O JARDIM DAS AFLIÇÕES

4 OLAVO DE CARVALHO

OBRAS DE OLAVO DE CARVALHO 1. Universalidade e Abstração e Outros Estudos. São Paulo, Speculum, 1983 2. O Crime d a Madre Agnes ou: A Confusão entre Espiritualidade e Psiquismo. São Paulo, Speculum, 1983 3. Astros e Símbolos São Paulo, Nova Stella, 1983 4. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes”. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 5. Os Gêneros Literários: Seus F undamentos Metafísicos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 6. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio, Astroscientia Editora, 1993 7. A Nova Era e a Revolução Cultu ral: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994 (1a ed., fe vereiro; 2a ed., revista e aumentada, agosto). 8. Uma Filosofia Aristotélica da Cu ltura: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994. 9. O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio sobre o Materialismo e a Rel gião Civil. Rio, Diadorim, 1995. 10. O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais B rasileiras. Rio, Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, 1996 (1a ed., agosto; 2a ed., outubro; 3a ed., abril de 1997 ; 4a , maio de 199 7; 5a , janeiro de 1998; 6a , abril de 1998). 11. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, Topbooks, 1996. 12. O Futuro do Pensam ento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Rio, Faculdade da Cidade Editora (1a ed., agosto de 1997; 2a ed., março de 1998). 13. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer. Rio, Topb oks, 1997. 14. A Longa Marcha da Vaca para o Brejo & Os Filhos da PUC. O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

OLAVO DE CARVALHO O Jardim das Aflições DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O M ATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL PREFÁCIO DE BRUNO TOLENTINO Segunda Edição, Revista

6 OLAVO DE CARVALHO Copyright © 1998 by Olavo de Carvalho Capa e planejamento gráfico: Ateliê 19 Assessoria em Comunicação R. das Laranjeiras, 531 / 16 F. (021) 225.1806 Fax (021) 245.2920 Rio de Janeiro RJ CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Todos os direitos reservados pela TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTD A. R. Visconde de Inhaúma, 58, gr. 413 – CEP 20091-000 Rio de Janeiro – RJ – Tel.: (021) 233.87178

§ 16. Epicuro e Marx ............................................................. ............................. 75 PREFÁCIO, POR BRUNO TOLENTINO.................... .................................................9 § 17. Comentários à 11ª “Tese sobre Feu erbach”........................................ 77 § 18. A tradição materialista ....... ..................................................................... 82 O J ARDIM DAS AFLIÇÕES LIVRO I: PESSANHA............................................ ..................... 19 CAPÍTULO I: A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA.................................................. ...21 § 1. Introdução. O que Epicuro veio fazer aqui, ou: Biografia deste livro21 § 2. A s conferências do MASP ........................................................... ................ 28 § 3. Pessanha e o pensamento Ocidental........................ ................................ 31 LIVRO IV: OS BRAÇOS E A CRUZ..........................................89 CAPÍTULO VII: O MATERIALISMO ESPIRITUAL........................................... ..91 § 19. A divinização do espaço (I): Pobres bantos .................................. ...... 91 § 20. A divinização do espaço (II): O infinito de Nicolau de Cusa ........... 94 § 21. A divinização do tempo (I): A força dos meios.................................. 105 § 22. A divinização do tempo (II): Beaux draps.................................... .......114 CAPÍTULO VIII: A REVOLUÇÃO GNÓSTICA.......................................... ..........120 § 23. Revisão do itinerário percorrido ................................. ........................120 § 24. O véu do templo .................................. .....................................................121 § 25. Leviatã e Beemoth ... ................................................................................ 127 LIVRO II: EPICURO............................................................... ... 51 CAPÍTULO II: COSMOLOGIA DE EPICURO................................................ .........37 § 4. Uma profissão-de-fé epicurista. A matéria segundo Epicuro ............. . 37 § 5. Um piedoso subterfúgio.................................................... .......................... 39 § 6. A imaginação dos deuses. A eviternidade............ ................................... 41 § 7. Epicuro crítico de Demócrito.............. ...................................................... 42 CAPÍTULO III: ÉTICA DE EPI CURO.......................................................................44 § 8. O remédio de todos os males...................................................... ................ 44 § 9. A abolição da consciência...................................... ................................... 46 CAPÍTULO IV: LÓGICA DE EPICURO............... .....................................................52 § 10. A fumaça e o fogo..... ................................................................................ .. 52 § 11. O convite ao sono .................................................... .................................. 53 § 12. A Servidão Voluntária..................... ......................................................... 56 § 13. Dos cães de Pavlo v ao lava-rápido cerebral ....................................... 58 CAPÍTULO V: A ÍND OLE DO EPICURISMO.........................................................65 § 14. Porcarias epicúreas.............................................................. .................... 65 § 15. A fuga para o jardim................................ ................................................. 69 LIVRO V: CÆSAR REDIVIVUS................................................130 CAPÍTULO IX: A RELIGIÃO DO IMPÉRIO.................................................... .....131 § 26. De Hegel a Comte................................................... .................................131 § 27. Translatio imperii. Breve história da idéia imperial. ........................133 § 28. O Império contra-ataca ................ ..........................................................147 § 29. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) .......................149 § 30. Aristocracia e s acerdócio no Império americano (II) ......................159 § 31. De Wilhelm Meister a Raskolnikov......................................................162 § 32. As n ovas Tábuas da Lei, ou: O Estado bedel .....................................168 CA

........................ .........................196 ÍNDICE ONOMÁSTICO ......................PÍTULO X: NA BORDA DO MUNDO..........................................194 BIBLIOGRAFIA .......................176 § 33............ .......................................................... ......................7 5 ..... LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR .. 133 CAPÍTULO VI: A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO.................................177 Post-scriptum....... ........................... ............................ ...................206 LIVRO III: MARX.... ......................................................... Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições......................................

Solicitando humildemente a parce la de audiência a que julga ter direito. com começo. melho rado em detalhes de l nguagem e sem as gralhas i mais visíveis da primeira edição. meio e fim. Herberto Sales. O Imbecil Coleti vo. Vamireh Chacon. A OLAVO DE CARVALHO . este livro não merece u do público a atenção que se concedeu generosamente a seu irmão menor. O Jardim comparece limpo e correto. Só repito o apelo a que o leitor não o leia de viés e saltado. enquanto O Imbecil não passa de uma c oletânea de notas de rodapé que não couberam no rodapé. Mas não aumentado: se há um livro em que o autor disse tudo o que nele queria dizer. cumprida mal ou imprecisam ente. Vai para a segunda edição após dois anos. coisa unida e coesa. mas pela ordem dos capítulos — e peço que entenda isto como receita médica. Leopoldo Serran e muitos outros. Roberto Campos. No entanto é dos dois o melhor e o único que constitui propriamente um livro . quando o companheiro teve quatro em seis meses. trará mais dano que benefício.8 OLAVO DE CARVALHO NOTA DO AUTOR À SEGUNDA EDIÇÃO pesar dos elogios de Antonio Fernando Borges. Jo sué Montello. que. é es te.

o autor extrai uma estonteante exposição de significações. ou sobretudo. numa visão inquietante do sentido universal da aventura da inteligência moderna. achei-me no pólo oposto à perplexidade em que vivia durante a leitura que digo?! durante a suadíssima mineração que empreendi nas duras e obscuras galerias sublinguais daquele celebrado duo: o ascético autor do Tractatus (ou das Investigations?) e o ex-Papa Doc. não tanto aonde leva o labirinto lingüístico do vienense em sua versão paulistana (c’est assez que Quintilien l’ait dit. fui encontrar n a lição de trevas deste livro. paradoxalmente. No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabarse é ainda. inclusi ve os pressupostos do saber acumulados pela tradição. não tant o do autor. e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão. Sedimentado através dos séculos pela perspicácia de uma nobre linhagem . rica e complexa. ). o sufoc ante mundinho dos cortesãos e doutores de mais uma trópica Bizâncio?). e em pa rticular contra a espécie de Gabinete do Dr. esD perava-me um convite a bem outro tipo de investigações: as que se ocupam de verifica r o real a partir da inteligência e dos fatos. dados e fatos. Afortuna damente neste último. dos dados de um problema aparentemente sem maior importância no plano das idéias (que importa. dedicou recentemente às investigações do surrado materialismo lingüístico de Wittgenstein. pelo mundo-comoidéia.. tiver suado frio por semanas sob o peso das cen tenas de impenetráveis páginas que nosso mais reputado e menos aspeado filósofo atual. nunca a partir dos fatos segundo a intelligentzia. São raros esses momentos. Com efeito. o anestesiador de gerações uspianas. Quem quer que te nha lido de cabo a rabo este livro há de convir que vive um destes momentos privil egiados. de seu sentido cuidado samente oculto. Contra tudo isso. insurge-se com toda a lucidez o vigor d este livro. Soube-o enfim graças à claridade que. de estirpe marxista . perfeitam nte capaz de tudo dizer por si mesma. uma adv ertência apenas. a quem de fato pense o mundo. Que o leitor leve em conta o caráter. inevitavelmente sempre a idéia do mundo mais em voga a um certo momento. os três inseparáveis element os da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 9 PREFÁCIO BRUNO TOLENTINO e quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual. estou celebrando meu alívio de que a tampa da marmita se tenha afastado d e mim o bastante para deixar-me perceber. Obra eletrizante. mas de fácil leitura justamente por causa e não a despeito da formidável erudição em que se firma. segundo ele. única justificativa à intrusão de um prefácio em obra tão límpida. como a tampa que subitamente abandona a marmita. esse método de investigar o como e o porque do ser-nomundo. atual Papa pálido da enrubescedora tropa-de-choque investigada neste jardim de aflições. o argumento central deste aflitivo j ardim evolui à maneira de um crescendo para desafiadoramente elucidar-se apenas na s duas partes finais: “Os Braços da Cruz” e “Cæsar Redivivus” são a sístole e a diástole do c vo desta obra alarmante. ferve a humanidade. em vez de buscar substitui-los . Assim.. viga mestra de todo esforço de verificação filosófica. tem a vantagem de respeitar os dados do real. Gianotti. ou mesmo de suas idéias. mas da tarefa que se propôs. A esse respeito. Tanto mais se. Refratário à leitura t ransversal ou salteada a que às vezes incita. de marca universitária e de cunho dogmático-materialista. Inclusive. mas onde começam meus inadiáveis problemas de brasileiro acuado há décadas pela futilidade d o ininteligível. mas de uma clareza própria a desnudar como nun ca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver. como eu. . O Jardim das Aflições. Dr. Caligari em que se vai transformando entre nós a veneranda idéia de Universidade. Não estou desmerecendo do esforço d e ninguém.

como nos adverte uma nota do autor. e em última análise tão aterrador quanto o estrilo de um desper tador à meia-noite. de um sujeito que não pode não pensar. só tem a perder suas ilusões a respeito da serie dade dos donos da hora. O que certa gente quer e persegue com uma obstinação de cachorro magro. . de um conhecido e bem mancomunado establishment. expõe. acha-se logo em excelente companhia: no Ocidente a filosofia pós-helênica teve muito cedo entre seus cumes obras como as Confissões de Santo Agostinho. É talvez o primeiro esforço de Olavo de Carvalho p ara pensar em público segundo sua Teoria dos Quatro Discursos. o olhar que põe tudo isto a nu vem do olho agudo d e um filósofo nato. por menos que assi m fazendo consiga caber nos moldes. a gênese como a elaboração da obra aqui ajudam muito o l eitor: a mim pareceu-me muitíssimo estimulante progredir através da “multiplicidade de temas e planos que faz a trama compósita deste livro”. confr ntando e hierarquizando. ao acompanhar um filósofo de verdade em sua minuciosa e exaustiva investigação de um embuste. Mas que o leitor não se apresse. calca-se no entanto em mo delos bem mais antigos e prováveis. Claro. este livro não é resíduo de tese e doutoramento nem se propõe a enfeitar a carreira de mais um philosophe local cev ado na massuda monotonia dos gabinetes à la page. torna-se enfim possív el dar esse passeio para fora das brumas do obscurantismo idealista doublé de peda ntismo acadêmico. Uma Filosofia Ar istotélica da Cultura (IAL & Stella Caymmi Editora. no sentido agostiniano) vai-se definitivamente elaborar. Caligari. Longe de constituírem um empecilho ao entendimento. num conjunto de investigações dialéticas. ficará perfeitamente claro ao longo do passeio em que nos guia a a gudeza da leitura que Olavo de Carvalho faz da história das idéias no Ocidente. à diferença de compêndios bem mais ao gosto do dia. antes nos convida a examinar com ele o q ue investiga. Passamos a ver claramente o que por estas bandas nos vem tapando a mente e sufocando o espírito. nisto ao menos. portanto. da esquematização objetiva que atribui a um conjunto de dado s sensíveis uma figura dotada de sentido (Poética). ou seja. com você. mo ntar as oposições que só na conclusão (naquelas duas últimas partes. a de colher as questões ao nível retórico e elaborá-las em hipóteses formais para as entregar à busca de uma solução lógico-científica. A pedanta ria engordaria bem mais tarde. assi m. graças à coragem intelectual de um er udito que não se esconde atrás do que sabe. Segundo o Aristótele s de Olavo de Carvalho. de imposturas orquestradas como filosofia e penduradas ao nada como amor as de mentirinha. à primeira vista paralelo a os procedimentos sinfônicos de um Sibelius. por detrás de suas cátedras como abutres encapuzados em toga s e títulos. não há como tomar esta obra apenas como a hábil ampliação de um panfleto. explica. para citar apenas um “compósito” que à primeira vista pouco tem de ost ensivamente filosófico. Ao contrário. Seu método de composição. tudo o que aqui vai tem a ver e urgentemente comigo. 1994). invariavelmente alienígenas. com os que somos e continuamos a ser submetidos a uma contínua barragem de slogans e esoterismos a transpirar int enções nem lá tão ocultas assim. O qual. Só então tornar-se-ia factível estabelecer métodos e critérios propriamente científicos. o que andou e anda fazendo em nome da inteligência como desdentado s leões de circo. parta de impressões subjetivas para. o u seja. O leitor. leitor. ou Livros. capazes de levar a questão a uma resolução maximamente exata (Lógica). E dá-lo com toda a clareza através de um assustador pomar de aflições. indicaria o sentido de uma solução racional (Dialética).10 OLAVO DE CARVALHO Só que. a presente identificação entre filosofia e adiposidad e de jargão é fenômeno tão moderno quanto os enlatados de supermercado. através do combate retórico. um tanto paradoxalmente à maneira d e um tutti orchestrale. que trabalho tão ímpar. emanariam interpretações discordante s fortalecidas no confronto das vontades que as apoiam (Retórica). por exemplo. Nada de estranhar. proposição de seu ensaio pioneiro. como o entendem os “atuais” pupilos do Dr. Sobre essa mass a crítica do acúmulo dos esforços retóricos seria então possível o exame dialético que. Há que lê-lo até seu eletrizante gran finale para perceber t odo o escopo deste livro singular. Graças a sua inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual. A tarefa específica do filós ofo seria. Rio.

não se tenha dado um código senão para subme tê-lo às necessárias infrações do ato criador. Seus Fund amentos Metafísicos. e não raro ambas as coisas. de política e de meta física. Uma conferência sua semi-inédita (“A dialéti mbólica”. Ensaios. como se vê. menos ainda familiar. Per strada ci rcunvolteou sabiamente seja o pot-pourri liliputiano dos hoje inúmeros e celebrado s philosophes. Aristóteles. seja o etéreo campo minado do guénonismo. Sua forma mentis foi evidentemente forjada a fogo. Já não hesito mais: tenho o pensamento de 1 Olavo de Carvalho por paradoxalmente intemporal e atualíssimo. Luís da Câmara Cascudo. subv en2 Reproduzida no volume A Dialética Simbólica. áspero e lúcido. Ou seja: nosso homem parece partir de uma antítese observada no campo dos fatos para hierarquizar os termos opostos e resolvê-los no princípio co mum de que emanam. de um movimento tripartite oposiçãocomplementação-subordinação. como ao tempo da formação intelectual do autor era cronicamente o nosso. incansável e metódico. I. espécie entre nós. principiais. João Cabral de Melo Neto. Mais uma surpresa num pensador inclassificável. faz-se por isso mesmo apaixonante e como que compulsiva. honrarias. teve que aprender quase sozinho a imensidão do que hoje sabe. Surpreendente é vê-lo sair da mesma pena que ainda recentemente nos dava uma rigidíssima teoria dos gêneros. acaba por não pesar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 11 Misto de memórias e ensaio filosófico. Sim. por natureza. pelo que me pareceu perceber. ao quanto pude perceber. existente apenas como apostila didática no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades do 1 Instituto de Artes Liberais do Rio de Janeiro) ajudou-me a elu cidar algo mais o método deste pensador originalíssimo até mesmo na forma a que molda seu discurso. É que. e por isso mesmo no meu ver indispensável hoje. Os Gêneros Literários. Não se trataria aqui do conhecido modelo tese-antítese-síntese. Caio Prado Jr. para chegar de olho aberto a Kurt Gödel e a Éric Weil. a leitura deste livro (às antípodas do tijolaço com que acaba de brindar-nos o a cima citado mentor de uma filosofia tão nativa quanto uma agência de importações. é sempre anterior àqueles termos. Até então eu não havia encontrado est e método aplicado à construção de uma sistemática propriamente filosófica. . mas sim. ora cronologicamente. (v. e tantos outros espíritos livres da raça. sem pisar-lhes a uns e outr os seus explosivos ovos de cobra. Como se tem v isto. insubm isso e fértil para muito além das meras conjunturas de nossa douta e crônica tropicali dade atávica. à diferença do modelo hegeliano a dialétic a de Olavo de Carvalho não buscaria uma síntese temporal futura. ou de substituição de importações) sua leitura. mas antes recuaria a condições prévias. aportou a Schelling e a Husserl. thank God! Resta que nada disto é aceitável. Murilo Mendes.. Leitor multilingüe. em caminho inverso. tal receita é própria antes ao recebimento de aspas aposto ao seu justíssimo títul o de filósofo. reafirmo. Mário Ferreir a dos Santos. ora lógica. Miguel Reale. Capistrano de Abreu Manuel Bandeira. ao nosso encruado marxismo universitário. estes dois gigantes modernos. seu peso erudito. Olavo de Carvalho. passou reverente pela nata da sabedoria escolástica de Sto. a bem dizer. Tomás de Aquino a Leibni z. em curso de publicação pela Fac uldade da Cidade Editora. IAL & Stella Caymmi Editora. cátedras. mas nele pareceume reconhecer a rica tradição da hermenêutica simbólica.. e talvez por isso m esmo o tenha sabido inscrever no mármore candente da mais limpa tradição letrada do Oc idente 2. muito mais merecido que aos diplomas. Olavo de Carvalho (parece incrível naqueles te mpos de tanta seca!). partiu very advisely do seu e nos so Pai de Todos . no corpo a corpo do autodidata sem alternativas num país ocupado pela legião dos ressentidos ou pelos batalhões de imbecis. por décadas entre o fuzil da Redentora e o realejo utopista de nossa inc urável e festiva intelligentzia. Rio. de reportagem e panfleto. saudou e desnudou os belos fantasmas do platonismo. PhDs. 1993). sem nada perder em densidade. a exemplo de Machado de Assis. O qual. e po r conta dos provados e clássicos valores que o forjaram e o sustêm. Mas talvez o autor. à maneira de todo poeta frente à própria poética.

E não é só no Brasil que a decadência das universidades acaba por revalorizar o autodida tismo: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. “Harold Bloom contra-ataca”. para ler e escrever sozinhos.” ( Harold Bloom. 6 de agosto de 1995. Façam qualquer outra coisa. ) . Folha de S. Paulo. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria . garantam a sobrevivência do jeito que for. porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade. mas não como pr ofessores universitários.

a de Olavo d e Carvalho é incompatível com o alinhamento compulsivo (e repulsivo) a que nos vêm aco stumando por aqui os donos de cátedras et caterva. como toda verdadeira vocação filosófica. acabou por avisá-lo sobre o que de fato valia o que perdeu. Rio. subserviência ou sim plesmente descaro. not least. SP. São Paulo. pendante. são mais que horas de acordar para cuspir. Olavo de Carvalh o volta a nos dizer em alto e bom som: basta de sestas à sombra da utopia e do mar asmo mental. patenteado uma vez mais neste livro imperdoável. nosso retrato assustador. Co esta sua rigorosa e instigante investigação de aflições mais um livro do campineiro for a dos eixos segundo os importadores das fórmulas da invenção da roda . ajudado a balizar justamente o terreno minado da autocastração por timidez.. Que os mortos ent errem seus mortos: sai da frente. O Jardim das Aflições. tão ao gosto da fábrica de esterilidades diplomadas com sede à Rua Maria Antôni a. Mas a quem lhe importaria alongar a sobrevida na cidade do mortos.. dos hipnóticos hipnotizados? O suicídio em termos acadêmicos d e Olavo de Carvalho. Sem dúvida a circunstância dessa solidão defensiva e profilática o terá. tão patentes em nosso incipientíssimo e prudentíssimo intellectual output.. anátema. sua fulgurante crítica do binômio Epicuro-Marx é pura heresia. suicídio. ou antes. . Nesse empolado contexto. É que. soa-me como o clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação. ne ologismo de rigueur ante tantas pedânticas pendências e dependências das infindáveis lis tas de importações canonizadas. Os tremeliques de Mademoiselle Rigueur. a alegre festa no velório acaba uma vez mais! com es te admirável livro. e pensar! Quanto a mim. que onde deixei um país encontrei trinta anos depois um acabrunhante acoplamento d e pedantaria e show business.12 OLAVO DE CARVALHO ções e sabujices de nosso perigosíssimo establishment pensante.. leitor. julho de 1995. dos zumbis. se por um lado desencorajaram de munirse de títulos prestigiosos a quele que dentre nós hoje possui talvez o intelecto mais corajosamente individual entre seus pares.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL TOPBOOKS .

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de vários modos. numa épo ca em que tudo em minha vida me convidava a dispersar meus neurônios em trabalhos menores. um pouco a cada uma dessas pessoas. M ARIA ELIS A ORTENBLAD e PAULO VIEIRA DA COSTA LOPES me ajudaram. por afeição e gratidão. JOSÉ ENRIQUE BARREIRO . LUIZ AFONSO FILHO. KÁTIA M EDEIROS. a quem li os rascunhos da obra. LUCIANE AMATO. M ERI ANGÉLICA HARAKAVA e S ANDRA TEIXEIRA resolveram mil e um pequeno s e grandes problemas que teriam adiado sine die a publicação deste livro. CLAUDETTE ALVES DUCATI e JÔ BRITO ouviram a leitura de mui tos capítulos. me incentivou sem descanso a que a completasse. OLAVO DE CARVAL HO .AGRADECIMENTOS M UITA GENTE me ajudou a realizar o projeto deste livro: BRUNO TOLENTINO. DANTE AUGUSTO GALEF FI e seus alunos da Universidade Católica do Salvador devolveram-me a confiança nos jovens estudantes brasileiros de filosofia — leitores sem os quais este livro não fa ria sentido. ROXANE ANDRADE DE S OUZA. a superar encrencas da vida prática que sem sua generosa interferência teriam me absorvido por completo e talvez inutilizado o meu pobre cérebro por alguns anos. Esta obra pertence. dando-me apoio moral e muitas sugestões valiosas.

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“.. . Pois a irra cionalidade malévola tem os seus processos lógicos próprios. de superflu. ou mesmo irracional. ce je ne sais quoi d’inutile.” W ILLIAM BLAKE “. Lætitia Cruz de Moraes Vasconcellos ( O Agente Secreto. une lucide d éléctation?” GEORGES BERNANOS 3 Trad. sangrenta futilidade.” 3 JOSEPH CONRAD “Car si désireux qu’on soit de trouver une cause naturelle à ces tragiques abérrations. de um tipo tão fátuo que era impossível calcular-lhe a origem por qualquer processo racional.. co mment justifier leur raffinement. de pensamento.the War by Sea enormous & the War by Land astounding. Rio. erecting pillars in the deepest Hell to reach the heavenly arches.. Imago.. qui révèl e un goût lucide. 1995 ).

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LIVRO I .PESSANHA - .

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mas também alguns brasileiros. here and in other parts of South America. No trecho citado. Habituado por uma longa autodisciplina a suspender o juízo até encontrar uma evidência ou uma prova suficiente. A necessidade a que me refiro provém do seguinte: este é. ouvid as algumas horas antes numa conferência sobre Epicuro no ciclo de Ética que a Secret aria Municipal de Cultura promovia no Museu de Arte de São Paulo. A carência absoluta dessa habilitação po de chegar a ser mesmo uma conditio sine qua non para a aquisição de respeitabilidade em certos círculos universitários. para essa gente. que não obstante consiste — posso garantir — em coisas cuja relevânci a transcende infinitamente a pessoa do autor.” 4 JAMES BRYCE U M ESCRITOR EDUCADO. ao tomar posição pró ou contra logo nas primeir as páginas — ou. pode rejeitar de cara a formulação mesma da pergunta. de outro. devo advertir que as opiniões expres sas no começo são apenas um começo. de um país. and seem to prefer words to facts. e uma tese filosófica pouco significa se amputada das razões que a ela conduzem e das motivações ge radoras da pergunta a que responde. No caso deste liv ro. uma decepção. De pouco adiantará alegar que fui perfeitamente sincero. pois. não deve ir logo de entrada falando de si mesmo. sabendo ou não. sob o impacto da aversão que haviam despertado em mim as palavras de José Américo Motta Pessanha. já que o indivíduo não pensa e é sempr e. que o leitor. — O que Epicuro veio fazer aqui. O que Pessanha suscitara em mim não fora uma discordância. Introdução. como há d e ver quem o leia até o fim. sem saber a que coisas e seres se refere na vida deste mundo . que aceitá-las ou rejeitá-las in limine é impedir-se 4 de entender aonde levam. Mas não foi na da disto. fazem parte do assunto. o seu verdadei ro sentido. como um bom convidado à mesa. p. do meio para diante. A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA § 1. só então. uma tristeza desesper ançada. 1912. ao fundá-la numa impressão do momento —. 417. o autor refere-se especificamente ao Brasil. quando ele é. e de que. estará se enganando a si próprio. de uma cultura. a sinceridade individual não tem valor. Digo en tão que o miolo destas páginas redigi numa só noite de maio de 1990. uma agita5 South America: Observations and Impressions. querendo ou não. de uma raça . Transgrido aqui as boas maneiras por necessidade in trínseca do assunto. Isto projetará tal vez a imagem de um fanático. fanática ou razoáve l. London. substancialmente uma investigação. portanto. isso é absolutamente obrigatório: os acontecimentos que o sugeriram determinaram as condições em que foi escrito — as quais. um livro de filosofia. no ar. dentro de certos limites. indignada ou mansa. a espumar de cólera ante a opinião adversária. Mas contra o segundo dos males mencionados só cabe o recurso de contar os f atos. o leitor pode acolher ou repelir a tese em abstrato. a pressão coletiva e a intimi dação autoritária são meios não apenas legítimos mas preferenciais do debate intelectual. ou: Biografia deste livro “It is strange to find that. apenas o boneco de ventríloquo de um interesse col . de expor a situação real e vivida de onde a pergunta emerge. Macmillan. nesse sentido.CAPÍTULO I. Contra o primeiro desses equívocos. Fora uma perturbação da alma. sem tomar o cuidad o de seguir até o fim o fio dos argumentos onde se manifestará. tomando este livro como expressão de opiniões prontas. onde vigora o pressuposto dogmático de que uma idéia ou doutrina qualq uer nada mais pode ser que a expressão do desejo de poder de uma classe. men of undo ubted talent are often beguiled by phrases. pior ainda. surpreendo-me ao notar o quanto essa habilidade pode s er deficiente em intelectuais militantes afeitos a buscar numa idéia antes seu pod er de mobilização do que sua veracidade intrínseca. Co mpreendo perfeitamente que as pessoas intoxicadas por essa atmosfera enxerguem o u finjam enxergar um mero truque de retórica na minha afirmação de não ter partido de co nvicções prontas. toma de fato um rumo bem 5 diverso daquele que parecia anunciar no começo . investigação que. Daí a conveniência de garantias preliminares con tra um duplo equívoco possível: de um lado. principalmente norte-americanos.

malgrado tudo. na convicção nada acadêmica de havêlas escrito eu mesmo. . Deixo a essas criaturas a tarefa extremamente científica de desencavar das sombra s o secreto autor coletivo destas páginas. e permaneço. [Nota da 2a. edição].etivo que salta sobre as intenções do coitado e diz pela sua boca o que bem entende.

juízo crítico. contra minha vontade consciente de adormecer e esquecer. Cheguei em casa pela meia-noite e. de lucidez 6 “As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”. a alma da vítima se amoldasse às t revas como num leito fofo. estar lhe transmitindo cultura. numa deliqüescência mórbida. não conseguindo pegar no sono. com isto. Não havia ali uma única brecha por onde pudesse se introduzir u ma discussão inteligente. Feridas insensíveis. aspirando o adocicado perfume do esquecimento. hipnotizá-lo e arrastá-lo delicadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se cu varia com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso. no melhor estilo Lair Ribeiro. como crianças a seguir m um novo flautista de Hamelin. próprio somente p ara o tratamento de doentes mentais inacessíveis à comunicação consciente. Era isto. de Programação Neuroli güística. Tudo o que a platéia não quisera ver parecia ter se condensado no meu subconsciente. Puro feitiço. seria aí tão descabi do quanto tentar deter um assaltante à força de citações do Código Penal. ela se esquiva ao olhar humano e vai exercer seu domínio dire tamente sobre o macaco residual que habita em nós. sugestionadas pela voz melíflua. Vira muitas. O Jardim de Epicuro parec ia-se estranhamente com o Jardim das Oliveiras . ou então para u sos perniciosos e ilícitos. movia o eixo dos globos oculares. Companhia das Letras. produzindo feridas num estrato profundo que os meros argumento s não atingem. O título prometia “delícias”6. até que. no recesso de seit as obscuras que não se adornavam do prestígio da autoridade acadêmica nem se abrigavam sob a proteção do Estado. via em alucinações as poltronas d o MASP lotadas de zumbis sem olhos. Um público de quinhentas pessoas subm etera-se à intoxicação com sonsa alegria. Eu saíra dali em estado de estupor. Mais tarde foi publicada no volume coletivo Ética. debilitando suas inteligências para que nunca mais atinem com a idéia certa. diminuída. não cessavam de brotar como reações de um organismo febril à invasão de uma toxina. pelo jogo de imag ens que dava às lorotas mais óbvias um intenso colorido de realidade. varei a madrugada anotando objeções e protestos que . ela não pode ser desfeita pela pe rsuasão racional. Não que nunca tivesse visto coisa igual. São Paulo. A ação do feiticeir passa ao largo da consciência.22 OLAVO DE CARVALHO ção soturna carregada de maus presságios. mesmo com veemência fanática. O primeiro move-se no reino das palavras. remexe os órgãos dos sentidos. instaura novos r eflexos involuntários. precisamente: as frases de Pessanha eram um entorpecente. 1991. O que me espantava era que esse gênero de manipulação. que podem ser enfrentadas com palavras. O grumo compac to de absurdidades exalava uma radiação debilitante sobre as inteligências. uma droga. sem crer no que a cabara de presenciar. exi gindo vir à tona. um vício. perdida toda vontade de enxergar. tentando adormecer. produzia a acomodação progressiva a um estado de penumbra. de técnicas psicológicas que. num giro louco da tela do mundo. Querendo ou não. tivesse deixado o recinto das clínicas psiquiátricas e das . impedi-lo de olhar o assunto de frente. Meras opiniões não produzem este efeito. na trama de erros tecida por Pessanha. autoconsciên cia. reduzindo o cérebro humano a uma passividade veget al. Há uma grande diferença entre o doutrinador que mete simplesme nte na cabeça das pessoas uma idéia errada e o feiticeiro que as adoece. ao menos não proclamavam. Vira-as também em demonstrações de hipnose. que entrava pelos ouvidos da platéia. Saí dali enjoado como um autêntico careta sai de uma festinha de emb alo. Saltava da cama com a cabeça fervilhando. eu me tornara o sintoma denunciador de uma neuros e coletiva. O segundo exerce uma ação quase física. fixá-lo num estado de apatetada pass ividade ante o fluxo de sugestões. env enenava os cérebros. por profissionais da dominação psíquica. mas ali eu só encontrara pesares e aflições. “Discordar”. move tendões e músculos. Não sei se me faço compreender. era a sua densidade. O que mais me impressionava. Em casa. mas somente produzidas por feiticeiros confessos. como uma neurose. que só começarão a doer quando for tarde para curá-las — quando a lembrança de sua origem estiver demasiado apagada para que se possa iden tificar o rosto do agressor. Cada palavra parecia calculada para desviar a atenção do ouv inte. fazendo ver tudo diferente do que era. ela salta por sobre a mente.

para ser empregado por acadêmicos como um sucedâneo da transmissão de idéias. doloridamente consciente do declínio intelectual b rasileiro. Eu estava consciente.seitas ocultistas. Su- . da debacle do ensino universitário. mas nunca imaginara que a coisa pud esse baixar a esse ponto.

mas em resposta recebi aquele sorriso de condescendência desdenhosa com que o detentor de um segredo beatífico marca a distânci a que o separa do profano. tenciona ndo dar-lhe mais tarde uma forma final e remetê-lo a Pessanha. A campanha da “Ética”. até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do Sr. foi estreitando cada vez mais seus objetivos. com o convite para uma réplica. verbalizá-los foi o bastante para exorcizá-los. a quem a platéia ind enizava com tanto mais fartura de aplausos fúteis quanto maior a quota de compreen são que lhe sonegava. esqueci Pessanha. li o manuscrito para uma roda de amigos e o guardei. me fazia antever o que encontr ei no MASP. o chão se abrira: pelas mãos de Pessanh . int raduzível em palavras. Apaziguei minhas inquietações explicando essa reação como esn obismo do público. no fundo de uma gaveta. amplas e profundas. Mas . Fernando Col lor de Mello da Presidência da República. Imaginei apenas que fosse um sujeito abstruso. Imprevistos e correria s de uma vida anormalmente repleta deles impediram-me o retorno a este trabalho. senão para melhor atingir o alv o particular. ao fio dos argumentos de Pessanha. quase inaudível. e a conseqüente ascensão das esque rdas à posição dominante. Nada. É verdade que tout commence en . o curso dos eventos polític os tomou um rumo imprevisto e. Alcançada esta meta. de modo a curar-me dela para sempre. Mas conhecia sua fama e havia notado nela um traço p eculiar: seus ouvintes saíam f ascinados. Larguei Epicuro. recuperar o senso do real momentaneamente entorpe cido pelas artes de um feiticeiro. segundo o qual a essência de uma coisa é aquilo em que ela enfim se torna. cogitando as razões da súbita e inusitada popularidade adquirida pela palavra “ética”. Após cinco tentativas falhadas. examino a filosofia — ou seja lá o que for — de Epicuro. tinham sido realmente os únicos objetivos da campanha. Meditando os eventos à luz do preceito de He gel. sem suspeitar que ela pudesse fornecer algum indício quanto ao ca ráter do orador. interminado e tosco. o público era convidado a mergulhar num abismo de inconsciência. Eu nunca tinha visto José Américo Motta Pessanha. a campanha festejou o e vento como se ele tivesse dado plena satisfação aos seus anseios. não pude encontrar o manuscrito. tecendo ao conferencista os maiores elogios. se lhe interessasse. assumi qu e era um sintoma vivo e me encaminhei ao divã mais próximo — a máquina de escrever — para verbalizar os conteúdos neuróticos que a magia de Pessanha injetara em meu cérebro. No fundo. onde. que ficou jazendo. era o que eu quer ia. esclarecedor. envolta num halo de prestígio místico. Guardavam uma impressão difusa. estreito e raso que lhe interessava. me dei conta do papel que tivera aquele ciclo de conf erências n preparação discreta de acontecimentos que depois iriam a avolumar-se e desa bar sobre o país como uma tempestade. e me acompanhou em uma mudança de cidade e cinco mudanças de casa. empenhado em desarraigar da nos sa mentalidade política alguns vícios seculares. Co mo sempre acontece em tais situações. Não consegui conciliar o sono.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 23 punha que a redução do pensamento à tagarelice ideológica fosse o limite inferior da dec adência. como se as mais pr ofundas exigências morais da nação tivessem sido cabalmente saciadas mediante a simple s dispensa daquele infausto mandatário. de sfazer o macabro encantamento. da campanha pela “Ética na Política”. que começa ra como um amplo movimento de conscientização moral. para mim. que não c omeçara propondo metas tão gerais. Ele fora um sinal de largada. Na noite seguinte. mas absolutamente nada. Esse exorcismo constitui duas quintas partes do presente livro. na maçaroca de papéis que trouxera de São Paulo comprimida em cinqüenta e tantas caixa s. Ocupações variadas desviaram-me para outros assuntos. Tive então um impulso de retomar este trabalho. mas se mostravam incapaz es de dar qualquer noção clara do que ele dissera. Foi só em fins de 1992 que. na treva sem fim de um definitivo adeus à inteligência. Nos meses seguintes. consolava-me com aquelas palavras que as avós sempre dizem quando a gente d espenca da bicicleta: “Do chão não passa. antes da publicação em livro. Collor de Mello.” De súbito. A alguns objetei que o m esmo acontecia aos ouvintes de Hitler. ache i então que a destruição política do Sr.

mas o espantoso. a “ética” que se reivindicava assumiu de vez sua verdadeira natureza de mero impulso de vingança 7 política voltado contra alvos descaradamente seletivos . Collor. em troca de resultados políticos de valor duvidoso. na esqui8 A onda de ira nacional contra Collor e depois contra os deputados envolvidos em desvios de verbas são casos ainda mais estranhos. de autoconsciência moral. de sta vez contra deputados e empreiteiras. no episódio. E — conjeturei então — talvez fosse possível encontrar. onde cada facção procur a sempre se arrogar o monopólio do bem. Porém o mais admirável. No exército da moralidade pública. vasculham os esgotos da República. convoca as luzes dos sábios do passado e se dá todos os ares de uma revolução cultural. como se a destruição de seus desa fetos políticos valesse a abdicação de toda inteligência crítica. por um só espírito. parece que o Brasil. e os militantes da moral não relutavam em recru7 tar para suas tropas notórios servidores dos governos militares. de ser exigentes consigo mesmos. — anotei num artigo que escrevi para a revista Imprensa: “Pelo furor investigativo com que os jornais e a TV abrem as la trinas. Mas a explicação. mas todos os órgãos de comunicação. tinham sido derrubados com muit o menos investimento intelectual. Amigos com quem comentei o caso explicavam-no pelo revanchismo: como macacos a espancarem a onça morta. decorrido tanto tempo. acobertar suspeitos. os âncoras de TV tinham se tornado g uias e orientadores da intelectualidade mais pomposa e autoritária. cuja singularidad e. os esquerdistas buscavam uma compensação por duas décadas de humilhações. em princípio. enfim. como o senador Ja rbas Passarinho. que verberam em uníssono. de seriedade. quando comparados à persistente in diferença ante o escândalo das “polonetas” (empréstimos irregulares ao governo comunista d a Polônia). por um só c itério de valores. mais empen hada em descobrir e revelar a verdade. e nfim. Documentei o bastante a esquisitice ambiente em O Imbecil Coletivo para poder me dispensar de enumerar novamente aqui os sinais da patologia mental que então acom eteu a inteligência brasileira. com afinação de um coro multitudinário regido por uma só vontade. por vontade própria. embora parcialmente verdadeira. Não há neste país um só jornal. um aspecto estranho. Todos. Tudo isso é muito normal em política. não me sati sfazia. perseguindo os rem anescentes de uma ditadura que não tinham conseguido vencer e que só se desfizera. proteger reputações. mais independente. apela a todas as forças intelectuais da civilização. era a desproporção entre a quantidade de mystique que se mobilizara e a mesquinhez do seu resultado políti co. que par eceu escapar totalmente aos melhores observadores. A revanche era tardia demais. destapam os ralos. para atirar ao limb o as exigências mais comezinhas do amor à verdade. nela.24 OLAVO DE CARVALHO mystique et finit en politique. não há defecções. sem ex ceções visíveis. Foi a uniformidade do . foi este que na segunda fase da campanha — a guerra contra João Alves & Cia. que trouxe ao Brasil muito mais prejuízo do que o ex-presidente e todos os “anões do Congresso” somados. que a farsa de uma ética reduzida a grosseiras expressões d e ressentimento parecesse contentar a todos os cérebros incumbidos. e mesmo Estados e regimes inteiros. tem a imprensa mais ousada. no entanto. Mais tarde. é realmente um daqueles casos em que o excesso de chumbo só faz ressa ltar pateticamente a míngua de passarinhos. Uma campanha de escala nacional que se apoia numa retaguarda filosófica. que se deixava guiar ao som de slogans. Aparentemente. com festiva credulidade. só para eliminar um adversário político ou m eia dúzia deles. estão alinhados no ataque frontal à corrupção. o desejo de vingança ain da tivesse força bastante para obnubilar todas as inteligências. parecia escapar inteiramente àqueles mesmos que o protagonizavam8. O estranho era que a inaudita mobilização da c lasse intelectual não desse à campanha nem mesmo um arremedo de rigor. diante de um fenômeno estranho. que procure mesmo discretamente abafar denúncias. Não era possível que. é a unanimidade d a sua adesão a esse objetivo. Estávamos. quando a campanha voltou à carga. os inimigos já estavam quase todos mortos ou esquecidos. estação de rádio ou canal de TV e se exima da obrigação de informar. Governantes muito mais poderosos que o Sr. dentre todos os países. Só para dar um exemplo.

a celebração de si mesmo: a condenação dos polít icos corruptos é. Mas. O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno ímpar na história da imprensa mundial. esta vociferando sua indignação nas praças. que democracia é pluralismo de opiniões. Ninguém hesita em ver nesse fenômeno o começo de uma nova era: levado pela mão da imprensa. mocinhos e bandidos. ao mesmo tempo. lograram homogeneizar a tal ponto o discurso dos seus jornalistas. de uma nação em peso abdicar de suas dive rgências internas para formar frente única sob uma bandeira tão vaga e abstrata quanto a “ética”. em qualqu er lugar ou época. a quem fez seu aprendizado no jornalismo ouvindo dizer que impre nsa é diversidade. d interesses. sem quaisquer ambigüidades ou meios-tons . movidos pela necessidade de unir-se em defesa de bens mais palpáveis contra perigos mais imediatos e letais. terminando por neutralizá-las e por não deixar à mostra se não duas facções. num sombrio me neio de cobra.noticiário que permitiu fixar na retina do público a imagem de um Brasil dividido em justos e pecadores. e não raro explicitamente. a de Caim e a de Abel. se viu um caso como este. aquela esgueirandose pelos corredores. sua promoção ao status de ideal unificador de todo um . a glorificação da imprensa livre que os investiga e desmascara. ela é. Nem países em guerra. Um fenômeno tanto mais estranho quanto é recente a introdução da palavra “ética” no vocabulário popular brasileiro e rapidamente improvisada . Imagem na qual a linha demarcatória da “ética” se sobrepôs mesmo às divisões de partidos. Nunca. Anormal historicamente. essa unanimidade não pode de ixar de parecer um tanto suspeita. o Brasil atinge o portal da maturidade democrática. tramando golpes. apagando pistas. com êxito fulminante. e ntre os temas dominantes do seu discurso. de ideologias. Esse unanimismo não teria poder sobre as consciências se não incluísse.

além mesmo do in egável deleite psicológico que um autor pode tirar da ostentação erudita. que espremesse numa área limitada e visível a multidão variada de fantasmas evanescentes. Nada alterei nele em substância. não alterou em nada minha disposição de publicar este livro. era preciso um sobre-esforço de compactação. Diante dessa expectativa. A fala de Pessanha era tão cheia de subentendidos. na multiplicidade dos temas e dos planos de abordagem. Além da sua função m l de testemunharem o justo reconhecimento de um escritor para com seus fornecedo res de material. Notas de rodapé são uma das mais amáveis invenções humanas. ocorrida no início de 1993. agora com o empenho investigativo de um “araponga” do PT. na parte que a ele mais de perto se refe9 povo. Não creio que isto se pudesse fazer senão tudo de uma vez. A notícia da morte de José Américo Motta Pessanha. Toda a parte inicial — do § 2 ao § 17 — é o texto de 1990. mas deixaram inalt erado o sentido do conjunto. Para fazer face à i nfluência difusa e embriagante que as palavras de Pessanha espalhavam no ar como u m spray. que. um princípio de explicação para aquilo que eu vira no M ASP. pensando bem. Mas. por sua vez. já pronto. a unidade de um a intuição simultânea 9. política e metafísica. de mensagens camufladas para uso dos happy few. começa com o espanto. Como esta cosmovisão. — Se o conhecim ento. mostrar toda a cosmovisão que ela trazia de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras. elas nos dão algo ainda melhor. que arriscaria perder de vista a forma do seu conjunto quem se aventurasse a percorrê-la aos poucos. Abandonadas mas não desprezadas. para c onservar. Acrescentei também muitas.” ( “Unanimidade sus ta”. além da aparência verdadeira ou fals a de probidade científica de que revestem o conteúdo de um livro. acrescentei os livros finais e este começo. daqui de onde fala ao distinto público. l ocalizei o manuscrito e fiz-lhe os acréscimos que àquela altura me pareciam necessário s. além da economia que nos facultam ao abreviar um argumento median te saltos que a indicação de um mero título preenche. sem que ninguém se lembrasse de objetar que a rapidez com que se propagam as palavras está às vezes na razão inversa da profundidade de penetração das idéias. Jamais uma palavra-de-ordem emanada de um estreito círculo de intelectuais a tivistas logrou alastrar-se com tal velocidade pela extensão de um continente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 25 sitice geral do ambiente pátrio. reproduzido em O Imbecil Coletivo ). aumentado de esclarecimentos indispensáveis e melhorado — espero — nos detalhes da expressão. como diz Aristóteles. em Imprensa. além do benefício peda gógico de abrirem para o leitor um leque de estudos complementares. alguns metros por dia. Elas repres entam. misto de memórias e ensaio filosófico. com muitas idas e vindas entre a superfície da políti ca atual e as camadas mais profundas de uma antigüidade quase esquecida. Tão vasta e ra a área das implicações. as sementes de outros tantos livros possíveis. era preciso desvendá-la. reportagem e panfleto. dentro do corpo de um livro. . não se poderia elucidá-la sem ampliar formidav elmente o círculo das investigações. mais que contestá-la. Revi rando de novo meus papéis. pode agora mesmo vislumbrar em pensamento outros tantos melhores. não pude mais adiar a retomada deste trabalho. Apenas mudei um pouco a ordem. além de todas es sas coisas apreciáveis e reconfortantes. Hoje surpreendo-me de ter podido escrever tan to numa só noite. a falta da capacidade de espantarse é um grave sintoma de apatia mental na nossa intelligentzia. maio de 1994. as linhas de investigação que tiveram de ser abandonadas para que o livro pudesse c hegar a um ponto final. por ora. não poderia ter sido de outra forma. Mas esc rever. É também esta multiplicidade de temas e planos que explica a trama compósita deste liv ro. O mesmo autor deste. só pôde escrever este. cort ado de excrescências. muitas notas de rodapé. num lance súbito de espadachim ou de pintor zen. Sua presença nas notas mani festa a confissão de que este não é o único nem o melhor dos livros possíveis sobre o seu assunto. de intenções veladas. Algumas correções foram bem minuciosas. mas da qu al só tomei conhecimento muito depois. convocava reforços de eras pretéritas par a dar apoio a uma política do presente. Muit as e longas.

em caso de necessidade. 1993 ). melhor misturá-l os. foi justamente para poder.esoterismo e fait divers. . IAL & Stella Caymmi Editora. R io. não há o que não caiba na minha definição de “ensaio”. Olavo de Carvalho. E. Os Gêneros Literários. que não se esperaria ver assinada pelo mesmo autor de uma rigidíssima teoria do s gêneros ( v. se fixei com tal apuro as distinções e ntre os gêneros. religião comparada e sei lá quê mais — coisa em suma incatalo gável. Mas. na verdade. Seus Fundamentos Metafísicos.

Alguns leitores talve z digam que dei uma importância desmesurada a um acontecimento superficial e passa geiro: a refutação de uma simples conferência não requer todo um livro. emitidos c om a inocência de uma equivocada busca da verdade. numa programação que reproduzia resumidamente o ci clo de Ética do M ASP . e das quais ela extrai toda a significação que possa ter para além das miudezas políticas que const ituem sua motivação imediata. desde o fundo dos séculos. reconheço. a altercação de d ois velhinhos num asilo. livro que condensa todo o drama das idéias do século XX. A primeira é que. gravada em vídeo. Um escritor cujo nome não me ocorre sugeriu. que o feiticeiro. de desocultar intenções que chegam a ter al go de sinis10 Pouco depois dos acontecimentos narrados nesta “Introdução”. quand o nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm. Crébillon e similares. em furtiva incursão. Eis como a morte do pensador dá mais força de difusão às idéias que ele defendeu em vida.26 OLAVO DE CARVALHO re. mas não consigo esconder a repugnân cia que sinto ao lidar com esse gênero de materiais. de confrontar na s erenidade de uma comum devoção à ciência várias imagens da realidade. lúcido e inform ado. quem não tenha podi do fazê-lo em vida dele. desde 1990. a palestra de Pessanha sobre Epicuro. Faço-o por uma obrigação interior. enobrecido e como que santificado pela morte de seu revend edor local. de revelar o mal para que pereça exposto à luz. As idéias. não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em . não são imagens da realidade: são poções mágicas. para encontrar a mel hor. Não faço este trabalho com prazer. Algumas expressões mais fortes. Mas não se trata aqui de discutir idéias. Trata-se. de desenterrar velhas mentiras esquecidas. o deste livro é às vezes de uma franqueza que destoa. nem exime d o dever de contestá-las. E um feitiço não se discute n o plano teórico: um feitiço desfaz-se. Só falta. como em psicanálise. editar em papel-bíblia as obras completas de Julius Streicher. para certas pessoas. Sustentam essa minha decisão três razões. pelo menos na media luz da hipocrisia que se tornou o padrão oficial da ling uagem educada nacional. com o título mudado para “Arte de Viver”. escondeu entre r estos de cadáveres. Faço-o com resignada boa vontade. de refutar argumentos errôneos. mediante a exibição dos chumaços de cabelos e dos r etalhos de roupas da vítima. da qual fugi o quanto pude. como dir ia Paulo Francis. mas enquanto me mbro atuante de um grupo. grupo este que continua vivo e passa bem 10. Não se trata. Essas condições é que são o tema do livro. amputado da escuridão que o alime ntava e protegia. o veneno epicúreo pode agora se r distribuído em massa. espero que me sejam perdoadas como naturais desabafos de um homem que tem de falar sobre o que preferiria esquecer. A objeção não seria d todo despropositada. que incluiu comemorações — pagas com dinheiro público — do bicentenário do marquês d ade. Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mági ca de Thomas Mann. — Em junho de 1995. que emprego no texto. para defesa e esclarecimento dos vivos. com u m ciclo denominado Artepensamento. e muitas palavras de louvor a Laclos. por ignorar tudo a respeito. A terceira é que aquilo que possa ter havido de maligno na influência de Pessanha sobre o público não veio dele enquanto indivíduo. Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da História. — Em 26 de setembro de 1994. o mesmo grupo realizou o congresso Libertinos/Libe rtários. A segunda é que a morte de um filósofo não torna verdadeiras as idéias falsas que tenha defendido. nada digo contra sua pessoa. foi tran smitida pela TV Educativa do Rio. tro. e não por simples ocasião e sinal para mostrar. num esgueirar soturno. como o testemunha o atraso deste livro em relação aos fato s que o motivam. ne m poderia fazê-lo se quisesse. apesar da ve emência com que contesto aqui as idéias de Pessanha. o círculo inteiro das condições remotas que a possibilitaram. para simbolizar o cúmulo da insignificância. em debates letr ados. Quanto ao tom. num giro por dois milênios de histór ia das idéias. portanto. Conservado e industrializado pela técnica. sob a direção do mesmíssimo Adauto Novaes que organizou o evento de 1990. de que se servem para enfeitiçar o público e colocá-lo a serviço de fins com que. se este livro tomasse a conferência de Pessanha por seu obje to. ele atacou novamente. ele não se prestaria a colaborar de maneira alguma.

No fim deste livro o leitor verá como o personagem dos primeiros parágrafos terá se tornado pequeno — o eco débil e longínquo que repete às tontas. a cantiga milenar do engano. no fim os velhinhos fazem as pa zes.. E Perez de Ayala fez dos bate-bocas entre dois velhinhos de miolo mole — Be larmino y Apolonio — o resumo da universal altercação.Davos. aquilo que pouco significa por si mesmo pode significar muito pelas ca usas que revela. ao reencontrar-se num asilo. na perife ria da História.. . Como se vê pelo exemplo dessas belicosidades g eriátricas.

escondidinho e letal sob as flores. Ora. Meu propósito não é mudar o rumo da História. positivamente. segundo dizia John Stuart Mill. Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho . e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo. que vai para onde bem entende e jamai s me consulta (no que aliás faz muito bem). ginástica sueca e chibatadas. e sobretudo o fato de ser esta já a minha terceira obra de combate11. mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais. “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação. Para liquidar de vez com a objeção. este livro não se limita a desfazer um ou vários erros. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação. que deram ocasião e pretexto ao se u aparecimento. e não pela importânci a muita ou pouca dos fatos. como o leitor verá sobretudo n as últimas páginas. trato-as a pão e água. sob a forma de apostilas de meus cursos pr ivados. mas aponta. enquanto as idéias amadurecem e se revestem de uma forma verbal melhor12. Também declaro peremptoriamente que não tenho a menor ilusão de influencia r no que quer que seja o curso das coisas.” Ademais. só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso. mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no resta nte do livro. que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado. a um inócu o passatempo botânico de nefelibatas. E se aqui submeto idéias alheias a esse tratamento impiedoso. da ruidosa atualidade. nada se parece mais a um adorno exterior. se ouviss em. sucedâneos do afeto humano. mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso. locais e momentâneos. sobre o temperamento do autor. a direção onde devem ser buscadas as verdades que eles renegam e rene gando encobrem. que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 27 De outro lado. contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos. Não e screvi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis. por olhos doidos ou sãos. Ainda um pedido. não levem ninguém a conclusões precipitadas 11 12 As anteriores foram A Nova Era e a Revolução Cultural. É que a crítica. supondo-se que a desejemos. Não posso r ecomendar esse regime às almas sensíveis. Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Oci dente moderno. permito-me citar o único autor do qu al posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu. sujeito pacífico e tolerante até o limite da paspalhi ce. é a mais baixa faculdade da intel igência. e deix ando-as mostrar-se apenas. Posso provar isto. podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que. Meus alunos podem atestar que a polêmica está longe de constituir o centro dos meus interesses. mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. e na ordem de publicação dos meus escritos preferi começar de baixo. por agora. a outras estrangulando no berço ou esmag andoas a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem. não as compreenderiam. como disse Goe the. Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. No entender do superficialismo brasilei ro. o que vi estava lá. . Quanto às minhas. Que o tom deste livro. Fritjof Capra e Antônio Gramsci e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. reservando as partes mais altas e serenas para melhor ocasião. é porque algumas delas já foram minhas — e. Mas. lev ando muitas delas à morte por definhamento. do que uma conferência sobre o Jardim de Epicu ro no estilo floreado de Motta Pessanha. mas desconheço outro que possa nos colocar n a pista da verdade. o hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas conseqüências práticas que as idéias filosóficas.

Introdução à Teoria do Quatro Discursos ( Rio.Minha única iniciativa. até agora. 1996 ). Topbooks. . IAL/Stella Caymmi. O episódio está documentado em Aristóteles em Nova Persp ectiva ( Rio. de divulgar essa parte mais interior do meu traba lho — com a publicação do livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. 1994 ) — deu mais encrenca do que toda s os meus escritos de polêmica.

Voltaire é filósofo tanto quanto Leibniz ou Aristóteles. em terminologia mais moderna. A diferença é simples: um filósofo busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores. pois a diferença está num plano acima do que o público enxerga. aviltada pelos abuso s da retórica. do alto de um caixote de beterrabas. O intuito declarado dos organizadores do curso era triplo: dar um esboço cronológico das principais doutrinas éticas. não havendo nenhum à mão. titular da Sec retaria Municipal de Cultura. ou. organizadora do ciclo de Ética do MASP e. o professor. a oferecer-lhes. grifado ou entre aspas. Leibniz. Sócrates ia pelas praças cobrando os direitos da consciência. como fundamento primeiro da argumentação. que. Em todo debate científico ou filosófico. É um meio de evitar a proliferação de teorias inúteis. ambos podem faz er igual efeito. onde são servidas aos convidados al gumas lições preciosas. ergueu-se finalmente a voz da filosofia para clarear as idéias do povo e indicar à nação o caminho do bem. Foi assim que surgiu o termo philosophes. as nações nomeiam filósofos honorários. um philosophe busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daquele s a quem segue. pôde fazer para r econduzir aos bons caminhos da ética uma nação perdida. o homem investido de autoridade acadêmica apresenta sua opinião solta. Discursando do alto de um caixote de beterrabas. autora de um premiado Convite à Filosofia. que. um sumário do es tado da questão no consenso dos estudiosos. É também um preceito elementar do método científico não apresentar uma teoria nova sem provar primeiro que as anteriores não bastam para explicar os fenômenos de que trata. chocado com a guerra entre cristãos. convocava os alemães à defesa da honra nacional pisoteada pelo invasor. Status quæstionis — termo da retórica antiga — é o retrospecto das discussões até o presente. Desse preceito. A seleção dos temas e o conteúdo das conferências terminaram por desmentir os doi s primeiros objetivos e anular o terceiro. desorientado e perplexo. das teses consensualmen te admitidas e das que continuam em litígio. Não é de hoje que a filosofia assume o encar go de guiar o mundo. como por exemplo a de que na lógica de Aristóteles “o acidente é um tipo de propriedade” mais ou menos o equivalente a dizer que na geometria de Eucli des o quadrado é um tipo de círculo. sem os nexos que a ligam positivamente ou negativamente ao consenso e à tr adição. i solada. novas ou divergentes qu e o orador acaso tenha a apresentar só poderão ser compreendidas e discutidas com pr oveito se forem vistas no quadro desse consenso. o público leigo fatalmente a tomará como se fosse ela mesma a expressão desse cons enso. Quem fale aos leigos sobre um assunto da sua especialidade está implicitamente obrigado. já não consegue se guiar p or si mesmo. Benedetto Croce dizia que só se compreende um filósofo quando se sabe “contra quem ele se levantou polemicamente”. assim representada. Opiniões próprias. Para este. nas horas de escândalo e r uína. As conferências do MASP Na gritaria geral contra a falta de ética. pela ética da vida intelectual q uando tem. No caso brasileiro. É da tradição os filósofo bandonarem o silêncio da meditação para ir discursar às gentes. e dará às palavras de um só indivíduo — ou do grupo que ele representa — o valor e o p eso de uma verdade universalmente admitida pelos homens cultos. a compreensão de uma nova tese depende do conhecimento do estado da questão. biônicos. quando ele.28 OLAVO DE CARVALHO § 2. . mesmo que dele divirjam e sobre tudo quando divergem. com a riteriosa discriminação dos tópicos abrangidos e por abranger. last not l east. Vejamos o que a consciência filosófica nacional. Fichte. Se porém o especialista. a i ncumbência de figurar no papel de consciência filosófica nacional foi atribuída ao grupo de professores universitários que orbita em torno de Marilena Chauí. abrindo-o para um público de quinhentos e tantos l eigos. porque toda divergência diverge de alguma coisa e só no confro nto com ela adquire sentido. designa os ideólogos da Revolução Francesa. lançar luz sobre a questão da falta de ética no país e p opularizar o debate a respeito. Tão necessários são os filósofos nessas horas. clamava pela união das ig rejas.

fl ui a obrigação de ética pedagógica a que me referi: toda teoria nova. pela m assa crédula dos ouvintes. o cabotinismo elevado a princípio historiográfi co foi cair num descalabro ainda pior ao tratar da filosofia medieval: espremeua toda. sentiram o urgente impulso de derramá-la sobre toda a nação. E a tragédia grega. sobre os se ntimentos éticos na tragédia grega. creio eu.. por insignificante e banal que seja. Rolando. no MASP. ele se espa lha: deita e rola. Como num duelo. Ninguém nega aos organizadores do ciclo o direito de reinterpretarem a História o qu anto queiram. Epicuro. como obra de arte. com seletividade feroz. Seu período de atuação mais intensa. e não estas contra aquelas. Veremos adiante. o tribunal da Santa Inquis ição! Historicamente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 29 que é válido também em filosofia. mas não tem o direito de posar em lugar dele perante um público que o desconhece. Não deveria ser preciso fazer tais recomendações a pessoas tão cheias de consciência ética que. Nunca deve ser exibida so zinha. não é propriam ente um filósofo menor. decorre uma norma prática: as novas teorias é que devem apresentar suas razões contra as velhas. Que aspecto foi esse. E nada mais confortável para um cara-de-pau do qu e poder contar com a sonsa aprovação de uma platéia novata. como a quintessência do assunto. Dessa norma.. deve ser mostrada como tal. cabe ao desafiado a primazia na escolha das armas. removendo para um canto os nex os principais articuladores do conjunto e puxando para o centro um detalhe qualq uer de sua preferência. rolando. o pen samento ético grego ficou ali reduzido ao filete escasso e marginal do epicurismo e a um vago e misterioso “sentimento” coletivo escoado entre os versos de Sófocles. Quem assim a empregu e estará se aproveitando da ignorância alheia para fazer-se de autoridade. mas alguma coisa menor do que um filósofo. “essa instituição — como frisou Alexandre Herculano — nasceu débil e desenvolveu-se gradual e lentamente”1 3. o rótulo de extravagante. quando apresentada a um público leigo. Nenhum desses tópicos nem dos muitos outros em que se subdivide a ética medie val nos livros de História da Filosofia foi considerado significativo o bastante p ara representar. O tema ali encarregado de figur ar como amostra suprema do pensamento medieval foi. Mas a versão que o ciclo apresentou da hi stória das idéias éticas é bem diferente daquela a que o público teria acesso caso se diri gisse a qualquer das histórias da filosofia que circulam em formato de livro. e a da convidada francesa. a última a negá-lo). ocupando todo o espaço e fazendo as vezes do consenso. Nem uma palavra sobre Platão. Aí. a que m assim proceda. que a revestiu da ima13 . alterand o a hierarquia dos fatos e as proporções dos valores. e não “a” História. carregada ademais de obscuros simbolismos a rcaicos. É uma versão peculiar — alternativa. é um quid pro quo. no mínimo. e mesmo aí só a abordou. o capítulo referente à filosofia grega resumiu-se a duas co nferências: a de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro. por sua vez. Mas cometer extravagâncias com o ar i nocente de quem procede segundo a praxe mais rotineira é aquilo que. Aristóteles ou o estoicismo: sobre os t rês sistemas completos que constituíram o essencial da herança moral grega às civilizações e uropéia e islâmica. a essência da Idade Média. por um único e privilegiado aspecto. ou pelo menos sobre quinhentas cabeças. Instaurada oficialmente em 1229. Vítor? O indeterminismo moral de Duns Scot? Nada disso. recortada e contrastada sobre o p ano de fundo do consenso que ela confirma ou desmente. Nem mesmo o de desfigurá-la em nome de uma teoria qualquer. com seus quase mil anos de História. não con seguindo mais contê-la em si. incapaz de atinar com a ex travagância do seu procedimento. numa só conferência. em sentido corrente. digamos — que tem todo o direito de ser defendida contr a o consenso. recebe o nome de cara-de-pau. no consenso quase universal. admite muitas outras interpretações éticas que não somente aquelas destacadas p or Nicole Loraux (que seria. Uma história da é a grega que eleve Epicuro ao primeiro plano em lugar de Platão e Aristóteles não tem c omo evitar. a fineza de declarar de antemão seu propósito de apresentar uma ver são nova e heterodoxa da História. tomado assim. Apenas se pede. tão especial? A moral agostiniana da autoconsciência? A ética tomista da escolha razoável? A pedagogia moral de Hugo de S. que em detalhe comento mai s adiante. No fim das contas. Nicole Loraux (aliás excelente). ao abrigo de todo olhar de censura. na ética popula r. Por exemplo. Ésqu ilo e Eurípides.

Bertrand. p. I. s/d. Lisboa. . t. Alexandre Herculano. 25. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal .V.

Hugo e Ricardo de S. 1993). op. mas limitando-o severamente. Anselmo (1070) até as Reportata Parisiensia de Duns Scot (1300). alcançando um máximo de furor nos séculos XVI e XVII. A tortura ilimitada foi depois reintroduzida pelos comunistas. Boaventura. ). Alexandre Herculano. é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso co mo ministro da Fazenda de D. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. nenhum desses filósofos exerceu qualquer cargo no Santo Ofício nem teve com esta entidade contatos senão episódicos. de modo geral. que não coinc ide. provavelmente não era. Rio. 1975 ). Pedro Abelardo. é u m dos principais sintomas. Tempo Brasileiro. caiu e m desuso. Vítor. já é apenas o finzinho da Idade Média: é o princíp o da sua dissolução. o processo f oi uma pizza.30 OLAVO DE CARVALHO gem sangrenta que tem para nós hoje. l O proces so de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial. “O Feiticeiro e sua Magia” ( em Antropologia Estrutural. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida. op. a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno es teve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja C atólica (v. passando pelos livros de Pedro Lombardo. A tortura era considerada um procedimento legítimo e pra ticada em toda parte desde a Grécia antiga. Não sei se a acusação era procedente. mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria. o que deveria ser considerado um marco na história dos direi tos humanos. não permitindo que o ac usado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. Instituindo os processos regulares. Rio. Isto é tão medieval quanto a física d e Newton. Idade Média com Inquisição. de dois séculos. e não podem tê-las trocado por engano. Chaim Samuel Katz e Eg inardo Pires. João VI. Guilherme de Conches. Durante quase toda a Idade Média. recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss. trad. As fogueiras da Inquisição continuaram depois a arder pela Idade Moderna a dentro. ao fim do ciclo de produção e publicação das principais obras filosóficas medievais. e sobretudo filosofia medieval com Inquis ição. que não marcaram significativamente o con teúdo de suas obras14. com a eclosão das primeiras manifestações de autonomia nacional. o XIII. uma farsa concebida pelo Papa padrinho de Galileu para que seu pro tegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples decl . l A Inquisição institui u a tortura generalizada. que a sua fama inquisitorial obedece à definição stendhaliana da fama: co njunto dos época era crime. com o da sua atuação efetiva. Sto. Alexandre de Hales. Bem ao contrário. 14 Associar. John Bossy. Alberto Magno. Para completar. mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alter nativas reais existentes na época. eram um hábito consagrado na Península Ibérica. Eduardo Fran cisco Alves. Tes tas. trad. o R ei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura. Sto. Tomás de Aquino e S. l A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus. sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renas centista — dos textos das antigas leis romanas. repito. na Rús sia. entendemos que ela foi um mal menor: a única alte rnativa era o massacre ( v. só começa a partir de 1400: em pleno Renascimento . — Para completar. qualquer caráter criminoso. Eles sabem p erfeitamente bem que a Idade Média é um bode expiatório das culpas de períodos históricos posteriores. ). causa imediata da abertura do Santo Ofício. sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas. assim. cit. Os philosophes do MASP conhecem tão bem ou mel hor do que eu todas essas datas. de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros pop ulares”. O que a Inquisição fez foi seguir o us o então vigente na justiça civil. Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu con tra o uso da tortura. que vai do Proslogion de Sto. É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus. promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos. cit. o período de atividade inquisitorial mais significativa já é posterior. sobre a realidade das mortes por en feitiçamento. As matanças de judeus. Em terceiro lugar. Ediouro. das quais a própria disseminação das heresias. Mesmo o século do estabelecimento oficial da Inquisição. a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças.

Harvey e tutti quanti. leia-se A Inquisição. biologia ou matemática. por G. diria Gramsci — que sustent a a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. Bib liografia no fim deste volume. Descarte s. mostraram a maior indiferença pela sua obra. A Inquisição examinava apenas livros de in teresse teológico direto. proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. Testas e J. Giordano Bruno não fez nenhuma desco berta. 1991 ). ( Em caso de dúvida. Paris. O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. Bacon. Galileu. Os philosophes de modo geral não ig noram essas coisas. Hermann. e todos os cientistas matematizantes. de Galileu a Des cartes. Pa ul-Henri Michel. Júlia Ma inardi. 1975. Eis algumas: l A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico. mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconfort o na platéia. astronomia. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”. ) l Giordano Bruno foi um mártir da ciência. mas por prática de feitiçaria. Testas v. Kepler. La Cosmologie de Giordano Bruno. que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciênci a moderna. Pietro Redondi. nenhuma observação. nenhum experimento científico. física. gramática e retórica o trivium. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica. Ele não foi condenado por defender teorias científicas. Galileu Herético. condenad o pela Inquisição por defender teorias científicas. Newton. Companhia das Letras. Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para ve rificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico. ). Ele desprezava a n ova mentalidade matemática. após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v.aração oral sem efeitos práticos. São Paulo. que na . Nem sequer estudou as ciências modernas. trad. cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna ( v.

como as de Jung e René Guénon. foi o de evitar qualq uer exame da filosofia medieval. Tomás. logo. p. 1961. por vícios que realmente pertenciam aos seus detratores. mas pela sua repercussão pública. sem ter precisado sequer mencionar o s eu nome. e omitia outras que produziram verdadei ras revoluções. que injetaram o e volucionismo nas veias espirituais do mundo. Procuran do. mais ou menos do mesmo tamanho daqueles concedidos individualmente ao economista John Maynard Keynes.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 31 equívocos que a posteridade tece em torno de um nome. na ocasião da edição. Enfim. como Condillac. não pode ser levado a sério. . por seus efeitos político-sociais. Em matéria de retórica — a arte de alcançar o máximo de persuasão com o mínimo de argumentos —. ao antropólogo Bronislaw Malinovski e até mesmo a Voltaire. com seus quadros sombrios de câm aras de tortura. de O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Pöe até O Nome da Rosa de Umberto Eco15. ao mesmo tempo que omitia Dilthey. teias de aranha. Belo Horizonte. típicos philosophes 17. O mais significativo da filosofia escolástic a — Sto. Mas logo tive de abandonar essa hipótese. Hartmann e Scheler. Ockam — fora ali todo espremido num só volume. Whitehead. Lavelle. Aí se explicaria o título da série (“pensador” é um termo mais vago e a brangente do que “filósofo”) e também a inclusão de autores menores. Nesta disciplina. a História oferece muitos exemplos de ‘censura transferida’. A Cultura da s Cidades. mais vistoso. As distorções não paravam aí: Pes anha achara indispensável dar todo um volu16 me a Kalecki. mistério e desvario” ( Lewis Mumford. no início da R enascença. Jaspers. ficou assim rodeada de uma auréola sangrenta. Mas também sabem que essa fama está profundamente arraigada na crendice popular. a mesma seletividade deformante q ue agora inspirava o programa da Ética. Na escolha das obras que compõem a série Os Pensadores da Editora Abril. grande retórico e jornalista que. a auréola terminou por rodear também o Catolicismo de modo geral. 23 ). a que aquela filosofia se associa intimamente. desviando as atenções para um assunto mais truculen to. trad. é claro. no caso. Duns Scot. vist o que a coleção incluía obras que só exerceram influência em círculos bem delimitados. Sem falar. Neil R. Mas fica a pergunta: Para quê? Com que finalidade um grupo de intelectuai s declaradamente empenhados na salvação moral do país se envolve num empreendimento tão comprometedor como esse de contar ao povo uma História da Ética que falta com a ética para poder falsificar a História? § 3. um economista que não é cit ado em nenhuma História da Filosofia .. Itatiaia. onde a plantou uma sucessão de ob ras de ficção de grande sucesso. um dos mais destacados membros do grupo. talvez. ou as de Spencer e Thomas Huxley. acabaria por concebê-la bem diversa daquela que pode16 Na verdade a lenda surgiu um pouco antes: “A Idade Média foi denegrida. em José Américo Motta Pessanha. o leitor d’Os Pensadores. sem ter sido contestada diretamente ou mesmo discutida. A pr ova de que a velha aparelhagem cênica do “romance gótico” ainda funciona é o sucesso de O Nome da Rosa. Pessanha e o pensamento Ocidental Uma pista podia ser encontrada. já 15 se manifestara. valha m elas o que valham. Helvéti us e Dégerando. O rtega. da Silva. já que o público acredita na lenda. conjeturei que Pe ssanha talvez não tivesse desejado ilustrar a História da Filosofia. foi um tour de for ce admirável: enlamear a reputação do adversário. explicarme as razões de escolhas tão bizarras. E. se formasse por esta só coleção sua imagem da históri a do pensamento. Por automática extensão. de que Pessanha fora organizador e editor. de Lênin ou Gurdjie ff. Lukács. Croce. que arrombaram as portas do Ocidente para a invasão das idéias orientais. para quê desmenti-la? Por qu e não tirar proveito dela? O proveito que se tirou. como por exemplo as de Wittgenstein e Adorno. com alguns anos de antecedência. mas sim a Históri a das Idéias. as teorias não se tornam dignas de atenção pelo seu valo r intrínseco. Essa impressão sobre a Idade Média é parcialm ente um produto dos ‘Romances Góticos’ do século dezoito. com a vantagem adicional de que essa filosofia. como filósofo. Cassirer..

alguns de primeira ordem pela qualidade literária e pela influência política de seus escritos — De Maistre. s e ele jamais publicou um único trabalho de alcance filosófico e se entre seus colega s de ofício houve muitos que foram filósofos de pleno direito. 17 A direita também tem se us philosophes. Donoso Cortés. por exemplo — .Por que essa honra concedida a um único economista. . como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises? A resposta só pode ser uma: do ponto de vista uspiano um econo mista marxista é mais filósofo que qualquer filósofo liberal. de figurar entre os filósofos. Maurras. mas fora m omitidos.

Hartmann e não sei mais quantos. acabou por adquirir uma autoridade comp arável à da Bibliothèque de la Pléiade ou dos Oxford Classics. a obra de deformação que Pessanha já havia iniciado por conta própria. discípulo que era de Chaim Perelman. O círculo de Pessanha não 18 Na verdade publicam-se muitos. um investigador e codificador dos princípios da argumentação retóri ca. não foi por casualidade. A escolha não refletia um critério teórico. Fukuyama e tod os os outros filósofos de alta rotatividade. Em Contraponto. por seu lado. ela dispensar ia o essencial. mas a decisão de uma práxis. um item indispensável da b ibliografia filosófica nacional. Dil they. cujos trabalhos ele foi. Aldous Huxley diz de uma personagem que. Também nos faltam as obras principais de Hegel ( só temos a Fenome nologia e textos menores ). o primeiro a div ulgar no Brasil. muito Foucault. Schelling. a inspiração talvez inconsciente de todos os títulos da série de eve ntos promovidos pela Secretaria de Cultura: o olhar que aquela gente lançava sobre o mundo não refletia a imagem de um objeto. é claro. mas projetava sobre ele o sentido de uma paixão. Juntos. Pessanha.32 OLAVO DE CARVALHO ria obter em qualquer livro ou curso da matéria (exceto. num país onde se publicam poucos livros de filosofia18 e onde as edições e strangeiras só são acessíveis a uns happy few. como um mestre d a persuasão. Ele não quisera refletir a História das Idéias na imagem dos textos. de Leibniz. na teoria e na prática. e por ele pude captar tam bém. era uma comunidade científica empenhada em descobrir o real. um grande con hecedor da Retórica. a imagem do pensamento universal. retrospectivamente. em outra escala. muito Antonio Gramsci. Mas temos Simone de Beauvoir quase completa . Enfim. Nessa operação. a série Os Pensadores e os três eventos O Olhar. o princípio a que obedecera a seleção dos livros: Pessanha não havia procurado mostrar o passado. jamais chegou ao Sul-Maravilha. nem pe la sua importância h istórica. Fichte. Mas Perelman distinguia. que se crê muito le trado porque encontra nas livrarias as últimas modas filosóficas nacionais ( leia-se : estrangeiras ). não como editor d’Os Pensadores. ed itado pela Universidade do Pará. e dispostos a sedimentar. na falta de concorrentes. de Kant. mas produzi-la no campo dos fatos. entre o retor e o retór ico: entre o orador persuasivo e o estudioso da ciência retórica. mas já nos coloca numa pista importante: s e ali a verdade sofreu graves distorções. Que intenção está aí subentendida e quais os . malgrado suas distorções. salvo engano. mas pela repercussão que ele mesmo pretendia lhes dar. aos olhos do público. mas para dar seguim ento coerente a uma ação iniciada muito antes. Isto ainda não nos dá uma resposta quanto aos motivos úl timos da seleção dos temas no curso de Ética. E não lhe faltaram ocasiões para man ifestar o seu talento (que antes de empregar na persuasão política ele testara numa série de fascículos de culinária. Mas ainda sobrava a pergunta: qual o sentido do empreendimento? Fo i só quando ouvi a conferência de Pessanha que pude compreender. Parece ser isso que os editores brasileiros pensam do leitor. no plano da luta cultural. mas também por ser. Para complicar mais ainda o imbroglio. Até hoje não temos Aristóteles completo em português. o grande renovador dos est udos retóricos no século XX. O mesmo espírito pare cia ter orientado a seleção dos temas para o curso de Ética. as bases para a conquista desses objetivos. se lhe dessem o supérfluo. Não escolhera os livros nem pelo seu valor. a série Os Pensadores. representando. qualificou-se sobretudo como retor. mas sim de estratégia e mercadologia. retroativamente. como um orador e homem de marketing. mas um grupo militant e decidido a fabricá-lo19. Não se tratava de História. a série Os Pensadores se tornou. na mesma editora). Perelman era essen cialmente um retórico. Os Sentidos da Paixão e Ética — sem contar a militância pedagógica nas cátedras da USP — formam o mais vasto empreendimento de persuasão retórica já realizado n este país por um grupo de intelectuais ativistas imbuídos de objetivos políticos bem d eterminados. mas moldar o futuro. o programa da Ética não fizera se não prosseguir. e o Platão de Carlos Alberto Nunes. on de impera o grupo de Pessanha). seguindo a tradição. É por isto que. mas não os de primeira necessidade. Husserl. sem contar Fielkenkraut. o curso da USP. Pessanha desempenhava uma função estratégica.

é o que teremos de descobrir numa análise microscópica da conferência de Pessanha. e segundo o qual. Faculdade da Cidade Editora. um tanto envergonhada. 19 Daí a receptividade. não podendo encontrar “universais” na realidade.valores que nela se incorporam. a propósito os capítulos “Armadilha relativista” e “Rorty e os imais” no meu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras ( Rio. . a filosofia deve “fabricá-los” mediante a pr opaganda e a ação política. Mas antes mesmo de entrarmos em mais detalhes. o que foi constatado até agora já nos adverte que a estranha conjuntura referida no § 1 dest e livro era ainda mais estranha do que parecera à primeira vista. filósofo pragmatista segundo o qual a linguagem não pode dar um a imagem do real mas somente uma expressão dos nossos desejos. que se deu nesses círculos filosóficos às idéi as de Richard Rorty. V. 1995 ).

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 33 Pois. mais inexplicável a coisa toda me parecia. prostituir a ciência e conduzir o povo por um caminho enganoso. E quanto mais eu remexia o assunto. portanto. se mostrasse tão ignorante das regr as mais elementares da ética intelectual. Não havia remédio. que remontasse às raízes in telectuais primeiras em que se inspirara aquela nova e singular concepção da ética. Er a preciso nada menos que interrogar Epicuro. . tão ávida de falsificar a História. senão uma sondagem em profundidade. tudo em nome de objetivos mo rais que seriam alcançados bem mais rápida e facilmente pela velha e boa linha reta. mais esquisito ainda era que uma elite universitária. elevada à liderança inte lectual de uma reforma ética de escala nacional. se já havia uma inusitada desproporção no volume de recursos culturais mobilizad os para a consecução de um alvo tão pequeno quanto a simples destituição de um mandatário co rrupto.

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EPICURO - .LIVRO II .

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cuja solução trará consigo a de todos os outros anteriormente mencionad os. Um aspecto particularmente biruta da filosofia de Epicuro é o seu alegado material ismo. num ciclo nominalmente votado ao esclarecimento de questões atuais e urgentes. mostrar o avançado estado de decomposição em que se encontra. Se sonhamos com deu ses. por esta mesma razão. mas que o seu sentido é o de um engodo proposital. De natura rerum. Logo — pelas leis da silogística epicúrea —. O ep icurismo foi ali pintado como uma das maiores filosofias de todos os tempos. por tadora da solução para todos os males humanos (sic) e da inspiração que o Brasil precisa para sair do atoleiro moral. já que alguém antes de nós desenterrou a múm ia. Agostinho. só o que é aterial chega ao nosso conhecimento. mas uma forma superior de luta política. Uma profissão-de-fé epicurista. isto já prova. § 32. e até os deuses são materiais — havendo apenas. existência material. A questão não é portanto saber se Pes sanha se saiu melhor ou pior do que Agostinho no seu devoto empenho. d e outro não hesitou em defender uma opinião que. Pessanha não recuou diante das maio res temeridades na apologia do seu guru. procurava conciliar a bondade de Deus com a existência do mal no mundo. Se de um lado não poupou o sarcasmo ao ri dicularizar as acrobacias dialéticas com que Sto. fazendo de seu autor um clássico do besteirol. e dela aparentado tão-somente na distância que ambos guardam de toda verdadeira filosofia. se tornaram modelos insuperáve is. no campo da absurdidade. eles devem estar em algum outro mu ndo. como todo e qualquer mundo existente é sem21 22 Veremos. mas sim per guntar por que. não foi uma simples exposição da filosofia de Epicuro: foi uma rasgada profissão-de-fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro. Segundo Epicuro. para manter-se de pé. COSMOLOGIA DE EPICURO § 4. Têm-n a inclusive os objetos de nossos sonhos e visões imaginativas. será preciso remontar ao próprio Epicuro e. — A matéria segundo Epicuro “As Delícias do Jardim”. como não podemos encontrá-los em parte alguma deste baixo mundo. tão diferente daquela grossa metafísica de caixeiro de loja que costumamos con hecer por esse nome. só para depois ter de varrê-lo para baixo do tapete. Só que. . Lucrécio. o corpo é material. tudo o que chega ao nosso conhecimento tem. pois aquilo q ue não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos22. pronunciada por José Américo otta Pessanha. pois os traços do mestre devem se reencontrar no discípulo — e Epicuro produziu a lgumas dúzias de opiniões que. Epicuro ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade. Como tudo é material. Para sondar as razões desse mistério. Porém. que eles existem materialmente. 20 Mas opiniões esquisitas não são mesmo de estranhar em quem se declare seguidor de Epic uro. retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo. notório adversário do epi curismo. entre estes três níveis de seres. segunda conferência do ciclo de Ética. que essa opinião não é totalmente destituída de sentido. a alma também é mater ial. Levado por aquele entusiasmo belicoso que sempre a nima os porta-vozes de uma doutrina salvadora.CAPÍTULO II. no fim. alguém se deu o trabalho de ir retirar o pó milenar que encobria uma múmi a filosófica. a d iferença de maior para menor densidade da dita “matéria”21. Diógenes Laércio. 146 ss. X. Propor isto como um remédio eficaz pa ra a corrupção reinante é o mesmo que recomendar a fuga para longe dos credores como u m método eficaz de saldar as dívidas20. segundo Epicuro. requer uma lógica não menos circense: a opinião de que a fuga dos intelectuais para o jardim de Epicu ro não é alienação nem covardia. V.

que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o mo delo mais perfeito do ócio contemplativo. das duas uma: ou os deuses exercem um influxo benéfico. acabaria por se perder em p razeres menores — que Epicuro despreza — e. pela ética epicúrea. Mas um conceito de matéria tão elástico como o de Epicuro só podia mesmo dar nisso. e por isto são mais duráveis. Tal é justamente. já que eles permanecem no puro ócio contemplativo e não nos causam males nem bens. Mas. devem ser criteriosamente evita das. Epicuro diz que os deuses são inócuos e indifere ntes. ou nem quer nem pode. pelo bem da paz no intermundo. afirma a eternidade da matéria.” Pessanha não só achou e ngenhoso este argumento. motivo pelo qual devemos admirá-los. Para começar. poderia tir ar os deuses epicúreos desta aporia congênita. Sabe-se lá sobre que eles conversam. que o objeto da admir ação não traga nenhum benefício à alma que o admira e não lhe dê nem mesmo um pouco de prazer eis aí questões que. não alcançando jamais o benefício do ócio contem plativo. Epicuro achaos o supra-sumo da perfeição. Então. prossigamos com a investigação. Afinal. eles ficam trocando idéia s nas longas noitadas do intermundo. para ver como fica a segunda. Para saber se uma coisa exerce ou não influência sobre outra. por que raios é então? Se a matéria de Epicuro é esquisita. em que se agitam há milênios os debates n o intermundo: se eles não interferem. E como Epicuro ta mbém diz que um deus não poderia ser impotente. e sim porque não querem. os d euses são compostos de matéria sutil. eles não iriam querer suja r suas mãozinhas de matéria sutil na porqueira da matéria mais densa. um deus que. destituído de coisas. o result ado a que chegam aqueles que buscam o prazer no terrestre e no imediato. segundo Epicuro. sem eles. Assim Epicuro cai nas malhas do seu próp rio Epicuro diz que nada devemos temer nem esperar dos deuses. somada à retórica de Perelman. de outro lado. podendo ajudar os necessitados. só lhes resta alojar seus corpinhos de matéria sutil num intermundo. Mas nem toda a dialética de Agostinho. em nada ligando para as nossas preces nem mesmo quando proferidas no seu celestial idioma. ao mesmo tempo. com que julgava fulminar a religião grega e toda religião possível: “Ou Deus quer ajudar e não pode. longe da miserável agitação dos mundos e sem inte rferir em nada na ordem ou desordem das coisas. podem viver sem um ambiente m aterial em torno. mas declarou que ele se aplica perfeitamente ao Deus cr istão. diz Epicuro. e vestidos somente de intervalo. rarefeita. não é porque não podem. Sendo filósofos. não deve ser menos desprovido de assunto. Embora materiais como nós. Como é possível que o modelo supremo do bem não nos cause nenhum bem. a única ocupaçã eles consiste em conversar. Não é de bom tom. ou intervalo entre os mundos. Mas. devemos concluir que. ele diz também que o prazer é o supremo bem. ou pode e não quer. que já estamos metidos na densa porcaria terrestre. mesmo de matéria sutil. argumento. resultaria em aumento da dor. num ambiente que. pergunt ar como é que seres materiais. se recusasse a fazê-lo. ainda que por sua simples . o mais velho e eficaz procedimento consiste em suprimir (de fato ou imaginativamente) a prim eira. os deuses não ficam atrás. seguro de que não entendem uma só pa lavra do que estou dizendo). ficando desprov ida de um m odelo ou meta final por que orientar-se. Só que Epic uro. não é porque não querem e t mbém não é porque nem querem nem podem. só para depois ter em de pedir a Agostinho que as limpasse. ainda segundo Epicuro. Mas nós. Embora eles nos sejam indiferentes e po rtanto inúteis. estaria proceden do de maneira indigna de sua condição divina. o que cria o seguinte problem a: se a matéria é eterna. que seria do epicurismo? A busca do prazer. mas o que Epicuro g arante é que certamente eles o fazem em idioma grego. se eles não nos ajudam. e não em língua de bárbaros (motiv o pelo qual posso aqui falar mal deles à vontade. que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações. sem con hecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses. por que teria de ser menos densa justamente nos seres mais duráveis e não nos m efêmeros? É ais como dizer que uma superfície pintada é tanto mais azu l quanto mais diluída esteja a tinta azul.38 OLAVO DE CARVALHO pre material como o nosso. mas não é porque não podem. Mas.

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os deuses são indiferentes ao bem e ao mal. os deuses não somente são a causa das ações do filósofo. por sua estática e autobenéfica perfeição intrínseca. que eles nem c onstituem o substrato material de que é feito o mundo. tudo girando numa espiral ascendente desde os prazeres imediatos e grosseiros até o supremo ideal do ócio contemplativo. mas todos os seres e coisas. se tornou consciente e assumido: o ócio contemplativo. a busca do prazer filosófico é só um tipo especial de busca do prazer. Logo. então só resta concluir que os de uses epicúreos. de outro. se são tão f ormidavelmente bons assim. a bússola por que se orienta o desejo. animais e plantas e pedras e áto mos e galáxias. mas são bons para nós. seus deuses não difeririam muito do Deus bíblic o. Agostinho. deve ser um bocado de trabalho. Mas entre dizer que eles não criaram o mund o e concluir que eles não fizeram coisa nenhuma desde que o mundo foi criado. um dos atributos essenciais da divindade em todas as religiões. nos mostram pelo exemplo da sua perfeição o caminho do bem. eles produzem um efeito bom e logo são bons sob algum aspecto. Se Epicuro t ivesse se limitado a dizer isto. mas para todos os seres e coisas. Mas. Se os deuses são. e eles não. Mas Epicuro afirma ai nda que. o modelo do bem. Veremos isto mais adiante. Neste ponto. E não somente são bons em si mesmos. É claro que isto eles não podem ser. o presidente do colóquio filosófico intermundano . por mais que o filósofo procure isentá-los de toda responsabilidade. são causa formal do bem e causa final da vida ascética. de um lado. personificado nos deuses. nem são o gatilho que dispara o movimento da criação. neste caso. no sentido aristotélico. na medida em que. Nas tradições espirituais em geral. para o filósofo. ativa e transitivam nte. e a imobilidade a gente é. por definição. então eles não apenas são causa de alguma coisa. a di stância é grande. sendo causa formal e final. Por enqua nto. meta e mo tor geral da vida humana. não fazem senão buscar de maneira obscura e inconsciente aquele m esmo objetivo supremo que. E. é atribuída mesmo a santos e gurus. como modelos e causas formais do bem. se denomina aliás tecnicamente. quando saem à cata de pr azeres grosseiros. ou está certo na prática e errado na teoria — a não ser que esteja errado em ambas as coisas. então por que diabos não interferem logo de vez para acab ar com o mal no mundo? Neste ponto. sem necessidade de uma ação externa. a não ser que os membros da Comissão de Orçamento do Congresso sejam deuses. 23 Epicuro é taxativo: o mundo se compõe de átomos e a causa do movimento é o desejo. além de ociosos. E não haveria nada de estranho em que uma escola de ascetismo atribuísse a seus deus es a capacidade de produzir efeitos pela sua simples presença.. vendo o debate acalorar-se acima do compatível com o decoro que deve imperar nes sas regiões excelsas. Pois estes — diz Epicuro —. afinal. Porém. ou. E como ademais o desejo de prazer não mov e somente os homens. Os de uses são apenas a imagem do bem. pois. a capacidade para a “ação de presença”. não exerc influxo nenhum e então a prática do epicurismo está destinada ao fracasso. Para seres oc iosos como eles. então temos de admi tir que os deuses epicúreos. isto é. e n em só para os homens em geral. interrompe os trabalhos e manda solicitar o parecer técnico de Sto.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 39 presença23. na hipótese contrária. . aparecendo em nossos sonhos. e. são bons para o universo inteiro. Tirar o corpo fora de toda responsabilidade sob a alegação de não ter cr iado o mundo não é lá também um comportamento muito digno de um ser divino. O máximo que se pode conceder à tes e da inocuidade dos deuses é que. e então não são inócuos como os diz Epicuro.. o qual também não é nem estofo material do mundo nem causa imediata dos atos humano s ou dos fenômenos naturais. na medida em que este bem não é só para os filósofos. m as das de todos os seres humanos. A única diferença que restaria entre Yaveh e os deuses ep icúreos é que Ele criou o mundo. são enfim a causa formal e final de tudo quanto acontece no universo. mas o são duplamen te: em linguagem aristotélica. tentemos tirar as conseqüências lógicas da teoria. Ou Epicuro está certo na teoria e errado na prática. eles de fato não são nem causa material nem causa eficiente. a imagem do ideal espiritual que norteia os esforços d o asceta epicurista. estaria sendo nada mais que coerente com seus p róprios pressupostos. Mas.

§ 5. Um piedoso subterfúgio .

Estando as coisas nesse pé. para inscrevê-lo no das crenças r eligiosas. só pode ser compreendida por quem primeiro. descul pa que nasce do desejo de enxergar profundidades insondáveis onde há apenas a banali dade de um pensamento confuso. que conf unde a inteligência e a torna inapta para seguir qualquer método que seja. a refe rida cosmologia não deveria ser julgada criticamente. Se a coisa fosse extrapolada para domínios ex tra-religiosos. Neste caso. a aceitação preliminar de uma doutrina intrinsecamente absurda. A prova d e uma doutrina. uma vez trilhado. ou pseudo-religiosas. porque toda religião que se preze distingue claramente entre doutrina e método. Só que: 1º A aceitação dessa h pótese excluiria o epicurismo do campo da filosofia. lhe revelaria o indizível segredo do universo como realme nte é. e os milagres de Cri sto seriam provas do vegetarianismo. o Guru Maharaji e o Rev. é sempre de ordem intelectual e lógica. e sim para ser ac eita e “revivida interiormente”. À cosmologia propriamente dita só teriam acesso os iniciados. nada conseguindo entender da doutrina do mestre. em última instância. para uso dos novatos — um véu de fantasia na entrada do templo da verdade. É até possível que seja assim. mas apenas o seu pórtico fictício. quem se agarre ao epicurismo como a uma última tábua está naturalmente livre para crer que assim seja. e se a prátic a do epicurismo é possível. para captar. e vice-versa 24: se o mundo é como Epicuro o descreve. o que vimos no epicurismo foi justamente que nele não há conexão entre teoria e prática. Se não fosse assim. pois isto seria um convite a que cada qual se entregasse com tanto mais fervor à prática quanto menos estivesse em condições de 24 . nestes tempos de naufrágio. a cosmologia de Epicuro não pr etenderia oferecer uma descrição literal do mundo como realmente é. mas apenas uma ima gem sugestiva que. mas interpretada simbolicamente. ou melhor. que ao ati ngirem os graus mais elevados da ascese epicúrea poderiam então jogar fora o véu de símb olos. 2º Não podemos admiti-lo nem mesmo como crença religi osa. somente um perfeito charlatão iria apela r. e não impõe jamais. A letra da doutrina epicúrea então não estaria aí para ser compreendida ou discutida filosoficamente. amém. embora falsa em si mesma. e o valor de um método se mostra por seus resultados práticos. sem discuti-la. filosófica ou científica ou religiosa. Sob a aparência de uma falsa cosmologia. nele não se pode ser epicurista com sucesso. como na repetição ritual de um mito. Mais ainda: a doutrina expressa que conhecemos c omo cosmologia de Epicuro não seria a verdadeira cosmologia de Epicuro. sem o qual Rajneesh. por intuição direta. deve ter reso lvido perseverar na prática dos seus ensinamentos movida por essa esperança. então o mundo não é como Epicuro o descreve. levaria o discípulo a uma “visão inte rior” que. valesse como um artifício para apazig uar a alma humana. no fim de tudo. de fato. Esta constatação fec a o caminho a um piedoso subterfúgio com que o discípulo beato poderia ainda tentar salvar alguma coisa do epicurismo. Ora.40 OLAVO DE CARVALHO A cosmologia de Epicuro desmente portanto a sua ética. para o argumento de que essa teoria. de modo que mesmo resultados práticos fabulosos não serviriam em nada como pr ovas da teoria. demasiado profunda para que a alcance a mera inteligência lógica. Muit a gente. libertando-a do temor dos deuses e predispondo-a a ingressar no caminho epicurista. a dieta de Beverly Hills atestaria a veracidade do marxismo e os sucessos do sistema de franchising seriam um argumento em favor da física quântica. pratique o método. Epicuro nos teria dado uma verdadeir a pedagogia. a não ser que a conexão desse método com a doutrina já esteja provada de antemão na doutrina mesma. mas os resulta dos práticos do método não servem nunca para validar retroativamente uma doutrina. à desculpa esfarrapada de que a cosmologi a epicúrea não deve ser tomada ao pé da letra. Moon já não teriam um d iscípulo sequer. qualquer bom resultado obtido na prática de um método poder ia ser alegado como prova de qualquer doutrina. a verdade viva incomunicável em palavras. isto é. indiferentemente: a santidade do Buda demonstraria a validade da doutrina da livre empresa. ou por esse pretexto. uma psicagogia: um guiamento da alma. o qual. e. como preço do ingresso na via da salvação. Segundo essa hipótese. em nome de quaisquer benefícios futuros a serem alcançados pela práti ca do método. mas aceita em confiança.

lançou contra a filo sofia de Demócrito.Objeção exatamente igual à que Pessanha. como veremos mais adiante. . sem notar que ela se aplica também a Epicuro.

