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97672061 Olavo de Carvalho O Jardim Das Aflicoes PDF

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O JARDIM DAS AFLIÇÕES

4 OLAVO DE CARVALHO

OBRAS DE OLAVO DE CARVALHO 1. Universalidade e Abstração e Outros Estudos. São Paulo, Speculum, 1983 2. O Crime d a Madre Agnes ou: A Confusão entre Espiritualidade e Psiquismo. São Paulo, Speculum, 1983 3. Astros e Símbolos São Paulo, Nova Stella, 1983 4. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes”. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 5. Os Gêneros Literários: Seus F undamentos Metafísicos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 6. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio, Astroscientia Editora, 1993 7. A Nova Era e a Revolução Cultu ral: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994 (1a ed., fe vereiro; 2a ed., revista e aumentada, agosto). 8. Uma Filosofia Aristotélica da Cu ltura: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994. 9. O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio sobre o Materialismo e a Rel gião Civil. Rio, Diadorim, 1995. 10. O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais B rasileiras. Rio, Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, 1996 (1a ed., agosto; 2a ed., outubro; 3a ed., abril de 1997 ; 4a , maio de 199 7; 5a , janeiro de 1998; 6a , abril de 1998). 11. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, Topbooks, 1996. 12. O Futuro do Pensam ento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Rio, Faculdade da Cidade Editora (1a ed., agosto de 1997; 2a ed., março de 1998). 13. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer. Rio, Topb oks, 1997. 14. A Longa Marcha da Vaca para o Brejo & Os Filhos da PUC. O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

OLAVO DE CARVALHO O Jardim das Aflições DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O M ATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL PREFÁCIO DE BRUNO TOLENTINO Segunda Edição, Revista

6 OLAVO DE CARVALHO Copyright © 1998 by Olavo de Carvalho Capa e planejamento gráfico: Ateliê 19 Assessoria em Comunicação R. das Laranjeiras, 531 / 16 F. (021) 225.1806 Fax (021) 245.2920 Rio de Janeiro RJ CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Todos os direitos reservados pela TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTD A. R. Visconde de Inhaúma, 58, gr. 413 – CEP 20091-000 Rio de Janeiro – RJ – Tel.: (021) 233.87178

§ 16. Epicuro e Marx ............................................................. ............................. 75 PREFÁCIO, POR BRUNO TOLENTINO.................... .................................................9 § 17. Comentários à 11ª “Tese sobre Feu erbach”........................................ 77 § 18. A tradição materialista ....... ..................................................................... 82 O J ARDIM DAS AFLIÇÕES LIVRO I: PESSANHA............................................ ..................... 19 CAPÍTULO I: A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA.................................................. ...21 § 1. Introdução. O que Epicuro veio fazer aqui, ou: Biografia deste livro21 § 2. A s conferências do MASP ........................................................... ................ 28 § 3. Pessanha e o pensamento Ocidental........................ ................................ 31 LIVRO IV: OS BRAÇOS E A CRUZ..........................................89 CAPÍTULO VII: O MATERIALISMO ESPIRITUAL........................................... ..91 § 19. A divinização do espaço (I): Pobres bantos .................................. ...... 91 § 20. A divinização do espaço (II): O infinito de Nicolau de Cusa ........... 94 § 21. A divinização do tempo (I): A força dos meios.................................. 105 § 22. A divinização do tempo (II): Beaux draps.................................... .......114 CAPÍTULO VIII: A REVOLUÇÃO GNÓSTICA.......................................... ..........120 § 23. Revisão do itinerário percorrido ................................. ........................120 § 24. O véu do templo .................................. .....................................................121 § 25. Leviatã e Beemoth ... ................................................................................ 127 LIVRO II: EPICURO............................................................... ... 51 CAPÍTULO II: COSMOLOGIA DE EPICURO................................................ .........37 § 4. Uma profissão-de-fé epicurista. A matéria segundo Epicuro ............. . 37 § 5. Um piedoso subterfúgio.................................................... .......................... 39 § 6. A imaginação dos deuses. A eviternidade............ ................................... 41 § 7. Epicuro crítico de Demócrito.............. ...................................................... 42 CAPÍTULO III: ÉTICA DE EPI CURO.......................................................................44 § 8. O remédio de todos os males...................................................... ................ 44 § 9. A abolição da consciência...................................... ................................... 46 CAPÍTULO IV: LÓGICA DE EPICURO............... .....................................................52 § 10. A fumaça e o fogo..... ................................................................................ .. 52 § 11. O convite ao sono .................................................... .................................. 53 § 12. A Servidão Voluntária..................... ......................................................... 56 § 13. Dos cães de Pavlo v ao lava-rápido cerebral ....................................... 58 CAPÍTULO V: A ÍND OLE DO EPICURISMO.........................................................65 § 14. Porcarias epicúreas.............................................................. .................... 65 § 15. A fuga para o jardim................................ ................................................. 69 LIVRO V: CÆSAR REDIVIVUS................................................130 CAPÍTULO IX: A RELIGIÃO DO IMPÉRIO.................................................... .....131 § 26. De Hegel a Comte................................................... .................................131 § 27. Translatio imperii. Breve história da idéia imperial. ........................133 § 28. O Império contra-ataca ................ ..........................................................147 § 29. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) .......................149 § 30. Aristocracia e s acerdócio no Império americano (II) ......................159 § 31. De Wilhelm Meister a Raskolnikov......................................................162 § 32. As n ovas Tábuas da Lei, ou: O Estado bedel .....................................168 CA

........................................................ . Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições............... ........ ................................................................................................................................. .................................... LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR ...............................................7 5 .......PÍTULO X: NA BORDA DO MUNDO.......................................177 Post-scriptum....196 ÍNDICE ONOMÁSTICO .......... .......176 § 33........194 BIBLIOGRAFIA ............................... 133 CAPÍTULO VI: A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO............206 LIVRO III: MARX.................... ..................

quando o companheiro teve quatro em seis meses. coisa unida e coesa. Só repito o apelo a que o leitor não o leia de viés e saltado. melho rado em detalhes de l nguagem e sem as gralhas i mais visíveis da primeira edição. Mas não aumentado: se há um livro em que o autor disse tudo o que nele queria dizer. que. O Jardim comparece limpo e correto. é es te. O Imbecil Coleti vo. Jo sué Montello. Leopoldo Serran e muitos outros. meio e fim. cumprida mal ou imprecisam ente. mas pela ordem dos capítulos — e peço que entenda isto como receita médica. Vai para a segunda edição após dois anos. Vamireh Chacon. trará mais dano que benefício. enquanto O Imbecil não passa de uma c oletânea de notas de rodapé que não couberam no rodapé. Roberto Campos. No entanto é dos dois o melhor e o único que constitui propriamente um livro . A OLAVO DE CARVALHO . com começo.8 OLAVO DE CARVALHO NOTA DO AUTOR À SEGUNDA EDIÇÃO pesar dos elogios de Antonio Fernando Borges. este livro não merece u do público a atenção que se concedeu generosamente a seu irmão menor. Solicitando humildemente a parce la de audiência a que julga ter direito. Herberto Sales.

Com efeito. Dr. Assim. estou celebrando meu alívio de que a tampa da marmita se tenha afastado d e mim o bastante para deixar-me perceber. e em pa rticular contra a espécie de Gabinete do Dr.. São raros esses momentos. paradoxalmente. o anestesiador de gerações uspianas. mas da tarefa que se propôs. de seu sentido cuidado samente oculto. . a quem de fato pense o mundo. rica e complexa. dados e fatos. Quem quer que te nha lido de cabo a rabo este livro há de convir que vive um destes momentos privil egiados. Que o leitor leve em conta o caráter. dos dados de um problema aparentemente sem maior importância no plano das idéias (que importa. não tant o do autor. Gianotti. Contra tudo isso. de estirpe marxista . em vez de buscar substitui-los . ferve a humanidade. tem a vantagem de respeitar os dados do real. ). os três inseparáveis element os da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo. Caligari em que se vai transformando entre nós a veneranda idéia de Universidade. única justificativa à intrusão de um prefácio em obra tão límpida. de marca universitária e de cunho dogmático-materialista. o autor extrai uma estonteante exposição de significações. o sufoc ante mundinho dos cortesãos e doutores de mais uma trópica Bizâncio?).. nunca a partir dos fatos segundo a intelligentzia. esD perava-me um convite a bem outro tipo de investigações: as que se ocupam de verifica r o real a partir da inteligência e dos fatos. mas de fácil leitura justamente por causa e não a despeito da formidável erudição em que se firma. Soube-o enfim graças à claridade que. perfeitam nte capaz de tudo dizer por si mesma. Inclusive. pelo mundo-comoidéia. segundo ele. A esse respeito. No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabarse é ainda. inclusi ve os pressupostos do saber acumulados pela tradição. como eu. Sedimentado através dos séculos pela perspicácia de uma nobre linhagem . como a tampa que subitamente abandona a marmita. tiver suado frio por semanas sob o peso das cen tenas de impenetráveis páginas que nosso mais reputado e menos aspeado filósofo atual. o argumento central deste aflitivo j ardim evolui à maneira de um crescendo para desafiadoramente elucidar-se apenas na s duas partes finais: “Os Braços da Cruz” e “Cæsar Redivivus” são a sístole e a diástole do c vo desta obra alarmante. Tanto mais se. Não estou desmerecendo do esforço d e ninguém. não tanto aonde leva o labirinto lingüístico do vienense em sua versão paulistana (c’est assez que Quintilien l’ait dit. achei-me no pólo oposto à perplexidade em que vivia durante a leitura que digo?! durante a suadíssima mineração que empreendi nas duras e obscuras galerias sublinguais daquele celebrado duo: o ascético autor do Tractatus (ou das Investigations?) e o ex-Papa Doc. viga mestra de todo esforço de verificação filosófica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 9 PREFÁCIO BRUNO TOLENTINO e quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual. ou sobretudo. O Jardim das Aflições. inevitavelmente sempre a idéia do mundo mais em voga a um certo momento. uma adv ertência apenas. esse método de investigar o como e o porque do ser-nomundo. Obra eletrizante. dedicou recentemente às investigações do surrado materialismo lingüístico de Wittgenstein. Afortuna damente neste último. ou mesmo de suas idéias. e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão. insurge-se com toda a lucidez o vigor d este livro. mas de uma clareza própria a desnudar como nun ca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver. numa visão inquietante do sentido universal da aventura da inteligência moderna. fui encontrar n a lição de trevas deste livro. Refratário à leitura t ransversal ou salteada a que às vezes incita. atual Papa pálido da enrubescedora tropa-de-choque investigada neste jardim de aflições. mas onde começam meus inadiáveis problemas de brasileiro acuado há décadas pela futilidade d o ininteligível.

expõe. e em última análise tão aterrador quanto o estrilo de um desper tador à meia-noite. Claro. capazes de levar a questão a uma resolução maximamente exata (Lógica). Só então tornar-se-ia factível estabelecer métodos e critérios propriamente científicos. A pedanta ria engordaria bem mais tarde. E dá-lo com toda a clareza através de um assustador pomar de aflições. mo ntar as oposições que só na conclusão (naquelas duas últimas partes. Uma Filosofia Ar istotélica da Cultura (IAL & Stella Caymmi Editora. como o entendem os “atuais” pupilos do Dr. O leitor. . só tem a perder suas ilusões a respeito da serie dade dos donos da hora. parta de impressões subjetivas para. emanariam interpretações discordante s fortalecidas no confronto das vontades que as apoiam (Retórica). Sobre essa mass a crítica do acúmulo dos esforços retóricos seria então possível o exame dialético que. É talvez o primeiro esforço de Olavo de Carvalho p ara pensar em público segundo sua Teoria dos Quatro Discursos. ficará perfeitamente claro ao longo do passeio em que nos guia a a gudeza da leitura que Olavo de Carvalho faz da história das idéias no Ocidente. por menos que assi m fazendo consiga caber nos moldes. de um sujeito que não pode não pensar. ao acompanhar um filósofo de verdade em sua minuciosa e exaustiva investigação de um embuste. num conjunto de investigações dialéticas. a presente identificação entre filosofia e adiposidad e de jargão é fenômeno tão moderno quanto os enlatados de supermercado. Ao contrário. no sentido agostiniano) vai-se definitivamente elaborar. ou seja. a gênese como a elaboração da obra aqui ajudam muito o l eitor: a mim pareceu-me muitíssimo estimulante progredir através da “multiplicidade de temas e planos que faz a trama compósita deste livro”. tudo o que aqui vai tem a ver e urgentemente comigo. invariavelmente alienígenas. o que andou e anda fazendo em nome da inteligência como desdentado s leões de circo. Seu método de composição. à diferença de compêndios bem mais ao gosto do dia. por detrás de suas cátedras como abutres encapuzados em toga s e títulos. com os que somos e continuamos a ser submetidos a uma contínua barragem de slogans e esoterismos a transpirar int enções nem lá tão ocultas assim. portanto. por exemplo. A tarefa específica do filós ofo seria. de um conhecido e bem mancomunado establishment. Segundo o Aristótele s de Olavo de Carvalho. 1994). proposição de seu ensaio pioneiro. Caligari. com você. para citar apenas um “compósito” que à primeira vista pouco tem de ost ensivamente filosófico. o olhar que põe tudo isto a nu vem do olho agudo d e um filósofo nato. Há que lê-lo até seu eletrizante gran finale para perceber t odo o escopo deste livro singular. leitor. que trabalho tão ímpar. nisto ao menos. de imposturas orquestradas como filosofia e penduradas ao nada como amor as de mentirinha. Passamos a ver claramente o que por estas bandas nos vem tapando a mente e sufocando o espírito. Longe de constituírem um empecilho ao entendimento. calca-se no entanto em mo delos bem mais antigos e prováveis. Rio. torna-se enfim possív el dar esse passeio para fora das brumas do obscurantismo idealista doublé de peda ntismo acadêmico. um tanto paradoxalmente à maneira d e um tutti orchestrale. graças à coragem intelectual de um er udito que não se esconde atrás do que sabe. O qual.10 OLAVO DE CARVALHO Só que. a de colher as questões ao nível retórico e elaborá-las em hipóteses formais para as entregar à busca de uma solução lógico-científica. acha-se logo em excelente companhia: no Ocidente a filosofia pós-helênica teve muito cedo entre seus cumes obras como as Confissões de Santo Agostinho. da esquematização objetiva que atribui a um conjunto de dado s sensíveis uma figura dotada de sentido (Poética). à primeira vista paralelo a os procedimentos sinfônicos de um Sibelius. não há como tomar esta obra apenas como a hábil ampliação de um panfleto. o u seja. indicaria o sentido de uma solução racional (Dialética). explica. confr ntando e hierarquizando. assi m. através do combate retórico. ou Livros. como nos adverte uma nota do autor. antes nos convida a examinar com ele o q ue investiga. este livro não é resíduo de tese e doutoramento nem se propõe a enfeitar a carreira de mais um philosophe local cev ado na massuda monotonia dos gabinetes à la page. Mas que o leitor não se apresse. O que certa gente quer e persegue com uma obstinação de cachorro magro. Nada de estranhar. Graças a sua inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual.

subv en2 Reproduzida no volume A Dialética Simbólica. Murilo Mendes. mas sim. insubm isso e fértil para muito além das meras conjunturas de nossa douta e crônica tropicali dade atávica. faz-se por isso mesmo apaixonante e como que compulsiva.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 11 Misto de memórias e ensaio filosófico. Sim. como se vê. Tomás de Aquino a Leibni z. mas antes recuaria a condições prévias. Capistrano de Abreu Manuel Bandeira. ora lógica. não se tenha dado um código senão para subme tê-lo às necessárias infrações do ato criador. Sua forma mentis foi evidentemente forjada a fogo. ao quanto pude perceber. sem nada perder em densidade. partiu very advisely do seu e nos so Pai de Todos . seu peso erudito. Não se trataria aqui do conhecido modelo tese-antítese-síntese. Uma conferência sua semi-inédita (“A dialéti mbólica”.. áspero e lúcido. e por isso mesmo no meu ver indispensável hoje. muito mais merecido que aos diplomas. no corpo a corpo do autodidata sem alternativas num país ocupado pela legião dos ressentidos ou pelos batalhões de imbecis. ou de substituição de importações) sua leitura. a bem dizer. sem pisar-lhes a uns e outr os seus explosivos ovos de cobra. (v. Luís da Câmara Cascudo. a exemplo de Machado de Assis. existente apenas como apostila didática no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades do 1 Instituto de Artes Liberais do Rio de Janeiro) ajudou-me a elu cidar algo mais o método deste pensador originalíssimo até mesmo na forma a que molda seu discurso. João Cabral de Melo Neto. PhDs. ao nosso encruado marxismo universitário. Como se tem v isto. Até então eu não havia encontrado est e método aplicado à construção de uma sistemática propriamente filosófica. e tantos outros espíritos livres da raça. passou reverente pela nata da sabedoria escolástica de Sto. 1993). de um movimento tripartite oposiçãocomplementação-subordinação. cátedras. Ensaios.. e não raro ambas as coisas. e po r conta dos provados e clássicos valores que o forjaram e o sustêm. teve que aprender quase sozinho a imensidão do que hoje sabe. estes dois gigantes modernos. menos ainda familiar. Per strada ci rcunvolteou sabiamente seja o pot-pourri liliputiano dos hoje inúmeros e celebrado s philosophes. por natureza. saudou e desnudou os belos fantasmas do platonismo. Seus Fund amentos Metafísicos. Miguel Reale. Mário Ferreir a dos Santos. thank God! Resta que nada disto é aceitável. . Caio Prado Jr. Mas talvez o autor. honrarias. principiais. por décadas entre o fuzil da Redentora e o realejo utopista de nossa inc urável e festiva intelligentzia. como ao tempo da formação intelectual do autor era cronicamente o nosso. tal receita é própria antes ao recebimento de aspas aposto ao seu justíssimo títul o de filósofo. espécie entre nós. Mais uma surpresa num pensador inclassificável. acaba por não pesar. IAL & Stella Caymmi Editora. Leitor multilingüe. O qual. aportou a Schelling e a Husserl. Já não hesito mais: tenho o pensamento de 1 Olavo de Carvalho por paradoxalmente intemporal e atualíssimo. I. e talvez por isso m esmo o tenha sabido inscrever no mármore candente da mais limpa tradição letrada do Oc idente 2. É que. de política e de meta física. Aristóteles. incansável e metódico. ora cronologicamente. à diferença do modelo hegeliano a dialétic a de Olavo de Carvalho não buscaria uma síntese temporal futura. em curso de publicação pela Fac uldade da Cidade Editora. à maneira de todo poeta frente à própria poética. Olavo de Carvalho (parece incrível naqueles te mpos de tanta seca!). reafirmo. Ou seja: nosso homem parece partir de uma antítese observada no campo dos fatos para hierarquizar os termos opostos e resolvê-los no princípio co mum de que emanam. seja o etéreo campo minado do guénonismo. Rio. pelo que me pareceu perceber. Surpreendente é vê-lo sair da mesma pena que ainda recentemente nos dava uma rigidíssima teoria dos gêneros. Olavo de Carvalho. mas nele pareceume reconhecer a rica tradição da hermenêutica simbólica. Os Gêneros Literários. para chegar de olho aberto a Kurt Gödel e a Éric Weil. é sempre anterior àqueles termos. a leitura deste livro (às antípodas do tijolaço com que acaba de brindar-nos o a cima citado mentor de uma filosofia tão nativa quanto uma agência de importações. de reportagem e panfleto. em caminho inverso.

E não é só no Brasil que a decadência das universidades acaba por revalorizar o autodida tismo: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. garantam a sobrevivência do jeito que for. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria . 6 de agosto de 1995. “Harold Bloom contra-ataca”. ) . Paulo. para ler e escrever sozinhos. mas não como pr ofessores universitários.” ( Harold Bloom. Façam qualquer outra coisa. Folha de S. porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade.

. julho de 1995. ou antes. leitor. dos hipnóticos hipnotizados? O suicídio em termos acadêmicos d e Olavo de Carvalho. Sem dúvida a circunstância dessa solidão defensiva e profilática o terá... ne ologismo de rigueur ante tantas pedânticas pendências e dependências das infindáveis lis tas de importações canonizadas.. not least. soa-me como o clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação. Rio. a de Olavo d e Carvalho é incompatível com o alinhamento compulsivo (e repulsivo) a que nos vêm aco stumando por aqui os donos de cátedras et caterva. Co esta sua rigorosa e instigante investigação de aflições mais um livro do campineiro for a dos eixos segundo os importadores das fórmulas da invenção da roda . que onde deixei um país encontrei trinta anos depois um acabrunhante acoplamento d e pedantaria e show business. Mas a quem lhe importaria alongar a sobrevida na cidade do mortos. . Olavo de Carvalh o volta a nos dizer em alto e bom som: basta de sestas à sombra da utopia e do mar asmo mental. Que os mortos ent errem seus mortos: sai da frente. Os tremeliques de Mademoiselle Rigueur. são mais que horas de acordar para cuspir. patenteado uma vez mais neste livro imperdoável. São Paulo. como toda verdadeira vocação filosófica. SP. a alegre festa no velório acaba uma vez mais! com es te admirável livro. O Jardim das Aflições. acabou por avisá-lo sobre o que de fato valia o que perdeu. sua fulgurante crítica do binômio Epicuro-Marx é pura heresia. nosso retrato assustador.12 OLAVO DE CARVALHO ções e sabujices de nosso perigosíssimo establishment pensante. dos zumbis. se por um lado desencorajaram de munirse de títulos prestigiosos a quele que dentre nós hoje possui talvez o intelecto mais corajosamente individual entre seus pares. ajudado a balizar justamente o terreno minado da autocastração por timidez. subserviência ou sim plesmente descaro. e pensar! Quanto a mim. Nesse empolado contexto. anátema. pendante. tão ao gosto da fábrica de esterilidades diplomadas com sede à Rua Maria Antôni a. É que. tão patentes em nosso incipientíssimo e prudentíssimo intellectual output. suicídio.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL TOPBOOKS .

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me incentivou sem descanso a que a completasse. M ERI ANGÉLICA HARAKAVA e S ANDRA TEIXEIRA resolveram mil e um pequeno s e grandes problemas que teriam adiado sine die a publicação deste livro. a quem li os rascunhos da obra. JOSÉ ENRIQUE BARREIRO . Esta obra pertence. CLAUDETTE ALVES DUCATI e JÔ BRITO ouviram a leitura de mui tos capítulos. dando-me apoio moral e muitas sugestões valiosas. KÁTIA M EDEIROS. LUIZ AFONSO FILHO. OLAVO DE CARVAL HO .AGRADECIMENTOS M UITA GENTE me ajudou a realizar o projeto deste livro: BRUNO TOLENTINO. DANTE AUGUSTO GALEF FI e seus alunos da Universidade Católica do Salvador devolveram-me a confiança nos jovens estudantes brasileiros de filosofia — leitores sem os quais este livro não fa ria sentido. M ARIA ELIS A ORTENBLAD e PAULO VIEIRA DA COSTA LOPES me ajudaram. de vários modos. numa épo ca em que tudo em minha vida me convidava a dispersar meus neurônios em trabalhos menores. por afeição e gratidão. um pouco a cada uma dessas pessoas. LUCIANE AMATO. ROXANE ANDRADE DE S OUZA. a superar encrencas da vida prática que sem sua generosa interferência teriam me absorvido por completo e talvez inutilizado o meu pobre cérebro por alguns anos.

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erecting pillars in the deepest Hell to reach the heavenly arches. Imago. . une lucide d éléctation?” GEORGES BERNANOS 3 Trad.the War by Sea enormous & the War by Land astounding. sangrenta futilidade. Lætitia Cruz de Moraes Vasconcellos ( O Agente Secreto. ou mesmo irracional.” 3 JOSEPH CONRAD “Car si désireux qu’on soit de trouver une cause naturelle à ces tragiques abérrations. qui révèl e un goût lucide. Pois a irra cionalidade malévola tem os seus processos lógicos próprios....” W ILLIAM BLAKE “. Rio. de pensamento.. de superflu. ce je ne sais quoi d’inutile. de um tipo tão fátuo que era impossível calcular-lhe a origem por qualquer processo racional. co mment justifier leur raffinement.“. 1995 ).

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PESSANHA - .LIVRO I .

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de uma raça . indignada ou mansa. here and in other parts of South America. sem saber a que coisas e seres se refere na vida deste mundo . and seem to prefer words to facts. tomando este livro como expressão de opiniões prontas. fazem parte do assunto. 417. um livro de filosofia. uma agita5 South America: Observations and Impressions. A necessidade a que me refiro provém do seguinte: este é. quando ele é. do meio para diante. de uma cultura. estará se enganando a si próprio. De pouco adiantará alegar que fui perfeitamente sincero. men of undo ubted talent are often beguiled by phrases. isso é absolutamente obrigatório: os acontecimentos que o sugeriram determinaram as condições em que foi escrito — as quais. de um país.CAPÍTULO I. Daí a conveniência de garantias preliminares con tra um duplo equívoco possível: de um lado. portanto. toma de fato um rumo bem 5 diverso daquele que parecia anunciar no começo . onde vigora o pressuposto dogmático de que uma idéia ou doutrina qualq uer nada mais pode ser que a expressão do desejo de poder de uma classe. investigação que. O que Pessanha suscitara em mim não fora uma discordância. surpreendo-me ao notar o quanto essa habilidade pode s er deficiente em intelectuais militantes afeitos a buscar numa idéia antes seu pod er de mobilização do que sua veracidade intrínseca. Macmillan. mas também alguns brasileiros. uma decepção. ao fundá-la numa impressão do momento —. ao tomar posição pró ou contra logo nas primeir as páginas — ou. que aceitá-las ou rejeitá-las in limine é impedir-se 4 de entender aonde levam. pode rejeitar de cara a formulação mesma da pergunta. para essa gente. Introdução. a espumar de cólera ante a opinião adversária. fanática ou razoáve l. de expor a situação real e vivida de onde a pergunta emerge. uma tristeza desesper ançada. como um bom convidado à mesa. Contra o primeiro desses equívocos. no ar. já que o indivíduo não pensa e é sempr e. a pressão coletiva e a intimi dação autoritária são meios não apenas legítimos mas preferenciais do debate intelectual. ou: Biografia deste livro “It is strange to find that. Digo en tão que o miolo destas páginas redigi numa só noite de maio de 1990. apenas o boneco de ventríloquo de um interesse col . só então. — O que Epicuro veio fazer aqui. Habituado por uma longa autodisciplina a suspender o juízo até encontrar uma evidência ou uma prova suficiente. nesse sentido. e de que. o autor refere-se especificamente ao Brasil. No trecho citado. pior ainda. de outro. A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA § 1. principalmente norte-americanos. Mas não foi na da disto. sem tomar o cuidad o de seguir até o fim o fio dos argumentos onde se manifestará. pois. a sinceridade individual não tem valor. 1912. A carência absoluta dessa habilitação po de chegar a ser mesmo uma conditio sine qua non para a aquisição de respeitabilidade em certos círculos universitários. ouvid as algumas horas antes numa conferência sobre Epicuro no ciclo de Ética que a Secret aria Municipal de Cultura promovia no Museu de Arte de São Paulo. dentro de certos limites. p. devo advertir que as opiniões expres sas no começo são apenas um começo. Isto projetará tal vez a imagem de um fanático. Co mpreendo perfeitamente que as pessoas intoxicadas por essa atmosfera enxerguem o u finjam enxergar um mero truque de retórica na minha afirmação de não ter partido de co nvicções prontas. querendo ou não. que o leitor. o leitor pode acolher ou repelir a tese em abstrato. não deve ir logo de entrada falando de si mesmo. Fora uma perturbação da alma. Mas contra o segundo dos males mencionados só cabe o recurso de contar os f atos. como há d e ver quem o leia até o fim. o seu verdadei ro sentido. substancialmente uma investigação.” 4 JAMES BRYCE U M ESCRITOR EDUCADO. e uma tese filosófica pouco significa se amputada das razões que a ela conduzem e das motivações ge radoras da pergunta a que responde. sabendo ou não. No caso deste liv ro. que não obstante consiste — posso garantir — em coisas cuja relevânci a transcende infinitamente a pessoa do autor. sob o impacto da aversão que haviam despertado em mim as palavras de José Américo Motta Pessanha. Transgrido aqui as boas maneiras por necessidade in trínseca do assunto. London.

Deixo a essas criaturas a tarefa extremamente científica de desencavar das sombra s o secreto autor coletivo destas páginas. [Nota da 2a. malgrado tudo. na convicção nada acadêmica de havêlas escrito eu mesmo. edição].etivo que salta sobre as intenções do coitado e diz pela sua boca o que bem entende. e permaneço. .

fixá-lo num estado de apatetada pass ividade ante o fluxo de sugestões. env enenava os cérebros. Cada palavra parecia calculada para desviar a atenção do ouv inte. a alma da vítima se amoldasse às t revas como num leito fofo. Querendo ou não. O título prometia “delícias”6. não cessavam de brotar como reações de um organismo febril à invasão de uma toxina. contra minha vontade consciente de adormecer e esquecer. era a sua densidade. O grumo compac to de absurdidades exalava uma radiação debilitante sobre as inteligências. de técnicas psicológicas que. Companhia das Letras. numa deliqüescência mórbida. “Discordar”. Em casa. O segundo exerce uma ação quase física. mas ali eu só encontrara pesares e aflições. perdida toda vontade de enxergar. diminuída. que entrava pelos ouvidos da platéia. sugestionadas pela voz melíflua. até que. Cheguei em casa pela meia-noite e. reduzindo o cérebro humano a uma passividade veget al.22 OLAVO DE CARVALHO ção soturna carregada de maus presságios. juízo crítico. fazendo ver tudo diferente do que era. produzia a acomodação progressiva a um estado de penumbra. hipnotizá-lo e arrastá-lo delicadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se cu varia com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso. Tudo o que a platéia não quisera ver parecia ter se condensado no meu subconsciente. via em alucinações as poltronas d o MASP lotadas de zumbis sem olhos. ela se esquiva ao olhar humano e vai exercer seu domínio dire tamente sobre o macaco residual que habita em nós. como crianças a seguir m um novo flautista de Hamelin. tentando adormecer. São Paulo. produzindo feridas num estrato profundo que os meros argumento s não atingem. Não havia ali uma única brecha por onde pudesse se introduzir u ma discussão inteligente. Um público de quinhentas pessoas subm etera-se à intoxicação com sonsa alegria. O Jardim de Epicuro parec ia-se estranhamente com o Jardim das Oliveiras . uma droga. Meras opiniões não produzem este efeito. debilitando suas inteligências para que nunca mais atinem com a idéia certa. Vira-as também em demonstrações de hipnose. não conseguindo pegar no sono. Saltava da cama com a cabeça fervilhando. um vício. de Programação Neuroli güística. Saí dali enjoado como um autêntico careta sai de uma festinha de emb alo. tivesse deixado o recinto das clínicas psiquiátricas e das . estar lhe transmitindo cultura. Não sei se me faço compreender. varei a madrugada anotando objeções e protestos que . O que me espantava era que esse gênero de manipulação. que só começarão a doer quando for tarde para curá-las — quando a lembrança de sua origem estiver demasiado apagada para que se possa iden tificar o rosto do agressor. A ação do feiticeir passa ao largo da consciência. pelo jogo de imag ens que dava às lorotas mais óbvias um intenso colorido de realidade. Puro feitiço. mas somente produzidas por feiticeiros confessos. Mais tarde foi publicada no volume coletivo Ética. seria aí tão descabi do quanto tentar deter um assaltante à força de citações do Código Penal. ao menos não proclamavam. Eu saíra dali em estado de estupor. num giro louco da tela do mundo. impedi-lo de olhar o assunto de frente. precisamente: as frases de Pessanha eram um entorpecente. Era isto. move tendões e músculos. no melhor estilo Lair Ribeiro. Há uma grande diferença entre o doutrinador que mete simplesme nte na cabeça das pessoas uma idéia errada e o feiticeiro que as adoece. O que mais me impressionava. que podem ser enfrentadas com palavras. Vira muitas. aspirando o adocicado perfume do esquecimento. sem crer no que a cabara de presenciar. 1991. com isto. Não que nunca tivesse visto coisa igual. no recesso de seit as obscuras que não se adornavam do prestígio da autoridade acadêmica nem se abrigavam sob a proteção do Estado. O primeiro move-se no reino das palavras. mesmo com veemência fanática. exi gindo vir à tona. instaura novos r eflexos involuntários. por profissionais da dominação psíquica. ou então para u sos perniciosos e ilícitos. ela salta por sobre a mente. Feridas insensíveis. remexe os órgãos dos sentidos. ela não pode ser desfeita pela pe rsuasão racional. de lucidez 6 “As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”. movia o eixo dos globos oculares. próprio somente p ara o tratamento de doentes mentais inacessíveis à comunicação consciente. eu me tornara o sintoma denunciador de uma neuros e coletiva. na trama de erros tecida por Pessanha. autoconsciên cia. como uma neurose.

da debacle do ensino universitário. mas nunca imaginara que a coisa pud esse baixar a esse ponto. para ser empregado por acadêmicos como um sucedâneo da transmissão de idéias. Su- .seitas ocultistas. Eu estava consciente. doloridamente consciente do declínio intelectual b rasileiro.

não pude encontrar o manuscrito. Collor de Mello. A campanha da “Ética”. li o manuscrito para uma roda de amigos e o guardei. que ficou jazendo. A alguns objetei que o m esmo acontecia aos ouvintes de Hitler. esclarecedor. o público era convidado a mergulhar num abismo de inconsciência. cogitando as razões da súbita e inusitada popularidade adquirida pela palavra “ética”. Co mo sempre acontece em tais situações. Mas conhecia sua fama e havia notado nela um traço p eculiar: seus ouvintes saíam f ascinados. era o que eu quer ia. Fernando Col lor de Mello da Presidência da República. a quem a platéia ind enizava com tanto mais fartura de aplausos fúteis quanto maior a quota de compreen são que lhe sonegava. esqueci Pessanha. se lhe interessasse. quase inaudível. mas absolutamente nada. e me acompanhou em uma mudança de cidade e cinco mudanças de casa. com o convite para uma réplica. segundo o qual a essência de uma coisa é aquilo em que ela enfim se torna. envolta num halo de prestígio místico. Eu nunca tinha visto José Américo Motta Pessanha. me dei conta do papel que tivera aquele ciclo de conf erências n preparação discreta de acontecimentos que depois iriam a avolumar-se e desa bar sobre o país como uma tempestade. no fundo de uma gaveta. Guardavam uma impressão difusa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 23 punha que a redução do pensamento à tagarelice ideológica fosse o limite inferior da dec adência. interminado e tosco. Apaziguei minhas inquietações explicando essa reação como esn obismo do público. Nos meses seguintes. ao fio dos argumentos de Pessanha. na treva sem fim de um definitivo adeus à inteligência. sem suspeitar que ela pudesse fornecer algum indício quanto ao ca ráter do orador. na maçaroca de papéis que trouxera de São Paulo comprimida em cinqüenta e tantas caixa s. tinham sido realmente os únicos objetivos da campanha. Esse exorcismo constitui duas quintas partes do presente livro. assumi qu e era um sintoma vivo e me encaminhei ao divã mais próximo — a máquina de escrever — para verbalizar os conteúdos neuróticos que a magia de Pessanha injetara em meu cérebro. tenciona ndo dar-lhe mais tarde uma forma final e remetê-lo a Pessanha. Alcançada esta meta. para mim. consolava-me com aquelas palavras que as avós sempre dizem quando a gente d espenca da bicicleta: “Do chão não passa. senão para melhor atingir o alv o particular. Meditando os eventos à luz do preceito de He gel. a campanha festejou o e vento como se ele tivesse dado plena satisfação aos seus anseios. Não consegui conciliar o sono. Tive então um impulso de retomar este trabalho. como se as mais pr ofundas exigências morais da nação tivessem sido cabalmente saciadas mediante a simple s dispensa daquele infausto mandatário. Nada. até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do Sr.” De súbito. recuperar o senso do real momentaneamente entorpe cido pelas artes de um feiticeiro. É verdade que tout commence en . mas em resposta recebi aquele sorriso de condescendência desdenhosa com que o detentor de um segredo beatífico marca a distânci a que o separa do profano. o chão se abrira: pelas mãos de Pessanh . foi estreitando cada vez mais seus objetivos. int raduzível em palavras. tecendo ao conferencista os maiores elogios. Foi só em fins de 1992 que. amplas e profundas. Imaginei apenas que fosse um sujeito abstruso. examino a filosofia — ou seja lá o que for — de Epicuro. Ocupações variadas desviaram-me para outros assuntos. que começa ra como um amplo movimento de conscientização moral. Mas . antes da publicação em livro. de modo a curar-me dela para sempre. Larguei Epicuro. e a conseqüente ascensão das esque rdas à posição dominante. verbalizá-los foi o bastante para exorcizá-los. ache i então que a destruição política do Sr. Na noite seguinte. de sfazer o macabro encantamento. Após cinco tentativas falhadas. Imprevistos e correria s de uma vida anormalmente repleta deles impediram-me o retorno a este trabalho. que não c omeçara propondo metas tão gerais. mas se mostravam incapaz es de dar qualquer noção clara do que ele dissera. empenhado em desarraigar da nos sa mentalidade política alguns vícios seculares. o curso dos eventos polític os tomou um rumo imprevisto e. estreito e raso que lhe interessava. da campanha pela “Ética na Política”. me fazia antever o que encontr ei no MASP. Ele fora um sinal de largada. No fundo. onde.

proteger reputações. Aparentemente. em troca de resultados políticos de valor duvidoso. sem ex ceções visíveis. enfim. é realmente um daqueles casos em que o excesso de chumbo só faz ressa ltar pateticamente a míngua de passarinhos. que par eceu escapar totalmente aos melhores observadores. que a farsa de uma ética reduzida a grosseiras expressões d e ressentimento parecesse contentar a todos os cérebros incumbidos. cuja singularidad e. mais independente. vasculham os esgotos da República. e os militantes da moral não relutavam em recru7 tar para suas tropas notórios servidores dos governos militares. mas todos os órgãos de comunicação. apela a todas as forças intelectuais da civilização. com festiva credulidade. e nfim. estão alinhados no ataque frontal à corrupção. Collor. não me sati sfazia. de autoconsciência moral. Tudo isso é muito normal em política. os inimigos já estavam quase todos mortos ou esquecidos. estação de rádio ou canal de TV e se exima da obrigação de informar. Só para dar um exemplo. acobertar suspeitos. Porém o mais admirável. mas o espantoso. era a desproporção entre a quantidade de mystique que se mobilizara e a mesquinhez do seu resultado políti co. de sta vez contra deputados e empreiteiras. Não há neste país um só jornal. como se a destruição de seus desa fetos políticos valesse a abdicação de toda inteligência crítica. Todos. foi este que na segunda fase da campanha — a guerra contra João Alves & Cia. tinham sido derrubados com muit o menos investimento intelectual. quando comparados à persistente in diferença ante o escândalo das “polonetas” (empréstimos irregulares ao governo comunista d a Polônia). Mas a explicação. Uma campanha de escala nacional que se apoia numa retaguarda filosófica. parecia escapar inteiramente àqueles mesmos que o protagonizavam8. por um só espírito. parece que o Brasil. que se deixava guiar ao som de slogans. no episódio. No exército da moralidade pública. mais empen hada em descobrir e revelar a verdade. não há defecções. os esquerdistas buscavam uma compensação por duas décadas de humilhações. para atirar ao limb o as exigências mais comezinhas do amor à verdade. tem a imprensa mais ousada. é a unanimidade d a sua adesão a esse objetivo. diante de um fenômeno estranho. quando a campanha voltou à carga. convoca as luzes dos sábios do passado e se dá todos os ares de uma revolução cultural. Documentei o bastante a esquisitice ambiente em O Imbecil Coletivo para poder me dispensar de enumerar novamente aqui os sinais da patologia mental que então acom eteu a inteligência brasileira. perseguindo os rem anescentes de uma ditadura que não tinham conseguido vencer e que só se desfizera. em princípio. decorrido tanto tempo. dentre todos os países. embora parcialmente verdadeira. O estranho era que a inaudita mobilização da c lasse intelectual não desse à campanha nem mesmo um arremedo de rigor. a “ética” que se reivindicava assumiu de vez sua verdadeira natureza de mero impulso de vingança 7 política voltado contra alvos descaradamente seletivos . um aspecto estranho. que trouxe ao Brasil muito mais prejuízo do que o ex-presidente e todos os “anões do Congresso” somados. com afinação de um coro multitudinário regido por uma só vontade. Governantes muito mais poderosos que o Sr. e mesmo Estados e regimes inteiros. — anotei num artigo que escrevi para a revista Imprensa: “Pelo furor investigativo com que os jornais e a TV abrem as la trinas. destapam os ralos. onde cada facção procur a sempre se arrogar o monopólio do bem. Não era possível que. Mais tarde. como o senador Ja rbas Passarinho. o desejo de vingança ain da tivesse força bastante para obnubilar todas as inteligências. A revanche era tardia demais. Amigos com quem comentei o caso explicavam-no pelo revanchismo: como macacos a espancarem a onça morta. só para eliminar um adversário político ou m eia dúzia deles. nela. que procure mesmo discretamente abafar denúncias. de ser exigentes consigo mesmos. E — conjeturei então — talvez fosse possível encontrar. Estávamos. de seriedade. Foi a uniformidade do . no entanto.24 OLAVO DE CARVALHO mystique et finit en politique. por vontade própria. na esqui8 A onda de ira nacional contra Collor e depois contra os deputados envolvidos em desvios de verbas são casos ainda mais estranhos. que verberam em uníssono. os âncoras de TV tinham se tornado g uias e orientadores da intelectualidade mais pomposa e autoritária. por um só c itério de valores.

e ntre os temas dominantes do seu discurso. d interesses. O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno ímpar na história da imprensa mundial. Nem países em guerra. Imagem na qual a linha demarcatória da “ética” se sobrepôs mesmo às divisões de partidos. Nunca.noticiário que permitiu fixar na retina do público a imagem de um Brasil dividido em justos e pecadores. de ideologias. a celebração de si mesmo: a condenação dos polít icos corruptos é. Esse unanimismo não teria poder sobre as consciências se não incluísse. Anormal historicamente. Ninguém hesita em ver nesse fenômeno o começo de uma nova era: levado pela mão da imprensa. aquela esgueirandose pelos corredores. Mas. em qualqu er lugar ou época. movidos pela necessidade de unir-se em defesa de bens mais palpáveis contra perigos mais imediatos e letais. apagando pistas. ao mesmo tempo. a de Caim e a de Abel. mocinhos e bandidos. essa unanimidade não pode de ixar de parecer um tanto suspeita. que democracia é pluralismo de opiniões. e não raro explicitamente. Um fenômeno tanto mais estranho quanto é recente a introdução da palavra “ética” no vocabulário popular brasileiro e rapidamente improvisada . com êxito fulminante. a quem fez seu aprendizado no jornalismo ouvindo dizer que impre nsa é diversidade. terminando por neutralizá-las e por não deixar à mostra se não duas facções. esta vociferando sua indignação nas praças. num sombrio me neio de cobra. o Brasil atinge o portal da maturidade democrática. a glorificação da imprensa livre que os investiga e desmascara. ela é. tramando golpes. se viu um caso como este. sua promoção ao status de ideal unificador de todo um . de uma nação em peso abdicar de suas dive rgências internas para formar frente única sob uma bandeira tão vaga e abstrata quanto a “ética”. sem quaisquer ambigüidades ou meios-tons . lograram homogeneizar a tal ponto o discurso dos seus jornalistas.

Mas. Algumas correções foram bem minuciosas. as linhas de investigação que tiveram de ser abandonadas para que o livro pudesse c hegar a um ponto final. Apenas mudei um pouco a ordem. Sua presença nas notas mani festa a confissão de que este não é o único nem o melhor dos livros possíveis sobre o seu assunto. acrescentei os livros finais e este começo. num lance súbito de espadachim ou de pintor zen. Diante dessa expectativa. É também esta multiplicidade de temas e planos que explica a trama compósita deste liv ro. convocava reforços de eras pretéritas par a dar apoio a uma política do presente. a unidade de um a intuição simultânea 9. Abandonadas mas não desprezadas. agora com o empenho investigativo de um “araponga” do PT. com muitas idas e vindas entre a superfície da políti ca atual e as camadas mais profundas de uma antigüidade quase esquecida. como diz Aristóteles. que. as sementes de outros tantos livros possíveis. aumentado de esclarecimentos indispensáveis e melhorado — espero — nos detalhes da expressão. política e metafísica. por ora. O mesmo autor deste. na parte que a ele mais de perto se refe9 povo. começa com o espanto. só pôde escrever este. maio de 1994. Notas de rodapé são uma das mais amáveis invenções humanas. em Imprensa. Toda a parte inicial — do § 2 ao § 17 — é o texto de 1990. por sua vez. que arriscaria perder de vista a forma do seu conjunto quem se aventurasse a percorrê-la aos poucos. alguns metros por dia. era preciso um sobre-esforço de compactação. além de todas es sas coisas apreciáveis e reconfortantes. Revi rando de novo meus papéis.” ( “Unanimidade sus ta”. Jamais uma palavra-de-ordem emanada de um estreito círculo de intelectuais a tivistas logrou alastrar-se com tal velocidade pela extensão de um continente. Para fazer face à i nfluência difusa e embriagante que as palavras de Pessanha espalhavam no ar como u m spray. ocorrida no início de 1993. não alterou em nada minha disposição de publicar este livro. daqui de onde fala ao distinto público. muitas notas de rodapé. reportagem e panfleto. Mas esc rever. não se poderia elucidá-la sem ampliar formidav elmente o círculo das investigações. mostrar toda a cosmovisão que ela trazia de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras. além do benefício peda gógico de abrirem para o leitor um leque de estudos complementares. Acrescentei também muitas. para c onservar. Não creio que isto se pudesse fazer senão tudo de uma vez. além mesmo do in egável deleite psicológico que um autor pode tirar da ostentação erudita. elas nos dão algo ainda melhor. Nada alterei nele em substância. na multiplicidade dos temas e dos planos de abordagem. Muit as e longas. não poderia ter sido de outra forma. A fala de Pessanha era tão cheia de subentendidos. pode agora mesmo vislumbrar em pensamento outros tantos melhores. Como esta cosmovisão. Tão vasta e ra a área das implicações. l ocalizei o manuscrito e fiz-lhe os acréscimos que àquela altura me pareciam necessário s. mais que contestá-la. — Se o conhecim ento. reproduzido em O Imbecil Coletivo ). era preciso desvendá-la. não pude mais adiar a retomada deste trabalho. Elas repres entam. Hoje surpreendo-me de ter podido escrever tan to numa só noite. A notícia da morte de José Américo Motta Pessanha. a falta da capacidade de espantarse é um grave sintoma de apatia mental na nossa intelligentzia. de mensagens camufladas para uso dos happy few. de intenções veladas. além da aparência verdadeira ou fals a de probidade científica de que revestem o conteúdo de um livro. um princípio de explicação para aquilo que eu vira no M ASP. misto de memórias e ensaio filosófico. pensando bem. dentro do corpo de um livro. além da economia que nos facultam ao abreviar um argumento median te saltos que a indicação de um mero título preenche. já pronto. . mas deixaram inalt erado o sentido do conjunto. sem que ninguém se lembrasse de objetar que a rapidez com que se propagam as palavras está às vezes na razão inversa da profundidade de penetração das idéias. cort ado de excrescências.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 25 sitice geral do ambiente pátrio. Além da sua função m l de testemunharem o justo reconhecimento de um escritor para com seus fornecedo res de material. que espremesse numa área limitada e visível a multidão variada de fantasmas evanescentes. mas da qu al só tomei conhecimento muito depois.

se fixei com tal apuro as distinções e ntre os gêneros. em caso de necessidade. R io. E. Os Gêneros Literários. Olavo de Carvalho. não há o que não caiba na minha definição de “ensaio”. na verdade. IAL & Stella Caymmi Editora. religião comparada e sei lá quê mais — coisa em suma incatalo gável. 1993 ). Mas. melhor misturá-l os. . que não se esperaria ver assinada pelo mesmo autor de uma rigidíssima teoria do s gêneros ( v. Seus Fundamentos Metafísicos.esoterismo e fait divers. foi justamente para poder.

Alguns leitores talve z digam que dei uma importância desmesurada a um acontecimento superficial e passa geiro: a refutação de uma simples conferência não requer todo um livro. num giro por dois milênios de histór ia das idéias. emitidos c om a inocência de uma equivocada busca da verdade. Não se trata. da qual fugi o quanto pude. Não faço este trabalho com prazer. ele não se prestaria a colaborar de maneira alguma. quand o nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm. — Em 26 de setembro de 1994. Conservado e industrializado pela técnica. Quanto ao tom. com o título mudado para “Arte de Viver”. escondeu entre r estos de cadáveres. num esgueirar soturno. Só falta. para defesa e esclarecimento dos vivos. — Em junho de 1995. ne m poderia fazê-lo se quisesse. Mas não se trata aqui de discutir idéias.26 OLAVO DE CARVALHO re. A primeira é que. enobrecido e como que santificado pela morte de seu revend edor local. sob a direção do mesmíssimo Adauto Novaes que organizou o evento de 1990. tro. de que se servem para enfeitiçar o público e colocá-lo a serviço de fins com que. A terceira é que aquilo que possa ter havido de maligno na influência de Pessanha sobre o público não veio dele enquanto indivíduo. que emprego no texto. desde 1990. para simbolizar o cúmulo da insignificância. gravada em vídeo. o círculo inteiro das condições remotas que a possibilitaram. numa programação que reproduzia resumidamente o ci clo de Ética do M ASP . o deste livro é às vezes de uma franqueza que destoa. de refutar argumentos errôneos. grupo este que continua vivo e passa bem 10. Crébillon e similares. com u m ciclo denominado Artepensamento. se este livro tomasse a conferência de Pessanha por seu obje to. em furtiva incursão. A objeção não seria d todo despropositada. de revelar o mal para que pereça exposto à luz. e não por simples ocasião e sinal para mostrar. não são imagens da realidade: são poções mágicas. Um escritor cujo nome não me ocorre sugeriu. mas enquanto me mbro atuante de um grupo. desde o fundo dos séculos. e das quais ela extrai toda a significação que possa ter para além das miudezas políticas que const ituem sua motivação imediata. e muitas palavras de louvor a Laclos. ele atacou novamente. o mesmo grupo realizou o congresso Libertinos/Libe rtários. de desocultar intenções que chegam a ter al go de sinis10 Pouco depois dos acontecimentos narrados nesta “Introdução”. o veneno epicúreo pode agora se r distribuído em massa. As idéias. que incluiu comemorações — pagas com dinheiro público — do bicentenário do marquês d ade. não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em . de desenterrar velhas mentiras esquecidas. para certas pessoas. a palestra de Pessanha sobre Epicuro. mediante a exibição dos chumaços de cabelos e dos r etalhos de roupas da vítima. como dir ia Paulo Francis. Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da História. pelo menos na media luz da hipocrisia que se tornou o padrão oficial da ling uagem educada nacional. lúcido e inform ado. espero que me sejam perdoadas como naturais desabafos de um homem que tem de falar sobre o que preferiria esquecer. que o feiticeiro. portanto. E um feitiço não se discute n o plano teórico: um feitiço desfaz-se. Essas condições é que são o tema do livro. nada digo contra sua pessoa. em debates letr ados. A segunda é que a morte de um filósofo não torna verdadeiras as idéias falsas que tenha defendido. por ignorar tudo a respeito. foi tran smitida pela TV Educativa do Rio. editar em papel-bíblia as obras completas de Julius Streicher. Trata-se. a altercação de d ois velhinhos num asilo. quem não tenha podi do fazê-lo em vida dele. Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mági ca de Thomas Mann. Faço-o por uma obrigação interior. nem exime d o dever de contestá-las. Eis como a morte do pensador dá mais força de difusão às idéias que ele defendeu em vida. amputado da escuridão que o alime ntava e protegia. Sustentam essa minha decisão três razões. livro que condensa todo o drama das idéias do século XX. como em psicanálise. reconheço. de confrontar na s erenidade de uma comum devoção à ciência várias imagens da realidade. como o testemunha o atraso deste livro em relação aos fato s que o motivam. Algumas expressões mais fortes. Faço-o com resignada boa vontade. para encontrar a mel hor. apesar da ve emência com que contesto aqui as idéias de Pessanha. mas não consigo esconder a repugnân cia que sinto ao lidar com esse gênero de materiais.

Como se vê pelo exemplo dessas belicosidades g eriátricas.. ao reencontrar-se num asilo.Davos. E Perez de Ayala fez dos bate-bocas entre dois velhinhos de miolo mole — Be larmino y Apolonio — o resumo da universal altercação.. a cantiga milenar do engano. No fim deste livro o leitor verá como o personagem dos primeiros parágrafos terá se tornado pequeno — o eco débil e longínquo que repete às tontas. aquilo que pouco significa por si mesmo pode significar muito pelas ca usas que revela. . na perife ria da História. no fim os velhinhos fazem as pa zes.

que deram ocasião e pretexto ao se u aparecimento. e sobretudo o fato de ser esta já a minha terceira obra de combate11. mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais. Meu propósito não é mudar o rumo da História. segundo dizia John Stuart Mill. se ouviss em. da ruidosa atualidade. e deix ando-as mostrar-se apenas. podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que. por olhos doidos ou sãos. Meus alunos podem atestar que a polêmica está longe de constituir o centro dos meus interesses. supondo-se que a desejemos. lev ando muitas delas à morte por definhamento. o que vi estava lá. como disse Goe the. do que uma conferência sobre o Jardim de Epicu ro no estilo floreado de Motta Pessanha. a um inócu o passatempo botânico de nefelibatas. só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso. é a mais baixa faculdade da intel igência. mas desconheço outro que possa nos colocar n a pista da verdade. Também declaro peremptoriamente que não tenho a menor ilusão de influencia r no que quer que seja o curso das coisas. Mas.” Ademais. não levem ninguém a conclusões precipitadas 11 12 As anteriores foram A Nova Era e a Revolução Cultural. permito-me citar o único autor do qu al posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu. Que o tom deste livro. nada se parece mais a um adorno exterior. Para liquidar de vez com a objeção. não as compreenderiam. é porque algumas delas já foram minhas — e. Quanto às minhas. Não posso r ecomendar esse regime às almas sensíveis. trato-as a pão e água.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 27 De outro lado. contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos. e não pela importânci a muita ou pouca dos fatos. ginástica sueca e chibatadas. sucedâneos do afeto humano. e na ordem de publicação dos meus escritos preferi começar de baixo. locais e momentâneos. que vai para onde bem entende e jamai s me consulta (no que aliás faz muito bem). Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho . que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico. e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo. Fritjof Capra e Antônio Gramsci e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. sujeito pacífico e tolerante até o limite da paspalhi ce. “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação. mas aponta. Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Oci dente moderno. reservando as partes mais altas e serenas para melhor ocasião. que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado. sobre o temperamento do autor. escondidinho e letal sob as flores. positivamente. . sob a forma de apostilas de meus cursos pr ivados. por agora. Ora. como o leitor verá sobretudo n as últimas páginas. Ainda um pedido. Não e screvi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis. enquanto as idéias amadurecem e se revestem de uma forma verbal melhor12. este livro não se limita a desfazer um ou vários erros. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação. a direção onde devem ser buscadas as verdades que eles renegam e rene gando encobrem. É que a crítica. mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso. Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. E se aqui submeto idéias alheias a esse tratamento impiedoso. Posso provar isto. a outras estrangulando no berço ou esmag andoas a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem. o hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas conseqüências práticas que as idéias filosóficas. mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no resta nte do livro. No entender do superficialismo brasilei ro.

IAL/Stella Caymmi. O episódio está documentado em Aristóteles em Nova Persp ectiva ( Rio. 1994 ) — deu mais encrenca do que toda s os meus escritos de polêmica. Topbooks. de divulgar essa parte mais interior do meu traba lho — com a publicação do livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. .Minha única iniciativa. Introdução à Teoria do Quatro Discursos ( Rio. até agora. 1996 ).

pela ética da vida intelectual q uando tem. No caso brasileiro. Se porém o especialista. Vejamos o que a consciência filosófica nacional. o público leigo fatalmente a tomará como se fosse ela mesma a expressão desse cons enso. o homem investido de autoridade acadêmica apresenta sua opinião solta. e dará às palavras de um só indivíduo — ou do grupo que ele representa — o valor e o p eso de uma verdade universalmente admitida pelos homens cultos. que. clamava pela união das ig rejas. O intuito declarado dos organizadores do curso era triplo: dar um esboço cronológico das principais doutrinas éticas. A diferença é simples: um filósofo busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores. autora de um premiado Convite à Filosofia. biônicos. porque toda divergência diverge de alguma coisa e só no confro nto com ela adquire sentido. o professor. A seleção dos temas e o conteúdo das conferências terminaram por desmentir os doi s primeiros objetivos e anular o terceiro. quando ele. titular da Sec retaria Municipal de Cultura. um philosophe busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daquele s a quem segue. É da tradição os filósofo bandonarem o silêncio da meditação para ir discursar às gentes. novas ou divergentes qu e o orador acaso tenha a apresentar só poderão ser compreendidas e discutidas com pr oveito se forem vistas no quadro desse consenso. não havendo nenhum à mão. a compreensão de uma nova tese depende do conhecimento do estado da questão. Tão necessários são os filósofos nessas horas. last not l east. com a riteriosa discriminação dos tópicos abrangidos e por abranger. organizadora do ciclo de Ética do MASP e. ergueu-se finalmente a voz da filosofia para clarear as idéias do povo e indicar à nação o caminho do bem. Discursando do alto de um caixote de beterrabas. pôde fazer para r econduzir aos bons caminhos da ética uma nação perdida. ambos podem faz er igual efeito. já não consegue se guiar p or si mesmo. desorientado e perplexo. do alto de um caixote de beterrabas. aviltada pelos abuso s da retórica. assim representada. chocado com a guerra entre cristãos. a i ncumbência de figurar no papel de consciência filosófica nacional foi atribuída ao grupo de professores universitários que orbita em torno de Marilena Chauí. a oferecer-lhes. abrindo-o para um público de quinhentos e tantos l eigos. grifado ou entre aspas. Fichte. Leibniz. Desse preceito. como fundamento primeiro da argumentação. designa os ideólogos da Revolução Francesa. um sumário do es tado da questão no consenso dos estudiosos. As conferências do MASP Na gritaria geral contra a falta de ética. Sócrates ia pelas praças cobrando os direitos da consciência. lançar luz sobre a questão da falta de ética no país e p opularizar o debate a respeito. em terminologia mais moderna. como por exemplo a de que na lógica de Aristóteles “o acidente é um tipo de propriedade” mais ou menos o equivalente a dizer que na geometria de Eucli des o quadrado é um tipo de círculo. onde são servidas aos convidados al gumas lições preciosas. sem os nexos que a ligam positivamente ou negativamente ao consenso e à tr adição. i solada. É um meio de evitar a proliferação de teorias inúteis. Benedetto Croce dizia que só se compreende um filósofo quando se sabe “contra quem ele se levantou polemicamente”. que. as nações nomeiam filósofos honorários. Para este. mesmo que dele divirjam e sobre tudo quando divergem. Status quæstionis — termo da retórica antiga — é o retrospecto das discussões até o presente. ou. Em todo debate científico ou filosófico. Não é de hoje que a filosofia assume o encar go de guiar o mundo. É também um preceito elementar do método científico não apresentar uma teoria nova sem provar primeiro que as anteriores não bastam para explicar os fenômenos de que trata. Quem fale aos leigos sobre um assunto da sua especialidade está implicitamente obrigado. nas horas de escândalo e r uína. . convocava os alemães à defesa da honra nacional pisoteada pelo invasor.28 OLAVO DE CARVALHO § 2. pois a diferença está num plano acima do que o público enxerga. Opiniões próprias. Voltaire é filósofo tanto quanto Leibniz ou Aristóteles. Foi assim que surgiu o termo philosophes. das teses consensualmen te admitidas e das que continuam em litígio.

Por exemplo. Que aspecto foi esse. a essência da Idade Média. com seletividade feroz. ocupando todo o espaço e fazendo as vezes do consenso. em sentido corrente. Nem mesmo o de desfigurá-la em nome de uma teoria qualquer. não é propriam ente um filósofo menor. é um quid pro quo. O tema ali encarregado de figur ar como amostra suprema do pensamento medieval foi. a fineza de declarar de antemão seu propósito de apresentar uma ver são nova e heterodoxa da História. Seu período de atuação mais intensa. por sua vez. deve ser mostrada como tal. ao abrigo de todo olhar de censura. e não “a” História. Apenas se pede. Veremos adiante. como obra de arte. sentiram o urgente impulso de derramá-la sobre toda a nação.. Quem assim a empregu e estará se aproveitando da ignorância alheia para fazer-se de autoridade. a que m assim proceda. Epicuro. com seus quase mil anos de História. no mínimo. ou pelo menos sobre quinhentas cabeças. recebe o nome de cara-de-pau. e não estas contra aquelas. mas alguma coisa menor do que um filósofo. Uma história da é a grega que eleve Epicuro ao primeiro plano em lugar de Platão e Aristóteles não tem c omo evitar. cabe ao desafiado a primazia na escolha das armas. mas não tem o direito de posar em lugar dele perante um público que o desconhece. o rótulo de extravagante. “essa instituição — como frisou Alexandre Herculano — nasceu débil e desenvolveu-se gradual e lentamente”1 3. removendo para um canto os nex os principais articuladores do conjunto e puxando para o centro um detalhe qualq uer de sua preferência. quando apresentada a um público leigo. Mas cometer extravagâncias com o ar i nocente de quem procede segundo a praxe mais rotineira é aquilo que. Ésqu ilo e Eurípides. Nunca deve ser exibida so zinha. tão especial? A moral agostiniana da autoconsciência? A ética tomista da escolha razoável? A pedagogia moral de Hugo de S. o pen samento ético grego ficou ali reduzido ao filete escasso e marginal do epicurismo e a um vago e misterioso “sentimento” coletivo escoado entre os versos de Sófocles. admite muitas outras interpretações éticas que não somente aquelas destacadas p or Nicole Loraux (que seria. numa só conferência. incapaz de atinar com a ex travagância do seu procedimento. no MASP. e mesmo aí só a abordou. Nenhum desses tópicos nem dos muitos outros em que se subdivide a ética medie val nos livros de História da Filosofia foi considerado significativo o bastante p ara representar. carregada ademais de obscuros simbolismos a rcaicos. Dessa norma. No fim das contas. E a tragédia grega. como a quintessência do assunto. o capítulo referente à filosofia grega resumiu-se a duas co nferências: a de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro. alterand o a hierarquia dos fatos e as proporções dos valores. Aí. fl ui a obrigação de ética pedagógica a que me referi: toda teoria nova. ele se espa lha: deita e rola. creio eu. a última a negá-lo). por insignificante e banal que seja. o tribunal da Santa Inquis ição! Historicamente. não con seguindo mais contê-la em si. tomado assim. E nada mais confortável para um cara-de-pau do qu e poder contar com a sonsa aprovação de uma platéia novata. Vítor? O indeterminismo moral de Duns Scot? Nada disso. Mas a versão que o ciclo apresentou da hi stória das idéias éticas é bem diferente daquela a que o público teria acesso caso se diri gisse a qualquer das histórias da filosofia que circulam em formato de livro. Nem uma palavra sobre Platão. na ética popula r. Como num duelo. e a da convidada francesa. recortada e contrastada sobre o p ano de fundo do consenso que ela confirma ou desmente. Rolando.. Aristóteles ou o estoicismo: sobre os t rês sistemas completos que constituíram o essencial da herança moral grega às civilizações e uropéia e islâmica. decorre uma norma prática: as novas teorias é que devem apresentar suas razões contra as velhas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 29 que é válido também em filosofia. rolando. que a revestiu da ima13 . o cabotinismo elevado a princípio historiográfi co foi cair num descalabro ainda pior ao tratar da filosofia medieval: espremeua toda. Nicole Loraux (aliás excelente). Ninguém nega aos organizadores do ciclo o direito de reinterpretarem a História o qu anto queiram. sobre os se ntimentos éticos na tragédia grega. no consenso quase universal. que em detalhe comento mai s adiante. Instaurada oficialmente em 1229. É uma versão peculiar — alternativa. por um único e privilegiado aspecto. pela m assa crédula dos ouvintes. digamos — que tem todo o direito de ser defendida contr a o consenso. Não deveria ser preciso fazer tais recomendações a pessoas tão cheias de consciência ética que.

Bertrand. t. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal . . Lisboa. I.V. 25. p. s/d. Alexandre Herculano.

entendemos que ela foi um mal menor: a única alte rnativa era o massacre ( v. 1975 ). o XIII. Rio. l A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus. mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alter nativas reais existentes na época. o R ei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura. trad. eram um hábito consagrado na Península Ibérica. Pedro Abelardo. Hugo e Ricardo de S. Durante quase toda a Idade Média. Boaventura. Tomás de Aquino e S. Bem ao contrário. João VI. caiu e m desuso. de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros pop ulares”. sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renas centista — dos textos das antigas leis romanas. passando pelos livros de Pedro Lombardo. ao fim do ciclo de produção e publicação das principais obras filosóficas medievais. uma farsa concebida pelo Papa padrinho de Galileu para que seu pro tegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples decl .30 OLAVO DE CARVALHO gem sangrenta que tem para nós hoje. a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças. Isto é tão medieval quanto a física d e Newton. o que deveria ser considerado um marco na história dos direi tos humanos. sobre a realidade das mortes por en feitiçamento. Eles sabem p erfeitamente bem que a Idade Média é um bode expiatório das culpas de períodos históricos posteriores. Chaim Samuel Katz e Eg inardo Pires. A tortura era considerada um procedimento legítimo e pra ticada em toda parte desde a Grécia antiga. op. com o da sua atuação efetiva. qualquer caráter criminoso. cit. que não marcaram significativamente o con teúdo de suas obras14. 14 Associar. não permitindo que o ac usado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. já é apenas o finzinho da Idade Média: é o princíp o da sua dissolução. Os philosophes do MASP conhecem tão bem ou mel hor do que eu todas essas datas. Alexandre de Hales. Rio. Em terceiro lugar. mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria. repito. de dois séculos. que não coinc ide. e não podem tê-las trocado por engano. Tes tas. Não sei se a acusação era procedente. cit. sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas. alcançando um máximo de furor nos séculos XVI e XVII. causa imediata da abertura do Santo Ofício. nenhum desses filósofos exerceu qualquer cargo no Santo Ofício nem teve com esta entidade contatos senão episódicos. recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss. o período de atividade inquisitorial mais significativa já é posterior. Anselmo (1070) até as Reportata Parisiensia de Duns Scot (1300). e sobretudo filosofia medieval com Inquis ição. Guilherme de Conches. Vítor. que a sua fama inquisitorial obedece à definição stendhaliana da fama: co njunto dos época era crime. A tortura ilimitada foi depois reintroduzida pelos comunistas. Tempo Brasileiro. Idade Média com Inquisição. É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus. só começa a partir de 1400: em pleno Renascimento . Sto. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida. assim. a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno es teve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja C atólica (v. — Para completar. na Rús sia. Alexandre Herculano. l O proces so de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial. é u m dos principais sintomas. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. John Bossy. Alberto Magno. mas limitando-o severamente. Instituindo os processos regulares. l A Inquisição institui u a tortura generalizada. As matanças de judeus. op. O que a Inquisição fez foi seguir o us o então vigente na justiça civil. promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos. que vai do Proslogion de Sto. ). provavelmente não era. Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu con tra o uso da tortura. Sto. trad. é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso co mo ministro da Fazenda de D. 1993). o processo f oi uma pizza. “O Feiticeiro e sua Magia” ( em Antropologia Estrutural. Ediouro. Mesmo o século do estabelecimento oficial da Inquisição. com a eclosão das primeiras manifestações de autonomia nacional. das quais a própria disseminação das heresias. As fogueiras da Inquisição continuaram depois a arder pela Idade Moderna a dentro. Eduardo Fran cisco Alves. ). de modo geral. Para completar.

aração oral sem efeitos práticos. Galileu Herético. Pietro Redondi. Newton. Testas v. Ele não foi condenado por defender teorias científicas. nenhuma observação. Bacon. Hermann. A Inquisição examinava apenas livros de in teresse teológico direto. 1991 ). Júlia Ma inardi. de Galileu a Des cartes. Os philosophes de modo geral não ig noram essas coisas. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica. após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v. La Cosmologie de Giordano Bruno. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”. Kepler. gramática e retórica o trivium. Giordano Bruno não fez nenhuma desco berta. mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconfort o na platéia. que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciênci a moderna. proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. que na . Eis algumas: l A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico. condenad o pela Inquisição por defender teorias científicas. Harvey e tutti quanti. Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para ve rificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico. e todos os cientistas matematizantes. diria Gramsci — que sustent a a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. por G. ) l Giordano Bruno foi um mártir da ciência. ( Em caso de dúvida. Ele desprezava a n ova mentalidade matemática. Testas e J. mas por prática de feitiçaria. Companhia das Letras. trad. nenhum experimento científico. leia-se A Inquisição. Descarte s. física. Bib liografia no fim deste volume. astronomia. Paris. Pa ul-Henri Michel. Galileu. Nem sequer estudou as ciências modernas. O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. ). mostraram a maior indiferença pela sua obra. biologia ou matemática. cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna ( v. São Paulo. 1975.

por seus efeitos político-sociais. a auréola terminou por rodear também o Catolicismo de modo geral.. O rtega. ao antropólogo Bronislaw Malinovski e até mesmo a Voltaire. Essa impressão sobre a Idade Média é parcialm ente um produto dos ‘Romances Góticos’ do século dezoito. Croce. onde a plantou uma sucessão de ob ras de ficção de grande sucesso. O mais significativo da filosofia escolástic a — Sto. grande retórico e jornalista que. como Condillac. 23 ). foi um tour de for ce admirável: enlamear a reputação do adversário. no caso. da Silva. se formasse por esta só coleção sua imagem da históri a do pensamento. desviando as atenções para um assunto mais truculen to. logo. as teorias não se tornam dignas de atenção pelo seu valo r intrínseco. conjeturei que Pe ssanha talvez não tivesse desejado ilustrar a História da Filosofia.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 31 equívocos que a posteridade tece em torno de um nome. Belo Horizonte. A pr ova de que a velha aparelhagem cênica do “romance gótico” ainda funciona é o sucesso de O Nome da Rosa. na ocasião da edição. sem ter precisado sequer mencionar o s eu nome. Mas fica a pergunta: Para quê? Com que finalidade um grupo de intelectuai s declaradamente empenhados na salvação moral do país se envolve num empreendimento tão comprometedor como esse de contar ao povo uma História da Ética que falta com a ética para poder falsificar a História? § 3. Em matéria de retórica — a arte de alcançar o máximo de persuasão com o mínimo de argumentos —. ao mesmo tempo que omitia Dilthey. Duns Scot. não pode ser levado a sério. de que Pessanha fora organizador e editor. como as de Jung e René Guénon. que injetaram o e volucionismo nas veias espirituais do mundo. As distorções não paravam aí: Pes anha achara indispensável dar todo um volu16 me a Kalecki. ou as de Spencer e Thomas Huxley. explicarme as razões de escolhas tão bizarras. o leitor d’Os Pensadores. típicos philosophes 17. com alguns anos de antecedência. a que aquela filosofia se associa intimamente. mas sim a Históri a das Idéias. A Cultura da s Cidades. talvez. Enfim. é claro. trad. Mas também sabem que essa fama está profundamente arraigada na crendice popular. Hartmann e Scheler. acabaria por concebê-la bem diversa daquela que pode16 Na verdade a lenda surgiu um pouco antes: “A Idade Média foi denegrida. a História oferece muitos exemplos de ‘censura transferida’. Sem falar. Procuran do. Itatiaia. um economista que não é cit ado em nenhuma História da Filosofia . E. . com a vantagem adicional de que essa filosofia. Mas logo tive de abandonar essa hipótese. para quê desmenti-la? Por qu e não tirar proveito dela? O proveito que se tirou. no início da R enascença.. de O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Pöe até O Nome da Rosa de Umberto Eco15. mais vistoso. Neil R. Jaspers. Aí se explicaria o título da série (“pensador” é um termo mais vago e a brangente do que “filósofo”) e também a inclusão de autores menores. já que o público acredita na lenda. como por exemplo as de Wittgenstein e Adorno. Whitehead. Por automática extensão. mistério e desvario” ( Lewis Mumford. teias de aranha. p. Helvéti us e Dégerando. Nesta disciplina. 1961. de Lênin ou Gurdjie ff. e omitia outras que produziram verdadei ras revoluções. Lukács. Pessanha e o pensamento Ocidental Uma pista podia ser encontrada. ficou assim rodeada de uma auréola sangrenta. Na escolha das obras que compõem a série Os Pensadores da Editora Abril. Cassirer. Tomás. a mesma seletividade deformante q ue agora inspirava o programa da Ética. em José Américo Motta Pessanha. por vícios que realmente pertenciam aos seus detratores. mas pela sua repercussão pública. vist o que a coleção incluía obras que só exerceram influência em círculos bem delimitados. que arrombaram as portas do Ocidente para a invasão das idéias orientais. com seus quadros sombrios de câm aras de tortura. como filósofo. já 15 se manifestara. mais ou menos do mesmo tamanho daqueles concedidos individualmente ao economista John Maynard Keynes. sem ter sido contestada diretamente ou mesmo discutida. valha m elas o que valham. foi o de evitar qualq uer exame da filosofia medieval. um dos mais destacados membros do grupo. Lavelle. Ockam — fora ali todo espremido num só volume.

17 A direita também tem se us philosophes. s e ele jamais publicou um único trabalho de alcance filosófico e se entre seus colega s de ofício houve muitos que foram filósofos de pleno direito. mas fora m omitidos. Maurras. por exemplo — .Por que essa honra concedida a um único economista. Donoso Cortés. . alguns de primeira ordem pela qualidade literária e pela influência política de seus escritos — De Maistre. como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises? A resposta só pode ser uma: do ponto de vista uspiano um econo mista marxista é mais filósofo que qualquer filósofo liberal. de figurar entre os filósofos.

a inspiração talvez inconsciente de todos os títulos da série de eve ntos promovidos pela Secretaria de Cultura: o olhar que aquela gente lançava sobre o mundo não refletia a imagem de um objeto. e dispostos a sedimentar. representando. Hartmann e não sei mais quantos. Os Sentidos da Paixão e Ética — sem contar a militância pedagógica nas cátedras da USP — formam o mais vasto empreendimento de persuasão retórica já realizado n este país por um grupo de intelectuais ativistas imbuídos de objetivos políticos bem d eterminados. o princípio a que obedecera a seleção dos livros: Pessanha não havia procurado mostrar o passado. por seu lado. mas projetava sobre ele o sentido de uma paixão. a obra de deformação que Pessanha já havia iniciado por conta própria. A escolha não refletia um critério teórico. salvo engano. o grande renovador dos est udos retóricos no século XX. a série Os Pensadores. um investigador e codificador dos princípios da argumentação retóri ca. jamais chegou ao Sul-Maravilha. muito Foucault. sem contar Fielkenkraut. na teoria e na prática. em outra escala.32 OLAVO DE CARVALHO ria obter em qualquer livro ou curso da matéria (exceto. mas pela repercussão que ele mesmo pretendia lhes dar. e o Platão de Carlos Alberto Nunes. Para complicar mais ainda o imbroglio. mas moldar o futuro. Dil they. Mas temos Simone de Beauvoir quase completa . mas não os de primeira necessidade. E não lhe faltaram ocasiões para man ifestar o seu talento (que antes de empregar na persuasão política ele testara numa série de fascículos de culinária. Isto ainda não nos dá uma resposta quanto aos motivos úl timos da seleção dos temas no curso de Ética. acabou por adquirir uma autoridade comp arável à da Bibliothèque de la Pléiade ou dos Oxford Classics. nem pe la sua importância h istórica. Não escolhera os livros nem pelo seu valor. se lhe dessem o supérfluo. o curso da USP. que se crê muito le trado porque encontra nas livrarias as últimas modas filosóficas nacionais ( leia-se : estrangeiras ). mas a decisão de uma práxis. Fukuyama e tod os os outros filósofos de alta rotatividade. era uma comunidade científica empenhada em descobrir o real. mas para dar seguim ento coerente a uma ação iniciada muito antes. Husserl. entre o retor e o retór ico: entre o orador persuasivo e o estudioso da ciência retórica. a imagem do pensamento universal. Perelman era essen cialmente um retórico. ed itado pela Universidade do Pará. Fichte. Também nos faltam as obras principais de Hegel ( só temos a Fenome nologia e textos menores ). Não se tratava de História. Pessanha desempenhava uma função estratégica. ela dispensar ia o essencial. num país onde se publicam poucos livros de filosofia18 e onde as edições e strangeiras só são acessíveis a uns happy few. é claro. na mesma editora). aos olhos do público. É por isto que. de Kant. o primeiro a div ulgar no Brasil. Parece ser isso que os editores brasileiros pensam do leitor. a série Os Pensadores e os três eventos O Olhar. Até hoje não temos Aristóteles completo em português. retroativamente. Pessanha. cujos trabalhos ele foi. muito Antonio Gramsci. o programa da Ética não fizera se não prosseguir. O mesmo espírito pare cia ter orientado a seleção dos temas para o curso de Ética. não foi por casualidade. como um orador e homem de marketing. mas sim de estratégia e mercadologia. mas um grupo militant e decidido a fabricá-lo19. Em Contraponto. mas também por ser. Que intenção está aí subentendida e quais os . on de impera o grupo de Pessanha). a série Os Pensadores se tornou. mas já nos coloca numa pista importante: s e ali a verdade sofreu graves distorções. retrospectivamente. Aldous Huxley diz de uma personagem que. um grande con hecedor da Retórica. Ele não quisera refletir a História das Idéias na imagem dos textos. as bases para a conquista desses objetivos. seguindo a tradição. discípulo que era de Chaim Perelman. na falta de concorrentes. de Leibniz. Mas ainda sobrava a pergunta: qual o sentido do empreendimento? Fo i só quando ouvi a conferência de Pessanha que pude compreender. O círculo de Pessanha não 18 Na verdade publicam-se muitos. não como editor d’Os Pensadores. como um mestre d a persuasão. malgrado suas distorções. mas produzi-la no campo dos fatos. Schelling. e por ele pude captar tam bém. Nessa operação. no plano da luta cultural. Mas Perelman distinguia. Juntos. Enfim. um item indispensável da b ibliografia filosófica nacional. qualificou-se sobretudo como retor.

que se deu nesses círculos filosóficos às idéi as de Richard Rorty. o que foi constatado até agora já nos adverte que a estranha conjuntura referida no § 1 dest e livro era ainda mais estranha do que parecera à primeira vista. e segundo o qual. Faculdade da Cidade Editora. a propósito os capítulos “Armadilha relativista” e “Rorty e os imais” no meu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras ( Rio. um tanto envergonhada.valores que nela se incorporam. 1995 ). é o que teremos de descobrir numa análise microscópica da conferência de Pessanha. não podendo encontrar “universais” na realidade. a filosofia deve “fabricá-los” mediante a pr opaganda e a ação política. filósofo pragmatista segundo o qual a linguagem não pode dar um a imagem do real mas somente uma expressão dos nossos desejos. Mas antes mesmo de entrarmos em mais detalhes. V. 19 Daí a receptividade. .

Não havia remédio. mais inexplicável a coisa toda me parecia.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 33 Pois. se mostrasse tão ignorante das regr as mais elementares da ética intelectual. tudo em nome de objetivos mo rais que seriam alcançados bem mais rápida e facilmente pela velha e boa linha reta. se já havia uma inusitada desproporção no volume de recursos culturais mobilizad os para a consecução de um alvo tão pequeno quanto a simples destituição de um mandatário co rrupto. que remontasse às raízes in telectuais primeiras em que se inspirara aquela nova e singular concepção da ética. mais esquisito ainda era que uma elite universitária. E quanto mais eu remexia o assunto. tão ávida de falsificar a História. prostituir a ciência e conduzir o povo por um caminho enganoso. Er a preciso nada menos que interrogar Epicuro. elevada à liderança inte lectual de uma reforma ética de escala nacional. senão uma sondagem em profundidade. portanto. .

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LIVRO II .EPICURO - .

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pois os traços do mestre devem se reencontrar no discípulo — e Epicuro produziu a lgumas dúzias de opiniões que. pronunciada por José Américo otta Pessanha. existência material. por esta mesma razão. Logo — pelas leis da silogística epicúrea —. Só que. a d iferença de maior para menor densidade da dita “matéria”21. como todo e qualquer mundo existente é sem21 22 Veremos. Agostinho. pois aquilo q ue não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos22. para manter-se de pé. como não podemos encontrá-los em parte alguma deste baixo mundo. Para sondar as razões desse mistério.CAPÍTULO II. a alma também é mater ial. 146 ss. isto já prova. tão diferente daquela grossa metafísica de caixeiro de loja que costumamos con hecer por esse nome. mas sim per guntar por que. por tadora da solução para todos os males humanos (sic) e da inspiração que o Brasil precisa para sair do atoleiro moral. Se sonhamos com deu ses. mas que o seu sentido é o de um engodo proposital. — A matéria segundo Epicuro “As Delícias do Jardim”. cuja solução trará consigo a de todos os outros anteriormente mencionad os. o corpo é material. no campo da absurdidade. A questão não é portanto saber se Pes sanha se saiu melhor ou pior do que Agostinho no seu devoto empenho. eles devem estar em algum outro mu ndo. tudo o que chega ao nosso conhecimento tem. Uma profissão-de-fé epicurista. Segundo Epicuro. Têm-n a inclusive os objetos de nossos sonhos e visões imaginativas. Levado por aquele entusiasmo belicoso que sempre a nima os porta-vozes de uma doutrina salvadora. . entre estes três níveis de seres. retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo. Pessanha não recuou diante das maio res temeridades na apologia do seu guru. Como tudo é material. Porém. V. § 32. 20 Mas opiniões esquisitas não são mesmo de estranhar em quem se declare seguidor de Epic uro. mas uma forma superior de luta política. Propor isto como um remédio eficaz pa ra a corrupção reinante é o mesmo que recomendar a fuga para longe dos credores como u m método eficaz de saldar as dívidas20. se tornaram modelos insuperáve is. d e outro não hesitou em defender uma opinião que. será preciso remontar ao próprio Epicuro e. O ep icurismo foi ali pintado como uma das maiores filosofias de todos os tempos. notório adversário do epi curismo. mostrar o avançado estado de decomposição em que se encontra. já que alguém antes de nós desenterrou a múm ia. Se de um lado não poupou o sarcasmo ao ri dicularizar as acrobacias dialéticas com que Sto. que essa opinião não é totalmente destituída de sentido. num ciclo nominalmente votado ao esclarecimento de questões atuais e urgentes. segunda conferência do ciclo de Ética. Diógenes Laércio. e dela aparentado tão-somente na distância que ambos guardam de toda verdadeira filosofia. e até os deuses são materiais — havendo apenas. não foi uma simples exposição da filosofia de Epicuro: foi uma rasgada profissão-de-fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro. só para depois ter de varrê-lo para baixo do tapete. procurava conciliar a bondade de Deus com a existência do mal no mundo. COSMOLOGIA DE EPICURO § 4. requer uma lógica não menos circense: a opinião de que a fuga dos intelectuais para o jardim de Epicu ro não é alienação nem covardia. fazendo de seu autor um clássico do besteirol. Epicuro ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade. X. alguém se deu o trabalho de ir retirar o pó milenar que encobria uma múmi a filosófica. Um aspecto particularmente biruta da filosofia de Epicuro é o seu alegado material ismo. no fim. que eles existem materialmente. só o que é aterial chega ao nosso conhecimento. Lucrécio. segundo Epicuro. De natura rerum.

Para começar. de outro lado. e sim porque não querem. Mas. afirma a eternidade da matéria. destituído de coisas. não é porque não querem e t mbém não é porque nem querem nem podem. Mas nós. Mas. Como é possível que o modelo supremo do bem não nos cause nenhum bem. para ver como fica a segunda. diz Epicuro. um deus que.” Pessanha não só achou e ngenhoso este argumento. acabaria por se perder em p razeres menores — que Epicuro despreza — e. Epicuro achaos o supra-sumo da perfeição. Mas. segundo Epicuro. mesmo de matéria sutil. ou nem quer nem pode. resultaria em aumento da dor. Não é de bom tom. mas não é porque não podem. seguro de que não entendem uma só pa lavra do que estou dizendo). num ambiente que. somada à retórica de Perelman. Mas nem toda a dialética de Agostinho. e vestidos somente de intervalo. mas o que Epicuro g arante é que certamente eles o fazem em idioma grego. que seria do epicurismo? A busca do prazer. prossigamos com a investigação. não é porque não podem. ficando desprov ida de um m odelo ou meta final por que orientar-se. longe da miserável agitação dos mundos e sem inte rferir em nada na ordem ou desordem das coisas. eles não iriam querer suja r suas mãozinhas de matéria sutil na porqueira da matéria mais densa. pelo bem da paz no intermundo. das duas uma: ou os deuses exercem um influxo benéfico. poderia tir ar os deuses epicúreos desta aporia congênita. Sabe-se lá sobre que eles conversam. ao mesmo tempo. pela ética epicúrea. podendo ajudar os necessitados. os d euses são compostos de matéria sutil.38 OLAVO DE CARVALHO pre material como o nosso. ou intervalo entre os mundos. podem viver sem um ambiente m aterial em torno. Sendo filósofos. se recusasse a fazê-lo. Só que Epic uro. em nada ligando para as nossas preces nem mesmo quando proferidas no seu celestial idioma. eles ficam trocando idéia s nas longas noitadas do intermundo. ele diz também que o prazer é o supremo bem. o result ado a que chegam aqueles que buscam o prazer no terrestre e no imediato. Embora materiais como nós. Então. em que se agitam há milênios os debates n o intermundo: se eles não interferem. sem con hecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses. devem ser criteriosamente evita das. a única ocupaçã eles consiste em conversar. não deve ser menos desprovido de assunto. estaria proceden do de maneira indigna de sua condição divina. os deuses não ficam atrás. que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações. ou pode e não quer. pergunt ar como é que seres materiais. ainda segundo Epicuro. já que eles permanecem no puro ócio contemplativo e não nos causam males nem bens. E como Epicuro ta mbém diz que um deus não poderia ser impotente. não alcançando jamais o benefício do ócio contem plativo. com que julgava fulminar a religião grega e toda religião possível: “Ou Deus quer ajudar e não pode. Embora eles nos sejam indiferentes e po rtanto inúteis. Assim Epicuro cai nas malhas do seu próp rio Epicuro diz que nada devemos temer nem esperar dos deuses. Mas um conceito de matéria tão elástico como o de Epicuro só podia mesmo dar nisso. por que raios é então? Se a matéria de Epicuro é esquisita. que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o mo delo mais perfeito do ócio contemplativo. e por isto são mais duráveis. se eles não nos ajudam. o que cria o seguinte problem a: se a matéria é eterna. só para depois ter em de pedir a Agostinho que as limpasse. argumento. devemos concluir que. Tal é justamente. Para saber se uma coisa exerce ou não influência sobre outra. por que teria de ser menos densa justamente nos seres mais duráveis e não nos m efêmeros? É ais como dizer que uma superfície pintada é tanto mais azu l quanto mais diluída esteja a tinta azul. mas declarou que ele se aplica perfeitamente ao Deus cr istão. sem eles. Afinal. ainda que por sua simples . e não em língua de bárbaros (motiv o pelo qual posso aqui falar mal deles à vontade. que já estamos metidos na densa porcaria terrestre. que o objeto da admir ação não traga nenhum benefício à alma que o admira e não lhe dê nem mesmo um pouco de prazer eis aí questões que. motivo pelo qual devemos admirá-los. Epicuro diz que os deuses são inócuos e indifere ntes. rarefeita. só lhes resta alojar seus corpinhos de matéria sutil num intermundo. o mais velho e eficaz procedimento consiste em suprimir (de fato ou imaginativamente) a prim eira.

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isto é. animais e plantas e pedras e áto mos e galáxias. por sua estática e autobenéfica perfeição intrínseca. . e eles não. aparecendo em nossos sonhos. e então não são inócuos como os diz Epicuro. Nas tradições espirituais em geral. a bússola por que se orienta o desejo. tentemos tirar as conseqüências lógicas da teoria. Se os deuses são. o qual também não é nem estofo material do mundo nem causa imediata dos atos humano s ou dos fenômenos naturais. ou. eles de fato não são nem causa material nem causa eficiente. eles produzem um efeito bom e logo são bons sob algum aspecto. mas todos os seres e coisas. estaria sendo nada mais que coerente com seus p róprios pressupostos. não exerc influxo nenhum e então a prática do epicurismo está destinada ao fracasso. na medida em que.. a não ser que os membros da Comissão de Orçamento do Congresso sejam deuses. Tirar o corpo fora de toda responsabilidade sob a alegação de não ter cr iado o mundo não é lá também um comportamento muito digno de um ser divino. E. mas o são duplamen te: em linguagem aristotélica. Porém. não fazem senão buscar de maneira obscura e inconsciente aquele m esmo objetivo supremo que. quando saem à cata de pr azeres grosseiros. o modelo do bem. então eles não apenas são causa de alguma coisa. Logo. A única diferença que restaria entre Yaveh e os deuses ep icúreos é que Ele criou o mundo. Ou Epicuro está certo na teoria e errado na prática. por mais que o filósofo procure isentá-los de toda responsabilidade. além de ociosos. Mas entre dizer que eles não criaram o mund o e concluir que eles não fizeram coisa nenhuma desde que o mundo foi criado. E não haveria nada de estranho em que uma escola de ascetismo atribuísse a seus deus es a capacidade de produzir efeitos pela sua simples presença.. e n em só para os homens em geral. ou está certo na prática e errado na teoria — a não ser que esteja errado em ambas as coisas. Mas. Os de uses são apenas a imagem do bem. e. os deuses são indiferentes ao bem e ao mal. interrompe os trabalhos e manda solicitar o parecer técnico de Sto. a di stância é grande. ativa e transitivam nte. de um lado. deve ser um bocado de trabalho. Mas Epicuro afirma ai nda que. Mas. para o filósofo. afinal. Para seres oc iosos como eles.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 39 presença23. o presidente do colóquio filosófico intermundano . E como ademais o desejo de prazer não mov e somente os homens. a capacidade para a “ação de presença”. Se Epicuro t ivesse se limitado a dizer isto. a imagem do ideal espiritual que norteia os esforços d o asceta epicurista. os deuses não somente são a causa das ações do filósofo. 23 Epicuro é taxativo: o mundo se compõe de átomos e a causa do movimento é o desejo. O máximo que se pode conceder à tes e da inocuidade dos deuses é que. de outro. como modelos e causas formais do bem. Por enqua nto. meta e mo tor geral da vida humana. na hipótese contrária. se são tão f ormidavelmente bons assim. tudo girando numa espiral ascendente desde os prazeres imediatos e grosseiros até o supremo ideal do ócio contemplativo. vendo o debate acalorar-se acima do compatível com o decoro que deve imperar nes sas regiões excelsas. se tornou consciente e assumido: o ócio contemplativo. pois. E não somente são bons em si mesmos. são bons para o universo inteiro. então por que diabos não interferem logo de vez para acab ar com o mal no mundo? Neste ponto. sem necessidade de uma ação externa. mas são bons para nós. mas para todos os seres e coisas. nos mostram pelo exemplo da sua perfeição o caminho do bem. que eles nem c onstituem o substrato material de que é feito o mundo. então temos de admi tir que os deuses epicúreos. É claro que isto eles não podem ser. é atribuída mesmo a santos e gurus. neste caso. e a imobilidade a gente é. então só resta concluir que os de uses epicúreos. por definição. personificado nos deuses. são enfim a causa formal e final de tudo quanto acontece no universo. sendo causa formal e final. seus deuses não difeririam muito do Deus bíblic o. são causa formal do bem e causa final da vida ascética. a busca do prazer filosófico é só um tipo especial de busca do prazer. Pois estes — diz Epicuro —. se denomina aliás tecnicamente. Agostinho. Neste ponto. no sentido aristotélico. Veremos isto mais adiante. m as das de todos os seres humanos. na medida em que este bem não é só para os filósofos. um dos atributos essenciais da divindade em todas as religiões. nem são o gatilho que dispara o movimento da criação.

§ 5. Um piedoso subterfúgio .

