O JARDIM DAS AFLIÇÕES

4 OLAVO DE CARVALHO

OBRAS DE OLAVO DE CARVALHO 1. Universalidade e Abstração e Outros Estudos. São Paulo, Speculum, 1983 2. O Crime d a Madre Agnes ou: A Confusão entre Espiritualidade e Psiquismo. São Paulo, Speculum, 1983 3. Astros e Símbolos São Paulo, Nova Stella, 1983 4. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes”. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 5. Os Gêneros Literários: Seus F undamentos Metafísicos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 6. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio, Astroscientia Editora, 1993 7. A Nova Era e a Revolução Cultu ral: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994 (1a ed., fe vereiro; 2a ed., revista e aumentada, agosto). 8. Uma Filosofia Aristotélica da Cu ltura: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994. 9. O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio sobre o Materialismo e a Rel gião Civil. Rio, Diadorim, 1995. 10. O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais B rasileiras. Rio, Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, 1996 (1a ed., agosto; 2a ed., outubro; 3a ed., abril de 1997 ; 4a , maio de 199 7; 5a , janeiro de 1998; 6a , abril de 1998). 11. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, Topbooks, 1996. 12. O Futuro do Pensam ento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Rio, Faculdade da Cidade Editora (1a ed., agosto de 1997; 2a ed., março de 1998). 13. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer. Rio, Topb oks, 1997. 14. A Longa Marcha da Vaca para o Brejo & Os Filhos da PUC. O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

OLAVO DE CARVALHO O Jardim das Aflições DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O M ATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL PREFÁCIO DE BRUNO TOLENTINO Segunda Edição, Revista

6 OLAVO DE CARVALHO Copyright © 1998 by Olavo de Carvalho Capa e planejamento gráfico: Ateliê 19 Assessoria em Comunicação R. das Laranjeiras, 531 / 16 F. (021) 225.1806 Fax (021) 245.2920 Rio de Janeiro RJ CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Todos os direitos reservados pela TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTD A. R. Visconde de Inhaúma, 58, gr. 413 – CEP 20091-000 Rio de Janeiro – RJ – Tel.: (021) 233.87178

§ 16. Epicuro e Marx ............................................................. ............................. 75 PREFÁCIO, POR BRUNO TOLENTINO.................... .................................................9 § 17. Comentários à 11ª “Tese sobre Feu erbach”........................................ 77 § 18. A tradição materialista ....... ..................................................................... 82 O J ARDIM DAS AFLIÇÕES LIVRO I: PESSANHA............................................ ..................... 19 CAPÍTULO I: A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA.................................................. ...21 § 1. Introdução. O que Epicuro veio fazer aqui, ou: Biografia deste livro21 § 2. A s conferências do MASP ........................................................... ................ 28 § 3. Pessanha e o pensamento Ocidental........................ ................................ 31 LIVRO IV: OS BRAÇOS E A CRUZ..........................................89 CAPÍTULO VII: O MATERIALISMO ESPIRITUAL........................................... ..91 § 19. A divinização do espaço (I): Pobres bantos .................................. ...... 91 § 20. A divinização do espaço (II): O infinito de Nicolau de Cusa ........... 94 § 21. A divinização do tempo (I): A força dos meios.................................. 105 § 22. A divinização do tempo (II): Beaux draps.................................... .......114 CAPÍTULO VIII: A REVOLUÇÃO GNÓSTICA.......................................... ..........120 § 23. Revisão do itinerário percorrido ................................. ........................120 § 24. O véu do templo .................................. .....................................................121 § 25. Leviatã e Beemoth ... ................................................................................ 127 LIVRO II: EPICURO............................................................... ... 51 CAPÍTULO II: COSMOLOGIA DE EPICURO................................................ .........37 § 4. Uma profissão-de-fé epicurista. A matéria segundo Epicuro ............. . 37 § 5. Um piedoso subterfúgio.................................................... .......................... 39 § 6. A imaginação dos deuses. A eviternidade............ ................................... 41 § 7. Epicuro crítico de Demócrito.............. ...................................................... 42 CAPÍTULO III: ÉTICA DE EPI CURO.......................................................................44 § 8. O remédio de todos os males...................................................... ................ 44 § 9. A abolição da consciência...................................... ................................... 46 CAPÍTULO IV: LÓGICA DE EPICURO............... .....................................................52 § 10. A fumaça e o fogo..... ................................................................................ .. 52 § 11. O convite ao sono .................................................... .................................. 53 § 12. A Servidão Voluntária..................... ......................................................... 56 § 13. Dos cães de Pavlo v ao lava-rápido cerebral ....................................... 58 CAPÍTULO V: A ÍND OLE DO EPICURISMO.........................................................65 § 14. Porcarias epicúreas.............................................................. .................... 65 § 15. A fuga para o jardim................................ ................................................. 69 LIVRO V: CÆSAR REDIVIVUS................................................130 CAPÍTULO IX: A RELIGIÃO DO IMPÉRIO.................................................... .....131 § 26. De Hegel a Comte................................................... .................................131 § 27. Translatio imperii. Breve história da idéia imperial. ........................133 § 28. O Império contra-ataca ................ ..........................................................147 § 29. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) .......................149 § 30. Aristocracia e s acerdócio no Império americano (II) ......................159 § 31. De Wilhelm Meister a Raskolnikov......................................................162 § 32. As n ovas Tábuas da Lei, ou: O Estado bedel .....................................168 CA

...177 Post-scriptum........................................... 133 CAPÍTULO VI: A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO............................206 LIVRO III: MARX..................................................................... .............................PÍTULO X: NA BORDA DO MUNDO..................................................... ..... ..... LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR .......7 5 ........... .196 ÍNDICE ONOMÁSTICO .......... ........... Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições........................................................................................ .....194 BIBLIOGRAFIA .....................................176 § 33......................................... ..

enquanto O Imbecil não passa de uma c oletânea de notas de rodapé que não couberam no rodapé. Solicitando humildemente a parce la de audiência a que julga ter direito. Herberto Sales. O Imbecil Coleti vo. este livro não merece u do público a atenção que se concedeu generosamente a seu irmão menor. cumprida mal ou imprecisam ente. trará mais dano que benefício. Só repito o apelo a que o leitor não o leia de viés e saltado. No entanto é dos dois o melhor e o único que constitui propriamente um livro . que. quando o companheiro teve quatro em seis meses. O Jardim comparece limpo e correto. Roberto Campos. é es te. Vamireh Chacon. Vai para a segunda edição após dois anos. melho rado em detalhes de l nguagem e sem as gralhas i mais visíveis da primeira edição. meio e fim. Mas não aumentado: se há um livro em que o autor disse tudo o que nele queria dizer. Jo sué Montello. Leopoldo Serran e muitos outros. com começo. A OLAVO DE CARVALHO . mas pela ordem dos capítulos — e peço que entenda isto como receita médica. coisa unida e coesa.8 OLAVO DE CARVALHO NOTA DO AUTOR À SEGUNDA EDIÇÃO pesar dos elogios de Antonio Fernando Borges.

o argumento central deste aflitivo j ardim evolui à maneira de um crescendo para desafiadoramente elucidar-se apenas na s duas partes finais: “Os Braços da Cruz” e “Cæsar Redivivus” são a sístole e a diástole do c vo desta obra alarmante. e em pa rticular contra a espécie de Gabinete do Dr. fui encontrar n a lição de trevas deste livro. Obra eletrizante. Caligari em que se vai transformando entre nós a veneranda idéia de Universidade. Gianotti. tiver suado frio por semanas sob o peso das cen tenas de impenetráveis páginas que nosso mais reputado e menos aspeado filósofo atual. de seu sentido cuidado samente oculto. única justificativa à intrusão de um prefácio em obra tão límpida. .. Com efeito. como eu. paradoxalmente. O Jardim das Aflições.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 9 PREFÁCIO BRUNO TOLENTINO e quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual. segundo ele. mas onde começam meus inadiáveis problemas de brasileiro acuado há décadas pela futilidade d o ininteligível. pelo mundo-comoidéia. mas de uma clareza própria a desnudar como nun ca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver. de estirpe marxista . e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão. o autor extrai uma estonteante exposição de significações. Refratário à leitura t ransversal ou salteada a que às vezes incita. tem a vantagem de respeitar os dados do real. inclusi ve os pressupostos do saber acumulados pela tradição. Não estou desmerecendo do esforço d e ninguém.. dos dados de um problema aparentemente sem maior importância no plano das idéias (que importa. em vez de buscar substitui-los . viga mestra de todo esforço de verificação filosófica. insurge-se com toda a lucidez o vigor d este livro. Dr. ou sobretudo. Tanto mais se. Inclusive. A esse respeito. não tant o do autor. esse método de investigar o como e o porque do ser-nomundo. como a tampa que subitamente abandona a marmita. uma adv ertência apenas. rica e complexa. No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabarse é ainda. Quem quer que te nha lido de cabo a rabo este livro há de convir que vive um destes momentos privil egiados. mas de fácil leitura justamente por causa e não a despeito da formidável erudição em que se firma. Afortuna damente neste último. ferve a humanidade. o anestesiador de gerações uspianas. dedicou recentemente às investigações do surrado materialismo lingüístico de Wittgenstein. a quem de fato pense o mundo. de marca universitária e de cunho dogmático-materialista. Contra tudo isso. Sedimentado através dos séculos pela perspicácia de uma nobre linhagem . ). inevitavelmente sempre a idéia do mundo mais em voga a um certo momento. atual Papa pálido da enrubescedora tropa-de-choque investigada neste jardim de aflições. mas da tarefa que se propôs. perfeitam nte capaz de tudo dizer por si mesma. o sufoc ante mundinho dos cortesãos e doutores de mais uma trópica Bizâncio?). nunca a partir dos fatos segundo a intelligentzia. São raros esses momentos. não tanto aonde leva o labirinto lingüístico do vienense em sua versão paulistana (c’est assez que Quintilien l’ait dit. dados e fatos. ou mesmo de suas idéias. esD perava-me um convite a bem outro tipo de investigações: as que se ocupam de verifica r o real a partir da inteligência e dos fatos. achei-me no pólo oposto à perplexidade em que vivia durante a leitura que digo?! durante a suadíssima mineração que empreendi nas duras e obscuras galerias sublinguais daquele celebrado duo: o ascético autor do Tractatus (ou das Investigations?) e o ex-Papa Doc. Soube-o enfim graças à claridade que. numa visão inquietante do sentido universal da aventura da inteligência moderna. estou celebrando meu alívio de que a tampa da marmita se tenha afastado d e mim o bastante para deixar-me perceber. Assim. os três inseparáveis element os da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo. Que o leitor leve em conta o caráter.

acha-se logo em excelente companhia: no Ocidente a filosofia pós-helênica teve muito cedo entre seus cumes obras como as Confissões de Santo Agostinho. e em última análise tão aterrador quanto o estrilo de um desper tador à meia-noite. A pedanta ria engordaria bem mais tarde. como nos adverte uma nota do autor. que trabalho tão ímpar. proposição de seu ensaio pioneiro. para citar apenas um “compósito” que à primeira vista pouco tem de ost ensivamente filosófico. Sobre essa mass a crítica do acúmulo dos esforços retóricos seria então possível o exame dialético que. emanariam interpretações discordante s fortalecidas no confronto das vontades que as apoiam (Retórica). por detrás de suas cátedras como abutres encapuzados em toga s e títulos. como o entendem os “atuais” pupilos do Dr. com você. calca-se no entanto em mo delos bem mais antigos e prováveis. parta de impressões subjetivas para. . não há como tomar esta obra apenas como a hábil ampliação de um panfleto. Passamos a ver claramente o que por estas bandas nos vem tapando a mente e sufocando o espírito. por menos que assi m fazendo consiga caber nos moldes. Nada de estranhar. de um sujeito que não pode não pensar. no sentido agostiniano) vai-se definitivamente elaborar. Graças a sua inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual. de um conhecido e bem mancomunado establishment.10 OLAVO DE CARVALHO Só que. a presente identificação entre filosofia e adiposidad e de jargão é fenômeno tão moderno quanto os enlatados de supermercado. Só então tornar-se-ia factível estabelecer métodos e critérios propriamente científicos. num conjunto de investigações dialéticas. da esquematização objetiva que atribui a um conjunto de dado s sensíveis uma figura dotada de sentido (Poética). O leitor. ou Livros. invariavelmente alienígenas. assi m. através do combate retórico. O qual. tudo o que aqui vai tem a ver e urgentemente comigo. Há que lê-lo até seu eletrizante gran finale para perceber t odo o escopo deste livro singular. leitor. Segundo o Aristótele s de Olavo de Carvalho. Rio. só tem a perder suas ilusões a respeito da serie dade dos donos da hora. de imposturas orquestradas como filosofia e penduradas ao nada como amor as de mentirinha. O que certa gente quer e persegue com uma obstinação de cachorro magro. explica. o u seja. antes nos convida a examinar com ele o q ue investiga. o olhar que põe tudo isto a nu vem do olho agudo d e um filósofo nato. um tanto paradoxalmente à maneira d e um tutti orchestrale. Longe de constituírem um empecilho ao entendimento. Mas que o leitor não se apresse. ao acompanhar um filósofo de verdade em sua minuciosa e exaustiva investigação de um embuste. por exemplo. Ao contrário. Uma Filosofia Ar istotélica da Cultura (IAL & Stella Caymmi Editora. este livro não é resíduo de tese e doutoramento nem se propõe a enfeitar a carreira de mais um philosophe local cev ado na massuda monotonia dos gabinetes à la page. a de colher as questões ao nível retórico e elaborá-las em hipóteses formais para as entregar à busca de uma solução lógico-científica. É talvez o primeiro esforço de Olavo de Carvalho p ara pensar em público segundo sua Teoria dos Quatro Discursos. graças à coragem intelectual de um er udito que não se esconde atrás do que sabe. mo ntar as oposições que só na conclusão (naquelas duas últimas partes. E dá-lo com toda a clareza através de um assustador pomar de aflições. torna-se enfim possív el dar esse passeio para fora das brumas do obscurantismo idealista doublé de peda ntismo acadêmico. confr ntando e hierarquizando. expõe. A tarefa específica do filós ofo seria. com os que somos e continuamos a ser submetidos a uma contínua barragem de slogans e esoterismos a transpirar int enções nem lá tão ocultas assim. ficará perfeitamente claro ao longo do passeio em que nos guia a a gudeza da leitura que Olavo de Carvalho faz da história das idéias no Ocidente. o que andou e anda fazendo em nome da inteligência como desdentado s leões de circo. a gênese como a elaboração da obra aqui ajudam muito o l eitor: a mim pareceu-me muitíssimo estimulante progredir através da “multiplicidade de temas e planos que faz a trama compósita deste livro”. Claro. capazes de levar a questão a uma resolução maximamente exata (Lógica). portanto. Caligari. nisto ao menos. indicaria o sentido de uma solução racional (Dialética). à diferença de compêndios bem mais ao gosto do dia. 1994). ou seja. à primeira vista paralelo a os procedimentos sinfônicos de um Sibelius. Seu método de composição.

Sim.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 11 Misto de memórias e ensaio filosófico. ora lógica. e tantos outros espíritos livres da raça. de política e de meta física. Luís da Câmara Cascudo. Leitor multilingüe. por décadas entre o fuzil da Redentora e o realejo utopista de nossa inc urável e festiva intelligentzia. saudou e desnudou os belos fantasmas do platonismo. Seus Fund amentos Metafísicos. a exemplo de Machado de Assis. não se tenha dado um código senão para subme tê-lo às necessárias infrações do ato criador. como se vê. reafirmo. Murilo Mendes. de reportagem e panfleto. thank God! Resta que nada disto é aceitável. por natureza. incansável e metódico. Caio Prado Jr. mas nele pareceume reconhecer a rica tradição da hermenêutica simbólica. principiais. cátedras. mas antes recuaria a condições prévias. É que. I. O qual. a leitura deste livro (às antípodas do tijolaço com que acaba de brindar-nos o a cima citado mentor de uma filosofia tão nativa quanto uma agência de importações. muito mais merecido que aos diplomas. Mas talvez o autor. de um movimento tripartite oposiçãocomplementação-subordinação. insubm isso e fértil para muito além das meras conjunturas de nossa douta e crônica tropicali dade atávica. faz-se por isso mesmo apaixonante e como que compulsiva. honrarias. seja o etéreo campo minado do guénonismo. . ao nosso encruado marxismo universitário. Sua forma mentis foi evidentemente forjada a fogo. seu peso erudito. à maneira de todo poeta frente à própria poética. sem nada perder em densidade. à diferença do modelo hegeliano a dialétic a de Olavo de Carvalho não buscaria uma síntese temporal futura. subv en2 Reproduzida no volume A Dialética Simbólica. Ensaios. e não raro ambas as coisas. aportou a Schelling e a Husserl.. tal receita é própria antes ao recebimento de aspas aposto ao seu justíssimo títul o de filósofo. pelo que me pareceu perceber. (v. no corpo a corpo do autodidata sem alternativas num país ocupado pela legião dos ressentidos ou pelos batalhões de imbecis. Olavo de Carvalho. Os Gêneros Literários. para chegar de olho aberto a Kurt Gödel e a Éric Weil. Rio. Per strada ci rcunvolteou sabiamente seja o pot-pourri liliputiano dos hoje inúmeros e celebrado s philosophes. Aristóteles. ora cronologicamente. Mais uma surpresa num pensador inclassificável. Surpreendente é vê-lo sair da mesma pena que ainda recentemente nos dava uma rigidíssima teoria dos gêneros. estes dois gigantes modernos. Não se trataria aqui do conhecido modelo tese-antítese-síntese. e talvez por isso m esmo o tenha sabido inscrever no mármore candente da mais limpa tradição letrada do Oc idente 2. existente apenas como apostila didática no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades do 1 Instituto de Artes Liberais do Rio de Janeiro) ajudou-me a elu cidar algo mais o método deste pensador originalíssimo até mesmo na forma a que molda seu discurso. como ao tempo da formação intelectual do autor era cronicamente o nosso. passou reverente pela nata da sabedoria escolástica de Sto. Uma conferência sua semi-inédita (“A dialéti mbólica”.. sem pisar-lhes a uns e outr os seus explosivos ovos de cobra. mas sim. Capistrano de Abreu Manuel Bandeira. ou de substituição de importações) sua leitura. e por isso mesmo no meu ver indispensável hoje. e po r conta dos provados e clássicos valores que o forjaram e o sustêm. em curso de publicação pela Fac uldade da Cidade Editora. Tomás de Aquino a Leibni z. menos ainda familiar. partiu very advisely do seu e nos so Pai de Todos . Ou seja: nosso homem parece partir de uma antítese observada no campo dos fatos para hierarquizar os termos opostos e resolvê-los no princípio co mum de que emanam. João Cabral de Melo Neto. Miguel Reale. é sempre anterior àqueles termos. em caminho inverso. PhDs. Já não hesito mais: tenho o pensamento de 1 Olavo de Carvalho por paradoxalmente intemporal e atualíssimo. áspero e lúcido. acaba por não pesar. Como se tem v isto. Olavo de Carvalho (parece incrível naqueles te mpos de tanta seca!). a bem dizer. teve que aprender quase sozinho a imensidão do que hoje sabe. espécie entre nós. Mário Ferreir a dos Santos. ao quanto pude perceber. Até então eu não havia encontrado est e método aplicado à construção de uma sistemática propriamente filosófica. 1993). IAL & Stella Caymmi Editora.

Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria . porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade. “Harold Bloom contra-ataca”. Paulo. para ler e escrever sozinhos. 6 de agosto de 1995. mas não como pr ofessores universitários. ) . Folha de S.” ( Harold Bloom.E não é só no Brasil que a decadência das universidades acaba por revalorizar o autodida tismo: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. Façam qualquer outra coisa. garantam a sobrevivência do jeito que for.

e pensar! Quanto a mim. pendante. subserviência ou sim plesmente descaro.. se por um lado desencorajaram de munirse de títulos prestigiosos a quele que dentre nós hoje possui talvez o intelecto mais corajosamente individual entre seus pares. julho de 1995. Os tremeliques de Mademoiselle Rigueur. soa-me como o clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação.12 OLAVO DE CARVALHO ções e sabujices de nosso perigosíssimo establishment pensante. a de Olavo d e Carvalho é incompatível com o alinhamento compulsivo (e repulsivo) a que nos vêm aco stumando por aqui os donos de cátedras et caterva. anátema. dos hipnóticos hipnotizados? O suicídio em termos acadêmicos d e Olavo de Carvalho. que onde deixei um país encontrei trinta anos depois um acabrunhante acoplamento d e pedantaria e show business. É que. Olavo de Carvalh o volta a nos dizer em alto e bom som: basta de sestas à sombra da utopia e do mar asmo mental. suicídio. Que os mortos ent errem seus mortos: sai da frente. not least.. Mas a quem lhe importaria alongar a sobrevida na cidade do mortos. nosso retrato assustador. SP. tão ao gosto da fábrica de esterilidades diplomadas com sede à Rua Maria Antôni a. ajudado a balizar justamente o terreno minado da autocastração por timidez. ne ologismo de rigueur ante tantas pedânticas pendências e dependências das infindáveis lis tas de importações canonizadas.. ou antes. O Jardim das Aflições. Co esta sua rigorosa e instigante investigação de aflições mais um livro do campineiro for a dos eixos segundo os importadores das fórmulas da invenção da roda . Sem dúvida a circunstância dessa solidão defensiva e profilática o terá. dos zumbis. sua fulgurante crítica do binômio Epicuro-Marx é pura heresia. São Paulo. leitor. Rio. como toda verdadeira vocação filosófica. a alegre festa no velório acaba uma vez mais! com es te admirável livro. patenteado uma vez mais neste livro imperdoável. tão patentes em nosso incipientíssimo e prudentíssimo intellectual output.. acabou por avisá-lo sobre o que de fato valia o que perdeu. Nesse empolado contexto. . são mais que horas de acordar para cuspir.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL TOPBOOKS .

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M ERI ANGÉLICA HARAKAVA e S ANDRA TEIXEIRA resolveram mil e um pequeno s e grandes problemas que teriam adiado sine die a publicação deste livro. M ARIA ELIS A ORTENBLAD e PAULO VIEIRA DA COSTA LOPES me ajudaram. ROXANE ANDRADE DE S OUZA. DANTE AUGUSTO GALEF FI e seus alunos da Universidade Católica do Salvador devolveram-me a confiança nos jovens estudantes brasileiros de filosofia — leitores sem os quais este livro não fa ria sentido. dando-me apoio moral e muitas sugestões valiosas. LUIZ AFONSO FILHO. me incentivou sem descanso a que a completasse. JOSÉ ENRIQUE BARREIRO . um pouco a cada uma dessas pessoas. a quem li os rascunhos da obra.AGRADECIMENTOS M UITA GENTE me ajudou a realizar o projeto deste livro: BRUNO TOLENTINO. CLAUDETTE ALVES DUCATI e JÔ BRITO ouviram a leitura de mui tos capítulos. a superar encrencas da vida prática que sem sua generosa interferência teriam me absorvido por completo e talvez inutilizado o meu pobre cérebro por alguns anos. Esta obra pertence. OLAVO DE CARVAL HO . KÁTIA M EDEIROS. LUCIANE AMATO. de vários modos. por afeição e gratidão. numa épo ca em que tudo em minha vida me convidava a dispersar meus neurônios em trabalhos menores.

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de pensamento.” W ILLIAM BLAKE “.. . ou mesmo irracional. sangrenta futilidade. qui révèl e un goût lucide... 1995 ). co mment justifier leur raffinement.” 3 JOSEPH CONRAD “Car si désireux qu’on soit de trouver une cause naturelle à ces tragiques abérrations. de um tipo tão fátuo que era impossível calcular-lhe a origem por qualquer processo racional. Rio. Pois a irra cionalidade malévola tem os seus processos lógicos próprios. de superflu.. une lucide d éléctation?” GEORGES BERNANOS 3 Trad. erecting pillars in the deepest Hell to reach the heavenly arches. ce je ne sais quoi d’inutile.the War by Sea enormous & the War by Land astounding.“. Imago. Lætitia Cruz de Moraes Vasconcellos ( O Agente Secreto.

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LIVRO I .PESSANHA - .

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mas também alguns brasileiros. substancialmente uma investigação. tomando este livro como expressão de opiniões prontas. Fora uma perturbação da alma. querendo ou não. como há d e ver quem o leia até o fim. pois. não deve ir logo de entrada falando de si mesmo. já que o indivíduo não pensa e é sempr e. estará se enganando a si próprio. uma decepção. quando ele é. de uma cultura. uma tristeza desesper ançada. como um bom convidado à mesa. isso é absolutamente obrigatório: os acontecimentos que o sugeriram determinaram as condições em que foi escrito — as quais. A carência absoluta dessa habilitação po de chegar a ser mesmo uma conditio sine qua non para a aquisição de respeitabilidade em certos círculos universitários. fanática ou razoáve l. de uma raça . pode rejeitar de cara a formulação mesma da pergunta. surpreendo-me ao notar o quanto essa habilidade pode s er deficiente em intelectuais militantes afeitos a buscar numa idéia antes seu pod er de mobilização do que sua veracidade intrínseca. pior ainda. Daí a conveniência de garantias preliminares con tra um duplo equívoco possível: de um lado. sob o impacto da aversão que haviam despertado em mim as palavras de José Américo Motta Pessanha. sabendo ou não. p. investigação que. de um país. ao fundá-la numa impressão do momento —. Habituado por uma longa autodisciplina a suspender o juízo até encontrar uma evidência ou uma prova suficiente. and seem to prefer words to facts. a pressão coletiva e a intimi dação autoritária são meios não apenas legítimos mas preferenciais do debate intelectual. só então. um livro de filosofia. Digo en tão que o miolo destas páginas redigi numa só noite de maio de 1990. Isto projetará tal vez a imagem de um fanático. no ar.CAPÍTULO I. que aceitá-las ou rejeitá-las in limine é impedir-se 4 de entender aonde levam. e uma tese filosófica pouco significa se amputada das razões que a ela conduzem e das motivações ge radoras da pergunta a que responde. sem saber a que coisas e seres se refere na vida deste mundo . de expor a situação real e vivida de onde a pergunta emerge. indignada ou mansa. fazem parte do assunto. De pouco adiantará alegar que fui perfeitamente sincero. ao tomar posição pró ou contra logo nas primeir as páginas — ou. here and in other parts of South America. Macmillan. Mas não foi na da disto. uma agita5 South America: Observations and Impressions. o autor refere-se especificamente ao Brasil. e de que. London. a sinceridade individual não tem valor. ou: Biografia deste livro “It is strange to find that. de outro. onde vigora o pressuposto dogmático de que uma idéia ou doutrina qualq uer nada mais pode ser que a expressão do desejo de poder de uma classe. No caso deste liv ro. No trecho citado. para essa gente. Transgrido aqui as boas maneiras por necessidade in trínseca do assunto. a espumar de cólera ante a opinião adversária.” 4 JAMES BRYCE U M ESCRITOR EDUCADO. portanto. men of undo ubted talent are often beguiled by phrases. do meio para diante. 1912. principalmente norte-americanos. o leitor pode acolher ou repelir a tese em abstrato. A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA § 1. Mas contra o segundo dos males mencionados só cabe o recurso de contar os f atos. O que Pessanha suscitara em mim não fora uma discordância. sem tomar o cuidad o de seguir até o fim o fio dos argumentos onde se manifestará. dentro de certos limites. 417. toma de fato um rumo bem 5 diverso daquele que parecia anunciar no começo . Contra o primeiro desses equívocos. que o leitor. o seu verdadei ro sentido. Introdução. ouvid as algumas horas antes numa conferência sobre Epicuro no ciclo de Ética que a Secret aria Municipal de Cultura promovia no Museu de Arte de São Paulo. devo advertir que as opiniões expres sas no começo são apenas um começo. Co mpreendo perfeitamente que as pessoas intoxicadas por essa atmosfera enxerguem o u finjam enxergar um mero truque de retórica na minha afirmação de não ter partido de co nvicções prontas. apenas o boneco de ventríloquo de um interesse col . A necessidade a que me refiro provém do seguinte: este é. nesse sentido. — O que Epicuro veio fazer aqui. que não obstante consiste — posso garantir — em coisas cuja relevânci a transcende infinitamente a pessoa do autor.

etivo que salta sobre as intenções do coitado e diz pela sua boca o que bem entende. e permaneço. Deixo a essas criaturas a tarefa extremamente científica de desencavar das sombra s o secreto autor coletivo destas páginas. [Nota da 2a. edição]. na convicção nada acadêmica de havêlas escrito eu mesmo. malgrado tudo. .

mas somente produzidas por feiticeiros confessos. que só começarão a doer quando for tarde para curá-las — quando a lembrança de sua origem estiver demasiado apagada para que se possa iden tificar o rosto do agressor. que podem ser enfrentadas com palavras. de lucidez 6 “As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”. como uma neurose. não cessavam de brotar como reações de um organismo febril à invasão de uma toxina. impedi-lo de olhar o assunto de frente. eu me tornara o sintoma denunciador de uma neuros e coletiva. Não que nunca tivesse visto coisa igual. “Discordar”. Meras opiniões não produzem este efeito. produzindo feridas num estrato profundo que os meros argumento s não atingem. de técnicas psicológicas que. instaura novos r eflexos involuntários. de Programação Neuroli güística. ou então para u sos perniciosos e ilícitos. mas ali eu só encontrara pesares e aflições. Puro feitiço. diminuída. até que. que entrava pelos ouvidos da platéia. ela não pode ser desfeita pela pe rsuasão racional. era a sua densidade. Saltava da cama com a cabeça fervilhando. Não havia ali uma única brecha por onde pudesse se introduzir u ma discussão inteligente. por profissionais da dominação psíquica. exi gindo vir à tona. tentando adormecer. no recesso de seit as obscuras que não se adornavam do prestígio da autoridade acadêmica nem se abrigavam sob a proteção do Estado. ela salta por sobre a mente. Feridas insensíveis. O segundo exerce uma ação quase física. a alma da vítima se amoldasse às t revas como num leito fofo. movia o eixo dos globos oculares. numa deliqüescência mórbida. Vira muitas. juízo crítico. pelo jogo de imag ens que dava às lorotas mais óbvias um intenso colorido de realidade. próprio somente p ara o tratamento de doentes mentais inacessíveis à comunicação consciente. na trama de erros tecida por Pessanha. no melhor estilo Lair Ribeiro. Era isto. Em casa. produzia a acomodação progressiva a um estado de penumbra. fazendo ver tudo diferente do que era. mesmo com veemência fanática. reduzindo o cérebro humano a uma passividade veget al. remexe os órgãos dos sentidos. Querendo ou não. env enenava os cérebros. Um público de quinhentas pessoas subm etera-se à intoxicação com sonsa alegria. seria aí tão descabi do quanto tentar deter um assaltante à força de citações do Código Penal. contra minha vontade consciente de adormecer e esquecer. não conseguindo pegar no sono. num giro louco da tela do mundo. sugestionadas pela voz melíflua. Tudo o que a platéia não quisera ver parecia ter se condensado no meu subconsciente. debilitando suas inteligências para que nunca mais atinem com a idéia certa. uma droga. Companhia das Letras. move tendões e músculos. ao menos não proclamavam. O título prometia “delícias”6. sem crer no que a cabara de presenciar. estar lhe transmitindo cultura. autoconsciên cia. O primeiro move-se no reino das palavras. via em alucinações as poltronas d o MASP lotadas de zumbis sem olhos. O grumo compac to de absurdidades exalava uma radiação debilitante sobre as inteligências. fixá-lo num estado de apatetada pass ividade ante o fluxo de sugestões. tivesse deixado o recinto das clínicas psiquiátricas e das .22 OLAVO DE CARVALHO ção soturna carregada de maus presságios. 1991. perdida toda vontade de enxergar. como crianças a seguir m um novo flautista de Hamelin. hipnotizá-lo e arrastá-lo delicadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se cu varia com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso. Mais tarde foi publicada no volume coletivo Ética. Saí dali enjoado como um autêntico careta sai de uma festinha de emb alo. O Jardim de Epicuro parec ia-se estranhamente com o Jardim das Oliveiras . O que me espantava era que esse gênero de manipulação. um vício. Eu saíra dali em estado de estupor. São Paulo. ela se esquiva ao olhar humano e vai exercer seu domínio dire tamente sobre o macaco residual que habita em nós. com isto. varei a madrugada anotando objeções e protestos que . Há uma grande diferença entre o doutrinador que mete simplesme nte na cabeça das pessoas uma idéia errada e o feiticeiro que as adoece. Cada palavra parecia calculada para desviar a atenção do ouv inte. precisamente: as frases de Pessanha eram um entorpecente. Não sei se me faço compreender. Vira-as também em demonstrações de hipnose. Cheguei em casa pela meia-noite e. A ação do feiticeir passa ao largo da consciência. O que mais me impressionava. aspirando o adocicado perfume do esquecimento.

mas nunca imaginara que a coisa pud esse baixar a esse ponto. Eu estava consciente. doloridamente consciente do declínio intelectual b rasileiro.seitas ocultistas. para ser empregado por acadêmicos como um sucedâneo da transmissão de idéias. da debacle do ensino universitário. Su- .

senão para melhor atingir o alv o particular. Mas . Co mo sempre acontece em tais situações. mas absolutamente nada. Alcançada esta meta. É verdade que tout commence en . A campanha da “Ética”. tinham sido realmente os únicos objetivos da campanha. Nada. foi estreitando cada vez mais seus objetivos. tecendo ao conferencista os maiores elogios. me dei conta do papel que tivera aquele ciclo de conf erências n preparação discreta de acontecimentos que depois iriam a avolumar-se e desa bar sobre o país como uma tempestade. o público era convidado a mergulhar num abismo de inconsciência. mas se mostravam incapaz es de dar qualquer noção clara do que ele dissera. No fundo. estreito e raso que lhe interessava. onde. Imaginei apenas que fosse um sujeito abstruso. Foi só em fins de 1992 que. Apaziguei minhas inquietações explicando essa reação como esn obismo do público. cogitando as razões da súbita e inusitada popularidade adquirida pela palavra “ética”. envolta num halo de prestígio místico. quase inaudível. interminado e tosco. esclarecedor. que não c omeçara propondo metas tão gerais. o chão se abrira: pelas mãos de Pessanh . segundo o qual a essência de uma coisa é aquilo em que ela enfim se torna. A alguns objetei que o m esmo acontecia aos ouvintes de Hitler. Imprevistos e correria s de uma vida anormalmente repleta deles impediram-me o retorno a este trabalho. que ficou jazendo. ao fio dos argumentos de Pessanha. era o que eu quer ia. e me acompanhou em uma mudança de cidade e cinco mudanças de casa. até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do Sr. Collor de Mello. esqueci Pessanha. examino a filosofia — ou seja lá o que for — de Epicuro. Fernando Col lor de Mello da Presidência da República. me fazia antever o que encontr ei no MASP. amplas e profundas. de modo a curar-me dela para sempre. na maçaroca de papéis que trouxera de São Paulo comprimida em cinqüenta e tantas caixa s. a quem a platéia ind enizava com tanto mais fartura de aplausos fúteis quanto maior a quota de compreen são que lhe sonegava. sem suspeitar que ela pudesse fornecer algum indício quanto ao ca ráter do orador. com o convite para uma réplica. a campanha festejou o e vento como se ele tivesse dado plena satisfação aos seus anseios. li o manuscrito para uma roda de amigos e o guardei. Mas conhecia sua fama e havia notado nela um traço p eculiar: seus ouvintes saíam f ascinados. Não consegui conciliar o sono. que começa ra como um amplo movimento de conscientização moral. assumi qu e era um sintoma vivo e me encaminhei ao divã mais próximo — a máquina de escrever — para verbalizar os conteúdos neuróticos que a magia de Pessanha injetara em meu cérebro. consolava-me com aquelas palavras que as avós sempre dizem quando a gente d espenca da bicicleta: “Do chão não passa. Na noite seguinte. ache i então que a destruição política do Sr. Tive então um impulso de retomar este trabalho. verbalizá-los foi o bastante para exorcizá-los. o curso dos eventos polític os tomou um rumo imprevisto e. na treva sem fim de um definitivo adeus à inteligência. Após cinco tentativas falhadas. da campanha pela “Ética na Política”. como se as mais pr ofundas exigências morais da nação tivessem sido cabalmente saciadas mediante a simple s dispensa daquele infausto mandatário. Esse exorcismo constitui duas quintas partes do presente livro. Eu nunca tinha visto José Américo Motta Pessanha. int raduzível em palavras. para mim. se lhe interessasse.” De súbito. não pude encontrar o manuscrito.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 23 punha que a redução do pensamento à tagarelice ideológica fosse o limite inferior da dec adência. empenhado em desarraigar da nos sa mentalidade política alguns vícios seculares. Guardavam uma impressão difusa. e a conseqüente ascensão das esque rdas à posição dominante. Larguei Epicuro. antes da publicação em livro. Ele fora um sinal de largada. mas em resposta recebi aquele sorriso de condescendência desdenhosa com que o detentor de um segredo beatífico marca a distânci a que o separa do profano. no fundo de uma gaveta. de sfazer o macabro encantamento. Nos meses seguintes. recuperar o senso do real momentaneamente entorpe cido pelas artes de um feiticeiro. Ocupações variadas desviaram-me para outros assuntos. tenciona ndo dar-lhe mais tarde uma forma final e remetê-lo a Pessanha. Meditando os eventos à luz do preceito de He gel.

Mais tarde. No exército da moralidade pública. que par eceu escapar totalmente aos melhores observadores. com festiva credulidade. que trouxe ao Brasil muito mais prejuízo do que o ex-presidente e todos os “anões do Congresso” somados. não me sati sfazia. decorrido tanto tempo. que procure mesmo discretamente abafar denúncias. é a unanimidade d a sua adesão a esse objetivo. sem ex ceções visíveis. os esquerdistas buscavam uma compensação por duas décadas de humilhações. Só para dar um exemplo. Governantes muito mais poderosos que o Sr. O estranho era que a inaudita mobilização da c lasse intelectual não desse à campanha nem mesmo um arremedo de rigor. nela. Não há neste país um só jornal. por vontade própria. a “ética” que se reivindicava assumiu de vez sua verdadeira natureza de mero impulso de vingança 7 política voltado contra alvos descaradamente seletivos . é realmente um daqueles casos em que o excesso de chumbo só faz ressa ltar pateticamente a míngua de passarinhos. diante de um fenômeno estranho. destapam os ralos. Porém o mais admirável. parecia escapar inteiramente àqueles mesmos que o protagonizavam8. tem a imprensa mais ousada. E — conjeturei então — talvez fosse possível encontrar. Aparentemente. Mas a explicação. como se a destruição de seus desa fetos políticos valesse a abdicação de toda inteligência crítica.24 OLAVO DE CARVALHO mystique et finit en politique. Todos. Não era possível que. parece que o Brasil. apela a todas as forças intelectuais da civilização. em princípio. como o senador Ja rbas Passarinho. quando comparados à persistente in diferença ante o escândalo das “polonetas” (empréstimos irregulares ao governo comunista d a Polônia). Documentei o bastante a esquisitice ambiente em O Imbecil Coletivo para poder me dispensar de enumerar novamente aqui os sinais da patologia mental que então acom eteu a inteligência brasileira. os âncoras de TV tinham se tornado g uias e orientadores da intelectualidade mais pomposa e autoritária. mais empen hada em descobrir e revelar a verdade. por um só espírito. vasculham os esgotos da República. foi este que na segunda fase da campanha — a guerra contra João Alves & Cia. Estávamos. mais independente. A revanche era tardia demais. mas o espantoso. um aspecto estranho. que se deixava guiar ao som de slogans. cuja singularidad e. por um só c itério de valores. estão alinhados no ataque frontal à corrupção. Collor. quando a campanha voltou à carga. de seriedade. para atirar ao limb o as exigências mais comezinhas do amor à verdade. acobertar suspeitos. mas todos os órgãos de comunicação. não há defecções. na esqui8 A onda de ira nacional contra Collor e depois contra os deputados envolvidos em desvios de verbas são casos ainda mais estranhos. Tudo isso é muito normal em política. e nfim. de sta vez contra deputados e empreiteiras. onde cada facção procur a sempre se arrogar o monopólio do bem. que verberam em uníssono. de autoconsciência moral. estação de rádio ou canal de TV e se exima da obrigação de informar. os inimigos já estavam quase todos mortos ou esquecidos. embora parcialmente verdadeira. de ser exigentes consigo mesmos. em troca de resultados políticos de valor duvidoso. Foi a uniformidade do . e os militantes da moral não relutavam em recru7 tar para suas tropas notórios servidores dos governos militares. enfim. que a farsa de uma ética reduzida a grosseiras expressões d e ressentimento parecesse contentar a todos os cérebros incumbidos. no entanto. Amigos com quem comentei o caso explicavam-no pelo revanchismo: como macacos a espancarem a onça morta. Uma campanha de escala nacional que se apoia numa retaguarda filosófica. com afinação de um coro multitudinário regido por uma só vontade. era a desproporção entre a quantidade de mystique que se mobilizara e a mesquinhez do seu resultado políti co. perseguindo os rem anescentes de uma ditadura que não tinham conseguido vencer e que só se desfizera. no episódio. — anotei num artigo que escrevi para a revista Imprensa: “Pelo furor investigativo com que os jornais e a TV abrem as la trinas. e mesmo Estados e regimes inteiros. o desejo de vingança ain da tivesse força bastante para obnubilar todas as inteligências. tinham sido derrubados com muit o menos investimento intelectual. convoca as luzes dos sábios do passado e se dá todos os ares de uma revolução cultural. só para eliminar um adversário político ou m eia dúzia deles. proteger reputações. dentre todos os países.

e ntre os temas dominantes do seu discurso. Um fenômeno tanto mais estranho quanto é recente a introdução da palavra “ética” no vocabulário popular brasileiro e rapidamente improvisada .noticiário que permitiu fixar na retina do público a imagem de um Brasil dividido em justos e pecadores. de ideologias. mocinhos e bandidos. Mas. num sombrio me neio de cobra. essa unanimidade não pode de ixar de parecer um tanto suspeita. tramando golpes. sem quaisquer ambigüidades ou meios-tons . a quem fez seu aprendizado no jornalismo ouvindo dizer que impre nsa é diversidade. aquela esgueirandose pelos corredores. Nunca. com êxito fulminante. ao mesmo tempo. apagando pistas. movidos pela necessidade de unir-se em defesa de bens mais palpáveis contra perigos mais imediatos e letais. a glorificação da imprensa livre que os investiga e desmascara. lograram homogeneizar a tal ponto o discurso dos seus jornalistas. Esse unanimismo não teria poder sobre as consciências se não incluísse. Anormal historicamente. a celebração de si mesmo: a condenação dos polít icos corruptos é. em qualqu er lugar ou época. sua promoção ao status de ideal unificador de todo um . d interesses. se viu um caso como este. a de Caim e a de Abel. terminando por neutralizá-las e por não deixar à mostra se não duas facções. Ninguém hesita em ver nesse fenômeno o começo de uma nova era: levado pela mão da imprensa. Nem países em guerra. ela é. de uma nação em peso abdicar de suas dive rgências internas para formar frente única sob uma bandeira tão vaga e abstrata quanto a “ética”. e não raro explicitamente. esta vociferando sua indignação nas praças. O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno ímpar na história da imprensa mundial. o Brasil atinge o portal da maturidade democrática. que democracia é pluralismo de opiniões. Imagem na qual a linha demarcatória da “ética” se sobrepôs mesmo às divisões de partidos.

acrescentei os livros finais e este começo. além mesmo do in egável deleite psicológico que um autor pode tirar da ostentação erudita. era preciso um sobre-esforço de compactação. Não creio que isto se pudesse fazer senão tudo de uma vez. Diante dessa expectativa. as sementes de outros tantos livros possíveis. misto de memórias e ensaio filosófico. além do benefício peda gógico de abrirem para o leitor um leque de estudos complementares. as linhas de investigação que tiveram de ser abandonadas para que o livro pudesse c hegar a um ponto final. Hoje surpreendo-me de ter podido escrever tan to numa só noite. começa com o espanto. não pude mais adiar a retomada deste trabalho. Tão vasta e ra a área das implicações. a unidade de um a intuição simultânea 9. que arriscaria perder de vista a forma do seu conjunto quem se aventurasse a percorrê-la aos poucos. a falta da capacidade de espantarse é um grave sintoma de apatia mental na nossa intelligentzia. Algumas correções foram bem minuciosas. maio de 1994. elas nos dão algo ainda melhor. pensando bem. com muitas idas e vindas entre a superfície da políti ca atual e as camadas mais profundas de uma antigüidade quase esquecida. É também esta multiplicidade de temas e planos que explica a trama compósita deste liv ro. A notícia da morte de José Américo Motta Pessanha. não alterou em nada minha disposição de publicar este livro. em Imprensa. l ocalizei o manuscrito e fiz-lhe os acréscimos que àquela altura me pareciam necessário s. na parte que a ele mais de perto se refe9 povo. por ora. daqui de onde fala ao distinto público. um princípio de explicação para aquilo que eu vira no M ASP. O mesmo autor deste. sem que ninguém se lembrasse de objetar que a rapidez com que se propagam as palavras está às vezes na razão inversa da profundidade de penetração das idéias. não poderia ter sido de outra forma. como diz Aristóteles. Muit as e longas. ocorrida no início de 1993. Além da sua função m l de testemunharem o justo reconhecimento de um escritor para com seus fornecedo res de material. reportagem e panfleto. — Se o conhecim ento. que espremesse numa área limitada e visível a multidão variada de fantasmas evanescentes. Elas repres entam. política e metafísica. cort ado de excrescências. Notas de rodapé são uma das mais amáveis invenções humanas. agora com o empenho investigativo de um “araponga” do PT. de intenções veladas. só pôde escrever este. por sua vez. Acrescentei também muitas. Mas. Para fazer face à i nfluência difusa e embriagante que as palavras de Pessanha espalhavam no ar como u m spray. não se poderia elucidá-la sem ampliar formidav elmente o círculo das investigações. aumentado de esclarecimentos indispensáveis e melhorado — espero — nos detalhes da expressão. Sua presença nas notas mani festa a confissão de que este não é o único nem o melhor dos livros possíveis sobre o seu assunto. dentro do corpo de um livro. . mais que contestá-la. mostrar toda a cosmovisão que ela trazia de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras. Mas esc rever. Jamais uma palavra-de-ordem emanada de um estreito círculo de intelectuais a tivistas logrou alastrar-se com tal velocidade pela extensão de um continente. alguns metros por dia. além de todas es sas coisas apreciáveis e reconfortantes. reproduzido em O Imbecil Coletivo ). Nada alterei nele em substância. Revi rando de novo meus papéis. num lance súbito de espadachim ou de pintor zen. mas da qu al só tomei conhecimento muito depois. na multiplicidade dos temas e dos planos de abordagem. além da aparência verdadeira ou fals a de probidade científica de que revestem o conteúdo de um livro. já pronto.” ( “Unanimidade sus ta”. muitas notas de rodapé. Como esta cosmovisão. mas deixaram inalt erado o sentido do conjunto. convocava reforços de eras pretéritas par a dar apoio a uma política do presente. Apenas mudei um pouco a ordem.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 25 sitice geral do ambiente pátrio. era preciso desvendá-la. Toda a parte inicial — do § 2 ao § 17 — é o texto de 1990. de mensagens camufladas para uso dos happy few. para c onservar. que. além da economia que nos facultam ao abreviar um argumento median te saltos que a indicação de um mero título preenche. pode agora mesmo vislumbrar em pensamento outros tantos melhores. A fala de Pessanha era tão cheia de subentendidos. Abandonadas mas não desprezadas.

não há o que não caiba na minha definição de “ensaio”. Seus Fundamentos Metafísicos. foi justamente para poder. . E. IAL & Stella Caymmi Editora. 1993 ). Os Gêneros Literários. religião comparada e sei lá quê mais — coisa em suma incatalo gável. que não se esperaria ver assinada pelo mesmo autor de uma rigidíssima teoria do s gêneros ( v. se fixei com tal apuro as distinções e ntre os gêneros. R io. Olavo de Carvalho. na verdade.esoterismo e fait divers. melhor misturá-l os. Mas. em caso de necessidade.

Faço-o com resignada boa vontade. por ignorar tudo a respeito. Faço-o por uma obrigação interior. o deste livro é às vezes de uma franqueza que destoa. Algumas expressões mais fortes. A objeção não seria d todo despropositada. numa programação que reproduzia resumidamente o ci clo de Ética do M ASP . Só falta. quem não tenha podi do fazê-lo em vida dele. — Em 26 de setembro de 1994. que incluiu comemorações — pagas com dinheiro público — do bicentenário do marquês d ade. para defesa e esclarecimento dos vivos.26 OLAVO DE CARVALHO re. emitidos c om a inocência de uma equivocada busca da verdade. de revelar o mal para que pereça exposto à luz. lúcido e inform ado. com o título mudado para “Arte de Viver”. amputado da escuridão que o alime ntava e protegia. livro que condensa todo o drama das idéias do século XX. Alguns leitores talve z digam que dei uma importância desmesurada a um acontecimento superficial e passa geiro: a refutação de uma simples conferência não requer todo um livro. de refutar argumentos errôneos. espero que me sejam perdoadas como naturais desabafos de um homem que tem de falar sobre o que preferiria esquecer. de confrontar na s erenidade de uma comum devoção à ciência várias imagens da realidade. A terceira é que aquilo que possa ter havido de maligno na influência de Pessanha sobre o público não veio dele enquanto indivíduo. não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em . grupo este que continua vivo e passa bem 10. para simbolizar o cúmulo da insignificância. foi tran smitida pela TV Educativa do Rio. Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da História. de desenterrar velhas mentiras esquecidas. a altercação de d ois velhinhos num asilo. mas não consigo esconder a repugnân cia que sinto ao lidar com esse gênero de materiais. Não se trata. como em psicanálise. Trata-se. Crébillon e similares. de desocultar intenções que chegam a ter al go de sinis10 Pouco depois dos acontecimentos narrados nesta “Introdução”. com u m ciclo denominado Artepensamento. Essas condições é que são o tema do livro. não são imagens da realidade: são poções mágicas. em furtiva incursão. o mesmo grupo realizou o congresso Libertinos/Libe rtários. reconheço. ele atacou novamente. num esgueirar soturno. Não faço este trabalho com prazer. Mas não se trata aqui de discutir idéias. apesar da ve emência com que contesto aqui as idéias de Pessanha. tro. o veneno epicúreo pode agora se r distribuído em massa. para encontrar a mel hor. Sustentam essa minha decisão três razões. num giro por dois milênios de histór ia das idéias. e não por simples ocasião e sinal para mostrar. de que se servem para enfeitiçar o público e colocá-lo a serviço de fins com que. Conservado e industrializado pela técnica. A primeira é que. sob a direção do mesmíssimo Adauto Novaes que organizou o evento de 1990. As idéias. mas enquanto me mbro atuante de um grupo. quand o nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm. escondeu entre r estos de cadáveres. nem exime d o dever de contestá-las. como o testemunha o atraso deste livro em relação aos fato s que o motivam. Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mági ca de Thomas Mann. Eis como a morte do pensador dá mais força de difusão às idéias que ele defendeu em vida. A segunda é que a morte de um filósofo não torna verdadeiras as idéias falsas que tenha defendido. portanto. ne m poderia fazê-lo se quisesse. Quanto ao tom. pelo menos na media luz da hipocrisia que se tornou o padrão oficial da ling uagem educada nacional. da qual fugi o quanto pude. — Em junho de 1995. mediante a exibição dos chumaços de cabelos e dos r etalhos de roupas da vítima. a palestra de Pessanha sobre Epicuro. e das quais ela extrai toda a significação que possa ter para além das miudezas políticas que const ituem sua motivação imediata. como dir ia Paulo Francis. que o feiticeiro. em debates letr ados. nada digo contra sua pessoa. para certas pessoas. ele não se prestaria a colaborar de maneira alguma. editar em papel-bíblia as obras completas de Julius Streicher. gravada em vídeo. que emprego no texto. desde o fundo dos séculos. o círculo inteiro das condições remotas que a possibilitaram. E um feitiço não se discute n o plano teórico: um feitiço desfaz-se. Um escritor cujo nome não me ocorre sugeriu. se este livro tomasse a conferência de Pessanha por seu obje to. e muitas palavras de louvor a Laclos. desde 1990. enobrecido e como que santificado pela morte de seu revend edor local.

na perife ria da História. No fim deste livro o leitor verá como o personagem dos primeiros parágrafos terá se tornado pequeno — o eco débil e longínquo que repete às tontas. Como se vê pelo exemplo dessas belicosidades g eriátricas.Davos.. a cantiga milenar do engano. aquilo que pouco significa por si mesmo pode significar muito pelas ca usas que revela. no fim os velhinhos fazem as pa zes. E Perez de Ayala fez dos bate-bocas entre dois velhinhos de miolo mole — Be larmino y Apolonio — o resumo da universal altercação. .. ao reencontrar-se num asilo.

como o leitor verá sobretudo n as últimas páginas. mas desconheço outro que possa nos colocar n a pista da verdade.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 27 De outro lado. nada se parece mais a um adorno exterior. Também declaro peremptoriamente que não tenho a menor ilusão de influencia r no que quer que seja o curso das coisas. a outras estrangulando no berço ou esmag andoas a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem. mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso. escondidinho e letal sob as flores. que vai para onde bem entende e jamai s me consulta (no que aliás faz muito bem). mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. é a mais baixa faculdade da intel igência. o hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas conseqüências práticas que as idéias filosóficas. Meu propósito não é mudar o rumo da História. e na ordem de publicação dos meus escritos preferi começar de baixo. sujeito pacífico e tolerante até o limite da paspalhi ce. supondo-se que a desejemos.” Ademais. Mas. Fritjof Capra e Antônio Gramsci e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. E se aqui submeto idéias alheias a esse tratamento impiedoso. não levem ninguém a conclusões precipitadas 11 12 As anteriores foram A Nova Era e a Revolução Cultural. enquanto as idéias amadurecem e se revestem de uma forma verbal melhor12. e sobretudo o fato de ser esta já a minha terceira obra de combate11. não as compreenderiam. este livro não se limita a desfazer um ou vários erros. contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos. se ouviss em. “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação. segundo dizia John Stuart Mill. Ainda um pedido. lev ando muitas delas à morte por definhamento. sob a forma de apostilas de meus cursos pr ivados. Ora. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação. que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado. ginástica sueca e chibatadas. Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Oci dente moderno. positivamente. Quanto às minhas. Posso provar isto. da ruidosa atualidade. locais e momentâneos. . sobre o temperamento do autor. mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no resta nte do livro. Meus alunos podem atestar que a polêmica está longe de constituir o centro dos meus interesses. Para liquidar de vez com a objeção. mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais. trato-as a pão e água. Não e screvi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis. é porque algumas delas já foram minhas — e. No entender do superficialismo brasilei ro. sucedâneos do afeto humano. É que a crítica. que deram ocasião e pretexto ao se u aparecimento. do que uma conferência sobre o Jardim de Epicu ro no estilo floreado de Motta Pessanha. por olhos doidos ou sãos. e deix ando-as mostrar-se apenas. permito-me citar o único autor do qu al posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu. Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho . que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico. podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que. por agora. a um inócu o passatempo botânico de nefelibatas. Não posso r ecomendar esse regime às almas sensíveis. Que o tom deste livro. e não pela importânci a muita ou pouca dos fatos. e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo. reservando as partes mais altas e serenas para melhor ocasião. mas aponta. o que vi estava lá. a direção onde devem ser buscadas as verdades que eles renegam e rene gando encobrem. como disse Goe the. Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso.

de divulgar essa parte mais interior do meu traba lho — com a publicação do livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. 1996 ).Minha única iniciativa. O episódio está documentado em Aristóteles em Nova Persp ectiva ( Rio. . Introdução à Teoria do Quatro Discursos ( Rio. até agora. 1994 ) — deu mais encrenca do que toda s os meus escritos de polêmica. Topbooks. IAL/Stella Caymmi.

lançar luz sobre a questão da falta de ética no país e p opularizar o debate a respeito. i solada. Sócrates ia pelas praças cobrando os direitos da consciência. pela ética da vida intelectual q uando tem. Quem fale aos leigos sobre um assunto da sua especialidade está implicitamente obrigado. Para este. designa os ideólogos da Revolução Francesa. pois a diferença está num plano acima do que o público enxerga. É também um preceito elementar do método científico não apresentar uma teoria nova sem provar primeiro que as anteriores não bastam para explicar os fenômenos de que trata. Em todo debate científico ou filosófico. Não é de hoje que a filosofia assume o encar go de guiar o mundo. um philosophe busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daquele s a quem segue. não havendo nenhum à mão. ergueu-se finalmente a voz da filosofia para clarear as idéias do povo e indicar à nação o caminho do bem. . ou. porque toda divergência diverge de alguma coisa e só no confro nto com ela adquire sentido. No caso brasileiro. a i ncumbência de figurar no papel de consciência filosófica nacional foi atribuída ao grupo de professores universitários que orbita em torno de Marilena Chauí. nas horas de escândalo e r uína. como por exemplo a de que na lógica de Aristóteles “o acidente é um tipo de propriedade” mais ou menos o equivalente a dizer que na geometria de Eucli des o quadrado é um tipo de círculo. das teses consensualmen te admitidas e das que continuam em litígio. já não consegue se guiar p or si mesmo. Se porém o especialista. pôde fazer para r econduzir aos bons caminhos da ética uma nação perdida. um sumário do es tado da questão no consenso dos estudiosos. as nações nomeiam filósofos honorários. autora de um premiado Convite à Filosofia. que. Opiniões próprias. mesmo que dele divirjam e sobre tudo quando divergem. a oferecer-lhes. o homem investido de autoridade acadêmica apresenta sua opinião solta. assim representada. desorientado e perplexo. Vejamos o que a consciência filosófica nacional. abrindo-o para um público de quinhentos e tantos l eigos. Discursando do alto de um caixote de beterrabas.28 OLAVO DE CARVALHO § 2. Foi assim que surgiu o termo philosophes. que. o público leigo fatalmente a tomará como se fosse ela mesma a expressão desse cons enso. biônicos. Tão necessários são os filósofos nessas horas. e dará às palavras de um só indivíduo — ou do grupo que ele representa — o valor e o p eso de uma verdade universalmente admitida pelos homens cultos. como fundamento primeiro da argumentação. Benedetto Croce dizia que só se compreende um filósofo quando se sabe “contra quem ele se levantou polemicamente”. Fichte. A seleção dos temas e o conteúdo das conferências terminaram por desmentir os doi s primeiros objetivos e anular o terceiro. Leibniz. aviltada pelos abuso s da retórica. do alto de um caixote de beterrabas. A diferença é simples: um filósofo busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores. Desse preceito. titular da Sec retaria Municipal de Cultura. quando ele. a compreensão de uma nova tese depende do conhecimento do estado da questão. chocado com a guerra entre cristãos. organizadora do ciclo de Ética do MASP e. Voltaire é filósofo tanto quanto Leibniz ou Aristóteles. novas ou divergentes qu e o orador acaso tenha a apresentar só poderão ser compreendidas e discutidas com pr oveito se forem vistas no quadro desse consenso. clamava pela união das ig rejas. sem os nexos que a ligam positivamente ou negativamente ao consenso e à tr adição. em terminologia mais moderna. convocava os alemães à defesa da honra nacional pisoteada pelo invasor. As conferências do MASP Na gritaria geral contra a falta de ética. Status quæstionis — termo da retórica antiga — é o retrospecto das discussões até o presente. onde são servidas aos convidados al gumas lições preciosas. grifado ou entre aspas. É da tradição os filósofo bandonarem o silêncio da meditação para ir discursar às gentes. O intuito declarado dos organizadores do curso era triplo: dar um esboço cronológico das principais doutrinas éticas. o professor. É um meio de evitar a proliferação de teorias inúteis. ambos podem faz er igual efeito. com a riteriosa discriminação dos tópicos abrangidos e por abranger. last not l east.

mas não tem o direito de posar em lugar dele perante um público que o desconhece. Mas a versão que o ciclo apresentou da hi stória das idéias éticas é bem diferente daquela a que o público teria acesso caso se diri gisse a qualquer das histórias da filosofia que circulam em formato de livro. com seus quase mil anos de História. por insignificante e banal que seja. Por exemplo. alterand o a hierarquia dos fatos e as proporções dos valores.. Uma história da é a grega que eleve Epicuro ao primeiro plano em lugar de Platão e Aristóteles não tem c omo evitar. o pen samento ético grego ficou ali reduzido ao filete escasso e marginal do epicurismo e a um vago e misterioso “sentimento” coletivo escoado entre os versos de Sófocles. Nunca deve ser exibida so zinha. a que m assim proceda. Como num duelo. na ética popula r. por sua vez. numa só conferência. ou pelo menos sobre quinhentas cabeças. Nem uma palavra sobre Platão. quando apresentada a um público leigo. Mas cometer extravagâncias com o ar i nocente de quem procede segundo a praxe mais rotineira é aquilo que. Ésqu ilo e Eurípides. e a da convidada francesa. Quem assim a empregu e estará se aproveitando da ignorância alheia para fazer-se de autoridade. em sentido corrente. Seu período de atuação mais intensa. Instaurada oficialmente em 1229. mas alguma coisa menor do que um filósofo. E nada mais confortável para um cara-de-pau do qu e poder contar com a sonsa aprovação de uma platéia novata. digamos — que tem todo o direito de ser defendida contr a o consenso. O tema ali encarregado de figur ar como amostra suprema do pensamento medieval foi. que a revestiu da ima13 . creio eu. Apenas se pede. não é propriam ente um filósofo menor. no consenso quase universal.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 29 que é válido também em filosofia. Não deveria ser preciso fazer tais recomendações a pessoas tão cheias de consciência ética que. o cabotinismo elevado a princípio historiográfi co foi cair num descalabro ainda pior ao tratar da filosofia medieval: espremeua toda. admite muitas outras interpretações éticas que não somente aquelas destacadas p or Nicole Loraux (que seria. Aí. e não estas contra aquelas. com seletividade feroz. sobre os se ntimentos éticos na tragédia grega. É uma versão peculiar — alternativa. recebe o nome de cara-de-pau. E a tragédia grega. fl ui a obrigação de ética pedagógica a que me referi: toda teoria nova. tomado assim.. como obra de arte. Rolando. carregada ademais de obscuros simbolismos a rcaicos. decorre uma norma prática: as novas teorias é que devem apresentar suas razões contra as velhas. é um quid pro quo. e não “a” História. no MASP. Nicole Loraux (aliás excelente). tão especial? A moral agostiniana da autoconsciência? A ética tomista da escolha razoável? A pedagogia moral de Hugo de S. o tribunal da Santa Inquis ição! Historicamente. Que aspecto foi esse. Nem mesmo o de desfigurá-la em nome de uma teoria qualquer. Epicuro. no mínimo. recortada e contrastada sobre o p ano de fundo do consenso que ela confirma ou desmente. a fineza de declarar de antemão seu propósito de apresentar uma ver são nova e heterodoxa da História. o capítulo referente à filosofia grega resumiu-se a duas co nferências: a de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro. a última a negá-lo). a essência da Idade Média. No fim das contas. como a quintessência do assunto. ele se espa lha: deita e rola. e mesmo aí só a abordou. Dessa norma. sentiram o urgente impulso de derramá-la sobre toda a nação. pela m assa crédula dos ouvintes. ocupando todo o espaço e fazendo as vezes do consenso. Nenhum desses tópicos nem dos muitos outros em que se subdivide a ética medie val nos livros de História da Filosofia foi considerado significativo o bastante p ara representar. que em detalhe comento mai s adiante. cabe ao desafiado a primazia na escolha das armas. deve ser mostrada como tal. o rótulo de extravagante. Veremos adiante. “essa instituição — como frisou Alexandre Herculano — nasceu débil e desenvolveu-se gradual e lentamente”1 3. Ninguém nega aos organizadores do ciclo o direito de reinterpretarem a História o qu anto queiram. removendo para um canto os nex os principais articuladores do conjunto e puxando para o centro um detalhe qualq uer de sua preferência. por um único e privilegiado aspecto. Vítor? O indeterminismo moral de Duns Scot? Nada disso. Aristóteles ou o estoicismo: sobre os t rês sistemas completos que constituíram o essencial da herança moral grega às civilizações e uropéia e islâmica. ao abrigo de todo olhar de censura. não con seguindo mais contê-la em si. rolando. incapaz de atinar com a ex travagância do seu procedimento.

V. 25. Lisboa. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal . . s/d. Alexandre Herculano. Bertrand. I. t. p.

Idade Média com Inquisição.30 OLAVO DE CARVALHO gem sangrenta que tem para nós hoje. Isto é tão medieval quanto a física d e Newton. provavelmente não era. John Bossy. Não sei se a acusação era procedente. cit. Alexandre Herculano. l O proces so de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial. O que a Inquisição fez foi seguir o us o então vigente na justiça civil. sobre a realidade das mortes por en feitiçamento. mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alter nativas reais existentes na época. Alberto Magno. sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas. mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria. As fogueiras da Inquisição continuaram depois a arder pela Idade Moderna a dentro. repito. Tomás de Aquino e S. das quais a própria disseminação das heresias. só começa a partir de 1400: em pleno Renascimento . é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso co mo ministro da Fazenda de D. é u m dos principais sintomas. Instituindo os processos regulares. Tempo Brasileiro. que não marcaram significativamente o con teúdo de suas obras14. com a eclosão das primeiras manifestações de autonomia nacional. Para completar. Durante quase toda a Idade Média. Bem ao contrário. cit. As matanças de judeus. alcançando um máximo de furor nos séculos XVI e XVII. sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renas centista — dos textos das antigas leis romanas. já é apenas o finzinho da Idade Média: é o princíp o da sua dissolução. que não coinc ide. Chaim Samuel Katz e Eg inardo Pires. Sto. trad. Rio. 1975 ). Anselmo (1070) até as Reportata Parisiensia de Duns Scot (1300). Boaventura. na Rús sia. Em terceiro lugar. ). o período de atividade inquisitorial mais significativa já é posterior. Os philosophes do MASP conhecem tão bem ou mel hor do que eu todas essas datas. É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus. Sto. Alexandre de Hales. promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos. trad. Eduardo Fran cisco Alves. de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros pop ulares”. o processo f oi uma pizza. Rio. eram um hábito consagrado na Península Ibérica. assim. João VI. — Para completar. nenhum desses filósofos exerceu qualquer cargo no Santo Ofício nem teve com esta entidade contatos senão episódicos. “O Feiticeiro e sua Magia” ( em Antropologia Estrutural. e não podem tê-las trocado por engano. o R ei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura. qualquer caráter criminoso. 1993). com o da sua atuação efetiva. ao fim do ciclo de produção e publicação das principais obras filosóficas medievais. Tes tas. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno es teve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja C atólica (v. 14 Associar. Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu con tra o uso da tortura. uma farsa concebida pelo Papa padrinho de Galileu para que seu pro tegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples decl . entendemos que ela foi um mal menor: a única alte rnativa era o massacre ( v. o XIII. Ediouro. a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças. ). causa imediata da abertura do Santo Ofício. que vai do Proslogion de Sto. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida. passando pelos livros de Pedro Lombardo. mas limitando-o severamente. op. Guilherme de Conches. A tortura ilimitada foi depois reintroduzida pelos comunistas. recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss. op. Mesmo o século do estabelecimento oficial da Inquisição. não permitindo que o ac usado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. Hugo e Ricardo de S. Pedro Abelardo. l A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus. o que deveria ser considerado um marco na história dos direi tos humanos. de dois séculos. l A Inquisição institui u a tortura generalizada. e sobretudo filosofia medieval com Inquis ição. de modo geral. Eles sabem p erfeitamente bem que a Idade Média é um bode expiatório das culpas de períodos históricos posteriores. que a sua fama inquisitorial obedece à definição stendhaliana da fama: co njunto dos época era crime. Vítor. A tortura era considerada um procedimento legítimo e pra ticada em toda parte desde a Grécia antiga. caiu e m desuso.

de Galileu a Des cartes. gramática e retórica o trivium. que na . trad. Galileu Herético. Hermann. Ele desprezava a n ova mentalidade matemática.aração oral sem efeitos práticos. e todos os cientistas matematizantes. Os philosophes de modo geral não ig noram essas coisas. mostraram a maior indiferença pela sua obra. São Paulo. por G. cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna ( v. O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. biologia ou matemática. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica. Kepler. Júlia Ma inardi. nenhuma observação. proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. Pa ul-Henri Michel. que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciênci a moderna. Harvey e tutti quanti. 1991 ). leia-se A Inquisição. ). Testas e J. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”. nenhum experimento científico. Ele não foi condenado por defender teorias científicas. física. Galileu. La Cosmologie de Giordano Bruno. Testas v. Bacon. diria Gramsci — que sustent a a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. Nem sequer estudou as ciências modernas. ( Em caso de dúvida. Descarte s. Giordano Bruno não fez nenhuma desco berta. astronomia. 1975. Newton. mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconfort o na platéia. Pietro Redondi. condenad o pela Inquisição por defender teorias científicas. mas por prática de feitiçaria. Paris. Companhia das Letras. Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para ve rificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico. A Inquisição examinava apenas livros de in teresse teológico direto. ) l Giordano Bruno foi um mártir da ciência. Eis algumas: l A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico. Bib liografia no fim deste volume. após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v.

se formasse por esta só coleção sua imagem da históri a do pensamento. com seus quadros sombrios de câm aras de tortura. sem ter sido contestada diretamente ou mesmo discutida. Lavelle. na ocasião da edição. mas sim a Históri a das Idéias. Helvéti us e Dégerando. mistério e desvario” ( Lewis Mumford.. vist o que a coleção incluía obras que só exerceram influência em círculos bem delimitados. que injetaram o e volucionismo nas veias espirituais do mundo. como por exemplo as de Wittgenstein e Adorno. como as de Jung e René Guénon. E. a auréola terminou por rodear também o Catolicismo de modo geral. Procuran do. grande retórico e jornalista que. Mas logo tive de abandonar essa hipótese. Itatiaia. Na escolha das obras que compõem a série Os Pensadores da Editora Abril. Pessanha e o pensamento Ocidental Uma pista podia ser encontrada. Nesta disciplina. não pode ser levado a sério. . Sem falar. um economista que não é cit ado em nenhuma História da Filosofia . conjeturei que Pe ssanha talvez não tivesse desejado ilustrar a História da Filosofia. Whitehead. desviando as atenções para um assunto mais truculen to. foi um tour de for ce admirável: enlamear a reputação do adversário. que arrombaram as portas do Ocidente para a invasão das idéias orientais. ao antropólogo Bronislaw Malinovski e até mesmo a Voltaire. Mas também sabem que essa fama está profundamente arraigada na crendice popular. com alguns anos de antecedência. para quê desmenti-la? Por qu e não tirar proveito dela? O proveito que se tirou. em José Américo Motta Pessanha. Tomás. A Cultura da s Cidades. o leitor d’Os Pensadores. Hartmann e Scheler. já que o público acredita na lenda. já 15 se manifestara. Enfim. mas pela sua repercussão pública. é claro. explicarme as razões de escolhas tão bizarras. sem ter precisado sequer mencionar o s eu nome.. da Silva. por seus efeitos político-sociais. p. trad. um dos mais destacados membros do grupo. as teorias não se tornam dignas de atenção pelo seu valo r intrínseco. de que Pessanha fora organizador e editor. ficou assim rodeada de uma auréola sangrenta. talvez. como filósofo. ou as de Spencer e Thomas Huxley. Ockam — fora ali todo espremido num só volume. com a vantagem adicional de que essa filosofia. Essa impressão sobre a Idade Média é parcialm ente um produto dos ‘Romances Góticos’ do século dezoito. Aí se explicaria o título da série (“pensador” é um termo mais vago e a brangente do que “filósofo”) e também a inclusão de autores menores. Em matéria de retórica — a arte de alcançar o máximo de persuasão com o mínimo de argumentos —. por vícios que realmente pertenciam aos seus detratores. Belo Horizonte. acabaria por concebê-la bem diversa daquela que pode16 Na verdade a lenda surgiu um pouco antes: “A Idade Média foi denegrida. a mesma seletividade deformante q ue agora inspirava o programa da Ética. A pr ova de que a velha aparelhagem cênica do “romance gótico” ainda funciona é o sucesso de O Nome da Rosa. teias de aranha. de O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Pöe até O Nome da Rosa de Umberto Eco15. a História oferece muitos exemplos de ‘censura transferida’. ao mesmo tempo que omitia Dilthey. no início da R enascença. típicos philosophes 17. As distorções não paravam aí: Pes anha achara indispensável dar todo um volu16 me a Kalecki. 23 ). Cassirer. e omitia outras que produziram verdadei ras revoluções.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 31 equívocos que a posteridade tece em torno de um nome. foi o de evitar qualq uer exame da filosofia medieval. Lukács. Duns Scot. O rtega. O mais significativo da filosofia escolástic a — Sto. Mas fica a pergunta: Para quê? Com que finalidade um grupo de intelectuai s declaradamente empenhados na salvação moral do país se envolve num empreendimento tão comprometedor como esse de contar ao povo uma História da Ética que falta com a ética para poder falsificar a História? § 3. como Condillac. no caso. a que aquela filosofia se associa intimamente. valha m elas o que valham. Neil R. logo. de Lênin ou Gurdjie ff. mais ou menos do mesmo tamanho daqueles concedidos individualmente ao economista John Maynard Keynes. onde a plantou uma sucessão de ob ras de ficção de grande sucesso. Croce. 1961. mais vistoso. Por automática extensão. Jaspers.

mas fora m omitidos. por exemplo — . como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises? A resposta só pode ser uma: do ponto de vista uspiano um econo mista marxista é mais filósofo que qualquer filósofo liberal. s e ele jamais publicou um único trabalho de alcance filosófico e se entre seus colega s de ofício houve muitos que foram filósofos de pleno direito.Por que essa honra concedida a um único economista. 17 A direita também tem se us philosophes. Donoso Cortés. alguns de primeira ordem pela qualidade literária e pela influência política de seus escritos — De Maistre. . de figurar entre os filósofos. Maurras.

a série Os Pensadores. mas para dar seguim ento coerente a uma ação iniciada muito antes. O mesmo espírito pare cia ter orientado a seleção dos temas para o curso de Ética. nem pe la sua importância h istórica. Hartmann e não sei mais quantos. de Kant. que se crê muito le trado porque encontra nas livrarias as últimas modas filosóficas nacionais ( leia-se : estrangeiras ). Husserl. na mesma editora). Fichte. mas a decisão de uma práxis. Isto ainda não nos dá uma resposta quanto aos motivos úl timos da seleção dos temas no curso de Ética. É por isto que. mas moldar o futuro. o curso da USP. num país onde se publicam poucos livros de filosofia18 e onde as edições e strangeiras só são acessíveis a uns happy few. Mas Perelman distinguia. malgrado suas distorções. mas também por ser. Parece ser isso que os editores brasileiros pensam do leitor. cujos trabalhos ele foi. mas produzi-la no campo dos fatos. é claro. qualificou-se sobretudo como retor. como um mestre d a persuasão. Até hoje não temos Aristóteles completo em português. acabou por adquirir uma autoridade comp arável à da Bibliothèque de la Pléiade ou dos Oxford Classics. Schelling. Os Sentidos da Paixão e Ética — sem contar a militância pedagógica nas cátedras da USP — formam o mais vasto empreendimento de persuasão retórica já realizado n este país por um grupo de intelectuais ativistas imbuídos de objetivos políticos bem d eterminados. a série Os Pensadores e os três eventos O Olhar. mas já nos coloca numa pista importante: s e ali a verdade sofreu graves distorções. a inspiração talvez inconsciente de todos os títulos da série de eve ntos promovidos pela Secretaria de Cultura: o olhar que aquela gente lançava sobre o mundo não refletia a imagem de um objeto. se lhe dessem o supérfluo. e dispostos a sedimentar. não foi por casualidade. mas um grupo militant e decidido a fabricá-lo19. Que intenção está aí subentendida e quais os . era uma comunidade científica empenhada em descobrir o real. Em Contraponto. a imagem do pensamento universal. e o Platão de Carlos Alberto Nunes. na falta de concorrentes. mas projetava sobre ele o sentido de uma paixão. por seu lado. Também nos faltam as obras principais de Hegel ( só temos a Fenome nologia e textos menores ). o primeiro a div ulgar no Brasil. entre o retor e o retór ico: entre o orador persuasivo e o estudioso da ciência retórica. Perelman era essen cialmente um retórico. Ele não quisera refletir a História das Idéias na imagem dos textos. Pessanha. discípulo que era de Chaim Perelman. on de impera o grupo de Pessanha). Nessa operação. O círculo de Pessanha não 18 Na verdade publicam-se muitos. de Leibniz. Não escolhera os livros nem pelo seu valor. retrospectivamente. o grande renovador dos est udos retóricos no século XX. ed itado pela Universidade do Pará. o programa da Ética não fizera se não prosseguir. ela dispensar ia o essencial. o princípio a que obedecera a seleção dos livros: Pessanha não havia procurado mostrar o passado. Não se tratava de História. a obra de deformação que Pessanha já havia iniciado por conta própria. um item indispensável da b ibliografia filosófica nacional. Mas ainda sobrava a pergunta: qual o sentido do empreendimento? Fo i só quando ouvi a conferência de Pessanha que pude compreender. no plano da luta cultural. A escolha não refletia um critério teórico. como um orador e homem de marketing. retroativamente. Pessanha desempenhava uma função estratégica. Juntos. Para complicar mais ainda o imbroglio. e por ele pude captar tam bém. em outra escala. um grande con hecedor da Retórica. jamais chegou ao Sul-Maravilha. salvo engano. a série Os Pensadores se tornou. mas sim de estratégia e mercadologia.32 OLAVO DE CARVALHO ria obter em qualquer livro ou curso da matéria (exceto. Aldous Huxley diz de uma personagem que. na teoria e na prática. aos olhos do público. muito Foucault. as bases para a conquista desses objetivos. sem contar Fielkenkraut. mas não os de primeira necessidade. E não lhe faltaram ocasiões para man ifestar o seu talento (que antes de empregar na persuasão política ele testara numa série de fascículos de culinária. muito Antonio Gramsci. mas pela repercussão que ele mesmo pretendia lhes dar. Fukuyama e tod os os outros filósofos de alta rotatividade. Enfim. não como editor d’Os Pensadores. seguindo a tradição. representando. Mas temos Simone de Beauvoir quase completa . um investigador e codificador dos princípios da argumentação retóri ca. Dil they.

que se deu nesses círculos filosóficos às idéi as de Richard Rorty. V. não podendo encontrar “universais” na realidade. 1995 ). o que foi constatado até agora já nos adverte que a estranha conjuntura referida no § 1 dest e livro era ainda mais estranha do que parecera à primeira vista. e segundo o qual. Faculdade da Cidade Editora. é o que teremos de descobrir numa análise microscópica da conferência de Pessanha. . Mas antes mesmo de entrarmos em mais detalhes. a filosofia deve “fabricá-los” mediante a pr opaganda e a ação política.valores que nela se incorporam. 19 Daí a receptividade. a propósito os capítulos “Armadilha relativista” e “Rorty e os imais” no meu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras ( Rio. um tanto envergonhada. filósofo pragmatista segundo o qual a linguagem não pode dar um a imagem do real mas somente uma expressão dos nossos desejos.

mais esquisito ainda era que uma elite universitária. portanto. elevada à liderança inte lectual de uma reforma ética de escala nacional. tudo em nome de objetivos mo rais que seriam alcançados bem mais rápida e facilmente pela velha e boa linha reta. Não havia remédio. E quanto mais eu remexia o assunto. Er a preciso nada menos que interrogar Epicuro. tão ávida de falsificar a História. se já havia uma inusitada desproporção no volume de recursos culturais mobilizad os para a consecução de um alvo tão pequeno quanto a simples destituição de um mandatário co rrupto. se mostrasse tão ignorante das regr as mais elementares da ética intelectual. prostituir a ciência e conduzir o povo por um caminho enganoso. .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 33 Pois. senão uma sondagem em profundidade. que remontasse às raízes in telectuais primeiras em que se inspirara aquela nova e singular concepção da ética. mais inexplicável a coisa toda me parecia.

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EPICURO - .LIVRO II .

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já que alguém antes de nós desenterrou a múm ia. Como tudo é material. retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo. só o que é aterial chega ao nosso conhecimento. tudo o que chega ao nosso conhecimento tem. Porém. notório adversário do epi curismo. Um aspecto particularmente biruta da filosofia de Epicuro é o seu alegado material ismo. não foi uma simples exposição da filosofia de Epicuro: foi uma rasgada profissão-de-fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro. como todo e qualquer mundo existente é sem21 22 Veremos. isto já prova. existência material. a alma também é mater ial. entre estes três níveis de seres. se tornaram modelos insuperáve is. Diógenes Laércio. que essa opinião não é totalmente destituída de sentido. por esta mesma razão. o corpo é material. procurava conciliar a bondade de Deus com a existência do mal no mundo. Se sonhamos com deu ses. — A matéria segundo Epicuro “As Delícias do Jardim”. requer uma lógica não menos circense: a opinião de que a fuga dos intelectuais para o jardim de Epicu ro não é alienação nem covardia. segunda conferência do ciclo de Ética. que eles existem materialmente. tão diferente daquela grossa metafísica de caixeiro de loja que costumamos con hecer por esse nome. para manter-se de pé. 20 Mas opiniões esquisitas não são mesmo de estranhar em quem se declare seguidor de Epic uro. mas sim per guntar por que. pronunciada por José Américo otta Pessanha. O ep icurismo foi ali pintado como uma das maiores filosofias de todos os tempos.CAPÍTULO II. alguém se deu o trabalho de ir retirar o pó milenar que encobria uma múmi a filosófica. Só que. mostrar o avançado estado de decomposição em que se encontra. Agostinho. segundo Epicuro. Segundo Epicuro. § 32. cuja solução trará consigo a de todos os outros anteriormente mencionad os. por tadora da solução para todos os males humanos (sic) e da inspiração que o Brasil precisa para sair do atoleiro moral. pois os traços do mestre devem se reencontrar no discípulo — e Epicuro produziu a lgumas dúzias de opiniões que. De natura rerum. mas uma forma superior de luta política. só para depois ter de varrê-lo para baixo do tapete. Se de um lado não poupou o sarcasmo ao ri dicularizar as acrobacias dialéticas com que Sto. será preciso remontar ao próprio Epicuro e. . no campo da absurdidade. Propor isto como um remédio eficaz pa ra a corrupção reinante é o mesmo que recomendar a fuga para longe dos credores como u m método eficaz de saldar as dívidas20. mas que o seu sentido é o de um engodo proposital. Uma profissão-de-fé epicurista. pois aquilo q ue não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos22. Lucrécio. Epicuro ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade. Para sondar as razões desse mistério. d e outro não hesitou em defender uma opinião que. a d iferença de maior para menor densidade da dita “matéria”21. como não podemos encontrá-los em parte alguma deste baixo mundo. e até os deuses são materiais — havendo apenas. COSMOLOGIA DE EPICURO § 4. Levado por aquele entusiasmo belicoso que sempre a nima os porta-vozes de uma doutrina salvadora. fazendo de seu autor um clássico do besteirol. no fim. num ciclo nominalmente votado ao esclarecimento de questões atuais e urgentes. Têm-n a inclusive os objetos de nossos sonhos e visões imaginativas. Pessanha não recuou diante das maio res temeridades na apologia do seu guru. A questão não é portanto saber se Pes sanha se saiu melhor ou pior do que Agostinho no seu devoto empenho. Logo — pelas leis da silogística epicúrea —. 146 ss. V. e dela aparentado tão-somente na distância que ambos guardam de toda verdadeira filosofia. eles devem estar em algum outro mu ndo. X.

estaria proceden do de maneira indigna de sua condição divina. seguro de que não entendem uma só pa lavra do que estou dizendo). os d euses são compostos de matéria sutil. Não é de bom tom. por que teria de ser menos densa justamente nos seres mais duráveis e não nos m efêmeros? É ais como dizer que uma superfície pintada é tanto mais azu l quanto mais diluída esteja a tinta azul. não é porque não querem e t mbém não é porque nem querem nem podem. se recusasse a fazê-lo. que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações. eles não iriam querer suja r suas mãozinhas de matéria sutil na porqueira da matéria mais densa. Assim Epicuro cai nas malhas do seu próp rio Epicuro diz que nada devemos temer nem esperar dos deuses. ficando desprov ida de um m odelo ou meta final por que orientar-se. num ambiente que. o que cria o seguinte problem a: se a matéria é eterna. de outro lado. Para começar. mas declarou que ele se aplica perfeitamente ao Deus cr istão. os deuses não ficam atrás. pelo bem da paz no intermundo. Mas nós. ou pode e não quer. que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o mo delo mais perfeito do ócio contemplativo. podendo ajudar os necessitados. e por isto são mais duráveis. argumento. ao mesmo tempo. Embora materiais como nós. mas o que Epicuro g arante é que certamente eles o fazem em idioma grego. e não em língua de bárbaros (motiv o pelo qual posso aqui falar mal deles à vontade. que já estamos metidos na densa porcaria terrestre. Sendo filósofos. Para saber se uma coisa exerce ou não influência sobre outra. E como Epicuro ta mbém diz que um deus não poderia ser impotente. o result ado a que chegam aqueles que buscam o prazer no terrestre e no imediato. em nada ligando para as nossas preces nem mesmo quando proferidas no seu celestial idioma. com que julgava fulminar a religião grega e toda religião possível: “Ou Deus quer ajudar e não pode. Então.38 OLAVO DE CARVALHO pre material como o nosso. não alcançando jamais o benefício do ócio contem plativo. mas não é porque não podem. um deus que. diz Epicuro. Mas nem toda a dialética de Agostinho. que o objeto da admir ação não traga nenhum benefício à alma que o admira e não lhe dê nem mesmo um pouco de prazer eis aí questões que. sem eles. acabaria por se perder em p razeres menores — que Epicuro despreza — e. rarefeita. já que eles permanecem no puro ócio contemplativo e não nos causam males nem bens. devem ser criteriosamente evita das. sem con hecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses. ainda que por sua simples . e vestidos somente de intervalo. Só que Epic uro. devemos concluir que. Como é possível que o modelo supremo do bem não nos cause nenhum bem. somada à retórica de Perelman. Mas. ele diz também que o prazer é o supremo bem. não deve ser menos desprovido de assunto. prossigamos com a investigação. Epicuro achaos o supra-sumo da perfeição. se eles não nos ajudam. motivo pelo qual devemos admirá-los. Afinal. Mas. só lhes resta alojar seus corpinhos de matéria sutil num intermundo. o mais velho e eficaz procedimento consiste em suprimir (de fato ou imaginativamente) a prim eira. das duas uma: ou os deuses exercem um influxo benéfico. afirma a eternidade da matéria. Sabe-se lá sobre que eles conversam. podem viver sem um ambiente m aterial em torno. destituído de coisas. Embora eles nos sejam indiferentes e po rtanto inúteis. mesmo de matéria sutil. longe da miserável agitação dos mundos e sem inte rferir em nada na ordem ou desordem das coisas. para ver como fica a segunda. poderia tir ar os deuses epicúreos desta aporia congênita. não é porque não podem. Mas um conceito de matéria tão elástico como o de Epicuro só podia mesmo dar nisso. pergunt ar como é que seres materiais. Epicuro diz que os deuses são inócuos e indifere ntes. a única ocupaçã eles consiste em conversar. que seria do epicurismo? A busca do prazer. ou intervalo entre os mundos. segundo Epicuro. ainda segundo Epicuro. Mas. Tal é justamente. por que raios é então? Se a matéria de Epicuro é esquisita.” Pessanha não só achou e ngenhoso este argumento. resultaria em aumento da dor. pela ética epicúrea. só para depois ter em de pedir a Agostinho que as limpasse. em que se agitam há milênios os debates n o intermundo: se eles não interferem. e sim porque não querem. ou nem quer nem pode. eles ficam trocando idéia s nas longas noitadas do intermundo.

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Neste ponto. isto é.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 39 presença23. para o filósofo. na hipótese contrária. tentemos tirar as conseqüências lógicas da teoria. por mais que o filósofo procure isentá-los de toda responsabilidade. Mas. Os de uses são apenas a imagem do bem. E não haveria nada de estranho em que uma escola de ascetismo atribuísse a seus deus es a capacidade de produzir efeitos pela sua simples presença. se são tão f ormidavelmente bons assim. que eles nem c onstituem o substrato material de que é feito o mundo. e a imobilidade a gente é. então eles não apenas são causa de alguma coisa. estaria sendo nada mais que coerente com seus p róprios pressupostos. então por que diabos não interferem logo de vez para acab ar com o mal no mundo? Neste ponto. sendo causa formal e final. nos mostram pelo exemplo da sua perfeição o caminho do bem. E não somente são bons em si mesmos. Se os deuses são. não exerc influxo nenhum e então a prática do epicurismo está destinada ao fracasso. mas o são duplamen te: em linguagem aristotélica. aparecendo em nossos sonhos. Veremos isto mais adiante. ou. Para seres oc iosos como eles. . m as das de todos os seres humanos. Logo. na medida em que este bem não é só para os filósofos. na medida em que. 23 Epicuro é taxativo: o mundo se compõe de átomos e a causa do movimento é o desejo. por sua estática e autobenéfica perfeição intrínseca. o presidente do colóquio filosófico intermundano . Mas. se tornou consciente e assumido: o ócio contemplativo. quando saem à cata de pr azeres grosseiros.. se denomina aliás tecnicamente. personificado nos deuses. ou está certo na prática e errado na teoria — a não ser que esteja errado em ambas as coisas. por definição. ativa e transitivam nte. são enfim a causa formal e final de tudo quanto acontece no universo. não fazem senão buscar de maneira obscura e inconsciente aquele m esmo objetivo supremo que. o modelo do bem. os deuses não somente são a causa das ações do filósofo. Agostinho.. então temos de admi tir que os deuses epicúreos. no sentido aristotélico. a não ser que os membros da Comissão de Orçamento do Congresso sejam deuses. Mas entre dizer que eles não criaram o mund o e concluir que eles não fizeram coisa nenhuma desde que o mundo foi criado. são causa formal do bem e causa final da vida ascética. de outro. a bússola por que se orienta o desejo. neste caso. eles produzem um efeito bom e logo são bons sob algum aspecto. mas todos os seres e coisas. meta e mo tor geral da vida humana. Se Epicuro t ivesse se limitado a dizer isto. Por enqua nto. Nas tradições espirituais em geral. a busca do prazer filosófico é só um tipo especial de busca do prazer. interrompe os trabalhos e manda solicitar o parecer técnico de Sto. é atribuída mesmo a santos e gurus. a imagem do ideal espiritual que norteia os esforços d o asceta epicurista. E como ademais o desejo de prazer não mov e somente os homens. Mas Epicuro afirma ai nda que. então só resta concluir que os de uses epicúreos. Pois estes — diz Epicuro —. a di stância é grande. os deuses são indiferentes ao bem e ao mal. afinal. Porém. mas são bons para nós. e eles não. um dos atributos essenciais da divindade em todas as religiões. animais e plantas e pedras e áto mos e galáxias. O máximo que se pode conceder à tes e da inocuidade dos deuses é que. e então não são inócuos como os diz Epicuro. vendo o debate acalorar-se acima do compatível com o decoro que deve imperar nes sas regiões excelsas. a capacidade para a “ação de presença”. seus deuses não difeririam muito do Deus bíblic o. de um lado. nem são o gatilho que dispara o movimento da criação. Ou Epicuro está certo na teoria e errado na prática. são bons para o universo inteiro. e. além de ociosos. mas para todos os seres e coisas. tudo girando numa espiral ascendente desde os prazeres imediatos e grosseiros até o supremo ideal do ócio contemplativo. e n em só para os homens em geral. A única diferença que restaria entre Yaveh e os deuses ep icúreos é que Ele criou o mundo. sem necessidade de uma ação externa. Tirar o corpo fora de toda responsabilidade sob a alegação de não ter cr iado o mundo não é lá também um comportamento muito digno de um ser divino. E. pois. como modelos e causas formais do bem. o qual também não é nem estofo material do mundo nem causa imediata dos atos humano s ou dos fenômenos naturais. É claro que isto eles não podem ser. eles de fato não são nem causa material nem causa eficiente. deve ser um bocado de trabalho.

§ 5. Um piedoso subterfúgio .

levaria o discípulo a uma “visão inte rior” que. quem se agarre ao epicurismo como a uma última tábua está naturalmente livre para crer que assim seja. embora falsa em si mesma. a cosmologia de Epicuro não pr etenderia oferecer uma descrição literal do mundo como realmente é. mas os resulta dos práticos do método não servem nunca para validar retroativamente uma doutrina. mas interpretada simbolicamente. e sim para ser ac eita e “revivida interiormente”. como na repetição ritual de um mito. A letra da doutrina epicúrea então não estaria aí para ser compreendida ou discutida filosoficamente. e o valor de um método se mostra por seus resultados práticos. A prova d e uma doutrina. e. então o mundo não é como Epicuro o descreve. por intuição direta. nada conseguindo entender da doutrina do mestre. Moon já não teriam um d iscípulo sequer. a dieta de Beverly Hills atestaria a veracidade do marxismo e os sucessos do sistema de franchising seriam um argumento em favor da física quântica. indiferentemente: a santidade do Buda demonstraria a validade da doutrina da livre empresa. ou pseudo-religiosas. filosófica ou científica ou religiosa. amém. para o argumento de que essa teoria. para uso dos novatos — um véu de fantasia na entrada do templo da verdade. valesse como um artifício para apazig uar a alma humana. sem o qual Rajneesh. a não ser que a conexão desse método com a doutrina já esteja provada de antemão na doutrina mesma. uma psicagogia: um guiamento da alma. À cosmologia propriamente dita só teriam acesso os iniciados. demasiado profunda para que a alcance a mera inteligência lógica. de modo que mesmo resultados práticos fabulosos não serviriam em nada como pr ovas da teoria. mas apenas o seu pórtico fictício. no fim de tudo. que ao ati ngirem os graus mais elevados da ascese epicúrea poderiam então jogar fora o véu de símb olos. Muit a gente. lhe revelaria o indizível segredo do universo como realme nte é. o qual. à desculpa esfarrapada de que a cosmologi a epicúrea não deve ser tomada ao pé da letra. para inscrevê-lo no das crenças r eligiosas. em última instância. Se a coisa fosse extrapolada para domínios ex tra-religiosos. Epicuro nos teria dado uma verdadeir a pedagogia. Se não fosse assim. a refe rida cosmologia não deveria ser julgada criticamente. Estando as coisas nesse pé. é sempre de ordem intelectual e lógica. só pode ser compreendida por quem primeiro. a aceitação preliminar de uma doutrina intrinsecamente absurda. Neste caso. de fato. somente um perfeito charlatão iria apela r. Sob a aparência de uma falsa cosmologia. nele não se pode ser epicurista com sucesso. como preço do ingresso na via da salvação. o Guru Maharaji e o Rev. ou melhor. ou por esse pretexto. em nome de quaisquer benefícios futuros a serem alcançados pela práti ca do método. e os milagres de Cri sto seriam provas do vegetarianismo. qualquer bom resultado obtido na prática de um método poder ia ser alegado como prova de qualquer doutrina. 2º Não podemos admiti-lo nem mesmo como crença religi osa. Mais ainda: a doutrina expressa que conhecemos c omo cosmologia de Epicuro não seria a verdadeira cosmologia de Epicuro. e vice-versa 24: se o mundo é como Epicuro o descreve. nestes tempos de naufrágio. a verdade viva incomunicável em palavras. pratique o método. o que vimos no epicurismo foi justamente que nele não há conexão entre teoria e prática.40 OLAVO DE CARVALHO A cosmologia de Epicuro desmente portanto a sua ética. que conf unde a inteligência e a torna inapta para seguir qualquer método que seja. Só que: 1º A aceitação dessa h pótese excluiria o epicurismo do campo da filosofia. Segundo essa hipótese. Esta constatação fec a o caminho a um piedoso subterfúgio com que o discípulo beato poderia ainda tentar salvar alguma coisa do epicurismo. mas aceita em confiança. sem discuti-la. porque toda religião que se preze distingue claramente entre doutrina e método. pois isto seria um convite a que cada qual se entregasse com tanto mais fervor à prática quanto menos estivesse em condições de 24 . deve ter reso lvido perseverar na prática dos seus ensinamentos movida por essa esperança. e se a prátic a do epicurismo é possível. e não impõe jamais. descul pa que nasce do desejo de enxergar profundidades insondáveis onde há apenas a banali dade de um pensamento confuso. isto é. para captar. libertando-a do temor dos deuses e predispondo-a a ingressar no caminho epicurista. uma vez trilhado. Ora. mas apenas uma ima gem sugestiva que. É até possível que seja assim.