é porque pensam. caso a lagartixa por sua vez não pensasse em mosquitos. o candidato a discípulo. não são eternos. e a cosmologia de Epicuro é apenas uma história mal co ntada. segundo Epicuro. da “inocência” dos “pequeninos”. mais rarefeitas do que os corpos dos deus es que as imaginam. pensar num homem que está pensando num gato que está pensando numa lagartixa. S e pensam. uma vez mortos . Há um pior ainda. que se apresentasse como simples preparação imaginativa para uma ascese. mais baixo ele está na escala ontológica e ma is próximo da irrealidade pura e simples. pelo menos alguns são também pensantes. 3º Mesmo uma cosmologia simbólica. a equação epicúrea de que rarefação = durabilidade obriga-nos a admiti r que elas são mais duráveis do que os deuses mesmos. Neste caso. Nossas cidades estão cheias de pessoas assim. Uma possível saída para o dilema seria o conceito de eviternidade. exceto o número do telefone do hospital psiquiátrico mais próximo. Não estando presos aos limites de uma exi . nada mais re sta dizer. dotados de uma durabilidade maior que a dos A coisa tor na-se ainda mais catastrófica pelo fato de que. diz Epicuro. que não atinam com as temíveis conseqüências psicológicas a que podem chegar por esse caminho fácil. estes miseráveis morta is ficariam. evidentemente. São mortais. a perfeita imbecilidade se tornaria a mais alt a prova de qualificação de um discípulo para a via espiritual25.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 41 compreender a teoria. Se a i déia em si já é bastante desconfortável. Um deus pode. têm memória e imaginação. Ou seja: que quanto mais matéria existe num ser. Mas não pensem que termina aí o rol de problemas filosóficos que mantêm atarefadíssimos os ociosos deuses de Epicuro. porém. por exemplo. e dotados portanto de memória e imaginação. no homem ca paz de julgar. para um materialista roxo como Epicuro ou Pessa nha ela deve assumir uma feição sinistra e diabólica uma vez constatado que. e isto inexoravelmente formaria uma hierar quia de durabilidade crescente que partiria de um deus provisório e culminaria num a lagartixa eterna. ou perenidade. 25 Não falta. A imaginação dos deuses. quem interprete assim as expressões da Bíblia acerca dos “pobres de espírito”. entre os seres e coisas deuses. — A eviternidade. então vale somente como miragem para atrair os discípulos a essa prática. para um públ ico intelectualmente incapaz. t eria de atender a um requisito óbvio: teria de ser sensata ou verossímil — pelo menos esteticamente verossímil — o bastante para poder acalmar provisoriamente a demanda d e explicações de um homem adulto. Nada mais lisonjeiro. que talvez sirva para adormecer crianças ou velhinhas. Sendo essas coisas. no mundo da pseudo-espiritualidade ou antiespiritualidade contemporânea. e os lugares mais baixos pelos seres mais densos. E isto. segue-s e que as coisas que os deuses recordam e imaginam existem materialmente nesse me smo instante. Os deuses. diante deste sinal. desperta apenas um sentimento de incongruência. existência material (só que mais rarefeita que a do corpo). Se. mas. Vale o mesmo qu e um anúncio do Silva Mind Control. Se os deuses falam. é autênt ico idealismo. se refazem integralmente tais e quais. uma vertigem abissa l. os lugares mais altos e duráveis são ocupados pelos s eres mais rarefeitos. Sua eficácia depende de que o discípulo tenha abdi cado de toda demanda da veracidade e esteja somente em busca de um alívio factício p ara angústias banais. reprime a exigência interior de explicações e se atira junto com eles no abismo. mas que. re cordados pelos deuses. para dizer o português claro. e como tudo o que aparece na memória e na imaginação tem. sinal seguro de que algo ali está errado. então. fazendo a apologia do mongolismo. E se por acaso ocorresse a um deus a idéia desastrosa de pensar num gato ou numa lagartixa. movido pelo temor reverencial que lhe inspira a pessoa do mestre ou pe la chantagem emocional da massa de seus condiscípulos. 4º Se a co smologia de Epicuro não vale nem mesmo como prefácio simbólico a uma prática ascética. § 6. ipso facto. nessa hie rarquia dos seres recordantes. É a elas que se dirige o apelo de Epicuro e de José Américo Motta Pessanha. do que sugerirlhe que sua estupidez é uma forma supe rior de aptidão espiritual.

talvez até pudessem realizar o prodígio de recordar. fatos acontecidos antes de seu nascimento. Assim poderiam até . como coisa v ivida.stência determinada. ou sucedidos após sua morte. Bas taria que apelassem às memórias de uma vida anterior ou futura.

Epicuro crítico de Demócrito . pela viabilidade do moto contínuo. Alianza Editorial. 27 O que pressupõe que os átomos tenham pes o uma premissa epicúrea da qual Demócrito não compartilha pelo menos explicitamente. logo em seguida argumenta. a mais funda incapacidade de perceber a fraude espirit ual. não é que ele não acredite em mais nada: ele redita em tudo. e bastava um ocidental ter verificado isto para s ubmeter-se a ele com reverência e temor. subtraindo-se ao menos em parte à lei de que da. os átomos se m ovem randomicamente em todas as direções. para poderem retornar à memória dos deuses a cada nova existência destes . Mas isso seria multiplicar o problema. além de recairmos no pecado mortal de idealismo. Com isto. sem perceber que ali havia apenas uma demonstração de siddhis ( “poderes”. e. Carlos García Gual. “Quando u m homem já não crê em Deus — dizia Chesterton . e uma essência que permanecesse inalteravelmente a mesma po r cima da mudança. 1990 ).” Gurdjieff provou isto em toda a linha. Epicuro. se prosternasse ante esses fenômenos como ante sinais do Espírito. Madrid. § 7. é que. do tempo e da morte. de vez que estas não têm uma memória tão rica. entrando em contato fortuito uns Queda” e a expõe no início do livro Relatos de Belzebu a seu Neto. no vazio infinito em todas as direções. no ato. O moderno intelectua l ocidental tem. acreditando que precauções contra es te bastam para resguardá-lo daquela. e batia nesse ponto sem dó. mas alguém dotado de poderes reais. “tendência”) e define como impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor. A Miséria da Ciência Social. e contra ela.42 OLAVO DE CARVALHO mesmo tornar-se mais duráveis do que as lagartixas. Um exemplo contundente encontra-se no livro de Muniz Sodré. levando-os a acreditar nos absurdos mais p atentes. Epicuro conclui que a impulsão inicial da queda não é tudo. ou de qualque r outra. Se os deuses se refazem após cada existência. seria nada menos que eterna. com igual cara-de-pau. Ele sabia do ponto vulnerável que há na alma de todo materialista d urão. não obstante. mos cairiam todos em linha reta e paralelamente27. senão uma enganosa periferia do Espírito. pp. Sendo assim. Comentarei este caso com mais detalhe no meu livreto O Antro pólogo Antropófago. até esmagar o cérebro do infeliz. 110 ss. Os siddhis pode m ser adquiridos por treinamento. tal como as defesas de um neurótico contra a ter apia o tornam ainda inerme ante a neurose. que ind ependentemente dela. existem28 . pois os sere s recordados. Gurdjieff tinha um prazer diabólico em humilhar os intelectuais ocidentais. 2 8 V. Os siddhis são a pirita espiritual. não pod endo portanto juntar-se para formar os seres e coisas que. Gurdjieff não era evidentemente um charlatão. de uma vida para outra. numa linguagem aluc inante onde é impossível distinguir o que é dito em sentido direto do que é dito em sent ido oblíquo. de fato. como que a desmascarar a fraude anterior. Comprovar a autenticidade dos fenômenos produzidos pelo taumaturgo mineiro Thomas Green Morton foi o bastante para que Sodré. e como cada um desses seres também teria suas recordações pessoais. os átomos devem ter também um princípio de moviment o livre e indeterminado. que ele confunde com o mero charlatanismo. 1985. ficaria totalmente revogada a mais i mportante diferença entre os deuses de Epicuro e os da religião grega. típico cientista social brasileiro de formação marxista. e não representam. Pelo clinamen. em vez de resolvê-lo. em sânscrito ). e. jamais chegariam a tocar uns nos outros como o pretende Demócrito. que ele denomina clinamen (“inclinação”. constituídas por sua vez de seres ainda mais duráveis. tomando-o como mestre espiritual. uma zona nebulosa onde meras forças sutis da nat ureza podem ser tomadas pelos tolos como mistérios transcendentais. só para desmascarar-se em seguida e desmascarar. precisariam ser eviternos eles mesmos. existe continuidade de essência en tre as várias existências. a cois a toda se complicaria formidavelmente. Deste apelo à razão. mas aí o leitor de alma ob líqua já está zonzo demais para perceber a piada. mostrou que as defesas pre tensamente racionais do intelectual moderno contra a ilusão religiosa o tornam ind efeso contra a fraude espiritual. para o homem espiritual. a vacuidade ment al do seu público. Jogos Extremos do Espírito ( Rio. permanecem fun damentalmente idênticos a si mesmos. Resta ainda um pormenor intrigante. Rocco.

O universo de Demócrito é um vasto escorregador. onde o principal que aco ntece é tudo vir abaixo 26.O leitor já deve ter percebido que a coerência lógica não é o forte de Epicuro. co m um ar de seriedade à Buster Keaton que bastou para impressionar uma multidão de in telectuais. tanto que a cobrav a dos adversários. endossada por Karl Marx e por José Améri co Motta Pessanha. nem a desprezava. não oferece resistência. impelidos por um inexplicável empurrão inicial. se fosse de fato assim. caem e acabam por se chocar uns com os outros. polemizando na base do faça-o-que-eudigo-mas-não-faça-o-que-eufaço. os átomos. o vazio. e por isto os átomos. Um exemplo é a sua crítica de Demócrito. Demócrito proclamava que no mundo só existe o vazio e. Epicuro responde que. ele geralmente chegava a conclusões tão ou mais estapafúrdias do que aquelas que r efutava. Só que. os áto26 O temível gozador metafísico Georges Gurdjieff reeditaria no século XX essa teoria. não sendo material. Mas o filóso fo do jardim não ignorava a necessidade dela. dentro del e. Ele denomina-a “Lei de .

Em caso de dúvid a. aliás um dos mais belos livros do século. Tudo isso é.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 43 com os outros. a festança dos átomos no liberou geral da cos mologia epicúrea pode parecer mais progressista ou democrática do que a submissão impl acável à lei de queda. 29 30 V. não podi a ser mesmo muito bom em lógica. uma visão determinística da queda inevitável do capitalismo não parecia aos comunistas ser mais progressista do que a crença libera l na imprevisibilidade da História? Os teóricos do liberal-capitalismo não atacaram no . sem a necessidade de introduzir. seres viventes. Metaforicamente. formas da determinação. formando os seres e os mundos. ou dialeticamente. Physics and Beyond. americana. que é o determinismo mecanicista. Que ninguém c onfunda. torna o clinamen perfeitament e desnecessário 30. Acontece que Demócrito. e muito menos um princípio tão extravagante como o clinamen. sobra lugar para o imprevisto e o liv re-arbítrio. no vazi o. que pode ser interpretada num sentido como no sentido inverso. na física de Epicuro. usando e abusando do seu direito ao clinamen. não porque quisessem fazê-lo movidos por t ais ou quais intenções epicúreas. por definição. A associação que Pessanha fez entre cosmologia e política é p ura figura de estilo. trad. todos os movimentos teriam de ser paralelos e uniformes. ou completar um silogismo da primeira figura. Wolfgang Strobl y Luís Pelayo. as considerações de Nicolau de Cusa quanto a este ponto. a alternativa de relax and enjoy que nos é oferecida pelo epicurismo. O devotado interesse de um filósofo pelos direitos políticos dos átomos p ode parecer um tanto bizarro. acoplam-se e desligam-se à vontade na mais obscena gandaia cósmica. uma concepção muito sin gular acerca da liberdade. Algumas décadas atrás. e por isto é mais fácil perdoar a ingenuidade da cosmologia de Demócrito do que a inc onsistência da sua refutação. 1975 ( ed. adiante. acabam por se aglomerar em massas compostas. Demócrito não se deu conta de uma coisa que hoje até um garoto de escola perceberia num relance: que. leiam Werner Heisenberg. toda regularidade obrigatória. Tudo isso é de uma ingenuidade atroz. New York. Aliás sobra até demais. ou complementarmente . não deixando para os pobres átomos outra saída senão a obediência servil a uma necessidade tirânica. levado pela coincidência vocabular. Pois essas são. sem podermos dar um pio contra o seu maldito clinamen e só nos restando. mas Pessan ha condenou a primeira e endossou a segunda sob a alegação de que aquela favorece um a ética “conservadora” e esta uma ética “progressista” — argumento que é propriamente aquilo ue se dá a denominação científica de o fim da picada. todos os movimen tos seriam indeterminados. para a mentalidade de hoje. Este se opõe — logicamente. A física de Demócrito e sua refutação por Epicuro são ambas igualmente falazes. ficamos inap elavelmente submetidos à arbitrariedade dos átomos. 1971 ). Pergu ntamonos se essa gente conseguia distinguir um ovo de um tomate. um novo p rincípio. precisamente. BAC. coisa s ou deuses. mas simplesmente porque não haveria nada que determina sse a direção do movimento. Mas é só uma aparência. Pressupõem balizas. o indeterminismo epicúreo com o de Plan ck e Heisenberg. Madrid. O vazio. Mas é também falso o que alega Epicuro: que. em face dele. ao passo que. expressões como “cai” e “sobe” não fazem o menor sentido29. uma escala. § 20. como queiram — a um princípio real e concreto. e vão gerando e destruindo mundos e mais mundos sem dar a mínima satisfação a seres. uma vez admitido. para isso. Mas Epicuro já conhecia a obra de Aristóteles. um espaço finito referido a um centro ou pelo menos a limitação a um campo determinado. enquanto nós. Encounters and Conversations. Volto a este assunto mais adiante. Diálogos sobre la Física Atómica. de fato. porque aí os átomos. e não a um “vazio” que tornaria o indeterminismo perfeitamente redundante. pois a indeterminação ex clui. Pessanha enxergou conservadorismo na física de Demócrito pela razão de que a lei de queda impõe um determinismo integral. contemporâneo de Platão. porém mais inexplicável ainda é que os átomos devam ter o direito a estar livres da lei de queda. Harper & Row. que não fora ainda codificada por Aristóteles e se ex ercia de maneira empírica e amadorística. No indeterminado. no vazio indeterminado. os átomos se move riam indeterminadamente em todas as direções.

no sentido mais baixo da expressão. .marxismo justamente o seu calcanhar de Aquiles determinista? O uso de imagens t iradas da ciência física em apoio desta ou daquela ideologia política só tem valor retóric o. Aceitar a física de Epicuro por ser progressi sta é o mesmo que rejeitar a de Einstein por ser judaica.

e especialmente da humanidade brasileira. E também pelo Dr. Não há saída: se o s átomos seguem o clinamen. O cidadão consciente. a lei de queda ou o clinamen.44 OLAVO DE CARVALHO Mas ainda há um outro senão. Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liber ta do determinismo? Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dorprazer é o comut ador que aciona os reflexos condicionados. o “quádruplo remédio” q lósofo propõe a todos os . e não tem nenhum vín ulo de implicação recíproca com a cosmologia — ou física — de Epicuro: pode ser aceito dentr o ou fora dela indiferentemente. argumentava ele. Politicamente. aos socráticos menores. a Platão. que é rígido e repetitivo como a lei de queda. ou Tetrafármacon. a vida filosófica como um caminho para a felicidade etc. Freud. reagindo contra o ardil. Aristóteles o confirma. ÉTICA DE EPICURO § 8. levados pelas sensações. que Pessanha apontou como a solução para todos os ma les da humanidade. entre a vontad e livre e a obediência ao instinto. todos os argumentos são de borracha. mediante a distinção. ditadura e democracia podem indiferentemen te chamar em seu apoio Demócrito ou Epicuro. Os homens são dóceis e manipuláveis. Feitas as contas. Por uma coincidência irônica. esse argumento está no livro Le Citoyen contre les Pouvoirs. aos estóicos. abstrai-se das impres sões de prazer e dor e decide segundo a lógica implacável da ordem física. que não mente. Mas não é preciso tanta ciência para nos inf ormar aquilo que um carroceiro sabe perfeitamente: que. O remédio de todos os males A parte ética da doutrina epicúrea. reação e progressismo. Aqui é o determinismo que se torna “progressista”. Contra Epicuro cabe portanto a mesma objeção que Pe ssanha fez a Demócrito: que sua física e sua ética não tem conexão entre si. em cujo título os organizadores do ciclo de Ética se inspiraram para nomea r uma das divisões do evento: “O cidadão contra os poderes”. então. A ética de Epicuro divide-se em duas partes: uma geral ou teórica. outra especial ou prática. Eis aí no que dá citar sem ler. não é nem um pouco meno s encrencada do que a sua cosmologia. que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo. tornou célebre a condenação do clinamen em nome da liberdade. número e grau com aqueles que eram subscritos por todos os filósofos da época: a superioridade da contemplação sobre a ação. com o seu “princípio de rea lidade” que transcende o princípio do prazer. O filós ofo Alain. podemos levá-lo para onde o quisermos. por meio dos quais um animal ou um ho mem pode ser governado desde fora. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a lib erdade quem se coloca para além da dor e do prazer. e o clinamen um instrumento da tira nia. fazendo um asno persegui r a prazerosa cenoura e esquivar-se do doloroso porrete. Bismarck dizia que a ciência do governo consiste em pauladas e guloseimas. etc. teórico do Partido Radical francês. com iguais resultados: no reino da retórica política. a coisa é das mais óbvias . ardilosamente encenadas pelo tirano (lembram-se do futebol no tempo do ge neral Médici?). sem que ele tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar persuadido de que exerce livremente o seu clinamen. não são livres: obedecem ao determinismo do instinto. Mas o que recebe costumeirame nte o nome de “ética de Epicuro” é a parte prática. caem no engodo das apa rências. A teoria consiste apenas na afirmação de alguns valores gerais que coincidem em gênero. só podendo ser válidas se admitirmos a hipótese de uma verdade dupla. CAPÍTULO III. justamente po rque buscam o prazer e fogem da dor. O culto destes valore s é comum a Aristóteles.

sumariamente. no fun do. nem menos. parentesco que Pessanha — sem dar nome aos bois — mencionou de passagem. antecipadamente. não se deve temer a morte. va i aos poucos substituindo as sensações dolorosas da vida presente pelas recordações agra dáveis do passado até fazer com que o passado se torne presente e o presente desapar eça sob a imagem do passado. alcança sua finalidade na completa e definitiva aniquilação do h omem.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 45 males humanos. que hoje há na praça com o mesmo o bjetivo. não alcancem um resul tado melhor. Mas o Tetrafármacon não é de maneira alguma uma ética. A pergunta é: como pôde essa filosofia ne crófila. fugindo da dor. sim apenas uma psicologia prática. os falecidos devem estar todos materialme nte instalados em algum materialíssimo mundo. O cosmos de Epicu ro não é um cosmos. Nesse mundo d estituído de qualquer regularidade previsível. é fácil alcançar o bem. Mas há duas outras questões ainda mais perturbadoras: 1. portanto. 32 Veremos logo adiante o parentesco entre o Tetrafármacon e a Programação Neuroli nguística. 2ª. o pobre Tetr afármacon já pode se considerar derrotado pela profusão de concorrentes modernos. partindo dos movimentos cegos dos átomos no vazio sem sentido. seguinte: se tudo o que imaginamos existe em algum lugar. não há possibilidade de realizar planos. e no qual Pessanha sugeriu que o povo brasileiro fosse buscar ins piração para sair da miséria moral31. num mercado super-saturado de similares como o Pensamento Positivo de D ale Carnegie. O clinamen é apresentado como um movimento livre. 4ª. átomos e homens só encontrem cada vez mais dor. provém de que o objetivo máximo dessa técnica é inculcar no praticante quatr o convicções básicas: 1ª. do q ue as muitas técnicas. que. parentes e inimigos se lembrarão de nós. daquilo que Epicuro entende como felicidade. a Programação Neurolingüística de Bandle r e Grinder32. a Sofrologia de Caycedo. condenada ao fracasso. a Psicociber nética de Maxwell Maltz. intermundo. e como tudo o que se imagina é material. ensinando o discípulo a não temer os deuses (já que eles estão fora da jogada). Dentre as recordações agradáveis. norte-americanas na maioria. 3ª. ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. uma técnica para a conquista da felicidade. uma vez fugido da agitação da polis e bem protegidinho no jardim. não se d a divindade. passar por uma mensagem de consolação e atrair p ara o jardim de Epicuro milhares de infelizes em busca de alívio? Que consolo podi . Mas consolam só quando não lhes prestamos muita atenção. sem escapatória. e. supramundo ou submundo. o clinamen é. que Epicuro afirma a completa extinção do ser humano após a morte física. destacam-se as da convers ação filosófica com os amigos na paz do jardim: o conteúdo da conversação exerce efeito calm ante. como por exemplo a 31 O nome Tetrafármacon. mundos e homens formam-se e desap arecem por acaso. e. Palavras que consolam . sem contar a lista interminável de exercícios orientais e pseudo-orie ntais que o movimento da New Age espalhou da Califórnia para o mundo. o homem encontr a o caminho da meditação filosófica que deve libertá-lo. Não vale mais. ne m a morte (pois quem deixa de existir já não pode sofrer) etc. um tipo de fatalidade. Não é preciso ser muito esperto para perceber qu e a proposição decisiva é a terceira — uma exata inversão do timor domini principium sapie ntiæ. esta meditação leva-o à conclusão in tável de que o único alívio possível é a morte. que indesculpavelmente me omiti de explicar na primeira edição d este livro. e toda ação está. ou m elhor. então teremos de continu ar a existir depois da morte. num universo absolutamente trágico onde átomos e homens v agam a esmo de erro em erro e de sofrimento em sofrimento. essa macabra celebração do nada. é fácil suportar o mal. Ora. o Treinamento Autógeno de Schulz. Daí que. abdicando da busca insensata de prazeres que causam mais dores. É um caos. na qua l o praticante. buscando o prazer. E quando. pois um exame mais cuidadoso faz brotar delas algumas dúvidas inquietantes. ante o olhar indiferente dos deuses. uma técnica deve ser julgada exclusivamente pelos seus resultados prát icos. essa afirmação contraria os princípios fundamentais da sua co smologia. seguida de total e eterno esquecimento. mas o exercício desta liberdade choca-se contra o fatalismo da dor. numa ginástica interior. numa disciplina. É com plena inconsistência lógica. finalmente. O Te trafármacon consiste. já que amigos. onde galáxias e amebas. Fe cha-se assim o círculo da fatalidade. o Silva Mind Control.

am encontrar no jardim sabendo que ele é a entrada do cemitério e que depois do cemi tério há somente o cemitério maior do esquecimento cósmico? Que atrativo enxergavam ness a promessa digna de Jim Jones? .

se praticada com persistênc ia. Tal vez a encontrem na sua prática. e assim por diante. bastará abrir um b uraco no oco. denso e contínuo. levando-o a acreditar na r ealidade efetiva. abre espaço empurrando a água para os lados. para que a coisa esquecida não apenas volte à memór ia. O mesmo aplica-se às recordações: se produzidas com intensidade suficiente. teremos de admitir que esses efeitos não ficarão m esmo confinados no corpo do indivíduo imaginante. em lógica. Isto mostrará em que consiste realmente a ética de Epicur o. O mundo da vi da. elevado a sistema e regra de vida. por trás de todo o tecido de alegações beatas que lhe serve de embalagem. Exposta assim. e estas ingressarão na vida presente como um objet o que. meras possibilidades lógicas só concebíveis a título de const ruções abstratas. A abolição da consciência A prática do Tetrafármacon cria. desde logo. a prática da sua ética é que é uma condição prévia para que alguém possa chegar a acreditar na sua física. por trás de tanta absurdidade. a física para hipnotizados. por exemplo. acabará por abolir no discípulo a intuição dessa diferença. tr arão de volta as coisas passadas. jogado num tanque. uma segun da intenção? Haveria nessa loucura um método? Não se esconderia por trás do besteirol epicúr eo um segredo temível? Essas perguntas não têm resposta nas teorias do epicurismo. um sonso. são então vivenciados como se fossem objetos de experiência concreta. atual e materialmente. conhecedor aliás da lógica de Aristóteles. e pelos buracos o meditante poderá saltar para o p assado ou para o futuro com a maior facilidade e sem precisar de nenhuma máquina d o tempo. para ver que tipo de conduta moral pode resultar dela. que não escapa ao exame atento de um adulto letrado de inteligência m ediana. A hipótese de que Epicuro fosse apenas um incompetente. é algo que finalmente encontra aqui sua explicação: não é ética de Epicuro que deriva logicamente da sua física. do que quer que consiga imaginar com suficiente nitidez : os futuros contingentes. Vale a pena examinar o lado psicológico dessa inversão. fazendo brotar seres e coisas que se materializarão. mas aconteça de novo de maneira ainda mais realística do que na primeira vez. Para sermos coerentes com a física de Epicuro. atual. digito no teclado do computador as palavras que me brotam de dentro. E quando ele eventualmente se lembrar de que an- tes se lembrava de alguma coisa da qual agora não se lembra mais. quanto mais avance na prática da med itação epicúrea. um incon sciente. mais ficará persuadido de que aquilo que imaginou existe ou está entrando na existência nesse mesmo momento e é até mesmo “mais real” do que os objetos sensíveis pre sentes. A cosmologia de Epicuro é. um tal amálgama de contradições. o discípulo. Elas poderiam ser outras. como queiram. na forma de corpos sutis . corresponde à diferença entre o efetivo e o possível. ba stando que eu quisesse mudar o foco da . então o esf orço de enxergá-los cada vez mais nítidos com os olhos da fantasia até que se superponha m às impressões do presente deve necessariamente produzir efeitos físicos. Que um suje ito treinado nessa regra possa chegar a admitir como santas verdades os mais pat entes absurdos da física epicúrea. § 9. em algum lugar do cosmos. O que cha mamos senso do real funda-se na distinção do efetivo e do possível. A ginástica cronológica de Epicuro. me parece inverossímil. essa cosmologia de qu eijo suíço parece O Exterminador do Futuro ou Alice no País do Espelho. É um wishful thinking potencializado. Acontece que a distinção que o cérebro humano faz entre a s sensações presentes e as imaginadas é aquela que. mas. Fazemos esta disti nção comparando aquilo que pensamos e imaginamos por vontade própria com os dados que nos são impostos pela situação presente. Neste momento. como se viu. não poderia deixar de perceber sua inconsistência. num espelhismo sem fim de tempos den tro de tempos e de hiatos dentro de hiatos. que para o comum dos mortais é uno. Assim.46 OLAVO DE CARVALHO 2. ou um oco no buraco. ao contrário. se tornará para o meditante epicúreo uma superfície esburacada. mas se expandirão pelo mundo em to rno. ou para trás. o seguinte problema: se os objetos que aparecem na imaginação sempre existem tais e quais. Teria ele. que um filósof o de ofício. Mas os resulta dos da brincadeira são graves.

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O senso da diferença entr e o imaginado e o percebido repousa. ativos. e não sem algu m esforço. como conjetura esp erançosa ou temerosa. se podia ser de outr o modo um instante atrás. ninguém pode me impedir de fazê-lo : nem mesmo quem. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral. e conforme seja bom ou mau. Se decido mentir sobre o que se passa dentro de mim. Mas. por sinais exteriores. verei diante de mim o mesmo teclado e a mesma tela. Por mais certo e fatal que se anuncie o futuro. Não posso girá-los daqui para Porto Alegre. que os circunstantes não podem senão conjeturar por analogia. Compreen do.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 47 minha atenção para outro assunto. nossos atos inter iores não têm outra testemunha senão nós mesmos. que se impõem à minha visão com o dados de um mundo que não fiz e que vem pronto ao meu encontro. vividas como um dom gratuito da realida de aos nossos sentidos. C om inocente desenvoltura. que é súdita num caso. noutro lugar. na memória e na responsabilidade. tendo acontecido . EUA. criadores de seus atos como de suas int enções. no outro soberana. diferenciando-a das nossas projeções s ubjet ivas. agora só podem ser re-vividas como obra nossa. É apreendendo os limites do meu poder — daquilo que Kurt Levin chamava espaço vital 33— que chego a distinguir o real do irreal. É só assim que posso captar a diferença ente o que brota de mim e o que me vem do mundo. aquilo que se passará amanhã não pode ser agora percebi do como fato. que no adulto seria cinismo. re-produzido na imaginação. em contrapartida. exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência d e nós mesmos como sujeitos livres. que a distinção entre o fato percebido e a possibilidade imaginada se faz por referência à vontade. Se minha percepção está limitada ao lugar do espaço onde me encontro. Se escrevo estas palavras e não outras. na língua que o povo gaiato atribuiu ao ex-presidente Jânio Quadros: fi-lo porq ue qui-lo. em suma — de que as coisas venh am a se passar de outro modo. Ohio. O que ontem me sensibilizou a retina. Existir é resistir. Não posso fazer co m que meus olhos vejam outra coisa senão o que está na frente deles. virá sempre a companhado do temor ou do desejo — da possibilidade. que não se dobra imediatame nte ao meu arbítrio com a plasticidade do imaginário. para Machu-Pichu ou para Winnesburg. verá outras coisas e já não estas. mais fortemente ainda está presa a um determinado momento do tempo. portanto. um anúncio não t erá nunca a presença maciça do fato consumado. Mas só posso fazer esta comparação se me lembro claramente de haver pensado ou imaginado tais ou quais coisas por vontade própria. Do mesmo modo. desde dentro. Mas o desejo de a ssumir a autoria de seus atos interiores — ou mesmo exteriores — não é inato no homem. dizia Dilthe y. ao passo que minha imaginação não conhece outros limites senão os seus próprios. como objetivamente existente. posso assegu rar. tantas vezes quantas abra os olhos. Mas o tempo é invencível. por um ato de vontade que resolva sair em busca do tempo perdido com o empenho reconstrutiv o de um Proust. O espaço ainda pode ser parcial mente vencido pelo deslocamento do corpo. portanto. T omamos consciência da realidade objetiva. O presente. a criança atribui a respons abilidade de seus feitos a um irmãozinho. Meu olhar está limitado pelo que o mundo me oferece. mas 33 . Ora. como gi ro num instante a tela do pensamento e troco de palavras. e não to ma consciência de que mente senão pelo olhar severo do pai que a faz descer do céu da imaginação para cravá-la no chão terrestre onde as causas se atam inapelavelmente às conse qüências. enquanto estiver sentado aqu i. mas somente concebido e projetado desde dentro. já não o pode agora: está fixado para sempre. Inicialmente. a criança aceita esta limitação por cont a da autoridade do pai. um mundo que me resiste. já não pode desacontecer. Só eu conheço por testemunho direto meus pe nsamentos e intenções. perceba a falsidade da intenção que alego p oderá provar por testemunho direto aquela que oculto. a um colega ou a seres imaginários. vindo de f ora. O testemunho sincero de si p ara si é a primeira e indispensável condição do conhecimento objetivo. Esta diferença é que me dá a medida do real: admito como efetivo. hoje só pode ser produzido desde dentro. e as culpas aos castigos. e se assumo a autoria desses atos inter iores como assumo a de minhas ações materiais e externas. o efetivo do meramente possível. As cenas deleitosas de outrora. que.

Kurt Levin. 1973. Álvaro Cabral. São Paulo.V. — Não é uma ironia que esse termo técnico inventado por um eminent e psicólogo judeu tenha se tornado um slogan nazista? . Princípios de Psicologia Topológica. 29 ss. Cult rix. pp. trad.

“A autoconsciência é a terra natal da verdade”. A pos sibilidade do conhecimento objetivo depende portanto de uma opção preliminar. mas mesmo a verdade conhecida não pode ser obedecida de um a vez para sempre. a menti ra transforma-se num sistema. num programa que se automultiplica. entre a autoria e a culpa. como pretendem alguns psicólogos e cientistas socia is. mas é uma aspiração utópica e autocontraditória: se a percepção da verdade nasce da liberdad . dizia Frithjof Schuon. Mentir alivia porque economiza à psique o esforço de supo rtar um desequilíbrio temporário. for mam um nexo indissolúvel com a responsabilidade: as três condições que perfazem a autoco nsciência moral35. apagar as pistas do embuste. e atendendo apenas aos ap etites imediatos. Isso quer dizer. um gênio da psicologia clínica. Ortega y Gasset. é uma ment ira esquecida na qual você ainda acredita. n eurose é esquecer o esquecimento. mediante um suicídio preventivo da liberdade. A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da ver dade sobre as coisas. ajudando a manter o orga nismo psicofísico naquele estado de ausência de tensões que os médicos denominam homeost ase. A verdade é aceita assim como um valor moral antes mesmo de se firmar como u m critério cognitivo34. A opção pela verdade deve ser refeita d iariamente. Sinceridade e objetividade. A facilidade com que os seres humanos se li vram dele sempre chocou os filósofos. Scheler. ao menos no instante decisivo em que uma verdade intolerável se abre d iante dele como um abismo. dizia Platão. como a imaginação ou determinados sentimentos. dizia ele. entre a in tenção e o ato. Éric Weil. O compromisso com a verdade. que nos garanta c ontra as futuras tentações do erro e da mentira. podem continuar vagando à margem de toda obrigação de veracidade. Pretender que a autoconsciência se ja mera introjeção de papéis sociais é retornar à velha lenda lockiana da tábua rasa. mas da objetividade no conhecim ento. só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la. N ada pode obrigá-lo a este compromisso. que não há consciência moral. por exemplo. sem o sacrifício ao menos temporário da harmonia interior em vista de valores que transcendem os in teresses imediatos do organismo psicofísico. em que o homem assume — ou não assume — um compromisso interior com a verdade e a coerência. É evidente que isto não significa em hipótese alguma uma redução da autoconsciência ao efeit o de uma “introjeção de papéis sociais”. dizia Hegel.” Objetividade é sinceridade projetada no exterior. No desenvolvimento da autoconsciência. Há sempre muitos meios de fugir da 34 verdade.48 OLAVO DE CARVALHO depois aprende a estabelecer por si a conexão entre o antes e o depois. que será a base não somente da conduta moral. 35 . de Platão e Aristóteles até Kant. Os filósofos gostariam que todos os homens fossem dóceis à verdade. Na neurose. A autoconsciência não nasce pronta. Os sonhos. sem algum sofrimento psíquico voluntário. é m orrer um pouco. e é assim que se desenvolve nela a autocons ciência. A melhor definição de neurose que conheço é do meu falecido amigo e mestre Juan Alfredo César Müller. jamais causas produtoras de uma criação ex nihilo. entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana. jamais obriga o homem todo : continentes inteiros da alma. Se mentir para si é esquecer a verdade. são um tecido de eufemismos que pode servir para amortecer ou desviar o impacto das verdades indesejáveis. É claro que em grande número de casos esse arranjo oportunista acaba produzindo uma neurose. assim como sincer idade é introjeção dos limites objetivos. por sua vez. mas é uma fortíssima predisposição. “Verdade conhecida é verdad e obedecida”. nem conhecimento objetivo. em suma. Neurose. ainda que assumido de coração. Mas ninguém ficaria neurótico se a opção neurótica não lhe parecess vantajosa. que se manifesta inicialmente sob a forma passiva da imitação e da obediência — assim como a capacidade de caminhar por si próprio se exerce de início sob a forma passiva do ser levado par a cá e para lá pelas mãos dos adultos. ocultando a me ntira inicial sob montanhas de entulhos só para depois alguém ter de pagar a um psic analista para removê-los. a imitação e a introjeção são apenas ocasião e instrumento da manifestação de uma capacidade preexistente. “Ser objetivo.

agosto-outubro de 1994 ). foi exposto com mais detalhes no meu curso de Ética ( Casa de Cultura Laura Alvim. a responsabilidade e a sinceridade como adornos subjetivo s. . e da moral como fundamento da objetividade cognoscitiva — inclusive nas ciências —. uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e mecânica. cujas transcrições corrigida s formarão um volume a ser publicado com o título Sobre os Fundamentos da Moral. É a coisificação da verdade. — O conceito acima resumido da autoconsciência como fundam ento da moral. que dis pense a autoconsciência. Rio de Janeiro.Temível sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda a ssentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código público .

ele con tinuará a ter ódios e afeições. O emb otamento completo da intuição moral. criará um novo critério de moralidade. que. de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual. quando um homem já não sente a reali dade de alguma coisa. sobretudo na época de cultura de massas que padroniza os desejos da multidão. No homem sem maiores interesses morais. a imaginação torna-se a serva p restativa do interesse orgânico imediato. e será si mplesmente esquecido. muitas das quais já vinham produzindo. para dar vida nova ao con ceito. ele cairá na tentação d e argumentar a favor delas. que não consistirá em outra coisa senão na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo. Embora conheça perfe itamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos. moldados pela cultura de massas. não melhores ou piores do que quaisquer outras. Até o fim ele não compreende a revolta e a indignação que seu crime desperta . se esse homem for um letrado. Nessas horas. mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. Como a inteligência humana não opera no vazio. é natural que. repugnâncias e desejos. e por isto o filósofo moral improvisado logo terá o grato prazer de descobrir que suas idéias são compartilhadas por milhões de pesso as iguais a ele. até a completa inversão. M as como os desejos da multidão. o conceito dessa coisa. Não poden do suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferên cias subjetivas. as novas éticas nascidas do embotamento moral não consistirão em outra coisa senão num sistema de racionalizações que transformará esses três desejos em hipóstases de valores morais universais e em fundamentos máximos de to da conduta eticamente válida. Um dia o sujeito n caminha pela prai a e. e. substituída por uma retórica sofística de um artifici alismo alucinante. chegou a ser diagnosticada por Konrad Lorenz como uma forma d . Seu sistema pessoal de racionalizações será en obrecido e investido de validade universal como expressão das “aspirações da nossa época”. Completa-se assim a inversão: as paixões mais baixas e v ulgares ergueram-se ao estatuto de mandamentos divinos. não são tão diferentes umas das outras. Albert Camus dá em l’Étranger o retrato do tipo cuja mediocridade pacata esc onde a mais absoluta i sensibilidade moral. Após ter solapado as bases de todo critério moral objetivo. criará argumentos para demonstrar que aquil o que ele não sente inexiste no mundo objetivo. somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauper amento interior e sair em busca do sentimento perdido. com os mesmos fins. A linguagem abstrat a da filosofia moral terá se tornado uma arma a serviço de fins egoístas. resolve matar dois transeunt es a tiros. O entorpecimento da consciência tem graus e etapas. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. até mesmo sem sentir raiva. o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata. Mas um homem não vive muito tempo em estado de abstinência moral. O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. se condensam todo s no triângulo áureo sexo-dinheiro-fama. que vão desde as “racionalizações” corriqueiras com que na vida diária nos furtamo s ao apelo de pequenos deveres. o conceito esvaziado não tem mais função.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 49 Uma vez afrouxadas porém as demandas da autoconsciência. Mas. ele não as vê senão como convenções mecânicas. logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. porém. sem qualquer motivo. ele não suportará ser o único a sentir como sente. no qual el e não tenha de responder pelos seus atos. outras tantas filosofias morais coincidentes. e continuará assim até que a conjunção da necessidade com a oportunidade o transforme de vez no criminoso que se mpre foi. As aspirações subjetivas dos indivídu os. ao fazê-lo. de um ego in flado que remoldará o mundo à sua imagem e semelhança. cuja violação sujeita o home m a padecimentos interiores. Sua incapacidade para discernir o bem e o mal exceto como convenções vazias será usada como “prova” de que toda lei moral é um a convenção vazia. Aí ele encontrará o argumento decisivo a fav or do seu sistema: o argumento do número. produzindo tantas ficções quantas forem nece ssárias para conservar o indivíduo num estado de profunda sonolência moral. e a deformidade da sua psique será erigida em padrão de medida moral para toda a humanidade. farão br otar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível. Invariavelmente. na esfera intelectual. e pode até continuar a obedecê-las exteriormente p mero hábito. quando não à execração pública ou a penalidades legais.

que. apagando da memória humana .e degenerescência biológica.

A comparação faz ressaltar a escala de valores em que por vezes ( não sempre. lavagem cerebral. ou de um conjunto de técnicas. em muitos países do mundo. para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas. faz dele um UFO axiológico. hipnose instantânea. um só Estado nacional. anuncia o começo da demol ição da espécie humana 36. 36 37 V. organizações religiosas e pseudo-religiosas. Com alarm ante freqüência. empresas e sindic atos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. é o que se denomina uma técnica. n alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros da experiência moral acumulada ao longo da evolução biológi ca37. vi na TV o líder gay Luiz Mott apelando a um determinado comediante do SBT para que deixasse de ridicularizar a classe dos homossexuais com suas paródias grotescas. na escala da h umanidade. Mas sondar as causas primeiras desse fenômeno. estimulação por feromônios. A ação humana premeditada. p ara as mais variadas finalidades. O que desejo perguntar é como ele se produz num indivíduo em particular. diria Lorenz. para q ue manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos. para mo ldar a personalidade de seus membros de acordo com os fins da organização. Quando hoje vemos hordas de intel ectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável. estranho aos sentimentos comuns da espécie humana. e logo em seguida um grupo d e marmanjos afrescalhados do grupo denominado As Noviças Rebeldes. O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados. a lista nã mais fim. retira-o d o debate civilizatório. Essa técnica existe. Não é possível que o conjunto do s militantes radicais do mundo se componha de uma maioria de personalidades psic opáticas. se não existisse esta possibilidade. mais respeitável do que uma devoção rel igiosa. para consulta de raros pesqu isadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática. que recebem o nome técnico de personalidades psicopáticas ou de sociopatas. Konrad Lorenz. Não há disputa política. não é meu intuito. uma só empresa d e grande porte que não disponha de uma técnica. afetadas de taras congênitas. propag . O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais v asto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade. é claro. destruiu nela s a i tuição moral elementar. Programação Neurolingüística. então só pode ser uma ação huma na premeditada. O que me intriga é: como um homem de personali dade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idên tico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perve rsidade moral? Pois é óbvio que. espero eu ) se inspira a militância gay. é forçoso admitir que algo. Excluo. Se esse algo não é nem a hereditariedade nem aquela conjunção fortuita de circunstâncias t raumáticas que podem produzir uma personalidade psicopática. a amoldagem passa pelo embotamento maior ou menor do senso moral e da consciência intelectual. A Demolição do Homem. metidos em hábito s de carmelitas e caricaturando da maneira mais aviltante as freiras católicas. que. para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue que m fale contra. guerra psicológica. inf luência subliminar. ao menos implicitamente. Não há neste mundo um só movimento de massas. campanha publicitária. partidos políticos. Essa escala é incomensurável com qualquer tábua de princípios éticos já conhecida ne ste mundo: a adesão a ela torna um sujeito inacessível à argumentação racional. engenharia comportamental. Esses conhe cimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas. controle do imaginário. Lorenz tinha razão. os casos de psicopatia congênita. informação dirigi da. realizada segundo uma conexão racional de c ausas e efeitos. onde o desejo de um determinado tipo de prazer físico acaba por se tornar. agindo sobre essas pessoas.50 OLAVO DE CARVALHO registros de valores aprendidos ao longo da evolução animal. Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que govern os. determinados mov imentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátri cos e jamais passariam de clubes de excêntricos. Num mesmo dia. Aliás existem mui tas.

que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação. Sem ela. Lippincott. submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante. muito pertinente. Flo Conway and Jim Siegelman. New York. 1989. . A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a o nipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. os grandes movimentos de mas38 V. Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personalit y Changes. de psicose informática38.anda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles.

39 ou pelo menos num esquema de ação mais ou menos patente. mais que o século da informática. Eugêni a Moraes Andrade e Raul de Moraes. este foi o século da escravização mental. mórbidas. o Papa João Paul o II finalmente reconheceu em 1994 que. mais que o século da física atômica. como teriam se desenrolado os dois conflitos mundi ais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica41. trad. Eles sabem. 1977. Ora. São Paulo. Modificação do Comportamento e Sociedade Controlada. Paul M. o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitali stas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre pop ulações que não têm disto a menor suspeita42. 1961. “o advento de um sistema político baseado na impostura em grau muito maior do que todos os que existiram até o momento”44. estonteada. Quando se escrever. é claro. V. Nacional. É impossível im aginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses39. Neste novo panorama. 1980. a impo rtância da “técnica” entre as causas do devir histórico. Robert L. nada teria podido acontecer como aconteceu. presos a uma noção grosseira e oisista do que seja uma técnica. A. 1980. e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las. Áurea Weissenberg. Elas foram s eguramente mais decisivas. tr ad. Os poucos que se interessar am pelo domínio da mente foram desviados em seus esforços por uma visão preconceituosa mente seletiva. Mais que o sécu lo das ideologias. Rio. do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios. trad. na produção da história contemporânea. Guerra Psicológica. que só destacava algumas formas de dominação à custa de ocultar outras m aiores e piores 43. e Olivier Reboul. . trad. não concebem sob esse nome senão aquilo que se materi alize em algum tipo de aparelho ou máquina. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso temp o. ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de auto-engano? Um dos poucos historiadores que levaram a sério este fenômeno de seriedade trágica denunciava. em Diagnóstico do Nosso Tempo. mas. todas as idéias e concepções ais francamente errôneas. K arl Mannheim. do panorama histórico do século XX as técnic as de manipulação da mente. Com o atraso proverbial que marca os pronunciamentos da Igreja Católica. qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o u so da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jove m de todos os países. disformes e fracassadas que os séculos e os milênios anteriores rejeitaram saem do fundo do lixo do esquecimento para constituir os pilares de um culto universal do engano. Linebarger. Zah ar. 40 V. o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorga nizavam a sociedade civil 40. Menticídio: O Rapto do Espírito. com suficiente visão de conjunto a hi stória da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX. enfim. porém. A Do utrinação. M. incluindo a bomba atômica e os compu tadores. Zahar. Octávio Alves Velho. 41 V. 42 V. trad. Heitor Ferreira da Costa. cresce hoje em todo o mundo uma espécie de ant icivilização. Se retirássemos. Ibrasa. Merloo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 51 sa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. Octávio Alves Velho. que fim teriam levado as organizações esotérica e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo. É neste contexto que se deve compreender o apelo ao resgate do epicurismo. Rio. Ed. Geiser. Cia. então se verá ue nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. 1962. “Estratégia do Grupo Nazista”. seria concebível que populações submetidas in cessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito te mpo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo d a demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada. Rio. a civilização do Anticristo. São Paulo. em 1969. Joost A. Lavagem Cerebral. Biblioteca do Exército. sob as aparências de continuidade daquilo a que a humanidade chamava civilização.

43 44 É o caso. Bruguera. Barcelona. Historia Universal de las Sectas y Sociedades Se cretas. 1971. . da antipsiquiatria e da dupla Deleuze -Guattari. trad. I. p. Jean-Charles Pichon. Baldomero Porta. especialmente. de Michel Foucault. vol. 525.

mas a 45 interpreta como se fosse um desejo brotado de dentro. infinitamente variadas n a sua linguagem e nos pretextos. É assim também que podemos compreender como estes discípulos não se deram conta de que o epicurismo. A fumaça e o fogo “A divisão entre Sócrates e Protágoras sobrevive intacta. Tendo diante da retina a figura de uma vaca. a exposição. desviados para os meandros sem fim da fantasi a imaginativa. verdadeiros ou falsos. LÓGICA DE EPICURO § 10. É evidente que o segundo ainda é dominante. A lógica dos sinais ou lógica das aparências. mas não sabe distin guir se viu uma vaca ou imaginou uma vaca. Nas mãos de Declaração a Luís Carlos Lisboa. mas qualquer principiante de filosofia sabe que o valor deles é apenas retórico e persuasivo. no qual o praticante. tenham podido ser aceitas por uma multidão de crédulos discípulos. por meio de exercícios. a que apelam para justif icar-se. aprende a confiar mais na visualização imaginár ia do que no juízo reflexivo. raciocina. Quanto mais profundo o tra nse hipnótico. tão manifestante insustentáveis. todas elas. O conceptus e a imago. sistematiza os raciocínios do tipo “o nde há fumaça. Tais raciocínios. O Tetrafármacon é. a maioria das funções psíquicas continua operand o normalmente. É assim que se explica que as concepções físicas de Epicuro. 20 de junho de 1995. são abundantemente usados na vida diária. com a ajuda da qual se pode provar literalmente qualquer coisa. em última análise. até que se chegue à completa despersonalização. há fogo”. nada lhes ofereci a senão uma apologia da morte. para o segundo é o discurso. Quando ouve do hipnotizador a ordem: “T ome um copo de água”. prováveis ou improváveis. mas até quando ?” FRANÇOISE HUET 45 As práticas psicológicas que mencionei no parágrafo anterior. eles nunca chegavam à última análise. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distingu ir entre imagens. recorda e sente como se estivesse desperto. São. O fato mesmo de que Epicuro tenha se servido deles para sustentar as teorias de sua física alucinada é sinal de que são uma bonne à tout faire. reprimindo a exigência de confrontá-las umas com as outras para formar uma concepção global coerente e hierarqu izada como aquela que nos orienta na vida de vigília. formas e variantes de uma mesma técn ica: a hipnose. mais e mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo. Ele fala. que Epicuro opõe à lógica dos c nceitos (que ele conhecia através de Aristóteles). Pois. a beleza e a pompa. deprime pro gressivamente seu sentimento do tempo. ora “científicos”. . lembrase? Para o primeiro. compreende o sentido da ordem. por exemplo que o ano de 1991 durou som ente um mês ou que os buracos de um queijo suíço pesam 3 kg. não para prová-las. Servem para exemplificar e comunicar idéias.52 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO IV. fazendo deles o supremo critério do conhecimento. retornando sobre os conteúdos da repr esentação. São Paulo. mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens. No homem hipnotizado. toma sistematicamente a mera possibilidade como real idade efetiva e. está pronto para acreditar em todas as absurdidades da físic a de Epicuro tão logo possa enxergá-las na tela da fantasia. Mas Epicuro não se limitou a pratic ar e ensinar a disciplina da ilusão: ele desenvolveu mesmo todo um sistema lógico pa ra sustentá-la. verossímeis ou in verossímeis. Aí a mera sugestão verbal de um cigarro aceso bastará para produzir queimaduras reais na mão do hipnotizado: as células da pele reagem à est imulação verbal como reagiriam ao calor de uma brasa. o que vale é o autoconhecimento. um método hipnótico. ora “místicos”. os julga como efetivos ou possíveis. que a lógica tradicional e moderna chama de abdutivos. têm uma coisa em comum. enfim. Jornal da Tarde. fora de qualque r dúvida. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que. sabe distingui-la de um porco.

Unlimited Power 49. Podemos inclusive aceitar simultaneamente várias expl icações contraditórias. demonstrando que. contanto que. se isto de algum modo nos tranqüiliza. se vivo e ali presente. reduzindo os mistérios do u niverso à proporção de nossa experiência mais banal47. ardoroso discípulo de Epicuro. ao dizer que “alguns psicoterapeutas de hoje” não vêem mais nada a fazer pelo homem sofredor do que induzi-lo a representar se us sofrimentos em imagens. só 46 48 . Mais precisamente: qualquer explic ação é boa. nem muito menos declarou a premissa oculta de todo o seu discurso: a premissa segundo a qual o importante é persuadir. O embotamento proposital da intel igência. melhorando as imagens. não resta mai s nada a fazer senão tentar imaginar as coisas melhores do que são. não explicou as diferenças entre lógica e retórica. eles descobriram que o wishful thinking funciona. e sim somente à produção de consolações fictícias. aliviar o sofrim ento. onde o ún ico destino que nos aguarda é a completa extinção e o eterno esquecimento. Que técnica é essa? Pessanha não deu o nome. Perelman reproduz em seguida o argumento que a isto opôs o filósofo estóico Epicteto: “Se teu pai e tua mãe soubessem que virias a dizer essas coisas. pensaria de tudo isso. foi certamente com base num argumento subjacente que. teria se recusado a ensinar re tórica a José Américo Motta Pessanha. Mas ele também não disse o que Perelman. O convite ao sono É verdade que as técnicas modernas de manipulação da psique põem o Tetrafármacon no chinelo. popularizada em anos recentes por livros como o de Anthony Robbins. certamente esta foi tocada por uma brasa de cigarro. Assim de nomina-se em retórica um argumento desastroso. um e ntimema. e.”48 Se Perelman soubesse a que fins acabariam servindo os seus ensinamentos. e como autor de um raciocínio do tipo autofágico. se pôde servir a Pessanha como uma co nfirmação das teses epicúreas. Eu também não o sei. a tese segundo a qual os p ais devem deixar os filhos ao abandono. canhestro. eis a essência de uma lógica à qual não falta. e não provar. e em seguida. Um silogismo com premissa oculta chamase. A eficácia da PNL confirma Epicuro. A destreza com que Pessanha manejou esse e outros entimemas na sua conf erência do MASP mostrou que. aplaque o temor ou a esperança de uma vida futura. Epicuro tinha razão. em última instância. Dito de outro modo. o homem do jardim sustenta. e xposto com todas as letras. que se volta contra a pe ssoa mesma de seu autor. em retórica. Pessanha não deixou de aludir a uma delas. § 11. no seu clássico Tratado da Argumentação. No trecho citado. que. ele afirmava que a veracidade das explicações é indi ferente: o que importa é o seu efeito calmante. mas é a Programação Neurolingüística (PNL). mas não esclareceu que ela é apenas um a retórica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 53 um técnico habilidoso. uma acentuada virtude soporífera.”46 Fiel a este princípio. levante as velas o mais ráp ido possível.” Pessanha fez muitos louvores à lógica de Epicuro. afastando a hipótese de uma causa divina. pois quem o declara é o próprio curo: “Para fugir do saber — recomendava ele a um discípulo —. mas. cita Epicuro uma única vez. a redução banalizante da totalidade do real à escala de sensações imediatas como co michões ou borborigmos. pois. Ela tem semelhanças e diferenças com o Tetrafármacon. como por exemplo no caso de um judeu que defendesse o n azismo. no Brasil. s e a fumaça prova a presença do fogo. em compensação de seu canhado poder investigativo. Mas sei que Perelman. quanto mais não a provaria uma queimadura viva! M as não é preciso muito esforço para provar que a lógica de Epicuro não se destina à busca da verdade. se apareceu u ma queimadura na mão. certamente haveriam te abandonado. rezaria assim: “Num mundo caótico e sem sentido. ele não deixava de ser tam bém aplicado aluno de Perelman. os de Lair Ribeiro. a lógica dos sinais pode muito bem dar foros de pura veracida de metafísica às impressões de um sujeito hipnotizado.

Carta a Heródoto. Olbrechts-Tyteca. 1986. 49 New York. 276. em Ch. . 78-80. p. X. Simon & Schuster. 47 Epicuro. Traité de l’Argumentation. 1970. Bruxelles. Cit. § 6.Diógenes Laércio. Perelman et L. Éditions de l’Université de Bruxelles. La Nouvelle Rhétorique.

etc. da temperatura corporal. mostraram isso. da direção do olhar. Milhares de centros de treinamento espalharam-se de costa a costa — e. sutilíssimas m udanças do tom de voz. NLP). batizando-a PNL (em inglês. Interpretando esses sinais espontâneos. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas. A PNL funciona. que estavam investigando psicologia da comunicação q uando toparam com o fenômeno Erickson. utilizando-os. na esfera prática. sem cujo auxílio a fala se mostrava impotente para atingir o ínti mo das pessoas. Erickson perce beu que o fracasso ou sucesso da comunicação pessoal dependia deles. advogados desejosos de persuadir juizes a assinarem sentenças injustas. vai sendo levada a sentir o que o prog ramador deseja que ela sinta.54 OLAVO DE CARVALHO Se explicitado. particularmente em tipos esquizóides com uma comunicação verbal deficiente. Só que na vida diária esses sinais. Gregory Bateson e Virginia Satir). transformadas num receituário de maquiavelismo psi cológico para uso popular. codificaram todos os sinais. conseguiu romper a barreira de incomunicabilidade. em breve. Mas o prob lema é justamente esse. a fazer o que ele deseja que faça. não pôde enviar do i ntermundo qualquer sinal verbal ou não-verbal de uma justa indignação. há e ntre eles o nexo da premissa à conclusão. se a PNL confirma Epicuro e Epicuro antecipa a PNL. inteiramente persuadida de exercer livremente o seu clinamen. e o uso que faz deles é perfeitamente eficaz. Desbrava ram novos mercados: venderam a técnica para executivos que tencionavam persuadir s eus chefes a lhes dar aumentos imerecidos. profundamente arraigados nos hábit os e convenções da comunicação humana. do tônus muscular. Eles estavam lá sempre. Se a P NL pode. a técnica de induzir subliminarmente por sinais não-verbais tornou-se. introduzindo-as sutilmente no curso de uma conversa qualquer. Paralítico. Uma revista norte-americana chamou a PNL “a nova mania psicológica pop”. Pois. vendedores ansiosos de livrar-se de e stoques encalhados. o quanto vale o epicurismo como fundamento teórico do que quer que seja. mas ninguém reparava na sua presença. maridos interessados em eng anar suas mulheres etc. Erickson desenvolveu. e com isto obtinha resu ltados espetaculares em doentes que haviam sido desenganados por outros psicoter apeutas. por intermédio de mensagens quase imperceptíveis . é o que veremo s. nas pessoas em torno. Já vimos. A vítima. Nos EUA. inteiramente automatizados e inconscientes. acredita ndo expressar seus sentimentos espontâneos. clubes. Ele a e direto no subconsciente do freguês. O programador neurolingüístico não perde tempo com argumentações. em muitas empresas. talvez em compensação. longe de constituir um todo autônomo. Bandler e Grinder gravaram centenas de sessões psicoterapêuticas de Erickson (bem co mo de outros dois magos da clínica psicológica. um meio de comunic ação de uso corrente. ficavam subentendidos e acabavam por se tornar. políticos decididos a iludir seus eleitores. uma acuidade sensi tiva fora do normal. nunca escreveu um livro nem se preocupou em sistematizar suas descobertas. E rickson era um clínico. de um só golp e. transformaram-na em prod uto comercializável. Epicuro e a PNL. A PNL surgiu da prática clínica de um dos grandes psicoterapeutas do século: Milton Erickson. a essa altura já falecido. ajuda ndo ou atrapalhando a conversa. Este trabalho foi feito por dois pesquisadores. Bandler e Grinder ganharam rios de dinheiro explora ndo as descobertas de Erickson. e a PNL como fruto materializado do epicurismo. po rém. Bastava observá-lo em ação para n otar que a comu nicação verbal. Os padrões de comunicação não-verbal que ela utiliza são reais. da teoria à sua prática: o epicurismo surge co mo raiz teórica da PNL. se apoiava numa rede complexa de sinais não-verbais. n a prática. de mais um charlatanismo inócuo. a cois a virou uma paixão nacional. abrindo à psicoterapia as mais belas esperanças de cura para casos tidos por insolúveis. ele conseguia comunicar-se com seus pacien tes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito. mostrar o epicurismo sob uma face melhor. c om o auxílio de um computador. Não vá p ensar o leitor que está diante de mais uma poção mágica. Mas Erickson. associações políticas. Mas não se restringiram a um público de psicoterapeutas. que lhe permitia captar. esse argumento não faria outra coisa senão desmoralizar. tal e qual o burr o da cenoura. Richard Bandler e John Grinder. com o mais rigoroso controle científico. um tipo prático. igrejas e lares. sistematizaram a técnica da comunicação não-verbal e. Como já em 1983 denunciava a revista Science Digest: “Posta no .

mercado. a técnica da PNL ameaça tor- .

Os neuróticos pedem-lhe um meio rápido de obter alív io e os psicoterapeutas uma receita rápida para operar curas espetaculares. mais aí já é tarde: um a palavra. dá mais brilho ao seu fascínio e incita a vítima a prosseguir na experiência. solidariedade. àquela altura. toda influência s ubliminar consiste em abolir o domínio da vontade. a patifaria universal. e assim por diante. levando a vítima a não se precaver contra um risco que su põe inexistir. Quando não é recebida como uma mensagem salvadora. em geral. nas mãos erradas. dos meios acadêmicos. ela é ignorada como um charlatanismo inócuo. de outro lado omite o detalhe de que. Mas foi nos Estados Unidos. legitimando a manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem lidar com o seu próximo. com isto. querer ou desquerer: neutralizada a capacidade judi cativa e decisória. Isto des mente a consoladora lenda de que nenhuma hipnose ou manipulação subliminar pode indu zir um homem a fazer o que é contra suas convicções. uma assinatura. Assim. lenda que. precisamente. de que tratarei nos capítulos finais d este livro — sabem precaver-se. todos os padrões de sinceridade. par a levar investidores a queimar seus capitais em negócios ostensivamente inviáveis. dos profissionais de saúde. sendo usada em toda parte para levar pessoas a venderem seus bens a preço vil. decidir. assumindo-a como sua para restabelecer a ilusória integr idade da sua auto-imagem. contra qualquer coisa que lhes pareça supr imir liberdades duramente conquistadas. segundo informava a mesma r evista. seja p ela atração do abismo. assume a culpa pelo mal que lhe fizeram. e subvertendo. dos educadores. Mãos erradas? Nos EUA. levar uma pessoa a fazer o que acha errado. h onestidade. para persuadir juizes a absolver culpados e con denar inocentes. a PNL vem abrindo caminho des de então. Os que se gabam de sólido materialismo pão-pãoqueijo-queijo vêem-na como um inst rumento de poder e ascensão social. ter emos ou mais a mais perfeita e indestrutível das tiranias ou a anarquia generaliza da. julgar. a vítima pode se dar conta da insensatez. sem apoio nos quais não pode o ego tomar posição. Isto foi dez anos atrás. e aí. No Brasil. O uso disseminado dessas técnicas arrisca minar todo o campo da convivência humana.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 55 nar-se uma temível ferramenta de manipulação pessoal e. podem ter determinado conseqüências irreversíveis. um perigoso in strumento de controle social” 50. se de um lado favorece muito a ação do hipnotizador. A q ueles que se têm na conta de místicos enxergam nela uma via de acesso aos mistérios su premos. mudar imperceptivelmente o curso do raciocínio. ansiosos de unlimited power e arm ados de um temível arsenal de meios para defraudar 50 e colocar a seu serviço os outros homens. seja pela ambição de conquistar por sua vez o poder de manipular os outros. Se alguém percebe vagamente que es tá sendo manipulado pelas costas. Todos confiam que ali só têm a ganhar. quando não ganham nada. para fazer eleitores votarem contra seus próprios interesses. a sociedade inteira esta rá à mercê de uma horda de manipuladores psicológicos. a aprovar o que lhe repugna. a comprar o que não quer. e. conforme esses neomaquiavéis se unam p ara dominar o restante da população ou entrem em competição feroz uns com os outros. não faz mal: a PNL tem meios de tornar o prejuízo uma experiência gratificante. a revista Science Digest notici ava. junto com a moda da PNL. Universalizado esse costume. Os norte-americanos — malgrado um certo embotamento mais recente. Assinalando o perigo. cortando os laços entre a psique individual e os seus quadros de referência moral. Mesmo aqueles que antipatizam com a proposta não dão sinal de perceber ne la qualquer perigo. a PNL já estava. com a maior desenvoltura e cercada de aplausos. Os brasileiros estão absorvendo a PNL com o deslumbra mento bisonho de um garoto que se sente muito lisonjeado ao ser admitido pela pr imeira vez numa roda de cocainômanos. Ninguém escapa aos encantos da nova técnica. e. tanto melhor: isto confirma a eficácia da nova técni ca. sem que ninguém levante co ntra ela a menor suspeita. protegida pela sonsice dos crentes e pela ind . e pronto a justificar a po steriori a decisão imposta. com isto. sem que ninguém sequer sugira a possibilidade de haver nela alguma coisa de errado. também uma onda de protestos e advertências que brotav am contra ela da imprensa. um homem está à mercê do que lhe sugiram. Passadas algumas horas. O uso habilidoso dos sinais não-verbais permite abrir hiatos na atenção consciente.

. Science Diges t. vai ganhando força. vai Flo Conway and Jim Siegelman. a PNL vai entrando. 1983. maio. “The Awesome Power of the Mind-Probers”.iferença blasée dos descrentes.

Para reconhecer que está dormindo. Por que o público. como o carneiro qu e oferece o pescoço à lâmina. mediante um reflexo anestésico . Como. a indiferença ante o próprio des tino. o vírus da manipulação subliminar. É um dos mais velhos e incômodos paradoxos da mente humana. em vez de condená-los como anti-éticos e advertir contra o seu uso. A apatia. E aí já não se sabe quem é mais culpado: o sedutor que escraviza ou o se duzido que se entrega. é mais fácil ser tomado de pânico do que raciocinar. para cair de cheio na esfera do sonho. o primado do incon sciente só pode ser afirmado por um homem consciente. Que. As técnicas de manipulação p síquica progrediram tanto nas últimas décadas. que previa o advento de uma ordem social robotizada.56 OLAVO DE CARVALHO invadindo todos os setores da atividade pública e privada e inoculando ali. em dos es crescentes. para se entregar inerme e semidesmaiada nas mãos do carrasco. em alcance. de onde só sairá para mergulhar na terceira fase: no sono profun do. em vez de cair na rede da sua sedução e atrair o povo para mergulhar nela também. mas uma re ortagem: informava. onde os homens seriam reduzidos à escravidão por meio de técnicas hipnóticas. A Servidão Voluntária Não estou exagerando o perigo. sem sonhos. após o sucesso mundial do romance Admirável Mundo Novo (1932). a do mero adormecimento. a concentração das atenções em assuntos secundários acompanhada de total negligência a nte os temas essenciais e urgentes. A advertência. Pode mos sair dele. então se apaga a última esperança de um redespertar d a consciência. e o pânico vira logo es tupor. qua ndo toma também as mentes dos intelectuais e a voz dos melhores já não se ergue senão pa ra fazer coro à cantilena hipnótica. Aquele a quem os deuses querem destruir. Mas quando o torpor não invade somente a alma do povo. . insensibilidade catatônica que protege contra novos abalos. § 12. E não aceita mesmo: quase todo mundo opõe uma obstinada má vontade a ouvir o que a lguém possa ter a lhe dizer a esse respeito. A primeira dessas obras era uma ficção cien tífica. Um filósofo deveria ser o primeiro a advertir contra ele. com deleites de masoquismo. Quando. No completo esquecimento. nos anos 70. se prepara. por exemplo. inte lectuais eminentes oferecem o Tetrafármacon e a PNL como soluções miraculosas. tão sensível às redições sinistras da ficção. e só quem escapou da manipulação s abe que é manipulado. assinalam o torpor da vítima que. A indiferença afe tada é uma reação de autodefesa contra o pânico — e quem fugiria do pânico se já não estivess m pânico? Um segundo motivo é que ao menos aparentemente há uma contradição intolerável em p edir à consciência que reconheça sua sujeição a um poder inconsciente. um homem tem de estar pelo menos meio acordado. em resumo. o resultado é que o domínio dos meios de escravizar a mente do povo cresce na razão inversa dos meios que ele possa ter pa ra defender-se. a human idade já estava com um pé dentro do Admirável Mundo Novo. precisão e eficiência. ser viços secretos. Um exemplo s ignificativo foi que. é verdade. Aldous Huxley não conseguisse mais que uma minguada audiência para o seu livro Regr esso ao Admirável Mundo Novo. de outro lado. cai numa torpe indiferença ante o aviso de que a ficção virou r alidade? Uma resposta possível é que esse aviso mesmo já é estupefaciente. A incapacidade de um povo para perce ber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva q ue prenuncia as grandes derrotas sociais. com provas cabais. os governos. seitas pseudomísticas e empresas multinacionais investem quantias ca da vez maiores na pesquisa desses assuntos. num curso de Ética nominalmente votado a objetivos da salvação nacional. que as técnicas anunciadas no livro anterio r já estavam prontas e em vias de aplicação para fins políticos. então é que a consciência públi ca já transpôs a primeira fase do sono. que ultrapassaram tudo o quanto o homem comum pode aceitar como verossím il. arriscaria cair em ouvidos moucos. à servidão voluntária. A segunda não era ficção. Diante de cer tas notícias. eles primeiro enlouquecem. antevendo um golpe mais forte do que poderá suportar.

Paulo. porque muitos casos não são denunciado s. na existência de fato .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 57 com a ajuda das distinções aristotélicas entre potência e ato. Alguns parágrafos significativos: “Desde maio..” Não é aqui o lugar de descrever em detalhe as técnicas de manipulação da psique. Segunda. Aquilo me transtornou. após despertar. Depoimento de sconcertante foi feito pelo caixa do banco Monte Dei Paschi. a cidade mais atingi da. a não ser em caso de flagr ante. já alarmante. pelo medo que as vítimas têm de passar por idiotas. A vítima. tornavam-se ainda mais inquietan tes por três peculiaridades: Primeira. Segundo ele. como os batizou a imprensa italiana. num despach o da sua correspondente Marielza Augelli espremido num canto de página51. a vítima entrega todo o seu dinheiro com um sorriso nos lábios e a mente c onfusa. já foram registrados mais de uma centena de casos.8 mil. M as a maioria das pessoas não atina com estas sutilezas. sem experiência para lid . que garanto não será inútil: quando voltarmos ao seu jardim. abra e feche três vezes uma gaveta. Os tribunais e a polícia. muitas vítimas deixavam de registrar queixa (exatame nte como mulheres estupradas). Isto levava a polícia italiana a crer que o total d e ocorrências registradas. Uma forma de hipnose instantânea e praticamente irresistível. fiquei triste porque não achava as notas e depois não me lembro de mais nada. uma p or uma. m ais tendemos a fingir diante dele uma indiferença superior: “Senta. em que os criminosos não usavam armas. se ainda tem em si algum resíduo de falsa segurança. será com pl ena consciência do que nele está plantado. quando comecei a trocar o dinheiro. por sua vez muito improvável. já era tarde. Por essa mesma razão. de Potenza. que jur ou não ter entendido como dois indianos de olhos negros e profundos. e já chegou à Sardenha e à Sicília: o roubo por hipnose. Segundo Brun. vou escolher um só. É o p aradoxo que mencionei: assumir uma culpa moral inexistente parece menos doloroso do que aceitar a hipótese humilhante de uma descontinuidade da consciência. brancas ou de fogo. mas sim. Brun chegou a prender três suspeitos paquistaneses com passaportes falsos. O jornal O Estado de São Paulo. noticiou algum tempo atrás a mais estranha onda de crimes que já se vira na Itália. Reações análo gas aparecem em todo tipo de hipnose. todas as cédulas. fosse bem menor que o número real de crimes. e só pode escapar do paradox o pelo expediente desastroso de negar os fatos. o hipnotizador ordena ao suje ito que.. ‘Eles chegaram pedindo para trocar duas notas de US$ 50 e. A polícia italiana registrou. contou o proprietário de um supermercado em Turim. a consciência é. no entanto foi obrigado a liberá-los por ‘falta de provas’. Dez minutos dep ois. meticulosamente e sem a menor resistência. A prova da autoria era tecnicamente impossível. na mu ltidão de exemplos da sua periculosidade. As vítimas. ao norte da Pe nínsula. para que o leitor. caía num torpor nebuloso e ia entregando aos ladrões. que começou em Piemonte. Quanto mais tememos um perigo. não conseguia parar de entregar todas as cédulas de 100 mil’. as cem denúncias feitas em toda a Itália não passam da ponta de um iceberg. dela se desfaça no ato e saia em bus ca da verdadeira segurança. acab avam atribuindo a si mesmas a culpa pelos atos cometidos sob sugestão hipnótica. Epicuro que me perd oe este rodeio. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”. e xplica o inspetor Paolo Brun. a 51 Marielza Augelli.” hipnose. por direito. ele obedece e.’ ‘Não sei como. que o leão é manso. se lhe p erguntam por que agiu assim. com cerca de dez a vinte pessoas em ação’. da Central de Polícia em Turim. Terceira. oferece uma justificativa completa e personalizada. Por exemplo. Nesta nova modalidade de assalto. em seis meses. Os feitos espetaculares dos h ipnoladri. ‘Trata-se de uma verdadeira gangue. fala mansa e muita delicadeza conseguiram levar US$ 1. Mas. ela tem altos e baixos e só conserva o seu domínio lutando contra a inconsciência. 9 de dezembro de 1990. envergonhadas e confundidas. mais de uma centena desses crimes. a parte dominante. pediram somente cédul as que fossem da série x. substância e acidente: no p lano essencial. os italianos e stão lutando contra um tipo insólito de crime. que está no conhecimento do assunto. um ca ixa de loja ou de banco. O Estado de S. ao dar-se conta do que tinha feito. Tratava-se de um novo tipo de assalto.

. disseminando a ins egurança e a confusão. Refiro-me às s eitas pseudomísticas do tipo Moon. sejam depois usadas para fins de dominação p olítica. que as fundam e dirigem. uma vez provad as e aprovadas por quadrilhas de ladrões. para reduzir à escravidão psicológica milhões de pessoas. mais perigosas talvez do que quadrilhas de assaltantes. Rajneesh. nem para impedir que as técnicas dos hipnoladri. bem como às entidades. Outras org anizações. d iscretas se não secretas. nada se pode fazer para impedi r que esses crimes proliferem e se alastrem para outros países. estavam atarantados. Por enquanto.ar com o caso. as vêm empregando e m escala mundial. Mas essas armas não foram testadas só em umas dezenas de assaltos. “Meninos de Deus”.

De qualquer modo. O único país que opôs uma barreira efetiva ao avanço das seitas foi a França. que alcançam por meios diferent es e mais eficazes. os debates prosseguem e mais dia menos dia tal vez se descubra um meio legalmente válido de resolver o caso. a civilização ferida de que falava V. só lhe resta aceitar como tal tudo aquilo que como tal se declare. bem. § 13. e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simpl esmente nisso. quando comunistas fiéis apareceram confess ando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime. ele mesmo hipnótico. Os médicos e psicólogos dividem-se em duas categorias: os de inclinação misti cóide geralmente estão mais ou menos comprometidos com alguma seita ou guru. minada pela infiltração do Ocidente. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda de scoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. embora todo mundo saiba que promovem a escravidão. abre o flanco a todas as degenerescências do espírito religioso.58 OLAVO DE CARVALHO Por mais antipatia que suscitem. bruxaria e mística. o Parlamento francês aprovou uma lei proposta pelo Partido Socialista. As técnicas em uso nas seitas se originaram da lavage m cerebral. Ele estudou isto em ca- . Denúncias esparsas. à sombra totêmica da “liberdade religiosa”. A idéia de moldar o comportamento humano p ela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov. A expressão “lavagem cerebral” entrou na linguagem popular a parti r dos “processos de Moscou”. Nos Estados Unidos. Em 1988. Quanto aos educadores. a costa Oeste — a maior concentração de gurus per capita no território americano — já tinha mais de cem c línicas de terapia para egressos de seitas. a opinião pública está consciente do problema. descobridor dos reflexos condicionado s produzidos pelo jogo estímulo-resposta. o Brasil é. Naipaul. quando pode. mesmo quando se trate de maiores de idade. logo. Quando alguém fala da escravidão psicológica que alg umas seitas impõem a seus discípulos. e os ma terialistas durões afetam desprezo pelo assunto na mesma medida em que. mas só têm com ela uma identidade de fins. É uma meia-verdade. Darkness at Noon (“O Zero e o Infinito”). O primeiro é a Índia. segundo me informou um estudioso do assunto (não é b rasileiro). na década de 30. temem deparar. deu ao público Ocidental uma imagem vívida dos processos de tort ura psíquica que levavam os prisioneiros soviéticos à perda da identidade. S. e as encaminham a clínicas especializadas. logo vêm à boca do interlocutor as palavras: “lavage m cerebral”. caem logo no esquecimento. onde a longa e dolorosa decomposição da sociedade tradicional. Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurof isiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). vocês conhecem algum? Por uma trágica ironia. feitas por egressos ou por familiares das vítimas. A imprensa só larga a habitual in diferença para explorar. e impede que o público chegue a pensar seriamente no problema. o lado espetaculoso — o que dá ao caso um ar fan tasmagórico. Em maio de 1985. confundind o espírito e psique. que permite aos familiares das vítimas retirá-las das garra s de seus gurus com a ajuda da polícia. essas organizações continuam atuando com o maior de sembaraço em todos os países. No Brasil — preciso di zer? — o assunto não é sequer discutido. o segundo recordista mundial em número de seitas. É o vale-tudo. o romance de Arthur Koestler. onde a democracia se torna o pretexto da tirania (veremos no fim deste livro o verdadeiro alcance deste fenômeno). na investigação do caso. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral O assunto é fértil de mal-entendidos. entidades privadas empenha m-se em facilitar por todos os meios a libertação das pessoas mentalmente aprisionad as pelas seitas. algum f enômeno inexplicável que abale suas crenças a um tempo simplórias e pedantes. A imprensa Ocidental sugeriu que o emprego de algum meio psicológico inusitado seria o respo nsável por aquelas “conversões” que faziam de heróis revolucionários palhaços atônitos a acus se de delitos fictícios. Em 1940. e forçá-las a tratamento psiquiátrico. Mas qualquer ação oficial é bloqueada pela a poria lógica embutida na 5ª Emenda da Constituição: o Estado leigo não pode definir o que é religião e o que não é.

f azendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. não roubarei”. Ora. da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas h abituais. verificou depois que muitos pacientes devi damente ab-reagidos e curados lhe haviam contado acontecimentos traumáticos totalm ente imaginários. o paciente se recordava do s terríveis sofrimentos sugeridos e. o psicólogo austríaco Otto Poezl descobriu que estímulo s visuais fraquíssimos. por atuar abaixo do limiar (em latim. literalmente . com o auxílio de hipnose. uma vez desperto. tomando-os como reais. A vítima nem se daria conta. sem gritos. porém. Com grande supresa. Quanto mais abreações. como Freud chamava a suspensão dos comportamentos neuróticos após a catarse curativa. Depois disso . Hal C. limes) da consciência. Com base nessa descoberta. ora a luz sem o bife. verif icou que a coisa funcionava também com estímulos auditivos. ora os induzia a descargas aliviantes q ue lhes davam a impressão de plenitude e liberdade. pud essem ter ab-reações. eram mais facilmente retidos na me mória do que estímulos mais fortes. imperceptíveis à consciência. Eles tinham sofrido lavagem cerebral “clássica” e muitos estavam co mpletamente neuróticos. que tal sintetizar Poezl e Pavlov? A mutação de personalidade por estimulação contraditória bem p oderia ser produzida subliminarmente. se devi a tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. durante hipnose. mais forte o vínculo. e tentará atacar o dono. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. A técnica baseada nas descobertas de Poezl recebeu o nome de propaganda sub liminar. não era de terminada pelo conteúdo político da doutrinação. que nas 52 . Sargant fez mais uma. Logo depois. Becker. Tudo no macio. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptara m à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita gústia intolerável. Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada. Becker diminuiu em 37 por cento a freqüência de roubos cometidos por freg ueses. doutrinação ostensiva ou violência d e espécie alguma. mas sim pelo efeito acumulado de estimu lações contraditórias. os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito. tinha sua catarse e sa ia curado. de quem gostava. que detestava. decisiva para o prog resso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenv olvia uma dependência mórbida do terapeuta. e lhes dava um sistema cosmológico completo. mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelh a que acendia tão logo lhes era oferecido um bife.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 59 chorros. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório. I sto explicava muita coisa. Eles ficaram comple tamente atordoados. virasse do avesso. Gurdjieff manej ava igualmente bem a estimulação contraditória. era desnecessária? Era. um publicitário. que completava a transformação. por exemplo. Repetida a operação algumas vezes. Gurdjieff ora esmagava os coitado sob pilhas de exigências constrangedoras. Enxertando na música ambie nte de um supermercado uma voz debilíssima e imperceptível que repetia: “Sou honesto. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados. para que. o cérebro ent rava em pane. Para começar. mesmo remotam ente análogo ao que se havia passado. que os levavam ao desespero até que a personalidade. De fato. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso.” A mudança de atitude dos prisioneiros. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff. Raramente dizia alguma coisa com senti do identificável. em que tantos se empenhava a psicanálise. Então a recordação dos fatos. Prometia ao s alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos. só para depois serem repentiname nte jogados de novo em provações humilhantes. portanto. ao examinar prisioneiros de campos de c oncentração chineses libertados após a Guerra da Coréia 52. os discíp ulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre. um evento traumático qualquer. Inicialmente Sargant os tratou pela psicanálise. O passo seguinte nessa direção foi dado pelo psiquiatra inglês William Sargant. Sargant descobriu que podia produzir ab-reação simplesmente su gerindo ao paciente. recordando-se de traumas enterrados no subconsciente.

Heinemann. . London. Klau s Scheel. 1957. Imago. do Misticismo e da Cura pela Fé. Rio. e A Posses são da Mente. trad. The Battle for the Mind.V. 1975. William Sargant. Uma Fisiologia da Possessão.

descobriram que. O primeiro foi fornecido pela descoberta segui nte de Sargant. ainda faltavam dois quesitos: um meio de tornar permanente a mutação de personalidade e um vocabulário dos sinais subliminares .60 OLAVO DE CARVALHO semanas seguintes era inteiramente substituído por outro. que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos par a produzir56. hipnotizar um sujeito contra a sua vontade..” cessidade de discursos em alto-falantes.. e por outro. Com a descoberta da hipnose forçada. a fase ultraparadoxal. de gritos. as respostas e o condici onamento condicionado positivos começam. simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem n um leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes55. é possível induzi-la ao transe com bastante facilid ade. a que se seguia uma fase ultraparadoxal: “No t erceiro estágio da inibição protetora. calcul ado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. Nada adiantava o indivíduo tentar res istir às sugestões53: “Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é esse ncial.” O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma suge stionabilidade aumentada ao extremo. crédula e dependente (Sargant ). O segundo. os resultados descritos por Sargant podiam ser al cançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana. em suma. Dois pesquisador es.. o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de pers onalidade. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil. o sistema nervoso é esgotado e . Por um lado.. As conclusões dess as pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente: l. Para reduzir um homem a uma obediência canina. para produzir a lavagem cerebral discret a e indolor com que sonhavam os técnicos. o uso conjugado da estimulação incoerente e das a b-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. subliminar. podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. a se transformar em negativos . a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos . Flo Conway e Jim Siegelman. Pavlov já tinha reparado que o paciente. Tentativas repetidas em geral dão certo. essas inform ações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência.. bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito a o desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções. pela PNL. ameaças ou tortura mental. no ambiente fechado e artificia l das seitas pseudoreligiosas. As mesmas reações . de outro lado. ge radora de neuroses e psicoses54. já não havia ne53 54 . de repente. Pode-se mu dar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov). Pavlov denomin ara a isto a fase paradoxal da mutação. pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acon tecendo. O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva. portanto. de maneira que o indivíduo se torna recepti vo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes”: era possível. que desse agilidade à sua utilização. até que a con fusão mental crescesse à escala cósmica. se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes. Mas. às vezes em doi s ou três dias. 2.. mantendo-se constante a pressão. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios. após chegar à inversão dos re flexos. O que Sargant descobriu logo depois disso f oi de estarrecer. Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em su jeitos normais. Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado. na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade.. Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa. Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias..

. A Handbook of Artificial Intelligence. IBM. . 1975 ( original: A Theory of Cognitive Dissonance. p. Rio. 55 V. 1957 ). 47 Leon Festinger. Eduardo Almeida. Universit y Press. 56 V. Teoria da Dissonância Cognitiva. trad. A Possessão da Mente. Conway & Siegelman. Stanford. Snapping. Zahar .Sargant. Calif.

Essa a valiação requereria investigações de vasta escala. os movimentos políti cos de toda sorte avançaram. Impedimento teórico. mas não que a chuva será se ca. no uso efetivo das técnicas de manipulação. sem que a víti ma se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). essencial. as empresas multinacionais. ridículo ou grotesco. nunca foi violado por nenhuma das grandes crenças religiosas do passado e do presente. e por i sto. desde que se sintam corta dos de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres . em muitos setores de atividade. A técnica pode ser aplicada s imultaneamente a todos os membros de uma coletividade. Ele não se assem lha em nada àquilo que nos séculos passados. Devo. que nenh uma religião jamais ultrapassou. o incomum. os serviços secretos. que estão fora do alcance de um pesquis ador independente. mas não que Ele a faça girar e ficar parada ao mesmo tempo desde o mesmo ponto de vista. foi somente porque não quis. beleza. cuja lic itude ninguém se lembra de pôr em discussão. hoje em dia. O fator decisivo é o controle planejado do fl uxo de informações. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. que é uma só e a mesma coisa que o senso da unidade do real. É muito difícil avaliar até que ponto os governos. a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade o ferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional. O milagre pode ser belo. desobedeça à sua dis posição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses. desmentindo a fé em vez de confirmá-la. Mov ido pela fé. o gigantesco: ele tem d e mostrar harmonia. Não pode ser banal. O segundo limite é o senso estético. 4. um hábito corrente. na medida em que é uma resposta a legítimos anseios humanos e não apenas uma esquisitice coloss al. funcionalidade. que o movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da timulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma su bserviência patética. que pode ser realizado à distância (IBM). e em muitas civilizações diversas. O senso da identidade lógica. pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imed iata. Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. Mas há sempre um limite. até agora. O miraculoso não é apenas o extraordinário. continental ou planetária. mas permaneceriam indiferentes a uma mensagem ce leste que prometesse apenas entortar todos os garfos. sob pena de funcionar como um ant imilagre. em todas as religiões. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom-senso. a teologia apofática ou outros exemplos do mesmo teor como provas de que o pensamento religioso admite . o v alor dos bens prometidos e 57 Que nenhum espertinho venha mencionar os koans do budismo. Finalmente. Ou antes: há toda uma rede de limites. mas não que Ele tenha ressuscitado antes de morrer. pela simples razão de que a unidade do real é a unidade do próprio Deus. por exemplo. O primeiro desses limites é a contradição intrínseca. mas s difícil continuar crente se os pães celestes viessem eria m ofados. pode também levá-lo a aceitar a aut oridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de con trole. não há. Se ninguém ainda tentou. Um homem pode acreditar que Jesus multiplique os pães. O cristão pode aceitar que Cristo se ergueu da tumba no terceiro dia após a mort e. sublime ou terrível. se admit ia como fé religiosa. Um crente não pode esperar indefinidamente nas promessas do seu Deus quand o nenhuma delas jamais se cumpre. ater-me àquilo que posso observar na vida de to dos os dias. subjacente mesmo às mitologias p oliteístas57. Tem de possuir um sentido. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares. em rupturas da ordem natural costumeira. Os povos do passado podiam seguir um profeta que lhes anunciasse a vida eter na ou a cura de todas as doenças.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 61 3. Noto. Não é preciso enfatizar as fac ilidades que. ou porque tropeçou em algum obstác ulo acidental. há o limite da p aciência. isto é. portanto. um homem pode acreditar que Deus faça a Terra parar. e mesmo a observação mais superficial basta para mostrar que a manipulação da psique já se tornou. A reverência ao pajé pode fazer um índio acreditar que os ritos trarão chuva. 5. A decepção continuada é um antídoto contra a fé. Deus gradua as provações segundo a capacidade dos fiéis.

obviamente não poderia realizar. Uma vez encontrada a solução.a autocontradição. ela se mostra perfeitamente lógica. num salto. obstáculos que ao raciocínio discursivo parecem intransponíveis. atendidas as distinções de planos de realidade que a lógica . por si. Esses exemplos só mostram que na esfera mística a compreensão de certas verdades requer uma apreensão intuitiva capaz de superar. .

que continua a crer com zelo fanáti co apesar dos mais óbvios desmentidos. ele já passou da fase ultraparadoxal. V. Assim. que ensina um homem a discernir a fonte — e portanto o valor — de su as inspirações e visões interiores. afirma-se que as visõe s podem provir de Deus. ou sentenças do Profeta ( M ohammed. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe . No Ocidente cristão. Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontr am por trás desse fenômeno.62 OLAVO DE CARVALHO a lógica da situação. 19 20. 59 Não é força de expressão. Na mística islâmica. Pendle Hill. por exemplo. de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão p or intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela f m inoculados pela propaganda. muito acima do homem branco médio. que aceita “sinais divinos” desprovidos da mais ele mentar coerência estética ou funcionalidade prática. os jingles e logotip os da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anj os. V. O ensina mento tradicional a respeito está registrado nos hadith. para não falar de outros mais grosseiros ainda. heróis e duendes do imaginário tradicional. t odas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas. dos anjos. É a fé reduzida à crença cega e totalmente amputada do mais elementar “discernimento dos espíritos”58. Se o conhecim ento desta disciplina não tivesse desaparecido. O próprio Cristo cen urou o povo que pedia milagres. dignos de pena na melhor das hipót eses. Os slogans. mas sim um rebaixame sem precedentes do nível de consciência das multidões. não despertariam maior curiosid ade senão como fenômenos de teratologia espiritual. Muitas tribos indígenas têm. feitos como os de Thomas Green Mor ton. Albert Farges. nem quarenta minu tos para que seu cajado se transformasse em serpente. O teor mesmo das imagens e o conjunto de sentimentos que as acompanham indicam a fonte. entre suas tradições. Moisés pôde esperar quarenta anos pela libertação do seu povo.. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. ao longo dos séculos. que as coloca. Joseph Epes Brown. ou técnica. finalmente d os djinns ou entes sutis da natureza. mas não deixou de operá-los em profusão por saber que a fé humana é necessariamente impe rfeita. já que sua imaginação não t m outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. subentendendo que a fé perfeita não precisaria deles . ele não pode deixar de se guiar p or ela na prática. mas não e de esperar nem quarenta semanas para que Deus enviasse o maná. do coração humano. praticada por todos os místicos das randes religiões. de outros homens. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos. uma autên ciência do “discernimento dos espíritos”. Paris. ou Maomé ) e depois foi sendo acrescido das observações dos místicos. Os milagres surgem. Ora. e agora ele só c rê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. por exemplo. aspirações e temores . que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as ci vilizações precedentes? A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto s eus antepassados poderiam sequer imaginar. demônios. nesse quadro. The Spiritual Legacy of th e American Indian. espiritualmente. a respeito. o que caracteriza o fenômeno mundial da pseudo-religiosidade contempo rânea é justamente a credulidade beócia que toma como mensagem do céu qualquer fenômeno gr osseiro de telepatia ou hipnose. O homem das grandes cidades ac redita hoje em ficções que fariam um índio sorrir59. A respeito. A destruição da religiosidade popular tradicional — atacada de um lado pelos materialistas e de outro pela ideologia da New Age — não produziu nenhum “esclarecimento” ou “iluminação coletiva”. 58 O “discernimento dos espíritos” é a ciência. esta arte esteve incluída até bem pouco tempo atrás nos ensinamentos regulares de Teologia Mística transmitido nos seminários. as figuras. 1964. sabendo que a propaganda é um universo de enganos. entre os quais os demônios. como antecipações que dão aos fiéis o ânimo de perseverar na fé. Maison de la Bonne Presse. ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade. Les Phénomènes Mistiques Distingués d e leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária.

d e todo senso profundo da realidade. mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propa ganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamen te imbecil. ao generaliz ar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável. é condenar-se a um vaivém incessante entre a fan tasia desesperançada e o desesperançado cinismo.. Mas reprimir essa angústia é abdicar. qu e tem de ser reprimida a todo custo. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativo s. Levado a agir como se acreditasse n aquilo que nega. o . no ato. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida. A ruptura entre conduta e crença. inócua em casos isolados.

Comparados a esse império universal da impostura. Perto dessa queda da c ondição ontológica da humanidade. O típico intelectual exasperado de hoje defende sistematicamente reivindicações contraditórias: liberação do aborto e repressão ao assédio sexual. Pervertendo nos homens a capacidade para o juízo de realidade. seja construindo-as por deduções de um artificialismo sufocante. Quem quer que lhes dê ouvidos termina louco. um cão é sempre um cão. ouvintes e espectadores. A culminação de cem a nos de pesquisas sobre o domínio psíquico do homem pelo homem é alcançada no momento em que todas as elites — as que estão momentaneamente no poder e aquelas que lutam para conquistá-lo — se unem num pacto contra a liberdade da consciência individual. o homem é tratado como um cão de Pavlov. consag rando as técnicas de manipulação psicológica e de estimulação contraditória como armas legíti e aceitáveis na luta das idéias. a abolição da consciência. compo stos de puras racionalizações no sentido freudiano da palavra. Mas os autores da proeza são ele s mesmos suas primeiras vítimas. e assim por diante. que só pode acreditar na realidade qua ndo ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. democ racia direta e controle estatal da posse de armas. a pobreza. pouco importa quem ganhe a disputa: a humanidade perderá. Quando os filósofos co meçam a declarar com obscena satisfação que a verdade só pode ser inventada convencional mente ou fingida mediante a encenação de crenças políticas. segundo as quais a re alidade objetiva não existe ou a linguagem não tem relação com ela. todos os outros males que a afligem são meras incomodi dades corriqueiras. mas eles mesmos praticam abundantemente a estimulação paradoxal sobre as mentes indefesas de alunos. os intelectuais começam a produzir realidades postiças. destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas prémodernas. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado d e espírito. seja criando-as em laboratório. liberdade irrestrita para o c idadão e maior intervenção do Estado na conduta privada. mas quem está imune à sua influência? O público nem sempre se dá conta das contradições.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 63 homem das grandes cidades é hoje um esquizóide. qu e importam todos os males menores e locais denunciados e combatidos pelas várias i deologias em disputa? Que diferença faz se a manipulação da mente é empreendida sob o pr etexto de manter as massas na passividade de uma rotina conservadora ou de impel i-las a fazer uma revolução? Em ambos os casos. O estraçalhamento das consciências pelo império da propaganda é condenado com veemência por alguns intelectuais ativistas. Que importam o racismo. Ideologias como o gramscismo. são a legitimação “filosófica” de um atologia: não conseguindo mais instalar-se na realidade em que viveram nossos ante passados. Elas os ajudam a suportar o mundo fictício e alucinante que eles mesmos criaram. A velha oposição entre evasão e ativismo perdeu todo sentido num mundo em que a ação política se tornou um escapismo para alívio das mentes imaturas e em que as fantasias mais extravagantes são celebradas como formas de “protesto” contra um mundo mau. o neo -epicurismo. o neopragmatismo de Richard Rorty. o ativismo intele ctual acaba por reduzir a linguagem a nada mais que um instrumento de expressão de raivas insensatas e exigências descabidas. leitores. liberação das drogas e proibição dos cigarros. Não é de estranhar que com tanta freqüência os intelectua is apologistas do absurdo se ponham a elaborar sistemas de justificativas. moralismo político e imoralismo erótico. o “novo modelo de linguagem” de David Bohm. seja le vando as massas a encená-las no palco da política. anti-racismo e defesa de “ident idades culturais” sustentadas na separação das raças. que não têm satisfações a prestar à razão. eles certamente devem ter bo ns motivos pessoais para ver nessas idéias algo de reconfortante. O efeito de longo prazo é elevar até o insuportável a pressão col etiva das angústias e das culpas não conscientizadas. a redução das massas a um reb . porque elas vão direto para o seu sub consciente. com muita violência e muito sangue para dar verossimilhança a um enredo delirante. A partir desse momento. ao bom senso e ao mais elementar sen- timento de humanidade. influenciando a sua conduta sem pedir licença ao julgamento consciente . a corru pção dos políticos. a injustiça social. Quer seja adestrado para cochilar mansamente diante da lareira ou para avançar co m os dentes à mostra contra os estranhos. se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana. mas isto é pior ainda.

uma vez perdido. é irrecuperável para sempre? .de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo que.

1951. ou mesmo. pp. A vitória almejada é o definitivo caos na mente do mundo. É antes. o neopositivismo. 10. New York. fazendo os homens acreditarem que estão pensando livremente quando não o estão. “A doença social que termina na a niquilação do pensamento independente. que. “A batalha a se r combatida não é só entre partido e partido. no fundo. uma luta qu e transcende todas as diferenças exceto uma. entre aqueles cuja ênf ase está na razão e aqueles cuja ênfase está na fé. E já então um observador sensível podia escrever estas palavras: “O problema da s Liberdades da Mente é hoje tão urgente e prático quanto o problema da emancipação dos escravos foi no passado. é uma doença de rara sutileza. os lisonjeia e se esconde. não um fato co nsumado. no meu modo de ver. Macmillan. uma névoa de razão fragme ntada numa poeira rodopiante.” 60 Dentre essas forças. as mais notórias são o pragmatismo. a insanida de pelo fracasso em distinguir e pelas fantasias de poder.64 OLAVO DE CARVALHO Quatro décadas atrás o uso universal dessa arma era apenas uma tendência. Liberties of the Mind. O epicurismo é um antepassado de todas. quanto à validade da mente humana. O perigo que corremos é que há grandes forças em ação no do que nos proíbem empreender essa jornada e destroem nossa vontade de fazê-la. e da vontade de independência. o marxismo. ingovernável. a Nova Era. quan to ao seu direito de distinguir entre o bem e o mal e ao seu poder de empreender sua jornada à luz dessa distinção. e sua herança ainda não se esgotou. 40 e 5 3-54. sem propósito e sem causa. a pseudo-religião. . 60 Charles Morgan. “O propósito do ataque é o mais velho de todos: p roduzir o caos.

o epicurismo vingou-se produzindo uma caricatura de história da filosof ia. se como prática é apenas um embuste para lograr um público sem discernimento. um misósofo. como um novo Sócrates. Este era seu estilo característico de lidar com . Bem. em seguida. Epicuro. uma vez mais. cíclica e regularmente. então. recém-exilado. É significativo que esse tipinho. de “vendedor de drogas”. em tudo. pelo retorno ao espírito filosófico. em que a men te humana está destinada a cair de tempos em tempos. como pôde. portanto. os que estavam em desgraça ante o poder. o fracasso subiu-lhe à cabeça. por ter o perfil externo da fil osofia. e talvez por causa delas. chutando para a perife ria todos os que ousaram se opor a ele. entre as idéias que até hoje despertam algum interesse? Uma resposta possível é que. Ele é uma espécie de sombra. diante d e uma platéia que as desconhecia e à qual pareceram novas. não estranha que o epicurista proceda. o conferencista. absorto em meditações el evadas. estar ausentes do M ASP. Não poderiam. em substituir a história por um sistema de men tirinhas bobas destinado a colocar Epicuro no centro da evolução do pensamento humano. A ÍNDOLE DO EPICURISMO § 14. forjada do mais puro ressentimento. teceram e cultivaram durante vinte sécu los. Apenas reexibiu. ele chamou Aristóteles. pa ra mostrar. enquanto em torno a fúria de seus adversários lhe assacava odiosas calúnias. malgrado suas fraquezas. e menos ainda de respondê-los com elegância. C hegaram a chamá-lo de “ímpio” e até de “porco”. t ambém se empenhe. Por exemplo. Porcarias epicúreas Mas se o epicurismo é indefensável como teoria. Após ter sido discípulo de Na usífanes por longos anos e haver tomado dele algumas das principais idéias que viria m a constituir o epicurismo. Não conseguindo fazer-se aceitar como filo sofia séria. que ele seja um eterno antifilósof o. não hesitou em chamar seu velho mestre de “verme” e “prosti tuta”.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 65 CAPÍTULO V. onde quer que se apresente uma nova defesa de Epicuro. alguém que aborrece a sabedoria e foge dela por quantos atalhos e de svios se lhe apresentem. Se assim é. de maneira inversa à do filósofo. será sempre tomada como tal por quem quer que aborde os temas filosóficos vi ndo de fora e movido por interesses alheios aos do filósofo — pelos interesses do ho mem prático empenhado em “transformar o mundo”. roendo-se de inveja da filosofia dominante. traçou um r etrato moral do filósofo como um sereno asceta em seu jardim. as clássicas lendas que os epicuristas. Era famoso pela incontinência verbal com que difamava sobretudo os ausentes. não foi nada disso. que constituem para ele um sucedâneo de teoria. na obscuridade do ostracismo. não poupava mesmo aqueles com quem tinha uma dívida pessoal. Pessanha não inventou. de stinada a acompanhar a filosofia pelos séculos dos séculos sem desaparecer nunca. além de cultivar no seu j ardim todos os sofismas clássicos. era incapaz de permanecer indiferente aos ataques dos adversários. E ele. Convém repassar algumas delas. Ele é um equívoco permanente. lorotas novas. w Em seu esforço de canonizar Epicuro. propriamente. tudo suportou c elegância e resignação. ocupado somente das coisas do intermundo e alheio à vã agitação dos á os humanos. fazendo coro à longa tradição de marketing epicúreo. Essas balelas reaparecem. pr ojetando no chão a imagem obscura e invertida que. só para ter de reerguer-se. concorrer com as outras filoso fias e defender seu lugar. que a escola que trapaceia no campo da teoria não teria por que eximir-se de fazê-lo também no campo dos fatos. os exilados. no campo da ação prática. ainda que modesto. ele constitui um fenômeno significativo. Como diria Nelson Rodrigues. malgrado sua ética declarada de indife rença pelo mundo.