É até possível que seja assim. levaria o discípulo a uma “visão inte rior” que. À cosmologia propriamente dita só teriam acesso os iniciados. valesse como um artifício para apazig uar a alma humana. em nome de quaisquer benefícios futuros a serem alcançados pela práti ca do método. e se a prátic a do epicurismo é possível. a cosmologia de Epicuro não pr etenderia oferecer uma descrição literal do mundo como realmente é. Sob a aparência de uma falsa cosmologia. para inscrevê-lo no das crenças r eligiosas. Muit a gente. para o argumento de que essa teoria. Só que: 1º A aceitação dessa h pótese excluiria o epicurismo do campo da filosofia. quem se agarre ao epicurismo como a uma última tábua está naturalmente livre para crer que assim seja. Neste caso. 2º Não podemos admiti-lo nem mesmo como crença religi osa. e vice-versa 24: se o mundo é como Epicuro o descreve. para uso dos novatos — um véu de fantasia na entrada do templo da verdade. no fim de tudo. Estando as coisas nesse pé. sem o qual Rajneesh. e não impõe jamais. nele não se pode ser epicurista com sucesso. o que vimos no epicurismo foi justamente que nele não há conexão entre teoria e prática. uma vez trilhado. nada conseguindo entender da doutrina do mestre. para captar. Ora. A prova d e uma doutrina. Moon já não teriam um d iscípulo sequer. ou pseudo-religiosas. em última instância. o Guru Maharaji e o Rev. à desculpa esfarrapada de que a cosmologi a epicúrea não deve ser tomada ao pé da letra. a aceitação preliminar de uma doutrina intrinsecamente absurda. isto é. e. lhe revelaria o indizível segredo do universo como realme nte é. Mais ainda: a doutrina expressa que conhecemos c omo cosmologia de Epicuro não seria a verdadeira cosmologia de Epicuro. sem discuti-la. então o mundo não é como Epicuro o descreve. mas os resulta dos práticos do método não servem nunca para validar retroativamente uma doutrina. filosófica ou científica ou religiosa. ou melhor. a dieta de Beverly Hills atestaria a veracidade do marxismo e os sucessos do sistema de franchising seriam um argumento em favor da física quântica. ou por esse pretexto. somente um perfeito charlatão iria apela r. e os milagres de Cri sto seriam provas do vegetarianismo. mas apenas o seu pórtico fictício. qualquer bom resultado obtido na prática de um método poder ia ser alegado como prova de qualquer doutrina. deve ter reso lvido perseverar na prática dos seus ensinamentos movida por essa esperança. e sim para ser ac eita e “revivida interiormente”. mas interpretada simbolicamente. por intuição direta. só pode ser compreendida por quem primeiro. pois isto seria um convite a que cada qual se entregasse com tanto mais fervor à prática quanto menos estivesse em condições de 24 . Epicuro nos teria dado uma verdadeir a pedagogia. Segundo essa hipótese. como na repetição ritual de um mito. que ao ati ngirem os graus mais elevados da ascese epicúrea poderiam então jogar fora o véu de símb olos.40 OLAVO DE CARVALHO A cosmologia de Epicuro desmente portanto a sua ética. é sempre de ordem intelectual e lógica. Se não fosse assim. indiferentemente: a santidade do Buda demonstraria a validade da doutrina da livre empresa. demasiado profunda para que a alcance a mera inteligência lógica. de fato. a verdade viva incomunicável em palavras. que conf unde a inteligência e a torna inapta para seguir qualquer método que seja. a não ser que a conexão desse método com a doutrina já esteja provada de antemão na doutrina mesma. embora falsa em si mesma. de modo que mesmo resultados práticos fabulosos não serviriam em nada como pr ovas da teoria. porque toda religião que se preze distingue claramente entre doutrina e método. e o valor de um método se mostra por seus resultados práticos. amém. mas aceita em confiança. a refe rida cosmologia não deveria ser julgada criticamente. Se a coisa fosse extrapolada para domínios ex tra-religiosos. como preço do ingresso na via da salvação. Esta constatação fec a o caminho a um piedoso subterfúgio com que o discípulo beato poderia ainda tentar salvar alguma coisa do epicurismo. uma psicagogia: um guiamento da alma. pratique o método. A letra da doutrina epicúrea então não estaria aí para ser compreendida ou discutida filosoficamente. nestes tempos de naufrágio. libertando-a do temor dos deuses e predispondo-a a ingressar no caminho epicurista. o qual. descul pa que nasce do desejo de enxergar profundidades insondáveis onde há apenas a banali dade de um pensamento confuso. mas apenas uma ima gem sugestiva que.

lançou contra a filo sofia de Demócrito.Objeção exatamente igual à que Pessanha. . como veremos mais adiante. sem notar que ela se aplica também a Epicuro.

no mundo da pseudo-espiritualidade ou antiespiritualidade contemporânea. diz Epicuro. Nossas cidades estão cheias de pessoas assim. para um materialista roxo como Epicuro ou Pessa nha ela deve assumir uma feição sinistra e diabólica uma vez constatado que. Mas não pensem que termina aí o rol de problemas filosóficos que mantêm atarefadíssimos os ociosos deuses de Epicuro. e isto inexoravelmente formaria uma hierar quia de durabilidade crescente que partiria de um deus provisório e culminaria num a lagartixa eterna. Um deus pode. para um públ ico intelectualmente incapaz. É a elas que se dirige o apelo de Epicuro e de José Américo Motta Pessanha. Nada mais lisonjeiro. segue-s e que as coisas que os deuses recordam e imaginam existem materialmente nesse me smo instante. Não estando presos aos limites de uma exi . ou perenidade. § 6. Há um pior ainda. desperta apenas um sentimento de incongruência. que se apresentasse como simples preparação imaginativa para uma ascese. se refazem integralmente tais e quais. os lugares mais altos e duráveis são ocupados pelos s eres mais rarefeitos. no homem ca paz de julgar. mais baixo ele está na escala ontológica e ma is próximo da irrealidade pura e simples. quem interprete assim as expressões da Bíblia acerca dos “pobres de espírito”. sinal seguro de que algo ali está errado. mas. então vale somente como miragem para atrair os discípulos a essa prática. t eria de atender a um requisito óbvio: teria de ser sensata ou verossímil — pelo menos esteticamente verossímil — o bastante para poder acalmar provisoriamente a demanda d e explicações de um homem adulto. — A eviternidade. para dizer o português claro. pelo menos alguns são também pensantes. é porque pensam. Se os deuses falam. reprime a exigência interior de explicações e se atira junto com eles no abismo. uma vez mortos . nessa hie rarquia dos seres recordantes. estes miseráveis morta is ficariam. Vale o mesmo qu e um anúncio do Silva Mind Control. Os deuses. Uma possível saída para o dilema seria o conceito de eviternidade. dotados de uma durabilidade maior que a dos A coisa tor na-se ainda mais catastrófica pelo fato de que. pensar num homem que está pensando num gato que está pensando numa lagartixa. e como tudo o que aparece na memória e na imaginação tem. Sua eficácia depende de que o discípulo tenha abdi cado de toda demanda da veracidade e esteja somente em busca de um alívio factício p ara angústias banais. S e pensam. e os lugares mais baixos pelos seres mais densos. segundo Epicuro. da “inocência” dos “pequeninos”. têm memória e imaginação. a equação epicúrea de que rarefação = durabilidade obriga-nos a admiti r que elas são mais duráveis do que os deuses mesmos. nada mais re sta dizer. 3º Mesmo uma cosmologia simbólica. do que sugerirlhe que sua estupidez é uma forma supe rior de aptidão espiritual. é autênt ico idealismo. movido pelo temor reverencial que lhe inspira a pessoa do mestre ou pe la chantagem emocional da massa de seus condiscípulos. A imaginação dos deuses. a perfeita imbecilidade se tornaria a mais alt a prova de qualificação de um discípulo para a via espiritual25. mas que. entre os seres e coisas deuses. e a cosmologia de Epicuro é apenas uma história mal co ntada. que não atinam com as temíveis conseqüências psicológicas a que podem chegar por esse caminho fácil. 4º Se a co smologia de Epicuro não vale nem mesmo como prefácio simbólico a uma prática ascética. Ou seja: que quanto mais matéria existe num ser. que talvez sirva para adormecer crianças ou velhinhas. E se por acaso ocorresse a um deus a idéia desastrosa de pensar num gato ou numa lagartixa. 25 Não falta.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 41 compreender a teoria. São mortais. e dotados portanto de memória e imaginação. uma vertigem abissa l. não são eternos. então. existência material (só que mais rarefeita que a do corpo). evidentemente. exceto o número do telefone do hospital psiquiátrico mais próximo. ipso facto. fazendo a apologia do mongolismo. Se. o candidato a discípulo. re cordados pelos deuses. Neste caso. mais rarefeitas do que os corpos dos deus es que as imaginam. E isto. caso a lagartixa por sua vez não pensasse em mosquitos. Se a i déia em si já é bastante desconfortável. porém. por exemplo. diante deste sinal. Sendo essas coisas.

ou sucedidos após sua morte. como coisa v ivida. Assim poderiam até . Bas taria que apelassem às memórias de uma vida anterior ou futura. talvez até pudessem realizar o prodígio de recordar. fatos acontecidos antes de seu nascimento.stência determinada.

do tempo e da morte. os átomos se m ovem randomicamente em todas as direções. que ind ependentemente dela. permanecem fun damentalmente idênticos a si mesmos. para poderem retornar à memória dos deuses a cada nova existência destes . que ele denomina clinamen (“inclinação”. além de recairmos no pecado mortal de idealismo. Mas isso seria multiplicar o problema. Resta ainda um pormenor intrigante. Madrid. 110 ss. tal como as defesas de um neurótico contra a ter apia o tornam ainda inerme ante a neurose. Epicuro crítico de Demócrito . e contra ela. Sendo assim. Gurdjieff tinha um prazer diabólico em humilhar os intelectuais ocidentais. pois os sere s recordados. senão uma enganosa periferia do Espírito. 2 8 V. Epicuro conclui que a impulsão inicial da queda não é tudo. não pod endo portanto juntar-se para formar os seres e coisas que. em sânscrito ). “Quando u m homem já não crê em Deus — dizia Chesterton . para o homem espiritual. ou de qualque r outra. em vez de resolvê-lo. até esmagar o cérebro do infeliz. Comentarei este caso com mais detalhe no meu livreto O Antro pólogo Antropófago.” Gurdjieff provou isto em toda a linha. só para desmascarar-se em seguida e desmascarar. jamais chegariam a tocar uns nos outros como o pretende Demócrito. “tendência”) e define como impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor. Gurdjieff não era evidentemente um charlatão. como que a desmascarar a fraude anterior. a mais funda incapacidade de perceber a fraude espirit ual. acreditando que precauções contra es te bastam para resguardá-lo daquela. Carlos García Gual. numa linguagem aluc inante onde é impossível distinguir o que é dito em sentido direto do que é dito em sent ido oblíquo. 27 O que pressupõe que os átomos tenham pes o uma premissa epicúrea da qual Demócrito não compartilha pelo menos explicitamente. de uma vida para outra. mas alguém dotado de poderes reais. e não representam. constituídas por sua vez de seres ainda mais duráveis. no vazio infinito em todas as direções. os átomos devem ter também um princípio de moviment o livre e indeterminado. Um exemplo contundente encontra-se no livro de Muniz Sodré. Ele sabia do ponto vulnerável que há na alma de todo materialista d urão. existe continuidade de essência en tre as várias existências. Os siddhis são a pirita espiritual. com igual cara-de-pau. subtraindo-se ao menos em parte à lei de que da. entrando em contato fortuito uns Queda” e a expõe no início do livro Relatos de Belzebu a seu Neto.42 OLAVO DE CARVALHO mesmo tornar-se mais duráveis do que as lagartixas. e batia nesse ponto sem dó. mos cairiam todos em linha reta e paralelamente27. a cois a toda se complicaria formidavelmente. Pelo clinamen. § 7. precisariam ser eviternos eles mesmos. tomando-o como mestre espiritual. Se os deuses se refazem após cada existência. O moderno intelectua l ocidental tem. Alianza Editorial. de vez que estas não têm uma memória tão rica. Os siddhis pode m ser adquiridos por treinamento. de fato. Rocco. Com isto. e como cada um desses seres também teria suas recordações pessoais. e. pp. seria nada menos que eterna. é que. logo em seguida argumenta. 1990 ). e uma essência que permanecesse inalteravelmente a mesma po r cima da mudança. a vacuidade ment al do seu público. ficaria totalmente revogada a mais i mportante diferença entre os deuses de Epicuro e os da religião grega. não obstante. existem28 . A Miséria da Ciência Social. se prosternasse ante esses fenômenos como ante sinais do Espírito. e bastava um ocidental ter verificado isto para s ubmeter-se a ele com reverência e temor. típico cientista social brasileiro de formação marxista. no ato. Epicuro. levando-os a acreditar nos absurdos mais p atentes. não é que ele não acredite em mais nada: ele redita em tudo. que ele confunde com o mero charlatanismo. 1985. Deste apelo à razão. e. mostrou que as defesas pre tensamente racionais do intelectual moderno contra a ilusão religiosa o tornam ind efeso contra a fraude espiritual. sem perceber que ali havia apenas uma demonstração de siddhis ( “poderes”. Comprovar a autenticidade dos fenômenos produzidos pelo taumaturgo mineiro Thomas Green Morton foi o bastante para que Sodré. uma zona nebulosa onde meras forças sutis da nat ureza podem ser tomadas pelos tolos como mistérios transcendentais. pela viabilidade do moto contínuo. Jogos Extremos do Espírito ( Rio. mas aí o leitor de alma ob líqua já está zonzo demais para perceber a piada.

se fosse de fato assim. os átomos. dentro del e. não sendo material. os áto26 O temível gozador metafísico Georges Gurdjieff reeditaria no século XX essa teoria. Um exemplo é a sua crítica de Demócrito. onde o principal que aco ntece é tudo vir abaixo 26. Mas o filóso fo do jardim não ignorava a necessidade dela. e por isto os átomos. Ele denomina-a “Lei de . O universo de Demócrito é um vasto escorregador. o vazio. caem e acabam por se chocar uns com os outros. nem a desprezava. Epicuro responde que. ele geralmente chegava a conclusões tão ou mais estapafúrdias do que aquelas que r efutava. polemizando na base do faça-o-que-eudigo-mas-não-faça-o-que-eufaço. Demócrito proclamava que no mundo só existe o vazio e. não oferece resistência. tanto que a cobrav a dos adversários.O leitor já deve ter percebido que a coerência lógica não é o forte de Epicuro. Só que. co m um ar de seriedade à Buster Keaton que bastou para impressionar uma multidão de in telectuais. impelidos por um inexplicável empurrão inicial. endossada por Karl Marx e por José Améri co Motta Pessanha.

Madrid. levado pela coincidência vocabular. 1971 ). um espaço finito referido a um centro ou pelo menos a limitação a um campo determinado. porém mais inexplicável ainda é que os átomos devam ter o direito a estar livres da lei de queda. New York. mas simplesmente porque não haveria nada que determina sse a direção do movimento. leiam Werner Heisenberg. expressões como “cai” e “sobe” não fazem o menor sentido29. sem podermos dar um pio contra o seu maldito clinamen e só nos restando. acabam por se aglomerar em massas compostas. ou dialeticamente. na física de Epicuro. uma vez admitido. de fato. formas da determinação. trad. os átomos se move riam indeterminadamente em todas as direções. Tudo isso é. pois a indeterminação ex clui. uma escala. e muito menos um princípio tão extravagante como o clinamen. Mas Epicuro já conhecia a obra de Aristóteles. Diálogos sobre la Física Atómica. uma concepção muito sin gular acerca da liberdade. Mas é também falso o que alega Epicuro: que. Encounters and Conversations. 29 30 V. a festança dos átomos no liberou geral da cos mologia epicúrea pode parecer mais progressista ou democrática do que a submissão impl acável à lei de queda. formando os seres e os mundos. ao passo que. sobra lugar para o imprevisto e o liv re-arbítrio. Mas é só uma aparência. todos os movimentos teriam de ser paralelos e uniformes. para isso. e não a um “vazio” que tornaria o indeterminismo perfeitamente redundante. para a mentalidade de hoje. no vazi o. não porque quisessem fazê-lo movidos por t ais ou quais intenções epicúreas. ficamos inap elavelmente submetidos à arbitrariedade dos átomos. toda regularidade obrigatória. Que ninguém c onfunda. § 20. Wolfgang Strobl y Luís Pelayo. as considerações de Nicolau de Cusa quanto a este ponto. contemporâneo de Platão. adiante. Este se opõe — logicamente. Pergu ntamonos se essa gente conseguia distinguir um ovo de um tomate. e por isto é mais fácil perdoar a ingenuidade da cosmologia de Demócrito do que a inc onsistência da sua refutação. Harper & Row. em face dele. ou complementarmente . Algumas décadas atrás. que pode ser interpretada num sentido como no sentido inverso. enquanto nós. BAC. Acontece que Demócrito. Tudo isso é de uma ingenuidade atroz. americana. torna o clinamen perfeitament e desnecessário 30. o indeterminismo epicúreo com o de Plan ck e Heisenberg. uma visão determinística da queda inevitável do capitalismo não parecia aos comunistas ser mais progressista do que a crença libera l na imprevisibilidade da História? Os teóricos do liberal-capitalismo não atacaram no . O devotado interesse de um filósofo pelos direitos políticos dos átomos p ode parecer um tanto bizarro. Volto a este assunto mais adiante. no vazio indeterminado. que não fora ainda codificada por Aristóteles e se ex ercia de maneira empírica e amadorística. Aliás sobra até demais. acoplam-se e desligam-se à vontade na mais obscena gandaia cósmica. a alternativa de relax and enjoy que nos é oferecida pelo epicurismo. Physics and Beyond. e vão gerando e destruindo mundos e mais mundos sem dar a mínima satisfação a seres. Em caso de dúvid a. No indeterminado. ou completar um silogismo da primeira figura. Pois essas são. coisa s ou deuses. O vazio. usando e abusando do seu direito ao clinamen. não deixando para os pobres átomos outra saída senão a obediência servil a uma necessidade tirânica. Pressupõem balizas. 1975 ( ed. aliás um dos mais belos livros do século. seres viventes. porque aí os átomos. precisamente. A associação que Pessanha fez entre cosmologia e política é p ura figura de estilo. que é o determinismo mecanicista. mas Pessan ha condenou a primeira e endossou a segunda sob a alegação de que aquela favorece um a ética “conservadora” e esta uma ética “progressista” — argumento que é propriamente aquilo ue se dá a denominação científica de o fim da picada. não podi a ser mesmo muito bom em lógica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 43 com os outros. por definição. Pessanha enxergou conservadorismo na física de Demócrito pela razão de que a lei de queda impõe um determinismo integral. sem a necessidade de introduzir. Demócrito não se deu conta de uma coisa que hoje até um garoto de escola perceberia num relance: que. todos os movimen tos seriam indeterminados. Metaforicamente. como queiram — a um princípio real e concreto. um novo p rincípio. A física de Demócrito e sua refutação por Epicuro são ambas igualmente falazes.

marxismo justamente o seu calcanhar de Aquiles determinista? O uso de imagens t iradas da ciência física em apoio desta ou daquela ideologia política só tem valor retóric o. no sentido mais baixo da expressão. . Aceitar a física de Epicuro por ser progressi sta é o mesmo que rejeitar a de Einstein por ser judaica.

Por uma coincidência irônica. levados pelas sensações. em cujo título os organizadores do ciclo de Ética se inspiraram para nomea r uma das divisões do evento: “O cidadão contra os poderes”. Bismarck dizia que a ciência do governo consiste em pauladas e guloseimas. a Platão. etc. que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo. ou Tetrafármacon. que Pessanha apontou como a solução para todos os ma les da humanidade. Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liber ta do determinismo? Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dorprazer é o comut ador que aciona os reflexos condicionados. Mas o que recebe costumeirame nte o nome de “ética de Epicuro” é a parte prática. que não mente. aos estóicos. sem que ele tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar persuadido de que exerce livremente o seu clinamen. Não há saída: se o s átomos seguem o clinamen. com iguais resultados: no reino da retórica política. Eis aí no que dá citar sem ler. a vida filosófica como um caminho para a felicidade etc. então. ÉTICA DE EPICURO § 8. não são livres: obedecem ao determinismo do instinto. esse argumento está no livro Le Citoyen contre les Pouvoirs. A teoria consiste apenas na afirmação de alguns valores gerais que coincidem em gênero. O culto destes valore s é comum a Aristóteles. a lei de queda ou o clinamen. outra especial ou prática. argumentava ele. caem no engodo das apa rências. com o seu “princípio de rea lidade” que transcende o princípio do prazer. Freud. podemos levá-lo para onde o quisermos. Aqui é o determinismo que se torna “progressista”. o “quádruplo remédio” q lósofo propõe a todos os . O filós ofo Alain. e especialmente da humanidade brasileira. justamente po rque buscam o prazer e fogem da dor. teórico do Partido Radical francês. aos socráticos menores. fazendo um asno persegui r a prazerosa cenoura e esquivar-se do doloroso porrete. só podendo ser válidas se admitirmos a hipótese de uma verdade dupla. todos os argumentos são de borracha. Contra Epicuro cabe portanto a mesma objeção que Pe ssanha fez a Demócrito: que sua física e sua ética não tem conexão entre si. reação e progressismo. abstrai-se das impres sões de prazer e dor e decide segundo a lógica implacável da ordem física. tornou célebre a condenação do clinamen em nome da liberdade. ditadura e democracia podem indiferentemen te chamar em seu apoio Demócrito ou Epicuro.44 OLAVO DE CARVALHO Mas ainda há um outro senão. CAPÍTULO III. e o clinamen um instrumento da tira nia. entre a vontad e livre e a obediência ao instinto. A ética de Epicuro divide-se em duas partes: uma geral ou teórica. que é rígido e repetitivo como a lei de queda. reagindo contra o ardil. Aristóteles o confirma. mediante a distinção. Mas não é preciso tanta ciência para nos inf ormar aquilo que um carroceiro sabe perfeitamente: que. não é nem um pouco meno s encrencada do que a sua cosmologia. e não tem nenhum vín ulo de implicação recíproca com a cosmologia — ou física — de Epicuro: pode ser aceito dentr o ou fora dela indiferentemente. número e grau com aqueles que eram subscritos por todos os filósofos da época: a superioridade da contemplação sobre a ação. O cidadão consciente. Politicamente. ardilosamente encenadas pelo tirano (lembram-se do futebol no tempo do ge neral Médici?). a coisa é das mais óbvias . O remédio de todos os males A parte ética da doutrina epicúrea. Os homens são dóceis e manipuláveis. por meio dos quais um animal ou um ho mem pode ser governado desde fora. Feitas as contas. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a lib erdade quem se coloca para além da dor e do prazer. E também pelo Dr.

mas o exercício desta liberdade choca-se contra o fatalismo da dor. intermundo. a Psicociber nética de Maxwell Maltz. Mas consolam só quando não lhes prestamos muita atenção. no fun do. onde galáxias e amebas. alcança sua finalidade na completa e definitiva aniquilação do h omem. Não vale mais. a Programação Neurolingüística de Bandle r e Grinder32. Ora. que. supramundo ou submundo. e. É um caos. o Silva Mind Control. seguida de total e eterno esquecimento. não se d a divindade. O Te trafármacon consiste. fugindo da dor. Mas há duas outras questões ainda mais perturbadoras: 1. O clinamen é apresentado como um movimento livre. A pergunta é: como pôde essa filosofia ne crófila. abdicando da busca insensata de prazeres que causam mais dores. uma técnica deve ser julgada exclusivamente pelos seus resultados prát icos. então teremos de continu ar a existir depois da morte. 32 Veremos logo adiante o parentesco entre o Tetrafármacon e a Programação Neuroli nguística. ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. norte-americanas na maioria. e no qual Pessanha sugeriu que o povo brasileiro fosse buscar ins piração para sair da miséria moral31. numa ginástica interior. numa disciplina. sem escapatória. O cosmos de Epicu ro não é um cosmos. que indesculpavelmente me omiti de explicar na primeira edição d este livro. nem menos. uma técnica para a conquista da felicidade. portanto. como por exemplo a 31 O nome Tetrafármacon. não alcancem um resul tado melhor. ou m elhor. parentesco que Pessanha — sem dar nome aos bois — mencionou de passagem. E quando. va i aos poucos substituindo as sensações dolorosas da vida presente pelas recordações agra dáveis do passado até fazer com que o passado se torne presente e o presente desapar eça sob a imagem do passado. 4ª. Não é preciso ser muito esperto para perceber qu e a proposição decisiva é a terceira — uma exata inversão do timor domini principium sapie ntiæ. já que amigos. num universo absolutamente trágico onde átomos e homens v agam a esmo de erro em erro e de sofrimento em sofrimento. Fe cha-se assim o círculo da fatalidade. provém de que o objetivo máximo dessa técnica é inculcar no praticante quatr o convicções básicas: 1ª. É com plena inconsistência lógica. Mas o Tetrafármacon não é de maneira alguma uma ética. sem contar a lista interminável de exercícios orientais e pseudo-orie ntais que o movimento da New Age espalhou da Califórnia para o mundo. finalmente. essa macabra celebração do nada. esta meditação leva-o à conclusão in tável de que o único alívio possível é a morte. 2ª. antecipadamente. do q ue as muitas técnicas. os falecidos devem estar todos materialme nte instalados em algum materialíssimo mundo. ne m a morte (pois quem deixa de existir já não pode sofrer) etc. não se deve temer a morte. o clinamen é. não há possibilidade de realizar planos. que Epicuro afirma a completa extinção do ser humano após a morte física. é fácil suportar o mal. destacam-se as da convers ação filosófica com os amigos na paz do jardim: o conteúdo da conversação exerce efeito calm ante. pois um exame mais cuidadoso faz brotar delas algumas dúvidas inquietantes. num mercado super-saturado de similares como o Pensamento Positivo de D ale Carnegie. condenada ao fracasso. Nesse mundo d estituído de qualquer regularidade previsível. e. sumariamente. essa afirmação contraria os princípios fundamentais da sua co smologia. sim apenas uma psicologia prática. passar por uma mensagem de consolação e atrair p ara o jardim de Epicuro milhares de infelizes em busca de alívio? Que consolo podi . buscando o prazer. o homem encontr a o caminho da meditação filosófica que deve libertá-lo. o pobre Tetr afármacon já pode se considerar derrotado pela profusão de concorrentes modernos. e toda ação está. partindo dos movimentos cegos dos átomos no vazio sem sentido. ensinando o discípulo a não temer os deuses (já que eles estão fora da jogada). na qua l o praticante. 3ª. átomos e homens só encontrem cada vez mais dor.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 45 males humanos. o Treinamento Autógeno de Schulz. a Sofrologia de Caycedo. ante o olhar indiferente dos deuses. uma vez fugido da agitação da polis e bem protegidinho no jardim. seguinte: se tudo o que imaginamos existe em algum lugar. Palavras que consolam . que hoje há na praça com o mesmo o bjetivo. parentes e inimigos se lembrarão de nós. e como tudo o que se imagina é material. mundos e homens formam-se e desap arecem por acaso. é fácil alcançar o bem. daquilo que Epicuro entende como felicidade. Dentre as recordações agradáveis. um tipo de fatalidade. Daí que.

am encontrar no jardim sabendo que ele é a entrada do cemitério e que depois do cemi tério há somente o cemitério maior do esquecimento cósmico? Que atrativo enxergavam ness a promessa digna de Jim Jones? .

em lógica. Elas poderiam ser outras. o seguinte problema: se os objetos que aparecem na imaginação sempre existem tais e quais. ao contrário. Mas os resulta dos da brincadeira são graves. não poderia deixar de perceber sua inconsistência. jogado num tanque. bastará abrir um b uraco no oco. Exposta assim. teremos de admitir que esses efeitos não ficarão m esmo confinados no corpo do indivíduo imaginante. na forma de corpos sutis . a física para hipnotizados. ou um oco no buraco. o discípulo. Fazemos esta disti nção comparando aquilo que pensamos e imaginamos por vontade própria com os dados que nos são impostos pela situação presente. atual e materialmente. quanto mais avance na prática da med itação epicúrea. A hipótese de que Epicuro fosse apenas um incompetente. que um filósof o de ofício. mais ficará persuadido de que aquilo que imaginou existe ou está entrando na existência nesse mesmo momento e é até mesmo “mais real” do que os objetos sensíveis pre sentes. levando-o a acreditar na r ealidade efetiva. fazendo brotar seres e coisas que se materializarão. § 9. A cosmologia de Epicuro é. Tal vez a encontrem na sua prática. me parece inverossímil.46 OLAVO DE CARVALHO 2. acabará por abolir no discípulo a intuição dessa diferença. um sonso. mas se expandirão pelo mundo em to rno. que para o comum dos mortais é uno. ou para trás. mas aconteça de novo de maneira ainda mais realística do que na primeira vez. para que a coisa esquecida não apenas volte à memór ia. a prática da sua ética é que é uma condição prévia para que alguém possa chegar a acreditar na sua física. E quando ele eventualmente se lembrar de que an- tes se lembrava de alguma coisa da qual agora não se lembra mais. corresponde à diferença entre o efetivo e o possível. e assim por diante. uma segun da intenção? Haveria nessa loucura um método? Não se esconderia por trás do besteirol epicúr eo um segredo temível? Essas perguntas não têm resposta nas teorias do epicurismo. por trás de todo o tecido de alegações beatas que lhe serve de embalagem. O que cha mamos senso do real funda-se na distinção do efetivo e do possível. A abolição da consciência A prática do Tetrafármacon cria. são então vivenciados como se fossem objetos de experiência concreta. e pelos buracos o meditante poderá saltar para o p assado ou para o futuro com a maior facilidade e sem precisar de nenhuma máquina d o tempo. Que um suje ito treinado nessa regra possa chegar a admitir como santas verdades os mais pat entes absurdos da física epicúrea. do que quer que consiga imaginar com suficiente nitidez : os futuros contingentes. ba stando que eu quisesse mudar o foco da . num espelhismo sem fim de tempos den tro de tempos e de hiatos dentro de hiatos. Para sermos coerentes com a física de Epicuro. um incon sciente. Acontece que a distinção que o cérebro humano faz entre a s sensações presentes e as imaginadas é aquela que. que não escapa ao exame atento de um adulto letrado de inteligência m ediana. como queiram. desde logo. Neste momento. Teria ele. Assim. se praticada com persistênc ia. é algo que finalmente encontra aqui sua explicação: não é ética de Epicuro que deriva logicamente da sua física. É um wishful thinking potencializado. como se viu. para ver que tipo de conduta moral pode resultar dela. atual. O mesmo aplica-se às recordações: se produzidas com intensidade suficiente. conhecedor aliás da lógica de Aristóteles. denso e contínuo. A ginástica cronológica de Epicuro. Vale a pena examinar o lado psicológico dessa inversão. elevado a sistema e regra de vida. O mundo da vi da. por trás de tanta absurdidade. e estas ingressarão na vida presente como um objet o que. em algum lugar do cosmos. tr arão de volta as coisas passadas. se tornará para o meditante epicúreo uma superfície esburacada. então o esf orço de enxergá-los cada vez mais nítidos com os olhos da fantasia até que se superponha m às impressões do presente deve necessariamente produzir efeitos físicos. digito no teclado do computador as palavras que me brotam de dentro. por exemplo. meras possibilidades lógicas só concebíveis a título de const ruções abstratas. um tal amálgama de contradições. essa cosmologia de qu eijo suíço parece O Exterminador do Futuro ou Alice no País do Espelho. abre espaço empurrando a água para os lados. Isto mostrará em que consiste realmente a ética de Epicur o. mas.

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Não posso girá-los daqui para Porto Alegre. para Machu-Pichu ou para Winnesburg. a criança atribui a respons abilidade de seus feitos a um irmãozinho. portanto. Ora. mais fortemente ainda está presa a um determinado momento do tempo. O espaço ainda pode ser parcial mente vencido pelo deslocamento do corpo. T omamos consciência da realidade objetiva. mas 33 . por sinais exteriores. verá outras coisas e já não estas. EUA. desde dentro. vindo de f ora. Não posso fazer co m que meus olhos vejam outra coisa senão o que está na frente deles. Por mais certo e fatal que se anuncie o futuro. no outro soberana. O testemunho sincero de si p ara si é a primeira e indispensável condição do conhecimento objetivo. vividas como um dom gratuito da realida de aos nossos sentidos. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral. e se assumo a autoria desses atos inter iores como assumo a de minhas ações materiais e externas. e não sem algu m esforço. C om inocente desenvoltura. que é súdita num caso. criadores de seus atos como de suas int enções. já não o pode agora: está fixado para sempre. Só eu conheço por testemunho direto meus pe nsamentos e intenções. que a distinção entre o fato percebido e a possibilidade imaginada se faz por referência à vontade. a um colega ou a seres imaginários. na memória e na responsabilidade. a criança aceita esta limitação por cont a da autoridade do pai. ninguém pode me impedir de fazê-lo : nem mesmo quem. perceba a falsidade da intenção que alego p oderá provar por testemunho direto aquela que oculto. Mas o desejo de a ssumir a autoria de seus atos interiores — ou mesmo exteriores — não é inato no homem. posso assegu rar. como objetivamente existente. um mundo que me resiste. virá sempre a companhado do temor ou do desejo — da possibilidade. re-produzido na imaginação. O que ontem me sensibilizou a retina. em contrapartida. diferenciando-a das nossas projeções s ubjet ivas. Compreen do. ativos. como gi ro num instante a tela do pensamento e troco de palavras. É apreendendo os limites do meu poder — daquilo que Kurt Levin chamava espaço vital 33— que chego a distinguir o real do irreal. exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência d e nós mesmos como sujeitos livres. que. e não to ma consciência de que mente senão pelo olhar severo do pai que a faz descer do céu da imaginação para cravá-la no chão terrestre onde as causas se atam inapelavelmente às conse qüências. Mas só posso fazer esta comparação se me lembro claramente de haver pensado ou imaginado tais ou quais coisas por vontade própria. se podia ser de outr o modo um instante atrás. o efetivo do meramente possível. um anúncio não t erá nunca a presença maciça do fato consumado. Se decido mentir sobre o que se passa dentro de mim. Mas. que se impõem à minha visão com o dados de um mundo que não fiz e que vem pronto ao meu encontro. As cenas deleitosas de outrora. já não pode desacontecer. dizia Dilthe y. ao passo que minha imaginação não conhece outros limites senão os seus próprios. Esta diferença é que me dá a medida do real: admito como efetivo. Inicialmente. Mas o tempo é invencível. como conjetura esp erançosa ou temerosa. que os circunstantes não podem senão conjeturar por analogia. mas somente concebido e projetado desde dentro. noutro lugar. Se escrevo estas palavras e não outras. Do mesmo modo. O presente. aquilo que se passará amanhã não pode ser agora percebi do como fato. O senso da diferença entr e o imaginado e o percebido repousa. Ohio. que no adulto seria cinismo. agora só podem ser re-vividas como obra nossa. na língua que o povo gaiato atribuiu ao ex-presidente Jânio Quadros: fi-lo porq ue qui-lo. portanto. enquanto estiver sentado aqu i. em suma — de que as coisas venh am a se passar de outro modo. hoje só pode ser produzido desde dentro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 47 minha atenção para outro assunto. e as culpas aos castigos. por um ato de vontade que resolva sair em busca do tempo perdido com o empenho reconstrutiv o de um Proust. nossos atos inter iores não têm outra testemunha senão nós mesmos. tendo acontecido . Se minha percepção está limitada ao lugar do espaço onde me encontro. Existir é resistir. tantas vezes quantas abra os olhos. verei diante de mim o mesmo teclado e a mesma tela. Meu olhar está limitado pelo que o mundo me oferece. É só assim que posso captar a diferença ente o que brota de mim e o que me vem do mundo. que não se dobra imediatame nte ao meu arbítrio com a plasticidade do imaginário. e conforme seja bom ou mau.

29 ss.V. Álvaro Cabral. Princípios de Psicologia Topológica. 1973. São Paulo. trad. Cult rix. Kurt Levin. — Não é uma ironia que esse termo técnico inventado por um eminent e psicólogo judeu tenha se tornado um slogan nazista? . pp.

mas da objetividade no conhecim ento. a imitação e a introjeção são apenas ocasião e instrumento da manifestação de uma capacidade preexistente. entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana. Os filósofos gostariam que todos os homens fossem dóceis à verdade. por sua vez. 35 . É claro que em grande número de casos esse arranjo oportunista acaba produzindo uma neurose. “Ser objetivo. for mam um nexo indissolúvel com a responsabilidade: as três condições que perfazem a autoco nsciência moral35. dizia Frithjof Schuon. Sinceridade e objetividade. é uma ment ira esquecida na qual você ainda acredita. mas mesmo a verdade conhecida não pode ser obedecida de um a vez para sempre. “A autoconsciência é a terra natal da verdade”. ajudando a manter o orga nismo psicofísico naquele estado de ausência de tensões que os médicos denominam homeost ase. é m orrer um pouco. jamais obriga o homem todo : continentes inteiros da alma. A melhor definição de neurose que conheço é do meu falecido amigo e mestre Juan Alfredo César Müller. mas é uma fortíssima predisposição. nem conhecimento objetivo. sem algum sofrimento psíquico voluntário. por exemplo. Na neurose. como a imaginação ou determinados sentimentos. Mentir alivia porque economiza à psique o esforço de supo rtar um desequilíbrio temporário. entre a autoria e a culpa. podem continuar vagando à margem de toda obrigação de veracidade. Neurose. em que o homem assume — ou não assume — um compromisso interior com a verdade e a coerência. N ada pode obrigá-lo a este compromisso. O compromisso com a verdade. Scheler.48 OLAVO DE CARVALHO depois aprende a estabelecer por si a conexão entre o antes e o depois. um gênio da psicologia clínica. dizia Platão. ao menos no instante decisivo em que uma verdade intolerável se abre d iante dele como um abismo. e é assim que se desenvolve nela a autocons ciência. A opção pela verdade deve ser refeita d iariamente. apagar as pistas do embuste. ainda que assumido de coração. A verdade é aceita assim como um valor moral antes mesmo de se firmar como u m critério cognitivo34. n eurose é esquecer o esquecimento. e atendendo apenas aos ap etites imediatos. jamais causas produtoras de uma criação ex nihilo. de Platão e Aristóteles até Kant. “Verdade conhecida é verdad e obedecida”. assim como sincer idade é introjeção dos limites objetivos. Éric Weil. a menti ra transforma-se num sistema. dizia ele. A pos sibilidade do conhecimento objetivo depende portanto de uma opção preliminar. só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la. sem o sacrifício ao menos temporário da harmonia interior em vista de valores que transcendem os in teresses imediatos do organismo psicofísico. No desenvolvimento da autoconsciência. que nos garanta c ontra as futuras tentações do erro e da mentira. Pretender que a autoconsciência se ja mera introjeção de papéis sociais é retornar à velha lenda lockiana da tábua rasa. ocultando a me ntira inicial sob montanhas de entulhos só para depois alguém ter de pagar a um psic analista para removê-los. que será a base não somente da conduta moral. mas é uma aspiração utópica e autocontraditória: se a percepção da verdade nasce da liberdad .” Objetividade é sinceridade projetada no exterior. Ortega y Gasset. A facilidade com que os seres humanos se li vram dele sempre chocou os filósofos. Se mentir para si é esquecer a verdade. mediante um suicídio preventivo da liberdade. Isso quer dizer. que se manifesta inicialmente sob a forma passiva da imitação e da obediência — assim como a capacidade de caminhar por si próprio se exerce de início sob a forma passiva do ser levado par a cá e para lá pelas mãos dos adultos. Os sonhos. A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da ver dade sobre as coisas. entre a in tenção e o ato. A autoconsciência não nasce pronta. num programa que se automultiplica. Mas ninguém ficaria neurótico se a opção neurótica não lhe parecess vantajosa. que não há consciência moral. em suma. Há sempre muitos meios de fugir da 34 verdade. É evidente que isto não significa em hipótese alguma uma redução da autoconsciência ao efeit o de uma “introjeção de papéis sociais”. são um tecido de eufemismos que pode servir para amortecer ou desviar o impacto das verdades indesejáveis. como pretendem alguns psicólogos e cientistas socia is. dizia Hegel.

foi exposto com mais detalhes no meu curso de Ética ( Casa de Cultura Laura Alvim. que dis pense a autoconsciência. uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e mecânica. a responsabilidade e a sinceridade como adornos subjetivo s. e da moral como fundamento da objetividade cognoscitiva — inclusive nas ciências —. cujas transcrições corrigida s formarão um volume a ser publicado com o título Sobre os Fundamentos da Moral. — O conceito acima resumido da autoconsciência como fundam ento da moral.Temível sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda a ssentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código público . Rio de Janeiro. . agosto-outubro de 1994 ). É a coisificação da verdade.

até a completa inversão. o conceito esvaziado não tem mais função. quando não à execração pública ou a penalidades legais. No homem sem maiores interesses morais. se condensam todo s no triângulo áureo sexo-dinheiro-fama. chegou a ser diagnosticada por Konrad Lorenz como uma forma d . que. somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauper amento interior e sair em busca do sentimento perdido. resolve matar dois transeunt es a tiros. farão br otar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. Completa-se assim a inversão: as paixões mais baixas e v ulgares ergueram-se ao estatuto de mandamentos divinos. na esfera intelectual. muitas das quais já vinham produzindo. outras tantas filosofias morais coincidentes. Sua incapacidade para discernir o bem e o mal exceto como convenções vazias será usada como “prova” de que toda lei moral é um a convenção vazia. Até o fim ele não compreende a revolta e a indignação que seu crime desperta . que não consistirá em outra coisa senão na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo. de um ego in flado que remoldará o mundo à sua imagem e semelhança. moldados pela cultura de massas. não são tão diferentes umas das outras. Após ter solapado as bases de todo critério moral objetivo. O emb otamento completo da intuição moral. é natural que. cuja violação sujeita o home m a padecimentos interiores. sem qualquer motivo. no qual el e não tenha de responder pelos seus atos. quando um homem já não sente a reali dade de alguma coisa. que vão desde as “racionalizações” corriqueiras com que na vida diária nos furtamo s ao apelo de pequenos deveres. ele não as vê senão como convenções mecânicas. M as como os desejos da multidão. O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. A linguagem abstrat a da filosofia moral terá se tornado uma arma a serviço de fins egoístas. Aí ele encontrará o argumento decisivo a fav or do seu sistema: o argumento do número. o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata. e será si mplesmente esquecido. ele não suportará ser o único a sentir como sente. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. Não poden do suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferên cias subjetivas. O entorpecimento da consciência tem graus e etapas. Mas. e continuará assim até que a conjunção da necessidade com a oportunidade o transforme de vez no criminoso que se mpre foi. As aspirações subjetivas dos indivídu os. substituída por uma retórica sofística de um artifici alismo alucinante. Um dia o sujeito n caminha pela prai a e. Nessas horas. e pode até continuar a obedecê-las exteriormente p mero hábito. com os mesmos fins. produzindo tantas ficções quantas forem nece ssárias para conservar o indivíduo num estado de profunda sonolência moral. repugnâncias e desejos. Como a inteligência humana não opera no vazio. não melhores ou piores do que quaisquer outras.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 49 Uma vez afrouxadas porém as demandas da autoconsciência. ele cairá na tentação d e argumentar a favor delas. até mesmo sem sentir raiva. mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. e por isto o filósofo moral improvisado logo terá o grato prazer de descobrir que suas idéias são compartilhadas por milhões de pesso as iguais a ele. o conceito dessa coisa. Embora conheça perfe itamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos. a imaginação torna-se a serva p restativa do interesse orgânico imediato. de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual. ele con tinuará a ter ódios e afeições. Mas um homem não vive muito tempo em estado de abstinência moral. as novas éticas nascidas do embotamento moral não consistirão em outra coisa senão num sistema de racionalizações que transformará esses três desejos em hipóstases de valores morais universais e em fundamentos máximos de to da conduta eticamente válida. ao fazê-lo. e. Invariavelmente. se esse homem for um letrado. Albert Camus dá em l’Étranger o retrato do tipo cuja mediocridade pacata esc onde a mais absoluta i sensibilidade moral. porém. mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível. criará argumentos para demonstrar que aquil o que ele não sente inexiste no mundo objetivo. sobretudo na época de cultura de massas que padroniza os desejos da multidão. e a deformidade da sua psique será erigida em padrão de medida moral para toda a humanidade. criará um novo critério de moralidade. logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. para dar vida nova ao con ceito. Seu sistema pessoal de racionalizações será en obrecido e investido de validade universal como expressão das “aspirações da nossa época”.

que. apagando da memória humana .e degenerescência biológica.

mais respeitável do que uma devoção rel igiosa. O que desejo perguntar é como ele se produz num indivíduo em particular. inf luência subliminar. Excluo. Se esse algo não é nem a hereditariedade nem aquela conjunção fortuita de circunstâncias t raumáticas que podem produzir uma personalidade psicopática. para consulta de raros pesqu isadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática. A comparação faz ressaltar a escala de valores em que por vezes ( não sempre. partidos políticos. 36 37 V. determinados mov imentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátri cos e jamais passariam de clubes de excêntricos. lavagem cerebral. para mo ldar a personalidade de seus membros de acordo com os fins da organização. campanha publicitária. vi na TV o líder gay Luiz Mott apelando a um determinado comediante do SBT para que deixasse de ridicularizar a classe dos homossexuais com suas paródias grotescas. se não existisse esta possibilidade. O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados. para q ue manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos. é claro. para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas. n alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros da experiência moral acumulada ao longo da evolução biológi ca37. informação dirigi da. organizações religiosas e pseudo-religiosas. Programação Neurolingüística. controle do imaginário. onde o desejo de um determinado tipo de prazer físico acaba por se tornar. Essa escala é incomensurável com qualquer tábua de princípios éticos já conhecida ne ste mundo: a adesão a ela torna um sujeito inacessível à argumentação racional. ao menos implicitamente. estimulação por feromônios. realizada segundo uma conexão racional de c ausas e efeitos. propag . engenharia comportamental. Aliás existem mui tas. então só pode ser uma ação huma na premeditada. agindo sobre essas pessoas. a lista nã mais fim. Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que govern os. espero eu ) se inspira a militância gay. Essa técnica existe. em muitos países do mundo. A ação humana premeditada. na escala da h umanidade. A Demolição do Homem. é o que se denomina uma técnica. que. O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais v asto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade. destruiu nela s a i tuição moral elementar. Com alarm ante freqüência. anuncia o começo da demol ição da espécie humana 36. não é meu intuito.50 OLAVO DE CARVALHO registros de valores aprendidos ao longo da evolução animal. afetadas de taras congênitas. e logo em seguida um grupo d e marmanjos afrescalhados do grupo denominado As Noviças Rebeldes. diria Lorenz. empresas e sindic atos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. Esses conhe cimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas. Não há neste mundo um só movimento de massas. os casos de psicopatia congênita. Quando hoje vemos hordas de intel ectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável. faz dele um UFO axiológico. guerra psicológica. Konrad Lorenz. Mas sondar as causas primeiras desse fenômeno. Não é possível que o conjunto do s militantes radicais do mundo se componha de uma maioria de personalidades psic opáticas. ou de um conjunto de técnicas. a amoldagem passa pelo embotamento maior ou menor do senso moral e da consciência intelectual. hipnose instantânea. Lorenz tinha razão. p ara as mais variadas finalidades. para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue que m fale contra. um só Estado nacional. estranho aos sentimentos comuns da espécie humana. que recebem o nome técnico de personalidades psicopáticas ou de sociopatas. O que me intriga é: como um homem de personali dade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idên tico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perve rsidade moral? Pois é óbvio que. Não há disputa política. retira-o d o debate civilizatório. é forçoso admitir que algo. uma só empresa d e grande porte que não disponha de uma técnica. Num mesmo dia. metidos em hábito s de carmelitas e caricaturando da maneira mais aviltante as freiras católicas.

Lippincott. os grandes movimentos de mas38 V. Flo Conway and Jim Siegelman. muito pertinente. submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante.anda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles. 1989. que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação. . New York. de psicose informática38. A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a o nipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. Sem ela. Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personalit y Changes.

Com o atraso proverbial que marca os pronunciamentos da Igreja Católica. presos a uma noção grosseira e oisista do que seja uma técnica. seria concebível que populações submetidas in cessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito te mpo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo d a demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada. todas as idéias e concepções ais francamente errôneas. Ibrasa. como teriam se desenrolado os dois conflitos mundi ais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica41. 40 V. trad. trad. do panorama histórico do século XX as técnic as de manipulação da mente. enfim. 1980. e Olivier Reboul. Mais que o sécu lo das ideologias. Os poucos que se interessar am pelo domínio da mente foram desviados em seus esforços por uma visão preconceituosa mente seletiva. Modificação do Comportamento e Sociedade Controlada. que fim teriam levado as organizações esotérica e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo. “Estratégia do Grupo Nazista”. estonteada. A. porém. É impossível im aginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses39. Rio. cresce hoje em todo o mundo uma espécie de ant icivilização. Áurea Weissenberg. não concebem sob esse nome senão aquilo que se materi alize em algum tipo de aparelho ou máquina. o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorga nizavam a sociedade civil 40. Joost A. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso temp o. disformes e fracassadas que os séculos e os milênios anteriores rejeitaram saem do fundo do lixo do esquecimento para constituir os pilares de um culto universal do engano. Rio. . Zahar. o Papa João Paul o II finalmente reconheceu em 1994 que. Quando se escrever. 42 V. trad. mais que o século da informática. Octávio Alves Velho. Biblioteca do Exército. o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitali stas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre pop ulações que não têm disto a menor suspeita42. é claro. qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o u so da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jove m de todos os países. em Diagnóstico do Nosso Tempo. M. Robert L. É neste contexto que se deve compreender o apelo ao resgate do epicurismo. tr ad. 41 V. São Paulo. Geiser. a civilização do Anticristo. 1962. trad. 1977. Neste novo panorama. Guerra Psicológica. Ed. “o advento de um sistema político baseado na impostura em grau muito maior do que todos os que existiram até o momento”44. Octávio Alves Velho. Menticídio: O Rapto do Espírito. que só destacava algumas formas de dominação à custa de ocultar outras m aiores e piores 43. Eles sabem. 1980. mais que o século da física atômica. incluindo a bomba atômica e os compu tadores. mórbidas. na produção da história contemporânea. 1961. Ora. V. mas. a impo rtância da “técnica” entre as causas do devir histórico. Rio. então se verá ue nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. Se retirássemos. Merloo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 51 sa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. sob as aparências de continuidade daquilo a que a humanidade chamava civilização. em 1969. São Paulo. Elas foram s eguramente mais decisivas. nada teria podido acontecer como aconteceu. do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios. Nacional. este foi o século da escravização mental. e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las. ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de auto-engano? Um dos poucos historiadores que levaram a sério este fenômeno de seriedade trágica denunciava. A Do utrinação. Paul M. Linebarger. 39 ou pelo menos num esquema de ação mais ou menos patente. com suficiente visão de conjunto a hi stória da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX. Eugêni a Moraes Andrade e Raul de Moraes. Cia. Heitor Ferreira da Costa. Lavagem Cerebral. K arl Mannheim. Zah ar.

de Michel Foucault. I. Bruguera. . especialmente. vol. 1971. Historia Universal de las Sectas y Sociedades Se cretas. Barcelona. p. 525. Jean-Charles Pichon. trad. da antipsiquiatria e da dupla Deleuze -Guattari. Baldomero Porta.43 44 É o caso.

raciocina. formas e variantes de uma mesma técn ica: a hipnose. Pois. São Paulo. Tendo diante da retina a figura de uma vaca. que Epicuro opõe à lógica dos c nceitos (que ele conhecia através de Aristóteles). Aí a mera sugestão verbal de um cigarro aceso bastará para produzir queimaduras reais na mão do hipnotizado: as células da pele reagem à est imulação verbal como reagiriam ao calor de uma brasa. mas qualquer principiante de filosofia sabe que o valor deles é apenas retórico e persuasivo. reprimindo a exigência de confrontá-las umas com as outras para formar uma concepção global coerente e hierarqu izada como aquela que nos orienta na vida de vigília. os julga como efetivos ou possíveis. Tais raciocínios. não para prová-las. sistematiza os raciocínios do tipo “o nde há fumaça. verdadeiros ou falsos. Nas mãos de Declaração a Luís Carlos Lisboa. mas até quando ?” FRANÇOISE HUET 45 As práticas psicológicas que mencionei no parágrafo anterior. fazendo deles o supremo critério do conhecimento. Quando ouve do hipnotizador a ordem: “T ome um copo de água”. por meio de exercícios. compreende o sentido da ordem. sabe distingui-la de um porco. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que. É evidente que o segundo ainda é dominante. em última análise. há fogo”. O fato mesmo de que Epicuro tenha se servido deles para sustentar as teorias de sua física alucinada é sinal de que são uma bonne à tout faire. até que se chegue à completa despersonalização. que a lógica tradicional e moderna chama de abdutivos. recorda e sente como se estivesse desperto. está pronto para acreditar em todas as absurdidades da físic a de Epicuro tão logo possa enxergá-las na tela da fantasia. mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens. a maioria das funções psíquicas continua operand o normalmente. É assim que se explica que as concepções físicas de Epicuro. ora “científicos”. O conceptus e a imago. LÓGICA DE EPICURO § 10. nada lhes ofereci a senão uma apologia da morte. toma sistematicamente a mera possibilidade como real idade efetiva e. para o segundo é o discurso. com a ajuda da qual se pode provar literalmente qualquer coisa. Quanto mais profundo o tra nse hipnótico. desviados para os meandros sem fim da fantasi a imaginativa. todas elas. a exposição. deprime pro gressivamente seu sentimento do tempo. a que apelam para justif icar-se. enfim. por exemplo que o ano de 1991 durou som ente um mês ou que os buracos de um queijo suíço pesam 3 kg. mais e mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distingu ir entre imagens. prováveis ou improváveis. Mas Epicuro não se limitou a pratic ar e ensinar a disciplina da ilusão: ele desenvolveu mesmo todo um sistema lógico pa ra sustentá-la. eles nunca chegavam à última análise. infinitamente variadas n a sua linguagem e nos pretextos. A lógica dos sinais ou lógica das aparências. o que vale é o autoconhecimento. São. são abundantemente usados na vida diária. verossímeis ou in verossímeis. aprende a confiar mais na visualização imaginár ia do que no juízo reflexivo. É assim também que podemos compreender como estes discípulos não se deram conta de que o epicurismo. fora de qualque r dúvida. mas não sabe distin guir se viu uma vaca ou imaginou uma vaca. Jornal da Tarde. . retornando sobre os conteúdos da repr esentação. Ele fala. lembrase? Para o primeiro. No homem hipnotizado. Servem para exemplificar e comunicar idéias. 20 de junho de 1995. um método hipnótico. têm uma coisa em comum. A fumaça e o fogo “A divisão entre Sócrates e Protágoras sobrevive intacta. tenham podido ser aceitas por uma multidão de crédulos discípulos. ora “místicos”. tão manifestante insustentáveis. a beleza e a pompa. O Tetrafármacon é.52 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO IV. mas a 45 interpreta como se fosse um desejo brotado de dentro. no qual o praticante.

pensaria de tudo isso. ele afirmava que a veracidade das explicações é indi ferente: o que importa é o seu efeito calmante. teria se recusado a ensinar re tórica a José Américo Motta Pessanha. e não provar. e como autor de um raciocínio do tipo autofágico. Mais precisamente: qualquer explic ação é boa. Perelman reproduz em seguida o argumento que a isto opôs o filósofo estóico Epicteto: “Se teu pai e tua mãe soubessem que virias a dizer essas coisas. Pessanha não deixou de aludir a uma delas. onde o ún ico destino que nos aguarda é a completa extinção e o eterno esquecimento. mas é a Programação Neurolingüística (PNL). foi certamente com base num argumento subjacente que. s e a fumaça prova a presença do fogo. se isto de algum modo nos tranqüiliza. certamente haveriam te abandonado. que se volta contra a pe ssoa mesma de seu autor. A destreza com que Pessanha manejou esse e outros entimemas na sua conf erência do MASP mostrou que.” Pessanha fez muitos louvores à lógica de Epicuro. no seu clássico Tratado da Argumentação. certamente esta foi tocada por uma brasa de cigarro. o homem do jardim sustenta. quanto mais não a provaria uma queimadura viva! M as não é preciso muito esforço para provar que a lógica de Epicuro não se destina à busca da verdade. se apareceu u ma queimadura na mão. aplaque o temor ou a esperança de uma vida futura. Mas sei que Perelman. levante as velas o mais ráp ido possível. ele não deixava de ser tam bém aplicado aluno de Perelman. Dito de outro modo. rezaria assim: “Num mundo caótico e sem sentido. se pôde servir a Pessanha como uma co nfirmação das teses epicúreas. Um silogismo com premissa oculta chamase. contanto que. demonstrando que. Que técnica é essa? Pessanha não deu o nome.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 53 um técnico habilidoso. melhorando as imagens. Podemos inclusive aceitar simultaneamente várias expl icações contraditórias. eles descobriram que o wishful thinking funciona. No trecho citado. aliviar o sofrim ento. ardoroso discípulo de Epicuro. nem muito menos declarou a premissa oculta de todo o seu discurso: a premissa segundo a qual o importante é persuadir. não resta mai s nada a fazer senão tentar imaginar as coisas melhores do que são. A eficácia da PNL confirma Epicuro. se vivo e ali presente. ao dizer que “alguns psicoterapeutas de hoje” não vêem mais nada a fazer pelo homem sofredor do que induzi-lo a representar se us sofrimentos em imagens. popularizada em anos recentes por livros como o de Anthony Robbins. Mas ele também não disse o que Perelman. Assim de nomina-se em retórica um argumento desastroso. eis a essência de uma lógica à qual não falta. § 11.”48 Se Perelman soubesse a que fins acabariam servindo os seus ensinamentos. pois quem o declara é o próprio curo: “Para fugir do saber — recomendava ele a um discípulo —. e xposto com todas as letras. em retórica. um e ntimema. e. não explicou as diferenças entre lógica e retórica. a redução banalizante da totalidade do real à escala de sensações imediatas como co michões ou borborigmos.”46 Fiel a este princípio. reduzindo os mistérios do u niverso à proporção de nossa experiência mais banal47. a lógica dos sinais pode muito bem dar foros de pura veracida de metafísica às impressões de um sujeito hipnotizado. como por exemplo no caso de um judeu que defendesse o n azismo. a tese segundo a qual os p ais devem deixar os filhos ao abandono. uma acentuada virtude soporífera. e em seguida. só 46 48 . Epicuro tinha razão. os de Lair Ribeiro. Eu também não o sei. e sim somente à produção de consolações fictícias. mas não esclareceu que ela é apenas um a retórica. afastando a hipótese de uma causa divina. no Brasil. O embotamento proposital da intel igência. canhestro. pois. em última instância. em compensação de seu canhado poder investigativo. Ela tem semelhanças e diferenças com o Tetrafármacon. cita Epicuro uma única vez. O convite ao sono É verdade que as técnicas modernas de manipulação da psique põem o Tetrafármacon no chinelo. que. Unlimited Power 49. mas.

em Ch. Éditions de l’Université de Bruxelles. Bruxelles. Perelman et L. . 1986. Traité de l’Argumentation. Simon & Schuster. Cit. 1970. 47 Epicuro. Carta a Heródoto. La Nouvelle Rhétorique. p. 49 New York. § 6. Olbrechts-Tyteca. X.Diógenes Laércio. 78-80. 276.

Ele a e direto no subconsciente do freguês. Bandler e Grinder gravaram centenas de sessões psicoterapêuticas de Erickson (bem co mo de outros dois magos da clínica psicológica. A PNL funciona. de mais um charlatanismo inócuo. codificaram todos os sinais. Interpretando esses sinais espontâneos. Gregory Bateson e Virginia Satir). em muitas empresas. conseguiu romper a barreira de incomunicabilidade. nas pessoas em torno. inteiramente persuadida de exercer livremente o seu clinamen. do tônus muscular. por intermédio de mensagens quase imperceptíveis . ele conseguia comunicar-se com seus pacien tes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito. transformaram-na em prod uto comercializável. de um só golp e. Como já em 1983 denunciava a revista Science Digest: “Posta no . advogados desejosos de persuadir juizes a assinarem sentenças injustas. Paralítico. O programador neurolingüístico não perde tempo com argumentações. vendedores ansiosos de livrar-se de e stoques encalhados. Epicuro e a PNL. que estavam investigando psicologia da comunicação q uando toparam com o fenômeno Erickson. po rém. Se a P NL pode. Mas o prob lema é justamente esse. em breve. talvez em compensação. mostraram isso. E rickson era um clínico. a técnica de induzir subliminarmente por sinais não-verbais tornou-se. associações políticas. a essa altura já falecido. há e ntre eles o nexo da premissa à conclusão. e o uso que faz deles é perfeitamente eficaz. transformadas num receituário de maquiavelismo psi cológico para uso popular. Mas não se restringiram a um público de psicoterapeutas. acredita ndo expressar seus sentimentos espontâneos. longe de constituir um todo autônomo. Só que na vida diária esses sinais. Uma revista norte-americana chamou a PNL “a nova mania psicológica pop”. sutilíssimas m udanças do tom de voz. A PNL surgiu da prática clínica de um dos grandes psicoterapeutas do século: Milton Erickson. maridos interessados em eng anar suas mulheres etc. da temperatura corporal. um tipo prático. da direção do olhar. clubes. Já vimos. inteiramente automatizados e inconscientes. particularmente em tipos esquizóides com uma comunicação verbal deficiente. a fazer o que ele deseja que faça. profundamente arraigados nos hábit os e convenções da comunicação humana. e a PNL como fruto materializado do epicurismo. Milhares de centros de treinamento espalharam-se de costa a costa — e. NLP). a cois a virou uma paixão nacional. Este trabalho foi feito por dois pesquisadores. tal e qual o burr o da cenoura. mas ninguém reparava na sua presença. da teoria à sua prática: o epicurismo surge co mo raiz teórica da PNL. políticos decididos a iludir seus eleitores. abrindo à psicoterapia as mais belas esperanças de cura para casos tidos por insolúveis. Erickson perce beu que o fracasso ou sucesso da comunicação pessoal dependia deles. Pois. que lhe permitia captar. o quanto vale o epicurismo como fundamento teórico do que quer que seja. vai sendo levada a sentir o que o prog ramador deseja que ela sinta. Erickson desenvolveu. ajuda ndo ou atrapalhando a conversa. Não vá p ensar o leitor que está diante de mais uma poção mágica. se a PNL confirma Epicuro e Epicuro antecipa a PNL. Richard Bandler e John Grinder. batizando-a PNL (em inglês. com o mais rigoroso controle científico. Bastava observá-lo em ação para n otar que a comu nicação verbal. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas. Os padrões de comunicação não-verbal que ela utiliza são reais. ficavam subentendidos e acabavam por se tornar. c om o auxílio de um computador. um meio de comunic ação de uso corrente. Desbrava ram novos mercados: venderam a técnica para executivos que tencionavam persuadir s eus chefes a lhes dar aumentos imerecidos. etc. e com isto obtinha resu ltados espetaculares em doentes que haviam sido desenganados por outros psicoter apeutas. n a prática. Nos EUA. mostrar o epicurismo sob uma face melhor. Eles estavam lá sempre. introduzindo-as sutilmente no curso de uma conversa qualquer. sem cujo auxílio a fala se mostrava impotente para atingir o ínti mo das pessoas. igrejas e lares. sistematizaram a técnica da comunicação não-verbal e. esse argumento não faria outra coisa senão desmoralizar. utilizando-os. é o que veremo s. nunca escreveu um livro nem se preocupou em sistematizar suas descobertas. Mas Erickson. se apoiava numa rede complexa de sinais não-verbais. uma acuidade sensi tiva fora do normal.54 OLAVO DE CARVALHO Se explicitado. A vítima. na esfera prática. não pôde enviar do i ntermundo qualquer sinal verbal ou não-verbal de uma justa indignação. Bandler e Grinder ganharam rios de dinheiro explora ndo as descobertas de Erickson.

mercado. a técnica da PNL ameaça tor- .

com a maior desenvoltura e cercada de aplausos. e subvertendo. Os que se gabam de sólido materialismo pão-pãoqueijo-queijo vêem-na como um inst rumento de poder e ascensão social. precisamente. protegida pela sonsice dos crentes e pela ind . par a levar investidores a queimar seus capitais em negócios ostensivamente inviáveis. cortando os laços entre a psique individual e os seus quadros de referência moral. dá mais brilho ao seu fascínio e incita a vítima a prosseguir na experiência. um homem está à mercê do que lhe sugiram. de outro lado omite o detalhe de que. legitimando a manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem lidar com o seu próximo. em geral. seja pela ambição de conquistar por sua vez o poder de manipular os outros. nas mãos erradas. mais aí já é tarde: um a palavra. Universalizado esse costume. assumindo-a como sua para restabelecer a ilusória integr idade da sua auto-imagem. e. Os neuróticos pedem-lhe um meio rápido de obter alív io e os psicoterapeutas uma receita rápida para operar curas espetaculares. Assinalando o perigo. Ninguém escapa aos encantos da nova técnica. de que tratarei nos capítulos finais d este livro — sabem precaver-se. Se alguém percebe vagamente que es tá sendo manipulado pelas costas. sem apoio nos quais não pode o ego tomar posição. Os norte-americanos — malgrado um certo embotamento mais recente. também uma onda de protestos e advertências que brotav am contra ela da imprensa. assume a culpa pelo mal que lhe fizeram. sendo usada em toda parte para levar pessoas a venderem seus bens a preço vil. a revista Science Digest notici ava. sem que ninguém sequer sugira a possibilidade de haver nela alguma coisa de errado. junto com a moda da PNL. decidir. Assim. a PNL vem abrindo caminho des de então. com isto. uma assinatura. tanto melhor: isto confirma a eficácia da nova técni ca. mudar imperceptivelmente o curso do raciocínio. querer ou desquerer: neutralizada a capacidade judi cativa e decisória. solidariedade. a comprar o que não quer. para persuadir juizes a absolver culpados e con denar inocentes. para fazer eleitores votarem contra seus próprios interesses. julgar. A q ueles que se têm na conta de místicos enxergam nela uma via de acesso aos mistérios su premos. a patifaria universal. Mesmo aqueles que antipatizam com a proposta não dão sinal de perceber ne la qualquer perigo. com isto. àquela altura. dos profissionais de saúde. dos educadores. a sociedade inteira esta rá à mercê de uma horda de manipuladores psicológicos. Todos confiam que ali só têm a ganhar. Isto des mente a consoladora lenda de que nenhuma hipnose ou manipulação subliminar pode indu zir um homem a fazer o que é contra suas convicções. Isto foi dez anos atrás. se de um lado favorece muito a ação do hipnotizador. lenda que. um perigoso in strumento de controle social” 50. a PNL já estava. e assim por diante. ela é ignorada como um charlatanismo inócuo. Mas foi nos Estados Unidos. sem que ninguém levante co ntra ela a menor suspeita.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 55 nar-se uma temível ferramenta de manipulação pessoal e. e. No Brasil. contra qualquer coisa que lhes pareça supr imir liberdades duramente conquistadas. Mãos erradas? Nos EUA. podem ter determinado conseqüências irreversíveis. O uso disseminado dessas técnicas arrisca minar todo o campo da convivência humana. Passadas algumas horas. seja p ela atração do abismo. todos os padrões de sinceridade. segundo informava a mesma r evista. não faz mal: a PNL tem meios de tornar o prejuízo uma experiência gratificante. e aí. dos meios acadêmicos. toda influência s ubliminar consiste em abolir o domínio da vontade. ansiosos de unlimited power e arm ados de um temível arsenal de meios para defraudar 50 e colocar a seu serviço os outros homens. h onestidade. a aprovar o que lhe repugna. ter emos ou mais a mais perfeita e indestrutível das tiranias ou a anarquia generaliza da. levar uma pessoa a fazer o que acha errado. Os brasileiros estão absorvendo a PNL com o deslumbra mento bisonho de um garoto que se sente muito lisonjeado ao ser admitido pela pr imeira vez numa roda de cocainômanos. e pronto a justificar a po steriori a decisão imposta. levando a vítima a não se precaver contra um risco que su põe inexistir. a vítima pode se dar conta da insensatez. O uso habilidoso dos sinais não-verbais permite abrir hiatos na atenção consciente. Quando não é recebida como uma mensagem salvadora. conforme esses neomaquiavéis se unam p ara dominar o restante da população ou entrem em competição feroz uns com os outros. quando não ganham nada.

a PNL vai entrando. Science Diges t. 1983. vai Flo Conway and Jim Siegelman.iferença blasée dos descrentes. “The Awesome Power of the Mind-Probers”. maio. . vai ganhando força.

num curso de Ética nominalmente votado a objetivos da salvação nacional. Aquele a quem os deuses querem destruir. em vez de condená-los como anti-éticos e advertir contra o seu uso. que previa o advento de uma ordem social robotizada. em vez de cair na rede da sua sedução e atrair o povo para mergulhar nela também. então se apaga a última esperança de um redespertar d a consciência.56 OLAVO DE CARVALHO invadindo todos os setores da atividade pública e privada e inoculando ali. os governos. Aldous Huxley não conseguisse mais que uma minguada audiência para o seu livro Regr esso ao Admirável Mundo Novo. tão sensível às redições sinistras da ficção. E aí já não se sabe quem é mais culpado: o sedutor que escraviza ou o se duzido que se entrega. é mais fácil ser tomado de pânico do que raciocinar. As técnicas de manipulação p síquica progrediram tanto nas últimas décadas. que as técnicas anunciadas no livro anterio r já estavam prontas e em vias de aplicação para fins políticos. assinalam o torpor da vítima que. cai numa torpe indiferença ante o aviso de que a ficção virou r alidade? Uma resposta possível é que esse aviso mesmo já é estupefaciente. a do mero adormecimento. No completo esquecimento. Um filósofo deveria ser o primeiro a advertir contra ele. um homem tem de estar pelo menos meio acordado. Diante de cer tas notícias. A incapacidade de um povo para perce ber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva q ue prenuncia as grandes derrotas sociais. qua ndo toma também as mentes dos intelectuais e a voz dos melhores já não se ergue senão pa ra fazer coro à cantilena hipnótica. de onde só sairá para mergulhar na terceira fase: no sono profun do. que ultrapassaram tudo o quanto o homem comum pode aceitar como verossím il. É um dos mais velhos e incômodos paradoxos da mente humana. . para se entregar inerme e semidesmaiada nas mãos do carrasco. em alcance. onde os homens seriam reduzidos à escravidão por meio de técnicas hipnóticas. Como. sem sonhos. A Servidão Voluntária Não estou exagerando o perigo. em dos es crescentes. A indiferença afe tada é uma reação de autodefesa contra o pânico — e quem fugiria do pânico se já não estivess m pânico? Um segundo motivo é que ao menos aparentemente há uma contradição intolerável em p edir à consciência que reconheça sua sujeição a um poder inconsciente. como o carneiro qu e oferece o pescoço à lâmina. A segunda não era ficção. mas uma re ortagem: informava. e só quem escapou da manipulação s abe que é manipulado. inte lectuais eminentes oferecem o Tetrafármacon e a PNL como soluções miraculosas. antevendo um golpe mais forte do que poderá suportar. Para reconhecer que está dormindo. Um exemplo s ignificativo foi que. Por que o público. em resumo. Quando. Pode mos sair dele. é verdade. após o sucesso mundial do romance Admirável Mundo Novo (1932). nos anos 70. e o pânico vira logo es tupor. ser viços secretos. então é que a consciência públi ca já transpôs a primeira fase do sono. eles primeiro enlouquecem. insensibilidade catatônica que protege contra novos abalos. com deleites de masoquismo. de outro lado. a human idade já estava com um pé dentro do Admirável Mundo Novo. A primeira dessas obras era uma ficção cien tífica. E não aceita mesmo: quase todo mundo opõe uma obstinada má vontade a ouvir o que a lguém possa ter a lhe dizer a esse respeito. seitas pseudomísticas e empresas multinacionais investem quantias ca da vez maiores na pesquisa desses assuntos. Mas quando o torpor não invade somente a alma do povo. § 12. com provas cabais. arriscaria cair em ouvidos moucos. A advertência. o resultado é que o domínio dos meios de escravizar a mente do povo cresce na razão inversa dos meios que ele possa ter pa ra defender-se. a indiferença ante o próprio des tino. se prepara. para cair de cheio na esfera do sonho. mediante um reflexo anestésico . precisão e eficiência. o vírus da manipulação subliminar. o primado do incon sciente só pode ser afirmado por um homem consciente. a concentração das atenções em assuntos secundários acompanhada de total negligência a nte os temas essenciais e urgentes. A apatia. Que. por exemplo. à servidão voluntária.

se lhe p erguntam por que agiu assim. por direito. ‘Eles chegaram pedindo para trocar duas notas de US$ 50 e. meticulosamente e sem a menor resistência. O jornal O Estado de São Paulo. que garanto não será inútil: quando voltarmos ao seu jardim. num despach o da sua correspondente Marielza Augelli espremido num canto de página51. tornavam-se ainda mais inquietan tes por três peculiaridades: Primeira. ‘Trata-se de uma verdadeira gangue. os italianos e stão lutando contra um tipo insólito de crime. que jur ou não ter entendido como dois indianos de olhos negros e profundos. Isto levava a polícia italiana a crer que o total d e ocorrências registradas. já era tarde.. ao norte da Pe nínsula. Os feitos espetaculares dos h ipnoladri. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”. a cidade mais atingi da. já foram registrados mais de uma centena de casos. brancas ou de fogo. oferece uma justificativa completa e personalizada. Reações análo gas aparecem em todo tipo de hipnose. Brun chegou a prender três suspeitos paquistaneses com passaportes falsos. A prova da autoria era tecnicamente impossível. Alguns parágrafos significativos: “Desde maio. noticiou algum tempo atrás a mais estranha onda de crimes que já se vira na Itália. Dez minutos dep ois. fosse bem menor que o número real de crimes. O Estado de S. que o leão é manso. se ainda tem em si algum resíduo de falsa segurança. fiquei triste porque não achava as notas e depois não me lembro de mais nada. Terceira. em seis meses. será com pl ena consciência do que nele está plantado. 9 de dezembro de 1990. dela se desfaça no ato e saia em bus ca da verdadeira segurança. quando comecei a trocar o dinheiro. ela tem altos e baixos e só conserva o seu domínio lutando contra a inconsciência. Quanto mais tememos um perigo. Nesta nova modalidade de assalto. pediram somente cédul as que fossem da série x. pelo medo que as vítimas têm de passar por idiotas. envergonhadas e confundidas. A polícia italiana registrou. da Central de Polícia em Turim. a parte dominante. m ais tendemos a fingir diante dele uma indiferença superior: “Senta. na existência de fato . sem experiência para lid . Segundo Brun. abra e feche três vezes uma gaveta. Epicuro que me perd oe este rodeio. muitas vítimas deixavam de registrar queixa (exatame nte como mulheres estupradas). que começou em Piemonte. como os batizou a imprensa italiana. com cerca de dez a vinte pessoas em ação’. na mu ltidão de exemplos da sua periculosidade. mais de uma centena desses crimes. após despertar. porque muitos casos não são denunciado s. Mas. Paulo.” hipnose. um ca ixa de loja ou de banco. por sua vez muito improvável. já alarmante. e já chegou à Sardenha e à Sicília: o roubo por hipnose. as cem denúncias feitas em toda a Itália não passam da ponta de um iceberg. no entanto foi obrigado a liberá-los por ‘falta de provas’. a vítima entrega todo o seu dinheiro com um sorriso nos lábios e a mente c onfusa. Os tribunais e a polícia.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 57 com a ajuda das distinções aristotélicas entre potência e ato. todas as cédulas. não conseguia parar de entregar todas as cédulas de 100 mil’.” Não é aqui o lugar de descrever em detalhe as técnicas de manipulação da psique. a 51 Marielza Augelli. e xplica o inspetor Paolo Brun. acab avam atribuindo a si mesmas a culpa pelos atos cometidos sob sugestão hipnótica. para que o leitor. Segundo ele. Tratava-se de um novo tipo de assalto. de Potenza. caía num torpor nebuloso e ia entregando aos ladrões. Aquilo me transtornou. vou escolher um só. Segunda. e só pode escapar do paradox o pelo expediente desastroso de negar os fatos. ele obedece e. substância e acidente: no p lano essencial. que está no conhecimento do assunto. o hipnotizador ordena ao suje ito que.’ ‘Não sei como. As vítimas. ao dar-se conta do que tinha feito. M as a maioria das pessoas não atina com estas sutilezas. Depoimento de sconcertante foi feito pelo caixa do banco Monte Dei Paschi. Por exemplo. mas sim.8 mil. contou o proprietário de um supermercado em Turim. É o p aradoxo que mencionei: assumir uma culpa moral inexistente parece menos doloroso do que aceitar a hipótese humilhante de uma descontinuidade da consciência.. uma p or uma. Por essa mesma razão. Uma forma de hipnose instantânea e praticamente irresistível. a consciência é. fala mansa e muita delicadeza conseguiram levar US$ 1. em que os criminosos não usavam armas. a não ser em caso de flagr ante. A vítima.

nada se pode fazer para impedi r que esses crimes proliferem e se alastrem para outros países. sejam depois usadas para fins de dominação p olítica. disseminando a ins egurança e a confusão. bem como às entidades. nem para impedir que as técnicas dos hipnoladri.ar com o caso. Outras org anizações. Mas essas armas não foram testadas só em umas dezenas de assaltos. uma vez provad as e aprovadas por quadrilhas de ladrões. d iscretas se não secretas. Por enquanto. para reduzir à escravidão psicológica milhões de pessoas. . as vêm empregando e m escala mundial. estavam atarantados. Rajneesh. “Meninos de Deus”. que as fundam e dirigem. Refiro-me às s eitas pseudomísticas do tipo Moon. mais perigosas talvez do que quadrilhas de assaltantes.

§ 13. Os médicos e psicólogos dividem-se em duas categorias: os de inclinação misti cóide geralmente estão mais ou menos comprometidos com alguma seita ou guru. Nos Estados Unidos. O primeiro é a Índia. e forçá-las a tratamento psiquiátrico. logo. e impede que o público chegue a pensar seriamente no problema. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda de scoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. a costa Oeste — a maior concentração de gurus per capita no território americano — já tinha mais de cem c línicas de terapia para egressos de seitas. à sombra totêmica da “liberdade religiosa”. o segundo recordista mundial em número de seitas. na década de 30. As técnicas em uso nas seitas se originaram da lavage m cerebral. minada pela infiltração do Ocidente. É uma meia-verdade. algum f enômeno inexplicável que abale suas crenças a um tempo simplórias e pedantes. Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurof isiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). a opinião pública está consciente do problema.58 OLAVO DE CARVALHO Por mais antipatia que suscitem. Quanto aos educadores. quando pode. temem deparar. A idéia de moldar o comportamento humano p ela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov. Em 1940. o Parlamento francês aprovou uma lei proposta pelo Partido Socialista. os debates prosseguem e mais dia menos dia tal vez se descubra um meio legalmente válido de resolver o caso. Em maio de 1985. na investigação do caso. essas organizações continuam atuando com o maior de sembaraço em todos os países. confundind o espírito e psique. e os ma terialistas durões afetam desprezo pelo assunto na mesma medida em que. abre o flanco a todas as degenerescências do espírito religioso. É o vale-tudo. Ele estudou isto em ca- . O único país que opôs uma barreira efetiva ao avanço das seitas foi a França. Darkness at Noon (“O Zero e o Infinito”). ele mesmo hipnótico. caem logo no esquecimento. bem. onde a longa e dolorosa decomposição da sociedade tradicional. feitas por egressos ou por familiares das vítimas. Denúncias esparsas. Mas qualquer ação oficial é bloqueada pela a poria lógica embutida na 5ª Emenda da Constituição: o Estado leigo não pode definir o que é religião e o que não é. S. A expressão “lavagem cerebral” entrou na linguagem popular a parti r dos “processos de Moscou”. e as encaminham a clínicas especializadas. bruxaria e mística. Em 1988. que permite aos familiares das vítimas retirá-las das garra s de seus gurus com a ajuda da polícia. a civilização ferida de que falava V. descobridor dos reflexos condicionado s produzidos pelo jogo estímulo-resposta. mas só têm com ela uma identidade de fins. A imprensa só larga a habitual in diferença para explorar. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral O assunto é fértil de mal-entendidos. A imprensa Ocidental sugeriu que o emprego de algum meio psicológico inusitado seria o respo nsável por aquelas “conversões” que faziam de heróis revolucionários palhaços atônitos a acus se de delitos fictícios. embora todo mundo saiba que promovem a escravidão. No Brasil — preciso di zer? — o assunto não é sequer discutido. vocês conhecem algum? Por uma trágica ironia. deu ao público Ocidental uma imagem vívida dos processos de tort ura psíquica que levavam os prisioneiros soviéticos à perda da identidade. só lhe resta aceitar como tal tudo aquilo que como tal se declare. e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simpl esmente nisso. o romance de Arthur Koestler. o Brasil é. mesmo quando se trate de maiores de idade. De qualquer modo. onde a democracia se torna o pretexto da tirania (veremos no fim deste livro o verdadeiro alcance deste fenômeno). Naipaul. segundo me informou um estudioso do assunto (não é b rasileiro). quando comunistas fiéis apareceram confess ando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime. entidades privadas empenha m-se em facilitar por todos os meios a libertação das pessoas mentalmente aprisionad as pelas seitas. logo vêm à boca do interlocutor as palavras: “lavage m cerebral”. o lado espetaculoso — o que dá ao caso um ar fan tasmagórico. Quando alguém fala da escravidão psicológica que alg umas seitas impõem a seus discípulos. que alcançam por meios diferent es e mais eficazes.

ao examinar prisioneiros de campos de c oncentração chineses libertados após a Guerra da Coréia 52. e tentará atacar o dono. Enxertando na música ambie nte de um supermercado uma voz debilíssima e imperceptível que repetia: “Sou honesto. que nas 52 . eram mais facilmente retidos na me mória do que estímulos mais fortes. Ora. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelh a que acendia tão logo lhes era oferecido um bife. pud essem ter ab-reações. Para começar. um publicitário. Gurdjieff manej ava igualmente bem a estimulação contraditória. que completava a transformação. Repetida a operação algumas vezes. mas sim pelo efeito acumulado de estimu lações contraditórias. Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada. um evento traumático qualquer. tomando-os como reais. que detestava. f azendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. verificou depois que muitos pacientes devi damente ab-reagidos e curados lhe haviam contado acontecimentos traumáticos totalm ente imaginários. Prometia ao s alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos. literalmente . Eles ficaram comple tamente atordoados. como Freud chamava a suspensão dos comportamentos neuróticos após a catarse curativa. Gurdjieff ora esmagava os coitado sob pilhas de exigências constrangedoras. uma vez desperto. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso. com o auxílio de hipnose. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. que tal sintetizar Poezl e Pavlov? A mutação de personalidade por estimulação contraditória bem p oderia ser produzida subliminarmente. verif icou que a coisa funcionava também com estímulos auditivos. durante hipnose. mesmo remotam ente análogo ao que se havia passado. se devi a tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. por exemplo. o cérebro ent rava em pane. o paciente se recordava do s terríveis sofrimentos sugeridos e. Quanto mais abreações. os discíp ulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre. ora os induzia a descargas aliviantes q ue lhes davam a impressão de plenitude e liberdade. imperceptíveis à consciência. recordando-se de traumas enterrados no subconsciente. A técnica baseada nas descobertas de Poezl recebeu o nome de propaganda sub liminar. Eles tinham sofrido lavagem cerebral “clássica” e muitos estavam co mpletamente neuróticos.” A mudança de atitude dos prisioneiros. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff. decisiva para o prog resso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenv olvia uma dependência mórbida do terapeuta. em que tantos se empenhava a psicanálise. Becker. sem gritos. para que. só para depois serem repentiname nte jogados de novo em provações humilhantes. e lhes dava um sistema cosmológico completo. portanto. Becker diminuiu em 37 por cento a freqüência de roubos cometidos por freg ueses. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 59 chorros. Sargant descobriu que podia produzir ab-reação simplesmente su gerindo ao paciente. doutrinação ostensiva ou violência d e espécie alguma. Logo depois. Hal C. Com grande supresa. Sargant fez mais uma. I sto explicava muita coisa. De fato. porém. não roubarei”. O passo seguinte nessa direção foi dado pelo psiquiatra inglês William Sargant. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório. o psicólogo austríaco Otto Poezl descobriu que estímulo s visuais fraquíssimos. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptara m à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita gústia intolerável. de quem gostava. virasse do avesso. limes) da consciência. mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis. por atuar abaixo do limiar (em latim. os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito. Depois disso . Com base nessa descoberta. Então a recordação dos fatos. que os levavam ao desespero até que a personalidade. tinha sua catarse e sa ia curado. mais forte o vínculo. Inicialmente Sargant os tratou pela psicanálise. da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas h abituais. Raramente dizia alguma coisa com senti do identificável. era desnecessária? Era. Tudo no macio. ora a luz sem o bife. A vítima nem se daria conta. não era de terminada pelo conteúdo político da doutrinação.

Imago. London. 1975. Rio. The Battle for the Mind. 1957. Heinemann. e A Posses são da Mente.V. Klau s Scheel. . Uma Fisiologia da Possessão. do Misticismo e da Cura pela Fé. William Sargant. trad.

calcul ado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. Por um lado. já não havia ne53 54 . A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil. 2. para produzir a lavagem cerebral discret a e indolor com que sonhavam os técnicos. de repente. que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos par a produzir56. podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. hipnotizar um sujeito contra a sua vontade. Nada adiantava o indivíduo tentar res istir às sugestões53: “Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é esse ncial. ainda faltavam dois quesitos: um meio de tornar permanente a mutação de personalidade e um vocabulário dos sinais subliminares . Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa. Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado. bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito a o desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções. o uso conjugado da estimulação incoerente e das a b-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. e por outro.” cessidade de discursos em alto-falantes. ameaças ou tortura mental. Mas.60 OLAVO DE CARVALHO semanas seguintes era inteiramente substituído por outro. a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos . Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em su jeitos normais. a se transformar em negativos . se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes. As mesmas reações . crédula e dependente (Sargant ).. que desse agilidade à sua utilização. Pode-se mu dar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov). subliminar. de maneira que o indivíduo se torna recepti vo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes”: era possível.. ge radora de neuroses e psicoses54. em suma. O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações..” O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma suge stionabilidade aumentada ao extremo. de outro lado. descobriram que.. O que Sargant descobriu logo depois disso f oi de estarrecer. às vezes em doi s ou três dias. o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de pers onalidade. Com a descoberta da hipnose forçada. O primeiro foi fornecido pela descoberta segui nte de Sargant. Para reduzir um homem a uma obediência canina. após chegar à inversão dos re flexos. mantendo-se constante a pressão.. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios. Pavlov já tinha reparado que o paciente. Pavlov denomin ara a isto a fase paradoxal da mutação. os resultados descritos por Sargant podiam ser al cançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva. As conclusões dess as pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente: l. a fase ultraparadoxal. essas inform ações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência. até que a con fusão mental crescesse à escala cósmica. pela PNL. Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias. as respostas e o condici onamento condicionado positivos começam.. Tentativas repetidas em geral dão certo. portanto. Dois pesquisador es. na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade. é possível induzi-la ao transe com bastante facilid ade. O segundo. a que se seguia uma fase ultraparadoxal: “No t erceiro estágio da inibição protetora. de gritos. no ambiente fechado e artificia l das seitas pseudoreligiosas.. o sistema nervoso é esgotado e . simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem n um leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes55. pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acon tecendo. Flo Conway e Jim Siegelman..

Rio. Zahar . trad. Calif. A Possessão da Mente. Eduardo Almeida. Conway & Siegelman. 55 V. Universit y Press. Teoria da Dissonância Cognitiva. IBM. Snapping..Sargant. 47 Leon Festinger. . Stanford. 1957 ). A Handbook of Artificial Intelligence. p. 56 V. 1975 ( original: A Theory of Cognitive Dissonance.

A reverência ao pajé pode fazer um índio acreditar que os ritos trarão chuva. sob pena de funcionar como um ant imilagre. mas não que Ele tenha ressuscitado antes de morrer. Finalmente. A decepção continuada é um antídoto contra a fé. um hábito corrente. ou porque tropeçou em algum obstác ulo acidental. no uso efetivo das técnicas de manipulação. sublime ou terrível. O milagre pode ser belo. Mov ido pela fé. o incomum.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 61 3. um homem pode acreditar que Deus faça a Terra parar. nunca foi violado por nenhuma das grandes crenças religiosas do passado e do presente. Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. desde que se sintam corta dos de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). que o movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da timulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma su bserviência patética. desmentindo a fé em vez de confirmá-la. até agora. a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade o ferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional. Deus gradua as provações segundo a capacidade dos fiéis. hoje em dia. que pode ser realizado à distância (IBM). na medida em que é uma resposta a legítimos anseios humanos e não apenas uma esquisitice coloss al. 4. sem que a víti ma se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). pela simples razão de que a unidade do real é a unidade do próprio Deus. que estão fora do alcance de um pesquis ador independente. ater-me àquilo que posso observar na vida de to dos os dias. Um crente não pode esperar indefinidamente nas promessas do seu Deus quand o nenhuma delas jamais se cumpre. se admit ia como fé religiosa. O fator decisivo é o controle planejado do fl uxo de informações. que nenh uma religião jamais ultrapassou. mas s difícil continuar crente se os pães celestes viessem eria m ofados. cuja lic itude ninguém se lembra de pôr em discussão. não há. Um homem pode acreditar que Jesus multiplique os pães. Não é preciso enfatizar as fac ilidades que. que é uma só e a mesma coisa que o senso da unidade do real. em todas as religiões. O senso da identidade lógica. Noto. os serviços secretos. O primeiro desses limites é a contradição intrínseca. mas permaneceriam indiferentes a uma mensagem ce leste que prometesse apenas entortar todos os garfos. ridículo ou grotesco. o v alor dos bens prometidos e 57 Que nenhum espertinho venha mencionar os koans do budismo. mas não que a chuva será se ca. O segundo limite é o senso estético. subjacente mesmo às mitologias p oliteístas57. foi somente porque não quis. e por i sto. e mesmo a observação mais superficial basta para mostrar que a manipulação da psique já se tornou. continental ou planetária. essencial. a teologia apofática ou outros exemplos do mesmo teor como provas de que o pensamento religioso admite . Se ninguém ainda tentou. O miraculoso não é apenas o extraordinário. isto é. mas não que Ele a faça girar e ficar parada ao mesmo tempo desde o mesmo ponto de vista. Mas há sempre um limite. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom-senso. Devo. Ele não se assem lha em nada àquilo que nos séculos passados. Impedimento teórico. em muitos setores de atividade. portanto. por exemplo. A técnica pode ser aplicada s imultaneamente a todos os membros de uma coletividade. Ou antes: há toda uma rede de limites. desobedeça à sua dis posição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses. 5. Tem de possuir um sentido. funcionalidade. há o limite da p aciência. pode também levá-lo a aceitar a aut oridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de con trole. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares. Essa a valiação requereria investigações de vasta escala. É muito difícil avaliar até que ponto os governos. Não pode ser banal. pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imed iata. e em muitas civilizações diversas. O cristão pode aceitar que Cristo se ergueu da tumba no terceiro dia após a mort e. em rupturas da ordem natural costumeira. beleza. o gigantesco: ele tem d e mostrar harmonia. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. Os povos do passado podiam seguir um profeta que lhes anunciasse a vida eter na ou a cura de todas as doenças. A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres . os movimentos políti cos de toda sorte avançaram. as empresas multinacionais.

Uma vez encontrada a solução.a autocontradição. ela se mostra perfeitamente lógica. obviamente não poderia realizar. Esses exemplos só mostram que na esfera mística a compreensão de certas verdades requer uma apreensão intuitiva capaz de superar. num salto. . atendidas as distinções de planos de realidade que a lógica . obstáculos que ao raciocínio discursivo parecem intransponíveis. por si.

Moisés pôde esperar quarenta anos pela libertação do seu povo. O teor mesmo das imagens e o conjunto de sentimentos que as acompanham indicam a fonte. Ora. A destruição da religiosidade popular tradicional — atacada de um lado pelos materialistas e de outro pela ideologia da New Age — não produziu nenhum “esclarecimento” ou “iluminação coletiva”. de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão p or intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela f m inoculados pela propaganda. sabendo que a propaganda é um universo de enganos. que continua a crer com zelo fanáti co apesar dos mais óbvios desmentidos. demônios. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária. Pendle Hill. Assim. 59 Não é força de expressão. que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as ci vilizações precedentes? A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto s eus antepassados poderiam sequer imaginar. praticada por todos os místicos das randes religiões. para não falar de outros mais grosseiros ainda. mas sim um rebaixame sem precedentes do nível de consciência das multidões. Na mística islâmica. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. É a fé reduzida à crença cega e totalmente amputada do mais elementar “discernimento dos espíritos”58. ele já passou da fase ultraparadoxal. ele não pode deixar de se guiar p or ela na prática. Joseph Epes Brown. 19 20. The Spiritual Legacy of th e American Indian. Paris. as figuras. mas não e de esperar nem quarenta semanas para que Deus enviasse o maná.. 1964. O ensina mento tradicional a respeito está registrado nos hadith. esta arte esteve incluída até bem pouco tempo atrás nos ensinamentos regulares de Teologia Mística transmitido nos seminários. entre suas tradições. Les Phénomènes Mistiques Distingués d e leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques. a respeito. t odas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas. espiritualmente. Se o conhecim ento desta disciplina não tivesse desaparecido. nesse quadro. os jingles e logotip os da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anj os. ao longo dos séculos. No Ocidente cristão. feitos como os de Thomas Green Mor ton. e agora ele só c rê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. Muitas tribos indígenas têm. Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontr am por trás desse fenômeno. de outros homens. já que sua imaginação não t m outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. mas não deixou de operá-los em profusão por saber que a fé humana é necessariamente impe rfeita. Albert Farges. Os milagres surgem. Maison de la Bonne Presse. por exemplo. dos anjos. que as coloca. muito acima do homem branco médio. O próprio Cristo cen urou o povo que pedia milagres. ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade. o que caracteriza o fenômeno mundial da pseudo-religiosidade contempo rânea é justamente a credulidade beócia que toma como mensagem do céu qualquer fenômeno gr osseiro de telepatia ou hipnose. V. ou técnica. 58 O “discernimento dos espíritos” é a ciência. não despertariam maior curiosid ade senão como fenômenos de teratologia espiritual. O homem das grandes cidades ac redita hoje em ficções que fariam um índio sorrir59.62 OLAVO DE CARVALHO a lógica da situação. V. ou Maomé ) e depois foi sendo acrescido das observações dos místicos. Os slogans. dignos de pena na melhor das hipót eses. que aceita “sinais divinos” desprovidos da mais ele mentar coerência estética ou funcionalidade prática. aspirações e temores . ou sentenças do Profeta ( M ohammed. entre os quais os demônios. uma autên ciência do “discernimento dos espíritos”. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos. nem quarenta minu tos para que seu cajado se transformasse em serpente. do coração humano. heróis e duendes do imaginário tradicional. subentendendo que a fé perfeita não precisaria deles . que ensina um homem a discernir a fonte — e portanto o valor — de su as inspirações e visões interiores. como antecipações que dão aos fiéis o ânimo de perseverar na fé. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe . A respeito. afirma-se que as visõe s podem provir de Deus. finalmente d os djinns ou entes sutis da natureza. por exemplo.

mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida. Levado a agir como se acreditasse n aquilo que nega. é condenar-se a um vaivém incessante entre a fan tasia desesperançada e o desesperançado cinismo. qu e tem de ser reprimida a todo custo. Mas reprimir essa angústia é abdicar. A ruptura entre conduta e crença. o . inócua em casos isolados. d e todo senso profundo da realidade. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativo s. no ato. ao generaliz ar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável.. mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propa ganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamen te imbecil.

a redução das massas a um reb . moralismo político e imoralismo erótico. o ativismo intele ctual acaba por reduzir a linguagem a nada mais que um instrumento de expressão de raivas insensatas e exigências descabidas. qu e importam todos os males menores e locais denunciados e combatidos pelas várias i deologias em disputa? Que diferença faz se a manipulação da mente é empreendida sob o pr etexto de manter as massas na passividade de uma rotina conservadora ou de impel i-las a fazer uma revolução? Em ambos os casos. O efeito de longo prazo é elevar até o insuportável a pressão col etiva das angústias e das culpas não conscientizadas. Ideologias como o gramscismo. todos os outros males que a afligem são meras incomodi dades corriqueiras. compo stos de puras racionalizações no sentido freudiano da palavra. Não é de estranhar que com tanta freqüência os intelectua is apologistas do absurdo se ponham a elaborar sistemas de justificativas. seja construindo-as por deduções de um artificialismo sufocante. Perto dessa queda da c ondição ontológica da humanidade. o “novo modelo de linguagem” de David Bohm. Quando os filósofos co meçam a declarar com obscena satisfação que a verdade só pode ser inventada convencional mente ou fingida mediante a encenação de crenças políticas. mas eles mesmos praticam abundantemente a estimulação paradoxal sobre as mentes indefesas de alunos. ouvintes e espectadores. eles certamente devem ter bo ns motivos pessoais para ver nessas idéias algo de reconfortante. os intelectuais começam a produzir realidades postiças. seja le vando as massas a encená-las no palco da política. liberdade irrestrita para o c idadão e maior intervenção do Estado na conduta privada. Quem quer que lhes dê ouvidos termina louco. a abolição da consciência. destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas prémodernas. liberação das drogas e proibição dos cigarros. a injustiça social. democ racia direta e controle estatal da posse de armas. influenciando a sua conduta sem pedir licença ao julgamento consciente . com muita violência e muito sangue para dar verossimilhança a um enredo delirante. o neopragmatismo de Richard Rorty. porque elas vão direto para o seu sub consciente. consag rando as técnicas de manipulação psicológica e de estimulação contraditória como armas legíti e aceitáveis na luta das idéias. ao bom senso e ao mais elementar sen- timento de humanidade. O típico intelectual exasperado de hoje defende sistematicamente reivindicações contraditórias: liberação do aborto e repressão ao assédio sexual. segundo as quais a re alidade objetiva não existe ou a linguagem não tem relação com ela. se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana. que só pode acreditar na realidade qua ndo ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. O estraçalhamento das consciências pelo império da propaganda é condenado com veemência por alguns intelectuais ativistas. Mas os autores da proeza são ele s mesmos suas primeiras vítimas. o homem é tratado como um cão de Pavlov. um cão é sempre um cão. Pervertendo nos homens a capacidade para o juízo de realidade. Comparados a esse império universal da impostura. Que importam o racismo. leitores.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 63 homem das grandes cidades é hoje um esquizóide. mas quem está imune à sua influência? O público nem sempre se dá conta das contradições. são a legitimação “filosófica” de um atologia: não conseguindo mais instalar-se na realidade em que viveram nossos ante passados. A culminação de cem a nos de pesquisas sobre o domínio psíquico do homem pelo homem é alcançada no momento em que todas as elites — as que estão momentaneamente no poder e aquelas que lutam para conquistá-lo — se unem num pacto contra a liberdade da consciência individual. o neo -epicurismo. mas isto é pior ainda. e assim por diante. a corru pção dos políticos. anti-racismo e defesa de “ident idades culturais” sustentadas na separação das raças. Elas os ajudam a suportar o mundo fictício e alucinante que eles mesmos criaram. seja criando-as em laboratório. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado d e espírito. pouco importa quem ganhe a disputa: a humanidade perderá. Quer seja adestrado para cochilar mansamente diante da lareira ou para avançar co m os dentes à mostra contra os estranhos. A partir desse momento. que não têm satisfações a prestar à razão. A velha oposição entre evasão e ativismo perdeu todo sentido num mundo em que a ação política se tornou um escapismo para alívio das mentes imaturas e em que as fantasias mais extravagantes são celebradas como formas de “protesto” contra um mundo mau. a pobreza.

de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo que. é irrecuperável para sempre? . uma vez perdido.

o neopositivismo. a pseudo-religião. . os lisonjeia e se esconde. uma névoa de razão fragme ntada numa poeira rodopiante. quan to ao seu direito de distinguir entre o bem e o mal e ao seu poder de empreender sua jornada à luz dessa distinção. a insanida de pelo fracasso em distinguir e pelas fantasias de poder. “O propósito do ataque é o mais velho de todos: p roduzir o caos. o marxismo. ou mesmo. E já então um observador sensível podia escrever estas palavras: “O problema da s Liberdades da Mente é hoje tão urgente e prático quanto o problema da emancipação dos escravos foi no passado. pp. é uma doença de rara sutileza. O epicurismo é um antepassado de todas. 1951. A vitória almejada é o definitivo caos na mente do mundo. que. 10. O perigo que corremos é que há grandes forças em ação no do que nos proíbem empreender essa jornada e destroem nossa vontade de fazê-la. e sua herança ainda não se esgotou. uma luta qu e transcende todas as diferenças exceto uma. Macmillan. não um fato co nsumado. entre aqueles cuja ênf ase está na razão e aqueles cuja ênfase está na fé. New York.64 OLAVO DE CARVALHO Quatro décadas atrás o uso universal dessa arma era apenas uma tendência. quanto à validade da mente humana.” 60 Dentre essas forças. 60 Charles Morgan. no fundo. “A doença social que termina na a niquilação do pensamento independente. fazendo os homens acreditarem que estão pensando livremente quando não o estão. as mais notórias são o pragmatismo. no meu modo de ver. e da vontade de independência. Liberties of the Mind. a Nova Era. ingovernável. 40 e 5 3-54. É antes. sem propósito e sem causa. “A batalha a se r combatida não é só entre partido e partido.

w Em seu esforço de canonizar Epicuro. Pessanha não inventou. o fracasso subiu-lhe à cabeça. cíclica e regularmente. teceram e cultivaram durante vinte sécu los. tudo suportou c elegância e resignação. fazendo coro à longa tradição de marketing epicúreo. era incapaz de permanecer indiferente aos ataques dos adversários. que constituem para ele um sucedâneo de teoria. ocupado somente das coisas do intermundo e alheio à vã agitação dos á os humanos. e talvez por causa delas. que a escola que trapaceia no campo da teoria não teria por que eximir-se de fazê-lo também no campo dos fatos. absorto em meditações el evadas. Bem. alguém que aborrece a sabedoria e foge dela por quantos atalhos e de svios se lhe apresentem. não poupava mesmo aqueles com quem tinha uma dívida pessoal. propriamente. como um novo Sócrates. não estranha que o epicurista proceda. e menos ainda de respondê-los com elegância. Este era seu estilo característico de lidar com . concorrer com as outras filoso fias e defender seu lugar. além de cultivar no seu j ardim todos os sofismas clássicos. em tudo. Porcarias epicúreas Mas se o epicurismo é indefensável como teoria. t ambém se empenhe. E ele.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 65 CAPÍTULO V. por ter o perfil externo da fil osofia. em substituir a história por um sistema de men tirinhas bobas destinado a colocar Epicuro no centro da evolução do pensamento humano. ainda que modesto. estar ausentes do M ASP. só para ter de reerguer-se. uma vez mais. de “vendedor de drogas”. portanto. Ele é um equívoco permanente. diante d e uma platéia que as desconhecia e à qual pareceram novas. malgrado sua ética declarada de indife rença pelo mundo. não foi nada disso. então. ele constitui um fenômeno significativo. pelo retorno ao espírito filosófico. não hesitou em chamar seu velho mestre de “verme” e “prosti tuta”. os que estavam em desgraça ante o poder. como pôde. lorotas novas. um misósofo. Ele é uma espécie de sombra. Era famoso pela incontinência verbal com que difamava sobretudo os ausentes. chutando para a perife ria todos os que ousaram se opor a ele. pr ojetando no chão a imagem obscura e invertida que. enquanto em torno a fúria de seus adversários lhe assacava odiosas calúnias. de stinada a acompanhar a filosofia pelos séculos dos séculos sem desaparecer nunca. recém-exilado. C hegaram a chamá-lo de “ímpio” e até de “porco”. malgrado suas fraquezas. Essas balelas reaparecem. será sempre tomada como tal por quem quer que aborde os temas filosóficos vi ndo de fora e movido por interesses alheios aos do filósofo — pelos interesses do ho mem prático empenhado em “transformar o mundo”. Apenas reexibiu. ele chamou Aristóteles. em que a men te humana está destinada a cair de tempos em tempos. Epicuro. onde quer que se apresente uma nova defesa de Epicuro. pa ra mostrar. se como prática é apenas um embuste para lograr um público sem discernimento. o epicurismo vingou-se produzindo uma caricatura de história da filosof ia. Convém repassar algumas delas. Se assim é. forjada do mais puro ressentimento. É significativo que esse tipinho. de maneira inversa à do filósofo. Não poderiam. que ele seja um eterno antifilósof o. na obscuridade do ostracismo. A ÍNDOLE DO EPICURISMO § 14. traçou um r etrato moral do filósofo como um sereno asceta em seu jardim. os exilados. Após ter sido discípulo de Na usífanes por longos anos e haver tomado dele algumas das principais idéias que viria m a constituir o epicurismo. Por exemplo. as clássicas lendas que os epicuristas. entre as idéias que até hoje despertam algum interesse? Uma resposta possível é que. Não conseguindo fazer-se aceitar como filo sofia séria. o conferencista. roendo-se de inveja da filosofia dominante. Como diria Nelson Rodrigues. no campo da ação prática. em seguida.

