O JARDIM DAS AFLIÇÕES

4 OLAVO DE CARVALHO

OBRAS DE OLAVO DE CARVALHO 1. Universalidade e Abstração e Outros Estudos. São Paulo, Speculum, 1983 2. O Crime d a Madre Agnes ou: A Confusão entre Espiritualidade e Psiquismo. São Paulo, Speculum, 1983 3. Astros e Símbolos São Paulo, Nova Stella, 1983 4. Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes”. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 5. Os Gêneros Literários: Seus F undamentos Metafísicos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1993 6. O Caráter como Forma Pura da Personalidade. Rio, Astroscientia Editora, 1993 7. A Nova Era e a Revolução Cultu ral: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994 (1a ed., fe vereiro; 2a ed., revista e aumentada, agosto). 8. Uma Filosofia Aristotélica da Cu ltura: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, IAL & Stella Caymmi, 1994. 9. O Jardim das Aflições. De Epicuro à Ressurreição de César — Ensaio sobre o Materialismo e a Rel gião Civil. Rio, Diadorim, 1995. 10. O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais B rasileiras. Rio, Faculdade da Cidade Editora e Academia Brasileira de Filosofia, 1996 (1a ed., agosto; 2a ed., outubro; 3a ed., abril de 1997 ; 4a , maio de 199 7; 5a , janeiro de 1998; 6a , abril de 1998). 11. Aristóteles em Nova Perspectiva. Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Rio, Topbooks, 1996. 12. O Futuro do Pensam ento Brasileiro. Estudos sobre o Nosso Lugar no Mundo. Rio, Faculdade da Cidade Editora (1a ed., agosto de 1997; 2a ed., março de 1998). 13. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Comentários à “Dialética Erística” de Arthur Schopenhauer. Rio, Topb oks, 1997. 14. A Longa Marcha da Vaca para o Brejo & Os Filhos da PUC. O Imbecil Coletivo II. Rio, Topbooks, 1998.

OLAVO DE CARVALHO O Jardim das Aflições DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O M ATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL PREFÁCIO DE BRUNO TOLENTINO Segunda Edição, Revista

6 OLAVO DE CARVALHO Copyright © 1998 by Olavo de Carvalho Capa e planejamento gráfico: Ateliê 19 Assessoria em Comunicação R. das Laranjeiras, 531 / 16 F. (021) 225.1806 Fax (021) 245.2920 Rio de Janeiro RJ CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Todos os direitos reservados pela TOPBOOKS EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS LTD A. R. Visconde de Inhaúma, 58, gr. 413 – CEP 20091-000 Rio de Janeiro – RJ – Tel.: (021) 233.87178

§ 16. Epicuro e Marx ............................................................. ............................. 75 PREFÁCIO, POR BRUNO TOLENTINO.................... .................................................9 § 17. Comentários à 11ª “Tese sobre Feu erbach”........................................ 77 § 18. A tradição materialista ....... ..................................................................... 82 O J ARDIM DAS AFLIÇÕES LIVRO I: PESSANHA............................................ ..................... 19 CAPÍTULO I: A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA.................................................. ...21 § 1. Introdução. O que Epicuro veio fazer aqui, ou: Biografia deste livro21 § 2. A s conferências do MASP ........................................................... ................ 28 § 3. Pessanha e o pensamento Ocidental........................ ................................ 31 LIVRO IV: OS BRAÇOS E A CRUZ..........................................89 CAPÍTULO VII: O MATERIALISMO ESPIRITUAL........................................... ..91 § 19. A divinização do espaço (I): Pobres bantos .................................. ...... 91 § 20. A divinização do espaço (II): O infinito de Nicolau de Cusa ........... 94 § 21. A divinização do tempo (I): A força dos meios.................................. 105 § 22. A divinização do tempo (II): Beaux draps.................................... .......114 CAPÍTULO VIII: A REVOLUÇÃO GNÓSTICA.......................................... ..........120 § 23. Revisão do itinerário percorrido ................................. ........................120 § 24. O véu do templo .................................. .....................................................121 § 25. Leviatã e Beemoth ... ................................................................................ 127 LIVRO II: EPICURO............................................................... ... 51 CAPÍTULO II: COSMOLOGIA DE EPICURO................................................ .........37 § 4. Uma profissão-de-fé epicurista. A matéria segundo Epicuro ............. . 37 § 5. Um piedoso subterfúgio.................................................... .......................... 39 § 6. A imaginação dos deuses. A eviternidade............ ................................... 41 § 7. Epicuro crítico de Demócrito.............. ...................................................... 42 CAPÍTULO III: ÉTICA DE EPI CURO.......................................................................44 § 8. O remédio de todos os males...................................................... ................ 44 § 9. A abolição da consciência...................................... ................................... 46 CAPÍTULO IV: LÓGICA DE EPICURO............... .....................................................52 § 10. A fumaça e o fogo..... ................................................................................ .. 52 § 11. O convite ao sono .................................................... .................................. 53 § 12. A Servidão Voluntária..................... ......................................................... 56 § 13. Dos cães de Pavlo v ao lava-rápido cerebral ....................................... 58 CAPÍTULO V: A ÍND OLE DO EPICURISMO.........................................................65 § 14. Porcarias epicúreas.............................................................. .................... 65 § 15. A fuga para o jardim................................ ................................................. 69 LIVRO V: CÆSAR REDIVIVUS................................................130 CAPÍTULO IX: A RELIGIÃO DO IMPÉRIO.................................................... .....131 § 26. De Hegel a Comte................................................... .................................131 § 27. Translatio imperii. Breve história da idéia imperial. ........................133 § 28. O Império contra-ataca ................ ..........................................................147 § 29. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) .......................149 § 30. Aristocracia e s acerdócio no Império americano (II) ......................159 § 31. De Wilhelm Meister a Raskolnikov......................................................162 § 32. As n ovas Tábuas da Lei, ou: O Estado bedel .....................................168 CA

................176 § 33..................177 Post-scriptum...................................... Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições.............................196 ÍNDICE ONOMÁSTICO ................................ .....................................................194 BIBLIOGRAFIA .... ....206 LIVRO III: MARX.........................................PÍTULO X: NA BORDA DO MUNDO........................................................7 5 ................................................. 133 CAPÍTULO VI: A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO... ............. .................... .................. ...... LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR .................... ............................

Mas não aumentado: se há um livro em que o autor disse tudo o que nele queria dizer. quando o companheiro teve quatro em seis meses. é es te. Leopoldo Serran e muitos outros. trará mais dano que benefício. que. A OLAVO DE CARVALHO . coisa unida e coesa. este livro não merece u do público a atenção que se concedeu generosamente a seu irmão menor. com começo. Roberto Campos. mas pela ordem dos capítulos — e peço que entenda isto como receita médica. Vai para a segunda edição após dois anos. meio e fim. melho rado em detalhes de l nguagem e sem as gralhas i mais visíveis da primeira edição. Vamireh Chacon. Herberto Sales. Solicitando humildemente a parce la de audiência a que julga ter direito. cumprida mal ou imprecisam ente. No entanto é dos dois o melhor e o único que constitui propriamente um livro . enquanto O Imbecil não passa de uma c oletânea de notas de rodapé que não couberam no rodapé. O Imbecil Coleti vo. O Jardim comparece limpo e correto.8 OLAVO DE CARVALHO NOTA DO AUTOR À SEGUNDA EDIÇÃO pesar dos elogios de Antonio Fernando Borges. Jo sué Montello. Só repito o apelo a que o leitor não o leia de viés e saltado.

nunca a partir dos fatos segundo a intelligentzia. tem a vantagem de respeitar os dados do real. mas onde começam meus inadiáveis problemas de brasileiro acuado há décadas pela futilidade d o ininteligível. dados e fatos. não tant o do autor. fui encontrar n a lição de trevas deste livro. insurge-se com toda a lucidez o vigor d este livro. viga mestra de todo esforço de verificação filosófica. Tanto mais se.. ferve a humanidade. não tanto aonde leva o labirinto lingüístico do vienense em sua versão paulistana (c’est assez que Quintilien l’ait dit. ). Refratário à leitura t ransversal ou salteada a que às vezes incita. pelo mundo-comoidéia. Com efeito. ou sobretudo. rica e complexa. . mas de uma clareza própria a desnudar como nun ca os pólos extremos de uma velha e enfumaçada questão: ver ou não ver. perfeitam nte capaz de tudo dizer por si mesma. achei-me no pólo oposto à perplexidade em que vivia durante a leitura que digo?! durante a suadíssima mineração que empreendi nas duras e obscuras galerias sublinguais daquele celebrado duo: o ascético autor do Tractatus (ou das Investigations?) e o ex-Papa Doc. uma adv ertência apenas. A esse respeito. paradoxalmente. Assim. os três inseparáveis element os da doutíssima Trindade que se propõe a recriar o mundo. dedicou recentemente às investigações do surrado materialismo lingüístico de Wittgenstein. numa visão inquietante do sentido universal da aventura da inteligência moderna. Não estou desmerecendo do esforço d e ninguém. mas da tarefa que se propôs. mas de fácil leitura justamente por causa e não a despeito da formidável erudição em que se firma. Afortuna damente neste último. o autor extrai uma estonteante exposição de significações. o argumento central deste aflitivo j ardim evolui à maneira de um crescendo para desafiadoramente elucidar-se apenas na s duas partes finais: “Os Braços da Cruz” e “Cæsar Redivivus” são a sístole e a diástole do c vo desta obra alarmante. de seu sentido cuidado samente oculto. Obra eletrizante. No momento esse lapso de um tempo mental que não acaba de acabarse é ainda. e em pa rticular contra a espécie de Gabinete do Dr. Caligari em que se vai transformando entre nós a veneranda idéia de Universidade. O Jardim das Aflições. Inclusive. inevitavelmente sempre a idéia do mundo mais em voga a um certo momento. e outra vez acabo de constatá-lo até à exaustão. segundo ele. o sufoc ante mundinho dos cortesãos e doutores de mais uma trópica Bizâncio?). única justificativa à intrusão de um prefácio em obra tão límpida. São raros esses momentos. esD perava-me um convite a bem outro tipo de investigações: as que se ocupam de verifica r o real a partir da inteligência e dos fatos. inclusi ve os pressupostos do saber acumulados pela tradição. ou mesmo de suas idéias.. Que o leitor leve em conta o caráter. estou celebrando meu alívio de que a tampa da marmita se tenha afastado d e mim o bastante para deixar-me perceber. como eu. Gianotti. esse método de investigar o como e o porque do ser-nomundo. dos dados de um problema aparentemente sem maior importância no plano das idéias (que importa. em vez de buscar substitui-los . como a tampa que subitamente abandona a marmita. Contra tudo isso. a quem de fato pense o mundo. Sedimentado através dos séculos pela perspicácia de uma nobre linhagem . atual Papa pálido da enrubescedora tropa-de-choque investigada neste jardim de aflições.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 9 PREFÁCIO BRUNO TOLENTINO e quando em quando na vida do espírito desanuvia-se aquele céu plúmbeo e baixo em que Baudelaire via a tampa da marmita na qual. Dr. Soube-o enfim graças à claridade que. de marca universitária e de cunho dogmático-materialista. Quem quer que te nha lido de cabo a rabo este livro há de convir que vive um destes momentos privil egiados. o anestesiador de gerações uspianas. de estirpe marxista . tiver suado frio por semanas sob o peso das cen tenas de impenetráveis páginas que nosso mais reputado e menos aspeado filósofo atual.

que trabalho tão ímpar. Longe de constituírem um empecilho ao entendimento. por exemplo. assi m. invariavelmente alienígenas. confr ntando e hierarquizando. o u seja. ao acompanhar um filósofo de verdade em sua minuciosa e exaustiva investigação de um embuste. emanariam interpretações discordante s fortalecidas no confronto das vontades que as apoiam (Retórica). O que certa gente quer e persegue com uma obstinação de cachorro magro. e em última análise tão aterrador quanto o estrilo de um desper tador à meia-noite. através do combate retórico. leitor. de imposturas orquestradas como filosofia e penduradas ao nada como amor as de mentirinha. nisto ao menos. ou Livros. O leitor. Graças a sua inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual. ou seja. Há que lê-lo até seu eletrizante gran finale para perceber t odo o escopo deste livro singular. tudo o que aqui vai tem a ver e urgentemente comigo. como nos adverte uma nota do autor. a de colher as questões ao nível retórico e elaborá-las em hipóteses formais para as entregar à busca de uma solução lógico-científica. Ao contrário. portanto. E dá-lo com toda a clareza através de um assustador pomar de aflições. . parta de impressões subjetivas para. A pedanta ria engordaria bem mais tarde. Seu método de composição. Nada de estranhar. para citar apenas um “compósito” que à primeira vista pouco tem de ost ensivamente filosófico. não há como tomar esta obra apenas como a hábil ampliação de um panfleto. 1994). o olhar que põe tudo isto a nu vem do olho agudo d e um filósofo nato. O qual. por detrás de suas cátedras como abutres encapuzados em toga s e títulos. num conjunto de investigações dialéticas. Caligari. por menos que assi m fazendo consiga caber nos moldes. Só então tornar-se-ia factível estabelecer métodos e critérios propriamente científicos. da esquematização objetiva que atribui a um conjunto de dado s sensíveis uma figura dotada de sentido (Poética). de um sujeito que não pode não pensar. calca-se no entanto em mo delos bem mais antigos e prováveis. este livro não é resíduo de tese e doutoramento nem se propõe a enfeitar a carreira de mais um philosophe local cev ado na massuda monotonia dos gabinetes à la page. com os que somos e continuamos a ser submetidos a uma contínua barragem de slogans e esoterismos a transpirar int enções nem lá tão ocultas assim. A tarefa específica do filós ofo seria. Sobre essa mass a crítica do acúmulo dos esforços retóricos seria então possível o exame dialético que. capazes de levar a questão a uma resolução maximamente exata (Lógica). explica. o que andou e anda fazendo em nome da inteligência como desdentado s leões de circo. É talvez o primeiro esforço de Olavo de Carvalho p ara pensar em público segundo sua Teoria dos Quatro Discursos. antes nos convida a examinar com ele o q ue investiga. só tem a perder suas ilusões a respeito da serie dade dos donos da hora. como o entendem os “atuais” pupilos do Dr. Rio. expõe.10 OLAVO DE CARVALHO Só que. a gênese como a elaboração da obra aqui ajudam muito o l eitor: a mim pareceu-me muitíssimo estimulante progredir através da “multiplicidade de temas e planos que faz a trama compósita deste livro”. mo ntar as oposições que só na conclusão (naquelas duas últimas partes. Claro. um tanto paradoxalmente à maneira d e um tutti orchestrale. graças à coragem intelectual de um er udito que não se esconde atrás do que sabe. de um conhecido e bem mancomunado establishment. Segundo o Aristótele s de Olavo de Carvalho. com você. indicaria o sentido de uma solução racional (Dialética). torna-se enfim possív el dar esse passeio para fora das brumas do obscurantismo idealista doublé de peda ntismo acadêmico. à diferença de compêndios bem mais ao gosto do dia. a presente identificação entre filosofia e adiposidad e de jargão é fenômeno tão moderno quanto os enlatados de supermercado. à primeira vista paralelo a os procedimentos sinfônicos de um Sibelius. Uma Filosofia Ar istotélica da Cultura (IAL & Stella Caymmi Editora. no sentido agostiniano) vai-se definitivamente elaborar. acha-se logo em excelente companhia: no Ocidente a filosofia pós-helênica teve muito cedo entre seus cumes obras como as Confissões de Santo Agostinho. Passamos a ver claramente o que por estas bandas nos vem tapando a mente e sufocando o espírito. Mas que o leitor não se apresse. ficará perfeitamente claro ao longo do passeio em que nos guia a a gudeza da leitura que Olavo de Carvalho faz da história das idéias no Ocidente. proposição de seu ensaio pioneiro.

insubm isso e fértil para muito além das meras conjunturas de nossa douta e crônica tropicali dade atávica. ao nosso encruado marxismo universitário. 1993). mas nele pareceume reconhecer a rica tradição da hermenêutica simbólica. saudou e desnudou os belos fantasmas do platonismo. estes dois gigantes modernos. . Per strada ci rcunvolteou sabiamente seja o pot-pourri liliputiano dos hoje inúmeros e celebrado s philosophes. Não se trataria aqui do conhecido modelo tese-antítese-síntese. ora lógica. Capistrano de Abreu Manuel Bandeira. É que. ao quanto pude perceber. à maneira de todo poeta frente à própria poética. ora cronologicamente. Já não hesito mais: tenho o pensamento de 1 Olavo de Carvalho por paradoxalmente intemporal e atualíssimo. por natureza. Miguel Reale.. Mas talvez o autor. PhDs. Luís da Câmara Cascudo. seu peso erudito. I. em curso de publicação pela Fac uldade da Cidade Editora. IAL & Stella Caymmi Editora. espécie entre nós. de política e de meta física. seja o etéreo campo minado do guénonismo. tal receita é própria antes ao recebimento de aspas aposto ao seu justíssimo títul o de filósofo. acaba por não pesar. Como se tem v isto. Ou seja: nosso homem parece partir de uma antítese observada no campo dos fatos para hierarquizar os termos opostos e resolvê-los no princípio co mum de que emanam. Surpreendente é vê-lo sair da mesma pena que ainda recentemente nos dava uma rigidíssima teoria dos gêneros. João Cabral de Melo Neto. (v. e não raro ambas as coisas. Mais uma surpresa num pensador inclassificável. não se tenha dado um código senão para subme tê-lo às necessárias infrações do ato criador. partiu very advisely do seu e nos so Pai de Todos . é sempre anterior àqueles termos. thank God! Resta que nada disto é aceitável. pelo que me pareceu perceber. Ensaios. Mário Ferreir a dos Santos. e por isso mesmo no meu ver indispensável hoje. Olavo de Carvalho. Sim. principiais. mas sim. Murilo Mendes. Rio. como se vê. passou reverente pela nata da sabedoria escolástica de Sto. ou de substituição de importações) sua leitura.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 11 Misto de memórias e ensaio filosófico. Uma conferência sua semi-inédita (“A dialéti mbólica”. reafirmo. e tantos outros espíritos livres da raça. Aristóteles. incansável e metódico. honrarias. em caminho inverso. Olavo de Carvalho (parece incrível naqueles te mpos de tanta seca!). subv en2 Reproduzida no volume A Dialética Simbólica. faz-se por isso mesmo apaixonante e como que compulsiva. aportou a Schelling e a Husserl. Até então eu não havia encontrado est e método aplicado à construção de uma sistemática propriamente filosófica. muito mais merecido que aos diplomas. teve que aprender quase sozinho a imensidão do que hoje sabe. cátedras. para chegar de olho aberto a Kurt Gödel e a Éric Weil. Sua forma mentis foi evidentemente forjada a fogo. Tomás de Aquino a Leibni z. a bem dizer. mas antes recuaria a condições prévias. no corpo a corpo do autodidata sem alternativas num país ocupado pela legião dos ressentidos ou pelos batalhões de imbecis. Seus Fund amentos Metafísicos. sem nada perder em densidade. Leitor multilingüe. de um movimento tripartite oposiçãocomplementação-subordinação. de reportagem e panfleto. sem pisar-lhes a uns e outr os seus explosivos ovos de cobra. a leitura deste livro (às antípodas do tijolaço com que acaba de brindar-nos o a cima citado mentor de uma filosofia tão nativa quanto uma agência de importações. Caio Prado Jr. a exemplo de Machado de Assis. e po r conta dos provados e clássicos valores que o forjaram e o sustêm. e talvez por isso m esmo o tenha sabido inscrever no mármore candente da mais limpa tradição letrada do Oc idente 2. menos ainda familiar. áspero e lúcido. existente apenas como apostila didática no Seminário Permanente de Filosofia e Humanidades do 1 Instituto de Artes Liberais do Rio de Janeiro) ajudou-me a elu cidar algo mais o método deste pensador originalíssimo até mesmo na forma a que molda seu discurso. por décadas entre o fuzil da Redentora e o realejo utopista de nossa inc urável e festiva intelligentzia. como ao tempo da formação intelectual do autor era cronicamente o nosso. Os Gêneros Literários.. O qual. à diferença do modelo hegeliano a dialétic a de Olavo de Carvalho não buscaria uma síntese temporal futura.

) . mas não como pr ofessores universitários. Paulo. “Harold Bloom contra-ataca”. garantam a sobrevivência do jeito que for. 6 de agosto de 1995.E não é só no Brasil que a decadência das universidades acaba por revalorizar o autodida tismo: “A todos os meus melhores alunos de graduação eu digo para não cursarem pós-graduação. Façam qualquer outra coisa. para ler e escrever sozinhos. Sintam-se livres para estudar literatura por conta própria . porque a próxima geração de bons leitores e críticos terá de vir de fora da universidade.” ( Harold Bloom. Folha de S.

como toda verdadeira vocação filosófica. acabou por avisá-lo sobre o que de fato valia o que perdeu. dos zumbis. Co esta sua rigorosa e instigante investigação de aflições mais um livro do campineiro for a dos eixos segundo os importadores das fórmulas da invenção da roda . São Paulo. dos hipnóticos hipnotizados? O suicídio em termos acadêmicos d e Olavo de Carvalho. ou antes. O Jardim das Aflições. que onde deixei um país encontrei trinta anos depois um acabrunhante acoplamento d e pedantaria e show business. SP.12 OLAVO DE CARVALHO ções e sabujices de nosso perigosíssimo establishment pensante. e pensar! Quanto a mim. anátema.. se por um lado desencorajaram de munirse de títulos prestigiosos a quele que dentre nós hoje possui talvez o intelecto mais corajosamente individual entre seus pares. são mais que horas de acordar para cuspir. É que. Rio. nosso retrato assustador. subserviência ou sim plesmente descaro. tão patentes em nosso incipientíssimo e prudentíssimo intellectual output. suicídio. . julho de 1995.. Que os mortos ent errem seus mortos: sai da frente.. Mas a quem lhe importaria alongar a sobrevida na cidade do mortos. soa-me como o clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação. Nesse empolado contexto. a alegre festa no velório acaba uma vez mais! com es te admirável livro. ajudado a balizar justamente o terreno minado da autocastração por timidez. Os tremeliques de Mademoiselle Rigueur. Olavo de Carvalh o volta a nos dizer em alto e bom som: basta de sestas à sombra da utopia e do mar asmo mental. tão ao gosto da fábrica de esterilidades diplomadas com sede à Rua Maria Antôni a. ne ologismo de rigueur ante tantas pedânticas pendências e dependências das infindáveis lis tas de importações canonizadas. Sem dúvida a circunstância dessa solidão defensiva e profilática o terá. pendante. not least.. leitor. a de Olavo d e Carvalho é incompatível com o alinhamento compulsivo (e repulsivo) a que nos vêm aco stumando por aqui os donos de cátedras et caterva. sua fulgurante crítica do binômio Epicuro-Marx é pura heresia. patenteado uma vez mais neste livro imperdoável.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES DE EPICURO À RESSURREIÇÃO DE CÉSAR: ENSAIO SOBRE O MATERIALISMO E A RELIGIÃO CIVIL TOPBOOKS .

.

ROXANE ANDRADE DE S OUZA. me incentivou sem descanso a que a completasse. por afeição e gratidão. a quem li os rascunhos da obra. M ERI ANGÉLICA HARAKAVA e S ANDRA TEIXEIRA resolveram mil e um pequeno s e grandes problemas que teriam adiado sine die a publicação deste livro. LUIZ AFONSO FILHO. numa épo ca em que tudo em minha vida me convidava a dispersar meus neurônios em trabalhos menores. dando-me apoio moral e muitas sugestões valiosas. M ARIA ELIS A ORTENBLAD e PAULO VIEIRA DA COSTA LOPES me ajudaram. KÁTIA M EDEIROS. a superar encrencas da vida prática que sem sua generosa interferência teriam me absorvido por completo e talvez inutilizado o meu pobre cérebro por alguns anos. de vários modos.AGRADECIMENTOS M UITA GENTE me ajudou a realizar o projeto deste livro: BRUNO TOLENTINO. CLAUDETTE ALVES DUCATI e JÔ BRITO ouviram a leitura de mui tos capítulos. OLAVO DE CARVAL HO . um pouco a cada uma dessas pessoas. JOSÉ ENRIQUE BARREIRO . DANTE AUGUSTO GALEF FI e seus alunos da Universidade Católica do Salvador devolveram-me a confiança nos jovens estudantes brasileiros de filosofia — leitores sem os quais este livro não fa ria sentido. LUCIANE AMATO. Esta obra pertence.

.

qui révèl e un goût lucide. Lætitia Cruz de Moraes Vasconcellos ( O Agente Secreto. de um tipo tão fátuo que era impossível calcular-lhe a origem por qualquer processo racional.” 3 JOSEPH CONRAD “Car si désireux qu’on soit de trouver une cause naturelle à ces tragiques abérrations. ce je ne sais quoi d’inutile. ou mesmo irracional. Imago. de superflu. co mment justifier leur raffinement.” W ILLIAM BLAKE “.. sangrenta futilidade. Rio... 1995 ).the War by Sea enormous & the War by Land astounding. de pensamento. une lucide d éléctation?” GEORGES BERNANOS 3 Trad. ..“. Pois a irra cionalidade malévola tem os seus processos lógicos próprios. erecting pillars in the deepest Hell to reach the heavenly arches.

.

LIVRO I .PESSANHA - .

.

sabendo ou não. Mas não foi na da disto. pois. De pouco adiantará alegar que fui perfeitamente sincero. onde vigora o pressuposto dogmático de que uma idéia ou doutrina qualq uer nada mais pode ser que a expressão do desejo de poder de uma classe. para essa gente. Digo en tão que o miolo destas páginas redigi numa só noite de maio de 1990. não deve ir logo de entrada falando de si mesmo. sem tomar o cuidad o de seguir até o fim o fio dos argumentos onde se manifestará. fanática ou razoáve l. o autor refere-se especificamente ao Brasil. London. estará se enganando a si próprio. ao tomar posição pró ou contra logo nas primeir as páginas — ou. a espumar de cólera ante a opinião adversária. and seem to prefer words to facts. só então. Contra o primeiro desses equívocos. como um bom convidado à mesa. Co mpreendo perfeitamente que as pessoas intoxicadas por essa atmosfera enxerguem o u finjam enxergar um mero truque de retórica na minha afirmação de não ter partido de co nvicções prontas. Daí a conveniência de garantias preliminares con tra um duplo equívoco possível: de um lado. substancialmente uma investigação. O que Pessanha suscitara em mim não fora uma discordância. Mas contra o segundo dos males mencionados só cabe o recurso de contar os f atos. apenas o boneco de ventríloquo de um interesse col . No caso deste liv ro. men of undo ubted talent are often beguiled by phrases. a sinceridade individual não tem valor. dentro de certos limites. uma agita5 South America: Observations and Impressions. Fora uma perturbação da alma. quando ele é. No trecho citado. uma decepção. e uma tese filosófica pouco significa se amputada das razões que a ela conduzem e das motivações ge radoras da pergunta a que responde. de expor a situação real e vivida de onde a pergunta emerge. 1912. toma de fato um rumo bem 5 diverso daquele que parecia anunciar no começo . fazem parte do assunto. Macmillan. A carência absoluta dessa habilitação po de chegar a ser mesmo uma conditio sine qua non para a aquisição de respeitabilidade em certos círculos universitários. do meio para diante. de um país. que aceitá-las ou rejeitá-las in limine é impedir-se 4 de entender aonde levam. querendo ou não. de uma cultura. A NOVA HISTÓRIA DA ÉTICA § 1. mas também alguns brasileiros. a pressão coletiva e a intimi dação autoritária são meios não apenas legítimos mas preferenciais do debate intelectual. principalmente norte-americanos. pode rejeitar de cara a formulação mesma da pergunta. uma tristeza desesper ançada. sob o impacto da aversão que haviam despertado em mim as palavras de José Américo Motta Pessanha. devo advertir que as opiniões expres sas no começo são apenas um começo. o leitor pode acolher ou repelir a tese em abstrato. p. here and in other parts of South America. e de que. ou: Biografia deste livro “It is strange to find that. Habituado por uma longa autodisciplina a suspender o juízo até encontrar uma evidência ou uma prova suficiente. tomando este livro como expressão de opiniões prontas. Transgrido aqui as boas maneiras por necessidade in trínseca do assunto. de uma raça . surpreendo-me ao notar o quanto essa habilidade pode s er deficiente em intelectuais militantes afeitos a buscar numa idéia antes seu pod er de mobilização do que sua veracidade intrínseca. já que o indivíduo não pensa e é sempr e. portanto. — O que Epicuro veio fazer aqui. 417. ouvid as algumas horas antes numa conferência sobre Epicuro no ciclo de Ética que a Secret aria Municipal de Cultura promovia no Museu de Arte de São Paulo. Introdução. de outro. como há d e ver quem o leia até o fim. indignada ou mansa. isso é absolutamente obrigatório: os acontecimentos que o sugeriram determinaram as condições em que foi escrito — as quais. nesse sentido. que não obstante consiste — posso garantir — em coisas cuja relevânci a transcende infinitamente a pessoa do autor. investigação que. um livro de filosofia.CAPÍTULO I. A necessidade a que me refiro provém do seguinte: este é. Isto projetará tal vez a imagem de um fanático. que o leitor. no ar. ao fundá-la numa impressão do momento —. sem saber a que coisas e seres se refere na vida deste mundo . o seu verdadei ro sentido. pior ainda.” 4 JAMES BRYCE U M ESCRITOR EDUCADO.

na convicção nada acadêmica de havêlas escrito eu mesmo. [Nota da 2a.etivo que salta sobre as intenções do coitado e diz pela sua boca o que bem entende. malgrado tudo. . edição]. Deixo a essas criaturas a tarefa extremamente científica de desencavar das sombra s o secreto autor coletivo destas páginas. e permaneço.

O que me espantava era que esse gênero de manipulação. perdida toda vontade de enxergar. O primeiro move-se no reino das palavras. movia o eixo dos globos oculares. Há uma grande diferença entre o doutrinador que mete simplesme nte na cabeça das pessoas uma idéia errada e o feiticeiro que as adoece. fazendo ver tudo diferente do que era. Cada palavra parecia calculada para desviar a atenção do ouv inte. env enenava os cérebros. Não havia ali uma única brecha por onde pudesse se introduzir u ma discussão inteligente. seria aí tão descabi do quanto tentar deter um assaltante à força de citações do Código Penal. instaura novos r eflexos involuntários. que podem ser enfrentadas com palavras. produzindo feridas num estrato profundo que os meros argumento s não atingem. ou então para u sos perniciosos e ilícitos. ela se esquiva ao olhar humano e vai exercer seu domínio dire tamente sobre o macaco residual que habita em nós. de Programação Neuroli güística. autoconsciên cia. varei a madrugada anotando objeções e protestos que . via em alucinações as poltronas d o MASP lotadas de zumbis sem olhos. no melhor estilo Lair Ribeiro. Cheguei em casa pela meia-noite e. 1991. tentando adormecer. reduzindo o cérebro humano a uma passividade veget al. A ação do feiticeir passa ao largo da consciência. era a sua densidade. Não sei se me faço compreender. mesmo com veemência fanática. na trama de erros tecida por Pessanha. estar lhe transmitindo cultura. exi gindo vir à tona. Vira-as também em demonstrações de hipnose. ela não pode ser desfeita pela pe rsuasão racional. juízo crítico. Era isto. sem crer no que a cabara de presenciar. Saltava da cama com a cabeça fervilhando. Feridas insensíveis. com isto. Não que nunca tivesse visto coisa igual. de técnicas psicológicas que. mas somente produzidas por feiticeiros confessos. não cessavam de brotar como reações de um organismo febril à invasão de uma toxina. Meras opiniões não produzem este efeito. Vira muitas. “Discordar”. no recesso de seit as obscuras que não se adornavam do prestígio da autoridade acadêmica nem se abrigavam sob a proteção do Estado. debilitando suas inteligências para que nunca mais atinem com a idéia certa. aspirando o adocicado perfume do esquecimento. O que mais me impressionava. diminuída. Puro feitiço. Companhia das Letras. sugestionadas pela voz melíflua. Um público de quinhentas pessoas subm etera-se à intoxicação com sonsa alegria. O Jardim de Epicuro parec ia-se estranhamente com o Jardim das Oliveiras . como uma neurose. eu me tornara o sintoma denunciador de uma neuros e coletiva. numa deliqüescência mórbida. Tudo o que a platéia não quisera ver parecia ter se condensado no meu subconsciente. produzia a acomodação progressiva a um estado de penumbra. O grumo compac to de absurdidades exalava uma radiação debilitante sobre as inteligências. O segundo exerce uma ação quase física. não conseguindo pegar no sono. uma droga. move tendões e músculos. que entrava pelos ouvidos da platéia. ao menos não proclamavam. a alma da vítima se amoldasse às t revas como num leito fofo. remexe os órgãos dos sentidos. mas ali eu só encontrara pesares e aflições. impedi-lo de olhar o assunto de frente.22 OLAVO DE CARVALHO ção soturna carregada de maus presságios. um vício. até que. de lucidez 6 “As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”. pelo jogo de imag ens que dava às lorotas mais óbvias um intenso colorido de realidade. como crianças a seguir m um novo flautista de Hamelin. Querendo ou não. tivesse deixado o recinto das clínicas psiquiátricas e das . hipnotizá-lo e arrastá-lo delicadamente pela argola do nariz até uma conclusão que ele já não estaria mais em condições de julgar e à qual se cu varia com um sorriso de felicidade idiota e um mugido voluptuoso. próprio somente p ara o tratamento de doentes mentais inacessíveis à comunicação consciente. contra minha vontade consciente de adormecer e esquecer. ela salta por sobre a mente. Saí dali enjoado como um autêntico careta sai de uma festinha de emb alo. São Paulo. que só começarão a doer quando for tarde para curá-las — quando a lembrança de sua origem estiver demasiado apagada para que se possa iden tificar o rosto do agressor. Mais tarde foi publicada no volume coletivo Ética. por profissionais da dominação psíquica. precisamente: as frases de Pessanha eram um entorpecente. Eu saíra dali em estado de estupor. O título prometia “delícias”6. Em casa. num giro louco da tela do mundo. fixá-lo num estado de apatetada pass ividade ante o fluxo de sugestões.

para ser empregado por acadêmicos como um sucedâneo da transmissão de idéias. Su- . mas nunca imaginara que a coisa pud esse baixar a esse ponto. da debacle do ensino universitário. Eu estava consciente. doloridamente consciente do declínio intelectual b rasileiro.seitas ocultistas.