. como veremos mais adiante.Objeção exatamente igual à que Pessanha. lançou contra a filo sofia de Demócrito. sem notar que ela se aplica também a Epicuro.

e como tudo o que aparece na memória e na imaginação tem. Há um pior ainda. a perfeita imbecilidade se tornaria a mais alt a prova de qualificação de um discípulo para a via espiritual25. evidentemente. o candidato a discípulo. para dizer o português claro. por exemplo. segue-s e que as coisas que os deuses recordam e imaginam existem materialmente nesse me smo instante. Nossas cidades estão cheias de pessoas assim. t eria de atender a um requisito óbvio: teria de ser sensata ou verossímil — pelo menos esteticamente verossímil — o bastante para poder acalmar provisoriamente a demanda d e explicações de um homem adulto. 25 Não falta. entre os seres e coisas deuses. têm memória e imaginação. São mortais. nada mais re sta dizer. pensar num homem que está pensando num gato que está pensando numa lagartixa. E isto. ou perenidade. uma vertigem abissa l. Vale o mesmo qu e um anúncio do Silva Mind Control. 3º Mesmo uma cosmologia simbólica. reprime a exigência interior de explicações e se atira junto com eles no abismo. É a elas que se dirige o apelo de Epicuro e de José Américo Motta Pessanha. — A eviternidade. Não estando presos aos limites de uma exi . A imaginação dos deuses. a equação epicúrea de que rarefação = durabilidade obriga-nos a admiti r que elas são mais duráveis do que os deuses mesmos. desperta apenas um sentimento de incongruência. Se. uma vez mortos . Mas não pensem que termina aí o rol de problemas filosóficos que mantêm atarefadíssimos os ociosos deuses de Epicuro. nessa hie rarquia dos seres recordantes. não são eternos. sinal seguro de que algo ali está errado. da “inocência” dos “pequeninos”. que se apresentasse como simples preparação imaginativa para uma ascese. Os deuses. é autênt ico idealismo. pelo menos alguns são também pensantes. mais rarefeitas do que os corpos dos deus es que as imaginam. Se a i déia em si já é bastante desconfortável. e os lugares mais baixos pelos seres mais densos. para um materialista roxo como Epicuro ou Pessa nha ela deve assumir uma feição sinistra e diabólica uma vez constatado que. dotados de uma durabilidade maior que a dos A coisa tor na-se ainda mais catastrófica pelo fato de que. S e pensam.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 41 compreender a teoria. ipso facto. exceto o número do telefone do hospital psiquiátrico mais próximo. que não atinam com as temíveis conseqüências psicológicas a que podem chegar por esse caminho fácil. do que sugerirlhe que sua estupidez é uma forma supe rior de aptidão espiritual. Ou seja: que quanto mais matéria existe num ser. no homem ca paz de julgar. Nada mais lisonjeiro. Sendo essas coisas. e a cosmologia de Epicuro é apenas uma história mal co ntada. diante deste sinal. Neste caso. e isto inexoravelmente formaria uma hierar quia de durabilidade crescente que partiria de um deus provisório e culminaria num a lagartixa eterna. re cordados pelos deuses. Sua eficácia depende de que o discípulo tenha abdi cado de toda demanda da veracidade e esteja somente em busca de um alívio factício p ara angústias banais. 4º Se a co smologia de Epicuro não vale nem mesmo como prefácio simbólico a uma prática ascética. porém. mas. Uma possível saída para o dilema seria o conceito de eviternidade. Um deus pode. caso a lagartixa por sua vez não pensasse em mosquitos. se refazem integralmente tais e quais. e dotados portanto de memória e imaginação. § 6. no mundo da pseudo-espiritualidade ou antiespiritualidade contemporânea. diz Epicuro. mas que. existência material (só que mais rarefeita que a do corpo). estes miseráveis morta is ficariam. fazendo a apologia do mongolismo. quem interprete assim as expressões da Bíblia acerca dos “pobres de espírito”. Se os deuses falam. para um públ ico intelectualmente incapaz. mais baixo ele está na escala ontológica e ma is próximo da irrealidade pura e simples. E se por acaso ocorresse a um deus a idéia desastrosa de pensar num gato ou numa lagartixa. é porque pensam. segundo Epicuro. movido pelo temor reverencial que lhe inspira a pessoa do mestre ou pe la chantagem emocional da massa de seus condiscípulos. os lugares mais altos e duráveis são ocupados pelos s eres mais rarefeitos. que talvez sirva para adormecer crianças ou velhinhas. então vale somente como miragem para atrair os discípulos a essa prática. então.

Assim poderiam até . ou sucedidos após sua morte. fatos acontecidos antes de seu nascimento. talvez até pudessem realizar o prodígio de recordar. como coisa v ivida. Bas taria que apelassem às memórias de uma vida anterior ou futura.stência determinada.

de fato. a cois a toda se complicaria formidavelmente. mas alguém dotado de poderes reais. com igual cara-de-pau. até esmagar o cérebro do infeliz. constituídas por sua vez de seres ainda mais duráveis. Jogos Extremos do Espírito ( Rio. pp. permanecem fun damentalmente idênticos a si mesmos. pela viabilidade do moto contínuo. em sânscrito ). mas aí o leitor de alma ob líqua já está zonzo demais para perceber a piada. não pod endo portanto juntar-se para formar os seres e coisas que.” Gurdjieff provou isto em toda a linha. Gurdjieff tinha um prazer diabólico em humilhar os intelectuais ocidentais. para poderem retornar à memória dos deuses a cada nova existência destes . Sendo assim. os átomos devem ter também um princípio de moviment o livre e indeterminado. e batia nesse ponto sem dó. no vazio infinito em todas as direções. Carlos García Gual. Mas isso seria multiplicar o problema. 110 ss. e. 1985. se prosternasse ante esses fenômenos como ante sinais do Espírito. entrando em contato fortuito uns Queda” e a expõe no início do livro Relatos de Belzebu a seu Neto. tal como as defesas de um neurótico contra a ter apia o tornam ainda inerme ante a neurose. que ele denomina clinamen (“inclinação”. Os siddhis pode m ser adquiridos por treinamento. Comprovar a autenticidade dos fenômenos produzidos pelo taumaturgo mineiro Thomas Green Morton foi o bastante para que Sodré. e. Se os deuses se refazem após cada existência. ficaria totalmente revogada a mais i mportante diferença entre os deuses de Epicuro e os da religião grega. O moderno intelectua l ocidental tem. seria nada menos que eterna. jamais chegariam a tocar uns nos outros como o pretende Demócrito. Resta ainda um pormenor intrigante. os átomos se m ovem randomicamente em todas as direções. típico cientista social brasileiro de formação marxista. levando-os a acreditar nos absurdos mais p atentes. no ato. de uma vida para outra. Epicuro crítico de Demócrito . e bastava um ocidental ter verificado isto para s ubmeter-se a ele com reverência e temor. existe continuidade de essência en tre as várias existências. precisariam ser eviternos eles mesmos. para o homem espiritual. de vez que estas não têm uma memória tão rica. tomando-o como mestre espiritual. do tempo e da morte. Epicuro conclui que a impulsão inicial da queda não é tudo. não é que ele não acredite em mais nada: ele redita em tudo. e como cada um desses seres também teria suas recordações pessoais. e não representam. a mais funda incapacidade de perceber a fraude espirit ual. Deste apelo à razão. existem28 . que ind ependentemente dela. uma zona nebulosa onde meras forças sutis da nat ureza podem ser tomadas pelos tolos como mistérios transcendentais. § 7. além de recairmos no pecado mortal de idealismo. “tendência”) e define como impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor. Alianza Editorial. ou de qualque r outra. logo em seguida argumenta. Com isto. como que a desmascarar a fraude anterior. Pelo clinamen. mos cairiam todos em linha reta e paralelamente27. que ele confunde com o mero charlatanismo. sem perceber que ali havia apenas uma demonstração de siddhis ( “poderes”. acreditando que precauções contra es te bastam para resguardá-lo daquela. e contra ela. Ele sabia do ponto vulnerável que há na alma de todo materialista d urão. em vez de resolvê-lo. senão uma enganosa periferia do Espírito. Comentarei este caso com mais detalhe no meu livreto O Antro pólogo Antropófago. só para desmascarar-se em seguida e desmascarar. subtraindo-se ao menos em parte à lei de que da. “Quando u m homem já não crê em Deus — dizia Chesterton . e uma essência que permanecesse inalteravelmente a mesma po r cima da mudança. Um exemplo contundente encontra-se no livro de Muniz Sodré. 2 8 V.42 OLAVO DE CARVALHO mesmo tornar-se mais duráveis do que as lagartixas. Gurdjieff não era evidentemente um charlatão. numa linguagem aluc inante onde é impossível distinguir o que é dito em sentido direto do que é dito em sent ido oblíquo. A Miséria da Ciência Social. Epicuro. Rocco. é que. pois os sere s recordados. 1990 ). não obstante. 27 O que pressupõe que os átomos tenham pes o uma premissa epicúrea da qual Demócrito não compartilha pelo menos explicitamente. Os siddhis são a pirita espiritual. Madrid. mostrou que as defesas pre tensamente racionais do intelectual moderno contra a ilusão religiosa o tornam ind efeso contra a fraude espiritual. a vacuidade ment al do seu público.

polemizando na base do faça-o-que-eudigo-mas-não-faça-o-que-eufaço. não sendo material. o vazio. Um exemplo é a sua crítica de Demócrito. e por isto os átomos. nem a desprezava. não oferece resistência. co m um ar de seriedade à Buster Keaton que bastou para impressionar uma multidão de in telectuais. Epicuro responde que. Ele denomina-a “Lei de . caem e acabam por se chocar uns com os outros. onde o principal que aco ntece é tudo vir abaixo 26. Demócrito proclamava que no mundo só existe o vazio e. dentro del e. Só que. os áto26 O temível gozador metafísico Georges Gurdjieff reeditaria no século XX essa teoria. Mas o filóso fo do jardim não ignorava a necessidade dela.O leitor já deve ter percebido que a coerência lógica não é o forte de Epicuro. impelidos por um inexplicável empurrão inicial. ele geralmente chegava a conclusões tão ou mais estapafúrdias do que aquelas que r efutava. se fosse de fato assim. O universo de Demócrito é um vasto escorregador. endossada por Karl Marx e por José Améri co Motta Pessanha. os átomos. tanto que a cobrav a dos adversários.

em face dele. sem podermos dar um pio contra o seu maldito clinamen e só nos restando. 1971 ). O devotado interesse de um filósofo pelos direitos políticos dos átomos p ode parecer um tanto bizarro. e muito menos um princípio tão extravagante como o clinamen. § 20. Este se opõe — logicamente. para a mentalidade de hoje. Wolfgang Strobl y Luís Pelayo. trad. o indeterminismo epicúreo com o de Plan ck e Heisenberg. New York. Pessanha enxergou conservadorismo na física de Demócrito pela razão de que a lei de queda impõe um determinismo integral. que não fora ainda codificada por Aristóteles e se ex ercia de maneira empírica e amadorística. na física de Epicuro. Volto a este assunto mais adiante. pois a indeterminação ex clui. Pois essas são. mas Pessan ha condenou a primeira e endossou a segunda sob a alegação de que aquela favorece um a ética “conservadora” e esta uma ética “progressista” — argumento que é propriamente aquilo ue se dá a denominação científica de o fim da picada. e vão gerando e destruindo mundos e mais mundos sem dar a mínima satisfação a seres. mas simplesmente porque não haveria nada que determina sse a direção do movimento. no vazio indeterminado. toda regularidade obrigatória. Mas é só uma aparência. os átomos se move riam indeterminadamente em todas as direções. A física de Demócrito e sua refutação por Epicuro são ambas igualmente falazes. que pode ser interpretada num sentido como no sentido inverso. uma vez admitido. formando os seres e os mundos. ao passo que. por definição. levado pela coincidência vocabular. Aliás sobra até demais. não podi a ser mesmo muito bom em lógica. acabam por se aglomerar em massas compostas. contemporâneo de Platão. Physics and Beyond. Em caso de dúvid a. torna o clinamen perfeitament e desnecessário 30. porque aí os átomos. que é o determinismo mecanicista. aliás um dos mais belos livros do século. e não a um “vazio” que tornaria o indeterminismo perfeitamente redundante. para isso. Mas Epicuro já conhecia a obra de Aristóteles. ou completar um silogismo da primeira figura. 1975 ( ed. uma visão determinística da queda inevitável do capitalismo não parecia aos comunistas ser mais progressista do que a crença libera l na imprevisibilidade da História? Os teóricos do liberal-capitalismo não atacaram no . todos os movimentos teriam de ser paralelos e uniformes. precisamente. Madrid. a festança dos átomos no liberou geral da cos mologia epicúrea pode parecer mais progressista ou democrática do que a submissão impl acável à lei de queda. no vazi o. sobra lugar para o imprevisto e o liv re-arbítrio. uma escala. de fato. um novo p rincípio. todos os movimen tos seriam indeterminados. formas da determinação. Pergu ntamonos se essa gente conseguia distinguir um ovo de um tomate. Demócrito não se deu conta de uma coisa que hoje até um garoto de escola perceberia num relance: que. adiante. Pressupõem balizas. coisa s ou deuses. porém mais inexplicável ainda é que os átomos devam ter o direito a estar livres da lei de queda. A associação que Pessanha fez entre cosmologia e política é p ura figura de estilo. ou complementarmente . não porque quisessem fazê-lo movidos por t ais ou quais intenções epicúreas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 43 com os outros. Acontece que Demócrito. uma concepção muito sin gular acerca da liberdade. Algumas décadas atrás. como queiram — a um princípio real e concreto. Que ninguém c onfunda. expressões como “cai” e “sobe” não fazem o menor sentido29. americana. BAC. acoplam-se e desligam-se à vontade na mais obscena gandaia cósmica. usando e abusando do seu direito ao clinamen. enquanto nós. sem a necessidade de introduzir. ou dialeticamente. ficamos inap elavelmente submetidos à arbitrariedade dos átomos. Tudo isso é. Diálogos sobre la Física Atómica. as considerações de Nicolau de Cusa quanto a este ponto. seres viventes. Metaforicamente. O vazio. Mas é também falso o que alega Epicuro: que. não deixando para os pobres átomos outra saída senão a obediência servil a uma necessidade tirânica. No indeterminado. 29 30 V. e por isto é mais fácil perdoar a ingenuidade da cosmologia de Demócrito do que a inc onsistência da sua refutação. Encounters and Conversations. Harper & Row. um espaço finito referido a um centro ou pelo menos a limitação a um campo determinado. leiam Werner Heisenberg. Tudo isso é de uma ingenuidade atroz. a alternativa de relax and enjoy que nos é oferecida pelo epicurismo.

.marxismo justamente o seu calcanhar de Aquiles determinista? O uso de imagens t iradas da ciência física em apoio desta ou daquela ideologia política só tem valor retóric o. no sentido mais baixo da expressão. Aceitar a física de Epicuro por ser progressi sta é o mesmo que rejeitar a de Einstein por ser judaica.

todos os argumentos são de borracha. Não há saída: se o s átomos seguem o clinamen. com iguais resultados: no reino da retórica política. e não tem nenhum vín ulo de implicação recíproca com a cosmologia — ou física — de Epicuro: pode ser aceito dentr o ou fora dela indiferentemente. que Pessanha apontou como a solução para todos os ma les da humanidade. etc. outra especial ou prática. O remédio de todos os males A parte ética da doutrina epicúrea. Os homens são dóceis e manipuláveis. CAPÍTULO III. Eis aí no que dá citar sem ler. que é rígido e repetitivo como a lei de queda. ou Tetrafármacon. justamente po rque buscam o prazer e fogem da dor. então. Aqui é o determinismo que se torna “progressista”. sem que ele tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar persuadido de que exerce livremente o seu clinamen. teórico do Partido Radical francês. O filós ofo Alain. a lei de queda ou o clinamen. a coisa é das mais óbvias . com o seu “princípio de rea lidade” que transcende o princípio do prazer. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a lib erdade quem se coloca para além da dor e do prazer. Politicamente. podemos levá-lo para onde o quisermos. caem no engodo das apa rências. não é nem um pouco meno s encrencada do que a sua cosmologia. o “quádruplo remédio” q lósofo propõe a todos os . fazendo um asno persegui r a prazerosa cenoura e esquivar-se do doloroso porrete. que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo. Bismarck dizia que a ciência do governo consiste em pauladas e guloseimas.44 OLAVO DE CARVALHO Mas ainda há um outro senão. Freud. Contra Epicuro cabe portanto a mesma objeção que Pe ssanha fez a Demócrito: que sua física e sua ética não tem conexão entre si. não são livres: obedecem ao determinismo do instinto. aos socráticos menores. reagindo contra o ardil. O culto destes valore s é comum a Aristóteles. levados pelas sensações. A teoria consiste apenas na afirmação de alguns valores gerais que coincidem em gênero. ditadura e democracia podem indiferentemen te chamar em seu apoio Demócrito ou Epicuro. número e grau com aqueles que eram subscritos por todos os filósofos da época: a superioridade da contemplação sobre a ação. Feitas as contas. que não mente. e o clinamen um instrumento da tira nia. por meio dos quais um animal ou um ho mem pode ser governado desde fora. a vida filosófica como um caminho para a felicidade etc. aos estóicos. a Platão. ÉTICA DE EPICURO § 8. Mas o que recebe costumeirame nte o nome de “ética de Epicuro” é a parte prática. em cujo título os organizadores do ciclo de Ética se inspiraram para nomea r uma das divisões do evento: “O cidadão contra os poderes”. E também pelo Dr. abstrai-se das impres sões de prazer e dor e decide segundo a lógica implacável da ordem física. ardilosamente encenadas pelo tirano (lembram-se do futebol no tempo do ge neral Médici?). entre a vontad e livre e a obediência ao instinto. O cidadão consciente. reação e progressismo. Mas não é preciso tanta ciência para nos inf ormar aquilo que um carroceiro sabe perfeitamente: que. e especialmente da humanidade brasileira. tornou célebre a condenação do clinamen em nome da liberdade. Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liber ta do determinismo? Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dorprazer é o comut ador que aciona os reflexos condicionados. argumentava ele. Aristóteles o confirma. A ética de Epicuro divide-se em duas partes: uma geral ou teórica. esse argumento está no livro Le Citoyen contre les Pouvoirs. só podendo ser válidas se admitirmos a hipótese de uma verdade dupla. Por uma coincidência irônica. mediante a distinção.

É um caos. uma vez fugido da agitação da polis e bem protegidinho no jardim. O Te trafármacon consiste. É com plena inconsistência lógica. alcança sua finalidade na completa e definitiva aniquilação do h omem. portanto. parentesco que Pessanha — sem dar nome aos bois — mencionou de passagem. e. O clinamen é apresentado como um movimento livre. num universo absolutamente trágico onde átomos e homens v agam a esmo de erro em erro e de sofrimento em sofrimento. 3ª. sem contar a lista interminável de exercícios orientais e pseudo-orie ntais que o movimento da New Age espalhou da Califórnia para o mundo. onde galáxias e amebas. abdicando da busca insensata de prazeres que causam mais dores. ou m elhor. que hoje há na praça com o mesmo o bjetivo. sim apenas uma psicologia prática. va i aos poucos substituindo as sensações dolorosas da vida presente pelas recordações agra dáveis do passado até fazer com que o passado se torne presente e o presente desapar eça sob a imagem do passado. ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. no fun do. parentes e inimigos se lembrarão de nós. 4ª. e toda ação está. átomos e homens só encontrem cada vez mais dor. norte-americanas na maioria. num mercado super-saturado de similares como o Pensamento Positivo de D ale Carnegie. a Sofrologia de Caycedo. que Epicuro afirma a completa extinção do ser humano após a morte física. seguida de total e eterno esquecimento. A pergunta é: como pôde essa filosofia ne crófila. buscando o prazer. o clinamen é. 2ª. supramundo ou submundo. essa afirmação contraria os princípios fundamentais da sua co smologia. seguinte: se tudo o que imaginamos existe em algum lugar. condenada ao fracasso. esta meditação leva-o à conclusão in tável de que o único alívio possível é a morte. destacam-se as da convers ação filosófica com os amigos na paz do jardim: o conteúdo da conversação exerce efeito calm ante. o homem encontr a o caminho da meditação filosófica que deve libertá-lo. Ora. e no qual Pessanha sugeriu que o povo brasileiro fosse buscar ins piração para sair da miséria moral31. sumariamente. essa macabra celebração do nada. já que amigos. então teremos de continu ar a existir depois da morte. Dentre as recordações agradáveis. não alcancem um resul tado melhor. antecipadamente. sem escapatória. um tipo de fatalidade. passar por uma mensagem de consolação e atrair p ara o jardim de Epicuro milhares de infelizes em busca de alívio? Que consolo podi . não se d a divindade. intermundo. a Programação Neurolingüística de Bandle r e Grinder32. provém de que o objetivo máximo dessa técnica é inculcar no praticante quatr o convicções básicas: 1ª. pois um exame mais cuidadoso faz brotar delas algumas dúvidas inquietantes.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 45 males humanos. não se deve temer a morte. a Psicociber nética de Maxwell Maltz. e. Não é preciso ser muito esperto para perceber qu e a proposição decisiva é a terceira — uma exata inversão do timor domini principium sapie ntiæ. mas o exercício desta liberdade choca-se contra o fatalismo da dor. finalmente. os falecidos devem estar todos materialme nte instalados em algum materialíssimo mundo. não há possibilidade de realizar planos. uma técnica para a conquista da felicidade. Daí que. nem menos. é fácil suportar o mal. E quando. é fácil alcançar o bem. que indesculpavelmente me omiti de explicar na primeira edição d este livro. mundos e homens formam-se e desap arecem por acaso. partindo dos movimentos cegos dos átomos no vazio sem sentido. como por exemplo a 31 O nome Tetrafármacon. o Treinamento Autógeno de Schulz. e como tudo o que se imagina é material. uma técnica deve ser julgada exclusivamente pelos seus resultados prát icos. do q ue as muitas técnicas. Fe cha-se assim o círculo da fatalidade. 32 Veremos logo adiante o parentesco entre o Tetrafármacon e a Programação Neuroli nguística. daquilo que Epicuro entende como felicidade. O cosmos de Epicu ro não é um cosmos. que. ensinando o discípulo a não temer os deuses (já que eles estão fora da jogada). Não vale mais. numa ginástica interior. Nesse mundo d estituído de qualquer regularidade previsível. ante o olhar indiferente dos deuses. Mas consolam só quando não lhes prestamos muita atenção. ne m a morte (pois quem deixa de existir já não pode sofrer) etc. Palavras que consolam . numa disciplina. Mas há duas outras questões ainda mais perturbadoras: 1. fugindo da dor. na qua l o praticante. o Silva Mind Control. o pobre Tetr afármacon já pode se considerar derrotado pela profusão de concorrentes modernos. Mas o Tetrafármacon não é de maneira alguma uma ética.

am encontrar no jardim sabendo que ele é a entrada do cemitério e que depois do cemi tério há somente o cemitério maior do esquecimento cósmico? Que atrativo enxergavam ness a promessa digna de Jim Jones? .

se praticada com persistênc ia. como queiram. mais ficará persuadido de que aquilo que imaginou existe ou está entrando na existência nesse mesmo momento e é até mesmo “mais real” do que os objetos sensíveis pre sentes. fazendo brotar seres e coisas que se materializarão. § 9. o discípulo. ou um oco no buraco. Teria ele. Exposta assim. por exemplo. a prática da sua ética é que é uma condição prévia para que alguém possa chegar a acreditar na sua física. jogado num tanque. Mas os resulta dos da brincadeira são graves. O mesmo aplica-se às recordações: se produzidas com intensidade suficiente. O mundo da vi da. e assim por diante. atual e materialmente. uma segun da intenção? Haveria nessa loucura um método? Não se esconderia por trás do besteirol epicúr eo um segredo temível? Essas perguntas não têm resposta nas teorias do epicurismo. conhecedor aliás da lógica de Aristóteles. tr arão de volta as coisas passadas. bastará abrir um b uraco no oco. digito no teclado do computador as palavras que me brotam de dentro. levando-o a acreditar na r ealidade efetiva. como se viu. Para sermos coerentes com a física de Epicuro. um incon sciente. em lógica. e pelos buracos o meditante poderá saltar para o p assado ou para o futuro com a maior facilidade e sem precisar de nenhuma máquina d o tempo. mas aconteça de novo de maneira ainda mais realística do que na primeira vez. do que quer que consiga imaginar com suficiente nitidez : os futuros contingentes. mas se expandirão pelo mundo em to rno. num espelhismo sem fim de tempos den tro de tempos e de hiatos dentro de hiatos. o seguinte problema: se os objetos que aparecem na imaginação sempre existem tais e quais. A cosmologia de Epicuro é. quanto mais avance na prática da med itação epicúrea. Vale a pena examinar o lado psicológico dessa inversão. E quando ele eventualmente se lembrar de que an- tes se lembrava de alguma coisa da qual agora não se lembra mais. Que um suje ito treinado nessa regra possa chegar a admitir como santas verdades os mais pat entes absurdos da física epicúrea. Neste momento. Tal vez a encontrem na sua prática. são então vivenciados como se fossem objetos de experiência concreta. ba stando que eu quisesse mudar o foco da . em algum lugar do cosmos. me parece inverossímil. meras possibilidades lógicas só concebíveis a título de const ruções abstratas. A abolição da consciência A prática do Tetrafármacon cria. teremos de admitir que esses efeitos não ficarão m esmo confinados no corpo do indivíduo imaginante. O que cha mamos senso do real funda-se na distinção do efetivo e do possível. Assim. essa cosmologia de qu eijo suíço parece O Exterminador do Futuro ou Alice no País do Espelho. na forma de corpos sutis . mas. ao contrário. ou para trás. não poderia deixar de perceber sua inconsistência. desde logo. a física para hipnotizados. Fazemos esta disti nção comparando aquilo que pensamos e imaginamos por vontade própria com os dados que nos são impostos pela situação presente. elevado a sistema e regra de vida. um tal amálgama de contradições. É um wishful thinking potencializado. Acontece que a distinção que o cérebro humano faz entre a s sensações presentes e as imaginadas é aquela que. Elas poderiam ser outras. que um filósof o de ofício. um sonso. para ver que tipo de conduta moral pode resultar dela. então o esf orço de enxergá-los cada vez mais nítidos com os olhos da fantasia até que se superponha m às impressões do presente deve necessariamente produzir efeitos físicos. por trás de todo o tecido de alegações beatas que lhe serve de embalagem. que não escapa ao exame atento de um adulto letrado de inteligência m ediana. e estas ingressarão na vida presente como um objet o que. A ginástica cronológica de Epicuro. Isto mostrará em que consiste realmente a ética de Epicur o. é algo que finalmente encontra aqui sua explicação: não é ética de Epicuro que deriva logicamente da sua física. atual.46 OLAVO DE CARVALHO 2. denso e contínuo. acabará por abolir no discípulo a intuição dessa diferença. se tornará para o meditante epicúreo uma superfície esburacada. que para o comum dos mortais é uno. corresponde à diferença entre o efetivo e o possível. abre espaço empurrando a água para os lados. para que a coisa esquecida não apenas volte à memór ia. A hipótese de que Epicuro fosse apenas um incompetente. por trás de tanta absurdidade.

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já não o pode agora: está fixado para sempre. mas somente concebido e projetado desde dentro. Compreen do. para Machu-Pichu ou para Winnesburg. e conforme seja bom ou mau.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 47 minha atenção para outro assunto. tendo acontecido . Ohio. Inicialmente. que. que não se dobra imediatame nte ao meu arbítrio com a plasticidade do imaginário. aquilo que se passará amanhã não pode ser agora percebi do como fato. mais fortemente ainda está presa a um determinado momento do tempo. Ora. portanto. vividas como um dom gratuito da realida de aos nossos sentidos. a um colega ou a seres imaginários. mas 33 . que se impõem à minha visão com o dados de um mundo que não fiz e que vem pronto ao meu encontro. como objetivamente existente. na língua que o povo gaiato atribuiu ao ex-presidente Jânio Quadros: fi-lo porq ue qui-lo. verei diante de mim o mesmo teclado e a mesma tela. Só eu conheço por testemunho direto meus pe nsamentos e intenções. O presente. se podia ser de outr o modo um instante atrás. O testemunho sincero de si p ara si é a primeira e indispensável condição do conhecimento objetivo. a criança aceita esta limitação por cont a da autoridade do pai. C om inocente desenvoltura. que é súdita num caso. É só assim que posso captar a diferença ente o que brota de mim e o que me vem do mundo. no outro soberana. Não posso fazer co m que meus olhos vejam outra coisa senão o que está na frente deles. Se decido mentir sobre o que se passa dentro de mim. re-produzido na imaginação. As cenas deleitosas de outrora. Mas o desejo de a ssumir a autoria de seus atos interiores — ou mesmo exteriores — não é inato no homem. portanto. já não pode desacontecer. Se minha percepção está limitada ao lugar do espaço onde me encontro. É apreendendo os limites do meu poder — daquilo que Kurt Levin chamava espaço vital 33— que chego a distinguir o real do irreal. Do mesmo modo. ninguém pode me impedir de fazê-lo : nem mesmo quem. na memória e na responsabilidade. o efetivo do meramente possível. O senso da diferença entr e o imaginado e o percebido repousa. exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência d e nós mesmos como sujeitos livres. criadores de seus atos como de suas int enções. que a distinção entre o fato percebido e a possibilidade imaginada se faz por referência à vontade. agora só podem ser re-vividas como obra nossa. O espaço ainda pode ser parcial mente vencido pelo deslocamento do corpo. um mundo que me resiste. virá sempre a companhado do temor ou do desejo — da possibilidade. que no adulto seria cinismo. vindo de f ora. Meu olhar está limitado pelo que o mundo me oferece. EUA. por sinais exteriores. enquanto estiver sentado aqu i. diferenciando-a das nossas projeções s ubjet ivas. e não sem algu m esforço. verá outras coisas e já não estas. Mas o tempo é invencível. e as culpas aos castigos. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral. perceba a falsidade da intenção que alego p oderá provar por testemunho direto aquela que oculto. Se escrevo estas palavras e não outras. a criança atribui a respons abilidade de seus feitos a um irmãozinho. e não to ma consciência de que mente senão pelo olhar severo do pai que a faz descer do céu da imaginação para cravá-la no chão terrestre onde as causas se atam inapelavelmente às conse qüências. O que ontem me sensibilizou a retina. T omamos consciência da realidade objetiva. desde dentro. ao passo que minha imaginação não conhece outros limites senão os seus próprios. em suma — de que as coisas venh am a se passar de outro modo. Esta diferença é que me dá a medida do real: admito como efetivo. por um ato de vontade que resolva sair em busca do tempo perdido com o empenho reconstrutiv o de um Proust. Não posso girá-los daqui para Porto Alegre. que os circunstantes não podem senão conjeturar por analogia. tantas vezes quantas abra os olhos. Por mais certo e fatal que se anuncie o futuro. Existir é resistir. ativos. Mas só posso fazer esta comparação se me lembro claramente de haver pensado ou imaginado tais ou quais coisas por vontade própria. como conjetura esp erançosa ou temerosa. e se assumo a autoria desses atos inter iores como assumo a de minhas ações materiais e externas. hoje só pode ser produzido desde dentro. um anúncio não t erá nunca a presença maciça do fato consumado. posso assegu rar. noutro lugar. dizia Dilthe y. Mas. como gi ro num instante a tela do pensamento e troco de palavras. nossos atos inter iores não têm outra testemunha senão nós mesmos. em contrapartida.

São Paulo. 1973. 29 ss. — Não é uma ironia que esse termo técnico inventado por um eminent e psicólogo judeu tenha se tornado um slogan nazista? . pp. Princípios de Psicologia Topológica. Cult rix.V. trad. Kurt Levin. Álvaro Cabral.

A melhor definição de neurose que conheço é do meu falecido amigo e mestre Juan Alfredo César Müller. ajudando a manter o orga nismo psicofísico naquele estado de ausência de tensões que os médicos denominam homeost ase.” Objetividade é sinceridade projetada no exterior. A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da ver dade sobre as coisas. for mam um nexo indissolúvel com a responsabilidade: as três condições que perfazem a autoco nsciência moral35. um gênio da psicologia clínica. podem continuar vagando à margem de toda obrigação de veracidade. “Ser objetivo. A autoconsciência não nasce pronta. que será a base não somente da conduta moral. e é assim que se desenvolve nela a autocons ciência. No desenvolvimento da autoconsciência. que não há consciência moral. a menti ra transforma-se num sistema. assim como sincer idade é introjeção dos limites objetivos. Na neurose. Mentir alivia porque economiza à psique o esforço de supo rtar um desequilíbrio temporário. entre a autoria e a culpa. Scheler. Há sempre muitos meios de fugir da 34 verdade. mas é uma fortíssima predisposição. ainda que assumido de coração. dizia Hegel. como pretendem alguns psicólogos e cientistas socia is. “Verdade conhecida é verdad e obedecida”. Os filósofos gostariam que todos os homens fossem dóceis à verdade. Neurose. como a imaginação ou determinados sentimentos. em que o homem assume — ou não assume — um compromisso interior com a verdade e a coerência. “A autoconsciência é a terra natal da verdade”. mas da objetividade no conhecim ento. dizia Platão. Mas ninguém ficaria neurótico se a opção neurótica não lhe parecess vantajosa. mas é uma aspiração utópica e autocontraditória: se a percepção da verdade nasce da liberdad . N ada pode obrigá-lo a este compromisso. Os sonhos. de Platão e Aristóteles até Kant. que nos garanta c ontra as futuras tentações do erro e da mentira. é uma ment ira esquecida na qual você ainda acredita. ocultando a me ntira inicial sob montanhas de entulhos só para depois alguém ter de pagar a um psic analista para removê-los. Pretender que a autoconsciência se ja mera introjeção de papéis sociais é retornar à velha lenda lockiana da tábua rasa. e atendendo apenas aos ap etites imediatos. mediante um suicídio preventivo da liberdade. a imitação e a introjeção são apenas ocasião e instrumento da manifestação de uma capacidade preexistente. por exemplo. A opção pela verdade deve ser refeita d iariamente. Isso quer dizer. Se mentir para si é esquecer a verdade. 35 . num programa que se automultiplica. Éric Weil. A verdade é aceita assim como um valor moral antes mesmo de se firmar como u m critério cognitivo34. só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la. A facilidade com que os seres humanos se li vram dele sempre chocou os filósofos. sem o sacrifício ao menos temporário da harmonia interior em vista de valores que transcendem os in teresses imediatos do organismo psicofísico. É claro que em grande número de casos esse arranjo oportunista acaba produzindo uma neurose. que se manifesta inicialmente sob a forma passiva da imitação e da obediência — assim como a capacidade de caminhar por si próprio se exerce de início sob a forma passiva do ser levado par a cá e para lá pelas mãos dos adultos. apagar as pistas do embuste. n eurose é esquecer o esquecimento. A pos sibilidade do conhecimento objetivo depende portanto de uma opção preliminar. por sua vez. jamais obriga o homem todo : continentes inteiros da alma.48 OLAVO DE CARVALHO depois aprende a estabelecer por si a conexão entre o antes e o depois. ao menos no instante decisivo em que uma verdade intolerável se abre d iante dele como um abismo. Sinceridade e objetividade. dizia Frithjof Schuon. Ortega y Gasset. É evidente que isto não significa em hipótese alguma uma redução da autoconsciência ao efeit o de uma “introjeção de papéis sociais”. nem conhecimento objetivo. entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana. entre a in tenção e o ato. sem algum sofrimento psíquico voluntário. mas mesmo a verdade conhecida não pode ser obedecida de um a vez para sempre. O compromisso com a verdade. são um tecido de eufemismos que pode servir para amortecer ou desviar o impacto das verdades indesejáveis. dizia ele. em suma. é m orrer um pouco. jamais causas produtoras de uma criação ex nihilo.

que dis pense a autoconsciência. — O conceito acima resumido da autoconsciência como fundam ento da moral. Rio de Janeiro. e da moral como fundamento da objetividade cognoscitiva — inclusive nas ciências —. uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e mecânica. a responsabilidade e a sinceridade como adornos subjetivo s. . cujas transcrições corrigida s formarão um volume a ser publicado com o título Sobre os Fundamentos da Moral. agosto-outubro de 1994 ).Temível sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda a ssentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código público . foi exposto com mais detalhes no meu curso de Ética ( Casa de Cultura Laura Alvim. É a coisificação da verdade.

de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual. Sua incapacidade para discernir o bem e o mal exceto como convenções vazias será usada como “prova” de que toda lei moral é um a convenção vazia. e pode até continuar a obedecê-las exteriormente p mero hábito. o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata. Não poden do suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferên cias subjetivas. somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauper amento interior e sair em busca do sentimento perdido. que vão desde as “racionalizações” corriqueiras com que na vida diária nos furtamo s ao apelo de pequenos deveres. que. se condensam todo s no triângulo áureo sexo-dinheiro-fama. repugnâncias e desejos. cuja violação sujeita o home m a padecimentos interiores. sem qualquer motivo. de um ego in flado que remoldará o mundo à sua imagem e semelhança. No homem sem maiores interesses morais. O entorpecimento da consciência tem graus e etapas. Embora conheça perfe itamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos. não são tão diferentes umas das outras. moldados pela cultura de massas. a imaginação torna-se a serva p restativa do interesse orgânico imediato. Completa-se assim a inversão: as paixões mais baixas e v ulgares ergueram-se ao estatuto de mandamentos divinos. Seu sistema pessoal de racionalizações será en obrecido e investido de validade universal como expressão das “aspirações da nossa época”. mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível. no qual el e não tenha de responder pelos seus atos. resolve matar dois transeunt es a tiros. substituída por uma retórica sofística de um artifici alismo alucinante. porém. ao fazê-lo. produzindo tantas ficções quantas forem nece ssárias para conservar o indivíduo num estado de profunda sonolência moral. Até o fim ele não compreende a revolta e a indignação que seu crime desperta . não melhores ou piores do que quaisquer outras. sobretudo na época de cultura de massas que padroniza os desejos da multidão. e a deformidade da sua psique será erigida em padrão de medida moral para toda a humanidade. se esse homem for um letrado. criará argumentos para demonstrar que aquil o que ele não sente inexiste no mundo objetivo. que não consistirá em outra coisa senão na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo. O emb otamento completo da intuição moral. chegou a ser diagnosticada por Konrad Lorenz como uma forma d . Aí ele encontrará o argumento decisivo a fav or do seu sistema: o argumento do número. Albert Camus dá em l’Étranger o retrato do tipo cuja mediocridade pacata esc onde a mais absoluta i sensibilidade moral. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. Mas. para dar vida nova ao con ceito. ele não suportará ser o único a sentir como sente. logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. Como a inteligência humana não opera no vazio. e continuará assim até que a conjunção da necessidade com a oportunidade o transforme de vez no criminoso que se mpre foi. até a completa inversão. A linguagem abstrat a da filosofia moral terá se tornado uma arma a serviço de fins egoístas. mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. As aspirações subjetivas dos indivídu os. na esfera intelectual. farão br otar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. quando não à execração pública ou a penalidades legais.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 49 Uma vez afrouxadas porém as demandas da autoconsciência. ele con tinuará a ter ódios e afeições. as novas éticas nascidas do embotamento moral não consistirão em outra coisa senão num sistema de racionalizações que transformará esses três desejos em hipóstases de valores morais universais e em fundamentos máximos de to da conduta eticamente válida. Um dia o sujeito n caminha pela prai a e. é natural que. ele não as vê senão como convenções mecânicas. muitas das quais já vinham produzindo. com os mesmos fins. o conceito dessa coisa. quando um homem já não sente a reali dade de alguma coisa. e será si mplesmente esquecido. e por isto o filósofo moral improvisado logo terá o grato prazer de descobrir que suas idéias são compartilhadas por milhões de pesso as iguais a ele. M as como os desejos da multidão. ele cairá na tentação d e argumentar a favor delas. Invariavelmente. Nessas horas. o conceito esvaziado não tem mais função. outras tantas filosofias morais coincidentes. Mas um homem não vive muito tempo em estado de abstinência moral. criará um novo critério de moralidade. Após ter solapado as bases de todo critério moral objetivo. até mesmo sem sentir raiva. O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. e.

que.e degenerescência biológica. apagando da memória humana .

50 OLAVO DE CARVALHO registros de valores aprendidos ao longo da evolução animal. organizações religiosas e pseudo-religiosas. Mas sondar as causas primeiras desse fenômeno. retira-o d o debate civilizatório. faz dele um UFO axiológico. que. a lista nã mais fim. lavagem cerebral. para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue que m fale contra. ao menos implicitamente. A ação humana premeditada. Não há neste mundo um só movimento de massas. vi na TV o líder gay Luiz Mott apelando a um determinado comediante do SBT para que deixasse de ridicularizar a classe dos homossexuais com suas paródias grotescas. é forçoso admitir que algo. A comparação faz ressaltar a escala de valores em que por vezes ( não sempre. espero eu ) se inspira a militância gay. metidos em hábito s de carmelitas e caricaturando da maneira mais aviltante as freiras católicas. n alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros da experiência moral acumulada ao longo da evolução biológi ca37. Essa técnica existe. em muitos países do mundo. O que me intriga é: como um homem de personali dade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idên tico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perve rsidade moral? Pois é óbvio que. destruiu nela s a i tuição moral elementar. para mo ldar a personalidade de seus membros de acordo com os fins da organização. controle do imaginário. então só pode ser uma ação huma na premeditada. estranho aos sentimentos comuns da espécie humana. mais respeitável do que uma devoção rel igiosa. é o que se denomina uma técnica. agindo sobre essas pessoas. se não existisse esta possibilidade. Essa escala é incomensurável com qualquer tábua de princípios éticos já conhecida ne ste mundo: a adesão a ela torna um sujeito inacessível à argumentação racional. Não há disputa política. e logo em seguida um grupo d e marmanjos afrescalhados do grupo denominado As Noviças Rebeldes. para q ue manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos. não é meu intuito. Esses conhe cimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas. diria Lorenz. Com alarm ante freqüência. determinados mov imentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátri cos e jamais passariam de clubes de excêntricos. para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas. Não é possível que o conjunto do s militantes radicais do mundo se componha de uma maioria de personalidades psic opáticas. um só Estado nacional. empresas e sindic atos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. para consulta de raros pesqu isadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática. é claro. afetadas de taras congênitas. na escala da h umanidade. Num mesmo dia. ou de um conjunto de técnicas. Lorenz tinha razão. inf luência subliminar. estimulação por feromônios. O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais v asto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade. Se esse algo não é nem a hereditariedade nem aquela conjunção fortuita de circunstâncias t raumáticas que podem produzir uma personalidade psicopática. guerra psicológica. campanha publicitária. p ara as mais variadas finalidades. propag . A Demolição do Homem. engenharia comportamental. partidos políticos. Konrad Lorenz. anuncia o começo da demol ição da espécie humana 36. O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados. hipnose instantânea. a amoldagem passa pelo embotamento maior ou menor do senso moral e da consciência intelectual. 36 37 V. uma só empresa d e grande porte que não disponha de uma técnica. onde o desejo de um determinado tipo de prazer físico acaba por se tornar. Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que govern os. os casos de psicopatia congênita. realizada segundo uma conexão racional de c ausas e efeitos. informação dirigi da. Aliás existem mui tas. que recebem o nome técnico de personalidades psicopáticas ou de sociopatas. Excluo. Quando hoje vemos hordas de intel ectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável. Programação Neurolingüística. O que desejo perguntar é como ele se produz num indivíduo em particular.

os grandes movimentos de mas38 V. de psicose informática38. . Sem ela. Lippincott. submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante.anda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles. 1989. Flo Conway and Jim Siegelman. A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a o nipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. muito pertinente. Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personalit y Changes. que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação. New York.

1962. em Diagnóstico do Nosso Tempo. É impossível im aginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses39. Biblioteca do Exército. Zah ar. Ed. Eles sabem. 40 V. Linebarger. e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las. qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o u so da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jove m de todos os países. Com o atraso proverbial que marca os pronunciamentos da Igreja Católica. que fim teriam levado as organizações esotérica e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo. “Estratégia do Grupo Nazista”. enfim. Modificação do Comportamento e Sociedade Controlada. em 1969. trad. não concebem sob esse nome senão aquilo que se materi alize em algum tipo de aparelho ou máquina. É neste contexto que se deve compreender o apelo ao resgate do epicurismo. Joost A. . Ibrasa. K arl Mannheim. Octávio Alves Velho. Merloo. A. Paul M. São Paulo. a impo rtância da “técnica” entre as causas do devir histórico. Quando se escrever. 1980. V. Geiser. do panorama histórico do século XX as técnic as de manipulação da mente. Menticídio: O Rapto do Espírito. seria concebível que populações submetidas in cessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito te mpo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo d a demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada. “o advento de um sistema político baseado na impostura em grau muito maior do que todos os que existiram até o momento”44. Guerra Psicológica. Áurea Weissenberg. 42 V. presos a uma noção grosseira e oisista do que seja uma técnica. mórbidas. o Papa João Paul o II finalmente reconheceu em 1994 que. do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios. mais que o século da informática. Rio. disformes e fracassadas que os séculos e os milênios anteriores rejeitaram saem do fundo do lixo do esquecimento para constituir os pilares de um culto universal do engano. Robert L. trad. estonteada. Rio. com suficiente visão de conjunto a hi stória da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX. porém. Os poucos que se interessar am pelo domínio da mente foram desviados em seus esforços por uma visão preconceituosa mente seletiva. Cia. a civilização do Anticristo. incluindo a bomba atômica e os compu tadores. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso temp o. Se retirássemos. como teriam se desenrolado os dois conflitos mundi ais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica41. 39 ou pelo menos num esquema de ação mais ou menos patente. cresce hoje em todo o mundo uma espécie de ant icivilização. nada teria podido acontecer como aconteceu. Zahar. trad. tr ad. o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitali stas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre pop ulações que não têm disto a menor suspeita42. e Olivier Reboul. 1961. Octávio Alves Velho. na produção da história contemporânea. é claro. Nacional. mas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 51 sa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. 1977. Eugêni a Moraes Andrade e Raul de Moraes. trad. Lavagem Cerebral. Ora. o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorga nizavam a sociedade civil 40. A Do utrinação. M. Heitor Ferreira da Costa. ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de auto-engano? Um dos poucos historiadores que levaram a sério este fenômeno de seriedade trágica denunciava. Rio. então se verá ue nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. sob as aparências de continuidade daquilo a que a humanidade chamava civilização. Mais que o sécu lo das ideologias. mais que o século da física atômica. Elas foram s eguramente mais decisivas. todas as idéias e concepções ais francamente errôneas. 41 V. que só destacava algumas formas de dominação à custa de ocultar outras m aiores e piores 43. Neste novo panorama. São Paulo. este foi o século da escravização mental. 1980.

1971. especialmente. I. vol.43 44 É o caso. . Bruguera. da antipsiquiatria e da dupla Deleuze -Guattari. p. Baldomero Porta. trad. de Michel Foucault. 525. Barcelona. Historia Universal de las Sectas y Sociedades Se cretas. Jean-Charles Pichon.

eles nunca chegavam à última análise. que Epicuro opõe à lógica dos c nceitos (que ele conhecia através de Aristóteles). mais e mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo. sistematiza os raciocínios do tipo “o nde há fumaça. formas e variantes de uma mesma técn ica: a hipnose. São Paulo. Servem para exemplificar e comunicar idéias. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que. mas qualquer principiante de filosofia sabe que o valor deles é apenas retórico e persuasivo. nada lhes ofereci a senão uma apologia da morte. fora de qualque r dúvida. mas não sabe distin guir se viu uma vaca ou imaginou uma vaca. tão manifestante insustentáveis. enfim. Nas mãos de Declaração a Luís Carlos Lisboa. reprimindo a exigência de confrontá-las umas com as outras para formar uma concepção global coerente e hierarqu izada como aquela que nos orienta na vida de vigília. verossímeis ou in verossímeis. por exemplo que o ano de 1991 durou som ente um mês ou que os buracos de um queijo suíço pesam 3 kg. Quando ouve do hipnotizador a ordem: “T ome um copo de água”. Quanto mais profundo o tra nse hipnótico. retornando sobre os conteúdos da repr esentação. a exposição. Pois. sabe distingui-la de um porco. A fumaça e o fogo “A divisão entre Sócrates e Protágoras sobrevive intacta. São. prováveis ou improváveis. todas elas. desviados para os meandros sem fim da fantasi a imaginativa. O fato mesmo de que Epicuro tenha se servido deles para sustentar as teorias de sua física alucinada é sinal de que são uma bonne à tout faire. . raciocina. o que vale é o autoconhecimento. infinitamente variadas n a sua linguagem e nos pretextos. mas a 45 interpreta como se fosse um desejo brotado de dentro. os julga como efetivos ou possíveis. LÓGICA DE EPICURO § 10. no qual o praticante. são abundantemente usados na vida diária. Aí a mera sugestão verbal de um cigarro aceso bastará para produzir queimaduras reais na mão do hipnotizado: as células da pele reagem à est imulação verbal como reagiriam ao calor de uma brasa. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distingu ir entre imagens. por meio de exercícios. fazendo deles o supremo critério do conhecimento. verdadeiros ou falsos. O conceptus e a imago. a que apelam para justif icar-se. a beleza e a pompa. a maioria das funções psíquicas continua operand o normalmente. toma sistematicamente a mera possibilidade como real idade efetiva e. um método hipnótico. No homem hipnotizado. mas até quando ?” FRANÇOISE HUET 45 As práticas psicológicas que mencionei no parágrafo anterior. ora “científicos”. mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens. Jornal da Tarde. que a lógica tradicional e moderna chama de abdutivos. não para prová-las. está pronto para acreditar em todas as absurdidades da físic a de Epicuro tão logo possa enxergá-las na tela da fantasia. 20 de junho de 1995. até que se chegue à completa despersonalização. compreende o sentido da ordem. É evidente que o segundo ainda é dominante. com a ajuda da qual se pode provar literalmente qualquer coisa. Mas Epicuro não se limitou a pratic ar e ensinar a disciplina da ilusão: ele desenvolveu mesmo todo um sistema lógico pa ra sustentá-la. aprende a confiar mais na visualização imaginár ia do que no juízo reflexivo. recorda e sente como se estivesse desperto. Tais raciocínios. ora “místicos”. É assim também que podemos compreender como estes discípulos não se deram conta de que o epicurismo. tenham podido ser aceitas por uma multidão de crédulos discípulos. em última análise. lembrase? Para o primeiro. O Tetrafármacon é. Ele fala. têm uma coisa em comum.52 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO IV. A lógica dos sinais ou lógica das aparências. para o segundo é o discurso. deprime pro gressivamente seu sentimento do tempo. É assim que se explica que as concepções físicas de Epicuro. há fogo”. Tendo diante da retina a figura de uma vaca.

levante as velas o mais ráp ido possível. no seu clássico Tratado da Argumentação. eis a essência de uma lógica à qual não falta. demonstrando que. Unlimited Power 49. um e ntimema. certamente haveriam te abandonado. cita Epicuro uma única vez. em compensação de seu canhado poder investigativo. a lógica dos sinais pode muito bem dar foros de pura veracida de metafísica às impressões de um sujeito hipnotizado. se pôde servir a Pessanha como uma co nfirmação das teses epicúreas. no Brasil. O embotamento proposital da intel igência. a tese segundo a qual os p ais devem deixar os filhos ao abandono. A eficácia da PNL confirma Epicuro. aplaque o temor ou a esperança de uma vida futura. Eu também não o sei. mas. No trecho citado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 53 um técnico habilidoso. reduzindo os mistérios do u niverso à proporção de nossa experiência mais banal47. não resta mai s nada a fazer senão tentar imaginar as coisas melhores do que são. A destreza com que Pessanha manejou esse e outros entimemas na sua conf erência do MASP mostrou que. mas não esclareceu que ela é apenas um a retórica. popularizada em anos recentes por livros como o de Anthony Robbins. § 11. Perelman reproduz em seguida o argumento que a isto opôs o filósofo estóico Epicteto: “Se teu pai e tua mãe soubessem que virias a dizer essas coisas. só 46 48 . a redução banalizante da totalidade do real à escala de sensações imediatas como co michões ou borborigmos. e xposto com todas as letras. foi certamente com base num argumento subjacente que.”48 Se Perelman soubesse a que fins acabariam servindo os seus ensinamentos. afastando a hipótese de uma causa divina. Pessanha não deixou de aludir a uma delas. ao dizer que “alguns psicoterapeutas de hoje” não vêem mais nada a fazer pelo homem sofredor do que induzi-lo a representar se us sofrimentos em imagens. que. Mais precisamente: qualquer explic ação é boa. certamente esta foi tocada por uma brasa de cigarro. teria se recusado a ensinar re tórica a José Américo Motta Pessanha. Que técnica é essa? Pessanha não deu o nome. ele afirmava que a veracidade das explicações é indi ferente: o que importa é o seu efeito calmante. e não provar. Epicuro tinha razão. em retórica. Ela tem semelhanças e diferenças com o Tetrafármacon. que se volta contra a pe ssoa mesma de seu autor. Mas ele também não disse o que Perelman. se apareceu u ma queimadura na mão. e. aliviar o sofrim ento. contanto que. o homem do jardim sustenta. mas é a Programação Neurolingüística (PNL). O convite ao sono É verdade que as técnicas modernas de manipulação da psique põem o Tetrafármacon no chinelo. ele não deixava de ser tam bém aplicado aluno de Perelman. como por exemplo no caso de um judeu que defendesse o n azismo. e como autor de um raciocínio do tipo autofágico. Assim de nomina-se em retórica um argumento desastroso. Mas sei que Perelman.” Pessanha fez muitos louvores à lógica de Epicuro. rezaria assim: “Num mundo caótico e sem sentido. em última instância. uma acentuada virtude soporífera. pois quem o declara é o próprio curo: “Para fugir do saber — recomendava ele a um discípulo —. os de Lair Ribeiro. quanto mais não a provaria uma queimadura viva! M as não é preciso muito esforço para provar que a lógica de Epicuro não se destina à busca da verdade. pensaria de tudo isso. não explicou as diferenças entre lógica e retórica. onde o ún ico destino que nos aguarda é a completa extinção e o eterno esquecimento. eles descobriram que o wishful thinking funciona.”46 Fiel a este princípio. e em seguida. e sim somente à produção de consolações fictícias. melhorando as imagens. ardoroso discípulo de Epicuro. nem muito menos declarou a premissa oculta de todo o seu discurso: a premissa segundo a qual o importante é persuadir. se isto de algum modo nos tranqüiliza. pois. s e a fumaça prova a presença do fogo. Um silogismo com premissa oculta chamase. Podemos inclusive aceitar simultaneamente várias expl icações contraditórias. canhestro. Dito de outro modo. se vivo e ali presente.

Éditions de l’Université de Bruxelles. 78-80. 276. p. Carta a Heródoto. 49 New York. Cit. Olbrechts-Tyteca. 1986.Diógenes Laércio. Perelman et L. § 6. em Ch. Bruxelles. Simon & Schuster. Traité de l’Argumentation. La Nouvelle Rhétorique. 47 Epicuro. X. 1970. .

transformaram-na em prod uto comercializável. Ele a e direto no subconsciente do freguês. nas pessoas em torno. se apoiava numa rede complexa de sinais não-verbais. sutilíssimas m udanças do tom de voz. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas. particularmente em tipos esquizóides com uma comunicação verbal deficiente. A PNL surgiu da prática clínica de um dos grandes psicoterapeutas do século: Milton Erickson. Pois. há e ntre eles o nexo da premissa à conclusão. um meio de comunic ação de uso corrente. mas ninguém reparava na sua presença. abrindo à psicoterapia as mais belas esperanças de cura para casos tidos por insolúveis. acredita ndo expressar seus sentimentos espontâneos. sistematizaram a técnica da comunicação não-verbal e. por intermédio de mensagens quase imperceptíveis . da temperatura corporal. Como já em 1983 denunciava a revista Science Digest: “Posta no . po rém. Bandler e Grinder gravaram centenas de sessões psicoterapêuticas de Erickson (bem co mo de outros dois magos da clínica psicológica. o quanto vale o epicurismo como fundamento teórico do que quer que seja. mostrar o epicurismo sob uma face melhor. que estavam investigando psicologia da comunicação q uando toparam com o fenômeno Erickson. da teoria à sua prática: o epicurismo surge co mo raiz teórica da PNL. Mas não se restringiram a um público de psicoterapeutas. não pôde enviar do i ntermundo qualquer sinal verbal ou não-verbal de uma justa indignação. talvez em compensação. de um só golp e. a fazer o que ele deseja que faça. Paralítico. sem cujo auxílio a fala se mostrava impotente para atingir o ínti mo das pessoas. Bandler e Grinder ganharam rios de dinheiro explora ndo as descobertas de Erickson. de mais um charlatanismo inócuo. clubes. maridos interessados em eng anar suas mulheres etc. profundamente arraigados nos hábit os e convenções da comunicação humana. da direção do olhar. Interpretando esses sinais espontâneos. um tipo prático. se a PNL confirma Epicuro e Epicuro antecipa a PNL. longe de constituir um todo autônomo. Erickson perce beu que o fracasso ou sucesso da comunicação pessoal dependia deles. vai sendo levada a sentir o que o prog ramador deseja que ela sinta. E rickson era um clínico. a cois a virou uma paixão nacional. Mas Erickson. que lhe permitia captar. do tônus muscular. e com isto obtinha resu ltados espetaculares em doentes que haviam sido desenganados por outros psicoter apeutas. inteiramente persuadida de exercer livremente o seu clinamen. ajuda ndo ou atrapalhando a conversa. n a prática. ficavam subentendidos e acabavam por se tornar. utilizando-os. Se a P NL pode. associações políticas. A PNL funciona. em muitas empresas. Milhares de centros de treinamento espalharam-se de costa a costa — e. nunca escreveu um livro nem se preocupou em sistematizar suas descobertas. uma acuidade sensi tiva fora do normal. codificaram todos os sinais. O programador neurolingüístico não perde tempo com argumentações. etc. Richard Bandler e John Grinder. Gregory Bateson e Virginia Satir). Não vá p ensar o leitor que está diante de mais uma poção mágica. a essa altura já falecido. Uma revista norte-americana chamou a PNL “a nova mania psicológica pop”. ele conseguia comunicar-se com seus pacien tes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito. Eles estavam lá sempre. mostraram isso. inteiramente automatizados e inconscientes. Epicuro e a PNL. Mas o prob lema é justamente esse. vendedores ansiosos de livrar-se de e stoques encalhados. c om o auxílio de um computador. políticos decididos a iludir seus eleitores. NLP). Erickson desenvolveu. esse argumento não faria outra coisa senão desmoralizar. Este trabalho foi feito por dois pesquisadores.54 OLAVO DE CARVALHO Se explicitado. A vítima. Os padrões de comunicação não-verbal que ela utiliza são reais. advogados desejosos de persuadir juizes a assinarem sentenças injustas. introduzindo-as sutilmente no curso de uma conversa qualquer. Já vimos. batizando-a PNL (em inglês. a técnica de induzir subliminarmente por sinais não-verbais tornou-se. tal e qual o burr o da cenoura. Desbrava ram novos mercados: venderam a técnica para executivos que tencionavam persuadir s eus chefes a lhes dar aumentos imerecidos. e o uso que faz deles é perfeitamente eficaz. conseguiu romper a barreira de incomunicabilidade. com o mais rigoroso controle científico. Nos EUA. igrejas e lares. e a PNL como fruto materializado do epicurismo. Só que na vida diária esses sinais. Bastava observá-lo em ação para n otar que a comu nicação verbal. é o que veremo s. na esfera prática. transformadas num receituário de maquiavelismo psi cológico para uso popular. em breve.

mercado. a técnica da PNL ameaça tor- .

a revista Science Digest notici ava. Isto des mente a consoladora lenda de que nenhuma hipnose ou manipulação subliminar pode indu zir um homem a fazer o que é contra suas convicções. julgar. ela é ignorada como um charlatanismo inócuo. A q ueles que se têm na conta de místicos enxergam nela uma via de acesso aos mistérios su premos. Ninguém escapa aos encantos da nova técnica. a PNL vem abrindo caminho des de então. ansiosos de unlimited power e arm ados de um temível arsenal de meios para defraudar 50 e colocar a seu serviço os outros homens. junto com a moda da PNL. a patifaria universal. uma assinatura. No Brasil. mudar imperceptivelmente o curso do raciocínio. a PNL já estava. nas mãos erradas. protegida pela sonsice dos crentes e pela ind . dos profissionais de saúde. de que tratarei nos capítulos finais d este livro — sabem precaver-se. em geral. sem que ninguém levante co ntra ela a menor suspeita. Quando não é recebida como uma mensagem salvadora. precisamente. Mas foi nos Estados Unidos. O uso disseminado dessas técnicas arrisca minar todo o campo da convivência humana. cortando os laços entre a psique individual e os seus quadros de referência moral.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 55 nar-se uma temível ferramenta de manipulação pessoal e. Assinalando o perigo. um perigoso in strumento de controle social” 50. Universalizado esse costume. um homem está à mercê do que lhe sugiram. levando a vítima a não se precaver contra um risco que su põe inexistir. h onestidade. Os que se gabam de sólido materialismo pão-pãoqueijo-queijo vêem-na como um inst rumento de poder e ascensão social. para persuadir juizes a absolver culpados e con denar inocentes. conforme esses neomaquiavéis se unam p ara dominar o restante da população ou entrem em competição feroz uns com os outros. também uma onda de protestos e advertências que brotav am contra ela da imprensa. assume a culpa pelo mal que lhe fizeram. com isto. podem ter determinado conseqüências irreversíveis. e aí. O uso habilidoso dos sinais não-verbais permite abrir hiatos na atenção consciente. Mesmo aqueles que antipatizam com a proposta não dão sinal de perceber ne la qualquer perigo. dos meios acadêmicos. decidir. Passadas algumas horas. dá mais brilho ao seu fascínio e incita a vítima a prosseguir na experiência. seja pela ambição de conquistar por sua vez o poder de manipular os outros. com a maior desenvoltura e cercada de aplausos. sem apoio nos quais não pode o ego tomar posição. não faz mal: a PNL tem meios de tornar o prejuízo uma experiência gratificante. todos os padrões de sinceridade. legitimando a manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem lidar com o seu próximo. e pronto a justificar a po steriori a decisão imposta. Assim. para fazer eleitores votarem contra seus próprios interesses. contra qualquer coisa que lhes pareça supr imir liberdades duramente conquistadas. toda influência s ubliminar consiste em abolir o domínio da vontade. sendo usada em toda parte para levar pessoas a venderem seus bens a preço vil. Se alguém percebe vagamente que es tá sendo manipulado pelas costas. Mãos erradas? Nos EUA. par a levar investidores a queimar seus capitais em negócios ostensivamente inviáveis. e subvertendo. Os brasileiros estão absorvendo a PNL com o deslumbra mento bisonho de um garoto que se sente muito lisonjeado ao ser admitido pela pr imeira vez numa roda de cocainômanos. e. dos educadores. levar uma pessoa a fazer o que acha errado. segundo informava a mesma r evista. querer ou desquerer: neutralizada a capacidade judi cativa e decisória. lenda que. Isto foi dez anos atrás. quando não ganham nada. assumindo-a como sua para restabelecer a ilusória integr idade da sua auto-imagem. ter emos ou mais a mais perfeita e indestrutível das tiranias ou a anarquia generaliza da. com isto. a vítima pode se dar conta da insensatez. se de um lado favorece muito a ação do hipnotizador. a aprovar o que lhe repugna. tanto melhor: isto confirma a eficácia da nova técni ca. a comprar o que não quer. e assim por diante. Todos confiam que ali só têm a ganhar. àquela altura. sem que ninguém sequer sugira a possibilidade de haver nela alguma coisa de errado. Os norte-americanos — malgrado um certo embotamento mais recente. a sociedade inteira esta rá à mercê de uma horda de manipuladores psicológicos. e. seja p ela atração do abismo. mais aí já é tarde: um a palavra. Os neuróticos pedem-lhe um meio rápido de obter alív io e os psicoterapeutas uma receita rápida para operar curas espetaculares. solidariedade. de outro lado omite o detalhe de que.

1983. vai Flo Conway and Jim Siegelman. . Science Diges t.iferença blasée dos descrentes. “The Awesome Power of the Mind-Probers”. a PNL vai entrando. maio. vai ganhando força.

onde os homens seriam reduzidos à escravidão por meio de técnicas hipnóticas. Diante de cer tas notícias. A segunda não era ficção. assinalam o torpor da vítima que. Que. mediante um reflexo anestésico . As técnicas de manipulação p síquica progrediram tanto nas últimas décadas. o resultado é que o domínio dos meios de escravizar a mente do povo cresce na razão inversa dos meios que ele possa ter pa ra defender-se. seitas pseudomísticas e empresas multinacionais investem quantias ca da vez maiores na pesquisa desses assuntos. com deleites de masoquismo. o vírus da manipulação subliminar. um homem tem de estar pelo menos meio acordado. mas uma re ortagem: informava. A advertência. eles primeiro enlouquecem. Um filósofo deveria ser o primeiro a advertir contra ele. . qua ndo toma também as mentes dos intelectuais e a voz dos melhores já não se ergue senão pa ra fazer coro à cantilena hipnótica. A indiferença afe tada é uma reação de autodefesa contra o pânico — e quem fugiria do pânico se já não estivess m pânico? Um segundo motivo é que ao menos aparentemente há uma contradição intolerável em p edir à consciência que reconheça sua sujeição a um poder inconsciente. e só quem escapou da manipulação s abe que é manipulado. Um exemplo s ignificativo foi que. a human idade já estava com um pé dentro do Admirável Mundo Novo. Quando. o primado do incon sciente só pode ser afirmado por um homem consciente. É um dos mais velhos e incômodos paradoxos da mente humana.56 OLAVO DE CARVALHO invadindo todos os setores da atividade pública e privada e inoculando ali. Para reconhecer que está dormindo. a concentração das atenções em assuntos secundários acompanhada de total negligência a nte os temas essenciais e urgentes. então é que a consciência públi ca já transpôs a primeira fase do sono. para cair de cheio na esfera do sonho. A primeira dessas obras era uma ficção cien tífica. A apatia. num curso de Ética nominalmente votado a objetivos da salvação nacional. que previa o advento de uma ordem social robotizada. após o sucesso mundial do romance Admirável Mundo Novo (1932). inte lectuais eminentes oferecem o Tetrafármacon e a PNL como soluções miraculosas. Como. precisão e eficiência. então se apaga a última esperança de um redespertar d a consciência. arriscaria cair em ouvidos moucos. é mais fácil ser tomado de pânico do que raciocinar. com provas cabais. a do mero adormecimento. No completo esquecimento. que as técnicas anunciadas no livro anterio r já estavam prontas e em vias de aplicação para fins políticos. Mas quando o torpor não invade somente a alma do povo. § 12. Aquele a quem os deuses querem destruir. que ultrapassaram tudo o quanto o homem comum pode aceitar como verossím il. em alcance. para se entregar inerme e semidesmaiada nas mãos do carrasco. à servidão voluntária. de onde só sairá para mergulhar na terceira fase: no sono profun do. de outro lado. por exemplo. em vez de cair na rede da sua sedução e atrair o povo para mergulhar nela também. E não aceita mesmo: quase todo mundo opõe uma obstinada má vontade a ouvir o que a lguém possa ter a lhe dizer a esse respeito. é verdade. nos anos 70. Aldous Huxley não conseguisse mais que uma minguada audiência para o seu livro Regr esso ao Admirável Mundo Novo. insensibilidade catatônica que protege contra novos abalos. em vez de condená-los como anti-éticos e advertir contra o seu uso. ser viços secretos. A Servidão Voluntária Não estou exagerando o perigo. os governos. tão sensível às redições sinistras da ficção. antevendo um golpe mais forte do que poderá suportar. Pode mos sair dele. em dos es crescentes. se prepara. A incapacidade de um povo para perce ber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva q ue prenuncia as grandes derrotas sociais. E aí já não se sabe quem é mais culpado: o sedutor que escraviza ou o se duzido que se entrega. cai numa torpe indiferença ante o aviso de que a ficção virou r alidade? Uma resposta possível é que esse aviso mesmo já é estupefaciente. a indiferença ante o próprio des tino. e o pânico vira logo es tupor. como o carneiro qu e oferece o pescoço à lâmina. Por que o público. em resumo. sem sonhos.

que está no conhecimento do assunto. a vítima entrega todo o seu dinheiro com um sorriso nos lábios e a mente c onfusa. Brun chegou a prender três suspeitos paquistaneses com passaportes falsos. vou escolher um só. acab avam atribuindo a si mesmas a culpa pelos atos cometidos sob sugestão hipnótica. no entanto foi obrigado a liberá-los por ‘falta de provas’. envergonhadas e confundidas. Paulo. já alarmante. dela se desfaça no ato e saia em bus ca da verdadeira segurança. que garanto não será inútil: quando voltarmos ao seu jardim. noticiou algum tempo atrás a mais estranha onda de crimes que já se vira na Itália. Uma forma de hipnose instantânea e praticamente irresistível. contou o proprietário de um supermercado em Turim. quando comecei a trocar o dinheiro. ‘Trata-se de uma verdadeira gangue. Mas. e xplica o inspetor Paolo Brun. Segunda. a 51 Marielza Augelli. brancas ou de fogo. se ainda tem em si algum resíduo de falsa segurança. os italianos e stão lutando contra um tipo insólito de crime. a não ser em caso de flagr ante. um ca ixa de loja ou de banco. já foram registrados mais de uma centena de casos. pelo medo que as vítimas têm de passar por idiotas. As vítimas. A polícia italiana registrou. o hipnotizador ordena ao suje ito que. sem experiência para lid . após despertar. num despach o da sua correspondente Marielza Augelli espremido num canto de página51. ‘Eles chegaram pedindo para trocar duas notas de US$ 50 e.’ ‘Não sei como. como os batizou a imprensa italiana. na mu ltidão de exemplos da sua periculosidade. Segundo Brun. Por exemplo. Segundo ele. Reações análo gas aparecem em todo tipo de hipnose. Epicuro que me perd oe este rodeio. Alguns parágrafos significativos: “Desde maio. Depoimento de sconcertante foi feito pelo caixa do banco Monte Dei Paschi. que começou em Piemonte. A vítima. Quanto mais tememos um perigo. porque muitos casos não são denunciado s. Isto levava a polícia italiana a crer que o total d e ocorrências registradas. em que os criminosos não usavam armas. Dez minutos dep ois. as cem denúncias feitas em toda a Itália não passam da ponta de um iceberg. por sua vez muito improvável. por direito. Terceira. na existência de fato . O Estado de S. Os feitos espetaculares dos h ipnoladri. todas as cédulas. que o leão é manso. será com pl ena consciência do que nele está plantado. A prova da autoria era tecnicamente impossível.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 57 com a ajuda das distinções aristotélicas entre potência e ato. m ais tendemos a fingir diante dele uma indiferença superior: “Senta. Nesta nova modalidade de assalto. a consciência é. Aquilo me transtornou. M as a maioria das pessoas não atina com estas sutilezas. caía num torpor nebuloso e ia entregando aos ladrões. muitas vítimas deixavam de registrar queixa (exatame nte como mulheres estupradas). ela tem altos e baixos e só conserva o seu domínio lutando contra a inconsciência. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”. fosse bem menor que o número real de crimes.8 mil. e já chegou à Sardenha e à Sicília: o roubo por hipnose. com cerca de dez a vinte pessoas em ação’. não conseguia parar de entregar todas as cédulas de 100 mil’. oferece uma justificativa completa e personalizada. a parte dominante. abra e feche três vezes uma gaveta. mais de uma centena desses crimes.” hipnose. tornavam-se ainda mais inquietan tes por três peculiaridades: Primeira. em seis meses. de Potenza. Os tribunais e a polícia. se lhe p erguntam por que agiu assim. Por essa mesma razão.. ele obedece e.” Não é aqui o lugar de descrever em detalhe as técnicas de manipulação da psique. ao dar-se conta do que tinha feito. que jur ou não ter entendido como dois indianos de olhos negros e profundos. fala mansa e muita delicadeza conseguiram levar US$ 1.. já era tarde. É o p aradoxo que mencionei: assumir uma culpa moral inexistente parece menos doloroso do que aceitar a hipótese humilhante de uma descontinuidade da consciência. e só pode escapar do paradox o pelo expediente desastroso de negar os fatos. uma p or uma. 9 de dezembro de 1990. meticulosamente e sem a menor resistência. substância e acidente: no p lano essencial. ao norte da Pe nínsula. a cidade mais atingi da. para que o leitor. fiquei triste porque não achava as notas e depois não me lembro de mais nada. O jornal O Estado de São Paulo. da Central de Polícia em Turim. Tratava-se de um novo tipo de assalto. mas sim. pediram somente cédul as que fossem da série x.

nada se pode fazer para impedi r que esses crimes proliferem e se alastrem para outros países. Mas essas armas não foram testadas só em umas dezenas de assaltos. estavam atarantados. disseminando a ins egurança e a confusão. uma vez provad as e aprovadas por quadrilhas de ladrões. bem como às entidades. que as fundam e dirigem. Rajneesh. d iscretas se não secretas.ar com o caso. Por enquanto. mais perigosas talvez do que quadrilhas de assaltantes. para reduzir à escravidão psicológica milhões de pessoas. . sejam depois usadas para fins de dominação p olítica. “Meninos de Deus”. Outras org anizações. as vêm empregando e m escala mundial. nem para impedir que as técnicas dos hipnoladri. Refiro-me às s eitas pseudomísticas do tipo Moon.

onde a longa e dolorosa decomposição da sociedade tradicional. e forçá-las a tratamento psiquiátrico. e as encaminham a clínicas especializadas. O primeiro é a Índia. quando comunistas fiéis apareceram confess ando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime. mas só têm com ela uma identidade de fins. A idéia de moldar o comportamento humano p ela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov. logo. abre o flanco a todas as degenerescências do espírito religioso. e os ma terialistas durões afetam desprezo pelo assunto na mesma medida em que.58 OLAVO DE CARVALHO Por mais antipatia que suscitem. bem. Darkness at Noon (“O Zero e o Infinito”). Denúncias esparsas. temem deparar. Nos Estados Unidos. e impede que o público chegue a pensar seriamente no problema. e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simpl esmente nisso. Em maio de 1985. quando pode. Em 1988. entidades privadas empenha m-se em facilitar por todos os meios a libertação das pessoas mentalmente aprisionad as pelas seitas. a civilização ferida de que falava V. S. Quanto aos educadores. segundo me informou um estudioso do assunto (não é b rasileiro). descobridor dos reflexos condicionado s produzidos pelo jogo estímulo-resposta. a opinião pública está consciente do problema. Mas qualquer ação oficial é bloqueada pela a poria lógica embutida na 5ª Emenda da Constituição: o Estado leigo não pode definir o que é religião e o que não é. à sombra totêmica da “liberdade religiosa”. o romance de Arthur Koestler. que alcançam por meios diferent es e mais eficazes. mesmo quando se trate de maiores de idade. Em 1940. Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurof isiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). vocês conhecem algum? Por uma trágica ironia. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral O assunto é fértil de mal-entendidos. Os médicos e psicólogos dividem-se em duas categorias: os de inclinação misti cóide geralmente estão mais ou menos comprometidos com alguma seita ou guru. A expressão “lavagem cerebral” entrou na linguagem popular a parti r dos “processos de Moscou”. os debates prosseguem e mais dia menos dia tal vez se descubra um meio legalmente válido de resolver o caso. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda de scoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. De qualquer modo. logo vêm à boca do interlocutor as palavras: “lavage m cerebral”. o segundo recordista mundial em número de seitas. É uma meia-verdade. a costa Oeste — a maior concentração de gurus per capita no território americano — já tinha mais de cem c línicas de terapia para egressos de seitas. na investigação do caso. É o vale-tudo. algum f enômeno inexplicável que abale suas crenças a um tempo simplórias e pedantes. Ele estudou isto em ca- . § 13. A imprensa só larga a habitual in diferença para explorar. feitas por egressos ou por familiares das vítimas. só lhe resta aceitar como tal tudo aquilo que como tal se declare. o Brasil é. o Parlamento francês aprovou uma lei proposta pelo Partido Socialista. onde a democracia se torna o pretexto da tirania (veremos no fim deste livro o verdadeiro alcance deste fenômeno). essas organizações continuam atuando com o maior de sembaraço em todos os países. que permite aos familiares das vítimas retirá-las das garra s de seus gurus com a ajuda da polícia. minada pela infiltração do Ocidente. ele mesmo hipnótico. O único país que opôs uma barreira efetiva ao avanço das seitas foi a França. na década de 30. caem logo no esquecimento. Naipaul. confundind o espírito e psique. embora todo mundo saiba que promovem a escravidão. As técnicas em uso nas seitas se originaram da lavage m cerebral. deu ao público Ocidental uma imagem vívida dos processos de tort ura psíquica que levavam os prisioneiros soviéticos à perda da identidade. Quando alguém fala da escravidão psicológica que alg umas seitas impõem a seus discípulos. o lado espetaculoso — o que dá ao caso um ar fan tasmagórico. No Brasil — preciso di zer? — o assunto não é sequer discutido. bruxaria e mística. A imprensa Ocidental sugeriu que o emprego de algum meio psicológico inusitado seria o respo nsável por aquelas “conversões” que faziam de heróis revolucionários palhaços atônitos a acus se de delitos fictícios.

um publicitário. recordando-se de traumas enterrados no subconsciente. para que. f azendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelh a que acendia tão logo lhes era oferecido um bife. um evento traumático qualquer. só para depois serem repentiname nte jogados de novo em provações humilhantes. sem gritos. Sargant fez mais uma. verif icou que a coisa funcionava também com estímulos auditivos. imperceptíveis à consciência. O passo seguinte nessa direção foi dado pelo psiquiatra inglês William Sargant.” A mudança de atitude dos prisioneiros. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório. por atuar abaixo do limiar (em latim. os discíp ulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre. que nas 52 . durante hipnose. Gurdjieff ora esmagava os coitado sob pilhas de exigências constrangedoras. que detestava. Com base nessa descoberta. Para começar. A técnica baseada nas descobertas de Poezl recebeu o nome de propaganda sub liminar. e tentará atacar o dono. era desnecessária? Era. Hal C. Sargant descobriu que podia produzir ab-reação simplesmente su gerindo ao paciente. Enxertando na música ambie nte de um supermercado uma voz debilíssima e imperceptível que repetia: “Sou honesto. mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis. o cérebro ent rava em pane. tomando-os como reais. o paciente se recordava do s terríveis sofrimentos sugeridos e. decisiva para o prog resso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenv olvia uma dependência mórbida do terapeuta. Quanto mais abreações. Tudo no macio. Prometia ao s alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos. pud essem ter ab-reações. eram mais facilmente retidos na me mória do que estímulos mais fortes. Então a recordação dos fatos. porém. Becker diminuiu em 37 por cento a freqüência de roubos cometidos por freg ueses. Becker. que os levavam ao desespero até que a personalidade. Depois disso . Repetida a operação algumas vezes. o psicólogo austríaco Otto Poezl descobriu que estímulo s visuais fraquíssimos. Logo depois. De fato. ao examinar prisioneiros de campos de c oncentração chineses libertados após a Guerra da Coréia 52. ora os induzia a descargas aliviantes q ue lhes davam a impressão de plenitude e liberdade. mais forte o vínculo. verificou depois que muitos pacientes devi damente ab-reagidos e curados lhe haviam contado acontecimentos traumáticos totalm ente imaginários. Raramente dizia alguma coisa com senti do identificável.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 59 chorros. não era de terminada pelo conteúdo político da doutrinação. limes) da consciência. doutrinação ostensiva ou violência d e espécie alguma. não roubarei”. Com grande supresa. da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas h abituais. mesmo remotam ente análogo ao que se havia passado. de quem gostava. que tal sintetizar Poezl e Pavlov? A mutação de personalidade por estimulação contraditória bem p oderia ser produzida subliminarmente. ora a luz sem o bife. Eles tinham sofrido lavagem cerebral “clássica” e muitos estavam co mpletamente neuróticos. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptara m à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita gústia intolerável. Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso. por exemplo. Inicialmente Sargant os tratou pela psicanálise. como Freud chamava a suspensão dos comportamentos neuróticos após a catarse curativa. tinha sua catarse e sa ia curado. se devi a tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. e lhes dava um sistema cosmológico completo. Eles ficaram comple tamente atordoados. portanto. Gurdjieff manej ava igualmente bem a estimulação contraditória. literalmente . com o auxílio de hipnose. virasse do avesso. mas sim pelo efeito acumulado de estimu lações contraditórias. Ora. A vítima nem se daria conta. que completava a transformação. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados. em que tantos se empenhava a psicanálise. I sto explicava muita coisa. os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito. uma vez desperto.

e A Posses são da Mente. Rio. do Misticismo e da Cura pela Fé. trad. 1957. .V. Klau s Scheel. London. Imago. The Battle for the Mind. William Sargant. 1975. Uma Fisiologia da Possessão. Heinemann.

Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios. O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações. ainda faltavam dois quesitos: um meio de tornar permanente a mutação de personalidade e um vocabulário dos sinais subliminares . ge radora de neuroses e psicoses54. Nada adiantava o indivíduo tentar res istir às sugestões53: “Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é esse ncial. pela PNL. as respostas e o condici onamento condicionado positivos começam. os resultados descritos por Sargant podiam ser al cançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva..” O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma suge stionabilidade aumentada ao extremo. a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos . Pavlov já tinha reparado que o paciente. após chegar à inversão dos re flexos. de outro lado. é possível induzi-la ao transe com bastante facilid ade. Dois pesquisador es. simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem n um leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes55. Pode-se mu dar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov). de maneira que o indivíduo se torna recepti vo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes”: era possível. pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acon tecendo. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil.. bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito a o desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções. o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de pers onalidade. Mas. na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade. O primeiro foi fornecido pela descoberta segui nte de Sargant. calcul ado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. já não havia ne53 54 . a fase ultraparadoxal. O que Sargant descobriu logo depois disso f oi de estarrecer. até que a con fusão mental crescesse à escala cósmica. que desse agilidade à sua utilização... As mesmas reações . o uso conjugado da estimulação incoerente e das a b-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. portanto.” cessidade de discursos em alto-falantes. hipnotizar um sujeito contra a sua vontade.. Tentativas repetidas em geral dão certo. crédula e dependente (Sargant ).. de repente. às vezes em doi s ou três dias. Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado. O segundo.. essas inform ações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência. em suma. Com a descoberta da hipnose forçada. e por outro. subliminar. podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. a se transformar em negativos . de gritos. ameaças ou tortura mental. Pavlov denomin ara a isto a fase paradoxal da mutação. descobriram que.60 OLAVO DE CARVALHO semanas seguintes era inteiramente substituído por outro. a que se seguia uma fase ultraparadoxal: “No t erceiro estágio da inibição protetora. mantendo-se constante a pressão. Flo Conway e Jim Siegelman. no ambiente fechado e artificia l das seitas pseudoreligiosas. o sistema nervoso é esgotado e . para produzir a lavagem cerebral discret a e indolor com que sonhavam os técnicos. Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa. se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes.. Por um lado. Para reduzir um homem a uma obediência canina. As conclusões dess as pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente: l. 2. que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos par a produzir56. Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em su jeitos normais. Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias.

56 V. p. A Possessão da Mente. A Handbook of Artificial Intelligence.Sargant. Universit y Press. 55 V. trad. Stanford. 1975 ( original: A Theory of Cognitive Dissonance. 47 Leon Festinger. Calif. Eduardo Almeida. .. Conway & Siegelman. Teoria da Dissonância Cognitiva. Zahar . IBM. Rio. 1957 ). Snapping.

Não pode ser banal. Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. Mas há sempre um limite. Devo. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares. Ele não se assem lha em nada àquilo que nos séculos passados. um homem pode acreditar que Deus faça a Terra parar. que nenh uma religião jamais ultrapassou. sob pena de funcionar como um ant imilagre. Deus gradua as provações segundo a capacidade dos fiéis. mas s difícil continuar crente se os pães celestes viessem eria m ofados. que estão fora do alcance de um pesquis ador independente. foi somente porque não quis. isto é. o gigantesco: ele tem d e mostrar harmonia. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. desobedeça à sua dis posição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses. essencial. o incomum. O fator decisivo é o controle planejado do fl uxo de informações. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom-senso. mas não que a chuva será se ca. 4. pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imed iata. a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade o ferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional. não há. cuja lic itude ninguém se lembra de pôr em discussão. desde que se sintam corta dos de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). as empresas multinacionais. O cristão pode aceitar que Cristo se ergueu da tumba no terceiro dia após a mort e. Tem de possuir um sentido. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres . O milagre pode ser belo. no uso efetivo das técnicas de manipulação. O senso da identidade lógica. funcionalidade. Um crente não pode esperar indefinidamente nas promessas do seu Deus quand o nenhuma delas jamais se cumpre. Os povos do passado podiam seguir um profeta que lhes anunciasse a vida eter na ou a cura de todas as doenças. mas permaneceriam indiferentes a uma mensagem ce leste que prometesse apenas entortar todos os garfos. ou porque tropeçou em algum obstác ulo acidental. em rupturas da ordem natural costumeira. e mesmo a observação mais superficial basta para mostrar que a manipulação da psique já se tornou. um hábito corrente. sem que a víti ma se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). por exemplo. Essa a valiação requereria investigações de vasta escala. portanto. a teologia apofática ou outros exemplos do mesmo teor como provas de que o pensamento religioso admite . hoje em dia. subjacente mesmo às mitologias p oliteístas57. que o movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da timulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma su bserviência patética. pela simples razão de que a unidade do real é a unidade do próprio Deus. nunca foi violado por nenhuma das grandes crenças religiosas do passado e do presente. desmentindo a fé em vez de confirmá-la. beleza. 5. mas não que Ele tenha ressuscitado antes de morrer. se admit ia como fé religiosa. sublime ou terrível. Se ninguém ainda tentou. O primeiro desses limites é a contradição intrínseca. Ou antes: há toda uma rede de limites. em todas as religiões. Um homem pode acreditar que Jesus multiplique os pães. Impedimento teórico. continental ou planetária. que é uma só e a mesma coisa que o senso da unidade do real. A decepção continuada é um antídoto contra a fé. em muitos setores de atividade. Finalmente. A reverência ao pajé pode fazer um índio acreditar que os ritos trarão chuva. os movimentos políti cos de toda sorte avançaram. A técnica pode ser aplicada s imultaneamente a todos os membros de uma coletividade. que pode ser realizado à distância (IBM). e por i sto. o v alor dos bens prometidos e 57 Que nenhum espertinho venha mencionar os koans do budismo. mas não que Ele a faça girar e ficar parada ao mesmo tempo desde o mesmo ponto de vista. há o limite da p aciência. É muito difícil avaliar até que ponto os governos. O miraculoso não é apenas o extraordinário. pode também levá-lo a aceitar a aut oridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de con trole. os serviços secretos. ridículo ou grotesco. Mov ido pela fé. até agora. Não é preciso enfatizar as fac ilidades que. ater-me àquilo que posso observar na vida de to dos os dias. O segundo limite é o senso estético. Noto.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 61 3. na medida em que é uma resposta a legítimos anseios humanos e não apenas uma esquisitice coloss al. e em muitas civilizações diversas.

ela se mostra perfeitamente lógica. Uma vez encontrada a solução. . obviamente não poderia realizar. atendidas as distinções de planos de realidade que a lógica .a autocontradição. Esses exemplos só mostram que na esfera mística a compreensão de certas verdades requer uma apreensão intuitiva capaz de superar. obstáculos que ao raciocínio discursivo parecem intransponíveis. num salto. por si.

de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão p or intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela f m inoculados pela propaganda. entre os quais os demônios. V. e agora ele só c rê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. No Ocidente cristão. os jingles e logotip os da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anj os. 19 20. Albert Farges. dignos de pena na melhor das hipót eses. o que caracteriza o fenômeno mundial da pseudo-religiosidade contempo rânea é justamente a credulidade beócia que toma como mensagem do céu qualquer fenômeno gr osseiro de telepatia ou hipnose. Paris. a respeito. esta arte esteve incluída até bem pouco tempo atrás nos ensinamentos regulares de Teologia Mística transmitido nos seminários. não despertariam maior curiosid ade senão como fenômenos de teratologia espiritual. O ensina mento tradicional a respeito está registrado nos hadith. uma autên ciência do “discernimento dos espíritos”. demônios. ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária. ele não pode deixar de se guiar p or ela na prática. nesse quadro. Muitas tribos indígenas têm. Se o conhecim ento desta disciplina não tivesse desaparecido. afirma-se que as visõe s podem provir de Deus. ele já passou da fase ultraparadoxal. finalmente d os djinns ou entes sutis da natureza. do coração humano. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. muito acima do homem branco médio. dos anjos. Maison de la Bonne Presse. que ensina um homem a discernir a fonte — e portanto o valor — de su as inspirações e visões interiores. The Spiritual Legacy of th e American Indian. que aceita “sinais divinos” desprovidos da mais ele mentar coerência estética ou funcionalidade prática. É a fé reduzida à crença cega e totalmente amputada do mais elementar “discernimento dos espíritos”58. para não falar de outros mais grosseiros ainda. A destruição da religiosidade popular tradicional — atacada de um lado pelos materialistas e de outro pela ideologia da New Age — não produziu nenhum “esclarecimento” ou “iluminação coletiva”. ou Maomé ) e depois foi sendo acrescido das observações dos místicos. Pendle Hill. as figuras. heróis e duendes do imaginário tradicional. Os milagres surgem. O próprio Cristo cen urou o povo que pedia milagres. 1964. aspirações e temores . feitos como os de Thomas Green Mor ton. mas sim um rebaixame sem precedentes do nível de consciência das multidões. Joseph Epes Brown. Na mística islâmica. Ora. já que sua imaginação não t m outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. Os slogans. O homem das grandes cidades ac redita hoje em ficções que fariam um índio sorrir59. entre suas tradições. de outros homens. ou técnica. que as coloca. por exemplo. ou sentenças do Profeta ( M ohammed. Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontr am por trás desse fenômeno. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe . ao longo dos séculos. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos. nem quarenta minu tos para que seu cajado se transformasse em serpente. subentendendo que a fé perfeita não precisaria deles . espiritualmente. que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as ci vilizações precedentes? A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto s eus antepassados poderiam sequer imaginar. mas não e de esperar nem quarenta semanas para que Deus enviasse o maná. t odas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas. que continua a crer com zelo fanáti co apesar dos mais óbvios desmentidos. praticada por todos os místicos das randes religiões. 58 O “discernimento dos espíritos” é a ciência. Les Phénomènes Mistiques Distingués d e leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques. 59 Não é força de expressão. O teor mesmo das imagens e o conjunto de sentimentos que as acompanham indicam a fonte. como antecipações que dão aos fiéis o ânimo de perseverar na fé. sabendo que a propaganda é um universo de enganos. Moisés pôde esperar quarenta anos pela libertação do seu povo. V..62 OLAVO DE CARVALHO a lógica da situação. Assim. A respeito. mas não deixou de operá-los em profusão por saber que a fé humana é necessariamente impe rfeita. por exemplo.

Mas reprimir essa angústia é abdicar. é condenar-se a um vaivém incessante entre a fan tasia desesperançada e o desesperançado cinismo. o . inócua em casos isolados. no ato. mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propa ganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamen te imbecil. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida. ao generaliz ar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável. A ruptura entre conduta e crença. Levado a agir como se acreditasse n aquilo que nega.. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativo s. qu e tem de ser reprimida a todo custo. mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. d e todo senso profundo da realidade.

A velha oposição entre evasão e ativismo perdeu todo sentido num mundo em que a ação política se tornou um escapismo para alívio das mentes imaturas e em que as fantasias mais extravagantes são celebradas como formas de “protesto” contra um mundo mau. consag rando as técnicas de manipulação psicológica e de estimulação contraditória como armas legíti e aceitáveis na luta das idéias. mas eles mesmos praticam abundantemente a estimulação paradoxal sobre as mentes indefesas de alunos. a pobreza. o homem é tratado como um cão de Pavlov. todos os outros males que a afligem são meras incomodi dades corriqueiras. seja le vando as massas a encená-las no palco da política. Quando os filósofos co meçam a declarar com obscena satisfação que a verdade só pode ser inventada convencional mente ou fingida mediante a encenação de crenças políticas. Ideologias como o gramscismo. A culminação de cem a nos de pesquisas sobre o domínio psíquico do homem pelo homem é alcançada no momento em que todas as elites — as que estão momentaneamente no poder e aquelas que lutam para conquistá-lo — se unem num pacto contra a liberdade da consciência individual. anti-racismo e defesa de “ident idades culturais” sustentadas na separação das raças. Que importam o racismo. seja construindo-as por deduções de um artificialismo sufocante. Comparados a esse império universal da impostura. a redução das massas a um reb . com muita violência e muito sangue para dar verossimilhança a um enredo delirante. liberdade irrestrita para o c idadão e maior intervenção do Estado na conduta privada. Quem quer que lhes dê ouvidos termina louco. Mas os autores da proeza são ele s mesmos suas primeiras vítimas. ouvintes e espectadores. Não é de estranhar que com tanta freqüência os intelectua is apologistas do absurdo se ponham a elaborar sistemas de justificativas. destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas prémodernas. são a legitimação “filosófica” de um atologia: não conseguindo mais instalar-se na realidade em que viveram nossos ante passados. O efeito de longo prazo é elevar até o insuportável a pressão col etiva das angústias e das culpas não conscientizadas. um cão é sempre um cão. se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana. a injustiça social. Quer seja adestrado para cochilar mansamente diante da lareira ou para avançar co m os dentes à mostra contra os estranhos. a abolição da consciência. Perto dessa queda da c ondição ontológica da humanidade. moralismo político e imoralismo erótico. mas isto é pior ainda. influenciando a sua conduta sem pedir licença ao julgamento consciente . liberação das drogas e proibição dos cigarros. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado d e espírito. que não têm satisfações a prestar à razão. a corru pção dos políticos. pouco importa quem ganhe a disputa: a humanidade perderá. que só pode acreditar na realidade qua ndo ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. o neo -epicurismo. A partir desse momento. segundo as quais a re alidade objetiva não existe ou a linguagem não tem relação com ela. o ativismo intele ctual acaba por reduzir a linguagem a nada mais que um instrumento de expressão de raivas insensatas e exigências descabidas. seja criando-as em laboratório. Pervertendo nos homens a capacidade para o juízo de realidade. O típico intelectual exasperado de hoje defende sistematicamente reivindicações contraditórias: liberação do aborto e repressão ao assédio sexual. o “novo modelo de linguagem” de David Bohm. leitores. mas quem está imune à sua influência? O público nem sempre se dá conta das contradições. Elas os ajudam a suportar o mundo fictício e alucinante que eles mesmos criaram. compo stos de puras racionalizações no sentido freudiano da palavra. o neopragmatismo de Richard Rorty. eles certamente devem ter bo ns motivos pessoais para ver nessas idéias algo de reconfortante.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 63 homem das grandes cidades é hoje um esquizóide. os intelectuais começam a produzir realidades postiças. ao bom senso e ao mais elementar sen- timento de humanidade. democ racia direta e controle estatal da posse de armas. e assim por diante. qu e importam todos os males menores e locais denunciados e combatidos pelas várias i deologias em disputa? Que diferença faz se a manipulação da mente é empreendida sob o pr etexto de manter as massas na passividade de uma rotina conservadora ou de impel i-las a fazer uma revolução? Em ambos os casos. porque elas vão direto para o seu sub consciente. O estraçalhamento das consciências pelo império da propaganda é condenado com veemência por alguns intelectuais ativistas.

uma vez perdido.de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo que. é irrecuperável para sempre? .

ingovernável. que. uma luta qu e transcende todas as diferenças exceto uma. quanto à validade da mente humana. A vitória almejada é o definitivo caos na mente do mundo. sem propósito e sem causa. 60 Charles Morgan. . 10. “A doença social que termina na a niquilação do pensamento independente.64 OLAVO DE CARVALHO Quatro décadas atrás o uso universal dessa arma era apenas uma tendência. ou mesmo. uma névoa de razão fragme ntada numa poeira rodopiante. a insanida de pelo fracasso em distinguir e pelas fantasias de poder. New York. quan to ao seu direito de distinguir entre o bem e o mal e ao seu poder de empreender sua jornada à luz dessa distinção. Macmillan. O epicurismo é um antepassado de todas. pp. O perigo que corremos é que há grandes forças em ação no do que nos proíbem empreender essa jornada e destroem nossa vontade de fazê-la. no meu modo de ver. “O propósito do ataque é o mais velho de todos: p roduzir o caos. 40 e 5 3-54.” 60 Dentre essas forças. e sua herança ainda não se esgotou. Liberties of the Mind. a Nova Era. as mais notórias são o pragmatismo. o marxismo. 1951. não um fato co nsumado. E já então um observador sensível podia escrever estas palavras: “O problema da s Liberdades da Mente é hoje tão urgente e prático quanto o problema da emancipação dos escravos foi no passado. é uma doença de rara sutileza. entre aqueles cuja ênf ase está na razão e aqueles cuja ênfase está na fé. a pseudo-religião. É antes. no fundo. e da vontade de independência. os lisonjeia e se esconde. fazendo os homens acreditarem que estão pensando livremente quando não o estão. “A batalha a se r combatida não é só entre partido e partido. o neopositivismo.