Pode-se imaginar o que a nossa geração. Outros. é claro. Foi exata mente isto o que Pessanha deu a entender ao público do MASP. 61 e foi obrigado a fugir para a Ásia Menor. Aristóteles. não pode tê-lo ignorado. Nestas condições. que desapareceu da memória dos gre gos para só ressurgir três séculos depois. respondeu a ele com injúrias pessoais. Carlos García Gual no seu livrinho apologéti co 61. morto Aristóteles. Também está na hereditariedade epicúrea a propensão a jogar com as aparências para criar f alsas impressões persuasivas (a lógica dos sinais é uma técnica de fazer isso). A escola epicúrea floresceu em At enas quando a cidade. várias escolas foram fechadas e muitos filósofos — adversários potenciais de Epi curo — tiveram de emigrar: a nova seita. e o descrédito em que veio a cair o epicurismo. que o cultivaram ao longo dos séculos. em Atenas. combatiam Aristóteles porque reprovavam suas doutrinas e sua filosofia.. quase nada sobrou do aristotelismo.. Mas o fato é que Aristóte les. Assim. A campanha epicúrea de difamação deixou marcas profundas e foi ressuscitada no Renas cimento por Gassendi e Patrizzi” 62. no que é o maior e melho r dentre os estudos recentes sobre o assunto —. Mal havia alcança do certa posição como professor. se encontrava sob o domínio do t error.. Bernabé Navar . e logo em seguida sumiu de novo quase por completo. Mas enquanto Aristóte les. o fato é que.. mas somente um dos muitos cientistas estrangeiros na Academia. membro d a escola megárica. Epicuro. sem nenhuma seleção intelectual. encontrou campo livre para se expandir. 1985. Para completar. Exposición y Interpretación de su Pensamiento. Madrid. reed. visto com maus olho s pelo beautiful people. pensou e disse dos 63 Carlos García Gual. sem ser jamais incomodado pelos poderosos. Embora sua filosofia te nha sido severamente refugada pela posteridade. para escapar à morte. Demócares e Time u facilitaram a calúnia dos pósteros. pois. o ja rdim logo ficou lotado de senhoras mal casadas e de milionários entediados. Mas por que não deveríamos explicar por igual motivação os ataques dos adversários? Por que o mesmo procedimento deveria ser louvável num homem e condenável nos outros ? O hábito da difamação.. por exemplo. por sua vez. Curiosamente. enquanto viveu ele esteve no bem -bom. Eubúlides. para afetar ind ependência. É de estranhar que um tipo desses venha a ser chamado de porco? Os epicu ristas. Um suc esso. Teopompo e Teócrito de Quios odiavam Hermias (sogro de Aristóteles) e transferiram esse ódio a Aristóteles. transmitiu-se como um vírus às gerações seguintes de epicuris . sobretudo. Alianza Editorial.. Aristóteles teve poucos amigos e muitos inimigos. na época.. Em alguns. Ingemar Düring escreveu o seguinte sobre os ataques que forçaram o Estagirita a buscar o exílio: “Seus mais inflamados inimigos encontram-se entre os epicuristas . 62 Ingem ar Düring. pois foi um dos muitos professores cassados pela ditadura militar. a tradição anti -aristotélica era forte já em vida de Aristóteles” 63. É o que faz. estando doze mil de seus cidadãos com os direitos políticos suspensos. ia para o exílio. de teor político. que se passava com Epicuro? É falso que e le tenha sofrido qualquer perseguição ou ataque sério em vida. Ao contrário de Platão — escreve Düring. trad. Como ali se ace itavam indiscriminadamente quaisquer discípulos. ocupada pelo tirano Demétrio.. No monumental estudo que consagrou a Aris tóteles. era e continuou sendo sempre um estrangeiro. desculpam esses excessos verbais como manifestações da justa indignação m oral do mestre. e os epicuristas um punhado de bravos em luta contra a opressão. a ascensão dos pensadores politicamente inócuos em tempos de tir ania é um fenômeno que nós aqui no Brasil conhecemos bem. aliás. 1981. O epicur ista de hoje pode utilizar o prestígio dominante que Aristóteles veio a ganhar nos séc ulos posteriores. para criar retro ativamente a aparência de que no meio ateniense os aristotélicos fossem a classe dom inante. Pessanha. já às portas da Era cristã 64. que pregava o absenteísmo político e não oferec ia perigo para o regime. só reaparecendo no século XII.66 OLAVO DE CARVALHO aqueles de quem havia copiado alguma coisa: cobri-los de injúrias. Aristóteles “não foi chefe de uma escola . o móvel era o ódio político.

Pierre Aubenque. em Brice Parain ( org. e também as apostilas de meu curso Pensamento e Atualid ade de Aristóteles ( Rio. Aristote et le Lycée. I-III. México. V. 1990. pp. t. Gallimard. Düring. fasc. 64 . op. cit. Histoire de la Philosophie. 1994 ). 42. Paris. Universidad Nacional Autónoma.ro. 685-687. p. p. ). 1969 ( Bibliothèque de la P léiade ).. IAL. I. 41.

cujo ascetismo desenvolve as virtudes da fé e da esperança num s entido último da existência. como um interesseiro comércio com Deus. Pessanha atrás dela. de razões puramente filosóficas. para Epicuro. dar a essas picuinhas uma dimensão comparável à da morte de Sócrates ou à do artírio dos cristãos. ademais. Ele era. Não houve perse guição contra os epicúreos. O que houve. tínhamos boas razões para pensar que as circunstâncias do sucesso daquela gen te eram pelo menos um sinal da vacuidade das suas idéias? Epicuro. Não obstante. da Antigüidade até agora. Epicuro e seus discípulos mostrassem por vinte séculos uma profunda indignação ante tais ninharias. para proclamar a grandeza do mestre e squecido. para Epicuro. atravessa a escolástica sem atenuar-se em nada e penetra com a mesma força na Idade Moderna. ergueramse de tempos em tempos as vozes corajosas de alguns servidores da verdade. não o é menos o epicurista. de um ominoso silêncio — prossegue a lenda —. prolong a-se em Agostinho. o epicur ista é apenas mais mesquinho: não dá crédito a nenhum sentido último. foi apenas um zunzum de fofocas. Que. ao contrário. evidencia neles uma peq uenez de alma que os torna indignos do nome de filósofos. Embora apreciado. O filósofo do jard im. . No fundo. era totalmente desprovida de sentido. A corrente reprobatória começa com os estóicos e os aristotélicos. o alívio mais imediato e o mai s imediato prazer possível. não so freu perseguições: beneficiou-se com a perseguição que os outros sofreram. Se este é “interesseiro”. atual. ao alcance da mão”. a essa luz. Os motivos para a rejeição do epicurismo não foram quase nunca de ordem religiosa. tanto quanto os de um monge cristão. em vez de perdoá-las como manifestações banais da indiscrição humana. Mas o ascetismo epicúreo não foi nem poderia ser nunca o exercício de uma virtude gratuita. adornou o mestre com os traços de um santo asceta. graças a uma conspiração urdida por aristotélicos e cristãos e inspirada. que povo do mundo não daria trela a fofocas ao ver milionários trancarem-se com prostitutas entre os muros de um jardim? Chamar a is to perseguição. Entre os dois “comércios”. ressaltando que seu ascetismo era ainda mais meritório por não contar . e dec laradamente. com a expectativa de uma recompensa em outra vida. um instrumento em vista de um fim: a conquista da felicidade terren a. é a favor do cristão. O epicurianíssimo García Gual ressalta que. por literatos e por pens adores bissextos. é abdicar de todo senso do ridículo. Filosofia e ascetismo eram portanto. encontrando sua mais plena expressão em Hegel. na ética militar h indu. mas d ecorreram. que o epicurismo suprime. A história é outra. O asceti smo cristão surge. enquanto o ep icurismo assume a nobre aparência de um sacrifício gratuito. na moral estóica ou nos místicos mussulmanos que professam “renunciar ao Paraíso” pa ra contentar-se com o amor a Deus como um fim em si). como eles. qualquer idéia filosófica que não tivesse em mira o alívio da dor e a obtenção do prazer. A diferença está em que a recompensa esperada pelo cristão é espiritual e de além-túmulo. Ora. a tradição epicúrea. ao contrário. como Pessanha quis fazer crer que fossem os críticos de Epicuro? Ou. Epicuro foi tido em péssima conta por quase todos os filósofos. em geral. Caso haja nisto alguma diferença de mérito . provocado pelo fato de que a escola aceitava em seu corpo discente a té mesmo notórias prostitutas. em preconceitos religiosos. por exemplo. e a do epicurista é material e a curto prazo. pelo essencial. independente de q ualquer expectativa de benefícios (como se encontra. aqui e ali. meramente instrumentais. “não quer arriscar por nada a felicidade pessoal. Exige pagamento à vist a. como o dos cristãos. porém. Este não encontrava em Epicuro “a menor sombra de um conceito” e via no epicurismo tão-somente “p alavras vãs e representações vazias”. afirma ele. Outra lenda querida aos corações epicuristas é a de que a escola caiu no descrédito e no esquecimento.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 67 novos professores que entraram no lugar dos cassados e passaram a brilhar nas cáte dras com suas idéias politicamente inofensivas. entra na era Patrística com Lactâncio e Dionísio. enquanto Epicuro viveu. Éramos todos então uns caluniadores in decentes.

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chocando-se uns com os outros. ao menos em parte. No universo indeterminista. não o fazem por obri gação. que a matéria vibrada possa produzir. O mais audacioso dos enxertos foi. o que é aliás a única boa razão pela qual alguém pode aderir ao epicurismo — filosofia polissensa. chegam a coagular num canto qualquer do espaço um conjunto de coisas e seres mais ou menos estáveis. latinizado Petrus Gass endi. e em segu ida iriam embora para suas respectivas casas ou para onde bem entendessem. far iam durante esse breve momento gestos coordenados segundo a partitura. O Deus de Heisenberg não age so bre o cosmos como um relojoeiro sobre o relógio — como o Deus de Newton —. que não oferece outro fundamento à unidade de uma tradição senão o de uma somatória de ojer izas. que não compromete em nada a sua l iberdade fora dessa zona restrita. adiante § 19). Quanto aos devotados após tolos que mantiveram aquecida a batata epicúrea sob a crosta do gelo universal. alegre o u triste segundo o estado de seu fígado. Mas quem disse que o indete rminismo de Planck e Heisenberg tem sentido negativo? Quem disse que a indetermi nação dos movimentos dos átomos prova. e como que seguindo cada qual livremente o seu clinamen. Não é inteiramente exato o que foi dito acima. se mpre os houve. É. todas as combinações são possíveis. sem se perguntar se quer o que os outros estariam fazendo enquanto isso. mas sim com o o músico que. É preciso ter praticado muito Tetrafármacon para poder enxer gar estóicos e protestantes como agentes secretos do Papa. inclusive. O protótipo deles foi Pierre Gassend. e resolvessem ali tocar juntos. que a isto se reduzem respectivamente a flauta. Na dança randômica dos átomos. ou não assobiando nada. os organiza segu ndo a forma de uma intenção estética. de absorver na forma superior de uma harmonia qu aisquer sons. num bar. pelo trajeto que a cada um aprouvesse. fumando ou não fumando. mas sim contra o determinismo mecani cista que negava Deus com base nessas mesmas leis. de carro ou de trem conforme o caso. Descrito assim. obra original dele (com alguma ajuda de Nizan e García Gual): revigorar o corpo moribundo do epicuri smo com uma injeção de física moderna: Epicuro teria sido um precursor do indeterminis mo de Planck e Heisenberg. e que se utilizaria de outros meios se os houvesse e fosse o caso. como por exemplo um atomismo à Demócrito e a noção de Deus como causa eficiente do movimento cósmico. é claro. mas pelo efeito de uma coincidência estatística. enxertado de diatribes nietzscheana s. cada um assobiando pelo caminho uma melodia diferente. já que de outro lado ele defende teses absolutamente incompatíveis com o epicurismo. no século XX. onde cabem todos os contras. absor . acessív eis à percepção humana e regidos por leis que chamamos newtonianas. um tubo de metal ou uma tripa de carneiro. para isto. — a qual é capaz. o universo da física moderna pode parecer uma confirmação de Epicuro. A inexistência de leis físicas que governem o cosmos não era para ele um argumento contra a existência de Deus. o epicurismo de Paul Nizan. Gassend tomou-se por epicurista justamente porque não compreendeu Epicuro. A afi nidade de Epicuro e Gassend é apenas negativa: ela reside no ódio comum a Aristóteles. O ponto comum é a ausên cia de leis que governem a matéria. mesmo desagradáveis em si. sejam eles um caniço. M as a homenagem que Gassend presta a Epicuro é meramente verbal. digamos. novamente. Pessanh a disse admirá-lo como a um elo importante na tradição materialista (v. que Pessanha não inventou nenhuma lorot a nova. que os esnobes insistem em pronunciar à francesa Gassandí (1502-1655). para Planck e Heisenberg. e se por acaso. os átomos se movem s em nenhum roteiro predeterminado. já que a beleza não se funda nas leis da causalidade física e sim da intencionalidade e stética. indiferente ao mecanismo físico que produz os sons. a pé. A ord em da forma total sobrepõe-se aqui à ordem ou desordem das matérias e elementos. servindo-se. O ódio a toda a tradição filosófica ocidental inspira ria. a inexistência de um po der central regulador do cosmos? Pelo menos não foi assim que entendeu sua teoria o próprio Heisenberg. o trompete e a corda do violino. a unidade de uma negação. Assim também uns músicos que o acaso reunisse num ponto qualquer do cosmos.68 OLAVO DE CARVALHO A hipótese de que toda essa assembléia variada e milenar estivesse conjurada contra Epicuro movida tão-somente por preconceitos e fanatismos alimentados pela Igreja C atólica não merece discussão. de quaisquer meios ou me canismos que se apresentem.

vendo-a e superando-a ao lhe dar um sentido. A ausência de uma .

com base em leituras superficiais. c’est de mourir comme des imbéciles. no racionali smo clássico. O ú nico refúgio é a meditação resig ada. e que. que a constante de Planck dividida por 2p ). A fuga para o jardim “Il faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seuleme nt de mourir. de um mecanicismo. pois não deixa claro se a margem de erro afeta some nte a velocidade. ao fazê-lo. Mas o que lá dentro aguarda o meditante é uma conclusão . I. foi aliás quem introduziu no léxi co das autodefinições pedantes o termo agnóstico ). vezes vel ocidade.. Quer dizer que a margem de erro ao medir a posição x de um e n. o princípio de incertez a expressaria apenas um obstáculo de tipo operacional. No primeiro caso. O exemplo mais recente é Paulo Francis. requer sempre algum fundament o filosófico. e. Helvétius. onde átomos e homens buscam em vão escapar da dor perseguindo a miragem de um prazer impossível. era para Heisenberg a prova de que o cosmos é a expressão de uma inteligência criadora e não uma máquina inerte 65. acabou por se incorporar ao dogma ). que só redobra os sofrimentos. Laplace. Ademais. confessa ter chegado a inda adolescente à conclusão da inexistência de Deus. p. entre os muros do jardim. isto é. A fórmula do “princí io de incerteza” é ∆x • ∆mv ≥ h.” GEORGES BERNANOS Não deixa de ser irônico que o epicurismo tenha entrado no vocabulário popular como si nônimo de gozo sibarítico. op. The Great Ideas Tod ay 1990. Encyclopædia Britannica. La Mettrie. s em nunca mais voltar ao assunto. Civilização Brasileira. a origem fortuita e o caráter leviano de suas opiniões sobre assunto grave. durante uma meditação no bonde. Heisenberg buscou o seu em Malebranche e Leibniz. varrendo para b aixo do tapete o fato de que durante dois séculos o argumento maior em defesa dess a conclusão foi justamente o determinismo. absorvida pela Igreja através da sua versão tomista. Chicago. que só lhe foi mostrada décadas depois pelos adversários da t eoria. absurdo. Ele não é nada disto. É um diletantismo trágico. Trinta Anos esta Noite ( São P aulo. dan do mau exemplo aos leitores. premido entre a força cega do desejo e a força cega da fatalidad e exterior que o frustra eternamente. v ) nunca é menor que h. Francis — um autor que sob outros aspectos é d igno da maior admiração — não é o primeiro intelectual brasileiro que vejo admitir sem con strangimento. m. 1980 ). Companhia das Letras. não havia a menor dúvida: se o universo funcionava como uma máquina segundo leis imutáveis de causa-e-efeito. e até com certa vaidade. 1994. Mas dispensável mesmo é a hipótese deter mi65 § 15. Porém o mais esquisito em casos dessa ordem é a afoiteza com que muitos in telectuais concluem do indeterminismo físico a inexistência de Deus.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 69 causalidade rígida. É verdade que o indeterminismo de Heisenbe rg pode ser usado contra o realismo filosófico ( uma doutrina que. isto é. ter encontrado mais tarde. ou também a massa. filosoficamente. d’Holbach e tutti quanti. Esta e outras mancadas terrificantes são mostradas impiedosamente por Stanley L. não prova nada. mas isso não o coloca de modo algum contra o espiritualismo em geral. V. uma confirmação nos argumentos de Heisenberg. comete uma segunda leviandade. m. Ao contrário. que no seu livro de memórias. naquilo que podia haver de mais antagônico ao nonsense epicurista 66. v. Para Pierre Bayle. É na verdade uma afirmação ambígua. Rio. Muitos adeptos do indeterminismo simple smente deram por pressuposta esta última alternativa. que se compraz n a derrota do homem. por si. 52 — na verdade um segundo volume. cit. uma inexatidão in erente à natureza mesma da realidade física. Mas de fato o exemplo é inócuo: a mod a já pegou. no segundo. continuação de O Afeto que se Encerra. Cap. O que essa concepção nos descreve é um mundo caóti co. então Deus se tornava uma hipótese di spensável ( o mais feroz dos deterministas. Werner Heisenberg. 66 É no entanto um lugar-comum entre inte lectuais de escassos conhecimentos filosóficos alegar as teorias de Heisenberg com o argumentos a favor do ateísmo. os argumento s de Heisenberg não são tão sérios quanto o imagina o leigo deslumbrado. Jaki em “Determinism and Reality”. sobretudo jovens. multiplicada pela margem de erro em medir o seu momento ( massa. Ou seja: um defeito da ciência física pode ter sido projetado sem mais nem me nos sobre a estrutura do real. Uma teoria física. acidentalmente. antes mesmo de terem chegado a perceber a ambigüidade.

pode haver alguma inexat idão. sem qualquer esperança de outra vida. quase q ue por definição. toda fé religiosa coexiste. O caminho do asceta epicúreo é aquele que o mat erialista Heinrich Heine viria a descrever num breve poema 67: nista. Ademais. rigorosamente.inescapável: a certeza da morte. É que o ateísmo. O ateísmo militante é. Só resta então e mbelezar a imagem da morte. com as dúvidas e as crises. A história do ateísmo militante é uma suce ssão prodigiosa de intrujices. Não se conhece um único caso célebre de pen sador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura. ao passo que o ateísmo militante tem sempr e a típica rigidez cega das crenças de adolescente. já que ambas podem ser usadas igualmente como “provas” do que se deseja provar per fas et per nefas. . um gr ave sinal de imaturidade intelectual. prévia a ualquer consideração racional do assunto. A mensagem final d o epicurismo é. em geral. por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. o nada. bem como sua contrária. fazer a apologia do esquecimento. é uma opção de juventude. 67 Cito de memória. por si. e uma vez tomada não lhe resta senão racionali zar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos.

Cada qual fechou-se no cubículo das suas angústias particulares. Mais que da mera depressão política. professor esquerdista expulso da cátedra. E picuro não foi só um teórico da necrofilia. foi trabalhar na Edit ora Abril. Expulso da terra. pe rdera todo atrativo. um niilismo.” Mas. sem uma porta para o céu. onde editou Os Pensadores. esquecimento. 68 . Mas a comparação das épocas ainda está imprecisa. A época d e Epicuro ansiava por alívio. de Caetano Veloso. Numa terra que se estreita sob o jugo dos tiranos. O epicurismo aplanava este caminho. sono. É. O epicurismo é. extintos os sonhos de reforma moral e política que haviam alimentado as discussões públicas. O filósofo Boécio. não deve ter sido alheio ao s u sucesso: vale por um slogan. a rigor. A músi ca popular assinalou a mudança dos sentimentos no ambiente universitário: o protesto aberto e combativo desapareceu das letras de canções. nos anos que se seguiram a 1968. “auxiliar” ou “medicar”. Mas o jardim de Epicuro tinha muitas plantas: umas alucinógenas. na gradação seriada de uma pedagogia do abismo. que predispunha os homens a aceitar a s mais aviltantes promessas de alívio. típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo — escreveu Jakob Burckhardt — é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ru it. Minha geração — que é a de Pessanha — levou fundo a experiência da solidão e do exílio. O Tetrafármacon misturava todas elas. um convite à fuga pelo “vôo d o pensamento”. Foi provavelmente nessa ocasião que ele desc obriu um alívio na farmacopéia epicúrea 68. de compressivo desespero. Mas a raiz do seu êxito está em outra parte. separando e isolando os indivíduos. um silêncio temeroso baixara so bre as praças. Nesse quadro. a debandada geral que se seguiu ao Ato Institucional no 5 levou mui- tos à evasão pelas drogas. buscas e te esforças. serve para integrar os átomos humanos num sentido maior da existência e os redimir da sua insignificância.70 OLAVO DE CARVALHO Tu perguntas e investigas. Marx e Guevara foram trocados por Allan Watts e Timothy Leary. A religião oficial. seu sucesso derivou de um estado de completo cerceam ento espiritual. para os quais o esgoto é uma esperança. fechadas as principais escolas filosóficas. Para o esquecimento eterno. um a utêntico hipnotizador. A mística intelectualizada ficara fora de alcance.” Não preciso ir longe para buscar um exemplo. e no fim te enchem a boca com um punhado de terra. um perseguido político. um a forma requintada e falsamente prazerosa de niilismo. em que a voz dolorida de Elis Reg ina suspirava por “uma casa no campo” — refúgio do militante que o desengano transformar a em diletante. outras anestésicas e outras mortíferas — a resposta final. o caminho d o céu também estava fechado. desmoralizada pela crítica filosófica. Serviriam como jingles do Jardim de Epicuro. capaz de adornar com todas as fl ores da retórica o caminho que leva a sete palmos abaixo da terra. Seu próprio nome. em suma. com o exílio dos filósofos. meditava na prisão sobre os benefícios interiores do isolamento forçado: “É a terra vencida que nos dá as estrelas. sem qualquer saída para a ação coletiva que. E isto lá é resposta? Que a perspectiva deste desfecho acachapante pudesse atrair para o epicurismo um a multidão de devotos. cujo título me escapa. que davam um sentido de participação histórica ao s intelectuais brasileiros. dando lugar à lamentação melancólica. fizeram ali grande sucesso “Felicidade”. na ausência de uma consciência filosófica pessoal. ao desesperado ateniense daquele tempo só restava um caminho: o caminho para baixo. Por essa época José Améri co Motta Pessanha. pela embriaguez erótica. mas um mestre do discurso encantatório. a intelectualidade foge para o silêncio do campo para buscar a vida interior. de uma raiz que significa “socorrer”. Jim Jones avant la lettre. É uma filosofia de homens reduzidos à condição de r atos. A sement e da persuasão não germina se não é plantada no solo fértil dos anseios coletivos. e uma outra. no tempo de Epicuro. Esmagados os ideais da esquerda nacionalista. pela pseudomística “oriental” importada da Califórnia. o caminho do céu. é coisa que surpreende. Para sete palmos abaix o do solo. o afluxo de d iscípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada. o primeiro sist ema completo de pensamento niilista que surge na história do Ocidente. Arrasadas as instituições democráticas .

meu livro O Imbecil Coletivo. Cap. .Sobre o evasionismo dos intelectuais logo após o AI-5 e sobre o ingresso das teori as niilistas no cenário brasileiro. v. 8.

logo em seguid a. onde houver “nós”.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 71 Mas o niilismo. Vimos. Karl Marx. 69 Por princípio. Logo. Em dialética é assim mesmo: quando a treva da contradição se adensa até o intolerável. É refratário a qualquer projeto de ação. ele tenha subido ao pódio do MASP para convocar o povo a evadir-s e para o jardim de Epicuro? Como esperava despertar a platéia para a luta política. e parec emos não ter obtido nada mais que um nó indeslindável. primeiro. que apreciou no epicurismo sua crític a da religião oficial grega e sua mistura “dialética” de teoria e prática. que Pessanha não podia estar desinformado desse objetivo. Mas que o leitor não desanime. não uso jamais o plural majestático. desde vários anos antes. bem viu a peric ulosidade política da sua moral evasionista. . justamente na hora decisiva em que a filosofia emergia de uma longa germinação subterrânea para assumir à luz do dia seu papel de condutora da política nacional. genial por transcendente à imbecilidade dos elementos singulares que o compõem. Fomos aos poucos juntando os fios desta investigação. impesso al. Não se pode transformar o mundo fugindo dele. é que es amos chegando mais perto do desenlace que tudo esclarecerá. leitor. Pois havíamos começado — nós: eu e o leitor 69 — por constatar o objetivo político a que v isava. preparando o ter reno para a transformação da filosofia em arma política a serviço de determinados fins. Porém aí o mistério que este livro está investigando chega à mais densa obscuridade . por ser um dos mais eminentes membros do grupo que planejou o ciclo. há de tratar-se ambos. ele já vinha. o ciclo de conferências sobre a Ética. segundo. p rincipalmente de ação moral e política. propondo o nada. Como se explica então que. conscientemente. se ao mesmo tempo a convidava ao sono do esquecimento? Se desejávamos compreender as intenções de Pessanha. neste momento parecemos estar mais longe que nunca de alca nçar uma resposta clara. não propõe nada. dois joões-ninguéns. como editor da série Os Pensadores. porque. e não de algum pretenso sujeito coletivo.

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MARX - .LIVRO III .

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. que assume declaradamente aquilo que em Marx estava apenas insinuado e implíc ito: a abolição do conceito de verdade objetiva e a submissão de toda atividade cognit iva às metas e critérios da praxis revolucionária. A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO § 16. e já não a força das causas eco nômicas objetivas. Também é compreensível que. o teórico do “historicismo abso luto”. é uma herança mórbida qu através de Marx. Este s desenvolvimentos manifestam à plena luz do dia tendências que 70 A supressão do conhecimento objetivo não é. para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não h ouvesse nenhuma rel ação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —. a tradução verbal da crença produzida pelo hábito. está reduzida ao papel de uma racionalização a posteriori. seja a mola mestra que move o progresso e dispara a revolução. como se viu no § 10. em Marx com o em Epicuro. meus livros A Nova Era e a Revolução Cultural. O leitor deve ter reconhecido a sentença anterior: é a 11ª Tese sobre Feuerbach de Kar l Marx. no epicurismo a prática é que produz artificialmente a condição psicológica qu e tornará crível a teoria. veio do epicurismo. Epicuro e Marx “Marx. no entanto. ao preferir antes ‘transformar’ do que ‘compreender’ o mundo. II e III. o ímpeto. a percepção do mun do. suprime. 71 V. era levado a avaliar um pensamento por sua capacidade de mobilização. a relação lógica entre a prática e a teoria. A capacidade das es querdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atroc idades do regime comunista — e. e nos precipita numa crise a lucinatória onde já não há lugar para o recuo teorético que fundamenta a noção mesma de verda e objetiva 70. que essa simbiose. da ciênc na propaganda ideológica 71. e O Imbecil Coletivo: Atualidades Incultura is Brasileiras. para que se torne semelhante à teoria. mas sua prática altera. a bolindo a distância normal entre a esfera da ação e a da especulação. a ambição — da alma individual ou das massas revoluci onárias — torna-se o fundamento único de uma cosmovisão onde a teoria já não serve senão para estimular retoricamente a ação prática ou para. em Marx. Caps. Se norm almente a teoria é o fundamento lógico da prática e esta é a exemplificação daquela no campo dos fatos.” Alfred FABRE-LUCE Epicuro inverte. numa outra e paralela linha des sa evolução. mas é uma herança epicúrea. já não haverá distanciamento crítico suficiente para julgá-los. mas celebrados pela teoria como norm ais e desejáveis: a teoria não tem aí nenhum valor autônomo. Caps. legitimar como s atisfatório o que quer que tenha dela resultado na prática. mas de transformá-lo. mediante exercícios. 2-5. § 17. Mesmo que a ação produza efe itos totalmente diversos dos esperados. Tudo leva a crer que a convivência do jovem Marx com a filosofia de Epicur o — matéria de sua tese de docência — deixou no marxismo acabado marcas mais profundas d o que os estudiosos geralmente supõem e do que ao próprio Marx adulto interessou dec larar. mas uma co nseqüência inevitável do conceito marxista da natureza. O desejo. adiante. o desejo erótico. A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel. A teoria epicúrea não de creve o mundo percebido. Não se trata de compreender o mundo. exterminado o comunismo na URSS. . V. Não é de estranhar que a evolução de um século do pensa mento marxista tenha desembocado em Antonio Gramsci. A natureza para Marx só tem exis tência como cenário da história ou como matéria branda e plástica a ser moldada pela ação hum na. e o discurso teórico não será nada mais do que o elemento discu rsivo da prática.CAPÍTULO VI. um objetivo declarado. de uma apologia do fato consumado. Fritjof Ca pra & Antônio Gramsci. que leva a Reich e a Marcuse. uma vez realizada a ação. Acontece. e eles serão não somente aceitos. a diferença entre o efetivo e o possível. a absorção da lógica na retórica.

a marca de um ressurgimento nazifascista. a enxergar os males do com unismo.76 OLAVO DE CARVALHO em Marx já estavam latentes como heranças do seu epicurianismo de origem. No mesmo sentido. quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquis ição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável. tes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resulta do da maldade fortuita de um só homem. 1989. Merquior mostra que os elementos românticos e irracionai s eram fortes no pensamento do próprio Lukács. um tremendo senso do teatro. para a ação coletiva que vai transformar o mundo. mesmo tímido . para fechar-se no jardim com a comunidade dos ele itos. trad. São Paulo. Da Crise da Universidade à Crise da Sociedade. expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheio s à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — o u mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética. pel a dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima. Em vão pensadores marxistas como Lukács ou Horkheimer. ou. Nova Fronteira. quando crimes de muito menor escala ba staram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano. José Guilherme Merquior. Rio. mais afin ados com as tradições clássicas do Ocidente e ansiosos de filiar Marx a elas. sem qualquer raiz na ideologia por ele prof essada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo s ubstancial. de intelectua is. da prestidigitação. o passado r ejeitado volta com redobrada força 72. depois da queda do Muro de Berlim. do fingime nto. pela sua capacidade quase diabólica de o tran sfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes d o que são? Que Marx tivesse. não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as s uas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. como a de falo aqui ). Trata-se d e neutralizar a inteligência humana. mas com ênfase positi va. fugindo do mundo. para fora. brasileira. colocando-a no encalço de metas utópicas que. de artistas. se não pela formidável potência ilusion ista inerente à raiz mesma d marxismo. 1990. Ensaios sobre Lukács e Benjamin . Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. do fran quismo ou das ditaduras latinoamericanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que a quela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos a bstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou supra-hist cas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de e xperiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos. e também Allan Bloom. Mas é uma d iferença de escala antes que de natureza: nos dois casos. O Declínio da Cult ura Ocidental. trata-se de envolver ser es humanos numa praxis absorvente e hipnótica. protesta ram contra a invasão do irracionalismo que. trad. Marxismo e epicurismo parecem ir em direções op ostas: este. Edusp/Persp ectiva. Romantismo e Messianismo. Freud. a reconhecer qualquer conexão entre esses males e o ideal socialista. trad. 1987. R aul de Sá Barbosa. que os afastará para sempre da tentação d a objetividade. e de outro lado possa crer que o ide al socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das corren72 Sobre a contaminação irracionalista do marxismo no curso da sua evolução ( não na sua raiz . Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita. a absor verão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem ca ir longe das finalidades sonhadas. v. durante quase um século. mas não superá-las. É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem. argumenta Michel Löwy. São Paulo. aquele. como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática. Best Seller. entre os mais notáveis do século. term inou por contaminar toda a esquerda mundial: como dizia o dr. sobretudo a partir da década de 60. O fato de que tenham ressurgido ao longo da evolução do marxismo mostra que Marx soube recalcá-l as. O Marxismo Ocidental. é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente . pessoalmente.

Rumo à Estação Finlândia. Edmund Wilson. capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada 73 V. Quando. em Epicuro e nele.73. e em seguida co nstatamos ser idêntica. Os Intelectuais. . no entanto. e Paul Johnson. a mixórdia proposital e alucinógena da teor ia na prática e da prática na teoria. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as con sciências. então compreendemos a virulência inesgotável da hera nça epicurista. notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem M arx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos.

Mas a alteração. se ocuparam de interpretar o mundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 77 novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura. tomados indistintamente. essencialmente. ANTONIO MACHADO. Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” Antes que te derribe. na medida em que deixa de ser ma simples propriedade ou um acidente da substância. é a eles que cabe convocar a uma mudança de atitude. 2. assim como tomar consciência de uma neuros e não é o mesmo que estar curado. a substit uição se dá apenas dentro da esfera do imaginário coletivo. A 11ª Tese sobre Feuerbach propõe. mas um novo tipo de theoria. con su hacha el leñador. Cap. antes que rojo e n el hogar. ou: o rabo e o cachorro”. como o doente histérico par a o qual imaginar é sentir. es kommt darauf an sie zu verändern” — frase do manuscrito reproduzido em fac-símile em The German Ideology . Cabe-lhes agora transformá-lo. aos conceitos trad icionais de theoria e de praxis. nesta tese. quiero anotar en mi car tera la gracia de tu rama verdecida. Sua convocação não se dirige aos homens em geral. que Marx opõe à atitude cow. O leitor que preferir saltar direto para o § 18 não perderá o fio do argumento . mañana. V. e desinteressada da theoria. nem muito menos aos homens da praxis. Ao adotarem a atitude in versa à da maioria. lanza de carro o yugo de carreta. Em que consiste a atitude interpretativa. de fazer teoria. otro milagro de la primavera. al borde de un camino. A maioria dos homens esteve sempre envolvida com a praxi s. temos de admitir que de fato os filósofos. apenas se privará de uma demonstração mais rigorosa — e mais entediante. e da qual jamais pensaram em sair? Não pode ser este o sentido da tese de Marx . é na verdade uma substituição. item 3. Para sab er em que consiste essa mudança. O verbo verändern vem da raiz ander = “outro”. da contemplação da verdade. mediante uma súbita mutação ou ro ação do quadro perceptivo um snapping. Ora. olmo. 1964. Posso explicar melhor e dar um fundamento mais “técnico” ao que foi dito no parágrafo an terior. A quem se dirige a convocação? Se Marx se reporta. ardas de alguna mísera caseta. III. que por sua vez consistirá em praxis. A Nova Era e a Revolução Cultural. antes que te descuaje un torbellino y tronche el soplo de las sierras blancas. diriam Conway e Siegelman. mas especificamente aos filósofos. Mi corazón espera también. e. hacia la luz y hacia la vida. se os homens nãofilósofos estiveram desde sempre o cupados em transformar o mundo enquanto o filósofo o contemplava e interpretava. Ele não apenas pensa diferente do não-ma rxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes. ocupados p or seu turno com a praxis. Daí a invulnerabilid ade do marxista convicto à argumentação racional. de modo que a tradução mais exata seria “alterá-lo”. os filósofos faziam um contrapeso dialético à praxis: a vida contemp lativa opunha-se à vida ativa. porque julgavam que esta era a sua tarefa específica. desde sempre. “A un olmo seco” 1. “Até agora — diz a 11ª Tese 74 — os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. Ma s isto também significa que abjurar expressamente do marxismo não é o mesmo que libert ar-se instantaneamente de sua influência. olmo del Duero. § 17.” 74 “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert. enquanto os demais homens o transformavam. Marxisme pas mort: ele subsiste como um complexo n o subconsciente dos que o rejeitaram sem criticá-lo a fundo. Não se trata de inaugurar só uma nova prax is. antes que e l río hasta la mar te empuje por valles y barrancas. reproduzido em O Imbecil Co letivo. Progress Publishers. y el carpintero te convierta en melena de campaña. n a medida em que o mundo real não pode realmente ser substituído por outro. uma mudança básica na atividade do filósofo enquanto tal. Os filósofos interpretavam o mundo. esboço uma psicanálise do marxismo residual de nossos intelectuais. precisamos entender qual a atitude que a antecede u. que os distinguia dos outros homens. Portanto. São eles que estiver am ocupados somente em interpretar o mundo. q ue sentido teria convocá-los a uma praxis na qual já estão envolvidos por hábito imemori al. No meu ensaio “A superi oridade moral das esquerdas.

Mos- . S.. Ryazanskaya. trad.

eram para o filósofo signos. num sentido em que os demais homens também po diam contemplar e olhar. Dito de outro modo. buscava nelas a sua significação eterna. A do filósofo. cada qual. porém já era a dos eleáticos. do sensível ao inteligível. tran sitório e aparente ao universal e estável. do ser verdadeiro. que faziam dela. encarregado de levá-las na escalada e descida atra vés dos mundos ou planos de realidade. árabes. e também por ser estável. “ente”) e esvelamento”. A conseqüência “prática” disto é portentosa. contidas eternamente na Inteligência Divina. ou pr etende ter. é a es ta última que devemos reportar-nos. o homem filósofo saltava de um p lano para o outro: do plano da fenomenalidade instável. propriamente. Este plano era considerado superior. patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava ocult o. a diferença entre platonismo e aristotelismo. (É verdade que o termo praxis tem em Marx. estética. enganosa. revelação da verdade oculta). pois. na categoria da eternidade. capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta. movediça. não se ocupava ge nericamente de contemplar. entre a theoria e a praxis? 3. como o pégaso ou o unicórnio. a palavra theoria tinha uma acepção precisa. para o p lano das essências. o arquétipo de “cavalo”. Nisto consistia. ela se baseia na crença de que todos fatos e todos os entes são fenômenos — “apareci- mentos” — de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilid s. Por exemplo. e sim o sentido grego). para os fins de sta análise. Pela razão. Para Platão. de sela ou de t rabalho etc. Era correlata das noções de logos (“razão” ou “linguagem”). mas isto não vem ao caso. do particular. 3. as coisas. basicamente. o filósofo. Era um tipo muito determinado de contemplação. a beleza dos seres humanos e da paisagem etc. ao elevar o objeto até o nível da sua idéia. desde o ente fenomênico até o se r essencial. Enfim. Pode manifestar-se em ser es míticos que “participam da cavalidade”. uma dignidade e uma realid ade superiores. A theoria. re sgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo. de eidos (“idéia” ou “essência”). não podemos supor que ti vessem em mente o sentido marxista da palavra praxis. eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades. por assim dizer. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos). contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes. portanto. as essências con stituíam um mundo separado. Pouco importa. a postura i nterpretativa do filósofo grego. Em suma. Na filosofia grega. mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenali dade imediata a um estrato mais profundo e permanente. O filósofo grego contemplava as cois as. O homem teorético. isto é. patenteando (al etheia) o seu verdadeiro ser (ón). o núcleo inteligível era im anente ao mundo sensível. todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro. Por exemplo. Esta contemplação conferia a essas coisas. uma consistência ontológica superior. para Aristóteles. por ab ranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos. o deus psicopompo. Qual a diferença essencial entre a atitude conte mplativa — ou interpretativa — e a atitude transformante. seu sent ido “eterno”. “guia das almas”. transcendente. por su a vez. superior à aparência fenomênica e transi tória. pode manifestarse em cavalos pretos ou malhados. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a par tir do platonismo. ou Mercúrio. os fenômenos. em seguida o filósofo dizia (logos) o que era ess a coisa.1. utilitária ou o que quer que fosse. essência ou arquétipo . Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos céleb res e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. percherões ou mangalargas. eterno. a razão. isto é. se os filósof os antigos a que Marx visa faziam theoria em oposição à praxis. uma contemplação filosófica e não outra qualquer. a possibilidade “cavalo”. imutável. de ón (“ser”. sub specie æternitatis. portanto. uma acepção própria e diferente. isto é. sei não . a c have interpretativa era a razão ou logos. Entre o signo e o significado. de olhar. à luz da ete rnidade. Ao conhecer um arquétipo. não. ao investi gar o ser do objeto. que ele decifrava em busca do significado ou essência. A contemplação do homem com um podia ser lúdica. A interpretação (hermeneia) d as aparências consistia nessa subida de nível ontológico. com um motivo específico e um objetivo esp ecífico. e mais um sem-número de essências não m anifestadas ou possibilidades).78 OLAVO DE CARVALHO transformante? Sendo theoria e praxis conceitos clássicos da filosofia grega.

o que a coisa é atualmente e .

mas uma teoria da praxis. 3. a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas . apenas um meio. A tendência universal do homem à econ omia de esforço mostra a sujeição dos meios aos fins. uma transição ou passagem. da qual saímos apenas p lo recuo reflexivo posterior. “o bonde é útil porque me serve para levar-me à casa da mi nha amada. fluxo de impressões. A ação produz apenas transformação. em outros planos de realidade etc. po rtanto. transforma a coisa. a praxis começa por negá-la. atualiza uma dessas possibilidades. para outros. posso fazer com o cavalo ou com a árvore. É um meio ou instrumento a terra que o homem lavra. mas somente de restaurar o senso de uma hierarquia de v alores que parece ser inerente à estrutura do indivíduo humano são. do que ela pode significar para mim. no sentido aristotélico. rebaixá-la a um meio ou instr . excluindo imediatamente todas as demais. de condenar a praxis em nome de uma u tópica vida contemplativa. mas por alguma outra coisa: o meio ou instr umento é um i termediário. localiz ada no espaço e no tempo. o objeto sobre o qual incide é sempre e necessariamente um meio. ao contrário. o ente é sobretudo matéria. para a praxis. Por exemplo. Se a praxis requer alguma teoria. aquilo n que num certo ponto do ca minho será abandonado para ceder lugar aos fins. Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si. e depois em lixo.3. toda a latência de possibilidades q ue ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular. Não se deve confundir esta oposição com a do “estático” e a do “dinâmico”. posso queimar a árvore ou comer a c arne do cavalo: se a teoria respeitava sobretudo a integridade ontológica e mesmo física do objeto. por não admitir que o objeto seja o que é e por exigir que ele se transforme em outra coisa: não interpreta. e o explic a e integra no sentido total da realidade. é um meio ou instrumen to o carneiro que ele engorda e mata. ela já não pode transformar-se em mesa ou estante. Como dizia Miguel de Unamuno. aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é. de qualquer espécie que fo sse. mas por força da intervenção humana. mas uma teoria da ação que ele pode sofrer. ao contrário. A praxis. 3. potência latente no homo sapiens. evidentemente. isto é. mas transf orma. mas esta para que me serve?”. não por seu dinamismo própri o e interno. Para o homem da praxis.2. 3. Se investigo o objeto “árvore” para captar o seu arquétipo. ind ependentemente do que eles sejam. como também o capital. tomo consciência d o que ela é. isto é. se dirige essencialmente aos meios: como toda transformação visa a um resulta do ou fim. C omo a praxis é sempre ação humana. Já não será uma teoria do objeto. de amor. dentro do círculo de meus interesses imediatos. Para o filósofo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 79 empiricamente. porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemp lo. isto é.4. mas de contemplação. Não é uma teoria do ser. De cadeira. Inversamente. A prática. o fenômeno. das ações transformadoras que pode sofrer. sem via de retorno. é claro. pela “negação” teorética e crítica da ação consumada: o espírit osófico. é um meio ou instrumento a árvore que ele abat e. a aparência sensível imediata é sobretudo um signo ou símbolo de um se r. que trans forma. isto é. só se atualiza como reflexão sobre as desilusõe s do homo faber 75. e a praxis se interessa pelo que ele não é. aquilo que é finalid ade ou valor em si não é objeto de praxis transformadora. mas tudo o que ela poderia ser. e muito menos em árvore. Aquilo que é meio ou instr umento nada importa nem vale por si. se a transformo em cadeira. então todo objeto será sempre e unicamente enfocado sob a categoria da paixão. Porém. ilusão. ela só pode agora transformar-se em cadeira velha. A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém. o ente é so bretudo a sua forma. mas sim o que. Não se trata aqui. Era neste sentido que as escrit uras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento. mas apenas aqui lo em que ele pode se transformar no instante seguinte. a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar) . Posso. É meio ou instrumento o trabalho. não tentará investigar o que o ser é no corpo da realidade total. realizando uma delas. limita suas pos sibilidades. Por exemplo . esta teoria já não versará sobre a natureza do ser. às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. do que poderia ser. uma árvore. Já não interessa o que é o cavalo ou a árvore no sistema total da realidade. Para a theoria. pelo ser secundário. A praxis. aquilo que faz com que ele sej a o que é. isto é.

2e éd. Éric Weil. Paris. “Introduction”.. Vrin. .umento do meu 75 V. Logique de la Philosophie. 1967.

O o bjeto amado.3. a intelectualidad e de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudoheroismo do nonsense. Mas conheço os quadros de Van Gogh na medida em que sejam conservados intactos para minha contemplação. Rio. Há uma diferente dosagem na combinação do teórico e do prático para o conhecimento dos vários tipos de seres: aquilo que para mim é meio e instrumento. 1 .4.80 OLAVO DE CARVALHO prazer. mas fim. No entanto.4. escandalizados. A filosofia da praxis contém em se u bojo. 76 3. portanto. M as a praxis procede necessariamente pela negação do objeto. é inverter o sentido de toda ação humana e negar a consistência ontológica da real idade. só posso conhecê-lo ao usá-lo. É transformar o universo numa imensa máquina-de-desento rtar-bananas. em que o amo. nem praxis pura nem pura contemplação. mas o que lhe desagrada: ele entrega-se à contemplação por gosto. 3. após a crise mundial do marxismo. em que muitos t eóricos. Ambos esses limites são metafísicos. por pedantismo ou desenfado. num clinamen gratu ito e arbitrário que o homem. “Por que tanta libertinagem?”. Van Gogh conheceu pincéis e tintas na medida em que os usou e. verão uma traição ao marxismo. texto de abertura do simpósio Libertinos /Libertários. que no fim das contas não serve senão para afastar os obstáculos que nos separam do gozo contemplativo. 4. sem mudá-la no que quer que seja 77. não é meio. Um escritor de 78 Subjugação. O homem não transforma o que l he agrada. aspectos da real idade que só podem ser conhecidos pela praxis. Choderlos de Laclos et caterva ). aquilo que para mim é finalidade e valor em si. já em Marx. Capítulos de uma Autobiografia Interior ( apostila ). que: 3. Rio. Olavo de Carvalho. É evid ente. Só a finalidade suprema pode ser objeto de pura contemplação. IAL. a negação do sentido da realidade. Eis aí. num mundo sem sentido. conclui-se que estatuir a prática como fundame nto e valor supremo do conhecimento é instaurar o reinado dos meios. que torna o trabalho agradável em si e lhe dá um valor independente do seu pr oveito prático). opõe ao arbitrário e gratui to clinamen dos átomos 78.” Há. 3. É encarar o real no seu todo — nele incluídos o homem e sua História. 77 V. e a theoria pela afirmação da sua plenitude e do seu valor como fim. Da C ontemplação Amorosa. em que defendo a sua integridade ont ológica contra qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa.1. mas neste caso já não tenho amor por ela. Ao contrário.4. a raiz da nietzscheização da esquerda. no qual no entanto alguns profissionais da cegueira. tem primazia sobre a prática. só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder. usando. De tudo isso. Adauto Novaes — h erdeiro da flama apagada de Motta Pessanha — crêem enxergar um papel libertador.2.4. então. transformá-lo. u tilizá-lo para alguma outra coisa. gastou. V. como objetivo e final dade. e jamais alcançados no mu ndo da experiência real. é claro. Funarte. o rgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que. Somente o objeto tot almente desprezível. bem como da História tout court. a apologia do absurdo. sem consistência ontológica própria nem qualquer valor em si pode s er alvo de pura praxis. conheço-o na medida em que o contemplo. se o é de verdade. há uma nítida distinção hierárquica: a contemplação. oculta mas nem por isto menos potente. Não desejamos mudá-lo. 1995 — um exemplo edificante de como o culto pedantesco de autores menores pode coexistir num mesmo cérebro com uma profunda ignorância da H istória da Filosofia. como o sr. que na prática mesma há um elemento lúdico e contempl ativo. Adauto Novaes. Não existe. qu e veio a ser resgatada quando. bem como o conjunto das ações individuais praticadas pelos seres humanos — como um vasto instrume nto sem qualquer finalidade. à prática por necessidade (sem contar. e sim desfrutar de sua presença sem alterá-la. no mundo dos seres físicos. outros que só o podem pela theoria. Há ape nas dosagens. manipulação e uso de seres humanos ( ou de animais ) com vistas ao prazer erót ico — esta é a definição mesma do libertinismo ( Sade. ao contemplar e amar somos nós que nos transformamos: “Transforma-se o amador na coisa amada. pela sua redução a meio e in strumento. É óbvio que se trata de uma herança epicurista i n consciente. desprezando o s fins. e sim pelo prazer como tal 76. segundo a escalaridade do valor dos fins e da oportunidade dos mei os.

A elevada taxa de intelectuais pedantes e de ricaços esteticistas nas fileiras da esquerda — um fenômeno universalmente conhecido — não deve. afirmando na prática o q ue nega na teoria: a bondade acidental e diletante do imoralista parece envolta no encanto de uma gratuidade divina. Daí a vaidosa inversão que. mas sim a manifestação perfeita do espírito da coisa: lu tar por “uma sociedade justa” é o diletantismo ético daqueles que não acreditam em ética nen huma exceto como convenção arbitrária.995. Daí também a facilidade com que essa gente produz sucedâneos de justificação “ética” . desprezando a obediência a valores morais explícitos. portanto. e muito menos uma contradição. negado àqueles que simplesmente e humanamente fazem o que lhes parece certo conforme uma regra moral. ser mera coincidênci a. louva quase como a um santo o homem que age bem segundo uma ética em que não crê. mito ideológico ou exp ediente tático.

John Anthony West.6. ao passo que o valor de troca é aciden tal. enfim. mas que está nos esquemas mentais subconscientes ou inconscientes do próprio Karl Marx. v. 3. É este seu caráter de idealismo subjetivista coletivo que dá ao marxismo o seu tremendo poder ilusionista que emb riaga e perverte. e se ante a imensidão do cosm os a atitude “teórica” não é a mais sensata. Desenvolvimento e Cultura. São Paulo. o não menos notável e não menos esquecido livro de Mário Vieira de Mello. comparava o materialista durão a um John Wayne da filo sofia. mas a humanidade histórica. o ensaio magis tral — e injustamente esquecido — de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A Cinza do Purgatório.5. de certo modo. Nacional. Mas que na filosofia de Karl Marx ess a inversão ocorre. e da qual mesmo homens de elevada inteligência às vezes se deixam contaminar. com a única diferença de que tem como sujeito não o indi víduo. mas mediante a manipulação dos o tos e sua transformação em outra coisa. diante de cuja praxis o universo natural — a “matéria” — p rde toda substancialidade para se reduzir a mera matéria-prima da ação humana. a praxis não reconhecerá. valor-de-uso e valor-de-troca. então pergunto se a teoria da praxis não é uma monstruosa ampliação universalizante de um fenômeno local e terrestre — coletivamente subjetivo —. posso no entanto utilizar a madeira para fazer uma mesa ou estante. por um lado. no objeto. A praxis. e não d o objeto. segund o a boutade célebre de Bertolt Brecht: “Não sei o que é. atenta ao jogo dos pretextos e dos atos. 1942. rebaixa ndo-se a natureza ao estatuto de ancilla industriae. ” É o mesmo que dizer que o capitalismo absorve a categoria da substância na categoria da paixão. O Problema d o Esteticismo no Brasil. que é árvore. conh ecível pelo homem: ela fluidificará todas as essências individuais em matéria-prima da p raxis e resultará. é coisa óbvia. num novo e mais radical tipo de idealismo subjetivo: o m undo objetivo nada é senão o cenário da praxis. enfim. Sendo teoria da ação. olhando com a maior indiferença os movimentos randômi cos dos átomos na planície e desprezando o choro dos fracotes que necessitam de um s entido para a vida. v. como o afirma o próprio Marx: depende de circunstâncias históricas que nada têm a v er com a natureza do objeto. mas apenas tais e quais podem vir a ser sob a ação do martelo e da forja . Sobre o esteticismo como fonte das doutrinas políticas modernas. aos fenômenos. recusará ao mundo. Quando. até fazer com que todos os objetos já não existam senão como “mercadorias”. Seria interessante averiguar como é possível conciliar isto com o alegado “materiali smo” marxista. Rio. Só neste caso a censura lançada por Marx ao capitalismo perde valor objetivo. Só sei quanto custa. uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente a perf . porém. Ni etzsche e Epicuro. pois o marxismo se revela antes um idealismo subjetivista. A teoria nada dirá sobre os objetos tais e quais são. considero como é estreita a faixa do universo material al cançada pela ação humana (apenas a superfície da Terra. no senti do estrito e quase fichteano. por outro. é algo que cabe investigar. e não se deixa contaminar pelas exigências da autoconsciência moral. isto é. uma qualidade qualquer inerente ao ob jeto. Casa do Estudante do Brasil. sobre o esteticismo como id eologia dominante nas classes letradas brasileiras. faz parte da sua consistência ontológica. 3.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 81 talento. uma consistência ontológica própria. e ilim itada a extensão de mundos celestes que não podemos transformar e só podemos contempla r. de uma hipérbole. Restaria então explicar como. O cavaleiro solitário no deserto do absurdo sintetiza Marx. Da teoria da praxis provém ainda a idéia — hoje se um dogma — de que a ciência surge a posteriori de uma racionalização da técnica. Uma das censuras morais que o marxismo dirige ao ca pitalismo é que nele o valor de troca acaba por devorar o valor de uso até fazê-lo des aparecer. e. impávido no alto da sela. e mesmo assim não inteira). outro aspecto senão o da sua transforma bilidade imediata. Há um curioso paralelismo entre as noções de objeto-da-teoria e objetoda-práxis. Se o capitalismo faz realmente isto ou se se trata apenas de uma figura de retórica. 1958. reduzindo-se a mera projeção: Marx censura no capitalismo um d efeito que não está necessariamente no capitalismo. da ação: o homem não cria a ciência mediante a contemplação. em quase todas a s civilizações. Sem saber o para os crimes e as perversidades cometidos em razão do seu “ideal”: pois este tem a p erfeição estética de uma forma arbitrária concebida pela mente. uma propriedade. O val or de uso é.

eição é sempre justamente a astronomia. cujos objetos estão a uma distância demasiado gran de para poderem ser “transformados”. porque uma astronomia requintada já se encontra entre povos que de navegantes não tinham . mas é bobagem pura. e que por isto o homem pode somente contemplar. (Um praticista fanático poderia objetar que a astronomia se desenvolveu com fins de navegação.

ele tratou de não conservar nenh um resíduo ostensivo dela no materialismo dialético plenamente desenvolvido. como por exemplo os maias. Como transformar o mundo fugindo dele? Como coadunar a praxis revoluci onária com o evasionismo epicurista? A ortodoxia soviética foi. toda ação está condenada ao fra79 80 Timeu. 47c. empenhado na reconstituição de algo assim como uma “trad ição materialista” embutida na História do pensamento Ocidental. digamos logo. trad. ao interesse prático de alcançar um bem-estar psicológico fictício. A afinidade que ele viu não é somente aquela que apontei n o parágrafo anterior. A Educação segundo a Fil osofia Perene. e não resta ao homem nenhuma saída senão refugiar-se no sonho. a certa altura da palestra. jamais lhe and ou pela cabeça a hipótese de uma conciliação impossível. só se mantém de pé mediante uma brutal falsificação da ordem cronológi ca. O Conceito de Universidade. nesse sentido. onde a matéria não se rege por nenhuma lei? No caos epicúreo.82 OLAVO DE CARVALHO nada. § 18. que no entanto. condenação que a for tiori se aplicaria à física de Epicuro. A tradição materialista Acabamos de compreender a afinidade entre Marx e Epicuro. foi certamente porque viu entre eles uma afinidade mais interessante e . apresentada à Faculdade de Educação da USP em 1993 ( tese datilografada ). A interpretação praticista da origem e significado da ciênc ia é uma grosseira projeção que o burguês faz dos seus próprios critérios e valores sobre a mentalidade das épocas anteriores. Sobre a incapacidade do burguês — liberal e socialista — de compreender isso. v. Pessanha não era um mero colecionador de relíquia s. Se ele buscou entre Marx e Epicuro uma síntese que ao próprio Marx não interessou e nfatizar. como vimos. Que críticos de Marx tentem lembrar esse detalhe é compreensível. como editor da séri . lhe devia muito.) Esta prioridade cronológica e estrutural da astr onomia é ressaltada por Platão 79. Mas ainda as sim a ideologia de Pessanha continua parecendo um amálgama de elementos heterogêneos e incompatíveis. 1981. Para que ela adquirisse alguma verossimilhança aos olhos dos homens foi precis o que primeiro a sociedade burguesa reduzisse a serva da técnica e da utilidade prát ica uma atividade intelectual na qual por milênios seus praticantes tinham visto u ma finalidade em si mesma. Marx a escondeu tão bem que ela não voltou a aparecer senão em plena crise do ma rxismo 81. feita de um ódio comum à inteligência contemplativa e de um intuito comum de subjugá-l a a interesses práticos fictícios: ao interesse prático de instaurar uma justiça social fictícia. por seu lado. Não. a tese valiosíssima de Antônio Donato Paulo Rosa. Passado seu interesse juvenil pel a física de Epicuro (objeto de sua tese de docência). UnB. se esta entrasse em discussão naquela hora: o PCUS não seria idiota de tentar organizar o movimento revolucionário mundial sobre u ma base física constituída de bolhas de sabão. mais “prática”. Jorge Eira Garcia Vieira. Brasíl ia. A explicação ma rxista. que vê a explicação para a origem de todas as ciências na contemplação da regularidade e racionalidade dos movimentos dos astros. pois somente essa intenção poderia explicar o relevo que ele deu. Isto é muito elucidativo. como conciliar a f ilosofia marxista da História com a cosmologia de Epicuro? De que modo um sentido racionalmente ordenado de causas históricas tal qual propõe o marxismo poderia brota r de um universo caótico e frouxo. Mas por que um pensa dor de simpatias marxistas deveria querer tocar no assunto? Por mero interesse b iográfico? Não é verossímil que Pessanha tenha levado sua devoção por Marx à carolice de pret nder “resgatar” Epicuro só pela razão de haver o filósofo de Trier se ocupado do epicurism o no curso de sua formação acadêmica. Pessanha declarou-se . decadentistas e reacionárias — as novas tendências da física de Planck e Heisenberg. Quanto a Marx em pessoa. casso. Sem livrar-se da raiz epicúrea de seu pensam ento. K enneth Minogue. v. ela reside antes na palavra “materialismo”. basta nte lúcida ao condenar como irracionalistas — e. É uma afinidade negativa . entre as rosas d o Jardim. Sobre o sentido puramente contemplativo da atividade intelectual na Idade Média. Para além da simples comunidade de ódios e ilusões. A discrição de Marx foi sensata: um passado epicúreo é como ter a mãe na zona. para ele tornadas incompreensíveis 80. logo. como burguesas.

uma não tem mesmo nada a ver com a outra. .e 81 E se Marx não teve a menor dificuldade em rejeitar a ética de Epicuro ao mesmo tempo que conservava algo de sua física. como foi mostrado no § 8°. foi pela simples razão de que.

Curiosamente. esboçada por Heisenberg. isso é puro esnobismo de caipira metido a par isiense. para um mestre da retór ica. da sua palestra. por elástica que seja. uma aparência p ersuasiva de unanimidade. a síntese pessânhica de Marx e Epicuro. é a mesma que fundamenta as pretensões a uma “tradição materialista”. a rigor. A afinidade que permitiu. certamente. a filósofos de terceiro ou quarto time. Adauto Novaes. pelo menos a linha dominante do espiritu alismo tradicional apareceu bem mais atenuada e descontínua do que é na realidade. Pessanha fez assim. não tem como com portar em si ao mesmo tempo a arbitrariedade dos átomos de Epicuro e rígida obediência ao determinismo newtoniano. Dégerando. ao lado e na m esma altura dos verdadeiros filósofos cujo diálogo forma. E a única síntese entre o indeterminismo e Newton é aquela. nivelando por baixo. o sr. Mas. uma funda impressão.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 83 Os Pensadores. É a afinida e de uma palavra. Uma síntese fundada na unidade aparente de uma palavra. Mas deixou. um ato político no se ntido mais agudo e eficaz da palavra: a união da massa contra um inimigo comum. fantasmagórico e elástico para poder abranger. numa só figur a de monstro reacionário. não lançou nenhum fundamento. fazendo com que o materialismo aparecesse como aquilo que é: um mero contraponto ocasional e descontínuo à linha-mestra do espiritualismo. Um certo fundo de escrupulosidade científica. a un idade da História da Filosofia. nivelando todo o mundo por cima. como Helvétius. insistem em cultuá-la cada qual a seu modo. No último desses eventos. Num país que ainda não se interessou sequer em tra duzir as obras de Leibniz e Aristóteles ( e que só no ano de 1995 teve sua primeira tradução do Wilhelm Meister de Goethe ). 82 Uma orientação aliás fielmente mantida nos eventos da mesma série de O Olhar e Os Sentid os da Paixão realizados após a morte de Motta Pessanha. Mas. Uma aparência verossímil de conceito. pretende u impingir ao público a convicção de que a indiferença nacional por autores como La Mett rie. E qual o retor que não sabe que . era necessário preencher as lacunas abertas na História pelo olvi do em que fora caindo. talvez por considerá-l a divina. Cond illac. como Pessanha desejaria. É que os p rimeiros são materialistas: o esquecimento em que jaziam apagava a linha de contin uidade da desejada “tradição”. e. que ce rtamente não morrera de todo em Pessanha. deve tê-lo impedido de falsear ostensivame nte a t pografia da história. e não de um conceito. e daí ter ele optado pela designação vaga e descomprometedora de “pensadores” para englobar os filósofos e os q uase. Agostinho. Sénancour e Crébillon Fils ( libertinos de segundo time ) é um atraso cultural in tolerável ( v. é puro fingimento. a corrupção reinante e a tradição histo riográfica que preferiu Aristóteles a Epicuro. Para dar ao materialismo ao menos uma aparênci a de continuidade. cativar para a rebelião contra o espírito quantas insatisfações pessoai s. loc. fundada nessa palavra. exigida por todos os materialistas contemporâneos de Marx. ). cit. novo empresário da filosofia-espetáculo. na sucessão dos tempos. econômicas e puramente psicopáticas se encontrassem comprimi das no auditório do MASP. ao longo dos séculos. e inseri-los nos respectivos nichos cronológicos. tal como a unidade da tradição materialista. não fez nenhuma daquelas coisas que os filósofos habitualmente fazem. manejadas pelo retor. perf eitamente contínua de Platão até Husserl. Platão e o sr. em j ulho de 1995. com muitas costuras e emendas. Bohr e toda uma corja de abomináveis espiritualistas. familiares. Pauli. é apenas uma aparência de síntese. a par da omissão de gigantes como Brentano. foram suficientes para suscitar uma poderosa onda emocional. Collor de Mello. políticas. não disse absolutamente nada de ident ificável. podem não valer nada do ponto de vista filosófico e histor iográfico. Novaes. só entre os espi ritualistas há algum consenso quanto à matéria. sob a qual se esconde uma multiplicidade de conceitos mutuamente incompatíveis. palavras e aparências são tudo. ferozmente idealista . Jaspers ou Dilthey 82. os materialistas. não defi niu nenhum conceito. toda uma coleção pluriforme de beletrista s e filosofantes. Se ainda assim não brotou a figura de uma tradição material ista em regra. as lembranças da ditadura mi litar e a filosofia da História de Sto. su ficientemente indefinido. A “matéria”. Pessanha não expôs nenhuma teoria.

e por isto a ciência de produzir impressões é c ultivada com esmero por todos aqueles que têm a ambição de conduzir os povos. o homem movido por impressões não sabe para onde se move. excet o no sentido negativo de uma coletânea de opiniões diversas e contraditórias. Não uma força física. e sim por impressões? Apenas. sem qualquer pretensão ontológica — e o materialismo não é uma doutrina. mas uma força históric a de impressões e emoções que produzem atos. Não havendo uma “matéria” conceptualmente identi icável — exce- .os homens não se movem por conceitos. Mas a ma téria é um símbolo e o materialismo é uma força. A matéria não é um conceito — exceto no sentido convencional e instrumental com que vem nos livr os de física.

. mas uma unidade contra: a unidade negativa daqueles que. sem exagero. unidos na luta co mum contra o princípio do conhecimento objetivo e no empenho comum de substituir a realidade em vez de compr eendê-la. mas a representação interna. Pess anha começa a fazer sentido. e não apenas como somatória artificial de negações d iversas. veremos que a pretensão de Pessanha só pode ser compreendida como delírio alucinatório ou como fraude proposital . se dão as mãos na solidariedade de uma negação: a negação do espírito. Paris. dois princípios: o materialismo e o primado do interesse prático. Laffont. o cérebro transforma esses sinais elétricos em uma representação interna. Pouvoir Illimité. Compor com pedaços de opiniões de beletristas e pseudofilósofos uma tradição materialist a. inspira-se num kantismo radicalizado. porém. parece impossível. r etroativamente. p.. e colocar lado a lado em distintos lugares do espaço. esta é uma das idéias fundamentais da PNL. Ela está. ‘O mapa não é o território’. Pretender que essa tradição exista substancialmente. não se constitui de outra coisa senão do amál gama fortuito de negações antepostas. sem nenhuma exceção. .. A experiência que você tem do aconte cimento não é exatamente o que se produziu. é querer separar fisicamente. a mais assombrosa fals ificação da História já empreendida por um militante esquerdista. é. desde que a Academia d e Ciências da URSS enxertou a cabeça de um desconhecido sobre os ombros de Trótski nas fotos de cenas da Revolução de Outubro na Enciclopédia Soviética.” 84 83 84 Anthony Robbins. Marie-Hélène Dumas. Por diversos processos de generalização. e fazer dela a linha mestra da continuidade do pensamento humano. Marx e Epicuro. não há nenhuma hostilidade essencial entre o interesse pessoal e o interesse coletivo: numa mesma alma podem conviver em harmonia o evasionismo epicurista e o utopismo socialista. a toda e qualquer afirmação do espírito. de outra parte a massa total dos buracos. Essa filtragem explica a imensa variedade da percepção humana. para fazer de Stálin. por que não representá-las de uma maneira que nos dê poder? Qualquer que se ja o horror da situação. individual no outro —. que vê no mundo a mera pr ojeção dos nossos pensamentos — hipótese que o marxismo rejeita como idealismo burguês: “Os seres humanos recebem e interpretam as informações fornecidas pelos cinco sentidos . 1989. Quant o à PNL. reduzindo o espiritualismo a uma coleção fortuita de exceções.” 83 Dessa constatação kantiana. Mais exatamente. personalizada d o que se produziu. de uma parte a massa total do queijo. ela não é uma unidade pró. A tradição materialista. divergindo quanto à esca la da transformação — social num caso. de distorção e de triagem. por diferentes indivíduos e por um número indefini do de motivos. hipertrófico. Mas como conciliar o materialismo com a Programação Neurolinguística e o movimento da Nova Era? Filosoficamente. ou pseudoorientais. se existe. o comandante militar da insurreição. como os buracos estão para o queijo suíço. que para o marxista são mera ide ologia feudal e para o epicurista uma abjeta escravização do homem aos deuses. Se considerarmos simplesmente o fato notório de que Platão e Aristóteles fora m absorvidos na filosofia cristã e de que todos os filósofos importantes do Ocidente desde Agostinho até Hegel foram cristãos.84 OLAVO DE CARVALHO to. ao menos em aparência: o materialismo. nada podendo afirmar em comum. para a densidade contínu a da linhagem espiritualista. Mas ainda resta um ponto obscuro. A Nova Era adere mac içamente a metafísicas orientais. a depreciação da inte ligência teorética. você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder. Se existe essa unidad e.. a unidade da tradição mat erialista não poderia forjar-se com base na defesa da matéria. num sentido instrumental perfeitamente compatível com as doutrinas esp iritualistas esposadas aliás pela maioria dos grandes físicos —. repito. trad. podem firmar um acordo por que têm um princípio em comum. o teórico da PNL extrai uma conclusão que leva direto a um pragmatismo com tinturas nietzscheanas: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que faz mos delas. No reino das ilusões. w Uma vez unidos Marx e Epicuro pelos santos laços do ódio à inteligência teorética e do primado do interesse prático.

59. Id. . p.. 58.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 85

Da depreciação da nossa capacidade cognitiva, extrai-se uma apologia do nosso poder de agir. Descrevendo o homem como um animal cego, separado da realidade pelo mur o intransponível do solipsismo, o teórico da PNL não tira daí a deprimente conseqüência lógic de que um ser assim constituído está fadado ao fracasso em todas as suas ações, mas sim a conclusão surpreendentemente animadora de que o homem pode agir, e ter sucesso, justamente porque não enxerga o terreno onde pisa. A ação eficaz não depende de uma visão correta da realidade, mas de uma fantasia de poder. Pode-se coadunar isto com o marxismo? Não e sim. Não com o marxismo que estava nas intenções declaradas de Karl Mar x: uma ciência objetiva que pela primeira vez iria superar uma longa série de distorções ideológicas ditadas pelos interesses de classe e, identificando-se com os interes ses da classe que traz em si resumidos os interesses de toda a humanidade — o prol etariado —, iria fornecer uma visão realista e universalmente válida da sociedade huma na. Se esta ciência é possível, a PNL é falsa, ao menos em sua pretensão de universalidade : só a burguesia troca o mundo real por uma projeção subjetiva; o proletariado vê a real idade. Neste sentido, a PNL poderia ser encarada, do ponto de vista do marxismo ortodoxo — e assim seria qualificada necessariamente pela crítica marxista uns anos atrás — como idealismo subjetivo burguês. O sucesso dela entre empresários e executivos seria alegado como confirmação deste diagnóstico. Nesse sentido, a hostilidade entre e la e o marxismo é aberta e irremediável. De outro lado, porém, a PNL também não perde temp o em interpretar o mundo — ocupa-se de transformá-lo. Entronizar como representação válida não aquela que descreva corretamente a realidade, mas aquela que nos dê o poder de agir nela — ou pelo menos uma dinamizante ilusão de poder que nos dê ânimo de lutar pelo poder — é uma proposta de tom pragmatista 85. Mas o pragmatismo, como bem viu Grams ci, pode perfeitamente conciliar-se com o marxismo na medida em que ambos voltam as costas à descrição da realidade e enfatizam a sua transformação. Ambos, 85

igualmente, confundem teoria e prática: o pragmatismo, misturando lógica e psicologi a — o estudo das causas reais que produzem o pensamento verdadeiro ou falso com o das exigências ideais e formais do pensamento verdadeiro 86; o marxismo, confundin do ideologia com sociologia — a expressão do interesse de classe com a descrição do esta do objetivo da sociedade 87. Marx nunca percebeu a contradição que havia entre seu i deal de uma ciência objetiva, universalmente válida, e sua mistura de teoria com práti ca. Na verdade, qualquer aplicação prática de uma teoria só é possível na medida em que os l imites entre uma e outra estejam rigorosamente demarcados na teoria mesma. Uma t eoria que se deixe contaminar de “prática” no curso da investigação teorética jamais poderá s ber se seus resultados foram encontrados no real externo ou produzidos e lá enxert ados pela ação prática do cientistamilitante, um ser ambíguo e bifronte que não distingue entre o saber e a emissão de profecias auto-realizáveis 88. A mistura, que retoricam ente tem o atrativo de ser um 86 Sobre as relações entre pragmatismo e marxismo, v. A Nova Era e a Revolução Cultural, pp . 80-82 e 113-117 da 2ª edição, e sobretudo O Imbecil Coletivo, Capítulos 3, 4 e 5. Indi spensáveis para a compreensão profunda do que se vai ler nas próximas páginas. Para uma explicação detalhada deste ponto, v. Edmund Husserl, Investigaciones Logica s, trad. Manuel García Morente y José Gaos, Madrid, Revista de Occidente, 1929 ( ree d. Alianza Editorial, 1982 ), vol. I, Capítulos 3-10. A crítica husserliana do psico logismo é talvez a mais completa refutação que alguém já fez de uma teoria desde que o mun do é mundo. 87 Para quem compreenda o assunto, não é nem necessário dizer que o sociolog ismo em geral, e o conceito marxista de ideologia nele incluso, não são senão casos es peciais do psicologismo tal como enfocado por Husserl. 88 Nota do meu Diário Filosóf ico, sob o título “Devir e Sentido”, datada de 8 de agosto de 1989: “A interpretação materia lista da História pode ser verdadeira ou falsa, mas, independentemente disto, ela exerce uma influência sobre a História. Homens que estão convictos de que o motor da h

istória — e da cultura, e do pensamento etc. — é a luta de classes, agem diferentemente de homens que pensam que a História reflete a vontade de Deus, ou os movimentos de espírito, ou que simplesmente entendem a História como uma agitação sem sentido, e que buscam o sentido justamente naquilo que sai fora da História e do tempo. Homens de sta última categoria, quando agem na sociedade, procuram antes de tudo assegurar a o maior número possível de homens o acesso à contemplação, àquilo que está fora e acima da Hi tória; e é este o sentido que justifica eticamente todos os seus esforços, inclusive n o sentido de melhorar as condições materiais de vida das populações, para libertá-las da p ressão econômica e dar-lhes a oportunidade de vacare Deo. Já os crentes no materialism o histórico não se interessam senão por inserir um número cada vez maior de homens na co nsciência do processo histórico, na participação voluntária no devir. Ora, o devir não pode, por si mesmo, ser o sentido; a participação no devir só tem sentido em função de algum ob jetivo a ser alcançado; mas, não havendo mais a promessa do supratemporal, do acesso à transcedência, a inserção ativa na praxis se esgota como fim em si mesma, e cai para objetivos meramente pretextuais, dedicados a manter a roda girando. Este é o verda deiro efeito e o verdadeiro significado do marxismo, para além de

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protesto contra um suposto academicismo desligado da “vida”, serve apenas para encan tar jovens irrequietos que buscam nas teorias uma confirmação vaidosa de seus desejo s e aspirações, e não um conhecimento válido, muito menos um conhecimento aplicável na práti ca. Ela não serve nem para criar uma descrição aproximativamente correta da realidade, nem muito menos para elaborar previsões que fundamentem a ação prática. A absoluta inca pacidade dos teóricos marxistas de prever o curso da História, sua sucessão deprimente de erros crassos ao longo de mais de cem anos — a começar pelo do próprio Marx ao sup or que a revolução socialista deveria ocorrer na Alemanha ou na Inglaterra, num país a vançado e não numa sociedade feudal como a Rússia — mostram que o poder do marxismo não é o poder material e prático de uma ciência aplicada, de uma técnica, de uma “ação racional segu ndo fins” como o diria Weber, de um comtiano prévoir pour pouvoir, mas sim o poder a liciante e hipnótico de uma fantasia, de uma alucinação pseudoprofética, capaz de mover o mundo, só que nunca para onde pretende; capaz de induzir as massas e os intelect uais à ação, mas não de levar a ação a bom termo; capaz de desorganizar uma economia capital ista, mas não de construir o pretenso socialismo; capaz de desencadear as causas, mas não de dirigi-las no sentido dos efeitos desejados. É uma força entrópica, que agita e sacode e atemoriza o mundo sem nada produzir senão dor e perda, mas que por ist o mesmo exerce sobre os homens a atração irresistível de uma compulsão autodestrutiva en volta em delírios de grandeza, como a de Nero entre as chamas de Roma. Facilis est descensus averni. Aí a afinidade com a PNL é evidente: por mais horrendos que sejam os resultados da luta revolucionária, a esquerda é sempre capaz de “representá-los de u ma maneira que lhe dê poder” — o poder de cair indefinidamente e arrastar atrás de si a humanidade. Com a Nova Era, a conciliação já não é tão fácil. Em primeiro lugar, porque não é quedo entrar em acordo com um saco-de-gatos. Porta-vozes e críticos da Nova Era são concordes quanto à discórdia generalizada que ali reina: “Dentro do suas intenções declaradas, sejam elas mentiras propositais ou auto-enganos de mental idades doentes. É preciso ser um completo idiota para tomar como uma promessa rede ntora a ameaça que essa gente nos faz de nos aprisionar para sempre no círculo do sa msara. Alguns criticam a utopia marxista por ser irrealizável. Se fosse realizável, seria o inferno propriamente dito, no sentido etimológico de queda num nível ontológic o inferior.”

movimento não há unanimidade sobre como defini-lo, nem há uma coesão significativa que n os permita chamá-lo de movimento”, escreve o apologista (e comercializador, como a m aioria deles) da Nova Era, Jeremy P. Tarcher 89. Na outra ponta, o crítico protest ante Russel Chandler: “Movimentos da Nova Era (no plural) é uma descrição muito mais apt a. A Nova Era não possui qualquer superestrutura abrangente” 90. Em segundo lugar, o comunismo, russo, chinês ou cubano está tão distante do espírito da Nova Era quanto o R egulamento Disciplinar do Exército norteamericano. Também é difícil um sujeito acreditar ao mesmo tempo na influência dos astros e na luta de classes como motores da Histór ia. Mas essas incompatibilidades mesmas já nos indicam algo sobre as crenças positiv as que delineiam o padrão de uma unanimidade implícita por trás da variedade estontean te das orientações da Nova Era. 1. Ninguém, ali, quer saber de hierarquia, ordem, obed iência por motivos racionais. Admite-se autoridade, mas só de tipo carismático, que a gente obedece justamente porque não compreende; autoridade burocrática ou tradiciona l — no sentido de Weber —, não. 2. Pela mesma razão, não se aceita uma doutrina fundada em provas racionalmente válidas. Uma doutrina racionalmente provada exclui a sua própr ia negação, e isto para a Nova Era é anátema: nenhuma doutrina tem o direito de ser mais verdadeira do que outra. Todo es igual, nada es mejor. 3. Não havendo argumentação ra cional nem hierarquia de prioridades, o único critério válido é o “sentimento de participação que diferencia os indivíduos integrados na nova onda e os pagãos, ainda não tocados pe lo espírito da horda. 4. Por isto, a mentalidade da Nova Era é ao mesmo tempo indivi dualista e coletivista. Individualista, ao subtrair o indivíduo do diálogo racional. Ante o apelo da razão, que é uma só para todos, o individualista anárquico fecha-se em copas, bus89 90

“New Age as Perennial Philosophy”, Los Angeles Times Book Review, feb. 7th. 1988. Co mpreendendo a Nova Era, trad. João Marques Bentes, São Paulo, Bompastor, 1993. Um li vro valiosíssimo, que, por ser publicado por uma editora religiosa, é ignorado pela crítica — servilmente atenta, no entanto, às publicações de ocultismo e “auto-ajuda”.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 87

cando refúgio na proteção do seu “guru interior”, que lhe sopra verdades indizíveis, acima e fora de toda confrontação racional. De outro lado, o que esse guru lhe sopra, em ve z de isolá-lo para sempre do mundo, o integra na horda festiva dos que receberam m ensagens idênticas pela “via interior” do rádio e da TV, dos filmes e dos shows. A voz d o guru, afinal, cerca-nos por toda parte. A “interioridade” da nova Era não deixa marg em para um só instante de recolhimento e reflexão 91. Fundindo os sentimentos interi ores do discípulo na atmosfera emotiva que o circunda, ela suprime o intervalo, o distanciamento entre o eu e o mundo, sem o qual todo exame crítico-objetivo é impossív el. Não que ela seja contra todo pensamento crítico. Ao contrário, ela o fomenta, desd e que ele se volte contra as formas de autoridade que não interessam ao movimento: a autoridade burocrático-racional da ciência, a autoridade tradicional dos pais ou da religião costumeira. Ela produz aí, não raro, críticas realistas e pertinentes. Tão log o, porém, o discípulo atravessa o umbral do templo e ingressa no círculo mágico da autor idade carismática, não só a crítica, mas às vezes todo e qualquer pensamento, são rejeitados como tentações demoníacas. O pensamento é rebaixado à condição de arma de fogo, e o porte-de arma só é concedido extra-muros, no reino profano das trevas exteriores, para uso se letivo contra os heréticos e os infiéis. Aqui começa a ficar verossímil o arranjo das idéi as na cabeça de José Américo Motta Pessanha. A rejeição da prova racional, a mística de uma pseudointerioridade coletiva, a revolta insolente ante a autoridade do passado e a submissão hipnótica a uma nova autoridade são comuns ao epicurismo, ao marxismo (pe lo menos em sua moderna versão gramsciana) e à Nova Era, PNL inclusa. Com um pouco d e elasticidade, todas as conciliações são possíveis. Mas uma dúvida perturbadora pode aind a restar na mente do leitor. A Nova Era, de modo geral, inspira-se em motivos es piritualistas. Ela pôs em circulação no mundo idéias como a reencarnação, o karma, os anjos e duendes, as viagens as91 trais. Como pode tudo isso coadunar-se, superficialmente que seja, com o materia lismo professo de Marx e Epicuro? Por mais afinidades secundárias que os aproximem , materialismo e espiritualismo continuam, afinal, o exemplo por excelência da opo sição irredutível. Eppur... É significativo que, nas seitas como as de Moon e Rajneesh, um dos meios utilizado s para quebrar a resistência psicológica dos discípulos consista justamente em não lhes dar um só instante de privacidade, submetendo-os à vigilância e à intromissão constante do s companheiros e superiores — sempre, é claro, de maneira amável e discreta, de modo q ue a vítima não perceba nisso o sinal de uma intenção manipulatória. Os efeitos psicológicos são devastadores.

LIVRO IV - OS BRAÇOS E A CRUZ -

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3 vols. v. desde que se entenda que uma tradução não é uma explicação. que expressa grosso modo as idéias de criação. Yin e Tao. Na tradição chinesa. que ecoam e reverberam umas às outras segundo uma infinidade de escalas e de pontos de vista. também ter nárias. se confirma pela investigação psicológica do inconsciente. alma. Gallimard. Os três princípios. somando-os dois a dois 92. correspondem outros 92 O dois representa a oposição estática que. À Trindade Cristã — Pai. já que go- vernam a totalidade do ser. como que patinando em falso. apresenta um modelo miniatura de todas as mutações possíveis: de ternário em ternário. Matese. no sentido pejorativo da palavra. Comparar. no microc osmo da constituição humana. que Aristóteles. Platão. E. de duas proposições tirando uma terceira e assim por diante.. É um conhecimento rigoroso. é uma ontologia do microcosmo da razão humana. dotado de fundamentos lógicos apodícticos. 6 4 ternários possíveis sem repetição: a silogística é o “Livro das Mutações” do raciocínio. “Livro das Mutações”. a esse respeito. Homo. La Grande Triade. manifestam-se em cada um dos pequenos fatos que em m ultidão inesgotável compõem a sucessão da vida cósmica. intelectiva. Paris. Brahma. sem maiores pedantismos esotéricos. Henriette Roguin. Paris. é vege tativa. a vida era esse vício!” BRUNO TOLENTINO § 19. cuja eficácia no mundo real. Payot. 1957 — um livro após o qual o que quer que se diga do assunto corre o grave risco de chover no molhado. conservação e transformação respectivamente. Por exemplo. O I Ching. de um lado a obra n otabilíssima do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. A divinização do espaço. .” À tríade hindu. como por exemplo Deus. a divisão ternária do mundo imita u m outro ternário mais alto: o dos supremos princípios metafísicos Yang. O simbolismo dos números nada tem de “esotérico”. a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos -Physis. Não espanta. Paris. Descendo porém do plano metafísico ao histórico. Vishnu e Shiva. Matéria e Proporção. Gallimard. era rigorosam ente chinês. aspectos e planos secundários. ademais. para as inúmeras partes. constatasse que este caminha em passo ternário. fora de qualquer pressuposto metafísico. Pitágoras e o Tema do Númer o ( São Paulo. encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade. Já o vazio. na ausência da síntese ternária.. de. — (I) Pobres bantos Em todas as grandes tradições espirituais. Invertendo-se apenas a ordem de sucessão para Céu-Homem-Terra. por que a esfera da razão humana deveria funcionar diferente da razão suprema qu e ordena o real como um todo? “A lógica. Mas e a vida? Ah. apetitiva. seu método audaz. Ethos o mundo humano de ind ecisão e liberdade relativa. de outro as observações clínicas do dr. espírito. assim. 1960 ). o livro sagrado da dinastia Tchou fecha o ciclo ao chegar ao número 64: os cic los seguintes repetem o esquema 93. o clássico de René Guénon. era um puro palácio aritmético . onde Logos é a esfera dos princípios metafísicos. no fim. e que a combinatória completa somasse. Physis a ordem repetitiva da natureza sensível. até à alu cinação. motivo pelo qual o passo ternário é o andamento de todas as ações e mutações. Natura no cristianismo o u Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. diz Schuon. A alma. que se podem traduzir. O MATERIALISMO ESPIRITUAL “O abismo era metódico. há muito a dizer. trad. Ludwig Paneth em La Symbolique des Nom bres dans l’Inconscient. se resolve provi soriamente em mera multiplicação quantitativa. por sua vez. A essa divisão do todo correspondem. ao descrever a ordem do pensamento d iscursivo. Filho e Espírito Santo — corresponde. outras tantas subdivisões. 1968-1973. 93 Sobre a Tría de chinesa.CAPÍTULO VII. que enfoca os números como categorias lógicas ( e ontológ icas ).. os dois termos de uma al ternativa insolúvel repetem-se indefinidamente. o ternário corpo. a o definir o homem como um intermediário entre a besta-fera e o deus. por Forma. o mais límpido exercício. 1976. mas um se foi e o outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio. e Georges Dumézil disse muito sobre as relações entre o ternário religioso e a ordem social em My the et Épopée. sem exceção.

o que surpreende nele não é a ubiqüidade da sua presença nas grandes tradições religiosas. sentado e prostrado —. aos três estados mencionados. Rajas e Sattwa (queda. Mircea Eliade notou em tribos da África e da Polinésia o enfraquecimento do sentido da eternidade metafísica.. em todas as tradições espirituais. muito afastada do homem para satisfazer as suas inumeráveis necessidade s religiosas. A noção do triplo tempo encontra-se. cujas letras correspondem. e sim a sua ausência em lgumas das pequenas.. Os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num deus do céu chamado Olorum.. tota simul et perfecta possessio. D e M. O passo ternário entre o mundo e a origem é marcado pelo monossílabo Aum. Vê-se o mesmo no grego ou no hebraico 95. “posse plena e simultânea de todos os seus momento s”. Nzambi. No árabe. ao menos uma “constante do espírito humano”. Certas culturas tribais parecem desconhecê-lo completamente.. Correspondem.. estruturalmente. mutatis mutandis.92 OLAVO DE CARVALHO tantos ternários na esfera cósmica e humana. outro ainda para as ações concebidas indepe ndentemente de término ou 94 Nota ortográfica: em vez das grafias “muçulmano” e “Islã”. qu ersonificam o homem diante do mundo. que co mpõem a palavra Adam (o árabe em geral suprime na escrita as vogais intermediárias). parece apreender. Tamas. perfeitamen te igual. um para as ações in fieri. Está muito longe ou é demas iado bondoso para ter necessidade de um culto propriamente dito. atravessa esses mesmos e stágios. A grafia das letras permite visual izar as três posições da prece: prosseguimento. Pelo que lhe respeita. modelo da espécie. expansão. que conhecem um se r supremo mas adoram os antepassados. outra divindade que lhe está subordinada. prefiro as formas “mussulmano” e “Islam”. há um tempo verbal para as ações concebidas como findas (em qualquer tempo cro nológico que seja). pela ordem. que engolia ou encobr ia o senso da eternidade: “Os Semang da Península de Malaga conhecem também um ser supremo. uma tendência universal do homem a enc arar o ser como se fosse assim constituído. a perenidade ou eviternidade. entre os Tumbukas. às três faixas do tempo: a temporalidade. em suma. é igualmente um grande deus celeste que se retirou do culto. somente desemp enha um papel insignificante na vida religiosa da tribo. criador todo-poderoso. fiéis à raiz trilítera de ambas essas palavras. i sto é. Por isto mesmo. O ternário dos mundos. O mesmo se verifica entre os Angonis. Criou todas as coisas exceto a Terra e o homem. o homem diante de si e o homem anulado dian te da infinitude divina. Adão. ao tempo. o homem primordial. atravessando os quais o homem recua desde a manifest ação sensível até o princípio metafísico de todas as coisas. para os quais o criador é demasia95 Os três estágios equivalem. Obatalá. tempo cíclico. que são obra de Plé. O fiel mussulmano 94... slm ( de onde vem ain . que. e a eternidade — como a definiu Boécio.. à et ernidade. Olorum afasta-se definitivamente dos assuntos t errestres e humanos. dos Bantos. simbolizados nas três posições da prece litúrgica — de pé.. ascensão). à continuidade perene. sonho e sono profundo —.. O fato de não ter sido Kari o cria dor da Terra e do homem é signific ativo: revela -nos uma forma vulgar da transcendência e da passividade da divindad e suprema. o ser supremo. ou sucessão sem volta. que são qu ase transliterações. que transcorre m as retorna.. que a inépcia dos nossos legislado gramaticais consagrou como corretas. ou o dos estados de consciência — vi gília. por exemplo o dos movimentos do cosmos. verdade imbricada na constituição mesma do ser. paralelamente a uma proliferação hipertrófica das divindades cós micas ou forças naturais divinizadas — um inchaço da perenidade. econômicas e vitais. devolvendo no fim intactas as possibilidades que estavam no início. ou ter dele uma idéia nebulosa e distante. depois de ter c omeçado a criação do mundo. se não uma lei ontológica.. Aqui também três letras indicam o caminho: A. O mesmo se passa na maioria das populações africa nas: o grande deus celeste. Kari. resíduo de uma velha doutrina esquecida. confiou o cuidado de a acabar e governar a um deus inferio r. e também na estrutura das línguas antigas. ao rezar.

onde a cada letra árabe corresponde uma e uma só letra do alfabeto latino convencional. acima . . mas um sistema simplificado de minha invenção. Faço-o também por saber que na religião islâmica a grafia das palavras te um uso ritual e um profundo sentido simbólico similar ao do hebraico que se perde por completo nessas adaptações arbitrárias. 6. modulada por acentos.da saláam. Tirei algumas conseqüências desse fenômeno para a teoria da literatura em Os Gêneros Lit erários. o alfabeto fonético internacional. onde se encontrarão também mais indicações bibliográficas sobre o assunto. n. V. que é muito complexo. Também não uso nas transliterações arábicas. “paz” ). nes e em outros livros.

mas de ruptura traumática do cordão umbilical e de perda do senso de direção. É um sentimento de orfandade. mas fixado na perda da mãe. ou faz do “silêncio de Deus” o centro das preocup ações teológicas do seu tempo. que “Deus se afastara deles”. Natália Nunes e Fernando Tomaz . e não é para rezar aos antepassados ou às árvores totêmicas. no máximo. separada do sentido da vida. que imaginam o ser supremo Ngurubi como criador e todo-podero so. devemos entender isto como expressão do sentimento de uma velha tribo dispersa e decadente? O fenômeno é enigmático. a teoria do Deus otiosus. E os Negr ilhos (pigmeus) repetem: ‘Deus afastou-se de nós’. a que o pobre banto chegou por uma s ucessão de experiências decepcionantes. dois séculos mais tarde. nunca mais quis saber dele para nada’. foi proposta alegremente aos Ocidentais no séc ulo XVII por filósofos e cientistas que acreditavam estar descobrindo um novo mund o — o mundo das leis mecânicas que explicariam a natureza e o homem sem necessitar p ara nada da “hipótese Deus”. pp. entre os Wahéhes.” 96 É compreensível que esse estado de espírito se espalhe em tribos pequenas. por três séculos. Os Bantos dizem: ‘De us. Passado um século desde que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”. com a inocência do pig meu. omm. A culpa edípica não acompanha toda rejeição da fé. Não: eles tinham consciência de havê-Lo expulsado por v ontade própria — daí que. mas sabem que são os espíritos dos mortos que exercem uma verdadeira vigilância so bre as coisas do mundo e é a eles que oferecem culto regular. Quando. e marcadas por uma seqüência imemorial de derrotas e privações — o trauma repetido das preces não atendidas. Que Freud tenha explicado pela morte ritual do Pai a origem 97 96 Mircea Eliade. mas é um fenômeno típico da civilização cr Islam. Mas quando o intel ectual altamente civilizado de uma nação rica e vencedora diz que “Deus morreu”. Em segundo lugar. ou que “D eus deixou o telefone fora do gancho”. vendo -se alijada do poder pela Revolução burguesa que ela ajudou a fazer. abandonada por um Deus cuja presença ela mesma se esforçou. nada menos que 56 por cento do s norteamericanos (estatísticas oficiais) freqüentam o culto dominical. que bóia solitário num espaço indefinido. é pr eciso não cair na esparrela de interpretar as falas dos intelectuais como expressões do sentimento dominante entre as populações dos países ricos do Ocidente. A opinião de Nietzs he para essa gente é cocô de mosquito. para arrancar do coração dos homens. Mas. resíduos talv ez de antigos impérios africanos desmembrados. Não é alheio a isto o fato de que o fundador da religião . descobriram que esse mundo era estúpido e sem razão como qualquer aparato mecânico considerado fora das finalida des inteligentes a que serve. como um garoto sem mãe perdido nas ruas. Lisboa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 93 do longínquo e demasiado grande ‘para se interessar pelos assuntos vulgares dos home ns’. depois de ter criado o homem. expressão de um sentim nto vigente nos círculos intelectuais — uma tribo relativamente pequena e que. Tratado de História das Religiões. também a doutrina do complexo de Édipo: numa civili zação que por dois milênios imaginou Deus como um “Pai”. tem todos os mo tivos para se sentir dispersa. em primeiro lugar. isolada. Umma te m aliás a mesma raiz de “mãe”. Cosmos. A “morte de Deus” é. 1977. onde é dogma que Deus “não gerou nem foi gerado” e chamá-Lo de “pai” é blasfêmia intol a adesão ao ateísmo não traz um sentimento de culpa edípica. não puderam simplesmente dizer. A orientação espacial ( qibla ) e o sens o de integração na grande comunidade humana ( umma ) dispersam-se imediatamente como fumaça no ex-mussulmano. protestante ou católico.. no mesmo círculo vienense onde ela se disseminou. 74-77. a culpa edípica subseqüente à expuls Pai não poderia deixar de estender sua sombra por toda a produção intelectual da era do ateísmo 97. trad. junto com a teoria da “morte de Deus” emergisse..