Imprevistos e correria s de uma vida anormalmente repleta deles impediram-me o retorno a este trabalho. quase inaudível. ao fio dos argumentos de Pessanha. esclarecedor. Fernando Col lor de Mello da Presidência da República. li o manuscrito para uma roda de amigos e o guardei. se lhe interessasse. mas em resposta recebi aquele sorriso de condescendência desdenhosa com que o detentor de um segredo beatífico marca a distânci a que o separa do profano. o público era convidado a mergulhar num abismo de inconsciência. assumi qu e era um sintoma vivo e me encaminhei ao divã mais próximo — a máquina de escrever — para verbalizar os conteúdos neuróticos que a magia de Pessanha injetara em meu cérebro. a quem a platéia ind enizava com tanto mais fartura de aplausos fúteis quanto maior a quota de compreen são que lhe sonegava. Ele fora um sinal de largada. tenciona ndo dar-lhe mais tarde uma forma final e remetê-lo a Pessanha. foi estreitando cada vez mais seus objetivos. Na noite seguinte. com o convite para uma réplica. que não c omeçara propondo metas tão gerais. recuperar o senso do real momentaneamente entorpe cido pelas artes de um feiticeiro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 23 punha que a redução do pensamento à tagarelice ideológica fosse o limite inferior da dec adência. mas se mostravam incapaz es de dar qualquer noção clara do que ele dissera. de sfazer o macabro encantamento. Imaginei apenas que fosse um sujeito abstruso. A alguns objetei que o m esmo acontecia aos ouvintes de Hitler. int raduzível em palavras. na treva sem fim de um definitivo adeus à inteligência. segundo o qual a essência de uma coisa é aquilo em que ela enfim se torna. envolta num halo de prestígio místico. Nada. Mas conhecia sua fama e havia notado nela um traço p eculiar: seus ouvintes saíam f ascinados. Larguei Epicuro. onde. que começa ra como um amplo movimento de conscientização moral. Foi só em fins de 1992 que. sem suspeitar que ela pudesse fornecer algum indício quanto ao ca ráter do orador. no fundo de uma gaveta. para mim. consolava-me com aquelas palavras que as avós sempre dizem quando a gente d espenca da bicicleta: “Do chão não passa. Collor de Mello. o chão se abrira: pelas mãos de Pessanh . Nos meses seguintes. Alcançada esta meta. interminado e tosco.” De súbito. Esse exorcismo constitui duas quintas partes do presente livro. da campanha pela “Ética na Política”. Após cinco tentativas falhadas. Mas . me fazia antever o que encontr ei no MASP. tinham sido realmente os únicos objetivos da campanha. Eu nunca tinha visto José Américo Motta Pessanha. esqueci Pessanha. e a conseqüente ascensão das esque rdas à posição dominante. me dei conta do papel que tivera aquele ciclo de conf erências n preparação discreta de acontecimentos que depois iriam a avolumar-se e desa bar sobre o país como uma tempestade. verbalizá-los foi o bastante para exorcizá-los. senão para melhor atingir o alv o particular. a campanha festejou o e vento como se ele tivesse dado plena satisfação aos seus anseios. como se as mais pr ofundas exigências morais da nação tivessem sido cabalmente saciadas mediante a simple s dispensa daquele infausto mandatário. Guardavam uma impressão difusa. É verdade que tout commence en . Apaziguei minhas inquietações explicando essa reação como esn obismo do público. que ficou jazendo. Tive então um impulso de retomar este trabalho. o curso dos eventos polític os tomou um rumo imprevisto e. tecendo ao conferencista os maiores elogios. No fundo. Ocupações variadas desviaram-me para outros assuntos. A campanha da “Ética”. antes da publicação em livro. e me acompanhou em uma mudança de cidade e cinco mudanças de casa. Não consegui conciliar o sono. ache i então que a destruição política do Sr. cogitando as razões da súbita e inusitada popularidade adquirida pela palavra “ética”. Co mo sempre acontece em tais situações. era o que eu quer ia. empenhado em desarraigar da nos sa mentalidade política alguns vícios seculares. de modo a curar-me dela para sempre. examino a filosofia — ou seja lá o que for — de Epicuro. amplas e profundas. Meditando os eventos à luz do preceito de He gel. até concentrá-los num alvo único e imediato: a retirada do Sr. mas absolutamente nada. não pude encontrar o manuscrito. na maçaroca de papéis que trouxera de São Paulo comprimida em cinqüenta e tantas caixa s. estreito e raso que lhe interessava.

que procure mesmo discretamente abafar denúncias. mais empen hada em descobrir e revelar a verdade. Uma campanha de escala nacional que se apoia numa retaguarda filosófica. acobertar suspeitos. no episódio. por um só c itério de valores. Todos. como o senador Ja rbas Passarinho. foi este que na segunda fase da campanha — a guerra contra João Alves & Cia. mais independente. e nfim. os esquerdistas buscavam uma compensação por duas décadas de humilhações. mas todos os órgãos de comunicação. O estranho era que a inaudita mobilização da c lasse intelectual não desse à campanha nem mesmo um arremedo de rigor. no entanto. os inimigos já estavam quase todos mortos ou esquecidos. o desejo de vingança ain da tivesse força bastante para obnubilar todas as inteligências. em princípio. estão alinhados no ataque frontal à corrupção. não há defecções. os âncoras de TV tinham se tornado g uias e orientadores da intelectualidade mais pomposa e autoritária. A revanche era tardia demais. só para eliminar um adversário político ou m eia dúzia deles. quando comparados à persistente in diferença ante o escândalo das “polonetas” (empréstimos irregulares ao governo comunista d a Polônia). é a unanimidade d a sua adesão a esse objetivo. — anotei num artigo que escrevi para a revista Imprensa: “Pelo furor investigativo com que os jornais e a TV abrem as la trinas. tinham sido derrubados com muit o menos investimento intelectual. que a farsa de uma ética reduzida a grosseiras expressões d e ressentimento parecesse contentar a todos os cérebros incumbidos. era a desproporção entre a quantidade de mystique que se mobilizara e a mesquinhez do seu resultado políti co. de autoconsciência moral. No exército da moralidade pública. quando a campanha voltou à carga. Collor. onde cada facção procur a sempre se arrogar o monopólio do bem. na esqui8 A onda de ira nacional contra Collor e depois contra os deputados envolvidos em desvios de verbas são casos ainda mais estranhos. de seriedade. que se deixava guiar ao som de slogans. tem a imprensa mais ousada. convoca as luzes dos sábios do passado e se dá todos os ares de uma revolução cultural. de sta vez contra deputados e empreiteiras. para atirar ao limb o as exigências mais comezinhas do amor à verdade. com festiva credulidade. parecia escapar inteiramente àqueles mesmos que o protagonizavam8. Governantes muito mais poderosos que o Sr. a “ética” que se reivindicava assumiu de vez sua verdadeira natureza de mero impulso de vingança 7 política voltado contra alvos descaradamente seletivos . destapam os ralos. que trouxe ao Brasil muito mais prejuízo do que o ex-presidente e todos os “anões do Congresso” somados. Tudo isso é muito normal em política. não me sati sfazia. apela a todas as forças intelectuais da civilização. em troca de resultados políticos de valor duvidoso. Mais tarde. Aparentemente. sem ex ceções visíveis. nela. que verberam em uníssono. enfim. proteger reputações. parece que o Brasil. Não há neste país um só jornal. Documentei o bastante a esquisitice ambiente em O Imbecil Coletivo para poder me dispensar de enumerar novamente aqui os sinais da patologia mental que então acom eteu a inteligência brasileira. Foi a uniformidade do . cuja singularidad e. e os militantes da moral não relutavam em recru7 tar para suas tropas notórios servidores dos governos militares. embora parcialmente verdadeira. E — conjeturei então — talvez fosse possível encontrar. decorrido tanto tempo. mas o espantoso. de ser exigentes consigo mesmos. Amigos com quem comentei o caso explicavam-no pelo revanchismo: como macacos a espancarem a onça morta. um aspecto estranho. estação de rádio ou canal de TV e se exima da obrigação de informar. vasculham os esgotos da República. Só para dar um exemplo. com afinação de um coro multitudinário regido por uma só vontade. perseguindo os rem anescentes de uma ditadura que não tinham conseguido vencer e que só se desfizera. por um só espírito. e mesmo Estados e regimes inteiros. diante de um fenômeno estranho. como se a destruição de seus desa fetos políticos valesse a abdicação de toda inteligência crítica. Mas a explicação. Não era possível que. que par eceu escapar totalmente aos melhores observadores. por vontade própria. Estávamos.24 OLAVO DE CARVALHO mystique et finit en politique. é realmente um daqueles casos em que o excesso de chumbo só faz ressa ltar pateticamente a míngua de passarinhos. dentre todos os países. Porém o mais admirável.

d interesses.noticiário que permitiu fixar na retina do público a imagem de um Brasil dividido em justos e pecadores. a de Caim e a de Abel. de uma nação em peso abdicar de suas dive rgências internas para formar frente única sob uma bandeira tão vaga e abstrata quanto a “ética”. que democracia é pluralismo de opiniões. sem quaisquer ambigüidades ou meios-tons . esta vociferando sua indignação nas praças. ao mesmo tempo. se viu um caso como este. Imagem na qual a linha demarcatória da “ética” se sobrepôs mesmo às divisões de partidos. e ntre os temas dominantes do seu discurso. e não raro explicitamente. num sombrio me neio de cobra. de ideologias. movidos pela necessidade de unir-se em defesa de bens mais palpáveis contra perigos mais imediatos e letais. O que está acontecendo no Brasil é um fenômeno ímpar na história da imprensa mundial. mocinhos e bandidos. apagando pistas. Anormal historicamente. Nunca. ela é. aquela esgueirandose pelos corredores. a celebração de si mesmo: a condenação dos polít icos corruptos é. lograram homogeneizar a tal ponto o discurso dos seus jornalistas. Um fenômeno tanto mais estranho quanto é recente a introdução da palavra “ética” no vocabulário popular brasileiro e rapidamente improvisada . a quem fez seu aprendizado no jornalismo ouvindo dizer que impre nsa é diversidade. a glorificação da imprensa livre que os investiga e desmascara. Nem países em guerra. essa unanimidade não pode de ixar de parecer um tanto suspeita. terminando por neutralizá-las e por não deixar à mostra se não duas facções. tramando golpes. Mas. o Brasil atinge o portal da maturidade democrática. Esse unanimismo não teria poder sobre as consciências se não incluísse. Ninguém hesita em ver nesse fenômeno o começo de uma nova era: levado pela mão da imprensa. com êxito fulminante. sua promoção ao status de ideal unificador de todo um . em qualqu er lugar ou época.

Apenas mudei um pouco a ordem. com muitas idas e vindas entre a superfície da políti ca atual e as camadas mais profundas de uma antigüidade quase esquecida. de intenções veladas. política e metafísica. agora com o empenho investigativo de um “araponga” do PT. Mas. Nada alterei nele em substância. Toda a parte inicial — do § 2 ao § 17 — é o texto de 1990. É também esta multiplicidade de temas e planos que explica a trama compósita deste liv ro. alguns metros por dia. Acrescentei também muitas. Elas repres entam. a unidade de um a intuição simultânea 9. acrescentei os livros finais e este começo. além da economia que nos facultam ao abreviar um argumento median te saltos que a indicação de um mero título preenche. na parte que a ele mais de perto se refe9 povo. não poderia ter sido de outra forma. Tão vasta e ra a área das implicações. além de todas es sas coisas apreciáveis e reconfortantes. . que espremesse numa área limitada e visível a multidão variada de fantasmas evanescentes.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 25 sitice geral do ambiente pátrio. além do benefício peda gógico de abrirem para o leitor um leque de estudos complementares. além da aparência verdadeira ou fals a de probidade científica de que revestem o conteúdo de um livro. dentro do corpo de um livro. Como esta cosmovisão. não pude mais adiar a retomada deste trabalho. num lance súbito de espadachim ou de pintor zen. Além da sua função m l de testemunharem o justo reconhecimento de um escritor para com seus fornecedo res de material. Revi rando de novo meus papéis. pensando bem. que arriscaria perder de vista a forma do seu conjunto quem se aventurasse a percorrê-la aos poucos. Para fazer face à i nfluência difusa e embriagante que as palavras de Pessanha espalhavam no ar como u m spray. Abandonadas mas não desprezadas. mais que contestá-la. Não creio que isto se pudesse fazer senão tudo de uma vez. mostrar toda a cosmovisão que ela trazia de contrabando por baixo do sentido explícito das palavras. na multiplicidade dos temas e dos planos de abordagem. era preciso um sobre-esforço de compactação. já pronto. daqui de onde fala ao distinto público. misto de memórias e ensaio filosófico. Diante dessa expectativa. para c onservar. as linhas de investigação que tiveram de ser abandonadas para que o livro pudesse c hegar a um ponto final. muitas notas de rodapé. um princípio de explicação para aquilo que eu vira no M ASP. l ocalizei o manuscrito e fiz-lhe os acréscimos que àquela altura me pareciam necessário s. sem que ninguém se lembrasse de objetar que a rapidez com que se propagam as palavras está às vezes na razão inversa da profundidade de penetração das idéias. reproduzido em O Imbecil Coletivo ). cort ado de excrescências. maio de 1994. de mensagens camufladas para uso dos happy few. que. Mas esc rever. em Imprensa. — Se o conhecim ento. a falta da capacidade de espantarse é um grave sintoma de apatia mental na nossa intelligentzia. mas da qu al só tomei conhecimento muito depois.” ( “Unanimidade sus ta”. pode agora mesmo vislumbrar em pensamento outros tantos melhores. aumentado de esclarecimentos indispensáveis e melhorado — espero — nos detalhes da expressão. Jamais uma palavra-de-ordem emanada de um estreito círculo de intelectuais a tivistas logrou alastrar-se com tal velocidade pela extensão de um continente. ocorrida no início de 1993. não se poderia elucidá-la sem ampliar formidav elmente o círculo das investigações. não alterou em nada minha disposição de publicar este livro. Notas de rodapé são uma das mais amáveis invenções humanas. além mesmo do in egável deleite psicológico que um autor pode tirar da ostentação erudita. por sua vez. só pôde escrever este. A notícia da morte de José Américo Motta Pessanha. as sementes de outros tantos livros possíveis. Sua presença nas notas mani festa a confissão de que este não é o único nem o melhor dos livros possíveis sobre o seu assunto. reportagem e panfleto. era preciso desvendá-la. por ora. elas nos dão algo ainda melhor. Muit as e longas. começa com o espanto. A fala de Pessanha era tão cheia de subentendidos. como diz Aristóteles. Hoje surpreendo-me de ter podido escrever tan to numa só noite. Algumas correções foram bem minuciosas. convocava reforços de eras pretéritas par a dar apoio a uma política do presente. mas deixaram inalt erado o sentido do conjunto. O mesmo autor deste.

religião comparada e sei lá quê mais — coisa em suma incatalo gável. 1993 ). E. IAL & Stella Caymmi Editora. . Olavo de Carvalho. Seus Fundamentos Metafísicos. se fixei com tal apuro as distinções e ntre os gêneros. Os Gêneros Literários.esoterismo e fait divers. melhor misturá-l os. na verdade. não há o que não caiba na minha definição de “ensaio”. R io. foi justamente para poder. em caso de necessidade. que não se esperaria ver assinada pelo mesmo autor de uma rigidíssima teoria do s gêneros ( v. Mas.

enobrecido e como que santificado pela morte de seu revend edor local. de confrontar na s erenidade de uma comum devoção à ciência várias imagens da realidade. espero que me sejam perdoadas como naturais desabafos de um homem que tem de falar sobre o que preferiria esquecer. A primeira é que. para defesa e esclarecimento dos vivos. que o feiticeiro. ele atacou novamente. o círculo inteiro das condições remotas que a possibilitaram. mas não consigo esconder a repugnân cia que sinto ao lidar com esse gênero de materiais. como dir ia Paulo Francis. a palestra de Pessanha sobre Epicuro. numa programação que reproduzia resumidamente o ci clo de Ética do M ASP . para certas pessoas. Eis como a morte do pensador dá mais força de difusão às idéias que ele defendeu em vida. que incluiu comemorações — pagas com dinheiro público — do bicentenário do marquês d ade. Faço-o com resignada boa vontade. para simbolizar o cúmulo da insignificância. A segunda é que a morte de um filósofo não torna verdadeiras as idéias falsas que tenha defendido. ele não se prestaria a colaborar de maneira alguma. de desocultar intenções que chegam a ter al go de sinis10 Pouco depois dos acontecimentos narrados nesta “Introdução”. de revelar o mal para que pereça exposto à luz. Alguns leitores talve z digam que dei uma importância desmesurada a um acontecimento superficial e passa geiro: a refutação de uma simples conferência não requer todo um livro. — Em 26 de setembro de 1994. desde 1990. Conservado e industrializado pela técnica. não são imagens da realidade: são poções mágicas. e das quais ela extrai toda a significação que possa ter para além das miudezas políticas que const ituem sua motivação imediata. gravada em vídeo. Sustentam essa minha decisão três razões. sob a direção do mesmíssimo Adauto Novaes que organizou o evento de 1990. com u m ciclo denominado Artepensamento. num esgueirar soturno. As idéias. e muitas palavras de louvor a Laclos. em debates letr ados. quem não tenha podi do fazê-lo em vida dele. que emprego no texto. da qual fugi o quanto pude. o mesmo grupo realizou o congresso Libertinos/Libe rtários. foi tran smitida pela TV Educativa do Rio. mediante a exibição dos chumaços de cabelos e dos r etalhos de roupas da vítima. não passa da altercação entre dois velhinhos — Naphta e Settembrini — no asilo de tuberculosos em . como em psicanálise. Quanto ao tom. de desenterrar velhas mentiras esquecidas. para encontrar a mel hor. Esqueceu-se de dizer que o núcleo do enredo d’A Montanha Mági ca de Thomas Mann. Mas não se trata aqui de discutir idéias. de refutar argumentos errôneos. mas enquanto me mbro atuante de um grupo. A terceira é que aquilo que possa ter havido de maligno na influência de Pessanha sobre o público não veio dele enquanto indivíduo. Crébillon e similares. ne m poderia fazê-lo se quisesse. amputado da escuridão que o alime ntava e protegia. como o testemunha o atraso deste livro em relação aos fato s que o motivam. Um evento de porte bem modesto pode tornar-se assim elucidativo do movimento maior da História. em furtiva incursão. escondeu entre r estos de cadáveres. E um feitiço não se discute n o plano teórico: um feitiço desfaz-se. com o título mudado para “Arte de Viver”.26 OLAVO DE CARVALHO re. editar em papel-bíblia as obras completas de Julius Streicher. tro. por ignorar tudo a respeito. Não faço este trabalho com prazer. lúcido e inform ado. emitidos c om a inocência de uma equivocada busca da verdade. o veneno epicúreo pode agora se r distribuído em massa. Não se trata. A objeção não seria d todo despropositada. desde o fundo dos séculos. Essas condições é que são o tema do livro. Faço-o por uma obrigação interior. pelo menos na media luz da hipocrisia que se tornou o padrão oficial da ling uagem educada nacional. — Em junho de 1995. portanto. de que se servem para enfeitiçar o público e colocá-lo a serviço de fins com que. quand o nele se cruzam de maneira identificável as forças que se agitam à superfície do dia e aquelas que vêm. grupo este que continua vivo e passa bem 10. nada digo contra sua pessoa. Trata-se. Algumas expressões mais fortes. a altercação de d ois velhinhos num asilo. Só falta. num giro por dois milênios de histór ia das idéias. Um escritor cujo nome não me ocorre sugeriu. nem exime d o dever de contestá-las. apesar da ve emência com que contesto aqui as idéias de Pessanha. e não por simples ocasião e sinal para mostrar. se este livro tomasse a conferência de Pessanha por seu obje to. livro que condensa todo o drama das idéias do século XX. reconheço. o deste livro é às vezes de uma franqueza que destoa.

. ao reencontrar-se num asilo.. no fim os velhinhos fazem as pa zes. E Perez de Ayala fez dos bate-bocas entre dois velhinhos de miolo mole — Be larmino y Apolonio — o resumo da universal altercação. . na perife ria da História. a cantiga milenar do engano. Como se vê pelo exemplo dessas belicosidades g eriátricas. aquilo que pouco significa por si mesmo pode significar muito pelas ca usas que revela. No fim deste livro o leitor verá como o personagem dos primeiros parágrafos terá se tornado pequeno — o eco débil e longínquo que repete às tontas.Davos.

sujeito pacífico e tolerante até o limite da paspalhi ce. mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso. Essas idéias são a origem primeira e a meta do trabalho . nada se parece mais a um adorno exterior. que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico. Ainda um pedido. Não e screvi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis. Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso. Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Oci dente moderno. Meu propósito não é mudar o rumo da História. este livro não se limita a desfazer um ou vários erros. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação. permito-me citar o único autor do qu al posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu. Meus alunos podem atestar que a polêmica está longe de constituir o centro dos meus interesses. contra nada somos mais severos do que contra os erros que abandonamos. lev ando muitas delas à morte por definhamento. . Também declaro peremptoriamente que não tenho a menor ilusão de influencia r no que quer que seja o curso das coisas. a outras estrangulando no berço ou esmag andoas a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem. a um inócu o passatempo botânico de nefelibatas. que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado. sob a forma de apostilas de meus cursos pr ivados. se ouviss em. é a mais baixa faculdade da intel igência. e sobretudo o fato de ser esta já a minha terceira obra de combate11. Posso provar isto. por agora. como o leitor verá sobretudo n as últimas páginas. que deram ocasião e pretexto ao se u aparecimento. o hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas conseqüências práticas que as idéias filosóficas. não as compreenderiam. não levem ninguém a conclusões precipitadas 11 12 As anteriores foram A Nova Era e a Revolução Cultural. ginástica sueca e chibatadas. supondo-se que a desejemos. E se aqui submeto idéias alheias a esse tratamento impiedoso. podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que. Mas. da ruidosa atualidade. e não pela importânci a muita ou pouca dos fatos. e na ordem de publicação dos meus escritos preferi começar de baixo. e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo. Não posso r ecomendar esse regime às almas sensíveis. do que uma conferência sobre o Jardim de Epicu ro no estilo floreado de Motta Pessanha. a direção onde devem ser buscadas as verdades que eles renegam e rene gando encobrem. locais e momentâneos. mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no resta nte do livro. reservando as partes mais altas e serenas para melhor ocasião.” Ademais. mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. por olhos doidos ou sãos. Que o tom deste livro. Para liquidar de vez com a objeção. enquanto as idéias amadurecem e se revestem de uma forma verbal melhor12. sucedâneos do afeto humano. mas aponta. mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais. Fritjof Capra e Antônio Gramsci e O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras. mas desconheço outro que possa nos colocar n a pista da verdade. É que a crítica. Quanto às minhas. é porque algumas delas já foram minhas — e. que vai para onde bem entende e jamai s me consulta (no que aliás faz muito bem). “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 27 De outro lado. o que vi estava lá. segundo dizia John Stuart Mill. e deix ando-as mostrar-se apenas. escondidinho e letal sob as flores. como disse Goe the. sobre o temperamento do autor. No entender do superficialismo brasilei ro. trato-as a pão e água. positivamente. Ora.

IAL/Stella Caymmi. até agora. Introdução à Teoria do Quatro Discursos ( Rio. de divulgar essa parte mais interior do meu traba lho — com a publicação do livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. O episódio está documentado em Aristóteles em Nova Persp ectiva ( Rio. Topbooks.Minha única iniciativa. . 1996 ). 1994 ) — deu mais encrenca do que toda s os meus escritos de polêmica.

É também um preceito elementar do método científico não apresentar uma teoria nova sem provar primeiro que as anteriores não bastam para explicar os fenômenos de que trata. com a riteriosa discriminação dos tópicos abrangidos e por abranger. Para este. clamava pela união das ig rejas. em terminologia mais moderna. Opiniões próprias. aviltada pelos abuso s da retórica. Status quæstionis — termo da retórica antiga — é o retrospecto das discussões até o presente. As conferências do MASP Na gritaria geral contra a falta de ética. como fundamento primeiro da argumentação. que. designa os ideólogos da Revolução Francesa. o homem investido de autoridade acadêmica apresenta sua opinião solta. como por exemplo a de que na lógica de Aristóteles “o acidente é um tipo de propriedade” mais ou menos o equivalente a dizer que na geometria de Eucli des o quadrado é um tipo de círculo. No caso brasileiro. a oferecer-lhes. Voltaire é filósofo tanto quanto Leibniz ou Aristóteles. do alto de um caixote de beterrabas. O intuito declarado dos organizadores do curso era triplo: dar um esboço cronológico das principais doutrinas éticas. Desse preceito. organizadora do ciclo de Ética do MASP e. desorientado e perplexo. Não é de hoje que a filosofia assume o encar go de guiar o mundo. Se porém o especialista. Tão necessários são os filósofos nessas horas. grifado ou entre aspas. i solada. o professor. A seleção dos temas e o conteúdo das conferências terminaram por desmentir os doi s primeiros objetivos e anular o terceiro. mesmo que dele divirjam e sobre tudo quando divergem. sem os nexos que a ligam positivamente ou negativamente ao consenso e à tr adição. Quem fale aos leigos sobre um assunto da sua especialidade está implicitamente obrigado. biônicos. titular da Sec retaria Municipal de Cultura. nas horas de escândalo e r uína. e dará às palavras de um só indivíduo — ou do grupo que ele representa — o valor e o p eso de uma verdade universalmente admitida pelos homens cultos. assim representada. ergueu-se finalmente a voz da filosofia para clarear as idéias do povo e indicar à nação o caminho do bem. novas ou divergentes qu e o orador acaso tenha a apresentar só poderão ser compreendidas e discutidas com pr oveito se forem vistas no quadro desse consenso. É da tradição os filósofo bandonarem o silêncio da meditação para ir discursar às gentes. um sumário do es tado da questão no consenso dos estudiosos. chocado com a guerra entre cristãos. ambos podem faz er igual efeito. porque toda divergência diverge de alguma coisa e só no confro nto com ela adquire sentido. . last not l east. onde são servidas aos convidados al gumas lições preciosas. ou. quando ele. abrindo-o para um público de quinhentos e tantos l eigos. autora de um premiado Convite à Filosofia. pois a diferença está num plano acima do que o público enxerga. das teses consensualmen te admitidas e das que continuam em litígio. que. já não consegue se guiar p or si mesmo. Discursando do alto de um caixote de beterrabas. o público leigo fatalmente a tomará como se fosse ela mesma a expressão desse cons enso. É um meio de evitar a proliferação de teorias inúteis. Sócrates ia pelas praças cobrando os direitos da consciência. Leibniz. Fichte. a i ncumbência de figurar no papel de consciência filosófica nacional foi atribuída ao grupo de professores universitários que orbita em torno de Marilena Chauí. a compreensão de uma nova tese depende do conhecimento do estado da questão. Vejamos o que a consciência filosófica nacional. lançar luz sobre a questão da falta de ética no país e p opularizar o debate a respeito. um philosophe busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daquele s a quem segue. convocava os alemães à defesa da honra nacional pisoteada pelo invasor. as nações nomeiam filósofos honorários. Em todo debate científico ou filosófico. A diferença é simples: um filósofo busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores. pôde fazer para r econduzir aos bons caminhos da ética uma nação perdida.28 OLAVO DE CARVALHO § 2. pela ética da vida intelectual q uando tem. Benedetto Croce dizia que só se compreende um filósofo quando se sabe “contra quem ele se levantou polemicamente”. Foi assim que surgiu o termo philosophes. não havendo nenhum à mão.

Que aspecto foi esse. Epicuro. a que m assim proceda. o cabotinismo elevado a princípio historiográfi co foi cair num descalabro ainda pior ao tratar da filosofia medieval: espremeua toda.. ocupando todo o espaço e fazendo as vezes do consenso. Nem uma palavra sobre Platão. O tema ali encarregado de figur ar como amostra suprema do pensamento medieval foi. Dessa norma. tomado assim. Aí. tão especial? A moral agostiniana da autoconsciência? A ética tomista da escolha razoável? A pedagogia moral de Hugo de S. a fineza de declarar de antemão seu propósito de apresentar uma ver são nova e heterodoxa da História. pela m assa crédula dos ouvintes. Aristóteles ou o estoicismo: sobre os t rês sistemas completos que constituíram o essencial da herança moral grega às civilizações e uropéia e islâmica. Instaurada oficialmente em 1229. decorre uma norma prática: as novas teorias é que devem apresentar suas razões contra as velhas. Por exemplo. mas não tem o direito de posar em lugar dele perante um público que o desconhece. Seu período de atuação mais intensa. cabe ao desafiado a primazia na escolha das armas. por sua vez. recortada e contrastada sobre o p ano de fundo do consenso que ela confirma ou desmente. E nada mais confortável para um cara-de-pau do qu e poder contar com a sonsa aprovação de uma platéia novata. Quem assim a empregu e estará se aproveitando da ignorância alheia para fazer-se de autoridade. Ésqu ilo e Eurípides. Veremos adiante. Como num duelo. Mas cometer extravagâncias com o ar i nocente de quem procede segundo a praxe mais rotineira é aquilo que. no MASP. sobre os se ntimentos éticos na tragédia grega. no consenso quase universal. não con seguindo mais contê-la em si. por insignificante e banal que seja. a essência da Idade Média. que a revestiu da ima13 . o capítulo referente à filosofia grega resumiu-se a duas co nferências: a de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro. o pen samento ético grego ficou ali reduzido ao filete escasso e marginal do epicurismo e a um vago e misterioso “sentimento” coletivo escoado entre os versos de Sófocles. e não “a” História. numa só conferência. que em detalhe comento mai s adiante. e mesmo aí só a abordou. ou pelo menos sobre quinhentas cabeças. Ninguém nega aos organizadores do ciclo o direito de reinterpretarem a História o qu anto queiram. o tribunal da Santa Inquis ição! Historicamente. E a tragédia grega. deve ser mostrada como tal. em sentido corrente. Apenas se pede.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 29 que é válido também em filosofia. a última a negá-lo). com seletividade feroz. ele se espa lha: deita e rola. Nicole Loraux (aliás excelente). Rolando. com seus quase mil anos de História. No fim das contas. ao abrigo de todo olhar de censura.. na ética popula r. recebe o nome de cara-de-pau. Nem mesmo o de desfigurá-la em nome de uma teoria qualquer. incapaz de atinar com a ex travagância do seu procedimento. é um quid pro quo. no mínimo. não é propriam ente um filósofo menor. rolando. quando apresentada a um público leigo. o rótulo de extravagante. digamos — que tem todo o direito de ser defendida contr a o consenso. Uma história da é a grega que eleve Epicuro ao primeiro plano em lugar de Platão e Aristóteles não tem c omo evitar. e não estas contra aquelas. mas alguma coisa menor do que um filósofo. Vítor? O indeterminismo moral de Duns Scot? Nada disso. e a da convidada francesa. fl ui a obrigação de ética pedagógica a que me referi: toda teoria nova. Não deveria ser preciso fazer tais recomendações a pessoas tão cheias de consciência ética que. como obra de arte. sentiram o urgente impulso de derramá-la sobre toda a nação. carregada ademais de obscuros simbolismos a rcaicos. “essa instituição — como frisou Alexandre Herculano — nasceu débil e desenvolveu-se gradual e lentamente”1 3. alterand o a hierarquia dos fatos e as proporções dos valores. removendo para um canto os nex os principais articuladores do conjunto e puxando para o centro um detalhe qualq uer de sua preferência. Nunca deve ser exibida so zinha. como a quintessência do assunto. por um único e privilegiado aspecto. creio eu. É uma versão peculiar — alternativa. Nenhum desses tópicos nem dos muitos outros em que se subdivide a ética medie val nos livros de História da Filosofia foi considerado significativo o bastante p ara representar. Mas a versão que o ciclo apresentou da hi stória das idéias éticas é bem diferente daquela a que o público teria acesso caso se diri gisse a qualquer das histórias da filosofia que circulam em formato de livro. admite muitas outras interpretações éticas que não somente aquelas destacadas p or Nicole Loraux (que seria.

Alexandre Herculano.V. I. p. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal . . s/d. t. Bertrand. 25. Lisboa.

Alexandre Herculano. trad. o período de atividade inquisitorial mais significativa já é posterior. Mesmo o século do estabelecimento oficial da Inquisição. cit. a Inquisição controlou e enfim extinguiu as matanças. na Rús sia. e sobretudo filosofia medieval com Inquis ição. a pesquisa histórica mais recente revelou que Bruno es teve muito provavelmente envolvido em atividades de espionagem contra a Igreja C atólica (v. Rio. ). Vítor. com a eclosão das primeiras manifestações de autonomia nacional. já é apenas o finzinho da Idade Média: é o princíp o da sua dissolução. provavelmente não era. e não podem tê-las trocado por engano. ). que não marcaram significativamente o con teúdo de suas obras14. Pedro Abelardo. Chaim Samuel Katz e Eg inardo Pires. trad. repito. sendo reintroduzida na justiça civil graças à redescoberta — tipicamente renas centista — dos textos das antigas leis romanas. recomendo a leitura do ensaio de Claude Lévi-Strauss. As matanças de judeus. João VI. “O Feiticeiro e sua Magia” ( em Antropologia Estrutural. Eles sabem p erfeitamente bem que a Idade Média é um bode expiatório das culpas de períodos históricos posteriores. Anselmo (1070) até as Reportata Parisiensia de Duns Scot (1300). Sto. Em terceiro lugar. John Bossy. Durante quase toda a Idade Média. l A Inquisição institui u a tortura generalizada. sendo seu exemplo imitado em seguida pelos nazistas e fascistas. Alberto Magno. Deve-se portanto à Inquisição o primeiro passo efetivo que se deu con tra o uso da tortura. Os philosophes do MASP conhecem tão bem ou mel hor do que eu todas essas datas. 1975 ). que não coinc ide. mas aos que julguem um absurdo preconceito de eras pretéritas imputar à feitiçaria. nenhum desses filósofos exerceu qualquer cargo no Santo Ofício nem teve com esta entidade contatos senão episódicos. promovidas por devedores espertos ou por monges fanáticos. de modo a tirar qualquer pretexto que legitimasse as atrocidades dos “justiceiros pop ulares”. Bem ao contrário. o que deveria ser considerado um marco na história dos direi tos humanos. Tes tas. Hugo e Ricardo de S. A tortura era considerada um procedimento legítimo e pra ticada em toda parte desde a Grécia antiga. Guilherme de Conches. Alexandre de Hales. Não sei se a acusação era procedente. passando pelos livros de Pedro Lombardo. op. ao fim do ciclo de produção e publicação das principais obras filosóficas medievais. 1993). o processo f oi uma pizza. uma farsa concebida pelo Papa padrinho de Galileu para que seu pro tegido se livrasse de um grupo de inquisidores fanáticos mediante uma simples decl . das quais a própria disseminação das heresias. alcançando um máximo de furor nos séculos XVI e XVII. A tortura ilimitada foi depois reintroduzida pelos comunistas. op. Ediouro. com o da sua atuação efetiva. Tempo Brasileiro. caiu e m desuso. qualquer caráter criminoso. O que a Inquisição fez foi seguir o us o então vigente na justiça civil. É verdade que a Inquisição se mostrou preconceituosa contra os judeus. Isto é tão medieval quanto a física d e Newton. Idade Média com Inquisição. Tomás de Aquino e S. é u m dos principais sintomas. Sto. de modo geral. o XIII. l O proces so de Galileu foi um caso de perseguição inquisitorial. mas se em vez de julgá-la por um padrão moral abstrato e utópico a comparamos com as alter nativas reais existentes na época. As fogueiras da Inquisição continuaram depois a arder pela Idade Moderna a dentro. Para completar. não permitindo que o ac usado fosse torturado mais de uma vez e proibindo ferimentos sangrentos ( v. sobre a realidade das mortes por en feitiçamento.30 OLAVO DE CARVALHO gem sangrenta que tem para nós hoje. assim. é um descalabro cronológico equivalente ao de apontar Fernando Henrique Cardoso co mo ministro da Fazenda de D. causa imediata da abertura do Santo Ofício. que vai do Proslogion de Sto. o R ei de Portugal pediu que o Santo Ofício se incumbisse dos processos por usura. eram um hábito consagrado na Península Ibérica. entendemos que ela foi um mal menor: a única alte rnativa era o massacre ( v. Boaventura. Eduardo Fran cisco Alves. de dois séculos. cit. que a sua fama inquisitorial obedece à definição stendhaliana da fama: co njunto dos época era crime. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. Rio. Instituindo os processos regulares. Não conseguindo reprimir a ralé enfurecida. l A Inquisição instituiu a perseguição aos judeus. 14 Associar. — Para completar. mas limitando-o severamente. só começa a partir de 1400: em pleno Renascimento .