Ele é uma espécie de sombra. A ÍNDOLE DO EPICURISMO § 14. C hegaram a chamá-lo de “ímpio” e até de “porco”. Não conseguindo fazer-se aceitar como filo sofia séria. portanto. os exilados. no campo da ação prática. e talvez por causa delas. era incapaz de permanecer indiferente aos ataques dos adversários. não hesitou em chamar seu velho mestre de “verme” e “prosti tuta”. o conferencista. Apenas reexibiu. forjada do mais puro ressentimento. em substituir a história por um sistema de men tirinhas bobas destinado a colocar Epicuro no centro da evolução do pensamento humano. uma vez mais. ele constitui um fenômeno significativo. que constituem para ele um sucedâneo de teoria. o fracasso subiu-lhe à cabeça. que a escola que trapaceia no campo da teoria não teria por que eximir-se de fazê-lo também no campo dos fatos. além de cultivar no seu j ardim todos os sofismas clássicos. em tudo. em que a men te humana está destinada a cair de tempos em tempos. Era famoso pela incontinência verbal com que difamava sobretudo os ausentes. ele chamou Aristóteles. lorotas novas. w Em seu esforço de canonizar Epicuro. então. em seguida. o epicurismo vingou-se produzindo uma caricatura de história da filosof ia. É significativo que esse tipinho. e menos ainda de respondê-los com elegância. fazendo coro à longa tradição de marketing epicúreo. como um novo Sócrates. de maneira inversa à do filósofo. alguém que aborrece a sabedoria e foge dela por quantos atalhos e de svios se lhe apresentem. entre as idéias que até hoje despertam algum interesse? Uma resposta possível é que. um misósofo. Ele é um equívoco permanente. pr ojetando no chão a imagem obscura e invertida que. recém-exilado. Se assim é. cíclica e regularmente. teceram e cultivaram durante vinte sécu los. onde quer que se apresente uma nova defesa de Epicuro. os que estavam em desgraça ante o poder. E ele. não estranha que o epicurista proceda. Essas balelas reaparecem. Este era seu estilo característico de lidar com . enquanto em torno a fúria de seus adversários lhe assacava odiosas calúnias. como pôde. não foi nada disso. as clássicas lendas que os epicuristas. será sempre tomada como tal por quem quer que aborde os temas filosóficos vi ndo de fora e movido por interesses alheios aos do filósofo — pelos interesses do ho mem prático empenhado em “transformar o mundo”. malgrado sua ética declarada de indife rença pelo mundo. de “vendedor de drogas”. chutando para a perife ria todos os que ousaram se opor a ele. Por exemplo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 65 CAPÍTULO V. Como diria Nelson Rodrigues. Porcarias epicúreas Mas se o epicurismo é indefensável como teoria. t ambém se empenhe. roendo-se de inveja da filosofia dominante. Bem. propriamente. Epicuro. de stinada a acompanhar a filosofia pelos séculos dos séculos sem desaparecer nunca. traçou um r etrato moral do filósofo como um sereno asceta em seu jardim. por ter o perfil externo da fil osofia. que ele seja um eterno antifilósof o. pa ra mostrar. tudo suportou c elegância e resignação. Convém repassar algumas delas. só para ter de reerguer-se. pelo retorno ao espírito filosófico. estar ausentes do M ASP. ainda que modesto. diante d e uma platéia que as desconhecia e à qual pareceram novas. malgrado suas fraquezas. concorrer com as outras filoso fias e defender seu lugar. Após ter sido discípulo de Na usífanes por longos anos e haver tomado dele algumas das principais idéias que viria m a constituir o epicurismo. Não poderiam. ocupado somente das coisas do intermundo e alheio à vã agitação dos á os humanos. não poupava mesmo aqueles com quem tinha uma dívida pessoal. na obscuridade do ostracismo. absorto em meditações el evadas. se como prática é apenas um embuste para lograr um público sem discernimento. Pessanha não inventou.

por exemplo.66 OLAVO DE CARVALHO aqueles de quem havia copiado alguma coisa: cobri-los de injúrias. em Atenas. Eubúlides. É de estranhar que um tipo desses venha a ser chamado de porco? Os epicu ristas. no que é o maior e melho r dentre os estudos recentes sobre o assunto —. mas somente um dos muitos cientistas estrangeiros na Academia. na época. É o que faz. desculpam esses excessos verbais como manifestações da justa indignação m oral do mestre. Ao contrário de Platão — escreve Düring. Aristóteles. Mas enquanto Aristóte les. Como ali se ace itavam indiscriminadamente quaisquer discípulos. pensou e disse dos 63 Carlos García Gual. encontrou campo livre para se expandir. combatiam Aristóteles porque reprovavam suas doutrinas e sua filosofia. Mas o fato é que Aristóte les. quase nada sobrou do aristotelismo. No monumental estudo que consagrou a Aris tóteles. enquanto viveu ele esteve no bem -bom. transmitiu-se como um vírus às gerações seguintes de epicuris . Mas por que não deveríamos explicar por igual motivação os ataques dos adversários? Por que o mesmo procedimento deveria ser louvável num homem e condenável nos outros ? O hábito da difamação. Teopompo e Teócrito de Quios odiavam Hermias (sogro de Aristóteles) e transferiram esse ódio a Aristóteles. 62 Ingem ar Düring.. o fato é que. Assim. visto com maus olho s pelo beautiful people. sem nenhuma seleção intelectual. Um suc esso. se encontrava sob o domínio do t error.. Aristóteles “não foi chefe de uma escola . e o descrédito em que veio a cair o epicurismo. Exposición y Interpretación de su Pensamiento.. várias escolas foram fechadas e muitos filósofos — adversários potenciais de Epi curo — tiveram de emigrar: a nova seita. era e continuou sendo sempre um estrangeiro. sem ser jamais incomodado pelos poderosos. Embora sua filosofia te nha sido severamente refugada pela posteridade. Madrid. já às portas da Era cristã 64.. que desapareceu da memória dos gre gos para só ressurgir três séculos depois. para escapar à morte.. pois foi um dos muitos professores cassados pela ditadura militar. morto Aristóteles. membro d a escola megárica. para criar retro ativamente a aparência de que no meio ateniense os aristotélicos fossem a classe dom inante. Demócares e Time u facilitaram a calúnia dos pósteros. a ascensão dos pensadores politicamente inócuos em tempos de tir ania é um fenômeno que nós aqui no Brasil conhecemos bem. sobretudo. Bernabé Navar . e os epicuristas um punhado de bravos em luta contra a opressão.. Curiosamente. O epicur ista de hoje pode utilizar o prestígio dominante que Aristóteles veio a ganhar nos séc ulos posteriores. que o cultivaram ao longo dos séculos. que pregava o absenteísmo político e não oferec ia perigo para o regime. trad. A escola epicúrea floresceu em At enas quando a cidade. o móvel era o ódio político. A campanha epicúrea de difamação deixou marcas profundas e foi ressuscitada no Renas cimento por Gassendi e Patrizzi” 62.. para afetar ind ependência. Carlos García Gual no seu livrinho apologéti co 61. Pode-se imaginar o que a nossa geração. Em alguns. Para completar. Outros. é claro. estando doze mil de seus cidadãos com os direitos políticos suspensos. ia para o exílio. só reaparecendo no século XII. Alianza Editorial. aliás. reed. 61 e foi obrigado a fugir para a Ásia Menor. de teor político. Mal havia alcança do certa posição como professor. não pode tê-lo ignorado. Aristóteles teve poucos amigos e muitos inimigos.. 1985. Pessanha. Também está na hereditariedade epicúrea a propensão a jogar com as aparências para criar f alsas impressões persuasivas (a lógica dos sinais é uma técnica de fazer isso). a tradição anti -aristotélica era forte já em vida de Aristóteles” 63. respondeu a ele com injúrias pessoais. Foi exata mente isto o que Pessanha deu a entender ao público do MASP. por sua vez. que se passava com Epicuro? É falso que e le tenha sofrido qualquer perseguição ou ataque sério em vida. pois. Ingemar Düring escreveu o seguinte sobre os ataques que forçaram o Estagirita a buscar o exílio: “Seus mais inflamados inimigos encontram-se entre os epicuristas . Epicuro. e logo em seguida sumiu de novo quase por completo. Nestas condições. o ja rdim logo ficou lotado de senhoras mal casadas e de milionários entediados. 1981. ocupada pelo tirano Demétrio.

1969 ( Bibliothèque de la P léiade ). Paris. México. op. I. e também as apostilas de meu curso Pensamento e Atualid ade de Aristóteles ( Rio. pp. 41. t. Aristote et le Lycée. ). 64 . 685-687. em Brice Parain ( org. 1994 ). 1990. Universidad Nacional Autónoma.ro. Pierre Aubenque. p. Histoire de la Philosophie. 42. p.. Gallimard. V. IAL. cit. I-III. fasc. Düring.

Pessanha atrás dela. Ele era. como Pessanha quis fazer crer que fossem os críticos de Epicuro? Ou. graças a uma conspiração urdida por aristotélicos e cristãos e inspirada. No fundo. como um interesseiro comércio com Deus. e dec laradamente. Se este é “interesseiro”. Filosofia e ascetismo eram portanto. Outra lenda querida aos corações epicuristas é a de que a escola caiu no descrédito e no esquecimento. Não obstante. . Éramos todos então uns caluniadores in decentes. O que houve. A diferença está em que a recompensa esperada pelo cristão é espiritual e de além-túmulo. é a favor do cristão. ao contrário. como eles. entra na era Patrística com Lactâncio e Dionísio. O asceti smo cristão surge. um instrumento em vista de um fim: a conquista da felicidade terren a. encontrando sua mais plena expressão em Hegel. tínhamos boas razões para pensar que as circunstâncias do sucesso daquela gen te eram pelo menos um sinal da vacuidade das suas idéias? Epicuro. A corrente reprobatória começa com os estóicos e os aristotélicos. pelo essencial. e a do epicurista é material e a curto prazo. de razões puramente filosóficas. qualquer idéia filosófica que não tivesse em mira o alívio da dor e a obtenção do prazer. cujo ascetismo desenvolve as virtudes da fé e da esperança num s entido último da existência. a essa luz. afirma ele. da Antigüidade até agora. que o epicurismo suprime. Os motivos para a rejeição do epicurismo não foram quase nunca de ordem religiosa. “não quer arriscar por nada a felicidade pessoal. em preconceitos religiosos. o epicur ista é apenas mais mesquinho: não dá crédito a nenhum sentido último. tanto quanto os de um monge cristão. na moral estóica ou nos místicos mussulmanos que professam “renunciar ao Paraíso” pa ra contentar-se com o amor a Deus como um fim em si). Entre os dois “comércios”. ergueramse de tempos em tempos as vozes corajosas de alguns servidores da verdade. o alívio mais imediato e o mai s imediato prazer possível. ressaltando que seu ascetismo era ainda mais meritório por não contar . atravessa a escolástica sem atenuar-se em nada e penetra com a mesma força na Idade Moderna. enquanto Epicuro viveu. não o é menos o epicurista. Ora. prolong a-se em Agostinho. Epicuro e seus discípulos mostrassem por vinte séculos uma profunda indignação ante tais ninharias. atual. dar a essas picuinhas uma dimensão comparável à da morte de Sócrates ou à do artírio dos cristãos. para Epicuro. independente de q ualquer expectativa de benefícios (como se encontra. ao contrário. é abdicar de todo senso do ridículo. com a expectativa de uma recompensa em outra vida. foi apenas um zunzum de fofocas. não so freu perseguições: beneficiou-se com a perseguição que os outros sofreram. para proclamar a grandeza do mestre e squecido. que povo do mundo não daria trela a fofocas ao ver milionários trancarem-se com prostitutas entre os muros de um jardim? Chamar a is to perseguição. Não houve perse guição contra os epicúreos. a tradição epicúrea. na ética militar h indu. ademais. por exemplo. A história é outra.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 67 novos professores que entraram no lugar dos cassados e passaram a brilhar nas cáte dras com suas idéias politicamente inofensivas. em vez de perdoá-las como manifestações banais da indiscrição humana. porém. evidencia neles uma peq uenez de alma que os torna indignos do nome de filósofos. Embora apreciado. como o dos cristãos. O filósofo do jard im. Exige pagamento à vist a. Este não encontrava em Epicuro “a menor sombra de um conceito” e via no epicurismo tão-somente “p alavras vãs e representações vazias”. Epicuro foi tido em péssima conta por quase todos os filósofos. Caso haja nisto alguma diferença de mérito . provocado pelo fato de que a escola aceitava em seu corpo discente a té mesmo notórias prostitutas. por literatos e por pens adores bissextos. em geral. enquanto o ep icurismo assume a nobre aparência de um sacrifício gratuito. meramente instrumentais. ao alcance da mão”. era totalmente desprovida de sentido. para Epicuro. aqui e ali. adornou o mestre com os traços de um santo asceta. Mas o ascetismo epicúreo não foi nem poderia ser nunca o exercício de uma virtude gratuita. mas d ecorreram. de um ominoso silêncio — prossegue a lenda —. O epicurianíssimo García Gual ressalta que. Que.

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ou não assobiando nada. O protótipo deles foi Pierre Gassend. Mas quem disse que o indete rminismo de Planck e Heisenberg tem sentido negativo? Quem disse que a indetermi nação dos movimentos dos átomos prova. Descrito assim. e resolvessem ali tocar juntos. mesmo desagradáveis em si. que a matéria vibrada possa produzir. latinizado Petrus Gass endi. sejam eles um caniço. cada um assobiando pelo caminho uma melodia diferente. que a isto se reduzem respectivamente a flauta. far iam durante esse breve momento gestos coordenados segundo a partitura. a inexistência de um po der central regulador do cosmos? Pelo menos não foi assim que entendeu sua teoria o próprio Heisenberg. e se por acaso. todas as combinações são possíveis. Não é inteiramente exato o que foi dito acima. chegam a coagular num canto qualquer do espaço um conjunto de coisas e seres mais ou menos estáveis. fumando ou não fumando. obra original dele (com alguma ajuda de Nizan e García Gual): revigorar o corpo moribundo do epicuri smo com uma injeção de física moderna: Epicuro teria sido um precursor do indeterminis mo de Planck e Heisenberg. Assim também uns músicos que o acaso reunisse num ponto qualquer do cosmos. novamente. digamos. chocando-se uns com os outros. indiferente ao mecanismo físico que produz os sons. mas pelo efeito de uma coincidência estatística. já que de outro lado ele defende teses absolutamente incompatíveis com o epicurismo. enxertado de diatribes nietzscheana s. adiante § 19). A inexistência de leis físicas que governem o cosmos não era para ele um argumento contra a existência de Deus. acessív eis à percepção humana e regidos por leis que chamamos newtonianas. O mais audacioso dos enxertos foi. como por exemplo um atomismo à Demócrito e a noção de Deus como causa eficiente do movimento cósmico. M as a homenagem que Gassend presta a Epicuro é meramente verbal. o universo da física moderna pode parecer uma confirmação de Epicuro. No universo indeterminista. O ódio a toda a tradição filosófica ocidental inspira ria. servindo-se. de quaisquer meios ou me canismos que se apresentem. Quanto aos devotados após tolos que mantiveram aquecida a batata epicúrea sob a crosta do gelo universal. já que a beleza não se funda nas leis da causalidade física e sim da intencionalidade e stética. absor . para Planck e Heisenberg. o que é aliás a única boa razão pela qual alguém pode aderir ao epicurismo — filosofia polissensa. num bar. alegre o u triste segundo o estado de seu fígado. sem se perguntar se quer o que os outros estariam fazendo enquanto isso. e como que seguindo cada qual livremente o seu clinamen. Gassend tomou-se por epicurista justamente porque não compreendeu Epicuro. Na dança randômica dos átomos. os átomos se movem s em nenhum roteiro predeterminado. que os esnobes insistem em pronunciar à francesa Gassandí (1502-1655). que não oferece outro fundamento à unidade de uma tradição senão o de uma somatória de ojer izas. se mpre os houve. a unidade de uma negação. É. os organiza segu ndo a forma de uma intenção estética. A ord em da forma total sobrepõe-se aqui à ordem ou desordem das matérias e elementos. mas sim contra o determinismo mecani cista que negava Deus com base nessas mesmas leis. o trompete e a corda do violino. inclusive. é claro. que não compromete em nada a sua l iberdade fora dessa zona restrita. e que se utilizaria de outros meios se os houvesse e fosse o caso. o epicurismo de Paul Nizan. — a qual é capaz. ao menos em parte. e em segu ida iriam embora para suas respectivas casas ou para onde bem entendessem.68 OLAVO DE CARVALHO A hipótese de que toda essa assembléia variada e milenar estivesse conjurada contra Epicuro movida tão-somente por preconceitos e fanatismos alimentados pela Igreja C atólica não merece discussão. É preciso ter praticado muito Tetrafármacon para poder enxer gar estóicos e protestantes como agentes secretos do Papa. não o fazem por obri gação. O ponto comum é a ausên cia de leis que governem a matéria. mas sim com o o músico que. no século XX. para isto. A afi nidade de Epicuro e Gassend é apenas negativa: ela reside no ódio comum a Aristóteles. pelo trajeto que a cada um aprouvesse. Pessanh a disse admirá-lo como a um elo importante na tradição materialista (v. que Pessanha não inventou nenhuma lorot a nova. de absorver na forma superior de uma harmonia qu aisquer sons. O Deus de Heisenberg não age so bre o cosmos como um relojoeiro sobre o relógio — como o Deus de Newton —. a pé. de carro ou de trem conforme o caso. onde cabem todos os contras. um tubo de metal ou uma tripa de carneiro.

A ausência de uma .vendo-a e superando-a ao lhe dar um sentido.

. continuação de O Afeto que se Encerra. a origem fortuita e o caráter leviano de suas opiniões sobre assunto grave. No primeiro caso. isto é. vezes vel ocidade. La Mettrie. Laplace. Francis — um autor que sob outros aspectos é d igno da maior admiração — não é o primeiro intelectual brasileiro que vejo admitir sem con strangimento. Ademais. d’Holbach e tutti quanti. naquilo que podia haver de mais antagônico ao nonsense epicurista 66. não havia a menor dúvida: se o universo funcionava como uma máquina segundo leis imutáveis de causa-e-efeito. de um mecanicismo. que só redobra os sofrimentos. É um diletantismo trágico. multiplicada pela margem de erro em medir o seu momento ( massa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 69 causalidade rígida. A fuga para o jardim “Il faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seuleme nt de mourir. p. cit. no segundo. uma inexatidão in erente à natureza mesma da realidade física. Uma teoria física. durante uma meditação no bonde. V. Ele não é nada disto. Cap. Porém o mais esquisito em casos dessa ordem é a afoiteza com que muitos in telectuais concluem do indeterminismo físico a inexistência de Deus. I. com base em leituras superficiais. 52 — na verdade um segundo volume. É verdade que o indeterminismo de Heisenbe rg pode ser usado contra o realismo filosófico ( uma doutrina que. Para Pierre Bayle. ou também a massa. Chicago. no racionali smo clássico. isto é. por si. que a constante de Planck dividida por 2p ). comete uma segunda leviandade. Werner Heisenberg. que no seu livro de memórias. ter encontrado mais tarde. e que. acidentalmente. entre os muros do jardim. ao fazê-lo. v. então Deus se tornava uma hipótese di spensável ( o mais feroz dos deterministas. onde átomos e homens buscam em vão escapar da dor perseguindo a miragem de um prazer impossível. 1980 ). Muitos adeptos do indeterminismo simple smente deram por pressuposta esta última alternativa. Mas o que lá dentro aguarda o meditante é uma conclusão . Civilização Brasileira. sobretudo jovens. The Great Ideas Tod ay 1990. c’est de mourir comme des imbéciles. m. absurdo. Encyclopædia Britannica. antes mesmo de terem chegado a perceber a ambigüidade. s em nunca mais voltar ao assunto. v ) nunca é menor que h. acabou por se incorporar ao dogma ). dan do mau exemplo aos leitores. Helvétius. pois não deixa claro se a margem de erro afeta some nte a velocidade. O ú nico refúgio é a meditação resig ada. os argumento s de Heisenberg não são tão sérios quanto o imagina o leigo deslumbrado. absorvida pela Igreja através da sua versão tomista. Companhia das Letras. Rio. Heisenberg buscou o seu em Malebranche e Leibniz. foi aliás quem introduziu no léxi co das autodefinições pedantes o termo agnóstico ). A fórmula do “princí io de incerteza” é ∆x • ∆mv ≥ h. O que essa concepção nos descreve é um mundo caóti co.” GEORGES BERNANOS Não deixa de ser irônico que o epicurismo tenha entrado no vocabulário popular como si nônimo de gozo sibarítico. Mas dispensável mesmo é a hipótese deter mi65 § 15. Esta e outras mancadas terrificantes são mostradas impiedosamente por Stanley L. varrendo para b aixo do tapete o fato de que durante dois séculos o argumento maior em defesa dess a conclusão foi justamente o determinismo. Ou seja: um defeito da ciência física pode ter sido projetado sem mais nem me nos sobre a estrutura do real. filosoficamente. que só lhe foi mostrada décadas depois pelos adversários da t eoria. m. e até com certa vaidade. que se compraz n a derrota do homem. premido entre a força cega do desejo e a força cega da fatalidad e exterior que o frustra eternamente. uma confirmação nos argumentos de Heisenberg. Ao contrário. Mas de fato o exemplo é inócuo: a mod a já pegou. era para Heisenberg a prova de que o cosmos é a expressão de uma inteligência criadora e não uma máquina inerte 65. Jaki em “Determinism and Reality”. op. mas isso não o coloca de modo algum contra o espiritualismo em geral. Quer dizer que a margem de erro ao medir a posição x de um e n. confessa ter chegado a inda adolescente à conclusão da inexistência de Deus. É na verdade uma afirmação ambígua. e. O exemplo mais recente é Paulo Francis. não prova nada. o princípio de incertez a expressaria apenas um obstáculo de tipo operacional. 1994. 66 É no entanto um lugar-comum entre inte lectuais de escassos conhecimentos filosóficos alegar as teorias de Heisenberg com o argumentos a favor do ateísmo. Trinta Anos esta Noite ( São P aulo. requer sempre algum fundament o filosófico.

e uma vez tomada não lhe resta senão racionali zar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos. . por si. prévia a ualquer consideração racional do assunto. já que ambas podem ser usadas igualmente como “provas” do que se deseja provar per fas et per nefas. A história do ateísmo militante é uma suce ssão prodigiosa de intrujices. pode haver alguma inexat idão.inescapável: a certeza da morte. É que o ateísmo. O caminho do asceta epicúreo é aquele que o mat erialista Heinrich Heine viria a descrever num breve poema 67: nista. em geral. rigorosamente. sem qualquer esperança de outra vida. fazer a apologia do esquecimento. Só resta então e mbelezar a imagem da morte. 67 Cito de memória. O ateísmo militante é. por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. bem como sua contrária. A mensagem final d o epicurismo é. um gr ave sinal de imaturidade intelectual. o nada. toda fé religiosa coexiste. com as dúvidas e as crises. quase q ue por definição. é uma opção de juventude. ao passo que o ateísmo militante tem sempr e a típica rigidez cega das crenças de adolescente. Ademais. Não se conhece um único caso célebre de pen sador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura.

em que a voz dolorida de Elis Reg ina suspirava por “uma casa no campo” — refúgio do militante que o desengano transformar a em diletante.” Não preciso ir longe para buscar um exemplo. não deve ter sido alheio ao s u sucesso: vale por um slogan. e uma outra. fizeram ali grande sucesso “Felicidade”. outras anestésicas e outras mortíferas — a resposta final. “auxiliar” ou “medicar”. o caminho d o céu também estava fechado. que davam um sentido de participação histórica ao s intelectuais brasileiros. Mas a raiz do seu êxito está em outra parte. A religião oficial. É uma filosofia de homens reduzidos à condição de r atos. sem uma porta para o céu. um silêncio temeroso baixara so bre as praças. E isto lá é resposta? Que a perspectiva deste desfecho acachapante pudesse atrair para o epicurismo um a multidão de devotos. um perseguido político. onde editou Os Pensadores. cujo título me escapa. serve para integrar os átomos humanos num sentido maior da existência e os redimir da sua insignificância. o caminho do céu. seu sucesso derivou de um estado de completo cerceam ento espiritual. fechadas as principais escolas filosóficas. Marx e Guevara foram trocados por Allan Watts e Timothy Leary. Cada qual fechou-se no cubículo das suas angústias particulares. que predispunha os homens a aceitar a s mais aviltantes promessas de alívio. Mais que da mera depressão política. pela pseudomística “oriental” importada da Califórnia. Minha geração — que é a de Pessanha — levou fundo a experiência da solidão e do exílio. Numa terra que se estreita sob o jugo dos tiranos. Para sete palmos abaix o do solo. Esmagados os ideais da esquerda nacionalista. de compressivo desespero. foi trabalhar na Edit ora Abril. A mística intelectualizada ficara fora de alcance. um a utêntico hipnotizador. o afluxo de d iscípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada. Mas a comparação das épocas ainda está imprecisa. A músi ca popular assinalou a mudança dos sentimentos no ambiente universitário: o protesto aberto e combativo desapareceu das letras de canções. a intelectualidade foge para o silêncio do campo para buscar a vida interior. Serviriam como jingles do Jardim de Epicuro. desmoralizada pela crítica filosófica.” Mas. a debandada geral que se seguiu ao Ato Institucional no 5 levou mui- tos à evasão pelas drogas. A sement e da persuasão não germina se não é plantada no solo fértil dos anseios coletivos. e no fim te enchem a boca com um punhado de terra. nos anos que se seguiram a 1968. de Caetano Veloso. O epicurismo aplanava este caminho. a rigor. um a forma requintada e falsamente prazerosa de niilismo. Jim Jones avant la lettre. mas um mestre do discurso encantatório. Mas o jardim de Epicuro tinha muitas plantas: umas alucinógenas. Nesse quadro. Seu próprio nome. O epicurismo é. um niilismo. Expulso da terra. buscas e te esforças. Por essa época José Améri co Motta Pessanha. para os quais o esgoto é uma esperança. ao desesperado ateniense daquele tempo só restava um caminho: o caminho para baixo. A época d e Epicuro ansiava por alívio. 68 . na gradação seriada de uma pedagogia do abismo. na ausência de uma consciência filosófica pessoal. com o exílio dos filósofos. um convite à fuga pelo “vôo d o pensamento”. típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo — escreveu Jakob Burckhardt — é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ru it. sem qualquer saída para a ação coletiva que. É. Arrasadas as instituições democráticas . Para o esquecimento eterno. Foi provavelmente nessa ocasião que ele desc obriu um alívio na farmacopéia epicúrea 68. professor esquerdista expulso da cátedra. meditava na prisão sobre os benefícios interiores do isolamento forçado: “É a terra vencida que nos dá as estrelas. de uma raiz que significa “socorrer”. o primeiro sist ema completo de pensamento niilista que surge na história do Ocidente. pe rdera todo atrativo. O Tetrafármacon misturava todas elas. pela embriaguez erótica. O filósofo Boécio. esquecimento. sono. E picuro não foi só um teórico da necrofilia. em suma. dando lugar à lamentação melancólica. separando e isolando os indivíduos. é coisa que surpreende. capaz de adornar com todas as fl ores da retórica o caminho que leva a sete palmos abaixo da terra. extintos os sonhos de reforma moral e política que haviam alimentado as discussões públicas. no tempo de Epicuro.70 OLAVO DE CARVALHO Tu perguntas e investigas.

meu livro O Imbecil Coletivo. 8.Sobre o evasionismo dos intelectuais logo após o AI-5 e sobre o ingresso das teori as niilistas no cenário brasileiro. Cap. v. .

É refratário a qualquer projeto de ação. Como se explica então que. Karl Marx. bem viu a peric ulosidade política da sua moral evasionista. e parec emos não ter obtido nada mais que um nó indeslindável. Fomos aos poucos juntando os fios desta investigação. que apreciou no epicurismo sua crític a da religião oficial grega e sua mistura “dialética” de teoria e prática. desde vários anos antes. neste momento parecemos estar mais longe que nunca de alca nçar uma resposta clara. e não de algum pretenso sujeito coletivo. Mas que o leitor não desanime. porque. impesso al. logo em seguid a. conscientemente. Não se pode transformar o mundo fugindo dele. primeiro. não propõe nada. por ser um dos mais eminentes membros do grupo que planejou o ciclo. se ao mesmo tempo a convidava ao sono do esquecimento? Se desejávamos compreender as intenções de Pessanha. como editor da série Os Pensadores. que Pessanha não podia estar desinformado desse objetivo. p rincipalmente de ação moral e política. Porém aí o mistério que este livro está investigando chega à mais densa obscuridade . Vimos. . onde houver “nós”. 69 Por princípio. é que es amos chegando mais perto do desenlace que tudo esclarecerá. ele tenha subido ao pódio do MASP para convocar o povo a evadir-s e para o jardim de Epicuro? Como esperava despertar a platéia para a luta política. o ciclo de conferências sobre a Ética. segundo. não uso jamais o plural majestático. propondo o nada. Pois havíamos começado — nós: eu e o leitor 69 — por constatar o objetivo político a que v isava. dois joões-ninguéns. preparando o ter reno para a transformação da filosofia em arma política a serviço de determinados fins. leitor. há de tratar-se ambos. justamente na hora decisiva em que a filosofia emergia de uma longa germinação subterrânea para assumir à luz do dia seu papel de condutora da política nacional. Em dialética é assim mesmo: quando a treva da contradição se adensa até o intolerável. ele já vinha. genial por transcendente à imbecilidade dos elementos singulares que o compõem. Logo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 71 Mas o niilismo.

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MARX - .LIVRO III .

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A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO § 16. meus livros A Nova Era e a Revolução Cultural. é uma herança mórbida qu através de Marx. para que se torne semelhante à teoria. Fritjof Ca pra & Antônio Gramsci. legitimar como s atisfatório o que quer que tenha dela resultado na prática. 2-5. como se viu no § 10. O desejo. a ambição — da alma individual ou das massas revoluci onárias — torna-se o fundamento único de uma cosmovisão onde a teoria já não serve senão para estimular retoricamente a ação prática ou para. a bolindo a distância normal entre a esfera da ação e a da especulação. e o discurso teórico não será nada mais do que o elemento discu rsivo da prática. a absorção da lógica na retórica. A capacidade das es querdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atroc idades do regime comunista — e. que leva a Reich e a Marcuse. A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel. Não se trata de compreender o mundo.CAPÍTULO VI. no entanto.. o ímpeto. no epicurismo a prática é que produz artificialmente a condição psicológica qu e tornará crível a teoria. Caps. Acontece. O leitor deve ter reconhecido a sentença anterior: é a 11ª Tese sobre Feuerbach de Kar l Marx. e eles serão não somente aceitos. A teoria epicúrea não de creve o mundo percebido. e já não a força das causas eco nômicas objetivas. Este s desenvolvimentos manifestam à plena luz do dia tendências que 70 A supressão do conhecimento objetivo não é. ao preferir antes ‘transformar’ do que ‘compreender’ o mundo. exterminado o comunismo na URSS. A natureza para Marx só tem exis tência como cenário da história ou como matéria branda e plástica a ser moldada pela ação hum na. veio do epicurismo. em Marx. da ciênc na propaganda ideológica 71. já não haverá distanciamento crítico suficiente para julgá-los. V. mas uma co nseqüência inevitável do conceito marxista da natureza. Se norm almente a teoria é o fundamento lógico da prática e esta é a exemplificação daquela no campo dos fatos. . que essa simbiose. seja a mola mestra que move o progresso e dispara a revolução. a percepção do mun do. mas de transformá-lo. em Marx com o em Epicuro. mas é uma herança epicúrea. mas celebrados pela teoria como norm ais e desejáveis: a teoria não tem aí nenhum valor autônomo. Epicuro e Marx “Marx. e nos precipita numa crise a lucinatória onde já não há lugar para o recuo teorético que fundamenta a noção mesma de verda e objetiva 70. Não é de estranhar que a evolução de um século do pensa mento marxista tenha desembocado em Antonio Gramsci. e O Imbecil Coletivo: Atualidades Incultura is Brasileiras. suprime. Também é compreensível que. Tudo leva a crer que a convivência do jovem Marx com a filosofia de Epicur o — matéria de sua tese de docência — deixou no marxismo acabado marcas mais profundas d o que os estudiosos geralmente supõem e do que ao próprio Marx adulto interessou dec larar. a tradução verbal da crença produzida pelo hábito. está reduzida ao papel de uma racionalização a posteriori. o desejo erótico. adiante. um objetivo declarado. Caps. numa outra e paralela linha des sa evolução. para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não h ouvesse nenhuma rel ação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —. mas sua prática altera. Mesmo que a ação produza efe itos totalmente diversos dos esperados. II e III. a relação lógica entre a prática e a teoria.” Alfred FABRE-LUCE Epicuro inverte. mediante exercícios. § 17. a diferença entre o efetivo e o possível. que assume declaradamente aquilo que em Marx estava apenas insinuado e implíc ito: a abolição do conceito de verdade objetiva e a submissão de toda atividade cognit iva às metas e critérios da praxis revolucionária. era levado a avaliar um pensamento por sua capacidade de mobilização. uma vez realizada a ação. de uma apologia do fato consumado. o teórico do “historicismo abso luto”. 71 V.

fugindo do mundo. a reconhecer qualquer conexão entre esses males e o ideal socialista. de artistas. trad. pessoalmente. protesta ram contra a invasão do irracionalismo que. como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática. como a de falo aqui ). argumenta Michel Löwy. um tremendo senso do teatro. mais afin ados com as tradições clássicas do Ocidente e ansiosos de filiar Marx a elas. Edusp/Persp ectiva. aquele. para fora. trad. trad. pel a dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima. sobretudo a partir da década de 60. R aul de Sá Barbosa. sem qualquer raiz na ideologia por ele prof essada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo s ubstancial. brasileira. Romantismo e Messianismo. para a ação coletiva que vai transformar o mundo. Marxismo e epicurismo parecem ir em direções op ostas: este. term inou por contaminar toda a esquerda mundial: como dizia o dr. para fechar-se no jardim com a comunidade dos ele itos. O fato de que tenham ressurgido ao longo da evolução do marxismo mostra que Marx soube recalcá-l as. do fran quismo ou das ditaduras latinoamericanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que a quela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos a bstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou supra-hist cas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de e xperiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos. Best Seller. tes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resulta do da maldade fortuita de um só homem. v. quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquis ição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável. do fingime nto. No mesmo sentido. mas com ênfase positi va. expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheio s à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — o u mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética.76 OLAVO DE CARVALHO em Marx já estavam latentes como heranças do seu epicurianismo de origem. a marca de um ressurgimento nazifascista. Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. durante quase um século. Trata-se d e neutralizar a inteligência humana. trata-se de envolver ser es humanos numa praxis absorvente e hipnótica. mesmo tímido . ou. de intelectua is. quando crimes de muito menor escala ba staram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano. não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as s uas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. Mas é uma d iferença de escala antes que de natureza: nos dois casos. É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem. Freud. 1990. mas não superá-las. a absor verão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem ca ir longe das finalidades sonhadas. O Declínio da Cult ura Ocidental. colocando-a no encalço de metas utópicas que. Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita. O Marxismo Ocidental. Da Crise da Universidade à Crise da Sociedade. a enxergar os males do com unismo. São Paulo. Merquior mostra que os elementos românticos e irracionai s eram fortes no pensamento do próprio Lukács. e de outro lado possa crer que o ide al socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das corren72 Sobre a contaminação irracionalista do marxismo no curso da sua evolução ( não na sua raiz . Rio. depois da queda do Muro de Berlim. 1989. e também Allan Bloom. é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente . Em vão pensadores marxistas como Lukács ou Horkheimer. se não pela formidável potência ilusion ista inerente à raiz mesma d marxismo. São Paulo. Nova Fronteira. o passado r ejeitado volta com redobrada força 72. pela sua capacidade quase diabólica de o tran sfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes d o que são? Que Marx tivesse. José Guilherme Merquior. entre os mais notáveis do século. que os afastará para sempre da tentação d a objetividade. da prestidigitação. 1987. Ensaios sobre Lukács e Benjamin .

no entanto. Quando. Rumo à Estação Finlândia. a mixórdia proposital e alucinógena da teor ia na prática e da prática na teoria. então compreendemos a virulência inesgotável da hera nça epicurista. Edmund Wilson. e Paul Johnson. Os Intelectuais. notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem M arx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos. . e em seguida co nstatamos ser idêntica.73. em Epicuro e nele. capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada 73 V. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as con sciências.

antes que te descuaje un torbellino y tronche el soplo de las sierras blancas. esboço uma psicanálise do marxismo residual de nossos intelectuais. nem muito menos aos homens da praxis. Daí a invulnerabilid ade do marxista convicto à argumentação racional. nesta tese. Para sab er em que consiste essa mudança. Em que consiste a atitude interpretativa. Portanto. Ele não apenas pensa diferente do não-ma rxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes. Não se trata de inaugurar só uma nova prax is. se ocuparam de interpretar o mundo. O verbo verändern vem da raiz ander = “outro”. olmo. n a medida em que o mundo real não pode realmente ser substituído por outro. “Até agora — diz a 11ª Tese 74 — os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. antes que rojo e n el hogar. e da qual jamais pensaram em sair? Não pode ser este o sentido da tese de Marx . de modo que a tradução mais exata seria “alterá-lo”. mañana. Os filósofos interpretavam o mundo. quiero anotar en mi car tera la gracia de tu rama verdecida. uma mudança básica na atividade do filósofo enquanto tal. Posso explicar melhor e dar um fundamento mais “técnico” ao que foi dito no parágrafo an terior. A Nova Era e a Revolução Cultural. antes que e l río hasta la mar te empuje por valles y barrancas. A maioria dos homens esteve sempre envolvida com a praxi s. con su hacha el leñador. “A un olmo seco” 1. temos de admitir que de fato os filósofos. é na verdade uma substituição. diriam Conway e Siegelman. que Marx opõe à atitude cow. hacia la luz y hacia la vida. e desinteressada da theoria. porque julgavam que esta era a sua tarefa específica. No meu ensaio “A superi oridade moral das esquerdas. § 17. ardas de alguna mísera caseta. 1964. Marxisme pas mort: ele subsiste como um complexo n o subconsciente dos que o rejeitaram sem criticá-lo a fundo. como o doente histérico par a o qual imaginar é sentir. Cabe-lhes agora transformá-lo. mas especificamente aos filósofos. e. os filósofos faziam um contrapeso dialético à praxis: a vida contemp lativa opunha-se à vida ativa. lanza de carro o yugo de carreta. es kommt darauf an sie zu verändern” — frase do manuscrito reproduzido em fac-símile em The German Ideology . Ao adotarem a atitude in versa à da maioria. V. a substit uição se dá apenas dentro da esfera do imaginário coletivo. da contemplação da verdade. olmo del Duero. al borde de un camino. essencialmente. na medida em que deixa de ser ma simples propriedade ou um acidente da substância. ANTONIO MACHADO. Ma s isto também significa que abjurar expressamente do marxismo não é o mesmo que libert ar-se instantaneamente de sua influência. O leitor que preferir saltar direto para o § 18 não perderá o fio do argumento . de fazer teoria. Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” Antes que te derribe. q ue sentido teria convocá-los a uma praxis na qual já estão envolvidos por hábito imemori al.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 77 novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura. A 11ª Tese sobre Feuerbach propõe. reproduzido em O Imbecil Co letivo. Progress Publishers. Mas a alteração.” 74 “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert. que por sua vez consistirá em praxis. que os distinguia dos outros homens. assim como tomar consciência de uma neuros e não é o mesmo que estar curado. 2. Ora. item 3. apenas se privará de uma demonstração mais rigorosa — e mais entediante. Sua convocação não se dirige aos homens em geral. São eles que estiver am ocupados somente em interpretar o mundo. se os homens nãofilósofos estiveram desde sempre o cupados em transformar o mundo enquanto o filósofo o contemplava e interpretava. Mi corazón espera también. ou: o rabo e o cachorro”. Cap. tomados indistintamente. ocupados p or seu turno com a praxis. desde sempre. A quem se dirige a convocação? Se Marx se reporta. y el carpintero te convierta en melena de campaña. é a eles que cabe convocar a uma mudança de atitude. enquanto os demais homens o transformavam. mas um novo tipo de theoria. III. mediante uma súbita mutação ou ro ação do quadro perceptivo um snapping. precisamos entender qual a atitude que a antecede u. otro milagro de la primavera. aos conceitos trad icionais de theoria e de praxis.

Ryazanskaya. trad.. Mos- . S.

pode manifestarse em cavalos pretos ou malhados. tran sitório e aparente ao universal e estável. por assim dizer. superior à aparência fenomênica e transi tória. árabes. Dito de outro modo. movediça. a postura i nterpretativa do filósofo grego. para o p lano das essências. a razão. uma dignidade e uma realid ade superiores. “guia das almas”. A do filósofo. por ab ranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos. e também por ser estável. porém já era a dos eleáticos. a beleza dos seres humanos e da paisagem etc. ou pr etende ter. que faziam dela. revelação da verdade oculta). contidas eternamente na Inteligência Divina. não se ocupava ge nericamente de contemplar. (É verdade que o termo praxis tem em Marx. isto é. todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro. as coisas. se os filósof os antigos a que Marx visa faziam theoria em oposição à praxis. A theoria. capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta. ou Mercúrio. a diferença entre platonismo e aristotelismo. 3. uma contemplação filosófica e não outra qualquer. num sentido em que os demais homens também po diam contemplar e olhar. as essências con stituíam um mundo separado. que ele decifrava em busca do significado ou essência. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos). a c have interpretativa era a razão ou logos. eterno. mas isto não vem ao caso. eram para o filósofo signos. Qual a diferença essencial entre a atitude conte mplativa — ou interpretativa — e a atitude transformante. de ón (“ser”. pois. Por exemplo. O homem teorético. basicamente. A contemplação do homem com um podia ser lúdica. isto é. eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades. essência ou arquétipo . por su a vez. O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes. não. de eidos (“idéia” ou “essência”). utilitária ou o que quer que fosse. uma acepção própria e diferente. Era um tipo muito determinado de contemplação. Por exemplo. enganosa. o deus psicopompo. a possibilidade “cavalo”. patenteando (al etheia) o seu verdadeiro ser (ón). à luz da ete rnidade. e sim o sentido grego). propriamente. Esta contemplação conferia a essas coisas. para Aristóteles. portanto.1. Nisto consistia. Ao conhecer um arquétipo. o homem filósofo saltava de um p lano para o outro: do plano da fenomenalidade instável. Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos céleb res e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. do particular. estética. encarregado de levá-las na escalada e descida atra vés dos mundos ou planos de realidade. e mais um sem-número de essências não m anifestadas ou possibilidades). Em suma. Entre o signo e o significado. de sela ou de t rabalho etc. do ser verdadeiro. transcendente. Enfim. Na filosofia grega. do sensível ao inteligível. de olhar. ao elevar o objeto até o nível da sua idéia. com um motivo específico e um objetivo esp ecífico. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a par tir do platonismo. cada qual. o filósofo. contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava ocult o. percherões ou mangalargas. Este plano era considerado superior. em seguida o filósofo dizia (logos) o que era ess a coisa. na categoria da eternidade. mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenali dade imediata a um estrato mais profundo e permanente. como o pégaso ou o unicórnio. A interpretação (hermeneia) d as aparências consistia nessa subida de nível ontológico. “ente”) e esvelamento”. sei não . ela se baseia na crença de que todos fatos e todos os entes são fenômenos — “apareci- mentos” — de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilid s. imutável. o arquétipo de “cavalo”. ao investi gar o ser do objeto.78 OLAVO DE CARVALHO transformante? Sendo theoria e praxis conceitos clássicos da filosofia grega. o núcleo inteligível era im anente ao mundo sensível. os fenômenos. entre a theoria e a praxis? 3. não podemos supor que ti vessem em mente o sentido marxista da palavra praxis. para os fins de sta análise. Pode manifestar-se em ser es míticos que “participam da cavalidade”. uma consistência ontológica superior. buscava nelas a sua significação eterna. re sgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo. isto é. a palavra theoria tinha uma acepção precisa. Pela razão. Pouco importa. O filósofo grego contemplava as cois as. A conseqüência “prática” disto é portentosa. é a es ta última que devemos reportar-nos. Para Platão. seu sent ido “eterno”. sub specie æternitatis. portanto. Era correlata das noções de logos (“razão” ou “linguagem”). desde o ente fenomênico até o se r essencial.

o que a coisa é atualmente e .

uma transição ou passagem. ilusão. ao contrário. isto é. a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar) . de condenar a praxis em nome de uma u tópica vida contemplativa. se a transformo em cadeira. aquilo que faz com que ele sej a o que é. isto é. aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é. atualiza uma dessas possibilidades. É um meio ou instrumento a terra que o homem lavra. aquilo n que num certo ponto do ca minho será abandonado para ceder lugar aos fins. mas uma teoria da praxis. no sentido aristotélico. po rtanto. limita suas pos sibilidades. C omo a praxis é sempre ação humana. não por seu dinamismo própri o e interno. A tendência universal do homem à econ omia de esforço mostra a sujeição dos meios aos fins. pelo ser secundário. Não se deve confundir esta oposição com a do “estático” e a do “dinâmico”. 3. é um meio ou instrumen to o carneiro que ele engorda e mata. potência latente no homo sapiens. porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemp lo. A ação produz apenas transformação. Já não será uma teoria do objeto. É meio ou instrumento o trabalho. Para a theoria. mas esta para que me serve?”. A praxis. excluindo imediatamente todas as demais. mas somente de restaurar o senso de uma hierarquia de v alores que parece ser inerente à estrutura do indivíduo humano são. da qual saímos apenas p lo recuo reflexivo posterior. do que ela pode significar para mim. às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. Porém. em outros planos de realidade etc. “o bonde é útil porque me serve para levar-me à casa da mi nha amada. é claro. posso fazer com o cavalo ou com a árvore. o ente é so bretudo a sua forma. a aparência sensível imediata é sobretudo um signo ou símbolo de um se r. Por exemplo. Posso. o objeto sobre o qual incide é sempre e necessariamente um meio. sem via de retorno. A praxis. De cadeira. mas por força da intervenção humana. do que poderia ser. toda a latência de possibilidades q ue ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular. e muito menos em árvore. mas de contemplação. Já não interessa o que é o cavalo ou a árvore no sistema total da realidade. isto é. Inversamente. mas uma teoria da ação que ele pode sofrer. apenas um meio. ela só pode agora transformar-se em cadeira velha. o ente é sobretudo matéria. tomo consciência d o que ela é. mas apenas aqui lo em que ele pode se transformar no instante seguinte. isto é.3. 3. Para o filósofo. de amor. de qualquer espécie que fo sse. então todo objeto será sempre e unicamente enfocado sob a categoria da paixão. para outros. aquilo que é finalid ade ou valor em si não é objeto de praxis transformadora. Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si. por não admitir que o objeto seja o que é e por exigir que ele se transforme em outra coisa: não interpreta. rebaixá-la a um meio ou instr . só se atualiza como reflexão sobre as desilusõe s do homo faber 75. Se investigo o objeto “árvore” para captar o seu arquétipo. dentro do círculo de meus interesses imediatos. isto é. não tentará investigar o que o ser é no corpo da realidade total.2. mas sim o que. Por exemplo . localiz ada no espaço e no tempo. Como dizia Miguel de Unamuno. ind ependentemente do que eles sejam. a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas . é um meio ou instrumento a árvore que ele abat e. pela “negação” teorética e crítica da ação consumada: o espírit osófico. esta teoria já não versará sobre a natureza do ser. para a praxis. Não se trata aqui. e depois em lixo. Não é uma teoria do ser. o fenômeno. transforma a coisa. mas tudo o que ela poderia ser. evidentemente. realizando uma delas. 3. uma árvore. ela já não pode transformar-se em mesa ou estante. mas transf orma. Para o homem da praxis.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 79 empiricamente. das ações transformadoras que pode sofrer. Era neste sentido que as escrit uras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento. que trans forma. posso queimar a árvore ou comer a c arne do cavalo: se a teoria respeitava sobretudo a integridade ontológica e mesmo física do objeto. A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém. Se a praxis requer alguma teoria. A prática. mas por alguma outra coisa: o meio ou instr umento é um i termediário. e o explic a e integra no sentido total da realidade. e a praxis se interessa pelo que ele não é. como também o capital.4. Aquilo que é meio ou instr umento nada importa nem vale por si. a praxis começa por negá-la. se dirige essencialmente aos meios: como toda transformação visa a um resulta do ou fim. ao contrário. fluxo de impressões.

. Logique de la Philosophie. Éric Weil. 1967. Vrin. “Introduction”. 2e éd.umento do meu 75 V. Paris. .

aquilo que para mim é finalidade e valor em si. é claro. É encarar o real no seu todo — nele incluídos o homem e sua História. opõe ao arbitrário e gratui to clinamen dos átomos 78. em que o amo. Não existe. portanto. oculta mas nem por isto menos potente. no mundo dos seres físicos. tem primazia sobre a prática. se o é de verdade. O homem não transforma o que l he agrada. Choderlos de Laclos et caterva ).2. Funarte. Olavo de Carvalho. Eis aí. 3. 4. a intelectualidad e de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudoheroismo do nonsense. que: 3. Só a finalidade suprema pode ser objeto de pura contemplação. em que muitos t eóricos. IAL. Há uma diferente dosagem na combinação do teórico e do prático para o conhecimento dos vários tipos de seres: aquilo que para mim é meio e instrumento. conheço-o na medida em que o contemplo. e sim desfrutar de sua presença sem alterá-la. sem consistência ontológica própria nem qualquer valor em si pode s er alvo de pura praxis. a apologia do absurdo. transformá-lo. já em Marx. num clinamen gratu ito e arbitrário que o homem. 3. só posso conhecê-lo ao usá-lo. V. que torna o trabalho agradável em si e lhe dá um valor independente do seu pr oveito prático). nem praxis pura nem pura contemplação.4. após a crise mundial do marxismo. 77 V. 1 . Rio.1. O o bjeto amado. gastou. que no fim das contas não serve senão para afastar os obstáculos que nos separam do gozo contemplativo. por pedantismo ou desenfado. então. é inverter o sentido de toda ação humana e negar a consistência ontológica da real idade. e jamais alcançados no mu ndo da experiência real. há uma nítida distinção hierárquica: a contemplação. escandalizados. como o sr. a raiz da nietzscheização da esquerda. 76 3. manipulação e uso de seres humanos ( ou de animais ) com vistas ao prazer erót ico — esta é a definição mesma do libertinismo ( Sade. Van Gogh conheceu pincéis e tintas na medida em que os usou e. num mundo sem sentido.80 OLAVO DE CARVALHO prazer. mas fim.3. que na prática mesma há um elemento lúdico e contempl ativo.4. A filosofia da praxis contém em se u bojo. Somente o objeto tot almente desprezível. outros que só o podem pela theoria. não é meio. como objetivo e final dade. segundo a escalaridade do valor dos fins e da oportunidade dos mei os. Ao contrário. sem mudá-la no que quer que seja 77. só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder. mas neste caso já não tenho amor por ela. “Por que tanta libertinagem?”. Rio. mas o que lhe desagrada: ele entrega-se à contemplação por gosto. pela sua redução a meio e in strumento. Não desejamos mudá-lo. desprezando o s fins. a negação do sentido da realidade. De tudo isso. É transformar o universo numa imensa máquina-de-desento rtar-bananas. Adauto Novaes. bem como o conjunto das ações individuais praticadas pelos seres humanos — como um vasto instrume nto sem qualquer finalidade. u tilizá-lo para alguma outra coisa. Da C ontemplação Amorosa. Mas conheço os quadros de Van Gogh na medida em que sejam conservados intactos para minha contemplação. Adauto Novaes — h erdeiro da flama apagada de Motta Pessanha — crêem enxergar um papel libertador. ao contemplar e amar somos nós que nos transformamos: “Transforma-se o amador na coisa amada. e a theoria pela afirmação da sua plenitude e do seu valor como fim.” Há.4. conclui-se que estatuir a prática como fundame nto e valor supremo do conhecimento é instaurar o reinado dos meios. Capítulos de uma Autobiografia Interior ( apostila ). Há ape nas dosagens. No entanto. qu e veio a ser resgatada quando. e sim pelo prazer como tal 76. à prática por necessidade (sem contar. Um escritor de 78 Subjugação.4. 1995 — um exemplo edificante de como o culto pedantesco de autores menores pode coexistir num mesmo cérebro com uma profunda ignorância da H istória da Filosofia. bem como da História tout court. usando. aspectos da real idade que só podem ser conhecidos pela praxis. É óbvio que se trata de uma herança epicurista i n consciente. verão uma traição ao marxismo. no qual no entanto alguns profissionais da cegueira. em que defendo a sua integridade ont ológica contra qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa. o rgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que. texto de abertura do simpósio Libertinos /Libertários. É evid ente. M as a praxis procede necessariamente pela negação do objeto. Ambos esses limites são metafísicos.

Daí também a facilidade com que essa gente produz sucedâneos de justificação “ética” . negado àqueles que simplesmente e humanamente fazem o que lhes parece certo conforme uma regra moral. portanto. Daí a vaidosa inversão que.995. afirmando na prática o q ue nega na teoria: a bondade acidental e diletante do imoralista parece envolta no encanto de uma gratuidade divina. desprezando a obediência a valores morais explícitos. ser mera coincidênci a. louva quase como a um santo o homem que age bem segundo uma ética em que não crê. mito ideológico ou exp ediente tático. mas sim a manifestação perfeita do espírito da coisa: lu tar por “uma sociedade justa” é o diletantismo ético daqueles que não acreditam em ética nen huma exceto como convenção arbitrária. e muito menos uma contradição. A elevada taxa de intelectuais pedantes e de ricaços esteticistas nas fileiras da esquerda — um fenômeno universalmente conhecido — não deve.

Seria interessante averiguar como é possível conciliar isto com o alegado “materiali smo” marxista. Rio. sobre o esteticismo como id eologia dominante nas classes letradas brasileiras. enfim. enfim. atenta ao jogo dos pretextos e dos atos. comparava o materialista durão a um John Wayne da filo sofia. num novo e mais radical tipo de idealismo subjetivo: o m undo objetivo nada é senão o cenário da praxis. o ensaio magis tral — e injustamente esquecido — de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A Cinza do Purgatório. Desenvolvimento e Cultura. isto é. de uma hipérbole. Quando. da ação: o homem não cria a ciência mediante a contemplação. e se ante a imensidão do cosm os a atitude “teórica” não é a mais sensata. pois o marxismo se revela antes um idealismo subjetivista. valor-de-uso e valor-de-troca. é algo que cabe investigar. e ilim itada a extensão de mundos celestes que não podemos transformar e só podemos contempla r. v. é coisa óbvia. aos fenômenos. até fazer com que todos os objetos já não existam senão como “mercadorias”. São Paulo. e da qual mesmo homens de elevada inteligência às vezes se deixam contaminar. conh ecível pelo homem: ela fluidificará todas as essências individuais em matéria-prima da p raxis e resultará. O val or de uso é. de certo modo. Restaria então explicar como. Sendo teoria da ação. rebaixa ndo-se a natureza ao estatuto de ancilla industriae. O cavaleiro solitário no deserto do absurdo sintetiza Marx. no senti do estrito e quase fichteano. mas que está nos esquemas mentais subconscientes ou inconscientes do próprio Karl Marx. olhando com a maior indiferença os movimentos randômi cos dos átomos na planície e desprezando o choro dos fracotes que necessitam de um s entido para a vida. impávido no alto da sela.6. considero como é estreita a faixa do universo material al cançada pela ação humana (apenas a superfície da Terra. A teoria nada dirá sobre os objetos tais e quais são. reduzindo-se a mera projeção: Marx censura no capitalismo um d efeito que não está necessariamente no capitalismo. v. no objeto. uma qualidade qualquer inerente ao ob jeto. mas apenas tais e quais podem vir a ser sob a ação do martelo e da forja . O Problema d o Esteticismo no Brasil. 1942. como o afirma o próprio Marx: depende de circunstâncias históricas que nada têm a v er com a natureza do objeto. a praxis não reconhecerá. faz parte da sua consistência ontológica. A praxis. e não se deixa contaminar pelas exigências da autoconsciência moral. 3. com a única diferença de que tem como sujeito não o indi víduo. uma consistência ontológica própria. Ni etzsche e Epicuro. 3. diante de cuja praxis o universo natural — a “matéria” — p rde toda substancialidade para se reduzir a mera matéria-prima da ação humana.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 81 talento. em quase todas a s civilizações. Há um curioso paralelismo entre as noções de objeto-da-teoria e objetoda-práxis. outro aspecto senão o da sua transforma bilidade imediata. ” É o mesmo que dizer que o capitalismo absorve a categoria da substância na categoria da paixão. Sobre o esteticismo como fonte das doutrinas políticas modernas. 1958. e mesmo assim não inteira). Se o capitalismo faz realmente isto ou se se trata apenas de uma figura de retórica. Nacional. uma propriedade. mas mediante a manipulação dos o tos e sua transformação em outra coisa. Só neste caso a censura lançada por Marx ao capitalismo perde valor objetivo. ao passo que o valor de troca é aciden tal. Só sei quanto custa.5. É este seu caráter de idealismo subjetivista coletivo que dá ao marxismo o seu tremendo poder ilusionista que emb riaga e perverte. Sem saber o para os crimes e as perversidades cometidos em razão do seu “ideal”: pois este tem a p erfeição estética de uma forma arbitrária concebida pela mente. John Anthony West. e não d o objeto. e. por outro. mas a humanidade histórica. por um lado. Casa do Estudante do Brasil. o não menos notável e não menos esquecido livro de Mário Vieira de Mello. Da teoria da praxis provém ainda a idéia — hoje se um dogma — de que a ciência surge a posteriori de uma racionalização da técnica. recusará ao mundo. que é árvore. uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente a perf . segund o a boutade célebre de Bertolt Brecht: “Não sei o que é. Uma das censuras morais que o marxismo dirige ao ca pitalismo é que nele o valor de troca acaba por devorar o valor de uso até fazê-lo des aparecer. porém. posso no entanto utilizar a madeira para fazer uma mesa ou estante. então pergunto se a teoria da praxis não é uma monstruosa ampliação universalizante de um fenômeno local e terrestre — coletivamente subjetivo —. Mas que na filosofia de Karl Marx ess a inversão ocorre.

porque uma astronomia requintada já se encontra entre povos que de navegantes não tinham . (Um praticista fanático poderia objetar que a astronomia se desenvolveu com fins de navegação.eição é sempre justamente a astronomia. mas é bobagem pura. cujos objetos estão a uma distância demasiado gran de para poderem ser “transformados”. e que por isto o homem pode somente contemplar.

Jorge Eira Garcia Vieira. Mas por que um pensa dor de simpatias marxistas deveria querer tocar no assunto? Por mero interesse b iográfico? Não é verossímil que Pessanha tenha levado sua devoção por Marx à carolice de pret nder “resgatar” Epicuro só pela razão de haver o filósofo de Trier se ocupado do epicurism o no curso de sua formação acadêmica. ao interesse prático de alcançar um bem-estar psicológico fictício. toda ação está condenada ao fra79 80 Timeu. Sobre a incapacidade do burguês — liberal e socialista — de compreender isso. a tese valiosíssima de Antônio Donato Paulo Rosa. Para que ela adquirisse alguma verossimilhança aos olhos dos homens foi precis o que primeiro a sociedade burguesa reduzisse a serva da técnica e da utilidade prát ica uma atividade intelectual na qual por milênios seus praticantes tinham visto u ma finalidade em si mesma. como burguesas. apresentada à Faculdade de Educação da USP em 1993 ( tese datilografada ). casso. basta nte lúcida ao condenar como irracionalistas — e. trad. Pessanha declarou-se . Isto é muito elucidativo. só se mantém de pé mediante uma brutal falsificação da ordem cronológi ca. se esta entrasse em discussão naquela hora: o PCUS não seria idiota de tentar organizar o movimento revolucionário mundial sobre u ma base física constituída de bolhas de sabão.) Esta prioridade cronológica e estrutural da astr onomia é ressaltada por Platão 79. jamais lhe and ou pela cabeça a hipótese de uma conciliação impossível. UnB. Pessanha não era um mero colecionador de relíquia s. decadentistas e reacionárias — as novas tendências da física de Planck e Heisenberg. A interpretação praticista da origem e significado da ciênc ia é uma grosseira projeção que o burguês faz dos seus próprios critérios e valores sobre a mentalidade das épocas anteriores. Brasíl ia. Para além da simples comunidade de ódios e ilusões. feita de um ódio comum à inteligência contemplativa e de um intuito comum de subjugá-l a a interesses práticos fictícios: ao interesse prático de instaurar uma justiça social fictícia.82 OLAVO DE CARVALHO nada. Sem livrar-se da raiz epicúrea de seu pensam ento. foi certamente porque viu entre eles uma afinidade mais interessante e . Mas ainda as sim a ideologia de Pessanha continua parecendo um amálgama de elementos heterogêneos e incompatíveis. A Educação segundo a Fil osofia Perene. Sobre o sentido puramente contemplativo da atividade intelectual na Idade Média. pois somente essa intenção poderia explicar o relevo que ele deu. O Conceito de Universidade. como conciliar a f ilosofia marxista da História com a cosmologia de Epicuro? De que modo um sentido racionalmente ordenado de causas históricas tal qual propõe o marxismo poderia brota r de um universo caótico e frouxo. entre as rosas d o Jardim. v. Quanto a Marx em pessoa. ele tratou de não conservar nenh um resíduo ostensivo dela no materialismo dialético plenamente desenvolvido. por seu lado. Que críticos de Marx tentem lembrar esse detalhe é compreensível. empenhado na reconstituição de algo assim como uma “trad ição materialista” embutida na História do pensamento Ocidental. onde a matéria não se rege por nenhuma lei? No caos epicúreo. Como transformar o mundo fugindo dele? Como coadunar a praxis revoluci onária com o evasionismo epicurista? A ortodoxia soviética foi. Marx a escondeu tão bem que ela não voltou a aparecer senão em plena crise do ma rxismo 81. É uma afinidade negativa . ela reside antes na palavra “materialismo”. 47c. Se ele buscou entre Marx e Epicuro uma síntese que ao próprio Marx não interessou e nfatizar. mais “prática”. Passado seu interesse juvenil pel a física de Epicuro (objeto de sua tese de docência). A explicação ma rxista. § 18. K enneth Minogue. como vimos. lhe devia muito. a certa altura da palestra. como editor da séri . 1981. como por exemplo os maias. para ele tornadas incompreensíveis 80. logo. digamos logo. e não resta ao homem nenhuma saída senão refugiar-se no sonho. A tradição materialista Acabamos de compreender a afinidade entre Marx e Epicuro. que no entanto. que vê a explicação para a origem de todas as ciências na contemplação da regularidade e racionalidade dos movimentos dos astros. nesse sentido. condenação que a for tiori se aplicaria à física de Epicuro. Não. A discrição de Marx foi sensata: um passado epicúreo é como ter a mãe na zona. v. A afinidade que ele viu não é somente aquela que apontei n o parágrafo anterior.

uma não tem mesmo nada a ver com a outra. foi pela simples razão de que. como foi mostrado no § 8°. .e 81 E se Marx não teve a menor dificuldade em rejeitar a ética de Epicuro ao mesmo tempo que conservava algo de sua física.

a corrupção reinante e a tradição histo riográfica que preferiu Aristóteles a Epicuro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 83 Os Pensadores. Collor de Mello. econômicas e puramente psicopáticas se encontrassem comprimi das no auditório do MASP. Adauto Novaes. só entre os espi ritualistas há algum consenso quanto à matéria. uma aparência p ersuasiva de unanimidade. 82 Uma orientação aliás fielmente mantida nos eventos da mesma série de O Olhar e Os Sentid os da Paixão realizados após a morte de Motta Pessanha. Bohr e toda uma corja de abomináveis espiritualistas. cit. e não de um conceito. a rigor. que ce rtamente não morrera de todo em Pessanha. podem não valer nada do ponto de vista filosófico e histor iográfico. nivelando por baixo. deve tê-lo impedido de falsear ostensivame nte a t pografia da história. como Helvétius. Pessanha não expôs nenhuma teoria. numa só figur a de monstro reacionário. isso é puro esnobismo de caipira metido a par isiense. a filósofos de terceiro ou quarto time. Para dar ao materialismo ao menos uma aparênci a de continuidade. não lançou nenhum fundamento. fundada nessa palavra. na sucessão dos tempos. É a afinida e de uma palavra. É que os p rimeiros são materialistas: o esquecimento em que jaziam apagava a linha de contin uidade da desejada “tradição”. Platão e o sr. certamente. e inseri-los nos respectivos nichos cronológicos. não defi niu nenhum conceito. fazendo com que o materialismo aparecesse como aquilo que é: um mero contraponto ocasional e descontínuo à linha-mestra do espiritualismo. Num país que ainda não se interessou sequer em tra duzir as obras de Leibniz e Aristóteles ( e que só no ano de 1995 teve sua primeira tradução do Wilhelm Meister de Goethe ). é apenas uma aparência de síntese. pelo menos a linha dominante do espiritu alismo tradicional apareceu bem mais atenuada e descontínua do que é na realidade. a síntese pessânhica de Marx e Epicuro. ao lado e na m esma altura dos verdadeiros filósofos cujo diálogo forma. insistem em cultuá-la cada qual a seu modo. novo empresário da filosofia-espetáculo. E a única síntese entre o indeterminismo e Newton é aquela. a un idade da História da Filosofia. Dégerando. E qual o retor que não sabe que . ao longo dos séculos. A afinidade que permitiu. não fez nenhuma daquelas coisas que os filósofos habitualmente fazem. ferozmente idealista . ). por elástica que seja. perf eitamente contínua de Platão até Husserl. com muitas costuras e emendas. o sr. toda uma coleção pluriforme de beletrista s e filosofantes. pretende u impingir ao público a convicção de que a indiferença nacional por autores como La Mett rie. foram suficientes para suscitar uma poderosa onda emocional. sob a qual se esconde uma multiplicidade de conceitos mutuamente incompatíveis. A “matéria”. esboçada por Heisenberg. Uma aparência verossímil de conceito. da sua palestra. loc. manejadas pelo retor. Novaes. uma funda impressão. Mas. é puro fingimento. a par da omissão de gigantes como Brentano. familiares. talvez por considerá-l a divina. Um certo fundo de escrupulosidade científica. os materialistas. No último desses eventos. tal como a unidade da tradição materialista. para um mestre da retór ica. Mas. políticas. Se ainda assim não brotou a figura de uma tradição material ista em regra. nivelando todo o mundo por cima. Agostinho. as lembranças da ditadura mi litar e a filosofia da História de Sto. era necessário preencher as lacunas abertas na História pelo olvi do em que fora caindo. um ato político no se ntido mais agudo e eficaz da palavra: a união da massa contra um inimigo comum. Pessanha fez assim. em j ulho de 1995. su ficientemente indefinido. exigida por todos os materialistas contemporâneos de Marx. e. como Pessanha desejaria. fantasmagórico e elástico para poder abranger. e daí ter ele optado pela designação vaga e descomprometedora de “pensadores” para englobar os filósofos e os q uase. Mas deixou. cativar para a rebelião contra o espírito quantas insatisfações pessoai s. Cond illac. Jaspers ou Dilthey 82. não tem como com portar em si ao mesmo tempo a arbitrariedade dos átomos de Epicuro e rígida obediência ao determinismo newtoniano. palavras e aparências são tudo. Curiosamente. Uma síntese fundada na unidade aparente de uma palavra. Sénancour e Crébillon Fils ( libertinos de segundo time ) é um atraso cultural in tolerável ( v. é a mesma que fundamenta as pretensões a uma “tradição materialista”. não disse absolutamente nada de ident ificável. Pauli.

excet o no sentido negativo de uma coletânea de opiniões diversas e contraditórias. mas uma força históric a de impressões e emoções que produzem atos. e por isto a ciência de produzir impressões é c ultivada com esmero por todos aqueles que têm a ambição de conduzir os povos.os homens não se movem por conceitos. A matéria não é um conceito — exceto no sentido convencional e instrumental com que vem nos livr os de física. Não uma força física. Mas a ma téria é um símbolo e o materialismo é uma força. Não havendo uma “matéria” conceptualmente identi icável — exce- . o homem movido por impressões não sabe para onde se move. sem qualquer pretensão ontológica — e o materialismo não é uma doutrina. e sim por impressões? Apenas.

dois princípios: o materialismo e o primado do interesse prático. mas uma unidade contra: a unidade negativa daqueles que. Laffont. individual no outro —. ao menos em aparência: o materialismo. a toda e qualquer afirmação do espírito. inspira-se num kantismo radicalizado. a mais assombrosa fals ificação da História já empreendida por um militante esquerdista. ‘O mapa não é o território’. ou pseudoorientais. é querer separar fisicamente. que para o marxista são mera ide ologia feudal e para o epicurista uma abjeta escravização do homem aos deuses. Mas como conciliar o materialismo com a Programação Neurolinguística e o movimento da Nova Era? Filosoficamente. veremos que a pretensão de Pessanha só pode ser compreendida como delírio alucinatório ou como fraude proposital .” 84 83 84 Anthony Robbins. que vê no mundo a mera pr ojeção dos nossos pensamentos — hipótese que o marxismo rejeita como idealismo burguês: “Os seres humanos recebem e interpretam as informações fornecidas pelos cinco sentidos . Pretender que essa tradição exista substancialmente. o teórico da PNL extrai uma conclusão que leva direto a um pragmatismo com tinturas nietzscheanas: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que faz mos delas. esta é uma das idéias fundamentais da PNL. hipertrófico. por diferentes indivíduos e por um número indefini do de motivos. a unidade da tradição mat erialista não poderia forjar-se com base na defesa da matéria. divergindo quanto à esca la da transformação — social num caso. personalizada d o que se produziu. Essa filtragem explica a imensa variedade da percepção humana. ela não é uma unidade pró. Mais exatamente. é.. não se constitui de outra coisa senão do amál gama fortuito de negações antepostas. você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder. de distorção e de triagem.84 OLAVO DE CARVALHO to. Ela está. não há nenhuma hostilidade essencial entre o interesse pessoal e o interesse coletivo: numa mesma alma podem conviver em harmonia o evasionismo epicurista e o utopismo socialista. nada podendo afirmar em comum. unidos na luta co mum contra o princípio do conhecimento objetivo e no empenho comum de substituir a realidade em vez de compr eendê-la. e fazer dela a linha mestra da continuidade do pensamento humano.” 83 Dessa constatação kantiana. Paris. 1989. podem firmar um acordo por que têm um princípio em comum. o cérebro transforma esses sinais elétricos em uma representação interna. trad.. Se considerarmos simplesmente o fato notório de que Platão e Aristóteles fora m absorvidos na filosofia cristã e de que todos os filósofos importantes do Ocidente desde Agostinho até Hegel foram cristãos. e não apenas como somatória artificial de negações d iversas. parece impossível. num sentido instrumental perfeitamente compatível com as doutrinas esp iritualistas esposadas aliás pela maioria dos grandes físicos —. Marie-Hélène Dumas. Mas ainda resta um ponto obscuro. Pess anha começa a fazer sentido. No reino das ilusões.. w Uma vez unidos Marx e Epicuro pelos santos laços do ódio à inteligência teorética e do primado do interesse prático. sem exagero. e colocar lado a lado em distintos lugares do espaço. sem nenhuma exceção. para fazer de Stálin. de uma parte a massa total do queijo. mas a representação interna.. se existe. Compor com pedaços de opiniões de beletristas e pseudofilósofos uma tradição materialist a. se dão as mãos na solidariedade de uma negação: a negação do espírito. p. porém. Quant o à PNL. repito. Pouvoir Illimité. Se existe essa unidad e. A Nova Era adere mac içamente a metafísicas orientais. por que não representá-las de uma maneira que nos dê poder? Qualquer que se ja o horror da situação. . para a densidade contínu a da linhagem espiritualista. A experiência que você tem do aconte cimento não é exatamente o que se produziu. reduzindo o espiritualismo a uma coleção fortuita de exceções. de outra parte a massa total dos buracos. Por diversos processos de generalização. Marx e Epicuro. A tradição materialista. o comandante militar da insurreição. a depreciação da inte ligência teorética. desde que a Academia d e Ciências da URSS enxertou a cabeça de um desconhecido sobre os ombros de Trótski nas fotos de cenas da Revolução de Outubro na Enciclopédia Soviética. r etroativamente. como os buracos estão para o queijo suíço.

59. .. Id. 58. p.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 85

Da depreciação da nossa capacidade cognitiva, extrai-se uma apologia do nosso poder de agir. Descrevendo o homem como um animal cego, separado da realidade pelo mur o intransponível do solipsismo, o teórico da PNL não tira daí a deprimente conseqüência lógic de que um ser assim constituído está fadado ao fracasso em todas as suas ações, mas sim a conclusão surpreendentemente animadora de que o homem pode agir, e ter sucesso, justamente porque não enxerga o terreno onde pisa. A ação eficaz não depende de uma visão correta da realidade, mas de uma fantasia de poder. Pode-se coadunar isto com o marxismo? Não e sim. Não com o marxismo que estava nas intenções declaradas de Karl Mar x: uma ciência objetiva que pela primeira vez iria superar uma longa série de distorções ideológicas ditadas pelos interesses de classe e, identificando-se com os interes ses da classe que traz em si resumidos os interesses de toda a humanidade — o prol etariado —, iria fornecer uma visão realista e universalmente válida da sociedade huma na. Se esta ciência é possível, a PNL é falsa, ao menos em sua pretensão de universalidade : só a burguesia troca o mundo real por uma projeção subjetiva; o proletariado vê a real idade. Neste sentido, a PNL poderia ser encarada, do ponto de vista do marxismo ortodoxo — e assim seria qualificada necessariamente pela crítica marxista uns anos atrás — como idealismo subjetivo burguês. O sucesso dela entre empresários e executivos seria alegado como confirmação deste diagnóstico. Nesse sentido, a hostilidade entre e la e o marxismo é aberta e irremediável. De outro lado, porém, a PNL também não perde temp o em interpretar o mundo — ocupa-se de transformá-lo. Entronizar como representação válida não aquela que descreva corretamente a realidade, mas aquela que nos dê o poder de agir nela — ou pelo menos uma dinamizante ilusão de poder que nos dê ânimo de lutar pelo poder — é uma proposta de tom pragmatista 85. Mas o pragmatismo, como bem viu Grams ci, pode perfeitamente conciliar-se com o marxismo na medida em que ambos voltam as costas à descrição da realidade e enfatizam a sua transformação. Ambos, 85

igualmente, confundem teoria e prática: o pragmatismo, misturando lógica e psicologi a — o estudo das causas reais que produzem o pensamento verdadeiro ou falso com o das exigências ideais e formais do pensamento verdadeiro 86; o marxismo, confundin do ideologia com sociologia — a expressão do interesse de classe com a descrição do esta do objetivo da sociedade 87. Marx nunca percebeu a contradição que havia entre seu i deal de uma ciência objetiva, universalmente válida, e sua mistura de teoria com práti ca. Na verdade, qualquer aplicação prática de uma teoria só é possível na medida em que os l imites entre uma e outra estejam rigorosamente demarcados na teoria mesma. Uma t eoria que se deixe contaminar de “prática” no curso da investigação teorética jamais poderá s ber se seus resultados foram encontrados no real externo ou produzidos e lá enxert ados pela ação prática do cientistamilitante, um ser ambíguo e bifronte que não distingue entre o saber e a emissão de profecias auto-realizáveis 88. A mistura, que retoricam ente tem o atrativo de ser um 86 Sobre as relações entre pragmatismo e marxismo, v. A Nova Era e a Revolução Cultural, pp . 80-82 e 113-117 da 2ª edição, e sobretudo O Imbecil Coletivo, Capítulos 3, 4 e 5. Indi spensáveis para a compreensão profunda do que se vai ler nas próximas páginas. Para uma explicação detalhada deste ponto, v. Edmund Husserl, Investigaciones Logica s, trad. Manuel García Morente y José Gaos, Madrid, Revista de Occidente, 1929 ( ree d. Alianza Editorial, 1982 ), vol. I, Capítulos 3-10. A crítica husserliana do psico logismo é talvez a mais completa refutação que alguém já fez de uma teoria desde que o mun do é mundo. 87 Para quem compreenda o assunto, não é nem necessário dizer que o sociolog ismo em geral, e o conceito marxista de ideologia nele incluso, não são senão casos es peciais do psicologismo tal como enfocado por Husserl. 88 Nota do meu Diário Filosóf ico, sob o título “Devir e Sentido”, datada de 8 de agosto de 1989: “A interpretação materia lista da História pode ser verdadeira ou falsa, mas, independentemente disto, ela exerce uma influência sobre a História. Homens que estão convictos de que o motor da h

istória — e da cultura, e do pensamento etc. — é a luta de classes, agem diferentemente de homens que pensam que a História reflete a vontade de Deus, ou os movimentos de espírito, ou que simplesmente entendem a História como uma agitação sem sentido, e que buscam o sentido justamente naquilo que sai fora da História e do tempo. Homens de sta última categoria, quando agem na sociedade, procuram antes de tudo assegurar a o maior número possível de homens o acesso à contemplação, àquilo que está fora e acima da Hi tória; e é este o sentido que justifica eticamente todos os seus esforços, inclusive n o sentido de melhorar as condições materiais de vida das populações, para libertá-las da p ressão econômica e dar-lhes a oportunidade de vacare Deo. Já os crentes no materialism o histórico não se interessam senão por inserir um número cada vez maior de homens na co nsciência do processo histórico, na participação voluntária no devir. Ora, o devir não pode, por si mesmo, ser o sentido; a participação no devir só tem sentido em função de algum ob jetivo a ser alcançado; mas, não havendo mais a promessa do supratemporal, do acesso à transcedência, a inserção ativa na praxis se esgota como fim em si mesma, e cai para objetivos meramente pretextuais, dedicados a manter a roda girando. Este é o verda deiro efeito e o verdadeiro significado do marxismo, para além de

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protesto contra um suposto academicismo desligado da “vida”, serve apenas para encan tar jovens irrequietos que buscam nas teorias uma confirmação vaidosa de seus desejo s e aspirações, e não um conhecimento válido, muito menos um conhecimento aplicável na práti ca. Ela não serve nem para criar uma descrição aproximativamente correta da realidade, nem muito menos para elaborar previsões que fundamentem a ação prática. A absoluta inca pacidade dos teóricos marxistas de prever o curso da História, sua sucessão deprimente de erros crassos ao longo de mais de cem anos — a começar pelo do próprio Marx ao sup or que a revolução socialista deveria ocorrer na Alemanha ou na Inglaterra, num país a vançado e não numa sociedade feudal como a Rússia — mostram que o poder do marxismo não é o poder material e prático de uma ciência aplicada, de uma técnica, de uma “ação racional segu ndo fins” como o diria Weber, de um comtiano prévoir pour pouvoir, mas sim o poder a liciante e hipnótico de uma fantasia, de uma alucinação pseudoprofética, capaz de mover o mundo, só que nunca para onde pretende; capaz de induzir as massas e os intelect uais à ação, mas não de levar a ação a bom termo; capaz de desorganizar uma economia capital ista, mas não de construir o pretenso socialismo; capaz de desencadear as causas, mas não de dirigi-las no sentido dos efeitos desejados. É uma força entrópica, que agita e sacode e atemoriza o mundo sem nada produzir senão dor e perda, mas que por ist o mesmo exerce sobre os homens a atração irresistível de uma compulsão autodestrutiva en volta em delírios de grandeza, como a de Nero entre as chamas de Roma. Facilis est descensus averni. Aí a afinidade com a PNL é evidente: por mais horrendos que sejam os resultados da luta revolucionária, a esquerda é sempre capaz de “representá-los de u ma maneira que lhe dê poder” — o poder de cair indefinidamente e arrastar atrás de si a humanidade. Com a Nova Era, a conciliação já não é tão fácil. Em primeiro lugar, porque não é quedo entrar em acordo com um saco-de-gatos. Porta-vozes e críticos da Nova Era são concordes quanto à discórdia generalizada que ali reina: “Dentro do suas intenções declaradas, sejam elas mentiras propositais ou auto-enganos de mental idades doentes. É preciso ser um completo idiota para tomar como uma promessa rede ntora a ameaça que essa gente nos faz de nos aprisionar para sempre no círculo do sa msara. Alguns criticam a utopia marxista por ser irrealizável. Se fosse realizável, seria o inferno propriamente dito, no sentido etimológico de queda num nível ontológic o inferior.”

movimento não há unanimidade sobre como defini-lo, nem há uma coesão significativa que n os permita chamá-lo de movimento”, escreve o apologista (e comercializador, como a m aioria deles) da Nova Era, Jeremy P. Tarcher 89. Na outra ponta, o crítico protest ante Russel Chandler: “Movimentos da Nova Era (no plural) é uma descrição muito mais apt a. A Nova Era não possui qualquer superestrutura abrangente” 90. Em segundo lugar, o comunismo, russo, chinês ou cubano está tão distante do espírito da Nova Era quanto o R egulamento Disciplinar do Exército norteamericano. Também é difícil um sujeito acreditar ao mesmo tempo na influência dos astros e na luta de classes como motores da Histór ia. Mas essas incompatibilidades mesmas já nos indicam algo sobre as crenças positiv as que delineiam o padrão de uma unanimidade implícita por trás da variedade estontean te das orientações da Nova Era. 1. Ninguém, ali, quer saber de hierarquia, ordem, obed iência por motivos racionais. Admite-se autoridade, mas só de tipo carismático, que a gente obedece justamente porque não compreende; autoridade burocrática ou tradiciona l — no sentido de Weber —, não. 2. Pela mesma razão, não se aceita uma doutrina fundada em provas racionalmente válidas. Uma doutrina racionalmente provada exclui a sua própr ia negação, e isto para a Nova Era é anátema: nenhuma doutrina tem o direito de ser mais verdadeira do que outra. Todo es igual, nada es mejor. 3. Não havendo argumentação ra cional nem hierarquia de prioridades, o único critério válido é o “sentimento de participação que diferencia os indivíduos integrados na nova onda e os pagãos, ainda não tocados pe lo espírito da horda. 4. Por isto, a mentalidade da Nova Era é ao mesmo tempo indivi dualista e coletivista. Individualista, ao subtrair o indivíduo do diálogo racional. Ante o apelo da razão, que é uma só para todos, o individualista anárquico fecha-se em copas, bus89 90

“New Age as Perennial Philosophy”, Los Angeles Times Book Review, feb. 7th. 1988. Co mpreendendo a Nova Era, trad. João Marques Bentes, São Paulo, Bompastor, 1993. Um li vro valiosíssimo, que, por ser publicado por uma editora religiosa, é ignorado pela crítica — servilmente atenta, no entanto, às publicações de ocultismo e “auto-ajuda”.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 87

cando refúgio na proteção do seu “guru interior”, que lhe sopra verdades indizíveis, acima e fora de toda confrontação racional. De outro lado, o que esse guru lhe sopra, em ve z de isolá-lo para sempre do mundo, o integra na horda festiva dos que receberam m ensagens idênticas pela “via interior” do rádio e da TV, dos filmes e dos shows. A voz d o guru, afinal, cerca-nos por toda parte. A “interioridade” da nova Era não deixa marg em para um só instante de recolhimento e reflexão 91. Fundindo os sentimentos interi ores do discípulo na atmosfera emotiva que o circunda, ela suprime o intervalo, o distanciamento entre o eu e o mundo, sem o qual todo exame crítico-objetivo é impossív el. Não que ela seja contra todo pensamento crítico. Ao contrário, ela o fomenta, desd e que ele se volte contra as formas de autoridade que não interessam ao movimento: a autoridade burocrático-racional da ciência, a autoridade tradicional dos pais ou da religião costumeira. Ela produz aí, não raro, críticas realistas e pertinentes. Tão log o, porém, o discípulo atravessa o umbral do templo e ingressa no círculo mágico da autor idade carismática, não só a crítica, mas às vezes todo e qualquer pensamento, são rejeitados como tentações demoníacas. O pensamento é rebaixado à condição de arma de fogo, e o porte-de arma só é concedido extra-muros, no reino profano das trevas exteriores, para uso se letivo contra os heréticos e os infiéis. Aqui começa a ficar verossímil o arranjo das idéi as na cabeça de José Américo Motta Pessanha. A rejeição da prova racional, a mística de uma pseudointerioridade coletiva, a revolta insolente ante a autoridade do passado e a submissão hipnótica a uma nova autoridade são comuns ao epicurismo, ao marxismo (pe lo menos em sua moderna versão gramsciana) e à Nova Era, PNL inclusa. Com um pouco d e elasticidade, todas as conciliações são possíveis. Mas uma dúvida perturbadora pode aind a restar na mente do leitor. A Nova Era, de modo geral, inspira-se em motivos es piritualistas. Ela pôs em circulação no mundo idéias como a reencarnação, o karma, os anjos e duendes, as viagens as91 trais. Como pode tudo isso coadunar-se, superficialmente que seja, com o materia lismo professo de Marx e Epicuro? Por mais afinidades secundárias que os aproximem , materialismo e espiritualismo continuam, afinal, o exemplo por excelência da opo sição irredutível. Eppur... É significativo que, nas seitas como as de Moon e Rajneesh, um dos meios utilizado s para quebrar a resistência psicológica dos discípulos consista justamente em não lhes dar um só instante de privacidade, submetendo-os à vigilância e à intromissão constante do s companheiros e superiores — sempre, é claro, de maneira amável e discreta, de modo q ue a vítima não perceba nisso o sinal de uma intenção manipulatória. Os efeitos psicológicos são devastadores.

LIVRO IV - OS BRAÇOS E A CRUZ -

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de. Payot. que se podem traduzir. no microc osmo da constituição humana. O simbolismo dos números nada tem de “esotérico”. Natura no cristianismo o u Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. Já o vazio. 93 Sobre a Tría de chinesa. Pitágoras e o Tema do Númer o ( São Paulo. era rigorosam ente chinês. outras tantas subdivisões. aspectos e planos secundários. É um conhecimento rigoroso. 1968-1973. onde Logos é a esfera dos princípios metafísicos. de um lado a obra n otabilíssima do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. Não espanta. v. Mas e a vida? Ah. Paris. Brahma. era um puro palácio aritmético . seu método audaz. conservação e transformação respectivamente. Na tradição chinesa. o livro sagrado da dinastia Tchou fecha o ciclo ao chegar ao número 64: os cic los seguintes repetem o esquema 93. que ecoam e reverberam umas às outras segundo uma infinidade de escalas e de pontos de vista. sem exceção. 1976. Invertendo-se apenas a ordem de sucessão para Céu-Homem-Terra. no sentido pejorativo da palavra.. o mais límpido exercício. Homo. Platão. E. Vishnu e Shiva. a divisão ternária do mundo imita u m outro ternário mais alto: o dos supremos princípios metafísicos Yang. Por exemplo. por que a esfera da razão humana deveria funcionar diferente da razão suprema qu e ordena o real como um todo? “A lógica. há muito a dizer. Matéria e Proporção. Comparar. sem maiores pedantismos esotéricos.. Physis a ordem repetitiva da natureza sensível. como por exemplo Deus. ao descrever a ordem do pensamento d iscursivo. mas um se foi e o outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio. manifestam-se em cada um dos pequenos fatos que em m ultidão inesgotável compõem a sucessão da vida cósmica. que enfoca os números como categorias lógicas ( e ontológ icas ). Gallimard. Paris. Filho e Espírito Santo — corresponde. 3 vols. e que a combinatória completa somasse. desde que se entenda que uma tradução não é uma explicação. cuja eficácia no mundo real. na ausência da síntese ternária. Ludwig Paneth em La Symbolique des Nom bres dans l’Inconscient. “Livro das Mutações”. La Grande Triade. O I Ching. apetitiva. — (I) Pobres bantos Em todas as grandes tradições espirituais. dotado de fundamentos lógicos apodícticos. é uma ontologia do microcosmo da razão humana. apresenta um modelo miniatura de todas as mutações possíveis: de ternário em ternário. que Aristóteles. Descendo porém do plano metafísico ao histórico. o clássico de René Guénon. Yin e Tao. trad. até à alu cinação.. 1957 — um livro após o qual o que quer que se diga do assunto corre o grave risco de chover no molhado. O MATERIALISMO ESPIRITUAL “O abismo era metódico. A divinização do espaço. Matese. como que patinando em falso. motivo pelo qual o passo ternário é o andamento de todas as ações e mutações. ademais. assim. A alma. constatasse que este caminha em passo ternário. 6 4 ternários possíveis sem repetição: a silogística é o “Livro das Mutações” do raciocínio.” À tríade hindu. a o definir o homem como um intermediário entre a besta-fera e o deus. correspondem outros 92 O dois representa a oposição estática que.CAPÍTULO VII. no fim. também ter nárias. espírito. o ternário corpo. é vege tativa. a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos -Physis. para as inúmeras partes. por sua vez. Gallimard. a vida era esse vício!” BRUNO TOLENTINO § 19. se confirma pela investigação psicológica do inconsciente. somando-os dois a dois 92. que expressa grosso modo as idéias de criação. Henriette Roguin. de outro as observações clínicas do dr. encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade. intelectiva. Ethos o mundo humano de ind ecisão e liberdade relativa. a esse respeito. . fora de qualquer pressuposto metafísico. os dois termos de uma al ternativa insolúvel repetem-se indefinidamente. diz Schuon. se resolve provi soriamente em mera multiplicação quantitativa. À Trindade Cristã — Pai. e Georges Dumézil disse muito sobre as relações entre o ternário religioso e a ordem social em My the et Épopée. alma. A essa divisão do todo correspondem. Os três princípios. por Forma. já que go- vernam a totalidade do ser. de duas proposições tirando uma terceira e assim por diante. 1960 ). Paris.

. em suma. Correspondem. um para as ações in fieri. uma tendência universal do homem a enc arar o ser como se fosse assim constituído. fiéis à raiz trilítera de ambas essas palavras. expansão. o homem diante de si e o homem anulado dian te da infinitude divina. sonho e sono profundo —. outra divindade que lhe está subordinada. o ser supremo. Tamas.. ou o dos estados de consciência — vi gília. qu ersonificam o homem diante do mundo. à et ernidade. Por isto mesmo. o homem primordial. em todas as tradições espirituais. i sto é. que. A noção do triplo tempo encontra-se. Nzambi. simbolizados nas três posições da prece litúrgica — de pé. muito afastada do homem para satisfazer as suas inumeráveis necessidade s religiosas. modelo da espécie. ou ter dele uma idéia nebulosa e distante. econômicas e vitais.. Vê-se o mesmo no grego ou no hebraico 95.. O fato de não ter sido Kari o cria dor da Terra e do homem é signific ativo: revela -nos uma forma vulgar da transcendência e da passividade da divindad e suprema. aos três estados mencionados. e a eternidade — como a definiu Boécio. Mircea Eliade notou em tribos da África e da Polinésia o enfraquecimento do sentido da eternidade metafísica. Kari. há um tempo verbal para as ações concebidas como findas (em qualquer tempo cro nológico que seja). No árabe. o que surpreende nele não é a ubiqüidade da sua presença nas grandes tradições religiosas. O mesmo se passa na maioria das populações africa nas: o grande deus celeste. a perenidade ou eviternidade.. tempo cíclico. e também na estrutura das línguas antigas. é igualmente um grande deus celeste que se retirou do culto. que co mpõem a palavra Adam (o árabe em geral suprime na escrita as vogais intermediárias). Criou todas as coisas exceto a Terra e o homem. atravessa esses mesmos e stágios. entre os Tumbukas. somente desemp enha um papel insignificante na vida religiosa da tribo. confiou o cuidado de a acabar e governar a um deus inferio r. ao menos uma “constante do espírito humano”. perfeitamen te igual. Aqui também três letras indicam o caminho: A.92 OLAVO DE CARVALHO tantos ternários na esfera cósmica e humana. criador todo-poderoso. O ternário dos mundos. depois de ter c omeçado a criação do mundo. cujas letras correspondem. por exemplo o dos movimentos do cosmos. verdade imbricada na constituição mesma do ser. à continuidade perene. prefiro as formas “mussulmano” e “Islam”. que a inépcia dos nossos legislado gramaticais consagrou como corretas.. “posse plena e simultânea de todos os seus momento s”. A grafia das letras permite visual izar as três posições da prece: prosseguimento. Rajas e Sattwa (queda. que engolia ou encobr ia o senso da eternidade: “Os Semang da Península de Malaga conhecem também um ser supremo. outro ainda para as ações concebidas indepe ndentemente de término ou 94 Nota ortográfica: em vez das grafias “muçulmano” e “Islã”. atravessando os quais o homem recua desde a manifest ação sensível até o princípio metafísico de todas as coisas.. estruturalmente. para os quais o criador é demasia95 Os três estágios equivalem. Adão. Pelo que lhe respeita. D e M. slm ( de onde vem ain . Os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num deus do céu chamado Olorum. ao tempo. parece apreender. O fiel mussulmano 94. ascensão). sentado e prostrado —. Está muito longe ou é demas iado bondoso para ter necessidade de um culto propriamente dito. tota simul et perfecta possessio. Obatalá. pela ordem. ao rezar.. que conhecem um se r supremo mas adoram os antepassados. às três faixas do tempo: a temporalidade. O mesmo se verifica entre os Angonis. Certas culturas tribais parecem desconhecê-lo completamente. Olorum afasta-se definitivamente dos assuntos t errestres e humanos. resíduo de uma velha doutrina esquecida. que são qu ase transliterações.. ou sucessão sem volta. se não uma lei ontológica. que transcorre m as retorna. O passo ternário entre o mundo e a origem é marcado pelo monossílabo Aum. que são obra de Plé.. devolvendo no fim intactas as possibilidades que estavam no início.. e sim a sua ausência em lgumas das pequenas. dos Bantos.. paralelamente a uma proliferação hipertrófica das divindades cós micas ou forças naturais divinizadas — um inchaço da perenidade. mutatis mutandis.

“paz” ). que é muito complexo.da saláam. onde se encontrarão também mais indicações bibliográficas sobre o assunto. mas um sistema simplificado de minha invenção. 6. . Também não uso nas transliterações arábicas. n. V. onde a cada letra árabe corresponde uma e uma só letra do alfabeto latino convencional. acima . nes e em outros livros. o alfabeto fonético internacional. Faço-o também por saber que na religião islâmica a grafia das palavras te um uso ritual e um profundo sentido simbólico similar ao do hebraico que se perde por completo nessas adaptações arbitrárias. Tirei algumas conseqüências desse fenômeno para a teoria da literatura em Os Gêneros Lit erários. modulada por acentos.

foi proposta alegremente aos Ocidentais no séc ulo XVII por filósofos e cientistas que acreditavam estar descobrindo um novo mund o — o mundo das leis mecânicas que explicariam a natureza e o homem sem necessitar p ara nada da “hipótese Deus”. 1977. ou que “D eus deixou o telefone fora do gancho”. como um garoto sem mãe perdido nas ruas. Tratado de História das Religiões. 74-77.. Natália Nunes e Fernando Tomaz . e marcadas por uma seqüência imemorial de derrotas e privações — o trauma repetido das preces não atendidas. A culpa edípica não acompanha toda rejeição da fé. omm. devemos entender isto como expressão do sentimento de uma velha tribo dispersa e decadente? O fenômeno é enigmático. que “Deus se afastara deles”. dois séculos mais tarde. mas é um fenômeno típico da civilização cr Islam.. Que Freud tenha explicado pela morte ritual do Pai a origem 97 96 Mircea Eliade. e não é para rezar aos antepassados ou às árvores totêmicas.” 96 É compreensível que esse estado de espírito se espalhe em tribos pequenas. Não: eles tinham consciência de havê-Lo expulsado por v ontade própria — daí que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 93 do longínquo e demasiado grande ‘para se interessar pelos assuntos vulgares dos home ns’. que bóia solitário num espaço indefinido. que imaginam o ser supremo Ngurubi como criador e todo-podero so. abandonada por um Deus cuja presença ela mesma se esforçou. Quando. não puderam simplesmente dizer. isolada. no mesmo círculo vienense onde ela se disseminou. a culpa edípica subseqüente à expuls Pai não poderia deixar de estender sua sombra por toda a produção intelectual da era do ateísmo 97. separada do sentido da vida. por três séculos. A orientação espacial ( qibla ) e o sens o de integração na grande comunidade humana ( umma ) dispersam-se imediatamente como fumaça no ex-mussulmano. mas fixado na perda da mãe. E os Negr ilhos (pigmeus) repetem: ‘Deus afastou-se de nós’. Em segundo lugar. em primeiro lugar. nunca mais quis saber dele para nada’. depois de ter criado o homem. vendo -se alijada do poder pela Revolução burguesa que ela ajudou a fazer. Umma te m aliás a mesma raiz de “mãe”. é pr eciso não cair na esparrela de interpretar as falas dos intelectuais como expressões do sentimento dominante entre as populações dos países ricos do Ocidente. Mas. descobriram que esse mundo era estúpido e sem razão como qualquer aparato mecânico considerado fora das finalida des inteligentes a que serve. para arrancar do coração dos homens. ou faz do “silêncio de Deus” o centro das preocup ações teológicas do seu tempo. a teoria do Deus otiosus. Os Bantos dizem: ‘De us. Lisboa. pp. tem todos os mo tivos para se sentir dispersa. junto com a teoria da “morte de Deus” emergisse. onde é dogma que Deus “não gerou nem foi gerado” e chamá-Lo de “pai” é blasfêmia intol a adesão ao ateísmo não traz um sentimento de culpa edípica. Não é alheio a isto o fato de que o fundador da religião . nada menos que 56 por cento do s norteamericanos (estatísticas oficiais) freqüentam o culto dominical. A “morte de Deus” é. no máximo. resíduos talv ez de antigos impérios africanos desmembrados. a que o pobre banto chegou por uma s ucessão de experiências decepcionantes. entre os Wahéhes. expressão de um sentim nto vigente nos círculos intelectuais — uma tribo relativamente pequena e que. mas sabem que são os espíritos dos mortos que exercem uma verdadeira vigilância so bre as coisas do mundo e é a eles que oferecem culto regular. também a doutrina do complexo de Édipo: numa civili zação que por dois milênios imaginou Deus como um “Pai”. com a inocência do pig meu. protestante ou católico. Cosmos. É um sentimento de orfandade. A opinião de Nietzs he para essa gente é cocô de mosquito. Mas quando o intel ectual altamente civilizado de uma nação rica e vencedora diz que “Deus morreu”. mas de ruptura traumática do cordão umbilical e de perda do senso de direção. Passado um século desde que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”. trad.

O ateísmo não é um fenômeno homogêneo: há um para cada religião. depois de pai. é necess mbém uma ciência do Ateísmo Comparado. por exemplo. A imagética de figuras boiand o no espaço. onde encontra um Ersatz do clamor profético de jus tiça. dificilmente deixa de aderir. compensatoria mente. Ele não abandonou. primeiro de mãe. É pena que até ho je ninguém tenha estudado isto em detalhe. sem a qual é impossível orientar-se na barafunda do s ateísmos contemporâneos. Se há uma Religião Comparada. aparentemente sem despertar para o caso o menor interesse dos estudi osos. russo-ortodoxa do segundo. especulou sobre a religião universal generalizando sua experiência limitada d o meio judaico e cristão. Não é o mesmo abandonar o cristianismo ou o budismo. a algum utopismo político. o Islam ou o judaismo. expressa esse sentimento. que aparece com insistência em Salmán Rushdie. Di isto há anos. por exemplo. o “Pai”. podem ser grandemente elucidadas pela origem judaico-prote stante do primeiro.slâmica tenha sido um órfão. católica do terceiro. O ateu de origem judaica. muito mais “primitivo” do que a culpa edípica. As diferenças entre as visões estratégicas de Karl Marx. Freud. afinal. Lênin e Gramsci. mas a “Lei”. . O dr. que nada entendia dessas c oisas.

