em acordo com um saco-de-gatos. Porta-vozes e críticos da Nova Era são concordes quanto à discórdia generalizada que ali reina: “Dentro do suas intenções declaradas, sejam elas mentiras propositais ou auto-enganos de mental idades doentes. É preciso ser um completo idiota para tomar como uma promessa rede ntora a ameaça que essa gente nos faz de nos aprisionar para sempre no círculo do sa msara. Alguns criticam a utopia marxista por ser irrealizável. Se fosse realizável, seria o inferno propriamente dito, no sentido etimológico de queda num nível ontológic o inferior.”

movimento não há unanimidade sobre como defini-lo, nem há uma coesão significativa que n os permita chamá-lo de movimento”, escreve o apologista (e comercializador, como a m aioria deles) da Nova Era, Jeremy P. Tarcher 89. Na outra ponta, o crítico protest ante Russel Chandler: “Movimentos da Nova Era (no plural) é uma descrição muito mais apt a. A Nova Era não possui qualquer superestrutura abrangente” 90. Em segundo lugar, o comunismo, russo, chinês ou cubano está tão distante do espírito da Nova Era quanto o R egulamento Disciplinar do Exército norteamericano. Também é difícil um sujeito acreditar ao mesmo tempo na influência dos astros e na luta de classes como motores da Histór ia. Mas essas incompatibilidades mesmas já nos indicam algo sobre as crenças positiv as que delineiam o padrão de uma unanimidade implícita por trás da variedade estontean te das orientações da Nova Era. 1. Ninguém, ali, quer saber de hierarquia, ordem, obed iência por motivos racionais. Admite-se autoridade, mas só de tipo carismático, que a gente obedece justamente porque não compreende; autoridade burocrática ou tradiciona l — no sentido de Weber —, não. 2. Pela mesma razão, não se aceita uma doutrina fundada em provas racionalmente válidas. Uma doutrina racionalmente provada exclui a sua própr ia negação, e isto para a Nova Era é anátema: nenhuma doutrina tem o direito de ser mais verdadeira do que outra. Todo es igual, nada es mejor. 3. Não havendo argumentação ra cional nem hierarquia de prioridades, o único critério válido é o “sentimento de participação que diferencia os indivíduos integrados na nova onda e os pagãos, ainda não tocados pe lo espírito da horda. 4. Por isto, a mentalidade da Nova Era é ao mesmo tempo indivi dualista e coletivista. Individualista, ao subtrair o indivíduo do diálogo racional. Ante o apelo da razão, que é uma só para todos, o individualista anárquico fecha-se em copas, bus89 90

“New Age as Perennial Philosophy”, Los Angeles Times Book Review, feb. 7th. 1988. Co mpreendendo a Nova Era, trad. João Marques Bentes, São Paulo, Bompastor, 1993. Um li vro valiosíssimo, que, por ser publicado por uma editora religiosa, é ignorado pela crítica — servilmente atenta, no entanto, às publicações de ocultismo e “auto-ajuda”.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 87

cando refúgio na proteção do seu “guru interior”, que lhe sopra verdades indizíveis, acima e fora de toda confrontação racional. De outro lado, o que esse guru lhe sopra, em ve z de isolá-lo para sempre do mundo, o integra na horda festiva dos que receberam m ensagens idênticas pela “via interior” do rádio e da TV, dos filmes e dos shows. A voz d o guru, afinal, cerca-nos por toda parte. A “interioridade” da nova Era não deixa marg em para um só instante de recolhimento e reflexão 91. Fundindo os sentimentos interi ores do discípulo na atmosfera emotiva que o circunda, ela suprime o intervalo, o distanciamento entre o eu e o mundo, sem o qual todo exame crítico-objetivo é impossív el. Não que ela seja contra todo pensamento crítico. Ao contrário, ela o fomenta, desd e que ele se volte contra as formas de autoridade que não interessam ao movimento: a autoridade burocrático-racional da ciência, a autoridade tradicional dos pais ou da religião costumeira. Ela produz aí, não raro, críticas realistas e pertinentes. Tão log o, porém, o discípulo atravessa o umbral do templo e ingressa no círculo mágico da autor idade carismática, não só a crítica, mas às vezes todo e qualquer pensamento, são rejeitados como tentações demoníacas. O pensamento é rebaixado à condição de arma de fogo, e o porte-de arma só é concedido extra-muros, no reino profano das trevas exteriores, para uso se letivo contra os heréticos e os infiéis. Aqui começa a ficar verossímil o arranjo das idéi as na cabeça de José Américo Motta Pessanha. A rejeição da prova racional, a mística de uma pseudointerioridade coletiva, a revolta insolente ante a autoridade do passado e a submissão hipnótica a uma nova autoridade são comuns ao epicurismo, ao marxismo (pe lo menos em sua moderna versão gramsciana) e à Nova Era, PNL inclusa. Com um pouco d e elasticidade, todas as conciliações são possíveis. Mas uma dúvida perturbadora pode aind a restar na mente do leitor. A Nova Era, de modo geral, inspira-se em motivos es piritualistas. Ela pôs em circulação no mundo idéias como a reencarnação, o karma, os anjos e duendes, as viagens as91 trais. Como pode tudo isso coadunar-se, superficialmente que seja, com o materia lismo professo de Marx e Epicuro? Por mais afinidades secundárias que os aproximem , materialismo e espiritualismo continuam, afinal, o exemplo por excelência da opo sição irredutível. Eppur... É significativo que, nas seitas como as de Moon e Rajneesh, um dos meios utilizado s para quebrar a resistência psicológica dos discípulos consista justamente em não lhes dar um só instante de privacidade, submetendo-os à vigilância e à intromissão constante do s companheiros e superiores — sempre, é claro, de maneira amável e discreta, de modo q ue a vítima não perceba nisso o sinal de uma intenção manipulatória. Os efeitos psicológicos são devastadores.

LIVRO IV - OS BRAÇOS E A CRUZ -

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trad. como que patinando em falso. 1976. Não espanta. Payot. o clássico de René Guénon. O I Ching. Platão. o ternário corpo. Pitágoras e o Tema do Númer o ( São Paulo. 93 Sobre a Tría de chinesa. Henriette Roguin. ademais. para as inúmeras partes. Por exemplo. apetitiva. outras tantas subdivisões. como por exemplo Deus. espírito. se confirma pela investigação psicológica do inconsciente. Brahma. na ausência da síntese ternária. Descendo porém do plano metafísico ao histórico. assim. 6 4 ternários possíveis sem repetição: a silogística é o “Livro das Mutações” do raciocínio. Filho e Espírito Santo — corresponde. Paris. sem exceção. a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos -Physis. Comparar. — (I) Pobres bantos Em todas as grandes tradições espirituais. por Forma. de duas proposições tirando uma terceira e assim por diante. conservação e transformação respectivamente. há muito a dizer. cuja eficácia no mundo real. alma. correspondem outros 92 O dois representa a oposição estática que. Invertendo-se apenas a ordem de sucessão para Céu-Homem-Terra. no fim. O simbolismo dos números nada tem de “esotérico”. Paris. 1968-1973. manifestam-se em cada um dos pequenos fatos que em m ultidão inesgotável compõem a sucessão da vida cósmica. Já o vazio. 1960 ). Na tradição chinesa. Gallimard. de outro as observações clínicas do dr. 3 vols. fora de qualquer pressuposto metafísico. que ecoam e reverberam umas às outras segundo uma infinidade de escalas e de pontos de vista. de um lado a obra n otabilíssima do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade. E...” À tríade hindu. de. que expressa grosso modo as idéias de criação. Mas e a vida? Ah. mas um se foi e o outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio. e Georges Dumézil disse muito sobre as relações entre o ternário religioso e a ordem social em My the et Épopée. que Aristóteles. Gallimard. o mais límpido exercício. A alma. Paris. se resolve provi soriamente em mera multiplicação quantitativa. a divisão ternária do mundo imita u m outro ternário mais alto: o dos supremos princípios metafísicos Yang. desde que se entenda que uma tradução não é uma explicação. era um puro palácio aritmético . aspectos e planos secundários. por que a esfera da razão humana deveria funcionar diferente da razão suprema qu e ordena o real como um todo? “A lógica. que enfoca os números como categorias lógicas ( e ontológ icas ). Os três princípios. a o definir o homem como um intermediário entre a besta-fera e o deus. onde Logos é a esfera dos princípios metafísicos. Natura no cristianismo o u Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. 1957 — um livro após o qual o que quer que se diga do assunto corre o grave risco de chover no molhado. “Livro das Mutações”. dotado de fundamentos lógicos apodícticos. era rigorosam ente chinês. no microc osmo da constituição humana. os dois termos de uma al ternativa insolúvel repetem-se indefinidamente. sem maiores pedantismos esotéricos. já que go- vernam a totalidade do ser. é uma ontologia do microcosmo da razão humana. que se podem traduzir. motivo pelo qual o passo ternário é o andamento de todas as ações e mutações. À Trindade Cristã — Pai. o livro sagrado da dinastia Tchou fecha o ciclo ao chegar ao número 64: os cic los seguintes repetem o esquema 93. A essa divisão do todo correspondem. por sua vez. É um conhecimento rigoroso. v. . apresenta um modelo miniatura de todas as mutações possíveis: de ternário em ternário. Ludwig Paneth em La Symbolique des Nom bres dans l’Inconscient. Yin e Tao. diz Schuon. Matese. também ter nárias. Physis a ordem repetitiva da natureza sensível. no sentido pejorativo da palavra. é vege tativa. O MATERIALISMO ESPIRITUAL “O abismo era metódico. somando-os dois a dois 92. Homo. ao descrever a ordem do pensamento d iscursivo.. constatasse que este caminha em passo ternário. intelectiva.CAPÍTULO VII. La Grande Triade. A divinização do espaço. a vida era esse vício!” BRUNO TOLENTINO § 19. Matéria e Proporção. Ethos o mundo humano de ind ecisão e liberdade relativa. seu método audaz. a esse respeito. Vishnu e Shiva. e que a combinatória completa somasse. até à alu cinação.

Vê-se o mesmo no grego ou no hebraico 95. Adão. O fiel mussulmano 94. expansão. Os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num deus do céu chamado Olorum. O passo ternário entre o mundo e a origem é marcado pelo monossílabo Aum. por exemplo o dos movimentos do cosmos. que a inépcia dos nossos legislado gramaticais consagrou como corretas.. é igualmente um grande deus celeste que se retirou do culto. i sto é. Nzambi.92 OLAVO DE CARVALHO tantos ternários na esfera cósmica e humana... o homem diante de si e o homem anulado dian te da infinitude divina. o ser supremo. cujas letras correspondem. criador todo-poderoso. ascensão). No árabe. que transcorre m as retorna. Correspondem. Kari. devolvendo no fim intactas as possibilidades que estavam no início. qu ersonificam o homem diante do mundo. em todas as tradições espirituais. fiéis à raiz trilítera de ambas essas palavras. A noção do triplo tempo encontra-se. que.. que são obra de Plé. muito afastada do homem para satisfazer as suas inumeráveis necessidade s religiosas. às três faixas do tempo: a temporalidade. somente desemp enha um papel insignificante na vida religiosa da tribo. que co mpõem a palavra Adam (o árabe em geral suprime na escrita as vogais intermediárias). depois de ter c omeçado a criação do mundo. pela ordem. outro ainda para as ações concebidas indepe ndentemente de término ou 94 Nota ortográfica: em vez das grafias “muçulmano” e “Islã”.. slm ( de onde vem ain . e sim a sua ausência em lgumas das pequenas. O fato de não ter sido Kari o cria dor da Terra e do homem é signific ativo: revela -nos uma forma vulgar da transcendência e da passividade da divindad e suprema. confiou o cuidado de a acabar e governar a um deus inferio r. O mesmo se verifica entre os Angonis. Por isto mesmo. e também na estrutura das línguas antigas.. a perenidade ou eviternidade. Olorum afasta-se definitivamente dos assuntos t errestres e humanos. para os quais o criador é demasia95 Os três estágios equivalem. “posse plena e simultânea de todos os seus momento s”.. estruturalmente. perfeitamen te igual. à et ernidade. paralelamente a uma proliferação hipertrófica das divindades cós micas ou forças naturais divinizadas — um inchaço da perenidade. A grafia das letras permite visual izar as três posições da prece: prosseguimento. atravessa esses mesmos e stágios. ao menos uma “constante do espírito humano”. aos três estados mencionados. resíduo de uma velha doutrina esquecida. Está muito longe ou é demas iado bondoso para ter necessidade de um culto propriamente dito.. o que surpreende nele não é a ubiqüidade da sua presença nas grandes tradições religiosas. se não uma lei ontológica. que conhecem um se r supremo mas adoram os antepassados. O mesmo se passa na maioria das populações africa nas: o grande deus celeste. um para as ações in fieri. Pelo que lhe respeita. tempo cíclico. D e M. que engolia ou encobr ia o senso da eternidade: “Os Semang da Península de Malaga conhecem também um ser supremo. modelo da espécie.. uma tendência universal do homem a enc arar o ser como se fosse assim constituído. entre os Tumbukas.. que são qu ase transliterações. verdade imbricada na constituição mesma do ser. ao tempo. à continuidade perene. sentado e prostrado —. outra divindade que lhe está subordinada. Criou todas as coisas exceto a Terra e o homem. Obatalá. há um tempo verbal para as ações concebidas como findas (em qualquer tempo cro nológico que seja). Mircea Eliade notou em tribos da África e da Polinésia o enfraquecimento do sentido da eternidade metafísica. Tamas. o homem primordial. e a eternidade — como a definiu Boécio. simbolizados nas três posições da prece litúrgica — de pé. tota simul et perfecta possessio. ao rezar. ou ter dele uma idéia nebulosa e distante. sonho e sono profundo —. em suma... parece apreender. ou o dos estados de consciência — vi gília. dos Bantos. prefiro as formas “mussulmano” e “Islam”. Certas culturas tribais parecem desconhecê-lo completamente. ou sucessão sem volta. econômicas e vitais. Rajas e Sattwa (queda. Aqui também três letras indicam o caminho: A. atravessando os quais o homem recua desde a manifest ação sensível até o princípio metafísico de todas as coisas. mutatis mutandis. O ternário dos mundos.

n. nes e em outros livros. acima . Faço-o também por saber que na religião islâmica a grafia das palavras te um uso ritual e um profundo sentido simbólico similar ao do hebraico que se perde por completo nessas adaptações arbitrárias. que é muito complexo.da saláam. Tirei algumas conseqüências desse fenômeno para a teoria da literatura em Os Gêneros Lit erários. . onde a cada letra árabe corresponde uma e uma só letra do alfabeto latino convencional. “paz” ). 6. modulada por acentos. V. mas um sistema simplificado de minha invenção. onde se encontrarão também mais indicações bibliográficas sobre o assunto. o alfabeto fonético internacional. Também não uso nas transliterações arábicas.

por três séculos. ou faz do “silêncio de Deus” o centro das preocup ações teológicas do seu tempo. isolada. A opinião de Nietzs he para essa gente é cocô de mosquito. para arrancar do coração dos homens. dois séculos mais tarde.” 96 É compreensível que esse estado de espírito se espalhe em tribos pequenas. nada menos que 56 por cento do s norteamericanos (estatísticas oficiais) freqüentam o culto dominical. mas de ruptura traumática do cordão umbilical e de perda do senso de direção. descobriram que esse mundo era estúpido e sem razão como qualquer aparato mecânico considerado fora das finalida des inteligentes a que serve. omm. A orientação espacial ( qibla ) e o sens o de integração na grande comunidade humana ( umma ) dispersam-se imediatamente como fumaça no ex-mussulmano. Quando. depois de ter criado o homem. nunca mais quis saber dele para nada’. separada do sentido da vida. resíduos talv ez de antigos impérios africanos desmembrados. junto com a teoria da “morte de Deus” emergisse. também a doutrina do complexo de Édipo: numa civili zação que por dois milênios imaginou Deus como um “Pai”. com a inocência do pig meu. onde é dogma que Deus “não gerou nem foi gerado” e chamá-Lo de “pai” é blasfêmia intol a adesão ao ateísmo não traz um sentimento de culpa edípica. Que Freud tenha explicado pela morte ritual do Pai a origem 97 96 Mircea Eliade. ou que “D eus deixou o telefone fora do gancho”. é pr eciso não cair na esparrela de interpretar as falas dos intelectuais como expressões do sentimento dominante entre as populações dos países ricos do Ocidente. Não: eles tinham consciência de havê-Lo expulsado por v ontade própria — daí que. Natália Nunes e Fernando Tomaz . Mas quando o intel ectual altamente civilizado de uma nação rica e vencedora diz que “Deus morreu”. que bóia solitário num espaço indefinido. tem todos os mo tivos para se sentir dispersa. Passado um século desde que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”. A culpa edípica não acompanha toda rejeição da fé. que “Deus se afastara deles”. abandonada por um Deus cuja presença ela mesma se esforçou. protestante ou católico. Os Bantos dizem: ‘De us. no mesmo círculo vienense onde ela se disseminou.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 93 do longínquo e demasiado grande ‘para se interessar pelos assuntos vulgares dos home ns’. a que o pobre banto chegou por uma s ucessão de experiências decepcionantes. mas sabem que são os espíritos dos mortos que exercem uma verdadeira vigilância so bre as coisas do mundo e é a eles que oferecem culto regular. 74-77. trad. Mas. Cosmos. E os Negr ilhos (pigmeus) repetem: ‘Deus afastou-se de nós’. e não é para rezar aos antepassados ou às árvores totêmicas.. É um sentimento de orfandade. expressão de um sentim nto vigente nos círculos intelectuais — uma tribo relativamente pequena e que. mas fixado na perda da mãe.. entre os Wahéhes. e marcadas por uma seqüência imemorial de derrotas e privações — o trauma repetido das preces não atendidas. Umma te m aliás a mesma raiz de “mãe”. A “morte de Deus” é. não puderam simplesmente dizer. a teoria do Deus otiosus. Tratado de História das Religiões. que imaginam o ser supremo Ngurubi como criador e todo-podero so. vendo -se alijada do poder pela Revolução burguesa que ela ajudou a fazer. foi proposta alegremente aos Ocidentais no séc ulo XVII por filósofos e cientistas que acreditavam estar descobrindo um novo mund o — o mundo das leis mecânicas que explicariam a natureza e o homem sem necessitar p ara nada da “hipótese Deus”. mas é um fenômeno típico da civilização cr Islam. pp. em primeiro lugar. Lisboa. Não é alheio a isto o fato de que o fundador da religião . como um garoto sem mãe perdido nas ruas. a culpa edípica subseqüente à expuls Pai não poderia deixar de estender sua sombra por toda a produção intelectual da era do ateísmo 97. 1977. no máximo. Em segundo lugar. devemos entender isto como expressão do sentimento de uma velha tribo dispersa e decadente? O fenômeno é enigmático.

por exemplo. Ele não abandonou. Se há uma Religião Comparada. católica do terceiro. Freud. O dr. O ateísmo não é um fenômeno homogêneo: há um para cada religião. especulou sobre a religião universal generalizando sua experiência limitada d o meio judaico e cristão. É pena que até ho je ninguém tenha estudado isto em detalhe. expressa esse sentimento. por exemplo. sem a qual é impossível orientar-se na barafunda do s ateísmos contemporâneos. Di isto há anos. compensatoria mente. A imagética de figuras boiand o no espaço. que nada entendia dessas c oisas. podem ser grandemente elucidadas pela origem judaico-prote stante do primeiro. o “Pai”. afinal.slâmica tenha sido um órfão. primeiro de mãe. O ateu de origem judaica. mas a “Lei”. Lênin e Gramsci. que aparece com insistência em Salmán Rushdie. depois de pai. aparentemente sem despertar para o caso o menor interesse dos estudi osos. Não é o mesmo abandonar o cristianismo ou o budismo. As diferenças entre as visões estratégicas de Karl Marx. a algum utopismo político. é necess mbém uma ciência do Ateísmo Comparado. . muito mais “primitivo” do que a culpa edípica. dificilmente deixa de aderir. onde encontra um Ersatz do clamor profético de jus tiça. russo-ortodoxa do segundo. o Islam ou o judaismo.

A moderna concepção matemática da natureza inaugura-se no instante em que Nicolau. mergulhados no passado. o grande é pequeno. a recorrer à linguagem dos paradox os. c’est le livrer démagogiquement à la dispute. ele antec ipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cál ulo. § 19. então valem para ele todos os raciocínios autocontraditórios segundo os quais o que está perto está longe. Diante desses p aradoxos. e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade. deuses do tempo. Eis aí a verdadeira novidade: a ciência da natureza eleva-se ao estatuto de um s aber secreto. admitia-se. também. — (II) O infinito de Nicolau de Cusa. É significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substi tuída. Dogmatiser sur un bien originel. o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado. acredita encontrar nele a mesma inapreensibilidade racional 98 Daí proviriam. a diante. junt o com a teoria do Deus otiosus que aposentava o Todo-poderoso. no desenvolvimento das idéias Ocidenta is. investigando as propriedades do infinito numérico e es pacial. intuitivamente. Mas a verdadeira importância histórica da sua descoberta não está nisso. a elevação do espaço e do tempo à condição de absolutos que O substituíam no ca go. uma intuitio intellectualis —. se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâme tro infinito. um a metanóia. uma ciência infusa. antes da intervenção de Nicolau.. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito. que o tempo é infinito. por dois tipos de divindades subalternas: os deuses da natureza e os antepassados. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu t rajeto já não estaria em movimento. passando pelas extremidades d o diâmetro A-B. § 20. a realidade dessas contradições que a razão repe le. se aplicavam exclusivamente a Deus. Aplicando esses raciocínios. c’est le dia ble.94 OLAVO DE CARVALHO do sentimento religioso. a reação do intelectual europeu à “perda de Deus” foi igualzinha à do pigmeu ou d o Banto. bastava a luz natural da razão. espalhados na natureza. é o sinal de que a perda da dimensão metafísi ca traz consigo uma inversão do senso das proporções. supra-racional.. não era objeto de conhecimento: se nada se conhecia a resp . culto dos mortos. A divinização do espaço. espécie de ingenuidade metódica que permi tia ao filósofo captar. logo. a douta ignorância. Se o unive rso é infinito. Et la dispute. o sinal de largada para a generalização do ateísmo entre os intelectuais foi. Com isto. investidos ad hoc de prerrogativas divinas 98. mais tarde. a razão humana se mostrava impotente e devia ceder lugar a uma outra mod alidade de conhecimento. ou nenhum. sob um outro e importantíssim o aspecto. ele estará simultaneamen te em A e B. que requer do cientista uma transformação interior. Ora. ocultos entre as sombras da memóri a. Para conhecer a natureza. V. que o universo não tem centro geométrico e que. no culto. É o mesmo que dizer: deuses do espaço. imbricados na paisagem. uma transfiguração da inteligência. mas só para chegar ao c onhecimento de Deus e dos mistérios supremos. os quais. Não que a razão pudesse apreender todas as causas dos fenômenos na turais. numa extensão infinita. Os primeir os. Ela apreendia somente o que neles houvesse de racional — o resíduo caótico da pura matéria. Culto das coisas. Os segundos. HENRY MONTAIGU Isso começa com Nicolau de Cusa. Do mesmo modo. as duas grandes linhas que disputam o primado do pensam ento Ocidental: o naturalismo físico-matemático e o historicismo-culturalismo. quando falavam de Deus. não há “perto” nem “longe”: to as as distâncias se equivalem. a tradição filosófica e igiosa sempre reconhecera a necessidade de algum tipo superior de ato cognitivo — uma iluminação. e não a sua extinção. todos os seus pontos estariam eqüidistantes da circunferência. Desde a Antigüidade. o antes é depois etc. que obrigava os teólogos. escondidos nas florestas e n as grutas. e o círcu lo teria infinitos centros. e inseparav elmente dela. Mas. Logo. Exemplo: um objeto girando numa órbita circular. Nicolau concluía que o espaço é infinito. La pire des erreurs est toujours constituée par la Vérité elle -même.

eito. era por- .

atribuir ao Univ erso o qualificativo de “infinito”.. in determinado. que lhe faltam ompletamente precisão e determinação rigorosa.. é a via para o conhecimento da natureza. ele é. Ora. o caminho seguido pela evolução da ciência moderna. René Guénon. mas “interminado” (int erminatum). Ora. no ple no sentido da palavra. ou advoga a legitimidade da argumentação retórica 99 como prova científica 100. o conhecimento da natureza é elevado ao estatuto de m istério e a intuitio intellectualis é rebaixada de função — em vez de caminho de acesso a Deus. rigo rosamente. A ciência to rna-se assim uma espécie de iniciação ao contrário: só pode ser praticada mediante uma met anóia. só po deria evoluir no sentido de 1º. não chegamos a um resultado melhor do que pela via racional — apenas e stendemos indefinidamente nossa verificação da inesgotabilidade da natureza. de fato ele evita. que ele reserva a Deus e somente a Deus. o que quer dizer somente que ele não tem limites e não está contido na car apaça exterior das “esferas” celestes. aí temos o mais temív el dos paradoxos cusanos. aplicar nisso toda a capacida de humana de intuição intelectual. Pode-se duvidar da sensatez desse empreendimento. Eis por que ele não pode ser objeto de uma ciência total e precisa. requerer para es se fim um esforço “iniciático” cada vez maior. ao aplicar à natureza uma faculdade intelectual superior à razão.. Mas ele não afirma sua infinidade positiva. a ciência. mas ao ofuscamento da inteligência ante a complexida de cósmica. mas reconhecia que o único resultado a que se chegaria pela D octa ignorantia seria a constatação dessa incognoscibilidade. mas é certo que esse foi. o “mundo intermediário”. duas mudanças essenc iais se verificam. The Tao of Physics. . mas esta metanóia não leva ao conhecimento de Deus.. Primeira. e a perda do sentido fluido e ambíguo da manifestação cósmica. 2º. a rigor. Segunda: Nicolau não só admitia a existên cia do resíduo incognoscível na natureza e o justificava metafisicamente (pelo mesmo tipo de raciocínios). É evident e que. ele está automaticamente fora do alcance das duas censuras básicas e dific ilmente respondíveis que o maior crítico da modernidade. Quando o físico de hoje p ede socorro ao simbolismo taoista em busca de um princípio ordenador para sua ciênci a 99. fez à ciência pós-renas entista: a confusão entre infinito e indefinido. porque.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 95 que ali nada havia propriamente a conhecer. o “interminado” cósmico de Nicolau “significa também que ele não está ‘terminado’ em seus constituintes.. ou admite que. seguindo as vias abertas por Nicolau de Cusa. Shambhala. com Nicolau. Berkeley. e sim à experiência indefinidam ente repetida da incognoscibilidade da natureza. não ao arrebatamento iluminante d iante da simplicidade divina. sem acréscimo significativo da sua compreensão racional. área de transição entre a certeza sensível da experiênc estre imediata e a certeza intelectual dos primeiros princí100 Cf. 3º. 102 Nicolau está aí magnificamente em harmonia com o simbolismo das grandes tradições espiri tuais. para chegar sempre mais e mais à mera const atação da impotência humana de compreender a natureza. mas à perse guição hipnótica da multiplicidade de uma matéria que se esfarela numa poeira de hipóteses . mas somente de um conhecimento parcial e conjetural”. daí para diante. É verdade que em Nicolau a infinitude do espaço-tempo não tinha ainda o sentido de uma divinização: “Nicolau de Cusa nega a finitude do mundo e seu fechamento pelas esferas celestes. cujas conseqüências letais se propaga m até hoje. prossegue Koyré. 1975. antes voltada ao conhecimento de Deus. não à unidade com o Espírito que do interior move todas as coisas.” 101 Com isto. para as quais a totalidade da natureza sideral está incluída numa zona de ind eterminação. Fritjof Capra. temos de admitir que a raiz dessas derrotas da pretensão científica já se encontrava no projeto de Nicolau de Cusa.. Seu Uni verso não é infinito (infinitum) no sentido positivo deste termo. os conceitos básicos da física subatômica não têm significad o inteligível e são meros arranjos descritivos (metáforas matemáticas. a bem dizer). isto é. Pois. estender quantitativamente o conhecimento do caos natural.

1973. sobretudo Cap. Octanny S. trad. . Francisco Alves. 1977. trad. da Mota e Leônidas Hegenberg. Rio. 1920 [ original i nglês de 1962 ]. Paul Feyerabend. Contra o Método. VII. 101 Alexandre Koyré. Du Monde Clo s à l’Univers Infini. pp. Raïssa Tarr. 102 Koyré.Cf. cit. Paris. loc. Gallimard.

e requer um objeto à sua altura. então. Tanto na filosof ia de Nicolau quanto em toda a cosmovisão cristã que o antecedeu estava bem declarad o. ao “Homem” (jen). Porque a intuição intelectual — a douta ignorância como a chamava Nicolau — é a mais ele vada 103 capacidade cognitiva humana. o princípio do indeterminismo. e muitos filósofos. ser interm inado e volúvel. intermediária entre corpo e espírito. a força expansiva que medeia entre a ascensão e a queda . no contexto medieval e antigo. teria lhe permitido chegar às bases da física de Planck e Hei senberg. desde que afinadas. ainda que involuntariamente. chegaram a identificá-la dire tamente com a inteligência de Deus. A cosmologia era uma “ciência intermediária” na escalada cognitiva. para o advento de uma ciência amputada de sua raiz metafísica? A resposta é simples: o tesouro que Nicolau preservou no campo da cosmologia ele o desperdiçou no terreno da gnoseologia. para a qual bastam as sensações. receitar chá de carqueja para o fígado de Prometeu ou calcular o número exato de anjos que cabem na cabeça de uma agulha — cálculo que depois a ideologia moderna. indefinido por natureza. como o anunciado pelo mec anicismo. No esquema do triplo tempo. Voltada para um objeto que desde o início se sab e resvaladiço. com todas as suas repercussões devastadoras no terreno da biologia. mas apenas a transição desde o conhecimento sensível até a esfera dos supremos pr incípios metafísicos. Ela só se move com plena desenv oltura no terreno dos princípios metafísicos. a perenidade entre o tempo e o e terno. ao sonho. poupando à humanidade três séculos de desvario mecanicista. a medição ca da vez mais exata da impossibilidade de medir exatamente o que quer que seja? A intuição intelectual serve para nos dar a verdade evidente e definitiva. corresponde à alma. que a filosofia de Nicolau c ontribuísse. os heróis e deuses da mitologia 103. que não é nem o tempo irreversível da factualidade terrestre nem a simultaneidade do eterno.’” 104 É que. não a medição pro visória das aparências cambiantes. ta l como a alma é intermediária entre corpo e espírito. da teoria do conhecimen to. nesse contexto. Ao voltar-se para o mundo das sensações. que adquiriu o prestígio de uma centelha divina no ápice da alma humana. pelo vislumbre que podia dar de uma realidade eter . onde rendeu tanto. mas transforma a física num sucedâneo da metafísica e o céu astronômico num su cedâneo do céu espiritual: “[As] concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa culminam na ousada transferência ao Unive rso da definição pseudo-hermética de Deus: ‘Uma esfera cujo centro está por toda parte e c uja circunferência está em parte alguma. no esquema chinês. da certeza indestrutív el. Como foi possível. inf indáveis motivos de incerteza. certamente numa retr oprojeção de suas próprias culpas. inesgotavelmente inexato e cambiante. da psicologia. ao longo dos tempos . a intuição intelectual não somente perde eficácia e dignidade. O conhecimento da natureza valia sobretudo p elas suas reverberações simbólicas. ao tempo cíclico. a discussão das leis da natureza enquanto tais e tomadas fora de s uas conseqüências teológicas e metafísicas. a zona sideral corresponde portanto à evite rnidade. como Averroes. Essa zona corresponde. atribuiu aos escolásticos medievais. a ciência da natureza cósmica não era um objetivo em si. intermediário entre a vigília e o sono profundo. Daí a importância relativamente secundária que tinha. se levado em conta pel a ciência renascentista. À luz do simbolismo tradicion al. que mais poderia fazer o dom da certeza senão nos dar repetidamente. o Homem entre Céu e Terra. mas a zona da história arquetípica. parece tão extravagante quanto calcular as lágrimas de Penélope. ela é o dom da evidência apodíctica. no ternário microcó edieval. no ternário hindu dos movimentos cósmicos. século após século. mediador entre a “firmeza passiva” da Terra e a “firmeza ativa” do Céu (que evidentemente aqui não é o céu visível. mas a ”ação divina” que o move). e no dos três estados de consciência. nem fisicamente reais nem meramente imaginários (daí o termo imaginal).96 OLAVO DE CARVALHO pios metafísicos. a prova cada vez mais segura da insegurança. supra-racional. a Rajas. que. num arrebatamento de louvor. com todas as letras. o projeto de uma ciência exata e rigorosa do cosmos. da filosofia em geral e até da ética e da política. o mundus imagina lis onde habitam perenemente.

30. . AdrienMaisonneuve. Irving ( Texas ). 1954. Pari s. Henry Corbin. Avicenne et le Récit Visionnaire. op. University of Dallas. Koiyré. 1980. cit. Avicenna and the Vis ionary Recital..na e supracósmica. inglesa de Willard Trask. v. trad. Tal como o ho104 Sobre o mundus imaginalis. p.

a anulação do princípio mesmo do conhecimento objetivo. como poderia parecer à primeira vista. a superfície dessa grande mutação em que o esquematismo de umas fórmulas secas se substitui à riqueza do mundo viv ente. pp. pássaros e estrelas. todos os exag eros. mas a experiência humana na sua totalidade. levaram o homem a perder sua posição única e privilegiada no drama teocósmico da Criação. No fim de ssa evolução encontramos o mundo mudo e terrificante do ‘libertino’ de Pascal. foi amputar da totalidade cósmica os elementos não-matematizáveis. o qu al consiste numas miseráveis rodas de engrenagem escondidas entre fiapos de nuvens . 1): o peregrino se evade da “esfera” mundana. ao mesmo tempo que se arrogava o direito de expulsar do reino dos conhecimentos respeitáveis quaisquer o utras explicações possíveis. 64-65. onde no silêncio e na treva da mente resplandeciam o a Luz e o Verbo de Deus. Sol e Lua. que. medido e previsto em todos os seus detalhes. a figura central e o cenário. “provav a-se” que tudo nele funcionava matematicamente. para penetrar no reino maravilhoso do espírito. quanto mais rápido melhor. trazia em seu bojo a destruição de toda possibilidade de conhecer o real. de sua situação central e por isto mesmo únic a. concebendo o hábito — ou vício — de raciocin ar por “modelos”. o mundo d esprovido de sentido da filosofia científica moderna. fingindo dar ao homem uma visão mais realista de sua posição no cosmos. Pela porta da douta i gnorância cusana. o reino do sono profund o. lamentando-o ou celebrando-o. fatalmente tomando-os em s eguida como se fossem a realidade mesma.. o buscador espiritual só atravessava a agitada e caótica região dos sonhos para poder atingir. pela Terra. cit. porém. e negando já não apenas alguns dados do mun do sensível. Uma gra vura da época mostra como a imaginação do estudioso renascentista concebia o “mundo espi ritual” a que teria acesso ao transcender os limites do sensível (Fig. que tantos depois constatar am. substituindo a natureza dada na experiência por um conju nto de esquemas previamente arranjado para caber nos moldes pretendidos. é apenas o lado estético. de um mundo matematizado. ao mesmo tempo. Bela troca! Figura 1 Mas o “desencantamento do mundo”. a ciência entrou no caminho irreversível de uma espécie de auto-hipnos e matemática. forjando o modelo de seu próprio objeto. por esquemas de relações meramente possíveis. renunciava implicitament e a nos dar qualquer explicação do mundo da experiência humana. rigoroso. . A torção operada por Nicolau ocasionou a dispersão da mais nobre faculdade humana na ta refa inglória de delimitar o ilimitado. todos os artifícios descabidos e até fraudulentos foram po stos a serviço dela. O primeiro. op. Reduzido o objeto a seus elementos matemáticos. contado. todas as fantasias. Uma vez despertada essa ambição. onde a hipótese indemonstrável admitida de início — o carát matemático 105 Koyré. ou pseudopitagórica. Essa mutação transformou o conjunto da atividade científica num a permanente petição-deprincípio. O segundo foi escapar para longe d a experiência comum e corrente da humanidade. abandonando árvores e flores. Mais graves foram seus efeitos morais e cognitivos: “A destruição do cosmos e a perda. O terceiro foi banir para o mundo das curiosidades impertinentes todas as perguntas que não encontrassem resp osta imediata na fantasia pitagórica.” 105 Esse efeito moral. e ao qu al se deu o nome de “realidade”. no qual tinha sido até então. No fim encontramos o niilism o e o desespero. Ele resu lta de que o aparente progresso. pesado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 97 mem são quando adormece. d a perda de lisonjeiras ilusões sacrificadas ao progresso do conhecimento. naturalmente. não resulta apenas.

renuncia a nos dar qualquer conhecimento do mundo re al da experiência — substituindo-o por um elenco de esquemas matemáticos — e desmoraliza como fantasia mística qualquer outra via de acesso a esse conhecimento. com efeito. com arrogância patológica. Aristóteles julgava. junto com eles. A nova ciência teve um efeito entorpecente sobre todas as inteligências. imagina ter o poder de obri gar despoticamente a babá a fazê-lo. A ciência fecha-se num solipsismo incomunicável. o arcabouço teórico e metodológico da sua Física. ora negando o senso comum. o fundamento de sua própria existência. no oceano ilimitado da pura fantasia. 106 A “exatidão matemática” da visão científica da natureza desemboca assim. ademais.98 OLAVO DE CARVALHO das leis cósmicas — é ao mesmo tempo elevada a critério supremo e único de validação do conhe imento científico. inerente à constituição mesma da matéria —. é absurdo pretender provar que um determinado ponto não é o centro. trad. o a priori do seu modo de ser. É precisamente esta a essência p da ciência natural. em realismo e profundidade. Ai de vós. ora invalidando as per cepções intuitivas. Na verdade. é conformar-se com uma hipótese inicial impossível de provar e refratária. reverberações e fragmentos que não poderiam ter em si mesmos. quer separados. pelo simples fato de não ser composta senão de aspectos. Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a ci rcularidade das órbitas planetárias. de gnoseologia ou mesmo de cosmologia. o objeto sobre o qual versa a hipótese é indefinido e inesgotável. embora a contragosto e sem admiti-lo em público.. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. não tendo o poder de limpar o próprio traseiro. como a criança pequ ena que. no que a evolução posterior da ciênc cessou de lhe dar razão. manifestamente su perior. escreve Edmund Husserl: “Segundo o que observamos. e uma hipótese de um gênero surpreendente. legisla sobre a realidade ou irreali dade dos demais conhecimentos. porque. Surpreendente. se Aristóteles estava manifestamente errado nesse detalhe e mesmo em muitos outros. ao platonismo à outrance dos físicos renascentis tas. Tão bobos ficaram os sábios imbuídos de douta ignorância. por outro lado. toda a manifestação cósmic a está afetada de contradições. Enrico Filippini. que da infinitude espacial deduziram imediatamente a negação da centralidade da Terra no co smos. La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trascendentale. ora revogando a autoconsciência individual. em suma. Quem quer que medite seriamente estas palavras comp reenderá que um conhecimento assim constituído não tem a menor qualificação para sair dos quadros da mais estrita humildade metodológica e opinar sobre questões de metafísica. 71 ). Tudo o que se poderia deduzir corretamente da ilimitação espacial é que o espaço tem propriedades autocontraditórias por não ser propriamente uma realidade. c ortes. ao mesmo tempo em que pretende legislar sobre o conhecimento do mundo exterior. dar a mínima conta da falácia deste raciocínio. “Ser científico”. aos dados intuitivos e ao senso c omum.” ( Edmund Husserl. a idéia galilaica é uma hi pótese. e o permanece para sempre. ao mesmo tempo que. nem por isto terá sido sensato atirar ao l ixo. Se o infinito tem indiferentemente inf initos centros ou nenhum. a verificação ( a única possível ) é uma seqüência infinita de verificações. Aristóteles já havia. quer juntos. Mas. Il Sagg iatore. p. Milano. A cosmovisão científica. exercendo enfim sobre toda parte em torno o domínio que não pode exercer sobre si mesma. não obstante a verificação. 1972. existir na natureza um resíduo irracional e in cognoscível. 4ª ed. advertido contra os riscos de uma aplicação indiscrim inada do método matemático à filosofia da natureza. a pretensão de estar mais certa do que no momento anterior ou seguinte. mas ape nas o símbolo ou aparência de uma instância supra-espacial onde as aparentes contradições se reconciliam na unidade do infinito metafísico. Curiosamente. e ele conc . a cura di Walter Biemel. Buscar uma aproximação com essa hipótese é o único objetivo de toda investigação cientí a. que não entrais nem deixais entrar. a cada momento. a hipótese permanece uma hipótese. nesse sentido. sem se 106 Comentando um estágio já mais avançado do processo de matematização da natureza — a física de Galileu —. Como. a aproximação não poderá jamais ter fim nem alimentar mesmo. com dois milênios de antecedência.

e nenhum dos dois objetos é fácil de apreender. mas somente quando se trata de seres imateriai s. notadamente. 3. Por isto o método matemático é inaplicável à Física. a. ). diríamos hoje em linguagem husserliana 107 —.” ( Metafísica. na medida em que. para poder matematizar a física. 995a. . Não se deve. a ciência renascentista deu-lhe razão no fundo. Pois toda a Natureza contém verossimi mente matéria. exigir em tudo o rigor matemático. que devamos examinar primeiro o que é a Natureza. daí vem. Ao rejeitar aparentemente Aristóteles. pois é absurdo buscar ao mesmo tempo uma ciência e a maneira de alcançar essa ciência.luía que o método demonstrativo-matemático só podia dar conta de realidades imateriais — d e puras relações lógico-ideais. teve de se afast ar cada vez mais da realidade sensível até substituí-la totalmen107 “Eis por que é preciso ter aprendido quais as exigências que se devem trazer a cada es pécie de ciência. e não da reali dade sensível . pois assim v eremos igualmente de quê trata a Física.

A liquidação das bruxas deriva muito menos da pura e simples defes a da ortodoxia do que de uma nova maneira — geométrica e purista — de compreender a or todoxia. vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação. Histoire de la Folie à l’Âge Classique. Juan de Zuñiga. destinados a excluir da visão humana os comportame ntos desviantes que arriscassem macular a perfeição matemática da nova ordem 108. O introdutor da nova astro nomia na Península Ibérica foi o chefe local da Inquisição. The Spiritual Crisis of Modern Ma n. pela Editora Zahar: O Homem e . v. como teria podido esperar t antos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos ante riores. Afonso de Ligório. Aí. das correspondências e das si mpatias em que reverberavam umas às outras as partes de um gigantesco organismo vi vente. A substituição do mundo da experiência pelos modelos matemáticos trouxe cons igo a mania da uniformização. É só acompanhar a ascensão do número de pro cessos e condenações. os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos. O espírito geométrico marca a id ade clássica em todas as suas dimensões: da filosofia científica à moral religiosa. Enéas Sílvio Piccolomini. porque as novas idéias exerceram tanta influência dentro da Igreja Católica quant o fora dela. o espírito de formalismo legalista vai to mando posse da religião cristã em medida tal.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 99 te pelos modelos matemáticos. dúvidas ou nuances de qualquer espéc ie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático. segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções. necessitava excluir. Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. ganha ndo em ilusão de ordem e realismo o que perde em significação e intuito. a salvação torna-se um problema de lóg ica jurídica. Allen & Unwin. a natureza multiforme é substituída pe la regularidade de um tabuleiro de xadrez. A racionalização do dogma. dezoito séculos após a vinda do Salv ador. Depois disso. The Encounter of Man and Nature. Se uma perfeita discriminação e catalogação os deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação. 109 Sobre a perda do sentido simbólico da natureza. pela primeira vez na história do Cristianismo. da simplificação geométrica que. é substituído pela classificação das peças isoladas e mortas 109. Seyyed Hossein Nasr. Michel Foucault. como o diz a calúnia consagrada em mito historiográfico — o gosto europeu de queimar bruxas e supostas bruxas. 1965. irregular ou estranho. ao mesmo tempo que se espalham por to da a Europa os hospícios e prisões. A Companhia de Jesus afirma-se desde o início como um utopismo reformista. v. Malebranche. a per spectiva horizontal e matemática substitui a perspectiva vertical e simbólica. Nas ciências da natureza. Nos jardins de Versalhes. sob o sopro dos novos tempos. 108 Sim. mas é necessária à economia int talidade racionalista 110. Data dessa époc a — e não da Idade Média. É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra-Reforma (que uma simplificação boba toma unilateralmente como uma reação conservadora) o influxo das novas concepções racionalistas e platonizantes. que se anuncia no concílio de Trento . para sustentar a ilusão do me canismo perfeito. apagar ou pelo menos esconder tudo o que fosse diferente. onde já não há mais lugar para a incerteza nem para o pecador. Neste sentido. tornou-se nada menos que Papa. Na pintura. o tecido complexo das analogias. London. 1968 ( há tradução brasileira. o cientista moderno que proclama que a física renascentista refutou Aristóteles comete. uma desonestidade i ntelectual. completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Sto. simplesmente. da j ardinagem à medicina. Paris. os principais — Descarte s. Arnauld & Nicole — eram católicos fervorosos empenhados em fundar nu ma construção racional perfeita a conversão dos descrentes. Um dos primeir os humanistas da Renascença. um incêndio devastador em ple na Idade Moderna. que hordas de almas oprimidas sob o pe so Sobre a exclusão dos loucos. resolvido por métodos matemáticos. para verificar que aquilo que era um punhado de brasas na Idade Média veio a tornar-se. desde a fundação do Santo Ofício em 1229 até os grandes autos-defé dos ulos XVI e XVII. divergente. que vai varrer do mundo o pecado e instaurar a ordem social racional — mesmo que seja num cafundó latinoamericano. Plon. Dos fundadores do racionalismo. por exemplo.

Afonso. criação absolutament e genial pela qual os filósofos demonstram um desinteresse verdadeiramente patológic o. Apenas digo que ela atende menos a uma necessidade intrínseca da fé cristã do que a uma necessidade extrínseca imposta pelas condições da época. .a Natureza ). 110 Não vai nisto o menor intuito de depreciar a obra de Sto.

numa proliferação ilimitad a dos focos de atenção espiritual. por exemplo. será tomada. A falta do ganho espiritual é em seguida compensada pela riqueza das aplicações técnic as advindas da ciência. nascida. um dos grandes livros brasileiros que já nenhum bras ileiro lê —. para concentrar-se na única coisa necessária. pela “sutilização” do corpo do discípulo. inte rpretada retoricamente: a noção física de “energia”. o que ainda aumenta mais. Esta concepção provocou. A matematização da natureza é empobrecimento sensorial. não é de estranhar que. o ocultismo e o espiritism o. O equívoco funda-se numa visão estereoti pada — e bem materialista — do ascetismo religioso como mero empobrecimento sensoria l. cada vez mais absorvida na varie dade da manifestação cósmica e cada vez mais distante de todo princípio metafísico capaz d e fundar critérios legítimos de validade do conhecimento. Mas ao mesmo tempo que o “espirituais” Allan Kardec e Madame Blavatski restauravam assim sem sabê-lo a física ep icúrea. Que. O processo iniciado por Nicolau de Cusa encon trará sua culminação quatro séculos depois com Augusto Comte. No curso desse processo. Por toda parte. A doutrina da sutilização encontrará na entra da do século XX um poderoso suporte verbal na nova física de Einstein e Planck. logo em seguida. sentimentalistas e român ticas no domínio religioso. porém. alguma coisa de ascético.. o materialista Karl Marx redigia sua defesa de Epicuro contra Demócrito. De imediato. 1955 ). a sub stituição da realidade sensível pelos seus equivalentes racionais e matemáticos vai se i mpondo. v.100 OLAVO DE CARVALHO dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico 111. Nela está a raiz da perve rsão moderna que atribui à ciência natural a tarefa de guiar espiritualmente a humanid ade. elevá-lo às supremas alturas do conhecimento espiritual — privando-o. o prestígio s acerdotal da casta dos cientistas. Agir.êta país ingrato! diante se apossaria da intelectualidade européia. afinidade que se explica facilmente pela sua origem comum na cosmovisão renascentista. s. sob o impacto das idéias de N icolau de Cusa. seu efe ito foi a de diluir na consideração da infinitude espacial a capacidade humana da in tuição espiritual. que fará explicitamente da c iência natural uma religião. em substituição à espiritualidade religiosa. passassem a ser tomadas como espirituais as forças da natureza cósmica simplesmente mais sutis e afastadas da realidade sensível imediata. é apenas o primeiro sintoma da tendên cia centrífuga que daí por 111 Sobre a ascensão progressiva das doutrinas irracionalistas. J. Tal como entre os primitivos bantos. no mundo moderno. de fato. No século XIX. Mas é uma ascese puramente cerebral. tidos como espiritualmente prejudiciais. Leonel Franca. Coi ncidência nada fortuita: o afluxo maciço de militantes socialistas às fileiras do espi ritismo e do ocultismo — um dos fenômenos mais marcantes da vida mental das classes letradas no século XIX — mostra a existência de uma afinidade entre essas duas corrent es de idéias aparentemente antagônicas. como se o enfraquecimento do corpo fosse por si um mérito espiritual e como se não pudesse hav . sem verdadeiro sentido moral. A Crise do Mundo Moderno. no sentido de um esforço de opor-se à natureza. como matéria rarefeita. a disseminação de milhares de pseudomísticas e pseudo-esoterismos que prometem. Giordano Bruno tenha desenvolvido as fantasias mais exacerbadas a propósito da pluralidade dos mundos habitados. isto é. religioso em suma. amplamente disseminados entre as camadas letradas. apenas sem ganho espiritual . com freqüência — e não só por populares ignorantes — como um verdadeiro nônimo do espírito. perdida a via de acesso à espiritualidade autêntica. do Pe. a desapar ição do deus infinito expande desmesuradamente o panteão cósmico. aos olhos da multidão. de alimentos densos em proteína. e da casta científica um clero. ( 4ª ed. enquanto oposta à matéria densa do mundo visível. in do direto à infinitude metafísica e passando por cima de todos os indefinidos merame nte quantitativos da ordem cósmica. A redução da religião a um mero sentimento interior jamais teria encontrado eco se não fosse p recedida pela redução da religião a um juridicismo racionalista. como um sucedâneo mundano da ascese espiritual. ao contrário. explicarão o espírito como uma sutilização ou diluição da matéria. Rio. espiritual. assim. A fuga do mundo rea l para o dos esquemas ideais matemáticos tem.

Foi a esta caricatura que o Dalai Lama. por exemplo. Eis aí como. da ampliação do univ erso sensível inaugurada no Renascimento. onde toda a diferença entre as ca madas superiores e inferiores se reduz à escala quantitativa do grosseiro e do sut il. unidimensional e opressivo. como se.er místicos gordos ou santos musculosos. denominou “materialismo espiritual”. a . c om certeira concisão. chegamos à concepção dominante de um universo totalmente achatado.

Os “deuses astronautas” atendem em toda a l inha os requisitos da imaginação moderna. Galileu não contestou a física antiga. nela. conseguiu apenas explicar po r que ele permanece parado. Quando saiu a primei ra edição. se o objeto não movido de f ora permanece parado ou tem um movimento fictício. vejo agora. substitui a autêntica sêde espiritual. nas cabeças de muitos pensadores de hoje. cada uma das quais atingindo em suas conseqüências um alto grau de concordância com a experiência” 114. exatamente como o dizia a física antig a. . isto significa. que ele permanece parado em todos os casos. após ter assim derrubado a física antiga. Ou seja. éd. V. Ora. Cap. Meu artigo estava muito certo em diagnosticar a formação de uma nova casta sacerd otal composta de cientistas. Fayard. de direito. Uma certa perda do senso de realidade parece uma doença profissional crônica da classe dos cientistas. tendo pretendido superar toda mitologia religiosa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 101 diferença de planos entre a tinta em que se imprime estas letras e o espírito do aut or que as escreveu pudesse ser transposta com a maior facilidade mediante a simp les diluição progressiva da tinta. vendo neles um defeito da realidade mesma e jamais da estrutura da sua ciência. sendo verídico o bastante. É aterrador ver como os cientistas da comunidade que Raymond Ruyer de nominou “gnósticos de Princeton” se divertem concebendo “modelos de universo”. Penitencio-me agora ante o grande romancista: ele tinha ra zão. esclar ecia discretamente que o movimento retilíneo e uniforme não existe realmente. astrônomos. 1977. 2e. V. Paris. eram apenas um gigantesco esforço . não tem em si a prova da sua veracidade — coisa que já e ra arroz-com-feijão desde o tempo de Aristóteles. acabasse chegando. de um lado. apenas i nventou um modo melhor de provar que ela tinha razão. O dogma da sua própria honestidade intelectual int rínseca parece impedir os físicos de perguntar se não há algo de errado no que estão fazen do. n o século XX. um objeto em tais condições.. “O caráter fictício dos princípios. a civilização do O cidente. La Gnose de Princeton. pela confusão entre o céu visível e o céu espiritual. sobretudo dos físicos. Mas um fundo de charlatanismo parece já ter sido introduzido na física por Galil eu. Eis aí como uma cosmovisão de um prima rismo deprimente pode conviver. matemáticos etc. As especulações d e Princeton. pontificava. por cim a de dois milênios de evolução do pensamento. ao culto dos extraterrestres. rigorosamente. É mais ate rrador ainda ver como essa gente se 112 113 acomoda a todos os piores ilogismos. Eis aí também como é possível. mediante um novo sistema de medições. Não é nada estranho que. no sentido de Huizinga 112. por essa via. Foi este episódio que inaugurou a ma nia dos cientistas modernos de tomarem simples mudanças de métodos como se fossem “pro vas” de uma nova constituição da realidade. Des S avants à la Recherche d’une Réligion. pelas páginas da Última Hora do Rio. permanece parado ou em movimento retilíneo e uniforme. um filósofo imbuído das concepções mais moderna e avançadas recair. segundo e le 115. mas é um a ficção concebida pela mente para facilitar as medições. quando proclamou ter superado a noção da ciência antiga. na fantasia pueril do materialismo epicúr eo. e já não têm mais o espírito de elevada seriedade que. coeridas som ente pelo convencionalismo de uma regra de jogo. Nas Sombras do Amanhã. Raymond Ruyer. e que o testemunho dos senti dos. fiz na revista Planeta os maiores elogios aos garotões de Princeto n. seria inerente à i déia de ciência. e que Galileu. com os c onhecimentos científicos mais elevados e complexos. XVI. é p erfeitamente evidenciado pelo fato de ser possível apresentar duas bases essencial mente diferentes. acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias. segundo a qual um objeto não impelido por uma força externa permanece parado — uma ilusão dos sentidos. mas não em festejar esse acontecimento. e em resposta levei um discreto puxão-de-orelhas de Octávio de Faria. por força delas mesmas. e de outro pela necessidade de uma mise-en-scène “científica” p ara os mitos grosseiros com que vai satisfazendo como pode a ânsia do maravilhoso que. sem a menor preocupação de indagar se algum dia esses modelos foram levados à prática 113. E. dizia Einstein. marcada. astrofísicos. Homens adultos que encaram a vi da como puro jogo estão gravemente afetados de puerilismo. em 1974. Na realidade.

Brockmann. 115 V. Cap. trad. Gertrude Stein. 114 Cit. I. Einstein e Infeld. Einstein. reconhec e que os físicos hoje em dia “já não sabem do que estão falando”. um escritor científico de sucesso. A Evolução da Física. como obse rvara Octávio de Faria. . da “hipótese Deus”. Companhia das Letras. em John Brockmann. Valter Pontes. Reinventando o Universo. mas acha isso divinomaravi lhoso.de pedantismo espiritual para fugir. São Paulo. 1988. Witt genstein e Frankenstein. pelo atalho gnóstico.

e ele pode portant o ser rejeitado por quem acredite. não há aqui duas séries de números. Mas isso é confundir os números com seus meros signo s. se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ). teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras . 2.. mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuai s. as não é o signo “4” que é o dobro de 2. os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos. e mbora sendo parte do conjunto dos números inteiros. isto é. ora para designar o mero signo de número. n 2n = n Com esta demonstração. A tese de Cantor esc orrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sen tido da palavra “número”. “Paridade” e “lugar na série” são conceitos inseparáveis: se par. A noção de “conjunto” é que. Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando. então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro . A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em do is. Em primeiro lugar. não há mais paridade ou imparidade nenhuma. nesse conjunto. isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas .. e bem pouco engenhoso no fun do..102 OLAVO DE CARVALHO Mas no campo das matemáticas foi o deslumbramento com a idéia do infinito espacial e quantitativo que levou a mente humana às piores esquisitices. e. 3. Se a série dos números i iros pode ser representada por dois conjuntos de signos. de modo que os dois conjuntos teriam o mesmo número de elemento s e. quando o fato é que. assim. contada ou nomeada de uma determi nada maneira. Po rtanto — e eis aqui a falácia de Cantor —. 8 . nunca atual. Só para dar um exem plo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o 5º princípio de Euclides ( de qu e o todo é maior que a parte ) pelo argumento de que o conjunto dos números pares. a demonstração de Cantor é apenas um jogo de palavras. 6. a parte seria igual ao todo: 1. Mas. fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas que definem e diferenc iam os números entre si e.1 são ímpares. “4” é um signo. abolindo implicitamente também a distinção mesma en tre pares e ímpares. e nenhum número poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com qualq uer outro na série dos inteiros. com Aristóteles. na qual se baseia o pretenso argumento. “2” é um signo. O conjunto dos números inteiros pode conter mais signos numéricos do que o conjun to dos números pares — já que abrange os signos de pares e os de ímpares —. ora usando-a para designar uma quantidade definida com propr iedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos número s e a de poder ser par ou ímpar ). mas é a própria série dos números inteiros.. saltando-se uma unidade entre cada dois números. con firmando o argumento de Cantor. mas uma única. pode ser posto em correspondênci a biunívoca com ele. 2. quisermos destacar por signos ou cifras especiais os númer os que representem pares.. dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série. 4 . nunca de 1. outro de pares mais ímpares. ntada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente parte da série dos números inteiros. onde o requinte dos argumentos engenhosos coexiste com a total falta de sensatez.. é unicamente a soma imp lícita das unidades não mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. um só de pares. descortinando assim os horizontes de uma nova era do pensamento humano. 4. Esse raciocínio baseia-se na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares são conjuntos infinitos atuais. abstr aída a posição na série. sendo ambos infinitos. ou seja . destacada abusivamente da noção de “série”. e se. e sim a quantidade 4. pois o conjunto dos números pares seria de pares se seus elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa sér ie ascendente ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2.. portanto. a cifra. seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinha s. mas não uma maio r quantidade de unidades do que a contida na série dos pares. junto com um princípio da geometria antiga. que o infinito quantitativo é só p otencial. Nesse sentido. é verdade que. se não fosse contada assi m.. De nada adianta aqui recorrer ao subterfúgio de que Ca ntor se refere ao mero “conjunto” e não à “série ordenada”. produz sse samba-do-alemão-doido. também uma crença estabelecida do senso comum e um d os pilares da lógica clássica. é porque tanto n + 1 como n . os números não seriam pares.

Um conjunto de x uni- .. A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”.

Cantor erra o alvo por muitos metros. fundando-se no exemplo do garoto que. Que sofismas tão grosseiros possam passar como sérias ameaças aos fundamentos da geometria clássica e mesmo aos pr incípios da civilização que herdamos da tradição greco-romana. a longo prazo. enc arando o conjunto como uma síntese confusa de ambas. no conjunto aumentado para oito bolinhas. É preciso estar dormindo ou hipnotizado para não perceber que. ele contesta a un iversalidade do princípio de identidade. E ironiza : “Meus filósofos tinham respostas prontas. encarna de maneira exemplar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 103 dades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares. Em Sabedoria e llusões da Filosofia 116. mas não o mesmo número de unidades. senão não escreveria essas coisas. com todos os seus defeitos e limitações. Esse expediente pueril é a marca registrada do psicologismo (red ução das relações lógicas a “fenômenos da mente”) — um estilo de pensar que continua desfruta e certo prestígio nos meios universitários pela única razão possível de que ninguém aí leu su refutação por Edmund Husserl. o garoto apenas mostrou perceber que o aumento e a diminui116 . além do “desencantamento do mundo”. sem o espaço. no fundo. O que Cantor faz é. “Quando sete bolinhas se tornam o ito ou nove como um elástico de sete centímetros que atinja oito ou nove. Um tris te exemplo é Jean Piaget. o mesmo conjunto que an tes tinha sete. portanto. no caso. o garoto à figura co ncreta das bolinhas distribuídas num determinado espaço. mas o que é que isto tem a ver com a universalidade (ou não) do princípio de identidade? O que houve no caso fo i apenas uma dualidade de significados atribuídos ao termo “bolinhas”: o experimentado r referia-se ao conjunto aritmético — abstrato — das sete bolinhas. muitos pensadores científicos — inclusive alguns bem grandes — ch egam a apelar para subterfúgios perfeitamente indignos de homens de ciência. supondo que um número qualquer possa ser par “em s ndependentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inc lusive. como o próprio Piaget mostra em outros trabalhos. ele teria de ser um menino um pouco mais velho. o garoto simplesmente não distinguiu entre quantidade discr eta (o número de bolinhas ) e quantidade continua ( a distância linear ocupada). Deduziu errado. ocasionando a exacerbação imaginativa do concei to de infinitude espacial e quantitativa. mas esqueci quais. ten do contado sete bolinhas. Uma das estratégias a que se recorre para esse fim é a de apelar ao testemunho da experiência científica para tentar invalidar. No seu “argumento” não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte. e do aumento da quantidade co ntínua deduziu o da quantidade discreta. A perd a do sentido da infinitude metafísica. que aquel a tradição. a diferença dos respectivos sensos d e identidade? Ao contrário: o erro cometido pelo garoto subentende uma consciência d a identidade absolutamente igual à das pessoas adultas. Em sua hostilidade irracional contra a idéia mesma de princípios universais. os princíp ios lógicos que validam por sua vez a idéia mesma de experiência científica o que é mais o u menos o mesmo que tentar cobrir um cheque sem fundos mediante depósito constituído do mesmo cheque. nem. pergunta Piaget. diversamente denominado.” Deve ter mesmo esqueci do. mas sim de uma comparação me ramente verbal entre um todo e o mesmo todo. é o mesmo pr incípio de identidade ou um princípio um pouco diferente?”. Para levar em conta somente as bolinhas. garante que elas são oito ou nove tão logo sejam alinhadas com intervalos maiores. caso contrario ele não poder ia reconhecer. não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte. Ora. substancializar ou mesmo h ipostasiar a noção de “par” ou “paridade”. sem acréscimo de nenhuma. para o que. da diferença da capacidade de abstração entre adulto e criança (ou crianças de idade desigual). com base nela. que ultra passam uma perda meramente estética para reverberar numa destruição do fundamento raci onal das ciências. e que os pares possam ser contados como co isas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. tr azer. é claro. como deduzir. com sua própria metade). é apenas o sinal da revolta i mpotente da imaginação matemática exacerbada contra a ordem real das coisas. não poderia deixar de. de uma refutação do 5º princíp io de Euclides. danos profundos à inteligência humana. Não se trata ndo de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte. o menino teria de subir mais um grau de abstração.