Testas v. 1991 ). mostraram a maior indiferença pela sua obra. que nada poderiam acrescentar ao desenvolvimento da ciênci a moderna. por G. A Inquisição examinava apenas livros de in teresse teológico direto. Galileu Herético. nenhuma observação. que na . astronomia. Nem sequer estudou as ciências modernas. mas por prática de feitiçaria. Paris. nenhum experimento científico. Newton. 1975. O número de balelas que circulam a respeito da Inquisição é assombroso. gramática e retórica o trivium. Giordano Bruno não fez nenhuma desco berta. Ele desprezava a n ova mentalidade matemática. física. As disciplinas que lecionava eram tipicamente medievais: lógica. Ele não foi condenado por defender teorias científicas. La Cosmologie de Giordano Bruno. Harvey e tutti quanti. Kepler. ) l Giordano Bruno foi um mártir da ciência. trad. Elas constituem uma capítulo importante do fabulário popular — do “senso comum”. Galileu. mas falar delas não é bom para a sua saúde e suscitaria desconfort o na platéia. Pietro Redondi. de Galileu a Des cartes. São Paulo. Júlia Ma inardi. condenad o pela Inquisição por defender teorias científicas. ( Em caso de dúvida. Bacon. Testas e J. Basta examinar o Index Librorum Prohibitorum para ve rificar que nele não consta nenhuma das obras de Copérnico. Hermann. leia-se A Inquisição. biologia ou matemática. Pa ul-Henri Michel. Os philosophes de modo geral não ig noram essas coisas. Descarte s. ). diria Gramsci — que sustent a a crença na superioridade do mundo moderno e de seus intelectuais. Eis algumas: l A Inquisição atrasou o desenvolvimento científico. e todos os cientistas matematizantes. Companhia das Letras.aração oral sem efeitos práticos. cujo maior mérito é justamente o de ter antecipado muito do que hoje podemos dizer contra a ciência moderna ( v. proibindo a circulação dos livros que traziam novas descobertas. após a qual ele pôde continuar divulgando suas idéias sem que ninguém voltasse a incomodá-lo ( v. Bib liografia no fim deste volume.

logo. trad. é claro. como as de Jung e René Guénon. foi um tour de for ce admirável: enlamear a reputação do adversário. com seus quadros sombrios de câm aras de tortura.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 31 equívocos que a posteridade tece em torno de um nome. teias de aranha. O rtega. ficou assim rodeada de uma auréola sangrenta. Nesta disciplina. a que aquela filosofia se associa intimamente. Helvéti us e Dégerando. típicos philosophes 17. Essa impressão sobre a Idade Média é parcialm ente um produto dos ‘Romances Góticos’ do século dezoito. mais ou menos do mesmo tamanho daqueles concedidos individualmente ao economista John Maynard Keynes. Enfim. mas sim a Históri a das Idéias. Ockam — fora ali todo espremido num só volume. ao mesmo tempo que omitia Dilthey. Mas também sabem que essa fama está profundamente arraigada na crendice popular. Neil R. valha m elas o que valham. sem ter precisado sequer mencionar o s eu nome. com alguns anos de antecedência. de O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Pöe até O Nome da Rosa de Umberto Eco15. Hartmann e Scheler. na ocasião da edição. já 15 se manifestara. a auréola terminou por rodear também o Catolicismo de modo geral. por seus efeitos político-sociais. se formasse por esta só coleção sua imagem da históri a do pensamento. Tomás.. O mais significativo da filosofia escolástic a — Sto. grande retórico e jornalista que. como filósofo. Duns Scot. desviando as atenções para um assunto mais truculen to. A Cultura da s Cidades. 23 ). como Condillac. Lukács. mas pela sua repercussão pública. o leitor d’Os Pensadores. Na escolha das obras que compõem a série Os Pensadores da Editora Abril. que injetaram o e volucionismo nas veias espirituais do mundo. Aí se explicaria o título da série (“pensador” é um termo mais vago e a brangente do que “filósofo”) e também a inclusão de autores menores. como por exemplo as de Wittgenstein e Adorno. da Silva. de que Pessanha fora organizador e editor. um economista que não é cit ado em nenhuma História da Filosofia . mais vistoso. As distorções não paravam aí: Pes anha achara indispensável dar todo um volu16 me a Kalecki. Belo Horizonte. por vícios que realmente pertenciam aos seus detratores. Procuran do. no início da R enascença. Em matéria de retórica — a arte de alcançar o máximo de persuasão com o mínimo de argumentos —. mistério e desvario” ( Lewis Mumford. Por automática extensão. ao antropólogo Bronislaw Malinovski e até mesmo a Voltaire. onde a plantou uma sucessão de ob ras de ficção de grande sucesso. foi o de evitar qualq uer exame da filosofia medieval. Pessanha e o pensamento Ocidental Uma pista podia ser encontrada. Itatiaia. em José Américo Motta Pessanha. E. a mesma seletividade deformante q ue agora inspirava o programa da Ética. Whitehead. para quê desmenti-la? Por qu e não tirar proveito dela? O proveito que se tirou.. Lavelle. no caso. Croce. que arrombaram as portas do Ocidente para a invasão das idéias orientais. A pr ova de que a velha aparelhagem cênica do “romance gótico” ainda funciona é o sucesso de O Nome da Rosa. p. um dos mais destacados membros do grupo. não pode ser levado a sério. vist o que a coleção incluía obras que só exerceram influência em círculos bem delimitados. 1961. com a vantagem adicional de que essa filosofia. as teorias não se tornam dignas de atenção pelo seu valo r intrínseco. acabaria por concebê-la bem diversa daquela que pode16 Na verdade a lenda surgiu um pouco antes: “A Idade Média foi denegrida. Jaspers. já que o público acredita na lenda. ou as de Spencer e Thomas Huxley. sem ter sido contestada diretamente ou mesmo discutida. de Lênin ou Gurdjie ff. Mas logo tive de abandonar essa hipótese. . Sem falar. talvez. a História oferece muitos exemplos de ‘censura transferida’. e omitia outras que produziram verdadei ras revoluções. conjeturei que Pe ssanha talvez não tivesse desejado ilustrar a História da Filosofia. Mas fica a pergunta: Para quê? Com que finalidade um grupo de intelectuai s declaradamente empenhados na salvação moral do país se envolve num empreendimento tão comprometedor como esse de contar ao povo uma História da Ética que falta com a ética para poder falsificar a História? § 3. explicarme as razões de escolhas tão bizarras. Cassirer.

Por que essa honra concedida a um único economista. alguns de primeira ordem pela qualidade literária e pela influência política de seus escritos — De Maistre. Maurras. como Friedrich Hayek e Ludwig von Mises? A resposta só pode ser uma: do ponto de vista uspiano um econo mista marxista é mais filósofo que qualquer filósofo liberal. . de figurar entre os filósofos. por exemplo — . 17 A direita também tem se us philosophes. Donoso Cortés. mas fora m omitidos. s e ele jamais publicou um único trabalho de alcance filosófico e se entre seus colega s de ofício houve muitos que foram filósofos de pleno direito.

E não lhe faltaram ocasiões para man ifestar o seu talento (que antes de empregar na persuasão política ele testara numa série de fascículos de culinária. mas sim de estratégia e mercadologia. e dispostos a sedimentar.32 OLAVO DE CARVALHO ria obter em qualquer livro ou curso da matéria (exceto. entre o retor e o retór ico: entre o orador persuasivo e o estudioso da ciência retórica. Mas ainda sobrava a pergunta: qual o sentido do empreendimento? Fo i só quando ouvi a conferência de Pessanha que pude compreender. on de impera o grupo de Pessanha). É por isto que. Aldous Huxley diz de uma personagem que. a inspiração talvez inconsciente de todos os títulos da série de eve ntos promovidos pela Secretaria de Cultura: o olhar que aquela gente lançava sobre o mundo não refletia a imagem de um objeto. Não se tratava de História. mas um grupo militant e decidido a fabricá-lo19. ed itado pela Universidade do Pará. qualificou-se sobretudo como retor. se lhe dessem o supérfluo. Fukuyama e tod os os outros filósofos de alta rotatividade. sem contar Fielkenkraut. Enfim. seguindo a tradição. retrospectivamente. Dil they. mas para dar seguim ento coerente a uma ação iniciada muito antes. Juntos. Husserl. como um mestre d a persuasão. discípulo que era de Chaim Perelman. não como editor d’Os Pensadores. Também nos faltam as obras principais de Hegel ( só temos a Fenome nologia e textos menores ). a série Os Pensadores se tornou. cujos trabalhos ele foi. representando. Perelman era essen cialmente um retórico. jamais chegou ao Sul-Maravilha. Mas temos Simone de Beauvoir quase completa . a obra de deformação que Pessanha já havia iniciado por conta própria. mas moldar o futuro. em outra escala. e por ele pude captar tam bém. Os Sentidos da Paixão e Ética — sem contar a militância pedagógica nas cátedras da USP — formam o mais vasto empreendimento de persuasão retórica já realizado n este país por um grupo de intelectuais ativistas imbuídos de objetivos políticos bem d eterminados. Parece ser isso que os editores brasileiros pensam do leitor. na teoria e na prática. de Kant. um grande con hecedor da Retórica. ela dispensar ia o essencial. o princípio a que obedecera a seleção dos livros: Pessanha não havia procurado mostrar o passado. Não escolhera os livros nem pelo seu valor. mas projetava sobre ele o sentido de uma paixão. o primeiro a div ulgar no Brasil. num país onde se publicam poucos livros de filosofia18 e onde as edições e strangeiras só são acessíveis a uns happy few. Até hoje não temos Aristóteles completo em português. e o Platão de Carlos Alberto Nunes. Para complicar mais ainda o imbroglio. nem pe la sua importância h istórica. Fichte. mas a decisão de uma práxis. malgrado suas distorções. como um orador e homem de marketing. Nessa operação. a imagem do pensamento universal. um investigador e codificador dos princípios da argumentação retóri ca. o curso da USP. muito Foucault. Hartmann e não sei mais quantos. O mesmo espírito pare cia ter orientado a seleção dos temas para o curso de Ética. O círculo de Pessanha não 18 Na verdade publicam-se muitos. aos olhos do público. mas já nos coloca numa pista importante: s e ali a verdade sofreu graves distorções. mas também por ser. Em Contraponto. de Leibniz. não foi por casualidade. na mesma editora). Ele não quisera refletir a História das Idéias na imagem dos textos. salvo engano. é claro. a série Os Pensadores. um item indispensável da b ibliografia filosófica nacional. Pessanha. no plano da luta cultural. Schelling. mas não os de primeira necessidade. Que intenção está aí subentendida e quais os . o grande renovador dos est udos retóricos no século XX. Pessanha desempenhava uma função estratégica. retroativamente. Mas Perelman distinguia. A escolha não refletia um critério teórico. acabou por adquirir uma autoridade comp arável à da Bibliothèque de la Pléiade ou dos Oxford Classics. mas pela repercussão que ele mesmo pretendia lhes dar. muito Antonio Gramsci. as bases para a conquista desses objetivos. Isto ainda não nos dá uma resposta quanto aos motivos úl timos da seleção dos temas no curso de Ética. o programa da Ética não fizera se não prosseguir. a série Os Pensadores e os três eventos O Olhar. que se crê muito le trado porque encontra nas livrarias as últimas modas filosóficas nacionais ( leia-se : estrangeiras ). por seu lado. mas produzi-la no campo dos fatos. na falta de concorrentes. era uma comunidade científica empenhada em descobrir o real.

a propósito os capítulos “Armadilha relativista” e “Rorty e os imais” no meu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras ( Rio. Mas antes mesmo de entrarmos em mais detalhes. e segundo o qual.valores que nela se incorporam. o que foi constatado até agora já nos adverte que a estranha conjuntura referida no § 1 dest e livro era ainda mais estranha do que parecera à primeira vista. não podendo encontrar “universais” na realidade. é o que teremos de descobrir numa análise microscópica da conferência de Pessanha. um tanto envergonhada. . a filosofia deve “fabricá-los” mediante a pr opaganda e a ação política. Faculdade da Cidade Editora. 19 Daí a receptividade. V. que se deu nesses círculos filosóficos às idéi as de Richard Rorty. 1995 ). filósofo pragmatista segundo o qual a linguagem não pode dar um a imagem do real mas somente uma expressão dos nossos desejos.

portanto. Não havia remédio. que remontasse às raízes in telectuais primeiras em que se inspirara aquela nova e singular concepção da ética. Er a preciso nada menos que interrogar Epicuro. senão uma sondagem em profundidade. se mostrasse tão ignorante das regr as mais elementares da ética intelectual. mais esquisito ainda era que uma elite universitária.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 33 Pois. se já havia uma inusitada desproporção no volume de recursos culturais mobilizad os para a consecução de um alvo tão pequeno quanto a simples destituição de um mandatário co rrupto. elevada à liderança inte lectual de uma reforma ética de escala nacional. prostituir a ciência e conduzir o povo por um caminho enganoso. E quanto mais eu remexia o assunto. mais inexplicável a coisa toda me parecia. tão ávida de falsificar a História. . tudo em nome de objetivos mo rais que seriam alcançados bem mais rápida e facilmente pela velha e boa linha reta.

.

EPICURO - .LIVRO II .

.

notório adversário do epi curismo. Um aspecto particularmente biruta da filosofia de Epicuro é o seu alegado material ismo. mas sim per guntar por que. Só que. se tornaram modelos insuperáve is. e dela aparentado tão-somente na distância que ambos guardam de toda verdadeira filosofia. será preciso remontar ao próprio Epicuro e. pois os traços do mestre devem se reencontrar no discípulo — e Epicuro produziu a lgumas dúzias de opiniões que. para manter-se de pé. isto já prova. alguém se deu o trabalho de ir retirar o pó milenar que encobria uma múmi a filosófica. eles devem estar em algum outro mu ndo. não foi uma simples exposição da filosofia de Epicuro: foi uma rasgada profissão-de-fé epicurista e uma declaração de guerra a todos os críticos de Epicuro. COSMOLOGIA DE EPICURO § 4. Lucrécio. procurava conciliar a bondade de Deus com a existência do mal no mundo. o corpo é material. mostrar o avançado estado de decomposição em que se encontra. por tadora da solução para todos os males humanos (sic) e da inspiração que o Brasil precisa para sair do atoleiro moral. pronunciada por José Américo otta Pessanha. V. § 32. Propor isto como um remédio eficaz pa ra a corrupção reinante é o mesmo que recomendar a fuga para longe dos credores como u m método eficaz de saldar as dívidas20. Uma profissão-de-fé epicurista. Se sonhamos com deu ses. Como tudo é material. Para sondar as razões desse mistério. pois aquilo q ue não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos22. no fim.CAPÍTULO II. como todo e qualquer mundo existente é sem21 22 Veremos. d e outro não hesitou em defender uma opinião que. por esta mesma razão. entre estes três níveis de seres. Pessanha não recuou diante das maio res temeridades na apologia do seu guru. Segundo Epicuro. tão diferente daquela grossa metafísica de caixeiro de loja que costumamos con hecer por esse nome. Epicuro ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade. num ciclo nominalmente votado ao esclarecimento de questões atuais e urgentes. Levado por aquele entusiasmo belicoso que sempre a nima os porta-vozes de uma doutrina salvadora. cuja solução trará consigo a de todos os outros anteriormente mencionad os. a alma também é mater ial. segunda conferência do ciclo de Ética. só para depois ter de varrê-lo para baixo do tapete. Têm-n a inclusive os objetos de nossos sonhos e visões imaginativas. . existência material. a d iferença de maior para menor densidade da dita “matéria”21. tudo o que chega ao nosso conhecimento tem. Diógenes Laércio. A questão não é portanto saber se Pes sanha se saiu melhor ou pior do que Agostinho no seu devoto empenho. segundo Epicuro. O ep icurismo foi ali pintado como uma das maiores filosofias de todos os tempos. Porém. 20 Mas opiniões esquisitas não são mesmo de estranhar em quem se declare seguidor de Epic uro. De natura rerum. mas uma forma superior de luta política. como não podemos encontrá-los em parte alguma deste baixo mundo. no campo da absurdidade. — A matéria segundo Epicuro “As Delícias do Jardim”. Agostinho. já que alguém antes de nós desenterrou a múm ia. só o que é aterial chega ao nosso conhecimento. requer uma lógica não menos circense: a opinião de que a fuga dos intelectuais para o jardim de Epicu ro não é alienação nem covardia. e até os deuses são materiais — havendo apenas. mas que o seu sentido é o de um engodo proposital. Se de um lado não poupou o sarcasmo ao ri dicularizar as acrobacias dialéticas com que Sto. retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo. que eles existem materialmente. que essa opinião não é totalmente destituída de sentido. X. fazendo de seu autor um clássico do besteirol. 146 ss. Logo — pelas leis da silogística epicúrea —.

poderia tir ar os deuses epicúreos desta aporia congênita. que já estamos metidos na densa porcaria terrestre. Mas. que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações. E como Epicuro ta mbém diz que um deus não poderia ser impotente. destituído de coisas. que seria do epicurismo? A busca do prazer. Afinal. Mas. em que se agitam há milênios os debates n o intermundo: se eles não interferem. acabaria por se perder em p razeres menores — que Epicuro despreza — e. já que eles permanecem no puro ócio contemplativo e não nos causam males nem bens. por que teria de ser menos densa justamente nos seres mais duráveis e não nos m efêmeros? É ais como dizer que uma superfície pintada é tanto mais azu l quanto mais diluída esteja a tinta azul. mas o que Epicuro g arante é que certamente eles o fazem em idioma grego. não deve ser menos desprovido de assunto. argumento. Como é possível que o modelo supremo do bem não nos cause nenhum bem. pela ética epicúrea. ao mesmo tempo. Mas nós. das duas uma: ou os deuses exercem um influxo benéfico. Mas nem toda a dialética de Agostinho. Assim Epicuro cai nas malhas do seu próp rio Epicuro diz que nada devemos temer nem esperar dos deuses. Não é de bom tom. Mas. podendo ajudar os necessitados. o que cria o seguinte problem a: se a matéria é eterna. motivo pelo qual devemos admirá-los. Epicuro diz que os deuses são inócuos e indifere ntes. Então. ele diz também que o prazer é o supremo bem. Para começar. rarefeita. por que raios é então? Se a matéria de Epicuro é esquisita. pergunt ar como é que seres materiais. mas declarou que ele se aplica perfeitamente ao Deus cr istão. ainda que por sua simples . um deus que. em nada ligando para as nossas preces nem mesmo quando proferidas no seu celestial idioma. ou pode e não quer. devem ser criteriosamente evita das. sem con hecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses. mas não é porque não podem. longe da miserável agitação dos mundos e sem inte rferir em nada na ordem ou desordem das coisas. Embora materiais como nós. prossigamos com a investigação. podem viver sem um ambiente m aterial em torno.” Pessanha não só achou e ngenhoso este argumento. segundo Epicuro. resultaria em aumento da dor. não é porque não querem e t mbém não é porque nem querem nem podem. Sabe-se lá sobre que eles conversam. Tal é justamente. só lhes resta alojar seus corpinhos de matéria sutil num intermundo. para ver como fica a segunda. só para depois ter em de pedir a Agostinho que as limpasse. num ambiente que. ou nem quer nem pode. o result ado a que chegam aqueles que buscam o prazer no terrestre e no imediato. eles ficam trocando idéia s nas longas noitadas do intermundo. mesmo de matéria sutil. Embora eles nos sejam indiferentes e po rtanto inúteis. não alcançando jamais o benefício do ócio contem plativo. com que julgava fulminar a religião grega e toda religião possível: “Ou Deus quer ajudar e não pode. se eles não nos ajudam. diz Epicuro.38 OLAVO DE CARVALHO pre material como o nosso. a única ocupaçã eles consiste em conversar. devemos concluir que. ficando desprov ida de um m odelo ou meta final por que orientar-se. não é porque não podem. os deuses não ficam atrás. que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o mo delo mais perfeito do ócio contemplativo. ou intervalo entre os mundos. pelo bem da paz no intermundo. se recusasse a fazê-lo. Epicuro achaos o supra-sumo da perfeição. ainda segundo Epicuro. sem eles. de outro lado. Sendo filósofos. os d euses são compostos de matéria sutil. e não em língua de bárbaros (motiv o pelo qual posso aqui falar mal deles à vontade. e por isto são mais duráveis. Para saber se uma coisa exerce ou não influência sobre outra. Só que Epic uro. estaria proceden do de maneira indigna de sua condição divina. Mas um conceito de matéria tão elástico como o de Epicuro só podia mesmo dar nisso. o mais velho e eficaz procedimento consiste em suprimir (de fato ou imaginativamente) a prim eira. eles não iriam querer suja r suas mãozinhas de matéria sutil na porqueira da matéria mais densa. somada à retórica de Perelman. que o objeto da admir ação não traga nenhum benefício à alma que o admira e não lhe dê nem mesmo um pouco de prazer eis aí questões que. seguro de que não entendem uma só pa lavra do que estou dizendo). e vestidos somente de intervalo. e sim porque não querem. afirma a eternidade da matéria.

.

de um lado. na hipótese contrária. então temos de admi tir que os deuses epicúreos. Tirar o corpo fora de toda responsabilidade sob a alegação de não ter cr iado o mundo não é lá também um comportamento muito digno de um ser divino. Logo. deve ser um bocado de trabalho. o modelo do bem. então só resta concluir que os de uses epicúreos. Agostinho. A única diferença que restaria entre Yaveh e os deuses ep icúreos é que Ele criou o mundo. além de ociosos. neste caso. . para o filósofo. o presidente do colóquio filosófico intermundano .. eles produzem um efeito bom e logo são bons sob algum aspecto. a capacidade para a “ação de presença”. Mas Epicuro afirma ai nda que. se denomina aliás tecnicamente. mas para todos os seres e coisas. E não haveria nada de estranho em que uma escola de ascetismo atribuísse a seus deus es a capacidade de produzir efeitos pela sua simples presença. meta e mo tor geral da vida humana. isto é. animais e plantas e pedras e áto mos e galáxias. então eles não apenas são causa de alguma coisa.. de outro. Por enqua nto. são causa formal do bem e causa final da vida ascética. por definição. os deuses não somente são a causa das ações do filósofo. Mas entre dizer que eles não criaram o mund o e concluir que eles não fizeram coisa nenhuma desde que o mundo foi criado. Mas. E como ademais o desejo de prazer não mov e somente os homens. são enfim a causa formal e final de tudo quanto acontece no universo. e. Ou Epicuro está certo na teoria e errado na prática. mas todos os seres e coisas. na medida em que. os deuses são indiferentes ao bem e ao mal. Neste ponto. Se os deuses são. pois. Para seres oc iosos como eles. não exerc influxo nenhum e então a prática do epicurismo está destinada ao fracasso. ou. e eles não. um dos atributos essenciais da divindade em todas as religiões. personificado nos deuses. e então não são inócuos como os diz Epicuro. a bússola por que se orienta o desejo. O máximo que se pode conceder à tes e da inocuidade dos deuses é que. Os de uses são apenas a imagem do bem. tentemos tirar as conseqüências lógicas da teoria. interrompe os trabalhos e manda solicitar o parecer técnico de Sto. é atribuída mesmo a santos e gurus. nem são o gatilho que dispara o movimento da criação. na medida em que este bem não é só para os filósofos. tudo girando numa espiral ascendente desde os prazeres imediatos e grosseiros até o supremo ideal do ócio contemplativo. É claro que isto eles não podem ser. mas o são duplamen te: em linguagem aristotélica. sendo causa formal e final. Veremos isto mais adiante. são bons para o universo inteiro. não fazem senão buscar de maneira obscura e inconsciente aquele m esmo objetivo supremo que. afinal. e n em só para os homens em geral. por sua estática e autobenéfica perfeição intrínseca. se tornou consciente e assumido: o ócio contemplativo. 23 Epicuro é taxativo: o mundo se compõe de átomos e a causa do movimento é o desejo. sem necessidade de uma ação externa. mas são bons para nós. Se Epicuro t ivesse se limitado a dizer isto. E. como modelos e causas formais do bem. E não somente são bons em si mesmos. a busca do prazer filosófico é só um tipo especial de busca do prazer. a di stância é grande. se são tão f ormidavelmente bons assim. aparecendo em nossos sonhos. por mais que o filósofo procure isentá-los de toda responsabilidade. a imagem do ideal espiritual que norteia os esforços d o asceta epicurista. Mas. no sentido aristotélico. e a imobilidade a gente é. Pois estes — diz Epicuro —. então por que diabos não interferem logo de vez para acab ar com o mal no mundo? Neste ponto. nos mostram pelo exemplo da sua perfeição o caminho do bem. Porém. Nas tradições espirituais em geral. eles de fato não são nem causa material nem causa eficiente. vendo o debate acalorar-se acima do compatível com o decoro que deve imperar nes sas regiões excelsas. ou está certo na prática e errado na teoria — a não ser que esteja errado em ambas as coisas. o qual também não é nem estofo material do mundo nem causa imediata dos atos humano s ou dos fenômenos naturais. a não ser que os membros da Comissão de Orçamento do Congresso sejam deuses. seus deuses não difeririam muito do Deus bíblic o. ativa e transitivam nte. quando saem à cata de pr azeres grosseiros. que eles nem c onstituem o substrato material de que é feito o mundo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 39 presença23. m as das de todos os seres humanos. estaria sendo nada mais que coerente com seus p róprios pressupostos.

§ 5. Um piedoso subterfúgio .

Muit a gente. por intuição direta. a verdade viva incomunicável em palavras. uma vez trilhado. ou pseudo-religiosas. Mais ainda: a doutrina expressa que conhecemos c omo cosmologia de Epicuro não seria a verdadeira cosmologia de Epicuro. em última instância. Estando as coisas nesse pé. mas apenas o seu pórtico fictício. embora falsa em si mesma. pois isto seria um convite a que cada qual se entregasse com tanto mais fervor à prática quanto menos estivesse em condições de 24 . em nome de quaisquer benefícios futuros a serem alcançados pela práti ca do método. a dieta de Beverly Hills atestaria a veracidade do marxismo e os sucessos do sistema de franchising seriam um argumento em favor da física quântica. Sob a aparência de uma falsa cosmologia. para inscrevê-lo no das crenças r eligiosas. qualquer bom resultado obtido na prática de um método poder ia ser alegado como prova de qualquer doutrina. mas aceita em confiança. a não ser que a conexão desse método com a doutrina já esteja provada de antemão na doutrina mesma. libertando-a do temor dos deuses e predispondo-a a ingressar no caminho epicurista. e vice-versa 24: se o mundo é como Epicuro o descreve. 2º Não podemos admiti-lo nem mesmo como crença religi osa. deve ter reso lvido perseverar na prática dos seus ensinamentos movida por essa esperança. então o mundo não é como Epicuro o descreve. de fato. nada conseguindo entender da doutrina do mestre. A prova d e uma doutrina. Esta constatação fec a o caminho a um piedoso subterfúgio com que o discípulo beato poderia ainda tentar salvar alguma coisa do epicurismo. Ora. amém.40 OLAVO DE CARVALHO A cosmologia de Epicuro desmente portanto a sua ética. à desculpa esfarrapada de que a cosmologi a epicúrea não deve ser tomada ao pé da letra. uma psicagogia: um guiamento da alma. como preço do ingresso na via da salvação. que conf unde a inteligência e a torna inapta para seguir qualquer método que seja. e o valor de um método se mostra por seus resultados práticos. isto é. que ao ati ngirem os graus mais elevados da ascese epicúrea poderiam então jogar fora o véu de símb olos. e sim para ser ac eita e “revivida interiormente”. a refe rida cosmologia não deveria ser julgada criticamente. nestes tempos de naufrágio. é sempre de ordem intelectual e lógica. filosófica ou científica ou religiosa. de modo que mesmo resultados práticos fabulosos não serviriam em nada como pr ovas da teoria. Se a coisa fosse extrapolada para domínios ex tra-religiosos. o Guru Maharaji e o Rev. e. e os milagres de Cri sto seriam provas do vegetarianismo. É até possível que seja assim. nele não se pode ser epicurista com sucesso. Segundo essa hipótese. mas interpretada simbolicamente. lhe revelaria o indizível segredo do universo como realme nte é. como na repetição ritual de um mito. mas os resulta dos práticos do método não servem nunca para validar retroativamente uma doutrina. no fim de tudo. Se não fosse assim. o que vimos no epicurismo foi justamente que nele não há conexão entre teoria e prática. Moon já não teriam um d iscípulo sequer. quem se agarre ao epicurismo como a uma última tábua está naturalmente livre para crer que assim seja. valesse como um artifício para apazig uar a alma humana. para o argumento de que essa teoria. e não impõe jamais. Só que: 1º A aceitação dessa h pótese excluiria o epicurismo do campo da filosofia. o qual. levaria o discípulo a uma “visão inte rior” que. mas apenas uma ima gem sugestiva que. somente um perfeito charlatão iria apela r. ou por esse pretexto. só pode ser compreendida por quem primeiro. e se a prátic a do epicurismo é possível. sem o qual Rajneesh. ou melhor. pratique o método. para captar. descul pa que nasce do desejo de enxergar profundidades insondáveis onde há apenas a banali dade de um pensamento confuso. a aceitação preliminar de uma doutrina intrinsecamente absurda. a cosmologia de Epicuro não pr etenderia oferecer uma descrição literal do mundo como realmente é. À cosmologia propriamente dita só teriam acesso os iniciados. Neste caso. indiferentemente: a santidade do Buda demonstraria a validade da doutrina da livre empresa. porque toda religião que se preze distingue claramente entre doutrina e método. Epicuro nos teria dado uma verdadeir a pedagogia. demasiado profunda para que a alcance a mera inteligência lógica. sem discuti-la. para uso dos novatos — um véu de fantasia na entrada do templo da verdade. A letra da doutrina epicúrea então não estaria aí para ser compreendida ou discutida filosoficamente.

lançou contra a filo sofia de Demócrito.Objeção exatamente igual à que Pessanha. sem notar que ela se aplica também a Epicuro. como veremos mais adiante. .

e os lugares mais baixos pelos seres mais densos. a perfeita imbecilidade se tornaria a mais alt a prova de qualificação de um discípulo para a via espiritual25. para dizer o português claro. Não estando presos aos limites de uma exi . São mortais. Vale o mesmo qu e um anúncio do Silva Mind Control. ou perenidade. Um deus pode. então vale somente como miragem para atrair os discípulos a essa prática. por exemplo. diante deste sinal. é autênt ico idealismo. que talvez sirva para adormecer crianças ou velhinhas. caso a lagartixa por sua vez não pensasse em mosquitos. existência material (só que mais rarefeita que a do corpo). 3º Mesmo uma cosmologia simbólica. mas. e a cosmologia de Epicuro é apenas uma história mal co ntada. reprime a exigência interior de explicações e se atira junto com eles no abismo. re cordados pelos deuses. sinal seguro de que algo ali está errado. desperta apenas um sentimento de incongruência. Mas não pensem que termina aí o rol de problemas filosóficos que mantêm atarefadíssimos os ociosos deuses de Epicuro. Nossas cidades estão cheias de pessoas assim. Se a i déia em si já é bastante desconfortável. 25 Não falta. que se apresentasse como simples preparação imaginativa para uma ascese. uma vez mortos . uma vertigem abissa l. E se por acaso ocorresse a um deus a idéia desastrosa de pensar num gato ou numa lagartixa. mais rarefeitas do que os corpos dos deus es que as imaginam. para um materialista roxo como Epicuro ou Pessa nha ela deve assumir uma feição sinistra e diabólica uma vez constatado que. então. e como tudo o que aparece na memória e na imaginação tem. não são eternos. Os deuses. no homem ca paz de julgar. segue-s e que as coisas que os deuses recordam e imaginam existem materialmente nesse me smo instante. no mundo da pseudo-espiritualidade ou antiespiritualidade contemporânea. têm memória e imaginação. do que sugerirlhe que sua estupidez é uma forma supe rior de aptidão espiritual. quem interprete assim as expressões da Bíblia acerca dos “pobres de espírito”. Se os deuses falam. os lugares mais altos e duráveis são ocupados pelos s eres mais rarefeitos. A imaginação dos deuses. nada mais re sta dizer. da “inocência” dos “pequeninos”. e isto inexoravelmente formaria uma hierar quia de durabilidade crescente que partiria de um deus provisório e culminaria num a lagartixa eterna. ipso facto. Se. Uma possível saída para o dilema seria o conceito de eviternidade. diz Epicuro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 41 compreender a teoria. Ou seja: que quanto mais matéria existe num ser. Há um pior ainda. exceto o número do telefone do hospital psiquiátrico mais próximo. t eria de atender a um requisito óbvio: teria de ser sensata ou verossímil — pelo menos esteticamente verossímil — o bastante para poder acalmar provisoriamente a demanda d e explicações de um homem adulto. evidentemente. segundo Epicuro. fazendo a apologia do mongolismo. mais baixo ele está na escala ontológica e ma is próximo da irrealidade pura e simples. 4º Se a co smologia de Epicuro não vale nem mesmo como prefácio simbólico a uma prática ascética. — A eviternidade. Sua eficácia depende de que o discípulo tenha abdi cado de toda demanda da veracidade e esteja somente em busca de um alívio factício p ara angústias banais. pelo menos alguns são também pensantes. Sendo essas coisas. se refazem integralmente tais e quais. § 6. mas que. que não atinam com as temíveis conseqüências psicológicas a que podem chegar por esse caminho fácil. Nada mais lisonjeiro. para um públ ico intelectualmente incapaz. S e pensam. movido pelo temor reverencial que lhe inspira a pessoa do mestre ou pe la chantagem emocional da massa de seus condiscípulos. É a elas que se dirige o apelo de Epicuro e de José Américo Motta Pessanha. a equação epicúrea de que rarefação = durabilidade obriga-nos a admiti r que elas são mais duráveis do que os deuses mesmos. dotados de uma durabilidade maior que a dos A coisa tor na-se ainda mais catastrófica pelo fato de que. entre os seres e coisas deuses. E isto. porém. Neste caso. e dotados portanto de memória e imaginação. pensar num homem que está pensando num gato que está pensando numa lagartixa. é porque pensam. nessa hie rarquia dos seres recordantes. estes miseráveis morta is ficariam. o candidato a discípulo.

talvez até pudessem realizar o prodígio de recordar.stência determinada. Bas taria que apelassem às memórias de uma vida anterior ou futura. como coisa v ivida. Assim poderiam até . fatos acontecidos antes de seu nascimento. ou sucedidos após sua morte.

em vez de resolvê-lo. tomando-o como mestre espiritual. de uma vida para outra. Jogos Extremos do Espírito ( Rio. Os siddhis são a pirita espiritual. 1985. de vez que estas não têm uma memória tão rica. além de recairmos no pecado mortal de idealismo. Sendo assim. no ato. seria nada menos que eterna. até esmagar o cérebro do infeliz. permanecem fun damentalmente idênticos a si mesmos. no vazio infinito em todas as direções. Comprovar a autenticidade dos fenômenos produzidos pelo taumaturgo mineiro Thomas Green Morton foi o bastante para que Sodré. só para desmascarar-se em seguida e desmascarar. “tendência”) e define como impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor. mas aí o leitor de alma ob líqua já está zonzo demais para perceber a piada. Os siddhis pode m ser adquiridos por treinamento. subtraindo-se ao menos em parte à lei de que da. não é que ele não acredite em mais nada: ele redita em tudo. mos cairiam todos em linha reta e paralelamente27. numa linguagem aluc inante onde é impossível distinguir o que é dito em sentido direto do que é dito em sent ido oblíquo.” Gurdjieff provou isto em toda a linha. como que a desmascarar a fraude anterior. Alianza Editorial. precisariam ser eviternos eles mesmos. pela viabilidade do moto contínuo. e bastava um ocidental ter verificado isto para s ubmeter-se a ele com reverência e temor. Pelo clinamen. Gurdjieff não era evidentemente um charlatão. existem28 . Carlos García Gual. ou de qualque r outra. que ele denomina clinamen (“inclinação”. é que. os átomos devem ter também um princípio de moviment o livre e indeterminado. e. a cois a toda se complicaria formidavelmente. Se os deuses se refazem após cada existência. levando-os a acreditar nos absurdos mais p atentes. e. Mas isso seria multiplicar o problema. ficaria totalmente revogada a mais i mportante diferença entre os deuses de Epicuro e os da religião grega. uma zona nebulosa onde meras forças sutis da nat ureza podem ser tomadas pelos tolos como mistérios transcendentais. Comentarei este caso com mais detalhe no meu livreto O Antro pólogo Antropófago. acreditando que precauções contra es te bastam para resguardá-lo daquela. de fato. “Quando u m homem já não crê em Deus — dizia Chesterton . Com isto. pp. Rocco. 110 ss. Epicuro. se prosternasse ante esses fenômenos como ante sinais do Espírito. sem perceber que ali havia apenas uma demonstração de siddhis ( “poderes”. Epicuro crítico de Demócrito .42 OLAVO DE CARVALHO mesmo tornar-se mais duráveis do que as lagartixas. a mais funda incapacidade de perceber a fraude espirit ual. os átomos se m ovem randomicamente em todas as direções. Um exemplo contundente encontra-se no livro de Muniz Sodré. e uma essência que permanecesse inalteravelmente a mesma po r cima da mudança. Resta ainda um pormenor intrigante. Deste apelo à razão. que ind ependentemente dela. mostrou que as defesas pre tensamente racionais do intelectual moderno contra a ilusão religiosa o tornam ind efeso contra a fraude espiritual. e batia nesse ponto sem dó. pois os sere s recordados. para poderem retornar à memória dos deuses a cada nova existência destes . não obstante. senão uma enganosa periferia do Espírito. do tempo e da morte. para o homem espiritual. não pod endo portanto juntar-se para formar os seres e coisas que. que ele confunde com o mero charlatanismo. tal como as defesas de um neurótico contra a ter apia o tornam ainda inerme ante a neurose. § 7. existe continuidade de essência en tre as várias existências. em sânscrito ). 27 O que pressupõe que os átomos tenham pes o uma premissa epicúrea da qual Demócrito não compartilha pelo menos explicitamente. Gurdjieff tinha um prazer diabólico em humilhar os intelectuais ocidentais. 1990 ). típico cientista social brasileiro de formação marxista. e contra ela. e não representam. mas alguém dotado de poderes reais. logo em seguida argumenta. com igual cara-de-pau. Epicuro conclui que a impulsão inicial da queda não é tudo. constituídas por sua vez de seres ainda mais duráveis. 2 8 V. O moderno intelectua l ocidental tem. e como cada um desses seres também teria suas recordações pessoais. jamais chegariam a tocar uns nos outros como o pretende Demócrito. entrando em contato fortuito uns Queda” e a expõe no início do livro Relatos de Belzebu a seu Neto. A Miséria da Ciência Social. Ele sabia do ponto vulnerável que há na alma de todo materialista d urão. a vacuidade ment al do seu público. Madrid.