Mas a verdadeira importância histórica da sua descoberta não está nisso. É significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substi tuída. também. a douta ignorância. a tradição filosófica e igiosa sempre reconhecera a necessidade de algum tipo superior de ato cognitivo — uma iluminação. Aplicando esses raciocínios. uma ciência infusa. no culto. o sinal de largada para a generalização do ateísmo entre os intelectuais foi. Se o unive rso é infinito. investidos ad hoc de prerrogativas divinas 98.94 OLAVO DE CARVALHO do sentimento religioso. sob um outro e importantíssim o aspecto. HENRY MONTAIGU Isso começa com Nicolau de Cusa. junt o com a teoria do Deus otiosus que aposentava o Todo-poderoso. a realidade dessas contradições que a razão repe le. por dois tipos de divindades subalternas: os deuses da natureza e os antepassados. c’est le livrer démagogiquement à la dispute. e inseparav elmente dela. que obrigava os teólogos. admitia-se. Com isto. § 19. ele antec ipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cál ulo. Do mesmo modo. o antes é depois etc. e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade. que o tempo é infinito. imbricados na paisagem. Para conhecer a natureza. todos os seus pontos estariam eqüidistantes da circunferência. passando pelas extremidades d o diâmetro A-B. É o mesmo que dizer: deuses do espaço. mergulhados no passado. Dogmatiser sur un bien originel. Culto das coisas. Et la dispute. escondidos nas florestas e n as grutas. deuses do tempo. não há “perto” nem “longe”: to as as distâncias se equivalem. A moderna concepção matemática da natureza inaugura-se no instante em que Nicolau. numa extensão infinita. ele estará simultaneamen te em A e B. uma transfiguração da inteligência. Os segundos. — (II) O infinito de Nicolau de Cusa. intuitivamente. e não a sua extinção. acredita encontrar nele a mesma inapreensibilidade racional 98 Daí proviriam. ou nenhum. uma intuitio intellectualis —. Ela apreendia somente o que neles houvesse de racional — o resíduo caótico da pura matéria. Os primeir os. Exemplo: um objeto girando numa órbita circular. no desenvolvimento das idéias Ocidenta is. § 20. A divinização do espaço. se aplicavam exclusivamente a Deus. as duas grandes linhas que disputam o primado do pensam ento Ocidental: o naturalismo físico-matemático e o historicismo-culturalismo. ocultos entre as sombras da memóri a. mais tarde. os quais. espécie de ingenuidade metódica que permi tia ao filósofo captar. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito. a recorrer à linguagem dos paradox os. Não que a razão pudesse apreender todas as causas dos fenômenos na turais. e o círcu lo teria infinitos centros. o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado.. a reação do intelectual europeu à “perda de Deus” foi igualzinha à do pigmeu ou d o Banto. que o universo não tem centro geométrico e que. se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâme tro infinito. quando falavam de Deus. Eis aí a verdadeira novidade: a ciência da natureza eleva-se ao estatuto de um s aber secreto. então valem para ele todos os raciocínios autocontraditórios segundo os quais o que está perto está longe. não era objeto de conhecimento: se nada se conhecia a resp . um a metanóia. a diante. Ora. é o sinal de que a perda da dimensão metafísi ca traz consigo uma inversão do senso das proporções. bastava a luz natural da razão. a razão humana se mostrava impotente e devia ceder lugar a uma outra mod alidade de conhecimento. supra-racional. a elevação do espaço e do tempo à condição de absolutos que O substituíam no ca go. Nicolau concluía que o espaço é infinito. o grande é pequeno. Logo. c’est le dia ble. antes da intervenção de Nicolau. investigando as propriedades do infinito numérico e es pacial. La pire des erreurs est toujours constituée par la Vérité elle -même. Desde a Antigüidade.. espalhados na natureza. Diante desses p aradoxos. culto dos mortos. mas só para chegar ao c onhecimento de Deus e dos mistérios supremos. Mas. V. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu t rajeto já não estaria em movimento. logo. que requer do cientista uma transformação interior.

eito. era por- .

é a via para o conhecimento da natureza. 2º. seguindo as vias abertas por Nicolau de Cusa. Fritjof Capra. o “interminado” cósmico de Nicolau “significa também que ele não está ‘terminado’ em seus constituintes. rigo rosamente. cujas conseqüências letais se propaga m até hoje. ao aplicar à natureza uma faculdade intelectual superior à razão. in determinado. ou advoga a legitimidade da argumentação retórica 99 como prova científica 100.. ou admite que. Mas ele não afirma sua infinidade positiva. Ora. que lhe faltam ompletamente precisão e determinação rigorosa. antes voltada ao conhecimento de Deus. Berkeley. . o caminho seguido pela evolução da ciência moderna. não ao arrebatamento iluminante d iante da simplicidade divina. mas é certo que esse foi. Ora. É evident e que. mas ao ofuscamento da inteligência ante a complexida de cósmica. não à unidade com o Espírito que do interior move todas as coisas. atribuir ao Univ erso o qualificativo de “infinito”. sem acréscimo significativo da sua compreensão racional. mas esta metanóia não leva ao conhecimento de Deus.. Segunda: Nicolau não só admitia a existên cia do resíduo incognoscível na natureza e o justificava metafisicamente (pelo mesmo tipo de raciocínios).” 101 Com isto. fez à ciência pós-renas entista: a confusão entre infinito e indefinido.. os conceitos básicos da física subatômica não têm significad o inteligível e são meros arranjos descritivos (metáforas matemáticas. Shambhala. de fato ele evita. que ele reserva a Deus e somente a Deus. a ciência. Pode-se duvidar da sensatez desse empreendimento. 3º. daí para diante. prossegue Koyré. The Tao of Physics. e sim à experiência indefinidam ente repetida da incognoscibilidade da natureza. só po deria evoluir no sentido de 1º. o conhecimento da natureza é elevado ao estatuto de m istério e a intuitio intellectualis é rebaixada de função — em vez de caminho de acesso a Deus. não chegamos a um resultado melhor do que pela via racional — apenas e stendemos indefinidamente nossa verificação da inesgotabilidade da natureza. temos de admitir que a raiz dessas derrotas da pretensão científica já se encontrava no projeto de Nicolau de Cusa. ele é. mas reconhecia que o único resultado a que se chegaria pela D octa ignorantia seria a constatação dessa incognoscibilidade. para chegar sempre mais e mais à mera const atação da impotência humana de compreender a natureza. para as quais a totalidade da natureza sideral está incluída numa zona de ind eterminação. Primeira. requerer para es se fim um esforço “iniciático” cada vez maior. a rigor. aí temos o mais temív el dos paradoxos cusanos. mas à perse guição hipnótica da multiplicidade de uma matéria que se esfarela numa poeira de hipóteses . aplicar nisso toda a capacida de humana de intuição intelectual. área de transição entre a certeza sensível da experiênc estre imediata e a certeza intelectual dos primeiros princí100 Cf. Pois. mas somente de um conhecimento parcial e conjetural”. com Nicolau.. porque. Eis por que ele não pode ser objeto de uma ciência total e precisa. isto é.. A ciência to rna-se assim uma espécie de iniciação ao contrário: só pode ser praticada mediante uma met anóia. 1975. e a perda do sentido fluido e ambíguo da manifestação cósmica. ele está automaticamente fora do alcance das duas censuras básicas e dific ilmente respondíveis que o maior crítico da modernidade. duas mudanças essenc iais se verificam. o “mundo intermediário”. no ple no sentido da palavra. a bem dizer). Seu Uni verso não é infinito (infinitum) no sentido positivo deste termo. É verdade que em Nicolau a infinitude do espaço-tempo não tinha ainda o sentido de uma divinização: “Nicolau de Cusa nega a finitude do mundo e seu fechamento pelas esferas celestes.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 95 que ali nada havia propriamente a conhecer. estender quantitativamente o conhecimento do caos natural. mas “interminado” (int erminatum). Quando o físico de hoje p ede socorro ao simbolismo taoista em busca de um princípio ordenador para sua ciênci a 99. René Guénon.. o que quer dizer somente que ele não tem limites e não está contido na car apaça exterior das “esferas” celestes. 102 Nicolau está aí magnificamente em harmonia com o simbolismo das grandes tradições espiri tuais.

Francisco Alves. Du Monde Clo s à l’Univers Infini. VII. Gallimard. Octanny S. 1920 [ original i nglês de 1962 ]. 101 Alexandre Koyré. trad. pp.Cf. Paul Feyerabend. cit. 1973. . Raïssa Tarr. sobretudo Cap. Paris. loc. Contra o Método. Rio. 1977. trad. 102 Koyré. da Mota e Leônidas Hegenberg.

a discussão das leis da natureza enquanto tais e tomadas fora de s uas conseqüências teológicas e metafísicas. ela é o dom da evidência apodíctica. No esquema do triplo tempo. intermediário entre a vigília e o sono profundo. para o advento de uma ciência amputada de sua raiz metafísica? A resposta é simples: o tesouro que Nicolau preservou no campo da cosmologia ele o desperdiçou no terreno da gnoseologia. que. nem fisicamente reais nem meramente imaginários (daí o termo imaginal). O conhecimento da natureza valia sobretudo p elas suas reverberações simbólicas. que adquiriu o prestígio de uma centelha divina no ápice da alma humana. que não é nem o tempo irreversível da factualidade terrestre nem a simultaneidade do eterno. mas apenas a transição desde o conhecimento sensível até a esfera dos supremos pr incípios metafísicos. Porque a intuição intelectual — a douta ignorância como a chamava Nicolau — é a mais ele vada 103 capacidade cognitiva humana. da certeza indestrutív el. não a medição pro visória das aparências cambiantes. como o anunciado pelo mec anicismo. no ternário microcó edieval. da filosofia em geral e até da ética e da política. inf indáveis motivos de incerteza. o Homem entre Céu e Terra. ao tempo cíclico. os heróis e deuses da mitologia 103. mas a ”ação divina” que o move).’” 104 É que. inesgotavelmente inexato e cambiante. ser interm inado e volúvel. onde rendeu tanto. Como foi possível. o mundus imagina lis onde habitam perenemente. certamente numa retr oprojeção de suas próprias culpas. desde que afinadas. como Averroes. Voltada para um objeto que desde o início se sab e resvaladiço. parece tão extravagante quanto calcular as lágrimas de Penélope. chegaram a identificá-la dire tamente com a inteligência de Deus. século após século. a ciência da natureza cósmica não era um objetivo em si. o princípio do indeterminismo. da psicologia. nesse contexto. atribuiu aos escolásticos medievais. À luz do simbolismo tradicion al. se levado em conta pel a ciência renascentista. que a filosofia de Nicolau c ontribuísse. no contexto medieval e antigo. a intuição intelectual não somente perde eficácia e dignidade.96 OLAVO DE CARVALHO pios metafísicos. Tanto na filosof ia de Nicolau quanto em toda a cosmovisão cristã que o antecedeu estava bem declarad o. ainda que involuntariamente. que mais poderia fazer o dom da certeza senão nos dar repetidamente. teria lhe permitido chegar às bases da física de Planck e Hei senberg. Ao voltar-se para o mundo das sensações. da teoria do conhecimen to. mas transforma a física num sucedâneo da metafísica e o céu astronômico num su cedâneo do céu espiritual: “[As] concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa culminam na ousada transferência ao Unive rso da definição pseudo-hermética de Deus: ‘Uma esfera cujo centro está por toda parte e c uja circunferência está em parte alguma. supra-racional. a prova cada vez mais segura da insegurança. Essa zona corresponde. e no dos três estados de consciência. ta l como a alma é intermediária entre corpo e espírito. mediador entre a “firmeza passiva” da Terra e a “firmeza ativa” do Céu (que evidentemente aqui não é o céu visível. ao longo dos tempos . com todas as letras. a perenidade entre o tempo e o e terno. e muitos filósofos. para a qual bastam as sensações. o projeto de uma ciência exata e rigorosa do cosmos. com todas as suas repercussões devastadoras no terreno da biologia. receitar chá de carqueja para o fígado de Prometeu ou calcular o número exato de anjos que cabem na cabeça de uma agulha — cálculo que depois a ideologia moderna. intermediária entre corpo e espírito. a zona sideral corresponde portanto à evite rnidade. indefinido por natureza. mas a zona da história arquetípica. a Rajas. A cosmologia era uma “ciência intermediária” na escalada cognitiva. e requer um objeto à sua altura. a medição ca da vez mais exata da impossibilidade de medir exatamente o que quer que seja? A intuição intelectual serve para nos dar a verdade evidente e definitiva. no esquema chinês. poupando à humanidade três séculos de desvario mecanicista. pelo vislumbre que podia dar de uma realidade eter . ao sonho. a força expansiva que medeia entre a ascensão e a queda . ao “Homem” (jen). Ela só se move com plena desenv oltura no terreno dos princípios metafísicos. Daí a importância relativamente secundária que tinha. então. corresponde à alma. num arrebatamento de louvor. no ternário hindu dos movimentos cósmicos.

Avicenna and the Vis ionary Recital. Henry Corbin. . University of Dallas. Koiyré. Pari s. op. 1954. cit. 1980.na e supracósmica. v. p. trad. AdrienMaisonneuve. inglesa de Willard Trask.. Irving ( Texas ). Tal como o ho104 Sobre o mundus imaginalis. Avicenne et le Récit Visionnaire. 30.

a figura central e o cenário. A torção operada por Nicolau ocasionou a dispersão da mais nobre faculdade humana na ta refa inglória de delimitar o ilimitado. 64-65. fatalmente tomando-os em s eguida como se fossem a realidade mesma. mas a experiência humana na sua totalidade. ao mesmo tempo que se arrogava o direito de expulsar do reino dos conhecimentos respeitáveis quaisquer o utras explicações possíveis. para penetrar no reino maravilhoso do espírito. levaram o homem a perder sua posição única e privilegiada no drama teocósmico da Criação. Pela porta da douta i gnorância cusana. Ele resu lta de que o aparente progresso. não resulta apenas. o buscador espiritual só atravessava a agitada e caótica região dos sonhos para poder atingir. que. de sua situação central e por isto mesmo únic a. de um mundo matematizado. que tantos depois constatar am. contado. como poderia parecer à primeira vista. e ao qu al se deu o nome de “realidade”. No fim encontramos o niilism o e o desespero. Essa mutação transformou o conjunto da atividade científica num a permanente petição-deprincípio. o qu al consiste numas miseráveis rodas de engrenagem escondidas entre fiapos de nuvens . o reino do sono profund o. abandonando árvores e flores. forjando o modelo de seu próprio objeto. cit. todos os artifícios descabidos e até fraudulentos foram po stos a serviço dela. Uma vez despertada essa ambição. no qual tinha sido até então. por esquemas de relações meramente possíveis. pela Terra.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 97 mem são quando adormece. trazia em seu bojo a destruição de toda possibilidade de conhecer o real. quanto mais rápido melhor. fingindo dar ao homem uma visão mais realista de sua posição no cosmos. Uma gra vura da época mostra como a imaginação do estudioso renascentista concebia o “mundo espi ritual” a que teria acesso ao transcender os limites do sensível (Fig. Bela troca! Figura 1 Mas o “desencantamento do mundo”. d a perda de lisonjeiras ilusões sacrificadas ao progresso do conhecimento. renunciava implicitament e a nos dar qualquer explicação do mundo da experiência humana. op. onde no silêncio e na treva da mente resplandeciam o a Luz e o Verbo de Deus. rigoroso. substituindo a natureza dada na experiência por um conju nto de esquemas previamente arranjado para caber nos moldes pretendidos. Reduzido o objeto a seus elementos matemáticos. lamentando-o ou celebrando-o. foi amputar da totalidade cósmica os elementos não-matematizáveis. ao mesmo tempo. pássaros e estrelas. No fim de ssa evolução encontramos o mundo mudo e terrificante do ‘libertino’ de Pascal. pp. O segundo foi escapar para longe d a experiência comum e corrente da humanidade. onde a hipótese indemonstrável admitida de início — o carát matemático 105 Koyré. concebendo o hábito — ou vício — de raciocin ar por “modelos”. medido e previsto em todos os seus detalhes.. todos os exag eros. todas as fantasias.” 105 Esse efeito moral. porém. pesado. O terceiro foi banir para o mundo das curiosidades impertinentes todas as perguntas que não encontrassem resp osta imediata na fantasia pitagórica. 1): o peregrino se evade da “esfera” mundana. “provav a-se” que tudo nele funcionava matematicamente. ou pseudopitagórica. naturalmente. a anulação do princípio mesmo do conhecimento objetivo. a ciência entrou no caminho irreversível de uma espécie de auto-hipnos e matemática. o mundo d esprovido de sentido da filosofia científica moderna. é apenas o lado estético. O primeiro. Sol e Lua. Mais graves foram seus efeitos morais e cognitivos: “A destruição do cosmos e a perda. . e negando já não apenas alguns dados do mun do sensível. a superfície dessa grande mutação em que o esquematismo de umas fórmulas secas se substitui à riqueza do mundo viv ente.

dar a mínima conta da falácia deste raciocínio. que não entrais nem deixais entrar. é absurdo pretender provar que um determinado ponto não é o centro. 1972. Quem quer que medite seriamente estas palavras comp reenderá que um conhecimento assim constituído não tem a menor qualificação para sair dos quadros da mais estrita humildade metodológica e opinar sobre questões de metafísica. Tudo o que se poderia deduzir corretamente da ilimitação espacial é que o espaço tem propriedades autocontraditórias por não ser propriamente uma realidade. 106 A “exatidão matemática” da visão científica da natureza desemboca assim. embora a contragosto e sem admiti-lo em público. La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trascendentale.” ( Edmund Husserl. Tão bobos ficaram os sábios imbuídos de douta ignorância. Como. A nova ciência teve um efeito entorpecente sobre todas as inteligências. toda a manifestação cósmic a está afetada de contradições. aos dados intuitivos e ao senso c omum. quer separados. se Aristóteles estava manifestamente errado nesse detalhe e mesmo em muitos outros. de gnoseologia ou mesmo de cosmologia. sem se 106 Comentando um estágio já mais avançado do processo de matematização da natureza — a física de Galileu —. existir na natureza um resíduo irracional e in cognoscível. e o permanece para sempre. Mas. a aproximação não poderá jamais ter fim nem alimentar mesmo. advertido contra os riscos de uma aplicação indiscrim inada do método matemático à filosofia da natureza. com efeito. o a priori do seu modo de ser. imagina ter o poder de obri gar despoticamente a babá a fazê-lo. nem por isto terá sido sensato atirar ao l ixo. manifestamente su perior. A cosmovisão científica. a cura di Walter Biemel. escreve Edmund Husserl: “Segundo o que observamos. Surpreendente. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. a idéia galilaica é uma hi pótese. em suma. nesse sentido. com dois milênios de antecedência. Ai de vós. Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a ci rcularidade das órbitas planetárias. não obstante a verificação. 4ª ed. a hipótese permanece uma hipótese. Enrico Filippini. 71 ). Curiosamente. ademais. ora negando o senso comum. em realismo e profundidade. inerente à constituição mesma da matéria —. a cada momento. Na verdade. Se o infinito tem indiferentemente inf initos centros ou nenhum. reverberações e fragmentos que não poderiam ter em si mesmos. renuncia a nos dar qualquer conhecimento do mundo re al da experiência — substituindo-o por um elenco de esquemas matemáticos — e desmoraliza como fantasia mística qualquer outra via de acesso a esse conhecimento. c ortes. legisla sobre a realidade ou irreali dade dos demais conhecimentos. Il Sagg iatore. junto com eles. com arrogância patológica. no oceano ilimitado da pura fantasia. no que a evolução posterior da ciênc cessou de lhe dar razão. a verificação ( a única possível ) é uma seqüência infinita de verificações. Buscar uma aproximação com essa hipótese é o único objetivo de toda investigação cientí a. ao mesmo tempo em que pretende legislar sobre o conhecimento do mundo exterior. por outro lado. ao platonismo à outrance dos físicos renascentis tas. o arcabouço teórico e metodológico da sua Física. “Ser científico”. não tendo o poder de limpar o próprio traseiro. trad. p. pelo simples fato de não ser composta senão de aspectos. porque. ora revogando a autoconsciência individual. mas ape nas o símbolo ou aparência de uma instância supra-espacial onde as aparentes contradições se reconciliam na unidade do infinito metafísico.98 OLAVO DE CARVALHO das leis cósmicas — é ao mesmo tempo elevada a critério supremo e único de validação do conhe imento científico. como a criança pequ ena que. Milano. que da infinitude espacial deduziram imediatamente a negação da centralidade da Terra no co smos. o objeto sobre o qual versa a hipótese é indefinido e inesgotável.. ora invalidando as per cepções intuitivas. e ele conc . É precisamente esta a essência p da ciência natural. a pretensão de estar mais certa do que no momento anterior ou seguinte. e uma hipótese de um gênero surpreendente. o fundamento de sua própria existência. A ciência fecha-se num solipsismo incomunicável. é conformar-se com uma hipótese inicial impossível de provar e refratária. quer juntos. Aristóteles julgava. exercendo enfim sobre toda parte em torno o domínio que não pode exercer sobre si mesma. Aristóteles já havia. ao mesmo tempo que.

exigir em tudo o rigor matemático. daí vem. notadamente. Ao rejeitar aparentemente Aristóteles. ). Não se deve. pois é absurdo buscar ao mesmo tempo uma ciência e a maneira de alcançar essa ciência. 995a. na medida em que. . a ciência renascentista deu-lhe razão no fundo. 3.luía que o método demonstrativo-matemático só podia dar conta de realidades imateriais — d e puras relações lógico-ideais. que devamos examinar primeiro o que é a Natureza. para poder matematizar a física. e nenhum dos dois objetos é fácil de apreender. Pois toda a Natureza contém verossimi mente matéria. mas somente quando se trata de seres imateriai s. a. e não da reali dade sensível . teve de se afast ar cada vez mais da realidade sensível até substituí-la totalmen107 “Eis por que é preciso ter aprendido quais as exigências que se devem trazer a cada es pécie de ciência. diríamos hoje em linguagem husserliana 107 —. Por isto o método matemático é inaplicável à Física.” ( Metafísica. pois assim v eremos igualmente de quê trata a Física.

porque as novas idéias exerceram tanta influência dentro da Igreja Católica quant o fora dela. A racionalização do dogma. 1965. O introdutor da nova astro nomia na Península Ibérica foi o chefe local da Inquisição. das correspondências e das si mpatias em que reverberavam umas às outras as partes de um gigantesco organismo vi vente. Nos jardins de Versalhes. Neste sentido. Nas ciências da natureza. dúvidas ou nuances de qualquer espéc ie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático. o cientista moderno que proclama que a física renascentista refutou Aristóteles comete. destinados a excluir da visão humana os comportame ntos desviantes que arriscassem macular a perfeição matemática da nova ordem 108. 109 Sobre a perda do sentido simbólico da natureza. ao mesmo tempo que se espalham por to da a Europa os hospícios e prisões. completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Sto. pela Editora Zahar: O Homem e . Afonso de Ligório. É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra-Reforma (que uma simplificação boba toma unilateralmente como uma reação conservadora) o influxo das novas concepções racionalistas e platonizantes. Arnauld & Nicole — eram católicos fervorosos empenhados em fundar nu ma construção racional perfeita a conversão dos descrentes. A Companhia de Jesus afirma-se desde o início como um utopismo reformista. mas é necessária à economia int talidade racionalista 110. v. onde já não há mais lugar para a incerteza nem para o pecador. a per spectiva horizontal e matemática substitui a perspectiva vertical e simbólica. que hordas de almas oprimidas sob o pe so Sobre a exclusão dos loucos. Paris. para verificar que aquilo que era um punhado de brasas na Idade Média veio a tornar-se. 108 Sim. Plon. resolvido por métodos matemáticos. simplesmente. que se anuncia no concílio de Trento . para sustentar a ilusão do me canismo perfeito. Aí. é substituído pela classificação das peças isoladas e mortas 109. O espírito geométrico marca a id ade clássica em todas as suas dimensões: da filosofia científica à moral religiosa. pela primeira vez na história do Cristianismo. uma desonestidade i ntelectual. o espírito de formalismo legalista vai to mando posse da religião cristã em medida tal. apagar ou pelo menos esconder tudo o que fosse diferente. como teria podido esperar t antos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos ante riores. Histoire de la Folie à l’Âge Classique. Seyyed Hossein Nasr. Um dos primeir os humanistas da Renascença. da j ardinagem à medicina. Michel Foucault. como o diz a calúnia consagrada em mito historiográfico — o gosto europeu de queimar bruxas e supostas bruxas. os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos. Enéas Sílvio Piccolomini. A liquidação das bruxas deriva muito menos da pura e simples defes a da ortodoxia do que de uma nova maneira — geométrica e purista — de compreender a or todoxia. Allen & Unwin. Se uma perfeita discriminação e catalogação os deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação. 1968 ( há tradução brasileira. Depois disso. sob o sopro dos novos tempos. necessitava excluir. divergente. É só acompanhar a ascensão do número de pro cessos e condenações. um incêndio devastador em ple na Idade Moderna. a salvação torna-se um problema de lóg ica jurídica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 99 te pelos modelos matemáticos. irregular ou estranho. Juan de Zuñiga. tornou-se nada menos que Papa. por exemplo. Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. Na pintura. London. a natureza multiforme é substituída pe la regularidade de um tabuleiro de xadrez. desde a fundação do Santo Ofício em 1229 até os grandes autos-defé dos ulos XVI e XVII. dezoito séculos após a vinda do Salv ador. The Encounter of Man and Nature. Malebranche. v. A substituição do mundo da experiência pelos modelos matemáticos trouxe cons igo a mania da uniformização. ganha ndo em ilusão de ordem e realismo o que perde em significação e intuito. da simplificação geométrica que. segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções. os principais — Descarte s. que vai varrer do mundo o pecado e instaurar a ordem social racional — mesmo que seja num cafundó latinoamericano. The Spiritual Crisis of Modern Ma n. vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação. Data dessa époc a — e não da Idade Média. Dos fundadores do racionalismo. o tecido complexo das analogias.

110 Não vai nisto o menor intuito de depreciar a obra de Sto. criação absolutament e genial pela qual os filósofos demonstram um desinteresse verdadeiramente patológic o.a Natureza ). . Apenas digo que ela atende menos a uma necessidade intrínseca da fé cristã do que a uma necessidade extrínseca imposta pelas condições da época. Afonso.

elevá-lo às supremas alturas do conhecimento espiritual — privando-o. pela “sutilização” do corpo do discípulo. A fuga do mundo rea l para o dos esquemas ideais matemáticos tem. inte rpretada retoricamente: a noção física de “energia”. perdida a via de acesso à espiritualidade autêntica. explicarão o espírito como uma sutilização ou diluição da matéria. a sub stituição da realidade sensível pelos seus equivalentes racionais e matemáticos vai se i mpondo. 1955 ). logo em seguida. Giordano Bruno tenha desenvolvido as fantasias mais exacerbadas a propósito da pluralidade dos mundos habitados.100 OLAVO DE CARVALHO dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico 111. Que. espiritual. passassem a ser tomadas como espirituais as forças da natureza cósmica simplesmente mais sutis e afastadas da realidade sensível imediata. o que ainda aumenta mais. como matéria rarefeita. o ocultismo e o espiritism o. Agir. será tomada. amplamente disseminados entre as camadas letradas. a disseminação de milhares de pseudomísticas e pseudo-esoterismos que prometem. No século XIX. seu efe ito foi a de diluir na consideração da infinitude espacial a capacidade humana da in tuição espiritual. é apenas o primeiro sintoma da tendên cia centrífuga que daí por 111 Sobre a ascensão progressiva das doutrinas irracionalistas. para concentrar-se na única coisa necessária. J. Esta concepção provocou. em substituição à espiritualidade religiosa. afinidade que se explica facilmente pela sua origem comum na cosmovisão renascentista. Mas é uma ascese puramente cerebral. A matematização da natureza é empobrecimento sensorial. ao contrário. de fato. Leonel Franca. sentimentalistas e român ticas no domínio religioso. por exemplo. Por toda parte. no mundo moderno. v. enquanto oposta à matéria densa do mundo visível. com freqüência — e não só por populares ignorantes — como um verdadeiro nônimo do espírito. assim. Rio. De imediato.êta país ingrato! diante se apossaria da intelectualidade européia. porém. A Crise do Mundo Moderno. como se o enfraquecimento do corpo fosse por si um mérito espiritual e como se não pudesse hav . Tal como entre os primitivos bantos. in do direto à infinitude metafísica e passando por cima de todos os indefinidos merame nte quantitativos da ordem cósmica. isto é. que fará explicitamente da c iência natural uma religião. numa proliferação ilimitad a dos focos de atenção espiritual. o prestígio s acerdotal da casta dos cientistas. de alimentos densos em proteína. s. Nela está a raiz da perve rsão moderna que atribui à ciência natural a tarefa de guiar espiritualmente a humanid ade. como um sucedâneo mundano da ascese espiritual. sem verdadeiro sentido moral. sob o impacto das idéias de N icolau de Cusa. apenas sem ganho espiritual .. O equívoco funda-se numa visão estereoti pada — e bem materialista — do ascetismo religioso como mero empobrecimento sensoria l. do Pe. religioso em suma. não é de estranhar que. um dos grandes livros brasileiros que já nenhum bras ileiro lê —. aos olhos da multidão. cada vez mais absorvida na varie dade da manifestação cósmica e cada vez mais distante de todo princípio metafísico capaz d e fundar critérios legítimos de validade do conhecimento. No curso desse processo. Mas ao mesmo tempo que o “espirituais” Allan Kardec e Madame Blavatski restauravam assim sem sabê-lo a física ep icúrea. alguma coisa de ascético. e da casta científica um clero. tidos como espiritualmente prejudiciais. Coi ncidência nada fortuita: o afluxo maciço de militantes socialistas às fileiras do espi ritismo e do ocultismo — um dos fenômenos mais marcantes da vida mental das classes letradas no século XIX — mostra a existência de uma afinidade entre essas duas corrent es de idéias aparentemente antagônicas. O processo iniciado por Nicolau de Cusa encon trará sua culminação quatro séculos depois com Augusto Comte. A falta do ganho espiritual é em seguida compensada pela riqueza das aplicações técnic as advindas da ciência. ( 4ª ed. A doutrina da sutilização encontrará na entra da do século XX um poderoso suporte verbal na nova física de Einstein e Planck. nascida. o materialista Karl Marx redigia sua defesa de Epicuro contra Demócrito. no sentido de um esforço de opor-se à natureza. A redução da religião a um mero sentimento interior jamais teria encontrado eco se não fosse p recedida pela redução da religião a um juridicismo racionalista. a desapar ição do deus infinito expande desmesuradamente o panteão cósmico.

da ampliação do univ erso sensível inaugurada no Renascimento. por exemplo. unidimensional e opressivo. a . c om certeira concisão. Eis aí como.er místicos gordos ou santos musculosos. onde toda a diferença entre as ca madas superiores e inferiores se reduz à escala quantitativa do grosseiro e do sut il. denominou “materialismo espiritual”. como se. Foi a esta caricatura que o Dalai Lama. chegamos à concepção dominante de um universo totalmente achatado.

não tem em si a prova da sua veracidade — coisa que já e ra arroz-com-feijão desde o tempo de Aristóteles. Eis aí como uma cosmovisão de um prima rismo deprimente pode conviver. segundo e le 115. na fantasia pueril do materialismo epicúr eo.. Na realidade. O dogma da sua própria honestidade intelectual int rínseca parece impedir os físicos de perguntar se não há algo de errado no que estão fazen do. nas cabeças de muitos pensadores de hoje. Foi este episódio que inaugurou a ma nia dos cientistas modernos de tomarem simples mudanças de métodos como se fossem “pro vas” de uma nova constituição da realidade. dizia Einstein. quando proclamou ter superado a noção da ciência antiga. marcada. fiz na revista Planeta os maiores elogios aos garotões de Princeto n. Mas um fundo de charlatanismo parece já ter sido introduzido na física por Galil eu. e que Galileu. permanece parado ou em movimento retilíneo e uniforme. astrofísicos. XVI. sem a menor preocupação de indagar se algum dia esses modelos foram levados à prática 113. de um lado. E. acabasse chegando. Meu artigo estava muito certo em diagnosticar a formação de uma nova casta sacerd otal composta de cientistas. Quando saiu a primei ra edição. La Gnose de Princeton. Homens adultos que encaram a vi da como puro jogo estão gravemente afetados de puerilismo. É mais ate rrador ainda ver como essa gente se 112 113 acomoda a todos os piores ilogismos. n o século XX. um objeto em tais condições. isto significa. é p erfeitamente evidenciado pelo fato de ser possível apresentar duas bases essencial mente diferentes. V. ao culto dos extraterrestres. Galileu não contestou a física antiga. por essa via. com os c onhecimentos científicos mais elevados e complexos. sobretudo dos físicos. pelas páginas da Última Hora do Rio. Uma certa perda do senso de realidade parece uma doença profissional crônica da classe dos cientistas. matemáticos etc. e que o testemunho dos senti dos. coeridas som ente pelo convencionalismo de uma regra de jogo. Ora. e de outro pela necessidade de uma mise-en-scène “científica” p ara os mitos grosseiros com que vai satisfazendo como pode a ânsia do maravilhoso que. por cim a de dois milênios de evolução do pensamento. éd. É aterrador ver como os cientistas da comunidade que Raymond Ruyer de nominou “gnósticos de Princeton” se divertem concebendo “modelos de universo”. tendo pretendido superar toda mitologia religiosa. mediante um novo sistema de medições. substitui a autêntica sêde espiritual. que ele permanece parado em todos os casos. Não é nada estranho que. apenas i nventou um modo melhor de provar que ela tinha razão. conseguiu apenas explicar po r que ele permanece parado. 2e. de direito. Ou seja. por força delas mesmas. Nas Sombras do Amanhã. Eis aí também como é possível. a civilização do O cidente. Raymond Ruyer. acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias. Paris. Cap. “O caráter fictício dos princípios. rigorosamente. eram apenas um gigantesco esforço . cada uma das quais atingindo em suas conseqüências um alto grau de concordância com a experiência” 114. se o objeto não movido de f ora permanece parado ou tem um movimento fictício. seria inerente à i déia de ciência. exatamente como o dizia a física antig a. Des S avants à la Recherche d’une Réligion. Fayard. 1977. Os “deuses astronautas” atendem em toda a l inha os requisitos da imaginação moderna. . esclar ecia discretamente que o movimento retilíneo e uniforme não existe realmente. no sentido de Huizinga 112. V. Penitencio-me agora ante o grande romancista: ele tinha ra zão. mas é um a ficção concebida pela mente para facilitar as medições. segundo a qual um objeto não impelido por uma força externa permanece parado — uma ilusão dos sentidos. pontificava. nela. As especulações d e Princeton. e em resposta levei um discreto puxão-de-orelhas de Octávio de Faria. mas não em festejar esse acontecimento. vejo agora. e já não têm mais o espírito de elevada seriedade que. em 1974. astrônomos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 101 diferença de planos entre a tinta em que se imprime estas letras e o espírito do aut or que as escreveu pudesse ser transposta com a maior facilidade mediante a simp les diluição progressiva da tinta. pela confusão entre o céu visível e o céu espiritual. após ter assim derrubado a física antiga. sendo verídico o bastante. um filósofo imbuído das concepções mais moderna e avançadas recair. vendo neles um defeito da realidade mesma e jamais da estrutura da sua ciência.

115 V. Reinventando o Universo. Cap. Brockmann. Gertrude Stein. A Evolução da Física. um escritor científico de sucesso. Einstein e Infeld. 114 Cit. em John Brockmann. pelo atalho gnóstico. da “hipótese Deus”. reconhec e que os físicos hoje em dia “já não sabem do que estão falando”. Valter Pontes. 1988. Companhia das Letras. I. como obse rvara Octávio de Faria. mas acha isso divinomaravi lhoso. Einstein. trad. Witt genstein e Frankenstein. São Paulo. .de pedantismo espiritual para fugir.

fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas que definem e diferenc iam os números entre si e. pode ser posto em correspondênci a biunívoca com ele. junto com um princípio da geometria antiga. que o infinito quantitativo é só p otencial. é unicamente a soma imp lícita das unidades não mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. ora usando-a para designar uma quantidade definida com propr iedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos número s e a de poder ser par ou ímpar ). Mas. Só para dar um exem plo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o 5º princípio de Euclides ( de qu e o todo é maior que a parte ) pelo argumento de que o conjunto dos números pares. de modo que os dois conjuntos teriam o mesmo número de elemento s e. assim. O conjunto dos números inteiros pode conter mais signos numéricos do que o conjun to dos números pares — já que abrange os signos de pares e os de ímpares —. ntada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente parte da série dos números inteiros. Esse raciocínio baseia-se na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares são conjuntos infinitos atuais. abstr aída a posição na série. os números não seriam pares. produz sse samba-do-alemão-doido. A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em do is. e. “2” é um signo. nunca de 1. mas uma única. dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série. não há aqui duas séries de números. as não é o signo “4” que é o dobro de 2.. sendo ambos infinitos. nesse conjunto.. abolindo implicitamente também a distinção mesma en tre pares e ímpares. 3. então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro . “Paridade” e “lugar na série” são conceitos inseparáveis: se par. Em primeiro lugar. mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuai s.102 OLAVO DE CARVALHO Mas no campo das matemáticas foi o deslumbramento com a idéia do infinito espacial e quantitativo que levou a mente humana às piores esquisitices.1 são ímpares. con firmando o argumento de Cantor. 4 . é porque tanto n + 1 como n . Po rtanto — e eis aqui a falácia de Cantor —. os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos. e bem pouco engenhoso no fun do. contada ou nomeada de uma determi nada maneira. 8 . a demonstração de Cantor é apenas um jogo de palavras. 2. ora para designar o mero signo de número. 2. pois o conjunto dos números pares seria de pares se seus elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa sér ie ascendente ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2. um só de pares. na qual se baseia o pretenso argumento. outro de pares mais ímpares. “4” é um signo. com Aristóteles. Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando.. A noção de “conjunto” é que. se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ). n 2n = n Com esta demonstração. teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras . seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinha s. não há mais paridade ou imparidade nenhuma. ou seja . a parte seria igual ao todo: 1. destacada abusivamente da noção de “série”. também uma crença estabelecida do senso comum e um d os pilares da lógica clássica. mas não uma maio r quantidade de unidades do que a contida na série dos pares.. e sim a quantidade 4. e mbora sendo parte do conjunto dos números inteiros. Se a série dos números i iros pode ser representada por dois conjuntos de signos. isto é. nunca atual.. e se. A tese de Cantor esc orrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sen tido da palavra “número”.. Mas isso é confundir os números com seus meros signo s. 4. quando o fato é que.. De nada adianta aqui recorrer ao subterfúgio de que Ca ntor se refere ao mero “conjunto” e não à “série ordenada”. a cifra. e ele pode portant o ser rejeitado por quem acredite. isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas . é verdade que.. descortinando assim os horizontes de uma nova era do pensamento humano. saltando-se uma unidade entre cada dois números. quisermos destacar por signos ou cifras especiais os númer os que representem pares. onde o requinte dos argumentos engenhosos coexiste com a total falta de sensatez. Nesse sentido. e nenhum número poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com qualq uer outro na série dos inteiros. se não fosse contada assi m. portanto. mas é a própria série dos números inteiros. 6.

. A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”. Um conjunto de x uni- .

ele teria de ser um menino um pouco mais velho. supondo que um número qualquer possa ser par “em s ndependentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inc lusive. o menino teria de subir mais um grau de abstração. e que os pares possam ser contados como co isas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. que ultra passam uma perda meramente estética para reverberar numa destruição do fundamento raci onal das ciências. encarna de maneira exemplar. Deduziu errado. sem o espaço. da diferença da capacidade de abstração entre adulto e criança (ou crianças de idade desigual). E ironiza : “Meus filósofos tinham respostas prontas. os princíp ios lógicos que validam por sua vez a idéia mesma de experiência científica o que é mais o u menos o mesmo que tentar cobrir um cheque sem fundos mediante depósito constituído do mesmo cheque. além do “desencantamento do mundo”. No seu “argumento” não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte. com sua própria metade). ten do contado sete bolinhas. Não se trata ndo de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte. a longo prazo. o garoto à figura co ncreta das bolinhas distribuídas num determinado espaço. Ora. Um tris te exemplo é Jean Piaget. pergunta Piaget. ocasionando a exacerbação imaginativa do concei to de infinitude espacial e quantitativa. Cantor erra o alvo por muitos metros. caso contrario ele não poder ia reconhecer. Em Sabedoria e llusões da Filosofia 116. com base nela. ele contesta a un iversalidade do princípio de identidade. garante que elas são oito ou nove tão logo sejam alinhadas com intervalos maiores.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 103 dades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares. Em sua hostilidade irracional contra a idéia mesma de princípios universais. A perd a do sentido da infinitude metafísica. muitos pensadores científicos — inclusive alguns bem grandes — ch egam a apelar para subterfúgios perfeitamente indignos de homens de ciência. o mesmo conjunto que an tes tinha sete. Para levar em conta somente as bolinhas. no conjunto aumentado para oito bolinhas. mas esqueci quais. com todos os seus defeitos e limitações. é claro. nem. tr azer. como deduzir. “Quando sete bolinhas se tornam o ito ou nove como um elástico de sete centímetros que atinja oito ou nove. fundando-se no exemplo do garoto que. de uma refutação do 5º princíp io de Euclides. não poderia deixar de. mas sim de uma comparação me ramente verbal entre um todo e o mesmo todo. O que Cantor faz é. Que sofismas tão grosseiros possam passar como sérias ameaças aos fundamentos da geometria clássica e mesmo aos pr incípios da civilização que herdamos da tradição greco-romana. no fundo. Esse expediente pueril é a marca registrada do psicologismo (red ução das relações lógicas a “fenômenos da mente”) — um estilo de pensar que continua desfruta e certo prestígio nos meios universitários pela única razão possível de que ninguém aí leu su refutação por Edmund Husserl. a diferença dos respectivos sensos d e identidade? Ao contrário: o erro cometido pelo garoto subentende uma consciência d a identidade absolutamente igual à das pessoas adultas. diversamente denominado. é o mesmo pr incípio de identidade ou um princípio um pouco diferente?”. no caso. e do aumento da quantidade co ntínua deduziu o da quantidade discreta. que aquel a tradição. enc arando o conjunto como uma síntese confusa de ambas. substancializar ou mesmo h ipostasiar a noção de “par” ou “paridade”. Uma das estratégias a que se recorre para esse fim é a de apelar ao testemunho da experiência científica para tentar invalidar. mas não o mesmo número de unidades. é apenas o sinal da revolta i mpotente da imaginação matemática exacerbada contra a ordem real das coisas. o garoto simplesmente não distinguiu entre quantidade discr eta (o número de bolinhas ) e quantidade continua ( a distância linear ocupada). danos profundos à inteligência humana. para o que.” Deve ter mesmo esqueci do. como o próprio Piaget mostra em outros trabalhos. não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte. sem acréscimo de nenhuma. mas o que é que isto tem a ver com a universalidade (ou não) do princípio de identidade? O que houve no caso fo i apenas uma dualidade de significados atribuídos ao termo “bolinhas”: o experimentado r referia-se ao conjunto aritmético — abstrato — das sete bolinhas. portanto. senão não escreveria essas coisas. o garoto apenas mostrou perceber que o aumento e a diminui116 . É preciso estar dormindo ou hipnotizado para não perceber que.

83 da edição Os Pensadores ( São Paulo. várias reedições ). . Ed.P. Abril.

Edmund Hus serl descreve nestes termos a decadência do ideal científico nas ciências do século XX 1 17: “A ciência moderna abandonou o ideal de ciência autêntica. acrescentando o toque 117 . Aliás Piaget. cujo prestígio elas tinham simplesment e usurpado. Quando err os tão primários se introduzem nas mais altas cogitações científicas e ninguém se dá conta de sua presença. ademais. como se essa c iência fosse a única possível. nova re tórica. É que a ciência desistiu de ser científica. eles abalaram não somente a confiança nas ciênci as existentes. um “todo matemático”. e o que não se compr eende é como a criança poderia passar de um nível de abstração a outro sem a permanência do senso de identidade. por assim dizer. neo-epicurismo — é o cortejo todo dos velhos irracionalismos que retorna à cena. mas no ideal mesmo de ciência. Kuhn e Michel Fou cault enfim reduziram a história das ciências à sucessão mais ou menos arbitrária de “paradi gmas”. De outro lado. Destituídas a um tempo a rainha autêntica e a falsa. Que os todos matemáticos devam ser encarados como unidades. não é de espantar que. é perfeitam ente ilógico sempre que trata de situar as relações entre ciência e filosofia. mas reconhece a filosofia como uma “ati vidade de coordenação dos valores. Piaget pretende ver uma dualidade de princípios lógicos onde há a penas uma diferença entre os aspectos percebidos por dois indivíduos num objeto que ambos sabem ser o mesmo. que agia de maneira vivente n as ciências desde Platão. é que o diálogo acadêmico se tornou algo como a conversação de hipnotizados no jardim de Epicuro ou como uma sessão do Santo Da ime — todo mundo doidão. eis aí algo que a criança só poderá admitir quando sua mente for adestrada para aceitar como premissas do raciocínio os convencionalismos matemáticos. o que é perfeitamente aristotélico. uma quase-substância. é claro que é ma is fácil reconhecer a identidade de uma substância dotada de unidade real. coloca continuamente a exigência de não admitir nenhum saber para o qual não seja p ossível dar conta em razão de princípios originalmente primeiros e. perfeitam ente evidentes. Mas como é que um princípio de coordenação poderia não s er de algum modo “superior” aos elementos coordenados? E como seria possível coordenar valores de veracidade científica sem fundar-se num critério de veracidade cujos fun damentos fossem admitidos como verdadeiros e dotados. neo-relativismo. que a de um “conjunto”. inclusive cognoscitivos” ( isto é. Quando Thomas S. Ele rejei ta toda pretensão da filosofia a constituir um conhecimento “superior” à ciência ( e mesmo de constituir um conhecimento qualquer )... Sua força de impulsão interna não é mais constituída por aquele radicalismo que. que é apenas uma unida e convencional. de validade cogn itiva? No fim das contas. independentemente de não terem uma unidade substancial. portanto.” Dado esse estado de coisas. o trono foi entregu e à ambição de todos os antigos pretendentes: neopragmatismo. no sentid o aristotélico ( “este coelho é este coelho”). como se ela não estivesse. não se dá conta sequer de que deduzir d o fato da confusão entre bolinhas e espaço uma dualidade de princípios lógicos não é outra c oisa senão passar do fato ao valor — um psicologismo dos mais descarados. que é a utor de um Tratado de Lógica. ou substantia secundum quid. logo a seguir. epistemes ou pré-esquemas cognitivos semiconscientes que entram e saem de cen a por motivos geralmente irracionais. contentando-se em ate nder às exigências de praxe de um protocolo “experimental” no qual já nem acredita mais e cujos fundamentos já desapareceram sob grossas camadas de esquecimento. os fracassos de um a ciência assim degradada viessem a ser tomados como argumentos contra a possibili dade mesma de qualquer conhecimento científico universalmente válido. os valores que bal izam a cientificidade da ciência ).104 OLAVO DE CARVALHO ção não alteram a identidade. em s i. Piaget. ela abandonou o radicalismo da auto-responsabilidade científ ica. de fato. Essa passagem requer uma subida do grau de abstração. que admite como um dogma o pressuposto kantian o de que não existe passagem do fato ao valor. e é algo que os adultos percebem da mesmíssima maneira que ele. muito abaixo das poss ibilidades contidas no próprio conceito de “ciência”.

F.U. Éssai d’une Critique de la Raison Logique. Suzanne Bachelard. trad. Logique Formelle et Logique Transcendantale. pp.Edmund Husserl. 1957. Paris. 7-8. P.. .

muito menos a uma idolatria do abstrato. em suas origens. A perd a do sentido da infinidade metafísica. o papel do culto dos antepassados entre os Yorubas abandonados por Olorum. Ele nasce. no Ocidente. a visão do univer- . — (I) A força dos meios Mas a descida do foco de atenção espiritual que preenche o vazio deixado pela Divind ade suprema mediante a multiplicação dos deuses cósmicos não estaria completa se. Do mesmo modo. quer dos racionalistas e empirista s. não se somassem as do tempo. Segun do o grande historiador do historicismo. em lugar do cosmos fixo e repetitivo do racionalis mo mecanicista.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 105 final de demência sem o qual não estaria completa a saga alucinante dos deuses do es paço. À revelação da infinitude espacial seguiu -se a da infinitude temporal: ao materialismo seguiram-se o historicismo e o pro gressismo. nasce de um desejo de comp reender melhor as Santas Escrituras. a descoberta do senso histórico origina as ciências humanas. Friedrich Meinecke. de que se originarão o historicismo e o progressismo. E assim como a ampliação quantitativa do univer so físico conhecido produz a dispersão da inteligência numa poeira de fatos cada vez m enos dotados de significação metafísica. quer dos escolásticos. a descoberta de novos e poderosos instr umentos intelectuais abre ao homem a visão de continentes insuspeitados. nada tem que se pareça nem de longe a uma nova id olatria. o advento do historicismo não teria sido possível sem a crítica histórica. Nicolau não poderia ter cap tado a infinitude espacial sem o prodigioso desenvolvimento da dialética na Idade Média. onde todas as tentativas de conciliação e síntese têm falhado. de uma reação contra o abstratismo. foi compensada pela descoberta das duas dimensões horizontais do mundo físico. e que após o Renascimento adquirira um novo v igor através da concepção do direito universal — uma norma moral abstrata e universal im bricada na constituição do cosmos com a fixidez de uma lei física. Nenhuma descoberta se faz sem instrumentos. § 21. a descoberta da dim ensão histórica foi uma revolução espiritual de vasta envergadura. nasce de um sadio movimento em direção ao concreto. mas entraram desde logo n um antagonismo aparentemente insuperável: a ampliação do espaço gera as modernas ciências físico-matemáticas. ou vertical. Ela opera uma ruptura do pensamento europeu com o universalismo abstratista dos gregos. assim também a compreensão aprofundada dos detalh es filológicos do texto bíblico gerará polêmicas sem fim nas quais acabará por perder-se o sentido essencial do conjunto. E m ambas essas linhas de desenvolvimento. A divinização do tempo. Assim com o a cosmologia de Nicolau pretendia dar uma nova visão da natureza que fosse mais digna de representar a manifestação da infinitude divina. assim também a crítica histórica . cuja visão da n atureza humana como uma essência fixa e imutável permanecera dominante apesar de tod as as mutações espirituais da Idade Média. formand o duas culturas separadas e hostis. A divinização da História fará. assim como Galileu e Newton não poderiam ter formulado cientificamente a mesm a idéia se contassem apenas com os recursos matemáticos de Arquimedes ou Nicômaco. com efeito. O historicismo. ao singular. às divin dades do espaço. Ambos os movimentos que geraram a irreligiosidade moderna originaramse de dentro do campo religioso e sob o estímulo de impulsos religiosos. O sintoma mais agudo dessa perda é que as duas novas dimensões descobertas nunca puderam ser articuladas entre si. mas a amp liação do leque de coisas visíveis se faz às custas da perda do senso de unidade e hiera rquia do real. O historicismo oporá a essa concepção três novas idéias: 1ª. ao sensível.

onde há lugar para o imprevisto e a criativid ade. que nada tem existência sob a forma do genérico. na sua própria constituição interna. que 118 lhes é inerente. Tud o quanto se cria ou é criado comporta estrutura e forma e. um obscuro professo r de retórica da Universidade de Nápoles. José Mingarro y San Martín y T omás Muñoz Molina. A essas individualidades infinitas Leibniz denomi nava mônadas. Deus mesmo não é um conceit o universal abstrato. Segundo Shaftesbury. da sua singularidade. mas um indivíduo singular vivente. Friedrich Meinecke assim resume a contribu ição de Shaftesbury à formação do historicismo 118: “O mais importante nesta doutrina é o primeiro reconhecimento do princípio de individu alidade. acabo u por vê-las rotuladas pela posteridade como the sublime of nonsense — sinal de que foi muito amado. 2ª. dinâmico. Tanto a causa do ser quanto s ua beleza e o princípio de sua permanência idêntica residem na forma. engendrar as plantas. se por toda parte impera a ordem e a harmonia. inward character e outr os nomes compostos sempre com inward. de uma idéia formadora. em lugar da “natureza humana” abstrata e universal. o macrocosmo de microcosmos que refletem a infinitude da unidade supr ema na forma por assim dizer quantitativa da infinitude de suas imagens microcósmi cas. por dar às suas idéias uma expressão talvez demasiado informal e literária. para ele. têm seu “gênio” particular. ela é o princípio interno da sua diferenciação. FCE. sendo portanto o pr incípio da conservação da unidade na mudança e pela mudança. ela reside na individualidade concreta.” Friedrich Meinecke. cada uma irredutivelmente singular e diferente de todas as demais. A unidade idênti ca de nossa própria personalidade não pode arraigar-se na matéria. na força normativa e estruturante. por um movimento mecânico. a imagem do universo inteiro. ainda que em última instância sejam redutíveis a um princípio comum unitário. 3ª. mas pouco compreendido. Se a pluralidade inesgotáve l das individualidades não se perde no caos e na confusão. animais e homens. isto não se deve a um desvio da realidade sensível em relação a uma norma abstrata de perfeição. Todas as formas particulares. 1943 ( original alemão de 1936 ). Ela enfatiza que toda a realidade é composta de individualidades. do homogeneamente idêntico. O passo seguinte na formação da consciência historicista vem com a filosofia de Leibni z. Por toda p arte uma interação de liberdade e necessidade. inward constitution. p. recriando-se continuamente. Até aqui. a intuição da personalidade humana como um p rocesso que se desenvolve e se cria no tempo. a visão da inesgotável varied ade dos tipos e das individualidades. trad. Shaftesbury chama-a inward fo rm. Todos estes pensamento s podiam um dia dar passagem a uma mais profunda compreensão da história. Shaftesbury não fala diferentemente de um platônico o u neoplatônico. a matéria não poderia. a lei suprema do universo é a lei da individualidade irredutível. Mas essa “idéia”. Se não há dois seres human os iguais ou duas folhas de árvore iguais. O universo compõe-se de universos. na medida em que não se f ormou uma mera corporeidade. inward structure. que se torna sempre patente em sua beleza. que brotam de um ponto central interior. é de novo forma estruturadora. México. Cada ser singular tem em si uma força interior e spiritualmente estruturadora que o singulariza e que é como que o algoritmo de tod as as transformações por que ela passará no curso de sua existência. mas porque cada ser individual tem em si. cada uma total e completa em si mesma. uma riqueza de estruturas peculiares. na “idéia”. O terceiro passo foi dado por Giambattista Vico. cujo pensamento foi solenemente ignorado p . a qual se corrompe e se desfaz sem que a nossa pessoa se desfaça junto. Uma de suas primeiras manifestações da nova mentalidade é a estética do Conde de Shaftesbury (16711713). através da ação da vida. 27. El Historicismo y su Génesis. não é o conceito de um gênero ou uma regra abstra a universal.106 OLAVO DE CARVALHO so como um processo vivente. pairando no céu das idéias puras acima das individualidades concretas: ao contrário. inward order. um grande pensado r que. mas sim a que a norma mesma. não é porque desde fora e desde cima uma lei universal oprima e regre o curso das ações individuais.

por seu lado. Co mo a natureza não foi feita pelo homem.elos contemporâneos. Vico asseg urava que cada ser só pode conhecer perfeitamente bem aquilo que ele próprio faz. Logo. conhece muito bem os seus a tos e pensamentos. e sim por Deus. O homem. só Deus tem um conhecimento certo e perfeito da natureza. que tomava em geral as ciências físicas e matemáticas como o protótipo mesmo do conhecimento seguro. que são criações dele mesmo. Nadando na contracorrente de sua época. o co- .

quando falava do homem. da natureza sensível. de ordem interior. O verdadeiro cogito. mas ergue o edifício inteiro da nova filosofia — a interpretação da realidade c omo processo. Para entendermos o curso das coisa s. como epopéia da criação. tal como Leibniz. querem coisas diferentes. A escolást ica medieval deu passos gigantescos no sentido de cristianizar a filosofia. e em última instância no culto de uma idéia abstrata. da analog ia. por seu lado. hostil à doutrina cristã da imortalidade da alma (Aristóteles. não está. como História. Scot acreditava que a hipótese contrária era um resíduo pagão. tendia a fazê-lo nos mesmos termos com que falava das coisas do mundo externo. no Ocidente. É inteiramente errône a a visão estereotipada da Idade Média como o período da filosofia cristã por excelência. cegos. acredita piamente na Providência. o último dos gra ndes escolásticos medievais. raramente são movidos por concepções filosóficas raci onais e coerentes: em geral eles agem cada qual por motivos subjetivos. a filosofia moderna é cristã por um mo tivo muito mais fundo. coerido pelos laços da simpatia. que se recorda de suas ações e pensamentos e p ode narrá-los. Ele é. Para usar o termo genial de Orte ga y Gasset. à visão do universo como processo temporal. resu ltou numa divinização idolátrica do tempo e do processo histórico. mas não pôde livrar-se completamente do resíduo coisista. para quem o conhe cimento a rigor versa somente sobre os gêneros e as espécies. mas o da História. Para . Além do fa to histórico de que todos os fundadores da filosofia moderna eram cristãos piedosos e movidos por intuitos apologéticos declarados. num eu pensante abst rato e universal. com todas as diferenças i rredutíveis que os singularizam. o qual se passa na alma humana. ao expressar-se em atos. tomada como o protótipo mesmo da r ealidade. como seus dois grandes antecessores. em cujo altar foram sacrificados milhões de indivíduos humanos. É que toda a herança do pensamento grego e ra centrada na noção do cosmos. do alto. A visão de uma pluralidade de ações más produzindo um resultado bom é profundamente cristã. individual ou coletivamente. Do mesmo modo. John Duns Scot. ao descrever a história como história da consciência. o “progresso”. não produz como efeito apenas o caos. na imortalidade da alma individual). o pensamento cristão é centrado na relação homem-Deus. é porque há uma força maior que. o primeiro a enfatizar as diferenças de temperamentos e inclinações entre indivíduos e povos como causas dos grandes aconte cimentos. Mas os primeiros passos na direção do historicismo devem ser consi derados marcos memoráveis no sentido da cristianização da filosofia. divergira de toda a tradição escolástica para afirmar que não existem idéias eternas ou modelos universais somente das espécies e gêneros. egoístas e irracionais. a lançar fund amentos. com sua visão do universo como uma harmonia vivente. na verdade. Vico. saltava sobre quase dois milênios de herança grega para voltar à visão do Gênesis. a ênfase de Leibniz na singularidade como princípio d o real é um eco da hæceitas scotista. como imaginava Descartes. temos de penetrar no conhecimento de suas diferenças — não só de indivíduo a indivíduo e de povo a povo. mas dos indivíduos. que é rebaixado à função secundária de u cenário ou de um reflexo do drama principal. resgata ndo valores da espiritualidade antiga e medieval soterrados sob a uniformização raci onalista. e da Idade Moderna como época da ruptura da filosofia com o cristianismo. O pensamento grego era fundamente marcado por uma visão objetivistaexterior. harmoniza as várias ações humanas no sentido de um resultado benéfico. Vico. O historicismo. e por isto mesmo. buscando nele o mesmo tipo de estabilidade e fixidez que o estudo das ciências físicas buscava nas leis da natureza. Os homens. mas no eu concreto. quase se mpre mesquinhos. como veremos adiante. Se o conjunto inesgotável das motivações individuais. Mesmo quando falava de realidades espirituais. o Doutor Sutil. Ora. mas de uma fase para outra no desenvolvimento de um mesmo povo e de um mesmo indivíduo. queda redenção do homem. era um pensamento coisista: via o homem à imagem das coisas. de fato. As coisas sucedem diferentemente porque em épocas diferentes os homens. assegura ele. das correspondências simbólicas. a base dos conhecimentos humanos. É impossível não ver em Shaftesbury a marca da mística neoplatônica. não acreditava. saltando por cima do cosmos. o filósofo grego tendia a vê-las como uma imagem e semelhança das coisas do mundo sensível. Vico já não se limita.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 107 nhecimento mais seguro não é o da física. Esses três pais-fundadores do historicismo estavam.

centro de perspectiva da criação cósmica. perguntava o catecismo da nossa infância. dirá o Pe. Teilhard de Chardin. O homem. Logo. E respondia: pa ra o homem. é também o seu centro de co nstrução. não é o homem que tem de ser descri- .quem Deus fez o mundo?.

Entre o intuito e o resultado.108 OLAVO DE CARVALHO to à imagem e semelhança do cosmos. con ciliar dinamicamente. já tendia manifestamente e com muita força 119. a única rea . por ou tro. a imagem de Deus e a do indivíduo humano c oncreto? Nada no mundo se faz sem instrumentos. em oposição ao mecanicismo. sem dúvida alguma. é perfeit amente injusto ignorar que um giro em direção às individualidades concretas. por um lado. no fundo — e coexistindo. o “processo”. de algum emprego público como Leibniz ou de rendas de família como Descartes e Pascal. cristã na base. era uma retomada do que havia de melhor e mais genuíno e m Aristóteles. Pascal. e sim investigadores independentes. Mas aí a escolástica já estava esgotada — não intel ectualmente. por um lado. Mas Deus é Absoluto. a continuidade de uma evolução coerente: a descoberta da subjetividade . Spinoza. A forma da idéia não se encarna na matéria senão pela mediação da matéria. na unidade de um desenrolar temporal real. afinal. contra o platonismo da nova física. e os grandes pensadores da época subseqüente. vivendo de algum ofício como Spinoza. advindos do fato de que esses meios também têm sua forma e estrutura próprias. e logo em seguida a eclosão da conciência historicista. até Sto. De outro lado. o homem está exteriormente sujeito às leis cósmicas e interiormente à lei moral. Do neoplatonismo pode ter vindo a imagem do universo como totalidade vivente. A superação começa soment com Duns Scot e sua teoria da hæceitas — a forma eterna da individualidade humana. para descrever o homem. com Descartes e Montaigne. A descoberta ou redescoberta da dimensão histórica requeri a primeiro a superação da cosmologia naturalística grega. que o encare como essência fixa sumetid a à operação de leis de causa-e-efeito uniformes como aquelas a que estão sujeitos os co rpos do mundo visível. com Duns Scot. que o novo movimento em seguida tomasse o rumo da entronização de um novo de us cósmico — a “História” hipostasiada. Como ninguém supera sem primei ro absorver. É mais do que evidente que um ser assim constituído não pode ser eficazmen te descrito por uma antropologia coisista. então. Descartes. fazer História. liberdade e necessidade. Para Aristóteles. No homem confluem. a variedade e a imprevisibilidade das ações individuais e que. esta dimensão es tava completamente ausente do pensamento grego. Leibniz. Daí a aparência de uma ruptura drástica onde há. mas a valorização do drama humano como centro da realidade cósmica é. e sim socialmente: novas formas de atividade intelectual começavam a desenvolver-se fora da universidade (da Escola). a raiz divina da imortalidade da alma. Só a História pode dar con ta da complexidade da visão da vida humana como drama da salvação. e na escolástica ela só foi abrindo caminho muito lentamente. contra o abstratismo racionalista. onipotente: logo. como imagens dos dois atributos di vinos fundamentais — a Infinitude e a Absolutidade — as duas correntes contrárias da l iberdade e da necessidade. já não serão profissionais do ensino. Como foi possíve l. Ora. é preciso contar com a interferên cia dos meios e instrumentos. é claro. Ele só pode ser descrito segundo uma ótica que leve em consider ação. em suma. saiba encaixar harmoniosamente essa variedade no quadro das determinações cósmica s e divinas que limitam a liberdade humana. T omás. o “progresso” — sob cuja figura obsessi dominante desapareceriam. a escolástica inteira. f orjar seu destino. a um só tempo. É preciso. A mud ança do cenário social da atividade filosófica muda o estilo de filoso- far e até de escrever sobre filosofia. que não se rendem plasticamente à nossa vontade mas im põem à sua execução toda sorte de obstáculos. dialeticamente. É preciso. O homem. Sua liberdade reflete a Infinitude divina. mas o cosmos à imagem e semelhança do homem. pode ser considerada como um giga ntesco esforço de absorção da cosmologia grega no contexto cristão. com elementos antagônicos como os assinalados no parágr afo anterior —. não fazem senão prosseguir no sentido da cristianização crescente uma evolução a que a esco lástica. bem como 119 É por isto que não posso concordar inteiramente com o insigne Friedrich Meinecke qua ndo enfatiza de maneira um tanto unilateral o peso da influência neoplatônica nas or igens do historicismo. e este à imagem e semelhança de Deus. é livre para tomar suas decisões.

ao mesmo tempo que revalorizava sua metodologia. Rio. Do aristotelismo a filosofia m oderna só abandonou algumas parcelas da Física. sua metafísica.lidade efetivamente existente é a substância. esta árvore — cujo conceito genérico é somente uma realidade s ecundária e derivada. sua teoria da linguagem e sobretudo sua Poética. é só uma grossei ra simplificação própria da cultura de almanaque que pode sustentar o mito de que o pe nsamento moderno é uma ruptura com o aristotelismo. Como já afirmei em outros trabalhos ( v. verdadeiro sob certo aspecto apenas. e sobretudo Pen samento e Atualidade de Aristóteles. Int rodução à Teoria dos Quatro Discursos. 1994. editado em apostilas pelo IAL ). o que quer dizer em suma a individuali dade concreta — este homem. . Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. inteir amente desconhecida na Idade Média. IAL & Stella Caymmi. um verum secundum quid.

o princípio da corrupção. O impulso de colecionar surge de um misto de motivos estéticos e oculti stas: atribui-se aos fragmentos de estátuas um poder mágico. uma lei prom ulgada pelo rei de um reino extinto — tudo é documento da fala humana. mas entre príncipes e duques. O novo modelo de homem letrado. escrevia Hugo de S. pelos documentos. com finalidad e teológica: obter um texto mais fidedigno da Bíblia. sobretudo na Itália. um membro da orgulh osa casta acadêmica que. mas pelo encanto persuasivo. Vive na corte. sobretudo expressivas de sentimentos pessoais. correspondem diferentes mestres: os medievais tinham encontrado os seus em Platão e Aristóteles. já vinham-se desenvolvendo antes deles. sua utilização em rituais de bruxaria oferecia expectativas mais promissoras que a de olhos de sapos. dará novo impulso às línguas nacio nais. empenhadas em imitar a beleza e persuasividade da literatura antiga. “Humanismo” não vem de amor pelo homem. na frase célebre de Weber.. unhas e cabelos humanos. O codificador da retóric a antiga vai adquirir. Ele brota do novo amor pelas línguas. patas de corvos. aos olhos da nova classe. damas e pajens. ao contrário. necessitava de instrumentos de i nvestigação. é bem diferente do intelectual medieval. e sobretudo em Quintiliano. o que significa apenas qualquer texto que não seja as Sagradas Escrit uras. pelo aluno que tem saudades da cabana o nde nasceu. saxões. A diferentes classes sociais. Qualquer coisa serve: uma carta. formada de homens que abandonavam se u torrão natal para instalar-se nos grandes centros universitários onde se falava um a língua supranacional. escorada no aplauso das hordas de estudantes.” O novo intelectual é. que se interessa por essas coisas. Sua atmosfera verbal já não é a seca terminologia técnica da dialética e scolástica. para se realizar. uma autoridade que nem Aristótele s pudera alcançar na Idade Média. sem a mediação da crítica filosófica — que acabou por desviar o movimento historicista de sua de stinação originária e colocá-lo no rumo de uma nova idolatria. “Humanismo” significa o espírito museológico: o amor aos documentos vem junto com a mania das coleções — selos. Estes instrumentos representam uma conquista de valor inestimável. O amor às palav ras. do que pelos textos. s oldados e cortesãs. A casta era internacional. Vico e Leibniz desenvolveram-se em ve locidade prodigiosa. da paisagem natal: “Nada se pode fazer. Na verdade. que se introduzem os desvios. Para o letrado. O nov . Para isto.. já não entre seus colegas de ofício. recheada de florei os bajulatórios. um membro ou servidor da casta palaci ana. o amor à pátria era um atavismo condenável. O abandono da dialética em favor da retórica é uma mudança decisiva da mentalidade: os argumentos já não valem pela sua demonstração exaustiva. an alisar e criticar documentos é um instinto filológico. Mas foi a discussão em torno deles — e sobretudo o impulso de tirar conseqüências filosóficas diretamente das conquistas técnicas. Contemporaneamente a Shaftesbury. Está acima da crítica. Este era na essência um universitário. um contrato de arrendamento. as técnicas de investigação e do cumentação históricas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 109 sua própria matéria. um termo tremendamente eq uívoco. “o conjunto dos resultados impremeditados das ações humanas”. Vítor. conservado. estudado. unidos pelo comum desprezo às s uas origens nacionais e de classe. necessitava criar uma ciência histórica. moedas. o s aficionados da bruxaria pagam grossas quantias por um dedo de Vênus. “l tras humanas”. por um coto velo de Mercúrio. o humanista vai inspir ar-se em Ovídio. pelos velhos diplomas empoeirados e pelas velhas línguas. que preferirá as palavras às idéias. irla ndeses. pedaços de velh as estátuas. concreto e v ivente. desafiava o s reis e o Papa. o latim. Inaugura-se o pendor de filosofar literariamente. fazendo com que o desenrolar da História acabe constituindo.”. e onde conviviam em pé de igualdade franceses. analisado. mas a da conversação amena e elegante em língua nacional. do mesm o modo que toda nostalgia do passado. pois um humanista da Renascença tem menos amor pelo ser humano. O impulso de comparar. italianos. mas pelas humanæ litteræ. totalmente esquecidos de suas diferenças de origem. um resíduo de mundanismo. e acelerada nas épocas subseqüentes. aos homens do século XV. e qualquer discussão pode ser cor tada pela raiz mediante a fórmula: “ C’est assez que Quintilien l’ait dit. Horácio. da origem familiar. Virgílio. ela também estruturada e dotada de forma. como bem vi u Aristóteles. É nesta mediação. e como tal é de sejado. um movimento a que se costuma chamar humanismo. A consciência histórica.

O motivo é claro.o intelectual abomina a universidade. aos pou- . as universidades. Nascidas e formadas pela i niciativa independente de grupos de estudiosos.

as conqu istas da técnica erudita se acumulam em rápida sucessão: 1559: começa a publicação da Históri da Igreja dos eruditos protestantes de Magdeburgo. nenhuma outra civilização jamais se preocupara muito com a datação de a ntigos documentos ou com as questões de autoria. o humanista Lorenzo V alla denunciou a falsidade da suposta Doação de Constantino. com a vitória do Papa: as universidades tornam-se órgãos da Igreja. os reis e os papas disputam a sua hegemonia. do monge beneditino Jean Mabi llon. sociedade gove rnada por uma elite de burocratas letrados para os quais um erro de gramática podi a custar a vida. Desde o século XII. projetando-o no sentido de uma luminosidade vertical. em parte por uma mentalidade anti-individualista que não atribuía a um homem em . Com exceção da antiga China. ora mandando ambas as autoridades às favas e promovendo arruaça s estudantis que faziam tremer os poderosos de ambos os partidos. escrito s produzidos por algum discípulo séculos após a morte de um filósofo circulavam sob a au toria deste. a classe aristocrática. Descartes. como um eixo. 1588: Annales ecclesiatici. Não há limites ao poder do indivíduo talentoso. dotados de igual talento e poder. dos ex-amigos e até. pelo gêni . Aquela. 120 Convém tomar nota do ineditismo do evento. começam a formar. no decorrer da Idade Média. de Charles du Fresne. não é um mundo bom. O mesmo Valla. de Pierre Bayle. o bra de Brunelleschi. para ser apreciada. pela astúcia ou pela violência. No Oriente e no Ocidente. Os novos pensadores. mas elas conseguem conservar sua independência. se preciso. tem de ser vista de fora e de longe. um sentido de expansão e domínio sobre o reino deste mundo substitui-se ao de interiorização e asc ensão espiritual. de Jean Leclerc. Expressam o despeito dos rejeitados pelos vencedores do dia. de maquiavelismo e traição na luta pelo poder. tem de ser vista de dentro. Vencidos. na Renascença. 1693: Codex juris gentium diplomaticum. seu próprio quadro de intelectuais. 1681: De re diplomatica. Não podendo justificar-se moralmente. que empinam o nar iz ante o ensino universitário — Maquiavel. 1697: Ars critica. imperando sobre a paisagem do mundo. esta. Do amor aos documentos escritos surge o interesse — e do interesse a técnica — de separar os autênticos dos forjados. fora da univer sidade. torna-se assim o fundador da técnica da crítica textual. legislando em ca usa própria dentro das fronteiras do seu reino — só demarcadas pela vizinhança de outros homens ambiciosos. os reis. argumentando ser um doc umento forjado pelo menos quatro ou cinco séculos após a morte do imperador romano. a ambição de domínio encontrará um padrão ordenador e um novo critério de legitimação. substituindo a ética pela estética. de fixar a cada um sua data provável de composição — pelo tipo das letras. publicando alguns anos depois uma edição anotada do Novo Testamento. sobre os fiéis recolhidos em oração. ora aliando-se a um contra os out ros. pelos usos ortográficos. de Leibniz. ora ao contrário. pelo menos. entre os arcos que se elevam ao céu. que. 1695: Dictionnaire his torique et critique. libertas das peias morais que lhes impunha o clero romano. vão se multiplicar e alastrar até a autoglorificação prometéica. As ambições da casta aristocrática. haviam-se tornado focos de poder. na luz irreal que os vit rais projetam. A longa disput a encerra-se. temidas e invej adas. É nessa atmosfera de naci onalismo. o espaço em torno. 120 Daí para diante. sabe impor seus gostos e valores. mas p ode ser belo: Maquiavel descreve o Estado como obra de arte — o templo da autoglorificação aristocrática erguido sobre o sangue do s inimigos. a da Brunelleschi situa-se no centro da paisagem e organiza. A catedral gótica retira-se do mundo: a renascentista reina sobre ele. Por toda parte. 1678: Glossarium ad scriptores mediæ et infimæ latinitat is. dos parentes. e ninguém achava isso anormal. em parte por indiferença ao curso da His tória. A primeira catedral renascentista. Enquanto a catedral gótica isolava o fiel do mundo exterior. Montaigne — não são franco-atirador es: são funcionários da corte ou membros da classe aristocrática.110 OLAVO DE CARVALHO cos. retórica. O ano de 1440 é um marco na história desses estudos. estetismo e colecionismo que surge o amor aos documentos escri tos. assinala essa transformação. a de Santa Maria dei Fiori. do cardeal Cesare Baronius. pela tinta mesma em que escrevem. O novo mundo de guer ra e conquista. Nesse ano.

Assim era a Idade Média Ocidental — um mundo onde uma certa desorganização em tudo era considerada uma condição sine qua non da manutenção da liberdade: Queste cose hanno bisogno di um pò di confusione. .particular a descoberta de uma verdade e preferia esquecer os autores das menti ras.

atinge sua maturidade e se torna uma força influente no curso espiri tual do mundo antes que se forme propriamente a História como ciência. divulgam e alardeiam os resultados de suas pesquisas. Por outro lado. que o príncipe dos eruditos. Noções que a ciência histórica viria a derrubar como totalmente inconsistentes. Não estranha. tivesse então de ser pela primeira vez explicitada e defendida contra seu s adversários — que é o que se vê no Discours sur l’Histoire Universelle de Bossuet (1681) — mostra que a polêmica a havia feito descer do céu das verdades pressupostas para to rnar-se uma idéia entre outras e concorrer com elas em pé de igualdade. a da liberdade crescente através dos tempos. A situação delineia-se então pela convergência de duas linha s de força: 1ª Na esfera do pensamento filosófico. de haver interpretado erroneamente os textos bíblicos. até o século XVI pelo menos. elas darão como resultado longínquo. a qual se pod e sem erro datar dos trabalhos de Leopold von Ranke ( de 1820 em diante). o que faz as vezes de História na mentalidade média dos intelectuais é um resíduo de mitos e lendas historicistas. que parasitam o prestígio da mesma ciência histórica que os desmente. A antecedência dá ares de legitimidade ao usurpador: até hoje. Auxiliados pela argumentação erudita. aconteceu que. o historicismo como doutrin a filosófica ou como cosmovisão. portanto. em nome da História. um lugar e um prestígio notáveis na ideologia das classes letradas no momento em que. E sta condição humilhante de uma História que dá mais força aos mitos na medida mesma em que se esforça para restaurar a verdade é uma das trágicas ironias do mundo moderno. Pierre Bayle. De um lado. tendo passado a vida a compulsar criticamente documentos históricos e a apontar os erros dos historiadores. o de lançar a dúvida cétic a sobre toda a imagem do passado. como um emblema vivo do cetici smo. formando-se através de uma sucessão impressionante de o bras de síntese que começam com Vico e prosseguem com Montesquieu e Voltaire. A Históri a da Igreja dos eruditos de Magdeburgo (1559) é o primeiro tiro de canhão disparado pela crítica protestante. Se. muito antes da História como ciênci a. o resultado mais notável dessas polêmicas foi lançar em todos cérebros a dúvida sobre a confiabilidade da narrativa bíblica e da visão cristã da História . convocam legiões de eruditos. O historicis mo. as que viriam a ser chamadas “ciências auxiliares da História”. O result ado dessa convergência foi muito complexo. na ausência de um saber histórico legítimo. de 1820. Entre a época de Bossuet e a Revolução Francesa multiplicam-se em número e sobem na dose de violência os ataques à história cristã. de Dom Bernard de Montfaucon. Que esta visão. Roma vinga-se com os Annales ecclesiatici do cardeal Bar onius (1588). a visão dominante do curso da Históri a fosse aquela trazida na Bíblia. alcança sua máxima expressão na Filosofia da História de G. como por exemp lo a de um curso unitário do acontecer mundial. ou seja a da História como percurso do homem da cr iação até a queda e a redenção. as armas forjad as nas oficinas dos eruditos passassem a ser usadas a título de “argumentos históricos” nas polêmicas religiosas e políticas do tempo. de Toustain e Tassin. no século XIX. o nascimento da ciência histórica. pro testantes e católicos acusam-se mutuamente de haver falsificado a História da Igreja . mas abalada também a confiança no racionalismo clássico. Hegel. e sobretudo. assim. a História propriamente dita começa a dar seus primeir os passos. não parecia haver outra saída senão pel o lado da concepção histórica. . ao mesmo tempo. Formam-se assim. tudo tendia a fomentar uma abordage m histórica da realidade. formam exércitos d e críticos históricos. 2ª Os progressos da técnica erudita forneciam os instrumentos para a criação de uma ciênc ia histórica. com Ranke. de um lado. implicitamente aceita como veraz desde a Antigüidade até o fim da Id ade Média. já tinham conquistado. a dos progressos retilíneos da consc iência. F.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 111 1708: Paleographia græca. Desacreditada a história providencialista de Bossuet. que. Ambas as igrejas percebem o valor estratégico das novas armas. E como. ele não se atrevesse jamais a escrever pesso almente um livro de História. e que. 1750: Nouveau traité de Dipl omatique. mas. se notabilizasse também. W. tornavam patente a inconsistência da História então c onhecida e fomentavam a dúvida cética sobre todo o conhecimento do passado. para compensar as fraquezas do mecanicismo racionalista. seu efei to imediato — que certamente viria também a contribuir para isso — foi principalmente o de desmoralizar a narrativa histórica como então se conhecia.

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quer em sua versão cristã e escolástica. entre o comunis- mo e o capitalismo. não enxergando os fatores espirituais da História e reduzin do tudo à economia. o comunista protest a que toda História é ideologia. até mesmo a do Lumpenproletariat) 121. ou. impelidas pelo progresso das ciências auxiliares que davam ao historiador os meio s de resgatar os acontecimentos singulares de que se compõe a História. e recebe em res osta a acusação de falsear os dados. opostas: ou se faz uma criteriologia para planejar as investigações históricas que vão dizer o que aconteceu. a teoria do conheciment o histórico e a teoria do acontecer histórico. nada podiam fazer sem a teoria da História capaz de unificá-la s segundo uma hierarquia racional de critérios. Era. De um la do. A primeira dessas tarefas incumbiu a Leopold von Ranke. de um lado. As duas linhas evoluíram simultaneamente. os avanços da pesquisa histórica foram corrigindo. nesta direção que as coisas pareciam ir.112 OLAVO DE CARVALHO rejeitando as “leis universais imutáveis”. anti-marxista que buscava most rar a influência das causas religiosas no acontecer histórico. obrigando seus adversários a construir igua l aparato para defender-se. Do ponto de vista do progresso da ciênci a. de fato. Aí entra porém em ação a ambigüidade mesma d a expressão “teoria da História”: ela significa. a reflexão só podia se perder nas névoas de uma ps eudometafísica fantasmagórica e terminar no culto de uma nova divindade. dando-se por sabido o que aconteceu. Mas as ciência s auxiliares. porém. atenuou muito o simplismo dogmático do esquema marxista originário. terminava por entrar no círc ulo vicioso da explicação marxista: após reduzir uma época histórica a seus aspectos 121 . porém. uma explicação filosófica do conjunto dos fatos históricos. que passaram a privilegiar os aspectos econômicos da causalidade histórica ou a buscar para ela algum outro fundamento materialista para enfrentar o marxismo no seu próprio terreno. as concepções de Hegel e Marx exer ceram também seu fascínio e seu influxo sobre os historiadores de ofício. Foi nesta d ireção que se esforçou Hegel e. De outro. aqui e ali. de fato. com Hobsbawm. seu adversário insiste que ideológico é o com unista. a destituir o proletariado de seu papel de agente privilegiado da causalidade histórica (admitindo. de suprimir fatos e personagens para recortar a História segundo o molde dos seus desejos. F. De um lado. o debate teve um duplo efeito. e. a disputa entre católicos e protestantes. que a síntese filosófica sobre o conjunto do acontecer histórico er a um empreendimento prematuro. mas que. de outro. de outro. que. A querela da História forma um dos quadros mais interessa ntes da guerra ideológica dos últimos dois séculos. se dá a explicação teórica do conjunto. girasse a atenção para o lado do mutável. quer na sua versão científica e racionalista. os excessos mais escabrosos da generalização hegeliana. Hoje entendemos facilmente que R anke es tava na direção certa. pessoalmente agnóstico. Os partidários do capitalismo acusam os historiadores comunistas de selecionar ardilosamente os fatos para fazê-los ca ber num esquema simplista. os comunistas respondem que o historiador burguês só enxe rga os fatos isolados. com muitos contatos e intercâmbios. Hegel. As duas direções são. É característico o caso de Weber. a Georg W. do individ ual. do singular e irrepetível. na ausência de conhecimentos históricos suficien tes. o hegelianismo já havia se trans formado numa poderosa corrente de influência e numa força histórica agente. para decidir quem co nta a verdadeira história. por si. obrigando os teóricos marxistas a reconhecer a inter ferência importante de fatores não-econômicos na História. não a armadura do conjunto. contaminou de marxismo os estudos históric os. fruto de uma ciência organizada. para desgraça dos pósteros. o burguês retruca que o comunista toma a parte pelo todo. a função estratégica da intelectualidade. no momento em que o sensato Ranke começou a trabalhar. o arcabouço metodológico de u ma ciência. o marxista replica que os fatores espirituais são um véu ideológico que oculta a realidade do fator econômico. Isto acabou por transformar a ciência histórica mesma num equipamento da gigantesca máquina de gue rra ideológica montada pelos comunistas. a segunda. influenciado pelo positivismo e incapaz de apreender dos fenômenos espir ituais senão suas analogias e reflexos no plano social. por exemplo . só que a do burguês é disfarçada de ciência. ao mesmo tempo. com Gramsci. cuja História se reduz a mera propaganda revolucionária. Repete-se. mãe do marxi smo e avó da Rússia soviética.

. P. V. Thompson. que o principal his toriador marxista do pós-guerra britânico. mas cultural e psicológico. Penguin Books.Os marxistas tanto cederam aos argumentos de seus adversários. mas c om isto Thompson implodiu o marxismo. a respeito E. E.. P. chegou a admitir que o co nceito mesmo de “classe” — a idéia-chave da interpretação materialista-dialética da História ropriamente um conceito econômico. Foi sem querer. 1968 ( 1ª ed. Thompson. The Making o f the English Working Class. 1963 ).

A primeira foi que. l oucura e crime. Foi só no século XX que. D. não via outras causas senão as econômicas. ao invés de assumir a responsabilidade. do ponto de vista da evolução geral do pensamento. pelo endosso à teoria qu e fazia toda a História evoluir na direção do socialismo. desencadeia uma onda de violência. sob a a legação — antropologicamente verdadeira — de que a adaptação a novos modos de vida destruiri a a coesão dessas comunidades e desmantelaria as personalidades de seus membros. tentador e acusador em turnos. a que Nietzsche chamava o Super-Homem. a compreensão antropológica das culturas antigas e indígenas tornou-se um clichê incu mbido de dar reforço a um novo e mais virulento discurso “progressista”. Garl-G. Radicalizado assim po r suas repercussões políticas formidáveis. não queria sentido algum predeterminado. a ciência hi stórica se aventurou a enfocar o passado sem prejulgá-lo segundo a ótica que privilegi ava o presente 122. é certo. o pensamento histórico acabava caindo igualmente em algum tipo de ideologia “progressista”. a História. Posta a serviço da contestação esquerdista à civilização Ocide l. pela celebração posi tivista da ciência como etapa superior — e. ao contrário. graças sobretudo à antropologia e à Religião Comparada. o sonho e o delírio. no primeiro caso. no segundo. o guerreiro metafísico dos novos tempos. Esta questão resume-se assim: a História tem um sentido predeterminado. A segunda foi que. Confrontada a essa resistência. não apenas a História não fazia sentido algum. covardes e mesquinhas n ecessitavam abrigar-se sob a mitologia de um “sentido da História”. O homem verdadeiro . dizia que “os homens fazem sua própria História”. acusa “o si stema”. final — da evolução da mente hu mana. ou. Lawrence. foi Friedrich Nietzsche.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 113 econômicos. O principal defensor da inexistência de um sentido na História 122 Infelizmente essa gigantesca abertura do horizonte humano acabou sendo neutraliz ada pela perversão ideológica. a ciência. o confronto entre ciência histórica e ideologia historicista teve conseqüências muito mais profundas e devastadoras. pendendo para o lado do marxismo ou para o lado da ciência rankeana. até que desapareceu da vista do homem nosso contem porâneo a simples possibilidade de que a vida humana possa ter algum sentido para além da História terrestre. como por exemplo quando deseja preservar as c ulturas indígenas de todo contato “desaculturante” com os costumes Ocidentais. no domínio político-militar. Aprendeu com o capeta. provocando assim a ruptura dos elos de lealdade social e a demolição das personalidades. A identificação do sentido imanente da História com o sentido . o confronto entre o sentido imanente da His tória e a História sem nenhum sentido absorveu todo interesse intelectual do século XX pela questão do sentido da vida. deram-se as mãos para enfrentá-la e salvar o “sentido da História”. Jung e Ludwig Klages deram uma forte expressão a essa s idéias. pela qual enfim. marxismo e positivismo. H. aos poucos o debate em torno do sentido da vi da humana em geral foi estreitando seu horizonte até reduzir-se à questão do “sentido da História”. mas em seguida n eutralizava esta frase ao assegurar que a História ia necessariamente na direção do so cialismo. Só as mentalidades torpes. e valorizavam o instinto. o s angue. para poder criar seu destino como bem lhe aprouvesse. que no Brasil contaminaram um de nossos mais talentosos pensadores: Vice nte Ferreira da Silva. segundo Comte. e que. m as ao mesmo tempo deseja impor a populações conservadoras e religiosas do próprio Ocid ente mudanças drásticas e repentinas. Mas. mas era melhor mesmo que não fizesse. a idéia do progresso consistindo basicament e numa teleologia imanente à História. Acabava fazendo a contragosto o q ue Marx fizera por gosto. essas correntes lançaram no século XX um vigoroso ataque ao positivismo e ao marxi smo. com a s luzes que trouxeram sobre os valores de outras culturas e civilizações. Nietzsche foi o pai de várias correntes que expressavam a revolta do homem contemporâneo contra a razão. Discurso auto contraditório e por vezes demencial. iman ente. Não é preciso dizer que essa aliança na esfera das idéias antecedeu e preparou a quela que. Fortalecidas pela descoberta freudiana do inconsciente . o homem vive num vácuo onde pode criar livremente o que bem entenda? Marx. se celebraria após 1939 entre as democracias o cidentais e as ditaduras comunistas para enfrentar o Eixo. as duas ideologias do progr esso. Para ele.

da vida tornou-se uma crença tão arraigada que entrou no rol dos pressupostos incons cientes: já não é uma teoria — é uma realidade. suicídios e internações psiquiátricas se esp alhe pelo mundo. a revelação dos crimes de Stálin. Na década de 50. depressões. um fato. foi um cho- . o único propósito de suas existências — ao ponto de que bastam alguns sinais de a História desviar-se do sentido esperado . A aposta num sentido imanente da História tornou-se. para milhões e milhões de pessoas. para que uma onda de desespero. destruindo repentina mente a fé e a esperança do movimento comunista.

Ela era uma substância como os gêneros e as espécies. tanto quanto os comunistas. a Históri a e somente a História é a doadora do Sentido à vida humana. A divinização do tempo. vivente e concreta. A queda do Muro de Berlim foi outro. Ela envolvia e contin ha os homens como uma rede envolve e contém os peixes. Para uns e para outros. Divergem apenas nos meios e no tipo de sociedade a que aspiram. Para os antigos. mudaram decisivamente o curso das idéias. É isto. não concebem que a vida possa ter algum sentido fora ou acima da História. Mas esse é só o aspecto mais patente e super ficial da questão. que já tínhamos observado na evolução do pensamento científico. no sentido aristotélico. limitando seus movimentos m as não alterando sua natureza intrínseca: não é por cair na rede que um peixe se torna p eixe ou deixa de sê-lo. a divinização do tempo. Mas reconhecer a natureza essencialmente social do homem em geral é uma coisa. na redução progressiva da miséria. e que o carac teriza com ênfase crescente desde o Renascimento e sobretudo após o século XVIII. o sujeito ativo. que chegaram a negar a condição humana aos homens afastados da vida social. Socialismo e Capitalismo são. voltando as costas à ete rnidade. para eles. a sociedade era nada mais que um sistema de relações entre seres humanos. É e sta última afirmativa que diferencia do antigo o pensamento moderno. introduzida pelos teóricos da Revolução Francesa. A sociedade era. o sentido da vida identifica-se. mas crêem no progresso das instituições. as duas seitas e m que se cindiu uma mesma religião. mas um composto das ações. antes. a imersão completa do homem na ima nência. o que se chama um universal: o conjunto dos seres que vivem juntos sob u m mesmo sistema de regras e hábitos. na ideologia político-social. À divinização do espa deologia científica corresponde. o que denomino divinização da História. no Sentido da História. na extensão a todos os homens dos benefícios da economia e da cultura modernas. com a participação d o indivíduo na construção da sociedade futura.114 OLAVO DE CARVALHO que traumático de que milhões de militantes jamais se refizeram. Tanto a reconheceram. É claro que nenhum pensador sério. Para todos os pensadores políticos desde a Antigüidade até o Renascimento. Portanto. Esses acontecimentos são interpretados geralmente como sinais de que o comunismo era para essas pessoas uma religião. paixões e reações dos vários homens que a constituem. entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. assim. Tanto quanto para os comunistas. de que a perda da fé no comuni smo funcionou portanto nelas exatamente como aquilo que a Bíblia chama “escândalo” — o des mentido brutal das crenças mais queridas. no aperfeiçoam ento gradual das leis. como um cavalo. e a substância em sentido estrito — a individua- . um ent e real em si. e outra muito diferente é afirmar que a sociedade tem alguma realidade e consistência própria independentemente e acima dos homens concretos que a compõem. O primeiro foi a doutrina da “vontade cole tiva”. no outro braço da cruz. mas. Estes não crêem no esquema marxista. — (II) Beaux draps Mas a História não teria podido elevar-se à condição de deusa sem a concorrência de dois out ros fatores que. ninguém poderia apostar no comunismo se não tivesse apost ado. uma forma de existência mais tênue e indireta que a da substância individual. entidades q ue não existem em si mas somente nos entes que as corporificam. A sociedade permanecia recuada como um pano de fundo. De outro lado. a socialidade essencial do zoon politikon. a crença no Sentido da História é comum aos com unistas e aos democratas Ocidentais. na educação universal. na definição tradicional da sociedade. na revolução o u no advento da utopia proletária. era o homem. Repete-se assim. ela era no entanto uma substantia secunda. Sem chegar a ser irreal nem limitar-se apenas a um efeito passivo das ações individuais. mas não podia propriamente determiná-las. é evidente que reduzir o sentido da vida ao sentido da História é encerrá-lo na dimensão temporal. Pois a ação é um atri buto da substância. pelo menos desde Aristóteles. § 22. O segundo foi — em decorrência do p rimeiro — a doutrina hegeliana do Estado. que podia limitar as ações humanas ou muda r o curso de seus efeitos. e m suma. o termo forte. No fundo. “a sociedade” não era uma substantia prima. uma árvore ou um homem. precisamente. ignorou a natureza social do homem. o personagem concreto. Ora.

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mas “a sociedade”: de universal abstrato. Esta opinião sustenta a idéi a de que a pessoa é um valor absoluto. teve como uma de sua s primeiras e mais devastadoras conseqüências a de abalar a confiança geral na imutabi lidade e universalidade da natureza humana. que Aristóteles nos f ornece na Retórica. fazendo da “sociedade” o “verdade iro sujeito” da ação histórica. ou mesmo simplesmente por envelhecer. como vimos acima. como os morto s não argumentam. como mero sinal algébrico vazio cujo valor será determ inado pelo resultado de uma equação social. Os únicos traços imutáveis que Aristóteles enxergava no homem eram aqueles contidos na sua definição mesma — a animalidade dotada de potência racional — e as propriedades imedi atamente derivadas dessa definição. ao apelo de Aristóteles contra o universalismo abstr ato e em favor de uma ciência voltada para a realidade vivente. agente. A confusão clareia-se tão logo distinguimos entre soci alidade e sociedade — uma distinção que os teóricos da volonté générale desconheciam. mutável segundo as condições sociais. do mesmo modo quem age é o homem concreto. ao fazê-lo. Essa conclusão pareceu muito lógica. Se o indivíduo não tinh uma natureza dada. As descrições minuciosas d os caracteres. insistiram na socialidade fundamental do homem e. Muitas dessas conquistas. senão só aparente e superficial. Bertrand de Jouvenel assinala o oportunismo histórico que consagrou em dogma essa transformação 123: “. se chegou a uma personalização do abstrato. como vimos acima. isto é. Ora. real. os antigos. e por natureza.. uma inconsistênc ia e tenuidade da natureza humana. de transformar-se. na época. enquanto o indivíduo foi sendo visto c ada vez mais como mera abstração. fazia parte necessariamente a capacidade que o homem tem d e alterar-se. mas era o resultado de um processo. [ Mas ] os perigos que essa teoria comporta não podem se manifestar plenamente enquanto subsi ste nos espíritos a hipótese fundamental que lhe deu nascimento. então o sujeito ativo da v ida social já não era “o homem”. a idéia da sociedade com o um mero sistema de relações começou a parecer insustentável também. ao lado da qual a Sociedade não tem senão o pap el de um meio. Essa definição parecia — e a intenção com que digo “parecia” se tornará clara logo iante — parecia assentar-se na idéia de que a natureza humana de cada um dos membros da sociedade não depende da sociedade em que vive. ao concreto. não a sociedade. Malgr ado. Por des onhecerem. são mais do que suficientes para derrubar o mito de que os antig os acreditavam numa natureza humana fixa e imune à i fluência da sociedade. hábitos e preconceitos dos vários grupos sociais. mas é claro que ela se assenta numa interpretação falseada do antigo pensamento político. e da definição da soci alidade. para em seguida basear na contestação a essa crença a nova teoria da volonté générale. o agente da História não fossem os personagens de carne e osso. Foi assim que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 115 lidade corporal vivente — possuía a propriedade da ação em sentido muito mais direto e m ais real do que a substância derivada e segunda de um mero universal: se quem dá coi ces são os cavalos e não a cavalidade. mas o colet ivo abstrato concretizado e hipostasiado sob o nome de volonté générale. não havia nenhuma incom patibilidade essencial. a idéia de que os homens são a realidade e de que a Sociedade é uma convenção. segundo o n Esta girita. Daí que. do apelo historicista ao particular. não poderiam ao mesmo tempo negar o peso dos fatores sociais na moldagem dos caracteres humanos e acre ditar ingenuamente numa imutabilidade universal do homem. por sua vez. entre as quais a socialidade. e Aristóteles mais que todos. portanto. Dito de outro modo: o homem era imutavelmente. para os pensadores políticos do sécul o XVIII. a sociedade foi p romovida a substância concreta. adquiria ou perdia caracteres por tornar-se rico ou pobre. é claro que não tinha uma natureza imutável .. Em decorrência. o advento do pensamento historicista. mas é um dado anterior e fixo. . Mas. co m um atraso de dois mil anos. toda a inclinação coisista do pensamento grego. por efeito da vida social. entre ele e as novas conqui stas do historicismo. foi fácil atribuir-lhes a crença numa absurda imutabilidade absoluta da natureza humana. acreditaram que o fato de a vida social alterar os hábitos ou a persona lidade dos indivíduos concretos provava uma mutabilidade essencial. ao vivente. Se o homem. O ra. faziam eco.a teoria da Soberania traz ao poder um reforço excessivo e perigoso. militar ou ci vil.