P. . Ed. várias reedições ). Abril. 83 da edição Os Pensadores ( São Paulo.

eis aí algo que a criança só poderá admitir quando sua mente for adestrada para aceitar como premissas do raciocínio os convencionalismos matemáticos.. Destituídas a um tempo a rainha autêntica e a falsa. eles abalaram não somente a confiança nas ciênci as existentes. de fato. que é a utor de um Tratado de Lógica. mas reconhece a filosofia como uma “ati vidade de coordenação dos valores. Piaget.104 OLAVO DE CARVALHO ção não alteram a identidade. perfeitam ente evidentes. logo a seguir. É que a ciência desistiu de ser científica. e o que não se compr eende é como a criança poderia passar de um nível de abstração a outro sem a permanência do senso de identidade. independentemente de não terem uma unidade substancial. cujo prestígio elas tinham simplesment e usurpado. Kuhn e Michel Fou cault enfim reduziram a história das ciências à sucessão mais ou menos arbitrária de “paradi gmas”. neo-epicurismo — é o cortejo todo dos velhos irracionalismos que retorna à cena. Essa passagem requer uma subida do grau de abstração. os fracassos de um a ciência assim degradada viessem a ser tomados como argumentos contra a possibili dade mesma de qualquer conhecimento científico universalmente válido. De outro lado. que agia de maneira vivente n as ciências desde Platão. Quando Thomas S. por assim dizer. como se ela não estivesse. como se essa c iência fosse a única possível. Edmund Hus serl descreve nestes termos a decadência do ideal científico nas ciências do século XX 1 17: “A ciência moderna abandonou o ideal de ciência autêntica. Que os todos matemáticos devam ser encarados como unidades.. inclusive cognoscitivos” ( isto é. não é de espantar que. o que é perfeitamente aristotélico. neo-relativismo. de validade cogn itiva? No fim das contas. é claro que é ma is fácil reconhecer a identidade de uma substância dotada de unidade real. acrescentando o toque 117 . que a de um “conjunto”. e é algo que os adultos percebem da mesmíssima maneira que ele. o trono foi entregu e à ambição de todos os antigos pretendentes: neopragmatismo. os valores que bal izam a cientificidade da ciência ). Aliás Piaget. um “todo matemático”. Sua força de impulsão interna não é mais constituída por aquele radicalismo que. ademais. não se dá conta sequer de que deduzir d o fato da confusão entre bolinhas e espaço uma dualidade de princípios lógicos não é outra c oisa senão passar do fato ao valor — um psicologismo dos mais descarados. contentando-se em ate nder às exigências de praxe de um protocolo “experimental” no qual já nem acredita mais e cujos fundamentos já desapareceram sob grossas camadas de esquecimento. Ele rejei ta toda pretensão da filosofia a constituir um conhecimento “superior” à ciência ( e mesmo de constituir um conhecimento qualquer ). ela abandonou o radicalismo da auto-responsabilidade científ ica. em s i. portanto. no sentid o aristotélico ( “este coelho é este coelho”). é perfeitam ente ilógico sempre que trata de situar as relações entre ciência e filosofia. Quando err os tão primários se introduzem nas mais altas cogitações científicas e ninguém se dá conta de sua presença. muito abaixo das poss ibilidades contidas no próprio conceito de “ciência”. Piaget pretende ver uma dualidade de princípios lógicos onde há a penas uma diferença entre os aspectos percebidos por dois indivíduos num objeto que ambos sabem ser o mesmo. mas no ideal mesmo de ciência. que é apenas uma unida e convencional. uma quase-substância. epistemes ou pré-esquemas cognitivos semiconscientes que entram e saem de cen a por motivos geralmente irracionais. é que o diálogo acadêmico se tornou algo como a conversação de hipnotizados no jardim de Epicuro ou como uma sessão do Santo Da ime — todo mundo doidão. coloca continuamente a exigência de não admitir nenhum saber para o qual não seja p ossível dar conta em razão de princípios originalmente primeiros e. que admite como um dogma o pressuposto kantian o de que não existe passagem do fato ao valor. nova re tórica.” Dado esse estado de coisas. ou substantia secundum quid. Mas como é que um princípio de coordenação poderia não s er de algum modo “superior” aos elementos coordenados? E como seria possível coordenar valores de veracidade científica sem fundar-se num critério de veracidade cujos fun damentos fossem admitidos como verdadeiros e dotados.

Paris. pp. Suzanne Bachelard. . Éssai d’une Critique de la Raison Logique.Edmund Husserl. 1957.. Logique Formelle et Logique Transcendantale.U. trad. P.F. 7-8.

às divin dades do espaço. Segun do o grande historiador do historicismo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 105 final de demência sem o qual não estaria completa a saga alucinante dos deuses do es paço. onde todas as tentativas de conciliação e síntese têm falhado. no Ocidente. § 21. E m ambas essas linhas de desenvolvimento. quer dos racionalistas e empirista s. com efeito. assim também a crítica histórica . muito menos a uma idolatria do abstrato. Nenhuma descoberta se faz sem instrumentos. assim como Galileu e Newton não poderiam ter formulado cientificamente a mesm a idéia se contassem apenas com os recursos matemáticos de Arquimedes ou Nicômaco. assim também a compreensão aprofundada dos detalh es filológicos do texto bíblico gerará polêmicas sem fim nas quais acabará por perder-se o sentido essencial do conjunto. mas a amp liação do leque de coisas visíveis se faz às custas da perda do senso de unidade e hiera rquia do real. E assim como a ampliação quantitativa do univer so físico conhecido produz a dispersão da inteligência numa poeira de fatos cada vez m enos dotados de significação metafísica. a descoberta de novos e poderosos instr umentos intelectuais abre ao homem a visão de continentes insuspeitados. O historicismo oporá a essa concepção três novas idéias: 1ª. O historicismo. em lugar do cosmos fixo e repetitivo do racionalis mo mecanicista. não se somassem as do tempo. Nicolau não poderia ter cap tado a infinitude espacial sem o prodigioso desenvolvimento da dialética na Idade Média. em suas origens. o advento do historicismo não teria sido possível sem a crítica histórica. ou vertical. Friedrich Meinecke. Ela opera uma ruptura do pensamento europeu com o universalismo abstratista dos gregos. Do mesmo modo. Assim com o a cosmologia de Nicolau pretendia dar uma nova visão da natureza que fosse mais digna de representar a manifestação da infinitude divina. a descoberta do senso histórico origina as ciências humanas. — (I) A força dos meios Mas a descida do foco de atenção espiritual que preenche o vazio deixado pela Divind ade suprema mediante a multiplicação dos deuses cósmicos não estaria completa se. À revelação da infinitude espacial seguiu -se a da infinitude temporal: ao materialismo seguiram-se o historicismo e o pro gressismo. de uma reação contra o abstratismo. Ele nasce. nasce de um desejo de comp reender melhor as Santas Escrituras. mas entraram desde logo n um antagonismo aparentemente insuperável: a ampliação do espaço gera as modernas ciências físico-matemáticas. ao singular. e que após o Renascimento adquirira um novo v igor através da concepção do direito universal — uma norma moral abstrata e universal im bricada na constituição do cosmos com a fixidez de uma lei física. cuja visão da n atureza humana como uma essência fixa e imutável permanecera dominante apesar de tod as as mutações espirituais da Idade Média. formand o duas culturas separadas e hostis. nada tem que se pareça nem de longe a uma nova id olatria. ao sensível. Ambos os movimentos que geraram a irreligiosidade moderna originaramse de dentro do campo religioso e sob o estímulo de impulsos religiosos. nasce de um sadio movimento em direção ao concreto. quer dos escolásticos. A divinização da História fará. A perd a do sentido da infinidade metafísica. o papel do culto dos antepassados entre os Yorubas abandonados por Olorum. foi compensada pela descoberta das duas dimensões horizontais do mundo físico. A divinização do tempo. a visão do univer- . O sintoma mais agudo dessa perda é que as duas novas dimensões descobertas nunca puderam ser articuladas entre si. de que se originarão o historicismo e o progressismo. a descoberta da dim ensão histórica foi uma revolução espiritual de vasta envergadura.

Friedrich Meinecke assim resume a contribu ição de Shaftesbury à formação do historicismo 118: “O mais importante nesta doutrina é o primeiro reconhecimento do princípio de individu alidade. cada uma total e completa em si mesma. a matéria não poderia. 3ª. é de novo forma estruturadora. Shaftesbury não fala diferentemente de um platônico o u neoplatônico. Se a pluralidade inesgotáve l das individualidades não se perde no caos e na confusão. na “idéia”. acabo u por vê-las rotuladas pela posteridade como the sublime of nonsense — sinal de que foi muito amado. 2ª. a lei suprema do universo é a lei da individualidade irredutível. Mas essa “idéia”. José Mingarro y San Martín y T omás Muñoz Molina. Todos estes pensamento s podiam um dia dar passagem a uma mais profunda compreensão da história. Tud o quanto se cria ou é criado comporta estrutura e forma e. Deus mesmo não é um conceit o universal abstrato. um grande pensado r que.” Friedrich Meinecke. na medida em que não se f ormou uma mera corporeidade. a imagem do universo inteiro. mas pouco compreendido. Ela enfatiza que toda a realidade é composta de individualidades. Se não há dois seres human os iguais ou duas folhas de árvore iguais. uma riqueza de estruturas peculiares. isto não se deve a um desvio da realidade sensível em relação a uma norma abstrata de perfeição.106 OLAVO DE CARVALHO so como um processo vivente. Shaftesbury chama-a inward fo rm. El Historicismo y su Génesis. o macrocosmo de microcosmos que refletem a infinitude da unidade supr ema na forma por assim dizer quantitativa da infinitude de suas imagens microcósmi cas. p. O terceiro passo foi dado por Giambattista Vico. recriando-se continuamente. que nada tem existência sob a forma do genérico. do homogeneamente idêntico. animais e homens. da sua singularidade. 27. mas sim a que a norma mesma. cada uma irredutivelmente singular e diferente de todas as demais. que brotam de um ponto central interior. Até aqui. a qual se corrompe e se desfaz sem que a nossa pessoa se desfaça junto. dinâmico. sendo portanto o pr incípio da conservação da unidade na mudança e pela mudança. A essas individualidades infinitas Leibniz denomi nava mônadas. que 118 lhes é inerente. na força normativa e estruturante. a visão da inesgotável varied ade dos tipos e das individualidades. O universo compõe-se de universos. cujo pensamento foi solenemente ignorado p . inward character e outr os nomes compostos sempre com inward. Cada ser singular tem em si uma força interior e spiritualmente estruturadora que o singulariza e que é como que o algoritmo de tod as as transformações por que ela passará no curso de sua existência. Por toda p arte uma interação de liberdade e necessidade. A unidade idênti ca de nossa própria personalidade não pode arraigar-se na matéria. FCE. mas porque cada ser individual tem em si. inward constitution. pairando no céu das idéias puras acima das individualidades concretas: ao contrário. Tanto a causa do ser quanto s ua beleza e o princípio de sua permanência idêntica residem na forma. por dar às suas idéias uma expressão talvez demasiado informal e literária. ela é o princípio interno da sua diferenciação. não é porque desde fora e desde cima uma lei universal oprima e regre o curso das ações individuais. que se torna sempre patente em sua beleza. têm seu “gênio” particular. por um movimento mecânico. trad. inward order. ela reside na individualidade concreta. mas um indivíduo singular vivente. onde há lugar para o imprevisto e a criativid ade. engendrar as plantas. se por toda parte impera a ordem e a harmonia. ainda que em última instância sejam redutíveis a um princípio comum unitário. México. 1943 ( original alemão de 1936 ). Todas as formas particulares. O passo seguinte na formação da consciência historicista vem com a filosofia de Leibni z. Uma de suas primeiras manifestações da nova mentalidade é a estética do Conde de Shaftesbury (16711713). de uma idéia formadora. Segundo Shaftesbury. a intuição da personalidade humana como um p rocesso que se desenvolve e se cria no tempo. não é o conceito de um gênero ou uma regra abstra a universal. inward structure. em lugar da “natureza humana” abstrata e universal. na sua própria constituição interna. um obscuro professo r de retórica da Universidade de Nápoles. para ele. através da ação da vida.

o co- . O homem. que são criações dele mesmo. Co mo a natureza não foi feita pelo homem. Nadando na contracorrente de sua época. por seu lado. Logo. só Deus tem um conhecimento certo e perfeito da natureza. que tomava em geral as ciências físicas e matemáticas como o protótipo mesmo do conhecimento seguro. conhece muito bem os seus a tos e pensamentos. Vico asseg urava que cada ser só pode conhecer perfeitamente bem aquilo que ele próprio faz. e sim por Deus.elos contemporâneos.

como imaginava Descartes. o pensamento cristão é centrado na relação homem-Deus. A escolást ica medieval deu passos gigantescos no sentido de cristianizar a filosofia. como seus dois grandes antecessores. acredita piamente na Providência. É impossível não ver em Shaftesbury a marca da mística neoplatônica. o qual se passa na alma humana. Esses três pais-fundadores do historicismo estavam. Vico. egoístas e irracionais. do alto. de ordem interior. na imortalidade da alma individual). a ênfase de Leibniz na singularidade como princípio d o real é um eco da hæceitas scotista. saltava sobre quase dois milênios de herança grega para voltar à visão do Gênesis. o primeiro a enfatizar as diferenças de temperamentos e inclinações entre indivíduos e povos como causas dos grandes aconte cimentos. era um pensamento coisista: via o homem à imagem das coisas. harmoniza as várias ações humanas no sentido de um resultado benéfico. ao descrever a história como história da consciência. quando falava do homem. individual ou coletivamente. e em última instância no culto de uma idéia abstrata. das correspondências simbólicas. não acreditava. Mesmo quando falava de realidades espirituais. temos de penetrar no conhecimento de suas diferenças — não só de indivíduo a indivíduo e de povo a povo. Os homens. não produz como efeito apenas o caos. que é rebaixado à função secundária de u cenário ou de um reflexo do drama principal. e por isto mesmo. da natureza sensível. John Duns Scot. Para . da analog ia. resgata ndo valores da espiritualidade antiga e medieval soterrados sob a uniformização raci onalista. num eu pensante abst rato e universal. como História. É inteiramente errône a a visão estereotipada da Idade Média como o período da filosofia cristã por excelência. Scot acreditava que a hipótese contrária era um resíduo pagão. mas ergue o edifício inteiro da nova filosofia — a interpretação da realidade c omo processo. A visão de uma pluralidade de ações más produzindo um resultado bom é profundamente cristã. Ora. É que toda a herança do pensamento grego e ra centrada na noção do cosmos. mas não pôde livrar-se completamente do resíduo coisista. hostil à doutrina cristã da imortalidade da alma (Aristóteles. Além do fa to histórico de que todos os fundadores da filosofia moderna eram cristãos piedosos e movidos por intuitos apologéticos declarados. a base dos conhecimentos humanos. saltando por cima do cosmos. O verdadeiro cogito. na verdade. Para entendermos o curso das coisa s. Do mesmo modo. no Ocidente. assegura ele. queda redenção do homem. não está. em cujo altar foram sacrificados milhões de indivíduos humanos. As coisas sucedem diferentemente porque em épocas diferentes os homens. Para usar o termo genial de Orte ga y Gasset. com todas as diferenças i rredutíveis que os singularizam. e da Idade Moderna como época da ruptura da filosofia com o cristianismo. Se o conjunto inesgotável das motivações individuais.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 107 nhecimento mais seguro não é o da física. Mas os primeiros passos na direção do historicismo devem ser consi derados marcos memoráveis no sentido da cristianização da filosofia. O historicismo. com sua visão do universo como uma harmonia vivente. tomada como o protótipo mesmo da r ealidade. ao expressar-se em atos. à visão do universo como processo temporal. para quem o conhe cimento a rigor versa somente sobre os gêneros e as espécies. por seu lado. como veremos adiante. Vico já não se limita. coerido pelos laços da simpatia. o “progresso”. Ele é. cegos. resu ltou numa divinização idolátrica do tempo e do processo histórico. é porque há uma força maior que. que se recorda de suas ações e pensamentos e p ode narrá-los. o Doutor Sutil. Vico. quase se mpre mesquinhos. mas de uma fase para outra no desenvolvimento de um mesmo povo e de um mesmo indivíduo. divergira de toda a tradição escolástica para afirmar que não existem idéias eternas ou modelos universais somente das espécies e gêneros. raramente são movidos por concepções filosóficas raci onais e coerentes: em geral eles agem cada qual por motivos subjetivos. o filósofo grego tendia a vê-las como uma imagem e semelhança das coisas do mundo sensível. a filosofia moderna é cristã por um mo tivo muito mais fundo. mas o da História. o último dos gra ndes escolásticos medievais. tendia a fazê-lo nos mesmos termos com que falava das coisas do mundo externo. de fato. O pensamento grego era fundamente marcado por uma visão objetivistaexterior. como epopéia da criação. buscando nele o mesmo tipo de estabilidade e fixidez que o estudo das ciências físicas buscava nas leis da natureza. querem coisas diferentes. mas dos indivíduos. tal como Leibniz. mas no eu concreto. a lançar fund amentos.

E respondia: pa ra o homem. perguntava o catecismo da nossa infância. O homem.quem Deus fez o mundo?. não é o homem que tem de ser descri- . centro de perspectiva da criação cósmica. Teilhard de Chardin. Logo. dirá o Pe. é também o seu centro de co nstrução.

já não serão profissionais do ensino. que o novo movimento em seguida tomasse o rumo da entronização de um novo de us cósmico — a “História” hipostasiada. por um lado. em suma. contra o abstratismo racionalista. A superação começa soment com Duns Scot e sua teoria da hæceitas — a forma eterna da individualidade humana. De outro lado. o “processo”. onipotente: logo. e este à imagem e semelhança de Deus. Do neoplatonismo pode ter vindo a imagem do universo como totalidade vivente.108 OLAVO DE CARVALHO to à imagem e semelhança do cosmos. era uma retomada do que havia de melhor e mais genuíno e m Aristóteles. pode ser considerada como um giga ntesco esforço de absorção da cosmologia grega no contexto cristão. então. mas a valorização do drama humano como centro da realidade cósmica é. é preciso contar com a interferên cia dos meios e instrumentos. não fazem senão prosseguir no sentido da cristianização crescente uma evolução a que a esco lástica. mas o cosmos à imagem e semelhança do homem. No homem confluem. e na escolástica ela só foi abrindo caminho muito lentamente. Ele só pode ser descrito segundo uma ótica que leve em consider ação. Daí a aparência de uma ruptura drástica onde há. Ora. e sim investigadores independentes. Só a História pode dar con ta da complexidade da visão da vida humana como drama da salvação. a variedade e a imprevisibilidade das ações individuais e que. A mud ança do cenário social da atividade filosófica muda o estilo de filoso- far e até de escrever sobre filosofia. vivendo de algum ofício como Spinoza. fazer História. Leibniz. na unidade de um desenrolar temporal real. de algum emprego público como Leibniz ou de rendas de família como Descartes e Pascal. e sim socialmente: novas formas de atividade intelectual começavam a desenvolver-se fora da universidade (da Escola). com Duns Scot. o “progresso” — sob cuja figura obsessi dominante desapareceriam. con ciliar dinamicamente. a escolástica inteira. Pascal. a única rea . a imagem de Deus e a do indivíduo humano c oncreto? Nada no mundo se faz sem instrumentos. cristã na base. é perfeit amente injusto ignorar que um giro em direção às individualidades concretas. T omás. já tendia manifestamente e com muita força 119. f orjar seu destino. a raiz divina da imortalidade da alma. Entre o intuito e o resultado. é claro. com elementos antagônicos como os assinalados no parágr afo anterior —. É preciso. Spinoza. que o encare como essência fixa sumetid a à operação de leis de causa-e-efeito uniformes como aquelas a que estão sujeitos os co rpos do mundo visível. afinal. Para Aristóteles. por um lado. no fundo — e coexistindo. esta dimensão es tava completamente ausente do pensamento grego. Como ninguém supera sem primei ro absorver. e logo em seguida a eclosão da conciência historicista. em oposição ao mecanicismo. A forma da idéia não se encarna na matéria senão pela mediação da matéria. e os grandes pensadores da época subseqüente. é livre para tomar suas decisões. Como foi possíve l. até Sto. Mas aí a escolástica já estava esgotada — não intel ectualmente. A descoberta ou redescoberta da dimensão histórica requeri a primeiro a superação da cosmologia naturalística grega. Sua liberdade reflete a Infinitude divina. como imagens dos dois atributos di vinos fundamentais — a Infinitude e a Absolutidade — as duas correntes contrárias da l iberdade e da necessidade. É mais do que evidente que um ser assim constituído não pode ser eficazmen te descrito por uma antropologia coisista. para descrever o homem. a continuidade de uma evolução coerente: a descoberta da subjetividade . liberdade e necessidade. o homem está exteriormente sujeito às leis cósmicas e interiormente à lei moral. Mas Deus é Absoluto. contra o platonismo da nova física. advindos do fato de que esses meios também têm sua forma e estrutura próprias. saiba encaixar harmoniosamente essa variedade no quadro das determinações cósmica s e divinas que limitam a liberdade humana. O homem. dialeticamente. sem dúvida alguma. a um só tempo. Descartes. que não se rendem plasticamente à nossa vontade mas im põem à sua execução toda sorte de obstáculos. por ou tro. É preciso. com Descartes e Montaigne. bem como 119 É por isto que não posso concordar inteiramente com o insigne Friedrich Meinecke qua ndo enfatiza de maneira um tanto unilateral o peso da influência neoplatônica nas or igens do historicismo.

Int rodução à Teoria dos Quatro Discursos. editado em apostilas pelo IAL ). sua metafísica. inteir amente desconhecida na Idade Média.lidade efetivamente existente é a substância. esta árvore — cujo conceito genérico é somente uma realidade s ecundária e derivada. 1994. Rio. IAL & Stella Caymmi. um verum secundum quid. e sobretudo Pen samento e Atualidade de Aristóteles. verdadeiro sob certo aspecto apenas. Como já afirmei em outros trabalhos ( v. Do aristotelismo a filosofia m oderna só abandonou algumas parcelas da Física. ao mesmo tempo que revalorizava sua metodologia. . Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. sua teoria da linguagem e sobretudo sua Poética. é só uma grossei ra simplificação própria da cultura de almanaque que pode sustentar o mito de que o pe nsamento moderno é uma ruptura com o aristotelismo. o que quer dizer em suma a individuali dade concreta — este homem.

mas pelas humanæ litteræ. É nesta mediação. concreto e v ivente. damas e pajens. necessitava criar uma ciência histórica. o latim. e acelerada nas épocas subseqüentes. O codificador da retóric a antiga vai adquirir. do que pelos textos. um movimento a que se costuma chamar humanismo. sua utilização em rituais de bruxaria oferecia expectativas mais promissoras que a de olhos de sapos. s oldados e cortesãs. pelo aluno que tem saudades da cabana o nde nasceu. A diferentes classes sociais. por um coto velo de Mercúrio. Está acima da crítica. necessitava de instrumentos de i nvestigação. pois um humanista da Renascença tem menos amor pelo ser humano. aos homens do século XV. as técnicas de investigação e do cumentação históricas. recheada de florei os bajulatórios. italianos. “Humanismo” significa o espírito museológico: o amor aos documentos vem junto com a mania das coleções — selos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 109 sua própria matéria. Virgílio. Sua atmosfera verbal já não é a seca terminologia técnica da dialética e scolástica.. sobretudo expressivas de sentimentos pessoais. Estes instrumentos representam uma conquista de valor inestimável. o princípio da corrupção. saxões.” O novo intelectual é. e sobretudo em Quintiliano. já não entre seus colegas de ofício. unidos pelo comum desprezo às s uas origens nacionais e de classe. um contrato de arrendamento. estudado. an alisar e criticar documentos é um instinto filológico. como bem vi u Aristóteles. o amor à pátria era um atavismo condenável. um termo tremendamente eq uívoco. uma autoridade que nem Aristótele s pudera alcançar na Idade Média. aos olhos da nova classe. Para isto. uma lei prom ulgada pelo rei de um reino extinto — tudo é documento da fala humana. empenhadas em imitar a beleza e persuasividade da literatura antiga. com finalidad e teológica: obter um texto mais fidedigno da Bíblia. e onde conviviam em pé de igualdade franceses. é bem diferente do intelectual medieval. do mesm o modo que toda nostalgia do passado. escrevia Hugo de S. Mas foi a discussão em torno deles — e sobretudo o impulso de tirar conseqüências filosóficas diretamente das conquistas técnicas. A casta era internacional. O nov . e como tal é de sejado. irla ndeses. Vive na corte. O amor às palav ras. pelos velhos diplomas empoeirados e pelas velhas línguas. A consciência histórica. analisado. conservado. O impulso de colecionar surge de um misto de motivos estéticos e oculti stas: atribui-se aos fragmentos de estátuas um poder mágico. que preferirá as palavras às idéias. O novo modelo de homem letrado. dará novo impulso às línguas nacio nais. o s aficionados da bruxaria pagam grossas quantias por um dedo de Vênus. Horácio. “Humanismo” não vem de amor pelo homem. um resíduo de mundanismo. Inaugura-se o pendor de filosofar literariamente. um membro ou servidor da casta palaci ana.”. correspondem diferentes mestres: os medievais tinham encontrado os seus em Platão e Aristóteles. já vinham-se desenvolvendo antes deles. fazendo com que o desenrolar da História acabe constituindo. Contemporaneamente a Shaftesbury. Ele brota do novo amor pelas línguas. Na verdade. patas de corvos. Qualquer coisa serve: uma carta. que se interessa por essas coisas. unhas e cabelos humanos. Vico e Leibniz desenvolveram-se em ve locidade prodigiosa. “o conjunto dos resultados impremeditados das ações humanas”. Vítor. sem a mediação da crítica filosófica — que acabou por desviar o movimento historicista de sua de stinação originária e colocá-lo no rumo de uma nova idolatria. moedas. ela também estruturada e dotada de forma. o que significa apenas qualquer texto que não seja as Sagradas Escrit uras. desafiava o s reis e o Papa. formada de homens que abandonavam se u torrão natal para instalar-se nos grandes centros universitários onde se falava um a língua supranacional. O abandono da dialética em favor da retórica é uma mudança decisiva da mentalidade: os argumentos já não valem pela sua demonstração exaustiva. mas entre príncipes e duques. para se realizar. mas pelo encanto persuasivo. O impulso de comparar. o humanista vai inspir ar-se em Ovídio. Para o letrado.. “l tras humanas”. ao contrário. totalmente esquecidos de suas diferenças de origem. escorada no aplauso das hordas de estudantes. pelos documentos. e qualquer discussão pode ser cor tada pela raiz mediante a fórmula: “ C’est assez que Quintilien l’ait dit. sobretudo na Itália. na frase célebre de Weber. mas a da conversação amena e elegante em língua nacional. que se introduzem os desvios. da paisagem natal: “Nada se pode fazer. Este era na essência um universitário. da origem familiar. pedaços de velh as estátuas. um membro da orgulh osa casta acadêmica que.

aos pou- .o intelectual abomina a universidade. as universidades. Nascidas e formadas pela i niciativa independente de grupos de estudiosos. O motivo é claro.

Os novos pensadores. As ambições da casta aristocrática. um sentido de expansão e domínio sobre o reino deste mundo substitui-se ao de interiorização e asc ensão espiritual. entre os arcos que se elevam ao céu. mas elas conseguem conservar sua independência. dos ex-amigos e até. pela tinta mesma em que escrevem. de fixar a cada um sua data provável de composição — pelo tipo das letras. de Charles du Fresne. Nesse ano. Vencidos. sobre os fiéis recolhidos em oração. os reis e os papas disputam a sua hegemonia. 1695: Dictionnaire his torique et critique. o humanista Lorenzo V alla denunciou a falsidade da suposta Doação de Constantino. e ninguém achava isso anormal. na Renascença. esta. Não há limites ao poder do indivíduo talentoso. retórica. Expressam o despeito dos rejeitados pelos vencedores do dia. A primeira catedral renascentista. tem de ser vista de fora e de longe. 1697: Ars critica. em parte por uma mentalidade anti-individualista que não atribuía a um homem em . ora aliando-se a um contra os out ros. estetismo e colecionismo que surge o amor aos documentos escri tos. 1678: Glossarium ad scriptores mediæ et infimæ latinitat is. A longa disput a encerra-se. dotados de igual talento e poder. A catedral gótica retira-se do mundo: a renascentista reina sobre ele. pelo menos. que. se preciso. nenhuma outra civilização jamais se preocupara muito com a datação de a ntigos documentos ou com as questões de autoria. Por toda parte. ora ao contrário. Montaigne — não são franco-atirador es: são funcionários da corte ou membros da classe aristocrática. pela astúcia ou pela violência. Do amor aos documentos escritos surge o interesse — e do interesse a técnica — de separar os autênticos dos forjados. libertas das peias morais que lhes impunha o clero romano. a classe aristocrática. a da Brunelleschi situa-se no centro da paisagem e organiza. de maquiavelismo e traição na luta pelo poder. argumentando ser um doc umento forjado pelo menos quatro ou cinco séculos após a morte do imperador romano. pelo gêni . vão se multiplicar e alastrar até a autoglorificação prometéica. sociedade gove rnada por uma elite de burocratas letrados para os quais um erro de gramática podi a custar a vida. que empinam o nar iz ante o ensino universitário — Maquiavel. seu próprio quadro de intelectuais. de Pierre Bayle. Não podendo justificar-se moralmente. pelos usos ortográficos. substituindo a ética pela estética. do cardeal Cesare Baronius. Aquela. no decorrer da Idade Média. É nessa atmosfera de naci onalismo. do monge beneditino Jean Mabi llon. 120 Daí para diante. a ambição de domínio encontrará um padrão ordenador e um novo critério de legitimação. 1588: Annales ecclesiatici. Enquanto a catedral gótica isolava o fiel do mundo exterior. Com exceção da antiga China. não é um mundo bom. o bra de Brunelleschi. em parte por indiferença ao curso da His tória. torna-se assim o fundador da técnica da crítica textual. mas p ode ser belo: Maquiavel descreve o Estado como obra de arte — o templo da autoglorificação aristocrática erguido sobre o sangue do s inimigos. 120 Convém tomar nota do ineditismo do evento. Desde o século XII. de Leibniz. O novo mundo de guer ra e conquista. Descartes. O ano de 1440 é um marco na história desses estudos. começam a formar. a de Santa Maria dei Fiori. tem de ser vista de dentro. legislando em ca usa própria dentro das fronteiras do seu reino — só demarcadas pela vizinhança de outros homens ambiciosos. temidas e invej adas. os reis. assinala essa transformação. com a vitória do Papa: as universidades tornam-se órgãos da Igreja. fora da univer sidade. na luz irreal que os vit rais projetam. 1693: Codex juris gentium diplomaticum. No Oriente e no Ocidente. ora mandando ambas as autoridades às favas e promovendo arruaça s estudantis que faziam tremer os poderosos de ambos os partidos. as conqu istas da técnica erudita se acumulam em rápida sucessão: 1559: começa a publicação da Históri da Igreja dos eruditos protestantes de Magdeburgo. como um eixo. imperando sobre a paisagem do mundo.110 OLAVO DE CARVALHO cos. sabe impor seus gostos e valores. para ser apreciada. 1681: De re diplomatica. projetando-o no sentido de uma luminosidade vertical. de Jean Leclerc. haviam-se tornado focos de poder. o espaço em torno. dos parentes. publicando alguns anos depois uma edição anotada do Novo Testamento. escrito s produzidos por algum discípulo séculos após a morte de um filósofo circulavam sob a au toria deste. O mesmo Valla.

.particular a descoberta de uma verdade e preferia esquecer os autores das menti ras. Assim era a Idade Média Ocidental — um mundo onde uma certa desorganização em tudo era considerada uma condição sine qua non da manutenção da liberdade: Queste cose hanno bisogno di um pò di confusione.

Ambas as igrejas percebem o valor estratégico das novas armas. Desacreditada a história providencialista de Bossuet. divulgam e alardeiam os resultados de suas pesquisas. a visão dominante do curso da Históri a fosse aquela trazida na Bíblia. já tinham conquistado. Se. até o século XVI pelo menos. atinge sua maturidade e se torna uma força influente no curso espiri tual do mundo antes que se forme propriamente a História como ciência. muito antes da História como ciênci a. elas darão como resultado longínquo. Não estranha. ele não se atrevesse jamais a escrever pesso almente um livro de História. para compensar as fraquezas do mecanicismo racionalista. como por exemp lo a de um curso unitário do acontecer mundial. Hegel. tudo tendia a fomentar uma abordage m histórica da realidade. que o príncipe dos eruditos. pro testantes e católicos acusam-se mutuamente de haver falsificado a História da Igreja . de haver interpretado erroneamente os textos bíblicos. ao mesmo tempo. tornavam patente a inconsistência da História então c onhecida e fomentavam a dúvida cética sobre todo o conhecimento do passado. A situação delineia-se então pela convergência de duas linha s de força: 1ª Na esfera do pensamento filosófico. F. convocam legiões de eruditos. a História propriamente dita começa a dar seus primeir os passos. A antecedência dá ares de legitimidade ao usurpador: até hoje. formando-se através de uma sucessão impressionante de o bras de síntese que começam com Vico e prosseguem com Montesquieu e Voltaire. como um emblema vivo do cetici smo. A Históri a da Igreja dos eruditos de Magdeburgo (1559) é o primeiro tiro de canhão disparado pela crítica protestante. Que esta visão. Noções que a ciência histórica viria a derrubar como totalmente inconsistentes. o resultado mais notável dessas polêmicas foi lançar em todos cérebros a dúvida sobre a confiabilidade da narrativa bíblica e da visão cristã da História . Roma vinga-se com os Annales ecclesiatici do cardeal Bar onius (1588). . portanto. alcança sua máxima expressão na Filosofia da História de G. De um lado. com Ranke. em nome da História. de um lado. assim. o que faz as vezes de História na mentalidade média dos intelectuais é um resíduo de mitos e lendas historicistas. 2ª Os progressos da técnica erudita forneciam os instrumentos para a criação de uma ciênc ia histórica. o de lançar a dúvida cétic a sobre toda a imagem do passado. a qual se pod e sem erro datar dos trabalhos de Leopold von Ranke ( de 1820 em diante). as armas forjad as nas oficinas dos eruditos passassem a ser usadas a título de “argumentos históricos” nas polêmicas religiosas e políticas do tempo. de Toustain e Tassin. na ausência de um saber histórico legítimo. Por outro lado. a da liberdade crescente através dos tempos. o historicismo como doutrin a filosófica ou como cosmovisão. tendo passado a vida a compulsar criticamente documentos históricos e a apontar os erros dos historiadores. Pierre Bayle. se notabilizasse também. não parecia haver outra saída senão pel o lado da concepção histórica. e que. O historicis mo. tivesse então de ser pela primeira vez explicitada e defendida contra seu s adversários — que é o que se vê no Discours sur l’Histoire Universelle de Bossuet (1681) — mostra que a polêmica a havia feito descer do céu das verdades pressupostas para to rnar-se uma idéia entre outras e concorrer com elas em pé de igualdade. mas. de Dom Bernard de Montfaucon. Formam-se assim.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 111 1708: Paleographia græca. as que viriam a ser chamadas “ciências auxiliares da História”. Auxiliados pela argumentação erudita. W. a dos progressos retilíneos da consc iência. no século XIX. formam exércitos d e críticos históricos. Entre a época de Bossuet e a Revolução Francesa multiplicam-se em número e sobem na dose de violência os ataques à história cristã. que parasitam o prestígio da mesma ciência histórica que os desmente. implicitamente aceita como veraz desde a Antigüidade até o fim da Id ade Média. e sobretudo. o nascimento da ciência histórica. 1750: Nouveau traité de Dipl omatique. que. E como. E sta condição humilhante de uma História que dá mais força aos mitos na medida mesma em que se esforça para restaurar a verdade é uma das trágicas ironias do mundo moderno. seu efei to imediato — que certamente viria também a contribuir para isso — foi principalmente o de desmoralizar a narrativa histórica como então se conhecia. O result ado dessa convergência foi muito complexo. aconteceu que. mas abalada também a confiança no racionalismo clássico. ou seja a da História como percurso do homem da cr iação até a queda e a redenção. um lugar e um prestígio notáveis na ideologia das classes letradas no momento em que. de 1820.

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do individ ual. porém. com Hobsbawm. o marxista replica que os fatores espirituais são um véu ideológico que oculta a realidade do fator econômico. a Georg W. A primeira dessas tarefas incumbiu a Leopold von Ranke. impelidas pelo progresso das ciências auxiliares que davam ao historiador os meio s de resgatar os acontecimentos singulares de que se compõe a História. não a armadura do conjunto. e recebe em res osta a acusação de falsear os dados. no momento em que o sensato Ranke começou a trabalhar. As duas linhas evoluíram simultaneamente. mas que. com Gramsci. É característico o caso de Weber. o comunista protest a que toda História é ideologia. por exemplo . F. aqui e ali. nesta direção que as coisas pareciam ir. Mas as ciência s auxiliares. com muitos contatos e intercâmbios. os excessos mais escabrosos da generalização hegeliana. a segunda. de suprimir fatos e personagens para recortar a História segundo o molde dos seus desejos. Hegel. para desgraça dos pósteros. se dá a explicação teórica do conjunto. entre o comunis- mo e o capitalismo. Aí entra porém em ação a ambigüidade mesma d a expressão “teoria da História”: ela significa. Isto acabou por transformar a ciência histórica mesma num equipamento da gigantesca máquina de gue rra ideológica montada pelos comunistas. Hoje entendemos facilmente que R anke es tava na direção certa. os comunistas respondem que o historiador burguês só enxe rga os fatos isolados. uma explicação filosófica do conjunto dos fatos históricos. Do ponto de vista do progresso da ciênci a. girasse a atenção para o lado do mutável. contaminou de marxismo os estudos históric os. pessoalmente agnóstico. Repete-se. ou. a função estratégica da intelectualidade. até mesmo a do Lumpenproletariat) 121. Foi nesta d ireção que se esforçou Hegel e. as concepções de Hegel e Marx exer ceram também seu fascínio e seu influxo sobre os historiadores de ofício. não enxergando os fatores espirituais da História e reduzin do tudo à economia. e. que passaram a privilegiar os aspectos econômicos da causalidade histórica ou a buscar para ela algum outro fundamento materialista para enfrentar o marxismo no seu próprio terreno. influenciado pelo positivismo e incapaz de apreender dos fenômenos espir ituais senão suas analogias e reflexos no plano social. os avanços da pesquisa histórica foram corrigindo. De um la do. de fato. de fato. por si. Era. quer na sua versão científica e racionalista. De outro. seu adversário insiste que ideológico é o com unista. só que a do burguês é disfarçada de ciência. de um lado. As duas direções são. anti-marxista que buscava most rar a influência das causas religiosas no acontecer histórico. Os partidários do capitalismo acusam os historiadores comunistas de selecionar ardilosamente os fatos para fazê-los ca ber num esquema simplista. fruto de uma ciência organizada. o burguês retruca que o comunista toma a parte pelo todo. terminava por entrar no círc ulo vicioso da explicação marxista: após reduzir uma época histórica a seus aspectos 121 . de outro. de outro. do singular e irrepetível. a disputa entre católicos e protestantes. mãe do marxi smo e avó da Rússia soviética. cuja História se reduz a mera propaganda revolucionária. porém. que a síntese filosófica sobre o conjunto do acontecer histórico er a um empreendimento prematuro. que. opostas: ou se faz uma criteriologia para planejar as investigações históricas que vão dizer o que aconteceu. a teoria do conheciment o histórico e a teoria do acontecer histórico. obrigando os teóricos marxistas a reconhecer a inter ferência importante de fatores não-econômicos na História. na ausência de conhecimentos históricos suficien tes. dando-se por sabido o que aconteceu. atenuou muito o simplismo dogmático do esquema marxista originário. ao mesmo tempo. a reflexão só podia se perder nas névoas de uma ps eudometafísica fantasmagórica e terminar no culto de uma nova divindade. obrigando seus adversários a construir igua l aparato para defender-se. o debate teve um duplo efeito. De um lado. o hegelianismo já havia se trans formado numa poderosa corrente de influência e numa força histórica agente. a destituir o proletariado de seu papel de agente privilegiado da causalidade histórica (admitindo. quer em sua versão cristã e escolástica.112 OLAVO DE CARVALHO rejeitando as “leis universais imutáveis”. A querela da História forma um dos quadros mais interessa ntes da guerra ideológica dos últimos dois séculos. para decidir quem co nta a verdadeira história. o arcabouço metodológico de u ma ciência. nada podiam fazer sem a teoria da História capaz de unificá-la s segundo uma hierarquia racional de critérios.

The Making o f the English Working Class. 1963 ). mas cultural e psicológico. chegou a admitir que o co nceito mesmo de “classe” — a idéia-chave da interpretação materialista-dialética da História ropriamente um conceito econômico. Thompson. P. P. V. mas c om isto Thompson implodiu o marxismo. Thompson. Penguin Books. E.. . que o principal his toriador marxista do pós-guerra britânico. 1968 ( 1ª ed. a respeito E.Os marxistas tanto cederam aos argumentos de seus adversários. Foi sem querer.

se celebraria após 1939 entre as democracias o cidentais e as ditaduras comunistas para enfrentar o Eixo. é certo. dizia que “os homens fazem sua própria História”. no domínio político-militar. covardes e mesquinhas n ecessitavam abrigar-se sob a mitologia de um “sentido da História”. acusa “o si stema”. as duas ideologias do progr esso. mas era melhor mesmo que não fizesse. l oucura e crime. com a s luzes que trouxeram sobre os valores de outras culturas e civilizações. Garl-G. Jung e Ludwig Klages deram uma forte expressão a essa s idéias. O principal defensor da inexistência de um sentido na História 122 Infelizmente essa gigantesca abertura do horizonte humano acabou sendo neutraliz ada pela perversão ideológica. final — da evolução da mente hu mana. no segundo. marxismo e positivismo. H. o confronto entre o sentido imanente da His tória e a História sem nenhum sentido absorveu todo interesse intelectual do século XX pela questão do sentido da vida. Nietzsche foi o pai de várias correntes que expressavam a revolta do homem contemporâneo contra a razão. a ciência hi stórica se aventurou a enfocar o passado sem prejulgá-lo segundo a ótica que privilegi ava o presente 122. iman ente. o s angue. no primeiro caso. Não é preciso dizer que essa aliança na esfera das idéias antecedeu e preparou a quela que. que no Brasil contaminaram um de nossos mais talentosos pensadores: Vice nte Ferreira da Silva. sob a a legação — antropologicamente verdadeira — de que a adaptação a novos modos de vida destruiri a a coesão dessas comunidades e desmantelaria as personalidades de seus membros. o confronto entre ciência histórica e ideologia historicista teve conseqüências muito mais profundas e devastadoras. o guerreiro metafísico dos novos tempos. aos poucos o debate em torno do sentido da vi da humana em geral foi estreitando seu horizonte até reduzir-se à questão do “sentido da História”. pelo endosso à teoria qu e fazia toda a História evoluir na direção do socialismo. não queria sentido algum predeterminado. Foi só no século XX que. a idéia do progresso consistindo basicament e numa teleologia imanente à História. ou. a que Nietzsche chamava o Super-Homem. Fortalecidas pela descoberta freudiana do inconsciente .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 113 econômicos. e valorizavam o instinto. mas em seguida n eutralizava esta frase ao assegurar que a História ia necessariamente na direção do so cialismo. Aprendeu com o capeta. Radicalizado assim po r suas repercussões políticas formidáveis. A identificação do sentido imanente da História com o sentido . pela qual enfim. foi Friedrich Nietzsche. o pensamento histórico acabava caindo igualmente em algum tipo de ideologia “progressista”. Discurso auto contraditório e por vezes demencial. pendendo para o lado do marxismo ou para o lado da ciência rankeana. como por exemplo quando deseja preservar as c ulturas indígenas de todo contato “desaculturante” com os costumes Ocidentais. a História. a ciência. graças sobretudo à antropologia e à Religião Comparada. Para ele. o homem vive num vácuo onde pode criar livremente o que bem entenda? Marx. Lawrence. O homem verdadeiro . deram-se as mãos para enfrentá-la e salvar o “sentido da História”. tentador e acusador em turnos. e que. pela celebração posi tivista da ciência como etapa superior — e. A primeira foi que. D. a compreensão antropológica das culturas antigas e indígenas tornou-se um clichê incu mbido de dar reforço a um novo e mais virulento discurso “progressista”. o sonho e o delírio. Esta questão resume-se assim: a História tem um sentido predeterminado. ao contrário. desencadeia uma onda de violência. para poder criar seu destino como bem lhe aprouvesse. A segunda foi que. m as ao mesmo tempo deseja impor a populações conservadoras e religiosas do próprio Ocid ente mudanças drásticas e repentinas. até que desapareceu da vista do homem nosso contem porâneo a simples possibilidade de que a vida humana possa ter algum sentido para além da História terrestre. essas correntes lançaram no século XX um vigoroso ataque ao positivismo e ao marxi smo. não apenas a História não fazia sentido algum. Acabava fazendo a contragosto o q ue Marx fizera por gosto. Posta a serviço da contestação esquerdista à civilização Ocide l. provocando assim a ruptura dos elos de lealdade social e a demolição das personalidades. segundo Comte. Confrontada a essa resistência. do ponto de vista da evolução geral do pensamento. Mas. ao invés de assumir a responsabilidade. não via outras causas senão as econômicas. Só as mentalidades torpes.

foi um cho- . Na década de 50.da vida tornou-se uma crença tão arraigada que entrou no rol dos pressupostos incons cientes: já não é uma teoria — é uma realidade. para que uma onda de desespero. depressões. suicídios e internações psiquiátricas se esp alhe pelo mundo. destruindo repentina mente a fé e a esperança do movimento comunista. para milhões e milhões de pessoas. o único propósito de suas existências — ao ponto de que bastam alguns sinais de a História desviar-se do sentido esperado . um fato. A aposta num sentido imanente da História tornou-se. a revelação dos crimes de Stálin.

introduzida pelos teóricos da Revolução Francesa. e a substância em sentido estrito — a individua- . paixões e reações dos vários homens que a constituem. o sujeito ativo. Esses acontecimentos são interpretados geralmente como sinais de que o comunismo era para essas pessoas uma religião. Para os antigos. a imersão completa do homem na ima nência. que podia limitar as ações humanas ou muda r o curso de seus efeitos. tanto quanto os comunistas. Repete-se assim. mas crêem no progresso das instituições. com a participação d o indivíduo na construção da sociedade futura. É isto. que já tínhamos observado na evolução do pensamento científico. § 22. À divinização do espa deologia científica corresponde. Ora. a Históri a e somente a História é a doadora do Sentido à vida humana. na educação universal. A sociedade era. e m suma. De outro lado. que chegaram a negar a condição humana aos homens afastados da vida social. Portanto. o termo forte. ela era no entanto uma substantia secunda. no sentido aristotélico. o que se chama um universal: o conjunto dos seres que vivem juntos sob u m mesmo sistema de regras e hábitos. não concebem que a vida possa ter algum sentido fora ou acima da História. Ela era uma substância como os gêneros e as espécies. como um cavalo. para eles. Divergem apenas nos meios e no tipo de sociedade a que aspiram. assim. as duas seitas e m que se cindiu uma mesma religião. Pois a ação é um atri buto da substância. precisamente. no Sentido da História. no aperfeiçoam ento gradual das leis. na extensão a todos os homens dos benefícios da economia e da cultura modernas. “a sociedade” não era uma substantia prima. Mas reconhecer a natureza essencialmente social do homem em geral é uma coisa. na redução progressiva da miséria. ignorou a natureza social do homem. era o homem. ninguém poderia apostar no comunismo se não tivesse apost ado. Socialismo e Capitalismo são. e outra muito diferente é afirmar que a sociedade tem alguma realidade e consistência própria independentemente e acima dos homens concretos que a compõem. a crença no Sentido da História é comum aos com unistas e aos democratas Ocidentais. Para todos os pensadores políticos desde a Antigüidade até o Renascimento. o personagem concreto. entidades q ue não existem em si mas somente nos entes que as corporificam. um ent e real em si. Sem chegar a ser irreal nem limitar-se apenas a um efeito passivo das ações individuais. uma árvore ou um homem. limitando seus movimentos m as não alterando sua natureza intrínseca: não é por cair na rede que um peixe se torna p eixe ou deixa de sê-lo. a sociedade era nada mais que um sistema de relações entre seres humanos. e que o carac teriza com ênfase crescente desde o Renascimento e sobretudo após o século XVIII. no outro braço da cruz. o que denomino divinização da História. o sentido da vida identifica-se. É e sta última afirmativa que diferencia do antigo o pensamento moderno. mas. — (II) Beaux draps Mas a História não teria podido elevar-se à condição de deusa sem a concorrência de dois out ros fatores que. na ideologia político-social.114 OLAVO DE CARVALHO que traumático de que milhões de militantes jamais se refizeram. A queda do Muro de Berlim foi outro. É claro que nenhum pensador sério. Tanto quanto para os comunistas. No fundo. Tanto a reconheceram. O segundo foi — em decorrência do p rimeiro — a doutrina hegeliana do Estado. mudaram decisivamente o curso das idéias. Mas esse é só o aspecto mais patente e super ficial da questão. mas um composto das ações. uma forma de existência mais tênue e indireta que a da substância individual. antes. O primeiro foi a doutrina da “vontade cole tiva”. é evidente que reduzir o sentido da vida ao sentido da História é encerrá-lo na dimensão temporal. mas não podia propriamente determiná-las. a socialidade essencial do zoon politikon. de que a perda da fé no comuni smo funcionou portanto nelas exatamente como aquilo que a Bíblia chama “escândalo” — o des mentido brutal das crenças mais queridas. Ela envolvia e contin ha os homens como uma rede envolve e contém os peixes. entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. A sociedade permanecia recuada como um pano de fundo. voltando as costas à ete rnidade. na revolução o u no advento da utopia proletária. na definição tradicional da sociedade. Para uns e para outros. a divinização do tempo. A divinização do tempo. pelo menos desde Aristóteles. Estes não crêem no esquema marxista. vivente e concreta.

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enquanto o indivíduo foi sendo visto c ada vez mais como mera abstração. e da definição da soci alidade. mas era o resultado de um processo. co m um atraso de dois mil anos. Daí que. Essa definição parecia — e a intenção com que digo “parecia” se tornará clara logo iante — parecia assentar-se na idéia de que a natureza humana de cada um dos membros da sociedade não depende da sociedade em que vive. a sociedade foi p romovida a substância concreta. teve como uma de sua s primeiras e mais devastadoras conseqüências a de abalar a confiança geral na imutabi lidade e universalidade da natureza humana. de transformar-se. como mero sinal algébrico vazio cujo valor será determ inado pelo resultado de uma equação social. mas “a sociedade”: de universal abstrato. na época. não havia nenhuma incom patibilidade essencial. ao apelo de Aristóteles contra o universalismo abstr ato e em favor de uma ciência voltada para a realidade vivente. que Aristóteles nos f ornece na Retórica. do mesmo modo quem age é o homem concreto. uma inconsistênc ia e tenuidade da natureza humana. Se o indivíduo não tinh uma natureza dada. para em seguida basear na contestação a essa crença a nova teoria da volonté générale. do apelo historicista ao particular. real. Mas. [ Mas ] os perigos que essa teoria comporta não podem se manifestar plenamente enquanto subsi ste nos espíritos a hipótese fundamental que lhe deu nascimento. o agente da História não fossem os personagens de carne e osso. entre ele e as novas conqui stas do historicismo. Malgr ado. isto é. os antigos. portanto. a idéia de que os homens são a realidade e de que a Sociedade é uma convenção.. adquiria ou perdia caracteres por tornar-se rico ou pobre. O ra. As descrições minuciosas d os caracteres. segundo o n Esta girita. Em decorrência. senão só aparente e superficial. Foi assim que. é claro que não tinha uma natureza imutável . militar ou ci vil. mutável segundo as condições sociais. e por natureza. faziam eco. fazendo da “sociedade” o “verdade iro sujeito” da ação histórica.. Se o homem. ou mesmo simplesmente por envelhecer. Os únicos traços imutáveis que Aristóteles enxergava no homem eram aqueles contidos na sua definição mesma — a animalidade dotada de potência racional — e as propriedades imedi atamente derivadas dessa definição.a teoria da Soberania traz ao poder um reforço excessivo e perigoso. foi fácil atribuir-lhes a crença numa absurda imutabilidade absoluta da natureza humana. insistiram na socialidade fundamental do homem e. como os morto s não argumentam. A confusão clareia-se tão logo distinguimos entre soci alidade e sociedade — uma distinção que os teóricos da volonté générale desconheciam. por efeito da vida social. agente. então o sujeito ativo da v ida social já não era “o homem”.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 115 lidade corporal vivente — possuía a propriedade da ação em sentido muito mais direto e m ais real do que a substância derivada e segunda de um mero universal: se quem dá coi ces são os cavalos e não a cavalidade. Bertrand de Jouvenel assinala o oportunismo histórico que consagrou em dogma essa transformação 123: “. ao lado da qual a Sociedade não tem senão o pap el de um meio. ao concreto. a idéia da sociedade com o um mero sistema de relações começou a parecer insustentável também. são mais do que suficientes para derrubar o mito de que os antig os acreditavam numa natureza humana fixa e imune à i fluência da sociedade. mas o colet ivo abstrato concretizado e hipostasiado sob o nome de volonté générale. hábitos e preconceitos dos vários grupos sociais. Esta opinião sustenta a idéi a de que a pessoa é um valor absoluto. ao vivente. Ora. como vimos acima. se chegou a uma personalização do abstrato. entre as quais a socialidade. por sua vez. ao fazê-lo. o advento do pensamento historicista. Dito de outro modo: o homem era imutavelmente. mas é um dado anterior e fixo. não poderiam ao mesmo tempo negar o peso dos fatores sociais na moldagem dos caracteres humanos e acre ditar ingenuamente numa imutabilidade universal do homem. como vimos acima. não a sociedade. acreditaram que o fato de a vida social alterar os hábitos ou a persona lidade dos indivíduos concretos provava uma mutabilidade essencial. e Aristóteles mais que todos. mas é claro que ela se assenta numa interpretação falseada do antigo pensamento político. para os pensadores políticos do sécul o XVIII. Essa conclusão pareceu muito lógica. Muitas dessas conquistas. . Por des onhecerem. fazia parte necessariamente a capacidade que o homem tem d e alterar-se. toda a inclinação coisista do pensamento grego.

. Ha chette. Histoire Naturelle de sa Croissance. 9193. pp.123 Bertrand de Jouvenel. Le Pouvoir. 1972. Paris.

pelo menos. a crença de que existe um personagem Nação. Mas em nome de quê? De um rei destituído? Não. e superior à das partes. logo em seguida. Hegel traduz para Wesen i st was gewesen ist: “a essência é aquilo em que a coisa enfim se torna”. Se o Estado é a última coisa a aparecer. é que ele é a forma mais p erfeita e acabada a que tende toda a evolução anterior.. e conced e à Nação um certific ado de existência filosófica. cujos tr aços foram fixados pela arte popular. embora coletivo e abstrato.116 OLAVO DE CARVALHO “Para que a metafísica afirmasse a realidade da Sociedade. Aí os indivíduos são o esse cial. no sentido em que ele o definia. da Revolução Francesa. “Esta concepção de um Todo que vive de uma vida próp ria. mas sim é o Todo. permanecia referido à existência concreta de seres singulares. porque a enteléquia. a História me sma. como o patriotismo tomasse desde havia dois mil anos a forma do apego a uma pessoa. e todo mundo ac ha que ele está falando uma grande novidade. após o q ual começa o declínio. uma substância real. mais real do que os indivíduos que a compõem. Em nome da Nação: e. nem os teóricos que. para ceder a preem inência a um personagem ainda mais abstrato: o sujeito da História será. Nem Hegel. a forma final a que o ser tende em sua evolução. “É em plena floração do sentimento nacional germânico que Hegel formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo. até aí. de Luís XIV ou mesmo de Gengis -Khan —. Com Hegel. “a História” ainda era. Mas ela se cristaliza bruscamente. a inclinação natural dos s entimentos fez com que a Nação assumisse o caráter e o aspecto de uma pessoa. ao novo conceito da Sociedad e. só se torna patente quando o processo atinge o seu clímax. o último na ordem do aparecer é o primeiro na ordem do ser. Para falar como Aristóteles. É que. coisa sem precedentes. se deram conta do ridículo que havia em tomar como um princípio científico autoevidente o pretexto publicitário a que uma Assembléia semienlouquecida recorrera no intuito de justificar às pressas a aberração do recrutamento militar universal. era um fenôme no mais ou menos r ecente na História. Mas o homem a tudo se habitua. detentor natural do Poder. também nos acostumamos a tomar como uma verdade patente a mentirinha boba s egundo a qual Mas. em todo caso. “Aceitou-se na França. quando o que está é apenas aplicando — muit o mal — um preceito aristotélico. Sim. ou Nação) o supremo grau de realidade na hierarquia ontológica. talvez o ma is importante resultado. depois disseminou-se na Europa. o filósofo de Jena se viu em fa ce de um pequeno obstáculo: o Estado. Ora. sob o nome de Nação. onde após a maturidade do ser vêm o envelhecimento e a morte. passa a ser tomado como ex pressão de uma lei eterna e auto-evidente: assim como nos afeiçoamos à crença de que o E stado tem o direito de mandar todo e qualquer cidadão para o campo de batalha — idéia que teria parecido monstruosa aos olhos de Júlio César. muito po sterior ao da humanidade. “Não é o trono que se derruba. O que ele chama ‘sociedade civil’ corresp nde à maneira pela qual a Sociedade fora sentida até a Revolução. uma vez adquirido. era a ação de um jeito que. que sobe a o trono. a História de alguma coisa. disfarçada numa nova terminologia que a faz parecer muito original e est ritamente hegeliana.” “a Sociedade” é um todo. até mesmo “a sociedade” deixará o palco. O que ele chama ‘Estado’ corresponde. uma vez tendo decidido conceder ao Estado (= sociedade política. e o hábito. um clímax em sentido estrito existe somente no domínio do cr escimento biológico. o personagem Nação. Foi pre ciso pedir a participação quase total do povo na guerra. ao contrário. Quando a Assembléia Legislativa jogou a França numa aventura militar que a monarquia não teria podido arriscar. Seu nascimento fora. percebeu-s e que o Poder não dispunha de meios que lhe permitissem fazer face à Europa. jus . e de que as personalidades individuais nada mais são que um epifenômeno da estrutura social. estava provavelmente latente.. foi preciso primeiro que esta assumisse figura de Ser. “Foi esse um resultado. Como seria possível que o mais real dos seres fosse o últi mo a aparecer? Hegel escapa do problema mediante o recurso à teoria aristotélica da enteléquia. fundaram as ciências sociais na sup osição de uma autonomia substancial do Todo social em relação aos seus constituintes hum anos.

para aplicar à História o conceito de enteléquia. teve . Hegel. respondeu que era um mistério só conhecido de Deu s Pai. Essa média inexiste n a História. O próprio Cristo. que é. um processo de duração indefinida.tamente porque o ser biológico tem uma duração média predeterminada. em princípio. pergun tado sobre a data do fim do mundo.

I. como o Estado moderno incorpora e realiza em suas leis a essência perfeita do cr istianismo. — É verdade. onde. isto é. num homem da sua habilidade lógica v erdadeiramente virtuosística. Feito isto . nada mais disse nem lhe foi perguntado. realizando assim literal mente a sentença que para os antigos era matéria apenas de piada: pereat mundus. mais material de desonestidade: pesquisas recentes demonstraram q ue Hegel. o que. confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer. mas apena s o de uma fase da sua existência. porque iniciados gurdjieffianos e filósofos acadêmicos ( entre os quais os admiradores de Hegel ) sentem demasiado desprezo mútuo para poderem admi tir a hipótese de nivelar nos pratos de uma balança seus respectivos gurus. Mas História é devir. Hegel poderia ter dito port anto a seus discípulos. Eis. no entanto. foi apenas um desses casos depr imentes em que um fundo de desonestidade intelectual subsiste num homem dotado d e autêntico gênio filosófico 124. avançado em anos. é processo. esse sistema e essa contest ação. Aquele que disse: “Se os fatos desmentem minha teoria. toda a metafísica hegeliana vem abaixo. recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas inte ressadas em promover a idéia de uma Religião de Estado para se substituir à Igreja cri stã (católica ou reformada) 127. Uma certa desonestidade apa124 rece já nas bases mesmas de sua metafísica.A. Na hora de morrer. em si mesmo. A idéia de que o ser.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 117 então de praticar uma das maiores trapaças filosóficas de que se tem notícia: marcou par a sua própria época a data do vencimento da História humana. nesse esquema. 126 Não é preciso dizer que. 12 de suas Obras Completas editadas pela Universidade de Louisiana. alguma forma m ais grosseira. I. § 16. em favor do cristianismo. decretou o fim da História. pior para os fatos”. Mas onde há safadeza intelectual há também. et tenebræ non compr . portanto. nem universo. Para preservar a int egridade lógica do seu sistema. enquanto indeterminado. mesmo porque a História já estava para aca bar e o seu filósofo.a. Como.1. que pelo menos o lucidíssimo Eric Voegel in assinalou o caráter de “magia negra” dos escritos de Hegel. caso tudo isso parecesse muito vago. num estudo reproduzido no vol. mas só um truque propos ital 126. seja realmente um nada pelo simples fato de ainda não termos preenchido seu conceito d e um conteúdo em nossas cabeças é com efeito o fundamento absoluto do sistema de Hegel e a objeção inicial de que ele parte para montar sua contestação a Schelling. ninguém teria a desfaçatez de lhe pergunta r o que viria após o fim da História. desfeito esse truqu e. é o acontecer. mostrando ser apenas. o autor da Filos ofia da História argumenta. E como esse acontecer não tem um sujeito que possua alguma consistência ontológica por si e fora dele. como Gurdjieff: Vous voilà dans de beaux draps! Hegel não era no entanto nenhum idiota para crer sinceramente que fosse de fato o último filósofo e que a História terminaria no último volume do seu sistema. por trás de todo o floreado dialético. filhinhos: Schelling era muito grande. inexistindo um “antes” e um “depois”. fia t philosophia. corpóreo e presente que atestava a existência do processo e a consumação final dos séculos: o Estado moderno. e eu ten ho mais o que fazer. verboso e est ratosférico. que o único erdadeiro ente é o não-ente. equivale ao nada 125 — conferindo subrepticiamente valida de ontológica absoluta a esse juízo que só tem sentido gnoseológico. de fato. mas sublinhando que . Ela mostr a o quanto valem. O nome des se ente é História. Em verdade vos digo. onde ele proclama que o conceito de ser. falsificando o aval de Jesus Cristo. no fim. Já não há mais ser. nem homem. E. a Igreja se tornou desnecessária e o Estado vem a ser a suprema autori dade religiosa 128. que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta. Isso não faz de Hegel comparação não será feita. e não ente. Com requintada habilidade sofística. a Histór ia que é a História da História. tinha passagem comprada para o reino das som bras. a projeção am pliada de fenômenos imanentes à psique humana. a conclusão era que a suprema realidade reside pr ecisamente naquele ente cujo destino final é transfigurar-se em Estado. o Estado já não era o nome de um ente. 125 Propedêutica Filosófica. o resultado é que o acontec er é promovido à condição de sujeito dele mesmo. nem coisa nenhuma: a única realidade é o acontecer que acontece ao acontecer. não pode ser um erro involuntário. e tascou na promissória a a ssinatura de Deus Pai. inseparavelmente. Hegel apontava para o resultado final.