não sendo material. impelidos por um inexplicável empurrão inicial. tanto que a cobrav a dos adversários. onde o principal que aco ntece é tudo vir abaixo 26. dentro del e. polemizando na base do faça-o-que-eudigo-mas-não-faça-o-que-eufaço. endossada por Karl Marx e por José Améri co Motta Pessanha. Mas o filóso fo do jardim não ignorava a necessidade dela. se fosse de fato assim. Um exemplo é a sua crítica de Demócrito. não oferece resistência. nem a desprezava. Ele denomina-a “Lei de . o vazio. os átomos. O universo de Demócrito é um vasto escorregador. Demócrito proclamava que no mundo só existe o vazio e. Só que. Epicuro responde que. caem e acabam por se chocar uns com os outros.O leitor já deve ter percebido que a coerência lógica não é o forte de Epicuro. co m um ar de seriedade à Buster Keaton que bastou para impressionar uma multidão de in telectuais. ele geralmente chegava a conclusões tão ou mais estapafúrdias do que aquelas que r efutava. e por isto os átomos. os áto26 O temível gozador metafísico Georges Gurdjieff reeditaria no século XX essa teoria.

precisamente. uma concepção muito sin gular acerca da liberdade. uma vez admitido. e muito menos um princípio tão extravagante como o clinamen. Tudo isso é de uma ingenuidade atroz. levado pela coincidência vocabular. pois a indeterminação ex clui. uma escala. O vazio. Wolfgang Strobl y Luís Pelayo. Pessanha enxergou conservadorismo na física de Demócrito pela razão de que a lei de queda impõe um determinismo integral. contemporâneo de Platão. o indeterminismo epicúreo com o de Plan ck e Heisenberg. Pergu ntamonos se essa gente conseguia distinguir um ovo de um tomate. Physics and Beyond. e vão gerando e destruindo mundos e mais mundos sem dar a mínima satisfação a seres. as considerações de Nicolau de Cusa quanto a este ponto. sem podermos dar um pio contra o seu maldito clinamen e só nos restando. no vazi o. A associação que Pessanha fez entre cosmologia e política é p ura figura de estilo. No indeterminado. Tudo isso é. os átomos se move riam indeterminadamente em todas as direções. a festança dos átomos no liberou geral da cos mologia epicúrea pode parecer mais progressista ou democrática do que a submissão impl acável à lei de queda. ao passo que. acabam por se aglomerar em massas compostas. a alternativa de relax and enjoy que nos é oferecida pelo epicurismo. A física de Demócrito e sua refutação por Epicuro são ambas igualmente falazes. Harper & Row. aliás um dos mais belos livros do século. 29 30 V. porém mais inexplicável ainda é que os átomos devam ter o direito a estar livres da lei de queda. adiante. seres viventes. Madrid. Diálogos sobre la Física Atómica. ou completar um silogismo da primeira figura. Pressupõem balizas. Mas é só uma aparência. Mas Epicuro já conhecia a obra de Aristóteles. um espaço finito referido a um centro ou pelo menos a limitação a um campo determinado. que não fora ainda codificada por Aristóteles e se ex ercia de maneira empírica e amadorística. Demócrito não se deu conta de uma coisa que hoje até um garoto de escola perceberia num relance: que. para isso. expressões como “cai” e “sobe” não fazem o menor sentido29. e não a um “vazio” que tornaria o indeterminismo perfeitamente redundante. no vazio indeterminado. em face dele. Encounters and Conversations. torna o clinamen perfeitament e desnecessário 30. não podi a ser mesmo muito bom em lógica. como queiram — a um princípio real e concreto. que é o determinismo mecanicista. O devotado interesse de um filósofo pelos direitos políticos dos átomos p ode parecer um tanto bizarro. ou complementarmente . Pois essas são. ou dialeticamente. coisa s ou deuses. formando os seres e os mundos. BAC. Mas é também falso o que alega Epicuro: que. Aliás sobra até demais. para a mentalidade de hoje.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 43 com os outros. não deixando para os pobres átomos outra saída senão a obediência servil a uma necessidade tirânica. Algumas décadas atrás. mas simplesmente porque não haveria nada que determina sse a direção do movimento. trad. todos os movimentos teriam de ser paralelos e uniformes. mas Pessan ha condenou a primeira e endossou a segunda sob a alegação de que aquela favorece um a ética “conservadora” e esta uma ética “progressista” — argumento que é propriamente aquilo ue se dá a denominação científica de o fim da picada. de fato. enquanto nós. uma visão determinística da queda inevitável do capitalismo não parecia aos comunistas ser mais progressista do que a crença libera l na imprevisibilidade da História? Os teóricos do liberal-capitalismo não atacaram no . 1975 ( ed. porque aí os átomos. Em caso de dúvid a. § 20. que pode ser interpretada num sentido como no sentido inverso. ficamos inap elavelmente submetidos à arbitrariedade dos átomos. Este se opõe — logicamente. 1971 ). sem a necessidade de introduzir. toda regularidade obrigatória. um novo p rincípio. não porque quisessem fazê-lo movidos por t ais ou quais intenções epicúreas. por definição. na física de Epicuro. Volto a este assunto mais adiante. usando e abusando do seu direito ao clinamen. leiam Werner Heisenberg. Que ninguém c onfunda. todos os movimen tos seriam indeterminados. sobra lugar para o imprevisto e o liv re-arbítrio. e por isto é mais fácil perdoar a ingenuidade da cosmologia de Demócrito do que a inc onsistência da sua refutação. Acontece que Demócrito. Metaforicamente. New York. formas da determinação. acoplam-se e desligam-se à vontade na mais obscena gandaia cósmica. americana.

marxismo justamente o seu calcanhar de Aquiles determinista? O uso de imagens t iradas da ciência física em apoio desta ou daquela ideologia política só tem valor retóric o. no sentido mais baixo da expressão. . Aceitar a física de Epicuro por ser progressi sta é o mesmo que rejeitar a de Einstein por ser judaica.

ou Tetrafármacon.44 OLAVO DE CARVALHO Mas ainda há um outro senão. que é rígido e repetitivo como a lei de queda. então. argumentava ele. que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo. O remédio de todos os males A parte ética da doutrina epicúrea. e especialmente da humanidade brasileira. E também pelo Dr. podemos levá-lo para onde o quisermos. a lei de queda ou o clinamen. O culto destes valore s é comum a Aristóteles. fazendo um asno persegui r a prazerosa cenoura e esquivar-se do doloroso porrete. mediante a distinção. a vida filosófica como um caminho para a felicidade etc. aos socráticos menores. O filós ofo Alain. Politicamente. tornou célebre a condenação do clinamen em nome da liberdade. reagindo contra o ardil. Aqui é o determinismo que se torna “progressista”. com iguais resultados: no reino da retórica política. Mas não é preciso tanta ciência para nos inf ormar aquilo que um carroceiro sabe perfeitamente: que. e o clinamen um instrumento da tira nia. justamente po rque buscam o prazer e fogem da dor. A ética de Epicuro divide-se em duas partes: uma geral ou teórica. número e grau com aqueles que eram subscritos por todos os filósofos da época: a superioridade da contemplação sobre a ação. ditadura e democracia podem indiferentemen te chamar em seu apoio Demócrito ou Epicuro. CAPÍTULO III. entre a vontad e livre e a obediência ao instinto. Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liber ta do determinismo? Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dorprazer é o comut ador que aciona os reflexos condicionados. o “quádruplo remédio” q lósofo propõe a todos os . levados pelas sensações. Feitas as contas. Contra Epicuro cabe portanto a mesma objeção que Pe ssanha fez a Demócrito: que sua física e sua ética não tem conexão entre si. e não tem nenhum vín ulo de implicação recíproca com a cosmologia — ou física — de Epicuro: pode ser aceito dentr o ou fora dela indiferentemente. Eis aí no que dá citar sem ler. aos estóicos. etc. reação e progressismo. sem que ele tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar persuadido de que exerce livremente o seu clinamen. não são livres: obedecem ao determinismo do instinto. Não há saída: se o s átomos seguem o clinamen. só podendo ser válidas se admitirmos a hipótese de uma verdade dupla. por meio dos quais um animal ou um ho mem pode ser governado desde fora. Freud. outra especial ou prática. não é nem um pouco meno s encrencada do que a sua cosmologia. O cidadão consciente. Os homens são dóceis e manipuláveis. ÉTICA DE EPICURO § 8. todos os argumentos são de borracha. que Pessanha apontou como a solução para todos os ma les da humanidade. Por uma coincidência irônica. abstrai-se das impres sões de prazer e dor e decide segundo a lógica implacável da ordem física. Aristóteles o confirma. A teoria consiste apenas na afirmação de alguns valores gerais que coincidem em gênero. com o seu “princípio de rea lidade” que transcende o princípio do prazer. teórico do Partido Radical francês. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a lib erdade quem se coloca para além da dor e do prazer. a coisa é das mais óbvias . caem no engodo das apa rências. Mas o que recebe costumeirame nte o nome de “ética de Epicuro” é a parte prática. em cujo título os organizadores do ciclo de Ética se inspiraram para nomea r uma das divisões do evento: “O cidadão contra os poderes”. a Platão. ardilosamente encenadas pelo tirano (lembram-se do futebol no tempo do ge neral Médici?). que não mente. Bismarck dizia que a ciência do governo consiste em pauladas e guloseimas. esse argumento está no livro Le Citoyen contre les Pouvoirs.

Mas há duas outras questões ainda mais perturbadoras: 1. já que amigos. não se d a divindade. alcança sua finalidade na completa e definitiva aniquilação do h omem. a Psicociber nética de Maxwell Maltz. o homem encontr a o caminho da meditação filosófica que deve libertá-lo. que hoje há na praça com o mesmo o bjetivo. não se deve temer a morte. 32 Veremos logo adiante o parentesco entre o Tetrafármacon e a Programação Neuroli nguística. intermundo. e. passar por uma mensagem de consolação e atrair p ara o jardim de Epicuro milhares de infelizes em busca de alívio? Que consolo podi . numa ginástica interior. o pobre Tetr afármacon já pode se considerar derrotado pela profusão de concorrentes modernos. destacam-se as da convers ação filosófica com os amigos na paz do jardim: o conteúdo da conversação exerce efeito calm ante. É com plena inconsistência lógica. não há possibilidade de realizar planos. uma vez fugido da agitação da polis e bem protegidinho no jardim. O clinamen é apresentado como um movimento livre. mundos e homens formam-se e desap arecem por acaso.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 45 males humanos. ante o olhar indiferente dos deuses. a Sofrologia de Caycedo. uma técnica para a conquista da felicidade. Fe cha-se assim o círculo da fatalidade. onde galáxias e amebas. sim apenas uma psicologia prática. os falecidos devem estar todos materialme nte instalados em algum materialíssimo mundo. essa macabra celebração do nada. portanto. Não vale mais. então teremos de continu ar a existir depois da morte. seguida de total e eterno esquecimento. 2ª. e toda ação está. o Silva Mind Control. o Treinamento Autógeno de Schulz. parentes e inimigos se lembrarão de nós. é fácil alcançar o bem. provém de que o objetivo máximo dessa técnica é inculcar no praticante quatr o convicções básicas: 1ª. É um caos. a Programação Neurolingüística de Bandle r e Grinder32. mas o exercício desta liberdade choca-se contra o fatalismo da dor. Dentre as recordações agradáveis. A pergunta é: como pôde essa filosofia ne crófila. va i aos poucos substituindo as sensações dolorosas da vida presente pelas recordações agra dáveis do passado até fazer com que o passado se torne presente e o presente desapar eça sob a imagem do passado. ne m a morte (pois quem deixa de existir já não pode sofrer) etc. nem menos. fugindo da dor. num universo absolutamente trágico onde átomos e homens v agam a esmo de erro em erro e de sofrimento em sofrimento. ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. como por exemplo a 31 O nome Tetrafármacon. Daí que. partindo dos movimentos cegos dos átomos no vazio sem sentido. num mercado super-saturado de similares como o Pensamento Positivo de D ale Carnegie. e no qual Pessanha sugeriu que o povo brasileiro fosse buscar ins piração para sair da miséria moral31. sem escapatória. abdicando da busca insensata de prazeres que causam mais dores. Nesse mundo d estituído de qualquer regularidade previsível. ensinando o discípulo a não temer os deuses (já que eles estão fora da jogada). ou m elhor. sumariamente. e como tudo o que se imagina é material. o clinamen é. buscando o prazer. sem contar a lista interminável de exercícios orientais e pseudo-orie ntais que o movimento da New Age espalhou da Califórnia para o mundo. pois um exame mais cuidadoso faz brotar delas algumas dúvidas inquietantes. na qua l o praticante. E quando. finalmente. uma técnica deve ser julgada exclusivamente pelos seus resultados prát icos. que Epicuro afirma a completa extinção do ser humano após a morte física. esta meditação leva-o à conclusão in tável de que o único alívio possível é a morte. norte-americanas na maioria. Mas o Tetrafármacon não é de maneira alguma uma ética. Mas consolam só quando não lhes prestamos muita atenção. condenada ao fracasso. Ora. Palavras que consolam . não alcancem um resul tado melhor. e. é fácil suportar o mal. numa disciplina. essa afirmação contraria os princípios fundamentais da sua co smologia. no fun do. 3ª. 4ª. daquilo que Epicuro entende como felicidade. O Te trafármacon consiste. do q ue as muitas técnicas. O cosmos de Epicu ro não é um cosmos. que indesculpavelmente me omiti de explicar na primeira edição d este livro. Não é preciso ser muito esperto para perceber qu e a proposição decisiva é a terceira — uma exata inversão do timor domini principium sapie ntiæ. supramundo ou submundo. parentesco que Pessanha — sem dar nome aos bois — mencionou de passagem. um tipo de fatalidade. que. antecipadamente. seguinte: se tudo o que imaginamos existe em algum lugar. átomos e homens só encontrem cada vez mais dor.

am encontrar no jardim sabendo que ele é a entrada do cemitério e que depois do cemi tério há somente o cemitério maior do esquecimento cósmico? Que atrativo enxergavam ness a promessa digna de Jim Jones? .

Tal vez a encontrem na sua prática. que para o comum dos mortais é uno. o discípulo. elevado a sistema e regra de vida. desde logo. O mundo da vi da.46 OLAVO DE CARVALHO 2. tr arão de volta as coisas passadas. O que cha mamos senso do real funda-se na distinção do efetivo e do possível. A abolição da consciência A prática do Tetrafármacon cria. Acontece que a distinção que o cérebro humano faz entre a s sensações presentes e as imaginadas é aquela que. fazendo brotar seres e coisas que se materializarão. quanto mais avance na prática da med itação epicúrea. essa cosmologia de qu eijo suíço parece O Exterminador do Futuro ou Alice no País do Espelho. a física para hipnotizados. mas se expandirão pelo mundo em to rno. mas. para que a coisa esquecida não apenas volte à memór ia. Para sermos coerentes com a física de Epicuro. por trás de todo o tecido de alegações beatas que lhe serve de embalagem. O mesmo aplica-se às recordações: se produzidas com intensidade suficiente. Exposta assim. denso e contínuo. jogado num tanque. uma segun da intenção? Haveria nessa loucura um método? Não se esconderia por trás do besteirol epicúr eo um segredo temível? Essas perguntas não têm resposta nas teorias do epicurismo. mais ficará persuadido de que aquilo que imaginou existe ou está entrando na existência nesse mesmo momento e é até mesmo “mais real” do que os objetos sensíveis pre sentes. Neste momento. como se viu. ba stando que eu quisesse mudar o foco da . do que quer que consiga imaginar com suficiente nitidez : os futuros contingentes. é algo que finalmente encontra aqui sua explicação: não é ética de Epicuro que deriva logicamente da sua física. É um wishful thinking potencializado. Isto mostrará em que consiste realmente a ética de Epicur o. em algum lugar do cosmos. Vale a pena examinar o lado psicológico dessa inversão. para ver que tipo de conduta moral pode resultar dela. § 9. que um filósof o de ofício. bastará abrir um b uraco no oco. atual. A cosmologia de Epicuro é. um tal amálgama de contradições. ao contrário. me parece inverossímil. e estas ingressarão na vida presente como um objet o que. e pelos buracos o meditante poderá saltar para o p assado ou para o futuro com a maior facilidade e sem precisar de nenhuma máquina d o tempo. A hipótese de que Epicuro fosse apenas um incompetente. que não escapa ao exame atento de um adulto letrado de inteligência m ediana. meras possibilidades lógicas só concebíveis a título de const ruções abstratas. são então vivenciados como se fossem objetos de experiência concreta. levando-o a acreditar na r ealidade efetiva. mas aconteça de novo de maneira ainda mais realística do que na primeira vez. em lógica. ou um oco no buraco. E quando ele eventualmente se lembrar de que an- tes se lembrava de alguma coisa da qual agora não se lembra mais. Elas poderiam ser outras. se tornará para o meditante epicúreo uma superfície esburacada. digito no teclado do computador as palavras que me brotam de dentro. ou para trás. Mas os resulta dos da brincadeira são graves. Teria ele. um sonso. conhecedor aliás da lógica de Aristóteles. Assim. o seguinte problema: se os objetos que aparecem na imaginação sempre existem tais e quais. corresponde à diferença entre o efetivo e o possível. A ginástica cronológica de Epicuro. acabará por abolir no discípulo a intuição dessa diferença. então o esf orço de enxergá-los cada vez mais nítidos com os olhos da fantasia até que se superponha m às impressões do presente deve necessariamente produzir efeitos físicos. a prática da sua ética é que é uma condição prévia para que alguém possa chegar a acreditar na sua física. abre espaço empurrando a água para os lados. teremos de admitir que esses efeitos não ficarão m esmo confinados no corpo do indivíduo imaginante. Que um suje ito treinado nessa regra possa chegar a admitir como santas verdades os mais pat entes absurdos da física epicúrea. um incon sciente. por trás de tanta absurdidade. num espelhismo sem fim de tempos den tro de tempos e de hiatos dentro de hiatos. como queiram. e assim por diante. Fazemos esta disti nção comparando aquilo que pensamos e imaginamos por vontade própria com os dados que nos são impostos pela situação presente. se praticada com persistênc ia. na forma de corpos sutis . por exemplo. não poderia deixar de perceber sua inconsistência. atual e materialmente.

.

por sinais exteriores. que é súdita num caso. C om inocente desenvoltura. Mas o desejo de a ssumir a autoria de seus atos interiores — ou mesmo exteriores — não é inato no homem. a criança aceita esta limitação por cont a da autoridade do pai. criadores de seus atos como de suas int enções. Por mais certo e fatal que se anuncie o futuro. em contrapartida. agora só podem ser re-vividas como obra nossa. Mas o tempo é invencível. um anúncio não t erá nunca a presença maciça do fato consumado. e não to ma consciência de que mente senão pelo olhar severo do pai que a faz descer do céu da imaginação para cravá-la no chão terrestre onde as causas se atam inapelavelmente às conse qüências. verá outras coisas e já não estas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 47 minha atenção para outro assunto. mas 33 . É apreendendo os limites do meu poder — daquilo que Kurt Levin chamava espaço vital 33— que chego a distinguir o real do irreal. vividas como um dom gratuito da realida de aos nossos sentidos. ativos. Se minha percepção está limitada ao lugar do espaço onde me encontro. virá sempre a companhado do temor ou do desejo — da possibilidade. aquilo que se passará amanhã não pode ser agora percebi do como fato. noutro lugar. Compreen do. que. se podia ser de outr o modo um instante atrás. Se decido mentir sobre o que se passa dentro de mim. A objetividade do conhecimento é função da liberdade moral. já não o pode agora: está fixado para sempre. vindo de f ora. como gi ro num instante a tela do pensamento e troco de palavras. O presente. tantas vezes quantas abra os olhos. Mas só posso fazer esta comparação se me lembro claramente de haver pensado ou imaginado tais ou quais coisas por vontade própria. e não sem algu m esforço. O senso da diferença entr e o imaginado e o percebido repousa. a um colega ou a seres imaginários. que a distinção entre o fato percebido e a possibilidade imaginada se faz por referência à vontade. já não pode desacontecer. que se impõem à minha visão com o dados de um mundo que não fiz e que vem pronto ao meu encontro. tendo acontecido . T omamos consciência da realidade objetiva. re-produzido na imaginação. como conjetura esp erançosa ou temerosa. Existir é resistir. para Machu-Pichu ou para Winnesburg. no outro soberana. perceba a falsidade da intenção que alego p oderá provar por testemunho direto aquela que oculto. que não se dobra imediatame nte ao meu arbítrio com a plasticidade do imaginário. na língua que o povo gaiato atribuiu ao ex-presidente Jânio Quadros: fi-lo porq ue qui-lo. ao passo que minha imaginação não conhece outros limites senão os seus próprios. um mundo que me resiste. Ora. em suma — de que as coisas venh am a se passar de outro modo. exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência d e nós mesmos como sujeitos livres. e conforme seja bom ou mau. por um ato de vontade que resolva sair em busca do tempo perdido com o empenho reconstrutiv o de um Proust. como objetivamente existente. mas somente concebido e projetado desde dentro. Ohio. Só eu conheço por testemunho direto meus pe nsamentos e intenções. o efetivo do meramente possível. É só assim que posso captar a diferença ente o que brota de mim e o que me vem do mundo. a criança atribui a respons abilidade de seus feitos a um irmãozinho. Do mesmo modo. Se escrevo estas palavras e não outras. Meu olhar está limitado pelo que o mundo me oferece. posso assegu rar. Inicialmente. nossos atos inter iores não têm outra testemunha senão nós mesmos. desde dentro. portanto. EUA. verei diante de mim o mesmo teclado e a mesma tela. O espaço ainda pode ser parcial mente vencido pelo deslocamento do corpo. hoje só pode ser produzido desde dentro. dizia Dilthe y. O testemunho sincero de si p ara si é a primeira e indispensável condição do conhecimento objetivo. e se assumo a autoria desses atos inter iores como assumo a de minhas ações materiais e externas. Não posso fazer co m que meus olhos vejam outra coisa senão o que está na frente deles. diferenciando-a das nossas projeções s ubjet ivas. Mas. enquanto estiver sentado aqu i. Não posso girá-los daqui para Porto Alegre. O que ontem me sensibilizou a retina. na memória e na responsabilidade. As cenas deleitosas de outrora. que os circunstantes não podem senão conjeturar por analogia. portanto. e as culpas aos castigos. ninguém pode me impedir de fazê-lo : nem mesmo quem. que no adulto seria cinismo. mais fortemente ainda está presa a um determinado momento do tempo. Esta diferença é que me dá a medida do real: admito como efetivo.

Álvaro Cabral. São Paulo. Princípios de Psicologia Topológica. Cult rix. — Não é uma ironia que esse termo técnico inventado por um eminent e psicólogo judeu tenha se tornado um slogan nazista? . pp. trad. 29 ss. Kurt Levin. 1973.V.

entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana. Mas ninguém ficaria neurótico se a opção neurótica não lhe parecess vantajosa. só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la. mas mesmo a verdade conhecida não pode ser obedecida de um a vez para sempre. é m orrer um pouco. É claro que em grande número de casos esse arranjo oportunista acaba produzindo uma neurose. ainda que assumido de coração. como pretendem alguns psicólogos e cientistas socia is. A autoconsciência não nasce pronta. a imitação e a introjeção são apenas ocasião e instrumento da manifestação de uma capacidade preexistente. Mentir alivia porque economiza à psique o esforço de supo rtar um desequilíbrio temporário. Os filósofos gostariam que todos os homens fossem dóceis à verdade. mas é uma fortíssima predisposição. que nos garanta c ontra as futuras tentações do erro e da mentira. A verdade é aceita assim como um valor moral antes mesmo de se firmar como u m critério cognitivo34. Pretender que a autoconsciência se ja mera introjeção de papéis sociais é retornar à velha lenda lockiana da tábua rasa.” Objetividade é sinceridade projetada no exterior. mas é uma aspiração utópica e autocontraditória: se a percepção da verdade nasce da liberdad . são um tecido de eufemismos que pode servir para amortecer ou desviar o impacto das verdades indesejáveis. por exemplo. nem conhecimento objetivo. N ada pode obrigá-lo a este compromisso. Neurose. Éric Weil. a menti ra transforma-se num sistema. Ortega y Gasset. ajudando a manter o orga nismo psicofísico naquele estado de ausência de tensões que os médicos denominam homeost ase. É evidente que isto não significa em hipótese alguma uma redução da autoconsciência ao efeit o de uma “introjeção de papéis sociais”. sem algum sofrimento psíquico voluntário. Scheler. A melhor definição de neurose que conheço é do meu falecido amigo e mestre Juan Alfredo César Müller. Sinceridade e objetividade. que será a base não somente da conduta moral. e é assim que se desenvolve nela a autocons ciência. A pos sibilidade do conhecimento objetivo depende portanto de uma opção preliminar. entre a in tenção e o ato.48 OLAVO DE CARVALHO depois aprende a estabelecer por si a conexão entre o antes e o depois. assim como sincer idade é introjeção dos limites objetivos. e atendendo apenas aos ap etites imediatos. Se mentir para si é esquecer a verdade. Os sonhos. em que o homem assume — ou não assume — um compromisso interior com a verdade e a coerência. apagar as pistas do embuste. um gênio da psicologia clínica. “Verdade conhecida é verdad e obedecida”. ocultando a me ntira inicial sob montanhas de entulhos só para depois alguém ter de pagar a um psic analista para removê-los. Há sempre muitos meios de fugir da 34 verdade. O compromisso com a verdade. Na neurose. mediante um suicídio preventivo da liberdade. de Platão e Aristóteles até Kant. podem continuar vagando à margem de toda obrigação de veracidade. em suma. entre a autoria e a culpa. jamais causas produtoras de uma criação ex nihilo. por sua vez. ao menos no instante decisivo em que uma verdade intolerável se abre d iante dele como um abismo. 35 . n eurose é esquecer o esquecimento. “Ser objetivo. que não há consciência moral. dizia Hegel. A facilidade com que os seres humanos se li vram dele sempre chocou os filósofos. é uma ment ira esquecida na qual você ainda acredita. jamais obriga o homem todo : continentes inteiros da alma. for mam um nexo indissolúvel com a responsabilidade: as três condições que perfazem a autoco nsciência moral35. A opção pela verdade deve ser refeita d iariamente. No desenvolvimento da autoconsciência. num programa que se automultiplica. Isso quer dizer. como a imaginação ou determinados sentimentos. sem o sacrifício ao menos temporário da harmonia interior em vista de valores que transcendem os in teresses imediatos do organismo psicofísico. dizia ele. que se manifesta inicialmente sob a forma passiva da imitação e da obediência — assim como a capacidade de caminhar por si próprio se exerce de início sob a forma passiva do ser levado par a cá e para lá pelas mãos dos adultos. A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da ver dade sobre as coisas. dizia Frithjof Schuon. mas da objetividade no conhecim ento. dizia Platão. “A autoconsciência é a terra natal da verdade”.

Temível sinal de derrocada intelectual do homem moderno é que nossa ciência pretenda a ssentar-se num critério de veracidade e objetividade que seja apenas um código público . cujas transcrições corrigida s formarão um volume a ser publicado com o título Sobre os Fundamentos da Moral. É a coisificação da verdade. uma tábua de regrinhas prontas de aplicação mais ou menos uniforme e mecânica. que dis pense a autoconsciência. — O conceito acima resumido da autoconsciência como fundam ento da moral. agosto-outubro de 1994 ). foi exposto com mais detalhes no meu curso de Ética ( Casa de Cultura Laura Alvim. a responsabilidade e a sinceridade como adornos subjetivo s. . e da moral como fundamento da objetividade cognoscitiva — inclusive nas ciências —. Rio de Janeiro.

resolve matar dois transeunt es a tiros. que não consistirá em outra coisa senão na ampliação universalizante dos gostos perversos de um indivíduo. farão br otar outros tantos correspondentes juízos morais elaborados racionalmente. Não poden do suportar indefinidamente a insegurança de admitir que esses juízos são meras preferên cias subjetivas. e continuará assim até que a conjunção da necessidade com a oportunidade o transforme de vez no criminoso que se mpre foi. Mas. criará um novo critério de moralidade. mas apenas elabora e transforma os dados que recebe da esfera sensível. Até o fim ele não compreende a revolta e a indignação que seu crime desperta . quando não à execração pública ou a penalidades legais. Um dia o sujeito n caminha pela prai a e. o esquema que corresponde a ela no plano da inteligência abstrata. e pode até continuar a obedecê-las exteriormente p mero hábito. e será si mplesmente esquecido. A linguagem abstrat a da filosofia moral terá se tornado uma arma a serviço de fins egoístas. chegou a ser diagnosticada por Konrad Lorenz como uma forma d .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 49 Uma vez afrouxadas porém as demandas da autoconsciência. cuja violação sujeita o home m a padecimentos interiores. No homem sem maiores interesses morais. Embora conheça perfe itamente as normas sociais que aprovam ou desaprovam certos comportamentos. repugnâncias e desejos. O emb otamento completo da intuição moral. Aí ele encontrará o argumento decisivo a fav or do seu sistema: o argumento do número. a imaginação torna-se a serva p restativa do interesse orgânico imediato. de lhes dar uma expressão e fundamento intelectual. porém. Como a inteligência humana não opera no vazio. substituída por uma retórica sofística de um artifici alismo alucinante. o conceito esvaziado não tem mais função. ele cairá na tentação d e argumentar a favor delas. ele con tinuará a ter ódios e afeições. mas sem pensar sequer em lhes aderir de coração. para dar vida nova ao con ceito. não são tão diferentes umas das outras. As aspirações subjetivas dos indivídu os. se condensam todo s no triângulo áureo sexo-dinheiro-fama. se esse homem for um letrado. Após ter solapado as bases de todo critério moral objetivo. até mesmo sem sentir raiva. Seu sistema pessoal de racionalizações será en obrecido e investido de validade universal como expressão das “aspirações da nossa época”. Albert Camus dá em l’Étranger o retrato do tipo cuja mediocridade pacata esc onde a mais absoluta i sensibilidade moral. A maioria simplesmente adaptará o conceito ao estado atual da sua alma. muitas das quais já vinham produzindo. com os mesmos fins. criará argumentos para demonstrar que aquil o que ele não sente inexiste no mundo objetivo. e a deformidade da sua psique será erigida em padrão de medida moral para toda a humanidade. O entorpecimento da consciência tem graus e etapas. que. ao fazê-lo. quando um homem já não sente a reali dade de alguma coisa. o conceito dessa coisa. moldados pela cultura de massas. ele não suportará ser o único a sentir como sente. produzindo tantas ficções quantas forem nece ssárias para conservar o indivíduo num estado de profunda sonolência moral. Mas um homem não vive muito tempo em estado de abstinência moral. ele não as vê senão como convenções mecânicas. Completa-se assim a inversão: as paixões mais baixas e v ulgares ergueram-se ao estatuto de mandamentos divinos. até a completa inversão. M as como os desejos da multidão. Nessas horas. Sua incapacidade para discernir o bem e o mal exceto como convenções vazias será usada como “prova” de que toda lei moral é um a convenção vazia. outras tantas filosofias morais coincidentes. somente a um autêntico filósofo ocorrerá tomar consciência do seu depauper amento interior e sair em busca do sentimento perdido. e. que vão desde as “racionalizações” corriqueiras com que na vida diária nos furtamo s ao apelo de pequenos deveres. no qual el e não tenha de responder pelos seus atos. Invariavelmente. sobretudo na época de cultura de massas que padroniza os desejos da multidão. O homem moralmente embotado já não consegue “sentir” a bondade ou maldade intrínseca de seus atos. na esfera intelectual. de um ego in flado que remoldará o mundo à sua imagem e semelhança. é natural que. e por isto o filósofo moral improvisado logo terá o grato prazer de descobrir que suas idéias são compartilhadas por milhões de pesso as iguais a ele. não melhores ou piores do que quaisquer outras. logo comece a lhe parecer também vazio de sentido. sem qualquer motivo. as novas éticas nascidas do embotamento moral não consistirão em outra coisa senão num sistema de racionalizações que transformará esses três desejos em hipóstases de valores morais universais e em fundamentos máximos de to da conduta eticamente válida.

apagando da memória humana . que.e degenerescência biológica.

se não existisse esta possibilidade. Programação Neurolingüística. onde o desejo de um determinado tipo de prazer físico acaba por se tornar. Aliás existem mui tas. ao menos implicitamente. a amoldagem passa pelo embotamento maior ou menor do senso moral e da consciência intelectual. n alguma interferência externa apagou de seus cérebros os registros da experiência moral acumulada ao longo da evolução biológi ca37. em muitos países do mundo. para q ue manifestações de antipatia a qualquer perversão sexual sejam punidas como delitos. que. agindo sobre essas pessoas. determinados mov imentos sociais e políticos só poderiam recrutar seus adeptos nos hospitais psiquiátri cos e jamais passariam de clubes de excêntricos. 36 37 V. uma só empresa d e grande porte que não disponha de uma técnica. Num mesmo dia. organizações religiosas e pseudo-religiosas. partidos políticos. Konrad Lorenz. para consulta de raros pesqu isadores e curiosos: estão todos sendo usados na prática. para mo ldar a personalidade de seus membros de acordo com os fins da organização. Essa técnica existe. Não há talvez no mundo um setor de pesquisas em que govern os. Se esse algo não é nem a hereditariedade nem aquela conjunção fortuita de circunstâncias t raumáticas que podem produzir uma personalidade psicopática. Essa escala é incomensurável com qualquer tábua de princípios éticos já conhecida ne ste mundo: a adesão a ela torna um sujeito inacessível à argumentação racional. A comparação faz ressaltar a escala de valores em que por vezes ( não sempre. um só Estado nacional. faz dele um UFO axiológico. O domador de homens tem hoje à sua disposição um arsenal de recursos mais v asto e eficaz que o dos técnicos de qualquer outro campo de atividade. p ara as mais variadas finalidades. O rol das técnicas que o século XX concebeu para esse fim é de fazer inveja aos cientistas de outros ramos: reflexos condicionados. afetadas de taras congênitas. é forçoso admitir que algo. estimulação por feromônios. então só pode ser uma ação huma na premeditada. realizada segundo uma conexão racional de c ausas e efeitos. A Demolição do Homem. Lorenz tinha razão. Não há neste mundo um só movimento de massas. anuncia o começo da demol ição da espécie humana 36. estranho aos sentimentos comuns da espécie humana. controle do imaginário. espero eu ) se inspira a militância gay. informação dirigi da. é o que se denomina uma técnica. hipnose instantânea. os casos de psicopatia congênita. vi na TV o líder gay Luiz Mott apelando a um determinado comediante do SBT para que deixasse de ridicularizar a classe dos homossexuais com suas paródias grotescas. destruiu nela s a i tuição moral elementar. que recebem o nome técnico de personalidades psicopáticas ou de sociopatas. Excluo. e logo em seguida um grupo d e marmanjos afrescalhados do grupo denominado As Noviças Rebeldes. A ação humana premeditada. diria Lorenz. inf luência subliminar. campanha publicitária. Não há disputa política. Esses conhe cimentos não estão guardados em arquivos e bibliotecas. para que a interferência dos pais na educação sexual dos jovens se limite à instrução quanto ao uso de camisinhas. na escala da h umanidade. não é meu intuito. lavagem cerebral. O que desejo perguntar é como ele se produz num indivíduo em particular. engenharia comportamental. ou de um conjunto de técnicas. O que me intriga é: como um homem de personali dade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idên tico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perve rsidade moral? Pois é óbvio que. Quando hoje vemos hordas de intel ectuais ativistas lutando para que o aborto se torne um direito inviolável. Com alarm ante freqüência.50 OLAVO DE CARVALHO registros de valores aprendidos ao longo da evolução animal. Mas sondar as causas primeiras desse fenômeno. empresas e sindic atos tenham investido mais do que no dos meios de subjugar a mente humana. propag . metidos em hábito s de carmelitas e caricaturando da maneira mais aviltante as freiras católicas. mais respeitável do que uma devoção rel igiosa. a lista nã mais fim. para que a Igreja abençoe a prática da sodomia e castigue que m fale contra. retira-o d o debate civilizatório. é claro. Não é possível que o conjunto do s militantes radicais do mundo se componha de uma maioria de personalidades psic opáticas. guerra psicológica.