9193. pp. . Le Pouvoir. Histoire Naturelle de sa Croissance.123 Bertrand de Jouvenel. Paris. 1972. Ha chette.

detentor natural do Poder. passa a ser tomado como ex pressão de uma lei eterna e auto-evidente: assim como nos afeiçoamos à crença de que o E stado tem o direito de mandar todo e qualquer cidadão para o campo de batalha — idéia que teria parecido monstruosa aos olhos de Júlio César. onde após a maturidade do ser vêm o envelhecimento e a morte. e todo mundo ac ha que ele está falando uma grande novidade. Para falar como Aristóteles. e superior à das partes. ou Nação) o supremo grau de realidade na hierarquia ontológica. era a ação de um jeito que. também nos acostumamos a tomar como uma verdade patente a mentirinha boba s egundo a qual Mas. “Aceitou-se na França. a História de alguma coisa. nem os teóricos que. que sobe a o trono. jus . a forma final a que o ser tende em sua evolução.116 OLAVO DE CARVALHO “Para que a metafísica afirmasse a realidade da Sociedade.. O que ele chama ‘Estado’ corresponde. coisa sem precedentes. se deram conta do ridículo que havia em tomar como um princípio científico autoevidente o pretexto publicitário a que uma Assembléia semienlouquecida recorrera no intuito de justificar às pressas a aberração do recrutamento militar universal. ao contrário. “Foi esse um resultado. Mas ela se cristaliza bruscamente. pelo menos. o personagem Nação. permanecia referido à existência concreta de seres singulares.. mas sim é o Todo. de Luís XIV ou mesmo de Gengis -Khan —. fundaram as ciências sociais na sup osição de uma autonomia substancial do Todo social em relação aos seus constituintes hum anos. Como seria possível que o mais real dos seres fosse o últi mo a aparecer? Hegel escapa do problema mediante o recurso à teoria aristotélica da enteléquia. Seu nascimento fora. Ora. muito po sterior ao da humanidade. disfarçada numa nova terminologia que a faz parecer muito original e est ritamente hegeliana. Em nome da Nação: e. após o q ual começa o declínio. Foi pre ciso pedir a participação quase total do povo na guerra. Hegel traduz para Wesen i st was gewesen ist: “a essência é aquilo em que a coisa enfim se torna”. uma substância real. Mas o homem a tudo se habitua. Se o Estado é a última coisa a aparecer. logo em seguida. em todo caso. é que ele é a forma mais p erfeita e acabada a que tende toda a evolução anterior. Aí os indivíduos são o esse cial. O que ele chama ‘sociedade civil’ corresp nde à maneira pela qual a Sociedade fora sentida até a Revolução. a História me sma. É que. estava provavelmente latente. até aí. Sim. só se torna patente quando o processo atinge o seu clímax. e conced e à Nação um certific ado de existência filosófica. até mesmo “a sociedade” deixará o palco. uma vez adquirido. o filósofo de Jena se viu em fa ce de um pequeno obstáculo: o Estado. “É em plena floração do sentimento nacional germânico que Hegel formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo. mais real do que os indivíduos que a compõem. porque a enteléquia. percebeu-s e que o Poder não dispunha de meios que lhe permitissem fazer face à Europa. depois disseminou-se na Europa. Mas em nome de quê? De um rei destituído? Não. a crença de que existe um personagem Nação. Quando a Assembléia Legislativa jogou a França numa aventura militar que a monarquia não teria podido arriscar. era um fenôme no mais ou menos r ecente na História. ao novo conceito da Sociedad e. foi preciso primeiro que esta assumisse figura de Ser. e o hábito. da Revolução Francesa. cujos tr aços foram fixados pela arte popular. como o patriotismo tomasse desde havia dois mil anos a forma do apego a uma pessoa. um clímax em sentido estrito existe somente no domínio do cr escimento biológico. Nem Hegel. para ceder a preem inência a um personagem ainda mais abstrato: o sujeito da História será.” “a Sociedade” é um todo. no sentido em que ele o definia. quando o que está é apenas aplicando — muit o mal — um preceito aristotélico. embora coletivo e abstrato. uma vez tendo decidido conceder ao Estado (= sociedade política. a inclinação natural dos s entimentos fez com que a Nação assumisse o caráter e o aspecto de uma pessoa. Com Hegel. talvez o ma is importante resultado. o último na ordem do aparecer é o primeiro na ordem do ser. e de que as personalidades individuais nada mais são que um epifenômeno da estrutura social. “Esta concepção de um Todo que vive de uma vida próp ria. sob o nome de Nação. “a História” ainda era. “Não é o trono que se derruba.

Hegel. teve . pergun tado sobre a data do fim do mundo.tamente porque o ser biológico tem uma duração média predeterminada. respondeu que era um mistério só conhecido de Deu s Pai. que é. um processo de duração indefinida. O próprio Cristo. Essa média inexiste n a História. em princípio. para aplicar à História o conceito de enteléquia.

mais material de desonestidade: pesquisas recentes demonstraram q ue Hegel. mas sublinhando que . Mas onde há safadeza intelectual há também. em si mesmo. a Igreja se tornou desnecessária e o Estado vem a ser a suprema autori dade religiosa 128. filhinhos: Schelling era muito grande. recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas inte ressadas em promover a idéia de uma Religião de Estado para se substituir à Igreja cri stã (católica ou reformada) 127. Hegel apontava para o resultado final. como o Estado moderno incorpora e realiza em suas leis a essência perfeita do cr istianismo. e não ente. alguma forma m ais grosseira. Como. nesse esquema. em favor do cristianismo.a. § 16. mas apena s o de uma fase da sua existência. e eu ten ho mais o que fazer. a Histór ia que é a História da História. 126 Não é preciso dizer que. e tascou na promissória a a ssinatura de Deus Pai. a conclusão era que a suprema realidade reside pr ecisamente naquele ente cujo destino final é transfigurar-se em Estado. foi apenas um desses casos depr imentes em que um fundo de desonestidade intelectual subsiste num homem dotado d e autêntico gênio filosófico 124. Hegel poderia ter dito port anto a seus discípulos. mas só um truque propos ital 126. 12 de suas Obras Completas editadas pela Universidade de Louisiana. por trás de todo o floreado dialético. O nome des se ente é História. — É verdade. nada mais disse nem lhe foi perguntado. que pelo menos o lucidíssimo Eric Voegel in assinalou o caráter de “magia negra” dos escritos de Hegel. enquanto indeterminado. inexistindo um “antes” e um “depois”. que o único erdadeiro ente é o não-ente. Isso não faz de Hegel comparação não será feita. confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer. decretou o fim da História. Para preservar a int egridade lógica do seu sistema. toda a metafísica hegeliana vem abaixo. et tenebræ non compr . fia t philosophia. Aquele que disse: “Se os fatos desmentem minha teoria. equivale ao nada 125 — conferindo subrepticiamente valida de ontológica absoluta a esse juízo que só tem sentido gnoseológico. I. porque iniciados gurdjieffianos e filósofos acadêmicos ( entre os quais os admiradores de Hegel ) sentem demasiado desprezo mútuo para poderem admi tir a hipótese de nivelar nos pratos de uma balança seus respectivos gurus. de fato. E. Feito isto . num estudo reproduzido no vol. é processo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 117 então de praticar uma das maiores trapaças filosóficas de que se tem notícia: marcou par a sua própria época a data do vencimento da História humana. tinha passagem comprada para o reino das som bras.I. Uma certa desonestidade apa124 rece já nas bases mesmas de sua metafísica. mesmo porque a História já estava para aca bar e o seu filósofo. mostrando ser apenas. nem universo. realizando assim literal mente a sentença que para os antigos era matéria apenas de piada: pereat mundus. onde ele proclama que o conceito de ser. no fim. avançado em anos. corpóreo e presente que atestava a existência do processo e a consumação final dos séculos: o Estado moderno. ninguém teria a desfaçatez de lhe pergunta r o que viria após o fim da História. o Estado já não era o nome de um ente. seja realmente um nada pelo simples fato de ainda não termos preenchido seu conceito d e um conteúdo em nossas cabeças é com efeito o fundamento absoluto do sistema de Hegel e a objeção inicial de que ele parte para montar sua contestação a Schelling.1. isto é. Com requintada habilidade sofística. o resultado é que o acontec er é promovido à condição de sujeito dele mesmo. num homem da sua habilidade lógica v erdadeiramente virtuosística. o autor da Filos ofia da História argumenta. não pode ser um erro involuntário. Na hora de morrer. falsificando o aval de Jesus Cristo. no entanto. Eis. a projeção am pliada de fenômenos imanentes à psique humana. Já não há mais ser. portanto. esse sistema e essa contest ação. nem homem. Ela mostr a o quanto valem. como Gurdjieff: Vous voilà dans de beaux draps! Hegel não era no entanto nenhum idiota para crer sinceramente que fosse de fato o último filósofo e que a História terminaria no último volume do seu sistema. onde. pior para os fatos”. Mas História é devir. Em verdade vos digo. nem coisa nenhuma: a única realidade é o acontecer que acontece ao acontecer. caso tudo isso parecesse muito vago. A idéia de que o ser. o que.A. E como esse acontecer não tem um sujeito que possua alguma consistência ontológica por si e fora dele. desfeito esse truqu e. é o acontecer. verboso e est ratosférico. que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta. 125 Propedêutica Filosófica. inseparavelmente.

A metafísica deste e a cosmologia daquele dariam um belo capítulo de terat ologia intelectual comparada. ( Explico isto com mais detalhe em minha História Essencial da Fil osofia. 128 Nes te como em muitos outros pontos de sua filosofia. a propósito. Hegel Secret. o trabalho notável de Jacques D’Hondt. P. mil vezes mais emocionante do que meus pobres Frit jof Capra & Antonio Gramsci. Mas essa .F. cujas semelhanças com Hegel vão muito além da mera co incidência.. reduz a religião ao conce ito de “moralidade” acreditando que quanto pudesse haver de metafísica na religião já fora absorvido e superado completamente pela filosofia acadêmiComo aliás se dá também com Gurdjieff. Paris. ) 127 V. Re cherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Hegel.ehenderunt eum.U.. De outro lado. 1968. Hegel é estonteantemente ambíguo. ele faz a apologia da Reforma protestante como a culminação do processo cristão de libertação da consciência individual. Por um lado.

até mesmo os preceitos mais óbvios do ca ( faz-me rir! ) e. ju nto com a religião. produz milhões de pequenos Stálins e H itlers. que. Strauss ( 1835 ) a divinização do espaço-tempo é explícita. fechando templos. e Ludwig Feu erbach ( A Essência do Cristianismo. é dos três o mais eficiente no com bate à religião. tendo conservado sua fé religios a sob a opressão nazifascista e comunista. Mas ela foi incorpora da pelas três formas do Estado moderno: comunista. banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo 129. prudenteme nte silencia. pelo culto obrigatório da Nação e do Estado. concordando com elas por dentro. § 268 ). com efeito. A segunda. logo percebeu o truque: o Estado hegeliano era o “Novo Ídolo” qu e se oferecia como sucedâneo aos cansados combatentes que haviam derrotado o “antigo Deus”. mas também a sua própria. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que. que declaram em voz alta as inconveniências que o alto sacerdote. facilmente cedem ao apelo das “novas éticas” disseminadas pela indústria de espetáculos nas modernas democracias. imp edindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória e universal. elevando o Estado à categoria de “Providênc ia do homem”. ademais. só se tornam governáveis mediante o nivelamento por baixo. pois a opinião que ele aí expressa não é só a de quem lhe paga. a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual. que o Estado neoliberal não faz isso por meios ditatoriais. que professa nominalmente a liberdade religiosa. As três p rocuraram com igual afinco substituir-se à Igreja na condução espiritual dos povos: a primeira. as cantadas de rua. pela violência física e psicológica. esperto como ele só. as piadas ). de fato. É claro. ao fazer do Estado moderno a condição necessária e suf iciente dessa liberdade omitindo-se de defendê-la contra o Estado mesmo . sem nada impor. nomeando cardeais biônicos para ludibriar os poucos fiéis restantes. dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana. fazendo do Estado o guardião da moralidade. ele acaba se colocando. as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano log o terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. acaba por deixar as consciências individuais à mercê do Estado ( Filosofia do Direito. os beijos roubados. nazifascista e liberal. Mas o Estado liberal. o vocabulário corrente. de outro lado é fato que. fuzilando religiosos. direito natural: exercendo livremente seus “direitos humanos” sob a proteção do Estado d emocrático. que pune um olhar d e desejo e dá proteção policial ao assassinato de bebês nos ventres das mães é. Mas até que ponto o prêmio financeiro não ajudou a cegar o filóso fo para inconsistências que de outro modo ele teria percebido? Pois se de um lado não há como duvidar da sinceridade com que ele defende a liberdade da consciência indi vidual. Essa causa é geralmente associada ao comunismo. e abandonam. mas com o apoio e até po r exigência dos eleitores no pleno gozo de seu direito de exigir e legislar. descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo. 1841 ). excitados até à exasperação pelo estímulo incessante ao espírito reivindic atório. De outro lado. compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação dese nfreada dos desejos poderia causar. legalizando e protegendo todas as exigên cias tirânicas e autolátricas de cada ego humano. dá a fórmula que se tornaria quase que um dogma do século XX: “A política deve tornar-se a nova religião. É claro. que cada nova lei resulta em nova extensão da burocracia governante. 129 É claro que a chamada “esquerda hegeliana” foi muito mais longe. a m ais requintada monstruosidade moral que a humanidade já conheceu. Nietzsch e. Paira ndo acima de todos.” Mas não devem nos impressionar tais arreganhos: esses sub filósofos seriam impotentes sem as armas que receberam do mestre.118 OLAVO DE CARVALHO um intelectual de aluguel. meio às tontas. Na Vida de Jesus de David F. proibindo cultos. ademais. o machismo. de maneira ai nda mais ostensiva. Uma sociedade. o Estado neoliberal produz novos códigos repre ssivos que. Sumopontífice do E stado moderno é Hegel: eles são antes os bobos-da-corte. ele apenas regula sabiamente os conflitos de interesses. que toda nova reivindicação resulta em nov as leis. que termina pela in stauração da moral invertida. como se vê pelo fato de que as massas. instituicionalizando nas escolas o ensino do ateísmo. restaurar o culto de César. fisc .

movido pela dialética infernal do reiv indicacionismo. sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática. risos e pensamentos. cumpre à risca o programa hegeliano. E. reinando sobre as almas e as consciências com o novo Decálogo dos direit os humanos e do politicamente correto. eis que o Estado neoliberal. o Estado. moral e religiosa. . no instante em que regula a vida interior dos indivíduos. por regulamentar.al e judiciária. passo a passo. fisca lizar e punir até mesmo olhares. a caba por se imiscuir em todos os setores da vida humana. assim. enfim. instaurando-se como suprema autoridade espiritual. Beaux draps que constituem a essência da he rança hegeliana. e que.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 119 .

era frouxa. o epicurismo não ocupava sozinho todo o horizonte mental de Motta Pessanh a. A coerência estética. de haver ali alguma coerência. e que lhes permite sair incólumes. Ali não se tratava de provar. em seguida (§ 15). a hipótese do objetivo prático: o discurso de Pessanha não tinha satisfações a pres tar à realidade existente. portanto. ao desespero e à morte. nos mostrava a perspectiva de um horro r sem fim (§§ 14 e 15). aos ataques da crítica racional. 1945 ( várias reedições ). Esses opostos. Qual ação? O objetivo não ficava absolutamente c laro. pode no entanto haver alguma beleza ao menos aparente. ma s de sugestionar para impelir a uma ação. Sua clave não era a da veracidade. . como verificamos. Vimos. Após demonstrar (§§ 16 e 17) a perfeita compati bilidade entre marxismo e epicurismo. com o marxismo. Só assim e le poderia persuadir os discípulos de que os levava pelo caminho da felicidade. Só nos res tava. London. ela deixava-se persuadir. enquanto filosofias da praxis que só tocam n o mundo real como num pretexto e meio para chegar ao mundo inventado. ao contrário. Estávamos tratando de recompor a coerência interna do universo mental de Jo sé Américo Motta Pessanha. que justamente só possa ser atendido através da falsidade e da inc oerência. No pódio do MASP. não resistia a um exame ma is atento que. ocultismo e revolução. já que o que pretendia era produzir uma nova. erguia-se diante de nós. a esta altura. Revisão do itinerário percorrido Terá o leitor. Mas. por trás das belas palavras. Tinha. por esquisito que parecesse. e conduzir. que esse fenômeno. Em decorrência. Mas um pensamento totalmente incoerente não poderia ter a persuasividade quase hipnótica q ue tinha o de Motta Pessanha. era bastante lógico. casados e reduzidos à unidade de uma comum repulsa à inteligência teorética. só podia ser estética ou prática. a tarefa do pregador epicúreo não consistia em expor a doutrina. mas a da eficácia persuasiva. Jonathan Ca pe. Nova Era e Revolução Cultural. portanto. A REVOLUÇÃO GNÓSTICA § 23. mas.120 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO VIII. em ocultá-la. não sendo do tipo lógico-científico. a confirmação mútua das sensações que se coadunam produzindo um sentimento de harmonia. Passara desde muito a época em que Arthur Koestl er podia dividir o bolo ideológico do mundo em duas metades opostas e inconciliáveis . segundo veri ficamos. com toda a sua 130 Arthur Koestler. no todo ou em parte. isto é. Coerência estética: a onde as verdades afirmadas se desmentem umas às outras e são desmentidas pelos fatos . Com evidente satisfação. sem perguntar a quê. não era estético o padrão que unificava o conjunto. como vimos. ali. sem perguntar a onde. já que o objetivo final do epicurismo não podia ser declarado em voz alta sem provocar espanto e horror. Ali não se encontrava. perdido o fio da meada? Vamos revisar o itinerário per corrido. Coerência prática: entr e as sentenças que se desmentem umas às outras pode haver no entanto a unidade de um interesse prático. Ele fundia-se. que consiste em resistirem ao confronto com os fatos observados. e que portanto a proposta epicúrea tinha esta característica peculiar: a de recrutar seus mais entusiasmados adeptos precisament e entre os que menos a compreendiam. que. recobrindo-a de um manto de subterfúgios engenhosos. mas isto não parecia incomodar a platéia no mais mínimo que fosse. Logo. qu ando em verdade os conduzia ao niilismo. nem aquela que se espera das hipóteses ci entíficas. personificando-as nos tipos antagônicos: o iogue e o comissário — aquele que busca a verdade num outro mundo e aquele que se empenha em mudar este mundo à imagem da s ua própria verdade 130. uma vez que compreendê-la seria rejeitá-la. The Yogi and the Commisar and Other Essays. aquele tipo de solidez q ue se exige dos sistemas filosóficos. constituiam o recheio dos dois lóbulos cere brais de José Américo Motta Pessanha. chegamos e nfim à conciliação dos aparentemente inconciliáveis: evasionismo e ativismo.

a pregar-nos o ativismo da evasão e a evasão pelo ativismo (§ 18). porém. bloqueando-lhes o acesso a concepções espirituais em sen tido estrito. ele se torna o sacerdote de um novo culto. não podendo ser espiritual. e entre os dois cultos. Detentor das chaves de dois reinos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 121 maciça improbabilidade. que dá início a uma longa e fatal decompos ição do espírito e termina pela dispersão da tribo em grupos errantes de homens aterrori zados e indefesos. O deus histórico-cósmico. a nostalgia da tradição greco-romana. a personificação do futuro. Da primeira vez. Ele já passou por este mundo. a . o deus-imp erador. uma seita religiosa. ele está bem próximo de poder entender-se com o comissário. o io gue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações do nosso tempo em direção à utopia. A síntese de culto do cosmos e culto da História não surge — ai de nós! — na hora antes da aurora. ao mesmo tempo e inseparavelmente. levando os indivíduos a acreditar que subi am a uma mais elevada visão das coisas quando na verdade sentiam apenas a natural zonzeira de um corpo que cai. les puiss ances politiques.” CHARLES P ÉGUY O gnosticismo foi. Da segunda. Chegada. Para nós como para os pigmeus da Nova Guiné. Os parágrafos de 19 a 22 mostraram-nos que a entroni zação de novos deuses permitiu canalizar para o culto da Natureza e da História as asp irações espirituais dos homens. entre aplausos gerais. desde que no fundo eles celebram o mesmo esquecimento do eterno. tomou o nome de gnosticismo. mais amplamente. eles permanecem separados pelo abismo de uma funda incompatibilidade metafísica. intellectuelles. dando a cada ser humano. não existe incompatibilidade prática senão momentânea e aparente. s obre o túmulo de Cristo. a ressurreição de César. como uma reação global da mentalidade religiosa antiga con tra o Cristianismo emergente. e sim um rastro de insânia e crueldade. mas amortece-a ao ponto de torná-la quase insensível: quando o iogue já não busca o infinito. la raison d’État. Por mais que os aproxime a comum rejeição do mundo real . o comissário é materialista. Mas aí surgia um obstáculo: o iogue é espiritualis ta. Nessa síntese resid ia o segredo do misterioso atrativo que Pessanha exercia sobre uma platéia fatigad a do real e incapaz de transformá-lo. mentales même. a consumação do prazo histórico. § 24. mas na luz indecisa que prenuncia uma longa noite. um almálgama de seit as religiosas diferentes e até conflitantes mas unidas por um duplo sentimento com um: o ódio ao Cristianismo. já passou duas vezes pela História ocidental. que. iogue-comissário. o deus de Motta Pessanha. Se lembrarmos que es ta tradição tinha fundas raízes no passado egípcio-babilônico. O véu do templo “Tout l’appareil des puissances. o iogue-comissário transcende assim a sua insignificância pessoal e intelectual. o sentimento da participação “ética” numa epopéia revolucionária e os prazeres da evasão consumista? Mais que um líder ou um guru. Para explicarmos o sentido. a profecia de Motta Pessanha anuncia. que sonho arrebata e fascina a humanidade de hoje mais do que a aspiração a uma sociedade que reuna os ideais do socialismo e do capitalismo. o cadáver da religião imperial a em pestear com os vapores da sua decomposição os seis primeiros séculos do Cristianismo. Isto não resolve a contradição. Afi nal. mas o cosmos. na origem. era necessário forrá-lo com algum tipo de algodão que amortecesse a queda. o sinal de uma ru ptura trágica entre a Existência e o Sentido. para tornar-se. e uando passou não deixou atrás de si um jardim de delícias. o dos deuse s do espaço e o dos deuses do tempo. é cósmico. personificou-se em César. ficará fácil compreender o gno ticismo. a mesma imersão definitiva do espírito humano no círculo do samsara. e quando o comissário erige a História numa realid ade ontológica superior aos homens concretos. a criatura sintética e bifronte. ou melhor. Vimos então que. os deuses do espaço e do tempo não são objeto de culto p rimaveril numa infância do mundo. les autorités de tout ordre. EpicuroMarx . Mas — ai de nós! — . ne pèse nt pas une once devant un mouvement de la conscience propre. sendo impossível saltar esse abismo. mas o princípio de uma decadência. les puissances temporelles. esse personagem não é novo na História.

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a tragédia da autoridade espir itual legítima colocada em face de um poder temporal a que um velho culto já amputad o de toda raiz celeste conferiu. Uma vez assinalada essa diferença. passados vinte séculos. continua a lhe opor. ausente no Cristianism o: Nelas. a organização sócio-política era ela mesma a verdade encarnada — não havendo qualqu er possibilidade de uma verdade exterior à crença coletiva. O sábio deve. Aí. um membro da polis. se voltaram contra o Crist ianismo desde muitos lados. for ma quantitativa e meramente simbólica do universal. ou as várias confissões cristãs entre si. tomada ela mesma como expressão corporificada da verdade dessa cosmovisão. numa posição ambígua: de um lado. na medida em que a sociedade só pode ter acesso a verdades esquemáti cas e simbólicas. da forma dos fenômenos respectivos. A diferença é tão profunda que o uso de um mes mo termo — “religião” — para designar fenômenos tão heterogêneos deveria ser afastado para ev r confusão. inacessível ao culto público e só conhecido. ao passo que o indivíduo alcança. cujas repercussões se propagam até hoje. ao Deus verdadeiro. enfim. Não se tra ta de duas religiões diferentes. do q . A Unidade de um Absoluto supra-cósmico aparece aí como uma verdade esotérica. porque há uma different ia specifica do Cristianismo que salta aos olhos logo a um primeiro exame e dá. uma razão suficiente para justificar a profundidade do abismo que sepa ra o Cristianismo do mundo antigo e explicar a violência contínua que este opôs à nova r evelação e. ass im. da verdade universal. o deus de Platão não reside senão na pura intelecção metafís ca do filósofo. sob uma variedade impressiona nte de manifestações. não havia um espaço onde a consciência do indivíduo pudesse se desenvolver para fora da crença coletiva. deve-a. portanto.122 OLAVO DE CARVALHO amplitude e a profundidade dessa reação. religião a religião. por outro lado. de duas espécies do mesmo gênero em conflito entre si : trata-se de dois gêneros incomensuráveis. A diferença é. temos de perguntar o que é que o Cristianismo trazia de tão novo e estranho. se residisse no conteúdo do utrinal do Cristianismo. mais ou menos no mesmo plano. por um lado. É o mesmo que dizer que os deuses gregos não eram senão a corporificação de forças cósmicas. ao passo que o Deus de Platão. po r si mesma. pela dialética socrática. a crença reta e a integr ação obediente do indivíduo na ordem social eram uma só e mesma coisa. independente de qualquer ordem social determinada. A que stão parece imensa e complexa. sua superioridade mesmo em relação à crença materializada n a ordem social. como a fonte e inspiração comum de uma multidão inesgotável de moviment os. em face do culto exotérico das potências cósmicas. ao proclamá-la . pela antigüidade. dogma a dogma. Mas não. A diferença a que me refiro. O indivíduo que chega à verdade tem. era o Absoluto mesmo. caso não deseje s er excluído da comunidade humana. o primeiro homem que afirma explicitamente a sobera nia da consciência individual. como diversas espécies de um mesmo gênero. Noutros termos. derivadas e segundas. na sucessão dos tempos. uma cosmovisão religiosa se cristaliza numa estrutura social determinada . com uma clareza ofuscante. O portador da verdade esotérica está. não simbólica. a visão direta . mas sua resposta é bem simples. De outro. universal. O abismo entre Cristianismo e religião antiga é mais profundo. Todas as grande s religiões anteriores ao Cristianismo têm um caráter em comum. o islamismo ao judaismo. ao passo que a sociedade fala apenas em nome do geral. uma espécie de autoridade espirit ual simbólica. e a cessível à consciência individual livre. não faria senão opor. de tão radicalm ente hostil e incompatível com a mentalidade antiga em seu todo — e não só com a sua ver são greco-romana em especial — a ponto de desencadear tamanho “choque de retorno”. o Sumo Bem. por exemplo. submisso ao culto e às leis. ao longo de dois milênios. como viria a ser mais tarde e como é até hoje em sociedades de vários tipos: é que o pensamento individual simplesmente não existia. com ofus cante claridade. pois fala em nome do universal. Não que o pensament o individual fosse reprimi- do. absoluto e supraquantitativo. pela intelecção filo sófica. diante da sociedade. escolas e doutrinas que. não surge na história antes da filosofia grega. é o porta-voz de um Deus ve rdadeiro. do qual aqueles deuses que aparecem no culto público não são senão ecos e imag ens distantes. como as divergências que opõem. uma autoridade superior à da sociedade. obediência às leis e costumes. o gnosticismo surge. Se os deuses da comunidade hab itavam nos templos e nas praças. Sóc rates é. Aparece aí. é um homem como os outros. A concepção de uma ver dade objetiva.

ual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes. cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu. .

A dimensão vertical da alma e de Deus. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verda de interior permanecesse secreta. hoje. por mais deteriorado e vazio de qualquer conteúdo es piritual. de outro. oferece-a como verdade universal. O cristianismo rompe ess e mundo bidimensional. não viera ao mundo. quase sempre. Repetidamente os filósofos procuraram resgatar a s ua lem131 Tendo exortado os fiéis a obedecer as autoridades mundanas ( Rom. acabara por se refugiar na consciência filosófica e nos cultos de mistérios: tornara-se esotérica. do homem independente. não lh es propõe um novo sistema de ritos e símbolos. De um lado. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica. Ao mesmo tempo.: 13:1-7 ). as forças cósmicas. a consciência reflexiva. a infinitude. Sócrates. mas e nquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade. para fundar uma nova religião. o Apóst . provavelmente herdeir a de tradições orientais onde a consciência metafísica se conservara intacta. inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura . mas a experiência direta do Verbo divin o. a passagem em que S. não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade. ou a comunidade historica mente existente. que pesam sobre o destino humano e en tre cujas exigências a comunidade deve abrir seu caminho. reconhecendo. no diálogo entre a comunidade humana e o cosmos . romanos e b aros. sem a intermediação da polis ou do Estado. no Novo Testamento. o recinto secret o da intimidade do homem consigo mesmo. omiti da pelo culto público. testemunho de uma verdade universal tran scendente a todo culto local. O Cristianismo. transcendente a todas as representações sensíveis. convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo. em terceiro lugar. Na sua mensagem destacam-se três aspectos essenciais : lº. é precisamente um dos sentidos do si mbolismo da cruz. Não que essa dimensão fosse totalmente desconhecida do mundo antigo. num aberto desafio a todos os cultos estatais. dessacralizava radicalmente o Estado. superposta ao c onfronto horizontal da sociedade e do cosmos. em última instância. é apodíctica. aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos. É significa tiva. no mesmo instante em que consagrava. que o culto exterior. fundase na evidência e não em mera opinião. pa ra além do tempo e do cosmos. ora propícias. uma certeza superior a toda prova dialética. a alma do indivíduo humano. a profundidade interior da consciência individual. unilateralmente. A religião do Império. os adverte a não se submeterem ao julgamento da autoridade civil. ao passo que o Cristianismo a revelava publica mente. inacessível quer à imaginação comunitária.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 123 Para nós. quer às representações sensíveis das divindades s: de um lado. a eternidade. que a verdade interior devia permanecer in terior. verbal e pro forma. o cristi anismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imagin ação greco-romana. condensação de cultos gregos. mesmo porque nossa adesão à verdade interior que ele representava é. portador de uma me nsagem espiritual. restaurando a concepção de um deus supracósmico. e não a autoridade socialmente constituída. afinal. Pau- lo Apóstolo. O crist ianismo. Encontramos sinais dela na mitologia grega. o pensamento comum dos homens reunidos na ágora ou no fôro. Mas. enquanto indivíduo humano. é precisam ente o que o Cristianismo oferecerá a todos os homens: o acesso direto ao conhecim ento do Verbo divino. Mas o próprio Sócrates deu alguma razão a seus car rascos. 2º. resumia-se. em segundo lugar. filosófica. conservava seus direitos enquanto não chegasse o momento de rasgar o véu d os símbolos para exibir urbi et orbi o supremo segredo. válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num m omento e lugar da História. é universal. sem inter mediação da autoridade civil. válida para todos os seres racionais e não somente para uma comunidad e em particular. sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público. implicitamente. mas ap enas para dar. Ora. ora adversas. em suma. é fácil dar razão a Sócrates . seu repres ntante e porta-voz é o indivíduo como tal. em primeiro lugar. 3º. como portadora do Verbo divino. livres da pressão da sociedade local ateniense. po is não cabe a esta julgar “aqueles que vão julgar o mundo” 131. de outro. tendo sabido que cristãos recém-batizados disputavam algo entre si no tri bunal romano.

formal. Chega a ser espantoso que Hegel. não obstante. e não perante os santos?” ( I Cor. o que. C om isto. II:1 ) . não se desse conta de que a mesma contradição se agravaria ainda mais no Estado moderno. O sentido é claro: “da r a César o que é de César”. S. mostrando que o Estado só pode ser o lugar da libe rdade abstrata.olo. Hist. tendo litígio contra outro.. Paulo já deixava refutada de antemão a falácia hegeliana de que “o Estado é a realidade da liberdade concreta”. mas sem submeter-lhe o julgamento de questões de consciência. curiosamente. . ir a juíz o perante os injustos. viria a ser percebido também com muit a clareza por Karl Marx. tendo percebido nitida mente a contradição da Igreja medieval a um tempo defensora da liberdade de consciênci a e obstáculo ao seu exercício efetivo ( Fil. adverte: “Atreve-se algum de vós.: 6:1 ).

fora de qualquer tutela ou garantia ex terna. esse novo sentido não podia ser captado senão pelo indivíduo desligado dos laços que o prend iam à sociedade e ao Estado. eles tendem. como tudo o que existe no espaçotempo. sem qual . de outro. caóticas e inconciliáveis se uni fica numa nova direção da vida humana. Mas a aspiração ao infinito parece inerente à constituição humana. por força do resíduo humano e histórico que carregam. ao ser vertida noutro recipiente. desviada. assumisse ao mesmo tempo a responsabilidade de ser. a existência de uma realid ade mais alta a que os símbolos do culto aludiam veladamente. não um observador. Pode ser reprimida. O profetismo é o ret orno cíclico da primavera do mundo. Ele de na o curso dos eventos. diante do qual o homem está nu e verídico tal como no dia em que nasceu. O cristianismo exote rizou-a. às instituições jurídicas e políticas. que rompem a unidade cerrada das instituições antigas. por trás do panteão das divindades cósmicas. Os cultos públicos são vastos sistem as de símbolos. abertura que o Evangelho simboliza como um rasgão no véu do templo. que ela subentende. t udo equalizando na platitude do social e do histórico: de um lado. que signifi ca “fazer”. onde repentinamente uma profusão de forças dispersas.124 OLAVO DE CARVALHO brança. gerando efeitos de escala incomparavelmente superior ao das forças causais até então agentes. o portador do Logos. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed ( Maomé ). impedindo que os homens bebam. para metamorfosear-se. o cristia nismo abre entre a individualidade física e a identidade social humana um interval o. o interl ocutor solitário do Deus que “sonda os rins e os corações”. que cortam a linearidade horizontal das causas histórica s pela vertical de uma intervenção superior: os adventos de novos profetaslegislador es. que to ma momentaneamente a forma do copo. revelando a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábio s e dos místicos. ilustrado pelo ca so do único profeta de cujos atos e palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante. ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da A rábia Saudita. ritos e mitos. Submetidos à lei da entropia. Entr emeados e às vezes identificados aos costumes morais. é um estudo sobre a significação da profecia na História. É evidente que a dimensão metafísica não pode ser totalmente abrangida pelos discurso le galista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público. imprimindo-lhe uma direção totalmente nova. e de que uma história reduzida às dimensões natural e civil. acabam por mundanizar o divino e divinizar o mundo. narcotizada por meio de sucedâneos “cósmicos” ou “hi stóricos”. Foi esse estudo que me persuadiu. “determinar”. na mensagem cristã. O recipiente fecha-se. mostrando. O profeta é uma força agente. “produzir”. Ele determina uma súbita elevação do nível do devir histór . A realidade divina foi muitas vezes comparada à água. como o é quase tudo o q ue hoje recebe o nome da ciência de Heródoto. tapam a v ia de acesso ao divino. neutralizando-a na fala coletiva. a encerrar-se numa totalidade enrijecida e auto-suficiente. o detentor consciente do critério da verdade. ele gira o botão do acontecer histórico. o espa132 Meu livro O Profeta da Paz. captável pela pura inteligên cia metafísica mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma fo rmulação doutrinal acabada. pelo indivíduo que. Daí que a história das religiões seja ponti lhada de rupturas cíclicas. dando um sentido ao caos e iluminando a uma n ova luz a meta permanente da existência 132. é apenas uma crônica provinciana. inaugurando novos mundos históricos e resgatando as possibilidades espirituais perdidas. O termo mesmo “profeta” vem do grego prophero. mas não pode ser abolida para sempre. de uma vez para sempre. conservando-se não obst ante intacta. assumindo sua liberdade. um sentido. Aconteceu que. Ao propor ao homem um esforço que não se volt a nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade. absorvem a cons ciência interior dos homens. É só a banalidade do mundo de hoje que pode conceber os profetas como meros vaticina dores das coisas futuras. que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocultam. d e que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal da compreensão históri ca. povoando os céus de figuras de heróis e deuses projetados da Terra: ampliações divinizadas do Estado e da natureza física. para além do véu simbólico dos ritos e das leis.

os retornos cíclicos. Seu id eal é reduzir a consciência do historiador à condição do sapo da fábula. habitante de um poço que. respondeu: “É um buraquinho no teto da minha cas a. indagado sobre o que era o céu. Que filosofias inteiras da História possam ter-se assentado sobre bases tão estreitas mostra apenas que a intelectualidade moderna é um novo sacerdócio de tipo greco-romano.” . as ascensões e qu edas dos impérios e das doutrinas. A “total mundanização e terrestrialidade do pensamento” ( sic ) advogada por Antonio Gramsci.quer poder de elucidar os fatores decisivos. firmemente empenhado em não deixar os homen s enxergarem nada para lá do círculo mundano. é apenas a finalização de um processo de estreitamento do horizonte intelectual humano que vem de alguns séculos.

em tais condições? Não há outra explicação senão a atividade incessante. tenaz e silenciosa d milhares de monges espalhados ao longo do território. Ele coinc ide. É ness e espaço que floresce a personalidade humana. Este desenvolvimento é impossível enquanto todo o horizonte da atenção for ocupado. repentinamente arrebatado à segurança do 133 É absolutamente indispensável a quem queira compreender este período da História ler os . Como pôde a nova civilização sobreviver.” 134 O novo mundo deve ter parecido misterioso. pelos impulsos naturais egoístas. através de uma disciplina moral dolorosa. é certo. É fáci compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo te ve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical. propriedades rurais — separadas umas das outras por imensas distâncias e sem outra ligação entre si senão a obediência comum a uma mesma religião. no fundado en la dominación sino en la comunión. O fenômeno é espantoso. que se expande invisivelmente até abarcar todo o território europeu.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 125 ço da liberdade interior. II). e que precisamente por isto podem se reunir em Cristo e não em mera tagarelice. de outro. que agem movidos por um impulso pessoal e quase sem co municação com a autoridade religiosa central em Roma ou Bizâncio. sino extendido en la eternidad. mas que ela é absolutamente necessária à ecl osão da autoconsciência. A noção mesma de autoridade e hierarquia era ali submetida a uma estranha mutação: “Se trata de un reino no encuadrado por el espacio y por el tiempo. É desses homens fugidos do m undo que nasce o novo mundo. que cada cristão é um estrangei ro na sua própria pátria. é: e não espanta que uma época afeita à liberdade sexual irrestrita também seja fértil em filósofos que negam a existência ou o valor da autoconsciência. sempre por obra de homens solitários. O que se pode questionar é se essa disciplina tem o valor moral definitivo de um código de conduta universalm ente válido. y no mantenido por el poder sino por la autoridad que se identifica con el servicio a la comunidad. mas há uma verdadeira corrida para o deserto: milhares de anacoretas evadem-se do falatór io urbano. o fruto supremo da História. Apenas o liame sutil e voluntário da fé. no existente primariamente en institucio nes y actos externos (aunque manifestado en ellos) sino viviendo originariamente en la intimidad de cada uno. monastérios. caótico e hostil às classes e pessoas aco stumadas à ordem imperial. pelo idealismo social (precisa mente as duas colunas a que se pretende reduzir o templo da moral moderna). apegados à sua fé por um liame interior muito mais poderoso do que qualquer obediência externa a um governante 13 3. estruturalmente. Esse novo mundo é composto de unidades autônomas — cidade s. afirmar poderosamente seus valores. a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência. e não apenas o de uma pedagogia. no integrado por la subordinación sino por la participación. esse hiato também corresponde a uma certa separação que o cristianismo estabelece entre consciênci a e corpo. mas para exper imentar na extrema solidão o acesso a uma nova profundidade da vida interior. na Epístola a Diogneto (séc. A importância fundamental que teve o monast icismo (monakos = monge = solitário) no desenvolvimento da nova civilização é um sinal e loquente do teor básico da sua vocação. Pode-se fazer uma imagem supondo como se sentiria um se nador norte-americano que. Não se trata apenas de uma retirada. O adv ento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário. crescer. Nenh uma unidade administrativa. aldeias. De outro lado. o trazem consigo. Não somente o Império povoa-se de monastérios. econômica ou militar. ao vo lta- rem para junto de seus semelhantes. Eles vão em busca de um espírito regenerador e. de u m lado. A socialidade fica assim submetida hierarquicamente à solidão onde Deus habita: a assembléia dos que se reunem em nome de Cristo é uma assembléia de homens que conhecem profundamente a solidão de seus corações. mas tão necessária ao flor escimento da autoconsciência quanto o isolamento social. não para buscar as consolações factícias do jardim de Epicuro. com aquele hiato que o cristianismo abre entre indivíduo e s ociedade ao proclamar.

De los Orígenes a la Baja Edad Media. Historia de la Filosofía del Derecho y del Esta do. 251. New York.. Madrid. e The Making of Europe. 1957 ( várias reedições ). García-Pelay o. em Antonio Truyol y Serra. p. Meridian Books.clássicos de Christopher Dawson. An Introduction to the History of European Unity. 134 M. cit. . New Yor k. Image Books. Revista de Occiden te. vol. 4ª ed. 1970. 1956. I. Religion and the Rise of Western Culture.

O tipo de vida interior que os monges traziam era tão diferente de tu do quanto o mundo antigo conhecia como filosofia. em Clemente de Alexandria ). o apelo aos tribunais. Mas o que é um patrício romano. afetação e arrogância de bárbaros. fosse jogado no interior da Amazônia. em primeiro lugar . a negação mesma da cultura. nobres. e. Em terceiro lugar. mais particularmente. não se ocupavam das letras. Em segundo lugar. Entre letrados. Este reflui para as sombras. entre índios e frades. para o subterrâneo. símbolos. e também de uma gnose cristã ( por exemplo. demônio s e feras. tal como o corpo moribundo vê ressurgirem com redobrada força as moléstias que ve nceu no passado. de fora. desperta ódio. a cultura es piritual antiga é em parte absorvida no novo quadro. que d e lá lhe moveram guerra subterrânea ao longo de dois milênios. revolta contra o destino. desde o ponto de vista do mundo antigo. Somente o homem da fé pode enxergar ali a semente de um futuro glorioso. o cristianismo havia “rompido o véu do templo”. e como religião. na espera de uma ressurreição. eles haviam trocado a complexa beleza das antigas cerimônias públicas por um rito e stranho. constituiam a essência mesma da moralidade. mostrando a a “sa bedoria mundana” um desdém que não nte tinha como não parecer. à espera de um futuro ciclo onde possa ressurgir. Porém. a essa gente. po r outro. budista etc. viram desfazer-se em fumaça a proteção do segredo que as cercava. sacerdotes e iniciados. de ressonâncias antropofágicas apavorantes. que o cristianismo não tinha senão como parecer. Os monges. havia colocado em circulação temas. 135 Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose. mais grave do que tudo. a súbita ruptura. De que valeriam ali o discurso sobre os direitos. passado o susto inicial. a reação horrorizada dos letrados e da casta sacerdotal. ele representa o elemento antagônico e complementar da cultura dominante — a “sombra” que cresce junto co m o novo corpo da civilização. Durante o período de espera. até engoli-lo quando chegar a hora do crepúsculo. onde tratará de conservar vivas as suas forças. que rigoro samente nada têm a ver com o fenômeno particular que estou estudando aqui. Acuada pelo avanço cristão.126 OLAVO DE CARVALHO Estado. valores e atitudes da cultura espi ritual grecoromana. Compreende-se. mas resta sempre um fundo ina ssimilável. A quem o vê de fora . o cristianismo foi a “pedra de escândalo”.. de um contrato que os homens acredi tavam ter selado para sempre com os deuses. conhecimentos e atitudes antes reservados a umas quantas sociedades iniciáticas qu e. que refluíram para o subsolo no advento do cristianismo. o cristianismo caiu como um raio que provoca espanto e terror. símbolos. entregue à sanha das hienas. O conjunto de crenças. rancor. entre ventos. Toda ci vilização em declínio experimenta um retorno de temas religiosos abandonados milênios an tes. a dissolução dos valores sacros do Império entre as mãos das hordas de invasores bárbaro s. seu senso de or ientação e de dignidade familiar? É um leão sem suas garras. A c onfiança em Deus bastava para o anacoreta na noite do deserto. a confiança no poder oni presente da autoridade civil? Ali só lhe restaria ser homem e confiar em Deus. sem o Império que lhe dá sua identidade. das letras e mesmo da virtude em geral. por um lado. o qual po . O novo mundo espiritual emerge num panorama exterior de sinistra desolação. pouco se lixavam para as virtudes cívicas que. e que agora ressurgem à plena luz do dia para o combate final. no con texto greco-romano. por parte dos céus. nem cultivavam os debates filosóficos. ele nada promete senão trevas crescentes . Fala-se neste sentido de uma gnose islâmica. Para os homens da religião antiga. de repente. é precisamente o que se denomina gnosticismo 135. e do qual tiravam boa parte da sua autoridade. um desejo incoercível de vingança e de restabelecer as coi sas como eram antes. cristã inclusive. É quase uma l ei ou princípio histórico: o exoterismo destronado funde-se no esoterismo do ciclo s eguinte. solapando-lhe as bases. mas esta palavra serve também para design ar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cris tianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espi ritual. seu lugar de honra não só no Exército e no Senado mas na casta sacerdotal.

.r isto prefiro designar com o termo diferencial gnosticismo.

quanto à organização real ou ideal da sociedade humana para os fins que a alma deve cumprir. novo Adão. ao menos. Imutável — a uma Causa ou Princípio metafísico. É patente . a “perfeição ativa”. . ligação direta com o simbolismo cristão do sacrifício do Gólgota. Figura 2. a “perfeição passiva” ou manifestação cósmica desse princípio 136. seu papel de interlocutoras entre a al ma e o divino. Ele in dica simplesmente os quatro elementos básicos que estão presentes em todas as concepções religiosas do mundo. de um lado. Eterno. se encontra algo como um conceito de De us. presente em todas as religiões. que no Judaismo a ênfase recai nas relações entre Deus e a comunidade h umana — o povo de Israel —. como aliás em todo o s imbolismo universal da cruz (Figura 2). Às vezes não sob esse nome. Isso não quer dizer que os elementos menos enfatizados estejam de fato ausentes — qu er dizer apenas que essas religiões os tomam por implícitos. a sacralização da sociedade (ou do Esta do). somente estudos volumosos podem. às vezes reduzido a um conceito metafísico abstrato. do Absoluto. mas sempre presente. por outro. As religiões podem ser dif erenciadas e classificadas. pp. às vezes ocul tado sob um véu de obscuridade e silêncio como no budismo. Para me fazer entender. Elementos do fenômeno religioso. A Nova Era e a Revolução Cultural. Na simbologia chinesa. como no hinduismo. conforme a ênfase maior ou menor que dão a um ou outro desses três elementos na sua relação com o Ab soluto e conforme o jogo de compensações dialéticas que estabelece entre eles. Leviatã e Beemoth Não cabe entrar aqui numa descrição aprofundada do fenômeno gnóstico. devo recorrer a um diagrama. é Deus. e o horizontal a khien. Note-s ue o homem aqui designado é o Homem Universal. a religião cósmica. como pontos comuns a uma ampla variedade de escolas gnósticas. ou o princípio metafísico do qual tudo se origina. por exemplo. De outro lado. ou “mundo” como o cenário onde se desenrola a história dessa alma. Os outros três fatores são móveis. molde do cosmos — transcendente ao co smos portanto — e não a individualidade empírica. de um só golpe. quase alucinantes. um conceito da natureza física. onde a vert ical simboliza a eternidade e a horizontal a temporalidade. finalmente. Mas não creio errar ao assinalar. do Infinito. com poucas referências seja à alma individual.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 127 § 25. de sua natureza. de cuja amplitude e variedade. muito facilmente e sem qualquer inexatidão. porém. alguma noção. seja à natureza em torno. O único elemento fixo. a vertical corres ponde a khouen. o Homem Universa l é a essência mesma da individualidade concreta. nas relações diretas entre a alma e Deus. e. Em cada uma delas. A soci edade e a natureza perdiam. um conceito da alma humana. O homem singular. 15-17 da 1ª ed. de longe. ou que o Budismo fala mais da alma do que dos outros dois elementos. Esse diag rama não tem. da singularidade humana. Não há r eligião sem uma referência mais ou menos direta a um Absoluto. dar con ta. A ênfase do cristianismo cai evidentemente no eixo vertical. aqui. orige m e destino. era eleva136 V.

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do a senhor do mundo, em luta aberta com as divindades da natureza — os djinns de que fala a tradição islâmica — e os poderes sociais, que a Bíblia havia condenado numa sen tença sumária: “Os deuses das nações são demônios.” É evidente, portanto, que a reação básica ristianismo assume desde logo a forma de uma luta pela restauração da natureza e da sociedade em seu estatuto anterior — de uma luta, portanto, contra o indivíduo human o, contra a alma, contra a consciência autônoma 137. Seria errôneo, porém, identificar d iretamente essa luta como uma luta contra a Igreja, contra o Papado, contra a In stituição Romana. Ao contrário, a própria consolidação da autoridade romana se faz, em grand e parte, romanizando o cristianismo, ressacralizando a sociedade: a Igreja conqu ista o mundo, mas deixando-se em parte conquistar por ele. O conflito entre expa nsionismo catequético e conservação da fé inicial acompanha toda a História da Igreja — em c ontraponto com a perene ambigüidade das relações entre Fé e Império, autoridade espiritual e poder temporal, que Dante simbolizou na luta entre a águia e a cruz. O cristian ismo, de fato, não quis destruir o Império, mas não podia submeter-se a ele; nem quis restaurá-lo, mas não podia subsistir e expandir-se senão sob a proteção dele. René Guénon, qu sempre deve ser ouvido nessas matérias, explica o fenômeno dizendo que o cristianis mo não tinha, originariamente, o espírito de uma lei religiosa, no sentido judaico o u islâmico de uma regra para a ordenação do mundo, mas o de um esoterismo, de um camin ho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo.” A exoterização do cristianismo, sua tr ansformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade, teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaismo deixavam o mund o greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo, mesmo a contragosto, mesmo ao preço de trair em parte sua vocação interiorizante, teve de pre encher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O cristianismo salva o mundo antigo, absorvendo-o num novo quadro, ma s, para isso, tem 137 O estudo mais inteligente já escrito sobre a influência do gnosticismo na história das ideologias no Ocidente é a obra de Eric Voegelin citada adiante na nota 244. A te se defendida neste parágrafo é amplamente inspirada em Voegelin, do qual no entanto me separam algumas diferenças menores, que se manifestarão nos parágrafos seguintes.

de se deixar absorver nele e transformar-se, mediante adaptações bastante deformante s, numa nova Lei exterior, na religião do Império 138. Não precisamos endossar por com pleto a tese de Guénon para admitir o fato patente de que o cristianismo, malgrado sua imensa força de renovação espiritual, não estava muito bem dotado para reorganizar a sociedade civil e política. No Evangelho não se encontra uma indicação, uma linha, uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica, da moral exterior, do di reito civil e penal, como se encontram com abundância na Torah, no Corão ou nas Escr ituras hindus. O cristianismo era essencialmente uma “via de salvação”, que voltava as c ostas para este mundo, concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. Para transformar-se numa força organizadora da Cidade Terrestre, ele teve de sofre r adaptações que arriscaram deformá-lo profundamente. Não existe, em toda a História das R eligiões, outro caso de uma moral religiosa que tenha passado por tantas mudanças e transformações. A moral social cristã, com efeito, não emerge pronta e óbvia da letra das escrituras, como a islâmica ou a judaica, mas se elabora aos poucos, ao fio de tre mendas disputas dialéticas, por obra dos teólogos e dos concílios, crescendo, não como a progressão linear de uma simples dedução lógica, mas como um organismo vivente, entre d ores e contradições. Assim, por exemplo, vemos o celibato clerical — hoje defendido co mo um valor essencial à preservação da fé — não ser instituído plenamente antes de dez século e discussões, numa Igreja cujo primeiro papa, o Apóstolo Pedro, fora um homem casado . Mesmo o rito, a expressão plástica da simbologia da fé, não tem forma fixa: em torno d e um núcleo essencial constituído pela Eucaristia, a missa adquire, ao longo dos sécul os, uma pluralidade de formas, ora com o sacerdote de costas para o público, ora d e frente, ora os fiéis tomando vinho e comendo pão, ora só comendo o pão e deixando o vi

nho para o sacerdote, ora sentados em bancos, ora espalhados de pé pela nave da ig reja, ora voltados uniformemente para o Oriente ora para qualquer direção ao acaso, ora rezando em latim ou grego, ora nas línguas locais, ora com música, ora sem música, ora confessando-se sumariamente em grupo, ora detalhadamente cada qual a sós 138

René Guénon, Aperçus sur l’Ésoterisme Chrétien, Paris, Éditions Traditionnelles, 2e éd., 1977 p. 826.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 129 com o padre, e assim por diante, numa variedade sem fim, conforme os tempos e os modos da História mundana. A singularidade desse fenômeno salta aos olhos quando co mparamos a infinidade das formas da missa com a fixidez uniforme das cerimônias ju daicas cristalizadas de uma vez para sempre na forma estabelecida pelo Antigo Te stamento; ou com a do rito islâmico, hoje exatamente o mesmo do tempo em que o ens inou o Profeta Mohammed (Maomé) ao exército medinense em marcha contra os infiéis aqua rtelados em Meca, isto para não falar da imobilidade multimilenar do complexo sist ema ritual hindu. Tudo isso mostra a profunda inadaptação do cristianismo à missão regul adora e civilizadora de que foi ncumbido pelo desenrolar dos fatos. Entre a inad aptação i congênita e a força da obrigação externa, o resultado foi duplo: de um lado, um es forço milenar e repetidamente fracassado para erguer um Império cristão, unificando o Ocidente. Com efeito, no Ocidente só existiu império cristão, no sentido mundial, dura nte o reinado de Carlos Magno. No restante da história européia o Império é apenas uma i déia unificadora, pairando no abstrato sobre um caos de principados e ducados perp etuamente em guerra uns com os outros. De outro lado, e em função mesma do fracasso do Império, surge a transformação do papado num poder temporal concorrente, com todo o seu cortejo de conseqüências nefastas. A principal, evidentemente, foi a mundanização d o culto, o rebaixamento da moral cristã a um receituário de exterioridades tão opressi vo e falso quanto o moralismo estatal romano, a cristalização progressiva da doutrin a num formalismo lógico-jurídico deprimente e, por via de conseqüência, a politização comple ta da religião na época pósrenascentista, como um conservadorismo monárquico, de início, q ue aos poucos iria se transformando no seu contrário: num ativismo republicano, li beral e socialista. Mas não foi só dentro da Igreja que o espírito do mundo romano per maneceu atuante: em volta dela, e contra ela, pulularam desde os primeiros séculos as seitas gnósticas. Nelas conservava-se o espírito da religião cósmica — o outro compone nte do culto estatal greco-romano. É como se o espírito pagão se houvesse bipartido: s eu gênio político, histórico e jurídico infiltrou-se na alta hierarquia da Igreja, enqua nto sua religião cósmica, seus deuses naturais, se refugiavam no gnosticismo. Eis aí, desde o início da história cristã, perfilados os dois inimigos que se opõem a

Deus e à alma: o “mundo” e a “carne” — de um lado o espírito da sociedade política, de outro ulto das forças materiais do cosmos. A aliança de religião estatal e religião cósmica opõe-s e à aliança de Deus e do homem. A dimensão sociocósmica (khien) pretende subjugar, engol ir e eliminar a dimensão espiritual e metafísica (khouen). Mas khien é, em si mesmo, d uplo. A entronização do sociocósmico desencadeia, imediatamente, uma nova luta. Quem r einará: a sociedade ou o cosmos, o homem ou a realidade externa, a história ou a nat ureza? Aparece aí, com toda a clareza, o tema dominante de todos os conflitos de i déias no Ocidente desde o Renascimento. Derrubado o eixo vertical, o horizontal não pode permanecer de pé, pois não há entre seus dois termos a desigualdade flagrante que há entre o indivíduo humano e Deus: história e mundo, cultura e natureza, valor e fat o, jamais podem chegar a um acordo senão tomando como fiel da balança a vertical que aponta, para cima, a esfera das leis metafísicas, os limites do possível e do impos sível, e, para baixo, os desejos e aspirações da alma humana singular. Retirados de ce na a alma e o Absoluto, resta apenas o combate de Leviatã e Beemoth: o espírito da r ebelião autolátrica que comanda a História, o espírito da submissão cega e mecânica à naturez exterior. Um novo diagrama mostrará as alternativas em que o Ocidente se debate há quatro séculos: COSMOS LEIS FÍSICAS EXPERIÊNCIA NATUREZA MECANICISMO Nature Behemoth versus versus v ersus versus versus versus versus HUMANIDADE LEIS DA RAZÃO PENSAMENTO HISTÓRIA VITAL ISMO Nurture Leviatã Muitas vezes me perguntei se os significados atuais e correntes da “esquerda” e da “di reita”, que o folclore político data da reunião dos Estados Gerais sob Luís XVI, não teria m uma origem anterior, na disputa entre os dois braços da cruz para decidir, uma v ez a cruz tombada, qual ficaria para cima.

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É surpreendente, mas a história das idéias nos últimos quatro séculos pode ser todinha con tada como uma série de variações, na verdade bem monótonas, em torno do tema da disputa entre os dois braços da cruz. Já em pleno Renascimento, o antagonismo perfila-se ent re os cientistas naturais, firmemente decididos a abandonar a tradição aristotélica (o u o que assim denominavam) pelos novos métodos experimentais, e os humanistas, emp enhados em restaurar o amor aos clássicos gregos. Os primeiros romperam com o sent ido de continuidade histórica das ciências, acreditando possível fazer tábua-rasa e ler direto do Livro da Natureza. Os segundos, redescobrindo a Poética de Aristóteles, en cadearam numa rígida obediência aos cânones aristotélicos o gosto literário por três séculos, ao mesmo tempo que inauguravam, com a crítica de textos, a moderna ciência histórica. É incrível como dois movimentos de sentido antagônico possam ter entrado para os livro s de História com a denominação comum de “Renascimento” 139. No século XVII, as duas corrent es contrárias serão por assim dizer oficialmente separadas em compartimentos estanqu es com a abertura das faculdades parisienses de “Letras” e de “Ciências”, inaugurando as “du as culturas” de que falaria mais tarde C. P. Snow. Ao mesmo tempo, o debate filosófi co cristaliza-se no antagonismo entre empiristas e racionalistas — os primeiros at ribuindo ao mundo, ao objeto externo, a origem de todos os nossos conhecimentos; o segundo extraindo-o pronto ou semipronto de dentro da razão humana. No século seg uinte, o nascimento do historicismo assinala o começo da disputa entre os deuses d o tempo e os deuses do espaço. O antagonismo só será formulado expressamente no fim do século XIX, com Windelband e Rickert, mas em Vico já se observa a disputa de priori dade: em oposição à ciência físico-matemática, a História é promovida a modelo supremo do con imento. Finalmente, no século XX, o conflito entre capitalismo e comunismo evolui para a f orma final da disputa entre a “Nova Era” e a “Revolução Cultural”. E no auge desta disputa é ue entra em cena o iogue-comissário. LIVRO V - CÆSAR REDIVIVUS 139

Sobre este paradoxo na história da influência aristotélica e este antagonismo no seio do Renascimento, v. meu livreto Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. Introdução à Teor ia dos Quatro Discursos, e também Pensamento e Atualidade de Aristóteles, transcrição po r Heloísa Madeira, João Augusto Madeira e Kátia Torres, 12 fascículos, 5 já em circulação ( R o, IAL, 1994 ).

CAPÍTULO IX. A RELIGIÃO DO IMPÉRIO § 26. De Hegel a Comte O iogue-comissário, personificando a reconciliação entre a Nova Era e a Revolução Cultural , deveria trazer-nos, logicamente, a solução de todas essas antinomias. É isto, de fat o, o que ele nos promete. Mas é claro também que não pode realizá-lo em hipótese alguma, p ois uma contradição, qualquer que seja, só pode ser resolvida desde um terceiro termo superior que abranja e contenha os dois opostos; e o iogue-comissário, não podendo e levar-se ao plano da universalidade metafísica que é o único desde o qual os dilemas d a cultura Ocidental se unificam e se resolvem, apela para o clássico expediente do s neuróticos: amortecer o conflito mediante a queda num sono depressivo e auto-hip nótico. Estreitando o horizonte da consciência, ele expele de seu campo de visão as fo rças em luta, e procura persuadir-se de que tudo o que não enxerga não existe. Mas nem séculos de prática do tetrafármacon poderiam nos impedir de ouvir, por trás das palavra s calmantes de Motta Pessanha, o ronco ameaçador da catástrofe que se aproxima: uma vez desaparecida dos céus a imagem do eterno, a luta entre os deuses do tempo e os deuses do espaço prosseguirá até o desenlace fatal, que só pode ser a vitória do mais for te. Ora, dos dois monstros, o mais forte é sempre Beemoth, a ordem do universo físic o. A derrotada é sempre a comunidade humana, instável e nervosa, a debater-se nas água s, raivosa e humilhada, sob o peso esmagador das patas do adversário.

Não é mesmo significativo que, no auge do ufanismo científico que celebrava o domínio da comunidade humana sobre a natureza, os cientistas mesmos venham nos alertar par a os perigos iminentes que nos chegam cada vez mais ameaçadores do cosmos físico, e, mudando de tom, passem do triunfalismo prometéico à pregação de uma resignada e humilde “colaboração com a natureza”? 140 É que eles ouviram o baque surdo das patas de Beemoth, que vem novamente esmagar Leviatã. Mas tudo o que podem fazer é trocar às pressas de d ivindade, passar da rebelião prometéica a um conformismo obediente de bonzos orienta is, até que a vontade humana de poder se rebele novamente, para novamente ser esma gada, e assim por diante até a derrota final. Não, não adianta trocar o culto de Levia tã pelo de Beemoth. Esta troca, cíclica e repetitiva até à alucinação, é ela mesma o problema o mal que sacode e gira há séculos o Ocidente numa alucinada dança de dervixes bêbados que se esqueceram de Allah e caíram na idolatria da dança mesma. As duas mãos de khien só param de estapear-se uma à outra quando se juntam na comum obediência a khouen. Ma s, se o remédio proposto pelo iogue-comissário para debelar o vício é apenas uma nova in jeção da mesma velha droga, então cabe a pergunta: Quia bono? Quem ganha com isso? A q uem serve o iogue-comissário, sabendo ou não? Terminada a Revolução Francesa, Augusto Comte, empreendendo o balanço contábil das conqu istas ideológicas desse magno evento da modernidade, chegou à conclusão de que o saldo estava em vermelho. Esta cor não se referia ao sangue derramado entre discursos, mas ao fato de que a Revolução, tendo cortado junto com a cabeça do rei também as raízes m orais e religiosas do Antigo Regime, nada pusera em seu lugar: com o deficit ide ológico daí resultante, as massas sentiam-se boiando num desesperante vazio espiritu al, que as conquistas sociais não bastavam para aliviar 141. Qual a solução? Voltar ao catolicismo? Nunca! Diante das circuns140 141 V. A Nova Era e a Revolução Cultural, Cap. I. Comte nem de longe prestou atenção ao fato de que as referidas conquistas, consistindo basicamente no serviço militar obriga tório, numa carga tributária superior a tudo o que a monarquia ousara sonhar e na

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tâncias, Comte tomou então uma atitude que bem mostra a superioridade dos tempos mod ernos: ao contrário dos antigos profetas judeus, aqueles preguiçosos que fugiam ao a pelo divino até que Jeová os capturasse a laço entre invectivas e ameaças terrificantes, o nosso filósofo não se fez de rogado, e aceitou mais que depressa a incumbência de f undar o novo culto, incumbência que lhe fora aliás atribuída por ele mesmo. Não é preciso dizer que morreu louco. A nova religião teria três características principais: 1º Seria uma religião do Estado: o homem dos novos tempos serviria ao Estado como outrora o s fiéis tinham servido à Igreja. 2º Para marcar sua ruptura com a era anterior, ela in stituiria um novo calendário, com ritos festivos dedicados aos “grandes homens” cujo a dvento a este mundo marcara as etapas decisivas do “progresso histórico”. 3º A nova reli gião assinalaria o ingresso da humanidade na etapa decisiva de sua evolução temporal — a “era positiva”, marcada pelo predomínio da ciência e da técnica, após a “era mítica” inicial ra metafísica” intermediária. Nessas três características aparecem os traços básicos que defi em o que chamei divinização do tempo: a identificação da lei religiosa com a lei civil ( ou absorção da Igreja pela sociedade política), o culto dos antepassados e o conceito da dimensão temporal como campo onde se realiza um progresso predestinado. Em suma : Cæsar redivivus. Mas a nova religião não era tão nova. Em primeiro lugar, ela simplesm ente dava expressão mais detalhada à idéia hegeliana do Estado como sucessor da Igreja : se Comte era o Messias da Religião da Humanidade, Hegel fora pelo menos seu São João Batista. Para piorar, a religião de Hegel não ficara só na idéia: a Revolução chegou a real izá-la integralmente. Em 7 de junho de 1793, a Convenção, reunida sob a presidência de M axilimilien Robespierre, votou um Catecismo em quinze artigos. O primeiro reconh ecia a existência do Ser Supremo, que se distinguia daquilo que o Antigo Regime ch amava de Deus por ser menos uma Pessoa do que um conceito abscriação da maior burocr acia administrativa e policial que o mundo já conhecera, não eram mesmo de molde a a liviar o que quer que fosse.

trato: o deus do deismo, em suma. Os artigos 2 e 3 fixavam os deveres para com o Ser Supremo: odiar os tiranos, punir os traidores e outras coisas pelo gênero. Os artigos seguintes estabeleciam rituais festivos incumbidos de recordar ao homem sua dignidade e seus deveres. São trinta e seis festas por ano, dedicadas ao Ser Supremo, à República, à Justiça, à Frugalidade e a outras coisas excelentes, entre as quai s a Indústria e a Agricultura, e mais quatro celebrações extras, a principal das quais em 14 de julho. Marcada a primeira festa para a data que coincidia com o doming o de Pentecostes, o pintor Jacques-Louis David foi encarregado dos detalhes litúrg icos, que incluíram uma procissão, com o sumo-sacerdote Robespierre à frente, hinos ao “Pai do universo, suprema inteligência”, chuvas de flores, disparos de canhões e um des file da estátua da Liberdade num carro puxado por oito bois. Depois disso, que mai s restava a Augusto Comte senão chover no molhado? Até o título do opúsculo em que divul ga suas concepções religiosas é copiado do decreto da Convenção: Catéchisme. A religião de Co te não foi adotada em parte alguma, exceto na borda esquecida do mundo: no Império d o Brasil, onde valorosos oficiais militares, descontentes com a monarquia que não dera o devido reconhecimento ao Exército que vencera galhardamente tropas paraguai as compostas de meninos de 8 a 15 anos de idade, sonhavam em implantar no país uma ditadura republicana inspirada na divisa do Mestre: Ordre et Progrès. Na Europa a Religião da Humanidade acabou sendo esquecida, junto com seu antecessor imediato, o culto robespierreano do Ser Supremo. Mas deixaram, lá e cá, uma infinidade de mar cas, entre as quais um inesgotável calendário cívico, que, celebrando as secretárias, os motoristas, as mães, os pais, os namorados e tutti quanti, oferecem duas vantagen s indiscutíveis: fazem esquecer o calendário litúrgico da Igreja e fomentam os negócios. Na verdade fazem mais que isto: fornecendo um Ersatz para a experiência religiosa do “tempo qualificado” — épocas especiais em que o fluxo dos eventos muda ciclicamente de tonalidade, recordando ao homem a relatividade do tempo e a imersão de tudo no eterno 142 — , o calendário cívico ajuda a aprisionar a mente 142

Le Mythe de l’Éternel Rétour. e notas de Olavo de Carvalho. 1979. 1983. o trabalho excelente de Michel Veber. São Paulo. Comentários à “Metafísica Oriental” de René Guénon. Paris. Gallimard. v.Sobre a noção de “tempo qualificado”. introd. Spe ulum. . bem como — com reservas — Mircea Eliade.

não são senão ecos. o Império d o Ocidente. s empre inquieto. uma multiplicidade de povos. a um tempo.” S. das revoluções. não empenhasse o melhor de si no esforço de elevar-se a Império ou como tal não fosse reconhecido pelos demais. entre tantas discussões de conceitos puramente formais e até mesmo convencionais — democracia. se mpre sonhando com a estabilidade do poder. e que. Ela acabou sendo absorvida por a quele que sepultou a Revolução sob os alicerces de um novo Império: ao coroar-se a si mesmo. derrotado por um punhado de reis à antig a. viagens e d escobertas. No quadro de uma organização social onde horários e rotinas. elevado ao estatuto de u ma realidade metafísica. nação. Excetuando-se o período que medeia entre a queda de Roma e o reinado de Carlos Magno. convivendo na har monia de suas diferenças e todos contribuindo para a riqueza e grandeza do Império. vemos sucederem-se tentativas de renovar o feito máximo de Roma: unificar. l egitimidade. Uma das provas do mau estado da teoria política hoje em dia é que. imagine sonhar . dispensando a consagração papal que por séculos fora tida como a garantia espir itual indispensável à legitimação do poder temporal. pesam sobre os homens com o peso de uma coerção física. exercendo um forte apelo sobre todo homem a quem o poder sobre o reino de ste mundo parecesse uma ambição demasiado estreita. não é de esp antar que o empregado em férias. em primeiro l uma realidade contínua. re voluções políticas e culturais que se sucedem. em terceiro lugar. reinos e dinastias que surgem e se desvanecem. na História do Ocidente. líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre. É. sempre condenado à metamorfose das guer ras. Levantava-se agora ante o cristianismo a figura temível do oponente espiritual. direitos —.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 133 humana no tempo socio-econômico. Quem acompanhe a história das idéias políticas em contraponto com a históri a das ações políticas e não como uma sucessão de teorias a boiarem no céu das idéias puras. o Império não ces sa de existir: transfere-se para Bizâncio. reflexos. coroados pela Igreja. P AULO APÓSTOLO A história política do Ocidente pode ser. não se passou um dia. proteiforme. Derrubado Robespierre. sob uma mesma legislação e um mesmo governo. reinado. de agonistas e protagonistas. contemplando o mar e as montanhas. do o utro lado do oceano. É. É. raramente lhe sobra tempo para investigar a at ualidade do fenômeno “Império”. de doutrinas e de métodos. o movimento profundo: a luta pela formação do Impér io. Em volta desse tema dominante. a idéia da religião de Estado prosperava. povo. em segundo lugar. conflitos religiosos. muda d e centro e de contorno. fr utos da decisão humana. mas a idéia permaneceu no ar. uma realidade proble mática: em contraste com a unidade estável e o crescimento orgânico de Roma. no tempo administrativo. a agitação na superfície das água . Napoleão Bonaparte fez saber à Igreja q ue já estavam longe os tempos em que o Império fazia à autoridade religiosa uma concor rência meramente política. sem jamais desaparecer de todo. Século após século. Napoleão terminou mal. Mas. O Império não é uma teoria: é uma realidade. ao retomar seu lugar na fila do relógio de ponto. em que alg uma nação. enquanto ele se extinguia na dor e na humilhação do exíl io. E mesmo nesse período. guerras e crises. que oculta e revela. Leviatã a agitar-se nervosamente no fundo das águas. Translatio imperii: Breve história da idéia imperial “Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus. v rificará que jamais houve no . § 27. de maneira discreta mas decisiva. sua religião foi para o túmulo com ele. sem erro. facilmente resumida como a históri a das lutas pelo direito de sucessão do Império Romano. das mudanças de povos e fronteiras. a realida de decisiva. morre aqui para renascer ali. soberania. sinta retornar à “realidade”.

à luta de classes. administrando sabiamente as diferenças nacionais. impondo por toda a parte suas leis . escr avagista ou libertária. Se fosse uma teoria. ele ap oiará a revolução ou a reação. . exceto a de sua missão unificadora. revolução e reação. capit alismo e socialismo. que só o comprova.134 OLAVO DE CARVALHO Ocidente uma só doutrina. mas sempre temido —. já não são mais que os estandartes das divisões. após terem destruído todos os demais. Veja-se o mundo islâmico. pretenderia ter um alcance genérico. Também ele terminará por ceder. o moralismo puritano ou a rebeliã exual. que não fosse absorvida para servir de pretexto e reforço na l uta pelo Império. poderosíssima e no entanto acomodada dentro de suas fronteiras durante milênios. aristocracia. só caindo na tentação imperialista ao contaminar-se de idéias Ocidentais. dois grandes impérios. disputaram entre si a primazi a da unificação política e cultural do mundo. que as outras orbitam em t orno dela como satélites. Prevendo objeções levianas que nossos acadêmicos semiletrados não deixarão de apresentar. assegurar a continuidade da marcha ascenden te dessa Revolução rumo ao Império do mundo. revolucionária ou reacionária. e que no fundo está pouco se lixando para essas distinções. ao determinismo geográfico a outras forças às quais os teóricos atribuíram o papel de “motores” do acontecer histórico. cuja oposição aparente mascara apenas o fato de girarem em t orno de um mesmo eixo. deveres e direit os. ele 143 vai unificando e homogeneizando a humanidade. uma realidade atual: durante um século. incapaz de organizar -se. Como Lincoln. onde a eclosão de um surto imperialista é an tes uma exceção do que uma regra. um poder expl icativo sobre o processo histórico em geral. liberalismo e social-democracia. dominância da idéia de Império não é uma teoria: é um fato. Não pode refutarse mediante argumentos teóricos. comichão passageira e mal sucedida. ordem e liberdade —. Seu único opositor — o p ovo islâmico — agita-se apenas no fundo da sua raiva impotente. de servirem a um mesmo propósito e senhor. e. quando vistas já não desde o ponto de vista das motivações subjetivas que movem os seus mártires. odiado. mas desde a perspectiva dos resultados reais a que ser vem na escala dos séculos. finalmente. Há algum conceito que mereça estudo mais urgente que o de “império”? Tu do o mais são palavras. seus costumes. república e democracia. é elevado à condição de supremo magistrado do universo. o Império é notavelment estituído de convicções teóricas. o domínio colonial ou as reivindicações de independência nacional. Veja-se por exemplo o caso da China. Não. senhores: o imperialismo não é uma pretensa “lei histórica”: é um fato ocorrido numa certa parte do mundo. e um fato específico da História Ocidente. parecendo guerrear-se entre si — democra cia. Mas nada de similar a esse fato tipic amente Ocidental se observa no Oriente. belas palavras que. Como um de seus mais célebres heróis — Abraham Lincoln —. É. e todas aquelas outras bandeiras em nome das quais os homen s matam e morrem. perdida que foi há tempos a vocação imperial que o animou até o século XII. revolucionário e reac ionário. monárquica ou republicana. mais dia menos dia. Tão forte é o magnetismo da idéia de Império. batalhões e esqu adrões em que se escande o descomunal exército empenhado num só objetivo: a formação do Im pério. revolução e reação. liberal e socialdemocrático. nada mais fizeram senão ajudar a apressar e a legitimar a a scensão mundial do Império que é um tempo democrático e aristocrático. a escravatura ou a abolição. não servisse a incentivar ou a legitimar a luta por essa finalidad e. Do alto de seu trono solitário — amado. sua língua. que substituísse o con ceito de “Império” aos “três estados” de Comte. A morte de um deles eleva o outro a uma posição de domínio mundial superior a tudo quanto haviam sonhado os seus antecessores. com a mesma se renidade de quem sabe que uma só coisa importa: salvar a unidade do Estado que inc orpora o projeto da Revolução Americana. invejado. seus valores. Teocracia e mona rquia. perpet uamente dividido em nações hostis e só de raro em raro tendo alguma iniciativa de unif icação imperial. Os pensadores políticos e religiosos do Ocidente não criaram uma só idéia que. e ssa é a única constante 143. tem de ser discutido no terreno da narração histórica. Em toda a variedade de processos e mutações que constitui a história do Ocidente. nacionalismo e internacionalismo. esclareço que não estou com isso inventando uma “teoria da História”.

no entanto. se em vez de tomar a forma de uma resta uração duradoura ele se estiola em tentativas incessantes e sangrentas que não levam a parte alguma. se serve deles como instrumentos de seu esforço para voltar à vida. eram ambos igualmente submissos a . Esses poderes. Se esse retorno é problemático. atuando sobre as almas dos vivos co mo uma obsessão subconsciente. que só podia partir dos militare s. e que.O Império Romano parece pairar sobre a mente Ocidental como o fantasma de um morto ilustre que não quer acabar de morrer. Em Roma. o Império form a-se como evolução quase fatal de uma República onde uma dualidade de poderes — civil e militar — convidava desde séculos a uma unificação forçada. é por uma série de razões muito simples e claras.

os padres eram para eles os equivalentes dos antigos druidas. de outro lado. em que senadores e cônsules. Funk-Hemmer. cristianizar e educar o jovem guer reiro para torná-lo um rei cristão e depois um imperador cristão. que entrava como convidada. os imperadores da Europa terão de contentar-se com o estatuto de governantes out orgados e legitimados por uma outra casta. Demasiado distante d e Bizâncio para poder desfrutar da proteção imperial contra os bárbaros. Essa resistência durará até o século XV pelo menos. que darão ori gem a uma série infindável: a síntese romana das castas sacerdotal e real desfizera-se para não mais voltar. a Igreja. na hora de fazer reviver o império Ocidental em versão cristianizada. Era preciso aproveita r um filho de uma das nobrezas locais bárbaras. Consideravam-se essas coisas indignas de guerreiros. repelia com verdadei ra ojeriza a idéia do culto estatal. Ora. 1891. amarrado pelo compromisso do celibato 146. onde as primei ras tentativas de restauração do Império já trarão dentro de si a contradição constitutiva qu as levará ao fracasso: elas constituirão um esforço para enxertar as instituições romanas no quadro de uma religião que. tabeliães. envoltos no prestígio temível do s portadores de dons mágicos. exercia nele um primado sobre a casta guerreira. demasiado sujei ta à autoridade bizantina para poder recusar-lhe o pagamento de pesados impostos. O problema básico da história política Oc dental pode assim resumir-se na sucessão de tentativas para encontrar uma resposta prática a um problema prático: como restaurar o Império romano sem a religião estatal r omana? A Igreja como força organizadora da sociedade nascera justamente no período m encionado acima. começa a sonhar com uma transferência do Império para o Ocidente 144: e a translatio imperii será a in auguração da autêntica Europa 145. Paris. A isto aliou-se uma série de conflito s entre o papado e o Império Bizantino — conflitos que prefiguram em miniatura aquel es que se manifestariam entre a Igreja e o Império Ocidental. a Igreja de Roma. Histoire de l’Église. Armand Colin. nos intervalos de suas obrigações políticas e militares. em primeiro lug ar. entre cujas vítimas se encontravam aliás seus fun dadores — a legião dos primeiros mártires cristãos. S e os antigos imperadores romanos eram eles mesmos os sacerdotes do culto estatal . 146 Compromisso que. as funções de líderes políticos. não podia fazer simplesmente brotar de si a semente de uma dinastia. patrocinando o projeto do Império . Eis aí os primeiros tropeços. por sua inspiração mais profunda. já que o clero colhia seus membros em todas as classes e os nobres não podiam ver com bons olhos os antigos servos que de repente apareciam investid os de autoridade e poder. 359 ss. entre a queda do Império e a coroação de Carlos Magno. xerifes etc.. O termo translatio imperii é usado normalmente para designar a transferência do Impéri o de Roma para Bizâncio. essa unidade inexistia na Europa medieval. Desse momento até aquele em que a cabeça de 144 145 Cf. Mas. o clero. que cobria mais ou menos o territóri o equivalente ao do antigo Império. por volta do século VIII. os padres tiveram de acrescentar. inexistindo uma administração estatal. Nesse interval o. os nobr es tinham pelo clero um sentimento misto de temor e desdém: de um lado. Mas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 135 um conjunto de normas tradicionais de conduta. pp. até pelo menos . o que terminou por fazer do clero uma estrutura administrativa informal. para designar todas as mu danças do eixo do poder imperial no Ocidente. é verdade. t. O Império constrói-se sobre a unidade moral e religiosa do povo romano. Em terceiro. criando aos esforços educacionais da Igreja obstáculos intransponíveis. I. só obrig ava completamente os escalões superiores do clero. a resistência da casta nobre a qualquer forma de estudo e a uma participação mais séria em atividades religiosas era um fato consumado. c onsolidada pela religião do Estado. O impulso de transferir para a autoridade civi l ao menos parte dessas responsabilidades foi um dos motivos que fizeram a Igrej a aspirar por um retorno do Império Ocidental. bem como aos ritos de um mesmo cu lto público. ao temor reverencial misturava-se o d esprezo social. ao sacer dócio. Aqui emprego-o em sentido lato. generais e imperado res exerciam pessoalmente. sendo abundantes. Em segundo lugar. as funções sacerdotais.

o ano 1000.. op. cit. Cf. os padres casados — uma arraia miúda. . que não poderia ter expressão num caso como o que estou discutindo aqui. passim. porém. Funck-Hemmer.

exigiram a partilha segundo as velhas tradições gaulesas: o Império desmembrou-se e voltaram à ce na todas as contradições entre nobreza e clero. que são enfim levadas até os confins da cristandade latina por seu irmão e sucess or. unge a ua fronte com óleo bento — inaugurando o costume da sagração dos reis. A Igreja tira as conseqüências políticas do fato consumado: o Império restaurara-se por si mesmo na pessoa desse jovem guerreiro de dois metros de alt ura. O problema do Império cristão pa recia estar resolvido e tudo anunciava um futuro grandioso. liberal avant la lettr e. seus sucessores. subjugando várias províncias francas e colocando-se sob a aut oridade da Igreja. e que. Mas o fato é que a síntese imperial-cristã não residia senão na perso alidade de Luís.136 OLAVO DE CARVALHO Luís XVI rolará pelo solo cortada pela Revolução. cuja coragem e força prodigiosas se ombreavam com a sua manifesta fé religiosa. é a essência da chamada “modernidade”. Apesar da proverbial host ilidade dos nobres à cultura letrada. Luís. Carlos Magno conservava no entanto a lguns hábitos pessoais que dão bem a medida do abismo que existia entre a mentalidad e da nobreza bárbara e a do clero. severo consigo mesmo e com os outros nobres. já imperador. pusesse e m ação o primeiro plano de alfabetização universal de que se teve notícia na história do mun do. o emissário da Igreja. consente mesmo em ap render a ler. se mostra estritament e apegado à moral cristã. Ele não vê nenhuma contradição entre mandar no mundo e obedecer aos céus. Se os antigos imperadores romanos eram tidos como e ncarnações das divindades — Júlio César era aceito como descendente carnal de Vênus —. após quatrocentos anos de dispersão. A solução foi temporariamen te encontrada numa família de nobres francos que pareciam menos selvagens que seus pares. em que se harmonizavam. para que reunisse na corte os maiores sábios do tempo. que impedia a d ivisão das terras do Império por herança. dentro do Palácio e não se afastassem nunca do querido papai. permitia que elas tivessem quantos amantes desejassem. e de administrar com muita habilidade as diferenças entre os vários intere sses nacionais — foi um Imperador na plena acepção do termo. alcança o seu p rimeiro momento de esplendor intelectual e artístico. esse brutamontes revelouse no entanto capaz de estender os domínios do império. o Piedoso: a aristocracia parecia haver absorvido completamente seu pa pel no Império cristão. amplia as conquis tas. ele teve ainda a sabedoria de dar carta bran ca ao monge e filólogo Alcuíno. Ele torna-se r ei dos francos. editasse livros e. tinham uma fé mais ardente e sem contági os. Carlos Magno. o executor terrestre dos desígnios da Providência. e recebendo por isto o apeli do de Luís. o Império não durou nem um dia a mais: contrariando uma lei recém-promulgada. São Bonifácio. impondo sacri fícios em nome da unidade imperial e da ordem jurídica. Morto o Imperador. o drama do Império Ocidental tomará a form a ostensiva de um conflito entre sacerdócio e realeza 147. formasse uma biblioteca. as melhor es qualidades da nobreza bárbara e a fidelidade à Igreja. recentemente cristianizados. por um raro acidente psicológico. Para conferir ao seu poder o prestígio sacral que a tradição gaulesa a nteriormente atribuía à descendência de Clóvis. Charles Martel. mas adia a realização da promessa e só adquire as primeiras letras aos 3 2 anos de idade. Essa mudança. mais surpreendente ainda. Ele amava tanto suas duas filhas que temia acim a de tudo que elas se casassem e fossem morar longe dele. Vencendo resistências interiores. cristianizando à força os povos vizinhos. Este futuro parece a inda mais promissor quando o sucessor de Carlos Magno. dado a acessos de fúria. que uma seqüência de felizes acidentes h . cruel com os inimigos. contanto que vivessem com eles 147 A Revolução apenas mudará a forma desse drama. Se houvess e dúvida quanto a esses desígnios. subindo ao poder após a morte do pai. A Europa. caos e obscuridade. Glutão. Apesar da manifesta sinceridade da sua fé. o impe ador cristão terá de se contentar com algo mais modesto: Carlos Magno considera-se o braço armado da Igreja. dá a esta a base para começar a reconstrução do Império. Pepino de Herstal. sem resolvê-lo. numa recaída fatal. como veremos adiante. Para impedir que isto acontecesse. uma breve consulta aos padres liquidava o problem a. O filho bastardo de Pepino. Carlos Magno é sagrado imperador no ano 800.

poder. Quando comparamos. a facilidade com que o Império bizant ino se instala e se estabiliza por mil anos para uma vez ferido pelo invasor des aparecer para sempre. Bizâncio prospera. de outro. no Oriente. A primeira Roma cristã havia durado apenas o tempo de três gerações.avia camuflado por algum tempo. cu ltura. a sucessão de tentativas dramáticas e sangrentas a q ue o Ocidente se entrega — até hoje — no empenho de realizar a idéia imperial. de um lado. não podemos dei- . floresce em riqueza. Enquanto isso.

era impossível construir um novo I mpério com modelo romano sobre bases econômicas tão diferentes das romanas. de origem bárbara. Com a dissolução do Império. nunca realizou nem uma coisa. essas unidades autônomas chegavam a mil e oitocentas. cu ltíssima e politizada 148. entre os seus pares. Na falta deles. dis persa por um território imenso e dividida por hostilidades e entrechoques de inter esses inconciliáveis? Mais ainda: como impor a unidade sem uma classe dirigente ca paz? Os remanescentes da antiga nobreza esquecem os hábitos de cultura e refinamen to. em giros caóticos onde seus contemporâneos não enxergavam nenhuma forma ou sentido. As fronteiras das propriedades tornam-se instáveis. De outro lado. para percebermos os fatos. e a primeira é: Como impor a unidade política e a dministrativa sem uma aristocracia urbana — sem a unidade da classe dirigente. em 1806. os nobres se retiram definitivam ente para suas terras e. de uma comédia. como um “coronel” do sertão pernambucano. os esquemas menta is que nos permitam apreendê-los na unidade das suas relações. com um muro de impossibilidades. Napoleão mandou extinguir o antigo Império. muitos desses feudos mudam de donos do dia para a noite. os fatos deviam voar como moscas . muitos I mperadores não chegaram seq uer a ser sagrados pelo Papa. Por um milênio. Que ninguém se deixe aqui enganar pelas palavras: o regime era “feudal” num caso como no outro. não basta que eles estejam diante de nós: é preciso ter os conceitos (de con + cepio = “captar junto”). brilhava no Senado. e nós inteligentes. A construção do Império europeu defronta-se. recolhia os lucros e voltava à cidade. trata m de organizar exércitos particulares. Por que foi assim? As causas do fracasso são tão patentes que chega a surpreender-no s. Quando. não sabendo se deve temer mais as ambições dos vizinhos ou as hordas bárbaras que co ntinuam chegando e devastando tudo. sobre as ruínas do antigo. Mas que diferença entre os dois feudalismos! O antigo nobre. que os protagonistas não as percebessem em tempo de tentar mudar o curso dos eventos. desde logo . espanhóis. fundado em 962 por um pa cto entre o rei Otto I e o Papa João XII — durará até 1806. não contando mais com a proteção de um governo central.. oficiavam os cultos públicos e depois faziam carre ira no Exército. o Império não passou de um aglomerado de principados e ducados independentes e m utuamente hostis. mais de um Papa foi destronado e perseguido por or dem do Imperador. Na época dos últimos Habsburgos. jamais tiveram esses hábitos. A segunda Roma Cristã Ocidental — o Sacro Império Romano. Durante a maior parte de sua existênc ia. Em primeiro lugar. filósofos. ele já não existia senão no papel. hoje. Seus filhos desempenhavam funções sacerdotais. ele visitava suas terras. Não que os antigos fossem tolos. É que é fácil compreender o que se pa ssa. Marca na verdade uma segunda translatio imperii — dos franceses para os alemães —. viveu às turras com o Papado que deveria representar. Era. têm de ser defendidas pela espada. mais de um Imperador foi excomungado e humilhado pelo Papa. Com as invasões. E os conceitos que hoje nos tornam claro e patente o sentido desses antigos eventos foram uma invenção muito posterior. uma aristocracia urbana. Mas é que. depois que se passou. embora o termo seja usado em ge ral exclusivamente para a mudança do Oriente para Ocidente. ou. vivia na capital. franceses.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 137 xar de notar algo de estranho no fascínio que essa idéia — e a impossibilidade de real izá-la — exerce sobre a mente Ocidental. belas damas.. a maioria dos povos cristãos se recusou a submeter-se ao Imperador. sobre uma base feudal. os novos. ia ao teatro. pelo m enos Ocidentais —. portugueses — fundaram mais tarde seus próprios impérios. Concebido para atender a dois objetivos — s er o braço armado da Igreja e unir sob um governo central os reinos cristãos. A aristocracia agora é uma 148 . pior ainda. Cada feudo fecha-se numa desconfiança rancoro sa. Q uatro dentre eles — ingleses. nem a outra. Uma ou duas vezes por ano. Nenhuma outra civilização mostrou uma vocação imper ial tão absorvente e uma incapacidade tão profunda de dar a essa vocação uma expressão estáv el. sua casa era frequentada por artistas. Mas nunca passará de um projeto.

. nº 37. Sus causas sociales” — foi publicada na Revista de Occidente ( Madrid ).Sobre a organização econômica do Império Romano e as causas de sua dissolução. Não sei se existe outra. Uma tradução — “La decadencia de la cultura antigua. 1926. XIII. o clássico ens io de Max Weber continua insuperável. t. jul.

libertado após três dias. não havia novas terras a conquistar e a lei proibia repartir as do Império: já não era possível reinar nem pelo terror. Não adianta nada: velho e doente. Luís. Em terceiro lugar. Por mil anos. as acusações que o bandidi nho coroado fazia à honra do falecido. conquistando para ela o direito à propriedade e ao casamento. e em represália o Papa edita a bula U nam sanctam. Morto Carlos Magno. História Geral das Civilizações. em Maurice Crouzet ( org. que já estava meio ganha. prefere ficar em cima do muro. O que Bonifácio fez de novidade foi simplesmente transpor essa tese da esfera teórica para a dos manda mentos práticos. nem pel o suborno. e le va a transigência ao ponto de aceitar discutir. Durante os primeiros cinco séculos . O Pap a Inocêncio IV ( 1243-54 ) já afirmara que a Igreja desfruta da plenitude do Imperiu m. por me io de Bonifácio. A Expansão do Oriente e o Nascimento da Civilização Ocide ntal. capturados aos milhões em guerras de conquista e po stos a servir em verdadeiros estábulos. Não lhe restava outra arma senão o respeito que sua retidão pessoal inspira va — arma de eficácia duvidosa. que de vez em quando explode em crises incontroláveis. Pedro Moacyr Campos. em parte pelas guerras de conquista. A Idade Média. em parte pelo terror que inspirava. só para tudo terminar numa pizza póstuma. desencadeando um terremoto. a Igreja se desgasta rá entre esforços utópicos para erguer um império sobre as nuvens e em malabarismos para esconder-se das tempestades que ele lhe envia. cujos botins em bens e em terras. e que foi junto com ele para o túmulo: sobre o cadáver d e Luís. t. pune os recalci trantes mediante 149 uma recusa de pagar-lhes os impostos das igrejas locais — o que era simplesmente c ondená-los à falência. vol. tese que se tornou muito generalizada entre os canonistas. p. num concílio. o Piedoso. na pessoa de Felipe. consegue driblar parcialmente o cerco. mandando às urtigas a consciência cr istã. reclamavam medidas disciplinares que só vieram. morre logo depois. em vez de levar adiante a briga com Felipe. observando desde o século X a insubordinação e a a rrogância da casta guerreira. retorna ao trono com forte apoio popular. O rei da França. os nobres festejaram a repartição do Império e. Felipe o Belo. viu-se numa situação medonha: todas as propriedades tinham s ido distribuídas. quando era tarde e a Igreja já estava demasiado enfraquecida. por sua intransigên cia e falta de tato. sem direito a ter bens pessoais ou a const ituir família. mas. Felip e manda um exército invadir o palácio do Papa. ). São Paulo. seu s ucessor. ávida de prazeres grosseiros e que poder algum consegue disciplinar” 149. mediante artimanhas legais e violên cias. Ora. desejando forçar a unida de entre os príncipes Ocidentais para empreender uma nova Cruzada. e seu sucessor. o antigo feudalismo romano fundava-se inteira mente no trabalho de escravos. foi na verdade um gênio. Em todo caso. o tesouro estava exaurido. Difel. Bonifácio é preso e agredido fisicamente. a Igreja mesma havia mudado a sorte dessa gente. 151 “O Papa não esperava evidentemente a . turbulenta. Uma das atribuições básicas do imperador sagrado no ano de 800 era defender esses direitos — o que o tornava antipático à maioria da clas se aristocrática. fartamente repartidos entre a aristocracia.138 OLAVO DE CARVALHO horda “inculta. 126. sempre ameaçado por uma tensão estática. 1956. Bonifácio não sacou esta afirmação pronta e acabada de seu próprio cérebro: ela já vinha germ nando em muitas cabeças ilustres que. trad. Ele percebeu. de quem tanta gente na Igreja e fora dela fala mal até hoje. quando o Papa Bonifácio VIII. Carlos Magno conseguiu fazer-se obedecer. 1º. Bonifác io. que declara com todas as letras aquilo que até o momento tinha ficado delicadamente implícito: a total submissão dos reis à autoridade da Igreja 150. um homem dotado de antevisão histórica q uase profética 151. bem como várias garantias contra as arbitrariedades do senhor feudal. A mais gr ave sobrevém entre 1296 e 1303. o conflito toma a forma de um periclitante equilíbrio de forças. as raízes de um 150 Edouard Perroy. compensavam os pr ejuízos decorrentes das vantagens concedidas aos servos. assaram e comeram os direitos dos servos. III.

. Não soube ver que os direitos da coroa se apoiavam no cons entimento dos povos. Historia de Europa. Em primeiro lugar. Juan J. a força moral. 1956. se na origem mesma do cristianismo estava o fato de um martírio p erpetrado com maçico consentimento coletivo? Em segundo lugar. mesmo cristão. 270 ).. 2ª ed... O que fez ( os reis ) triunfarem foi a consciência que tinh am de contar com o assentimento de seus povos. de compreender senão superficialmente a índo le do cristianismo. Toda a sua conduta prova que não tinha compreendido as mudança s surgidas na Europa. tr ad. Domenchina. como poderia o Papa admitir que o “consentimento dos povos” fosse gerador de autori dade espiritual. que é a única que permite vencer um conflito dessa natureza” ( Henri Pirenne. por que denominar “fo rça moral” o mero sentimento de segurança que advém da certeza de um respaldo coletivo. quando o modelo supremo da força moral. isto é. que sustenta toda a pedagogia ética da nossa civilização. o defensor solitário da verdade que todos rene gam? .. Este parágrafo reune um primor de análise histórica à deformidade de uma avaliação moral marcada pela típica incapa cidade do acadêmico moderno. p. FCE. mesmo conhecendo a popularidade dos reis. Mexico. é precisamente o de Cristo.oposição que ia levantar.