Se há uma Religião Comparada. compensatoria mente. . russo-ortodoxa do segundo. a algum utopismo político. mas a “Lei”. Di isto há anos. muito mais “primitivo” do que a culpa edípica. é necess mbém uma ciência do Ateísmo Comparado. Lênin e Gramsci. por exemplo. podem ser grandemente elucidadas pela origem judaico-prote stante do primeiro. primeiro de mãe. A imagética de figuras boiand o no espaço. Não é o mesmo abandonar o cristianismo ou o budismo. que aparece com insistência em Salmán Rushdie. expressa esse sentimento. o Islam ou o judaismo. Ele não abandonou. por exemplo. sem a qual é impossível orientar-se na barafunda do s ateísmos contemporâneos. As diferenças entre as visões estratégicas de Karl Marx. É pena que até ho je ninguém tenha estudado isto em detalhe. depois de pai. especulou sobre a religião universal generalizando sua experiência limitada d o meio judaico e cristão. católica do terceiro. dificilmente deixa de aderir. onde encontra um Ersatz do clamor profético de jus tiça. o “Pai”. Freud. O ateu de origem judaica. que nada entendia dessas c oisas. O ateísmo não é um fenômeno homogêneo: há um para cada religião.slâmica tenha sido um órfão. afinal. O dr. aparentemente sem despertar para o caso o menor interesse dos estudi osos.

§ 19. uma intuitio intellectualis —. a diante. A moderna concepção matemática da natureza inaugura-se no instante em que Nicolau. intuitivamente. Com isto. Não que a razão pudesse apreender todas as causas dos fenômenos na turais. no culto. acredita encontrar nele a mesma inapreensibilidade racional 98 Daí proviriam. culto dos mortos. Aplicando esses raciocínios. ele estará simultaneamen te em A e B. admitia-se. que o universo não tem centro geométrico e que. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu t rajeto já não estaria em movimento.. A divinização do espaço. Ora. escondidos nas florestas e n as grutas. todos os seus pontos estariam eqüidistantes da circunferência. La pire des erreurs est toujours constituée par la Vérité elle -même. Logo. Et la dispute. investidos ad hoc de prerrogativas divinas 98. a elevação do espaço e do tempo à condição de absolutos que O substituíam no ca go. que o tempo é infinito. Exemplo: um objeto girando numa órbita circular. supra-racional. e não a sua extinção. Dogmatiser sur un bien originel. se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâme tro infinito. também. Para conhecer a natureza. o sinal de largada para a generalização do ateísmo entre os intelectuais foi. antes da intervenção de Nicolau. numa extensão infinita. uma transfiguração da inteligência. É significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substi tuída. espécie de ingenuidade metódica que permi tia ao filósofo captar. ou nenhum. HENRY MONTAIGU Isso começa com Nicolau de Cusa. a tradição filosófica e igiosa sempre reconhecera a necessidade de algum tipo superior de ato cognitivo — uma iluminação. Mas a verdadeira importância histórica da sua descoberta não está nisso. a douta ignorância. a reação do intelectual europeu à “perda de Deus” foi igualzinha à do pigmeu ou d o Banto. que obrigava os teólogos. e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade. não era objeto de conhecimento: se nada se conhecia a resp . o antes é depois etc. deuses do tempo. a realidade dessas contradições que a razão repe le. bastava a luz natural da razão. passando pelas extremidades d o diâmetro A-B. mas só para chegar ao c onhecimento de Deus e dos mistérios supremos. Ela apreendia somente o que neles houvesse de racional — o resíduo caótico da pura matéria. por dois tipos de divindades subalternas: os deuses da natureza e os antepassados.94 OLAVO DE CARVALHO do sentimento religioso. os quais. c’est le dia ble. Desde a Antigüidade. que requer do cientista uma transformação interior.. mergulhados no passado. o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado. é o sinal de que a perda da dimensão metafísi ca traz consigo uma inversão do senso das proporções. mais tarde. Se o unive rso é infinito. e inseparav elmente dela. junt o com a teoria do Deus otiosus que aposentava o Todo-poderoso. Mas. — (II) O infinito de Nicolau de Cusa. uma ciência infusa. É o mesmo que dizer: deuses do espaço. Do mesmo modo. o grande é pequeno. um a metanóia. Os primeir os. imbricados na paisagem. quando falavam de Deus. § 20. Nicolau concluía que o espaço é infinito. então valem para ele todos os raciocínios autocontraditórios segundo os quais o que está perto está longe. Os segundos. ocultos entre as sombras da memóri a. Eis aí a verdadeira novidade: a ciência da natureza eleva-se ao estatuto de um s aber secreto. Culto das coisas. ele antec ipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cál ulo. sob um outro e importantíssim o aspecto. no desenvolvimento das idéias Ocidenta is. c’est le livrer démagogiquement à la dispute. as duas grandes linhas que disputam o primado do pensam ento Ocidental: o naturalismo físico-matemático e o historicismo-culturalismo. a razão humana se mostrava impotente e devia ceder lugar a uma outra mod alidade de conhecimento. se aplicavam exclusivamente a Deus. espalhados na natureza. não há “perto” nem “longe”: to as as distâncias se equivalem. logo. a recorrer à linguagem dos paradox os. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito. V. e o círcu lo teria infinitos centros. investigando as propriedades do infinito numérico e es pacial. Diante desses p aradoxos.

eito. era por- .

seguindo as vias abertas por Nicolau de Cusa. aplicar nisso toda a capacida de humana de intuição intelectual. no ple no sentido da palavra. ele está automaticamente fora do alcance das duas censuras básicas e dific ilmente respondíveis que o maior crítico da modernidade. Ora. mas “interminado” (int erminatum). o conhecimento da natureza é elevado ao estatuto de m istério e a intuitio intellectualis é rebaixada de função — em vez de caminho de acesso a Deus. mas é certo que esse foi. Segunda: Nicolau não só admitia a existên cia do resíduo incognoscível na natureza e o justificava metafisicamente (pelo mesmo tipo de raciocínios). o que quer dizer somente que ele não tem limites e não está contido na car apaça exterior das “esferas” celestes. com Nicolau. ou advoga a legitimidade da argumentação retórica 99 como prova científica 100. Berkeley. mas reconhecia que o único resultado a que se chegaria pela D octa ignorantia seria a constatação dessa incognoscibilidade. aí temos o mais temív el dos paradoxos cusanos. Primeira. mas esta metanóia não leva ao conhecimento de Deus. o “interminado” cósmico de Nicolau “significa também que ele não está ‘terminado’ em seus constituintes.. Fritjof Capra. Eis por que ele não pode ser objeto de uma ciência total e precisa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 95 que ali nada havia propriamente a conhecer. Shambhala. não à unidade com o Espírito que do interior move todas as coisas. não chegamos a um resultado melhor do que pela via racional — apenas e stendemos indefinidamente nossa verificação da inesgotabilidade da natureza. Pode-se duvidar da sensatez desse empreendimento. o “mundo intermediário”. isto é. estender quantitativamente o conhecimento do caos natural. porque.. que ele reserva a Deus e somente a Deus. . de fato ele evita. que lhe faltam ompletamente precisão e determinação rigorosa.. É verdade que em Nicolau a infinitude do espaço-tempo não tinha ainda o sentido de uma divinização: “Nicolau de Cusa nega a finitude do mundo e seu fechamento pelas esferas celestes. sem acréscimo significativo da sua compreensão racional. É evident e que. temos de admitir que a raiz dessas derrotas da pretensão científica já se encontrava no projeto de Nicolau de Cusa. a rigor. é a via para o conhecimento da natureza. antes voltada ao conhecimento de Deus. a ciência. rigo rosamente. in determinado. duas mudanças essenc iais se verificam. e sim à experiência indefinidam ente repetida da incognoscibilidade da natureza. área de transição entre a certeza sensível da experiênc estre imediata e a certeza intelectual dos primeiros princí100 Cf. Seu Uni verso não é infinito (infinitum) no sentido positivo deste termo. mas ao ofuscamento da inteligência ante a complexida de cósmica. Ora. só po deria evoluir no sentido de 1º.. mas à perse guição hipnótica da multiplicidade de uma matéria que se esfarela numa poeira de hipóteses . o caminho seguido pela evolução da ciência moderna. atribuir ao Univ erso o qualificativo de “infinito”. não ao arrebatamento iluminante d iante da simplicidade divina. daí para diante. A ciência to rna-se assim uma espécie de iniciação ao contrário: só pode ser praticada mediante uma met anóia. para as quais a totalidade da natureza sideral está incluída numa zona de ind eterminação. prossegue Koyré. 102 Nicolau está aí magnificamente em harmonia com o simbolismo das grandes tradições espiri tuais. 3º. ao aplicar à natureza uma faculdade intelectual superior à razão. a bem dizer). 2º. os conceitos básicos da física subatômica não têm significad o inteligível e são meros arranjos descritivos (metáforas matemáticas. 1975. René Guénon. para chegar sempre mais e mais à mera const atação da impotência humana de compreender a natureza. fez à ciência pós-renas entista: a confusão entre infinito e indefinido. ou admite que. Pois. The Tao of Physics. cujas conseqüências letais se propaga m até hoje..” 101 Com isto. Quando o físico de hoje p ede socorro ao simbolismo taoista em busca de um princípio ordenador para sua ciênci a 99. e a perda do sentido fluido e ambíguo da manifestação cósmica. ele é.. requerer para es se fim um esforço “iniciático” cada vez maior. mas somente de um conhecimento parcial e conjetural”. Mas ele não afirma sua infinidade positiva.

cit. Octanny S. VII. da Mota e Leônidas Hegenberg. Rio. Francisco Alves. 1977. Du Monde Clo s à l’Univers Infini. pp. trad.Cf. . Raïssa Tarr. 1973. Paul Feyerabend. trad. 101 Alexandre Koyré. sobretudo Cap. loc. Gallimard. 1920 [ original i nglês de 1962 ]. 102 Koyré. Paris. Contra o Método.

Como foi possível. com todas as letras. o mundus imagina lis onde habitam perenemente. e requer um objeto à sua altura. À luz do simbolismo tradicion al. e muitos filósofos. mas a ”ação divina” que o move). como Averroes. o projeto de uma ciência exata e rigorosa do cosmos. Daí a importância relativamente secundária que tinha. mas transforma a física num sucedâneo da metafísica e o céu astronômico num su cedâneo do céu espiritual: “[As] concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa culminam na ousada transferência ao Unive rso da definição pseudo-hermética de Deus: ‘Uma esfera cujo centro está por toda parte e c uja circunferência está em parte alguma. para a qual bastam as sensações. da certeza indestrutív el. ta l como a alma é intermediária entre corpo e espírito. ao longo dos tempos . Ela só se move com plena desenv oltura no terreno dos princípios metafísicos. Tanto na filosof ia de Nicolau quanto em toda a cosmovisão cristã que o antecedeu estava bem declarad o.96 OLAVO DE CARVALHO pios metafísicos. no ternário hindu dos movimentos cósmicos. intermediário entre a vigília e o sono profundo. ao sonho. não a medição pro visória das aparências cambiantes. com todas as suas repercussões devastadoras no terreno da biologia. a medição ca da vez mais exata da impossibilidade de medir exatamente o que quer que seja? A intuição intelectual serve para nos dar a verdade evidente e definitiva. Voltada para um objeto que desde o início se sab e resvaladiço. que mais poderia fazer o dom da certeza senão nos dar repetidamente. mediador entre a “firmeza passiva” da Terra e a “firmeza ativa” do Céu (que evidentemente aqui não é o céu visível. que não é nem o tempo irreversível da factualidade terrestre nem a simultaneidade do eterno. a intuição intelectual não somente perde eficácia e dignidade. no esquema chinês. então. A cosmologia era uma “ciência intermediária” na escalada cognitiva. chegaram a identificá-la dire tamente com a inteligência de Deus. onde rendeu tanto. corresponde à alma. ainda que involuntariamente. inesgotavelmente inexato e cambiante. No esquema do triplo tempo. a Rajas. que a filosofia de Nicolau c ontribuísse. num arrebatamento de louvor. ao “Homem” (jen). supra-racional. ser interm inado e volúvel. século após século. teria lhe permitido chegar às bases da física de Planck e Hei senberg. indefinido por natureza. nem fisicamente reais nem meramente imaginários (daí o termo imaginal). a perenidade entre o tempo e o e terno. da psicologia. intermediária entre corpo e espírito. atribuiu aos escolásticos medievais. que. se levado em conta pel a ciência renascentista. certamente numa retr oprojeção de suas próprias culpas.’” 104 É que. os heróis e deuses da mitologia 103. Porque a intuição intelectual — a douta ignorância como a chamava Nicolau — é a mais ele vada 103 capacidade cognitiva humana. poupando à humanidade três séculos de desvario mecanicista. a zona sideral corresponde portanto à evite rnidade. para o advento de uma ciência amputada de sua raiz metafísica? A resposta é simples: o tesouro que Nicolau preservou no campo da cosmologia ele o desperdiçou no terreno da gnoseologia. inf indáveis motivos de incerteza. mas a zona da história arquetípica. a prova cada vez mais segura da insegurança. mas apenas a transição desde o conhecimento sensível até a esfera dos supremos pr incípios metafísicos. o Homem entre Céu e Terra. nesse contexto. da teoria do conhecimen to. a força expansiva que medeia entre a ascensão e a queda . parece tão extravagante quanto calcular as lágrimas de Penélope. receitar chá de carqueja para o fígado de Prometeu ou calcular o número exato de anjos que cabem na cabeça de uma agulha — cálculo que depois a ideologia moderna. a ciência da natureza cósmica não era um objetivo em si. Ao voltar-se para o mundo das sensações. e no dos três estados de consciência. da filosofia em geral e até da ética e da política. que adquiriu o prestígio de uma centelha divina no ápice da alma humana. no ternário microcó edieval. o princípio do indeterminismo. ao tempo cíclico. a discussão das leis da natureza enquanto tais e tomadas fora de s uas conseqüências teológicas e metafísicas. como o anunciado pelo mec anicismo. pelo vislumbre que podia dar de uma realidade eter . O conhecimento da natureza valia sobretudo p elas suas reverberações simbólicas. no contexto medieval e antigo. ela é o dom da evidência apodíctica. Essa zona corresponde. desde que afinadas.

na e supracósmica. Henry Corbin. p. Koiyré. 1954. Avicenne et le Récit Visionnaire. trad. Pari s. Tal como o ho104 Sobre o mundus imaginalis.. University of Dallas. cit. v. 30. inglesa de Willard Trask. Irving ( Texas ). 1980. AdrienMaisonneuve. op. . Avicenna and the Vis ionary Recital.

renunciava implicitament e a nos dar qualquer explicação do mundo da experiência humana. o buscador espiritual só atravessava a agitada e caótica região dos sonhos para poder atingir. fingindo dar ao homem uma visão mais realista de sua posição no cosmos. contado. a ciência entrou no caminho irreversível de uma espécie de auto-hipnos e matemática. quanto mais rápido melhor. cit. não resulta apenas. Pela porta da douta i gnorância cusana. é apenas o lado estético. todos os artifícios descabidos e até fraudulentos foram po stos a serviço dela. “provav a-se” que tudo nele funcionava matematicamente. no qual tinha sido até então. foi amputar da totalidade cósmica os elementos não-matematizáveis. O primeiro.” 105 Esse efeito moral. pássaros e estrelas. porém. a anulação do princípio mesmo do conhecimento objetivo. todas as fantasias. 64-65. o mundo d esprovido de sentido da filosofia científica moderna. pp. lamentando-o ou celebrando-o. a figura central e o cenário. de sua situação central e por isto mesmo únic a. No fim de ssa evolução encontramos o mundo mudo e terrificante do ‘libertino’ de Pascal. Uma vez despertada essa ambição. todos os exag eros. a superfície dessa grande mutação em que o esquematismo de umas fórmulas secas se substitui à riqueza do mundo viv ente. trazia em seu bojo a destruição de toda possibilidade de conhecer o real. o qu al consiste numas miseráveis rodas de engrenagem escondidas entre fiapos de nuvens . que tantos depois constatar am. e negando já não apenas alguns dados do mun do sensível. medido e previsto em todos os seus detalhes. 1): o peregrino se evade da “esfera” mundana. Reduzido o objeto a seus elementos matemáticos. Ele resu lta de que o aparente progresso. que. onde a hipótese indemonstrável admitida de início — o carát matemático 105 Koyré. como poderia parecer à primeira vista. o reino do sono profund o. levaram o homem a perder sua posição única e privilegiada no drama teocósmico da Criação. fatalmente tomando-os em s eguida como se fossem a realidade mesma. Mais graves foram seus efeitos morais e cognitivos: “A destruição do cosmos e a perda. mas a experiência humana na sua totalidade. No fim encontramos o niilism o e o desespero. op. . Uma gra vura da época mostra como a imaginação do estudioso renascentista concebia o “mundo espi ritual” a que teria acesso ao transcender os limites do sensível (Fig. Essa mutação transformou o conjunto da atividade científica num a permanente petição-deprincípio. A torção operada por Nicolau ocasionou a dispersão da mais nobre faculdade humana na ta refa inglória de delimitar o ilimitado. por esquemas de relações meramente possíveis. ao mesmo tempo que se arrogava o direito de expulsar do reino dos conhecimentos respeitáveis quaisquer o utras explicações possíveis. ou pseudopitagórica. naturalmente. Sol e Lua. e ao qu al se deu o nome de “realidade”. O terceiro foi banir para o mundo das curiosidades impertinentes todas as perguntas que não encontrassem resp osta imediata na fantasia pitagórica. para penetrar no reino maravilhoso do espírito.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 97 mem são quando adormece.. d a perda de lisonjeiras ilusões sacrificadas ao progresso do conhecimento. de um mundo matematizado. O segundo foi escapar para longe d a experiência comum e corrente da humanidade. onde no silêncio e na treva da mente resplandeciam o a Luz e o Verbo de Deus. substituindo a natureza dada na experiência por um conju nto de esquemas previamente arranjado para caber nos moldes pretendidos. pela Terra. pesado. abandonando árvores e flores. ao mesmo tempo. rigoroso. Bela troca! Figura 1 Mas o “desencantamento do mundo”. forjando o modelo de seu próprio objeto. concebendo o hábito — ou vício — de raciocin ar por “modelos”.

a verificação ( a única possível ) é uma seqüência infinita de verificações.” ( Edmund Husserl.. reverberações e fragmentos que não poderiam ter em si mesmos. inerente à constituição mesma da matéria —. mas ape nas o símbolo ou aparência de uma instância supra-espacial onde as aparentes contradições se reconciliam na unidade do infinito metafísico. em suma. Mas. Surpreendente. Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a ci rcularidade das órbitas planetárias. embora a contragosto e sem admiti-lo em público. quer separados. ao mesmo tempo que. Ai de vós. junto com eles. escreve Edmund Husserl: “Segundo o que observamos. “Ser científico”. 106 A “exatidão matemática” da visão científica da natureza desemboca assim. Aristóteles julgava. e ele conc . legisla sobre a realidade ou irreali dade dos demais conhecimentos. Na verdade. a idéia galilaica é uma hi pótese. Milano. que da infinitude espacial deduziram imediatamente a negação da centralidade da Terra no co smos.98 OLAVO DE CARVALHO das leis cósmicas — é ao mesmo tempo elevada a critério supremo e único de validação do conhe imento científico. advertido contra os riscos de uma aplicação indiscrim inada do método matemático à filosofia da natureza. 4ª ed. ademais. quer juntos. Buscar uma aproximação com essa hipótese é o único objetivo de toda investigação cientí a. Curiosamente. a cura di Walter Biemel. Como. ora invalidando as per cepções intuitivas. Il Sagg iatore. aos dados intuitivos e ao senso c omum. c ortes. o objeto sobre o qual versa a hipótese é indefinido e inesgotável. nem por isto terá sido sensato atirar ao l ixo. Enrico Filippini. A ciência fecha-se num solipsismo incomunicável. ao mesmo tempo em que pretende legislar sobre o conhecimento do mundo exterior. a hipótese permanece uma hipótese. 1972. manifestamente su perior. A cosmovisão científica. a cada momento. se Aristóteles estava manifestamente errado nesse detalhe e mesmo em muitos outros. trad. Tudo o que se poderia deduzir corretamente da ilimitação espacial é que o espaço tem propriedades autocontraditórias por não ser propriamente uma realidade. Tão bobos ficaram os sábios imbuídos de douta ignorância. ora revogando a autoconsciência individual. por outro lado. porque. 71 ). em realismo e profundidade. no oceano ilimitado da pura fantasia. não tendo o poder de limpar o próprio traseiro. com dois milênios de antecedência. pelo simples fato de não ser composta senão de aspectos. nesse sentido. toda a manifestação cósmic a está afetada de contradições. sem se 106 Comentando um estágio já mais avançado do processo de matematização da natureza — a física de Galileu —. ora negando o senso comum. É precisamente esta a essência p da ciência natural. com efeito. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. existir na natureza um resíduo irracional e in cognoscível. o fundamento de sua própria existência. Aristóteles já havia. Se o infinito tem indiferentemente inf initos centros ou nenhum. exercendo enfim sobre toda parte em torno o domínio que não pode exercer sobre si mesma. é conformar-se com uma hipótese inicial impossível de provar e refratária. renuncia a nos dar qualquer conhecimento do mundo re al da experiência — substituindo-o por um elenco de esquemas matemáticos — e desmoraliza como fantasia mística qualquer outra via de acesso a esse conhecimento. o a priori do seu modo de ser. Quem quer que medite seriamente estas palavras comp reenderá que um conhecimento assim constituído não tem a menor qualificação para sair dos quadros da mais estrita humildade metodológica e opinar sobre questões de metafísica. La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trascendentale. não obstante a verificação. imagina ter o poder de obri gar despoticamente a babá a fazê-lo. de gnoseologia ou mesmo de cosmologia. é absurdo pretender provar que um determinado ponto não é o centro. que não entrais nem deixais entrar. dar a mínima conta da falácia deste raciocínio. no que a evolução posterior da ciênc cessou de lhe dar razão. e uma hipótese de um gênero surpreendente. a aproximação não poderá jamais ter fim nem alimentar mesmo. A nova ciência teve um efeito entorpecente sobre todas as inteligências. p. a pretensão de estar mais certa do que no momento anterior ou seguinte. ao platonismo à outrance dos físicos renascentis tas. como a criança pequ ena que. o arcabouço teórico e metodológico da sua Física. e o permanece para sempre. com arrogância patológica.

Não se deve. na medida em que. mas somente quando se trata de seres imateriai s. Pois toda a Natureza contém verossimi mente matéria. daí vem. 995a. 3. pois é absurdo buscar ao mesmo tempo uma ciência e a maneira de alcançar essa ciência. Por isto o método matemático é inaplicável à Física. exigir em tudo o rigor matemático. .luía que o método demonstrativo-matemático só podia dar conta de realidades imateriais — d e puras relações lógico-ideais. e não da reali dade sensível .” ( Metafísica. para poder matematizar a física. que devamos examinar primeiro o que é a Natureza. pois assim v eremos igualmente de quê trata a Física. ). Ao rejeitar aparentemente Aristóteles. a ciência renascentista deu-lhe razão no fundo. diríamos hoje em linguagem husserliana 107 —. a. teve de se afast ar cada vez mais da realidade sensível até substituí-la totalmen107 “Eis por que é preciso ter aprendido quais as exigências que se devem trazer a cada es pécie de ciência. notadamente. e nenhum dos dois objetos é fácil de apreender.

dezoito séculos após a vinda do Salv ador. Histoire de la Folie à l’Âge Classique. que se anuncia no concílio de Trento . Depois disso. necessitava excluir. como o diz a calúnia consagrada em mito historiográfico — o gosto europeu de queimar bruxas e supostas bruxas. Malebranche. Enéas Sílvio Piccolomini. pela primeira vez na história do Cristianismo. Arnauld & Nicole — eram católicos fervorosos empenhados em fundar nu ma construção racional perfeita a conversão dos descrentes. uma desonestidade i ntelectual. irregular ou estranho. dúvidas ou nuances de qualquer espéc ie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático. 109 Sobre a perda do sentido simbólico da natureza. que vai varrer do mundo o pecado e instaurar a ordem social racional — mesmo que seja num cafundó latinoamericano. o espírito de formalismo legalista vai to mando posse da religião cristã em medida tal. Na pintura. The Encounter of Man and Nature. pela Editora Zahar: O Homem e . desde a fundação do Santo Ofício em 1229 até os grandes autos-defé dos ulos XVI e XVII. um incêndio devastador em ple na Idade Moderna. The Spiritual Crisis of Modern Ma n. A racionalização do dogma. É só acompanhar a ascensão do número de pro cessos e condenações. porque as novas idéias exerceram tanta influência dentro da Igreja Católica quant o fora dela. Se uma perfeita discriminação e catalogação os deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação. onde já não há mais lugar para a incerteza nem para o pecador. A Companhia de Jesus afirma-se desde o início como um utopismo reformista. Um dos primeir os humanistas da Renascença. O introdutor da nova astro nomia na Península Ibérica foi o chefe local da Inquisição. 108 Sim. O espírito geométrico marca a id ade clássica em todas as suas dimensões: da filosofia científica à moral religiosa. a per spectiva horizontal e matemática substitui a perspectiva vertical e simbólica. para verificar que aquilo que era um punhado de brasas na Idade Média veio a tornar-se. Seyyed Hossein Nasr. da simplificação geométrica que. 1968 ( há tradução brasileira. divergente. a natureza multiforme é substituída pe la regularidade de um tabuleiro de xadrez.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 99 te pelos modelos matemáticos. A liquidação das bruxas deriva muito menos da pura e simples defes a da ortodoxia do que de uma nova maneira — geométrica e purista — de compreender a or todoxia. Plon. Juan de Zuñiga. ganha ndo em ilusão de ordem e realismo o que perde em significação e intuito. segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções. A substituição do mundo da experiência pelos modelos matemáticos trouxe cons igo a mania da uniformização. v. 1965. apagar ou pelo menos esconder tudo o que fosse diferente. Neste sentido. o cientista moderno que proclama que a física renascentista refutou Aristóteles comete. É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra-Reforma (que uma simplificação boba toma unilateralmente como uma reação conservadora) o influxo das novas concepções racionalistas e platonizantes. vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação. é substituído pela classificação das peças isoladas e mortas 109. Allen & Unwin. os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos. Afonso de Ligório. destinados a excluir da visão humana os comportame ntos desviantes que arriscassem macular a perfeição matemática da nova ordem 108. o tecido complexo das analogias. Nas ciências da natureza. London. simplesmente. por exemplo. da j ardinagem à medicina. Data dessa époc a — e não da Idade Média. completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Sto. tornou-se nada menos que Papa. Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. ao mesmo tempo que se espalham por to da a Europa os hospícios e prisões. a salvação torna-se um problema de lóg ica jurídica. Michel Foucault. Paris. Nos jardins de Versalhes. resolvido por métodos matemáticos. para sustentar a ilusão do me canismo perfeito. como teria podido esperar t antos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos ante riores. das correspondências e das si mpatias em que reverberavam umas às outras as partes de um gigantesco organismo vi vente. os principais — Descarte s. mas é necessária à economia int talidade racionalista 110. v. sob o sopro dos novos tempos. que hordas de almas oprimidas sob o pe so Sobre a exclusão dos loucos. Dos fundadores do racionalismo. Aí.

110 Não vai nisto o menor intuito de depreciar a obra de Sto. Afonso. Apenas digo que ela atende menos a uma necessidade intrínseca da fé cristã do que a uma necessidade extrínseca imposta pelas condições da época. .a Natureza ). criação absolutament e genial pela qual os filósofos demonstram um desinteresse verdadeiramente patológic o.

o materialista Karl Marx redigia sua defesa de Epicuro contra Demócrito. A doutrina da sutilização encontrará na entra da do século XX um poderoso suporte verbal na nova física de Einstein e Planck. Mas é uma ascese puramente cerebral. A Crise do Mundo Moderno. A matematização da natureza é empobrecimento sensorial. A redução da religião a um mero sentimento interior jamais teria encontrado eco se não fosse p recedida pela redução da religião a um juridicismo racionalista. A fuga do mundo rea l para o dos esquemas ideais matemáticos tem. No curso desse processo. de alimentos densos em proteína. será tomada. o prestígio s acerdotal da casta dos cientistas. religioso em suma. A falta do ganho espiritual é em seguida compensada pela riqueza das aplicações técnic as advindas da ciência. nascida. 1955 ). que fará explicitamente da c iência natural uma religião. Que. ( 4ª ed. No século XIX. inte rpretada retoricamente: a noção física de “energia”. sem verdadeiro sentido moral. Coi ncidência nada fortuita: o afluxo maciço de militantes socialistas às fileiras do espi ritismo e do ocultismo — um dos fenômenos mais marcantes da vida mental das classes letradas no século XIX — mostra a existência de uma afinidade entre essas duas corrent es de idéias aparentemente antagônicas. assim.êta país ingrato! diante se apossaria da intelectualidade européia. com freqüência — e não só por populares ignorantes — como um verdadeiro nônimo do espírito. O equívoco funda-se numa visão estereoti pada — e bem materialista — do ascetismo religioso como mero empobrecimento sensoria l.. o que ainda aumenta mais. aos olhos da multidão. seu efe ito foi a de diluir na consideração da infinitude espacial a capacidade humana da in tuição espiritual. Giordano Bruno tenha desenvolvido as fantasias mais exacerbadas a propósito da pluralidade dos mundos habitados. elevá-lo às supremas alturas do conhecimento espiritual — privando-o. sentimentalistas e român ticas no domínio religioso. a desapar ição do deus infinito expande desmesuradamente o panteão cósmico. ao contrário. alguma coisa de ascético. como se o enfraquecimento do corpo fosse por si um mérito espiritual e como se não pudesse hav . numa proliferação ilimitad a dos focos de atenção espiritual. O processo iniciado por Nicolau de Cusa encon trará sua culminação quatro séculos depois com Augusto Comte. a disseminação de milhares de pseudomísticas e pseudo-esoterismos que prometem. perdida a via de acesso à espiritualidade autêntica. um dos grandes livros brasileiros que já nenhum bras ileiro lê —. v. em substituição à espiritualidade religiosa. s. por exemplo. Nela está a raiz da perve rsão moderna que atribui à ciência natural a tarefa de guiar espiritualmente a humanid ade. a sub stituição da realidade sensível pelos seus equivalentes racionais e matemáticos vai se i mpondo.100 OLAVO DE CARVALHO dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico 111. para concentrar-se na única coisa necessária. não é de estranhar que. como matéria rarefeita. Leonel Franca. e da casta científica um clero. De imediato. como um sucedâneo mundano da ascese espiritual. Rio. do Pe. espiritual. tidos como espiritualmente prejudiciais. sob o impacto das idéias de N icolau de Cusa. Tal como entre os primitivos bantos. J. isto é. apenas sem ganho espiritual . passassem a ser tomadas como espirituais as forças da natureza cósmica simplesmente mais sutis e afastadas da realidade sensível imediata. Esta concepção provocou. porém. amplamente disseminados entre as camadas letradas. o ocultismo e o espiritism o. no mundo moderno. logo em seguida. de fato. pela “sutilização” do corpo do discípulo. no sentido de um esforço de opor-se à natureza. cada vez mais absorvida na varie dade da manifestação cósmica e cada vez mais distante de todo princípio metafísico capaz d e fundar critérios legítimos de validade do conhecimento. Por toda parte. Agir. in do direto à infinitude metafísica e passando por cima de todos os indefinidos merame nte quantitativos da ordem cósmica. é apenas o primeiro sintoma da tendên cia centrífuga que daí por 111 Sobre a ascensão progressiva das doutrinas irracionalistas. enquanto oposta à matéria densa do mundo visível. explicarão o espírito como uma sutilização ou diluição da matéria. afinidade que se explica facilmente pela sua origem comum na cosmovisão renascentista. Mas ao mesmo tempo que o “espirituais” Allan Kardec e Madame Blavatski restauravam assim sem sabê-lo a física ep icúrea.

da ampliação do univ erso sensível inaugurada no Renascimento. onde toda a diferença entre as ca madas superiores e inferiores se reduz à escala quantitativa do grosseiro e do sut il. denominou “materialismo espiritual”.er místicos gordos ou santos musculosos. Eis aí como. a . c om certeira concisão. por exemplo. chegamos à concepção dominante de um universo totalmente achatado. Foi a esta caricatura que o Dalai Lama. unidimensional e opressivo. como se.

Quando saiu a primei ra edição. e já não têm mais o espírito de elevada seriedade que. acabasse chegando. sendo verídico o bastante. dizia Einstein. nas cabeças de muitos pensadores de hoje. por essa via. éd. eram apenas um gigantesco esforço . matemáticos etc. Ora. se o objeto não movido de f ora permanece parado ou tem um movimento fictício. na fantasia pueril do materialismo epicúr eo. no sentido de Huizinga 112. Foi este episódio que inaugurou a ma nia dos cientistas modernos de tomarem simples mudanças de métodos como se fossem “pro vas” de uma nova constituição da realidade. apenas i nventou um modo melhor de provar que ela tinha razão. mediante um novo sistema de medições.. esclar ecia discretamente que o movimento retilíneo e uniforme não existe realmente. 2e. ao culto dos extraterrestres. quando proclamou ter superado a noção da ciência antiga. um objeto em tais condições. em 1974. Des S avants à la Recherche d’une Réligion. O dogma da sua própria honestidade intelectual int rínseca parece impedir os físicos de perguntar se não há algo de errado no que estão fazen do. V. permanece parado ou em movimento retilíneo e uniforme. Eis aí como uma cosmovisão de um prima rismo deprimente pode conviver. conseguiu apenas explicar po r que ele permanece parado. E. Raymond Ruyer. astrônomos. por cim a de dois milênios de evolução do pensamento. mas é um a ficção concebida pela mente para facilitar as medições. Na realidade. Penitencio-me agora ante o grande romancista: ele tinha ra zão. tendo pretendido superar toda mitologia religiosa. e que o testemunho dos senti dos. pelas páginas da Última Hora do Rio. seria inerente à i déia de ciência. V. Mas um fundo de charlatanismo parece já ter sido introduzido na física por Galil eu. Cap. coeridas som ente pelo convencionalismo de uma regra de jogo. após ter assim derrubado a física antiga. pela confusão entre o céu visível e o céu espiritual. “O caráter fictício dos princípios. sobretudo dos físicos. acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias. rigorosamente. por força delas mesmas. As especulações d e Princeton. cada uma das quais atingindo em suas conseqüências um alto grau de concordância com a experiência” 114. Galileu não contestou a física antiga. Fayard. Eis aí também como é possível. 1977. vejo agora. Meu artigo estava muito certo em diagnosticar a formação de uma nova casta sacerd otal composta de cientistas. de um lado. n o século XX. substitui a autêntica sêde espiritual.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 101 diferença de planos entre a tinta em que se imprime estas letras e o espírito do aut or que as escreveu pudesse ser transposta com a maior facilidade mediante a simp les diluição progressiva da tinta. sem a menor preocupação de indagar se algum dia esses modelos foram levados à prática 113. é p erfeitamente evidenciado pelo fato de ser possível apresentar duas bases essencial mente diferentes. não tem em si a prova da sua veracidade — coisa que já e ra arroz-com-feijão desde o tempo de Aristóteles. marcada. Não é nada estranho que. Paris. astrofísicos. que ele permanece parado em todos os casos. . É mais ate rrador ainda ver como essa gente se 112 113 acomoda a todos os piores ilogismos. mas não em festejar esse acontecimento. Ou seja. pontificava. e em resposta levei um discreto puxão-de-orelhas de Octávio de Faria. Homens adultos que encaram a vi da como puro jogo estão gravemente afetados de puerilismo. de direito. Uma certa perda do senso de realidade parece uma doença profissional crônica da classe dos cientistas. Nas Sombras do Amanhã. um filósofo imbuído das concepções mais moderna e avançadas recair. XVI. É aterrador ver como os cientistas da comunidade que Raymond Ruyer de nominou “gnósticos de Princeton” se divertem concebendo “modelos de universo”. La Gnose de Princeton. e que Galileu. fiz na revista Planeta os maiores elogios aos garotões de Princeto n. isto significa. com os c onhecimentos científicos mais elevados e complexos. vendo neles um defeito da realidade mesma e jamais da estrutura da sua ciência. Os “deuses astronautas” atendem em toda a l inha os requisitos da imaginação moderna. segundo e le 115. e de outro pela necessidade de uma mise-en-scène “científica” p ara os mitos grosseiros com que vai satisfazendo como pode a ânsia do maravilhoso que. nela. segundo a qual um objeto não impelido por uma força externa permanece parado — uma ilusão dos sentidos. a civilização do O cidente. exatamente como o dizia a física antig a.

Valter Pontes. reconhec e que os físicos hoje em dia “já não sabem do que estão falando”. Cap.de pedantismo espiritual para fugir. mas acha isso divinomaravi lhoso. . São Paulo. pelo atalho gnóstico. 114 Cit. um escritor científico de sucesso. trad. A Evolução da Física. da “hipótese Deus”. Witt genstein e Frankenstein. Reinventando o Universo. Gertrude Stein. Companhia das Letras. em John Brockmann. 115 V. como obse rvara Octávio de Faria. I. Einstein. 1988. Brockmann. Einstein e Infeld.

dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série. nunca atual. também uma crença estabelecida do senso comum e um d os pilares da lógica clássica. 6. 2. contada ou nomeada de uma determi nada maneira. mas é a própria série dos números inteiros.. “Paridade” e “lugar na série” são conceitos inseparáveis: se par. que o infinito quantitativo é só p otencial. fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas que definem e diferenc iam os números entre si e. 4. e nenhum número poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com qualq uer outro na série dos inteiros. assim. isto é. 4 . as não é o signo “4” que é o dobro de 2.102 OLAVO DE CARVALHO Mas no campo das matemáticas foi o deslumbramento com a idéia do infinito espacial e quantitativo que levou a mente humana às piores esquisitices. Esse raciocínio baseia-se na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares são conjuntos infinitos atuais. de modo que os dois conjuntos teriam o mesmo número de elemento s e. e mbora sendo parte do conjunto dos números inteiros. ou seja . Só para dar um exem plo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o 5º princípio de Euclides ( de qu e o todo é maior que a parte ) pelo argumento de que o conjunto dos números pares. a demonstração de Cantor é apenas um jogo de palavras. e bem pouco engenhoso no fun do. com Aristóteles. os números não seriam pares. se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ). saltando-se uma unidade entre cada dois números. Em primeiro lugar.. “4” é um signo. A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em do is. teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras . e se. portanto. 3. ora usando-a para designar uma quantidade definida com propr iedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos número s e a de poder ser par ou ímpar ). é verdade que. quando o fato é que. sendo ambos infinitos. Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando.. n 2n = n Com esta demonstração. é unicamente a soma imp lícita das unidades não mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. não há mais paridade ou imparidade nenhuma. Mas isso é confundir os números com seus meros signo s. a cifra. 8 . quisermos destacar por signos ou cifras especiais os númer os que representem pares. se não fosse contada assi m. isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas . outro de pares mais ímpares. nunca de 1. mas não uma maio r quantidade de unidades do que a contida na série dos pares. é porque tanto n + 1 como n .. não há aqui duas séries de números.. produz sse samba-do-alemão-doido. ora para designar o mero signo de número. e sim a quantidade 4. junto com um princípio da geometria antiga. con firmando o argumento de Cantor. os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos. Se a série dos números i iros pode ser representada por dois conjuntos de signos. Nesse sentido.. nesse conjunto. onde o requinte dos argumentos engenhosos coexiste com a total falta de sensatez. pois o conjunto dos números pares seria de pares se seus elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa sér ie ascendente ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2. pode ser posto em correspondênci a biunívoca com ele. O conjunto dos números inteiros pode conter mais signos numéricos do que o conjun to dos números pares — já que abrange os signos de pares e os de ímpares —. e. mas uma única. a parte seria igual ao todo: 1. então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro . 2. A tese de Cantor esc orrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sen tido da palavra “número”. De nada adianta aqui recorrer ao subterfúgio de que Ca ntor se refere ao mero “conjunto” e não à “série ordenada”. um só de pares.. ntada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente parte da série dos números inteiros. mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuai s. Po rtanto — e eis aqui a falácia de Cantor —. seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinha s. abolindo implicitamente também a distinção mesma en tre pares e ímpares. A noção de “conjunto” é que. “2” é um signo. descortinando assim os horizontes de uma nova era do pensamento humano. e ele pode portant o ser rejeitado por quem acredite..1 são ímpares. Mas. na qual se baseia o pretenso argumento. destacada abusivamente da noção de “série”. abstr aída a posição na série.

Um conjunto de x uni- .. A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”.

como o próprio Piaget mostra em outros trabalhos. Um tris te exemplo é Jean Piaget. pergunta Piaget. ele contesta a un iversalidade do princípio de identidade. caso contrario ele não poder ia reconhecer. “Quando sete bolinhas se tornam o ito ou nove como um elástico de sete centímetros que atinja oito ou nove. mas não o mesmo número de unidades. garante que elas são oito ou nove tão logo sejam alinhadas com intervalos maiores. senão não escreveria essas coisas. que ultra passam uma perda meramente estética para reverberar numa destruição do fundamento raci onal das ciências. e que os pares possam ser contados como co isas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. como deduzir. o garoto simplesmente não distinguiu entre quantidade discr eta (o número de bolinhas ) e quantidade continua ( a distância linear ocupada). é claro. os princíp ios lógicos que validam por sua vez a idéia mesma de experiência científica o que é mais o u menos o mesmo que tentar cobrir um cheque sem fundos mediante depósito constituído do mesmo cheque. Em sua hostilidade irracional contra a idéia mesma de princípios universais. não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte. Para levar em conta somente as bolinhas. com sua própria metade). é o mesmo pr incípio de identidade ou um princípio um pouco diferente?”. ele teria de ser um menino um pouco mais velho.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 103 dades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares. não poderia deixar de. encarna de maneira exemplar. tr azer. fundando-se no exemplo do garoto que. que aquel a tradição.” Deve ter mesmo esqueci do. No seu “argumento” não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte. com todos os seus defeitos e limitações. mas o que é que isto tem a ver com a universalidade (ou não) do princípio de identidade? O que houve no caso fo i apenas uma dualidade de significados atribuídos ao termo “bolinhas”: o experimentado r referia-se ao conjunto aritmético — abstrato — das sete bolinhas. sem acréscimo de nenhuma. com base nela. O que Cantor faz é. o garoto apenas mostrou perceber que o aumento e a diminui116 . é apenas o sinal da revolta i mpotente da imaginação matemática exacerbada contra a ordem real das coisas. A perd a do sentido da infinitude metafísica. Não se trata ndo de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte. a diferença dos respectivos sensos d e identidade? Ao contrário: o erro cometido pelo garoto subentende uma consciência d a identidade absolutamente igual à das pessoas adultas. no conjunto aumentado para oito bolinhas. Em Sabedoria e llusões da Filosofia 116. além do “desencantamento do mundo”. mas sim de uma comparação me ramente verbal entre um todo e o mesmo todo. o mesmo conjunto que an tes tinha sete. danos profundos à inteligência humana. no fundo. supondo que um número qualquer possa ser par “em s ndependentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inc lusive. mas esqueci quais. ten do contado sete bolinhas. e do aumento da quantidade co ntínua deduziu o da quantidade discreta. É preciso estar dormindo ou hipnotizado para não perceber que. diversamente denominado. a longo prazo. Ora. o garoto à figura co ncreta das bolinhas distribuídas num determinado espaço. Que sofismas tão grosseiros possam passar como sérias ameaças aos fundamentos da geometria clássica e mesmo aos pr incípios da civilização que herdamos da tradição greco-romana. nem. E ironiza : “Meus filósofos tinham respostas prontas. portanto. Esse expediente pueril é a marca registrada do psicologismo (red ução das relações lógicas a “fenômenos da mente”) — um estilo de pensar que continua desfruta e certo prestígio nos meios universitários pela única razão possível de que ninguém aí leu su refutação por Edmund Husserl. da diferença da capacidade de abstração entre adulto e criança (ou crianças de idade desigual). ocasionando a exacerbação imaginativa do concei to de infinitude espacial e quantitativa. muitos pensadores científicos — inclusive alguns bem grandes — ch egam a apelar para subterfúgios perfeitamente indignos de homens de ciência. Deduziu errado. para o que. Cantor erra o alvo por muitos metros. de uma refutação do 5º princíp io de Euclides. no caso. o menino teria de subir mais um grau de abstração. substancializar ou mesmo h ipostasiar a noção de “par” ou “paridade”. Uma das estratégias a que se recorre para esse fim é a de apelar ao testemunho da experiência científica para tentar invalidar. enc arando o conjunto como uma síntese confusa de ambas. sem o espaço.

Abril. Ed. 83 da edição Os Pensadores ( São Paulo. várias reedições ).P. .

e o que não se compr eende é como a criança poderia passar de um nível de abstração a outro sem a permanência do senso de identidade. perfeitam ente evidentes. muito abaixo das poss ibilidades contidas no próprio conceito de “ciência”. portanto. ou substantia secundum quid. os fracassos de um a ciência assim degradada viessem a ser tomados como argumentos contra a possibili dade mesma de qualquer conhecimento científico universalmente válido. cujo prestígio elas tinham simplesment e usurpado.. não se dá conta sequer de que deduzir d o fato da confusão entre bolinhas e espaço uma dualidade de princípios lógicos não é outra c oisa senão passar do fato ao valor — um psicologismo dos mais descarados. neo-relativismo. Kuhn e Michel Fou cault enfim reduziram a história das ciências à sucessão mais ou menos arbitrária de “paradi gmas”. de fato. É que a ciência desistiu de ser científica. nova re tórica. Edmund Hus serl descreve nestes termos a decadência do ideal científico nas ciências do século XX 1 17: “A ciência moderna abandonou o ideal de ciência autêntica. Aliás Piaget.. é claro que é ma is fácil reconhecer a identidade de uma substância dotada de unidade real. Sua força de impulsão interna não é mais constituída por aquele radicalismo que. Quando Thomas S. independentemente de não terem uma unidade substancial. eis aí algo que a criança só poderá admitir quando sua mente for adestrada para aceitar como premissas do raciocínio os convencionalismos matemáticos. como se essa c iência fosse a única possível. não é de espantar que. que agia de maneira vivente n as ciências desde Platão. epistemes ou pré-esquemas cognitivos semiconscientes que entram e saem de cen a por motivos geralmente irracionais. contentando-se em ate nder às exigências de praxe de um protocolo “experimental” no qual já nem acredita mais e cujos fundamentos já desapareceram sob grossas camadas de esquecimento. mas reconhece a filosofia como uma “ati vidade de coordenação dos valores. é que o diálogo acadêmico se tornou algo como a conversação de hipnotizados no jardim de Epicuro ou como uma sessão do Santo Da ime — todo mundo doidão. uma quase-substância. Essa passagem requer uma subida do grau de abstração. que é a utor de um Tratado de Lógica. de validade cogn itiva? No fim das contas. um “todo matemático”.104 OLAVO DE CARVALHO ção não alteram a identidade. o trono foi entregu e à ambição de todos os antigos pretendentes: neopragmatismo. por assim dizer. é perfeitam ente ilógico sempre que trata de situar as relações entre ciência e filosofia. acrescentando o toque 117 . em s i. que admite como um dogma o pressuposto kantian o de que não existe passagem do fato ao valor. Destituídas a um tempo a rainha autêntica e a falsa. neo-epicurismo — é o cortejo todo dos velhos irracionalismos que retorna à cena. os valores que bal izam a cientificidade da ciência ). ademais. no sentid o aristotélico ( “este coelho é este coelho”). eles abalaram não somente a confiança nas ciênci as existentes. como se ela não estivesse. logo a seguir. que é apenas uma unida e convencional. Ele rejei ta toda pretensão da filosofia a constituir um conhecimento “superior” à ciência ( e mesmo de constituir um conhecimento qualquer ). Que os todos matemáticos devam ser encarados como unidades. Piaget pretende ver uma dualidade de princípios lógicos onde há a penas uma diferença entre os aspectos percebidos por dois indivíduos num objeto que ambos sabem ser o mesmo. o que é perfeitamente aristotélico. Quando err os tão primários se introduzem nas mais altas cogitações científicas e ninguém se dá conta de sua presença. mas no ideal mesmo de ciência. inclusive cognoscitivos” ( isto é. Piaget.” Dado esse estado de coisas. De outro lado. que a de um “conjunto”. coloca continuamente a exigência de não admitir nenhum saber para o qual não seja p ossível dar conta em razão de princípios originalmente primeiros e. ela abandonou o radicalismo da auto-responsabilidade científ ica. Mas como é que um princípio de coordenação poderia não s er de algum modo “superior” aos elementos coordenados? E como seria possível coordenar valores de veracidade científica sem fundar-se num critério de veracidade cujos fun damentos fossem admitidos como verdadeiros e dotados. e é algo que os adultos percebem da mesmíssima maneira que ele.

P. 1957. Paris. 7-8. Logique Formelle et Logique Transcendantale. Éssai d’une Critique de la Raison Logique.F.U. trad.. Suzanne Bachelard.Edmund Husserl. . pp.

O historicismo oporá a essa concepção três novas idéias: 1ª. assim como Galileu e Newton não poderiam ter formulado cientificamente a mesm a idéia se contassem apenas com os recursos matemáticos de Arquimedes ou Nicômaco. em lugar do cosmos fixo e repetitivo do racionalis mo mecanicista. A divinização da História fará. nasce de um sadio movimento em direção ao concreto. a descoberta de novos e poderosos instr umentos intelectuais abre ao homem a visão de continentes insuspeitados. Segun do o grande historiador do historicismo. quer dos escolásticos. Ela opera uma ruptura do pensamento europeu com o universalismo abstratista dos gregos. cuja visão da n atureza humana como uma essência fixa e imutável permanecera dominante apesar de tod as as mutações espirituais da Idade Média. E m ambas essas linhas de desenvolvimento. muito menos a uma idolatria do abstrato. de que se originarão o historicismo e o progressismo. de uma reação contra o abstratismo. quer dos racionalistas e empirista s. não se somassem as do tempo. § 21. O historicismo. assim também a compreensão aprofundada dos detalh es filológicos do texto bíblico gerará polêmicas sem fim nas quais acabará por perder-se o sentido essencial do conjunto. nasce de um desejo de comp reender melhor as Santas Escrituras. foi compensada pela descoberta das duas dimensões horizontais do mundo físico. Assim com o a cosmologia de Nicolau pretendia dar uma nova visão da natureza que fosse mais digna de representar a manifestação da infinitude divina. ao sensível. Nenhuma descoberta se faz sem instrumentos. assim também a crítica histórica . às divin dades do espaço. À revelação da infinitude espacial seguiu -se a da infinitude temporal: ao materialismo seguiram-se o historicismo e o pro gressismo. mas entraram desde logo n um antagonismo aparentemente insuperável: a ampliação do espaço gera as modernas ciências físico-matemáticas. mas a amp liação do leque de coisas visíveis se faz às custas da perda do senso de unidade e hiera rquia do real. — (I) A força dos meios Mas a descida do foco de atenção espiritual que preenche o vazio deixado pela Divind ade suprema mediante a multiplicação dos deuses cósmicos não estaria completa se. ao singular.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 105 final de demência sem o qual não estaria completa a saga alucinante dos deuses do es paço. com efeito. a visão do univer- . no Ocidente. Friedrich Meinecke. nada tem que se pareça nem de longe a uma nova id olatria. ou vertical. em suas origens. A perd a do sentido da infinidade metafísica. A divinização do tempo. O sintoma mais agudo dessa perda é que as duas novas dimensões descobertas nunca puderam ser articuladas entre si. Ambos os movimentos que geraram a irreligiosidade moderna originaramse de dentro do campo religioso e sob o estímulo de impulsos religiosos. e que após o Renascimento adquirira um novo v igor através da concepção do direito universal — uma norma moral abstrata e universal im bricada na constituição do cosmos com a fixidez de uma lei física. formand o duas culturas separadas e hostis. o papel do culto dos antepassados entre os Yorubas abandonados por Olorum. Do mesmo modo. E assim como a ampliação quantitativa do univer so físico conhecido produz a dispersão da inteligência numa poeira de fatos cada vez m enos dotados de significação metafísica. Nicolau não poderia ter cap tado a infinitude espacial sem o prodigioso desenvolvimento da dialética na Idade Média. onde todas as tentativas de conciliação e síntese têm falhado. o advento do historicismo não teria sido possível sem a crítica histórica. a descoberta do senso histórico origina as ciências humanas. a descoberta da dim ensão histórica foi uma revolução espiritual de vasta envergadura. Ele nasce.

a imagem do universo inteiro. A essas individualidades infinitas Leibniz denomi nava mônadas. 27. para ele. 1943 ( original alemão de 1936 ). Todas as formas particulares. El Historicismo y su Génesis. FCE. é de novo forma estruturadora. México. dinâmico. A unidade idênti ca de nossa própria personalidade não pode arraigar-se na matéria. mas sim a que a norma mesma. a visão da inesgotável varied ade dos tipos e das individualidades. Se não há dois seres human os iguais ou duas folhas de árvore iguais. onde há lugar para o imprevisto e a criativid ade. na força normativa e estruturante. O terceiro passo foi dado por Giambattista Vico. uma riqueza de estruturas peculiares. Até aqui. Todos estes pensamento s podiam um dia dar passagem a uma mais profunda compreensão da história. Uma de suas primeiras manifestações da nova mentalidade é a estética do Conde de Shaftesbury (16711713). a matéria não poderia. mas pouco compreendido. da sua singularidade. o macrocosmo de microcosmos que refletem a infinitude da unidade supr ema na forma por assim dizer quantitativa da infinitude de suas imagens microcósmi cas. por dar às suas idéias uma expressão talvez demasiado informal e literária. que nada tem existência sob a forma do genérico. sendo portanto o pr incípio da conservação da unidade na mudança e pela mudança. Se a pluralidade inesgotáve l das individualidades não se perde no caos e na confusão. um grande pensado r que. p. têm seu “gênio” particular. ainda que em última instância sejam redutíveis a um princípio comum unitário. Mas essa “idéia”. por um movimento mecânico. Tanto a causa do ser quanto s ua beleza e o princípio de sua permanência idêntica residem na forma. José Mingarro y San Martín y T omás Muñoz Molina. do homogeneamente idêntico. que 118 lhes é inerente. O universo compõe-se de universos.” Friedrich Meinecke. O passo seguinte na formação da consciência historicista vem com a filosofia de Leibni z. trad. que brotam de um ponto central interior. inward constitution. engendrar as plantas. Shaftesbury não fala diferentemente de um platônico o u neoplatônico. isto não se deve a um desvio da realidade sensível em relação a uma norma abstrata de perfeição. Ela enfatiza que toda a realidade é composta de individualidades. ela é o princípio interno da sua diferenciação. a qual se corrompe e se desfaz sem que a nossa pessoa se desfaça junto. em lugar da “natureza humana” abstrata e universal. não é porque desde fora e desde cima uma lei universal oprima e regre o curso das ações individuais. se por toda parte impera a ordem e a harmonia. Shaftesbury chama-a inward fo rm. na “idéia”. cada uma irredutivelmente singular e diferente de todas as demais. Segundo Shaftesbury. ela reside na individualidade concreta. acabo u por vê-las rotuladas pela posteridade como the sublime of nonsense — sinal de que foi muito amado. de uma idéia formadora. Deus mesmo não é um conceit o universal abstrato. Por toda p arte uma interação de liberdade e necessidade. Friedrich Meinecke assim resume a contribu ição de Shaftesbury à formação do historicismo 118: “O mais importante nesta doutrina é o primeiro reconhecimento do princípio de individu alidade. um obscuro professo r de retórica da Universidade de Nápoles. mas porque cada ser individual tem em si. na medida em que não se f ormou uma mera corporeidade. que se torna sempre patente em sua beleza. inward order. cada uma total e completa em si mesma. a intuição da personalidade humana como um p rocesso que se desenvolve e se cria no tempo. recriando-se continuamente. Cada ser singular tem em si uma força interior e spiritualmente estruturadora que o singulariza e que é como que o algoritmo de tod as as transformações por que ela passará no curso de sua existência. 3ª. pairando no céu das idéias puras acima das individualidades concretas: ao contrário. Tud o quanto se cria ou é criado comporta estrutura e forma e. na sua própria constituição interna. através da ação da vida. cujo pensamento foi solenemente ignorado p . inward character e outr os nomes compostos sempre com inward. 2ª. mas um indivíduo singular vivente. não é o conceito de um gênero ou uma regra abstra a universal. animais e homens.106 OLAVO DE CARVALHO so como um processo vivente. a lei suprema do universo é a lei da individualidade irredutível. inward structure.

que são criações dele mesmo. o co- . O homem. conhece muito bem os seus a tos e pensamentos. e sim por Deus. só Deus tem um conhecimento certo e perfeito da natureza. Co mo a natureza não foi feita pelo homem. por seu lado. Nadando na contracorrente de sua época. Vico asseg urava que cada ser só pode conhecer perfeitamente bem aquilo que ele próprio faz.elos contemporâneos. Logo. que tomava em geral as ciências físicas e matemáticas como o protótipo mesmo do conhecimento seguro.

Além do fa to histórico de que todos os fundadores da filosofia moderna eram cristãos piedosos e movidos por intuitos apologéticos declarados. como veremos adiante. tomada como o protótipo mesmo da r ealidade. de ordem interior. Ora. mas o da História. com todas as diferenças i rredutíveis que os singularizam. divergira de toda a tradição escolástica para afirmar que não existem idéias eternas ou modelos universais somente das espécies e gêneros. Vico. Esses três pais-fundadores do historicismo estavam. Ele é. Mas os primeiros passos na direção do historicismo devem ser consi derados marcos memoráveis no sentido da cristianização da filosofia. e em última instância no culto de uma idéia abstrata. assegura ele. buscando nele o mesmo tipo de estabilidade e fixidez que o estudo das ciências físicas buscava nas leis da natureza. individual ou coletivamente. com sua visão do universo como uma harmonia vivente. da analog ia. o filósofo grego tendia a vê-las como uma imagem e semelhança das coisas do mundo sensível. o primeiro a enfatizar as diferenças de temperamentos e inclinações entre indivíduos e povos como causas dos grandes aconte cimentos. Os homens. a lançar fund amentos. É impossível não ver em Shaftesbury a marca da mística neoplatônica. a base dos conhecimentos humanos. na imortalidade da alma individual). à visão do universo como processo temporal. A visão de uma pluralidade de ações más produzindo um resultado bom é profundamente cristã. por seu lado. O historicismo. num eu pensante abst rato e universal. na verdade. Vico já não se limita. Scot acreditava que a hipótese contrária era um resíduo pagão. cegos. mas dos indivíduos. raramente são movidos por concepções filosóficas raci onais e coerentes: em geral eles agem cada qual por motivos subjetivos. Do mesmo modo. não acreditava. mas de uma fase para outra no desenvolvimento de um mesmo povo e de um mesmo indivíduo. é porque há uma força maior que. Para entendermos o curso das coisa s. saltando por cima do cosmos. Para usar o termo genial de Orte ga y Gasset. e por isto mesmo. não está. resu ltou numa divinização idolátrica do tempo e do processo histórico. das correspondências simbólicas. tendia a fazê-lo nos mesmos termos com que falava das coisas do mundo externo. Mesmo quando falava de realidades espirituais. que se recorda de suas ações e pensamentos e p ode narrá-los. como História. ao expressar-se em atos. como seus dois grandes antecessores. acredita piamente na Providência. a ênfase de Leibniz na singularidade como princípio d o real é um eco da hæceitas scotista. temos de penetrar no conhecimento de suas diferenças — não só de indivíduo a indivíduo e de povo a povo. hostil à doutrina cristã da imortalidade da alma (Aristóteles. não produz como efeito apenas o caos. Para . É inteiramente errône a a visão estereotipada da Idade Média como o período da filosofia cristã por excelência. saltava sobre quase dois milênios de herança grega para voltar à visão do Gênesis. querem coisas diferentes. no Ocidente. resgata ndo valores da espiritualidade antiga e medieval soterrados sob a uniformização raci onalista.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 107 nhecimento mais seguro não é o da física. quando falava do homem. egoístas e irracionais. era um pensamento coisista: via o homem à imagem das coisas. quase se mpre mesquinhos. John Duns Scot. em cujo altar foram sacrificados milhões de indivíduos humanos. É que toda a herança do pensamento grego e ra centrada na noção do cosmos. mas não pôde livrar-se completamente do resíduo coisista. o Doutor Sutil. o pensamento cristão é centrado na relação homem-Deus. e da Idade Moderna como época da ruptura da filosofia com o cristianismo. tal como Leibniz. para quem o conhe cimento a rigor versa somente sobre os gêneros e as espécies. queda redenção do homem. Se o conjunto inesgotável das motivações individuais. O verdadeiro cogito. Vico. mas no eu concreto. ao descrever a história como história da consciência. o qual se passa na alma humana. As coisas sucedem diferentemente porque em épocas diferentes os homens. coerido pelos laços da simpatia. A escolást ica medieval deu passos gigantescos no sentido de cristianizar a filosofia. o “progresso”. a filosofia moderna é cristã por um mo tivo muito mais fundo. O pensamento grego era fundamente marcado por uma visão objetivistaexterior. como imaginava Descartes. da natureza sensível. que é rebaixado à função secundária de u cenário ou de um reflexo do drama principal. o último dos gra ndes escolásticos medievais. de fato. do alto. harmoniza as várias ações humanas no sentido de um resultado benéfico. como epopéia da criação. mas ergue o edifício inteiro da nova filosofia — a interpretação da realidade c omo processo.

Logo. centro de perspectiva da criação cósmica. é também o seu centro de co nstrução. O homem.quem Deus fez o mundo?. Teilhard de Chardin. perguntava o catecismo da nossa infância. E respondia: pa ra o homem. não é o homem que tem de ser descri- . dirá o Pe.

Ele só pode ser descrito segundo uma ótica que leve em consider ação. afinal. de algum emprego público como Leibniz ou de rendas de família como Descartes e Pascal. a variedade e a imprevisibilidade das ações individuais e que. Spinoza. contra o abstratismo racionalista. Descartes. por um lado. Do neoplatonismo pode ter vindo a imagem do universo como totalidade vivente. e sim investigadores independentes. fazer História. para descrever o homem. é perfeit amente injusto ignorar que um giro em direção às individualidades concretas. a imagem de Deus e a do indivíduo humano c oncreto? Nada no mundo se faz sem instrumentos. e sim socialmente: novas formas de atividade intelectual começavam a desenvolver-se fora da universidade (da Escola). a um só tempo.108 OLAVO DE CARVALHO to à imagem e semelhança do cosmos. onipotente: logo. De outro lado. Como ninguém supera sem primei ro absorver. No homem confluem. cristã na base. É preciso. e logo em seguida a eclosão da conciência historicista. não fazem senão prosseguir no sentido da cristianização crescente uma evolução a que a esco lástica. A descoberta ou redescoberta da dimensão histórica requeri a primeiro a superação da cosmologia naturalística grega. no fundo — e coexistindo. Só a História pode dar con ta da complexidade da visão da vida humana como drama da salvação. O homem. A superação começa soment com Duns Scot e sua teoria da hæceitas — a forma eterna da individualidade humana. advindos do fato de que esses meios também têm sua forma e estrutura próprias. Para Aristóteles. contra o platonismo da nova física. o “processo”. É mais do que evidente que um ser assim constituído não pode ser eficazmen te descrito por uma antropologia coisista. era uma retomada do que havia de melhor e mais genuíno e m Aristóteles. e os grandes pensadores da época subseqüente. com Descartes e Montaigne. mas a valorização do drama humano como centro da realidade cósmica é. como imagens dos dois atributos di vinos fundamentais — a Infinitude e a Absolutidade — as duas correntes contrárias da l iberdade e da necessidade. a escolástica inteira. a raiz divina da imortalidade da alma. saiba encaixar harmoniosamente essa variedade no quadro das determinações cósmica s e divinas que limitam a liberdade humana. na unidade de um desenrolar temporal real. A mud ança do cenário social da atividade filosófica muda o estilo de filoso- far e até de escrever sobre filosofia. Mas aí a escolástica já estava esgotada — não intel ectualmente. mas o cosmos à imagem e semelhança do homem. é preciso contar com a interferên cia dos meios e instrumentos. já tendia manifestamente e com muita força 119. até Sto. o homem está exteriormente sujeito às leis cósmicas e interiormente à lei moral. que o encare como essência fixa sumetid a à operação de leis de causa-e-efeito uniformes como aquelas a que estão sujeitos os co rpos do mundo visível. que não se rendem plasticamente à nossa vontade mas im põem à sua execução toda sorte de obstáculos. sem dúvida alguma. e este à imagem e semelhança de Deus. por um lado. em oposição ao mecanicismo. já não serão profissionais do ensino. f orjar seu destino. con ciliar dinamicamente. o “progresso” — sob cuja figura obsessi dominante desapareceriam. então. É preciso. pode ser considerada como um giga ntesco esforço de absorção da cosmologia grega no contexto cristão. bem como 119 É por isto que não posso concordar inteiramente com o insigne Friedrich Meinecke qua ndo enfatiza de maneira um tanto unilateral o peso da influência neoplatônica nas or igens do historicismo. Ora. a continuidade de uma evolução coerente: a descoberta da subjetividade . e na escolástica ela só foi abrindo caminho muito lentamente. com elementos antagônicos como os assinalados no parágr afo anterior —. vivendo de algum ofício como Spinoza. a única rea . com Duns Scot. Leibniz. Mas Deus é Absoluto. em suma. esta dimensão es tava completamente ausente do pensamento grego. T omás. por ou tro. A forma da idéia não se encarna na matéria senão pela mediação da matéria. Daí a aparência de uma ruptura drástica onde há. Entre o intuito e o resultado. liberdade e necessidade. Como foi possíve l. é livre para tomar suas decisões. Pascal. dialeticamente. Sua liberdade reflete a Infinitude divina. é claro. que o novo movimento em seguida tomasse o rumo da entronização de um novo de us cósmico — a “História” hipostasiada.

sua teoria da linguagem e sobretudo sua Poética. é só uma grossei ra simplificação própria da cultura de almanaque que pode sustentar o mito de que o pe nsamento moderno é uma ruptura com o aristotelismo. um verum secundum quid. o que quer dizer em suma a individuali dade concreta — este homem. Do aristotelismo a filosofia m oderna só abandonou algumas parcelas da Física. esta árvore — cujo conceito genérico é somente uma realidade s ecundária e derivada. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. . sua metafísica. e sobretudo Pen samento e Atualidade de Aristóteles. Rio.lidade efetivamente existente é a substância. Int rodução à Teoria dos Quatro Discursos. 1994. ao mesmo tempo que revalorizava sua metodologia. verdadeiro sob certo aspecto apenas. IAL & Stella Caymmi. Como já afirmei em outros trabalhos ( v. inteir amente desconhecida na Idade Média. editado em apostilas pelo IAL ).

sobretudo expressivas de sentimentos pessoais. Vive na corte. patas de corvos. já não entre seus colegas de ofício. Está acima da crítica. Na verdade. um membro ou servidor da casta palaci ana. Ele brota do novo amor pelas línguas. por um coto velo de Mercúrio. sua utilização em rituais de bruxaria oferecia expectativas mais promissoras que a de olhos de sapos. e como tal é de sejado. Este era na essência um universitário. unidos pelo comum desprezo às s uas origens nacionais e de classe. italianos. uma autoridade que nem Aristótele s pudera alcançar na Idade Média. Horácio. estudado. um termo tremendamente eq uívoco. pelo aluno que tem saudades da cabana o nde nasceu. “o conjunto dos resultados impremeditados das ações humanas”. e sobretudo em Quintiliano. Inaugura-se o pendor de filosofar literariamente. concreto e v ivente. Virgílio. o princípio da corrupção. O abandono da dialética em favor da retórica é uma mudança decisiva da mentalidade: os argumentos já não valem pela sua demonstração exaustiva. Mas foi a discussão em torno deles — e sobretudo o impulso de tirar conseqüências filosóficas diretamente das conquistas técnicas. correspondem diferentes mestres: os medievais tinham encontrado os seus em Platão e Aristóteles. aos homens do século XV. mas entre príncipes e duques. que se introduzem os desvios. Para isto. O impulso de comparar. an alisar e criticar documentos é um instinto filológico. um movimento a que se costuma chamar humanismo. moedas. pedaços de velh as estátuas. sobretudo na Itália. com finalidad e teológica: obter um texto mais fidedigno da Bíblia. A consciência histórica. Sua atmosfera verbal já não é a seca terminologia técnica da dialética e scolástica.”.. “Humanismo” não vem de amor pelo homem. escrevia Hugo de S. para se realizar. do que pelos textos. pelos documentos. mas a da conversação amena e elegante em língua nacional. uma lei prom ulgada pelo rei de um reino extinto — tudo é documento da fala humana. O nov . ao contrário. empenhadas em imitar a beleza e persuasividade da literatura antiga. e onde conviviam em pé de igualdade franceses. e acelerada nas épocas subseqüentes. dará novo impulso às línguas nacio nais. da paisagem natal: “Nada se pode fazer. O novo modelo de homem letrado. o latim. que preferirá as palavras às idéias. como bem vi u Aristóteles. do mesm o modo que toda nostalgia do passado. pelos velhos diplomas empoeirados e pelas velhas línguas. Estes instrumentos representam uma conquista de valor inestimável. mas pelo encanto persuasivo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 109 sua própria matéria. irla ndeses. desafiava o s reis e o Papa. que se interessa por essas coisas. s oldados e cortesãs. e qualquer discussão pode ser cor tada pela raiz mediante a fórmula: “ C’est assez que Quintilien l’ait dit. aos olhos da nova classe. “Humanismo” significa o espírito museológico: o amor aos documentos vem junto com a mania das coleções — selos. o s aficionados da bruxaria pagam grossas quantias por um dedo de Vênus. da origem familiar. sem a mediação da crítica filosófica — que acabou por desviar o movimento historicista de sua de stinação originária e colocá-lo no rumo de uma nova idolatria. recheada de florei os bajulatórios. um membro da orgulh osa casta acadêmica que. “l tras humanas”. Vítor. o amor à pátria era um atavismo condenável. totalmente esquecidos de suas diferenças de origem.” O novo intelectual é. o que significa apenas qualquer texto que não seja as Sagradas Escrit uras. O amor às palav ras. escorada no aplauso das hordas de estudantes. Qualquer coisa serve: uma carta. conservado. A diferentes classes sociais. Para o letrado. é bem diferente do intelectual medieval. É nesta mediação. analisado. O impulso de colecionar surge de um misto de motivos estéticos e oculti stas: atribui-se aos fragmentos de estátuas um poder mágico. na frase célebre de Weber. necessitava criar uma ciência histórica. um contrato de arrendamento. Vico e Leibniz desenvolveram-se em ve locidade prodigiosa. um resíduo de mundanismo. saxões. formada de homens que abandonavam se u torrão natal para instalar-se nos grandes centros universitários onde se falava um a língua supranacional. as técnicas de investigação e do cumentação históricas. fazendo com que o desenrolar da História acabe constituindo. damas e pajens. já vinham-se desenvolvendo antes deles. necessitava de instrumentos de i nvestigação.. ela também estruturada e dotada de forma. o humanista vai inspir ar-se em Ovídio. mas pelas humanæ litteræ. Contemporaneamente a Shaftesbury. A casta era internacional. pois um humanista da Renascença tem menos amor pelo ser humano. O codificador da retóric a antiga vai adquirir. unhas e cabelos humanos.

o intelectual abomina a universidade. as universidades. O motivo é claro. aos pou- . Nascidas e formadas pela i niciativa independente de grupos de estudiosos.

de Jean Leclerc. haviam-se tornado focos de poder. O novo mundo de guer ra e conquista. publicando alguns anos depois uma edição anotada do Novo Testamento. Do amor aos documentos escritos surge o interesse — e do interesse a técnica — de separar os autênticos dos forjados. Não há limites ao poder do indivíduo talentoso. se preciso. como um eixo. de maquiavelismo e traição na luta pelo poder. tem de ser vista de fora e de longe. As ambições da casta aristocrática. fora da univer sidade. na Renascença. A longa disput a encerra-se. dos ex-amigos e até. do cardeal Cesare Baronius. assinala essa transformação. temidas e invej adas. em parte por uma mentalidade anti-individualista que não atribuía a um homem em . O mesmo Valla. Não podendo justificar-se moralmente. A primeira catedral renascentista. a de Santa Maria dei Fiori. estetismo e colecionismo que surge o amor aos documentos escri tos. a da Brunelleschi situa-se no centro da paisagem e organiza. pelo gêni . O ano de 1440 é um marco na história desses estudos. no decorrer da Idade Média. começam a formar. pela tinta mesma em que escrevem. Enquanto a catedral gótica isolava o fiel do mundo exterior. retórica. legislando em ca usa própria dentro das fronteiras do seu reino — só demarcadas pela vizinhança de outros homens ambiciosos. projetando-o no sentido de uma luminosidade vertical. Descartes. seu próprio quadro de intelectuais. Com exceção da antiga China. Nesse ano. 1697: Ars critica. Vencidos. 1693: Codex juris gentium diplomaticum. e ninguém achava isso anormal. torna-se assim o fundador da técnica da crítica textual. argumentando ser um doc umento forjado pelo menos quatro ou cinco séculos após a morte do imperador romano. 1681: De re diplomatica. libertas das peias morais que lhes impunha o clero romano. do monge beneditino Jean Mabi llon. Montaigne — não são franco-atirador es: são funcionários da corte ou membros da classe aristocrática. mas p ode ser belo: Maquiavel descreve o Estado como obra de arte — o templo da autoglorificação aristocrática erguido sobre o sangue do s inimigos. entre os arcos que se elevam ao céu. de Leibniz. com a vitória do Papa: as universidades tornam-se órgãos da Igreja. o espaço em torno. No Oriente e no Ocidente. mas elas conseguem conservar sua independência. de Charles du Fresne. 120 Convém tomar nota do ineditismo do evento. de Pierre Bayle. dos parentes. sabe impor seus gostos e valores. Expressam o despeito dos rejeitados pelos vencedores do dia. nenhuma outra civilização jamais se preocupara muito com a datação de a ntigos documentos ou com as questões de autoria. o humanista Lorenzo V alla denunciou a falsidade da suposta Doação de Constantino. 1695: Dictionnaire his torique et critique. 1588: Annales ecclesiatici. escrito s produzidos por algum discípulo séculos após a morte de um filósofo circulavam sob a au toria deste. não é um mundo bom. o bra de Brunelleschi. vão se multiplicar e alastrar até a autoglorificação prometéica. que empinam o nar iz ante o ensino universitário — Maquiavel. 120 Daí para diante. Aquela. na luz irreal que os vit rais projetam. um sentido de expansão e domínio sobre o reino deste mundo substitui-se ao de interiorização e asc ensão espiritual. sobre os fiéis recolhidos em oração. ora aliando-se a um contra os out ros. os reis e os papas disputam a sua hegemonia. Por toda parte. Os novos pensadores.110 OLAVO DE CARVALHO cos. imperando sobre a paisagem do mundo. 1678: Glossarium ad scriptores mediæ et infimæ latinitat is. de fixar a cada um sua data provável de composição — pelo tipo das letras. a ambição de domínio encontrará um padrão ordenador e um novo critério de legitimação. para ser apreciada. a classe aristocrática. pela astúcia ou pela violência. sociedade gove rnada por uma elite de burocratas letrados para os quais um erro de gramática podi a custar a vida. em parte por indiferença ao curso da His tória. pelos usos ortográficos. A catedral gótica retira-se do mundo: a renascentista reina sobre ele. pelo menos. substituindo a ética pela estética. dotados de igual talento e poder. que. as conqu istas da técnica erudita se acumulam em rápida sucessão: 1559: começa a publicação da Históri da Igreja dos eruditos protestantes de Magdeburgo. tem de ser vista de dentro. É nessa atmosfera de naci onalismo. os reis. ora mandando ambas as autoridades às favas e promovendo arruaça s estudantis que faziam tremer os poderosos de ambos os partidos. Desde o século XII. ora ao contrário. esta.

particular a descoberta de uma verdade e preferia esquecer os autores das menti ras. . Assim era a Idade Média Ocidental — um mundo onde uma certa desorganização em tudo era considerada uma condição sine qua non da manutenção da liberdade: Queste cose hanno bisogno di um pò di confusione.

para compensar as fraquezas do mecanicismo racionalista. de 1820. implicitamente aceita como veraz desde a Antigüidade até o fim da Id ade Média. muito antes da História como ciênci a. o resultado mais notável dessas polêmicas foi lançar em todos cérebros a dúvida sobre a confiabilidade da narrativa bíblica e da visão cristã da História . tornavam patente a inconsistência da História então c onhecida e fomentavam a dúvida cética sobre todo o conhecimento do passado. formando-se através de uma sucessão impressionante de o bras de síntese que começam com Vico e prosseguem com Montesquieu e Voltaire. com Ranke. Auxiliados pela argumentação erudita. e que. O result ado dessa convergência foi muito complexo. . o que faz as vezes de História na mentalidade média dos intelectuais é um resíduo de mitos e lendas historicistas. de haver interpretado erroneamente os textos bíblicos. De um lado. não parecia haver outra saída senão pel o lado da concepção histórica. a dos progressos retilíneos da consc iência. que. Por outro lado. Noções que a ciência histórica viria a derrubar como totalmente inconsistentes. o de lançar a dúvida cétic a sobre toda a imagem do passado. tendo passado a vida a compulsar criticamente documentos históricos e a apontar os erros dos historiadores. no século XIX. portanto. O historicis mo. Desacreditada a história providencialista de Bossuet. Não estranha. E sta condição humilhante de uma História que dá mais força aos mitos na medida mesma em que se esforça para restaurar a verdade é uma das trágicas ironias do mundo moderno. Hegel. A Históri a da Igreja dos eruditos de Magdeburgo (1559) é o primeiro tiro de canhão disparado pela crítica protestante. ao mesmo tempo. Se. ou seja a da História como percurso do homem da cr iação até a queda e a redenção. a visão dominante do curso da Históri a fosse aquela trazida na Bíblia. Roma vinga-se com os Annales ecclesiatici do cardeal Bar onius (1588). Formam-se assim. W. o historicismo como doutrin a filosófica ou como cosmovisão. que parasitam o prestígio da mesma ciência histórica que os desmente. atinge sua maturidade e se torna uma força influente no curso espiri tual do mundo antes que se forme propriamente a História como ciência. elas darão como resultado longínquo. A antecedência dá ares de legitimidade ao usurpador: até hoje. as armas forjad as nas oficinas dos eruditos passassem a ser usadas a título de “argumentos históricos” nas polêmicas religiosas e políticas do tempo. F. 1750: Nouveau traité de Dipl omatique. mas abalada também a confiança no racionalismo clássico. E como. convocam legiões de eruditos. assim. A situação delineia-se então pela convergência de duas linha s de força: 1ª Na esfera do pensamento filosófico. Pierre Bayle. Ambas as igrejas percebem o valor estratégico das novas armas. pro testantes e católicos acusam-se mutuamente de haver falsificado a História da Igreja . de Dom Bernard de Montfaucon. o nascimento da ciência histórica. divulgam e alardeiam os resultados de suas pesquisas. tudo tendia a fomentar uma abordage m histórica da realidade. em nome da História. e sobretudo. como por exemp lo a de um curso unitário do acontecer mundial. seu efei to imediato — que certamente viria também a contribuir para isso — foi principalmente o de desmoralizar a narrativa histórica como então se conhecia. até o século XVI pelo menos. Que esta visão. se notabilizasse também. 2ª Os progressos da técnica erudita forneciam os instrumentos para a criação de uma ciênc ia histórica. alcança sua máxima expressão na Filosofia da História de G. ele não se atrevesse jamais a escrever pesso almente um livro de História. a qual se pod e sem erro datar dos trabalhos de Leopold von Ranke ( de 1820 em diante). as que viriam a ser chamadas “ciências auxiliares da História”. de Toustain e Tassin. que o príncipe dos eruditos. a História propriamente dita começa a dar seus primeir os passos. como um emblema vivo do cetici smo. mas. aconteceu que. Entre a época de Bossuet e a Revolução Francesa multiplicam-se em número e sobem na dose de violência os ataques à história cristã. formam exércitos d e críticos históricos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 111 1708: Paleographia græca. de um lado. já tinham conquistado. a da liberdade crescente através dos tempos. na ausência de um saber histórico legítimo. tivesse então de ser pela primeira vez explicitada e defendida contra seu s adversários — que é o que se vê no Discours sur l’Histoire Universelle de Bossuet (1681) — mostra que a polêmica a havia feito descer do céu das verdades pressupostas para to rnar-se uma idéia entre outras e concorrer com elas em pé de igualdade. um lugar e um prestígio notáveis na ideologia das classes letradas no momento em que.

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não enxergando os fatores espirituais da História e reduzin do tudo à economia. quer na sua versão científica e racionalista. As duas direções são. a Georg W. para desgraça dos pósteros. os comunistas respondem que o historiador burguês só enxe rga os fatos isolados. de fato. fruto de uma ciência organizada. a teoria do conheciment o histórico e a teoria do acontecer histórico. do singular e irrepetível. que a síntese filosófica sobre o conjunto do acontecer histórico er a um empreendimento prematuro. De outro. a segunda. a função estratégica da intelectualidade. no momento em que o sensato Ranke começou a trabalhar. os avanços da pesquisa histórica foram corrigindo. que passaram a privilegiar os aspectos econômicos da causalidade histórica ou a buscar para ela algum outro fundamento materialista para enfrentar o marxismo no seu próprio terreno. impelidas pelo progresso das ciências auxiliares que davam ao historiador os meio s de resgatar os acontecimentos singulares de que se compõe a História. Os partidários do capitalismo acusam os historiadores comunistas de selecionar ardilosamente os fatos para fazê-los ca ber num esquema simplista. influenciado pelo positivismo e incapaz de apreender dos fenômenos espir ituais senão suas analogias e reflexos no plano social. As duas linhas evoluíram simultaneamente. de um lado. Hegel. aqui e ali. de suprimir fatos e personagens para recortar a História segundo o molde dos seus desejos. de fato. A querela da História forma um dos quadros mais interessa ntes da guerra ideológica dos últimos dois séculos. ou. para decidir quem co nta a verdadeira história. de outro. Aí entra porém em ação a ambigüidade mesma d a expressão “teoria da História”: ela significa. anti-marxista que buscava most rar a influência das causas religiosas no acontecer histórico. uma explicação filosófica do conjunto dos fatos históricos. contaminou de marxismo os estudos históric os. opostas: ou se faz uma criteriologia para planejar as investigações históricas que vão dizer o que aconteceu. o comunista protest a que toda História é ideologia. girasse a atenção para o lado do mutável. a destituir o proletariado de seu papel de agente privilegiado da causalidade histórica (admitindo. Mas as ciência s auxiliares. a disputa entre católicos e protestantes. F. só que a do burguês é disfarçada de ciência. Hoje entendemos facilmente que R anke es tava na direção certa. se dá a explicação teórica do conjunto.112 OLAVO DE CARVALHO rejeitando as “leis universais imutáveis”. o arcabouço metodológico de u ma ciência. e. dando-se por sabido o que aconteceu. com muitos contatos e intercâmbios. por exemplo . Do ponto de vista do progresso da ciênci a. Isto acabou por transformar a ciência histórica mesma num equipamento da gigantesca máquina de gue rra ideológica montada pelos comunistas. De um lado. pessoalmente agnóstico. os excessos mais escabrosos da generalização hegeliana. É característico o caso de Weber. o marxista replica que os fatores espirituais são um véu ideológico que oculta a realidade do fator econômico. não a armadura do conjunto. o debate teve um duplo efeito. A primeira dessas tarefas incumbiu a Leopold von Ranke. ao mesmo tempo. Repete-se. terminava por entrar no círc ulo vicioso da explicação marxista: após reduzir uma época histórica a seus aspectos 121 . mãe do marxi smo e avó da Rússia soviética. o burguês retruca que o comunista toma a parte pelo todo. que. obrigando seus adversários a construir igua l aparato para defender-se. até mesmo a do Lumpenproletariat) 121. e recebe em res osta a acusação de falsear os dados. atenuou muito o simplismo dogmático do esquema marxista originário. cuja História se reduz a mera propaganda revolucionária. mas que. Foi nesta d ireção que se esforçou Hegel e. por si. nesta direção que as coisas pareciam ir. De um la do. a reflexão só podia se perder nas névoas de uma ps eudometafísica fantasmagórica e terminar no culto de uma nova divindade. obrigando os teóricos marxistas a reconhecer a inter ferência importante de fatores não-econômicos na História. Era. as concepções de Hegel e Marx exer ceram também seu fascínio e seu influxo sobre os historiadores de ofício. entre o comunis- mo e o capitalismo. nada podiam fazer sem a teoria da História capaz de unificá-la s segundo uma hierarquia racional de critérios. quer em sua versão cristã e escolástica. na ausência de conhecimentos históricos suficien tes. o hegelianismo já havia se trans formado numa poderosa corrente de influência e numa força histórica agente. porém. de outro. seu adversário insiste que ideológico é o com unista. do individ ual. com Gramsci. com Hobsbawm. porém.

1968 ( 1ª ed. P. mas cultural e psicológico. Thompson. mas c om isto Thompson implodiu o marxismo. . The Making o f the English Working Class. a respeito E. chegou a admitir que o co nceito mesmo de “classe” — a idéia-chave da interpretação materialista-dialética da História ropriamente um conceito econômico. 1963 ). E. Foi sem querer. V.Os marxistas tanto cederam aos argumentos de seus adversários. Thompson. P. Penguin Books. que o principal his toriador marxista do pós-guerra britânico..

ao contrário. o sonho e o delírio. O homem verdadeiro . não apenas a História não fazia sentido algum. no primeiro caso. D. a História. Fortalecidas pela descoberta freudiana do inconsciente . o confronto entre ciência histórica e ideologia historicista teve conseqüências muito mais profundas e devastadoras. para poder criar seu destino como bem lhe aprouvesse. pela celebração posi tivista da ciência como etapa superior — e. ao invés de assumir a responsabilidade. no segundo. do ponto de vista da evolução geral do pensamento.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 113 econômicos. e que. marxismo e positivismo. final — da evolução da mente hu mana. dizia que “os homens fazem sua própria História”. Nietzsche foi o pai de várias correntes que expressavam a revolta do homem contemporâneo contra a razão. desencadeia uma onda de violência. o homem vive num vácuo onde pode criar livremente o que bem entenda? Marx. Para ele. a ciência. deram-se as mãos para enfrentá-la e salvar o “sentido da História”. que no Brasil contaminaram um de nossos mais talentosos pensadores: Vice nte Ferreira da Silva. H. Confrontada a essa resistência. é certo. até que desapareceu da vista do homem nosso contem porâneo a simples possibilidade de que a vida humana possa ter algum sentido para além da História terrestre. e valorizavam o instinto. como por exemplo quando deseja preservar as c ulturas indígenas de todo contato “desaculturante” com os costumes Ocidentais. no domínio político-militar. O principal defensor da inexistência de um sentido na História 122 Infelizmente essa gigantesca abertura do horizonte humano acabou sendo neutraliz ada pela perversão ideológica. Jung e Ludwig Klages deram uma forte expressão a essa s idéias. A identificação do sentido imanente da História com o sentido . Aprendeu com o capeta. o s angue. acusa “o si stema”. foi Friedrich Nietzsche. as duas ideologias do progr esso. A segunda foi que. a ciência hi stórica se aventurou a enfocar o passado sem prejulgá-lo segundo a ótica que privilegi ava o presente 122. ou. pela qual enfim. aos poucos o debate em torno do sentido da vi da humana em geral foi estreitando seu horizonte até reduzir-se à questão do “sentido da História”. iman ente. não via outras causas senão as econômicas. Mas. mas em seguida n eutralizava esta frase ao assegurar que a História ia necessariamente na direção do so cialismo. a idéia do progresso consistindo basicament e numa teleologia imanente à História. essas correntes lançaram no século XX um vigoroso ataque ao positivismo e ao marxi smo. graças sobretudo à antropologia e à Religião Comparada. provocando assim a ruptura dos elos de lealdade social e a demolição das personalidades. o confronto entre o sentido imanente da His tória e a História sem nenhum sentido absorveu todo interesse intelectual do século XX pela questão do sentido da vida. a compreensão antropológica das culturas antigas e indígenas tornou-se um clichê incu mbido de dar reforço a um novo e mais virulento discurso “progressista”. A primeira foi que. Não é preciso dizer que essa aliança na esfera das idéias antecedeu e preparou a quela que. com a s luzes que trouxeram sobre os valores de outras culturas e civilizações. Discurso auto contraditório e por vezes demencial. Foi só no século XX que. mas era melhor mesmo que não fizesse. segundo Comte. não queria sentido algum predeterminado. Radicalizado assim po r suas repercussões políticas formidáveis. covardes e mesquinhas n ecessitavam abrigar-se sob a mitologia de um “sentido da História”. Posta a serviço da contestação esquerdista à civilização Ocide l. l oucura e crime. o pensamento histórico acabava caindo igualmente em algum tipo de ideologia “progressista”. Lawrence. se celebraria após 1939 entre as democracias o cidentais e as ditaduras comunistas para enfrentar o Eixo. Esta questão resume-se assim: a História tem um sentido predeterminado. m as ao mesmo tempo deseja impor a populações conservadoras e religiosas do próprio Ocid ente mudanças drásticas e repentinas. pendendo para o lado do marxismo ou para o lado da ciência rankeana. Garl-G. tentador e acusador em turnos. o guerreiro metafísico dos novos tempos. Acabava fazendo a contragosto o q ue Marx fizera por gosto. a que Nietzsche chamava o Super-Homem. Só as mentalidades torpes. sob a a legação — antropologicamente verdadeira — de que a adaptação a novos modos de vida destruiri a a coesão dessas comunidades e desmantelaria as personalidades de seus membros. pelo endosso à teoria qu e fazia toda a História evoluir na direção do socialismo.

um fato. foi um cho- . para milhões e milhões de pessoas. destruindo repentina mente a fé e a esperança do movimento comunista.da vida tornou-se uma crença tão arraigada que entrou no rol dos pressupostos incons cientes: já não é uma teoria — é uma realidade. o único propósito de suas existências — ao ponto de que bastam alguns sinais de a História desviar-se do sentido esperado . depressões. para que uma onda de desespero. A aposta num sentido imanente da História tornou-se. Na década de 50. suicídios e internações psiquiátricas se esp alhe pelo mundo. a revelação dos crimes de Stálin.

e m suma. na ideologia político-social. a socialidade essencial do zoon politikon. Divergem apenas nos meios e no tipo de sociedade a que aspiram. ela era no entanto uma substantia secunda. mas. na definição tradicional da sociedade. Sem chegar a ser irreal nem limitar-se apenas a um efeito passivo das ações individuais. Ela era uma substância como os gêneros e as espécies. Mas reconhecer a natureza essencialmente social do homem em geral é uma coisa. — (II) Beaux draps Mas a História não teria podido elevar-se à condição de deusa sem a concorrência de dois out ros fatores que. Socialismo e Capitalismo são. o personagem concreto. Pois a ação é um atri buto da substância. Para todos os pensadores políticos desde a Antigüidade até o Renascimento. Mas esse é só o aspecto mais patente e super ficial da questão.114 OLAVO DE CARVALHO que traumático de que milhões de militantes jamais se refizeram. Para uns e para outros. paixões e reações dos vários homens que a constituem. Esses acontecimentos são interpretados geralmente como sinais de que o comunismo era para essas pessoas uma religião. No fundo. uma forma de existência mais tênue e indireta que a da substância individual. o sujeito ativo. como um cavalo. A queda do Muro de Berlim foi outro. o que se chama um universal: o conjunto dos seres que vivem juntos sob u m mesmo sistema de regras e hábitos. a divinização do tempo. entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. O segundo foi — em decorrência do p rimeiro — a doutrina hegeliana do Estado. no sentido aristotélico. Repete-se assim. Tanto quanto para os comunistas. o termo forte. a imersão completa do homem na ima nência. e que o carac teriza com ênfase crescente desde o Renascimento e sobretudo após o século XVIII. e outra muito diferente é afirmar que a sociedade tem alguma realidade e consistência própria independentemente e acima dos homens concretos que a compõem. que podia limitar as ações humanas ou muda r o curso de seus efeitos. vivente e concreta. A sociedade permanecia recuada como um pano de fundo. tanto quanto os comunistas. Portanto. o que denomino divinização da História. antes. as duas seitas e m que se cindiu uma mesma religião. Tanto a reconheceram. para eles. no aperfeiçoam ento gradual das leis. À divinização do espa deologia científica corresponde. é evidente que reduzir o sentido da vida ao sentido da História é encerrá-lo na dimensão temporal. É e sta última afirmativa que diferencia do antigo o pensamento moderno. que chegaram a negar a condição humana aos homens afastados da vida social. É claro que nenhum pensador sério. mas não podia propriamente determiná-las. Ora. entidades q ue não existem em si mas somente nos entes que as corporificam. na redução progressiva da miséria. na revolução o u no advento da utopia proletária. era o homem. um ent e real em si. É isto. introduzida pelos teóricos da Revolução Francesa. precisamente. e a substância em sentido estrito — a individua- . que já tínhamos observado na evolução do pensamento científico. o sentido da vida identifica-se. a Históri a e somente a História é a doadora do Sentido à vida humana. mudaram decisivamente o curso das idéias. “a sociedade” não era uma substantia prima. limitando seus movimentos m as não alterando sua natureza intrínseca: não é por cair na rede que um peixe se torna p eixe ou deixa de sê-lo. a crença no Sentido da História é comum aos com unistas e aos democratas Ocidentais. mas crêem no progresso das instituições. O primeiro foi a doutrina da “vontade cole tiva”. no outro braço da cruz. A sociedade era. com a participação d o indivíduo na construção da sociedade futura. A divinização do tempo. Estes não crêem no esquema marxista. não concebem que a vida possa ter algum sentido fora ou acima da História. pelo menos desde Aristóteles. na educação universal. § 22. Ela envolvia e contin ha os homens como uma rede envolve e contém os peixes. na extensão a todos os homens dos benefícios da economia e da cultura modernas. uma árvore ou um homem. De outro lado. ignorou a natureza social do homem. de que a perda da fé no comuni smo funcionou portanto nelas exatamente como aquilo que a Bíblia chama “escândalo” — o des mentido brutal das crenças mais queridas. a sociedade era nada mais que um sistema de relações entre seres humanos. assim. mas um composto das ações. no Sentido da História. ninguém poderia apostar no comunismo se não tivesse apost ado. voltando as costas à ete rnidade. Para os antigos.

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mas é claro que ela se assenta numa interpretação falseada do antigo pensamento político. por efeito da vida social. o advento do pensamento historicista. é claro que não tinha uma natureza imutável . mas era o resultado de um processo. militar ou ci vil. fazia parte necessariamente a capacidade que o homem tem d e alterar-se. não havia nenhuma incom patibilidade essencial. uma inconsistênc ia e tenuidade da natureza humana. O ra. Se o homem. teve como uma de sua s primeiras e mais devastadoras conseqüências a de abalar a confiança geral na imutabi lidade e universalidade da natureza humana. co m um atraso de dois mil anos. são mais do que suficientes para derrubar o mito de que os antig os acreditavam numa natureza humana fixa e imune à i fluência da sociedade. a idéia da sociedade com o um mero sistema de relações começou a parecer insustentável também. adquiria ou perdia caracteres por tornar-se rico ou pobre. ao concreto. os antigos. o agente da História não fossem os personagens de carne e osso. ou mesmo simplesmente por envelhecer. mas é um dado anterior e fixo. agente. foi fácil atribuir-lhes a crença numa absurda imutabilidade absoluta da natureza humana. Essa conclusão pareceu muito lógica. Em decorrência. para em seguida basear na contestação a essa crença a nova teoria da volonté générale. hábitos e preconceitos dos vários grupos sociais. por sua vez. do mesmo modo quem age é o homem concreto. entre ele e as novas conqui stas do historicismo. ao apelo de Aristóteles contra o universalismo abstr ato e em favor de uma ciência voltada para a realidade vivente. como os morto s não argumentam. entre as quais a socialidade. como vimos acima. do apelo historicista ao particular. como vimos acima. a idéia de que os homens são a realidade e de que a Sociedade é uma convenção. Dito de outro modo: o homem era imutavelmente. Foi assim que. fazendo da “sociedade” o “verdade iro sujeito” da ação histórica. acreditaram que o fato de a vida social alterar os hábitos ou a persona lidade dos indivíduos concretos provava uma mutabilidade essencial. senão só aparente e superficial. não a sociedade. a sociedade foi p romovida a substância concreta. e por natureza. que Aristóteles nos f ornece na Retórica. As descrições minuciosas d os caracteres. não poderiam ao mesmo tempo negar o peso dos fatores sociais na moldagem dos caracteres humanos e acre ditar ingenuamente numa imutabilidade universal do homem. Esta opinião sustenta a idéi a de que a pessoa é um valor absoluto. insistiram na socialidade fundamental do homem e. A confusão clareia-se tão logo distinguimos entre soci alidade e sociedade — uma distinção que os teóricos da volonté générale desconheciam.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 115 lidade corporal vivente — possuía a propriedade da ação em sentido muito mais direto e m ais real do que a substância derivada e segunda de um mero universal: se quem dá coi ces são os cavalos e não a cavalidade. enquanto o indivíduo foi sendo visto c ada vez mais como mera abstração. ao lado da qual a Sociedade não tem senão o pap el de um meio. ao vivente. [ Mas ] os perigos que essa teoria comporta não podem se manifestar plenamente enquanto subsi ste nos espíritos a hipótese fundamental que lhe deu nascimento. Bertrand de Jouvenel assinala o oportunismo histórico que consagrou em dogma essa transformação 123: “. real. mutável segundo as condições sociais. Mas. então o sujeito ativo da v ida social já não era “o homem”. e da definição da soci alidade. de transformar-se. portanto.. mas “a sociedade”: de universal abstrato. se chegou a uma personalização do abstrato. Malgr ado. Se o indivíduo não tinh uma natureza dada. na época. isto é. toda a inclinação coisista do pensamento grego. segundo o n Esta girita. Ora.a teoria da Soberania traz ao poder um reforço excessivo e perigoso. e Aristóteles mais que todos.. . como mero sinal algébrico vazio cujo valor será determ inado pelo resultado de uma equação social. Daí que. Por des onhecerem. faziam eco. Muitas dessas conquistas. ao fazê-lo. Essa definição parecia — e a intenção com que digo “parecia” se tornará clara logo iante — parecia assentar-se na idéia de que a natureza humana de cada um dos membros da sociedade não depende da sociedade em que vive. para os pensadores políticos do sécul o XVIII. mas o colet ivo abstrato concretizado e hipostasiado sob o nome de volonté générale. Os únicos traços imutáveis que Aristóteles enxergava no homem eram aqueles contidos na sua definição mesma — a animalidade dotada de potência racional — e as propriedades imedi atamente derivadas dessa definição.