Sem ela. New York. submetendo a mente humana a um bombardeio atordoante. Flo Conway and Jim Siegelman. A coisa que mais impressiona o estudioso do assunto é a o nipresença da manipulação da mente na vida contemporânea. 1989. . de psicose informática38. que impossibilita o exercício normal do discernimento e predispõe as massas a uma nova patologia que recebeu a denominação. muito pertinente.anda ideológica ou religiosa que não faça amplo uso deles. os grandes movimentos de mas38 V. Lippincott. Snapping: America’s Epidemic of Sudden Personalit y Changes.

41 V. é claro. Guerra Psicológica. 42 V. seria concebível que populações submetidas in cessantemente a esse massacre psicológico pudessem conservar intactas por muito te mpo as faculdades intuitivas e valorativas em cuja perda Lorenz enxerga o começo d a demolição da espécie humana? Não é antes mais provável que a humanidade assim manipulada. 1977. ludibriada vinte e quatro horas por dia acabe por entrar num estado crônico de auto-engano? Um dos poucos historiadores que levaram a sério este fenômeno de seriedade trágica denunciava. trad. o Papa João Paul o II finalmente reconheceu em 1994 que. 40 V. Com o atraso proverbial que marca os pronunciamentos da Igreja Católica. Geiser. Heitor Ferreira da Costa. porém. Joost A. como teriam se desenrolado os dois conflitos mundi ais e dezenas de conflitos locais e revoluções sem o uso maciço da guerra psicológica41. cresce hoje em todo o mundo uma espécie de ant icivilização. e Olivier Reboul. mórbidas. Zah ar. É neste contexto que se deve compreender o apelo ao resgate do epicurismo. É impossível im aginar o que teria sido da propaganda comunista sem os reflexos condicionados e sem a lavagem cerebral inventada pelos chineses39. Octávio Alves Velho. que fim teriam levado as organizações esotérica e pseudo-esotéricas e o movimento da New Age sem as técnicas de hipnose instantânea e comunicação subconsciente com que reduzem à escravidão mental seus milhões de discípulos em todo o mundo. o que teria sido do fascismo e do nazismo sem a técnica da estimulação contraditória com que esses movimentos desorga nizavam a sociedade civil 40. 39 ou pelo menos num esquema de ação mais ou menos patente. Modificação do Comportamento e Sociedade Controlada. Lavagem Cerebral. em Diagnóstico do Nosso Tempo. “Estratégia do Grupo Nazista”. Neste novo panorama. mais que o século da física atômica. estonteada. trad. em 1969. São Paulo. Áurea Weissenberg. e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las. presos a uma noção grosseira e oisista do que seja uma técnica. então se verá ue nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. V. . Ed. nada teria podido acontecer como aconteceu. “o advento de um sistema político baseado na impostura em grau muito maior do que todos os que existiram até o momento”44. Eles sabem. disformes e fracassadas que os séculos e os milênios anteriores rejeitaram saem do fundo do lixo do esquecimento para constituir os pilares de um culto universal do engano. Mais que o sécu lo das ideologias. M. Rio. não concebem sob esse nome senão aquilo que se materi alize em algum tipo de aparelho ou máquina. 1980. mais que o século da informática. qual teria sido a sorte da indústria das comunicações de massas sem o u so da influência subliminar pela qual reduzem à passividade mais idiota o público jove m de todos os países. Linebarger. K arl Mannheim. Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso temp o. do panorama histórico do século XX as técnic as de manipulação da mente. com suficiente visão de conjunto a hi stória da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX. todas as idéias e concepções ais francamente errôneas. Nacional. Rio. Ibrasa. Se retirássemos. este foi o século da escravização mental. A Do utrinação. A. trad. tr ad. Zahar. na produção da história contemporânea. Ora.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 51 sa que marcam a história do século simplesmente não teriam podido existir. incluindo a bomba atômica e os compu tadores. Quando se escrever. Eugêni a Moraes Andrade e Raul de Moraes. sob as aparências de continuidade daquilo a que a humanidade chamava civilização. Cia. que só destacava algumas formas de dominação à custa de ocultar outras m aiores e piores 43. Robert L. São Paulo. Menticídio: O Rapto do Espírito. Paul M. o que teria sido dos governos ocidentais e dos grandes empreendimentos capitali stas sem o controle do imaginário e a “modificação de comportamento” que exercem sobre pop ulações que não têm disto a menor suspeita42. mas. Biblioteca do Exército. Rio. 1962. Elas foram s eguramente mais decisivas. trad. 1980. a civilização do Anticristo. Merloo. a impo rtância da “técnica” entre as causas do devir histórico. Os poucos que se interessar am pelo domínio da mente foram desviados em seus esforços por uma visão preconceituosa mente seletiva. 1961. do que todas as outras técnicas concebidas em todos os outros domínios. Octávio Alves Velho. enfim.

. Bruguera. Historia Universal de las Sectas y Sociedades Se cretas. 525. de Michel Foucault. Barcelona. p. da antipsiquiatria e da dupla Deleuze -Guattari. trad. Baldomero Porta. vol. Jean-Charles Pichon.43 44 É o caso. especialmente. I. 1971.

verdadeiros ou falsos. São Paulo. Tendo diante da retina a figura de uma vaca. a que apelam para justif icar-se. verossímeis ou in verossímeis. mais e mais dificultoso se torna o juízo de valor cognitivo. nada lhes ofereci a senão uma apologia da morte. Ele fala. mas até quando ?” FRANÇOISE HUET 45 As práticas psicológicas que mencionei no parágrafo anterior.52 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO IV. Servem para exemplificar e comunicar idéias. compreende o sentido da ordem. têm uma coisa em comum. não para prová-las. prováveis ou improváveis. são abundantemente usados na vida diária. reprimindo a exigência de confrontá-las umas com as outras para formar uma concepção global coerente e hierarqu izada como aquela que nos orienta na vida de vigília. Jornal da Tarde. recorda e sente como se estivesse desperto. deprime pro gressivamente seu sentimento do tempo. A lógica dos sinais ou lógica das aparências. os julga como efetivos ou possíveis. mas não sabe julgar o valor cognitivo das imagens. está pronto para acreditar em todas as absurdidades da físic a de Epicuro tão logo possa enxergá-las na tela da fantasia. Pois. por exemplo que o ano de 1991 durou som ente um mês ou que os buracos de um queijo suíço pesam 3 kg. toma sistematicamente a mera possibilidade como real idade efetiva e. Nas mãos de Declaração a Luís Carlos Lisboa. mas qualquer principiante de filosofia sabe que o valor deles é apenas retórico e persuasivo. sabe distingui-la de um porco. ora “científicos”. tão manifestante insustentáveis. Apenas uma função é suspensa: o juízo reflexivo que. ora “místicos”. lembrase? Para o primeiro. com a ajuda da qual se pode provar literalmente qualquer coisa. fazendo deles o supremo critério do conhecimento. a exposição. infinitamente variadas n a sua linguagem e nos pretextos. O fato mesmo de que Epicuro tenha se servido deles para sustentar as teorias de sua física alucinada é sinal de que são uma bonne à tout faire. por meio de exercícios. mas não sabe distin guir se viu uma vaca ou imaginou uma vaca. no qual o praticante. há fogo”. raciocina. No homem hipnotizado. mas a 45 interpreta como se fosse um desejo brotado de dentro. para o segundo é o discurso. eles nunca chegavam à última análise. que a lógica tradicional e moderna chama de abdutivos. É assim que se explica que as concepções físicas de Epicuro. fora de qualque r dúvida. O Tetrafármacon é. . em última análise. LÓGICA DE EPICURO § 10. É assim também que podemos compreender como estes discípulos não se deram conta de que o epicurismo. a maioria das funções psíquicas continua operand o normalmente. sistematiza os raciocínios do tipo “o nde há fumaça. que Epicuro opõe à lógica dos c nceitos (que ele conhecia através de Aristóteles). formas e variantes de uma mesma técn ica: a hipnose. Aí a mera sugestão verbal de um cigarro aceso bastará para produzir queimaduras reais na mão do hipnotizado: as células da pele reagem à est imulação verbal como reagiriam ao calor de uma brasa. até que se chegue à completa despersonalização. retornando sobre os conteúdos da repr esentação. desviados para os meandros sem fim da fantasi a imaginativa. aprende a confiar mais na visualização imaginár ia do que no juízo reflexivo. tenham podido ser aceitas por uma multidão de crédulos discípulos. todas elas. Tais raciocínios. o que vale é o autoconhecimento. Mas Epicuro não se limitou a pratic ar e ensinar a disciplina da ilusão: ele desenvolveu mesmo todo um sistema lógico pa ra sustentá-la. Quanto mais profundo o tra nse hipnótico. A fumaça e o fogo “A divisão entre Sócrates e Protágoras sobrevive intacta. 20 de junho de 1995. Quando ouve do hipnotizador a ordem: “T ome um copo de água”. O conceptus e a imago. São. um método hipnótico. Dito de outro modo: o hipnotizado sabe distingu ir entre imagens. É evidente que o segundo ainda é dominante. enfim. a beleza e a pompa.

onde o ún ico destino que nos aguarda é a completa extinção e o eterno esquecimento. não explicou as diferenças entre lógica e retórica. mas é a Programação Neurolingüística (PNL). nem muito menos declarou a premissa oculta de todo o seu discurso: a premissa segundo a qual o importante é persuadir. contanto que. não resta mai s nada a fazer senão tentar imaginar as coisas melhores do que são. como por exemplo no caso de um judeu que defendesse o n azismo. Assim de nomina-se em retórica um argumento desastroso. Epicuro tinha razão. quanto mais não a provaria uma queimadura viva! M as não é preciso muito esforço para provar que a lógica de Epicuro não se destina à busca da verdade. em retórica. que. demonstrando que. aplaque o temor ou a esperança de uma vida futura. A destreza com que Pessanha manejou esse e outros entimemas na sua conf erência do MASP mostrou que. rezaria assim: “Num mundo caótico e sem sentido. a lógica dos sinais pode muito bem dar foros de pura veracida de metafísica às impressões de um sujeito hipnotizado. levante as velas o mais ráp ido possível. em última instância. ele afirmava que a veracidade das explicações é indi ferente: o que importa é o seu efeito calmante. e como autor de um raciocínio do tipo autofágico. os de Lair Ribeiro. melhorando as imagens. canhestro. Ela tem semelhanças e diferenças com o Tetrafármacon. foi certamente com base num argumento subjacente que. O convite ao sono É verdade que as técnicas modernas de manipulação da psique põem o Tetrafármacon no chinelo. a redução banalizante da totalidade do real à escala de sensações imediatas como co michões ou borborigmos. § 11.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 53 um técnico habilidoso. uma acentuada virtude soporífera. Pessanha não deixou de aludir a uma delas. e não provar. certamente esta foi tocada por uma brasa de cigarro. e xposto com todas as letras. Mais precisamente: qualquer explic ação é boa. pois quem o declara é o próprio curo: “Para fugir do saber — recomendava ele a um discípulo —. s e a fumaça prova a presença do fogo. se isto de algum modo nos tranqüiliza. só 46 48 . pois. Unlimited Power 49. Que técnica é essa? Pessanha não deu o nome. que se volta contra a pe ssoa mesma de seu autor. e em seguida. Mas sei que Perelman. O embotamento proposital da intel igência. afastando a hipótese de uma causa divina.”46 Fiel a este princípio. no seu clássico Tratado da Argumentação. o homem do jardim sustenta. e sim somente à produção de consolações fictícias. um e ntimema. certamente haveriam te abandonado. A eficácia da PNL confirma Epicuro. Dito de outro modo. Perelman reproduz em seguida o argumento que a isto opôs o filósofo estóico Epicteto: “Se teu pai e tua mãe soubessem que virias a dizer essas coisas. aliviar o sofrim ento. Um silogismo com premissa oculta chamase. ardoroso discípulo de Epicuro. Eu também não o sei. em compensação de seu canhado poder investigativo. se pôde servir a Pessanha como uma co nfirmação das teses epicúreas. cita Epicuro uma única vez. Mas ele também não disse o que Perelman.”48 Se Perelman soubesse a que fins acabariam servindo os seus ensinamentos. eis a essência de uma lógica à qual não falta. ao dizer que “alguns psicoterapeutas de hoje” não vêem mais nada a fazer pelo homem sofredor do que induzi-lo a representar se us sofrimentos em imagens. No trecho citado. no Brasil. Podemos inclusive aceitar simultaneamente várias expl icações contraditórias. mas não esclareceu que ela é apenas um a retórica. e. teria se recusado a ensinar re tórica a José Américo Motta Pessanha. a tese segundo a qual os p ais devem deixar os filhos ao abandono.” Pessanha fez muitos louvores à lógica de Epicuro. mas. popularizada em anos recentes por livros como o de Anthony Robbins. reduzindo os mistérios do u niverso à proporção de nossa experiência mais banal47. eles descobriram que o wishful thinking funciona. se apareceu u ma queimadura na mão. pensaria de tudo isso. se vivo e ali presente. ele não deixava de ser tam bém aplicado aluno de Perelman.

em Ch. Traité de l’Argumentation. 49 New York. p. Olbrechts-Tyteca. La Nouvelle Rhétorique. . Simon & Schuster. § 6. 78-80. Perelman et L. Éditions de l’Université de Bruxelles.Diógenes Laércio. Carta a Heródoto. Bruxelles. Cit. X. 47 Epicuro. 276. 1970. 1986.

inteiramente automatizados e inconscientes. um tipo prático. Bandler e Grinder gravaram centenas de sessões psicoterapêuticas de Erickson (bem co mo de outros dois magos da clínica psicológica. sem cujo auxílio a fala se mostrava impotente para atingir o ínti mo das pessoas. Uma revista norte-americana chamou a PNL “a nova mania psicológica pop”. um meio de comunic ação de uso corrente. nas pessoas em torno. batizando-a PNL (em inglês. introduzindo-as sutilmente no curso de uma conversa qualquer. NLP). Como já em 1983 denunciava a revista Science Digest: “Posta no . Só que na vida diária esses sinais. A PNL funciona. que estavam investigando psicologia da comunicação q uando toparam com o fenômeno Erickson. vendedores ansiosos de livrar-se de e stoques encalhados. e o uso que faz deles é perfeitamente eficaz. Ele a e direto no subconsciente do freguês. uma acuidade sensi tiva fora do normal. Já vimos. Centenas de testes feitos em universidades norte-americanas. Desbrava ram novos mercados: venderam a técnica para executivos que tencionavam persuadir s eus chefes a lhes dar aumentos imerecidos. Este trabalho foi feito por dois pesquisadores. na esfera prática. políticos decididos a iludir seus eleitores. tal e qual o burr o da cenoura. transformadas num receituário de maquiavelismo psi cológico para uso popular. Interpretando esses sinais espontâneos. inteiramente persuadida de exercer livremente o seu clinamen. e a PNL como fruto materializado do epicurismo. a técnica de induzir subliminarmente por sinais não-verbais tornou-se. profundamente arraigados nos hábit os e convenções da comunicação humana. ajuda ndo ou atrapalhando a conversa. conseguiu romper a barreira de incomunicabilidade. acredita ndo expressar seus sentimentos espontâneos. da teoria à sua prática: o epicurismo surge co mo raiz teórica da PNL. longe de constituir um todo autônomo. a cois a virou uma paixão nacional. em muitas empresas. se a PNL confirma Epicuro e Epicuro antecipa a PNL. O programador neurolingüístico não perde tempo com argumentações. Epicuro e a PNL. em breve. Mas o prob lema é justamente esse. transformaram-na em prod uto comercializável. clubes. Eles estavam lá sempre. da direção do olhar. nunca escreveu um livro nem se preocupou em sistematizar suas descobertas. Mas não se restringiram a um público de psicoterapeutas. talvez em compensação. da temperatura corporal. Os padrões de comunicação não-verbal que ela utiliza são reais. Pois. mostrar o epicurismo sob uma face melhor. c om o auxílio de um computador. Richard Bandler e John Grinder. E rickson era um clínico. maridos interessados em eng anar suas mulheres etc. por intermédio de mensagens quase imperceptíveis . abrindo à psicoterapia as mais belas esperanças de cura para casos tidos por insolúveis. é o que veremo s. igrejas e lares. sistematizaram a técnica da comunicação não-verbal e. a fazer o que ele deseja que faça. de um só golp e. associações políticas. do tônus muscular. mostraram isso. com o mais rigoroso controle científico. po rém. Erickson perce beu que o fracasso ou sucesso da comunicação pessoal dependia deles. de mais um charlatanismo inócuo. Bandler e Grinder ganharam rios de dinheiro explora ndo as descobertas de Erickson. ele conseguia comunicar-se com seus pacien tes numa faixa que ia muito além do conteúdo verbal explícito. esse argumento não faria outra coisa senão desmoralizar. o quanto vale o epicurismo como fundamento teórico do que quer que seja. particularmente em tipos esquizóides com uma comunicação verbal deficiente.54 OLAVO DE CARVALHO Se explicitado. advogados desejosos de persuadir juizes a assinarem sentenças injustas. codificaram todos os sinais. Não vá p ensar o leitor que está diante de mais uma poção mágica. que lhe permitia captar. mas ninguém reparava na sua presença. utilizando-os. Mas Erickson. Paralítico. não pôde enviar do i ntermundo qualquer sinal verbal ou não-verbal de uma justa indignação. A vítima. e com isto obtinha resu ltados espetaculares em doentes que haviam sido desenganados por outros psicoter apeutas. Se a P NL pode. Milhares de centros de treinamento espalharam-se de costa a costa — e. Nos EUA. n a prática. vai sendo levada a sentir o que o prog ramador deseja que ela sinta. Gregory Bateson e Virginia Satir). se apoiava numa rede complexa de sinais não-verbais. A PNL surgiu da prática clínica de um dos grandes psicoterapeutas do século: Milton Erickson. Bastava observá-lo em ação para n otar que a comu nicação verbal. há e ntre eles o nexo da premissa à conclusão. Erickson desenvolveu. a essa altura já falecido. etc. ficavam subentendidos e acabavam por se tornar. sutilíssimas m udanças do tom de voz.

mercado. a técnica da PNL ameaça tor- .

toda influência s ubliminar consiste em abolir o domínio da vontade. cortando os laços entre a psique individual e os seus quadros de referência moral. uma assinatura. solidariedade. e aí. Universalizado esse costume. dos profissionais de saúde. um homem está à mercê do que lhe sugiram. um perigoso in strumento de controle social” 50. conforme esses neomaquiavéis se unam p ara dominar o restante da população ou entrem em competição feroz uns com os outros. e assim por diante. Quando não é recebida como uma mensagem salvadora. junto com a moda da PNL. dos meios acadêmicos. levar uma pessoa a fazer o que acha errado. a PNL já estava. sem que ninguém levante co ntra ela a menor suspeita. àquela altura. protegida pela sonsice dos crentes e pela ind . dos educadores. Todos confiam que ali só têm a ganhar. Passadas algumas horas. No Brasil. para persuadir juizes a absolver culpados e con denar inocentes. Se alguém percebe vagamente que es tá sendo manipulado pelas costas. O uso habilidoso dos sinais não-verbais permite abrir hiatos na atenção consciente. decidir. mais aí já é tarde: um a palavra. todos os padrões de sinceridade. ansiosos de unlimited power e arm ados de um temível arsenal de meios para defraudar 50 e colocar a seu serviço os outros homens. legitimando a manipulação subliminar como uma forma normal e corrente de cada homem lidar com o seu próximo. de outro lado omite o detalhe de que. quando não ganham nada. Os norte-americanos — malgrado um certo embotamento mais recente. podem ter determinado conseqüências irreversíveis. a vítima pode se dar conta da insensatez. também uma onda de protestos e advertências que brotav am contra ela da imprensa. assume a culpa pelo mal que lhe fizeram. sem que ninguém sequer sugira a possibilidade de haver nela alguma coisa de errado. a revista Science Digest notici ava. assumindo-a como sua para restabelecer a ilusória integr idade da sua auto-imagem. a sociedade inteira esta rá à mercê de uma horda de manipuladores psicológicos. e. e subvertendo. Mãos erradas? Nos EUA. sem apoio nos quais não pode o ego tomar posição. Ninguém escapa aos encantos da nova técnica. lenda que. de que tratarei nos capítulos finais d este livro — sabem precaver-se. e pronto a justificar a po steriori a decisão imposta. Os neuróticos pedem-lhe um meio rápido de obter alív io e os psicoterapeutas uma receita rápida para operar curas espetaculares. A q ueles que se têm na conta de místicos enxergam nela uma via de acesso aos mistérios su premos. precisamente. mudar imperceptivelmente o curso do raciocínio. contra qualquer coisa que lhes pareça supr imir liberdades duramente conquistadas. par a levar investidores a queimar seus capitais em negócios ostensivamente inviáveis. Os que se gabam de sólido materialismo pão-pãoqueijo-queijo vêem-na como um inst rumento de poder e ascensão social. levando a vítima a não se precaver contra um risco que su põe inexistir. a PNL vem abrindo caminho des de então. segundo informava a mesma r evista. Assim. seja p ela atração do abismo. nas mãos erradas. ela é ignorada como um charlatanismo inócuo. h onestidade. com isto. se de um lado favorece muito a ação do hipnotizador. a patifaria universal. querer ou desquerer: neutralizada a capacidade judi cativa e decisória. Assinalando o perigo. para fazer eleitores votarem contra seus próprios interesses. Os brasileiros estão absorvendo a PNL com o deslumbra mento bisonho de um garoto que se sente muito lisonjeado ao ser admitido pela pr imeira vez numa roda de cocainômanos. sendo usada em toda parte para levar pessoas a venderem seus bens a preço vil. com a maior desenvoltura e cercada de aplausos. Mas foi nos Estados Unidos. Mesmo aqueles que antipatizam com a proposta não dão sinal de perceber ne la qualquer perigo. a comprar o que não quer. julgar. e. tanto melhor: isto confirma a eficácia da nova técni ca. O uso disseminado dessas técnicas arrisca minar todo o campo da convivência humana. dá mais brilho ao seu fascínio e incita a vítima a prosseguir na experiência. seja pela ambição de conquistar por sua vez o poder de manipular os outros. Isto des mente a consoladora lenda de que nenhuma hipnose ou manipulação subliminar pode indu zir um homem a fazer o que é contra suas convicções. Isto foi dez anos atrás. não faz mal: a PNL tem meios de tornar o prejuízo uma experiência gratificante. a aprovar o que lhe repugna. em geral. ter emos ou mais a mais perfeita e indestrutível das tiranias ou a anarquia generaliza da. com isto.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 55 nar-se uma temível ferramenta de manipulação pessoal e.

maio.iferença blasée dos descrentes. “The Awesome Power of the Mind-Probers”. a PNL vai entrando. . vai Flo Conway and Jim Siegelman. vai ganhando força. 1983. Science Diges t.

qua ndo toma também as mentes dos intelectuais e a voz dos melhores já não se ergue senão pa ra fazer coro à cantilena hipnótica. um homem tem de estar pelo menos meio acordado. o primado do incon sciente só pode ser afirmado por um homem consciente. assinalam o torpor da vítima que. arriscaria cair em ouvidos moucos. antevendo um golpe mais forte do que poderá suportar. Aldous Huxley não conseguisse mais que uma minguada audiência para o seu livro Regr esso ao Admirável Mundo Novo. Um exemplo s ignificativo foi que. No completo esquecimento. de outro lado. é verdade. precisão e eficiência. cai numa torpe indiferença ante o aviso de que a ficção virou r alidade? Uma resposta possível é que esse aviso mesmo já é estupefaciente. é mais fácil ser tomado de pânico do que raciocinar. eles primeiro enlouquecem. e o pânico vira logo es tupor. à servidão voluntária. sem sonhos. para cair de cheio na esfera do sonho. É um dos mais velhos e incômodos paradoxos da mente humana.56 OLAVO DE CARVALHO invadindo todos os setores da atividade pública e privada e inoculando ali. Pode mos sair dele. . A segunda não era ficção. onde os homens seriam reduzidos à escravidão por meio de técnicas hipnóticas. Um filósofo deveria ser o primeiro a advertir contra ele. Aquele a quem os deuses querem destruir. A primeira dessas obras era uma ficção cien tífica. nos anos 70. em resumo. A indiferença afe tada é uma reação de autodefesa contra o pânico — e quem fugiria do pânico se já não estivess m pânico? Um segundo motivo é que ao menos aparentemente há uma contradição intolerável em p edir à consciência que reconheça sua sujeição a um poder inconsciente. mediante um reflexo anestésico . seitas pseudomísticas e empresas multinacionais investem quantias ca da vez maiores na pesquisa desses assuntos. o vírus da manipulação subliminar. o resultado é que o domínio dos meios de escravizar a mente do povo cresce na razão inversa dos meios que ele possa ter pa ra defender-se. E aí já não se sabe quem é mais culpado: o sedutor que escraviza ou o se duzido que se entrega. para se entregar inerme e semidesmaiada nas mãos do carrasco. que ultrapassaram tudo o quanto o homem comum pode aceitar como verossím il. a concentração das atenções em assuntos secundários acompanhada de total negligência a nte os temas essenciais e urgentes. a indiferença ante o próprio des tino. A incapacidade de um povo para perce ber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva q ue prenuncia as grandes derrotas sociais. Diante de cer tas notícias. A apatia. com deleites de masoquismo. Mas quando o torpor não invade somente a alma do povo. em dos es crescentes. então se apaga a última esperança de um redespertar d a consciência. se prepara. mas uma re ortagem: informava. Por que o público. Que. a human idade já estava com um pé dentro do Admirável Mundo Novo. ser viços secretos. que previa o advento de uma ordem social robotizada. § 12. e só quem escapou da manipulação s abe que é manipulado. de onde só sairá para mergulhar na terceira fase: no sono profun do. que as técnicas anunciadas no livro anterio r já estavam prontas e em vias de aplicação para fins políticos. por exemplo. Quando. A advertência. após o sucesso mundial do romance Admirável Mundo Novo (1932). tão sensível às redições sinistras da ficção. E não aceita mesmo: quase todo mundo opõe uma obstinada má vontade a ouvir o que a lguém possa ter a lhe dizer a esse respeito. em vez de cair na rede da sua sedução e atrair o povo para mergulhar nela também. os governos. inte lectuais eminentes oferecem o Tetrafármacon e a PNL como soluções miraculosas. insensibilidade catatônica que protege contra novos abalos. A Servidão Voluntária Não estou exagerando o perigo. As técnicas de manipulação p síquica progrediram tanto nas últimas décadas. em vez de condená-los como anti-éticos e advertir contra o seu uso. Como. Para reconhecer que está dormindo. num curso de Ética nominalmente votado a objetivos da salvação nacional. a do mero adormecimento. em alcance. como o carneiro qu e oferece o pescoço à lâmina. então é que a consciência públi ca já transpôs a primeira fase do sono. com provas cabais.

a 51 Marielza Augelli. Epicuro que me perd oe este rodeio. o hipnotizador ordena ao suje ito que. a consciência é. para que o leitor. Por essa mesma razão. não conseguia parar de entregar todas as cédulas de 100 mil’. em que os criminosos não usavam armas. ao dar-se conta do que tinha feito. que jur ou não ter entendido como dois indianos de olhos negros e profundos. como os batizou a imprensa italiana. mas sim. que está no conhecimento do assunto. fosse bem menor que o número real de crimes. fala mansa e muita delicadeza conseguiram levar US$ 1. por direito. ao norte da Pe nínsula. da Central de Polícia em Turim.. de Potenza. envergonhadas e confundidas. Alguns parágrafos significativos: “Desde maio. 9 de dezembro de 1990. Segunda. caía num torpor nebuloso e ia entregando aos ladrões.’ ‘Não sei como. Uma forma de hipnose instantânea e praticamente irresistível. Paulo. que o leão é manso. noticiou algum tempo atrás a mais estranha onda de crimes que já se vira na Itália. oferece uma justificativa completa e personalizada. por sua vez muito improvável. a vítima entrega todo o seu dinheiro com um sorriso nos lábios e a mente c onfusa. na existência de fato . já era tarde. brancas ou de fogo. ele obedece e. com cerca de dez a vinte pessoas em ação’. Os tribunais e a polícia. e já chegou à Sardenha e à Sicília: o roubo por hipnose. que garanto não será inútil: quando voltarmos ao seu jardim. vou escolher um só. um ca ixa de loja ou de banco. que começou em Piemonte. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”. na mu ltidão de exemplos da sua periculosidade. se lhe p erguntam por que agiu assim. todas as cédulas. uma p or uma. Reações análo gas aparecem em todo tipo de hipnose. A polícia italiana registrou. É o p aradoxo que mencionei: assumir uma culpa moral inexistente parece menos doloroso do que aceitar a hipótese humilhante de uma descontinuidade da consciência. meticulosamente e sem a menor resistência. já alarmante. ela tem altos e baixos e só conserva o seu domínio lutando contra a inconsciência.” Não é aqui o lugar de descrever em detalhe as técnicas de manipulação da psique. Quanto mais tememos um perigo. A prova da autoria era tecnicamente impossível.. após despertar. num despach o da sua correspondente Marielza Augelli espremido num canto de página51. m ais tendemos a fingir diante dele uma indiferença superior: “Senta. pediram somente cédul as que fossem da série x. fiquei triste porque não achava as notas e depois não me lembro de mais nada. Terceira. já foram registrados mais de uma centena de casos. a cidade mais atingi da. A vítima. Mas. os italianos e stão lutando contra um tipo insólito de crime. contou o proprietário de um supermercado em Turim. ‘Eles chegaram pedindo para trocar duas notas de US$ 50 e.” hipnose. O Estado de S. se ainda tem em si algum resíduo de falsa segurança. Depoimento de sconcertante foi feito pelo caixa do banco Monte Dei Paschi. acab avam atribuindo a si mesmas a culpa pelos atos cometidos sob sugestão hipnótica. as cem denúncias feitas em toda a Itália não passam da ponta de um iceberg. no entanto foi obrigado a liberá-los por ‘falta de provas’. porque muitos casos não são denunciado s. mais de uma centena desses crimes. Os feitos espetaculares dos h ipnoladri. Brun chegou a prender três suspeitos paquistaneses com passaportes falsos. As vítimas. Dez minutos dep ois. e só pode escapar do paradox o pelo expediente desastroso de negar os fatos. será com pl ena consciência do que nele está plantado. O jornal O Estado de São Paulo. Aquilo me transtornou. tornavam-se ainda mais inquietan tes por três peculiaridades: Primeira. abra e feche três vezes uma gaveta. M as a maioria das pessoas não atina com estas sutilezas. Nesta nova modalidade de assalto. sem experiência para lid .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 57 com a ajuda das distinções aristotélicas entre potência e ato. a não ser em caso de flagr ante. dela se desfaça no ato e saia em bus ca da verdadeira segurança. e xplica o inspetor Paolo Brun. a parte dominante. em seis meses. Por exemplo. substância e acidente: no p lano essencial. Tratava-se de um novo tipo de assalto.8 mil. Segundo ele. Segundo Brun. Isto levava a polícia italiana a crer que o total d e ocorrências registradas. quando comecei a trocar o dinheiro. ‘Trata-se de uma verdadeira gangue. pelo medo que as vítimas têm de passar por idiotas. muitas vítimas deixavam de registrar queixa (exatame nte como mulheres estupradas).