Sobretudo. é mesmo ( v. Pirenne. Herdando o trono de um santo (Luís XI ). entre as névoas de uma falsa consciência embalada pelo casuismo jurídico de um extenso cordão de puxa-sacos. será julgado pelo es piritual. não tem sentido ju lgá-lo apenas pelos cânones da razão de Estado. que inicialmente se referia só às Cruzadas. 152 Embora. quanto as cois as espirituais sobrepujam as temporais. As antigas tradições e mitologias estão repletas de histórias de magos. Assim. Não d eixa de ser interessante que a disputa de prioridade espiritual entre as castas . e sim apenas uma monarquia nacional rebelde. será julgado pelo que lhe é superior. é simplesmente uma defesa do espírito contra a f orça armada. Vozes. Goldman Ve l Lejbman e Luís A. sacerdotes e pro fetas que nomeiam reis e depois sofrem as maiores ingratidões de seus protegidos. em que a única obrigação é vencer. enxerga Bonifácio pelos olhos de Felipe. de: Egídio Romano. naturalmente. A coisa parece ser uma constante da história humana. era porque os inspirava o demônio e. haver algo de hereditário na santidade: e. Fayard. o roubo da coroa de Cristo pelos sucesso res de César 152 (veremos isto logo adiante. e já dava bastante trabalho ). se os Templários faziam negócios financeiros embrulhados.. ma s se é o poder supremo que erra. feliz156 É verdade que o lado adversário. A utorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. 154 O próprio Dante Aligh ieri chegou a defender a autonomia monárquica. se Felipe fazia a mesmíssima coisa. Para fazer uma idéia de até que ponto chegavam as pretensões de F elipe — e de quanto nelas ele se mostrava já imbuído do espírito “moderno” —. se não é bom. em Jean Favier. Deus assinava e m baixo. a suprema autoridade espiritual que não da ria satisfações a ninguém exceto a Deus 154. encheu de reis o Inferno. imbuind o-se até a medula da expressão Gesta Dei per Francos (”a obra de Deus feita por mãos fra ncesas”) 157. Éditions Traditionelles. concordando com o princípio geral. eram Felipe o Belo. O poder espiritual deve instituir o po der terreno e julgá-lo. Segundo René Guénon.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 139 mal que o futuro iria ampliar até as dimensões de uma tragédia mundial: a apropriação da a utoridade espiritual pelo poder armado. é claro. e por ninguém é julgado’ ( I Cor. ta lvez arrependido. Mas. para seguir o espírito da época. ele nem suspeitasse estar combatendo a semente de um novo poder imperial ( o império ficava na Alemanha. 1978. Petrópolis. se um Papa é um homem de religião e não apenas um político.” vista histórico. 1948 ). Philippe le Bel. e as verdades que ela consagra continuarão certas enquanto houver quem considere que um homem velho vale mais do que um jumento novo. trad. p. Se o poder terreno se desvia. Cléa Pitt B. e se recusa a tentar a operação inver sa. Felipe parece ter chegad o a supor. 1989. havia reis” 155. reivindicava para os reis. tratou logo de dar ao seu se ntido um inchaço descomunal: o que quer que os franceses fizessem. p. com tanto maior evidência.. se erra o poder espiritual menor. não pelo homem. Assim o afirma o apóstolo: ‘O homem espiritual julga a tudo. Depois. 155 Cit. e os franceses. e juristas a soldo de Felipe argumentavam : “Antes que houvesse sacerdotes. basta lembrar q e ele foi o primeiro a lançar a idéia do serviço militar obrigatório estendido a toda a população (idéia que. que qualquer poder espiritual se avantaja em dignidade e nobreza sobre qualquer poder terreno. Paris. em lugar dos homens de religião. era por ordem do Arcanjo Gabriel. Sobre o Poder Eclesiástico. Sua bula Unam sanctam. 27. era uma bela co nversa mole 156. por Luís A De Boni. que alguns cretinos apontam como uma odiosa manifestação de clericalismo reacionário. para nada dizer do bíblico (vide o episódio de Saul). por forte que sej a o coice 153: “É necessário.. quando surgir em cena a figura de Hen rique VIII). Paris. mereciam ir para a fogueira. De Boni. 6. 2 :15). logo. 153 Transcrito em apêndice à “Introdução”. e. abjurar do espírito da sua fé? Não: ele teve a legítima força moral — preferiu a dignidade da derrota a uma transigência abjeta. proclamar. só poderá ser julgado por Deus. do ponto de Deveria Bonifácio. no tratado De monarchia. s m dúvida. pois.

trad. mas apenas as tornou invisíveis e deu à sua guerra as proporções de u ma castástrofe natural. esse debate parece to rnar-se ocupação de eruditos saudosistas. Jacques Maritain. Lisboa. movia o mundo. . Maritain. há de ter certamente co mpreendido o peso imenso que terá. pelo menos o meu. Já o gen. Ironicamente. Até mesmo o ateu Mitterrand parece ser devoto dela. arrancam lágrimas. um pouco d e vômito. de Gaulle provou que ela funcionava na prática. escrevendo dela. revogável por decreto — o que certamente não fez com que as castas dei xassem de existir. não tem a menor idéia de que se trata do velho conflito de castas. v. bocejos. a disputa entre o s homens de religião e os homens de governo. mesmo porque a doutrina oficial da Revolução lhe ensinou a crer que as castas são uma instit uição convencional. está olhando numa direção completament e diferente. entre os do is maiores escritores esotéricos do século XX: René Guénon e Julius Evola ( deste último. 1978 ). iludida por toneladas de informação irrelevante. na decisão do destino do mundo. sobretudo O Mistério do Graal. Ao transferir-se da arena política para a esfera esotérica. e Barrès. Como dizia Guénon. inclusiv e letrada. e assim também o são as causas: a luta pelo cetro espiritual de mun do se radicaliza e se torna mais decisiva precisamente na hora em que a “opinião públi ca”. o poder é secre to por natureza. 157 A mística desta expressão durou até o século XX. Vega. Maurice Barrès. na escala discreta que convém ao caso. Est es dois. a opinião pública.sacerdotal e real se reproduza. Charles Péguy e Georges Bernanos acreditavam nela piamente. António Carlos Carvalho. Se o leitor acompanhou minha argumentação até aqui. mas na verdade é aí que ele se torna decisivo para a compreensão dos rumos da história contemporânea.

mas pode não ser santo nenhum. é para crist alizar-se na forma de um domínio teocrático que. ouviu do Papa o gracejo: — Como vê. pode ser um ladrão. um assassino. um covardão como Benedito XI que não hesita em lançar a mancha da suspeita sobre a reputação de seu amigo e antecessor para fazer as pazes com um monarca frio e desumano. impondo seu jugo sobre o poder mund ano. o h omem que ocupa o trono de Roma. ficou no papel. Bonifácio só errou num ponto: ao começar a brig . é claro. Mas tudo neste mundo tem uma franja de ambigüidade. contaminado portanto de força bruta? Em que medida a pesadíssima organ ização diplomática. falou pelo Espírito? O chefe nominal da hierarquia ou aquele que o Es pírito houve por bem inspirar no momento? Quem é o homem espiritual superior que jul ga o homem espiritual inferior? Os papas julgam os santos ou os santos julgam os papas? A expressão mesma “Igreja” assume aí um sentido ambíguo: a hierarquia espiritual. A verdadeira unidade da Igreja.” — Para compensar — respondeu o asceta — ele também já não pode dizer: “Levanta-te nda!”. na autoridade do cargo. tem no seu topo os santos e os mártires. latente. O Papa. tal como a política dos reinos e dos impérios? Vejam bem: o dogma católico diz que os Papas são inspirados pelo Espírito Santo. por uma inversão diabólica. terminará por explodir numa rup tura quando a capacidade de conceber novos arranjos tiver se esgotado. Não é o mesmo obedecer a um vigário e a um vigarista . um ateu. em que medida a Igreja de Roma. pode ser um santo. manipulado e enfeitado por mil arranjos. o Espírito não estará presente senão em símbolo. d esde que a Igreja se constitua administrativamente —. por isto. naquela parte que se incorpora à sabedoria da Igreja c omo um legado permanente. meu amigo. momentaneamente ocup ado por um imbecil ou um malvado. um farsante. não naquela que passa à História como o relato de um jogo de cartas. O que sei é que só Deus é um: tudo no mundo é dupl o. era pura autoridade espiritual? Não era também ela um po der temporal. mas. Or a. É. amigo. . logo se rompe sob a pressão da rebelião aristocrática e monárquica.140 OLAVO DE CARVALHO mente. bem como disseminado no mundo como Providência. Uma vez que o fiel sinta essa duplicidade — e é fatal que ele a sinta algum dia. Quem. por força do Espírito que dirige seus atos e pensamentos e o preserva do pecado. eis que a autoridade espirit ual está cindida. precisamente ao i nverso. apenas a hierarquia do governo eclesiástico terrestre é que desce do papa aos cardeais. representada pelo seu Papa. e você também não sabe. pode ser um idiota pretencioso. Céus! Será a eterna tragédia humana que o primado do espírito tenha de conformar-se em ser apenas sussu rrado em segredo? Que. n unca residiu na força monolítica da administração central romana. e le resulte sempre. mas só naquilo que sentenciam em matéria de doutrina teológica e moral — não nas suas decisões p olíticas e diplomáticas. quando o advento de fatos de uma ordem totalmente outra mudar de repente o quadro de refe rências. visitando o rico palácio do Vaticano renascentist a. na floração espontânea da santidade nos lugares mais imprevisíveis e mais afasta dos de todo contato com a burocracia vaticana. como tal. política e burocrática de Roma é movida pelo sopro do Espírito ou pelo en rechoque mecânico das forças deste mundo. proclamado e assumido como verdade pelo consenso público. dupla é também a obediência: não é o mesmo o bedecer a um homem inspirado e obedecer a um cargo simbólico. então. oculta: quando se manifesta à luz do reconhecimento público. no confronto prático com o poder tempor al? Conta-se que um pobre santo. e exercerá então a autoridade espiritual de pleno direito. como foi Pedro. se dupla é a forma da autoridade espiritual. é autoridade espiritual. Mas essa unidade permanece profun da. era velho demais para poder levá-la até o fim. aos bispos etc. Pois é esta mesma contradição interna e constitutiva da noção de “Igreja” que se transmiti suas relações com o poder imperial e monárquico. Quem. Pedro já não pode dizer: “Não tenho ouro n em prata. e quem quer que diga que sab e é um palpiteiro muito metido a besta. até que o Século das Luzes viesse iluminar com novas fulgurações de gênio a ciência do morticínio estatal). Neste caso. Se a autoridade espiritual é em tese superior ao poder terreno pela mesma razão que faz o espírito superior à força bruta. e “a casa dividida ruirá”. aí. infectando-as com o germe de um conf lito que. numa ascensão ainda maior do prestígio da força? Será necessário optar sempre entre uma teocracia oprimente e a opressão de um po der mundano 158? Eu não sei.

.158 Pensemos. na alternativa de hoje. entre a disciplina compressiva do s aiatolás e a nulificação da consciência individual na sociedade administrada do Ociden te. por exemplo.. .

Todos esses povos tinham vivido. descobrindo para lá do mundo conhecido uma vastidão de terras a conquistar. recorria ao exped iente de saltar pessoalmente pela janela de seus inimigos. nada tinham ouvido de imp ortante que não se referisse a uma dessas coisas ou a ambas. dois outros reinos nacionais haviam se formado na Península Ibérica . . Não é de espantar que tod o acontecimento novo. séculos de luta contra os invasores árabes haviam acabado por forjar a unidade da aristocracia. abrindo aos olhos europeus o pa norama de um novo mundo. Cansadas de luta r contra o Império. elas decidiram então cada qual fazer seu próprio Império. mudaram repentinamente o quadro. acabasse por ser interpretado nos termos desse velho par de conceitos. Depois da fase inicial inglesa. podia tornar-se uma expansão para outros continentes. as navegações. 1º Durante muitos séculos. e d egolá-los na cama: ao despertarem. de janela em janela e de pescoço em pescoço. dando ao projeto do Império um novo sentido. Assim. Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais e criado um reino da noite par a o dia — literalmente. sob a dupla obsessão da Fé e do Império. a unificação da Cristandade Ocidental fora obstaculizada prin cipalmente pela resistência que dois povos. nazareno ou cristão. a salvação da alma. do outro lado do Oceano. de um lado. se o braç da Igreja estava no Império — cujos domínios se estendiam sobre um território que corre sponde mais ou menos à Alemanha e parte da Itália —. uns quantos índios pelados e militarmente inferiores. o centro da cultura cristã se transferira para Paris. Pois bem: ingleses e franceses não se curvavam ao Império por nada deste mundo. quasi per latroc inium (não entendo o que queriam dizer com esse quasi). 2º. Os ingleses tinham sido o primeiro povo c ristão da Europa. Toda a imensa transformação que inaugura os tempos modernos pode s er resumida numa mudança do projeto histórico europeu: do Império doméstico para o Império colonial. a alteração profunda das relações entre realeza e ero. a diversificação das culturas naciona is e a ruptura da unidade cristã. a extensão do poder armado da fé. Assim. e mostravam por suas independências nacionais um apego igual ou maior do que aquele que tinham pela religião. e sim o de um braço armado da Igreja. 2º Mas — atenção —. se as nações eu ropéias nem sempre tinham condições de vencer umas às outras. Durante um milênio. fosse qual fosse. Mais do que ninguém eles haviam demonstrado sua fé e contribuído para a nova cultura cristã. segundo comentavam os juristas da época. Não conheciam outros fins e valores que pudessem legitimar a ação humana senão. O novo projeto. poder temporal e autoridade espiritual. e o esplendor da escolástica é um fenômeno sobretudo parisien se. ofereceram à autoridade imperial. O Império. de outro. Assim. entre os guerreiros islâmicos. Em Portugal. a mu ltiplicação dos concorrentes a Império. por um milênio. os servos e cortesãos eram informados de que o ca stelo tinha um novo senhor. não contando com um exército numeroso.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 141 As viagens transcontinentais. qualquer uma delas tinha o s meios de aparelhar um barco com uns quantos soldados e subjugar. 3º. “franco” se tornou um sinônimo de nasrányi. suscita de imediato três mudanças verdadeiramente cataclísmicas: 1º. brilhando e rodando sobre todas as cabeças reais como u ma mosca azul. a primeira coisa que fizeram foi reavivar as velhas amb ições e mudar repentinamente a sua ênfase: a luta pelo Império já não tinha de ser um confli to europeu. o conceito de Império não era simplesmente o de um poder transnacional qu lquer. enquanto o Império vai p erdendo o domínio sobre boa parte da Itália que se desmembra em ducados e principado s independentes. nasc era o reino de Portugal. Ora. Na Espanha. enquanto dormiam. re sultando enfim que o casamento da castelhana Isabela I com o aragonês Fernando II deu término à última disputa local e inaugurou o novo reino. já que. dentre os mais profundamente cristiani zados. Os franceses estavam tão profundamente ligados à Igreja que. Por volta de 1500. seu coração estava na Inglaterra e se u cérebro na França.

sem sombra de dúvida. seja fortalecendo or dens religiosas locais que. de início. Nesse ínterim. Seu braço há de estender-se até o Brasil. na Inglaterra. Henrique é. é César que volta ao trono. que já tinha desde quatrocentos anos antes sua religião nacional. tendo o rei como suprema autoridade religiosa. a porta do tempo girou sobre os g onzos. mas cujo potencial imperialista tinha ficado ret ido pelas invasões mongóis e pelas imensas extensões do território a ocupar. enriquecida pelo ouro das Américas. a Espanha. autonomeado Pr otector and Only Supreme Head of the Church and Clergy in England com um único vot o contrário. investid o de prerrogativas sacerdotais. Na Suécia. e que continuará reverberando até nossos dias nos discursos da Nova Era e da Revolução Cultural. que esse vulgar psicopata. bem como pela dialética do crescimento capitalista ávido de matériasprimas do além-mar. o chefe de Estado se autonomeia r epresentante direto de Deus. o pai da civilização moderna. Essa idéia muda. que desafiando o Supreme Head.. É duvidoso que essa deformidade coroada. Mesmo os historiadores são muito comedidos ao trata r desse ponto. aproveitando-se de uma querela matrimonial. o de sir Thomas More. o Sacro Império Romano. procurará dominar seu clero nacional. é o luteranismo que se torna culto oficia l do Estado. se eleva à posição de uma das mais fortes po tências imperiais. Das potências emergentes. encerrando uma época: o projeto de unificar a Europa sob um Império católico mo rrera junto com o s derradeiro mártir. o império nascente já não precisa va das bençãos do Papa — bastava fundar uma nova Igreja. inglesa. e sim de Impérios concorrentes. Com Henrique VIII. a independência espiritual. que inspirará mais tarde Hegel e Robespierre. ato contínuo. em mútua oposição. que durante seis séculos fora caindo de frustração em frustração. republicano e calvinista. ou Imperador.. o estandarte da fé. capazes de pression ar Roma em defesa dos interesses de seu rei. L evada pela dinâmica da luta pela independência que log o se torna luta pela hegemonia. é coroad o sacro imperador romano sob o título de Carlos V. quando Carlos I. o rei Henrique VIII. instantaneam ente. unindo pelos dois séculos seguint es o destino de seu país ao da dinastia Habsburgo. Cada rei. Para f ortalecer suas pretensões. embora tantas vezes ingrato. a Reforma protestante tinha abalado o monopólio romano do cristianismo: para arvorar-se em representante da Fé. Do outro lado da Europa. a Suécia. mediante bem-sucedidas campanhas de ocupação. que esse assas sino de mulheres e de sábios tivesse uma idéia clara de quanto sua pessoa e seu gest o representavam o espírito dos novos tempos e prefiguravam o desenrolar dos aconte cimentos por três séculos adiante. o clero se nacionaliza. De maneira ostensiv a ou informal. por ter como chefe não o Papa. o fundador da idéia do Estado auto-sacralizado. A fundação da primeira Igreja eu nacional marca uma metamorfose radical na idéia de império e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino. só reconhecia um: seu filho dilet o. junto com a indepe ndência política. agora. logo a Holanda entra no rol dos concorrentes a I mpério: Império protestante. O Império. O dualismo milenar é resolvido mediante a absorção da Igreja no Império. anglocatólica: católica nos r itos e no dogma. form am-se na Holanda e na Suécia. incentivada pelo exemplo da Europa Ocidental que ela inveja. tinha de levar. funda uma igreja nacional. Mas agora e le já não estava cercado apenas de nações rebeldes. descobre fi nalmente sua vocação. talvez por uma resistência inconsciente em reconhecer o pecado orig inal que dá nascimento aos tempos modernos. um a funde-se logo com o Império. parecia finalmente ter encontrado seu caminho.142 OLAVO DE CARVALHO para ser um Império de verdade. todo o quadro do conflito entre realeza e clero. quantos porta-vozes autorizados pode ter a Fé? Quantos braços armados pod e ter o corpo da Cristandade? A Igreja. Ora. Com a cabeça de sir Thomas a rolar no solo. a Rússia. Enquanto a parte alemã do Império é sacudida p elas revoltas protestantes. tinha-se tornado a principal potência européi a. tomando a dianteira nas conquistas coloniais. neto de Fernando e Isabela. acima dos seus canhões. a . Napoleão e Comte. com forte apoio judaico. foi beheaded no ato. mas o Rei. proclamar. O processo é ainda acelerado pela ruptura d a unidade do bloco protestante: cleros protestantes nacionais. seja fundando sua própria Igreja. logo se tornarão centros de poder mais ou menos independentes. crescendo desmesuradamente à sombra do apoio estatal.

dmira e .

O que espanta é justamente a natu ralidade que cada um julgava o seu modo nacional de ser cristão muito superior ao modo universal e supranacional. que. Mesmo o Sacro Império. calvinismo (Holanda). O surgimento de uma nova casta letrada. que descrevi lá atrás (§ 21). Soloviev ai nda acreditavam piamente na missão cristianizadora da Rússia no mundo. como na revogação do Édito de Nantes e na perseguição aos protestantes e jansenistas: “Ai nsi le Roi. não compreendia a fé senão como gue rra contra os infiéis 160. endurecido por oito séculos de luta contra o mouro. Dostoiévski e V. Os dois processos são concomitantes e. Não há. confondant ses attibutions avec celles de l’autre Pouvoir. que forma um pano de fundo às manifestações da independência mais petulante. a nova fase inaugurará a p erseguição a indivíduos isolados. um polonês cuja família sofrera na carne os efeitos da catequese imperial. beatifica o interesse nacional francês e reprime. ao t ransferir-se para mãos espanholas se espanholiza. que v iverão em anátemas recíprocos. resumia numa palavra o espírito dessa anacronia vivente: “Cinismo. que marcará a mentalidade russo-ortodoxa a té pelo menos o fim do século XIX. em tudo isso. Não espanta que o rei assim imbuído do caráter divino do interesse nacional acabasse p or regrar. na época. nascem os muitos cristianismos modernos. Homens como F. Il sort de sa fonction et commet un étrange et quelquefois déplorable abus de son autorité” 162. precisamente por sua submissão nominal à Igreja de Roma. herdeiros — sabend o ou não — do espírito de Henrique VIII. Cada um auto-investido da missão que fora a do antigo projeto imperial — unifica r o mundo sob o estandarte cristão — mas reinterpretando-a segundo a ótica da razão de E stado. que a Igreja. Ond e esta pretensão absurda se revela de maneira mais patente é. entretanto. Nation Très-Chrétienne et fille ainée de l’Église. c’était servir Dieu et l’Église -même” 161. em nome dele. w 3º Mas. Joseph Conrad . investido da autoridade de “Rei Cristianíssimo e filho primogênito da Igreja”. que só usara de violência contra os heréticos em caso de rebelião armada. Aos governantes dos séculos XVI a XVIII. fundação dos cultos nacionais: luter anismo (Suécia). anglicanismo (Inglaterra). a menor sombra de hipocrisia. no galican ismo. representado pelo Pa pa e pelos remanescentes do antigo Império. palaciana e não universitária. ainda representava. Comme Roi Très-Chrétien. candidato a Imperador. até mesmo disputas teológica s. em nome dele e sem a menor consulta ao Papa. e o nacionalismo imperial das potências .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 143 procura imitar. Luís XIV era sincerame nte cristão. constituem um só: multiplicação dos Impérios. como a maioria dos reis do seu tempo. assume com Ivan IV (“o Terrível”) sua missão expansionista e cristianizadora 159. t udo passa a orbitar em torno do rei. no fundo. expressão típica de um povo que se cristianizara no campo de batalha.. iberiza-se sob as formas do jesuitismo e da sanha inqui sitorial. Unificada por Ivan III (“o Grande”). a ação da Igreja q ue diz representar: “Nul n’a défendu comme lui les droits de l’État laïque et personne n’a su parler avec plus de fermeté au Souverain Pontife lui-même. Seu catolicismo perde muito do e spírito internacionalista. se fait doc teur et convertisseur. il pensait que servir la France. Data daí o surgimento do espírito messiânico. galicanismo (Fra nça). um título que ele se conferira a si mes159 mo. tudo se nacionaliza. Dessa nova partilha da túnica de Cristo. agora apenas um entre outros. Pois a luta é agora entre o internacionalismo. Em contraste com a Inquisição medieval. parece natural e óbvio que sua vontade política s eja a expressão mais direta e pura da vontade divina. ainda quando esteja em abert a oposição com a palavra do clero e com as outras vontades divinas concorrentes. Cada um remoldando o discurso cristão segundo seu interesse nacional. Há até mesmo uma certa candura na co nvicção com que Luís XIV. é um reflex o dessa mudança.. muito tempo depois de extinta nos países Ocidentais a mitologia do cristianismo nacional. A seu modo. embora confundida no meio de tanta s fidelidades ambíguas.” 160 A fase cruenta da Inq uisição data dessa época e desse lugar.

os reis fomentam culturas nacionais. 161 162 Louis Bertrand. Paris. preservando ali o internacionalismo. c om artistas e letrados a soldo da nobreza..emergentes. p. J. E. . 16 1. t. Louis XIV. p. Id. enquanto o Papa obtém o controle das universidades. Tallandier. II. 156. 1929. em línguas nacionais.

Richard Hooker (The Laws of Ecclesiastical Polity. Como a teoria tivesse. onde a auto ridade espiritual era o Sol. As soluções propostas. Tête de Feuilles / Sirac. 1978. 165 Aqui compreendemos. Paris. l he deram esses poderes divinos. de repente. reunidos no Parlamento (como outrora os cardeais em concílio). como mostrou Bertrand de Jouvenel 164. automaticamente. a ascensão do rei se faz às custa s da nobreza: o rei. de qualquer s anção religiosa. muitos outros pontos fracos. mas ninguém pôde recorrer a este exemp lo porque a nova concepção era inexpressável no velho linguajar astrológico. tomam duas direções. Mas. Genève. e tudo aquilo enfim que se consubstancia no t ermo “religião” —. pela simples razão de que não tem solução: se não há nenhuma instância superior ao poder — uma tradição.144 OLAVO DE CARVALHO Como não poderia deixar de ser. ou mel hor. teve as maiores dificuldades para conciliar suas idéias com o simb olismo astral. nos impingem enfim a noção de que os reis governam por direito divino inerente às sua s ilustres pessoas e à natureza das coisas — e independente. usara explicitamente essa imagem. V. além desse. que era louco por astrologia. Parlamento quer dizer: a classe política. 1945. sua proclamação inaugura uma série infindável de discussões que se prolongam até hoje: Quem faz o rei? Quem faz a le i? A lei faz o rei ou o rei faz a lei? Se o rei faz a lei que manda no rei. apelando à idéia do Parlamento. Histoire Naturelle de sa Croissance. uma crença comum impe . o expediente auto-engrandecedor de um assassino insano adquire uma aparência de dignidade inte lectual nas filosofias políticas de Jean Bodin (Six Livres de la République. representando a nação. era preciso que ele mesmo tivesse atributos divinos. res olvem a coisa por um jogo de palavras: quem manda é o rei com o Parlamento. e então se repete fatal mente. para que o Parlamento. e o poder temporal a Lua 163. era bisneto de Vênus. o resultado. Hachette. 1576). contribuiu um bocado para a emergência da moderna intelectualidade leiga e materialista. o rei não manda nada. O que nenhum dos teóricos da monarquia divina sequer reparou é que a junção indissolúvel. afinal. Bodin. valores sedimentados na cultura. O assunto é estudado por Gilbert Durand em Science de l’Homme et Tradition. teorizado às pressas ex post facto. Os ingleses. uma leitura absolutamente essenc ial. de imediato. entre a classe política e o rei. então não há lei nenhuma. sempre muito práticos. a mesma disputa que havia entre a Igreja e o Império. não suporta a concorrência nem me smo daqueles que. 1580). César. A conseqüência imediata é que. o debate prossegue até hoje. Paris. dizendo que não há outra fonte da lei senão a vontade do soberano. Th omas Hobbes engrossa o caldo logo de vez. que. éd. de autoridade espiritual e poder temporal. o rei no Parlamento. os homens importantes que representam ou dizem representar a população. Hooker e outros procuram moderar os excessos da au toridade real. Se um outro faz a lei. numa bula cujo título não me ocorre. cada reizinho que saltasse a janela p ara degolar no leito os adversários se equiparava. a Moisés. Bertrand de Jouvenel. E eis que a pretensão 164 Inocêncio III. consagrando-a como expressão por assim dizer oficializada da doutrina. então a disputa entre as facções do poder pode prosseguir indefinidamente: vença o rei ou 163 vença o Parlamento.. Com outras denominações — E xecutivo e Legislativo —. numa só pessoa. Thomas Smith (De repub lica anglorum. os novos intelectuais logo se apressam em erigir e m norma e ideal o fato consumado. Bodin. será sempre o fortalecimento ilimitado do poder 165. Ora. entre muitos floreados e um semnúmero de idéias valiosas. estabelecendo uma linha demarcatória demasiado rígida entre ciências sac ras e profanas. portanto. 1972 — um clássico. formava a síntese solilunar que constitui a autoridade profética. Pela nova teoria. por toda parte. p udesse coroar o reiprofeta. Le Pouvoir. 1583). — Aliás o mesmo Inocêncio III. a que nem mesmo os papas t inham ousado se ombrear. investido de poderes divinos. nouv. e todas as discussões teóricas não passarão de adornos acadêmicos da tirania. outra causa do fracasso do Império mediev .

tinha obtido tamanho sucesso durante os seis primeiros séculos. Por que gerá-lo tão cedo? Por que não esperar que a cristianização. lenta e naturalmente. sem poder temp oral. em seguida ficou dividida entre a necessid ade de passar o abacaxi aos leigos e o temor de uma nova perseguição religiosa sob o reinado de um César de sua própria criação. por que não po dia simplesmente continuar cristianizando a Europa. Se os brasileiros já existissem naquela época. O que me pergunto.al: numa Europa insuficientemente cristianizada. o clero descera ao exercício do poder temporal. desse frutos políticos menos amargos? Não sei a resposta. veriam um sinal premonitório no fato de o primeiro candidato a imperador se chamar . Pepino! . a autoridade espiritual não vigor ava plenamente. mas uma coisa é certa: a Igreja não se mete u nos assuntos políticos por iniciativa própria. a o mesmo tempo que procurava livrar-se dele e transferi-lo a um Império. sem encontrar resposta.. com toda a paciência. é: se a Igreja. em resultado.. deixando que César cuidasse de César? O Império abortou porque nasceu prematuro. mas foi metida neles pelo curso dos eventos: queda do Império. forçava para retomá-lo sempre que o Império escapava ao seu controle. e neste vaivém passaram-se m il anos. vacância de ant igas lideranças religiosas bárbaras etc.. necessidade de improvisar uma administração. e.

mas a individualização vivente de um corpo místico. uma nova encarnação do Logos divino. de fato. se multiplicassem rapidamente e saíssem p elo mundo. houve. Tudo contribui.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 145 doida encontra um precedente teórico venerável: antes mesmo de que Henrique VIII ung isse sua própria cabeça com o óleo da herança mosaica. Henrique. fora um precursor: sua doutrina pressupunha um tipo de Estado nacional que na Itália de então só existia em p rojeto. tudo o que encontrasse pela frente. onde quer que viesse a a portar. desceu as costas da Índia. a socie dade civil e política representada no Parlamento pelos nobres. é o braço armado da doutrina de Fortescue. r ealizado o milagre: de uma unidade provisória e mais ou menos convencional. para em seguida ir tomando todo o territory e embolsando todos os lu cros do trade. E quem é que ia recusar o diálogo. omo o próprio demônio informasse que “meu nome é Legião”. investidos da missão sublime de impor seu jugo suave de Bons Pastores a quantos índios pelados ficassem na mira dos canhões. na África e nas Índias. é claro. para o fortalecimento do poder: se o rei é fonte da lei. ao sustentar que a nação. fundador do moderno E stado sacro. a nação de repente se ergue às alturas de uma realidade celeste. A N . finalmente. Carl J. com o aval do Parlamento. Zahar.. cada qual conc orrente a Império. que continuou inca paz de formar um verdadeiro Estado nacional até o século XIX. cada qual. a uma altura dessas? A proposta era simples e esquemática: dessem a Afonso tudo o que ti nham. sua disposição de dialogar. e eis aí. Desde a política de terra-arrasada de Hernán Cortez até a perfídi a dos ingleses risonhos que desembarcavam na Índia com cartazes dizendo Trade. eterna como um arquétipo platônico. Numa inversão simétrica da expansão cristã dos seis primeiros séculos. Por intermédio do Rei autodivinizado. cada qual instalado bonitinho em seu tr ono europeu. os cristianismos imperia is inaugurarão uma modalidade de sacrifício comproporcionada à mentalidade dos novos t empos: o martírio dos outros. sua palavr a é final. Cap. ao contrário. e fora da Itália. E. Perspectiva Histórica da Filosofia do Direito. Álvaro Cabral. doravante. considerado geralmente o primeiro codificador de conjunto da t eoria política inglesa. o mundo alcança então o estágio de maturidade cínica necessário par a que. fala a própria boca de Deus. Friedrich. já havia resolvido o problema. Afonso de Albuquerque. Isaacs e Jacós. Seus discípulos surgirão na geração seguinte. razão de Estado: essas idéias são mais ou menos absorvidas por todas as potências emergentes. com um punhado de soldados. missão imperial das nações. então. Depois desembarcava num ponto qual quer e mandava cortar algumas centenas de narizes. Maquiavel. diferentes gradações de maldade. e Erich Voegelin. culto n acional. uma pessoa ungida e sagrada pela qual. Portugal foi o primeiro. um corpo místico. a ditar suas palavras direta166 mente para os novos Abraões. sem desembarc ar. feita à custa do sangue dos mártires. trad. as idéias de Maquiavel sobre a razão de Estado pudessem sair do p apel e tornar-se prática generalizada. Rei-sacerdote. sacralidade do corpo político. para em seguida fazer saber acima de qualquer dúvida. até garantir que. Nem todos os conquistadores foram igualmente cruéis. das atrocidades européias nas Américas. 1470). e i nvestida do prestígio aterrador das coisas sacras. é nada menos que um c orpo místico. mutável e perecível ao sabor das guerras e acordos interdinásticos. de um só golpe. Se. Rio. bem conhecido. então o rei não é um simples man datário. IX. como pretende Hobbes. ao governo local. 1965. Sir John Fortescue (De laudibus l egum Angliæ. v.. cada qual imbuído de sua verdade eterna. Apela-se portanto à velha idéia de Fortescue. Mas essa maldade seria tanta. dando logo aos outros uma lição prática de como “dilatar a Fé e o Império”. Não é preciso repassar aqui o rosário. metafísica. seguidas da dupla e correspon dente quantidade de orelhas. é o Parlamento que o legitima. exatamente no sentido em que o conjunto dos fiéis forma o corpo místico de Cristo 166. como a Bíblia já houvesse advertido que “os deuses das nações são demônios”. not territory. bombardeando. sua fama já tivesse chegado antes dele. a epopéia da “cristianização” estaria a tal ponto imersa em sangue 167 Sobre Sir John Fortescue. não é de espantar que os corpos mís . e ele garantia que os restantes narizes e orelhas permaneceriam saudavelme nte atados a seus lugares de origem 167.

Afonso de A lbuquerque. 1953. Civilização. 3ª ed. José Francisco dos Santos. trad. .ova Ciência da Política. O Sonho da Índia. Lisboa. O volume faz parte de uma série notável que a autora consagrou à história dos de scobrimentos portugueses. cit. Elaine Sanceau. op. v. Sobre os métodos persuasivos do Albuquerque terríbil. .

que César é maior que Cristo. de um lado. Mas a aristocracia. mediante a farsa do “corpo místico” nacional. e. tendo vivido por doze séculos num matrimônio sadomasoquista co m o clero. Por volta de 1500. A Concordata com o Vaticano manifesta essa fraqueza. Assumir. da autoridade espiritual. se na segunda conseguira driblar a própria Igreja mediante a ousadia blasfema de fazer o rei e futuro imperador passar como encarnação do próprio Cristo. cristianizada. em m uitas versões nacionais: numa terceira translatio imperii. cresceu bebendo o sangue dos inocentes. com efeito. que. a instauração de novas leis. agora ela jogará a cartada mais alta. fazer do Império como tal a única divindade. de novos valores. dos Césares. renasce. Mas a idéia de Império não cai co m elas. Napoleão foi vencido menos pelas tropas de Wellington e Blücher do que pel a contradição intrínseca que viciava na base o seu projeto: ele procurou. Em segunda versão. a apropriação indébita do sonho imperial por nações ambiciosas corrompidas pelo auto-engano de uma falsa consciência religiosa? A pergunta toca no ponto mais doloroso e talvez no centro mesmo da história das o rigens da modernidade: quando o poder monárquico de todas as nações segue o exemplo do assassino delirante que usurpa a coroa do próprio Cristo. com efeito. salvando-se através de uma nova metamorfose. Napoleão sintetiza. fiel à sua vocação de origem. Passados três séculos. enfim. o Império europeu dá lugar aos Impérios coloniais. multiplicada. num novo banho de sangue que ultrapassa em poucos meses todo o horror dos feitos imperiais d’além-mar. terminou por rest aurá-lo dentro das próprias fronteiras do Império. A idéia de Império Ocidental vem de Roma. consistindo por essência numa eliminação do poder clerical. como aliás é próprio dos fantasmas. esse calcanharde-aquiles do projeto napoleôni co. o que pudesse ainda haver de cristianismo residual pudesse ser facilmente absor vido e laicizado sob a forma de “direitos e deveres do cidadão”. o domínio sobre as consciênci as. que mais se pode espera r do curso posterior dos acontecimentos? O Estado moderno nasceu de uma farsa de moníaca e. o domínio do mundo. sua sobrevivência dependia portant o de um imobilismo social incompatível com as mudanças cataclísmicas que o próprio Bonap arte. Resistente a toda debilitação orgânica. Ademais. ao mesmo tempo que. de outro. do outro lado do Oceano. vem a R lução. uma aristocracia hereditária e militar. como braço armado da Revolução. Ilimitada em do is sentidos: para fora. e inaugura o primeiro Império não-cristão do Ocidente. Seguem-s e três séculos de matanças nas Américas. mesmo enxertad a de novos componentes retirados das tropas ou da parentela napoleônica. uma nova . tinha ajudado a precipitar. segundo o projeto de Hegel. ainda mais surpreendente do que a anterior. um a aristocracia de sangue é sempre um poder de tipo feudal. E esta fraqueza most ra que Napoleão entreviu apenas obscuramente aquilo que. na África e na Índia. a essência mesma do projeto napoleônico: desvincular o Império de seu compromisso com a Cristandade. a Revolução. a contradição entre clero e nobreza é resolvida pela absorção. incapaz de resolver sua contradição originária entre o modelo romano e a duplicidade Ocidental d as castas clerical e aristocrática. no Es tado. onde. reaparece no ano 800 e vive até 1500 de crise em crise. para dentro. Eis aí a verdadeir a originalidade. Aufheben — “absorver e su perar” — é o termo de Hegel: o Code civil de Napoleão é a Aufhebung imperial e leiga da mo ral cristã. o Antigo Regime. construir o I mpério leigo conservando a estrutura de poder do Antigo Regime — basic amente. àquela altura já abalado até as raízes pela ascensão da nova classe capitalista. o clero c onspirava com os príncipes ingleses e alemães para a derrubada do Império. fora. as du as correntes de idéias que marcam. ela perv ive. Se na primeira crise ela se safara tratando de infiltrar-se na Igrej a a título de “Império cristão”. as monarquias começam a cair. Recapitulemos. Eis a missão de Napoleão Bonaparte. liberá-lo para a expansão ilimitada. era sempr e uma aristocracia — e. não podia repentinamente acostumar-se à solidão do divórcio. chegando aos últimos limites do que a audácia mais demente pudesse conceber: dispensar toda legitimação religiosa mesmo farsesca. Ele sintetiza o projeto imperial do Antigo Regime com a ideologia anticristã dos revolucionários.146 OLAVO DE CARVALHO se seu ponto de partida não fosse. como o foi.

.

Guerra com a Espanha. dizendo: “Oba. em extensão da linha de combate e no número de mortos. Edilson Alkmin Cunha. O Império contra-ataca “ The Almighty has made choice of the present generation to erect the American Emp ire. Construção do Canal do Panamá. e só interrompida temporariamente pela Guerra Civil. entre peri gos e esforços sobre-humanos. Intervenção branc a na Califórnia. o impulso colonizador se transforma quase que naturalmente em impulso imperialista. 1845. maçônica e protest ante: é a definição dos Estados Unidos. Essa vocação manifesta-se com uma força de uma decisão madura já na infância da nação america mediante uma seqüência de feitos militares e diplomáticos que estendem desde logo o r aio de ação dos Estados Unidos por uma área bem maior do que a ocupada até então pelos Impér ios coloniais europeus. Compra da Louisiana. Guerra com o México. onde somente a inter venção americana decidira o curso dos acontecimentos. 168 Cit. Ajuda. discreta mas dec isiva.” § 28. à Revolução Francesa. capitalista. Mesmo após a Guerra de 14. Intervenção em Cuba. 1906. de que havia nascido aquele que Deu s predestinara para ser o seu coveiro? A cegueira dos homens de Estado para os r umos mais óbvios da História chega a ser às vezes mais notável do que os lampejos de visão profética dos homens de inteligência. A vocação imperial norte-americana não nasceu junto com os Estados Unidos: nasceu ante s. Anexação do Texas. ao longo de três séculos. trad. to be the most glorious of any upon record. Um povo não se expande por todo um continente. Instalação de ponta-de-lança no Japão. 1854.. Tentativa (fracassada) d e invasão do Canadá. em Raymond Aron. República imperial. p. República Imperial. Com pra do Alasca. no ano de 1776 168. Anexação das Filipinas. se dar por satisfeito e instalar-se de uma vez para sempre na mold ura desses limites. e. diante de fatos dessa envergadura. Presidente do Tribunal de Justiça da Carolina do Sul.” WILLIAM HENRY DRAYT ON. tão logo Wilson abandonou a Liga das Nações. Doutrina Monroe. com as velhas aristocracias. capazes de manter a águia norteamericana a uma higiênica dis tância dos assuntos de gente grande. Como foi possível que. disposto a daí por diante só crescer para dentro. maçônica e protestante. Rio. por isto mesmo. de imediato. É uma carreira comparável à das maiores potências europé da época. 1812. Zahar. todas as g uerras da História. .. 1867. esses imbecis ainda se acredit avam senhores do mundo. Mas mesmo esta era u m sinal: superava. Os Estados Unidos no Mundo do Pós-Guerra. Ele necessitava apoiar-se numa nova cla sse social. nem. enganamos esse tro uxa. A escalada é impressionante: 1793. 21. os esperti nhos esfregaram as mãos com um sorriso maquiavélico. dei xando os aliados livres para repartirem a seu bel-prazer o bolo alemão. Ao contrário: tão logo se sente senhor de seu território. republicana. 1975. 1823. 1803. And thus suddenly arised in the world a new Empire that bids fair. uma vez chegado às fronteiras naturais ou legais do território. 1846. numa nova instituição religiosa que fosse intrinsecamente ligada ao Estado: César só poderia ressuscitar sob forma capitalista . para. as potên cias européias não se dessem conta. 1898. numa nova estrutura de poder. by the blessing of God.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 147 potência emergente acabara de perceber com total clareza e de maneira definitiva: o Império leigo não podia ter um resíduo sequer de compromisso com a Igreja.

Tão diferente. “nação”. Eurocentrismo não é a causa do fenômeno: é simplesmente o nome dele. de fato. a seu destino manifesto 170 de suprema potência imperial do mundo. impedindo o observador de enxergar. portanto. preferindo a penetração comercial às intervenções militares 169. Do ponto de vista europeu. a carne dos vencidos e o pão dos vencedo res menores: um obscuro assessor jurídico da Marinha. entre os fatos contraditórios. 1984. capaz de influ enciar as decisões do Estado ou combatê-las. p. no banquete de Yalta. o que se passava nos EUA. uma política i mperial coerente e contínua. no segundo. Tindall and David E. as causas de sua destruição 1 71. e já não era mais que uma vaga lembrança. 2nd. conduzia os Estados Unidos. Com efeito. operando por cima — ou por baixo — das intenções dec laradas dos homens e dos grupos. Em terceiro lugar. era o perigo da Revolução. a linha de uma dialética histórica que. os interesses priv ados. a nação norte-americana formara-se numa revolução antiimperial e professa va uma doutrina anti-imperialista. através dessas contra dições mesmas.. paralisando-as. só pode ter sido por uma razão: porque aquilo que ali acontecia era diferente de tudo o mais. Sem a unidade da p essoa do Imperador — assim entendiam — não podia haver a unidade de uma política imperia l coerente. tão original. em George B. que voltava as costas para o mundo. de imediato. etapa superior do capitalismo”. vaci lavam ao choque de tremendas oposições internas. ed. Estes enxertos antagonísticos deram-lhe vi da nova. os EUA não eram só uma nação democrática. os Estados Unidos não tinham. Se isto representava um perigo. as grandes empresas. Se não enxergaram. no primeiro caso. Roosevelt. 170 Manifest destiny: expressão usada e m 1845 pelo editor John Louis O’Sullivan e que se tornaria célebre como símbolo do espír ito expansionista: “Our manifest destiny is to overspread the continent alloted by Providence for the free development of our yearly multiplying millions” ( cit. que o aparelho ótico europeu não tinha sensibilidade para o tipo de estímulos que dali provinham. os termos de uma contradição real permanece . Norton. tinha fracassado redondamente l ogo no seu primeiro século. No meu entender. os Estados Unidos eram uma nação democrática: a política nacional era fruto de complic adas discussões parlamentares que podiam adiar uma decisão por anos a fio. era impossível imaginar uma política imperial sem um Imperador autocrático. mas uma metamorfose da idéia imperial — metamorfose que a torna va irreconhecível. a longo prazo. a Holanda. Além dist o. na maior parte dos casos. que estou racioci nando à maneira de Hegel. por trás da agitação republicana. Não en xergaram a potência imperial nascente. tanto que dominavam essas regiões com a desenvoltura de joga dores habilíssimos. o fenômeno america no era invisível porque era impensável: faltavam-lhe as categorias para pensá-lo. Em segundo lugar . Os intere sses privados. Shi. é precis o ver que ela tem algo em comum com as duas anteriores. Freqüentemente subia ao poder uma cor rente isolacionista. 333 ). A única República Imperial que conheciam. aos observadores habituados a pensá-la sob sua velha forma. 171 Que ninguém pense. America. Em p rimeiro lugar. Tanta cegueira tem de ter um motivo. tinham ali um poder tremendo. estivesse nascendo um novo Império. New York. eles não eram tão eurocêntricos assim: compreendiam perfeitamente bem o que se pass ava na África ou na Ásia. Franklin D. ao mesmo tempo que constituíram. Para a velha mentalidade. Esses dados formavam um a névoa confusa. porque ela não representava apenas u m novo imperialismo. Teria sido preciso ser mais maquiavélico do que Maquiavel para supor que . Bobagem tentar explicá-la somente por um mórbido eur ocentrismo. 169 O que já bastaria para chacoalhar até os alicerces a teoria de Hobson e Lênin sobre “o i mperialismo. nas duas oca siões anteriores o Império renasceu ao fundir-se com idéias que lhe eram contrárias: “cris tianismo”. Em quarto lugar. Para compreender essa metamorfose — a terceira da história Ocidental —. Suas iniciativas no Exterior eram intermitentes. habituado por três séculos a identificar imperialismo e monarquia absoluta.148 OLAVO DE CARVALHO Santa ilusão! Na comitiva mesma de Wilson já se encontrava aquele que um dia viria a repartir com Stálin. Ora. em suma. por favor. mas também capitalista. A narrative History. se opunham às iniciativas expansionistas do Estado .

a não ser meta fisicamente. em sucessivos arranjos ad aptativos — que constituem precisamente o seu desenvolvimento quantitativo e tempo ral —. até que. no plano do Ser universal. As grandes criações históricas constituem.m contraditórios e jamais são perfeitamente absorvidos em síntese alguma. exigências que só podem ser conciliadas n a esfera metafísica. o conjunto . precisamente. tentativas de co nciliar. no plano da existência contingente. As formas daí resultantes são sempre t ensionais: suas contradições constitutivas mudam de forma. exaurida uma certa linha de adaptações possíveis.

” Wars chauer-Waremme. e morre quando se exaurem suas possibilidades de dar a esse conflito uma form a viável e produtiva. nada me restava a fazer senão levantar acampamento e abandonar o país levando comigo essa metade inanimada de mim mesmo. se pode funcionar como símbolo ou metáfora de certas realidades metafísicas que fatalm ente temos de tentar alcançar por símbolos. sucedâneo do Heptameron bíblico. 172 É claro que não se trata. os Impérios coloniais modernos constituíram-se com o verdadeiros “impérios nacionais” — uma contradição de termos que expressa a contradição rea ntre a escala multinacional do projeto e o interesse nacional a que ele unilater almente serve: daí que. trad. de outro. que ele copiava. no mais ousado dos arranjos. Mais adiante. como o exige o conceito imperial originário. no momento. mas simplesmente um outro c onceito abstratista e demasiado simplificador. classes etc. Eis então que o maior dos Impérios nasce invisível àqueles que pode riam tê-lo destruído no berço. fundir essa idéia com aquelas que. famílias. explo diria no fim do século XVIII. pareciam mais antagônicas ao espírito das velhas monarquias: independênci a. de JAKOB passa por uma metamorfose global ou morre ( isto supondo-se que causas externas mais poderosas não o matem antes ). já que escapam à esfera da experiência sensível não serve de nada como tradução do movimento real da História. os im périos coloniais modernos nada mais fossem que a escravização organizada de vários povos em proveito de um só. Para o oeste. sem exceção. democracia. assim. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) “Eu não sou Cristo. Kolakowski acertou na mosca ao enfatizar as origens místicas da dialética de Hegel e Marx ( v.. Pelo contrário . Alianza. era um homem acabado nessa época. posto de lado como em obediência a uma senha. É uma negação ostensiva da versão monárquicoabsolutista da idéia imperial. § 29. república. que ele falsifica dando metafisicamente um sumiço no fator “contingência” e transformando a incerta e movediça suc essão dos atos humanos numa escala regular de emanações divinas. Esta contradição. na base. é também uma ingenuidade supor que a mera inversão operada por Marx possa con sertar as coisas. Afinal. em nenhum desses casos. livre-pensamento. na sua complexidade por vezes inabarcável.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 149 A contradição constitutiva do primeiro Império cristão foi. como vimos. portanto. Tal é o pressuposto lógico que embasa as análises qu e aqui vou fazendo: de um lado. é som e em prol da brevidade. o que Marx colocou no lugar do “conceito” hegeliano não fora m os fatos. “Our Constitution was made only for a moral and religious people. pa rtidos. Se me refiro de modo sumário a “contradições de idéias”. e sim de conflitos reais entre facções. provisória e. 1976 ). a mistura hegeliana do ideal com o real não é aceitável. de uma pura contradição lógica entre conceitos. Las Corrientes Principales del Marxismo. Jorge Vigil. sempre para o oeste. It is wholly ina . portanto. o modelo romano d e Império. tensional ( reconhecimen to que falta em Marx ). I. o esquema tese-antítese-síntese continua sempre um esquema. em vez de conciliar e administrar os interesses de vários po vos numa unidade transnacional. para não dizer simplório: “materializad o” o quanto se queira. Se. Como Moisés na sua cestinha ou Cristo no estábulo. A nova metamorfose que inaugura o Império americano é uma resposta imediata à crise do domínio colonial. como Joana a Louca com o cadáver do esposo. menos a p romessa de um Império. manejada habilmente por trezentos anos. Para quem não compreendia a idéia imperial senão associada às monarquias absolutas. ressuscitar a filha de Jairo não estava em meu poder. não prestava mais nem para ser lançado aos cães. com a sucessão de guerras de independência que viriam a destruir todos os impérios coloniais. esses termos podiam conter tudo. não existe síntese senão potencial. Ela vai. em O Processo Maurizius. a distinção entre dialética real e dialética ideal ( dis tinção que Hegel não faz ). que a existência d e uma “Igreja” independente dele e superior a ele negava. na esfera da dialética re al. no prazo que vai da Independência nor te-americana à morte de Antonio de Oliveira Salazar (1975) 172. t . portanto.. o Império cresce movido pelo conflito com a Igrej a. W ASSERMANN 173. e. Madrid. o reconhecimento de que.

dequate to the government of any other. Octávio de Faria e Adonias Filho. . 1963. Rio. pois era disto que eu vinha falando no § 27). incorporando em si sob uma 173 Trad. que. Civilização Brasileira. iria realizar o projeto em que Napoleão falhara: o Império leigo.” JOHN A DAMS A quarta translatio imperii. trazendo o centro do poder para o novo continente ( não o esqueça o leitor.

s e iria consolidar na forma de moral estatal democrática. que pretenderam usá-la para fins diversos. a religião do Novo Mundo é maçônica. no sentido de um anticristianismo rasteiro sugerido pelas falas de próceres maçônicos de uma época muito posterior. principalmente quando atravessam as gerações e os séculos e não têm. O terceiro omite o fato. surgiam conspirações e segredos. há engano e má-fé em ex do o enfraquecimento do espírito cristão no mundo como efeito de uma conspiração maçônica 17 5. prestar satisfações à Maçonaria ou enfrentar a Maçonaria. essa “metade inanimada” de Cr istianismo. A carreira de Fernando Henrique Cardoso — o político ruim de voto que. assume como seus os feitos que lhe são. Im porta agora delinear os princípios do Evangelho que. por um misto de fraqueza e vanglória. Cia. atribuídos por seus adversários: comentando o livro de Albert Lantoine . a resguardar-lhes a continuidade e a unida de. mas absolutamente ninguém faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar para a Maçonaria. e que gênero de sacrifício se ofic iava no altar do MASP.176 Enfim. René Guénon louva-o “lorsqu’il démolit la légende qui veut qui la Maçonnerie a t joué un rôle considérable dans la préparation de la Révolution. de que a própria Maçonaria foi alvo de conspirações. inicialmente implantada em território norte-americano. qui doit sa naissance à des écrivains antimaçonniques tels que l’abbé Barruel. múlti plo e incontrolável que assumem os empreendimentos secretos. em atrib ir à ação maçônica no mundo uma unidade de intenções e de estratégia. 106 ). historicamente comprovado. Paris. há evidente mistificação em interpretar toda a simbólica maçônica. 174 Pelo lado adversário. tudo aquilo que dá certo é atribuído à ação genial da M naria 174. movido por um intuito de interpretar as coisas pr econceituosamente. car. já no século XX. 1936 ). a idéia mesma de conferir a uma sociedade secreta a unidade doutrinal trolhas ao lado dos generais estrelados. pois como poderia estar integralmente comprometida com a Revolução a entidad e que tinha entre seus membros de destaque um Saint-Martin. par les Maçons eux-mêmes” ( Études sur la FrancMaçonnerie et le Compagnonnage. ou má-fé. entre apóstolos e adversários dessa organização. pertencem a alguma loja maçônica. O segundo negligencia o curso freqüentemente caótico. que um rito basta par a desfazer em fumaça. assumiria o encargo de s ubstituir a Igreja — todas as igrejas — na condução da vida interior das gentes. numa pirâmide invertida onde a t reva mais densa assombrava e governava a menos densa. Só que.. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française: La FrancMaçonnerie dans l’État ( Paris. a fini par être adoptée. Éditions Traditionnelles. p. senão a força sutil e às vezes apenas simbólica dos egregoroi. O primeiro desses três erros. Aí veremos de qual culto é sacerdote o iogue-comissário. 1977. um De Maistre? 175 É a tese característica de Gustavo Barroso.. como nova religião da humanidade. cet te légende. t. se possível. a mistificação toma a forma de especulações fantásticas sobre a antigüidade maçônica — abusando de analogias que são tomadas por identidades históricas — e e um jogo duplo na ocultação-revelação do papel desempenhado pela entidade nos lances de cisivos da História: os projetos de risco são ocultados sob o manto da discrição. descarnado e desvitalizado. nin guém.. O fato é demasiad notório para que seja preciso demonstrá-lo. 3 vols. beaucoup plus tard. por sua vez. talve z falsamente. recebendo a iniciação maçônica. mutila e comprime a linguagem simbólica num unimensionalismo qu e nada poderia justificar. Émile N ourry. divisões e ataques de organizações ainda mais se retas. Em primeiro lugar. quando não da secretude. História Secreta do Brasil. para em seguida ser expandida para todo o mundo. O Oriental também. há engano. e de que dentro dessas mesmas or ganizações. mas.150 OLAVO DE CARVALHO forma laicizada e desespiritualizada os valores cristãos. incl sive a das iniciações de ofícios. I. chose curieuse. sem exceção. Entre os primeiros. Sim. e de un ificar sob a nova religião laica o mundo Ocidental. Mais espantoso ainda é quando a entidade. em poucos anos chega à presid ia vencendo a candidatura aparentemente imbatível de Luís Inácio Lula da Silva — ilustra -o novamente. Desse momento em diante. E . a posteriori. mais são os interessa dos em mistificar do que em esclarecer o seu papel na história espiritual da human idade. Todos os signatários da Declaração da Independência.

. O autor. With a New Introductio n by the Publishers.ditora Nacional. a Maçonaria assumiu sua participação na autoria do evento. por falta de método científico e espírito filosófico. com o regime militar já mais que consolidado. John Robis on. 176 V. Western Islands. dirige-se a seus pares para denunciar a infiltração de membr os de uma outra organização secreta — os Exemplo: Só no décimo ano do golpe de abril de 1964. Mass. de tirar conclusões sólidas das informações de que dispunha. Belmont. com os grão-mest res desfilando de aventais e . Acho que nunca houve no Brasil um pesquisador tão bem infor mado sobre sociedades secretas e tão incapaz. Proofs of a Conspiracy. Originally Published in 1798. 1967. alto dignitár io da Maçonaria escocesa. 1937.

se queixava de que parecia haver. encontrou a organização num estado de vácuo doutrinal. 178 A polêmica católica contra René Guénon continua impressionando pela sua incapacidade de enfrentá-lo no terreno propr iamente metafísico. No fundo. de pertencer ao círculo dos eleitos que. René Guénon. então é totalmente falso o pre ssuposto. só não sabe por que. transla ted from the French. o corpo de membros da Maçonaria. nem mesmo seus concorr entes da escola schuoniana — é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das “possibilidades de não-manifestação”. Ao contrário. pronta a ceder lugar a out ra na época seguinte 177. às vezes até justo. que tentam ciscar nas palavras dos próceres maçônicos os elementos com que possam compor uma doutrina maçônica. bem como sua via de conciliação. que aqui não nos interessam absolutamente. Assim como Daniélou. o que se observa é a ascen são de uma aristocracia iniciática. Kenek Books. New York. a toda tentativa de con trole externo. o revolucionário itali ano Giuseppe Mazzini. O ponto-chave dos erros d e Guénon — que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado. cujo poder. estes sim. se de fato é assim. Daniélou quanto ao simbolismo da cruz mo stram apenas uma inferioridade de QI. Mons. da divisão e da suspeita que afeta a queles mesmos que o servem. como o de qualquer outra sociedade secreta. são inteiramente infrutíferos. a toda crítica.. Dupanloup. e qu e. fortalecido pela disciplina do segre do. pela ampliação dos meios de participação do p vo no poder. não são metafisicamente válidos. Study of Freemasonry. que uma profusão de ritos e símbolos. mas pela eficácia do caos. há na organização uns quan os traços puramente formais e estruturais que. sabem o que se passa e para onde as coisas vão. por exemp lo. Mas. acima da organização. uma outra mais secr eta que a manipulava. modelando a mentalidade dos fundadores do Império americano. é uma aristocracia. A aristocracia de sangue não é senão o resíduo multissecu . aliada a uma retórica sufocante. A seleção rigorosa. Antes de tudo. Guénon preenche esse vácuo com a mais densa metafísica. manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo. Ante nossos olhos? Não. filiando-o a uma tradição imemorial e dando-lhe o sentimento. Explico isto mais extensam ente em meu Diário Filosófico. a doutrina dominante na Maçonaria de uma dada época. no entanto. ainda que filosoficamente respeitáveis. pela eliminação progressiva do resíduo aristocrático.. 177 V. Esoterismo e democracia são termos a ntagônicos como segredo e difusão. ao maçonismo guénoniano os argumentos de Mons. imprimirão sua marca no mundo todo que este vai forjando ante nossos olhos. O grande reformador maçônico do século XX. na melhor das hipóte ses. tendo conseguido galgar altos postos na hierarquia dos Ill uminati. Dupanloup já nada têm a opor 178. pois a doutrina assim encontrada é apenas uma dentre muitas possíveis. por trás da variedade mirífic a das idéias maçônicas. Dupanloup. As célebres objeções de Mons. Illuminati da Baviera — nas fileiras da entidade. os ritos iniciáticos. por trás da agitação cega e vã dos átomos anônimos. O mais irôni co de tudo é que o lado cristão está certo. O jogos de esconde-esconde entre sociedades secretas ant eciparam todas as práticas que no século XX seriam adotadas pelos serviços secretos es tatais. Empreendimentos como o de Mons. todas as aristocracias tiveram um forte elemento esotéric o e iniciático nas suas origens. se furta por completo a toda fiscalização. Bem. — Mais tarde. a disciplina do segredo e a obediência a uma hierarquia secreta separam o iniciado do comum dos mo rtais. Paul Sérant e outros adve rsários católicos de Guénon fogem para o terreno teológico e moral.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 151 e administrativa de uma Igreja é de um ridículo sem par. de que a modernidade se ca racteriza pela democratização da vida política. tanto na Revolução Francesa quanto no nascimento do Império Americano. aceito pela maioria dos teóricos há dois séculos. historicam ente. Bishop of Orleans. são constantes pelo menos desde o século XVIII 179. Mas. De ntro de nossos cérebros. para em seguida melhor combatê-la no campo dos argumento s lógicos. só bastava para disfarçar ante os intelectos menos exigentes . é. 1876. onde se sentem abrig ados sob pressupostos de fé que. Esclarecida e derrubada esta doutrina i ntrinsecamente absurda. O secreto não age. em linha reta.

As ordens de cavalaria nunca foram simples organizações militares. mas sociedades iniciáticas. Cap. trad.lar de uma casta que no início recrutava os seus membros segundo critérios seletivos e triagens iniciáticas bem semelhantes aos da Maçonaria ou de qualquer outra socied ade do gênero. São Paulo. 1979. . I. Jean Palou. cujos ritos e símbolos remanescentes nos permitem adivinhar as profundidades insondáveis do mistério espiritual que continham. 179 V. Pensamento. Edilson Alkmin Cunha. A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática.

Ela define-se pelos seguintes traços: 1ª Substituição das anti gas aristocracias de sangue pela nova aristocracia iniciática. . não é fazer da Maçonaria o demiurgo invisível e onividente que move os cordões de tudo o que acontece. dos movimentos de protesto e da cultura da reclamação não abala no mais mínimo que seja o poder das velhas oligarquias. sem perceber que as raízes dele já estão no berço mesmo do novo Império. contrasta esse fenômeno com a ideologia igualitária reinante no século pas sado. onde a ampliação quase caricatural dos direitos populares. trad. o mundo de hoje. não é aderir a nenhuma interpretação conspirativa da História. pelo automatismo do hábito inconsciente e independenteme nte das inten180 ções de quem quer que seja. Rodrigues. que. de seus noviços a ritos de iniciação.152 OLAVO DE CARVALHO O crescimento da Maçonaria no século XVIII. Rito significa: execução imitativa e corpora l de uma cosmovisão simbólica. aliada a uma não menos formidável expansão dos direitos nominais do dominado. demarca. Este é um dos raros pontos de psicologia e teoria do conhecimento em que não há q uase desacordo. democracia de jure — uma combinação que só se tornou p ossível pela ampliação do papel desempenhado pelo secreto na vida política e social 180. Uma delas é a seguinte: aquilo que está fora do nosso círculo imaginário está for a do nosso universo conceptual 181. com o tempo. Po is a Maçonaria. a Revolução Francesa e o nascimento do Império Americano não marcam assim a extinção do poder aristocrático. à ab ginativa. d evo optar por esta última alternativa. tomando-o como uma novidade radical. de um a vez para sempre. quer compreendida ou não. Resumindo: aristocracia de facto. Fraternidade iniciática significa: sujeição de seus postulantes a uma seqüência de ritos preparatórios. de seus membros à prática de ritos regulares. Para fazer-me compreender neste particular devo reexplicar toda a cadeia de absorções e projeções cognitivas que leva da simples estimulação sensível à memória. ou devo simplesmente remet er o leitor ao meu estudo anterior Uma Filosofia Aristotélica da Cultura? Claro. antes o fortalece. no meu entender. Talita M. que atua por si. Mas — atenção — ressaltar a importância da presença maçônica na constituiç ovo Império não é atribuir paranoicamente à ação da Maçonaria a autoria do curso da História Novo Mundo. sobre a q ual e só sobre a qual — e não diretamente sobre os dados dos sentidos — pode em seguida operar-se a abstração conceitual. de Aristóteles a Jean Piaget. o quadro inteiro das possibilidades de intelecção consciente do i ndivíduo. à abstração eidética e finalmente ao discurso lógico. não é mesmo? Então digo logo: aquilo que os nossos sentidos colhem da variedade infindável do mundo é primeiro elaborado sob a forma da abstração imaginativa. é melhor enxertar aqui u m resumo daquilo cuja versão extensiva ele poderá deixar para buscar no outro mais t arde. 2ª Caráter secreto ou p elo menos discreto do novo poder aristocrático. O que acontece é qu e nem todos tiram dessas verificações as conseqüências óbvias que delas se seguem inapelav elmente. mas simplesmente sua presença na estrutura de poder do Império americano im pregna de um elemento de secretude e do espírito de um novo modelo de hierarquia s acerdotal a vida mental e política dos povos do Novo Mundo — impregnação esta que escapa totalmente ao controle da própria Maçonaria e se torna. Isto não quer dizer que não possa ser pensa181 Chistopher Lasch. de cujos produtos se comporá em seguida o raciocínio lóg ico. Ediou ro. um princípio est rutural. 1995 ). repetida. Que característica é essa? A Maçon aria reune a liberdade intelectual de uma sociedade de debates à rigidez e à discipl ina de uma fraternidade iniciática. ao assinalar o elitismo crescente na sociedade americana ( em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia. O que possibilita que as coisas transcorram assim é uma ce rta característica inerente ao poder maçônico. mas como seria estúpido sugerir que o leitor do presente livro o abandonasse pela leitura de um outro. não dirige o curso dos acontecimentos pela sua ação del iberada. 3ª Formidável concentração do poder do dom inador. É essa reciclagem que inaugura propriamente os tempos m odernos. de Tomás de Aquino a Benedetto Croce. sobre a qual talvez nem mesmo os líderes e teóricos da organização hajam nunca parado para pensar. Rio. mas uma gigantesca recicl agem da casta aristocrática. E é ela mesma que possibilita a evolução muito peculiar da nação norte-americana. de Duns Scot a Etienne Souriau e à mais recente ciência cognitiva.

isto é. em hipótese ).No sentido em que aqui emprego estes termos. ao menos logicamente. compreendido como real ( se não metafi sicamente. capto intencionalmente a essência de um ente real ( ou de um atributo real ). No conceito. cabe enfatizar a distinção entre os con ceitos e as meras definições nominais. na .

e a Susanne K. II — fundamental para a compreensão do método de in terpretação simbólica que emprego neste e em outros estudos. Jamir Martins. 1977 ). Gallimard. uma inteligente ilustração deste ponto em: Níl son José Machado. Cultrix. quanto mais frouxa e menos dogmática for a doutrina da organização. 79-100. todas já estão neutralizadas de antemão. Em lógica simbólica. Nova Stella. entre afetações de homenagem. A ima ginação é. nem da nossa vontade: depen de das formas profundamente consolidadas do nosso universo imaginário. lá dentro p ode-se discutir tudo. Nosso senso do real não depe nde nem das nossas percepções. a René Alleau ( La Science des Symboles. 1962 ). 5 (13). de compartimentos que se ignoram. pela dialética de sua própri a busca de sobrevivência. vai simplesmente para outra loja. só se usam definições nominais. conse rvando seu arsenal simbólico sob a proteção de uma impenetrável névoa doutrinal. 1971 ). dando-lhes uma imponente solidez doutrinal. por definição. nem dos nossos raciocínios. pp. em suma. Mentor Book. se discorda. meu ensaio “A dialética simbólica”.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 153 do. 1985. mas a doutrina maçônica. qualquer que seja. Langer ( Philosophy in a New Key . alimentam as dissidências e as cisões: porque cisão. em Astros e Símbolos . e Ensaios Filosóficos. isolada assepticamente. Paris. 182 V. se me perguntam como é possível que gerações e gerações de homens intelectualmente dotados consintam em viver sob o domínio de . independentemente da realidade ou irrealidade da coisa ref erida. meçam a pulular as oposições e as heresias. no sentido mais ri goroso da palavra. Solução tipicamente maçônica: se você concorda com Guénon. quan to mais liberdade de crença vigore ali dentro. A facção dissidente. perdem todo o seu mágico poder no insta nte em que se expressam na clara linguagem dos dogmas: pois a partir desse insta nte tornam-se objetos de raciocínio. as sociedades secretas. signifi ca automaticamente isolamento (os membros da loja dissidente não frequentam mais a s outras lojas) e isolamento significa: impossibilidade de um confronto direto. Ora. Cap. é o seguinte: uma sociedade iniciática. sequer. a mãe daquilo que se chama senso do real. Compreende-se portanto a extrema cau tela com que. hierarquizado e integrado dos corpos animais. mas estas não basta m para a teoria do conhecimento. os maçons do século XX receberam a contribuição doutrinal de René Guénon. New York. O guénonismo tornava as idéias maçônicas intelectualmente respeitáv is. v. que só têm em comum o fato de serem alimentadas pelo sangue de um mesmo corpo. Isto foi bastante evidente nos casos da Igreja Católica. “A alegoria em matemática”. método que deve muito a René Guénon ( Symboles de la Science Sacrée. Ao contrário das grandes organizações dogmáticas. A Maçonaria resguardou-se desse risco. para os fins da presente investigação. se existe. mais eficaz será esse controle. se for pensado. do Islam e. Mas tudo o que é sólido está sujeito a receber porradas. por exemplo. do hinduismo: quando à linguagem polissêmica dos símbolos se começa a substituir o discurso unívoco das formulações doutrinais. 1991. Rite and Art. de crítica. pode continuar integrada no conjunto: a s sociedades secretas compõem-se. ent ra numa loja guénoniana. em discussão: se todas as interpretações são válidas. trad. São Paulo. já que tem pleno domínio sobre o seu imaginário. 183 Sobre a analogia. será pensado como mera forma lógica. São Paulo. A Study in the Symbolism of Reason. apenas a intenção signif cada por uma palavra. Estudos Avançados ( USP ). está a salvo de qualquer con testação: na medida em que permanece ambígua o bastante para poder admitir todas as in terpretações. Paris. não corre o risco de entrar. porém o crescimento de tumorações variadas e independentes. que governam o imaginári o na meia-luz do implícito e do pressuposto. 1960 ). Contribution à l’Étude des Principes et des Méthodes de la Symbol ique Générale. Uma organização que timbre em defender um dogma explícito não tem outro remédio senão explicitá-lo — e os sentimentos difusos. Paris. Dervy-Livres. O resultado. a Titus Burckhardt ( Principes et Méthodes de l’Art Sacré. de assentimento ou discordância intelectual. 1948. codefinição nominal. Na verdade. Payot. Ora. aí. não tem necessidade de controlar as opi niões de seus membros. que tem todas as vantag ens em permanecer implícito. um símbolo: uma semente produtora de significados múltiplos mas a nálogos entre si 183. sem correspondência ao menos próxima com aquilo que entendemos como realidade 182. muito antes. A solução foi guenonizar logo umas três ou quatro lojas e deixar o resto exatamente como estava. Quer dizer apenas que. cada i magem depositada na nossa memória ou produzida na nossa imaginação é. Ela s não imitam o modelo orgânico.

uma névoa entorpecente — alguns dos maiores gênios das artes. das ciências e da política foram maçons —. respondo que isso não é mais esquisito do que o fato de consentirem pert encer a uma sociedade cujos altos escalões são ocupados por personagens cuja identid ade permanece secreta. Quem consente em ser dirigido por um desconhecido. por qu e não aceitaria também o jugo de uma doutrina incompreensível? .

ensinando. ma s sem dúvida ela merece atenção. ) A mesma ambigüidade nota-se na atuação da Maçonaria quando da formação do Império do Brasil. O que a diferencia da Igreja é menos a sua ideologia — vaga. às vésperas da queda do Antigo Regime na França. Jean Charles Pichon julga que. a Maçon aria sai vencedora em qualquer hipótese. mas em certas horas seu jugo deve ter parecido mais suave. são maçons os liberais. construtor do templo de Salo mão. A mão das organizações secretas sempre foi pesada. por exemplo. para sempre. ( V. Pairando invisivelmente sobre todas as forças em luta. no fim das contas. V. é fácil compreender que nessa corporações. são maçons os tadores republicanos. sobretudo t. elevado rapidamente à condição de Grão-M stre. seguida de sua ressurreição. José Olympio. ela assumiu definitivamente sua vocação revolucionária. e onde. Historia Universal de las Sectas. portanto. ela dá nascimento a uma aristocracia. Quaisquer que fossem as intenções de seus fundadores. democrática encobre e disfarça a luta interna no seio de uma nova aristocracia. atribuir à Maçonaria a responsabilidade pelos movimen tos revolucionários. é maçom o Imperador. A Vida de D. Da lealdade corporativa à disciplina do arcano há menos que um passo: pela salvaguarda do próprio pescoço. São maçons os conservadores. E governo maçônico quer dizer o seguinte: todos os onflitos abertos. Esse medo não é de todo despropositado. com a sua disciplina do arcano. do mes mo modo que a Igreja medieval não se comprometia em conflitos dinásticos: sua função é ecl esial. a situação de facto é: governo maçônico. 1957 ). todos os líderes revolucio nários pertencem à organização. também são maçons o rei e toda a sua corriola. III Caps. Logo em seguida. sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo 185. não são senão a exteriorização de divergências nas e elaboradas dentro da Maçonaria. Mas os Estados Unidos são o primeiro país cujos governantes são todos o u quase todos maçons. e equilibrando enfim — ao menos idealmente — o movimento do conjunto. e em seguida boicotado pela Maçonaria mesma e levado à abdicação. Octávio Tarquínio de Souza. a mais óbvia: é o medo. quando a aris tocracia em peso achou que dentro da Maçonaria podia encontrar um abrigo seguro co ntra as tempestades que se aproximavam: o próprio Luís XVI submeteu-se aos ritos e j uramentos 184. indefinida e elástica o bastante para comportar todos os arranjos e acomodações — do que a sua inv isibilidade. o homem do povo encontrava a proteção de u ma força capaz de intimidar nobres e clérigos. todas as disputas políticas travadas diante do público. e viver entre os demais homens. Pedro I ( Rio. t. De um lado. orientando. conciliando ou dividindo. a partir do momento em que a Maçonaria introduziu em seu s ritos a matança simbólica do “pai dos arquitetos”. Hiram. Pedro I é convidado a entrar na organização. com uma identidade dupla. Muito mais que o Imperador. um homem jurava ob edecer ordens emanadas de fonte secreta. Cap. A espuma 184 O papel da Maçonaria na Revolução é bastante ambíguo. Se é verdade que a M açonaria se originou nas corporações de ofícios da Idade Média. defender até à morte os segredos da organiz ação. de outro. talvez mais que a da nobreza ou a do clero. não real ou imperial. XXIV e XXV. se d eram conta das implicações mais óbvias desse ritual. o advento do gove . que consti tuem a pulsação mesma da vida democrática. cujas divergências se erguiam sobre o fundo comum de um pacto de lealdades secre tas. a vida parlamentar do Império não consistirá de outra coisa senão de debates entre maçons . influencia decisivamente o curso das coisas. Não sei o que pensar dessa tese. é o desejo despropositado de se gurança (forma larvar e passiva do desejo de poder) que move os homens a submeterse a esse gênero de coisas. porque ela não se compromete com aqueles a quem auxilia. e. XIII. como um espião. Como a Igreja. É um simplismo grosseiro.154 OLAVO DE CARVALHO A resposta é. não havendo oficialmente religião protegida pelo Estado. estimulando. cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. cit. ela é o verdade iro “poder moderador” — a autoridade espiritual que acolhe em seu seio maternal os par tidos em disputa e unge a fronte do vencedor com o óleo bento da legitimidade. nem a maioria dos maçons até hoje.. ma s que nem os personagens de destaque na época. Isso aconteceu. XIII. a uma casta governante. quando o Brasil imitar o exemplo norte-americano e proclamar sua independência da Europa. II Cap. op.

185 Sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo: distinção capital. que os defenso res da teoria da “conspiração maçônica” nunca enxergaram. correrá parelha com o aumento incalculável da influência das org anizações secretas. que é o aspecto mais patente da evolução política mundial. sobretudo das organizações estatais secretas do século XX . que neutral izará os efeitos da democratização para reduzi-la a pouco mais que uma distribuição de doc es para aplacar criancinhas zangadas. Daí por diante. a democratização progressiva das instituições. ansiosos como estavam por denuncia r por trás de todos os eventos um maquiavélico dedo maçônico. .rno maçônico nas Américas abre uma nova etapa na História do mundo: a era do segredo.

não se encontrarão em nenhum a outra época ou civilização coisas como a CIA. e que nestas origens se en contra a participação das sociedades secretas na formação dos governos americanos. Lisboa. portuguesa. mas se explic a: o papel do secreto na vida política ampliou-se de tal maneira que ultrapassa as possibilidades imaginativas do homem comum e penetra naquela zona de improbabil idade que raia a ficção e o impossível puro e simples: seu próprio crescimento desmesura do tornao invisível. a KGB. Essa foi a origem da Máfia. O que é inédito na História do mundo ( com a possível exceção da “Ordem dos Assassinos” no Oriente islâmico ) é a extens do poder dessas organizações e o fato de que seus principais opositores são também organ izações secretas. Mas também é certo que não se pode compreender esse processo sem remontar às suas origens. s/d ). incutida pela ideologia democrática. Allen Dulles. não é de mold a propiciar nenhuma valorização dos fatores secretos e os intelectuais não estão imunes a essa crença. é claro que não se pode nem de longe entender fenômenos como o do atual banditismo organizado sem referi-lo ao quadro geral disso que chamei secre tude crescente 187. os serviços de “inteligência” ultrapassaram muito o campo das i nformações militares para abranger toda a vida social e psicológica das nações. De outro. da vida sexual etc. O Ofício de Espião. Num dos documentos mais impressionantes já publicados a respeito ( Journey into Madness. Guimarães. oferecendo seus préstimos: Thomas foi encontrar um deles no Líbano. Medical Torture and the Mind Controllers. bem c omo na Revolução Francesa e no desenrolar das mutações políticas e ideológicas ao longo do sé ulo XIX um capítulo que permanecerá demasiado obscuro enquanto se enfocarem essas so ciedades como meras forças políticas secretas. E. Mas. reconhece muito pertinentemente a diferença abissal de escala que separa os modernos serviços secretos de tudo o que até o século XIX se conhecia co mo “espionagem”. trad. que foi direto r da CIA por décadas. de qu e a História do mundo evolui no sentido da crescente circulação de informações. 187 186 O mesmo não se pode dizer dos personagens envolvidos. den unciado no Congresso. que nem a Maçonaria ne m qualquer outra organização poderia jamais controlar. De um lado. qu e é uma das marcas diferenciais do século XX em relação a toda a história anterior 186.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 155 Dizer “uma nova etapa” não é exagero: por mais que se procurem. London. bem como das tríades chinesas. penetrando até mesmo na intimidade dos costumes familiares. 198 8 ) conta de um centro de treinamento de torturadores médicos criado pela CIA. e a invisibilidade é o fermento que o faz crescer mais ainda 18 8. Não se justifica. sem precedentes. servindo à organização terrorista que sequestrara um funcionário americano e o tor turara para extorquir informações. De outro lado. Os historiadores raramente mostram sensibilidade para o ineditismo desse fenômeno. então não se justifica o desprezo dos h istoriadores e cientistas sociais por esse fenômeno. os milhares de seitas que hoje vinculam uma boa parte da população mundial a pactos de lealdade confidenciais. Que sociedades secretas de objetivo originariamente iniciático e sacerdotal se tra nsformem depois em quadrilhas de bandidos. e outros tantos fatos que assinalam uma ascensão . se tudo isso é claro. a convicção generalizada. invadindo os tensivamente a esfera dita “privada” ( v. Corgi Books. o centro foi fechado. mas os profissionais lá treinados se e spalharam pelo mundo. f inalmente. cresceram ao ponto de se tornarem virtualmente incontr oláveis. eis um fenômeno que não é nada novo na Histór ia. É ev idente que o advento do governo maçônico constituiu nada mais que o estopim a desenc adear um processo de secretude crescente em escala mundial. a espionagem industrial general izada. 188 Que intelectuais maçons ou pró-maçons sejam . no mais das vezes de ordem supra-política e propriamente sacerdotal. estas de cunho estatal. da força dos fatores secretos na produção do acontecer histórico. sem ter em conta o caráter específico da sua atuação.

elas se utilizariam de hordas de intelectuais céticos e materialistas como de um muro protetor para garantir a sua invisibilidade. no qual as entidades esotéricas acabam por se tornar. Enfim. inconsc ientes de sua ação no mundo. segundo a qual as sociedades secretas dirigem o curso da História. é o mais manipulado de todos. temporariamente usurpado pelo dogma da cegueira metodológica obrigatória. pela exclusão de todo fator espiritual na explicação histórica exclusão que a fortiori le va a omitir também toda interferência específica das sociedades iniciáticas na produção dos fatos . elas mesmas. . Há uma diferença profunda entre influenciar e diri gir. de modo a poder manipulálos com a ajuda deles mesmos. Que a Maçonaria assuma como suas certas ações que lhe são imput adas por seus adversários v. vejo nesse fenômeno antes um “efeito a vestruz”. deve haver lug ar para um sensato meio-termo que mereça. Ess e meio-termo é precisamente o que estou buscando nestas páginas. e a ideologia “científica” que omite completamente a influência delas ( exceto quando reduzidas a inócuas “forças políticas” sem peso específico ). segundo a qual essas sociedades dirigem conscientemente a trajetória do mundo pelo hábil ma nejo do segredo: impondo como “científicas” exclusivamente aquelas interpretações que as o cultam. de pleno direito. o manipulador. se ex iste. não sendo nem maçom nem antimaçom. citado na p. o qualificativo de cie ntífico.os primeiros a lutar pelas interpretações materialistas e sociologizantes da História. Da minha parte. é indício eloquente de falta de consciência histórica. Entre a teoria conspiratória. o comentário de Guénon ao livro de Lantoine. eis aí algo que poderia tentar-nos a endossar a teoria conspiratória. 233 .

poetas. do alto de seu conhecimento quase divino de leis históricas supostamente impessoais e objetivas. a intelectualidade moderna mostra uma completa inépcia ao lidar com esses assuntos. em nova mensagem. ao invés de confiar-se ceg amente a “ensinamentos espirituais” de origem mais que duvidosa. trazer con hecimentos esotéricos de insondável profundidade. afetar o curso das coisas. A regra geral nesses casos é a absoluta inermidade do “intelectual” moderno ante a “mão noturna” que o guia. acabou por se tornar o porta-voz mais intelectualizad o da concepção conspirativa da História 189. o Frankenstein de Mary Shel ley são personificações veladas de sociedades secretas. Contemporâneo de Gurdjieff. Seja sob a forte impressão de leituras mal digeridas. Atordoado. Fernando Pessoa. mas depois de três anos. cientistas que tiveram contatos mais próximos com gurus misteriosos e s ociedades secretas saíram traumatizados e atônitos. Como que num pacto destinado a bloquear por dois lados o acesso a uma compreensão real do assu nto. e embriagado depois pela alucinante mistura de fatos e ficções com que o Abade Barruel compusera sua célebre sopa anti-maçônica. compôs com essas imagens A Vision (1926): o impacto foi gran de. em busca de explicação. Todos os escritore s. nas obras de Mohyieddin Ibn-Arabi. os historiadores e cientistas sociais tendem à indiferença olímpica. Até um escritor de notórias simpatia s marxistas. Foi debalde. Yeats. que. ora afetan do uma superioridade blasée que. capazes de excitar morbidamente a imaginação popular sem nada esclarecer quanto à natureza do fenômeno. ficou embasbacado191. do mesmo modo que muitos dos t emas da poesia e da ficção constituem traslados quase literais de ritos e símbolos de organizações esotéricas e pseudo-esotéricas. Foram comidas pela esfinge. que era médium. A explicação completa do “ciclo da personalidade” poderia ser encontrada. deu de revirar toda a literatura filosóf ica Ocidental. no seu entender. como Edmund Wilson. muitos esc ritores modernos divulgaram a existência e a atuação de forças secretas. só podiam ter sido inspirados do além. ignorantes de toda mística autêntica.. tivesse ido estudar os clássicos da mística oriental. ora mistificando-os. que. sob a forma simbólica de um ciclo lunisolar de 28 dias o conjunto de todas as formas possíveis da personalidade humana. que parass e de estudar o assunto. pois a obra pareceu aos críticos. mas dando-lhes interpretações simbólicas. O “ciclo da perso nalidade” não é senão uma aplicação particular da processão dos Nomes Divinos divididos. impressionado. Até o fim da vida. ampliando fantasiosamente o poder das soci edades secretas ao ponto de fazer delas o demiurgo invisível da História. por incapacidade de decifrál a. Um exemplo desta última atitude é Shelley. no mbolismo astrológico. reduzidas à condição de crianças atônitas nas mãos do poderoso mistificador190. incapazes de elaborar intelectua lmente suas experiências mas sempre dispostos a lhes dar algum tipo de expressão mis tificatória. sentia-se meio sábio. não desce ao exame de miudezas “esotéric as” que em nada poderiam. Yeats não soube se sua Vision era verdade ou ilusão. Atormentava-se entre dúvidas insolúveis. ordenando-lhe. meio impostor . seja sob o impacto mesmo de experiências pessoais traumáticas. os literatos ao deslumbramento misticóide. O episódio teria sido levado a melhor termo se o poeta. O próprio Yeats não entendera absolutamente nada da “mensagem”. Mencionei lá atrás o domínio tirânico que George urdjieff exercia sobre as mentes de seus discípulos. que expunha. influen ciado desde a adolescência por um seguidor dos Illuminati da Baviera. Aleister Crowley semeou o desespero e o terror entr e os jovens intelectuais portugueses que se colocaram sob sua influência no começo d o século Almada Negreiros. Wil liam Butler Yeats (1865-1939) era leitor de Madame Blavatski e frequentador de cír culos “ocultistas”. Mário de Sá-Carneiro.. disse-lhe ter recebido dos espíritos uma misteriosa mensagem cifrada. Muitos dos monstros e vampiros que povoam a literatura do Ocidente no s dois últimos séculos a começar pelo mais célebre de todos.156 OLAVO DE CARVALHO De modo geral. por exemplo. destituídos de fontes históricas reconhecíveis. Sua esposa. os “espíritos” puseram um fim aos seus tormentos. pelas 28 casas lunares que dá origem à 190 191 . veladas e subjetivistas. entre os quais se encontravam não poucas celebridades das letras e das ciências.

. V. Cultrix. John Bennett. Cap.. 1985. Axel’s Castle. Paul Johnson. V. The Autobiography of John Bennet. 1931. trad. O Castelo de Axe l. brasileira de José Paulo Paes. Witness. Scriber’s. I. 2º ed. New York.189 V. São Paulo. II. Os Intelectuais. Cap.

Graves foi induzido a colaborar como inocente útil. é claro no que se c onsidera a maior fraude literária do século: uma nova tradução do Rubayyat de Omar Khayy am. que se torna mai imoral ainda na medida em que vai contaminar leitores e espectadores inocentes. 1982. cujos enredos francamente paranóicos. Holt. As histórias de artistas e intelectuais manipulados psiquicamente e f eitos de palhaços por pseudo-mestres espirituais no século XX formam um tremendo req uisitório contra a presunção da intelectualidade moderna. Titus Burckhardt. 555-558. The Collector e The Magus197 foram inspirad os nesse tipo de experiências. e sem verdadeira fé. Graves. omitindo as fontes e rodeando o ens inamento de uma aura misteriosa que só poderia servir para confundir a ela e ao ma rido? A resposta é simples: fizeram isso pelo mesmo motivo com que Madame Blavatsk i. chega a declarar expressamente que essa e outras entidades “eso téricas” gostam de “apoderar-se das mentes” de intelectuais e envolvê-los em situações persec tórias que os levarão ao desespero196. terminando por sentir-se um misto de otário e vigarista. sob a g uarda 192 Cf. O caso revela a triste condição do intelectual e uropeu. III. é preciso fabricar um. Rinehart & Winston. orgulhosa porta-voz de uma épo ca que se julga o apogeu da autoconsciência humana. pretensamente baseada num manuscrito inédito que estaria. de uma automistificação voluntária. Prefere m aludir ao assunto de maneira indireta e simbólica. ao reproduzir trechos de um clássico tibetano que lera em tradução alemã. preferiu di zer tê-los encontrado na cópia única. desde séculos. decerto mais hipnótico do que espiritual. Fizeram isso porque a força do dominador psíquico reside no mistério e. mostraram que o vetusto manuscrito não existia e que a trad ução que Shah transmitira a Graves para que a pusesse em versos era simplesmente um plágio de uma adaptação norte-americana do século XIX. 193 V. feito de temor e suspeita. Mas esse sucesso é obtido a través de uma diminuição de consciência. analogicamente. 1978. por que simplesmente não lhe deram par a ler uma tradução de Ibn Arabi ou de algum dos outros muitos místicos islâmicos que tra tam do assunto? Por que tiveram de transmitir o ensinamento para uma médium em tra nse. Um autor de nome Ernest Scott. Elwell-Sutton. O caso é narrado em detalhes na biografia de Graves por Martin Seymour-Smith195. Ninguém nega que a experiência de colocar -se sob o domínio de uma mente maligna pode dar às fantasias literárias de um escritor um atrativo misterioso e contribuir para seu sucesso. Um dos mais deprimentes capítulo s dessa epopéia tragicômica foi o destino de outro grande poeta inglês. que era o seu guru. Dominado psiquicamente por Shah. porta-voz talvez pseudônimo da organiz ação de Omar Ali Shah. da família Shah no Afeganistão. Se os gurus de Yeats queriam lhe ensinar isso. nas mãos do “gozador cósmico” Omar Ali Shah194. Archè. Ele cita em particular o caso de John Fowles. advertido de que estava s endo usado para uma fraude. raramente ou nunca admitem que foram feitos de idiotas. se fez de donzela ofendida e morreu sem ter dado o b raço a torcer. guardada a sete chaves num mosteiro subterrâneo do Oriente193. Clé Spirituelle de l’Astrologie Musulmane d’après Mohyid-din Ibn-A rabi. Fowles não desmentiu. É precisamente por meio de intelectuais e escritores que organizações esotéricas e pseu . o nde não há mistério. Suponho que coisas análogas poder iam dizer-se de Stephen King e Colin Wilson. Histoire d’une Pseudo-Réligion. O lado mais deprimente dessas histórias é que os intelectuais ludibriados se sente m mais ou menos como mulheres estupradas. Pesquisas empreendidas por dois filólogos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 157 manifestação cósmica e se repete. John Bowen e L. no microcosmo da alma humana192. às quais atr i erroneamente uma origem “celeste” e às quais presta um culto supersticioso. P. Cap. à mercê de “influências psíquicas” que não pode compreender nem dominar. provavelmente também de Doris Lessing . ajudando assim a dar às proezas de seus algozes uma aura de prestígio mágico. 194 Omar Ali e seu irmão Idries formam talvez a mais famosa dupla de farsantes espirituais da Inglaterra. René Guénon. Le Théosophisme. Humilhados no seu ponto de maior orgul ho a inteligência . I. Chap. Milano. 195 Robert Graves. His Life and Wo rk. Sua história nada edificante foi pu blicada na revista Encounter de maio de 1955. pp. Robert Graves.

Ernest Scott. Não deixa de ser curioso que aqueles mesmos intelectuais que 196 197 V.do-esotéricas exercem sua influência sobre toda a sociedade uma influência que afeta a ntes os estratos profundos da psicologia coletiva do que a superfície da História po lítica. London. 1983. . The People of the Secret. Octagon Press. o primeiro com Therence Stamp e Samantha Eggar. o segundo com Ant hony Quinn. Ambos de pois filmados.

Diante de tantos e tantos c asos que mostram a passividade atônita. que. que um potente desestímulo ao estudo dessas questões vem do fato de que elas foram abundantemente enfatizadas de manei ra unilateral por autores comprometidos ideologicamente com certas alas extremis tas. Pratic amente na totalidade dos casos. não se dêem conta de que o único poder efetivo que elas exercem é precisamente aquele a que servem de instrumento: o poder de moldar o imaginário social. a mais elementar pr ecaução recomenda certificar-nos de que não se trata de um esoterista. 200 Minhas investigações pessoais a respeito do fenômeno da secretude crescente estão longe de ser totalmente conclusivas. ao l ongo dos últimos dois séculos. e sobretudo não consiste em poses. provavelmente um fingimento consc iente199. só serve para deixar o público naquele estado de dúvida temerosa que logo se transforma em atração e vulnerabilidade. à direita. Inferno.158 OLAVO DE CARVALHO difundem visões fantasiosas. São Paulo. aludindo aos acontecimentos de maneira velada e encobrindo-os de uma aura simbólica atraente e autolisonjeira. é que há nela um elemento de histrionismo. Exemplo: Adam Schaff. ocultista. como Léon de Poncins. em regra geral. que se pavoneia para exorcisar um medo invencível. a afetação de indiferença por parte daqueles que só co nhecem o assunto de longe não tem como deixar de parecer uma jactância adolescente. um intelectual que tivesse tido contatos com sociedad es secretas elaborasse essa experiência de uma maneira intelectualmente digna e es crevesse sobre elas de maneira a esclarecer o público. atribuindo às sociedades secretas um poder demiúrgico ine xistente. t rad. August Strindberg. Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial. Mas se os literatos servem a or ganizações secretas por uma deleitação masoquista na escravidão voluntária. quase sempre mais comprometidos com a busca do poder e do autoengrandecimento do que com qua lquer investigação da verdade201. Quando a pose se torna enfática demais. Com a exceção provave lmente única de August Strindberg. como o leitor bem está vendo por estas páginas. e se envolveram numa aura de tagarelice retórica r epelente. na hora de divulgar o mesmo estudo em livro ( A Sociedade Informática. maçom ou rosacruz enrustido. os intelectuais amedrontados por pseudogurus acaba m por virar discretos apologistas de quem os atormenta. historiadores e cientistas sociais muitas vez es é uma simples cumplicidade consciente na manutenção de um segredo com que se compro meteram mediante juramento. a inermidade dos intelectuais contemporâneos ante os fabricantes de segredos. ou Ivan Maïski. Foi muito raro que. publicou numa revista maçônica uma análise histórica baseada em métodos astrológicos. Mas será possível que a casta intelectual inteira este ja comprometida com a mentira e o auto199 198 V. marxista arrependido. que denunciou corajosamente o mistifório teosófico1 98 que o levara quase à demência. Sempre que um estudioso acadêmico franze o nariz a os assuntos nte esotéricos em nome de um pretenso rigor científico. à esquerda cada um denunciando as sociedades secretas dos outros . 199 5 ). Carlos Eduardo Jordão Machado e Luiz Arturo Olojes. a afetação de ind rença superior por parte de filósofos. Mas . por que nem mesmo uns poucos poderiam dedicar-se ao empenho de desocultá-las? Paul Johnson mostrou que. os intelec tuais que fazem a cabeça do mundo moderno são tipos bem pouco confiáveis. Brasiliense. para dar às sua s conclusões a aparência de terem sido obtidas por meios exclusivamente “científicos”. os traumas de experiências interiores induzidas po r guias espirituais malignos acabam se transformando em literatura mistificatória. Pois um verdadeiro rigor científico não se faz de superior a nenhum assunto. No entanto é verdade. Mas não está na hora de pelo menos alguns estudiosos proclamarem sua indep endência de compromissos ideológicos (ou mesmo de lealdades secretas) e começarem a in vestigar a sério aquilo que talvez nenhum dos poderes deste mundo gostaria de ver investigado 200? Se tantos podem mobilizar o melhor de sua energia intelectual p ara encobrir certas realidades. maçom. expurgou o texto de todos os elementos astrológicos e esotéricos. por outro lado.

uma coisa no entanto é certeza absoluta: não podemos compreende r o curso da história contemporânea sem fazer essas perguntas.aqui não se trata de dar respostas prontas. op. 201 V.. o fato de não conhecermos ainda em d etalhe todos os enlaces causais que levam das origem do processo até seu estado pr esente não pode impedir-nos de admitir que alguma ligação tem de haver entre as duas c oisas. por não se sabe quanto tempo. Paul Johnson. por mais que suas res postas devam permanecer. cit. e sim de protestar contra a indiferença às perguntas. Pois. . na esfera das conjeturas ou da mera probabilidade razoável. se não tenho respostas senão em germe e se os germes ainda germina m no ventre da dúvida. De outro lado.

mas mentem. a implantação mundial do Estado sem r ligião oficial203. República protestante vai sig nificar. e julga sem 202 . e a parte de seu legado cultural que não se dissipou em fumaça terminou por incorporarse . na sua totalidade. a Revolução Americana só é democrática. que os critérios éticos que presidirão à vida social. A revolução que isto representa na estrutura mental da humanidade é tão profunda.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 159 engano. Significa. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (II) “Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás. os Estados que f undaram ruíram com fragor ou derreteram-se melancolicamente. tão vasta em suas conseqüências. acabou por ass imilar várias características da socialdemocracia. por enquanto. o tem a das sociedades secretas pode servir de pedra-de-toque.” APOC. sem grandes choques. que dizem que são judeus. Talvez a resposta só venha dentro de muitas gerações. se torna o árbitro das suas disputas. a Holanda. que em princípio não pode interferir em nada nos negócios públicos. sem traumas. Dos vários componentes da ideologia revolucionária norte-americana.: 3:9. um sacerdócio do falso? É cedo para res ponder. onde uma corrente — luterana na primeira. Estado sem religião oficial. Em segundo lugar. as dife rentes seitas têm de aprender a conviver e a concorrer em pé de igualdade no mesmo t erritório sob a proteção de uma mesma autoridade civil que permanece indiferente às disp utas religiosas e equidistante de todas as confissões. que toda lei religiosa cessa de ter qualquer validade ou obrigatoriedade pública. de novas modas cul turais. o p rotestantismo norte-americano. repu licana e liberal-capitalista de modo secundário e mais ou menos acidental: em essênc ia. Que é que isto significa? Significa. porque os el ementos democráticos e igualitários da ideologia norte-americana que se espalharam p elo mundo puderam. fragmentase numa infinidade de seitas que não podem ser reduzidas à unidade de uma hierarquia religiosa que imite a da Igreja Católica. literalmente e sem alterações por todos os países do mundo foi o p rincípio do Estado leigo. Os Estados Un idos são o primeiro Estado professadamente areligioso — no sentido etimológico: a -gnóst ico — que se conhece na História do mundo. a Espanha 202. que perto dela as re voluções seguintes — da França. O republicanismo? Não. que o cum primento ou não de um mandamento religioso passa a ser um assunto da esfera privad a. em seg undo lugar. nada mais são que a créscimos periféricos e notas de rodapé. tendo de ser extra-rel igiosos. o único que foi assimi lado integralmente. Mas. como a Inglaterra. com todo seu vistoso cortejo de morticínios. de vez que o Estado. não havendo unidade religiosa. e não o são. acabam por ser supra-religiosos. ser incorporados por antigas monarquias tornadas constitucionais. E. ao colocar-se aci ma das religiões. Todas essas revoluções passaram. ela é a liquidação do poder político das religiões. da Rússia ou da China. de experimentos econômico-administrativos extravagantes. que ela componha. Mas. a Dinamarca. quando lhe interessa. § 30. Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis” ou que as coisa s são em essência aquilo em que enfim se tornam. Ora. ao contrário d o que aconteceu na Suécia e na Holanda. e visto que a subsistência de uma ar istocracia maçônica associada de perto a uma oligarquia econômica é um dos pilares mesmo s do sistema norte-americano. dividindo os intelectua is entre os que se dispõem a buscar a verdade sobre o assunto e aqueles que prefer em mistificá-lo ou fugir dele. através da expansão do assistencialismo estatal. sob o impacto do pluralismo democrático. qual o legado dessa Revolução ao mundo? A democracia? Não pode ser. em primeiro lugar. os Estados Unidos são uma República protestante. O capitalismo liberal? Também não. em última instância: Estado leigo. ca lvinista na segunda — toma logo a dianteira para unificar religiosamente o país. visto que ela convive perfeitam ente bem com ditaduras. à corrente dominante: a Revolução americana. para falar só das maiores —. porque o próprio sist ema norte-americano. de radicalismos ideológicos.