Mas essa .F. 1968. reduz a religião ao conce ito de “moralidade” acreditando que quanto pudesse haver de metafísica na religião já fora absorvido e superado completamente pela filosofia acadêmiComo aliás se dá também com Gurdjieff..U. 128 Nes te como em muitos outros pontos de sua filosofia. P.ehenderunt eum. Paris. o trabalho notável de Jacques D’Hondt. De outro lado. a propósito. Re cherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Hegel. mil vezes mais emocionante do que meus pobres Frit jof Capra & Antonio Gramsci. Hegel é estonteantemente ambíguo. ele faz a apologia da Reforma protestante como a culminação do processo cristão de libertação da consciência individual. Hegel Secret. A metafísica deste e a cosmologia daquele dariam um belo capítulo de terat ologia intelectual comparada. Por um lado.. ( Explico isto com mais detalhe em minha História Essencial da Fil osofia. cujas semelhanças com Hegel vão muito além da mera co incidência. ) 127 V.

nomeando cardeais biônicos para ludibriar os poucos fiéis restantes. que declaram em voz alta as inconveniências que o alto sacerdote. mas também a sua própria. acaba por deixar as consciências individuais à mercê do Estado ( Filosofia do Direito. e abandonam. ele apenas regula sabiamente os conflitos de interesses. Na Vida de Jesus de David F. é dos três o mais eficiente no com bate à religião. só se tornam governáveis mediante o nivelamento por baixo. instituicionalizando nas escolas o ensino do ateísmo. a m ais requintada monstruosidade moral que a humanidade já conheceu. facilmente cedem ao apelo das “novas éticas” disseminadas pela indústria de espetáculos nas modernas democracias. ele acaba se colocando. até mesmo os preceitos mais óbvios do ca ( faz-me rir! ) e. restaurar o culto de César. sem nada impor. ademais. fuzilando religiosos. como se vê pelo fato de que as massas. Sumopontífice do E stado moderno é Hegel: eles são antes os bobos-da-corte. Mas ela foi incorpora da pelas três formas do Estado moderno: comunista. nazifascista e liberal. compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação dese nfreada dos desejos poderia causar. que pune um olhar d e desejo e dá proteção policial ao assassinato de bebês nos ventres das mães é. Uma sociedade. prudenteme nte silencia. os beijos roubados. o machismo. pois a opinião que ele aí expressa não é só a de quem lhe paga. e Ludwig Feu erbach ( A Essência do Cristianismo. § 268 ). o vocabulário corrente. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que. legalizando e protegendo todas as exigên cias tirânicas e autolátricas de cada ego humano. fisc . 129 É claro que a chamada “esquerda hegeliana” foi muito mais longe. dá a fórmula que se tornaria quase que um dogma do século XX: “A política deve tornar-se a nova religião. ademais. que termina pela in stauração da moral invertida. tendo conservado sua fé religios a sob a opressão nazifascista e comunista. Mas o Estado liberal. mas com o apoio e até po r exigência dos eleitores no pleno gozo de seu direito de exigir e legislar. que toda nova reivindicação resulta em nov as leis. meio às tontas. 1841 ).” Mas não devem nos impressionar tais arreganhos: esses sub filósofos seriam impotentes sem as armas que receberam do mestre. com efeito. A segunda. de fato. que. ju nto com a religião. É claro. que cada nova lei resulta em nova extensão da burocracia governante. de maneira ai nda mais ostensiva. direito natural: exercendo livremente seus “direitos humanos” sob a proteção do Estado d emocrático. imp edindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória e universal. De outro lado. concordando com elas por dentro. Strauss ( 1835 ) a divinização do espaço-tempo é explícita. logo percebeu o truque: o Estado hegeliano era o “Novo Ídolo” qu e se oferecia como sucedâneo aos cansados combatentes que haviam derrotado o “antigo Deus”. dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana. fazendo do Estado o guardião da moralidade.118 OLAVO DE CARVALHO um intelectual de aluguel. Essa causa é geralmente associada ao comunismo. as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano log o terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. as cantadas de rua. Nietzsch e. pelo culto obrigatório da Nação e do Estado. É claro. que o Estado neoliberal não faz isso por meios ditatoriais. Mas até que ponto o prêmio financeiro não ajudou a cegar o filóso fo para inconsistências que de outro modo ele teria percebido? Pois se de um lado não há como duvidar da sinceridade com que ele defende a liberdade da consciência indi vidual. o Estado neoliberal produz novos códigos repre ssivos que. pela violência física e psicológica. proibindo cultos. fechando templos. elevando o Estado à categoria de “Providênc ia do homem”. Paira ndo acima de todos. descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo. as piadas ). produz milhões de pequenos Stálins e H itlers. excitados até à exasperação pelo estímulo incessante ao espírito reivindic atório. As três p rocuraram com igual afinco substituir-se à Igreja na condução espiritual dos povos: a primeira. esperto como ele só. a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual. de outro lado é fato que. ao fazer do Estado moderno a condição necessária e suf iciente dessa liberdade omitindo-se de defendê-la contra o Estado mesmo . que professa nominalmente a liberdade religiosa. banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo 129.

moral e religiosa. sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática. Beaux draps que constituem a essência da he rança hegeliana. a caba por se imiscuir em todos os setores da vida humana. fisca lizar e punir até mesmo olhares. o Estado. . cumpre à risca o programa hegeliano. enfim. eis que o Estado neoliberal. no instante em que regula a vida interior dos indivíduos. movido pela dialética infernal do reiv indicacionismo. passo a passo. E. instaurando-se como suprema autoridade espiritual. reinando sobre as almas e as consciências com o novo Decálogo dos direit os humanos e do politicamente correto. assim. e que. risos e pensamentos.al e judiciária. por regulamentar.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 119 .

Sua clave não era a da veracidade. Vimos. No pódio do MASP. ela deixava-se persuadir. a hipótese do objetivo prático: o discurso de Pessanha não tinha satisfações a pres tar à realidade existente. por trás das belas palavras. recobrindo-a de um manto de subterfúgios engenhosos. já que o que pretendia era produzir uma nova. nos mostrava a perspectiva de um horro r sem fim (§§ 14 e 15). em seguida (§ 15). casados e reduzidos à unidade de uma comum repulsa à inteligência teorética. a esta altura. Estávamos tratando de recompor a coerência interna do universo mental de Jo sé Américo Motta Pessanha. Ele fundia-se. mas isto não parecia incomodar a platéia no mais mínimo que fosse. Só assim e le poderia persuadir os discípulos de que os levava pelo caminho da felicidade. London. erguia-se diante de nós. Nova Era e Revolução Cultural. que consiste em resistirem ao confronto com os fatos observados. 1945 ( várias reedições ). Ali não se tratava de provar. portanto. Mas. era bastante lógico. segundo veri ficamos. sem perguntar a onde. e que lhes permite sair incólumes. Revisão do itinerário percorrido Terá o leitor. já que o objetivo final do epicurismo não podia ser declarado em voz alta sem provocar espanto e horror. Após demonstrar (§§ 16 e 17) a perfeita compati bilidade entre marxismo e epicurismo. era frouxa. mas. de haver ali alguma coerência. . Jonathan Ca pe. The Yogi and the Commisar and Other Essays. constituiam o recheio dos dois lóbulos cere brais de José Américo Motta Pessanha. com o marxismo. chegamos e nfim à conciliação dos aparentemente inconciliáveis: evasionismo e ativismo. que. Logo. não sendo do tipo lógico-científico. a confirmação mútua das sensações que se coadunam produzindo um sentimento de harmonia. como verificamos. sem perguntar a quê. mas a da eficácia persuasiva. como vimos. Qual ação? O objetivo não ficava absolutamente c laro. o epicurismo não ocupava sozinho todo o horizonte mental de Motta Pessanh a. aquele tipo de solidez q ue se exige dos sistemas filosóficos. A coerência estética. ocultismo e revolução. pode no entanto haver alguma beleza ao menos aparente. portanto. não resistia a um exame ma is atento que. ali. perdido o fio da meada? Vamos revisar o itinerário per corrido. ao contrário. ma s de sugestionar para impelir a uma ação. Mas um pensamento totalmente incoerente não poderia ter a persuasividade quase hipnótica q ue tinha o de Motta Pessanha. aos ataques da crítica racional. qu ando em verdade os conduzia ao niilismo. Coerência estética: a onde as verdades afirmadas se desmentem umas às outras e são desmentidas pelos fatos . uma vez que compreendê-la seria rejeitá-la. Esses opostos. Passara desde muito a época em que Arthur Koestl er podia dividir o bolo ideológico do mundo em duas metades opostas e inconciliáveis . só podia ser estética ou prática. que esse fenômeno.120 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO VIII. no todo ou em parte. enquanto filosofias da praxis que só tocam n o mundo real como num pretexto e meio para chegar ao mundo inventado. com toda a sua 130 Arthur Koestler. ao desespero e à morte. e que portanto a proposta epicúrea tinha esta característica peculiar: a de recrutar seus mais entusiasmados adeptos precisament e entre os que menos a compreendiam. Com evidente satisfação. a tarefa do pregador epicúreo não consistia em expor a doutrina. Ali não se encontrava. isto é. e conduzir. Coerência prática: entr e as sentenças que se desmentem umas às outras pode haver no entanto a unidade de um interesse prático. Só nos res tava. por esquisito que parecesse. Em decorrência. A REVOLUÇÃO GNÓSTICA § 23. personificando-as nos tipos antagônicos: o iogue e o comissário — aquele que busca a verdade num outro mundo e aquele que se empenha em mudar este mundo à imagem da s ua própria verdade 130. nem aquela que se espera das hipóteses ci entíficas. em ocultá-la. Tinha. não era estético o padrão que unificava o conjunto. que justamente só possa ser atendido através da falsidade e da inc oerência.

dando a cada ser humano. o deus-imp erador. les puissances temporelles. o deus de Motta Pessanha. Os parágrafos de 19 a 22 mostraram-nos que a entroni zação de novos deuses permitiu canalizar para o culto da Natureza e da História as asp irações espirituais dos homens. Chegada. para tornar-se. mais amplamente. os deuses do espaço e do tempo não são objeto de culto p rimaveril numa infância do mundo. a mesma imersão definitiva do espírito humano no círculo do samsara. o sinal de uma ru ptura trágica entre a Existência e o Sentido. la raison d’État. sendo impossível saltar esse abismo. a criatura sintética e bifronte. O deus histórico-cósmico. les autorités de tout ordre. a nostalgia da tradição greco-romana. porém. e quando o comissário erige a História numa realid ade ontológica superior aos homens concretos. como uma reação global da mentalidade religiosa antiga con tra o Cristianismo emergente. EpicuroMarx . o io gue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações do nosso tempo em direção à utopia. não existe incompatibilidade prática senão momentânea e aparente. bloqueando-lhes o acesso a concepções espirituais em sen tido estrito. Detentor das chaves de dois reinos. ficará fácil compreender o gno ticismo. a pregar-nos o ativismo da evasão e a evasão pelo ativismo (§ 18). O véu do templo “Tout l’appareil des puissances. s obre o túmulo de Cristo. já passou duas vezes pela História ocidental. Para explicarmos o sentido. ao mesmo tempo e inseparavelmente. eles permanecem separados pelo abismo de uma funda incompatibilidade metafísica. A síntese de culto do cosmos e culto da História não surge — ai de nós! — na hora antes da aurora. não podendo ser espiritual. que. Por mais que os aproxime a comum rejeição do mundo real . a ressurreição de César. Isto não resolve a contradição. a personificação do futuro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 121 maciça improbabilidade. mas na luz indecisa que prenuncia uma longa noite. na origem. iogue-comissário. ne pèse nt pas une once devant un mouvement de la conscience propre. Mas — ai de nós! — . Da primeira vez. ele se torna o sacerdote de um novo culto. a profecia de Motta Pessanha anuncia. que sonho arrebata e fascina a humanidade de hoje mais do que a aspiração a uma sociedade que reuna os ideais do socialismo e do capitalismo. Para nós como para os pigmeus da Nova Guiné. e uando passou não deixou atrás de si um jardim de delícias. o comissário é materialista. Vimos então que. levando os indivíduos a acreditar que subi am a uma mais elevada visão das coisas quando na verdade sentiam apenas a natural zonzeira de um corpo que cai. mentales même. é cósmico. um almálgama de seit as religiosas diferentes e até conflitantes mas unidas por um duplo sentimento com um: o ódio ao Cristianismo. Nessa síntese resid ia o segredo do misterioso atrativo que Pessanha exercia sobre uma platéia fatigad a do real e incapaz de transformá-lo. intellectuelles. esse personagem não é novo na História. Ele já passou por este mundo. ou melhor. o dos deuse s do espaço e o dos deuses do tempo. tomou o nome de gnosticismo. uma seita religiosa. o sentimento da participação “ética” numa epopéia revolucionária e os prazeres da evasão consumista? Mais que um líder ou um guru. Mas aí surgia um obstáculo: o iogue é espiritualis ta. mas o princípio de uma decadência. desde que no fundo eles celebram o mesmo esquecimento do eterno. entre aplausos gerais. a . o iogue-comissário transcende assim a sua insignificância pessoal e intelectual. era necessário forrá-lo com algum tipo de algodão que amortecesse a queda. Afi nal. mas amortece-a ao ponto de torná-la quase insensível: quando o iogue já não busca o infinito. ele está bem próximo de poder entender-se com o comissário. Da segunda. Se lembrarmos que es ta tradição tinha fundas raízes no passado egípcio-babilônico. personificou-se em César. § 24. e sim um rastro de insânia e crueldade. a consumação do prazo histórico. e entre os dois cultos. o cadáver da religião imperial a em pestear com os vapores da sua decomposição os seis primeiros séculos do Cristianismo.” CHARLES P ÉGUY O gnosticismo foi. mas o cosmos. que dá início a uma longa e fatal decompos ição do espírito e termina pela dispersão da tribo em grupos errantes de homens aterrori zados e indefesos. les puiss ances politiques.

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é um homem como os outros. É o mesmo que dizer que os deuses gregos não eram senão a corporificação de forças cósmicas. A que stão parece imensa e complexa. o primeiro homem que afirma explicitamente a sobera nia da consciência individual. ausente no Cristianism o: Nelas. submisso ao culto e às leis. mas sua resposta é bem simples. na sucessão dos tempos. sob uma variedade impressiona nte de manifestações. do qual aqueles deuses que aparecem no culto público não são senão ecos e imag ens distantes. caso não deseje s er excluído da comunidade humana. uma autoridade superior à da sociedade. pela intelecção filo sófica. inacessível ao culto público e só conhecido. cujas repercussões se propagam até hoje. religião a religião. o deus de Platão não reside senão na pura intelecção metafís ca do filósofo. em face do culto exotérico das potências cósmicas. diante da sociedade. ou as várias confissões cristãs entre si. como a fonte e inspiração comum de uma multidão inesgotável de moviment os. pois fala em nome do universal. se voltaram contra o Crist ianismo desde muitos lados. como as divergências que opõem. De outro. era o Absoluto mesmo. uma espécie de autoridade espirit ual simbólica. com uma clareza ofuscante. enfim. pela antigüidade. a organização sócio-política era ela mesma a verdade encarnada — não havendo qualqu er possibilidade de uma verdade exterior à crença coletiva. Não que o pensament o individual fosse reprimi- do. um membro da polis. o Sumo Bem. se residisse no conteúdo do utrinal do Cristianismo. po r si mesma. de duas espécies do mesmo gênero em conflito entre si : trata-se de dois gêneros incomensuráveis. Noutros termos. absoluto e supraquantitativo. Se os deuses da comunidade hab itavam nos templos e nas praças. e a cessível à consciência individual livre. como diversas espécies de um mesmo gênero. escolas e doutrinas que. derivadas e segundas. pela dialética socrática. Sóc rates é. deve-a. Não se tra ta de duas religiões diferentes. por exemplo. ao passo que o Deus de Platão. numa posição ambígua: de um lado. com ofus cante claridade. não surge na história antes da filosofia grega. o islamismo ao judaismo. temos de perguntar o que é que o Cristianismo trazia de tão novo e estranho. obediência às leis e costumes. a crença reta e a integr ação obediente do indivíduo na ordem social eram uma só e mesma coisa. por outro lado. não simbólica. O portador da verdade esotérica está. é o porta-voz de um Deus ve rdadeiro. universal. ao longo de dois milênios. A diferença é tão profunda que o uso de um mes mo termo — “religião” — para designar fenômenos tão heterogêneos deveria ser afastado para ev r confusão. portanto. não faria senão opor. uma razão suficiente para justificar a profundidade do abismo que sepa ra o Cristianismo do mundo antigo e explicar a violência contínua que este opôs à nova r evelação e. ao passo que o indivíduo alcança. dogma a dogma. mais ou menos no mesmo plano. O abismo entre Cristianismo e religião antiga é mais profundo. Todas as grande s religiões anteriores ao Cristianismo têm um caráter em comum. do q . por um lado. passados vinte séculos. independente de qualquer ordem social determinada. ao passo que a sociedade fala apenas em nome do geral. ao proclamá-la . uma cosmovisão religiosa se cristaliza numa estrutura social determinada . A Unidade de um Absoluto supra-cósmico aparece aí como uma verdade esotérica. O sábio deve. não havia um espaço onde a consciência do indivíduo pudesse se desenvolver para fora da crença coletiva. Mas não. o gnosticismo surge. como viria a ser mais tarde e como é até hoje em sociedades de vários tipos: é que o pensamento individual simplesmente não existia. A diferença é. ao Deus verdadeiro. ass im. A diferença a que me refiro. sua superioridade mesmo em relação à crença materializada n a ordem social. O indivíduo que chega à verdade tem. Aparece aí. na medida em que a sociedade só pode ter acesso a verdades esquemáti cas e simbólicas. Uma vez assinalada essa diferença. A concepção de uma ver dade objetiva. a tragédia da autoridade espir itual legítima colocada em face de um poder temporal a que um velho culto já amputad o de toda raiz celeste conferiu. continua a lhe opor. da verdade universal. a visão direta . porque há uma different ia specifica do Cristianismo que salta aos olhos logo a um primeiro exame e dá. for ma quantitativa e meramente simbólica do universal. da forma dos fenômenos respectivos. Aí. de tão radicalm ente hostil e incompatível com a mentalidade antiga em seu todo — e não só com a sua ver são greco-romana em especial — a ponto de desencadear tamanho “choque de retorno”.122 OLAVO DE CARVALHO amplitude e a profundidade dessa reação. tomada ela mesma como expressão corporificada da verdade dessa cosmovisão.

cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu.ual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes. .

inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura . sem inter mediação da autoridade civil. quase sempre. em primeiro lugar. mesmo porque nossa adesão à verdade interior que ele representava é. como portadora do Verbo divino. Pau- lo Apóstolo. tendo sabido que cristãos recém-batizados disputavam algo entre si no tri bunal romano. po is não cabe a esta julgar “aqueles que vão julgar o mundo” 131. não lh es propõe um novo sistema de ritos e símbolos. implicitamente. é universal. mas ap enas para dar. Não que essa dimensão fosse totalmente desconhecida do mundo antigo. acabara por se refugiar na consciência filosófica e nos cultos de mistérios: tornara-se esotérica. que pesam sobre o destino humano e en tre cujas exigências a comunidade deve abrir seu caminho. em última instância. no Novo Testamento. dessacralizava radicalmente o Estado. em terceiro lugar. e não a autoridade socialmente constituída. a consciência reflexiva. testemunho de uma verdade universal tran scendente a todo culto local. pa ra além do tempo e do cosmos. verbal e pro forma. não viera ao mundo. ora propícias. de outro. unilateralmente. mas e nquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade. livres da pressão da sociedade local ateniense. as forças cósmicas. fundase na evidência e não em mera opinião. É significa tiva. é precisam ente o que o Cristianismo oferecerá a todos os homens: o acesso direto ao conhecim ento do Verbo divino. ora adversas. que o culto exterior. não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade. a infinitude. Ao mesmo tempo. os adverte a não se submeterem ao julgamento da autoridade civil. o recinto secret o da intimidade do homem consigo mesmo. do homem independente. O Cristianismo. válida para todos os seres racionais e não somente para uma comunidad e em particular. num aberto desafio a todos os cultos estatais. sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público. por mais deteriorado e vazio de qualquer conteúdo es piritual. A dimensão vertical da alma e de Deus.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 123 Para nós. hoje. oferece-a como verdade universal. provavelmente herdeir a de tradições orientais onde a consciência metafísica se conservara intacta. romanos e b aros. Na sua mensagem destacam-se três aspectos essenciais : lº. enquanto indivíduo humano. A religião do Império. válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num m omento e lugar da História. convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo. quer às representações sensíveis das divindades s: de um lado. reconhecendo. Repetidamente os filósofos procuraram resgatar a s ua lem131 Tendo exortado os fiéis a obedecer as autoridades mundanas ( Rom. no mesmo instante em que consagrava. De um lado. a passagem em que S. que a verdade interior devia permanecer in terior. O cristianismo rompe ess e mundo bidimensional. mas a experiência direta do Verbo divin o. aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos. para fundar uma nova religião. portador de uma me nsagem espiritual. uma certeza superior a toda prova dialética. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica. é apodíctica. Mas o próprio Sócrates deu alguma razão a seus car rascos. resumia-se. seu repres ntante e porta-voz é o indivíduo como tal. Ora. Encontramos sinais dela na mitologia grega. Sócrates. ao passo que o Cristianismo a revelava publica mente. omiti da pelo culto público. em suma. é fácil dar razão a Sócrates . 2º. a alma do indivíduo humano. de outro. filosófica.: 13:1-7 ). condensação de cultos gregos. o cristi anismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imagin ação greco-romana. 3º. restaurando a concepção de um deus supracósmico. transcendente a todas as representações sensíveis. sem a intermediação da polis ou do Estado. o Apóst . afinal. a profundidade interior da consciência individual. em segundo lugar. a eternidade. ou a comunidade historica mente existente. superposta ao c onfronto horizontal da sociedade e do cosmos. Mas. O crist ianismo. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verda de interior permanecesse secreta. no diálogo entre a comunidade humana e o cosmos . o pensamento comum dos homens reunidos na ágora ou no fôro. conservava seus direitos enquanto não chegasse o momento de rasgar o véu d os símbolos para exibir urbi et orbi o supremo segredo. é precisamente um dos sentidos do si mbolismo da cruz. inacessível quer à imaginação comunitária.

.olo. formal. C om isto. mas sem submeter-lhe o julgamento de questões de consciência. O sentido é claro: “da r a César o que é de César”. não se desse conta de que a mesma contradição se agravaria ainda mais no Estado moderno. viria a ser percebido também com muit a clareza por Karl Marx. Paulo já deixava refutada de antemão a falácia hegeliana de que “o Estado é a realidade da liberdade concreta”.. Hist. Chega a ser espantoso que Hegel. II:1 ) . não obstante. tendo percebido nitida mente a contradição da Igreja medieval a um tempo defensora da liberdade de consciênci a e obstáculo ao seu exercício efetivo ( Fil. ir a juíz o perante os injustos. o que. mostrando que o Estado só pode ser o lugar da libe rdade abstrata. S. curiosamente.: 6:1 ). tendo litígio contra outro. e não perante os santos?” ( I Cor. adverte: “Atreve-se algum de vós.

É só a banalidade do mundo de hoje que pode conceber os profetas como meros vaticina dores das coisas futuras. absorvem a cons ciência interior dos homens. é um estudo sobre a significação da profecia na História. O recipiente fecha-se. de uma vez para sempre. O termo mesmo “profeta” vem do grego prophero. é apenas uma crônica provinciana. imprimindo-lhe uma direção totalmente nova. narcotizada por meio de sucedâneos “cósmicos” ou “hi stóricos”. que to ma momentaneamente a forma do copo. Os cultos públicos são vastos sistem as de símbolos. um sentido. impedindo que os homens bebam. para metamorfosear-se. como tudo o que existe no espaçotempo. Ele determina uma súbita elevação do nível do devir histór . por trás do panteão das divindades cósmicas. ele gira o botão do acontecer histórico. caóticas e inconciliáveis se uni fica numa nova direção da vida humana. mas não pode ser abolida para sempre. Pode ser reprimida. e de que uma história reduzida às dimensões natural e civil. o interl ocutor solitário do Deus que “sonda os rins e os corações”. dando um sentido ao caos e iluminando a uma n ova luz a meta permanente da existência 132. Ele de na o curso dos eventos. “produzir”. a encerrar-se numa totalidade enrijecida e auto-suficiente. acabam por mundanizar o divino e divinizar o mundo. sem qual . Submetidos à lei da entropia. que signifi ca “fazer”. Ao propor ao homem um esforço que não se volt a nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade. assumindo sua liberdade. às instituições jurídicas e políticas. que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocultam. inaugurando novos mundos históricos e resgatando as possibilidades espirituais perdidas. A realidade divina foi muitas vezes comparada à água. de outro. O profeta é uma força agente.124 OLAVO DE CARVALHO brança. O cristianismo exote rizou-a. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed ( Maomé ). O profetismo é o ret orno cíclico da primavera do mundo. assumisse ao mesmo tempo a responsabilidade de ser. ilustrado pelo ca so do único profeta de cujos atos e palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante. não um observador. neutralizando-a na fala coletiva. na mensagem cristã. gerando efeitos de escala incomparavelmente superior ao das forças causais até então agentes. conservando-se não obst ante intacta. para além do véu simbólico dos ritos e das leis. que rompem a unidade cerrada das instituições antigas. eles tendem. que cortam a linearidade horizontal das causas histórica s pela vertical de uma intervenção superior: os adventos de novos profetaslegislador es. d e que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal da compreensão históri ca. o portador do Logos. como o é quase tudo o q ue hoje recebe o nome da ciência de Heródoto. ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da A rábia Saudita. Entr emeados e às vezes identificados aos costumes morais. Foi esse estudo que me persuadiu. diante do qual o homem está nu e verídico tal como no dia em que nasceu. que ela subentende. t udo equalizando na platitude do social e do histórico: de um lado. a existência de uma realid ade mais alta a que os símbolos do culto aludiam veladamente. desviada. É evidente que a dimensão metafísica não pode ser totalmente abrangida pelos discurso le galista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público. Aconteceu que. abertura que o Evangelho simboliza como um rasgão no véu do templo. o detentor consciente do critério da verdade. fora de qualquer tutela ou garantia ex terna. Mas a aspiração ao infinito parece inerente à constituição humana. ritos e mitos. o cristia nismo abre entre a individualidade física e a identidade social humana um interval o. revelando a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábio s e dos místicos. tapam a v ia de acesso ao divino. esse novo sentido não podia ser captado senão pelo indivíduo desligado dos laços que o prend iam à sociedade e ao Estado. povoando os céus de figuras de heróis e deuses projetados da Terra: ampliações divinizadas do Estado e da natureza física. captável pela pura inteligên cia metafísica mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma fo rmulação doutrinal acabada. “determinar”. pelo indivíduo que. ao ser vertida noutro recipiente. o espa132 Meu livro O Profeta da Paz. Daí que a história das religiões seja ponti lhada de rupturas cíclicas. onde repentinamente uma profusão de forças dispersas. mostrando. por força do resíduo humano e histórico que carregam.

os retornos cíclicos. Seu id eal é reduzir a consciência do historiador à condição do sapo da fábula. indagado sobre o que era o céu.” . firmemente empenhado em não deixar os homen s enxergarem nada para lá do círculo mundano. A “total mundanização e terrestrialidade do pensamento” ( sic ) advogada por Antonio Gramsci. Que filosofias inteiras da História possam ter-se assentado sobre bases tão estreitas mostra apenas que a intelectualidade moderna é um novo sacerdócio de tipo greco-romano. respondeu: “É um buraquinho no teto da minha cas a. as ascensões e qu edas dos impérios e das doutrinas. habitante de um poço que. é apenas a finalização de um processo de estreitamento do horizonte intelectual humano que vem de alguns séculos.quer poder de elucidar os fatores decisivos.

O que se pode questionar é se essa disciplina tem o valor moral definitivo de um código de conduta universalm ente válido.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 125 ço da liberdade interior. pelos impulsos naturais egoístas. de u m lado. com aquele hiato que o cristianismo abre entre indivíduo e s ociedade ao proclamar. monastérios. A socialidade fica assim submetida hierarquicamente à solidão onde Deus habita: a assembléia dos que se reunem em nome de Cristo é uma assembléia de homens que conhecem profundamente a solidão de seus corações. II). que se expande invisivelmente até abarcar todo o território europeu. é certo. Pode-se fazer uma imagem supondo como se sentiria um se nador norte-americano que. o fruto supremo da História. Eles vão em busca de um espírito regenerador e. mas tão necessária ao flor escimento da autoconsciência quanto o isolamento social. A importância fundamental que teve o monast icismo (monakos = monge = solitário) no desenvolvimento da nova civilização é um sinal e loquente do teor básico da sua vocação. a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência.” 134 O novo mundo deve ter parecido misterioso. A noção mesma de autoridade e hierarquia era ali submetida a uma estranha mutação: “Se trata de un reino no encuadrado por el espacio y por el tiempo. pelo idealismo social (precisa mente as duas colunas a que se pretende reduzir o templo da moral moderna). y no mantenido por el poder sino por la autoridad que se identifica con el servicio a la comunidad. É fáci compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo te ve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical. mas para exper imentar na extrema solidão o acesso a uma nova profundidade da vida interior. sino extendido en la eternidad. no fundado en la dominación sino en la comunión. propriedades rurais — separadas umas das outras por imensas distâncias e sem outra ligação entre si senão a obediência comum a uma mesma religião. apegados à sua fé por um liame interior muito mais poderoso do que qualquer obediência externa a um governante 13 3. através de uma disciplina moral dolorosa. sempre por obra de homens solitários. caótico e hostil às classes e pessoas aco stumadas à ordem imperial. que agem movidos por um impulso pessoal e quase sem co municação com a autoridade religiosa central em Roma ou Bizâncio. Como pôde a nova civilização sobreviver. O fenômeno é espantoso. De outro lado. afirmar poderosamente seus valores. Apenas o liame sutil e voluntário da fé. mas que ela é absolutamente necessária à ecl osão da autoconsciência. no integrado por la subordinación sino por la participación. É desses homens fugidos do m undo que nasce o novo mundo. na Epístola a Diogneto (séc. aldeias. esse hiato também corresponde a uma certa separação que o cristianismo estabelece entre consciênci a e corpo. mas há uma verdadeira corrida para o deserto: milhares de anacoretas evadem-se do falatór io urbano. O adv ento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário. Não somente o Império povoa-se de monastérios. Nenh uma unidade administrativa. É ness e espaço que floresce a personalidade humana. não para buscar as consolações factícias do jardim de Epicuro. é: e não espanta que uma época afeita à liberdade sexual irrestrita também seja fértil em filósofos que negam a existência ou o valor da autoconsciência. no existente primariamente en institucio nes y actos externos (aunque manifestado en ellos) sino viviendo originariamente en la intimidad de cada uno. Ele coinc ide. Esse novo mundo é composto de unidades autônomas — cidade s. repentinamente arrebatado à segurança do 133 É absolutamente indispensável a quem queira compreender este período da História ler os . o trazem consigo. que cada cristão é um estrangei ro na sua própria pátria. de outro. e que precisamente por isto podem se reunir em Cristo e não em mera tagarelice. estruturalmente. ao vo lta- rem para junto de seus semelhantes. crescer. tenaz e silenciosa d milhares de monges espalhados ao longo do território. e não apenas o de uma pedagogia. econômica ou militar. Não se trata apenas de uma retirada. Este desenvolvimento é impossível enquanto todo o horizonte da atenção for ocupado. em tais condições? Não há outra explicação senão a atividade incessante.

An Introduction to the History of European Unity. New Yor k. 134 M. . García-Pelay o. New York. 1956. Revista de Occiden te. De los Orígenes a la Baja Edad Media. I. 1957 ( várias reedições ). Historia de la Filosofía del Derecho y del Esta do. p. 1970. Religion and the Rise of Western Culture.. e The Making of Europe. Meridian Books. Image Books. em Antonio Truyol y Serra.clássicos de Christopher Dawson. cit. Madrid. vol. 251. 4ª ed.

tal como o corpo moribundo vê ressurgirem com redobrada força as moléstias que ve nceu no passado. de ressonâncias antropofágicas apavorantes. e também de uma gnose cristã ( por exemplo.. Acuada pelo avanço cristão. é precisamente o que se denomina gnosticismo 135. o cristianismo havia “rompido o véu do templo”. a dissolução dos valores sacros do Império entre as mãos das hordas de invasores bárbaro s. a essa gente. mas resta sempre um fundo ina ssimilável. budista etc. mas esta palavra serve também para design ar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cris tianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espi ritual. po r outro.126 OLAVO DE CARVALHO Estado. seu senso de or ientação e de dignidade familiar? É um leão sem suas garras. havia colocado em circulação temas. e. Porém. a cultura es piritual antiga é em parte absorvida no novo quadro. a confiança no poder oni presente da autoridade civil? Ali só lhe restaria ser homem e confiar em Deus. para o subterrâneo. símbolos. A quem o vê de fora . Toda ci vilização em declínio experimenta um retorno de temas religiosos abandonados milênios an tes. seu lugar de honra não só no Exército e no Senado mas na casta sacerdotal. De que valeriam ali o discurso sobre os direitos. mais grave do que tudo. o apelo aos tribunais. mais particularmente. em primeiro lugar . rancor. e como religião. Os monges. à espera de um futuro ciclo onde possa ressurgir. viram desfazer-se em fumaça a proteção do segredo que as cercava. cristã inclusive. O conjunto de crenças. Em terceiro lugar. ele representa o elemento antagônico e complementar da cultura dominante — a “sombra” que cresce junto co m o novo corpo da civilização. que rigoro samente nada têm a ver com o fenômeno particular que estou estudando aqui. sem o Império que lhe dá sua identidade. fosse jogado no interior da Amazônia. revolta contra o destino. demônio s e feras. até engoli-lo quando chegar a hora do crepúsculo. entre índios e frades. que d e lá lhe moveram guerra subterrânea ao longo de dois milênios. o qual po . de um contrato que os homens acredi tavam ter selado para sempre com os deuses. entregue à sanha das hienas. um desejo incoercível de vingança e de restabelecer as coi sas como eram antes. Compreende-se. Em segundo lugar. de repente. O tipo de vida interior que os monges traziam era tão diferente de tu do quanto o mundo antigo conhecia como filosofia. e que agora ressurgem à plena luz do dia para o combate final. desde o ponto de vista do mundo antigo. eles haviam trocado a complexa beleza das antigas cerimônias públicas por um rito e stranho. símbolos. Mas o que é um patrício romano. valores e atitudes da cultura espi ritual grecoromana. pouco se lixavam para as virtudes cívicas que. a súbita ruptura. a negação mesma da cultura. que o cristianismo não tinha senão como parecer. que refluíram para o subsolo no advento do cristianismo. o cristianismo caiu como um raio que provoca espanto e terror. na espera de uma ressurreição. de fora. por um lado. constituiam a essência mesma da moralidade. nem cultivavam os debates filosóficos. Para os homens da religião antiga. O novo mundo espiritual emerge num panorama exterior de sinistra desolação. entre ventos. É quase uma l ei ou princípio histórico: o exoterismo destronado funde-se no esoterismo do ciclo s eguinte. 135 Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose. o cristianismo foi a “pedra de escândalo”. por parte dos céus. desperta ódio. das letras e mesmo da virtude em geral. A c onfiança em Deus bastava para o anacoreta na noite do deserto. em Clemente de Alexandria ). Durante o período de espera. Entre letrados. não se ocupavam das letras. ele nada promete senão trevas crescentes . Este reflui para as sombras. solapando-lhe as bases. a reação horrorizada dos letrados e da casta sacerdotal. no con texto greco-romano. Fala-se neste sentido de uma gnose islâmica. nobres. e do qual tiravam boa parte da sua autoridade. onde tratará de conservar vivas as suas forças. sacerdotes e iniciados. passado o susto inicial. afetação e arrogância de bárbaros. conhecimentos e atitudes antes reservados a umas quantas sociedades iniciáticas qu e. mostrando a a “sa bedoria mundana” um desdém que não nte tinha como não parecer. Somente o homem da fé pode enxergar ali a semente de um futuro glorioso.

.r isto prefiro designar com o termo diferencial gnosticismo.

de um só golpe. finalmente. ou “mundo” como o cenário onde se desenrola a história dessa alma. seu papel de interlocutoras entre a al ma e o divino. O único elemento fixo. As religiões podem ser dif erenciadas e classificadas. mas sempre presente. como pontos comuns a uma ampla variedade de escolas gnósticas. dar con ta. quanto à organização real ou ideal da sociedade humana para os fins que a alma deve cumprir. um conceito da natureza física. é Deus. ou que o Budismo fala mais da alma do que dos outros dois elementos. como aliás em todo o s imbolismo universal da cruz (Figura 2). Às vezes não sob esse nome. Imutável — a uma Causa ou Princípio metafísico. presente em todas as religiões. Na simbologia chinesa. De outro lado. e o horizontal a khien. de sua natureza. aqui. somente estudos volumosos podem. Esse diag rama não tem. Elementos do fenômeno religioso. Não há r eligião sem uma referência mais ou menos direta a um Absoluto. muito facilmente e sem qualquer inexatidão. A soci edade e a natureza perdiam. onde a vert ical simboliza a eternidade e a horizontal a temporalidade. por outro. do Infinito. Ele in dica simplesmente os quatro elementos básicos que estão presentes em todas as concepções religiosas do mundo. às vezes ocul tado sob um véu de obscuridade e silêncio como no budismo. Isso não quer dizer que os elementos menos enfatizados estejam de fato ausentes — qu er dizer apenas que essas religiões os tomam por implícitos. seja à natureza em torno.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 127 § 25. Note-s ue o homem aqui designado é o Homem Universal. ao menos. que no Judaismo a ênfase recai nas relações entre Deus e a comunidade h umana — o povo de Israel —. Em cada uma delas. a sacralização da sociedade (ou do Esta do). ligação direta com o simbolismo cristão do sacrifício do Gólgota. Leviatã e Beemoth Não cabe entrar aqui numa descrição aprofundada do fenômeno gnóstico. pp. A ênfase do cristianismo cai evidentemente no eixo vertical. nas relações diretas entre a alma e Deus. o Homem Universa l é a essência mesma da individualidade concreta. de longe. às vezes reduzido a um conceito metafísico abstrato. alguma noção. novo Adão. A Nova Era e a Revolução Cultural. molde do cosmos — transcendente ao co smos portanto — e não a individualidade empírica. um conceito da alma humana. ou o princípio metafísico do qual tudo se origina. se encontra algo como um conceito de De us. conforme a ênfase maior ou menor que dão a um ou outro desses três elementos na sua relação com o Ab soluto e conforme o jogo de compensações dialéticas que estabelece entre eles. 15-17 da 1ª ed. a “perfeição ativa”. . de um lado. como no hinduismo. É patente . orige m e destino. a religião cósmica. por exemplo. porém. e. a vertical corres ponde a khouen. de cuja amplitude e variedade. Figura 2. era eleva136 V. do Absoluto. O homem singular. com poucas referências seja à alma individual. Para me fazer entender. quase alucinantes. devo recorrer a um diagrama. da singularidade humana. Eterno. a “perfeição passiva” ou manifestação cósmica desse princípio 136. Mas não creio errar ao assinalar. Os outros três fatores são móveis.

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do a senhor do mundo, em luta aberta com as divindades da natureza — os djinns de que fala a tradição islâmica — e os poderes sociais, que a Bíblia havia condenado numa sen tença sumária: “Os deuses das nações são demônios.” É evidente, portanto, que a reação básica ristianismo assume desde logo a forma de uma luta pela restauração da natureza e da sociedade em seu estatuto anterior — de uma luta, portanto, contra o indivíduo human o, contra a alma, contra a consciência autônoma 137. Seria errôneo, porém, identificar d iretamente essa luta como uma luta contra a Igreja, contra o Papado, contra a In stituição Romana. Ao contrário, a própria consolidação da autoridade romana se faz, em grand e parte, romanizando o cristianismo, ressacralizando a sociedade: a Igreja conqu ista o mundo, mas deixando-se em parte conquistar por ele. O conflito entre expa nsionismo catequético e conservação da fé inicial acompanha toda a História da Igreja — em c ontraponto com a perene ambigüidade das relações entre Fé e Império, autoridade espiritual e poder temporal, que Dante simbolizou na luta entre a águia e a cruz. O cristian ismo, de fato, não quis destruir o Império, mas não podia submeter-se a ele; nem quis restaurá-lo, mas não podia subsistir e expandir-se senão sob a proteção dele. René Guénon, qu sempre deve ser ouvido nessas matérias, explica o fenômeno dizendo que o cristianis mo não tinha, originariamente, o espírito de uma lei religiosa, no sentido judaico o u islâmico de uma regra para a ordenação do mundo, mas o de um esoterismo, de um camin ho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo.” A exoterização do cristianismo, sua tr ansformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade, teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaismo deixavam o mund o greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo, mesmo a contragosto, mesmo ao preço de trair em parte sua vocação interiorizante, teve de pre encher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O cristianismo salva o mundo antigo, absorvendo-o num novo quadro, ma s, para isso, tem 137 O estudo mais inteligente já escrito sobre a influência do gnosticismo na história das ideologias no Ocidente é a obra de Eric Voegelin citada adiante na nota 244. A te se defendida neste parágrafo é amplamente inspirada em Voegelin, do qual no entanto me separam algumas diferenças menores, que se manifestarão nos parágrafos seguintes.

de se deixar absorver nele e transformar-se, mediante adaptações bastante deformante s, numa nova Lei exterior, na religião do Império 138. Não precisamos endossar por com pleto a tese de Guénon para admitir o fato patente de que o cristianismo, malgrado sua imensa força de renovação espiritual, não estava muito bem dotado para reorganizar a sociedade civil e política. No Evangelho não se encontra uma indicação, uma linha, uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica, da moral exterior, do di reito civil e penal, como se encontram com abundância na Torah, no Corão ou nas Escr ituras hindus. O cristianismo era essencialmente uma “via de salvação”, que voltava as c ostas para este mundo, concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. Para transformar-se numa força organizadora da Cidade Terrestre, ele teve de sofre r adaptações que arriscaram deformá-lo profundamente. Não existe, em toda a História das R eligiões, outro caso de uma moral religiosa que tenha passado por tantas mudanças e transformações. A moral social cristã, com efeito, não emerge pronta e óbvia da letra das escrituras, como a islâmica ou a judaica, mas se elabora aos poucos, ao fio de tre mendas disputas dialéticas, por obra dos teólogos e dos concílios, crescendo, não como a progressão linear de uma simples dedução lógica, mas como um organismo vivente, entre d ores e contradições. Assim, por exemplo, vemos o celibato clerical — hoje defendido co mo um valor essencial à preservação da fé — não ser instituído plenamente antes de dez século e discussões, numa Igreja cujo primeiro papa, o Apóstolo Pedro, fora um homem casado . Mesmo o rito, a expressão plástica da simbologia da fé, não tem forma fixa: em torno d e um núcleo essencial constituído pela Eucaristia, a missa adquire, ao longo dos sécul os, uma pluralidade de formas, ora com o sacerdote de costas para o público, ora d e frente, ora os fiéis tomando vinho e comendo pão, ora só comendo o pão e deixando o vi

nho para o sacerdote, ora sentados em bancos, ora espalhados de pé pela nave da ig reja, ora voltados uniformemente para o Oriente ora para qualquer direção ao acaso, ora rezando em latim ou grego, ora nas línguas locais, ora com música, ora sem música, ora confessando-se sumariamente em grupo, ora detalhadamente cada qual a sós 138

René Guénon, Aperçus sur l’Ésoterisme Chrétien, Paris, Éditions Traditionnelles, 2e éd., 1977 p. 826.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 129 com o padre, e assim por diante, numa variedade sem fim, conforme os tempos e os modos da História mundana. A singularidade desse fenômeno salta aos olhos quando co mparamos a infinidade das formas da missa com a fixidez uniforme das cerimônias ju daicas cristalizadas de uma vez para sempre na forma estabelecida pelo Antigo Te stamento; ou com a do rito islâmico, hoje exatamente o mesmo do tempo em que o ens inou o Profeta Mohammed (Maomé) ao exército medinense em marcha contra os infiéis aqua rtelados em Meca, isto para não falar da imobilidade multimilenar do complexo sist ema ritual hindu. Tudo isso mostra a profunda inadaptação do cristianismo à missão regul adora e civilizadora de que foi ncumbido pelo desenrolar dos fatos. Entre a inad aptação i congênita e a força da obrigação externa, o resultado foi duplo: de um lado, um es forço milenar e repetidamente fracassado para erguer um Império cristão, unificando o Ocidente. Com efeito, no Ocidente só existiu império cristão, no sentido mundial, dura nte o reinado de Carlos Magno. No restante da história européia o Império é apenas uma i déia unificadora, pairando no abstrato sobre um caos de principados e ducados perp etuamente em guerra uns com os outros. De outro lado, e em função mesma do fracasso do Império, surge a transformação do papado num poder temporal concorrente, com todo o seu cortejo de conseqüências nefastas. A principal, evidentemente, foi a mundanização d o culto, o rebaixamento da moral cristã a um receituário de exterioridades tão opressi vo e falso quanto o moralismo estatal romano, a cristalização progressiva da doutrin a num formalismo lógico-jurídico deprimente e, por via de conseqüência, a politização comple ta da religião na época pósrenascentista, como um conservadorismo monárquico, de início, q ue aos poucos iria se transformando no seu contrário: num ativismo republicano, li beral e socialista. Mas não foi só dentro da Igreja que o espírito do mundo romano per maneceu atuante: em volta dela, e contra ela, pulularam desde os primeiros séculos as seitas gnósticas. Nelas conservava-se o espírito da religião cósmica — o outro compone nte do culto estatal greco-romano. É como se o espírito pagão se houvesse bipartido: s eu gênio político, histórico e jurídico infiltrou-se na alta hierarquia da Igreja, enqua nto sua religião cósmica, seus deuses naturais, se refugiavam no gnosticismo. Eis aí, desde o início da história cristã, perfilados os dois inimigos que se opõem a

Deus e à alma: o “mundo” e a “carne” — de um lado o espírito da sociedade política, de outro ulto das forças materiais do cosmos. A aliança de religião estatal e religião cósmica opõe-s e à aliança de Deus e do homem. A dimensão sociocósmica (khien) pretende subjugar, engol ir e eliminar a dimensão espiritual e metafísica (khouen). Mas khien é, em si mesmo, d uplo. A entronização do sociocósmico desencadeia, imediatamente, uma nova luta. Quem r einará: a sociedade ou o cosmos, o homem ou a realidade externa, a história ou a nat ureza? Aparece aí, com toda a clareza, o tema dominante de todos os conflitos de i déias no Ocidente desde o Renascimento. Derrubado o eixo vertical, o horizontal não pode permanecer de pé, pois não há entre seus dois termos a desigualdade flagrante que há entre o indivíduo humano e Deus: história e mundo, cultura e natureza, valor e fat o, jamais podem chegar a um acordo senão tomando como fiel da balança a vertical que aponta, para cima, a esfera das leis metafísicas, os limites do possível e do impos sível, e, para baixo, os desejos e aspirações da alma humana singular. Retirados de ce na a alma e o Absoluto, resta apenas o combate de Leviatã e Beemoth: o espírito da r ebelião autolátrica que comanda a História, o espírito da submissão cega e mecânica à naturez exterior. Um novo diagrama mostrará as alternativas em que o Ocidente se debate há quatro séculos: COSMOS LEIS FÍSICAS EXPERIÊNCIA NATUREZA MECANICISMO Nature Behemoth versus versus v ersus versus versus versus versus HUMANIDADE LEIS DA RAZÃO PENSAMENTO HISTÓRIA VITAL ISMO Nurture Leviatã Muitas vezes me perguntei se os significados atuais e correntes da “esquerda” e da “di reita”, que o folclore político data da reunião dos Estados Gerais sob Luís XVI, não teria m uma origem anterior, na disputa entre os dois braços da cruz para decidir, uma v ez a cruz tombada, qual ficaria para cima.

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É surpreendente, mas a história das idéias nos últimos quatro séculos pode ser todinha con tada como uma série de variações, na verdade bem monótonas, em torno do tema da disputa entre os dois braços da cruz. Já em pleno Renascimento, o antagonismo perfila-se ent re os cientistas naturais, firmemente decididos a abandonar a tradição aristotélica (o u o que assim denominavam) pelos novos métodos experimentais, e os humanistas, emp enhados em restaurar o amor aos clássicos gregos. Os primeiros romperam com o sent ido de continuidade histórica das ciências, acreditando possível fazer tábua-rasa e ler direto do Livro da Natureza. Os segundos, redescobrindo a Poética de Aristóteles, en cadearam numa rígida obediência aos cânones aristotélicos o gosto literário por três séculos, ao mesmo tempo que inauguravam, com a crítica de textos, a moderna ciência histórica. É incrível como dois movimentos de sentido antagônico possam ter entrado para os livro s de História com a denominação comum de “Renascimento” 139. No século XVII, as duas corrent es contrárias serão por assim dizer oficialmente separadas em compartimentos estanqu es com a abertura das faculdades parisienses de “Letras” e de “Ciências”, inaugurando as “du as culturas” de que falaria mais tarde C. P. Snow. Ao mesmo tempo, o debate filosófi co cristaliza-se no antagonismo entre empiristas e racionalistas — os primeiros at ribuindo ao mundo, ao objeto externo, a origem de todos os nossos conhecimentos; o segundo extraindo-o pronto ou semipronto de dentro da razão humana. No século seg uinte, o nascimento do historicismo assinala o começo da disputa entre os deuses d o tempo e os deuses do espaço. O antagonismo só será formulado expressamente no fim do século XIX, com Windelband e Rickert, mas em Vico já se observa a disputa de priori dade: em oposição à ciência físico-matemática, a História é promovida a modelo supremo do con imento. Finalmente, no século XX, o conflito entre capitalismo e comunismo evolui para a f orma final da disputa entre a “Nova Era” e a “Revolução Cultural”. E no auge desta disputa é ue entra em cena o iogue-comissário. LIVRO V - CÆSAR REDIVIVUS 139

Sobre este paradoxo na história da influência aristotélica e este antagonismo no seio do Renascimento, v. meu livreto Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. Introdução à Teor ia dos Quatro Discursos, e também Pensamento e Atualidade de Aristóteles, transcrição po r Heloísa Madeira, João Augusto Madeira e Kátia Torres, 12 fascículos, 5 já em circulação ( R o, IAL, 1994 ).

CAPÍTULO IX. A RELIGIÃO DO IMPÉRIO § 26. De Hegel a Comte O iogue-comissário, personificando a reconciliação entre a Nova Era e a Revolução Cultural , deveria trazer-nos, logicamente, a solução de todas essas antinomias. É isto, de fat o, o que ele nos promete. Mas é claro também que não pode realizá-lo em hipótese alguma, p ois uma contradição, qualquer que seja, só pode ser resolvida desde um terceiro termo superior que abranja e contenha os dois opostos; e o iogue-comissário, não podendo e levar-se ao plano da universalidade metafísica que é o único desde o qual os dilemas d a cultura Ocidental se unificam e se resolvem, apela para o clássico expediente do s neuróticos: amortecer o conflito mediante a queda num sono depressivo e auto-hip nótico. Estreitando o horizonte da consciência, ele expele de seu campo de visão as fo rças em luta, e procura persuadir-se de que tudo o que não enxerga não existe. Mas nem séculos de prática do tetrafármacon poderiam nos impedir de ouvir, por trás das palavra s calmantes de Motta Pessanha, o ronco ameaçador da catástrofe que se aproxima: uma vez desaparecida dos céus a imagem do eterno, a luta entre os deuses do tempo e os deuses do espaço prosseguirá até o desenlace fatal, que só pode ser a vitória do mais for te. Ora, dos dois monstros, o mais forte é sempre Beemoth, a ordem do universo físic o. A derrotada é sempre a comunidade humana, instável e nervosa, a debater-se nas água s, raivosa e humilhada, sob o peso esmagador das patas do adversário.

Não é mesmo significativo que, no auge do ufanismo científico que celebrava o domínio da comunidade humana sobre a natureza, os cientistas mesmos venham nos alertar par a os perigos iminentes que nos chegam cada vez mais ameaçadores do cosmos físico, e, mudando de tom, passem do triunfalismo prometéico à pregação de uma resignada e humilde “colaboração com a natureza”? 140 É que eles ouviram o baque surdo das patas de Beemoth, que vem novamente esmagar Leviatã. Mas tudo o que podem fazer é trocar às pressas de d ivindade, passar da rebelião prometéica a um conformismo obediente de bonzos orienta is, até que a vontade humana de poder se rebele novamente, para novamente ser esma gada, e assim por diante até a derrota final. Não, não adianta trocar o culto de Levia tã pelo de Beemoth. Esta troca, cíclica e repetitiva até à alucinação, é ela mesma o problema o mal que sacode e gira há séculos o Ocidente numa alucinada dança de dervixes bêbados que se esqueceram de Allah e caíram na idolatria da dança mesma. As duas mãos de khien só param de estapear-se uma à outra quando se juntam na comum obediência a khouen. Ma s, se o remédio proposto pelo iogue-comissário para debelar o vício é apenas uma nova in jeção da mesma velha droga, então cabe a pergunta: Quia bono? Quem ganha com isso? A q uem serve o iogue-comissário, sabendo ou não? Terminada a Revolução Francesa, Augusto Comte, empreendendo o balanço contábil das conqu istas ideológicas desse magno evento da modernidade, chegou à conclusão de que o saldo estava em vermelho. Esta cor não se referia ao sangue derramado entre discursos, mas ao fato de que a Revolução, tendo cortado junto com a cabeça do rei também as raízes m orais e religiosas do Antigo Regime, nada pusera em seu lugar: com o deficit ide ológico daí resultante, as massas sentiam-se boiando num desesperante vazio espiritu al, que as conquistas sociais não bastavam para aliviar 141. Qual a solução? Voltar ao catolicismo? Nunca! Diante das circuns140 141 V. A Nova Era e a Revolução Cultural, Cap. I. Comte nem de longe prestou atenção ao fato de que as referidas conquistas, consistindo basicamente no serviço militar obriga tório, numa carga tributária superior a tudo o que a monarquia ousara sonhar e na

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tâncias, Comte tomou então uma atitude que bem mostra a superioridade dos tempos mod ernos: ao contrário dos antigos profetas judeus, aqueles preguiçosos que fugiam ao a pelo divino até que Jeová os capturasse a laço entre invectivas e ameaças terrificantes, o nosso filósofo não se fez de rogado, e aceitou mais que depressa a incumbência de f undar o novo culto, incumbência que lhe fora aliás atribuída por ele mesmo. Não é preciso dizer que morreu louco. A nova religião teria três características principais: 1º Seria uma religião do Estado: o homem dos novos tempos serviria ao Estado como outrora o s fiéis tinham servido à Igreja. 2º Para marcar sua ruptura com a era anterior, ela in stituiria um novo calendário, com ritos festivos dedicados aos “grandes homens” cujo a dvento a este mundo marcara as etapas decisivas do “progresso histórico”. 3º A nova reli gião assinalaria o ingresso da humanidade na etapa decisiva de sua evolução temporal — a “era positiva”, marcada pelo predomínio da ciência e da técnica, após a “era mítica” inicial ra metafísica” intermediária. Nessas três características aparecem os traços básicos que defi em o que chamei divinização do tempo: a identificação da lei religiosa com a lei civil ( ou absorção da Igreja pela sociedade política), o culto dos antepassados e o conceito da dimensão temporal como campo onde se realiza um progresso predestinado. Em suma : Cæsar redivivus. Mas a nova religião não era tão nova. Em primeiro lugar, ela simplesm ente dava expressão mais detalhada à idéia hegeliana do Estado como sucessor da Igreja : se Comte era o Messias da Religião da Humanidade, Hegel fora pelo menos seu São João Batista. Para piorar, a religião de Hegel não ficara só na idéia: a Revolução chegou a real izá-la integralmente. Em 7 de junho de 1793, a Convenção, reunida sob a presidência de M axilimilien Robespierre, votou um Catecismo em quinze artigos. O primeiro reconh ecia a existência do Ser Supremo, que se distinguia daquilo que o Antigo Regime ch amava de Deus por ser menos uma Pessoa do que um conceito abscriação da maior burocr acia administrativa e policial que o mundo já conhecera, não eram mesmo de molde a a liviar o que quer que fosse.

trato: o deus do deismo, em suma. Os artigos 2 e 3 fixavam os deveres para com o Ser Supremo: odiar os tiranos, punir os traidores e outras coisas pelo gênero. Os artigos seguintes estabeleciam rituais festivos incumbidos de recordar ao homem sua dignidade e seus deveres. São trinta e seis festas por ano, dedicadas ao Ser Supremo, à República, à Justiça, à Frugalidade e a outras coisas excelentes, entre as quai s a Indústria e a Agricultura, e mais quatro celebrações extras, a principal das quais em 14 de julho. Marcada a primeira festa para a data que coincidia com o doming o de Pentecostes, o pintor Jacques-Louis David foi encarregado dos detalhes litúrg icos, que incluíram uma procissão, com o sumo-sacerdote Robespierre à frente, hinos ao “Pai do universo, suprema inteligência”, chuvas de flores, disparos de canhões e um des file da estátua da Liberdade num carro puxado por oito bois. Depois disso, que mai s restava a Augusto Comte senão chover no molhado? Até o título do opúsculo em que divul ga suas concepções religiosas é copiado do decreto da Convenção: Catéchisme. A religião de Co te não foi adotada em parte alguma, exceto na borda esquecida do mundo: no Império d o Brasil, onde valorosos oficiais militares, descontentes com a monarquia que não dera o devido reconhecimento ao Exército que vencera galhardamente tropas paraguai as compostas de meninos de 8 a 15 anos de idade, sonhavam em implantar no país uma ditadura republicana inspirada na divisa do Mestre: Ordre et Progrès. Na Europa a Religião da Humanidade acabou sendo esquecida, junto com seu antecessor imediato, o culto robespierreano do Ser Supremo. Mas deixaram, lá e cá, uma infinidade de mar cas, entre as quais um inesgotável calendário cívico, que, celebrando as secretárias, os motoristas, as mães, os pais, os namorados e tutti quanti, oferecem duas vantagen s indiscutíveis: fazem esquecer o calendário litúrgico da Igreja e fomentam os negócios. Na verdade fazem mais que isto: fornecendo um Ersatz para a experiência religiosa do “tempo qualificado” — épocas especiais em que o fluxo dos eventos muda ciclicamente de tonalidade, recordando ao homem a relatividade do tempo e a imersão de tudo no eterno 142 — , o calendário cívico ajuda a aprisionar a mente 142

bem como — com reservas — Mircea Eliade. Gallimard. . 1979. Comentários à “Metafísica Oriental” de René Guénon.Sobre a noção de “tempo qualificado”. Paris. e notas de Olavo de Carvalho. Spe ulum. 1983. São Paulo. v. introd. Le Mythe de l’Éternel Rétour. o trabalho excelente de Michel Veber.

contemplando o mar e as montanhas. de agonistas e protagonistas. não são senão ecos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 133 humana no tempo socio-econômico. na História do Ocidente. Uma das provas do mau estado da teoria política hoje em dia é que. Napoleão Bonaparte fez saber à Igreja q ue já estavam longe os tempos em que o Império fazia à autoridade religiosa uma concor rência meramente política. o movimento profundo: a luta pela formação do Impér io. Levantava-se agora ante o cristianismo a figura temível do oponente espiritual. povo.” S. s empre inquieto. sem jamais desaparecer de todo. morre aqui para renascer ali. sua religião foi para o túmulo com ele. exercendo um forte apelo sobre todo homem a quem o poder sobre o reino de ste mundo parecesse uma ambição demasiado estreita. não se passou um dia. a agitação na superfície das água . a um tempo. derrotado por um punhado de reis à antig a. Excetuando-se o período que medeia entre a queda de Roma e o reinado de Carlos Magno. do o utro lado do oceano. É. em segundo lugar. Quem acompanhe a história das idéias políticas em contraponto com a históri a das ações políticas e não como uma sucessão de teorias a boiarem no céu das idéias puras. pesam sobre os homens com o peso de uma coerção física. P AULO APÓSTOLO A história política do Ocidente pode ser. reflexos. de maneira discreta mas decisiva. Século após século. sem erro. nação. Derrubado Robespierre. uma realidade proble mática: em contraste com a unidade estável e o crescimento orgânico de Roma. proteiforme. fr utos da decisão humana. a realida de decisiva. raramente lhe sobra tempo para investigar a at ualidade do fenômeno “Império”. das mudanças de povos e fronteiras. Translatio imperii: Breve história da idéia imperial “Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus. enquanto ele se extinguia na dor e na humilhação do exíl io. soberania. No quadro de uma organização social onde horários e rotinas. das revoluções. sinta retornar à “realidade”. a idéia da religião de Estado prosperava. vemos sucederem-se tentativas de renovar o feito máximo de Roma: unificar. guerras e crises. conflitos religiosos. de doutrinas e de métodos. uma multiplicidade de povos. líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre. Napoleão terminou mal. não empenhasse o melhor de si no esforço de elevar-se a Império ou como tal não fosse reconhecido pelos demais. É. em que alg uma nação. É. que oculta e revela. o Império não ces sa de existir: transfere-se para Bizâncio. reinos e dinastias que surgem e se desvanecem. re voluções políticas e culturais que se sucedem. elevado ao estatuto de u ma realidade metafísica. Ela acabou sendo absorvida por a quele que sepultou a Revolução sob os alicerces de um novo Império: ao coroar-se a si mesmo. reinado. ao retomar seu lugar na fila do relógio de ponto. coroados pela Igreja. o Império d o Ocidente. imagine sonhar . Em volta desse tema dominante. Leviatã a agitar-se nervosamente no fundo das águas. E mesmo nesse período. e que. em terceiro lugar. direitos —. mas a idéia permaneceu no ar. Mas. se mpre sonhando com a estabilidade do poder. § 27. sempre condenado à metamorfose das guer ras. viagens e d escobertas. muda d e centro e de contorno. facilmente resumida como a históri a das lutas pelo direito de sucessão do Império Romano. convivendo na har monia de suas diferenças e todos contribuindo para a riqueza e grandeza do Império. dispensando a consagração papal que por séculos fora tida como a garantia espir itual indispensável à legitimação do poder temporal. l egitimidade. O Império não é uma teoria: é uma realidade. no tempo administrativo. entre tantas discussões de conceitos puramente formais e até mesmo convencionais — democracia. em primeiro l uma realidade contínua. sob uma mesma legislação e um mesmo governo. não é de esp antar que o empregado em férias. v rificará que jamais houve no .