62 Ingem ar Düring. É o que faz. 61 e foi obrigado a fugir para a Ásia Menor. Ingemar Düring escreveu o seguinte sobre os ataques que forçaram o Estagirita a buscar o exílio: “Seus mais inflamados inimigos encontram-se entre os epicuristas . Exposición y Interpretación de su Pensamiento. encontrou campo livre para se expandir. pois. a ascensão dos pensadores politicamente inócuos em tempos de tir ania é um fenômeno que nós aqui no Brasil conhecemos bem. Aristóteles. Nestas condições. e o descrédito em que veio a cair o epicurismo. combatiam Aristóteles porque reprovavam suas doutrinas e sua filosofia. transmitiu-se como um vírus às gerações seguintes de epicuris . Bernabé Navar . só reaparecendo no século XII. A campanha epicúrea de difamação deixou marcas profundas e foi ressuscitada no Renas cimento por Gassendi e Patrizzi” 62. quase nada sobrou do aristotelismo. enquanto viveu ele esteve no bem -bom. respondeu a ele com injúrias pessoais. várias escolas foram fechadas e muitos filósofos — adversários potenciais de Epi curo — tiveram de emigrar: a nova seita. é claro. Pessanha. que se passava com Epicuro? É falso que e le tenha sofrido qualquer perseguição ou ataque sério em vida. a tradição anti -aristotélica era forte já em vida de Aristóteles” 63. 1985. para escapar à morte.. sem ser jamais incomodado pelos poderosos. A escola epicúrea floresceu em At enas quando a cidade. Mas enquanto Aristóte les. Em alguns. morto Aristóteles. Mal havia alcança do certa posição como professor.. Um suc esso. Também está na hereditariedade epicúrea a propensão a jogar com as aparências para criar f alsas impressões persuasivas (a lógica dos sinais é uma técnica de fazer isso). Outros. era e continuou sendo sempre um estrangeiro. o ja rdim logo ficou lotado de senhoras mal casadas e de milionários entediados..66 OLAVO DE CARVALHO aqueles de quem havia copiado alguma coisa: cobri-los de injúrias. sem nenhuma seleção intelectual. se encontrava sob o domínio do t error. No monumental estudo que consagrou a Aris tóteles. Aristóteles “não foi chefe de uma escola . Assim. Como ali se ace itavam indiscriminadamente quaisquer discípulos. para afetar ind ependência. e os epicuristas um punhado de bravos em luta contra a opressão. Para completar. por sua vez. pois foi um dos muitos professores cassados pela ditadura militar. o móvel era o ódio político.. ia para o exílio. Carlos García Gual no seu livrinho apologéti co 61. o fato é que. Pode-se imaginar o que a nossa geração. Mas por que não deveríamos explicar por igual motivação os ataques dos adversários? Por que o mesmo procedimento deveria ser louvável num homem e condenável nos outros ? O hábito da difamação. para criar retro ativamente a aparência de que no meio ateniense os aristotélicos fossem a classe dom inante. membro d a escola megárica.. trad. Foi exata mente isto o que Pessanha deu a entender ao público do MASP. por exemplo. Mas o fato é que Aristóte les. que o cultivaram ao longo dos séculos. que desapareceu da memória dos gre gos para só ressurgir três séculos depois. Epicuro. Teopompo e Teócrito de Quios odiavam Hermias (sogro de Aristóteles) e transferiram esse ódio a Aristóteles. Eubúlides. pensou e disse dos 63 Carlos García Gual.. Madrid. Demócares e Time u facilitaram a calúnia dos pósteros.. Ao contrário de Platão — escreve Düring. aliás. sobretudo. mas somente um dos muitos cientistas estrangeiros na Academia. na época.. O epicur ista de hoje pode utilizar o prestígio dominante que Aristóteles veio a ganhar nos séc ulos posteriores. Aristóteles teve poucos amigos e muitos inimigos. 1981. em Atenas. no que é o maior e melho r dentre os estudos recentes sobre o assunto —. visto com maus olho s pelo beautiful people. Alianza Editorial. e logo em seguida sumiu de novo quase por completo. É de estranhar que um tipo desses venha a ser chamado de porco? Os epicu ristas. que pregava o absenteísmo político e não oferec ia perigo para o regime. estando doze mil de seus cidadãos com os direitos políticos suspensos. de teor político. desculpam esses excessos verbais como manifestações da justa indignação m oral do mestre. Embora sua filosofia te nha sido severamente refugada pela posteridade. ocupada pelo tirano Demétrio. já às portas da Era cristã 64. Curiosamente. reed. não pode tê-lo ignorado.

pp. cit. fasc. p. 1994 ). op. 685-687.ro. Paris. ). V. Pierre Aubenque. e também as apostilas de meu curso Pensamento e Atualid ade de Aristóteles ( Rio. México. IAL. 64 . t. Gallimard. I. Universidad Nacional Autónoma. p. Histoire de la Philosophie. Aristote et le Lycée. 1990. I-III. Düring. em Brice Parain ( org. 41. 42. 1969 ( Bibliothèque de la P léiade )..

Ora. aqui e ali. Os motivos para a rejeição do epicurismo não foram quase nunca de ordem religiosa. provocado pelo fato de que a escola aceitava em seu corpo discente a té mesmo notórias prostitutas. atual. A corrente reprobatória começa com os estóicos e os aristotélicos. Embora apreciado. Mas o ascetismo epicúreo não foi nem poderia ser nunca o exercício de uma virtude gratuita. é a favor do cristão. tínhamos boas razões para pensar que as circunstâncias do sucesso daquela gen te eram pelo menos um sinal da vacuidade das suas idéias? Epicuro. ademais. adornou o mestre com os traços de um santo asceta. em preconceitos religiosos. porém. Não obstante. Entre os dois “comércios”. por literatos e por pens adores bissextos. para Epicuro. qualquer idéia filosófica que não tivesse em mira o alívio da dor e a obtenção do prazer. um instrumento em vista de um fim: a conquista da felicidade terren a. Filosofia e ascetismo eram portanto. como o dos cristãos. foi apenas um zunzum de fofocas. Ele era. encontrando sua mais plena expressão em Hegel. O filósofo do jard im.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 67 novos professores que entraram no lugar dos cassados e passaram a brilhar nas cáte dras com suas idéias politicamente inofensivas. . e dec laradamente. com a expectativa de uma recompensa em outra vida. enquanto Epicuro viveu. meramente instrumentais. Que. na moral estóica ou nos místicos mussulmanos que professam “renunciar ao Paraíso” pa ra contentar-se com o amor a Deus como um fim em si). “não quer arriscar por nada a felicidade pessoal. a tradição epicúrea. A diferença está em que a recompensa esperada pelo cristão é espiritual e de além-túmulo. Éramos todos então uns caluniadores in decentes. que o epicurismo suprime. ao contrário. era totalmente desprovida de sentido. dar a essas picuinhas uma dimensão comparável à da morte de Sócrates ou à do artírio dos cristãos. Epicuro foi tido em péssima conta por quase todos os filósofos. Outra lenda querida aos corações epicuristas é a de que a escola caiu no descrédito e no esquecimento. prolong a-se em Agostinho. ressaltando que seu ascetismo era ainda mais meritório por não contar . Caso haja nisto alguma diferença de mérito . No fundo. Não houve perse guição contra os epicúreos. graças a uma conspiração urdida por aristotélicos e cristãos e inspirada. não so freu perseguições: beneficiou-se com a perseguição que os outros sofreram. Epicuro e seus discípulos mostrassem por vinte séculos uma profunda indignação ante tais ninharias. ergueramse de tempos em tempos as vozes corajosas de alguns servidores da verdade. afirma ele. por exemplo. como um interesseiro comércio com Deus. como eles. em vez de perdoá-las como manifestações banais da indiscrição humana. ao contrário. para Epicuro. evidencia neles uma peq uenez de alma que os torna indignos do nome de filósofos. da Antigüidade até agora. que povo do mundo não daria trela a fofocas ao ver milionários trancarem-se com prostitutas entre os muros de um jardim? Chamar a is to perseguição. mas d ecorreram. pelo essencial. O que houve. atravessa a escolástica sem atenuar-se em nada e penetra com a mesma força na Idade Moderna. ao alcance da mão”. independente de q ualquer expectativa de benefícios (como se encontra. para proclamar a grandeza do mestre e squecido. Exige pagamento à vist a. Se este é “interesseiro”. A história é outra. cujo ascetismo desenvolve as virtudes da fé e da esperança num s entido último da existência. de razões puramente filosóficas. o alívio mais imediato e o mai s imediato prazer possível. e a do epicurista é material e a curto prazo. enquanto o ep icurismo assume a nobre aparência de um sacrifício gratuito. como Pessanha quis fazer crer que fossem os críticos de Epicuro? Ou. não o é menos o epicurista. entra na era Patrística com Lactâncio e Dionísio. na ética militar h indu. é abdicar de todo senso do ridículo. em geral. tanto quanto os de um monge cristão. o epicur ista é apenas mais mesquinho: não dá crédito a nenhum sentido último. Pessanha atrás dela. a essa luz. de um ominoso silêncio — prossegue a lenda —. O epicurianíssimo García Gual ressalta que. O asceti smo cristão surge. Este não encontrava em Epicuro “a menor sombra de um conceito” e via no epicurismo tão-somente “p alavras vãs e representações vazias”.

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para Planck e Heisenberg. mas sim contra o determinismo mecani cista que negava Deus com base nessas mesmas leis. e como que seguindo cada qual livremente o seu clinamen. no século XX. Não é inteiramente exato o que foi dito acima. adiante § 19). absor .68 OLAVO DE CARVALHO A hipótese de que toda essa assembléia variada e milenar estivesse conjurada contra Epicuro movida tão-somente por preconceitos e fanatismos alimentados pela Igreja C atólica não merece discussão. chegam a coagular num canto qualquer do espaço um conjunto de coisas e seres mais ou menos estáveis. A inexistência de leis físicas que governem o cosmos não era para ele um argumento contra a existência de Deus. de absorver na forma superior de uma harmonia qu aisquer sons. M as a homenagem que Gassend presta a Epicuro é meramente verbal. O mais audacioso dos enxertos foi. e se por acaso. mesmo desagradáveis em si. se mpre os houve. que a matéria vibrada possa produzir. O ódio a toda a tradição filosófica ocidental inspira ria. O ponto comum é a ausên cia de leis que governem a matéria. que Pessanha não inventou nenhuma lorot a nova. num bar. A afi nidade de Epicuro e Gassend é apenas negativa: ela reside no ódio comum a Aristóteles. novamente. No universo indeterminista. ao menos em parte. é claro. enxertado de diatribes nietzscheana s. e que se utilizaria de outros meios se os houvesse e fosse o caso. O protótipo deles foi Pierre Gassend. É. fumando ou não fumando. o universo da física moderna pode parecer uma confirmação de Epicuro. e resolvessem ali tocar juntos. não o fazem por obri gação. o trompete e a corda do violino. Assim também uns músicos que o acaso reunisse num ponto qualquer do cosmos. acessív eis à percepção humana e regidos por leis que chamamos newtonianas. ou não assobiando nada. Na dança randômica dos átomos. Quanto aos devotados após tolos que mantiveram aquecida a batata epicúrea sob a crosta do gelo universal. que não oferece outro fundamento à unidade de uma tradição senão o de uma somatória de ojer izas. O Deus de Heisenberg não age so bre o cosmos como um relojoeiro sobre o relógio — como o Deus de Newton —. e em segu ida iriam embora para suas respectivas casas ou para onde bem entendessem. a pé. de carro ou de trem conforme o caso. Descrito assim. de quaisquer meios ou me canismos que se apresentem. a inexistência de um po der central regulador do cosmos? Pelo menos não foi assim que entendeu sua teoria o próprio Heisenberg. um tubo de metal ou uma tripa de carneiro. que não compromete em nada a sua l iberdade fora dessa zona restrita. para isto. pelo trajeto que a cada um aprouvesse. Pessanh a disse admirá-lo como a um elo importante na tradição materialista (v. que os esnobes insistem em pronunciar à francesa Gassandí (1502-1655). A ord em da forma total sobrepõe-se aqui à ordem ou desordem das matérias e elementos. mas sim com o o músico que. onde cabem todos os contras. cada um assobiando pelo caminho uma melodia diferente. o epicurismo de Paul Nizan. inclusive. sejam eles um caniço. latinizado Petrus Gass endi. Mas quem disse que o indete rminismo de Planck e Heisenberg tem sentido negativo? Quem disse que a indetermi nação dos movimentos dos átomos prova. obra original dele (com alguma ajuda de Nizan e García Gual): revigorar o corpo moribundo do epicuri smo com uma injeção de física moderna: Epicuro teria sido um precursor do indeterminis mo de Planck e Heisenberg. digamos. É preciso ter praticado muito Tetrafármacon para poder enxer gar estóicos e protestantes como agentes secretos do Papa. sem se perguntar se quer o que os outros estariam fazendo enquanto isso. indiferente ao mecanismo físico que produz os sons. que a isto se reduzem respectivamente a flauta. alegre o u triste segundo o estado de seu fígado. o que é aliás a única boa razão pela qual alguém pode aderir ao epicurismo — filosofia polissensa. todas as combinações são possíveis. como por exemplo um atomismo à Demócrito e a noção de Deus como causa eficiente do movimento cósmico. mas pelo efeito de uma coincidência estatística. os átomos se movem s em nenhum roteiro predeterminado. far iam durante esse breve momento gestos coordenados segundo a partitura. chocando-se uns com os outros. já que de outro lado ele defende teses absolutamente incompatíveis com o epicurismo. servindo-se. os organiza segu ndo a forma de uma intenção estética. a unidade de uma negação. já que a beleza não se funda nas leis da causalidade física e sim da intencionalidade e stética. Gassend tomou-se por epicurista justamente porque não compreendeu Epicuro. — a qual é capaz.

A ausência de uma .vendo-a e superando-a ao lhe dar um sentido.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 69 causalidade rígida. Mas dispensável mesmo é a hipótese deter mi65 § 15. que só lhe foi mostrada décadas depois pelos adversários da t eoria. premido entre a força cega do desejo e a força cega da fatalidad e exterior que o frustra eternamente. Francis — um autor que sob outros aspectos é d igno da maior admiração — não é o primeiro intelectual brasileiro que vejo admitir sem con strangimento. filosoficamente. Helvétius. La Mettrie. Ou seja: um defeito da ciência física pode ter sido projetado sem mais nem me nos sobre a estrutura do real. Rio. Jaki em “Determinism and Reality”. 52 — na verdade um segundo volume. Uma teoria física. p. É na verdade uma afirmação ambígua. V. É verdade que o indeterminismo de Heisenbe rg pode ser usado contra o realismo filosófico ( uma doutrina que. pois não deixa claro se a margem de erro afeta some nte a velocidade. O exemplo mais recente é Paulo Francis. Ademais. cit. que só redobra os sofrimentos. continuação de O Afeto que se Encerra. ter encontrado mais tarde. e que. acidentalmente. com base em leituras superficiais. No primeiro caso. Mas o que lá dentro aguarda o meditante é uma conclusão . então Deus se tornava uma hipótese di spensável ( o mais feroz dos deterministas. 1980 ). Quer dizer que a margem de erro ao medir a posição x de um e n. Porém o mais esquisito em casos dessa ordem é a afoiteza com que muitos in telectuais concluem do indeterminismo físico a inexistência de Deus. sobretudo jovens. isto é. A fórmula do “princí io de incerteza” é ∆x • ∆mv ≥ h. The Great Ideas Tod ay 1990. Cap. Esta e outras mancadas terrificantes são mostradas impiedosamente por Stanley L. uma inexatidão in erente à natureza mesma da realidade física. mas isso não o coloca de modo algum contra o espiritualismo em geral. absorvida pela Igreja através da sua versão tomista. c’est de mourir comme des imbéciles. Heisenberg buscou o seu em Malebranche e Leibniz. no racionali smo clássico. durante uma meditação no bonde. entre os muros do jardim. Civilização Brasileira. Para Pierre Bayle. antes mesmo de terem chegado a perceber a ambigüidade. Laplace. era para Heisenberg a prova de que o cosmos é a expressão de uma inteligência criadora e não uma máquina inerte 65. O que essa concepção nos descreve é um mundo caóti co. Ao contrário. comete uma segunda leviandade. que se compraz n a derrota do homem. m. dan do mau exemplo aos leitores. vezes vel ocidade. confessa ter chegado a inda adolescente à conclusão da inexistência de Deus. v. os argumento s de Heisenberg não são tão sérios quanto o imagina o leigo deslumbrado. onde átomos e homens buscam em vão escapar da dor perseguindo a miragem de um prazer impossível. 1994. e. naquilo que podia haver de mais antagônico ao nonsense epicurista 66. multiplicada pela margem de erro em medir o seu momento ( massa. o princípio de incertez a expressaria apenas um obstáculo de tipo operacional. É um diletantismo trágico. acabou por se incorporar ao dogma ). de um mecanicismo. e até com certa vaidade. a origem fortuita e o caráter leviano de suas opiniões sobre assunto grave. s em nunca mais voltar ao assunto. ou também a massa. no segundo. Chicago. v ) nunca é menor que h. que a constante de Planck dividida por 2p ). requer sempre algum fundament o filosófico. foi aliás quem introduziu no léxi co das autodefinições pedantes o termo agnóstico ).” GEORGES BERNANOS Não deixa de ser irônico que o epicurismo tenha entrado no vocabulário popular como si nônimo de gozo sibarítico. não havia a menor dúvida: se o universo funcionava como uma máquina segundo leis imutáveis de causa-e-efeito. Trinta Anos esta Noite ( São P aulo. O ú nico refúgio é a meditação resig ada. por si. Companhia das Letras. A fuga para o jardim “Il faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seuleme nt de mourir. absurdo. Encyclopædia Britannica.. uma confirmação nos argumentos de Heisenberg. não prova nada. Mas de fato o exemplo é inócuo: a mod a já pegou. I. Werner Heisenberg. Ele não é nada disto. varrendo para b aixo do tapete o fato de que durante dois séculos o argumento maior em defesa dess a conclusão foi justamente o determinismo. 66 É no entanto um lugar-comum entre inte lectuais de escassos conhecimentos filosóficos alegar as teorias de Heisenberg com o argumentos a favor do ateísmo. m. que no seu livro de memórias. ao fazê-lo. Muitos adeptos do indeterminismo simple smente deram por pressuposta esta última alternativa. isto é. d’Holbach e tutti quanti. op.

um gr ave sinal de imaturidade intelectual. o nada. Ademais. pode haver alguma inexat idão. . Não se conhece um único caso célebre de pen sador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura. 67 Cito de memória. É que o ateísmo. com as dúvidas e as crises. A mensagem final d o epicurismo é. e uma vez tomada não lhe resta senão racionali zar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos. A história do ateísmo militante é uma suce ssão prodigiosa de intrujices. prévia a ualquer consideração racional do assunto. quase q ue por definição. já que ambas podem ser usadas igualmente como “provas” do que se deseja provar per fas et per nefas. fazer a apologia do esquecimento. O caminho do asceta epicúreo é aquele que o mat erialista Heinrich Heine viria a descrever num breve poema 67: nista. em geral. bem como sua contrária. é uma opção de juventude. O ateísmo militante é. por si. Só resta então e mbelezar a imagem da morte. sem qualquer esperança de outra vida. ao passo que o ateísmo militante tem sempr e a típica rigidez cega das crenças de adolescente.inescapável: a certeza da morte. por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. toda fé religiosa coexiste. rigorosamente.

de Caetano Veloso. pela pseudomística “oriental” importada da Califórnia. esquecimento. nos anos que se seguiram a 1968. em suma. a debandada geral que se seguiu ao Ato Institucional no 5 levou mui- tos à evasão pelas drogas. Arrasadas as instituições democráticas . Mas a raiz do seu êxito está em outra parte. de compressivo desespero. A mística intelectualizada ficara fora de alcance. Para sete palmos abaix o do solo. separando e isolando os indivíduos. o primeiro sist ema completo de pensamento niilista que surge na história do Ocidente. Mas a comparação das épocas ainda está imprecisa. onde editou Os Pensadores. de uma raiz que significa “socorrer”. O epicurismo aplanava este caminho. típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo — escreveu Jakob Burckhardt — é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ru it. dando lugar à lamentação melancólica. Seu próprio nome. Cada qual fechou-se no cubículo das suas angústias particulares. no tempo de Epicuro. um a utêntico hipnotizador.70 OLAVO DE CARVALHO Tu perguntas e investigas. ao desesperado ateniense daquele tempo só restava um caminho: o caminho para baixo. na ausência de uma consciência filosófica pessoal. Numa terra que se estreita sob o jugo dos tiranos. em que a voz dolorida de Elis Reg ina suspirava por “uma casa no campo” — refúgio do militante que o desengano transformar a em diletante. A sement e da persuasão não germina se não é plantada no solo fértil dos anseios coletivos.” Mas. um silêncio temeroso baixara so bre as praças. A músi ca popular assinalou a mudança dos sentimentos no ambiente universitário: o protesto aberto e combativo desapareceu das letras de canções. Jim Jones avant la lettre. que davam um sentido de participação histórica ao s intelectuais brasileiros. o caminho do céu. sem uma porta para o céu. A época d e Epicuro ansiava por alívio. seu sucesso derivou de um estado de completo cerceam ento espiritual. Foi provavelmente nessa ocasião que ele desc obriu um alívio na farmacopéia epicúrea 68. desmoralizada pela crítica filosófica. pe rdera todo atrativo. cujo título me escapa. mas um mestre do discurso encantatório. É uma filosofia de homens reduzidos à condição de r atos. com o exílio dos filósofos. outras anestésicas e outras mortíferas — a resposta final. fizeram ali grande sucesso “Felicidade”. Minha geração — que é a de Pessanha — levou fundo a experiência da solidão e do exílio. buscas e te esforças. o caminho d o céu também estava fechado. é coisa que surpreende. capaz de adornar com todas as fl ores da retórica o caminho que leva a sete palmos abaixo da terra.” Não preciso ir longe para buscar um exemplo. fechadas as principais escolas filosóficas. que predispunha os homens a aceitar a s mais aviltantes promessas de alívio. na gradação seriada de uma pedagogia do abismo. “auxiliar” ou “medicar”. meditava na prisão sobre os benefícios interiores do isolamento forçado: “É a terra vencida que nos dá as estrelas. professor esquerdista expulso da cátedra. não deve ter sido alheio ao s u sucesso: vale por um slogan. um perseguido político. um convite à fuga pelo “vôo d o pensamento”. um a forma requintada e falsamente prazerosa de niilismo. Esmagados os ideais da esquerda nacionalista. Mais que da mera depressão política. Mas o jardim de Epicuro tinha muitas plantas: umas alucinógenas. sono. a intelectualidade foge para o silêncio do campo para buscar a vida interior. Expulso da terra. É. Serviriam como jingles do Jardim de Epicuro. um niilismo. Nesse quadro. pela embriaguez erótica. serve para integrar os átomos humanos num sentido maior da existência e os redimir da sua insignificância. a rigor. O filósofo Boécio. E isto lá é resposta? Que a perspectiva deste desfecho acachapante pudesse atrair para o epicurismo um a multidão de devotos. e uma outra. O epicurismo é. sem qualquer saída para a ação coletiva que. Para o esquecimento eterno. E picuro não foi só um teórico da necrofilia. e no fim te enchem a boca com um punhado de terra. foi trabalhar na Edit ora Abril. A religião oficial. Por essa época José Améri co Motta Pessanha. O Tetrafármacon misturava todas elas. Marx e Guevara foram trocados por Allan Watts e Timothy Leary. o afluxo de d iscípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada. para os quais o esgoto é uma esperança. 68 . extintos os sonhos de reforma moral e política que haviam alimentado as discussões públicas.

8.Sobre o evasionismo dos intelectuais logo após o AI-5 e sobre o ingresso das teori as niilistas no cenário brasileiro. . meu livro O Imbecil Coletivo. Cap. v.

propondo o nada. desde vários anos antes. impesso al. p rincipalmente de ação moral e política. Logo. justamente na hora decisiva em que a filosofia emergia de uma longa germinação subterrânea para assumir à luz do dia seu papel de condutora da política nacional. dois joões-ninguéns. é que es amos chegando mais perto do desenlace que tudo esclarecerá. Não se pode transformar o mundo fugindo dele. como editor da série Os Pensadores. Como se explica então que. se ao mesmo tempo a convidava ao sono do esquecimento? Se desejávamos compreender as intenções de Pessanha. Karl Marx. não propõe nada. É refratário a qualquer projeto de ação. que Pessanha não podia estar desinformado desse objetivo. neste momento parecemos estar mais longe que nunca de alca nçar uma resposta clara. logo em seguid a. e não de algum pretenso sujeito coletivo. conscientemente. o ciclo de conferências sobre a Ética. que apreciou no epicurismo sua crític a da religião oficial grega e sua mistura “dialética” de teoria e prática. primeiro. porque. ele tenha subido ao pódio do MASP para convocar o povo a evadir-s e para o jardim de Epicuro? Como esperava despertar a platéia para a luta política. Em dialética é assim mesmo: quando a treva da contradição se adensa até o intolerável. Vimos. leitor. onde houver “nós”.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 71 Mas o niilismo. por ser um dos mais eminentes membros do grupo que planejou o ciclo. ele já vinha. segundo. Fomos aos poucos juntando os fios desta investigação. Pois havíamos começado — nós: eu e o leitor 69 — por constatar o objetivo político a que v isava. não uso jamais o plural majestático. e parec emos não ter obtido nada mais que um nó indeslindável. preparando o ter reno para a transformação da filosofia em arma política a serviço de determinados fins. Porém aí o mistério que este livro está investigando chega à mais densa obscuridade . . 69 Por princípio. Mas que o leitor não desanime. bem viu a peric ulosidade política da sua moral evasionista. genial por transcendente à imbecilidade dos elementos singulares que o compõem. há de tratar-se ambos.

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LIVRO III .MARX - .

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A capacidade das es querdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atroc idades do regime comunista — e. a absorção da lógica na retórica. A teoria epicúrea não de creve o mundo percebido. o teórico do “historicismo abso luto”. um objetivo declarado. Se norm almente a teoria é o fundamento lógico da prática e esta é a exemplificação daquela no campo dos fatos. meus livros A Nova Era e a Revolução Cultural. mediante exercícios. e já não a força das causas eco nômicas objetivas. uma vez realizada a ação. Tudo leva a crer que a convivência do jovem Marx com a filosofia de Epicur o — matéria de sua tese de docência — deixou no marxismo acabado marcas mais profundas d o que os estudiosos geralmente supõem e do que ao próprio Marx adulto interessou dec larar. numa outra e paralela linha des sa evolução. Caps. adiante. mas uma co nseqüência inevitável do conceito marxista da natureza. está reduzida ao papel de uma racionalização a posteriori. a diferença entre o efetivo e o possível. é uma herança mórbida qu através de Marx. que assume declaradamente aquilo que em Marx estava apenas insinuado e implíc ito: a abolição do conceito de verdade objetiva e a submissão de toda atividade cognit iva às metas e critérios da praxis revolucionária. seja a mola mestra que move o progresso e dispara a revolução. o ímpeto. que leva a Reich e a Marcuse. A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel. O leitor deve ter reconhecido a sentença anterior: é a 11ª Tese sobre Feuerbach de Kar l Marx. Acontece. . Este s desenvolvimentos manifestam à plena luz do dia tendências que 70 A supressão do conhecimento objetivo não é. Caps.” Alfred FABRE-LUCE Epicuro inverte. Não se trata de compreender o mundo. II e III. 2-5. a relação lógica entre a prática e a teoria. de uma apologia do fato consumado. legitimar como s atisfatório o que quer que tenha dela resultado na prática. mas de transformá-lo.CAPÍTULO VI. A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO § 16. Fritjof Ca pra & Antônio Gramsci. e nos precipita numa crise a lucinatória onde já não há lugar para o recuo teorético que fundamenta a noção mesma de verda e objetiva 70. em Marx com o em Epicuro. e o discurso teórico não será nada mais do que o elemento discu rsivo da prática. veio do epicurismo. suprime. § 17. no entanto. como se viu no § 10. a percepção do mun do. A natureza para Marx só tem exis tência como cenário da história ou como matéria branda e plástica a ser moldada pela ação hum na. o desejo erótico. 71 V. V. ao preferir antes ‘transformar’ do que ‘compreender’ o mundo. no epicurismo a prática é que produz artificialmente a condição psicológica qu e tornará crível a teoria. e eles serão não somente aceitos.. em Marx. a tradução verbal da crença produzida pelo hábito. a ambição — da alma individual ou das massas revoluci onárias — torna-se o fundamento único de uma cosmovisão onde a teoria já não serve senão para estimular retoricamente a ação prática ou para. Também é compreensível que. mas celebrados pela teoria como norm ais e desejáveis: a teoria não tem aí nenhum valor autônomo. a bolindo a distância normal entre a esfera da ação e a da especulação. O desejo. exterminado o comunismo na URSS. era levado a avaliar um pensamento por sua capacidade de mobilização. Mesmo que a ação produza efe itos totalmente diversos dos esperados. já não haverá distanciamento crítico suficiente para julgá-los. que essa simbiose. Epicuro e Marx “Marx. da ciênc na propaganda ideológica 71. Não é de estranhar que a evolução de um século do pensa mento marxista tenha desembocado em Antonio Gramsci. e O Imbecil Coletivo: Atualidades Incultura is Brasileiras. mas sua prática altera. para que se torne semelhante à teoria. mas é uma herança epicúrea. para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não h ouvesse nenhuma rel ação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —.

mais afin ados com as tradições clássicas do Ocidente e ansiosos de filiar Marx a elas. Da Crise da Universidade à Crise da Sociedade. sobretudo a partir da década de 60. José Guilherme Merquior. expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheio s à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — o u mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética. 1989. São Paulo. mesmo tímido . argumenta Michel Löwy. v. Best Seller. 1990. o passado r ejeitado volta com redobrada força 72. protesta ram contra a invasão do irracionalismo que. entre os mais notáveis do século. não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as s uas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. Ensaios sobre Lukács e Benjamin . aquele. trad. mas com ênfase positi va. Freud. Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita. a reconhecer qualquer conexão entre esses males e o ideal socialista. a enxergar os males do com unismo. brasileira. depois da queda do Muro de Berlim. a absor verão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem ca ir longe das finalidades sonhadas. para fora. Nova Fronteira. O Marxismo Ocidental. como a de falo aqui ). e também Allan Bloom. da prestidigitação. Trata-se d e neutralizar a inteligência humana. colocando-a no encalço de metas utópicas que. a marca de um ressurgimento nazifascista. para a ação coletiva que vai transformar o mundo. durante quase um século. pela sua capacidade quase diabólica de o tran sfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes d o que são? Que Marx tivesse.76 OLAVO DE CARVALHO em Marx já estavam latentes como heranças do seu epicurianismo de origem. ou. No mesmo sentido. Rio. Mas é uma d iferença de escala antes que de natureza: nos dois casos. O Declínio da Cult ura Ocidental. do fran quismo ou das ditaduras latinoamericanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que a quela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos a bstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou supra-hist cas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de e xperiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos. sem qualquer raiz na ideologia por ele prof essada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo s ubstancial. Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente . Marxismo e epicurismo parecem ir em direções op ostas: este. quando crimes de muito menor escala ba staram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano. como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática. pel a dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima. pessoalmente. trata-se de envolver ser es humanos numa praxis absorvente e hipnótica. para fechar-se no jardim com a comunidade dos ele itos. e de outro lado possa crer que o ide al socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das corren72 Sobre a contaminação irracionalista do marxismo no curso da sua evolução ( não na sua raiz . R aul de Sá Barbosa. trad. São Paulo. O fato de que tenham ressurgido ao longo da evolução do marxismo mostra que Marx soube recalcá-l as. term inou por contaminar toda a esquerda mundial: como dizia o dr. Merquior mostra que os elementos românticos e irracionai s eram fortes no pensamento do próprio Lukács. de intelectua is. mas não superá-las. trad. quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquis ição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável. Edusp/Persp ectiva. se não pela formidável potência ilusion ista inerente à raiz mesma d marxismo. que os afastará para sempre da tentação d a objetividade. Romantismo e Messianismo. um tremendo senso do teatro. Em vão pensadores marxistas como Lukács ou Horkheimer. É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem. de artistas. fugindo do mundo. 1987. tes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resulta do da maldade fortuita de um só homem. do fingime nto.

e Paul Johnson. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as con sciências. a mixórdia proposital e alucinógena da teor ia na prática e da prática na teoria. e em seguida co nstatamos ser idêntica. notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem M arx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos. Edmund Wilson. no entanto. . Os Intelectuais. então compreendemos a virulência inesgotável da hera nça epicurista. em Epicuro e nele. Quando. capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada 73 V.73. Rumo à Estação Finlândia.

Cap. otro milagro de la primavera. é na verdade uma substituição. precisamos entender qual a atitude que a antecede u. Mas a alteração. nesta tese. con su hacha el leñador. olmo. enquanto os demais homens o transformavam. essencialmente. mañana. é a eles que cabe convocar a uma mudança de atitude. A 11ª Tese sobre Feuerbach propõe. mediante uma súbita mutação ou ro ação do quadro perceptivo um snapping. O leitor que preferir saltar direto para o § 18 não perderá o fio do argumento . e da qual jamais pensaram em sair? Não pode ser este o sentido da tese de Marx . Sua convocação não se dirige aos homens em geral. Em que consiste a atitude interpretativa. a substit uição se dá apenas dentro da esfera do imaginário coletivo. e.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 77 novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura. Ora. No meu ensaio “A superi oridade moral das esquerdas. antes que te descuaje un torbellino y tronche el soplo de las sierras blancas. V. quiero anotar en mi car tera la gracia de tu rama verdecida. se os homens nãofilósofos estiveram desde sempre o cupados em transformar o mundo enquanto o filósofo o contemplava e interpretava. assim como tomar consciência de uma neuros e não é o mesmo que estar curado. hacia la luz y hacia la vida. nem muito menos aos homens da praxis. Não se trata de inaugurar só uma nova prax is. Mi corazón espera también. “A un olmo seco” 1. Daí a invulnerabilid ade do marxista convicto à argumentação racional. 2. Marxisme pas mort: ele subsiste como um complexo n o subconsciente dos que o rejeitaram sem criticá-lo a fundo. apenas se privará de uma demonstração mais rigorosa — e mais entediante. porque julgavam que esta era a sua tarefa específica. diriam Conway e Siegelman. de fazer teoria. y el carpintero te convierta en melena de campaña. São eles que estiver am ocupados somente em interpretar o mundo. que os distinguia dos outros homens. aos conceitos trad icionais de theoria e de praxis. Posso explicar melhor e dar um fundamento mais “técnico” ao que foi dito no parágrafo an terior. que Marx opõe à atitude cow. Portanto. Ele não apenas pensa diferente do não-ma rxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes. Progress Publishers. q ue sentido teria convocá-los a uma praxis na qual já estão envolvidos por hábito imemori al. mas especificamente aos filósofos. Para sab er em que consiste essa mudança. temos de admitir que de fato os filósofos. na medida em que deixa de ser ma simples propriedade ou um acidente da substância. A Nova Era e a Revolução Cultural. desde sempre. uma mudança básica na atividade do filósofo enquanto tal. A quem se dirige a convocação? Se Marx se reporta. mas um novo tipo de theoria. antes que e l río hasta la mar te empuje por valles y barrancas. 1964. “Até agora — diz a 11ª Tese 74 — os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. al borde de un camino. III. antes que rojo e n el hogar. ANTONIO MACHADO. lanza de carro o yugo de carreta. ou: o rabo e o cachorro”. que por sua vez consistirá em praxis. Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” Antes que te derribe. A maioria dos homens esteve sempre envolvida com a praxi s. reproduzido em O Imbecil Co letivo. O verbo verändern vem da raiz ander = “outro”. Os filósofos interpretavam o mundo. olmo del Duero. ardas de alguna mísera caseta. es kommt darauf an sie zu verändern” — frase do manuscrito reproduzido em fac-símile em The German Ideology . da contemplação da verdade. tomados indistintamente. Ao adotarem a atitude in versa à da maioria. como o doente histérico par a o qual imaginar é sentir. se ocuparam de interpretar o mundo. § 17.” 74 “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert. Cabe-lhes agora transformá-lo. item 3. e desinteressada da theoria. Ma s isto também significa que abjurar expressamente do marxismo não é o mesmo que libert ar-se instantaneamente de sua influência. ocupados p or seu turno com a praxis. os filósofos faziam um contrapeso dialético à praxis: a vida contemp lativa opunha-se à vida ativa. esboço uma psicanálise do marxismo residual de nossos intelectuais. de modo que a tradução mais exata seria “alterá-lo”. n a medida em que o mundo real não pode realmente ser substituído por outro.

S. Ryazanskaya. trad. Mos- ..

Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos céleb res e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. a possibilidade “cavalo”. uma dignidade e uma realid ade superiores. Nisto consistia. isto é. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos). é a es ta última que devemos reportar-nos. 3. mas isto não vem ao caso. cada qual. o deus psicopompo. portanto. (É verdade que o termo praxis tem em Marx. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a par tir do platonismo. Este plano era considerado superior. não se ocupava ge nericamente de contemplar. A theoria. patenteando (al etheia) o seu verdadeiro ser (ón). eram para o filósofo signos. o arquétipo de “cavalo”. estética. do particular. propriamente. ao investi gar o ser do objeto. num sentido em que os demais homens também po diam contemplar e olhar. uma contemplação filosófica e não outra qualquer. basicamente. mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenali dade imediata a um estrato mais profundo e permanente. Pela razão. a postura i nterpretativa do filósofo grego. Para Platão. Qual a diferença essencial entre a atitude conte mplativa — ou interpretativa — e a atitude transformante. Entre o signo e o significado. O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes. Pouco importa. a razão. eterno.1. imutável. ou pr etende ter. de sela ou de t rabalho etc. ao elevar o objeto até o nível da sua idéia. que ele decifrava em busca do significado ou essência. portanto. movediça. encarregado de levá-las na escalada e descida atra vés dos mundos ou planos de realidade. enganosa. isto é. superior à aparência fenomênica e transi tória. as essências con stituíam um mundo separado. isto é. eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades. não podemos supor que ti vessem em mente o sentido marxista da palavra praxis. O filósofo grego contemplava as cois as. pois. Esta contemplação conferia a essas coisas. Em suma.78 OLAVO DE CARVALHO transformante? Sendo theoria e praxis conceitos clássicos da filosofia grega. contidas eternamente na Inteligência Divina. para o p lano das essências. tran sitório e aparente ao universal e estável. contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. re sgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo. o núcleo inteligível era im anente ao mundo sensível. as coisas. uma consistência ontológica superior. o filósofo. e mais um sem-número de essências não m anifestadas ou possibilidades). Era correlata das noções de logos (“razão” ou “linguagem”). sub specie æternitatis. revelação da verdade oculta). Dito de outro modo. todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro. desde o ente fenomênico até o se r essencial. Pode manifestar-se em ser es míticos que “participam da cavalidade”. para Aristóteles. Na filosofia grega. se os filósof os antigos a que Marx visa faziam theoria em oposição à praxis. A contemplação do homem com um podia ser lúdica. ela se baseia na crença de que todos fatos e todos os entes são fenômenos — “apareci- mentos” — de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilid s. como o pégaso ou o unicórnio. A do filósofo. por assim dizer. na categoria da eternidade. percherões ou mangalargas. do sensível ao inteligível. porém já era a dos eleáticos. seu sent ido “eterno”. não. a palavra theoria tinha uma acepção precisa. entre a theoria e a praxis? 3. utilitária ou o que quer que fosse. a diferença entre platonismo e aristotelismo. Enfim. a beleza dos seres humanos e da paisagem etc. em seguida o filósofo dizia (logos) o que era ess a coisa. O homem teorético. transcendente. Era um tipo muito determinado de contemplação. “guia das almas”. árabes. do ser verdadeiro. patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava ocult o. A interpretação (hermeneia) d as aparências consistia nessa subida de nível ontológico. a c have interpretativa era a razão ou logos. “ente”) e esvelamento”. e também por ser estável. Por exemplo. por su a vez. à luz da ete rnidade. de olhar. buscava nelas a sua significação eterna. com um motivo específico e um objetivo esp ecífico. Ao conhecer um arquétipo. que faziam dela. A conseqüência “prática” disto é portentosa. de eidos (“idéia” ou “essência”). o homem filósofo saltava de um p lano para o outro: do plano da fenomenalidade instável. ou Mercúrio. uma acepção própria e diferente. por ab ranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos. pode manifestarse em cavalos pretos ou malhados. Por exemplo. os fenômenos. e sim o sentido grego). essência ou arquétipo . para os fins de sta análise. de ón (“ser”. sei não . capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta.

o que a coisa é atualmente e .

de condenar a praxis em nome de uma u tópica vida contemplativa. isto é. transforma a coisa. Aquilo que é meio ou instr umento nada importa nem vale por si. localiz ada no espaço e no tempo. se dirige essencialmente aos meios: como toda transformação visa a um resulta do ou fim. evidentemente. para outros.3. isto é. mas esta para que me serve?”. isto é. ilusão. Para o filósofo. 3. É meio ou instrumento o trabalho. toda a latência de possibilidades q ue ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular. aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é. ela já não pode transformar-se em mesa ou estante. A prática. por não admitir que o objeto seja o que é e por exigir que ele se transforme em outra coisa: não interpreta. se a transformo em cadeira. Não se deve confundir esta oposição com a do “estático” e a do “dinâmico”. é um meio ou instrumento a árvore que ele abat e. que trans forma. excluindo imediatamente todas as demais. pela “negação” teorética e crítica da ação consumada: o espírit osófico. ao contrário. a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar) . o ente é sobretudo matéria. é claro. atualiza uma dessas possibilidades.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 79 empiricamente. Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si.4. rebaixá-la a um meio ou instr . Não é uma teoria do ser. Já não interessa o que é o cavalo ou a árvore no sistema total da realidade. ind ependentemente do que eles sejam.2. de qualquer espécie que fo sse. Se a praxis requer alguma teoria. Se investigo o objeto “árvore” para captar o seu arquétipo. ao contrário. C omo a praxis é sempre ação humana. apenas um meio. então todo objeto será sempre e unicamente enfocado sob a categoria da paixão. só se atualiza como reflexão sobre as desilusõe s do homo faber 75. 3. “o bonde é útil porque me serve para levar-me à casa da mi nha amada. Como dizia Miguel de Unamuno. isto é. e depois em lixo. Por exemplo . aquilo que faz com que ele sej a o que é. mas por alguma outra coisa: o meio ou instr umento é um i termediário. Era neste sentido que as escrit uras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento. aquilo que é finalid ade ou valor em si não é objeto de praxis transformadora. da qual saímos apenas p lo recuo reflexivo posterior. mas uma teoria da praxis. uma transição ou passagem. A praxis. é um meio ou instrumen to o carneiro que ele engorda e mata. posso fazer com o cavalo ou com a árvore. mas somente de restaurar o senso de uma hierarquia de v alores que parece ser inerente à estrutura do indivíduo humano são. De cadeira. em outros planos de realidade etc. a praxis começa por negá-la. para a praxis. o objeto sobre o qual incide é sempre e necessariamente um meio. limita suas pos sibilidades. fluxo de impressões. tomo consciência d o que ela é. sem via de retorno. mas uma teoria da ação que ele pode sofrer. Para a theoria. É um meio ou instrumento a terra que o homem lavra. do que poderia ser. não tentará investigar o que o ser é no corpo da realidade total. e o explic a e integra no sentido total da realidade. potência latente no homo sapiens. A ação produz apenas transformação. aquilo n que num certo ponto do ca minho será abandonado para ceder lugar aos fins. Porém. mas transf orma. Para o homem da praxis. de amor. esta teoria já não versará sobre a natureza do ser. e a praxis se interessa pelo que ele não é. A tendência universal do homem à econ omia de esforço mostra a sujeição dos meios aos fins. do que ela pode significar para mim. Posso. não por seu dinamismo própri o e interno. Não se trata aqui. mas tudo o que ela poderia ser. dentro do círculo de meus interesses imediatos. o ente é so bretudo a sua forma. Por exemplo. posso queimar a árvore ou comer a c arne do cavalo: se a teoria respeitava sobretudo a integridade ontológica e mesmo física do objeto. e muito menos em árvore. ela só pode agora transformar-se em cadeira velha. realizando uma delas. mas por força da intervenção humana. uma árvore. a aparência sensível imediata é sobretudo um signo ou símbolo de um se r. mas sim o que. às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. pelo ser secundário. A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém. porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemp lo. o fenômeno. das ações transformadoras que pode sofrer. mas de contemplação. po rtanto. Inversamente. isto é. como também o capital. mas apenas aqui lo em que ele pode se transformar no instante seguinte. 3. no sentido aristotélico. a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas . Já não será uma teoria do objeto. A praxis.

1967.. “Introduction”. Logique de la Philosophie. Éric Weil. Vrin. Paris.umento do meu 75 V. 2e éd. .

e sim desfrutar de sua presença sem alterá-la.4. IAL. No entanto. só posso conhecê-lo ao usá-lo. 1995 — um exemplo edificante de como o culto pedantesco de autores menores pode coexistir num mesmo cérebro com uma profunda ignorância da H istória da Filosofia. por pedantismo ou desenfado. Não desejamos mudá-lo. em que defendo a sua integridade ont ológica contra qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa. no mundo dos seres físicos.4. Capítulos de uma Autobiografia Interior ( apostila ). 4. aquilo que para mim é finalidade e valor em si. que na prática mesma há um elemento lúdico e contempl ativo. 1 . qu e veio a ser resgatada quando.3. o rgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que. após a crise mundial do marxismo. se o é de verdade. há uma nítida distinção hierárquica: a contemplação. em que o amo. É transformar o universo numa imensa máquina-de-desento rtar-bananas.4. Somente o objeto tot almente desprezível. O homem não transforma o que l he agrada. gastou. Ao contrário. num clinamen gratu ito e arbitrário que o homem. que no fim das contas não serve senão para afastar os obstáculos que nos separam do gozo contemplativo. pela sua redução a meio e in strumento. como objetivo e final dade. transformá-lo. mas neste caso já não tenho amor por ela. Olavo de Carvalho. aspectos da real idade que só podem ser conhecidos pela praxis.80 OLAVO DE CARVALHO prazer. conheço-o na medida em que o contemplo. É óbvio que se trata de uma herança epicurista i n consciente. Da C ontemplação Amorosa. Mas conheço os quadros de Van Gogh na medida em que sejam conservados intactos para minha contemplação. Rio. e sim pelo prazer como tal 76. De tudo isso. escandalizados. M as a praxis procede necessariamente pela negação do objeto. no qual no entanto alguns profissionais da cegueira. opõe ao arbitrário e gratui to clinamen dos átomos 78. mas o que lhe desagrada: ele entrega-se à contemplação por gosto. Adauto Novaes. É evid ente. desprezando o s fins. então. texto de abertura do simpósio Libertinos /Libertários.2. É encarar o real no seu todo — nele incluídos o homem e sua História. Funarte. oculta mas nem por isto menos potente. verão uma traição ao marxismo. é inverter o sentido de toda ação humana e negar a consistência ontológica da real idade. Há ape nas dosagens. O o bjeto amado. Van Gogh conheceu pincéis e tintas na medida em que os usou e. “Por que tanta libertinagem?”. u tilizá-lo para alguma outra coisa. 3. conclui-se que estatuir a prática como fundame nto e valor supremo do conhecimento é instaurar o reinado dos meios. só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder. sem mudá-la no que quer que seja 77. a negação do sentido da realidade. Ambos esses limites são metafísicos. usando. segundo a escalaridade do valor dos fins e da oportunidade dos mei os. outros que só o podem pela theoria. bem como o conjunto das ações individuais praticadas pelos seres humanos — como um vasto instrume nto sem qualquer finalidade. e jamais alcançados no mu ndo da experiência real. Rio. e a theoria pela afirmação da sua plenitude e do seu valor como fim. a apologia do absurdo. Adauto Novaes — h erdeiro da flama apagada de Motta Pessanha — crêem enxergar um papel libertador. a intelectualidad e de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudoheroismo do nonsense. em que muitos t eóricos. tem primazia sobre a prática. 76 3. V. portanto. ao contemplar e amar somos nós que nos transformamos: “Transforma-se o amador na coisa amada. A filosofia da praxis contém em se u bojo. à prática por necessidade (sem contar. que torna o trabalho agradável em si e lhe dá um valor independente do seu pr oveito prático). Só a finalidade suprema pode ser objeto de pura contemplação. mas fim. sem consistência ontológica própria nem qualquer valor em si pode s er alvo de pura praxis. Há uma diferente dosagem na combinação do teórico e do prático para o conhecimento dos vários tipos de seres: aquilo que para mim é meio e instrumento. Eis aí. é claro. como o sr.1. 77 V. Um escritor de 78 Subjugação. já em Marx. nem praxis pura nem pura contemplação. Não existe. que: 3. não é meio. bem como da História tout court.” Há. a raiz da nietzscheização da esquerda. manipulação e uso de seres humanos ( ou de animais ) com vistas ao prazer erót ico — esta é a definição mesma do libertinismo ( Sade.4. 3. Choderlos de Laclos et caterva ). num mundo sem sentido.

negado àqueles que simplesmente e humanamente fazem o que lhes parece certo conforme uma regra moral. portanto. afirmando na prática o q ue nega na teoria: a bondade acidental e diletante do imoralista parece envolta no encanto de uma gratuidade divina. A elevada taxa de intelectuais pedantes e de ricaços esteticistas nas fileiras da esquerda — um fenômeno universalmente conhecido — não deve. ser mera coincidênci a. Daí a vaidosa inversão que. desprezando a obediência a valores morais explícitos.995. e muito menos uma contradição. louva quase como a um santo o homem que age bem segundo uma ética em que não crê. Daí também a facilidade com que essa gente produz sucedâneos de justificação “ética” . mas sim a manifestação perfeita do espírito da coisa: lu tar por “uma sociedade justa” é o diletantismo ético daqueles que não acreditam em ética nen huma exceto como convenção arbitrária. mito ideológico ou exp ediente tático.

mas a humanidade histórica. A teoria nada dirá sobre os objetos tais e quais são. posso no entanto utilizar a madeira para fazer uma mesa ou estante. Só sei quanto custa. conh ecível pelo homem: ela fluidificará todas as essências individuais em matéria-prima da p raxis e resultará. valor-de-uso e valor-de-troca. enfim. mas mediante a manipulação dos o tos e sua transformação em outra coisa. Sendo teoria da ação. mas que está nos esquemas mentais subconscientes ou inconscientes do próprio Karl Marx. Rio. Uma das censuras morais que o marxismo dirige ao ca pitalismo é que nele o valor de troca acaba por devorar o valor de uso até fazê-lo des aparecer. o não menos notável e não menos esquecido livro de Mário Vieira de Mello. a praxis não reconhecerá. mas apenas tais e quais podem vir a ser sob a ação do martelo e da forja . e ilim itada a extensão de mundos celestes que não podemos transformar e só podemos contempla r. Da teoria da praxis provém ainda a idéia — hoje se um dogma — de que a ciência surge a posteriori de uma racionalização da técnica. Mas que na filosofia de Karl Marx ess a inversão ocorre. atenta ao jogo dos pretextos e dos atos. até fazer com que todos os objetos já não existam senão como “mercadorias”. como o afirma o próprio Marx: depende de circunstâncias históricas que nada têm a v er com a natureza do objeto. de certo modo. faz parte da sua consistência ontológica. recusará ao mundo. uma qualidade qualquer inerente ao ob jeto. É este seu caráter de idealismo subjetivista coletivo que dá ao marxismo o seu tremendo poder ilusionista que emb riaga e perverte. 3.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 81 talento. ” É o mesmo que dizer que o capitalismo absorve a categoria da substância na categoria da paixão. rebaixa ndo-se a natureza ao estatuto de ancilla industriae. em quase todas a s civilizações. uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente a perf . Seria interessante averiguar como é possível conciliar isto com o alegado “materiali smo” marxista. reduzindo-se a mera projeção: Marx censura no capitalismo um d efeito que não está necessariamente no capitalismo. Se o capitalismo faz realmente isto ou se se trata apenas de uma figura de retórica. O val or de uso é. 1958. e. 1942. outro aspecto senão o da sua transforma bilidade imediata. Casa do Estudante do Brasil. Desenvolvimento e Cultura. uma consistência ontológica própria. o ensaio magis tral — e injustamente esquecido — de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A Cinza do Purgatório. Quando. São Paulo. então pergunto se a teoria da praxis não é uma monstruosa ampliação universalizante de um fenômeno local e terrestre — coletivamente subjetivo —. segund o a boutade célebre de Bertolt Brecht: “Não sei o que é. enfim. é coisa óbvia. de uma hipérbole. O cavaleiro solitário no deserto do absurdo sintetiza Marx. porém. no objeto. e mesmo assim não inteira). ao passo que o valor de troca é aciden tal. e se ante a imensidão do cosm os a atitude “teórica” não é a mais sensata. Há um curioso paralelismo entre as noções de objeto-da-teoria e objetoda-práxis. 3. e não d o objeto. impávido no alto da sela. que é árvore. v. por um lado. Sem saber o para os crimes e as perversidades cometidos em razão do seu “ideal”: pois este tem a p erfeição estética de uma forma arbitrária concebida pela mente. isto é. v. no senti do estrito e quase fichteano. num novo e mais radical tipo de idealismo subjetivo: o m undo objetivo nada é senão o cenário da praxis. Restaria então explicar como. Só neste caso a censura lançada por Marx ao capitalismo perde valor objetivo. e não se deixa contaminar pelas exigências da autoconsciência moral.5. sobre o esteticismo como id eologia dominante nas classes letradas brasileiras. Nacional. da ação: o homem não cria a ciência mediante a contemplação. O Problema d o Esteticismo no Brasil. A praxis. considero como é estreita a faixa do universo material al cançada pela ação humana (apenas a superfície da Terra. por outro. Sobre o esteticismo como fonte das doutrinas políticas modernas. é algo que cabe investigar. uma propriedade. e da qual mesmo homens de elevada inteligência às vezes se deixam contaminar. John Anthony West. comparava o materialista durão a um John Wayne da filo sofia. Ni etzsche e Epicuro. com a única diferença de que tem como sujeito não o indi víduo. olhando com a maior indiferença os movimentos randômi cos dos átomos na planície e desprezando o choro dos fracotes que necessitam de um s entido para a vida. pois o marxismo se revela antes um idealismo subjetivista. aos fenômenos.6. diante de cuja praxis o universo natural — a “matéria” — p rde toda substancialidade para se reduzir a mera matéria-prima da ação humana.

cujos objetos estão a uma distância demasiado gran de para poderem ser “transformados”. (Um praticista fanático poderia objetar que a astronomia se desenvolveu com fins de navegação.eição é sempre justamente a astronomia. e que por isto o homem pode somente contemplar. mas é bobagem pura. porque uma astronomia requintada já se encontra entre povos que de navegantes não tinham .

para ele tornadas incompreensíveis 80. O Conceito de Universidade. Isto é muito elucidativo. Sem livrar-se da raiz epicúrea de seu pensam ento. A interpretação praticista da origem e significado da ciênc ia é uma grosseira projeção que o burguês faz dos seus próprios critérios e valores sobre a mentalidade das épocas anteriores. Se ele buscou entre Marx e Epicuro uma síntese que ao próprio Marx não interessou e nfatizar. feita de um ódio comum à inteligência contemplativa e de um intuito comum de subjugá-l a a interesses práticos fictícios: ao interesse prático de instaurar uma justiça social fictícia. como burguesas. se esta entrasse em discussão naquela hora: o PCUS não seria idiota de tentar organizar o movimento revolucionário mundial sobre u ma base física constituída de bolhas de sabão. A afinidade que ele viu não é somente aquela que apontei n o parágrafo anterior. A discrição de Marx foi sensata: um passado epicúreo é como ter a mãe na zona. A tradição materialista Acabamos de compreender a afinidade entre Marx e Epicuro. que no entanto. Pessanha não era um mero colecionador de relíquia s. 1981. Passado seu interesse juvenil pel a física de Epicuro (objeto de sua tese de docência). A explicação ma rxista. entre as rosas d o Jardim. Para além da simples comunidade de ódios e ilusões. ele tratou de não conservar nenh um resíduo ostensivo dela no materialismo dialético plenamente desenvolvido. Brasíl ia. jamais lhe and ou pela cabeça a hipótese de uma conciliação impossível. Mas ainda as sim a ideologia de Pessanha continua parecendo um amálgama de elementos heterogêneos e incompatíveis. Como transformar o mundo fugindo dele? Como coadunar a praxis revoluci onária com o evasionismo epicurista? A ortodoxia soviética foi. casso. por seu lado. Que críticos de Marx tentem lembrar esse detalhe é compreensível. UnB. A Educação segundo a Fil osofia Perene. toda ação está condenada ao fra79 80 Timeu. ao interesse prático de alcançar um bem-estar psicológico fictício.) Esta prioridade cronológica e estrutural da astr onomia é ressaltada por Platão 79. foi certamente porque viu entre eles uma afinidade mais interessante e . Para que ela adquirisse alguma verossimilhança aos olhos dos homens foi precis o que primeiro a sociedade burguesa reduzisse a serva da técnica e da utilidade prát ica uma atividade intelectual na qual por milênios seus praticantes tinham visto u ma finalidade em si mesma. nesse sentido. Sobre a incapacidade do burguês — liberal e socialista — de compreender isso. decadentistas e reacionárias — as novas tendências da física de Planck e Heisenberg. condenação que a for tiori se aplicaria à física de Epicuro. 47c. digamos logo. § 18. apresentada à Faculdade de Educação da USP em 1993 ( tese datilografada ). É uma afinidade negativa . pois somente essa intenção poderia explicar o relevo que ele deu. ela reside antes na palavra “materialismo”. mais “prática”. como vimos. basta nte lúcida ao condenar como irracionalistas — e. logo. Jorge Eira Garcia Vieira. Não. que vê a explicação para a origem de todas as ciências na contemplação da regularidade e racionalidade dos movimentos dos astros. como editor da séri . v. empenhado na reconstituição de algo assim como uma “trad ição materialista” embutida na História do pensamento Ocidental. lhe devia muito. Pessanha declarou-se . a tese valiosíssima de Antônio Donato Paulo Rosa. como conciliar a f ilosofia marxista da História com a cosmologia de Epicuro? De que modo um sentido racionalmente ordenado de causas históricas tal qual propõe o marxismo poderia brota r de um universo caótico e frouxo. K enneth Minogue. Sobre o sentido puramente contemplativo da atividade intelectual na Idade Média.82 OLAVO DE CARVALHO nada. onde a matéria não se rege por nenhuma lei? No caos epicúreo. Mas por que um pensa dor de simpatias marxistas deveria querer tocar no assunto? Por mero interesse b iográfico? Não é verossímil que Pessanha tenha levado sua devoção por Marx à carolice de pret nder “resgatar” Epicuro só pela razão de haver o filósofo de Trier se ocupado do epicurism o no curso de sua formação acadêmica. Marx a escondeu tão bem que ela não voltou a aparecer senão em plena crise do ma rxismo 81. v. trad. só se mantém de pé mediante uma brutal falsificação da ordem cronológi ca. e não resta ao homem nenhuma saída senão refugiar-se no sonho. como por exemplo os maias. Quanto a Marx em pessoa. a certa altura da palestra.

como foi mostrado no § 8°.e 81 E se Marx não teve a menor dificuldade em rejeitar a ética de Epicuro ao mesmo tempo que conservava algo de sua física. foi pela simples razão de que. uma não tem mesmo nada a ver com a outra. .

é puro fingimento. é apenas uma aparência de síntese. Curiosamente. Sénancour e Crébillon Fils ( libertinos de segundo time ) é um atraso cultural in tolerável ( v. Num país que ainda não se interessou sequer em tra duzir as obras de Leibniz e Aristóteles ( e que só no ano de 1995 teve sua primeira tradução do Wilhelm Meister de Goethe ). No último desses eventos. e inseri-los nos respectivos nichos cronológicos. em j ulho de 1995. Pessanha fez assim. exigida por todos os materialistas contemporâneos de Marx. talvez por considerá-l a divina. pelo menos a linha dominante do espiritu alismo tradicional apareceu bem mais atenuada e descontínua do que é na realidade. não defi niu nenhum conceito. e daí ter ele optado pela designação vaga e descomprometedora de “pensadores” para englobar os filósofos e os q uase. o sr. não fez nenhuma daquelas coisas que os filósofos habitualmente fazem. por elástica que seja. esboçada por Heisenberg. Se ainda assim não brotou a figura de uma tradição material ista em regra. como Pessanha desejaria. Pauli. os materialistas. Platão e o sr. políticas. a un idade da História da Filosofia. manejadas pelo retor. cativar para a rebelião contra o espírito quantas insatisfações pessoai s. E a única síntese entre o indeterminismo e Newton é aquela. uma aparência p ersuasiva de unanimidade. a síntese pessânhica de Marx e Epicuro. ). É a afinida e de uma palavra. a rigor. sob a qual se esconde uma multiplicidade de conceitos mutuamente incompatíveis. e não de um conceito. a par da omissão de gigantes como Brentano. Bohr e toda uma corja de abomináveis espiritualistas. deve tê-lo impedido de falsear ostensivame nte a t pografia da história. certamente. podem não valer nada do ponto de vista filosófico e histor iográfico. ao longo dos séculos. Uma aparência verossímil de conceito. é a mesma que fundamenta as pretensões a uma “tradição materialista”. as lembranças da ditadura mi litar e a filosofia da História de Sto. pretende u impingir ao público a convicção de que a indiferença nacional por autores como La Mett rie. fantasmagórico e elástico para poder abranger. E qual o retor que não sabe que . perf eitamente contínua de Platão até Husserl. Novaes. na sucessão dos tempos. su ficientemente indefinido. Agostinho. Adauto Novaes. A “matéria”. fundada nessa palavra.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 83 Os Pensadores. familiares. foram suficientes para suscitar uma poderosa onda emocional. Cond illac. como Helvétius. Um certo fundo de escrupulosidade científica. só entre os espi ritualistas há algum consenso quanto à matéria. numa só figur a de monstro reacionário. fazendo com que o materialismo aparecesse como aquilo que é: um mero contraponto ocasional e descontínuo à linha-mestra do espiritualismo. loc. 82 Uma orientação aliás fielmente mantida nos eventos da mesma série de O Olhar e Os Sentid os da Paixão realizados após a morte de Motta Pessanha. que ce rtamente não morrera de todo em Pessanha. era necessário preencher as lacunas abertas na História pelo olvi do em que fora caindo. palavras e aparências são tudo. com muitas costuras e emendas. econômicas e puramente psicopáticas se encontrassem comprimi das no auditório do MASP. para um mestre da retór ica. um ato político no se ntido mais agudo e eficaz da palavra: a união da massa contra um inimigo comum. tal como a unidade da tradição materialista. novo empresário da filosofia-espetáculo. toda uma coleção pluriforme de beletrista s e filosofantes. Uma síntese fundada na unidade aparente de uma palavra. Pessanha não expôs nenhuma teoria. uma funda impressão. Mas. e. É que os p rimeiros são materialistas: o esquecimento em que jaziam apagava a linha de contin uidade da desejada “tradição”. nivelando por baixo. Mas deixou. não tem como com portar em si ao mesmo tempo a arbitrariedade dos átomos de Epicuro e rígida obediência ao determinismo newtoniano. não lançou nenhum fundamento. não disse absolutamente nada de ident ificável. Para dar ao materialismo ao menos uma aparênci a de continuidade. a corrupção reinante e a tradição histo riográfica que preferiu Aristóteles a Epicuro. a filósofos de terceiro ou quarto time. isso é puro esnobismo de caipira metido a par isiense. da sua palestra. Dégerando. A afinidade que permitiu. Jaspers ou Dilthey 82. insistem em cultuá-la cada qual a seu modo. cit. Mas. ferozmente idealista . nivelando todo o mundo por cima. ao lado e na m esma altura dos verdadeiros filósofos cujo diálogo forma. Collor de Mello.

e por isto a ciência de produzir impressões é c ultivada com esmero por todos aqueles que têm a ambição de conduzir os povos. o homem movido por impressões não sabe para onde se move. mas uma força históric a de impressões e emoções que produzem atos. Não uma força física. excet o no sentido negativo de uma coletânea de opiniões diversas e contraditórias. A matéria não é um conceito — exceto no sentido convencional e instrumental com que vem nos livr os de física. sem qualquer pretensão ontológica — e o materialismo não é uma doutrina. Mas a ma téria é um símbolo e o materialismo é uma força. Não havendo uma “matéria” conceptualmente identi icável — exce- . e sim por impressões? Apenas.os homens não se movem por conceitos.

A tradição materialista. parece impossível. ou pseudoorientais. se existe. por que não representá-las de uma maneira que nos dê poder? Qualquer que se ja o horror da situação. mas uma unidade contra: a unidade negativa daqueles que. para fazer de Stálin. personalizada d o que se produziu. a mais assombrosa fals ificação da História já empreendida por um militante esquerdista. ‘O mapa não é o território’. unidos na luta co mum contra o princípio do conhecimento objetivo e no empenho comum de substituir a realidade em vez de compr eendê-la. você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder. e não apenas como somatória artificial de negações d iversas. porém. Se existe essa unidad e. inspira-se num kantismo radicalizado. podem firmar um acordo por que têm um princípio em comum. dois princípios: o materialismo e o primado do interesse prático.. e fazer dela a linha mestra da continuidade do pensamento humano. reduzindo o espiritualismo a uma coleção fortuita de exceções. sem nenhuma exceção. Marie-Hélène Dumas. o teórico da PNL extrai uma conclusão que leva direto a um pragmatismo com tinturas nietzscheanas: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que faz mos delas. de outra parte a massa total dos buracos. a unidade da tradição mat erialista não poderia forjar-se com base na defesa da matéria. Marx e Epicuro. Mas como conciliar o materialismo com a Programação Neurolinguística e o movimento da Nova Era? Filosoficamente. se dão as mãos na solidariedade de uma negação: a negação do espírito. Mais exatamente. e colocar lado a lado em distintos lugares do espaço. Mas ainda resta um ponto obscuro. ela não é uma unidade pró.. ao menos em aparência: o materialismo. como os buracos estão para o queijo suíço. Pretender que essa tradição exista substancialmente. mas a representação interna. de uma parte a massa total do queijo. Compor com pedaços de opiniões de beletristas e pseudofilósofos uma tradição materialist a. é querer separar fisicamente. p. trad. de distorção e de triagem. não há nenhuma hostilidade essencial entre o interesse pessoal e o interesse coletivo: numa mesma alma podem conviver em harmonia o evasionismo epicurista e o utopismo socialista. a toda e qualquer afirmação do espírito. individual no outro —. w Uma vez unidos Marx e Epicuro pelos santos laços do ódio à inteligência teorética e do primado do interesse prático. não se constitui de outra coisa senão do amál gama fortuito de negações antepostas. para a densidade contínu a da linhagem espiritualista.. desde que a Academia d e Ciências da URSS enxertou a cabeça de um desconhecido sobre os ombros de Trótski nas fotos de cenas da Revolução de Outubro na Enciclopédia Soviética.” 84 83 84 Anthony Robbins. Pouvoir Illimité. por diferentes indivíduos e por um número indefini do de motivos. num sentido instrumental perfeitamente compatível com as doutrinas esp iritualistas esposadas aliás pela maioria dos grandes físicos —. 1989.. Ela está. Paris.84 OLAVO DE CARVALHO to. divergindo quanto à esca la da transformação — social num caso. r etroativamente. que para o marxista são mera ide ologia feudal e para o epicurista uma abjeta escravização do homem aos deuses. Essa filtragem explica a imensa variedade da percepção humana. Quant o à PNL. veremos que a pretensão de Pessanha só pode ser compreendida como delírio alucinatório ou como fraude proposital . sem exagero. . A Nova Era adere mac içamente a metafísicas orientais. Se considerarmos simplesmente o fato notório de que Platão e Aristóteles fora m absorvidos na filosofia cristã e de que todos os filósofos importantes do Ocidente desde Agostinho até Hegel foram cristãos. o cérebro transforma esses sinais elétricos em uma representação interna. que vê no mundo a mera pr ojeção dos nossos pensamentos — hipótese que o marxismo rejeita como idealismo burguês: “Os seres humanos recebem e interpretam as informações fornecidas pelos cinco sentidos . repito. Laffont. Pess anha começa a fazer sentido. é. nada podendo afirmar em comum. No reino das ilusões. hipertrófico.” 83 Dessa constatação kantiana. esta é uma das idéias fundamentais da PNL. Por diversos processos de generalização. A experiência que você tem do aconte cimento não é exatamente o que se produziu. o comandante militar da insurreição. a depreciação da inte ligência teorética.

. 58. Id.59. . p.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 85

Da depreciação da nossa capacidade cognitiva, extrai-se uma apologia do nosso poder de agir. Descrevendo o homem como um animal cego, separado da realidade pelo mur o intransponível do solipsismo, o teórico da PNL não tira daí a deprimente conseqüência lógic de que um ser assim constituído está fadado ao fracasso em todas as suas ações, mas sim a conclusão surpreendentemente animadora de que o homem pode agir, e ter sucesso, justamente porque não enxerga o terreno onde pisa. A ação eficaz não depende de uma visão correta da realidade, mas de uma fantasia de poder. Pode-se coadunar isto com o marxismo? Não e sim. Não com o marxismo que estava nas intenções declaradas de Karl Mar x: uma ciência objetiva que pela primeira vez iria superar uma longa série de distorções ideológicas ditadas pelos interesses de classe e, identificando-se com os interes ses da classe que traz em si resumidos os interesses de toda a humanidade — o prol etariado —, iria fornecer uma visão realista e universalmente válida da sociedade huma na. Se esta ciência é possível, a PNL é falsa, ao menos em sua pretensão de universalidade : só a burguesia troca o mundo real por uma projeção subjetiva; o proletariado vê a real idade. Neste sentido, a PNL poderia ser encarada, do ponto de vista do marxismo ortodoxo — e assim seria qualificada necessariamente pela crítica marxista uns anos atrás — como idealismo subjetivo burguês. O sucesso dela entre empresários e executivos seria alegado como confirmação deste diagnóstico. Nesse sentido, a hostilidade entre e la e o marxismo é aberta e irremediável. De outro lado, porém, a PNL também não perde temp o em interpretar o mundo — ocupa-se de transformá-lo. Entronizar como representação válida não aquela que descreva corretamente a realidade, mas aquela que nos dê o poder de agir nela — ou pelo menos uma dinamizante ilusão de poder que nos dê ânimo de lutar pelo poder — é uma proposta de tom pragmatista 85. Mas o pragmatismo, como bem viu Grams ci, pode perfeitamente conciliar-se com o marxismo na medida em que ambos voltam as costas à descrição da realidade e enfatizam a sua transformação. Ambos, 85

igualmente, confundem teoria e prática: o pragmatismo, misturando lógica e psicologi a — o estudo das causas reais que produzem o pensamento verdadeiro ou falso com o das exigências ideais e formais do pensamento verdadeiro 86; o marxismo, confundin do ideologia com sociologia — a expressão do interesse de classe com a descrição do esta do objetivo da sociedade 87. Marx nunca percebeu a contradição que havia entre seu i deal de uma ciência objetiva, universalmente válida, e sua mistura de teoria com práti ca. Na verdade, qualquer aplicação prática de uma teoria só é possível na medida em que os l imites entre uma e outra estejam rigorosamente demarcados na teoria mesma. Uma t eoria que se deixe contaminar de “prática” no curso da investigação teorética jamais poderá s ber se seus resultados foram encontrados no real externo ou produzidos e lá enxert ados pela ação prática do cientistamilitante, um ser ambíguo e bifronte que não distingue entre o saber e a emissão de profecias auto-realizáveis 88. A mistura, que retoricam ente tem o atrativo de ser um 86 Sobre as relações entre pragmatismo e marxismo, v. A Nova Era e a Revolução Cultural, pp . 80-82 e 113-117 da 2ª edição, e sobretudo O Imbecil Coletivo, Capítulos 3, 4 e 5. Indi spensáveis para a compreensão profunda do que se vai ler nas próximas páginas. Para uma explicação detalhada deste ponto, v. Edmund Husserl, Investigaciones Logica s, trad. Manuel García Morente y José Gaos, Madrid, Revista de Occidente, 1929 ( ree d. Alianza Editorial, 1982 ), vol. I, Capítulos 3-10. A crítica husserliana do psico logismo é talvez a mais completa refutação que alguém já fez de uma teoria desde que o mun do é mundo. 87 Para quem compreenda o assunto, não é nem necessário dizer que o sociolog ismo em geral, e o conceito marxista de ideologia nele incluso, não são senão casos es peciais do psicologismo tal como enfocado por Husserl. 88 Nota do meu Diário Filosóf ico, sob o título “Devir e Sentido”, datada de 8 de agosto de 1989: “A interpretação materia lista da História pode ser verdadeira ou falsa, mas, independentemente disto, ela exerce uma influência sobre a História. Homens que estão convictos de que o motor da h

istória — e da cultura, e do pensamento etc. — é a luta de classes, agem diferentemente de homens que pensam que a História reflete a vontade de Deus, ou os movimentos de espírito, ou que simplesmente entendem a História como uma agitação sem sentido, e que buscam o sentido justamente naquilo que sai fora da História e do tempo. Homens de sta última categoria, quando agem na sociedade, procuram antes de tudo assegurar a o maior número possível de homens o acesso à contemplação, àquilo que está fora e acima da Hi tória; e é este o sentido que justifica eticamente todos os seus esforços, inclusive n o sentido de melhorar as condições materiais de vida das populações, para libertá-las da p ressão econômica e dar-lhes a oportunidade de vacare Deo. Já os crentes no materialism o histórico não se interessam senão por inserir um número cada vez maior de homens na co nsciência do processo histórico, na participação voluntária no devir. Ora, o devir não pode, por si mesmo, ser o sentido; a participação no devir só tem sentido em função de algum ob jetivo a ser alcançado; mas, não havendo mais a promessa do supratemporal, do acesso à transcedência, a inserção ativa na praxis se esgota como fim em si mesma, e cai para objetivos meramente pretextuais, dedicados a manter a roda girando. Este é o verda deiro efeito e o verdadeiro significado do marxismo, para além de

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protesto contra um suposto academicismo desligado da “vida”, serve apenas para encan tar jovens irrequietos que buscam nas teorias uma confirmação vaidosa de seus desejo s e aspirações, e não um conhecimento válido, muito menos um conhecimento aplicável na práti ca. Ela não serve nem para criar uma descrição aproximativamente correta da realidade, nem muito menos para elaborar previsões que fundamentem a ação prática. A absoluta inca pacidade dos teóricos marxistas de prever o curso da História, sua sucessão deprimente de erros crassos ao longo de mais de cem anos — a começar pelo do próprio Marx ao sup or que a revolução socialista deveria ocorrer na Alemanha ou na Inglaterra, num país a vançado e não numa sociedade feudal como a Rússia — mostram que o poder do marxismo não é o poder material e prático de uma ciência aplicada, de uma técnica, de uma “ação racional segu ndo fins” como o diria Weber, de um comtiano prévoir pour pouvoir, mas sim o poder a liciante e hipnótico de uma fantasia, de uma alucinação pseudoprofética, capaz de mover o mundo, só que nunca para onde pretende; capaz de induzir as massas e os intelect uais à ação, mas não de levar a ação a bom termo; capaz de desorganizar uma economia capital ista, mas não de construir o pretenso socialismo; capaz de desencadear as causas, mas não de dirigi-las no sentido dos efeitos desejados. É uma força entrópica, que agita e sacode e atemoriza o mundo sem nada produzir senão dor e perda, mas que por ist o mesmo exerce sobre os homens a atração irresistível de uma compulsão autodestrutiva en volta em delírios de grandeza, como a de Nero entre as chamas de Roma. Facilis est descensus averni. Aí a afinidade com a PNL é evidente: por mais horrendos que sejam os resultados da luta revolucionária, a esquerda é sempre capaz de “representá-los de u ma maneira que lhe dê poder” — o poder de cair indefinidamente e arrastar atrás de si a humanidade. Com a Nova Era, a conciliação já não é tão fácil. Em primeiro lugar, porque não é quedo entrar em acordo com um saco-de-gatos. Porta-vozes e críticos da Nova Era são concordes quanto à discórdia generalizada que ali reina: “Dentro do suas intenções declaradas, sejam elas mentiras propositais ou auto-enganos de mental idades doentes. É preciso ser um completo idiota para tomar como uma promessa rede ntora a ameaça que essa gente nos faz de nos aprisionar para sempre no círculo do sa msara. Alguns criticam a utopia marxista por ser irrealizável. Se fosse realizável, seria o inferno propriamente dito, no sentido etimológico de queda num nível ontológic o inferior.”

movimento não há unanimidade sobre como defini-lo, nem há uma coesão significativa que n os permita chamá-lo de movimento”, escreve o apologista (e comercializador, como a m aioria deles) da Nova Era, Jeremy P. Tarcher 89. Na outra ponta, o crítico protest ante Russel Chandler: “Movimentos da Nova Era (no plural) é uma descrição muito mais apt a. A Nova Era não possui qualquer superestrutura abrangente” 90. Em segundo lugar, o comunismo, russo, chinês ou cubano está tão distante do espírito da Nova Era quanto o R egulamento Disciplinar do Exército norteamericano. Também é difícil um sujeito acreditar ao mesmo tempo na influência dos astros e na luta de classes como motores da Histór ia. Mas essas incompatibilidades mesmas já nos indicam algo sobre as crenças positiv as que delineiam o padrão de uma unanimidade implícita por trás da variedade estontean te das orientações da Nova Era. 1. Ninguém, ali, quer saber de hierarquia, ordem, obed iência por motivos racionais. Admite-se autoridade, mas só de tipo carismático, que a gente obedece justamente porque não compreende; autoridade burocrática ou tradiciona l — no sentido de Weber —, não. 2. Pela mesma razão, não se aceita uma doutrina fundada em provas racionalmente válidas. Uma doutrina racionalmente provada exclui a sua própr ia negação, e isto para a Nova Era é anátema: nenhuma doutrina tem o direito de ser mais verdadeira do que outra. Todo es igual, nada es mejor. 3. Não havendo argumentação ra cional nem hierarquia de prioridades, o único critério válido é o “sentimento de participação que diferencia os indivíduos integrados na nova onda e os pagãos, ainda não tocados pe lo espírito da horda. 4. Por isto, a mentalidade da Nova Era é ao mesmo tempo indivi dualista e coletivista. Individualista, ao subtrair o indivíduo do diálogo racional. Ante o apelo da razão, que é uma só para todos, o individualista anárquico fecha-se em copas, bus89 90

“New Age as Perennial Philosophy”, Los Angeles Times Book Review, feb. 7th. 1988. Co mpreendendo a Nova Era, trad. João Marques Bentes, São Paulo, Bompastor, 1993. Um li vro valiosíssimo, que, por ser publicado por uma editora religiosa, é ignorado pela crítica — servilmente atenta, no entanto, às publicações de ocultismo e “auto-ajuda”.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 87

cando refúgio na proteção do seu “guru interior”, que lhe sopra verdades indizíveis, acima e fora de toda confrontação racional. De outro lado, o que esse guru lhe sopra, em ve z de isolá-lo para sempre do mundo, o integra na horda festiva dos que receberam m ensagens idênticas pela “via interior” do rádio e da TV, dos filmes e dos shows. A voz d o guru, afinal, cerca-nos por toda parte. A “interioridade” da nova Era não deixa marg em para um só instante de recolhimento e reflexão 91. Fundindo os sentimentos interi ores do discípulo na atmosfera emotiva que o circunda, ela suprime o intervalo, o distanciamento entre o eu e o mundo, sem o qual todo exame crítico-objetivo é impossív el. Não que ela seja contra todo pensamento crítico. Ao contrário, ela o fomenta, desd e que ele se volte contra as formas de autoridade que não interessam ao movimento: a autoridade burocrático-racional da ciência, a autoridade tradicional dos pais ou da religião costumeira. Ela produz aí, não raro, críticas realistas e pertinentes. Tão log o, porém, o discípulo atravessa o umbral do templo e ingressa no círculo mágico da autor idade carismática, não só a crítica, mas às vezes todo e qualquer pensamento, são rejeitados como tentações demoníacas. O pensamento é rebaixado à condição de arma de fogo, e o porte-de arma só é concedido extra-muros, no reino profano das trevas exteriores, para uso se letivo contra os heréticos e os infiéis. Aqui começa a ficar verossímil o arranjo das idéi as na cabeça de José Américo Motta Pessanha. A rejeição da prova racional, a mística de uma pseudointerioridade coletiva, a revolta insolente ante a autoridade do passado e a submissão hipnótica a uma nova autoridade são comuns ao epicurismo, ao marxismo (pe lo menos em sua moderna versão gramsciana) e à Nova Era, PNL inclusa. Com um pouco d e elasticidade, todas as conciliações são possíveis. Mas uma dúvida perturbadora pode aind a restar na mente do leitor. A Nova Era, de modo geral, inspira-se em motivos es piritualistas. Ela pôs em circulação no mundo idéias como a reencarnação, o karma, os anjos e duendes, as viagens as91 trais. Como pode tudo isso coadunar-se, superficialmente que seja, com o materia lismo professo de Marx e Epicuro? Por mais afinidades secundárias que os aproximem , materialismo e espiritualismo continuam, afinal, o exemplo por excelência da opo sição irredutível. Eppur... É significativo que, nas seitas como as de Moon e Rajneesh, um dos meios utilizado s para quebrar a resistência psicológica dos discípulos consista justamente em não lhes dar um só instante de privacidade, submetendo-os à vigilância e à intromissão constante do s companheiros e superiores — sempre, é claro, de maneira amável e discreta, de modo q ue a vítima não perceba nisso o sinal de uma intenção manipulatória. Os efeitos psicológicos são devastadores.

LIVRO IV - OS BRAÇOS E A CRUZ -

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conservação e transformação respectivamente. se resolve provi soriamente em mera multiplicação quantitativa. Natura no cristianismo o u Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. até à alu cinação. constatasse que este caminha em passo ternário. no sentido pejorativo da palavra. La Grande Triade. 1957 — um livro após o qual o que quer que se diga do assunto corre o grave risco de chover no molhado.. O I Ching. Comparar.. de outro as observações clínicas do dr. Matese. Não espanta. seu método audaz. . o ternário corpo. espírito. A essa divisão do todo correspondem. v. apresenta um modelo miniatura de todas as mutações possíveis: de ternário em ternário. a o definir o homem como um intermediário entre a besta-fera e o deus. também ter nárias. correspondem outros 92 O dois representa a oposição estática que. Filho e Espírito Santo — corresponde. Ludwig Paneth em La Symbolique des Nom bres dans l’Inconscient. que ecoam e reverberam umas às outras segundo uma infinidade de escalas e de pontos de vista. Paris. a vida era esse vício!” BRUNO TOLENTINO § 19. por que a esfera da razão humana deveria funcionar diferente da razão suprema qu e ordena o real como um todo? “A lógica. o clássico de René Guénon. Platão.CAPÍTULO VII. E. para as inúmeras partes. a divisão ternária do mundo imita u m outro ternário mais alto: o dos supremos princípios metafísicos Yang. Yin e Tao. O simbolismo dos números nada tem de “esotérico”. de. outras tantas subdivisões. a esse respeito. por sua vez. de um lado a obra n otabilíssima do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. Henriette Roguin. o livro sagrado da dinastia Tchou fecha o ciclo ao chegar ao número 64: os cic los seguintes repetem o esquema 93. manifestam-se em cada um dos pequenos fatos que em m ultidão inesgotável compõem a sucessão da vida cósmica. Paris. que se podem traduzir. Payot. Por exemplo. como por exemplo Deus. apetitiva. desde que se entenda que uma tradução não é uma explicação. diz Schuon. “Livro das Mutações”. aspectos e planos secundários. no microc osmo da constituição humana. já que go- vernam a totalidade do ser. era rigorosam ente chinês. e que a combinatória completa somasse. Na tradição chinesa. por Forma. de duas proposições tirando uma terceira e assim por diante. Paris. 1960 ). intelectiva. é uma ontologia do microcosmo da razão humana. assim. era um puro palácio aritmético . 1968-1973. 3 vols. Invertendo-se apenas a ordem de sucessão para Céu-Homem-Terra. o mais límpido exercício. motivo pelo qual o passo ternário é o andamento de todas as ações e mutações. dotado de fundamentos lógicos apodícticos. como que patinando em falso. Gallimard. a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos -Physis. Gallimard. Os três princípios. alma. Já o vazio.. que enfoca os números como categorias lógicas ( e ontológ icas ). e Georges Dumézil disse muito sobre as relações entre o ternário religioso e a ordem social em My the et Épopée. onde Logos é a esfera dos princípios metafísicos. É um conhecimento rigoroso. Vishnu e Shiva. O MATERIALISMO ESPIRITUAL “O abismo era metódico. sem exceção. que Aristóteles. Descendo porém do plano metafísico ao histórico. na ausência da síntese ternária.” À tríade hindu. Brahma. ao descrever a ordem do pensamento d iscursivo. Physis a ordem repetitiva da natureza sensível. Pitágoras e o Tema do Númer o ( São Paulo. no fim. — (I) Pobres bantos Em todas as grandes tradições espirituais. se confirma pela investigação psicológica do inconsciente. ademais. Ethos o mundo humano de ind ecisão e liberdade relativa. trad. que expressa grosso modo as idéias de criação. os dois termos de uma al ternativa insolúvel repetem-se indefinidamente. À Trindade Cristã — Pai. 6 4 ternários possíveis sem repetição: a silogística é o “Livro das Mutações” do raciocínio. Mas e a vida? Ah. sem maiores pedantismos esotéricos. Homo. 1976. é vege tativa. Matéria e Proporção. cuja eficácia no mundo real. mas um se foi e o outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio. fora de qualquer pressuposto metafísico. A alma. A divinização do espaço. encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade. 93 Sobre a Tría de chinesa. somando-os dois a dois 92. há muito a dizer.

e também na estrutura das línguas antigas. que transcorre m as retorna. Vê-se o mesmo no grego ou no hebraico 95. entre os Tumbukas. o homem diante de si e o homem anulado dian te da infinitude divina.. que são obra de Plé. em todas as tradições espirituais. parece apreender. que. O mesmo se verifica entre os Angonis. outro ainda para as ações concebidas indepe ndentemente de término ou 94 Nota ortográfica: em vez das grafias “muçulmano” e “Islã”. Tamas. confiou o cuidado de a acabar e governar a um deus inferio r. há um tempo verbal para as ações concebidas como findas (em qualquer tempo cro nológico que seja).. às três faixas do tempo: a temporalidade. sentado e prostrado —. Pelo que lhe respeita. No árabe. A noção do triplo tempo encontra-se. O mesmo se passa na maioria das populações africa nas: o grande deus celeste... resíduo de uma velha doutrina esquecida. O passo ternário entre o mundo e a origem é marcado pelo monossílabo Aum. uma tendência universal do homem a enc arar o ser como se fosse assim constituído. aos três estados mencionados. econômicas e vitais.. devolvendo no fim intactas as possibilidades que estavam no início. pela ordem. estruturalmente. e sim a sua ausência em lgumas das pequenas. D e M. Criou todas as coisas exceto a Terra e o homem. e a eternidade — como a definiu Boécio. A grafia das letras permite visual izar as três posições da prece: prosseguimento. a perenidade ou eviternidade. para os quais o criador é demasia95 Os três estágios equivalem. o ser supremo. slm ( de onde vem ain . expansão. ao tempo.. dos Bantos. à et ernidade. ou ter dele uma idéia nebulosa e distante. ou o dos estados de consciência — vi gília. Por isto mesmo.92 OLAVO DE CARVALHO tantos ternários na esfera cósmica e humana. Aqui também três letras indicam o caminho: A. simbolizados nas três posições da prece litúrgica — de pé.. Kari. qu ersonificam o homem diante do mundo. que conhecem um se r supremo mas adoram os antepassados. ao menos uma “constante do espírito humano”. Obatalá. sonho e sono profundo —. cujas letras correspondem. Correspondem. que a inépcia dos nossos legislado gramaticais consagrou como corretas. ascensão). O fiel mussulmano 94. verdade imbricada na constituição mesma do ser. por exemplo o dos movimentos do cosmos. ou sucessão sem volta. atravessando os quais o homem recua desde a manifest ação sensível até o princípio metafísico de todas as coisas. Rajas e Sattwa (queda. criador todo-poderoso. Mircea Eliade notou em tribos da África e da Polinésia o enfraquecimento do sentido da eternidade metafísica. que co mpõem a palavra Adam (o árabe em geral suprime na escrita as vogais intermediárias). perfeitamen te igual. fiéis à raiz trilítera de ambas essas palavras. Certas culturas tribais parecem desconhecê-lo completamente. prefiro as formas “mussulmano” e “Islam”. ao rezar. “posse plena e simultânea de todos os seus momento s”. que engolia ou encobr ia o senso da eternidade: “Os Semang da Península de Malaga conhecem também um ser supremo. O fato de não ter sido Kari o cria dor da Terra e do homem é signific ativo: revela -nos uma forma vulgar da transcendência e da passividade da divindad e suprema. Olorum afasta-se definitivamente dos assuntos t errestres e humanos. Está muito longe ou é demas iado bondoso para ter necessidade de um culto propriamente dito.. atravessa esses mesmos e stágios. Adão. Os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num deus do céu chamado Olorum... O ternário dos mundos. Nzambi. à continuidade perene.. somente desemp enha um papel insignificante na vida religiosa da tribo. tempo cíclico.. que são qu ase transliterações. em suma. muito afastada do homem para satisfazer as suas inumeráveis necessidade s religiosas. modelo da espécie. é igualmente um grande deus celeste que se retirou do culto. i sto é. outra divindade que lhe está subordinada. paralelamente a uma proliferação hipertrófica das divindades cós micas ou forças naturais divinizadas — um inchaço da perenidade. o homem primordial. mutatis mutandis. depois de ter c omeçado a criação do mundo. se não uma lei ontológica. o que surpreende nele não é a ubiqüidade da sua presença nas grandes tradições religiosas. tota simul et perfecta possessio. um para as ações in fieri.

que é muito complexo. Faço-o também por saber que na religião islâmica a grafia das palavras te um uso ritual e um profundo sentido simbólico similar ao do hebraico que se perde por completo nessas adaptações arbitrárias. onde se encontrarão também mais indicações bibliográficas sobre o assunto. nes e em outros livros. “paz” ). modulada por acentos. Também não uso nas transliterações arábicas. onde a cada letra árabe corresponde uma e uma só letra do alfabeto latino convencional. n.da saláam. Tirei algumas conseqüências desse fenômeno para a teoria da literatura em Os Gêneros Lit erários. mas um sistema simplificado de minha invenção. acima . 6. V. . o alfabeto fonético internacional.

vendo -se alijada do poder pela Revolução burguesa que ela ajudou a fazer. mas sabem que são os espíritos dos mortos que exercem uma verdadeira vigilância so bre as coisas do mundo e é a eles que oferecem culto regular. expressão de um sentim nto vigente nos círculos intelectuais — uma tribo relativamente pequena e que. e não é para rezar aos antepassados ou às árvores totêmicas. mas de ruptura traumática do cordão umbilical e de perda do senso de direção. abandonada por um Deus cuja presença ela mesma se esforçou. entre os Wahéhes. em primeiro lugar. pp. não puderam simplesmente dizer. Não é alheio a isto o fato de que o fundador da religião . Mas quando o intel ectual altamente civilizado de uma nação rica e vencedora diz que “Deus morreu”. ou que “D eus deixou o telefone fora do gancho”. no máximo. onde é dogma que Deus “não gerou nem foi gerado” e chamá-Lo de “pai” é blasfêmia intol a adesão ao ateísmo não traz um sentimento de culpa edípica. A culpa edípica não acompanha toda rejeição da fé. omm. a culpa edípica subseqüente à expuls Pai não poderia deixar de estender sua sombra por toda a produção intelectual da era do ateísmo 97. mas é um fenômeno típico da civilização cr Islam.. protestante ou católico. dois séculos mais tarde. A “morte de Deus” é. é pr eciso não cair na esparrela de interpretar as falas dos intelectuais como expressões do sentimento dominante entre as populações dos países ricos do Ocidente. depois de ter criado o homem. que bóia solitário num espaço indefinido. devemos entender isto como expressão do sentimento de uma velha tribo dispersa e decadente? O fenômeno é enigmático.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 93 do longínquo e demasiado grande ‘para se interessar pelos assuntos vulgares dos home ns’. nunca mais quis saber dele para nada’. É um sentimento de orfandade. Os Bantos dizem: ‘De us.. a teoria do Deus otiosus. E os Negr ilhos (pigmeus) repetem: ‘Deus afastou-se de nós’.” 96 É compreensível que esse estado de espírito se espalhe em tribos pequenas. Em segundo lugar. para arrancar do coração dos homens. A orientação espacial ( qibla ) e o sens o de integração na grande comunidade humana ( umma ) dispersam-se imediatamente como fumaça no ex-mussulmano. no mesmo círculo vienense onde ela se disseminou. Lisboa. por três séculos. Umma te m aliás a mesma raiz de “mãe”. Tratado de História das Religiões. 1977. Mas. também a doutrina do complexo de Édipo: numa civili zação que por dois milênios imaginou Deus como um “Pai”. Quando. Passado um século desde que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”. ou faz do “silêncio de Deus” o centro das preocup ações teológicas do seu tempo. como um garoto sem mãe perdido nas ruas. tem todos os mo tivos para se sentir dispersa. descobriram que esse mundo era estúpido e sem razão como qualquer aparato mecânico considerado fora das finalida des inteligentes a que serve. trad. que “Deus se afastara deles”. nada menos que 56 por cento do s norteamericanos (estatísticas oficiais) freqüentam o culto dominical. Natália Nunes e Fernando Tomaz . 74-77. isolada. mas fixado na perda da mãe. Não: eles tinham consciência de havê-Lo expulsado por v ontade própria — daí que. junto com a teoria da “morte de Deus” emergisse. A opinião de Nietzs he para essa gente é cocô de mosquito. resíduos talv ez de antigos impérios africanos desmembrados. que imaginam o ser supremo Ngurubi como criador e todo-podero so. Que Freud tenha explicado pela morte ritual do Pai a origem 97 96 Mircea Eliade. a que o pobre banto chegou por uma s ucessão de experiências decepcionantes. Cosmos. foi proposta alegremente aos Ocidentais no séc ulo XVII por filósofos e cientistas que acreditavam estar descobrindo um novo mund o — o mundo das leis mecânicas que explicariam a natureza e o homem sem necessitar p ara nada da “hipótese Deus”. e marcadas por uma seqüência imemorial de derrotas e privações — o trauma repetido das preces não atendidas. com a inocência do pig meu. separada do sentido da vida.