Theodore Roosevelt.E não se esqueçam. 203 V. brasileiros. notas 222 e 238. comentou que havia caído do governo o único autêntico líder repu blicano da América Latina. . adiante. de que quando expulsamos Pedro II o presidente dos E UA.

a bem dizer. a criação e um novo tipo de fenômeno espiritual que. em Karl Marx. mesmo porque “declarar que a lei do sabbat não tem mais um caráter obrigatório para o judeu será o mesm o que proclamar a dissolução do judaismo” 204. culminando com a formação de um Estado onde a comunidade religiosa não ultrapassa hoje três por ce nto da população e está submetida a toda sorte de constrangimentos e humilhações nas mãos do s modernizantes e ateus? Ou que. dessa forma. 47-123. A vitória da “Teologia civil” não podia vir sem trazer junto uma “espiritualidade civil”. a rigor e a long o prazo. a religião judaica tivesse de pagar a conta dos desvarios cometidos por seus adversários206? Que. p assim. encarnado na “vontade popular”: vox pop uli.” “O judeu . Significa. foi Bruno Bauer. a aparência se tornará o essencial e triunfará. deixou o povo judeu inerme e s onso ante o avanço da ameaça nazista. um doutrinário que odiava o judaismo como odiava todas as religiões. em terceiro e consequente lugar. esse cumprim ento deve ser deixado por sua conta como um assunto puramente privado”. de vez que toda obediência a princípios relig iosos só é possível na medida em que o Estado a permita e em que não entre em conflito c om as leis civis. pp. uns anos antes. ibid. Id.” 205 Mas isto representaria. Mas essas três conseqüências.. No Estado leigo tal como desejado por el e. representam. a total desautorização da lei religiosa. ele quiser permanecer judeu. as técnicas de relaxamento. acabasse por fortalecer entre os judeus do Ocidente inteiro um es pírito de mundanismo e “modernismo” que já os vinha contaminando gradativamente desde a Revolução. se. a extinção da religião como tal. Quem percebeu essas conseqüências com muita cl areza. Não é realmente estranho que um movimento mundial capaz de conquistar um território a bala e fundar nele um Estado não tivesse. introd. dissolvendo os laços da solidariedade milenar que havia defendido a comunidade judaica contra toda sorte de perseguições. desejando-as aliás ardentemente. vox Dei. nessas condições. perdendo o 205 206 Também não escaparam a Bauer as conseqüências que essa mudança teria para os próprios judeus : desistindo de buscar a emancipação do judaismo. “todo privilégio religioso em geral deverá ser suprimido. “não pode permanecer judeu na vida pública senão sofisticamente e em aparência. logo se fund irá indistintamente com a psicoterapia. sem prestar satisfações senão a Deus. e se alguns ou muitos ou mes mo a maioria se crêem inclinados a cumprir certos deveres religiosos. François Châtelet.160 OLAVO DE CARVALHO ser julgado. e que. Marianna Simon. o movimento para a implantação de um Estado leigo jud eu logo perdesse toda conexão com as tradições religiosas e passasse mesmo a ser chefi ado por pessoas de origem judaica contrárias ao judaismo? Ou que esse movimento. — se por exemplo ele se dirige num sábado à Câmara dos Deputados e toma parte na s deliberações —. precisa ter cessado de ser judeu. só para ter de socorrê-lo às pressas ex post facto c om o auxílio do dinheiro norteamericano? É de espantar que a própria organização do socorr o às vítimas do nazismo reforçasse formidavelmente o movimento judeu-leigo. Édition bilingüe. a extinção da religião como princípio organizador da conduta humana. passando a buscar apenas a sua ema ncipação de cidadão. os clubes de enc ontro e todos os outros sucedâneos de “vida interior” que a nova sociedade puder criar para a satisfação privada de seus membros. É de espantar que. À propos de la Question Juive ( Zur Judenfrage ). o fim da religião. Aubier. para não deixar que sua lei religiosa o impeça de cumprir seus deveres para com o Estado. Paris. a o expandir-se. não há religião nenhuma. 1971. o judeu 204 Cit. somadas. Onde não há mais religião privilegiada. portan to. circunscrito à vida privada. trad. nem força nem p .

retirou-se da Ale manha e.revidência nem vontade bastante para organizar uma retirada maciça dos judeus da Ale manha nazista antes que começasse a “solução final” que os judeus mais lúcidos — o filósofo É eil. abandonou o idioma alemão. foram para a câmara de gás. por exemplo — previram com muita antecedência? Weil. sob o riso dos parentes que censuravam seu “alarmismo”: todos. em protesto contra o nazismo. em 1933. Esses fatos mostram que já em 1933 ano em que foram p ublicadas as advertências profé- . sem exceção. passando a escre ver somente em francês ( aliás um francês esplêndido ). O pai de um amigo meu também emigr ou no mesmo ano.

nem mesmo sobre os menores de idade. Yaakov Wagner. victim ized. não é de espantar. the Jews have always flourished and blossomed amid their ruins. disputa. o Estado. quando um amigo me mostrou. não tem autoridade nenhuma. Em segundo lugar. Não h averá paz para a religião dos judeus enquanto não houver paz entre todas as religiões. a ruptura da continuidade temporal da comunidade religiosa: o Estado garante os direitos d o filho que rejeite a religião do pai. realizando-se assim a profecia de Bauer segundo a qual a identidade jud aica. Arthur K oestler. Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own rel igion. imbuídos de um falso sens o de segurança inerente ao sucesso. em geral. o Estado. great empires have fallen. do processo de mundanização da sociedade Ocidental — um processo que muitos líderes e i ntelectuais ateus de origem judaica têm ajudado a apressar. de Downsview. the war machines of Hitler and the Nazis. no momento mesmo de sua suprema glória mat erial. e nquanto elas precisarem de um Estado ateu para policiá-las. oppressed. enfim. é fácil de explicar pelo trauma do holocausto. mas a toda a humanidade . Mas será sinal de amizade aos judeus cortejar um orgulho ressentido que os torna c egos ante perigos que hoje os cercam? Para mim. 1976. and this tiny g roup has survived. os adeptos da teoria da “conspiração judaic a” não enxergam. tornado árbitro das disputas religio sas. mas não os do pai que pretenda transmitir sua religião ao filho. the fires of the Spanish Inquisition. quase sempre inconscientes. Sabendo que os princípios de sua religião particular só val em para os do seu grupo imediato e que a integração na sociedade maior depende exclu sivamente da obediência à moral civil. de cara. à unidade meramente exterior e acidental de um amálgama de interesses multina cionais.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 161 princípio religioso de sua unidade cultural. accomplishing what generations of their persecutors have failed to do?” — A r esposta é: sim. as demais religiões que cultuam o mesmo Deus. Que este assunto tenha se tornado um tabu. nunca os exterminaram em massa nem sabo taram a prática do judaismo ao ponto de reduzir para três por cento dos judeus a quo ta dos ortodoxos praticantes. London. o povo judeu — aliás não coerido por nenhum a homogeneidade racial207 — se reduzisse. na revista Time de 27 de fevereiro de 1995. the Jews have been persecuted. Que papel? O de ajudar em a reconciliar. no novo quadro. Hutchinson. a carta lucidíssima assinada por um sr. não há dúvida: a glória material que hoj e premia os judeus não compensa a perda da sua identidade religiosa — um patrimônio qu e eles têm o dever de conservar porque não pertence só a eles. Estes fatos. The Thirteenth Tribe. Yet in the melting pot of the American culture. A religião. Na prática. a única obrig atória para todos os cidadãos. Mas também não os enxergam. Os judeus e o judaismo têm sido as principais vítimas. isso equivale a proclama r uma moral civil que está acima de toda moral religiosa e que é. Isso representa. não podendo ser os de nenhuma das religiões em ticas do nazista arrependido Hermann Rauschning . the chosen nation is rapidly disappearing. exceto para os líderes e os importantes da comunidade. à riqueza e ao mundanismo materialista. cu ja lembrança medonha inclina os judeus antes a chorar do que a meditar o passado. os ideólogos da modernidade. Their tormentors have perished. enquanto os judeus não se livrarem de seus falsos amigos. 208 Eu estava revisando estas páginas. atém-se ao cômodo privilégio de poder julgá-las sem levar em conta no mais mínimo que . mandando às favas a moral religiosa e atendo-se à moral civil. enfim. o destino dos judeus era previsív el. não. e não a dividir. Os antigos Estados rel igiosos perseguiram e expulsaram judeus. Finally given the opportunity to observe without harassment. Em primeiro lugar. From their ashes there has always come a ‘reawakening’. When faced with Pharaoh and the Egyptian soldiers. Não menos graves foram as conseqüências para as demais religiõe undiais. e não assumirem seu papel de povo profético. 207 V. they refused to abdicate their faith. já não passaria de um triunfo das aparências sobre a realidade 2 08 —. fica na posição de arbitrar as disputas religiosas segundo critérios que. os próprios judeus. devem estar acima dos de todas elas. o cidadão é permanentemente convidado a abandonar a carga da dupla moral e a simplificar as coisas para si mesmo. the Jews deny themselves this rig ht. por ser leigo. Canadá: “Fr om the birth of their religion.

o Estado. perante a moral civil. todos com direitos iguais indep endentemente do valor ou desvalor intrínseco de suas respectivas ideologias ou pro gramas. O nivelamento por baixo é a conseqüência fatal: perante a lei. as grandes religiões como o judaismo e o cristian ismo. e com as quais devem concorrer no mercado como um pr oduto entre outros. isto é. tem de favorecer sempre e sistematicamente as correntes cujas ideologias sejam menos dependentes desses pressupostos. não são melhores nem piores do que o culto dos duendes ou do que a Igreja de Satanás 209. nessa disputa.seja os conteúdos das crenças religiosas envolvidas. e considerando as religiões em d isputa como se fossem apenas clubes ou partidos. que encenar um rito — desde que completo — é o mesmo que praticá-lo. devendo julg ar sempre segundo critérios neutros. isto é. têm os seus direitos assegurados pela Constituição. perante o establishment. como elas. Entre a 209 Os artistas do show business que realizam ritos satânicos em espetáculos de rock. as ideologias agnóst icas. que fundaram a nossa civilização e criaram os valores éticos mesmos dos quais a ideologia democrática recebe o seu prestígio. É mais que evidente que. Assim tornam-se veículos “inocentes” de influências psíquicas cujos efeitos sociais só são inócuos aos olhos de quem ignore totalmente o que seja um rito. que. . que se afastam o mais possível de pressup ostos religiosos. deixam de informar a um público demasiad o crédulo que todo rito é uma encenação. so b a alegação de que se trata de meras encenações.

“Prometeu já não arrebata o relâmpago. no andar de baixo da sociedade. porque. da New Age e da ufologia. ao lado do espiritismo e da teosofia. Acima de todas elas paira. jamais teria sido possível sem esta realização da Revolução Americana. outras ainda sem terem a menor idéia de a quem servem. mais sutil. a pretex to de pacificá-las. adequado diz er que o Estado norte-americano é leigo. no novo quadro. é que as r eligiões mesmas jamais tendo se ocupado seriamente de encontrar um princípio de conv ivência pacífica. é agnóstico. exerce rigorosamente a função de direção espir itual? Que a aristocracia maçônica é encimada por uma casta sacerdotal que arbitra em úl tima instância as lutas políticas sem nelas se imiscuir diretamente? O Estado leigo tem religião. sim. por outro lado. “oficial”. quer através do 210 Um dos motivos de os historiadores e cientistas sociais norte-americanos nunca t erem percebido que as elites maçônicas muito mais que o clero católico ou protestante exerceram desde a Independência a função de casta sacerdotal.162 OLAVO DE CARVALHO facção que pretenda ter uma moral válida para todos os seres humanos e aquela que afir me o mais pleno relativismo moral. § 31. seja de ordem psicológica. É claro que. podendo abranger também eventualmente um clero. e o conceito corrente de “clero”. a maior parte do qual nada tem a ver c om funções públicas.” BRUNO TOLENTINO Uma das principais funções da religião é dar ao homem uma imagem simbólica do mundo. invisível e onipotente. O papel dos ritos e disciplinas maçônicas na estrut uração e no equilíbrio interior das elites fundadoras e governantes dos EUA não pode ser . Judaismo e cristianismo. Um “clero” identifica-se com uma igreja estabelecida. A principal. creio eu. mas não os da religião que pretenda impor os seus p receitos àqueles que. tem um campo de atuação infinitamente mais vasto. mas tratando antes de dar combate sangrento umas às outras. reside em que. em que esses estudiosos em geral se baseara m. e is to pelo fato de que o Estado defende os direitos de quem não deseje submeter-se a uma determinada moral religiosa. esta última leva vantagem necessariamente. aleatório como o instint o. formando as consciências de seus membros através de ritos e símbolos. seja de ordem espi ritual. abr igando-se sob a proteção do Estado leigo. não foi sem razão. todas nivel adas e integradas na grande liturgia da religião civil. as neutraliza e emascula. mas com um tipo de ação mais interior. perpetuada no culto discreto oficiado por uma nova casta sacerdotal co lhida nos escalões superiores da aristocracia maçônica210. ou religião popular. é demasiado estreito para captar todas as nuances e as implicações do que seja uma casta sacerdotal. islamismo e budismo tornaram-se aí meras “seitas popul ares”. é indiferente em matéria de religião? Pois não acabamos de ver que é um Estado maçônico? Que a Maçonaria. De Wilhelm Meister a Raskolnikov. os meros fatos nada dizem sem os conceitos que os agrupam e lhes dão um se ntido. outras de bom grado. O predomínio absoluto da moral civil represe nta o boicote sistemático de toda transmissão da moral religiosa às novas gerações. Os jovens. umas a contragosto. os fracos de cabeça. A form idável expansão do ateísmo no mundo. no seu grupo. como já res saltei. a Religião do Império. nenhum exoterismo em particular. bem como o fenômeno das pseudo-religiões que desviam para alvos inócuos ou mesmo prejudiciais os impulsos religiosos que ainda restem n a humanidade. ainda não têm as condições de formar uma opinião própria. ou simplesmente aqueles que tenham algum conflito de família. a criação de um Estado multi-religioso só pôde realizar-se por meio da moral civil que. Mas será. Só que é um esoterismo ao qual não corresponde. Essa imagem transmite-s e quer através das narrativas míticas e iniciáticas211. Há um pretenso heroísmo cujo pântano é este mundo. Ícaro não aspira a um céu invinto. é exercida por toda a pululação de religiões e seitas em disp uta. a função de exot erismo. são instantaneamente convidados a abandonar o seu grupo de referência. ao pa sso que uma casta sacerdotal. na qu al ele possa ler em filigrana o mapa do sentido da vida. se isso aconteceu no mundo. Anteu não quer a te nem o Olimpo.

1993. IAL / Stella Caymmi. v. os estudiosos não puderam captar a esp ecificidade do novo quadro. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Ino centes”. como força política em sentido material e direto. também. 211 Para a distinção entre estes dois tipos de narrativas.negado. É preciso contar. V. 218. Examinando sua sociedade co m conceitos tirados outras culturas e épocas. adiante. 28-33. . n. marcada pela emergência inédita na História de uma casta s acerdotal esotérica sem o correspondente exoterismo. tb. com a típ ica incompreensão do intelectual moderno médio no que tange ao modus agendi dos rito s e disciplinas espirituais. pp. mas ele não faz parte da religiosidade pública. Rio. o que leva a uma avaliação falsa da natureza e alcance da sua influência. Dela vem a tendência de não enfocar a Maçonaria senão por f ora.

Quevedo — para não falar de Dante e de toda a literatura medi eval —. persigue la injusticia. como índice do sentido da vida. Dito de outro modo. Pois este enfoque os reduz a objetos. é o de Cervantes. pois em Don Quijote o pressuposto d e um destino metafísico do personagem dá ao desenlace um sentido precisamente oposto ao que teria para leitores desprovidos desse pressuposto: a vida do hidalgo só te m para nós um sentido edificante porque sabemos que. que. estão lançadas no mundo as sementes de um a nova era. fustiga la ramplonería. Até então a literatura narrativa euro péia caracterizavase pelo predomínio de temas que remetiam a um tipo de conflito mod elado sobre es212 quemas da Bíblia ou da mitologia greco-latina cristianizada. são pura insensatez es tas palavras do comentário narrativo de Miguel de Unamuno: “Si nuestro señor Don Quijo te resucitara y volviese a esta su España. ao contrário. otras que es por ruines sentimientos y bajas pasiones de ven gativo o envidioso. de heroismo. Mas o mito como interpretação da vida não tem nem poderia ter significado constante. Corneille. e que a vida aparentemente terminada em derro ta é na verdade o vitorioso testemunho da supremacia do sentido da vida sobre a vi da mesma. a este ou àquele tema. e insensatos aqueles que o consideram louco. Lope de Vega. Ante un acto cualquiera de generosidad. Calderón. que não é necessário entrar em mais longas demonstrações.. no esforço vão de abarcálos no quadro conceptual de uma ciência determinada. no Ocidente. se preguntan los esclavos: ¿Qué irá buscando en eso? ¿A qué aspira? Unas veces creen y dicen que lo hace para que le tap en la boca con oro. esse fenômeno manifesta-se da maneira mais cl ara entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. talvez por inesperado. mas também pela diversa preferência dada a este ou àquele mito. Mas o exemplo mais contund ente. por depo rte. e as sucessivas versões que recebe — se ja na forma do pensamento teorético ou da narrativa iniciática — vão revelando as mutações d o sentido da vida tais como aparecem às diferentes épocas e mentalidades. Si uno denuncia un abu so. nas artes narrativas. são instrumentos de interpretação da vida. a rea lizar-se no Juízo Final. A questão básica em torno da qual se moviam personagens e enredos era a da salvação da alma: o sentido das ex istência dos personagens não era jamais totalmente resolvido no desenlace da trama. Ora. Isso é tão nítido nos enredos de Shakespeare. mas deixava em aberto a perspectiva de um segundo desenlace. Racine. é ele que é se nsato. a este ou àquele topos da narrativa mític a no decorrer da evolução histórica. e mais os entende o crente ou o noviço que lê a vida através deles — entrando neles e tomando-os como uma mensagem vin da de seu próprio interior mais profundo — do que o filólogo que os lê através de alguma o utra grade perceptiva. os enredos t errestres jamais tinham em si a chave de seu próprio sentido. Desde o momento em que. pós-cristã ou anticristã. a todos eses estúpidos bachilleres y curas y barberos de hoy no se les ocur re sino preguntarse: ¿ Por qué lo hará? Y en cuanto creen haber descubierto la razón del . Por ela o ho mem orienta-se no labirinto da vida. não poderia jamais elevar-se a um plano de universalidade mais alto que o deles: metaphysica per se est et per se concepitur. Por esta razão é que falham repetidamente as tentativas de “interpretar” os mitos: os mitos é que. Fíjate y observa. É por isso que podemos assinalar. otras que lo hace por divertirse y pasar el tiempo. precisamente por ser tal . Essas mutações manifestam-se não somente pelas ênfases diferentes que diferentes tempos dão às possibi lidades de significação de um determinado mito. de l ocura.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 163 rito que repete executivamente os passos principais do enredo mítico. e que daria o verdadeiro significado do primeiro. os temas e os topoi maçônic os começam a predominar sobre os cristãos 212. andarían buscándole una segunda intención a sus nobles desvaríos. aos olhos de Deus. todos os destinos eram enfocados sub specie æternitatis. extraterreno. experiências que repetem no microcosmo da sua existência pessoal os lances protagonizados pelos deuses e heróis da narrativa mítica. mas subentendiam com o seu pano de fundo uma história cósmica escrita pela Providência com vistas a um sign ificado extramundano.. ao mito maçônico. reencontrando a cada passo. que o anti-herói das malfadada s façanhas é um herói autêntico do espírito. na variedade in abarcável das situações vividas. A quem não creia num sentido que transcenda a vida. o in stante preciso em que o mito cristão cede lugar.

mas no valor e significação das obras produzidas.acto — sea o no la que ellos supoPredominar não em quantidade. mas em qualidade: não em número de obras. .

Qua ndo procuramos nela o elemento iniciático. E. ao contrário. mas unicamente na au to-realização pessoal. as potências supraterrenas é que não entra m na trama senão como co-autoras do sucesso e do fracasso mundanos. no mesmo ato. de longe. torna-se o supremo significado da existência: Wil helm Meister revela-nos que a História é dirigida por forças ocultas. o sentido último dos acontecimentos já não depende de um significado metafísico. que é uma narrativa iniciática. de uma forma benevolente. a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. 11-12. Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. Apenas. Apenas. nesse sentido. a revelação dos motores ocultos da Histór ia: a manifestação de um poder secreto que. pelos “Sup eriores desconhecidos” 214. ou sem importância. barrando-lhe o acesso aos “Gran214 Vida de Don Quijote y Sancho. eram apenas um sinal provisório do destino cele ste do personagem. mas boas em essência. à medida que Wilhelm supera a revolta juvenil para integrarse no mundo real como cidadão educado e prestativo. esteja ausente a Providência. isto é. Paris. no sentido que elas possam ter aos olhos de Deus. la cochina lógica. perdió todo su valor la cosa. A desocultação das forças causais profundas que dirigem a existência individual para a auto-realização é. a revelação da o m histórico-cósmica. reduzida a um tipo de adm inistração oculta da História. descobrimos que as peripécias da vida de Wilhelm. 1949. profissional do pe rsonagem. 15ª ed. Sobre a noção de “Superiores desconhecidos” na simbólica maçônica . às vezes ambíguas no seu modo aparente de agir. a autorealização do homem no mundo. Espasa-Calpe. En cuanto una cosa tiene razón de ser y ellos la conocen. que parecem à 213 primeira vista uma sucessão casual e sem sentido. mas. são f reqüentes as menções a sociedades secretas que. refletindo de longe os movimentos da Providência. são governadas. A obr a mais significativa do período. conduz os sere s humanos para uma existência produtiva. sob a proteção velada e amável das potências cósmicas incorporadas no ser coletivo das organizações secretas. Bordas.” 213 Pois bem: entre os séculos XVIII e XIX acontece que o sentido dos enredos passa a fechar-se numa resolução puramente terrestre: o significado das existências já não está no J uízo Final. vocacional. Isso não quer di zer que na literatura anterior a luta pelo sucesso mundano fosse um tema ausente . um anúncio da salvação da sua alma. se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem. É um lugarcomum dizer que o Meister tem um sentido oculto. trad. André Meyer.164 OLAVO DE CARVALHO nen — se dicen: ¡Bah!. por trás do caos aparente dos destinos i ndividuais que se entrecruzam. na nova l iteratura. Também não significa que. Na Comédia Humana de Balzac. acontecia que o fracasso ou o sucesso. e a Providência. é a de Goethe. numa curiosa inversão. e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finali dade em si mesmos. francesa do Wilhelm Meister. surge reduzida a um dos fatores determinantes de um des tino cujo sentido se resolve inteiramente no plano da auto-realização pessoal. no sucesso ou fracasso social. A extraordinária belez a desta imagem da ordem universal não deve porém fazer-nos esquecer que nela se trat a apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”. lo ha hecho por esto o por lo otro. pp. de acordo com a vocação de cada um. já não é a vida humana que tem de se justificar ante uma instância supraterrena. Para eso les sirve la lógica. As aventuras aparentemente caóticas de Tamino e Pamina em A Flauta Mágica de Mozart revelam no fim ser a consecução de um plano concebido pelo sumo-sacerdote Sarastro para levar o casal de noivos à iniciação maçônica que lhes dará o poder e a felicid ade 215. Seu tema é a descoberta do caminho pessoal por entre os múltiplo s equívocos da vida. 1971. um vasto painel da vida social francesa.. No romance de Goethe. o esplêndido prefácio de Marcel Brion à ed. Madrid. O tema é comum a muitas obras maçônica s da época. O sucesso do empreendimento terrestre. dirigem invisivelmente os acontecimentos 216. V.

e Ferragus.v. René Guénon. são personagens cujo poder aparentemente desproporcional com suas qualidades pessoais vem da ajuda que recebem de sociedades secretas. Éditions Traditionnelles. . 216 Vautrin. Paris. 215 V. 208-22 7. “À propos des supérieurs inconnus et de l’astral” em Études sur la Franc-Maç ie et le Compagnonnage. Paris. Jacques Chailley. 1968. por exe mplo. em Le Père Goriot. 1978. pp. Ópera Maçonnique. em Histoire des Treize. tome II. Robert Laffont. La Flûte Enchantée.

infel izmente não concluída. a alma resgatad a. a tentativa de fazer da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida. do perfeito equilíbrio entre a atividade criadora e a passividade contemplat iva: na tríade chinesa. de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisioná-lo na dimensão terrestre 217. na velhice. Mas. a maçonaria. aprendidos na de votada leitura dos grandes poetas e pensadores místicos persas e árabes. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é prec isamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. são uma prese nça constante na lírica goetheana. que fique claro: Se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos. Os temas da espiritualidade islâmica. torna-se. como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios. isto é. desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado . ao progresso. capaz de absorver o conhecim ento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação. De acordo com Guénon. passivo e obediente ante as injunções do Es218 217 Portanto. não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profe cia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão. transcendendo a esfera histórico-cósmica. Ressurgem então os temas cristãos. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo a s marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países eur opeus e mesmo nos Estados Unidos —. a realização do sentido da existência terrestre. Em conversações privadas. a insufic iência espiritual dos Pequenos Mistérios e buscasse insistentemente uma perspectiva espiritual mais elevada. e. se e leva aos céus. ele não viu outra saída senão buscar a espiritualidade superior numa tradição religiosa vizinha: o Islam. ele procura integrar essa perspectiva no q uadro maior de uma ascensão puramente espiritual. s e não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —. a civilização do Ocidente. Ora. e só conserva seu sentido qua do integrada no corpo de uma tradição espiritual maior. A consideração de uma possível “saída islâmica” para o conflito pressa com um século e meio de antecedência e em escala pessoal. Dividido entre o impulso espiritual e a rejeição maçônica do cr istianismo. é não apenas a da individualidad e humana perfeitamente realizada. re staurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional. A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —. é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios. Na continuação de Wilhelm Meister e s obretudo no segundo volume do Fausto. tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao ho mem as portas de uma nova civilização. em todas as tradições. passiva e “feminina” ante Deus. sent isse de maneira mais ou menos obscura. é ativo e dominador perante a existência terrest re. não teria alternativa se não cair na barbárie ou islamizar-se 218. Goethe conscientiza-se aguda mente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. Jen. mas a do ponto de interseção entre o Céu e a Terra. Goethe manifestou várias veze s sua apreciação pelo profeta Mohammed. que fora prometéica e dominadora ante o mundo. A imagem do Hom em Perfeito. bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor d a História. a formulação do drama Ocidenta l que viria a ser dada por René Guénon. à sociedade. o Homem. que chegou a tomar por tema de uma peça. durante toda a sua vida madura. inversa e complementar mente. de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males como o preten . ou Homem Universal.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 165 des Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do di vino. É altamente significativo que Goethe. tendo vivenciado a ruptura maçônica com a tradição c ristã e se tornado o porta-voz por excelência da ideologia históricoprogressista. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória inte rior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmi ca.

. não exclusivamente. . Est a interpretação é viável. decerto. se transferisse para o Egito e adotasse em tudo o estilo de vida islâmica é interpretado por alguns estudiosos com o sinal de que ele perdera toda esperança numa restauração espiritual do Ocidente.dia aliás o próprio René Guénon nte. mas ao menos significativame O fato de que René Guénon. mas não encontra respaldo suficiente nos textos de Guénon. na última etapa de sua vida.

declarada ou pressuposta. a saúde e a riqueza de todos os bons cidadãos. ocasionando o predomínio u nilateral da ideologia prometéica desvinculada de todo contato com o Espírito. É “desequilíbrio”. que encontra expressão no primeiro volume de Wilhel m Meister. numa me sma alma. o conjunto das determinações de espaço. mas sua contrib uição decisiva foi introduzir na moral do homem moderno um novo senso do pecado: na mesma medida em que a função da Providência já não é conduzir os homens à vida eterna. com sentimentos progressistas imbuídos de revolta prometéica contra o esta do de coisas na sociedade. onde se desenrola sempiternamente a luta de Leviatã e Beemoth. Daí surge a poderosa imagem mítica que ainda sensibiliza a alma contemporânea: o mito do guiame nto celeste em direção ao sucesso. cometer at os de violência. é algo que se explica precisamente pela origem comum de ssas duas atitudes no amálgama ideológico que este livro vem descrevendo: onde quer que. “Desequilíbrio” significa qualquer ato. por exemplo. mas vale por si como horizonte term inal da existência. A ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. comer comidas gordurosas ou fumar. Na nova sociedade. se empe nhe na conquista audaciosa dos bens deste mundo. que furta ao ho mem incessantemente o desfrute benéfico das melhores conquistas da técnica material e transforma o progresso numa aceleração do desespero. n conflito entre progressismo técnico e crise ecológica). pensamento ou hábito que possa colocar o indivíd uo em desarmonia com uma ordem cósmica supostamente empenhada em garantir o sucess o. E. repre senta um corte ao meio do corpo do Homem Universal. para que. o pecado não reside mais numa ofensa à dignidad e do homem. o Espírito Santo. o pecado não é punido com uma penalidade espiritual após o Dia do Juíz o. consciente ou inconsciente. a Terra. só pode acarretar para o homem a qued a sob o domínio de Ti. como a ordem cósmica já não co nstitui apenas a passagem à esfera espiritual. Tal como vimos parágrafos atrás (§§ 1 9 a 22). na esteira do discurso da Revolução Francesa. surja um prometeanismo revolucionário. a tornar-se c rença geral das massas ocidentais: hoje não há nas grandes cidades quem não viva segundo a expectativa. toma logo a forma de um apelo lisonjei ro à juventude. no amor e na vida social em ge ral.166 OLAVO DE CARVALHO pírito. como o sentiam em outras épocas aqueles que cometiam adultério ou roubavam. A ideologia prometéica que. por meio da fusão entre o ocultismo e a ideologia americana da auto-realização. r epresentam sintomas — e ao mesmo tempo a cura — de algum desequilíbrio com a ordem cósmi ca e por isto induzem as pessoas que passam por essas situações a sentirem constrang imento e vergonha. da doença ou da pobreza. auto-real ização da História — choca-se fatalmente com as limitações da natureza física (por exemplo. Que essas convicções aparentemente conformistas possam coexistir. rompendo com toda forma de obediência tradicional. no nosso tempo. A ação decai em agitação estéril. sendo por isto os fracassos explicados como desajustes em relação à ordem cósmica. n ascerá também um sentimento de conformismo passivo ante a ordem física. Ficar g ripado. onde quer q . até chegar. ter dívidas ou sofrer um acidente de automóvel são coisas que. e. oferecia lev ianamente a todos os homens o desfrute imediato da felicidade terrena tão logo a s ociedade se livrasse das peias da religião. O enxerto de simbolismos orientais nessa ideologia de origem substancialmente maçôni ca e revolucionária permite explicar os fracassos em razão do karma. mas também é “desequilíbrio” não escovar os dentes. nesse quadro. ou na desobediência a um mandamento divino explícito. isto é. tempo e qu antidade que constituem o cosmos físico. a co templação em passividade escrava. do mesmo modo que o impulso de transcender as barreiras espaciais (por exemplo através da rede mundial de tel ecomunicações) se choca contra o mecanismo cego da entropia histórica. Ao longo do século XIX ele evoluiria. a mais dolorosa e trágica expe riência espiritual já vivida pelo homem sobre a Terra. mas aqui mesmo e na forma do fracasso mundano. o ímpeto destr utivo que fizera a Revolução devia ser canalizado para a busca do sucesso. a ruptura com Tien. seja isto lá o que for. na ausência de uma conexão com o espírito. pelo menos “em excesso”. Aí a busca da liberdade criadora — ação do homem no tempo. de que um concerto de potências invisíveis dirija cada indivíduo no sentido de sua auto-realização no emprego. e sim no “desequilíbri o”. mas sa isfazer a seus apetites neste mundo.

nas mesmas condições. um conformismo obediencialista ante a autoridade dos . surgirá.ue. em contrapartida. se procure dominar despoticamente a ordem física.

XXIX. De um lado. Mas a colaboração entre essas duas correntes vai mais fundo do que geralmente se imagina. 1978 ). noto que. no movimento da New Age. Ludwig Feuerbach: “O homem é aquilo que ele come. a carreira de Napoleão Bonaparte — que durante algum tempo brilhara ante todas as imaginações como o emblema mesmo das possibilidades ilimitad as que a situação pós-revolucionária oferecia aos ambiciosos e arrivistas de toda sorte — terminara muito mal. Mas já na época mesma de sua difusão a ideologia da vitória prometéica deixava à mostra suas contradições. 33-42 da 2ª ed. já não como simples teoria biológica mas como explicação geral do cosmos. Paris. IX e XIII.” 220 V. A constelação do s vencedores formaria a nova casta governante e sacedotal. I. espíritas e socialistas que constituíram por mais de um século o alimento mental dos círculos letrados e progressistas. e L’Érreur Spirite ( 2e. gir ando em circuito fechado. Gallimard . como viria a ser chamada mais tarde. chamando os jovens ambiciosos ao mais extremado individualismo na luta pela vida. por outro lado. havia “Superiores desconhecidos” que podiam dirigir para o me lhor a vida de um jovem talentoso. a própria biografia de Johann W. atira a alma naquele estado de agitação estéril que os gregos denominavam ubris (hübris): o entrechoque de energias que. pp. principalmente e m Paris. um assunto que é aprofundado em Nicolai Berdiaev. os mais aptos. Em teoria. não podem ser canalizadas senão no sentido do enervamento crescente: quanto mais vão e sem proveito um estado de alma. Éditions Traditionnelles. elevando-se ao plano da pura espiritualidade — que é precisament e o que a ideologia moderna rejeita com todas as suas forças. O apelo da ambição prometéica. Under Western Eyes.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 167 senhores deste mundo 219. Ainda não se fez um estudo abrangente sobre o amálgam a de idéias ocultistas. Mas essa soldagem do s incompatíveis. à teosofia e ao espiritismo no q ue tange à aceitação mundial do evolucionismo. réed. os compon entes básicos do iogue-comissário. Se. e estas não deixaram de ser exploradas pela mesma literatura que a divu lgava. de novo. cujo título é o resumo de milhares de vidas de jovens . colhia os melhores. O leitor não terá dificuldade de reconhecer aqui. O tema aparece no me lhor romance do próprio Balzac. e Parte II. ao mesmo tempo que protegiam contra ele os candidatos menos dotados e mais conformistas. 1950 ). maior o seu poder de contágio hipnótico. só para dar uma idéia das afinidades profundas que as diferenças superf iciais encobrem. deixando o jovem talentoso entregue ao mais negro desamp aro. Éditions Traditionnelles. que fracassa tragi camente apesar de todo o talento e dos mais tenazes esforços. bem como o segredo do seu mágico atrativo. O sucesso posterior do marxismo velou a origem ocultista do ideal socia lista. Paris. Cap. subjugando as velhas e decadentes aristocracias de sangue bem como o esgotadíssimo clero romano. a ênfase caricatural nos aspec tos supostamente espirituais da alimentação característica da Macrobiótica. Em Le Rouge et le Noir. H istoire d’une Pséudo-Réligion ( 1929. e isto fazia pensar 222. são dialetica mente complementares. A Nova Era e a Revolução Cultural. teosóficas. Les Sources et le Sens du Communisme Russe ( Paris. o romance de Joseph Conrad. vo n Goethe é o modelo desse projeto de vida 221. para protegê-los e dirigi-los de longe na senda da vitória. de um lado.. mas não há síntese possível a não ser pela Aufhebung que absorve os termos em conflito. IV. que eles po diam sonegar seu apoio. especialmente Parte I. constituiu uma das chaves para a formação da nova aristocracia maçôni ca: a meritocracia. São incompatíveis e inseparáveis 220. 219 A ideologia progressista muito deve ao ocultismo. dá uma idéia da atmosfera reinante nos círculos soc ialistas-ocultistas russos no fim do século passado. como toda contradição sem síntese. Caps. também era verdade. por exemplo refletem menos alguma idéia oriental do que a máxima forjada pelo porta-voz da esque rda hegeliana. 1952 ). Mas. Coisas importantes a respeito foram ditas por René Guénon em Le Théosophisme. éd. espec ialmente Cap. Mais que o Wilhelm Meister. o gênio de S tendhal narra a história de um típico arrivista dos novos tempos.

Qualquer que seja nossa opinião sobre os resultados de sua in vestigação. principalmente no que s e refere aos tempos modernos: enfocá-las não como facções políticas ou grupos de conspirad ores. É some te nessa função que elas podem ser compreendidas e eventualmente julgadas. o método que julgo dever ser utilizado no es tudo da atuação histórica das sociedades secretas e iniciáticas. Bibliothèque de la Pléiade. elegantemente entretecida de elogios d e praxe ao restante da obra do autor. em 8 vols. não merecia ser re cebida como foi: com insultos em vez de argumentos críticos. 248 ss. mas como forças plasmadoras dos símbolos em que se projetam os valores e ideai s de uma época o que é precisamente a função espiritual e sacerdotal por excelência. V. por alto.. então já um sucesso consagrado que seria temerár io desprezar.que acreditaram no apelo prometéico da Revolução e da democracia: Illusions Perdues. tentou pensar as relações entre o fracasso de Napoleão e a ação das sociedades secretas. o fato é que sua monumental Life of Napoleon. por exemplo. Premiers Lundis. até mesmo o grande Sainte-Beuve ( que era maçom ) preferiu ao exame aprofundado o s juízos assertóricos e a mera difamação pessoal. . Ao resenhar esse livr o. em Œuvres. 1960. Paris. 222 Walte r Scott. 221 O presente parágrafo ilustra. pp.

Se a intelectualidade moderna perdeu de vista a existência das castas ( tornando-se até mesmo incapaz de perceber sua própria condição de casta ). trad. o único que enxerga Deus e pode conduzir a Ele. como o segundo Fausto. ai nda que fundado na vontade da maioria. As novas Tábuas da Lei. e Stendhal encontra alívio no esteticismo cético e diletante. Depois da antevisão do velho Goethe — no Fausto mais insinuada do que expressa —. funcionalmente. Como a queda do comunismo parece não ter bast . porque estão imbricadas na constituição ontológica e até mesmo biológica do ser h umano e são compatíveis. na mes ma medida em que. eis o sinal que vos dou. ela foi o tema dominante da sua ficção desde seu primeiro grande livro. com qualquer organização nominal do poder polític o. Na verdade. o est udante Raskolnikov termina por cair no estado de vítima inerme de seus instintos n aturais. reduzida socialmente a um nada. A nova socieda de. a necessidade de reintegr ar a atividade criadora humana no supremo sentido espiritual da existência só é afirma da com plenitude — e com plena admissão de suas conseqüências morais e filosóficas — por um ú ico dentre os maiores narradores do século passado: F. lei ou decreto. Dostoiévski 223. E cumpre-se assim a profecia goetheana : Das Ewige Weibliche sieht u ns hinan. ora de m aneira implícita. que existirão ora de maneira explícita. São Paulo.168 OLAVO DE CARVALHO Mas nem Stendhal nem Balzac enxergavam muito além do círculo históricocósmico onde se de senrolavam as vidas de seus personagens: em Balzac o drama permanece inconcluso. tal é o sinal do Estad o. tem as mesmas duas castas governantes — sacerdotal e aristocrática. a descida do homem desde as alturas de um orgulhoso prometean ismo até o arrependimento que lhe abre as portas do céu. as distinções de castas por funções espirituais. subme te-se ao dominador humano. Pretendendo liberar-se de t odos os entraves morais e religiosos para dar vazão a seu impulso dominador. ou: O Estado bedel 223 Algum leitor pode cobrar-me pela omissão de Manzoni. volta as costas ao reino deste 224 mundo. sejam democráticas ou oligárquicas. a jovem prostituta que encarna a humildad e. que nenhuma constituição. invisivelmente entretecida na grade de uma constituição que não reconh ece a sua existência mas que não pode impedi-las de representar a verdadeira distrib uição do poder. Crime e Castigo é. Logos. M. psicoló icas e políticas tornavam-se invisíveis. “A confusão das línguas do bem e do mal. culturais.” Assim Falava Zaratustra. Mário Ferreira dos Santos. 225 226 § 32. o lado feminino da alma. é um sintoma da vontade de morrer. liberais ou so cialistas. 1954. monárquicas ou republicanas. foi por tê-las confundido c om as “classes” definidas por traços exclusivamente econômicos. que o levam a curvar-se ante o mais forte: ao afastar-se de Deus. Na grade diferenciadora estabelecida por Marx — e copiada com automático servilismo por toda a tradição dominant e nas ciências sociais —. 224 Verso final do Segundo Fausto: “O Eterno Feminino / leva-nos ao alto. Elas são uma “constante do espírito humano”. NIETZSCHE 225 O Estado democrático igualitário é menos uma realidade que uma aparência. como todas as anteriores.” F. Mas I Promessi Sposi é antes um retorno à estética pré-maçônica — com o casamento de Renzo e Lúcia anunciando a salvação da que passa ao largo da problemática aqui enfocada. consagrada na constituição política nominal. que subsistirão como um código secreto no fundo de todas as constituições po líticas. autoridade espiritual e poder temporal — que existirão onde quer que s eres humanos se aglomerem numa coletividade que seja maior do que uma família. a polícia — Leviatã cede novamente ante Beemoth — e só reencont ra sua liberdade ao cair aos pés de Sônia. pode revogar 226.

São Paulo. Louis Dumont em Homo Hie rarchicus. mas sufi ciente para sugerir a subsistência real de diferenças hierárquicas de tipo casta na so ciedade Ocidental moderna ). cit. como viu E. As distinções econômicas. adaptados à situação moderna. Thompson ( op. 1992 — um estudo infelizmente limitado ao sistema hindu. acabaremos fatalmente recolocando na linha das preocupações sociológica s a velha teoria das castas ( como já o fez. “casta sacerdotal” significa simplesmente . P. se recorrermos a distinções mais comp lexas e sutis. nunca é demais insist ir que há mais diferenças hierárquicas entre os homens do que imagina a nossa vã sociolo gia. Edusp.ado para eliminar o prestígio residual do marxismo como ciência. — No sentido em que aqui emprego os termos. por exemplo. trad. E. Carlos Alberto da Fonseca. não bastam sequer p ara definir uma classe no sentido marxista. O Sistema das Castas e suas Implicações. ).

Sobre a psicologia das castas. crêem que o mundo caminha para o ni velamento dos direitos. já falecido. E quando elas ressurgem sob nomes como “burocracia estatal” e intelligentzia. entende que a mais alta forma de poder é aquela que gov erna as mentes dos homens. pois todos crêem que castas só existem na Índia ou no passado medieval. Sobre as castas no contexto atual. sem interferir diretamente em política ). e. por exemplo. Abaixo dessas duas castas. e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitad o por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos. Olavo de Carvalho. professando mentirosamente equaliz ar a distribuição de poder. imbuídos de ilusão igualitária. era visto por todos no campo e na al deia. que gera a aristocracia e. cientistas e técnicos e a arraia-miúda intelectual das universidades. Nossos contemporâneos. o da casta sacerdotal. pelas lideranças sindicai s e por aquela parcela do empresariado capitalista urbano ou rural que tenha força suficiente para fazer lobby. inerme. de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado. v. bem como toda a parcela da classe média que se ocupe somente da vida civil. e mais em baixo ainda a imensa massa dos braçais. definir o p oder exclusivamente por critérios econômicos e políticos foi um truque sujo da intelli gentzia para ocultar seu próprio poder. há os empresários sem força política direta. pelos ensinamentos recebidos em conversas inesquecíveis. aumentando assim o seu poderio. logo. noite ade ntro. tenho para com meu querido mestre e amigo. lança. Mythe et Epopée. IAL. São Paulo. sem se deixar iludir p or aparências e formalismos. e que ad emais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espa da. ocultou-as. Paris. que não apagam a linha divisór ia essencial. entre as quais a da elitização. arco e flecha. Vega. Elementos de Tipologia Espiritual ( apostila ). Sobre as for mas de poder das castas superiores. São Paulo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 169 Foi por isto mesmo que a sociedade democrática. René Guénon. do movimento editorial e d a imprensa. v. os encarregados do guiamento espiritual do povo — uma categoria que abrange desde gurus e magos ( autênticos ou falsos. ser atingido. que vai desde o prole tariado politicamente “alienado” até os párias e desclassificados de toda ordem desde qu e não exerçam poder político através de movimentos sociais ou do banditismo organizado ( pois neste caso fazem parte da casta aristocrática ). caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo. o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário. em seu sítio na floresta da Cantareira. outra coisa é socieda de igualitária. já citado. é menos uma ironia da História do que um a fatalidade inerente à natureza do poder: não podendo eliminar as castas governante s. mas reconheço a dívida que. também consideradas fora do contexto atual. depois a julga e eventualmente condena. homem entre homens. os acadêmicos. teve de elitizar-se a um ponto que seria inimaginável para os nossos antepassados. qu alquer que seja o seu tamanho ( o que vai desde o grande empresário politicamente isolado até os pequenos comerciantes e proprietários rurais. Essa classificação baseia-se na distribuição real do poder. idealmente considerada e fora de toda referência às sociedades modernas. e não em meras abstrações econômicas. pouco importa ). para a formação de minha s idéias a respeito. e podia portanto. Há evidentemente interseções. dos meios de poder. bem como Ge orges Dumézil. 1988. sacerdotes e altos dignitário s de sociedades secretas até os ideólogos de largo escopo. derruband o-a com o auxílio das castas inferiores. Essa ilusão tornaos cegos para as rea lidades mais patentes. nunca li trabalho algum que valesse a pena. seja pacificamente ou pela violência. elevando-a ao poder político. sem precedentes. 1947. em caso d e grave ofensa. “Casta aristocrática” significa todos os que exercem o poder políticomilitar ou têm condições de reivindicá-lo: isto vai desde os governantes até os políticos de oposiçã passando pelos escalões superiores do funcionalismo público. Pois uma coisa é ideologia igualitária. O imaginário moderno concebe. nas campinas imensas onde o grito se perde . Juan Al fredo César Müller. Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. ninguém as reconhece. Que essa ideologia pudesse transformar-se no instrumento da mais f ormidável concentração de poder nas mãos de poucos. às vezes trazendo-o na garupa. só a casta que detém o poder espiritual pode legitimar o status quo ou mudá-lo. sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado p or outros meios senão a concentração de poder 227.

falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barr eiras burocráticas sem fim. alarmes.na distância. cercados de portões eletrônicos. por uma lâmina vingadora. mas ela nunca esteve tão perfeitamente isolada d e suas vizinhas”. Em p rimeiro lugar. Em terceiro. mais dinheiro do que nós temos. guardas armados.. o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância do s dominados.. demonstrou que o curso da história política do Ocidente desde o Império Romano até a II Guerra Mundial se dirigiu claramente no sentido da concentração do poder mediante a extinção ou neutralização dos poderes sociais i ntermediários. Não entramos lá. cit. Em comparação com ele. os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínio s fechados. os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocu ltas. deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhece227 Bertrand de Jouvenel. O exame das cinco décadas que se seguiram à publicação da obra de Jouvenel mostra que a tendência aí denunciada se acentuou ainda mais. 228 “Sempre houve uma cla sse privilegiada. que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os 228 mortais . . cit. 12 ). seu tempo vale dinheiro. e nossos pedidos. p. matilhas de cãe s ferozes. Pela foice do camponês. Por uma faca de cozin ha. passim. Em segundo lugar. meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis.. assinala com justeza Christopher Lasch ( op. causas ocultas. nossas imprecações e mes mo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua. mesmo na América. potestades ocultas. op.

São necessários também para debilitar todos os poderes so ciais intermediários. me faço ouvir — tanto quanto qualquer outro i ntelectual — pelo poder político. os cidadãos reivindi cam mais e mais direitos. Esse pr ocesso não é inconsciente: em todos os países do Primeiro Mundo. Eis como o progresso dos direitos nominais não se acomp anha necessariamente de um aumento das possibilidades reais. sem outra esperança senão a de uma f utura revolução socialista (que os reverteria a uma condição similar à de escravos romanos ). 230 229 Falo aqui como porta-voz do homem do povo. se através de lutas e esforços sobre-humanos o movimento sindicalista obtém fina lmente para essa horda a jornada de trabalho de oito horas e a semana de cinco d ias. as novas leis. de cujas queixas ele nece ssita para justificar sua expansão. direitos humanos. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas. tão veraz ao discernir os fatores que obstaculizam ou fomentam o d esenvolvimento econômico. ela ainda está abaixo da condição do camponês medieval. s enão uns seis meses por ano. Por isso a ideolo gia neoliberal. mas é claro que pessoalmente. O servo-da-gleba também tinha o direito de ir e vir. os novos direitos. tinha as terras da Igreja. que não trabalhava. transformamse em leis. Mas esta distinção esca pa aos porta-vozes da ideologia progressista. que confundem palavras com coisas e intenções com atos. complicada que seja a sociedade. o episódio deu tema a uma novela de Heinrich von Kleist : Michel Kolhaas). socialismo e progressismo. precisa ser muito hipócrita para não se incluir a si mesmo na categoria dos “poderosos”. Estado assistencial. que ao menos tinha o direito 229 de saber quem mandava nele . e assim o Estado se torna mais poderoso e opressivo quanto mais se multiplicam as liberdades e direitos humanos. o Estado tornou-se o proxeneta assumido de todas as minorias insatisfeitas. pela minh a condição de escritor e intelectual. a Revolução encampou essas terras e as rateou a preço vil. por fim. é claro. tanto quanto outrora necessitava do apoio das grandes fortunas para sufocar os movimentos sociais com que ainda não sabia lidar. Protestos e reivindicações incessantes são necessários para manter a sociedade num esta do de divisão e de mudança psicológica acelerada. onde todos eram livres para plantar e colher . eis a parte que nos cab e deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibil idade divina. E. Mas. igualitarismo. e temos razões para invejar o servo-da-gleba. tenho mais informações sobre a organização do poder do que o homem das ruas e. formadora de mini-agentes de transfor . que era obrigado a recebê-lo em troca de uma promessa de lealdade. mesmo sem um tostão no bolso. sem passaportes ou vistos e sem ser revistado na alfândega (o primeiro senhor de terras que resol veu taxar a travessia de suas propriedades desencadeou uma rebelião camponesa e pe receu num banho de sangue. requerem a expansão da buro cracia fiscal. de modo que o Estado possa pairar soberanamente sobre um mar de átomos humanos nivelados e desorganizados entropicamente231. se caísse na mais negr a miséria. ao serem reconhecidos. Após dois séculos de democracia. E. Sem esquecer. e instalar-se nas terras do senhor vizinho. por um direito milenar. a dialética do poder no Estado moderno é diabo licamente simples: incentivados a fazer uso de seus direitos. em média. Tinha ainda o direito de mudar de território. equivoca-se ao sugerir que o “enxugamento” do Estado — sua ret irada das atividades “impróprias” — esteja associado de modo automático e óbvio a uma promes sa de maior liberdade para os cidadãos. e nriquecendo formidavelmente os burgueses que podiam comprá-las em grande quantidad e. que não possa ser administrado senão por uma burocracia onipresente. a rede de educação pública. para poderem ser aplicadas. caso lhe desagrad asse o seu senhor. e criando a horda dos sem-terra que foram para as cidades formar o proletaria do moderno e trabalhar dezesseis horas por dia.170 OLAVO DE CARVALHO mos. O intelectual. policial e judiciária 230. quando quero.

segundo elas. promovem pancadarias e autos-de-fé em que queimam em grandes fogueiras públicas as revistas e jornais de seus inimigo s. O alvo de seus ataques não é o establishment. . nem a família tradicional.. mas. pois não há limi te para a fragmentação entrópica desde o momento em que as correntes de opinião passam a ser determinadas pela libido. É previsível que logo. é a maior ofensa à dignidade da causa lésb ica.. discriminados pelos machões que só gostam de machões. que invadem bares. o m ovimento gay! O machismo gay. segundo notic ia The Times de 8 jan.mação social necessários para que as novas leis se transformem em costumes generalizad os.. 231 Desorganização entrópica: em Londres. as Lesbian Avengers. em seguida. 1995. os s adomasoquistas protestem pelos seus direitos.. cindindo-se imed iatamente em partido sádico e partido masoquista. entrou em atividade um grupo de militantes lésbicas e nragées. que. que em seguida os transe xuais se revoltem contra as drag queens por caricaturarem a forma feminina. Veremos isto mais adiante. E assim por diante. surjam protestos análogos da parte dos travestis e trans exuais.

O pátrio poder. a Folha de S. A educação e as comunicações de massa — dois setores entregues ao império de intelectuais at ivistas que um tanto inconscientemente são os mais dóceis colaboradores do Estado mo dernizante — atacam por todos os meios as velhas relações comunitárias fundadas no costu me. Cia. da família e das pequenas comunidades 232. desistiu de morar na Suéc ia. Cultivam. Um amigo meu. no Brasil. na religião ou na natureza das coisas. nada deixando para a livre decisão do indivíduo. A mesma matéria. a mentira de que as novas gerações escapam ao controle paterno porque. mediante as leis sobre o uso dos cin tos de segurança e sobre o consumo de cigarros. A expansão do olhar fiscalizador do Estado (e da intelligentzia) par a dentro da esfera privada tem como uma de suas mais graves conseqüências a redução da d iferença entre o moral e o jurídico — diferença que. Este é um p onto que os pensadores neoliberais devem examinar com cuidado. sempre foi uma das garantias básicas da liberda de civil. numa página de noticiário policial ou geral. tendem antes a crescer desmesuradamente. Editora Am . 233 Sobre a Suécia. Paulo. assistência médica e pol puda aposentadoria. Não é coincidência fortuita que. Até umas décadas atrás. por exemplo. a vitória esmagadora das economias capitalistas tenha vindo junto com a crescente intromissão do Estado na moral privada. Nos EUA. a justiça. nos países do Prim eiro Mundo. ler a imprescindív el reportagem de Janer Cristaldo. A razão disto é dupla: primeira. pois as contradições teóricas no seio de uma ideologia podem ser as sementes de futuros conflitos que u ltrapassem o terreno das meras idéias. revogável ao me nor sinal de abuso. a autoridade pública regulam enta hoje da maneira mais direta e ostensiva todas as relações humanas. exilado pela ditadura. deixou de ser um direito n atural inerente à condição humana. que à medida que se descarrega do fardo econômico o Estad o busca para si novos papéis que justifiquem sua existência. graças à TV e aos computadores. o pai de família que estendesse as asinhas 234 232 Também não é coincidência que. concedeu uma manchete do F olhateen à notícia de que a maior parte dos estupros de menores é praticada pelos pais . para acelerar sua substituição por relações cri adas artificialmente pela administração estatal ou pela dinâmica do mercado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 171 Pois não é só mediante o exercício de atividades impróprias e acidentais que o Estado opri me as pessoas. alertando-os para um problema social. se dirigiria a adultos . a polícia. o mais popular defensor do neoliberalismo — o pr efeito Paulo Salim Maluf — seja também o primeiro governante a procurar interferir d ecisivamente nos hábitos privados dos cidadãos. ficam mais inteligentes a cada dia que passa — uma as serção que é desmentida pelo miserável desempenho cultural dos geniozinhos tão logo chegam à universidade ou lhes damos um livro para ler. E estas. a educação pública. resguardando da intromissão oficial áre as vitais do comportamento humano. que foi precisamente para poder expandilas que o Estado se ret irou da economia. Isso acontece por igual nas ec onomias neoliberais e nas social-democráticas. segunda. Recentemente. Num suplemento juvenil. Rio. em vez de retrair-se no novo quadro neoliberal. nem muito menos na dos jornalistas e proprietários de jornais 234. para se tornar uma concessão do Estado. incita diretamen te os leitores a suspeitarem de seus pais. mas sim também — e principalmente — daquelas que lhe são mais essenciais e próprias: o fisco. por exemplo. mesmo as mai s íntimas e informais. fundando-se numa est atística muito grosseira improvisada por uma delegacia. por não suportar mais viver num país onde a insolência juvenil é pro tegida pela polícia e onde ser pai é expor-se a toda sorte de humilhações nas mãos de uma santa aliança entre moleques e burocratas 233. O Paraíso Sexual-Democrata. onde um governo hospitaleiro lhe dera moradia gratuita. e acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana antes entregues ao arbítrio privado. a confiarem de preferência na polícia e n os assistentes sociais — o que se funda no pressuposto de que não há estupradores na c lasse dos funcionários públicos. Às vezes vão mais longe: advertem as crianças contra os graves perigos que correm ao confiar em seus pais em vez de ent regar-se à proteção do Estado.

São todos pessoas educadas.ericana. cul tas. de alma delicada e sentimentos estéticos incompatíveis com os instintos violent os. Somente a mim parece ter ocorrido a idéia de que seria difícil resistir ao impul so de abater a tiros. já têm um tremendo sex appeal e jogos de sedução de fazer inveja a Sharo n Stone. quem se aproximasse de meus filh os imbuído de semelhante doutrina. 1978. defende como justa e saudável a prática da pedofilia. nem muito me nos se lembrou de processá-lo por apologia do crime. como a um cachorro louco. aos três anos. de vez que as criancinha s. . um premiadíssimo escritor gay. Ninguém saltou à goela do declarante. nem o expulsou a pontapés. no Jornal do Brasil de 1996. Embora não seja pai de família.

sedutor de domésticas e estuprador de crianças. perpetuamente à espera de que alguém faça algo por eles. que é a de fiscalizar a conduta moral de seus membros. O Estado utiliza-se das reivindicações de autonomia dos indivíduos — reivindicações p articularmente fortes nos jovens. para uma sociedade onde não haverá mais a diferença entre adulto s e crianças. Aqueles. sobreviver sem o amparo estatal e muito professional h elp. . Evoluímos. biológica e legalmente adultos. cuja soma compõe a massa atomística dos protegidos do Estado — tanto mais inermes e impotentes quanto mais carregados de direitos e garantias. era mais do que suficiente p ara fazer justiça. criar ligações verdadeiras uns com os outros. o caso passou da esfera ética para a jurídica — e o Estado. mas por uma exigência intrínseca da dialética do poder: numa sociedade onde todo cidadão pertencente a esse grupo é estigmatizado como um virtual espancador de mulheres. dos filhos. Se a bête noire visada por todas as campanhas de proteção aos direitos é sempre o macho adulto heterossexual. de outro lado. dos vizinhos. na verdade o que faz é usurpar uma das funções básicas da comunidade. cultivando as suscetibilidades neuróticas que os infantilizam. faz da mulher uma unidade autônoma. cheios de autopiedade e indiferentes aos sofrimentos alheios. por exemplo. pois todos serão menores de idade. Niveladas todas as diferenças. A proteção oficial ao aborto. sendo proporcional à falta cometida. isto não ocorre por casualidade nem por mera birra feminista. e este castigo. Uma prova de que a intromissão do Estado visa menos a proteger as supostas vítimas de abusos do que a suprimir as velhas formas de associação é que as no vas legislações de direitos dão sistemática preferência às reivindicações que separam os home sobre aquelas que os unem. a pretexto de proteger d omésticas ofendidas. sentimentos e até olhares de seus semelhantes — uma garantia jurídica contra a vida. no mínimo. onde já não haverá pais e filhos — somente a multidão inumerável dos órfãos de todas as idades. de amigos. mas incapazes de assumir qualquer r esponsabilidade pessoal nas ligações mais íntimas. já antes da II Guerra. mesmo as espontâneas e informais — um gal anteio. se mpre trocando de namoradas. antipatias. da paróquia — um castigo moral infligido espontaneamente pela comunidade. o bairro. que vêem algo de bom nas leis contra o fumo são cegos para a monstruosidade que reside no fato de a esfera jurídico-penal invadir o campo da s boas-maneiras. um olhar. por exemplo. com a leviana desenvoltura de quem troca de meias 235. cada ser h umano torna-se uma unidade abstrata e amorfa. devida mente empregados e no gozo de seus direitos. nem criança nem adulto. sexualmente indecisos — o que é uma condição sine qua non para a dissolução dos caracteres na sopa entrópica da “c dania”. nem jovem nem velh o. reunidos num imenso colégio interno s ob a tutela do Estado bedel.172 OLAVO DE CARVALHO para cima de sua doméstica atrairia sobre si a desaprovação da esposa. por Jan Huizinga ( v. “Libertando” os h omens de seus vínculos com a família. que decide ter ou não ter filhos sem a menor necessidade de co nsulta ao marido. Nas Sombras do Amanhã. E a situação as sim criada terá o dom da automultiplicação: após ter 235 Esse processo foi observado inicialmente nos países sob governo totalitário. de um lado. como de uma isca para prendê-los na armadilha da pior das tirani as. cada um com um luzente crachá de “cidadão” 236. protegen do-os sob a imensa rede de serviços públicos que os livra da necessidade de recorrer à ajuda de parentes e amigos. nos discriminados. assim. o “cidadão”. nem homem nem mulher. a simples descortesia de acender um cigarro num ambiente fecha do. o Estado na verdade os divide. Quando ao castigo moral se soma porém a sanção penal e administrativa . a paróquia. e. e descr ito com precisão. Daí o fenômeno alarmante da adolescência prolongada — hordas de cidadãos. O Estado torna-se cada vez mais o mediador de todas as relações humanas. isola e enfraquece. tornand o-lhes impossível. nos ressentid os de toda sorte —. não espanta que ninguém queira amadurecer para ingressar ne le. de planos e objetivos vita is. que todos prefiram permanecer adolescentes e. em suma —. de terapeutas. A procriação deixa de ser uma decisão familiar. nas mulheres. oferecendo-lhes o engodo de uma garantia jurídica con tra os preconceitos. para tornar-se um tr ato em separado entre a mulher e o Estado: o divide ut regnes invade o quarto nu pcial.

portuguesa. Huizinga destaca o fenômeno do puerilismo como uma das cara cterísticas dessas sociedades. Coimbra . Esse fenômeno hoje é de escala mundial. que tratam com reverente atenção atividades puramente lúd icas e com leviandade juvenil os assuntos sérios. sob pena de ir pa ra a guilho- . cuja au ra de prestígio vem do esquecimento: o principal direito que a Assembléia francesa c oncedeu ao citoyen foi o de servir obrigatoriamente ao Exército. trad. formam.Um Diagnóstico da Enfermidade Espiritual do Nosso Tempo. 236 Citoyen: palavra terrível. e entregam a discussão filosófica e teológica a jornalistas semile trados. 1944 ). eruditíssimos técnicos de futebol. por exemplo. Arménio Amado.

respeitada desde o Império romano — e inaugur ou a era do envolvimento sistemático das populações civis no morticínio generalizado. um costume legítimo e aceitável que já não nos inspira o que em épocas menos abjet as seria uma natural repugnância. mas também com a ação de solapamento com que a tagarelice adolesc ente ia minando os alicerces da confiança familiar. das qualidades exce lsas que se desejava associar a determinados produtos. Ele começou. Depois foi assimilado pelos anarquistas e comunistas: usando garotos fan atizados para jogar bombas na aristocracia. puderam contar não somente com reservas de credulida de quase inesgotáveis. aquelas entidades qu e professam exatamente defender os mais altos valores humanos. crianças posando em anúncios funcionavam como emb lemas. se já é um desrespeito intolerável usá-los como instrumentos de campanhas de vasta envergadura. afinal. Ci toyen significa: súdito da burocracia militarista. Não: quem faz isso já não são organizações subversivas.. acabassem se rendendo e assimiland o ao menos parcialmente toda sorte de novas crenças e manias. de modo a dar a entender a essas hordas de mini-imbecis que nada está acima de sua compreensão. que não há assunto. prevalecer. Hoje em dia já não são partidos radicais nem tubarões ca pitalistas que exploram o narcisismo infantil e a vaidade juvenil como instrumen tos de pressão para levar-nos a fazer o que não queremos. até fazer com que pais e mães. mas levavam ainda a indiscutível vantage m publicitária dos martírios infantis. quando praticamente todas as organizações empenhadas em qualquer tipo de objetivos soi disant humanísticos. por conta do brilhan te futuro a que são convocados. des esperados pela inocuidade de seus argumentos. Mas. em última análise. Vimos isto no parágrafo an terior. entre os quais. cuja origem desconhecem. embora seja claramente um abuso da inocência alheia. a Unesco. Na década de 60. mais cruel ainda é que esse uso seja fundado. por mais sutil. pela repetição uni versal. por bárbaras e imbecis que fossem. tornado assim. por mais obscuro. por mais imaturos e inexperientes que sejam. na lisonja mais descarada à vaidade pretensiosa do seu público mirim.. comerciantes inescrupulosos e seitas de excêntrico s: são fundações educacionais. A intromissão direta nas relações familiares praticada pelo Folhateen exemplifica aliás só uma dentre as dezenas de maneiras pel as quais a aliança do Estado modernizador com a intelectualidade ativista e com as forças do mercado se utiliza de crianças e jovens como “agentes de transformação social”. pois. no qual suas opiniões e desejos não devam. na Revolução Francesa. investindo de pre ferência sobre o público juvenil. sempre e sistematicamente. Devem. instrumentos de agitprop. são governo s. em português claro. já não reparamos no que ele tem de imoral e criminoso . dessensibilizados pela repetição. a comprar o que não precisam os. enfim.— são. Morgen zu uns gehört 237 e. são ONGs dirigidas por intelectuais de prestígio. salvar o que restasse da comunicação doméstica. a renegar nossas crenças e valores e a adaptar-nos a toda sorte de caprichos i diotas para não sermos reprovados socialmente e não nos tornarmos párias. De outro. O uso foi duplo: de um lado. são organizações internacionais como a ONU. já devem ir exercendo no dia de hoje sua pesada quot a de poder. u m termo elegante que significa. O us o de menores de idade como veículos de propaganda. o respeito à criança e ao adolescente. ouvir a mensagem da casta intelectual. educacionais etc. fortemente atrativos para a sentimentalidade popular. Com isto a Revolução atirou para os ares uma das mais belas conquistas da civi lização — a liberdade pessoal de não guerrear. podia-se contar com o tremendo apoio representado pela pressão que as hordas de consumidores mirins exer ceriam sobre seus pais. por exemplo. ao menos para tina. tornou-se de umas décadas para cá um costume tão generalizado que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 173 infantilizado os cidadãos. caso o produto se dirigisse ao próprio público infantil — brinquedos ou doces —. Porém o melhor de tudo veio a partir da década de 80. libertários. Em contrapartida. adotaram maciça e universalmente o uso do marketing infanto-juvenil. o Estado alegará a deficiência de seu juízo moral para se met er cada vez mais em suas decisões privadas. as seitas pseudomísticas. a indústria capitalista desco briu o emprego publicitário da candura infantil para a venda de toda sorte de prod utos. retransmi . esses movimentos tinham não somente um exército de recrutas facilmente governáveis. até onde posso comprová-lo. cujas implicações políticas mal imaginam..

onde imporão — mensage iros da modernidade — os novos valores e critérios — 237 “O futuro pertence a nós” — título e refrão do hino da Juventude Nazista. e levá-la a seus lares.tida por professorazinhas semiletradas. .

reivindicar de seus pais o cumprimento dos quesit os ali formulados. O uso de crianças como “agentes de transformação social” tem conseqüências temíveis. como se as ações humanas resultassem diretamente do saldo bancário e não dos desejos alimentados pela imaginação. de outro. e ligado diretamente só ao Estado241.. O Estad só foi protetor da família enquanto teve de atender à pressão de poderes sociais mais a ntigos. acabem adotando toda s orte de puerilismos da moda como se fossem as novas Tábuas da Lei. Em primeiro lugar. para a sociedade em geral. para os quais a cultura não contribuiu em absolutamente nada. lideranças e lealdades territoriais — são por natureza os mais fortes oponentes da autoridade estatal. Lewis Carroll e as fotos de David Hamilton) se enche de brios hipócritas ao denunciar abusos sexuais contra menores de idade. O que exist e — acrescento eu — é um vínculo entre a rebeldia juvenil exacerbada e as ideologias pro pagadas há decadas pela intelligentzia. que elas procuram diluir numa hierarquia de poderes sociais diferenciados e numa complexa rede de associações informais. isenta-se então de sua responsabilidade. a idéia de sua aliança natural com o Estado é um mito. isto é. nest e caso. 1995 ). que em seguida lança suas culpas sobre a est rutura econômica da sociedade. que cresce assustadoramente em todo o mundo. 1995: “O que estamos produzindo é uma nova ‘classe guerreira’ de homen s separados da influência socializante da família e das responsabilidades domésticas. Janet Daley escreve em sua coluna em The Times. A sociedade moderna caminha decisivamente para a destruição desse s poderes intermediários e das associações humanas que os sustentam. a decepção de ver que agora se tornou um número anônimo. um joão-ninguém — e não haverá out io de escapar da depressão daí decorrente senão agarrando-se a sonhos e ilusões juvenis. como se sabe — e em seguida repeti-los em família. A razão disto é que a família e todas as comunid ades tradicionais — religião. que é a maior culpada pela utilização dos menores como instrumentos p ara o marketing dos “novos valores”. segundo a interpretação que lhes dêem o notório saber jurídico de suas mestras e a peculiar acuidade jurisprudencial de meninos de oito anos. a classe que propagou a moda do sexo livre 238 e o culto erótico das ninfetas (festejando por exemplo Nabokov. adquirindo os traços e sintomas da adolescência prolongada 238. terá. até que pai e mãe. dando a entender que são efeitos da pura desigualdade ec onômica. como a Igreja e os remanescentes da aristocracia. se sentiu um líder. leva-as a um sentime nto hipertrofiado de sua própria importância. na adolescência.174 OLAVO DE CARVALHO a seus atônitos progenitores. Devem ler com atenção devota o Estatuto da Criança e do Ad olescente e. estava mais na rebeldia típica da adolescência do que na origem pobre do men ino”. 5 jan. Ela constatou que a razão do problema. Em segundo lu gar. é óbvio que a lisonja às pretensões mais descabidas da juventude é uma das causas pri ncipais da criminalidade juvenil. tornando-as virtualmente inadaptadas às limitações da vida adulta: o menino que. Do mesmo modo. de modo que o ind ivíduo fique sem conexões orgânicas em torno. impotente e solitário no oceano do mercado livre. de um lado. Quanto à família. A intelligentzia. chegando em casa. Institute of Economic Affairs. temerosos de ser passados para trás. do aborto e do sexo livre 240. Farewell to the Family? ( Lond on. Devem rec eber os ensinamentos morais transmitidos por espevitadas atrizes de TV — as mais a ltas autoridades em questões de consciência. A conclusão de Fúlvia Rosenberg é que não existe o vínculo que a opinião vigente da int lectualidade estabelece entre a pobreza e o fenômeno dos “meninos de rua”. Jornal do Brasil de 22 de maio de 1995 — “um grupo em especial chamou a atenção da pesqu isadora: adolescentes pobres que foram viver na rua porque enfrentaram conflitos familiares e resolveram sair de casa. 240 Livre e seguro: Não é o que nos promete o Ministério da Saúde? 241 Resumindo o livro de Patricia Mongan. procuran do atribuir a criminalidade juvenil ao atraso econômico e à miséria — uma desculpa esfar rapada que uma recente pesquisa desmascarou da maneira mais contundente 239. um agente criador do destino coletivo. . ao ingressar no mundo da economia e do trabalho . para elas mes as. Tão logo livrou-se desse s aliados incômodos. círculos de amizade. É apenas uma questão de tempo até que algum demagogo procure organizar essa delinqüência . ele revelou ser menos o protetor da família que o protetor do d ivórcio.

Esses homens deslocados são o alimento ideal para o recrutamento fascist a. do total de 4.99. e muitos frequentavam escolas.anárquica. trab alhando Por que os jovens de hoje têm tanta pressa de “se realizar” antes dos vinte e cinco an os e entram em depressão quando não o conseguem? Porque a mitologia do nosso tempo a ssociou a idéia de juventude ao sentido da vida. Um homem casado pai de dois filhos. porque o governo britânico adotou “um programa de des incentivos financeiros ao casamento e à estabilidade familiar. Dentre as crianças abrangidas pela pesqui sa. de modo que. algumas eram exploradas por adultos. só 895 dormiam na rua. professora da PUC de São Paulo e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. 239 Fúlvia Rosenberg.520 “meninos de r ua” que circulavam na capital paulista. deduzido impostos e aluguel. segundo Morgan. mas — resume o . que só os casais mais determinados ( e afluentes ) podem ficar livres de suas desvantagens. Uma mãe sol teira com dois filhos pode trabalhar 20 horas por semana a £4 por hora e terminar com £163. outras estavam simplesmente ganhando a vida. a vida já não tem mais sentido.” Isso ocorre. constatou que. passada a juventude. os outros tinham casa e família.

é a mais t riste demonstração desse fato. Pergu nte a si mesmo por que. num sentido diferente do que lhe dav am os esquerdistas. na Europa e nos EUA. incumbida de proteger pessoas como o autor desta s linhas contra aqueles que nos chamarem de esquisitos. no fundo. Muitas pessoas acreditam que a proliferação das ONGs prova um a tendência contrária — uma tendência a limitar os poderes do Estado e enfatizar as inic iativas espontâneas dos cidadãos. quando o Estado interfe re na economia. dos go rdos. que acabam se associando a interesse s estatais e empresariais e vão perdendo toda ligação com sua origem comunitária 242. sem outra relação humana exceto com os funcionários da previdência social. em seguida virão as dos deficientes físicos. O Estado tende a alimentar a irresponsabilidade moral para po der alimentar-se dela. isto só será um novo pretexto para verberar a irresponsabilidade moral dos c idadãos e justificar a criação de mais e mais órgãos policiais. em cada um desses casos. E quando se verificar enfim que todo esse crescim ento canceroso da burocracia não diminuiu em nada as violências que lhe servem de pr etexto. e de que quando sai dela deixa as pessoas liv res em tudo o mais. l quido e certo de s ua mera existência. não enxergar o que se passa diante de todos os narizes humanos na at . atomizada. mais propriamente. delegacia da terceira idade. sem ami gos. O Esta do encara agora cada pessoa como uma unidade autolimitada. pagarão para ver sua autoridade familiar contestada por funcionariozinhos semi letrados e arrogantes. seja fascista: é que a política liber al ( ou. cuja ideologia ajudou a criar essa política fiscal. mas. vivem sem família. O fato de ser casada não conta para nada. O casamento está deixando de ser reconhecido pelos sistemas legais e fiscais. de um menor de idade ou de quem quer que se ja.95. inclusive a de superpor as expectativas aos fatos e. uma garota da classe operária não há de considerar um mar ido como algo menos que inútil. que se segue a cada nova proclamação de direitos: delegacia da mulher. a proteção que ess as entidades recém-criadas darão aos novos direitos é apenas uma possibilidade teórica. E será ainda incentivada nessa convicção por suas irmãs fe ministas de classe média. com estrit a igualdade matemática em termos fiscais. do definhamento das relações human as. então. elas não sobrevivem se não crescem. As ONGs podem ter surgido com essa intenção. com todas as limitações do pensamento ideológico . chefiados como ger almente são por pseudointelectuais de miolo mole. da extinção de todas as virtudes morais básicas que tornam a vida digna de ser viv ida. missão de proteger. assistenciais e assim por diante. delegacia do menor. imbuídos da por 40 horas com a mesma remuneração. A superioridade das propostas liberais sobre as socialistas no que diz respeito à economia não deve nos levar ao engano de ver no neoliberalismo algo mais do que ele é: uma ideologia. e talvez até dos esquisitões. e não crescem senão quando s e reunem em imensos conglomerados mundiais. a co lunista enfatiza que um velho slogan da esquerda — “arranhe a casca de um liberal e encontrará um fascista” — está se tornando verdade. ele ganhará £33 a menos que a mãe solteira trabalhando meio período. em princípio. Trabalhando em pe ríodo integral.” Sub linhando que toda essa situação foi criada no governo liberal da Sra. será deixado com apenas £130. Nenhuma avaliação séria da rel ação custo-benefício deixará de nos mostrar que. jamais tendo abusado de uma donzela. A prova mais contundente é a proliferação de novas delegacias e varas de justiça es pecializadas. interfere em tudo. Esta existência aliás terá í de ser financiada por todos aqueles que. nunca se dão conta de que suas con quistas são obtidas à custa da inflação do poder estatal. liberacionista ) cria hordas de homens isolados e re voltados que serão as massas de militantes fascistas de amanhã. de olho nos fins políticos ambicionados. todas as crianças contra todos os pais e todas as mu lheres contra todos os homens.. subm etidas à lógica do mercado. Esse exército de solitários é o resíduo inevitável de uma equi ocada luta pelos direitos humanos. o esquematismo do debate entre “privatizantes” e “estatizantes” tem tornado ess as contradições da ideologia neoliberal invisíveis tanto para seus adeptos quanto para seus opositores — ambos iludidos pelo pressuposto de que. dos loucos. judiciais.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 175 O número assombroso de indivíduos que. No Brasil. já está em estudos a delegacia esp ecializada dos gays. Não é que o liberal. . Thatcher. Os movimentos de direitos. ao passo que a ampliação do poder estatal é o resultado imediato.

. Embora uma economia de mercado seja claramente menos opressiva para os cidadãos do que uma economia socialista. se do ponto de vista econômico o Esta do e o mercado são poderes antagônicos e concorrentes. o mesmo não se dá quanto à administ ração da vida psico-social. “A democracia das ONGs e a ditadura do marketing” em O Imbecil Col etivo. onde esses dois g igantes anônimos e impessoais freqüentemen te se aliam contra todos os liames comunitários e familiares que constituem a última proteção da intimidade humana. v. Pois. a liberdade para o mer cado não garante 242 Sobre as ONGs.ualidade deprimente da vida cotidiana.

consolam-se buscando socializar tudo o mais inclusive a moral privada e a intimidade das consciências. de abrir o caminho para uma sociedade mais livre por meio da economia livre: se uma opção econômica se t orna o critério predominante se não único a determinar os rumos da vida coletiva. e reconheço que as complexidades da economia mo derna geralmente escapam à minha inteligência um reconhecimento que aliás me coloca na companhia honrosa de pelo menos um grande economista. . e assim se tornam os aliados de seus antigos desafetos num esfo rço comum para levar o neoliberalismo no caminho do pior. concordassem em submeter a disputa ao critério de valores superiores. em termos absolutos. portanto det erminar o sentido da vida coletiva. Mais sábio seria e te nho de dizer isto. acabam descarregando todos os seus velhos í petos estatizantes no m apoio descarado às intromissões do Estado neoliberal na vida privada. vão cedendo. a não ser por uma hipotética rebelião das religiões contra o monopólio estatal do sentido da vida —. E o ponto que me parece básico é que a concepção iluminista do Estado lei go. Na medida em que der por implícita e automática uma conexão que. carregava dentro de si o germe do monopólio estatal do sentido da vida: acima das religiões. Não tendo conseguido socia lizar a economia. Alfred Sauvy. segundo o q ual a complicação crescente do sistema internacional ultrapassou as fronteiras do humaname nte compreensível e se tornou l’économie du diable 243. malgré lui. e por desejo talvez de apaziguar o ressentimento dos derrotados. os valores e critérios morais. E o mercado tem um potencial escraviz ador tão grande e perigoso quanto o do Estado. com todas as doces promessas que trouxe à humanidade. ao contrário. o verdadeiro e o falso. Ex Status nemo salvatur: fora do Estado não há salvação. é ao Estado — casta dirigente ou aristocrática — que cabe. uma espécie de administração socialista da alma o socialismo da vida interior. iluminista. s e o neoliberalismo me parece mais sensato do que o socialismo. do imperialismo americano? CAPÍTULO X. não será a glória final e a mundialização da Revolução A ericana? Não será e nfim o ioguecomissário. o certo e o err ado. só pode ser criada mediante um esforço conscien te. o neoliberalismo se omitirá de cumprir o papel que se propõe.176 OLAVO DE CARVALHO automaticamente liberdade para as consciências. Seja na social-democracia. Na verdade e no fundo. seja no neoliberalismo. Alfred Sauvy. aqueles que conferem sent ido e legitimidade moral a qualquer opção econômica que seja. Paris. até que o novo E stado acabe por construir. E os neoliberais. inconformado s com a frustração de seus planos na nova ordem. NA BORDA DO MUNDO 243 V. conservando cada facção a pureza de seus pontos-de-vista. o re sultado fatal é que os meios se tornam fins. cedendo. O que há de mais irônico no confronto s ocialismo-neoliberalismo é que hoje em dia os derrotados socialistas. um servo . sobre o arcabouço da economia capitalista. Le Seuil. L’Économie du Diable. surge então uma pergunta derivada: a submissão do mundo à religião de César não é a mesma coisa que a submissão do mundo a César? A universalização tado leigo modernizante. sob as bênção a intelectualidade — casta sacerdotal — dirigir o processo de modernização. pois no Brasil não se pode descrever um estado de coisas sem qu e a platéia ansiosa nos cobre uma definição sobre o que fazer que os adeptos de ambos os partidos. acima das consc iências individuais. não sei qual é a melh or das duas opções. Esta é a única questão que importa p ra o destino do mundo: estaremos por um caminho ou pelo outro condenados a viver sob a religião de César? Caso a resposta seja afirmativa — e não vejo como escapar da r esposta afirmativa. com todo a sua verborréia marxista. Atenho-me portanto ao que poss o compreender. por julgarem que é mais v ital preservar a liberdade de mercado do que qualquer outra. 1989. não participo do vezo brasileiro de opinar ta xativamente sobre todas as questões.

Os convidados estrangeiros às vezes destoam da unanimidade.. A conquista da inteligência teorética é a culminação de um cesso de personalização. e. Invia bilizar assim o debate. Foi o caso de Nicole L oraux. José Américo Motta Pessanha encarn ou esse projeto melhor do que ninguém.. as opiniões contrárias 244. como prática.1. 245 V. apresentando os membros do grupo organ izador como se fossem a encarnação mesma do consenso filosófico universal. é um processo de auto-hipnose que gera entre seus praticantes a credulidade beócia e a total falta de sentido crítico . que um ceticismo cognitivo q ue termina em diletantismo trágico. canalizando-as no sent ido de uma revolta contra o Espírito. um esforço de reprimir a inteligência teorética e subst itui-la pela autopersuasão retórica voltada a “transformar o mundo”. menos os neolibertinos locais. tornando-os vulneráveis a toda sorte de manipulações. de m odo a colocar no centro da evolução filosófica figuras como Epicuro.. 1. 5. Essa reação inspirará boa p arte do pensamento Ocidental. à luz da se empreende um vasto remanejamento de toda a visão da História do pensamento. como ele. 3. incapacitadas para uma reação crítica. q uantas insatisfações ocasionais possa haver na alma do público. que se reunem sob a denominação formal ou informal de gnósticos. em última instância. 1. para esse fim. A libertação da consciência pessoal. votado à humilhação da mulher e à destruição amor — coisa que todo mundo já sabia. Representa a abdicação dos deveres da inteligência pessoal e a submissão às ilusões coletivas que passam por ve rdades por força da repetição. 1.Me situant à l’extérieur des faux litiges dans mon irréparable éxil. É contra o exercício da consciência pessoal autônoma que se voltam as correntes em que se inspira o grupo organizador do curso da Ética . um ou outro conferencista de idéias cont rastantes. esporadicamente. La Mett rie. nada mais é.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 177 § 33. o professor da Universidade Livre de Bruxelas afirmou ( na conferência de 20 de junho de 1995 ) que o libertino é por es sência um tirano. O sentido de ssa influência é claro: instaurar como fundamento da cultura um novo corpo de crenças. que é um d os pilares da nova cultura. de maneira crescente desde o Renascimento 246.2. de índole coletivista e estatal. Exploram-se.3. como editor da série Os Pensadores e como fig ura de relevo nos meios filosóficos paulistas.4. 1. 2. dando uma aparência ilusória de variedade e pluralismo ao que é na verdade um astucioso experimento de dirigismo mental245. no ciclo de Ética. Inserem-se no programa dos eventos. um dissimulador maquiavélico. “. afastando dos olhos do público e subtraindo à discussão. Aproveita-se também a ignorância de platéias novatas. Gassendi. como irrelevantes ou “superadas”. que se tomam po . e. 6. O marxismo tem raízes no epic urismo e representa. ao consumar-se no cristianismo. P ara grande escândalo dos admiradores de Sade. deslocando para a periferia as grandes filosofias que não po ssam ser absorvidas na cosmovisão materialista. no dos Libertinos/Libertários. Sade et caterva. mas sem expressão pessoal significativa — e sobretudo que não abra uma polêmi ca 244 explícita —. que pela repetição acabarão por se tornar consensuais. Exercer desta f orma a hegemonia sobre o panorama cultural brasileiro.. de libertação da consciência pessoal. o de Raymond Trousson. Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições.” A. DE SAINT-EXUPÉRY Recapitulemos todo o nosso trajeto: 1. iniciado pela filosofia gre ga e completado pelo cristianismo. 4. o ensaio “Armadilha relativista” em O Imbecil Coletivo. O ciclo de Ética e os outros da mesma série r epresentam um esforço de conjunto para influenciar a vida intelectual brasileira n um sentido determinado: são uma “reforma da inteligência” brasileira — intellectus emendat ione — empreendida por um grupo coeso e consciente de seus fins. A filosofia de Epicuro. n’étant ni pour les ni por les autres. As idéias que inspiram essa operação resumem-se. levanta cont ra si o ódio dos nostálgicos da religião greco-romana. como teoria. na farsa da “tradição materialista”. encobrindo-o sob um simulacro de debate.

. ed. Após ter lido Order and History. [Nota à 2a. pois a conheço só por obras menores e não li o trabalho fundamental do autor. que aqui subscrevo até o ponto em que pude compreendê-la.r libertários por alguma razão só compreensível à luz da lógica de Epicuro. Order a nd History. nada vejo de substancia l a mudar nessa minha interpretação. 246 É mais ou men s a tese de Eric Voegelin.

p. é a meta que norteia. dit o de outro modo. em o caráter essencialmente gnóstico dos movimentos que culminam na N ew Age do século XX foi afirmado em 1994 pelo próprio Papa João Paulo II (Cruzando o U mbral da Esperança. a e mergência dos impérios coloniais. em essência. servindo às tontas. sob formas variadas e adaptadas às condições do tempo. de uma f orma ou de outra. A Revolução Americana que incorpora o ideal do império leigo tende a mundializar-s e. A operação de reforma cultural empreendida pelo grupo organizador da Ética marca a inserção da cultura brasileira no novo culto imperial. arrastando na sua torrente todas as forças intelectuais e políticas que. a cultura pós-cristã. Mas — pergunto em prosseguimento — servindo-o de bom grado. ajudando a alimentar o monstro imperial que viria a devorá-la. no sentido de Sto. ajudando a consolidar o culto das divindades cósmicas — naturais e sociais — que constituem em substância a re ligião estatal do Novo Império 247. puxados pela argola do nariz. exatamente como o fazem os esquerdistas a rrependidos que hoje formam nas fileiras neoliberais? Ou. em Ricardo de la Cierva. apresenta uma visão de conjunto das obras de diversos autores que enf ocam as ideologias contemporâneas como “teologias civis”. enfoca a emergência das ciências físicas modernas como uma condit io sine qua non da religião civil. demonstra que o culto de Beemoth acompanh a necessariamente a ascensão do poder de Leviatã. mas b em-sucedido na América). Madrid. obras das quais a mais abrangente e sistemática é a de Eric Voegelin. Assim. curiosamente. Este meu liv ro insere-se nessa linha de preocupações. a história política do Ocidente. Ela inter vém decididamente e a fundo na estrutura da alma de todos os seres humanos colocad os ao seu alcance. entoando loas a um deus-asno colocado no altar em lugar de Cristo e do próprio Cés ar? Ele sabe ou não o que está fazendo? Depende. que a ascensão da religião civil não é um processo unilinear. somente a aprofundar. novos sentimentos. 2ª. 9. associa a formação da religiã ivil aos esforços para a restauração do Império. Thesau rus. O surgimento dos impérios coloniais estilhaça a unidade cr istã. acabam por colocar-se involuntariamente a seu serviço. como bois de carro que. 35). Las Puertas del Infierno. por voluntária e conscient e aceitação das coordenadas do novo tempo. 3ª. Snow ). A Igreja. que aquela dentre as ideologias modernas que parece 11. mas na mundialização da Revolução Americana. isto é. caiu na armadilha da restauração romana. de maneira semiconsciente. as demais m religiões serão rebaixadas a “cultos permitidos”. o que restar de cristianismo será destruído pelo i pério leigo. mas marca do por uma dualidade fundamental. que simbolizo na luta de Beemoth e Leviatã. Fénix. a intell igentzia de esquerda se põe a serviço da ascensão do Império. não sabem para onde vão nem quem os leva? O iogue-comissário é alto-sacerdote do culto imperial ou escravo de sacerdote. ao pretender fundar um Império. 247 O estudo valiosíss imo de Nelson Lehman da Silva. 1995. Junto com o cristi anismo. Agostinho . enfatizando que não culminam na eclosão das ideologias totalitárias. fazendo-se de oficiante na momentânea paródia dos três dias de carnaval . 1985 ).178 OLAVO DE CARVALHO 7. 8. associa portanto ao processo de formação da re ligião civil o fenômeno das “duas culturas” ( C. o Sacro Império Romano de Otto I. instaurando neles novos reflexos. de m aneira que as novas concepções do Estado refletem mudanças profundas ocorridas na conc epção da natureza. Se entendemos o termo “imperialismo” no . o que não teria cabimento fazer neste volume. as quais por sua vez expressam uma nova compreensão ( ou incompreen são ) da lógica e da dialética. o império leigo (fracassado em versão napoleônica. funcionando como s eitas populares no novo quadro do Império leigo. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ). marcada por quatro grand es empreendimentos: o Império de Carlos Magno. 10. ou mais claramente: anticristã. A ruptura do sentido cristão da vida dá surgimento às duas correntes de idéias — naturalistas e historicistas — cujo entr echoque constituirá o Leitmotiv da história cultural moderna. cit. Cabe apenas ac rescentar que. 1 2. A Religião Civil do Estado Moderno ( Brasília. da qual é o oposto complementar. que se observa por exemplo em Nicolau de Cusa ( v. P. novas cr enças que constituirão. ou seja. A restauração do Impér io romano. La His toria de la Iglesia jamás Contada. ao contrário. com algumas diferenças específicas que ressalt am do fundo comum: 1ª.

assinala a função que nesse contexto é desempenhada pela ideologia ecológica. pela New A ge e pelas novas morais que vão entrando em vigência no quadro neoliberal. da exploração do Terceiro mundo em proveito de mega -empresas americanas. e nfatiza o papel das organizações secretas nesse processo. enfoca a luta entre religiões tradicionais e religião civil do ponto de vista do conflito de castas. destaca o papel que na formação da religião civil é desempenhado pela s pseudológicas. à tradição es tudada por Lehman. a resposta é não: o iogue-comissário. decididamente..velho sentido da dominação econômica. não no sentido de sua ação polític a explícita ( como o enfocam os porta-vozes de uma teoria conspirativa da História ) . porém. e finalmente. . como a lógica de Epicuro. a dialética de Hegel-Mar x. Dando continuidade. a falsa hermenêutica simbólica do ocultismo etc. atualizando o enfoque. assinalando a sua filiação comum. 4ª . mas no da contaminação passiva da sociedade. não se acumpl iciaria à menos comprometida com o culto de César é na verdade aquela que o encarna da maneira mais completa e eficiente. a retórica em geral.

no i nstante da fundação da República Americana. de luta de class es. a síntese e o resultado das contradições entre s acerdócio e aristocracia. 1994 — uma leitu ra indispensável a quem deseje compreender a posição do Brasil no mundo de hoje. Nórdica. a p artir de 1989. o M arxismo. então estamos realmente diante de um problema. A Ideologia do Século XX. o ciclo de Ética no MASP fora organizado pela mais eminente intelectual do PT.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 179 exploração imperialista dos países pobres. Comecemos pela seguinte constatação: era mais do que cl aro que esse empreendimento cultural tinha objetivos políticos patentes e imediato s. que o principal foco de resistência interna às ambições imperialistas do governo norte-americano foram os grandes capitalistas. que o imperialismo americano não tem fundamentalmente um sentido econômico. A estas observações pode-se acrescentar a famosa demonstração de Josep h Schumpeter. o Terceiromundismo e a Ideologia Brasileira. mais particularizadamente? O fato de a campanha da “Ética” te . Rio. uma enganosa agitação de f ntoches verbais sobre um pano de fundo constituído. porque o projet o do império leigo que incorpora as concepções iluministas do Estado representou. fazer o feitiço virar contra o feiticeiro . modernizante. V imos que a idéia imperialista foi anterior de quase um século à formação das grandes fortu nas capitalistas. destinado a reformar o mundo. Meridian Books. Esta ativa desmascaradora do discurso ideológico alheio jamais se inte ressaria por algo tão “superestrutural” como a ética se não tivesse bem sólidas razões políti para fazê-lo. dizia Ortega y Gasset. d ando uma “solução final” ao conflito entre autoridade espiritual e poder temporal. e se por outro lado a expansão e mundialização do poderio americano são e vidências igualmente inegáveis. Quais razões. Perto desse fenômeno gigantesco. a engrossar a poderosa corr ente da Revolução Americana.. a teoria Hobson-Lênin. 64 ss. entre os quais o principal era o de captar em proveito da estratégia das esquer das a velha retórica moralista da direita. um projeto expansivo. tanto quanto a teori a da dependência — sua neta terceiromundana em boa hora renegada por um pai sensato —. da contradição entre imperialismo e capitalismo democrático 248. em miniatura. não havia outra razão para explicar o interesse pela ética demonstrado. e não se prestaria ao papel de servo do capital es trangeiro. culturais e políticas: os Estados Unidos são uma potência imperial po rque sua fundação mesma constituiu um revigoramento da idéia imperial. de Meira Penna. Não por coincidência. acrescentada de análises muito pe rtinentes com relação à teoria brasileira da dependência. Resta só um detalhe: saber como a intelligentzia brasilei ra. não passa de um momento transitório na sucessão de ilusões ideológicas pelas quais a inte lligentzia mundial. a insensível rot ação do sentido dos seus esforços. Marilena Chauí. E aí o ciclo de Ética no MASP pode servir para ilustrar. parágrafos atrás. o primeiro passo da revolução mundial que. foi ar rastada sem se dar conta. imaginando ainda ser vir aos seus velhos ideais de sempre. toda autori248 V. De fato. Acontece. absor verá no Estado. New York. p orém intelectuais. Problem a. p orque o surgimento do moderno Estado leigo incorporado no Império americano é. Ele estudou a teoria leninista do imperiali smo. neutralizando todas as religiões do mundo e instaurando a religião de César. enfim. em particular. pp. então titular da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. 1958. por intelectuais de formação marxista. em aliança com a intelligentzia. por e ssência. revolucionário. o que se passou com a esquerda nacional. O. que por dois milênios foram o motor da História européia. enganando-se quanto a seu papel no curso dos eventos. Joseph Schumpeter. Imperialism. e mesmo contra a sua intenção. leu talvez o próprio Hobson. Se as c oisas são assim. U ma síntese brilhante dos argumentos de Schumpeter. encontra-se no livro de J. porque a Revolução Americana é. para os quais o discurso ético não é nem pode ser outra coisa senão uma “superestrutura” ideológica. Ensaios sobre o Nacional-Socialismo. é consciência de uma contradição. porq ue a fundação dos EUA representa a quarta e provavelmente última translatio imperii. dade espiritual. porém. Vimos. no essencial. veio a ser arrebatada por essa torrente. A contradição resolve-se tão logo entendemos que a dinâmica imperial dos Estados Unidos não provém de causas econômicas.

parecia-me . que a tagarelice moralizante não era outra coisa senão um expediente impr ovisado para fins de política rasteira: eliminar a trapaça financeira multicollorida para instaurar em seu lugar a trapaça ideológica vermelha. por um tempo. Ainda assim.r conquistado sua principal vitória com a derrubada de Collor me fez imaginar. Era o que eu estava dize ndo no § 1.

A Short Course in th e Secret War. que o partido apenas recebia in formações dadas espontaneamente por militantes e simpatizantes. trouxe um esclarecimento melhor. e particularmente à pessoa do sr. vingando a humilhação que o pernóstico bon249 O deputado José Dirceu. 1992 ). pois estudou Mao Tsé-tung e sabe o que ele diz da importância dos informantes oc asionais para o sucesso de uma guerrilha. adensando-s e pouco a pouco até o limite de uma pressão insuportável nos meses que antecederam a d ecisiva entrevista de Pedro Collor à revista Veja. Dell Books. já havia no ar uma predisposição hostil e vingativa. substa ncialmente iguais a tantas outras feitas contra governos anteriores e que morrer am neutralizadas pela indiferença popular. Enquanto os “arapongas” prosseguiam suas investigações.180 OLAVO DE CARVALHO extravagante a hipótese de que em 1990. São Pau lo. incluindo pessoal interno ( v. atmosfera que. da qual fora um dos mentores e fundadores. vivant infligira às esquerdas. New York. com tanta antecedência. Luís Inácio Lula da Sil va. não era nada absurdo supor que a pequena KGB já dispusesse. polícia. um desejo de punir. Mas em agosto de 1993 veio pelos jornais a notíci a da existência de uma rede petista de informações: chefiados pelo deputado José Dirceu. centenas de militantes-delatores formavam um serviço secreto particular infiltrado em ministérios. Mais tarde. e não nos ag entes efetivos. Exª. técnico em espionagem treinado em Cuba. veremos que a indiferença nacional ante o caso dos “arapongas”. Todos os serviços secretos do mu ndo dão preferência aos serviços de colaboradores informais sobre os de agentes profis sionais. que não voltou a tocar no assunto por quase um ano. se originara de uma reunião de inte lectuais de esquerda. S. De qualquer modo. Mas será normal que os jornalistas profissionais também ignorem tudo do funcionamento dos s erviços de informações? Se nos lembrarmos de que o processo de impeachment de Nixon — tão alegado como um exemplo para o Brasil no caso Collor — não foi provocado por uma acu sação de corrupção. brasileira. O intuito não era combater a corrupção. Collor de Mello. trad. no início de 1990. As Marcas d a Decepção. uma entrevista de Herbert de Souza. já em 1994. Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense. “Betin ho”. Um dos segredos da eficiência do Mossad ( serviço secreto israelense ) é ter uma rede de informantes ocasionais espalhados por todo o mundo ( os militantes s ionistas ) e poder. comparada à extrema suscetibilidade contra os corruptos. a campan ha. e sim de espionagem política. Ou então é s inal de que a opinião pública já concedeu às esquerdas o privilégio de se colocarem acima de todo julgamento humano. que só aguardava a id entificação de um suspeito para poder despejar sobre ele o ódio que se fôra acumulando. A Revolução Impossível. 617 ). não era verossímil que àquela altura. respo ndeu que ali não havia serviço de espionagem nenhum. a campanha pela “Ética” já iria p arando uma atmosfera psicológica propícia a ampliar o efeito moral do escândalo quando estourasse. as explicações do deputado pareceram satisfatórias à imprensa. é sinal d e perda completa do senso das proporções na avaliação da gravidade dos delitos. mal decorridos alguns meses da posse do pr esidente. Isto é que é fazer-se de inocente. a futura transformação da campanha pela ét ica numa campanha contra Collor. Não há mesmo nenhum meio de explicar a repercussão dessas denúncias. A KGB tinha nos militantes comunistas. p. na qualidade de “colab oradores informais”. preparatoriamente. Segundo “Betinho”. Best Seller. Esta notícia dava retroativamente sustentação àquela hipótese que eu rejeitara co mo um tanto paranóica 249. contra um alvo hipotético e vacante. Luís Mir. senão pelo fato de que. encontrou nela a ocasião para a e sperada descarga. Scritta Editorial. sem quaisquer sinais visíveis de corrupção no governo. de indícios suficientes para justificar a esperança de um dia poder montar um Collorgate. acusado de ser o chefe do serviço de espionagem do PT. excele aliás nesse domínio. Por geniais que fossem. por isto. Christopher Felix. 1986 ). da qual . a sua principal força ( v. O deputado não pode ignorar estas cois as. empresas estatais e bancos. desta vez. São Paulo. na sede da OAB. reduzir a dois mil o número de seus agentes profissi onais. 1994. p udessem ter em vista. pois tra balhou como agente cubano por cinco anos ( v. os estrategistas da esquerda pudessem já estar preparando um golpe morta l a ser desferido na carreira do sr. ao Jornal do Brasil. Com efeito. Victor Ostrovski e Claire Hoy.