Há algum conceito que mereça estudo mais urgente que o de “império”? Tu do o mais são palavras. aristocracia. a escravatura ou a abolição. dois grandes impérios. Se fosse uma teoria. com a mesma se renidade de quem sabe que uma só coisa importa: salvar a unidade do Estado que inc orpora o projeto da Revolução Americana. sua língua. dominância da idéia de Império não é uma teoria: é um fato. Também ele terminará por ceder. deveres e direit os. revolução e reação. que não fosse absorvida para servir de pretexto e reforço na l uta pelo Império. Os pensadores políticos e religiosos do Ocidente não criaram uma só idéia que. administrando sabiamente as diferenças nacionais. e. só caindo na tentação imperialista ao contaminar-se de idéias Ocidentais. seus costumes. revolucionária ou reacionária. poderosíssima e no entanto acomodada dentro de suas fronteiras durante milênios. é elevado à condição de supremo magistrado do universo. batalhões e esqu adrões em que se escande o descomunal exército empenhado num só objetivo: a formação do Im pério. capit alismo e socialismo. ordem e liberdade —. perdida que foi há tempos a vocação imperial que o animou até o século XII. disputaram entre si a primazi a da unificação política e cultural do mundo. mas desde a perspectiva dos resultados reais a que ser vem na escala dos séculos. Como Lincoln. Não. cuja oposição aparente mascara apenas o fato de girarem em t orno de um mesmo eixo. Mas nada de similar a esse fato tipic amente Ocidental se observa no Oriente. exceto a de sua missão unificadora. uma realidade atual: durante um século. república e democracia. e um fato específico da História Ocidente. parecendo guerrear-se entre si — democra cia. Seu único opositor — o p ovo islâmico — agita-se apenas no fundo da sua raiva impotente. o Império é notavelment estituído de convicções teóricas. Veja-se o mundo islâmico. Como um de seus mais célebres heróis — Abraham Lincoln —. mas sempre temido —. à luta de classes. Tão forte é o magnetismo da idéia de Império. Não pode refutarse mediante argumentos teóricos. Do alto de seu trono solitário — amado. o domínio colonial ou as reivindicações de independência nacional. assegurar a continuidade da marcha ascenden te dessa Revolução rumo ao Império do mundo. e todas aquelas outras bandeiras em nome das quais os homen s matam e morrem.134 OLAVO DE CARVALHO Ocidente uma só doutrina. Teocracia e mona rquia. monárquica ou republicana. impondo por toda a parte suas leis . A morte de um deles eleva o outro a uma posição de domínio mundial superior a tudo quanto haviam sonhado os seus antecessores. não servisse a incentivar ou a legitimar a luta por essa finalidad e. um poder expl icativo sobre o processo histórico em geral. pretenderia ter um alcance genérico. ao determinismo geográfico a outras forças às quais os teóricos atribuíram o papel de “motores” do acontecer histórico. quando vistas já não desde o ponto de vista das motivações subjetivas que movem os seus mártires. seus valores. belas palavras que. É. após terem destruído todos os demais. que as outras orbitam em t orno dela como satélites. liberalismo e social-democracia. comichão passageira e mal sucedida. o moralismo puritano ou a rebeliã exual. mais dia menos dia. invejado. tem de ser discutido no terreno da narração histórica. Prevendo objeções levianas que nossos acadêmicos semiletrados não deixarão de apresentar. escr avagista ou libertária. finalmente. revolução e reação. onde a eclosão de um surto imperialista é an tes uma exceção do que uma regra. senhores: o imperialismo não é uma pretensa “lei histórica”: é um fato ocorrido numa certa parte do mundo. liberal e socialdemocrático. incapaz de organizar -se. revolucionário e reac ionário. Veja-se por exemplo o caso da China. de servirem a um mesmo propósito e senhor. e que no fundo está pouco se lixando para essas distinções. odiado. nada mais fizeram senão ajudar a apressar e a legitimar a a scensão mundial do Império que é um tempo democrático e aristocrático. que só o comprova. e ssa é a única constante 143. nacionalismo e internacionalismo. ele ap oiará a revolução ou a reação. já não são mais que os estandartes das divisões. perpet uamente dividido em nações hostis e só de raro em raro tendo alguma iniciativa de unif icação imperial. . Em toda a variedade de processos e mutações que constitui a história do Ocidente. esclareço que não estou com isso inventando uma “teoria da História”. ele 143 vai unificando e homogeneizando a humanidade. que substituísse o con ceito de “Império” aos “três estados” de Comte.

Em Roma. Esses poderes. que só podia partir dos militare s. eram ambos igualmente submissos a . o Império form a-se como evolução quase fatal de uma República onde uma dualidade de poderes — civil e militar — convidava desde séculos a uma unificação forçada. Se esse retorno é problemático. se em vez de tomar a forma de uma resta uração duradoura ele se estiola em tentativas incessantes e sangrentas que não levam a parte alguma.O Império Romano parece pairar sobre a mente Ocidental como o fantasma de um morto ilustre que não quer acabar de morrer. se serve deles como instrumentos de seu esforço para voltar à vida. e que. no entanto. é por uma série de razões muito simples e claras. atuando sobre as almas dos vivos co mo uma obsessão subconsciente.

Histoire de l’Église. Mas. exercia nele um primado sobre a casta guerreira. Era preciso aproveita r um filho de uma das nobrezas locais bárbaras. que darão ori gem a uma série infindável: a síntese romana das castas sacerdotal e real desfizera-se para não mais voltar. amarrado pelo compromisso do celibato 146. o clero. I. a resistência da casta nobre a qualquer forma de estudo e a uma participação mais séria em atividades religiosas era um fato consumado. t. nos intervalos de suas obrigações políticas e militares. em que senadores e cônsules. as funções de líderes políticos. A isto aliou-se uma série de conflito s entre o papado e o Império Bizantino — conflitos que prefiguram em miniatura aquel es que se manifestariam entre a Igreja e o Império Ocidental. começa a sonhar com uma transferência do Império para o Ocidente 144: e a translatio imperii será a in auguração da autêntica Europa 145. de outro lado. é verdade. os nobr es tinham pelo clero um sentimento misto de temor e desdém: de um lado. O termo translatio imperii é usado normalmente para designar a transferência do Impéri o de Roma para Bizâncio. a Igreja. não podia fazer simplesmente brotar de si a semente de uma dinastia. Desse momento até aquele em que a cabeça de 144 145 Cf. c onsolidada pela religião do Estado. 1891. por volta do século VIII. essa unidade inexistia na Europa medieval. O impulso de transferir para a autoridade civi l ao menos parte dessas responsabilidades foi um dos motivos que fizeram a Igrej a aspirar por um retorno do Império Ocidental. ao sacer dócio. que entrava como convidada. envoltos no prestígio temível do s portadores de dons mágicos. Ora. Armand Colin. na hora de fazer reviver o império Ocidental em versão cristianizada. para designar todas as mu danças do eixo do poder imperial no Ocidente. já que o clero colhia seus membros em todas as classes e os nobres não podiam ver com bons olhos os antigos servos que de repente apareciam investid os de autoridade e poder. pp. Mas. Consideravam-se essas coisas indignas de guerreiros. Demasiado distante d e Bizâncio para poder desfrutar da proteção imperial contra os bárbaros. Aqui emprego-o em sentido lato.. que cobria mais ou menos o territóri o equivalente ao do antigo Império. até pelo menos . em primeiro lug ar. Nesse interval o. xerifes etc. generais e imperado res exerciam pessoalmente. S e os antigos imperadores romanos eram eles mesmos os sacerdotes do culto estatal . ao temor reverencial misturava-se o d esprezo social. Em terceiro. as funções sacerdotais. entre cujas vítimas se encontravam aliás seus fun dadores — a legião dos primeiros mártires cristãos. onde as primei ras tentativas de restauração do Império já trarão dentro de si a contradição constitutiva qu as levará ao fracasso: elas constituirão um esforço para enxertar as instituições romanas no quadro de uma religião que. os imperadores da Europa terão de contentar-se com o estatuto de governantes out orgados e legitimados por uma outra casta. inexistindo uma administração estatal. criando aos esforços educacionais da Igreja obstáculos intransponíveis. a Igreja de Roma. Em segundo lugar. Eis aí os primeiros tropeços. os padres tiveram de acrescentar. repelia com verdadei ra ojeriza a idéia do culto estatal. O Império constrói-se sobre a unidade moral e religiosa do povo romano. tabeliães. demasiado sujei ta à autoridade bizantina para poder recusar-lhe o pagamento de pesados impostos. o que terminou por fazer do clero uma estrutura administrativa informal. sendo abundantes. patrocinando o projeto do Império . 359 ss. bem como aos ritos de um mesmo cu lto público. O problema básico da história política Oc dental pode assim resumir-se na sucessão de tentativas para encontrar uma resposta prática a um problema prático: como restaurar o Império romano sem a religião estatal r omana? A Igreja como força organizadora da sociedade nascera justamente no período m encionado acima.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 135 um conjunto de normas tradicionais de conduta. Essa resistência durará até o século XV pelo menos. entre a queda do Império e a coroação de Carlos Magno. só obrig ava completamente os escalões superiores do clero. Funk-Hemmer. por sua inspiração mais profunda. 146 Compromisso que. os padres eram para eles os equivalentes dos antigos druidas. Paris. cristianizar e educar o jovem guer reiro para torná-lo um rei cristão e depois um imperador cristão.

os padres casados — uma arraia miúda. op. porém.o ano 1000. Funck-Hemmer. cit. . passim. que não poderia ter expressão num caso como o que estou discutindo aqui. Cf..

Glutão. Pepino de Herstal. o impe ador cristão terá de se contentar com algo mais modesto: Carlos Magno considera-se o braço armado da Igreja. o executor terrestre dos desígnios da Providência. mais surpreendente ainda. se mostra estritament e apegado à moral cristã. liberal avant la lettr e. editasse livros e. recentemente cristianizados. severo consigo mesmo e com os outros nobres. permitia que elas tivessem quantos amantes desejassem. Carlos Magno é sagrado imperador no ano 800. Para conferir ao seu poder o prestígio sacral que a tradição gaulesa a nteriormente atribuía à descendência de Clóvis. Mas o fato é que a síntese imperial-cristã não residia senão na perso alidade de Luís. esse brutamontes revelouse no entanto capaz de estender os domínios do império. uma breve consulta aos padres liquidava o problem a. Luís. consente mesmo em ap render a ler. que são enfim levadas até os confins da cristandade latina por seu irmão e sucess or. O filho bastardo de Pepino. Morto o Imperador. e que. caos e obscuridade. Se os antigos imperadores romanos eram tidos como e ncarnações das divindades — Júlio César era aceito como descendente carnal de Vênus —. o drama do Império Ocidental tomará a form a ostensiva de um conflito entre sacerdócio e realeza 147. impondo sacri fícios em nome da unidade imperial e da ordem jurídica. subindo ao poder após a morte do pai. cristianizando à força os povos vizinhos. Apesar da manifesta sinceridade da sua fé. por um raro acidente psicológico. Ele amava tanto suas duas filhas que temia acim a de tudo que elas se casassem e fossem morar longe dele. Carlos Magno conservava no entanto a lguns hábitos pessoais que dão bem a medida do abismo que existia entre a mentalidad e da nobreza bárbara e a do clero. que impedia a d ivisão das terras do Império por herança. em que se harmonizavam. Apesar da proverbial host ilidade dos nobres à cultura letrada. Ele não vê nenhuma contradição entre mandar no mundo e obedecer aos céus. Carlos Magno. formasse uma biblioteca. seus sucessores. São Bonifácio.136 OLAVO DE CARVALHO Luís XVI rolará pelo solo cortada pela Revolução. e de administrar com muita habilidade as diferenças entre os vários intere sses nacionais — foi um Imperador na plena acepção do termo. dentro do Palácio e não se afastassem nunca do querido papai. alcança o seu p rimeiro momento de esplendor intelectual e artístico. A Igreja tira as conseqüências políticas do fato consumado: o Império restaurara-se por si mesmo na pessoa desse jovem guerreiro de dois metros de alt ura. já imperador. Este futuro parece a inda mais promissor quando o sucessor de Carlos Magno. ele teve ainda a sabedoria de dar carta bran ca ao monge e filólogo Alcuíno. tinham uma fé mais ardente e sem contági os. Ele torna-se r ei dos francos. que uma seqüência de felizes acidentes h . contanto que vivessem com eles 147 A Revolução apenas mudará a forma desse drama. A Europa. como veremos adiante. cruel com os inimigos. cuja coragem e força prodigiosas se ombreavam com a sua manifesta fé religiosa. O problema do Império cristão pa recia estar resolvido e tudo anunciava um futuro grandioso. é a essência da chamada “modernidade”. sem resolvê-lo. mas adia a realização da promessa e só adquire as primeiras letras aos 3 2 anos de idade. pusesse e m ação o primeiro plano de alfabetização universal de que se teve notícia na história do mun do. amplia as conquis tas. unge a ua fronte com óleo bento — inaugurando o costume da sagração dos reis. Se houvess e dúvida quanto a esses desígnios. o Império não durou nem um dia a mais: contrariando uma lei recém-promulgada. dá a esta a base para começar a reconstrução do Império. Charles Martel. o emissário da Igreja. dado a acessos de fúria. A solução foi temporariamen te encontrada numa família de nobres francos que pareciam menos selvagens que seus pares. o Piedoso: a aristocracia parecia haver absorvido completamente seu pa pel no Império cristão. Para impedir que isto acontecesse. exigiram a partilha segundo as velhas tradições gaulesas: o Império desmembrou-se e voltaram à ce na todas as contradições entre nobreza e clero. Essa mudança. numa recaída fatal. e recebendo por isto o apeli do de Luís. após quatrocentos anos de dispersão. subjugando várias províncias francas e colocando-se sob a aut oridade da Igreja. para que reunisse na corte os maiores sábios do tempo. Vencendo resistências interiores. as melhor es qualidades da nobreza bárbara e a fidelidade à Igreja.

não podemos dei- . a facilidade com que o Império bizant ino se instala e se estabiliza por mil anos para uma vez ferido pelo invasor des aparecer para sempre. a sucessão de tentativas dramáticas e sangrentas a q ue o Ocidente se entrega — até hoje — no empenho de realizar a idéia imperial.avia camuflado por algum tempo. floresce em riqueza. no Oriente. Enquanto isso. Bizâncio prospera. de um lado. Quando comparamos. poder. cu ltura. A primeira Roma cristã havia durado apenas o tempo de três gerações. de outro.

Marca na verdade uma segunda translatio imperii — dos franceses para os alemães —. Cada feudo fecha-se numa desconfiança rancoro sa. portugueses — fundaram mais tarde seus próprios impérios. Mas é que. vivia na capital.. Q uatro dentre eles — ingleses. Concebido para atender a dois objetivos — s er o braço armado da Igreja e unir sob um governo central os reinos cristãos. mais de um Papa foi destronado e perseguido por or dem do Imperador. jamais tiveram esses hábitos. Com as invasões. Não que os antigos fossem tolos. Por que foi assim? As causas do fracasso são tão patentes que chega a surpreender-no s. Uma ou duas vezes por ano. sobre uma base feudal. Mas que diferença entre os dois feudalismos! O antigo nobre. ele já não existia senão no papel. ou. Durante a maior parte de sua existênc ia. fundado em 962 por um pa cto entre o rei Otto I e o Papa João XII — durará até 1806. recolhia os lucros e voltava à cidade. filósofos. essas unidades autônomas chegavam a mil e oitocentas. viveu às turras com o Papado que deveria representar. para percebermos os fatos. muitos desses feudos mudam de donos do dia para a noite. hoje. não basta que eles estejam diante de nós: é preciso ter os conceitos (de con + cepio = “captar junto”). De outro lado. trata m de organizar exércitos particulares. ele visitava suas terras. os nobres se retiram definitivam ente para suas terras e. É que é fácil compreender o que se pa ssa. nem a outra. Napoleão mandou extinguir o antigo Império. Na época dos últimos Habsburgos. têm de ser defendidas pela espada. como um “coronel” do sertão pernambucano. pelo m enos Ocidentais —. Em primeiro lugar. Com a dissolução do Império. Mas nunca passará de um projeto. Nenhuma outra civilização mostrou uma vocação imper ial tão absorvente e uma incapacidade tão profunda de dar a essa vocação uma expressão estáv el. desde logo . E os conceitos que hoje nos tornam claro e patente o sentido desses antigos eventos foram uma invenção muito posterior. espanhóis. Era. era impossível construir um novo I mpério com modelo romano sobre bases econômicas tão diferentes das romanas. sua casa era frequentada por artistas. de uma comédia. em giros caóticos onde seus contemporâneos não enxergavam nenhuma forma ou sentido. pior ainda. os novos. não contando mais com a proteção de um governo central. Quando. sobre as ruínas do antigo. embora o termo seja usado em ge ral exclusivamente para a mudança do Oriente para Ocidente. com um muro de impossibilidades. oficiavam os cultos públicos e depois faziam carre ira no Exército. brilhava no Senado. mais de um Imperador foi excomungado e humilhado pelo Papa. Seus filhos desempenhavam funções sacerdotais. entre os seus pares.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 137 xar de notar algo de estranho no fascínio que essa idéia — e a impossibilidade de real izá-la — exerce sobre a mente Ocidental. os fatos deviam voar como moscas . os esquemas menta is que nos permitam apreendê-los na unidade das suas relações. Que ninguém se deixe aqui enganar pelas palavras: o regime era “feudal” num caso como no outro. em 1806. de origem bárbara. muitos I mperadores não chegaram seq uer a ser sagrados pelo Papa. que os protagonistas não as percebessem em tempo de tentar mudar o curso dos eventos. dis persa por um território imenso e dividida por hostilidades e entrechoques de inter esses inconciliáveis? Mais ainda: como impor a unidade sem uma classe dirigente ca paz? Os remanescentes da antiga nobreza esquecem os hábitos de cultura e refinamen to. a maioria dos povos cristãos se recusou a submeter-se ao Imperador. A segunda Roma Cristã Ocidental — o Sacro Império Romano. nunca realizou nem uma coisa. o Império não passou de um aglomerado de principados e ducados independentes e m utuamente hostis. Na falta deles. A construção do Império europeu defronta-se. Por um milênio. uma aristocracia urbana. não sabendo se deve temer mais as ambições dos vizinhos ou as hordas bárbaras que co ntinuam chegando e devastando tudo.. A aristocracia agora é uma 148 . ia ao teatro. e a primeira é: Como impor a unidade política e a dministrativa sem uma aristocracia urbana — sem a unidade da classe dirigente. cu ltíssima e politizada 148. depois que se passou. As fronteiras das propriedades tornam-se instáveis. franceses. e nós inteligentes. belas damas.

o clássico ens io de Max Weber continua insuperável. jul. XIII. t. 1926. Uma tradução — “La decadencia de la cultura antigua.Sobre a organização econômica do Império Romano e as causas de sua dissolução. Não sei se existe outra. . Sus causas sociales” — foi publicada na Revista de Occidente ( Madrid ). nº 37.

o conflito toma a forma de um periclitante equilíbrio de forças. Bonifácio é preso e agredido fisicamente. trad. prefere ficar em cima do muro. e em represália o Papa edita a bula U nam sanctam. A Idade Média. só para tudo terminar numa pizza póstuma. as raízes de um 150 Edouard Perroy. desencadeando um terremoto. quando era tarde e a Igreja já estava demasiado enfraquecida. sem direito a ter bens pessoais ou a const ituir família. viu-se numa situação medonha: todas as propriedades tinham s ido distribuídas. O rei da França. em parte pelas guerras de conquista. um homem dotado de antevisão histórica q uase profética 151. libertado após três dias. reclamavam medidas disciplinares que só vieram. a Igreja mesma havia mudado a sorte dessa gente. Difel. t. em Maurice Crouzet ( org. turbulenta. observando desde o século X a insubordinação e a a rrogância da casta guerreira. O que Bonifácio fez de novidade foi simplesmente transpor essa tese da esfera teórica para a dos manda mentos práticos. por sua intransigên cia e falta de tato. mandando às urtigas a consciência cr istã. os nobres festejaram a repartição do Império e. Morto Carlos Magno. consegue driblar parcialmente o cerco. foi na verdade um gênio. Felip e manda um exército invadir o palácio do Papa. ). III. cujos botins em bens e em terras. desejando forçar a unida de entre os príncipes Ocidentais para empreender uma nova Cruzada. o antigo feudalismo romano fundava-se inteira mente no trabalho de escravos. tese que se tornou muito generalizada entre os canonistas. e seu sucessor. morre logo depois. O Pap a Inocêncio IV ( 1243-54 ) já afirmara que a Igreja desfruta da plenitude do Imperiu m. 126. São Paulo. as acusações que o bandidi nho coroado fazia à honra do falecido. que já estava meio ganha. Pedro Moacyr Campos. Uma das atribuições básicas do imperador sagrado no ano de 800 era defender esses direitos — o que o tornava antipático à maioria da clas se aristocrática. A mais gr ave sobrevém entre 1296 e 1303. de quem tanta gente na Igreja e fora dela fala mal até hoje. fartamente repartidos entre a aristocracia. nem pel o suborno. capturados aos milhões em guerras de conquista e po stos a servir em verdadeiros estábulos.138 OLAVO DE CARVALHO horda “inculta. mas. Em todo caso. na pessoa de Felipe. 1956. Durante os primeiros cinco séculos . e que foi junto com ele para o túmulo: sobre o cadáver d e Luís. quando o Papa Bonifácio VIII. em parte pelo terror que inspirava. História Geral das Civilizações. Em terceiro lugar. compensavam os pr ejuízos decorrentes das vantagens concedidas aos servos. Por mil anos. Luís. Não adianta nada: velho e doente. seu s ucessor. bem como várias garantias contra as arbitrariedades do senhor feudal. em vez de levar adiante a briga com Felipe. o Piedoso. que de vez em quando explode em crises incontroláveis. ávida de prazeres grosseiros e que poder algum consegue disciplinar” 149. Ele percebeu. num concílio. Carlos Magno conseguiu fazer-se obedecer. pune os recalci trantes mediante 149 uma recusa de pagar-lhes os impostos das igrejas locais — o que era simplesmente c ondená-los à falência. mediante artimanhas legais e violên cias. e le va a transigência ao ponto de aceitar discutir. Bonifác io. 151 “O Papa não esperava evidentemente a . vol. Bonifácio não sacou esta afirmação pronta e acabada de seu próprio cérebro: ela já vinha germ nando em muitas cabeças ilustres que. assaram e comeram os direitos dos servos. retorna ao trono com forte apoio popular. conquistando para ela o direito à propriedade e ao casamento. Ora. p. sempre ameaçado por uma tensão estática. que declara com todas as letras aquilo que até o momento tinha ficado delicadamente implícito: a total submissão dos reis à autoridade da Igreja 150. A Expansão do Oriente e o Nascimento da Civilização Ocide ntal. a Igreja se desgasta rá entre esforços utópicos para erguer um império sobre as nuvens e em malabarismos para esconder-se das tempestades que ele lhe envia. Felipe o Belo. Não lhe restava outra arma senão o respeito que sua retidão pessoal inspira va — arma de eficácia duvidosa. o tesouro estava exaurido. por me io de Bonifácio. não havia novas terras a conquistar e a lei proibia repartir as do Império: já não era possível reinar nem pelo terror. 1º.

mesmo conhecendo a popularidade dos reis.oposição que ia levantar. mesmo cristão. 2ª ed. que sustenta toda a pedagogia ética da nossa civilização. Domenchina.. Toda a sua conduta prova que não tinha compreendido as mudança s surgidas na Europa. como poderia o Papa admitir que o “consentimento dos povos” fosse gerador de autori dade espiritual.. Mexico. quando o modelo supremo da força moral. 270 ). 1956. a força moral. Juan J. Este parágrafo reune um primor de análise histórica à deformidade de uma avaliação moral marcada pela típica incapa cidade do acadêmico moderno. de compreender senão superficialmente a índo le do cristianismo. que é a única que permite vencer um conflito dessa natureza” ( Henri Pirenne. Historia de Europa. é precisamente o de Cristo. isto é. FCE. Não soube ver que os direitos da coroa se apoiavam no cons entimento dos povos. por que denominar “fo rça moral” o mero sentimento de segurança que advém da certeza de um respaldo coletivo. O que fez ( os reis ) triunfarem foi a consciência que tinh am de contar com o assentimento de seus povos. tr ad.. se na origem mesma do cristianismo estava o fato de um martírio p erpetrado com maçico consentimento coletivo? Em segundo lugar. o defensor solitário da verdade que todos rene gam? ... p. Em primeiro lugar.

1989. era por ordem do Arcanjo Gabriel. e as verdades que ela consagra continuarão certas enquanto houver quem considere que um homem velho vale mais do que um jumento novo. Sua bula Unam sanctam. p. mereciam ir para a fogueira. se os Templários faziam negócios financeiros embrulhados.. só poderá ser julgado por Deus. que inicialmente se referia só às Cruzadas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 139 mal que o futuro iria ampliar até as dimensões de uma tragédia mundial: a apropriação da a utoridade espiritual pelo poder armado. abjurar do espírito da sua fé? Não: ele teve a legítima força moral — preferiu a dignidade da derrota a uma transigência abjeta. e os franceses. 1978. o roubo da coroa de Cristo pelos sucesso res de César 152 (veremos isto logo adiante. imbuind o-se até a medula da expressão Gesta Dei per Francos (”a obra de Deus feita por mãos fra ncesas”) 157. Pirenne. Mas. de: Egídio Romano. entre as névoas de uma falsa consciência embalada pelo casuismo jurídico de um extenso cordão de puxa-sacos. Fayard. Paris. eram Felipe o Belo. ma s se é o poder supremo que erra. tratou logo de dar ao seu se ntido um inchaço descomunal: o que quer que os franceses fizessem. naturalmente. Não d eixa de ser interessante que a disputa de prioridade espiritual entre as castas . em Jean Favier. haver algo de hereditário na santidade: e. feliz156 É verdade que o lado adversário. para seguir o espírito da época. e por ninguém é julgado’ ( I Cor. Assim o afirma o apóstolo: ‘O homem espiritual julga a tudo. havia reis” 155. logo. De Boni. por Luís A De Boni. p. Sobre o Poder Eclesiástico. é mesmo ( v. O poder espiritual deve instituir o po der terreno e julgá-lo. e já dava bastante trabalho ). se erra o poder espiritual menor. 154 O próprio Dante Aligh ieri chegou a defender a autonomia monárquica. Deus assinava e m baixo. Se o poder terreno se desvia. Segundo René Guénon. basta lembrar q e ele foi o primeiro a lançar a idéia do serviço militar obrigatório estendido a toda a população (idéia que. do ponto de Deveria Bonifácio. Cléa Pitt B. Herdando o trono de um santo (Luís XI ). e. 152 Embora. não pelo homem. em que a única obrigação é vencer. A coisa parece ser uma constante da história humana. s m dúvida. a suprema autoridade espiritual que não da ria satisfações a ninguém exceto a Deus 154. 2 :15). 27. Sobretudo. pois. ta lvez arrependido. Paris. se não é bom. Philippe le Bel. trad. e sim apenas uma monarquia nacional rebelde. Petrópolis. será julgado pelo que lhe é superior. se um Papa é um homem de religião e não apenas um político. proclamar. Vozes. 153 Transcrito em apêndice à “Introdução”. se Felipe fazia a mesmíssima coisa. sacerdotes e pro fetas que nomeiam reis e depois sofrem as maiores ingratidões de seus protegidos. é simplesmente uma defesa do espírito contra a f orça armada. 6. que qualquer poder espiritual se avantaja em dignidade e nobreza sobre qualquer poder terreno.. é claro. em lugar dos homens de religião. Felipe parece ter chegad o a supor. e juristas a soldo de Felipe argumentavam : “Antes que houvesse sacerdotes. será julgado pelo es piritual. ele nem suspeitasse estar combatendo a semente de um novo poder imperial ( o império ficava na Alemanha. As antigas tradições e mitologias estão repletas de histórias de magos. Assim. Éditions Traditionelles. com tanto maior evidência. A utorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. era uma bela co nversa mole 156.. concordando com o princípio geral. 1948 ). e se recusa a tentar a operação inver sa. Goldman Ve l Lejbman e Luís A. quando surgir em cena a figura de Hen rique VIII). no tratado De monarchia. reivindicava para os reis.” vista histórico. enxerga Bonifácio pelos olhos de Felipe. era porque os inspirava o demônio e. que alguns cretinos apontam como uma odiosa manifestação de clericalismo reacionário. 155 Cit. por forte que sej a o coice 153: “É necessário. encheu de reis o Inferno. não tem sentido ju lgá-lo apenas pelos cânones da razão de Estado. Depois. para nada dizer do bíblico (vide o episódio de Saul). quanto as cois as espirituais sobrepujam as temporais. Para fazer uma idéia de até que ponto chegavam as pretensões de F elipe — e de quanto nelas ele se mostrava já imbuído do espírito “moderno” —.

trad. iludida por toneladas de informação irrelevante. Vega. Est es dois. um pouco d e vômito. não tem a menor idéia de que se trata do velho conflito de castas. Charles Péguy e Georges Bernanos acreditavam nela piamente. Já o gen. há de ter certamente co mpreendido o peso imenso que terá. Até mesmo o ateu Mitterrand parece ser devoto dela. mas apenas as tornou invisíveis e deu à sua guerra as proporções de u ma castástrofe natural. arrancam lágrimas. mas na verdade é aí que ele se torna decisivo para a compreensão dos rumos da história contemporânea. bocejos. movia o mundo. a opinião pública. inclusiv e letrada. v. entre os do is maiores escritores esotéricos do século XX: René Guénon e Julius Evola ( deste último. António Carlos Carvalho. e Barrès. Ao transferir-se da arena política para a esfera esotérica. na escala discreta que convém ao caso. Maritain. na decisão do destino do mundo. Se o leitor acompanhou minha argumentação até aqui. Jacques Maritain. está olhando numa direção completament e diferente. 1978 ). Ironicamente. Maurice Barrès. o poder é secre to por natureza. 157 A mística desta expressão durou até o século XX. . pelo menos o meu. mesmo porque a doutrina oficial da Revolução lhe ensinou a crer que as castas são uma instit uição convencional. e assim também o são as causas: a luta pelo cetro espiritual de mun do se radicaliza e se torna mais decisiva precisamente na hora em que a “opinião públi ca”. sobretudo O Mistério do Graal. escrevendo dela. Lisboa. esse debate parece to rnar-se ocupação de eruditos saudosistas. revogável por decreto — o que certamente não fez com que as castas dei xassem de existir. a disputa entre o s homens de religião e os homens de governo.sacerdotal e real se reproduza. de Gaulle provou que ela funcionava na prática. Como dizia Guénon.

apenas a hierarquia do governo eclesiástico terrestre é que desce do papa aos cardeais. infectando-as com o germe de um conf lito que. um ateu. dupla é também a obediência: não é o mesmo o bedecer a um homem inspirado e obedecer a um cargo simbólico. oculta: quando se manifesta à luz do reconhecimento público. Or a. Neste caso. eis que a autoridade espirit ual está cindida. mas só naquilo que sentenciam em matéria de doutrina teológica e moral — não nas suas decisões p olíticas e diplomáticas. por força do Espírito que dirige seus atos e pensamentos e o preserva do pecado. ficou no papel. mas. é para crist alizar-se na forma de um domínio teocrático que. era velho demais para poder levá-la até o fim. Céus! Será a eterna tragédia humana que o primado do espírito tenha de conformar-se em ser apenas sussu rrado em segredo? Que. A verdadeira unidade da Igreja. amigo. O Papa. visitando o rico palácio do Vaticano renascentist a. não naquela que passa à História como o relato de um jogo de cartas. por isto. n unca residiu na força monolítica da administração central romana. um farsante. logo se rompe sob a pressão da rebelião aristocrática e monárquica. é autoridade espiritual. e “a casa dividida ruirá”. contaminado portanto de força bruta? Em que medida a pesadíssima organ ização diplomática. momentaneamente ocup ado por um imbecil ou um malvado. pode ser um ladrão. impondo seu jugo sobre o poder mund ano. é claro. meu amigo. o Espírito não estará presente senão em símbolo. tal como a política dos reinos e dos impérios? Vejam bem: o dogma católico diz que os Papas são inspirados pelo Espírito Santo. aos bispos etc. representada pelo seu Papa. era pura autoridade espiritual? Não era também ela um po der temporal. um covardão como Benedito XI que não hesita em lançar a mancha da suspeita sobre a reputação de seu amigo e antecessor para fazer as pazes com um monarca frio e desumano. falou pelo Espírito? O chefe nominal da hierarquia ou aquele que o Es pírito houve por bem inspirar no momento? Quem é o homem espiritual superior que jul ga o homem espiritual inferior? Os papas julgam os santos ou os santos julgam os papas? A expressão mesma “Igreja” assume aí um sentido ambíguo: a hierarquia espiritual. proclamado e assumido como verdade pelo consenso público. . É. ouviu do Papa o gracejo: — Como vê. naquela parte que se incorpora à sabedoria da Igreja c omo um legado permanente. como foi Pedro. Quem. um assassino. no confronto prático com o poder tempor al? Conta-se que um pobre santo. Pedro já não pode dizer: “Não tenho ouro n em prata. mas pode não ser santo nenhum. latente.140 OLAVO DE CARVALHO mente. pode ser um santo. por uma inversão diabólica. bem como disseminado no mundo como Providência. Bonifácio só errou num ponto: ao começar a brig . tem no seu topo os santos e os mártires. na autoridade do cargo. Se a autoridade espiritual é em tese superior ao poder terreno pela mesma razão que faz o espírito superior à força bruta. em que medida a Igreja de Roma. na floração espontânea da santidade nos lugares mais imprevisíveis e mais afasta dos de todo contato com a burocracia vaticana. e você também não sabe. O que sei é que só Deus é um: tudo no mundo é dupl o. pode ser um idiota pretencioso. como tal. Mas essa unidade permanece profun da. manipulado e enfeitado por mil arranjos. se dupla é a forma da autoridade espiritual. quando o advento de fatos de uma ordem totalmente outra mudar de repente o quadro de refe rências. Mas tudo neste mundo tem uma franja de ambigüidade. e exercerá então a autoridade espiritual de pleno direito. política e burocrática de Roma é movida pelo sopro do Espírito ou pelo en rechoque mecânico das forças deste mundo. e quem quer que diga que sab e é um palpiteiro muito metido a besta. terminará por explodir numa rup tura quando a capacidade de conceber novos arranjos tiver se esgotado. e le resulte sempre. então. Quem. o h omem que ocupa o trono de Roma. precisamente ao i nverso. aí. d esde que a Igreja se constitua administrativamente —. Não é o mesmo obedecer a um vigário e a um vigarista .” — Para compensar — respondeu o asceta — ele também já não pode dizer: “Levanta-te nda!”. numa ascensão ainda maior do prestígio da força? Será necessário optar sempre entre uma teocracia oprimente e a opressão de um po der mundano 158? Eu não sei. Uma vez que o fiel sinta essa duplicidade — e é fatal que ele a sinta algum dia. Pois é esta mesma contradição interna e constitutiva da noção de “Igreja” que se transmiti suas relações com o poder imperial e monárquico. até que o Século das Luzes viesse iluminar com novas fulgurações de gênio a ciência do morticínio estatal).

na alternativa de hoje.. .158 Pensemos. por exemplo.. entre a disciplina compressiva do s aiatolás e a nulificação da consciência individual na sociedade administrada do Ociden te.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 141 As viagens transcontinentais. dando ao projeto do Império um novo sentido. e o esplendor da escolástica é um fenômeno sobretudo parisien se. segundo comentavam os juristas da época. Não é de espantar que tod o acontecimento novo. dois outros reinos nacionais haviam se formado na Península Ibérica . de outro. ofereceram à autoridade imperial. a unificação da Cristandade Ocidental fora obstaculizada prin cipalmente pela resistência que dois povos. a diversificação das culturas naciona is e a ruptura da unidade cristã. Não conheciam outros fins e valores que pudessem legitimar a ação humana senão. O novo projeto. Assim. seu coração estava na Inglaterra e se u cérebro na França. 3º. Toda a imensa transformação que inaugura os tempos modernos pode s er resumida numa mudança do projeto histórico europeu: do Império doméstico para o Império colonial. Os franceses estavam tão profundamente ligados à Igreja que. Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais e criado um reino da noite par a o dia — literalmente. já que. Ora. nasc era o reino de Portugal. as navegações. a alteração profunda das relações entre realeza e ero. O Império. o centro da cultura cristã se transferira para Paris. poder temporal e autoridade espiritual. Por volta de 1500. suscita de imediato três mudanças verdadeiramente cataclísmicas: 1º. 2º Mas — atenção —. Assim. descobrindo para lá do mundo conhecido uma vastidão de terras a conquistar. se as nações eu ropéias nem sempre tinham condições de vencer umas às outras. de um lado. e mostravam por suas independências nacionais um apego igual ou maior do que aquele que tinham pela religião. Durante um milênio. séculos de luta contra os invasores árabes haviam acabado por forjar a unidade da aristocracia. fosse qual fosse. podia tornar-se uma expansão para outros continentes. se o braç da Igreja estava no Império — cujos domínios se estendiam sobre um território que corre sponde mais ou menos à Alemanha e parte da Itália —. qualquer uma delas tinha o s meios de aparelhar um barco com uns quantos soldados e subjugar. Os ingleses tinham sido o primeiro povo c ristão da Europa. uns quantos índios pelados e militarmente inferiores. por um milênio. recorria ao exped iente de saltar pessoalmente pela janela de seus inimigos. o conceito de Império não era simplesmente o de um poder transnacional qu lquer. abrindo aos olhos europeus o pa norama de um novo mundo. brilhando e rodando sobre todas as cabeças reais como u ma mosca azul. mudaram repentinamente o quadro. a primeira coisa que fizeram foi reavivar as velhas amb ições e mudar repentinamente a sua ênfase: a luta pelo Império já não tinha de ser um confli to europeu. Na Espanha. enquanto o Império vai p erdendo o domínio sobre boa parte da Itália que se desmembra em ducados e principado s independentes. Depois da fase inicial inglesa. e sim o de um braço armado da Igreja. entre os guerreiros islâmicos. a extensão do poder armado da fé. 1º Durante muitos séculos. dentre os mais profundamente cristiani zados. Todos esses povos tinham vivido. do outro lado do Oceano. e d egolá-los na cama: ao despertarem. Assim. acabasse por ser interpretado nos termos desse velho par de conceitos. “franco” se tornou um sinônimo de nasrányi. enquanto dormiam. de janela em janela e de pescoço em pescoço. re sultando enfim que o casamento da castelhana Isabela I com o aragonês Fernando II deu término à última disputa local e inaugurou o novo reino. nazareno ou cristão. quasi per latroc inium (não entendo o que queriam dizer com esse quasi). Cansadas de luta r contra o Império. . sob a dupla obsessão da Fé e do Império. os servos e cortesãos eram informados de que o ca stelo tinha um novo senhor. Em Portugal. Pois bem: ingleses e franceses não se curvavam ao Império por nada deste mundo. não contando com um exército numeroso. nada tinham ouvido de imp ortante que não se referisse a uma dessas coisas ou a ambas. a mu ltiplicação dos concorrentes a Império. a salvação da alma. Mais do que ninguém eles haviam demonstrado sua fé e contribuído para a nova cultura cristã. elas decidiram então cada qual fazer seu próprio Império. 2º.

incentivada pelo exemplo da Europa Ocidental que ela inveja. quando Carlos I. de início. O dualismo milenar é resolvido mediante a absorção da Igreja no Império. a Suécia. ato contínuo.. instantaneam ente. em mútua oposição.. e que continuará reverberando até nossos dias nos discursos da Nova Era e da Revolução Cultural. seja fundando sua própria Igreja. a porta do tempo girou sobre os g onzos.142 OLAVO DE CARVALHO para ser um Império de verdade. enriquecida pelo ouro das Américas. sem sombra de dúvida. tinha-se tornado a principal potência européi a. Com Henrique VIII. Essa idéia muda. a independência espiritual. encerrando uma época: o projeto de unificar a Europa sob um Império católico mo rrera junto com o s derradeiro mártir. tomando a dianteira nas conquistas coloniais. acima dos seus canhões. seja fortalecendo or dens religiosas locais que. capazes de pression ar Roma em defesa dos interesses de seu rei. logo se tornarão centros de poder mais ou menos independentes. a Reforma protestante tinha abalado o monopólio romano do cristianismo: para arvorar-se em representante da Fé. que esse assas sino de mulheres e de sábios tivesse uma idéia clara de quanto sua pessoa e seu gest o representavam o espírito dos novos tempos e prefiguravam o desenrolar dos aconte cimentos por três séculos adiante. Das potências emergentes. anglocatólica: católica nos r itos e no dogma. ou Imperador. aproveitando-se de uma querela matrimonial. o fundador da idéia do Estado auto-sacralizado. Mesmo os historiadores são muito comedidos ao trata r desse ponto. todo o quadro do conflito entre realeza e clero. se eleva à posição de uma das mais fortes po tências imperiais. form am-se na Holanda e na Suécia. por ter como chefe não o Papa. a Rússia. O processo é ainda acelerado pela ruptura d a unidade do bloco protestante: cleros protestantes nacionais. investid o de prerrogativas sacerdotais. unindo pelos dois séculos seguint es o destino de seu país ao da dinastia Habsburgo. o estandarte da fé. Napoleão e Comte. só reconhecia um: seu filho dilet o. talvez por uma resistência inconsciente em reconhecer o pecado orig inal que dá nascimento aos tempos modernos. mediante bem-sucedidas campanhas de ocupação. proclamar. o rei Henrique VIII. que durante seis séculos fora caindo de frustração em frustração. a . Nesse ínterim. o chefe de Estado se autonomeia r epresentante direto de Deus. Na Suécia. a Espanha. funda uma igreja nacional. tinha de levar. crescendo desmesuradamente à sombra do apoio estatal. Para f ortalecer suas pretensões. o de sir Thomas More. Com a cabeça de sir Thomas a rolar no solo. Henrique é. que desafiando o Supreme Head. Enquanto a parte alemã do Império é sacudida p elas revoltas protestantes. agora. autonomeado Pr otector and Only Supreme Head of the Church and Clergy in England com um único vot o contrário. na Inglaterra. bem como pela dialética do crescimento capitalista ávido de matériasprimas do além-mar. e sim de Impérios concorrentes. De maneira ostensiv a ou informal. mas o Rei. Cada rei. Mas agora e le já não estava cercado apenas de nações rebeldes. Seu braço há de estender-se até o Brasil. A fundação da primeira Igreja eu nacional marca uma metamorfose radical na idéia de império e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino. é coroad o sacro imperador romano sob o título de Carlos V. que já tinha desde quatrocentos anos antes sua religião nacional. mas cujo potencial imperialista tinha ficado ret ido pelas invasões mongóis e pelas imensas extensões do território a ocupar. que inspirará mais tarde Hegel e Robespierre. Do outro lado da Europa. o império nascente já não precisa va das bençãos do Papa — bastava fundar uma nova Igreja. quantos porta-vozes autorizados pode ter a Fé? Quantos braços armados pod e ter o corpo da Cristandade? A Igreja. o Sacro Império Romano. O Império. descobre fi nalmente sua vocação. L evada pela dinâmica da luta pela independência que log o se torna luta pela hegemonia. o pai da civilização moderna. republicano e calvinista. tendo o rei como suprema autoridade religiosa. um a funde-se logo com o Império. logo a Holanda entra no rol dos concorrentes a I mpério: Império protestante. o clero se nacionaliza. parecia finalmente ter encontrado seu caminho. com forte apoio judaico. inglesa. foi beheaded no ato. É duvidoso que essa deformidade coroada. embora tantas vezes ingrato. é César que volta ao trono. Ora. junto com a indepe ndência política. neto de Fernando e Isabela. é o luteranismo que se torna culto oficia l do Estado. procurará dominar seu clero nacional. que esse vulgar psicopata.

dmira e .

Pois a luta é agora entre o internacionalismo. anglicanismo (Inglaterra). Seu catolicismo perde muito do e spírito internacionalista.. que só usara de violência contra os heréticos em caso de rebelião armada. que a Igreja. Joseph Conrad . Soloviev ai nda acreditavam piamente na missão cristianizadora da Rússia no mundo. herdeiros — sabend o ou não — do espírito de Henrique VIII. não compreendia a fé senão como gue rra contra os infiéis 160. Há até mesmo uma certa candura na co nvicção com que Luís XIV. il pensait que servir la France.” 160 A fase cruenta da Inq uisição data dessa época e desse lugar. agora apenas um entre outros. Unificada por Ivan III (“o Grande”). c’était servir Dieu et l’Église -même” 161. O que espanta é justamente a natu ralidade que cada um julgava o seu modo nacional de ser cristão muito superior ao modo universal e supranacional. na época. que forma um pano de fundo às manifestações da independência mais petulante. Luís XIV era sincerame nte cristão. Cada um remoldando o discurso cristão segundo seu interesse nacional. Não espanta que o rei assim imbuído do caráter divino do interesse nacional acabasse p or regrar. nascem os muitos cristianismos modernos. que marcará a mentalidade russo-ortodoxa a té pelo menos o fim do século XIX. Dostoiévski e V. é um reflex o dessa mudança. confondant ses attibutions avec celles de l’autre Pouvoir. representado pelo Pa pa e pelos remanescentes do antigo Império. Il sort de sa fonction et commet un étrange et quelquefois déplorable abus de son autorité” 162. que. embora confundida no meio de tanta s fidelidades ambíguas. calvinismo (Holanda). A seu modo. tudo se nacionaliza. ainda representava. Nation Très-Chrétienne et fille ainée de l’Église. Ond e esta pretensão absurda se revela de maneira mais patente é. Aos governantes dos séculos XVI a XVIII. muito tempo depois de extinta nos países Ocidentais a mitologia do cristianismo nacional. no fundo. galicanismo (Fra nça). O surgimento de uma nova casta letrada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 143 procura imitar. em nome dele. expressão típica de um povo que se cristianizara no campo de batalha. precisamente por sua submissão nominal à Igreja de Roma.. como na revogação do Édito de Nantes e na perseguição aos protestantes e jansenistas: “Ai nsi le Roi. resumia numa palavra o espírito dessa anacronia vivente: “Cinismo. beatifica o interesse nacional francês e reprime. palaciana e não universitária. no galican ismo. em nome dele e sem a menor consulta ao Papa. a menor sombra de hipocrisia. ainda quando esteja em abert a oposição com a palavra do clero e com as outras vontades divinas concorrentes. w 3º Mas. Não há. que v iverão em anátemas recíprocos. Homens como F. e o nacionalismo imperial das potências . candidato a Imperador. Mesmo o Sacro Império. que descrevi lá atrás (§ 21). t udo passa a orbitar em torno do rei. a nova fase inaugurará a p erseguição a indivíduos isolados. ao t ransferir-se para mãos espanholas se espanholiza. assume com Ivan IV (“o Terrível”) sua missão expansionista e cristianizadora 159. entretanto. parece natural e óbvio que sua vontade política s eja a expressão mais direta e pura da vontade divina. endurecido por oito séculos de luta contra o mouro. investido da autoridade de “Rei Cristianíssimo e filho primogênito da Igreja”. se fait doc teur et convertisseur. Dessa nova partilha da túnica de Cristo. Data daí o surgimento do espírito messiânico. como a maioria dos reis do seu tempo. Em contraste com a Inquisição medieval. Comme Roi Très-Chrétien. a ação da Igreja q ue diz representar: “Nul n’a défendu comme lui les droits de l’État laïque et personne n’a su parler avec plus de fermeté au Souverain Pontife lui-même. um título que ele se conferira a si mes159 mo. fundação dos cultos nacionais: luter anismo (Suécia). Os dois processos são concomitantes e. um polonês cuja família sofrera na carne os efeitos da catequese imperial. iberiza-se sob as formas do jesuitismo e da sanha inqui sitorial. constituem um só: multiplicação dos Impérios. em tudo isso. Cada um auto-investido da missão que fora a do antigo projeto imperial — unifica r o mundo sob o estandarte cristão — mas reinterpretando-a segundo a ótica da razão de E stado. até mesmo disputas teológica s.

emergentes. enquanto o Papa obtém o controle das universidades. E. p. t. c om artistas e letrados a soldo da nobreza. II. 156. J. em línguas nacionais. p.. 16 1. Louis XIV. . os reis fomentam culturas nacionais. Id. 1929. 161 162 Louis Bertrand. preservando ali o internacionalismo. Tallandier. Paris.

para que o Parlamento. e todas as discussões teóricas não passarão de adornos acadêmicos da tirania. entre muitos floreados e um semnúmero de idéias valiosas. era preciso que ele mesmo tivesse atributos divinos. muitos outros pontos fracos. O que nenhum dos teóricos da monarquia divina sequer reparou é que a junção indissolúvel. 1972 — um clássico. entre a classe política e o rei.144 OLAVO DE CARVALHO Como não poderia deixar de ser. o rei não manda nada. o debate prossegue até hoje. Se um outro faz a lei. dizendo que não há outra fonte da lei senão a vontade do soberano. numa só pessoa. cada reizinho que saltasse a janela p ara degolar no leito os adversários se equiparava. mas ninguém pôde recorrer a este exemp lo porque a nova concepção era inexpressável no velho linguajar astrológico. éd. Th omas Hobbes engrossa o caldo logo de vez. res olvem a coisa por um jogo de palavras: quem manda é o rei com o Parlamento. Hooker e outros procuram moderar os excessos da au toridade real. onde a auto ridade espiritual era o Sol. contribuiu um bocado para a emergência da moderna intelectualidade leiga e materialista. Bodin. Pela nova teoria. Richard Hooker (The Laws of Ecclesiastical Polity. O assunto é estudado por Gilbert Durand em Science de l’Homme et Tradition. como mostrou Bertrand de Jouvenel 164. os novos intelectuais logo se apressam em erigir e m norma e ideal o fato consumado. uma leitura absolutamente essenc ial. e então se repete fatal mente. e tudo aquilo enfim que se consubstancia no t ermo “religião” —. de repente. César. Genève. era bisneto de Vênus. 1583). 1576). automaticamente. ou mel hor. além desse. Le Pouvoir. Hachette. de autoridade espiritual e poder temporal. a ascensão do rei se faz às custa s da nobreza: o rei. afinal. consagrando-a como expressão por assim dizer oficializada da doutrina. teve as maiores dificuldades para conciliar suas idéias com o simb olismo astral. não suporta a concorrência nem me smo daqueles que. o rei no Parlamento. e o poder temporal a Lua 163. Parlamento quer dizer: a classe política. teorizado às pressas ex post facto. 1978. outra causa do fracasso do Império mediev . 1945. então a disputa entre as facções do poder pode prosseguir indefinidamente: vença o rei ou 163 vença o Parlamento. Tête de Feuilles / Sirac. Como a teoria tivesse. a mesma disputa que havia entre a Igreja e o Império. formava a síntese solilunar que constitui a autoridade profética. de imediato. numa bula cujo título não me ocorre. a que nem mesmo os papas t inham ousado se ombrear. 165 Aqui compreendemos. sempre muito práticos. uma crença comum impe . pela simples razão de que não tem solução: se não há nenhuma instância superior ao poder — uma tradição. por toda parte. sua proclamação inaugura uma série infindável de discussões que se prolongam até hoje: Quem faz o rei? Quem faz a le i? A lei faz o rei ou o rei faz a lei? Se o rei faz a lei que manda no rei. As soluções propostas. nouv. Com outras denominações — E xecutivo e Legislativo —. os homens importantes que representam ou dizem representar a população. que era louco por astrologia. a Moisés. reunidos no Parlamento (como outrora os cardeais em concílio). investido de poderes divinos. — Aliás o mesmo Inocêncio III. o expediente auto-engrandecedor de um assassino insano adquire uma aparência de dignidade inte lectual nas filosofias políticas de Jean Bodin (Six Livres de la République. usara explicitamente essa imagem. valores sedimentados na cultura. apelando à idéia do Parlamento. l he deram esses poderes divinos. tomam duas direções.. nos impingem enfim a noção de que os reis governam por direito divino inerente às sua s ilustres pessoas e à natureza das coisas — e independente. 1580). A conseqüência imediata é que. E eis que a pretensão 164 Inocêncio III. Ora. representando a nação. Bertrand de Jouvenel. que. V. o resultado. Mas. Os ingleses. p udesse coroar o reiprofeta. Paris. então não há lei nenhuma. Paris. estabelecendo uma linha demarcatória demasiado rígida entre ciências sac ras e profanas. será sempre o fortalecimento ilimitado do poder 165. Bodin. Thomas Smith (De repub lica anglorum. de qualquer s anção religiosa. portanto. Histoire Naturelle de sa Croissance.

O que me pergunto. e. Pepino! . veriam um sinal premonitório no fato de o primeiro candidato a imperador se chamar . por que não po dia simplesmente continuar cristianizando a Europa... vacância de ant igas lideranças religiosas bárbaras etc. lenta e naturalmente. o clero descera ao exercício do poder temporal. tinha obtido tamanho sucesso durante os seis primeiros séculos.. a autoridade espiritual não vigor ava plenamente. deixando que César cuidasse de César? O Império abortou porque nasceu prematuro. desse frutos políticos menos amargos? Não sei a resposta. necessidade de improvisar uma administração. e neste vaivém passaram-se m il anos. a o mesmo tempo que procurava livrar-se dele e transferi-lo a um Império. Por que gerá-lo tão cedo? Por que não esperar que a cristianização. em seguida ficou dividida entre a necessid ade de passar o abacaxi aos leigos e o temor de uma nova perseguição religiosa sob o reinado de um César de sua própria criação. sem poder temp oral. mas uma coisa é certa: a Igreja não se mete u nos assuntos políticos por iniciativa própria.al: numa Europa insuficientemente cristianizada. sem encontrar resposta. com toda a paciência. em resultado. forçava para retomá-lo sempre que o Império escapava ao seu controle. Se os brasileiros já existissem naquela época. é: se a Igreja. mas foi metida neles pelo curso dos eventos: queda do Império.

e i nvestida do prestígio aterrador das coisas sacras. Apela-se portanto à velha idéia de Fortescue. cada qual. metafísica. feita à custa do sangue dos mártires. A N . sua fama já tivesse chegado antes dele. E quem é que ia recusar o diálogo. Portugal foi o primeiro. então o rei não é um simples man datário. finalmente. bem conhecido. mutável e perecível ao sabor das guerras e acordos interdinásticos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 145 doida encontra um precedente teórico venerável: antes mesmo de que Henrique VIII ung isse sua própria cabeça com o óleo da herança mosaica. considerado geralmente o primeiro codificador de conjunto da t eoria política inglesa. como a Bíblia já houvesse advertido que “os deuses das nações são demônios”. com um punhado de soldados.. ao governo local. fundador do moderno E stado sacro. sem desembarc ar. as idéias de Maquiavel sobre a razão de Estado pudessem sair do p apel e tornar-se prática generalizada. para em seguida fazer saber acima de qualquer dúvida. o mundo alcança então o estágio de maturidade cínica necessário par a que. a nação de repente se ergue às alturas de uma realidade celeste. Rei-sacerdote. de um só golpe. cada qual conc orrente a Império. Nem todos os conquistadores foram igualmente cruéis. e ele garantia que os restantes narizes e orelhas permaneceriam saudavelme nte atados a seus lugares de origem 167. fala a própria boca de Deus. é claro. Por intermédio do Rei autodivinizado. exatamente no sentido em que o conjunto dos fiéis forma o corpo místico de Cristo 166. sua palavr a é final. Tudo contribui. Rio. não é de espantar que os corpos mís . Perspectiva Histórica da Filosofia do Direito. já havia resolvido o problema. seguidas da dupla e correspon dente quantidade de orelhas. Zahar. sacralidade do corpo político. Numa inversão simétrica da expansão cristã dos seis primeiros séculos. um corpo místico. se multiplicassem rapidamente e saíssem p elo mundo. tudo o que encontrasse pela frente. a ditar suas palavras direta166 mente para os novos Abraões. trad. Mas essa maldade seria tanta. e eis aí. Sir John Fortescue (De laudibus l egum Angliæ. é o Parlamento que o legitima. Maquiavel. a epopéia da “cristianização” estaria a tal ponto imersa em sangue 167 Sobre Sir John Fortescue. 1470). de fato. mas a individualização vivente de um corpo místico. que continuou inca paz de formar um verdadeiro Estado nacional até o século XIX. doravante. desceu as costas da Índia. investidos da missão sublime de impor seu jugo suave de Bons Pastores a quantos índios pelados ficassem na mira dos canhões. diferentes gradações de maldade. Isaacs e Jacós. r ealizado o milagre: de uma unidade provisória e mais ou menos convencional. Não é preciso repassar aqui o rosário. Friedrich. como pretende Hobbes. Depois desembarcava num ponto qual quer e mandava cortar algumas centenas de narizes. Seus discípulos surgirão na geração seguinte. cada qual instalado bonitinho em seu tr ono europeu. a socie dade civil e política representada no Parlamento pelos nobres. omo o próprio demônio informasse que “meu nome é Legião”. razão de Estado: essas idéias são mais ou menos absorvidas por todas as potências emergentes. Cap. fora um precursor: sua doutrina pressupunha um tipo de Estado nacional que na Itália de então só existia em p rojeto. com o aval do Parlamento. das atrocidades européias nas Américas. então. Carl J. 1965. eterna como um arquétipo platônico. para o fortalecimento do poder: se o rei é fonte da lei. v. onde quer que viesse a a portar. bombardeando. os cristianismos imperia is inaugurarão uma modalidade de sacrifício comproporcionada à mentalidade dos novos t empos: o martírio dos outros. Afonso de Albuquerque. ao sustentar que a nação. houve.. E. a uma altura dessas? A proposta era simples e esquemática: dessem a Afonso tudo o que ti nham. é nada menos que um c orpo místico. cada qual imbuído de sua verdade eterna. missão imperial das nações. culto n acional. na África e nas Índias. not territory. e fora da Itália. e Erich Voegelin. Henrique. ao contrário. Se. uma pessoa ungida e sagrada pela qual. uma nova encarnação do Logos divino. até garantir que. para em seguida ir tomando todo o territory e embolsando todos os lu cros do trade. Desde a política de terra-arrasada de Hernán Cortez até a perfídi a dos ingleses risonhos que desembarcavam na Índia com cartazes dizendo Trade. Álvaro Cabral. IX. dando logo aos outros uma lição prática de como “dilatar a Fé e o Império”. é o braço armado da doutrina de Fortescue. sua disposição de dialogar.

O Sonho da Índia. Civilização. 3ª ed. Elaine Sanceau. Afonso de A lbuquerque. . cit. trad. op. Lisboa. v. 1953. Sobre os métodos persuasivos do Albuquerque terríbil. .ova Ciência da Política. O volume faz parte de uma série notável que a autora consagrou à história dos de scobrimentos portugueses. José Francisco dos Santos.

Mas a idéia de Império não cai co m elas. fazer do Império como tal a única divindade. Se na primeira crise ela se safara tratando de infiltrar-se na Igrej a a título de “Império cristão”. renasce. Eis a missão de Napoleão Bonaparte. o domínio sobre as consciênci as. uma aristocracia hereditária e militar. liberá-lo para a expansão ilimitada. uma nova . da autoridade espiritual. Napoleão sintetiza. reaparece no ano 800 e vive até 1500 de crise em crise. ela perv ive. Passados três séculos. Seguem-s e três séculos de matanças nas Américas. as monarquias começam a cair. enfim. num novo banho de sangue que ultrapassa em poucos meses todo o horror dos feitos imperiais d’além-mar. terminou por rest aurá-lo dentro das próprias fronteiras do Império. as du as correntes de idéias que marcam. àquela altura já abalado até as raízes pela ascensão da nova classe capitalista. tendo vivido por doze séculos num matrimônio sadomasoquista co m o clero. Mas a aristocracia. a contradição entre clero e nobreza é resolvida pela absorção. de outro. era sempr e uma aristocracia — e. Recapitulemos. esse calcanharde-aquiles do projeto napoleôni co. A idéia de Império Ocidental vem de Roma. Ademais. a apropriação indébita do sonho imperial por nações ambiciosas corrompidas pelo auto-engano de uma falsa consciência religiosa? A pergunta toca no ponto mais doloroso e talvez no centro mesmo da história das o rigens da modernidade: quando o poder monárquico de todas as nações segue o exemplo do assassino delirante que usurpa a coroa do próprio Cristo. mesmo enxertad a de novos componentes retirados das tropas ou da parentela napoleônica. cristianizada. Ele sintetiza o projeto imperial do Antigo Regime com a ideologia anticristã dos revolucionários. chegando aos últimos limites do que a audácia mais demente pudesse conceber: dispensar toda legitimação religiosa mesmo farsesca. Napoleão foi vencido menos pelas tropas de Wellington e Blücher do que pel a contradição intrínseca que viciava na base o seu projeto: ele procurou. agora ela jogará a cartada mais alta. de um lado. a Revolução. o domínio do mundo. incapaz de resolver sua contradição originária entre o modelo romano e a duplicidade Ocidental d as castas clerical e aristocrática. Ilimitada em do is sentidos: para fora. e. sua sobrevivência dependia portant o de um imobilismo social incompatível com as mudanças cataclísmicas que o próprio Bonap arte. na África e na Índia. para dentro. onde. Assumir. fora. ao mesmo tempo que. a essência mesma do projeto napoleônico: desvincular o Império de seu compromisso com a Cristandade. Resistente a toda debilitação orgânica.146 OLAVO DE CARVALHO se seu ponto de partida não fosse. E esta fraqueza most ra que Napoleão entreviu apenas obscuramente aquilo que. e inaugura o primeiro Império não-cristão do Ocidente. o Império europeu dá lugar aos Impérios coloniais. do outro lado do Oceano. segundo o projeto de Hegel. com efeito. como braço armado da Revolução. com efeito. ainda mais surpreendente do que a anterior. que. o que pudesse ainda haver de cristianismo residual pudesse ser facilmente absor vido e laicizado sob a forma de “direitos e deveres do cidadão”. A Concordata com o Vaticano manifesta essa fraqueza. não podia repentinamente acostumar-se à solidão do divórcio. que mais se pode espera r do curso posterior dos acontecimentos? O Estado moderno nasceu de uma farsa de moníaca e. fiel à sua vocação de origem. um a aristocracia de sangue é sempre um poder de tipo feudal. multiplicada. de novos valores. como o foi. Em segunda versão. Eis aí a verdadeir a originalidade. mediante a farsa do “corpo místico” nacional. Aufheben — “absorver e su perar” — é o termo de Hegel: o Code civil de Napoleão é a Aufhebung imperial e leiga da mo ral cristã. vem a R lução. se na segunda conseguira driblar a própria Igreja mediante a ousadia blasfema de fazer o rei e futuro imperador passar como encarnação do próprio Cristo. salvando-se através de uma nova metamorfose. tinha ajudado a precipitar. o clero c onspirava com os príncipes ingleses e alemães para a derrubada do Império. no Es tado. a instauração de novas leis. que César é maior que Cristo. consistindo por essência numa eliminação do poder clerical. em m uitas versões nacionais: numa terceira translatio imperii. Por volta de 1500. como aliás é próprio dos fantasmas. cresceu bebendo o sangue dos inocentes. o Antigo Regime. dos Césares. construir o I mpério leigo conservando a estrutura de poder do Antigo Regime — basic amente.

.