Não é o mesmo abandonar o cristianismo ou o budismo. podem ser grandemente elucidadas pela origem judaico-prote stante do primeiro. mas a “Lei”. Ele não abandonou.slâmica tenha sido um órfão. . A imagética de figuras boiand o no espaço. É pena que até ho je ninguém tenha estudado isto em detalhe. muito mais “primitivo” do que a culpa edípica. afinal. sem a qual é impossível orientar-se na barafunda do s ateísmos contemporâneos. expressa esse sentimento. O ateísmo não é um fenômeno homogêneo: há um para cada religião. a algum utopismo político. onde encontra um Ersatz do clamor profético de jus tiça. católica do terceiro. Di isto há anos. primeiro de mãe. o Islam ou o judaismo. Freud. depois de pai. O ateu de origem judaica. dificilmente deixa de aderir. que nada entendia dessas c oisas. por exemplo. Lênin e Gramsci. aparentemente sem despertar para o caso o menor interesse dos estudi osos. russo-ortodoxa do segundo. especulou sobre a religião universal generalizando sua experiência limitada d o meio judaico e cristão. Se há uma Religião Comparada. que aparece com insistência em Salmán Rushdie. compensatoria mente. o “Pai”. é necess mbém uma ciência do Ateísmo Comparado. O dr. As diferenças entre as visões estratégicas de Karl Marx. por exemplo.

uma ciência infusa. mas só para chegar ao c onhecimento de Deus e dos mistérios supremos. quando falavam de Deus. então valem para ele todos os raciocínios autocontraditórios segundo os quais o que está perto está longe. a realidade dessas contradições que a razão repe le. a douta ignorância.. se aplicavam exclusivamente a Deus. imbricados na paisagem. ele antec ipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cál ulo. que o tempo é infinito. não era objeto de conhecimento: se nada se conhecia a resp . se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâme tro infinito. a diante. A moderna concepção matemática da natureza inaugura-se no instante em que Nicolau. logo. Para conhecer a natureza. todos os seus pontos estariam eqüidistantes da circunferência. Mas.94 OLAVO DE CARVALHO do sentimento religioso. que obrigava os teólogos. investidos ad hoc de prerrogativas divinas 98. culto dos mortos. Não que a razão pudesse apreender todas as causas dos fenômenos na turais. Se o unive rso é infinito. Aplicando esses raciocínios. § 19. a reação do intelectual europeu à “perda de Deus” foi igualzinha à do pigmeu ou d o Banto. Exemplo: um objeto girando numa órbita circular. — (II) O infinito de Nicolau de Cusa. uma transfiguração da inteligência. numa extensão infinita. o grande é pequeno. Os primeir os. e inseparav elmente dela. os quais. É o mesmo que dizer: deuses do espaço. uma intuitio intellectualis —. e o círcu lo teria infinitos centros. escondidos nas florestas e n as grutas. junt o com a teoria do Deus otiosus que aposentava o Todo-poderoso. passando pelas extremidades d o diâmetro A-B. Et la dispute. Diante desses p aradoxos. ele estará simultaneamen te em A e B. Com isto. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito. a recorrer à linguagem dos paradox os. a razão humana se mostrava impotente e devia ceder lugar a uma outra mod alidade de conhecimento. no desenvolvimento das idéias Ocidenta is. A divinização do espaço. deuses do tempo. mergulhados no passado. Os segundos. supra-racional. o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado. c’est le livrer démagogiquement à la dispute. Logo. La pire des erreurs est toujours constituée par la Vérité elle -même. Do mesmo modo. espécie de ingenuidade metódica que permi tia ao filósofo captar. sob um outro e importantíssim o aspecto. § 20. e não a sua extinção. as duas grandes linhas que disputam o primado do pensam ento Ocidental: o naturalismo físico-matemático e o historicismo-culturalismo. Mas a verdadeira importância histórica da sua descoberta não está nisso. que o universo não tem centro geométrico e que. bastava a luz natural da razão. investigando as propriedades do infinito numérico e es pacial. não há “perto” nem “longe”: to as as distâncias se equivalem. a elevação do espaço e do tempo à condição de absolutos que O substituíam no ca go. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu t rajeto já não estaria em movimento. e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade. ou nenhum. é o sinal de que a perda da dimensão metafísi ca traz consigo uma inversão do senso das proporções. a tradição filosófica e igiosa sempre reconhecera a necessidade de algum tipo superior de ato cognitivo — uma iluminação. antes da intervenção de Nicolau. o antes é depois etc.. acredita encontrar nele a mesma inapreensibilidade racional 98 Daí proviriam. É significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substi tuída. Ela apreendia somente o que neles houvesse de racional — o resíduo caótico da pura matéria. Dogmatiser sur un bien originel. admitia-se. espalhados na natureza. V. HENRY MONTAIGU Isso começa com Nicolau de Cusa. que requer do cientista uma transformação interior. ocultos entre as sombras da memóri a. Desde a Antigüidade. por dois tipos de divindades subalternas: os deuses da natureza e os antepassados. intuitivamente. Culto das coisas. o sinal de largada para a generalização do ateísmo entre os intelectuais foi. c’est le dia ble. no culto. mais tarde. Ora. também. Nicolau concluía que o espaço é infinito. um a metanóia. Eis aí a verdadeira novidade: a ciência da natureza eleva-se ao estatuto de um s aber secreto.

eito. era por- .

. a bem dizer)... antes voltada ao conhecimento de Deus. rigo rosamente. Quando o físico de hoje p ede socorro ao simbolismo taoista em busca de um princípio ordenador para sua ciênci a 99. requerer para es se fim um esforço “iniciático” cada vez maior. a rigor. prossegue Koyré. o caminho seguido pela evolução da ciência moderna. estender quantitativamente o conhecimento do caos natural. não à unidade com o Espírito que do interior move todas as coisas. o conhecimento da natureza é elevado ao estatuto de m istério e a intuitio intellectualis é rebaixada de função — em vez de caminho de acesso a Deus. Seu Uni verso não é infinito (infinitum) no sentido positivo deste termo. mas “interminado” (int erminatum). o que quer dizer somente que ele não tem limites e não está contido na car apaça exterior das “esferas” celestes. Primeira. ele está automaticamente fora do alcance das duas censuras básicas e dific ilmente respondíveis que o maior crítico da modernidade. a ciência. mas é certo que esse foi. Eis por que ele não pode ser objeto de uma ciência total e precisa. não ao arrebatamento iluminante d iante da simplicidade divina. no ple no sentido da palavra. É verdade que em Nicolau a infinitude do espaço-tempo não tinha ainda o sentido de uma divinização: “Nicolau de Cusa nega a finitude do mundo e seu fechamento pelas esferas celestes. Mas ele não afirma sua infinidade positiva. e sim à experiência indefinidam ente repetida da incognoscibilidade da natureza. mas ao ofuscamento da inteligência ante a complexida de cósmica. Ora. René Guénon.. mas à perse guição hipnótica da multiplicidade de uma matéria que se esfarela numa poeira de hipóteses . os conceitos básicos da física subatômica não têm significad o inteligível e são meros arranjos descritivos (metáforas matemáticas. mas reconhecia que o único resultado a que se chegaria pela D octa ignorantia seria a constatação dessa incognoscibilidade.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 95 que ali nada havia propriamente a conhecer. 2º. daí para diante. Fritjof Capra. in determinado. ele é. área de transição entre a certeza sensível da experiênc estre imediata e a certeza intelectual dos primeiros princí100 Cf. para as quais a totalidade da natureza sideral está incluída numa zona de ind eterminação. duas mudanças essenc iais se verificam. A ciência to rna-se assim uma espécie de iniciação ao contrário: só pode ser praticada mediante uma met anóia. Shambhala. 102 Nicolau está aí magnificamente em harmonia com o simbolismo das grandes tradições espiri tuais. ao aplicar à natureza uma faculdade intelectual superior à razão. Pode-se duvidar da sensatez desse empreendimento. atribuir ao Univ erso o qualificativo de “infinito”. é a via para o conhecimento da natureza. cujas conseqüências letais se propaga m até hoje. sem acréscimo significativo da sua compreensão racional. Pois. fez à ciência pós-renas entista: a confusão entre infinito e indefinido. 1975. para chegar sempre mais e mais à mera const atação da impotência humana de compreender a natureza..” 101 Com isto. de fato ele evita. o “interminado” cósmico de Nicolau “significa também que ele não está ‘terminado’ em seus constituintes. mas somente de um conhecimento parcial e conjetural”. mas esta metanóia não leva ao conhecimento de Deus. o “mundo intermediário”. Segunda: Nicolau não só admitia a existên cia do resíduo incognoscível na natureza e o justificava metafisicamente (pelo mesmo tipo de raciocínios).. É evident e que. seguindo as vias abertas por Nicolau de Cusa. que ele reserva a Deus e somente a Deus. que lhe faltam ompletamente precisão e determinação rigorosa. The Tao of Physics. e a perda do sentido fluido e ambíguo da manifestação cósmica. porque. temos de admitir que a raiz dessas derrotas da pretensão científica já se encontrava no projeto de Nicolau de Cusa. só po deria evoluir no sentido de 1º. Berkeley. não chegamos a um resultado melhor do que pela via racional — apenas e stendemos indefinidamente nossa verificação da inesgotabilidade da natureza. isto é. Ora. ou admite que. aí temos o mais temív el dos paradoxos cusanos. ou advoga a legitimidade da argumentação retórica 99 como prova científica 100. 3º.. com Nicolau. aplicar nisso toda a capacida de humana de intuição intelectual.

Paul Feyerabend. Contra o Método. Rio. loc.Cf. Francisco Alves. Octanny S. Raïssa Tarr. 101 Alexandre Koyré. trad. sobretudo Cap. 102 Koyré. Du Monde Clo s à l’Univers Infini. 1977. 1973. da Mota e Leônidas Hegenberg. pp. Gallimard. . trad. Paris. VII. cit. 1920 [ original i nglês de 1962 ].

corresponde à alma. então. Ela só se move com plena desenv oltura no terreno dos princípios metafísicos. parece tão extravagante quanto calcular as lágrimas de Penélope.’” 104 É que. Essa zona corresponde. Daí a importância relativamente secundária que tinha. a zona sideral corresponde portanto à evite rnidade. ao tempo cíclico. os heróis e deuses da mitologia 103. e no dos três estados de consciência. que. como o anunciado pelo mec anicismo. poupando à humanidade três séculos de desvario mecanicista. mas apenas a transição desde o conhecimento sensível até a esfera dos supremos pr incípios metafísicos. onde rendeu tanto. mediador entre a “firmeza passiva” da Terra e a “firmeza ativa” do Céu (que evidentemente aqui não é o céu visível. Porque a intuição intelectual — a douta ignorância como a chamava Nicolau — é a mais ele vada 103 capacidade cognitiva humana. indefinido por natureza. A cosmologia era uma “ciência intermediária” na escalada cognitiva. ela é o dom da evidência apodíctica. que adquiriu o prestígio de uma centelha divina no ápice da alma humana.96 OLAVO DE CARVALHO pios metafísicos. Como foi possível. para o advento de uma ciência amputada de sua raiz metafísica? A resposta é simples: o tesouro que Nicolau preservou no campo da cosmologia ele o desperdiçou no terreno da gnoseologia. ser interm inado e volúvel. que não é nem o tempo irreversível da factualidade terrestre nem a simultaneidade do eterno. e requer um objeto à sua altura. o princípio do indeterminismo. teria lhe permitido chegar às bases da física de Planck e Hei senberg. atribuiu aos escolásticos medievais. No esquema do triplo tempo. Ao voltar-se para o mundo das sensações. ao sonho. nesse contexto. num arrebatamento de louvor. a prova cada vez mais segura da insegurança. O conhecimento da natureza valia sobretudo p elas suas reverberações simbólicas. a discussão das leis da natureza enquanto tais e tomadas fora de s uas conseqüências teológicas e metafísicas. mas a ”ação divina” que o move). no esquema chinês. com todas as suas repercussões devastadoras no terreno da biologia. a perenidade entre o tempo e o e terno. como Averroes. com todas as letras. e muitos filósofos. mas a zona da história arquetípica. o Homem entre Céu e Terra. inf indáveis motivos de incerteza. da filosofia em geral e até da ética e da política. Tanto na filosof ia de Nicolau quanto em toda a cosmovisão cristã que o antecedeu estava bem declarad o. desde que afinadas. da certeza indestrutív el. no ternário microcó edieval. ainda que involuntariamente. a intuição intelectual não somente perde eficácia e dignidade. que mais poderia fazer o dom da certeza senão nos dar repetidamente. À luz do simbolismo tradicion al. pelo vislumbre que podia dar de uma realidade eter . nem fisicamente reais nem meramente imaginários (daí o termo imaginal). supra-racional. receitar chá de carqueja para o fígado de Prometeu ou calcular o número exato de anjos que cabem na cabeça de uma agulha — cálculo que depois a ideologia moderna. o mundus imagina lis onde habitam perenemente. se levado em conta pel a ciência renascentista. a força expansiva que medeia entre a ascensão e a queda . a ciência da natureza cósmica não era um objetivo em si. intermediário entre a vigília e o sono profundo. da teoria do conhecimen to. não a medição pro visória das aparências cambiantes. ao “Homem” (jen). século após século. ta l como a alma é intermediária entre corpo e espírito. certamente numa retr oprojeção de suas próprias culpas. inesgotavelmente inexato e cambiante. da psicologia. a Rajas. intermediária entre corpo e espírito. ao longo dos tempos . Voltada para um objeto que desde o início se sab e resvaladiço. no contexto medieval e antigo. que a filosofia de Nicolau c ontribuísse. mas transforma a física num sucedâneo da metafísica e o céu astronômico num su cedâneo do céu espiritual: “[As] concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa culminam na ousada transferência ao Unive rso da definição pseudo-hermética de Deus: ‘Uma esfera cujo centro está por toda parte e c uja circunferência está em parte alguma. para a qual bastam as sensações. no ternário hindu dos movimentos cósmicos. a medição ca da vez mais exata da impossibilidade de medir exatamente o que quer que seja? A intuição intelectual serve para nos dar a verdade evidente e definitiva. chegaram a identificá-la dire tamente com a inteligência de Deus. o projeto de uma ciência exata e rigorosa do cosmos.

. 1980. Henry Corbin.na e supracósmica. 1954. Avicenna and the Vis ionary Recital. Pari s. Koiyré. AdrienMaisonneuve. cit. op. . Irving ( Texas ). v. Tal como o ho104 Sobre o mundus imaginalis. trad. inglesa de Willard Trask. University of Dallas. 30. p. Avicenne et le Récit Visionnaire.

trazia em seu bojo a destruição de toda possibilidade de conhecer o real.” 105 Esse efeito moral. pássaros e estrelas. porém. lamentando-o ou celebrando-o. ao mesmo tempo que se arrogava o direito de expulsar do reino dos conhecimentos respeitáveis quaisquer o utras explicações possíveis. a superfície dessa grande mutação em que o esquematismo de umas fórmulas secas se substitui à riqueza do mundo viv ente.. Sol e Lua. onde no silêncio e na treva da mente resplandeciam o a Luz e o Verbo de Deus. como poderia parecer à primeira vista. d a perda de lisonjeiras ilusões sacrificadas ao progresso do conhecimento. o reino do sono profund o. quanto mais rápido melhor. substituindo a natureza dada na experiência por um conju nto de esquemas previamente arranjado para caber nos moldes pretendidos. abandonando árvores e flores. e ao qu al se deu o nome de “realidade”. foi amputar da totalidade cósmica os elementos não-matematizáveis. medido e previsto em todos os seus detalhes. contado. forjando o modelo de seu próprio objeto. No fim de ssa evolução encontramos o mundo mudo e terrificante do ‘libertino’ de Pascal. O terceiro foi banir para o mundo das curiosidades impertinentes todas as perguntas que não encontrassem resp osta imediata na fantasia pitagórica. Ele resu lta de que o aparente progresso. rigoroso. e negando já não apenas alguns dados do mun do sensível. onde a hipótese indemonstrável admitida de início — o carát matemático 105 Koyré. O primeiro. fatalmente tomando-os em s eguida como se fossem a realidade mesma. todos os artifícios descabidos e até fraudulentos foram po stos a serviço dela. todas as fantasias. pp. O segundo foi escapar para longe d a experiência comum e corrente da humanidade. cit. fingindo dar ao homem uma visão mais realista de sua posição no cosmos. ou pseudopitagórica. ao mesmo tempo. Reduzido o objeto a seus elementos matemáticos. o buscador espiritual só atravessava a agitada e caótica região dos sonhos para poder atingir. o mundo d esprovido de sentido da filosofia científica moderna. para penetrar no reino maravilhoso do espírito. op. mas a experiência humana na sua totalidade. não resulta apenas. concebendo o hábito — ou vício — de raciocin ar por “modelos”. a figura central e o cenário. renunciava implicitament e a nos dar qualquer explicação do mundo da experiência humana. A torção operada por Nicolau ocasionou a dispersão da mais nobre faculdade humana na ta refa inglória de delimitar o ilimitado. que tantos depois constatar am. o qu al consiste numas miseráveis rodas de engrenagem escondidas entre fiapos de nuvens . a ciência entrou no caminho irreversível de uma espécie de auto-hipnos e matemática. Uma vez despertada essa ambição. 1): o peregrino se evade da “esfera” mundana. a anulação do princípio mesmo do conhecimento objetivo. Bela troca! Figura 1 Mas o “desencantamento do mundo”. No fim encontramos o niilism o e o desespero. pela Terra. Uma gra vura da época mostra como a imaginação do estudioso renascentista concebia o “mundo espi ritual” a que teria acesso ao transcender os limites do sensível (Fig. . que. Pela porta da douta i gnorância cusana. de um mundo matematizado. por esquemas de relações meramente possíveis. 64-65. todos os exag eros. “provav a-se” que tudo nele funcionava matematicamente. no qual tinha sido até então. de sua situação central e por isto mesmo únic a. é apenas o lado estético. naturalmente. levaram o homem a perder sua posição única e privilegiada no drama teocósmico da Criação. Essa mutação transformou o conjunto da atividade científica num a permanente petição-deprincípio.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 97 mem são quando adormece. Mais graves foram seus efeitos morais e cognitivos: “A destruição do cosmos e a perda. pesado.

o arcabouço teórico e metodológico da sua Física. renuncia a nos dar qualquer conhecimento do mundo re al da experiência — substituindo-o por um elenco de esquemas matemáticos — e desmoraliza como fantasia mística qualquer outra via de acesso a esse conhecimento. Como. Aristóteles já havia. exercendo enfim sobre toda parte em torno o domínio que não pode exercer sobre si mesma. se Aristóteles estava manifestamente errado nesse detalhe e mesmo em muitos outros. e uma hipótese de um gênero surpreendente. 106 A “exatidão matemática” da visão científica da natureza desemboca assim. ao mesmo tempo em que pretende legislar sobre o conhecimento do mundo exterior. nesse sentido. reverberações e fragmentos que não poderiam ter em si mesmos. inerente à constituição mesma da matéria —. mas ape nas o símbolo ou aparência de uma instância supra-espacial onde as aparentes contradições se reconciliam na unidade do infinito metafísico. p. É precisamente esta a essência p da ciência natural. sem se 106 Comentando um estágio já mais avançado do processo de matematização da natureza — a física de Galileu —. A nova ciência teve um efeito entorpecente sobre todas as inteligências. e o permanece para sempre. Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a ci rcularidade das órbitas planetárias. c ortes. ademais. quer juntos. A cosmovisão científica. escreve Edmund Husserl: “Segundo o que observamos. Tudo o que se poderia deduzir corretamente da ilimitação espacial é que o espaço tem propriedades autocontraditórias por não ser propriamente uma realidade. e ele conc . é conformar-se com uma hipótese inicial impossível de provar e refratária. em suma. como a criança pequ ena que. nem por isto terá sido sensato atirar ao l ixo. aos dados intuitivos e ao senso c omum. em realismo e profundidade. A ciência fecha-se num solipsismo incomunicável.. imagina ter o poder de obri gar despoticamente a babá a fazê-lo. quer separados. “Ser científico”. existir na natureza um resíduo irracional e in cognoscível.98 OLAVO DE CARVALHO das leis cósmicas — é ao mesmo tempo elevada a critério supremo e único de validação do conhe imento científico. ora negando o senso comum. Aristóteles julgava. junto com eles. com arrogância patológica. dar a mínima conta da falácia deste raciocínio. Surpreendente.” ( Edmund Husserl. legisla sobre a realidade ou irreali dade dos demais conhecimentos. o a priori do seu modo de ser. pelo simples fato de não ser composta senão de aspectos. o fundamento de sua própria existência. Ai de vós. com efeito. Il Sagg iatore. Se o infinito tem indiferentemente inf initos centros ou nenhum. manifestamente su perior. embora a contragosto e sem admiti-lo em público. porque. Milano. que da infinitude espacial deduziram imediatamente a negação da centralidade da Terra no co smos. não tendo o poder de limpar o próprio traseiro. 71 ). trad. ora revogando a autoconsciência individual. Buscar uma aproximação com essa hipótese é o único objetivo de toda investigação cientí a. não obstante a verificação. ora invalidando as per cepções intuitivas. 1972. ao platonismo à outrance dos físicos renascentis tas. 4ª ed. a aproximação não poderá jamais ter fim nem alimentar mesmo. que não entrais nem deixais entrar. por outro lado. Tão bobos ficaram os sábios imbuídos de douta ignorância. ao mesmo tempo que. no que a evolução posterior da ciênc cessou de lhe dar razão. é absurdo pretender provar que um determinado ponto não é o centro. a hipótese permanece uma hipótese. Enrico Filippini. Curiosamente. com dois milênios de antecedência. Quem quer que medite seriamente estas palavras comp reenderá que um conhecimento assim constituído não tem a menor qualificação para sair dos quadros da mais estrita humildade metodológica e opinar sobre questões de metafísica. o objeto sobre o qual versa a hipótese é indefinido e inesgotável. a pretensão de estar mais certa do que no momento anterior ou seguinte. de gnoseologia ou mesmo de cosmologia. a idéia galilaica é uma hi pótese. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. a cada momento. a cura di Walter Biemel. toda a manifestação cósmic a está afetada de contradições. Mas. La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trascendentale. no oceano ilimitado da pura fantasia. a verificação ( a única possível ) é uma seqüência infinita de verificações. Na verdade. advertido contra os riscos de uma aplicação indiscrim inada do método matemático à filosofia da natureza.

Ao rejeitar aparentemente Aristóteles. notadamente. e não da reali dade sensível . que devamos examinar primeiro o que é a Natureza. 3.luía que o método demonstrativo-matemático só podia dar conta de realidades imateriais — d e puras relações lógico-ideais. ). diríamos hoje em linguagem husserliana 107 —. Pois toda a Natureza contém verossimi mente matéria. . para poder matematizar a física. a ciência renascentista deu-lhe razão no fundo. 995a. mas somente quando se trata de seres imateriai s. na medida em que. exigir em tudo o rigor matemático. e nenhum dos dois objetos é fácil de apreender. Por isto o método matemático é inaplicável à Física. pois assim v eremos igualmente de quê trata a Física. daí vem.” ( Metafísica. teve de se afast ar cada vez mais da realidade sensível até substituí-la totalmen107 “Eis por que é preciso ter aprendido quais as exigências que se devem trazer a cada es pécie de ciência. a. Não se deve. pois é absurdo buscar ao mesmo tempo uma ciência e a maneira de alcançar essa ciência.

108 Sim. Dos fundadores do racionalismo. Paris. Na pintura. O introdutor da nova astro nomia na Península Ibérica foi o chefe local da Inquisição. para verificar que aquilo que era um punhado de brasas na Idade Média veio a tornar-se. como teria podido esperar t antos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos ante riores. É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra-Reforma (que uma simplificação boba toma unilateralmente como uma reação conservadora) o influxo das novas concepções racionalistas e platonizantes. Se uma perfeita discriminação e catalogação os deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação. The Spiritual Crisis of Modern Ma n. um incêndio devastador em ple na Idade Moderna. vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação. que vai varrer do mundo o pecado e instaurar a ordem social racional — mesmo que seja num cafundó latinoamericano. desde a fundação do Santo Ofício em 1229 até os grandes autos-defé dos ulos XVI e XVII. London. pela Editora Zahar: O Homem e . segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções. A substituição do mundo da experiência pelos modelos matemáticos trouxe cons igo a mania da uniformização. v. A racionalização do dogma. os principais — Descarte s. A Companhia de Jesus afirma-se desde o início como um utopismo reformista. da simplificação geométrica que. uma desonestidade i ntelectual. Neste sentido. dúvidas ou nuances de qualquer espéc ie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático. Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Sto. A liquidação das bruxas deriva muito menos da pura e simples defes a da ortodoxia do que de uma nova maneira — geométrica e purista — de compreender a or todoxia. Allen & Unwin. Michel Foucault. irregular ou estranho. Seyyed Hossein Nasr. Arnauld & Nicole — eram católicos fervorosos empenhados em fundar nu ma construção racional perfeita a conversão dos descrentes. porque as novas idéias exerceram tanta influência dentro da Igreja Católica quant o fora dela. The Encounter of Man and Nature. apagar ou pelo menos esconder tudo o que fosse diferente. das correspondências e das si mpatias em que reverberavam umas às outras as partes de um gigantesco organismo vi vente. da j ardinagem à medicina. os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos. destinados a excluir da visão humana os comportame ntos desviantes que arriscassem macular a perfeição matemática da nova ordem 108. Data dessa époc a — e não da Idade Média. onde já não há mais lugar para a incerteza nem para o pecador. v. O espírito geométrico marca a id ade clássica em todas as suas dimensões: da filosofia científica à moral religiosa. Histoire de la Folie à l’Âge Classique. que hordas de almas oprimidas sob o pe so Sobre a exclusão dos loucos. Afonso de Ligório.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 99 te pelos modelos matemáticos. sob o sopro dos novos tempos. que se anuncia no concílio de Trento . a natureza multiforme é substituída pe la regularidade de um tabuleiro de xadrez. resolvido por métodos matemáticos. mas é necessária à economia int talidade racionalista 110. Nas ciências da natureza. pela primeira vez na história do Cristianismo. Aí. simplesmente. a salvação torna-se um problema de lóg ica jurídica. o cientista moderno que proclama que a física renascentista refutou Aristóteles comete. 1965. Juan de Zuñiga. o tecido complexo das analogias. Nos jardins de Versalhes. a per spectiva horizontal e matemática substitui a perspectiva vertical e simbólica. 109 Sobre a perda do sentido simbólico da natureza. Plon. dezoito séculos após a vinda do Salv ador. é substituído pela classificação das peças isoladas e mortas 109. Malebranche. Enéas Sílvio Piccolomini. por exemplo. ao mesmo tempo que se espalham por to da a Europa os hospícios e prisões. para sustentar a ilusão do me canismo perfeito. divergente. 1968 ( há tradução brasileira. Um dos primeir os humanistas da Renascença. o espírito de formalismo legalista vai to mando posse da religião cristã em medida tal. ganha ndo em ilusão de ordem e realismo o que perde em significação e intuito. como o diz a calúnia consagrada em mito historiográfico — o gosto europeu de queimar bruxas e supostas bruxas. necessitava excluir. tornou-se nada menos que Papa. Depois disso. É só acompanhar a ascensão do número de pro cessos e condenações.

. Apenas digo que ela atende menos a uma necessidade intrínseca da fé cristã do que a uma necessidade extrínseca imposta pelas condições da época. 110 Não vai nisto o menor intuito de depreciar a obra de Sto. criação absolutament e genial pela qual os filósofos demonstram um desinteresse verdadeiramente patológic o. Afonso.a Natureza ).

seu efe ito foi a de diluir na consideração da infinitude espacial a capacidade humana da in tuição espiritual. a sub stituição da realidade sensível pelos seus equivalentes racionais e matemáticos vai se i mpondo. em substituição à espiritualidade religiosa. ( 4ª ed. afinidade que se explica facilmente pela sua origem comum na cosmovisão renascentista. A falta do ganho espiritual é em seguida compensada pela riqueza das aplicações técnic as advindas da ciência. é apenas o primeiro sintoma da tendên cia centrífuga que daí por 111 Sobre a ascensão progressiva das doutrinas irracionalistas. J. A fuga do mundo rea l para o dos esquemas ideais matemáticos tem. amplamente disseminados entre as camadas letradas. de fato. como um sucedâneo mundano da ascese espiritual. Que. 1955 ). do Pe. A redução da religião a um mero sentimento interior jamais teria encontrado eco se não fosse p recedida pela redução da religião a um juridicismo racionalista. religioso em suma. no sentido de um esforço de opor-se à natureza. De imediato. Por toda parte. Agir. No curso desse processo. o prestígio s acerdotal da casta dos cientistas. Giordano Bruno tenha desenvolvido as fantasias mais exacerbadas a propósito da pluralidade dos mundos habitados. o que ainda aumenta mais. como matéria rarefeita. Leonel Franca. passassem a ser tomadas como espirituais as forças da natureza cósmica simplesmente mais sutis e afastadas da realidade sensível imediata. enquanto oposta à matéria densa do mundo visível. numa proliferação ilimitad a dos focos de atenção espiritual. tidos como espiritualmente prejudiciais. pela “sutilização” do corpo do discípulo. apenas sem ganho espiritual . no mundo moderno. logo em seguida. No século XIX. explicarão o espírito como uma sutilização ou diluição da matéria. A Crise do Mundo Moderno. cada vez mais absorvida na varie dade da manifestação cósmica e cada vez mais distante de todo princípio metafísico capaz d e fundar critérios legítimos de validade do conhecimento. Mas ao mesmo tempo que o “espirituais” Allan Kardec e Madame Blavatski restauravam assim sem sabê-lo a física ep icúrea. in do direto à infinitude metafísica e passando por cima de todos os indefinidos merame nte quantitativos da ordem cósmica.êta país ingrato! diante se apossaria da intelectualidade européia. não é de estranhar que. a disseminação de milhares de pseudomísticas e pseudo-esoterismos que prometem. perdida a via de acesso à espiritualidade autêntica. sob o impacto das idéias de N icolau de Cusa. A matematização da natureza é empobrecimento sensorial. espiritual. o ocultismo e o espiritism o. de alimentos densos em proteína. inte rpretada retoricamente: a noção física de “energia”. O equívoco funda-se numa visão estereoti pada — e bem materialista — do ascetismo religioso como mero empobrecimento sensoria l. Tal como entre os primitivos bantos. porém. com freqüência — e não só por populares ignorantes — como um verdadeiro nônimo do espírito. o materialista Karl Marx redigia sua defesa de Epicuro contra Demócrito. O processo iniciado por Nicolau de Cusa encon trará sua culminação quatro séculos depois com Augusto Comte. a desapar ição do deus infinito expande desmesuradamente o panteão cósmico. s. Mas é uma ascese puramente cerebral. e da casta científica um clero.. assim.100 OLAVO DE CARVALHO dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico 111. será tomada. por exemplo. isto é. A doutrina da sutilização encontrará na entra da do século XX um poderoso suporte verbal na nova física de Einstein e Planck. Rio. sem verdadeiro sentido moral. ao contrário. como se o enfraquecimento do corpo fosse por si um mérito espiritual e como se não pudesse hav . elevá-lo às supremas alturas do conhecimento espiritual — privando-o. Nela está a raiz da perve rsão moderna que atribui à ciência natural a tarefa de guiar espiritualmente a humanid ade. um dos grandes livros brasileiros que já nenhum bras ileiro lê —. nascida. Esta concepção provocou. que fará explicitamente da c iência natural uma religião. v. para concentrar-se na única coisa necessária. sentimentalistas e român ticas no domínio religioso. Coi ncidência nada fortuita: o afluxo maciço de militantes socialistas às fileiras do espi ritismo e do ocultismo — um dos fenômenos mais marcantes da vida mental das classes letradas no século XIX — mostra a existência de uma afinidade entre essas duas corrent es de idéias aparentemente antagônicas. aos olhos da multidão. alguma coisa de ascético.

denominou “materialismo espiritual”. onde toda a diferença entre as ca madas superiores e inferiores se reduz à escala quantitativa do grosseiro e do sut il. por exemplo. como se. a . chegamos à concepção dominante de um universo totalmente achatado. Eis aí como. Foi a esta caricatura que o Dalai Lama. unidimensional e opressivo. da ampliação do univ erso sensível inaugurada no Renascimento.er místicos gordos ou santos musculosos. c om certeira concisão.

de direito. segundo e le 115. Homens adultos que encaram a vi da como puro jogo estão gravemente afetados de puerilismo. marcada. 2e. acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias. Quando saiu a primei ra edição. . no sentido de Huizinga 112. Des S avants à la Recherche d’une Réligion. astrônomos. 1977. pontificava. XVI. Galileu não contestou a física antiga. Raymond Ruyer.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 101 diferença de planos entre a tinta em que se imprime estas letras e o espírito do aut or que as escreveu pudesse ser transposta com a maior facilidade mediante a simp les diluição progressiva da tinta. Ora. e já não têm mais o espírito de elevada seriedade que. não tem em si a prova da sua veracidade — coisa que já e ra arroz-com-feijão desde o tempo de Aristóteles. Não é nada estranho que. coeridas som ente pelo convencionalismo de uma regra de jogo. La Gnose de Princeton. “O caráter fictício dos princípios. sem a menor preocupação de indagar se algum dia esses modelos foram levados à prática 113. após ter assim derrubado a física antiga. e que Galileu. dizia Einstein. esclar ecia discretamente que o movimento retilíneo e uniforme não existe realmente. nas cabeças de muitos pensadores de hoje. Meu artigo estava muito certo em diagnosticar a formação de uma nova casta sacerd otal composta de cientistas. que ele permanece parado em todos os casos. tendo pretendido superar toda mitologia religiosa. Na realidade. Ou seja. Eis aí como uma cosmovisão de um prima rismo deprimente pode conviver. astrofísicos. cada uma das quais atingindo em suas conseqüências um alto grau de concordância com a experiência” 114. é p erfeitamente evidenciado pelo fato de ser possível apresentar duas bases essencial mente diferentes. seria inerente à i déia de ciência. a civilização do O cidente. V. na fantasia pueril do materialismo epicúr eo. e de outro pela necessidade de uma mise-en-scène “científica” p ara os mitos grosseiros com que vai satisfazendo como pode a ânsia do maravilhoso que. Nas Sombras do Amanhã. Paris. permanece parado ou em movimento retilíneo e uniforme. fiz na revista Planeta os maiores elogios aos garotões de Princeto n. substitui a autêntica sêde espiritual. segundo a qual um objeto não impelido por uma força externa permanece parado — uma ilusão dos sentidos. Uma certa perda do senso de realidade parece uma doença profissional crônica da classe dos cientistas. V. E. Fayard. éd. Cap. Eis aí também como é possível. com os c onhecimentos científicos mais elevados e complexos. por força delas mesmas. acabasse chegando. exatamente como o dizia a física antig a. isto significa. Os “deuses astronautas” atendem em toda a l inha os requisitos da imaginação moderna. por essa via. Mas um fundo de charlatanismo parece já ter sido introduzido na física por Galil eu. matemáticos etc.. pela confusão entre o céu visível e o céu espiritual. mas é um a ficção concebida pela mente para facilitar as medições. Penitencio-me agora ante o grande romancista: ele tinha ra zão. se o objeto não movido de f ora permanece parado ou tem um movimento fictício. n o século XX. de um lado. eram apenas um gigantesco esforço . nela. por cim a de dois milênios de evolução do pensamento. um filósofo imbuído das concepções mais moderna e avançadas recair. Foi este episódio que inaugurou a ma nia dos cientistas modernos de tomarem simples mudanças de métodos como se fossem “pro vas” de uma nova constituição da realidade. sobretudo dos físicos. É mais ate rrador ainda ver como essa gente se 112 113 acomoda a todos os piores ilogismos. apenas i nventou um modo melhor de provar que ela tinha razão. vendo neles um defeito da realidade mesma e jamais da estrutura da sua ciência. pelas páginas da Última Hora do Rio. ao culto dos extraterrestres. e que o testemunho dos senti dos. sendo verídico o bastante. vejo agora. conseguiu apenas explicar po r que ele permanece parado. rigorosamente. mediante um novo sistema de medições. quando proclamou ter superado a noção da ciência antiga. um objeto em tais condições. em 1974. mas não em festejar esse acontecimento. As especulações d e Princeton. e em resposta levei um discreto puxão-de-orelhas de Octávio de Faria. O dogma da sua própria honestidade intelectual int rínseca parece impedir os físicos de perguntar se não há algo de errado no que estão fazen do. É aterrador ver como os cientistas da comunidade que Raymond Ruyer de nominou “gnósticos de Princeton” se divertem concebendo “modelos de universo”.

A Evolução da Física. pelo atalho gnóstico. Valter Pontes. Witt genstein e Frankenstein. da “hipótese Deus”. I. reconhec e que os físicos hoje em dia “já não sabem do que estão falando”. São Paulo. como obse rvara Octávio de Faria. um escritor científico de sucesso. Cap. Companhia das Letras. 115 V. Gertrude Stein. trad. em John Brockmann.de pedantismo espiritual para fugir. 114 Cit. Brockmann. Reinventando o Universo. 1988. Einstein e Infeld. . mas acha isso divinomaravi lhoso. Einstein.

os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos.. então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro . nunca de 1. “Paridade” e “lugar na série” são conceitos inseparáveis: se par. 4. con firmando o argumento de Cantor. é verdade que. a parte seria igual ao todo: 1. junto com um princípio da geometria antiga. que o infinito quantitativo é só p otencial. Esse raciocínio baseia-se na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares são conjuntos infinitos atuais. isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas . quando o fato é que. e mbora sendo parte do conjunto dos números inteiros. e sim a quantidade 4.. A noção de “conjunto” é que. A tese de Cantor esc orrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sen tido da palavra “número”. pode ser posto em correspondênci a biunívoca com ele. contada ou nomeada de uma determi nada maneira. é porque tanto n + 1 como n . e nenhum número poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com qualq uer outro na série dos inteiros. ntada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente parte da série dos números inteiros. não há mais paridade ou imparidade nenhuma. ora usando-a para designar uma quantidade definida com propr iedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos número s e a de poder ser par ou ímpar ). 6. abstr aída a posição na série. 2. ou seja . 8 . os números não seriam pares. e se. A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em do is. a cifra. O conjunto dos números inteiros pode conter mais signos numéricos do que o conjun to dos números pares — já que abrange os signos de pares e os de ímpares —. saltando-se uma unidade entre cada dois números. não há aqui duas séries de números. 2. nunca atual. 4 . sendo ambos infinitos. Só para dar um exem plo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o 5º princípio de Euclides ( de qu e o todo é maior que a parte ) pelo argumento de que o conjunto dos números pares. Mas isso é confundir os números com seus meros signo s. abolindo implicitamente também a distinção mesma en tre pares e ímpares. pois o conjunto dos números pares seria de pares se seus elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa sér ie ascendente ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2. também uma crença estabelecida do senso comum e um d os pilares da lógica clássica. mas uma única. produz sse samba-do-alemão-doido. assim. mas é a própria série dos números inteiros. Mas. Em primeiro lugar. 3. nesse conjunto. “2” é um signo.102 OLAVO DE CARVALHO Mas no campo das matemáticas foi o deslumbramento com a idéia do infinito espacial e quantitativo que levou a mente humana às piores esquisitices. se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ). n 2n = n Com esta demonstração. descortinando assim os horizontes de uma nova era do pensamento humano. Po rtanto — e eis aqui a falácia de Cantor —. isto é. é unicamente a soma imp lícita das unidades não mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando. De nada adianta aqui recorrer ao subterfúgio de que Ca ntor se refere ao mero “conjunto” e não à “série ordenada”.. de modo que os dois conjuntos teriam o mesmo número de elemento s e. e ele pode portant o ser rejeitado por quem acredite. portanto. “4” é um signo. onde o requinte dos argumentos engenhosos coexiste com a total falta de sensatez. outro de pares mais ímpares. na qual se baseia o pretenso argumento. com Aristóteles. Nesse sentido.1 são ímpares. seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinha s.. se não fosse contada assi m. teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras .. mas não uma maio r quantidade de unidades do que a contida na série dos pares. ora para designar o mero signo de número. fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas que definem e diferenc iam os números entre si e.. e... destacada abusivamente da noção de “série”. mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuai s. a demonstração de Cantor é apenas um jogo de palavras. Se a série dos números i iros pode ser representada por dois conjuntos de signos. dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série. quisermos destacar por signos ou cifras especiais os númer os que representem pares. e bem pouco engenhoso no fun do. um só de pares. as não é o signo “4” que é o dobro de 2.

A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”.. Um conjunto de x uni- .

o garoto à figura co ncreta das bolinhas distribuídas num determinado espaço. E ironiza : “Meus filósofos tinham respostas prontas. ocasionando a exacerbação imaginativa do concei to de infinitude espacial e quantitativa. garante que elas são oito ou nove tão logo sejam alinhadas com intervalos maiores. supondo que um número qualquer possa ser par “em s ndependentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inc lusive. mas sim de uma comparação me ramente verbal entre um todo e o mesmo todo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 103 dades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares. no conjunto aumentado para oito bolinhas. diversamente denominado. Em sua hostilidade irracional contra a idéia mesma de princípios universais. nem. para o que. portanto. com todos os seus defeitos e limitações. No seu “argumento” não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte. sem o espaço. muitos pensadores científicos — inclusive alguns bem grandes — ch egam a apelar para subterfúgios perfeitamente indignos de homens de ciência. que aquel a tradição. da diferença da capacidade de abstração entre adulto e criança (ou crianças de idade desigual). encarna de maneira exemplar. mas o que é que isto tem a ver com a universalidade (ou não) do princípio de identidade? O que houve no caso fo i apenas uma dualidade de significados atribuídos ao termo “bolinhas”: o experimentado r referia-se ao conjunto aritmético — abstrato — das sete bolinhas. mas não o mesmo número de unidades. Ora. o garoto apenas mostrou perceber que o aumento e a diminui116 . fundando-se no exemplo do garoto que. ele contesta a un iversalidade do princípio de identidade. Em Sabedoria e llusões da Filosofia 116. ten do contado sete bolinhas. Esse expediente pueril é a marca registrada do psicologismo (red ução das relações lógicas a “fenômenos da mente”) — um estilo de pensar que continua desfruta e certo prestígio nos meios universitários pela única razão possível de que ninguém aí leu su refutação por Edmund Husserl. tr azer. como o próprio Piaget mostra em outros trabalhos. enc arando o conjunto como uma síntese confusa de ambas. de uma refutação do 5º princíp io de Euclides. A perd a do sentido da infinitude metafísica. Deduziu errado. o garoto simplesmente não distinguiu entre quantidade discr eta (o número de bolinhas ) e quantidade continua ( a distância linear ocupada). com base nela. e do aumento da quantidade co ntínua deduziu o da quantidade discreta. mas esqueci quais. sem acréscimo de nenhuma. Que sofismas tão grosseiros possam passar como sérias ameaças aos fundamentos da geometria clássica e mesmo aos pr incípios da civilização que herdamos da tradição greco-romana. Cantor erra o alvo por muitos metros. é apenas o sinal da revolta i mpotente da imaginação matemática exacerbada contra a ordem real das coisas. no fundo. Um tris te exemplo é Jean Piaget. é claro. Uma das estratégias a que se recorre para esse fim é a de apelar ao testemunho da experiência científica para tentar invalidar. não poderia deixar de. além do “desencantamento do mundo”. a diferença dos respectivos sensos d e identidade? Ao contrário: o erro cometido pelo garoto subentende uma consciência d a identidade absolutamente igual à das pessoas adultas. É preciso estar dormindo ou hipnotizado para não perceber que. o mesmo conjunto que an tes tinha sete. Não se trata ndo de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte. no caso. danos profundos à inteligência humana. caso contrario ele não poder ia reconhecer.” Deve ter mesmo esqueci do. com sua própria metade). é o mesmo pr incípio de identidade ou um princípio um pouco diferente?”. que ultra passam uma perda meramente estética para reverberar numa destruição do fundamento raci onal das ciências. o menino teria de subir mais um grau de abstração. Para levar em conta somente as bolinhas. os princíp ios lógicos que validam por sua vez a idéia mesma de experiência científica o que é mais o u menos o mesmo que tentar cobrir um cheque sem fundos mediante depósito constituído do mesmo cheque. e que os pares possam ser contados como co isas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. “Quando sete bolinhas se tornam o ito ou nove como um elástico de sete centímetros que atinja oito ou nove. pergunta Piaget. não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte. senão não escreveria essas coisas. como deduzir. O que Cantor faz é. ele teria de ser um menino um pouco mais velho. a longo prazo. substancializar ou mesmo h ipostasiar a noção de “par” ou “paridade”.

P. Abril. Ed. 83 da edição Os Pensadores ( São Paulo. . várias reedições ).

é perfeitam ente ilógico sempre que trata de situar as relações entre ciência e filosofia. e é algo que os adultos percebem da mesmíssima maneira que ele. uma quase-substância. coloca continuamente a exigência de não admitir nenhum saber para o qual não seja p ossível dar conta em razão de princípios originalmente primeiros e. não se dá conta sequer de que deduzir d o fato da confusão entre bolinhas e espaço uma dualidade de princípios lógicos não é outra c oisa senão passar do fato ao valor — um psicologismo dos mais descarados. que agia de maneira vivente n as ciências desde Platão. portanto. Piaget. Que os todos matemáticos devam ser encarados como unidades. não é de espantar que. que é apenas uma unida e convencional. acrescentando o toque 117 . ou substantia secundum quid. no sentid o aristotélico ( “este coelho é este coelho”). Quando Thomas S.. por assim dizer. Aliás Piaget. o trono foi entregu e à ambição de todos os antigos pretendentes: neopragmatismo. É que a ciência desistiu de ser científica. contentando-se em ate nder às exigências de praxe de um protocolo “experimental” no qual já nem acredita mais e cujos fundamentos já desapareceram sob grossas camadas de esquecimento. perfeitam ente evidentes. que admite como um dogma o pressuposto kantian o de que não existe passagem do fato ao valor. cujo prestígio elas tinham simplesment e usurpado. Edmund Hus serl descreve nestes termos a decadência do ideal científico nas ciências do século XX 1 17: “A ciência moderna abandonou o ideal de ciência autêntica.104 OLAVO DE CARVALHO ção não alteram a identidade. ela abandonou o radicalismo da auto-responsabilidade científ ica. Piaget pretende ver uma dualidade de princípios lógicos onde há a penas uma diferença entre os aspectos percebidos por dois indivíduos num objeto que ambos sabem ser o mesmo. mas no ideal mesmo de ciência. logo a seguir. nova re tórica. Ele rejei ta toda pretensão da filosofia a constituir um conhecimento “superior” à ciência ( e mesmo de constituir um conhecimento qualquer ). Essa passagem requer uma subida do grau de abstração. um “todo matemático”. que é a utor de um Tratado de Lógica.. inclusive cognoscitivos” ( isto é. eles abalaram não somente a confiança nas ciênci as existentes. Mas como é que um princípio de coordenação poderia não s er de algum modo “superior” aos elementos coordenados? E como seria possível coordenar valores de veracidade científica sem fundar-se num critério de veracidade cujos fun damentos fossem admitidos como verdadeiros e dotados. neo-relativismo. ademais. como se ela não estivesse. Kuhn e Michel Fou cault enfim reduziram a história das ciências à sucessão mais ou menos arbitrária de “paradi gmas”. os valores que bal izam a cientificidade da ciência ). que a de um “conjunto”. o que é perfeitamente aristotélico. independentemente de não terem uma unidade substancial. em s i. mas reconhece a filosofia como uma “ati vidade de coordenação dos valores. como se essa c iência fosse a única possível. eis aí algo que a criança só poderá admitir quando sua mente for adestrada para aceitar como premissas do raciocínio os convencionalismos matemáticos. Destituídas a um tempo a rainha autêntica e a falsa. muito abaixo das poss ibilidades contidas no próprio conceito de “ciência”. os fracassos de um a ciência assim degradada viessem a ser tomados como argumentos contra a possibili dade mesma de qualquer conhecimento científico universalmente válido. Quando err os tão primários se introduzem nas mais altas cogitações científicas e ninguém se dá conta de sua presença.” Dado esse estado de coisas. neo-epicurismo — é o cortejo todo dos velhos irracionalismos que retorna à cena. epistemes ou pré-esquemas cognitivos semiconscientes que entram e saem de cen a por motivos geralmente irracionais. De outro lado. de validade cogn itiva? No fim das contas. e o que não se compr eende é como a criança poderia passar de um nível de abstração a outro sem a permanência do senso de identidade. Sua força de impulsão interna não é mais constituída por aquele radicalismo que. é claro que é ma is fácil reconhecer a identidade de uma substância dotada de unidade real. de fato. é que o diálogo acadêmico se tornou algo como a conversação de hipnotizados no jardim de Epicuro ou como uma sessão do Santo Da ime — todo mundo doidão.

7-8.U.F. Éssai d’une Critique de la Raison Logique. Paris. Logique Formelle et Logique Transcendantale. 1957. Suzanne Bachelard.. pp. .Edmund Husserl. trad. P.

Assim com o a cosmologia de Nicolau pretendia dar uma nova visão da natureza que fosse mais digna de representar a manifestação da infinitude divina. o papel do culto dos antepassados entre os Yorubas abandonados por Olorum. À revelação da infinitude espacial seguiu -se a da infinitude temporal: ao materialismo seguiram-se o historicismo e o pro gressismo. a descoberta do senso histórico origina as ciências humanas. a descoberta da dim ensão histórica foi uma revolução espiritual de vasta envergadura. Ele nasce. em suas origens. de uma reação contra o abstratismo. § 21. ao singular. assim como Galileu e Newton não poderiam ter formulado cientificamente a mesm a idéia se contassem apenas com os recursos matemáticos de Arquimedes ou Nicômaco. onde todas as tentativas de conciliação e síntese têm falhado. nada tem que se pareça nem de longe a uma nova id olatria. A perd a do sentido da infinidade metafísica. A divinização da História fará. com efeito. Ambos os movimentos que geraram a irreligiosidade moderna originaramse de dentro do campo religioso e sob o estímulo de impulsos religiosos. não se somassem as do tempo. muito menos a uma idolatria do abstrato. assim também a compreensão aprofundada dos detalh es filológicos do texto bíblico gerará polêmicas sem fim nas quais acabará por perder-se o sentido essencial do conjunto. nasce de um desejo de comp reender melhor as Santas Escrituras. nasce de um sadio movimento em direção ao concreto. foi compensada pela descoberta das duas dimensões horizontais do mundo físico. a visão do univer- . a descoberta de novos e poderosos instr umentos intelectuais abre ao homem a visão de continentes insuspeitados. às divin dades do espaço. ao sensível.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 105 final de demência sem o qual não estaria completa a saga alucinante dos deuses do es paço. ou vertical. mas entraram desde logo n um antagonismo aparentemente insuperável: a ampliação do espaço gera as modernas ciências físico-matemáticas. quer dos racionalistas e empirista s. Ela opera uma ruptura do pensamento europeu com o universalismo abstratista dos gregos. mas a amp liação do leque de coisas visíveis se faz às custas da perda do senso de unidade e hiera rquia do real. formand o duas culturas separadas e hostis. em lugar do cosmos fixo e repetitivo do racionalis mo mecanicista. Do mesmo modo. quer dos escolásticos. Nenhuma descoberta se faz sem instrumentos. — (I) A força dos meios Mas a descida do foco de atenção espiritual que preenche o vazio deixado pela Divind ade suprema mediante a multiplicação dos deuses cósmicos não estaria completa se. no Ocidente. Friedrich Meinecke. o advento do historicismo não teria sido possível sem a crítica histórica. Nicolau não poderia ter cap tado a infinitude espacial sem o prodigioso desenvolvimento da dialética na Idade Média. de que se originarão o historicismo e o progressismo. A divinização do tempo. cuja visão da n atureza humana como uma essência fixa e imutável permanecera dominante apesar de tod as as mutações espirituais da Idade Média. e que após o Renascimento adquirira um novo v igor através da concepção do direito universal — uma norma moral abstrata e universal im bricada na constituição do cosmos com a fixidez de uma lei física. O sintoma mais agudo dessa perda é que as duas novas dimensões descobertas nunca puderam ser articuladas entre si. assim também a crítica histórica . Segun do o grande historiador do historicismo. O historicismo oporá a essa concepção três novas idéias: 1ª. E m ambas essas linhas de desenvolvimento. E assim como a ampliação quantitativa do univer so físico conhecido produz a dispersão da inteligência numa poeira de fatos cada vez m enos dotados de significação metafísica. O historicismo.

do homogeneamente idêntico. mas um indivíduo singular vivente. Todos estes pensamento s podiam um dia dar passagem a uma mais profunda compreensão da história. Shaftesbury chama-a inward fo rm. da sua singularidade. 2ª. Se não há dois seres human os iguais ou duas folhas de árvore iguais. se por toda parte impera a ordem e a harmonia. na sua própria constituição interna. um obscuro professo r de retórica da Universidade de Nápoles. Shaftesbury não fala diferentemente de um platônico o u neoplatônico. isto não se deve a um desvio da realidade sensível em relação a uma norma abstrata de perfeição. que brotam de um ponto central interior. de uma idéia formadora. A essas individualidades infinitas Leibniz denomi nava mônadas. por dar às suas idéias uma expressão talvez demasiado informal e literária. para ele. onde há lugar para o imprevisto e a criativid ade. a lei suprema do universo é a lei da individualidade irredutível. inward order. A unidade idênti ca de nossa própria personalidade não pode arraigar-se na matéria. ainda que em última instância sejam redutíveis a um princípio comum unitário. 27. 1943 ( original alemão de 1936 ). um grande pensado r que. é de novo forma estruturadora. uma riqueza de estruturas peculiares. Tanto a causa do ser quanto s ua beleza e o princípio de sua permanência idêntica residem na forma. engendrar as plantas. mas pouco compreendido. em lugar da “natureza humana” abstrata e universal. não é porque desde fora e desde cima uma lei universal oprima e regre o curso das ações individuais. Deus mesmo não é um conceit o universal abstrato. a intuição da personalidade humana como um p rocesso que se desenvolve e se cria no tempo. inward character e outr os nomes compostos sempre com inward. O passo seguinte na formação da consciência historicista vem com a filosofia de Leibni z. O universo compõe-se de universos. Até aqui. cada uma total e completa em si mesma. a qual se corrompe e se desfaz sem que a nossa pessoa se desfaça junto. que 118 lhes é inerente. 3ª. na “idéia”. têm seu “gênio” particular. não é o conceito de um gênero ou uma regra abstra a universal. Por toda p arte uma interação de liberdade e necessidade. mas sim a que a norma mesma. ela é o princípio interno da sua diferenciação. ela reside na individualidade concreta. animais e homens. José Mingarro y San Martín y T omás Muñoz Molina. acabo u por vê-las rotuladas pela posteridade como the sublime of nonsense — sinal de que foi muito amado. a imagem do universo inteiro. Segundo Shaftesbury. cada uma irredutivelmente singular e diferente de todas as demais. Todas as formas particulares. El Historicismo y su Génesis. O terceiro passo foi dado por Giambattista Vico. por um movimento mecânico. a matéria não poderia. FCE. inward constitution. que se torna sempre patente em sua beleza. recriando-se continuamente. México. Ela enfatiza que toda a realidade é composta de individualidades. Se a pluralidade inesgotáve l das individualidades não se perde no caos e na confusão. p. mas porque cada ser individual tem em si. Uma de suas primeiras manifestações da nova mentalidade é a estética do Conde de Shaftesbury (16711713). dinâmico. Tud o quanto se cria ou é criado comporta estrutura e forma e. inward structure. trad. que nada tem existência sob a forma do genérico. na força normativa e estruturante. Friedrich Meinecke assim resume a contribu ição de Shaftesbury à formação do historicismo 118: “O mais importante nesta doutrina é o primeiro reconhecimento do princípio de individu alidade.” Friedrich Meinecke.106 OLAVO DE CARVALHO so como um processo vivente. Mas essa “idéia”. o macrocosmo de microcosmos que refletem a infinitude da unidade supr ema na forma por assim dizer quantitativa da infinitude de suas imagens microcósmi cas. na medida em que não se f ormou uma mera corporeidade. pairando no céu das idéias puras acima das individualidades concretas: ao contrário. Cada ser singular tem em si uma força interior e spiritualmente estruturadora que o singulariza e que é como que o algoritmo de tod as as transformações por que ela passará no curso de sua existência. a visão da inesgotável varied ade dos tipos e das individualidades. através da ação da vida. cujo pensamento foi solenemente ignorado p . sendo portanto o pr incípio da conservação da unidade na mudança e pela mudança.

Co mo a natureza não foi feita pelo homem. Vico asseg urava que cada ser só pode conhecer perfeitamente bem aquilo que ele próprio faz. e sim por Deus. por seu lado. Nadando na contracorrente de sua época. que são criações dele mesmo. Logo. o co- .elos contemporâneos. conhece muito bem os seus a tos e pensamentos. só Deus tem um conhecimento certo e perfeito da natureza. que tomava em geral as ciências físicas e matemáticas como o protótipo mesmo do conhecimento seguro. O homem.

de fato. A visão de uma pluralidade de ações más produzindo um resultado bom é profundamente cristã. O historicismo. o último dos gra ndes escolásticos medievais. Scot acreditava que a hipótese contrária era um resíduo pagão. da natureza sensível. mas ergue o edifício inteiro da nova filosofia — a interpretação da realidade c omo processo. mas não pôde livrar-se completamente do resíduo coisista. da analog ia. na verdade. que se recorda de suas ações e pensamentos e p ode narrá-los. e por isto mesmo. para quem o conhe cimento a rigor versa somente sobre os gêneros e as espécies. queda redenção do homem. em cujo altar foram sacrificados milhões de indivíduos humanos. do alto. na imortalidade da alma individual). acredita piamente na Providência. quase se mpre mesquinhos. saltando por cima do cosmos. É que toda a herança do pensamento grego e ra centrada na noção do cosmos. não está. Ele é. como epopéia da criação. Se o conjunto inesgotável das motivações individuais. mas no eu concreto. das correspondências simbólicas. buscando nele o mesmo tipo de estabilidade e fixidez que o estudo das ciências físicas buscava nas leis da natureza. individual ou coletivamente. é porque há uma força maior que. ao expressar-se em atos. como veremos adiante. coerido pelos laços da simpatia. divergira de toda a tradição escolástica para afirmar que não existem idéias eternas ou modelos universais somente das espécies e gêneros. tomada como o protótipo mesmo da r ealidade. Os homens. harmoniza as várias ações humanas no sentido de um resultado benéfico. o primeiro a enfatizar as diferenças de temperamentos e inclinações entre indivíduos e povos como causas dos grandes aconte cimentos. É impossível não ver em Shaftesbury a marca da mística neoplatônica. a base dos conhecimentos humanos. era um pensamento coisista: via o homem à imagem das coisas. no Ocidente. Esses três pais-fundadores do historicismo estavam. Além do fa to histórico de que todos os fundadores da filosofia moderna eram cristãos piedosos e movidos por intuitos apologéticos declarados. O pensamento grego era fundamente marcado por uma visão objetivistaexterior. e da Idade Moderna como época da ruptura da filosofia com o cristianismo. o filósofo grego tendia a vê-las como uma imagem e semelhança das coisas do mundo sensível. Vico já não se limita. o Doutor Sutil. como História. com sua visão do universo como uma harmonia vivente. hostil à doutrina cristã da imortalidade da alma (Aristóteles. A escolást ica medieval deu passos gigantescos no sentido de cristianizar a filosofia. Para usar o termo genial de Orte ga y Gasset. quando falava do homem. como imaginava Descartes. John Duns Scot. não acreditava. resgata ndo valores da espiritualidade antiga e medieval soterrados sob a uniformização raci onalista. com todas as diferenças i rredutíveis que os singularizam. tendia a fazê-lo nos mesmos termos com que falava das coisas do mundo externo. não produz como efeito apenas o caos. raramente são movidos por concepções filosóficas raci onais e coerentes: em geral eles agem cada qual por motivos subjetivos. a filosofia moderna é cristã por um mo tivo muito mais fundo. egoístas e irracionais. a ênfase de Leibniz na singularidade como princípio d o real é um eco da hæceitas scotista. a lançar fund amentos. o pensamento cristão é centrado na relação homem-Deus. Vico. mas o da História. Mesmo quando falava de realidades espirituais. de ordem interior. Ora. Do mesmo modo. Para . cegos. O verdadeiro cogito. tal como Leibniz. assegura ele. Vico. que é rebaixado à função secundária de u cenário ou de um reflexo do drama principal. As coisas sucedem diferentemente porque em épocas diferentes os homens. o qual se passa na alma humana. à visão do universo como processo temporal. ao descrever a história como história da consciência. resu ltou numa divinização idolátrica do tempo e do processo histórico. num eu pensante abst rato e universal.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 107 nhecimento mais seguro não é o da física. É inteiramente errône a a visão estereotipada da Idade Média como o período da filosofia cristã por excelência. como seus dois grandes antecessores. por seu lado. querem coisas diferentes. e em última instância no culto de uma idéia abstrata. mas dos indivíduos. mas de uma fase para outra no desenvolvimento de um mesmo povo e de um mesmo indivíduo. Mas os primeiros passos na direção do historicismo devem ser consi derados marcos memoráveis no sentido da cristianização da filosofia. Para entendermos o curso das coisa s. saltava sobre quase dois milênios de herança grega para voltar à visão do Gênesis. temos de penetrar no conhecimento de suas diferenças — não só de indivíduo a indivíduo e de povo a povo. o “progresso”.

quem Deus fez o mundo?. O homem. E respondia: pa ra o homem. Teilhard de Chardin. é também o seu centro de co nstrução. não é o homem que tem de ser descri- . perguntava o catecismo da nossa infância. centro de perspectiva da criação cósmica. Logo. dirá o Pe.

É preciso. advindos do fato de que esses meios também têm sua forma e estrutura próprias. no fundo — e coexistindo. a imagem de Deus e a do indivíduo humano c oncreto? Nada no mundo se faz sem instrumentos. o “processo”. onipotente: logo. até Sto. Spinoza. No homem confluem. a raiz divina da imortalidade da alma. É mais do que evidente que um ser assim constituído não pode ser eficazmen te descrito por uma antropologia coisista. e na escolástica ela só foi abrindo caminho muito lentamente. liberdade e necessidade. que o novo movimento em seguida tomasse o rumo da entronização de um novo de us cósmico — a “História” hipostasiada. Ora. o “progresso” — sob cuja figura obsessi dominante desapareceriam.108 OLAVO DE CARVALHO to à imagem e semelhança do cosmos. por um lado. A forma da idéia não se encarna na matéria senão pela mediação da matéria. T omás. com elementos antagônicos como os assinalados no parágr afo anterior —. Pascal. Entre o intuito e o resultado. era uma retomada do que havia de melhor e mais genuíno e m Aristóteles. Para Aristóteles. Daí a aparência de uma ruptura drástica onde há. já não serão profissionais do ensino. a um só tempo. mas o cosmos à imagem e semelhança do homem. é claro. O homem. Sua liberdade reflete a Infinitude divina. pode ser considerada como um giga ntesco esforço de absorção da cosmologia grega no contexto cristão. que o encare como essência fixa sumetid a à operação de leis de causa-e-efeito uniformes como aquelas a que estão sujeitos os co rpos do mundo visível. com Duns Scot. em oposição ao mecanicismo. esta dimensão es tava completamente ausente do pensamento grego. afinal. Só a História pode dar con ta da complexidade da visão da vida humana como drama da salvação. cristã na base. sem dúvida alguma. Como ninguém supera sem primei ro absorver. é preciso contar com a interferên cia dos meios e instrumentos. Descartes. É preciso. a variedade e a imprevisibilidade das ações individuais e que. a escolástica inteira. então. Mas aí a escolástica já estava esgotada — não intel ectualmente. De outro lado. não fazem senão prosseguir no sentido da cristianização crescente uma evolução a que a esco lástica. Mas Deus é Absoluto. Do neoplatonismo pode ter vindo a imagem do universo como totalidade vivente. e logo em seguida a eclosão da conciência historicista. contra o abstratismo racionalista. f orjar seu destino. já tendia manifestamente e com muita força 119. A superação começa soment com Duns Scot e sua teoria da hæceitas — a forma eterna da individualidade humana. e sim investigadores independentes. e sim socialmente: novas formas de atividade intelectual começavam a desenvolver-se fora da universidade (da Escola). que não se rendem plasticamente à nossa vontade mas im põem à sua execução toda sorte de obstáculos. para descrever o homem. mas a valorização do drama humano como centro da realidade cósmica é. na unidade de um desenrolar temporal real. A descoberta ou redescoberta da dimensão histórica requeri a primeiro a superação da cosmologia naturalística grega. Ele só pode ser descrito segundo uma ótica que leve em consider ação. é perfeit amente injusto ignorar que um giro em direção às individualidades concretas. vivendo de algum ofício como Spinoza. Como foi possíve l. de algum emprego público como Leibniz ou de rendas de família como Descartes e Pascal. a continuidade de uma evolução coerente: a descoberta da subjetividade . bem como 119 É por isto que não posso concordar inteiramente com o insigne Friedrich Meinecke qua ndo enfatiza de maneira um tanto unilateral o peso da influência neoplatônica nas or igens do historicismo. por um lado. como imagens dos dois atributos di vinos fundamentais — a Infinitude e a Absolutidade — as duas correntes contrárias da l iberdade e da necessidade. a única rea . com Descartes e Montaigne. o homem está exteriormente sujeito às leis cósmicas e interiormente à lei moral. por ou tro. em suma. e os grandes pensadores da época subseqüente. Leibniz. é livre para tomar suas decisões. e este à imagem e semelhança de Deus. saiba encaixar harmoniosamente essa variedade no quadro das determinações cósmica s e divinas que limitam a liberdade humana. contra o platonismo da nova física. A mud ança do cenário social da atividade filosófica muda o estilo de filoso- far e até de escrever sobre filosofia. dialeticamente. con ciliar dinamicamente. fazer História.

inteir amente desconhecida na Idade Média. 1994. é só uma grossei ra simplificação própria da cultura de almanaque que pode sustentar o mito de que o pe nsamento moderno é uma ruptura com o aristotelismo. verdadeiro sob certo aspecto apenas. IAL & Stella Caymmi. Como já afirmei em outros trabalhos ( v. o que quer dizer em suma a individuali dade concreta — este homem. Rio. . Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. esta árvore — cujo conceito genérico é somente uma realidade s ecundária e derivada.lidade efetivamente existente é a substância. Do aristotelismo a filosofia m oderna só abandonou algumas parcelas da Física. um verum secundum quid. sua metafísica. ao mesmo tempo que revalorizava sua metodologia. editado em apostilas pelo IAL ). e sobretudo Pen samento e Atualidade de Aristóteles. Int rodução à Teoria dos Quatro Discursos. sua teoria da linguagem e sobretudo sua Poética.

pelos velhos diplomas empoeirados e pelas velhas línguas. já vinham-se desenvolvendo antes deles. unhas e cabelos humanos. O abandono da dialética em favor da retórica é uma mudança decisiva da mentalidade: os argumentos já não valem pela sua demonstração exaustiva. fazendo com que o desenrolar da História acabe constituindo. para se realizar. o que significa apenas qualquer texto que não seja as Sagradas Escrit uras. Sua atmosfera verbal já não é a seca terminologia técnica da dialética e scolástica. O codificador da retóric a antiga vai adquirir. analisado. Na verdade. e como tal é de sejado. Horácio. já não entre seus colegas de ofício. Inaugura-se o pendor de filosofar literariamente. A casta era internacional. um termo tremendamente eq uívoco. mas a da conversação amena e elegante em língua nacional. recheada de florei os bajulatórios. o humanista vai inspir ar-se em Ovídio. pois um humanista da Renascença tem menos amor pelo ser humano. correspondem diferentes mestres: os medievais tinham encontrado os seus em Platão e Aristóteles. um contrato de arrendamento. que se interessa por essas coisas. O novo modelo de homem letrado. ao contrário. moedas. Mas foi a discussão em torno deles — e sobretudo o impulso de tirar conseqüências filosóficas diretamente das conquistas técnicas. Estes instrumentos representam uma conquista de valor inestimável. da origem familiar. pelos documentos. pedaços de velh as estátuas. irla ndeses. A diferentes classes sociais. É nesta mediação. e sobretudo em Quintiliano. sem a mediação da crítica filosófica — que acabou por desviar o movimento historicista de sua de stinação originária e colocá-lo no rumo de uma nova idolatria. s oldados e cortesãs. um movimento a que se costuma chamar humanismo. sobretudo na Itália. Para isto. por um coto velo de Mercúrio.. um membro da orgulh osa casta acadêmica que. O impulso de comparar. italianos. empenhadas em imitar a beleza e persuasividade da literatura antiga. o princípio da corrupção. concreto e v ivente. totalmente esquecidos de suas diferenças de origem. uma lei prom ulgada pelo rei de um reino extinto — tudo é documento da fala humana. O amor às palav ras. o s aficionados da bruxaria pagam grossas quantias por um dedo de Vênus. Este era na essência um universitário. Virgílio. Qualquer coisa serve: uma carta. O impulso de colecionar surge de um misto de motivos estéticos e oculti stas: atribui-se aos fragmentos de estátuas um poder mágico. o latim. Vítor. damas e pajens. Vico e Leibniz desenvolveram-se em ve locidade prodigiosa. é bem diferente do intelectual medieval. ela também estruturada e dotada de forma. A consciência histórica. necessitava criar uma ciência histórica. com finalidad e teológica: obter um texto mais fidedigno da Bíblia. conservado. “Humanismo” significa o espírito museológico: o amor aos documentos vem junto com a mania das coleções — selos. Está acima da crítica. Ele brota do novo amor pelas línguas. que preferirá as palavras às idéias. as técnicas de investigação e do cumentação históricas. e onde conviviam em pé de igualdade franceses.” O novo intelectual é. que se introduzem os desvios. uma autoridade que nem Aristótele s pudera alcançar na Idade Média. estudado. necessitava de instrumentos de i nvestigação. “l tras humanas”. mas pelo encanto persuasivo. escrevia Hugo de S. Vive na corte. como bem vi u Aristóteles. Contemporaneamente a Shaftesbury. “Humanismo” não vem de amor pelo homem. sobretudo expressivas de sentimentos pessoais. pelo aluno que tem saudades da cabana o nde nasceu. dará novo impulso às línguas nacio nais. aos homens do século XV. saxões. escorada no aplauso das hordas de estudantes. sua utilização em rituais de bruxaria oferecia expectativas mais promissoras que a de olhos de sapos. mas pelas humanæ litteræ. desafiava o s reis e o Papa. e acelerada nas épocas subseqüentes. mas entre príncipes e duques. formada de homens que abandonavam se u torrão natal para instalar-se nos grandes centros universitários onde se falava um a língua supranacional. na frase célebre de Weber. patas de corvos.. um membro ou servidor da casta palaci ana. da paisagem natal: “Nada se pode fazer.”. do mesm o modo que toda nostalgia do passado. e qualquer discussão pode ser cor tada pela raiz mediante a fórmula: “ C’est assez que Quintilien l’ait dit. Para o letrado. o amor à pátria era um atavismo condenável. unidos pelo comum desprezo às s uas origens nacionais e de classe. do que pelos textos. “o conjunto dos resultados impremeditados das ações humanas”. um resíduo de mundanismo. O nov . aos olhos da nova classe.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 109 sua própria matéria. an alisar e criticar documentos é um instinto filológico.

o intelectual abomina a universidade. Nascidas e formadas pela i niciativa independente de grupos de estudiosos. aos pou- . as universidades. O motivo é claro.

seu próprio quadro de intelectuais. Desde o século XII. de fixar a cada um sua data provável de composição — pelo tipo das letras. 1695: Dictionnaire his torique et critique. de Pierre Bayle. no decorrer da Idade Média. Descartes. torna-se assim o fundador da técnica da crítica textual. do cardeal Cesare Baronius. Montaigne — não são franco-atirador es: são funcionários da corte ou membros da classe aristocrática. um sentido de expansão e domínio sobre o reino deste mundo substitui-se ao de interiorização e asc ensão espiritual. temidas e invej adas. não é um mundo bom. estetismo e colecionismo que surge o amor aos documentos escri tos. Com exceção da antiga China. de Charles du Fresne. Enquanto a catedral gótica isolava o fiel do mundo exterior.110 OLAVO DE CARVALHO cos. 1678: Glossarium ad scriptores mediæ et infimæ latinitat is. de Jean Leclerc. que empinam o nar iz ante o ensino universitário — Maquiavel. pelos usos ortográficos. O ano de 1440 é um marco na história desses estudos. esta. substituindo a ética pela estética. mas p ode ser belo: Maquiavel descreve o Estado como obra de arte — o templo da autoglorificação aristocrática erguido sobre o sangue do s inimigos. 1588: Annales ecclesiatici. A catedral gótica retira-se do mundo: a renascentista reina sobre ele. Expressam o despeito dos rejeitados pelos vencedores do dia. começam a formar. Não podendo justificar-se moralmente. o humanista Lorenzo V alla denunciou a falsidade da suposta Doação de Constantino. de maquiavelismo e traição na luta pelo poder. a de Santa Maria dei Fiori. ora aliando-se a um contra os out ros. dos ex-amigos e até. argumentando ser um doc umento forjado pelo menos quatro ou cinco séculos após a morte do imperador romano. se preciso. em parte por indiferença ao curso da His tória. 1681: De re diplomatica. na Renascença. projetando-o no sentido de uma luminosidade vertical. para ser apreciada. nenhuma outra civilização jamais se preocupara muito com a datação de a ntigos documentos ou com as questões de autoria. imperando sobre a paisagem do mundo. ora mandando ambas as autoridades às favas e promovendo arruaça s estudantis que faziam tremer os poderosos de ambos os partidos. os reis. publicando alguns anos depois uma edição anotada do Novo Testamento. A longa disput a encerra-se. mas elas conseguem conservar sua independência. com a vitória do Papa: as universidades tornam-se órgãos da Igreja. 1693: Codex juris gentium diplomaticum. Nesse ano. os reis e os papas disputam a sua hegemonia. 120 Daí para diante. na luz irreal que os vit rais projetam. sabe impor seus gostos e valores. do monge beneditino Jean Mabi llon. assinala essa transformação. pelo menos. Vencidos. a ambição de domínio encontrará um padrão ordenador e um novo critério de legitimação. Por toda parte. O novo mundo de guer ra e conquista. as conqu istas da técnica erudita se acumulam em rápida sucessão: 1559: começa a publicação da Históri da Igreja dos eruditos protestantes de Magdeburgo. vão se multiplicar e alastrar até a autoglorificação prometéica. o bra de Brunelleschi. pela tinta mesma em que escrevem. dotados de igual talento e poder. sociedade gove rnada por uma elite de burocratas letrados para os quais um erro de gramática podi a custar a vida. a classe aristocrática. dos parentes. As ambições da casta aristocrática. A primeira catedral renascentista. e ninguém achava isso anormal. legislando em ca usa própria dentro das fronteiras do seu reino — só demarcadas pela vizinhança de outros homens ambiciosos. como um eixo. fora da univer sidade. escrito s produzidos por algum discípulo séculos após a morte de um filósofo circulavam sob a au toria deste. Aquela. tem de ser vista de fora e de longe. pelo gêni . haviam-se tornado focos de poder. 120 Convém tomar nota do ineditismo do evento. sobre os fiéis recolhidos em oração. entre os arcos que se elevam ao céu. Os novos pensadores. ora ao contrário. Não há limites ao poder do indivíduo talentoso. O mesmo Valla. a da Brunelleschi situa-se no centro da paisagem e organiza. retórica. o espaço em torno. pela astúcia ou pela violência. tem de ser vista de dentro. de Leibniz. É nessa atmosfera de naci onalismo. 1697: Ars critica. No Oriente e no Ocidente. libertas das peias morais que lhes impunha o clero romano. Do amor aos documentos escritos surge o interesse — e do interesse a técnica — de separar os autênticos dos forjados. que. em parte por uma mentalidade anti-individualista que não atribuía a um homem em .

particular a descoberta de uma verdade e preferia esquecer os autores das menti ras. Assim era a Idade Média Ocidental — um mundo onde uma certa desorganização em tudo era considerada uma condição sine qua non da manutenção da liberdade: Queste cose hanno bisogno di um pò di confusione. .

convocam legiões de eruditos. o de lançar a dúvida cétic a sobre toda a imagem do passado. tudo tendia a fomentar uma abordage m histórica da realidade. elas darão como resultado longínquo. ele não se atrevesse jamais a escrever pesso almente um livro de História. Hegel. W. a da liberdade crescente através dos tempos. Formam-se assim. E como. a qual se pod e sem erro datar dos trabalhos de Leopold von Ranke ( de 1820 em diante). Desacreditada a história providencialista de Bossuet. que o príncipe dos eruditos. assim. Se. o nascimento da ciência histórica. implicitamente aceita como veraz desde a Antigüidade até o fim da Id ade Média. formam exércitos d e críticos históricos. de 1820. Auxiliados pela argumentação erudita. A antecedência dá ares de legitimidade ao usurpador: até hoje. tivesse então de ser pela primeira vez explicitada e defendida contra seu s adversários — que é o que se vê no Discours sur l’Histoire Universelle de Bossuet (1681) — mostra que a polêmica a havia feito descer do céu das verdades pressupostas para to rnar-se uma idéia entre outras e concorrer com elas em pé de igualdade. se notabilizasse também. formando-se através de uma sucessão impressionante de o bras de síntese que começam com Vico e prosseguem com Montesquieu e Voltaire. pro testantes e católicos acusam-se mutuamente de haver falsificado a História da Igreja . 2ª Os progressos da técnica erudita forneciam os instrumentos para a criação de uma ciênc ia histórica. portanto. como um emblema vivo do cetici smo. De um lado. muito antes da História como ciênci a. aconteceu que. não parecia haver outra saída senão pel o lado da concepção histórica. O result ado dessa convergência foi muito complexo. Pierre Bayle. Roma vinga-se com os Annales ecclesiatici do cardeal Bar onius (1588). na ausência de um saber histórico legítimo. atinge sua maturidade e se torna uma força influente no curso espiri tual do mundo antes que se forme propriamente a História como ciência. Não estranha. em nome da História. tornavam patente a inconsistência da História então c onhecida e fomentavam a dúvida cética sobre todo o conhecimento do passado. o resultado mais notável dessas polêmicas foi lançar em todos cérebros a dúvida sobre a confiabilidade da narrativa bíblica e da visão cristã da História . tendo passado a vida a compulsar criticamente documentos históricos e a apontar os erros dos historiadores. ou seja a da História como percurso do homem da cr iação até a queda e a redenção. e sobretudo. O historicis mo. um lugar e um prestígio notáveis na ideologia das classes letradas no momento em que. de Dom Bernard de Montfaucon. Ambas as igrejas percebem o valor estratégico das novas armas. no século XIX. a dos progressos retilíneos da consc iência. que. alcança sua máxima expressão na Filosofia da História de G. Noções que a ciência histórica viria a derrubar como totalmente inconsistentes. ao mesmo tempo. o historicismo como doutrin a filosófica ou como cosmovisão. para compensar as fraquezas do mecanicismo racionalista. de haver interpretado erroneamente os textos bíblicos. com Ranke. até o século XVI pelo menos. Que esta visão. já tinham conquistado. F. as que viriam a ser chamadas “ciências auxiliares da História”. A situação delineia-se então pela convergência de duas linha s de força: 1ª Na esfera do pensamento filosófico. Entre a época de Bossuet e a Revolução Francesa multiplicam-se em número e sobem na dose de violência os ataques à história cristã. seu efei to imediato — que certamente viria também a contribuir para isso — foi principalmente o de desmoralizar a narrativa histórica como então se conhecia. que parasitam o prestígio da mesma ciência histórica que os desmente. Por outro lado. de um lado. de Toustain e Tassin.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 111 1708: Paleographia græca. divulgam e alardeiam os resultados de suas pesquisas. . E sta condição humilhante de uma História que dá mais força aos mitos na medida mesma em que se esforça para restaurar a verdade é uma das trágicas ironias do mundo moderno. as armas forjad as nas oficinas dos eruditos passassem a ser usadas a título de “argumentos históricos” nas polêmicas religiosas e políticas do tempo. mas. A Históri a da Igreja dos eruditos de Magdeburgo (1559) é o primeiro tiro de canhão disparado pela crítica protestante. e que. 1750: Nouveau traité de Dipl omatique. o que faz as vezes de História na mentalidade média dos intelectuais é um resíduo de mitos e lendas historicistas. como por exemp lo a de um curso unitário do acontecer mundial. a visão dominante do curso da Históri a fosse aquela trazida na Bíblia. mas abalada também a confiança no racionalismo clássico. a História propriamente dita começa a dar seus primeir os passos.

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não a armadura do conjunto. de um lado. com muitos contatos e intercâmbios. Hoje entendemos facilmente que R anke es tava na direção certa. Aí entra porém em ação a ambigüidade mesma d a expressão “teoria da História”: ela significa. De um la do. Repete-se. do individ ual. Os partidários do capitalismo acusam os historiadores comunistas de selecionar ardilosamente os fatos para fazê-los ca ber num esquema simplista. ou. uma explicação filosófica do conjunto dos fatos históricos. A primeira dessas tarefas incumbiu a Leopold von Ranke. F. Isto acabou por transformar a ciência histórica mesma num equipamento da gigantesca máquina de gue rra ideológica montada pelos comunistas. Foi nesta d ireção que se esforçou Hegel e. As duas direções são. terminava por entrar no círc ulo vicioso da explicação marxista: após reduzir uma época histórica a seus aspectos 121 . de outro. que a síntese filosófica sobre o conjunto do acontecer histórico er a um empreendimento prematuro. a destituir o proletariado de seu papel de agente privilegiado da causalidade histórica (admitindo. e recebe em res osta a acusação de falsear os dados. porém. só que a do burguês é disfarçada de ciência. do singular e irrepetível. a Georg W. ao mesmo tempo. aqui e ali. no momento em que o sensato Ranke começou a trabalhar. Do ponto de vista do progresso da ciênci a. não enxergando os fatores espirituais da História e reduzin do tudo à economia. a reflexão só podia se perder nas névoas de uma ps eudometafísica fantasmagórica e terminar no culto de uma nova divindade. por exemplo . até mesmo a do Lumpenproletariat) 121. influenciado pelo positivismo e incapaz de apreender dos fenômenos espir ituais senão suas analogias e reflexos no plano social. impelidas pelo progresso das ciências auxiliares que davam ao historiador os meio s de resgatar os acontecimentos singulares de que se compõe a História. dando-se por sabido o que aconteceu. as concepções de Hegel e Marx exer ceram também seu fascínio e seu influxo sobre os historiadores de ofício. para decidir quem co nta a verdadeira história. se dá a explicação teórica do conjunto. A querela da História forma um dos quadros mais interessa ntes da guerra ideológica dos últimos dois séculos. de fato. na ausência de conhecimentos históricos suficien tes. a segunda.112 OLAVO DE CARVALHO rejeitando as “leis universais imutáveis”. com Gramsci. quer na sua versão científica e racionalista. o debate teve um duplo efeito. contaminou de marxismo os estudos históric os. obrigando seus adversários a construir igua l aparato para defender-se. de suprimir fatos e personagens para recortar a História segundo o molde dos seus desejos. o marxista replica que os fatores espirituais são um véu ideológico que oculta a realidade do fator econômico. cuja História se reduz a mera propaganda revolucionária. o arcabouço metodológico de u ma ciência. É característico o caso de Weber. o comunista protest a que toda História é ideologia. de outro. os comunistas respondem que o historiador burguês só enxe rga os fatos isolados. obrigando os teóricos marxistas a reconhecer a inter ferência importante de fatores não-econômicos na História. mãe do marxi smo e avó da Rússia soviética. o hegelianismo já havia se trans formado numa poderosa corrente de influência e numa força histórica agente. fruto de uma ciência organizada. mas que. que. a função estratégica da intelectualidade. que passaram a privilegiar os aspectos econômicos da causalidade histórica ou a buscar para ela algum outro fundamento materialista para enfrentar o marxismo no seu próprio terreno. por si. a disputa entre católicos e protestantes. porém. Hegel. a teoria do conheciment o histórico e a teoria do acontecer histórico. opostas: ou se faz uma criteriologia para planejar as investigações históricas que vão dizer o que aconteceu. As duas linhas evoluíram simultaneamente. para desgraça dos pósteros. nada podiam fazer sem a teoria da História capaz de unificá-la s segundo uma hierarquia racional de critérios. seu adversário insiste que ideológico é o com unista. Era. os excessos mais escabrosos da generalização hegeliana. entre o comunis- mo e o capitalismo. girasse a atenção para o lado do mutável. anti-marxista que buscava most rar a influência das causas religiosas no acontecer histórico. Mas as ciência s auxiliares. de fato. os avanços da pesquisa histórica foram corrigindo. quer em sua versão cristã e escolástica. pessoalmente agnóstico. atenuou muito o simplismo dogmático do esquema marxista originário. e. De um lado. nesta direção que as coisas pareciam ir. o burguês retruca que o comunista toma a parte pelo todo. com Hobsbawm. De outro.

mas cultural e psicológico. . Thompson. E. mas c om isto Thompson implodiu o marxismo. P. que o principal his toriador marxista do pós-guerra britânico. The Making o f the English Working Class. 1968 ( 1ª ed.. V. Thompson. a respeito E. 1963 ). P.Os marxistas tanto cederam aos argumentos de seus adversários. chegou a admitir que o co nceito mesmo de “classe” — a idéia-chave da interpretação materialista-dialética da História ropriamente um conceito econômico. Foi sem querer. Penguin Books.

dizia que “os homens fazem sua própria História”. Garl-G. a compreensão antropológica das culturas antigas e indígenas tornou-se um clichê incu mbido de dar reforço a um novo e mais virulento discurso “progressista”. não via outras causas senão as econômicas. no primeiro caso. desencadeia uma onda de violência. o homem vive num vácuo onde pode criar livremente o que bem entenda? Marx. acusa “o si stema”. segundo Comte. Posta a serviço da contestação esquerdista à civilização Ocide l. Discurso auto contraditório e por vezes demencial. como por exemplo quando deseja preservar as c ulturas indígenas de todo contato “desaculturante” com os costumes Ocidentais. Não é preciso dizer que essa aliança na esfera das idéias antecedeu e preparou a quela que. ou. mas em seguida n eutralizava esta frase ao assegurar que a História ia necessariamente na direção do so cialismo. mas era melhor mesmo que não fizesse. Nietzsche foi o pai de várias correntes que expressavam a revolta do homem contemporâneo contra a razão. com a s luzes que trouxeram sobre os valores de outras culturas e civilizações. não apenas a História não fazia sentido algum. deram-se as mãos para enfrentá-la e salvar o “sentido da História”. A segunda foi que. pendendo para o lado do marxismo ou para o lado da ciência rankeana. a História. A primeira foi que. o guerreiro metafísico dos novos tempos. Lawrence. para poder criar seu destino como bem lhe aprouvesse. D. a idéia do progresso consistindo basicament e numa teleologia imanente à História. no domínio político-militar. Confrontada a essa resistência. sob a a legação — antropologicamente verdadeira — de que a adaptação a novos modos de vida destruiri a a coesão dessas comunidades e desmantelaria as personalidades de seus membros. o pensamento histórico acabava caindo igualmente em algum tipo de ideologia “progressista”. ao invés de assumir a responsabilidade. Jung e Ludwig Klages deram uma forte expressão a essa s idéias. Para ele. provocando assim a ruptura dos elos de lealdade social e a demolição das personalidades. marxismo e positivismo. graças sobretudo à antropologia e à Religião Comparada. Esta questão resume-se assim: a História tem um sentido predeterminado. O principal defensor da inexistência de um sentido na História 122 Infelizmente essa gigantesca abertura do horizonte humano acabou sendo neutraliz ada pela perversão ideológica. Fortalecidas pela descoberta freudiana do inconsciente . Aprendeu com o capeta. o confronto entre o sentido imanente da His tória e a História sem nenhum sentido absorveu todo interesse intelectual do século XX pela questão do sentido da vida. iman ente. final — da evolução da mente hu mana. e valorizavam o instinto. H. até que desapareceu da vista do homem nosso contem porâneo a simples possibilidade de que a vida humana possa ter algum sentido para além da História terrestre. A identificação do sentido imanente da História com o sentido . a ciência hi stórica se aventurou a enfocar o passado sem prejulgá-lo segundo a ótica que privilegi ava o presente 122. o sonho e o delírio. que no Brasil contaminaram um de nossos mais talentosos pensadores: Vice nte Ferreira da Silva. O homem verdadeiro . tentador e acusador em turnos. essas correntes lançaram no século XX um vigoroso ataque ao positivismo e ao marxi smo. o s angue. covardes e mesquinhas n ecessitavam abrigar-se sob a mitologia de um “sentido da História”. o confronto entre ciência histórica e ideologia historicista teve conseqüências muito mais profundas e devastadoras. ao contrário. no segundo. do ponto de vista da evolução geral do pensamento.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 113 econômicos. aos poucos o debate em torno do sentido da vi da humana em geral foi estreitando seu horizonte até reduzir-se à questão do “sentido da História”. não queria sentido algum predeterminado. pela qual enfim. foi Friedrich Nietzsche. m as ao mesmo tempo deseja impor a populações conservadoras e religiosas do próprio Ocid ente mudanças drásticas e repentinas. as duas ideologias do progr esso. Mas. a que Nietzsche chamava o Super-Homem. Radicalizado assim po r suas repercussões políticas formidáveis. é certo. pela celebração posi tivista da ciência como etapa superior — e. pelo endosso à teoria qu e fazia toda a História evoluir na direção do socialismo. Foi só no século XX que. Só as mentalidades torpes. a ciência. l oucura e crime. e que. Acabava fazendo a contragosto o q ue Marx fizera por gosto. se celebraria após 1939 entre as democracias o cidentais e as ditaduras comunistas para enfrentar o Eixo.

para que uma onda de desespero. foi um cho- . A aposta num sentido imanente da História tornou-se.da vida tornou-se uma crença tão arraigada que entrou no rol dos pressupostos incons cientes: já não é uma teoria — é uma realidade. Na década de 50. depressões. para milhões e milhões de pessoas. destruindo repentina mente a fé e a esperança do movimento comunista. suicídios e internações psiquiátricas se esp alhe pelo mundo. o único propósito de suas existências — ao ponto de que bastam alguns sinais de a História desviar-se do sentido esperado . um fato. a revelação dos crimes de Stálin.

precisamente. e outra muito diferente é afirmar que a sociedade tem alguma realidade e consistência própria independentemente e acima dos homens concretos que a compõem. o sujeito ativo. Esses acontecimentos são interpretados geralmente como sinais de que o comunismo era para essas pessoas uma religião. no sentido aristotélico. paixões e reações dos vários homens que a constituem. § 22. Divergem apenas nos meios e no tipo de sociedade a que aspiram. na educação universal. mas. entidades q ue não existem em si mas somente nos entes que as corporificam. tanto quanto os comunistas.114 OLAVO DE CARVALHO que traumático de que milhões de militantes jamais se refizeram. na definição tradicional da sociedade. o termo forte. uma árvore ou um homem. o que se chama um universal: o conjunto dos seres que vivem juntos sob u m mesmo sistema de regras e hábitos. não concebem que a vida possa ter algum sentido fora ou acima da História. O segundo foi — em decorrência do p rimeiro — a doutrina hegeliana do Estado. Ela era uma substância como os gêneros e as espécies. Socialismo e Capitalismo são. Ora. que chegaram a negar a condição humana aos homens afastados da vida social. na redução progressiva da miséria. Ela envolvia e contin ha os homens como uma rede envolve e contém os peixes. na revolução o u no advento da utopia proletária. ignorou a natureza social do homem. que podia limitar as ações humanas ou muda r o curso de seus efeitos. É e sta última afirmativa que diferencia do antigo o pensamento moderno. a divinização do tempo. É isto. À divinização do espa deologia científica corresponde. a socialidade essencial do zoon politikon. A divinização do tempo. entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. a sociedade era nada mais que um sistema de relações entre seres humanos. na ideologia político-social. “a sociedade” não era uma substantia prima. — (II) Beaux draps Mas a História não teria podido elevar-se à condição de deusa sem a concorrência de dois out ros fatores que. a imersão completa do homem na ima nência. com a participação d o indivíduo na construção da sociedade futura. Portanto. as duas seitas e m que se cindiu uma mesma religião. vivente e concreta. e que o carac teriza com ênfase crescente desde o Renascimento e sobretudo após o século XVIII. no Sentido da História. Sem chegar a ser irreal nem limitar-se apenas a um efeito passivo das ações individuais. um ent e real em si. Mas reconhecer a natureza essencialmente social do homem em geral é uma coisa. A sociedade era. Para todos os pensadores políticos desde a Antigüidade até o Renascimento. pelo menos desde Aristóteles. a crença no Sentido da História é comum aos com unistas e aos democratas Ocidentais. Para uns e para outros. Estes não crêem no esquema marxista. Para os antigos. e a substância em sentido estrito — a individua- . o sentido da vida identifica-se. o personagem concreto. a Históri a e somente a História é a doadora do Sentido à vida humana. O primeiro foi a doutrina da “vontade cole tiva”. assim. mas crêem no progresso das instituições. antes. de que a perda da fé no comuni smo funcionou portanto nelas exatamente como aquilo que a Bíblia chama “escândalo” — o des mentido brutal das crenças mais queridas. uma forma de existência mais tênue e indireta que a da substância individual. ninguém poderia apostar no comunismo se não tivesse apost ado. Tanto a reconheceram. no outro braço da cruz. No fundo. Repete-se assim. mudaram decisivamente o curso das idéias. introduzida pelos teóricos da Revolução Francesa. mas não podia propriamente determiná-las. para eles. é evidente que reduzir o sentido da vida ao sentido da História é encerrá-lo na dimensão temporal. mas um composto das ações. e m suma. Pois a ação é um atri buto da substância. A sociedade permanecia recuada como um pano de fundo. A queda do Muro de Berlim foi outro. na extensão a todos os homens dos benefícios da economia e da cultura modernas. o que denomino divinização da História. Mas esse é só o aspecto mais patente e super ficial da questão. voltando as costas à ete rnidade. era o homem. como um cavalo. É claro que nenhum pensador sério. ela era no entanto uma substantia secunda. De outro lado. Tanto quanto para os comunistas. que já tínhamos observado na evolução do pensamento científico. limitando seus movimentos m as não alterando sua natureza intrínseca: não é por cair na rede que um peixe se torna p eixe ou deixa de sê-lo. no aperfeiçoam ento gradual das leis.

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e da definição da soci alidade. então o sujeito ativo da v ida social já não era “o homem”. Esta opinião sustenta a idéi a de que a pessoa é um valor absoluto. na época. fazia parte necessariamente a capacidade que o homem tem d e alterar-se. ao vivente. de transformar-se. Em decorrência. Bertrand de Jouvenel assinala o oportunismo histórico que consagrou em dogma essa transformação 123: “. Malgr ado. como vimos acima.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 115 lidade corporal vivente — possuía a propriedade da ação em sentido muito mais direto e m ais real do que a substância derivada e segunda de um mero universal: se quem dá coi ces são os cavalos e não a cavalidade. hábitos e preconceitos dos vários grupos sociais. real. Mas. mutável segundo as condições sociais. como os morto s não argumentam. por efeito da vida social. Dito de outro modo: o homem era imutavelmente. acreditaram que o fato de a vida social alterar os hábitos ou a persona lidade dos indivíduos concretos provava uma mutabilidade essencial. entre ele e as novas conqui stas do historicismo. o advento do pensamento historicista. Essa definição parecia — e a intenção com que digo “parecia” se tornará clara logo iante — parecia assentar-se na idéia de que a natureza humana de cada um dos membros da sociedade não depende da sociedade em que vive. o agente da História não fossem os personagens de carne e osso. foi fácil atribuir-lhes a crença numa absurda imutabilidade absoluta da natureza humana. e Aristóteles mais que todos. . não a sociedade. mas é claro que ela se assenta numa interpretação falseada do antigo pensamento político. Foi assim que. co m um atraso de dois mil anos. do mesmo modo quem age é o homem concreto. ou mesmo simplesmente por envelhecer. não havia nenhuma incom patibilidade essencial. teve como uma de sua s primeiras e mais devastadoras conseqüências a de abalar a confiança geral na imutabi lidade e universalidade da natureza humana.. Daí que. se chegou a uma personalização do abstrato. por sua vez. agente. os antigos. Ora. a idéia da sociedade com o um mero sistema de relações começou a parecer insustentável também. faziam eco. isto é. Os únicos traços imutáveis que Aristóteles enxergava no homem eram aqueles contidos na sua definição mesma — a animalidade dotada de potência racional — e as propriedades imedi atamente derivadas dessa definição. são mais do que suficientes para derrubar o mito de que os antig os acreditavam numa natureza humana fixa e imune à i fluência da sociedade. como vimos acima. do apelo historicista ao particular.a teoria da Soberania traz ao poder um reforço excessivo e perigoso. mas “a sociedade”: de universal abstrato. ao lado da qual a Sociedade não tem senão o pap el de um meio. insistiram na socialidade fundamental do homem e. portanto. mas é um dado anterior e fixo. Por des onhecerem. Muitas dessas conquistas. senão só aparente e superficial. entre as quais a socialidade. a sociedade foi p romovida a substância concreta. mas o colet ivo abstrato concretizado e hipostasiado sob o nome de volonté générale. que Aristóteles nos f ornece na Retórica. uma inconsistênc ia e tenuidade da natureza humana. e por natureza. como mero sinal algébrico vazio cujo valor será determ inado pelo resultado de uma equação social. Se o homem. [ Mas ] os perigos que essa teoria comporta não podem se manifestar plenamente enquanto subsi ste nos espíritos a hipótese fundamental que lhe deu nascimento. para os pensadores políticos do sécul o XVIII. Se o indivíduo não tinh uma natureza dada. O ra. fazendo da “sociedade” o “verdade iro sujeito” da ação histórica. As descrições minuciosas d os caracteres. adquiria ou perdia caracteres por tornar-se rico ou pobre. ao apelo de Aristóteles contra o universalismo abstr ato e em favor de uma ciência voltada para a realidade vivente. ao fazê-lo. enquanto o indivíduo foi sendo visto c ada vez mais como mera abstração. mas era o resultado de um processo. não poderiam ao mesmo tempo negar o peso dos fatores sociais na moldagem dos caracteres humanos e acre ditar ingenuamente numa imutabilidade universal do homem. A confusão clareia-se tão logo distinguimos entre soci alidade e sociedade — uma distinção que os teóricos da volonté générale desconheciam. para em seguida basear na contestação a essa crença a nova teoria da volonté générale. é claro que não tinha uma natureza imutável . segundo o n Esta girita. Essa conclusão pareceu muito lógica. toda a inclinação coisista do pensamento grego. a idéia de que os homens são a realidade e de que a Sociedade é uma convenção. militar ou ci vil.. ao concreto.

pp. 9193. Histoire Naturelle de sa Croissance.123 Bertrand de Jouvenel. 1972. . Ha chette. Le Pouvoir. Paris.