Mas essas armas não foram testadas só em umas dezenas de assaltos. . disseminando a ins egurança e a confusão. “Meninos de Deus”. bem como às entidades. Por enquanto.ar com o caso. sejam depois usadas para fins de dominação p olítica. nem para impedir que as técnicas dos hipnoladri. mais perigosas talvez do que quadrilhas de assaltantes. nada se pode fazer para impedi r que esses crimes proliferem e se alastrem para outros países. Outras org anizações. as vêm empregando e m escala mundial. para reduzir à escravidão psicológica milhões de pessoas. que as fundam e dirigem. d iscretas se não secretas. uma vez provad as e aprovadas por quadrilhas de ladrões. Rajneesh. Refiro-me às s eitas pseudomísticas do tipo Moon. estavam atarantados.

descobridor dos reflexos condicionado s produzidos pelo jogo estímulo-resposta. bruxaria e mística. vocês conhecem algum? Por uma trágica ironia. Em maio de 1985. algum f enômeno inexplicável que abale suas crenças a um tempo simplórias e pedantes. onde a democracia se torna o pretexto da tirania (veremos no fim deste livro o verdadeiro alcance deste fenômeno). Mas qualquer ação oficial é bloqueada pela a poria lógica embutida na 5ª Emenda da Constituição: o Estado leigo não pode definir o que é religião e o que não é. De qualquer modo. O único país que opôs uma barreira efetiva ao avanço das seitas foi a França. e boa parte da “reeducação” recebida pelos prisioneiros soviéticos consistia simpl esmente nisso. temem deparar. Logo ficou claro para todo mundo que a lavagem cerebral era uma aplicação das teorias do neurof isiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). e impede que o público chegue a pensar seriamente no problema. Os médicos e psicólogos dividem-se em duas categorias: os de inclinação misti cóide geralmente estão mais ou menos comprometidos com alguma seita ou guru. a civilização ferida de que falava V. logo. à sombra totêmica da “liberdade religiosa”. só lhe resta aceitar como tal tudo aquilo que como tal se declare. Em 1988. A expressão “lavagem cerebral” entrou na linguagem popular a parti r dos “processos de Moscou”. quando comunistas fiéis apareceram confess ando os crimes mais inverossímeis que teriam praticado contra o regime. segundo me informou um estudioso do assunto (não é b rasileiro). feitas por egressos ou por familiares das vítimas. Nos Estados Unidos. o Parlamento francês aprovou uma lei proposta pelo Partido Socialista. a costa Oeste — a maior concentração de gurus per capita no território americano — já tinha mais de cem c línicas de terapia para egressos de seitas. Ele estudou isto em ca- . o Brasil é. As técnicas em uso nas seitas se originaram da lavage m cerebral. S. e os ma terialistas durões afetam desprezo pelo assunto na mesma medida em que. No Brasil — preciso di zer? — o assunto não é sequer discutido. a opinião pública está consciente do problema. O primeiro é a Índia. minada pela infiltração do Ocidente. que alcançam por meios diferent es e mais eficazes. que permite aos familiares das vítimas retirá-las das garra s de seus gurus com a ajuda da polícia. É uma meia-verdade. essas organizações continuam atuando com o maior de sembaraço em todos os países. A idéia de moldar o comportamento humano p ela aplicação planejada de castigos e recompensas era uma extensão das descobertas de Pavlov. e as encaminham a clínicas especializadas. logo vêm à boca do interlocutor as palavras: “lavage m cerebral”. Quanto aos educadores. Quando alguém fala da escravidão psicológica que alg umas seitas impõem a seus discípulos.58 OLAVO DE CARVALHO Por mais antipatia que suscitem. confundind o espírito e psique. É o vale-tudo. abre o flanco a todas as degenerescências do espírito religioso. os debates prosseguem e mais dia menos dia tal vez se descubra um meio legalmente válido de resolver o caso. quando pode. o segundo recordista mundial em número de seitas. Mas a doutrinação teria resultados escassos se não fosse uma segunda de scoberta de Pavlov: a dos efeitos da estimulação incoerente. mesmo quando se trate de maiores de idade. embora todo mundo saiba que promovem a escravidão. Denúncias esparsas. o lado espetaculoso — o que dá ao caso um ar fan tasmagórico. Darkness at Noon (“O Zero e o Infinito”). onde a longa e dolorosa decomposição da sociedade tradicional. § 13. bem. entidades privadas empenha m-se em facilitar por todos os meios a libertação das pessoas mentalmente aprisionad as pelas seitas. Em 1940. Naipaul. deu ao público Ocidental uma imagem vívida dos processos de tort ura psíquica que levavam os prisioneiros soviéticos à perda da identidade. A imprensa Ocidental sugeriu que o emprego de algum meio psicológico inusitado seria o respo nsável por aquelas “conversões” que faziam de heróis revolucionários palhaços atônitos a acus se de delitos fictícios. na década de 30. e forçá-las a tratamento psiquiátrico. mas só têm com ela uma identidade de fins. caem logo no esquecimento. na investigação do caso. Dos cães de Pavlov ao lava-rápido cerebral O assunto é fértil de mal-entendidos. o romance de Arthur Koestler. A imprensa só larga a habitual in diferença para explorar. ele mesmo hipnótico.

porém. virasse do avesso. um publicitário. sem gritos. pud essem ter ab-reações. Gurdjieff manej ava igualmente bem a estimulação contraditória. Logo depois. mesmo remotam ente análogo ao que se havia passado. ora os induzia a descargas aliviantes q ue lhes davam a impressão de plenitude e liberdade. Ora. Repetida a operação algumas vezes. o cérebro ent rava em pane. em que tantos se empenhava a psicanálise. não roubarei”. que nas 52 . que detestava. A técnica baseada nas descobertas de Poezl recebeu o nome de propaganda sub liminar. Com base nessa descoberta. como Freud chamava a suspensão dos comportamentos neuróticos após a catarse curativa. de quem gostava. por atuar abaixo do limiar (em latim. que os levavam ao desespero até que a personalidade. uma vez desperto.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 59 chorros. f azendo com que os discípulos se extenuassem em vãs ginásticas hermenêuticas. o paciente se recordava do s terríveis sofrimentos sugeridos e. doutrinação ostensiva ou violência d e espécie alguma. Um cão se afeiçoará ao funcionário do laboratório. os discíp ulos se persuadiam de que Gurdjieff era mesmo um extraterrestre. Programando-os inicialmente para salivar de fome à visão de uma luz vermelh a que acendia tão logo lhes era oferecido um bife. decisiva para o prog resso dos meios de dominação psíquica: um paciente submetido a ab-reações repetidas desenv olvia uma dependência mórbida do terapeuta. Hal C. Enxertando na música ambie nte de um supermercado uma voz debilíssima e imperceptível que repetia: “Sou honesto. Sargant fez mais uma. mas sim pelo efeito acumulado de estimu lações contraditórias. mas deixava sempre no ar pelo menos meia dúzia de intenções possíveis. era desnecessária? Era. Quebradas as cadeias dos reflexos condicionados. A doutrinação apenas fornecia o modelo pronto do novo discurso. recordando-se de traumas enterrados no subconsciente. limes) da consciência. Inicialmente Sargant os tratou pela psicanálise. Becker. A vítima nem se daria conta. Becker diminuiu em 37 por cento a freqüência de roubos cometidos por freg ueses. ao examinar prisioneiros de campos de c oncentração chineses libertados após a Guerra da Coréia 52. Quanto mais abreações. Com grande supresa. literalmente . que tal sintetizar Poezl e Pavlov? A mutação de personalidade por estimulação contraditória bem p oderia ser produzida subliminarmente. não era de terminada pelo conteúdo político da doutrinação. Eis em que consistia a “lavagem cerebral”. o psicólogo austríaco Otto Poezl descobriu que estímulo s visuais fraquíssimos.” A mudança de atitude dos prisioneiros. Sargant descobriu que podia produzir ab-reação simplesmente su gerindo ao paciente. ora a luz sem o bife. só para depois serem repentiname nte jogados de novo em provações humilhantes. e lhes dava um sistema cosmológico completo. com o auxílio de hipnose. Boa parte do fascínio escravizador exercido sobre seus discípulos pelo taumaturgo armênio Georges Ivanovich Gurdjieff. Então a recordação dos fatos. Depois disso . um evento traumático qualquer. Gurdjieff ora esmagava os coitado sob pilhas de exigências constrangedoras. tinha sua catarse e sa ia curado. da qual o sujeito se livra mediante reações opostas às suas condutas h abituais. Tudo no macio. imperceptíveis à consciência. Para começar. os conhecimentos sobre a vulnerabilidade do cérebro humano à influência externa aumentaram muito. verificou depois que muitos pacientes devi damente ab-reagidos e curados lhe haviam contado acontecimentos traumáticos totalm ente imaginários. durante hipnose. por exemplo. verif icou que a coisa funcionava também com estímulos auditivos. portanto. Prometia ao s alunos uma exposição teórica que finalmente poria tudo em pratos limpos. tomando-os como reais. e tentará atacar o dono. que completava a transformação. O mais surpreendente foi o modo pelo qual os cachorros se adaptara m à nova situação: “A inibição prolongada dos reflexos adquiridos — escreveu Pavlov — suscita gústia intolerável. Pavlov passou em seguida a lhes mostrar ora o bife com a luz apagada. De fato. para que. I sto explicava muita coisa. se devi a tão-somente à “mágica” das ab-reações repetidas. eram mais facilmente retidos na me mória do que estímulos mais fortes. mais forte o vínculo. Eles ficaram comple tamente atordoados. O passo seguinte nessa direção foi dado pelo psiquiatra inglês William Sargant. Eles tinham sofrido lavagem cerebral “clássica” e muitos estavam co mpletamente neuróticos. Raramente dizia alguma coisa com senti do identificável.

V. . The Battle for the Mind. do Misticismo e da Cura pela Fé. Imago. 1975. William Sargant. London. Heinemann. Rio. Uma Fisiologia da Possessão. trad. e A Posses são da Mente. Klau s Scheel. 1957.

As mesmas reações . Quando uma pessoa normal resiste de maneira ativa.. pode ser induzido ao transe sem se dar conta do que está lhe acon tecendo. se tornava muito mais sensível aos estímulos do que era antes.. Uma vez produzida uma descarga emocional por esses meios. O primeiro foi fornecido pela descoberta segui nte de Sargant. Flo Conway e Jim Siegelman..” O que Sargant percebeu foi que a fase ultraparadoxal era acompanhada de “uma suge stionabilidade aumentada ao extremo.. o discípulo de Moon ou Rajneesh passava por uma mutação profunda de pers onalidade.” cessidade de discursos em alto-falantes. O segundo. de maneira que o indivíduo se torna recepti vo a influências do seu meio-ambiente às quais era imune antes”: era possível. a mesma reação pode ser repetida mediante estímulos cada vez mais fracos .. bastava regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito a o desespero que o inclinava à mutação súbita de suas convicções. Pavlov já tinha reparado que o paciente. em suma. Nada adiantava o indivíduo tentar res istir às sugestões53: “Apesar de muitos médicos hipnotizadores insistirem em que a cooperação do paciente é esse ncial. a fase ultraparadoxal. no ambiente fechado e artificia l das seitas pseudoreligiosas. subliminar. e por outro. até que a con fusão mental crescesse à escala cósmica. podiam ser provocadas com estímulos cada vez mais leves. Pode-se mu dar a personalidade e as convicções de um homem levando-o ao esgotamento resultante da estimulação contraditória (Pavlov). para produzir a lavagem cerebral discret a e indolor com que sonhavam os técnicos. A pessoa submetida a esse tratamento torna-se dócil... Quando o sujeito acostumou-se a ser hipnotizado. Por um lado. pela PNL.. Mas. Para reduzir um homem a uma obediência canina. de repente. já não havia ne53 54 .60 OLAVO DE CARVALHO semanas seguintes era inteiramente substituído por outro. o uso conjugado da estimulação incoerente e das a b-reações repetidas abria os mais promissores horizontes aos manipuladores da mente. calcul ado para paralisar a consciência por meio da estimulação contraditória. mantendo-se constante a pressão. a se transformar em negativos . às vezes em doi s ou três dias. Um estudo conjugado da IBM e da Universidade de Stanford demonstrou que é possível produzir artificialmente um quadro paranóico em su jeitos normais. é possível induzi-la ao transe com bastante facilid ade. O psicólogo Leon Festinger verificou que mesmo formas brandas e gradativas de estimulação contraditória podiam produzir uma dissonância cognitiva. 2. o sistema nervoso é esgotado e . Esta descoberta foi confirmada por muitas outras vias. As conclusões dess as pesquisas podem ser ordenadas numa seqüência simples e contundente: l. ameaças ou tortura mental. que os técnicos chineses em lavagem cerebral levariam meses ou anos par a produzir56. O que Sargant descobriu logo depois disso f oi de estarrecer. descobriram que. Com a descoberta da hipnose forçada. essas inform ações seriam tanto mais explosivas em seus efeitos quanto mais silenciosa e discreta fosse a sua penetração — de preferência. ainda faltavam dois quesitos: um meio de tornar permanente a mutação de personalidade e um vocabulário dos sinais subliminares . crédula e dependente (Sargant ). os resultados descritos por Sargant podiam ser al cançados num prazo inacreditavelmente breve: em menos de uma semana. Dois pesquisador es. simplesmente submetendo-os a um fluxo de informações que os deixem n um leve estado de alerta contra o risco de situações humilhantes55. após chegar à inversão dos re flexos. na verdade os sujeitos podem ser hipnotizados contra sua própria vontade. Pavlov denomin ara a isto a fase paradoxal da mutação. as respostas e o condici onamento condicionado positivos começam. de outro lado. O segredo era o planejamento cuidadoso do fluxo de informações. que desse agilidade à sua utilização. de gritos. Tentativas repetidas em geral dão certo. hipnotizar um sujeito contra a sua vontade. ge radora de neuroses e psicoses54. portanto. a que se seguia uma fase ultraparadoxal: “No t erceiro estágio da inibição protetora.

1957 ). . Zahar .Sargant. 47 Leon Festinger. 1975 ( original: A Theory of Cognitive Dissonance. 55 V. A Handbook of Artificial Intelligence. p. Eduardo Almeida.. Conway & Siegelman. Teoria da Dissonância Cognitiva. Stanford. Universit y Press. A Possessão da Mente. Rio. trad. Snapping. Calif. 56 V. IBM.

um homem pode acreditar que Deus faça a Terra parar. Um homem pode acreditar que Jesus multiplique os pães. É muito difícil avaliar até que ponto os governos. que pode ser realizado à distância (IBM). Devo. Não é preciso enfatizar as fac ilidades que. na medida em que é uma resposta a legítimos anseios humanos e não apenas uma esquisitice coloss al. e por i sto.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 61 3. o v alor dos bens prometidos e 57 Que nenhum espertinho venha mencionar os koans do budismo. continental ou planetária. desde que se sintam corta dos de suas raízes sociais e afetivas (Conway e Siegelman). A fé pode predispor um homem a acreditar em prodígios e milagres . isto é. O cristão pode aceitar que Cristo se ergueu da tumba no terceiro dia após a mort e. os movimentos políti cos de toda sorte avançaram. que é uma só e a mesma coisa que o senso da unidade do real. e mesmo a observação mais superficial basta para mostrar que a manipulação da psique já se tornou. Deus gradua as provações segundo a capacidade dos fiéis. em muitos setores de atividade. Um crente não pode esperar indefinidamente nas promessas do seu Deus quand o nenhuma delas jamais se cumpre. a rede das telecomunicações e a informatização da sociedade o ferecem para a aplicação dessa receita em escala nacional. pela simples razão de que a unidade do real é a unidade do próprio Deus. Noto. mas não que a chuva será se ca. no uso efetivo das técnicas de manipulação. beleza. nunca foi violado por nenhuma das grandes crenças religiosas do passado e do presente. O milagre pode ser belo. que o movimento da New Age só pôde alcançar uma repercussão mundial em prazo tão rápido graças ao emprego maciço da timulação contraditória que reduz milhões de seus adeptos à credulidade imbecil e a uma su bserviência patética. Finalmente. e em muitas civilizações diversas. há o limite da p aciência. não há. em rupturas da ordem natural costumeira. sem que a víti ma se dê conta do que se passa (Bandler e Grinder). se admit ia como fé religiosa. pode ainda fazê-lo aceitar alegremente sacrifícios sem vantagem aparente imed iata. sublime ou terrível. mas não que Ele a faça girar e ficar parada ao mesmo tempo desde o mesmo ponto de vista. O segundo limite é o senso estético. essencial. até agora. Ou antes: há toda uma rede de limites. desobedeça à sua dis posição natural ou lute contra seus mais óbvios interesses. O senso da identidade lógica. 4. os serviços secretos. cuja lic itude ninguém se lembra de pôr em discussão. mas s difícil continuar crente se os pães celestes viessem eria m ofados. a teologia apofática ou outros exemplos do mesmo teor como provas de que o pensamento religioso admite . funcionalidade. pode também levá-lo a aceitar a aut oridade de um guru ou santo cujo saber permaneça fora de toda possibilidade de con trole. sob pena de funcionar como um ant imilagre. Mov ido pela fé. Ele não se assem lha em nada àquilo que nos séculos passados. A estimulação contraditória pode ser produzida por meios subliminares. o incomum. O primeiro desses limites é a contradição intrínseca. foi somente porque não quis. Tem de possuir um sentido. subjacente mesmo às mitologias p oliteístas57. Mas há sempre um limite. 5. A técnica pode ser aplicada s imultaneamente a todos os membros de uma coletividade. hoje em dia. ou porque tropeçou em algum obstác ulo acidental. as empresas multinacionais. O miraculoso não é apenas o extraordinário. Não pode ser banal. A fé pode exigir de um homem que ele contrarie o bom-senso. em todas as religiões. Se ninguém ainda tentou. ater-me àquilo que posso observar na vida de to dos os dias. Os povos do passado podiam seguir um profeta que lhes anunciasse a vida eter na ou a cura de todas as doenças. um hábito corrente. mas permaneceriam indiferentes a uma mensagem ce leste que prometesse apenas entortar todos os garfos. Não há nenhum precedente histórico para este fenômeno. por exemplo. o gigantesco: ele tem d e mostrar harmonia. desmentindo a fé em vez de confirmá-la. que nenh uma religião jamais ultrapassou. que estão fora do alcance de um pesquis ador independente. O fator decisivo é o controle planejado do fl uxo de informações. portanto. Impedimento teórico. Os resultados serão mais rápidos do que no indivíduo sozinho. ridículo ou grotesco. A decepção continuada é um antídoto contra a fé. Essa a valiação requereria investigações de vasta escala. A reverência ao pajé pode fazer um índio acreditar que os ritos trarão chuva. mas não que Ele tenha ressuscitado antes de morrer.

. num salto.a autocontradição. Uma vez encontrada a solução. atendidas as distinções de planos de realidade que a lógica . obviamente não poderia realizar. Esses exemplos só mostram que na esfera mística a compreensão de certas verdades requer uma apreensão intuitiva capaz de superar. por si. ela se mostra perfeitamente lógica. obstáculos que ao raciocínio discursivo parecem intransponíveis.

O homem das grandes cidades ac redita hoje em ficções que fariam um índio sorrir59. as figuras. como antecipações que dão aos fiéis o ânimo de perseverar na fé. praticada por todos os místicos das randes religiões. por exemplo. 19 20. entre os quais os demônios. Muitas tribos indígenas têm. feitos como os de Thomas Green Mor ton. ao mesmo tempo que distingue conscientemente entre propaganda e verdade. dignos de pena na melhor das hipót eses. finalmente d os djinns ou entes sutis da natureza. afirma-se que as visõe s podem provir de Deus. Ora. Os slogans. V. Como foi possível chegar a esse ponto? Quais as causas e os agentes que se encontr am por trás desse fenômeno. Paris. sabendo que a propaganda é um universo de enganos. esta arte esteve incluída até bem pouco tempo atrás nos ensinamentos regulares de Teologia Mística transmitido nos seminários. Assim. Na mística islâmica. demônios. The Spiritual Legacy of th e American Indian. Os milagres surgem. subentendendo que a fé perfeita não precisaria deles . Maison de la Bonne Presse.. O ensina mento tradicional a respeito está registrado nos hadith. ele não pode deixar de se guiar p or ela na prática. O homo urbanus está preso no círculo da linguagem publicitária. dos anjos. mas não e de esperar nem quarenta semanas para que Deus enviasse o maná. que as coloca. 1964. heróis e duendes do imaginário tradicional. já que sua imaginação não t m outra fonte para buscar inspiração e modelos de conduta além das comunicações de massa. Se o conhecim ento desta disciplina não tivesse desaparecido. ou técnica. de outros homens. não despertariam maior curiosid ade senão como fenômenos de teratologia espiritual. ou Maomé ) e depois foi sendo acrescido das observações dos místicos. mas sim um rebaixame sem precedentes do nível de consciência das multidões. ele já passou da fase ultraparadoxal. É a fé reduzida à crença cega e totalmente amputada do mais elementar “discernimento dos espíritos”58. aspirações e temores . que ensina um homem a discernir a fonte — e portanto o valor — de su as inspirações e visões interiores. O teor mesmo das imagens e o conjunto de sentimentos que as acompanham indicam a fonte. o que caracteriza o fenômeno mundial da pseudo-religiosidade contempo rânea é justamente a credulidade beócia que toma como mensagem do céu qualquer fenômeno gr osseiro de telepatia ou hipnose. 58 O “discernimento dos espíritos” é a ciência. uma autên ciência do “discernimento dos espíritos”. de vez que a inteligência não pode por em movimento a vontade senão p or intermédio da imaginação e que sua imaginação não tem outros conteúdos senão os que nela f m inoculados pela propaganda. os jingles e logotip os da propaganda povoam a imaginação do homem de hoje exatamente como outrora os anj os. que continua a crer com zelo fanáti co apesar dos mais óbvios desmentidos. V. espiritualmente. No Ocidente cristão. do coração humano. ao longo dos séculos. A respeito. A destruição da religiosidade popular tradicional — atacada de um lado pelos materialistas e de outro pela ideologia da New Age — não produziu nenhum “esclarecimento” ou “iluminação coletiva”. ou sentenças do Profeta ( M ohammed. nem quarenta minu tos para que seu cajado se transformasse em serpente. por exemplo. muito acima do homem branco médio.62 OLAVO DE CARVALHO a lógica da situação. Daí que ele aja continuamente contra aquilo que sabe . mas não deixou de operá-los em profusão por saber que a fé humana é necessariamente impe rfeita. Eles formam o vocabulário básico no qual o habitante das grandes cidades expressa seus desejos. para não falar de outros mais grosseiros ainda. que diferencia radicalmente o mundo atual de todas as ci vilizações precedentes? A resposta é decepcionantemente simples e pavloviana: o homem moderno foi submetido a uma dose de estimulação contraditória superior a tudo quanto s eus antepassados poderiam sequer imaginar. que aceita “sinais divinos” desprovidos da mais ele mentar coerência estética ou funcionalidade prática. Pendle Hill. a respeito. nesse quadro. Joseph Epes Brown. Albert Farges. e agora ele só c rê naquilo que seja flagrantemente contrário às evidências. 59 Não é força de expressão. Moisés pôde esperar quarenta anos pela libertação do seu povo. O próprio Cristo cen urou o povo que pedia milagres. entre suas tradições. t odas as suas cadeias de reflexos foram invertidas ou pervertidas. Um campo fértil para os abusos da estimulação paradoxal é a propaganda. Les Phénomènes Mistiques Distingués d e leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques.

. Ele sabe por exemplo que dirigir em alta velocidade é uma imprudência estúpida. ao generaliz ar-se para todos os setores e momentos da vida provoca uma angústia insuportável. A ruptura entre conduta e crença. mas não tem outro modelo do homem forte que deseja ser senão o de Ayrton Senna. Ele sabe que os cigarros de baixos teores de nicotina podem ser perigosamente radioativo s. Mas reprimir essa angústia é abdicar. qu e tem de ser reprimida a todo custo. o . é condenar-se a um vaivém incessante entre a fan tasia desesperançada e o desesperançado cinismo. Levado a agir como se acreditasse n aquilo que nega. no ato. mas sua imaginação — pelo efeito conjugado da campanha contra a nicotina e da propa ganda de cigarros — associou a eles um sentimento de higiene e segurança perfeitamen te imbecil. inócua em casos isolados. d e todo senso profundo da realidade.

liberdade irrestrita para o c idadão e maior intervenção do Estado na conduta privada. Mas os autores da proeza são ele s mesmos suas primeiras vítimas. a pobreza. ao bom senso e ao mais elementar sen- timento de humanidade. Ideologias como o gramscismo. O efeito de longo prazo é elevar até o insuportável a pressão col etiva das angústias e das culpas não conscientizadas. eles certamente devem ter bo ns motivos pessoais para ver nessas idéias algo de reconfortante. A culminação de cem a nos de pesquisas sobre o domínio psíquico do homem pelo homem é alcançada no momento em que todas as elites — as que estão momentaneamente no poder e aquelas que lutam para conquistá-lo — se unem num pacto contra a liberdade da consciência individual. anti-racismo e defesa de “ident idades culturais” sustentadas na separação das raças. são a legitimação “filosófica” de um atologia: não conseguindo mais instalar-se na realidade em que viveram nossos ante passados. Perto dessa queda da c ondição ontológica da humanidade. influenciando a sua conduta sem pedir licença ao julgamento consciente . seja le vando as massas a encená-las no palco da política. Comparados a esse império universal da impostura. compo stos de puras racionalizações no sentido freudiano da palavra. o neo -epicurismo. Pervertendo nos homens a capacidade para o juízo de realidade. mas isto é pior ainda. liberação das drogas e proibição dos cigarros. O típico intelectual exasperado de hoje defende sistematicamente reivindicações contraditórias: liberação do aborto e repressão ao assédio sexual. a injustiça social. ouvintes e espectadores. mas quem está imune à sua influência? O público nem sempre se dá conta das contradições. o ativismo intele ctual acaba por reduzir a linguagem a nada mais que um instrumento de expressão de raivas insensatas e exigências descabidas. A partir desse momento. mas eles mesmos praticam abundantemente a estimulação paradoxal sobre as mentes indefesas de alunos. leitores. se a arma que se consagrou na luta para conservá-los ou extingui-los é a escravização da espécie humana. consag rando as técnicas de manipulação psicológica e de estimulação contraditória como armas legíti e aceitáveis na luta das idéias. Quem quer que lhes dê ouvidos termina louco. porque elas vão direto para o seu sub consciente. que só pode acreditar na realidade qua ndo ela não tem sentido e só pode enxergar um sentido na negação da realidade. O estraçalhamento das consciências pelo império da propaganda é condenado com veemência por alguns intelectuais ativistas. todos os outros males que a afligem são meras incomodi dades corriqueiras. segundo as quais a re alidade objetiva não existe ou a linguagem não tem relação com ela. seja criando-as em laboratório. democ racia direta e controle estatal da posse de armas. qu e importam todos os males menores e locais denunciados e combatidos pelas várias i deologias em disputa? Que diferença faz se a manipulação da mente é empreendida sob o pr etexto de manter as massas na passividade de uma rotina conservadora ou de impel i-las a fazer uma revolução? Em ambos os casos. um cão é sempre um cão. Quer seja adestrado para cochilar mansamente diante da lareira ou para avançar co m os dentes à mostra contra os estranhos. o homem é tratado como um cão de Pavlov.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 63 homem das grandes cidades é hoje um esquizóide. e assim por diante. a corru pção dos políticos. o neopragmatismo de Richard Rorty. pouco importa quem ganhe a disputa: a humanidade perderá. Que importam o racismo. com muita violência e muito sangue para dar verossimilhança a um enredo delirante. os intelectuais começam a produzir realidades postiças. a abolição da consciência. a redução das massas a um reb . que não têm satisfações a prestar à razão. destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas prémodernas. Não é de estranhar que com tanta freqüência os intelectua is apologistas do absurdo se ponham a elaborar sistemas de justificativas. Quando os filósofos co meçam a declarar com obscena satisfação que a verdade só pode ser inventada convencional mente ou fingida mediante a encenação de crenças políticas. seja construindo-as por deduções de um artificialismo sufocante. Elas os ajudam a suportar o mundo fictício e alucinante que eles mesmos criaram. moralismo político e imoralismo erótico. Boa parte do que hoje se chama cultura é apenas a reprodução elaborada e pedante desse estado d e espírito. o “novo modelo de linguagem” de David Bohm. A velha oposição entre evasão e ativismo perdeu todo sentido num mundo em que a ação política se tornou um escapismo para alívio das mentes imaturas e em que as fantasias mais extravagantes são celebradas como formas de “protesto” contra um mundo mau.

de bichos controlados à distância por uma tecnologia do engodo que destitui o homem do bem supremo que. é irrecuperável para sempre? . uma vez perdido.

“A doença social que termina na a niquilação do pensamento independente. Liberties of the Mind. e sua herança ainda não se esgotou.64 OLAVO DE CARVALHO Quatro décadas atrás o uso universal dessa arma era apenas uma tendência. New York. os lisonjeia e se esconde. não um fato co nsumado. 40 e 5 3-54. “A batalha a se r combatida não é só entre partido e partido. fazendo os homens acreditarem que estão pensando livremente quando não o estão. a pseudo-religião. O perigo que corremos é que há grandes forças em ação no do que nos proíbem empreender essa jornada e destroem nossa vontade de fazê-la. uma luta qu e transcende todas as diferenças exceto uma. a Nova Era. Macmillan. é uma doença de rara sutileza. O epicurismo é um antepassado de todas. “O propósito do ataque é o mais velho de todos: p roduzir o caos. entre aqueles cuja ênf ase está na razão e aqueles cuja ênfase está na fé. . 10. 60 Charles Morgan. 1951. É antes. uma névoa de razão fragme ntada numa poeira rodopiante. quan to ao seu direito de distinguir entre o bem e o mal e ao seu poder de empreender sua jornada à luz dessa distinção. o neopositivismo. ingovernável. o marxismo.” 60 Dentre essas forças. as mais notórias são o pragmatismo. ou mesmo. E já então um observador sensível podia escrever estas palavras: “O problema da s Liberdades da Mente é hoje tão urgente e prático quanto o problema da emancipação dos escravos foi no passado. que. quanto à validade da mente humana. sem propósito e sem causa. no fundo. pp. no meu modo de ver. e da vontade de independência. A vitória almejada é o definitivo caos na mente do mundo. a insanida de pelo fracasso em distinguir e pelas fantasias de poder.

então. em substituir a história por um sistema de men tirinhas bobas destinado a colocar Epicuro no centro da evolução do pensamento humano. roendo-se de inveja da filosofia dominante. um misósofo. propriamente. pa ra mostrar. era incapaz de permanecer indiferente aos ataques dos adversários. ele chamou Aristóteles. o epicurismo vingou-se produzindo uma caricatura de história da filosof ia. as clássicas lendas que os epicuristas. C hegaram a chamá-lo de “ímpio” e até de “porco”. Não conseguindo fazer-se aceitar como filo sofia séria. de stinada a acompanhar a filosofia pelos séculos dos séculos sem desaparecer nunca. t ambém se empenhe. onde quer que se apresente uma nova defesa de Epicuro. w Em seu esforço de canonizar Epicuro. malgrado sua ética declarada de indife rença pelo mundo. Epicuro. Ele é um equívoco permanente. não hesitou em chamar seu velho mestre de “verme” e “prosti tuta”. e menos ainda de respondê-los com elegância. não poupava mesmo aqueles com quem tinha uma dívida pessoal. cíclica e regularmente. os exilados. Se assim é. forjada do mais puro ressentimento. entre as idéias que até hoje despertam algum interesse? Uma resposta possível é que. traçou um r etrato moral do filósofo como um sereno asceta em seu jardim. chutando para a perife ria todos os que ousaram se opor a ele. não estranha que o epicurista proceda. ocupado somente das coisas do intermundo e alheio à vã agitação dos á os humanos. Pessanha não inventou. pr ojetando no chão a imagem obscura e invertida que. A ÍNDOLE DO EPICURISMO § 14. não foi nada disso. Essas balelas reaparecem. pelo retorno ao espírito filosófico. lorotas novas. que ele seja um eterno antifilósof o. como pôde. concorrer com as outras filoso fias e defender seu lugar. ainda que modesto. estar ausentes do M ASP. em seguida. recém-exilado. em que a men te humana está destinada a cair de tempos em tempos. de “vendedor de drogas”. Bem. como um novo Sócrates. Este era seu estilo característico de lidar com . que constituem para ele um sucedâneo de teoria. Convém repassar algumas delas. Não poderiam. além de cultivar no seu j ardim todos os sofismas clássicos. fazendo coro à longa tradição de marketing epicúreo. ele constitui um fenômeno significativo. Era famoso pela incontinência verbal com que difamava sobretudo os ausentes. no campo da ação prática. será sempre tomada como tal por quem quer que aborde os temas filosóficos vi ndo de fora e movido por interesses alheios aos do filósofo — pelos interesses do ho mem prático empenhado em “transformar o mundo”. Após ter sido discípulo de Na usífanes por longos anos e haver tomado dele algumas das principais idéias que viria m a constituir o epicurismo. Porcarias epicúreas Mas se o epicurismo é indefensável como teoria. diante d e uma platéia que as desconhecia e à qual pareceram novas. uma vez mais. o conferencista. por ter o perfil externo da fil osofia. E ele. o fracasso subiu-lhe à cabeça. de maneira inversa à do filósofo. Por exemplo. se como prática é apenas um embuste para lograr um público sem discernimento.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 65 CAPÍTULO V. teceram e cultivaram durante vinte sécu los. Apenas reexibiu. É significativo que esse tipinho. em tudo. que a escola que trapaceia no campo da teoria não teria por que eximir-se de fazê-lo também no campo dos fatos. só para ter de reerguer-se. na obscuridade do ostracismo. tudo suportou c elegância e resignação. portanto. Como diria Nelson Rodrigues. os que estavam em desgraça ante o poder. malgrado suas fraquezas. e talvez por causa delas. absorto em meditações el evadas. enquanto em torno a fúria de seus adversários lhe assacava odiosas calúnias. Ele é uma espécie de sombra. alguém que aborrece a sabedoria e foge dela por quantos atalhos e de svios se lhe apresentem.

Aristóteles “não foi chefe de uma escola . Eubúlides. o móvel era o ódio político. era e continuou sendo sempre um estrangeiro. pois foi um dos muitos professores cassados pela ditadura militar. Mas o fato é que Aristóte les. para escapar à morte. a ascensão dos pensadores politicamente inócuos em tempos de tir ania é um fenômeno que nós aqui no Brasil conhecemos bem. não pode tê-lo ignorado. Mas enquanto Aristóte les. ocupada pelo tirano Demétrio. Teopompo e Teócrito de Quios odiavam Hermias (sogro de Aristóteles) e transferiram esse ódio a Aristóteles. em Atenas.. Um suc esso. por exemplo. que o cultivaram ao longo dos séculos. encontrou campo livre para se expandir. A campanha epicúrea de difamação deixou marcas profundas e foi ressuscitada no Renas cimento por Gassendi e Patrizzi” 62. 1985. estando doze mil de seus cidadãos com os direitos políticos suspensos. Nestas condições. combatiam Aristóteles porque reprovavam suas doutrinas e sua filosofia. No monumental estudo que consagrou a Aris tóteles. trad. Outros. Madrid. transmitiu-se como um vírus às gerações seguintes de epicuris . já às portas da Era cristã 64. Curiosamente. Em alguns.. sem ser jamais incomodado pelos poderosos. Embora sua filosofia te nha sido severamente refugada pela posteridade. desculpam esses excessos verbais como manifestações da justa indignação m oral do mestre. Bernabé Navar . reed. só reaparecendo no século XII. de teor político. Como ali se ace itavam indiscriminadamente quaisquer discípulos. O epicur ista de hoje pode utilizar o prestígio dominante que Aristóteles veio a ganhar nos séc ulos posteriores. Mal havia alcança do certa posição como professor.. Assim. Demócares e Time u facilitaram a calúnia dos pósteros. ia para o exílio. que pregava o absenteísmo político e não oferec ia perigo para o regime. Ao contrário de Platão — escreve Düring.66 OLAVO DE CARVALHO aqueles de quem havia copiado alguma coisa: cobri-los de injúrias. 62 Ingem ar Düring. pois. quase nada sobrou do aristotelismo... várias escolas foram fechadas e muitos filósofos — adversários potenciais de Epi curo — tiveram de emigrar: a nova seita.. e logo em seguida sumiu de novo quase por completo. Epicuro. Foi exata mente isto o que Pessanha deu a entender ao público do MASP. Alianza Editorial. 1981. que se passava com Epicuro? É falso que e le tenha sofrido qualquer perseguição ou ataque sério em vida. e o descrédito em que veio a cair o epicurismo. morto Aristóteles. a tradição anti -aristotélica era forte já em vida de Aristóteles” 63. é claro. É o que faz. se encontrava sob o domínio do t error. pensou e disse dos 63 Carlos García Gual. Pessanha. membro d a escola megárica. que desapareceu da memória dos gre gos para só ressurgir três séculos depois. Pode-se imaginar o que a nossa geração. Exposición y Interpretación de su Pensamiento. por sua vez. A escola epicúrea floresceu em At enas quando a cidade. Também está na hereditariedade epicúrea a propensão a jogar com as aparências para criar f alsas impressões persuasivas (a lógica dos sinais é uma técnica de fazer isso).. É de estranhar que um tipo desses venha a ser chamado de porco? Os epicu ristas. Para completar. Mas por que não deveríamos explicar por igual motivação os ataques dos adversários? Por que o mesmo procedimento deveria ser louvável num homem e condenável nos outros ? O hábito da difamação. aliás. Aristóteles. o ja rdim logo ficou lotado de senhoras mal casadas e de milionários entediados. enquanto viveu ele esteve no bem -bom. visto com maus olho s pelo beautiful people.. 61 e foi obrigado a fugir para a Ásia Menor. e os epicuristas um punhado de bravos em luta contra a opressão. sobretudo. respondeu a ele com injúrias pessoais. Carlos García Gual no seu livrinho apologéti co 61. Aristóteles teve poucos amigos e muitos inimigos. mas somente um dos muitos cientistas estrangeiros na Academia. para afetar ind ependência. sem nenhuma seleção intelectual. no que é o maior e melho r dentre os estudos recentes sobre o assunto —. Ingemar Düring escreveu o seguinte sobre os ataques que forçaram o Estagirita a buscar o exílio: “Seus mais inflamados inimigos encontram-se entre os epicuristas . o fato é que. para criar retro ativamente a aparência de que no meio ateniense os aristotélicos fossem a classe dom inante. na época.