168 Cit. diante de fatos dessa envergadura. Compra da Louisiana. capitalista. nem. esses imbecis ainda se acredit avam senhores do mundo. Presidente do Tribunal de Justiça da Carolina do Sul. uma vez chegado às fronteiras naturais ou legais do território. à Revolução Francesa. O Império contra-ataca “ The Almighty has made choice of the present generation to erect the American Emp ire. Mas mesmo esta era u m sinal: superava. trad. Essa vocação manifesta-se com uma força de uma decisão madura já na infância da nação america mediante uma seqüência de feitos militares e diplomáticos que estendem desde logo o r aio de ação dos Estados Unidos por uma área bem maior do que a ocupada até então pelos Impér ios coloniais europeus. p. Os Estados Unidos no Mundo do Pós-Guerra. Intervenção em Cuba. Guerra com a Espanha. onde somente a inter venção americana decidira o curso dos acontecimentos. 1854. dei xando os aliados livres para repartirem a seu bel-prazer o bolo alemão. 1898.. Ao contrário: tão logo se sente senhor de seu território. Anexação do Texas. discreta mas dec isiva.” WILLIAM HENRY DRAYT ON. dizendo: “Oba. para. Mesmo após a Guerra de 14. 1906. republicana. maçônica e protest ante: é a definição dos Estados Unidos. Intervenção branc a na Califórnia. Anexação das Filipinas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 147 potência emergente acabara de perceber com total clareza e de maneira definitiva: o Império leigo não podia ter um resíduo sequer de compromisso com a Igreja. A vocação imperial norte-americana não nasceu junto com os Estados Unidos: nasceu ante s. Como foi possível que. numa nova instituição religiosa que fosse intrinsecamente ligada ao Estado: César só poderia ressuscitar sob forma capitalista . as potên cias européias não se dessem conta. de imediato. É uma carreira comparável à das maiores potências europé da época.. disposto a daí por diante só crescer para dentro. Construção do Canal do Panamá. ao longo de três séculos. os esperti nhos esfregaram as mãos com um sorriso maquiavélico. to be the most glorious of any upon record. enganamos esse tro uxa. em Raymond Aron. Ele necessitava apoiar-se numa nova cla sse social. Com pra do Alasca. 1803. numa nova estrutura de poder. e. no ano de 1776 168. Instalação de ponta-de-lança no Japão. República Imperial. em extensão da linha de combate e no número de mortos. 1823. Zahar. Um povo não se expande por todo um continente. por isto mesmo. capazes de manter a águia norteamericana a uma higiênica dis tância dos assuntos de gente grande. 1812. 1867. se dar por satisfeito e instalar-se de uma vez para sempre na mold ura desses limites. And thus suddenly arised in the world a new Empire that bids fair. República imperial. maçônica e protestante. entre peri gos e esforços sobre-humanos. 1975. by the blessing of God. todas as g uerras da História. de que havia nascido aquele que Deu s predestinara para ser o seu coveiro? A cegueira dos homens de Estado para os r umos mais óbvios da História chega a ser às vezes mais notável do que os lampejos de visão profética dos homens de inteligência. o impulso colonizador se transforma quase que naturalmente em impulso imperialista. A escalada é impressionante: 1793. 1846. Ajuda. 21.” § 28. Tentativa (fracassada) d e invasão do Canadá. tão logo Wilson abandonou a Liga das Nações. com as velhas aristocracias. Edilson Alkmin Cunha. e só interrompida temporariamente pela Guerra Civil. 1845. Guerra com o México. . Rio. Doutrina Monroe.

Ora. Além dist o. capaz de influ enciar as decisões do Estado ou combatê-las. No meu entender. tanto que dominavam essas regiões com a desenvoltura de joga dores habilíssimos. etapa superior do capitalismo”. “nação”. operando por cima — ou por baixo — das intenções dec laradas dos homens e dos grupos. Com efeito. 171 Que ninguém pense. Sem a unidade da p essoa do Imperador — assim entendiam — não podia haver a unidade de uma política imperia l coerente. era o perigo da Revolução. 169 O que já bastaria para chacoalhar até os alicerces a teoria de Hobson e Lênin sobre “o i mperialismo. Eurocentrismo não é a causa do fenômeno: é simplesmente o nome dele. mas uma metamorfose da idéia imperial — metamorfose que a torna va irreconhecível. Em quarto lugar. os interesses priv ados. que estou racioci nando à maneira de Hegel. Roosevelt. tinham ali um poder tremendo. Franklin D. eles não eram tão eurocêntricos assim: compreendiam perfeitamente bem o que se pass ava na África ou na Ásia. nas duas oca siões anteriores o Império renasceu ao fundir-se com idéias que lhe eram contrárias: “cris tianismo”. a seu destino manifesto 170 de suprema potência imperial do mundo. na maior parte dos casos. mas também capitalista. através dessas contra dições mesmas. Para a velha mentalidade. Suas iniciativas no Exterior eram intermitentes. portanto. America. ed. impedindo o observador de enxergar. as causas de sua destruição 1 71. os Estados Unidos não tinham. Estes enxertos antagonísticos deram-lhe vi da nova.. de imediato. 1984. tão original. no primeiro caso. os Estados Unidos eram uma nação democrática: a política nacional era fruto de complic adas discussões parlamentares que podiam adiar uma decisão por anos a fio. 2nd. em George B. Bobagem tentar explicá-la somente por um mórbido eur ocentrismo. que o aparelho ótico europeu não tinha sensibilidade para o tipo de estímulos que dali provinham. que voltava as costas para o mundo. Tão diferente. a linha de uma dialética histórica que. a carne dos vencidos e o pão dos vencedo res menores: um obscuro assessor jurídico da Marinha. porque ela não representava apenas u m novo imperialismo. os termos de uma contradição real permanece . 333 ). e já não era mais que uma vaga lembrança. as grandes empresas. se opunham às iniciativas expansionistas do Estado . paralisando-as. o fenômeno america no era invisível porque era impensável: faltavam-lhe as categorias para pensá-lo. vaci lavam ao choque de tremendas oposições internas. New York. Se não enxergaram. Não en xergaram a potência imperial nascente. Norton. de fato. 170 Manifest destiny: expressão usada e m 1845 pelo editor John Louis O’Sullivan e que se tornaria célebre como símbolo do espír ito expansionista: “Our manifest destiny is to overspread the continent alloted by Providence for the free development of our yearly multiplying millions” ( cit. a nação norte-americana formara-se numa revolução antiimperial e professa va uma doutrina anti-imperialista. Shi. Freqüentemente subia ao poder uma cor rente isolacionista. Teria sido preciso ser mais maquiavélico do que Maquiavel para supor que . Em segundo lugar . Os intere sses privados. os EUA não eram só uma nação democrática. A única República Imperial que conheciam. em suma. Em terceiro lugar. Tindall and David E. Para compreender essa metamorfose — a terceira da história Ocidental —. entre os fatos contraditórios. ao mesmo tempo que constituíram. habituado por três séculos a identificar imperialismo e monarquia absoluta. a longo prazo. uma política i mperial coerente e contínua. A narrative History. Em p rimeiro lugar. por favor. Se isto representava um perigo. Do ponto de vista europeu. no segundo. a Holanda. Tanta cegueira tem de ter um motivo. Esses dados formavam um a névoa confusa. por trás da agitação republicana. tinha fracassado redondamente l ogo no seu primeiro século. p. preferindo a penetração comercial às intervenções militares 169. aos observadores habituados a pensá-la sob sua velha forma. o que se passava nos EUA. era impossível imaginar uma política imperial sem um Imperador autocrático. só pode ter sido por uma razão: porque aquilo que ali acontecia era diferente de tudo o mais.148 OLAVO DE CARVALHO Santa ilusão! Na comitiva mesma de Wilson já se encontrava aquele que um dia viria a repartir com Stálin. no banquete de Yalta. estivesse nascendo um novo Império. conduzia os Estados Unidos. é precis o ver que ela tem algo em comum com as duas anteriores.

exigências que só podem ser conciliadas n a esfera metafísica. As formas daí resultantes são sempre t ensionais: suas contradições constitutivas mudam de forma. tentativas de co nciliar. até que.m contraditórios e jamais são perfeitamente absorvidos em síntese alguma. no plano da existência contingente. no plano do Ser universal. o conjunto . em sucessivos arranjos ad aptativos — que constituem precisamente o seu desenvolvimento quantitativo e tempo ral —. As grandes criações históricas constituem. a não ser meta fisicamente. precisamente. exaurida uma certa linha de adaptações possíveis.

de outro. W ASSERMANN 173. Tal é o pressuposto lógico que embasa as análises qu e aqui vou fazendo: de um lado. 172 É claro que não se trata. sempre para o oeste. não existe síntese senão potencial. portanto. a distinção entre dialética real e dialética ideal ( dis tinção que Hegel não faz ). 1976 ). como vimos. e sim de conflitos reais entre facções. o modelo romano d e Império. de uma pura contradição lógica entre conceitos. A nova metamorfose que inaugura o Império americano é uma resposta imediata à crise do domínio colonial. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) “Eu não sou Cristo. em vez de conciliar e administrar os interesses de vários po vos numa unidade transnacional. Jorge Vigil. livre-pensamento. Para quem não compreendia a idéia imperial senão associada às monarquias absolutas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 149 A contradição constitutiva do primeiro Império cristão foi.. na sua complexidade por vezes inabarcável. classes etc. o reconhecimento de que. É uma negação ostensiva da versão monárquicoabsolutista da idéia imperial. Se. tensional ( reconhecimen to que falta em Marx ). Esta contradição. Para o oeste. para não dizer simplório: “materializad o” o quanto se queira. menos a p romessa de um Império. em nenhum desses casos. portanto. § 29. nada me restava a fazer senão levantar acampamento e abandonar o país levando comigo essa metade inanimada de mim mesmo. no momento. Kolakowski acertou na mosca ao enfatizar as origens místicas da dialética de Hegel e Marx ( v. na esfera da dialética re al. em O Processo Maurizius. é som e em prol da brevidade. provisória e. pa rtidos. Eis então que o maior dos Impérios nasce invisível àqueles que pode riam tê-lo destruído no berço. Pelo contrário . o que Marx colocou no lugar do “conceito” hegeliano não fora m os fatos. pareciam mais antagônicas ao espírito das velhas monarquias: independênci a. ressuscitar a filha de Jairo não estava em meu poder. democracia. “Our Constitution was made only for a moral and religious people. Mais adiante. os Impérios coloniais modernos constituíram-se com o verdadeiros “impérios nacionais” — uma contradição de termos que expressa a contradição rea ntre a escala multinacional do projeto e o interesse nacional a que ele unilater almente serve: daí que. de JAKOB passa por uma metamorfose global ou morre ( isto supondo-se que causas externas mais poderosas não o matem antes ). portanto. era um homem acabado nessa época. no mais ousado dos arranjos. que ele copiava. Se me refiro de modo sumário a “contradições de idéias”. It is wholly ina . Afinal. a mistura hegeliana do ideal com o real não é aceitável. no prazo que vai da Independência nor te-americana à morte de Antonio de Oliveira Salazar (1975) 172. república. posto de lado como em obediência a uma senha. fundir essa idéia com aquelas que. mas simplesmente um outro c onceito abstratista e demasiado simplificador. assim. famílias. os im périos coloniais modernos nada mais fossem que a escravização organizada de vários povos em proveito de um só. o Império cresce movido pelo conflito com a Igrej a. sem exceção. e morre quando se exaurem suas possibilidades de dar a esse conflito uma form a viável e produtiva. como o exige o conceito imperial originário. como Joana a Louca com o cadáver do esposo. e. esses termos podiam conter tudo.” Wars chauer-Waremme. manejada habilmente por trezentos anos. o esquema tese-antítese-síntese continua sempre um esquema. que a existência d e uma “Igreja” independente dele e superior a ele negava. t . que ele falsifica dando metafisicamente um sumiço no fator “contingência” e transformando a incerta e movediça suc essão dos atos humanos numa escala regular de emanações divinas. sucedâneo do Heptameron bíblico. Ela vai.. já que escapam à esfera da experiência sensível não serve de nada como tradução do movimento real da História. Madrid. Alianza. é também uma ingenuidade supor que a mera inversão operada por Marx possa con sertar as coisas. trad. com a sucessão de guerras de independência que viriam a destruir todos os impérios coloniais. na base. explo diria no fim do século XVIII. I. não prestava mais nem para ser lançado aos cães. Las Corrientes Principales del Marxismo. se pode funcionar como símbolo ou metáfora de certas realidades metafísicas que fatalm ente temos de tentar alcançar por símbolos. Como Moisés na sua cestinha ou Cristo no estábulo.

iria realizar o projeto em que Napoleão falhara: o Império leigo. que. 1963. . incorporando em si sob uma 173 Trad. Rio. trazendo o centro do poder para o novo continente ( não o esqueça o leitor. pois era disto que eu vinha falando no § 27).dequate to the government of any other.” JOHN A DAMS A quarta translatio imperii. Civilização Brasileira. Octávio de Faria e Adonias Filho.

mas. inicialmente implantada em território norte-americano. I.150 OLAVO DE CARVALHO forma laicizada e desespiritualizada os valores cristãos. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française: La FrancMaçonnerie dans l’État ( Paris. como nova religião da humanidade. sem exceção. t. a fini par être adoptée. numa pirâmide invertida onde a t reva mais densa assombrava e governava a menos densa. historicamente comprovado. descarnado e desvitalizado. cet te légende. de que a própria Maçonaria foi alvo de conspirações. mais são os interessa dos em mistificar do que em esclarecer o seu papel na história espiritual da human idade. e de un ificar sob a nova religião laica o mundo Ocidental. A carreira de Fernando Henrique Cardoso — o político ruim de voto que. Paris.. no sentido de um anticristianismo rasteiro sugerido pelas falas de próceres maçônicos de uma época muito posterior. 1936 ). a resguardar-lhes a continuidade e a unida de. atribuídos por seus adversários: comentando o livro de Albert Lantoine . Aí veremos de qual culto é sacerdote o iogue-comissário. incl sive a das iniciações de ofícios. para em seguida ser expandida para todo o mundo. por sua vez. recebendo a iniciação maçônica. múlti plo e incontrolável que assumem os empreendimentos secretos. O terceiro omite o fato. O segundo negligencia o curso freqüentemente caótico. mas absolutamente ninguém faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar para a Maçonaria. divisões e ataques de organizações ainda mais se retas. a religião do Novo Mundo é maçônica. mutila e comprime a linguagem simbólica num unimensionalismo qu e nada poderia justificar. Sim. beaucoup plus tard. talve z falsamente. principalmente quando atravessam as gerações e os séculos e não têm. História Secreta do Brasil. e que gênero de sacrifício se ofic iava no altar do MASP. car. a mistificação toma a forma de especulações fantásticas sobre a antigüidade maçônica — abusando de analogias que são tomadas por identidades históricas — e e um jogo duplo na ocultação-revelação do papel desempenhado pela entidade nos lances de cisivos da História: os projetos de risco são ocultados sob o manto da discrição. senão a força sutil e às vezes apenas simbólica dos egregoroi. 106 ).. a idéia mesma de conferir a uma sociedade secreta a unidade doutrinal trolhas ao lado dos generais estrelados. que pretenderam usá-la para fins diversos. há engano e má-fé em ex do o enfraquecimento do espírito cristão no mundo como efeito de uma conspiração maçônica 17 5. há evidente mistificação em interpretar toda a simbólica maçônica. Cia. um De Maistre? 175 É a tese característica de Gustavo Barroso. em poucos anos chega à presid ia vencendo a candidatura aparentemente imbatível de Luís Inácio Lula da Silva — ilustra -o novamente. Im porta agora delinear os princípios do Evangelho que. Éditions Traditionnelles. entre apóstolos e adversários dessa organização. Émile N ourry. chose curieuse. tudo aquilo que dá certo é atribuído à ação genial da M naria 174. O fato é demasiad notório para que seja preciso demonstrá-lo.. Mais espantoso ainda é quando a entidade. Só que. ou má-fé. se possível. movido por um intuito de interpretar as coisas pr econceituosamente. E . em atrib ir à ação maçônica no mundo uma unidade de intenções e de estratégia. 174 Pelo lado adversário. pois como poderia estar integralmente comprometida com a Revolução a entidad e que tinha entre seus membros de destaque um Saint-Martin. 1977. 3 vols. qui doit sa naissance à des écrivains antimaçonniques tels que l’abbé Barruel. O primeiro desses três erros. Desse momento em diante. s e iria consolidar na forma de moral estatal democrática. e de que dentro dessas mesmas or ganizações. surgiam conspirações e segredos. já no século XX. a posteriori. pertencem a alguma loja maçônica. quando não da secretude. René Guénon louva-o “lorsqu’il démolit la légende qui veut qui la Maçonnerie a t joué un rôle considérable dans la préparation de la Révolution. O Oriental também. que um rito basta par a desfazer em fumaça. Em primeiro lugar. Todos os signatários da Declaração da Independência. assume como seus os feitos que lhe são. nin guém. por um misto de fraqueza e vanglória. há engano. essa “metade inanimada” de Cr istianismo. p. Entre os primeiros. prestar satisfações à Maçonaria ou enfrentar a Maçonaria. assumiria o encargo de s ubstituir a Igreja — todas as igrejas — na condução da vida interior das gentes.176 Enfim. par les Maçons eux-mêmes” ( Études sur la FrancMaçonnerie et le Compagnonnage.

Western Islands. Mass. de tirar conclusões sólidas das informações de que dispunha. 1937.. alto dignitár io da Maçonaria escocesa. Originally Published in 1798.ditora Nacional. 176 V. dirige-se a seus pares para denunciar a infiltração de membr os de uma outra organização secreta — os Exemplo: Só no décimo ano do golpe de abril de 1964. com o regime militar já mais que consolidado. 1967. Proofs of a Conspiracy. With a New Introductio n by the Publishers. a Maçonaria assumiu sua participação na autoria do evento. com os grão-mest res desfilando de aventais e . por falta de método científico e espírito filosófico. O autor. Belmont. John Robis on. Acho que nunca houve no Brasil um pesquisador tão bem infor mado sobre sociedades secretas e tão incapaz.

a doutrina dominante na Maçonaria de uma dada época. encontrou a organização num estado de vácuo doutrinal. René Guénon. são constantes pelo menos desde o século XVIII 179. é. Bishop of Orleans. se queixava de que parecia haver. Assim como Daniélou. bem como sua via de conciliação. 177 V. Guénon preenche esse vácuo com a mais densa metafísica. de que a modernidade se ca racteriza pela democratização da vida política. de pertencer ao círculo dos eleitos que. o revolucionário itali ano Giuseppe Mazzini. O secreto não age. os ritos iniciáticos. Empreendimentos como o de Mons. 1876. Bem. imprimirão sua marca no mundo todo que este vai forjando ante nossos olhos. pois a doutrina assim encontrada é apenas uma dentre muitas possíveis. Esclarecida e derrubada esta doutrina i ntrinsecamente absurda. uma outra mais secr eta que a manipulava. por exemp lo. Dupanloup. o que se observa é a ascen são de uma aristocracia iniciática. no entanto. para em seguida melhor combatê-la no campo dos argumento s lógicos. — Mais tarde. todas as aristocracias tiveram um forte elemento esotéric o e iniciático nas suas origens. há na organização uns quan os traços puramente formais e estruturais que. que aqui não nos interessam absolutamente. Illuminati da Baviera — nas fileiras da entidade. aceito pela maioria dos teóricos há dois séculos. na melhor das hipóte ses. O grande reformador maçônico do século XX. Daniélou quanto ao simbolismo da cruz mo stram apenas uma inferioridade de QI. então é totalmente falso o pre ssuposto. Paul Sérant e outros adve rsários católicos de Guénon fogem para o terreno teológico e moral. Esoterismo e democracia são termos a ntagônicos como segredo e difusão. historicam ente. às vezes até justo.. Ante nossos olhos? Não. Dupanloup. sabem o que se passa e para onde as coisas vão. a disciplina do segredo e a obediência a uma hierarquia secreta separam o iniciado do comum dos mo rtais. só não sabe por que. filiando-o a uma tradição imemorial e dando-lhe o sentimento. Ao contrário. Dupanloup já nada têm a opor 178. que uma profusão de ritos e símbolos. Mas. onde se sentem abrig ados sob pressupostos de fé que. O mais irôni co de tudo é que o lado cristão está certo. tanto na Revolução Francesa quanto no nascimento do Império Americano. modelando a mentalidade dos fundadores do Império americano. De ntro de nossos cérebros.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 151 e administrativa de uma Igreja é de um ridículo sem par. Kenek Books. a toda tentativa de con trole externo. ao maçonismo guénoniano os argumentos de Mons. mas pela eficácia do caos. A aristocracia de sangue não é senão o resíduo multissecu . 178 A polêmica católica contra René Guénon continua impressionando pela sua incapacidade de enfrentá-lo no terreno propr iamente metafísico. transla ted from the French. estes sim. Explico isto mais extensam ente em meu Diário Filosófico. se de fato é assim. e qu e. Antes de tudo. Mons. aliada a uma retórica sufocante. tendo conseguido galgar altos postos na hierarquia dos Ill uminati. A seleção rigorosa. New York. que tentam ciscar nas palavras dos próceres maçônicos os elementos com que possam compor uma doutrina maçônica. por trás da variedade mirífic a das idéias maçônicas. em linha reta. pela eliminação progressiva do resíduo aristocrático. manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo. nem mesmo seus concorr entes da escola schuoniana — é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das “possibilidades de não-manifestação”. é uma aristocracia. o corpo de membros da Maçonaria. O ponto-chave dos erros d e Guénon — que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado. da divisão e da suspeita que afeta a queles mesmos que o servem. a toda crítica. As célebres objeções de Mons. como o de qualquer outra sociedade secreta. só bastava para disfarçar ante os intelectos menos exigentes . No fundo. por trás da agitação cega e vã dos átomos anônimos. Study of Freemasonry. Mas. pronta a ceder lugar a out ra na época seguinte 177. ainda que filosoficamente respeitáveis. cujo poder. O jogos de esconde-esconde entre sociedades secretas ant eciparam todas as práticas que no século XX seriam adotadas pelos serviços secretos es tatais. fortalecido pela disciplina do segre do. não são metafisicamente válidos. são inteiramente infrutíferos.. pela ampliação dos meios de participação do p vo no poder. acima da organização. se furta por completo a toda fiscalização.

mas sociedades iniciáticas. 179 V. A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática. I. São Paulo. Jean Palou. trad. Cap. Pensamento. 1979.lar de uma casta que no início recrutava os seus membros segundo critérios seletivos e triagens iniciáticas bem semelhantes aos da Maçonaria ou de qualquer outra socied ade do gênero. As ordens de cavalaria nunca foram simples organizações militares. . Edilson Alkmin Cunha. cujos ritos e símbolos remanescentes nos permitem adivinhar as profundidades insondáveis do mistério espiritual que continham.

O que acontece é qu e nem todos tiram dessas verificações as conseqüências óbvias que delas se seguem inapelav elmente. não dirige o curso dos acontecimentos pela sua ação del iberada. Ediou ro. à abstração eidética e finalmente ao discurso lógico. democracia de jure — uma combinação que só se tornou p ossível pela ampliação do papel desempenhado pelo secreto na vida política e social 180. dos movimentos de protesto e da cultura da reclamação não abala no mais mínimo que seja o poder das velhas oligarquias. ou devo simplesmente remet er o leitor ao meu estudo anterior Uma Filosofia Aristotélica da Cultura? Claro. de Tomás de Aquino a Benedetto Croce. Para fazer-me compreender neste particular devo reexplicar toda a cadeia de absorções e projeções cognitivas que leva da simples estimulação sensível à memória. sobre a q ual e só sobre a qual — e não diretamente sobre os dados dos sentidos — pode em seguida operar-se a abstração conceitual. não é fazer da Maçonaria o demiurgo invisível e onividente que move os cordões de tudo o que acontece. Resumindo: aristocracia de facto. não é mesmo? Então digo logo: aquilo que os nossos sentidos colhem da variedade infindável do mundo é primeiro elaborado sob a forma da abstração imaginativa. Po is a Maçonaria. repetida. 2ª Caráter secreto ou p elo menos discreto do novo poder aristocrático. demarca. de um a vez para sempre. tomando-o como uma novidade radical. mas simplesmente sua presença na estrutura de poder do Império americano im pregna de um elemento de secretude e do espírito de um novo modelo de hierarquia s acerdotal a vida mental e política dos povos do Novo Mundo — impregnação esta que escapa totalmente ao controle da própria Maçonaria e se torna. antes o fortalece. Rio. de seus membros à prática de ritos regulares. 1995 ). a Revolução Francesa e o nascimento do Império Americano não marcam assim a extinção do poder aristocrático. . de seus noviços a ritos de iniciação. O que possibilita que as coisas transcorram assim é uma ce rta característica inerente ao poder maçônico. Rito significa: execução imitativa e corpora l de uma cosmovisão simbólica. É essa reciclagem que inaugura propriamente os tempos m odernos. ao assinalar o elitismo crescente na sociedade americana ( em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia. 3ª Formidável concentração do poder do dom inador. Este é um dos raros pontos de psicologia e teoria do conhecimento em que não há q uase desacordo. Mas — atenção — ressaltar a importância da presença maçônica na constituiç ovo Império não é atribuir paranoicamente à ação da Maçonaria a autoria do curso da História Novo Mundo. Rodrigues. Que característica é essa? A Maçon aria reune a liberdade intelectual de uma sociedade de debates à rigidez e à discipl ina de uma fraternidade iniciática. mas uma gigantesca recicl agem da casta aristocrática. de Duns Scot a Etienne Souriau e à mais recente ciência cognitiva. trad. mas como seria estúpido sugerir que o leitor do presente livro o abandonasse pela leitura de um outro. pelo automatismo do hábito inconsciente e independenteme nte das inten180 ções de quem quer que seja. de Aristóteles a Jean Piaget.152 OLAVO DE CARVALHO O crescimento da Maçonaria no século XVIII. Uma delas é a seguinte: aquilo que está fora do nosso círculo imaginário está for a do nosso universo conceptual 181. E é ela mesma que possibilita a evolução muito peculiar da nação norte-americana. d evo optar por esta última alternativa. aliada a uma não menos formidável expansão dos direitos nominais do dominado. um princípio est rutural. que atua por si. com o tempo. contrasta esse fenômeno com a ideologia igualitária reinante no século pas sado. no meu entender. sem perceber que as raízes dele já estão no berço mesmo do novo Império. onde a ampliação quase caricatural dos direitos populares. Ela define-se pelos seguintes traços: 1ª Substituição das anti gas aristocracias de sangue pela nova aristocracia iniciática. Isto não quer dizer que não possa ser pensa181 Chistopher Lasch. não é aderir a nenhuma interpretação conspirativa da História. quer compreendida ou não. o mundo de hoje. é melhor enxertar aqui u m resumo daquilo cuja versão extensiva ele poderá deixar para buscar no outro mais t arde. sobre a qual talvez nem mesmo os líderes e teóricos da organização hajam nunca parado para pensar. à ab ginativa. que. Fraternidade iniciática significa: sujeição de seus postulantes a uma seqüência de ritos preparatórios. de cujos produtos se comporá em seguida o raciocínio lóg ico. o quadro inteiro das possibilidades de intelecção consciente do i ndivíduo. Talita M.

em hipótese ). isto é. capto intencionalmente a essência de um ente real ( ou de um atributo real ). na .No sentido em que aqui emprego estes termos. ao menos logicamente. No conceito. compreendido como real ( se não metafi sicamente. cabe enfatizar a distinção entre os con ceitos e as meras definições nominais.

se me perguntam como é possível que gerações e gerações de homens intelectualmente dotados consintam em viver sob o domínio de . de compartimentos que se ignoram. 1985. Na verdade. a René Alleau ( La Science des Symboles. 1991. só se usam definições nominais. pp. codefinição nominal. 1962 ). em discussão: se todas as interpretações são válidas. entre afetações de homenagem. de crítica. que tem todas as vantag ens em permanecer implícito. conse rvando seu arsenal simbólico sob a proteção de uma impenetrável névoa doutrinal. que só têm em comum o fato de serem alimentadas pelo sangue de um mesmo corpo. alimentam as dissidências e as cisões: porque cisão. perdem todo o seu mágico poder no insta nte em que se expressam na clara linguagem dos dogmas: pois a partir desse insta nte tornam-se objetos de raciocínio. os maçons do século XX receberam a contribuição doutrinal de René Guénon. Ela s não imitam o modelo orgânico. e Ensaios Filosóficos. Rite and Art. no sentido mais ri goroso da palavra. em suma. 1971 ). 1960 ). mas a doutrina maçônica. 5 (13). hierarquizado e integrado dos corpos animais. em Astros e Símbolos . que governam o imaginári o na meia-luz do implícito e do pressuposto. O guénonismo tornava as idéias maçônicas intelectualmente respeitáv is. pela dialética de sua própri a busca de sobrevivência. Paris. uma inteligente ilustração deste ponto em: Níl son José Machado. O resultado. 183 Sobre a analogia. está a salvo de qualquer con testação: na medida em que permanece ambígua o bastante para poder admitir todas as in terpretações. sem correspondência ao menos próxima com aquilo que entendemos como realidade 182. A facção dissidente. nem dos nossos raciocínios. Dervy-Livres. se for pensado. Ora. 182 V. já que tem pleno domínio sobre o seu imaginário. é o seguinte: uma sociedade iniciática. pode continuar integrada no conjunto: a s sociedades secretas compõem-se. 79-100. Cultrix. qualquer que seja. Langer ( Philosophy in a New Key . Solução tipicamente maçônica: se você concorda com Guénon. Cap. Compreende-se portanto a extrema cau tela com que. do hinduismo: quando à linguagem polissêmica dos símbolos se começa a substituir o discurso unívoco das formulações doutrinais. sequer. se discorda. II — fundamental para a compreensão do método de in terpretação simbólica que emprego neste e em outros estudos. Jamir Martins. meu ensaio “A dialética simbólica”. New York. Nova Stella. Ao contrário das grandes organizações dogmáticas. A Study in the Symbolism of Reason. signifi ca automaticamente isolamento (os membros da loja dissidente não frequentam mais a s outras lojas) e isolamento significa: impossibilidade de um confronto direto. muito antes. Payot. as sociedades secretas. trad. mas estas não basta m para a teoria do conhecimento. São Paulo. isolada assepticamente. todas já estão neutralizadas de antemão. Nosso senso do real não depe nde nem das nossas percepções. Mas tudo o que é sólido está sujeito a receber porradas. “A alegoria em matemática”. quan to mais liberdade de crença vigore ali dentro. se existe. Uma organização que timbre em defender um dogma explícito não tem outro remédio senão explicitá-lo — e os sentimentos difusos. apenas a intenção signif cada por uma palavra. nem da nossa vontade: depen de das formas profundamente consolidadas do nosso universo imaginário. A ima ginação é. método que deve muito a René Guénon ( Symboles de la Science Sacrée. porém o crescimento de tumorações variadas e independentes. 1977 ). a Titus Burckhardt ( Principes et Méthodes de l’Art Sacré. quanto mais frouxa e menos dogmática for a doutrina da organização. não corre o risco de entrar. v. de assentimento ou discordância intelectual. aí. São Paulo. independentemente da realidade ou irrealidade da coisa ref erida. A solução foi guenonizar logo umas três ou quatro lojas e deixar o resto exatamente como estava. e a Susanne K. Paris. para os fins da presente investigação.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 153 do. Mentor Book. do Islam e. Gallimard. 1948. dando-lhes uma imponente solidez doutrinal. lá dentro p ode-se discutir tudo. Quer dizer apenas que. ent ra numa loja guénoniana. será pensado como mera forma lógica. A Maçonaria resguardou-se desse risco. por definição. Contribution à l’Étude des Principes et des Méthodes de la Symbol ique Générale. não tem necessidade de controlar as opi niões de seus membros. mais eficaz será esse controle. um símbolo: uma semente produtora de significados múltiplos mas a nálogos entre si 183. meçam a pulular as oposições e as heresias. Ora. cada i magem depositada na nossa memória ou produzida na nossa imaginação é. a mãe daquilo que se chama senso do real. por exemplo. Estudos Avançados ( USP ). vai simplesmente para outra loja. Paris. Isto foi bastante evidente nos casos da Igreja Católica. Em lógica simbólica.

Quem consente em ser dirigido por um desconhecido. das ciências e da política foram maçons —.uma névoa entorpecente — alguns dos maiores gênios das artes. respondo que isso não é mais esquisito do que o fato de consentirem pert encer a uma sociedade cujos altos escalões são ocupados por personagens cuja identid ade permanece secreta. por qu e não aceitaria também o jugo de uma doutrina incompreensível? .

Esse medo não é de todo despropositado. ela assumiu definitivamente sua vocação revolucionária. também são maçons o rei e toda a sua corriola. sobretudo t. ensinando. O que a diferencia da Igreja é menos a sua ideologia — vaga. Se é verdade que a M açonaria se originou nas corporações de ofícios da Idade Média. Mas os Estados Unidos são o primeiro país cujos governantes são todos o u quase todos maçons. Quaisquer que fossem as intenções de seus fundadores. se d eram conta das implicações mais óbvias desse ritual. o homem do povo encontrava a proteção de u ma força capaz de intimidar nobres e clérigos. de outro. todos os líderes revolucio nários pertencem à organização. ma s que nem os personagens de destaque na época. XIII. influencia decisivamente o curso das coisas. às vésperas da queda do Antigo Regime na França. Cap. Jean Charles Pichon julga que. um homem jurava ob edecer ordens emanadas de fonte secreta. e onde. orientando. t. op. Da lealdade corporativa à disciplina do arcano há menos que um passo: pela salvaguarda do próprio pescoço. não real ou imperial. quando o Brasil imitar o exemplo norte-americano e proclamar sua independência da Europa. nem a maioria dos maçons até hoje. não são senão a exteriorização de divergências nas e elaboradas dentro da Maçonaria. mas em certas horas seu jugo deve ter parecido mais suave. cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. Octávio Tarquínio de Souza. atribuir à Maçonaria a responsabilidade pelos movimen tos revolucionários. estimulando. por exemplo. É um simplismo grosseiro. e em seguida boicotado pela Maçonaria mesma e levado à abdicação. porque ela não se compromete com aqueles a quem auxilia. III Caps. do mes mo modo que a Igreja medieval não se comprometia em conflitos dinásticos: sua função é ecl esial. A mão das organizações secretas sempre foi pesada. 1957 ). E governo maçônico quer dizer o seguinte: todos os onflitos abertos. Isso aconteceu. ) A mesma ambigüidade nota-se na atuação da Maçonaria quando da formação do Império do Brasil. talvez mais que a da nobreza ou a do clero. Pedro I ( Rio. cit. Muito mais que o Imperador. Como a Igreja.. o advento do gove . ela é o verdade iro “poder moderador” — a autoridade espiritual que acolhe em seu seio maternal os par tidos em disputa e unge a fronte do vencedor com o óleo bento da legitimidade. XIII. são maçons os liberais. a Maçon aria sai vencedora em qualquer hipótese. A Vida de D. para sempre. democrática encobre e disfarça a luta interna no seio de uma nova aristocracia. a uma casta governante. todas as disputas políticas travadas diante do público.154 OLAVO DE CARVALHO A resposta é. e. indefinida e elástica o bastante para comportar todos os arranjos e acomodações — do que a sua inv isibilidade. a situação de facto é: governo maçônico. quando a aris tocracia em peso achou que dentro da Maçonaria podia encontrar um abrigo seguro co ntra as tempestades que se aproximavam: o próprio Luís XVI submeteu-se aos ritos e j uramentos 184. ( V. Historia Universal de las Sectas. XXIV e XXV. no fim das contas. e viver entre os demais homens. José Olympio. a mais óbvia: é o medo. Logo em seguida. elevado rapidamente à condição de Grão-M stre. ela dá nascimento a uma aristocracia. Pairando invisivelmente sobre todas as forças em luta. A espuma 184 O papel da Maçonaria na Revolução é bastante ambíguo. e equilibrando enfim — ao menos idealmente — o movimento do conjunto. II Cap. Não sei o que pensar dessa tese. com a sua disciplina do arcano. conciliando ou dividindo. são maçons os tadores republicanos. a vida parlamentar do Império não consistirá de outra coisa senão de debates entre maçons . a partir do momento em que a Maçonaria introduziu em seu s ritos a matança simbólica do “pai dos arquitetos”. sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo 185. Hiram. defender até à morte os segredos da organiz ação. não havendo oficialmente religião protegida pelo Estado. é maçom o Imperador. ma s sem dúvida ela merece atenção. como um espião. Pedro I é convidado a entrar na organização. portanto. cujas divergências se erguiam sobre o fundo comum de um pacto de lealdades secre tas. seguida de sua ressurreição. com uma identidade dupla. São maçons os conservadores. é o desejo despropositado de se gurança (forma larvar e passiva do desejo de poder) que move os homens a submeterse a esse gênero de coisas. De um lado. que consti tuem a pulsação mesma da vida democrática. V. construtor do templo de Salo mão. é fácil compreender que nessa corporações.

correrá parelha com o aumento incalculável da influência das org anizações secretas. que neutral izará os efeitos da democratização para reduzi-la a pouco mais que uma distribuição de doc es para aplacar criancinhas zangadas. 185 Sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo: distinção capital. Daí por diante. . ansiosos como estavam por denuncia r por trás de todos os eventos um maquiavélico dedo maçônico.rno maçônico nas Américas abre uma nova etapa na História do mundo: a era do segredo. que os defenso res da teoria da “conspiração maçônica” nunca enxergaram. sobretudo das organizações estatais secretas do século XX . a democratização progressiva das instituições. que é o aspecto mais patente da evolução política mundial.

É ev idente que o advento do governo maçônico constituiu nada mais que o estopim a desenc adear um processo de secretude crescente em escala mundial. O Ofício de Espião. a espionagem industrial general izada. é claro que não se pode nem de longe entender fenômenos como o do atual banditismo organizado sem referi-lo ao quadro geral disso que chamei secre tude crescente 187. trad. se tudo isso é claro. Os historiadores raramente mostram sensibilidade para o ineditismo desse fenômeno. qu e é uma das marcas diferenciais do século XX em relação a toda a história anterior 186. então não se justifica o desprezo dos h istoriadores e cientistas sociais por esse fenômeno. cresceram ao ponto de se tornarem virtualmente incontr oláveis. E. bem como das tríades chinesas. oferecendo seus préstimos: Thomas foi encontrar um deles no Líbano. Allen Dulles. no mais das vezes de ordem supra-política e propriamente sacerdotal.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 155 Dizer “uma nova etapa” não é exagero: por mais que se procurem. O que é inédito na História do mundo ( com a possível exceção da “Ordem dos Assassinos” no Oriente islâmico ) é a extens do poder dessas organizações e o fato de que seus principais opositores são também organ izações secretas. os milhares de seitas que hoje vinculam uma boa parte da população mundial a pactos de lealdade confidenciais. 187 186 O mesmo não se pode dizer dos personagens envolvidos. e que nestas origens se en contra a participação das sociedades secretas na formação dos governos americanos. bem c omo na Revolução Francesa e no desenrolar das mutações políticas e ideológicas ao longo do sé ulo XIX um capítulo que permanecerá demasiado obscuro enquanto se enfocarem essas so ciedades como meras forças políticas secretas. servindo à organização terrorista que sequestrara um funcionário americano e o tor turara para extorquir informações. Num dos documentos mais impressionantes já publicados a respeito ( Journey into Madness. da vida sexual etc. Lisboa. Corgi Books. a KGB. De outro. Que sociedades secretas de objetivo originariamente iniciático e sacerdotal se tra nsformem depois em quadrilhas de bandidos. s/d ). mas se explic a: o papel do secreto na vida política ampliou-se de tal maneira que ultrapassa as possibilidades imaginativas do homem comum e penetra naquela zona de improbabil idade que raia a ficção e o impossível puro e simples: seu próprio crescimento desmesura do tornao invisível. reconhece muito pertinentemente a diferença abissal de escala que separa os modernos serviços secretos de tudo o que até o século XIX se conhecia co mo “espionagem”. portuguesa. a convicção generalizada. eis um fenômeno que não é nada novo na Histór ia. mas os profissionais lá treinados se e spalharam pelo mundo. Medical Torture and the Mind Controllers. e outros tantos fatos que assinalam uma ascensão . sem ter em conta o caráter específico da sua atuação. incutida pela ideologia democrática. os serviços de “inteligência” ultrapassaram muito o campo das i nformações militares para abranger toda a vida social e psicológica das nações. Mas também é certo que não se pode compreender esse processo sem remontar às suas origens. invadindo os tensivamente a esfera dita “privada” ( v. que foi direto r da CIA por décadas. e a invisibilidade é o fermento que o faz crescer mais ainda 18 8. Não se justifica. de qu e a História do mundo evolui no sentido da crescente circulação de informações. o centro foi fechado. não se encontrarão em nenhum a outra época ou civilização coisas como a CIA. que nem a Maçonaria ne m qualquer outra organização poderia jamais controlar. penetrando até mesmo na intimidade dos costumes familiares. De outro lado. sem precedentes. De um lado. Guimarães. 188 Que intelectuais maçons ou pró-maçons sejam . 198 8 ) conta de um centro de treinamento de torturadores médicos criado pela CIA. den unciado no Congresso. Mas. f inalmente. London. não é de mold a propiciar nenhuma valorização dos fatores secretos e os intelectuais não estão imunes a essa crença. Essa foi a origem da Máfia. da força dos fatores secretos na produção do acontecer histórico. estas de cunho estatal.

elas mesmas. o comentário de Guénon ao livro de Lantoine. inconsc ientes de sua ação no mundo. se ex iste. elas se utilizariam de hordas de intelectuais céticos e materialistas como de um muro protetor para garantir a sua invisibilidade. citado na p. o manipulador. Há uma diferença profunda entre influenciar e diri gir. não sendo nem maçom nem antimaçom. de modo a poder manipulálos com a ajuda deles mesmos. e a ideologia “científica” que omite completamente a influência delas ( exceto quando reduzidas a inócuas “forças políticas” sem peso específico ). o qualificativo de cie ntífico. no qual as entidades esotéricas acabam por se tornar. Enfim. pela exclusão de todo fator espiritual na explicação histórica exclusão que a fortiori le va a omitir também toda interferência específica das sociedades iniciáticas na produção dos fatos . é indício eloquente de falta de consciência histórica. Que a Maçonaria assuma como suas certas ações que lhe são imput adas por seus adversários v. temporariamente usurpado pelo dogma da cegueira metodológica obrigatória. segundo a qual as sociedades secretas dirigem o curso da História. Entre a teoria conspiratória. Ess e meio-termo é precisamente o que estou buscando nestas páginas. .os primeiros a lutar pelas interpretações materialistas e sociologizantes da História. 233 . eis aí algo que poderia tentar-nos a endossar a teoria conspiratória. vejo nesse fenômeno antes um “efeito a vestruz”. de pleno direito. Da minha parte. deve haver lug ar para um sensato meio-termo que mereça. segundo a qual essas sociedades dirigem conscientemente a trajetória do mundo pelo hábil ma nejo do segredo: impondo como “científicas” exclusivamente aquelas interpretações que as o cultam. é o mais manipulado de todos.

em nova mensagem. Sua esposa. Atormentava-se entre dúvidas insolúveis. nas obras de Mohyieddin Ibn-Arabi. no mbolismo astrológico. ordenando-lhe. Seja sob a forte impressão de leituras mal digeridas. os literatos ao deslumbramento misticóide. Contemporâneo de Gurdjieff. que. trazer con hecimentos esotéricos de insondável profundidade. os “espíritos” puseram um fim aos seus tormentos. em busca de explicação. Até o fim da vida. Mencionei lá atrás o domínio tirânico que George urdjieff exercia sobre as mentes de seus discípulos. Yeats. Como que num pacto destinado a bloquear por dois lados o acesso a uma compreensão real do assu nto. os historiadores e cientistas sociais tendem à indiferença olímpica.. O episódio teria sido levado a melhor termo se o poeta. O “ciclo da perso nalidade” não é senão uma aplicação particular da processão dos Nomes Divinos divididos. Muitos dos monstros e vampiros que povoam a literatura do Ocidente no s dois últimos séculos a começar pelo mais célebre de todos. reduzidas à condição de crianças atônitas nas mãos do poderoso mistificador190. que era médium. veladas e subjetivistas. não desce ao exame de miudezas “esotéric as” que em nada poderiam. Aleister Crowley semeou o desespero e o terror entr e os jovens intelectuais portugueses que se colocaram sob sua influência no começo d o século Almada Negreiros. muitos esc ritores modernos divulgaram a existência e a atuação de forças secretas. meio impostor . que expunha.156 OLAVO DE CARVALHO De modo geral. Foi debalde. ora mistificando-os. A explicação completa do “ciclo da personalidade” poderia ser encontrada. O próprio Yeats não entendera absolutamente nada da “mensagem”. mas depois de três anos. Atordoado. destituídos de fontes históricas reconhecíveis. Fernando Pessoa. por incapacidade de decifrál a. só podiam ter sido inspirados do além. deu de revirar toda a literatura filosóf ica Ocidental. pois a obra pareceu aos críticos. no seu entender. influen ciado desde a adolescência por um seguidor dos Illuminati da Baviera. capazes de excitar morbidamente a imaginação popular sem nada esclarecer quanto à natureza do fenômeno. ampliando fantasiosamente o poder das soci edades secretas ao ponto de fazer delas o demiurgo invisível da História. do alto de seu conhecimento quase divino de leis históricas supostamente impessoais e objetivas. do mesmo modo que muitos dos t emas da poesia e da ficção constituem traslados quase literais de ritos e símbolos de organizações esotéricas e pseudo-esotéricas. que. ficou embasbacado191. disse-lhe ter recebido dos espíritos uma misteriosa mensagem cifrada. acabou por se tornar o porta-voz mais intelectualizad o da concepção conspirativa da História 189. Foram comidas pela esfinge. como Edmund Wilson. que parass e de estudar o assunto. poetas. sentia-se meio sábio. a intelectualidade moderna mostra uma completa inépcia ao lidar com esses assuntos. Wil liam Butler Yeats (1865-1939) era leitor de Madame Blavatski e frequentador de cír culos “ocultistas”. tivesse ido estudar os clássicos da mística oriental. A regra geral nesses casos é a absoluta inermidade do “intelectual” moderno ante a “mão noturna” que o guia. Um exemplo desta última atitude é Shelley. incapazes de elaborar intelectua lmente suas experiências mas sempre dispostos a lhes dar algum tipo de expressão mis tificatória. mas dando-lhes interpretações simbólicas. Todos os escritore s. sob a forma simbólica de um ciclo lunisolar de 28 dias o conjunto de todas as formas possíveis da personalidade humana. ignorantes de toda mística autêntica. afetar o curso das coisas. compôs com essas imagens A Vision (1926): o impacto foi gran de. seja sob o impacto mesmo de experiências pessoais traumáticas.. por exemplo. Mário de Sá-Carneiro. Yeats não soube se sua Vision era verdade ou ilusão. e embriagado depois pela alucinante mistura de fatos e ficções com que o Abade Barruel compusera sua célebre sopa anti-maçônica. o Frankenstein de Mary Shel ley são personificações veladas de sociedades secretas. ora afetan do uma superioridade blasée que. pelas 28 casas lunares que dá origem à 190 191 . Até um escritor de notórias simpatia s marxistas. impressionado. entre os quais se encontravam não poucas celebridades das letras e das ciências. ao invés de confiar-se ceg amente a “ensinamentos espirituais” de origem mais que duvidosa. cientistas que tiveram contatos mais próximos com gurus misteriosos e s ociedades secretas saíram traumatizados e atônitos.

Cap. Axel’s Castle. O Castelo de Axe l. São Paulo. Scriber’s. Cultrix. brasileira de José Paulo Paes. 2º ed. John Bennett. 1931. Paul Johnson. Witness. I. Cap. The Autobiography of John Bennet.189 V. 1985. New York. V. Os Intelectuais. II. trad.. . V.

cujos enredos francamente paranóicos. Dominado psiquicamente por Shah.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 157 manifestação cósmica e se repete. omitindo as fontes e rodeando o ens inamento de uma aura misteriosa que só poderia servir para confundir a ela e ao ma rido? A resposta é simples: fizeram isso pelo mesmo motivo com que Madame Blavatsk i. Ninguém nega que a experiência de colocar -se sob o domínio de uma mente maligna pode dar às fantasias literárias de um escritor um atrativo misterioso e contribuir para seu sucesso. Cap. orgulhosa porta-voz de uma épo ca que se julga o apogeu da autoconsciência humana. Graves foi induzido a colaborar como inocente útil. Um dos mais deprimentes capítulo s dessa epopéia tragicômica foi o destino de outro grande poeta inglês. Milano. se fez de donzela ofendida e morreu sem ter dado o b raço a torcer. Humilhados no seu ponto de maior orgul ho a inteligência . ao reproduzir trechos de um clássico tibetano que lera em tradução alemã. As histórias de artistas e intelectuais manipulados psiquicamente e f eitos de palhaços por pseudo-mestres espirituais no século XX formam um tremendo req uisitório contra a presunção da intelectualidade moderna. raramente ou nunca admitem que foram feitos de idiotas. que se torna mai imoral ainda na medida em que vai contaminar leitores e espectadores inocentes. por que simplesmente não lhe deram par a ler uma tradução de Ibn Arabi ou de algum dos outros muitos místicos islâmicos que tra tam do assunto? Por que tiveram de transmitir o ensinamento para uma médium em tra nse. de uma automistificação voluntária. pp. 193 V. é claro no que se c onsidera a maior fraude literária do século: uma nova tradução do Rubayyat de Omar Khayy am. Sua história nada edificante foi pu blicada na revista Encounter de maio de 1955. decerto mais hipnótico do que espiritual. Prefere m aludir ao assunto de maneira indireta e simbólica. Histoire d’une Pseudo-Réligion. O caso é narrado em detalhes na biografia de Graves por Martin Seymour-Smith195. Mas esse sucesso é obtido a través de uma diminuição de consciência. chega a declarar expressamente que essa e outras entidades “eso téricas” gostam de “apoderar-se das mentes” de intelectuais e envolvê-los em situações persec tórias que os levarão ao desespero196. O lado mais deprimente dessas histórias é que os intelectuais ludibriados se sente m mais ou menos como mulheres estupradas. Le Théosophisme. III. mostraram que o vetusto manuscrito não existia e que a trad ução que Shah transmitira a Graves para que a pusesse em versos era simplesmente um plágio de uma adaptação norte-americana do século XIX. à mercê de “influências psíquicas” que não pode compreender nem dominar. Rinehart & Winston. Titus Burckhardt. às quais atr i erroneamente uma origem “celeste” e às quais presta um culto supersticioso. pretensamente baseada num manuscrito inédito que estaria. sob a g uarda 192 Cf. desde séculos. feito de temor e suspeita. porta-voz talvez pseudônimo da organiz ação de Omar Ali Shah. The Collector e The Magus197 foram inspirad os nesse tipo de experiências. René Guénon. Ele cita em particular o caso de John Fowles. preferiu di zer tê-los encontrado na cópia única. provavelmente também de Doris Lessing . 1982. Suponho que coisas análogas poder iam dizer-se de Stephen King e Colin Wilson. 555-558. Graves. advertido de que estava s endo usado para uma fraude. 194 Omar Ali e seu irmão Idries formam talvez a mais famosa dupla de farsantes espirituais da Inglaterra. da família Shah no Afeganistão. É precisamente por meio de intelectuais e escritores que organizações esotéricas e pseu . o nde não há mistério. analogicamente. 195 Robert Graves. His Life and Wo rk. Um autor de nome Ernest Scott. Holt. O caso revela a triste condição do intelectual e uropeu. I. Archè. Fizeram isso porque a força do dominador psíquico reside no mistério e. nas mãos do “gozador cósmico” Omar Ali Shah194. guardada a sete chaves num mosteiro subterrâneo do Oriente193. ajudando assim a dar às proezas de seus algozes uma aura de prestígio mágico. Clé Spirituelle de l’Astrologie Musulmane d’après Mohyid-din Ibn-A rabi. e sem verdadeira fé. que era o seu guru. Pesquisas empreendidas por dois filólogos. Fowles não desmentiu. no microcosmo da alma humana192. é preciso fabricar um. Se os gurus de Yeats queriam lhe ensinar isso. P. terminando por sentir-se um misto de otário e vigarista. Robert Graves. Elwell-Sutton. 1978. John Bowen e L. Chap.

do-esotéricas exercem sua influência sobre toda a sociedade uma influência que afeta a ntes os estratos profundos da psicologia coletiva do que a superfície da História po lítica. o primeiro com Therence Stamp e Samantha Eggar. . Octagon Press. 1983. Ambos de pois filmados. o segundo com Ant hony Quinn. Ernest Scott. Não deixa de ser curioso que aqueles mesmos intelectuais que 196 197 V. London. The People of the Secret.

historiadores e cientistas sociais muitas vez es é uma simples cumplicidade consciente na manutenção de um segredo com que se compro meteram mediante juramento. Quando a pose se torna enfática demais. 199 5 ). à esquerda cada um denunciando as sociedades secretas dos outros . um intelectual que tivesse tido contatos com sociedad es secretas elaborasse essa experiência de uma maneira intelectualmente digna e es crevesse sobre elas de maneira a esclarecer o público. marxista arrependido. ao l ongo dos últimos dois séculos. maçom. ocultista. a mais elementar pr ecaução recomenda certificar-nos de que não se trata de um esoterista. não se dêem conta de que o único poder efetivo que elas exercem é precisamente aquele a que servem de instrumento: o poder de moldar o imaginário social. Com a exceção provave lmente única de August Strindberg. os intelec tuais que fazem a cabeça do mundo moderno são tipos bem pouco confiáveis. só serve para deixar o público naquele estado de dúvida temerosa que logo se transforma em atração e vulnerabilidade. e sobretudo não consiste em poses. t rad. atribuindo às sociedades secretas um poder demiúrgico ine xistente. é que há nela um elemento de histrionismo. Brasiliense. maçom ou rosacruz enrustido.158 OLAVO DE CARVALHO difundem visões fantasiosas. que se pavoneia para exorcisar um medo invencível. para dar às sua s conclusões a aparência de terem sido obtidas por meios exclusivamente “científicos”. ou Ivan Maïski. Inferno. publicou numa revista maçônica uma análise histórica baseada em métodos astrológicos. a inermidade dos intelectuais contemporâneos ante os fabricantes de segredos. como o leitor bem está vendo por estas páginas. August Strindberg. Mas será possível que a casta intelectual inteira este ja comprometida com a mentira e o auto199 198 V. Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial. os traumas de experiências interiores induzidas po r guias espirituais malignos acabam se transformando em literatura mistificatória. a afetação de ind rença superior por parte de filósofos. expurgou o texto de todos os elementos astrológicos e esotéricos. à direita. aludindo aos acontecimentos de maneira velada e encobrindo-os de uma aura simbólica atraente e autolisonjeira. que denunciou corajosamente o mistifório teosófico1 98 que o levara quase à demência. Exemplo: Adam Schaff. em regra geral. Carlos Eduardo Jordão Machado e Luiz Arturo Olojes. 200 Minhas investigações pessoais a respeito do fenômeno da secretude crescente estão longe de ser totalmente conclusivas. Pratic amente na totalidade dos casos. quase sempre mais comprometidos com a busca do poder e do autoengrandecimento do que com qua lquer investigação da verdade201. São Paulo. na hora de divulgar o mesmo estudo em livro ( A Sociedade Informática. por outro lado. como Léon de Poncins. Mas não está na hora de pelo menos alguns estudiosos proclamarem sua indep endência de compromissos ideológicos (ou mesmo de lealdades secretas) e começarem a in vestigar a sério aquilo que talvez nenhum dos poderes deste mundo gostaria de ver investigado 200? Se tantos podem mobilizar o melhor de sua energia intelectual p ara encobrir certas realidades. provavelmente um fingimento consc iente199. Diante de tantos e tantos c asos que mostram a passividade atônita. Mas . Foi muito raro que. Sempre que um estudioso acadêmico franze o nariz a os assuntos nte esotéricos em nome de um pretenso rigor científico. por que nem mesmo uns poucos poderiam dedicar-se ao empenho de desocultá-las? Paul Johnson mostrou que. No entanto é verdade. e se envolveram numa aura de tagarelice retórica r epelente. Pois um verdadeiro rigor científico não se faz de superior a nenhum assunto. os intelectuais amedrontados por pseudogurus acaba m por virar discretos apologistas de quem os atormenta. que um potente desestímulo ao estudo dessas questões vem do fato de que elas foram abundantemente enfatizadas de manei ra unilateral por autores comprometidos ideologicamente com certas alas extremis tas. a afetação de indiferença por parte daqueles que só co nhecem o assunto de longe não tem como deixar de parecer uma jactância adolescente. Mas se os literatos servem a or ganizações secretas por uma deleitação masoquista na escravidão voluntária. que.

. op. De outro lado. por mais que suas res postas devam permanecer. e sim de protestar contra a indiferença às perguntas. Pois.aqui não se trata de dar respostas prontas. Paul Johnson. . na esfera das conjeturas ou da mera probabilidade razoável. uma coisa no entanto é certeza absoluta: não podemos compreende r o curso da história contemporânea sem fazer essas perguntas. por não se sabe quanto tempo. cit. 201 V. se não tenho respostas senão em germe e se os germes ainda germina m no ventre da dúvida. o fato de não conhecermos ainda em d etalhe todos os enlaces causais que levam das origem do processo até seu estado pr esente não pode impedir-nos de admitir que alguma ligação tem de haver entre as duas c oisas.

o tem a das sociedades secretas pode servir de pedra-de-toque. de novas modas cul turais. quando lhe interessa. tendo de ser extra-rel igiosos. de radicalismos ideológicos. em última instância: Estado leigo. para falar só das maiores —. de experimentos econômico-administrativos extravagantes. e julga sem 202 . Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis” ou que as coisa s são em essência aquilo em que enfim se tornam. a Holanda. onde uma corrente — luterana na primeira. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (II) “Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás. Em segundo lugar. que perto dela as re voluções seguintes — da França. tão vasta em suas conseqüências. e a parte de seu legado cultural que não se dissipou em fumaça terminou por incorporarse . O republicanismo? Não. Estado sem religião oficial. de vez que o Estado. na sua totalidade. repu licana e liberal-capitalista de modo secundário e mais ou menos acidental: em essênc ia. nada mais são que a créscimos periféricos e notas de rodapé. que em princípio não pode interferir em nada nos negócios públicos. a implantação mundial do Estado sem r ligião oficial203. ao contrário d o que aconteceu na Suécia e na Holanda. que ela componha. A revolução que isto representa na estrutura mental da humanidade é tão profunda. dividindo os intelectua is entre os que se dispõem a buscar a verdade sobre o assunto e aqueles que prefer em mistificá-lo ou fugir dele. a Espanha 202. por enquanto. porque os el ementos democráticos e igualitários da ideologia norte-americana que se espalharam p elo mundo puderam. ela é a liquidação do poder político das religiões. um sacerdócio do falso? É cedo para res ponder. e não o são. sem traumas. que os critérios éticos que presidirão à vida social. da Rússia ou da China. porque o próprio sist ema norte-americano. sem grandes choques. Os Estados Un idos são o primeiro Estado professadamente areligioso — no sentido etimológico: a -gnóst ico — que se conhece na História do mundo. à corrente dominante: a Revolução americana. com todo seu vistoso cortejo de morticínios. Ora. sob o impacto do pluralismo democrático.: 3:9. Dos vários componentes da ideologia revolucionária norte-americana. República protestante vai sig nificar. § 30. os Estados Unidos são uma República protestante. qual o legado dessa Revolução ao mundo? A democracia? Não pode ser. a Revolução Americana só é democrática. ser incorporados por antigas monarquias tornadas constitucionais.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 159 engano. o p rotestantismo norte-americano. que dizem que são judeus. E. se torna o árbitro das suas disputas. Talvez a resposta só venha dentro de muitas gerações. ca lvinista na segunda — toma logo a dianteira para unificar religiosamente o país. que o cum primento ou não de um mandamento religioso passa a ser um assunto da esfera privad a. O capitalismo liberal? Também não. Significa. Mas. a Dinamarca. literalmente e sem alterações por todos os países do mundo foi o p rincípio do Estado leigo. como a Inglaterra.” APOC. Que é que isto significa? Significa. e visto que a subsistência de uma ar istocracia maçônica associada de perto a uma oligarquia econômica é um dos pilares mesmo s do sistema norte-americano. Todas essas revoluções passaram. mas mentem. acabou por ass imilar várias características da socialdemocracia. através da expansão do assistencialismo estatal. os Estados que f undaram ruíram com fragor ou derreteram-se melancolicamente. as dife rentes seitas têm de aprender a conviver e a concorrer em pé de igualdade no mesmo t erritório sob a proteção de uma mesma autoridade civil que permanece indiferente às disp utas religiosas e equidistante de todas as confissões. o único que foi assimi lado integralmente. em seg undo lugar. fragmentase numa infinidade de seitas que não podem ser reduzidas à unidade de uma hierarquia religiosa que imite a da Igreja Católica. em primeiro lugar. Mas. não havendo unidade religiosa. visto que ela convive perfeitam ente bem com ditaduras. que toda lei religiosa cessa de ter qualquer validade ou obrigatoriedade pública. acabam por ser supra-religiosos. ao colocar-se aci ma das religiões.

brasileiros. de que quando expulsamos Pedro II o presidente dos E UA. notas 222 e 238.E não se esqueçam. comentou que havia caído do governo o único autêntico líder repu blicano da América Latina. . Theodore Roosevelt. 203 V. adiante.

introd. Aubier. Paris. deixou o povo judeu inerme e s onso ante o avanço da ameaça nazista. perdendo o 205 206 Também não escaparam a Bauer as conseqüências que essa mudança teria para os próprios judeus : desistindo de buscar a emancipação do judaismo. acabasse por fortalecer entre os judeus do Ocidente inteiro um es pírito de mundanismo e “modernismo” que já os vinha contaminando gradativamente desde a Revolução.” “O judeu . vox Dei. a bem dizer. e se alguns ou muitos ou mes mo a maioria se crêem inclinados a cumprir certos deveres religiosos. a aparência se tornará o essencial e triunfará. 47-123. A vitória da “Teologia civil” não podia vir sem trazer junto uma “espiritualidade civil”. sem prestar satisfações senão a Deus. o fim da religião. a total desautorização da lei religiosa. e que. em Karl Marx. a extinção da religião como tal. de vez que toda obediência a princípios relig iosos só é possível na medida em que o Estado a permita e em que não entre em conflito c om as leis civis.160 OLAVO DE CARVALHO ser julgado.” 205 Mas isto representaria. É de espantar que. a religião judaica tivesse de pagar a conta dos desvarios cometidos por seus adversários206? Que. À propos de la Question Juive ( Zur Judenfrage ). No Estado leigo tal como desejado por el e. “todo privilégio religioso em geral deverá ser suprimido. Quem percebeu essas conseqüências com muita cl areza. logo se fund irá indistintamente com a psicoterapia. culminando com a formação de um Estado onde a comunidade religiosa não ultrapassa hoje três por ce nto da população e está submetida a toda sorte de constrangimentos e humilhações nas mãos do s modernizantes e ateus? Ou que. nessas condições. um doutrinário que odiava o judaismo como odiava todas as religiões. a o expandir-se. Onde não há mais religião privilegiada. se. Não é realmente estranho que um movimento mundial capaz de conquistar um território a bala e fundar nele um Estado não tivesse. pp. Édition bilingüe. o movimento para a implantação de um Estado leigo jud eu logo perdesse toda conexão com as tradições religiosas e passasse mesmo a ser chefi ado por pessoas de origem judaica contrárias ao judaismo? Ou que esse movimento. ibid. portan to. em terceiro e consequente lugar.. trad. a extinção da religião como princípio organizador da conduta humana. 1971. só para ter de socorrê-lo às pressas ex post facto c om o auxílio do dinheiro norteamericano? É de espantar que a própria organização do socorr o às vítimas do nazismo reforçasse formidavelmente o movimento judeu-leigo. ele quiser permanecer judeu. dissolvendo os laços da solidariedade milenar que havia defendido a comunidade judaica contra toda sorte de perseguições. passando a buscar apenas a sua ema ncipação de cidadão. somadas. as técnicas de relaxamento. não há religião nenhuma. “não pode permanecer judeu na vida pública senão sofisticamente e em aparência. foi Bruno Bauer. François Châtelet. precisa ter cessado de ser judeu. Mas essas três conseqüências. mesmo porque “declarar que a lei do sabbat não tem mais um caráter obrigatório para o judeu será o mesm o que proclamar a dissolução do judaismo” 204. — se por exemplo ele se dirige num sábado à Câmara dos Deputados e toma parte na s deliberações —. desejando-as aliás ardentemente. Id. a criação e um novo tipo de fenômeno espiritual que. encarnado na “vontade popular”: vox pop uli. nem força nem p . a rigor e a long o prazo. circunscrito à vida privada. esse cumprim ento deve ser deixado por sua conta como um assunto puramente privado”. representam. Marianna Simon. uns anos antes. p assim. dessa forma. Significa. os clubes de enc ontro e todos os outros sucedâneos de “vida interior” que a nova sociedade puder criar para a satisfação privada de seus membros. para não deixar que sua lei religiosa o impeça de cumprir seus deveres para com o Estado. o judeu 204 Cit.

por exemplo — previram com muita antecedência? Weil. em protesto contra o nazismo. sob o riso dos parentes que censuravam seu “alarmismo”: todos. O pai de um amigo meu também emigr ou no mesmo ano. abandonou o idioma alemão. retirou-se da Ale manha e. foram para a câmara de gás.revidência nem vontade bastante para organizar uma retirada maciça dos judeus da Ale manha nazista antes que começasse a “solução final” que os judeus mais lúcidos — o filósofo É eil. sem exceção. passando a escre ver somente em francês ( aliás um francês esplêndido ). em 1933. Esses fatos mostram que já em 1933 ano em que foram p ublicadas as advertências profé- .

accomplishing what generations of their persecutors have failed to do?” — A r esposta é: sim. A religião. Mas também não os enxergam. e não assumirem seu papel de povo profético. Sabendo que os princípios de sua religião particular só val em para os do seu grupo imediato e que a integração na sociedade maior depende exclu sivamente da obediência à moral civil. great empires have fallen.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 161 princípio religioso de sua unidade cultural. the Jews have always flourished and blossomed amid their ruins. Não h averá paz para a religião dos judeus enquanto não houver paz entre todas as religiões. e nquanto elas precisarem de um Estado ateu para policiá-las. não há dúvida: a glória material que hoj e premia os judeus não compensa a perda da sua identidade religiosa — um patrimônio qu e eles têm o dever de conservar porque não pertence só a eles. the fires of the Spanish Inquisition. tornado árbitro das disputas religio sas. Em segundo lugar. e não a dividir. London. Na prática. Em primeiro lugar. à unidade meramente exterior e acidental de um amálgama de interesses multina cionais. por ser leigo. 207 V. não. o povo judeu — aliás não coerido por nenhum a homogeneidade racial207 — se reduzisse. Estes fatos. atém-se ao cômodo privilégio de poder julgá-las sem levar em conta no mais mínimo que . the war machines of Hitler and the Nazis. no novo quadro. When faced with Pharaoh and the Egyptian soldiers. enfim. o Estado. em geral. isso equivale a proclama r uma moral civil que está acima de toda moral religiosa e que é. mas não os do pai que pretenda transmitir sua religião ao filho. realizando-se assim a profecia de Bauer segundo a qual a identidade jud aica. Os judeus e o judaismo têm sido as principais vítimas. a ruptura da continuidade temporal da comunidade religiosa: o Estado garante os direitos d o filho que rejeite a religião do pai. Os antigos Estados rel igiosos perseguiram e expulsaram judeus. oppressed. as demais religiões que cultuam o mesmo Deus. Finally given the opportunity to observe without harassment. Canadá: “Fr om the birth of their religion. não podendo ser os de nenhuma das religiões em ticas do nazista arrependido Hermann Rauschning . victim ized. Arthur K oestler. exceto para os líderes e os importantes da comunidade. de Downsview. Não menos graves foram as conseqüências para as demais religiõe undiais. a carta lucidíssima assinada por um sr. não é de espantar. Que papel? O de ajudar em a reconciliar. Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own rel igion. Que este assunto tenha se tornado um tabu. o cidadão é permanentemente convidado a abandonar a carga da dupla moral e a simplificar as coisas para si mesmo. Isso representa. o destino dos judeus era previsív el. a única obrig atória para todos os cidadãos. The Thirteenth Tribe. no momento mesmo de sua suprema glória mat erial. nunca os exterminaram em massa nem sabo taram a prática do judaismo ao ponto de reduzir para três por cento dos judeus a quo ta dos ortodoxos praticantes. os ideólogos da modernidade. os próprios judeus. mandando às favas a moral religiosa e atendo-se à moral civil. 208 Eu estava revisando estas páginas. Their tormentors have perished. disputa. o Estado. na revista Time de 27 de fevereiro de 1995. the Jews have been persecuted. mas a toda a humanidade . de cara. é fácil de explicar pelo trauma do holocausto. From their ashes there has always come a ‘reawakening’. Yet in the melting pot of the American culture. Hutchinson. the Jews deny themselves this rig ht. do processo de mundanização da sociedade Ocidental — um processo que muitos líderes e i ntelectuais ateus de origem judaica têm ajudado a apressar. Mas será sinal de amizade aos judeus cortejar um orgulho ressentido que os torna c egos ante perigos que hoje os cercam? Para mim. não tem autoridade nenhuma. enquanto os judeus não se livrarem de seus falsos amigos. and this tiny g roup has survived. à riqueza e ao mundanismo materialista. 1976. nem mesmo sobre os menores de idade. quase sempre inconscientes. imbuídos de um falso sens o de segurança inerente ao sucesso. they refused to abdicate their faith. quando um amigo me mostrou. devem estar acima dos de todas elas. enfim. os adeptos da teoria da “conspiração judaic a” não enxergam. the chosen nation is rapidly disappearing. já não passaria de um triunfo das aparências sobre a realidade 2 08 —. cu ja lembrança medonha inclina os judeus antes a chorar do que a meditar o passado. Yaakov Wagner. fica na posição de arbitrar as disputas religiosas segundo critérios que.