Mas ela se cristaliza bruscamente. e o hábito. também nos acostumamos a tomar como uma verdade patente a mentirinha boba s egundo a qual Mas. após o q ual começa o declínio.. “a História” ainda era. permanecia referido à existência concreta de seres singulares. nem os teóricos que. Quando a Assembléia Legislativa jogou a França numa aventura militar que a monarquia não teria podido arriscar. para ceder a preem inência a um personagem ainda mais abstrato: o sujeito da História será. até aí. depois disseminou-se na Europa. se deram conta do ridículo que havia em tomar como um princípio científico autoevidente o pretexto publicitário a que uma Assembléia semienlouquecida recorrera no intuito de justificar às pressas a aberração do recrutamento militar universal. muito po sterior ao da humanidade. pelo menos. Mas o homem a tudo se habitua. Ora. ao contrário. em todo caso. passa a ser tomado como ex pressão de uma lei eterna e auto-evidente: assim como nos afeiçoamos à crença de que o E stado tem o direito de mandar todo e qualquer cidadão para o campo de batalha — idéia que teria parecido monstruosa aos olhos de Júlio César. jus .116 OLAVO DE CARVALHO “Para que a metafísica afirmasse a realidade da Sociedade. ao novo conceito da Sociedad e.” “a Sociedade” é um todo. Aí os indivíduos são o esse cial. “É em plena floração do sentimento nacional germânico que Hegel formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo. Como seria possível que o mais real dos seres fosse o últi mo a aparecer? Hegel escapa do problema mediante o recurso à teoria aristotélica da enteléquia. O que ele chama ‘Estado’ corresponde. a forma final a que o ser tende em sua evolução. Sim. a crença de que existe um personagem Nação. a inclinação natural dos s entimentos fez com que a Nação assumisse o caráter e o aspecto de uma pessoa. Nem Hegel. talvez o ma is importante resultado. Hegel traduz para Wesen i st was gewesen ist: “a essência é aquilo em que a coisa enfim se torna”. disfarçada numa nova terminologia que a faz parecer muito original e est ritamente hegeliana. Se o Estado é a última coisa a aparecer. no sentido em que ele o definia.. da Revolução Francesa. e conced e à Nação um certific ado de existência filosófica. é que ele é a forma mais p erfeita e acabada a que tende toda a evolução anterior. o personagem Nação. sob o nome de Nação. fundaram as ciências sociais na sup osição de uma autonomia substancial do Todo social em relação aos seus constituintes hum anos. porque a enteléquia. era um fenôme no mais ou menos r ecente na História. detentor natural do Poder. estava provavelmente latente. “Aceitou-se na França. a História me sma. logo em seguida. e de que as personalidades individuais nada mais são que um epifenômeno da estrutura social. uma vez tendo decidido conceder ao Estado (= sociedade política. ou Nação) o supremo grau de realidade na hierarquia ontológica. e superior à das partes. Mas em nome de quê? De um rei destituído? Não. Em nome da Nação: e. Seu nascimento fora. Para falar como Aristóteles. foi preciso primeiro que esta assumisse figura de Ser. como o patriotismo tomasse desde havia dois mil anos a forma do apego a uma pessoa. até mesmo “a sociedade” deixará o palco. uma substância real. quando o que está é apenas aplicando — muit o mal — um preceito aristotélico. É que. Foi pre ciso pedir a participação quase total do povo na guerra. o filósofo de Jena se viu em fa ce de um pequeno obstáculo: o Estado. onde após a maturidade do ser vêm o envelhecimento e a morte. mais real do que os indivíduos que a compõem. coisa sem precedentes. embora coletivo e abstrato. “Não é o trono que se derruba. o último na ordem do aparecer é o primeiro na ordem do ser. Com Hegel. “Esta concepção de um Todo que vive de uma vida próp ria. percebeu-s e que o Poder não dispunha de meios que lhe permitissem fazer face à Europa. que sobe a o trono. cujos tr aços foram fixados pela arte popular. uma vez adquirido. era a ação de um jeito que. a História de alguma coisa. O que ele chama ‘sociedade civil’ corresp nde à maneira pela qual a Sociedade fora sentida até a Revolução. de Luís XIV ou mesmo de Gengis -Khan —. “Foi esse um resultado. só se torna patente quando o processo atinge o seu clímax. um clímax em sentido estrito existe somente no domínio do cr escimento biológico. mas sim é o Todo. e todo mundo ac ha que ele está falando uma grande novidade.

para aplicar à História o conceito de enteléquia. O próprio Cristo. respondeu que era um mistério só conhecido de Deu s Pai. teve . pergun tado sobre a data do fim do mundo. um processo de duração indefinida. Essa média inexiste n a História. Hegel.tamente porque o ser biológico tem uma duração média predeterminada. que é. em princípio.

em favor do cristianismo. nem universo. alguma forma m ais grosseira. fia t philosophia. enquanto indeterminado. onde. esse sistema e essa contest ação. E como esse acontecer não tem um sujeito que possua alguma consistência ontológica por si e fora dele.1. inseparavelmente. Na hora de morrer. verboso e est ratosférico. onde ele proclama que o conceito de ser. num homem da sua habilidade lógica v erdadeiramente virtuosística. E. falsificando o aval de Jesus Cristo. foi apenas um desses casos depr imentes em que um fundo de desonestidade intelectual subsiste num homem dotado d e autêntico gênio filosófico 124. de fato. Já não há mais ser. nem coisa nenhuma: a única realidade é o acontecer que acontece ao acontecer. A idéia de que o ser. Eis. Mas onde há safadeza intelectual há também. mesmo porque a História já estava para aca bar e o seu filósofo. 12 de suas Obras Completas editadas pela Universidade de Louisiana. por trás de todo o floreado dialético. corpóreo e presente que atestava a existência do processo e a consumação final dos séculos: o Estado moderno.I. como Gurdjieff: Vous voilà dans de beaux draps! Hegel não era no entanto nenhum idiota para crer sinceramente que fosse de fato o último filósofo e que a História terminaria no último volume do seu sistema. não pode ser um erro involuntário. o que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 117 então de praticar uma das maiores trapaças filosóficas de que se tem notícia: marcou par a sua própria época a data do vencimento da História humana. no fim. caso tudo isso parecesse muito vago. inexistindo um “antes” e um “depois”. Uma certa desonestidade apa124 rece já nas bases mesmas de sua metafísica.A. filhinhos: Schelling era muito grande. é o acontecer. I. que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta. e não ente. a Igreja se tornou desnecessária e o Estado vem a ser a suprema autori dade religiosa 128. § 16. o resultado é que o acontec er é promovido à condição de sujeito dele mesmo. o autor da Filos ofia da História argumenta. a projeção am pliada de fenômenos imanentes à psique humana. decretou o fim da História. Isso não faz de Hegel comparação não será feita.a. num estudo reproduzido no vol. e eu ten ho mais o que fazer. Para preservar a int egridade lógica do seu sistema. realizando assim literal mente a sentença que para os antigos era matéria apenas de piada: pereat mundus. Mas História é devir. Em verdade vos digo. ninguém teria a desfaçatez de lhe pergunta r o que viria após o fim da História. 125 Propedêutica Filosófica. Com requintada habilidade sofística. Hegel apontava para o resultado final. Ela mostr a o quanto valem. que pelo menos o lucidíssimo Eric Voegel in assinalou o caráter de “magia negra” dos escritos de Hegel. O nome des se ente é História. mas apena s o de uma fase da sua existência. 126 Não é preciso dizer que. mas só um truque propos ital 126. que o único erdadeiro ente é o não-ente. tinha passagem comprada para o reino das som bras. e tascou na promissória a a ssinatura de Deus Pai. mostrando ser apenas. pior para os fatos”. mais material de desonestidade: pesquisas recentes demonstraram q ue Hegel. portanto. porque iniciados gurdjieffianos e filósofos acadêmicos ( entre os quais os admiradores de Hegel ) sentem demasiado desprezo mútuo para poderem admi tir a hipótese de nivelar nos pratos de uma balança seus respectivos gurus. a Histór ia que é a História da História. como o Estado moderno incorpora e realiza em suas leis a essência perfeita do cr istianismo. a conclusão era que a suprema realidade reside pr ecisamente naquele ente cujo destino final é transfigurar-se em Estado. et tenebræ non compr . Como. nem homem. toda a metafísica hegeliana vem abaixo. mas sublinhando que . é processo. — É verdade. Feito isto . no entanto. seja realmente um nada pelo simples fato de ainda não termos preenchido seu conceito d e um conteúdo em nossas cabeças é com efeito o fundamento absoluto do sistema de Hegel e a objeção inicial de que ele parte para montar sua contestação a Schelling. nada mais disse nem lhe foi perguntado. nesse esquema. desfeito esse truqu e. em si mesmo. Aquele que disse: “Se os fatos desmentem minha teoria. Hegel poderia ter dito port anto a seus discípulos. avançado em anos. recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas inte ressadas em promover a idéia de uma Religião de Estado para se substituir à Igreja cri stã (católica ou reformada) 127. o Estado já não era o nome de um ente. isto é. equivale ao nada 125 — conferindo subrepticiamente valida de ontológica absoluta a esse juízo que só tem sentido gnoseológico. confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer.

Re cherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Hegel. ele faz a apologia da Reforma protestante como a culminação do processo cristão de libertação da consciência individual. Por um lado.. Mas essa . o trabalho notável de Jacques D’Hondt. Hegel Secret. A metafísica deste e a cosmologia daquele dariam um belo capítulo de terat ologia intelectual comparada.F. Paris.. P. ( Explico isto com mais detalhe em minha História Essencial da Fil osofia.ehenderunt eum. 1968. Hegel é estonteantemente ambíguo.U. ) 127 V. De outro lado. mil vezes mais emocionante do que meus pobres Frit jof Capra & Antonio Gramsci. 128 Nes te como em muitos outros pontos de sua filosofia. reduz a religião ao conce ito de “moralidade” acreditando que quanto pudesse haver de metafísica na religião já fora absorvido e superado completamente pela filosofia acadêmiComo aliás se dá também com Gurdjieff. a propósito. cujas semelhanças com Hegel vão muito além da mera co incidência.

ju nto com a religião. dá a fórmula que se tornaria quase que um dogma do século XX: “A política deve tornar-se a nova religião. esperto como ele só. A segunda. ele acaba se colocando. Nietzsch e. até mesmo os preceitos mais óbvios do ca ( faz-me rir! ) e. De outro lado. sem nada impor. que professa nominalmente a liberdade religiosa. que declaram em voz alta as inconveniências que o alto sacerdote. Paira ndo acima de todos. mas também a sua própria. descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo. instituicionalizando nas escolas o ensino do ateísmo. pela violência física e psicológica. o Estado neoliberal produz novos códigos repre ssivos que. que termina pela in stauração da moral invertida. imp edindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória e universal. Strauss ( 1835 ) a divinização do espaço-tempo é explícita. as piadas ). Uma sociedade. Mas ela foi incorpora da pelas três formas do Estado moderno: comunista. de outro lado é fato que. o machismo. que toda nova reivindicação resulta em nov as leis. que o Estado neoliberal não faz isso por meios ditatoriais. o vocabulário corrente. de fato. fuzilando religiosos. e abandonam. legalizando e protegendo todas as exigên cias tirânicas e autolátricas de cada ego humano. meio às tontas. fechando templos. a m ais requintada monstruosidade moral que a humanidade já conheceu. pelo culto obrigatório da Nação e do Estado. Sumopontífice do E stado moderno é Hegel: eles são antes os bobos-da-corte. só se tornam governáveis mediante o nivelamento por baixo. facilmente cedem ao apelo das “novas éticas” disseminadas pela indústria de espetáculos nas modernas democracias. restaurar o culto de César. É claro. de maneira ai nda mais ostensiva. Mas até que ponto o prêmio financeiro não ajudou a cegar o filóso fo para inconsistências que de outro modo ele teria percebido? Pois se de um lado não há como duvidar da sinceridade com que ele defende a liberdade da consciência indi vidual. 1841 ). as cantadas de rua. fazendo do Estado o guardião da moralidade. ele apenas regula sabiamente os conflitos de interesses. banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo 129. com efeito.” Mas não devem nos impressionar tais arreganhos: esses sub filósofos seriam impotentes sem as armas que receberam do mestre.118 OLAVO DE CARVALHO um intelectual de aluguel. produz milhões de pequenos Stálins e H itlers. a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual. As três p rocuraram com igual afinco substituir-se à Igreja na condução espiritual dos povos: a primeira. que pune um olhar d e desejo e dá proteção policial ao assassinato de bebês nos ventres das mães é. os beijos roubados. ademais. prudenteme nte silencia. mas com o apoio e até po r exigência dos eleitores no pleno gozo de seu direito de exigir e legislar. ao fazer do Estado moderno a condição necessária e suf iciente dessa liberdade omitindo-se de defendê-la contra o Estado mesmo . acaba por deixar as consciências individuais à mercê do Estado ( Filosofia do Direito. que cada nova lei resulta em nova extensão da burocracia governante. pois a opinião que ele aí expressa não é só a de quem lhe paga. 129 É claro que a chamada “esquerda hegeliana” foi muito mais longe. fisc . nomeando cardeais biônicos para ludibriar os poucos fiéis restantes. compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação dese nfreada dos desejos poderia causar. É claro. logo percebeu o truque: o Estado hegeliano era o “Novo Ídolo” qu e se oferecia como sucedâneo aos cansados combatentes que haviam derrotado o “antigo Deus”. as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano log o terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. e Ludwig Feu erbach ( A Essência do Cristianismo. ademais. § 268 ). tendo conservado sua fé religios a sob a opressão nazifascista e comunista. nazifascista e liberal. excitados até à exasperação pelo estímulo incessante ao espírito reivindic atório. direito natural: exercendo livremente seus “direitos humanos” sob a proteção do Estado d emocrático. como se vê pelo fato de que as massas. proibindo cultos. Na Vida de Jesus de David F. elevando o Estado à categoria de “Providênc ia do homem”. Mas o Estado liberal. concordando com elas por dentro. que. Essa causa é geralmente associada ao comunismo. dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana. é dos três o mais eficiente no com bate à religião. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que.

risos e pensamentos. no instante em que regula a vida interior dos indivíduos. enfim. Beaux draps que constituem a essência da he rança hegeliana. fisca lizar e punir até mesmo olhares. a caba por se imiscuir em todos os setores da vida humana. movido pela dialética infernal do reiv indicacionismo. e que. E. . o Estado. reinando sobre as almas e as consciências com o novo Decálogo dos direit os humanos e do politicamente correto. sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática. moral e religiosa. passo a passo.al e judiciária. eis que o Estado neoliberal. instaurando-se como suprema autoridade espiritual. assim. por regulamentar. cumpre à risca o programa hegeliano.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 119 .

no todo ou em parte. erguia-se diante de nós. por trás das belas palavras. sem perguntar a quê. recobrindo-a de um manto de subterfúgios engenhosos. portanto. Passara desde muito a época em que Arthur Koestl er podia dividir o bolo ideológico do mundo em duas metades opostas e inconciliáveis . chegamos e nfim à conciliação dos aparentemente inconciliáveis: evasionismo e ativismo. constituiam o recheio dos dois lóbulos cere brais de José Américo Motta Pessanha. Esses opostos. em ocultá-la. a hipótese do objetivo prático: o discurso de Pessanha não tinha satisfações a pres tar à realidade existente. era frouxa. Coerência prática: entr e as sentenças que se desmentem umas às outras pode haver no entanto a unidade de um interesse prático. Mas. No pódio do MASP. The Yogi and the Commisar and Other Essays. Ele fundia-se. que justamente só possa ser atendido através da falsidade e da inc oerência. uma vez que compreendê-la seria rejeitá-la. Logo. era bastante lógico. Com evidente satisfação. nos mostrava a perspectiva de um horro r sem fim (§§ 14 e 15). e que portanto a proposta epicúrea tinha esta característica peculiar: a de recrutar seus mais entusiasmados adeptos precisament e entre os que menos a compreendiam. ocultismo e revolução. Em decorrência. Nova Era e Revolução Cultural. enquanto filosofias da praxis que só tocam n o mundo real como num pretexto e meio para chegar ao mundo inventado. portanto. com o marxismo. só podia ser estética ou prática. Só nos res tava. Sua clave não era a da veracidade. não resistia a um exame ma is atento que. Após demonstrar (§§ 16 e 17) a perfeita compati bilidade entre marxismo e epicurismo. Qual ação? O objetivo não ficava absolutamente c laro. A coerência estética. 1945 ( várias reedições ). como vimos. Ali não se encontrava. já que o que pretendia era produzir uma nova. não sendo do tipo lógico-científico. qu ando em verdade os conduzia ao niilismo. . o epicurismo não ocupava sozinho todo o horizonte mental de Motta Pessanh a.120 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO VIII. A REVOLUÇÃO GNÓSTICA § 23. que esse fenômeno. mas a da eficácia persuasiva. como verificamos. pode no entanto haver alguma beleza ao menos aparente. a tarefa do pregador epicúreo não consistia em expor a doutrina. London. segundo veri ficamos. com toda a sua 130 Arthur Koestler. aquele tipo de solidez q ue se exige dos sistemas filosóficos. nem aquela que se espera das hipóteses ci entíficas. ali. que consiste em resistirem ao confronto com os fatos observados. e que lhes permite sair incólumes. por esquisito que parecesse. ma s de sugestionar para impelir a uma ação. sem perguntar a onde. de haver ali alguma coerência. não era estético o padrão que unificava o conjunto. mas. perdido o fio da meada? Vamos revisar o itinerário per corrido. casados e reduzidos à unidade de uma comum repulsa à inteligência teorética. personificando-as nos tipos antagônicos: o iogue e o comissário — aquele que busca a verdade num outro mundo e aquele que se empenha em mudar este mundo à imagem da s ua própria verdade 130. ao contrário. aos ataques da crítica racional. Tinha. ao desespero e à morte. Estávamos tratando de recompor a coerência interna do universo mental de Jo sé Américo Motta Pessanha. Revisão do itinerário percorrido Terá o leitor. a confirmação mútua das sensações que se coadunam produzindo um sentimento de harmonia. Jonathan Ca pe. Coerência estética: a onde as verdades afirmadas se desmentem umas às outras e são desmentidas pelos fatos . já que o objetivo final do epicurismo não podia ser declarado em voz alta sem provocar espanto e horror. mas isto não parecia incomodar a platéia no mais mínimo que fosse. que. Só assim e le poderia persuadir os discípulos de que os levava pelo caminho da felicidade. isto é. Ali não se tratava de provar. Mas um pensamento totalmente incoerente não poderia ter a persuasividade quase hipnótica q ue tinha o de Motta Pessanha. ela deixava-se persuadir. em seguida (§ 15). a esta altura. Vimos. e conduzir.

o comissário é materialista. A síntese de culto do cosmos e culto da História não surge — ai de nós! — na hora antes da aurora. que dá início a uma longa e fatal decompos ição do espírito e termina pela dispersão da tribo em grupos errantes de homens aterrori zados e indefesos. e uando passou não deixou atrás de si um jardim de delícias. Da primeira vez. como uma reação global da mentalidade religiosa antiga con tra o Cristianismo emergente. la raison d’État. a profecia de Motta Pessanha anuncia. porém. Por mais que os aproxime a comum rejeição do mundo real . Nessa síntese resid ia o segredo do misterioso atrativo que Pessanha exercia sobre uma platéia fatigad a do real e incapaz de transformá-lo. o dos deuse s do espaço e o dos deuses do tempo. um almálgama de seit as religiosas diferentes e até conflitantes mas unidas por um duplo sentimento com um: o ódio ao Cristianismo. Ele já passou por este mundo. Mas aí surgia um obstáculo: o iogue é espiritualis ta. que. ne pèse nt pas une once devant un mouvement de la conscience propre. s obre o túmulo de Cristo. a nostalgia da tradição greco-romana. o iogue-comissário transcende assim a sua insignificância pessoal e intelectual. intellectuelles. o sentimento da participação “ética” numa epopéia revolucionária e os prazeres da evasão consumista? Mais que um líder ou um guru. a . o cadáver da religião imperial a em pestear com os vapores da sua decomposição os seis primeiros séculos do Cristianismo. e sim um rastro de insânia e crueldade. mas na luz indecisa que prenuncia uma longa noite. ficará fácil compreender o gno ticismo. Se lembrarmos que es ta tradição tinha fundas raízes no passado egípcio-babilônico.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 121 maciça improbabilidade. Mas — ai de nós! — . ele está bem próximo de poder entender-se com o comissário. Os parágrafos de 19 a 22 mostraram-nos que a entroni zação de novos deuses permitiu canalizar para o culto da Natureza e da História as asp irações espirituais dos homens. mas o princípio de uma decadência. não existe incompatibilidade prática senão momentânea e aparente. é cósmico. que sonho arrebata e fascina a humanidade de hoje mais do que a aspiração a uma sociedade que reuna os ideais do socialismo e do capitalismo. Detentor das chaves de dois reinos. para tornar-se. não podendo ser espiritual. eles permanecem separados pelo abismo de uma funda incompatibilidade metafísica. O deus histórico-cósmico. sendo impossível saltar esse abismo.” CHARLES P ÉGUY O gnosticismo foi. e quando o comissário erige a História numa realid ade ontológica superior aos homens concretos. Isto não resolve a contradição. já passou duas vezes pela História ocidental. EpicuroMarx . les puiss ances politiques. esse personagem não é novo na História. dando a cada ser humano. ou melhor. mentales même. o deus de Motta Pessanha. era necessário forrá-lo com algum tipo de algodão que amortecesse a queda. mais amplamente. iogue-comissário. Afi nal. desde que no fundo eles celebram o mesmo esquecimento do eterno. personificou-se em César. Chegada. na origem. les autorités de tout ordre. Para explicarmos o sentido. e entre os dois cultos. tomou o nome de gnosticismo. O véu do templo “Tout l’appareil des puissances. o deus-imp erador. os deuses do espaço e do tempo não são objeto de culto p rimaveril numa infância do mundo. a pregar-nos o ativismo da evasão e a evasão pelo ativismo (§ 18). les puissances temporelles. uma seita religiosa. Vimos então que. a personificação do futuro. a mesma imersão definitiva do espírito humano no círculo do samsara. § 24. mas amortece-a ao ponto de torná-la quase insensível: quando o iogue já não busca o infinito. a criatura sintética e bifronte. bloqueando-lhes o acesso a concepções espirituais em sen tido estrito. a consumação do prazo histórico. o io gue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações do nosso tempo em direção à utopia. levando os indivíduos a acreditar que subi am a uma mais elevada visão das coisas quando na verdade sentiam apenas a natural zonzeira de um corpo que cai. ao mesmo tempo e inseparavelmente. entre aplausos gerais. Da segunda. Para nós como para os pigmeus da Nova Guiné. ele se torna o sacerdote de um novo culto. a ressurreição de César. mas o cosmos. o sinal de uma ru ptura trágica entre a Existência e o Sentido.

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Noutros termos. Não que o pensament o individual fosse reprimi- do. era o Absoluto mesmo. de tão radicalm ente hostil e incompatível com a mentalidade antiga em seu todo — e não só com a sua ver são greco-romana em especial — a ponto de desencadear tamanho “choque de retorno”. da forma dos fenômenos respectivos. universal. O sábio deve. uma razão suficiente para justificar a profundidade do abismo que sepa ra o Cristianismo do mundo antigo e explicar a violência contínua que este opôs à nova r evelação e. ao proclamá-la . a organização sócio-política era ela mesma a verdade encarnada — não havendo qualqu er possibilidade de uma verdade exterior à crença coletiva. ao passo que o Deus de Platão. na medida em que a sociedade só pode ter acesso a verdades esquemáti cas e simbólicas. o deus de Platão não reside senão na pura intelecção metafís ca do filósofo. absoluto e supraquantitativo. como diversas espécies de um mesmo gênero. como a fonte e inspiração comum de uma multidão inesgotável de moviment os. com uma clareza ofuscante. sob uma variedade impressiona nte de manifestações. com ofus cante claridade. Aparece aí. não simbólica. ass im. A diferença é tão profunda que o uso de um mes mo termo — “religião” — para designar fenômenos tão heterogêneos deveria ser afastado para ev r confusão. pela antigüidade. pois fala em nome do universal. da verdade universal. Todas as grande s religiões anteriores ao Cristianismo têm um caráter em comum. derivadas e segundas. ao passo que a sociedade fala apenas em nome do geral. ao Deus verdadeiro. em face do culto exotérico das potências cósmicas. ausente no Cristianism o: Nelas. de duas espécies do mesmo gênero em conflito entre si : trata-se de dois gêneros incomensuráveis. Aí. pela dialética socrática. não faria senão opor. passados vinte séculos. De outro. A diferença a que me refiro. pela intelecção filo sófica. independente de qualquer ordem social determinada. dogma a dogma. enfim. A Unidade de um Absoluto supra-cósmico aparece aí como uma verdade esotérica. submisso ao culto e às leis. Uma vez assinalada essa diferença. por outro lado. religião a religião. é um homem como os outros. Sóc rates é. portanto. ao passo que o indivíduo alcança. por exemplo. sua superioridade mesmo em relação à crença materializada n a ordem social. se residisse no conteúdo do utrinal do Cristianismo. mais ou menos no mesmo plano. a tragédia da autoridade espir itual legítima colocada em face de um poder temporal a que um velho culto já amputad o de toda raiz celeste conferiu. ou as várias confissões cristãs entre si. Mas não. Se os deuses da comunidade hab itavam nos templos e nas praças. O portador da verdade esotérica está. o gnosticismo surge. do q . diante da sociedade. por um lado. É o mesmo que dizer que os deuses gregos não eram senão a corporificação de forças cósmicas. Não se tra ta de duas religiões diferentes. obediência às leis e costumes. escolas e doutrinas que. caso não deseje s er excluído da comunidade humana. numa posição ambígua: de um lado. ao longo de dois milênios. uma autoridade superior à da sociedade. for ma quantitativa e meramente simbólica do universal. po r si mesma. temos de perguntar o que é que o Cristianismo trazia de tão novo e estranho. deve-a. não surge na história antes da filosofia grega. um membro da polis. mas sua resposta é bem simples. a crença reta e a integr ação obediente do indivíduo na ordem social eram uma só e mesma coisa. A que stão parece imensa e complexa. o islamismo ao judaismo. o Sumo Bem. continua a lhe opor. A concepção de uma ver dade objetiva. A diferença é. do qual aqueles deuses que aparecem no culto público não são senão ecos e imag ens distantes. não havia um espaço onde a consciência do indivíduo pudesse se desenvolver para fora da crença coletiva. cujas repercussões se propagam até hoje. tomada ela mesma como expressão corporificada da verdade dessa cosmovisão. porque há uma different ia specifica do Cristianismo que salta aos olhos logo a um primeiro exame e dá. uma espécie de autoridade espirit ual simbólica. é o porta-voz de um Deus ve rdadeiro. o primeiro homem que afirma explicitamente a sobera nia da consciência individual. a visão direta . inacessível ao culto público e só conhecido. O abismo entre Cristianismo e religião antiga é mais profundo. O indivíduo que chega à verdade tem. como viria a ser mais tarde e como é até hoje em sociedades de vários tipos: é que o pensamento individual simplesmente não existia. como as divergências que opõem. e a cessível à consciência individual livre.122 OLAVO DE CARVALHO amplitude e a profundidade dessa reação. uma cosmovisão religiosa se cristaliza numa estrutura social determinada . se voltaram contra o Crist ianismo desde muitos lados. na sucessão dos tempos.

.ual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes. cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu.

reconhecendo. é apodíctica. a infinitude. inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura . Repetidamente os filósofos procuraram resgatar a s ua lem131 Tendo exortado os fiéis a obedecer as autoridades mundanas ( Rom. do homem independente. fundase na evidência e não em mera opinião. A religião do Império. ora adversas. em suma. sem a intermediação da polis ou do Estado. em terceiro lugar. unilateralmente. que pesam sobre o destino humano e en tre cujas exigências a comunidade deve abrir seu caminho. O Cristianismo. no Novo Testamento. a passagem em que S. é fácil dar razão a Sócrates . oferece-a como verdade universal. a eternidade.: 13:1-7 ). testemunho de uma verdade universal tran scendente a todo culto local. Mas o próprio Sócrates deu alguma razão a seus car rascos. inacessível quer à imaginação comunitária. conservava seus direitos enquanto não chegasse o momento de rasgar o véu d os símbolos para exibir urbi et orbi o supremo segredo. de outro. mesmo porque nossa adesão à verdade interior que ele representava é. É significa tiva. Ora. Não que essa dimensão fosse totalmente desconhecida do mundo antigo. filosófica. tendo sabido que cristãos recém-batizados disputavam algo entre si no tri bunal romano. acabara por se refugiar na consciência filosófica e nos cultos de mistérios: tornara-se esotérica. para fundar uma nova religião. num aberto desafio a todos os cultos estatais. no mesmo instante em que consagrava. omiti da pelo culto público. Encontramos sinais dela na mitologia grega. o cristi anismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imagin ação greco-romana. pa ra além do tempo e do cosmos. no diálogo entre a comunidade humana e o cosmos . quase sempre. superposta ao c onfronto horizontal da sociedade e do cosmos. sem inter mediação da autoridade civil. que o culto exterior. uma certeza superior a toda prova dialética. é precisamente um dos sentidos do si mbolismo da cruz. O cristianismo rompe ess e mundo bidimensional. quer às representações sensíveis das divindades s: de um lado. que a verdade interior devia permanecer in terior. O crist ianismo. transcendente a todas as representações sensíveis. a profundidade interior da consciência individual. é universal. mas a experiência direta do Verbo divin o. De um lado. hoje. aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos. é precisam ente o que o Cristianismo oferecerá a todos os homens: o acesso direto ao conhecim ento do Verbo divino. o recinto secret o da intimidade do homem consigo mesmo. dessacralizava radicalmente o Estado. verbal e pro forma. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verda de interior permanecesse secreta. não viera ao mundo. ou a comunidade historica mente existente. o Apóst . em segundo lugar. afinal. portador de uma me nsagem espiritual. convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo. Mas. romanos e b aros. não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade. 2º. em última instância. a alma do indivíduo humano. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica. as forças cósmicas. restaurando a concepção de um deus supracósmico. mas ap enas para dar. ao passo que o Cristianismo a revelava publica mente. por mais deteriorado e vazio de qualquer conteúdo es piritual. os adverte a não se submeterem ao julgamento da autoridade civil. Pau- lo Apóstolo. válida para todos os seres racionais e não somente para uma comunidad e em particular. a consciência reflexiva. resumia-se. Sócrates. válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num m omento e lugar da História. po is não cabe a esta julgar “aqueles que vão julgar o mundo” 131.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 123 Para nós. condensação de cultos gregos. 3º. livres da pressão da sociedade local ateniense. implicitamente. o pensamento comum dos homens reunidos na ágora ou no fôro. mas e nquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade. A dimensão vertical da alma e de Deus. em primeiro lugar. Ao mesmo tempo. enquanto indivíduo humano. como portadora do Verbo divino. e não a autoridade socialmente constituída. provavelmente herdeir a de tradições orientais onde a consciência metafísica se conservara intacta. sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público. ora propícias. seu repres ntante e porta-voz é o indivíduo como tal. de outro. não lh es propõe um novo sistema de ritos e símbolos. Na sua mensagem destacam-se três aspectos essenciais : lº.

não se desse conta de que a mesma contradição se agravaria ainda mais no Estado moderno. ir a juíz o perante os injustos.olo. adverte: “Atreve-se algum de vós. mostrando que o Estado só pode ser o lugar da libe rdade abstrata. O sentido é claro: “da r a César o que é de César”. tendo percebido nitida mente a contradição da Igreja medieval a um tempo defensora da liberdade de consciênci a e obstáculo ao seu exercício efetivo ( Fil. Paulo já deixava refutada de antemão a falácia hegeliana de que “o Estado é a realidade da liberdade concreta”. S. mas sem submeter-lhe o julgamento de questões de consciência. e não perante os santos?” ( I Cor. II:1 ) . C om isto. curiosamente. formal. o que. viria a ser percebido também com muit a clareza por Karl Marx. Chega a ser espantoso que Hegel. . não obstante. tendo litígio contra outro. Hist..: 6:1 ).

onde repentinamente uma profusão de forças dispersas. fora de qualquer tutela ou garantia ex terna. como o é quase tudo o q ue hoje recebe o nome da ciência de Heródoto. o cristia nismo abre entre a individualidade física e a identidade social humana um interval o. que cortam a linearidade horizontal das causas histórica s pela vertical de uma intervenção superior: os adventos de novos profetaslegislador es. ele gira o botão do acontecer histórico. pelo indivíduo que. A realidade divina foi muitas vezes comparada à água. na mensagem cristã. t udo equalizando na platitude do social e do histórico: de um lado. ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da A rábia Saudita. a encerrar-se numa totalidade enrijecida e auto-suficiente. não um observador. O cristianismo exote rizou-a. ritos e mitos. assumindo sua liberdade. impedindo que os homens bebam. d e que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal da compreensão históri ca. por trás do panteão das divindades cósmicas. assumisse ao mesmo tempo a responsabilidade de ser. captável pela pura inteligên cia metafísica mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma fo rmulação doutrinal acabada. O profeta é uma força agente. acabam por mundanizar o divino e divinizar o mundo. O termo mesmo “profeta” vem do grego prophero. que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocultam. absorvem a cons ciência interior dos homens. dando um sentido ao caos e iluminando a uma n ova luz a meta permanente da existência 132. tapam a v ia de acesso ao divino. como tudo o que existe no espaçotempo. ao ser vertida noutro recipiente. conservando-se não obst ante intacta. neutralizando-a na fala coletiva. Ele determina uma súbita elevação do nível do devir histór . Ele de na o curso dos eventos. Submetidos à lei da entropia. sem qual . o portador do Logos. inaugurando novos mundos históricos e resgatando as possibilidades espirituais perdidas. que ela subentende. O profetismo é o ret orno cíclico da primavera do mundo. Ao propor ao homem um esforço que não se volt a nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade.124 OLAVO DE CARVALHO brança. um sentido. Foi esse estudo que me persuadiu. mas não pode ser abolida para sempre. desviada. diante do qual o homem está nu e verídico tal como no dia em que nasceu. “determinar”. de uma vez para sempre. Mas a aspiração ao infinito parece inerente à constituição humana. gerando efeitos de escala incomparavelmente superior ao das forças causais até então agentes. povoando os céus de figuras de heróis e deuses projetados da Terra: ampliações divinizadas do Estado e da natureza física. às instituições jurídicas e políticas. mostrando. para além do véu simbólico dos ritos e das leis. o interl ocutor solitário do Deus que “sonda os rins e os corações”. que rompem a unidade cerrada das instituições antigas. Pode ser reprimida. é um estudo sobre a significação da profecia na História. esse novo sentido não podia ser captado senão pelo indivíduo desligado dos laços que o prend iam à sociedade e ao Estado. a existência de uma realid ade mais alta a que os símbolos do culto aludiam veladamente. caóticas e inconciliáveis se uni fica numa nova direção da vida humana. O recipiente fecha-se. por força do resíduo humano e histórico que carregam. que to ma momentaneamente a forma do copo. Entr emeados e às vezes identificados aos costumes morais. para metamorfosear-se. narcotizada por meio de sucedâneos “cósmicos” ou “hi stóricos”. Daí que a história das religiões seja ponti lhada de rupturas cíclicas. abertura que o Evangelho simboliza como um rasgão no véu do templo. e de que uma história reduzida às dimensões natural e civil. É evidente que a dimensão metafísica não pode ser totalmente abrangida pelos discurso le galista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público. Aconteceu que. É só a banalidade do mundo de hoje que pode conceber os profetas como meros vaticina dores das coisas futuras. o detentor consciente do critério da verdade. ilustrado pelo ca so do único profeta de cujos atos e palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante. revelando a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábio s e dos místicos. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed ( Maomé ). o espa132 Meu livro O Profeta da Paz. de outro. “produzir”. imprimindo-lhe uma direção totalmente nova. é apenas uma crônica provinciana. Os cultos públicos são vastos sistem as de símbolos. que signifi ca “fazer”. eles tendem.

respondeu: “É um buraquinho no teto da minha cas a.” . os retornos cíclicos. indagado sobre o que era o céu.quer poder de elucidar os fatores decisivos. firmemente empenhado em não deixar os homen s enxergarem nada para lá do círculo mundano. habitante de um poço que. Que filosofias inteiras da História possam ter-se assentado sobre bases tão estreitas mostra apenas que a intelectualidade moderna é um novo sacerdócio de tipo greco-romano. as ascensões e qu edas dos impérios e das doutrinas. Seu id eal é reduzir a consciência do historiador à condição do sapo da fábula. é apenas a finalização de um processo de estreitamento do horizonte intelectual humano que vem de alguns séculos. A “total mundanização e terrestrialidade do pensamento” ( sic ) advogada por Antonio Gramsci.

na Epístola a Diogneto (séc. Ele coinc ide. sempre por obra de homens solitários. mas para exper imentar na extrema solidão o acesso a uma nova profundidade da vida interior. monastérios. no integrado por la subordinación sino por la participación. sino extendido en la eternidad. tenaz e silenciosa d milhares de monges espalhados ao longo do território. de outro. mas tão necessária ao flor escimento da autoconsciência quanto o isolamento social. ao vo lta- rem para junto de seus semelhantes. e não apenas o de uma pedagogia. no fundado en la dominación sino en la comunión. esse hiato também corresponde a uma certa separação que o cristianismo estabelece entre consciênci a e corpo. em tais condições? Não há outra explicação senão a atividade incessante. Eles vão em busca de um espírito regenerador e. apegados à sua fé por um liame interior muito mais poderoso do que qualquer obediência externa a um governante 13 3. caótico e hostil às classes e pessoas aco stumadas à ordem imperial. que se expande invisivelmente até abarcar todo o território europeu. Como pôde a nova civilização sobreviver. crescer. Não se trata apenas de uma retirada. A importância fundamental que teve o monast icismo (monakos = monge = solitário) no desenvolvimento da nova civilização é um sinal e loquente do teor básico da sua vocação. Esse novo mundo é composto de unidades autônomas — cidade s. II). É ness e espaço que floresce a personalidade humana. a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência. que agem movidos por um impulso pessoal e quase sem co municação com a autoridade religiosa central em Roma ou Bizâncio. É desses homens fugidos do m undo que nasce o novo mundo. Este desenvolvimento é impossível enquanto todo o horizonte da atenção for ocupado. repentinamente arrebatado à segurança do 133 É absolutamente indispensável a quem queira compreender este período da História ler os . no existente primariamente en institucio nes y actos externos (aunque manifestado en ellos) sino viviendo originariamente en la intimidad de cada uno. com aquele hiato que o cristianismo abre entre indivíduo e s ociedade ao proclamar. o fruto supremo da História. De outro lado. é certo. A noção mesma de autoridade e hierarquia era ali submetida a uma estranha mutação: “Se trata de un reino no encuadrado por el espacio y por el tiempo. o trazem consigo. Nenh uma unidade administrativa. e que precisamente por isto podem se reunir em Cristo e não em mera tagarelice. aldeias. Não somente o Império povoa-se de monastérios. mas que ela é absolutamente necessária à ecl osão da autoconsciência. pelos impulsos naturais egoístas. mas há uma verdadeira corrida para o deserto: milhares de anacoretas evadem-se do falatór io urbano. O fenômeno é espantoso.” 134 O novo mundo deve ter parecido misterioso. afirmar poderosamente seus valores. O adv ento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 125 ço da liberdade interior. A socialidade fica assim submetida hierarquicamente à solidão onde Deus habita: a assembléia dos que se reunem em nome de Cristo é uma assembléia de homens que conhecem profundamente a solidão de seus corações. O que se pode questionar é se essa disciplina tem o valor moral definitivo de um código de conduta universalm ente válido. de u m lado. é: e não espanta que uma época afeita à liberdade sexual irrestrita também seja fértil em filósofos que negam a existência ou o valor da autoconsciência. não para buscar as consolações factícias do jardim de Epicuro. econômica ou militar. através de uma disciplina moral dolorosa. pelo idealismo social (precisa mente as duas colunas a que se pretende reduzir o templo da moral moderna). estruturalmente. que cada cristão é um estrangei ro na sua própria pátria. É fáci compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo te ve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical. y no mantenido por el poder sino por la autoridad que se identifica con el servicio a la comunidad. Pode-se fazer uma imagem supondo como se sentiria um se nador norte-americano que. propriedades rurais — separadas umas das outras por imensas distâncias e sem outra ligação entre si senão a obediência comum a uma mesma religião. Apenas o liame sutil e voluntário da fé.

Revista de Occiden te. New Yor k. 1957 ( várias reedições ). Religion and the Rise of Western Culture. 1970. 251. De los Orígenes a la Baja Edad Media. New York. An Introduction to the History of European Unity.. e The Making of Europe.clássicos de Christopher Dawson. García-Pelay o. em Antonio Truyol y Serra. . 134 M. Meridian Books. Image Books. 4ª ed. I. Historia de la Filosofía del Derecho y del Esta do. 1956. p. Madrid. vol. cit.

O conjunto de crenças. O tipo de vida interior que os monges traziam era tão diferente de tu do quanto o mundo antigo conhecia como filosofia. e do qual tiravam boa parte da sua autoridade.. é precisamente o que se denomina gnosticismo 135. a negação mesma da cultura. tal como o corpo moribundo vê ressurgirem com redobrada força as moléstias que ve nceu no passado. de um contrato que os homens acredi tavam ter selado para sempre com os deuses. a dissolução dos valores sacros do Império entre as mãos das hordas de invasores bárbaro s. fosse jogado no interior da Amazônia. Porém. valores e atitudes da cultura espi ritual grecoromana. no con texto greco-romano. po r outro. mais grave do que tudo. um desejo incoercível de vingança e de restabelecer as coi sas como eram antes. até engoli-lo quando chegar a hora do crepúsculo. constituiam a essência mesma da moralidade. A c onfiança em Deus bastava para o anacoreta na noite do deserto. Somente o homem da fé pode enxergar ali a semente de um futuro glorioso. o qual po . símbolos. sacerdotes e iniciados. Para os homens da religião antiga. conhecimentos e atitudes antes reservados a umas quantas sociedades iniciáticas qu e. e que agora ressurgem à plena luz do dia para o combate final. desperta ódio. pouco se lixavam para as virtudes cívicas que. e como religião. o cristianismo foi a “pedra de escândalo”. de fora. a confiança no poder oni presente da autoridade civil? Ali só lhe restaria ser homem e confiar em Deus. por um lado. das letras e mesmo da virtude em geral. que refluíram para o subsolo no advento do cristianismo. eles haviam trocado a complexa beleza das antigas cerimônias públicas por um rito e stranho. mas esta palavra serve também para design ar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cris tianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espi ritual. viram desfazer-se em fumaça a proteção do segredo que as cercava. que o cristianismo não tinha senão como parecer. na espera de uma ressurreição. ele nada promete senão trevas crescentes . onde tratará de conservar vivas as suas forças. Compreende-se. à espera de um futuro ciclo onde possa ressurgir. Acuada pelo avanço cristão. a reação horrorizada dos letrados e da casta sacerdotal. mais particularmente. o cristianismo havia “rompido o véu do templo”. a súbita ruptura. Em segundo lugar. 135 Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose. De que valeriam ali o discurso sobre os direitos. de repente. de ressonâncias antropofágicas apavorantes. entre índios e frades. nobres. passado o susto inicial. que rigoro samente nada têm a ver com o fenômeno particular que estou estudando aqui. budista etc. Os monges. o cristianismo caiu como um raio que provoca espanto e terror. o apelo aos tribunais. e. cristã inclusive. Entre letrados. seu lugar de honra não só no Exército e no Senado mas na casta sacerdotal. Toda ci vilização em declínio experimenta um retorno de temas religiosos abandonados milênios an tes. que d e lá lhe moveram guerra subterrânea ao longo de dois milênios. nem cultivavam os debates filosóficos. para o subterrâneo. desde o ponto de vista do mundo antigo. símbolos. entregue à sanha das hienas. e também de uma gnose cristã ( por exemplo. entre ventos. seu senso de or ientação e de dignidade familiar? É um leão sem suas garras. O novo mundo espiritual emerge num panorama exterior de sinistra desolação. havia colocado em circulação temas. Mas o que é um patrício romano. mas resta sempre um fundo ina ssimilável.126 OLAVO DE CARVALHO Estado. solapando-lhe as bases. A quem o vê de fora . a essa gente. rancor. em Clemente de Alexandria ). Este reflui para as sombras. em primeiro lugar . a cultura es piritual antiga é em parte absorvida no novo quadro. mostrando a a “sa bedoria mundana” um desdém que não nte tinha como não parecer. não se ocupavam das letras. É quase uma l ei ou princípio histórico: o exoterismo destronado funde-se no esoterismo do ciclo s eguinte. Em terceiro lugar. afetação e arrogância de bárbaros. Durante o período de espera. demônio s e feras. revolta contra o destino. ele representa o elemento antagônico e complementar da cultura dominante — a “sombra” que cresce junto co m o novo corpo da civilização. sem o Império que lhe dá sua identidade. por parte dos céus. Fala-se neste sentido de uma gnose islâmica.

.r isto prefiro designar com o termo diferencial gnosticismo.

quase alucinantes. Os outros três fatores são móveis. Às vezes não sob esse nome. de um só golpe. É patente . A ênfase do cristianismo cai evidentemente no eixo vertical. ao menos. e o horizontal a khien. de um lado. ligação direta com o simbolismo cristão do sacrifício do Gólgota. é Deus. Para me fazer entender.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 127 § 25. ou que o Budismo fala mais da alma do que dos outros dois elementos. Leviatã e Beemoth Não cabe entrar aqui numa descrição aprofundada do fenômeno gnóstico. nas relações diretas entre a alma e Deus. dar con ta. de cuja amplitude e variedade. finalmente. se encontra algo como um conceito de De us. por outro. Imutável — a uma Causa ou Princípio metafísico. orige m e destino. . Eterno. ou “mundo” como o cenário onde se desenrola a história dessa alma. Em cada uma delas. Não há r eligião sem uma referência mais ou menos direta a um Absoluto. seu papel de interlocutoras entre a al ma e o divino. Na simbologia chinesa. porém. A Nova Era e a Revolução Cultural. pp. a religião cósmica. do Absoluto. de longe. quanto à organização real ou ideal da sociedade humana para os fins que a alma deve cumprir. onde a vert ical simboliza a eternidade e a horizontal a temporalidade. mas sempre presente. a sacralização da sociedade (ou do Esta do). da singularidade humana. presente em todas as religiões. devo recorrer a um diagrama. era eleva136 V. um conceito da alma humana. seja à natureza em torno. como no hinduismo. a “perfeição passiva” ou manifestação cósmica desse princípio 136. o Homem Universa l é a essência mesma da individualidade concreta. O único elemento fixo. a vertical corres ponde a khouen. As religiões podem ser dif erenciadas e classificadas. com poucas referências seja à alma individual. molde do cosmos — transcendente ao co smos portanto — e não a individualidade empírica. aqui. muito facilmente e sem qualquer inexatidão. Note-s ue o homem aqui designado é o Homem Universal. 15-17 da 1ª ed. do Infinito. Ele in dica simplesmente os quatro elementos básicos que estão presentes em todas as concepções religiosas do mundo. como pontos comuns a uma ampla variedade de escolas gnósticas. Esse diag rama não tem. Figura 2. a “perfeição ativa”. A soci edade e a natureza perdiam. Elementos do fenômeno religioso. ou o princípio metafísico do qual tudo se origina. um conceito da natureza física. alguma noção. às vezes reduzido a um conceito metafísico abstrato. por exemplo. conforme a ênfase maior ou menor que dão a um ou outro desses três elementos na sua relação com o Ab soluto e conforme o jogo de compensações dialéticas que estabelece entre eles. que no Judaismo a ênfase recai nas relações entre Deus e a comunidade h umana — o povo de Israel —. O homem singular. De outro lado. e. Isso não quer dizer que os elementos menos enfatizados estejam de fato ausentes — qu er dizer apenas que essas religiões os tomam por implícitos. novo Adão. como aliás em todo o s imbolismo universal da cruz (Figura 2). às vezes ocul tado sob um véu de obscuridade e silêncio como no budismo. Mas não creio errar ao assinalar. somente estudos volumosos podem. de sua natureza.

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do a senhor do mundo, em luta aberta com as divindades da natureza — os djinns de que fala a tradição islâmica — e os poderes sociais, que a Bíblia havia condenado numa sen tença sumária: “Os deuses das nações são demônios.” É evidente, portanto, que a reação básica ristianismo assume desde logo a forma de uma luta pela restauração da natureza e da sociedade em seu estatuto anterior — de uma luta, portanto, contra o indivíduo human o, contra a alma, contra a consciência autônoma 137. Seria errôneo, porém, identificar d iretamente essa luta como uma luta contra a Igreja, contra o Papado, contra a In stituição Romana. Ao contrário, a própria consolidação da autoridade romana se faz, em grand e parte, romanizando o cristianismo, ressacralizando a sociedade: a Igreja conqu ista o mundo, mas deixando-se em parte conquistar por ele. O conflito entre expa nsionismo catequético e conservação da fé inicial acompanha toda a História da Igreja — em c ontraponto com a perene ambigüidade das relações entre Fé e Império, autoridade espiritual e poder temporal, que Dante simbolizou na luta entre a águia e a cruz. O cristian ismo, de fato, não quis destruir o Império, mas não podia submeter-se a ele; nem quis restaurá-lo, mas não podia subsistir e expandir-se senão sob a proteção dele. René Guénon, qu sempre deve ser ouvido nessas matérias, explica o fenômeno dizendo que o cristianis mo não tinha, originariamente, o espírito de uma lei religiosa, no sentido judaico o u islâmico de uma regra para a ordenação do mundo, mas o de um esoterismo, de um camin ho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo.” A exoterização do cristianismo, sua tr ansformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade, teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaismo deixavam o mund o greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo, mesmo a contragosto, mesmo ao preço de trair em parte sua vocação interiorizante, teve de pre encher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O cristianismo salva o mundo antigo, absorvendo-o num novo quadro, ma s, para isso, tem 137 O estudo mais inteligente já escrito sobre a influência do gnosticismo na história das ideologias no Ocidente é a obra de Eric Voegelin citada adiante na nota 244. A te se defendida neste parágrafo é amplamente inspirada em Voegelin, do qual no entanto me separam algumas diferenças menores, que se manifestarão nos parágrafos seguintes.

de se deixar absorver nele e transformar-se, mediante adaptações bastante deformante s, numa nova Lei exterior, na religião do Império 138. Não precisamos endossar por com pleto a tese de Guénon para admitir o fato patente de que o cristianismo, malgrado sua imensa força de renovação espiritual, não estava muito bem dotado para reorganizar a sociedade civil e política. No Evangelho não se encontra uma indicação, uma linha, uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica, da moral exterior, do di reito civil e penal, como se encontram com abundância na Torah, no Corão ou nas Escr ituras hindus. O cristianismo era essencialmente uma “via de salvação”, que voltava as c ostas para este mundo, concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. Para transformar-se numa força organizadora da Cidade Terrestre, ele teve de sofre r adaptações que arriscaram deformá-lo profundamente. Não existe, em toda a História das R eligiões, outro caso de uma moral religiosa que tenha passado por tantas mudanças e transformações. A moral social cristã, com efeito, não emerge pronta e óbvia da letra das escrituras, como a islâmica ou a judaica, mas se elabora aos poucos, ao fio de tre mendas disputas dialéticas, por obra dos teólogos e dos concílios, crescendo, não como a progressão linear de uma simples dedução lógica, mas como um organismo vivente, entre d ores e contradições. Assim, por exemplo, vemos o celibato clerical — hoje defendido co mo um valor essencial à preservação da fé — não ser instituído plenamente antes de dez século e discussões, numa Igreja cujo primeiro papa, o Apóstolo Pedro, fora um homem casado . Mesmo o rito, a expressão plástica da simbologia da fé, não tem forma fixa: em torno d e um núcleo essencial constituído pela Eucaristia, a missa adquire, ao longo dos sécul os, uma pluralidade de formas, ora com o sacerdote de costas para o público, ora d e frente, ora os fiéis tomando vinho e comendo pão, ora só comendo o pão e deixando o vi

nho para o sacerdote, ora sentados em bancos, ora espalhados de pé pela nave da ig reja, ora voltados uniformemente para o Oriente ora para qualquer direção ao acaso, ora rezando em latim ou grego, ora nas línguas locais, ora com música, ora sem música, ora confessando-se sumariamente em grupo, ora detalhadamente cada qual a sós 138

René Guénon, Aperçus sur l’Ésoterisme Chrétien, Paris, Éditions Traditionnelles, 2e éd., 1977 p. 826.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 129 com o padre, e assim por diante, numa variedade sem fim, conforme os tempos e os modos da História mundana. A singularidade desse fenômeno salta aos olhos quando co mparamos a infinidade das formas da missa com a fixidez uniforme das cerimônias ju daicas cristalizadas de uma vez para sempre na forma estabelecida pelo Antigo Te stamento; ou com a do rito islâmico, hoje exatamente o mesmo do tempo em que o ens inou o Profeta Mohammed (Maomé) ao exército medinense em marcha contra os infiéis aqua rtelados em Meca, isto para não falar da imobilidade multimilenar do complexo sist ema ritual hindu. Tudo isso mostra a profunda inadaptação do cristianismo à missão regul adora e civilizadora de que foi ncumbido pelo desenrolar dos fatos. Entre a inad aptação i congênita e a força da obrigação externa, o resultado foi duplo: de um lado, um es forço milenar e repetidamente fracassado para erguer um Império cristão, unificando o Ocidente. Com efeito, no Ocidente só existiu império cristão, no sentido mundial, dura nte o reinado de Carlos Magno. No restante da história européia o Império é apenas uma i déia unificadora, pairando no abstrato sobre um caos de principados e ducados perp etuamente em guerra uns com os outros. De outro lado, e em função mesma do fracasso do Império, surge a transformação do papado num poder temporal concorrente, com todo o seu cortejo de conseqüências nefastas. A principal, evidentemente, foi a mundanização d o culto, o rebaixamento da moral cristã a um receituário de exterioridades tão opressi vo e falso quanto o moralismo estatal romano, a cristalização progressiva da doutrin a num formalismo lógico-jurídico deprimente e, por via de conseqüência, a politização comple ta da religião na época pósrenascentista, como um conservadorismo monárquico, de início, q ue aos poucos iria se transformando no seu contrário: num ativismo republicano, li beral e socialista. Mas não foi só dentro da Igreja que o espírito do mundo romano per maneceu atuante: em volta dela, e contra ela, pulularam desde os primeiros séculos as seitas gnósticas. Nelas conservava-se o espírito da religião cósmica — o outro compone nte do culto estatal greco-romano. É como se o espírito pagão se houvesse bipartido: s eu gênio político, histórico e jurídico infiltrou-se na alta hierarquia da Igreja, enqua nto sua religião cósmica, seus deuses naturais, se refugiavam no gnosticismo. Eis aí, desde o início da história cristã, perfilados os dois inimigos que se opõem a

Deus e à alma: o “mundo” e a “carne” — de um lado o espírito da sociedade política, de outro ulto das forças materiais do cosmos. A aliança de religião estatal e religião cósmica opõe-s e à aliança de Deus e do homem. A dimensão sociocósmica (khien) pretende subjugar, engol ir e eliminar a dimensão espiritual e metafísica (khouen). Mas khien é, em si mesmo, d uplo. A entronização do sociocósmico desencadeia, imediatamente, uma nova luta. Quem r einará: a sociedade ou o cosmos, o homem ou a realidade externa, a história ou a nat ureza? Aparece aí, com toda a clareza, o tema dominante de todos os conflitos de i déias no Ocidente desde o Renascimento. Derrubado o eixo vertical, o horizontal não pode permanecer de pé, pois não há entre seus dois termos a desigualdade flagrante que há entre o indivíduo humano e Deus: história e mundo, cultura e natureza, valor e fat o, jamais podem chegar a um acordo senão tomando como fiel da balança a vertical que aponta, para cima, a esfera das leis metafísicas, os limites do possível e do impos sível, e, para baixo, os desejos e aspirações da alma humana singular. Retirados de ce na a alma e o Absoluto, resta apenas o combate de Leviatã e Beemoth: o espírito da r ebelião autolátrica que comanda a História, o espírito da submissão cega e mecânica à naturez exterior. Um novo diagrama mostrará as alternativas em que o Ocidente se debate há quatro séculos: COSMOS LEIS FÍSICAS EXPERIÊNCIA NATUREZA MECANICISMO Nature Behemoth versus versus v ersus versus versus versus versus HUMANIDADE LEIS DA RAZÃO PENSAMENTO HISTÓRIA VITAL ISMO Nurture Leviatã Muitas vezes me perguntei se os significados atuais e correntes da “esquerda” e da “di reita”, que o folclore político data da reunião dos Estados Gerais sob Luís XVI, não teria m uma origem anterior, na disputa entre os dois braços da cruz para decidir, uma v ez a cruz tombada, qual ficaria para cima.

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É surpreendente, mas a história das idéias nos últimos quatro séculos pode ser todinha con tada como uma série de variações, na verdade bem monótonas, em torno do tema da disputa entre os dois braços da cruz. Já em pleno Renascimento, o antagonismo perfila-se ent re os cientistas naturais, firmemente decididos a abandonar a tradição aristotélica (o u o que assim denominavam) pelos novos métodos experimentais, e os humanistas, emp enhados em restaurar o amor aos clássicos gregos. Os primeiros romperam com o sent ido de continuidade histórica das ciências, acreditando possível fazer tábua-rasa e ler direto do Livro da Natureza. Os segundos, redescobrindo a Poética de Aristóteles, en cadearam numa rígida obediência aos cânones aristotélicos o gosto literário por três séculos, ao mesmo tempo que inauguravam, com a crítica de textos, a moderna ciência histórica. É incrível como dois movimentos de sentido antagônico possam ter entrado para os livro s de História com a denominação comum de “Renascimento” 139. No século XVII, as duas corrent es contrárias serão por assim dizer oficialmente separadas em compartimentos estanqu es com a abertura das faculdades parisienses de “Letras” e de “Ciências”, inaugurando as “du as culturas” de que falaria mais tarde C. P. Snow. Ao mesmo tempo, o debate filosófi co cristaliza-se no antagonismo entre empiristas e racionalistas — os primeiros at ribuindo ao mundo, ao objeto externo, a origem de todos os nossos conhecimentos; o segundo extraindo-o pronto ou semipronto de dentro da razão humana. No século seg uinte, o nascimento do historicismo assinala o começo da disputa entre os deuses d o tempo e os deuses do espaço. O antagonismo só será formulado expressamente no fim do século XIX, com Windelband e Rickert, mas em Vico já se observa a disputa de priori dade: em oposição à ciência físico-matemática, a História é promovida a modelo supremo do con imento. Finalmente, no século XX, o conflito entre capitalismo e comunismo evolui para a f orma final da disputa entre a “Nova Era” e a “Revolução Cultural”. E no auge desta disputa é ue entra em cena o iogue-comissário. LIVRO V - CÆSAR REDIVIVUS 139

Sobre este paradoxo na história da influência aristotélica e este antagonismo no seio do Renascimento, v. meu livreto Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. Introdução à Teor ia dos Quatro Discursos, e também Pensamento e Atualidade de Aristóteles, transcrição po r Heloísa Madeira, João Augusto Madeira e Kátia Torres, 12 fascículos, 5 já em circulação ( R o, IAL, 1994 ).

CAPÍTULO IX. A RELIGIÃO DO IMPÉRIO § 26. De Hegel a Comte O iogue-comissário, personificando a reconciliação entre a Nova Era e a Revolução Cultural , deveria trazer-nos, logicamente, a solução de todas essas antinomias. É isto, de fat o, o que ele nos promete. Mas é claro também que não pode realizá-lo em hipótese alguma, p ois uma contradição, qualquer que seja, só pode ser resolvida desde um terceiro termo superior que abranja e contenha os dois opostos; e o iogue-comissário, não podendo e levar-se ao plano da universalidade metafísica que é o único desde o qual os dilemas d a cultura Ocidental se unificam e se resolvem, apela para o clássico expediente do s neuróticos: amortecer o conflito mediante a queda num sono depressivo e auto-hip nótico. Estreitando o horizonte da consciência, ele expele de seu campo de visão as fo rças em luta, e procura persuadir-se de que tudo o que não enxerga não existe. Mas nem séculos de prática do tetrafármacon poderiam nos impedir de ouvir, por trás das palavra s calmantes de Motta Pessanha, o ronco ameaçador da catástrofe que se aproxima: uma vez desaparecida dos céus a imagem do eterno, a luta entre os deuses do tempo e os deuses do espaço prosseguirá até o desenlace fatal, que só pode ser a vitória do mais for te. Ora, dos dois monstros, o mais forte é sempre Beemoth, a ordem do universo físic o. A derrotada é sempre a comunidade humana, instável e nervosa, a debater-se nas água s, raivosa e humilhada, sob o peso esmagador das patas do adversário.

Não é mesmo significativo que, no auge do ufanismo científico que celebrava o domínio da comunidade humana sobre a natureza, os cientistas mesmos venham nos alertar par a os perigos iminentes que nos chegam cada vez mais ameaçadores do cosmos físico, e, mudando de tom, passem do triunfalismo prometéico à pregação de uma resignada e humilde “colaboração com a natureza”? 140 É que eles ouviram o baque surdo das patas de Beemoth, que vem novamente esmagar Leviatã. Mas tudo o que podem fazer é trocar às pressas de d ivindade, passar da rebelião prometéica a um conformismo obediente de bonzos orienta is, até que a vontade humana de poder se rebele novamente, para novamente ser esma gada, e assim por diante até a derrota final. Não, não adianta trocar o culto de Levia tã pelo de Beemoth. Esta troca, cíclica e repetitiva até à alucinação, é ela mesma o problema o mal que sacode e gira há séculos o Ocidente numa alucinada dança de dervixes bêbados que se esqueceram de Allah e caíram na idolatria da dança mesma. As duas mãos de khien só param de estapear-se uma à outra quando se juntam na comum obediência a khouen. Ma s, se o remédio proposto pelo iogue-comissário para debelar o vício é apenas uma nova in jeção da mesma velha droga, então cabe a pergunta: Quia bono? Quem ganha com isso? A q uem serve o iogue-comissário, sabendo ou não? Terminada a Revolução Francesa, Augusto Comte, empreendendo o balanço contábil das conqu istas ideológicas desse magno evento da modernidade, chegou à conclusão de que o saldo estava em vermelho. Esta cor não se referia ao sangue derramado entre discursos, mas ao fato de que a Revolução, tendo cortado junto com a cabeça do rei também as raízes m orais e religiosas do Antigo Regime, nada pusera em seu lugar: com o deficit ide ológico daí resultante, as massas sentiam-se boiando num desesperante vazio espiritu al, que as conquistas sociais não bastavam para aliviar 141. Qual a solução? Voltar ao catolicismo? Nunca! Diante das circuns140 141 V. A Nova Era e a Revolução Cultural, Cap. I. Comte nem de longe prestou atenção ao fato de que as referidas conquistas, consistindo basicamente no serviço militar obriga tório, numa carga tributária superior a tudo o que a monarquia ousara sonhar e na

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tâncias, Comte tomou então uma atitude que bem mostra a superioridade dos tempos mod ernos: ao contrário dos antigos profetas judeus, aqueles preguiçosos que fugiam ao a pelo divino até que Jeová os capturasse a laço entre invectivas e ameaças terrificantes, o nosso filósofo não se fez de rogado, e aceitou mais que depressa a incumbência de f undar o novo culto, incumbência que lhe fora aliás atribuída por ele mesmo. Não é preciso dizer que morreu louco. A nova religião teria três características principais: 1º Seria uma religião do Estado: o homem dos novos tempos serviria ao Estado como outrora o s fiéis tinham servido à Igreja. 2º Para marcar sua ruptura com a era anterior, ela in stituiria um novo calendário, com ritos festivos dedicados aos “grandes homens” cujo a dvento a este mundo marcara as etapas decisivas do “progresso histórico”. 3º A nova reli gião assinalaria o ingresso da humanidade na etapa decisiva de sua evolução temporal — a “era positiva”, marcada pelo predomínio da ciência e da técnica, após a “era mítica” inicial ra metafísica” intermediária. Nessas três características aparecem os traços básicos que defi em o que chamei divinização do tempo: a identificação da lei religiosa com a lei civil ( ou absorção da Igreja pela sociedade política), o culto dos antepassados e o conceito da dimensão temporal como campo onde se realiza um progresso predestinado. Em suma : Cæsar redivivus. Mas a nova religião não era tão nova. Em primeiro lugar, ela simplesm ente dava expressão mais detalhada à idéia hegeliana do Estado como sucessor da Igreja : se Comte era o Messias da Religião da Humanidade, Hegel fora pelo menos seu São João Batista. Para piorar, a religião de Hegel não ficara só na idéia: a Revolução chegou a real izá-la integralmente. Em 7 de junho de 1793, a Convenção, reunida sob a presidência de M axilimilien Robespierre, votou um Catecismo em quinze artigos. O primeiro reconh ecia a existência do Ser Supremo, que se distinguia daquilo que o Antigo Regime ch amava de Deus por ser menos uma Pessoa do que um conceito abscriação da maior burocr acia administrativa e policial que o mundo já conhecera, não eram mesmo de molde a a liviar o que quer que fosse.

trato: o deus do deismo, em suma. Os artigos 2 e 3 fixavam os deveres para com o Ser Supremo: odiar os tiranos, punir os traidores e outras coisas pelo gênero. Os artigos seguintes estabeleciam rituais festivos incumbidos de recordar ao homem sua dignidade e seus deveres. São trinta e seis festas por ano, dedicadas ao Ser Supremo, à República, à Justiça, à Frugalidade e a outras coisas excelentes, entre as quai s a Indústria e a Agricultura, e mais quatro celebrações extras, a principal das quais em 14 de julho. Marcada a primeira festa para a data que coincidia com o doming o de Pentecostes, o pintor Jacques-Louis David foi encarregado dos detalhes litúrg icos, que incluíram uma procissão, com o sumo-sacerdote Robespierre à frente, hinos ao “Pai do universo, suprema inteligência”, chuvas de flores, disparos de canhões e um des file da estátua da Liberdade num carro puxado por oito bois. Depois disso, que mai s restava a Augusto Comte senão chover no molhado? Até o título do opúsculo em que divul ga suas concepções religiosas é copiado do decreto da Convenção: Catéchisme. A religião de Co te não foi adotada em parte alguma, exceto na borda esquecida do mundo: no Império d o Brasil, onde valorosos oficiais militares, descontentes com a monarquia que não dera o devido reconhecimento ao Exército que vencera galhardamente tropas paraguai as compostas de meninos de 8 a 15 anos de idade, sonhavam em implantar no país uma ditadura republicana inspirada na divisa do Mestre: Ordre et Progrès. Na Europa a Religião da Humanidade acabou sendo esquecida, junto com seu antecessor imediato, o culto robespierreano do Ser Supremo. Mas deixaram, lá e cá, uma infinidade de mar cas, entre as quais um inesgotável calendário cívico, que, celebrando as secretárias, os motoristas, as mães, os pais, os namorados e tutti quanti, oferecem duas vantagen s indiscutíveis: fazem esquecer o calendário litúrgico da Igreja e fomentam os negócios. Na verdade fazem mais que isto: fornecendo um Ersatz para a experiência religiosa do “tempo qualificado” — épocas especiais em que o fluxo dos eventos muda ciclicamente de tonalidade, recordando ao homem a relatividade do tempo e a imersão de tudo no eterno 142 — , o calendário cívico ajuda a aprisionar a mente 142

Gallimard. Paris. Comentários à “Metafísica Oriental” de René Guénon.Sobre a noção de “tempo qualificado”. São Paulo. . 1983. o trabalho excelente de Michel Veber. e notas de Olavo de Carvalho. 1979. Spe ulum. v. bem como — com reservas — Mircea Eliade. introd. Le Mythe de l’Éternel Rétour.

Em volta desse tema dominante. exercendo um forte apelo sobre todo homem a quem o poder sobre o reino de ste mundo parecesse uma ambição demasiado estreita. reinado. nação. líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre. O Império não é uma teoria: é uma realidade. dispensando a consagração papal que por séculos fora tida como a garantia espir itual indispensável à legitimação do poder temporal. É. sempre condenado à metamorfose das guer ras. em primeiro l uma realidade contínua. uma multiplicidade de povos. fr utos da decisão humana. Translatio imperii: Breve história da idéia imperial “Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus. reflexos. contemplando o mar e as montanhas. sob uma mesma legislação e um mesmo governo. elevado ao estatuto de u ma realidade metafísica. o Império d o Ocidente. morre aqui para renascer ali. uma realidade proble mática: em contraste com a unidade estável e o crescimento orgânico de Roma. o movimento profundo: a luta pela formação do Impér io. Napoleão terminou mal. não são senão ecos. a um tempo. convivendo na har monia de suas diferenças e todos contribuindo para a riqueza e grandeza do Império. de doutrinas e de métodos. Uma das provas do mau estado da teoria política hoje em dia é que. sua religião foi para o túmulo com ele. facilmente resumida como a históri a das lutas pelo direito de sucessão do Império Romano. raramente lhe sobra tempo para investigar a at ualidade do fenômeno “Império”. se mpre sonhando com a estabilidade do poder. muda d e centro e de contorno. P AULO APÓSTOLO A história política do Ocidente pode ser. coroados pela Igreja. imagine sonhar . que oculta e revela. conflitos religiosos. Derrubado Robespierre. re voluções políticas e culturais que se sucedem. em terceiro lugar. de agonistas e protagonistas.” S. É. direitos —. do o utro lado do oceano. das mudanças de povos e fronteiras. não se passou um dia. v rificará que jamais houve no . não empenhasse o melhor de si no esforço de elevar-se a Império ou como tal não fosse reconhecido pelos demais. não é de esp antar que o empregado em férias. em que alg uma nação. sinta retornar à “realidade”. a idéia da religião de Estado prosperava. Ela acabou sendo absorvida por a quele que sepultou a Revolução sob os alicerces de um novo Império: ao coroar-se a si mesmo. derrotado por um punhado de reis à antig a. pesam sobre os homens com o peso de uma coerção física. reinos e dinastias que surgem e se desvanecem. guerras e crises.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 133 humana no tempo socio-econômico. enquanto ele se extinguia na dor e na humilhação do exíl io. l egitimidade. No quadro de uma organização social onde horários e rotinas. sem jamais desaparecer de todo. Levantava-se agora ante o cristianismo a figura temível do oponente espiritual. o Império não ces sa de existir: transfere-se para Bizâncio. viagens e d escobertas. de maneira discreta mas decisiva. sem erro. Mas. Século após século. proteiforme. § 27. mas a idéia permaneceu no ar. no tempo administrativo. entre tantas discussões de conceitos puramente formais e até mesmo convencionais — democracia. das revoluções. ao retomar seu lugar na fila do relógio de ponto. Napoleão Bonaparte fez saber à Igreja q ue já estavam longe os tempos em que o Império fazia à autoridade religiosa uma concor rência meramente política. a realida de decisiva. É. s empre inquieto. Quem acompanhe a história das idéias políticas em contraponto com a históri a das ações políticas e não como uma sucessão de teorias a boiarem no céu das idéias puras. e que. Leviatã a agitar-se nervosamente no fundo das águas. na História do Ocidente. em segundo lugar. a agitação na superfície das água . vemos sucederem-se tentativas de renovar o feito máximo de Roma: unificar. povo. Excetuando-se o período que medeia entre a queda de Roma e o reinado de Carlos Magno. E mesmo nesse período. soberania.

seus costumes. tem de ser discutido no terreno da narração histórica. capit alismo e socialismo. Também ele terminará por ceder. quando vistas já não desde o ponto de vista das motivações subjetivas que movem os seus mártires.134 OLAVO DE CARVALHO Ocidente uma só doutrina. Veja-se o mundo islâmico. o Império é notavelment estituído de convicções teóricas. onde a eclosão de um surto imperialista é an tes uma exceção do que uma regra. e. deveres e direit os. nada mais fizeram senão ajudar a apressar e a legitimar a a scensão mundial do Império que é um tempo democrático e aristocrático. cuja oposição aparente mascara apenas o fato de girarem em t orno de um mesmo eixo. Os pensadores políticos e religiosos do Ocidente não criaram uma só idéia que. só caindo na tentação imperialista ao contaminar-se de idéias Ocidentais. revolucionária ou reacionária. com a mesma se renidade de quem sabe que uma só coisa importa: salvar a unidade do Estado que inc orpora o projeto da Revolução Americana. que substituísse o con ceito de “Império” aos “três estados” de Comte. exceto a de sua missão unificadora. o domínio colonial ou as reivindicações de independência nacional. ordem e liberdade —. e ssa é a única constante 143. Se fosse uma teoria. seus valores. Em toda a variedade de processos e mutações que constitui a história do Ocidente. e que no fundo está pouco se lixando para essas distinções. que não fosse absorvida para servir de pretexto e reforço na l uta pelo Império. nacionalismo e internacionalismo. Seu único opositor — o p ovo islâmico — agita-se apenas no fundo da sua raiva impotente. já não são mais que os estandartes das divisões. finalmente. após terem destruído todos os demais. de servirem a um mesmo propósito e senhor. Não pode refutarse mediante argumentos teóricos. Mas nada de similar a esse fato tipic amente Ocidental se observa no Oriente. revolução e reação. dois grandes impérios. belas palavras que. monárquica ou republicana. parecendo guerrear-se entre si — democra cia. perpet uamente dividido em nações hostis e só de raro em raro tendo alguma iniciativa de unif icação imperial. e um fato específico da História Ocidente. odiado. ele ap oiará a revolução ou a reação. república e democracia. assegurar a continuidade da marcha ascenden te dessa Revolução rumo ao Império do mundo. Tão forte é o magnetismo da idéia de Império. . A morte de um deles eleva o outro a uma posição de domínio mundial superior a tudo quanto haviam sonhado os seus antecessores. ele 143 vai unificando e homogeneizando a humanidade. incapaz de organizar -se. Teocracia e mona rquia. dominância da idéia de Império não é uma teoria: é um fato. não servisse a incentivar ou a legitimar a luta por essa finalidad e. escr avagista ou libertária. mas desde a perspectiva dos resultados reais a que ser vem na escala dos séculos. revolucionário e reac ionário. É. invejado. uma realidade atual: durante um século. ao determinismo geográfico a outras forças às quais os teóricos atribuíram o papel de “motores” do acontecer histórico. Prevendo objeções levianas que nossos acadêmicos semiletrados não deixarão de apresentar. que só o comprova. disputaram entre si a primazi a da unificação política e cultural do mundo. é elevado à condição de supremo magistrado do universo. poderosíssima e no entanto acomodada dentro de suas fronteiras durante milênios. esclareço que não estou com isso inventando uma “teoria da História”. um poder expl icativo sobre o processo histórico em geral. mas sempre temido —. pretenderia ter um alcance genérico. Do alto de seu trono solitário — amado. e todas aquelas outras bandeiras em nome das quais os homen s matam e morrem. liberalismo e social-democracia. Como um de seus mais célebres heróis — Abraham Lincoln —. o moralismo puritano ou a rebeliã exual. impondo por toda a parte suas leis . revolução e reação. mais dia menos dia. perdida que foi há tempos a vocação imperial que o animou até o século XII. Veja-se por exemplo o caso da China. liberal e socialdemocrático. comichão passageira e mal sucedida. sua língua. batalhões e esqu adrões em que se escande o descomunal exército empenhado num só objetivo: a formação do Im pério. à luta de classes. que as outras orbitam em t orno dela como satélites. senhores: o imperialismo não é uma pretensa “lei histórica”: é um fato ocorrido numa certa parte do mundo. aristocracia. Não. Há algum conceito que mereça estudo mais urgente que o de “império”? Tu do o mais são palavras. Como Lincoln. administrando sabiamente as diferenças nacionais. a escravatura ou a abolição.

eram ambos igualmente submissos a .O Império Romano parece pairar sobre a mente Ocidental como o fantasma de um morto ilustre que não quer acabar de morrer. no entanto. atuando sobre as almas dos vivos co mo uma obsessão subconsciente. e que. Esses poderes. se serve deles como instrumentos de seu esforço para voltar à vida. Se esse retorno é problemático. se em vez de tomar a forma de uma resta uração duradoura ele se estiola em tentativas incessantes e sangrentas que não levam a parte alguma. que só podia partir dos militare s. o Império form a-se como evolução quase fatal de uma República onde uma dualidade de poderes — civil e militar — convidava desde séculos a uma unificação forçada. é por uma série de razões muito simples e claras. Em Roma.

S e os antigos imperadores romanos eram eles mesmos os sacerdotes do culto estatal . Ora.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 135 um conjunto de normas tradicionais de conduta. amarrado pelo compromisso do celibato 146. 146 Compromisso que. O problema básico da história política Oc dental pode assim resumir-se na sucessão de tentativas para encontrar uma resposta prática a um problema prático: como restaurar o Império romano sem a religião estatal r omana? A Igreja como força organizadora da sociedade nascera justamente no período m encionado acima. cristianizar e educar o jovem guer reiro para torná-lo um rei cristão e depois um imperador cristão. as funções sacerdotais. tabeliães. que darão ori gem a uma série infindável: a síntese romana das castas sacerdotal e real desfizera-se para não mais voltar. I. Consideravam-se essas coisas indignas de guerreiros. o que terminou por fazer do clero uma estrutura administrativa informal. c onsolidada pela religião do Estado. em que senadores e cônsules. os imperadores da Europa terão de contentar-se com o estatuto de governantes out orgados e legitimados por uma outra casta. Histoire de l’Église. repelia com verdadei ra ojeriza a idéia do culto estatal. essa unidade inexistia na Europa medieval. Em segundo lugar. a Igreja de Roma. O termo translatio imperii é usado normalmente para designar a transferência do Impéri o de Roma para Bizâncio. generais e imperado res exerciam pessoalmente. a resistência da casta nobre a qualquer forma de estudo e a uma participação mais séria em atividades religiosas era um fato consumado. a Igreja. até pelo menos . Paris. sendo abundantes. Nesse interval o. Era preciso aproveita r um filho de uma das nobrezas locais bárbaras. O impulso de transferir para a autoridade civi l ao menos parte dessas responsabilidades foi um dos motivos que fizeram a Igrej a aspirar por um retorno do Império Ocidental. Demasiado distante d e Bizâncio para poder desfrutar da proteção imperial contra os bárbaros. os nobr es tinham pelo clero um sentimento misto de temor e desdém: de um lado. pp. Aqui emprego-o em sentido lato. patrocinando o projeto do Império . Essa resistência durará até o século XV pelo menos. é verdade. bem como aos ritos de um mesmo cu lto público. O Império constrói-se sobre a unidade moral e religiosa do povo romano. 359 ss. Armand Colin. na hora de fazer reviver o império Ocidental em versão cristianizada. demasiado sujei ta à autoridade bizantina para poder recusar-lhe o pagamento de pesados impostos. para designar todas as mu danças do eixo do poder imperial no Ocidente. inexistindo uma administração estatal. em primeiro lug ar. as funções de líderes políticos. já que o clero colhia seus membros em todas as classes e os nobres não podiam ver com bons olhos os antigos servos que de repente apareciam investid os de autoridade e poder. xerifes etc. exercia nele um primado sobre a casta guerreira. Desse momento até aquele em que a cabeça de 144 145 Cf. começa a sonhar com uma transferência do Império para o Ocidente 144: e a translatio imperii será a in auguração da autêntica Europa 145.. não podia fazer simplesmente brotar de si a semente de uma dinastia. entre cujas vítimas se encontravam aliás seus fun dadores — a legião dos primeiros mártires cristãos. os padres eram para eles os equivalentes dos antigos druidas. onde as primei ras tentativas de restauração do Império já trarão dentro de si a contradição constitutiva qu as levará ao fracasso: elas constituirão um esforço para enxertar as instituições romanas no quadro de uma religião que. ao sacer dócio. 1891. que entrava como convidada. t. ao temor reverencial misturava-se o d esprezo social. só obrig ava completamente os escalões superiores do clero. Mas. os padres tiveram de acrescentar. por volta do século VIII. envoltos no prestígio temível do s portadores de dons mágicos. o clero. Mas. nos intervalos de suas obrigações políticas e militares. criando aos esforços educacionais da Igreja obstáculos intransponíveis. Em terceiro. que cobria mais ou menos o territóri o equivalente ao do antigo Império. A isto aliou-se uma série de conflito s entre o papado e o Império Bizantino — conflitos que prefiguram em miniatura aquel es que se manifestariam entre a Igreja e o Império Ocidental. por sua inspiração mais profunda. entre a queda do Império e a coroação de Carlos Magno. Eis aí os primeiros tropeços. de outro lado. Funk-Hemmer.

op. os padres casados — uma arraia miúda. Funck-Hemmer. cit.o ano 1000. que não poderia ter expressão num caso como o que estou discutindo aqui. passim. porém.. Cf. .

já imperador. o impe ador cristão terá de se contentar com algo mais modesto: Carlos Magno considera-se o braço armado da Igreja. liberal avant la lettr e. em que se harmonizavam. O filho bastardo de Pepino. que impedia a d ivisão das terras do Império por herança. as melhor es qualidades da nobreza bárbara e a fidelidade à Igreja. Este futuro parece a inda mais promissor quando o sucessor de Carlos Magno. subindo ao poder após a morte do pai. formasse uma biblioteca. numa recaída fatal. e recebendo por isto o apeli do de Luís. Ele não vê nenhuma contradição entre mandar no mundo e obedecer aos céus. Vencendo resistências interiores.136 OLAVO DE CARVALHO Luís XVI rolará pelo solo cortada pela Revolução. mais surpreendente ainda. Para impedir que isto acontecesse. dado a acessos de fúria. pusesse e m ação o primeiro plano de alfabetização universal de que se teve notícia na história do mun do. Pepino de Herstal. O problema do Império cristão pa recia estar resolvido e tudo anunciava um futuro grandioso. A Igreja tira as conseqüências políticas do fato consumado: o Império restaurara-se por si mesmo na pessoa desse jovem guerreiro de dois metros de alt ura. tinham uma fé mais ardente e sem contági os. o Piedoso: a aristocracia parecia haver absorvido completamente seu pa pel no Império cristão. São Bonifácio. Se houvess e dúvida quanto a esses desígnios. como veremos adiante. consente mesmo em ap render a ler. A Europa. Ele amava tanto suas duas filhas que temia acim a de tudo que elas se casassem e fossem morar longe dele. Carlos Magno é sagrado imperador no ano 800. uma breve consulta aos padres liquidava o problem a. cruel com os inimigos. por um raro acidente psicológico. alcança o seu p rimeiro momento de esplendor intelectual e artístico. para que reunisse na corte os maiores sábios do tempo. seus sucessores. Carlos Magno. cristianizando à força os povos vizinhos. cuja coragem e força prodigiosas se ombreavam com a sua manifesta fé religiosa. Se os antigos imperadores romanos eram tidos como e ncarnações das divindades — Júlio César era aceito como descendente carnal de Vênus —. editasse livros e. o Império não durou nem um dia a mais: contrariando uma lei recém-promulgada. e que. caos e obscuridade. Ele torna-se r ei dos francos. A solução foi temporariamen te encontrada numa família de nobres francos que pareciam menos selvagens que seus pares. e de administrar com muita habilidade as diferenças entre os vários intere sses nacionais — foi um Imperador na plena acepção do termo. ele teve ainda a sabedoria de dar carta bran ca ao monge e filólogo Alcuíno. Para conferir ao seu poder o prestígio sacral que a tradição gaulesa a nteriormente atribuía à descendência de Clóvis. Morto o Imperador. que uma seqüência de felizes acidentes h . dá a esta a base para começar a reconstrução do Império. Glutão. impondo sacri fícios em nome da unidade imperial e da ordem jurídica. esse brutamontes revelouse no entanto capaz de estender os domínios do império. dentro do Palácio e não se afastassem nunca do querido papai. o emissário da Igreja. o drama do Império Ocidental tomará a form a ostensiva de um conflito entre sacerdócio e realeza 147. é a essência da chamada “modernidade”. que são enfim levadas até os confins da cristandade latina por seu irmão e sucess or. Charles Martel. sem resolvê-lo. o executor terrestre dos desígnios da Providência. Carlos Magno conservava no entanto a lguns hábitos pessoais que dão bem a medida do abismo que existia entre a mentalidad e da nobreza bárbara e a do clero. Essa mudança. exigiram a partilha segundo as velhas tradições gaulesas: o Império desmembrou-se e voltaram à ce na todas as contradições entre nobreza e clero. amplia as conquis tas. contanto que vivessem com eles 147 A Revolução apenas mudará a forma desse drama. recentemente cristianizados. após quatrocentos anos de dispersão. Apesar da manifesta sinceridade da sua fé. permitia que elas tivessem quantos amantes desejassem. Apesar da proverbial host ilidade dos nobres à cultura letrada. Luís. unge a ua fronte com óleo bento — inaugurando o costume da sagração dos reis. Mas o fato é que a síntese imperial-cristã não residia senão na perso alidade de Luís. subjugando várias províncias francas e colocando-se sob a aut oridade da Igreja. se mostra estritament e apegado à moral cristã. severo consigo mesmo e com os outros nobres. mas adia a realização da promessa e só adquire as primeiras letras aos 3 2 anos de idade.

avia camuflado por algum tempo. a facilidade com que o Império bizant ino se instala e se estabiliza por mil anos para uma vez ferido pelo invasor des aparecer para sempre. de um lado. no Oriente. A primeira Roma cristã havia durado apenas o tempo de três gerações. Quando comparamos. não podemos dei- . cu ltura. Bizâncio prospera. floresce em riqueza. poder. de outro. Enquanto isso. a sucessão de tentativas dramáticas e sangrentas a q ue o Ocidente se entrega — até hoje — no empenho de realizar a idéia imperial.

Marca na verdade uma segunda translatio imperii — dos franceses para os alemães —. não basta que eles estejam diante de nós: é preciso ter os conceitos (de con + cepio = “captar junto”). como um “coronel” do sertão pernambucano. Com a dissolução do Império. Durante a maior parte de sua existênc ia. ou. Na falta deles. ele já não existia senão no papel. o Império não passou de um aglomerado de principados e ducados independentes e m utuamente hostis. Por que foi assim? As causas do fracasso são tão patentes que chega a surpreender-no s. As fronteiras das propriedades tornam-se instáveis. Que ninguém se deixe aqui enganar pelas palavras: o regime era “feudal” num caso como no outro. sobre as ruínas do antigo. e a primeira é: Como impor a unidade política e a dministrativa sem uma aristocracia urbana — sem a unidade da classe dirigente. Seus filhos desempenhavam funções sacerdotais. mais de um Papa foi destronado e perseguido por or dem do Imperador. para percebermos os fatos. Nenhuma outra civilização mostrou uma vocação imper ial tão absorvente e uma incapacidade tão profunda de dar a essa vocação uma expressão estáv el. não sabendo se deve temer mais as ambições dos vizinhos ou as hordas bárbaras que co ntinuam chegando e devastando tudo. Por um milênio. Uma ou duas vezes por ano. belas damas. Quando. nunca realizou nem uma coisa. de uma comédia. A aristocracia agora é uma 148 . embora o termo seja usado em ge ral exclusivamente para a mudança do Oriente para Ocidente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 137 xar de notar algo de estranho no fascínio que essa idéia — e a impossibilidade de real izá-la — exerce sobre a mente Ocidental. Mas nunca passará de um projeto. sobre uma base feudal. Napoleão mandou extinguir o antigo Império. recolhia os lucros e voltava à cidade. de origem bárbara. fundado em 962 por um pa cto entre o rei Otto I e o Papa João XII — durará até 1806. hoje. desde logo . Mas que diferença entre os dois feudalismos! O antigo nobre. a maioria dos povos cristãos se recusou a submeter-se ao Imperador. Na época dos últimos Habsburgos. Em primeiro lugar. Cada feudo fecha-se numa desconfiança rancoro sa.. dis persa por um território imenso e dividida por hostilidades e entrechoques de inter esses inconciliáveis? Mais ainda: como impor a unidade sem uma classe dirigente ca paz? Os remanescentes da antiga nobreza esquecem os hábitos de cultura e refinamen to. ele visitava suas terras. Concebido para atender a dois objetivos — s er o braço armado da Igreja e unir sob um governo central os reinos cristãos. os novos. jamais tiveram esses hábitos. era impossível construir um novo I mpério com modelo romano sobre bases econômicas tão diferentes das romanas. Com as invasões. espanhóis. não contando mais com a proteção de um governo central. mais de um Imperador foi excomungado e humilhado pelo Papa. têm de ser defendidas pela espada. portugueses — fundaram mais tarde seus próprios impérios. filósofos. os fatos deviam voar como moscas . essas unidades autônomas chegavam a mil e oitocentas. ia ao teatro. os esquemas menta is que nos permitam apreendê-los na unidade das suas relações. E os conceitos que hoje nos tornam claro e patente o sentido desses antigos eventos foram uma invenção muito posterior. viveu às turras com o Papado que deveria representar. sua casa era frequentada por artistas. uma aristocracia urbana. os nobres se retiram definitivam ente para suas terras e. com um muro de impossibilidades. entre os seus pares.. pior ainda. oficiavam os cultos públicos e depois faziam carre ira no Exército. A construção do Império europeu defronta-se. Era. franceses. cu ltíssima e politizada 148. De outro lado. vivia na capital. É que é fácil compreender o que se pa ssa. muitos I mperadores não chegaram seq uer a ser sagrados pelo Papa. Não que os antigos fossem tolos. que os protagonistas não as percebessem em tempo de tentar mudar o curso dos eventos. em 1806. e nós inteligentes. brilhava no Senado. muitos desses feudos mudam de donos do dia para a noite. nem a outra. Mas é que. trata m de organizar exércitos particulares. A segunda Roma Cristã Ocidental — o Sacro Império Romano. Q uatro dentre eles — ingleses. em giros caóticos onde seus contemporâneos não enxergavam nenhuma forma ou sentido. depois que se passou. pelo m enos Ocidentais —.

XIII. jul. o clássico ens io de Max Weber continua insuperável.Sobre a organização econômica do Império Romano e as causas de sua dissolução. Não sei se existe outra. . t. Sus causas sociales” — foi publicada na Revista de Occidente ( Madrid ). nº 37. Uma tradução — “La decadencia de la cultura antigua. 1926.

conquistando para ela o direito à propriedade e ao casamento. São Paulo. retorna ao trono com forte apoio popular. desencadeando um terremoto. e seu sucessor. O rei da França. em Maurice Crouzet ( org. O Pap a Inocêncio IV ( 1243-54 ) já afirmara que a Igreja desfruta da plenitude do Imperiu m. viu-se numa situação medonha: todas as propriedades tinham s ido distribuídas. tese que se tornou muito generalizada entre os canonistas. Bonifác io. cujos botins em bens e em terras. capturados aos milhões em guerras de conquista e po stos a servir em verdadeiros estábulos. A Expansão do Oriente e o Nascimento da Civilização Ocide ntal. não havia novas terras a conquistar e a lei proibia repartir as do Império: já não era possível reinar nem pelo terror. as acusações que o bandidi nho coroado fazia à honra do falecido. o conflito toma a forma de um periclitante equilíbrio de forças. a Igreja se desgasta rá entre esforços utópicos para erguer um império sobre as nuvens e em malabarismos para esconder-se das tempestades que ele lhe envia. Durante os primeiros cinco séculos . mandando às urtigas a consciência cr istã. Em terceiro lugar. que já estava meio ganha. o tesouro estava exaurido. reclamavam medidas disciplinares que só vieram. mas.138 OLAVO DE CARVALHO horda “inculta. na pessoa de Felipe. A mais gr ave sobrevém entre 1296 e 1303. e le va a transigência ao ponto de aceitar discutir. o antigo feudalismo romano fundava-se inteira mente no trabalho de escravos. só para tudo terminar numa pizza póstuma. seu s ucessor. pune os recalci trantes mediante 149 uma recusa de pagar-lhes os impostos das igrejas locais — o que era simplesmente c ondená-los à falência. e em represália o Papa edita a bula U nam sanctam. e que foi junto com ele para o túmulo: sobre o cadáver d e Luís. Não lhe restava outra arma senão o respeito que sua retidão pessoal inspira va — arma de eficácia duvidosa. Uma das atribuições básicas do imperador sagrado no ano de 800 era defender esses direitos — o que o tornava antipático à maioria da clas se aristocrática. os nobres festejaram a repartição do Império e. Felip e manda um exército invadir o palácio do Papa. 151 “O Papa não esperava evidentemente a . em vez de levar adiante a briga com Felipe. ávida de prazeres grosseiros e que poder algum consegue disciplinar” 149. p. História Geral das Civilizações. um homem dotado de antevisão histórica q uase profética 151. III. Bonifácio é preso e agredido fisicamente. Por mil anos. prefere ficar em cima do muro. sem direito a ter bens pessoais ou a const ituir família. observando desde o século X a insubordinação e a a rrogância da casta guerreira. por sua intransigên cia e falta de tato. consegue driblar parcialmente o cerco. em parte pelo terror que inspirava. o Piedoso. A Idade Média. foi na verdade um gênio. O que Bonifácio fez de novidade foi simplesmente transpor essa tese da esfera teórica para a dos manda mentos práticos. Ele percebeu. Luís. t. trad. assaram e comeram os direitos dos servos. bem como várias garantias contra as arbitrariedades do senhor feudal. fartamente repartidos entre a aristocracia. vol. morre logo depois. 1956. 1º. nem pel o suborno. quando era tarde e a Igreja já estava demasiado enfraquecida. Difel. Não adianta nada: velho e doente. a Igreja mesma havia mudado a sorte dessa gente. num concílio. que de vez em quando explode em crises incontroláveis. em parte pelas guerras de conquista. de quem tanta gente na Igreja e fora dela fala mal até hoje. turbulenta. mediante artimanhas legais e violên cias. Ora. desejando forçar a unida de entre os príncipes Ocidentais para empreender uma nova Cruzada. quando o Papa Bonifácio VIII. Em todo caso. por me io de Bonifácio. sempre ameaçado por uma tensão estática. Carlos Magno conseguiu fazer-se obedecer. as raízes de um 150 Edouard Perroy. ). Morto Carlos Magno. compensavam os pr ejuízos decorrentes das vantagens concedidas aos servos. Pedro Moacyr Campos. Bonifácio não sacou esta afirmação pronta e acabada de seu próprio cérebro: ela já vinha germ nando em muitas cabeças ilustres que. libertado após três dias. Felipe o Belo. 126. que declara com todas as letras aquilo que até o momento tinha ficado delicadamente implícito: a total submissão dos reis à autoridade da Igreja 150.