64 . 42. p. ). Pierre Aubenque. Histoire de la Philosophie. op. t. Aristote et le Lycée. 1994 ).. 41. I-III. cit. V.ro. IAL. pp. Paris. p. 685-687. Düring. Universidad Nacional Autónoma. México. fasc. em Brice Parain ( org. I. 1990. e também as apostilas de meu curso Pensamento e Atualid ade de Aristóteles ( Rio. 1969 ( Bibliothèque de la P léiade ). Gallimard.

em preconceitos religiosos. que povo do mundo não daria trela a fofocas ao ver milionários trancarem-se com prostitutas entre os muros de um jardim? Chamar a is to perseguição. graças a uma conspiração urdida por aristotélicos e cristãos e inspirada. Pessanha atrás dela. Ele era. para Epicuro. Ora. em geral. como eles. da Antigüidade até agora. Entre os dois “comércios”. Éramos todos então uns caluniadores in decentes. Não obstante. para Epicuro. porém. não o é menos o epicurista. Caso haja nisto alguma diferença de mérito . como um interesseiro comércio com Deus. ao contrário. afirma ele. a essa luz. por literatos e por pens adores bissextos. Filosofia e ascetismo eram portanto. Este não encontrava em Epicuro “a menor sombra de um conceito” e via no epicurismo tão-somente “p alavras vãs e representações vazias”. enquanto o ep icurismo assume a nobre aparência de um sacrifício gratuito. de razões puramente filosóficas. No fundo. Outra lenda querida aos corações epicuristas é a de que a escola caiu no descrédito e no esquecimento. O asceti smo cristão surge. o alívio mais imediato e o mai s imediato prazer possível. Não houve perse guição contra os epicúreos. tanto quanto os de um monge cristão. a tradição epicúrea. não so freu perseguições: beneficiou-se com a perseguição que os outros sofreram. para proclamar a grandeza do mestre e squecido. O epicurianíssimo García Gual ressalta que. A diferença está em que a recompensa esperada pelo cristão é espiritual e de além-túmulo. O filósofo do jard im. Mas o ascetismo epicúreo não foi nem poderia ser nunca o exercício de uma virtude gratuita. que o epicurismo suprime. enquanto Epicuro viveu. Exige pagamento à vist a. ressaltando que seu ascetismo era ainda mais meritório por não contar . de um ominoso silêncio — prossegue a lenda —. cujo ascetismo desenvolve as virtudes da fé e da esperança num s entido último da existência. ergueramse de tempos em tempos as vozes corajosas de alguns servidores da verdade. tínhamos boas razões para pensar que as circunstâncias do sucesso daquela gen te eram pelo menos um sinal da vacuidade das suas idéias? Epicuro. foi apenas um zunzum de fofocas. A corrente reprobatória começa com os estóicos e os aristotélicos. e dec laradamente. mas d ecorreram. A história é outra. Que. o epicur ista é apenas mais mesquinho: não dá crédito a nenhum sentido último. e a do epicurista é material e a curto prazo. era totalmente desprovida de sentido. ademais. aqui e ali. atravessa a escolástica sem atenuar-se em nada e penetra com a mesma força na Idade Moderna. Os motivos para a rejeição do epicurismo não foram quase nunca de ordem religiosa. Se este é “interesseiro”. ao alcance da mão”. evidencia neles uma peq uenez de alma que os torna indignos do nome de filósofos. é a favor do cristão. Embora apreciado. pelo essencial. Epicuro foi tido em péssima conta por quase todos os filósofos. como Pessanha quis fazer crer que fossem os críticos de Epicuro? Ou. prolong a-se em Agostinho. Epicuro e seus discípulos mostrassem por vinte séculos uma profunda indignação ante tais ninharias. . por exemplo. dar a essas picuinhas uma dimensão comparável à da morte de Sócrates ou à do artírio dos cristãos. com a expectativa de uma recompensa em outra vida. como o dos cristãos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 67 novos professores que entraram no lugar dos cassados e passaram a brilhar nas cáte dras com suas idéias politicamente inofensivas. qualquer idéia filosófica que não tivesse em mira o alívio da dor e a obtenção do prazer. encontrando sua mais plena expressão em Hegel. um instrumento em vista de um fim: a conquista da felicidade terren a. atual. adornou o mestre com os traços de um santo asceta. na ética militar h indu. ao contrário. em vez de perdoá-las como manifestações banais da indiscrição humana. na moral estóica ou nos místicos mussulmanos que professam “renunciar ao Paraíso” pa ra contentar-se com o amor a Deus como um fim em si). entra na era Patrística com Lactâncio e Dionísio. é abdicar de todo senso do ridículo. meramente instrumentais. provocado pelo fato de que a escola aceitava em seu corpo discente a té mesmo notórias prostitutas. independente de q ualquer expectativa de benefícios (como se encontra. “não quer arriscar por nada a felicidade pessoal. O que houve.

.

adiante § 19). o que é aliás a única boa razão pela qual alguém pode aderir ao epicurismo — filosofia polissensa. digamos. pelo trajeto que a cada um aprouvesse. como por exemplo um atomismo à Demócrito e a noção de Deus como causa eficiente do movimento cósmico. O ódio a toda a tradição filosófica ocidental inspira ria. acessív eis à percepção humana e regidos por leis que chamamos newtonianas. o trompete e a corda do violino. O protótipo deles foi Pierre Gassend. mesmo desagradáveis em si. que a isto se reduzem respectivamente a flauta. a inexistência de um po der central regulador do cosmos? Pelo menos não foi assim que entendeu sua teoria o próprio Heisenberg. Não é inteiramente exato o que foi dito acima. novamente. já que a beleza não se funda nas leis da causalidade física e sim da intencionalidade e stética. e que se utilizaria de outros meios se os houvesse e fosse o caso. obra original dele (com alguma ajuda de Nizan e García Gual): revigorar o corpo moribundo do epicuri smo com uma injeção de física moderna: Epicuro teria sido um precursor do indeterminis mo de Planck e Heisenberg. se mpre os houve. cada um assobiando pelo caminho uma melodia diferente. — a qual é capaz. é claro. Pessanh a disse admirá-lo como a um elo importante na tradição materialista (v. ou não assobiando nada. de carro ou de trem conforme o caso. e se por acaso. de quaisquer meios ou me canismos que se apresentem. a pé. chegam a coagular num canto qualquer do espaço um conjunto de coisas e seres mais ou menos estáveis. o epicurismo de Paul Nizan. Assim também uns músicos que o acaso reunisse num ponto qualquer do cosmos. A afi nidade de Epicuro e Gassend é apenas negativa: ela reside no ódio comum a Aristóteles. absor . os átomos se movem s em nenhum roteiro predeterminado. onde cabem todos os contras. O Deus de Heisenberg não age so bre o cosmos como um relojoeiro sobre o relógio — como o Deus de Newton —. fumando ou não fumando. para Planck e Heisenberg. A inexistência de leis físicas que governem o cosmos não era para ele um argumento contra a existência de Deus. que não oferece outro fundamento à unidade de uma tradição senão o de uma somatória de ojer izas. Descrito assim. No universo indeterminista. a unidade de uma negação. todas as combinações são possíveis. chocando-se uns com os outros. Gassend tomou-se por epicurista justamente porque não compreendeu Epicuro. O ponto comum é a ausên cia de leis que governem a matéria. que Pessanha não inventou nenhuma lorot a nova. indiferente ao mecanismo físico que produz os sons. que a matéria vibrada possa produzir. os organiza segu ndo a forma de uma intenção estética. ao menos em parte. Mas quem disse que o indete rminismo de Planck e Heisenberg tem sentido negativo? Quem disse que a indetermi nação dos movimentos dos átomos prova. Na dança randômica dos átomos. no século XX. alegre o u triste segundo o estado de seu fígado. inclusive. já que de outro lado ele defende teses absolutamente incompatíveis com o epicurismo. mas sim contra o determinismo mecani cista que negava Deus com base nessas mesmas leis. Quanto aos devotados após tolos que mantiveram aquecida a batata epicúrea sob a crosta do gelo universal. de absorver na forma superior de uma harmonia qu aisquer sons. servindo-se. para isto. que não compromete em nada a sua l iberdade fora dessa zona restrita. que os esnobes insistem em pronunciar à francesa Gassandí (1502-1655). far iam durante esse breve momento gestos coordenados segundo a partitura. mas pelo efeito de uma coincidência estatística. e como que seguindo cada qual livremente o seu clinamen. É preciso ter praticado muito Tetrafármacon para poder enxer gar estóicos e protestantes como agentes secretos do Papa. O mais audacioso dos enxertos foi. não o fazem por obri gação. o universo da física moderna pode parecer uma confirmação de Epicuro. A ord em da forma total sobrepõe-se aqui à ordem ou desordem das matérias e elementos. e em segu ida iriam embora para suas respectivas casas ou para onde bem entendessem. sejam eles um caniço. M as a homenagem que Gassend presta a Epicuro é meramente verbal. enxertado de diatribes nietzscheana s.68 OLAVO DE CARVALHO A hipótese de que toda essa assembléia variada e milenar estivesse conjurada contra Epicuro movida tão-somente por preconceitos e fanatismos alimentados pela Igreja C atólica não merece discussão. latinizado Petrus Gass endi. um tubo de metal ou uma tripa de carneiro. e resolvessem ali tocar juntos. sem se perguntar se quer o que os outros estariam fazendo enquanto isso. É. num bar. mas sim com o o músico que.

A ausência de uma .vendo-a e superando-a ao lhe dar um sentido.

1980 ). V. uma confirmação nos argumentos de Heisenberg. O exemplo mais recente é Paulo Francis. o princípio de incertez a expressaria apenas um obstáculo de tipo operacional. absurdo. A fórmula do “princí io de incerteza” é ∆x • ∆mv ≥ h. Civilização Brasileira.” GEORGES BERNANOS Não deixa de ser irônico que o epicurismo tenha entrado no vocabulário popular como si nônimo de gozo sibarítico. ou também a massa. a origem fortuita e o caráter leviano de suas opiniões sobre assunto grave. antes mesmo de terem chegado a perceber a ambigüidade. O ú nico refúgio é a meditação resig ada. A fuga para o jardim “Il faut que nous sachions bien que la menace pesant sur nous tous n’est pas seuleme nt de mourir. O que essa concepção nos descreve é um mundo caóti co. no segundo. Para Pierre Bayle. foi aliás quem introduziu no léxi co das autodefinições pedantes o termo agnóstico ). v. É verdade que o indeterminismo de Heisenbe rg pode ser usado contra o realismo filosófico ( uma doutrina que. La Mettrie. não havia a menor dúvida: se o universo funcionava como uma máquina segundo leis imutáveis de causa-e-efeito. Francis — um autor que sob outros aspectos é d igno da maior admiração — não é o primeiro intelectual brasileiro que vejo admitir sem con strangimento. Rio. e que. que se compraz n a derrota do homem. Ele não é nada disto. sobretudo jovens. Mas o que lá dentro aguarda o meditante é uma conclusão . Helvétius. Encyclopædia Britannica. Esta e outras mancadas terrificantes são mostradas impiedosamente por Stanley L. por si. Werner Heisenberg. não prova nada. p. isto é. Quer dizer que a margem de erro ao medir a posição x de um e n. v ) nunca é menor que h. Uma teoria física. acidentalmente. naquilo que podia haver de mais antagônico ao nonsense epicurista 66. op. Companhia das Letras. era para Heisenberg a prova de que o cosmos é a expressão de uma inteligência criadora e não uma máquina inerte 65. comete uma segunda leviandade. uma inexatidão in erente à natureza mesma da realidade física. e até com certa vaidade. requer sempre algum fundament o filosófico. m. s em nunca mais voltar ao assunto. m. ter encontrado mais tarde. que só redobra os sofrimentos. É um diletantismo trágico. premido entre a força cega do desejo e a força cega da fatalidad e exterior que o frustra eternamente. Cap. acabou por se incorporar ao dogma ). 1994. confessa ter chegado a inda adolescente à conclusão da inexistência de Deus. É na verdade uma afirmação ambígua. que só lhe foi mostrada décadas depois pelos adversários da t eoria. c’est de mourir comme des imbéciles. Heisenberg buscou o seu em Malebranche e Leibniz. onde átomos e homens buscam em vão escapar da dor perseguindo a miragem de um prazer impossível. Mas dispensável mesmo é a hipótese deter mi65 § 15. 52 — na verdade um segundo volume. Trinta Anos esta Noite ( São P aulo. ao fazê-lo. I. varrendo para b aixo do tapete o fato de que durante dois séculos o argumento maior em defesa dess a conclusão foi justamente o determinismo. no racionali smo clássico. vezes vel ocidade. dan do mau exemplo aos leitores. cit. isto é. com base em leituras superficiais. multiplicada pela margem de erro em medir o seu momento ( massa. The Great Ideas Tod ay 1990. 66 É no entanto um lugar-comum entre inte lectuais de escassos conhecimentos filosóficos alegar as teorias de Heisenberg com o argumentos a favor do ateísmo. Ao contrário. entre os muros do jardim. Porém o mais esquisito em casos dessa ordem é a afoiteza com que muitos in telectuais concluem do indeterminismo físico a inexistência de Deus. filosoficamente. Mas de fato o exemplo é inócuo: a mod a já pegou.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 69 causalidade rígida. mas isso não o coloca de modo algum contra o espiritualismo em geral. Ademais. Jaki em “Determinism and Reality”. e. que a constante de Planck dividida por 2p ). Laplace. Chicago. No primeiro caso. de um mecanicismo.. d’Holbach e tutti quanti. os argumento s de Heisenberg não são tão sérios quanto o imagina o leigo deslumbrado. que no seu livro de memórias. continuação de O Afeto que se Encerra. então Deus se tornava uma hipótese di spensável ( o mais feroz dos deterministas. pois não deixa claro se a margem de erro afeta some nte a velocidade. durante uma meditação no bonde. absorvida pela Igreja através da sua versão tomista. Ou seja: um defeito da ciência física pode ter sido projetado sem mais nem me nos sobre a estrutura do real. Muitos adeptos do indeterminismo simple smente deram por pressuposta esta última alternativa.

com as dúvidas e as crises. bem como sua contrária. em geral. Não se conhece um único caso célebre de pen sador que tenha chegado ao ateísmo na idade madura. ao passo que o ateísmo militante tem sempr e a típica rigidez cega das crenças de adolescente. sem qualquer esperança de outra vida. rigorosamente. Ademais. toda fé religiosa coexiste. é uma opção de juventude. É que o ateísmo. . fazer a apologia do esquecimento. já que ambas podem ser usadas igualmente como “provas” do que se deseja provar per fas et per nefas. e uma vez tomada não lhe resta senão racionali zar-se a posteriori mediante artifícios que serão mais ou menos engenhosos conforme a aptidão e a demanda pessoal de argumentos. A mensagem final d o epicurismo é. por si. 67 Cito de memória. O caminho do asceta epicúreo é aquele que o mat erialista Heinrich Heine viria a descrever num breve poema 67: nista.inescapável: a certeza da morte. prévia a ualquer consideração racional do assunto. o nada. O ateísmo militante é. A história do ateísmo militante é uma suce ssão prodigiosa de intrujices. por força de profundas reflexões e por motivos intelectuais relevantes. pode haver alguma inexat idão. Só resta então e mbelezar a imagem da morte. um gr ave sinal de imaturidade intelectual. quase q ue por definição.

sem qualquer saída para a ação coletiva que. extintos os sonhos de reforma moral e política que haviam alimentado as discussões públicas. o afluxo de d iscípulos ao jardim de Epicuro foi um desses casos de evasão generalizada. fizeram ali grande sucesso “Felicidade”. É uma filosofia de homens reduzidos à condição de r atos. ao desesperado ateniense daquele tempo só restava um caminho: o caminho para baixo. de uma raiz que significa “socorrer”. um perseguido político. Arrasadas as instituições democráticas . de compressivo desespero. desmoralizada pela crítica filosófica. o caminho do céu. buscas e te esforças. pe rdera todo atrativo. serve para integrar os átomos humanos num sentido maior da existência e os redimir da sua insignificância. Minha geração — que é a de Pessanha — levou fundo a experiência da solidão e do exílio. O epicurismo aplanava este caminho. Para sete palmos abaix o do solo. Seu próprio nome. sem uma porta para o céu.70 OLAVO DE CARVALHO Tu perguntas e investigas. na gradação seriada de uma pedagogia do abismo. meditava na prisão sobre os benefícios interiores do isolamento forçado: “É a terra vencida que nos dá as estrelas. Serviriam como jingles do Jardim de Epicuro. E picuro não foi só um teórico da necrofilia. o primeiro sist ema completo de pensamento niilista que surge na história do Ocidente. esquecimento. É. no tempo de Epicuro. 68 . Foi provavelmente nessa ocasião que ele desc obriu um alívio na farmacopéia epicúrea 68. A músi ca popular assinalou a mudança dos sentimentos no ambiente universitário: o protesto aberto e combativo desapareceu das letras de canções. de Caetano Veloso. E isto lá é resposta? Que a perspectiva deste desfecho acachapante pudesse atrair para o epicurismo um a multidão de devotos. e no fim te enchem a boca com um punhado de terra. O filósofo Boécio. não deve ter sido alheio ao s u sucesso: vale por um slogan. Esmagados os ideais da esquerda nacionalista. Marx e Guevara foram trocados por Allan Watts e Timothy Leary. professor esquerdista expulso da cátedra. Expulso da terra. Mas o jardim de Epicuro tinha muitas plantas: umas alucinógenas. típicos das épocas de refluxo dos grandes ideais sociais: “A fuga dos intelectuais para a solidão do ermo — escreveu Jakob Burckhardt — é a marca das épocas em que o mundo cai: orbis ru it. a debandada geral que se seguiu ao Ato Institucional no 5 levou mui- tos à evasão pelas drogas. o caminho d o céu também estava fechado. Jim Jones avant la lettre. separando e isolando os indivíduos. sono. a rigor. um convite à fuga pelo “vôo d o pensamento”. para os quais o esgoto é uma esperança. em que a voz dolorida de Elis Reg ina suspirava por “uma casa no campo” — refúgio do militante que o desengano transformar a em diletante. que predispunha os homens a aceitar a s mais aviltantes promessas de alívio. um a utêntico hipnotizador. pela pseudomística “oriental” importada da Califórnia. é coisa que surpreende. que davam um sentido de participação histórica ao s intelectuais brasileiros.” Mas. Cada qual fechou-se no cubículo das suas angústias particulares. na ausência de uma consciência filosófica pessoal. um a forma requintada e falsamente prazerosa de niilismo. A sement e da persuasão não germina se não é plantada no solo fértil dos anseios coletivos. um silêncio temeroso baixara so bre as praças. dando lugar à lamentação melancólica. foi trabalhar na Edit ora Abril. um niilismo. O epicurismo é. A religião oficial. fechadas as principais escolas filosóficas. em suma. Mas a raiz do seu êxito está em outra parte. “auxiliar” ou “medicar”. a intelectualidade foge para o silêncio do campo para buscar a vida interior. nos anos que se seguiram a 1968. Mas a comparação das épocas ainda está imprecisa. onde editou Os Pensadores. Numa terra que se estreita sob o jugo dos tiranos. Mais que da mera depressão política. mas um mestre do discurso encantatório. Para o esquecimento eterno. seu sucesso derivou de um estado de completo cerceam ento espiritual. A época d e Epicuro ansiava por alívio. capaz de adornar com todas as fl ores da retórica o caminho que leva a sete palmos abaixo da terra. outras anestésicas e outras mortíferas — a resposta final. cujo título me escapa. O Tetrafármacon misturava todas elas.” Não preciso ir longe para buscar um exemplo. Nesse quadro. e uma outra. com o exílio dos filósofos. A mística intelectualizada ficara fora de alcance. Por essa época José Améri co Motta Pessanha. pela embriaguez erótica.

v. Cap. . meu livro O Imbecil Coletivo. 8.Sobre o evasionismo dos intelectuais logo após o AI-5 e sobre o ingresso das teori as niilistas no cenário brasileiro.

genial por transcendente à imbecilidade dos elementos singulares que o compõem. impesso al.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 71 Mas o niilismo. leitor. dois joões-ninguéns. bem viu a peric ulosidade política da sua moral evasionista. se ao mesmo tempo a convidava ao sono do esquecimento? Se desejávamos compreender as intenções de Pessanha. Logo. o ciclo de conferências sobre a Ética. Pois havíamos começado — nós: eu e o leitor 69 — por constatar o objetivo político a que v isava. ele já vinha. Em dialética é assim mesmo: quando a treva da contradição se adensa até o intolerável. Mas que o leitor não desanime. propondo o nada. Fomos aos poucos juntando os fios desta investigação. que Pessanha não podia estar desinformado desse objetivo. Como se explica então que. porque. não uso jamais o plural majestático. há de tratar-se ambos. Não se pode transformar o mundo fugindo dele. é que es amos chegando mais perto do desenlace que tudo esclarecerá. não propõe nada. logo em seguid a. desde vários anos antes. preparando o ter reno para a transformação da filosofia em arma política a serviço de determinados fins. por ser um dos mais eminentes membros do grupo que planejou o ciclo. ele tenha subido ao pódio do MASP para convocar o povo a evadir-s e para o jardim de Epicuro? Como esperava despertar a platéia para a luta política. conscientemente. como editor da série Os Pensadores. onde houver “nós”. Porém aí o mistério que este livro está investigando chega à mais densa obscuridade . que apreciou no epicurismo sua crític a da religião oficial grega e sua mistura “dialética” de teoria e prática. . segundo. p rincipalmente de ação moral e política. e não de algum pretenso sujeito coletivo. neste momento parecemos estar mais longe que nunca de alca nçar uma resposta clara. justamente na hora decisiva em que a filosofia emergia de uma longa germinação subterrânea para assumir à luz do dia seu papel de condutora da política nacional. 69 Por princípio. Vimos. É refratário a qualquer projeto de ação. e parec emos não ter obtido nada mais que um nó indeslindável. Karl Marx. primeiro.

.

MARX - .LIVRO III .

.

ao preferir antes ‘transformar’ do que ‘compreender’ o mundo. Se norm almente a teoria é o fundamento lógico da prática e esta é a exemplificação daquela no campo dos fatos. A simbiose marxista da teoria com a prática não vem de Hegel. o ímpeto. meus livros A Nova Era e a Revolução Cultural. um objetivo declarado. a ambição — da alma individual ou das massas revoluci onárias — torna-se o fundamento único de uma cosmovisão onde a teoria já não serve senão para estimular retoricamente a ação prática ou para. veio do epicurismo. da ciênc na propaganda ideológica 71. numa outra e paralela linha des sa evolução. Este s desenvolvimentos manifestam à plena luz do dia tendências que 70 A supressão do conhecimento objetivo não é. Caps. uma vez realizada a ação. A capacidade das es querdas mundiais para justificar em nome de uma utopia humanitária as piores atroc idades do regime comunista — e. A SUBSTITUIÇÃO DO MUNDO § 16. II e III. está reduzida ao papel de uma racionalização a posteriori. em Marx. mas uma co nseqüência inevitável do conceito marxista da natureza. A natureza para Marx só tem exis tência como cenário da história ou como matéria branda e plástica a ser moldada pela ação hum na. a diferença entre o efetivo e o possível. de uma apologia do fato consumado. mediante exercícios.. Não se trata de compreender o mundo. Epicuro e Marx “Marx.” Alfred FABRE-LUCE Epicuro inverte. seja a mola mestra que move o progresso e dispara a revolução. já não haverá distanciamento crítico suficiente para julgá-los. que essa simbiose. Fritjof Ca pra & Antônio Gramsci. Não é de estranhar que a evolução de um século do pensa mento marxista tenha desembocado em Antonio Gramsci. e já não a força das causas eco nômicas objetivas. V. O leitor deve ter reconhecido a sentença anterior: é a 11ª Tese sobre Feuerbach de Kar l Marx. era levado a avaliar um pensamento por sua capacidade de mobilização. legitimar como s atisfatório o que quer que tenha dela resultado na prática. a tradução verbal da crença produzida pelo hábito. Acontece. no entanto. Caps.CAPÍTULO VI. a absorção da lógica na retórica. a relação lógica entre a prática e a teoria. e o discurso teórico não será nada mais do que o elemento discu rsivo da prática. mas de transformá-lo. § 17. 2-5. exterminado o comunismo na URSS. que leva a Reich e a Marcuse. Tudo leva a crer que a convivência do jovem Marx com a filosofia de Epicur o — matéria de sua tese de docência — deixou no marxismo acabado marcas mais profundas d o que os estudiosos geralmente supõem e do que ao próprio Marx adulto interessou dec larar. O desejo. e eles serão não somente aceitos. Mesmo que a ação produza efe itos totalmente diversos dos esperados. 71 V. em Marx com o em Epicuro. e O Imbecil Coletivo: Atualidades Incultura is Brasileiras. como se viu no § 10. que assume declaradamente aquilo que em Marx estava apenas insinuado e implíc ito: a abolição do conceito de verdade objetiva e a submissão de toda atividade cognit iva às metas e critérios da praxis revolucionária. para que se torne semelhante à teoria. A teoria epicúrea não de creve o mundo percebido. para continuar a pregar com a maior inocência os ideais socialistas como se não h ouvesse nenhuma rel ação intrínseca entre eles e o que aconteceu no inferno soviético —. mas sua prática altera. e nos precipita numa crise a lucinatória onde já não há lugar para o recuo teorético que fundamenta a noção mesma de verda e objetiva 70. a percepção do mun do. suprime. é uma herança mórbida qu através de Marx. o teórico do “historicismo abso luto”. Também é compreensível que. o desejo erótico. a bolindo a distância normal entre a esfera da ação e a da especulação. adiante. . mas é uma herança epicúrea. no epicurismo a prática é que produz artificialmente a condição psicológica qu e tornará crível a teoria. mas celebrados pela teoria como norm ais e desejáveis: a teoria não tem aí nenhum valor autônomo.

e também Allan Bloom. é coisa que os biógrafos já estabeleceram com certeza suficiente . Trata-se d e neutralizar a inteligência humana. depois da queda do Muro de Berlim. fugindo do mundo. argumenta Michel Löwy. o passado r ejeitado volta com redobrada força 72. mas não superá-las. Romantismo e Messianismo. mesmo tímido . trad. trata-se de envolver ser es humanos numa praxis absorvente e hipnótica. que os afastará para sempre da tentação d a objetividade. a marca de um ressurgimento nazifascista. Da Crise da Universidade à Crise da Sociedade. 1987. Ensaios sobre Lukács e Benjamin . sem qualquer raiz na ideologia por ele prof essada? Que os defensores intransigentes do conceito da sociedade como um todo s ubstancial. entre os mais notáveis do século. José Guilherme Merquior. de artistas. sobretudo a partir da década de 60. tes ideológicas profundas explique as sessenta milhões de vítimas de Stálin como resulta do da maldade fortuita de um só homem. como bloco orgânico onde se fundem inseparadamente ideologia e prática. Nova Fronteira. a reconhecer qualquer conexão entre esses males e o ideal socialista. No mesmo sentido. durante quase um século. mais afin ados com as tradições clássicas do Ocidente e ansiosos de filiar Marx a elas. brasileira. para fora. O Declínio da Cult ura Ocidental. R aul de Sá Barbosa. Rio. 1989. de intelectua is. Merquior mostra que os elementos românticos e irracionai s eram fortes no pensamento do próprio Lukács. quando crimes de muito menor escala ba staram para manchar de sangue para sempre a imagem do fascismo italiano.76 OLAVO DE CARVALHO em Marx já estavam latentes como heranças do seu epicurianismo de origem. trad. do fran quismo ou das ditaduras latinoamericanas? Não é enfim uma anomalia intelectual que a quela filosofia que mais enfatizou o arraigamento histórico-social dos conceitos a bstratos — condenando como “metafísica” toda admissão de essências a-históricas ou supra-hist cas — apresente agora o socialismo como essência pura incontaminada por um século de e xperiência comunista? Como explicar a cegueira obstinada de filósofos. pessoalmente. mas com ênfase positi va. O fato de que tenham ressurgido ao longo da evolução do marxismo mostra que Marx soube recalcá-l as. do fingime nto. Marxismo e epicurismo parecem ir em direções op ostas: este. para a ação coletiva que vai transformar o mundo. não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as s uas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. da prestidigitação. quando nem mesmo Jesus Cristo deixou de ser responsabilizado pelas crueldades da Inquis ição? Não é estranho que após tudo o que se revelou sobre a tirania comunista o socialismo ainda continue a ser um ideal respeitável. um tremendo senso do teatro. Best Seller. a absor verão tanto mais completamente quanto mais os resultados obtidos no esforço forem ca ir longe das finalidades sonhadas. Não é realmente o efeito de um singular escotoma que a intelectualidade esquerdista veja em todo movimento de direita. a enxergar os males do com unismo. aquele. expliquem os crimes do governo soviético como desvios acidentais totalmente alheio s à ideologia marxista? Não é mesmo demente a obstinação de manter a imagem de Karl Marx — o u mesmo a de Lênin — limpa de todo contágio com os crimes da ditadura soviética. Em vão pensadores marxistas como Lukács ou Horkheimer. São Paulo. protesta ram contra a invasão do irracionalismo que. Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. São Paulo. como a de falo aqui ). É somente isto que explica o fenômeno de milhares de intelectuais se recusarem. ou. e de outro lado possa crer que o ide al socialista emergiu do Gulag isento de toda mácula? Não é uma estranha morbidade que a ideologia que reduz a ação dos indivíduos a mera expressão das corren72 Sobre a contaminação irracionalista do marxismo no curso da sua evolução ( não na sua raiz . Edusp/Persp ectiva. term inou por contaminar toda a esquerda mundial: como dizia o dr. pel a dialética infernal que transfigura cada derrota em sinal da vitória próxima. trad. colocando-a no encalço de metas utópicas que. O Marxismo Ocidental. se não pela formidável potência ilusion ista inerente à raiz mesma d marxismo. v. pela sua capacidade quase diabólica de o tran sfigurar o quadro das aparências e levar as pessoas a verem as coisas diferentes d o que são? Que Marx tivesse. para fechar-se no jardim com a comunidade dos ele itos. Freud. 1990. Mas é uma d iferença de escala antes que de natureza: nos dois casos.

no entanto. Edmund Wilson. Os Intelectuais. Quando. em Epicuro e nele. notamos que o primeiro interesse acadêmico do jovem M arx foi devotado ao estudo do príncipe dos ilusionistas filosóficos. e em seguida co nstatamos ser idêntica. capaz de atravessar os milênios e ressurgir a cada 73 V. . então compreendemos a virulência inesgotável da hera nça epicurista. a mixórdia proposital e alucinógena da teor ia na prática e da prática na teoria. Mas isto não bastaria para dar à sua filosofia tamanho poder de ludibriar as con sciências.73. Rumo à Estação Finlândia. e Paul Johnson.

mas especificamente aos filósofos. esboço uma psicanálise do marxismo residual de nossos intelectuais. Marxisme pas mort: ele subsiste como um complexo n o subconsciente dos que o rejeitaram sem criticá-lo a fundo. Ma s isto também significa que abjurar expressamente do marxismo não é o mesmo que libert ar-se instantaneamente de sua influência. se ocuparam de interpretar o mundo. q ue sentido teria convocá-los a uma praxis na qual já estão envolvidos por hábito imemori al. antes que rojo e n el hogar. os filósofos faziam um contrapeso dialético à praxis: a vida contemp lativa opunha-se à vida ativa. ocupados p or seu turno com a praxis. Posso explicar melhor e dar um fundamento mais “técnico” ao que foi dito no parágrafo an terior. Ora. A 11ª Tese sobre Feuerbach propõe. “A un olmo seco” 1. que por sua vez consistirá em praxis. nesta tese. “Até agora — diz a 11ª Tese 74 — os filósofos se limitaram a interpretar o mundo. assim como tomar consciência de uma neuros e não é o mesmo que estar curado. desde sempre. es kommt darauf an sie zu verändern” — frase do manuscrito reproduzido em fac-símile em The German Ideology . de modo que a tradução mais exata seria “alterá-lo”. Daí a invulnerabilid ade do marxista convicto à argumentação racional. quiero anotar en mi car tera la gracia de tu rama verdecida. Ele não apenas pensa diferente do não-ma rxista: ele percebe o mundo sob categorias diferentes. al borde de un camino. n a medida em que o mundo real não pode realmente ser substituído por outro. olmo del Duero. hacia la luz y hacia la vida. tomados indistintamente. con su hacha el leñador. temos de admitir que de fato os filósofos. Mi corazón espera también. é a eles que cabe convocar a uma mudança de atitude. e da qual jamais pensaram em sair? Não pode ser este o sentido da tese de Marx . na medida em que deixa de ser ma simples propriedade ou um acidente da substância. otro milagro de la primavera. mañana. de fazer teoria. § 17. III. antes que e l río hasta la mar te empuje por valles y barrancas. precisamos entender qual a atitude que a antecede u. No meu ensaio “A superi oridade moral das esquerdas. e. lanza de carro o yugo de carreta. antes que te descuaje un torbellino y tronche el soplo de las sierras blancas. porque julgavam que esta era a sua tarefa específica. ANTONIO MACHADO. ardas de alguna mísera caseta. é na verdade uma substituição. Não se trata de inaugurar só uma nova prax is. como o doente histérico par a o qual imaginar é sentir. item 3. Mas a alteração. 1964. essencialmente. mas um novo tipo de theoria. da contemplação da verdade. V. Cabe-lhes agora transformá-lo. apenas se privará de uma demonstração mais rigorosa — e mais entediante. enquanto os demais homens o transformavam. diriam Conway e Siegelman. reproduzido em O Imbecil Co letivo. Os filósofos interpretavam o mundo. a substit uição se dá apenas dentro da esfera do imaginário coletivo. que Marx opõe à atitude cow. A quem se dirige a convocação? Se Marx se reporta. que os distinguia dos outros homens. ou: o rabo e o cachorro”. A Nova Era e a Revolução Cultural. Para sab er em que consiste essa mudança. São eles que estiver am ocupados somente em interpretar o mundo. A maioria dos homens esteve sempre envolvida com a praxi s. y el carpintero te convierta en melena de campaña. Comentários à 11ª “Tese sobre Feuerbach” Antes que te derribe. Progress Publishers. mediante uma súbita mutação ou ro ação do quadro perceptivo um snapping. nem muito menos aos homens da praxis. O verbo verändern vem da raiz ander = “outro”.” 74 “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert. Ao adotarem a atitude in versa à da maioria. aos conceitos trad icionais de theoria e de praxis. uma mudança básica na atividade do filósofo enquanto tal. Sua convocação não se dirige aos homens em geral. olmo. O leitor que preferir saltar direto para o § 18 não perderá o fio do argumento . Portanto. Cap. e desinteressada da theoria. se os homens nãofilósofos estiveram desde sempre o cupados em transformar o mundo enquanto o filósofo o contemplava e interpretava. Em que consiste a atitude interpretativa.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 77 novo empenho cíclico de instaurar em alguma parte do mundo o reinado da impostura. 2.