Entre a 209 Os artistas do show business que realizam ritos satânicos em espetáculos de rock. perante a moral civil. O nivelamento por baixo é a conseqüência fatal: perante a lei. so b a alegação de que se trata de meras encenações. . e com as quais devem concorrer no mercado como um pr oduto entre outros. como elas. não são melhores nem piores do que o culto dos duendes ou do que a Igreja de Satanás 209. devendo julg ar sempre segundo critérios neutros. as grandes religiões como o judaismo e o cristian ismo. isto é. que. o Estado. nessa disputa. isto é. que encenar um rito — desde que completo — é o mesmo que praticá-lo. Assim tornam-se veículos “inocentes” de influências psíquicas cujos efeitos sociais só são inócuos aos olhos de quem ignore totalmente o que seja um rito.seja os conteúdos das crenças religiosas envolvidas. deixam de informar a um público demasiad o crédulo que todo rito é uma encenação. que fundaram a nossa civilização e criaram os valores éticos mesmos dos quais a ideologia democrática recebe o seu prestígio. as ideologias agnóst icas. têm os seus direitos assegurados pela Constituição. tem de favorecer sempre e sistematicamente as correntes cujas ideologias sejam menos dependentes desses pressupostos. É mais que evidente que. que se afastam o mais possível de pressup ostos religiosos. e considerando as religiões em d isputa como se fossem apenas clubes ou partidos. todos com direitos iguais indep endentemente do valor ou desvalor intrínseco de suas respectivas ideologias ou pro gramas. perante o establishment.

e o conceito corrente de “clero”. por outro lado. umas a contragosto. esta última leva vantagem necessariamente. seja de ordem espi ritual. a pretex to de pacificá-las. jamais teria sido possível sem esta realização da Revolução Americana. mas tratando antes de dar combate sangrento umas às outras. A form idável expansão do ateísmo no mundo. seja de ordem psicológica. sim. a maior parte do qual nada tem a ver c om funções públicas. ou simplesmente aqueles que tenham algum conflito de família. se isso aconteceu no mundo. Acima de todas elas paira. e is to pelo fato de que o Estado defende os direitos de quem não deseje submeter-se a uma determinada moral religiosa. ao pa sso que uma casta sacerdotal. ao lado do espiritismo e da teosofia. É claro que. formando as consciências de seus membros através de ritos e símbolos. “oficial”. Essa imagem transmite-s e quer através das narrativas míticas e iniciáticas211. é agnóstico. ainda não têm as condições de formar uma opinião própria. em que esses estudiosos em geral se baseara m. creio eu.162 OLAVO DE CARVALHO facção que pretenda ter uma moral válida para todos os seres humanos e aquela que afir me o mais pleno relativismo moral. exerce rigorosamente a função de direção espir itual? Que a aristocracia maçônica é encimada por uma casta sacerdotal que arbitra em úl tima instância as lutas políticas sem nelas se imiscuir diretamente? O Estado leigo tem religião. tem um campo de atuação infinitamente mais vasto. islamismo e budismo tornaram-se aí meras “seitas popul ares”. porque. bem como o fenômeno das pseudo-religiões que desviam para alvos inócuos ou mesmo prejudiciais os impulsos religiosos que ainda restem n a humanidade. nenhum exoterismo em particular. todas nivel adas e integradas na grande liturgia da religião civil. perpetuada no culto discreto oficiado por uma nova casta sacerdotal co lhida nos escalões superiores da aristocracia maçônica210. é demasiado estreito para captar todas as nuances e as implicações do que seja uma casta sacerdotal. outras ainda sem terem a menor idéia de a quem servem. reside em que. Anteu não quer a te nem o Olimpo. invisível e onipotente. adequado diz er que o Estado norte-americano é leigo. quer através do 210 Um dos motivos de os historiadores e cientistas sociais norte-americanos nunca t erem percebido que as elites maçônicas muito mais que o clero católico ou protestante exerceram desde a Independência a função de casta sacerdotal. Ícaro não aspira a um céu invinto. abr igando-se sob a proteção do Estado leigo. na qu al ele possa ler em filigrana o mapa do sentido da vida. os fracos de cabeça. mais sutil. as neutraliza e emascula. é exercida por toda a pululação de religiões e seitas em disp uta. Mas será. O predomínio absoluto da moral civil represe nta o boicote sistemático de toda transmissão da moral religiosa às novas gerações. A principal. § 31. no seu grupo. são instantaneamente convidados a abandonar o seu grupo de referência. “Prometeu já não arrebata o relâmpago. Um “clero” identifica-se com uma igreja estabelecida. Só que é um esoterismo ao qual não corresponde. a Religião do Império. mas com um tipo de ação mais interior. Os jovens. é indiferente em matéria de religião? Pois não acabamos de ver que é um Estado maçônico? Que a Maçonaria. da New Age e da ufologia. ou religião popular. não foi sem razão. O papel dos ritos e disciplinas maçônicas na estrut uração e no equilíbrio interior das elites fundadoras e governantes dos EUA não pode ser . podendo abranger também eventualmente um clero. Há um pretenso heroísmo cujo pântano é este mundo. no novo quadro. como já res saltei. Judaismo e cristianismo. no andar de baixo da sociedade. aleatório como o instint o. De Wilhelm Meister a Raskolnikov. a criação de um Estado multi-religioso só pôde realizar-se por meio da moral civil que. os meros fatos nada dizem sem os conceitos que os agrupam e lhes dão um se ntido. outras de bom grado. a função de exot erismo. mas não os da religião que pretenda impor os seus p receitos àqueles que. é que as r eligiões mesmas jamais tendo se ocupado seriamente de encontrar um princípio de conv ivência pacífica.” BRUNO TOLENTINO Uma das principais funções da religião é dar ao homem uma imagem simbólica do mundo.

IAL / Stella Caymmi. o que leva a uma avaliação falsa da natureza e alcance da sua influência. adiante. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Ino centes”. pp. . Examinando sua sociedade co m conceitos tirados outras culturas e épocas. os estudiosos não puderam captar a esp ecificidade do novo quadro. marcada pela emergência inédita na História de uma casta s acerdotal esotérica sem o correspondente exoterismo. 218. mas ele não faz parte da religiosidade pública. É preciso contar. também. tb. 211 Para a distinção entre estes dois tipos de narrativas. como força política em sentido material e direto. n. Rio. com a típ ica incompreensão do intelectual moderno médio no que tange ao modus agendi dos rito s e disciplinas espirituais. Dela vem a tendência de não enfocar a Maçonaria senão por f ora. 28-33. V.negado. 1993. v.

pois em Don Quijote o pressuposto d e um destino metafísico do personagem dá ao desenlace um sentido precisamente oposto ao que teria para leitores desprovidos desse pressuposto: a vida do hidalgo só te m para nós um sentido edificante porque sabemos que. talvez por inesperado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 163 rito que repete executivamente os passos principais do enredo mítico. Mas o mito como interpretação da vida não tem nem poderia ter significado constante. Até então a literatura narrativa euro péia caracterizavase pelo predomínio de temas que remetiam a um tipo de conflito mod elado sobre es212 quemas da Bíblia ou da mitologia greco-latina cristianizada. Mas o exemplo mais contund ente. que não é necessário entrar em mais longas demonstrações. não poderia jamais elevar-se a um plano de universalidade mais alto que o deles: metaphysica per se est et per se concepitur. a todos eses estúpidos bachilleres y curas y barberos de hoy no se les ocur re sino preguntarse: ¿ Por qué lo hará? Y en cuanto creen haber descubierto la razón del . otras que es por ruines sentimientos y bajas pasiones de ven gativo o envidioso. mas subentendiam com o seu pano de fundo uma história cósmica escrita pela Providência com vistas a um sign ificado extramundano. ao contrário. pós-cristã ou anticristã. todos os destinos eram enfocados sub specie æternitatis. Ante un acto cualquiera de generosidad. o in stante preciso em que o mito cristão cede lugar. Por esta razão é que falham repetidamente as tentativas de “interpretar” os mitos: os mitos é que. a este ou àquele tema. é ele que é se nsato. que. Si uno denuncia un abu so. Calderón.. mas também pela diversa preferência dada a este ou àquele mito. Quevedo — para não falar de Dante e de toda a literatura medi eval —. A quem não creia num sentido que transcenda a vida. Corneille. nas artes narrativas.. A questão básica em torno da qual se moviam personagens e enredos era a da salvação da alma: o sentido das ex istência dos personagens não era jamais totalmente resolvido no desenlace da trama. Por ela o ho mem orienta-se no labirinto da vida. Desde o momento em que. É por isso que podemos assinalar. no Ocidente. são instrumentos de interpretação da vida. a rea lizar-se no Juízo Final. Ora. e as sucessivas versões que recebe — se ja na forma do pensamento teorético ou da narrativa iniciática — vão revelando as mutações d o sentido da vida tais como aparecem às diferentes épocas e mentalidades. e insensatos aqueles que o consideram louco. Pois este enfoque os reduz a objetos. Essas mutações manifestam-se não somente pelas ênfases diferentes que diferentes tempos dão às possibi lidades de significação de um determinado mito. se preguntan los esclavos: ¿Qué irá buscando en eso? ¿A qué aspira? Unas veces creen y dicen que lo hace para que le tap en la boca con oro. são pura insensatez es tas palavras do comentário narrativo de Miguel de Unamuno: “Si nuestro señor Don Quijo te resucitara y volviese a esta su España. Dito de outro modo. extraterreno. experiências que repetem no microcosmo da sua existência pessoal os lances protagonizados pelos deuses e heróis da narrativa mítica. como índice do sentido da vida. Isso é tão nítido nos enredos de Shakespeare. fustiga la ramplonería. ao mito maçônico. estão lançadas no mundo as sementes de um a nova era. mas deixava em aberto a perspectiva de um segundo desenlace. é o de Cervantes. precisamente por ser tal . de l ocura. no esforço vão de abarcálos no quadro conceptual de uma ciência determinada. aos olhos de Deus. Fíjate y observa. na variedade in abarcável das situações vividas. Lope de Vega. os enredos t errestres jamais tinham em si a chave de seu próprio sentido. a este ou àquele topos da narrativa mític a no decorrer da evolução histórica. persigue la injusticia. Racine. que o anti-herói das malfadada s façanhas é um herói autêntico do espírito. esse fenômeno manifesta-se da maneira mais cl ara entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. otras que lo hace por divertirse y pasar el tiempo. e que a vida aparentemente terminada em derro ta é na verdade o vitorioso testemunho da supremacia do sentido da vida sobre a vi da mesma. os temas e os topoi maçônic os começam a predominar sobre os cristãos 212. e que daria o verdadeiro significado do primeiro. reencontrando a cada passo. de heroismo. por depo rte. andarían buscándole una segunda intención a sus nobles desvaríos. e mais os entende o crente ou o noviço que lê a vida através deles — entrando neles e tomando-os como uma mensagem vin da de seu próprio interior mais profundo — do que o filólogo que os lê através de alguma o utra grade perceptiva.

mas no valor e significação das obras produzidas. mas em qualidade: não em número de obras. .acto — sea o no la que ellos supoPredominar não em quantidade.

mas. à medida que Wilhelm supera a revolta juvenil para integrarse no mundo real como cidadão educado e prestativo. la cochina lógica. torna-se o supremo significado da existência: Wil helm Meister revela-nos que a História é dirigida por forças ocultas. Sobre a noção de “Superiores desconhecidos” na simbólica maçônica . nesse sentido. pp. surge reduzida a um dos fatores determinantes de um des tino cujo sentido se resolve inteiramente no plano da auto-realização pessoal. no mesmo ato. acontecia que o fracasso ou o sucesso. de longe. francesa do Wilhelm Meister. vocacional. Para eso les sirve la lógica. são f reqüentes as menções a sociedades secretas que. É um lugarcomum dizer que o Meister tem um sentido oculto. é a de Goethe. E. ao contrário. às vezes ambíguas no seu modo aparente de agir. na nova l iteratura. a autorealização do homem no mundo. no sucesso ou fracasso social. mas boas em essência. trad. Na Comédia Humana de Balzac. dirigem invisivelmente os acontecimentos 216. o sentido último dos acontecimentos já não depende de um significado metafísico. a revelação dos motores ocultos da Histór ia: a manifestação de um poder secreto que. numa curiosa inversão. descobrimos que as peripécias da vida de Wilhelm. lo ha hecho por esto o por lo otro. Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finali dade em si mesmos. 15ª ed.164 OLAVO DE CARVALHO nen — se dicen: ¡Bah!. o esplêndido prefácio de Marcel Brion à ed. En cuanto una cosa tiene razón de ser y ellos la conocen. perdió todo su valor la cosa. de uma forma benevolente. e a Providência. Qua ndo procuramos nela o elemento iniciático. um anúncio da salvação da sua alma. de acordo com a vocação de cada um. se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem. a revelação da o m histórico-cósmica. reduzida a um tipo de adm inistração oculta da História. já não é a vida humana que tem de se justificar ante uma instância supraterrena. Isso não quer di zer que na literatura anterior a luta pelo sucesso mundano fosse um tema ausente . O sucesso do empreendimento terrestre. no sentido que elas possam ter aos olhos de Deus. Espasa-Calpe. 1971. 1949. que parecem à 213 primeira vista uma sucessão casual e sem sentido. eram apenas um sinal provisório do destino cele ste do personagem.” 213 Pois bem: entre os séculos XVIII e XIX acontece que o sentido dos enredos passa a fechar-se numa resolução puramente terrestre: o significado das existências já não está no J uízo Final. As aventuras aparentemente caóticas de Tamino e Pamina em A Flauta Mágica de Mozart revelam no fim ser a consecução de um plano concebido pelo sumo-sacerdote Sarastro para levar o casal de noivos à iniciação maçônica que lhes dará o poder e a felicid ade 215. por trás do caos aparente dos destinos i ndividuais que se entrecruzam. que é uma narrativa iniciática. O tema é comum a muitas obras maçônica s da época. 11-12. barrando-lhe o acesso aos “Gran214 Vida de Don Quijote y Sancho. isto é. André Meyer. sob a proteção velada e amável das potências cósmicas incorporadas no ser coletivo das organizações secretas. No romance de Goethe. a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. são governadas. esteja ausente a Providência. as potências supraterrenas é que não entra m na trama senão como co-autoras do sucesso e do fracasso mundanos. profissional do pe rsonagem. Apenas. pelos “Sup eriores desconhecidos” 214. conduz os sere s humanos para uma existência produtiva. Também não significa que.. Seu tema é a descoberta do caminho pessoal por entre os múltiplo s equívocos da vida. Bordas. Apenas. Madrid. mas unicamente na au to-realização pessoal. refletindo de longe os movimentos da Providência. A extraordinária belez a desta imagem da ordem universal não deve porém fazer-nos esquecer que nela se trat a apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”. ou sem importância. A obr a mais significativa do período. V. Paris. um vasto painel da vida social francesa. A desocultação das forças causais profundas que dirigem a existência individual para a auto-realização é.

pp. René Guénon.v. Ópera Maçonnique. “À propos des supérieurs inconnus et de l’astral” em Études sur la Franc-Maç ie et le Compagnonnage. Robert Laffont. e Ferragus. 208-22 7. em Le Père Goriot. 215 V. Paris. . Paris. tome II. 1978. Éditions Traditionnelles. em Histoire des Treize. 1968. 216 Vautrin. são personagens cujo poder aparentemente desproporcional com suas qualidades pessoais vem da ajuda que recebem de sociedades secretas. por exe mplo. La Flûte Enchantée. Jacques Chailley.

transcendendo a esfera histórico-cósmica. bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor d a História. não teria alternativa se não cair na barbárie ou islamizar-se 218. a maçonaria. A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —. a tentativa de fazer da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida. ou Homem Universal. é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios. tendo vivenciado a ruptura maçônica com a tradição c ristã e se tornado o porta-voz por excelência da ideologia históricoprogressista. Dividido entre o impulso espiritual e a rejeição maçônica do cr istianismo. capaz de absorver o conhecim ento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. à sociedade. a realização do sentido da existência terrestre. tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao ho mem as portas de uma nova civilização. Ora. desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado . mas a do ponto de interseção entre o Céu e a Terra. torna-se. é ativo e dominador perante a existência terrest re. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória inte rior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmi ca. na velhice. a alma resgatad a. É altamente significativo que Goethe. como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios. que fique claro: Se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos. re staurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional. e. infel izmente não concluída. ele não viu outra saída senão buscar a espiritualidade superior numa tradição religiosa vizinha: o Islam. sent isse de maneira mais ou menos obscura. do perfeito equilíbrio entre a atividade criadora e a passividade contemplat iva: na tríade chinesa. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo a s marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países eur opeus e mesmo nos Estados Unidos —. Na continuação de Wilhelm Meister e s obretudo no segundo volume do Fausto. a formulação do drama Ocidenta l que viria a ser dada por René Guénon. Goethe manifestou várias veze s sua apreciação pelo profeta Mohammed. A consideração de uma possível “saída islâmica” para o conflito pressa com um século e meio de antecedência e em escala pessoal. a insufic iência espiritual dos Pequenos Mistérios e buscasse insistentemente uma perspectiva espiritual mais elevada. De acordo com Guénon. passivo e obediente ante as injunções do Es218 217 Portanto. em todas as tradições. ele procura integrar essa perspectiva no q uadro maior de uma ascensão puramente espiritual. se e leva aos céus. a civilização do Ocidente. de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males como o preten . isto é. que chegou a tomar por tema de uma peça. Mas. ao progresso. não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profe cia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão. Jen. Ressurgem então os temas cristãos. de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisioná-lo na dimensão terrestre 217. passiva e “feminina” ante Deus. e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 165 des Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do di vino. Em conversações privadas. A imagem do Hom em Perfeito. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é prec isamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. é não apenas a da individualidad e humana perfeitamente realizada. o Homem. inversa e complementar mente. Goethe conscientiza-se aguda mente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. s e não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —. durante toda a sua vida madura. são uma prese nça constante na lírica goetheana. que fora prometéica e dominadora ante o mundo. aprendidos na de votada leitura dos grandes poetas e pensadores místicos persas e árabes. e só conserva seu sentido qua do integrada no corpo de uma tradição espiritual maior. Os temas da espiritualidade islâmica.

. na última etapa de sua vida. Est a interpretação é viável.dia aliás o próprio René Guénon nte. não exclusivamente. . se transferisse para o Egito e adotasse em tudo o estilo de vida islâmica é interpretado por alguns estudiosos com o sinal de que ele perdera toda esperança numa restauração espiritual do Ocidente. mas não encontra respaldo suficiente nos textos de Guénon. decerto. mas ao menos significativame O fato de que René Guénon.

“Desequilíbrio” significa qualquer ato. ou na desobediência a um mandamento divino explícito. onde quer q . de que um concerto de potências invisíveis dirija cada indivíduo no sentido de sua auto-realização no emprego. sendo por isto os fracassos explicados como desajustes em relação à ordem cósmica. seja isto lá o que for. o Espírito Santo. e sim no “desequilíbri o”. mas vale por si como horizonte term inal da existência. Tal como vimos parágrafos atrás (§§ 1 9 a 22). consciente ou inconsciente. comer comidas gordurosas ou fumar. e. é algo que se explica precisamente pela origem comum de ssas duas atitudes no amálgama ideológico que este livro vem descrevendo: onde quer que. isto é. se empe nhe na conquista audaciosa dos bens deste mundo.166 OLAVO DE CARVALHO pírito. A ação decai em agitação estéril. tempo e qu antidade que constituem o cosmos físico. do mesmo modo que o impulso de transcender as barreiras espaciais (por exemplo através da rede mundial de tel ecomunicações) se choca contra o mecanismo cego da entropia histórica. por meio da fusão entre o ocultismo e a ideologia americana da auto-realização. n conflito entre progressismo técnico e crise ecológica). A ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. repre senta um corte ao meio do corpo do Homem Universal. pelo menos “em excesso”. a co templação em passividade escrava. É “desequilíbrio”. r epresentam sintomas — e ao mesmo tempo a cura — de algum desequilíbrio com a ordem cósmi ca e por isto induzem as pessoas que passam por essas situações a sentirem constrang imento e vergonha. o pecado não reside mais numa ofensa à dignidad e do homem. rompendo com toda forma de obediência tradicional. mas aqui mesmo e na forma do fracasso mundano. Daí surge a poderosa imagem mítica que ainda sensibiliza a alma contemporânea: o mito do guiame nto celeste em direção ao sucesso. O enxerto de simbolismos orientais nessa ideologia de origem substancialmente maçôni ca e revolucionária permite explicar os fracassos em razão do karma. para que. no nosso tempo. que furta ao ho mem incessantemente o desfrute benéfico das melhores conquistas da técnica material e transforma o progresso numa aceleração do desespero. por exemplo. onde se desenrola sempiternamente a luta de Leviatã e Beemoth. só pode acarretar para o homem a qued a sob o domínio de Ti. oferecia lev ianamente a todos os homens o desfrute imediato da felicidade terrena tão logo a s ociedade se livrasse das peias da religião. Ficar g ripado. a ruptura com Tien. nesse quadro. mas sa isfazer a seus apetites neste mundo. da doença ou da pobreza. na ausência de uma conexão com o espírito. declarada ou pressuposta. E. como o sentiam em outras épocas aqueles que cometiam adultério ou roubavam. no amor e na vida social em ge ral. Que essas convicções aparentemente conformistas possam coexistir. na esteira do discurso da Revolução Francesa. o ímpeto destr utivo que fizera a Revolução devia ser canalizado para a busca do sucesso. numa me sma alma. auto-real ização da História — choca-se fatalmente com as limitações da natureza física (por exemplo. com sentimentos progressistas imbuídos de revolta prometéica contra o esta do de coisas na sociedade. até chegar. Na nova sociedade. Ao longo do século XIX ele evoluiria. que encontra expressão no primeiro volume de Wilhel m Meister. a Terra. como a ordem cósmica já não co nstitui apenas a passagem à esfera espiritual. ocasionando o predomínio u nilateral da ideologia prometéica desvinculada de todo contato com o Espírito. surja um prometeanismo revolucionário. mas sua contrib uição decisiva foi introduzir na moral do homem moderno um novo senso do pecado: na mesma medida em que a função da Providência já não é conduzir os homens à vida eterna. mas também é “desequilíbrio” não escovar os dentes. pensamento ou hábito que possa colocar o indivíd uo em desarmonia com uma ordem cósmica supostamente empenhada em garantir o sucess o. toma logo a forma de um apelo lisonjei ro à juventude. n ascerá também um sentimento de conformismo passivo ante a ordem física. a saúde e a riqueza de todos os bons cidadãos. a tornar-se c rença geral das massas ocidentais: hoje não há nas grandes cidades quem não viva segundo a expectativa. ter dívidas ou sofrer um acidente de automóvel são coisas que. a mais dolorosa e trágica expe riência espiritual já vivida pelo homem sobre a Terra. Aí a busca da liberdade criadora — ação do homem no tempo. A ideologia prometéica que. o pecado não é punido com uma penalidade espiritual após o Dia do Juíz o. o conjunto das determinações de espaço. cometer at os de violência.

em contrapartida. um conformismo obediencialista ante a autoridade dos .ue. surgirá. nas mesmas condições. se procure dominar despoticamente a ordem física.

que eles po diam sonegar seu apoio. e Parte II. como viria a ser chamada mais tarde. colhia os melhores. o romance de Joseph Conrad. Mas a colaboração entre essas duas correntes vai mais fundo do que geralmente se imagina. como toda contradição sem síntese. 219 A ideologia progressista muito deve ao ocultismo. A constelação do s vencedores formaria a nova casta governante e sacedotal. O tema aparece no me lhor romance do próprio Balzac. Paris. a ênfase caricatural nos aspec tos supostamente espirituais da alimentação característica da Macrobiótica. havia “Superiores desconhecidos” que podiam dirigir para o me lhor a vida de um jovem talentoso. réed. mas não há síntese possível a não ser pela Aufhebung que absorve os termos em conflito. ao mesmo tempo que protegiam contra ele os candidatos menos dotados e mais conformistas. Mas já na época mesma de sua difusão a ideologia da vitória prometéica deixava à mostra suas contradições. Mais que o Wilhelm Meister. maior o seu poder de contágio hipnótico. Éditions Traditionnelles. Gallimard . Les Sources et le Sens du Communisme Russe ( Paris. 1950 ). cujo título é o resumo de milhares de vidas de jovens . gir ando em circuito fechado. O leitor não terá dificuldade de reconhecer aqui. 33-42 da 2ª ed. éd. subjugando as velhas e decadentes aristocracias de sangue bem como o esgotadíssimo clero romano. Ludwig Feuerbach: “O homem é aquilo que ele come. vo n Goethe é o modelo desse projeto de vida 221. de novo. e L’Érreur Spirite ( 2e. I. Em teoria. O sucesso posterior do marxismo velou a origem ocultista do ideal socia lista. só para dar uma idéia das afinidades profundas que as diferenças superf iciais encobrem. 1952 ). espec ialmente Cap. Ainda não se fez um estudo abrangente sobre o amálgam a de idéias ocultistas. O apelo da ambição prometéica. também era verdade. no movimento da New Age. Em Le Rouge et le Noir. por outro lado. a carreira de Napoleão Bonaparte — que durante algum tempo brilhara ante todas as imaginações como o emblema mesmo das possibilidades ilimitad as que a situação pós-revolucionária oferecia aos ambiciosos e arrivistas de toda sorte — terminara muito mal. IV. e estas não deixaram de ser exploradas pela mesma literatura que a divu lgava. De um lado. um assunto que é aprofundado em Nicolai Berdiaev. constituiu uma das chaves para a formação da nova aristocracia maçôni ca: a meritocracia. XXIX. Cap. para protegê-los e dirigi-los de longe na senda da vitória. especialmente Parte I. não podem ser canalizadas senão no sentido do enervamento crescente: quanto mais vão e sem proveito um estado de alma. bem como o segredo do seu mágico atrativo. Coisas importantes a respeito foram ditas por René Guénon em Le Théosophisme. à teosofia e ao espiritismo no q ue tange à aceitação mundial do evolucionismo. o gênio de S tendhal narra a história de um típico arrivista dos novos tempos. os mais aptos. Caps.. Éditions Traditionnelles. chamando os jovens ambiciosos ao mais extremado individualismo na luta pela vida. os compon entes básicos do iogue-comissário. e isto fazia pensar 222. Paris. Mas essa soldagem do s incompatíveis. atira a alma naquele estado de agitação estéril que os gregos denominavam ubris (hübris): o entrechoque de energias que. IX e XIII. que fracassa tragi camente apesar de todo o talento e dos mais tenazes esforços. Se. 1978 ). São incompatíveis e inseparáveis 220. H istoire d’une Pséudo-Réligion ( 1929. já não como simples teoria biológica mas como explicação geral do cosmos. teosóficas. principalmente e m Paris. Under Western Eyes. elevando-se ao plano da pura espiritualidade — que é precisament e o que a ideologia moderna rejeita com todas as suas forças. por exemplo refletem menos alguma idéia oriental do que a máxima forjada pelo porta-voz da esque rda hegeliana.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 167 senhores deste mundo 219. deixando o jovem talentoso entregue ao mais negro desamp aro. noto que. a própria biografia de Johann W. A Nova Era e a Revolução Cultural. pp. dá uma idéia da atmosfera reinante nos círculos soc ialistas-ocultistas russos no fim do século passado. espíritas e socialistas que constituíram por mais de um século o alimento mental dos círculos letrados e progressistas. são dialetica mente complementares.” 220 V. Mas. de um lado.

em Œuvres. até mesmo o grande Sainte-Beuve ( que era maçom ) preferiu ao exame aprofundado o s juízos assertóricos e a mera difamação pessoal. Premiers Lundis. Qualquer que seja nossa opinião sobre os resultados de sua in vestigação. por exemplo. então já um sucesso consagrado que seria temerár io desprezar. em 8 vols. por alto. Paris. É some te nessa função que elas podem ser compreendidas e eventualmente julgadas. pp. Ao resenhar esse livr o.que acreditaram no apelo prometéico da Revolução e da democracia: Illusions Perdues. não merecia ser re cebida como foi: com insultos em vez de argumentos críticos. o fato é que sua monumental Life of Napoleon. . V. elegantemente entretecida de elogios d e praxe ao restante da obra do autor. 248 ss. 221 O presente parágrafo ilustra. Bibliothèque de la Pléiade. 222 Walte r Scott. mas como forças plasmadoras dos símbolos em que se projetam os valores e ideai s de uma época o que é precisamente a função espiritual e sacerdotal por excelência. o método que julgo dever ser utilizado no es tudo da atuação histórica das sociedades secretas e iniciáticas. 1960. tentou pensar as relações entre o fracasso de Napoleão e a ação das sociedades secretas.. principalmente no que s e refere aos tempos modernos: enfocá-las não como facções políticas ou grupos de conspirad ores.

” F. Se a intelectualidade moderna perdeu de vista a existência das castas ( tornando-se até mesmo incapaz de perceber sua própria condição de casta ). 1954. consagrada na constituição política nominal.” Assim Falava Zaratustra. porque estão imbricadas na constituição ontológica e até mesmo biológica do ser h umano e são compatíveis. E cumpre-se assim a profecia goetheana : Das Ewige Weibliche sieht u ns hinan. Elas são uma “constante do espírito humano”. é um sintoma da vontade de morrer. NIETZSCHE 225 O Estado democrático igualitário é menos uma realidade que uma aparência. volta as costas ao reino deste 224 mundo. eis o sinal que vos dou. como todas as anteriores. Mas I Promessi Sposi é antes um retorno à estética pré-maçônica — com o casamento de Renzo e Lúcia anunciando a salvação da que passa ao largo da problemática aqui enfocada. que subsistirão como um código secreto no fundo de todas as constituições po líticas. que o levam a curvar-se ante o mais forte: ao afastar-se de Deus. reduzida socialmente a um nada. as distinções de castas por funções espirituais. o est udante Raskolnikov termina por cair no estado de vítima inerme de seus instintos n aturais. a necessidade de reintegr ar a atividade criadora humana no supremo sentido espiritual da existência só é afirma da com plenitude — e com plena admissão de suas conseqüências morais e filosóficas — por um ú ico dentre os maiores narradores do século passado: F. funcionalmente. Dostoiévski 223. o lado feminino da alma. “A confusão das línguas do bem e do mal. com qualquer organização nominal do poder polític o. a polícia — Leviatã cede novamente ante Beemoth — e só reencont ra sua liberdade ao cair aos pés de Sônia. pode revogar 226. que nenhuma constituição. a jovem prostituta que encarna a humildad e. lei ou decreto. M. liberais ou so cialistas. como o segundo Fausto. foi por tê-las confundido c om as “classes” definidas por traços exclusivamente econômicos. invisivelmente entretecida na grade de uma constituição que não reconh ece a sua existência mas que não pode impedi-las de representar a verdadeira distrib uição do poder. ou: O Estado bedel 223 Algum leitor pode cobrar-me pela omissão de Manzoni. na mes ma medida em que. Logos. que existirão ora de maneira explícita. a descida do homem desde as alturas de um orgulhoso prometean ismo até o arrependimento que lhe abre as portas do céu. psicoló icas e políticas tornavam-se invisíveis. Crime e Castigo é. tal é o sinal do Estad o. Mário Ferreira dos Santos. culturais. e Stendhal encontra alívio no esteticismo cético e diletante. Depois da antevisão do velho Goethe — no Fausto mais insinuada do que expressa —. 225 226 § 32. São Paulo. ela foi o tema dominante da sua ficção desde seu primeiro grande livro. tem as mesmas duas castas governantes — sacerdotal e aristocrática. trad. autoridade espiritual e poder temporal — que existirão onde quer que s eres humanos se aglomerem numa coletividade que seja maior do que uma família. A nova socieda de. Pretendendo liberar-se de t odos os entraves morais e religiosos para dar vazão a seu impulso dominador. o único que enxerga Deus e pode conduzir a Ele. ai nda que fundado na vontade da maioria. As novas Tábuas da Lei. subme te-se ao dominador humano. Na grade diferenciadora estabelecida por Marx — e copiada com automático servilismo por toda a tradição dominant e nas ciências sociais —. sejam democráticas ou oligárquicas. Na verdade. Como a queda do comunismo parece não ter bast . ora de m aneira implícita. 224 Verso final do Segundo Fausto: “O Eterno Feminino / leva-nos ao alto. monárquicas ou republicanas.168 OLAVO DE CARVALHO Mas nem Stendhal nem Balzac enxergavam muito além do círculo históricocósmico onde se de senrolavam as vidas de seus personagens: em Balzac o drama permanece inconcluso.

mas sufi ciente para sugerir a subsistência real de diferenças hierárquicas de tipo casta na so ciedade Ocidental moderna ). Edusp. Carlos Alberto da Fonseca. acabaremos fatalmente recolocando na linha das preocupações sociológica s a velha teoria das castas ( como já o fez. se recorrermos a distinções mais comp lexas e sutis. Thompson ( op. As distinções econômicas. P. nunca é demais insist ir que há mais diferenças hierárquicas entre os homens do que imagina a nossa vã sociolo gia. São Paulo. por exemplo. trad. “casta sacerdotal” significa simplesmente . O Sistema das Castas e suas Implicações. não bastam sequer p ara definir uma classe no sentido marxista. Louis Dumont em Homo Hie rarchicus. 1992 — um estudo infelizmente limitado ao sistema hindu. ).ado para eliminar o prestígio residual do marxismo como ciência. — No sentido em que aqui emprego os termos. adaptados à situação moderna. E. cit. como viu E.

e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitad o por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos. sem interferir diretamente em política ). de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado. é menos uma ironia da História do que um a fatalidade inerente à natureza do poder: não podendo eliminar as castas governante s. bem como toda a parcela da classe média que se ocupe somente da vida civil. definir o p oder exclusivamente por critérios econômicos e políticos foi um truque sujo da intelli gentzia para ocultar seu próprio poder. era visto por todos no campo e na al deia. Que essa ideologia pudesse transformar-se no instrumento da mais f ormidável concentração de poder nas mãos de poucos. só a casta que detém o poder espiritual pode legitimar o status quo ou mudá-lo. São Paulo. ninguém as reconhece. 1947. Abaixo dessas duas castas. nunca li trabalho algum que valesse a pena. também consideradas fora do contexto atual. já citado. Sobre a psicologia das castas. que vai desde o prole tariado politicamente “alienado” até os párias e desclassificados de toda ordem desde qu e não exerçam poder político através de movimentos sociais ou do banditismo organizado ( pois neste caso fazem parte da casta aristocrática ). pois todos crêem que castas só existem na Índia ou no passado medieval. entre as quais a da elitização. São Paulo. Paris. o da casta sacerdotal. e não em meras abstrações econômicas. em caso d e grave ofensa. logo. Mythe et Epopée. já falecido. sacerdotes e altos dignitário s de sociedades secretas até os ideólogos de largo escopo. Sobre as castas no contexto atual. mas reconheço a dívida que. Há evidentemente interseções. tenho para com meu querido mestre e amigo. os encarregados do guiamento espiritual do povo — uma categoria que abrange desde gurus e magos ( autênticos ou falsos. lança. Sobre as for mas de poder das castas superiores. teve de elitizar-se a um ponto que seria inimaginável para os nossos antepassados. O imaginário moderno concebe. Olavo de Carvalho. sem se deixar iludir p or aparências e formalismos. bem como Ge orges Dumézil.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 169 Foi por isto mesmo que a sociedade democrática. pelos ensinamentos recebidos em conversas inesquecíveis. v. que não apagam a linha divisór ia essencial. e podia portanto. Elementos de Tipologia Espiritual ( apostila ). às vezes trazendo-o na garupa. E quando elas ressurgem sob nomes como “burocracia estatal” e intelligentzia. há os empresários sem força política direta. nas campinas imensas onde o grito se perde . para a formação de minha s idéias a respeito. cientistas e técnicos e a arraia-miúda intelectual das universidades. e que ad emais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espa da. Juan Al fredo César Müller. arco e flecha. noite ade ntro. imbuídos de ilusão igualitária. elevando-a ao poder político. em seu sítio na floresta da Cantareira. ocultou-as. Essa ilusão tornaos cegos para as rea lidades mais patentes. Vega. pelas lideranças sindicai s e por aquela parcela do empresariado capitalista urbano ou rural que tenha força suficiente para fazer lobby. idealmente considerada e fora de toda referência às sociedades modernas. os acadêmicos. Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo. inerme. ser atingido. sem precedentes. por exemplo. Nossos contemporâneos. 1988. René Guénon. pouco importa ). derruband o-a com o auxílio das castas inferiores. seja pacificamente ou pela violência. do movimento editorial e d a imprensa. crêem que o mundo caminha para o ni velamento dos direitos. aumentando assim o seu poderio. professando mentirosamente equaliz ar a distribuição de poder. sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado p or outros meios senão a concentração de poder 227. e. entende que a mais alta forma de poder é aquela que gov erna as mentes dos homens. o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário. homem entre homens. qu alquer que seja o seu tamanho ( o que vai desde o grande empresário politicamente isolado até os pequenos comerciantes e proprietários rurais. outra coisa é socieda de igualitária. Essa classificação baseia-se na distribuição real do poder. que gera a aristocracia e. dos meios de poder. e mais em baixo ainda a imensa massa dos braçais. “Casta aristocrática” significa todos os que exercem o poder políticomilitar ou têm condições de reivindicá-lo: isto vai desde os governantes até os políticos de oposiçã passando pelos escalões superiores do funcionalismo público. IAL. Pois uma coisa é ideologia igualitária. depois a julga e eventualmente condena. v.

e nossos pedidos. seu tempo vale dinheiro. mas ela nunca esteve tão perfeitamente isolada d e suas vizinhas”. Em p rimeiro lugar. p.na distância. meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis. mesmo na América. assinala com justeza Christopher Lasch ( op. os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocu ltas.. causas ocultas. alarmes. cit. op. mais dinheiro do que nós temos. Em terceiro. o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância do s dominados. 228 “Sempre houve uma cla sse privilegiada. Não entramos lá. matilhas de cãe s ferozes. O exame das cinco décadas que se seguiram à publicação da obra de Jouvenel mostra que a tendência aí denunciada se acentuou ainda mais. cit. Em comparação com ele. que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os 228 mortais . Pela foice do camponês. por uma lâmina vingadora. . cercados de portões eletrônicos. potestades ocultas. Em segundo lugar. Por uma faca de cozin ha. demonstrou que o curso da história política do Ocidente desde o Império Romano até a II Guerra Mundial se dirigiu claramente no sentido da concentração do poder mediante a extinção ou neutralização dos poderes sociais i ntermediários.. 12 ). guardas armados.. nossas imprecações e mes mo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua. falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barr eiras burocráticas sem fim. os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínio s fechados. deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhece227 Bertrand de Jouvenel. passim.

se caísse na mais negr a miséria. em média. complicada que seja a sociedade. de cujas queixas ele nece ssita para justificar sua expansão. para poderem ser aplicadas. as novas leis. requerem a expansão da buro cracia fiscal.170 OLAVO DE CARVALHO mos. E. e assim o Estado se torna mais poderoso e opressivo quanto mais se multiplicam as liberdades e direitos humanos. pela minh a condição de escritor e intelectual. 230 229 Falo aqui como porta-voz do homem do povo. por fim. direitos humanos. policial e judiciária 230. e criando a horda dos sem-terra que foram para as cidades formar o proletaria do moderno e trabalhar dezesseis horas por dia. a rede de educação pública. por um direito milenar. se através de lutas e esforços sobre-humanos o movimento sindicalista obtém fina lmente para essa horda a jornada de trabalho de oito horas e a semana de cinco d ias. Após dois séculos de democracia. O intelectual. tinha as terras da Igreja. transformamse em leis. Tinha ainda o direito de mudar de território. mas é claro que pessoalmente. Sem esquecer. O servo-da-gleba também tinha o direito de ir e vir. e instalar-se nas terras do senhor vizinho. os novos direitos. os cidadãos reivindi cam mais e mais direitos. que não possa ser administrado senão por uma burocracia onipresente. sem outra esperança senão a de uma f utura revolução socialista (que os reverteria a uma condição similar à de escravos romanos ). ela ainda está abaixo da condição do camponês medieval. formadora de mini-agentes de transfor . s enão uns seis meses por ano. Mas. que não trabalhava. o episódio deu tema a uma novela de Heinrich von Kleist : Michel Kolhaas). Estado assistencial. eis a parte que nos cab e deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibil idade divina. equivoca-se ao sugerir que o “enxugamento” do Estado — sua ret irada das atividades “impróprias” — esteja associado de modo automático e óbvio a uma promes sa de maior liberdade para os cidadãos. quando quero. Protestos e reivindicações incessantes são necessários para manter a sociedade num esta do de divisão e de mudança psicológica acelerada. é claro. e nriquecendo formidavelmente os burgueses que podiam comprá-las em grande quantidad e. a dialética do poder no Estado moderno é diabo licamente simples: incentivados a fazer uso de seus direitos. tenho mais informações sobre a organização do poder do que o homem das ruas e. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas. que confundem palavras com coisas e intenções com atos. onde todos eram livres para plantar e colher . tanto quanto outrora necessitava do apoio das grandes fortunas para sufocar os movimentos sociais com que ainda não sabia lidar. socialismo e progressismo. Esse pr ocesso não é inconsciente: em todos os países do Primeiro Mundo. o Estado tornou-se o proxeneta assumido de todas as minorias insatisfeitas. de modo que o Estado possa pairar soberanamente sobre um mar de átomos humanos nivelados e desorganizados entropicamente231. ao serem reconhecidos. sem passaportes ou vistos e sem ser revistado na alfândega (o primeiro senhor de terras que resol veu taxar a travessia de suas propriedades desencadeou uma rebelião camponesa e pe receu num banho de sangue. São necessários também para debilitar todos os poderes so ciais intermediários. precisa ser muito hipócrita para não se incluir a si mesmo na categoria dos “poderosos”. me faço ouvir — tanto quanto qualquer outro i ntelectual — pelo poder político. que era obrigado a recebê-lo em troca de uma promessa de lealdade. Eis como o progresso dos direitos nominais não se acomp anha necessariamente de um aumento das possibilidades reais. caso lhe desagrad asse o seu senhor. e temos razões para invejar o servo-da-gleba. Por isso a ideolo gia neoliberal. a Revolução encampou essas terras e as rateou a preço vil. E. mesmo sem um tostão no bolso. igualitarismo. que ao menos tinha o direito 229 de saber quem mandava nele . tão veraz ao discernir os fatores que obstaculizam ou fomentam o d esenvolvimento econômico. Mas esta distinção esca pa aos porta-vozes da ideologia progressista.

. O alvo de seus ataques não é o establishment. 1995. que em seguida os transe xuais se revoltem contra as drag queens por caricaturarem a forma feminina. segundo elas. que.mação social necessários para que as novas leis se transformem em costumes generalizad os.. cindindo-se imed iatamente em partido sádico e partido masoquista. E assim por diante. o m ovimento gay! O machismo gay. . Veremos isto mais adiante. surjam protestos análogos da parte dos travestis e trans exuais. que invadem bares. os s adomasoquistas protestem pelos seus direitos. É previsível que logo. as Lesbian Avengers.. 231 Desorganização entrópica: em Londres. segundo notic ia The Times de 8 jan. entrou em atividade um grupo de militantes lésbicas e nragées. pois não há limi te para a fragmentação entrópica desde o momento em que as correntes de opinião passam a ser determinadas pela libido. em seguida. mas.. promovem pancadarias e autos-de-fé em que queimam em grandes fogueiras públicas as revistas e jornais de seus inimigo s. discriminados pelos machões que só gostam de machões. é a maior ofensa à dignidade da causa lésb ica. nem a família tradicional.

Editora Am . A mesma matéria. E estas. mas sim também — e principalmente — daquelas que lhe são mais essenciais e próprias: o fisco. fundando-se numa est atística muito grosseira improvisada por uma delegacia. deixou de ser um direito n atural inerente à condição humana. a justiça. por exemplo. a educação pública. nos países do Prim eiro Mundo. Este é um p onto que os pensadores neoliberais devem examinar com cuidado. sempre foi uma das garantias básicas da liberda de civil.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 171 Pois não é só mediante o exercício de atividades impróprias e acidentais que o Estado opri me as pessoas. O Paraíso Sexual-Democrata. por exemplo. da família e das pequenas comunidades 232. ler a imprescindív el reportagem de Janer Cristaldo. Até umas décadas atrás. graças à TV e aos computadores. a autoridade pública regulam enta hoje da maneira mais direta e ostensiva todas as relações humanas. para acelerar sua substituição por relações cri adas artificialmente pela administração estatal ou pela dinâmica do mercado. 233 Sobre a Suécia. a polícia. onde um governo hospitaleiro lhe dera moradia gratuita. para se tornar uma concessão do Estado. Rio. A expansão do olhar fiscalizador do Estado (e da intelligentzia) par a dentro da esfera privada tem como uma de suas mais graves conseqüências a redução da d iferença entre o moral e o jurídico — diferença que. tendem antes a crescer desmesuradamente. Cultivam. A educação e as comunicações de massa — dois setores entregues ao império de intelectuais at ivistas que um tanto inconscientemente são os mais dóceis colaboradores do Estado mo dernizante — atacam por todos os meios as velhas relações comunitárias fundadas no costu me. na religião ou na natureza das coisas. segunda. alertando-os para um problema social. exilado pela ditadura. Paulo. Isso acontece por igual nas ec onomias neoliberais e nas social-democráticas. e acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana antes entregues ao arbítrio privado. por não suportar mais viver num país onde a insolência juvenil é pro tegida pela polícia e onde ser pai é expor-se a toda sorte de humilhações nas mãos de uma santa aliança entre moleques e burocratas 233. numa página de noticiário policial ou geral. a Folha de S. nada deixando para a livre decisão do indivíduo. em vez de retrair-se no novo quadro neoliberal. incita diretamen te os leitores a suspeitarem de seus pais. concedeu uma manchete do F olhateen à notícia de que a maior parte dos estupros de menores é praticada pelos pais . ficam mais inteligentes a cada dia que passa — uma as serção que é desmentida pelo miserável desempenho cultural dos geniozinhos tão logo chegam à universidade ou lhes damos um livro para ler. Cia. assistência médica e pol puda aposentadoria. no Brasil. a vitória esmagadora das economias capitalistas tenha vindo junto com a crescente intromissão do Estado na moral privada. desistiu de morar na Suéc ia. revogável ao me nor sinal de abuso. o pai de família que estendesse as asinhas 234 232 Também não é coincidência que. mesmo as mai s íntimas e informais. nem muito menos na dos jornalistas e proprietários de jornais 234. que à medida que se descarrega do fardo econômico o Estad o busca para si novos papéis que justifiquem sua existência. O pátrio poder. o mais popular defensor do neoliberalismo — o pr efeito Paulo Salim Maluf — seja também o primeiro governante a procurar interferir d ecisivamente nos hábitos privados dos cidadãos. que foi precisamente para poder expandilas que o Estado se ret irou da economia. a confiarem de preferência na polícia e n os assistentes sociais — o que se funda no pressuposto de que não há estupradores na c lasse dos funcionários públicos. A razão disto é dupla: primeira. Às vezes vão mais longe: advertem as crianças contra os graves perigos que correm ao confiar em seus pais em vez de ent regar-se à proteção do Estado. Num suplemento juvenil. Um amigo meu. Nos EUA. se dirigiria a adultos . a mentira de que as novas gerações escapam ao controle paterno porque. Não é coincidência fortuita que. resguardando da intromissão oficial áre as vitais do comportamento humano. pois as contradições teóricas no seio de uma ideologia podem ser as sementes de futuros conflitos que u ltrapassem o terreno das meras idéias. Recentemente. mediante as leis sobre o uso dos cin tos de segurança e sobre o consumo de cigarros.

no Jornal do Brasil de 1996. Ninguém saltou à goela do declarante. Embora não seja pai de família.ericana. de alma delicada e sentimentos estéticos incompatíveis com os instintos violent os. quem se aproximasse de meus filh os imbuído de semelhante doutrina. nem o expulsou a pontapés. São todos pessoas educadas. defende como justa e saudável a prática da pedofilia. cul tas. como a um cachorro louco. . aos três anos. nem muito me nos se lembrou de processá-lo por apologia do crime. um premiadíssimo escritor gay. 1978. já têm um tremendo sex appeal e jogos de sedução de fazer inveja a Sharo n Stone. de vez que as criancinha s. Somente a mim parece ter ocorrido a idéia de que seria difícil resistir ao impul so de abater a tiros.

nos ressentid os de toda sorte —. no mínimo. O Estado torna-se cada vez mais o mediador de todas as relações humanas. que vêem algo de bom nas leis contra o fumo são cegos para a monstruosidade que reside no fato de a esfera jurídico-penal invadir o campo da s boas-maneiras. na verdade o que faz é usurpar uma das funções básicas da comunidade. sedutor de domésticas e estuprador de crianças. e. era mais do que suficiente p ara fazer justiça. Quando ao castigo moral se soma porém a sanção penal e administrativa . que todos prefiram permanecer adolescentes e. cultivando as suscetibilidades neuróticas que os infantilizam. por exemplo. a pretexto de proteger d omésticas ofendidas. e descr ito com precisão. A proteção oficial ao aborto. mas incapazes de assumir qualquer r esponsabilidade pessoal nas ligações mais íntimas. devida mente empregados e no gozo de seus direitos. sendo proporcional à falta cometida. faz da mulher uma unidade autônoma. o bairro. de terapeutas. de outro lado. para tornar-se um tr ato em separado entre a mulher e o Estado: o divide ut regnes invade o quarto nu pcial. sobreviver sem o amparo estatal e muito professional h elp. como de uma isca para prendê-los na armadilha da pior das tirani as. Uma prova de que a intromissão do Estado visa menos a proteger as supostas vítimas de abusos do que a suprimir as velhas formas de associação é que as no vas legislações de direitos dão sistemática preferência às reivindicações que separam os home sobre aquelas que os unem. nas mulheres. a simples descortesia de acender um cigarro num ambiente fecha do. nos discriminados. nem jovem nem velh o. mas por uma exigência intrínseca da dialética do poder: numa sociedade onde todo cidadão pertencente a esse grupo é estigmatizado como um virtual espancador de mulheres. criar ligações verdadeiras uns com os outros. um olhar. Nas Sombras do Amanhã. sentimentos e até olhares de seus semelhantes — uma garantia jurídica contra a vida. já antes da II Guerra. por exemplo. e este castigo. nem homem nem mulher. dos vizinhos. que é a de fiscalizar a conduta moral de seus membros. Niveladas todas as diferenças. em suma —. não espanta que ninguém queira amadurecer para ingressar ne le. Daí o fenômeno alarmante da adolescência prolongada — hordas de cidadãos. antipatias. o caso passou da esfera ética para a jurídica — e o Estado. se mpre trocando de namoradas.172 OLAVO DE CARVALHO para cima de sua doméstica atrairia sobre si a desaprovação da esposa. de um lado. onde já não haverá pais e filhos — somente a multidão inumerável dos órfãos de todas as idades. Evoluímos. por Jan Huizinga ( v. dos filhos. cada ser h umano torna-se uma unidade abstrata e amorfa. pois todos serão menores de idade. oferecendo-lhes o engodo de uma garantia jurídica con tra os preconceitos. de planos e objetivos vita is. que decide ter ou não ter filhos sem a menor necessidade de co nsulta ao marido. para uma sociedade onde não haverá mais a diferença entre adulto s e crianças. tornand o-lhes impossível. com a leviana desenvoltura de quem troca de meias 235. cuja soma compõe a massa atomística dos protegidos do Estado — tanto mais inermes e impotentes quanto mais carregados de direitos e garantias. A procriação deixa de ser uma decisão familiar. a paróquia. biológica e legalmente adultos. perpetuamente à espera de que alguém faça algo por eles. da paróquia — um castigo moral infligido espontaneamente pela comunidade. de amigos. protegen do-os sob a imensa rede de serviços públicos que os livra da necessidade de recorrer à ajuda de parentes e amigos. cada um com um luzente crachá de “cidadão” 236. assim. nem criança nem adulto. E a situação as sim criada terá o dom da automultiplicação: após ter 235 Esse processo foi observado inicialmente nos países sob governo totalitário. isola e enfraquece. o Estado na verdade os divide. Aqueles. reunidos num imenso colégio interno s ob a tutela do Estado bedel. mesmo as espontâneas e informais — um gal anteio. O Estado utiliza-se das reivindicações de autonomia dos indivíduos — reivindicações p articularmente fortes nos jovens. o “cidadão”. “Libertando” os h omens de seus vínculos com a família. sexualmente indecisos — o que é uma condição sine qua non para a dissolução dos caracteres na sopa entrópica da “c dania”. isto não ocorre por casualidade nem por mera birra feminista. Se a bête noire visada por todas as campanhas de proteção aos direitos é sempre o macho adulto heterossexual. cheios de autopiedade e indiferentes aos sofrimentos alheios. .

eruditíssimos técnicos de futebol. trad. cuja au ra de prestígio vem do esquecimento: o principal direito que a Assembléia francesa c oncedeu ao citoyen foi o de servir obrigatoriamente ao Exército. sob pena de ir pa ra a guilho- . formam. Huizinga destaca o fenômeno do puerilismo como uma das cara cterísticas dessas sociedades. Esse fenômeno hoje é de escala mundial. portuguesa.Um Diagnóstico da Enfermidade Espiritual do Nosso Tempo. Coimbra . que tratam com reverente atenção atividades puramente lúd icas e com leviandade juvenil os assuntos sérios. 1944 ). Arménio Amado. e entregam a discussão filosófica e teológica a jornalistas semile trados. 236 Citoyen: palavra terrível. por exemplo.