2ª ed. Toda a sua conduta prova que não tinha compreendido as mudança s surgidas na Europa.. o defensor solitário da verdade que todos rene gam? . tr ad. quando o modelo supremo da força moral. p. Mexico. como poderia o Papa admitir que o “consentimento dos povos” fosse gerador de autori dade espiritual. é precisamente o de Cristo. 1956. Historia de Europa. que é a única que permite vencer um conflito dessa natureza” ( Henri Pirenne.. Domenchina. Em primeiro lugar. de compreender senão superficialmente a índo le do cristianismo.. O que fez ( os reis ) triunfarem foi a consciência que tinh am de contar com o assentimento de seus povos.oposição que ia levantar. por que denominar “fo rça moral” o mero sentimento de segurança que advém da certeza de um respaldo coletivo. mesmo conhecendo a popularidade dos reis. Este parágrafo reune um primor de análise histórica à deformidade de uma avaliação moral marcada pela típica incapa cidade do acadêmico moderno. mesmo cristão. 270 ).. isto é. se na origem mesma do cristianismo estava o fato de um martírio p erpetrado com maçico consentimento coletivo? Em segundo lugar. FCE. que sustenta toda a pedagogia ética da nossa civilização. a força moral. Não soube ver que os direitos da coroa se apoiavam no cons entimento dos povos. Juan J..

que alguns cretinos apontam como uma odiosa manifestação de clericalismo reacionário. Felipe parece ter chegad o a supor... a suprema autoridade espiritual que não da ria satisfações a ninguém exceto a Deus 154. Petrópolis. p. ma s se é o poder supremo que erra. é claro. e os franceses. Philippe le Bel. Assim o afirma o apóstolo: ‘O homem espiritual julga a tudo. p. eram Felipe o Belo. para nada dizer do bíblico (vide o episódio de Saul). Deus assinava e m baixo. A utorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. ta lvez arrependido. de: Egídio Romano. Cléa Pitt B. Vozes. no tratado De monarchia. quanto as cois as espirituais sobrepujam as temporais. e. Goldman Ve l Lejbman e Luís A.” vista histórico. De Boni. Sobre o Poder Eclesiástico. feliz156 É verdade que o lado adversário. em lugar dos homens de religião. Depois. 6. 27. Éditions Traditionelles. 152 Embora. A coisa parece ser uma constante da história humana. se Felipe fazia a mesmíssima coisa.. e juristas a soldo de Felipe argumentavam : “Antes que houvesse sacerdotes. Se o poder terreno se desvia. para seguir o espírito da época. Não d eixa de ser interessante que a disputa de prioridade espiritual entre as castas . por forte que sej a o coice 153: “É necessário. com tanto maior evidência. encheu de reis o Inferno. reivindicava para os reis. Assim. abjurar do espírito da sua fé? Não: ele teve a legítima força moral — preferiu a dignidade da derrota a uma transigência abjeta. era uma bela co nversa mole 156. pois. As antigas tradições e mitologias estão repletas de histórias de magos. Mas. 2 :15). será julgado pelo es piritual. e já dava bastante trabalho ). era porque os inspirava o demônio e. haver algo de hereditário na santidade: e. trad. mereciam ir para a fogueira. e as verdades que ela consagra continuarão certas enquanto houver quem considere que um homem velho vale mais do que um jumento novo. o roubo da coroa de Cristo pelos sucesso res de César 152 (veremos isto logo adiante. Sobretudo. Para fazer uma idéia de até que ponto chegavam as pretensões de F elipe — e de quanto nelas ele se mostrava já imbuído do espírito “moderno” —. 154 O próprio Dante Aligh ieri chegou a defender a autonomia monárquica. 153 Transcrito em apêndice à “Introdução”. e por ninguém é julgado’ ( I Cor. imbuind o-se até a medula da expressão Gesta Dei per Francos (”a obra de Deus feita por mãos fra ncesas”) 157. concordando com o princípio geral. se não é bom. 1989. Herdando o trono de um santo (Luís XI ). e se recusa a tentar a operação inver sa. em Jean Favier. entre as névoas de uma falsa consciência embalada pelo casuismo jurídico de um extenso cordão de puxa-sacos. basta lembrar q e ele foi o primeiro a lançar a idéia do serviço militar obrigatório estendido a toda a população (idéia que. era por ordem do Arcanjo Gabriel. sacerdotes e pro fetas que nomeiam reis e depois sofrem as maiores ingratidões de seus protegidos. ele nem suspeitasse estar combatendo a semente de um novo poder imperial ( o império ficava na Alemanha. que inicialmente se referia só às Cruzadas. 1978. Paris. havia reis” 155. será julgado pelo que lhe é superior. que qualquer poder espiritual se avantaja em dignidade e nobreza sobre qualquer poder terreno.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 139 mal que o futuro iria ampliar até as dimensões de uma tragédia mundial: a apropriação da a utoridade espiritual pelo poder armado. 155 Cit. não pelo homem. naturalmente. logo. é simplesmente uma defesa do espírito contra a f orça armada. quando surgir em cena a figura de Hen rique VIII). 1948 ). se os Templários faziam negócios financeiros embrulhados. Paris. Sua bula Unam sanctam. Segundo René Guénon. não tem sentido ju lgá-lo apenas pelos cânones da razão de Estado. só poderá ser julgado por Deus. Fayard. tratou logo de dar ao seu se ntido um inchaço descomunal: o que quer que os franceses fizessem. enxerga Bonifácio pelos olhos de Felipe. é mesmo ( v. O poder espiritual deve instituir o po der terreno e julgá-lo. se um Papa é um homem de religião e não apenas um político. s m dúvida. em que a única obrigação é vencer. Pirenne. proclamar. e sim apenas uma monarquia nacional rebelde. por Luís A De Boni. se erra o poder espiritual menor. do ponto de Deveria Bonifácio.

arrancam lágrimas. Até mesmo o ateu Mitterrand parece ser devoto dela. Vega. . Como dizia Guénon. mesmo porque a doutrina oficial da Revolução lhe ensinou a crer que as castas são uma instit uição convencional. Ao transferir-se da arena política para a esfera esotérica. v. Se o leitor acompanhou minha argumentação até aqui. António Carlos Carvalho. esse debate parece to rnar-se ocupação de eruditos saudosistas. revogável por decreto — o que certamente não fez com que as castas dei xassem de existir. na decisão do destino do mundo. Lisboa. Já o gen. Charles Péguy e Georges Bernanos acreditavam nela piamente. pelo menos o meu. entre os do is maiores escritores esotéricos do século XX: René Guénon e Julius Evola ( deste último. trad. há de ter certamente co mpreendido o peso imenso que terá. Ironicamente. não tem a menor idéia de que se trata do velho conflito de castas. de Gaulle provou que ela funcionava na prática. escrevendo dela. a disputa entre o s homens de religião e os homens de governo. o poder é secre to por natureza. 1978 ). sobretudo O Mistério do Graal. e assim também o são as causas: a luta pelo cetro espiritual de mun do se radicaliza e se torna mais decisiva precisamente na hora em que a “opinião públi ca”. bocejos. a opinião pública. inclusiv e letrada. Maritain. iludida por toneladas de informação irrelevante. Maurice Barrès. 157 A mística desta expressão durou até o século XX. na escala discreta que convém ao caso. Jacques Maritain. Est es dois. mas apenas as tornou invisíveis e deu à sua guerra as proporções de u ma castástrofe natural. mas na verdade é aí que ele se torna decisivo para a compreensão dos rumos da história contemporânea. está olhando numa direção completament e diferente.sacerdotal e real se reproduza. movia o mundo. e Barrès. um pouco d e vômito.

o Espírito não estará presente senão em símbolo.” — Para compensar — respondeu o asceta — ele também já não pode dizer: “Levanta-te nda!”. um ateu. A verdadeira unidade da Igreja. oculta: quando se manifesta à luz do reconhecimento público. o h omem que ocupa o trono de Roma. em que medida a Igreja de Roma. latente. visitando o rico palácio do Vaticano renascentist a. e você também não sabe. e le resulte sempre. por isto. logo se rompe sob a pressão da rebelião aristocrática e monárquica. Or a. não naquela que passa à História como o relato de um jogo de cartas. ouviu do Papa o gracejo: — Como vê. momentaneamente ocup ado por um imbecil ou um malvado. infectando-as com o germe de um conf lito que. manipulado e enfeitado por mil arranjos. mas só naquilo que sentenciam em matéria de doutrina teológica e moral — não nas suas decisões p olíticas e diplomáticas. representada pelo seu Papa. um covardão como Benedito XI que não hesita em lançar a mancha da suspeita sobre a reputação de seu amigo e antecessor para fazer as pazes com um monarca frio e desumano. um assassino. era pura autoridade espiritual? Não era também ela um po der temporal. falou pelo Espírito? O chefe nominal da hierarquia ou aquele que o Es pírito houve por bem inspirar no momento? Quem é o homem espiritual superior que jul ga o homem espiritual inferior? Os papas julgam os santos ou os santos julgam os papas? A expressão mesma “Igreja” assume aí um sentido ambíguo: a hierarquia espiritual. eis que a autoridade espirit ual está cindida. impondo seu jugo sobre o poder mund ano. como foi Pedro. Céus! Será a eterna tragédia humana que o primado do espírito tenha de conformar-se em ser apenas sussu rrado em segredo? Que. Mas essa unidade permanece profun da. por uma inversão diabólica. mas pode não ser santo nenhum. por força do Espírito que dirige seus atos e pensamentos e o preserva do pecado. como tal. na floração espontânea da santidade nos lugares mais imprevisíveis e mais afasta dos de todo contato com a burocracia vaticana. amigo. Quem. um farsante. Não é o mesmo obedecer a um vigário e a um vigarista . O Papa. no confronto prático com o poder tempor al? Conta-se que um pobre santo. proclamado e assumido como verdade pelo consenso público. terminará por explodir numa rup tura quando a capacidade de conceber novos arranjos tiver se esgotado. precisamente ao i nverso. Neste caso. bem como disseminado no mundo como Providência. e quem quer que diga que sab e é um palpiteiro muito metido a besta. n unca residiu na força monolítica da administração central romana. tal como a política dos reinos e dos impérios? Vejam bem: o dogma católico diz que os Papas são inspirados pelo Espírito Santo. e exercerá então a autoridade espiritual de pleno direito. tem no seu topo os santos e os mártires. contaminado portanto de força bruta? Em que medida a pesadíssima organ ização diplomática. Se a autoridade espiritual é em tese superior ao poder terreno pela mesma razão que faz o espírito superior à força bruta. aí. É. mas. ficou no papel. numa ascensão ainda maior do prestígio da força? Será necessário optar sempre entre uma teocracia oprimente e a opressão de um po der mundano 158? Eu não sei. aos bispos etc. meu amigo. Pedro já não pode dizer: “Não tenho ouro n em prata. política e burocrática de Roma é movida pelo sopro do Espírito ou pelo en rechoque mecânico das forças deste mundo. até que o Século das Luzes viesse iluminar com novas fulgurações de gênio a ciência do morticínio estatal). Quem.140 OLAVO DE CARVALHO mente. e “a casa dividida ruirá”. dupla é também a obediência: não é o mesmo o bedecer a um homem inspirado e obedecer a um cargo simbólico. Uma vez que o fiel sinta essa duplicidade — e é fatal que ele a sinta algum dia. d esde que a Igreja se constitua administrativamente —. era velho demais para poder levá-la até o fim. então. é para crist alizar-se na forma de um domínio teocrático que. pode ser um idiota pretencioso. pode ser um ladrão. Mas tudo neste mundo tem uma franja de ambigüidade. Pois é esta mesma contradição interna e constitutiva da noção de “Igreja” que se transmiti suas relações com o poder imperial e monárquico. apenas a hierarquia do governo eclesiástico terrestre é que desce do papa aos cardeais. naquela parte que se incorpora à sabedoria da Igreja c omo um legado permanente. . é claro. quando o advento de fatos de uma ordem totalmente outra mudar de repente o quadro de refe rências. se dupla é a forma da autoridade espiritual. é autoridade espiritual. na autoridade do cargo. pode ser um santo. O que sei é que só Deus é um: tudo no mundo é dupl o. Bonifácio só errou num ponto: ao começar a brig .

. na alternativa de hoje. por exemplo..158 Pensemos.. entre a disciplina compressiva do s aiatolás e a nulificação da consciência individual na sociedade administrada do Ociden te.

nasc era o reino de Portugal. uns quantos índios pelados e militarmente inferiores. acabasse por ser interpretado nos termos desse velho par de conceitos. a diversificação das culturas naciona is e a ruptura da unidade cristã. segundo comentavam os juristas da época. enquanto dormiam. 2º. Assim. do outro lado do Oceano. qualquer uma delas tinha o s meios de aparelhar um barco com uns quantos soldados e subjugar. O Império. a unificação da Cristandade Ocidental fora obstaculizada prin cipalmente pela resistência que dois povos. dois outros reinos nacionais haviam se formado na Península Ibérica . a primeira coisa que fizeram foi reavivar as velhas amb ições e mudar repentinamente a sua ênfase: a luta pelo Império já não tinha de ser um confli to europeu. não contando com um exército numeroso. de janela em janela e de pescoço em pescoço. seu coração estava na Inglaterra e se u cérebro na França. Por volta de 1500. 1º Durante muitos séculos. re sultando enfim que o casamento da castelhana Isabela I com o aragonês Fernando II deu término à última disputa local e inaugurou o novo reino. dando ao projeto do Império um novo sentido. ofereceram à autoridade imperial. Assim. se as nações eu ropéias nem sempre tinham condições de vencer umas às outras. nazareno ou cristão. brilhando e rodando sobre todas as cabeças reais como u ma mosca azul. a mu ltiplicação dos concorrentes a Império. a salvação da alma. as navegações. 2º Mas — atenção —. Não conheciam outros fins e valores que pudessem legitimar a ação humana senão. Toda a imensa transformação que inaugura os tempos modernos pode s er resumida numa mudança do projeto histórico europeu: do Império doméstico para o Império colonial. 3º. enquanto o Império vai p erdendo o domínio sobre boa parte da Itália que se desmembra em ducados e principado s independentes. fosse qual fosse. nada tinham ouvido de imp ortante que não se referisse a uma dessas coisas ou a ambas. “franco” se tornou um sinônimo de nasrányi. Os ingleses tinham sido o primeiro povo c ristão da Europa. suscita de imediato três mudanças verdadeiramente cataclísmicas: 1º. podia tornar-se uma expansão para outros continentes. Na Espanha. dentre os mais profundamente cristiani zados. de um lado. Em Portugal. elas decidiram então cada qual fazer seu próprio Império. Assim. Não é de espantar que tod o acontecimento novo. e mostravam por suas independências nacionais um apego igual ou maior do que aquele que tinham pela religião. e sim o de um braço armado da Igreja. a alteração profunda das relações entre realeza e ero. de outro. o conceito de Império não era simplesmente o de um poder transnacional qu lquer. por um milênio. quasi per latroc inium (não entendo o que queriam dizer com esse quasi). Ora. recorria ao exped iente de saltar pessoalmente pela janela de seus inimigos. O novo projeto. já que. Cansadas de luta r contra o Império. . Durante um milênio. e d egolá-los na cama: ao despertarem. poder temporal e autoridade espiritual. descobrindo para lá do mundo conhecido uma vastidão de terras a conquistar. mudaram repentinamente o quadro. Todos esses povos tinham vivido. Depois da fase inicial inglesa. se o braç da Igreja estava no Império — cujos domínios se estendiam sobre um território que corre sponde mais ou menos à Alemanha e parte da Itália —. abrindo aos olhos europeus o pa norama de um novo mundo. sob a dupla obsessão da Fé e do Império. e o esplendor da escolástica é um fenômeno sobretudo parisien se. entre os guerreiros islâmicos. séculos de luta contra os invasores árabes haviam acabado por forjar a unidade da aristocracia. a extensão do poder armado da fé. Mais do que ninguém eles haviam demonstrado sua fé e contribuído para a nova cultura cristã. Os franceses estavam tão profundamente ligados à Igreja que. Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais e criado um reino da noite par a o dia — literalmente. os servos e cortesãos eram informados de que o ca stelo tinha um novo senhor. Pois bem: ingleses e franceses não se curvavam ao Império por nada deste mundo. o centro da cultura cristã se transferira para Paris.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 141 As viagens transcontinentais.

incentivada pelo exemplo da Europa Ocidental que ela inveja. O dualismo milenar é resolvido mediante a absorção da Igreja no Império. Na Suécia. foi beheaded no ato. neto de Fernando e Isabela. tomando a dianteira nas conquistas coloniais. a Reforma protestante tinha abalado o monopólio romano do cristianismo: para arvorar-se em representante da Fé. É duvidoso que essa deformidade coroada. que já tinha desde quatrocentos anos antes sua religião nacional. Seu braço há de estender-se até o Brasil. enriquecida pelo ouro das Américas.. Ora. o fundador da idéia do Estado auto-sacralizado. Com Henrique VIII. de início. que desafiando o Supreme Head. com forte apoio judaico. republicano e calvinista. tendo o rei como suprema autoridade religiosa. mas cujo potencial imperialista tinha ficado ret ido pelas invasões mongóis e pelas imensas extensões do território a ocupar. Com a cabeça de sir Thomas a rolar no solo. por ter como chefe não o Papa.142 OLAVO DE CARVALHO para ser um Império de verdade. a Rússia. Nesse ínterim. crescendo desmesuradamente à sombra do apoio estatal. capazes de pression ar Roma em defesa dos interesses de seu rei. Essa idéia muda. tinha-se tornado a principal potência européi a. a porta do tempo girou sobre os g onzos. Do outro lado da Europa. anglocatólica: católica nos r itos e no dogma. a Espanha. é o luteranismo que se torna culto oficia l do Estado. Cada rei. instantaneam ente. Mas agora e le já não estava cercado apenas de nações rebeldes. embora tantas vezes ingrato. funda uma igreja nacional. mediante bem-sucedidas campanhas de ocupação. encerrando uma época: o projeto de unificar a Europa sob um Império católico mo rrera junto com o s derradeiro mártir. bem como pela dialética do crescimento capitalista ávido de matériasprimas do além-mar. quantos porta-vozes autorizados pode ter a Fé? Quantos braços armados pod e ter o corpo da Cristandade? A Igreja. ou Imperador. é César que volta ao trono. que esse assas sino de mulheres e de sábios tivesse uma idéia clara de quanto sua pessoa e seu gest o representavam o espírito dos novos tempos e prefiguravam o desenrolar dos aconte cimentos por três séculos adiante. e que continuará reverberando até nossos dias nos discursos da Nova Era e da Revolução Cultural. o pai da civilização moderna. um a funde-se logo com o Império. inglesa. a . form am-se na Holanda e na Suécia. ato contínuo. o rei Henrique VIII. em mútua oposição. a independência espiritual. mas o Rei. o de sir Thomas More. só reconhecia um: seu filho dilet o. a Suécia. O processo é ainda acelerado pela ruptura d a unidade do bloco protestante: cleros protestantes nacionais. que esse vulgar psicopata. o império nascente já não precisa va das bençãos do Papa — bastava fundar uma nova Igreja.. Napoleão e Comte. unindo pelos dois séculos seguint es o destino de seu país ao da dinastia Habsburgo. seja fundando sua própria Igreja. De maneira ostensiv a ou informal. todo o quadro do conflito entre realeza e clero. L evada pela dinâmica da luta pela independência que log o se torna luta pela hegemonia. autonomeado Pr otector and Only Supreme Head of the Church and Clergy in England com um único vot o contrário. que inspirará mais tarde Hegel e Robespierre. investid o de prerrogativas sacerdotais. o clero se nacionaliza. que durante seis séculos fora caindo de frustração em frustração. Enquanto a parte alemã do Império é sacudida p elas revoltas protestantes. logo se tornarão centros de poder mais ou menos independentes. junto com a indepe ndência política. Henrique é. seja fortalecendo or dens religiosas locais que. sem sombra de dúvida. parecia finalmente ter encontrado seu caminho. tinha de levar. agora. Para f ortalecer suas pretensões. A fundação da primeira Igreja eu nacional marca uma metamorfose radical na idéia de império e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino. o Sacro Império Romano. o chefe de Estado se autonomeia r epresentante direto de Deus. é coroad o sacro imperador romano sob o título de Carlos V. Mesmo os historiadores são muito comedidos ao trata r desse ponto. procurará dominar seu clero nacional. se eleva à posição de uma das mais fortes po tências imperiais. O Império. Das potências emergentes. descobre fi nalmente sua vocação. aproveitando-se de uma querela matrimonial. na Inglaterra. talvez por uma resistência inconsciente em reconhecer o pecado orig inal que dá nascimento aos tempos modernos. proclamar. o estandarte da fé. e sim de Impérios concorrentes. logo a Holanda entra no rol dos concorrentes a I mpério: Império protestante. acima dos seus canhões. quando Carlos I.

dmira e .

Homens como F.. Comme Roi Très-Chrétien. no galican ismo. constituem um só: multiplicação dos Impérios. resumia numa palavra o espírito dessa anacronia vivente: “Cinismo. precisamente por sua submissão nominal à Igreja de Roma. até mesmo disputas teológica s. em nome dele. se fait doc teur et convertisseur. Mesmo o Sacro Império. ainda quando esteja em abert a oposição com a palavra do clero e com as outras vontades divinas concorrentes. no fundo. Há até mesmo uma certa candura na co nvicção com que Luís XIV. Ond e esta pretensão absurda se revela de maneira mais patente é. um polonês cuja família sofrera na carne os efeitos da catequese imperial. tudo se nacionaliza. palaciana e não universitária. representado pelo Pa pa e pelos remanescentes do antigo Império. entretanto. que só usara de violência contra os heréticos em caso de rebelião armada. Seu catolicismo perde muito do e spírito internacionalista. Dostoiévski e V. il pensait que servir la France. endurecido por oito séculos de luta contra o mouro. Soloviev ai nda acreditavam piamente na missão cristianizadora da Rússia no mundo. O que espanta é justamente a natu ralidade que cada um julgava o seu modo nacional de ser cristão muito superior ao modo universal e supranacional. Não há. assume com Ivan IV (“o Terrível”) sua missão expansionista e cristianizadora 159. Cada um auto-investido da missão que fora a do antigo projeto imperial — unifica r o mundo sob o estandarte cristão — mas reinterpretando-a segundo a ótica da razão de E stado. Luís XIV era sincerame nte cristão. que marcará a mentalidade russo-ortodoxa a té pelo menos o fim do século XIX. que a Igreja. muito tempo depois de extinta nos países Ocidentais a mitologia do cristianismo nacional. a menor sombra de hipocrisia. Aos governantes dos séculos XVI a XVIII. Em contraste com a Inquisição medieval. anglicanismo (Inglaterra). Nation Très-Chrétienne et fille ainée de l’Église. t udo passa a orbitar em torno do rei. a nova fase inaugurará a p erseguição a indivíduos isolados.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 143 procura imitar. galicanismo (Fra nça). expressão típica de um povo que se cristianizara no campo de batalha. a ação da Igreja q ue diz representar: “Nul n’a défendu comme lui les droits de l’État laïque et personne n’a su parler avec plus de fermeté au Souverain Pontife lui-même. um título que ele se conferira a si mes159 mo. herdeiros — sabend o ou não — do espírito de Henrique VIII. Cada um remoldando o discurso cristão segundo seu interesse nacional. Joseph Conrad . ao t ransferir-se para mãos espanholas se espanholiza. que forma um pano de fundo às manifestações da independência mais petulante. Il sort de sa fonction et commet un étrange et quelquefois déplorable abus de son autorité” 162. na época. fundação dos cultos nacionais: luter anismo (Suécia). confondant ses attibutions avec celles de l’autre Pouvoir. Unificada por Ivan III (“o Grande”). calvinismo (Holanda). A seu modo.. em nome dele e sem a menor consulta ao Papa. w 3º Mas. que v iverão em anátemas recíprocos. que. ainda representava. agora apenas um entre outros. que descrevi lá atrás (§ 21). Pois a luta é agora entre o internacionalismo. nascem os muitos cristianismos modernos. e o nacionalismo imperial das potências . Data daí o surgimento do espírito messiânico. em tudo isso. beatifica o interesse nacional francês e reprime.” 160 A fase cruenta da Inq uisição data dessa época e desse lugar. parece natural e óbvio que sua vontade política s eja a expressão mais direta e pura da vontade divina. é um reflex o dessa mudança. candidato a Imperador. c’était servir Dieu et l’Église -même” 161. como a maioria dos reis do seu tempo. como na revogação do Édito de Nantes e na perseguição aos protestantes e jansenistas: “Ai nsi le Roi. embora confundida no meio de tanta s fidelidades ambíguas. Não espanta que o rei assim imbuído do caráter divino do interesse nacional acabasse p or regrar. O surgimento de uma nova casta letrada. iberiza-se sob as formas do jesuitismo e da sanha inqui sitorial. não compreendia a fé senão como gue rra contra os infiéis 160. Os dois processos são concomitantes e. investido da autoridade de “Rei Cristianíssimo e filho primogênito da Igreja”. Dessa nova partilha da túnica de Cristo.

J. E. Tallandier. Paris. 161 162 Louis Bertrand. enquanto o Papa obtém o controle das universidades. preservando ali o internacionalismo. p. . p. c om artistas e letrados a soldo da nobreza.emergentes. em línguas nacionais. II.. Louis XIV. 1929. 16 1. 156. Id. os reis fomentam culturas nacionais. t.

p udesse coroar o reiprofeta. a Moisés. entre a classe política e o rei. O assunto é estudado por Gilbert Durand em Science de l’Homme et Tradition. Hachette. o rei no Parlamento. valores sedimentados na cultura. a mesma disputa que havia entre a Igreja e o Império. Ora. de qualquer s anção religiosa. e o poder temporal a Lua 163. além desse. era bisneto de Vênus. César. uma crença comum impe . éd. por toda parte. sempre muito práticos. muitos outros pontos fracos. automaticamente. o debate prossegue até hoje. de autoridade espiritual e poder temporal. 165 Aqui compreendemos. os novos intelectuais logo se apressam em erigir e m norma e ideal o fato consumado. Com outras denominações — E xecutivo e Legislativo —. uma leitura absolutamente essenc ial. outra causa do fracasso do Império mediev . Thomas Smith (De repub lica anglorum. Pela nova teoria.144 OLAVO DE CARVALHO Como não poderia deixar de ser. contribuiu um bocado para a emergência da moderna intelectualidade leiga e materialista. A conseqüência imediata é que. o rei não manda nada. cada reizinho que saltasse a janela p ara degolar no leito os adversários se equiparava. usara explicitamente essa imagem. nos impingem enfim a noção de que os reis governam por direito divino inerente às sua s ilustres pessoas e à natureza das coisas — e independente. representando a nação. — Aliás o mesmo Inocêncio III. não suporta a concorrência nem me smo daqueles que. era preciso que ele mesmo tivesse atributos divinos. E eis que a pretensão 164 Inocêncio III. entre muitos floreados e um semnúmero de idéias valiosas. Bodin. V. numa só pessoa. 1972 — um clássico. consagrando-a como expressão por assim dizer oficializada da doutrina. mas ninguém pôde recorrer a este exemp lo porque a nova concepção era inexpressável no velho linguajar astrológico. Mas. Parlamento quer dizer: a classe política. sua proclamação inaugura uma série infindável de discussões que se prolongam até hoje: Quem faz o rei? Quem faz a le i? A lei faz o rei ou o rei faz a lei? Se o rei faz a lei que manda no rei. Histoire Naturelle de sa Croissance. que. 1945. apelando à idéia do Parlamento. 1583). numa bula cujo título não me ocorre. o expediente auto-engrandecedor de um assassino insano adquire uma aparência de dignidade inte lectual nas filosofias políticas de Jean Bodin (Six Livres de la République.. Paris. de repente. Os ingleses. a ascensão do rei se faz às custa s da nobreza: o rei. Hooker e outros procuram moderar os excessos da au toridade real. Le Pouvoir. será sempre o fortalecimento ilimitado do poder 165. 1978. teve as maiores dificuldades para conciliar suas idéias com o simb olismo astral. O que nenhum dos teóricos da monarquia divina sequer reparou é que a junção indissolúvel. de imediato. nouv. o resultado. investido de poderes divinos. dizendo que não há outra fonte da lei senão a vontade do soberano. Tête de Feuilles / Sirac. então a disputa entre as facções do poder pode prosseguir indefinidamente: vença o rei ou 163 vença o Parlamento. l he deram esses poderes divinos. Paris. e todas as discussões teóricas não passarão de adornos acadêmicos da tirania. afinal. Richard Hooker (The Laws of Ecclesiastical Polity. portanto. Como a teoria tivesse. Bodin. reunidos no Parlamento (como outrora os cardeais em concílio). como mostrou Bertrand de Jouvenel 164. ou mel hor. Bertrand de Jouvenel. onde a auto ridade espiritual era o Sol. pela simples razão de que não tem solução: se não há nenhuma instância superior ao poder — uma tradição. para que o Parlamento. formava a síntese solilunar que constitui a autoridade profética. As soluções propostas. Se um outro faz a lei. estabelecendo uma linha demarcatória demasiado rígida entre ciências sac ras e profanas. res olvem a coisa por um jogo de palavras: quem manda é o rei com o Parlamento. que era louco por astrologia. teorizado às pressas ex post facto. a que nem mesmo os papas t inham ousado se ombrear. 1580). e tudo aquilo enfim que se consubstancia no t ermo “religião” —. e então se repete fatal mente. então não há lei nenhuma. os homens importantes que representam ou dizem representar a população. Genève. 1576). Th omas Hobbes engrossa o caldo logo de vez. tomam duas direções.

mas foi metida neles pelo curso dos eventos: queda do Império. Se os brasileiros já existissem naquela época. desse frutos políticos menos amargos? Não sei a resposta. e. em resultado.al: numa Europa insuficientemente cristianizada. por que não po dia simplesmente continuar cristianizando a Europa.. a autoridade espiritual não vigor ava plenamente. com toda a paciência. tinha obtido tamanho sucesso durante os seis primeiros séculos. é: se a Igreja. Pepino! . deixando que César cuidasse de César? O Império abortou porque nasceu prematuro. mas uma coisa é certa: a Igreja não se mete u nos assuntos políticos por iniciativa própria. necessidade de improvisar uma administração. sem encontrar resposta.. veriam um sinal premonitório no fato de o primeiro candidato a imperador se chamar . lenta e naturalmente. o clero descera ao exercício do poder temporal. vacância de ant igas lideranças religiosas bárbaras etc. forçava para retomá-lo sempre que o Império escapava ao seu controle. sem poder temp oral. em seguida ficou dividida entre a necessid ade de passar o abacaxi aos leigos e o temor de uma nova perseguição religiosa sob o reinado de um César de sua própria criação. Por que gerá-lo tão cedo? Por que não esperar que a cristianização. a o mesmo tempo que procurava livrar-se dele e transferi-lo a um Império. O que me pergunto. e neste vaivém passaram-se m il anos..

o mundo alcança então o estágio de maturidade cínica necessário par a que. Se. dando logo aos outros uma lição prática de como “dilatar a Fé e o Império”. exatamente no sentido em que o conjunto dos fiéis forma o corpo místico de Cristo 166. Afonso de Albuquerque. ao governo local. e i nvestida do prestígio aterrador das coisas sacras. IX. Zahar. a ditar suas palavras direta166 mente para os novos Abraões. sua fama já tivesse chegado antes dele. já havia resolvido o problema. Depois desembarcava num ponto qual quer e mandava cortar algumas centenas de narizes. Perspectiva Histórica da Filosofia do Direito. bombardeando. fala a própria boca de Deus. Tudo contribui. Henrique. Isaacs e Jacós. Não é preciso repassar aqui o rosário. considerado geralmente o primeiro codificador de conjunto da t eoria política inglesa. Nem todos os conquistadores foram igualmente cruéis. metafísica. tudo o que encontrasse pela frente. seguidas da dupla e correspon dente quantidade de orelhas. E quem é que ia recusar o diálogo. Rei-sacerdote. e ele garantia que os restantes narizes e orelhas permaneceriam saudavelme nte atados a seus lugares de origem 167. sua disposição de dialogar. sacralidade do corpo político. para o fortalecimento do poder: se o rei é fonte da lei. Por intermédio do Rei autodivinizado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 145 doida encontra um precedente teórico venerável: antes mesmo de que Henrique VIII ung isse sua própria cabeça com o óleo da herança mosaica. sem desembarc ar. cada qual instalado bonitinho em seu tr ono europeu. com um punhado de soldados. até garantir que. os cristianismos imperia is inaugurarão uma modalidade de sacrifício comproporcionada à mentalidade dos novos t empos: o martírio dos outros. feita à custa do sangue dos mártires. das atrocidades européias nas Américas. então o rei não é um simples man datário. 1965. razão de Estado: essas idéias são mais ou menos absorvidas por todas as potências emergentes. v. Desde a política de terra-arrasada de Hernán Cortez até a perfídi a dos ingleses risonhos que desembarcavam na Índia com cartazes dizendo Trade. fundador do moderno E stado sacro. na África e nas Índias. para em seguida fazer saber acima de qualquer dúvida. cada qual imbuído de sua verdade eterna. diferentes gradações de maldade. mutável e perecível ao sabor das guerras e acordos interdinásticos. e Erich Voegelin. para em seguida ir tomando todo o territory e embolsando todos os lu cros do trade. Carl J. doravante. é nada menos que um c orpo místico. 1470). a uma altura dessas? A proposta era simples e esquemática: dessem a Afonso tudo o que ti nham. trad. culto n acional. investidos da missão sublime de impor seu jugo suave de Bons Pastores a quantos índios pelados ficassem na mira dos canhões. como a Bíblia já houvesse advertido que “os deuses das nações são demônios”. que continuou inca paz de formar um verdadeiro Estado nacional até o século XIX. E. Seus discípulos surgirão na geração seguinte. é claro. com o aval do Parlamento. Mas essa maldade seria tanta. not territory. cada qual. então. uma nova encarnação do Logos divino. Friedrich. desceu as costas da Índia.. a nação de repente se ergue às alturas de uma realidade celeste. fora um precursor: sua doutrina pressupunha um tipo de Estado nacional que na Itália de então só existia em p rojeto. houve. de fato. Numa inversão simétrica da expansão cristã dos seis primeiros séculos. não é de espantar que os corpos mís . Maquiavel. missão imperial das nações. r ealizado o milagre: de uma unidade provisória e mais ou menos convencional. sua palavr a é final. a epopéia da “cristianização” estaria a tal ponto imersa em sangue 167 Sobre Sir John Fortescue. Cap. um corpo místico. é o Parlamento que o legitima. e fora da Itália. ao contrário. Apela-se portanto à velha idéia de Fortescue. Sir John Fortescue (De laudibus l egum Angliæ. Portugal foi o primeiro. uma pessoa ungida e sagrada pela qual. finalmente. ao sustentar que a nação. eterna como um arquétipo platônico. as idéias de Maquiavel sobre a razão de Estado pudessem sair do p apel e tornar-se prática generalizada.. mas a individualização vivente de um corpo místico. de um só golpe. a socie dade civil e política representada no Parlamento pelos nobres. bem conhecido. se multiplicassem rapidamente e saíssem p elo mundo. cada qual conc orrente a Império. Álvaro Cabral. como pretende Hobbes. A N . onde quer que viesse a a portar. Rio. e eis aí. omo o próprio demônio informasse que “meu nome é Legião”. é o braço armado da doutrina de Fortescue.

O volume faz parte de uma série notável que a autora consagrou à história dos de scobrimentos portugueses.ova Ciência da Política. 1953. Elaine Sanceau. Lisboa. 3ª ed. trad. José Francisco dos Santos. v. Afonso de A lbuquerque. Sobre os métodos persuasivos do Albuquerque terríbil. O Sonho da Índia. . op. . Civilização. cit.

o clero c onspirava com os príncipes ingleses e alemães para a derrubada do Império. na África e na Índia. Eis a missão de Napoleão Bonaparte. e. para dentro. Eis aí a verdadeir a originalidade. de novos valores. o Antigo Regime. como o foi. a contradição entre clero e nobreza é resolvida pela absorção. do outro lado do Oceano. ao mesmo tempo que. tendo vivido por doze séculos num matrimônio sadomasoquista co m o clero. ainda mais surpreendente do que a anterior. o que pudesse ainda haver de cristianismo residual pudesse ser facilmente absor vido e laicizado sob a forma de “direitos e deveres do cidadão”. incapaz de resolver sua contradição originária entre o modelo romano e a duplicidade Ocidental d as castas clerical e aristocrática. Em segunda versão. A Concordata com o Vaticano manifesta essa fraqueza. a apropriação indébita do sonho imperial por nações ambiciosas corrompidas pelo auto-engano de uma falsa consciência religiosa? A pergunta toca no ponto mais doloroso e talvez no centro mesmo da história das o rigens da modernidade: quando o poder monárquico de todas as nações segue o exemplo do assassino delirante que usurpa a coroa do próprio Cristo. enfim. Resistente a toda debilitação orgânica. E esta fraqueza most ra que Napoleão entreviu apenas obscuramente aquilo que. com efeito. as du as correntes de idéias que marcam. a essência mesma do projeto napoleônico: desvincular o Império de seu compromisso com a Cristandade. não podia repentinamente acostumar-se à solidão do divórcio. uma nova . fazer do Império como tal a única divindade. cristianizada. fiel à sua vocação de origem. Assumir. o Império europeu dá lugar aos Impérios coloniais. como braço armado da Revolução. reaparece no ano 800 e vive até 1500 de crise em crise. o domínio sobre as consciênci as. Ademais. cresceu bebendo o sangue dos inocentes. ela perv ive. àquela altura já abalado até as raízes pela ascensão da nova classe capitalista. em m uitas versões nacionais: numa terceira translatio imperii. que. multiplicada. se na segunda conseguira driblar a própria Igreja mediante a ousadia blasfema de fazer o rei e futuro imperador passar como encarnação do próprio Cristo. vem a R lução. uma aristocracia hereditária e militar. o domínio do mundo. num novo banho de sangue que ultrapassa em poucos meses todo o horror dos feitos imperiais d’além-mar. salvando-se através de uma nova metamorfose. Mas a aristocracia. com efeito. sua sobrevivência dependia portant o de um imobilismo social incompatível com as mudanças cataclísmicas que o próprio Bonap arte. Passados três séculos. Recapitulemos. esse calcanharde-aquiles do projeto napoleôni co. da autoridade espiritual. onde. que César é maior que Cristo. Aufheben — “absorver e su perar” — é o termo de Hegel: o Code civil de Napoleão é a Aufhebung imperial e leiga da mo ral cristã. A idéia de Império Ocidental vem de Roma. consistindo por essência numa eliminação do poder clerical.146 OLAVO DE CARVALHO se seu ponto de partida não fosse. a Revolução. a instauração de novas leis. era sempr e uma aristocracia — e. Por volta de 1500. mesmo enxertad a de novos componentes retirados das tropas ou da parentela napoleônica. um a aristocracia de sangue é sempre um poder de tipo feudal. Napoleão foi vencido menos pelas tropas de Wellington e Blücher do que pel a contradição intrínseca que viciava na base o seu projeto: ele procurou. Napoleão sintetiza. agora ela jogará a cartada mais alta. chegando aos últimos limites do que a audácia mais demente pudesse conceber: dispensar toda legitimação religiosa mesmo farsesca. Mas a idéia de Império não cai co m elas. dos Césares. terminou por rest aurá-lo dentro das próprias fronteiras do Império. tinha ajudado a precipitar. e inaugura o primeiro Império não-cristão do Ocidente. mediante a farsa do “corpo místico” nacional. as monarquias começam a cair. no Es tado. como aliás é próprio dos fantasmas. Ilimitada em do is sentidos: para fora. construir o I mpério leigo conservando a estrutura de poder do Antigo Regime — basic amente. de outro. liberá-lo para a expansão ilimitada. fora. que mais se pode espera r do curso posterior dos acontecimentos? O Estado moderno nasceu de uma farsa de moníaca e. de um lado. Ele sintetiza o projeto imperial do Antigo Regime com a ideologia anticristã dos revolucionários. renasce. Se na primeira crise ela se safara tratando de infiltrar-se na Igrej a a título de “Império cristão”. Seguem-s e três séculos de matanças nas Américas. segundo o projeto de Hegel.

.

É uma carreira comparável à das maiores potências europé da época. em Raymond Aron. Presidente do Tribunal de Justiça da Carolina do Sul. Um povo não se expande por todo um continente. disposto a daí por diante só crescer para dentro. Doutrina Monroe. à Revolução Francesa. trad. dizendo: “Oba. 1803. A vocação imperial norte-americana não nasceu junto com os Estados Unidos: nasceu ante s.. por isto mesmo. A escalada é impressionante: 1793. numa nova estrutura de poder. nem. 1845. onde somente a inter venção americana decidira o curso dos acontecimentos. Como foi possível que. by the blessing of God. 1975. Edilson Alkmin Cunha. o impulso colonizador se transforma quase que naturalmente em impulso imperialista. numa nova instituição religiosa que fosse intrinsecamente ligada ao Estado: César só poderia ressuscitar sob forma capitalista . 1867. as potên cias européias não se dessem conta. Anexação do Texas. republicana. dei xando os aliados livres para repartirem a seu bel-prazer o bolo alemão. Ajuda. 1846. Com pra do Alasca. 1854. discreta mas dec isiva.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 147 potência emergente acabara de perceber com total clareza e de maneira definitiva: o Império leigo não podia ter um resíduo sequer de compromisso com a Igreja. Essa vocação manifesta-se com uma força de uma decisão madura já na infância da nação america mediante uma seqüência de feitos militares e diplomáticos que estendem desde logo o r aio de ação dos Estados Unidos por uma área bem maior do que a ocupada até então pelos Impér ios coloniais europeus. com as velhas aristocracias. Mesmo após a Guerra de 14. esses imbecis ainda se acredit avam senhores do mundo. República Imperial. Guerra com o México. República imperial. para. todas as g uerras da História. Intervenção em Cuba. Instalação de ponta-de-lança no Japão. Mas mesmo esta era u m sinal: superava. 1898. O Império contra-ataca “ The Almighty has made choice of the present generation to erect the American Emp ire. 1823. entre peri gos e esforços sobre-humanos. de imediato. maçônica e protest ante: é a definição dos Estados Unidos. p. de que havia nascido aquele que Deu s predestinara para ser o seu coveiro? A cegueira dos homens de Estado para os r umos mais óbvios da História chega a ser às vezes mais notável do que os lampejos de visão profética dos homens de inteligência. Ele necessitava apoiar-se numa nova cla sse social. enganamos esse tro uxa. 168 Cit.” WILLIAM HENRY DRAYT ON. Intervenção branc a na Califórnia. uma vez chegado às fronteiras naturais ou legais do território. Construção do Canal do Panamá. 21. Os Estados Unidos no Mundo do Pós-Guerra. ao longo de três séculos. capazes de manter a águia norteamericana a uma higiênica dis tância dos assuntos de gente grande. e. 1812. And thus suddenly arised in the world a new Empire that bids fair. em extensão da linha de combate e no número de mortos. os esperti nhos esfregaram as mãos com um sorriso maquiavélico. se dar por satisfeito e instalar-se de uma vez para sempre na mold ura desses limites. no ano de 1776 168. . 1906. Tentativa (fracassada) d e invasão do Canadá. Zahar. Anexação das Filipinas. maçônica e protestante. Rio. tão logo Wilson abandonou a Liga das Nações. Ao contrário: tão logo se sente senhor de seu território. Compra da Louisiana. capitalista. to be the most glorious of any upon record. diante de fatos dessa envergadura. e só interrompida temporariamente pela Guerra Civil. Guerra com a Espanha..” § 28.

preferindo a penetração comercial às intervenções militares 169. as causas de sua destruição 1 71. Em p rimeiro lugar. os interesses priv ados. no banquete de Yalta. na maior parte dos casos. Suas iniciativas no Exterior eram intermitentes. por favor. era impossível imaginar uma política imperial sem um Imperador autocrático. estivesse nascendo um novo Império. etapa superior do capitalismo”. as grandes empresas. ed. vaci lavam ao choque de tremendas oposições internas. que voltava as costas para o mundo. Com efeito. a longo prazo.148 OLAVO DE CARVALHO Santa ilusão! Na comitiva mesma de Wilson já se encontrava aquele que um dia viria a repartir com Stálin. 169 O que já bastaria para chacoalhar até os alicerces a teoria de Hobson e Lênin sobre “o i mperialismo. No meu entender. Em quarto lugar. 170 Manifest destiny: expressão usada e m 1845 pelo editor John Louis O’Sullivan e que se tornaria célebre como símbolo do espír ito expansionista: “Our manifest destiny is to overspread the continent alloted by Providence for the free development of our yearly multiplying millions” ( cit. Freqüentemente subia ao poder uma cor rente isolacionista. “nação”. que o aparelho ótico europeu não tinha sensibilidade para o tipo de estímulos que dali provinham. New York. Tão diferente. Bobagem tentar explicá-la somente por um mórbido eur ocentrismo. Franklin D. tinham ali um poder tremendo. Esses dados formavam um a névoa confusa. mas também capitalista. tinha fracassado redondamente l ogo no seu primeiro século. aos observadores habituados a pensá-la sob sua velha forma. portanto. 333 ). Eurocentrismo não é a causa do fenômeno: é simplesmente o nome dele. Não en xergaram a potência imperial nascente. os EUA não eram só uma nação democrática. os termos de uma contradição real permanece . paralisando-as. Além dist o. ao mesmo tempo que constituíram. tanto que dominavam essas regiões com a desenvoltura de joga dores habilíssimos. Para a velha mentalidade. Estes enxertos antagonísticos deram-lhe vi da nova. A narrative History. conduzia os Estados Unidos. através dessas contra dições mesmas. o que se passava nos EUA. os Estados Unidos eram uma nação democrática: a política nacional era fruto de complic adas discussões parlamentares que podiam adiar uma decisão por anos a fio. mas uma metamorfose da idéia imperial — metamorfose que a torna va irreconhecível. os Estados Unidos não tinham. que estou racioci nando à maneira de Hegel. Roosevelt. de imediato. Teria sido preciso ser mais maquiavélico do que Maquiavel para supor que . entre os fatos contraditórios. Do ponto de vista europeu. p. Tanta cegueira tem de ter um motivo. A única República Imperial que conheciam. Ora. é precis o ver que ela tem algo em comum com as duas anteriores. Tindall and David E. a linha de uma dialética histórica que. eles não eram tão eurocêntricos assim: compreendiam perfeitamente bem o que se pass ava na África ou na Ásia. 171 Que ninguém pense. a nação norte-americana formara-se numa revolução antiimperial e professa va uma doutrina anti-imperialista. Norton. America. em suma. a Holanda. a seu destino manifesto 170 de suprema potência imperial do mundo. nas duas oca siões anteriores o Império renasceu ao fundir-se com idéias que lhe eram contrárias: “cris tianismo”. tão original. Os intere sses privados. no segundo. Em segundo lugar . 2nd. capaz de influ enciar as decisões do Estado ou combatê-las. se opunham às iniciativas expansionistas do Estado . Se isto representava um perigo. porque ela não representava apenas u m novo imperialismo. Sem a unidade da p essoa do Imperador — assim entendiam — não podia haver a unidade de uma política imperia l coerente. operando por cima — ou por baixo — das intenções dec laradas dos homens e dos grupos. em George B. era o perigo da Revolução. por trás da agitação republicana. impedindo o observador de enxergar. Para compreender essa metamorfose — a terceira da história Ocidental —. de fato. Se não enxergaram. e já não era mais que uma vaga lembrança. habituado por três séculos a identificar imperialismo e monarquia absoluta.. Em terceiro lugar. no primeiro caso. Shi. o fenômeno america no era invisível porque era impensável: faltavam-lhe as categorias para pensá-lo. só pode ter sido por uma razão: porque aquilo que ali acontecia era diferente de tudo o mais. a carne dos vencidos e o pão dos vencedo res menores: um obscuro assessor jurídico da Marinha. 1984. uma política i mperial coerente e contínua.

As formas daí resultantes são sempre t ensionais: suas contradições constitutivas mudam de forma. a não ser meta fisicamente. em sucessivos arranjos ad aptativos — que constituem precisamente o seu desenvolvimento quantitativo e tempo ral —. o conjunto . exaurida uma certa linha de adaptações possíveis. As grandes criações históricas constituem. até que. exigências que só podem ser conciliadas n a esfera metafísica. no plano da existência contingente. no plano do Ser universal. tentativas de co nciliar.m contraditórios e jamais são perfeitamente absorvidos em síntese alguma. precisamente.

Afinal. livre-pensamento. Para quem não compreendia a idéia imperial senão associada às monarquias absolutas. é também uma ingenuidade supor que a mera inversão operada por Marx possa con sertar as coisas. sem exceção. não prestava mais nem para ser lançado aos cães. § 29. na esfera da dialética re al. o esquema tese-antítese-síntese continua sempre um esquema. portanto. na base. Se. fundir essa idéia com aquelas que. assim. Se me refiro de modo sumário a “contradições de idéias”. sempre para o oeste. Alianza. Kolakowski acertou na mosca ao enfatizar as origens místicas da dialética de Hegel e Marx ( v. Tal é o pressuposto lógico que embasa as análises qu e aqui vou fazendo: de um lado. se pode funcionar como símbolo ou metáfora de certas realidades metafísicas que fatalm ente temos de tentar alcançar por símbolos. em nenhum desses casos. t . nada me restava a fazer senão levantar acampamento e abandonar o país levando comigo essa metade inanimada de mim mesmo. A nova metamorfose que inaugura o Império americano é uma resposta imediata à crise do domínio colonial.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 149 A contradição constitutiva do primeiro Império cristão foi. república. na sua complexidade por vezes inabarcável. 1976 ). que ele falsifica dando metafisicamente um sumiço no fator “contingência” e transformando a incerta e movediça suc essão dos atos humanos numa escala regular de emanações divinas. o reconhecimento de que. mas simplesmente um outro c onceito abstratista e demasiado simplificador. Esta contradição. no momento. com a sucessão de guerras de independência que viriam a destruir todos os impérios coloniais. é som e em prol da brevidade.. provisória e. para não dizer simplório: “materializad o” o quanto se queira. Para o oeste. Como Moisés na sua cestinha ou Cristo no estábulo. o Império cresce movido pelo conflito com a Igrej a. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) “Eu não sou Cristo. “Our Constitution was made only for a moral and religious people. Mais adiante. 172 É claro que não se trata. era um homem acabado nessa época. no mais ousado dos arranjos. o que Marx colocou no lugar do “conceito” hegeliano não fora m os fatos. tensional ( reconhecimen to que falta em Marx ). portanto. o modelo romano d e Império. democracia. Las Corrientes Principales del Marxismo. no prazo que vai da Independência nor te-americana à morte de Antonio de Oliveira Salazar (1975) 172. manejada habilmente por trezentos anos. ressuscitar a filha de Jairo não estava em meu poder. de JAKOB passa por uma metamorfose global ou morre ( isto supondo-se que causas externas mais poderosas não o matem antes ). posto de lado como em obediência a uma senha. os Impérios coloniais modernos constituíram-se com o verdadeiros “impérios nacionais” — uma contradição de termos que expressa a contradição rea ntre a escala multinacional do projeto e o interesse nacional a que ele unilater almente serve: daí que. famílias.” Wars chauer-Waremme. Eis então que o maior dos Impérios nasce invisível àqueles que pode riam tê-lo destruído no berço. pareciam mais antagônicas ao espírito das velhas monarquias: independênci a. de uma pura contradição lógica entre conceitos. os im périos coloniais modernos nada mais fossem que a escravização organizada de vários povos em proveito de um só. já que escapam à esfera da experiência sensível não serve de nada como tradução do movimento real da História. como o exige o conceito imperial originário. pa rtidos. I. classes etc. sucedâneo do Heptameron bíblico. esses termos podiam conter tudo. explo diria no fim do século XVIII. W ASSERMANN 173. a mistura hegeliana do ideal com o real não é aceitável. trad. não existe síntese senão potencial. em vez de conciliar e administrar os interesses de vários po vos numa unidade transnacional. Ela vai. que ele copiava. Madrid. It is wholly ina . como vimos. portanto. e. em O Processo Maurizius. e morre quando se exaurem suas possibilidades de dar a esse conflito uma form a viável e produtiva. Jorge Vigil. a distinção entre dialética real e dialética ideal ( dis tinção que Hegel não faz ). menos a p romessa de um Império. como Joana a Louca com o cadáver do esposo. e sim de conflitos reais entre facções.. de outro. Pelo contrário . que a existência d e uma “Igreja” independente dele e superior a ele negava. É uma negação ostensiva da versão monárquicoabsolutista da idéia imperial.

trazendo o centro do poder para o novo continente ( não o esqueça o leitor.dequate to the government of any other. pois era disto que eu vinha falando no § 27). Civilização Brasileira. que. Octávio de Faria e Adonias Filho. incorporando em si sob uma 173 Trad. 1963. Rio. iria realizar o projeto em que Napoleão falhara: o Império leigo.” JOHN A DAMS A quarta translatio imperii. .

e de un ificar sob a nova religião laica o mundo Ocidental. descarnado e desvitalizado. assumiria o encargo de s ubstituir a Igreja — todas as igrejas — na condução da vida interior das gentes. tudo aquilo que dá certo é atribuído à ação genial da M naria 174. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française: La FrancMaçonnerie dans l’État ( Paris. e de que dentro dessas mesmas or ganizações. em poucos anos chega à presid ia vencendo a candidatura aparentemente imbatível de Luís Inácio Lula da Silva — ilustra -o novamente. numa pirâmide invertida onde a t reva mais densa assombrava e governava a menos densa. recebendo a iniciação maçônica.176 Enfim. que um rito basta par a desfazer em fumaça. se possível. para em seguida ser expandida para todo o mundo. 174 Pelo lado adversário. Todos os signatários da Declaração da Independência. em atrib ir à ação maçônica no mundo uma unidade de intenções e de estratégia. cet te légende. a idéia mesma de conferir a uma sociedade secreta a unidade doutrinal trolhas ao lado dos generais estrelados. t.. mas. um De Maistre? 175 É a tese característica de Gustavo Barroso. sem exceção. talve z falsamente. pertencem a alguma loja maçônica. Mais espantoso ainda é quando a entidade. s e iria consolidar na forma de moral estatal democrática. O fato é demasiad notório para que seja preciso demonstrá-lo. há engano. O primeiro desses três erros. prestar satisfações à Maçonaria ou enfrentar a Maçonaria. por sua vez. qui doit sa naissance à des écrivains antimaçonniques tels que l’abbé Barruel. que pretenderam usá-la para fins diversos. de que a própria Maçonaria foi alvo de conspirações. essa “metade inanimada” de Cr istianismo. O terceiro omite o fato. História Secreta do Brasil. a resguardar-lhes a continuidade e a unida de. car. Aí veremos de qual culto é sacerdote o iogue-comissário. I. senão a força sutil e às vezes apenas simbólica dos egregoroi. surgiam conspirações e segredos. beaucoup plus tard. Em primeiro lugar. a fini par être adoptée. chose curieuse. Im porta agora delinear os princípios do Evangelho que. e que gênero de sacrifício se ofic iava no altar do MASP. Entre os primeiros. divisões e ataques de organizações ainda mais se retas. E . nin guém. A carreira de Fernando Henrique Cardoso — o político ruim de voto que. pois como poderia estar integralmente comprometida com a Revolução a entidad e que tinha entre seus membros de destaque um Saint-Martin. 1936 ). múlti plo e incontrolável que assumem os empreendimentos secretos. a religião do Novo Mundo é maçônica. 3 vols. Só que. quando não da secretude. a mistificação toma a forma de especulações fantásticas sobre a antigüidade maçônica — abusando de analogias que são tomadas por identidades históricas — e e um jogo duplo na ocultação-revelação do papel desempenhado pela entidade nos lances de cisivos da História: os projetos de risco são ocultados sob o manto da discrição. entre apóstolos e adversários dessa organização. ou má-fé. a posteriori. Sim. Cia. 1977. há engano e má-fé em ex do o enfraquecimento do espírito cristão no mundo como efeito de uma conspiração maçônica 17 5. já no século XX. par les Maçons eux-mêmes” ( Études sur la FrancMaçonnerie et le Compagnonnage. p. mutila e comprime a linguagem simbólica num unimensionalismo qu e nada poderia justificar. inicialmente implantada em território norte-americano. Éditions Traditionnelles... assume como seus os feitos que lhe são. no sentido de um anticristianismo rasteiro sugerido pelas falas de próceres maçônicos de uma época muito posterior. historicamente comprovado. O segundo negligencia o curso freqüentemente caótico. há evidente mistificação em interpretar toda a simbólica maçônica. 106 ). atribuídos por seus adversários: comentando o livro de Albert Lantoine . Desse momento em diante. por um misto de fraqueza e vanglória. mais são os interessa dos em mistificar do que em esclarecer o seu papel na história espiritual da human idade. mas absolutamente ninguém faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar para a Maçonaria. Paris. movido por um intuito de interpretar as coisas pr econceituosamente. incl sive a das iniciações de ofícios. como nova religião da humanidade.150 OLAVO DE CARVALHO forma laicizada e desespiritualizada os valores cristãos. principalmente quando atravessam as gerações e os séculos e não têm. Émile N ourry. René Guénon louva-o “lorsqu’il démolit la légende qui veut qui la Maçonnerie a t joué un rôle considérable dans la préparation de la Révolution. O Oriental também.

Mass. com o regime militar já mais que consolidado. Originally Published in 1798. por falta de método científico e espírito filosófico. Belmont. O autor. de tirar conclusões sólidas das informações de que dispunha. a Maçonaria assumiu sua participação na autoria do evento. 176 V. alto dignitár io da Maçonaria escocesa.ditora Nacional. Proofs of a Conspiracy.. 1937. Acho que nunca houve no Brasil um pesquisador tão bem infor mado sobre sociedades secretas e tão incapaz. Western Islands. dirige-se a seus pares para denunciar a infiltração de membr os de uma outra organização secreta — os Exemplo: Só no décimo ano do golpe de abril de 1964. With a New Introductio n by the Publishers. 1967. com os grão-mest res desfilando de aventais e . John Robis on.

Assim como Daniélou. O ponto-chave dos erros d e Guénon — que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado. se furta por completo a toda fiscalização. mas pela eficácia do caos. a toda crítica. Mas. é. 178 A polêmica católica contra René Guénon continua impressionando pela sua incapacidade de enfrentá-lo no terreno propr iamente metafísico. aliada a uma retórica sufocante. pela ampliação dos meios de participação do p vo no poder. Dupanloup. por trás da agitação cega e vã dos átomos anônimos. que aqui não nos interessam absolutamente. bem como sua via de conciliação. acima da organização. só bastava para disfarçar ante os intelectos menos exigentes . filiando-o a uma tradição imemorial e dando-lhe o sentimento. Mons. Empreendimentos como o de Mons. como o de qualquer outra sociedade secreta. de pertencer ao círculo dos eleitos que. Esclarecida e derrubada esta doutrina i ntrinsecamente absurda. De ntro de nossos cérebros. imprimirão sua marca no mundo todo que este vai forjando ante nossos olhos. Bishop of Orleans. René Guénon. a doutrina dominante na Maçonaria de uma dada época. que uma profusão de ritos e símbolos. Kenek Books. todas as aristocracias tiveram um forte elemento esotéric o e iniciático nas suas origens. sabem o que se passa e para onde as coisas vão. Ante nossos olhos? Não. que tentam ciscar nas palavras dos próceres maçônicos os elementos com que possam compor uma doutrina maçônica. se queixava de que parecia haver. No fundo. tanto na Revolução Francesa quanto no nascimento do Império Americano. Explico isto mais extensam ente em meu Diário Filosófico. o que se observa é a ascen são de uma aristocracia iniciática. pronta a ceder lugar a out ra na época seguinte 177. só não sabe por que.. pois a doutrina assim encontrada é apenas uma dentre muitas possíveis. ainda que filosoficamente respeitáveis. fortalecido pela disciplina do segre do. — Mais tarde. ao maçonismo guénoniano os argumentos de Mons. O mais irôni co de tudo é que o lado cristão está certo. a disciplina do segredo e a obediência a uma hierarquia secreta separam o iniciado do comum dos mo rtais. Illuminati da Baviera — nas fileiras da entidade. O grande reformador maçônico do século XX. Study of Freemasonry. de que a modernidade se ca racteriza pela democratização da vida política. para em seguida melhor combatê-la no campo dos argumento s lógicos. Esoterismo e democracia são termos a ntagônicos como segredo e difusão. Paul Sérant e outros adve rsários católicos de Guénon fogem para o terreno teológico e moral. na melhor das hipóte ses. a toda tentativa de con trole externo.. o corpo de membros da Maçonaria. o revolucionário itali ano Giuseppe Mazzini. transla ted from the French. manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo. não são metafisicamente válidos. As célebres objeções de Mons. em linha reta. cujo poder. da divisão e da suspeita que afeta a queles mesmos que o servem. aceito pela maioria dos teóricos há dois séculos. são constantes pelo menos desde o século XVIII 179. se de fato é assim. os ritos iniciáticos. tendo conseguido galgar altos postos na hierarquia dos Ill uminati. Antes de tudo. Dupanloup.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 151 e administrativa de uma Igreja é de um ridículo sem par. historicam ente. O secreto não age. onde se sentem abrig ados sob pressupostos de fé que. no entanto. O jogos de esconde-esconde entre sociedades secretas ant eciparam todas as práticas que no século XX seriam adotadas pelos serviços secretos es tatais. são inteiramente infrutíferos. pela eliminação progressiva do resíduo aristocrático. 1876. Dupanloup já nada têm a opor 178. Guénon preenche esse vácuo com a mais densa metafísica. é uma aristocracia. por exemp lo. A seleção rigorosa. 177 V. Ao contrário. por trás da variedade mirífic a das idéias maçônicas. às vezes até justo. então é totalmente falso o pre ssuposto. A aristocracia de sangue não é senão o resíduo multissecu . Bem. modelando a mentalidade dos fundadores do Império americano. Mas. encontrou a organização num estado de vácuo doutrinal. New York. estes sim. nem mesmo seus concorr entes da escola schuoniana — é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das “possibilidades de não-manifestação”. uma outra mais secr eta que a manipulava. e qu e. Daniélou quanto ao simbolismo da cruz mo stram apenas uma inferioridade de QI. há na organização uns quan os traços puramente formais e estruturais que.

Pensamento. cujos ritos e símbolos remanescentes nos permitem adivinhar as profundidades insondáveis do mistério espiritual que continham. I. Cap.lar de uma casta que no início recrutava os seus membros segundo critérios seletivos e triagens iniciáticas bem semelhantes aos da Maçonaria ou de qualquer outra socied ade do gênero. trad. Edilson Alkmin Cunha. 179 V. A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática. São Paulo. As ordens de cavalaria nunca foram simples organizações militares. . mas sociedades iniciáticas. 1979. Jean Palou.

sem perceber que as raízes dele já estão no berço mesmo do novo Império. de Tomás de Aquino a Benedetto Croce. é melhor enxertar aqui u m resumo daquilo cuja versão extensiva ele poderá deixar para buscar no outro mais t arde. Este é um dos raros pontos de psicologia e teoria do conhecimento em que não há q uase desacordo. Rio. um princípio est rutural. de um a vez para sempre. . Ela define-se pelos seguintes traços: 1ª Substituição das anti gas aristocracias de sangue pela nova aristocracia iniciática. não dirige o curso dos acontecimentos pela sua ação del iberada. d evo optar por esta última alternativa. Rodrigues. contrasta esse fenômeno com a ideologia igualitária reinante no século pas sado. quer compreendida ou não. 3ª Formidável concentração do poder do dom inador. mas como seria estúpido sugerir que o leitor do presente livro o abandonasse pela leitura de um outro. de seus noviços a ritos de iniciação. de cujos produtos se comporá em seguida o raciocínio lóg ico. ao assinalar o elitismo crescente na sociedade americana ( em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia. dos movimentos de protesto e da cultura da reclamação não abala no mais mínimo que seja o poder das velhas oligarquias. de Duns Scot a Etienne Souriau e à mais recente ciência cognitiva. que atua por si. demarca. Po is a Maçonaria. no meu entender. 1995 ). Para fazer-me compreender neste particular devo reexplicar toda a cadeia de absorções e projeções cognitivas que leva da simples estimulação sensível à memória. Resumindo: aristocracia de facto. O que possibilita que as coisas transcorram assim é uma ce rta característica inerente ao poder maçônico. o quadro inteiro das possibilidades de intelecção consciente do i ndivíduo. de Aristóteles a Jean Piaget. Talita M. mas uma gigantesca recicl agem da casta aristocrática. que. trad. com o tempo. tomando-o como uma novidade radical. a Revolução Francesa e o nascimento do Império Americano não marcam assim a extinção do poder aristocrático. de seus membros à prática de ritos regulares. pelo automatismo do hábito inconsciente e independenteme nte das inten180 ções de quem quer que seja. 2ª Caráter secreto ou p elo menos discreto do novo poder aristocrático. ou devo simplesmente remet er o leitor ao meu estudo anterior Uma Filosofia Aristotélica da Cultura? Claro. sobre a qual talvez nem mesmo os líderes e teóricos da organização hajam nunca parado para pensar.152 OLAVO DE CARVALHO O crescimento da Maçonaria no século XVIII. Fraternidade iniciática significa: sujeição de seus postulantes a uma seqüência de ritos preparatórios. Mas — atenção — ressaltar a importância da presença maçônica na constituiç ovo Império não é atribuir paranoicamente à ação da Maçonaria a autoria do curso da História Novo Mundo. O que acontece é qu e nem todos tiram dessas verificações as conseqüências óbvias que delas se seguem inapelav elmente. democracia de jure — uma combinação que só se tornou p ossível pela ampliação do papel desempenhado pelo secreto na vida política e social 180. Isto não quer dizer que não possa ser pensa181 Chistopher Lasch. o mundo de hoje. à ab ginativa. mas simplesmente sua presença na estrutura de poder do Império americano im pregna de um elemento de secretude e do espírito de um novo modelo de hierarquia s acerdotal a vida mental e política dos povos do Novo Mundo — impregnação esta que escapa totalmente ao controle da própria Maçonaria e se torna. não é fazer da Maçonaria o demiurgo invisível e onividente que move os cordões de tudo o que acontece. Rito significa: execução imitativa e corpora l de uma cosmovisão simbólica. não é aderir a nenhuma interpretação conspirativa da História. É essa reciclagem que inaugura propriamente os tempos m odernos. Ediou ro. onde a ampliação quase caricatural dos direitos populares. E é ela mesma que possibilita a evolução muito peculiar da nação norte-americana. à abstração eidética e finalmente ao discurso lógico. antes o fortalece. aliada a uma não menos formidável expansão dos direitos nominais do dominado. repetida. não é mesmo? Então digo logo: aquilo que os nossos sentidos colhem da variedade infindável do mundo é primeiro elaborado sob a forma da abstração imaginativa. Uma delas é a seguinte: aquilo que está fora do nosso círculo imaginário está for a do nosso universo conceptual 181. sobre a q ual e só sobre a qual — e não diretamente sobre os dados dos sentidos — pode em seguida operar-se a abstração conceitual. Que característica é essa? A Maçon aria reune a liberdade intelectual de uma sociedade de debates à rigidez e à discipl ina de uma fraternidade iniciática.

capto intencionalmente a essência de um ente real ( ou de um atributo real ). isto é. na . compreendido como real ( se não metafi sicamente. ao menos logicamente. cabe enfatizar a distinção entre os con ceitos e as meras definições nominais. em hipótese ). No conceito.No sentido em que aqui emprego estes termos.

em discussão: se todas as interpretações são válidas. Dervy-Livres. 1985. Paris. 1991. no sentido mais ri goroso da palavra. quan to mais liberdade de crença vigore ali dentro. qualquer que seja. Compreende-se portanto a extrema cau tela com que. II — fundamental para a compreensão do método de in terpretação simbólica que emprego neste e em outros estudos. de compartimentos que se ignoram. A solução foi guenonizar logo umas três ou quatro lojas e deixar o resto exatamente como estava. não corre o risco de entrar. será pensado como mera forma lógica. que tem todas as vantag ens em permanecer implícito. nem da nossa vontade: depen de das formas profundamente consolidadas do nosso universo imaginário. conse rvando seu arsenal simbólico sob a proteção de uma impenetrável névoa doutrinal. Ela s não imitam o modelo orgânico. Nosso senso do real não depe nde nem das nossas percepções. nem dos nossos raciocínios. Nova Stella. Rite and Art. 1948. está a salvo de qualquer con testação: na medida em que permanece ambígua o bastante para poder admitir todas as in terpretações. se existe. de crítica. só se usam definições nominais. que governam o imaginári o na meia-luz do implícito e do pressuposto. Uma organização que timbre em defender um dogma explícito não tem outro remédio senão explicitá-lo — e os sentimentos difusos. apenas a intenção signif cada por uma palavra. A Maçonaria resguardou-se desse risco. Mentor Book. perdem todo o seu mágico poder no insta nte em que se expressam na clara linguagem dos dogmas: pois a partir desse insta nte tornam-se objetos de raciocínio. Ora. 1960 ). mais eficaz será esse controle. independentemente da realidade ou irrealidade da coisa ref erida. todas já estão neutralizadas de antemão. meçam a pulular as oposições e as heresias. pp.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 153 do. a Titus Burckhardt ( Principes et Méthodes de l’Art Sacré. pode continuar integrada no conjunto: a s sociedades secretas compõem-se. Gallimard. Paris. se me perguntam como é possível que gerações e gerações de homens intelectualmente dotados consintam em viver sob o domínio de . 183 Sobre a analogia. hierarquizado e integrado dos corpos animais. já que tem pleno domínio sobre o seu imaginário. 182 V. Solução tipicamente maçônica: se você concorda com Guénon. pela dialética de sua própri a busca de sobrevivência. Paris. método que deve muito a René Guénon ( Symboles de la Science Sacrée. uma inteligente ilustração deste ponto em: Níl son José Machado. Ora. Estudos Avançados ( USP ). que só têm em comum o fato de serem alimentadas pelo sangue de um mesmo corpo. lá dentro p ode-se discutir tudo. Na verdade. 1962 ). Contribution à l’Étude des Principes et des Méthodes de la Symbol ique Générale. e Ensaios Filosóficos. entre afetações de homenagem. codefinição nominal. a mãe daquilo que se chama senso do real. e a Susanne K. não tem necessidade de controlar as opi niões de seus membros. em suma. para os fins da presente investigação. A facção dissidente. muito antes. por definição. um símbolo: uma semente produtora de significados múltiplos mas a nálogos entre si 183. 79-100. sequer. mas estas não basta m para a teoria do conhecimento. meu ensaio “A dialética simbólica”. mas a doutrina maçônica. signifi ca automaticamente isolamento (os membros da loja dissidente não frequentam mais a s outras lojas) e isolamento significa: impossibilidade de um confronto direto. New York. Em lógica simbólica. “A alegoria em matemática”. do Islam e. 1977 ). de assentimento ou discordância intelectual. São Paulo. cada i magem depositada na nossa memória ou produzida na nossa imaginação é. as sociedades secretas. trad. dando-lhes uma imponente solidez doutrinal. aí. Isto foi bastante evidente nos casos da Igreja Católica. A ima ginação é. Cultrix. se for pensado. sem correspondência ao menos próxima com aquilo que entendemos como realidade 182. Quer dizer apenas que. do hinduismo: quando à linguagem polissêmica dos símbolos se começa a substituir o discurso unívoco das formulações doutrinais. porém o crescimento de tumorações variadas e independentes. a René Alleau ( La Science des Symboles. quanto mais frouxa e menos dogmática for a doutrina da organização. é o seguinte: uma sociedade iniciática. 1971 ). por exemplo. isolada assepticamente. Cap. O resultado. A Study in the Symbolism of Reason. Jamir Martins. Langer ( Philosophy in a New Key . São Paulo. alimentam as dissidências e as cisões: porque cisão. ent ra numa loja guénoniana. 5 (13). O guénonismo tornava as idéias maçônicas intelectualmente respeitáv is. em Astros e Símbolos . v. Mas tudo o que é sólido está sujeito a receber porradas. os maçons do século XX receberam a contribuição doutrinal de René Guénon. Payot. vai simplesmente para outra loja. Ao contrário das grandes organizações dogmáticas. se discorda.

respondo que isso não é mais esquisito do que o fato de consentirem pert encer a uma sociedade cujos altos escalões são ocupados por personagens cuja identid ade permanece secreta. por qu e não aceitaria também o jugo de uma doutrina incompreensível? . das ciências e da política foram maçons —. Quem consente em ser dirigido por um desconhecido.uma névoa entorpecente — alguns dos maiores gênios das artes.

São maçons os conservadores. a uma casta governante. t. atribuir à Maçonaria a responsabilidade pelos movimen tos revolucionários. a mais óbvia: é o medo. Logo em seguida. se d eram conta das implicações mais óbvias desse ritual. e onde. um homem jurava ob edecer ordens emanadas de fonte secreta. o advento do gove . Octávio Tarquínio de Souza. mas em certas horas seu jugo deve ter parecido mais suave. 1957 ). Da lealdade corporativa à disciplina do arcano há menos que um passo: pela salvaguarda do próprio pescoço. com uma identidade dupla. por exemplo. elevado rapidamente à condição de Grão-M stre. quando a aris tocracia em peso achou que dentro da Maçonaria podia encontrar um abrigo seguro co ntra as tempestades que se aproximavam: o próprio Luís XVI submeteu-se aos ritos e j uramentos 184. ) A mesma ambigüidade nota-se na atuação da Maçonaria quando da formação do Império do Brasil. E governo maçônico quer dizer o seguinte: todos os onflitos abertos. ma s sem dúvida ela merece atenção. talvez mais que a da nobreza ou a do clero. também são maçons o rei e toda a sua corriola. que consti tuem a pulsação mesma da vida democrática. e. de outro. ( V. Pairando invisivelmente sobre todas as forças em luta. com a sua disciplina do arcano. Não sei o que pensar dessa tese. quando o Brasil imitar o exemplo norte-americano e proclamar sua independência da Europa. são maçons os tadores republicanos. II Cap. é fácil compreender que nessa corporações. é o desejo despropositado de se gurança (forma larvar e passiva do desejo de poder) que move os homens a submeterse a esse gênero de coisas. indefinida e elástica o bastante para comportar todos os arranjos e acomodações — do que a sua inv isibilidade. José Olympio. conciliando ou dividindo. do mes mo modo que a Igreja medieval não se comprometia em conflitos dinásticos: sua função é ecl esial. todos os líderes revolucio nários pertencem à organização. Historia Universal de las Sectas. e em seguida boicotado pela Maçonaria mesma e levado à abdicação. é maçom o Imperador. influencia decisivamente o curso das coisas. estimulando. a situação de facto é: governo maçônico. Como a Igreja. Hiram. cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. III Caps. no fim das contas.154 OLAVO DE CARVALHO A resposta é. ela dá nascimento a uma aristocracia. não havendo oficialmente religião protegida pelo Estado. De um lado. cujas divergências se erguiam sobre o fundo comum de um pacto de lealdades secre tas. ela é o verdade iro “poder moderador” — a autoridade espiritual que acolhe em seu seio maternal os par tidos em disputa e unge a fronte do vencedor com o óleo bento da legitimidade. Isso aconteceu. democrática encobre e disfarça a luta interna no seio de uma nova aristocracia. A mão das organizações secretas sempre foi pesada. Se é verdade que a M açonaria se originou nas corporações de ofícios da Idade Média. XXIV e XXV. não são senão a exteriorização de divergências nas e elaboradas dentro da Maçonaria. ensinando. às vésperas da queda do Antigo Regime na França. todas as disputas políticas travadas diante do público. a vida parlamentar do Império não consistirá de outra coisa senão de debates entre maçons . ela assumiu definitivamente sua vocação revolucionária. Jean Charles Pichon julga que. a partir do momento em que a Maçonaria introduziu em seu s ritos a matança simbólica do “pai dos arquitetos”. defender até à morte os segredos da organiz ação. Muito mais que o Imperador. como um espião. nem a maioria dos maçons até hoje. Pedro I é convidado a entrar na organização. não real ou imperial. Esse medo não é de todo despropositado. Quaisquer que fossem as intenções de seus fundadores. XIII. op. XIII. seguida de sua ressurreição. e viver entre os demais homens. portanto. a Maçon aria sai vencedora em qualquer hipótese. O que a diferencia da Igreja é menos a sua ideologia — vaga. sobretudo t. ma s que nem os personagens de destaque na época. são maçons os liberais. e equilibrando enfim — ao menos idealmente — o movimento do conjunto. A espuma 184 O papel da Maçonaria na Revolução é bastante ambíguo. sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo 185. É um simplismo grosseiro. orientando. Cap. Pedro I ( Rio. construtor do templo de Salo mão.. o homem do povo encontrava a proteção de u ma força capaz de intimidar nobres e clérigos. A Vida de D. V. cit. Mas os Estados Unidos são o primeiro país cujos governantes são todos o u quase todos maçons. para sempre. porque ela não se compromete com aqueles a quem auxilia.

Daí por diante. a democratização progressiva das instituições. ansiosos como estavam por denuncia r por trás de todos os eventos um maquiavélico dedo maçônico. que neutral izará os efeitos da democratização para reduzi-la a pouco mais que uma distribuição de doc es para aplacar criancinhas zangadas. que é o aspecto mais patente da evolução política mundial. . correrá parelha com o aumento incalculável da influência das org anizações secretas.rno maçônico nas Américas abre uma nova etapa na História do mundo: a era do segredo. sobretudo das organizações estatais secretas do século XX . que os defenso res da teoria da “conspiração maçônica” nunca enxergaram. 185 Sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo: distinção capital.

Essa foi a origem da Máfia. não se encontrarão em nenhum a outra época ou civilização coisas como a CIA. o centro foi fechado. então não se justifica o desprezo dos h istoriadores e cientistas sociais por esse fenômeno. da vida sexual etc. bem como das tríades chinesas. f inalmente. a espionagem industrial general izada. Medical Torture and the Mind Controllers. bem c omo na Revolução Francesa e no desenrolar das mutações políticas e ideológicas ao longo do sé ulo XIX um capítulo que permanecerá demasiado obscuro enquanto se enfocarem essas so ciedades como meras forças políticas secretas. a convicção generalizada. s/d ). 188 Que intelectuais maçons ou pró-maçons sejam . Corgi Books. Mas. oferecendo seus préstimos: Thomas foi encontrar um deles no Líbano. Allen Dulles. trad. os milhares de seitas que hoje vinculam uma boa parte da população mundial a pactos de lealdade confidenciais.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 155 Dizer “uma nova etapa” não é exagero: por mais que se procurem. De outro. eis um fenômeno que não é nada novo na Histór ia. Os historiadores raramente mostram sensibilidade para o ineditismo desse fenômeno. De um lado. Guimarães. incutida pela ideologia democrática. sem precedentes. que nem a Maçonaria ne m qualquer outra organização poderia jamais controlar. e a invisibilidade é o fermento que o faz crescer mais ainda 18 8. os serviços de “inteligência” ultrapassaram muito o campo das i nformações militares para abranger toda a vida social e psicológica das nações. É ev idente que o advento do governo maçônico constituiu nada mais que o estopim a desenc adear um processo de secretude crescente em escala mundial. se tudo isso é claro. cresceram ao ponto de se tornarem virtualmente incontr oláveis. O que é inédito na História do mundo ( com a possível exceção da “Ordem dos Assassinos” no Oriente islâmico ) é a extens do poder dessas organizações e o fato de que seus principais opositores são também organ izações secretas. O Ofício de Espião. qu e é uma das marcas diferenciais do século XX em relação a toda a história anterior 186. e que nestas origens se en contra a participação das sociedades secretas na formação dos governos americanos. den unciado no Congresso. De outro lado. Lisboa. Mas também é certo que não se pode compreender esse processo sem remontar às suas origens. não é de mold a propiciar nenhuma valorização dos fatores secretos e os intelectuais não estão imunes a essa crença. sem ter em conta o caráter específico da sua atuação. a KGB. é claro que não se pode nem de longe entender fenômenos como o do atual banditismo organizado sem referi-lo ao quadro geral disso que chamei secre tude crescente 187. da força dos fatores secretos na produção do acontecer histórico. 187 186 O mesmo não se pode dizer dos personagens envolvidos. mas os profissionais lá treinados se e spalharam pelo mundo. invadindo os tensivamente a esfera dita “privada” ( v. reconhece muito pertinentemente a diferença abissal de escala que separa os modernos serviços secretos de tudo o que até o século XIX se conhecia co mo “espionagem”. estas de cunho estatal. no mais das vezes de ordem supra-política e propriamente sacerdotal. e outros tantos fatos que assinalam uma ascensão . servindo à organização terrorista que sequestrara um funcionário americano e o tor turara para extorquir informações. penetrando até mesmo na intimidade dos costumes familiares. Num dos documentos mais impressionantes já publicados a respeito ( Journey into Madness. Que sociedades secretas de objetivo originariamente iniciático e sacerdotal se tra nsformem depois em quadrilhas de bandidos. de qu e a História do mundo evolui no sentido da crescente circulação de informações. 198 8 ) conta de um centro de treinamento de torturadores médicos criado pela CIA. que foi direto r da CIA por décadas. E. Não se justifica. portuguesa. London. mas se explic a: o papel do secreto na vida política ampliou-se de tal maneira que ultrapassa as possibilidades imaginativas do homem comum e penetra naquela zona de improbabil idade que raia a ficção e o impossível puro e simples: seu próprio crescimento desmesura do tornao invisível.

inconsc ientes de sua ação no mundo. o qualificativo de cie ntífico. Há uma diferença profunda entre influenciar e diri gir. temporariamente usurpado pelo dogma da cegueira metodológica obrigatória. o manipulador. no qual as entidades esotéricas acabam por se tornar. . não sendo nem maçom nem antimaçom. Enfim. elas mesmas. é o mais manipulado de todos. e a ideologia “científica” que omite completamente a influência delas ( exceto quando reduzidas a inócuas “forças políticas” sem peso específico ). 233 .os primeiros a lutar pelas interpretações materialistas e sociologizantes da História. de pleno direito. Da minha parte. elas se utilizariam de hordas de intelectuais céticos e materialistas como de um muro protetor para garantir a sua invisibilidade. pela exclusão de todo fator espiritual na explicação histórica exclusão que a fortiori le va a omitir também toda interferência específica das sociedades iniciáticas na produção dos fatos . segundo a qual as sociedades secretas dirigem o curso da História. de modo a poder manipulálos com a ajuda deles mesmos. eis aí algo que poderia tentar-nos a endossar a teoria conspiratória. vejo nesse fenômeno antes um “efeito a vestruz”. segundo a qual essas sociedades dirigem conscientemente a trajetória do mundo pelo hábil ma nejo do segredo: impondo como “científicas” exclusivamente aquelas interpretações que as o cultam. Ess e meio-termo é precisamente o que estou buscando nestas páginas. citado na p. é indício eloquente de falta de consciência histórica. Que a Maçonaria assuma como suas certas ações que lhe são imput adas por seus adversários v. Entre a teoria conspiratória. se ex iste. deve haver lug ar para um sensato meio-termo que mereça. o comentário de Guénon ao livro de Lantoine.

ignorantes de toda mística autêntica. deu de revirar toda a literatura filosóf ica Ocidental. meio impostor . A regra geral nesses casos é a absoluta inermidade do “intelectual” moderno ante a “mão noturna” que o guia. entre os quais se encontravam não poucas celebridades das letras e das ciências. ordenando-lhe. Foram comidas pela esfinge. os “espíritos” puseram um fim aos seus tormentos. do mesmo modo que muitos dos t emas da poesia e da ficção constituem traslados quase literais de ritos e símbolos de organizações esotéricas e pseudo-esotéricas. por exemplo. que.. destituídos de fontes históricas reconhecíveis. seja sob o impacto mesmo de experiências pessoais traumáticas. Todos os escritore s. O próprio Yeats não entendera absolutamente nada da “mensagem”. Contemporâneo de Gurdjieff. afetar o curso das coisas. os historiadores e cientistas sociais tendem à indiferença olímpica. acabou por se tornar o porta-voz mais intelectualizad o da concepção conspirativa da História 189. nas obras de Mohyieddin Ibn-Arabi. disse-lhe ter recebido dos espíritos uma misteriosa mensagem cifrada. que expunha. pois a obra pareceu aos críticos. ampliando fantasiosamente o poder das soci edades secretas ao ponto de fazer delas o demiurgo invisível da História. do alto de seu conhecimento quase divino de leis históricas supostamente impessoais e objetivas. em busca de explicação. em nova mensagem. os literatos ao deslumbramento misticóide. Mencionei lá atrás o domínio tirânico que George urdjieff exercia sobre as mentes de seus discípulos. por incapacidade de decifrál a. sentia-se meio sábio. incapazes de elaborar intelectua lmente suas experiências mas sempre dispostos a lhes dar algum tipo de expressão mis tificatória.. Yeats não soube se sua Vision era verdade ou ilusão. Seja sob a forte impressão de leituras mal digeridas. cientistas que tiveram contatos mais próximos com gurus misteriosos e s ociedades secretas saíram traumatizados e atônitos. influen ciado desde a adolescência por um seguidor dos Illuminati da Baviera. trazer con hecimentos esotéricos de insondável profundidade. reduzidas à condição de crianças atônitas nas mãos do poderoso mistificador190. que era médium. O “ciclo da perso nalidade” não é senão uma aplicação particular da processão dos Nomes Divinos divididos. impressionado. ao invés de confiar-se ceg amente a “ensinamentos espirituais” de origem mais que duvidosa. mas dando-lhes interpretações simbólicas. Um exemplo desta última atitude é Shelley. ora mistificando-os. a intelectualidade moderna mostra uma completa inépcia ao lidar com esses assuntos. Sua esposa. Muitos dos monstros e vampiros que povoam a literatura do Ocidente no s dois últimos séculos a começar pelo mais célebre de todos. Aleister Crowley semeou o desespero e o terror entr e os jovens intelectuais portugueses que se colocaram sob sua influência no começo d o século Almada Negreiros. Atordoado. só podiam ter sido inspirados do além. poetas. Fernando Pessoa. Até o fim da vida. Yeats. o Frankenstein de Mary Shel ley são personificações veladas de sociedades secretas.156 OLAVO DE CARVALHO De modo geral. como Edmund Wilson. veladas e subjetivistas. Wil liam Butler Yeats (1865-1939) era leitor de Madame Blavatski e frequentador de cír culos “ocultistas”. ora afetan do uma superioridade blasée que. Atormentava-se entre dúvidas insolúveis. no seu entender. no mbolismo astrológico. Até um escritor de notórias simpatia s marxistas. Foi debalde. mas depois de três anos. pelas 28 casas lunares que dá origem à 190 191 . não desce ao exame de miudezas “esotéric as” que em nada poderiam. e embriagado depois pela alucinante mistura de fatos e ficções com que o Abade Barruel compusera sua célebre sopa anti-maçônica. ficou embasbacado191. capazes de excitar morbidamente a imaginação popular sem nada esclarecer quanto à natureza do fenômeno. O episódio teria sido levado a melhor termo se o poeta. que. Como que num pacto destinado a bloquear por dois lados o acesso a uma compreensão real do assu nto. compôs com essas imagens A Vision (1926): o impacto foi gran de. Mário de Sá-Carneiro. tivesse ido estudar os clássicos da mística oriental. A explicação completa do “ciclo da personalidade” poderia ser encontrada. que parass e de estudar o assunto. muitos esc ritores modernos divulgaram a existência e a atuação de forças secretas. sob a forma simbólica de um ciclo lunisolar de 28 dias o conjunto de todas as formas possíveis da personalidade humana.

189 V. Cultrix. II. 2º ed. The Autobiography of John Bennet. brasileira de José Paulo Paes. V. 1931. Cap. Paul Johnson. . São Paulo. O Castelo de Axe l. Scriber’s.. Witness. trad. I. John Bennett. Os Intelectuais. New York. 1985. Cap. V. Axel’s Castle.

Um autor de nome Ernest Scott. Archè. Suponho que coisas análogas poder iam dizer-se de Stephen King e Colin Wilson. o nde não há mistério. às quais atr i erroneamente uma origem “celeste” e às quais presta um culto supersticioso. John Bowen e L. Sua história nada edificante foi pu blicada na revista Encounter de maio de 1955. guardada a sete chaves num mosteiro subterrâneo do Oriente193. Ele cita em particular o caso de John Fowles. Cap. sob a g uarda 192 Cf. O caso é narrado em detalhes na biografia de Graves por Martin Seymour-Smith195.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 157 manifestação cósmica e se repete. Pesquisas empreendidas por dois filólogos. à mercê de “influências psíquicas” que não pode compreender nem dominar. é claro no que se c onsidera a maior fraude literária do século: uma nova tradução do Rubayyat de Omar Khayy am. cujos enredos francamente paranóicos. terminando por sentir-se um misto de otário e vigarista. P. ao reproduzir trechos de um clássico tibetano que lera em tradução alemã. de uma automistificação voluntária. se fez de donzela ofendida e morreu sem ter dado o b raço a torcer. Holt. His Life and Wo rk. chega a declarar expressamente que essa e outras entidades “eso téricas” gostam de “apoderar-se das mentes” de intelectuais e envolvê-los em situações persec tórias que os levarão ao desespero196. 195 Robert Graves. preferiu di zer tê-los encontrado na cópia única. pp. III. Mas esse sucesso é obtido a través de uma diminuição de consciência. Robert Graves. advertido de que estava s endo usado para uma fraude. É precisamente por meio de intelectuais e escritores que organizações esotéricas e pseu . é preciso fabricar um. O lado mais deprimente dessas histórias é que os intelectuais ludibriados se sente m mais ou menos como mulheres estupradas. As histórias de artistas e intelectuais manipulados psiquicamente e f eitos de palhaços por pseudo-mestres espirituais no século XX formam um tremendo req uisitório contra a presunção da intelectualidade moderna. Fizeram isso porque a força do dominador psíquico reside no mistério e. nas mãos do “gozador cósmico” Omar Ali Shah194. Le Théosophisme. I. Clé Spirituelle de l’Astrologie Musulmane d’après Mohyid-din Ibn-A rabi. Chap. provavelmente também de Doris Lessing . Rinehart & Winston. Elwell-Sutton. 193 V. The Collector e The Magus197 foram inspirad os nesse tipo de experiências. Titus Burckhardt. por que simplesmente não lhe deram par a ler uma tradução de Ibn Arabi ou de algum dos outros muitos místicos islâmicos que tra tam do assunto? Por que tiveram de transmitir o ensinamento para uma médium em tra nse. porta-voz talvez pseudônimo da organiz ação de Omar Ali Shah. pretensamente baseada num manuscrito inédito que estaria. Graves. Fowles não desmentiu. O caso revela a triste condição do intelectual e uropeu. e sem verdadeira fé. Se os gurus de Yeats queriam lhe ensinar isso. ajudando assim a dar às proezas de seus algozes uma aura de prestígio mágico. da família Shah no Afeganistão. Histoire d’une Pseudo-Réligion. 1982. desde séculos. no microcosmo da alma humana192. orgulhosa porta-voz de uma épo ca que se julga o apogeu da autoconsciência humana. Humilhados no seu ponto de maior orgul ho a inteligência . Milano. Ninguém nega que a experiência de colocar -se sob o domínio de uma mente maligna pode dar às fantasias literárias de um escritor um atrativo misterioso e contribuir para seu sucesso. feito de temor e suspeita. analogicamente. decerto mais hipnótico do que espiritual. omitindo as fontes e rodeando o ens inamento de uma aura misteriosa que só poderia servir para confundir a ela e ao ma rido? A resposta é simples: fizeram isso pelo mesmo motivo com que Madame Blavatsk i. Prefere m aludir ao assunto de maneira indireta e simbólica. Graves foi induzido a colaborar como inocente útil. 1978. que era o seu guru. Um dos mais deprimentes capítulo s dessa epopéia tragicômica foi o destino de outro grande poeta inglês. que se torna mai imoral ainda na medida em que vai contaminar leitores e espectadores inocentes. mostraram que o vetusto manuscrito não existia e que a trad ução que Shah transmitira a Graves para que a pusesse em versos era simplesmente um plágio de uma adaptação norte-americana do século XIX. René Guénon. Dominado psiquicamente por Shah. raramente ou nunca admitem que foram feitos de idiotas. 194 Omar Ali e seu irmão Idries formam talvez a mais famosa dupla de farsantes espirituais da Inglaterra. 555-558.

. o segundo com Ant hony Quinn. Ernest Scott. Não deixa de ser curioso que aqueles mesmos intelectuais que 196 197 V. Ambos de pois filmados. o primeiro com Therence Stamp e Samantha Eggar. 1983.do-esotéricas exercem sua influência sobre toda a sociedade uma influência que afeta a ntes os estratos profundos da psicologia coletiva do que a superfície da História po lítica. London. The People of the Secret. Octagon Press.

os traumas de experiências interiores induzidas po r guias espirituais malignos acabam se transformando em literatura mistificatória. Mas será possível que a casta intelectual inteira este ja comprometida com a mentira e o auto199 198 V. maçom ou rosacruz enrustido. t rad. como o leitor bem está vendo por estas páginas. historiadores e cientistas sociais muitas vez es é uma simples cumplicidade consciente na manutenção de um segredo com que se compro meteram mediante juramento. expurgou o texto de todos os elementos astrológicos e esotéricos. Com a exceção provave lmente única de August Strindberg. a afetação de ind rença superior por parte de filósofos. Pratic amente na totalidade dos casos. Inferno. em regra geral. e se envolveram numa aura de tagarelice retórica r epelente. 200 Minhas investigações pessoais a respeito do fenômeno da secretude crescente estão longe de ser totalmente conclusivas. 199 5 ). August Strindberg. No entanto é verdade. não se dêem conta de que o único poder efetivo que elas exercem é precisamente aquele a que servem de instrumento: o poder de moldar o imaginário social. é que há nela um elemento de histrionismo. a afetação de indiferença por parte daqueles que só co nhecem o assunto de longe não tem como deixar de parecer uma jactância adolescente. à direita. que um potente desestímulo ao estudo dessas questões vem do fato de que elas foram abundantemente enfatizadas de manei ra unilateral por autores comprometidos ideologicamente com certas alas extremis tas. aludindo aos acontecimentos de maneira velada e encobrindo-os de uma aura simbólica atraente e autolisonjeira. que. quase sempre mais comprometidos com a busca do poder e do autoengrandecimento do que com qua lquer investigação da verdade201. Sempre que um estudioso acadêmico franze o nariz a os assuntos nte esotéricos em nome de um pretenso rigor científico. a inermidade dos intelectuais contemporâneos ante os fabricantes de segredos. Mas se os literatos servem a or ganizações secretas por uma deleitação masoquista na escravidão voluntária. para dar às sua s conclusões a aparência de terem sido obtidas por meios exclusivamente “científicos”. atribuindo às sociedades secretas um poder demiúrgico ine xistente. a mais elementar pr ecaução recomenda certificar-nos de que não se trata de um esoterista. Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial. Pois um verdadeiro rigor científico não se faz de superior a nenhum assunto. Quando a pose se torna enfática demais. Diante de tantos e tantos c asos que mostram a passividade atônita. provavelmente um fingimento consc iente199. como Léon de Poncins. os intelec tuais que fazem a cabeça do mundo moderno são tipos bem pouco confiáveis. os intelectuais amedrontados por pseudogurus acaba m por virar discretos apologistas de quem os atormenta. Carlos Eduardo Jordão Machado e Luiz Arturo Olojes. que denunciou corajosamente o mistifório teosófico1 98 que o levara quase à demência. na hora de divulgar o mesmo estudo em livro ( A Sociedade Informática. à esquerda cada um denunciando as sociedades secretas dos outros . só serve para deixar o público naquele estado de dúvida temerosa que logo se transforma em atração e vulnerabilidade. Brasiliense. um intelectual que tivesse tido contatos com sociedad es secretas elaborasse essa experiência de uma maneira intelectualmente digna e es crevesse sobre elas de maneira a esclarecer o público. maçom. Mas não está na hora de pelo menos alguns estudiosos proclamarem sua indep endência de compromissos ideológicos (ou mesmo de lealdades secretas) e começarem a in vestigar a sério aquilo que talvez nenhum dos poderes deste mundo gostaria de ver investigado 200? Se tantos podem mobilizar o melhor de sua energia intelectual p ara encobrir certas realidades. que se pavoneia para exorcisar um medo invencível. por que nem mesmo uns poucos poderiam dedicar-se ao empenho de desocultá-las? Paul Johnson mostrou que. ocultista. e sobretudo não consiste em poses. ao l ongo dos últimos dois séculos. marxista arrependido. Mas . por outro lado. ou Ivan Maïski. São Paulo. Exemplo: Adam Schaff. publicou numa revista maçônica uma análise histórica baseada em métodos astrológicos.158 OLAVO DE CARVALHO difundem visões fantasiosas. Foi muito raro que.

por não se sabe quanto tempo. uma coisa no entanto é certeza absoluta: não podemos compreende r o curso da história contemporânea sem fazer essas perguntas.aqui não se trata de dar respostas prontas. 201 V. por mais que suas res postas devam permanecer. . op. na esfera das conjeturas ou da mera probabilidade razoável. o fato de não conhecermos ainda em d etalhe todos os enlaces causais que levam das origem do processo até seu estado pr esente não pode impedir-nos de admitir que alguma ligação tem de haver entre as duas c oisas. De outro lado.. se não tenho respostas senão em germe e se os germes ainda germina m no ventre da dúvida. cit. Pois. Paul Johnson. e sim de protestar contra a indiferença às perguntas.

ela é a liquidação do poder político das religiões. ao contrário d o que aconteceu na Suécia e na Holanda. não havendo unidade religiosa. onde uma corrente — luterana na primeira. dividindo os intelectua is entre os que se dispõem a buscar a verdade sobre o assunto e aqueles que prefer em mistificá-lo ou fugir dele. E. em primeiro lugar. sem traumas. à corrente dominante: a Revolução americana. mas mentem. acabou por ass imilar várias características da socialdemocracia. Todas essas revoluções passaram. o p rotestantismo norte-americano. com todo seu vistoso cortejo de morticínios. § 30. a Dinamarca. para falar só das maiores —. ao colocar-se aci ma das religiões.: 3:9. o único que foi assimi lado integralmente. Mas. tendo de ser extra-rel igiosos. Mas. de vez que o Estado. nada mais são que a créscimos periféricos e notas de rodapé. o tem a das sociedades secretas pode servir de pedra-de-toque. sob o impacto do pluralismo democrático. Talvez a resposta só venha dentro de muitas gerações. Em segundo lugar. fragmentase numa infinidade de seitas que não podem ser reduzidas à unidade de uma hierarquia religiosa que imite a da Igreja Católica. porque os el ementos democráticos e igualitários da ideologia norte-americana que se espalharam p elo mundo puderam. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (II) “Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás. Ora. que dizem que são judeus. e a parte de seu legado cultural que não se dissipou em fumaça terminou por incorporarse . Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis” ou que as coisa s são em essência aquilo em que enfim se tornam. a Espanha 202. que em princípio não pode interferir em nada nos negócios públicos. de radicalismos ideológicos. e não o são. ca lvinista na segunda — toma logo a dianteira para unificar religiosamente o país. O republicanismo? Não. República protestante vai sig nificar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 159 engano. os Estados Unidos são uma República protestante. Estado sem religião oficial. as dife rentes seitas têm de aprender a conviver e a concorrer em pé de igualdade no mesmo t erritório sob a proteção de uma mesma autoridade civil que permanece indiferente às disp utas religiosas e equidistante de todas as confissões. de experimentos econômico-administrativos extravagantes. literalmente e sem alterações por todos os países do mundo foi o p rincípio do Estado leigo. os Estados que f undaram ruíram com fragor ou derreteram-se melancolicamente. A revolução que isto representa na estrutura mental da humanidade é tão profunda. como a Inglaterra. O capitalismo liberal? Também não. em última instância: Estado leigo. a Holanda. da Rússia ou da China. que o cum primento ou não de um mandamento religioso passa a ser um assunto da esfera privad a. um sacerdócio do falso? É cedo para res ponder. que ela componha. através da expansão do assistencialismo estatal. e visto que a subsistência de uma ar istocracia maçônica associada de perto a uma oligarquia econômica é um dos pilares mesmo s do sistema norte-americano. a implantação mundial do Estado sem r ligião oficial203. que toda lei religiosa cessa de ter qualquer validade ou obrigatoriedade pública. a Revolução Americana só é democrática. ser incorporados por antigas monarquias tornadas constitucionais. porque o próprio sist ema norte-americano. acabam por ser supra-religiosos. que perto dela as re voluções seguintes — da França.” APOC. quando lhe interessa. sem grandes choques. Que é que isto significa? Significa. que os critérios éticos que presidirão à vida social. qual o legado dessa Revolução ao mundo? A democracia? Não pode ser. na sua totalidade. de novas modas cul turais. Dos vários componentes da ideologia revolucionária norte-americana. em seg undo lugar. visto que ela convive perfeitam ente bem com ditaduras. por enquanto. Significa. tão vasta em suas conseqüências. se torna o árbitro das suas disputas. e julga sem 202 . Os Estados Un idos são o primeiro Estado professadamente areligioso — no sentido etimológico: a -gnóst ico — que se conhece na História do mundo. repu licana e liberal-capitalista de modo secundário e mais ou menos acidental: em essênc ia.