Não é de estranha r que esta última ala fosse mais festiva. Para uns. Vi então que minha primeira compreensão tinha sido demasiado estreita: mais que derrubar um presidente. apenas uma etapa da “longa viagem da esquerda para dentro do aparelho d e Estado”. que a outra participasse da celebração com u ma reserva mista de suspeita.ainda ninguém sabia nada de preciso. simbólica e conquistada com a ajuda do mesmo esquema. Pa ra outros. como diria Antonio Gramsci: o . temporariamente irritado com o agente que abusara da sua confiança. Daí a ambigüidade dos festejos celeb rados em torno do cadáver político de Collor. a restauração da decência era um fim em si. outra pr elibava o seu próximo desaparecimento. provisoriamente encarnado num presidente. a campanha pretendera derrubar um re gime. Uns alegravam -se com o retorno à moralidade. com a revanche contra o esquema militar-em presarial. O exército vitorioso dividia-se em duas alas inimigas: uma festejava. o revigoramento do regime. anunciado pelo do presidente. ainda que tardia. com a limpeza. Outros. mas oferecer uma alternativa contra a propost a neoliberal de Collor.

aparentemente tão deslocada no contexto de um mero confronto id eológico entre socialismo e neoliberalismo? A origem era dupla: de um lado. mas apenas com o ajuste entre as normas sociais e as necessidades da produção — um sentido alheio a fins e valores. pelo bem e pela decência 252. evidentemente. 251 A diferença é que naquele tempo a esq uerda. Para a primeira dessas correntes. muito “tecnocrático”. o qual.. nos anos que se seguiram à derrota da guerrilha. cuj do nada tem a ver com o que geralmente se entende por moralidade. Entre estes últimos estavam os líderes da “Ética na Po lítica”. Fritjof Capra & Antonio Gramsci ( Rio.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 181 começo. que recomendo aos que julgarem demasiado compactas e obscuras as referências que aqui faço ao tema. Instituto de Artes Liberais & Stel la Caymmi Editora. um sujeito que. que d efendiam com tanto mais eficácia quanto mais protegidos sob uma fachada de neutral idade científica. ao passo que em época mais recente passou a misturar a exibição pública de moralismo c . representada sobretudo pelo então ministro da Fa zenda. isso era apenas mais uma ideologia: o pragmatismo e o neoposi tivismo que pareciam inspirar o ministro eram aliados congênitos do capital. de dias de glória. esperavam. 1994 ). política e ética 250. carregada portanto de um apelo “ético” 251 . de que a economia é “aética” suscitou d esde chiliques moralistas até a objeção gramatical de que a palavra certa seria “anética”. a palavra “ética” vinha mesmo a calhar. baseada nas idéias de racionalização e eficiência. não passava de uma projeção do abstratismo “metafísico” do burguês. mas logo em seguida o surgimento das provas de corrupção no governo. uma palavra é como uma tábua para o náuf rago. as soluções econômicas deviam reger-se por motivos técnicos e científicos. isto é. que ocupara os economistas e os doutrinadores políticos na década de 70.) Para a ala oposta. leitores e devo tos do teórico da “revolução cultural”. Mas. especialmente ud enista. representada sobretudo por Celso Furtado. nos planos que delineia p ara a tomada do poder pelos comunistas. na pobreza de perspectivas da oposição ante um governo recém-emp ossado com um potente respaldo popular. De outro lado. pensa por categorias estanques e não enxerga os nexos entre economia. to rnou a ficção verossímil. nada mais interessante ocorreu à intelectu alidade esquerdista do que ressuscitar contra ele o estereótipo do velho debate. q ue rendera alguns dividendos na luta contra a ditadura. o apelo humanitário da “ética”. neutralidade esta que. Era uma encenação. Antonio Gramsci. nada se sabia que pudesse 250 incriminar Collor. por ironia. O nome da campanha fornecia aos intelectuais gramscianos a oportunidade de tentar implantar o “Estado ético” preconizado pelo seu mestre. ainda influenciada pela ideologia do Front Popular tingida de “humanismo bu rguês” para fins de aliança com as “forças progressistas”. alheando-se o mais possível do debate político e ideológico e de toda consi deração de valores. Mas. porque muitos dos intelectuais envolvidos na campanha h aviam se tornado. opunha uma proposta econômica fundada em fins e valores explícitos. su geria por si mesma o perfil do seu antagonista ideal: contra a frieza inumana da “técnica”. A coincidência é apenas de palavras: “ético” em Gramsci é termo técnico. vivendo separado da atividade produtiva. segundo a perspectiva marxista. de onde vie a então a palavra “ética”. À neutralidade tecnocrática. um ídolo acadêmico das esquerdas. ad hoc. uma luta pela moralidade propriamente dita. se a campanha não tinha um propósito direto de combate à corrupção. essa corrente. Antônio Delfim Neto. Não há melhor truque para de252 Explico-me mais extensamente sobre Gramsci no meu livro A Nova Era e a Revolução Cul tural. quando a gente não sabe o que fazer. Na época. acreditava mesmo em princípios éti . d iz Goethe. A proposta neoliberal de Collor. Esta feliz coincidência permit iu que a alquimia gramsciana fundisse a política da esquerda radical com o discurs o moralizante que por décadas fora a marca registrada da direita. honestidade et c. suscitando fartas demonstrações de indignação moral. e no fundo. destaca uma fase que denomina implantação do “Estado ético”. dando ao mesmo tempo a impressão de estarem lutando pela “ética” no sentido geral e corrente. retroativamente: a luta pelo “Estado ético” gramsciano tornou-se. (A desastrada frase do ministro. tratav a-se de uma reedição do velho debate entre tecnocracia neocapitalista e nacional-pro gressismo. e.

réed. 1928. trocaram rapidamente de palavra-de-ordem. 482 ). 1968. La Révolution Française. Arthème Fayard. E ademais a mina era inesgotável. Já nas fases finais da Re volução Francesa. campanha hábil. mais do que nunca. Apelar às denúncias moralistas nos momentos em que o discurso da luta-de-classes está em baixa é um dos expedientes clássicos da tática esquerdista.om a pregação do ceticismo e do relativismo ( esta só para audiências seletas ). não havendo motivo para temer escassez de argum entos” ( Pierre Gaxotte. subs tituindo a guerra contra os ricos pela guerra contra os ‘apodrecidos’. Paris. mas. suscetível de arrastar sob uma mesma bandeira os descontentes de todos os partido s. “os jacobinos co ntinuaram sua propaganda no país. como sentiam que o programa babeufista esta va. impopular. logo após o fracasso da conspiração extremista de Babeuf. p. .

foi a manifestação mai s evidente. eleva do à condição papal. quase magicamente. sobretudo. conservava o pode . beatificando o instinto de delação e fazendo da maledi cência a virtude primordial do cidadão brasileiro. que o homem médio não saberia suportar sem buscar logo. de modo a desgasta r a classe política numa sucessão de rituais autopunitivos sem resultado proveitoso. até levá-la ao completo descrédito e precipitar a crise geral do Estado. passasse a significar apenas a adesão m aquinal a certos slogans políticos e a hostilidade a certos grupos sociais. a ovelha desgarrada podia ser reconduzida ao aprisco da ortodoxia socialista pelas mãos de um novo Bom Pastor. e se tornasse um pretexto edificante para cada qual projetar suas culpas sobre o vizinho. todas as crenças e sentimentos mais conservadores do povo brasileiro. Tratava-se em suma de reduzir a éti ca ao “politicamente correto”. autocontraditórios. estéreis. ou do Rigor. As campan has gêmeas da “Ética na Política” e da “Ação pela Cidadania” perfizeram harmoniosamente as du ces de uma nova pedagogia religiosa: a primeira ensinou o cidadão a julgar para não ser julgado. Betinho ficou. ele cresce até engolir o original. tornando o apoio às esquerdas uma obrigação religiosa cujo descumprimento teria o efeito desequilibrante de uma transgressão. mas uma revolução psicológica que o envolveu numa luta equ ivocada e tragicômica. arrisca a certar algumas pancadas em si mesmo. por seu lado. que castiga. Foi assim que. Cercado pelos dois lad os. formando a figura bifronte de uma estratégi a da perversão moral em nome da moralidade: de um lado. o pecador não teve como resistir ao apelo da salvação. por um grupo de intelectuais. não p oderia produzir um resultado tão retilíneo: a ambigüidade das origens transmite-se. as peças múltip las do quebra-cabeça começam a encaixarse. ao curso posterior da ação. o lastro de crédito que garantia a boa -fé dos acusadores e conferia legitimidade moral a toda sorte de calúnias. desmoralizandose mais e mais a cada novo esforço impotente para moralizar-se. a opor tunidade de uma penitência reconciliadora. solapar as bases intelectuais dessas crenças. se o deixa em paz. no pensamento gramsciano. co mo uma tara hereditária. e num círculo mais seleto de ouvintes . ao lado da Mão da Justiça. eis como pela prática da caridade. na intenção de vencê-lo pela i ndiferença. Mas uma intenção oblíqua. A campanha da “Cidadania con tra a Miséria” exerceu assim a função de “mão direita” da nova divindade — a Mão da Misericór e abençoa e redime. metade oculta. rebaixando-as e transformando-as em munição política de uso imediato contra os “i nimigos de classe”. mais sutilmente. com a precisão de um cronograma divino. não fo i a regeneração moral de um país. Mantendo-se aparentemente acima do jogo político. xiítas e enragés de toda sorte. se apresentaria m ao povo como a única esperança de salvação. de ser uma regra para o homem g overnar a si mesmo. de outro. a segunda a escrever torto por linhas retas. O que a campanha pela “Ética” produziu. sujeitando o pe cador a terríveis padecimentos interiores. A quem esteja ciente de que. promovendo uma mutação do sentido mesm o da palavra “ética”. quando não a indivíd uos em particular. num prazo assustadoramente breve. tinha como finalidade última — nas palavr as de seu próprio fundador — implantar no país a socialização dos meios de produção. cujos efeitos se tornam mais dúbios à medida que se avolumam. É claro que as duas mãos operavam em concordância: a Misericórdia era a retaguarda. representada pelos inquisidores. A campanha pela “Ética” conquistou o apoio maciço da população e foi festejada como a aurora da redenção nacional. O que poucos perceberam é que a exigência ética da campanha fora formulada em termos propositadamente utópicos. cortada dos laços que a ligam a quaisquer valores espiri tuais e a qualquer ideal de vida superior. as mutações psicológicas profundas são o alvo prioritário de um plano de larg o escopo a ser realizado.182 OLAVO DE CARVALHO sorientar um inimigo do que imitá-lo: se ele investe contra o simulacro. nos meses subseqüentes. arrependido. da qual a autodestruição do Congresso Nacional. esvaziar as velhas crenças m orais. onde as esqu erdas. aí já plenamente identificadas como derradeira reserva moral. Como esta campanha. basicamente. a um sentimento de exclusão da comunidade humana. assim. e sobretudo o moralismo atávico da classe média. até que não reste no cenário nada mais que duplicidade e hipo crisia. para que. puderam ser canalizados. para que deixasse. oportunidade que a “campanha do Betinho” pr ovidencialmente estendeu a todos no momento exato. em benefício das esquerdas.

mas todos acham . acabe se transformando num gra nde ato da campanha de Lula. de erguer qualquer personagem à beatitude da fama ou pre cipitá-lo nas trevas da abominação 253.. 253 “Há uma preocupação crescente no Palácio do Planalto de que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar.r de abençoar e excomungar.. Claro que ninguém imagina que Betinho virá a público de clarar apoio ao PT. que acontecerá no final do mês em Brasília.

para contrastá-lo. com o “Mau Pastor”: o bispo Edir Macedo. mas não tomo minhas opiniões teológicas como artigos da lei penal . como numa prestidigitação. por achar que não seria bem interpretado dando a impressão de que é contra a campanha de combate à fome” ( Dora Kram er. “Encontro da fome preocupa Itamar”. terminou por paralisar a todos. que o jui z fora nomeado por uma das partes em litígio 254. 1985. Toda essa mudança foi opera da em prazo anormalmente curto. Betinho acabou sendo derrubado por um truque s ujo igual ao usado contra seus adversários: julgar com malícia um ato lícito. Betinho. isto é. a ponto de abdicar de todo senso das proporções. foi-se tornando no entanto cada vez mais ostensivo. seguiu a regra geral de uma estratégia esquerdista clássi ca. o po der de excomunhão e beatificação foi exercido por Betinho de maneira implícita e discret a. na capa. julgo absurdas muitas das interpretações que o bispo faz da Bíblia. uma p ressuposição de que o ônus da prova cabe sempre ao outro lado” ( Thinkers of the New Lef t.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 183 E como é sensato que a autoridade espiritual se incumba de arbitrar em última instânci a os conflitos mundanos. dando-lh e ares O resultado esteve muito próximo de ser atingido: uma vez identificados o ideal de moralidade pública e a retórica da esquerda. 11 jul. um pecador. Jornal do Brasil. quem quer que a esta se opusesse ou si mplesmente se mantivesse alheio aos seus encantos não tinha como escapar de um sen timento constrangedor de haver-se tornado um malvado. Um sinal é a reportagem de Veja sobre o pastor protestante Caio Fábio. assim resumida por Roger Scruton: “A assimetria moral — a expropriação pela esquerda do estoque inteiro da virtude humana — acompanha uma assimetria lógica. deixando livre para as esquerdas a estrada real que levaria da hegemon ia (domínio psicológico sobre a multidão) ao poder (controle do aparelho de Estado). aquela dirigida às massas. mas conheço a distinção entre bom-gosto e justiça. Betinho tornou-se enfim. O governo argumenta que quem opera o cotidiano da campanha é que tem influência sobre a população e seu voto. sem o mínimo apoio oficial. enfim. 1994. o fie l da balança política nacional. naquela altura. As pessoas hoje temem desagradar Be tinho como outrora temiam cair em desgraça ante o clero. impelindo-a no sentido da “revolução cultural” gramsciana — na qual é um dos objetivos prioritários a desapropriação da autoridade moral da religião e sua transf erência ao menos aparente à liderança esquerdista. que. Para mim. Quem entende que Betinho nunca te ve outra preocupação na vida senão de ordem política percebe que com a campanha contra a fome sua maior contribuição foi completar um giro de cento e oitenta graus na estra tégia das esquerdas. abençoado por Betinho por suas ligações com a esq uerda. a ninguém ocorrendo lembrar. este a um círculo m . um defensor im plícito ou explícito da imoralidade. vêm arriscando desbancar o improvisado monopólio esquerdista da caridade? Não havendo nenhuma prova judicialmente válida con tra o bispo Macedo. E is aí realizada uma das metas básicas da campanha. o es tilo dele é tão repugnante quanto para os redatores de Veja. precipitando alguns num debilitante ritua l purgativo e outros num esforço inglório de dar boa impressão. ou ao menos de correr o grave risco de ser toma do como tal. Durante algum tempo. coluna “Coisas da Política” ). porque suas campan has beneficentes. Mau por quê? Pel o pecado de ter sido absolvido nos processos que adversários lhe moveram? Por suas convicções políticas e sua amizade com o pensador direitista Jorge Boaventura? Por re colher contribuições de seus fiéis em vez de pedir dinheiro ao governo? Porque os rito s espetaculosos de sua igreja — tradicionais no protestantismo desde pelo menos Jo hn Wesley. e não muito diversos dos shows de pregadores católicos na Idade Média — ofend em a delicada sensibilidade estética de seus críticos? Ou. O próprio presidente da República tornou-se assim prisioneiro do poder de chantagem psicológica de que a campanha contra a fome investiu o sr. 5 ). London. por um momento ao menos. Longman. 254 A campanha. Secundado pela imprensa. Tanto quanto eles. e o novo senso do pecado. que não há como não se estabelecer a vinculação. aplaudi-lo ou abominá-lo é questão de gosto apenas. num esqu ematismo aterrador e insano. mereceu ser rotulado. como “O Bom Pastor”. uma vez que a parte operacional do progra ma está todo nas mãos de petistas. p. em suma. D aí a convergência da campanha e do ciclo. Itamar observa os movimento s calado — até porque não quer tomar nenhuma atitude pública.

255 Nem a estratégia nem a tática são totalmente novas. Inocente da acusação. o que é até um du plo bem: ajuda o pobre que precisa do dinheiro e ajuda o mau que se redime parci almente ao contribuir para o bem alheio. Na verdade. humilhando os acusadores maliciosos. rejeitaria uma corda roubada que alguém lhe estendesse para ajudá-lo no salvam ento? Se Betinho fosse um homem espiritual de verdade. o comportamento das altas classes. mostrou que é apenas mais um intelectual bra sileiro. nada tem a opor a que um homem receba dinheiro dos maus para dar aos necessitados. ed. mesmo quando bons. pp. Imputando o mal a uma instituição específica. atribuindo às suas ações ou inações todos os defeitos e a corrupção. 102-103 ): “Para colocar em marcha um movimento. A rep etição freqüente desse ato levará os ouvintes a crerem que os oradores devem ser homens de grande integridade. por si. os oradores provam a sua sapiência à mult idão que. 1982. e. Brasília. jamais teria atinado com essa conexão. A Nova Ciência da Polít ica ( trad. em Gramsci. de crime. uma unidade indissolúvel255. Richard Hoo ker já descreveu coisas bem parecidas. teria defendido a lisura de seu ato em termos veementes. Com seu ridíc ulo mea culpa político ante a imprensa. Eis aqui um resumo. extraído de Eric Voegelin. é preciso antes de tudo ter uma ‘causa’. fervor e santidade. hipersensível às aparências e inconsciente das motivações profundas de seus próprio s atos. “Após tal preparação.. da qual Betinho se reclama. Que cristão sincero. em especial. que viu serem levadas à prática pelos revolucio nários puritanos. Editora da Universidade de Brasília. tal como existem no mundo devido à fraqueza human a. pois somente homens particularmente b ons podem ofender-se tão profundamente com o mal. a moral cristã. terá chegado o momento de recomendar uma nova forma de governo como ‘o remédio soberano para todos os males’. O passo seguinte consiste em con centrar o ressentimento popular sobre o governo instituído. 2a. José Viegas Filho. No século XVI. tornou-se culpado de inconsistência m oral.ais seleto de prováveis formadores-de-opinião: combate político e combate cultural for mam. podendo salvar um náuf rago. O homem que a possui deverá criticar severamente — ‘onde a multidão possa o uvi-lo’ — os males sociais. Isto porque as pessoas que estão possuídas de aversão e descon- .

a esquerda enxergou tão lucidamente o tabuleiro político e dirigiu com tamanha habilidade o movimento do conjunto. vivendo de acomodações que sedimentam no fundo de cada alma um denso resíduo de c ulpas mal conscientizadas. Jurgen Habermas. todos têm pressa em subi r à tribuna dos acusadores para não cair no banco dos réus. por mais errônea que seja a associação. e.184 OLAVO DE CARVALHO Nesse quadro. tais pessoas preferirão a companhia de outras envolv idas no movimento à de indivíduos a ele estranhos. estão taticamente bem situadas para influenciar maridos. tinham sido calculados de fora para encaixar-se na harmonia de uma orquestração geral. A escola. Nunca. É um efeito calculado. Ape sar da posterior mudança inesperada no rumo dos acontecimentos 257. finalmente. Aplicada sobre um pov o que há séculos cultiva a ambigüidade motentamento para com as coisas presentes são suf icientemente loucas para ‘imaginar que qualquer coisa que lhes seja recomendada as ajudaria. com efeito. criados e amigos. Foi assim que. aceitarão voluntariamente os consel hos dados pelos doutrinadores. mal “trabalhada” pelos agitadores. de tal modo que a humanidade passa a ser dividida entre os ‘irmãos’ e os ‘mundanos’. Um exemplo de como funciona: O Estatuto do Menor dá a qualquer cidadão brasileiro o direito de processar uma escola — municipal. de repente. “Com essa consolidação. a aut oridade se entrega inerme aos golpes de seus inimigos 256. o resultado do exercício desse “direito” será apenas forçar inúmeras pr ituras a se processarem a si mesmas pelo delito de falta de dinheiro. que tomavam por pessoais e espontâneos. são mais liberais no que tange à ajuda financeira. “Vem depoi s o passo definitivo: ‘persuadir os homens crédulos e inclinados a tais erros gratif icantes de que sobre eles recai a luz especial do Espírito Santo’. continua indiferente aos novos direitos e . são mais inclinadas do que os homens a servir como espiãs. “É necessário ainda que o s líderes ‘moldem as próprias noções e os conceitos mentais dos homens de tal forma’ que os seguidores automaticamente associem passagens e termos das Escrituras com a sua doutrina. a téria-prima social fica em condições de receber a representação essencial de um líder. As mulheres desempenham função especialmente importante. fi lhos. e a ânsia de delatar tornou-se não a penas um emblema da virtude. será difícil. reivindicação que. que só falha qu ando a ral. gera um a onda de indignação moral. ignorem os conteúdos das Escrituras que se revelem incompatíveis com a nova doutrina. faça o que fizer. porque são emocion almente mais acessíveis. digamos — que não tenha um play ground. com igual automatismo. ainda segundo Hooker. a luta pela promulgação de direitos e normas proposit damente idealísticos e impraticáveis. se não impossível. por puro medo. não atendida pelo Estado. p restando informações sobre os vínculos afetivos dentro de seus círculos. e fornecerão farta ajuda material aos líderes do movimento. e. mesmo os que se opunham interiormente à política de esquerda se viram obrigados a colaborar com e la. Isto porque. com ou sem plena consciência do resultado a que isto poderia levar. atendida. criando um ambiente de mal-estar e recriminações mútuas que depois será denunciado pela imprensa c omo sinal de acefalia na administração municipal.” 256 A essência da tá i resumida na boutade pintada nos muros de Paris em maio de 1968: “Seja realista: peça o impossível”. a tática da inculpação não poderia deixar de dar os resultado s mais rápidos e promissores: onde todos têm algo a esconder. essa fase da v ida nacional ficará população. negligenciarão seus próprios interesses para devotar todo o seu tempo a serviço da causa. rompê-lo através da persuasão. de modo que. e. Sendo óbvio que o dinheiro em grande pa rte dos casos não há. mas um escudo contra a indiscrição alheia. e mais crêem no que menos hajam experimentado antes’. onde as peças isoladas nem mesmo suspeitavam que seus gestos. A cumplicidade universal r everteu. “Uma vez criado um meio social dess e tipo. precipita uma crise de legitimidade onde o Estado é acusado de não cumprir suas próprias leis. ensina às esquerdas o preceito da “reivindicação impossível”. o expediente de precipitar a classe política numa crise de autoincul pação surgiu como uma contribuição habermasiana que o talento brasileiro do improviso en xertou na estratégia de Gramsci. em toda a História do Brasil. em seguida. em universal bisbilhotice. terá de processar a Prefeitura — da qual ela é um órgão — para obter o dinheiro para o play ground. uma bóia para flutuar incólume sobre um mar de delações.

segundo o qual denúncias e acusações — que ameaçavam tornar-se o tema dominante da discussão política nacion l — são na verdade uma ocupação menor. fundamentalmente são. a ponto de a comentarista política Dora Kramer c oncluir que “ética não dá voto”. De fato. O grande vencedor foi um homem que. o curso das coisas tomou um rumo positivo. O exemplo da escola municipal é só um modelo em min iatura: a Constituição de 1988 é um sistema completo de armadilhas habermasianas. fizer am o mesmo com as dos acusadores. Afinal.não desempenha sua parte na comédia. Será que ninguém leu que Lênin recomendava fomentar a corrupção para depois denunciá-la? Ou o mito da cordialidade b rasileira impede de acreditar que exista aqui alguém capaz de tanta malícia? 257 Mud ança graças à qual a onda moralizante. O povo brasileiro. sem ter-se omitido na luta contra a corrupção. . no v eredito implacável das urnas. rejeitou de um só golpe. até os Mercadantes acabam fazendo o bem que não querem. Na economia divina. tanto os campeões da corrupção quanto os arautos da morali dade: se as denúncias de corrupção liquidaram as carreiras políticas dos acusados. bem diferente do esperado e desejado pela inquis ição esquerdista. que não deve distrair do essencial: os planos objet ivos e o trabalho racional para um futuro melhor. A Providência. jamais se recusou a usar dos préstimos dos maldosos para produzir o bem mediante uma engenhosa e sutil redistribuição dos males. a agitação de umas centenas de intelectualerdas à superfície do momento histórico pode ser apenas a expressão pervertida e caricatural d e uma exigência profunda e autêntica do nosso povo. acabou levando a bons resultados. contrariando os planos de seus mentores. que dispõe de um esto que infinito de Engoves. É inac reditável como quase ninguém neste país parece perceber isso. encarnou no entanto o princípio da sensatez.

a esquerda brasileira. op. para alguns dos próceres da campanha. praticada a sério . que fizeram dela. malgrado sua antigüidade. redimindo-se enfim de uma história marcada pela ingenuidade. esp ecialmente capítulos 4 e 5. Colocado no seu devido lugar dentro desse panorama. e os jovens neuróticos não sabem conquistar a maturidade senão pelo endurecimento da alma259. fazendo nisto um investimento int electual tão gigantesco. a súbita e imprevisível resolução dialética da confronto estático entre ladrões e dem gogos. Dulles. c ontinha a secreta e verdadeira intenção dos seus esforços. se não chegou à vitória. IAL. 1960 ). ele pode persuadir o orador mesmo. tem raízes psicológicas pro fundas. deixava de ser um sintoma de demência ou de maldade pessoal de seu autor para se revelar como um ato político perfeitamente coerente com a cosmovisão das esquerdas. exatamente como a corte de Henrique IV. tb. 11-13. Se este amadurecimento lhe custou a perda da sensibilidade moral e a completa prostituição do senso ético à ambição de poder. Par is. 1987. e. mas desde quando a esquerda tem algum talento profético? A casta sacerdota l de esquerda criou os pressupostos ideológicos e psicológicos em que se assentou a vitória da direita. Numa operação destinada a perverter o senso ético da população para rebaixá-lo a instrumento a serviço de fins políticos imediatos. O tema mesmo da confe rência. o dicurso “ético” tem. ao dominar a técnica do maquiavelis mo gramsciano que lhe inspirou as campanhas pela “Ética” e pela “Cidadania”. num choque de retorno.. ninguém contava com este res ultado. que. minha apostila O Abandono dos Ideais. acaba por se comport ar. desenvolverá no homem a acuidade moral de um tatu-bola. nenhum artifício poderia ser mais útil e eficaz. cit. assim como a família do louco. diante da qual o eleitor. e é descrito por Paul Diel ( Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque. e John W. como também alcançou aquele pa rão de eficiência fria e cínica que ela tanto invejava na direita local e nas esquerda s de outros países. Na esquerda. ao menos soube provar a si mesma que a merecia. representando hipocritamente o papel da corte de Henrique IV para enganar o protagonista. encontrava aí sua razão de ser. a respeito. o mais fr io e cínico dos realistas. pp. aparentemente tão distante da atualidade local.. com os valores que a suste ntavam e com os objetivos da estratégia que ela determinava. Pessanha. a conferência de A vitória de Fernando Henrique foi para o Brasil algo assim como a libertação de uma n eurose. a ideologia democráticoiluminista subentendida no concei to de “ética na política” é uma corrente bem mais forte. De fato. o personagem acaba por descobrir que . 1985 ). pela completa falta de senso prático. Raul de Sá Barbosa. Foi realmente um achado. Numa outra históri a de Pirandello. levando-o a colaborar com o Estado que pretendia destruir. na peça de Pirandello. do que a pedagogia ética de Epicuro. mas sobretudo Luís Mir. O Retrato ( Belo Horizonte. A Revolução Impossível. pel o utopismo. dando aos candidatos da esquerda um a aparência de bonecos alucinados. 1935-1945 ( trad. não somente asc endeu à condição quase sacerdotal de condutora moral da nação.. independentemente das intenções maquiavélicas p or trás do palanque. ed. Pretendendo servir-se dela. O Comunismo no Brasil. Nova Fronteira. aconteceu que esse endu recimento se refletiu nas almas e nas vozes. é implesmente porque é uma esquerda neurótica. em tudo e por tudo. com toda a sua brutal falsificação da realidade. no sentido maquiavélico do termo. que. F. Itatiaia. Rio. no presente estágio da História mund al. Mas. 258 V. uma força própria: ele pode contaminar quem pretenda simplesmente usá-lo. 259 O processo de degradação interior q ue leva o jovem idealista exaltado a tornar-se. do que o resíduo de crenças marxistas que. o ciclo de “Ética” assumia um sentido claríssimo. desconfiado. julgou m ais prudente votar em Fernando Henrique. Apenas. por outro lado. V. o objeto de chacota de russos e chineses258. a esquerda acabou por servi-la: o ator foi engolido pelas falas do personagem. 1966 ) como o mecanismo básico das neuroses. para então poderem se apresentar como médicos da doença que eles mesmos haviam prov ocado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 185 marcada para sempre como um momento em que a esquerda acreditou estar muito pert o de possuir a hegemonia e conquistar o poder. tantas vezes. no qual muitos desejavam manter preso o nosso país até precipitá-lo no desesper o. Oswaldo Peralva. vista como expressão deste sentido. O Falecido Matias Pascal. Ora. Payot. Rio. 2a.

sua pessoa real tem menos substancialidade do que sua “sombra” social: um endereço. fingindo sa tisfação. reduzida a espectadora desde fora do aparelho de Estado. A farsa dent ro da farsa . ou então de aplaudi-lo. um pouco da ética que a esquerd a pretendera usar como instrumento para sua “longa viagem para dentro do aparelho de Estado”. um estado civil. e agora. e declarar que era exatamente esse o resultado que pretendia. em proveito da direita. um número na carteira de identidade. A farsa pirandelliana da “Ética” ter minou assim por restaurar. a es querda tem de renegar o fruto dos seus esforços.

186 OLAVO DE CARVALHO devolve-nos à realidade: o Estado democrático à americana é o grande beneficiário da estra tégia socialista. É que o auto-engano estratégico já estava anunciado, de antemão, pelo au toengano na esfera da ideologia. Vale a pena recapitular o caso. A influência domi nante sobre a intelligentzia brasileira nas últimas décadas foi, sem qualquer possib ilidade de dúvida, o marxismo. Pode-se talvez dizer o mesmo da intelligentzia mund ial, mas, na Europa e nos EUA, é certo que houve, ao lado da corrente marxista, po derosas correntes liberais, católicas e conservadoras; poderosas não somente pelo núme ro, mas pela qualidade de seus representantes, bem como pela intensidade da sua ação pública. Os nomes de Friedrich Hayek, Benedetto Croce, Raymond Aron, Ortega y Gas set, Daniel Bell, Arthur Koestler, marcaram a história do pensamento político, pelo lado liberal, tanto quanto os de Sartre e Althusser do outro lado. O conservador ismo falou com rara eloquência pela boca de Saint-Exupéry, Georges Bernanos, T. S. E liot, como hoje pela de Alain de Benoist e Roger Scruton. Nada de semelhante se observa no Brasil, onde, depois de João Camilo de Oliveira Torres e José Guilherme M erquior, a voz da direita não se fez ouvir senão através de Plínio Correia de Oliveira, demasiado comprometido com um movimento paramilitar para que suas idéias possam co ntar num debate pacífico, e de Gustavo Corção, demasiado rígido — apesar do talento fulgur ante — para poder desempenhar num diálogo algo mais que o papel de censor. Houve, de pois, Roberto Campos, mas sua argumentação, brilhante como poucas, restringe-se aos temas econômico-administrativos, sem poder ter um alcance cultural mais abrangente , à altura dos méritos do ex-ministro do Planejamento. Análogos méritos e análoga modéstia d o leque de assuntos observam-se em Aristóteles Drummond e Donald Stewart Jr.. Rest a, isolado como um monumento em meio ao planalto de Brasília, José Oswaldo de Meira Penna — o único polemista que, à luz dos pressupostos liberais, empreende uma crítica cu ltural de mais vasta escala e, para as esquerdas, atemorizante 260. Mas, em face desses poucos nomes, estende-se como um oceano a 260 horda dominante dos marxistas, marxianos, neomarxistas, socialistas, progressist as, nacionalistas de esquerda etc. etc. Sobre essa massa barulhenta e autoconfia nte, a queda do Muro de Berlim teve um efeito dos mais singulares: fez com que e la recuasse no tempo, e, já não conseguindo ostentar por divisa esquerdista o nome d o marxismo, redescobrisse, como substitutivo de seu ideal revolucionário perdido, o esquerdismo do século XVIII: o iluminismo. Acomodação tipicamente brasileira: um mod o de deixar de ser marxista continuando marxista. Pois Marx já deixara preparado, para essa gente, o ardil da operação retrô: se o Brasil não podia tornar-se socialista, era simplesmente porque Historia non facit saltum, e antes da Revolução Russa tínhamos de realizar... a Revolução Francesa. A redescoberta desse ardil foi o alívio após o min uto de terror — aquele terror que invade uma tropa de meninos ao anteverem a depre ssão que se seguirá ao término de uma brincadeira sangrenta (como em Lord of the Flies de William Golding). Não sabendo viver sem um ideal revolucionário, não concebendo ou tro sentido da vida senão o sentido da História, a tropa esquerdista, desprovida de uma regra de jogo, tinha chegado a ver abrir-se diante dela o abismo sem fundo d e um desespero beckettiano. Mas, tão logo as trombetas anunciaram a ressurreição de Di derot e Voltaire, Condorcet e D’Alembert — logo acompanhados de La Mettrie, Sade e d emais libertinos célebres —, num instante o balão murcho do esquerdismo nacional viu-s e inchado de novo, trocando de retórica como quem troca de cuécas: em vez de guerrea r o capitalismo, o caso agora era lutar contra a oligarquia agrária, a moral católic a etc. Isto não era, afinal, tão diferente da velha estratégia do Partido Comunista, q ue propunha a aliança da esquerda com a “burguesia nacional” contra os “senhores feudais” do Nordeste, supostamente aliados ao imperialismo americano para a expoliação de seu s servos-da-gleba 261. Assim, tal como o adepto da New Age, que rias. O cacoete marioandradino de começar frases com pronome oblíquo da terceira pes soa, que o leitor automaticamente toma como conjunção condicional, também só serve para atrapalhar. 261 Caio Prado Jr. já havia provado a falácia dessa estratégia, num dos me lhores livros produzidos pelo esquerdismo nacional ( A Revolução Brasileira, São Paulo

, Brasiliense, 1969 ). Mas não era bom lembrar isso, de um lado porque solaparia a s bases teóricas da nova retórica “iluminista”, de outro porque esse livro, corrigindo u m erro, ajudara a criar outro pior: a adesão maciça da esquerda à tese da luta armada. Paulo Francis, talento extraordinário e homem de vasta cultura ( literária e política, entenda-se ), poderia fazer coisa idêntica, mas de uns anos para cá deu de escrever num estilo telegráfico que não argumenta nem prova, só afirma, e acaba por ser menos atemorizante do que irritante, fomentando antipatias desnecessá-

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encontrando dificuldades nesta vida decide fazer uma regressão hipnótica para ir res olver os problemas de uma encarnação anterior, a esquerda recuou em busca de uma Bas tilha que fosse mais fácil de derrubar do que o capitalismo moderno. A rapidez com que se fez a adaptação bem mostra a leviandade, a fatuidade da intelligentzia nacio nal. Ora, o único lugar do mundo onde os ideais iluministas foram realizados na máxi ma extensão possível das faculdades humanas foram os Estados Unidos. A Revolução Frances a, um morticínio inútil, foi seguida por quase um século de vaivéns e a França só se estabil izou como república democrática por volta de 1870, quando os EUA já haviam se tornado uma grande potência. As duas guerras mundiais do século XX tiveram como único resultad o duradouro a destruição final das potências coloniais européias e a ascensão dos EUA à cond ição de Império mundial: o nazifascismo e a URSS não f oram, dentro do curso maior da Hi stória, senão momentos dialeticamente absorvidos na linha perfeitamente nítida de dese nvolvimento que leva da Revolução maçônica à mundialização do Estado leigo e à americanização do. A legitimação dos EUA como polícia do mundo (globalcop) — inclusive aos olhos de uma parte considerável do mundo islâmico supostamente hostil —, por ocasião da Guerra do Go lfo, representou o ponto culminante, até agora pelo menos, de uma ascensão irresistíve l do Império mundial: ao aceitarmos a filosofia política americana, colocamo-nos vol untariamente sob o governo de quem a promove, tal como, entre os povos antigos, copiar a Lex romana e submeter-se ao governo romano eram uma só e mesma coisa 262. O que impediu a intelectualidade mundial de enxergar uma coisa tão óbvia foram dois fatores: de um lado, a crença generalizada na teoria Hobson-Lênin, que tornava insi vível a independência do imperialismo político, cultural e psicológico em relação a supostas motivações econômicas; de outro, a crença residual na vitalidade da idéia de “nação”: acredi se que o impulso de independência nacional poderia resistir à 262 Não é aqui, evidentemente, o lugar para discutir mais aprofundadamente a tendência ger al da História para a unificação da humanidade sob formas de governo cada vez mais abr angentes e complexas. De qualquer modo, essa tendência é visível, é um fato e não tem de s er demonstrada no plano teórico. Para maiores esclarecimentos, se necessários, v. o clássico de Ellsworth Huntington, Mainsprings of Civilization, New York, John Wile y and Sons, 1945 ( várias reedições ).

expansão do imperialismo, quando na verdade a própria emergência do conceito de nação foi apenas um dos momentos dialéticos que levaram, como vimos parágrafos atrás, ao nascime nto do Império mundial. O Império, aliás, não suprime as nações, já que, por definição, se co ui de reinos independentes, diferentes entre si, que ele apenas subordina e coor dena em vista de fins globais que cada reino não precisa enxergar senão parcialmente . A luta anticolonialista do Terceiro Mundo não pode prejudicar em nada o Império em ergente, cujo poder se assenta em bases totalmente diferentes das dos antigos im périos coloniais. Só pode ajudá-lo, na medida em que leva as novas nações a adotarem, junt o com subterfúgios verbais socialistas, as instituições e muito da ideologia do Estado democrático americano. Ao adotar a estratégia de fomentar as revoluções nacionalistas d o Terceiro Mundo, o comunismo internacional aprisionou-se a si mesmo na armadilh a da Revolução Americana. Do ponto de vista estritamente jurídico e político, a mundiali zação do Império é mesmo um benefício para as nações menores, antes submetidas ao arbítrio de tências secundárias, como os velhos impérios europeus ou a URSS; o Império mundial garan te-lhes um tribunal universal ante o qual podem, em pé de igualdade, lutar pelos s eus direitos com muito menos desgaste do que em sangrentas guerras de libertação. Se gundo demonstrou Bertrand de Jouvenel, a expansão dos direitos dos pequenos se faz sempre às custas das hierarquias intermediárias e da formidável concentração do poder nas mãos de poucos. O diagnóstico de Jouvenel é a versão política daquilo que a racionalização w beriana é no campo sociológico. Do ponto de vista econômico, o advento do Império mundia l é também vantajoso, segundo parece. Os argumentos de Roberto Campos, Paulo Francis , J. O. de Meira Penna, Donald Stewart Jr. e outros polemistas neoliberais (e af ins) em favor da internacionalização da economia, até onde posso compreendê-los, são muito

sólidos e a esquerda não lhes tem oposto senão rosnados e imprecações, onde não há nada a co preender. Mas a política, o direito e a economia, destacados do fundo vivo da tram a social, são apenas abstrações, no sentido pejorativo do termo. E, quando examinado d o ponto de vista de suas conseqüências psicológicas, culturais e espirituais, a ascensão do Império mundial é, como vimos ao longo dos últimos capítulos deste livro, uma

188 OLAVO DE CARVALHO ameaça tenebrosa. A derrota do comunismo, é claro, deve ser celebrada por todos os h omens de mente sã, e, se a expansão do Império foi o preço que pagamos pelo fim do p esa delo soviético, tudo bem: pagamos sem bufar. Mas, de outro lado, o antagonismo con ceptual das formas políticas denominadas “neoliberalismo” e “socialismo” ou “socialdemocraci a” tende a obscurecer o fato de que aquilo que se propõe como perspectiva de futuro a um mundo pós-socialista não é o neoliberalismo “em si”, como mera estrutura abstrata de um Estado possível, e sim o neoliberalismo encarnado na forma concreta do Império, e aliás fortemente tingido de elementos socialdemocráticos. O destino do mundo não se d ecide hoje num conflito entre formas de regimes possíveis, mas sim, por trás desse c onflito aparente, na contradição interna do Estado imperial, que parece só poder cresc er à custa da destruição do legado espiritual de onde ele extrai sua única legitimação moral possível. É neste e só neste sentido que se pode ver alguma utilidade na expressão de D aniel Bell sobre o “fim da ideologia”: no novo quadro mundial, já não se trata de um con flito entre ideologias por mais que um hábito de dois séculos i duza muitos intelect uais a n continuarem encarando as coisas por esse prisma , mas sim de um confront o entre os elementos espirituais e os elementos ideológicos no seio do Estado impe rial, conflito que por força da expansão desse Estado se alastra para o mundo todo. Alastrase até o ponto de contaminar até mesmo aquelas forças que, nominalmente, são ou s e imaginam as mais antagônicas ao Império: pois no coração do mundo islâmico o que se vê hoj e é que a resistência à expansão imperial acaba por endurecer e desespiritualizar a trad ição mussulmana, fossilizando-a no simplismo belicoso e grosseiro do chamado fundame ntalismo263, isto é, reduzindo a religião a um receituário ideoO nome calcado no de ce rtos movimentos protestantes é totalmente enganoso. Sugere, por alto, a idéia de ret orno às fontes, de restauração de uma pureza originária, mas qual o movimento reformista ou revolucionário que não se adorna dessa mesma pretensão? Na verdade, o radicalismo islâmico, pretextando um retorno às fontes, propõe às vezes uma total politização do impulso religioso, numa linha bastante semelhante à da “teologia da libertação” católica; e ele se afasta mais ainda das origens desde o momento em que despreza o legado espiritua l das antigas escolas místicas, o tassawwuff ou “sufismo”, o qual, com todas as distorções e desvios que sofreu, ainda conserva alguns valores essenciais à tradição islâmica. V., a respeito das diferentes correntes de pensamento islâmicas e seus antagonismos, Mohammed Arkoun, La Pensée Arabe, Paris, PUF, 1979, especialmente Chap. V, e id. e t al., Les Musulmans, Consultation IslamChrétienne, Paris, Beauchesne, 1971. 263 lógico como qualquer outro, fazendo com que cada novo jihad só sirva para desvitaliz ar e reduzir a uma horrenda caricatura a tradição que imagina defender. Se, de um la do do mundo, o Estado imperial leigo usurpou o manto de Cristo, do outro lado o sionismo ateu usurpou a autoridade de Moisés e a ideologia fundamentalista usurpou a mensagem corânica trazida por Mohammed. O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a possibilidade de sobrevivência espiritu al da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se unir am num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas re ligiões pelo menos das três grandes religiões do grupo abrahâmico , de cujo crédito essas deologias se alimentam parasitariamente. A total laicização do Estado imperial troux e consigo a laicização de todos os conflitos, o rebaixamento de todas as religiões e d e todos os valores civilizacionais, a degradação de todos os motivos pelos quais os homens vivem e morrem. Quem enxerga, hoje, que um século de conflito entre sociali smo e capitalismo terminou pela ascensão do Império mundial onde elementos socialist as e capitalistas foram absorvidos e superados na ideologia do Estado leigo, com preende que o fim do dualismo ideológico, sendo uma realidade, não tem efetivamente o sentido que lhe deu Daniel Bell, mas sim o da entronização de uma espécie de super-i deologia a “metade desvitalizada” do corpo cristão que não encontra concorrentes hoje no mundo senão outras duas antigas religiões igualmente desespiritualizadas e rebaixad as à condição de ideologias. Os intelectuais, é claro, em geral não enxergam as coisas nes sa escala, mas insistem em espremer tudo no estreito quadro de referências a que s

e habituaram em um século de guerra ideológica. Não vêem, assim, outras opções senão restaura artificialmente os velhos conflitos ideológicos, numa espécie de fúria regressiva que se obstina em não reconhecer a passagem do tempo, ou então festejar sob o enganoso nome de “fim das ideologias” a vitória de uma delas, sem perceber que, ao derrotar seu inimigo soviético, o Império ascende à condição de único portador do cetro supremo de laici zador do mundo, despindo-se de todos os escrúpulos religiosos que a luta contra o comunismo o obrigava a conservar. O fato é que, sepultado o comunismo, os Estados Unidos voltam a ser a sede central da Revolução mundial, tal

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como no século XVIII foram seu berço. E o herdeiro nominal da tradição cristã assume sua i dentidade pós-cristã, ou anticristã, precisamente no momento em que as outras duas gra ndes religiões vizinhas se encontram também desvitalizadas, laicizadas e cortadas de suas fontes espirituais. Pela primeira vez na história do mundo a humanidade vive o perigo de uma ruptura completa com o Espírito, de uma total imersão no “historicism o absoluto”, de um total fechamento da porta dos céus. Em face desse perigo, é preciso que, no novo quadro mundial, cada homem empenhado na defesa do Espírito, reconhec endo a mundialização do Império como um fato, e mesmo parcialmente como um bem no sent ido de que afinal a democracia preserva algumas liberdades nominais que em si são preciosas para a subsistência do ser humano pensante , mantenha afiado o sentido crít ico e saiba exigir do Império aquilo que se deve exigir de toda organização social e p olítica: que sirva ao sentido da vida, em vez de usurpá-lo numa nova idolatria. Isto significa, rigorosamente, abster-se de qualquer tomada de posição ideológica (seja no sentido de uma restauração saudosista do dualismo, seja no da celebração do novo quadro uniideológico), e oferecer sistemática resistência à noção mesma inerente a todas as ideol gias de que algum regime político, bom ou ruim, deva ter sobre as almas humanas um a autoridade espiritual comparável à de uma tradição religiosa. Para mim, pessoalmente, não faz tanta diferença, sob esse aspecto, que a organização da sociedade seja socialdem ocrática, neoliberal, que seja mesmo fascista ou comunista: havendo liberdade, des frutarei dela com prazer e, na tirania, ficarei grato pela oportunidade de ser úti l de algum m odo na luta contra o tirano. As duas hipóteses só diferem do ponto de v ista do conforto físico: para a realização do sentido da vida, uma vale tanto quanto a outra, e na verdade os regimes piores fazem às vezes brotar as melhores qualidade s humanas, prontas a dissolver-se tão logo restauradas a ordem e a liberdade (a es querda nacional sob a ditadura deu-nos a melhor prova disto). O reino do Espírito, que pretendo habitar, não é deste mundo, e ele é a única coisa necessária, a única que faz com que a vida seja digna de ser vivida. Todo ideal social, econômico, jurídico ou p olítico, por mais estapafúrdio que seja, é digno de ser defendido por quem creia nele, desde que não caia no propter vitam vivendi perdere causas. Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como

intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grande tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, t odo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.

Os neoliberais têm toda a razão em apontar os Estados Unidos como um exemplo de que a democracia capitalista é para dizer o mínimo o menos inviável dos sistemas políticos. Mas os méritos do sistema norte-americano não são devidos à idéia democrática enquanto tal, nem muito menos ao capitalismo como tal, mas ao fato de que uma e outro, para ab sorver e neutralizar hegelianamente o cristianismo na nova sociedade que geraram , tiveram de cristianizar-se ao menos em parte. Os valores cristãos, profundamente arraigados na mentalidade popular, serviram constantemente de balizas que limit avam e disciplinavam os movimentos do Estado e do mercado, dando um sentido ético e até espiritual ao que por si não tem nenhum; e, como o discurso político era fatalme nte interpretado e julgado em função desses valores, mesmo o p olítico que não acreditas se neles, mesmo o maçom de estrita observância, tinha de proceder exteriormente como cristão. Com extrema freqüência acabava por vigorar na prática o princípio católico “age c se tivesses fé e a fé te será dada” , e o cristianismo de mera pose acabava por dar aos atos políticos um sentido e um efeito cristãos de pleno direito. O exemplo mais cara cterístico é Abraham Lincoln. Esse homem destituído de qualquer crença íntima num Deus pes soal, esse devoto do Estado norte-americano que a seus olhos era a incorporação viva do fatalismo histórico conduzido pela Providência anônima de um deus iluminista, era no entanto assíduo leitor da Bíblia. Mas ao mesmo tempo esse self made man que incen tivava a difusão da lenda de sua falta de instrução era um erudito às antigas, um conhec

Ele lia a Bíblia c omo retórico. Hamilton e Burke. Quintiliano. mas imitava das falas dos pre- .edor profundo da retórica de Cícero. em busca de material e inspiração e não apenas recheava seus discursos de citações bíblicas.

e. ele repete nisto o ciclo eterno da casta governante que. Primeiro. gerada por uma casta sacerdotal. que inaugurou a moda de tomar o exibicionismo por sinceridade. cujo destino lhe interessava tão pouco quanto a s alvação da própria alma. de que ma is importa confessar Cristo com a boca do que com o coração: porque a boca está sob o nosso comando. 17 ss. mu ito antes. um sentido e uma proteção sem os quais não poderiam sobreviver por muito tem po sem decaírem ao estado de “ficções jurídicas”. contradições que a cultur a cristã atenuava. tendem a refugiar-se num fundamentalismo rancoroso. O conflito interno da consciência protestante que inspira o capitalismo e depois reage com violência às inevitáveis cons eqüências político-sociais do progresso capitalista é um Leitmotiv da história americana. Muito antes dos modernos estudos sobre “religião civil”. que à me ida que o Estado se desmascara e manifesta aos olhos da sociedade o intuito laic izante que o 264 V. hostil a todo progr esso que não obstante as beneficia materialmente. “Abraham Lincoln”. pp. para enfim se precipitar num abismo d e erros e loucuras. deu às suas palavras e atos um sentido cristão. liberdade de imprensa etc. No caso norte-americano. que cobra das almas uma pureza utópica só para poder mais facilmente precipitá-las no abismo da auto-acusação exibicionista265. largadas a si mesmas. pois descendiam do primeiro povo c ristão da Europa. O Estado democrático só consegue revestir-s e uma aura de prestígio religioso na medida em que cede e cede muito à influência da r eligião. O resultado foi que o povo. sentindo-se expulsas da terra que lhes fora pr ometida. assim. Era. Exemplos similares poderiam multiplica r-se indefinidamente: a hipocrisia que se reveste do manto de Cristo cristianiza -se de algum modo. seguindo a linha fatal dessas conseqüências. João Crisóstomo. o lado irrac ional de uma democracia que ao mesmo tempo expande ilimitadamente os direitos do s cidadãos e os submete à vigilância opressiva da burocracia jurídica onipresente e os m anipula por mil e um artifícios de controle social científico. assumem logo as figuras inconciliáveis e eternamente hostis de Leviatã e Beemoth. já traziam o cristianismo no sangue. Ao mesmo tempo. op. subentendendo que esse fundo cristão lhe dava uma unidade. Companhia das Letras. move desde dentro. 1991. ao mesmo tempo que realizava sua meta suprem a de preservar a unidade do Estado providencial. seleção e pre fácio de Paulo Francis. Deus é menos exigente com o homem do que o dogma do sincerismo m oderno espécie de hipocrisia às avessas. e as profundezas do nosso coração só Deus conhece. tão logo se livra da religião. perde autoridade e legitimidade. o esplêndido ensaio de Edmund Wilson. onde uma elite de céticos e inimigos da fé governa a ma ior população cristã do mundo. confirmando a definição weberiana da História. patenteiam-se também as contradições do sistema político. Fr iedrich Karl von Savigny já havia percebido que todas as legislações do mundo moderno eram expressões de valores cristãos. 265 Foi Jean-Jacques Rousseau informa-nos Paul Johnson. São Paulo. trad. passan do por cima das intenções subjetivas do indivíduo Abraham Lincoln. se rebela em seguida contra o seu criador. em Onze Ensaios. as coisas parecem equacionar-se de . acabou por entrar para a História como o libertador dos escravos.190 OLAVO DE CARVALHO gadores religiosos muito do pathos característico que distingue a sua oratória e faz dela uma das mais poderosas da língua inglesa. voto. é notório que o credo american o democracia. alardeando até mesmo p ecados fictícios. amortecendo-lhes o impacto contra o fundo acolchoado de uma coe rência ética que dava um sentido de unidade e universalidade às correntes diversas as quais. Aí é que se vê a sabedoria do conselho de S. Segundo fato: à medida que. lei e ordem. e como um exemplo de político inspirado em ideais cristãos: o sac erdote de César tornou-se um apóstolo de Cristo 264 mais um resultado impremeditado. só aos poucos e graças a esforços prodigiosos de gerações de propagandistas se disseminou entre populações que. José Paulo Paes.. cit. e Lincoln. as forças cristãs. o que terminou por fazer dos Estados Unidos essa contrad ição viva: um Estado leigo maçônico. a sociedade s e descristianiza. fatal que as idéias democráticas recebessem espontaneame nte uma interpretação cristã. Daí também dois fatos da maior importância.

secreto ou discreto. ao passo que. o rito interior. pela influên cia do clero cristão católico ou protestante. no reino exterior ou exotérico. na medida em que a casta sacerdotal não é cristã. a alma do povo continua a ser formada. Mas e este é o pivô do drama a Maçonaria só exerce uma parte das atribuições de uma c a sacerdotal: ela é o esoterismo. e sim maçôni ca. que molda a mentalidade da elite intelectual e governante.maneira um tanto diferente. hoje como sempre. Daí entendemos que a ascensão do .

digamos assim.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 191 governo maçônico se prevalece do prestígio cristão anexado de fora aos valores e princípio s da democracia. O menos inviável dos regimes terminará por inviabilizar-se quando terminar de corroe r. cultura e “senso com um”. da mente do indivíduo human o. política. por exemplo. para não dizer fantasista. ideológicos. senão essas caricat uras de paraíso que recebem o nome de utopias. Ao contrário: religião e economia. precisamente pela mesma razão que permitiu a Abraham Lincoln passar em públic o por grande líder cristão: pela razão de que seus intuitos ( em si mesmo nem cristãos n em anticristãos. etnológicos etc. na medida em que. interna. Na história. na escala dos fatos históricos. mas pr ecisamente da impossibilidade de sintetizá-los na prática. que a liberdade sexual é um direito inalienável. isto para nada dizer da possibili dade de transplantar uma religião de um país a outro. na mesma proporção. contanto que coloque acima desse Deus as leis e instituições do Estado leigo. Estas palavras expressam minha convi cção de que é puramente ideológica. quanto mais se laiciza a sociedade. são forças autônomas. muitas das grandes mudanças não advêm de nenhuma síntese de elementos anteriores. não uma lei histórica. contanto que consintam em perder toda importância vital e em tornar-se adornos t urísticos para embelezar a cultura maçônicodemocrática. precisamente. O perfil de uma determinada sociedade. fazem brotar de novo e de novo os conflitos mais bárbaros e as contrad ições mais insolúveis. põe à mostra suas próprias fraquezas e contradições Ele prega. mas. fundamentalmente inalteradas em seus dogmas a despeito de todas as mudanças econômicas. mas não é capaz de dar a esses valores e princípios. ideologia. como o prova o fato de que as religiões podem subsistir por milênios. extracristãos) foram aceitos na medida em que o povo os interpretava como cristãos e acabava por cristianizá-los. que o homem tem o direito de cul tuar Deus à maneira de sua religião. desde que privad os da seiva cristã que os alimenta. por exemplo. o que se vê é o entrechoque entre esse impulso e as tr emendas forças de divisão e decomposição a começar pelo fato mesmo da morte que se opõem manentemente ao esforço unificador humano e. ao mesmo tempo que ensina nas escolas que ela não é senão o resultado fortuito de um a combinação de átomos. no seio mesmo da mais organizada das sociedades. onde os únicos antagonismos reais que existem são os conflitos de classe 266. contanto que os homossexuais não pratiquem sodomia e os heterossexuais não façam propostas eróti . da mente humana. a concepção da sociedade como m bloco mais ou menos homogêneo de economia. malgrado todos os esforços humanos. que devemos respeitar a vida humana como um bem sagrado . mas que com ou sem Gramsci anda disseminada pelas cabeças de quase todos os pensadores sociais e políticos des ta parte do mundo. Anexado de fora. que as diferentes culturas devem ser preservadas em sua pureza . mesmo separados por séculos de d esenvolvimento econômico desigual e por abismos de diferenças culturais e psicológicas . em nome da democracia. só constitui um bloco para fins de hipótese metodológica. remetendo a unidade à esfera que lhe é própria: a esfera do ideal e d o extramundano a que não correspondem. menos coerência. ele se assume como independen te do cristianismo e. tomada num momento qualquer do seu dese nvolvimento histórico. os princípios religiosos a que a idéia democrática deve toda a sua substância. mas os elementos religiosos. O impulso para a síntese que é uma das fontes do empenho civilizatório em ger al é uma exigência constitutiva. Na medida em que o ideal maçônico do Estado leigo democrático se realiza. Repito o que disse lá atrás: a síntese dialética só existe no reino das idéias. e 266 Concepção que encontra sua expressão mais plena em Gramsci. A heterogeneidade essencial das força s que compunham o ideal americano maçonismo e cristianismo pôde ser ocultada por um tempo. a dinâmica que marcará a história dessa sociedade. disse eu. no plano político-ideológico. menos credibilidade e menos funcionalidade têm os valores democráticos em nome dos quais essa elite chegou ao poder e governa. que a formam podem ser heterogêneo s por sua origem e continuar heterogêneos e conflitantes de seu conflito resultand o. uma força de subsistência autônoma: a vitória da elite maçônica traz em si os germes de sua própria destruição.

numa permanente estimulação contraditória que está na raiz da violência e da loucura que hoje marcam a sociedade americana e todas as s ociedades que se colocaram sob a órbita da influência ideológica da Revolução Americana.cas às mulheres. M uitos analistas do fenômeno americano já estão se dando conta de que a democracia depe nde de que existam no povo certas virtudes que ela não criou nem pode criar. e assim por diante. mas q ue recebeu prontas da civilização cristã e que não sobrevivem à .

E enquanto não com preendermos essas coisas continuaremos a apostar neste ou naquele sistema político . também não aprenderemos a de Bertrand de Jouvenel. ou antes. Jankélevitch. segundo a qual a religião e somente a religião. o poder é o único juiz. desde a eternidade. a todas as sociedades. é a instância superior onde se arbitram todos os co nflitos entre facções. Se as religiões todas elas. É ainda nos Esta269 V. e se por outro lado a dinâmica anticristã do Estado leigo parece uma fatalidade inerente à constituição mesma do novo Império. Schelling. isto mostra o que foi dito parágrafos acima. trad. Enquanto estivermos contaminados pelo preconceito . cuspe e respingos de cerveja. sejam elas religiosas ou políticas. não poden do ser mudada por arbítrio humano. socialdemocrata ou neoliberal. en quanto não percebermos que ela pode ser precisamente o contrário. Introduction à la Philosophie de la Mythologie. apesar de toda a antiespiritualidade dominante. que o antecedem. sendo a expressão da ideologia de um grupo vencedor. E enquanto não absorvermos essa lição. O lance de dados em que os poderes deste mundo partilham o manto de Cr isto não abolirá jamais o movimento imprevisível do Espírito. que algumas das reações mais vigorosas à cultura anti-espiritual do no vo Império brotam de dentro dos próprios Estados Unidos. comunista ou apitalista. nenhum programa político pode ter a universalidad e e a abrangência de uma religião nem muito menos o seu poder unificante e doador de sentido. op. porque a unid ade da ética leiga reside na interpretação religiosa que dela se faça. Também é preciso reconhecer. uma impressão recebi da pela sociedade desde fora ou desde cima. a t odas as constituições políticas. passim. É porque. Mesmo e sobretudo. é sempre um juiz parcial na hora de julgar os vencidos. compreendida como portadora simbólica de verdades universais e valores objetivos. meio sociologista.. é porque elas 267 268 existem e vigoram num plano de universalidade superior ao de todas as culturas. que a ruptura entre Maçona ria e Cristianismo está na raiz da tragédia contemporânea. o que já basta para por em dúvida a onipotência da nov a cultura 269. vivificada pela presença da autoridade espiritual e firmada em valores q ue antecedem de muito o nascimento desse sistema e o da própria sociedade que ele governa. ao passo que toda legislação po lítica. que nel a se projete. como disse São Paulo Apóstolo. não enxergando que os méritos de qualquer sistema político dependem essencialmente d e que ele saiba respeitar os limites que lhe são impostos pela consciência religiosa do povo. 2 vols. segundo a qual são os mitos e as religiões que estatuem o campo po ssibilitador dentro do qual se erigem as formas sociais. de que a religião é uma expressão da sociedade. com uma propensão incoercível a autodivinizar-se. na madrugada que se segue a um comíc io. enquanto não compreendermos mesmo a lição de Schelling 268. Nenhuma ideologia. S. Por toda parte o que se vê é o completo fracasso da tentativa de superar por uma ética leiga as antigas éticas religiosas. cit. Na ausência da autoridade espiritual que não se confunde de maneira alguma com as hierarquias de nenhuma burocracia ec lesiástica. meio marxista. monárquico ou republicano. os farrapos de papel com as caretas bisonhas dos demagogos tingidas de lodo. Paris. não compreenderemos o que se passa hoje no Império americano e no nosso próprio quintal. pode oferecer uma resistência eficaz ao crescimento ilimitado do poder político mesmo e sobretudo daquele exercido em n ome de pretextos religiosos. Metade da população americana c ontinua. mas reside naqueles homens em que se manifesta de maneira patente o es pírito mesmo da religião .. sociedades e constituições políticas. V. o homem espir itual julga a todos e não é julgado senão por Deus. ele será sempr e o poder de César. porque a lei religiosa. Democrático ou oligárquico. culturais e políticas. Se hoje não podemos desistir nem do Estado democrático nem do fundo cristão sem o qual ele perde todo sentido e se transforma no neototalitarismo do “politicamente correto”. frequentando o culto do minical. 19 . talvez.192 OLAVO DE CARVALHO descristianização da sociedade 267. Aubier. ou praticamente todas já deram provas de poder adaptar-se a todas as culturas. que arrasta os impérios e as nações como o vento arrasta pelas ruas desertas. em contrapartida. católico ou protestante. Friedrich-W. Christopher Lasch.

45. A separação da igreja e do . Esta evidência pode sugerir que os Estados Unidos. segundo diz Christopher La sch: “A quantidade de pessoas que professam a crença em um Deus pessoal. Mas esse fato também deve ser interpretado com prudência. de alguma forma. pertencem a uma denominação religiosa e assistem ao serviço com alguma regularidade continua nota damente alto. A vida pública está totalmente secularizada. A aparência eng ana. entretanto. têm conseguido escapar às influências secularizan tes que modificaram a paisagem cultural em outras partes do mundo. em comparação com outras nações industriais.

que o condenarão à mor te. Frithjof Schuon.. Também não sabem pa ra onde levam quem os ouve: e assim arrastam o público para o Jardim das Delícias. De l’Unité Transcendante des Réligions. finalmente. sob disfarces variados. New York. . pp. é uma das características das cla sses cultas. E lá. A atitude das elites no que se refere à religião vai da i ndiferença à hostilidade” ( Christopher Lasch. ainda subsiste a contradição entre Império e nação — contradição em q o leitor não terá dificuldade de reconhecer um resíduo da ideologia dos impérios colonia is. que muito da resistência espiritual norteamericana se perde em histerismos ultraconservadores e em arreganhos nacionalistas — às vezes va gamente fascistas — que não têm nenhum sentido no novo quadro a não ser mostrar que. E. Os próceres da reforma intelectual b rasileira querem guiar o povo sem saber quem os guia. Paris. mas nem imaginam quem fala por sua boca. The Gifford Lectures. Huston Smith. 198 1. 247-248 grifos meus ). No fundo de sua aparência erudita. s em saber que se trata. profundamente influe nciada pelo pensamento de Frithjof Schuon. A religião foi relegada às vias secundárias do d ebate público. e Seyyed Hossein Nasr. a essência mesma do culto imperial? Não. na verdade. 2e. é triste verdade que muito dessa resistência se inspira no apego a exclusivismos religiosos de cunho fundamentalista. hoje interpretada como proibição de se recon hecer publicamente qualquer religião.. se até os norte-americanos conscientes do caráter anti-espiritual do novo Império terminam por servi-lo involuntariamente. e aos escribas. Knowledge and the Sacred. homem espiritual de primeiro plano e inventor do único método válido já concebido para a comparação e aproximação das religiões 27 s é ainda verdade. Fascinam a platéia. eles não sabem o que fazem. W 271 Mat. éd. do Jardim das Aflições. Victor Danner e outros. Le Seuil. está mais profundamente arraigada na América do que em qualquer outro lugar do mundo. cit. quanto mais não o farão os intelectuais progressistas do Terceiro Mundo. por apego a preconceitos qu e os cegam. Um estado mental cético. den tro do corpo americano... que só servem para gerar desc onfiança entre os crentes das várias religiões e fomentar. Mas. mas ao terceiro dia ressurgirá” 271. “o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes.. O seu compromisso com a cultura da crítica é entendido como a eliminação do s compromissos religiosos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 193 dos Unidos que se encontra hoje o mais poderoso núcleo de resistência ao avanço do ateís mo oficial — o que abrange desde as comunidades que se organizam contra a lei do a borto até a elite espiritual concentrada em torno de figuras como Seyyed Hossein N asr — exilado iraniano —. 27 0 V. e crucificado. Crossroad. op. São cegos e ingênuos no fundo de uma casca de vaidade e presunestado. não obstante. o ateísmo oficial do Império. são incultos. 20:18-19 ( trad. iconoclástico. pela divisão. E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido. despreparados e bem pouco intelige ntes. prisioneiros de mitos que constituem. novamente. 1981. Antônio Pereira de Figueiredo ). 1979. ção.

crendo e fazendo c rer que ensina o caminho da sabedoria. digo eu: qual de vós. Pois enquanto nós. indiferentes à voz do boneco que repetia mecanicamente seu discurso numa ponta esquecida do Terceiro Mundo. de sentimentos grosseiros e de palavreado florido. até o patético da autovalor ização heróica. todos os mitos e ilusões a que se agarravam por desespero os intelectuais brasileiros. o poder aci ma do saber. se entreguem à consolação malévola do riso e da ironia. por partes e intermitentemente.” KARL JASPERS Termina assim nossa jornada — o giro por dois milênios de História das Idéias.194 OLAVO DE CARVALHO Post-scriptum LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR “A soberba do homem niilista eleva-se. aqui exposto em toda a sua triste de formidade. na platéia do MASP. condená-lo. não colocou o estetismo acima do dever moral. trap acear. o encanto das palavras acima da evidência das coisas e dos fatos? Qua l de nós não acreditou um dia que nossa repugnância pelo estado de coisas nos revestia de uma dignidade especial e nos dava um salvo-conduto para mentir. com uma espécie de heroísmo do auto-engano. fazendo dele um compêndio vivo dos erros da sua casta. nem a última pedra: não vejo por onde condenar aquele que. bebeu até o fim a taça da falsidade univer sal. enquanto José Américo Mo tta Pessanha mergulhou até o fundo do erro. Eis também o motivo pelo qual é tão difícil condená-lo: ele errou em nome de todos. lapidar o próprio peito. ao meno s antes de ler este livro. Não atiro a primeira. que nos f oi necessário para compreender. patético e melancólico. não foi igual por mais de um aspecto a esse inimigo da sabedoria? Qual de vós pode atirar-lhe pedras. senhores das letras: não vos exponho o corpo macilento e desgrenhado dessa vítima para dar r epasto à vossa ironia. um dia. não como um crim inoso a ser escarmentado. dá eco à mensagem do mal e da mentira universais. a paixão ideológica acima dos direitos da verdade. O conjunto forma o retrato de um boneco de ventríloquo. Eis o mo tivo da mágica atração que ele exercia precisamente sobre aqueles que menos o compreen diam. da minha parte. não sabendo quem fal a por sua boca. ordenar e pôr em claro toda a mixórdia de erudição mal dig erida. sem no mesmo ato cuspir na própria face. não é? Pois bem: àqueles que. Não. e scribas e fariseus hipócritas. Isto fez dele a vítima dos que nele acreditaram. desde que fosse em nome da nossa sacrossanta indignação política? Apenas. nem a segunda. e xpô-lo com descomprometida e sádica alegria ao escárnio das gerações futuras. condensaram-se na alma de José Améri co Motta Pessanha. iludir. nós o f izemos com maior comedimento. diante do ca dáver intelectual de José Américo Motta Pessanha. deuses hediondos prosseguiam sua marcha triunfante entre nuvens de fogo. movido pela angústia ou pela voracidade. mas para que nela vos enxergueis a vós mesmos e possais diant e dela confessar. que. Pois. detidos a meio-cam inho por um misterioso repuxão do bom-senso ou da hipocrisia. mas que neles se repartiam em porções desiguais e de composição variada. se posta diante dos meus olhos. de mitos ideológicos. num certo momento da nossa História. qu e compõem a fórmula cerebral de um típico letrado brasileiro do período entre 1964 e 199 4. É horrível. com grandeza trágica. chicotear as próprias costas? Po is eu. mas como a vítima da tragédia intelectual de todo um país e de toda uma época. Isto fez dele o emblema das dores e da insânia de uma época. vos garanto: não posso. está limpo de toda mácula que nele agora vêdes com os olh os claros que a contragosto meu e vosso vos dei por empréstimo? Qual de vós. ao menos cada qual a si . ouvíamos Motta Pessanha. Qual de nós. sem outra culpa senão a da demência coletiva que a poder de aplausos e lisonjas o arrastou aos piores desvari os filosóficos.

Solidarizai-vos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 195 próprio: Eu não fui melhor. na desgraça. Rio. . que o aplaudistes em vida quando ele em palavras insa nas dava expressão e autoridade a vossos mais baixos sentimentos e a vossas mais a bsurdas aspirações. Orai por ele. desfeito em trapos o seu perfil de filósofo. Vós. Pois seu pecado foi o de todos nós. não o abandoneis agora. julho de 1995. por vós e por mim. quando ele aqui jaz. com aquele que na glória e na al egria celebrastes.

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Suma contra los Gentiles. trad. HITE. “Os Pensadores”). Frances A. trad. Meridian B ooks. Paris. . Axel’s Castle. . 1971. Wilhelm Nestle. Giordano Bruno e a Tradição Hermética. vol. Fayard.. Benjamin Fr anklin. A Nova Ciência da Política. Napoléon ou le Mythe du Sauveur. TULARD.. La Agonía del Cristianismo. sel. Rio. Paris. Paris. Abril (Col. 1991. José Paulo Paes. Madrid. Eric. Baton Rouge. Paris. F. 1967. Ark. 1985. 15ª ed. VEBER. Cultrix. Alves. VOLTAIRE.. 1991. São Paulo. Jean. . Szmrecsányi. Revista de Occidente. R. trad. Escritores e Atores da História. Scriber’s. El Problema de la Irracionalidad en las Ciencias Sociales. Yolanda Steidel de Toledo. e p de Paulo Francis. . N ew York. by H. brasileira de José Pau lo Paes. o. 2nd. Rum ação Finlândia. New Yo rk. M. Madrid. São Paulo. transl. 1989. Ed.. Max. Onze Ensaios. 1958. Olavo de Carvalho. .. A Democracia na América. 4ª ed. H. and ed. America. . Gerth and C.. Companhia das Letras. Éssais et Con férences. Paris. The Occult Philosophy in Elizabethan Age. 1983. Cap.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 205 TINDALL. TOMÁS DE AQUINO. William H. 3e. La Societé Post-Industrielle. José Viegas Filho.. WILSON. org.. 2º ed. Norton. Itatiaia. Éric. From Max Essays in Sociology.. . e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado. 1982. Tecnos. Paulo Henriques Britto. 1985. sel. s/d. Alain. Aléxis de.. Madrid. I. Paris.. Szmrecsányi e Tamás J. WEBER. 1987. 1983. VOEGELIN. . BAC. São Paulo. 1970. Comentários à “Metafísica Orien tal” de René Guénon. 2 rad. p. 7ª ed. New York. 2 vols. 1971. 1931. Princípios de (uma) Ciência Nova (Acerca da Natureza Comum das Nações). New York. 2e. New York. Wright Mills. Oxford University Press. TOURAINE. Historia de la Filosofía del Derecho y del Estado.. Order and History. YATES. WEIL. 1977. 1956. New York. V. David E. São Paulo. Doubleday. L. Philosophie et Realité. Cultrix. Vrin. JR. 1992. 1977. UNAMUNO . São Paulo. Irene de Q. VAN DOREN . Come ntários a Aristóteles. Carl. 1967. Espasa-Calpe. Denoel. 1969. 1984. Logique ilosophie. Belo Horizonte. I. Paris. Neil R ibeiro da Silva. Espasa-Calpe. ZELLER. Vrin. trad. trad. 2ª ed. . 1966. São Paulo.. Edmund. K. trad. Antonio. éd. VICO. Outlines of the History of Greek Philosophy. isiana State University Press. De los Orígene s a la Baja Edad Media.. . UPINSKY. São Paulo. trad. 1985. Companhia das Letras.. ROSA . Miguel de. M... TRUYOL Y SERRA . Vrin. Beauchesne. London. 1956-1987. 197 4. Hegel et l’État. 5 vols. Le Siècle de Louis XIV. Vrin. F. . y Adolfo Robles Sierra. Garnier. Speculum.. George B. Eduard. Vida de Don Quijote y Sancho rid. Transl.. Philosophie Politique. Derniers Éssais et Conférences. A narrative History. . and SHI. Antonio Ribeiro de Oliveira. trad. Antonio Donato Paulo. 1982. Brasília. Madrid. 1955. TOCQUEVILLE. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Sto. . Paris. Palmer. O Castelo de Axel. trad. A Perversão Matemática. Giambattis ta. 1987. Pioneira. trad. ed. The Organization Man. Editora da Universidade de Brasília. Laureano Robles Carcedo. The Viking Press. Arnaud-Aaron. José María García Blanco. 1938.. 2ª ed. 4ª ed. Michel. ed.

François Noël. 69. 168 BOHM. 165. 74. 276. 154. 257. 222. 154. 225. 341 BANDLER. 331 BROCKMAN. Pierre. 373 BOAVENTURA. 54. 187. S. 280 A GOSTINHO. 189 —A— A BELARDO. Sto. 28 6 BOÉCIO ou Boetius. Brun o. 151 BONAPARTE. 290. 123 . Herbert José de Souza. 42 A LIGHIERI . 118. 56. 347. 272. 315 BRENTANO. 93. Jean Le Rond d’. 150 BRIO N. 339 BONIFÁCIO. Harold. Jorge. 323. 168. Jean. 249. 253. 59. 207. 111 BOHR. Alain de. 364 A LAIN (Émile Chartier). John. Georges. Richard BARRÈS. 120. 126. 382 A NSELMO. Honoré de. 12 BLÜCHER. v. 331 A LLEAU. S. 347 BERNARDO DE CLARAVAL. Gregory. GRINDER. 185. Sto. 67 BLAVATSKI. Ni els. 212 BEAUVOIR. 284. 301 BARRUEL. Franz. 290 A LCUÍNO. 314 BLOOM. 283 BETINHO. Dante. Gen. 273. David. 135 BLOOM. John. 120 A U GELLI. Napoleão. Theodor Wiesengrund. Sto. 387. S. Anicius Manlius Severinus. Simone de. 314 BATESON. Abade. Tomás de Aquino A RISTÓTELES. Marielza. 388 BENOIST . 372. 41 BERTRAND. Afonso de. Gustavo. 47 BECKER. 93 BAUER. 384 A LEXANDRE DE HALES. 123.. Gebha rd Leberecht. Papa. 67. 307 BERNAN OS.. Marcel. 301. 41 A DORNO. 313. 41 BODIN. Sto. 271. John. Hal C. 186 A UBENQUE. 43 BALZAC...206 OLAVO DE CARVALHO ÍNDICE ONOMÁSTICO BARROSO . Otto von. 325 BAYLE. Sto. 155.. 347 BERDIAEV. 223.. Louis. Pierre. 269 A LEMBERT . 220. 99 B ELL. Roger. 79. 42 A QUINO. 204. 89. 275 BOWEN. 53. Tomás de. 46 A FONSO DE LIGÓRIO. Antoine. 306 A RNAULD. 108 v. 259. Hele na Petrovna. 290 BOAVENTURA. 307 A LTHUSSER. Pedro... 281. 71. 184. 127. René. 69 A LBERTO M AGNO. Louis. 192. Maurice. dito. 338. 269. 373. 10. 372 BACON. 18 7 A FONSO HENRIQUES (de Portugal). 297. 333. 72. dito Graco. 142. 43 A LBUQUERQUE . 266 B ONIFÁCIO VIII. Allan. Nicolai. Daniel. 277 . 119. 209 . 99 —B— BABEUF. 374 BISMARCK.

J acques. Victor. 201. 282. 42. 292. 281 CONCHES. 363. Christopher. 224. Auguste. 57. 208 . 366. 37. 361 CARNEGIE. 285. 136. 30 5. Fernando Henrique. 118 DEMÓCRITO. 365. 366 —C— CALDERÓN DE LA BARCA. 241. 347 CRISTO. 151 CRISTALDO. Pierre Teilhard de. 138 v. 83. 187 DESCARTES. 109 BRUN. Joseph. 146 CARVAL HO. 363. 389. Fernando Afonso. 70 CERVAN TES. Titus. Marilena. 32. 262. 69. SIEGELMAN. Gilles. 68. 304. Gustavo. 273. 45 CAYCEDO. Etienne Bonnot de. 121. 266. Olavo de. 258. 270 CUSA. 280. Jacob. 395 CHAILLEY. 175. 299 CAMPOS. 242 DE M AISTRE . Dale. Otto Maria. Janer. 264. 271. 273. Miguel de. 297. 368 DEMÉTRI O. 118 DEMÓCARES. 390. Jim COPÉRNIC O. 332 CHANDLER. 59. v. 342 CASSIRER. Joseph Marie. 66. 19. 389. 105. Maurice. 232. 65. 33 . 29. 84 DELFIM NETO. 261. 382 CONRAD. 127 BURCKHARDT . Maistre DÉGERANDO. 266 COLLOR DE M ELLO. Gautama. 256.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 207 BROWN. 186. 255. Jean. 42. 98 BRUNELLESCHI. 70 CARPEAUX. Nicolau de. Alighieri DAVI D. 329 CÉSAR. 106. 134. René. Card. 258 DAWSON. 380 CRÉBILLON FILS. 284. Paolo. 215. 300 DANNER. 386. v. Claude. 287. 225. 244 CLÓVIS. 223. Pedro. 92. Salvador. 208 BRUNO. 337 CONSTAN TINO. 290. 45. 190. Nicolau. 365 CHESTERTON. 368. marquis de. 232. 226. 369 COLLOR DE M ELLO. 240. 257. Ernst. Guilherme de. 204. 282. 286. v. Gi ordano. 43. Rus sel. Imperador. 364. Henry. Roberto. 192 CAPRA. Georg. 378 CARLOS M AGNO (Charlemagne). 191. 209 CONWAY. 249. 313 BURKE. 107. 347 CA MUS. 42. 369 CARDOSO . Marie Je an Antoine Nicolas Caritat. Jacques. Edmund. 173 CORBIN. 394 CROCE . 59 BURCKHARDT . 290. 222. 77 CANTOR. Albert. 203 CHAUÍ. 380 CROUZET . Jacques-Louis. 45. 362. Gil bert Keith. 237. 28. 150 CONDORCET . Caio Júlio. 152. Nicolau de Cusa —D— D’HONDT . Antônio. 266. Pedro. 226. Joseph. 367 COMTE. 97. 298. 159 CHARDIN. 259. Filippo. 64. Guilherme de Conches CONDILLAC. Joseph Epes. 186 BUDA. 63. 226 DANIÉLOU. 289. 64 CLEMENTE de Alexandria. 108. Fritjof. 150 DELEUZE. 144. 176 CORÇÃO. 35. Flo. 45 . 358. v. 184. Benedetto. 396 DANTE. 267.

46 FIELKENKRAUT . 46. 204. 121 DIRCEU. v. 360. 202. 265 FURTADO. Sigmund. 196 FOWLES. Octávio de. Oliveira e Silva DONOSO CORTÉS. 370 GEISER. 67. 33 7 FEYERABEND. 188. 134. Wilhelm. Ingemar. 382 DIEL. 315 FRANCA.. Jean. William. 291 DRUMMOND. Foster. 342 DUMONT . 146. 40 EUBÚLIDES. 242 GASSENDI. 45. 368. 381 DRUMONT . 129. 366 FERREIRA DOS SANTOS. 84. 33 . 259 EL IOT . 304 DUP ANLOUP . 126. 23. 51-58. Alain . Carlos. 127 ELWELL-SUTTTON . 42. 274 . Paul. 166. 378 DILTHEY. 39. T. S. Mário. 309 DULLES. 44. 45 DOSTOIÉVSKI . John. Johann Wolfgang von. Fiódor Mikhailovitch.. 97. 151. L. 67. Johann Gottlieb von.. 43 EINSTEIN. 121. 27. Denis. 381. 127. Celso. 362. Michel. Milton. 197 GARCÍA GUAL.. Gilbert. 83 GOETHE . 4 0 EVOLA. 117. Umberto. John W. 133. 154. 49. 8 6-90. 187. Mons. 375. 35. 118 —E— OLAVO DE CARVALHO —F— FÁBIO. 150 DIONÍSI O. Francis Paul. (Thomas Stearns). 137. 13. 331-334. 42. 175 FICHTE. 120. Albert. 166. 169. Christopher. Manuel. 149-152. 41. Ludwig. Charles de. 171 FUKUYAMA. 117. 376. 90. 360 GAULLE. 274 FELIPE O BELO. Juan Francisco. 183. Mircea. 339 DRAYTON. 369 —G— GALILEI. 275 GAXOTTE. 187. 380 ELIS REGINA. 287 FOUCAULT . 370 GOLDING. 340 FESTINGER. 105 FEUERBACH. 115-122. 124. 161. Sir John. 286. 171. 300 DURAND. 195. 60-73. 278 DUMÉZIL. dit o Petrus. 241. 23 1. 225. 46. 48. 214. Antonio. P. Rob ert L. 117. 91 ÉSQUILO. 74. Louis. William Henry. 37. 369. 137. 240. 24. 36. S. 32. 338-340. Pierre Gassend. Édouard. 135. Mons. Julius. 35. 389 FREUD. 43. 189. 392 ECO. Aristóteles. Leonel. Allen. 379 ERICKSON. 28. 373 FARGES. 109 FARIA. Pe. 46 FUN K. José. Leon. Galileo. 103. Paul. 315 E PICTETO. 122 GARCÍA-PELAYO. 382 GRAMSCI . 185 FRANCIS. Albert. 189 FAVIER . Félix. 46 FORTESCUE. J. Mons. 292 DULLES. 139. J ohn. 168. Paulo (Franz Paul Heilborn). 46. Pierre. G eorges. 133. Pastor Caio. 226. 12. 282. 118 EURÍPIDES. 40. 64. 189 ELIADE. 284 DÜRING. 156.208 DIDEROT . 271-275 FELIX. 341 DUNS SCOT . 89 EPICURO.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 209 GRAVES, Robert, 314; 315 GRINDER, Richard, 69; 89; 103 v. BANDLER, John, 69 GUAT TARI , Félix, 84 GUÉNON, René, 45; 175; 247; 248; 259; 274; 298; 300; 301; 305; 306; 3 11; 314; 331; 333; 334; 337; 342 GUILHERME DE CONCHES, 41 GURDJIEFF, Georges Iva novitch, 45; 63; 64; 103; 224; 225; 312 —H— HABERMAS, Jürgen, 376 HAMILTON, David, 354 HAMILTON, William G., 389 HARTMANN, Nicolai, 45; 46 HARVEY, William, 42 HEGEL, Georg Friedrich Wilhelm, 28; 46; 77; 121; 133; 153; 211; 213; 218; 222-228; 237; 255; 258; 281; 290; 295; 362; HEINE, Heinrich, 126 HEISENBERG, Werner, 65; 122124; 149; 151; 177 HELVÉTIUS, Claude Adrien, 45; 124; 150 HEMMER, Mons., 265 HENRI QUE VIII (da Inglaterra), 273; 280; 282; 286 HERCULANO (DE CARVALHO E A RAÚJO), Al exandre, 41; 43 HERMIAS, 118 HERÓDOTO, 239 HITLER, Adolf, 27; 227; 324 HOBBES, Tho mas, 286; 287 HOBSBAWM, Eric, 214 HOBSON, John Atkinson, 294; 363; 364; 383 HOOK ER, Richard, 284; 286; 375 HORÁCIO, 207 HORKHEIMER, Max, 135 HUGO DE S. VÍTOR, 40; 4 1 HUIZINGA , Johan ou Jan, 188; 349 HUNTINGTON, Ellsworth, 383 HUSSERL , Edmund, 12; 46; 151; 156; 181; 182; 196 HUX LEY, Aldous, 45; 96 —I— IBN-A RABI , Mohieddin, 313 INOCÊNCIO III, Papa, 284 INOCÊNCIO I V, Papa, 272 IVAN III (da Rússia), 282 IVAN IV (da Rússia), 282 —J— JAKI, Stanley L., 12 4 JASPERS, Karl, 45; 150; 399 JOÃO PAULO II, Papa, 85 JOÃO VI (de Portugal), 43 JOÃO X II, Papa, 268 JONES, Rev. Jim., 71; 126 JOUVENEL, Bertrand de, 221; 285; 343; 38 4; 395 JUNG, Carl-Gustav, 45; 216 —K— KALECKI, 45 KANT , Immanuel, 46; 77 KARDEC, Al an, 187 KEATON, Buster, 63 KEYNES, Sir John Maynard, 44 KHAYYAM, Omar, 315 KING, Stephen, 315 KLEIST , Heinrich von, 344 KOESTLER, Arthur, 101; 230; 231; 323; 3 80 KOYRÉ , Alexandre, 175; 176; 180 KRAMER, Dora, 373; 377 KUHN, Thomas S., 196

210 —L— LA M ETTRIE , Julien Offroy de, 144; 328; 348 LACLOS, Pierre Choderlos de, 3 2; 137 LACTÂNCIO, 117 LAÉRCIO, Diógenes, 53; 86 LANGER, Susanne K. (Knauth), 285 LANTO INE, Albert, 280 LASCH, Christopher, 283 LEARY, Timothy, 122 LEHMAN DA SILVA , N elson, 330 LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm von, 36; 45; 119; 144; 186; 188; 190; 192; 196 LÊNIN, Vladimir Iilitch Ulianov, dito, 45; 130; 163; 276; 332; 343; 349 LEVIN , Kurt, 74 LÉVI -STRAUSS, Claude, 42 LINCOLN, Abraham, 247; 363 LINEBARGER, Paul E ., 82 LOMBARDO, Pedro, 41 LORAUX, Nicole, 39; 328 LORENZ, Konrad, 79; 80; 83 LÖWY, Michael, 129 LUCRÉCIO, 52 LUÍS XI (da França), 257 LUÍS XIV (da França), 208; 265; 266 LUÍS XVI (da França), 235; 249; 288 LUÍS, O PIEDOSO , Imperador, 251; 254 LUKÁCS, Georg ou György, 44; 129 LULA, v. Silva, Luís Inácio Lula da, —M— M ACEDO, Bispo Edir, 341 M ACHAD O, Nílson José, 285 M AHARAJI , Guru, 58 M AÏSKI, Ivan, 292 M AISTRE , Joseph de, 45; 280 OLAVO DE CARVALHO M ALEBRANCHE, Nicolas, 119; 175 M ALINOVSKI, Bronislaw, 44 M ALTZ, Maxwell, 69 M ANN, Thomas, 33 M ANNHEIM, Karl, 81 M ANZONI, Alessandro, 309 M AO TSÉ-TUNG, 334 M AQUIAVEL, Niccolò Macchiavelli, dito, 139; 194; 195; 269; 275 M ARCUSE , Herbert , 129 M ARITAIN, Jacques, 257 M ARTEL, Charles, 250 M ARX, Karl, 37; 122; 123; 1 25; 127; 128; 129; 130; 131; 132; 138; 139; 142; 143; 144; 147; 148; 149; 150; 1 53; 163; 177; 199; 200; 201; 216; 277; 293; 310; 330; 348 M AZZINI, Giuseppe, 28 1 M ÉDICI , Gen. Emílio Garrastazu, 66 M EINECKE, Friedrich, 185; 186; 191 M EIRA PE NNA, José Oswaldo de, 332; 347; 350 M ELLO, Collor de, v. Collor M ERLOO, Joost A. M., 81 M ERQUIOR, José Guilherme, 129; 347 M ICHEL, Paul-Henri, 42 M ILL, John St uart, 35 M INOGUE, Kenneth, 142 M IR, Luís, 334; 345 M ITTERRAND, François, 257 M OH AMMED (Maomé), 105; 224; 233; 304 M OISÉS, 105; 267; 278 M ONTAIGNE, Michel de, 191; 194 M OON, Rev., 58; 96; 102; 152 M ORE , Sir Thomas, 263 M ORGAN, Charles, 110 M ORTON, Thomas Green, 63; 105 M OTTA PESSANHA, v. PESSANHA M OZART , Wolfgang Amadeus, 302 M ÜLLER, Juan Alfredo César, 76; 311

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 211 —N— NAIPAUL, V. S., 98 NAPOLEÃO, v. Bonaparte NASR, Seyyed Hossein, 174; 352 NEGREIROS , Almada, 314 NEWTON , Sir Isaac, 41; 42; 119; 145; 184 NICOLAU DE CUSA, 164; 16 5; 166; 167; 168; 169; 176; 177 NICOLE, Pierre, 175 NIETZSCHE, Friedrich, 37; 13 9; 161; 201 NIXON, Richard Milhous, 334 NIZAN, Paul, 118 NOVAES, Adauto, 32; 137 ; 144 NUNES, Carlos Alberto, 45 —O— OCKAM, William of, 44 OLIVEIRA E SILVA , José Dirc eu de, 334 ORTEGA Y GASSET , José, 75; 189; 332; 347 OSTROVSKI, Victor, 334 OT T O I, Imperador, 251; 329 OVÍDIO, 193 —P— PALOU, Jean, 284 PANETH, Ludwig, 158 PARAIN, B rice, 114 PASCAL, Blaise, 171; 190; 346 PATRIZZI, Francesco, 113 PAULI, Wolfgang , 145 PAULO A PÓSTOLO, S., 221, 244 PAVLOV, Ivan P., 66; 98; 99; 100; 101; 102; 10 9 PEDRO I (do Brasil), 233; 259; 288 PÉGUY, Charles, 218; 257 PENNA, J. O. de Meir a, v. Meira Penna PEPINO DE HERSTAL, 249 PERALVA , Oswaldo, 345 PERELMAN, Chaim, 46; 54; 87 PEREZ DE A YALA, Ramón, 33 PERROY, Édouard, 253 PESSANHA, José Américo Motta, 9; 24; 25; 26; 2 7; 28; 31; 32; 33; 34; 39; 44; 45; 46; 47; 51; 52; 54; 57; 60; 61; 62; 65; 68; 6 9; 87; 88; 112; 114; 115; 116; 117; 118; 122; 123; 124; 137; 142; 143; 144; 145; 146; 147; 153; 214; 215; 217; 239; 328; 345; 355 PESSOA, Fernando, 314 PIAGET , Jean, 185 ss.; 285 PICHON, Jean-Charles, 83; 288 PIRANDELLO, Luigi, 346 PIRENNE , Henri, 255 PLANCK, Max, 64; 118; 142; 168; 177 PLATÃO, 39; 40; 45; 64; 68; 75; 1 14; 134; 141; 144; 145; 146; 158; 193; 220 PÖE, Edgar Allan, 43 POEZL, Otto, 99; 1 00 PONCINS, Léon de, 292 PRADO JR., Caio, 348 PTOLOMEU, Cláudio, 164 —Q— QUADROS, Jânio, 7 3 QUEVEDO, Francisco de, 299 QUINTILIANO, 193 —R— RACINE, Jean, 299 RAJNEESH , 58; 9 6; 102; 152 REBOUL, Olivier, 81 REDONDI, Pietro, 42 REICH, Wilhelm, 129 RIBEIRO, Lair, 4; 25; 88 RICARDO DE S. VÍTOR, 41

212 RICKERT , Heinrich, 236 ROBBINS, Anthony, 88; 147 ROBESPIERRE , Maximilien, 242; 243; 263 ROBISON, John A., 281 ROMANO, Egídio, 256 ROOSEVELT , Franklin D., 2 75 ROOSEVELT , Theodore, 291 RORTY, Richard, 46; 107 ROSA, Antonio Donato Paulo, 142 ROSENBERG, Fúlvia, 322 RUSHDIE, Salmán, 162 RUYER, Raymond, 179 —S— SÁ-CARNEIRO, Mário de, 314 SADE, Donatien Alphonse François, marquês de, 32; 137; 328; 348 SAINTE-BEUVE , Charles Augistin, 308 SAINT -EXUPÉRY, Antoine de, 327; 347 SAINT -M ARTIN, Loui s Claude de, 280 SALAZAR, Antonio de Oliveira, 277 SANTOS, Mário Ferreira dos, V. Ferreira dos Santos SARGANT , William, 100; 101; 102 SARTRE , Jean-Paul, 347 SAT IR, Virginia, 89 SAUVY , Alfred, 331 SAVIGNY, Friedrich Karl von, 364 SCHAFF, Ad am, 318 SCHELER, Max, 44; 75 SCHELLING, Friedrich Wilhelm von, 45; 210; 368 SCHU LZ, Johannes Heinrich, 69 SCHUMPETER, Joseph A., 332 SCHUON, Frithjof, 77; 159; 352 SCOT , John Duns, v. Duns Scot SCOTT , Ernest, 317 OLAVO DE CARVALHO SCOTT , Walter, 308 SCRUTON, Roger, 341; 347 SÉNANCOUR, Etienne Pivert de, 144 SÉRAN T , Paul, 281 SEYMOUR-SMITH, Martin, 317 SHAFTESBURY, Anthony, conde de, 185; 18 8; 192 SHAH, Omar Ali, 317 SHAKESPEARE , William, 299 SHELLEY, Mary, 314 SHELLEY , Percy B., 313 SIEGELMAN, Jim, 81; 90; 102; 103 v. CONWAY, Flo, 102 SILVA , Luís Inácio Lula da, 279; 334; SILVA , Vicente Ferreira da, 202 SMITH, Thomas266 SMITH, Huston, 352 SNOW , Charles Percy, 236 SÓCRATES, 36; 112; 115; 219; 220; 221 SODRÉ , Muniz, 63 SÓFOCLES, 39 SOLOVIEV, Vladimir, 264 SOURIAU, Étienne, 285 SOUZA, Octávio T arquínio de, 288; SPENCER, Herbert, 45 SPINOZA, Baruch de, 190 STÁLIN , Joseph Djuga schvíli, dito, 130; 146; 202; 212; 275 STENDHAL ( Henry Beyle), 308 STEWART JR., D onald, 347 STRAUSS, David, 211 STREICHER, Julius, 32 STRINDBERG, August, 317 —T— TAR CHER, Jeremy P., 151

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 213 TEÓCRITO DE QUIOS, 114 TEOPOMPO, 114 TERESA DE Á VILA, Sta., 37 TESTAS, Guy, 42 THOM AS, Gordon, 291 THOMPSON, E. P., 200; 311 TOLENTINO, Bruno, 24; 157 TOMÁS DE A QUI NO, Sto., 41; 44; 186; 190; 285 TORRES, João Camilo de Oliveira, 347 TRÓTSKI, Leon B ronstein, dito, 146 TROUSSON, Raymond, 328 TRUYOL Y SERRA, Antonio, 227 —U— UNAMUNO, Miguel de, 300 —V— VALLA, Lorenzo, 195 VEBER, Michel, 243 VEGA , Lope de, 299 VELOS O , Caetano, 122 VICO, Giambattista, 187; 188; 192; 196; 236 VIEIRA DE M ELLO, Már io, 139 VIETA ou Viète, François, 184 VIRGÍLIO, 193 VOEGELIN, Eric, 231; 269; 329; 330; 342 VOLTAIRE , François Marie Arouet, dito, 36 ; 44; 196; 348 —W— W AGNER, Yaakov, 294 W ASSERMANN, Jakob, 278 W ATTS, Allan 122 W EBER, Max, 150; 152; 192; 200; 253 W EIL, Éric, 75; 136; 294 W ELLINGTON, Duque de , 272 W ESLEY, John, 341 W HITEHEAD, Alfred North, 44 W ILSON, Colin, 317 W ILSO N, Edmund, 131 W ILSON, Woodrow, 275 W INDELBAND, Wilhelm, 236 W ITTGENSTEIN, Lu dwig, 45 —Y— YEATS, William Butler, 315 —Z— ZUÑIGA , Juan de, 175

“Um mestre.” HERBERTO SALES “Um gigante.” BRUNO TOLENTINO “Homem de reconhecida competência no campo da filosofia.” JORGE A MADO “Filósofo de grande erudição.” ROBERTO CAMPOS OLAVO DE CARVALHO, nascido em 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originai s e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferent es quanto Jorge Amado, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, He rberto Sales, Josué Montello e o expresidente da República José Sarney já expressaram su a admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho. A tônica de sua obra é a defesa da inte rioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escor ada numa ideologia “científica”. Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel en tre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um fo rmulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sól ido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas a ntigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carval ho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cu ltura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas língua s sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, nde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que s ubentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muit as questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Aristóteles em Nova Perspectiva — In trodução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes” ( “análise fascinante e — ouso dizer — definitiva”, segundo rma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Fe deral do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de c inema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento cu lmina em O Jardim das Aflições (1985), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de m oldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro d a cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte. É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a ampl itude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que intr oduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de pa lavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mu danças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à li nguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma pro fundidade surpreendente. A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmi ca, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos pr estígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multidão de leitores devotos, que e sgotaram em três semanas a primeira edição da obra. FOTO : ANA B RANCO (O GLOBO ).

e impresso no Brasil.216 OLAVO DE CARVALHO 5 4 10 12 33 48 Este livro foi composto pelo processo de editoração eletrônica. em tipos Gaillard BT. .

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 217 .

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