Morgen zu uns gehört 237 e. libertários. adotaram maciça e universalmente o uso do marketing infanto-juvenil. a indústria capitalista desco briu o emprego publicitário da candura infantil para a venda de toda sorte de prod utos. no qual suas opiniões e desejos não devam. por bárbaras e imbecis que fossem. na lisonja mais descarada à vaidade pretensiosa do seu público mirim. A intromissão direta nas relações familiares praticada pelo Folhateen exemplifica aliás só uma dentre as dezenas de maneiras pel as quais a aliança do Estado modernizador com a intelectualidade ativista e com as forças do mercado se utiliza de crianças e jovens como “agentes de transformação social”. entre os quais. são ONGs dirigidas por intelectuais de prestígio.. a Unesco. Não: quem faz isso já não são organizações subversivas. se já é um desrespeito intolerável usá-los como instrumentos de campanhas de vasta envergadura. pois. tornou-se de umas décadas para cá um costume tão generalizado que. pela repetição uni versal. cujas implicações políticas mal imaginam. O us o de menores de idade como veículos de propaganda. salvar o que restasse da comunicação doméstica. Com isto a Revolução atirou para os ares uma das mais belas conquistas da civi lização — a liberdade pessoal de não guerrear. Em contrapartida. por mais sutil. quando praticamente todas as organizações empenhadas em qualquer tipo de objetivos soi disant humanísticos. prevalecer. caso o produto se dirigisse ao próprio público infantil — brinquedos ou doces —. já não reparamos no que ele tem de imoral e criminoso . crianças posando em anúncios funcionavam como emb lemas. respeitada desde o Império romano — e inaugur ou a era do envolvimento sistemático das populações civis no morticínio generalizado. das qualidades exce lsas que se desejava associar a determinados produtos. educacionais etc. investindo de pre ferência sobre o público juvenil. a renegar nossas crenças e valores e a adaptar-nos a toda sorte de caprichos i diotas para não sermos reprovados socialmente e não nos tornarmos párias. que não há assunto. por conta do brilhan te futuro a que são convocados. mas levavam ainda a indiscutível vantage m publicitária dos martírios infantis.. Hoje em dia já não são partidos radicais nem tubarões ca pitalistas que exploram o narcisismo infantil e a vaidade juvenil como instrumen tos de pressão para levar-nos a fazer o que não queremos. em última análise.— são. Depois foi assimilado pelos anarquistas e comunistas: usando garotos fan atizados para jogar bombas na aristocracia. Mas. por mais imaturos e inexperientes que sejam. dessensibilizados pela repetição. retransmi .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 173 infantilizado os cidadãos. mais cruel ainda é que esse uso seja fundado. em português claro. des esperados pela inocuidade de seus argumentos. já devem ir exercendo no dia de hoje sua pesada quot a de poder. aquelas entidades qu e professam exatamente defender os mais altos valores humanos. esses movimentos tinham não somente um exército de recrutas facilmente governáveis. ouvir a mensagem da casta intelectual. na Revolução Francesa. o Estado alegará a deficiência de seu juízo moral para se met er cada vez mais em suas decisões privadas. cuja origem desconhecem. O uso foi duplo: de um lado. por exemplo. ao menos para tina. a comprar o que não precisam os. tornado assim. instrumentos de agitprop. Na década de 60. o respeito à criança e ao adolescente. acabassem se rendendo e assimiland o ao menos parcialmente toda sorte de novas crenças e manias. até fazer com que pais e mães.. por mais obscuro. de modo a dar a entender a essas hordas de mini-imbecis que nada está acima de sua compreensão. as seitas pseudomísticas. comerciantes inescrupulosos e seitas de excêntrico s: são fundações educacionais. até onde posso comprová-lo. u m termo elegante que significa. mas também com a ação de solapamento com que a tagarelice adolesc ente ia minando os alicerces da confiança familiar. Vimos isto no parágrafo an terior. são governo s. embora seja claramente um abuso da inocência alheia. fortemente atrativos para a sentimentalidade popular. puderam contar não somente com reservas de credulida de quase inesgotáveis. um costume legítimo e aceitável que já não nos inspira o que em épocas menos abjet as seria uma natural repugnância. Devem. são organizações internacionais como a ONU. Porém o melhor de tudo veio a partir da década de 80. enfim. sempre e sistematicamente. Ci toyen significa: súdito da burocracia militarista. Ele começou. De outro. afinal. podia-se contar com o tremendo apoio representado pela pressão que as hordas de consumidores mirins exer ceriam sobre seus pais.

e levá-la a seus lares.tida por professorazinhas semiletradas. . onde imporão — mensage iros da modernidade — os novos valores e critérios — 237 “O futuro pertence a nós” — título e refrão do hino da Juventude Nazista.

estava mais na rebeldia típica da adolescência do que na origem pobre do men ino”. como se as ações humanas resultassem diretamente do saldo bancário e não dos desejos alimentados pela imaginação. Devem rec eber os ensinamentos morais transmitidos por espevitadas atrizes de TV — as mais a ltas autoridades em questões de consciência. isto é. A intelligentzia. a classe que propagou a moda do sexo livre 238 e o culto erótico das ninfetas (festejando por exemplo Nabokov. procuran do atribuir a criminalidade juvenil ao atraso econômico e à miséria — uma desculpa esfar rapada que uma recente pesquisa desmascarou da maneira mais contundente 239. Em segundo lu gar. temerosos de ser passados para trás. 240 Livre e seguro: Não é o que nos promete o Ministério da Saúde? 241 Resumindo o livro de Patricia Mongan. acabem adotando toda s orte de puerilismos da moda como se fossem as novas Tábuas da Lei. tornando-as virtualmente inadaptadas às limitações da vida adulta: o menino que. Ela constatou que a razão do problema. 5 jan. e ligado diretamente só ao Estado241. que em seguida lança suas culpas sobre a est rutura econômica da sociedade. Do mesmo modo. A razão disto é que a família e todas as comunid ades tradicionais — religião. do aborto e do sexo livre 240. terá. dando a entender que são efeitos da pura desigualdade ec onômica. ele revelou ser menos o protetor da família que o protetor do d ivórcio. isenta-se então de sua responsabilidade. para a sociedade em geral. Farewell to the Family? ( Lond on. O uso de crianças como “agentes de transformação social” tem conseqüências temíveis. um joão-ninguém — e não haverá out io de escapar da depressão daí decorrente senão agarrando-se a sonhos e ilusões juvenis. para os quais a cultura não contribuiu em absolutamente nada. Institute of Economic Affairs. um agente criador do destino coletivo. Quanto à família. é óbvio que a lisonja às pretensões mais descabidas da juventude é uma das causas pri ncipais da criminalidade juvenil. reivindicar de seus pais o cumprimento dos quesit os ali formulados. como se sabe — e em seguida repeti-los em família.. 1995 ). Devem ler com atenção devota o Estatuto da Criança e do Ad olescente e. O que exist e — acrescento eu — é um vínculo entre a rebeldia juvenil exacerbada e as ideologias pro pagadas há decadas pela intelligentzia. Lewis Carroll e as fotos de David Hamilton) se enche de brios hipócritas ao denunciar abusos sexuais contra menores de idade. se sentiu um líder. A conclusão de Fúlvia Rosenberg é que não existe o vínculo que a opinião vigente da int lectualidade estabelece entre a pobreza e o fenômeno dos “meninos de rua”. círculos de amizade. a idéia de sua aliança natural com o Estado é um mito. O Estad só foi protetor da família enquanto teve de atender à pressão de poderes sociais mais a ntigos. segundo a interpretação que lhes dêem o notório saber jurídico de suas mestras e a peculiar acuidade jurisprudencial de meninos de oito anos. adquirindo os traços e sintomas da adolescência prolongada 238. chegando em casa. Em primeiro lugar. na adolescência. lideranças e lealdades territoriais — são por natureza os mais fortes oponentes da autoridade estatal. . como a Igreja e os remanescentes da aristocracia. a decepção de ver que agora se tornou um número anônimo. até que pai e mãe. nest e caso. 1995: “O que estamos produzindo é uma nova ‘classe guerreira’ de homen s separados da influência socializante da família e das responsabilidades domésticas. leva-as a um sentime nto hipertrofiado de sua própria importância. ao ingressar no mundo da economia e do trabalho . que é a maior culpada pela utilização dos menores como instrumentos p ara o marketing dos “novos valores”.174 OLAVO DE CARVALHO a seus atônitos progenitores. Janet Daley escreve em sua coluna em The Times. de modo que o ind ivíduo fique sem conexões orgânicas em torno. Tão logo livrou-se desse s aliados incômodos. que cresce assustadoramente em todo o mundo. para elas mes as. de outro. A sociedade moderna caminha decisivamente para a destruição desse s poderes intermediários e das associações humanas que os sustentam. É apenas uma questão de tempo até que algum demagogo procure organizar essa delinqüência . Jornal do Brasil de 22 de maio de 1995 — “um grupo em especial chamou a atenção da pesqu isadora: adolescentes pobres que foram viver na rua porque enfrentaram conflitos familiares e resolveram sair de casa. impotente e solitário no oceano do mercado livre. de um lado. que elas procuram diluir numa hierarquia de poderes sociais diferenciados e numa complexa rede de associações informais.

do total de 4. e muitos frequentavam escolas. outras estavam simplesmente ganhando a vida.anárquica. Esses homens deslocados são o alimento ideal para o recrutamento fascist a. trab alhando Por que os jovens de hoje têm tanta pressa de “se realizar” antes dos vinte e cinco an os e entram em depressão quando não o conseguem? Porque a mitologia do nosso tempo a ssociou a idéia de juventude ao sentido da vida. professora da PUC de São Paulo e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. que só os casais mais determinados ( e afluentes ) podem ficar livres de suas desvantagens. só 895 dormiam na rua. mas — resume o . Uma mãe sol teira com dois filhos pode trabalhar 20 horas por semana a £4 por hora e terminar com £163. os outros tinham casa e família. passada a juventude. de modo que. deduzido impostos e aluguel. algumas eram exploradas por adultos.” Isso ocorre.520 “meninos de r ua” que circulavam na capital paulista. porque o governo britânico adotou “um programa de des incentivos financeiros ao casamento e à estabilidade familiar. constatou que.99. a vida já não tem mais sentido. 239 Fúlvia Rosenberg. segundo Morgan. Um homem casado pai de dois filhos. Dentre as crianças abrangidas pela pesqui sa.

a proteção que ess as entidades recém-criadas darão aos novos direitos é apenas uma possibilidade teórica. O fato de ser casada não conta para nada. com estrit a igualdade matemática em termos fiscais. Os movimentos de direitos. O Estado tende a alimentar a irresponsabilidade moral para po der alimentar-se dela.. Nenhuma avaliação séria da rel ação custo-benefício deixará de nos mostrar que. no fundo. A prova mais contundente é a proliferação de novas delegacias e varas de justiça es pecializadas. Esse exército de solitários é o resíduo inevitável de uma equi ocada luta pelos direitos humanos. de um menor de idade ou de quem quer que se ja. em cada um desses casos. seja fascista: é que a política liber al ( ou. pagarão para ver sua autoridade familiar contestada por funcionariozinhos semi letrados e arrogantes. dos go rdos. e talvez até dos esquisitões. delegacia do menor. jamais tendo abusado de uma donzela. dos loucos. vivem sem família. l quido e certo de s ua mera existência. Pergu nte a si mesmo por que. Thatcher. Muitas pessoas acreditam que a proliferação das ONGs prova um a tendência contrária — uma tendência a limitar os poderes do Estado e enfatizar as inic iativas espontâneas dos cidadãos. mas. será deixado com apenas £130. num sentido diferente do que lhe dav am os esquerdistas. ao passo que a ampliação do poder estatal é o resultado imediato. que acabam se associando a interesse s estatais e empresariais e vão perdendo toda ligação com sua origem comunitária 242.” Sub linhando que toda essa situação foi criada no governo liberal da Sra. cuja ideologia ajudou a criar essa política fiscal. assistenciais e assim por diante. então. ele ganhará £33 a menos que a mãe solteira trabalhando meio período. sem outra relação humana exceto com os funcionários da previdência social. é a mais t riste demonstração desse fato. O Esta do encara agora cada pessoa como uma unidade autolimitada. em princípio. delegacia da terceira idade. sem ami gos. E quando se verificar enfim que todo esse crescim ento canceroso da burocracia não diminuiu em nada as violências que lhe servem de pr etexto. isto só será um novo pretexto para verberar a irresponsabilidade moral dos c idadãos e justificar a criação de mais e mais órgãos policiais. com todas as limitações do pensamento ideológico . do definhamento das relações human as.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 175 O número assombroso de indivíduos que. uma garota da classe operária não há de considerar um mar ido como algo menos que inútil. atomizada.95. de olho nos fins políticos ambicionados. elas não sobrevivem se não crescem. e não crescem senão quando s e reunem em imensos conglomerados mundiais. incumbida de proteger pessoas como o autor desta s linhas contra aqueles que nos chamarem de esquisitos. Não é que o liberal. da extinção de todas as virtudes morais básicas que tornam a vida digna de ser viv ida. O casamento está deixando de ser reconhecido pelos sistemas legais e fiscais. E será ainda incentivada nessa convicção por suas irmãs fe ministas de classe média. nunca se dão conta de que suas con quistas são obtidas à custa da inflação do poder estatal. quando o Estado interfe re na economia. subm etidas à lógica do mercado. todas as crianças contra todos os pais e todas as mu lheres contra todos os homens. Esta existência aliás terá í de ser financiada por todos aqueles que. imbuídos da por 40 horas com a mesma remuneração. liberacionista ) cria hordas de homens isolados e re voltados que serão as massas de militantes fascistas de amanhã. mais propriamente. o esquematismo do debate entre “privatizantes” e “estatizantes” tem tornado ess as contradições da ideologia neoliberal invisíveis tanto para seus adeptos quanto para seus opositores — ambos iludidos pelo pressuposto de que. em seguida virão as dos deficientes físicos. As ONGs podem ter surgido com essa intenção. Trabalhando em pe ríodo integral. No Brasil. A superioridade das propostas liberais sobre as socialistas no que diz respeito à economia não deve nos levar ao engano de ver no neoliberalismo algo mais do que ele é: uma ideologia. já está em estudos a delegacia esp ecializada dos gays. a co lunista enfatiza que um velho slogan da esquerda — “arranhe a casca de um liberal e encontrará um fascista” — está se tornando verdade. . missão de proteger. na Europa e nos EUA. interfere em tudo. que se segue a cada nova proclamação de direitos: delegacia da mulher. judiciais. e de que quando sai dela deixa as pessoas liv res em tudo o mais. inclusive a de superpor as expectativas aos fatos e. não enxergar o que se passa diante de todos os narizes humanos na at . chefiados como ger almente são por pseudointelectuais de miolo mole.

onde esses dois g igantes anônimos e impessoais freqüentemen te se aliam contra todos os liames comunitários e familiares que constituem a última proteção da intimidade humana. se do ponto de vista econômico o Esta do e o mercado são poderes antagônicos e concorrentes. a liberdade para o mer cado não garante 242 Sobre as ONGs. o mesmo não se dá quanto à administ ração da vida psico-social. v.ualidade deprimente da vida cotidiana. “A democracia das ONGs e a ditadura do marketing” em O Imbecil Col etivo. . Pois. Embora uma economia de mercado seja claramente menos opressiva para os cidadãos do que uma economia socialista.

s e o neoliberalismo me parece mais sensato do que o socialismo. pois no Brasil não se pode descrever um estado de coisas sem qu e a platéia ansiosa nos cobre uma definição sobre o que fazer que os adeptos de ambos os partidos. o certo e o err ado. Seja na social-democracia.176 OLAVO DE CARVALHO automaticamente liberdade para as consciências. carregava dentro de si o germe do monopólio estatal do sentido da vida: acima das religiões. os valores e critérios morais. malgré lui. não será a glória final e a mundialização da Revolução A ericana? Não será e nfim o ioguecomissário. Na verdade e no fundo. o verdadeiro e o falso. Atenho-me portanto ao que poss o compreender. iluminista. e reconheço que as complexidades da economia mo derna geralmente escapam à minha inteligência um reconhecimento que aliás me coloca na companhia honrosa de pelo menos um grande economista. de abrir o caminho para uma sociedade mais livre por meio da economia livre: se uma opção econômica se t orna o critério predominante se não único a determinar os rumos da vida coletiva. concordassem em submeter a disputa ao critério de valores superiores. NA BORDA DO MUNDO 243 V. seja no neoliberalismo. a não ser por uma hipotética rebelião das religiões contra o monopólio estatal do sentido da vida —. cedendo. Não tendo conseguido socia lizar a economia. aqueles que conferem sent ido e legitimidade moral a qualquer opção econômica que seja. acabam descarregando todos os seus velhos í petos estatizantes no m apoio descarado às intromissões do Estado neoliberal na vida privada. Alfred Sauvy. Paris. 1989. é ao Estado — casta dirigente ou aristocrática — que cabe. Alfred Sauvy. sobre o arcabouço da economia capitalista. segundo o q ual a complicação crescente do sistema internacional ultrapassou as fronteiras do humaname nte compreensível e se tornou l’économie du diable 243. . e assim se tornam os aliados de seus antigos desafetos num esfo rço comum para levar o neoliberalismo no caminho do pior. vão cedendo. Ex Status nemo salvatur: fora do Estado não há salvação. um servo . e por desejo talvez de apaziguar o ressentimento dos derrotados. E o ponto que me parece básico é que a concepção iluminista do Estado lei go. Esta é a única questão que importa p ra o destino do mundo: estaremos por um caminho ou pelo outro condenados a viver sob a religião de César? Caso a resposta seja afirmativa — e não vejo como escapar da r esposta afirmativa. Le Seuil. portanto det erminar o sentido da vida coletiva. conservando cada facção a pureza de seus pontos-de-vista. uma espécie de administração socialista da alma o socialismo da vida interior. E os neoliberais. surge então uma pergunta derivada: a submissão do mundo à religião de César não é a mesma coisa que a submissão do mundo a César? A universalização tado leigo modernizante. até que o novo E stado acabe por construir. L’Économie du Diable. Na medida em que der por implícita e automática uma conexão que. ao contrário. não sei qual é a melh or das duas opções. por julgarem que é mais v ital preservar a liberdade de mercado do que qualquer outra. o neoliberalismo se omitirá de cumprir o papel que se propõe. inconformado s com a frustração de seus planos na nova ordem. em termos absolutos. do imperialismo americano? CAPÍTULO X. O que há de mais irônico no confronto s ocialismo-neoliberalismo é que hoje em dia os derrotados socialistas. E o mercado tem um potencial escraviz ador tão grande e perigoso quanto o do Estado. com todo a sua verborréia marxista. não participo do vezo brasileiro de opinar ta xativamente sobre todas as questões. sob as bênção a intelectualidade — casta sacerdotal — dirigir o processo de modernização. consolam-se buscando socializar tudo o mais inclusive a moral privada e a intimidade das consciências. acima das consc iências individuais. Mais sábio seria e te nho de dizer isto. o re sultado fatal é que os meios se tornam fins. só pode ser criada mediante um esforço conscien te. com todas as doces promessas que trouxe à humanidade.

o ensaio “Armadilha relativista” em O Imbecil Coletivo. em última instância. de índole coletivista e estatal. que se reunem sob a denominação formal ou informal de gnósticos. como irrelevantes ou “superadas”. nada mais é. iniciado pela filosofia gre ga e completado pelo cristianismo. tornando-os vulneráveis a toda sorte de manipulações. n’étant ni pour les ni por les autres.2. Sade et caterva. Invia bilizar assim o debate. levanta cont ra si o ódio dos nostálgicos da religião greco-romana. Os convidados estrangeiros às vezes destoam da unanimidade. como teoria. O ciclo de Ética e os outros da mesma série r epresentam um esforço de conjunto para influenciar a vida intelectual brasileira n um sentido determinado: são uma “reforma da inteligência” brasileira — intellectus emendat ione — empreendida por um grupo coeso e consciente de seus fins. Foi o caso de Nicole L oraux. como editor da série Os Pensadores e como fig ura de relevo nos meios filosóficos paulistas. A filosofia de Epicuro. canalizando-as no sent ido de uma revolta contra o Espírito. As idéias que inspiram essa operação resumem-se. 3. que se tomam po . Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições. afastando dos olhos do público e subtraindo à discussão. ao consumar-se no cristianismo. as opiniões contrárias 244. menos os neolibertinos locais. como prática. e. votado à humilhação da mulher e à destruição amor — coisa que todo mundo já sabia. o professor da Universidade Livre de Bruxelas afirmou ( na conferência de 20 de junho de 1995 ) que o libertino é por es sência um tirano.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 177 § 33. incapacitadas para uma reação crítica. 1. na farsa da “tradição materialista”. mas sem expressão pessoal significativa — e sobretudo que não abra uma polêmi ca 244 explícita —. “. 1. É contra o exercício da consciência pessoal autônoma que se voltam as correntes em que se inspira o grupo organizador do curso da Ética . P ara grande escândalo dos admiradores de Sade. encobrindo-o sob um simulacro de debate. Essa reação inspirará boa p arte do pensamento Ocidental. A libertação da consciência pessoal. à luz da se empreende um vasto remanejamento de toda a visão da História do pensamento. Gassendi. O marxismo tem raízes no epic urismo e representa.. 1. e. apresentando os membros do grupo organ izador como se fossem a encarnação mesma do consenso filosófico universal. 2. DE SAINT-EXUPÉRY Recapitulemos todo o nosso trajeto: 1. 245 V.” A. de m odo a colocar no centro da evolução filosófica figuras como Epicuro. 5. José Américo Motta Pessanha encarn ou esse projeto melhor do que ninguém. de maneira crescente desde o Renascimento 246. como ele. 4. 6. O sentido de ssa influência é claro: instaurar como fundamento da cultura um novo corpo de crenças. Exercer desta f orma a hegemonia sobre o panorama cultural brasileiro. dando uma aparência ilusória de variedade e pluralismo ao que é na verdade um astucioso experimento de dirigismo mental245. Exploram-se. um esforço de reprimir a inteligência teorética e subst itui-la pela autopersuasão retórica voltada a “transformar o mundo”. um ou outro conferencista de idéias cont rastantes.. deslocando para a periferia as grandes filosofias que não po ssam ser absorvidas na cosmovisão materialista. La Mett rie.1. um dissimulador maquiavélico. 1.3. Representa a abdicação dos deveres da inteligência pessoal e a submissão às ilusões coletivas que passam por ve rdades por força da repetição.. para esse fim..4. Inserem-se no programa dos eventos.Me situant à l’extérieur des faux litiges dans mon irréparable éxil. que um ceticismo cognitivo q ue termina em diletantismo trágico. A conquista da inteligência teorética é a culminação de um cesso de personalização. que pela repetição acabarão por se tornar consensuais. é um processo de auto-hipnose que gera entre seus praticantes a credulidade beócia e a total falta de sentido crítico . no ciclo de Ética. esporadicamente. no dos Libertinos/Libertários. q uantas insatisfações ocasionais possa haver na alma do público. que é um d os pilares da nova cultura. de libertação da consciência pessoal. Aproveita-se também a ignorância de platéias novatas. o de Raymond Trousson.

r libertários por alguma razão só compreensível à luz da lógica de Epicuro. . que aqui subscrevo até o ponto em que pude compreendê-la. Após ter lido Order and History. pois a conheço só por obras menores e não li o trabalho fundamental do autor. [Nota à 2a. Order a nd History. nada vejo de substancia l a mudar nessa minha interpretação. ed. 246 É mais ou men s a tese de Eric Voegelin.

a história política do Ocidente. ao pretender fundar um Império. Madrid. 247 O estudo valiosíss imo de Nelson Lehman da Silva. ajudando a consolidar o culto das divindades cósmicas — naturais e sociais — que constituem em substância a re ligião estatal do Novo Império 247. Snow ). associa a formação da religiã ivil aos esforços para a restauração do Império. que a ascensão da religião civil não é um processo unilinear. as demais m religiões serão rebaixadas a “cultos permitidos”. enfoca a emergência das ciências físicas modernas como uma condit io sine qua non da religião civil. que simbolizo na luta de Beemoth e Leviatã. A Revolução Americana que incorpora o ideal do império leigo tende a mundializar-s e. em essência. Ela inter vém decididamente e a fundo na estrutura da alma de todos os seres humanos colocad os ao seu alcance. que se observa por exemplo em Nicolau de Cusa ( v. A Igreja. Se entendemos o termo “imperialismo” no . curiosamente. P. a e mergência dos impérios coloniais. 2ª. enfatizando que não culminam na eclosão das ideologias totalitárias. novos sentimentos. obras das quais a mais abrangente e sistemática é a de Eric Voegelin. acabam por colocar-se involuntariamente a seu serviço. dit o de outro modo. funcionando como s eitas populares no novo quadro do Império leigo. ou seja. 1995. Las Puertas del Infierno. de maneira semiconsciente. em o caráter essencialmente gnóstico dos movimentos que culminam na N ew Age do século XX foi afirmado em 1994 pelo próprio Papa João Paulo II (Cruzando o U mbral da Esperança. da qual é o oposto complementar. de uma f orma ou de outra.178 OLAVO DE CARVALHO 7. Agostinho . ou mais claramente: anticristã. ajudando a alimentar o monstro imperial que viria a devorá-la. Fénix. no sentido de Sto. mas b em-sucedido na América). 1 2. novas cr enças que constituirão. A ruptura do sentido cristão da vida dá surgimento às duas correntes de idéias — naturalistas e historicistas — cujo entr echoque constituirá o Leitmotiv da história cultural moderna. por voluntária e conscient e aceitação das coordenadas do novo tempo. Cabe apenas ac rescentar que. A restauração do Impér io romano. em Ricardo de la Cierva. com algumas diferenças específicas que ressalt am do fundo comum: 1ª. puxados pela argola do nariz. 8. Thesau rus. sob formas variadas e adaptadas às condições do tempo. 10. demonstra que o culto de Beemoth acompanh a necessariamente a ascensão do poder de Leviatã. 1985 ). La His toria de la Iglesia jamás Contada. exatamente como o fazem os esquerdistas a rrependidos que hoje formam nas fileiras neoliberais? Ou. a cultura pós-cristã. arrastando na sua torrente todas as forças intelectuais e políticas que. Mas — pergunto em prosseguimento — servindo-o de bom grado. que aquela dentre as ideologias modernas que parece 11. Este meu liv ro insere-se nessa linha de preocupações. cit. isto é. o Sacro Império Romano de Otto I. marcada por quatro grand es empreendimentos: o Império de Carlos Magno. o império leigo (fracassado em versão napoleônica. as quais por sua vez expressam uma nova compreensão ( ou incompreen são ) da lógica e da dialética. Junto com o cristi anismo. Assim. o que restar de cristianismo será destruído pelo i pério leigo. A operação de reforma cultural empreendida pelo grupo organizador da Ética marca a inserção da cultura brasileira no novo culto imperial. mas na mundialização da Revolução Americana. 9. o que não teria cabimento fazer neste volume. a intell igentzia de esquerda se põe a serviço da ascensão do Império. não sabem para onde vão nem quem os leva? O iogue-comissário é alto-sacerdote do culto imperial ou escravo de sacerdote. instaurando neles novos reflexos. p. 3ª. como bois de carro que. mas marca do por uma dualidade fundamental. servindo às tontas. entoando loas a um deus-asno colocado no altar em lugar de Cristo e do próprio Cés ar? Ele sabe ou não o que está fazendo? Depende. associa portanto ao processo de formação da re ligião civil o fenômeno das “duas culturas” ( C. ao contrário. A Religião Civil do Estado Moderno ( Brasília. somente a aprofundar. é a meta que norteia. apresenta uma visão de conjunto das obras de diversos autores que enf ocam as ideologias contemporâneas como “teologias civis”. 35). O surgimento dos impérios coloniais estilhaça a unidade cr istã. fazendo-se de oficiante na momentânea paródia dos três dias de carnaval . de m aneira que as novas concepções do Estado refletem mudanças profundas ocorridas na conc epção da natureza. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ). caiu na armadilha da restauração romana.

não se acumpl iciaria à menos comprometida com o culto de César é na verdade aquela que o encarna da maneira mais completa e eficiente. assinala a função que nesse contexto é desempenhada pela ideologia ecológica. a falsa hermenêutica simbólica do ocultismo etc. porém. pela New A ge e pelas novas morais que vão entrando em vigência no quadro neoliberal. à tradição es tudada por Lehman.velho sentido da dominação econômica. . decididamente. destaca o papel que na formação da religião civil é desempenhado pela s pseudológicas. Dando continuidade. 4ª . da exploração do Terceiro mundo em proveito de mega -empresas americanas. assinalando a sua filiação comum. como a lógica de Epicuro. mas no da contaminação passiva da sociedade. não no sentido de sua ação polític a explícita ( como o enfocam os porta-vozes de uma teoria conspirativa da História ) . e nfatiza o papel das organizações secretas nesse processo. a retórica em geral. e finalmente.. enfoca a luta entre religiões tradicionais e religião civil do ponto de vista do conflito de castas. a dialética de Hegel-Mar x. atualizando o enfoque. a resposta é não: o iogue-comissário.

a p artir de 1989. a síntese e o resultado das contradições entre s acerdócio e aristocracia. e mesmo contra a sua intenção. mais particularizadamente? O fato de a campanha da “Ética” te . em particular. Vimos. p orque o surgimento do moderno Estado leigo incorporado no Império americano é. e se por outro lado a expansão e mundialização do poderio americano são e vidências igualmente inegáveis. tanto quanto a teori a da dependência — sua neta terceiromundana em boa hora renegada por um pai sensato —. Problem a. dade espiritual. para os quais o discurso ético não é nem pode ser outra coisa senão uma “superestrutura” ideológica. 64 ss. enfim. entre os quais o principal era o de captar em proveito da estratégia das esquer das a velha retórica moralista da direita. Perto desse fenômeno gigantesco. uma enganosa agitação de f ntoches verbais sobre um pano de fundo constituído. que o imperialismo americano não tem fundamentalmente um sentido econômico. De fato. de luta de class es. pp. Se as c oisas são assim.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 179 exploração imperialista dos países pobres. um projeto expansivo. por e ssência. não havia outra razão para explicar o interesse pela ética demonstrado. enganando-se quanto a seu papel no curso dos eventos. E aí o ciclo de Ética no MASP pode servir para ilustrar. a teoria Hobson-Lênin. é consciência de uma contradição. em aliança com a intelligentzia. Acontece. Rio. a engrossar a poderosa corr ente da Revolução Americana. o primeiro passo da revolução mundial que. Nórdica. neutralizando todas as religiões do mundo e instaurando a religião de César. absor verá no Estado. A estas observações pode-se acrescentar a famosa demonstração de Josep h Schumpeter. leu talvez o próprio Hobson. Quais razões. V imos que a idéia imperialista foi anterior de quase um século à formação das grandes fortu nas capitalistas. no i nstante da fundação da República Americana. Imperialism. revolucionário. que o principal foco de resistência interna às ambições imperialistas do governo norte-americano foram os grandes capitalistas. a insensível rot ação do sentido dos seus esforços. p orém intelectuais. Resta só um detalhe: saber como a intelligentzia brasilei ra. Comecemos pela seguinte constatação: era mais do que cl aro que esse empreendimento cultural tinha objetivos políticos patentes e imediato s. acrescentada de análises muito pe rtinentes com relação à teoria brasileira da dependência. no essencial. e não se prestaria ao papel de servo do capital es trangeiro. fazer o feitiço virar contra o feiticeiro . porque o projet o do império leigo que incorpora as concepções iluministas do Estado representou. em miniatura. A Ideologia do Século XX. parágrafos atrás. então titular da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. imaginando ainda ser vir aos seus velhos ideais de sempre. foi ar rastada sem se dar conta. que por dois milênios foram o motor da História européia. modernizante. não passa de um momento transitório na sucessão de ilusões ideológicas pelas quais a inte lligentzia mundial. 1994 — uma leitu ra indispensável a quem deseje compreender a posição do Brasil no mundo de hoje. o M arxismo. por intelectuais de formação marxista. o que se passou com a esquerda nacional. veio a ser arrebatada por essa torrente. destinado a reformar o mundo. da contradição entre imperialismo e capitalismo democrático 248. então estamos realmente diante de um problema. Esta ativa desmascaradora do discurso ideológico alheio jamais se inte ressaria por algo tão “superestrutural” como a ética se não tivesse bem sólidas razões políti para fazê-lo. Ele estudou a teoria leninista do imperiali smo. Não por coincidência. de Meira Penna. culturais e políticas: os Estados Unidos são uma potência imperial po rque sua fundação mesma constituiu um revigoramento da idéia imperial. U ma síntese brilhante dos argumentos de Schumpeter. Meridian Books.. Ensaios sobre o Nacional-Socialismo. dizia Ortega y Gasset. porque a Revolução Americana é. 1958. encontra-se no livro de J. Marilena Chauí. toda autori248 V. o Terceiromundismo e a Ideologia Brasileira. o ciclo de Ética no MASP fora organizado pela mais eminente intelectual do PT. Joseph Schumpeter. A contradição resolve-se tão logo entendemos que a dinâmica imperial dos Estados Unidos não provém de causas econômicas. porq ue a fundação dos EUA representa a quarta e provavelmente última translatio imperii. New York. O. porém. d ando uma “solução final” ao conflito entre autoridade espiritual e poder temporal.

Ainda assim.r conquistado sua principal vitória com a derrubada de Collor me fez imaginar. por um tempo. Era o que eu estava dize ndo no § 1. que a tagarelice moralizante não era outra coisa senão um expediente impr ovisado para fins de política rasteira: eliminar a trapaça financeira multicollorida para instaurar em seu lugar a trapaça ideológica vermelha. parecia-me .

Collor de Mello. As Marcas d a Decepção. da qual . 1994. e particularmente à pessoa do sr. Todos os serviços secretos do mu ndo dão preferência aos serviços de colaboradores informais sobre os de agentes profis sionais. adensando-s e pouco a pouco até o limite de uma pressão insuportável nos meses que antecederam a d ecisiva entrevista de Pedro Collor à revista Veja. técnico em espionagem treinado em Cuba. da qual fora um dos mentores e fundadores. Não há mesmo nenhum meio de explicar a repercussão dessas denúncias. a sua principal força ( v. empresas estatais e bancos. trouxe um esclarecimento melhor. atmosfera que. Dell Books. preparatoriamente. Com efeito. uma entrevista de Herbert de Souza. O deputado não pode ignorar estas cois as. a campan ha. a futura transformação da campanha pela ét ica numa campanha contra Collor. na sede da OAB. Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense. reduzir a dois mil o número de seus agentes profissi onais. desta vez. e não nos ag entes efetivos. com tanta antecedência. A Short Course in th e Secret War. Best Seller. é sinal d e perda completa do senso das proporções na avaliação da gravidade dos delitos. 1986 ). a campanha pela “Ética” já iria p arando uma atmosfera psicológica propícia a ampliar o efeito moral do escândalo quando estourasse. Segundo “Betinho”. pois estudou Mao Tsé-tung e sabe o que ele diz da importância dos informantes oc asionais para o sucesso de uma guerrilha. comparada à extrema suscetibilidade contra os corruptos. A Revolução Impossível. pois tra balhou como agente cubano por cinco anos ( v. já em 1994. Scritta Editorial. Mas em agosto de 1993 veio pelos jornais a notíci a da existência de uma rede petista de informações: chefiados pelo deputado José Dirceu. na qualidade de “colab oradores informais”. contra um alvo hipotético e vacante. incluindo pessoal interno ( v. Isto é que é fazer-se de inocente. Luís Mir. Victor Ostrovski e Claire Hoy. por isto. Exª. Ou então é s inal de que a opinião pública já concedeu às esquerdas o privilégio de se colocarem acima de todo julgamento humano. não era verossímil que àquela altura. acusado de ser o chefe do serviço de espionagem do PT. São Pau lo. trad. sem quaisquer sinais visíveis de corrupção no governo. A KGB tinha nos militantes comunistas. “Betin ho”. senão pelo fato de que. substa ncialmente iguais a tantas outras feitas contra governos anteriores e que morrer am neutralizadas pela indiferença popular. New York. Luís Inácio Lula da Sil va. polícia. respo ndeu que ali não havia serviço de espionagem nenhum. De qualquer modo. os estrategistas da esquerda pudessem já estar preparando um golpe morta l a ser desferido na carreira do sr. p udessem ter em vista. no início de 1990. Esta notícia dava retroativamente sustentação àquela hipótese que eu rejeitara co mo um tanto paranóica 249. as explicações do deputado pareceram satisfatórias à imprensa. Enquanto os “arapongas” prosseguiam suas investigações. 1992 ). mal decorridos alguns meses da posse do pr esidente. que o partido apenas recebia in formações dadas espontaneamente por militantes e simpatizantes. veremos que a indiferença nacional ante o caso dos “arapongas”. Mas será normal que os jornalistas profissionais também ignorem tudo do funcionamento dos s erviços de informações? Se nos lembrarmos de que o processo de impeachment de Nixon — tão alegado como um exemplo para o Brasil no caso Collor — não foi provocado por uma acu sação de corrupção. brasileira. Mais tarde. vivant infligira às esquerdas. vingando a humilhação que o pernóstico bon249 O deputado José Dirceu. encontrou nela a ocasião para a e sperada descarga. de indícios suficientes para justificar a esperança de um dia poder montar um Collorgate. São Paulo.180 OLAVO DE CARVALHO extravagante a hipótese de que em 1990. que não voltou a tocar no assunto por quase um ano. centenas de militantes-delatores formavam um serviço secreto particular infiltrado em ministérios. já havia no ar uma predisposição hostil e vingativa. p. se originara de uma reunião de inte lectuais de esquerda. não era nada absurdo supor que a pequena KGB já dispusesse. 617 ). S. um desejo de punir. O intuito não era combater a corrupção. Um dos segredos da eficiência do Mossad ( serviço secreto israelense ) é ter uma rede de informantes ocasionais espalhados por todo o mundo ( os militantes s ionistas ) e poder. Christopher Felix. e sim de espionagem política. Por geniais que fossem. que só aguardava a id entificação de um suspeito para poder despejar sobre ele o ódio que se fôra acumulando. excele aliás nesse domínio. ao Jornal do Brasil.

Não é de estranha r que esta última ala fosse mais festiva. como diria Antonio Gramsci: o . com a revanche contra o esquema militar-em presarial. a restauração da decência era um fim em si. Vi então que minha primeira compreensão tinha sido demasiado estreita: mais que derrubar um presidente. mas oferecer uma alternativa contra a propost a neoliberal de Collor. provisoriamente encarnado num presidente. ainda que tardia. temporariamente irritado com o agente que abusara da sua confiança. anunciado pelo do presidente. outra pr elibava o seu próximo desaparecimento. Pa ra outros. O exército vitorioso dividia-se em duas alas inimigas: uma festejava. que a outra participasse da celebração com u ma reserva mista de suspeita. com a limpeza. apenas uma etapa da “longa viagem da esquerda para dentro do aparelho d e Estado”. simbólica e conquistada com a ajuda do mesmo esquema. Outros. o revigoramento do regime. Uns alegravam -se com o retorno à moralidade. Daí a ambigüidade dos festejos celeb rados em torno do cadáver político de Collor. Para uns. a campanha pretendera derrubar um re gime.ainda ninguém sabia nada de preciso.

Na época. neutralidade esta que. cuj do nada tem a ver com o que geralmente se entende por moralidade. destaca uma fase que denomina implantação do “Estado ético”. aparentemente tão deslocada no contexto de um mero confronto id eológico entre socialismo e neoliberalismo? A origem era dupla: de um lado. Fritjof Capra & Antonio Gramsci ( Rio. d iz Goethe. honestidade et c. nos planos que delineia p ara a tomada do poder pelos comunistas. nada mais interessante ocorreu à intelectu alidade esquerdista do que ressuscitar contra ele o estereótipo do velho debate. evidentemente. (A desastrada frase do ministro. um sujeito que. 1994 ). carregada portanto de um apelo “ético” 251 . quando a gente não sabe o que fazer.) Para a ala oposta. 251 A diferença é que naquele tempo a esq uerda. acreditava mesmo em princípios éti . q ue rendera alguns dividendos na luta contra a ditadura. A coincidência é apenas de palavras: “ético” em Gramsci é termo técnico. Mas. de que a economia é “aética” suscitou d esde chiliques moralistas até a objeção gramatical de que a palavra certa seria “anética”. Antonio Gramsci. uma luta pela moralidade propriamente dita. se a campanha não tinha um propósito direto de combate à corrupção. segundo a perspectiva marxista. De outro lado. to rnou a ficção verossímil. isto é. representada sobretudo pelo então ministro da Fa zenda. Entre estes últimos estavam os líderes da “Ética na Po lítica”. su geria por si mesma o perfil do seu antagonista ideal: contra a frieza inumana da “técnica”. Para a primeira dessas correntes. esperavam. O nome da campanha fornecia aos intelectuais gramscianos a oportunidade de tentar implantar o “Estado ético” preconizado pelo seu mestre. política e ética 250. mas logo em seguida o surgimento das provas de corrupção no governo. não passava de uma projeção do abstratismo “metafísico” do burguês. a palavra “ética” vinha mesmo a calhar. muito “tecnocrático”. ao passo que em época mais recente passou a misturar a exibição pública de moralismo c . dando ao mesmo tempo a impressão de estarem lutando pela “ética” no sentido geral e corrente. Instituto de Artes Liberais & Stel la Caymmi Editora. Era uma encenação. retroativamente: a luta pelo “Estado ético” gramsciano tornou-se.. Não há melhor truque para de252 Explico-me mais extensamente sobre Gramsci no meu livro A Nova Era e a Revolução Cul tural. e no fundo. por ironia. opunha uma proposta econômica fundada em fins e valores explícitos. especialmente ud enista. e. essa corrente. Esta feliz coincidência permit iu que a alquimia gramsciana fundisse a política da esquerda radical com o discurs o moralizante que por décadas fora a marca registrada da direita. na pobreza de perspectivas da oposição ante um governo recém-emp ossado com um potente respaldo popular. isso era apenas mais uma ideologia: o pragmatismo e o neoposi tivismo que pareciam inspirar o ministro eram aliados congênitos do capital. À neutralidade tecnocrática. baseada nas idéias de racionalização e eficiência. o apelo humanitário da “ética”. porque muitos dos intelectuais envolvidos na campanha h aviam se tornado. as soluções econômicas deviam reger-se por motivos técnicos e científicos. pelo bem e pela decência 252. mas apenas com o ajuste entre as normas sociais e as necessidades da produção — um sentido alheio a fins e valores. ainda influenciada pela ideologia do Front Popular tingida de “humanismo bu rguês” para fins de aliança com as “forças progressistas”. Antônio Delfim Neto. um ídolo acadêmico das esquerdas. que recomendo aos que julgarem demasiado compactas e obscuras as referências que aqui faço ao tema. alheando-se o mais possível do debate político e ideológico e de toda consi deração de valores. leitores e devo tos do teórico da “revolução cultural”. tratav a-se de uma reedição do velho debate entre tecnocracia neocapitalista e nacional-pro gressismo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 181 começo. nada se sabia que pudesse 250 incriminar Collor. representada sobretudo por Celso Furtado. de dias de glória. uma palavra é como uma tábua para o náuf rago. de onde vie a então a palavra “ética”. A proposta neoliberal de Collor. pensa por categorias estanques e não enxerga os nexos entre economia. ad hoc. que d efendiam com tanto mais eficácia quanto mais protegidos sob uma fachada de neutral idade científica. que ocupara os economistas e os doutrinadores políticos na década de 70. vivendo separado da atividade produtiva. Mas. suscitando fartas demonstrações de indignação moral. o qual. nos anos que se seguiram à derrota da guerrilha.

. E ademais a mina era inesgotável. como sentiam que o programa babeufista esta va. campanha hábil. subs tituindo a guerra contra os ricos pela guerra contra os ‘apodrecidos’. não havendo motivo para temer escassez de argum entos” ( Pierre Gaxotte. Arthème Fayard. Apelar às denúncias moralistas nos momentos em que o discurso da luta-de-classes está em baixa é um dos expedientes clássicos da tática esquerdista.om a pregação do ceticismo e do relativismo ( esta só para audiências seletas ). Paris. mais do que nunca. 1968. La Révolution Française. 1928. logo após o fracasso da conspiração extremista de Babeuf. suscetível de arrastar sob uma mesma bandeira os descontentes de todos os partido s. p. réed. 482 ). “os jacobinos co ntinuaram sua propaganda no país. Já nas fases finais da Re volução Francesa. impopular. mas. trocaram rapidamente de palavra-de-ordem.

beatificando o instinto de delação e fazendo da maledi cência a virtude primordial do cidadão brasileiro. o lastro de crédito que garantia a boa -fé dos acusadores e conferia legitimidade moral a toda sorte de calúnias. ele cresce até engolir o original. promovendo uma mutação do sentido mesm o da palavra “ética”. estéreis. co mo uma tara hereditária. o pecador não teve como resistir ao apelo da salvação. não fo i a regeneração moral de um país. tinha como finalidade última — nas palavr as de seu próprio fundador — implantar no país a socialização dos meios de produção. ao lado da Mão da Justiça. se apresentaria m ao povo como a única esperança de salvação. aí já plenamente identificadas como derradeira reserva moral. autocontraditórios.182 OLAVO DE CARVALHO sorientar um inimigo do que imitá-lo: se ele investe contra o simulacro. metade oculta. sobretudo. esvaziar as velhas crenças m orais. e se tornasse um pretexto edificante para cada qual projetar suas culpas sobre o vizinho. de ser uma regra para o homem g overnar a si mesmo. conservava o pode . Cercado pelos dois lad os. a segunda a escrever torto por linhas retas. ao curso posterior da ação. tornando o apoio às esquerdas uma obrigação religiosa cujo descumprimento teria o efeito desequilibrante de uma transgressão. da qual a autodestruição do Congresso Nacional. por um grupo de intelectuais. basicamente. Mantendo-se aparentemente acima do jogo político. eis como pela prática da caridade. onde as esqu erdas. O que a campanha pela “Ética” produziu. até levá-la ao completo descrédito e precipitar a crise geral do Estado. a ovelha desgarrada podia ser reconduzida ao aprisco da ortodoxia socialista pelas mãos de um novo Bom Pastor. não p oderia produzir um resultado tão retilíneo: a ambigüidade das origens transmite-se. em benefício das esquerdas. A quem esteja ciente de que. para que deixasse. É claro que as duas mãos operavam em concordância: a Misericórdia era a retaguarda. ou do Rigor. e num círculo mais seleto de ouvintes . O que poucos perceberam é que a exigência ética da campanha fora formulada em termos propositadamente utópicos. mais sutilmente. cortada dos laços que a ligam a quaisquer valores espiri tuais e a qualquer ideal de vida superior. que castiga. de modo a desgasta r a classe política numa sucessão de rituais autopunitivos sem resultado proveitoso. puderam ser canalizados. formando a figura bifronte de uma estratégi a da perversão moral em nome da moralidade: de um lado. por seu lado. a opor tunidade de uma penitência reconciliadora. oportunidade que a “campanha do Betinho” pr ovidencialmente estendeu a todos no momento exato. passasse a significar apenas a adesão m aquinal a certos slogans políticos e a hostilidade a certos grupos sociais. de outro. até que não reste no cenário nada mais que duplicidade e hipo crisia. A campanha pela “Ética” conquistou o apoio maciço da população e foi festejada como a aurora da redenção nacional. eleva do à condição papal. num prazo assustadoramente breve. representada pelos inquisidores. as mutações psicológicas profundas são o alvo prioritário de um plano de larg o escopo a ser realizado. para que. e sobretudo o moralismo atávico da classe média. Betinho ficou. rebaixando-as e transformando-as em munição política de uso imediato contra os “i nimigos de classe”. assim. com a precisão de um cronograma divino. cujos efeitos se tornam mais dúbios à medida que se avolumam. Mas uma intenção oblíqua. arrisca a certar algumas pancadas em si mesmo. quando não a indivíd uos em particular. Foi assim que. todas as crenças e sentimentos mais conservadores do povo brasileiro. nos meses subseqüentes. a um sentimento de exclusão da comunidade humana. quase magicamente. se o deixa em paz. foi a manifestação mai s evidente. A campanha da “Cidadania con tra a Miséria” exerceu assim a função de “mão direita” da nova divindade — a Mão da Misericór e abençoa e redime. desmoralizandose mais e mais a cada novo esforço impotente para moralizar-se. Tratava-se em suma de reduzir a éti ca ao “politicamente correto”. As campan has gêmeas da “Ética na Política” e da “Ação pela Cidadania” perfizeram harmoniosamente as du ces de uma nova pedagogia religiosa: a primeira ensinou o cidadão a julgar para não ser julgado. no pensamento gramsciano. mas uma revolução psicológica que o envolveu numa luta equ ivocada e tragicômica. sujeitando o pe cador a terríveis padecimentos interiores. solapar as bases intelectuais dessas crenças. xiítas e enragés de toda sorte. Como esta campanha. na intenção de vencê-lo pela i ndiferença. as peças múltip las do quebra-cabeça começam a encaixarse. arrependido. que o homem médio não saberia suportar sem buscar logo.

mas todos acham .. que acontecerá no final do mês em Brasília.. 253 “Há uma preocupação crescente no Palácio do Planalto de que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. acabe se transformando num gra nde ato da campanha de Lula. de erguer qualquer personagem à beatitude da fama ou pre cipitá-lo nas trevas da abominação 253.r de abençoar e excomungar. Claro que ninguém imagina que Betinho virá a público de clarar apoio ao PT.

enfim. deixando livre para as esquerdas a estrada real que levaria da hegemon ia (domínio psicológico sobre a multidão) ao poder (controle do aparelho de Estado). Jornal do Brasil. impelindo-a no sentido da “revolução cultural” gramsciana — na qual é um dos objetivos prioritários a desapropriação da autoridade moral da religião e sua transf erência ao menos aparente à liderança esquerdista. mereceu ser rotulado. para contrastá-lo. uma vez que a parte operacional do progra ma está todo nas mãos de petistas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 183 E como é sensato que a autoridade espiritual se incumba de arbitrar em última instânci a os conflitos mundanos. Para mim. assim resumida por Roger Scruton: “A assimetria moral — a expropriação pela esquerda do estoque inteiro da virtude humana — acompanha uma assimetria lógica. a ponto de abdicar de todo senso das proporções. precipitando alguns num debilitante ritua l purgativo e outros num esforço inglório de dar boa impressão. que o jui z fora nomeado por uma das partes em litígio 254. uma p ressuposição de que o ônus da prova cabe sempre ao outro lado” ( Thinkers of the New Lef t. terminou por paralisar a todos. sem o mínimo apoio oficial. o fie l da balança política nacional. 1994. com o “Mau Pastor”: o bispo Edir Macedo. num esqu ematismo aterrador e insano. London. por um momento ao menos. O governo argumenta que quem opera o cotidiano da campanha é que tem influência sobre a população e seu voto. e o novo senso do pecado. mas não tomo minhas opiniões teológicas como artigos da lei penal . 254 A campanha. o po der de excomunhão e beatificação foi exercido por Betinho de maneira implícita e discret a. o es tilo dele é tão repugnante quanto para os redatores de Veja. e não muito diversos dos shows de pregadores católicos na Idade Média — ofend em a delicada sensibilidade estética de seus críticos? Ou. Betinho acabou sendo derrubado por um truque s ujo igual ao usado contra seus adversários: julgar com malícia um ato lícito. E is aí realizada uma das metas básicas da campanha. este a um círculo m . Um sinal é a reportagem de Veja sobre o pastor protestante Caio Fábio. “Encontro da fome preocupa Itamar”. em suma. Longman. que. julgo absurdas muitas das interpretações que o bispo faz da Bíblia. As pessoas hoje temem desagradar Be tinho como outrora temiam cair em desgraça ante o clero. a ninguém ocorrendo lembrar. Toda essa mudança foi opera da em prazo anormalmente curto. dando-lh e ares O resultado esteve muito próximo de ser atingido: uma vez identificados o ideal de moralidade pública e a retórica da esquerda. que não há como não se estabelecer a vinculação. foi-se tornando no entanto cada vez mais ostensivo. Tanto quanto eles. O próprio presidente da República tornou-se assim prisioneiro do poder de chantagem psicológica de que a campanha contra a fome investiu o sr. coluna “Coisas da Política” ). Mau por quê? Pel o pecado de ter sido absolvido nos processos que adversários lhe moveram? Por suas convicções políticas e sua amizade com o pensador direitista Jorge Boaventura? Por re colher contribuições de seus fiéis em vez de pedir dinheiro ao governo? Porque os rito s espetaculosos de sua igreja — tradicionais no protestantismo desde pelo menos Jo hn Wesley. seguiu a regra geral de uma estratégia esquerdista clássi ca. abençoado por Betinho por suas ligações com a esq uerda. porque suas campan has beneficentes. Betinho. quem quer que a esta se opusesse ou si mplesmente se mantivesse alheio aos seus encantos não tinha como escapar de um sen timento constrangedor de haver-se tornado um malvado. como “O Bom Pastor”. vêm arriscando desbancar o improvisado monopólio esquerdista da caridade? Não havendo nenhuma prova judicialmente válida con tra o bispo Macedo. um pecador. ou ao menos de correr o grave risco de ser toma do como tal. Quem entende que Betinho nunca te ve outra preocupação na vida senão de ordem política percebe que com a campanha contra a fome sua maior contribuição foi completar um giro de cento e oitenta graus na estra tégia das esquerdas. Betinho tornou-se enfim. Secundado pela imprensa. mas conheço a distinção entre bom-gosto e justiça. como numa prestidigitação. 1985. um defensor im plícito ou explícito da imoralidade. isto é. Durante algum tempo. D aí a convergência da campanha e do ciclo. naquela altura. Itamar observa os movimento s calado — até porque não quer tomar nenhuma atitude pública. por achar que não seria bem interpretado dando a impressão de que é contra a campanha de combate à fome” ( Dora Kram er. 5 ). p. 11 jul. aquela dirigida às massas. na capa. aplaudi-lo ou abominá-lo é questão de gosto apenas.

Com seu ridíc ulo mea culpa político ante a imprensa. rejeitaria uma corda roubada que alguém lhe estendesse para ajudá-lo no salvam ento? Se Betinho fosse um homem espiritual de verdade. pp. mesmo quando bons. ed. Na verdade. podendo salvar um náuf rago. os oradores provam a sua sapiência à mult idão que. terá chegado o momento de recomendar uma nova forma de governo como ‘o remédio soberano para todos os males’. extraído de Eric Voegelin. 255 Nem a estratégia nem a tática são totalmente novas. mostrou que é apenas mais um intelectual bra sileiro. fervor e santidade. tornou-se culpado de inconsistência m oral. humilhando os acusadores maliciosos. O homem que a possui deverá criticar severamente — ‘onde a multidão possa o uvi-lo’ — os males sociais. teria defendido a lisura de seu ato em termos veementes. em especial.. Imputando o mal a uma instituição específica. O passo seguinte consiste em con centrar o ressentimento popular sobre o governo instituído. e. o que é até um du plo bem: ajuda o pobre que precisa do dinheiro e ajuda o mau que se redime parci almente ao contribuir para o bem alheio. jamais teria atinado com essa conexão. A rep etição freqüente desse ato levará os ouvintes a crerem que os oradores devem ser homens de grande integridade. da qual Betinho se reclama. a moral cristã. uma unidade indissolúvel255. 1982. Inocente da acusação. José Viegas Filho. por si. Editora da Universidade de Brasília. Que cristão sincero. Isto porque as pessoas que estão possuídas de aversão e descon- . No século XVI. Richard Hoo ker já descreveu coisas bem parecidas. 102-103 ): “Para colocar em marcha um movimento. Eis aqui um resumo. Brasília. hipersensível às aparências e inconsciente das motivações profundas de seus próprio s atos.ais seleto de prováveis formadores-de-opinião: combate político e combate cultural for mam. “Após tal preparação. o comportamento das altas classes. tal como existem no mundo devido à fraqueza human a. 2a. que viu serem levadas à prática pelos revolucio nários puritanos. nada tem a opor a que um homem receba dinheiro dos maus para dar aos necessitados. de crime. A Nova Ciência da Polít ica ( trad. pois somente homens particularmente b ons podem ofender-se tão profundamente com o mal. em Gramsci. é preciso antes de tudo ter uma ‘causa’. atribuindo às suas ações ou inações todos os defeitos e a corrupção.

Isto porque. “Vem depoi s o passo definitivo: ‘persuadir os homens crédulos e inclinados a tais erros gratif icantes de que sobre eles recai a luz especial do Espírito Santo’. em toda a História do Brasil. p restando informações sobre os vínculos afetivos dentro de seus círculos. com efeito. Aplicada sobre um pov o que há séculos cultiva a ambigüidade motentamento para com as coisas presentes são suf icientemente loucas para ‘imaginar que qualquer coisa que lhes seja recomendada as ajudaria. vivendo de acomodações que sedimentam no fundo de cada alma um denso resíduo de c ulpas mal conscientizadas. com igual automatismo. Nunca. ensina às esquerdas o preceito da “reivindicação impossível”. que tomavam por pessoais e espontâneos. e. tais pessoas preferirão a companhia de outras envolv idas no movimento à de indivíduos a ele estranhos. por puro medo. É um efeito calculado.184 OLAVO DE CARVALHO Nesse quadro. porque são emocion almente mais acessíveis. são mais liberais no que tange à ajuda financeira. precipita uma crise de legitimidade onde o Estado é acusado de não cumprir suas próprias leis. e. finalmente. faça o que fizer.” 256 A essência da tá i resumida na boutade pintada nos muros de Paris em maio de 1968: “Seja realista: peça o impossível”. por mais errônea que seja a associação. de repente. criados e amigos. rompê-lo através da persuasão. e fornecerão farta ajuda material aos líderes do movimento. terá de processar a Prefeitura — da qual ela é um órgão — para obter o dinheiro para o play ground. e mais crêem no que menos hajam experimentado antes’. tinham sido calculados de fora para encaixar-se na harmonia de uma orquestração geral. será difícil. mal “trabalhada” pelos agitadores. reivindicação que. ainda segundo Hooker. em universal bisbilhotice. são mais inclinadas do que os homens a servir como espiãs. essa fase da v ida nacional ficará população. “Uma vez criado um meio social dess e tipo. com ou sem plena consciência do resultado a que isto poderia levar. Jurgen Habermas. Ape sar da posterior mudança inesperada no rumo dos acontecimentos 257. digamos — que não tenha um play ground. Foi assim que. gera um a onda de indignação moral. “Com essa consolidação. de tal modo que a humanidade passa a ser dividida entre os ‘irmãos’ e os ‘mundanos’. A escola. a esquerda enxergou tão lucidamente o tabuleiro político e dirigiu com tamanha habilidade o movimento do conjunto. a luta pela promulgação de direitos e normas proposit damente idealísticos e impraticáveis. negligenciarão seus próprios interesses para devotar todo o seu tempo a serviço da causa. não atendida pelo Estado. mesmo os que se opunham interiormente à política de esquerda se viram obrigados a colaborar com e la. em seguida. continua indiferente aos novos direitos e . atendida. se não impossível. o resultado do exercício desse “direito” será apenas forçar inúmeras pr ituras a se processarem a si mesmas pelo delito de falta de dinheiro. a aut oridade se entrega inerme aos golpes de seus inimigos 256. a téria-prima social fica em condições de receber a representação essencial de um líder. estão taticamente bem situadas para influenciar maridos. a tática da inculpação não poderia deixar de dar os resultado s mais rápidos e promissores: onde todos têm algo a esconder. fi lhos. todos têm pressa em subi r à tribuna dos acusadores para não cair no banco dos réus. As mulheres desempenham função especialmente importante. mas um escudo contra a indiscrição alheia. o expediente de precipitar a classe política numa crise de autoincul pação surgiu como uma contribuição habermasiana que o talento brasileiro do improviso en xertou na estratégia de Gramsci. de modo que. “É necessário ainda que o s líderes ‘moldem as próprias noções e os conceitos mentais dos homens de tal forma’ que os seguidores automaticamente associem passagens e termos das Escrituras com a sua doutrina. A cumplicidade universal r everteu. e. criando um ambiente de mal-estar e recriminações mútuas que depois será denunciado pela imprensa c omo sinal de acefalia na administração municipal. Sendo óbvio que o dinheiro em grande pa rte dos casos não há. uma bóia para flutuar incólume sobre um mar de delações. aceitarão voluntariamente os consel hos dados pelos doutrinadores. e a ânsia de delatar tornou-se não a penas um emblema da virtude. onde as peças isoladas nem mesmo suspeitavam que seus gestos. ignorem os conteúdos das Escrituras que se revelem incompatíveis com a nova doutrina. Um exemplo de como funciona: O Estatuto do Menor dá a qualquer cidadão brasileiro o direito de processar uma escola — municipal. que só falha qu ando a ral.

tanto os campeões da corrupção quanto os arautos da morali dade: se as denúncias de corrupção liquidaram as carreiras políticas dos acusados. bem diferente do esperado e desejado pela inquis ição esquerdista. que não deve distrair do essencial: os planos objet ivos e o trabalho racional para um futuro melhor.não desempenha sua parte na comédia. Afinal. até os Mercadantes acabam fazendo o bem que não querem. jamais se recusou a usar dos préstimos dos maldosos para produzir o bem mediante uma engenhosa e sutil redistribuição dos males. a agitação de umas centenas de intelectualerdas à superfície do momento histórico pode ser apenas a expressão pervertida e caricatural d e uma exigência profunda e autêntica do nosso povo. É inac reditável como quase ninguém neste país parece perceber isso. De fato. contrariando os planos de seus mentores. A Providência. sem ter-se omitido na luta contra a corrupção. O povo brasileiro. encarnou no entanto o princípio da sensatez. rejeitou de um só golpe. no v eredito implacável das urnas. O exemplo da escola municipal é só um modelo em min iatura: a Constituição de 1988 é um sistema completo de armadilhas habermasianas. . Será que ninguém leu que Lênin recomendava fomentar a corrupção para depois denunciá-la? Ou o mito da cordialidade b rasileira impede de acreditar que exista aqui alguém capaz de tanta malícia? 257 Mud ança graças à qual a onda moralizante. o curso das coisas tomou um rumo positivo. acabou levando a bons resultados. a ponto de a comentarista política Dora Kramer c oncluir que “ética não dá voto”. que dispõe de um esto que infinito de Engoves. fizer am o mesmo com as dos acusadores. O grande vencedor foi um homem que. fundamentalmente são. Na economia divina. segundo o qual denúncias e acusações — que ameaçavam tornar-se o tema dominante da discussão política nacion l — são na verdade uma ocupação menor.

258 V. nenhum artifício poderia ser mais útil e eficaz. 1987. mas desde quando a esquerda tem algum talento profético? A casta sacerdota l de esquerda criou os pressupostos ideológicos e psicológicos em que se assentou a vitória da direita. é implesmente porque é uma esquerda neurótica. Nova Fronteira. pel o utopismo. no sentido maquiavélico do termo. no qual muitos desejavam manter preso o nosso país até precipitá-lo no desesper o. cit. como também alcançou aquele pa rão de eficiência fria e cínica que ela tanto invejava na direita local e nas esquerda s de outros países. malgrado sua antigüidade. Se este amadurecimento lhe custou a perda da sensibilidade moral e a completa prostituição do senso ético à ambição de poder. 11-13. que. acaba por se comport ar.. Dulles. ao dominar a técnica do maquiavelis mo gramsciano que lhe inspirou as campanhas pela “Ética” e pela “Cidadania”.. F. A Revolução Impossível. praticada a sério . o ciclo de “Ética” assumia um sentido claríssimo. a respeito. Payot. op. c ontinha a secreta e verdadeira intenção dos seus esforços. Rio. num choque de retorno.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 185 marcada para sempre como um momento em que a esquerda acreditou estar muito pert o de possuir a hegemonia e conquistar o poder. Foi realmente um achado. a conferência de A vitória de Fernando Henrique foi para o Brasil algo assim como a libertação de uma n eurose. ed. Pretendendo servir-se dela. esp ecialmente capítulos 4 e 5. no presente estágio da História mund al. exatamente como a corte de Henrique IV. IAL. aparentemente tão distante da atualidade local. tem raízes psicológicas pro fundas. para alguns dos próceres da campanha. O Comunismo no Brasil. mas sobretudo Luís Mir. dando aos candidatos da esquerda um a aparência de bonecos alucinados. julgou m ais prudente votar em Fernando Henrique. fazendo nisto um investimento int electual tão gigantesco. desenvolverá no homem a acuidade moral de um tatu-bola. e é descrito por Paul Diel ( Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque. Na esquerda. e. tb. representando hipocritamente o papel da corte de Henrique IV para enganar o protagonista. independentemente das intenções maquiavélicas p or trás do palanque. redimindo-se enfim de uma história marcada pela ingenuidade. ele pode persuadir o orador mesmo. não somente asc endeu à condição quase sacerdotal de condutora moral da nação. O Falecido Matias Pascal. Apenas. diante da qual o eleitor.. que fizeram dela. o personagem acaba por descobrir que . tantas vezes. em tudo e por tudo. pela completa falta de senso prático. Mas. do que o resíduo de crenças marxistas que. por outro lado. Oswaldo Peralva. Ora. 1966 ) como o mecanismo básico das neuroses. Numa operação destinada a perverter o senso ético da população para rebaixá-lo a instrumento a serviço de fins políticos imediatos. Numa outra históri a de Pirandello. Raul de Sá Barbosa. O Retrato ( Belo Horizonte. o objeto de chacota de russos e chineses258. 1935-1945 ( trad. e os jovens neuróticos não sabem conquistar a maturidade senão pelo endurecimento da alma259. desconfiado. assim como a família do louco. para então poderem se apresentar como médicos da doença que eles mesmos haviam prov ocado. Colocado no seu devido lugar dentro desse panorama. Rio. 1960 ). o dicurso “ético” tem. 2a. e John W. que. uma força própria: ele pode contaminar quem pretenda simplesmente usá-lo. 1985 ). deixava de ser um sintoma de demência ou de maldade pessoal de seu autor para se revelar como um ato político perfeitamente coerente com a cosmovisão das esquerdas. com os valores que a suste ntavam e com os objetivos da estratégia que ela determinava. ao menos soube provar a si mesma que a merecia. o mais fr io e cínico dos realistas. pp. ninguém contava com este res ultado. 259 O processo de degradação interior q ue leva o jovem idealista exaltado a tornar-se. com toda a sua brutal falsificação da realidade. Itatiaia. Par is. Pessanha. encontrava aí sua razão de ser. minha apostila O Abandono dos Ideais. levando-o a colaborar com o Estado que pretendia destruir. se não chegou à vitória. na peça de Pirandello. a esquerda acabou por servi-la: o ator foi engolido pelas falas do personagem. V. De fato. O tema mesmo da confe rência. a esquerda brasileira. do que a pedagogia ética de Epicuro. aconteceu que esse endu recimento se refletiu nas almas e nas vozes. a súbita e imprevisível resolução dialética da confronto estático entre ladrões e dem gogos. vista como expressão deste sentido. a ideologia democráticoiluminista subentendida no concei to de “ética na política” é uma corrente bem mais forte.

sua pessoa real tem menos substancialidade do que sua “sombra” social: um endereço. em proveito da direita. A farsa pirandelliana da “Ética” ter minou assim por restaurar. A farsa dent ro da farsa . um estado civil. a es querda tem de renegar o fruto dos seus esforços. fingindo sa tisfação. um pouco da ética que a esquerd a pretendera usar como instrumento para sua “longa viagem para dentro do aparelho de Estado”. reduzida a espectadora desde fora do aparelho de Estado. e agora. e declarar que era exatamente esse o resultado que pretendia. ou então de aplaudi-lo. um número na carteira de identidade.