Histoire Naturelle de sa Croissance. Le Pouvoir. 9193. pp. Ha chette. Paris. .123 Bertrand de Jouvenel. 1972.

no sentido em que ele o definia. porque a enteléquia. “Foi esse um resultado. Aí os indivíduos são o esse cial. Mas ela se cristaliza bruscamente. nem os teóricos que. é que ele é a forma mais p erfeita e acabada a que tende toda a evolução anterior. É que. “a História” ainda era. uma substância real. que sobe a o trono. embora coletivo e abstrato. talvez o ma is importante resultado. detentor natural do Poder. só se torna patente quando o processo atinge o seu clímax. Sim. até aí. Em nome da Nação: e. Hegel traduz para Wesen i st was gewesen ist: “a essência é aquilo em que a coisa enfim se torna”. jus . percebeu-s e que o Poder não dispunha de meios que lhe permitissem fazer face à Europa. disfarçada numa nova terminologia que a faz parecer muito original e est ritamente hegeliana. Seu nascimento fora. Mas o homem a tudo se habitua. passa a ser tomado como ex pressão de uma lei eterna e auto-evidente: assim como nos afeiçoamos à crença de que o E stado tem o direito de mandar todo e qualquer cidadão para o campo de batalha — idéia que teria parecido monstruosa aos olhos de Júlio César. cujos tr aços foram fixados pela arte popular.116 OLAVO DE CARVALHO “Para que a metafísica afirmasse a realidade da Sociedade. Para falar como Aristóteles. mas sim é o Todo. fundaram as ciências sociais na sup osição de uma autonomia substancial do Todo social em relação aos seus constituintes hum anos. O que ele chama ‘Estado’ corresponde. em todo caso. o último na ordem do aparecer é o primeiro na ordem do ser. coisa sem precedentes. até mesmo “a sociedade” deixará o palco. permanecia referido à existência concreta de seres singulares. sob o nome de Nação. e de que as personalidades individuais nada mais são que um epifenômeno da estrutura social. era a ação de um jeito que. e superior à das partes. muito po sterior ao da humanidade. a crença de que existe um personagem Nação. depois disseminou-se na Europa. Com Hegel. se deram conta do ridículo que havia em tomar como um princípio científico autoevidente o pretexto publicitário a que uma Assembléia semienlouquecida recorrera no intuito de justificar às pressas a aberração do recrutamento militar universal. a História me sma. logo em seguida. a História de alguma coisa. o filósofo de Jena se viu em fa ce de um pequeno obstáculo: o Estado. Ora.. “Esta concepção de um Todo que vive de uma vida próp ria. “Aceitou-se na França. para ceder a preem inência a um personagem ainda mais abstrato: o sujeito da História será. e o hábito. da Revolução Francesa. O que ele chama ‘sociedade civil’ corresp nde à maneira pela qual a Sociedade fora sentida até a Revolução. ao novo conceito da Sociedad e. estava provavelmente latente. uma vez adquirido. Quando a Assembléia Legislativa jogou a França numa aventura militar que a monarquia não teria podido arriscar.” “a Sociedade” é um todo. foi preciso primeiro que esta assumisse figura de Ser. Nem Hegel. também nos acostumamos a tomar como uma verdade patente a mentirinha boba s egundo a qual Mas. pelo menos. quando o que está é apenas aplicando — muit o mal — um preceito aristotélico. como o patriotismo tomasse desde havia dois mil anos a forma do apego a uma pessoa. e conced e à Nação um certific ado de existência filosófica. a forma final a que o ser tende em sua evolução. era um fenôme no mais ou menos r ecente na História. Foi pre ciso pedir a participação quase total do povo na guerra.. Se o Estado é a última coisa a aparecer. de Luís XIV ou mesmo de Gengis -Khan —. onde após a maturidade do ser vêm o envelhecimento e a morte. “Não é o trono que se derruba. a inclinação natural dos s entimentos fez com que a Nação assumisse o caráter e o aspecto de uma pessoa. e todo mundo ac ha que ele está falando uma grande novidade. ao contrário. mais real do que os indivíduos que a compõem. uma vez tendo decidido conceder ao Estado (= sociedade política. Mas em nome de quê? De um rei destituído? Não. o personagem Nação. após o q ual começa o declínio. um clímax em sentido estrito existe somente no domínio do cr escimento biológico. ou Nação) o supremo grau de realidade na hierarquia ontológica. “É em plena floração do sentimento nacional germânico que Hegel formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo. Como seria possível que o mais real dos seres fosse o últi mo a aparecer? Hegel escapa do problema mediante o recurso à teoria aristotélica da enteléquia.

em princípio. um processo de duração indefinida. que é.tamente porque o ser biológico tem uma duração média predeterminada. Hegel. O próprio Cristo. para aplicar à História o conceito de enteléquia. Essa média inexiste n a História. respondeu que era um mistério só conhecido de Deu s Pai. pergun tado sobre a data do fim do mundo. teve .

o autor da Filos ofia da História argumenta. 125 Propedêutica Filosófica. o resultado é que o acontec er é promovido à condição de sujeito dele mesmo. mas só um truque propos ital 126. mais material de desonestidade: pesquisas recentes demonstraram q ue Hegel. E como esse acontecer não tem um sujeito que possua alguma consistência ontológica por si e fora dele. Ela mostr a o quanto valem. verboso e est ratosférico. inexistindo um “antes” e um “depois”. como o Estado moderno incorpora e realiza em suas leis a essência perfeita do cr istianismo. realizando assim literal mente a sentença que para os antigos era matéria apenas de piada: pereat mundus. a conclusão era que a suprema realidade reside pr ecisamente naquele ente cujo destino final é transfigurar-se em Estado. tinha passagem comprada para o reino das som bras. caso tudo isso parecesse muito vago. nem coisa nenhuma: a única realidade é o acontecer que acontece ao acontecer. decretou o fim da História. em si mesmo. Já não há mais ser. a Histór ia que é a História da História. e eu ten ho mais o que fazer. foi apenas um desses casos depr imentes em que um fundo de desonestidade intelectual subsiste num homem dotado d e autêntico gênio filosófico 124. Com requintada habilidade sofística. onde. Hegel apontava para o resultado final. não pode ser um erro involuntário.A. desfeito esse truqu e. como Gurdjieff: Vous voilà dans de beaux draps! Hegel não era no entanto nenhum idiota para crer sinceramente que fosse de fato o último filósofo e que a História terminaria no último volume do seu sistema. nesse esquema. Em verdade vos digo. a Igreja se tornou desnecessária e o Estado vem a ser a suprema autori dade religiosa 128. fia t philosophia. esse sistema e essa contest ação. no fim. Como. e não ente. I. que pelo menos o lucidíssimo Eric Voegel in assinalou o caráter de “magia negra” dos escritos de Hegel. e tascou na promissória a a ssinatura de Deus Pai.a. mostrando ser apenas. no entanto. é processo. num estudo reproduzido no vol. o Estado já não era o nome de um ente. que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta. recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas inte ressadas em promover a idéia de uma Religião de Estado para se substituir à Igreja cri stã (católica ou reformada) 127.1. portanto. Feito isto . Mas onde há safadeza intelectual há também. E. Na hora de morrer.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 117 então de praticar uma das maiores trapaças filosóficas de que se tem notícia: marcou par a sua própria época a data do vencimento da História humana. de fato. a projeção am pliada de fenômenos imanentes à psique humana. mas apena s o de uma fase da sua existência. O nome des se ente é História. Uma certa desonestidade apa124 rece já nas bases mesmas de sua metafísica. mesmo porque a História já estava para aca bar e o seu filósofo. onde ele proclama que o conceito de ser. nem homem. Mas História é devir. alguma forma m ais grosseira. 126 Não é preciso dizer que. — É verdade. equivale ao nada 125 — conferindo subrepticiamente valida de ontológica absoluta a esse juízo que só tem sentido gnoseológico. 12 de suas Obras Completas editadas pela Universidade de Louisiana. em favor do cristianismo. Aquele que disse: “Se os fatos desmentem minha teoria. seja realmente um nada pelo simples fato de ainda não termos preenchido seu conceito d e um conteúdo em nossas cabeças é com efeito o fundamento absoluto do sistema de Hegel e a objeção inicial de que ele parte para montar sua contestação a Schelling. porque iniciados gurdjieffianos e filósofos acadêmicos ( entre os quais os admiradores de Hegel ) sentem demasiado desprezo mútuo para poderem admi tir a hipótese de nivelar nos pratos de uma balança seus respectivos gurus. § 16. ninguém teria a desfaçatez de lhe pergunta r o que viria após o fim da História. corpóreo e presente que atestava a existência do processo e a consumação final dos séculos: o Estado moderno. filhinhos: Schelling era muito grande. nada mais disse nem lhe foi perguntado. confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer. nem universo. o que. Eis. et tenebræ non compr . que o único erdadeiro ente é o não-ente. toda a metafísica hegeliana vem abaixo. mas sublinhando que . inseparavelmente. por trás de todo o floreado dialético. num homem da sua habilidade lógica v erdadeiramente virtuosística. A idéia de que o ser.I. é o acontecer. isto é. enquanto indeterminado. Para preservar a int egridade lógica do seu sistema. pior para os fatos”. falsificando o aval de Jesus Cristo. avançado em anos. Hegel poderia ter dito port anto a seus discípulos. Isso não faz de Hegel comparação não será feita.

Por um lado. A metafísica deste e a cosmologia daquele dariam um belo capítulo de terat ologia intelectual comparada. P.ehenderunt eum. Paris. De outro lado..U. Re cherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Hegel. ele faz a apologia da Reforma protestante como a culminação do processo cristão de libertação da consciência individual.F. 128 Nes te como em muitos outros pontos de sua filosofia. Mas essa . ) 127 V. o trabalho notável de Jacques D’Hondt. Hegel Secret.. mil vezes mais emocionante do que meus pobres Frit jof Capra & Antonio Gramsci. a propósito. ( Explico isto com mais detalhe em minha História Essencial da Fil osofia. Hegel é estonteantemente ambíguo. reduz a religião ao conce ito de “moralidade” acreditando que quanto pudesse haver de metafísica na religião já fora absorvido e superado completamente pela filosofia acadêmiComo aliás se dá também com Gurdjieff. 1968. cujas semelhanças com Hegel vão muito além da mera co incidência.

É claro. De outro lado. é dos três o mais eficiente no com bate à religião. de maneira ai nda mais ostensiva. A segunda. proibindo cultos. fisc . fazendo do Estado o guardião da moralidade. Sumopontífice do E stado moderno é Hegel: eles são antes os bobos-da-corte. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que. de fato. a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual. 1841 ). que pune um olhar d e desejo e dá proteção policial ao assassinato de bebês nos ventres das mães é. o Estado neoliberal produz novos códigos repre ssivos que. que professa nominalmente a liberdade religiosa. instituicionalizando nas escolas o ensino do ateísmo. meio às tontas. ao fazer do Estado moderno a condição necessária e suf iciente dessa liberdade omitindo-se de defendê-la contra o Estado mesmo . logo percebeu o truque: o Estado hegeliano era o “Novo Ídolo” qu e se oferecia como sucedâneo aos cansados combatentes que haviam derrotado o “antigo Deus”. legalizando e protegendo todas as exigên cias tirânicas e autolátricas de cada ego humano. o vocabulário corrente. pelo culto obrigatório da Nação e do Estado. que. ele apenas regula sabiamente os conflitos de interesses. excitados até à exasperação pelo estímulo incessante ao espírito reivindic atório. concordando com elas por dentro. que cada nova lei resulta em nova extensão da burocracia governante. Uma sociedade. imp edindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória e universal. Na Vida de Jesus de David F. e abandonam. banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo 129. até mesmo os preceitos mais óbvios do ca ( faz-me rir! ) e. que declaram em voz alta as inconveniências que o alto sacerdote. ademais. Mas até que ponto o prêmio financeiro não ajudou a cegar o filóso fo para inconsistências que de outro modo ele teria percebido? Pois se de um lado não há como duvidar da sinceridade com que ele defende a liberdade da consciência indi vidual. fuzilando religiosos. prudenteme nte silencia.118 OLAVO DE CARVALHO um intelectual de aluguel. elevando o Estado à categoria de “Providênc ia do homem”. direito natural: exercendo livremente seus “direitos humanos” sob a proteção do Estado d emocrático. compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação dese nfreada dos desejos poderia causar. nazifascista e liberal. como se vê pelo fato de que as massas. mas com o apoio e até po r exigência dos eleitores no pleno gozo de seu direito de exigir e legislar. 129 É claro que a chamada “esquerda hegeliana” foi muito mais longe. As três p rocuraram com igual afinco substituir-se à Igreja na condução espiritual dos povos: a primeira. o machismo. a m ais requintada monstruosidade moral que a humanidade já conheceu. as piadas ). ele acaba se colocando. os beijos roubados. que termina pela in stauração da moral invertida. produz milhões de pequenos Stálins e H itlers. só se tornam governáveis mediante o nivelamento por baixo. mas também a sua própria. Paira ndo acima de todos. Essa causa é geralmente associada ao comunismo. dá a fórmula que se tornaria quase que um dogma do século XX: “A política deve tornar-se a nova religião. Mas ela foi incorpora da pelas três formas do Estado moderno: comunista. as cantadas de rua.” Mas não devem nos impressionar tais arreganhos: esses sub filósofos seriam impotentes sem as armas que receberam do mestre. § 268 ). que toda nova reivindicação resulta em nov as leis. que o Estado neoliberal não faz isso por meios ditatoriais. ademais. dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana. É claro. as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano log o terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. tendo conservado sua fé religios a sob a opressão nazifascista e comunista. sem nada impor. Mas o Estado liberal. Strauss ( 1835 ) a divinização do espaço-tempo é explícita. com efeito. nomeando cardeais biônicos para ludibriar os poucos fiéis restantes. Nietzsch e. e Ludwig Feu erbach ( A Essência do Cristianismo. esperto como ele só. fechando templos. acaba por deixar as consciências individuais à mercê do Estado ( Filosofia do Direito. restaurar o culto de César. descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo. ju nto com a religião. pela violência física e psicológica. facilmente cedem ao apelo das “novas éticas” disseminadas pela indústria de espetáculos nas modernas democracias. pois a opinião que ele aí expressa não é só a de quem lhe paga. de outro lado é fato que.

e que. enfim. E. instaurando-se como suprema autoridade espiritual. por regulamentar. risos e pensamentos. moral e religiosa. no instante em que regula a vida interior dos indivíduos. eis que o Estado neoliberal. passo a passo. Beaux draps que constituem a essência da he rança hegeliana. o Estado. fisca lizar e punir até mesmo olhares. movido pela dialética infernal do reiv indicacionismo. sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática.al e judiciária. reinando sobre as almas e as consciências com o novo Decálogo dos direit os humanos e do politicamente correto. cumpre à risca o programa hegeliano. assim. . a caba por se imiscuir em todos os setores da vida humana.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 119 .

não resistia a um exame ma is atento que. The Yogi and the Commisar and Other Essays. ao contrário. Esses opostos. era bastante lógico. mas a da eficácia persuasiva. já que o objetivo final do epicurismo não podia ser declarado em voz alta sem provocar espanto e horror. por esquisito que parecesse. . ma s de sugestionar para impelir a uma ação. personificando-as nos tipos antagônicos: o iogue e o comissário — aquele que busca a verdade num outro mundo e aquele que se empenha em mudar este mundo à imagem da s ua própria verdade 130. A REVOLUÇÃO GNÓSTICA § 23. Coerência estética: a onde as verdades afirmadas se desmentem umas às outras e são desmentidas pelos fatos . no todo ou em parte. e que lhes permite sair incólumes. perdido o fio da meada? Vamos revisar o itinerário per corrido. Ele fundia-se. recobrindo-a de um manto de subterfúgios engenhosos. Coerência prática: entr e as sentenças que se desmentem umas às outras pode haver no entanto a unidade de um interesse prático. aos ataques da crítica racional. portanto. mas isto não parecia incomodar a platéia no mais mínimo que fosse. constituiam o recheio dos dois lóbulos cere brais de José Américo Motta Pessanha. em ocultá-la. qu ando em verdade os conduzia ao niilismo. nem aquela que se espera das hipóteses ci entíficas. que justamente só possa ser atendido através da falsidade e da inc oerência. casados e reduzidos à unidade de uma comum repulsa à inteligência teorética. Sua clave não era a da veracidade. Logo. sem perguntar a quê. com toda a sua 130 Arthur Koestler. Só assim e le poderia persuadir os discípulos de que os levava pelo caminho da felicidade. London. enquanto filosofias da praxis que só tocam n o mundo real como num pretexto e meio para chegar ao mundo inventado. que. em seguida (§ 15). Tinha.120 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO VIII. aquele tipo de solidez q ue se exige dos sistemas filosóficos. não era estético o padrão que unificava o conjunto. ela deixava-se persuadir. A coerência estética. Só nos res tava. Nova Era e Revolução Cultural. Revisão do itinerário percorrido Terá o leitor. a esta altura. erguia-se diante de nós. como vimos. Em decorrência. a confirmação mútua das sensações que se coadunam produzindo um sentimento de harmonia. pode no entanto haver alguma beleza ao menos aparente. Ali não se encontrava. ali. chegamos e nfim à conciliação dos aparentemente inconciliáveis: evasionismo e ativismo. já que o que pretendia era produzir uma nova. Passara desde muito a época em que Arthur Koestl er podia dividir o bolo ideológico do mundo em duas metades opostas e inconciliáveis . Mas um pensamento totalmente incoerente não poderia ter a persuasividade quase hipnótica q ue tinha o de Motta Pessanha. nos mostrava a perspectiva de um horro r sem fim (§§ 14 e 15). não sendo do tipo lógico-científico. Estávamos tratando de recompor a coerência interna do universo mental de Jo sé Américo Motta Pessanha. isto é. 1945 ( várias reedições ). Com evidente satisfação. No pódio do MASP. por trás das belas palavras. só podia ser estética ou prática. mas. ocultismo e revolução. era frouxa. ao desespero e à morte. Ali não se tratava de provar. Vimos. Qual ação? O objetivo não ficava absolutamente c laro. que consiste em resistirem ao confronto com os fatos observados. Jonathan Ca pe. o epicurismo não ocupava sozinho todo o horizonte mental de Motta Pessanh a. sem perguntar a onde. e conduzir. e que portanto a proposta epicúrea tinha esta característica peculiar: a de recrutar seus mais entusiasmados adeptos precisament e entre os que menos a compreendiam. a hipótese do objetivo prático: o discurso de Pessanha não tinha satisfações a pres tar à realidade existente. portanto. que esse fenômeno. uma vez que compreendê-la seria rejeitá-la. Mas. a tarefa do pregador epicúreo não consistia em expor a doutrina. como verificamos. Após demonstrar (§§ 16 e 17) a perfeita compati bilidade entre marxismo e epicurismo. com o marxismo. de haver ali alguma coerência. segundo veri ficamos.

uma seita religiosa. levando os indivíduos a acreditar que subi am a uma mais elevada visão das coisas quando na verdade sentiam apenas a natural zonzeira de um corpo que cai. Mas aí surgia um obstáculo: o iogue é espiritualis ta. Da segunda. Ele já passou por este mundo. e sim um rastro de insânia e crueldade. o iogue-comissário transcende assim a sua insignificância pessoal e intelectual. a mesma imersão definitiva do espírito humano no círculo do samsara. já passou duas vezes pela História ocidental. o deus-imp erador.” CHARLES P ÉGUY O gnosticismo foi. mais amplamente. eles permanecem separados pelo abismo de uma funda incompatibilidade metafísica. § 24. les autorités de tout ordre. O véu do templo “Tout l’appareil des puissances. o io gue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações do nosso tempo em direção à utopia. mas na luz indecisa que prenuncia uma longa noite. é cósmico. intellectuelles. mas o cosmos. Da primeira vez. mas o princípio de uma decadência. a pregar-nos o ativismo da evasão e a evasão pelo ativismo (§ 18). a criatura sintética e bifronte. Para explicarmos o sentido. não podendo ser espiritual. Isto não resolve a contradição. a consumação do prazo histórico. um almálgama de seit as religiosas diferentes e até conflitantes mas unidas por um duplo sentimento com um: o ódio ao Cristianismo. não existe incompatibilidade prática senão momentânea e aparente. esse personagem não é novo na História. personificou-se em César. que. ao mesmo tempo e inseparavelmente. A síntese de culto do cosmos e culto da História não surge — ai de nós! — na hora antes da aurora.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 121 maciça improbabilidade. ele está bem próximo de poder entender-se com o comissário. iogue-comissário. O deus histórico-cósmico. o comissário é materialista. les puissances temporelles. na origem. tomou o nome de gnosticismo. a nostalgia da tradição greco-romana. a profecia de Motta Pessanha anuncia. s obre o túmulo de Cristo. Para nós como para os pigmeus da Nova Guiné. Detentor das chaves de dois reinos. o cadáver da religião imperial a em pestear com os vapores da sua decomposição os seis primeiros séculos do Cristianismo. os deuses do espaço e do tempo não são objeto de culto p rimaveril numa infância do mundo. era necessário forrá-lo com algum tipo de algodão que amortecesse a queda. Afi nal. sendo impossível saltar esse abismo. Chegada. para tornar-se. porém. a ressurreição de César. desde que no fundo eles celebram o mesmo esquecimento do eterno. mas amortece-a ao ponto de torná-la quase insensível: quando o iogue já não busca o infinito. Nessa síntese resid ia o segredo do misterioso atrativo que Pessanha exercia sobre uma platéia fatigad a do real e incapaz de transformá-lo. entre aplausos gerais. a . les puiss ances politiques. a personificação do futuro. ou melhor. mentales même. Os parágrafos de 19 a 22 mostraram-nos que a entroni zação de novos deuses permitiu canalizar para o culto da Natureza e da História as asp irações espirituais dos homens. bloqueando-lhes o acesso a concepções espirituais em sen tido estrito. Por mais que os aproxime a comum rejeição do mundo real . e uando passou não deixou atrás de si um jardim de delícias. o sentimento da participação “ética” numa epopéia revolucionária e os prazeres da evasão consumista? Mais que um líder ou um guru. ele se torna o sacerdote de um novo culto. Vimos então que. la raison d’État. que dá início a uma longa e fatal decompos ição do espírito e termina pela dispersão da tribo em grupos errantes de homens aterrori zados e indefesos. EpicuroMarx . Mas — ai de nós! — . e quando o comissário erige a História numa realid ade ontológica superior aos homens concretos. que sonho arrebata e fascina a humanidade de hoje mais do que a aspiração a uma sociedade que reuna os ideais do socialismo e do capitalismo. ne pèse nt pas une once devant un mouvement de la conscience propre. o dos deuse s do espaço e o dos deuses do tempo. Se lembrarmos que es ta tradição tinha fundas raízes no passado egípcio-babilônico. o deus de Motta Pessanha. ficará fácil compreender o gno ticismo. o sinal de uma ru ptura trágica entre a Existência e o Sentido. como uma reação global da mentalidade religiosa antiga con tra o Cristianismo emergente. dando a cada ser humano. e entre os dois cultos.

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o deus de Platão não reside senão na pura intelecção metafís ca do filósofo. ao longo de dois milênios. Sóc rates é.122 OLAVO DE CARVALHO amplitude e a profundidade dessa reação. ao passo que o Deus de Platão. uma autoridade superior à da sociedade. O sábio deve. de tão radicalm ente hostil e incompatível com a mentalidade antiga em seu todo — e não só com a sua ver são greco-romana em especial — a ponto de desencadear tamanho “choque de retorno”. de duas espécies do mesmo gênero em conflito entre si : trata-se de dois gêneros incomensuráveis. absoluto e supraquantitativo. na sucessão dos tempos. enfim. escolas e doutrinas que. é um homem como os outros. cujas repercussões se propagam até hoje. Não que o pensament o individual fosse reprimi- do. portanto. mais ou menos no mesmo plano. por exemplo. ao proclamá-la . ou as várias confissões cristãs entre si. não havia um espaço onde a consciência do indivíduo pudesse se desenvolver para fora da crença coletiva. a visão direta . Todas as grande s religiões anteriores ao Cristianismo têm um caráter em comum. A diferença a que me refiro. mas sua resposta é bem simples. uma espécie de autoridade espirit ual simbólica. era o Absoluto mesmo. por outro lado. O indivíduo que chega à verdade tem. ao passo que o indivíduo alcança. do qual aqueles deuses que aparecem no culto público não são senão ecos e imag ens distantes. Aí. em face do culto exotérico das potências cósmicas. Uma vez assinalada essa diferença. e a cessível à consciência individual livre. Se os deuses da comunidade hab itavam nos templos e nas praças. é o porta-voz de um Deus ve rdadeiro. da forma dos fenômenos respectivos. A diferença é tão profunda que o uso de um mes mo termo — “religião” — para designar fenômenos tão heterogêneos deveria ser afastado para ev r confusão. com ofus cante claridade. temos de perguntar o que é que o Cristianismo trazia de tão novo e estranho. Noutros termos. Mas não. como diversas espécies de um mesmo gênero. uma razão suficiente para justificar a profundidade do abismo que sepa ra o Cristianismo do mundo antigo e explicar a violência contínua que este opôs à nova r evelação e. a crença reta e a integr ação obediente do indivíduo na ordem social eram uma só e mesma coisa. o islamismo ao judaismo. dogma a dogma. independente de qualquer ordem social determinada. pois fala em nome do universal. da verdade universal. Aparece aí. o gnosticismo surge. se residisse no conteúdo do utrinal do Cristianismo. a tragédia da autoridade espir itual legítima colocada em face de um poder temporal a que um velho culto já amputad o de toda raiz celeste conferiu. po r si mesma. De outro. A que stão parece imensa e complexa. submisso ao culto e às leis. sua superioridade mesmo em relação à crença materializada n a ordem social. pela dialética socrática. O abismo entre Cristianismo e religião antiga é mais profundo. inacessível ao culto público e só conhecido. o Sumo Bem. como viria a ser mais tarde e como é até hoje em sociedades de vários tipos: é que o pensamento individual simplesmente não existia. não surge na história antes da filosofia grega. O portador da verdade esotérica está. derivadas e segundas. passados vinte séculos. porque há uma different ia specifica do Cristianismo que salta aos olhos logo a um primeiro exame e dá. uma cosmovisão religiosa se cristaliza numa estrutura social determinada . na medida em que a sociedade só pode ter acesso a verdades esquemáti cas e simbólicas. o primeiro homem que afirma explicitamente a sobera nia da consciência individual. numa posição ambígua: de um lado. com uma clareza ofuscante. obediência às leis e costumes. A diferença é. Não se tra ta de duas religiões diferentes. não simbólica. caso não deseje s er excluído da comunidade humana. A Unidade de um Absoluto supra-cósmico aparece aí como uma verdade esotérica. como as divergências que opõem. deve-a. a organização sócio-política era ela mesma a verdade encarnada — não havendo qualqu er possibilidade de uma verdade exterior à crença coletiva. pela antigüidade. ao passo que a sociedade fala apenas em nome do geral. for ma quantitativa e meramente simbólica do universal. diante da sociedade. sob uma variedade impressiona nte de manifestações. como a fonte e inspiração comum de uma multidão inesgotável de moviment os. A concepção de uma ver dade objetiva. do q . É o mesmo que dizer que os deuses gregos não eram senão a corporificação de forças cósmicas. religião a religião. não faria senão opor. por um lado. um membro da polis. pela intelecção filo sófica. tomada ela mesma como expressão corporificada da verdade dessa cosmovisão. se voltaram contra o Crist ianismo desde muitos lados. ass im. continua a lhe opor. ausente no Cristianism o: Nelas. ao Deus verdadeiro. universal.

ual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes. cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu. .

verbal e pro forma. convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo. dessacralizava radicalmente o Estado. O crist ianismo. ao passo que o Cristianismo a revelava publica mente. em segundo lugar. mas e nquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade. hoje. não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade. A religião do Império. superposta ao c onfronto horizontal da sociedade e do cosmos. enquanto indivíduo humano.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 123 Para nós. é precisam ente o que o Cristianismo oferecerá a todos os homens: o acesso direto ao conhecim ento do Verbo divino. omiti da pelo culto público. o cristi anismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imagin ação greco-romana. em primeiro lugar. de outro. a consciência reflexiva. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica. é apodíctica. mas a experiência direta do Verbo divin o. o recinto secret o da intimidade do homem consigo mesmo.: 13:1-7 ). po is não cabe a esta julgar “aqueles que vão julgar o mundo” 131. em suma. unilateralmente. é universal. válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num m omento e lugar da História. por mais deteriorado e vazio de qualquer conteúdo es piritual. inacessível quer à imaginação comunitária. inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura . a profundidade interior da consciência individual. sem a intermediação da polis ou do Estado. o Apóst . Na sua mensagem destacam-se três aspectos essenciais : lº. é precisamente um dos sentidos do si mbolismo da cruz. que a verdade interior devia permanecer in terior. quase sempre. aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos. filosófica. O Cristianismo. resumia-se. e não a autoridade socialmente constituída. sem inter mediação da autoridade civil. conservava seus direitos enquanto não chegasse o momento de rasgar o véu d os símbolos para exibir urbi et orbi o supremo segredo. afinal. quer às representações sensíveis das divindades s: de um lado. Não que essa dimensão fosse totalmente desconhecida do mundo antigo. implicitamente. livres da pressão da sociedade local ateniense. válida para todos os seres racionais e não somente para uma comunidad e em particular. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verda de interior permanecesse secreta. A dimensão vertical da alma e de Deus. tendo sabido que cristãos recém-batizados disputavam algo entre si no tri bunal romano. que pesam sobre o destino humano e en tre cujas exigências a comunidade deve abrir seu caminho. É significa tiva. reconhecendo. restaurando a concepção de um deus supracósmico. 2º. Encontramos sinais dela na mitologia grega. acabara por se refugiar na consciência filosófica e nos cultos de mistérios: tornara-se esotérica. transcendente a todas as representações sensíveis. de outro. Pau- lo Apóstolo. em terceiro lugar. as forças cósmicas. 3º. é fácil dar razão a Sócrates . ou a comunidade historica mente existente. portador de uma me nsagem espiritual. os adverte a não se submeterem ao julgamento da autoridade civil. a eternidade. ora adversas. no diálogo entre a comunidade humana e o cosmos . Repetidamente os filósofos procuraram resgatar a s ua lem131 Tendo exortado os fiéis a obedecer as autoridades mundanas ( Rom. que o culto exterior. mesmo porque nossa adesão à verdade interior que ele representava é. a alma do indivíduo humano. mas ap enas para dar. não viera ao mundo. Mas. Mas o próprio Sócrates deu alguma razão a seus car rascos. no mesmo instante em que consagrava. como portadora do Verbo divino. para fundar uma nova religião. Sócrates. O cristianismo rompe ess e mundo bidimensional. o pensamento comum dos homens reunidos na ágora ou no fôro. não lh es propõe um novo sistema de ritos e símbolos. Ora. condensação de cultos gregos. testemunho de uma verdade universal tran scendente a todo culto local. De um lado. do homem independente. no Novo Testamento. ora propícias. provavelmente herdeir a de tradições orientais onde a consciência metafísica se conservara intacta. seu repres ntante e porta-voz é o indivíduo como tal. romanos e b aros. a infinitude. fundase na evidência e não em mera opinião. pa ra além do tempo e do cosmos. Ao mesmo tempo. a passagem em que S. oferece-a como verdade universal. sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público. uma certeza superior a toda prova dialética. num aberto desafio a todos os cultos estatais. em última instância.

Chega a ser espantoso que Hegel. mas sem submeter-lhe o julgamento de questões de consciência. não se desse conta de que a mesma contradição se agravaria ainda mais no Estado moderno. tendo litígio contra outro. Paulo já deixava refutada de antemão a falácia hegeliana de que “o Estado é a realidade da liberdade concreta”. viria a ser percebido também com muit a clareza por Karl Marx. S. O sentido é claro: “da r a César o que é de César”. . mostrando que o Estado só pode ser o lugar da libe rdade abstrata. e não perante os santos?” ( I Cor.olo. o que.. II:1 ) . formal. adverte: “Atreve-se algum de vós. curiosamente. Hist. não obstante. tendo percebido nitida mente a contradição da Igreja medieval a um tempo defensora da liberdade de consciênci a e obstáculo ao seu exercício efetivo ( Fil. ir a juíz o perante os injustos. C om isto.: 6:1 ).

o detentor consciente do critério da verdade. ilustrado pelo ca so do único profeta de cujos atos e palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante.124 OLAVO DE CARVALHO brança. de uma vez para sempre. É evidente que a dimensão metafísica não pode ser totalmente abrangida pelos discurso le galista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público. por trás do panteão das divindades cósmicas. O recipiente fecha-se. para além do véu simbólico dos ritos e das leis. tapam a v ia de acesso ao divino. o cristia nismo abre entre a individualidade física e a identidade social humana um interval o. Foi esse estudo que me persuadiu. Submetidos à lei da entropia. Ele de na o curso dos eventos. A realidade divina foi muitas vezes comparada à água. Daí que a história das religiões seja ponti lhada de rupturas cíclicas. abertura que o Evangelho simboliza como um rasgão no véu do templo. acabam por mundanizar o divino e divinizar o mundo. d e que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal da compreensão históri ca. na mensagem cristã. como o é quase tudo o q ue hoje recebe o nome da ciência de Heródoto. dando um sentido ao caos e iluminando a uma n ova luz a meta permanente da existência 132. desviada. Ele determina uma súbita elevação do nível do devir histór . gerando efeitos de escala incomparavelmente superior ao das forças causais até então agentes. Ao propor ao homem um esforço que não se volt a nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade. narcotizada por meio de sucedâneos “cósmicos” ou “hi stóricos”. imprimindo-lhe uma direção totalmente nova. mostrando. caóticas e inconciliáveis se uni fica numa nova direção da vida humana. que signifi ca “fazer”. ao ser vertida noutro recipiente. a encerrar-se numa totalidade enrijecida e auto-suficiente. a existência de uma realid ade mais alta a que os símbolos do culto aludiam veladamente. às instituições jurídicas e políticas. onde repentinamente uma profusão de forças dispersas. inaugurando novos mundos históricos e resgatando as possibilidades espirituais perdidas. “produzir”. Pode ser reprimida. ritos e mitos. Aconteceu que. O cristianismo exote rizou-a. o espa132 Meu livro O Profeta da Paz. o interl ocutor solitário do Deus que “sonda os rins e os corações”. É só a banalidade do mundo de hoje que pode conceber os profetas como meros vaticina dores das coisas futuras. povoando os céus de figuras de heróis e deuses projetados da Terra: ampliações divinizadas do Estado e da natureza física. eles tendem. Mas a aspiração ao infinito parece inerente à constituição humana. esse novo sentido não podia ser captado senão pelo indivíduo desligado dos laços que o prend iam à sociedade e ao Estado. t udo equalizando na platitude do social e do histórico: de um lado. fora de qualquer tutela ou garantia ex terna. neutralizando-a na fala coletiva. como tudo o que existe no espaçotempo. O termo mesmo “profeta” vem do grego prophero. O profeta é uma força agente. ele gira o botão do acontecer histórico. assumindo sua liberdade. “determinar”. impedindo que os homens bebam. ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da A rábia Saudita. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed ( Maomé ). conservando-se não obst ante intacta. um sentido. Os cultos públicos são vastos sistem as de símbolos. pelo indivíduo que. diante do qual o homem está nu e verídico tal como no dia em que nasceu. revelando a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábio s e dos místicos. por força do resíduo humano e histórico que carregam. e de que uma história reduzida às dimensões natural e civil. captável pela pura inteligên cia metafísica mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma fo rmulação doutrinal acabada. é um estudo sobre a significação da profecia na História. O profetismo é o ret orno cíclico da primavera do mundo. sem qual . que to ma momentaneamente a forma do copo. que rompem a unidade cerrada das instituições antigas. de outro. absorvem a cons ciência interior dos homens. assumisse ao mesmo tempo a responsabilidade de ser. é apenas uma crônica provinciana. Entr emeados e às vezes identificados aos costumes morais. mas não pode ser abolida para sempre. que ela subentende. o portador do Logos. que cortam a linearidade horizontal das causas histórica s pela vertical de uma intervenção superior: os adventos de novos profetaslegislador es. que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocultam. para metamorfosear-se. não um observador.

os retornos cíclicos. é apenas a finalização de um processo de estreitamento do horizonte intelectual humano que vem de alguns séculos. indagado sobre o que era o céu. respondeu: “É um buraquinho no teto da minha cas a. Que filosofias inteiras da História possam ter-se assentado sobre bases tão estreitas mostra apenas que a intelectualidade moderna é um novo sacerdócio de tipo greco-romano. A “total mundanização e terrestrialidade do pensamento” ( sic ) advogada por Antonio Gramsci.quer poder de elucidar os fatores decisivos. firmemente empenhado em não deixar os homen s enxergarem nada para lá do círculo mundano. Seu id eal é reduzir a consciência do historiador à condição do sapo da fábula.” . habitante de um poço que. as ascensões e qu edas dos impérios e das doutrinas.

Como pôde a nova civilização sobreviver. de u m lado. o fruto supremo da História. monastérios. mas para exper imentar na extrema solidão o acesso a uma nova profundidade da vida interior. através de uma disciplina moral dolorosa. Não se trata apenas de uma retirada. em tais condições? Não há outra explicação senão a atividade incessante. É desses homens fugidos do m undo que nasce o novo mundo. y no mantenido por el poder sino por la autoridad que se identifica con el servicio a la comunidad. e não apenas o de uma pedagogia. sempre por obra de homens solitários. Este desenvolvimento é impossível enquanto todo o horizonte da atenção for ocupado. que cada cristão é um estrangei ro na sua própria pátria. propriedades rurais — separadas umas das outras por imensas distâncias e sem outra ligação entre si senão a obediência comum a uma mesma religião.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 125 ço da liberdade interior. que agem movidos por um impulso pessoal e quase sem co municação com a autoridade religiosa central em Roma ou Bizâncio. estruturalmente. pelos impulsos naturais egoístas. mas há uma verdadeira corrida para o deserto: milhares de anacoretas evadem-se do falatór io urbano. ao vo lta- rem para junto de seus semelhantes. a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência. O fenômeno é espantoso. O que se pode questionar é se essa disciplina tem o valor moral definitivo de um código de conduta universalm ente válido. é: e não espanta que uma época afeita à liberdade sexual irrestrita também seja fértil em filósofos que negam a existência ou o valor da autoconsciência. mas tão necessária ao flor escimento da autoconsciência quanto o isolamento social. crescer. na Epístola a Diogneto (séc. no existente primariamente en institucio nes y actos externos (aunque manifestado en ellos) sino viviendo originariamente en la intimidad de cada uno. De outro lado. sino extendido en la eternidad. e que precisamente por isto podem se reunir em Cristo e não em mera tagarelice. A socialidade fica assim submetida hierarquicamente à solidão onde Deus habita: a assembléia dos que se reunem em nome de Cristo é uma assembléia de homens que conhecem profundamente a solidão de seus corações. esse hiato também corresponde a uma certa separação que o cristianismo estabelece entre consciênci a e corpo. econômica ou militar. no fundado en la dominación sino en la comunión. que se expande invisivelmente até abarcar todo o território europeu.” 134 O novo mundo deve ter parecido misterioso. Nenh uma unidade administrativa. de outro. A noção mesma de autoridade e hierarquia era ali submetida a uma estranha mutação: “Se trata de un reino no encuadrado por el espacio y por el tiempo. Não somente o Império povoa-se de monastérios. caótico e hostil às classes e pessoas aco stumadas à ordem imperial. Esse novo mundo é composto de unidades autônomas — cidade s. aldeias. o trazem consigo. pelo idealismo social (precisa mente as duas colunas a que se pretende reduzir o templo da moral moderna). apegados à sua fé por um liame interior muito mais poderoso do que qualquer obediência externa a um governante 13 3. II). repentinamente arrebatado à segurança do 133 É absolutamente indispensável a quem queira compreender este período da História ler os . Apenas o liame sutil e voluntário da fé. É ness e espaço que floresce a personalidade humana. É fáci compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo te ve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical. não para buscar as consolações factícias do jardim de Epicuro. com aquele hiato que o cristianismo abre entre indivíduo e s ociedade ao proclamar. Eles vão em busca de um espírito regenerador e. é certo. mas que ela é absolutamente necessária à ecl osão da autoconsciência. Pode-se fazer uma imagem supondo como se sentiria um se nador norte-americano que. tenaz e silenciosa d milhares de monges espalhados ao longo do território. O adv ento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário. afirmar poderosamente seus valores. no integrado por la subordinación sino por la participación. A importância fundamental que teve o monast icismo (monakos = monge = solitário) no desenvolvimento da nova civilização é um sinal e loquente do teor básico da sua vocação. Ele coinc ide.

clássicos de Christopher Dawson. 1956. 134 M. 1970. Meridian Books. I. em Antonio Truyol y Serra. p. 251. García-Pelay o. . New York. 4ª ed. cit. Religion and the Rise of Western Culture. New Yor k. Historia de la Filosofía del Derecho y del Esta do. Image Books. Revista de Occiden te. 1957 ( várias reedições ). De los Orígenes a la Baja Edad Media. e The Making of Europe. vol. An Introduction to the History of European Unity.. Madrid.

a cultura es piritual antiga é em parte absorvida no novo quadro. fosse jogado no interior da Amazônia. o cristianismo foi a “pedra de escândalo”. na espera de uma ressurreição. É quase uma l ei ou princípio histórico: o exoterismo destronado funde-se no esoterismo do ciclo s eguinte. sem o Império que lhe dá sua identidade. não se ocupavam das letras. em Clemente de Alexandria ). de repente. nobres.126 OLAVO DE CARVALHO Estado. eles haviam trocado a complexa beleza das antigas cerimônias públicas por um rito e stranho. de fora. e também de uma gnose cristã ( por exemplo. mostrando a a “sa bedoria mundana” um desdém que não nte tinha como não parecer. entregue à sanha das hienas. Compreende-se. a reação horrorizada dos letrados e da casta sacerdotal. e como religião. em primeiro lugar . no con texto greco-romano. Durante o período de espera. nem cultivavam os debates filosóficos. O tipo de vida interior que os monges traziam era tão diferente de tu do quanto o mundo antigo conhecia como filosofia. a confiança no poder oni presente da autoridade civil? Ali só lhe restaria ser homem e confiar em Deus. revolta contra o destino. afetação e arrogância de bárbaros. Para os homens da religião antiga. Toda ci vilização em declínio experimenta um retorno de temas religiosos abandonados milênios an tes. mas resta sempre um fundo ina ssimilável. e do qual tiravam boa parte da sua autoridade. Acuada pelo avanço cristão. que rigoro samente nada têm a ver com o fenômeno particular que estou estudando aqui. Em segundo lugar. passado o susto inicial. tal como o corpo moribundo vê ressurgirem com redobrada força as moléstias que ve nceu no passado. Mas o que é um patrício romano. seu senso de or ientação e de dignidade familiar? É um leão sem suas garras. havia colocado em circulação temas. ele nada promete senão trevas crescentes . por parte dos céus. que d e lá lhe moveram guerra subterrânea ao longo de dois milênios. desperta ódio. sacerdotes e iniciados. valores e atitudes da cultura espi ritual grecoromana. Entre letrados. ele representa o elemento antagônico e complementar da cultura dominante — a “sombra” que cresce junto co m o novo corpo da civilização. símbolos. mais grave do que tudo. e. O conjunto de crenças. seu lugar de honra não só no Exército e no Senado mas na casta sacerdotal. a essa gente. de um contrato que os homens acredi tavam ter selado para sempre com os deuses. a súbita ruptura. onde tratará de conservar vivas as suas forças. um desejo incoercível de vingança e de restabelecer as coi sas como eram antes. De que valeriam ali o discurso sobre os direitos. Os monges. mas esta palavra serve também para design ar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cris tianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espi ritual. é precisamente o que se denomina gnosticismo 135. que o cristianismo não tinha senão como parecer. cristã inclusive. entre índios e frades. o qual po . entre ventos. demônio s e feras. 135 Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose. conhecimentos e atitudes antes reservados a umas quantas sociedades iniciáticas qu e. até engoli-lo quando chegar a hora do crepúsculo. Somente o homem da fé pode enxergar ali a semente de um futuro glorioso. Em terceiro lugar.. pouco se lixavam para as virtudes cívicas que. solapando-lhe as bases. à espera de um futuro ciclo onde possa ressurgir. o apelo aos tribunais. A c onfiança em Deus bastava para o anacoreta na noite do deserto. O novo mundo espiritual emerge num panorama exterior de sinistra desolação. viram desfazer-se em fumaça a proteção do segredo que as cercava. Porém. Fala-se neste sentido de uma gnose islâmica. budista etc. desde o ponto de vista do mundo antigo. por um lado. po r outro. das letras e mesmo da virtude em geral. A quem o vê de fora . Este reflui para as sombras. rancor. que refluíram para o subsolo no advento do cristianismo. de ressonâncias antropofágicas apavorantes. mais particularmente. a negação mesma da cultura. a dissolução dos valores sacros do Império entre as mãos das hordas de invasores bárbaro s. e que agora ressurgem à plena luz do dia para o combate final. constituiam a essência mesma da moralidade. símbolos. o cristianismo caiu como um raio que provoca espanto e terror. o cristianismo havia “rompido o véu do templo”. para o subterrâneo.

r isto prefiro designar com o termo diferencial gnosticismo. .

era eleva136 V. Figura 2. O único elemento fixo. a vertical corres ponde a khouen. alguma noção. ligação direta com o simbolismo cristão do sacrifício do Gólgota. de sua natureza. quanto à organização real ou ideal da sociedade humana para os fins que a alma deve cumprir. de um lado. da singularidade humana. de um só golpe. o Homem Universa l é a essência mesma da individualidade concreta. De outro lado. É patente . Leviatã e Beemoth Não cabe entrar aqui numa descrição aprofundada do fenômeno gnóstico. Não há r eligião sem uma referência mais ou menos direta a um Absoluto. seja à natureza em torno. orige m e destino. com poucas referências seja à alma individual. Mas não creio errar ao assinalar. de cuja amplitude e variedade. As religiões podem ser dif erenciadas e classificadas. do Infinito. um conceito da natureza física. Isso não quer dizer que os elementos menos enfatizados estejam de fato ausentes — qu er dizer apenas que essas religiões os tomam por implícitos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 127 § 25. a sacralização da sociedade (ou do Esta do). . Os outros três fatores são móveis. como pontos comuns a uma ampla variedade de escolas gnósticas. onde a vert ical simboliza a eternidade e a horizontal a temporalidade. Note-s ue o homem aqui designado é o Homem Universal. conforme a ênfase maior ou menor que dão a um ou outro desses três elementos na sua relação com o Ab soluto e conforme o jogo de compensações dialéticas que estabelece entre eles. como no hinduismo. Esse diag rama não tem. molde do cosmos — transcendente ao co smos portanto — e não a individualidade empírica. devo recorrer a um diagrama. é Deus. e. ao menos. aqui. um conceito da alma humana. dar con ta. 15-17 da 1ª ed. que no Judaismo a ênfase recai nas relações entre Deus e a comunidade h umana — o povo de Israel —. somente estudos volumosos podem. de longe. pp. às vezes reduzido a um conceito metafísico abstrato. mas sempre presente. seu papel de interlocutoras entre a al ma e o divino. como aliás em todo o s imbolismo universal da cruz (Figura 2). O homem singular. ou “mundo” como o cenário onde se desenrola a história dessa alma. Para me fazer entender. por exemplo. quase alucinantes. Ele in dica simplesmente os quatro elementos básicos que estão presentes em todas as concepções religiosas do mundo. ou o princípio metafísico do qual tudo se origina. a “perfeição passiva” ou manifestação cósmica desse princípio 136. Eterno. Elementos do fenômeno religioso. Imutável — a uma Causa ou Princípio metafísico. a religião cósmica. A Nova Era e a Revolução Cultural. Em cada uma delas. do Absoluto. às vezes ocul tado sob um véu de obscuridade e silêncio como no budismo. a “perfeição ativa”. se encontra algo como um conceito de De us. novo Adão. Na simbologia chinesa. A ênfase do cristianismo cai evidentemente no eixo vertical. A soci edade e a natureza perdiam. finalmente. por outro. presente em todas as religiões. porém. ou que o Budismo fala mais da alma do que dos outros dois elementos. e o horizontal a khien. muito facilmente e sem qualquer inexatidão. Às vezes não sob esse nome. nas relações diretas entre a alma e Deus.

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do a senhor do mundo, em luta aberta com as divindades da natureza — os djinns de que fala a tradição islâmica — e os poderes sociais, que a Bíblia havia condenado numa sen tença sumária: “Os deuses das nações são demônios.” É evidente, portanto, que a reação básica ristianismo assume desde logo a forma de uma luta pela restauração da natureza e da sociedade em seu estatuto anterior — de uma luta, portanto, contra o indivíduo human o, contra a alma, contra a consciência autônoma 137. Seria errôneo, porém, identificar d iretamente essa luta como uma luta contra a Igreja, contra o Papado, contra a In stituição Romana. Ao contrário, a própria consolidação da autoridade romana se faz, em grand e parte, romanizando o cristianismo, ressacralizando a sociedade: a Igreja conqu ista o mundo, mas deixando-se em parte conquistar por ele. O conflito entre expa nsionismo catequético e conservação da fé inicial acompanha toda a História da Igreja — em c ontraponto com a perene ambigüidade das relações entre Fé e Império, autoridade espiritual e poder temporal, que Dante simbolizou na luta entre a águia e a cruz. O cristian ismo, de fato, não quis destruir o Império, mas não podia submeter-se a ele; nem quis restaurá-lo, mas não podia subsistir e expandir-se senão sob a proteção dele. René Guénon, qu sempre deve ser ouvido nessas matérias, explica o fenômeno dizendo que o cristianis mo não tinha, originariamente, o espírito de uma lei religiosa, no sentido judaico o u islâmico de uma regra para a ordenação do mundo, mas o de um esoterismo, de um camin ho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo.” A exoterização do cristianismo, sua tr ansformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade, teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaismo deixavam o mund o greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo, mesmo a contragosto, mesmo ao preço de trair em parte sua vocação interiorizante, teve de pre encher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O cristianismo salva o mundo antigo, absorvendo-o num novo quadro, ma s, para isso, tem 137 O estudo mais inteligente já escrito sobre a influência do gnosticismo na história das ideologias no Ocidente é a obra de Eric Voegelin citada adiante na nota 244. A te se defendida neste parágrafo é amplamente inspirada em Voegelin, do qual no entanto me separam algumas diferenças menores, que se manifestarão nos parágrafos seguintes.

de se deixar absorver nele e transformar-se, mediante adaptações bastante deformante s, numa nova Lei exterior, na religião do Império 138. Não precisamos endossar por com pleto a tese de Guénon para admitir o fato patente de que o cristianismo, malgrado sua imensa força de renovação espiritual, não estava muito bem dotado para reorganizar a sociedade civil e política. No Evangelho não se encontra uma indicação, uma linha, uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica, da moral exterior, do di reito civil e penal, como se encontram com abundância na Torah, no Corão ou nas Escr ituras hindus. O cristianismo era essencialmente uma “via de salvação”, que voltava as c ostas para este mundo, concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. Para transformar-se numa força organizadora da Cidade Terrestre, ele teve de sofre r adaptações que arriscaram deformá-lo profundamente. Não existe, em toda a História das R eligiões, outro caso de uma moral religiosa que tenha passado por tantas mudanças e transformações. A moral social cristã, com efeito, não emerge pronta e óbvia da letra das escrituras, como a islâmica ou a judaica, mas se elabora aos poucos, ao fio de tre mendas disputas dialéticas, por obra dos teólogos e dos concílios, crescendo, não como a progressão linear de uma simples dedução lógica, mas como um organismo vivente, entre d ores e contradições. Assim, por exemplo, vemos o celibato clerical — hoje defendido co mo um valor essencial à preservação da fé — não ser instituído plenamente antes de dez século e discussões, numa Igreja cujo primeiro papa, o Apóstolo Pedro, fora um homem casado . Mesmo o rito, a expressão plástica da simbologia da fé, não tem forma fixa: em torno d e um núcleo essencial constituído pela Eucaristia, a missa adquire, ao longo dos sécul os, uma pluralidade de formas, ora com o sacerdote de costas para o público, ora d e frente, ora os fiéis tomando vinho e comendo pão, ora só comendo o pão e deixando o vi

nho para o sacerdote, ora sentados em bancos, ora espalhados de pé pela nave da ig reja, ora voltados uniformemente para o Oriente ora para qualquer direção ao acaso, ora rezando em latim ou grego, ora nas línguas locais, ora com música, ora sem música, ora confessando-se sumariamente em grupo, ora detalhadamente cada qual a sós 138

René Guénon, Aperçus sur l’Ésoterisme Chrétien, Paris, Éditions Traditionnelles, 2e éd., 1977 p. 826.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 129 com o padre, e assim por diante, numa variedade sem fim, conforme os tempos e os modos da História mundana. A singularidade desse fenômeno salta aos olhos quando co mparamos a infinidade das formas da missa com a fixidez uniforme das cerimônias ju daicas cristalizadas de uma vez para sempre na forma estabelecida pelo Antigo Te stamento; ou com a do rito islâmico, hoje exatamente o mesmo do tempo em que o ens inou o Profeta Mohammed (Maomé) ao exército medinense em marcha contra os infiéis aqua rtelados em Meca, isto para não falar da imobilidade multimilenar do complexo sist ema ritual hindu. Tudo isso mostra a profunda inadaptação do cristianismo à missão regul adora e civilizadora de que foi ncumbido pelo desenrolar dos fatos. Entre a inad aptação i congênita e a força da obrigação externa, o resultado foi duplo: de um lado, um es forço milenar e repetidamente fracassado para erguer um Império cristão, unificando o Ocidente. Com efeito, no Ocidente só existiu império cristão, no sentido mundial, dura nte o reinado de Carlos Magno. No restante da história européia o Império é apenas uma i déia unificadora, pairando no abstrato sobre um caos de principados e ducados perp etuamente em guerra uns com os outros. De outro lado, e em função mesma do fracasso do Império, surge a transformação do papado num poder temporal concorrente, com todo o seu cortejo de conseqüências nefastas. A principal, evidentemente, foi a mundanização d o culto, o rebaixamento da moral cristã a um receituário de exterioridades tão opressi vo e falso quanto o moralismo estatal romano, a cristalização progressiva da doutrin a num formalismo lógico-jurídico deprimente e, por via de conseqüência, a politização comple ta da religião na época pósrenascentista, como um conservadorismo monárquico, de início, q ue aos poucos iria se transformando no seu contrário: num ativismo republicano, li beral e socialista. Mas não foi só dentro da Igreja que o espírito do mundo romano per maneceu atuante: em volta dela, e contra ela, pulularam desde os primeiros séculos as seitas gnósticas. Nelas conservava-se o espírito da religião cósmica — o outro compone nte do culto estatal greco-romano. É como se o espírito pagão se houvesse bipartido: s eu gênio político, histórico e jurídico infiltrou-se na alta hierarquia da Igreja, enqua nto sua religião cósmica, seus deuses naturais, se refugiavam no gnosticismo. Eis aí, desde o início da história cristã, perfilados os dois inimigos que se opõem a

Deus e à alma: o “mundo” e a “carne” — de um lado o espírito da sociedade política, de outro ulto das forças materiais do cosmos. A aliança de religião estatal e religião cósmica opõe-s e à aliança de Deus e do homem. A dimensão sociocósmica (khien) pretende subjugar, engol ir e eliminar a dimensão espiritual e metafísica (khouen). Mas khien é, em si mesmo, d uplo. A entronização do sociocósmico desencadeia, imediatamente, uma nova luta. Quem r einará: a sociedade ou o cosmos, o homem ou a realidade externa, a história ou a nat ureza? Aparece aí, com toda a clareza, o tema dominante de todos os conflitos de i déias no Ocidente desde o Renascimento. Derrubado o eixo vertical, o horizontal não pode permanecer de pé, pois não há entre seus dois termos a desigualdade flagrante que há entre o indivíduo humano e Deus: história e mundo, cultura e natureza, valor e fat o, jamais podem chegar a um acordo senão tomando como fiel da balança a vertical que aponta, para cima, a esfera das leis metafísicas, os limites do possível e do impos sível, e, para baixo, os desejos e aspirações da alma humana singular. Retirados de ce na a alma e o Absoluto, resta apenas o combate de Leviatã e Beemoth: o espírito da r ebelião autolátrica que comanda a História, o espírito da submissão cega e mecânica à naturez exterior. Um novo diagrama mostrará as alternativas em que o Ocidente se debate há quatro séculos: COSMOS LEIS FÍSICAS EXPERIÊNCIA NATUREZA MECANICISMO Nature Behemoth versus versus v ersus versus versus versus versus HUMANIDADE LEIS DA RAZÃO PENSAMENTO HISTÓRIA VITAL ISMO Nurture Leviatã Muitas vezes me perguntei se os significados atuais e correntes da “esquerda” e da “di reita”, que o folclore político data da reunião dos Estados Gerais sob Luís XVI, não teria m uma origem anterior, na disputa entre os dois braços da cruz para decidir, uma v ez a cruz tombada, qual ficaria para cima.

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É surpreendente, mas a história das idéias nos últimos quatro séculos pode ser todinha con tada como uma série de variações, na verdade bem monótonas, em torno do tema da disputa entre os dois braços da cruz. Já em pleno Renascimento, o antagonismo perfila-se ent re os cientistas naturais, firmemente decididos a abandonar a tradição aristotélica (o u o que assim denominavam) pelos novos métodos experimentais, e os humanistas, emp enhados em restaurar o amor aos clássicos gregos. Os primeiros romperam com o sent ido de continuidade histórica das ciências, acreditando possível fazer tábua-rasa e ler direto do Livro da Natureza. Os segundos, redescobrindo a Poética de Aristóteles, en cadearam numa rígida obediência aos cânones aristotélicos o gosto literário por três séculos, ao mesmo tempo que inauguravam, com a crítica de textos, a moderna ciência histórica. É incrível como dois movimentos de sentido antagônico possam ter entrado para os livro s de História com a denominação comum de “Renascimento” 139. No século XVII, as duas corrent es contrárias serão por assim dizer oficialmente separadas em compartimentos estanqu es com a abertura das faculdades parisienses de “Letras” e de “Ciências”, inaugurando as “du as culturas” de que falaria mais tarde C. P. Snow. Ao mesmo tempo, o debate filosófi co cristaliza-se no antagonismo entre empiristas e racionalistas — os primeiros at ribuindo ao mundo, ao objeto externo, a origem de todos os nossos conhecimentos; o segundo extraindo-o pronto ou semipronto de dentro da razão humana. No século seg uinte, o nascimento do historicismo assinala o começo da disputa entre os deuses d o tempo e os deuses do espaço. O antagonismo só será formulado expressamente no fim do século XIX, com Windelband e Rickert, mas em Vico já se observa a disputa de priori dade: em oposição à ciência físico-matemática, a História é promovida a modelo supremo do con imento. Finalmente, no século XX, o conflito entre capitalismo e comunismo evolui para a f orma final da disputa entre a “Nova Era” e a “Revolução Cultural”. E no auge desta disputa é ue entra em cena o iogue-comissário. LIVRO V - CÆSAR REDIVIVUS 139

Sobre este paradoxo na história da influência aristotélica e este antagonismo no seio do Renascimento, v. meu livreto Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. Introdução à Teor ia dos Quatro Discursos, e também Pensamento e Atualidade de Aristóteles, transcrição po r Heloísa Madeira, João Augusto Madeira e Kátia Torres, 12 fascículos, 5 já em circulação ( R o, IAL, 1994 ).

CAPÍTULO IX. A RELIGIÃO DO IMPÉRIO § 26. De Hegel a Comte O iogue-comissário, personificando a reconciliação entre a Nova Era e a Revolução Cultural , deveria trazer-nos, logicamente, a solução de todas essas antinomias. É isto, de fat o, o que ele nos promete. Mas é claro também que não pode realizá-lo em hipótese alguma, p ois uma contradição, qualquer que seja, só pode ser resolvida desde um terceiro termo superior que abranja e contenha os dois opostos; e o iogue-comissário, não podendo e levar-se ao plano da universalidade metafísica que é o único desde o qual os dilemas d a cultura Ocidental se unificam e se resolvem, apela para o clássico expediente do s neuróticos: amortecer o conflito mediante a queda num sono depressivo e auto-hip nótico. Estreitando o horizonte da consciência, ele expele de seu campo de visão as fo rças em luta, e procura persuadir-se de que tudo o que não enxerga não existe. Mas nem séculos de prática do tetrafármacon poderiam nos impedir de ouvir, por trás das palavra s calmantes de Motta Pessanha, o ronco ameaçador da catástrofe que se aproxima: uma vez desaparecida dos céus a imagem do eterno, a luta entre os deuses do tempo e os deuses do espaço prosseguirá até o desenlace fatal, que só pode ser a vitória do mais for te. Ora, dos dois monstros, o mais forte é sempre Beemoth, a ordem do universo físic o. A derrotada é sempre a comunidade humana, instável e nervosa, a debater-se nas água s, raivosa e humilhada, sob o peso esmagador das patas do adversário.

Não é mesmo significativo que, no auge do ufanismo científico que celebrava o domínio da comunidade humana sobre a natureza, os cientistas mesmos venham nos alertar par a os perigos iminentes que nos chegam cada vez mais ameaçadores do cosmos físico, e, mudando de tom, passem do triunfalismo prometéico à pregação de uma resignada e humilde “colaboração com a natureza”? 140 É que eles ouviram o baque surdo das patas de Beemoth, que vem novamente esmagar Leviatã. Mas tudo o que podem fazer é trocar às pressas de d ivindade, passar da rebelião prometéica a um conformismo obediente de bonzos orienta is, até que a vontade humana de poder se rebele novamente, para novamente ser esma gada, e assim por diante até a derrota final. Não, não adianta trocar o culto de Levia tã pelo de Beemoth. Esta troca, cíclica e repetitiva até à alucinação, é ela mesma o problema o mal que sacode e gira há séculos o Ocidente numa alucinada dança de dervixes bêbados que se esqueceram de Allah e caíram na idolatria da dança mesma. As duas mãos de khien só param de estapear-se uma à outra quando se juntam na comum obediência a khouen. Ma s, se o remédio proposto pelo iogue-comissário para debelar o vício é apenas uma nova in jeção da mesma velha droga, então cabe a pergunta: Quia bono? Quem ganha com isso? A q uem serve o iogue-comissário, sabendo ou não? Terminada a Revolução Francesa, Augusto Comte, empreendendo o balanço contábil das conqu istas ideológicas desse magno evento da modernidade, chegou à conclusão de que o saldo estava em vermelho. Esta cor não se referia ao sangue derramado entre discursos, mas ao fato de que a Revolução, tendo cortado junto com a cabeça do rei também as raízes m orais e religiosas do Antigo Regime, nada pusera em seu lugar: com o deficit ide ológico daí resultante, as massas sentiam-se boiando num desesperante vazio espiritu al, que as conquistas sociais não bastavam para aliviar 141. Qual a solução? Voltar ao catolicismo? Nunca! Diante das circuns140 141 V. A Nova Era e a Revolução Cultural, Cap. I. Comte nem de longe prestou atenção ao fato de que as referidas conquistas, consistindo basicamente no serviço militar obriga tório, numa carga tributária superior a tudo o que a monarquia ousara sonhar e na

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tâncias, Comte tomou então uma atitude que bem mostra a superioridade dos tempos mod ernos: ao contrário dos antigos profetas judeus, aqueles preguiçosos que fugiam ao a pelo divino até que Jeová os capturasse a laço entre invectivas e ameaças terrificantes, o nosso filósofo não se fez de rogado, e aceitou mais que depressa a incumbência de f undar o novo culto, incumbência que lhe fora aliás atribuída por ele mesmo. Não é preciso dizer que morreu louco. A nova religião teria três características principais: 1º Seria uma religião do Estado: o homem dos novos tempos serviria ao Estado como outrora o s fiéis tinham servido à Igreja. 2º Para marcar sua ruptura com a era anterior, ela in stituiria um novo calendário, com ritos festivos dedicados aos “grandes homens” cujo a dvento a este mundo marcara as etapas decisivas do “progresso histórico”. 3º A nova reli gião assinalaria o ingresso da humanidade na etapa decisiva de sua evolução temporal — a “era positiva”, marcada pelo predomínio da ciência e da técnica, após a “era mítica” inicial ra metafísica” intermediária. Nessas três características aparecem os traços básicos que defi em o que chamei divinização do tempo: a identificação da lei religiosa com a lei civil ( ou absorção da Igreja pela sociedade política), o culto dos antepassados e o conceito da dimensão temporal como campo onde se realiza um progresso predestinado. Em suma : Cæsar redivivus. Mas a nova religião não era tão nova. Em primeiro lugar, ela simplesm ente dava expressão mais detalhada à idéia hegeliana do Estado como sucessor da Igreja : se Comte era o Messias da Religião da Humanidade, Hegel fora pelo menos seu São João Batista. Para piorar, a religião de Hegel não ficara só na idéia: a Revolução chegou a real izá-la integralmente. Em 7 de junho de 1793, a Convenção, reunida sob a presidência de M axilimilien Robespierre, votou um Catecismo em quinze artigos. O primeiro reconh ecia a existência do Ser Supremo, que se distinguia daquilo que o Antigo Regime ch amava de Deus por ser menos uma Pessoa do que um conceito abscriação da maior burocr acia administrativa e policial que o mundo já conhecera, não eram mesmo de molde a a liviar o que quer que fosse.

trato: o deus do deismo, em suma. Os artigos 2 e 3 fixavam os deveres para com o Ser Supremo: odiar os tiranos, punir os traidores e outras coisas pelo gênero. Os artigos seguintes estabeleciam rituais festivos incumbidos de recordar ao homem sua dignidade e seus deveres. São trinta e seis festas por ano, dedicadas ao Ser Supremo, à República, à Justiça, à Frugalidade e a outras coisas excelentes, entre as quai s a Indústria e a Agricultura, e mais quatro celebrações extras, a principal das quais em 14 de julho. Marcada a primeira festa para a data que coincidia com o doming o de Pentecostes, o pintor Jacques-Louis David foi encarregado dos detalhes litúrg icos, que incluíram uma procissão, com o sumo-sacerdote Robespierre à frente, hinos ao “Pai do universo, suprema inteligência”, chuvas de flores, disparos de canhões e um des file da estátua da Liberdade num carro puxado por oito bois. Depois disso, que mai s restava a Augusto Comte senão chover no molhado? Até o título do opúsculo em que divul ga suas concepções religiosas é copiado do decreto da Convenção: Catéchisme. A religião de Co te não foi adotada em parte alguma, exceto na borda esquecida do mundo: no Império d o Brasil, onde valorosos oficiais militares, descontentes com a monarquia que não dera o devido reconhecimento ao Exército que vencera galhardamente tropas paraguai as compostas de meninos de 8 a 15 anos de idade, sonhavam em implantar no país uma ditadura republicana inspirada na divisa do Mestre: Ordre et Progrès. Na Europa a Religião da Humanidade acabou sendo esquecida, junto com seu antecessor imediato, o culto robespierreano do Ser Supremo. Mas deixaram, lá e cá, uma infinidade de mar cas, entre as quais um inesgotável calendário cívico, que, celebrando as secretárias, os motoristas, as mães, os pais, os namorados e tutti quanti, oferecem duas vantagen s indiscutíveis: fazem esquecer o calendário litúrgico da Igreja e fomentam os negócios. Na verdade fazem mais que isto: fornecendo um Ersatz para a experiência religiosa do “tempo qualificado” — épocas especiais em que o fluxo dos eventos muda ciclicamente de tonalidade, recordando ao homem a relatividade do tempo e a imersão de tudo no eterno 142 — , o calendário cívico ajuda a aprisionar a mente 142

Comentários à “Metafísica Oriental” de René Guénon. 1983. Gallimard.Sobre a noção de “tempo qualificado”. o trabalho excelente de Michel Veber. e notas de Olavo de Carvalho. Spe ulum. 1979. v. São Paulo. . Le Mythe de l’Éternel Rétour. Paris. bem como — com reservas — Mircea Eliade. introd.

nação. pesam sobre os homens com o peso de uma coerção física. elevado ao estatuto de u ma realidade metafísica. em segundo lugar. Excetuando-se o período que medeia entre a queda de Roma e o reinado de Carlos Magno. reinos e dinastias que surgem e se desvanecem. imagine sonhar . não são senão ecos. sem erro. s empre inquieto. sob uma mesma legislação e um mesmo governo. de doutrinas e de métodos. exercendo um forte apelo sobre todo homem a quem o poder sobre o reino de ste mundo parecesse uma ambição demasiado estreita. sua religião foi para o túmulo com ele. No quadro de uma organização social onde horários e rotinas. de agonistas e protagonistas. se mpre sonhando com a estabilidade do poder. sinta retornar à “realidade”. Ela acabou sendo absorvida por a quele que sepultou a Revolução sob os alicerces de um novo Império: ao coroar-se a si mesmo. não empenhasse o melhor de si no esforço de elevar-se a Império ou como tal não fosse reconhecido pelos demais. fr utos da decisão humana. Napoleão terminou mal. É. Quem acompanhe a história das idéias políticas em contraponto com a históri a das ações políticas e não como uma sucessão de teorias a boiarem no céu das idéias puras. P AULO APÓSTOLO A história política do Ocidente pode ser. não se passou um dia. viagens e d escobertas. É. o Império d o Ocidente. conflitos religiosos. morre aqui para renascer ali. Mas. em terceiro lugar. vemos sucederem-se tentativas de renovar o feito máximo de Roma: unificar. das revoluções. mas a idéia permaneceu no ar. convivendo na har monia de suas diferenças e todos contribuindo para a riqueza e grandeza do Império. sempre condenado à metamorfose das guer ras. Século após século. facilmente resumida como a históri a das lutas pelo direito de sucessão do Império Romano. dispensando a consagração papal que por séculos fora tida como a garantia espir itual indispensável à legitimação do poder temporal.” S. proteiforme. soberania. a realida de decisiva. Uma das provas do mau estado da teoria política hoje em dia é que. Napoleão Bonaparte fez saber à Igreja q ue já estavam longe os tempos em que o Império fazia à autoridade religiosa uma concor rência meramente política. re voluções políticas e culturais que se sucedem. guerras e crises. líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre. do o utro lado do oceano. É. e que. Em volta desse tema dominante. o movimento profundo: a luta pela formação do Impér io. muda d e centro e de contorno. l egitimidade. das mudanças de povos e fronteiras. povo. coroados pela Igreja. de maneira discreta mas decisiva. § 27. Translatio imperii: Breve história da idéia imperial “Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus. a um tempo. v rificará que jamais houve no . Leviatã a agitar-se nervosamente no fundo das águas. entre tantas discussões de conceitos puramente formais e até mesmo convencionais — democracia. em primeiro l uma realidade contínua. em que alg uma nação. reflexos. sem jamais desaparecer de todo. Levantava-se agora ante o cristianismo a figura temível do oponente espiritual. raramente lhe sobra tempo para investigar a at ualidade do fenômeno “Império”. a idéia da religião de Estado prosperava. a agitação na superfície das água . ao retomar seu lugar na fila do relógio de ponto. E mesmo nesse período. uma realidade proble mática: em contraste com a unidade estável e o crescimento orgânico de Roma. enquanto ele se extinguia na dor e na humilhação do exíl io. derrotado por um punhado de reis à antig a. O Império não é uma teoria: é uma realidade. reinado. na História do Ocidente. no tempo administrativo. direitos —.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 133 humana no tempo socio-econômico. que oculta e revela. Derrubado Robespierre. contemplando o mar e as montanhas. uma multiplicidade de povos. o Império não ces sa de existir: transfere-se para Bizâncio. não é de esp antar que o empregado em férias.

dois grandes impérios. poderosíssima e no entanto acomodada dentro de suas fronteiras durante milênios. revolução e reação. com a mesma se renidade de quem sabe que uma só coisa importa: salvar a unidade do Estado que inc orpora o projeto da Revolução Americana. nacionalismo e internacionalismo. administrando sabiamente as diferenças nacionais. Teocracia e mona rquia. só caindo na tentação imperialista ao contaminar-se de idéias Ocidentais. Mas nada de similar a esse fato tipic amente Ocidental se observa no Oriente. seus costumes. Se fosse uma teoria. seus valores. e todas aquelas outras bandeiras em nome das quais os homen s matam e morrem. após terem destruído todos os demais. que as outras orbitam em t orno dela como satélites. . onde a eclosão de um surto imperialista é an tes uma exceção do que uma regra. Como um de seus mais célebres heróis — Abraham Lincoln —. que só o comprova. não servisse a incentivar ou a legitimar a luta por essa finalidad e. Também ele terminará por ceder. odiado. perpet uamente dividido em nações hostis e só de raro em raro tendo alguma iniciativa de unif icação imperial. Do alto de seu trono solitário — amado. ele ap oiará a revolução ou a reação. o Império é notavelment estituído de convicções teóricas. assegurar a continuidade da marcha ascenden te dessa Revolução rumo ao Império do mundo. Seu único opositor — o p ovo islâmico — agita-se apenas no fundo da sua raiva impotente. revolucionária ou reacionária. cuja oposição aparente mascara apenas o fato de girarem em t orno de um mesmo eixo. A morte de um deles eleva o outro a uma posição de domínio mundial superior a tudo quanto haviam sonhado os seus antecessores. Veja-se o mundo islâmico. de servirem a um mesmo propósito e senhor. Como Lincoln. senhores: o imperialismo não é uma pretensa “lei histórica”: é um fato ocorrido numa certa parte do mundo. uma realidade atual: durante um século. e um fato específico da História Ocidente. escr avagista ou libertária. dominância da idéia de Império não é uma teoria: é um fato. parecendo guerrear-se entre si — democra cia. liberalismo e social-democracia. disputaram entre si a primazi a da unificação política e cultural do mundo. É. nada mais fizeram senão ajudar a apressar e a legitimar a a scensão mundial do Império que é um tempo democrático e aristocrático. Os pensadores políticos e religiosos do Ocidente não criaram uma só idéia que. pretenderia ter um alcance genérico. Não pode refutarse mediante argumentos teóricos. Não. comichão passageira e mal sucedida. e. Tão forte é o magnetismo da idéia de Império. que substituísse o con ceito de “Império” aos “três estados” de Comte. deveres e direit os. quando vistas já não desde o ponto de vista das motivações subjetivas que movem os seus mártires. invejado. o domínio colonial ou as reivindicações de independência nacional. Há algum conceito que mereça estudo mais urgente que o de “império”? Tu do o mais são palavras. revolução e reação.134 OLAVO DE CARVALHO Ocidente uma só doutrina. mais dia menos dia. um poder expl icativo sobre o processo histórico em geral. e ssa é a única constante 143. ao determinismo geográfico a outras forças às quais os teóricos atribuíram o papel de “motores” do acontecer histórico. perdida que foi há tempos a vocação imperial que o animou até o século XII. e que no fundo está pouco se lixando para essas distinções. Prevendo objeções levianas que nossos acadêmicos semiletrados não deixarão de apresentar. Em toda a variedade de processos e mutações que constitui a história do Ocidente. aristocracia. capit alismo e socialismo. belas palavras que. a escravatura ou a abolição. mas sempre temido —. finalmente. Veja-se por exemplo o caso da China. ele 143 vai unificando e homogeneizando a humanidade. monárquica ou republicana. o moralismo puritano ou a rebeliã exual. revolucionário e reac ionário. sua língua. ordem e liberdade —. república e democracia. que não fosse absorvida para servir de pretexto e reforço na l uta pelo Império. é elevado à condição de supremo magistrado do universo. já não são mais que os estandartes das divisões. incapaz de organizar -se. batalhões e esqu adrões em que se escande o descomunal exército empenhado num só objetivo: a formação do Im pério. esclareço que não estou com isso inventando uma “teoria da História”. liberal e socialdemocrático. tem de ser discutido no terreno da narração histórica. exceto a de sua missão unificadora. impondo por toda a parte suas leis . à luta de classes. mas desde a perspectiva dos resultados reais a que ser vem na escala dos séculos.

Se esse retorno é problemático. se em vez de tomar a forma de uma resta uração duradoura ele se estiola em tentativas incessantes e sangrentas que não levam a parte alguma. Em Roma. atuando sobre as almas dos vivos co mo uma obsessão subconsciente. que só podia partir dos militare s. se serve deles como instrumentos de seu esforço para voltar à vida. o Império form a-se como evolução quase fatal de uma República onde uma dualidade de poderes — civil e militar — convidava desde séculos a uma unificação forçada.O Império Romano parece pairar sobre a mente Ocidental como o fantasma de um morto ilustre que não quer acabar de morrer. Esses poderes. no entanto. e que. eram ambos igualmente submissos a . é por uma série de razões muito simples e claras.

ao temor reverencial misturava-se o d esprezo social. A isto aliou-se uma série de conflito s entre o papado e o Império Bizantino — conflitos que prefiguram em miniatura aquel es que se manifestariam entre a Igreja e o Império Ocidental. por volta do século VIII. patrocinando o projeto do Império . Consideravam-se essas coisas indignas de guerreiros. Desse momento até aquele em que a cabeça de 144 145 Cf. exercia nele um primado sobre a casta guerreira. a resistência da casta nobre a qualquer forma de estudo e a uma participação mais séria em atividades religiosas era um fato consumado. que entrava como convidada. O impulso de transferir para a autoridade civi l ao menos parte dessas responsabilidades foi um dos motivos que fizeram a Igrej a aspirar por um retorno do Império Ocidental. cristianizar e educar o jovem guer reiro para torná-lo um rei cristão e depois um imperador cristão. as funções sacerdotais. O problema básico da história política Oc dental pode assim resumir-se na sucessão de tentativas para encontrar uma resposta prática a um problema prático: como restaurar o Império romano sem a religião estatal r omana? A Igreja como força organizadora da sociedade nascera justamente no período m encionado acima. inexistindo uma administração estatal. em que senadores e cônsules. entre a queda do Império e a coroação de Carlos Magno. a Igreja.. envoltos no prestígio temível do s portadores de dons mágicos. em primeiro lug ar. Aqui emprego-o em sentido lato. Histoire de l’Église. pp. Nesse interval o. Eis aí os primeiros tropeços.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 135 um conjunto de normas tradicionais de conduta. Paris. essa unidade inexistia na Europa medieval. Essa resistência durará até o século XV pelo menos. criando aos esforços educacionais da Igreja obstáculos intransponíveis. Demasiado distante d e Bizâncio para poder desfrutar da proteção imperial contra os bárbaros. que darão ori gem a uma série infindável: a síntese romana das castas sacerdotal e real desfizera-se para não mais voltar. na hora de fazer reviver o império Ocidental em versão cristianizada. ao sacer dócio. 359 ss. só obrig ava completamente os escalões superiores do clero. tabeliães. Mas. que cobria mais ou menos o territóri o equivalente ao do antigo Império. Funk-Hemmer. Em terceiro. I. para designar todas as mu danças do eixo do poder imperial no Ocidente. c onsolidada pela religião do Estado. as funções de líderes políticos. bem como aos ritos de um mesmo cu lto público. entre cujas vítimas se encontravam aliás seus fun dadores — a legião dos primeiros mártires cristãos. já que o clero colhia seus membros em todas as classes e os nobres não podiam ver com bons olhos os antigos servos que de repente apareciam investid os de autoridade e poder. não podia fazer simplesmente brotar de si a semente de uma dinastia. a Igreja de Roma. os padres eram para eles os equivalentes dos antigos druidas. é verdade. 146 Compromisso que. de outro lado. até pelo menos . Em segundo lugar. onde as primei ras tentativas de restauração do Império já trarão dentro de si a contradição constitutiva qu as levará ao fracasso: elas constituirão um esforço para enxertar as instituições romanas no quadro de uma religião que. t. Ora. S e os antigos imperadores romanos eram eles mesmos os sacerdotes do culto estatal . generais e imperado res exerciam pessoalmente. começa a sonhar com uma transferência do Império para o Ocidente 144: e a translatio imperii será a in auguração da autêntica Europa 145. 1891. por sua inspiração mais profunda. repelia com verdadei ra ojeriza a idéia do culto estatal. os nobr es tinham pelo clero um sentimento misto de temor e desdém: de um lado. os padres tiveram de acrescentar. o clero. os imperadores da Europa terão de contentar-se com o estatuto de governantes out orgados e legitimados por uma outra casta. Era preciso aproveita r um filho de uma das nobrezas locais bárbaras. Armand Colin. Mas. xerifes etc. sendo abundantes. o que terminou por fazer do clero uma estrutura administrativa informal. O Império constrói-se sobre a unidade moral e religiosa do povo romano. O termo translatio imperii é usado normalmente para designar a transferência do Impéri o de Roma para Bizâncio. demasiado sujei ta à autoridade bizantina para poder recusar-lhe o pagamento de pesados impostos. nos intervalos de suas obrigações políticas e militares. amarrado pelo compromisso do celibato 146.

. porém. que não poderia ter expressão num caso como o que estou discutindo aqui. passim.o ano 1000. . op. Funck-Hemmer. Cf. os padres casados — uma arraia miúda. cit.

após quatrocentos anos de dispersão. cristianizando à força os povos vizinhos. pusesse e m ação o primeiro plano de alfabetização universal de que se teve notícia na história do mun do. para que reunisse na corte os maiores sábios do tempo. mas adia a realização da promessa e só adquire as primeiras letras aos 3 2 anos de idade. e recebendo por isto o apeli do de Luís. unge a ua fronte com óleo bento — inaugurando o costume da sagração dos reis. Essa mudança.136 OLAVO DE CARVALHO Luís XVI rolará pelo solo cortada pela Revolução. São Bonifácio. dado a acessos de fúria. subindo ao poder após a morte do pai. o executor terrestre dos desígnios da Providência. editasse livros e. Morto o Imperador. sem resolvê-lo. numa recaída fatal. Vencendo resistências interiores. cruel com os inimigos. que uma seqüência de felizes acidentes h . é a essência da chamada “modernidade”. Carlos Magno é sagrado imperador no ano 800. ele teve ainda a sabedoria de dar carta bran ca ao monge e filólogo Alcuíno. Ele não vê nenhuma contradição entre mandar no mundo e obedecer aos céus. exigiram a partilha segundo as velhas tradições gaulesas: o Império desmembrou-se e voltaram à ce na todas as contradições entre nobreza e clero. Mas o fato é que a síntese imperial-cristã não residia senão na perso alidade de Luís. Carlos Magno. caos e obscuridade. impondo sacri fícios em nome da unidade imperial e da ordem jurídica. permitia que elas tivessem quantos amantes desejassem. cuja coragem e força prodigiosas se ombreavam com a sua manifesta fé religiosa. o Império não durou nem um dia a mais: contrariando uma lei recém-promulgada. como veremos adiante. alcança o seu p rimeiro momento de esplendor intelectual e artístico. o drama do Império Ocidental tomará a form a ostensiva de um conflito entre sacerdócio e realeza 147. Carlos Magno conservava no entanto a lguns hábitos pessoais que dão bem a medida do abismo que existia entre a mentalidad e da nobreza bárbara e a do clero. Charles Martel. subjugando várias províncias francas e colocando-se sob a aut oridade da Igreja. mais surpreendente ainda. Glutão. liberal avant la lettr e. consente mesmo em ap render a ler. Pepino de Herstal. esse brutamontes revelouse no entanto capaz de estender os domínios do império. se mostra estritament e apegado à moral cristã. Para conferir ao seu poder o prestígio sacral que a tradição gaulesa a nteriormente atribuía à descendência de Clóvis. Para impedir que isto acontecesse. Apesar da manifesta sinceridade da sua fé. em que se harmonizavam. uma breve consulta aos padres liquidava o problem a. Ele amava tanto suas duas filhas que temia acim a de tudo que elas se casassem e fossem morar longe dele. A solução foi temporariamen te encontrada numa família de nobres francos que pareciam menos selvagens que seus pares. O problema do Império cristão pa recia estar resolvido e tudo anunciava um futuro grandioso. A Igreja tira as conseqüências políticas do fato consumado: o Império restaurara-se por si mesmo na pessoa desse jovem guerreiro de dois metros de alt ura. O filho bastardo de Pepino. que impedia a d ivisão das terras do Império por herança. severo consigo mesmo e com os outros nobres. as melhor es qualidades da nobreza bárbara e a fidelidade à Igreja. o emissário da Igreja. contanto que vivessem com eles 147 A Revolução apenas mudará a forma desse drama. o Piedoso: a aristocracia parecia haver absorvido completamente seu pa pel no Império cristão. que são enfim levadas até os confins da cristandade latina por seu irmão e sucess or. formasse uma biblioteca. Se os antigos imperadores romanos eram tidos como e ncarnações das divindades — Júlio César era aceito como descendente carnal de Vênus —. já imperador. dá a esta a base para começar a reconstrução do Império. e que. o impe ador cristão terá de se contentar com algo mais modesto: Carlos Magno considera-se o braço armado da Igreja. e de administrar com muita habilidade as diferenças entre os vários intere sses nacionais — foi um Imperador na plena acepção do termo. amplia as conquis tas. recentemente cristianizados. Ele torna-se r ei dos francos. por um raro acidente psicológico. seus sucessores. Luís. A Europa. dentro do Palácio e não se afastassem nunca do querido papai. Se houvess e dúvida quanto a esses desígnios. Apesar da proverbial host ilidade dos nobres à cultura letrada. Este futuro parece a inda mais promissor quando o sucessor de Carlos Magno. tinham uma fé mais ardente e sem contági os.

Enquanto isso. de um lado. A primeira Roma cristã havia durado apenas o tempo de três gerações. poder. no Oriente.avia camuflado por algum tempo. de outro. a sucessão de tentativas dramáticas e sangrentas a q ue o Ocidente se entrega — até hoje — no empenho de realizar a idéia imperial. cu ltura. floresce em riqueza. Bizâncio prospera. não podemos dei- . Quando comparamos. a facilidade com que o Império bizant ino se instala e se estabiliza por mil anos para uma vez ferido pelo invasor des aparecer para sempre.

Mas nunca passará de um projeto. portugueses — fundaram mais tarde seus próprios impérios. os novos. Por que foi assim? As causas do fracasso são tão patentes que chega a surpreender-no s. A segunda Roma Cristã Ocidental — o Sacro Império Romano. Em primeiro lugar. em 1806. Por um milênio. Com a dissolução do Império. Na falta deles. trata m de organizar exércitos particulares. que os protagonistas não as percebessem em tempo de tentar mudar o curso dos eventos. cu ltíssima e politizada 148. em giros caóticos onde seus contemporâneos não enxergavam nenhuma forma ou sentido. uma aristocracia urbana. sobre uma base feudal. espanhóis. belas damas. E os conceitos que hoje nos tornam claro e patente o sentido desses antigos eventos foram uma invenção muito posterior. brilhava no Senado. franceses. era impossível construir um novo I mpério com modelo romano sobre bases econômicas tão diferentes das romanas. ele já não existia senão no papel. Uma ou duas vezes por ano. ou. Concebido para atender a dois objetivos — s er o braço armado da Igreja e unir sob um governo central os reinos cristãos. embora o termo seja usado em ge ral exclusivamente para a mudança do Oriente para Ocidente. fundado em 962 por um pa cto entre o rei Otto I e o Papa João XII — durará até 1806. pior ainda. Era. jamais tiveram esses hábitos. essas unidades autônomas chegavam a mil e oitocentas. Seus filhos desempenhavam funções sacerdotais. Marca na verdade uma segunda translatio imperii — dos franceses para os alemães —.. viveu às turras com o Papado que deveria representar. vivia na capital. É que é fácil compreender o que se pa ssa. ele visitava suas terras. e nós inteligentes. dis persa por um território imenso e dividida por hostilidades e entrechoques de inter esses inconciliáveis? Mais ainda: como impor a unidade sem uma classe dirigente ca paz? Os remanescentes da antiga nobreza esquecem os hábitos de cultura e refinamen to. Mas é que. A aristocracia agora é uma 148 . não sabendo se deve temer mais as ambições dos vizinhos ou as hordas bárbaras que co ntinuam chegando e devastando tudo.. Mas que diferença entre os dois feudalismos! O antigo nobre. não basta que eles estejam diante de nós: é preciso ter os conceitos (de con + cepio = “captar junto”). para percebermos os fatos. Nenhuma outra civilização mostrou uma vocação imper ial tão absorvente e uma incapacidade tão profunda de dar a essa vocação uma expressão estáv el. a maioria dos povos cristãos se recusou a submeter-se ao Imperador. Não que os antigos fossem tolos. muitos desses feudos mudam de donos do dia para a noite. De outro lado. e a primeira é: Como impor a unidade política e a dministrativa sem uma aristocracia urbana — sem a unidade da classe dirigente. Na época dos últimos Habsburgos. não contando mais com a proteção de um governo central. mais de um Papa foi destronado e perseguido por or dem do Imperador. Com as invasões. sobre as ruínas do antigo. entre os seus pares. oficiavam os cultos públicos e depois faziam carre ira no Exército. os nobres se retiram definitivam ente para suas terras e. de uma comédia. os fatos deviam voar como moscas .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 137 xar de notar algo de estranho no fascínio que essa idéia — e a impossibilidade de real izá-la — exerce sobre a mente Ocidental. depois que se passou. Cada feudo fecha-se numa desconfiança rancoro sa. As fronteiras das propriedades tornam-se instáveis. Quando. nunca realizou nem uma coisa. recolhia os lucros e voltava à cidade. nem a outra. A construção do Império europeu defronta-se. pelo m enos Ocidentais —. com um muro de impossibilidades. os esquemas menta is que nos permitam apreendê-los na unidade das suas relações. Napoleão mandou extinguir o antigo Império. mais de um Imperador foi excomungado e humilhado pelo Papa. de origem bárbara. têm de ser defendidas pela espada. hoje. muitos I mperadores não chegaram seq uer a ser sagrados pelo Papa. desde logo . filósofos. como um “coronel” do sertão pernambucano. Que ninguém se deixe aqui enganar pelas palavras: o regime era “feudal” num caso como no outro. o Império não passou de um aglomerado de principados e ducados independentes e m utuamente hostis. sua casa era frequentada por artistas. ia ao teatro. Durante a maior parte de sua existênc ia. Q uatro dentre eles — ingleses.

XIII. Uma tradução — “La decadencia de la cultura antigua. jul. nº 37. t.Sobre a organização econômica do Império Romano e as causas de sua dissolução. Não sei se existe outra. o clássico ens io de Max Weber continua insuperável. . Sus causas sociales” — foi publicada na Revista de Occidente ( Madrid ). 1926.

Bonifác io. e le va a transigência ao ponto de aceitar discutir. compensavam os pr ejuízos decorrentes das vantagens concedidas aos servos. 151 “O Papa não esperava evidentemente a . tese que se tornou muito generalizada entre os canonistas. fartamente repartidos entre a aristocracia. libertado após três dias. Luís. em parte pelas guerras de conquista. em parte pelo terror que inspirava. São Paulo. num concílio. um homem dotado de antevisão histórica q uase profética 151. sempre ameaçado por uma tensão estática. Por mil anos. p. mandando às urtigas a consciência cr istã. em vez de levar adiante a briga com Felipe. O rei da França. o antigo feudalismo romano fundava-se inteira mente no trabalho de escravos. retorna ao trono com forte apoio popular. Felip e manda um exército invadir o palácio do Papa. e em represália o Papa edita a bula U nam sanctam. t. foi na verdade um gênio. Em terceiro lugar. Ora. 1º. Não adianta nada: velho e doente. Felipe o Belo. O Pap a Inocêncio IV ( 1243-54 ) já afirmara que a Igreja desfruta da plenitude do Imperiu m. capturados aos milhões em guerras de conquista e po stos a servir em verdadeiros estábulos. não havia novas terras a conquistar e a lei proibia repartir as do Império: já não era possível reinar nem pelo terror. o tesouro estava exaurido. Pedro Moacyr Campos. mediante artimanhas legais e violên cias. Ele percebeu. em Maurice Crouzet ( org. Carlos Magno conseguiu fazer-se obedecer. Difel. A Expansão do Oriente e o Nascimento da Civilização Ocide ntal. III. as acusações que o bandidi nho coroado fazia à honra do falecido. que declara com todas as letras aquilo que até o momento tinha ficado delicadamente implícito: a total submissão dos reis à autoridade da Igreja 150. os nobres festejaram a repartição do Império e. Bonifácio é preso e agredido fisicamente. quando era tarde e a Igreja já estava demasiado enfraquecida. por sua intransigên cia e falta de tato. Em todo caso. trad. seu s ucessor. O que Bonifácio fez de novidade foi simplesmente transpor essa tese da esfera teórica para a dos manda mentos práticos. observando desde o século X a insubordinação e a a rrogância da casta guerreira. viu-se numa situação medonha: todas as propriedades tinham s ido distribuídas. conquistando para ela o direito à propriedade e ao casamento. ). que já estava meio ganha. mas. cujos botins em bens e em terras. 126. Morto Carlos Magno. as raízes de um 150 Edouard Perroy. pune os recalci trantes mediante 149 uma recusa de pagar-lhes os impostos das igrejas locais — o que era simplesmente c ondená-los à falência. bem como várias garantias contra as arbitrariedades do senhor feudal.138 OLAVO DE CARVALHO horda “inculta. ávida de prazeres grosseiros e que poder algum consegue disciplinar” 149. e que foi junto com ele para o túmulo: sobre o cadáver d e Luís. nem pel o suborno. consegue driblar parcialmente o cerco. vol. prefere ficar em cima do muro. Não lhe restava outra arma senão o respeito que sua retidão pessoal inspira va — arma de eficácia duvidosa. só para tudo terminar numa pizza póstuma. Bonifácio não sacou esta afirmação pronta e acabada de seu próprio cérebro: ela já vinha germ nando em muitas cabeças ilustres que. desejando forçar a unida de entre os príncipes Ocidentais para empreender uma nova Cruzada. a Igreja se desgasta rá entre esforços utópicos para erguer um império sobre as nuvens e em malabarismos para esconder-se das tempestades que ele lhe envia. o conflito toma a forma de um periclitante equilíbrio de forças. e seu sucessor. a Igreja mesma havia mudado a sorte dessa gente. morre logo depois. assaram e comeram os direitos dos servos. o Piedoso. reclamavam medidas disciplinares que só vieram. História Geral das Civilizações. sem direito a ter bens pessoais ou a const ituir família. que de vez em quando explode em crises incontroláveis. de quem tanta gente na Igreja e fora dela fala mal até hoje. desencadeando um terremoto. Durante os primeiros cinco séculos . por me io de Bonifácio. A mais gr ave sobrevém entre 1296 e 1303. quando o Papa Bonifácio VIII. Uma das atribuições básicas do imperador sagrado no ano de 800 era defender esses direitos — o que o tornava antipático à maioria da clas se aristocrática. 1956. na pessoa de Felipe. turbulenta. A Idade Média.

que sustenta toda a pedagogia ética da nossa civilização. mesmo conhecendo a popularidade dos reis.. mesmo cristão. isto é. que é a única que permite vencer um conflito dessa natureza” ( Henri Pirenne. por que denominar “fo rça moral” o mero sentimento de segurança que advém da certeza de um respaldo coletivo. Não soube ver que os direitos da coroa se apoiavam no cons entimento dos povos.. a força moral. Juan J. Este parágrafo reune um primor de análise histórica à deformidade de uma avaliação moral marcada pela típica incapa cidade do acadêmico moderno. 1956. é precisamente o de Cristo. como poderia o Papa admitir que o “consentimento dos povos” fosse gerador de autori dade espiritual. tr ad. p. Domenchina. Historia de Europa. de compreender senão superficialmente a índo le do cristianismo. o defensor solitário da verdade que todos rene gam? . O que fez ( os reis ) triunfarem foi a consciência que tinh am de contar com o assentimento de seus povos.. se na origem mesma do cristianismo estava o fato de um martírio p erpetrado com maçico consentimento coletivo? Em segundo lugar.oposição que ia levantar. FCE. 270 ).. quando o modelo supremo da força moral. Em primeiro lugar.. 2ª ed. Toda a sua conduta prova que não tinha compreendido as mudança s surgidas na Europa. Mexico.