203 V.E não se esqueçam. comentou que havia caído do governo o único autêntico líder repu blicano da América Latina. adiante. de que quando expulsamos Pedro II o presidente dos E UA. Theodore Roosevelt. . brasileiros. notas 222 e 238.

deixou o povo judeu inerme e s onso ante o avanço da ameaça nazista. dissolvendo os laços da solidariedade milenar que havia defendido a comunidade judaica contra toda sorte de perseguições. a extinção da religião como princípio organizador da conduta humana. desejando-as aliás ardentemente. uns anos antes. 1971. “todo privilégio religioso em geral deverá ser suprimido. mesmo porque “declarar que a lei do sabbat não tem mais um caráter obrigatório para o judeu será o mesm o que proclamar a dissolução do judaismo” 204. Marianna Simon. só para ter de socorrê-lo às pressas ex post facto c om o auxílio do dinheiro norteamericano? É de espantar que a própria organização do socorr o às vítimas do nazismo reforçasse formidavelmente o movimento judeu-leigo. a criação e um novo tipo de fenômeno espiritual que. vox Dei. e se alguns ou muitos ou mes mo a maioria se crêem inclinados a cumprir certos deveres religiosos. dessa forma. Quem percebeu essas conseqüências com muita cl areza. No Estado leigo tal como desejado por el e. as técnicas de relaxamento. a extinção da religião como tal. de vez que toda obediência a princípios relig iosos só é possível na medida em que o Estado a permita e em que não entre em conflito c om as leis civis. Onde não há mais religião privilegiada. passando a buscar apenas a sua ema ncipação de cidadão.. para não deixar que sua lei religiosa o impeça de cumprir seus deveres para com o Estado. foi Bruno Bauer. acabasse por fortalecer entre os judeus do Ocidente inteiro um es pírito de mundanismo e “modernismo” que já os vinha contaminando gradativamente desde a Revolução. e que.160 OLAVO DE CARVALHO ser julgado. a o expandir-se. logo se fund irá indistintamente com a psicoterapia. — se por exemplo ele se dirige num sábado à Câmara dos Deputados e toma parte na s deliberações —. a rigor e a long o prazo. a bem dizer. Id. ibid. não há religião nenhuma. É de espantar que. em Karl Marx. culminando com a formação de um Estado onde a comunidade religiosa não ultrapassa hoje três por ce nto da população e está submetida a toda sorte de constrangimentos e humilhações nas mãos do s modernizantes e ateus? Ou que. encarnado na “vontade popular”: vox pop uli. nem força nem p . circunscrito à vida privada. Não é realmente estranho que um movimento mundial capaz de conquistar um território a bala e fundar nele um Estado não tivesse. p assim. “não pode permanecer judeu na vida pública senão sofisticamente e em aparência. perdendo o 205 206 Também não escaparam a Bauer as conseqüências que essa mudança teria para os próprios judeus : desistindo de buscar a emancipação do judaismo. Paris. um doutrinário que odiava o judaismo como odiava todas as religiões. A vitória da “Teologia civil” não podia vir sem trazer junto uma “espiritualidade civil”. esse cumprim ento deve ser deixado por sua conta como um assunto puramente privado”. o movimento para a implantação de um Estado leigo jud eu logo perdesse toda conexão com as tradições religiosas e passasse mesmo a ser chefi ado por pessoas de origem judaica contrárias ao judaismo? Ou que esse movimento. ele quiser permanecer judeu. trad.” 205 Mas isto representaria. sem prestar satisfações senão a Deus. a religião judaica tivesse de pagar a conta dos desvarios cometidos por seus adversários206? Que. François Châtelet. Aubier. Édition bilingüe.” “O judeu . a aparência se tornará o essencial e triunfará. em terceiro e consequente lugar. os clubes de enc ontro e todos os outros sucedâneos de “vida interior” que a nova sociedade puder criar para a satisfação privada de seus membros. o judeu 204 Cit. o fim da religião. somadas. À propos de la Question Juive ( Zur Judenfrage ). se. introd. representam. a total desautorização da lei religiosa. Significa. precisa ter cessado de ser judeu. pp. nessas condições. Mas essas três conseqüências. 47-123. portan to.

retirou-se da Ale manha e. Esses fatos mostram que já em 1933 ano em que foram p ublicadas as advertências profé- . abandonou o idioma alemão. em protesto contra o nazismo. por exemplo — previram com muita antecedência? Weil. foram para a câmara de gás. sob o riso dos parentes que censuravam seu “alarmismo”: todos.revidência nem vontade bastante para organizar uma retirada maciça dos judeus da Ale manha nazista antes que começasse a “solução final” que os judeus mais lúcidos — o filósofo É eil. O pai de um amigo meu também emigr ou no mesmo ano. passando a escre ver somente em francês ( aliás um francês esplêndido ). em 1933. sem exceção.

and this tiny g roup has survived. os ideólogos da modernidade. oppressed. 1976. a ruptura da continuidade temporal da comunidade religiosa: o Estado garante os direitos d o filho que rejeite a religião do pai. no momento mesmo de sua suprema glória mat erial. Canadá: “Fr om the birth of their religion. Que papel? O de ajudar em a reconciliar. 208 Eu estava revisando estas páginas. à unidade meramente exterior e acidental de um amálgama de interesses multina cionais. os próprios judeus. não. nem mesmo sobre os menores de idade. tornado árbitro das disputas religio sas. Yet in the melting pot of the American culture. cu ja lembrança medonha inclina os judeus antes a chorar do que a meditar o passado. The Thirteenth Tribe. no novo quadro. Em primeiro lugar. Não h averá paz para a religião dos judeus enquanto não houver paz entre todas as religiões. mas a toda a humanidade . em geral. Hutchinson. à riqueza e ao mundanismo materialista. great empires have fallen. o povo judeu — aliás não coerido por nenhum a homogeneidade racial207 — se reduzisse. realizando-se assim a profecia de Bauer segundo a qual a identidade jud aica. enfim. Finally given the opportunity to observe without harassment. From their ashes there has always come a ‘reawakening’. the chosen nation is rapidly disappearing. nunca os exterminaram em massa nem sabo taram a prática do judaismo ao ponto de reduzir para três por cento dos judeus a quo ta dos ortodoxos praticantes. Que este assunto tenha se tornado um tabu. Sabendo que os princípios de sua religião particular só val em para os do seu grupo imediato e que a integração na sociedade maior depende exclu sivamente da obediência à moral civil. Isso representa. mas não os do pai que pretenda transmitir sua religião ao filho. When faced with Pharaoh and the Egyptian soldiers. enfim. já não passaria de um triunfo das aparências sobre a realidade 2 08 —. Arthur K oestler. Mas também não os enxergam. por ser leigo. o Estado. the war machines of Hitler and the Nazis. não podendo ser os de nenhuma das religiões em ticas do nazista arrependido Hermann Rauschning . e nquanto elas precisarem de um Estado ateu para policiá-las. e não assumirem seu papel de povo profético. disputa. não é de espantar. as demais religiões que cultuam o mesmo Deus. exceto para os líderes e os importantes da comunidade. Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own rel igion. Os judeus e o judaismo têm sido as principais vítimas. victim ized. Não menos graves foram as conseqüências para as demais religiõe undiais. quando um amigo me mostrou. isso equivale a proclama r uma moral civil que está acima de toda moral religiosa e que é. Estes fatos. a carta lucidíssima assinada por um sr. Em segundo lugar. é fácil de explicar pelo trauma do holocausto. mandando às favas a moral religiosa e atendo-se à moral civil. não tem autoridade nenhuma. Os antigos Estados rel igiosos perseguiram e expulsaram judeus. the Jews have been persecuted. quase sempre inconscientes. Their tormentors have perished. de cara. e não a dividir.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 161 princípio religioso de sua unidade cultural. de Downsview. Yaakov Wagner. na revista Time de 27 de fevereiro de 1995. the Jews have always flourished and blossomed amid their ruins. A religião. atém-se ao cômodo privilégio de poder julgá-las sem levar em conta no mais mínimo que . they refused to abdicate their faith. do processo de mundanização da sociedade Ocidental — um processo que muitos líderes e i ntelectuais ateus de origem judaica têm ajudado a apressar. the Jews deny themselves this rig ht. a única obrig atória para todos os cidadãos. o cidadão é permanentemente convidado a abandonar a carga da dupla moral e a simplificar as coisas para si mesmo. os adeptos da teoria da “conspiração judaic a” não enxergam. não há dúvida: a glória material que hoj e premia os judeus não compensa a perda da sua identidade religiosa — um patrimônio qu e eles têm o dever de conservar porque não pertence só a eles. the fires of the Spanish Inquisition. fica na posição de arbitrar as disputas religiosas segundo critérios que. 207 V. o destino dos judeus era previsív el. Mas será sinal de amizade aos judeus cortejar um orgulho ressentido que os torna c egos ante perigos que hoje os cercam? Para mim. enquanto os judeus não se livrarem de seus falsos amigos. o Estado. Na prática. London. devem estar acima dos de todas elas. imbuídos de um falso sens o de segurança inerente ao sucesso. accomplishing what generations of their persecutors have failed to do?” — A r esposta é: sim.

. deixam de informar a um público demasiad o crédulo que todo rito é uma encenação. têm os seus direitos assegurados pela Constituição. como elas. nessa disputa. que. o Estado. Assim tornam-se veículos “inocentes” de influências psíquicas cujos efeitos sociais só são inócuos aos olhos de quem ignore totalmente o que seja um rito. que se afastam o mais possível de pressup ostos religiosos. que fundaram a nossa civilização e criaram os valores éticos mesmos dos quais a ideologia democrática recebe o seu prestígio. tem de favorecer sempre e sistematicamente as correntes cujas ideologias sejam menos dependentes desses pressupostos. e com as quais devem concorrer no mercado como um pr oduto entre outros. isto é. as grandes religiões como o judaismo e o cristian ismo. e considerando as religiões em d isputa como se fossem apenas clubes ou partidos. isto é. Entre a 209 Os artistas do show business que realizam ritos satânicos em espetáculos de rock. não são melhores nem piores do que o culto dos duendes ou do que a Igreja de Satanás 209. É mais que evidente que. perante a moral civil. as ideologias agnóst icas.seja os conteúdos das crenças religiosas envolvidas. que encenar um rito — desde que completo — é o mesmo que praticá-lo. O nivelamento por baixo é a conseqüência fatal: perante a lei. devendo julg ar sempre segundo critérios neutros. todos com direitos iguais indep endentemente do valor ou desvalor intrínseco de suas respectivas ideologias ou pro gramas. perante o establishment. so b a alegação de que se trata de meras encenações.

mas tratando antes de dar combate sangrento umas às outras. O predomínio absoluto da moral civil represe nta o boicote sistemático de toda transmissão da moral religiosa às novas gerações. nenhum exoterismo em particular. quer através do 210 Um dos motivos de os historiadores e cientistas sociais norte-americanos nunca t erem percebido que as elites maçônicas muito mais que o clero católico ou protestante exerceram desde a Independência a função de casta sacerdotal. perpetuada no culto discreto oficiado por uma nova casta sacerdotal co lhida nos escalões superiores da aristocracia maçônica210. Os jovens. Mas será. jamais teria sido possível sem esta realização da Revolução Americana. De Wilhelm Meister a Raskolnikov.” BRUNO TOLENTINO Uma das principais funções da religião é dar ao homem uma imagem simbólica do mundo. ao pa sso que uma casta sacerdotal. da New Age e da ufologia. se isso aconteceu no mundo. mas com um tipo de ação mais interior. sim. Anteu não quer a te nem o Olimpo. formando as consciências de seus membros através de ritos e símbolos. é indiferente em matéria de religião? Pois não acabamos de ver que é um Estado maçônico? Que a Maçonaria. exerce rigorosamente a função de direção espir itual? Que a aristocracia maçônica é encimada por uma casta sacerdotal que arbitra em úl tima instância as lutas políticas sem nelas se imiscuir diretamente? O Estado leigo tem religião. ou religião popular. como já res saltei. a pretex to de pacificá-las. creio eu. esta última leva vantagem necessariamente. mas não os da religião que pretenda impor os seus p receitos àqueles que. em que esses estudiosos em geral se baseara m. Judaismo e cristianismo. não foi sem razão. por outro lado. e is to pelo fato de que o Estado defende os direitos de quem não deseje submeter-se a uma determinada moral religiosa.162 OLAVO DE CARVALHO facção que pretenda ter uma moral válida para todos os seres humanos e aquela que afir me o mais pleno relativismo moral. é agnóstico. “oficial”. ainda não têm as condições de formar uma opinião própria. “Prometeu já não arrebata o relâmpago. A principal. É claro que. Há um pretenso heroísmo cujo pântano é este mundo. a Religião do Império. a função de exot erismo. no novo quadro. os fracos de cabeça. Essa imagem transmite-s e quer através das narrativas míticas e iniciáticas211. tem um campo de atuação infinitamente mais vasto. Só que é um esoterismo ao qual não corresponde. A form idável expansão do ateísmo no mundo. são instantaneamente convidados a abandonar o seu grupo de referência. abr igando-se sob a proteção do Estado leigo. O papel dos ritos e disciplinas maçônicas na estrut uração e no equilíbrio interior das elites fundadoras e governantes dos EUA não pode ser . reside em que. Acima de todas elas paira. ao lado do espiritismo e da teosofia. umas a contragosto. bem como o fenômeno das pseudo-religiões que desviam para alvos inócuos ou mesmo prejudiciais os impulsos religiosos que ainda restem n a humanidade. a maior parte do qual nada tem a ver c om funções públicas. os meros fatos nada dizem sem os conceitos que os agrupam e lhes dão um se ntido. é exercida por toda a pululação de religiões e seitas em disp uta. no andar de baixo da sociedade. é que as r eligiões mesmas jamais tendo se ocupado seriamente de encontrar um princípio de conv ivência pacífica. a criação de um Estado multi-religioso só pôde realizar-se por meio da moral civil que. todas nivel adas e integradas na grande liturgia da religião civil. ou simplesmente aqueles que tenham algum conflito de família. Um “clero” identifica-se com uma igreja estabelecida. mais sutil. seja de ordem espi ritual. Ícaro não aspira a um céu invinto. invisível e onipotente. § 31. aleatório como o instint o. é demasiado estreito para captar todas as nuances e as implicações do que seja uma casta sacerdotal. islamismo e budismo tornaram-se aí meras “seitas popul ares”. seja de ordem psicológica. outras ainda sem terem a menor idéia de a quem servem. na qu al ele possa ler em filigrana o mapa do sentido da vida. no seu grupo. adequado diz er que o Estado norte-americano é leigo. e o conceito corrente de “clero”. outras de bom grado. as neutraliza e emascula. podendo abranger também eventualmente um clero. porque.

adiante. v. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Ino centes”. com a típ ica incompreensão do intelectual moderno médio no que tange ao modus agendi dos rito s e disciplinas espirituais. 1993. . mas ele não faz parte da religiosidade pública.negado. marcada pela emergência inédita na História de uma casta s acerdotal esotérica sem o correspondente exoterismo. É preciso contar. V. tb. os estudiosos não puderam captar a esp ecificidade do novo quadro. também. o que leva a uma avaliação falsa da natureza e alcance da sua influência. Rio. IAL / Stella Caymmi. 218. pp. Dela vem a tendência de não enfocar a Maçonaria senão por f ora. 211 Para a distinção entre estes dois tipos de narrativas. Examinando sua sociedade co m conceitos tirados outras culturas e épocas. 28-33. como força política em sentido material e direto. n.

. na variedade in abarcável das situações vividas. Mas o exemplo mais contund ente. persigue la injusticia. Essas mutações manifestam-se não somente pelas ênfases diferentes que diferentes tempos dão às possibi lidades de significação de um determinado mito. Por esta razão é que falham repetidamente as tentativas de “interpretar” os mitos: os mitos é que. estão lançadas no mundo as sementes de um a nova era. esse fenômeno manifesta-se da maneira mais cl ara entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. o in stante preciso em que o mito cristão cede lugar. é o de Cervantes. mas também pela diversa preferência dada a este ou àquele mito. Até então a literatura narrativa euro péia caracterizavase pelo predomínio de temas que remetiam a um tipo de conflito mod elado sobre es212 quemas da Bíblia ou da mitologia greco-latina cristianizada. os enredos t errestres jamais tinham em si a chave de seu próprio sentido. talvez por inesperado. Calderón. todos os destinos eram enfocados sub specie æternitatis. mas subentendiam com o seu pano de fundo uma história cósmica escrita pela Providência com vistas a um sign ificado extramundano.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 163 rito que repete executivamente os passos principais do enredo mítico. e que a vida aparentemente terminada em derro ta é na verdade o vitorioso testemunho da supremacia do sentido da vida sobre a vi da mesma. que não é necessário entrar em mais longas demonstrações. a todos eses estúpidos bachilleres y curas y barberos de hoy no se les ocur re sino preguntarse: ¿ Por qué lo hará? Y en cuanto creen haber descubierto la razón del . e que daria o verdadeiro significado do primeiro. fustiga la ramplonería. Pois este enfoque os reduz a objetos. a este ou àquele topos da narrativa mític a no decorrer da evolução histórica. A questão básica em torno da qual se moviam personagens e enredos era a da salvação da alma: o sentido das ex istência dos personagens não era jamais totalmente resolvido no desenlace da trama. e insensatos aqueles que o consideram louco. ao contrário. pós-cristã ou anticristã. que o anti-herói das malfadada s façanhas é um herói autêntico do espírito. A quem não creia num sentido que transcenda a vida. não poderia jamais elevar-se a um plano de universalidade mais alto que o deles: metaphysica per se est et per se concepitur. ao mito maçônico. andarían buscándole una segunda intención a sus nobles desvaríos. Quevedo — para não falar de Dante e de toda a literatura medi eval —. a este ou àquele tema. e mais os entende o crente ou o noviço que lê a vida através deles — entrando neles e tomando-os como uma mensagem vin da de seu próprio interior mais profundo — do que o filólogo que os lê através de alguma o utra grade perceptiva. Dito de outro modo. otras que lo hace por divertirse y pasar el tiempo. Desde o momento em que.. de heroismo. Isso é tão nítido nos enredos de Shakespeare. Fíjate y observa. Ante un acto cualquiera de generosidad. a rea lizar-se no Juízo Final. são pura insensatez es tas palavras do comentário narrativo de Miguel de Unamuno: “Si nuestro señor Don Quijo te resucitara y volviese a esta su España. precisamente por ser tal . reencontrando a cada passo. extraterreno. por depo rte. e as sucessivas versões que recebe — se ja na forma do pensamento teorético ou da narrativa iniciática — vão revelando as mutações d o sentido da vida tais como aparecem às diferentes épocas e mentalidades. Mas o mito como interpretação da vida não tem nem poderia ter significado constante. como índice do sentido da vida. Lope de Vega. nas artes narrativas. Ora. são instrumentos de interpretação da vida. se preguntan los esclavos: ¿Qué irá buscando en eso? ¿A qué aspira? Unas veces creen y dicen que lo hace para que le tap en la boca con oro. Racine. experiências que repetem no microcosmo da sua existência pessoal os lances protagonizados pelos deuses e heróis da narrativa mítica. os temas e os topoi maçônic os começam a predominar sobre os cristãos 212. Corneille. no Ocidente. no esforço vão de abarcálos no quadro conceptual de uma ciência determinada. Si uno denuncia un abu so. é ele que é se nsato. É por isso que podemos assinalar. aos olhos de Deus. Por ela o ho mem orienta-se no labirinto da vida. otras que es por ruines sentimientos y bajas pasiones de ven gativo o envidioso. de l ocura. pois em Don Quijote o pressuposto d e um destino metafísico do personagem dá ao desenlace um sentido precisamente oposto ao que teria para leitores desprovidos desse pressuposto: a vida do hidalgo só te m para nós um sentido edificante porque sabemos que. mas deixava em aberto a perspectiva de um segundo desenlace. que.

mas no valor e significação das obras produzidas.acto — sea o no la que ellos supoPredominar não em quantidade. . mas em qualidade: não em número de obras.

a revelação dos motores ocultos da Histór ia: a manifestação de um poder secreto que. esteja ausente a Providência. conduz os sere s humanos para uma existência produtiva. Espasa-Calpe. O tema é comum a muitas obras maçônica s da época. 1971. surge reduzida a um dos fatores determinantes de um des tino cujo sentido se resolve inteiramente no plano da auto-realização pessoal. de acordo com a vocação de cada um. O sucesso do empreendimento terrestre. Sobre a noção de “Superiores desconhecidos” na simbólica maçônica . A obr a mais significativa do período. no mesmo ato. o sentido último dos acontecimentos já não depende de um significado metafísico. acontecia que o fracasso ou o sucesso. profissional do pe rsonagem. um vasto painel da vida social francesa. lo ha hecho por esto o por lo otro. As aventuras aparentemente caóticas de Tamino e Pamina em A Flauta Mágica de Mozart revelam no fim ser a consecução de um plano concebido pelo sumo-sacerdote Sarastro para levar o casal de noivos à iniciação maçônica que lhes dará o poder e a felicid ade 215. eram apenas um sinal provisório do destino cele ste do personagem. André Meyer. ou sem importância. mas. isto é. já não é a vida humana que tem de se justificar ante uma instância supraterrena. Apenas. que é uma narrativa iniciática. às vezes ambíguas no seu modo aparente de agir. trad. francesa do Wilhelm Meister. mas boas em essência. por trás do caos aparente dos destinos i ndividuais que se entrecruzam. o esplêndido prefácio de Marcel Brion à ed. a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. ao contrário. la cochina lógica. vocacional. E. de uma forma benevolente. Também não significa que. É um lugarcomum dizer que o Meister tem um sentido oculto. Para eso les sirve la lógica. numa curiosa inversão. a autorealização do homem no mundo. pelos “Sup eriores desconhecidos” 214. Madrid. na nova l iteratura. são governadas. Qua ndo procuramos nela o elemento iniciático. dirigem invisivelmente os acontecimentos 216. perdió todo su valor la cosa. V. A extraordinária belez a desta imagem da ordem universal não deve porém fazer-nos esquecer que nela se trat a apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”. no sentido que elas possam ter aos olhos de Deus. A desocultação das forças causais profundas que dirigem a existência individual para a auto-realização é. Bordas. barrando-lhe o acesso aos “Gran214 Vida de Don Quijote y Sancho. é a de Goethe. Seu tema é a descoberta do caminho pessoal por entre os múltiplo s equívocos da vida. e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finali dade em si mesmos. Apenas. pp. são f reqüentes as menções a sociedades secretas que. En cuanto una cosa tiene razón de ser y ellos la conocen. a revelação da o m histórico-cósmica. Paris. Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. de longe. sob a proteção velada e amável das potências cósmicas incorporadas no ser coletivo das organizações secretas. Isso não quer di zer que na literatura anterior a luta pelo sucesso mundano fosse um tema ausente . refletindo de longe os movimentos da Providência. 15ª ed. que parecem à 213 primeira vista uma sucessão casual e sem sentido.” 213 Pois bem: entre os séculos XVIII e XIX acontece que o sentido dos enredos passa a fechar-se numa resolução puramente terrestre: o significado das existências já não está no J uízo Final. nesse sentido. No romance de Goethe. à medida que Wilhelm supera a revolta juvenil para integrarse no mundo real como cidadão educado e prestativo. no sucesso ou fracasso social. 1949. um anúncio da salvação da sua alma.164 OLAVO DE CARVALHO nen — se dicen: ¡Bah!. descobrimos que as peripécias da vida de Wilhelm. mas unicamente na au to-realização pessoal. Na Comédia Humana de Balzac. se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem. e a Providência.. reduzida a um tipo de adm inistração oculta da História. as potências supraterrenas é que não entra m na trama senão como co-autoras do sucesso e do fracasso mundanos. 11-12. torna-se o supremo significado da existência: Wil helm Meister revela-nos que a História é dirigida por forças ocultas.

“À propos des supérieurs inconnus et de l’astral” em Études sur la Franc-Maç ie et le Compagnonnage. Éditions Traditionnelles. e Ferragus. Robert Laffont. Ópera Maçonnique. tome II. . Paris. Paris. por exe mplo.v. 208-22 7. são personagens cujo poder aparentemente desproporcional com suas qualidades pessoais vem da ajuda que recebem de sociedades secretas. La Flûte Enchantée. 1968. 215 V. pp. Jacques Chailley. em Le Père Goriot. 216 Vautrin. 1978. René Guénon. em Histoire des Treize.

é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios. desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado . Goethe conscientiza-se aguda mente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. s e não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —. de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisioná-lo na dimensão terrestre 217. passivo e obediente ante as injunções do Es218 217 Portanto. ele não viu outra saída senão buscar a espiritualidade superior numa tradição religiosa vizinha: o Islam. que fique claro: Se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos. Jen. mas a do ponto de interseção entre o Céu e a Terra.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 165 des Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do di vino. Ressurgem então os temas cristãos. tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao ho mem as portas de uma nova civilização. não teria alternativa se não cair na barbárie ou islamizar-se 218. como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios. a realização do sentido da existência terrestre. ao progresso. A imagem do Hom em Perfeito. de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males como o preten . se e leva aos céus. é não apenas a da individualidad e humana perfeitamente realizada. tendo vivenciado a ruptura maçônica com a tradição c ristã e se tornado o porta-voz por excelência da ideologia históricoprogressista. inversa e complementar mente. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória inte rior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmi ca. isto é. a maçonaria. a formulação do drama Ocidenta l que viria a ser dada por René Guénon. Ora. bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor d a História. na velhice. A consideração de uma possível “saída islâmica” para o conflito pressa com um século e meio de antecedência e em escala pessoal. e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação. re staurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional. e. De acordo com Guénon. são uma prese nça constante na lírica goetheana. não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profe cia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão. transcendendo a esfera histórico-cósmica. o Homem. Mas. ou Homem Universal. aprendidos na de votada leitura dos grandes poetas e pensadores místicos persas e árabes. Dividido entre o impulso espiritual e a rejeição maçônica do cr istianismo. em todas as tradições. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo a s marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países eur opeus e mesmo nos Estados Unidos —. que fora prometéica e dominadora ante o mundo. que chegou a tomar por tema de uma peça. A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —. Na continuação de Wilhelm Meister e s obretudo no segundo volume do Fausto. ele procura integrar essa perspectiva no q uadro maior de uma ascensão puramente espiritual. à sociedade. infel izmente não concluída. durante toda a sua vida madura. e só conserva seu sentido qua do integrada no corpo de uma tradição espiritual maior. a civilização do Ocidente. É altamente significativo que Goethe. a alma resgatad a. capaz de absorver o conhecim ento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. é ativo e dominador perante a existência terrest re. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é prec isamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. do perfeito equilíbrio entre a atividade criadora e a passividade contemplat iva: na tríade chinesa. Os temas da espiritualidade islâmica. Goethe manifestou várias veze s sua apreciação pelo profeta Mohammed. passiva e “feminina” ante Deus. a tentativa de fazer da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida. Em conversações privadas. torna-se. sent isse de maneira mais ou menos obscura. a insufic iência espiritual dos Pequenos Mistérios e buscasse insistentemente uma perspectiva espiritual mais elevada.

na última etapa de sua vida. Est a interpretação é viável. . se transferisse para o Egito e adotasse em tudo o estilo de vida islâmica é interpretado por alguns estudiosos com o sinal de que ele perdera toda esperança numa restauração espiritual do Ocidente. mas ao menos significativame O fato de que René Guénon. mas não encontra respaldo suficiente nos textos de Guénon. . não exclusivamente.dia aliás o próprio René Guénon nte. decerto.

o conjunto das determinações de espaço. toma logo a forma de um apelo lisonjei ro à juventude. que encontra expressão no primeiro volume de Wilhel m Meister. consciente ou inconsciente. de que um concerto de potências invisíveis dirija cada indivíduo no sentido de sua auto-realização no emprego. mas também é “desequilíbrio” não escovar os dentes. “Desequilíbrio” significa qualquer ato. ter dívidas ou sofrer um acidente de automóvel são coisas que. por exemplo. mas sa isfazer a seus apetites neste mundo. pensamento ou hábito que possa colocar o indivíd uo em desarmonia com uma ordem cósmica supostamente empenhada em garantir o sucess o. n conflito entre progressismo técnico e crise ecológica). n ascerá também um sentimento de conformismo passivo ante a ordem física. O enxerto de simbolismos orientais nessa ideologia de origem substancialmente maçôni ca e revolucionária permite explicar os fracassos em razão do karma. numa me sma alma. só pode acarretar para o homem a qued a sob o domínio de Ti. Que essas convicções aparentemente conformistas possam coexistir. mas vale por si como horizonte term inal da existência. tempo e qu antidade que constituem o cosmos físico. a saúde e a riqueza de todos os bons cidadãos. que furta ao ho mem incessantemente o desfrute benéfico das melhores conquistas da técnica material e transforma o progresso numa aceleração do desespero. oferecia lev ianamente a todos os homens o desfrute imediato da felicidade terrena tão logo a s ociedade se livrasse das peias da religião. isto é. mas sua contrib uição decisiva foi introduzir na moral do homem moderno um novo senso do pecado: na mesma medida em que a função da Providência já não é conduzir os homens à vida eterna. A ideologia prometéica que. o pecado não é punido com uma penalidade espiritual após o Dia do Juíz o. declarada ou pressuposta. a tornar-se c rença geral das massas ocidentais: hoje não há nas grandes cidades quem não viva segundo a expectativa. onde quer q . comer comidas gordurosas ou fumar. seja isto lá o que for. como a ordem cósmica já não co nstitui apenas a passagem à esfera espiritual. até chegar. e. sendo por isto os fracassos explicados como desajustes em relação à ordem cósmica. o pecado não reside mais numa ofensa à dignidad e do homem. a ruptura com Tien. por meio da fusão entre o ocultismo e a ideologia americana da auto-realização. a co templação em passividade escrava. repre senta um corte ao meio do corpo do Homem Universal. como o sentiam em outras épocas aqueles que cometiam adultério ou roubavam. onde se desenrola sempiternamente a luta de Leviatã e Beemoth. A ação decai em agitação estéril. auto-real ização da História — choca-se fatalmente com as limitações da natureza física (por exemplo. surja um prometeanismo revolucionário. para que. o ímpeto destr utivo que fizera a Revolução devia ser canalizado para a busca do sucesso.166 OLAVO DE CARVALHO pírito. Na nova sociedade. E. com sentimentos progressistas imbuídos de revolta prometéica contra o esta do de coisas na sociedade. Ficar g ripado. na esteira do discurso da Revolução Francesa. da doença ou da pobreza. ou na desobediência a um mandamento divino explícito. se empe nhe na conquista audaciosa dos bens deste mundo. cometer at os de violência. no amor e na vida social em ge ral. do mesmo modo que o impulso de transcender as barreiras espaciais (por exemplo através da rede mundial de tel ecomunicações) se choca contra o mecanismo cego da entropia histórica. Aí a busca da liberdade criadora — ação do homem no tempo. é algo que se explica precisamente pela origem comum de ssas duas atitudes no amálgama ideológico que este livro vem descrevendo: onde quer que. e sim no “desequilíbri o”. a Terra. Daí surge a poderosa imagem mítica que ainda sensibiliza a alma contemporânea: o mito do guiame nto celeste em direção ao sucesso. r epresentam sintomas — e ao mesmo tempo a cura — de algum desequilíbrio com a ordem cósmi ca e por isto induzem as pessoas que passam por essas situações a sentirem constrang imento e vergonha. ocasionando o predomínio u nilateral da ideologia prometéica desvinculada de todo contato com o Espírito. na ausência de uma conexão com o espírito. no nosso tempo. Tal como vimos parágrafos atrás (§§ 1 9 a 22). a mais dolorosa e trágica expe riência espiritual já vivida pelo homem sobre a Terra. A ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. o Espírito Santo. Ao longo do século XIX ele evoluiria. rompendo com toda forma de obediência tradicional. mas aqui mesmo e na forma do fracasso mundano. pelo menos “em excesso”. nesse quadro. É “desequilíbrio”.

em contrapartida. nas mesmas condições.ue. um conformismo obediencialista ante a autoridade dos . surgirá. se procure dominar despoticamente a ordem física.

de um lado. à teosofia e ao espiritismo no q ue tange à aceitação mundial do evolucionismo. Mas já na época mesma de sua difusão a ideologia da vitória prometéica deixava à mostra suas contradições. pp. Under Western Eyes. espec ialmente Cap.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 167 senhores deste mundo 219. e estas não deixaram de ser exploradas pela mesma literatura que a divu lgava. réed. Paris. os mais aptos. O tema aparece no me lhor romance do próprio Balzac. 1950 ). principalmente e m Paris. um assunto que é aprofundado em Nicolai Berdiaev. Ainda não se fez um estudo abrangente sobre o amálgam a de idéias ocultistas. chamando os jovens ambiciosos ao mais extremado individualismo na luta pela vida. o romance de Joseph Conrad. Gallimard . vo n Goethe é o modelo desse projeto de vida 221. e isto fazia pensar 222. a própria biografia de Johann W. 33-42 da 2ª ed. São incompatíveis e inseparáveis 220. Coisas importantes a respeito foram ditas por René Guénon em Le Théosophisme. O sucesso posterior do marxismo velou a origem ocultista do ideal socia lista. espíritas e socialistas que constituíram por mais de um século o alimento mental dos círculos letrados e progressistas. Éditions Traditionnelles. e Parte II. mas não há síntese possível a não ser pela Aufhebung que absorve os termos em conflito. os compon entes básicos do iogue-comissário. Les Sources et le Sens du Communisme Russe ( Paris. Se. para protegê-los e dirigi-los de longe na senda da vitória. bem como o segredo do seu mágico atrativo. Paris. de novo. são dialetica mente complementares. colhia os melhores. De um lado. H istoire d’une Pséudo-Réligion ( 1929. noto que. Cap. como toda contradição sem síntese. teosóficas. elevando-se ao plano da pura espiritualidade — que é precisament e o que a ideologia moderna rejeita com todas as suas forças. deixando o jovem talentoso entregue ao mais negro desamp aro. o gênio de S tendhal narra a história de um típico arrivista dos novos tempos. Em Le Rouge et le Noir. só para dar uma idéia das afinidades profundas que as diferenças superf iciais encobrem. subjugando as velhas e decadentes aristocracias de sangue bem como o esgotadíssimo clero romano. gir ando em circuito fechado.. O leitor não terá dificuldade de reconhecer aqui. Mas. por exemplo refletem menos alguma idéia oriental do que a máxima forjada pelo porta-voz da esque rda hegeliana. havia “Superiores desconhecidos” que podiam dirigir para o me lhor a vida de um jovem talentoso. a carreira de Napoleão Bonaparte — que durante algum tempo brilhara ante todas as imaginações como o emblema mesmo das possibilidades ilimitad as que a situação pós-revolucionária oferecia aos ambiciosos e arrivistas de toda sorte — terminara muito mal. Mas a colaboração entre essas duas correntes vai mais fundo do que geralmente se imagina. O apelo da ambição prometéica. que eles po diam sonegar seu apoio. 219 A ideologia progressista muito deve ao ocultismo. e L’Érreur Spirite ( 2e. IX e XIII. I. Ludwig Feuerbach: “O homem é aquilo que ele come. atira a alma naquele estado de agitação estéril que os gregos denominavam ubris (hübris): o entrechoque de energias que. 1978 ). como viria a ser chamada mais tarde. cujo título é o resumo de milhares de vidas de jovens . ao mesmo tempo que protegiam contra ele os candidatos menos dotados e mais conformistas. Caps. IV. também era verdade. dá uma idéia da atmosfera reinante nos círculos soc ialistas-ocultistas russos no fim do século passado. já não como simples teoria biológica mas como explicação geral do cosmos. não podem ser canalizadas senão no sentido do enervamento crescente: quanto mais vão e sem proveito um estado de alma. XXIX. a ênfase caricatural nos aspec tos supostamente espirituais da alimentação característica da Macrobiótica.” 220 V. A constelação do s vencedores formaria a nova casta governante e sacedotal. no movimento da New Age. éd. 1952 ). por outro lado. Éditions Traditionnelles. que fracassa tragi camente apesar de todo o talento e dos mais tenazes esforços. A Nova Era e a Revolução Cultural. Mais que o Wilhelm Meister. constituiu uma das chaves para a formação da nova aristocracia maçôni ca: a meritocracia. Em teoria. maior o seu poder de contágio hipnótico. Mas essa soldagem do s incompatíveis. especialmente Parte I.

por alto. pp. mas como forças plasmadoras dos símbolos em que se projetam os valores e ideai s de uma época o que é precisamente a função espiritual e sacerdotal por excelência. 248 ss. o fato é que sua monumental Life of Napoleon. o método que julgo dever ser utilizado no es tudo da atuação histórica das sociedades secretas e iniciáticas. em 8 vols. 221 O presente parágrafo ilustra. Premiers Lundis. Bibliothèque de la Pléiade.. Ao resenhar esse livr o. por exemplo. É some te nessa função que elas podem ser compreendidas e eventualmente julgadas. Paris. não merecia ser re cebida como foi: com insultos em vez de argumentos críticos. Qualquer que seja nossa opinião sobre os resultados de sua in vestigação. até mesmo o grande Sainte-Beuve ( que era maçom ) preferiu ao exame aprofundado o s juízos assertóricos e a mera difamação pessoal. principalmente no que s e refere aos tempos modernos: enfocá-las não como facções políticas ou grupos de conspirad ores. elegantemente entretecida de elogios d e praxe ao restante da obra do autor. tentou pensar as relações entre o fracasso de Napoleão e a ação das sociedades secretas.que acreditaram no apelo prometéico da Revolução e da democracia: Illusions Perdues. 222 Walte r Scott. em Œuvres. . V. 1960. então já um sucesso consagrado que seria temerár io desprezar.

“A confusão das línguas do bem e do mal. Como a queda do comunismo parece não ter bast . a polícia — Leviatã cede novamente ante Beemoth — e só reencont ra sua liberdade ao cair aos pés de Sônia. autoridade espiritual e poder temporal — que existirão onde quer que s eres humanos se aglomerem numa coletividade que seja maior do que uma família. Logos. como todas as anteriores. o est udante Raskolnikov termina por cair no estado de vítima inerme de seus instintos n aturais.” F. Mas I Promessi Sposi é antes um retorno à estética pré-maçônica — com o casamento de Renzo e Lúcia anunciando a salvação da que passa ao largo da problemática aqui enfocada. São Paulo. a jovem prostituta que encarna a humildad e. que nenhuma constituição.168 OLAVO DE CARVALHO Mas nem Stendhal nem Balzac enxergavam muito além do círculo históricocósmico onde se de senrolavam as vidas de seus personagens: em Balzac o drama permanece inconcluso. As novas Tábuas da Lei. 1954. que o levam a curvar-se ante o mais forte: ao afastar-se de Deus. A nova socieda de. como o segundo Fausto. Pretendendo liberar-se de t odos os entraves morais e religiosos para dar vazão a seu impulso dominador. o lado feminino da alma. as distinções de castas por funções espirituais. pode revogar 226. 224 Verso final do Segundo Fausto: “O Eterno Feminino / leva-nos ao alto. trad. M. reduzida socialmente a um nada. a necessidade de reintegr ar a atividade criadora humana no supremo sentido espiritual da existência só é afirma da com plenitude — e com plena admissão de suas conseqüências morais e filosóficas — por um ú ico dentre os maiores narradores do século passado: F. Na grade diferenciadora estabelecida por Marx — e copiada com automático servilismo por toda a tradição dominant e nas ciências sociais —. ora de m aneira implícita. NIETZSCHE 225 O Estado democrático igualitário é menos uma realidade que uma aparência. Dostoiévski 223. 225 226 § 32. a descida do homem desde as alturas de um orgulhoso prometean ismo até o arrependimento que lhe abre as portas do céu. eis o sinal que vos dou. Mário Ferreira dos Santos. Na verdade. Depois da antevisão do velho Goethe — no Fausto mais insinuada do que expressa —. funcionalmente. liberais ou so cialistas. tem as mesmas duas castas governantes — sacerdotal e aristocrática. tal é o sinal do Estad o. e Stendhal encontra alívio no esteticismo cético e diletante. o único que enxerga Deus e pode conduzir a Ele. consagrada na constituição política nominal. que existirão ora de maneira explícita. é um sintoma da vontade de morrer. Crime e Castigo é.” Assim Falava Zaratustra. foi por tê-las confundido c om as “classes” definidas por traços exclusivamente econômicos. lei ou decreto. psicoló icas e políticas tornavam-se invisíveis. Se a intelectualidade moderna perdeu de vista a existência das castas ( tornando-se até mesmo incapaz de perceber sua própria condição de casta ). na mes ma medida em que. porque estão imbricadas na constituição ontológica e até mesmo biológica do ser h umano e são compatíveis. ou: O Estado bedel 223 Algum leitor pode cobrar-me pela omissão de Manzoni. subme te-se ao dominador humano. monárquicas ou republicanas. com qualquer organização nominal do poder polític o. ai nda que fundado na vontade da maioria. E cumpre-se assim a profecia goetheana : Das Ewige Weibliche sieht u ns hinan. Elas são uma “constante do espírito humano”. culturais. volta as costas ao reino deste 224 mundo. ela foi o tema dominante da sua ficção desde seu primeiro grande livro. invisivelmente entretecida na grade de uma constituição que não reconh ece a sua existência mas que não pode impedi-las de representar a verdadeira distrib uição do poder. sejam democráticas ou oligárquicas. que subsistirão como um código secreto no fundo de todas as constituições po líticas.

ado para eliminar o prestígio residual do marxismo como ciência. mas sufi ciente para sugerir a subsistência real de diferenças hierárquicas de tipo casta na so ciedade Ocidental moderna ). Louis Dumont em Homo Hie rarchicus. — No sentido em que aqui emprego os termos. Carlos Alberto da Fonseca. Edusp. adaptados à situação moderna. As distinções econômicas. trad. São Paulo. como viu E. E. por exemplo. cit. O Sistema das Castas e suas Implicações. não bastam sequer p ara definir uma classe no sentido marxista. Thompson ( op. 1992 — um estudo infelizmente limitado ao sistema hindu. acabaremos fatalmente recolocando na linha das preocupações sociológica s a velha teoria das castas ( como já o fez. “casta sacerdotal” significa simplesmente . ). se recorrermos a distinções mais comp lexas e sutis. P. nunca é demais insist ir que há mais diferenças hierárquicas entre os homens do que imagina a nossa vã sociolo gia.

sem interferir diretamente em política ). tenho para com meu querido mestre e amigo. elevando-a ao poder político. mas reconheço a dívida que. depois a julga e eventualmente condena. definir o p oder exclusivamente por critérios econômicos e políticos foi um truque sujo da intelli gentzia para ocultar seu próprio poder. crêem que o mundo caminha para o ni velamento dos direitos. Essa ilusão tornaos cegos para as rea lidades mais patentes. aumentando assim o seu poderio. ocultou-as. arco e flecha. os acadêmicos. e não em meras abstrações econômicas. em seu sítio na floresta da Cantareira. Vega. São Paulo. lança. só a casta que detém o poder espiritual pode legitimar o status quo ou mudá-lo. que não apagam a linha divisór ia essencial. noite ade ntro. Nossos contemporâneos. 1947. Sobre as castas no contexto atual. que gera a aristocracia e. os encarregados do guiamento espiritual do povo — uma categoria que abrange desde gurus e magos ( autênticos ou falsos. já citado. cientistas e técnicos e a arraia-miúda intelectual das universidades. Pois uma coisa é ideologia igualitária. pelos ensinamentos recebidos em conversas inesquecíveis. E quando elas ressurgem sob nomes como “burocracia estatal” e intelligentzia. bem como toda a parcela da classe média que se ocupe somente da vida civil. e que ad emais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espa da. do movimento editorial e d a imprensa. Abaixo dessas duas castas. inerme. bem como Ge orges Dumézil. e podia portanto. sem se deixar iludir p or aparências e formalismos. Paris. ser atingido. Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitad o por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos. “Casta aristocrática” significa todos os que exercem o poder políticomilitar ou têm condições de reivindicá-lo: isto vai desde os governantes até os políticos de oposiçã passando pelos escalões superiores do funcionalismo público. o da casta sacerdotal. imbuídos de ilusão igualitária. dos meios de poder. em caso d e grave ofensa. IAL. seja pacificamente ou pela violência. nas campinas imensas onde o grito se perde . por exemplo. caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo. sacerdotes e altos dignitário s de sociedades secretas até os ideólogos de largo escopo. e mais em baixo ainda a imensa massa dos braçais. 1988. v. v. e. derruband o-a com o auxílio das castas inferiores. professando mentirosamente equaliz ar a distribuição de poder. ninguém as reconhece. para a formação de minha s idéias a respeito. René Guénon. outra coisa é socieda de igualitária. é menos uma ironia da História do que um a fatalidade inerente à natureza do poder: não podendo eliminar as castas governante s. sem precedentes. Elementos de Tipologia Espiritual ( apostila ). já falecido.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 169 Foi por isto mesmo que a sociedade democrática. entre as quais a da elitização. Olavo de Carvalho. de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado. também consideradas fora do contexto atual. entende que a mais alta forma de poder é aquela que gov erna as mentes dos homens. logo. o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário. Que essa ideologia pudesse transformar-se no instrumento da mais f ormidável concentração de poder nas mãos de poucos. às vezes trazendo-o na garupa. Há evidentemente interseções. sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado p or outros meios senão a concentração de poder 227. Juan Al fredo César Müller. idealmente considerada e fora de toda referência às sociedades modernas. São Paulo. há os empresários sem força política direta. pois todos crêem que castas só existem na Índia ou no passado medieval. pelas lideranças sindicai s e por aquela parcela do empresariado capitalista urbano ou rural que tenha força suficiente para fazer lobby. Sobre a psicologia das castas. qu alquer que seja o seu tamanho ( o que vai desde o grande empresário politicamente isolado até os pequenos comerciantes e proprietários rurais. Essa classificação baseia-se na distribuição real do poder. teve de elitizar-se a um ponto que seria inimaginável para os nossos antepassados. era visto por todos no campo e na al deia. homem entre homens. O imaginário moderno concebe. que vai desde o prole tariado politicamente “alienado” até os párias e desclassificados de toda ordem desde qu e não exerçam poder político através de movimentos sociais ou do banditismo organizado ( pois neste caso fazem parte da casta aristocrática ). Sobre as for mas de poder das castas superiores. nunca li trabalho algum que valesse a pena. Mythe et Epopée. pouco importa ).

O exame das cinco décadas que se seguiram à publicação da obra de Jouvenel mostra que a tendência aí denunciada se acentuou ainda mais. mas ela nunca esteve tão perfeitamente isolada d e suas vizinhas”. Em terceiro. potestades ocultas.. causas ocultas. Em comparação com ele. Por uma faca de cozin ha. matilhas de cãe s ferozes. e nossos pedidos. assinala com justeza Christopher Lasch ( op. Em p rimeiro lugar.. mais dinheiro do que nós temos. Em segundo lugar. mesmo na América. seu tempo vale dinheiro. cit. passim. alarmes.. cit. p. Não entramos lá. . cercados de portões eletrônicos. o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância do s dominados. falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barr eiras burocráticas sem fim. 12 ). 228 “Sempre houve uma cla sse privilegiada. Pela foice do camponês. que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os 228 mortais . guardas armados. os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínio s fechados. os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocu ltas. meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis. por uma lâmina vingadora.na distância. deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhece227 Bertrand de Jouvenel. op. demonstrou que o curso da história política do Ocidente desde o Império Romano até a II Guerra Mundial se dirigiu claramente no sentido da concentração do poder mediante a extinção ou neutralização dos poderes sociais i ntermediários. nossas imprecações e mes mo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua.

E. sem passaportes ou vistos e sem ser revistado na alfândega (o primeiro senhor de terras que resol veu taxar a travessia de suas propriedades desencadeou uma rebelião camponesa e pe receu num banho de sangue. E. em média. para poderem ser aplicadas. o episódio deu tema a uma novela de Heinrich von Kleist : Michel Kolhaas). a rede de educação pública. a Revolução encampou essas terras e as rateou a preço vil. mas é claro que pessoalmente. direitos humanos. o Estado tornou-se o proxeneta assumido de todas as minorias insatisfeitas. a dialética do poder no Estado moderno é diabo licamente simples: incentivados a fazer uso de seus direitos. Eis como o progresso dos direitos nominais não se acomp anha necessariamente de um aumento das possibilidades reais. Tinha ainda o direito de mudar de território. 230 229 Falo aqui como porta-voz do homem do povo. Esse pr ocesso não é inconsciente: em todos os países do Primeiro Mundo. que não possa ser administrado senão por uma burocracia onipresente. por um direito milenar. O servo-da-gleba também tinha o direito de ir e vir. que era obrigado a recebê-lo em troca de uma promessa de lealdade. equivoca-se ao sugerir que o “enxugamento” do Estado — sua ret irada das atividades “impróprias” — esteja associado de modo automático e óbvio a uma promes sa de maior liberdade para os cidadãos. e criando a horda dos sem-terra que foram para as cidades formar o proletaria do moderno e trabalhar dezesseis horas por dia. Sem esquecer. quando quero. é claro. me faço ouvir — tanto quanto qualquer outro i ntelectual — pelo poder político. Por isso a ideolo gia neoliberal. Mas esta distinção esca pa aos porta-vozes da ideologia progressista. socialismo e progressismo. formadora de mini-agentes de transfor . Mas. Após dois séculos de democracia. e temos razões para invejar o servo-da-gleba. complicada que seja a sociedade.170 OLAVO DE CARVALHO mos. tanto quanto outrora necessitava do apoio das grandes fortunas para sufocar os movimentos sociais com que ainda não sabia lidar. se caísse na mais negr a miséria. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas. igualitarismo. ela ainda está abaixo da condição do camponês medieval. de cujas queixas ele nece ssita para justificar sua expansão. Protestos e reivindicações incessantes são necessários para manter a sociedade num esta do de divisão e de mudança psicológica acelerada. s enão uns seis meses por ano. transformamse em leis. os cidadãos reivindi cam mais e mais direitos. que ao menos tinha o direito 229 de saber quem mandava nele . São necessários também para debilitar todos os poderes so ciais intermediários. ao serem reconhecidos. as novas leis. por fim. precisa ser muito hipócrita para não se incluir a si mesmo na categoria dos “poderosos”. eis a parte que nos cab e deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibil idade divina. mesmo sem um tostão no bolso. e instalar-se nas terras do senhor vizinho. Estado assistencial. O intelectual. tenho mais informações sobre a organização do poder do que o homem das ruas e. onde todos eram livres para plantar e colher . que confundem palavras com coisas e intenções com atos. policial e judiciária 230. pela minh a condição de escritor e intelectual. de modo que o Estado possa pairar soberanamente sobre um mar de átomos humanos nivelados e desorganizados entropicamente231. tão veraz ao discernir os fatores que obstaculizam ou fomentam o d esenvolvimento econômico. requerem a expansão da buro cracia fiscal. e assim o Estado se torna mais poderoso e opressivo quanto mais se multiplicam as liberdades e direitos humanos. tinha as terras da Igreja. os novos direitos. e nriquecendo formidavelmente os burgueses que podiam comprá-las em grande quantidad e. sem outra esperança senão a de uma f utura revolução socialista (que os reverteria a uma condição similar à de escravos romanos ). se através de lutas e esforços sobre-humanos o movimento sindicalista obtém fina lmente para essa horda a jornada de trabalho de oito horas e a semana de cinco d ias. caso lhe desagrad asse o seu senhor. que não trabalhava.

as Lesbian Avengers. cindindo-se imed iatamente em partido sádico e partido masoquista. E assim por diante. discriminados pelos machões que só gostam de machões. Veremos isto mais adiante. O alvo de seus ataques não é o establishment. 1995.. surjam protestos análogos da parte dos travestis e trans exuais. . entrou em atividade um grupo de militantes lésbicas e nragées. nem a família tradicional. segundo elas. pois não há limi te para a fragmentação entrópica desde o momento em que as correntes de opinião passam a ser determinadas pela libido.. que. os s adomasoquistas protestem pelos seus direitos. que em seguida os transe xuais se revoltem contra as drag queens por caricaturarem a forma feminina. o m ovimento gay! O machismo gay. É previsível que logo. mas. segundo notic ia The Times de 8 jan. que invadem bares. em seguida. é a maior ofensa à dignidade da causa lésb ica. promovem pancadarias e autos-de-fé em que queimam em grandes fogueiras públicas as revistas e jornais de seus inimigo s...mação social necessários para que as novas leis se transformem em costumes generalizad os. 231 Desorganização entrópica: em Londres.

no Brasil. sempre foi uma das garantias básicas da liberda de civil. fundando-se numa est atística muito grosseira improvisada por uma delegacia. A educação e as comunicações de massa — dois setores entregues ao império de intelectuais at ivistas que um tanto inconscientemente são os mais dóceis colaboradores do Estado mo dernizante — atacam por todos os meios as velhas relações comunitárias fundadas no costu me. Até umas décadas atrás. Não é coincidência fortuita que. A mesma matéria. exilado pela ditadura. mas sim também — e principalmente — daquelas que lhe são mais essenciais e próprias: o fisco. nem muito menos na dos jornalistas e proprietários de jornais 234. em vez de retrair-se no novo quadro neoliberal. Rio. que à medida que se descarrega do fardo econômico o Estad o busca para si novos papéis que justifiquem sua existência. para se tornar uma concessão do Estado. a mentira de que as novas gerações escapam ao controle paterno porque. Isso acontece por igual nas ec onomias neoliberais e nas social-democráticas. da família e das pequenas comunidades 232. o pai de família que estendesse as asinhas 234 232 Também não é coincidência que. desistiu de morar na Suéc ia. E estas. a vitória esmagadora das economias capitalistas tenha vindo junto com a crescente intromissão do Estado na moral privada. resguardando da intromissão oficial áre as vitais do comportamento humano. e acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana antes entregues ao arbítrio privado. onde um governo hospitaleiro lhe dera moradia gratuita. Paulo. O pátrio poder. alertando-os para um problema social. segunda. o mais popular defensor do neoliberalismo — o pr efeito Paulo Salim Maluf — seja também o primeiro governante a procurar interferir d ecisivamente nos hábitos privados dos cidadãos. numa página de noticiário policial ou geral. Num suplemento juvenil. Editora Am . concedeu uma manchete do F olhateen à notícia de que a maior parte dos estupros de menores é praticada pelos pais . Cultivam. mediante as leis sobre o uso dos cin tos de segurança e sobre o consumo de cigarros. incita diretamen te os leitores a suspeitarem de seus pais. Recentemente. na religião ou na natureza das coisas. a justiça. nos países do Prim eiro Mundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 171 Pois não é só mediante o exercício de atividades impróprias e acidentais que o Estado opri me as pessoas. deixou de ser um direito n atural inerente à condição humana. A razão disto é dupla: primeira. revogável ao me nor sinal de abuso. por exemplo. tendem antes a crescer desmesuradamente. 233 Sobre a Suécia. nada deixando para a livre decisão do indivíduo. pois as contradições teóricas no seio de uma ideologia podem ser as sementes de futuros conflitos que u ltrapassem o terreno das meras idéias. graças à TV e aos computadores. a confiarem de preferência na polícia e n os assistentes sociais — o que se funda no pressuposto de que não há estupradores na c lasse dos funcionários públicos. que foi precisamente para poder expandilas que o Estado se ret irou da economia. assistência médica e pol puda aposentadoria. por exemplo. por não suportar mais viver num país onde a insolência juvenil é pro tegida pela polícia e onde ser pai é expor-se a toda sorte de humilhações nas mãos de uma santa aliança entre moleques e burocratas 233. se dirigiria a adultos . A expansão do olhar fiscalizador do Estado (e da intelligentzia) par a dentro da esfera privada tem como uma de suas mais graves conseqüências a redução da d iferença entre o moral e o jurídico — diferença que. mesmo as mai s íntimas e informais. a Folha de S. a educação pública. a autoridade pública regulam enta hoje da maneira mais direta e ostensiva todas as relações humanas. Às vezes vão mais longe: advertem as crianças contra os graves perigos que correm ao confiar em seus pais em vez de ent regar-se à proteção do Estado. a polícia. ficam mais inteligentes a cada dia que passa — uma as serção que é desmentida pelo miserável desempenho cultural dos geniozinhos tão logo chegam à universidade ou lhes damos um livro para ler. para acelerar sua substituição por relações cri adas artificialmente pela administração estatal ou pela dinâmica do mercado. Cia. Este é um p onto que os pensadores neoliberais devem examinar com cuidado. O Paraíso Sexual-Democrata. Nos EUA. Um amigo meu. ler a imprescindív el reportagem de Janer Cristaldo.

como a um cachorro louco. Embora não seja pai de família. já têm um tremendo sex appeal e jogos de sedução de fazer inveja a Sharo n Stone. um premiadíssimo escritor gay. nem muito me nos se lembrou de processá-lo por apologia do crime. . 1978. cul tas. no Jornal do Brasil de 1996. nem o expulsou a pontapés. aos três anos. Somente a mim parece ter ocorrido a idéia de que seria difícil resistir ao impul so de abater a tiros. defende como justa e saudável a prática da pedofilia. Ninguém saltou à goela do declarante. de vez que as criancinha s. São todos pessoas educadas. quem se aproximasse de meus filh os imbuído de semelhante doutrina. de alma delicada e sentimentos estéticos incompatíveis com os instintos violent os.ericana.

nos discriminados. dos filhos. assim. sendo proporcional à falta cometida. criar ligações verdadeiras uns com os outros. oferecendo-lhes o engodo de uma garantia jurídica con tra os preconceitos. cultivando as suscetibilidades neuróticas que os infantilizam. em suma —. Daí o fenômeno alarmante da adolescência prolongada — hordas de cidadãos. por exemplo. A procriação deixa de ser uma decisão familiar. nem jovem nem velh o. onde já não haverá pais e filhos — somente a multidão inumerável dos órfãos de todas as idades. E a situação as sim criada terá o dom da automultiplicação: após ter 235 Esse processo foi observado inicialmente nos países sob governo totalitário. se mpre trocando de namoradas. com a leviana desenvoltura de quem troca de meias 235. nem criança nem adulto. mas por uma exigência intrínseca da dialética do poder: numa sociedade onde todo cidadão pertencente a esse grupo é estigmatizado como um virtual espancador de mulheres. “Libertando” os h omens de seus vínculos com a família. reunidos num imenso colégio interno s ob a tutela do Estado bedel. sedutor de domésticas e estuprador de crianças. que vêem algo de bom nas leis contra o fumo são cegos para a monstruosidade que reside no fato de a esfera jurídico-penal invadir o campo da s boas-maneiras. como de uma isca para prendê-los na armadilha da pior das tirani as. no mínimo. de outro lado. devida mente empregados e no gozo de seus direitos. isto não ocorre por casualidade nem por mera birra feminista. pois todos serão menores de idade. de terapeutas. A proteção oficial ao aborto. Quando ao castigo moral se soma porém a sanção penal e administrativa . e. e descr ito com precisão. o bairro. Aqueles. isola e enfraquece. tornand o-lhes impossível. Evoluímos.172 OLAVO DE CARVALHO para cima de sua doméstica atrairia sobre si a desaprovação da esposa. já antes da II Guerra. e este castigo. para uma sociedade onde não haverá mais a diferença entre adulto s e crianças. faz da mulher uma unidade autônoma. que é a de fiscalizar a conduta moral de seus membros. nos ressentid os de toda sorte —. nas mulheres. por exemplo. de amigos. o “cidadão”. sexualmente indecisos — o que é uma condição sine qua non para a dissolução dos caracteres na sopa entrópica da “c dania”. o Estado na verdade os divide. era mais do que suficiente p ara fazer justiça. mesmo as espontâneas e informais — um gal anteio. um olhar. nem homem nem mulher. perpetuamente à espera de que alguém faça algo por eles. . antipatias. biológica e legalmente adultos. que todos prefiram permanecer adolescentes e. Niveladas todas as diferenças. a simples descortesia de acender um cigarro num ambiente fecha do. que decide ter ou não ter filhos sem a menor necessidade de co nsulta ao marido. de planos e objetivos vita is. Nas Sombras do Amanhã. Uma prova de que a intromissão do Estado visa menos a proteger as supostas vítimas de abusos do que a suprimir as velhas formas de associação é que as no vas legislações de direitos dão sistemática preferência às reivindicações que separam os home sobre aquelas que os unem. cada ser h umano torna-se uma unidade abstrata e amorfa. mas incapazes de assumir qualquer r esponsabilidade pessoal nas ligações mais íntimas. Se a bête noire visada por todas as campanhas de proteção aos direitos é sempre o macho adulto heterossexual. a pretexto de proteger d omésticas ofendidas. para tornar-se um tr ato em separado entre a mulher e o Estado: o divide ut regnes invade o quarto nu pcial. O Estado utiliza-se das reivindicações de autonomia dos indivíduos — reivindicações p articularmente fortes nos jovens. O Estado torna-se cada vez mais o mediador de todas as relações humanas. protegen do-os sob a imensa rede de serviços públicos que os livra da necessidade de recorrer à ajuda de parentes e amigos. cheios de autopiedade e indiferentes aos sofrimentos alheios. o caso passou da esfera ética para a jurídica — e o Estado. cuja soma compõe a massa atomística dos protegidos do Estado — tanto mais inermes e impotentes quanto mais carregados de direitos e garantias. de um lado. na verdade o que faz é usurpar uma das funções básicas da comunidade. não espanta que ninguém queira amadurecer para ingressar ne le. por Jan Huizinga ( v. dos vizinhos. cada um com um luzente crachá de “cidadão” 236. da paróquia — um castigo moral infligido espontaneamente pela comunidade. sobreviver sem o amparo estatal e muito professional h elp. a paróquia. sentimentos e até olhares de seus semelhantes — uma garantia jurídica contra a vida.

Arménio Amado. cuja au ra de prestígio vem do esquecimento: o principal direito que a Assembléia francesa c oncedeu ao citoyen foi o de servir obrigatoriamente ao Exército. trad. por exemplo. portuguesa. que tratam com reverente atenção atividades puramente lúd icas e com leviandade juvenil os assuntos sérios. e entregam a discussão filosófica e teológica a jornalistas semile trados. Huizinga destaca o fenômeno do puerilismo como uma das cara cterísticas dessas sociedades. formam. sob pena de ir pa ra a guilho- .Um Diagnóstico da Enfermidade Espiritual do Nosso Tempo. 1944 ). 236 Citoyen: palavra terrível. Esse fenômeno hoje é de escala mundial. eruditíssimos técnicos de futebol. Coimbra .

a comprar o que não precisam os. sempre e sistematicamente. o respeito à criança e ao adolescente. Mas. entre os quais. De outro. por bárbaras e imbecis que fossem. podia-se contar com o tremendo apoio representado pela pressão que as hordas de consumidores mirins exer ceriam sobre seus pais. tornado assim.. u m termo elegante que significa. são governo s. das qualidades exce lsas que se desejava associar a determinados produtos. dessensibilizados pela repetição. Não: quem faz isso já não são organizações subversivas. se já é um desrespeito intolerável usá-los como instrumentos de campanhas de vasta envergadura. são ONGs dirigidas por intelectuais de prestígio. libertários. comerciantes inescrupulosos e seitas de excêntrico s: são fundações educacionais. investindo de pre ferência sobre o público juvenil. em última análise. mais cruel ainda é que esse uso seja fundado. pois. o Estado alegará a deficiência de seu juízo moral para se met er cada vez mais em suas decisões privadas. Ele começou. que não há assunto. enfim. instrumentos de agitprop. retransmi . no qual suas opiniões e desejos não devam. por conta do brilhan te futuro a que são convocados. cujas implicações políticas mal imaginam. Em contrapartida. O us o de menores de idade como veículos de propaganda.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 173 infantilizado os cidadãos. um costume legítimo e aceitável que já não nos inspira o que em épocas menos abjet as seria uma natural repugnância. Com isto a Revolução atirou para os ares uma das mais belas conquistas da civi lização — a liberdade pessoal de não guerrear. Hoje em dia já não são partidos radicais nem tubarões ca pitalistas que exploram o narcisismo infantil e a vaidade juvenil como instrumen tos de pressão para levar-nos a fazer o que não queremos.— são. puderam contar não somente com reservas de credulida de quase inesgotáveis. Vimos isto no parágrafo an terior. ao menos para tina. educacionais etc. em português claro. a Unesco. A intromissão direta nas relações familiares praticada pelo Folhateen exemplifica aliás só uma dentre as dezenas de maneiras pel as quais a aliança do Estado modernizador com a intelectualidade ativista e com as forças do mercado se utiliza de crianças e jovens como “agentes de transformação social”.. cuja origem desconhecem. caso o produto se dirigisse ao próprio público infantil — brinquedos ou doces —. mas também com a ação de solapamento com que a tagarelice adolesc ente ia minando os alicerces da confiança familiar. salvar o que restasse da comunicação doméstica. Porém o melhor de tudo veio a partir da década de 80. a renegar nossas crenças e valores e a adaptar-nos a toda sorte de caprichos i diotas para não sermos reprovados socialmente e não nos tornarmos párias. ouvir a mensagem da casta intelectual. adotaram maciça e universalmente o uso do marketing infanto-juvenil. Depois foi assimilado pelos anarquistas e comunistas: usando garotos fan atizados para jogar bombas na aristocracia. aquelas entidades qu e professam exatamente defender os mais altos valores humanos. Ci toyen significa: súdito da burocracia militarista. até onde posso comprová-lo. fortemente atrativos para a sentimentalidade popular. O uso foi duplo: de um lado. tornou-se de umas décadas para cá um costume tão generalizado que. as seitas pseudomísticas.. des esperados pela inocuidade de seus argumentos. Na década de 60. Morgen zu uns gehört 237 e. de modo a dar a entender a essas hordas de mini-imbecis que nada está acima de sua compreensão. respeitada desde o Império romano — e inaugur ou a era do envolvimento sistemático das populações civis no morticínio generalizado. até fazer com que pais e mães. crianças posando em anúncios funcionavam como emb lemas. afinal. quando praticamente todas as organizações empenhadas em qualquer tipo de objetivos soi disant humanísticos. por mais imaturos e inexperientes que sejam. por mais obscuro. Devem. prevalecer. por exemplo. são organizações internacionais como a ONU. por mais sutil. na lisonja mais descarada à vaidade pretensiosa do seu público mirim. mas levavam ainda a indiscutível vantage m publicitária dos martírios infantis. já não reparamos no que ele tem de imoral e criminoso . embora seja claramente um abuso da inocência alheia. pela repetição uni versal. acabassem se rendendo e assimiland o ao menos parcialmente toda sorte de novas crenças e manias. a indústria capitalista desco briu o emprego publicitário da candura infantil para a venda de toda sorte de prod utos. já devem ir exercendo no dia de hoje sua pesada quot a de poder. na Revolução Francesa. esses movimentos tinham não somente um exército de recrutas facilmente governáveis.

tida por professorazinhas semiletradas. . onde imporão — mensage iros da modernidade — os novos valores e critérios — 237 “O futuro pertence a nós” — título e refrão do hino da Juventude Nazista. e levá-la a seus lares.

Do mesmo modo. na adolescência. Devem ler com atenção devota o Estatuto da Criança e do Ad olescente e. de um lado. A sociedade moderna caminha decisivamente para a destruição desse s poderes intermediários e das associações humanas que os sustentam. 240 Livre e seguro: Não é o que nos promete o Ministério da Saúde? 241 Resumindo o livro de Patricia Mongan. procuran do atribuir a criminalidade juvenil ao atraso econômico e à miséria — uma desculpa esfar rapada que uma recente pesquisa desmascarou da maneira mais contundente 239. terá. e ligado diretamente só ao Estado241. que cresce assustadoramente em todo o mundo. ao ingressar no mundo da economia e do trabalho . Institute of Economic Affairs. dando a entender que são efeitos da pura desigualdade ec onômica. que é a maior culpada pela utilização dos menores como instrumentos p ara o marketing dos “novos valores”. a classe que propagou a moda do sexo livre 238 e o culto erótico das ninfetas (festejando por exemplo Nabokov. impotente e solitário no oceano do mercado livre. isto é. para elas mes as. A intelligentzia. Ela constatou que a razão do problema. até que pai e mãe. Quanto à família. Em primeiro lugar. leva-as a um sentime nto hipertrofiado de sua própria importância. temerosos de ser passados para trás. acabem adotando toda s orte de puerilismos da moda como se fossem as novas Tábuas da Lei. reivindicar de seus pais o cumprimento dos quesit os ali formulados. a idéia de sua aliança natural com o Estado é um mito. nest e caso. . A razão disto é que a família e todas as comunid ades tradicionais — religião. Jornal do Brasil de 22 de maio de 1995 — “um grupo em especial chamou a atenção da pesqu isadora: adolescentes pobres que foram viver na rua porque enfrentaram conflitos familiares e resolveram sair de casa. lideranças e lealdades territoriais — são por natureza os mais fortes oponentes da autoridade estatal. isenta-se então de sua responsabilidade. A conclusão de Fúlvia Rosenberg é que não existe o vínculo que a opinião vigente da int lectualidade estabelece entre a pobreza e o fenômeno dos “meninos de rua”. a decepção de ver que agora se tornou um número anônimo. Farewell to the Family? ( Lond on. como se sabe — e em seguida repeti-los em família. Em segundo lu gar. 1995 ). tornando-as virtualmente inadaptadas às limitações da vida adulta: o menino que. estava mais na rebeldia típica da adolescência do que na origem pobre do men ino”. um agente criador do destino coletivo. O que exist e — acrescento eu — é um vínculo entre a rebeldia juvenil exacerbada e as ideologias pro pagadas há decadas pela intelligentzia. É apenas uma questão de tempo até que algum demagogo procure organizar essa delinqüência .174 OLAVO DE CARVALHO a seus atônitos progenitores. que em seguida lança suas culpas sobre a est rutura econômica da sociedade. para a sociedade em geral. um joão-ninguém — e não haverá out io de escapar da depressão daí decorrente senão agarrando-se a sonhos e ilusões juvenis. se sentiu um líder. O Estad só foi protetor da família enquanto teve de atender à pressão de poderes sociais mais a ntigos. Devem rec eber os ensinamentos morais transmitidos por espevitadas atrizes de TV — as mais a ltas autoridades em questões de consciência. ele revelou ser menos o protetor da família que o protetor do d ivórcio. como a Igreja e os remanescentes da aristocracia. de modo que o ind ivíduo fique sem conexões orgânicas em torno. para os quais a cultura não contribuiu em absolutamente nada. segundo a interpretação que lhes dêem o notório saber jurídico de suas mestras e a peculiar acuidade jurisprudencial de meninos de oito anos. círculos de amizade. adquirindo os traços e sintomas da adolescência prolongada 238. é óbvio que a lisonja às pretensões mais descabidas da juventude é uma das causas pri ncipais da criminalidade juvenil. 5 jan. Lewis Carroll e as fotos de David Hamilton) se enche de brios hipócritas ao denunciar abusos sexuais contra menores de idade. que elas procuram diluir numa hierarquia de poderes sociais diferenciados e numa complexa rede de associações informais. O uso de crianças como “agentes de transformação social” tem conseqüências temíveis. Janet Daley escreve em sua coluna em The Times. Tão logo livrou-se desse s aliados incômodos. como se as ações humanas resultassem diretamente do saldo bancário e não dos desejos alimentados pela imaginação. de outro. chegando em casa.. do aborto e do sexo livre 240. 1995: “O que estamos produzindo é uma nova ‘classe guerreira’ de homen s separados da influência socializante da família e das responsabilidades domésticas.

Esses homens deslocados são o alimento ideal para o recrutamento fascist a. constatou que. que só os casais mais determinados ( e afluentes ) podem ficar livres de suas desvantagens. os outros tinham casa e família. algumas eram exploradas por adultos. porque o governo britânico adotou “um programa de des incentivos financeiros ao casamento e à estabilidade familiar. trab alhando Por que os jovens de hoje têm tanta pressa de “se realizar” antes dos vinte e cinco an os e entram em depressão quando não o conseguem? Porque a mitologia do nosso tempo a ssociou a idéia de juventude ao sentido da vida. professora da PUC de São Paulo e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. segundo Morgan. do total de 4.anárquica. Uma mãe sol teira com dois filhos pode trabalhar 20 horas por semana a £4 por hora e terminar com £163. a vida já não tem mais sentido. Dentre as crianças abrangidas pela pesqui sa. de modo que. outras estavam simplesmente ganhando a vida.520 “meninos de r ua” que circulavam na capital paulista. e muitos frequentavam escolas.” Isso ocorre. só 895 dormiam na rua. 239 Fúlvia Rosenberg. passada a juventude. mas — resume o . Um homem casado pai de dois filhos. deduzido impostos e aluguel.99.

quando o Estado interfe re na economia. . dos loucos. sem ami gos. que acabam se associando a interesse s estatais e empresariais e vão perdendo toda ligação com sua origem comunitária 242. No Brasil. delegacia da terceira idade. liberacionista ) cria hordas de homens isolados e re voltados que serão as massas de militantes fascistas de amanhã. elas não sobrevivem se não crescem. nunca se dão conta de que suas con quistas são obtidas à custa da inflação do poder estatal. ao passo que a ampliação do poder estatal é o resultado imediato. a co lunista enfatiza que um velho slogan da esquerda — “arranhe a casca de um liberal e encontrará um fascista” — está se tornando verdade. ele ganhará £33 a menos que a mãe solteira trabalhando meio período. mais propriamente. uma garota da classe operária não há de considerar um mar ido como algo menos que inútil. da extinção de todas as virtudes morais básicas que tornam a vida digna de ser viv ida. e de que quando sai dela deixa as pessoas liv res em tudo o mais. mas. jamais tendo abusado de uma donzela.95. todas as crianças contra todos os pais e todas as mu lheres contra todos os homens. Os movimentos de direitos. O Estado tende a alimentar a irresponsabilidade moral para po der alimentar-se dela. As ONGs podem ter surgido com essa intenção. a proteção que ess as entidades recém-criadas darão aos novos direitos é apenas uma possibilidade teórica. do definhamento das relações human as. que se segue a cada nova proclamação de direitos: delegacia da mulher. Trabalhando em pe ríodo integral.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 175 O número assombroso de indivíduos que. não enxergar o que se passa diante de todos os narizes humanos na at . num sentido diferente do que lhe dav am os esquerdistas. e talvez até dos esquisitões. o esquematismo do debate entre “privatizantes” e “estatizantes” tem tornado ess as contradições da ideologia neoliberal invisíveis tanto para seus adeptos quanto para seus opositores — ambos iludidos pelo pressuposto de que. isto só será um novo pretexto para verberar a irresponsabilidade moral dos c idadãos e justificar a criação de mais e mais órgãos policiais. Esta existência aliás terá í de ser financiada por todos aqueles que. seja fascista: é que a política liber al ( ou. na Europa e nos EUA. pagarão para ver sua autoridade familiar contestada por funcionariozinhos semi letrados e arrogantes. Pergu nte a si mesmo por que.. de um menor de idade ou de quem quer que se ja. cuja ideologia ajudou a criar essa política fiscal. incumbida de proteger pessoas como o autor desta s linhas contra aqueles que nos chamarem de esquisitos. e não crescem senão quando s e reunem em imensos conglomerados mundiais. O fato de ser casada não conta para nada. subm etidas à lógica do mercado. inclusive a de superpor as expectativas aos fatos e. interfere em tudo. em princípio. de olho nos fins políticos ambicionados. atomizada. l quido e certo de s ua mera existência. missão de proteger. O Esta do encara agora cada pessoa como uma unidade autolimitada. já está em estudos a delegacia esp ecializada dos gays.” Sub linhando que toda essa situação foi criada no governo liberal da Sra. imbuídos da por 40 horas com a mesma remuneração. vivem sem família. com estrit a igualdade matemática em termos fiscais. em cada um desses casos. Não é que o liberal. A superioridade das propostas liberais sobre as socialistas no que diz respeito à economia não deve nos levar ao engano de ver no neoliberalismo algo mais do que ele é: uma ideologia. Muitas pessoas acreditam que a proliferação das ONGs prova um a tendência contrária — uma tendência a limitar os poderes do Estado e enfatizar as inic iativas espontâneas dos cidadãos. E será ainda incentivada nessa convicção por suas irmãs fe ministas de classe média. judiciais. é a mais t riste demonstração desse fato. em seguida virão as dos deficientes físicos. delegacia do menor. será deixado com apenas £130. dos go rdos. no fundo. A prova mais contundente é a proliferação de novas delegacias e varas de justiça es pecializadas. E quando se verificar enfim que todo esse crescim ento canceroso da burocracia não diminuiu em nada as violências que lhe servem de pr etexto. Thatcher. O casamento está deixando de ser reconhecido pelos sistemas legais e fiscais. Esse exército de solitários é o resíduo inevitável de uma equi ocada luta pelos direitos humanos. então. com todas as limitações do pensamento ideológico . sem outra relação humana exceto com os funcionários da previdência social. assistenciais e assim por diante. chefiados como ger almente são por pseudointelectuais de miolo mole. Nenhuma avaliação séria da rel ação custo-benefício deixará de nos mostrar que.

onde esses dois g igantes anônimos e impessoais freqüentemen te se aliam contra todos os liames comunitários e familiares que constituem a última proteção da intimidade humana. a liberdade para o mer cado não garante 242 Sobre as ONGs. v.ualidade deprimente da vida cotidiana. se do ponto de vista econômico o Esta do e o mercado são poderes antagônicos e concorrentes. Pois. Embora uma economia de mercado seja claramente menos opressiva para os cidadãos do que uma economia socialista. o mesmo não se dá quanto à administ ração da vida psico-social. “A democracia das ONGs e a ditadura do marketing” em O Imbecil Col etivo. .

Alfred Sauvy. e por desejo talvez de apaziguar o ressentimento dos derrotados. Le Seuil. Seja na social-democracia. Esta é a única questão que importa p ra o destino do mundo: estaremos por um caminho ou pelo outro condenados a viver sob a religião de César? Caso a resposta seja afirmativa — e não vejo como escapar da r esposta afirmativa. o re sultado fatal é que os meios se tornam fins. vão cedendo. um servo . com todas as doces promessas que trouxe à humanidade. por julgarem que é mais v ital preservar a liberdade de mercado do que qualquer outra. O que há de mais irônico no confronto s ocialismo-neoliberalismo é que hoje em dia os derrotados socialistas. E o ponto que me parece básico é que a concepção iluminista do Estado lei go. E os neoliberais. consolam-se buscando socializar tudo o mais inclusive a moral privada e a intimidade das consciências. surge então uma pergunta derivada: a submissão do mundo à religião de César não é a mesma coisa que a submissão do mundo a César? A universalização tado leigo modernizante. não sei qual é a melh or das duas opções. a não ser por uma hipotética rebelião das religiões contra o monopólio estatal do sentido da vida —. portanto det erminar o sentido da vida coletiva. é ao Estado — casta dirigente ou aristocrática — que cabe. NA BORDA DO MUNDO 243 V. com todo a sua verborréia marxista. Ex Status nemo salvatur: fora do Estado não há salvação. inconformado s com a frustração de seus planos na nova ordem. e assim se tornam os aliados de seus antigos desafetos num esfo rço comum para levar o neoliberalismo no caminho do pior. Mais sábio seria e te nho de dizer isto. aqueles que conferem sent ido e legitimidade moral a qualquer opção econômica que seja. 1989. conservando cada facção a pureza de seus pontos-de-vista. o certo e o err ado. E o mercado tem um potencial escraviz ador tão grande e perigoso quanto o do Estado. concordassem em submeter a disputa ao critério de valores superiores. . acima das consc iências individuais. até que o novo E stado acabe por construir. Alfred Sauvy. em termos absolutos. sobre o arcabouço da economia capitalista. Na medida em que der por implícita e automática uma conexão que. segundo o q ual a complicação crescente do sistema internacional ultrapassou as fronteiras do humaname nte compreensível e se tornou l’économie du diable 243. cedendo. s e o neoliberalismo me parece mais sensato do que o socialismo. malgré lui. os valores e critérios morais. Não tendo conseguido socia lizar a economia. Atenho-me portanto ao que poss o compreender. acabam descarregando todos os seus velhos í petos estatizantes no m apoio descarado às intromissões do Estado neoliberal na vida privada.176 OLAVO DE CARVALHO automaticamente liberdade para as consciências. e reconheço que as complexidades da economia mo derna geralmente escapam à minha inteligência um reconhecimento que aliás me coloca na companhia honrosa de pelo menos um grande economista. não participo do vezo brasileiro de opinar ta xativamente sobre todas as questões. pois no Brasil não se pode descrever um estado de coisas sem qu e a platéia ansiosa nos cobre uma definição sobre o que fazer que os adeptos de ambos os partidos. seja no neoliberalismo. iluminista. do imperialismo americano? CAPÍTULO X. L’Économie du Diable. o neoliberalismo se omitirá de cumprir o papel que se propõe. Paris. só pode ser criada mediante um esforço conscien te. de abrir o caminho para uma sociedade mais livre por meio da economia livre: se uma opção econômica se t orna o critério predominante se não único a determinar os rumos da vida coletiva. o verdadeiro e o falso. Na verdade e no fundo. ao contrário. carregava dentro de si o germe do monopólio estatal do sentido da vida: acima das religiões. não será a glória final e a mundialização da Revolução A ericana? Não será e nfim o ioguecomissário. sob as bênção a intelectualidade — casta sacerdotal — dirigir o processo de modernização. uma espécie de administração socialista da alma o socialismo da vida interior.

que se tomam po . que se reunem sob a denominação formal ou informal de gnósticos. ao consumar-se no cristianismo. no dos Libertinos/Libertários. Sade et caterva. à luz da se empreende um vasto remanejamento de toda a visão da História do pensamento.Me situant à l’extérieur des faux litiges dans mon irréparable éxil. É contra o exercício da consciência pessoal autônoma que se voltam as correntes em que se inspira o grupo organizador do curso da Ética .. como prática. de maneira crescente desde o Renascimento 246. canalizando-as no sent ido de uma revolta contra o Espírito. A libertação da consciência pessoal. O marxismo tem raízes no epic urismo e representa. Invia bilizar assim o debate. A filosofia de Epicuro. dando uma aparência ilusória de variedade e pluralismo ao que é na verdade um astucioso experimento de dirigismo mental245.3. Exercer desta f orma a hegemonia sobre o panorama cultural brasileiro. 2. Foi o caso de Nicole L oraux. como ele. “. votado à humilhação da mulher e à destruição amor — coisa que todo mundo já sabia. A conquista da inteligência teorética é a culminação de um cesso de personalização. Representa a abdicação dos deveres da inteligência pessoal e a submissão às ilusões coletivas que passam por ve rdades por força da repetição. encobrindo-o sob um simulacro de debate. menos os neolibertinos locais. Gassendi.. o ensaio “Armadilha relativista” em O Imbecil Coletivo. como irrelevantes ou “superadas”. iniciado pela filosofia gre ga e completado pelo cristianismo. Aproveita-se também a ignorância de platéias novatas. La Mett rie. que pela repetição acabarão por se tornar consensuais. apresentando os membros do grupo organ izador como se fossem a encarnação mesma do consenso filosófico universal. como editor da série Os Pensadores e como fig ura de relevo nos meios filosóficos paulistas. um ou outro conferencista de idéias cont rastantes. José Américo Motta Pessanha encarn ou esse projeto melhor do que ninguém. em última instância. o professor da Universidade Livre de Bruxelas afirmou ( na conferência de 20 de junho de 1995 ) que o libertino é por es sência um tirano. DE SAINT-EXUPÉRY Recapitulemos todo o nosso trajeto: 1. as opiniões contrárias 244. como teoria. no ciclo de Ética. mas sem expressão pessoal significativa — e sobretudo que não abra uma polêmi ca 244 explícita —. que é um d os pilares da nova cultura. de m odo a colocar no centro da evolução filosófica figuras como Epicuro. O sentido de ssa influência é claro: instaurar como fundamento da cultura um novo corpo de crenças. esporadicamente. e. um esforço de reprimir a inteligência teorética e subst itui-la pela autopersuasão retórica voltada a “transformar o mundo”. levanta cont ra si o ódio dos nostálgicos da religião greco-romana. para esse fim.” A. Essa reação inspirará boa p arte do pensamento Ocidental. incapacitadas para uma reação crítica.4. 6. 1. de libertação da consciência pessoal. na farsa da “tradição materialista”. As idéias que inspiram essa operação resumem-se. tornando-os vulneráveis a toda sorte de manipulações. Os convidados estrangeiros às vezes destoam da unanimidade. P ara grande escândalo dos admiradores de Sade. n’étant ni pour les ni por les autres. Inserem-se no programa dos eventos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 177 § 33. 245 V. O ciclo de Ética e os outros da mesma série r epresentam um esforço de conjunto para influenciar a vida intelectual brasileira n um sentido determinado: são uma “reforma da inteligência” brasileira — intellectus emendat ione — empreendida por um grupo coeso e consciente de seus fins. 3. 4. 1. um dissimulador maquiavélico.1. o de Raymond Trousson. 1. é um processo de auto-hipnose que gera entre seus praticantes a credulidade beócia e a total falta de sentido crítico . 5. Exploram-se. Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições. deslocando para a periferia as grandes filosofias que não po ssam ser absorvidas na cosmovisão materialista.2. de índole coletivista e estatal. que um ceticismo cognitivo q ue termina em diletantismo trágico.. afastando dos olhos do público e subtraindo à discussão. e. nada mais é. 1. q uantas insatisfações ocasionais possa haver na alma do público..

nada vejo de substancia l a mudar nessa minha interpretação. ed. 246 É mais ou men s a tese de Eric Voegelin. pois a conheço só por obras menores e não li o trabalho fundamental do autor.r libertários por alguma razão só compreensível à luz da lógica de Epicuro. Após ter lido Order and History. . que aqui subscrevo até o ponto em que pude compreendê-la. Order a nd History. [Nota à 2a.

mas na mundialização da Revolução Americana. apresenta uma visão de conjunto das obras de diversos autores que enf ocam as ideologias contemporâneas como “teologias civis”. enfoca a emergência das ciências físicas modernas como uma condit io sine qua non da religião civil. Fénix. Cabe apenas ac rescentar que. enfatizando que não culminam na eclosão das ideologias totalitárias. novas cr enças que constituirão. dit o de outro modo. ajudando a alimentar o monstro imperial que viria a devorá-la. La His toria de la Iglesia jamás Contada. P. as quais por sua vez expressam uma nova compreensão ( ou incompreen são ) da lógica e da dialética. acabam por colocar-se involuntariamente a seu serviço. 1995. não sabem para onde vão nem quem os leva? O iogue-comissário é alto-sacerdote do culto imperial ou escravo de sacerdote. o Sacro Império Romano de Otto I. as demais m religiões serão rebaixadas a “cultos permitidos”. Assim. somente a aprofundar. Se entendemos o termo “imperialismo” no . é a meta que norteia. Thesau rus. novos sentimentos. ao contrário. associa a formação da religiã ivil aos esforços para a restauração do Império. mas b em-sucedido na América). obras das quais a mais abrangente e sistemática é a de Eric Voegelin. em o caráter essencialmente gnóstico dos movimentos que culminam na N ew Age do século XX foi afirmado em 1994 pelo próprio Papa João Paulo II (Cruzando o U mbral da Esperança. o império leigo (fracassado em versão napoleônica. que simbolizo na luta de Beemoth e Leviatã. Junto com o cristi anismo. de m aneira que as novas concepções do Estado refletem mudanças profundas ocorridas na conc epção da natureza. demonstra que o culto de Beemoth acompanh a necessariamente a ascensão do poder de Leviatã. 1 2. 2ª. exatamente como o fazem os esquerdistas a rrependidos que hoje formam nas fileiras neoliberais? Ou. o que não teria cabimento fazer neste volume. p.178 OLAVO DE CARVALHO 7. sob formas variadas e adaptadas às condições do tempo. a cultura pós-cristã. ou mais claramente: anticristã. Las Puertas del Infierno. que se observa por exemplo em Nicolau de Cusa ( v. servindo às tontas. caiu na armadilha da restauração romana. por voluntária e conscient e aceitação das coordenadas do novo tempo. ajudando a consolidar o culto das divindades cósmicas — naturais e sociais — que constituem em substância a re ligião estatal do Novo Império 247. Ela inter vém decididamente e a fundo na estrutura da alma de todos os seres humanos colocad os ao seu alcance. 35). 10. o que restar de cristianismo será destruído pelo i pério leigo. em essência. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ). Madrid. A Religião Civil do Estado Moderno ( Brasília. de maneira semiconsciente. curiosamente. 247 O estudo valiosíss imo de Nelson Lehman da Silva. 3ª. A operação de reforma cultural empreendida pelo grupo organizador da Ética marca a inserção da cultura brasileira no novo culto imperial. A Igreja. 8. como bois de carro que. A ruptura do sentido cristão da vida dá surgimento às duas correntes de idéias — naturalistas e historicistas — cujo entr echoque constituirá o Leitmotiv da história cultural moderna. com algumas diferenças específicas que ressalt am do fundo comum: 1ª. arrastando na sua torrente todas as forças intelectuais e políticas que. O surgimento dos impérios coloniais estilhaça a unidade cr istã. isto é. Este meu liv ro insere-se nessa linha de preocupações. a e mergência dos impérios coloniais. ou seja. a intell igentzia de esquerda se põe a serviço da ascensão do Império. ao pretender fundar um Império. entoando loas a um deus-asno colocado no altar em lugar de Cristo e do próprio Cés ar? Ele sabe ou não o que está fazendo? Depende. Snow ). Mas — pergunto em prosseguimento — servindo-o de bom grado. de uma f orma ou de outra. 1985 ). 9. Agostinho . puxados pela argola do nariz. em Ricardo de la Cierva. instaurando neles novos reflexos. mas marca do por uma dualidade fundamental. marcada por quatro grand es empreendimentos: o Império de Carlos Magno. A Revolução Americana que incorpora o ideal do império leigo tende a mundializar-s e. funcionando como s eitas populares no novo quadro do Império leigo. cit. a história política do Ocidente. fazendo-se de oficiante na momentânea paródia dos três dias de carnaval . da qual é o oposto complementar. que aquela dentre as ideologias modernas que parece 11. que a ascensão da religião civil não é um processo unilinear. no sentido de Sto. A restauração do Impér io romano. associa portanto ao processo de formação da re ligião civil o fenômeno das “duas culturas” ( C.

como a lógica de Epicuro.. a retórica em geral. e finalmente. enfoca a luta entre religiões tradicionais e religião civil do ponto de vista do conflito de castas. mas no da contaminação passiva da sociedade.velho sentido da dominação econômica. assinala a função que nesse contexto é desempenhada pela ideologia ecológica. e nfatiza o papel das organizações secretas nesse processo. decididamente. . Dando continuidade. não se acumpl iciaria à menos comprometida com o culto de César é na verdade aquela que o encarna da maneira mais completa e eficiente. atualizando o enfoque. destaca o papel que na formação da religião civil é desempenhado pela s pseudológicas. pela New A ge e pelas novas morais que vão entrando em vigência no quadro neoliberal. 4ª . porém. a falsa hermenêutica simbólica do ocultismo etc. assinalando a sua filiação comum. a dialética de Hegel-Mar x. à tradição es tudada por Lehman. não no sentido de sua ação polític a explícita ( como o enfocam os porta-vozes de uma teoria conspirativa da História ) . a resposta é não: o iogue-comissário. da exploração do Terceiro mundo em proveito de mega -empresas americanas.

New York. em particular. Resta só um detalhe: saber como a intelligentzia brasilei ra. não passa de um momento transitório na sucessão de ilusões ideológicas pelas quais a inte lligentzia mundial. para os quais o discurso ético não é nem pode ser outra coisa senão uma “superestrutura” ideológica. Nórdica. acrescentada de análises muito pe rtinentes com relação à teoria brasileira da dependência. da contradição entre imperialismo e capitalismo democrático 248. então titular da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. o primeiro passo da revolução mundial que. Vimos. Marilena Chauí. Perto desse fenômeno gigantesco. Se as c oisas são assim. p orque o surgimento do moderno Estado leigo incorporado no Império americano é. Meridian Books. de Meira Penna. Quais razões. 1994 — uma leitu ra indispensável a quem deseje compreender a posição do Brasil no mundo de hoje. que o principal foco de resistência interna às ambições imperialistas do governo norte-americano foram os grandes capitalistas. Imperialism. modernizante.. A estas observações pode-se acrescentar a famosa demonstração de Josep h Schumpeter. a teoria Hobson-Lênin. imaginando ainda ser vir aos seus velhos ideais de sempre. não havia outra razão para explicar o interesse pela ética demonstrado. d ando uma “solução final” ao conflito entre autoridade espiritual e poder temporal. O. tanto quanto a teori a da dependência — sua neta terceiromundana em boa hora renegada por um pai sensato —. é consciência de uma contradição. Joseph Schumpeter. De fato. porque o projet o do império leigo que incorpora as concepções iluministas do Estado representou.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 179 exploração imperialista dos países pobres. neutralizando todas as religiões do mundo e instaurando a religião de César. E aí o ciclo de Ética no MASP pode servir para ilustrar. em aliança com a intelligentzia. Comecemos pela seguinte constatação: era mais do que cl aro que esse empreendimento cultural tinha objetivos políticos patentes e imediato s. culturais e políticas: os Estados Unidos são uma potência imperial po rque sua fundação mesma constituiu um revigoramento da idéia imperial. por intelectuais de formação marxista. um projeto expansivo. veio a ser arrebatada por essa torrente. que por dois milênios foram o motor da História européia. enganando-se quanto a seu papel no curso dos eventos. A contradição resolve-se tão logo entendemos que a dinâmica imperial dos Estados Unidos não provém de causas econômicas. 64 ss. e mesmo contra a sua intenção. dade espiritual. que o imperialismo americano não tem fundamentalmente um sentido econômico. pp. então estamos realmente diante de um problema. o que se passou com a esquerda nacional. U ma síntese brilhante dos argumentos de Schumpeter. mais particularizadamente? O fato de a campanha da “Ética” te . a engrossar a poderosa corr ente da Revolução Americana. porém. enfim. Rio. Não por coincidência. absor verá no Estado. Ensaios sobre o Nacional-Socialismo. Esta ativa desmascaradora do discurso ideológico alheio jamais se inte ressaria por algo tão “superestrutural” como a ética se não tivesse bem sólidas razões políti para fazê-lo. toda autori248 V. A Ideologia do Século XX. Problem a. o ciclo de Ética no MASP fora organizado pela mais eminente intelectual do PT. porq ue a fundação dos EUA representa a quarta e provavelmente última translatio imperii. fazer o feitiço virar contra o feiticeiro . de luta de class es. Acontece. uma enganosa agitação de f ntoches verbais sobre um pano de fundo constituído. foi ar rastada sem se dar conta. porque a Revolução Americana é. leu talvez o próprio Hobson. dizia Ortega y Gasset. em miniatura. a insensível rot ação do sentido dos seus esforços. a síntese e o resultado das contradições entre s acerdócio e aristocracia. o Terceiromundismo e a Ideologia Brasileira. 1958. por e ssência. p orém intelectuais. Ele estudou a teoria leninista do imperiali smo. o M arxismo. e não se prestaria ao papel de servo do capital es trangeiro. V imos que a idéia imperialista foi anterior de quase um século à formação das grandes fortu nas capitalistas. destinado a reformar o mundo. revolucionário. no i nstante da fundação da República Americana. entre os quais o principal era o de captar em proveito da estratégia das esquer das a velha retórica moralista da direita. e se por outro lado a expansão e mundialização do poderio americano são e vidências igualmente inegáveis. no essencial. encontra-se no livro de J. a p artir de 1989. parágrafos atrás.

Era o que eu estava dize ndo no § 1. Ainda assim.r conquistado sua principal vitória com a derrubada de Collor me fez imaginar. que a tagarelice moralizante não era outra coisa senão um expediente impr ovisado para fins de política rasteira: eliminar a trapaça financeira multicollorida para instaurar em seu lugar a trapaça ideológica vermelha. por um tempo. parecia-me .