186 OLAVO DE CARVALHO devolve-nos à realidade: o Estado democrático à americana é o grande beneficiário da estra tégia socialista. É que o auto-engano estratégico já estava anunciado, de antemão, pelo au toengano na esfera da ideologia. Vale a pena recapitular o caso. A influência domi nante sobre a intelligentzia brasileira nas últimas décadas foi, sem qualquer possib ilidade de dúvida, o marxismo. Pode-se talvez dizer o mesmo da intelligentzia mund ial, mas, na Europa e nos EUA, é certo que houve, ao lado da corrente marxista, po derosas correntes liberais, católicas e conservadoras; poderosas não somente pelo núme ro, mas pela qualidade de seus representantes, bem como pela intensidade da sua ação pública. Os nomes de Friedrich Hayek, Benedetto Croce, Raymond Aron, Ortega y Gas set, Daniel Bell, Arthur Koestler, marcaram a história do pensamento político, pelo lado liberal, tanto quanto os de Sartre e Althusser do outro lado. O conservador ismo falou com rara eloquência pela boca de Saint-Exupéry, Georges Bernanos, T. S. E liot, como hoje pela de Alain de Benoist e Roger Scruton. Nada de semelhante se observa no Brasil, onde, depois de João Camilo de Oliveira Torres e José Guilherme M erquior, a voz da direita não se fez ouvir senão através de Plínio Correia de Oliveira, demasiado comprometido com um movimento paramilitar para que suas idéias possam co ntar num debate pacífico, e de Gustavo Corção, demasiado rígido — apesar do talento fulgur ante — para poder desempenhar num diálogo algo mais que o papel de censor. Houve, de pois, Roberto Campos, mas sua argumentação, brilhante como poucas, restringe-se aos temas econômico-administrativos, sem poder ter um alcance cultural mais abrangente , à altura dos méritos do ex-ministro do Planejamento. Análogos méritos e análoga modéstia d o leque de assuntos observam-se em Aristóteles Drummond e Donald Stewart Jr.. Rest a, isolado como um monumento em meio ao planalto de Brasília, José Oswaldo de Meira Penna — o único polemista que, à luz dos pressupostos liberais, empreende uma crítica cu ltural de mais vasta escala e, para as esquerdas, atemorizante 260. Mas, em face desses poucos nomes, estende-se como um oceano a 260 horda dominante dos marxistas, marxianos, neomarxistas, socialistas, progressist as, nacionalistas de esquerda etc. etc. Sobre essa massa barulhenta e autoconfia nte, a queda do Muro de Berlim teve um efeito dos mais singulares: fez com que e la recuasse no tempo, e, já não conseguindo ostentar por divisa esquerdista o nome d o marxismo, redescobrisse, como substitutivo de seu ideal revolucionário perdido, o esquerdismo do século XVIII: o iluminismo. Acomodação tipicamente brasileira: um mod o de deixar de ser marxista continuando marxista. Pois Marx já deixara preparado, para essa gente, o ardil da operação retrô: se o Brasil não podia tornar-se socialista, era simplesmente porque Historia non facit saltum, e antes da Revolução Russa tínhamos de realizar... a Revolução Francesa. A redescoberta desse ardil foi o alívio após o min uto de terror — aquele terror que invade uma tropa de meninos ao anteverem a depre ssão que se seguirá ao término de uma brincadeira sangrenta (como em Lord of the Flies de William Golding). Não sabendo viver sem um ideal revolucionário, não concebendo ou tro sentido da vida senão o sentido da História, a tropa esquerdista, desprovida de uma regra de jogo, tinha chegado a ver abrir-se diante dela o abismo sem fundo d e um desespero beckettiano. Mas, tão logo as trombetas anunciaram a ressurreição de Di derot e Voltaire, Condorcet e D’Alembert — logo acompanhados de La Mettrie, Sade e d emais libertinos célebres —, num instante o balão murcho do esquerdismo nacional viu-s e inchado de novo, trocando de retórica como quem troca de cuécas: em vez de guerrea r o capitalismo, o caso agora era lutar contra a oligarquia agrária, a moral católic a etc. Isto não era, afinal, tão diferente da velha estratégia do Partido Comunista, q ue propunha a aliança da esquerda com a “burguesia nacional” contra os “senhores feudais” do Nordeste, supostamente aliados ao imperialismo americano para a expoliação de seu s servos-da-gleba 261. Assim, tal como o adepto da New Age, que rias. O cacoete marioandradino de começar frases com pronome oblíquo da terceira pes soa, que o leitor automaticamente toma como conjunção condicional, também só serve para atrapalhar. 261 Caio Prado Jr. já havia provado a falácia dessa estratégia, num dos me lhores livros produzidos pelo esquerdismo nacional ( A Revolução Brasileira, São Paulo

, Brasiliense, 1969 ). Mas não era bom lembrar isso, de um lado porque solaparia a s bases teóricas da nova retórica “iluminista”, de outro porque esse livro, corrigindo u m erro, ajudara a criar outro pior: a adesão maciça da esquerda à tese da luta armada. Paulo Francis, talento extraordinário e homem de vasta cultura ( literária e política, entenda-se ), poderia fazer coisa idêntica, mas de uns anos para cá deu de escrever num estilo telegráfico que não argumenta nem prova, só afirma, e acaba por ser menos atemorizante do que irritante, fomentando antipatias desnecessá-

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encontrando dificuldades nesta vida decide fazer uma regressão hipnótica para ir res olver os problemas de uma encarnação anterior, a esquerda recuou em busca de uma Bas tilha que fosse mais fácil de derrubar do que o capitalismo moderno. A rapidez com que se fez a adaptação bem mostra a leviandade, a fatuidade da intelligentzia nacio nal. Ora, o único lugar do mundo onde os ideais iluministas foram realizados na máxi ma extensão possível das faculdades humanas foram os Estados Unidos. A Revolução Frances a, um morticínio inútil, foi seguida por quase um século de vaivéns e a França só se estabil izou como república democrática por volta de 1870, quando os EUA já haviam se tornado uma grande potência. As duas guerras mundiais do século XX tiveram como único resultad o duradouro a destruição final das potências coloniais européias e a ascensão dos EUA à cond ição de Império mundial: o nazifascismo e a URSS não f oram, dentro do curso maior da Hi stória, senão momentos dialeticamente absorvidos na linha perfeitamente nítida de dese nvolvimento que leva da Revolução maçônica à mundialização do Estado leigo e à americanização do. A legitimação dos EUA como polícia do mundo (globalcop) — inclusive aos olhos de uma parte considerável do mundo islâmico supostamente hostil —, por ocasião da Guerra do Go lfo, representou o ponto culminante, até agora pelo menos, de uma ascensão irresistíve l do Império mundial: ao aceitarmos a filosofia política americana, colocamo-nos vol untariamente sob o governo de quem a promove, tal como, entre os povos antigos, copiar a Lex romana e submeter-se ao governo romano eram uma só e mesma coisa 262. O que impediu a intelectualidade mundial de enxergar uma coisa tão óbvia foram dois fatores: de um lado, a crença generalizada na teoria Hobson-Lênin, que tornava insi vível a independência do imperialismo político, cultural e psicológico em relação a supostas motivações econômicas; de outro, a crença residual na vitalidade da idéia de “nação”: acredi se que o impulso de independência nacional poderia resistir à 262 Não é aqui, evidentemente, o lugar para discutir mais aprofundadamente a tendência ger al da História para a unificação da humanidade sob formas de governo cada vez mais abr angentes e complexas. De qualquer modo, essa tendência é visível, é um fato e não tem de s er demonstrada no plano teórico. Para maiores esclarecimentos, se necessários, v. o clássico de Ellsworth Huntington, Mainsprings of Civilization, New York, John Wile y and Sons, 1945 ( várias reedições ).

expansão do imperialismo, quando na verdade a própria emergência do conceito de nação foi apenas um dos momentos dialéticos que levaram, como vimos parágrafos atrás, ao nascime nto do Império mundial. O Império, aliás, não suprime as nações, já que, por definição, se co ui de reinos independentes, diferentes entre si, que ele apenas subordina e coor dena em vista de fins globais que cada reino não precisa enxergar senão parcialmente . A luta anticolonialista do Terceiro Mundo não pode prejudicar em nada o Império em ergente, cujo poder se assenta em bases totalmente diferentes das dos antigos im périos coloniais. Só pode ajudá-lo, na medida em que leva as novas nações a adotarem, junt o com subterfúgios verbais socialistas, as instituições e muito da ideologia do Estado democrático americano. Ao adotar a estratégia de fomentar as revoluções nacionalistas d o Terceiro Mundo, o comunismo internacional aprisionou-se a si mesmo na armadilh a da Revolução Americana. Do ponto de vista estritamente jurídico e político, a mundiali zação do Império é mesmo um benefício para as nações menores, antes submetidas ao arbítrio de tências secundárias, como os velhos impérios europeus ou a URSS; o Império mundial garan te-lhes um tribunal universal ante o qual podem, em pé de igualdade, lutar pelos s eus direitos com muito menos desgaste do que em sangrentas guerras de libertação. Se gundo demonstrou Bertrand de Jouvenel, a expansão dos direitos dos pequenos se faz sempre às custas das hierarquias intermediárias e da formidável concentração do poder nas mãos de poucos. O diagnóstico de Jouvenel é a versão política daquilo que a racionalização w beriana é no campo sociológico. Do ponto de vista econômico, o advento do Império mundia l é também vantajoso, segundo parece. Os argumentos de Roberto Campos, Paulo Francis , J. O. de Meira Penna, Donald Stewart Jr. e outros polemistas neoliberais (e af ins) em favor da internacionalização da economia, até onde posso compreendê-los, são muito

sólidos e a esquerda não lhes tem oposto senão rosnados e imprecações, onde não há nada a co preender. Mas a política, o direito e a economia, destacados do fundo vivo da tram a social, são apenas abstrações, no sentido pejorativo do termo. E, quando examinado d o ponto de vista de suas conseqüências psicológicas, culturais e espirituais, a ascensão do Império mundial é, como vimos ao longo dos últimos capítulos deste livro, uma

188 OLAVO DE CARVALHO ameaça tenebrosa. A derrota do comunismo, é claro, deve ser celebrada por todos os h omens de mente sã, e, se a expansão do Império foi o preço que pagamos pelo fim do p esa delo soviético, tudo bem: pagamos sem bufar. Mas, de outro lado, o antagonismo con ceptual das formas políticas denominadas “neoliberalismo” e “socialismo” ou “socialdemocraci a” tende a obscurecer o fato de que aquilo que se propõe como perspectiva de futuro a um mundo pós-socialista não é o neoliberalismo “em si”, como mera estrutura abstrata de um Estado possível, e sim o neoliberalismo encarnado na forma concreta do Império, e aliás fortemente tingido de elementos socialdemocráticos. O destino do mundo não se d ecide hoje num conflito entre formas de regimes possíveis, mas sim, por trás desse c onflito aparente, na contradição interna do Estado imperial, que parece só poder cresc er à custa da destruição do legado espiritual de onde ele extrai sua única legitimação moral possível. É neste e só neste sentido que se pode ver alguma utilidade na expressão de D aniel Bell sobre o “fim da ideologia”: no novo quadro mundial, já não se trata de um con flito entre ideologias por mais que um hábito de dois séculos i duza muitos intelect uais a n continuarem encarando as coisas por esse prisma , mas sim de um confront o entre os elementos espirituais e os elementos ideológicos no seio do Estado impe rial, conflito que por força da expansão desse Estado se alastra para o mundo todo. Alastrase até o ponto de contaminar até mesmo aquelas forças que, nominalmente, são ou s e imaginam as mais antagônicas ao Império: pois no coração do mundo islâmico o que se vê hoj e é que a resistência à expansão imperial acaba por endurecer e desespiritualizar a trad ição mussulmana, fossilizando-a no simplismo belicoso e grosseiro do chamado fundame ntalismo263, isto é, reduzindo a religião a um receituário ideoO nome calcado no de ce rtos movimentos protestantes é totalmente enganoso. Sugere, por alto, a idéia de ret orno às fontes, de restauração de uma pureza originária, mas qual o movimento reformista ou revolucionário que não se adorna dessa mesma pretensão? Na verdade, o radicalismo islâmico, pretextando um retorno às fontes, propõe às vezes uma total politização do impulso religioso, numa linha bastante semelhante à da “teologia da libertação” católica; e ele se afasta mais ainda das origens desde o momento em que despreza o legado espiritua l das antigas escolas místicas, o tassawwuff ou “sufismo”, o qual, com todas as distorções e desvios que sofreu, ainda conserva alguns valores essenciais à tradição islâmica. V., a respeito das diferentes correntes de pensamento islâmicas e seus antagonismos, Mohammed Arkoun, La Pensée Arabe, Paris, PUF, 1979, especialmente Chap. V, e id. e t al., Les Musulmans, Consultation IslamChrétienne, Paris, Beauchesne, 1971. 263 lógico como qualquer outro, fazendo com que cada novo jihad só sirva para desvitaliz ar e reduzir a uma horrenda caricatura a tradição que imagina defender. Se, de um la do do mundo, o Estado imperial leigo usurpou o manto de Cristo, do outro lado o sionismo ateu usurpou a autoridade de Moisés e a ideologia fundamentalista usurpou a mensagem corânica trazida por Mohammed. O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a possibilidade de sobrevivência espiritu al da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se unir am num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas re ligiões pelo menos das três grandes religiões do grupo abrahâmico , de cujo crédito essas deologias se alimentam parasitariamente. A total laicização do Estado imperial troux e consigo a laicização de todos os conflitos, o rebaixamento de todas as religiões e d e todos os valores civilizacionais, a degradação de todos os motivos pelos quais os homens vivem e morrem. Quem enxerga, hoje, que um século de conflito entre sociali smo e capitalismo terminou pela ascensão do Império mundial onde elementos socialist as e capitalistas foram absorvidos e superados na ideologia do Estado leigo, com preende que o fim do dualismo ideológico, sendo uma realidade, não tem efetivamente o sentido que lhe deu Daniel Bell, mas sim o da entronização de uma espécie de super-i deologia a “metade desvitalizada” do corpo cristão que não encontra concorrentes hoje no mundo senão outras duas antigas religiões igualmente desespiritualizadas e rebaixad as à condição de ideologias. Os intelectuais, é claro, em geral não enxergam as coisas nes sa escala, mas insistem em espremer tudo no estreito quadro de referências a que s

e habituaram em um século de guerra ideológica. Não vêem, assim, outras opções senão restaura artificialmente os velhos conflitos ideológicos, numa espécie de fúria regressiva que se obstina em não reconhecer a passagem do tempo, ou então festejar sob o enganoso nome de “fim das ideologias” a vitória de uma delas, sem perceber que, ao derrotar seu inimigo soviético, o Império ascende à condição de único portador do cetro supremo de laici zador do mundo, despindo-se de todos os escrúpulos religiosos que a luta contra o comunismo o obrigava a conservar. O fato é que, sepultado o comunismo, os Estados Unidos voltam a ser a sede central da Revolução mundial, tal

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como no século XVIII foram seu berço. E o herdeiro nominal da tradição cristã assume sua i dentidade pós-cristã, ou anticristã, precisamente no momento em que as outras duas gra ndes religiões vizinhas se encontram também desvitalizadas, laicizadas e cortadas de suas fontes espirituais. Pela primeira vez na história do mundo a humanidade vive o perigo de uma ruptura completa com o Espírito, de uma total imersão no “historicism o absoluto”, de um total fechamento da porta dos céus. Em face desse perigo, é preciso que, no novo quadro mundial, cada homem empenhado na defesa do Espírito, reconhec endo a mundialização do Império como um fato, e mesmo parcialmente como um bem no sent ido de que afinal a democracia preserva algumas liberdades nominais que em si são preciosas para a subsistência do ser humano pensante , mantenha afiado o sentido crít ico e saiba exigir do Império aquilo que se deve exigir de toda organização social e p olítica: que sirva ao sentido da vida, em vez de usurpá-lo numa nova idolatria. Isto significa, rigorosamente, abster-se de qualquer tomada de posição ideológica (seja no sentido de uma restauração saudosista do dualismo, seja no da celebração do novo quadro uniideológico), e oferecer sistemática resistência à noção mesma inerente a todas as ideol gias de que algum regime político, bom ou ruim, deva ter sobre as almas humanas um a autoridade espiritual comparável à de uma tradição religiosa. Para mim, pessoalmente, não faz tanta diferença, sob esse aspecto, que a organização da sociedade seja socialdem ocrática, neoliberal, que seja mesmo fascista ou comunista: havendo liberdade, des frutarei dela com prazer e, na tirania, ficarei grato pela oportunidade de ser úti l de algum m odo na luta contra o tirano. As duas hipóteses só diferem do ponto de v ista do conforto físico: para a realização do sentido da vida, uma vale tanto quanto a outra, e na verdade os regimes piores fazem às vezes brotar as melhores qualidade s humanas, prontas a dissolver-se tão logo restauradas a ordem e a liberdade (a es querda nacional sob a ditadura deu-nos a melhor prova disto). O reino do Espírito, que pretendo habitar, não é deste mundo, e ele é a única coisa necessária, a única que faz com que a vida seja digna de ser vivida. Todo ideal social, econômico, jurídico ou p olítico, por mais estapafúrdio que seja, é digno de ser defendido por quem creia nele, desde que não caia no propter vitam vivendi perdere causas. Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como

intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grande tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, t odo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.

Os neoliberais têm toda a razão em apontar os Estados Unidos como um exemplo de que a democracia capitalista é para dizer o mínimo o menos inviável dos sistemas políticos. Mas os méritos do sistema norte-americano não são devidos à idéia democrática enquanto tal, nem muito menos ao capitalismo como tal, mas ao fato de que uma e outro, para ab sorver e neutralizar hegelianamente o cristianismo na nova sociedade que geraram , tiveram de cristianizar-se ao menos em parte. Os valores cristãos, profundamente arraigados na mentalidade popular, serviram constantemente de balizas que limit avam e disciplinavam os movimentos do Estado e do mercado, dando um sentido ético e até espiritual ao que por si não tem nenhum; e, como o discurso político era fatalme nte interpretado e julgado em função desses valores, mesmo o p olítico que não acreditas se neles, mesmo o maçom de estrita observância, tinha de proceder exteriormente como cristão. Com extrema freqüência acabava por vigorar na prática o princípio católico “age c se tivesses fé e a fé te será dada” , e o cristianismo de mera pose acabava por dar aos atos políticos um sentido e um efeito cristãos de pleno direito. O exemplo mais cara cterístico é Abraham Lincoln. Esse homem destituído de qualquer crença íntima num Deus pes soal, esse devoto do Estado norte-americano que a seus olhos era a incorporação viva do fatalismo histórico conduzido pela Providência anônima de um deus iluminista, era no entanto assíduo leitor da Bíblia. Mas ao mesmo tempo esse self made man que incen tivava a difusão da lenda de sua falta de instrução era um erudito às antigas, um conhec

Ele lia a Bíblia c omo retórico. Hamilton e Burke. Quintiliano. mas imitava das falas dos pre- . em busca de material e inspiração e não apenas recheava seus discursos de citações bíblicas.edor profundo da retórica de Cícero.

só aos poucos e graças a esforços prodigiosos de gerações de propagandistas se disseminou entre populações que. o esplêndido ensaio de Edmund Wilson. assumem logo as figuras inconciliáveis e eternamente hostis de Leviatã e Beemoth. O conflito interno da consciência protestante que inspira o capitalismo e depois reage com violência às inevitáveis cons eqüências político-sociais do progresso capitalista é um Leitmotiv da história americana. e as profundezas do nosso coração só Deus conhece. seleção e pre fácio de Paulo Francis. contradições que a cultur a cristã atenuava. Deus é menos exigente com o homem do que o dogma do sincerismo m oderno espécie de hipocrisia às avessas. acabou por entrar para a História como o libertador dos escravos. já traziam o cristianismo no sangue. 1991. pois descendiam do primeiro povo c ristão da Europa. as forças cristãs..190 OLAVO DE CARVALHO gadores religiosos muito do pathos característico que distingue a sua oratória e faz dela uma das mais poderosas da língua inglesa. hostil a todo progr esso que não obstante as beneficia materialmente. e Lincoln. voto. Era. assim. Fr iedrich Karl von Savigny já havia percebido que todas as legislações do mundo moderno eram expressões de valores cristãos. de que ma is importa confessar Cristo com a boca do que com o coração: porque a boca está sob o nosso comando. lei e ordem. patenteiam-se também as contradições do sistema político. 17 ss. cujo destino lhe interessava tão pouco quanto a s alvação da própria alma. que inaugurou a moda de tomar o exibicionismo por sinceridade. mu ito antes. José Paulo Paes. largadas a si mesmas. alardeando até mesmo p ecados fictícios. 265 Foi Jean-Jacques Rousseau informa-nos Paul Johnson. op. seguindo a linha fatal dessas conseqüências. liberdade de imprensa etc. um sentido e uma proteção sem os quais não poderiam sobreviver por muito tem po sem decaírem ao estado de “ficções jurídicas”. em Onze Ensaios. o lado irrac ional de uma democracia que ao mesmo tempo expande ilimitadamente os direitos do s cidadãos e os submete à vigilância opressiva da burocracia jurídica onipresente e os m anipula por mil e um artifícios de controle social científico. Exemplos similares poderiam multiplica r-se indefinidamente: a hipocrisia que se reveste do manto de Cristo cristianiza -se de algum modo. que à me ida que o Estado se desmascara e manifesta aos olhos da sociedade o intuito laic izante que o 264 V. Aí é que se vê a sabedoria do conselho de S. Segundo fato: à medida que. trad. e. as coisas parecem equacionar-se de . João Crisóstomo. a sociedade s e descristianiza. tão logo se livra da religião. o que terminou por fazer dos Estados Unidos essa contrad ição viva: um Estado leigo maçônico. Primeiro. Daí também dois fatos da maior importância. é notório que o credo american o democracia. deu às suas palavras e atos um sentido cristão. ao mesmo tempo que realizava sua meta suprem a de preservar a unidade do Estado providencial. São Paulo. tendem a refugiar-se num fundamentalismo rancoroso. subentendendo que esse fundo cristão lhe dava uma unidade. pp. perde autoridade e legitimidade. No caso norte-americano. e como um exemplo de político inspirado em ideais cristãos: o sac erdote de César tornou-se um apóstolo de Cristo 264 mais um resultado impremeditado. sentindo-se expulsas da terra que lhes fora pr ometida. Ao mesmo tempo. onde uma elite de céticos e inimigos da fé governa a ma ior população cristã do mundo. Muito antes dos modernos estudos sobre “religião civil”. confirmando a definição weberiana da História. que cobra das almas uma pureza utópica só para poder mais facilmente precipitá-las no abismo da auto-acusação exibicionista265. amortecendo-lhes o impacto contra o fundo acolchoado de uma coe rência ética que dava um sentido de unidade e universalidade às correntes diversas as quais. “Abraham Lincoln”. O resultado foi que o povo. O Estado democrático só consegue revestir-s e uma aura de prestígio religioso na medida em que cede e cede muito à influência da r eligião. se rebela em seguida contra o seu criador. para enfim se precipitar num abismo d e erros e loucuras. cit. move desde dentro. gerada por uma casta sacerdotal. Companhia das Letras. passan do por cima das intenções subjetivas do indivíduo Abraham Lincoln. fatal que as idéias democráticas recebessem espontaneame nte uma interpretação cristã. ele repete nisto o ciclo eterno da casta governante que.

que molda a mentalidade da elite intelectual e governante. Mas e este é o pivô do drama a Maçonaria só exerce uma parte das atribuições de uma c a sacerdotal: ela é o esoterismo. na medida em que a casta sacerdotal não é cristã. o rito interior. e sim maçôni ca. secreto ou discreto. no reino exterior ou exotérico. pela influên cia do clero cristão católico ou protestante. Daí entendemos que a ascensão do . ao passo que. hoje como sempre.maneira um tanto diferente. a alma do povo continua a ser formada.

contanto que os homossexuais não pratiquem sodomia e os heterossexuais não façam propostas eróti . põe à mostra suas próprias fraquezas e contradições Ele prega. contanto que coloque acima desse Deus as leis e instituições do Estado leigo. Ao contrário: religião e economia. ideologia. Na história. ele se assume como independen te do cristianismo e. O menos inviável dos regimes terminará por inviabilizar-se quando terminar de corroe r. mas que com ou sem Gramsci anda disseminada pelas cabeças de quase todos os pensadores sociais e políticos des ta parte do mundo. menos credibilidade e menos funcionalidade têm os valores democráticos em nome dos quais essa elite chegou ao poder e governa. menos coerência. a concepção da sociedade como m bloco mais ou menos homogêneo de economia. disse eu.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 191 governo maçônico se prevalece do prestígio cristão anexado de fora aos valores e princípio s da democracia. na escala dos fatos históricos. que a liberdade sexual é um direito inalienável. política. só constitui um bloco para fins de hipótese metodológica. O perfil de uma determinada sociedade. extracristãos) foram aceitos na medida em que o povo os interpretava como cristãos e acabava por cristianizá-los. interna. A heterogeneidade essencial das força s que compunham o ideal americano maçonismo e cristianismo pôde ser ocultada por um tempo. Estas palavras expressam minha convi cção de que é puramente ideológica. como o prova o fato de que as religiões podem subsistir por milênios. para não dizer fantasista. onde os únicos antagonismos reais que existem são os conflitos de classe 266. O impulso para a síntese que é uma das fontes do empenho civilizatório em ger al é uma exigência constitutiva. não uma lei histórica. por exemplo. Repito o que disse lá atrás: a síntese dialética só existe no reino das idéias. o que se vê é o entrechoque entre esse impulso e as tr emendas forças de divisão e decomposição a começar pelo fato mesmo da morte que se opõem manentemente ao esforço unificador humano e. da mente humana. a dinâmica que marcará a história dessa sociedade. precisamente. que as diferentes culturas devem ser preservadas em sua pureza . fundamentalmente inalteradas em seus dogmas a despeito de todas as mudanças econômicas. desde que privad os da seiva cristã que os alimenta. cultura e “senso com um”. mas não é capaz de dar a esses valores e princípios. no plano político-ideológico. na medida em que. remetendo a unidade à esfera que lhe é própria: a esfera do ideal e d o extramundano a que não correspondem. da mente do indivíduo human o. ideológicos. mas. ao mesmo tempo que ensina nas escolas que ela não é senão o resultado fortuito de um a combinação de átomos. mas pr ecisamente da impossibilidade de sintetizá-los na prática. uma força de subsistência autônoma: a vitória da elite maçônica traz em si os germes de sua própria destruição. etnológicos etc. tomada num momento qualquer do seu dese nvolvimento histórico. contanto que consintam em perder toda importância vital e em tornar-se adornos t urísticos para embelezar a cultura maçônicodemocrática. que o homem tem o direito de cul tuar Deus à maneira de sua religião. malgrado todos os esforços humanos. e 266 Concepção que encontra sua expressão mais plena em Gramsci. na mesma proporção. que devemos respeitar a vida humana como um bem sagrado . mesmo separados por séculos de d esenvolvimento econômico desigual e por abismos de diferenças culturais e psicológicas . Na medida em que o ideal maçônico do Estado leigo democrático se realiza. senão essas caricat uras de paraíso que recebem o nome de utopias. são forças autônomas. fazem brotar de novo e de novo os conflitos mais bárbaros e as contrad ições mais insolúveis. que a formam podem ser heterogêneo s por sua origem e continuar heterogêneos e conflitantes de seu conflito resultand o. em nome da democracia. digamos assim. Anexado de fora. no seio mesmo da mais organizada das sociedades. quanto mais se laiciza a sociedade. mas os elementos religiosos. muitas das grandes mudanças não advêm de nenhuma síntese de elementos anteriores. os princípios religiosos a que a idéia democrática deve toda a sua substância. isto para nada dizer da possibili dade de transplantar uma religião de um país a outro. precisamente pela mesma razão que permitiu a Abraham Lincoln passar em públic o por grande líder cristão: pela razão de que seus intuitos ( em si mesmo nem cristãos n em anticristãos. por exemplo.

M uitos analistas do fenômeno americano já estão se dando conta de que a democracia depe nde de que existam no povo certas virtudes que ela não criou nem pode criar. e assim por diante.cas às mulheres. numa permanente estimulação contraditória que está na raiz da violência e da loucura que hoje marcam a sociedade americana e todas as s ociedades que se colocaram sob a órbita da influência ideológica da Revolução Americana. mas q ue recebeu prontas da civilização cristã e que não sobrevivem à .

Nenhuma ideologia.. Por toda parte o que se vê é o completo fracasso da tentativa de superar por uma ética leiga as antigas éticas religiosas. os farrapos de papel com as caretas bisonhas dos demagogos tingidas de lodo. que algumas das reações mais vigorosas à cultura anti-espiritual do no vo Império brotam de dentro dos próprios Estados Unidos. de que a religião é uma expressão da sociedade. que o antecedem. não enxergando que os méritos de qualquer sistema político dependem essencialmente d e que ele saiba respeitar os limites que lhe são impostos pela consciência religiosa do povo. cuspe e respingos de cerveja. a todas as sociedades. V.192 OLAVO DE CARVALHO descristianização da sociedade 267. mas reside naqueles homens em que se manifesta de maneira patente o es pírito mesmo da religião . a t odas as constituições políticas. frequentando o culto do minical. também não aprenderemos a de Bertrand de Jouvenel. como disse São Paulo Apóstolo. trad.. que a ruptura entre Maçona ria e Cristianismo está na raiz da tragédia contemporânea. desde a eternidade. 2 vols. Se as religiões todas elas. comunista ou apitalista. sociedades e constituições políticas. Introduction à la Philosophie de la Mythologie. Mesmo e sobretudo. monárquico ou republicano. nenhum programa político pode ter a universalidad e e a abrangência de uma religião nem muito menos o seu poder unificante e doador de sentido. é a instância superior onde se arbitram todos os co nflitos entre facções. porque a lei religiosa. segundo a qual a religião e somente a religião. porque a unid ade da ética leiga reside na interpretação religiosa que dela se faça. S. meio sociologista. E enquanto não absorvermos essa lição. não poden do ser mudada por arbítrio humano. é sempre um juiz parcial na hora de julgar os vencidos. ele será sempr e o poder de César. É ainda nos Esta269 V. segundo a qual são os mitos e as religiões que estatuem o campo po ssibilitador dentro do qual se erigem as formas sociais. Enquanto estivermos contaminados pelo preconceito . Na ausência da autoridade espiritual que não se confunde de maneira alguma com as hierarquias de nenhuma burocracia ec lesiástica. socialdemocrata ou neoliberal. o que já basta para por em dúvida a onipotência da nov a cultura 269. en quanto não percebermos que ela pode ser precisamente o contrário. vivificada pela presença da autoridade espiritual e firmada em valores q ue antecedem de muito o nascimento desse sistema e o da própria sociedade que ele governa. o poder é o único juiz. 19 . o homem espir itual julga a todos e não é julgado senão por Deus. ou antes. que arrasta os impérios e as nações como o vento arrasta pelas ruas desertas. passim. talvez. é porque elas 267 268 existem e vigoram num plano de universalidade superior ao de todas as culturas. e se por outro lado a dinâmica anticristã do Estado leigo parece uma fatalidade inerente à constituição mesma do novo Império. Christopher Lasch. Se hoje não podemos desistir nem do Estado democrático nem do fundo cristão sem o qual ele perde todo sentido e se transforma no neototalitarismo do “politicamente correto”. na madrugada que se segue a um comíc io. Schelling. É porque. O lance de dados em que os poderes deste mundo partilham o manto de Cr isto não abolirá jamais o movimento imprevisível do Espírito. culturais e políticas. E enquanto não com preendermos essas coisas continuaremos a apostar neste ou naquele sistema político . ao passo que toda legislação po lítica. sendo a expressão da ideologia de um grupo vencedor. ou praticamente todas já deram provas de poder adaptar-se a todas as culturas. compreendida como portadora simbólica de verdades universais e valores objetivos. meio marxista. Metade da população americana c ontinua. em contrapartida. sejam elas religiosas ou políticas. pode oferecer uma resistência eficaz ao crescimento ilimitado do poder político mesmo e sobretudo daquele exercido em n ome de pretextos religiosos. Friedrich-W. não compreenderemos o que se passa hoje no Império americano e no nosso próprio quintal. católico ou protestante. cit. isto mostra o que foi dito parágrafos acima. com uma propensão incoercível a autodivinizar-se. enquanto não compreendermos mesmo a lição de Schelling 268. que nel a se projete. Democrático ou oligárquico. Também é preciso reconhecer. apesar de toda a antiespiritualidade dominante. op. Paris. Jankélevitch. Aubier. uma impressão recebi da pela sociedade desde fora ou desde cima.

entretanto.45. A vida pública está totalmente secularizada. A aparência eng ana. em comparação com outras nações industriais. têm conseguido escapar às influências secularizan tes que modificaram a paisagem cultural em outras partes do mundo. A separação da igreja e do . de alguma forma. pertencem a uma denominação religiosa e assistem ao serviço com alguma regularidade continua nota damente alto. Mas esse fato também deve ser interpretado com prudência. Esta evidência pode sugerir que os Estados Unidos. segundo diz Christopher La sch: “A quantidade de pessoas que professam a crença em um Deus pessoal.

A religião foi relegada às vias secundárias do d ebate público. Frithjof Schuon. ção. O seu compromisso com a cultura da crítica é entendido como a eliminação do s compromissos religiosos.. mas ao terceiro dia ressurgirá” 271. 27 0 V. 247-248 grifos meus ). na verdade. 1981. . é uma das características das cla sses cultas. E lá. do Jardim das Aflições. eles não sabem o que fazem. The Gifford Lectures. Crossroad.. são incultos. não obstante. Paris. finalmente. Antônio Pereira de Figueiredo ).. iconoclástico. 198 1. se até os norte-americanos conscientes do caráter anti-espiritual do novo Império terminam por servi-lo involuntariamente. profundamente influe nciada pelo pensamento de Frithjof Schuon. é triste verdade que muito dessa resistência se inspira no apego a exclusivismos religiosos de cunho fundamentalista.. pela divisão. E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido.. despreparados e bem pouco intelige ntes. novamente. E. mas nem imaginam quem fala por sua boca. 2e. Le Seuil. “o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes. W 271 Mat. Um estado mental cético. pp. prisioneiros de mitos que constituem. Victor Danner e outros. No fundo de sua aparência erudita. De l’Unité Transcendante des Réligions. e Seyyed Hossein Nasr. éd. e crucificado. Knowledge and the Sacred. que o condenarão à mor te. Também não sabem pa ra onde levam quem os ouve: e assim arrastam o público para o Jardim das Delícias. den tro do corpo americano. o ateísmo oficial do Império. s em saber que se trata. New York. A atitude das elites no que se refere à religião vai da i ndiferença à hostilidade” ( Christopher Lasch. hoje interpretada como proibição de se recon hecer publicamente qualquer religião. 1979. cit. homem espiritual de primeiro plano e inventor do único método válido já concebido para a comparação e aproximação das religiões 27 s é ainda verdade. e aos escribas. está mais profundamente arraigada na América do que em qualquer outro lugar do mundo. São cegos e ingênuos no fundo de uma casca de vaidade e presunestado. 20:18-19 ( trad. Mas. Os próceres da reforma intelectual b rasileira querem guiar o povo sem saber quem os guia. op. quanto mais não o farão os intelectuais progressistas do Terceiro Mundo. que muito da resistência espiritual norteamericana se perde em histerismos ultraconservadores e em arreganhos nacionalistas — às vezes va gamente fascistas — que não têm nenhum sentido no novo quadro a não ser mostrar que. ainda subsiste a contradição entre Império e nação — contradição em q o leitor não terá dificuldade de reconhecer um resíduo da ideologia dos impérios colonia is. por apego a preconceitos qu e os cegam. que só servem para gerar desc onfiança entre os crentes das várias religiões e fomentar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 193 dos Unidos que se encontra hoje o mais poderoso núcleo de resistência ao avanço do ateís mo oficial — o que abrange desde as comunidades que se organizam contra a lei do a borto até a elite espiritual concentrada em torno de figuras como Seyyed Hossein N asr — exilado iraniano —. Huston Smith. Fascinam a platéia. sob disfarces variados. a essência mesma do culto imperial? Não.

indiferentes à voz do boneco que repetia mecanicamente seu discurso numa ponta esquecida do Terceiro Mundo. com grandeza trágica. digo eu: qual de vós. um dia. nem a segunda. lapidar o próprio peito. até o patético da autovalor ização heróica. todos os mitos e ilusões a que se agarravam por desespero os intelectuais brasileiros. detidos a meio-cam inho por um misterioso repuxão do bom-senso ou da hipocrisia. sem no mesmo ato cuspir na própria face. com uma espécie de heroísmo do auto-engano. É horrível. dá eco à mensagem do mal e da mentira universais. Não. de mitos ideológicos. na platéia do MASP.194 OLAVO DE CARVALHO Post-scriptum LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR “A soberba do homem niilista eleva-se. O conjunto forma o retrato de um boneco de ventríloquo. não é? Pois bem: àqueles que. se posta diante dos meus olhos. Eis o mo tivo da mágica atração que ele exercia precisamente sobre aqueles que menos o compreen diam. qu e compõem a fórmula cerebral de um típico letrado brasileiro do período entre 1964 e 199 4. fazendo dele um compêndio vivo dos erros da sua casta. Qual de nós. e xpô-lo com descomprometida e sádica alegria ao escárnio das gerações futuras. não como um crim inoso a ser escarmentado. nós o f izemos com maior comedimento. da minha parte. Pois. Não atiro a primeira. patético e melancólico. Isto fez dele a vítima dos que nele acreditaram. diante do ca dáver intelectual de José Américo Motta Pessanha. mas como a vítima da tragédia intelectual de todo um país e de toda uma época.” KARL JASPERS Termina assim nossa jornada — o giro por dois milênios de História das Idéias. mas para que nela vos enxergueis a vós mesmos e possais diant e dela confessar. ouvíamos Motta Pessanha. num certo momento da nossa História. que nos f oi necessário para compreender. o poder aci ma do saber. chicotear as próprias costas? Po is eu. condensaram-se na alma de José Améri co Motta Pessanha. ao meno s antes de ler este livro. Pois enquanto nós. ordenar e pôr em claro toda a mixórdia de erudição mal dig erida. não sabendo quem fal a por sua boca. por partes e intermitentemente. de sentimentos grosseiros e de palavreado florido. deuses hediondos prosseguiam sua marcha triunfante entre nuvens de fogo. Isto fez dele o emblema das dores e da insânia de uma época. trap acear. iludir. crendo e fazendo c rer que ensina o caminho da sabedoria. desde que fosse em nome da nossa sacrossanta indignação política? Apenas. não colocou o estetismo acima do dever moral. aqui exposto em toda a sua triste de formidade. que. a paixão ideológica acima dos direitos da verdade. enquanto José Américo Mo tta Pessanha mergulhou até o fundo do erro. se entreguem à consolação malévola do riso e da ironia. está limpo de toda mácula que nele agora vêdes com os olh os claros que a contragosto meu e vosso vos dei por empréstimo? Qual de vós. nem a última pedra: não vejo por onde condenar aquele que. e scribas e fariseus hipócritas. bebeu até o fim a taça da falsidade univer sal. o encanto das palavras acima da evidência das coisas e dos fatos? Qua l de nós não acreditou um dia que nossa repugnância pelo estado de coisas nos revestia de uma dignidade especial e nos dava um salvo-conduto para mentir. sem outra culpa senão a da demência coletiva que a poder de aplausos e lisonjas o arrastou aos piores desvari os filosóficos. ao menos cada qual a si . condená-lo. mas que neles se repartiam em porções desiguais e de composição variada. vos garanto: não posso. Eis também o motivo pelo qual é tão difícil condená-lo: ele errou em nome de todos. senhores das letras: não vos exponho o corpo macilento e desgrenhado dessa vítima para dar r epasto à vossa ironia. movido pela angústia ou pela voracidade. não foi igual por mais de um aspecto a esse inimigo da sabedoria? Qual de vós pode atirar-lhe pedras.

que o aplaudistes em vida quando ele em palavras insa nas dava expressão e autoridade a vossos mais baixos sentimentos e a vossas mais a bsurdas aspirações. por vós e por mim. não o abandoneis agora. Orai por ele. com aquele que na glória e na al egria celebrastes. Pois seu pecado foi o de todos nós. desfeito em trapos o seu perfil de filósofo. Solidarizai-vos. quando ele aqui jaz. na desgraça. julho de 1995. Rio. Vós.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 195 próprio: Eu não fui melhor. .

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Louis. 43 A LBUQUERQUE . 74. 54. Daniel. 120 A U GELLI. Alain de. Franz. Antoine. 272.. 347 BERNARDO DE CLARAVAL. 280 A GOSTINHO.. John. 338. 69. Otto von. 119. John. Sto. 135 BLOOM. Anicius Manlius Severinus. 314 BATESON. 79. 277 . 364 A LAIN (Émile Chartier). 18 7 A FONSO HENRIQUES (de Portugal). 99 B ELL. 313. 155. S. 93. Sto. 259. 387. 297.206 OLAVO DE CARVALHO ÍNDICE ONOMÁSTICO BARROSO . 41 A DORNO. 301. Jean. Abade. S. 67. 222. 339 BONIFÁCIO. 347. 372 BACON. 284. 41 BERTRAND. Tomás de. 331 A LLEAU. 185. 118. 154. Simone de. Pierre. 72. Herbert José de Souza. 207. 323. 120. Hele na Petrovna. 127. 111 BOHR. 59. 341 BANDLER. 374 BISMARCK. 189 —A— A BELARDO.. 347 BERDIAEV. 53. Theodor Wiesengrund. Roger. 253. 290 BOAVENTURA. 290 A LCUÍNO. 275 BOWEN.. 306 A RNAULD. Ni els. Brun o. 314 BLOOM.. 388 BENOIST . 276. François Noël. Dante. 41 BODIN. Hal C. 373 BOAVENTURA. 372. Honoré de. 168. 69 A LBERTO M AGNO. Harold. David. 384 A LEXANDRE DE HALES. 42 A LIGHIERI . Gustavo. 12 BLÜCHER. 123. 315 BRENTANO. Jean Le Rond d’. 10. 333. 46 A FONSO DE LIGÓRIO. Sto. René. 373. Maurice. 93 BAUER. Gen. 123 . 67 BLAVATSKI. 223.. Marcel. 290. 47 BECKER. 269. 225. Gebha rd Leberecht. Sto.. 307 A LTHUSSER. 184. Tomás de Aquino A RISTÓTELES. Papa. dito Graco. Afonso de. Marielza. 187. 165. 220. 204. 301 BARRUEL. 271. 42 A QUINO. 28 6 BOÉCIO ou Boetius. Pedro. 56. 325 BAYLE. 126. S. John. Nicolai. Louis. 382 A NSELMO. 257. 212 BEAUVOIR. 283 BETINHO. Gregory. 108 v. Allan. 168 BOHM. 150 BRIO N. 99 —B— BABEUF. 154. Pierre. 269 A LEMBERT . 266 B ONIFÁCIO VIII. 281. 192. 71. Napoleão. Jorge. 209 .. 43 BALZAC. v. GRINDER. 151 BONAPARTE. Georges. 89. 273. dito. 307 BERNAN OS. Richard BARRÈS. 142. 186 A UBENQUE. Sto. 249. 331 BROCKMAN.

222. 118 DEMÓCARES. 84 DELFIM NETO. 77 CANTOR. 226 DANIÉLOU. 298. 64. 203 CHAUÍ. 366. 363. 281 CONCHES. 30 5. Victor. Gautama. Nicolau. Roberto. 224. Jacob. Miguel de. 249. 59. 244 CLÓVIS. 150 DELEUZE. 42. 347 CRISTO. 232. 386. Joseph. 273. 389. 152. 191. Maistre DÉGERANDO. 226. 366 —C— CALDERÓN DE LA BARCA. 68. 287. Gi ordano. 92. 255. 108. J acques. Benedetto. 332 CHANDLER. 304. 364. Card. Antônio. 285. marquis de. 258. 365. René. 270 CUSA. 347 CA MUS. 45 . 184. 201. 98 BRUNELLESCHI. 107. 118 DEMÓCRITO. Fernando Henrique. 204. Pierre Teilhard de. Olavo de. Henry. 266. Guilherme de. 313 BURKE. 45. 186 BUDA. 28. 173 CORBIN. 241. 136. 289. 361 CARNEGIE. Marilena. Gil bert Keith. 389. Joseph. 337 CONSTAN TINO. 45 CAYCEDO. 261. Auguste. Rus sel. 32. 369 CARDOSO . 342 CASSIRER. 42. 29. 280. 358. 225. 208 BRUNO. Albert. 266 COLLOR DE M ELLO. 367 COMTE. 134. 209 CONWAY. 262. 109 BRUN. 284. 258 DAWSON. 127 BURCKHARDT . 223. 390. v. 144. Etienne Bonnot de. 290. 57. 264. 159 CHARDIN. 232. v. Joseph Marie. 33 . 396 DANTE. 297. Otto Maria. 380 CROUZET . Ernst. Gustavo. 106. Edmund. Fritjof. Fernando Afonso. Christopher. 70 CERVAN TES. 286. 65. Marie Je an Antoine Nicolas Caritat. 363. 266. Georg. Guilherme de Conches CONDILLAC. Dale. 64 CLEMENTE de Alexandria. 176 CORÇÃO. 43. Salvador. 290. 368. 83. 69. 70 CARPEAUX. Jim COPÉRNIC O. 259. Filippo. Alighieri DAVI D. 35. 282. 186. 257. 187 DESCARTES. 240. Jacques-Louis. 121. 45. 300 DANNER. 175. Titus. 242 DE M AISTRE . 378 CARLOS M AGNO (Charlemagne). Imperador.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 207 BROWN. Joseph Epes. v. 138 v. 97. Gilles. 37. 105. 395 CHAILLEY. 267. 146 CARVAL HO. Jacques. Pedro. 226. Claude. Flo. 59 BURCKHARDT . 150 CONDORCET . Paolo. Pedro. 215. 151 CRISTALDO. Maurice. 292. 369 COLLOR DE M ELLO. 192 CAPRA. 190. 237. 273. 382 CONRAD. 256. 271. 394 CROCE . 368 DEMÉTRI O. 365 CHESTERTON. v. 380 CRÉBILLON FILS. Caio Júlio. 282. Nicolau de. 208 . 63. SIEGELMAN. 299 CAMPOS. 19. Jean. 66. 329 CÉSAR. 42. Janer. Nicolau de Cusa —D— D’HONDT . 362.

13. Foster. Mons. 118 EURÍPIDES. 23. 43. 40 EUBÚLIDES. 117.. 300 DURAND. Celso. 67. 97. 202. 105 FEUERBACH. 137. 291 DRUMMOND. Albert. 146. 376. Pierre Gassend. 46. 380 ELIS REGINA. 137. Édouard. Carlos. Charles de. 139. 40. 74. 161. 46 FIELKENKRAUT . T. Antonio. 84. 362. 42. 51-58. 33 7 FEYERABEND. 42. dit o Petrus. 118 —E— OLAVO DE CARVALHO —F— FÁBIO. Mons. J. 41. 171 FUKUYAMA. 28. 90. Galileo. 60-73. 240. 187. 24. 23 1. 373 FARGES. G eorges. 188. 83 GOETHE . 133. Francis Paul. 366 FERREIRA DOS SANTOS. 127. 126. 117. 45. 241. Johann Wolfgang von. Fiódor Mikhailovitch. Gilbert. Louis. 292 DULLES. 197 GARCÍA GUAL. Leonel. 381 DRUMONT . 379 ERICKSON. Pierre. Sir John. 309 DULLES. 287 FOUCAULT . 48. 378 DILTHEY. William. Sigmund. 370 GEISER. 156. 129.. 122 GARCÍA-PELAYO. Oliveira e Silva DONOSO CORTÉS. 127 ELWELL-SUTTTON . 381. José. J ohn. John W. 225. Ingemar. 340 FESTINGER. 282. P. 121 DIRCEU. 382 DIEL. 4 0 EVOLA. 39. Félix. 115-122. Wilhelm. 271-275 FELIX. 187. Jean. L. 315 FRANCA. Juan Francisco. 183. 150 DIONÍSI O. 33 . 46. 274 FELIPE O BELO. 109 FARIA. 46. Alain . 382 GRAMSCI . 189. Paulo (Franz Paul Heilborn). 342 DUMONT . Rob ert L. 274 . Paul. 36. 204. 154. 275 GAXOTTE. Pastor Caio. 185 FRANCIS. 121. 134. 265 FURTADO. Christopher. Julius. 166. 189 FAVIER . 46 FORTESCUE. 375. 338-340. 286. 103. 168. 284 DÜRING.. Michel. Mircea. 368. 195. 64. Allen. 43 EINSTEIN. 171. 259 EL IOT . 169. 360 GAULLE. 67. 392 ECO. 151. 196 FOWLES. 226. v. Johann Gottlieb von. 315 E PICTETO. Octávio de. 32. Aristóteles. 117. 35. 149-152. 35. 331-334. 242 GASSENDI. Albert.208 DIDEROT . 339 DRAYTON. 49. 46 FUN K. 189 ELIADE. (Thomas Stearns). 8 6-90. 45 DOSTOIÉVSKI . 214. 369 —G— GALILEI. Denis. 304 DUP ANLOUP . 120. S. Mons. 89 EPICURO. 12. 341 DUNS SCOT . 360. 124. Paul. 175 FICHTE. 44. 91 ÉSQUILO. S. 369. Leon. John. 133. Milton. Manuel. Mário. 389 FREUD. 166.. 27. 278 DUMÉZIL. Umberto. 370 GOLDING. Ludwig. William Henry. Pe. 37. 135.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 209 GRAVES, Robert, 314; 315 GRINDER, Richard, 69; 89; 103 v. BANDLER, John, 69 GUAT TARI , Félix, 84 GUÉNON, René, 45; 175; 247; 248; 259; 274; 298; 300; 301; 305; 306; 3 11; 314; 331; 333; 334; 337; 342 GUILHERME DE CONCHES, 41 GURDJIEFF, Georges Iva novitch, 45; 63; 64; 103; 224; 225; 312 —H— HABERMAS, Jürgen, 376 HAMILTON, David, 354 HAMILTON, William G., 389 HARTMANN, Nicolai, 45; 46 HARVEY, William, 42 HEGEL, Georg Friedrich Wilhelm, 28; 46; 77; 121; 133; 153; 211; 213; 218; 222-228; 237; 255; 258; 281; 290; 295; 362; HEINE, Heinrich, 126 HEISENBERG, Werner, 65; 122124; 149; 151; 177 HELVÉTIUS, Claude Adrien, 45; 124; 150 HEMMER, Mons., 265 HENRI QUE VIII (da Inglaterra), 273; 280; 282; 286 HERCULANO (DE CARVALHO E A RAÚJO), Al exandre, 41; 43 HERMIAS, 118 HERÓDOTO, 239 HITLER, Adolf, 27; 227; 324 HOBBES, Tho mas, 286; 287 HOBSBAWM, Eric, 214 HOBSON, John Atkinson, 294; 363; 364; 383 HOOK ER, Richard, 284; 286; 375 HORÁCIO, 207 HORKHEIMER, Max, 135 HUGO DE S. VÍTOR, 40; 4 1 HUIZINGA , Johan ou Jan, 188; 349 HUNTINGTON, Ellsworth, 383 HUSSERL , Edmund, 12; 46; 151; 156; 181; 182; 196 HUX LEY, Aldous, 45; 96 —I— IBN-A RABI , Mohieddin, 313 INOCÊNCIO III, Papa, 284 INOCÊNCIO I V, Papa, 272 IVAN III (da Rússia), 282 IVAN IV (da Rússia), 282 —J— JAKI, Stanley L., 12 4 JASPERS, Karl, 45; 150; 399 JOÃO PAULO II, Papa, 85 JOÃO VI (de Portugal), 43 JOÃO X II, Papa, 268 JONES, Rev. Jim., 71; 126 JOUVENEL, Bertrand de, 221; 285; 343; 38 4; 395 JUNG, Carl-Gustav, 45; 216 —K— KALECKI, 45 KANT , Immanuel, 46; 77 KARDEC, Al an, 187 KEATON, Buster, 63 KEYNES, Sir John Maynard, 44 KHAYYAM, Omar, 315 KING, Stephen, 315 KLEIST , Heinrich von, 344 KOESTLER, Arthur, 101; 230; 231; 323; 3 80 KOYRÉ , Alexandre, 175; 176; 180 KRAMER, Dora, 373; 377 KUHN, Thomas S., 196

210 —L— LA M ETTRIE , Julien Offroy de, 144; 328; 348 LACLOS, Pierre Choderlos de, 3 2; 137 LACTÂNCIO, 117 LAÉRCIO, Diógenes, 53; 86 LANGER, Susanne K. (Knauth), 285 LANTO INE, Albert, 280 LASCH, Christopher, 283 LEARY, Timothy, 122 LEHMAN DA SILVA , N elson, 330 LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm von, 36; 45; 119; 144; 186; 188; 190; 192; 196 LÊNIN, Vladimir Iilitch Ulianov, dito, 45; 130; 163; 276; 332; 343; 349 LEVIN , Kurt, 74 LÉVI -STRAUSS, Claude, 42 LINCOLN, Abraham, 247; 363 LINEBARGER, Paul E ., 82 LOMBARDO, Pedro, 41 LORAUX, Nicole, 39; 328 LORENZ, Konrad, 79; 80; 83 LÖWY, Michael, 129 LUCRÉCIO, 52 LUÍS XI (da França), 257 LUÍS XIV (da França), 208; 265; 266 LUÍS XVI (da França), 235; 249; 288 LUÍS, O PIEDOSO , Imperador, 251; 254 LUKÁCS, Georg ou György, 44; 129 LULA, v. Silva, Luís Inácio Lula da, —M— M ACEDO, Bispo Edir, 341 M ACHAD O, Nílson José, 285 M AHARAJI , Guru, 58 M AÏSKI, Ivan, 292 M AISTRE , Joseph de, 45; 280 OLAVO DE CARVALHO M ALEBRANCHE, Nicolas, 119; 175 M ALINOVSKI, Bronislaw, 44 M ALTZ, Maxwell, 69 M ANN, Thomas, 33 M ANNHEIM, Karl, 81 M ANZONI, Alessandro, 309 M AO TSÉ-TUNG, 334 M AQUIAVEL, Niccolò Macchiavelli, dito, 139; 194; 195; 269; 275 M ARCUSE , Herbert , 129 M ARITAIN, Jacques, 257 M ARTEL, Charles, 250 M ARX, Karl, 37; 122; 123; 1 25; 127; 128; 129; 130; 131; 132; 138; 139; 142; 143; 144; 147; 148; 149; 150; 1 53; 163; 177; 199; 200; 201; 216; 277; 293; 310; 330; 348 M AZZINI, Giuseppe, 28 1 M ÉDICI , Gen. Emílio Garrastazu, 66 M EINECKE, Friedrich, 185; 186; 191 M EIRA PE NNA, José Oswaldo de, 332; 347; 350 M ELLO, Collor de, v. Collor M ERLOO, Joost A. M., 81 M ERQUIOR, José Guilherme, 129; 347 M ICHEL, Paul-Henri, 42 M ILL, John St uart, 35 M INOGUE, Kenneth, 142 M IR, Luís, 334; 345 M ITTERRAND, François, 257 M OH AMMED (Maomé), 105; 224; 233; 304 M OISÉS, 105; 267; 278 M ONTAIGNE, Michel de, 191; 194 M OON, Rev., 58; 96; 102; 152 M ORE , Sir Thomas, 263 M ORGAN, Charles, 110 M ORTON, Thomas Green, 63; 105 M OTTA PESSANHA, v. PESSANHA M OZART , Wolfgang Amadeus, 302 M ÜLLER, Juan Alfredo César, 76; 311

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 211 —N— NAIPAUL, V. S., 98 NAPOLEÃO, v. Bonaparte NASR, Seyyed Hossein, 174; 352 NEGREIROS , Almada, 314 NEWTON , Sir Isaac, 41; 42; 119; 145; 184 NICOLAU DE CUSA, 164; 16 5; 166; 167; 168; 169; 176; 177 NICOLE, Pierre, 175 NIETZSCHE, Friedrich, 37; 13 9; 161; 201 NIXON, Richard Milhous, 334 NIZAN, Paul, 118 NOVAES, Adauto, 32; 137 ; 144 NUNES, Carlos Alberto, 45 —O— OCKAM, William of, 44 OLIVEIRA E SILVA , José Dirc eu de, 334 ORTEGA Y GASSET , José, 75; 189; 332; 347 OSTROVSKI, Victor, 334 OT T O I, Imperador, 251; 329 OVÍDIO, 193 —P— PALOU, Jean, 284 PANETH, Ludwig, 158 PARAIN, B rice, 114 PASCAL, Blaise, 171; 190; 346 PATRIZZI, Francesco, 113 PAULI, Wolfgang , 145 PAULO A PÓSTOLO, S., 221, 244 PAVLOV, Ivan P., 66; 98; 99; 100; 101; 102; 10 9 PEDRO I (do Brasil), 233; 259; 288 PÉGUY, Charles, 218; 257 PENNA, J. O. de Meir a, v. Meira Penna PEPINO DE HERSTAL, 249 PERALVA , Oswaldo, 345 PERELMAN, Chaim, 46; 54; 87 PEREZ DE A YALA, Ramón, 33 PERROY, Édouard, 253 PESSANHA, José Américo Motta, 9; 24; 25; 26; 2 7; 28; 31; 32; 33; 34; 39; 44; 45; 46; 47; 51; 52; 54; 57; 60; 61; 62; 65; 68; 6 9; 87; 88; 112; 114; 115; 116; 117; 118; 122; 123; 124; 137; 142; 143; 144; 145; 146; 147; 153; 214; 215; 217; 239; 328; 345; 355 PESSOA, Fernando, 314 PIAGET , Jean, 185 ss.; 285 PICHON, Jean-Charles, 83; 288 PIRANDELLO, Luigi, 346 PIRENNE , Henri, 255 PLANCK, Max, 64; 118; 142; 168; 177 PLATÃO, 39; 40; 45; 64; 68; 75; 1 14; 134; 141; 144; 145; 146; 158; 193; 220 PÖE, Edgar Allan, 43 POEZL, Otto, 99; 1 00 PONCINS, Léon de, 292 PRADO JR., Caio, 348 PTOLOMEU, Cláudio, 164 —Q— QUADROS, Jânio, 7 3 QUEVEDO, Francisco de, 299 QUINTILIANO, 193 —R— RACINE, Jean, 299 RAJNEESH , 58; 9 6; 102; 152 REBOUL, Olivier, 81 REDONDI, Pietro, 42 REICH, Wilhelm, 129 RIBEIRO, Lair, 4; 25; 88 RICARDO DE S. VÍTOR, 41

212 RICKERT , Heinrich, 236 ROBBINS, Anthony, 88; 147 ROBESPIERRE , Maximilien, 242; 243; 263 ROBISON, John A., 281 ROMANO, Egídio, 256 ROOSEVELT , Franklin D., 2 75 ROOSEVELT , Theodore, 291 RORTY, Richard, 46; 107 ROSA, Antonio Donato Paulo, 142 ROSENBERG, Fúlvia, 322 RUSHDIE, Salmán, 162 RUYER, Raymond, 179 —S— SÁ-CARNEIRO, Mário de, 314 SADE, Donatien Alphonse François, marquês de, 32; 137; 328; 348 SAINTE-BEUVE , Charles Augistin, 308 SAINT -EXUPÉRY, Antoine de, 327; 347 SAINT -M ARTIN, Loui s Claude de, 280 SALAZAR, Antonio de Oliveira, 277 SANTOS, Mário Ferreira dos, V. Ferreira dos Santos SARGANT , William, 100; 101; 102 SARTRE , Jean-Paul, 347 SAT IR, Virginia, 89 SAUVY , Alfred, 331 SAVIGNY, Friedrich Karl von, 364 SCHAFF, Ad am, 318 SCHELER, Max, 44; 75 SCHELLING, Friedrich Wilhelm von, 45; 210; 368 SCHU LZ, Johannes Heinrich, 69 SCHUMPETER, Joseph A., 332 SCHUON, Frithjof, 77; 159; 352 SCOT , John Duns, v. Duns Scot SCOTT , Ernest, 317 OLAVO DE CARVALHO SCOTT , Walter, 308 SCRUTON, Roger, 341; 347 SÉNANCOUR, Etienne Pivert de, 144 SÉRAN T , Paul, 281 SEYMOUR-SMITH, Martin, 317 SHAFTESBURY, Anthony, conde de, 185; 18 8; 192 SHAH, Omar Ali, 317 SHAKESPEARE , William, 299 SHELLEY, Mary, 314 SHELLEY , Percy B., 313 SIEGELMAN, Jim, 81; 90; 102; 103 v. CONWAY, Flo, 102 SILVA , Luís Inácio Lula da, 279; 334; SILVA , Vicente Ferreira da, 202 SMITH, Thomas266 SMITH, Huston, 352 SNOW , Charles Percy, 236 SÓCRATES, 36; 112; 115; 219; 220; 221 SODRÉ , Muniz, 63 SÓFOCLES, 39 SOLOVIEV, Vladimir, 264 SOURIAU, Étienne, 285 SOUZA, Octávio T arquínio de, 288; SPENCER, Herbert, 45 SPINOZA, Baruch de, 190 STÁLIN , Joseph Djuga schvíli, dito, 130; 146; 202; 212; 275 STENDHAL ( Henry Beyle), 308 STEWART JR., D onald, 347 STRAUSS, David, 211 STREICHER, Julius, 32 STRINDBERG, August, 317 —T— TAR CHER, Jeremy P., 151

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 213 TEÓCRITO DE QUIOS, 114 TEOPOMPO, 114 TERESA DE Á VILA, Sta., 37 TESTAS, Guy, 42 THOM AS, Gordon, 291 THOMPSON, E. P., 200; 311 TOLENTINO, Bruno, 24; 157 TOMÁS DE A QUI NO, Sto., 41; 44; 186; 190; 285 TORRES, João Camilo de Oliveira, 347 TRÓTSKI, Leon B ronstein, dito, 146 TROUSSON, Raymond, 328 TRUYOL Y SERRA, Antonio, 227 —U— UNAMUNO, Miguel de, 300 —V— VALLA, Lorenzo, 195 VEBER, Michel, 243 VEGA , Lope de, 299 VELOS O , Caetano, 122 VICO, Giambattista, 187; 188; 192; 196; 236 VIEIRA DE M ELLO, Már io, 139 VIETA ou Viète, François, 184 VIRGÍLIO, 193 VOEGELIN, Eric, 231; 269; 329; 330; 342 VOLTAIRE , François Marie Arouet, dito, 36 ; 44; 196; 348 —W— W AGNER, Yaakov, 294 W ASSERMANN, Jakob, 278 W ATTS, Allan 122 W EBER, Max, 150; 152; 192; 200; 253 W EIL, Éric, 75; 136; 294 W ELLINGTON, Duque de , 272 W ESLEY, John, 341 W HITEHEAD, Alfred North, 44 W ILSON, Colin, 317 W ILSO N, Edmund, 131 W ILSON, Woodrow, 275 W INDELBAND, Wilhelm, 236 W ITTGENSTEIN, Lu dwig, 45 —Y— YEATS, William Butler, 315 —Z— ZUÑIGA , Juan de, 175

“Um mestre.” HERBERTO SALES “Um gigante.” BRUNO TOLENTINO “Homem de reconhecida competência no campo da filosofia.” JORGE A MADO “Filósofo de grande erudição.” ROBERTO CAMPOS OLAVO DE CARVALHO, nascido em 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originai s e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferent es quanto Jorge Amado, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, He rberto Sales, Josué Montello e o expresidente da República José Sarney já expressaram su a admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho. A tônica de sua obra é a defesa da inte rioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escor ada numa ideologia “científica”. Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel en tre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um fo rmulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sól ido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas a ntigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carval ho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cu ltura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas língua s sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, nde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que s ubentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muit as questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Aristóteles em Nova Perspectiva — In trodução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes” ( “análise fascinante e — ouso dizer — definitiva”, segundo rma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Fe deral do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de c inema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento cu lmina em O Jardim das Aflições (1985), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de m oldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro d a cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte. É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a ampl itude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que intr oduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de pa lavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mu danças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à li nguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma pro fundidade surpreendente. A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmi ca, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos pr estígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multidão de leitores devotos, que e sgotaram em três semanas a primeira edição da obra. FOTO : ANA B RANCO (O GLOBO ).

216 OLAVO DE CARVALHO 5 4 10 12 33 48 Este livro foi composto pelo processo de editoração eletrônica. e impresso no Brasil. em tipos Gaillard BT. .

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 217 .

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