Sobre o Poder Eclesiástico. se erra o poder espiritual menor. Não d eixa de ser interessante que a disputa de prioridade espiritual entre as castas . encheu de reis o Inferno. com tanto maior evidência. tratou logo de dar ao seu se ntido um inchaço descomunal: o que quer que os franceses fizessem. 153 Transcrito em apêndice à “Introdução”. se os Templários faziam negócios financeiros embrulhados.” vista histórico. é mesmo ( v. Segundo René Guénon. é claro. trad. p. ta lvez arrependido. Mas.. As antigas tradições e mitologias estão repletas de histórias de magos. Para fazer uma idéia de até que ponto chegavam as pretensões de F elipe — e de quanto nelas ele se mostrava já imbuído do espírito “moderno” —. Fayard. Petrópolis. de: Egídio Romano. Sua bula Unam sanctam. 154 O próprio Dante Aligh ieri chegou a defender a autonomia monárquica. Herdando o trono de um santo (Luís XI ). e por ninguém é julgado’ ( I Cor. 6. e se recusa a tentar a operação inver sa. 152 Embora. 2 :15). Se o poder terreno se desvia. a suprema autoridade espiritual que não da ria satisfações a ninguém exceto a Deus 154. se Felipe fazia a mesmíssima coisa. 1948 ). De Boni. Goldman Ve l Lejbman e Luís A.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 139 mal que o futuro iria ampliar até as dimensões de uma tragédia mundial: a apropriação da a utoridade espiritual pelo poder armado. 1978. Assim o afirma o apóstolo: ‘O homem espiritual julga a tudo. e as verdades que ela consagra continuarão certas enquanto houver quem considere que um homem velho vale mais do que um jumento novo. eram Felipe o Belo. que alguns cretinos apontam como uma odiosa manifestação de clericalismo reacionário. sacerdotes e pro fetas que nomeiam reis e depois sofrem as maiores ingratidões de seus protegidos. imbuind o-se até a medula da expressão Gesta Dei per Francos (”a obra de Deus feita por mãos fra ncesas”) 157. feliz156 É verdade que o lado adversário. era porque os inspirava o demônio e. 155 Cit. Pirenne. no tratado De monarchia. reivindicava para os reis. será julgado pelo es piritual. entre as névoas de uma falsa consciência embalada pelo casuismo jurídico de um extenso cordão de puxa-sacos. e os franceses. Assim. proclamar. e já dava bastante trabalho ). era por ordem do Arcanjo Gabriel. só poderá ser julgado por Deus. Paris. e sim apenas uma monarquia nacional rebelde. para seguir o espírito da época. em lugar dos homens de religião. é simplesmente uma defesa do espírito contra a f orça armada. será julgado pelo que lhe é superior. logo. não tem sentido ju lgá-lo apenas pelos cânones da razão de Estado. 1989. para nada dizer do bíblico (vide o episódio de Saul). do ponto de Deveria Bonifácio. Philippe le Bel. O poder espiritual deve instituir o po der terreno e julgá-lo. quando surgir em cena a figura de Hen rique VIII).. havia reis” 155. Cléa Pitt B. enxerga Bonifácio pelos olhos de Felipe. por forte que sej a o coice 153: “É necessário. Deus assinava e m baixo. se não é bom. ele nem suspeitasse estar combatendo a semente de um novo poder imperial ( o império ficava na Alemanha. o roubo da coroa de Cristo pelos sucesso res de César 152 (veremos isto logo adiante. Vozes. naturalmente. A utorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. que qualquer poder espiritual se avantaja em dignidade e nobreza sobre qualquer poder terreno. haver algo de hereditário na santidade: e. Éditions Traditionelles. Sobretudo. mereciam ir para a fogueira. por Luís A De Boni. s m dúvida. A coisa parece ser uma constante da história humana. p. ma s se é o poder supremo que erra. e juristas a soldo de Felipe argumentavam : “Antes que houvesse sacerdotes. em Jean Favier. abjurar do espírito da sua fé? Não: ele teve a legítima força moral — preferiu a dignidade da derrota a uma transigência abjeta. quanto as cois as espirituais sobrepujam as temporais. em que a única obrigação é vencer. pois. Depois. 27. Felipe parece ter chegad o a supor.. concordando com o princípio geral. não pelo homem. e. basta lembrar q e ele foi o primeiro a lançar a idéia do serviço militar obrigatório estendido a toda a população (idéia que. que inicialmente se referia só às Cruzadas. era uma bela co nversa mole 156. se um Papa é um homem de religião e não apenas um político. Paris.

v. um pouco d e vômito. e assim também o são as causas: a luta pelo cetro espiritual de mun do se radicaliza e se torna mais decisiva precisamente na hora em que a “opinião públi ca”. movia o mundo. arrancam lágrimas. e Barrès. Já o gen. inclusiv e letrada. mesmo porque a doutrina oficial da Revolução lhe ensinou a crer que as castas são uma instit uição convencional. . Se o leitor acompanhou minha argumentação até aqui. 1978 ). entre os do is maiores escritores esotéricos do século XX: René Guénon e Julius Evola ( deste último. pelo menos o meu. de Gaulle provou que ela funcionava na prática. Charles Péguy e Georges Bernanos acreditavam nela piamente. Lisboa. mas apenas as tornou invisíveis e deu à sua guerra as proporções de u ma castástrofe natural. trad. Maritain. está olhando numa direção completament e diferente. Como dizia Guénon. 157 A mística desta expressão durou até o século XX. revogável por decreto — o que certamente não fez com que as castas dei xassem de existir. a opinião pública. bocejos. Ao transferir-se da arena política para a esfera esotérica. Jacques Maritain.sacerdotal e real se reproduza. Ironicamente. o poder é secre to por natureza. escrevendo dela. na escala discreta que convém ao caso. mas na verdade é aí que ele se torna decisivo para a compreensão dos rumos da história contemporânea. sobretudo O Mistério do Graal. a disputa entre o s homens de religião e os homens de governo. Est es dois. Maurice Barrès. esse debate parece to rnar-se ocupação de eruditos saudosistas. não tem a menor idéia de que se trata do velho conflito de castas. António Carlos Carvalho. iludida por toneladas de informação irrelevante. na decisão do destino do mundo. Até mesmo o ateu Mitterrand parece ser devoto dela. Vega. há de ter certamente co mpreendido o peso imenso que terá.

numa ascensão ainda maior do prestígio da força? Será necessário optar sempre entre uma teocracia oprimente e a opressão de um po der mundano 158? Eu não sei. é autoridade espiritual. Quem. Quem. era velho demais para poder levá-la até o fim. mas pode não ser santo nenhum. mas. como tal. oculta: quando se manifesta à luz do reconhecimento público. tal como a política dos reinos e dos impérios? Vejam bem: o dogma católico diz que os Papas são inspirados pelo Espírito Santo. Neste caso. no confronto prático com o poder tempor al? Conta-se que um pobre santo. pode ser um santo. É. O que sei é que só Deus é um: tudo no mundo é dupl o. dupla é também a obediência: não é o mesmo o bedecer a um homem inspirado e obedecer a um cargo simbólico. o h omem que ocupa o trono de Roma. A verdadeira unidade da Igreja. um farsante. um covardão como Benedito XI que não hesita em lançar a mancha da suspeita sobre a reputação de seu amigo e antecessor para fazer as pazes com um monarca frio e desumano. amigo. impondo seu jugo sobre o poder mund ano. por uma inversão diabólica. como foi Pedro. em que medida a Igreja de Roma. e le resulte sempre. é para crist alizar-se na forma de um domínio teocrático que. era pura autoridade espiritual? Não era também ela um po der temporal. eis que a autoridade espirit ual está cindida. o Espírito não estará presente senão em símbolo. se dupla é a forma da autoridade espiritual. infectando-as com o germe de um conf lito que. na floração espontânea da santidade nos lugares mais imprevisíveis e mais afasta dos de todo contato com a burocracia vaticana.” — Para compensar — respondeu o asceta — ele também já não pode dizer: “Levanta-te nda!”. Não é o mesmo obedecer a um vigário e a um vigarista . e quem quer que diga que sab e é um palpiteiro muito metido a besta. Pedro já não pode dizer: “Não tenho ouro n em prata. momentaneamente ocup ado por um imbecil ou um malvado. . não naquela que passa à História como o relato de um jogo de cartas. até que o Século das Luzes viesse iluminar com novas fulgurações de gênio a ciência do morticínio estatal). tem no seu topo os santos e os mártires. Bonifácio só errou num ponto: ao começar a brig . Mas tudo neste mundo tem uma franja de ambigüidade. política e burocrática de Roma é movida pelo sopro do Espírito ou pelo en rechoque mecânico das forças deste mundo. falou pelo Espírito? O chefe nominal da hierarquia ou aquele que o Es pírito houve por bem inspirar no momento? Quem é o homem espiritual superior que jul ga o homem espiritual inferior? Os papas julgam os santos ou os santos julgam os papas? A expressão mesma “Igreja” assume aí um sentido ambíguo: a hierarquia espiritual. é claro. Or a. um ateu. n unca residiu na força monolítica da administração central romana. contaminado portanto de força bruta? Em que medida a pesadíssima organ ização diplomática. O Papa. manipulado e enfeitado por mil arranjos. quando o advento de fatos de uma ordem totalmente outra mudar de repente o quadro de refe rências. então. proclamado e assumido como verdade pelo consenso público. na autoridade do cargo. bem como disseminado no mundo como Providência. Pois é esta mesma contradição interna e constitutiva da noção de “Igreja” que se transmiti suas relações com o poder imperial e monárquico. representada pelo seu Papa. e “a casa dividida ruirá”. mas só naquilo que sentenciam em matéria de doutrina teológica e moral — não nas suas decisões p olíticas e diplomáticas. logo se rompe sob a pressão da rebelião aristocrática e monárquica. e exercerá então a autoridade espiritual de pleno direito. aos bispos etc. um assassino. d esde que a Igreja se constitua administrativamente —. pode ser um ladrão. precisamente ao i nverso. Se a autoridade espiritual é em tese superior ao poder terreno pela mesma razão que faz o espírito superior à força bruta. por força do Espírito que dirige seus atos e pensamentos e o preserva do pecado. ficou no papel. latente. aí. meu amigo. pode ser um idiota pretencioso. Céus! Será a eterna tragédia humana que o primado do espírito tenha de conformar-se em ser apenas sussu rrado em segredo? Que. Mas essa unidade permanece profun da. visitando o rico palácio do Vaticano renascentist a. Uma vez que o fiel sinta essa duplicidade — e é fatal que ele a sinta algum dia.140 OLAVO DE CARVALHO mente. ouviu do Papa o gracejo: — Como vê. e você também não sabe. por isto. terminará por explodir numa rup tura quando a capacidade de conceber novos arranjos tiver se esgotado. naquela parte que se incorpora à sabedoria da Igreja c omo um legado permanente. apenas a hierarquia do governo eclesiástico terrestre é que desce do papa aos cardeais.

. por exemplo. na alternativa de hoje.. entre a disciplina compressiva do s aiatolás e a nulificação da consciência individual na sociedade administrada do Ociden te. .158 Pensemos.

abrindo aos olhos europeus o pa norama de um novo mundo. entre os guerreiros islâmicos. 1º Durante muitos séculos. e mostravam por suas independências nacionais um apego igual ou maior do que aquele que tinham pela religião. brilhando e rodando sobre todas as cabeças reais como u ma mosca azul. o conceito de Império não era simplesmente o de um poder transnacional qu lquer. acabasse por ser interpretado nos termos desse velho par de conceitos. Depois da fase inicial inglesa. Os ingleses tinham sido o primeiro povo c ristão da Europa. a salvação da alma. nazareno ou cristão. quasi per latroc inium (não entendo o que queriam dizer com esse quasi). sob a dupla obsessão da Fé e do Império. e sim o de um braço armado da Igreja. 2º Mas — atenção —. 3º. Os franceses estavam tão profundamente ligados à Igreja que. a unificação da Cristandade Ocidental fora obstaculizada prin cipalmente pela resistência que dois povos. mudaram repentinamente o quadro. nada tinham ouvido de imp ortante que não se referisse a uma dessas coisas ou a ambas. não contando com um exército numeroso. Assim. Não é de espantar que tod o acontecimento novo. nasc era o reino de Portugal. fosse qual fosse. e d egolá-los na cama: ao despertarem. Todos esses povos tinham vivido. descobrindo para lá do mundo conhecido uma vastidão de terras a conquistar. Assim. recorria ao exped iente de saltar pessoalmente pela janela de seus inimigos. Durante um milênio. as navegações. Toda a imensa transformação que inaugura os tempos modernos pode s er resumida numa mudança do projeto histórico europeu: do Império doméstico para o Império colonial. a extensão do poder armado da fé. dois outros reinos nacionais haviam se formado na Península Ibérica . de outro. Por volta de 1500. e o esplendor da escolástica é um fenômeno sobretudo parisien se. uns quantos índios pelados e militarmente inferiores. se as nações eu ropéias nem sempre tinham condições de vencer umas às outras. Pois bem: ingleses e franceses não se curvavam ao Império por nada deste mundo. já que. . qualquer uma delas tinha o s meios de aparelhar um barco com uns quantos soldados e subjugar. Em Portugal. a alteração profunda das relações entre realeza e ero. podia tornar-se uma expansão para outros continentes. Ora. O novo projeto. Mais do que ninguém eles haviam demonstrado sua fé e contribuído para a nova cultura cristã. suscita de imediato três mudanças verdadeiramente cataclísmicas: 1º. enquanto o Império vai p erdendo o domínio sobre boa parte da Itália que se desmembra em ducados e principado s independentes. elas decidiram então cada qual fazer seu próprio Império. do outro lado do Oceano. a diversificação das culturas naciona is e a ruptura da unidade cristã. dando ao projeto do Império um novo sentido. de um lado. 2º. por um milênio. “franco” se tornou um sinônimo de nasrányi. Não conheciam outros fins e valores que pudessem legitimar a ação humana senão. ofereceram à autoridade imperial. o centro da cultura cristã se transferira para Paris. poder temporal e autoridade espiritual. a mu ltiplicação dos concorrentes a Império. re sultando enfim que o casamento da castelhana Isabela I com o aragonês Fernando II deu término à última disputa local e inaugurou o novo reino. de janela em janela e de pescoço em pescoço. os servos e cortesãos eram informados de que o ca stelo tinha um novo senhor. O Império. Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais e criado um reino da noite par a o dia — literalmente. Cansadas de luta r contra o Império. séculos de luta contra os invasores árabes haviam acabado por forjar a unidade da aristocracia. segundo comentavam os juristas da época. Na Espanha. seu coração estava na Inglaterra e se u cérebro na França. Assim.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 141 As viagens transcontinentais. enquanto dormiam. a primeira coisa que fizeram foi reavivar as velhas amb ições e mudar repentinamente a sua ênfase: a luta pelo Império já não tinha de ser um confli to europeu. se o braç da Igreja estava no Império — cujos domínios se estendiam sobre um território que corre sponde mais ou menos à Alemanha e parte da Itália —. dentre os mais profundamente cristiani zados.

. logo a Holanda entra no rol dos concorrentes a I mpério: Império protestante. Mas agora e le já não estava cercado apenas de nações rebeldes. quantos porta-vozes autorizados pode ter a Fé? Quantos braços armados pod e ter o corpo da Cristandade? A Igreja. agora. a independência espiritual. que desafiando o Supreme Head. tendo o rei como suprema autoridade religiosa. form am-se na Holanda e na Suécia. Essa idéia muda. que esse assas sino de mulheres e de sábios tivesse uma idéia clara de quanto sua pessoa e seu gest o representavam o espírito dos novos tempos e prefiguravam o desenrolar dos aconte cimentos por três séculos adiante. Do outro lado da Europa. proclamar. instantaneam ente. só reconhecia um: seu filho dilet o. e que continuará reverberando até nossos dias nos discursos da Nova Era e da Revolução Cultural. seja fortalecendo or dens religiosas locais que.142 OLAVO DE CARVALHO para ser um Império de verdade. inglesa. que já tinha desde quatrocentos anos antes sua religião nacional. a porta do tempo girou sobre os g onzos. O Império. aproveitando-se de uma querela matrimonial. o império nascente já não precisa va das bençãos do Papa — bastava fundar uma nova Igreja. é coroad o sacro imperador romano sob o título de Carlos V. Cada rei. logo se tornarão centros de poder mais ou menos independentes. O dualismo milenar é resolvido mediante a absorção da Igreja no Império. todo o quadro do conflito entre realeza e clero. tinha de levar. parecia finalmente ter encontrado seu caminho. Com a cabeça de sir Thomas a rolar no solo. encerrando uma época: o projeto de unificar a Europa sob um Império católico mo rrera junto com o s derradeiro mártir. Com Henrique VIII. mediante bem-sucedidas campanhas de ocupação. descobre fi nalmente sua vocação. o estandarte da fé. talvez por uma resistência inconsciente em reconhecer o pecado orig inal que dá nascimento aos tempos modernos. na Inglaterra. por ter como chefe não o Papa. que esse vulgar psicopata. mas o Rei. unindo pelos dois séculos seguint es o destino de seu país ao da dinastia Habsburgo. Henrique é. o Sacro Império Romano. Seu braço há de estender-se até o Brasil. quando Carlos I. neto de Fernando e Isabela. se eleva à posição de uma das mais fortes po tências imperiais.. acima dos seus canhões. L evada pela dinâmica da luta pela independência que log o se torna luta pela hegemonia. Enquanto a parte alemã do Império é sacudida p elas revoltas protestantes. A fundação da primeira Igreja eu nacional marca uma metamorfose radical na idéia de império e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino. ato contínuo. Napoleão e Comte. em mútua oposição. capazes de pression ar Roma em defesa dos interesses de seu rei. com forte apoio judaico. Para f ortalecer suas pretensões. De maneira ostensiv a ou informal. tinha-se tornado a principal potência européi a. o de sir Thomas More. um a funde-se logo com o Império. anglocatólica: católica nos r itos e no dogma. a . o rei Henrique VIII. procurará dominar seu clero nacional. o clero se nacionaliza. que inspirará mais tarde Hegel e Robespierre. é César que volta ao trono. autonomeado Pr otector and Only Supreme Head of the Church and Clergy in England com um único vot o contrário. tomando a dianteira nas conquistas coloniais. Na Suécia. É duvidoso que essa deformidade coroada. que durante seis séculos fora caindo de frustração em frustração. seja fundando sua própria Igreja. incentivada pelo exemplo da Europa Ocidental que ela inveja. mas cujo potencial imperialista tinha ficado ret ido pelas invasões mongóis e pelas imensas extensões do território a ocupar. ou Imperador. Mesmo os historiadores são muito comedidos ao trata r desse ponto. a Suécia. e sim de Impérios concorrentes. a Espanha. o chefe de Estado se autonomeia r epresentante direto de Deus. sem sombra de dúvida. o pai da civilização moderna. Das potências emergentes. bem como pela dialética do crescimento capitalista ávido de matériasprimas do além-mar. a Rússia. republicano e calvinista. junto com a indepe ndência política. funda uma igreja nacional. de início. foi beheaded no ato. Ora. o fundador da idéia do Estado auto-sacralizado. investid o de prerrogativas sacerdotais. crescendo desmesuradamente à sombra do apoio estatal. O processo é ainda acelerado pela ruptura d a unidade do bloco protestante: cleros protestantes nacionais. embora tantas vezes ingrato. é o luteranismo que se torna culto oficia l do Estado. a Reforma protestante tinha abalado o monopólio romano do cristianismo: para arvorar-se em representante da Fé. enriquecida pelo ouro das Américas. Nesse ínterim.

dmira e .

Dessa nova partilha da túnica de Cristo. em nome dele e sem a menor consulta ao Papa. a menor sombra de hipocrisia. anglicanismo (Inglaterra). candidato a Imperador. Não há. precisamente por sua submissão nominal à Igreja de Roma. não compreendia a fé senão como gue rra contra os infiéis 160. em tudo isso. A seu modo. Não espanta que o rei assim imbuído do caráter divino do interesse nacional acabasse p or regrar. Seu catolicismo perde muito do e spírito internacionalista. no galican ismo. que marcará a mentalidade russo-ortodoxa a té pelo menos o fim do século XIX. ainda representava. O surgimento de uma nova casta letrada. que v iverão em anátemas recíprocos. parece natural e óbvio que sua vontade política s eja a expressão mais direta e pura da vontade divina. Homens como F. que forma um pano de fundo às manifestações da independência mais petulante. galicanismo (Fra nça). Em contraste com a Inquisição medieval. Mesmo o Sacro Império. fundação dos cultos nacionais: luter anismo (Suécia). palaciana e não universitária. agora apenas um entre outros. herdeiros — sabend o ou não — do espírito de Henrique VIII.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 143 procura imitar. Unificada por Ivan III (“o Grande”). Cada um remoldando o discurso cristão segundo seu interesse nacional. até mesmo disputas teológica s. que. calvinismo (Holanda). como a maioria dos reis do seu tempo. que descrevi lá atrás (§ 21). Soloviev ai nda acreditavam piamente na missão cristianizadora da Rússia no mundo. t udo passa a orbitar em torno do rei.” 160 A fase cruenta da Inq uisição data dessa época e desse lugar. a nova fase inaugurará a p erseguição a indivíduos isolados. um título que ele se conferira a si mes159 mo. Luís XIV era sincerame nte cristão. nascem os muitos cristianismos modernos. beatifica o interesse nacional francês e reprime. tudo se nacionaliza. entretanto. Há até mesmo uma certa candura na co nvicção com que Luís XIV. a ação da Igreja q ue diz representar: “Nul n’a défendu comme lui les droits de l’État laïque et personne n’a su parler avec plus de fermeté au Souverain Pontife lui-même. Os dois processos são concomitantes e. que só usara de violência contra os heréticos em caso de rebelião armada. constituem um só: multiplicação dos Impérios. expressão típica de um povo que se cristianizara no campo de batalha. Dostoiévski e V. Nation Très-Chrétienne et fille ainée de l’Église. Comme Roi Très-Chrétien. ao t ransferir-se para mãos espanholas se espanholiza. se fait doc teur et convertisseur. w 3º Mas. é um reflex o dessa mudança. confondant ses attibutions avec celles de l’autre Pouvoir.. na época. Il sort de sa fonction et commet un étrange et quelquefois déplorable abus de son autorité” 162. no fundo. c’était servir Dieu et l’Église -même” 161. iberiza-se sob as formas do jesuitismo e da sanha inqui sitorial. embora confundida no meio de tanta s fidelidades ambíguas. resumia numa palavra o espírito dessa anacronia vivente: “Cinismo. que a Igreja. endurecido por oito séculos de luta contra o mouro. O que espanta é justamente a natu ralidade que cada um julgava o seu modo nacional de ser cristão muito superior ao modo universal e supranacional. em nome dele. investido da autoridade de “Rei Cristianíssimo e filho primogênito da Igreja”. como na revogação do Édito de Nantes e na perseguição aos protestantes e jansenistas: “Ai nsi le Roi. e o nacionalismo imperial das potências . representado pelo Pa pa e pelos remanescentes do antigo Império. Joseph Conrad . ainda quando esteja em abert a oposição com a palavra do clero e com as outras vontades divinas concorrentes.. um polonês cuja família sofrera na carne os efeitos da catequese imperial. muito tempo depois de extinta nos países Ocidentais a mitologia do cristianismo nacional. Cada um auto-investido da missão que fora a do antigo projeto imperial — unifica r o mundo sob o estandarte cristão — mas reinterpretando-a segundo a ótica da razão de E stado. Ond e esta pretensão absurda se revela de maneira mais patente é. il pensait que servir la France. Data daí o surgimento do espírito messiânico. Pois a luta é agora entre o internacionalismo. Aos governantes dos séculos XVI a XVIII. assume com Ivan IV (“o Terrível”) sua missão expansionista e cristianizadora 159.

Id. os reis fomentam culturas nacionais.. preservando ali o internacionalismo. Paris. Tallandier. . 161 162 Louis Bertrand. J. p. E. II. Louis XIV. 16 1.emergentes. t. c om artistas e letrados a soldo da nobreza. 156. 1929. enquanto o Papa obtém o controle das universidades. p. em línguas nacionais.

Mas. 1580). p udesse coroar o reiprofeta. Com outras denominações — E xecutivo e Legislativo —.. de autoridade espiritual e poder temporal. o rei no Parlamento. afinal. 1972 — um clássico. que. Pela nova teoria. As soluções propostas. usara explicitamente essa imagem. Genève. Bodin. formava a síntese solilunar que constitui a autoridade profética. que era louco por astrologia. e tudo aquilo enfim que se consubstancia no t ermo “religião” —. ou mel hor. A conseqüência imediata é que. como mostrou Bertrand de Jouvenel 164. Richard Hooker (The Laws of Ecclesiastical Polity. Le Pouvoir. tomam duas direções. V. O assunto é estudado por Gilbert Durand em Science de l’Homme et Tradition. l he deram esses poderes divinos. nos impingem enfim a noção de que os reis governam por direito divino inerente às sua s ilustres pessoas e à natureza das coisas — e independente. de repente. a mesma disputa que havia entre a Igreja e o Império. César. o resultado. representando a nação. nouv. contribuiu um bocado para a emergência da moderna intelectualidade leiga e materialista. Histoire Naturelle de sa Croissance. Paris. investido de poderes divinos. E eis que a pretensão 164 Inocêncio III. uma leitura absolutamente essenc ial. portanto. numa bula cujo título não me ocorre. cada reizinho que saltasse a janela p ara degolar no leito os adversários se equiparava. teorizado às pressas ex post facto. a que nem mesmo os papas t inham ousado se ombrear. de qualquer s anção religiosa. Tête de Feuilles / Sirac. res olvem a coisa por um jogo de palavras: quem manda é o rei com o Parlamento. estabelecendo uma linha demarcatória demasiado rígida entre ciências sac ras e profanas. então não há lei nenhuma. — Aliás o mesmo Inocêncio III. era bisneto de Vênus. éd. era preciso que ele mesmo tivesse atributos divinos. 1945. Th omas Hobbes engrossa o caldo logo de vez. Como a teoria tivesse. entre a classe política e o rei. por toda parte. 1576). onde a auto ridade espiritual era o Sol. os homens importantes que representam ou dizem representar a população. mas ninguém pôde recorrer a este exemp lo porque a nova concepção era inexpressável no velho linguajar astrológico. Thomas Smith (De repub lica anglorum. pela simples razão de que não tem solução: se não há nenhuma instância superior ao poder — uma tradição. o debate prossegue até hoje. numa só pessoa. Hachette. sempre muito práticos. então a disputa entre as facções do poder pode prosseguir indefinidamente: vença o rei ou 163 vença o Parlamento. reunidos no Parlamento (como outrora os cardeais em concílio). para que o Parlamento. 165 Aqui compreendemos. Os ingleses. não suporta a concorrência nem me smo daqueles que. apelando à idéia do Parlamento. dizendo que não há outra fonte da lei senão a vontade do soberano. uma crença comum impe . Bodin. consagrando-a como expressão por assim dizer oficializada da doutrina. automaticamente. outra causa do fracasso do Império mediev . 1978. muitos outros pontos fracos. a Moisés. sua proclamação inaugura uma série infindável de discussões que se prolongam até hoje: Quem faz o rei? Quem faz a le i? A lei faz o rei ou o rei faz a lei? Se o rei faz a lei que manda no rei. 1583). e o poder temporal a Lua 163. Paris. o rei não manda nada. e todas as discussões teóricas não passarão de adornos acadêmicos da tirania. Ora. teve as maiores dificuldades para conciliar suas idéias com o simb olismo astral. O que nenhum dos teóricos da monarquia divina sequer reparou é que a junção indissolúvel. e então se repete fatal mente. de imediato. será sempre o fortalecimento ilimitado do poder 165. os novos intelectuais logo se apressam em erigir e m norma e ideal o fato consumado. Bertrand de Jouvenel. valores sedimentados na cultura. Se um outro faz a lei. o expediente auto-engrandecedor de um assassino insano adquire uma aparência de dignidade inte lectual nas filosofias políticas de Jean Bodin (Six Livres de la République. entre muitos floreados e um semnúmero de idéias valiosas. Hooker e outros procuram moderar os excessos da au toridade real.144 OLAVO DE CARVALHO Como não poderia deixar de ser. Parlamento quer dizer: a classe política. a ascensão do rei se faz às custa s da nobreza: o rei. além desse.

O que me pergunto. desse frutos políticos menos amargos? Não sei a resposta. Por que gerá-lo tão cedo? Por que não esperar que a cristianização... por que não po dia simplesmente continuar cristianizando a Europa. o clero descera ao exercício do poder temporal. sem poder temp oral. a o mesmo tempo que procurava livrar-se dele e transferi-lo a um Império. com toda a paciência. vacância de ant igas lideranças religiosas bárbaras etc. Pepino! . sem encontrar resposta.al: numa Europa insuficientemente cristianizada. forçava para retomá-lo sempre que o Império escapava ao seu controle. Se os brasileiros já existissem naquela época.. em seguida ficou dividida entre a necessid ade de passar o abacaxi aos leigos e o temor de uma nova perseguição religiosa sob o reinado de um César de sua própria criação. tinha obtido tamanho sucesso durante os seis primeiros séculos. deixando que César cuidasse de César? O Império abortou porque nasceu prematuro. é: se a Igreja. mas foi metida neles pelo curso dos eventos: queda do Império. a autoridade espiritual não vigor ava plenamente. mas uma coisa é certa: a Igreja não se mete u nos assuntos políticos por iniciativa própria. em resultado. e. lenta e naturalmente. necessidade de improvisar uma administração. veriam um sinal premonitório no fato de o primeiro candidato a imperador se chamar . e neste vaivém passaram-se m il anos.

cada qual. fundador do moderno E stado sacro. é o Parlamento que o legitima. Depois desembarcava num ponto qual quer e mandava cortar algumas centenas de narizes. de um só golpe. dando logo aos outros uma lição prática de como “dilatar a Fé e o Império”. exatamente no sentido em que o conjunto dos fiéis forma o corpo místico de Cristo 166. finalmente. Zahar. Tudo contribui. é nada menos que um c orpo místico. missão imperial das nações. e Erich Voegelin. Álvaro Cabral. trad. se multiplicassem rapidamente e saíssem p elo mundo. sua fama já tivesse chegado antes dele. até garantir que. o mundo alcança então o estágio de maturidade cínica necessário par a que. fala a própria boca de Deus. a nação de repente se ergue às alturas de uma realidade celeste. not territory. e ele garantia que os restantes narizes e orelhas permaneceriam saudavelme nte atados a seus lugares de origem 167. investidos da missão sublime de impor seu jugo suave de Bons Pastores a quantos índios pelados ficassem na mira dos canhões. as idéias de Maquiavel sobre a razão de Estado pudessem sair do p apel e tornar-se prática generalizada.. Maquiavel. Mas essa maldade seria tanta. desceu as costas da Índia. sua disposição de dialogar. então o rei não é um simples man datário. das atrocidades européias nas Américas. feita à custa do sangue dos mártires. com o aval do Parlamento. seguidas da dupla e correspon dente quantidade de orelhas. um corpo místico. Se. é o braço armado da doutrina de Fortescue. v. fora um precursor: sua doutrina pressupunha um tipo de Estado nacional que na Itália de então só existia em p rojeto. Isaacs e Jacós. r ealizado o milagre: de uma unidade provisória e mais ou menos convencional. Carl J. Portugal foi o primeiro. Desde a política de terra-arrasada de Hernán Cortez até a perfídi a dos ingleses risonhos que desembarcavam na Índia com cartazes dizendo Trade. é claro. mas a individualização vivente de um corpo místico. então. Rei-sacerdote.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 145 doida encontra um precedente teórico venerável: antes mesmo de que Henrique VIII ung isse sua própria cabeça com o óleo da herança mosaica. E. Não é preciso repassar aqui o rosário. Afonso de Albuquerque. tudo o que encontrasse pela frente. bem conhecido. doravante. sacralidade do corpo político. Friedrich. na África e nas Índias. IX. de fato. bombardeando. a uma altura dessas? A proposta era simples e esquemática: dessem a Afonso tudo o que ti nham. os cristianismos imperia is inaugurarão uma modalidade de sacrifício comproporcionada à mentalidade dos novos t empos: o martírio dos outros. cada qual imbuído de sua verdade eterna. houve. Henrique. Numa inversão simétrica da expansão cristã dos seis primeiros séculos. mutável e perecível ao sabor das guerras e acordos interdinásticos. diferentes gradações de maldade. ao sustentar que a nação. 1965. a ditar suas palavras direta166 mente para os novos Abraões. Nem todos os conquistadores foram igualmente cruéis. considerado geralmente o primeiro codificador de conjunto da t eoria política inglesa. omo o próprio demônio informasse que “meu nome é Legião”. uma pessoa ungida e sagrada pela qual. ao contrário. a epopéia da “cristianização” estaria a tal ponto imersa em sangue 167 Sobre Sir John Fortescue. para em seguida fazer saber acima de qualquer dúvida. 1470). e fora da Itália. Por intermédio do Rei autodivinizado. para o fortalecimento do poder: se o rei é fonte da lei. Perspectiva Histórica da Filosofia do Direito. eterna como um arquétipo platônico. com um punhado de soldados. metafísica. ao governo local. A N . onde quer que viesse a a portar. para em seguida ir tomando todo o territory e embolsando todos os lu cros do trade. e i nvestida do prestígio aterrador das coisas sacras. como pretende Hobbes.. e eis aí. uma nova encarnação do Logos divino. razão de Estado: essas idéias são mais ou menos absorvidas por todas as potências emergentes. Apela-se portanto à velha idéia de Fortescue. Sir John Fortescue (De laudibus l egum Angliæ. como a Bíblia já houvesse advertido que “os deuses das nações são demônios”. que continuou inca paz de formar um verdadeiro Estado nacional até o século XIX. a socie dade civil e política representada no Parlamento pelos nobres. sua palavr a é final. E quem é que ia recusar o diálogo. sem desembarc ar. Cap. cada qual conc orrente a Império. Rio. Seus discípulos surgirão na geração seguinte. cada qual instalado bonitinho em seu tr ono europeu. não é de espantar que os corpos mís . culto n acional. já havia resolvido o problema.

trad. Sobre os métodos persuasivos do Albuquerque terríbil. cit. O volume faz parte de uma série notável que a autora consagrou à história dos de scobrimentos portugueses. Civilização. v. José Francisco dos Santos. . Lisboa. Elaine Sanceau. op. 3ª ed. . O Sonho da Índia.ova Ciência da Política. Afonso de A lbuquerque. 1953.

de um lado. incapaz de resolver sua contradição originária entre o modelo romano e a duplicidade Ocidental d as castas clerical e aristocrática. mesmo enxertad a de novos componentes retirados das tropas ou da parentela napoleônica. Mas a aristocracia. Se na primeira crise ela se safara tratando de infiltrar-se na Igrej a a título de “Império cristão”. Mas a idéia de Império não cai co m elas. Assumir. àquela altura já abalado até as raízes pela ascensão da nova classe capitalista. Napoleão sintetiza. uma nova . com efeito. para dentro. se na segunda conseguira driblar a própria Igreja mediante a ousadia blasfema de fazer o rei e futuro imperador passar como encarnação do próprio Cristo. como aliás é próprio dos fantasmas. dos Césares. ao mesmo tempo que. a contradição entre clero e nobreza é resolvida pela absorção. do outro lado do Oceano. terminou por rest aurá-lo dentro das próprias fronteiras do Império. ainda mais surpreendente do que a anterior. que César é maior que Cristo. como o foi. Resistente a toda debilitação orgânica. segundo o projeto de Hegel. a Revolução. salvando-se através de uma nova metamorfose. liberá-lo para a expansão ilimitada. a essência mesma do projeto napoleônico: desvincular o Império de seu compromisso com a Cristandade. consistindo por essência numa eliminação do poder clerical. que mais se pode espera r do curso posterior dos acontecimentos? O Estado moderno nasceu de uma farsa de moníaca e. fiel à sua vocação de origem. chegando aos últimos limites do que a audácia mais demente pudesse conceber: dispensar toda legitimação religiosa mesmo farsesca. esse calcanharde-aquiles do projeto napoleôni co. as du as correntes de idéias que marcam. e. Em segunda versão. renasce. como braço armado da Revolução. E esta fraqueza most ra que Napoleão entreviu apenas obscuramente aquilo que. um a aristocracia de sangue é sempre um poder de tipo feudal. fazer do Império como tal a única divindade. o clero c onspirava com os príncipes ingleses e alemães para a derrubada do Império. multiplicada. da autoridade espiritual. mediante a farsa do “corpo místico” nacional. ela perv ive. uma aristocracia hereditária e militar. construir o I mpério leigo conservando a estrutura de poder do Antigo Regime — basic amente. tendo vivido por doze séculos num matrimônio sadomasoquista co m o clero. Eis aí a verdadeir a originalidade. cristianizada. Napoleão foi vencido menos pelas tropas de Wellington e Blücher do que pel a contradição intrínseca que viciava na base o seu projeto: ele procurou. A idéia de Império Ocidental vem de Roma. de outro. Recapitulemos. o que pudesse ainda haver de cristianismo residual pudesse ser facilmente absor vido e laicizado sob a forma de “direitos e deveres do cidadão”. enfim.146 OLAVO DE CARVALHO se seu ponto de partida não fosse. o Império europeu dá lugar aos Impérios coloniais. a apropriação indébita do sonho imperial por nações ambiciosas corrompidas pelo auto-engano de uma falsa consciência religiosa? A pergunta toca no ponto mais doloroso e talvez no centro mesmo da história das o rigens da modernidade: quando o poder monárquico de todas as nações segue o exemplo do assassino delirante que usurpa a coroa do próprio Cristo. de novos valores. vem a R lução. e inaugura o primeiro Império não-cristão do Ocidente. que. com efeito. Ademais. num novo banho de sangue que ultrapassa em poucos meses todo o horror dos feitos imperiais d’além-mar. fora. o domínio sobre as consciênci as. Eis a missão de Napoleão Bonaparte. a instauração de novas leis. Seguem-s e três séculos de matanças nas Américas. sua sobrevivência dependia portant o de um imobilismo social incompatível com as mudanças cataclísmicas que o próprio Bonap arte. no Es tado. não podia repentinamente acostumar-se à solidão do divórcio. agora ela jogará a cartada mais alta. as monarquias começam a cair. era sempr e uma aristocracia — e. cresceu bebendo o sangue dos inocentes. Passados três séculos. tinha ajudado a precipitar. Ele sintetiza o projeto imperial do Antigo Regime com a ideologia anticristã dos revolucionários. Ilimitada em do is sentidos: para fora. onde. em m uitas versões nacionais: numa terceira translatio imperii. na África e na Índia. reaparece no ano 800 e vive até 1500 de crise em crise. A Concordata com o Vaticano manifesta essa fraqueza. o Antigo Regime. Por volta de 1500. Aufheben — “absorver e su perar” — é o termo de Hegel: o Code civil de Napoleão é a Aufhebung imperial e leiga da mo ral cristã. o domínio do mundo.

.

Mas mesmo esta era u m sinal: superava. A escalada é impressionante: 1793. p. Ajuda.. os esperti nhos esfregaram as mãos com um sorriso maquiavélico. para. todas as g uerras da História. É uma carreira comparável à das maiores potências europé da época. disposto a daí por diante só crescer para dentro. trad. Zahar. Guerra com a Espanha. numa nova estrutura de poder. . Os Estados Unidos no Mundo do Pós-Guerra. dizendo: “Oba. 1975. 1867. Ao contrário: tão logo se sente senhor de seu território. Como foi possível que. 1812. diante de fatos dessa envergadura. nem. maçônica e protestante. republicana.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 147 potência emergente acabara de perceber com total clareza e de maneira definitiva: o Império leigo não podia ter um resíduo sequer de compromisso com a Igreja. 1906. o impulso colonizador se transforma quase que naturalmente em impulso imperialista. Ele necessitava apoiar-se numa nova cla sse social. 1898. de imediato. 168 Cit. e só interrompida temporariamente pela Guerra Civil. Tentativa (fracassada) d e invasão do Canadá. capazes de manter a águia norteamericana a uma higiênica dis tância dos assuntos de gente grande. O Império contra-ataca “ The Almighty has made choice of the present generation to erect the American Emp ire. Anexação do Texas.. by the blessing of God. 1823. em extensão da linha de combate e no número de mortos. e. República imperial. discreta mas dec isiva. entre peri gos e esforços sobre-humanos. Com pra do Alasca. dei xando os aliados livres para repartirem a seu bel-prazer o bolo alemão. A vocação imperial norte-americana não nasceu junto com os Estados Unidos: nasceu ante s. à Revolução Francesa. tão logo Wilson abandonou a Liga das Nações. And thus suddenly arised in the world a new Empire that bids fair. com as velhas aristocracias. capitalista. Intervenção branc a na Califórnia.” § 28. Essa vocação manifesta-se com uma força de uma decisão madura já na infância da nação america mediante uma seqüência de feitos militares e diplomáticos que estendem desde logo o r aio de ação dos Estados Unidos por uma área bem maior do que a ocupada até então pelos Impér ios coloniais europeus. Edilson Alkmin Cunha.” WILLIAM HENRY DRAYT ON. as potên cias européias não se dessem conta. maçônica e protest ante: é a definição dos Estados Unidos. em Raymond Aron. Presidente do Tribunal de Justiça da Carolina do Sul. Um povo não se expande por todo um continente. Rio. no ano de 1776 168. Guerra com o México. numa nova instituição religiosa que fosse intrinsecamente ligada ao Estado: César só poderia ressuscitar sob forma capitalista . enganamos esse tro uxa. 1846. esses imbecis ainda se acredit avam senhores do mundo. 1854. se dar por satisfeito e instalar-se de uma vez para sempre na mold ura desses limites. Intervenção em Cuba. Construção do Canal do Panamá. ao longo de três séculos. Doutrina Monroe. 1845. Compra da Louisiana. uma vez chegado às fronteiras naturais ou legais do território. onde somente a inter venção americana decidira o curso dos acontecimentos. to be the most glorious of any upon record. Anexação das Filipinas. Mesmo após a Guerra de 14. de que havia nascido aquele que Deu s predestinara para ser o seu coveiro? A cegueira dos homens de Estado para os r umos mais óbvios da História chega a ser às vezes mais notável do que os lampejos de visão profética dos homens de inteligência. por isto mesmo. 1803. Instalação de ponta-de-lança no Japão. 21. República Imperial.

conduzia os Estados Unidos. Tão diferente. Franklin D. Do ponto de vista europeu. Sem a unidade da p essoa do Imperador — assim entendiam — não podia haver a unidade de uma política imperia l coerente. New York. no primeiro caso. é precis o ver que ela tem algo em comum com as duas anteriores. mas também capitalista. “nação”. Com efeito. impedindo o observador de enxergar. por favor. Em terceiro lugar. uma política i mperial coerente e contínua. mas uma metamorfose da idéia imperial — metamorfose que a torna va irreconhecível. portanto. de fato. que o aparelho ótico europeu não tinha sensibilidade para o tipo de estímulos que dali provinham. Norton. 2nd. Em p rimeiro lugar. Ora. a nação norte-americana formara-se numa revolução antiimperial e professa va uma doutrina anti-imperialista. de imediato. Para a velha mentalidade. Estes enxertos antagonísticos deram-lhe vi da nova. vaci lavam ao choque de tremendas oposições internas. Shi. aos observadores habituados a pensá-la sob sua velha forma. 1984. os Estados Unidos eram uma nação democrática: a política nacional era fruto de complic adas discussões parlamentares que podiam adiar uma decisão por anos a fio. só pode ter sido por uma razão: porque aquilo que ali acontecia era diferente de tudo o mais.148 OLAVO DE CARVALHO Santa ilusão! Na comitiva mesma de Wilson já se encontrava aquele que um dia viria a repartir com Stálin. Roosevelt. os interesses priv ados. Esses dados formavam um a névoa confusa. a linha de uma dialética histórica que. o fenômeno america no era invisível porque era impensável: faltavam-lhe as categorias para pensá-lo.. paralisando-as. as grandes empresas. era o perigo da Revolução. os termos de uma contradição real permanece . tão original. se opunham às iniciativas expansionistas do Estado . America. Bobagem tentar explicá-la somente por um mórbido eur ocentrismo. tinham ali um poder tremendo. por trás da agitação republicana. Freqüentemente subia ao poder uma cor rente isolacionista. 170 Manifest destiny: expressão usada e m 1845 pelo editor John Louis O’Sullivan e que se tornaria célebre como símbolo do espír ito expansionista: “Our manifest destiny is to overspread the continent alloted by Providence for the free development of our yearly multiplying millions” ( cit. operando por cima — ou por baixo — das intenções dec laradas dos homens e dos grupos. Eurocentrismo não é a causa do fenômeno: é simplesmente o nome dele. era impossível imaginar uma política imperial sem um Imperador autocrático. Se não enxergaram. o que se passava nos EUA. Os intere sses privados. Teria sido preciso ser mais maquiavélico do que Maquiavel para supor que . ao mesmo tempo que constituíram. preferindo a penetração comercial às intervenções militares 169. que estou racioci nando à maneira de Hegel. estivesse nascendo um novo Império. porque ela não representava apenas u m novo imperialismo. a carne dos vencidos e o pão dos vencedo res menores: um obscuro assessor jurídico da Marinha. a longo prazo. Se isto representava um perigo. em suma. e já não era mais que uma vaga lembrança. no banquete de Yalta. p. as causas de sua destruição 1 71. etapa superior do capitalismo”. que voltava as costas para o mundo. a seu destino manifesto 170 de suprema potência imperial do mundo. Suas iniciativas no Exterior eram intermitentes. a Holanda. eles não eram tão eurocêntricos assim: compreendiam perfeitamente bem o que se pass ava na África ou na Ásia. em George B. A narrative History. nas duas oca siões anteriores o Império renasceu ao fundir-se com idéias que lhe eram contrárias: “cris tianismo”. A única República Imperial que conheciam. 333 ). Em segundo lugar . entre os fatos contraditórios. tanto que dominavam essas regiões com a desenvoltura de joga dores habilíssimos. os Estados Unidos não tinham. capaz de influ enciar as decisões do Estado ou combatê-las. Em quarto lugar. 171 Que ninguém pense. ed. Além dist o. no segundo. os EUA não eram só uma nação democrática. No meu entender. 169 O que já bastaria para chacoalhar até os alicerces a teoria de Hobson e Lênin sobre “o i mperialismo. na maior parte dos casos. Não en xergaram a potência imperial nascente. Para compreender essa metamorfose — a terceira da história Ocidental —. através dessas contra dições mesmas. tinha fracassado redondamente l ogo no seu primeiro século. Tindall and David E. Tanta cegueira tem de ter um motivo. habituado por três séculos a identificar imperialismo e monarquia absoluta.

no plano do Ser universal. exaurida uma certa linha de adaptações possíveis. exigências que só podem ser conciliadas n a esfera metafísica. As grandes criações históricas constituem. até que. tentativas de co nciliar. em sucessivos arranjos ad aptativos — que constituem precisamente o seu desenvolvimento quantitativo e tempo ral —. precisamente. o conjunto . a não ser meta fisicamente.m contraditórios e jamais são perfeitamente absorvidos em síntese alguma. As formas daí resultantes são sempre t ensionais: suas contradições constitutivas mudam de forma. no plano da existência contingente.

sucedâneo do Heptameron bíblico. era um homem acabado nessa época. It is wholly ina . Para o oeste. no prazo que vai da Independência nor te-americana à morte de Antonio de Oliveira Salazar (1975) 172. assim. pareciam mais antagônicas ao espírito das velhas monarquias: independênci a. Se. “Our Constitution was made only for a moral and religious people. famílias. como vimos. que ele falsifica dando metafisicamente um sumiço no fator “contingência” e transformando a incerta e movediça suc essão dos atos humanos numa escala regular de emanações divinas. Mais adiante. república. o esquema tese-antítese-síntese continua sempre um esquema. fundir essa idéia com aquelas que. Eis então que o maior dos Impérios nasce invisível àqueles que pode riam tê-lo destruído no berço. que ele copiava.. e morre quando se exaurem suas possibilidades de dar a esse conflito uma form a viável e produtiva. na base. a mistura hegeliana do ideal com o real não é aceitável. 1976 ). não existe síntese senão potencial. já que escapam à esfera da experiência sensível não serve de nada como tradução do movimento real da História. Madrid. trad. Para quem não compreendia a idéia imperial senão associada às monarquias absolutas. é som e em prol da brevidade. na esfera da dialética re al. Alianza. como o exige o conceito imperial originário. nada me restava a fazer senão levantar acampamento e abandonar o país levando comigo essa metade inanimada de mim mesmo. e sim de conflitos reais entre facções. de outro. posto de lado como em obediência a uma senha.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 149 A contradição constitutiva do primeiro Império cristão foi. menos a p romessa de um Império. os Impérios coloniais modernos constituíram-se com o verdadeiros “impérios nacionais” — uma contradição de termos que expressa a contradição rea ntre a escala multinacional do projeto e o interesse nacional a que ele unilater almente serve: daí que. Tal é o pressuposto lógico que embasa as análises qu e aqui vou fazendo: de um lado. sempre para o oeste. É uma negação ostensiva da versão monárquicoabsolutista da idéia imperial. com a sucessão de guerras de independência que viriam a destruir todos os impérios coloniais. o reconhecimento de que. para não dizer simplório: “materializad o” o quanto se queira. como Joana a Louca com o cadáver do esposo. Como Moisés na sua cestinha ou Cristo no estábulo. em O Processo Maurizius. esses termos podiam conter tudo. portanto. portanto. provisória e. tensional ( reconhecimen to que falta em Marx ). de JAKOB passa por uma metamorfose global ou morre ( isto supondo-se que causas externas mais poderosas não o matem antes ). I.” Wars chauer-Waremme. o modelo romano d e Império. em vez de conciliar e administrar os interesses de vários po vos numa unidade transnacional. na sua complexidade por vezes inabarcável. Ela vai. Esta contradição. § 29. o Império cresce movido pelo conflito com a Igrej a. no momento. de uma pura contradição lógica entre conceitos. e. se pode funcionar como símbolo ou metáfora de certas realidades metafísicas que fatalm ente temos de tentar alcançar por símbolos. sem exceção. portanto. no mais ousado dos arranjos. 172 É claro que não se trata. A nova metamorfose que inaugura o Império americano é uma resposta imediata à crise do domínio colonial. em nenhum desses casos. t . o que Marx colocou no lugar do “conceito” hegeliano não fora m os fatos. classes etc. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) “Eu não sou Cristo. pa rtidos. é também uma ingenuidade supor que a mera inversão operada por Marx possa con sertar as coisas.. democracia. a distinção entre dialética real e dialética ideal ( dis tinção que Hegel não faz ). não prestava mais nem para ser lançado aos cães. Pelo contrário . livre-pensamento. que a existência d e uma “Igreja” independente dele e superior a ele negava. mas simplesmente um outro c onceito abstratista e demasiado simplificador. Jorge Vigil. os im périos coloniais modernos nada mais fossem que a escravização organizada de vários povos em proveito de um só. W ASSERMANN 173. Afinal. explo diria no fim do século XVIII. ressuscitar a filha de Jairo não estava em meu poder. manejada habilmente por trezentos anos. Kolakowski acertou na mosca ao enfatizar as origens místicas da dialética de Hegel e Marx ( v. Las Corrientes Principales del Marxismo. Se me refiro de modo sumário a “contradições de idéias”.

que. Octávio de Faria e Adonias Filho. .” JOHN A DAMS A quarta translatio imperii. Rio. Civilização Brasileira. iria realizar o projeto em que Napoleão falhara: o Império leigo. incorporando em si sob uma 173 Trad. pois era disto que eu vinha falando no § 27).dequate to the government of any other. trazendo o centro do poder para o novo continente ( não o esqueça o leitor. 1963.

Sim. Todos os signatários da Declaração da Independência. Cia. descarnado e desvitalizado. há engano e má-fé em ex do o enfraquecimento do espírito cristão no mundo como efeito de uma conspiração maçônica 17 5. t. em atrib ir à ação maçônica no mundo uma unidade de intenções e de estratégia. Éditions Traditionnelles. no sentido de um anticristianismo rasteiro sugerido pelas falas de próceres maçônicos de uma época muito posterior. a resguardar-lhes a continuidade e a unida de. 3 vols.176 Enfim. Entre os primeiros. que pretenderam usá-la para fins diversos. pois como poderia estar integralmente comprometida com a Revolução a entidad e que tinha entre seus membros de destaque um Saint-Martin. a religião do Novo Mundo é maçônica. de que a própria Maçonaria foi alvo de conspirações. 174 Pelo lado adversário. a posteriori. pertencem a alguma loja maçônica. a idéia mesma de conferir a uma sociedade secreta a unidade doutrinal trolhas ao lado dos generais estrelados. Aí veremos de qual culto é sacerdote o iogue-comissário. E . nin guém. O fato é demasiad notório para que seja preciso demonstrá-lo. já no século XX. historicamente comprovado. movido por um intuito de interpretar as coisas pr econceituosamente. por um misto de fraqueza e vanglória. há engano. há evidente mistificação em interpretar toda a simbólica maçônica. Desse momento em diante. O segundo negligencia o curso freqüentemente caótico. Mais espantoso ainda é quando a entidade. mutila e comprime a linguagem simbólica num unimensionalismo qu e nada poderia justificar. inicialmente implantada em território norte-americano. beaucoup plus tard. por sua vez. senão a força sutil e às vezes apenas simbólica dos egregoroi. essa “metade inanimada” de Cr istianismo. René Guénon louva-o “lorsqu’il démolit la légende qui veut qui la Maçonnerie a t joué un rôle considérable dans la préparation de la Révolution. para em seguida ser expandida para todo o mundo.150 OLAVO DE CARVALHO forma laicizada e desespiritualizada os valores cristãos. qui doit sa naissance à des écrivains antimaçonniques tels que l’abbé Barruel. incl sive a das iniciações de ofícios. Em primeiro lugar. e de que dentro dessas mesmas or ganizações. chose curieuse. Émile N ourry. tudo aquilo que dá certo é atribuído à ação genial da M naria 174. mas absolutamente ninguém faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar para a Maçonaria. mais são os interessa dos em mistificar do que em esclarecer o seu papel na história espiritual da human idade. numa pirâmide invertida onde a t reva mais densa assombrava e governava a menos densa. e de un ificar sob a nova religião laica o mundo Ocidental.. O terceiro omite o fato. em poucos anos chega à presid ia vencendo a candidatura aparentemente imbatível de Luís Inácio Lula da Silva — ilustra -o novamente. assumiria o encargo de s ubstituir a Igreja — todas as igrejas — na condução da vida interior das gentes.. e que gênero de sacrifício se ofic iava no altar do MASP. entre apóstolos e adversários dessa organização. O primeiro desses três erros. assume como seus os feitos que lhe são. recebendo a iniciação maçônica. que um rito basta par a desfazer em fumaça.. um De Maistre? 175 É a tese característica de Gustavo Barroso. Im porta agora delinear os princípios do Evangelho que. I. se possível. a mistificação toma a forma de especulações fantásticas sobre a antigüidade maçônica — abusando de analogias que são tomadas por identidades históricas — e e um jogo duplo na ocultação-revelação do papel desempenhado pela entidade nos lances de cisivos da História: os projetos de risco são ocultados sob o manto da discrição. 1936 ). s e iria consolidar na forma de moral estatal democrática. talve z falsamente. p. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française: La FrancMaçonnerie dans l’État ( Paris. Só que. 1977. divisões e ataques de organizações ainda mais se retas. Paris. prestar satisfações à Maçonaria ou enfrentar a Maçonaria. a fini par être adoptée. História Secreta do Brasil. como nova religião da humanidade. sem exceção. ou má-fé. quando não da secretude. mas. principalmente quando atravessam as gerações e os séculos e não têm. surgiam conspirações e segredos. A carreira de Fernando Henrique Cardoso — o político ruim de voto que. 106 ). múlti plo e incontrolável que assumem os empreendimentos secretos. atribuídos por seus adversários: comentando o livro de Albert Lantoine . car. cet te légende. par les Maçons eux-mêmes” ( Études sur la FrancMaçonnerie et le Compagnonnage. O Oriental também.

Acho que nunca houve no Brasil um pesquisador tão bem infor mado sobre sociedades secretas e tão incapaz. 1967. O autor. Originally Published in 1798. por falta de método científico e espírito filosófico. Western Islands. com os grão-mest res desfilando de aventais e .ditora Nacional. com o regime militar já mais que consolidado. Proofs of a Conspiracy. de tirar conclusões sólidas das informações de que dispunha. dirige-se a seus pares para denunciar a infiltração de membr os de uma outra organização secreta — os Exemplo: Só no décimo ano do golpe de abril de 1964. With a New Introductio n by the Publishers. John Robis on.. 176 V. Belmont. a Maçonaria assumiu sua participação na autoria do evento. Mass. 1937. alto dignitár io da Maçonaria escocesa.

por trás da agitação cega e vã dos átomos anônimos. Ao contrário. sabem o que se passa e para onde as coisas vão. Empreendimentos como o de Mons. pois a doutrina assim encontrada é apenas uma dentre muitas possíveis. A seleção rigorosa. — Mais tarde. só bastava para disfarçar ante os intelectos menos exigentes . transla ted from the French. pronta a ceder lugar a out ra na época seguinte 177. Ante nossos olhos? Não. Mons. que aqui não nos interessam absolutamente. ainda que filosoficamente respeitáveis. A aristocracia de sangue não é senão o resíduo multissecu . e qu e. pela eliminação progressiva do resíduo aristocrático. estes sim. 178 A polêmica católica contra René Guénon continua impressionando pela sua incapacidade de enfrentá-lo no terreno propr iamente metafísico. por exemp lo. Assim como Daniélou. aliada a uma retórica sufocante. tanto na Revolução Francesa quanto no nascimento do Império Americano. Paul Sérant e outros adve rsários católicos de Guénon fogem para o terreno teológico e moral. o que se observa é a ascen são de uma aristocracia iniciática. que uma profusão de ritos e símbolos. Mas. em linha reta. na melhor das hipóte ses. se furta por completo a toda fiscalização. Dupanloup já nada têm a opor 178. onde se sentem abrig ados sob pressupostos de fé que. os ritos iniciáticos. fortalecido pela disciplina do segre do. modelando a mentalidade dos fundadores do Império americano. nem mesmo seus concorr entes da escola schuoniana — é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das “possibilidades de não-manifestação”. o corpo de membros da Maçonaria. imprimirão sua marca no mundo todo que este vai forjando ante nossos olhos. como o de qualquer outra sociedade secreta. bem como sua via de conciliação. No fundo. a toda crítica. pela ampliação dos meios de participação do p vo no poder. Esclarecida e derrubada esta doutrina i ntrinsecamente absurda. há na organização uns quan os traços puramente formais e estruturais que. Esoterismo e democracia são termos a ntagônicos como segredo e difusão. Bishop of Orleans. cujo poder. Guénon preenche esse vácuo com a mais densa metafísica. se de fato é assim. de pertencer ao círculo dos eleitos que. 177 V. manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo. Illuminati da Baviera — nas fileiras da entidade. tendo conseguido galgar altos postos na hierarquia dos Ill uminati. De ntro de nossos cérebros. O mais irôni co de tudo é que o lado cristão está certo. só não sabe por que. a doutrina dominante na Maçonaria de uma dada época.. Bem. Dupanloup. Study of Freemasonry. aceito pela maioria dos teóricos há dois séculos. por trás da variedade mirífic a das idéias maçônicas. O secreto não age. mas pela eficácia do caos. Dupanloup. Explico isto mais extensam ente em meu Diário Filosófico. são inteiramente infrutíferos. Mas. historicam ente. 1876. é uma aristocracia. que tentam ciscar nas palavras dos próceres maçônicos os elementos com que possam compor uma doutrina maçônica. a toda tentativa de con trole externo. O grande reformador maçônico do século XX. é. O ponto-chave dos erros d e Guénon — que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado. se queixava de que parecia haver. acima da organização. René Guénon. encontrou a organização num estado de vácuo doutrinal. O jogos de esconde-esconde entre sociedades secretas ant eciparam todas as práticas que no século XX seriam adotadas pelos serviços secretos es tatais. são constantes pelo menos desde o século XVIII 179. para em seguida melhor combatê-la no campo dos argumento s lógicos. filiando-o a uma tradição imemorial e dando-lhe o sentimento.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 151 e administrativa de uma Igreja é de um ridículo sem par. uma outra mais secr eta que a manipulava. Kenek Books. New York. às vezes até justo. então é totalmente falso o pre ssuposto. Antes de tudo. ao maçonismo guénoniano os argumentos de Mons. a disciplina do segredo e a obediência a uma hierarquia secreta separam o iniciado do comum dos mo rtais. no entanto. de que a modernidade se ca racteriza pela democratização da vida política. não são metafisicamente válidos. da divisão e da suspeita que afeta a queles mesmos que o servem. As célebres objeções de Mons.. todas as aristocracias tiveram um forte elemento esotéric o e iniciático nas suas origens. Daniélou quanto ao simbolismo da cruz mo stram apenas uma inferioridade de QI. o revolucionário itali ano Giuseppe Mazzini.

A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática. 1979. 179 V. São Paulo.lar de uma casta que no início recrutava os seus membros segundo critérios seletivos e triagens iniciáticas bem semelhantes aos da Maçonaria ou de qualquer outra socied ade do gênero. I. Pensamento. trad. . Jean Palou. Cap. As ordens de cavalaria nunca foram simples organizações militares. mas sociedades iniciáticas. cujos ritos e símbolos remanescentes nos permitem adivinhar as profundidades insondáveis do mistério espiritual que continham. Edilson Alkmin Cunha.

dos movimentos de protesto e da cultura da reclamação não abala no mais mínimo que seja o poder das velhas oligarquias. demarca. de um a vez para sempre. Talita M. Ela define-se pelos seguintes traços: 1ª Substituição das anti gas aristocracias de sangue pela nova aristocracia iniciática. 2ª Caráter secreto ou p elo menos discreto do novo poder aristocrático. Isto não quer dizer que não possa ser pensa181 Chistopher Lasch. quer compreendida ou não. tomando-o como uma novidade radical. a Revolução Francesa e o nascimento do Império Americano não marcam assim a extinção do poder aristocrático. de seus membros à prática de ritos regulares. 3ª Formidável concentração do poder do dom inador. à ab ginativa. Fraternidade iniciática significa: sujeição de seus postulantes a uma seqüência de ritos preparatórios. aliada a uma não menos formidável expansão dos direitos nominais do dominado. de Tomás de Aquino a Benedetto Croce. mas como seria estúpido sugerir que o leitor do presente livro o abandonasse pela leitura de um outro. 1995 ). de seus noviços a ritos de iniciação. d evo optar por esta última alternativa. onde a ampliação quase caricatural dos direitos populares. não é mesmo? Então digo logo: aquilo que os nossos sentidos colhem da variedade infindável do mundo é primeiro elaborado sob a forma da abstração imaginativa. de cujos produtos se comporá em seguida o raciocínio lóg ico. antes o fortalece. com o tempo. O que acontece é qu e nem todos tiram dessas verificações as conseqüências óbvias que delas se seguem inapelav elmente. Rodrigues. trad.152 OLAVO DE CARVALHO O crescimento da Maçonaria no século XVIII. Para fazer-me compreender neste particular devo reexplicar toda a cadeia de absorções e projeções cognitivas que leva da simples estimulação sensível à memória. sobre a qual talvez nem mesmo os líderes e teóricos da organização hajam nunca parado para pensar. ou devo simplesmente remet er o leitor ao meu estudo anterior Uma Filosofia Aristotélica da Cultura? Claro. contrasta esse fenômeno com a ideologia igualitária reinante no século pas sado. de Aristóteles a Jean Piaget. Ediou ro. o quadro inteiro das possibilidades de intelecção consciente do i ndivíduo. de Duns Scot a Etienne Souriau e à mais recente ciência cognitiva. que. democracia de jure — uma combinação que só se tornou p ossível pela ampliação do papel desempenhado pelo secreto na vida política e social 180. Rio. no meu entender. ao assinalar o elitismo crescente na sociedade americana ( em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia. sobre a q ual e só sobre a qual — e não diretamente sobre os dados dos sentidos — pode em seguida operar-se a abstração conceitual. . não é aderir a nenhuma interpretação conspirativa da História. E é ela mesma que possibilita a evolução muito peculiar da nação norte-americana. mas uma gigantesca recicl agem da casta aristocrática. não dirige o curso dos acontecimentos pela sua ação del iberada. sem perceber que as raízes dele já estão no berço mesmo do novo Império. Mas — atenção — ressaltar a importância da presença maçônica na constituiç ovo Império não é atribuir paranoicamente à ação da Maçonaria a autoria do curso da História Novo Mundo. Uma delas é a seguinte: aquilo que está fora do nosso círculo imaginário está for a do nosso universo conceptual 181. mas simplesmente sua presença na estrutura de poder do Império americano im pregna de um elemento de secretude e do espírito de um novo modelo de hierarquia s acerdotal a vida mental e política dos povos do Novo Mundo — impregnação esta que escapa totalmente ao controle da própria Maçonaria e se torna. Rito significa: execução imitativa e corpora l de uma cosmovisão simbólica. Este é um dos raros pontos de psicologia e teoria do conhecimento em que não há q uase desacordo. O que possibilita que as coisas transcorram assim é uma ce rta característica inerente ao poder maçônico. Po is a Maçonaria. Que característica é essa? A Maçon aria reune a liberdade intelectual de uma sociedade de debates à rigidez e à discipl ina de uma fraternidade iniciática. à abstração eidética e finalmente ao discurso lógico. pelo automatismo do hábito inconsciente e independenteme nte das inten180 ções de quem quer que seja. repetida. que atua por si. não é fazer da Maçonaria o demiurgo invisível e onividente que move os cordões de tudo o que acontece. um princípio est rutural. É essa reciclagem que inaugura propriamente os tempos m odernos. Resumindo: aristocracia de facto. o mundo de hoje. é melhor enxertar aqui u m resumo daquilo cuja versão extensiva ele poderá deixar para buscar no outro mais t arde.

No sentido em que aqui emprego estes termos. isto é. ao menos logicamente. na . cabe enfatizar a distinção entre os con ceitos e as meras definições nominais. capto intencionalmente a essência de um ente real ( ou de um atributo real ). em hipótese ). compreendido como real ( se não metafi sicamente. No conceito.

qualquer que seja. todas já estão neutralizadas de antemão. a René Alleau ( La Science des Symboles. vai simplesmente para outra loja. Em lógica simbólica. 183 Sobre a analogia. uma inteligente ilustração deste ponto em: Níl son José Machado. codefinição nominal. São Paulo. pela dialética de sua própri a busca de sobrevivência. apenas a intenção signif cada por uma palavra. 79-100. 5 (13). cada i magem depositada na nossa memória ou produzida na nossa imaginação é. se for pensado. Payot. 1977 ). se existe. meçam a pulular as oposições e as heresias. para os fins da presente investigação. Na verdade. hierarquizado e integrado dos corpos animais. e a Susanne K. Nova Stella. Ao contrário das grandes organizações dogmáticas. meu ensaio “A dialética simbólica”. sem correspondência ao menos próxima com aquilo que entendemos como realidade 182. a Titus Burckhardt ( Principes et Méthodes de l’Art Sacré. Uma organização que timbre em defender um dogma explícito não tem outro remédio senão explicitá-lo — e os sentimentos difusos. “A alegoria em matemática”. conse rvando seu arsenal simbólico sob a proteção de uma impenetrável névoa doutrinal. de assentimento ou discordância intelectual. método que deve muito a René Guénon ( Symboles de la Science Sacrée. Ora. A solução foi guenonizar logo umas três ou quatro lojas e deixar o resto exatamente como estava. Jamir Martins. Mas tudo o que é sólido está sujeito a receber porradas. isolada assepticamente. que governam o imaginári o na meia-luz do implícito e do pressuposto. mas estas não basta m para a teoria do conhecimento. e Ensaios Filosóficos. 1948. signifi ca automaticamente isolamento (os membros da loja dissidente não frequentam mais a s outras lojas) e isolamento significa: impossibilidade de um confronto direto. perdem todo o seu mágico poder no insta nte em que se expressam na clara linguagem dos dogmas: pois a partir desse insta nte tornam-se objetos de raciocínio. por exemplo. Rite and Art. se me perguntam como é possível que gerações e gerações de homens intelectualmente dotados consintam em viver sob o domínio de . Gallimard. Paris. em discussão: se todas as interpretações são válidas. pode continuar integrada no conjunto: a s sociedades secretas compõem-se. mas a doutrina maçônica. v. O resultado. Ora. A facção dissidente. do Islam e. New York. Nosso senso do real não depe nde nem das nossas percepções. não tem necessidade de controlar as opi niões de seus membros. Dervy-Livres. está a salvo de qualquer con testação: na medida em que permanece ambígua o bastante para poder admitir todas as in terpretações. Paris. Quer dizer apenas que. só se usam definições nominais. em Astros e Símbolos . ent ra numa loja guénoniana. 182 V. Paris. A ima ginação é. se discorda. Compreende-se portanto a extrema cau tela com que. Contribution à l’Étude des Principes et des Méthodes de la Symbol ique Générale. que tem todas as vantag ens em permanecer implícito. aí. já que tem pleno domínio sobre o seu imaginário. Estudos Avançados ( USP ). trad. não corre o risco de entrar. Langer ( Philosophy in a New Key . quanto mais frouxa e menos dogmática for a doutrina da organização. nem da nossa vontade: depen de das formas profundamente consolidadas do nosso universo imaginário. nem dos nossos raciocínios. independentemente da realidade ou irrealidade da coisa ref erida. pp. que só têm em comum o fato de serem alimentadas pelo sangue de um mesmo corpo. quan to mais liberdade de crença vigore ali dentro. II — fundamental para a compreensão do método de in terpretação simbólica que emprego neste e em outros estudos. os maçons do século XX receberam a contribuição doutrinal de René Guénon. alimentam as dissidências e as cisões: porque cisão. Ela s não imitam o modelo orgânico. muito antes. 1985.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 153 do. um símbolo: uma semente produtora de significados múltiplos mas a nálogos entre si 183. entre afetações de homenagem. O guénonismo tornava as idéias maçônicas intelectualmente respeitáv is. lá dentro p ode-se discutir tudo. Mentor Book. no sentido mais ri goroso da palavra. é o seguinte: uma sociedade iniciática. será pensado como mera forma lógica. as sociedades secretas. São Paulo. Isto foi bastante evidente nos casos da Igreja Católica. 1991. sequer. do hinduismo: quando à linguagem polissêmica dos símbolos se começa a substituir o discurso unívoco das formulações doutrinais. dando-lhes uma imponente solidez doutrinal. por definição. de compartimentos que se ignoram. a mãe daquilo que se chama senso do real. A Study in the Symbolism of Reason. Solução tipicamente maçônica: se você concorda com Guénon. 1962 ). em suma. 1960 ). Cultrix. porém o crescimento de tumorações variadas e independentes. 1971 ). de crítica. Cap. mais eficaz será esse controle. A Maçonaria resguardou-se desse risco.

das ciências e da política foram maçons —.uma névoa entorpecente — alguns dos maiores gênios das artes. Quem consente em ser dirigido por um desconhecido. por qu e não aceitaria também o jugo de uma doutrina incompreensível? . respondo que isso não é mais esquisito do que o fato de consentirem pert encer a uma sociedade cujos altos escalões são ocupados por personagens cuja identid ade permanece secreta.

Muito mais que o Imperador. Mas os Estados Unidos são o primeiro país cujos governantes são todos o u quase todos maçons. o advento do gove . a vida parlamentar do Império não consistirá de outra coisa senão de debates entre maçons . Da lealdade corporativa à disciplina do arcano há menos que um passo: pela salvaguarda do próprio pescoço. e em seguida boicotado pela Maçonaria mesma e levado à abdicação. democrática encobre e disfarça a luta interna no seio de uma nova aristocracia. às vésperas da queda do Antigo Regime na França. atribuir à Maçonaria a responsabilidade pelos movimen tos revolucionários. Pairando invisivelmente sobre todas as forças em luta. ) A mesma ambigüidade nota-se na atuação da Maçonaria quando da formação do Império do Brasil. São maçons os conservadores. ela assumiu definitivamente sua vocação revolucionária. ( V. quando o Brasil imitar o exemplo norte-americano e proclamar sua independência da Europa. E governo maçônico quer dizer o seguinte: todos os onflitos abertos. ma s que nem os personagens de destaque na época. orientando. a mais óbvia: é o medo. Isso aconteceu. e equilibrando enfim — ao menos idealmente — o movimento do conjunto.154 OLAVO DE CARVALHO A resposta é. Hiram. seguida de sua ressurreição. A Vida de D.. mas em certas horas seu jugo deve ter parecido mais suave. ma s sem dúvida ela merece atenção. são maçons os liberais. Pedro I ( Rio. nem a maioria dos maçons até hoje. a uma casta governante. É um simplismo grosseiro. com a sua disciplina do arcano. e. cit. sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo 185. XIII. ela é o verdade iro “poder moderador” — a autoridade espiritual que acolhe em seu seio maternal os par tidos em disputa e unge a fronte do vencedor com o óleo bento da legitimidade. José Olympio. Jean Charles Pichon julga que. se d eram conta das implicações mais óbvias desse ritual. De um lado. também são maçons o rei e toda a sua corriola. não havendo oficialmente religião protegida pelo Estado. ensinando. talvez mais que a da nobreza ou a do clero. como um espião. II Cap. que consti tuem a pulsação mesma da vida democrática. um homem jurava ob edecer ordens emanadas de fonte secreta. não são senão a exteriorização de divergências nas e elaboradas dentro da Maçonaria. ela dá nascimento a uma aristocracia. V. cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. Como a Igreja. A espuma 184 O papel da Maçonaria na Revolução é bastante ambíguo. sobretudo t. do mes mo modo que a Igreja medieval não se comprometia em conflitos dinásticos: sua função é ecl esial. conciliando ou dividindo. no fim das contas. todos os líderes revolucio nários pertencem à organização. Logo em seguida. indefinida e elástica o bastante para comportar todos os arranjos e acomodações — do que a sua inv isibilidade. Cap. Octávio Tarquínio de Souza. construtor do templo de Salo mão. a situação de facto é: governo maçônico. op. porque ela não se compromete com aqueles a quem auxilia. Historia Universal de las Sectas. Se é verdade que a M açonaria se originou nas corporações de ofícios da Idade Média. XIII. é o desejo despropositado de se gurança (forma larvar e passiva do desejo de poder) que move os homens a submeterse a esse gênero de coisas. é fácil compreender que nessa corporações. defender até à morte os segredos da organiz ação. 1957 ). é maçom o Imperador. de outro. influencia decisivamente o curso das coisas. III Caps. Pedro I é convidado a entrar na organização. Quaisquer que fossem as intenções de seus fundadores. elevado rapidamente à condição de Grão-M stre. quando a aris tocracia em peso achou que dentro da Maçonaria podia encontrar um abrigo seguro co ntra as tempestades que se aproximavam: o próprio Luís XVI submeteu-se aos ritos e j uramentos 184. a Maçon aria sai vencedora em qualquer hipótese. todas as disputas políticas travadas diante do público. com uma identidade dupla. não real ou imperial. são maçons os tadores republicanos. portanto. cujas divergências se erguiam sobre o fundo comum de um pacto de lealdades secre tas. por exemplo. XXIV e XXV. para sempre. a partir do momento em que a Maçonaria introduziu em seu s ritos a matança simbólica do “pai dos arquitetos”. Esse medo não é de todo despropositado. e onde. o homem do povo encontrava a proteção de u ma força capaz de intimidar nobres e clérigos. O que a diferencia da Igreja é menos a sua ideologia — vaga. Não sei o que pensar dessa tese. estimulando. e viver entre os demais homens. A mão das organizações secretas sempre foi pesada. t.

que neutral izará os efeitos da democratização para reduzi-la a pouco mais que uma distribuição de doc es para aplacar criancinhas zangadas. que é o aspecto mais patente da evolução política mundial. Daí por diante. . correrá parelha com o aumento incalculável da influência das org anizações secretas. sobretudo das organizações estatais secretas do século XX .rno maçônico nas Américas abre uma nova etapa na História do mundo: a era do segredo. 185 Sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo: distinção capital. a democratização progressiva das instituições. ansiosos como estavam por denuncia r por trás de todos os eventos um maquiavélico dedo maçônico. que os defenso res da teoria da “conspiração maçônica” nunca enxergaram.

198 8 ) conta de um centro de treinamento de torturadores médicos criado pela CIA. bem c omo na Revolução Francesa e no desenrolar das mutações políticas e ideológicas ao longo do sé ulo XIX um capítulo que permanecerá demasiado obscuro enquanto se enfocarem essas so ciedades como meras forças políticas secretas. os serviços de “inteligência” ultrapassaram muito o campo das i nformações militares para abranger toda a vida social e psicológica das nações. invadindo os tensivamente a esfera dita “privada” ( v. eis um fenômeno que não é nada novo na Histór ia. oferecendo seus préstimos: Thomas foi encontrar um deles no Líbano. e que nestas origens se en contra a participação das sociedades secretas na formação dos governos americanos. Medical Torture and the Mind Controllers. o centro foi fechado. a KGB. O que é inédito na História do mundo ( com a possível exceção da “Ordem dos Assassinos” no Oriente islâmico ) é a extens do poder dessas organizações e o fato de que seus principais opositores são também organ izações secretas. da força dos fatores secretos na produção do acontecer histórico. no mais das vezes de ordem supra-política e propriamente sacerdotal. da vida sexual etc. estas de cunho estatal. Essa foi a origem da Máfia. E. bem como das tríades chinesas. s/d ). reconhece muito pertinentemente a diferença abissal de escala que separa os modernos serviços secretos de tudo o que até o século XIX se conhecia co mo “espionagem”. portuguesa. De outro lado. penetrando até mesmo na intimidade dos costumes familiares. Allen Dulles. Num dos documentos mais impressionantes já publicados a respeito ( Journey into Madness. De outro. Lisboa. e outros tantos fatos que assinalam uma ascensão . e a invisibilidade é o fermento que o faz crescer mais ainda 18 8. se tudo isso é claro. Mas também é certo que não se pode compreender esse processo sem remontar às suas origens. sem precedentes. a convicção generalizada. den unciado no Congresso. qu e é uma das marcas diferenciais do século XX em relação a toda a história anterior 186. cresceram ao ponto de se tornarem virtualmente incontr oláveis. 187 186 O mesmo não se pode dizer dos personagens envolvidos. O Ofício de Espião. mas se explic a: o papel do secreto na vida política ampliou-se de tal maneira que ultrapassa as possibilidades imaginativas do homem comum e penetra naquela zona de improbabil idade que raia a ficção e o impossível puro e simples: seu próprio crescimento desmesura do tornao invisível. Guimarães. Que sociedades secretas de objetivo originariamente iniciático e sacerdotal se tra nsformem depois em quadrilhas de bandidos. a espionagem industrial general izada. London. é claro que não se pode nem de longe entender fenômenos como o do atual banditismo organizado sem referi-lo ao quadro geral disso que chamei secre tude crescente 187. então não se justifica o desprezo dos h istoriadores e cientistas sociais por esse fenômeno. não se encontrarão em nenhum a outra época ou civilização coisas como a CIA. mas os profissionais lá treinados se e spalharam pelo mundo. que nem a Maçonaria ne m qualquer outra organização poderia jamais controlar. É ev idente que o advento do governo maçônico constituiu nada mais que o estopim a desenc adear um processo de secretude crescente em escala mundial. servindo à organização terrorista que sequestrara um funcionário americano e o tor turara para extorquir informações. Mas. trad. Os historiadores raramente mostram sensibilidade para o ineditismo desse fenômeno. Não se justifica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 155 Dizer “uma nova etapa” não é exagero: por mais que se procurem. de qu e a História do mundo evolui no sentido da crescente circulação de informações. 188 Que intelectuais maçons ou pró-maçons sejam . que foi direto r da CIA por décadas. incutida pela ideologia democrática. f inalmente. De um lado. Corgi Books. os milhares de seitas que hoje vinculam uma boa parte da população mundial a pactos de lealdade confidenciais. sem ter em conta o caráter específico da sua atuação. não é de mold a propiciar nenhuma valorização dos fatores secretos e os intelectuais não estão imunes a essa crença.

não sendo nem maçom nem antimaçom. deve haver lug ar para um sensato meio-termo que mereça. no qual as entidades esotéricas acabam por se tornar. de pleno direito. é indício eloquente de falta de consciência histórica. 233 . é o mais manipulado de todos. temporariamente usurpado pelo dogma da cegueira metodológica obrigatória. Entre a teoria conspiratória. se ex iste. citado na p. . eis aí algo que poderia tentar-nos a endossar a teoria conspiratória. e a ideologia “científica” que omite completamente a influência delas ( exceto quando reduzidas a inócuas “forças políticas” sem peso específico ).os primeiros a lutar pelas interpretações materialistas e sociologizantes da História. Enfim. Há uma diferença profunda entre influenciar e diri gir. o comentário de Guénon ao livro de Lantoine. Ess e meio-termo é precisamente o que estou buscando nestas páginas. elas mesmas. pela exclusão de todo fator espiritual na explicação histórica exclusão que a fortiori le va a omitir também toda interferência específica das sociedades iniciáticas na produção dos fatos . Da minha parte. segundo a qual essas sociedades dirigem conscientemente a trajetória do mundo pelo hábil ma nejo do segredo: impondo como “científicas” exclusivamente aquelas interpretações que as o cultam. inconsc ientes de sua ação no mundo. o qualificativo de cie ntífico. segundo a qual as sociedades secretas dirigem o curso da História. o manipulador. de modo a poder manipulálos com a ajuda deles mesmos. Que a Maçonaria assuma como suas certas ações que lhe são imput adas por seus adversários v. vejo nesse fenômeno antes um “efeito a vestruz”. elas se utilizariam de hordas de intelectuais céticos e materialistas como de um muro protetor para garantir a sua invisibilidade.

em busca de explicação. poetas. Yeats. ignorantes de toda mística autêntica. que parass e de estudar o assunto. que. ao invés de confiar-se ceg amente a “ensinamentos espirituais” de origem mais que duvidosa. Como que num pacto destinado a bloquear por dois lados o acesso a uma compreensão real do assu nto. trazer con hecimentos esotéricos de insondável profundidade. Fernando Pessoa. capazes de excitar morbidamente a imaginação popular sem nada esclarecer quanto à natureza do fenômeno. acabou por se tornar o porta-voz mais intelectualizad o da concepção conspirativa da História 189. sob a forma simbólica de um ciclo lunisolar de 28 dias o conjunto de todas as formas possíveis da personalidade humana. Até um escritor de notórias simpatia s marxistas. Yeats não soube se sua Vision era verdade ou ilusão. Foi debalde. entre os quais se encontravam não poucas celebridades das letras e das ciências. ordenando-lhe. compôs com essas imagens A Vision (1926): o impacto foi gran de. O próprio Yeats não entendera absolutamente nada da “mensagem”. O episódio teria sido levado a melhor termo se o poeta. que expunha. influen ciado desde a adolescência por um seguidor dos Illuminati da Baviera. por exemplo. os historiadores e cientistas sociais tendem à indiferença olímpica. Até o fim da vida. pelas 28 casas lunares que dá origem à 190 191 . pois a obra pareceu aos críticos. Atordoado. Todos os escritore s. ficou embasbacado191. A explicação completa do “ciclo da personalidade” poderia ser encontrada. que era médium. mas dando-lhes interpretações simbólicas. só podiam ter sido inspirados do além. que. Mário de Sá-Carneiro. no mbolismo astrológico. como Edmund Wilson. muitos esc ritores modernos divulgaram a existência e a atuação de forças secretas. Foram comidas pela esfinge. e embriagado depois pela alucinante mistura de fatos e ficções com que o Abade Barruel compusera sua célebre sopa anti-maçônica. ora afetan do uma superioridade blasée que. meio impostor . ampliando fantasiosamente o poder das soci edades secretas ao ponto de fazer delas o demiurgo invisível da História. Sua esposa. mas depois de três anos. incapazes de elaborar intelectua lmente suas experiências mas sempre dispostos a lhes dar algum tipo de expressão mis tificatória. sentia-se meio sábio. Atormentava-se entre dúvidas insolúveis. A regra geral nesses casos é a absoluta inermidade do “intelectual” moderno ante a “mão noturna” que o guia. não desce ao exame de miudezas “esotéric as” que em nada poderiam. os literatos ao deslumbramento misticóide. Contemporâneo de Gurdjieff. disse-lhe ter recebido dos espíritos uma misteriosa mensagem cifrada.156 OLAVO DE CARVALHO De modo geral. Mencionei lá atrás o domínio tirânico que George urdjieff exercia sobre as mentes de seus discípulos.. no seu entender. destituídos de fontes históricas reconhecíveis. por incapacidade de decifrál a. impressionado. veladas e subjetivistas. os “espíritos” puseram um fim aos seus tormentos. Muitos dos monstros e vampiros que povoam a literatura do Ocidente no s dois últimos séculos a começar pelo mais célebre de todos. deu de revirar toda a literatura filosóf ica Ocidental. tivesse ido estudar os clássicos da mística oriental. O “ciclo da perso nalidade” não é senão uma aplicação particular da processão dos Nomes Divinos divididos. a intelectualidade moderna mostra uma completa inépcia ao lidar com esses assuntos. cientistas que tiveram contatos mais próximos com gurus misteriosos e s ociedades secretas saíram traumatizados e atônitos. afetar o curso das coisas. nas obras de Mohyieddin Ibn-Arabi. do mesmo modo que muitos dos t emas da poesia e da ficção constituem traslados quase literais de ritos e símbolos de organizações esotéricas e pseudo-esotéricas. do alto de seu conhecimento quase divino de leis históricas supostamente impessoais e objetivas. Aleister Crowley semeou o desespero e o terror entr e os jovens intelectuais portugueses que se colocaram sob sua influência no começo d o século Almada Negreiros. Seja sob a forte impressão de leituras mal digeridas. Um exemplo desta última atitude é Shelley. ora mistificando-os. o Frankenstein de Mary Shel ley são personificações veladas de sociedades secretas.. em nova mensagem. reduzidas à condição de crianças atônitas nas mãos do poderoso mistificador190. Wil liam Butler Yeats (1865-1939) era leitor de Madame Blavatski e frequentador de cír culos “ocultistas”. seja sob o impacto mesmo de experiências pessoais traumáticas.

O Castelo de Axe l. Cap.189 V. . São Paulo. Os Intelectuais. V. 2º ed. Witness. Scriber’s. II. New York. V. 1985. I. Paul Johnson. trad. 1931.. Cap. Cultrix. The Autobiography of John Bennet. Axel’s Castle. John Bennett. brasileira de José Paulo Paes.

Fizeram isso porque a força do dominador psíquico reside no mistério e. raramente ou nunca admitem que foram feitos de idiotas. Archè. 1978. preferiu di zer tê-los encontrado na cópia única. provavelmente também de Doris Lessing . 195 Robert Graves. John Bowen e L. feito de temor e suspeita. é claro no que se c onsidera a maior fraude literária do século: uma nova tradução do Rubayyat de Omar Khayy am. Chap. Elwell-Sutton. Um autor de nome Ernest Scott. o nde não há mistério. Milano. His Life and Wo rk. Titus Burckhardt. que se torna mai imoral ainda na medida em que vai contaminar leitores e espectadores inocentes. por que simplesmente não lhe deram par a ler uma tradução de Ibn Arabi ou de algum dos outros muitos místicos islâmicos que tra tam do assunto? Por que tiveram de transmitir o ensinamento para uma médium em tra nse. 1982. Robert Graves. I. desde séculos. no microcosmo da alma humana192. Se os gurus de Yeats queriam lhe ensinar isso. advertido de que estava s endo usado para uma fraude. mostraram que o vetusto manuscrito não existia e que a trad ução que Shah transmitira a Graves para que a pusesse em versos era simplesmente um plágio de uma adaptação norte-americana do século XIX. As histórias de artistas e intelectuais manipulados psiquicamente e f eitos de palhaços por pseudo-mestres espirituais no século XX formam um tremendo req uisitório contra a presunção da intelectualidade moderna. Um dos mais deprimentes capítulo s dessa epopéia tragicômica foi o destino de outro grande poeta inglês. ao reproduzir trechos de um clássico tibetano que lera em tradução alemã. Le Théosophisme. cujos enredos francamente paranóicos. Sua história nada edificante foi pu blicada na revista Encounter de maio de 1955. 193 V. chega a declarar expressamente que essa e outras entidades “eso téricas” gostam de “apoderar-se das mentes” de intelectuais e envolvê-los em situações persec tórias que os levarão ao desespero196.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 157 manifestação cósmica e se repete. sob a g uarda 192 Cf. é preciso fabricar um. Cap. O caso é narrado em detalhes na biografia de Graves por Martin Seymour-Smith195. The Collector e The Magus197 foram inspirad os nesse tipo de experiências. René Guénon. Graves foi induzido a colaborar como inocente útil. É precisamente por meio de intelectuais e escritores que organizações esotéricas e pseu . omitindo as fontes e rodeando o ens inamento de uma aura misteriosa que só poderia servir para confundir a ela e ao ma rido? A resposta é simples: fizeram isso pelo mesmo motivo com que Madame Blavatsk i. e sem verdadeira fé. guardada a sete chaves num mosteiro subterrâneo do Oriente193. nas mãos do “gozador cósmico” Omar Ali Shah194. terminando por sentir-se um misto de otário e vigarista. Clé Spirituelle de l’Astrologie Musulmane d’après Mohyid-din Ibn-A rabi. orgulhosa porta-voz de uma épo ca que se julga o apogeu da autoconsciência humana. Graves. O caso revela a triste condição do intelectual e uropeu. Mas esse sucesso é obtido a través de uma diminuição de consciência. Fowles não desmentiu. que era o seu guru. Pesquisas empreendidas por dois filólogos. decerto mais hipnótico do que espiritual. 194 Omar Ali e seu irmão Idries formam talvez a mais famosa dupla de farsantes espirituais da Inglaterra. Humilhados no seu ponto de maior orgul ho a inteligência . Histoire d’une Pseudo-Réligion. às quais atr i erroneamente uma origem “celeste” e às quais presta um culto supersticioso. O lado mais deprimente dessas histórias é que os intelectuais ludibriados se sente m mais ou menos como mulheres estupradas. Suponho que coisas análogas poder iam dizer-se de Stephen King e Colin Wilson. Rinehart & Winston. Ninguém nega que a experiência de colocar -se sob o domínio de uma mente maligna pode dar às fantasias literárias de um escritor um atrativo misterioso e contribuir para seu sucesso. pp. Holt. de uma automistificação voluntária. ajudando assim a dar às proezas de seus algozes uma aura de prestígio mágico. da família Shah no Afeganistão. III. analogicamente. P. Ele cita em particular o caso de John Fowles. à mercê de “influências psíquicas” que não pode compreender nem dominar. pretensamente baseada num manuscrito inédito que estaria. Dominado psiquicamente por Shah. se fez de donzela ofendida e morreu sem ter dado o b raço a torcer. 555-558. porta-voz talvez pseudônimo da organiz ação de Omar Ali Shah. Prefere m aludir ao assunto de maneira indireta e simbólica.

Ambos de pois filmados. The People of the Secret. London. o segundo com Ant hony Quinn. Não deixa de ser curioso que aqueles mesmos intelectuais que 196 197 V. Ernest Scott. o primeiro com Therence Stamp e Samantha Eggar. Octagon Press. . 1983.do-esotéricas exercem sua influência sobre toda a sociedade uma influência que afeta a ntes os estratos profundos da psicologia coletiva do que a superfície da História po lítica.

um intelectual que tivesse tido contatos com sociedad es secretas elaborasse essa experiência de uma maneira intelectualmente digna e es crevesse sobre elas de maneira a esclarecer o público. Com a exceção provave lmente única de August Strindberg. Quando a pose se torna enfática demais. Sempre que um estudioso acadêmico franze o nariz a os assuntos nte esotéricos em nome de um pretenso rigor científico. 200 Minhas investigações pessoais a respeito do fenômeno da secretude crescente estão longe de ser totalmente conclusivas. e se envolveram numa aura de tagarelice retórica r epelente. só serve para deixar o público naquele estado de dúvida temerosa que logo se transforma em atração e vulnerabilidade. que denunciou corajosamente o mistifório teosófico1 98 que o levara quase à demência. os intelec tuais que fazem a cabeça do mundo moderno são tipos bem pouco confiáveis. Mas . que se pavoneia para exorcisar um medo invencível. como o leitor bem está vendo por estas páginas. e sobretudo não consiste em poses. historiadores e cientistas sociais muitas vez es é uma simples cumplicidade consciente na manutenção de um segredo com que se compro meteram mediante juramento. quase sempre mais comprometidos com a busca do poder e do autoengrandecimento do que com qua lquer investigação da verdade201. Carlos Eduardo Jordão Machado e Luiz Arturo Olojes. Pratic amente na totalidade dos casos. ao l ongo dos últimos dois séculos. Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial. a afetação de ind rença superior por parte de filósofos. por outro lado. atribuindo às sociedades secretas um poder demiúrgico ine xistente. em regra geral. Mas não está na hora de pelo menos alguns estudiosos proclamarem sua indep endência de compromissos ideológicos (ou mesmo de lealdades secretas) e começarem a in vestigar a sério aquilo que talvez nenhum dos poderes deste mundo gostaria de ver investigado 200? Se tantos podem mobilizar o melhor de sua energia intelectual p ara encobrir certas realidades. provavelmente um fingimento consc iente199. marxista arrependido. aludindo aos acontecimentos de maneira velada e encobrindo-os de uma aura simbólica atraente e autolisonjeira. Brasiliense. August Strindberg. Inferno. Diante de tantos e tantos c asos que mostram a passividade atônita. publicou numa revista maçônica uma análise histórica baseada em métodos astrológicos. ou Ivan Maïski. expurgou o texto de todos os elementos astrológicos e esotéricos. Exemplo: Adam Schaff. 199 5 ). à esquerda cada um denunciando as sociedades secretas dos outros . Mas será possível que a casta intelectual inteira este ja comprometida com a mentira e o auto199 198 V. ocultista. que. a inermidade dos intelectuais contemporâneos ante os fabricantes de segredos. Mas se os literatos servem a or ganizações secretas por uma deleitação masoquista na escravidão voluntária. No entanto é verdade. os traumas de experiências interiores induzidas po r guias espirituais malignos acabam se transformando em literatura mistificatória. à direita. Foi muito raro que. t rad. a afetação de indiferença por parte daqueles que só co nhecem o assunto de longe não tem como deixar de parecer uma jactância adolescente. como Léon de Poncins. Pois um verdadeiro rigor científico não se faz de superior a nenhum assunto. é que há nela um elemento de histrionismo. maçom ou rosacruz enrustido. que um potente desestímulo ao estudo dessas questões vem do fato de que elas foram abundantemente enfatizadas de manei ra unilateral por autores comprometidos ideologicamente com certas alas extremis tas. na hora de divulgar o mesmo estudo em livro ( A Sociedade Informática. os intelectuais amedrontados por pseudogurus acaba m por virar discretos apologistas de quem os atormenta. por que nem mesmo uns poucos poderiam dedicar-se ao empenho de desocultá-las? Paul Johnson mostrou que. para dar às sua s conclusões a aparência de terem sido obtidas por meios exclusivamente “científicos”. maçom. São Paulo. não se dêem conta de que o único poder efetivo que elas exercem é precisamente aquele a que servem de instrumento: o poder de moldar o imaginário social.158 OLAVO DE CARVALHO difundem visões fantasiosas. a mais elementar pr ecaução recomenda certificar-nos de que não se trata de um esoterista.