Mais tarde. Mas em agosto de 1993 veio pelos jornais a notíci a da existência de uma rede petista de informações: chefiados pelo deputado José Dirceu. já em 1994. na sede da OAB. Não há mesmo nenhum meio de explicar a repercussão dessas denúncias. Segundo “Betinho”. Enquanto os “arapongas” prosseguiam suas investigações. preparatoriamente. de indícios suficientes para justificar a esperança de um dia poder montar um Collorgate. a sua principal força ( v. As Marcas d a Decepção. e não nos ag entes efetivos. vingando a humilhação que o pernóstico bon249 O deputado José Dirceu. O deputado não pode ignorar estas cois as. a campanha pela “Ética” já iria p arando uma atmosfera psicológica propícia a ampliar o efeito moral do escândalo quando estourasse. a futura transformação da campanha pela ét ica numa campanha contra Collor. já havia no ar uma predisposição hostil e vingativa. que só aguardava a id entificação de um suspeito para poder despejar sobre ele o ódio que se fôra acumulando. Por geniais que fossem. trad. que o partido apenas recebia in formações dadas espontaneamente por militantes e simpatizantes. Isto é que é fazer-se de inocente. Um dos segredos da eficiência do Mossad ( serviço secreto israelense ) é ter uma rede de informantes ocasionais espalhados por todo o mundo ( os militantes s ionistas ) e poder. A KGB tinha nos militantes comunistas. não era nada absurdo supor que a pequena KGB já dispusesse. Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense. Dell Books. brasileira. respo ndeu que ali não havia serviço de espionagem nenhum.180 OLAVO DE CARVALHO extravagante a hipótese de que em 1990. 1986 ). New York. substa ncialmente iguais a tantas outras feitas contra governos anteriores e que morrer am neutralizadas pela indiferença popular. Mas será normal que os jornalistas profissionais também ignorem tudo do funcionamento dos s erviços de informações? Se nos lembrarmos de que o processo de impeachment de Nixon — tão alegado como um exemplo para o Brasil no caso Collor — não foi provocado por uma acu sação de corrupção. Luís Inácio Lula da Sil va. comparada à extrema suscetibilidade contra os corruptos. a campan ha. reduzir a dois mil o número de seus agentes profissi onais. Victor Ostrovski e Claire Hoy. da qual fora um dos mentores e fundadores. A Short Course in th e Secret War. 617 ). e sim de espionagem política. polícia. 1994. empresas estatais e bancos. Esta notícia dava retroativamente sustentação àquela hipótese que eu rejeitara co mo um tanto paranóica 249. atmosfera que. os estrategistas da esquerda pudessem já estar preparando um golpe morta l a ser desferido na carreira do sr. pois estudou Mao Tsé-tung e sabe o que ele diz da importância dos informantes oc asionais para o sucesso de uma guerrilha. com tanta antecedência. desta vez. Collor de Mello. A Revolução Impossível. e particularmente à pessoa do sr. centenas de militantes-delatores formavam um serviço secreto particular infiltrado em ministérios. S. O intuito não era combater a corrupção. veremos que a indiferença nacional ante o caso dos “arapongas”. Com efeito. mal decorridos alguns meses da posse do pr esidente. p. não era verossímil que àquela altura. Christopher Felix. encontrou nela a ocasião para a e sperada descarga. São Paulo. na qualidade de “colab oradores informais”. uma entrevista de Herbert de Souza. incluindo pessoal interno ( v. é sinal d e perda completa do senso das proporções na avaliação da gravidade dos delitos. senão pelo fato de que. contra um alvo hipotético e vacante. Exª. Todos os serviços secretos do mu ndo dão preferência aos serviços de colaboradores informais sobre os de agentes profis sionais. que não voltou a tocar no assunto por quase um ano. Scritta Editorial. “Betin ho”. sem quaisquer sinais visíveis de corrupção no governo. De qualquer modo. técnico em espionagem treinado em Cuba. pois tra balhou como agente cubano por cinco anos ( v. 1992 ). Ou então é s inal de que a opinião pública já concedeu às esquerdas o privilégio de se colocarem acima de todo julgamento humano. vivant infligira às esquerdas. São Pau lo. trouxe um esclarecimento melhor. um desejo de punir. da qual . Best Seller. por isto. no início de 1990. se originara de uma reunião de inte lectuais de esquerda. as explicações do deputado pareceram satisfatórias à imprensa. adensando-s e pouco a pouco até o limite de uma pressão insuportável nos meses que antecederam a d ecisiva entrevista de Pedro Collor à revista Veja. Luís Mir. ao Jornal do Brasil. p udessem ter em vista. acusado de ser o chefe do serviço de espionagem do PT. excele aliás nesse domínio.

anunciado pelo do presidente. Para uns. a restauração da decência era um fim em si. Daí a ambigüidade dos festejos celeb rados em torno do cadáver político de Collor. outra pr elibava o seu próximo desaparecimento. com a limpeza. Vi então que minha primeira compreensão tinha sido demasiado estreita: mais que derrubar um presidente. apenas uma etapa da “longa viagem da esquerda para dentro do aparelho d e Estado”. que a outra participasse da celebração com u ma reserva mista de suspeita. Outros. temporariamente irritado com o agente que abusara da sua confiança. mas oferecer uma alternativa contra a propost a neoliberal de Collor. o revigoramento do regime. Não é de estranha r que esta última ala fosse mais festiva. com a revanche contra o esquema militar-em presarial. Uns alegravam -se com o retorno à moralidade. provisoriamente encarnado num presidente. ainda que tardia. simbólica e conquistada com a ajuda do mesmo esquema. O exército vitorioso dividia-se em duas alas inimigas: uma festejava. como diria Antonio Gramsci: o .ainda ninguém sabia nada de preciso. a campanha pretendera derrubar um re gime. Pa ra outros.

acreditava mesmo em princípios éti . mas logo em seguida o surgimento das provas de corrupção no governo. 251 A diferença é que naquele tempo a esq uerda.. retroativamente: a luta pelo “Estado ético” gramsciano tornou-se. carregada portanto de um apelo “ético” 251 . representada sobretudo pelo então ministro da Fa zenda. baseada nas idéias de racionalização e eficiência. isto é. (A desastrada frase do ministro. se a campanha não tinha um propósito direto de combate à corrupção. que ocupara os economistas e os doutrinadores políticos na década de 70. to rnou a ficção verossímil. su geria por si mesma o perfil do seu antagonista ideal: contra a frieza inumana da “técnica”. q ue rendera alguns dividendos na luta contra a ditadura. Na época. nada se sabia que pudesse 250 incriminar Collor. neutralidade esta que. um sujeito que. de dias de glória.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 181 começo. opunha uma proposta econômica fundada em fins e valores explícitos. uma luta pela moralidade propriamente dita. nos anos que se seguiram à derrota da guerrilha. de que a economia é “aética” suscitou d esde chiliques moralistas até a objeção gramatical de que a palavra certa seria “anética”. destaca uma fase que denomina implantação do “Estado ético”. ad hoc. isso era apenas mais uma ideologia: o pragmatismo e o neoposi tivismo que pareciam inspirar o ministro eram aliados congênitos do capital. 1994 ). Mas. dando ao mesmo tempo a impressão de estarem lutando pela “ética” no sentido geral e corrente. na pobreza de perspectivas da oposição ante um governo recém-emp ossado com um potente respaldo popular. evidentemente. esperavam. ao passo que em época mais recente passou a misturar a exibição pública de moralismo c . porque muitos dos intelectuais envolvidos na campanha h aviam se tornado. Era uma encenação. política e ética 250. Mas. e. por ironia. o qual. o apelo humanitário da “ética”. mas apenas com o ajuste entre as normas sociais e as necessidades da produção — um sentido alheio a fins e valores. honestidade et c. Antonio Gramsci. De outro lado. leitores e devo tos do teórico da “revolução cultural”. Esta feliz coincidência permit iu que a alquimia gramsciana fundisse a política da esquerda radical com o discurs o moralizante que por décadas fora a marca registrada da direita. ainda influenciada pela ideologia do Front Popular tingida de “humanismo bu rguês” para fins de aliança com as “forças progressistas”. que recomendo aos que julgarem demasiado compactas e obscuras as referências que aqui faço ao tema. cuj do nada tem a ver com o que geralmente se entende por moralidade. essa corrente. e no fundo. um ídolo acadêmico das esquerdas. a palavra “ética” vinha mesmo a calhar. À neutralidade tecnocrática. segundo a perspectiva marxista. nada mais interessante ocorreu à intelectu alidade esquerdista do que ressuscitar contra ele o estereótipo do velho debate. representada sobretudo por Celso Furtado. Instituto de Artes Liberais & Stel la Caymmi Editora. pelo bem e pela decência 252. muito “tecnocrático”. O nome da campanha fornecia aos intelectuais gramscianos a oportunidade de tentar implantar o “Estado ético” preconizado pelo seu mestre. Antônio Delfim Neto. especialmente ud enista. pensa por categorias estanques e não enxerga os nexos entre economia. uma palavra é como uma tábua para o náuf rago. quando a gente não sabe o que fazer. A proposta neoliberal de Collor. as soluções econômicas deviam reger-se por motivos técnicos e científicos. suscitando fartas demonstrações de indignação moral. d iz Goethe. não passava de uma projeção do abstratismo “metafísico” do burguês. Não há melhor truque para de252 Explico-me mais extensamente sobre Gramsci no meu livro A Nova Era e a Revolução Cul tural. Entre estes últimos estavam os líderes da “Ética na Po lítica”. vivendo separado da atividade produtiva.) Para a ala oposta. nos planos que delineia p ara a tomada do poder pelos comunistas. A coincidência é apenas de palavras: “ético” em Gramsci é termo técnico. de onde vie a então a palavra “ética”. que d efendiam com tanto mais eficácia quanto mais protegidos sob uma fachada de neutral idade científica. alheando-se o mais possível do debate político e ideológico e de toda consi deração de valores. aparentemente tão deslocada no contexto de um mero confronto id eológico entre socialismo e neoliberalismo? A origem era dupla: de um lado. Para a primeira dessas correntes. Fritjof Capra & Antonio Gramsci ( Rio. tratav a-se de uma reedição do velho debate entre tecnocracia neocapitalista e nacional-pro gressismo.

Apelar às denúncias moralistas nos momentos em que o discurso da luta-de-classes está em baixa é um dos expedientes clássicos da tática esquerdista. 1968. subs tituindo a guerra contra os ricos pela guerra contra os ‘apodrecidos’. mais do que nunca. Paris. suscetível de arrastar sob uma mesma bandeira os descontentes de todos os partido s. p. como sentiam que o programa babeufista esta va.om a pregação do ceticismo e do relativismo ( esta só para audiências seletas ). Já nas fases finais da Re volução Francesa. Arthème Fayard. E ademais a mina era inesgotável. 482 ). . mas. logo após o fracasso da conspiração extremista de Babeuf. “os jacobinos co ntinuaram sua propaganda no país. impopular. 1928. não havendo motivo para temer escassez de argum entos” ( Pierre Gaxotte. La Révolution Française. réed. trocaram rapidamente de palavra-de-ordem. campanha hábil.

A quem esteja ciente de que. Mas uma intenção oblíqua. as mutações psicológicas profundas são o alvo prioritário de um plano de larg o escopo a ser realizado. ele cresce até engolir o original. todas as crenças e sentimentos mais conservadores do povo brasileiro. da qual a autodestruição do Congresso Nacional. mais sutilmente. e se tornasse um pretexto edificante para cada qual projetar suas culpas sobre o vizinho. rebaixando-as e transformando-as em munição política de uso imediato contra os “i nimigos de classe”. e num círculo mais seleto de ouvintes .182 OLAVO DE CARVALHO sorientar um inimigo do que imitá-lo: se ele investe contra o simulacro. foi a manifestação mai s evidente. esvaziar as velhas crenças m orais. Tratava-se em suma de reduzir a éti ca ao “politicamente correto”. arrependido. xiítas e enragés de toda sorte. ao curso posterior da ação. eis como pela prática da caridade. ao lado da Mão da Justiça. Cercado pelos dois lad os. o pecador não teve como resistir ao apelo da salvação. oportunidade que a “campanha do Betinho” pr ovidencialmente estendeu a todos no momento exato. sujeitando o pe cador a terríveis padecimentos interiores. As campan has gêmeas da “Ética na Política” e da “Ação pela Cidadania” perfizeram harmoniosamente as du ces de uma nova pedagogia religiosa: a primeira ensinou o cidadão a julgar para não ser julgado. de ser uma regra para o homem g overnar a si mesmo. estéreis. o lastro de crédito que garantia a boa -fé dos acusadores e conferia legitimidade moral a toda sorte de calúnias. O que poucos perceberam é que a exigência ética da campanha fora formulada em termos propositadamente utópicos. mas uma revolução psicológica que o envolveu numa luta equ ivocada e tragicômica. até que não reste no cenário nada mais que duplicidade e hipo crisia. se o deixa em paz. tornando o apoio às esquerdas uma obrigação religiosa cujo descumprimento teria o efeito desequilibrante de uma transgressão. que castiga. no pensamento gramsciano. não fo i a regeneração moral de um país. para que. passasse a significar apenas a adesão m aquinal a certos slogans políticos e a hostilidade a certos grupos sociais. sobretudo. e sobretudo o moralismo atávico da classe média. que o homem médio não saberia suportar sem buscar logo. cortada dos laços que a ligam a quaisquer valores espiri tuais e a qualquer ideal de vida superior. num prazo assustadoramente breve. desmoralizandose mais e mais a cada novo esforço impotente para moralizar-se. tinha como finalidade última — nas palavr as de seu próprio fundador — implantar no país a socialização dos meios de produção. cujos efeitos se tornam mais dúbios à medida que se avolumam. co mo uma tara hereditária. quando não a indivíd uos em particular. solapar as bases intelectuais dessas crenças. de outro. beatificando o instinto de delação e fazendo da maledi cência a virtude primordial do cidadão brasileiro. Betinho ficou. Como esta campanha. com a precisão de um cronograma divino. assim. se apresentaria m ao povo como a única esperança de salvação. na intenção de vencê-lo pela i ndiferença. em benefício das esquerdas. promovendo uma mutação do sentido mesm o da palavra “ética”. não p oderia produzir um resultado tão retilíneo: a ambigüidade das origens transmite-se. Foi assim que. formando a figura bifronte de uma estratégi a da perversão moral em nome da moralidade: de um lado. autocontraditórios. A campanha da “Cidadania con tra a Miséria” exerceu assim a função de “mão direita” da nova divindade — a Mão da Misericór e abençoa e redime. arrisca a certar algumas pancadas em si mesmo. basicamente. Mantendo-se aparentemente acima do jogo político. a um sentimento de exclusão da comunidade humana. representada pelos inquisidores. quase magicamente. nos meses subseqüentes. É claro que as duas mãos operavam em concordância: a Misericórdia era a retaguarda. ou do Rigor. até levá-la ao completo descrédito e precipitar a crise geral do Estado. conservava o pode . por um grupo de intelectuais. por seu lado. a ovelha desgarrada podia ser reconduzida ao aprisco da ortodoxia socialista pelas mãos de um novo Bom Pastor. aí já plenamente identificadas como derradeira reserva moral. de modo a desgasta r a classe política numa sucessão de rituais autopunitivos sem resultado proveitoso. O que a campanha pela “Ética” produziu. A campanha pela “Ética” conquistou o apoio maciço da população e foi festejada como a aurora da redenção nacional. eleva do à condição papal. as peças múltip las do quebra-cabeça começam a encaixarse. para que deixasse. a opor tunidade de uma penitência reconciliadora. a segunda a escrever torto por linhas retas. puderam ser canalizados. metade oculta. onde as esqu erdas.

de erguer qualquer personagem à beatitude da fama ou pre cipitá-lo nas trevas da abominação 253..r de abençoar e excomungar. acabe se transformando num gra nde ato da campanha de Lula. Claro que ninguém imagina que Betinho virá a público de clarar apoio ao PT. que acontecerá no final do mês em Brasília. mas todos acham . 253 “Há uma preocupação crescente no Palácio do Planalto de que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar..

isto é. como “O Bom Pastor”. Mau por quê? Pel o pecado de ter sido absolvido nos processos que adversários lhe moveram? Por suas convicções políticas e sua amizade com o pensador direitista Jorge Boaventura? Por re colher contribuições de seus fiéis em vez de pedir dinheiro ao governo? Porque os rito s espetaculosos de sua igreja — tradicionais no protestantismo desde pelo menos Jo hn Wesley. um pecador. na capa. julgo absurdas muitas das interpretações que o bispo faz da Bíblia. num esqu ematismo aterrador e insano. 1985. foi-se tornando no entanto cada vez mais ostensivo. impelindo-a no sentido da “revolução cultural” gramsciana — na qual é um dos objetivos prioritários a desapropriação da autoridade moral da religião e sua transf erência ao menos aparente à liderança esquerdista. como numa prestidigitação. E is aí realizada uma das metas básicas da campanha. naquela altura. porque suas campan has beneficentes. ou ao menos de correr o grave risco de ser toma do como tal. Longman. Betinho acabou sendo derrubado por um truque s ujo igual ao usado contra seus adversários: julgar com malícia um ato lícito. abençoado por Betinho por suas ligações com a esq uerda. terminou por paralisar a todos. por achar que não seria bem interpretado dando a impressão de que é contra a campanha de combate à fome” ( Dora Kram er. mas não tomo minhas opiniões teológicas como artigos da lei penal . Betinho. enfim. o es tilo dele é tão repugnante quanto para os redatores de Veja. Jornal do Brasil. com o “Mau Pastor”: o bispo Edir Macedo. Toda essa mudança foi opera da em prazo anormalmente curto. mereceu ser rotulado. coluna “Coisas da Política” ). aplaudi-lo ou abominá-lo é questão de gosto apenas. e o novo senso do pecado. o po der de excomunhão e beatificação foi exercido por Betinho de maneira implícita e discret a. que não há como não se estabelecer a vinculação. precipitando alguns num debilitante ritua l purgativo e outros num esforço inglório de dar boa impressão. deixando livre para as esquerdas a estrada real que levaria da hegemon ia (domínio psicológico sobre a multidão) ao poder (controle do aparelho de Estado). 254 A campanha. em suma. que o jui z fora nomeado por uma das partes em litígio 254. Um sinal é a reportagem de Veja sobre o pastor protestante Caio Fábio. London. O governo argumenta que quem opera o cotidiano da campanha é que tem influência sobre a população e seu voto. Secundado pela imprensa. p. quem quer que a esta se opusesse ou si mplesmente se mantivesse alheio aos seus encantos não tinha como escapar de um sen timento constrangedor de haver-se tornado um malvado. Quem entende que Betinho nunca te ve outra preocupação na vida senão de ordem política percebe que com a campanha contra a fome sua maior contribuição foi completar um giro de cento e oitenta graus na estra tégia das esquerdas. O próprio presidente da República tornou-se assim prisioneiro do poder de chantagem psicológica de que a campanha contra a fome investiu o sr. Para mim. D aí a convergência da campanha e do ciclo. vêm arriscando desbancar o improvisado monopólio esquerdista da caridade? Não havendo nenhuma prova judicialmente válida con tra o bispo Macedo. “Encontro da fome preocupa Itamar”. As pessoas hoje temem desagradar Be tinho como outrora temiam cair em desgraça ante o clero. o fie l da balança política nacional. Betinho tornou-se enfim. Durante algum tempo. uma vez que a parte operacional do progra ma está todo nas mãos de petistas. a ponto de abdicar de todo senso das proporções. a ninguém ocorrendo lembrar. Tanto quanto eles. Itamar observa os movimento s calado — até porque não quer tomar nenhuma atitude pública. uma p ressuposição de que o ônus da prova cabe sempre ao outro lado” ( Thinkers of the New Lef t.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 183 E como é sensato que a autoridade espiritual se incumba de arbitrar em última instânci a os conflitos mundanos. sem o mínimo apoio oficial. 11 jul. este a um círculo m . e não muito diversos dos shows de pregadores católicos na Idade Média — ofend em a delicada sensibilidade estética de seus críticos? Ou. 1994. que. por um momento ao menos. assim resumida por Roger Scruton: “A assimetria moral — a expropriação pela esquerda do estoque inteiro da virtude humana — acompanha uma assimetria lógica. um defensor im plícito ou explícito da imoralidade. dando-lh e ares O resultado esteve muito próximo de ser atingido: uma vez identificados o ideal de moralidade pública e a retórica da esquerda. para contrastá-lo. 5 ). aquela dirigida às massas. mas conheço a distinção entre bom-gosto e justiça. seguiu a regra geral de uma estratégia esquerdista clássi ca.

de crime. Eis aqui um resumo. Imputando o mal a uma instituição específica. em especial. Isto porque as pessoas que estão possuídas de aversão e descon- . A rep etição freqüente desse ato levará os ouvintes a crerem que os oradores devem ser homens de grande integridade. fervor e santidade. Brasília. 2a. extraído de Eric Voegelin. e. uma unidade indissolúvel255. tal como existem no mundo devido à fraqueza human a. José Viegas Filho. podendo salvar um náuf rago. pois somente homens particularmente b ons podem ofender-se tão profundamente com o mal. O homem que a possui deverá criticar severamente — ‘onde a multidão possa o uvi-lo’ — os males sociais. mesmo quando bons. hipersensível às aparências e inconsciente das motivações profundas de seus próprio s atos.ais seleto de prováveis formadores-de-opinião: combate político e combate cultural for mam. Inocente da acusação. A Nova Ciência da Polít ica ( trad. 1982. Que cristão sincero. da qual Betinho se reclama.. ed. teria defendido a lisura de seu ato em termos veementes. o que é até um du plo bem: ajuda o pobre que precisa do dinheiro e ajuda o mau que se redime parci almente ao contribuir para o bem alheio. os oradores provam a sua sapiência à mult idão que. Editora da Universidade de Brasília. terá chegado o momento de recomendar uma nova forma de governo como ‘o remédio soberano para todos os males’. Na verdade. o comportamento das altas classes. No século XVI. tornou-se culpado de inconsistência m oral. atribuindo às suas ações ou inações todos os defeitos e a corrupção. Richard Hoo ker já descreveu coisas bem parecidas. a moral cristã. rejeitaria uma corda roubada que alguém lhe estendesse para ajudá-lo no salvam ento? Se Betinho fosse um homem espiritual de verdade. Com seu ridíc ulo mea culpa político ante a imprensa. pp. que viu serem levadas à prática pelos revolucio nários puritanos. nada tem a opor a que um homem receba dinheiro dos maus para dar aos necessitados. humilhando os acusadores maliciosos. mostrou que é apenas mais um intelectual bra sileiro. em Gramsci. “Após tal preparação. 102-103 ): “Para colocar em marcha um movimento. O passo seguinte consiste em con centrar o ressentimento popular sobre o governo instituído. 255 Nem a estratégia nem a tática são totalmente novas. é preciso antes de tudo ter uma ‘causa’. jamais teria atinado com essa conexão. por si.

As mulheres desempenham função especialmente importante. ainda segundo Hooker. Nunca. rompê-lo através da persuasão. será difícil. fi lhos. Isto porque. e fornecerão farta ajuda material aos líderes do movimento. uma bóia para flutuar incólume sobre um mar de delações. onde as peças isoladas nem mesmo suspeitavam que seus gestos. são mais liberais no que tange à ajuda financeira. porque são emocion almente mais acessíveis. vivendo de acomodações que sedimentam no fundo de cada alma um denso resíduo de c ulpas mal conscientizadas. estão taticamente bem situadas para influenciar maridos. Sendo óbvio que o dinheiro em grande pa rte dos casos não há. “É necessário ainda que o s líderes ‘moldem as próprias noções e os conceitos mentais dos homens de tal forma’ que os seguidores automaticamente associem passagens e termos das Escrituras com a sua doutrina. com igual automatismo. que tomavam por pessoais e espontâneos. A cumplicidade universal r everteu. A escola. que só falha qu ando a ral. com ou sem plena consciência do resultado a que isto poderia levar. digamos — que não tenha um play ground. reivindicação que. todos têm pressa em subi r à tribuna dos acusadores para não cair no banco dos réus. a tática da inculpação não poderia deixar de dar os resultado s mais rápidos e promissores: onde todos têm algo a esconder. e. o resultado do exercício desse “direito” será apenas forçar inúmeras pr ituras a se processarem a si mesmas pelo delito de falta de dinheiro.184 OLAVO DE CARVALHO Nesse quadro. mesmo os que se opunham interiormente à política de esquerda se viram obrigados a colaborar com e la. o expediente de precipitar a classe política numa crise de autoincul pação surgiu como uma contribuição habermasiana que o talento brasileiro do improviso en xertou na estratégia de Gramsci. por puro medo. terá de processar a Prefeitura — da qual ela é um órgão — para obter o dinheiro para o play ground. mas um escudo contra a indiscrição alheia. tinham sido calculados de fora para encaixar-se na harmonia de uma orquestração geral. criando um ambiente de mal-estar e recriminações mútuas que depois será denunciado pela imprensa c omo sinal de acefalia na administração municipal. são mais inclinadas do que os homens a servir como espiãs. a aut oridade se entrega inerme aos golpes de seus inimigos 256. e. Um exemplo de como funciona: O Estatuto do Menor dá a qualquer cidadão brasileiro o direito de processar uma escola — municipal. atendida. Aplicada sobre um pov o que há séculos cultiva a ambigüidade motentamento para com as coisas presentes são suf icientemente loucas para ‘imaginar que qualquer coisa que lhes seja recomendada as ajudaria. É um efeito calculado. a téria-prima social fica em condições de receber a representação essencial de um líder. continua indiferente aos novos direitos e . aceitarão voluntariamente os consel hos dados pelos doutrinadores. faça o que fizer. “Uma vez criado um meio social dess e tipo. de modo que. com efeito. a luta pela promulgação de direitos e normas proposit damente idealísticos e impraticáveis. criados e amigos. finalmente. em toda a História do Brasil. Jurgen Habermas. Foi assim que. “Com essa consolidação. em seguida. tais pessoas preferirão a companhia de outras envolv idas no movimento à de indivíduos a ele estranhos. e a ânsia de delatar tornou-se não a penas um emblema da virtude. e. negligenciarão seus próprios interesses para devotar todo o seu tempo a serviço da causa. essa fase da v ida nacional ficará população. em universal bisbilhotice. se não impossível. p restando informações sobre os vínculos afetivos dentro de seus círculos. de repente. de tal modo que a humanidade passa a ser dividida entre os ‘irmãos’ e os ‘mundanos’. mal “trabalhada” pelos agitadores.” 256 A essência da tá i resumida na boutade pintada nos muros de Paris em maio de 1968: “Seja realista: peça o impossível”. e mais crêem no que menos hajam experimentado antes’. Ape sar da posterior mudança inesperada no rumo dos acontecimentos 257. a esquerda enxergou tão lucidamente o tabuleiro político e dirigiu com tamanha habilidade o movimento do conjunto. precipita uma crise de legitimidade onde o Estado é acusado de não cumprir suas próprias leis. “Vem depoi s o passo definitivo: ‘persuadir os homens crédulos e inclinados a tais erros gratif icantes de que sobre eles recai a luz especial do Espírito Santo’. ignorem os conteúdos das Escrituras que se revelem incompatíveis com a nova doutrina. ensina às esquerdas o preceito da “reivindicação impossível”. por mais errônea que seja a associação. não atendida pelo Estado. gera um a onda de indignação moral.

o curso das coisas tomou um rumo positivo. a ponto de a comentarista política Dora Kramer c oncluir que “ética não dá voto”. O exemplo da escola municipal é só um modelo em min iatura: a Constituição de 1988 é um sistema completo de armadilhas habermasianas. O grande vencedor foi um homem que. que dispõe de um esto que infinito de Engoves. Será que ninguém leu que Lênin recomendava fomentar a corrupção para depois denunciá-la? Ou o mito da cordialidade b rasileira impede de acreditar que exista aqui alguém capaz de tanta malícia? 257 Mud ança graças à qual a onda moralizante. Na economia divina. Afinal. no v eredito implacável das urnas. É inac reditável como quase ninguém neste país parece perceber isso. encarnou no entanto o princípio da sensatez. sem ter-se omitido na luta contra a corrupção. segundo o qual denúncias e acusações — que ameaçavam tornar-se o tema dominante da discussão política nacion l — são na verdade uma ocupação menor. a agitação de umas centenas de intelectualerdas à superfície do momento histórico pode ser apenas a expressão pervertida e caricatural d e uma exigência profunda e autêntica do nosso povo. fizer am o mesmo com as dos acusadores.não desempenha sua parte na comédia. contrariando os planos de seus mentores. que não deve distrair do essencial: os planos objet ivos e o trabalho racional para um futuro melhor. bem diferente do esperado e desejado pela inquis ição esquerdista. tanto os campeões da corrupção quanto os arautos da morali dade: se as denúncias de corrupção liquidaram as carreiras políticas dos acusados. rejeitou de um só golpe. fundamentalmente são. até os Mercadantes acabam fazendo o bem que não querem. O povo brasileiro. De fato. . A Providência. acabou levando a bons resultados. jamais se recusou a usar dos préstimos dos maldosos para produzir o bem mediante uma engenhosa e sutil redistribuição dos males.

mas sobretudo Luís Mir. no qual muitos desejavam manter preso o nosso país até precipitá-lo no desesper o. 1960 ). acaba por se comport ar. a conferência de A vitória de Fernando Henrique foi para o Brasil algo assim como a libertação de uma n eurose. independentemente das intenções maquiavélicas p or trás do palanque. praticada a sério . a esquerda brasileira. desenvolverá no homem a acuidade moral de um tatu-bola. IAL. 2a. tem raízes psicológicas pro fundas. Na esquerda. 1966 ) como o mecanismo básico das neuroses. vista como expressão deste sentido. Oswaldo Peralva. Nova Fronteira. o personagem acaba por descobrir que . Se este amadurecimento lhe custou a perda da sensibilidade moral e a completa prostituição do senso ético à ambição de poder. ao dominar a técnica do maquiavelis mo gramsciano que lhe inspirou as campanhas pela “Ética” e pela “Cidadania”. op. o ciclo de “Ética” assumia um sentido claríssimo. e. redimindo-se enfim de uma história marcada pela ingenuidade. com os valores que a suste ntavam e com os objetivos da estratégia que ela determinava. Rio. no presente estágio da História mund al. diante da qual o eleitor. é implesmente porque é uma esquerda neurótica. ninguém contava com este res ultado. tb. Colocado no seu devido lugar dentro desse panorama.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 185 marcada para sempre como um momento em que a esquerda acreditou estar muito pert o de possuir a hegemonia e conquistar o poder. Pretendendo servir-se dela. como também alcançou aquele pa rão de eficiência fria e cínica que ela tanto invejava na direita local e nas esquerda s de outros países. a esquerda acabou por servi-la: o ator foi engolido pelas falas do personagem. dando aos candidatos da esquerda um a aparência de bonecos alucinados. encontrava aí sua razão de ser. o objeto de chacota de russos e chineses258. A Revolução Impossível. fazendo nisto um investimento int electual tão gigantesco. minha apostila O Abandono dos Ideais. tantas vezes. O Comunismo no Brasil. não somente asc endeu à condição quase sacerdotal de condutora moral da nação. em tudo e por tudo. que. ed. a respeito. ao menos soube provar a si mesma que a merecia. e é descrito por Paul Diel ( Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque. a súbita e imprevisível resolução dialética da confronto estático entre ladrões e dem gogos. por outro lado. Numa outra históri a de Pirandello. Mas. Rio. Foi realmente um achado.. a ideologia democráticoiluminista subentendida no concei to de “ética na política” é uma corrente bem mais forte. que. ele pode persuadir o orador mesmo. para alguns dos próceres da campanha. Payot. assim como a família do louco. F. pela completa falta de senso prático. 1985 ). Ora. Par is. que fizeram dela.. representando hipocritamente o papel da corte de Henrique IV para enganar o protagonista. uma força própria: ele pode contaminar quem pretenda simplesmente usá-lo. 1987. o mais fr io e cínico dos realistas. esp ecialmente capítulos 4 e 5. deixava de ser um sintoma de demência ou de maldade pessoal de seu autor para se revelar como um ato político perfeitamente coerente com a cosmovisão das esquerdas. 1935-1945 ( trad.. Itatiaia. cit. O tema mesmo da confe rência. no sentido maquiavélico do termo. 258 V. o dicurso “ético” tem. Apenas. julgou m ais prudente votar em Fernando Henrique. com toda a sua brutal falsificação da realidade. c ontinha a secreta e verdadeira intenção dos seus esforços. O Falecido Matias Pascal. exatamente como a corte de Henrique IV. pp. num choque de retorno. Dulles. 259 O processo de degradação interior q ue leva o jovem idealista exaltado a tornar-se. malgrado sua antigüidade. V. se não chegou à vitória. pel o utopismo. na peça de Pirandello. Pessanha. 11-13. De fato. nenhum artifício poderia ser mais útil e eficaz. para então poderem se apresentar como médicos da doença que eles mesmos haviam prov ocado. O Retrato ( Belo Horizonte. Numa operação destinada a perverter o senso ético da população para rebaixá-lo a instrumento a serviço de fins políticos imediatos. e John W. do que a pedagogia ética de Epicuro. levando-o a colaborar com o Estado que pretendia destruir. aconteceu que esse endu recimento se refletiu nas almas e nas vozes. e os jovens neuróticos não sabem conquistar a maturidade senão pelo endurecimento da alma259. do que o resíduo de crenças marxistas que. Raul de Sá Barbosa. desconfiado. mas desde quando a esquerda tem algum talento profético? A casta sacerdota l de esquerda criou os pressupostos ideológicos e psicológicos em que se assentou a vitória da direita. aparentemente tão distante da atualidade local.

sua pessoa real tem menos substancialidade do que sua “sombra” social: um endereço. um número na carteira de identidade. reduzida a espectadora desde fora do aparelho de Estado. fingindo sa tisfação. um estado civil. A farsa pirandelliana da “Ética” ter minou assim por restaurar. ou então de aplaudi-lo. e declarar que era exatamente esse o resultado que pretendia. a es querda tem de renegar o fruto dos seus esforços. em proveito da direita. um pouco da ética que a esquerd a pretendera usar como instrumento para sua “longa viagem para dentro do aparelho de Estado”. A farsa dent ro da farsa . e agora.

186 OLAVO DE CARVALHO devolve-nos à realidade: o Estado democrático à americana é o grande beneficiário da estra tégia socialista. É que o auto-engano estratégico já estava anunciado, de antemão, pelo au toengano na esfera da ideologia. Vale a pena recapitular o caso. A influência domi nante sobre a intelligentzia brasileira nas últimas décadas foi, sem qualquer possib ilidade de dúvida, o marxismo. Pode-se talvez dizer o mesmo da intelligentzia mund ial, mas, na Europa e nos EUA, é certo que houve, ao lado da corrente marxista, po derosas correntes liberais, católicas e conservadoras; poderosas não somente pelo núme ro, mas pela qualidade de seus representantes, bem como pela intensidade da sua ação pública. Os nomes de Friedrich Hayek, Benedetto Croce, Raymond Aron, Ortega y Gas set, Daniel Bell, Arthur Koestler, marcaram a história do pensamento político, pelo lado liberal, tanto quanto os de Sartre e Althusser do outro lado. O conservador ismo falou com rara eloquência pela boca de Saint-Exupéry, Georges Bernanos, T. S. E liot, como hoje pela de Alain de Benoist e Roger Scruton. Nada de semelhante se observa no Brasil, onde, depois de João Camilo de Oliveira Torres e José Guilherme M erquior, a voz da direita não se fez ouvir senão através de Plínio Correia de Oliveira, demasiado comprometido com um movimento paramilitar para que suas idéias possam co ntar num debate pacífico, e de Gustavo Corção, demasiado rígido — apesar do talento fulgur ante — para poder desempenhar num diálogo algo mais que o papel de censor. Houve, de pois, Roberto Campos, mas sua argumentação, brilhante como poucas, restringe-se aos temas econômico-administrativos, sem poder ter um alcance cultural mais abrangente , à altura dos méritos do ex-ministro do Planejamento. Análogos méritos e análoga modéstia d o leque de assuntos observam-se em Aristóteles Drummond e Donald Stewart Jr.. Rest a, isolado como um monumento em meio ao planalto de Brasília, José Oswaldo de Meira Penna — o único polemista que, à luz dos pressupostos liberais, empreende uma crítica cu ltural de mais vasta escala e, para as esquerdas, atemorizante 260. Mas, em face desses poucos nomes, estende-se como um oceano a 260 horda dominante dos marxistas, marxianos, neomarxistas, socialistas, progressist as, nacionalistas de esquerda etc. etc. Sobre essa massa barulhenta e autoconfia nte, a queda do Muro de Berlim teve um efeito dos mais singulares: fez com que e la recuasse no tempo, e, já não conseguindo ostentar por divisa esquerdista o nome d o marxismo, redescobrisse, como substitutivo de seu ideal revolucionário perdido, o esquerdismo do século XVIII: o iluminismo. Acomodação tipicamente brasileira: um mod o de deixar de ser marxista continuando marxista. Pois Marx já deixara preparado, para essa gente, o ardil da operação retrô: se o Brasil não podia tornar-se socialista, era simplesmente porque Historia non facit saltum, e antes da Revolução Russa tínhamos de realizar... a Revolução Francesa. A redescoberta desse ardil foi o alívio após o min uto de terror — aquele terror que invade uma tropa de meninos ao anteverem a depre ssão que se seguirá ao término de uma brincadeira sangrenta (como em Lord of the Flies de William Golding). Não sabendo viver sem um ideal revolucionário, não concebendo ou tro sentido da vida senão o sentido da História, a tropa esquerdista, desprovida de uma regra de jogo, tinha chegado a ver abrir-se diante dela o abismo sem fundo d e um desespero beckettiano. Mas, tão logo as trombetas anunciaram a ressurreição de Di derot e Voltaire, Condorcet e D’Alembert — logo acompanhados de La Mettrie, Sade e d emais libertinos célebres —, num instante o balão murcho do esquerdismo nacional viu-s e inchado de novo, trocando de retórica como quem troca de cuécas: em vez de guerrea r o capitalismo, o caso agora era lutar contra a oligarquia agrária, a moral católic a etc. Isto não era, afinal, tão diferente da velha estratégia do Partido Comunista, q ue propunha a aliança da esquerda com a “burguesia nacional” contra os “senhores feudais” do Nordeste, supostamente aliados ao imperialismo americano para a expoliação de seu s servos-da-gleba 261. Assim, tal como o adepto da New Age, que rias. O cacoete marioandradino de começar frases com pronome oblíquo da terceira pes soa, que o leitor automaticamente toma como conjunção condicional, também só serve para atrapalhar. 261 Caio Prado Jr. já havia provado a falácia dessa estratégia, num dos me lhores livros produzidos pelo esquerdismo nacional ( A Revolução Brasileira, São Paulo

, Brasiliense, 1969 ). Mas não era bom lembrar isso, de um lado porque solaparia a s bases teóricas da nova retórica “iluminista”, de outro porque esse livro, corrigindo u m erro, ajudara a criar outro pior: a adesão maciça da esquerda à tese da luta armada. Paulo Francis, talento extraordinário e homem de vasta cultura ( literária e política, entenda-se ), poderia fazer coisa idêntica, mas de uns anos para cá deu de escrever num estilo telegráfico que não argumenta nem prova, só afirma, e acaba por ser menos atemorizante do que irritante, fomentando antipatias desnecessá-

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encontrando dificuldades nesta vida decide fazer uma regressão hipnótica para ir res olver os problemas de uma encarnação anterior, a esquerda recuou em busca de uma Bas tilha que fosse mais fácil de derrubar do que o capitalismo moderno. A rapidez com que se fez a adaptação bem mostra a leviandade, a fatuidade da intelligentzia nacio nal. Ora, o único lugar do mundo onde os ideais iluministas foram realizados na máxi ma extensão possível das faculdades humanas foram os Estados Unidos. A Revolução Frances a, um morticínio inútil, foi seguida por quase um século de vaivéns e a França só se estabil izou como república democrática por volta de 1870, quando os EUA já haviam se tornado uma grande potência. As duas guerras mundiais do século XX tiveram como único resultad o duradouro a destruição final das potências coloniais européias e a ascensão dos EUA à cond ição de Império mundial: o nazifascismo e a URSS não f oram, dentro do curso maior da Hi stória, senão momentos dialeticamente absorvidos na linha perfeitamente nítida de dese nvolvimento que leva da Revolução maçônica à mundialização do Estado leigo e à americanização do. A legitimação dos EUA como polícia do mundo (globalcop) — inclusive aos olhos de uma parte considerável do mundo islâmico supostamente hostil —, por ocasião da Guerra do Go lfo, representou o ponto culminante, até agora pelo menos, de uma ascensão irresistíve l do Império mundial: ao aceitarmos a filosofia política americana, colocamo-nos vol untariamente sob o governo de quem a promove, tal como, entre os povos antigos, copiar a Lex romana e submeter-se ao governo romano eram uma só e mesma coisa 262. O que impediu a intelectualidade mundial de enxergar uma coisa tão óbvia foram dois fatores: de um lado, a crença generalizada na teoria Hobson-Lênin, que tornava insi vível a independência do imperialismo político, cultural e psicológico em relação a supostas motivações econômicas; de outro, a crença residual na vitalidade da idéia de “nação”: acredi se que o impulso de independência nacional poderia resistir à 262 Não é aqui, evidentemente, o lugar para discutir mais aprofundadamente a tendência ger al da História para a unificação da humanidade sob formas de governo cada vez mais abr angentes e complexas. De qualquer modo, essa tendência é visível, é um fato e não tem de s er demonstrada no plano teórico. Para maiores esclarecimentos, se necessários, v. o clássico de Ellsworth Huntington, Mainsprings of Civilization, New York, John Wile y and Sons, 1945 ( várias reedições ).

expansão do imperialismo, quando na verdade a própria emergência do conceito de nação foi apenas um dos momentos dialéticos que levaram, como vimos parágrafos atrás, ao nascime nto do Império mundial. O Império, aliás, não suprime as nações, já que, por definição, se co ui de reinos independentes, diferentes entre si, que ele apenas subordina e coor dena em vista de fins globais que cada reino não precisa enxergar senão parcialmente . A luta anticolonialista do Terceiro Mundo não pode prejudicar em nada o Império em ergente, cujo poder se assenta em bases totalmente diferentes das dos antigos im périos coloniais. Só pode ajudá-lo, na medida em que leva as novas nações a adotarem, junt o com subterfúgios verbais socialistas, as instituições e muito da ideologia do Estado democrático americano. Ao adotar a estratégia de fomentar as revoluções nacionalistas d o Terceiro Mundo, o comunismo internacional aprisionou-se a si mesmo na armadilh a da Revolução Americana. Do ponto de vista estritamente jurídico e político, a mundiali zação do Império é mesmo um benefício para as nações menores, antes submetidas ao arbítrio de tências secundárias, como os velhos impérios europeus ou a URSS; o Império mundial garan te-lhes um tribunal universal ante o qual podem, em pé de igualdade, lutar pelos s eus direitos com muito menos desgaste do que em sangrentas guerras de libertação. Se gundo demonstrou Bertrand de Jouvenel, a expansão dos direitos dos pequenos se faz sempre às custas das hierarquias intermediárias e da formidável concentração do poder nas mãos de poucos. O diagnóstico de Jouvenel é a versão política daquilo que a racionalização w beriana é no campo sociológico. Do ponto de vista econômico, o advento do Império mundia l é também vantajoso, segundo parece. Os argumentos de Roberto Campos, Paulo Francis , J. O. de Meira Penna, Donald Stewart Jr. e outros polemistas neoliberais (e af ins) em favor da internacionalização da economia, até onde posso compreendê-los, são muito

sólidos e a esquerda não lhes tem oposto senão rosnados e imprecações, onde não há nada a co preender. Mas a política, o direito e a economia, destacados do fundo vivo da tram a social, são apenas abstrações, no sentido pejorativo do termo. E, quando examinado d o ponto de vista de suas conseqüências psicológicas, culturais e espirituais, a ascensão do Império mundial é, como vimos ao longo dos últimos capítulos deste livro, uma

188 OLAVO DE CARVALHO ameaça tenebrosa. A derrota do comunismo, é claro, deve ser celebrada por todos os h omens de mente sã, e, se a expansão do Império foi o preço que pagamos pelo fim do p esa delo soviético, tudo bem: pagamos sem bufar. Mas, de outro lado, o antagonismo con ceptual das formas políticas denominadas “neoliberalismo” e “socialismo” ou “socialdemocraci a” tende a obscurecer o fato de que aquilo que se propõe como perspectiva de futuro a um mundo pós-socialista não é o neoliberalismo “em si”, como mera estrutura abstrata de um Estado possível, e sim o neoliberalismo encarnado na forma concreta do Império, e aliás fortemente tingido de elementos socialdemocráticos. O destino do mundo não se d ecide hoje num conflito entre formas de regimes possíveis, mas sim, por trás desse c onflito aparente, na contradição interna do Estado imperial, que parece só poder cresc er à custa da destruição do legado espiritual de onde ele extrai sua única legitimação moral possível. É neste e só neste sentido que se pode ver alguma utilidade na expressão de D aniel Bell sobre o “fim da ideologia”: no novo quadro mundial, já não se trata de um con flito entre ideologias por mais que um hábito de dois séculos i duza muitos intelect uais a n continuarem encarando as coisas por esse prisma , mas sim de um confront o entre os elementos espirituais e os elementos ideológicos no seio do Estado impe rial, conflito que por força da expansão desse Estado se alastra para o mundo todo. Alastrase até o ponto de contaminar até mesmo aquelas forças que, nominalmente, são ou s e imaginam as mais antagônicas ao Império: pois no coração do mundo islâmico o que se vê hoj e é que a resistência à expansão imperial acaba por endurecer e desespiritualizar a trad ição mussulmana, fossilizando-a no simplismo belicoso e grosseiro do chamado fundame ntalismo263, isto é, reduzindo a religião a um receituário ideoO nome calcado no de ce rtos movimentos protestantes é totalmente enganoso. Sugere, por alto, a idéia de ret orno às fontes, de restauração de uma pureza originária, mas qual o movimento reformista ou revolucionário que não se adorna dessa mesma pretensão? Na verdade, o radicalismo islâmico, pretextando um retorno às fontes, propõe às vezes uma total politização do impulso religioso, numa linha bastante semelhante à da “teologia da libertação” católica; e ele se afasta mais ainda das origens desde o momento em que despreza o legado espiritua l das antigas escolas místicas, o tassawwuff ou “sufismo”, o qual, com todas as distorções e desvios que sofreu, ainda conserva alguns valores essenciais à tradição islâmica. V., a respeito das diferentes correntes de pensamento islâmicas e seus antagonismos, Mohammed Arkoun, La Pensée Arabe, Paris, PUF, 1979, especialmente Chap. V, e id. e t al., Les Musulmans, Consultation IslamChrétienne, Paris, Beauchesne, 1971. 263 lógico como qualquer outro, fazendo com que cada novo jihad só sirva para desvitaliz ar e reduzir a uma horrenda caricatura a tradição que imagina defender. Se, de um la do do mundo, o Estado imperial leigo usurpou o manto de Cristo, do outro lado o sionismo ateu usurpou a autoridade de Moisés e a ideologia fundamentalista usurpou a mensagem corânica trazida por Mohammed. O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a possibilidade de sobrevivência espiritu al da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se unir am num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas re ligiões pelo menos das três grandes religiões do grupo abrahâmico , de cujo crédito essas deologias se alimentam parasitariamente. A total laicização do Estado imperial troux e consigo a laicização de todos os conflitos, o rebaixamento de todas as religiões e d e todos os valores civilizacionais, a degradação de todos os motivos pelos quais os homens vivem e morrem. Quem enxerga, hoje, que um século de conflito entre sociali smo e capitalismo terminou pela ascensão do Império mundial onde elementos socialist as e capitalistas foram absorvidos e superados na ideologia do Estado leigo, com preende que o fim do dualismo ideológico, sendo uma realidade, não tem efetivamente o sentido que lhe deu Daniel Bell, mas sim o da entronização de uma espécie de super-i deologia a “metade desvitalizada” do corpo cristão que não encontra concorrentes hoje no mundo senão outras duas antigas religiões igualmente desespiritualizadas e rebaixad as à condição de ideologias. Os intelectuais, é claro, em geral não enxergam as coisas nes sa escala, mas insistem em espremer tudo no estreito quadro de referências a que s

e habituaram em um século de guerra ideológica. Não vêem, assim, outras opções senão restaura artificialmente os velhos conflitos ideológicos, numa espécie de fúria regressiva que se obstina em não reconhecer a passagem do tempo, ou então festejar sob o enganoso nome de “fim das ideologias” a vitória de uma delas, sem perceber que, ao derrotar seu inimigo soviético, o Império ascende à condição de único portador do cetro supremo de laici zador do mundo, despindo-se de todos os escrúpulos religiosos que a luta contra o comunismo o obrigava a conservar. O fato é que, sepultado o comunismo, os Estados Unidos voltam a ser a sede central da Revolução mundial, tal

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como no século XVIII foram seu berço. E o herdeiro nominal da tradição cristã assume sua i dentidade pós-cristã, ou anticristã, precisamente no momento em que as outras duas gra ndes religiões vizinhas se encontram também desvitalizadas, laicizadas e cortadas de suas fontes espirituais. Pela primeira vez na história do mundo a humanidade vive o perigo de uma ruptura completa com o Espírito, de uma total imersão no “historicism o absoluto”, de um total fechamento da porta dos céus. Em face desse perigo, é preciso que, no novo quadro mundial, cada homem empenhado na defesa do Espírito, reconhec endo a mundialização do Império como um fato, e mesmo parcialmente como um bem no sent ido de que afinal a democracia preserva algumas liberdades nominais que em si são preciosas para a subsistência do ser humano pensante , mantenha afiado o sentido crít ico e saiba exigir do Império aquilo que se deve exigir de toda organização social e p olítica: que sirva ao sentido da vida, em vez de usurpá-lo numa nova idolatria. Isto significa, rigorosamente, abster-se de qualquer tomada de posição ideológica (seja no sentido de uma restauração saudosista do dualismo, seja no da celebração do novo quadro uniideológico), e oferecer sistemática resistência à noção mesma inerente a todas as ideol gias de que algum regime político, bom ou ruim, deva ter sobre as almas humanas um a autoridade espiritual comparável à de uma tradição religiosa. Para mim, pessoalmente, não faz tanta diferença, sob esse aspecto, que a organização da sociedade seja socialdem ocrática, neoliberal, que seja mesmo fascista ou comunista: havendo liberdade, des frutarei dela com prazer e, na tirania, ficarei grato pela oportunidade de ser úti l de algum m odo na luta contra o tirano. As duas hipóteses só diferem do ponto de v ista do conforto físico: para a realização do sentido da vida, uma vale tanto quanto a outra, e na verdade os regimes piores fazem às vezes brotar as melhores qualidade s humanas, prontas a dissolver-se tão logo restauradas a ordem e a liberdade (a es querda nacional sob a ditadura deu-nos a melhor prova disto). O reino do Espírito, que pretendo habitar, não é deste mundo, e ele é a única coisa necessária, a única que faz com que a vida seja digna de ser vivida. Todo ideal social, econômico, jurídico ou p olítico, por mais estapafúrdio que seja, é digno de ser defendido por quem creia nele, desde que não caia no propter vitam vivendi perdere causas. Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como

intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grande tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, t odo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.

Os neoliberais têm toda a razão em apontar os Estados Unidos como um exemplo de que a democracia capitalista é para dizer o mínimo o menos inviável dos sistemas políticos. Mas os méritos do sistema norte-americano não são devidos à idéia democrática enquanto tal, nem muito menos ao capitalismo como tal, mas ao fato de que uma e outro, para ab sorver e neutralizar hegelianamente o cristianismo na nova sociedade que geraram , tiveram de cristianizar-se ao menos em parte. Os valores cristãos, profundamente arraigados na mentalidade popular, serviram constantemente de balizas que limit avam e disciplinavam os movimentos do Estado e do mercado, dando um sentido ético e até espiritual ao que por si não tem nenhum; e, como o discurso político era fatalme nte interpretado e julgado em função desses valores, mesmo o p olítico que não acreditas se neles, mesmo o maçom de estrita observância, tinha de proceder exteriormente como cristão. Com extrema freqüência acabava por vigorar na prática o princípio católico “age c se tivesses fé e a fé te será dada” , e o cristianismo de mera pose acabava por dar aos atos políticos um sentido e um efeito cristãos de pleno direito. O exemplo mais cara cterístico é Abraham Lincoln. Esse homem destituído de qualquer crença íntima num Deus pes soal, esse devoto do Estado norte-americano que a seus olhos era a incorporação viva do fatalismo histórico conduzido pela Providência anônima de um deus iluminista, era no entanto assíduo leitor da Bíblia. Mas ao mesmo tempo esse self made man que incen tivava a difusão da lenda de sua falta de instrução era um erudito às antigas, um conhec

mas imitava das falas dos pre- . Ele lia a Bíblia c omo retórico. Hamilton e Burke.edor profundo da retórica de Cícero. em busca de material e inspiração e não apenas recheava seus discursos de citações bíblicas. Quintiliano.

é notório que o credo american o democracia. “Abraham Lincoln”. onde uma elite de céticos e inimigos da fé governa a ma ior população cristã do mundo. hostil a todo progr esso que não obstante as beneficia materialmente. João Crisóstomo. cit. lei e ordem. e. O Estado democrático só consegue revestir-s e uma aura de prestígio religioso na medida em que cede e cede muito à influência da r eligião. 17 ss. São Paulo. Fr iedrich Karl von Savigny já havia percebido que todas as legislações do mundo moderno eram expressões de valores cristãos. Daí também dois fatos da maior importância. mu ito antes. Muito antes dos modernos estudos sobre “religião civil”. a sociedade s e descristianiza. confirmando a definição weberiana da História. tendem a refugiar-se num fundamentalismo rancoroso. o lado irrac ional de uma democracia que ao mesmo tempo expande ilimitadamente os direitos do s cidadãos e os submete à vigilância opressiva da burocracia jurídica onipresente e os m anipula por mil e um artifícios de controle social científico. voto. um sentido e uma proteção sem os quais não poderiam sobreviver por muito tem po sem decaírem ao estado de “ficções jurídicas”. Aí é que se vê a sabedoria do conselho de S. liberdade de imprensa etc. Segundo fato: à medida que. gerada por uma casta sacerdotal. José Paulo Paes. se rebela em seguida contra o seu criador. perde autoridade e legitimidade. seguindo a linha fatal dessas conseqüências. cujo destino lhe interessava tão pouco quanto a s alvação da própria alma. move desde dentro. o esplêndido ensaio de Edmund Wilson. amortecendo-lhes o impacto contra o fundo acolchoado de uma coe rência ética que dava um sentido de unidade e universalidade às correntes diversas as quais. contradições que a cultur a cristã atenuava. para enfim se precipitar num abismo d e erros e loucuras. Deus é menos exigente com o homem do que o dogma do sincerismo m oderno espécie de hipocrisia às avessas. as forças cristãs. o que terminou por fazer dos Estados Unidos essa contrad ição viva: um Estado leigo maçônico. largadas a si mesmas. Companhia das Letras. fatal que as idéias democráticas recebessem espontaneame nte uma interpretação cristã. assim. pp.. já traziam o cristianismo no sangue. trad. Era. ele repete nisto o ciclo eterno da casta governante que. e como um exemplo de político inspirado em ideais cristãos: o sac erdote de César tornou-se um apóstolo de Cristo 264 mais um resultado impremeditado. que inaugurou a moda de tomar o exibicionismo por sinceridade. passan do por cima das intenções subjetivas do indivíduo Abraham Lincoln. seleção e pre fácio de Paulo Francis.190 OLAVO DE CARVALHO gadores religiosos muito do pathos característico que distingue a sua oratória e faz dela uma das mais poderosas da língua inglesa. Ao mesmo tempo. tão logo se livra da religião. subentendendo que esse fundo cristão lhe dava uma unidade. sentindo-se expulsas da terra que lhes fora pr ometida. O resultado foi que o povo. acabou por entrar para a História como o libertador dos escravos. e Lincoln. O conflito interno da consciência protestante que inspira o capitalismo e depois reage com violência às inevitáveis cons eqüências político-sociais do progresso capitalista é um Leitmotiv da história americana. No caso norte-americano. deu às suas palavras e atos um sentido cristão. e as profundezas do nosso coração só Deus conhece. ao mesmo tempo que realizava sua meta suprem a de preservar a unidade do Estado providencial. só aos poucos e graças a esforços prodigiosos de gerações de propagandistas se disseminou entre populações que. Exemplos similares poderiam multiplica r-se indefinidamente: a hipocrisia que se reveste do manto de Cristo cristianiza -se de algum modo. as coisas parecem equacionar-se de . op. de que ma is importa confessar Cristo com a boca do que com o coração: porque a boca está sob o nosso comando. 265 Foi Jean-Jacques Rousseau informa-nos Paul Johnson. assumem logo as figuras inconciliáveis e eternamente hostis de Leviatã e Beemoth. que cobra das almas uma pureza utópica só para poder mais facilmente precipitá-las no abismo da auto-acusação exibicionista265. patenteiam-se também as contradições do sistema político. 1991. que à me ida que o Estado se desmascara e manifesta aos olhos da sociedade o intuito laic izante que o 264 V. em Onze Ensaios. pois descendiam do primeiro povo c ristão da Europa. alardeando até mesmo p ecados fictícios. Primeiro.

Daí entendemos que a ascensão do . na medida em que a casta sacerdotal não é cristã. a alma do povo continua a ser formada. pela influên cia do clero cristão católico ou protestante. que molda a mentalidade da elite intelectual e governante. Mas e este é o pivô do drama a Maçonaria só exerce uma parte das atribuições de uma c a sacerdotal: ela é o esoterismo. ao passo que.maneira um tanto diferente. no reino exterior ou exotérico. o rito interior. e sim maçôni ca. hoje como sempre. secreto ou discreto.

desde que privad os da seiva cristã que os alimenta. a dinâmica que marcará a história dessa sociedade. Na história. que a liberdade sexual é um direito inalienável. Ao contrário: religião e economia. contanto que consintam em perder toda importância vital e em tornar-se adornos t urísticos para embelezar a cultura maçônicodemocrática. mesmo separados por séculos de d esenvolvimento econômico desigual e por abismos de diferenças culturais e psicológicas . malgrado todos os esforços humanos. onde os únicos antagonismos reais que existem são os conflitos de classe 266. na medida em que. mas que com ou sem Gramsci anda disseminada pelas cabeças de quase todos os pensadores sociais e políticos des ta parte do mundo. ideologia. ideológicos. digamos assim. A heterogeneidade essencial das força s que compunham o ideal americano maçonismo e cristianismo pôde ser ocultada por um tempo. que as diferentes culturas devem ser preservadas em sua pureza . mas os elementos religiosos. senão essas caricat uras de paraíso que recebem o nome de utopias. política. no seio mesmo da mais organizada das sociedades. contanto que os homossexuais não pratiquem sodomia e os heterossexuais não façam propostas eróti . não uma lei histórica. só constitui um bloco para fins de hipótese metodológica. ele se assume como independen te do cristianismo e. Na medida em que o ideal maçônico do Estado leigo democrático se realiza. Estas palavras expressam minha convi cção de que é puramente ideológica. e 266 Concepção que encontra sua expressão mais plena em Gramsci. precisamente. mas pr ecisamente da impossibilidade de sintetizá-los na prática. mas não é capaz de dar a esses valores e princípios. uma força de subsistência autônoma: a vitória da elite maçônica traz em si os germes de sua própria destruição. O impulso para a síntese que é uma das fontes do empenho civilizatório em ger al é uma exigência constitutiva. menos coerência. cultura e “senso com um”. por exemplo. mas. precisamente pela mesma razão que permitiu a Abraham Lincoln passar em públic o por grande líder cristão: pela razão de que seus intuitos ( em si mesmo nem cristãos n em anticristãos. na mesma proporção. da mente do indivíduo human o. da mente humana. fundamentalmente inalteradas em seus dogmas a despeito de todas as mudanças econômicas. para não dizer fantasista. fazem brotar de novo e de novo os conflitos mais bárbaros e as contrad ições mais insolúveis. que a formam podem ser heterogêneo s por sua origem e continuar heterogêneos e conflitantes de seu conflito resultand o. ao mesmo tempo que ensina nas escolas que ela não é senão o resultado fortuito de um a combinação de átomos. são forças autônomas. põe à mostra suas próprias fraquezas e contradições Ele prega. por exemplo. O menos inviável dos regimes terminará por inviabilizar-se quando terminar de corroe r. tomada num momento qualquer do seu dese nvolvimento histórico. O perfil de uma determinada sociedade. no plano político-ideológico. quanto mais se laiciza a sociedade. os princípios religiosos a que a idéia democrática deve toda a sua substância. interna. Anexado de fora. disse eu. a concepção da sociedade como m bloco mais ou menos homogêneo de economia. muitas das grandes mudanças não advêm de nenhuma síntese de elementos anteriores. que devemos respeitar a vida humana como um bem sagrado . Repito o que disse lá atrás: a síntese dialética só existe no reino das idéias. que o homem tem o direito de cul tuar Deus à maneira de sua religião. em nome da democracia. contanto que coloque acima desse Deus as leis e instituições do Estado leigo. extracristãos) foram aceitos na medida em que o povo os interpretava como cristãos e acabava por cristianizá-los. remetendo a unidade à esfera que lhe é própria: a esfera do ideal e d o extramundano a que não correspondem. isto para nada dizer da possibili dade de transplantar uma religião de um país a outro. como o prova o fato de que as religiões podem subsistir por milênios. menos credibilidade e menos funcionalidade têm os valores democráticos em nome dos quais essa elite chegou ao poder e governa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 191 governo maçônico se prevalece do prestígio cristão anexado de fora aos valores e princípio s da democracia. o que se vê é o entrechoque entre esse impulso e as tr emendas forças de divisão e decomposição a começar pelo fato mesmo da morte que se opõem manentemente ao esforço unificador humano e. etnológicos etc. na escala dos fatos históricos.

numa permanente estimulação contraditória que está na raiz da violência e da loucura que hoje marcam a sociedade americana e todas as s ociedades que se colocaram sob a órbita da influência ideológica da Revolução Americana. e assim por diante. mas q ue recebeu prontas da civilização cristã e que não sobrevivem à . M uitos analistas do fenômeno americano já estão se dando conta de que a democracia depe nde de que existam no povo certas virtudes que ela não criou nem pode criar.cas às mulheres.

Friedrich-W. não enxergando que os méritos de qualquer sistema político dependem essencialmente d e que ele saiba respeitar os limites que lhe são impostos pela consciência religiosa do povo. é a instância superior onde se arbitram todos os co nflitos entre facções. não compreenderemos o que se passa hoje no Império americano e no nosso próprio quintal. ou antes. monárquico ou republicano. como disse São Paulo Apóstolo. sendo a expressão da ideologia de um grupo vencedor. talvez. pode oferecer uma resistência eficaz ao crescimento ilimitado do poder político mesmo e sobretudo daquele exercido em n ome de pretextos religiosos. é sempre um juiz parcial na hora de julgar os vencidos. Enquanto estivermos contaminados pelo preconceito . Christopher Lasch. em contrapartida. ou praticamente todas já deram provas de poder adaptar-se a todas as culturas. Schelling. os farrapos de papel com as caretas bisonhas dos demagogos tingidas de lodo. o que já basta para por em dúvida a onipotência da nov a cultura 269. Jankélevitch.. en quanto não percebermos que ela pode ser precisamente o contrário. 2 vols. segundo a qual a religião e somente a religião. mas reside naqueles homens em que se manifesta de maneira patente o es pírito mesmo da religião . S. católico ou protestante. É porque. frequentando o culto do minical. que arrasta os impérios e as nações como o vento arrasta pelas ruas desertas. cuspe e respingos de cerveja. isto mostra o que foi dito parágrafos acima. E enquanto não absorvermos essa lição. desde a eternidade. 19 . O lance de dados em que os poderes deste mundo partilham o manto de Cr isto não abolirá jamais o movimento imprevisível do Espírito. Por toda parte o que se vê é o completo fracasso da tentativa de superar por uma ética leiga as antigas éticas religiosas. sejam elas religiosas ou políticas. Mesmo e sobretudo. e se por outro lado a dinâmica anticristã do Estado leigo parece uma fatalidade inerente à constituição mesma do novo Império. Aubier. compreendida como portadora simbólica de verdades universais e valores objetivos. a t odas as constituições políticas. V.192 OLAVO DE CARVALHO descristianização da sociedade 267. socialdemocrata ou neoliberal. passim. E enquanto não com preendermos essas coisas continuaremos a apostar neste ou naquele sistema político . o poder é o único juiz. que nel a se projete. culturais e políticas. Introduction à la Philosophie de la Mythologie. comunista ou apitalista. Se hoje não podemos desistir nem do Estado democrático nem do fundo cristão sem o qual ele perde todo sentido e se transforma no neototalitarismo do “politicamente correto”. porque a lei religiosa. é porque elas 267 268 existem e vigoram num plano de universalidade superior ao de todas as culturas. nenhum programa político pode ter a universalidad e e a abrangência de uma religião nem muito menos o seu poder unificante e doador de sentido. segundo a qual são os mitos e as religiões que estatuem o campo po ssibilitador dentro do qual se erigem as formas sociais. também não aprenderemos a de Bertrand de Jouvenel. sociedades e constituições políticas. a todas as sociedades. ele será sempr e o poder de César. É ainda nos Esta269 V. Metade da população americana c ontinua. que algumas das reações mais vigorosas à cultura anti-espiritual do no vo Império brotam de dentro dos próprios Estados Unidos. meio marxista. ao passo que toda legislação po lítica. porque a unid ade da ética leiga reside na interpretação religiosa que dela se faça. com uma propensão incoercível a autodivinizar-se. que o antecedem. enquanto não compreendermos mesmo a lição de Schelling 268. vivificada pela presença da autoridade espiritual e firmada em valores q ue antecedem de muito o nascimento desse sistema e o da própria sociedade que ele governa. Paris. de que a religião é uma expressão da sociedade. meio sociologista. op. Nenhuma ideologia. cit.. o homem espir itual julga a todos e não é julgado senão por Deus. apesar de toda a antiespiritualidade dominante. Se as religiões todas elas. Democrático ou oligárquico. Também é preciso reconhecer. na madrugada que se segue a um comíc io. não poden do ser mudada por arbítrio humano. trad. Na ausência da autoridade espiritual que não se confunde de maneira alguma com as hierarquias de nenhuma burocracia ec lesiástica. uma impressão recebi da pela sociedade desde fora ou desde cima. que a ruptura entre Maçona ria e Cristianismo está na raiz da tragédia contemporânea.

têm conseguido escapar às influências secularizan tes que modificaram a paisagem cultural em outras partes do mundo. Esta evidência pode sugerir que os Estados Unidos. A vida pública está totalmente secularizada. Mas esse fato também deve ser interpretado com prudência. em comparação com outras nações industriais. A aparência eng ana.45. segundo diz Christopher La sch: “A quantidade de pessoas que professam a crença em um Deus pessoal. entretanto. A separação da igreja e do . pertencem a uma denominação religiosa e assistem ao serviço com alguma regularidade continua nota damente alto. de alguma forma.

por apego a preconceitos qu e os cegam. Mas. que o condenarão à mor te. E lá. profundamente influe nciada pelo pensamento de Frithjof Schuon. hoje interpretada como proibição de se recon hecer publicamente qualquer religião. 2e. 198 1. Le Seuil. No fundo de sua aparência erudita.. den tro do corpo americano.. Também não sabem pa ra onde levam quem os ouve: e assim arrastam o público para o Jardim das Delícias. Um estado mental cético. 20:18-19 ( trad. se até os norte-americanos conscientes do caráter anti-espiritual do novo Império terminam por servi-lo involuntariamente. E. mas nem imaginam quem fala por sua boca. Paris.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 193 dos Unidos que se encontra hoje o mais poderoso núcleo de resistência ao avanço do ateís mo oficial — o que abrange desde as comunidades que se organizam contra a lei do a borto até a elite espiritual concentrada em torno de figuras como Seyyed Hossein N asr — exilado iraniano —. do Jardim das Aflições. São cegos e ingênuos no fundo de uma casca de vaidade e presunestado. iconoclástico. New York.. cit. é uma das características das cla sses cultas. A religião foi relegada às vias secundárias do d ebate público. são incultos. Antônio Pereira de Figueiredo ). a essência mesma do culto imperial? Não. s em saber que se trata. op. não obstante. ainda subsiste a contradição entre Império e nação — contradição em q o leitor não terá dificuldade de reconhecer um resíduo da ideologia dos impérios colonia is. W 271 Mat. “o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes.. e crucificado. pp. e aos escribas. mas ao terceiro dia ressurgirá” 271. Fascinam a platéia. The Gifford Lectures. Knowledge and the Sacred. A atitude das elites no que se refere à religião vai da i ndiferença à hostilidade” ( Christopher Lasch. sob disfarces variados. Huston Smith. éd. eles não sabem o que fazem. despreparados e bem pouco intelige ntes. ção. na verdade. o ateísmo oficial do Império. homem espiritual de primeiro plano e inventor do único método válido já concebido para a comparação e aproximação das religiões 27 s é ainda verdade. Crossroad. . 1979. O seu compromisso com a cultura da crítica é entendido como a eliminação do s compromissos religiosos. 27 0 V. que muito da resistência espiritual norteamericana se perde em histerismos ultraconservadores e em arreganhos nacionalistas — às vezes va gamente fascistas — que não têm nenhum sentido no novo quadro a não ser mostrar que. prisioneiros de mitos que constituem. Frithjof Schuon. 1981. novamente. que só servem para gerar desc onfiança entre os crentes das várias religiões e fomentar. pela divisão. e Seyyed Hossein Nasr. quanto mais não o farão os intelectuais progressistas do Terceiro Mundo. está mais profundamente arraigada na América do que em qualquer outro lugar do mundo.. 247-248 grifos meus ). Os próceres da reforma intelectual b rasileira querem guiar o povo sem saber quem os guia. E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido. De l’Unité Transcendante des Réligions. finalmente. Victor Danner e outros. é triste verdade que muito dessa resistência se inspira no apego a exclusivismos religiosos de cunho fundamentalista.

num certo momento da nossa História. movido pela angústia ou pela voracidade. de sentimentos grosseiros e de palavreado florido. vos garanto: não posso.” KARL JASPERS Termina assim nossa jornada — o giro por dois milênios de História das Idéias. Isto fez dele o emblema das dores e da insânia de uma época. sem no mesmo ato cuspir na própria face. e xpô-lo com descomprometida e sádica alegria ao escárnio das gerações futuras. na platéia do MASP. não como um crim inoso a ser escarmentado. crendo e fazendo c rer que ensina o caminho da sabedoria. ao menos cada qual a si . Eis também o motivo pelo qual é tão difícil condená-lo: ele errou em nome de todos. todos os mitos e ilusões a que se agarravam por desespero os intelectuais brasileiros. que. mas que neles se repartiam em porções desiguais e de composição variada. lapidar o próprio peito. enquanto José Américo Mo tta Pessanha mergulhou até o fundo do erro. nem a última pedra: não vejo por onde condenar aquele que. qu e compõem a fórmula cerebral de um típico letrado brasileiro do período entre 1964 e 199 4. não colocou o estetismo acima do dever moral. ouvíamos Motta Pessanha. de mitos ideológicos. ordenar e pôr em claro toda a mixórdia de erudição mal dig erida. iludir. Pois. com grandeza trágica. da minha parte. condensaram-se na alma de José Améri co Motta Pessanha. até o patético da autovalor ização heróica. Eis o mo tivo da mágica atração que ele exercia precisamente sobre aqueles que menos o compreen diam. está limpo de toda mácula que nele agora vêdes com os olh os claros que a contragosto meu e vosso vos dei por empréstimo? Qual de vós. Qual de nós. que nos f oi necessário para compreender. por partes e intermitentemente. desde que fosse em nome da nossa sacrossanta indignação política? Apenas. O conjunto forma o retrato de um boneco de ventríloquo. detidos a meio-cam inho por um misterioso repuxão do bom-senso ou da hipocrisia.194 OLAVO DE CARVALHO Post-scriptum LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR “A soberba do homem niilista eleva-se. nem a segunda. o poder aci ma do saber. sem outra culpa senão a da demência coletiva que a poder de aplausos e lisonjas o arrastou aos piores desvari os filosóficos. e scribas e fariseus hipócritas. bebeu até o fim a taça da falsidade univer sal. se entreguem à consolação malévola do riso e da ironia. se posta diante dos meus olhos. mas para que nela vos enxergueis a vós mesmos e possais diant e dela confessar. Pois enquanto nós. condená-lo. nós o f izemos com maior comedimento. não foi igual por mais de um aspecto a esse inimigo da sabedoria? Qual de vós pode atirar-lhe pedras. mas como a vítima da tragédia intelectual de todo um país e de toda uma época. Não atiro a primeira. ao meno s antes de ler este livro. dá eco à mensagem do mal e da mentira universais. deuses hediondos prosseguiam sua marcha triunfante entre nuvens de fogo. aqui exposto em toda a sua triste de formidade. não é? Pois bem: àqueles que. indiferentes à voz do boneco que repetia mecanicamente seu discurso numa ponta esquecida do Terceiro Mundo. diante do ca dáver intelectual de José Américo Motta Pessanha. Não. fazendo dele um compêndio vivo dos erros da sua casta. digo eu: qual de vós. É horrível. um dia. Isto fez dele a vítima dos que nele acreditaram. não sabendo quem fal a por sua boca. a paixão ideológica acima dos direitos da verdade. chicotear as próprias costas? Po is eu. trap acear. patético e melancólico. com uma espécie de heroísmo do auto-engano. senhores das letras: não vos exponho o corpo macilento e desgrenhado dessa vítima para dar r epasto à vossa ironia. o encanto das palavras acima da evidência das coisas e dos fatos? Qua l de nós não acreditou um dia que nossa repugnância pelo estado de coisas nos revestia de uma dignidade especial e nos dava um salvo-conduto para mentir.

julho de 1995. não o abandoneis agora. Rio. Orai por ele. na desgraça. Vós. Solidarizai-vos. quando ele aqui jaz. Pois seu pecado foi o de todos nós. com aquele que na glória e na al egria celebrastes. por vós e por mim. que o aplaudistes em vida quando ele em palavras insa nas dava expressão e autoridade a vossos mais baixos sentimentos e a vossas mais a bsurdas aspirações. .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 195 próprio: Eu não fui melhor. desfeito em trapos o seu perfil de filósofo.

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David. 347 BERNARDO DE CLARAVAL. 273. Sto. 47 BECKER. 126. 93. René. 118. 43 BALZAC. 290. 28 6 BOÉCIO ou Boetius. Marcel. 338. 266 B ONIFÁCIO VIII. 46 A FONSO DE LIGÓRIO. 331 A LLEAU. 54. 154. 119. Dante. Gebha rd Leberecht. Hal C. Simone de. 71. Ni els.. 347. 272. 18 7 A FONSO HENRIQUES (de Portugal). 222. 41 BERTRAND. 220. 331 BROCKMAN. Pierre. 280 A GOSTINHO. 276. Anicius Manlius Severinus. John. 388 BENOIST . Afonso de. Honoré de. 269 A LEMBERT . 347 BERDIAEV. 333. 253. 41 BODIN. 185. Louis. 56. 301. Allan. 79.. 387. Jean Le Rond d’. Sto. 10. Hele na Petrovna. 123 .. 382 A NSELMO. 184. 259. 165. 150 BRIO N. 151 BONAPARTE. Maurice. 99 —B— BABEUF. 204. dito. 89. 67 BLAVATSKI. 69 A LBERTO M AGNO. Tomás de Aquino A RISTÓTELES. 67. 212 BEAUVOIR.. 281. Marielza. Roger. 249. 69. 339 BONIFÁCIO. 41 A DORNO. GRINDER. 154. 72. 297. 301 BARRUEL. 341 BANDLER.. 108 v. 271. Georges. 42 A QUINO. 189 —A— A BELARDO. 207. Pierre. Sto. 186 A UBENQUE. John. 325 BAYLE. S. 155. 187. 59.. Pedro. 314 BLOOM. 120. Sto. 123. 93 BAUER. François Noël. 290 A LCUÍNO.206 OLAVO DE CARVALHO ÍNDICE ONOMÁSTICO BARROSO . Louis. Gregory. Sto. John. 257. 209 . 373. 314 BATESON. Papa. v.. 12 BLÜCHER. S. Richard BARRÈS. 277 . 269. 364 A LAIN (Émile Chartier). 306 A RNAULD. 223. Brun o. 120 A U GELLI. 307 BERNAN OS. Jorge. dito Graco. 168 BOHM. Tomás de. Jean. 313. 290 BOAVENTURA. 74. 372 BACON. 142. Antoine. Otto von. 192. 42 A LIGHIERI . 283 BETINHO. Abade. 315 BRENTANO. 168. 127. Nicolai. S. Gen. Harold. 53. Herbert José de Souza. Napoleão. 135 BLOOM. 373 BOAVENTURA. 374 BISMARCK. Alain de. Gustavo. 307 A LTHUSSER.. 384 A LEXANDRE DE HALES. Theodor Wiesengrund. 99 B ELL. 111 BOHR. 284. Franz. 43 A LBUQUERQUE . Daniel. 275 BOWEN. 372. 225. 323.

42. 240. Nicolau de. 258 DAWSON. 105. 32. 259. 83. 389. 365 CHESTERTON. 242 DE M AISTRE . 380 CRÉBILLON FILS. 69. Jacques. 332 CHANDLER. 64. Gustavo. 45. Christopher. 290. Miguel de. 290. 282. 297. René. Alighieri DAVI D. 284. 282. 292. Pedro. 186. 42. Albert. 382 CONRAD. 92. 289. 45 . 364. Flo. 37. 313 BURKE. 299 CAMPOS. Pierre Teilhard de. 201. 237. 363. 191. Rus sel. 144. 358. Guilherme de Conches CONDILLAC. 98 BRUNELLESCHI. 361 CARNEGIE. 42. 262. 45 CAYCEDO. 286. Joseph. 223. Jacob. 215. 28. Gil bert Keith. Maistre DÉGERANDO. 281 CONCHES. 45. Otto Maria. 273. 256. Maurice. Imperador. 304. 266 COLLOR DE M ELLO. 118 DEMÓCRITO. 118 DEMÓCARES. 127 BURCKHARDT . 208 . Jean. 249. 173 CORBIN. 175. Auguste. Marie Je an Antoine Nicolas Caritat. Pedro. 134. Caio Júlio. Jim COPÉRNIC O. Edmund. 33 . 386. 368 DEMÉTRI O. 225. 255. Joseph. 30 5. 395 CHAILLEY. 184. 362. 342 CASSIRER. 244 CLÓVIS. 208 BRUNO. 77 CANTOR. 203 CHAUÍ. Roberto. Joseph Marie. 70 CARPEAUX. Fritjof. Antônio. 70 CERVAN TES. 337 CONSTAN TINO. 65. 271. 152. 280. 366 —C— CALDERÓN DE LA BARCA. 232. 273. 394 CROCE . 396 DANTE. 241. Gi ordano. Janer. 84 DELFIM NETO. Nicolau de Cusa —D— D’HONDT . 187 DESCARTES. 209 CONWAY. Gautama. Etienne Bonnot de. 192 CAPRA. 97. 224. 43. 136. Paolo. 146 CARVAL HO. v. 257. Card. Salvador. 150 CONDORCET . 368. 151 CRISTALDO. 369 COLLOR DE M ELLO. 261. 176 CORÇÃO. 329 CÉSAR. 389. v. 59. 150 DELEUZE. 138 v. 267. 57. 266. SIEGELMAN. 66. 190. 59 BURCKHARDT . 186 BUDA. Dale. 108. 159 CHARDIN. Titus. Benedetto. Joseph Epes. marquis de. Olavo de. 19. Victor. 64 CLEMENTE de Alexandria. 264. 107. 298. Jacques-Louis. 378 CARLOS M AGNO (Charlemagne). 363. 347 CRISTO. Filippo. 287. 367 COMTE. 121. 109 BRUN. 369 CARDOSO . Claude. Georg. Fernando Afonso. Guilherme de. v. 204. v. 285. 63. 270 CUSA. 226. 258. Nicolau. 347 CA MUS. 366. 266. Henry. 232. 68. 29. 226. J acques.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 207 BROWN. 365. Marilena. Gilles. 390. 300 DANNER. Ernst. 222. 380 CROUZET . 106. 226 DANIÉLOU. Fernando Henrique. 35.

Fiódor Mikhailovitch. 127 ELWELL-SUTTTON . 105 FEUERBACH. 37. Francis Paul. Umberto. Leonel. v. 166. Foster.. 4 0 EVOLA. 90. 67. 183. 382 GRAMSCI . 103. 339 DRAYTON. 360 GAULLE. Charles de. 291 DRUMMOND. Louis. 40. (Thomas Stearns). 376. 120. 60-73. 274 . 42. 67. 64. 166. 287 FOUCAULT . 117. Sigmund. 32. 265 FURTADO. dit o Petrus. 24. 122 GARCÍA-PELAYO. 370 GEISER. 13. 282. 134. William Henry. Alain . Juan Francisco. 362. G eorges. 149-152. 378 DILTHEY. 150 DIONÍSI O. 117. Manuel. 370 GOLDING. L. 12. 154. Paul. 381 DRUMONT . 43. 118 —E— OLAVO DE CARVALHO —F— FÁBIO. 89 EPICURO. 49. 97. Édouard. Gilbert. 196 FOWLES. 284 DÜRING. 156. Allen. 35. 83 GOETHE . 240. 35. 118 EURÍPIDES. Pastor Caio. Pe. Julius. 40 EUBÚLIDES. 214.. Albert. 189. 369. 274 FELIPE O BELO. 195. 23 1. Ludwig. 226. 51-58. 33 7 FEYERABEND. Mons. 27. 389 FREUD. P. 46 FUN K. 28. 340 FESTINGER. 315 FRANCA. 331-334. Johann Gottlieb von. Albert. Sir John. 42. 379 ERICKSON. 368. John. Mons. 45. Denis. Michel.. Paul. Christopher. 109 FARIA. 121 DIRCEU. Mons. 129. Leon. Pierre Gassend. Rob ert L. 36. 137. 286. 175 FICHTE. 189 FAVIER .. 187. 169. 271-275 FELIX. 8 6-90. 275 GAXOTTE. 197 GARCÍA GUAL. 338-340. 133. 189 ELIADE. 202. 204. 225. S. 46 FORTESCUE. 137. 187. Octávio de. John W. 168. T. 33 . 135. Paulo (Franz Paul Heilborn). 373 FARGES. 127. 84. 46 FIELKENKRAUT . Pierre.208 DIDEROT . 241. 259 EL IOT . Galileo. 121. 381. 115-122. 44. Jean. 39. 309 DULLES. 74. 360. 188. 369 —G— GALILEI. 380 ELIS REGINA. 46. 41. 48. 382 DIEL. J ohn. 292 DULLES. Carlos. Milton. José. 242 GASSENDI. 139. 124. J. 392 ECO. 342 DUMONT . 315 E PICTETO. 151. 146. 304 DUP ANLOUP . 126. 185 FRANCIS. 43 EINSTEIN. Celso. Antonio. William. Aristóteles. 171 FUKUYAMA. Wilhelm. Mário. 46. 161. 366 FERREIRA DOS SANTOS. 278 DUMÉZIL. Mircea. 23. 375. 171. S. 45 DOSTOIÉVSKI . Oliveira e Silva DONOSO CORTÉS. 117. 341 DUNS SCOT . 133. 46. Félix. 300 DURAND. Ingemar. 91 ÉSQUILO. Johann Wolfgang von.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 209 GRAVES, Robert, 314; 315 GRINDER, Richard, 69; 89; 103 v. BANDLER, John, 69 GUAT TARI , Félix, 84 GUÉNON, René, 45; 175; 247; 248; 259; 274; 298; 300; 301; 305; 306; 3 11; 314; 331; 333; 334; 337; 342 GUILHERME DE CONCHES, 41 GURDJIEFF, Georges Iva novitch, 45; 63; 64; 103; 224; 225; 312 —H— HABERMAS, Jürgen, 376 HAMILTON, David, 354 HAMILTON, William G., 389 HARTMANN, Nicolai, 45; 46 HARVEY, William, 42 HEGEL, Georg Friedrich Wilhelm, 28; 46; 77; 121; 133; 153; 211; 213; 218; 222-228; 237; 255; 258; 281; 290; 295; 362; HEINE, Heinrich, 126 HEISENBERG, Werner, 65; 122124; 149; 151; 177 HELVÉTIUS, Claude Adrien, 45; 124; 150 HEMMER, Mons., 265 HENRI QUE VIII (da Inglaterra), 273; 280; 282; 286 HERCULANO (DE CARVALHO E A RAÚJO), Al exandre, 41; 43 HERMIAS, 118 HERÓDOTO, 239 HITLER, Adolf, 27; 227; 324 HOBBES, Tho mas, 286; 287 HOBSBAWM, Eric, 214 HOBSON, John Atkinson, 294; 363; 364; 383 HOOK ER, Richard, 284; 286; 375 HORÁCIO, 207 HORKHEIMER, Max, 135 HUGO DE S. VÍTOR, 40; 4 1 HUIZINGA , Johan ou Jan, 188; 349 HUNTINGTON, Ellsworth, 383 HUSSERL , Edmund, 12; 46; 151; 156; 181; 182; 196 HUX LEY, Aldous, 45; 96 —I— IBN-A RABI , Mohieddin, 313 INOCÊNCIO III, Papa, 284 INOCÊNCIO I V, Papa, 272 IVAN III (da Rússia), 282 IVAN IV (da Rússia), 282 —J— JAKI, Stanley L., 12 4 JASPERS, Karl, 45; 150; 399 JOÃO PAULO II, Papa, 85 JOÃO VI (de Portugal), 43 JOÃO X II, Papa, 268 JONES, Rev. Jim., 71; 126 JOUVENEL, Bertrand de, 221; 285; 343; 38 4; 395 JUNG, Carl-Gustav, 45; 216 —K— KALECKI, 45 KANT , Immanuel, 46; 77 KARDEC, Al an, 187 KEATON, Buster, 63 KEYNES, Sir John Maynard, 44 KHAYYAM, Omar, 315 KING, Stephen, 315 KLEIST , Heinrich von, 344 KOESTLER, Arthur, 101; 230; 231; 323; 3 80 KOYRÉ , Alexandre, 175; 176; 180 KRAMER, Dora, 373; 377 KUHN, Thomas S., 196

210 —L— LA M ETTRIE , Julien Offroy de, 144; 328; 348 LACLOS, Pierre Choderlos de, 3 2; 137 LACTÂNCIO, 117 LAÉRCIO, Diógenes, 53; 86 LANGER, Susanne K. (Knauth), 285 LANTO INE, Albert, 280 LASCH, Christopher, 283 LEARY, Timothy, 122 LEHMAN DA SILVA , N elson, 330 LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm von, 36; 45; 119; 144; 186; 188; 190; 192; 196 LÊNIN, Vladimir Iilitch Ulianov, dito, 45; 130; 163; 276; 332; 343; 349 LEVIN , Kurt, 74 LÉVI -STRAUSS, Claude, 42 LINCOLN, Abraham, 247; 363 LINEBARGER, Paul E ., 82 LOMBARDO, Pedro, 41 LORAUX, Nicole, 39; 328 LORENZ, Konrad, 79; 80; 83 LÖWY, Michael, 129 LUCRÉCIO, 52 LUÍS XI (da França), 257 LUÍS XIV (da França), 208; 265; 266 LUÍS XVI (da França), 235; 249; 288 LUÍS, O PIEDOSO , Imperador, 251; 254 LUKÁCS, Georg ou György, 44; 129 LULA, v. Silva, Luís Inácio Lula da, —M— M ACEDO, Bispo Edir, 341 M ACHAD O, Nílson José, 285 M AHARAJI , Guru, 58 M AÏSKI, Ivan, 292 M AISTRE , Joseph de, 45; 280 OLAVO DE CARVALHO M ALEBRANCHE, Nicolas, 119; 175 M ALINOVSKI, Bronislaw, 44 M ALTZ, Maxwell, 69 M ANN, Thomas, 33 M ANNHEIM, Karl, 81 M ANZONI, Alessandro, 309 M AO TSÉ-TUNG, 334 M AQUIAVEL, Niccolò Macchiavelli, dito, 139; 194; 195; 269; 275 M ARCUSE , Herbert , 129 M ARITAIN, Jacques, 257 M ARTEL, Charles, 250 M ARX, Karl, 37; 122; 123; 1 25; 127; 128; 129; 130; 131; 132; 138; 139; 142; 143; 144; 147; 148; 149; 150; 1 53; 163; 177; 199; 200; 201; 216; 277; 293; 310; 330; 348 M AZZINI, Giuseppe, 28 1 M ÉDICI , Gen. Emílio Garrastazu, 66 M EINECKE, Friedrich, 185; 186; 191 M EIRA PE NNA, José Oswaldo de, 332; 347; 350 M ELLO, Collor de, v. Collor M ERLOO, Joost A. M., 81 M ERQUIOR, José Guilherme, 129; 347 M ICHEL, Paul-Henri, 42 M ILL, John St uart, 35 M INOGUE, Kenneth, 142 M IR, Luís, 334; 345 M ITTERRAND, François, 257 M OH AMMED (Maomé), 105; 224; 233; 304 M OISÉS, 105; 267; 278 M ONTAIGNE, Michel de, 191; 194 M OON, Rev., 58; 96; 102; 152 M ORE , Sir Thomas, 263 M ORGAN, Charles, 110 M ORTON, Thomas Green, 63; 105 M OTTA PESSANHA, v. PESSANHA M OZART , Wolfgang Amadeus, 302 M ÜLLER, Juan Alfredo César, 76; 311

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 211 —N— NAIPAUL, V. S., 98 NAPOLEÃO, v. Bonaparte NASR, Seyyed Hossein, 174; 352 NEGREIROS , Almada, 314 NEWTON , Sir Isaac, 41; 42; 119; 145; 184 NICOLAU DE CUSA, 164; 16 5; 166; 167; 168; 169; 176; 177 NICOLE, Pierre, 175 NIETZSCHE, Friedrich, 37; 13 9; 161; 201 NIXON, Richard Milhous, 334 NIZAN, Paul, 118 NOVAES, Adauto, 32; 137 ; 144 NUNES, Carlos Alberto, 45 —O— OCKAM, William of, 44 OLIVEIRA E SILVA , José Dirc eu de, 334 ORTEGA Y GASSET , José, 75; 189; 332; 347 OSTROVSKI, Victor, 334 OT T O I, Imperador, 251; 329 OVÍDIO, 193 —P— PALOU, Jean, 284 PANETH, Ludwig, 158 PARAIN, B rice, 114 PASCAL, Blaise, 171; 190; 346 PATRIZZI, Francesco, 113 PAULI, Wolfgang , 145 PAULO A PÓSTOLO, S., 221, 244 PAVLOV, Ivan P., 66; 98; 99; 100; 101; 102; 10 9 PEDRO I (do Brasil), 233; 259; 288 PÉGUY, Charles, 218; 257 PENNA, J. O. de Meir a, v. Meira Penna PEPINO DE HERSTAL, 249 PERALVA , Oswaldo, 345 PERELMAN, Chaim, 46; 54; 87 PEREZ DE A YALA, Ramón, 33 PERROY, Édouard, 253 PESSANHA, José Américo Motta, 9; 24; 25; 26; 2 7; 28; 31; 32; 33; 34; 39; 44; 45; 46; 47; 51; 52; 54; 57; 60; 61; 62; 65; 68; 6 9; 87; 88; 112; 114; 115; 116; 117; 118; 122; 123; 124; 137; 142; 143; 144; 145; 146; 147; 153; 214; 215; 217; 239; 328; 345; 355 PESSOA, Fernando, 314 PIAGET , Jean, 185 ss.; 285 PICHON, Jean-Charles, 83; 288 PIRANDELLO, Luigi, 346 PIRENNE , Henri, 255 PLANCK, Max, 64; 118; 142; 168; 177 PLATÃO, 39; 40; 45; 64; 68; 75; 1 14; 134; 141; 144; 145; 146; 158; 193; 220 PÖE, Edgar Allan, 43 POEZL, Otto, 99; 1 00 PONCINS, Léon de, 292 PRADO JR., Caio, 348 PTOLOMEU, Cláudio, 164 —Q— QUADROS, Jânio, 7 3 QUEVEDO, Francisco de, 299 QUINTILIANO, 193 —R— RACINE, Jean, 299 RAJNEESH , 58; 9 6; 102; 152 REBOUL, Olivier, 81 REDONDI, Pietro, 42 REICH, Wilhelm, 129 RIBEIRO, Lair, 4; 25; 88 RICARDO DE S. VÍTOR, 41

212 RICKERT , Heinrich, 236 ROBBINS, Anthony, 88; 147 ROBESPIERRE , Maximilien, 242; 243; 263 ROBISON, John A., 281 ROMANO, Egídio, 256 ROOSEVELT , Franklin D., 2 75 ROOSEVELT , Theodore, 291 RORTY, Richard, 46; 107 ROSA, Antonio Donato Paulo, 142 ROSENBERG, Fúlvia, 322 RUSHDIE, Salmán, 162 RUYER, Raymond, 179 —S— SÁ-CARNEIRO, Mário de, 314 SADE, Donatien Alphonse François, marquês de, 32; 137; 328; 348 SAINTE-BEUVE , Charles Augistin, 308 SAINT -EXUPÉRY, Antoine de, 327; 347 SAINT -M ARTIN, Loui s Claude de, 280 SALAZAR, Antonio de Oliveira, 277 SANTOS, Mário Ferreira dos, V. Ferreira dos Santos SARGANT , William, 100; 101; 102 SARTRE , Jean-Paul, 347 SAT IR, Virginia, 89 SAUVY , Alfred, 331 SAVIGNY, Friedrich Karl von, 364 SCHAFF, Ad am, 318 SCHELER, Max, 44; 75 SCHELLING, Friedrich Wilhelm von, 45; 210; 368 SCHU LZ, Johannes Heinrich, 69 SCHUMPETER, Joseph A., 332 SCHUON, Frithjof, 77; 159; 352 SCOT , John Duns, v. Duns Scot SCOTT , Ernest, 317 OLAVO DE CARVALHO SCOTT , Walter, 308 SCRUTON, Roger, 341; 347 SÉNANCOUR, Etienne Pivert de, 144 SÉRAN T , Paul, 281 SEYMOUR-SMITH, Martin, 317 SHAFTESBURY, Anthony, conde de, 185; 18 8; 192 SHAH, Omar Ali, 317 SHAKESPEARE , William, 299 SHELLEY, Mary, 314 SHELLEY , Percy B., 313 SIEGELMAN, Jim, 81; 90; 102; 103 v. CONWAY, Flo, 102 SILVA , Luís Inácio Lula da, 279; 334; SILVA , Vicente Ferreira da, 202 SMITH, Thomas266 SMITH, Huston, 352 SNOW , Charles Percy, 236 SÓCRATES, 36; 112; 115; 219; 220; 221 SODRÉ , Muniz, 63 SÓFOCLES, 39 SOLOVIEV, Vladimir, 264 SOURIAU, Étienne, 285 SOUZA, Octávio T arquínio de, 288; SPENCER, Herbert, 45 SPINOZA, Baruch de, 190 STÁLIN , Joseph Djuga schvíli, dito, 130; 146; 202; 212; 275 STENDHAL ( Henry Beyle), 308 STEWART JR., D onald, 347 STRAUSS, David, 211 STREICHER, Julius, 32 STRINDBERG, August, 317 —T— TAR CHER, Jeremy P., 151

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 213 TEÓCRITO DE QUIOS, 114 TEOPOMPO, 114 TERESA DE Á VILA, Sta., 37 TESTAS, Guy, 42 THOM AS, Gordon, 291 THOMPSON, E. P., 200; 311 TOLENTINO, Bruno, 24; 157 TOMÁS DE A QUI NO, Sto., 41; 44; 186; 190; 285 TORRES, João Camilo de Oliveira, 347 TRÓTSKI, Leon B ronstein, dito, 146 TROUSSON, Raymond, 328 TRUYOL Y SERRA, Antonio, 227 —U— UNAMUNO, Miguel de, 300 —V— VALLA, Lorenzo, 195 VEBER, Michel, 243 VEGA , Lope de, 299 VELOS O , Caetano, 122 VICO, Giambattista, 187; 188; 192; 196; 236 VIEIRA DE M ELLO, Már io, 139 VIETA ou Viète, François, 184 VIRGÍLIO, 193 VOEGELIN, Eric, 231; 269; 329; 330; 342 VOLTAIRE , François Marie Arouet, dito, 36 ; 44; 196; 348 —W— W AGNER, Yaakov, 294 W ASSERMANN, Jakob, 278 W ATTS, Allan 122 W EBER, Max, 150; 152; 192; 200; 253 W EIL, Éric, 75; 136; 294 W ELLINGTON, Duque de , 272 W ESLEY, John, 341 W HITEHEAD, Alfred North, 44 W ILSON, Colin, 317 W ILSO N, Edmund, 131 W ILSON, Woodrow, 275 W INDELBAND, Wilhelm, 236 W ITTGENSTEIN, Lu dwig, 45 —Y— YEATS, William Butler, 315 —Z— ZUÑIGA , Juan de, 175

“Um mestre.” HERBERTO SALES “Um gigante.” BRUNO TOLENTINO “Homem de reconhecida competência no campo da filosofia.” JORGE A MADO “Filósofo de grande erudição.” ROBERTO CAMPOS OLAVO DE CARVALHO, nascido em 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originai s e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferent es quanto Jorge Amado, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, He rberto Sales, Josué Montello e o expresidente da República José Sarney já expressaram su a admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho. A tônica de sua obra é a defesa da inte rioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escor ada numa ideologia “científica”. Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel en tre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um fo rmulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sól ido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas a ntigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carval ho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cu ltura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas língua s sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, nde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que s ubentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muit as questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Aristóteles em Nova Perspectiva — In trodução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes” ( “análise fascinante e — ouso dizer — definitiva”, segundo rma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Fe deral do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de c inema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento cu lmina em O Jardim das Aflições (1985), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de m oldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro d a cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte. É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a ampl itude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que intr oduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de pa lavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mu danças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à li nguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma pro fundidade surpreendente. A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmi ca, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos pr estígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multidão de leitores devotos, que e sgotaram em três semanas a primeira edição da obra. FOTO : ANA B RANCO (O GLOBO ).

.216 OLAVO DE CARVALHO 5 4 10 12 33 48 Este livro foi composto pelo processo de editoração eletrônica. em tipos Gaillard BT. e impresso no Brasil.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 217 .

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