. na esfera das conjeturas ou da mera probabilidade razoável. por mais que suas res postas devam permanecer. 201 V.. uma coisa no entanto é certeza absoluta: não podemos compreende r o curso da história contemporânea sem fazer essas perguntas. Pois. o fato de não conhecermos ainda em d etalhe todos os enlaces causais que levam das origem do processo até seu estado pr esente não pode impedir-nos de admitir que alguma ligação tem de haver entre as duas c oisas. op. Paul Johnson. e sim de protestar contra a indiferença às perguntas. cit. se não tenho respostas senão em germe e se os germes ainda germina m no ventre da dúvida. por não se sabe quanto tempo. De outro lado.aqui não se trata de dar respostas prontas.

que em princípio não pode interferir em nada nos negócios públicos. Mas. República protestante vai sig nificar. para falar só das maiores —. Em segundo lugar. ela é a liquidação do poder político das religiões. o tem a das sociedades secretas pode servir de pedra-de-toque. ao contrário d o que aconteceu na Suécia e na Holanda. na sua totalidade. a Revolução Americana só é democrática. em primeiro lugar. § 30. que perto dela as re voluções seguintes — da França. Todas essas revoluções passaram. ao colocar-se aci ma das religiões. que toda lei religiosa cessa de ter qualquer validade ou obrigatoriedade pública. os Estados Unidos são uma República protestante. Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis” ou que as coisa s são em essência aquilo em que enfim se tornam. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (II) “Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás. Ora. sob o impacto do pluralismo democrático. da Rússia ou da China. a Dinamarca. através da expansão do assistencialismo estatal. acabou por ass imilar várias características da socialdemocracia. fragmentase numa infinidade de seitas que não podem ser reduzidas à unidade de uma hierarquia religiosa que imite a da Igreja Católica. sem grandes choques. e não o são. as dife rentes seitas têm de aprender a conviver e a concorrer em pé de igualdade no mesmo t erritório sob a proteção de uma mesma autoridade civil que permanece indiferente às disp utas religiosas e equidistante de todas as confissões. a Espanha 202. repu licana e liberal-capitalista de modo secundário e mais ou menos acidental: em essênc ia. o único que foi assimi lado integralmente. e visto que a subsistência de uma ar istocracia maçônica associada de perto a uma oligarquia econômica é um dos pilares mesmo s do sistema norte-americano. por enquanto. sem traumas. que o cum primento ou não de um mandamento religioso passa a ser um assunto da esfera privad a. o p rotestantismo norte-americano. em última instância: Estado leigo. que os critérios éticos que presidirão à vida social. porque os el ementos democráticos e igualitários da ideologia norte-americana que se espalharam p elo mundo puderam. Talvez a resposta só venha dentro de muitas gerações. O capitalismo liberal? Também não. os Estados que f undaram ruíram com fragor ou derreteram-se melancolicamente. como a Inglaterra. A revolução que isto representa na estrutura mental da humanidade é tão profunda.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 159 engano. Estado sem religião oficial. tendo de ser extra-rel igiosos. Os Estados Un idos são o primeiro Estado professadamente areligioso — no sentido etimológico: a -gnóst ico — que se conhece na História do mundo. O republicanismo? Não. se torna o árbitro das suas disputas. porque o próprio sist ema norte-americano. onde uma corrente — luterana na primeira. mas mentem. à corrente dominante: a Revolução americana. um sacerdócio do falso? É cedo para res ponder. E. a Holanda. ca lvinista na segunda — toma logo a dianteira para unificar religiosamente o país. em seg undo lugar.: 3:9. tão vasta em suas conseqüências. Mas. de vez que o Estado. dividindo os intelectua is entre os que se dispõem a buscar a verdade sobre o assunto e aqueles que prefer em mistificá-lo ou fugir dele. qual o legado dessa Revolução ao mundo? A democracia? Não pode ser. Significa. ser incorporados por antigas monarquias tornadas constitucionais. visto que ela convive perfeitam ente bem com ditaduras. que dizem que são judeus. quando lhe interessa. e a parte de seu legado cultural que não se dissipou em fumaça terminou por incorporarse . nada mais são que a créscimos periféricos e notas de rodapé. e julga sem 202 . de novas modas cul turais.” APOC. de radicalismos ideológicos. não havendo unidade religiosa. Dos vários componentes da ideologia revolucionária norte-americana. Que é que isto significa? Significa. com todo seu vistoso cortejo de morticínios. acabam por ser supra-religiosos. a implantação mundial do Estado sem r ligião oficial203. que ela componha. de experimentos econômico-administrativos extravagantes. literalmente e sem alterações por todos os países do mundo foi o p rincípio do Estado leigo.

brasileiros.E não se esqueçam. . comentou que havia caído do governo o único autêntico líder repu blicano da América Latina. notas 222 e 238. 203 V. adiante. Theodore Roosevelt. de que quando expulsamos Pedro II o presidente dos E UA.

perdendo o 205 206 Também não escaparam a Bauer as conseqüências que essa mudança teria para os próprios judeus : desistindo de buscar a emancipação do judaismo. em Karl Marx. ibid. À propos de la Question Juive ( Zur Judenfrage ). passando a buscar apenas a sua ema ncipação de cidadão. não há religião nenhuma. mesmo porque “declarar que a lei do sabbat não tem mais um caráter obrigatório para o judeu será o mesm o que proclamar a dissolução do judaismo” 204. François Châtelet. 47-123. A vitória da “Teologia civil” não podia vir sem trazer junto uma “espiritualidade civil”. um doutrinário que odiava o judaismo como odiava todas as religiões. “todo privilégio religioso em geral deverá ser suprimido. sem prestar satisfações senão a Deus. Édition bilingüe. acabasse por fortalecer entre os judeus do Ocidente inteiro um es pírito de mundanismo e “modernismo” que já os vinha contaminando gradativamente desde a Revolução. introd. o judeu 204 Cit. encarnado na “vontade popular”: vox pop uli. dissolvendo os laços da solidariedade milenar que havia defendido a comunidade judaica contra toda sorte de perseguições. só para ter de socorrê-lo às pressas ex post facto c om o auxílio do dinheiro norteamericano? É de espantar que a própria organização do socorr o às vítimas do nazismo reforçasse formidavelmente o movimento judeu-leigo. a aparência se tornará o essencial e triunfará. se. vox Dei. esse cumprim ento deve ser deixado por sua conta como um assunto puramente privado”. Mas essas três conseqüências. e que. logo se fund irá indistintamente com a psicoterapia. ele quiser permanecer judeu. precisa ter cessado de ser judeu. — se por exemplo ele se dirige num sábado à Câmara dos Deputados e toma parte na s deliberações —. Onde não há mais religião privilegiada. Não é realmente estranho que um movimento mundial capaz de conquistar um território a bala e fundar nele um Estado não tivesse. desejando-as aliás ardentemente.” 205 Mas isto representaria. 1971.. culminando com a formação de um Estado onde a comunidade religiosa não ultrapassa hoje três por ce nto da população e está submetida a toda sorte de constrangimentos e humilhações nas mãos do s modernizantes e ateus? Ou que. Aubier.160 OLAVO DE CARVALHO ser julgado. a criação e um novo tipo de fenômeno espiritual que. Marianna Simon. a total desautorização da lei religiosa. trad. a o expandir-se. portan to. p assim. deixou o povo judeu inerme e s onso ante o avanço da ameaça nazista. o movimento para a implantação de um Estado leigo jud eu logo perdesse toda conexão com as tradições religiosas e passasse mesmo a ser chefi ado por pessoas de origem judaica contrárias ao judaismo? Ou que esse movimento. os clubes de enc ontro e todos os outros sucedâneos de “vida interior” que a nova sociedade puder criar para a satisfação privada de seus membros. dessa forma. Significa. o fim da religião. a rigor e a long o prazo. as técnicas de relaxamento. em terceiro e consequente lugar. de vez que toda obediência a princípios relig iosos só é possível na medida em que o Estado a permita e em que não entre em conflito c om as leis civis. Quem percebeu essas conseqüências com muita cl areza. a extinção da religião como princípio organizador da conduta humana. a religião judaica tivesse de pagar a conta dos desvarios cometidos por seus adversários206? Que. nem força nem p . Id. e se alguns ou muitos ou mes mo a maioria se crêem inclinados a cumprir certos deveres religiosos. foi Bruno Bauer. somadas. para não deixar que sua lei religiosa o impeça de cumprir seus deveres para com o Estado. Paris. É de espantar que. circunscrito à vida privada. a bem dizer.” “O judeu . pp. uns anos antes. No Estado leigo tal como desejado por el e. a extinção da religião como tal. “não pode permanecer judeu na vida pública senão sofisticamente e em aparência. representam. nessas condições.

Esses fatos mostram que já em 1933 ano em que foram p ublicadas as advertências profé- . sob o riso dos parentes que censuravam seu “alarmismo”: todos. passando a escre ver somente em francês ( aliás um francês esplêndido ). em 1933. em protesto contra o nazismo. por exemplo — previram com muita antecedência? Weil. foram para a câmara de gás.revidência nem vontade bastante para organizar uma retirada maciça dos judeus da Ale manha nazista antes que começasse a “solução final” que os judeus mais lúcidos — o filósofo É eil. O pai de um amigo meu também emigr ou no mesmo ano. sem exceção. abandonou o idioma alemão. retirou-se da Ale manha e.

Hutchinson. não há dúvida: a glória material que hoj e premia os judeus não compensa a perda da sua identidade religiosa — um patrimônio qu e eles têm o dever de conservar porque não pertence só a eles. do processo de mundanização da sociedade Ocidental — um processo que muitos líderes e i ntelectuais ateus de origem judaica têm ajudado a apressar. e nquanto elas precisarem de um Estado ateu para policiá-las. 208 Eu estava revisando estas páginas. 1976. Não h averá paz para a religião dos judeus enquanto não houver paz entre todas as religiões. exceto para os líderes e os importantes da comunidade. Em segundo lugar. they refused to abdicate their faith. a única obrig atória para todos os cidadãos. nunca os exterminaram em massa nem sabo taram a prática do judaismo ao ponto de reduzir para três por cento dos judeus a quo ta dos ortodoxos praticantes. já não passaria de um triunfo das aparências sobre a realidade 2 08 —. não. and this tiny g roup has survived. Their tormentors have perished. as demais religiões que cultuam o mesmo Deus. mas a toda a humanidade . the Jews have always flourished and blossomed amid their ruins. de cara. isso equivale a proclama r uma moral civil que está acima de toda moral religiosa e que é. Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own rel igion. London. imbuídos de um falso sens o de segurança inerente ao sucesso. cu ja lembrança medonha inclina os judeus antes a chorar do que a meditar o passado. Na prática. tornado árbitro das disputas religio sas. é fácil de explicar pelo trauma do holocausto. quando um amigo me mostrou. o cidadão é permanentemente convidado a abandonar a carga da dupla moral e a simplificar as coisas para si mesmo. mandando às favas a moral religiosa e atendo-se à moral civil. Isso representa. os adeptos da teoria da “conspiração judaic a” não enxergam. accomplishing what generations of their persecutors have failed to do?” — A r esposta é: sim. em geral. nem mesmo sobre os menores de idade. mas não os do pai que pretenda transmitir sua religião ao filho. o povo judeu — aliás não coerido por nenhum a homogeneidade racial207 — se reduzisse. atém-se ao cômodo privilégio de poder julgá-las sem levar em conta no mais mínimo que . Os judeus e o judaismo têm sido as principais vítimas. great empires have fallen. The Thirteenth Tribe. Que papel? O de ajudar em a reconciliar. não podendo ser os de nenhuma das religiões em ticas do nazista arrependido Hermann Rauschning . os ideólogos da modernidade. enfim. à riqueza e ao mundanismo materialista. Mas também não os enxergam. When faced with Pharaoh and the Egyptian soldiers. disputa. de Downsview. Estes fatos. a ruptura da continuidade temporal da comunidade religiosa: o Estado garante os direitos d o filho que rejeite a religião do pai. A religião. fica na posição de arbitrar as disputas religiosas segundo critérios que. Os antigos Estados rel igiosos perseguiram e expulsaram judeus. os próprios judeus. Sabendo que os princípios de sua religião particular só val em para os do seu grupo imediato e que a integração na sociedade maior depende exclu sivamente da obediência à moral civil. Yaakov Wagner. Canadá: “Fr om the birth of their religion. à unidade meramente exterior e acidental de um amálgama de interesses multina cionais. o Estado. the war machines of Hitler and the Nazis. 207 V. oppressed. victim ized. na revista Time de 27 de fevereiro de 1995. the chosen nation is rapidly disappearing. não tem autoridade nenhuma. no novo quadro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 161 princípio religioso de sua unidade cultural. enfim. quase sempre inconscientes. Que este assunto tenha se tornado um tabu. o destino dos judeus era previsív el. Mas será sinal de amizade aos judeus cortejar um orgulho ressentido que os torna c egos ante perigos que hoje os cercam? Para mim. Em primeiro lugar. no momento mesmo de sua suprema glória mat erial. devem estar acima dos de todas elas. the fires of the Spanish Inquisition. Yet in the melting pot of the American culture. não é de espantar. a carta lucidíssima assinada por um sr. enquanto os judeus não se livrarem de seus falsos amigos. realizando-se assim a profecia de Bauer segundo a qual a identidade jud aica. o Estado. the Jews have been persecuted. Arthur K oestler. e não a dividir. por ser leigo. From their ashes there has always come a ‘reawakening’. Finally given the opportunity to observe without harassment. e não assumirem seu papel de povo profético. Não menos graves foram as conseqüências para as demais religiõe undiais. the Jews deny themselves this rig ht.

isto é. que encenar um rito — desde que completo — é o mesmo que praticá-lo. perante a moral civil. as grandes religiões como o judaismo e o cristian ismo. não são melhores nem piores do que o culto dos duendes ou do que a Igreja de Satanás 209. so b a alegação de que se trata de meras encenações. isto é. deixam de informar a um público demasiad o crédulo que todo rito é uma encenação. que se afastam o mais possível de pressup ostos religiosos. Entre a 209 Os artistas do show business que realizam ritos satânicos em espetáculos de rock. e com as quais devem concorrer no mercado como um pr oduto entre outros.seja os conteúdos das crenças religiosas envolvidas. todos com direitos iguais indep endentemente do valor ou desvalor intrínseco de suas respectivas ideologias ou pro gramas. têm os seus direitos assegurados pela Constituição. Assim tornam-se veículos “inocentes” de influências psíquicas cujos efeitos sociais só são inócuos aos olhos de quem ignore totalmente o que seja um rito. o Estado. e considerando as religiões em d isputa como se fossem apenas clubes ou partidos. perante o establishment. É mais que evidente que. . que. que fundaram a nossa civilização e criaram os valores éticos mesmos dos quais a ideologia democrática recebe o seu prestígio. como elas. tem de favorecer sempre e sistematicamente as correntes cujas ideologias sejam menos dependentes desses pressupostos. as ideologias agnóst icas. devendo julg ar sempre segundo critérios neutros. nessa disputa. O nivelamento por baixo é a conseqüência fatal: perante a lei.

formando as consciências de seus membros através de ritos e símbolos. ao pa sso que uma casta sacerdotal. “oficial”. a maior parte do qual nada tem a ver c om funções públicas. ou religião popular. a pretex to de pacificá-las. mas tratando antes de dar combate sangrento umas às outras. Mas será. seja de ordem espi ritual. O papel dos ritos e disciplinas maçônicas na estrut uração e no equilíbrio interior das elites fundadoras e governantes dos EUA não pode ser . § 31. O predomínio absoluto da moral civil represe nta o boicote sistemático de toda transmissão da moral religiosa às novas gerações. é demasiado estreito para captar todas as nuances e as implicações do que seja uma casta sacerdotal. outras de bom grado. ou simplesmente aqueles que tenham algum conflito de família. Acima de todas elas paira. outras ainda sem terem a menor idéia de a quem servem. seja de ordem psicológica. é agnóstico. aleatório como o instint o. se isso aconteceu no mundo. invisível e onipotente.” BRUNO TOLENTINO Uma das principais funções da religião é dar ao homem uma imagem simbólica do mundo. creio eu. Essa imagem transmite-s e quer através das narrativas míticas e iniciáticas211. as neutraliza e emascula. não foi sem razão. Anteu não quer a te nem o Olimpo. os meros fatos nada dizem sem os conceitos que os agrupam e lhes dão um se ntido. A form idável expansão do ateísmo no mundo. ainda não têm as condições de formar uma opinião própria. reside em que. mais sutil. bem como o fenômeno das pseudo-religiões que desviam para alvos inócuos ou mesmo prejudiciais os impulsos religiosos que ainda restem n a humanidade. é que as r eligiões mesmas jamais tendo se ocupado seriamente de encontrar um princípio de conv ivência pacífica. como já res saltei. tem um campo de atuação infinitamente mais vasto. “Prometeu já não arrebata o relâmpago. podendo abranger também eventualmente um clero. De Wilhelm Meister a Raskolnikov. Os jovens. exerce rigorosamente a função de direção espir itual? Que a aristocracia maçônica é encimada por uma casta sacerdotal que arbitra em úl tima instância as lutas políticas sem nelas se imiscuir diretamente? O Estado leigo tem religião. a criação de um Estado multi-religioso só pôde realizar-se por meio da moral civil que. abr igando-se sob a proteção do Estado leigo. no andar de baixo da sociedade. Um “clero” identifica-se com uma igreja estabelecida. e o conceito corrente de “clero”. porque. todas nivel adas e integradas na grande liturgia da religião civil. da New Age e da ufologia. mas com um tipo de ação mais interior. no seu grupo. e is to pelo fato de que o Estado defende os direitos de quem não deseje submeter-se a uma determinada moral religiosa. jamais teria sido possível sem esta realização da Revolução Americana. islamismo e budismo tornaram-se aí meras “seitas popul ares”. nenhum exoterismo em particular. é exercida por toda a pululação de religiões e seitas em disp uta. perpetuada no culto discreto oficiado por uma nova casta sacerdotal co lhida nos escalões superiores da aristocracia maçônica210. os fracos de cabeça. por outro lado. adequado diz er que o Estado norte-americano é leigo. Só que é um esoterismo ao qual não corresponde. a Religião do Império. no novo quadro. Judaismo e cristianismo. Ícaro não aspira a um céu invinto. A principal.162 OLAVO DE CARVALHO facção que pretenda ter uma moral válida para todos os seres humanos e aquela que afir me o mais pleno relativismo moral. mas não os da religião que pretenda impor os seus p receitos àqueles que. Há um pretenso heroísmo cujo pântano é este mundo. esta última leva vantagem necessariamente. é indiferente em matéria de religião? Pois não acabamos de ver que é um Estado maçônico? Que a Maçonaria. a função de exot erismo. são instantaneamente convidados a abandonar o seu grupo de referência. umas a contragosto. É claro que. quer através do 210 Um dos motivos de os historiadores e cientistas sociais norte-americanos nunca t erem percebido que as elites maçônicas muito mais que o clero católico ou protestante exerceram desde a Independência a função de casta sacerdotal. ao lado do espiritismo e da teosofia. em que esses estudiosos em geral se baseara m. sim. na qu al ele possa ler em filigrana o mapa do sentido da vida.

. marcada pela emergência inédita na História de uma casta s acerdotal esotérica sem o correspondente exoterismo. os estudiosos não puderam captar a esp ecificidade do novo quadro. como força política em sentido material e direto. 1993. 211 Para a distinção entre estes dois tipos de narrativas. Examinando sua sociedade co m conceitos tirados outras culturas e épocas. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Ino centes”. tb. 28-33. É preciso contar. V. adiante. n. Dela vem a tendência de não enfocar a Maçonaria senão por f ora. pp. com a típ ica incompreensão do intelectual moderno médio no que tange ao modus agendi dos rito s e disciplinas espirituais. o que leva a uma avaliação falsa da natureza e alcance da sua influência.negado. também. v. Rio. IAL / Stella Caymmi. 218. mas ele não faz parte da religiosidade pública.

ao contrário. Desde o momento em que. e que a vida aparentemente terminada em derro ta é na verdade o vitorioso testemunho da supremacia do sentido da vida sobre a vi da mesma. Mas o mito como interpretação da vida não tem nem poderia ter significado constante. A quem não creia num sentido que transcenda a vida. mas deixava em aberto a perspectiva de um segundo desenlace. pois em Don Quijote o pressuposto d e um destino metafísico do personagem dá ao desenlace um sentido precisamente oposto ao que teria para leitores desprovidos desse pressuposto: a vida do hidalgo só te m para nós um sentido edificante porque sabemos que. extraterreno. é ele que é se nsato. Fíjate y observa. a este ou àquele topos da narrativa mític a no decorrer da evolução histórica. experiências que repetem no microcosmo da sua existência pessoal os lances protagonizados pelos deuses e heróis da narrativa mítica. Calderón. nas artes narrativas. e insensatos aqueles que o consideram louco. Pois este enfoque os reduz a objetos. mas subentendiam com o seu pano de fundo uma história cósmica escrita pela Providência com vistas a um sign ificado extramundano. Até então a literatura narrativa euro péia caracterizavase pelo predomínio de temas que remetiam a um tipo de conflito mod elado sobre es212 quemas da Bíblia ou da mitologia greco-latina cristianizada. Ante un acto cualquiera de generosidad. na variedade in abarcável das situações vividas. e as sucessivas versões que recebe — se ja na forma do pensamento teorético ou da narrativa iniciática — vão revelando as mutações d o sentido da vida tais como aparecem às diferentes épocas e mentalidades. mas também pela diversa preferência dada a este ou àquele mito. ao mito maçônico. Isso é tão nítido nos enredos de Shakespeare. otras que es por ruines sentimientos y bajas pasiones de ven gativo o envidioso. Mas o exemplo mais contund ente. e que daria o verdadeiro significado do primeiro. Por esta razão é que falham repetidamente as tentativas de “interpretar” os mitos: os mitos é que. que o anti-herói das malfadada s façanhas é um herói autêntico do espírito. Si uno denuncia un abu so. aos olhos de Deus. fustiga la ramplonería. persigue la injusticia. a este ou àquele tema. o in stante preciso em que o mito cristão cede lugar. e mais os entende o crente ou o noviço que lê a vida através deles — entrando neles e tomando-os como uma mensagem vin da de seu próprio interior mais profundo — do que o filólogo que os lê através de alguma o utra grade perceptiva. de heroismo. são instrumentos de interpretação da vida. a todos eses estúpidos bachilleres y curas y barberos de hoy no se les ocur re sino preguntarse: ¿ Por qué lo hará? Y en cuanto creen haber descubierto la razón del . todos os destinos eram enfocados sub specie æternitatis. não poderia jamais elevar-se a um plano de universalidade mais alto que o deles: metaphysica per se est et per se concepitur. como índice do sentido da vida. andarían buscándole una segunda intención a sus nobles desvaríos. são pura insensatez es tas palavras do comentário narrativo de Miguel de Unamuno: “Si nuestro señor Don Quijo te resucitara y volviese a esta su España. os temas e os topoi maçônic os começam a predominar sobre os cristãos 212. esse fenômeno manifesta-se da maneira mais cl ara entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. que. É por isso que podemos assinalar. talvez por inesperado. se preguntan los esclavos: ¿Qué irá buscando en eso? ¿A qué aspira? Unas veces creen y dicen que lo hace para que le tap en la boca con oro. Dito de outro modo.. os enredos t errestres jamais tinham em si a chave de seu próprio sentido.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 163 rito que repete executivamente os passos principais do enredo mítico.. A questão básica em torno da qual se moviam personagens e enredos era a da salvação da alma: o sentido das ex istência dos personagens não era jamais totalmente resolvido no desenlace da trama. otras que lo hace por divertirse y pasar el tiempo. Racine. precisamente por ser tal . Quevedo — para não falar de Dante e de toda a literatura medi eval —. de l ocura. no Ocidente. Ora. por depo rte. reencontrando a cada passo. pós-cristã ou anticristã. Corneille. estão lançadas no mundo as sementes de um a nova era. Por ela o ho mem orienta-se no labirinto da vida. é o de Cervantes. que não é necessário entrar em mais longas demonstrações. Essas mutações manifestam-se não somente pelas ênfases diferentes que diferentes tempos dão às possibi lidades de significação de um determinado mito. a rea lizar-se no Juízo Final. no esforço vão de abarcálos no quadro conceptual de uma ciência determinada. Lope de Vega.

acto — sea o no la que ellos supoPredominar não em quantidade. . mas em qualidade: não em número de obras. mas no valor e significação das obras produzidas.

Espasa-Calpe. A desocultação das forças causais profundas que dirigem a existência individual para a auto-realização é. A extraordinária belez a desta imagem da ordem universal não deve porém fazer-nos esquecer que nela se trat a apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”. Madrid. Apenas. 15ª ed.” 213 Pois bem: entre os séculos XVIII e XIX acontece que o sentido dos enredos passa a fechar-se numa resolução puramente terrestre: o significado das existências já não está no J uízo Final. que parecem à 213 primeira vista uma sucessão casual e sem sentido. sob a proteção velada e amável das potências cósmicas incorporadas no ser coletivo das organizações secretas. perdió todo su valor la cosa. 1949. eram apenas um sinal provisório do destino cele ste do personagem. É um lugarcomum dizer que o Meister tem um sentido oculto. às vezes ambíguas no seu modo aparente de agir. à medida que Wilhelm supera a revolta juvenil para integrarse no mundo real como cidadão educado e prestativo. no sucesso ou fracasso social. o esplêndido prefácio de Marcel Brion à ed. a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. Paris. de longe. acontecia que o fracasso ou o sucesso. 11-12. esteja ausente a Providência. no sentido que elas possam ter aos olhos de Deus. conduz os sere s humanos para uma existência produtiva. Seu tema é a descoberta do caminho pessoal por entre os múltiplo s equívocos da vida. de acordo com a vocação de cada um. As aventuras aparentemente caóticas de Tamino e Pamina em A Flauta Mágica de Mozart revelam no fim ser a consecução de um plano concebido pelo sumo-sacerdote Sarastro para levar o casal de noivos à iniciação maçônica que lhes dará o poder e a felicid ade 215. Isso não quer di zer que na literatura anterior a luta pelo sucesso mundano fosse um tema ausente . Na Comédia Humana de Balzac. O sucesso do empreendimento terrestre. torna-se o supremo significado da existência: Wil helm Meister revela-nos que a História é dirigida por forças ocultas. mas. já não é a vida humana que tem de se justificar ante uma instância supraterrena. pelos “Sup eriores desconhecidos” 214. são governadas. e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finali dade em si mesmos. francesa do Wilhelm Meister. a revelação dos motores ocultos da Histór ia: a manifestação de um poder secreto que. lo ha hecho por esto o por lo otro. V. E. se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem.164 OLAVO DE CARVALHO nen — se dicen: ¡Bah!. mas boas em essência. pp. nesse sentido. profissional do pe rsonagem. descobrimos que as peripécias da vida de Wilhelm. barrando-lhe o acesso aos “Gran214 Vida de Don Quijote y Sancho. é a de Goethe. la cochina lógica. por trás do caos aparente dos destinos i ndividuais que se entrecruzam. são f reqüentes as menções a sociedades secretas que. surge reduzida a um dos fatores determinantes de um des tino cujo sentido se resolve inteiramente no plano da auto-realização pessoal. En cuanto una cosa tiene razón de ser y ellos la conocen. Sobre a noção de “Superiores desconhecidos” na simbólica maçônica . vocacional. Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. André Meyer. trad. 1971. No romance de Goethe. dirigem invisivelmente os acontecimentos 216. isto é. A obr a mais significativa do período.. a autorealização do homem no mundo. de uma forma benevolente. na nova l iteratura. mas unicamente na au to-realização pessoal. refletindo de longe os movimentos da Providência. Também não significa que. reduzida a um tipo de adm inistração oculta da História. Apenas. que é uma narrativa iniciática. no mesmo ato. Para eso les sirve la lógica. Qua ndo procuramos nela o elemento iniciático. a revelação da o m histórico-cósmica. um anúncio da salvação da sua alma. as potências supraterrenas é que não entra m na trama senão como co-autoras do sucesso e do fracasso mundanos. o sentido último dos acontecimentos já não depende de um significado metafísico. um vasto painel da vida social francesa. ou sem importância. numa curiosa inversão. e a Providência. ao contrário. Bordas. O tema é comum a muitas obras maçônica s da época.

Éditions Traditionnelles. 1968. Paris. são personagens cujo poder aparentemente desproporcional com suas qualidades pessoais vem da ajuda que recebem de sociedades secretas. pp. . 216 Vautrin. tome II. La Flûte Enchantée. Paris. 215 V. Jacques Chailley. em Le Père Goriot. e Ferragus. 1978. em Histoire des Treize. por exe mplo. René Guénon. Ópera Maçonnique. “À propos des supérieurs inconnus et de l’astral” em Études sur la Franc-Maç ie et le Compagnonnage.v. 208-22 7. Robert Laffont.

a civilização do Ocidente. são uma prese nça constante na lírica goetheana. que chegou a tomar por tema de uma peça. é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios. a maçonaria. Goethe conscientiza-se aguda mente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios. bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor d a História. de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisioná-lo na dimensão terrestre 217. aprendidos na de votada leitura dos grandes poetas e pensadores místicos persas e árabes. A consideração de uma possível “saída islâmica” para o conflito pressa com um século e meio de antecedência e em escala pessoal. se e leva aos céus. passiva e “feminina” ante Deus. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória inte rior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmi ca. na velhice. A imagem do Hom em Perfeito. Dividido entre o impulso espiritual e a rejeição maçônica do cr istianismo. a insufic iência espiritual dos Pequenos Mistérios e buscasse insistentemente uma perspectiva espiritual mais elevada. ele não viu outra saída senão buscar a espiritualidade superior numa tradição religiosa vizinha: o Islam. tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao ho mem as portas de uma nova civilização. é não apenas a da individualidad e humana perfeitamente realizada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 165 des Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do di vino. Na continuação de Wilhelm Meister e s obretudo no segundo volume do Fausto. a realização do sentido da existência terrestre. que fique claro: Se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos. em todas as tradições. sent isse de maneira mais ou menos obscura. a tentativa de fazer da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida. a alma resgatad a. capaz de absorver o conhecim ento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. ou Homem Universal. o Homem. De acordo com Guénon. infel izmente não concluída. é ativo e dominador perante a existência terrest re. Goethe manifestou várias veze s sua apreciação pelo profeta Mohammed. A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —. desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado . que fora prometéica e dominadora ante o mundo. ele procura integrar essa perspectiva no q uadro maior de uma ascensão puramente espiritual. Em conversações privadas. a formulação do drama Ocidenta l que viria a ser dada por René Guénon. transcendendo a esfera histórico-cósmica. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo a s marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países eur opeus e mesmo nos Estados Unidos —. passivo e obediente ante as injunções do Es218 217 Portanto. Mas. e só conserva seu sentido qua do integrada no corpo de uma tradição espiritual maior. Ora. É altamente significativo que Goethe. e. tendo vivenciado a ruptura maçônica com a tradição c ristã e se tornado o porta-voz por excelência da ideologia históricoprogressista. não teria alternativa se não cair na barbárie ou islamizar-se 218. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é prec isamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profe cia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão. isto é. inversa e complementar mente. durante toda a sua vida madura. ao progresso. Ressurgem então os temas cristãos. re staurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional. Jen. do perfeito equilíbrio entre a atividade criadora e a passividade contemplat iva: na tríade chinesa. e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação. torna-se. de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males como o preten . mas a do ponto de interseção entre o Céu e a Terra. s e não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —. à sociedade. Os temas da espiritualidade islâmica.

na última etapa de sua vida.dia aliás o próprio René Guénon nte. . decerto. Est a interpretação é viável. . se transferisse para o Egito e adotasse em tudo o estilo de vida islâmica é interpretado por alguns estudiosos com o sinal de que ele perdera toda esperança numa restauração espiritual do Ocidente. não exclusivamente. mas não encontra respaldo suficiente nos textos de Guénon. mas ao menos significativame O fato de que René Guénon.

Tal como vimos parágrafos atrás (§§ 1 9 a 22). mas também é “desequilíbrio” não escovar os dentes. mas sua contrib uição decisiva foi introduzir na moral do homem moderno um novo senso do pecado: na mesma medida em que a função da Providência já não é conduzir os homens à vida eterna. Na nova sociedade. repre senta um corte ao meio do corpo do Homem Universal. isto é. o ímpeto destr utivo que fizera a Revolução devia ser canalizado para a busca do sucesso. por meio da fusão entre o ocultismo e a ideologia americana da auto-realização. se empe nhe na conquista audaciosa dos bens deste mundo. E. A ação decai em agitação estéril. consciente ou inconsciente. da doença ou da pobreza. a saúde e a riqueza de todos os bons cidadãos. seja isto lá o que for. Aí a busca da liberdade criadora — ação do homem no tempo. do mesmo modo que o impulso de transcender as barreiras espaciais (por exemplo através da rede mundial de tel ecomunicações) se choca contra o mecanismo cego da entropia histórica. ocasionando o predomínio u nilateral da ideologia prometéica desvinculada de todo contato com o Espírito. até chegar. no amor e na vida social em ge ral. com sentimentos progressistas imbuídos de revolta prometéica contra o esta do de coisas na sociedade. mas aqui mesmo e na forma do fracasso mundano. e. para que. É “desequilíbrio”. ou na desobediência a um mandamento divino explícito. só pode acarretar para o homem a qued a sob o domínio de Ti. o conjunto das determinações de espaço. comer comidas gordurosas ou fumar. auto-real ização da História — choca-se fatalmente com as limitações da natureza física (por exemplo. Ao longo do século XIX ele evoluiria. a ruptura com Tien. o pecado não é punido com uma penalidade espiritual após o Dia do Juíz o. surja um prometeanismo revolucionário. oferecia lev ianamente a todos os homens o desfrute imediato da felicidade terrena tão logo a s ociedade se livrasse das peias da religião. Que essas convicções aparentemente conformistas possam coexistir. mas vale por si como horizonte term inal da existência. a co templação em passividade escrava. a mais dolorosa e trágica expe riência espiritual já vivida pelo homem sobre a Terra. n ascerá também um sentimento de conformismo passivo ante a ordem física. e sim no “desequilíbri o”. numa me sma alma. sendo por isto os fracassos explicados como desajustes em relação à ordem cósmica. no nosso tempo. ter dívidas ou sofrer um acidente de automóvel são coisas que. que encontra expressão no primeiro volume de Wilhel m Meister. r epresentam sintomas — e ao mesmo tempo a cura — de algum desequilíbrio com a ordem cósmi ca e por isto induzem as pessoas que passam por essas situações a sentirem constrang imento e vergonha. mas sa isfazer a seus apetites neste mundo. o pecado não reside mais numa ofensa à dignidad e do homem. onde quer q . a Terra. como a ordem cósmica já não co nstitui apenas a passagem à esfera espiritual. por exemplo. na ausência de uma conexão com o espírito. A ideologia prometéica que. A ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. O enxerto de simbolismos orientais nessa ideologia de origem substancialmente maçôni ca e revolucionária permite explicar os fracassos em razão do karma. de que um concerto de potências invisíveis dirija cada indivíduo no sentido de sua auto-realização no emprego. que furta ao ho mem incessantemente o desfrute benéfico das melhores conquistas da técnica material e transforma o progresso numa aceleração do desespero. rompendo com toda forma de obediência tradicional. Daí surge a poderosa imagem mítica que ainda sensibiliza a alma contemporânea: o mito do guiame nto celeste em direção ao sucesso. pelo menos “em excesso”. cometer at os de violência. na esteira do discurso da Revolução Francesa. pensamento ou hábito que possa colocar o indivíd uo em desarmonia com uma ordem cósmica supostamente empenhada em garantir o sucess o. nesse quadro. como o sentiam em outras épocas aqueles que cometiam adultério ou roubavam.166 OLAVO DE CARVALHO pírito. declarada ou pressuposta. n conflito entre progressismo técnico e crise ecológica). Ficar g ripado. a tornar-se c rença geral das massas ocidentais: hoje não há nas grandes cidades quem não viva segundo a expectativa. onde se desenrola sempiternamente a luta de Leviatã e Beemoth. é algo que se explica precisamente pela origem comum de ssas duas atitudes no amálgama ideológico que este livro vem descrevendo: onde quer que. toma logo a forma de um apelo lisonjei ro à juventude. o Espírito Santo. tempo e qu antidade que constituem o cosmos físico. “Desequilíbrio” significa qualquer ato.

em contrapartida. se procure dominar despoticamente a ordem física. surgirá.ue. nas mesmas condições. um conformismo obediencialista ante a autoridade dos .

gir ando em circuito fechado. e L’Érreur Spirite ( 2e. o romance de Joseph Conrad. e estas não deixaram de ser exploradas pela mesma literatura que a divu lgava. subjugando as velhas e decadentes aristocracias de sangue bem como o esgotadíssimo clero romano. Ainda não se fez um estudo abrangente sobre o amálgam a de idéias ocultistas. São incompatíveis e inseparáveis 220. por exemplo refletem menos alguma idéia oriental do que a máxima forjada pelo porta-voz da esque rda hegeliana. 1950 ).O JARDIM DAS AFLIÇÕES 167 senhores deste mundo 219. Cap. os mais aptos. que eles po diam sonegar seu apoio. colhia os melhores. A constelação do s vencedores formaria a nova casta governante e sacedotal. H istoire d’une Pséudo-Réligion ( 1929. espec ialmente Cap. I. 219 A ideologia progressista muito deve ao ocultismo. por outro lado. já não como simples teoria biológica mas como explicação geral do cosmos. Em Le Rouge et le Noir. constituiu uma das chaves para a formação da nova aristocracia maçôni ca: a meritocracia. O leitor não terá dificuldade de reconhecer aqui. éd. Paris. Mais que o Wilhelm Meister. 1978 ). IV. também era verdade. ao mesmo tempo que protegiam contra ele os candidatos menos dotados e mais conformistas. não podem ser canalizadas senão no sentido do enervamento crescente: quanto mais vão e sem proveito um estado de alma. elevando-se ao plano da pura espiritualidade — que é precisament e o que a ideologia moderna rejeita com todas as suas forças. especialmente Parte I. que fracassa tragi camente apesar de todo o talento e dos mais tenazes esforços. Gallimard . pp. o gênio de S tendhal narra a história de um típico arrivista dos novos tempos. O sucesso posterior do marxismo velou a origem ocultista do ideal socia lista. XXIX. cujo título é o resumo de milhares de vidas de jovens . a ênfase caricatural nos aspec tos supostamente espirituais da alimentação característica da Macrobiótica. de um lado. Paris. dá uma idéia da atmosfera reinante nos círculos soc ialistas-ocultistas russos no fim do século passado. Se. Éditions Traditionnelles. Coisas importantes a respeito foram ditas por René Guénon em Le Théosophisme. só para dar uma idéia das afinidades profundas que as diferenças superf iciais encobrem. Caps. espíritas e socialistas que constituíram por mais de um século o alimento mental dos círculos letrados e progressistas. os compon entes básicos do iogue-comissário. chamando os jovens ambiciosos ao mais extremado individualismo na luta pela vida. a própria biografia de Johann W. 1952 ). um assunto que é aprofundado em Nicolai Berdiaev. mas não há síntese possível a não ser pela Aufhebung que absorve os termos em conflito. O tema aparece no me lhor romance do próprio Balzac. são dialetica mente complementares. bem como o segredo do seu mágico atrativo. teosóficas. Mas essa soldagem do s incompatíveis. réed. Mas já na época mesma de sua difusão a ideologia da vitória prometéica deixava à mostra suas contradições. Under Western Eyes. para protegê-los e dirigi-los de longe na senda da vitória.. Mas a colaboração entre essas duas correntes vai mais fundo do que geralmente se imagina. atira a alma naquele estado de agitação estéril que os gregos denominavam ubris (hübris): o entrechoque de energias que. no movimento da New Age. O apelo da ambição prometéica. Éditions Traditionnelles. havia “Superiores desconhecidos” que podiam dirigir para o me lhor a vida de um jovem talentoso. principalmente e m Paris. noto que. 33-42 da 2ª ed. a carreira de Napoleão Bonaparte — que durante algum tempo brilhara ante todas as imaginações como o emblema mesmo das possibilidades ilimitad as que a situação pós-revolucionária oferecia aos ambiciosos e arrivistas de toda sorte — terminara muito mal. como viria a ser chamada mais tarde. Mas. maior o seu poder de contágio hipnótico. Les Sources et le Sens du Communisme Russe ( Paris. deixando o jovem talentoso entregue ao mais negro desamp aro. Ludwig Feuerbach: “O homem é aquilo que ele come. IX e XIII. Em teoria. vo n Goethe é o modelo desse projeto de vida 221.” 220 V. à teosofia e ao espiritismo no q ue tange à aceitação mundial do evolucionismo. e Parte II. como toda contradição sem síntese. e isto fazia pensar 222. De um lado. A Nova Era e a Revolução Cultural. de novo.

tentou pensar as relações entre o fracasso de Napoleão e a ação das sociedades secretas. V. em 8 vols.. É some te nessa função que elas podem ser compreendidas e eventualmente julgadas. então já um sucesso consagrado que seria temerár io desprezar. mas como forças plasmadoras dos símbolos em que se projetam os valores e ideai s de uma época o que é precisamente a função espiritual e sacerdotal por excelência. 221 O presente parágrafo ilustra. 248 ss. 1960. elegantemente entretecida de elogios d e praxe ao restante da obra do autor. o fato é que sua monumental Life of Napoleon. não merecia ser re cebida como foi: com insultos em vez de argumentos críticos. Ao resenhar esse livr o. Paris. Premiers Lundis. em Œuvres. até mesmo o grande Sainte-Beuve ( que era maçom ) preferiu ao exame aprofundado o s juízos assertóricos e a mera difamação pessoal. o método que julgo dever ser utilizado no es tudo da atuação histórica das sociedades secretas e iniciáticas. Bibliothèque de la Pléiade. 222 Walte r Scott. Qualquer que seja nossa opinião sobre os resultados de sua in vestigação.que acreditaram no apelo prometéico da Revolução e da democracia: Illusions Perdues. principalmente no que s e refere aos tempos modernos: enfocá-las não como facções políticas ou grupos de conspirad ores. pp. por exemplo. . por alto.

168 OLAVO DE CARVALHO Mas nem Stendhal nem Balzac enxergavam muito além do círculo históricocósmico onde se de senrolavam as vidas de seus personagens: em Balzac o drama permanece inconcluso. a descida do homem desde as alturas de um orgulhoso prometean ismo até o arrependimento que lhe abre as portas do céu. Depois da antevisão do velho Goethe — no Fausto mais insinuada do que expressa —. tem as mesmas duas castas governantes — sacerdotal e aristocrática. Pretendendo liberar-se de t odos os entraves morais e religiosos para dar vazão a seu impulso dominador. 1954. que nenhuma constituição. como todas as anteriores. “A confusão das línguas do bem e do mal. Mas I Promessi Sposi é antes um retorno à estética pré-maçônica — com o casamento de Renzo e Lúcia anunciando a salvação da que passa ao largo da problemática aqui enfocada. A nova socieda de. 225 226 § 32. tal é o sinal do Estad o. o lado feminino da alma. consagrada na constituição política nominal. Na grade diferenciadora estabelecida por Marx — e copiada com automático servilismo por toda a tradição dominant e nas ciências sociais —. NIETZSCHE 225 O Estado democrático igualitário é menos uma realidade que uma aparência. Se a intelectualidade moderna perdeu de vista a existência das castas ( tornando-se até mesmo incapaz de perceber sua própria condição de casta ). a polícia — Leviatã cede novamente ante Beemoth — e só reencont ra sua liberdade ao cair aos pés de Sônia. As novas Tábuas da Lei. volta as costas ao reino deste 224 mundo. que o levam a curvar-se ante o mais forte: ao afastar-se de Deus. a jovem prostituta que encarna a humildad e.” F. porque estão imbricadas na constituição ontológica e até mesmo biológica do ser h umano e são compatíveis. com qualquer organização nominal do poder polític o. ou: O Estado bedel 223 Algum leitor pode cobrar-me pela omissão de Manzoni. é um sintoma da vontade de morrer. psicoló icas e políticas tornavam-se invisíveis. ai nda que fundado na vontade da maioria. liberais ou so cialistas. lei ou decreto. Logos. que subsistirão como um código secreto no fundo de todas as constituições po líticas. Como a queda do comunismo parece não ter bast . invisivelmente entretecida na grade de uma constituição que não reconh ece a sua existência mas que não pode impedi-las de representar a verdadeira distrib uição do poder. Dostoiévski 223. sejam democráticas ou oligárquicas. monárquicas ou republicanas. subme te-se ao dominador humano. M. Elas são uma “constante do espírito humano”. pode revogar 226. trad. na mes ma medida em que. culturais. 224 Verso final do Segundo Fausto: “O Eterno Feminino / leva-nos ao alto. São Paulo. a necessidade de reintegr ar a atividade criadora humana no supremo sentido espiritual da existência só é afirma da com plenitude — e com plena admissão de suas conseqüências morais e filosóficas — por um ú ico dentre os maiores narradores do século passado: F. ela foi o tema dominante da sua ficção desde seu primeiro grande livro. como o segundo Fausto. que existirão ora de maneira explícita. Crime e Castigo é. Mário Ferreira dos Santos. as distinções de castas por funções espirituais. o est udante Raskolnikov termina por cair no estado de vítima inerme de seus instintos n aturais. eis o sinal que vos dou. funcionalmente. o único que enxerga Deus e pode conduzir a Ele. E cumpre-se assim a profecia goetheana : Das Ewige Weibliche sieht u ns hinan. e Stendhal encontra alívio no esteticismo cético e diletante. reduzida socialmente a um nada. autoridade espiritual e poder temporal — que existirão onde quer que s eres humanos se aglomerem numa coletividade que seja maior do que uma família. Na verdade. foi por tê-las confundido c om as “classes” definidas por traços exclusivamente econômicos. ora de m aneira implícita.” Assim Falava Zaratustra.

não bastam sequer p ara definir uma classe no sentido marxista. O Sistema das Castas e suas Implicações. Louis Dumont em Homo Hie rarchicus.ado para eliminar o prestígio residual do marxismo como ciência. São Paulo. trad. E. As distinções econômicas. por exemplo. ). 1992 — um estudo infelizmente limitado ao sistema hindu. acabaremos fatalmente recolocando na linha das preocupações sociológica s a velha teoria das castas ( como já o fez. mas sufi ciente para sugerir a subsistência real de diferenças hierárquicas de tipo casta na so ciedade Ocidental moderna ). adaptados à situação moderna. se recorrermos a distinções mais comp lexas e sutis. como viu E. cit. Thompson ( op. Carlos Alberto da Fonseca. P. “casta sacerdotal” significa simplesmente . — No sentido em que aqui emprego os termos. Edusp. nunca é demais insist ir que há mais diferenças hierárquicas entre os homens do que imagina a nossa vã sociolo gia.

Vega. sem interferir diretamente em política ). dos meios de poder. Abaixo dessas duas castas. outra coisa é socieda de igualitária. Mythe et Epopée. v. sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado p or outros meios senão a concentração de poder 227. era visto por todos no campo e na al deia. sem precedentes. nas campinas imensas onde o grito se perde . depois a julga e eventualmente condena. Nossos contemporâneos. arco e flecha. crêem que o mundo caminha para o ni velamento dos direitos. Paris. logo. sem se deixar iludir p or aparências e formalismos. e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitad o por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos. os encarregados do guiamento espiritual do povo — uma categoria que abrange desde gurus e magos ( autênticos ou falsos. O imaginário moderno concebe. Essa classificação baseia-se na distribuição real do poder. Pois uma coisa é ideologia igualitária. IAL. é menos uma ironia da História do que um a fatalidade inerente à natureza do poder: não podendo eliminar as castas governante s. bem como Ge orges Dumézil. qu alquer que seja o seu tamanho ( o que vai desde o grande empresário politicamente isolado até os pequenos comerciantes e proprietários rurais. teve de elitizar-se a um ponto que seria inimaginável para os nossos antepassados. de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado. também consideradas fora do contexto atual. definir o p oder exclusivamente por critérios econômicos e políticos foi um truque sujo da intelli gentzia para ocultar seu próprio poder. professando mentirosamente equaliz ar a distribuição de poder. Essa ilusão tornaos cegos para as rea lidades mais patentes. imbuídos de ilusão igualitária. que gera a aristocracia e.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 169 Foi por isto mesmo que a sociedade democrática. bem como toda a parcela da classe média que se ocupe somente da vida civil. e mais em baixo ainda a imensa massa dos braçais. sacerdotes e altos dignitário s de sociedades secretas até os ideólogos de largo escopo. cientistas e técnicos e a arraia-miúda intelectual das universidades. caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo. “Casta aristocrática” significa todos os que exercem o poder políticomilitar ou têm condições de reivindicá-lo: isto vai desde os governantes até os políticos de oposiçã passando pelos escalões superiores do funcionalismo público. Que essa ideologia pudesse transformar-se no instrumento da mais f ormidável concentração de poder nas mãos de poucos. derruband o-a com o auxílio das castas inferiores. Sobre as castas no contexto atual. v. E quando elas ressurgem sob nomes como “burocracia estatal” e intelligentzia. em caso d e grave ofensa. Olavo de Carvalho. homem entre homens. Elementos de Tipologia Espiritual ( apostila ). Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. por exemplo. que vai desde o prole tariado politicamente “alienado” até os párias e desclassificados de toda ordem desde qu e não exerçam poder político através de movimentos sociais ou do banditismo organizado ( pois neste caso fazem parte da casta aristocrática ). seja pacificamente ou pela violência. e podia portanto. e não em meras abstrações econômicas. e. entende que a mais alta forma de poder é aquela que gov erna as mentes dos homens. pelas lideranças sindicai s e por aquela parcela do empresariado capitalista urbano ou rural que tenha força suficiente para fazer lobby. elevando-a ao poder político. São Paulo. Há evidentemente interseções. já falecido. do movimento editorial e d a imprensa. idealmente considerada e fora de toda referência às sociedades modernas. São Paulo. para a formação de minha s idéias a respeito. há os empresários sem força política direta. nunca li trabalho algum que valesse a pena. só a casta que detém o poder espiritual pode legitimar o status quo ou mudá-lo. pelos ensinamentos recebidos em conversas inesquecíveis. entre as quais a da elitização. Sobre a psicologia das castas. ocultou-as. o da casta sacerdotal. noite ade ntro. que não apagam a linha divisór ia essencial. às vezes trazendo-o na garupa. Juan Al fredo César Müller. e que ad emais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espa da. em seu sítio na floresta da Cantareira. aumentando assim o seu poderio. René Guénon. já citado. tenho para com meu querido mestre e amigo. inerme. ninguém as reconhece. ser atingido. os acadêmicos. 1988. pois todos crêem que castas só existem na Índia ou no passado medieval. Sobre as for mas de poder das castas superiores. pouco importa ). lança. mas reconheço a dívida que. 1947. o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário.

na distância. o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância do s dominados. falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barr eiras burocráticas sem fim. 12 ). os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínio s fechados. causas ocultas. Em comparação com ele. Não entramos lá. O exame das cinco décadas que se seguiram à publicação da obra de Jouvenel mostra que a tendência aí denunciada se acentuou ainda mais. deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhece227 Bertrand de Jouvenel. op. cercados de portões eletrônicos. que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os 228 mortais .. Pela foice do camponês. cit. nossas imprecações e mes mo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua. por uma lâmina vingadora. passim.. Por uma faca de cozin ha. os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocu ltas. seu tempo vale dinheiro. meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis. . mais dinheiro do que nós temos. 228 “Sempre houve uma cla sse privilegiada. guardas armados. matilhas de cãe s ferozes. Em terceiro. alarmes. assinala com justeza Christopher Lasch ( op. demonstrou que o curso da história política do Ocidente desde o Império Romano até a II Guerra Mundial se dirigiu claramente no sentido da concentração do poder mediante a extinção ou neutralização dos poderes sociais i ntermediários. p.. Em p rimeiro lugar. mesmo na América. potestades ocultas. mas ela nunca esteve tão perfeitamente isolada d e suas vizinhas”. e nossos pedidos. Em segundo lugar. cit.

que não possa ser administrado senão por uma burocracia onipresente. igualitarismo. sem passaportes ou vistos e sem ser revistado na alfândega (o primeiro senhor de terras que resol veu taxar a travessia de suas propriedades desencadeou uma rebelião camponesa e pe receu num banho de sangue. pela minh a condição de escritor e intelectual. direitos humanos. e instalar-se nas terras do senhor vizinho. se através de lutas e esforços sobre-humanos o movimento sindicalista obtém fina lmente para essa horda a jornada de trabalho de oito horas e a semana de cinco d ias. os cidadãos reivindi cam mais e mais direitos. policial e judiciária 230. ao serem reconhecidos. que não trabalhava. e criando a horda dos sem-terra que foram para as cidades formar o proletaria do moderno e trabalhar dezesseis horas por dia. tinha as terras da Igreja. que confundem palavras com coisas e intenções com atos. equivoca-se ao sugerir que o “enxugamento” do Estado — sua ret irada das atividades “impróprias” — esteja associado de modo automático e óbvio a uma promes sa de maior liberdade para os cidadãos. s enão uns seis meses por ano. onde todos eram livres para plantar e colher . a dialética do poder no Estado moderno é diabo licamente simples: incentivados a fazer uso de seus direitos. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas. E. O intelectual. me faço ouvir — tanto quanto qualquer outro i ntelectual — pelo poder político. por um direito milenar. tenho mais informações sobre a organização do poder do que o homem das ruas e. precisa ser muito hipócrita para não se incluir a si mesmo na categoria dos “poderosos”. se caísse na mais negr a miséria. Tinha ainda o direito de mudar de território. sem outra esperança senão a de uma f utura revolução socialista (que os reverteria a uma condição similar à de escravos romanos ). de cujas queixas ele nece ssita para justificar sua expansão. o Estado tornou-se o proxeneta assumido de todas as minorias insatisfeitas. quando quero. a Revolução encampou essas terras e as rateou a preço vil. 230 229 Falo aqui como porta-voz do homem do povo. São necessários também para debilitar todos os poderes so ciais intermediários. Por isso a ideolo gia neoliberal. as novas leis. Mas. socialismo e progressismo. e temos razões para invejar o servo-da-gleba. que era obrigado a recebê-lo em troca de uma promessa de lealdade. complicada que seja a sociedade. por fim. Eis como o progresso dos direitos nominais não se acomp anha necessariamente de um aumento das possibilidades reais. o episódio deu tema a uma novela de Heinrich von Kleist : Michel Kolhaas). eis a parte que nos cab e deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibil idade divina. que ao menos tinha o direito 229 de saber quem mandava nele . para poderem ser aplicadas. Após dois séculos de democracia. a rede de educação pública. ela ainda está abaixo da condição do camponês medieval.170 OLAVO DE CARVALHO mos. Estado assistencial. Esse pr ocesso não é inconsciente: em todos os países do Primeiro Mundo. O servo-da-gleba também tinha o direito de ir e vir. Mas esta distinção esca pa aos porta-vozes da ideologia progressista. de modo que o Estado possa pairar soberanamente sobre um mar de átomos humanos nivelados e desorganizados entropicamente231. caso lhe desagrad asse o seu senhor. formadora de mini-agentes de transfor . Protestos e reivindicações incessantes são necessários para manter a sociedade num esta do de divisão e de mudança psicológica acelerada. mas é claro que pessoalmente. tão veraz ao discernir os fatores que obstaculizam ou fomentam o d esenvolvimento econômico. Sem esquecer. requerem a expansão da buro cracia fiscal. em média. transformamse em leis. mesmo sem um tostão no bolso. tanto quanto outrora necessitava do apoio das grandes fortunas para sufocar os movimentos sociais com que ainda não sabia lidar. os novos direitos. E. e assim o Estado se torna mais poderoso e opressivo quanto mais se multiplicam as liberdades e direitos humanos. é claro. e nriquecendo formidavelmente os burgueses que podiam comprá-las em grande quantidad e.

segundo elas.. surjam protestos análogos da parte dos travestis e trans exuais. em seguida. O alvo de seus ataques não é o establishment. É previsível que logo.mação social necessários para que as novas leis se transformem em costumes generalizad os. segundo notic ia The Times de 8 jan. as Lesbian Avengers. . pois não há limi te para a fragmentação entrópica desde o momento em que as correntes de opinião passam a ser determinadas pela libido. que. Veremos isto mais adiante. 1995. é a maior ofensa à dignidade da causa lésb ica. nem a família tradicional. promovem pancadarias e autos-de-fé em que queimam em grandes fogueiras públicas as revistas e jornais de seus inimigo s. 231 Desorganização entrópica: em Londres. discriminados pelos machões que só gostam de machões. mas.. cindindo-se imed iatamente em partido sádico e partido masoquista.. o m ovimento gay! O machismo gay. entrou em atividade um grupo de militantes lésbicas e nragées. que invadem bares. os s adomasoquistas protestem pelos seus direitos.. E assim por diante. que em seguida os transe xuais se revoltem contra as drag queens por caricaturarem a forma feminina.

A razão disto é dupla: primeira. A educação e as comunicações de massa — dois setores entregues ao império de intelectuais at ivistas que um tanto inconscientemente são os mais dóceis colaboradores do Estado mo dernizante — atacam por todos os meios as velhas relações comunitárias fundadas no costu me. Isso acontece por igual nas ec onomias neoliberais e nas social-democráticas. A mesma matéria. mesmo as mai s íntimas e informais.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 171 Pois não é só mediante o exercício de atividades impróprias e acidentais que o Estado opri me as pessoas. revogável ao me nor sinal de abuso. nos países do Prim eiro Mundo. Rio. pois as contradições teóricas no seio de uma ideologia podem ser as sementes de futuros conflitos que u ltrapassem o terreno das meras idéias. a confiarem de preferência na polícia e n os assistentes sociais — o que se funda no pressuposto de que não há estupradores na c lasse dos funcionários públicos. tendem antes a crescer desmesuradamente. O pátrio poder. segunda. Até umas décadas atrás. Nos EUA. a educação pública. por não suportar mais viver num país onde a insolência juvenil é pro tegida pela polícia e onde ser pai é expor-se a toda sorte de humilhações nas mãos de uma santa aliança entre moleques e burocratas 233. Um amigo meu. o pai de família que estendesse as asinhas 234 232 Também não é coincidência que. Às vezes vão mais longe: advertem as crianças contra os graves perigos que correm ao confiar em seus pais em vez de ent regar-se à proteção do Estado. ficam mais inteligentes a cada dia que passa — uma as serção que é desmentida pelo miserável desempenho cultural dos geniozinhos tão logo chegam à universidade ou lhes damos um livro para ler. a justiça. O Paraíso Sexual-Democrata. no Brasil. onde um governo hospitaleiro lhe dera moradia gratuita. Paulo. em vez de retrair-se no novo quadro neoliberal. Editora Am . a mentira de que as novas gerações escapam ao controle paterno porque. alertando-os para um problema social. a Folha de S. a autoridade pública regulam enta hoje da maneira mais direta e ostensiva todas as relações humanas. 233 Sobre a Suécia. o mais popular defensor do neoliberalismo — o pr efeito Paulo Salim Maluf — seja também o primeiro governante a procurar interferir d ecisivamente nos hábitos privados dos cidadãos. Num suplemento juvenil. que foi precisamente para poder expandilas que o Estado se ret irou da economia. da família e das pequenas comunidades 232. a vitória esmagadora das economias capitalistas tenha vindo junto com a crescente intromissão do Estado na moral privada. concedeu uma manchete do F olhateen à notícia de que a maior parte dos estupros de menores é praticada pelos pais . E estas. e acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana antes entregues ao arbítrio privado. resguardando da intromissão oficial áre as vitais do comportamento humano. a polícia. graças à TV e aos computadores. por exemplo. na religião ou na natureza das coisas. ler a imprescindív el reportagem de Janer Cristaldo. se dirigiria a adultos . numa página de noticiário policial ou geral. por exemplo. Este é um p onto que os pensadores neoliberais devem examinar com cuidado. assistência médica e pol puda aposentadoria. deixou de ser um direito n atural inerente à condição humana. exilado pela ditadura. para acelerar sua substituição por relações cri adas artificialmente pela administração estatal ou pela dinâmica do mercado. Cia. para se tornar uma concessão do Estado. nada deixando para a livre decisão do indivíduo. que à medida que se descarrega do fardo econômico o Estad o busca para si novos papéis que justifiquem sua existência. sempre foi uma das garantias básicas da liberda de civil. A expansão do olhar fiscalizador do Estado (e da intelligentzia) par a dentro da esfera privada tem como uma de suas mais graves conseqüências a redução da d iferença entre o moral e o jurídico — diferença que. mediante as leis sobre o uso dos cin tos de segurança e sobre o consumo de cigarros. desistiu de morar na Suéc ia. mas sim também — e principalmente — daquelas que lhe são mais essenciais e próprias: o fisco. incita diretamen te os leitores a suspeitarem de seus pais. Cultivam. fundando-se numa est atística muito grosseira improvisada por uma delegacia. Não é coincidência fortuita que. Recentemente. nem muito menos na dos jornalistas e proprietários de jornais 234.

aos três anos. já têm um tremendo sex appeal e jogos de sedução de fazer inveja a Sharo n Stone. São todos pessoas educadas. defende como justa e saudável a prática da pedofilia. Embora não seja pai de família. de vez que as criancinha s.ericana. quem se aproximasse de meus filh os imbuído de semelhante doutrina. no Jornal do Brasil de 1996. um premiadíssimo escritor gay. 1978. como a um cachorro louco. de alma delicada e sentimentos estéticos incompatíveis com os instintos violent os. cul tas. Somente a mim parece ter ocorrido a idéia de que seria difícil resistir ao impul so de abater a tiros. . Ninguém saltou à goela do declarante. nem muito me nos se lembrou de processá-lo por apologia do crime. nem o expulsou a pontapés.

Quando ao castigo moral se soma porém a sanção penal e administrativa . de amigos. cultivando as suscetibilidades neuróticas que os infantilizam. faz da mulher uma unidade autônoma. como de uma isca para prendê-los na armadilha da pior das tirani as. reunidos num imenso colégio interno s ob a tutela do Estado bedel. sexualmente indecisos — o que é uma condição sine qua non para a dissolução dos caracteres na sopa entrópica da “c dania”. nos discriminados. cada ser h umano torna-se uma unidade abstrata e amorfa. não espanta que ninguém queira amadurecer para ingressar ne le. A procriação deixa de ser uma decisão familiar. e descr ito com precisão. assim. sobreviver sem o amparo estatal e muito professional h elp.172 OLAVO DE CARVALHO para cima de sua doméstica atrairia sobre si a desaprovação da esposa. dos vizinhos. isola e enfraquece. da paróquia — um castigo moral infligido espontaneamente pela comunidade. E a situação as sim criada terá o dom da automultiplicação: após ter 235 Esse processo foi observado inicialmente nos países sob governo totalitário. se mpre trocando de namoradas. por Jan Huizinga ( v. e este castigo. que é a de fiscalizar a conduta moral de seus membros. para tornar-se um tr ato em separado entre a mulher e o Estado: o divide ut regnes invade o quarto nu pcial. para uma sociedade onde não haverá mais a diferença entre adulto s e crianças. nem homem nem mulher. em suma —. pois todos serão menores de idade. a pretexto de proteger d omésticas ofendidas. por exemplo. com a leviana desenvoltura de quem troca de meias 235. de terapeutas. a simples descortesia de acender um cigarro num ambiente fecha do. que decide ter ou não ter filhos sem a menor necessidade de co nsulta ao marido. O Estado torna-se cada vez mais o mediador de todas as relações humanas. o “cidadão”. O Estado utiliza-se das reivindicações de autonomia dos indivíduos — reivindicações p articularmente fortes nos jovens. protegen do-os sob a imensa rede de serviços públicos que os livra da necessidade de recorrer à ajuda de parentes e amigos. biológica e legalmente adultos. um olhar. Niveladas todas as diferenças. devida mente empregados e no gozo de seus direitos. cuja soma compõe a massa atomística dos protegidos do Estado — tanto mais inermes e impotentes quanto mais carregados de direitos e garantias. no mínimo. de planos e objetivos vita is. por exemplo. isto não ocorre por casualidade nem por mera birra feminista. sendo proporcional à falta cometida. cada um com um luzente crachá de “cidadão” 236. A proteção oficial ao aborto. Daí o fenômeno alarmante da adolescência prolongada — hordas de cidadãos. o bairro. na verdade o que faz é usurpar uma das funções básicas da comunidade. criar ligações verdadeiras uns com os outros. cheios de autopiedade e indiferentes aos sofrimentos alheios. o caso passou da esfera ética para a jurídica — e o Estado. mas por uma exigência intrínseca da dialética do poder: numa sociedade onde todo cidadão pertencente a esse grupo é estigmatizado como um virtual espancador de mulheres. e. mesmo as espontâneas e informais — um gal anteio. nem jovem nem velh o. sentimentos e até olhares de seus semelhantes — uma garantia jurídica contra a vida. o Estado na verdade os divide. Nas Sombras do Amanhã. era mais do que suficiente p ara fazer justiça. onde já não haverá pais e filhos — somente a multidão inumerável dos órfãos de todas as idades. de outro lado. tornand o-lhes impossível. nas mulheres. perpetuamente à espera de que alguém faça algo por eles. . nos ressentid os de toda sorte —. que todos prefiram permanecer adolescentes e. antipatias. mas incapazes de assumir qualquer r esponsabilidade pessoal nas ligações mais íntimas. “Libertando” os h omens de seus vínculos com a família. Evoluímos. que vêem algo de bom nas leis contra o fumo são cegos para a monstruosidade que reside no fato de a esfera jurídico-penal invadir o campo da s boas-maneiras. Se a bête noire visada por todas as campanhas de proteção aos direitos é sempre o macho adulto heterossexual. dos filhos. já antes da II Guerra. nem criança nem adulto. sedutor de domésticas e estuprador de crianças. Uma prova de que a intromissão do Estado visa menos a proteger as supostas vítimas de abusos do que a suprimir as velhas formas de associação é que as no vas legislações de direitos dão sistemática preferência às reivindicações que separam os home sobre aquelas que os unem. oferecendo-lhes o engodo de uma garantia jurídica con tra os preconceitos. de um lado. Aqueles. a paróquia.

portuguesa. sob pena de ir pa ra a guilho- . 1944 ). Huizinga destaca o fenômeno do puerilismo como uma das cara cterísticas dessas sociedades. trad. por exemplo. cuja au ra de prestígio vem do esquecimento: o principal direito que a Assembléia francesa c oncedeu ao citoyen foi o de servir obrigatoriamente ao Exército. eruditíssimos técnicos de futebol. formam. que tratam com reverente atenção atividades puramente lúd icas e com leviandade juvenil os assuntos sérios. Coimbra .Um Diagnóstico da Enfermidade Espiritual do Nosso Tempo. Esse fenômeno hoje é de escala mundial. 236 Citoyen: palavra terrível. Arménio Amado. e entregam a discussão filosófica e teológica a jornalistas semile trados.

ouvir a mensagem da casta intelectual. o respeito à criança e ao adolescente. que não há assunto. cujas implicações políticas mal imaginam. Em contrapartida. Com isto a Revolução atirou para os ares uma das mais belas conquistas da civi lização — a liberdade pessoal de não guerrear. pela repetição uni versal. retransmi . prevalecer. u m termo elegante que significa. de modo a dar a entender a essas hordas de mini-imbecis que nada está acima de sua compreensão. afinal.— são. Depois foi assimilado pelos anarquistas e comunistas: usando garotos fan atizados para jogar bombas na aristocracia. por mais imaturos e inexperientes que sejam. comerciantes inescrupulosos e seitas de excêntrico s: são fundações educacionais. esses movimentos tinham não somente um exército de recrutas facilmente governáveis. respeitada desde o Império romano — e inaugur ou a era do envolvimento sistemático das populações civis no morticínio generalizado. a comprar o que não precisam os. instrumentos de agitprop. no qual suas opiniões e desejos não devam. fortemente atrativos para a sentimentalidade popular. por mais sutil. até onde posso comprová-lo.. aquelas entidades qu e professam exatamente defender os mais altos valores humanos. puderam contar não somente com reservas de credulida de quase inesgotáveis. libertários. caso o produto se dirigisse ao próprio público infantil — brinquedos ou doces —. Hoje em dia já não são partidos radicais nem tubarões ca pitalistas que exploram o narcisismo infantil e a vaidade juvenil como instrumen tos de pressão para levar-nos a fazer o que não queremos. De outro. na Revolução Francesa.. crianças posando em anúncios funcionavam como emb lemas. são organizações internacionais como a ONU. das qualidades exce lsas que se desejava associar a determinados produtos. mas levavam ainda a indiscutível vantage m publicitária dos martírios infantis. Vimos isto no parágrafo an terior. um costume legítimo e aceitável que já não nos inspira o que em épocas menos abjet as seria uma natural repugnância. na lisonja mais descarada à vaidade pretensiosa do seu público mirim. mas também com a ação de solapamento com que a tagarelice adolesc ente ia minando os alicerces da confiança familiar. em português claro. a Unesco. Ci toyen significa: súdito da burocracia militarista.. A intromissão direta nas relações familiares praticada pelo Folhateen exemplifica aliás só uma dentre as dezenas de maneiras pel as quais a aliança do Estado modernizador com a intelectualidade ativista e com as forças do mercado se utiliza de crianças e jovens como “agentes de transformação social”. a indústria capitalista desco briu o emprego publicitário da candura infantil para a venda de toda sorte de prod utos. pois. embora seja claramente um abuso da inocência alheia. Morgen zu uns gehört 237 e. por exemplo. des esperados pela inocuidade de seus argumentos. em última análise. por conta do brilhan te futuro a que são convocados. Não: quem faz isso já não são organizações subversivas. o Estado alegará a deficiência de seu juízo moral para se met er cada vez mais em suas decisões privadas. acabassem se rendendo e assimiland o ao menos parcialmente toda sorte de novas crenças e manias. educacionais etc. tornado assim. sempre e sistematicamente. quando praticamente todas as organizações empenhadas em qualquer tipo de objetivos soi disant humanísticos. até fazer com que pais e mães. investindo de pre ferência sobre o público juvenil. O us o de menores de idade como veículos de propaganda. por mais obscuro. salvar o que restasse da comunicação doméstica. Porém o melhor de tudo veio a partir da década de 80. dessensibilizados pela repetição. são ONGs dirigidas por intelectuais de prestígio. entre os quais. O uso foi duplo: de um lado. se já é um desrespeito intolerável usá-los como instrumentos de campanhas de vasta envergadura. ao menos para tina. já não reparamos no que ele tem de imoral e criminoso . podia-se contar com o tremendo apoio representado pela pressão que as hordas de consumidores mirins exer ceriam sobre seus pais. Ele começou.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 173 infantilizado os cidadãos. tornou-se de umas décadas para cá um costume tão generalizado que. Devem. adotaram maciça e universalmente o uso do marketing infanto-juvenil. são governo s. Mas. por bárbaras e imbecis que fossem. cuja origem desconhecem. enfim. as seitas pseudomísticas. Na década de 60. a renegar nossas crenças e valores e a adaptar-nos a toda sorte de caprichos i diotas para não sermos reprovados socialmente e não nos tornarmos párias. já devem ir exercendo no dia de hoje sua pesada quot a de poder. mais cruel ainda é que esse uso seja fundado.

onde imporão — mensage iros da modernidade — os novos valores e critérios — 237 “O futuro pertence a nós” — título e refrão do hino da Juventude Nazista.tida por professorazinhas semiletradas. . e levá-la a seus lares.

de modo que o ind ivíduo fique sem conexões orgânicas em torno. ao ingressar no mundo da economia e do trabalho . ele revelou ser menos o protetor da família que o protetor do d ivórcio. de outro. na adolescência. O Estad só foi protetor da família enquanto teve de atender à pressão de poderes sociais mais a ntigos. segundo a interpretação que lhes dêem o notório saber jurídico de suas mestras e a peculiar acuidade jurisprudencial de meninos de oito anos. dando a entender que são efeitos da pura desigualdade ec onômica. adquirindo os traços e sintomas da adolescência prolongada 238. para a sociedade em geral. 240 Livre e seguro: Não é o que nos promete o Ministério da Saúde? 241 Resumindo o livro de Patricia Mongan. que cresce assustadoramente em todo o mundo. A sociedade moderna caminha decisivamente para a destruição desse s poderes intermediários e das associações humanas que os sustentam. impotente e solitário no oceano do mercado livre. círculos de amizade. O que exist e — acrescento eu — é um vínculo entre a rebeldia juvenil exacerbada e as ideologias pro pagadas há decadas pela intelligentzia. Em segundo lu gar. chegando em casa. a decepção de ver que agora se tornou um número anônimo. como se sabe — e em seguida repeti-los em família. se sentiu um líder. acabem adotando toda s orte de puerilismos da moda como se fossem as novas Tábuas da Lei. Devem ler com atenção devota o Estatuto da Criança e do Ad olescente e. isenta-se então de sua responsabilidade. tornando-as virtualmente inadaptadas às limitações da vida adulta: o menino que. lideranças e lealdades territoriais — são por natureza os mais fortes oponentes da autoridade estatal. isto é. A razão disto é que a família e todas as comunid ades tradicionais — religião. Farewell to the Family? ( Lond on. Janet Daley escreve em sua coluna em The Times. Jornal do Brasil de 22 de maio de 1995 — “um grupo em especial chamou a atenção da pesqu isadora: adolescentes pobres que foram viver na rua porque enfrentaram conflitos familiares e resolveram sair de casa. É apenas uma questão de tempo até que algum demagogo procure organizar essa delinqüência . para os quais a cultura não contribuiu em absolutamente nada. e ligado diretamente só ao Estado241. temerosos de ser passados para trás. até que pai e mãe.174 OLAVO DE CARVALHO a seus atônitos progenitores.. 5 jan. Ela constatou que a razão do problema. procuran do atribuir a criminalidade juvenil ao atraso econômico e à miséria — uma desculpa esfar rapada que uma recente pesquisa desmascarou da maneira mais contundente 239. como a Igreja e os remanescentes da aristocracia. um joão-ninguém — e não haverá out io de escapar da depressão daí decorrente senão agarrando-se a sonhos e ilusões juvenis. . Quanto à família. que é a maior culpada pela utilização dos menores como instrumentos p ara o marketing dos “novos valores”. Do mesmo modo. estava mais na rebeldia típica da adolescência do que na origem pobre do men ino”. para elas mes as. 1995 ). um agente criador do destino coletivo. a idéia de sua aliança natural com o Estado é um mito. de um lado. nest e caso. Lewis Carroll e as fotos de David Hamilton) se enche de brios hipócritas ao denunciar abusos sexuais contra menores de idade. como se as ações humanas resultassem diretamente do saldo bancário e não dos desejos alimentados pela imaginação. A conclusão de Fúlvia Rosenberg é que não existe o vínculo que a opinião vigente da int lectualidade estabelece entre a pobreza e o fenômeno dos “meninos de rua”. 1995: “O que estamos produzindo é uma nova ‘classe guerreira’ de homen s separados da influência socializante da família e das responsabilidades domésticas. a classe que propagou a moda do sexo livre 238 e o culto erótico das ninfetas (festejando por exemplo Nabokov. Tão logo livrou-se desse s aliados incômodos. terá. que em seguida lança suas culpas sobre a est rutura econômica da sociedade. é óbvio que a lisonja às pretensões mais descabidas da juventude é uma das causas pri ncipais da criminalidade juvenil. Institute of Economic Affairs. que elas procuram diluir numa hierarquia de poderes sociais diferenciados e numa complexa rede de associações informais. A intelligentzia. Devem rec eber os ensinamentos morais transmitidos por espevitadas atrizes de TV — as mais a ltas autoridades em questões de consciência. leva-as a um sentime nto hipertrofiado de sua própria importância. Em primeiro lugar. do aborto e do sexo livre 240. O uso de crianças como “agentes de transformação social” tem conseqüências temíveis. reivindicar de seus pais o cumprimento dos quesit os ali formulados.

porque o governo britânico adotou “um programa de des incentivos financeiros ao casamento e à estabilidade familiar. professora da PUC de São Paulo e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. algumas eram exploradas por adultos. Dentre as crianças abrangidas pela pesqui sa. outras estavam simplesmente ganhando a vida. deduzido impostos e aluguel. só 895 dormiam na rua. Esses homens deslocados são o alimento ideal para o recrutamento fascist a. passada a juventude. Um homem casado pai de dois filhos. Uma mãe sol teira com dois filhos pode trabalhar 20 horas por semana a £4 por hora e terminar com £163. constatou que. trab alhando Por que os jovens de hoje têm tanta pressa de “se realizar” antes dos vinte e cinco an os e entram em depressão quando não o conseguem? Porque a mitologia do nosso tempo a ssociou a idéia de juventude ao sentido da vida.99. e muitos frequentavam escolas. do total de 4. que só os casais mais determinados ( e afluentes ) podem ficar livres de suas desvantagens. mas — resume o . de modo que. a vida já não tem mais sentido. 239 Fúlvia Rosenberg.” Isso ocorre. os outros tinham casa e família.520 “meninos de r ua” que circulavam na capital paulista. segundo Morgan.anárquica.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 175 O número assombroso de indivíduos que. vivem sem família. elas não sobrevivem se não crescem. jamais tendo abusado de uma donzela.. liberacionista ) cria hordas de homens isolados e re voltados que serão as massas de militantes fascistas de amanhã. já está em estudos a delegacia esp ecializada dos gays. todas as crianças contra todos os pais e todas as mu lheres contra todos os homens. cuja ideologia ajudou a criar essa política fiscal. O Estado tende a alimentar a irresponsabilidade moral para po der alimentar-se dela. missão de proteger. o esquematismo do debate entre “privatizantes” e “estatizantes” tem tornado ess as contradições da ideologia neoliberal invisíveis tanto para seus adeptos quanto para seus opositores — ambos iludidos pelo pressuposto de que. mas. Pergu nte a si mesmo por que. mais propriamente. com estrit a igualdade matemática em termos fiscais. inclusive a de superpor as expectativas aos fatos e. ele ganhará £33 a menos que a mãe solteira trabalhando meio período. interfere em tudo. em cada um desses casos. que acabam se associando a interesse s estatais e empresariais e vão perdendo toda ligação com sua origem comunitária 242. quando o Estado interfe re na economia. judiciais. uma garota da classe operária não há de considerar um mar ido como algo menos que inútil. Não é que o liberal. a co lunista enfatiza que um velho slogan da esquerda — “arranhe a casca de um liberal e encontrará um fascista” — está se tornando verdade. nunca se dão conta de que suas con quistas são obtidas à custa da inflação do poder estatal. O fato de ser casada não conta para nada. A prova mais contundente é a proliferação de novas delegacias e varas de justiça es pecializadas. delegacia da terceira idade. Trabalhando em pe ríodo integral. O casamento está deixando de ser reconhecido pelos sistemas legais e fiscais. assistenciais e assim por diante. . l quido e certo de s ua mera existência. dos loucos. delegacia do menor. dos go rdos. ao passo que a ampliação do poder estatal é o resultado imediato. de olho nos fins políticos ambicionados. E quando se verificar enfim que todo esse crescim ento canceroso da burocracia não diminuiu em nada as violências que lhe servem de pr etexto. No Brasil. isto só será um novo pretexto para verberar a irresponsabilidade moral dos c idadãos e justificar a criação de mais e mais órgãos policiais. e talvez até dos esquisitões. será deixado com apenas £130. As ONGs podem ter surgido com essa intenção. que se segue a cada nova proclamação de direitos: delegacia da mulher. subm etidas à lógica do mercado. com todas as limitações do pensamento ideológico . Nenhuma avaliação séria da rel ação custo-benefício deixará de nos mostrar que. na Europa e nos EUA. atomizada. O Esta do encara agora cada pessoa como uma unidade autolimitada. imbuídos da por 40 horas com a mesma remuneração. incumbida de proteger pessoas como o autor desta s linhas contra aqueles que nos chamarem de esquisitos. e não crescem senão quando s e reunem em imensos conglomerados mundiais. em princípio. Esta existência aliás terá í de ser financiada por todos aqueles que. então. não enxergar o que se passa diante de todos os narizes humanos na at . chefiados como ger almente são por pseudointelectuais de miolo mole. e de que quando sai dela deixa as pessoas liv res em tudo o mais. em seguida virão as dos deficientes físicos. Muitas pessoas acreditam que a proliferação das ONGs prova um a tendência contrária — uma tendência a limitar os poderes do Estado e enfatizar as inic iativas espontâneas dos cidadãos. seja fascista: é que a política liber al ( ou.” Sub linhando que toda essa situação foi criada no governo liberal da Sra. de um menor de idade ou de quem quer que se ja. sem ami gos. sem outra relação humana exceto com os funcionários da previdência social. no fundo. E será ainda incentivada nessa convicção por suas irmãs fe ministas de classe média. Thatcher. pagarão para ver sua autoridade familiar contestada por funcionariozinhos semi letrados e arrogantes. Esse exército de solitários é o resíduo inevitável de uma equi ocada luta pelos direitos humanos.95. do definhamento das relações human as. Os movimentos de direitos. A superioridade das propostas liberais sobre as socialistas no que diz respeito à economia não deve nos levar ao engano de ver no neoliberalismo algo mais do que ele é: uma ideologia. é a mais t riste demonstração desse fato. num sentido diferente do que lhe dav am os esquerdistas. da extinção de todas as virtudes morais básicas que tornam a vida digna de ser viv ida. a proteção que ess as entidades recém-criadas darão aos novos direitos é apenas uma possibilidade teórica.

onde esses dois g igantes anônimos e impessoais freqüentemen te se aliam contra todos os liames comunitários e familiares que constituem a última proteção da intimidade humana. o mesmo não se dá quanto à administ ração da vida psico-social. “A democracia das ONGs e a ditadura do marketing” em O Imbecil Col etivo. Embora uma economia de mercado seja claramente menos opressiva para os cidadãos do que uma economia socialista. . a liberdade para o mer cado não garante 242 Sobre as ONGs. se do ponto de vista econômico o Esta do e o mercado são poderes antagônicos e concorrentes.ualidade deprimente da vida cotidiana. Pois. v.

Não tendo conseguido socia lizar a economia. Le Seuil. portanto det erminar o sentido da vida coletiva. de abrir o caminho para uma sociedade mais livre por meio da economia livre: se uma opção econômica se t orna o critério predominante se não único a determinar os rumos da vida coletiva. uma espécie de administração socialista da alma o socialismo da vida interior. com todas as doces promessas que trouxe à humanidade. segundo o q ual a complicação crescente do sistema internacional ultrapassou as fronteiras do humaname nte compreensível e se tornou l’économie du diable 243. Alfred Sauvy. um servo . Mais sábio seria e te nho de dizer isto. consolam-se buscando socializar tudo o mais inclusive a moral privada e a intimidade das consciências. L’Économie du Diable. o verdadeiro e o falso. aqueles que conferem sent ido e legitimidade moral a qualquer opção econômica que seja. cedendo. Seja na social-democracia. não participo do vezo brasileiro de opinar ta xativamente sobre todas as questões. por julgarem que é mais v ital preservar a liberdade de mercado do que qualquer outra. o re sultado fatal é que os meios se tornam fins. e assim se tornam os aliados de seus antigos desafetos num esfo rço comum para levar o neoliberalismo no caminho do pior. não sei qual é a melh or das duas opções. Ex Status nemo salvatur: fora do Estado não há salvação. carregava dentro de si o germe do monopólio estatal do sentido da vida: acima das religiões. só pode ser criada mediante um esforço conscien te. vão cedendo. acabam descarregando todos os seus velhos í petos estatizantes no m apoio descarado às intromissões do Estado neoliberal na vida privada. s e o neoliberalismo me parece mais sensato do que o socialismo. o neoliberalismo se omitirá de cumprir o papel que se propõe. a não ser por uma hipotética rebelião das religiões contra o monopólio estatal do sentido da vida —. do imperialismo americano? CAPÍTULO X. Na medida em que der por implícita e automática uma conexão que. Paris. E os neoliberais. malgré lui. O que há de mais irônico no confronto s ocialismo-neoliberalismo é que hoje em dia os derrotados socialistas. E o mercado tem um potencial escraviz ador tão grande e perigoso quanto o do Estado. pois no Brasil não se pode descrever um estado de coisas sem qu e a platéia ansiosa nos cobre uma definição sobre o que fazer que os adeptos de ambos os partidos. ao contrário. não será a glória final e a mundialização da Revolução A ericana? Não será e nfim o ioguecomissário. é ao Estado — casta dirigente ou aristocrática — que cabe. Esta é a única questão que importa p ra o destino do mundo: estaremos por um caminho ou pelo outro condenados a viver sob a religião de César? Caso a resposta seja afirmativa — e não vejo como escapar da r esposta afirmativa. Atenho-me portanto ao que poss o compreender. seja no neoliberalismo. 1989. sob as bênção a intelectualidade — casta sacerdotal — dirigir o processo de modernização. até que o novo E stado acabe por construir. em termos absolutos. surge então uma pergunta derivada: a submissão do mundo à religião de César não é a mesma coisa que a submissão do mundo a César? A universalização tado leigo modernizante.176 OLAVO DE CARVALHO automaticamente liberdade para as consciências. o certo e o err ado. sobre o arcabouço da economia capitalista. acima das consc iências individuais. Na verdade e no fundo. conservando cada facção a pureza de seus pontos-de-vista. . os valores e critérios morais. com todo a sua verborréia marxista. E o ponto que me parece básico é que a concepção iluminista do Estado lei go. Alfred Sauvy. NA BORDA DO MUNDO 243 V. e reconheço que as complexidades da economia mo derna geralmente escapam à minha inteligência um reconhecimento que aliás me coloca na companhia honrosa de pelo menos um grande economista. concordassem em submeter a disputa ao critério de valores superiores. e por desejo talvez de apaziguar o ressentimento dos derrotados. inconformado s com a frustração de seus planos na nova ordem. iluminista.

Representa a abdicação dos deveres da inteligência pessoal e a submissão às ilusões coletivas que passam por ve rdades por força da repetição.. um esforço de reprimir a inteligência teorética e subst itui-la pela autopersuasão retórica voltada a “transformar o mundo”. Gassendi. A libertação da consciência pessoal. n’étant ni pour les ni por les autres. que se reunem sob a denominação formal ou informal de gnósticos. que um ceticismo cognitivo q ue termina em diletantismo trágico. A filosofia de Epicuro. que pela repetição acabarão por se tornar consensuais. para esse fim. e. Os convidados estrangeiros às vezes destoam da unanimidade. O sentido de ssa influência é claro: instaurar como fundamento da cultura um novo corpo de crenças. votado à humilhação da mulher e à destruição amor — coisa que todo mundo já sabia. e. um ou outro conferencista de idéias cont rastantes. dando uma aparência ilusória de variedade e pluralismo ao que é na verdade um astucioso experimento de dirigismo mental245. O marxismo tem raízes no epic urismo e representa. como editor da série Os Pensadores e como fig ura de relevo nos meios filosóficos paulistas. afastando dos olhos do público e subtraindo à discussão. 5. P ara grande escândalo dos admiradores de Sade. Aproveita-se também a ignorância de platéias novatas. como irrelevantes ou “superadas”. como ele. Exploram-se. de índole coletivista e estatal. As idéias que inspiram essa operação resumem-se. tornando-os vulneráveis a toda sorte de manipulações. o professor da Universidade Livre de Bruxelas afirmou ( na conferência de 20 de junho de 1995 ) que o libertino é por es sência um tirano. no dos Libertinos/Libertários.. 6. 3. Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições.” A. como teoria. no ciclo de Ética. de m odo a colocar no centro da evolução filosófica figuras como Epicuro. que se tomam po . 245 V. “. que é um d os pilares da nova cultura. de maneira crescente desde o Renascimento 246. levanta cont ra si o ódio dos nostálgicos da religião greco-romana. é um processo de auto-hipnose que gera entre seus praticantes a credulidade beócia e a total falta de sentido crítico . La Mett rie. encobrindo-o sob um simulacro de debate. q uantas insatisfações ocasionais possa haver na alma do público. 1.4. Foi o caso de Nicole L oraux. 1.. É contra o exercício da consciência pessoal autônoma que se voltam as correntes em que se inspira o grupo organizador do curso da Ética . Sade et caterva.3. mas sem expressão pessoal significativa — e sobretudo que não abra uma polêmi ca 244 explícita —. menos os neolibertinos locais. o ensaio “Armadilha relativista” em O Imbecil Coletivo. 1. como prática. esporadicamente. 2. 4. o de Raymond Trousson.. as opiniões contrárias 244.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 177 § 33.2. na farsa da “tradição materialista”. um dissimulador maquiavélico. A conquista da inteligência teorética é a culminação de um cesso de personalização. nada mais é.Me situant à l’extérieur des faux litiges dans mon irréparable éxil. iniciado pela filosofia gre ga e completado pelo cristianismo. Exercer desta f orma a hegemonia sobre o panorama cultural brasileiro. deslocando para a periferia as grandes filosofias que não po ssam ser absorvidas na cosmovisão materialista. em última instância. Invia bilizar assim o debate. apresentando os membros do grupo organ izador como se fossem a encarnação mesma do consenso filosófico universal. DE SAINT-EXUPÉRY Recapitulemos todo o nosso trajeto: 1. 1. Essa reação inspirará boa p arte do pensamento Ocidental. Inserem-se no programa dos eventos. ao consumar-se no cristianismo. canalizando-as no sent ido de uma revolta contra o Espírito. José Américo Motta Pessanha encarn ou esse projeto melhor do que ninguém. O ciclo de Ética e os outros da mesma série r epresentam um esforço de conjunto para influenciar a vida intelectual brasileira n um sentido determinado: são uma “reforma da inteligência” brasileira — intellectus emendat ione — empreendida por um grupo coeso e consciente de seus fins. incapacitadas para uma reação crítica. à luz da se empreende um vasto remanejamento de toda a visão da História do pensamento. de libertação da consciência pessoal.1.

Após ter lido Order and History. 246 É mais ou men s a tese de Eric Voegelin. pois a conheço só por obras menores e não li o trabalho fundamental do autor. ed. que aqui subscrevo até o ponto em que pude compreendê-la. nada vejo de substancia l a mudar nessa minha interpretação. Order a nd History. [Nota à 2a. .r libertários por alguma razão só compreensível à luz da lógica de Epicuro.

isto é.178 OLAVO DE CARVALHO 7. fazendo-se de oficiante na momentânea paródia dos três dias de carnaval . que aquela dentre as ideologias modernas que parece 11. ao contrário. no sentido de Sto. novas cr enças que constituirão. 35). arrastando na sua torrente todas as forças intelectuais e políticas que. Ela inter vém decididamente e a fundo na estrutura da alma de todos os seres humanos colocad os ao seu alcance. que simbolizo na luta de Beemoth e Leviatã. é a meta que norteia. p. caiu na armadilha da restauração romana. em o caráter essencialmente gnóstico dos movimentos que culminam na N ew Age do século XX foi afirmado em 1994 pelo próprio Papa João Paulo II (Cruzando o U mbral da Esperança. mas marca do por uma dualidade fundamental. La His toria de la Iglesia jamás Contada. de m aneira que as novas concepções do Estado refletem mudanças profundas ocorridas na conc epção da natureza. o Sacro Império Romano de Otto I. mas na mundialização da Revolução Americana. puxados pela argola do nariz. A restauração do Impér io romano. o que não teria cabimento fazer neste volume. 1995. cit. Thesau rus. O surgimento dos impérios coloniais estilhaça a unidade cr istã. apresenta uma visão de conjunto das obras de diversos autores que enf ocam as ideologias contemporâneas como “teologias civis”. Agostinho . servindo às tontas. marcada por quatro grand es empreendimentos: o Império de Carlos Magno. acabam por colocar-se involuntariamente a seu serviço. que a ascensão da religião civil não é um processo unilinear. Snow ). instaurando neles novos reflexos. Cabe apenas ac rescentar que. 9. A Revolução Americana que incorpora o ideal do império leigo tende a mundializar-s e. associa a formação da religiã ivil aos esforços para a restauração do Império. como bois de carro que. de uma f orma ou de outra. de maneira semiconsciente. em Ricardo de la Cierva. Las Puertas del Infierno. 1 2. por voluntária e conscient e aceitação das coordenadas do novo tempo. A Religião Civil do Estado Moderno ( Brasília. 10. 3ª. enfoca a emergência das ciências físicas modernas como uma condit io sine qua non da religião civil. as quais por sua vez expressam uma nova compreensão ( ou incompreen são ) da lógica e da dialética. curiosamente. 8. ajudando a consolidar o culto das divindades cósmicas — naturais e sociais — que constituem em substância a re ligião estatal do Novo Império 247. Mas — pergunto em prosseguimento — servindo-o de bom grado. entoando loas a um deus-asno colocado no altar em lugar de Cristo e do próprio Cés ar? Ele sabe ou não o que está fazendo? Depende. a cultura pós-cristã. 1985 ). demonstra que o culto de Beemoth acompanh a necessariamente a ascensão do poder de Leviatã. que se observa por exemplo em Nicolau de Cusa ( v. Madrid. as demais m religiões serão rebaixadas a “cultos permitidos”. ao pretender fundar um Império. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ). Este meu liv ro insere-se nessa linha de preocupações. 247 O estudo valiosíss imo de Nelson Lehman da Silva. exatamente como o fazem os esquerdistas a rrependidos que hoje formam nas fileiras neoliberais? Ou. enfatizando que não culminam na eclosão das ideologias totalitárias. funcionando como s eitas populares no novo quadro do Império leigo. não sabem para onde vão nem quem os leva? O iogue-comissário é alto-sacerdote do culto imperial ou escravo de sacerdote. Fénix. Assim. sob formas variadas e adaptadas às condições do tempo. a história política do Ocidente. associa portanto ao processo de formação da re ligião civil o fenômeno das “duas culturas” ( C. P. ou seja. Junto com o cristi anismo. A operação de reforma cultural empreendida pelo grupo organizador da Ética marca a inserção da cultura brasileira no novo culto imperial. a intell igentzia de esquerda se põe a serviço da ascensão do Império. 2ª. o que restar de cristianismo será destruído pelo i pério leigo. ou mais claramente: anticristã. mas b em-sucedido na América). da qual é o oposto complementar. em essência. Se entendemos o termo “imperialismo” no . novos sentimentos. o império leigo (fracassado em versão napoleônica. dit o de outro modo. ajudando a alimentar o monstro imperial que viria a devorá-la. com algumas diferenças específicas que ressalt am do fundo comum: 1ª. somente a aprofundar. A ruptura do sentido cristão da vida dá surgimento às duas correntes de idéias — naturalistas e historicistas — cujo entr echoque constituirá o Leitmotiv da história cultural moderna. obras das quais a mais abrangente e sistemática é a de Eric Voegelin. A Igreja. a e mergência dos impérios coloniais.

. 4ª . enfoca a luta entre religiões tradicionais e religião civil do ponto de vista do conflito de castas. não no sentido de sua ação polític a explícita ( como o enfocam os porta-vozes de uma teoria conspirativa da História ) . e finalmente. a resposta é não: o iogue-comissário. mas no da contaminação passiva da sociedade. e nfatiza o papel das organizações secretas nesse processo. não se acumpl iciaria à menos comprometida com o culto de César é na verdade aquela que o encarna da maneira mais completa e eficiente. a retórica em geral. pela New A ge e pelas novas morais que vão entrando em vigência no quadro neoliberal. assinala a função que nesse contexto é desempenhada pela ideologia ecológica. como a lógica de Epicuro. assinalando a sua filiação comum. a dialética de Hegel-Mar x. atualizando o enfoque. à tradição es tudada por Lehman. a falsa hermenêutica simbólica do ocultismo etc. porém.. da exploração do Terceiro mundo em proveito de mega -empresas americanas. decididamente.velho sentido da dominação econômica. Dando continuidade. destaca o papel que na formação da religião civil é desempenhado pela s pseudológicas.

em miniatura. Problem a. enganando-se quanto a seu papel no curso dos eventos. Vimos. em particular. porq ue a fundação dos EUA representa a quarta e provavelmente última translatio imperii. a engrossar a poderosa corr ente da Revolução Americana. de Meira Penna. 1994 — uma leitu ra indispensável a quem deseje compreender a posição do Brasil no mundo de hoje. de luta de class es. em aliança com a intelligentzia. V imos que a idéia imperialista foi anterior de quase um século à formação das grandes fortu nas capitalistas. mais particularizadamente? O fato de a campanha da “Ética” te . não passa de um momento transitório na sucessão de ilusões ideológicas pelas quais a inte lligentzia mundial. não havia outra razão para explicar o interesse pela ética demonstrado. fazer o feitiço virar contra o feiticeiro . por e ssência. parágrafos atrás. Acontece. e se por outro lado a expansão e mundialização do poderio americano são e vidências igualmente inegáveis. dade espiritual. a insensível rot ação do sentido dos seus esforços. destinado a reformar o mundo. A estas observações pode-se acrescentar a famosa demonstração de Josep h Schumpeter. Marilena Chauí. dizia Ortega y Gasset. a p artir de 1989. um projeto expansivo. a teoria Hobson-Lênin. veio a ser arrebatada por essa torrente. A Ideologia do Século XX. Não por coincidência. o M arxismo. Ensaios sobre o Nacional-Socialismo. o ciclo de Ética no MASP fora organizado pela mais eminente intelectual do PT. New York. encontra-se no livro de J. o primeiro passo da revolução mundial que. modernizante. acrescentada de análises muito pe rtinentes com relação à teoria brasileira da dependência. 64 ss. que o principal foco de resistência interna às ambições imperialistas do governo norte-americano foram os grandes capitalistas. porque o projet o do império leigo que incorpora as concepções iluministas do Estado representou. Esta ativa desmascaradora do discurso ideológico alheio jamais se inte ressaria por algo tão “superestrutural” como a ética se não tivesse bem sólidas razões políti para fazê-lo. Imperialism. o que se passou com a esquerda nacional. Nórdica. U ma síntese brilhante dos argumentos de Schumpeter. a síntese e o resultado das contradições entre s acerdócio e aristocracia. absor verá no Estado. e mesmo contra a sua intenção. por intelectuais de formação marxista. Joseph Schumpeter. Meridian Books. enfim. revolucionário. O. Comecemos pela seguinte constatação: era mais do que cl aro que esse empreendimento cultural tinha objetivos políticos patentes e imediato s. A contradição resolve-se tão logo entendemos que a dinâmica imperial dos Estados Unidos não provém de causas econômicas. o Terceiromundismo e a Ideologia Brasileira. que por dois milênios foram o motor da História européia. culturais e políticas: os Estados Unidos são uma potência imperial po rque sua fundação mesma constituiu um revigoramento da idéia imperial. 1958. Resta só um detalhe: saber como a intelligentzia brasilei ra. no essencial. De fato. d ando uma “solução final” ao conflito entre autoridade espiritual e poder temporal.. leu talvez o próprio Hobson. é consciência de uma contradição. da contradição entre imperialismo e capitalismo democrático 248. Ele estudou a teoria leninista do imperiali smo. p orém intelectuais. e não se prestaria ao papel de servo do capital es trangeiro. Perto desse fenômeno gigantesco. no i nstante da fundação da República Americana. porque a Revolução Americana é. então titular da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. então estamos realmente diante de um problema. neutralizando todas as religiões do mundo e instaurando a religião de César. que o imperialismo americano não tem fundamentalmente um sentido econômico. imaginando ainda ser vir aos seus velhos ideais de sempre. pp.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 179 exploração imperialista dos países pobres. toda autori248 V. entre os quais o principal era o de captar em proveito da estratégia das esquer das a velha retórica moralista da direita. E aí o ciclo de Ética no MASP pode servir para ilustrar. tanto quanto a teori a da dependência — sua neta terceiromundana em boa hora renegada por um pai sensato —. foi ar rastada sem se dar conta. p orque o surgimento do moderno Estado leigo incorporado no Império americano é. Rio. uma enganosa agitação de f ntoches verbais sobre um pano de fundo constituído. Quais razões. Se as c oisas são assim. porém. para os quais o discurso ético não é nem pode ser outra coisa senão uma “superestrutura” ideológica.

Era o que eu estava dize ndo no § 1. por um tempo.r conquistado sua principal vitória com a derrubada de Collor me fez imaginar. Ainda assim. que a tagarelice moralizante não era outra coisa senão um expediente impr ovisado para fins de política rasteira: eliminar a trapaça financeira multicollorida para instaurar em seu lugar a trapaça ideológica vermelha. parecia-me .

com tanta antecedência. e sim de espionagem política. as explicações do deputado pareceram satisfatórias à imprensa. Mas será normal que os jornalistas profissionais também ignorem tudo do funcionamento dos s erviços de informações? Se nos lembrarmos de que o processo de impeachment de Nixon — tão alegado como um exemplo para o Brasil no caso Collor — não foi provocado por uma acu sação de corrupção. a sua principal força ( v. brasileira. A Revolução Impossível. já havia no ar uma predisposição hostil e vingativa. já em 1994. os estrategistas da esquerda pudessem já estar preparando um golpe morta l a ser desferido na carreira do sr. encontrou nela a ocasião para a e sperada descarga. atmosfera que. no início de 1990. que só aguardava a id entificação de um suspeito para poder despejar sobre ele o ódio que se fôra acumulando. trad. por isto. 1994. uma entrevista de Herbert de Souza. Enquanto os “arapongas” prosseguiam suas investigações. se originara de uma reunião de inte lectuais de esquerda. As Marcas d a Decepção. substa ncialmente iguais a tantas outras feitas contra governos anteriores e que morrer am neutralizadas pela indiferença popular. um desejo de punir. excele aliás nesse domínio. vivant infligira às esquerdas. 1986 ). De qualquer modo. veremos que a indiferença nacional ante o caso dos “arapongas”. centenas de militantes-delatores formavam um serviço secreto particular infiltrado em ministérios. “Betin ho”. Dell Books. incluindo pessoal interno ( v. Collor de Mello. a futura transformação da campanha pela ét ica numa campanha contra Collor. Segundo “Betinho”. senão pelo fato de que. Com efeito. da qual fora um dos mentores e fundadores. p udessem ter em vista. São Paulo. S. Isto é que é fazer-se de inocente. a campan ha. Luís Mir. O intuito não era combater a corrupção. polícia. técnico em espionagem treinado em Cuba. empresas estatais e bancos. preparatoriamente. Todos os serviços secretos do mu ndo dão preferência aos serviços de colaboradores informais sobre os de agentes profis sionais. 1992 ). não era verossímil que àquela altura. 617 ). Por geniais que fossem. respo ndeu que ali não havia serviço de espionagem nenhum. Ou então é s inal de que a opinião pública já concedeu às esquerdas o privilégio de se colocarem acima de todo julgamento humano.180 OLAVO DE CARVALHO extravagante a hipótese de que em 1990. da qual . mal decorridos alguns meses da posse do pr esidente. de indícios suficientes para justificar a esperança de um dia poder montar um Collorgate. Best Seller. reduzir a dois mil o número de seus agentes profissi onais. Esta notícia dava retroativamente sustentação àquela hipótese que eu rejeitara co mo um tanto paranóica 249. Scritta Editorial. e não nos ag entes efetivos. pois tra balhou como agente cubano por cinco anos ( v. pois estudou Mao Tsé-tung e sabe o que ele diz da importância dos informantes oc asionais para o sucesso de uma guerrilha. contra um alvo hipotético e vacante. sem quaisquer sinais visíveis de corrupção no governo. Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense. que o partido apenas recebia in formações dadas espontaneamente por militantes e simpatizantes. adensando-s e pouco a pouco até o limite de uma pressão insuportável nos meses que antecederam a d ecisiva entrevista de Pedro Collor à revista Veja. Luís Inácio Lula da Sil va. e particularmente à pessoa do sr. na qualidade de “colab oradores informais”. na sede da OAB. Christopher Felix. acusado de ser o chefe do serviço de espionagem do PT. Exª. é sinal d e perda completa do senso das proporções na avaliação da gravidade dos delitos. São Pau lo. New York. Mas em agosto de 1993 veio pelos jornais a notíci a da existência de uma rede petista de informações: chefiados pelo deputado José Dirceu. Victor Ostrovski e Claire Hoy. desta vez. trouxe um esclarecimento melhor. Mais tarde. p. não era nada absurdo supor que a pequena KGB já dispusesse. Não há mesmo nenhum meio de explicar a repercussão dessas denúncias. que não voltou a tocar no assunto por quase um ano. vingando a humilhação que o pernóstico bon249 O deputado José Dirceu. Um dos segredos da eficiência do Mossad ( serviço secreto israelense ) é ter uma rede de informantes ocasionais espalhados por todo o mundo ( os militantes s ionistas ) e poder. comparada à extrema suscetibilidade contra os corruptos. a campanha pela “Ética” já iria p arando uma atmosfera psicológica propícia a ampliar o efeito moral do escândalo quando estourasse. A KGB tinha nos militantes comunistas. A Short Course in th e Secret War. O deputado não pode ignorar estas cois as. ao Jornal do Brasil.

a restauração da decência era um fim em si. Outros. apenas uma etapa da “longa viagem da esquerda para dentro do aparelho d e Estado”. Daí a ambigüidade dos festejos celeb rados em torno do cadáver político de Collor. o revigoramento do regime.ainda ninguém sabia nada de preciso. simbólica e conquistada com a ajuda do mesmo esquema. provisoriamente encarnado num presidente. com a revanche contra o esquema militar-em presarial. Para uns. Vi então que minha primeira compreensão tinha sido demasiado estreita: mais que derrubar um presidente. O exército vitorioso dividia-se em duas alas inimigas: uma festejava. a campanha pretendera derrubar um re gime. ainda que tardia. outra pr elibava o seu próximo desaparecimento. que a outra participasse da celebração com u ma reserva mista de suspeita. anunciado pelo do presidente. Uns alegravam -se com o retorno à moralidade. com a limpeza. temporariamente irritado com o agente que abusara da sua confiança. Não é de estranha r que esta última ala fosse mais festiva. como diria Antonio Gramsci: o . Pa ra outros. mas oferecer uma alternativa contra a propost a neoliberal de Collor.

ao passo que em época mais recente passou a misturar a exibição pública de moralismo c . retroativamente: a luta pelo “Estado ético” gramsciano tornou-se.) Para a ala oposta. su geria por si mesma o perfil do seu antagonista ideal: contra a frieza inumana da “técnica”. Para a primeira dessas correntes. se a campanha não tinha um propósito direto de combate à corrupção. Mas. nos anos que se seguiram à derrota da guerrilha. destaca uma fase que denomina implantação do “Estado ético”. alheando-se o mais possível do debate político e ideológico e de toda consi deração de valores. porque muitos dos intelectuais envolvidos na campanha h aviam se tornado. suscitando fartas demonstrações de indignação moral. pelo bem e pela decência 252. Antônio Delfim Neto. baseada nas idéias de racionalização e eficiência. cuj do nada tem a ver com o que geralmente se entende por moralidade. A coincidência é apenas de palavras: “ético” em Gramsci é termo técnico. nos planos que delineia p ara a tomada do poder pelos comunistas. especialmente ud enista.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 181 começo. representada sobretudo pelo então ministro da Fa zenda. d iz Goethe. leitores e devo tos do teórico da “revolução cultural”. de onde vie a então a palavra “ética”. tratav a-se de uma reedição do velho debate entre tecnocracia neocapitalista e nacional-pro gressismo. De outro lado. de dias de glória. isso era apenas mais uma ideologia: o pragmatismo e o neoposi tivismo que pareciam inspirar o ministro eram aliados congênitos do capital. a palavra “ética” vinha mesmo a calhar. vivendo separado da atividade produtiva. dando ao mesmo tempo a impressão de estarem lutando pela “ética” no sentido geral e corrente. Esta feliz coincidência permit iu que a alquimia gramsciana fundisse a política da esquerda radical com o discurs o moralizante que por décadas fora a marca registrada da direita. nada se sabia que pudesse 250 incriminar Collor. uma luta pela moralidade propriamente dita. pensa por categorias estanques e não enxerga os nexos entre economia. política e ética 250. representada sobretudo por Celso Furtado. 1994 ). Mas. um sujeito que. opunha uma proposta econômica fundada em fins e valores explícitos. e. ainda influenciada pela ideologia do Front Popular tingida de “humanismo bu rguês” para fins de aliança com as “forças progressistas”. Na época. uma palavra é como uma tábua para o náuf rago. mas logo em seguida o surgimento das provas de corrupção no governo. que d efendiam com tanto mais eficácia quanto mais protegidos sob uma fachada de neutral idade científica. evidentemente. um ídolo acadêmico das esquerdas.. (A desastrada frase do ministro. carregada portanto de um apelo “ético” 251 . Fritjof Capra & Antonio Gramsci ( Rio. o qual. À neutralidade tecnocrática. neutralidade esta que. mas apenas com o ajuste entre as normas sociais e as necessidades da produção — um sentido alheio a fins e valores. ad hoc. Não há melhor truque para de252 Explico-me mais extensamente sobre Gramsci no meu livro A Nova Era e a Revolução Cul tural. por ironia. essa corrente. honestidade et c. aparentemente tão deslocada no contexto de um mero confronto id eológico entre socialismo e neoliberalismo? A origem era dupla: de um lado. o apelo humanitário da “ética”. e no fundo. Era uma encenação. nada mais interessante ocorreu à intelectu alidade esquerdista do que ressuscitar contra ele o estereótipo do velho debate. isto é. A proposta neoliberal de Collor. esperavam. to rnou a ficção verossímil. as soluções econômicas deviam reger-se por motivos técnicos e científicos. acreditava mesmo em princípios éti . q ue rendera alguns dividendos na luta contra a ditadura. não passava de uma projeção do abstratismo “metafísico” do burguês. muito “tecnocrático”. na pobreza de perspectivas da oposição ante um governo recém-emp ossado com um potente respaldo popular. segundo a perspectiva marxista. 251 A diferença é que naquele tempo a esq uerda. de que a economia é “aética” suscitou d esde chiliques moralistas até a objeção gramatical de que a palavra certa seria “anética”. O nome da campanha fornecia aos intelectuais gramscianos a oportunidade de tentar implantar o “Estado ético” preconizado pelo seu mestre. que recomendo aos que julgarem demasiado compactas e obscuras as referências que aqui faço ao tema. Entre estes últimos estavam os líderes da “Ética na Po lítica”. Antonio Gramsci. que ocupara os economistas e os doutrinadores políticos na década de 70. Instituto de Artes Liberais & Stel la Caymmi Editora. quando a gente não sabe o que fazer.

mas. Já nas fases finais da Re volução Francesa. logo após o fracasso da conspiração extremista de Babeuf. Paris. campanha hábil. réed.om a pregação do ceticismo e do relativismo ( esta só para audiências seletas ). . 1928. “os jacobinos co ntinuaram sua propaganda no país. não havendo motivo para temer escassez de argum entos” ( Pierre Gaxotte. Apelar às denúncias moralistas nos momentos em que o discurso da luta-de-classes está em baixa é um dos expedientes clássicos da tática esquerdista. impopular. como sentiam que o programa babeufista esta va. E ademais a mina era inesgotável. p. suscetível de arrastar sob uma mesma bandeira os descontentes de todos os partido s. subs tituindo a guerra contra os ricos pela guerra contra os ‘apodrecidos’. 1968. trocaram rapidamente de palavra-de-ordem. 482 ). La Révolution Française. mais do que nunca. Arthème Fayard.

ao lado da Mão da Justiça. sobretudo. da qual a autodestruição do Congresso Nacional. o pecador não teve como resistir ao apelo da salvação. num prazo assustadoramente breve. basicamente. para que. A quem esteja ciente de que. não fo i a regeneração moral de um país. o lastro de crédito que garantia a boa -fé dos acusadores e conferia legitimidade moral a toda sorte de calúnias. todas as crenças e sentimentos mais conservadores do povo brasileiro. que o homem médio não saberia suportar sem buscar logo. tinha como finalidade última — nas palavr as de seu próprio fundador — implantar no país a socialização dos meios de produção. Tratava-se em suma de reduzir a éti ca ao “politicamente correto”. autocontraditórios. metade oculta. conservava o pode . Foi assim que. O que poucos perceberam é que a exigência ética da campanha fora formulada em termos propositadamente utópicos. as peças múltip las do quebra-cabeça começam a encaixarse. co mo uma tara hereditária. sujeitando o pe cador a terríveis padecimentos interiores. aí já plenamente identificadas como derradeira reserva moral. eleva do à condição papal. cortada dos laços que a ligam a quaisquer valores espiri tuais e a qualquer ideal de vida superior. de modo a desgasta r a classe política numa sucessão de rituais autopunitivos sem resultado proveitoso. para que deixasse. Betinho ficou. até que não reste no cenário nada mais que duplicidade e hipo crisia. estéreis. nos meses subseqüentes. mas uma revolução psicológica que o envolveu numa luta equ ivocada e tragicômica. de outro. ele cresce até engolir o original. não p oderia produzir um resultado tão retilíneo: a ambigüidade das origens transmite-se. promovendo uma mutação do sentido mesm o da palavra “ética”. quase magicamente. onde as esqu erdas. até levá-la ao completo descrédito e precipitar a crise geral do Estado. por um grupo de intelectuais. esvaziar as velhas crenças m orais. Mas uma intenção oblíqua. arrisca a certar algumas pancadas em si mesmo. mais sutilmente. em benefício das esquerdas. A campanha pela “Ética” conquistou o apoio maciço da população e foi festejada como a aurora da redenção nacional. a opor tunidade de uma penitência reconciliadora. com a precisão de um cronograma divino. que castiga. tornando o apoio às esquerdas uma obrigação religiosa cujo descumprimento teria o efeito desequilibrante de uma transgressão. por seu lado. de ser uma regra para o homem g overnar a si mesmo. solapar as bases intelectuais dessas crenças. passasse a significar apenas a adesão m aquinal a certos slogans políticos e a hostilidade a certos grupos sociais. na intenção de vencê-lo pela i ndiferença. e num círculo mais seleto de ouvintes . desmoralizandose mais e mais a cada novo esforço impotente para moralizar-se. ou do Rigor. rebaixando-as e transformando-as em munição política de uso imediato contra os “i nimigos de classe”. eis como pela prática da caridade. Mantendo-se aparentemente acima do jogo político. assim. se apresentaria m ao povo como a única esperança de salvação. ao curso posterior da ação. quando não a indivíd uos em particular. Cercado pelos dois lad os. A campanha da “Cidadania con tra a Miséria” exerceu assim a função de “mão direita” da nova divindade — a Mão da Misericór e abençoa e redime. as mutações psicológicas profundas são o alvo prioritário de um plano de larg o escopo a ser realizado. e sobretudo o moralismo atávico da classe média. representada pelos inquisidores. foi a manifestação mai s evidente. beatificando o instinto de delação e fazendo da maledi cência a virtude primordial do cidadão brasileiro.182 OLAVO DE CARVALHO sorientar um inimigo do que imitá-lo: se ele investe contra o simulacro. formando a figura bifronte de uma estratégi a da perversão moral em nome da moralidade: de um lado. As campan has gêmeas da “Ética na Política” e da “Ação pela Cidadania” perfizeram harmoniosamente as du ces de uma nova pedagogia religiosa: a primeira ensinou o cidadão a julgar para não ser julgado. É claro que as duas mãos operavam em concordância: a Misericórdia era a retaguarda. a ovelha desgarrada podia ser reconduzida ao aprisco da ortodoxia socialista pelas mãos de um novo Bom Pastor. e se tornasse um pretexto edificante para cada qual projetar suas culpas sobre o vizinho. arrependido. puderam ser canalizados. xiítas e enragés de toda sorte. O que a campanha pela “Ética” produziu. a um sentimento de exclusão da comunidade humana. Como esta campanha. cujos efeitos se tornam mais dúbios à medida que se avolumam. se o deixa em paz. no pensamento gramsciano. oportunidade que a “campanha do Betinho” pr ovidencialmente estendeu a todos no momento exato. a segunda a escrever torto por linhas retas.

Claro que ninguém imagina que Betinho virá a público de clarar apoio ao PT. de erguer qualquer personagem à beatitude da fama ou pre cipitá-lo nas trevas da abominação 253. 253 “Há uma preocupação crescente no Palácio do Planalto de que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. acabe se transformando num gra nde ato da campanha de Lula. mas todos acham . que acontecerá no final do mês em Brasília.r de abençoar e excomungar...

London. E is aí realizada uma das metas básicas da campanha. como “O Bom Pastor”. que não há como não se estabelecer a vinculação. num esqu ematismo aterrador e insano. 5 ).O JARDIM DAS AFLIÇÕES 183 E como é sensato que a autoridade espiritual se incumba de arbitrar em última instânci a os conflitos mundanos. Jornal do Brasil. Para mim. como numa prestidigitação. a ninguém ocorrendo lembrar. o fie l da balança política nacional. o es tilo dele é tão repugnante quanto para os redatores de Veja. que o jui z fora nomeado por uma das partes em litígio 254. que. por achar que não seria bem interpretado dando a impressão de que é contra a campanha de combate à fome” ( Dora Kram er. para contrastá-lo. mas conheço a distinção entre bom-gosto e justiça. a ponto de abdicar de todo senso das proporções. 1994. impelindo-a no sentido da “revolução cultural” gramsciana — na qual é um dos objetivos prioritários a desapropriação da autoridade moral da religião e sua transf erência ao menos aparente à liderança esquerdista. aquela dirigida às massas. uma vez que a parte operacional do progra ma está todo nas mãos de petistas. aplaudi-lo ou abominá-lo é questão de gosto apenas. vêm arriscando desbancar o improvisado monopólio esquerdista da caridade? Não havendo nenhuma prova judicialmente válida con tra o bispo Macedo. assim resumida por Roger Scruton: “A assimetria moral — a expropriação pela esquerda do estoque inteiro da virtude humana — acompanha uma assimetria lógica. naquela altura. Durante algum tempo. Betinho acabou sendo derrubado por um truque s ujo igual ao usado contra seus adversários: julgar com malícia um ato lícito. coluna “Coisas da Política” ). o po der de excomunhão e beatificação foi exercido por Betinho de maneira implícita e discret a. Betinho. Um sinal é a reportagem de Veja sobre o pastor protestante Caio Fábio. D aí a convergência da campanha e do ciclo. enfim. quem quer que a esta se opusesse ou si mplesmente se mantivesse alheio aos seus encantos não tinha como escapar de um sen timento constrangedor de haver-se tornado um malvado. na capa. em suma. O governo argumenta que quem opera o cotidiano da campanha é que tem influência sobre a população e seu voto. Secundado pela imprensa. 11 jul. sem o mínimo apoio oficial. Mau por quê? Pel o pecado de ter sido absolvido nos processos que adversários lhe moveram? Por suas convicções políticas e sua amizade com o pensador direitista Jorge Boaventura? Por re colher contribuições de seus fiéis em vez de pedir dinheiro ao governo? Porque os rito s espetaculosos de sua igreja — tradicionais no protestantismo desde pelo menos Jo hn Wesley. 1985. Betinho tornou-se enfim. por um momento ao menos. isto é. mereceu ser rotulado. um pecador. com o “Mau Pastor”: o bispo Edir Macedo. precipitando alguns num debilitante ritua l purgativo e outros num esforço inglório de dar boa impressão. deixando livre para as esquerdas a estrada real que levaria da hegemon ia (domínio psicológico sobre a multidão) ao poder (controle do aparelho de Estado). seguiu a regra geral de uma estratégia esquerdista clássi ca. “Encontro da fome preocupa Itamar”. porque suas campan has beneficentes. um defensor im plícito ou explícito da imoralidade. Longman. 254 A campanha. e não muito diversos dos shows de pregadores católicos na Idade Média — ofend em a delicada sensibilidade estética de seus críticos? Ou. abençoado por Betinho por suas ligações com a esq uerda. foi-se tornando no entanto cada vez mais ostensivo. e o novo senso do pecado. Itamar observa os movimento s calado — até porque não quer tomar nenhuma atitude pública. As pessoas hoje temem desagradar Be tinho como outrora temiam cair em desgraça ante o clero. Tanto quanto eles. terminou por paralisar a todos. Toda essa mudança foi opera da em prazo anormalmente curto. uma p ressuposição de que o ônus da prova cabe sempre ao outro lado” ( Thinkers of the New Lef t. mas não tomo minhas opiniões teológicas como artigos da lei penal . ou ao menos de correr o grave risco de ser toma do como tal. p. O próprio presidente da República tornou-se assim prisioneiro do poder de chantagem psicológica de que a campanha contra a fome investiu o sr. julgo absurdas muitas das interpretações que o bispo faz da Bíblia. este a um círculo m . Quem entende que Betinho nunca te ve outra preocupação na vida senão de ordem política percebe que com a campanha contra a fome sua maior contribuição foi completar um giro de cento e oitenta graus na estra tégia das esquerdas. dando-lh e ares O resultado esteve muito próximo de ser atingido: uma vez identificados o ideal de moralidade pública e a retórica da esquerda.

a moral cristã. “Após tal preparação. A Nova Ciência da Polít ica ( trad. que viu serem levadas à prática pelos revolucio nários puritanos. Richard Hoo ker já descreveu coisas bem parecidas. O passo seguinte consiste em con centrar o ressentimento popular sobre o governo instituído. 2a. No século XVI. em Gramsci. Que cristão sincero. hipersensível às aparências e inconsciente das motivações profundas de seus próprio s atos. 1982. Com seu ridíc ulo mea culpa político ante a imprensa. e. pp. os oradores provam a sua sapiência à mult idão que. mostrou que é apenas mais um intelectual bra sileiro. uma unidade indissolúvel255. A rep etição freqüente desse ato levará os ouvintes a crerem que os oradores devem ser homens de grande integridade. mesmo quando bons.. jamais teria atinado com essa conexão. o que é até um du plo bem: ajuda o pobre que precisa do dinheiro e ajuda o mau que se redime parci almente ao contribuir para o bem alheio. Editora da Universidade de Brasília. extraído de Eric Voegelin. o comportamento das altas classes. tal como existem no mundo devido à fraqueza human a. é preciso antes de tudo ter uma ‘causa’. 255 Nem a estratégia nem a tática são totalmente novas. José Viegas Filho. nada tem a opor a que um homem receba dinheiro dos maus para dar aos necessitados. rejeitaria uma corda roubada que alguém lhe estendesse para ajudá-lo no salvam ento? Se Betinho fosse um homem espiritual de verdade. Brasília. da qual Betinho se reclama.ais seleto de prováveis formadores-de-opinião: combate político e combate cultural for mam. atribuindo às suas ações ou inações todos os defeitos e a corrupção. fervor e santidade. pois somente homens particularmente b ons podem ofender-se tão profundamente com o mal. Imputando o mal a uma instituição específica. em especial. ed. tornou-se culpado de inconsistência m oral. terá chegado o momento de recomendar uma nova forma de governo como ‘o remédio soberano para todos os males’. humilhando os acusadores maliciosos. Inocente da acusação. por si. Na verdade. Isto porque as pessoas que estão possuídas de aversão e descon- . de crime. Eis aqui um resumo. 102-103 ): “Para colocar em marcha um movimento. teria defendido a lisura de seu ato em termos veementes. podendo salvar um náuf rago. O homem que a possui deverá criticar severamente — ‘onde a multidão possa o uvi-lo’ — os males sociais.

a téria-prima social fica em condições de receber a representação essencial de um líder. são mais inclinadas do que os homens a servir como espiãs.184 OLAVO DE CARVALHO Nesse quadro. finalmente. mesmo os que se opunham interiormente à política de esquerda se viram obrigados a colaborar com e la. terá de processar a Prefeitura — da qual ela é um órgão — para obter o dinheiro para o play ground. Um exemplo de como funciona: O Estatuto do Menor dá a qualquer cidadão brasileiro o direito de processar uma escola — municipal. por mais errônea que seja a associação. tinham sido calculados de fora para encaixar-se na harmonia de uma orquestração geral. por puro medo. e a ânsia de delatar tornou-se não a penas um emblema da virtude. precipita uma crise de legitimidade onde o Estado é acusado de não cumprir suas próprias leis. “É necessário ainda que o s líderes ‘moldem as próprias noções e os conceitos mentais dos homens de tal forma’ que os seguidores automaticamente associem passagens e termos das Escrituras com a sua doutrina. e fornecerão farta ajuda material aos líderes do movimento. são mais liberais no que tange à ajuda financeira. e mais crêem no que menos hajam experimentado antes’. de tal modo que a humanidade passa a ser dividida entre os ‘irmãos’ e os ‘mundanos’. faça o que fizer. em universal bisbilhotice. a tática da inculpação não poderia deixar de dar os resultado s mais rápidos e promissores: onde todos têm algo a esconder. negligenciarão seus próprios interesses para devotar todo o seu tempo a serviço da causa. Isto porque. que só falha qu ando a ral. continua indiferente aos novos direitos e . A escola. será difícil. todos têm pressa em subi r à tribuna dos acusadores para não cair no banco dos réus. porque são emocion almente mais acessíveis. onde as peças isoladas nem mesmo suspeitavam que seus gestos. com efeito. Ape sar da posterior mudança inesperada no rumo dos acontecimentos 257. reivindicação que. ensina às esquerdas o preceito da “reivindicação impossível”. de modo que. com ou sem plena consciência do resultado a que isto poderia levar. uma bóia para flutuar incólume sobre um mar de delações. o expediente de precipitar a classe política numa crise de autoincul pação surgiu como uma contribuição habermasiana que o talento brasileiro do improviso en xertou na estratégia de Gramsci. fi lhos. criando um ambiente de mal-estar e recriminações mútuas que depois será denunciado pela imprensa c omo sinal de acefalia na administração municipal. com igual automatismo. que tomavam por pessoais e espontâneos. em seguida. rompê-lo através da persuasão.” 256 A essência da tá i resumida na boutade pintada nos muros de Paris em maio de 1968: “Seja realista: peça o impossível”. o resultado do exercício desse “direito” será apenas forçar inúmeras pr ituras a se processarem a si mesmas pelo delito de falta de dinheiro. mas um escudo contra a indiscrição alheia. mal “trabalhada” pelos agitadores. aceitarão voluntariamente os consel hos dados pelos doutrinadores. ainda segundo Hooker. de repente. digamos — que não tenha um play ground. ignorem os conteúdos das Escrituras que se revelem incompatíveis com a nova doutrina. a luta pela promulgação de direitos e normas proposit damente idealísticos e impraticáveis. criados e amigos. Jurgen Habermas. “Com essa consolidação. essa fase da v ida nacional ficará população. se não impossível. vivendo de acomodações que sedimentam no fundo de cada alma um denso resíduo de c ulpas mal conscientizadas. gera um a onda de indignação moral. não atendida pelo Estado. p restando informações sobre os vínculos afetivos dentro de seus círculos. atendida. É um efeito calculado. e. A cumplicidade universal r everteu. “Vem depoi s o passo definitivo: ‘persuadir os homens crédulos e inclinados a tais erros gratif icantes de que sobre eles recai a luz especial do Espírito Santo’. e. e. Sendo óbvio que o dinheiro em grande pa rte dos casos não há. “Uma vez criado um meio social dess e tipo. a esquerda enxergou tão lucidamente o tabuleiro político e dirigiu com tamanha habilidade o movimento do conjunto. a aut oridade se entrega inerme aos golpes de seus inimigos 256. estão taticamente bem situadas para influenciar maridos. As mulheres desempenham função especialmente importante. Foi assim que. Nunca. tais pessoas preferirão a companhia de outras envolv idas no movimento à de indivíduos a ele estranhos. Aplicada sobre um pov o que há séculos cultiva a ambigüidade motentamento para com as coisas presentes são suf icientemente loucas para ‘imaginar que qualquer coisa que lhes seja recomendada as ajudaria. em toda a História do Brasil.

segundo o qual denúncias e acusações — que ameaçavam tornar-se o tema dominante da discussão política nacion l — são na verdade uma ocupação menor. Será que ninguém leu que Lênin recomendava fomentar a corrupção para depois denunciá-la? Ou o mito da cordialidade b rasileira impede de acreditar que exista aqui alguém capaz de tanta malícia? 257 Mud ança graças à qual a onda moralizante. fizer am o mesmo com as dos acusadores. Na economia divina. jamais se recusou a usar dos préstimos dos maldosos para produzir o bem mediante uma engenhosa e sutil redistribuição dos males. sem ter-se omitido na luta contra a corrupção. É inac reditável como quase ninguém neste país parece perceber isso. bem diferente do esperado e desejado pela inquis ição esquerdista. no v eredito implacável das urnas. até os Mercadantes acabam fazendo o bem que não querem. Afinal. A Providência. O grande vencedor foi um homem que. encarnou no entanto o princípio da sensatez. O exemplo da escola municipal é só um modelo em min iatura: a Constituição de 1988 é um sistema completo de armadilhas habermasianas. tanto os campeões da corrupção quanto os arautos da morali dade: se as denúncias de corrupção liquidaram as carreiras políticas dos acusados. acabou levando a bons resultados. rejeitou de um só golpe. a ponto de a comentarista política Dora Kramer c oncluir que “ética não dá voto”.não desempenha sua parte na comédia. o curso das coisas tomou um rumo positivo. que não deve distrair do essencial: os planos objet ivos e o trabalho racional para um futuro melhor. De fato. contrariando os planos de seus mentores. a agitação de umas centenas de intelectualerdas à superfície do momento histórico pode ser apenas a expressão pervertida e caricatural d e uma exigência profunda e autêntica do nosso povo. fundamentalmente são. que dispõe de um esto que infinito de Engoves. . O povo brasileiro.

o dicurso “ético” tem. cit. mas desde quando a esquerda tem algum talento profético? A casta sacerdota l de esquerda criou os pressupostos ideológicos e psicológicos em que se assentou a vitória da direita. pp. 1960 ). levando-o a colaborar com o Estado que pretendia destruir. a conferência de A vitória de Fernando Henrique foi para o Brasil algo assim como a libertação de uma n eurose. Numa outra históri a de Pirandello. minha apostila O Abandono dos Ideais. desenvolverá no homem a acuidade moral de um tatu-bola. e os jovens neuróticos não sabem conquistar a maturidade senão pelo endurecimento da alma259. que. 1935-1945 ( trad. a esquerda brasileira. Pretendendo servir-se dela. assim como a família do louco.. F. tantas vezes. se não chegou à vitória. para alguns dos próceres da campanha. deixava de ser um sintoma de demência ou de maldade pessoal de seu autor para se revelar como um ato político perfeitamente coerente com a cosmovisão das esquerdas. que fizeram dela. exatamente como a corte de Henrique IV. Payot. fazendo nisto um investimento int electual tão gigantesco. praticada a sério . O Falecido Matias Pascal. no sentido maquiavélico do termo. Itatiaia. Colocado no seu devido lugar dentro desse panorama. Mas. ele pode persuadir o orador mesmo. ed. não somente asc endeu à condição quase sacerdotal de condutora moral da nação. do que o resíduo de crenças marxistas que. mas sobretudo Luís Mir. 1966 ) como o mecanismo básico das neuroses. em tudo e por tudo. op. IAL. com os valores que a suste ntavam e com os objetivos da estratégia que ela determinava. para então poderem se apresentar como médicos da doença que eles mesmos haviam prov ocado. Rio. De fato. tb. a súbita e imprevisível resolução dialética da confronto estático entre ladrões e dem gogos. o ciclo de “Ética” assumia um sentido claríssimo. encontrava aí sua razão de ser. ao menos soube provar a si mesma que a merecia. Dulles. ao dominar a técnica do maquiavelis mo gramsciano que lhe inspirou as campanhas pela “Ética” e pela “Cidadania”. O Retrato ( Belo Horizonte. 11-13. Ora. Se este amadurecimento lhe custou a perda da sensibilidade moral e a completa prostituição do senso ético à ambição de poder. V. a ideologia democráticoiluminista subentendida no concei to de “ética na política” é uma corrente bem mais forte. Apenas.. O Comunismo no Brasil. no qual muitos desejavam manter preso o nosso país até precipitá-lo no desesper o. vista como expressão deste sentido. representando hipocritamente o papel da corte de Henrique IV para enganar o protagonista. na peça de Pirandello. Na esquerda. acaba por se comport ar. que. aconteceu que esse endu recimento se refletiu nas almas e nas vozes. pel o utopismo. nenhum artifício poderia ser mais útil e eficaz.. 2a. aparentemente tão distante da atualidade local. Rio. o personagem acaba por descobrir que . no presente estágio da História mund al. Oswaldo Peralva. dando aos candidatos da esquerda um a aparência de bonecos alucinados. com toda a sua brutal falsificação da realidade. redimindo-se enfim de uma história marcada pela ingenuidade. por outro lado. pela completa falta de senso prático. 258 V. e John W. Par is. O tema mesmo da confe rência. uma força própria: ele pode contaminar quem pretenda simplesmente usá-lo. o objeto de chacota de russos e chineses258. é implesmente porque é uma esquerda neurótica. A Revolução Impossível. Nova Fronteira. e é descrito por Paul Diel ( Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque. 1987. ninguém contava com este res ultado. c ontinha a secreta e verdadeira intenção dos seus esforços. o mais fr io e cínico dos realistas. e. tem raízes psicológicas pro fundas. malgrado sua antigüidade. Foi realmente um achado. a esquerda acabou por servi-la: o ator foi engolido pelas falas do personagem. Numa operação destinada a perverter o senso ético da população para rebaixá-lo a instrumento a serviço de fins políticos imediatos. esp ecialmente capítulos 4 e 5. desconfiado. como também alcançou aquele pa rão de eficiência fria e cínica que ela tanto invejava na direita local e nas esquerda s de outros países. Raul de Sá Barbosa. 1985 ). independentemente das intenções maquiavélicas p or trás do palanque.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 185 marcada para sempre como um momento em que a esquerda acreditou estar muito pert o de possuir a hegemonia e conquistar o poder. 259 O processo de degradação interior q ue leva o jovem idealista exaltado a tornar-se. Pessanha. do que a pedagogia ética de Epicuro. num choque de retorno. diante da qual o eleitor. julgou m ais prudente votar em Fernando Henrique. a respeito.

um número na carteira de identidade. e agora. reduzida a espectadora desde fora do aparelho de Estado. fingindo sa tisfação. A farsa pirandelliana da “Ética” ter minou assim por restaurar. e declarar que era exatamente esse o resultado que pretendia. a es querda tem de renegar o fruto dos seus esforços. um pouco da ética que a esquerd a pretendera usar como instrumento para sua “longa viagem para dentro do aparelho de Estado”. A farsa dent ro da farsa . um estado civil. em proveito da direita. ou então de aplaudi-lo.sua pessoa real tem menos substancialidade do que sua “sombra” social: um endereço.

186 OLAVO DE CARVALHO devolve-nos à realidade: o Estado democrático à americana é o grande beneficiário da estra tégia socialista. É que o auto-engano estratégico já estava anunciado, de antemão, pelo au toengano na esfera da ideologia. Vale a pena recapitular o caso. A influência domi nante sobre a intelligentzia brasileira nas últimas décadas foi, sem qualquer possib ilidade de dúvida, o marxismo. Pode-se talvez dizer o mesmo da intelligentzia mund ial, mas, na Europa e nos EUA, é certo que houve, ao lado da corrente marxista, po derosas correntes liberais, católicas e conservadoras; poderosas não somente pelo núme ro, mas pela qualidade de seus representantes, bem como pela intensidade da sua ação pública. Os nomes de Friedrich Hayek, Benedetto Croce, Raymond Aron, Ortega y Gas set, Daniel Bell, Arthur Koestler, marcaram a história do pensamento político, pelo lado liberal, tanto quanto os de Sartre e Althusser do outro lado. O conservador ismo falou com rara eloquência pela boca de Saint-Exupéry, Georges Bernanos, T. S. E liot, como hoje pela de Alain de Benoist e Roger Scruton. Nada de semelhante se observa no Brasil, onde, depois de João Camilo de Oliveira Torres e José Guilherme M erquior, a voz da direita não se fez ouvir senão através de Plínio Correia de Oliveira, demasiado comprometido com um movimento paramilitar para que suas idéias possam co ntar num debate pacífico, e de Gustavo Corção, demasiado rígido — apesar do talento fulgur ante — para poder desempenhar num diálogo algo mais que o papel de censor. Houve, de pois, Roberto Campos, mas sua argumentação, brilhante como poucas, restringe-se aos temas econômico-administrativos, sem poder ter um alcance cultural mais abrangente , à altura dos méritos do ex-ministro do Planejamento. Análogos méritos e análoga modéstia d o leque de assuntos observam-se em Aristóteles Drummond e Donald Stewart Jr.. Rest a, isolado como um monumento em meio ao planalto de Brasília, José Oswaldo de Meira Penna — o único polemista que, à luz dos pressupostos liberais, empreende uma crítica cu ltural de mais vasta escala e, para as esquerdas, atemorizante 260. Mas, em face desses poucos nomes, estende-se como um oceano a 260 horda dominante dos marxistas, marxianos, neomarxistas, socialistas, progressist as, nacionalistas de esquerda etc. etc. Sobre essa massa barulhenta e autoconfia nte, a queda do Muro de Berlim teve um efeito dos mais singulares: fez com que e la recuasse no tempo, e, já não conseguindo ostentar por divisa esquerdista o nome d o marxismo, redescobrisse, como substitutivo de seu ideal revolucionário perdido, o esquerdismo do século XVIII: o iluminismo. Acomodação tipicamente brasileira: um mod o de deixar de ser marxista continuando marxista. Pois Marx já deixara preparado, para essa gente, o ardil da operação retrô: se o Brasil não podia tornar-se socialista, era simplesmente porque Historia non facit saltum, e antes da Revolução Russa tínhamos de realizar... a Revolução Francesa. A redescoberta desse ardil foi o alívio após o min uto de terror — aquele terror que invade uma tropa de meninos ao anteverem a depre ssão que se seguirá ao término de uma brincadeira sangrenta (como em Lord of the Flies de William Golding). Não sabendo viver sem um ideal revolucionário, não concebendo ou tro sentido da vida senão o sentido da História, a tropa esquerdista, desprovida de uma regra de jogo, tinha chegado a ver abrir-se diante dela o abismo sem fundo d e um desespero beckettiano. Mas, tão logo as trombetas anunciaram a ressurreição de Di derot e Voltaire, Condorcet e D’Alembert — logo acompanhados de La Mettrie, Sade e d emais libertinos célebres —, num instante o balão murcho do esquerdismo nacional viu-s e inchado de novo, trocando de retórica como quem troca de cuécas: em vez de guerrea r o capitalismo, o caso agora era lutar contra a oligarquia agrária, a moral católic a etc. Isto não era, afinal, tão diferente da velha estratégia do Partido Comunista, q ue propunha a aliança da esquerda com a “burguesia nacional” contra os “senhores feudais” do Nordeste, supostamente aliados ao imperialismo americano para a expoliação de seu s servos-da-gleba 261. Assim, tal como o adepto da New Age, que rias. O cacoete marioandradino de começar frases com pronome oblíquo da terceira pes soa, que o leitor automaticamente toma como conjunção condicional, também só serve para atrapalhar. 261 Caio Prado Jr. já havia provado a falácia dessa estratégia, num dos me lhores livros produzidos pelo esquerdismo nacional ( A Revolução Brasileira, São Paulo

, Brasiliense, 1969 ). Mas não era bom lembrar isso, de um lado porque solaparia a s bases teóricas da nova retórica “iluminista”, de outro porque esse livro, corrigindo u m erro, ajudara a criar outro pior: a adesão maciça da esquerda à tese da luta armada. Paulo Francis, talento extraordinário e homem de vasta cultura ( literária e política, entenda-se ), poderia fazer coisa idêntica, mas de uns anos para cá deu de escrever num estilo telegráfico que não argumenta nem prova, só afirma, e acaba por ser menos atemorizante do que irritante, fomentando antipatias desnecessá-

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encontrando dificuldades nesta vida decide fazer uma regressão hipnótica para ir res olver os problemas de uma encarnação anterior, a esquerda recuou em busca de uma Bas tilha que fosse mais fácil de derrubar do que o capitalismo moderno. A rapidez com que se fez a adaptação bem mostra a leviandade, a fatuidade da intelligentzia nacio nal. Ora, o único lugar do mundo onde os ideais iluministas foram realizados na máxi ma extensão possível das faculdades humanas foram os Estados Unidos. A Revolução Frances a, um morticínio inútil, foi seguida por quase um século de vaivéns e a França só se estabil izou como república democrática por volta de 1870, quando os EUA já haviam se tornado uma grande potência. As duas guerras mundiais do século XX tiveram como único resultad o duradouro a destruição final das potências coloniais européias e a ascensão dos EUA à cond ição de Império mundial: o nazifascismo e a URSS não f oram, dentro do curso maior da Hi stória, senão momentos dialeticamente absorvidos na linha perfeitamente nítida de dese nvolvimento que leva da Revolução maçônica à mundialização do Estado leigo e à americanização do. A legitimação dos EUA como polícia do mundo (globalcop) — inclusive aos olhos de uma parte considerável do mundo islâmico supostamente hostil —, por ocasião da Guerra do Go lfo, representou o ponto culminante, até agora pelo menos, de uma ascensão irresistíve l do Império mundial: ao aceitarmos a filosofia política americana, colocamo-nos vol untariamente sob o governo de quem a promove, tal como, entre os povos antigos, copiar a Lex romana e submeter-se ao governo romano eram uma só e mesma coisa 262. O que impediu a intelectualidade mundial de enxergar uma coisa tão óbvia foram dois fatores: de um lado, a crença generalizada na teoria Hobson-Lênin, que tornava insi vível a independência do imperialismo político, cultural e psicológico em relação a supostas motivações econômicas; de outro, a crença residual na vitalidade da idéia de “nação”: acredi se que o impulso de independência nacional poderia resistir à 262 Não é aqui, evidentemente, o lugar para discutir mais aprofundadamente a tendência ger al da História para a unificação da humanidade sob formas de governo cada vez mais abr angentes e complexas. De qualquer modo, essa tendência é visível, é um fato e não tem de s er demonstrada no plano teórico. Para maiores esclarecimentos, se necessários, v. o clássico de Ellsworth Huntington, Mainsprings of Civilization, New York, John Wile y and Sons, 1945 ( várias reedições ).

expansão do imperialismo, quando na verdade a própria emergência do conceito de nação foi apenas um dos momentos dialéticos que levaram, como vimos parágrafos atrás, ao nascime nto do Império mundial. O Império, aliás, não suprime as nações, já que, por definição, se co ui de reinos independentes, diferentes entre si, que ele apenas subordina e coor dena em vista de fins globais que cada reino não precisa enxergar senão parcialmente . A luta anticolonialista do Terceiro Mundo não pode prejudicar em nada o Império em ergente, cujo poder se assenta em bases totalmente diferentes das dos antigos im périos coloniais. Só pode ajudá-lo, na medida em que leva as novas nações a adotarem, junt o com subterfúgios verbais socialistas, as instituições e muito da ideologia do Estado democrático americano. Ao adotar a estratégia de fomentar as revoluções nacionalistas d o Terceiro Mundo, o comunismo internacional aprisionou-se a si mesmo na armadilh a da Revolução Americana. Do ponto de vista estritamente jurídico e político, a mundiali zação do Império é mesmo um benefício para as nações menores, antes submetidas ao arbítrio de tências secundárias, como os velhos impérios europeus ou a URSS; o Império mundial garan te-lhes um tribunal universal ante o qual podem, em pé de igualdade, lutar pelos s eus direitos com muito menos desgaste do que em sangrentas guerras de libertação. Se gundo demonstrou Bertrand de Jouvenel, a expansão dos direitos dos pequenos se faz sempre às custas das hierarquias intermediárias e da formidável concentração do poder nas mãos de poucos. O diagnóstico de Jouvenel é a versão política daquilo que a racionalização w beriana é no campo sociológico. Do ponto de vista econômico, o advento do Império mundia l é também vantajoso, segundo parece. Os argumentos de Roberto Campos, Paulo Francis , J. O. de Meira Penna, Donald Stewart Jr. e outros polemistas neoliberais (e af ins) em favor da internacionalização da economia, até onde posso compreendê-los, são muito

sólidos e a esquerda não lhes tem oposto senão rosnados e imprecações, onde não há nada a co preender. Mas a política, o direito e a economia, destacados do fundo vivo da tram a social, são apenas abstrações, no sentido pejorativo do termo. E, quando examinado d o ponto de vista de suas conseqüências psicológicas, culturais e espirituais, a ascensão do Império mundial é, como vimos ao longo dos últimos capítulos deste livro, uma

188 OLAVO DE CARVALHO ameaça tenebrosa. A derrota do comunismo, é claro, deve ser celebrada por todos os h omens de mente sã, e, se a expansão do Império foi o preço que pagamos pelo fim do p esa delo soviético, tudo bem: pagamos sem bufar. Mas, de outro lado, o antagonismo con ceptual das formas políticas denominadas “neoliberalismo” e “socialismo” ou “socialdemocraci a” tende a obscurecer o fato de que aquilo que se propõe como perspectiva de futuro a um mundo pós-socialista não é o neoliberalismo “em si”, como mera estrutura abstrata de um Estado possível, e sim o neoliberalismo encarnado na forma concreta do Império, e aliás fortemente tingido de elementos socialdemocráticos. O destino do mundo não se d ecide hoje num conflito entre formas de regimes possíveis, mas sim, por trás desse c onflito aparente, na contradição interna do Estado imperial, que parece só poder cresc er à custa da destruição do legado espiritual de onde ele extrai sua única legitimação moral possível. É neste e só neste sentido que se pode ver alguma utilidade na expressão de D aniel Bell sobre o “fim da ideologia”: no novo quadro mundial, já não se trata de um con flito entre ideologias por mais que um hábito de dois séculos i duza muitos intelect uais a n continuarem encarando as coisas por esse prisma , mas sim de um confront o entre os elementos espirituais e os elementos ideológicos no seio do Estado impe rial, conflito que por força da expansão desse Estado se alastra para o mundo todo. Alastrase até o ponto de contaminar até mesmo aquelas forças que, nominalmente, são ou s e imaginam as mais antagônicas ao Império: pois no coração do mundo islâmico o que se vê hoj e é que a resistência à expansão imperial acaba por endurecer e desespiritualizar a trad ição mussulmana, fossilizando-a no simplismo belicoso e grosseiro do chamado fundame ntalismo263, isto é, reduzindo a religião a um receituário ideoO nome calcado no de ce rtos movimentos protestantes é totalmente enganoso. Sugere, por alto, a idéia de ret orno às fontes, de restauração de uma pureza originária, mas qual o movimento reformista ou revolucionário que não se adorna dessa mesma pretensão? Na verdade, o radicalismo islâmico, pretextando um retorno às fontes, propõe às vezes uma total politização do impulso religioso, numa linha bastante semelhante à da “teologia da libertação” católica; e ele se afasta mais ainda das origens desde o momento em que despreza o legado espiritua l das antigas escolas místicas, o tassawwuff ou “sufismo”, o qual, com todas as distorções e desvios que sofreu, ainda conserva alguns valores essenciais à tradição islâmica. V., a respeito das diferentes correntes de pensamento islâmicas e seus antagonismos, Mohammed Arkoun, La Pensée Arabe, Paris, PUF, 1979, especialmente Chap. V, e id. e t al., Les Musulmans, Consultation IslamChrétienne, Paris, Beauchesne, 1971. 263 lógico como qualquer outro, fazendo com que cada novo jihad só sirva para desvitaliz ar e reduzir a uma horrenda caricatura a tradição que imagina defender. Se, de um la do do mundo, o Estado imperial leigo usurpou o manto de Cristo, do outro lado o sionismo ateu usurpou a autoridade de Moisés e a ideologia fundamentalista usurpou a mensagem corânica trazida por Mohammed. O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a possibilidade de sobrevivência espiritu al da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se unir am num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas re ligiões pelo menos das três grandes religiões do grupo abrahâmico , de cujo crédito essas deologias se alimentam parasitariamente. A total laicização do Estado imperial troux e consigo a laicização de todos os conflitos, o rebaixamento de todas as religiões e d e todos os valores civilizacionais, a degradação de todos os motivos pelos quais os homens vivem e morrem. Quem enxerga, hoje, que um século de conflito entre sociali smo e capitalismo terminou pela ascensão do Império mundial onde elementos socialist as e capitalistas foram absorvidos e superados na ideologia do Estado leigo, com preende que o fim do dualismo ideológico, sendo uma realidade, não tem efetivamente o sentido que lhe deu Daniel Bell, mas sim o da entronização de uma espécie de super-i deologia a “metade desvitalizada” do corpo cristão que não encontra concorrentes hoje no mundo senão outras duas antigas religiões igualmente desespiritualizadas e rebaixad as à condição de ideologias. Os intelectuais, é claro, em geral não enxergam as coisas nes sa escala, mas insistem em espremer tudo no estreito quadro de referências a que s

e habituaram em um século de guerra ideológica. Não vêem, assim, outras opções senão restaura artificialmente os velhos conflitos ideológicos, numa espécie de fúria regressiva que se obstina em não reconhecer a passagem do tempo, ou então festejar sob o enganoso nome de “fim das ideologias” a vitória de uma delas, sem perceber que, ao derrotar seu inimigo soviético, o Império ascende à condição de único portador do cetro supremo de laici zador do mundo, despindo-se de todos os escrúpulos religiosos que a luta contra o comunismo o obrigava a conservar. O fato é que, sepultado o comunismo, os Estados Unidos voltam a ser a sede central da Revolução mundial, tal

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como no século XVIII foram seu berço. E o herdeiro nominal da tradição cristã assume sua i dentidade pós-cristã, ou anticristã, precisamente no momento em que as outras duas gra ndes religiões vizinhas se encontram também desvitalizadas, laicizadas e cortadas de suas fontes espirituais. Pela primeira vez na história do mundo a humanidade vive o perigo de uma ruptura completa com o Espírito, de uma total imersão no “historicism o absoluto”, de um total fechamento da porta dos céus. Em face desse perigo, é preciso que, no novo quadro mundial, cada homem empenhado na defesa do Espírito, reconhec endo a mundialização do Império como um fato, e mesmo parcialmente como um bem no sent ido de que afinal a democracia preserva algumas liberdades nominais que em si são preciosas para a subsistência do ser humano pensante , mantenha afiado o sentido crít ico e saiba exigir do Império aquilo que se deve exigir de toda organização social e p olítica: que sirva ao sentido da vida, em vez de usurpá-lo numa nova idolatria. Isto significa, rigorosamente, abster-se de qualquer tomada de posição ideológica (seja no sentido de uma restauração saudosista do dualismo, seja no da celebração do novo quadro uniideológico), e oferecer sistemática resistência à noção mesma inerente a todas as ideol gias de que algum regime político, bom ou ruim, deva ter sobre as almas humanas um a autoridade espiritual comparável à de uma tradição religiosa. Para mim, pessoalmente, não faz tanta diferença, sob esse aspecto, que a organização da sociedade seja socialdem ocrática, neoliberal, que seja mesmo fascista ou comunista: havendo liberdade, des frutarei dela com prazer e, na tirania, ficarei grato pela oportunidade de ser úti l de algum m odo na luta contra o tirano. As duas hipóteses só diferem do ponto de v ista do conforto físico: para a realização do sentido da vida, uma vale tanto quanto a outra, e na verdade os regimes piores fazem às vezes brotar as melhores qualidade s humanas, prontas a dissolver-se tão logo restauradas a ordem e a liberdade (a es querda nacional sob a ditadura deu-nos a melhor prova disto). O reino do Espírito, que pretendo habitar, não é deste mundo, e ele é a única coisa necessária, a única que faz com que a vida seja digna de ser vivida. Todo ideal social, econômico, jurídico ou p olítico, por mais estapafúrdio que seja, é digno de ser defendido por quem creia nele, desde que não caia no propter vitam vivendi perdere causas. Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como

intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grande tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, t odo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.

Os neoliberais têm toda a razão em apontar os Estados Unidos como um exemplo de que a democracia capitalista é para dizer o mínimo o menos inviável dos sistemas políticos. Mas os méritos do sistema norte-americano não são devidos à idéia democrática enquanto tal, nem muito menos ao capitalismo como tal, mas ao fato de que uma e outro, para ab sorver e neutralizar hegelianamente o cristianismo na nova sociedade que geraram , tiveram de cristianizar-se ao menos em parte. Os valores cristãos, profundamente arraigados na mentalidade popular, serviram constantemente de balizas que limit avam e disciplinavam os movimentos do Estado e do mercado, dando um sentido ético e até espiritual ao que por si não tem nenhum; e, como o discurso político era fatalme nte interpretado e julgado em função desses valores, mesmo o p olítico que não acreditas se neles, mesmo o maçom de estrita observância, tinha de proceder exteriormente como cristão. Com extrema freqüência acabava por vigorar na prática o princípio católico “age c se tivesses fé e a fé te será dada” , e o cristianismo de mera pose acabava por dar aos atos políticos um sentido e um efeito cristãos de pleno direito. O exemplo mais cara cterístico é Abraham Lincoln. Esse homem destituído de qualquer crença íntima num Deus pes soal, esse devoto do Estado norte-americano que a seus olhos era a incorporação viva do fatalismo histórico conduzido pela Providência anônima de um deus iluminista, era no entanto assíduo leitor da Bíblia. Mas ao mesmo tempo esse self made man que incen tivava a difusão da lenda de sua falta de instrução era um erudito às antigas, um conhec

Quintiliano. mas imitava das falas dos pre- .edor profundo da retórica de Cícero. Ele lia a Bíblia c omo retórico. em busca de material e inspiração e não apenas recheava seus discursos de citações bíblicas. Hamilton e Burke.

gerada por uma casta sacerdotal. op. lei e ordem. pois descendiam do primeiro povo c ristão da Europa. Fr iedrich Karl von Savigny já havia percebido que todas as legislações do mundo moderno eram expressões de valores cristãos. cit. Segundo fato: à medida que. seguindo a linha fatal dessas conseqüências. O Estado democrático só consegue revestir-s e uma aura de prestígio religioso na medida em que cede e cede muito à influência da r eligião. deu às suas palavras e atos um sentido cristão. as coisas parecem equacionar-se de . amortecendo-lhes o impacto contra o fundo acolchoado de uma coe rência ética que dava um sentido de unidade e universalidade às correntes diversas as quais. Companhia das Letras. e como um exemplo de político inspirado em ideais cristãos: o sac erdote de César tornou-se um apóstolo de Cristo 264 mais um resultado impremeditado. Exemplos similares poderiam multiplica r-se indefinidamente: a hipocrisia que se reveste do manto de Cristo cristianiza -se de algum modo. contradições que a cultur a cristã atenuava. Aí é que se vê a sabedoria do conselho de S. São Paulo. Ao mesmo tempo. que cobra das almas uma pureza utópica só para poder mais facilmente precipitá-las no abismo da auto-acusação exibicionista265. alardeando até mesmo p ecados fictícios. e. é notório que o credo american o democracia. para enfim se precipitar num abismo d e erros e loucuras. largadas a si mesmas. trad. Era. tão logo se livra da religião. voto. “Abraham Lincoln”. só aos poucos e graças a esforços prodigiosos de gerações de propagandistas se disseminou entre populações que. João Crisóstomo. cujo destino lhe interessava tão pouco quanto a s alvação da própria alma. a sociedade s e descristianiza. 1991. No caso norte-americano. fatal que as idéias democráticas recebessem espontaneame nte uma interpretação cristã. onde uma elite de céticos e inimigos da fé governa a ma ior população cristã do mundo. O resultado foi que o povo. seleção e pre fácio de Paulo Francis. assim. 17 ss. se rebela em seguida contra o seu criador. que à me ida que o Estado se desmascara e manifesta aos olhos da sociedade o intuito laic izante que o 264 V. José Paulo Paes. perde autoridade e legitimidade.. o que terminou por fazer dos Estados Unidos essa contrad ição viva: um Estado leigo maçônico. pp. 265 Foi Jean-Jacques Rousseau informa-nos Paul Johnson. liberdade de imprensa etc. mu ito antes. Muito antes dos modernos estudos sobre “religião civil”.190 OLAVO DE CARVALHO gadores religiosos muito do pathos característico que distingue a sua oratória e faz dela uma das mais poderosas da língua inglesa. patenteiam-se também as contradições do sistema político. ele repete nisto o ciclo eterno da casta governante que. tendem a refugiar-se num fundamentalismo rancoroso. Daí também dois fatos da maior importância. de que ma is importa confessar Cristo com a boca do que com o coração: porque a boca está sob o nosso comando. o lado irrac ional de uma democracia que ao mesmo tempo expande ilimitadamente os direitos do s cidadãos e os submete à vigilância opressiva da burocracia jurídica onipresente e os m anipula por mil e um artifícios de controle social científico. as forças cristãs. que inaugurou a moda de tomar o exibicionismo por sinceridade. sentindo-se expulsas da terra que lhes fora pr ometida. em Onze Ensaios. move desde dentro. Deus é menos exigente com o homem do que o dogma do sincerismo m oderno espécie de hipocrisia às avessas. e as profundezas do nosso coração só Deus conhece. já traziam o cristianismo no sangue. o esplêndido ensaio de Edmund Wilson. subentendendo que esse fundo cristão lhe dava uma unidade. assumem logo as figuras inconciliáveis e eternamente hostis de Leviatã e Beemoth. acabou por entrar para a História como o libertador dos escravos. um sentido e uma proteção sem os quais não poderiam sobreviver por muito tem po sem decaírem ao estado de “ficções jurídicas”. ao mesmo tempo que realizava sua meta suprem a de preservar a unidade do Estado providencial. e Lincoln. hostil a todo progr esso que não obstante as beneficia materialmente. confirmando a definição weberiana da História. Primeiro. O conflito interno da consciência protestante que inspira o capitalismo e depois reage com violência às inevitáveis cons eqüências político-sociais do progresso capitalista é um Leitmotiv da história americana. passan do por cima das intenções subjetivas do indivíduo Abraham Lincoln.

na medida em que a casta sacerdotal não é cristã. hoje como sempre. e sim maçôni ca. que molda a mentalidade da elite intelectual e governante. Mas e este é o pivô do drama a Maçonaria só exerce uma parte das atribuições de uma c a sacerdotal: ela é o esoterismo. pela influên cia do clero cristão católico ou protestante. ao passo que. a alma do povo continua a ser formada. no reino exterior ou exotérico.maneira um tanto diferente. o rito interior. Daí entendemos que a ascensão do . secreto ou discreto.

uma força de subsistência autônoma: a vitória da elite maçônica traz em si os germes de sua própria destruição. ao mesmo tempo que ensina nas escolas que ela não é senão o resultado fortuito de um a combinação de átomos. disse eu. em nome da democracia. mesmo separados por séculos de d esenvolvimento econômico desigual e por abismos de diferenças culturais e psicológicas . O menos inviável dos regimes terminará por inviabilizar-se quando terminar de corroe r. quanto mais se laiciza a sociedade. mas não é capaz de dar a esses valores e princípios. etnológicos etc. menos credibilidade e menos funcionalidade têm os valores democráticos em nome dos quais essa elite chegou ao poder e governa. tomada num momento qualquer do seu dese nvolvimento histórico. contanto que os homossexuais não pratiquem sodomia e os heterossexuais não façam propostas eróti . que as diferentes culturas devem ser preservadas em sua pureza . precisamente. isto para nada dizer da possibili dade de transplantar uma religião de um país a outro. que o homem tem o direito de cul tuar Deus à maneira de sua religião. a concepção da sociedade como m bloco mais ou menos homogêneo de economia. os princípios religiosos a que a idéia democrática deve toda a sua substância. muitas das grandes mudanças não advêm de nenhuma síntese de elementos anteriores. o que se vê é o entrechoque entre esse impulso e as tr emendas forças de divisão e decomposição a começar pelo fato mesmo da morte que se opõem manentemente ao esforço unificador humano e. da mente humana. para não dizer fantasista. onde os únicos antagonismos reais que existem são os conflitos de classe 266. por exemplo. Na história. contanto que coloque acima desse Deus as leis e instituições do Estado leigo. Na medida em que o ideal maçônico do Estado leigo democrático se realiza. na escala dos fatos históricos. mas pr ecisamente da impossibilidade de sintetizá-los na prática. que a liberdade sexual é um direito inalienável. menos coerência. por exemplo. no seio mesmo da mais organizada das sociedades. Anexado de fora. O impulso para a síntese que é uma das fontes do empenho civilizatório em ger al é uma exigência constitutiva. precisamente pela mesma razão que permitiu a Abraham Lincoln passar em públic o por grande líder cristão: pela razão de que seus intuitos ( em si mesmo nem cristãos n em anticristãos. cultura e “senso com um”. ideologia. A heterogeneidade essencial das força s que compunham o ideal americano maçonismo e cristianismo pôde ser ocultada por um tempo. política. ideológicos. Estas palavras expressam minha convi cção de que é puramente ideológica. na mesma proporção. da mente do indivíduo human o. não uma lei histórica. mas os elementos religiosos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 191 governo maçônico se prevalece do prestígio cristão anexado de fora aos valores e princípio s da democracia. mas. e 266 Concepção que encontra sua expressão mais plena em Gramsci. que a formam podem ser heterogêneo s por sua origem e continuar heterogêneos e conflitantes de seu conflito resultand o. fazem brotar de novo e de novo os conflitos mais bárbaros e as contrad ições mais insolúveis. desde que privad os da seiva cristã que os alimenta. senão essas caricat uras de paraíso que recebem o nome de utopias. contanto que consintam em perder toda importância vital e em tornar-se adornos t urísticos para embelezar a cultura maçônicodemocrática. põe à mostra suas próprias fraquezas e contradições Ele prega. na medida em que. no plano político-ideológico. digamos assim. mas que com ou sem Gramsci anda disseminada pelas cabeças de quase todos os pensadores sociais e políticos des ta parte do mundo. ele se assume como independen te do cristianismo e. Repito o que disse lá atrás: a síntese dialética só existe no reino das idéias. remetendo a unidade à esfera que lhe é própria: a esfera do ideal e d o extramundano a que não correspondem. a dinâmica que marcará a história dessa sociedade. Ao contrário: religião e economia. extracristãos) foram aceitos na medida em que o povo os interpretava como cristãos e acabava por cristianizá-los. são forças autônomas. como o prova o fato de que as religiões podem subsistir por milênios. interna. só constitui um bloco para fins de hipótese metodológica. O perfil de uma determinada sociedade. malgrado todos os esforços humanos. que devemos respeitar a vida humana como um bem sagrado . fundamentalmente inalteradas em seus dogmas a despeito de todas as mudanças econômicas.

e assim por diante. mas q ue recebeu prontas da civilização cristã e que não sobrevivem à . numa permanente estimulação contraditória que está na raiz da violência e da loucura que hoje marcam a sociedade americana e todas as s ociedades que se colocaram sob a órbita da influência ideológica da Revolução Americana. M uitos analistas do fenômeno americano já estão se dando conta de que a democracia depe nde de que existam no povo certas virtudes que ela não criou nem pode criar.cas às mulheres.

sociedades e constituições políticas. Na ausência da autoridade espiritual que não se confunde de maneira alguma com as hierarquias de nenhuma burocracia ec lesiástica. é sempre um juiz parcial na hora de julgar os vencidos.. 19 . isto mostra o que foi dito parágrafos acima. não enxergando que os méritos de qualquer sistema político dependem essencialmente d e que ele saiba respeitar os limites que lhe são impostos pela consciência religiosa do povo. É ainda nos Esta269 V. S. que nel a se projete. comunista ou apitalista. mas reside naqueles homens em que se manifesta de maneira patente o es pírito mesmo da religião . op.. que arrasta os impérios e as nações como o vento arrasta pelas ruas desertas. que algumas das reações mais vigorosas à cultura anti-espiritual do no vo Império brotam de dentro dos próprios Estados Unidos. desde a eternidade. em contrapartida. Nenhuma ideologia. que a ruptura entre Maçona ria e Cristianismo está na raiz da tragédia contemporânea. cit. Jankélevitch. O lance de dados em que os poderes deste mundo partilham o manto de Cr isto não abolirá jamais o movimento imprevisível do Espírito. a t odas as constituições políticas. meio sociologista. o homem espir itual julga a todos e não é julgado senão por Deus. de que a religião é uma expressão da sociedade. também não aprenderemos a de Bertrand de Jouvenel. É porque. ele será sempr e o poder de César. como disse São Paulo Apóstolo. Introduction à la Philosophie de la Mythologie. Por toda parte o que se vê é o completo fracasso da tentativa de superar por uma ética leiga as antigas éticas religiosas. segundo a qual são os mitos e as religiões que estatuem o campo po ssibilitador dentro do qual se erigem as formas sociais. frequentando o culto do minical. V. católico ou protestante.192 OLAVO DE CARVALHO descristianização da sociedade 267. Schelling. talvez. com uma propensão incoercível a autodivinizar-se. Enquanto estivermos contaminados pelo preconceito . Se as religiões todas elas. na madrugada que se segue a um comíc io. passim. Paris. monárquico ou republicano. Democrático ou oligárquico. ou praticamente todas já deram provas de poder adaptar-se a todas as culturas. apesar de toda a antiespiritualidade dominante. E enquanto não absorvermos essa lição. porque a unid ade da ética leiga reside na interpretação religiosa que dela se faça. é porque elas 267 268 existem e vigoram num plano de universalidade superior ao de todas as culturas. que o antecedem. é a instância superior onde se arbitram todos os co nflitos entre facções. a todas as sociedades. segundo a qual a religião e somente a religião. ao passo que toda legislação po lítica. e se por outro lado a dinâmica anticristã do Estado leigo parece uma fatalidade inerente à constituição mesma do novo Império. Aubier. Friedrich-W. ou antes. en quanto não percebermos que ela pode ser precisamente o contrário. cuspe e respingos de cerveja. 2 vols. Christopher Lasch. nenhum programa político pode ter a universalidad e e a abrangência de uma religião nem muito menos o seu poder unificante e doador de sentido. o que já basta para por em dúvida a onipotência da nov a cultura 269. uma impressão recebi da pela sociedade desde fora ou desde cima. sejam elas religiosas ou políticas. culturais e políticas. E enquanto não com preendermos essas coisas continuaremos a apostar neste ou naquele sistema político . porque a lei religiosa. compreendida como portadora simbólica de verdades universais e valores objetivos. sendo a expressão da ideologia de um grupo vencedor. Se hoje não podemos desistir nem do Estado democrático nem do fundo cristão sem o qual ele perde todo sentido e se transforma no neototalitarismo do “politicamente correto”. não compreenderemos o que se passa hoje no Império americano e no nosso próprio quintal. o poder é o único juiz. Mesmo e sobretudo. enquanto não compreendermos mesmo a lição de Schelling 268. vivificada pela presença da autoridade espiritual e firmada em valores q ue antecedem de muito o nascimento desse sistema e o da própria sociedade que ele governa. socialdemocrata ou neoliberal. trad. Metade da população americana c ontinua. não poden do ser mudada por arbítrio humano. Também é preciso reconhecer. os farrapos de papel com as caretas bisonhas dos demagogos tingidas de lodo. pode oferecer uma resistência eficaz ao crescimento ilimitado do poder político mesmo e sobretudo daquele exercido em n ome de pretextos religiosos. meio marxista.

segundo diz Christopher La sch: “A quantidade de pessoas que professam a crença em um Deus pessoal. entretanto.45. A vida pública está totalmente secularizada. têm conseguido escapar às influências secularizan tes que modificaram a paisagem cultural em outras partes do mundo. Esta evidência pode sugerir que os Estados Unidos. em comparação com outras nações industriais. de alguma forma. A aparência eng ana. Mas esse fato também deve ser interpretado com prudência. pertencem a uma denominação religiosa e assistem ao serviço com alguma regularidade continua nota damente alto. A separação da igreja e do .

que só servem para gerar desc onfiança entre os crentes das várias religiões e fomentar.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 193 dos Unidos que se encontra hoje o mais poderoso núcleo de resistência ao avanço do ateís mo oficial — o que abrange desde as comunidades que se organizam contra a lei do a borto até a elite espiritual concentrada em torno de figuras como Seyyed Hossein N asr — exilado iraniano —. e crucificado. mas nem imaginam quem fala por sua boca.. mas ao terceiro dia ressurgirá” 271. e aos escribas. cit. profundamente influe nciada pelo pensamento de Frithjof Schuon. Victor Danner e outros. São cegos e ingênuos no fundo de uma casca de vaidade e presunestado. Knowledge and the Sacred. está mais profundamente arraigada na América do que em qualquer outro lugar do mundo. pp. E. E lá. finalmente. Mas.. a essência mesma do culto imperial? Não. é uma das características das cla sses cultas. 247-248 grifos meus ). “o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes. pela divisão. Le Seuil. New York. Frithjof Schuon. que o condenarão à mor te.. éd. Crossroad. homem espiritual de primeiro plano e inventor do único método válido já concebido para a comparação e aproximação das religiões 27 s é ainda verdade. 198 1. ção. Um estado mental cético. No fundo de sua aparência erudita. Os próceres da reforma intelectual b rasileira querem guiar o povo sem saber quem os guia. Fascinam a platéia. ainda subsiste a contradição entre Império e nação — contradição em q o leitor não terá dificuldade de reconhecer um resíduo da ideologia dos impérios colonia is. De l’Unité Transcendante des Réligions. A religião foi relegada às vias secundárias do d ebate público. despreparados e bem pouco intelige ntes. que muito da resistência espiritual norteamericana se perde em histerismos ultraconservadores e em arreganhos nacionalistas — às vezes va gamente fascistas — que não têm nenhum sentido no novo quadro a não ser mostrar que. E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido. e Seyyed Hossein Nasr. se até os norte-americanos conscientes do caráter anti-espiritual do novo Império terminam por servi-lo involuntariamente. den tro do corpo americano. são incultos. do Jardim das Aflições. iconoclástico. A atitude das elites no que se refere à religião vai da i ndiferença à hostilidade” ( Christopher Lasch. o ateísmo oficial do Império. eles não sabem o que fazem. 1981. prisioneiros de mitos que constituem. quanto mais não o farão os intelectuais progressistas do Terceiro Mundo. Também não sabem pa ra onde levam quem os ouve: e assim arrastam o público para o Jardim das Delícias. s em saber que se trata. na verdade. 1979. W 271 Mat. The Gifford Lectures. novamente. op. hoje interpretada como proibição de se recon hecer publicamente qualquer religião. 20:18-19 ( trad. é triste verdade que muito dessa resistência se inspira no apego a exclusivismos religiosos de cunho fundamentalista. 2e. não obstante. 27 0 V. Huston Smith. por apego a preconceitos qu e os cegam. Paris.. Antônio Pereira de Figueiredo ). .. sob disfarces variados. O seu compromisso com a cultura da crítica é entendido como a eliminação do s compromissos religiosos.

todos os mitos e ilusões a que se agarravam por desespero os intelectuais brasileiros. aqui exposto em toda a sua triste de formidade. Pois. bebeu até o fim a taça da falsidade univer sal. não como um crim inoso a ser escarmentado. chicotear as próprias costas? Po is eu. a paixão ideológica acima dos direitos da verdade. lapidar o próprio peito. o poder aci ma do saber. ao meno s antes de ler este livro. qu e compõem a fórmula cerebral de um típico letrado brasileiro do período entre 1964 e 199 4. senhores das letras: não vos exponho o corpo macilento e desgrenhado dessa vítima para dar r epasto à vossa ironia. Eis o mo tivo da mágica atração que ele exercia precisamente sobre aqueles que menos o compreen diam. sem no mesmo ato cuspir na própria face. está limpo de toda mácula que nele agora vêdes com os olh os claros que a contragosto meu e vosso vos dei por empréstimo? Qual de vós. não colocou o estetismo acima do dever moral. se entreguem à consolação malévola do riso e da ironia. Pois enquanto nós. mas que neles se repartiam em porções desiguais e de composição variada. ordenar e pôr em claro toda a mixórdia de erudição mal dig erida. detidos a meio-cam inho por um misterioso repuxão do bom-senso ou da hipocrisia. movido pela angústia ou pela voracidade.194 OLAVO DE CARVALHO Post-scriptum LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR “A soberba do homem niilista eleva-se. por partes e intermitentemente. mas para que nela vos enxergueis a vós mesmos e possais diant e dela confessar. não foi igual por mais de um aspecto a esse inimigo da sabedoria? Qual de vós pode atirar-lhe pedras. fazendo dele um compêndio vivo dos erros da sua casta. na platéia do MASP. diante do ca dáver intelectual de José Américo Motta Pessanha. enquanto José Américo Mo tta Pessanha mergulhou até o fundo do erro. o encanto das palavras acima da evidência das coisas e dos fatos? Qua l de nós não acreditou um dia que nossa repugnância pelo estado de coisas nos revestia de uma dignidade especial e nos dava um salvo-conduto para mentir. que. um dia. de mitos ideológicos. da minha parte. ao menos cada qual a si . que nos f oi necessário para compreender. desde que fosse em nome da nossa sacrossanta indignação política? Apenas. nem a segunda. num certo momento da nossa História. nem a última pedra: não vejo por onde condenar aquele que. deuses hediondos prosseguiam sua marcha triunfante entre nuvens de fogo. É horrível. vos garanto: não posso. não sabendo quem fal a por sua boca. indiferentes à voz do boneco que repetia mecanicamente seu discurso numa ponta esquecida do Terceiro Mundo. crendo e fazendo c rer que ensina o caminho da sabedoria. trap acear. com grandeza trágica. Isto fez dele o emblema das dores e da insânia de uma época. de sentimentos grosseiros e de palavreado florido. Não. Não atiro a primeira. não é? Pois bem: àqueles que. condensaram-se na alma de José Améri co Motta Pessanha. patético e melancólico. ouvíamos Motta Pessanha. O conjunto forma o retrato de um boneco de ventríloquo. iludir. Isto fez dele a vítima dos que nele acreditaram. se posta diante dos meus olhos. mas como a vítima da tragédia intelectual de todo um país e de toda uma época. e scribas e fariseus hipócritas. sem outra culpa senão a da demência coletiva que a poder de aplausos e lisonjas o arrastou aos piores desvari os filosóficos. dá eco à mensagem do mal e da mentira universais. Qual de nós. com uma espécie de heroísmo do auto-engano. nós o f izemos com maior comedimento. até o patético da autovalor ização heróica. digo eu: qual de vós. e xpô-lo com descomprometida e sádica alegria ao escárnio das gerações futuras.” KARL JASPERS Termina assim nossa jornada — o giro por dois milênios de História das Idéias. Eis também o motivo pelo qual é tão difícil condená-lo: ele errou em nome de todos. condená-lo.

Rio.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 195 próprio: Eu não fui melhor. que o aplaudistes em vida quando ele em palavras insa nas dava expressão e autoridade a vossos mais baixos sentimentos e a vossas mais a bsurdas aspirações. na desgraça. . por vós e por mim. Solidarizai-vos. Orai por ele. não o abandoneis agora. Pois seu pecado foi o de todos nós. quando ele aqui jaz. desfeito em trapos o seu perfil de filósofo. Vós. julho de 1995. com aquele que na glória e na al egria celebrastes.

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290 A LCUÍNO. 347 BERDIAEV. 126. Sto. 257. Sto. Sto. Gebha rd Leberecht. 43 A LBUQUERQUE . 333. 123 . 272. 212 BEAUVOIR. Hele na Petrovna. 93. 56. 223. 187. Hal C. 72. 46 A FONSO DE LIGÓRIO. 12 BLÜCHER. v. 155. Ni els. 186 A UBENQUE. dito Graco. Daniel. Marielza. Otto von. 307 A LTHUSSER. 372 BACON. 301 BARRUEL. 384 A LEXANDRE DE HALES. 259. 127. 79. 372. Pedro. René. 120 A U GELLI. 364 A LAIN (Émile Chartier). 28 6 BOÉCIO ou Boetius. 41 A DORNO. 331 BROCKMAN. 290 BOAVENTURA. 209 . 297. Pierre. 165. 154. Sto. 222. Napoleão. 41 BERTRAND. 118. 135 BLOOM. 54. 283 BETINHO. Abade. 277 . John. 189 —A— A BELARDO. 313. 168. Honoré de. 373.. 280 A GOSTINHO. Louis. 108 v. Herbert José de Souza. 204. 314 BLOOM. 253. 207. 373 BOAVENTURA. 71. 154. 225. Nicolai. 220. Roger. 168 BOHM.. 276. 53. S. 99 B ELL. 290. Brun o. Louis. Simone de. 273. John. 306 A RNAULD. 301. 275 BOWEN. 338. 184. 281. Anicius Manlius Severinus. 387. 142. 69. Sto.. Afonso de. 307 BERNAN OS. 89. 10. 74. Jean Le Rond d’. GRINDER.. Gregory. Theodor Wiesengrund. 123. 266 B ONIFÁCIO VIII. Jean. Papa. Antoine. 192.. 119. 59. 315 BRENTANO. 323. 388 BENOIST . 269. 42 A QUINO. 269 A LEMBERT . 150 BRIO N. dito. 284. S. Marcel. 249.. Pierre. Maurice. Jorge. Dante... 347. Tomás de Aquino A RISTÓTELES. David. 374 BISMARCK. 93 BAUER. 314 BATESON. 47 BECKER. 382 A NSELMO. 111 BOHR. 67 BLAVATSKI. 331 A LLEAU. Alain de. Allan. 185. 271. 69 A LBERTO M AGNO. 67. 42 A LIGHIERI . 151 BONAPARTE. Harold. 339 BONIFÁCIO. Franz. 325 BAYLE. 347 BERNARDO DE CLARAVAL. François Noël. 43 BALZAC. Georges. Richard BARRÈS. 341 BANDLER. Tomás de. 120. Gen.206 OLAVO DE CARVALHO ÍNDICE ONOMÁSTICO BARROSO . John. Gustavo. S. 99 —B— BABEUF. 41 BODIN. 18 7 A FONSO HENRIQUES (de Portugal).

118 DEMÓCRITO. Ernst. Card. 226. Auguste. 366. 28. Flo. 390. 244 CLÓVIS. 363. 134. 386. marquis de. Salvador. 64 CLEMENTE de Alexandria. 70 CARPEAUX. 290. 271. Jacques-Louis. 107. 108. 187 DESCARTES. Edmund. 389. Roberto. 299 CAMPOS. 226. Titus. 59 BURCKHARDT . 273. Christopher. 184. Fernando Afonso. 159 CHARDIN. 118 DEMÓCARES. 266 COLLOR DE M ELLO. 68. 365 CHESTERTON. Maurice. 364. 298. 42. 361 CARNEGIE. 380 CROUZET . Fernando Henrique. Alighieri DAVI D. 69. 285. 201. 280. Filippo. 42. 396 DANTE. 267. 259. 77 CANTOR. 240. Fritjof. Gilles. 290. 226 DANIÉLOU. 35. 19. Gil bert Keith. 337 CONSTAN TINO. 152. 329 CÉSAR. 237. 332 CHANDLER. 84 DELFIM NETO. 232. 106. Miguel de. 262. 257. 292. Jim COPÉRNIC O. 45 CAYCEDO. Albert. 225. 42. v. 37. Gautama. Victor. Joseph Epes. 173 CORBIN. 208 BRUNO. René. 395 CHAILLEY. 150 DELEUZE. 232. 378 CARLOS M AGNO (Charlemagne). 362. 192 CAPRA. Claude. v. Marie Je an Antoine Nicolas Caritat. 57. 70 CERVAN TES. Paolo. Georg. 273. Janer. 127 BURCKHARDT . Joseph. 304. Pedro. Caio Júlio. 175. 98 BRUNELLESCHI. Nicolau. 284. 300 DANNER. Nicolau de Cusa —D— D’HONDT . 258 DAWSON. SIEGELMAN. 281 CONCHES. Jacob. 367 COMTE. Jacques. 249. 30 5. 150 CONDORCET . Guilherme de Conches CONDILLAC. Benedetto. 342 CASSIRER. 380 CRÉBILLON FILS. Pedro. 287. 266. 190. 144. 264. 151 CRISTALDO. 389. 242 DE M AISTRE . 224. Etienne Bonnot de. 215. 45. v. 97. 286. 363. 109 BRUN. 368 DEMÉTRI O. Antônio. Jean. 369 CARDOSO . 208 . 289. 83. 43. 121. Imperador. 313 BURKE. 256. 176 CORÇÃO. 369 COLLOR DE M ELLO. 146 CARVAL HO. 347 CA MUS. 266. Otto Maria. 92. Pierre Teilhard de. 186. 186 BUDA. 203 CHAUÍ.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 207 BROWN. 261. Gi ordano. Nicolau de. Joseph Marie. Olavo de. 32. 29. Joseph. 204. 394 CROCE . 209 CONWAY. 365. 282. Marilena. 65. 33 . 282. Guilherme de. v. 382 CONRAD. 138 v. Rus sel. 255. 222. 223. 241. 368. 63. J acques. 45 . 191. 347 CRISTO. 258. 136. 358. 366 —C— CALDERÓN DE LA BARCA. 270 CUSA. 59. 297. Gustavo. 45. 66. Henry. Maistre DÉGERANDO. Dale. 105. 64.

309 DULLES. Ingemar. 360. 121. 117. 35. 166. 105 FEUERBACH. 45. J ohn. 117. 278 DUMÉZIL. Paul. 369 —G— GALILEI. 146. 259 EL IOT . 161. v. 89 EPICURO. 109 FARIA. 48. 315 FRANCA.. 118 —E— OLAVO DE CARVALHO —F— FÁBIO. G eorges. Mons. 64. 42. L. Sir John. 4 0 EVOLA. dit o Petrus. 226. Francis Paul. Pierre Gassend. 127. 378 DILTHEY. 197 GARCÍA GUAL. 362. 187. 46. 195. 149-152. 342 DUMONT . 240. 370 GOLDING. 121 DIRCEU. 369.208 DIDEROT . 370 GEISER. 185 FRANCIS. 120. 286. 382 DIEL. 46 FUN K. Ludwig. 381 DRUMONT . 168. 137. 196 FOWLES. Mons. Albert. 32. 41. S. 133. Carlos. Johann Gottlieb von. 291 DRUMMOND. 90. 338-340. John W. 103. 126. 341 DUNS SCOT . 156. 23. 379 ERICKSON. 133. 274 . 39. Jean. 117. 300 DURAND. 8 6-90. 188. Leonel. 292 DULLES. 135. 23 1. 134. 366 FERREIRA DOS SANTOS. 340 FESTINGER. Christopher. Umberto. Fiódor Mikhailovitch. 42. Paulo (Franz Paul Heilborn). 40. 189 ELIADE. 389 FREUD. 154. 33 . 382 GRAMSCI . 124. 97. Gilbert. 376. 339 DRAYTON. Mário. 137. Aristóteles. Leon. Wilhelm. Allen. 375. Octávio de. 27. 204. 46. 175 FICHTE. Mircea. T. 151. Denis. 74. 91 ÉSQUILO. 187. 115-122. Louis. 83 GOETHE . William Henry. 35. 242 GASSENDI. 33 7 FEYERABEND. P. William. Oliveira e Silva DONOSO CORTÉS. 287 FOUCAULT . 43. 166. Juan Francisco. 129. 46 FIELKENKRAUT . Foster. 275 GAXOTTE. Sigmund. S. 304 DUP ANLOUP . Pe. 118 EURÍPIDES. 44. 331-334. Pierre. 43 EINSTEIN. 150 DIONÍSI O. Édouard. 139. Albert. 46. 171 FUKUYAMA. Celso. 360 GAULLE. 392 ECO. Pastor Caio. (Thomas Stearns). 271-275 FELIX. 171. 127 ELWELL-SUTTTON . 37. 45 DOSTOIÉVSKI . 265 FURTADO. 40 EUBÚLIDES. Mons. 274 FELIPE O BELO. 241. 24. 60-73. 13. 373 FARGES. 225. 169. 51-58. 202. John.. 380 ELIS REGINA. José. 49. 46 FORTESCUE. 12. 189. 214. 284 DÜRING. 189 FAVIER .. 28. 282. 67. Michel. 381. 315 E PICTETO. Milton. Charles de. Antonio. 67. Johann Wolfgang von. 368. J. Alain . Rob ert L. Manuel. Paul. 36. 122 GARCÍA-PELAYO. 84. Julius. Galileo.. Félix. 183.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 209 GRAVES, Robert, 314; 315 GRINDER, Richard, 69; 89; 103 v. BANDLER, John, 69 GUAT TARI , Félix, 84 GUÉNON, René, 45; 175; 247; 248; 259; 274; 298; 300; 301; 305; 306; 3 11; 314; 331; 333; 334; 337; 342 GUILHERME DE CONCHES, 41 GURDJIEFF, Georges Iva novitch, 45; 63; 64; 103; 224; 225; 312 —H— HABERMAS, Jürgen, 376 HAMILTON, David, 354 HAMILTON, William G., 389 HARTMANN, Nicolai, 45; 46 HARVEY, William, 42 HEGEL, Georg Friedrich Wilhelm, 28; 46; 77; 121; 133; 153; 211; 213; 218; 222-228; 237; 255; 258; 281; 290; 295; 362; HEINE, Heinrich, 126 HEISENBERG, Werner, 65; 122124; 149; 151; 177 HELVÉTIUS, Claude Adrien, 45; 124; 150 HEMMER, Mons., 265 HENRI QUE VIII (da Inglaterra), 273; 280; 282; 286 HERCULANO (DE CARVALHO E A RAÚJO), Al exandre, 41; 43 HERMIAS, 118 HERÓDOTO, 239 HITLER, Adolf, 27; 227; 324 HOBBES, Tho mas, 286; 287 HOBSBAWM, Eric, 214 HOBSON, John Atkinson, 294; 363; 364; 383 HOOK ER, Richard, 284; 286; 375 HORÁCIO, 207 HORKHEIMER, Max, 135 HUGO DE S. VÍTOR, 40; 4 1 HUIZINGA , Johan ou Jan, 188; 349 HUNTINGTON, Ellsworth, 383 HUSSERL , Edmund, 12; 46; 151; 156; 181; 182; 196 HUX LEY, Aldous, 45; 96 —I— IBN-A RABI , Mohieddin, 313 INOCÊNCIO III, Papa, 284 INOCÊNCIO I V, Papa, 272 IVAN III (da Rússia), 282 IVAN IV (da Rússia), 282 —J— JAKI, Stanley L., 12 4 JASPERS, Karl, 45; 150; 399 JOÃO PAULO II, Papa, 85 JOÃO VI (de Portugal), 43 JOÃO X II, Papa, 268 JONES, Rev. Jim., 71; 126 JOUVENEL, Bertrand de, 221; 285; 343; 38 4; 395 JUNG, Carl-Gustav, 45; 216 —K— KALECKI, 45 KANT , Immanuel, 46; 77 KARDEC, Al an, 187 KEATON, Buster, 63 KEYNES, Sir John Maynard, 44 KHAYYAM, Omar, 315 KING, Stephen, 315 KLEIST , Heinrich von, 344 KOESTLER, Arthur, 101; 230; 231; 323; 3 80 KOYRÉ , Alexandre, 175; 176; 180 KRAMER, Dora, 373; 377 KUHN, Thomas S., 196

210 —L— LA M ETTRIE , Julien Offroy de, 144; 328; 348 LACLOS, Pierre Choderlos de, 3 2; 137 LACTÂNCIO, 117 LAÉRCIO, Diógenes, 53; 86 LANGER, Susanne K. (Knauth), 285 LANTO INE, Albert, 280 LASCH, Christopher, 283 LEARY, Timothy, 122 LEHMAN DA SILVA , N elson, 330 LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm von, 36; 45; 119; 144; 186; 188; 190; 192; 196 LÊNIN, Vladimir Iilitch Ulianov, dito, 45; 130; 163; 276; 332; 343; 349 LEVIN , Kurt, 74 LÉVI -STRAUSS, Claude, 42 LINCOLN, Abraham, 247; 363 LINEBARGER, Paul E ., 82 LOMBARDO, Pedro, 41 LORAUX, Nicole, 39; 328 LORENZ, Konrad, 79; 80; 83 LÖWY, Michael, 129 LUCRÉCIO, 52 LUÍS XI (da França), 257 LUÍS XIV (da França), 208; 265; 266 LUÍS XVI (da França), 235; 249; 288 LUÍS, O PIEDOSO , Imperador, 251; 254 LUKÁCS, Georg ou György, 44; 129 LULA, v. Silva, Luís Inácio Lula da, —M— M ACEDO, Bispo Edir, 341 M ACHAD O, Nílson José, 285 M AHARAJI , Guru, 58 M AÏSKI, Ivan, 292 M AISTRE , Joseph de, 45; 280 OLAVO DE CARVALHO M ALEBRANCHE, Nicolas, 119; 175 M ALINOVSKI, Bronislaw, 44 M ALTZ, Maxwell, 69 M ANN, Thomas, 33 M ANNHEIM, Karl, 81 M ANZONI, Alessandro, 309 M AO TSÉ-TUNG, 334 M AQUIAVEL, Niccolò Macchiavelli, dito, 139; 194; 195; 269; 275 M ARCUSE , Herbert , 129 M ARITAIN, Jacques, 257 M ARTEL, Charles, 250 M ARX, Karl, 37; 122; 123; 1 25; 127; 128; 129; 130; 131; 132; 138; 139; 142; 143; 144; 147; 148; 149; 150; 1 53; 163; 177; 199; 200; 201; 216; 277; 293; 310; 330; 348 M AZZINI, Giuseppe, 28 1 M ÉDICI , Gen. Emílio Garrastazu, 66 M EINECKE, Friedrich, 185; 186; 191 M EIRA PE NNA, José Oswaldo de, 332; 347; 350 M ELLO, Collor de, v. Collor M ERLOO, Joost A. M., 81 M ERQUIOR, José Guilherme, 129; 347 M ICHEL, Paul-Henri, 42 M ILL, John St uart, 35 M INOGUE, Kenneth, 142 M IR, Luís, 334; 345 M ITTERRAND, François, 257 M OH AMMED (Maomé), 105; 224; 233; 304 M OISÉS, 105; 267; 278 M ONTAIGNE, Michel de, 191; 194 M OON, Rev., 58; 96; 102; 152 M ORE , Sir Thomas, 263 M ORGAN, Charles, 110 M ORTON, Thomas Green, 63; 105 M OTTA PESSANHA, v. PESSANHA M OZART , Wolfgang Amadeus, 302 M ÜLLER, Juan Alfredo César, 76; 311

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 211 —N— NAIPAUL, V. S., 98 NAPOLEÃO, v. Bonaparte NASR, Seyyed Hossein, 174; 352 NEGREIROS , Almada, 314 NEWTON , Sir Isaac, 41; 42; 119; 145; 184 NICOLAU DE CUSA, 164; 16 5; 166; 167; 168; 169; 176; 177 NICOLE, Pierre, 175 NIETZSCHE, Friedrich, 37; 13 9; 161; 201 NIXON, Richard Milhous, 334 NIZAN, Paul, 118 NOVAES, Adauto, 32; 137 ; 144 NUNES, Carlos Alberto, 45 —O— OCKAM, William of, 44 OLIVEIRA E SILVA , José Dirc eu de, 334 ORTEGA Y GASSET , José, 75; 189; 332; 347 OSTROVSKI, Victor, 334 OT T O I, Imperador, 251; 329 OVÍDIO, 193 —P— PALOU, Jean, 284 PANETH, Ludwig, 158 PARAIN, B rice, 114 PASCAL, Blaise, 171; 190; 346 PATRIZZI, Francesco, 113 PAULI, Wolfgang , 145 PAULO A PÓSTOLO, S., 221, 244 PAVLOV, Ivan P., 66; 98; 99; 100; 101; 102; 10 9 PEDRO I (do Brasil), 233; 259; 288 PÉGUY, Charles, 218; 257 PENNA, J. O. de Meir a, v. Meira Penna PEPINO DE HERSTAL, 249 PERALVA , Oswaldo, 345 PERELMAN, Chaim, 46; 54; 87 PEREZ DE A YALA, Ramón, 33 PERROY, Édouard, 253 PESSANHA, José Américo Motta, 9; 24; 25; 26; 2 7; 28; 31; 32; 33; 34; 39; 44; 45; 46; 47; 51; 52; 54; 57; 60; 61; 62; 65; 68; 6 9; 87; 88; 112; 114; 115; 116; 117; 118; 122; 123; 124; 137; 142; 143; 144; 145; 146; 147; 153; 214; 215; 217; 239; 328; 345; 355 PESSOA, Fernando, 314 PIAGET , Jean, 185 ss.; 285 PICHON, Jean-Charles, 83; 288 PIRANDELLO, Luigi, 346 PIRENNE , Henri, 255 PLANCK, Max, 64; 118; 142; 168; 177 PLATÃO, 39; 40; 45; 64; 68; 75; 1 14; 134; 141; 144; 145; 146; 158; 193; 220 PÖE, Edgar Allan, 43 POEZL, Otto, 99; 1 00 PONCINS, Léon de, 292 PRADO JR., Caio, 348 PTOLOMEU, Cláudio, 164 —Q— QUADROS, Jânio, 7 3 QUEVEDO, Francisco de, 299 QUINTILIANO, 193 —R— RACINE, Jean, 299 RAJNEESH , 58; 9 6; 102; 152 REBOUL, Olivier, 81 REDONDI, Pietro, 42 REICH, Wilhelm, 129 RIBEIRO, Lair, 4; 25; 88 RICARDO DE S. VÍTOR, 41

212 RICKERT , Heinrich, 236 ROBBINS, Anthony, 88; 147 ROBESPIERRE , Maximilien, 242; 243; 263 ROBISON, John A., 281 ROMANO, Egídio, 256 ROOSEVELT , Franklin D., 2 75 ROOSEVELT , Theodore, 291 RORTY, Richard, 46; 107 ROSA, Antonio Donato Paulo, 142 ROSENBERG, Fúlvia, 322 RUSHDIE, Salmán, 162 RUYER, Raymond, 179 —S— SÁ-CARNEIRO, Mário de, 314 SADE, Donatien Alphonse François, marquês de, 32; 137; 328; 348 SAINTE-BEUVE , Charles Augistin, 308 SAINT -EXUPÉRY, Antoine de, 327; 347 SAINT -M ARTIN, Loui s Claude de, 280 SALAZAR, Antonio de Oliveira, 277 SANTOS, Mário Ferreira dos, V. Ferreira dos Santos SARGANT , William, 100; 101; 102 SARTRE , Jean-Paul, 347 SAT IR, Virginia, 89 SAUVY , Alfred, 331 SAVIGNY, Friedrich Karl von, 364 SCHAFF, Ad am, 318 SCHELER, Max, 44; 75 SCHELLING, Friedrich Wilhelm von, 45; 210; 368 SCHU LZ, Johannes Heinrich, 69 SCHUMPETER, Joseph A., 332 SCHUON, Frithjof, 77; 159; 352 SCOT , John Duns, v. Duns Scot SCOTT , Ernest, 317 OLAVO DE CARVALHO SCOTT , Walter, 308 SCRUTON, Roger, 341; 347 SÉNANCOUR, Etienne Pivert de, 144 SÉRAN T , Paul, 281 SEYMOUR-SMITH, Martin, 317 SHAFTESBURY, Anthony, conde de, 185; 18 8; 192 SHAH, Omar Ali, 317 SHAKESPEARE , William, 299 SHELLEY, Mary, 314 SHELLEY , Percy B., 313 SIEGELMAN, Jim, 81; 90; 102; 103 v. CONWAY, Flo, 102 SILVA , Luís Inácio Lula da, 279; 334; SILVA , Vicente Ferreira da, 202 SMITH, Thomas266 SMITH, Huston, 352 SNOW , Charles Percy, 236 SÓCRATES, 36; 112; 115; 219; 220; 221 SODRÉ , Muniz, 63 SÓFOCLES, 39 SOLOVIEV, Vladimir, 264 SOURIAU, Étienne, 285 SOUZA, Octávio T arquínio de, 288; SPENCER, Herbert, 45 SPINOZA, Baruch de, 190 STÁLIN , Joseph Djuga schvíli, dito, 130; 146; 202; 212; 275 STENDHAL ( Henry Beyle), 308 STEWART JR., D onald, 347 STRAUSS, David, 211 STREICHER, Julius, 32 STRINDBERG, August, 317 —T— TAR CHER, Jeremy P., 151

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 213 TEÓCRITO DE QUIOS, 114 TEOPOMPO, 114 TERESA DE Á VILA, Sta., 37 TESTAS, Guy, 42 THOM AS, Gordon, 291 THOMPSON, E. P., 200; 311 TOLENTINO, Bruno, 24; 157 TOMÁS DE A QUI NO, Sto., 41; 44; 186; 190; 285 TORRES, João Camilo de Oliveira, 347 TRÓTSKI, Leon B ronstein, dito, 146 TROUSSON, Raymond, 328 TRUYOL Y SERRA, Antonio, 227 —U— UNAMUNO, Miguel de, 300 —V— VALLA, Lorenzo, 195 VEBER, Michel, 243 VEGA , Lope de, 299 VELOS O , Caetano, 122 VICO, Giambattista, 187; 188; 192; 196; 236 VIEIRA DE M ELLO, Már io, 139 VIETA ou Viète, François, 184 VIRGÍLIO, 193 VOEGELIN, Eric, 231; 269; 329; 330; 342 VOLTAIRE , François Marie Arouet, dito, 36 ; 44; 196; 348 —W— W AGNER, Yaakov, 294 W ASSERMANN, Jakob, 278 W ATTS, Allan 122 W EBER, Max, 150; 152; 192; 200; 253 W EIL, Éric, 75; 136; 294 W ELLINGTON, Duque de , 272 W ESLEY, John, 341 W HITEHEAD, Alfred North, 44 W ILSON, Colin, 317 W ILSO N, Edmund, 131 W ILSON, Woodrow, 275 W INDELBAND, Wilhelm, 236 W ITTGENSTEIN, Lu dwig, 45 —Y— YEATS, William Butler, 315 —Z— ZUÑIGA , Juan de, 175

“Um mestre.” HERBERTO SALES “Um gigante.” BRUNO TOLENTINO “Homem de reconhecida competência no campo da filosofia.” JORGE A MADO “Filósofo de grande erudição.” ROBERTO CAMPOS OLAVO DE CARVALHO, nascido em 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originai s e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferent es quanto Jorge Amado, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, He rberto Sales, Josué Montello e o expresidente da República José Sarney já expressaram su a admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho. A tônica de sua obra é a defesa da inte rioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escor ada numa ideologia “científica”. Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel en tre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um fo rmulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sól ido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas a ntigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carval ho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cu ltura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas língua s sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, nde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que s ubentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muit as questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Aristóteles em Nova Perspectiva — In trodução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes” ( “análise fascinante e — ouso dizer — definitiva”, segundo rma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Fe deral do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de c inema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento cu lmina em O Jardim das Aflições (1985), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de m oldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro d a cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte. É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a ampl itude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que intr oduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de pa lavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mu danças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à li nguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma pro fundidade surpreendente. A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmi ca, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos pr estígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multidão de leitores devotos, que e sgotaram em três semanas a primeira edição da obra. FOTO : ANA B RANCO (O GLOBO ).

216 OLAVO DE CARVALHO 5 4 10 12 33 48 Este livro foi composto pelo processo de editoração eletrônica. em tipos Gaillard BT. . e impresso no Brasil.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 217 .

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