S. trad. Ryazanskaya. Mos- ..

do ser verdadeiro. patenteando (al etheia) o seu verdadeiro ser (ón). propriamente. O homem teorético. Em suma. Para Platão.1. mas isto não vem ao caso. desde o ente fenomênico até o se r essencial. ou Mercúrio. para os fins de sta análise. pode manifestarse em cavalos pretos ou malhados. com um motivo específico e um objetivo esp ecífico. (É verdade que o termo praxis tem em Marx. uma contemplação filosófica e não outra qualquer. por assim dizer. percherões ou mangalargas. Por exemplo. do particular. eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades. ao elevar o objeto até o nível da sua idéia. isto é. buscava nelas a sua significação eterna. superior à aparência fenomênica e transi tória. 3. Entre o signo e o significado. A theoria. eterno. re sgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo. de olhar. que faziam dela. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos). Esta contemplação conferia a essas coisas. num sentido em que os demais homens também po diam contemplar e olhar. A contemplação do homem com um podia ser lúdica. sub specie æternitatis. Era correlata das noções de logos (“razão” ou “linguagem”). se os filósof os antigos a que Marx visa faziam theoria em oposição à praxis. sei não . que ele decifrava em busca do significado ou essência. portanto. à luz da ete rnidade. o arquétipo de “cavalo”. não podemos supor que ti vessem em mente o sentido marxista da palavra praxis. contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro. Por exemplo. Nisto consistia. as coisas. Ao conhecer um arquétipo. tran sitório e aparente ao universal e estável. uma acepção própria e diferente. a possibilidade “cavalo”. isto é. Enfim. o homem filósofo saltava de um p lano para o outro: do plano da fenomenalidade instável. eram para o filósofo signos. os fenômenos. uma consistência ontológica superior. é a es ta última que devemos reportar-nos. árabes. como o pégaso ou o unicórnio. Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos céleb res e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. a razão. em seguida o filósofo dizia (logos) o que era ess a coisa. o filósofo. A conseqüência “prática” disto é portentosa. para o p lano das essências. a c have interpretativa era a razão ou logos. a diferença entre platonismo e aristotelismo. utilitária ou o que quer que fosse. “ente”) e esvelamento”. transcendente. e sim o sentido grego). “guia das almas”. e mais um sem-número de essências não m anifestadas ou possibilidades). Pode manifestar-se em ser es míticos que “participam da cavalidade”. a palavra theoria tinha uma acepção precisa. Dito de outro modo. não. isto é. de sela ou de t rabalho etc. ela se baseia na crença de que todos fatos e todos os entes são fenômenos — “apareci- mentos” — de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilid s. ou pr etende ter. ao investi gar o ser do objeto. Pela razão. e também por ser estável. de ón (“ser”. de eidos (“idéia” ou “essência”). revelação da verdade oculta). A interpretação (hermeneia) d as aparências consistia nessa subida de nível ontológico. Qual a diferença essencial entre a atitude conte mplativa — ou interpretativa — e a atitude transformante. contidas eternamente na Inteligência Divina. O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes. uma dignidade e uma realid ade superiores. pois. basicamente. Era um tipo muito determinado de contemplação. capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta. encarregado de levá-las na escalada e descida atra vés dos mundos ou planos de realidade. O filósofo grego contemplava as cois as. mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenali dade imediata a um estrato mais profundo e permanente. Este plano era considerado superior. a beleza dos seres humanos e da paisagem etc. A do filósofo. por su a vez. as essências con stituíam um mundo separado.78 OLAVO DE CARVALHO transformante? Sendo theoria e praxis conceitos clássicos da filosofia grega. imutável. Pouco importa. do sensível ao inteligível. na categoria da eternidade. para Aristóteles. não se ocupava ge nericamente de contemplar. patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava ocult o. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a par tir do platonismo. estética. seu sent ido “eterno”. essência ou arquétipo . entre a theoria e a praxis? 3. o núcleo inteligível era im anente ao mundo sensível. porém já era a dos eleáticos. a postura i nterpretativa do filósofo grego. enganosa. cada qual. movediça. o deus psicopompo. Na filosofia grega. portanto. por ab ranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos.

o que a coisa é atualmente e .

mas tudo o que ela poderia ser. apenas um meio. de condenar a praxis em nome de uma u tópica vida contemplativa. é claro. ao contrário. uma transição ou passagem. toda a latência de possibilidades q ue ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular. de qualquer espécie que fo sse. se dirige essencialmente aos meios: como toda transformação visa a um resulta do ou fim. aquilo n que num certo ponto do ca minho será abandonado para ceder lugar aos fins. aquilo que faz com que ele sej a o que é. De cadeira. e muito menos em árvore. no sentido aristotélico. A praxis. ela já não pode transformar-se em mesa ou estante. evidentemente. Aquilo que é meio ou instr umento nada importa nem vale por si. das ações transformadoras que pode sofrer. É um meio ou instrumento a terra que o homem lavra. potência latente no homo sapiens. dentro do círculo de meus interesses imediatos. como também o capital. isto é. tomo consciência d o que ela é. é um meio ou instrumento a árvore que ele abat e. excluindo imediatamente todas as demais. 3. posso queimar a árvore ou comer a c arne do cavalo: se a teoria respeitava sobretudo a integridade ontológica e mesmo física do objeto. Para a theoria. Não é uma teoria do ser. mas apenas aqui lo em que ele pode se transformar no instante seguinte. po rtanto. às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. transforma a coisa. Por exemplo. do que ela pode significar para mim. o ente é so bretudo a sua forma. Era neste sentido que as escrit uras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 79 empiricamente. É meio ou instrumento o trabalho. a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar) . ela só pode agora transformar-se em cadeira velha. só se atualiza como reflexão sobre as desilusõe s do homo faber 75. mas sim o que. Por exemplo . esta teoria já não versará sobre a natureza do ser. localiz ada no espaço e no tempo. é um meio ou instrumen to o carneiro que ele engorda e mata. para a praxis. sem via de retorno. e depois em lixo. isto é. mas esta para que me serve?”. aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é.2. mas uma teoria da praxis. limita suas pos sibilidades. rebaixá-la a um meio ou instr . e o explic a e integra no sentido total da realidade. o ente é sobretudo matéria. em outros planos de realidade etc. o fenômeno.4. pela “negação” teorética e crítica da ação consumada: o espírit osófico. Inversamente. Se a praxis requer alguma teoria. não tentará investigar o que o ser é no corpo da realidade total. Porém. A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém. Posso.3. mas de contemplação. Como dizia Miguel de Unamuno. e a praxis se interessa pelo que ele não é. atualiza uma dessas possibilidades. realizando uma delas. mas uma teoria da ação que ele pode sofrer. por não admitir que o objeto seja o que é e por exigir que ele se transforme em outra coisa: não interpreta. a aparência sensível imediata é sobretudo um signo ou símbolo de um se r. pelo ser secundário. não por seu dinamismo própri o e interno. Para o homem da praxis. uma árvore. porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemp lo. da qual saímos apenas p lo recuo reflexivo posterior. Já não interessa o que é o cavalo ou a árvore no sistema total da realidade. fluxo de impressões. o objeto sobre o qual incide é sempre e necessariamente um meio. Não se trata aqui. mas somente de restaurar o senso de uma hierarquia de v alores que parece ser inerente à estrutura do indivíduo humano são. A tendência universal do homem à econ omia de esforço mostra a sujeição dos meios aos fins. ao contrário. 3. que trans forma. isto é. “o bonde é útil porque me serve para levar-me à casa da mi nha amada. Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si. A praxis. Já não será uma teoria do objeto. então todo objeto será sempre e unicamente enfocado sob a categoria da paixão. Não se deve confundir esta oposição com a do “estático” e a do “dinâmico”. isto é. A prática. C omo a praxis é sempre ação humana. isto é. se a transformo em cadeira. do que poderia ser. posso fazer com o cavalo ou com a árvore. a praxis começa por negá-la. aquilo que é finalid ade ou valor em si não é objeto de praxis transformadora. 3. ind ependentemente do que eles sejam. a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas . Para o filósofo. Se investigo o objeto “árvore” para captar o seu arquétipo. A ação produz apenas transformação. para outros. mas por alguma outra coisa: o meio ou instr umento é um i termediário. mas por força da intervenção humana. ilusão. mas transf orma. de amor.

Éric Weil.. Paris. . Vrin. 2e éd. Logique de la Philosophie. 1967. “Introduction”.umento do meu 75 V.

oculta mas nem por isto menos potente. Ambos esses limites são metafísicos. outros que só o podem pela theoria. conheço-o na medida em que o contemplo. mas fim. V. pela sua redução a meio e in strumento. Rio. O homem não transforma o que l he agrada. sem consistência ontológica própria nem qualquer valor em si pode s er alvo de pura praxis. De tudo isso. Adauto Novaes — h erdeiro da flama apagada de Motta Pessanha — crêem enxergar um papel libertador. aquilo que para mim é finalidade e valor em si. Eis aí. Mas conheço os quadros de Van Gogh na medida em que sejam conservados intactos para minha contemplação. M as a praxis procede necessariamente pela negação do objeto. bem como o conjunto das ações individuais praticadas pelos seres humanos — como um vasto instrume nto sem qualquer finalidade. num clinamen gratu ito e arbitrário que o homem. Olavo de Carvalho. é claro. por pedantismo ou desenfado. gastou. Há ape nas dosagens. Só a finalidade suprema pode ser objeto de pura contemplação. transformá-lo. que: 3. É encarar o real no seu todo — nele incluídos o homem e sua História. após a crise mundial do marxismo. A filosofia da praxis contém em se u bojo.80 OLAVO DE CARVALHO prazer. No entanto. a apologia do absurdo. que no fim das contas não serve senão para afastar os obstáculos que nos separam do gozo contemplativo. 1995 — um exemplo edificante de como o culto pedantesco de autores menores pode coexistir num mesmo cérebro com uma profunda ignorância da H istória da Filosofia. Há uma diferente dosagem na combinação do teórico e do prático para o conhecimento dos vários tipos de seres: aquilo que para mim é meio e instrumento. como o sr. como objetivo e final dade. Adauto Novaes. mas o que lhe desagrada: ele entrega-se à contemplação por gosto. Somente o objeto tot almente desprezível. o rgulhando-se de continuar a defender ideais sociais que. u tilizá-lo para alguma outra coisa. qu e veio a ser resgatada quando.” Há. que torna o trabalho agradável em si e lhe dá um valor independente do seu pr oveito prático). 77 V. É óbvio que se trata de uma herança epicurista i n consciente. sem mudá-la no que quer que seja 77. Não existe. à prática por necessidade (sem contar. manipulação e uso de seres humanos ( ou de animais ) com vistas ao prazer erót ico — esta é a definição mesma do libertinismo ( Sade. portanto. no mundo dos seres físicos. Não desejamos mudá-lo. a intelectualidad e de esquerda se entregou maciçamente a uma espécie de pseudoheroismo do nonsense. IAL. verão uma traição ao marxismo. a negação do sentido da realidade. Da C ontemplação Amorosa. aspectos da real idade que só podem ser conhecidos pela praxis. desprezando o s fins. e sim pelo prazer como tal 76. O o bjeto amado.1. então. escandalizados.3. é inverter o sentido de toda ação humana e negar a consistência ontológica da real idade.4. bem como da História tout court. e a theoria pela afirmação da sua plenitude e do seu valor como fim. 4. só podem consistir numa afirmação nietzscheana da vontade de poder. a raiz da nietzscheização da esquerda. Van Gogh conheceu pincéis e tintas na medida em que os usou e. usando. Ao contrário. num mundo sem sentido. em que muitos t eóricos. 76 3. há uma nítida distinção hierárquica: a contemplação. Rio.2. e jamais alcançados no mu ndo da experiência real. tem primazia sobre a prática. em que defendo a sua integridade ont ológica contra qualquer tentativa de transformá-lo em outra coisa. 3.4.4. mas neste caso já não tenho amor por ela. texto de abertura do simpósio Libertinos /Libertários. conclui-se que estatuir a prática como fundame nto e valor supremo do conhecimento é instaurar o reinado dos meios. É transformar o universo numa imensa máquina-de-desento rtar-bananas. opõe ao arbitrário e gratui to clinamen dos átomos 78. não é meio. É evid ente. Capítulos de uma Autobiografia Interior ( apostila ). Choderlos de Laclos et caterva ). ao contemplar e amar somos nós que nos transformamos: “Transforma-se o amador na coisa amada. e sim desfrutar de sua presença sem alterá-la.4. só posso conhecê-lo ao usá-lo. 3. nem praxis pura nem pura contemplação. segundo a escalaridade do valor dos fins e da oportunidade dos mei os. no qual no entanto alguns profissionais da cegueira. Um escritor de 78 Subjugação. que na prática mesma há um elemento lúdico e contempl ativo. se o é de verdade. “Por que tanta libertinagem?”. Funarte. em que o amo. 1 . já em Marx.

portanto. negado àqueles que simplesmente e humanamente fazem o que lhes parece certo conforme uma regra moral. Daí também a facilidade com que essa gente produz sucedâneos de justificação “ética” . mito ideológico ou exp ediente tático. e muito menos uma contradição. afirmando na prática o q ue nega na teoria: a bondade acidental e diletante do imoralista parece envolta no encanto de uma gratuidade divina. Daí a vaidosa inversão que. mas sim a manifestação perfeita do espírito da coisa: lu tar por “uma sociedade justa” é o diletantismo ético daqueles que não acreditam em ética nen huma exceto como convenção arbitrária. louva quase como a um santo o homem que age bem segundo uma ética em que não crê.995. desprezando a obediência a valores morais explícitos. ser mera coincidênci a. A elevada taxa de intelectuais pedantes e de ricaços esteticistas nas fileiras da esquerda — um fenômeno universalmente conhecido — não deve.

é algo que cabe investigar. isto é. v. e. Ni etzsche e Epicuro. rebaixa ndo-se a natureza ao estatuto de ancilla industriae. Há um curioso paralelismo entre as noções de objeto-da-teoria e objetoda-práxis. com a única diferença de que tem como sujeito não o indi víduo. reduzindo-se a mera projeção: Marx censura no capitalismo um d efeito que não está necessariamente no capitalismo. e ilim itada a extensão de mundos celestes que não podemos transformar e só podemos contempla r. Casa do Estudante do Brasil. pois o marxismo se revela antes um idealismo subjetivista. em quase todas a s civilizações. por outro.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 81 talento. uma das ciências que primeiro se desenvolve e alcança rapidamente a perf . enfim. é coisa óbvia. Sendo teoria da ação. e mesmo assim não inteira). segund o a boutade célebre de Bertolt Brecht: “Não sei o que é. Sem saber o para os crimes e as perversidades cometidos em razão do seu “ideal”: pois este tem a p erfeição estética de uma forma arbitrária concebida pela mente. Se o capitalismo faz realmente isto ou se se trata apenas de uma figura de retórica. como o afirma o próprio Marx: depende de circunstâncias históricas que nada têm a v er com a natureza do objeto. Uma das censuras morais que o marxismo dirige ao ca pitalismo é que nele o valor de troca acaba por devorar o valor de uso até fazê-lo des aparecer. O val or de uso é. ao passo que o valor de troca é aciden tal. O Problema d o Esteticismo no Brasil. A teoria nada dirá sobre os objetos tais e quais são. v. O cavaleiro solitário no deserto do absurdo sintetiza Marx. Rio. enfim. Quando. olhando com a maior indiferença os movimentos randômi cos dos átomos na planície e desprezando o choro dos fracotes que necessitam de um s entido para a vida. faz parte da sua consistência ontológica. Nacional. John Anthony West. Só neste caso a censura lançada por Marx ao capitalismo perde valor objetivo. no senti do estrito e quase fichteano.6. de certo modo. conh ecível pelo homem: ela fluidificará todas as essências individuais em matéria-prima da p raxis e resultará. diante de cuja praxis o universo natural — a “matéria” — p rde toda substancialidade para se reduzir a mera matéria-prima da ação humana. e não d o objeto. uma qualidade qualquer inerente ao ob jeto. Da teoria da praxis provém ainda a idéia — hoje se um dogma — de que a ciência surge a posteriori de uma racionalização da técnica. 3. e se ante a imensidão do cosm os a atitude “teórica” não é a mais sensata. mas apenas tais e quais podem vir a ser sob a ação do martelo e da forja . a praxis não reconhecerá. num novo e mais radical tipo de idealismo subjetivo: o m undo objetivo nada é senão o cenário da praxis. da ação: o homem não cria a ciência mediante a contemplação. até fazer com que todos os objetos já não existam senão como “mercadorias”. impávido no alto da sela. por um lado. valor-de-uso e valor-de-troca. Seria interessante averiguar como é possível conciliar isto com o alegado “materiali smo” marxista. atenta ao jogo dos pretextos e dos atos. Só sei quanto custa. o não menos notável e não menos esquecido livro de Mário Vieira de Mello. que é árvore. Mas que na filosofia de Karl Marx ess a inversão ocorre. e da qual mesmo homens de elevada inteligência às vezes se deixam contaminar. ” É o mesmo que dizer que o capitalismo absorve a categoria da substância na categoria da paixão. uma propriedade. sobre o esteticismo como id eologia dominante nas classes letradas brasileiras. mas a humanidade histórica. A praxis. mas que está nos esquemas mentais subconscientes ou inconscientes do próprio Karl Marx. porém. posso no entanto utilizar a madeira para fazer uma mesa ou estante. de uma hipérbole. Restaria então explicar como. comparava o materialista durão a um John Wayne da filo sofia. 3. É este seu caráter de idealismo subjetivista coletivo que dá ao marxismo o seu tremendo poder ilusionista que emb riaga e perverte. São Paulo. então pergunto se a teoria da praxis não é uma monstruosa ampliação universalizante de um fenômeno local e terrestre — coletivamente subjetivo —. mas mediante a manipulação dos o tos e sua transformação em outra coisa. no objeto.5. uma consistência ontológica própria. o ensaio magis tral — e injustamente esquecido — de Otto Maria Carpeaux sobre Maquiavel em A Cinza do Purgatório. aos fenômenos. Desenvolvimento e Cultura. outro aspecto senão o da sua transforma bilidade imediata. considero como é estreita a faixa do universo material al cançada pela ação humana (apenas a superfície da Terra. e não se deixa contaminar pelas exigências da autoconsciência moral. 1942. 1958. Sobre o esteticismo como fonte das doutrinas políticas modernas. recusará ao mundo.

mas é bobagem pura. cujos objetos estão a uma distância demasiado gran de para poderem ser “transformados”. (Um praticista fanático poderia objetar que a astronomia se desenvolveu com fins de navegação.eição é sempre justamente a astronomia. e que por isto o homem pode somente contemplar. porque uma astronomia requintada já se encontra entre povos que de navegantes não tinham .

pois somente essa intenção poderia explicar o relevo que ele deu. lhe devia muito. como burguesas. só se mantém de pé mediante uma brutal falsificação da ordem cronológi ca. A afinidade que ele viu não é somente aquela que apontei n o parágrafo anterior. decadentistas e reacionárias — as novas tendências da física de Planck e Heisenberg. casso. ela reside antes na palavra “materialismo”. Quanto a Marx em pessoa. ele tratou de não conservar nenh um resíduo ostensivo dela no materialismo dialético plenamente desenvolvido. Mas ainda as sim a ideologia de Pessanha continua parecendo um amálgama de elementos heterogêneos e incompatíveis. Não. Brasíl ia. toda ação está condenada ao fra79 80 Timeu. Jorge Eira Garcia Vieira. mais “prática”.) Esta prioridade cronológica e estrutural da astr onomia é ressaltada por Platão 79. nesse sentido. por seu lado. K enneth Minogue. que no entanto. a tese valiosíssima de Antônio Donato Paulo Rosa. v.82 OLAVO DE CARVALHO nada. Passado seu interesse juvenil pel a física de Epicuro (objeto de sua tese de docência). Para que ela adquirisse alguma verossimilhança aos olhos dos homens foi precis o que primeiro a sociedade burguesa reduzisse a serva da técnica e da utilidade prát ica uma atividade intelectual na qual por milênios seus praticantes tinham visto u ma finalidade em si mesma. trad. § 18. foi certamente porque viu entre eles uma afinidade mais interessante e . como conciliar a f ilosofia marxista da História com a cosmologia de Epicuro? De que modo um sentido racionalmente ordenado de causas históricas tal qual propõe o marxismo poderia brota r de um universo caótico e frouxo. Pessanha declarou-se . Sem livrar-se da raiz epicúrea de seu pensam ento. como vimos. como editor da séri . basta nte lúcida ao condenar como irracionalistas — e. feita de um ódio comum à inteligência contemplativa e de um intuito comum de subjugá-l a a interesses práticos fictícios: ao interesse prático de instaurar uma justiça social fictícia. apresentada à Faculdade de Educação da USP em 1993 ( tese datilografada ). e não resta ao homem nenhuma saída senão refugiar-se no sonho. A interpretação praticista da origem e significado da ciênc ia é uma grosseira projeção que o burguês faz dos seus próprios critérios e valores sobre a mentalidade das épocas anteriores. Sobre o sentido puramente contemplativo da atividade intelectual na Idade Média. entre as rosas d o Jardim. condenação que a for tiori se aplicaria à física de Epicuro. A explicação ma rxista. como por exemplo os maias. Isto é muito elucidativo. UnB. Marx a escondeu tão bem que ela não voltou a aparecer senão em plena crise do ma rxismo 81. O Conceito de Universidade. se esta entrasse em discussão naquela hora: o PCUS não seria idiota de tentar organizar o movimento revolucionário mundial sobre u ma base física constituída de bolhas de sabão. que vê a explicação para a origem de todas as ciências na contemplação da regularidade e racionalidade dos movimentos dos astros. 1981. para ele tornadas incompreensíveis 80. Como transformar o mundo fugindo dele? Como coadunar a praxis revoluci onária com o evasionismo epicurista? A ortodoxia soviética foi. v. A discrição de Marx foi sensata: um passado epicúreo é como ter a mãe na zona. ao interesse prático de alcançar um bem-estar psicológico fictício. A Educação segundo a Fil osofia Perene. Para além da simples comunidade de ódios e ilusões. digamos logo. Pessanha não era um mero colecionador de relíquia s. jamais lhe and ou pela cabeça a hipótese de uma conciliação impossível. Que críticos de Marx tentem lembrar esse detalhe é compreensível. a certa altura da palestra. onde a matéria não se rege por nenhuma lei? No caos epicúreo. logo. É uma afinidade negativa . Sobre a incapacidade do burguês — liberal e socialista — de compreender isso. empenhado na reconstituição de algo assim como uma “trad ição materialista” embutida na História do pensamento Ocidental. Se ele buscou entre Marx e Epicuro uma síntese que ao próprio Marx não interessou e nfatizar. Mas por que um pensa dor de simpatias marxistas deveria querer tocar no assunto? Por mero interesse b iográfico? Não é verossímil que Pessanha tenha levado sua devoção por Marx à carolice de pret nder “resgatar” Epicuro só pela razão de haver o filósofo de Trier se ocupado do epicurism o no curso de sua formação acadêmica. 47c. A tradição materialista Acabamos de compreender a afinidade entre Marx e Epicuro.

. foi pela simples razão de que. uma não tem mesmo nada a ver com a outra. como foi mostrado no § 8°.e 81 E se Marx não teve a menor dificuldade em rejeitar a ética de Epicuro ao mesmo tempo que conservava algo de sua física.

cativar para a rebelião contra o espírito quantas insatisfações pessoai s. isso é puro esnobismo de caipira metido a par isiense. Mas. uma funda impressão. ao longo dos séculos. não disse absolutamente nada de ident ificável. só entre os espi ritualistas há algum consenso quanto à matéria. fundada nessa palavra. certamente. Agostinho. ao lado e na m esma altura dos verdadeiros filósofos cujo diálogo forma. Pauli. em j ulho de 1995. como Helvétius. fazendo com que o materialismo aparecesse como aquilo que é: um mero contraponto ocasional e descontínuo à linha-mestra do espiritualismo. manejadas pelo retor. Mas. foram suficientes para suscitar uma poderosa onda emocional. perf eitamente contínua de Platão até Husserl. familiares. a filósofos de terceiro ou quarto time. É a afinida e de uma palavra. A “matéria”. é puro fingimento. é apenas uma aparência de síntese. fantasmagórico e elástico para poder abranger. Pessanha fez assim. Pessanha não expôs nenhuma teoria. palavras e aparências são tudo. No último desses eventos. Novaes. podem não valer nada do ponto de vista filosófico e histor iográfico. numa só figur a de monstro reacionário. E a única síntese entre o indeterminismo e Newton é aquela. não defi niu nenhum conceito. esboçada por Heisenberg. loc. nivelando por baixo. e daí ter ele optado pela designação vaga e descomprometedora de “pensadores” para englobar os filósofos e os q uase. e inseri-los nos respectivos nichos cronológicos. Se ainda assim não brotou a figura de uma tradição material ista em regra. um ato político no se ntido mais agudo e eficaz da palavra: a união da massa contra um inimigo comum. e. É que os p rimeiros são materialistas: o esquecimento em que jaziam apagava a linha de contin uidade da desejada “tradição”. a síntese pessânhica de Marx e Epicuro. e não de um conceito. não lançou nenhum fundamento. é a mesma que fundamenta as pretensões a uma “tradição materialista”. a un idade da História da Filosofia. ). nivelando todo o mundo por cima. Uma síntese fundada na unidade aparente de uma palavra. Adauto Novaes. Collor de Mello. pelo menos a linha dominante do espiritu alismo tradicional apareceu bem mais atenuada e descontínua do que é na realidade. su ficientemente indefinido. o sr. com muitas costuras e emendas. Mas deixou. que ce rtamente não morrera de todo em Pessanha. insistem em cultuá-la cada qual a seu modo. tal como a unidade da tradição materialista. uma aparência p ersuasiva de unanimidade. Jaspers ou Dilthey 82. Bohr e toda uma corja de abomináveis espiritualistas. sob a qual se esconde uma multiplicidade de conceitos mutuamente incompatíveis. novo empresário da filosofia-espetáculo. a rigor. Cond illac. não fez nenhuma daquelas coisas que os filósofos habitualmente fazem. Para dar ao materialismo ao menos uma aparênci a de continuidade. para um mestre da retór ica. Sénancour e Crébillon Fils ( libertinos de segundo time ) é um atraso cultural in tolerável ( v. Num país que ainda não se interessou sequer em tra duzir as obras de Leibniz e Aristóteles ( e que só no ano de 1995 teve sua primeira tradução do Wilhelm Meister de Goethe ). na sucessão dos tempos. toda uma coleção pluriforme de beletrista s e filosofantes. da sua palestra. 82 Uma orientação aliás fielmente mantida nos eventos da mesma série de O Olhar e Os Sentid os da Paixão realizados após a morte de Motta Pessanha. pretende u impingir ao público a convicção de que a indiferença nacional por autores como La Mett rie. os materialistas. era necessário preencher as lacunas abertas na História pelo olvi do em que fora caindo. deve tê-lo impedido de falsear ostensivame nte a t pografia da história. exigida por todos os materialistas contemporâneos de Marx.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 83 Os Pensadores. não tem como com portar em si ao mesmo tempo a arbitrariedade dos átomos de Epicuro e rígida obediência ao determinismo newtoniano. a corrupção reinante e a tradição histo riográfica que preferiu Aristóteles a Epicuro. E qual o retor que não sabe que . a par da omissão de gigantes como Brentano. Platão e o sr. como Pessanha desejaria. econômicas e puramente psicopáticas se encontrassem comprimi das no auditório do MASP. talvez por considerá-l a divina. políticas. ferozmente idealista . cit. Dégerando. A afinidade que permitiu. por elástica que seja. Curiosamente. as lembranças da ditadura mi litar e a filosofia da História de Sto. Um certo fundo de escrupulosidade científica. Uma aparência verossímil de conceito.

Não havendo uma “matéria” conceptualmente identi icável — exce- . o homem movido por impressões não sabe para onde se move. sem qualquer pretensão ontológica — e o materialismo não é uma doutrina. e por isto a ciência de produzir impressões é c ultivada com esmero por todos aqueles que têm a ambição de conduzir os povos. Não uma força física. A matéria não é um conceito — exceto no sentido convencional e instrumental com que vem nos livr os de física. e sim por impressões? Apenas. Mas a ma téria é um símbolo e o materialismo é uma força. excet o no sentido negativo de uma coletânea de opiniões diversas e contraditórias. mas uma força históric a de impressões e emoções que produzem atos.os homens não se movem por conceitos.

. Pess anha começa a fazer sentido.84 OLAVO DE CARVALHO to. não há nenhuma hostilidade essencial entre o interesse pessoal e o interesse coletivo: numa mesma alma podem conviver em harmonia o evasionismo epicurista e o utopismo socialista. Por diversos processos de generalização. r etroativamente. ‘O mapa não é o território’. Laffont. Mas ainda resta um ponto obscuro. Pouvoir Illimité. como os buracos estão para o queijo suíço. parece impossível. dois princípios: o materialismo e o primado do interesse prático. Ela está. personalizada d o que se produziu. e fazer dela a linha mestra da continuidade do pensamento humano. Paris. w Uma vez unidos Marx e Epicuro pelos santos laços do ódio à inteligência teorética e do primado do interesse prático. Compor com pedaços de opiniões de beletristas e pseudofilósofos uma tradição materialist a. sem nenhuma exceção. individual no outro —. de distorção e de triagem. veremos que a pretensão de Pessanha só pode ser compreendida como delírio alucinatório ou como fraude proposital . ao menos em aparência: o materialismo. porém. Marie-Hélène Dumas. mas a representação interna. A Nova Era adere mac içamente a metafísicas orientais. num sentido instrumental perfeitamente compatível com as doutrinas esp iritualistas esposadas aliás pela maioria dos grandes físicos —. e não apenas como somatória artificial de negações d iversas. o cérebro transforma esses sinais elétricos em uma representação interna. nada podendo afirmar em comum. trad. você pode sempre representá-la de uma maneira que lhe dê poder. ela não é uma unidade pró. que para o marxista são mera ide ologia feudal e para o epicurista uma abjeta escravização do homem aos deuses. que vê no mundo a mera pr ojeção dos nossos pensamentos — hipótese que o marxismo rejeita como idealismo burguês: “Os seres humanos recebem e interpretam as informações fornecidas pelos cinco sentidos . se existe.” 84 83 84 Anthony Robbins. não se constitui de outra coisa senão do amál gama fortuito de negações antepostas.. podem firmar um acordo por que têm um princípio em comum. Mas como conciliar o materialismo com a Programação Neurolinguística e o movimento da Nova Era? Filosoficamente. de uma parte a massa total do queijo. o teórico da PNL extrai uma conclusão que leva direto a um pragmatismo com tinturas nietzscheanas: “Já que ignoramos como são realmente as coisas e não conhecemos senão a representação que faz mos delas. a mais assombrosa fals ificação da História já empreendida por um militante esquerdista. Quant o à PNL. mas uma unidade contra: a unidade negativa daqueles que.” 83 Dessa constatação kantiana. ou pseudoorientais. No reino das ilusões. por que não representá-las de uma maneira que nos dê poder? Qualquer que se ja o horror da situação. A tradição materialista. hipertrófico. para a densidade contínu a da linhagem espiritualista. Se considerarmos simplesmente o fato notório de que Platão e Aristóteles fora m absorvidos na filosofia cristã e de que todos os filósofos importantes do Ocidente desde Agostinho até Hegel foram cristãos. se dão as mãos na solidariedade de uma negação: a negação do espírito.. repito.. e colocar lado a lado em distintos lugares do espaço. por diferentes indivíduos e por um número indefini do de motivos. 1989. esta é uma das idéias fundamentais da PNL. . unidos na luta co mum contra o princípio do conhecimento objetivo e no empenho comum de substituir a realidade em vez de compr eendê-la. p. inspira-se num kantismo radicalizado. divergindo quanto à esca la da transformação — social num caso. de outra parte a massa total dos buracos. o comandante militar da insurreição. para fazer de Stálin. a depreciação da inte ligência teorética. desde que a Academia d e Ciências da URSS enxertou a cabeça de um desconhecido sobre os ombros de Trótski nas fotos de cenas da Revolução de Outubro na Enciclopédia Soviética. reduzindo o espiritualismo a uma coleção fortuita de exceções. Marx e Epicuro. a toda e qualquer afirmação do espírito. Essa filtragem explica a imensa variedade da percepção humana. sem exagero. Pretender que essa tradição exista substancialmente. a unidade da tradição mat erialista não poderia forjar-se com base na defesa da matéria. A experiência que você tem do aconte cimento não é exatamente o que se produziu. Se existe essa unidad e. é. é querer separar fisicamente. Mais exatamente.

. p. 58. Id..59.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 85

Da depreciação da nossa capacidade cognitiva, extrai-se uma apologia do nosso poder de agir. Descrevendo o homem como um animal cego, separado da realidade pelo mur o intransponível do solipsismo, o teórico da PNL não tira daí a deprimente conseqüência lógic de que um ser assim constituído está fadado ao fracasso em todas as suas ações, mas sim a conclusão surpreendentemente animadora de que o homem pode agir, e ter sucesso, justamente porque não enxerga o terreno onde pisa. A ação eficaz não depende de uma visão correta da realidade, mas de uma fantasia de poder. Pode-se coadunar isto com o marxismo? Não e sim. Não com o marxismo que estava nas intenções declaradas de Karl Mar x: uma ciência objetiva que pela primeira vez iria superar uma longa série de distorções ideológicas ditadas pelos interesses de classe e, identificando-se com os interes ses da classe que traz em si resumidos os interesses de toda a humanidade — o prol etariado —, iria fornecer uma visão realista e universalmente válida da sociedade huma na. Se esta ciência é possível, a PNL é falsa, ao menos em sua pretensão de universalidade : só a burguesia troca o mundo real por uma projeção subjetiva; o proletariado vê a real idade. Neste sentido, a PNL poderia ser encarada, do ponto de vista do marxismo ortodoxo — e assim seria qualificada necessariamente pela crítica marxista uns anos atrás — como idealismo subjetivo burguês. O sucesso dela entre empresários e executivos seria alegado como confirmação deste diagnóstico. Nesse sentido, a hostilidade entre e la e o marxismo é aberta e irremediável. De outro lado, porém, a PNL também não perde temp o em interpretar o mundo — ocupa-se de transformá-lo. Entronizar como representação válida não aquela que descreva corretamente a realidade, mas aquela que nos dê o poder de agir nela — ou pelo menos uma dinamizante ilusão de poder que nos dê ânimo de lutar pelo poder — é uma proposta de tom pragmatista 85. Mas o pragmatismo, como bem viu Grams ci, pode perfeitamente conciliar-se com o marxismo na medida em que ambos voltam as costas à descrição da realidade e enfatizam a sua transformação. Ambos, 85

igualmente, confundem teoria e prática: o pragmatismo, misturando lógica e psicologi a — o estudo das causas reais que produzem o pensamento verdadeiro ou falso com o das exigências ideais e formais do pensamento verdadeiro 86; o marxismo, confundin do ideologia com sociologia — a expressão do interesse de classe com a descrição do esta do objetivo da sociedade 87. Marx nunca percebeu a contradição que havia entre seu i deal de uma ciência objetiva, universalmente válida, e sua mistura de teoria com práti ca. Na verdade, qualquer aplicação prática de uma teoria só é possível na medida em que os l imites entre uma e outra estejam rigorosamente demarcados na teoria mesma. Uma t eoria que se deixe contaminar de “prática” no curso da investigação teorética jamais poderá s ber se seus resultados foram encontrados no real externo ou produzidos e lá enxert ados pela ação prática do cientistamilitante, um ser ambíguo e bifronte que não distingue entre o saber e a emissão de profecias auto-realizáveis 88. A mistura, que retoricam ente tem o atrativo de ser um 86 Sobre as relações entre pragmatismo e marxismo, v. A Nova Era e a Revolução Cultural, pp . 80-82 e 113-117 da 2ª edição, e sobretudo O Imbecil Coletivo, Capítulos 3, 4 e 5. Indi spensáveis para a compreensão profunda do que se vai ler nas próximas páginas. Para uma explicação detalhada deste ponto, v. Edmund Husserl, Investigaciones Logica s, trad. Manuel García Morente y José Gaos, Madrid, Revista de Occidente, 1929 ( ree d. Alianza Editorial, 1982 ), vol. I, Capítulos 3-10. A crítica husserliana do psico logismo é talvez a mais completa refutação que alguém já fez de uma teoria desde que o mun do é mundo. 87 Para quem compreenda o assunto, não é nem necessário dizer que o sociolog ismo em geral, e o conceito marxista de ideologia nele incluso, não são senão casos es peciais do psicologismo tal como enfocado por Husserl. 88 Nota do meu Diário Filosóf ico, sob o título “Devir e Sentido”, datada de 8 de agosto de 1989: “A interpretação materia lista da História pode ser verdadeira ou falsa, mas, independentemente disto, ela exerce uma influência sobre a História. Homens que estão convictos de que o motor da h

istória — e da cultura, e do pensamento etc. — é a luta de classes, agem diferentemente de homens que pensam que a História reflete a vontade de Deus, ou os movimentos de espírito, ou que simplesmente entendem a História como uma agitação sem sentido, e que buscam o sentido justamente naquilo que sai fora da História e do tempo. Homens de sta última categoria, quando agem na sociedade, procuram antes de tudo assegurar a o maior número possível de homens o acesso à contemplação, àquilo que está fora e acima da Hi tória; e é este o sentido que justifica eticamente todos os seus esforços, inclusive n o sentido de melhorar as condições materiais de vida das populações, para libertá-las da p ressão econômica e dar-lhes a oportunidade de vacare Deo. Já os crentes no materialism o histórico não se interessam senão por inserir um número cada vez maior de homens na co nsciência do processo histórico, na participação voluntária no devir. Ora, o devir não pode, por si mesmo, ser o sentido; a participação no devir só tem sentido em função de algum ob jetivo a ser alcançado; mas, não havendo mais a promessa do supratemporal, do acesso à transcedência, a inserção ativa na praxis se esgota como fim em si mesma, e cai para objetivos meramente pretextuais, dedicados a manter a roda girando. Este é o verda deiro efeito e o verdadeiro significado do marxismo, para além de

86 OLAVO DE CARVALHO

protesto contra um suposto academicismo desligado da “vida”, serve apenas para encan tar jovens irrequietos que buscam nas teorias uma confirmação vaidosa de seus desejo s e aspirações, e não um conhecimento válido, muito menos um conhecimento aplicável na práti ca. Ela não serve nem para criar uma descrição aproximativamente correta da realidade, nem muito menos para elaborar previsões que fundamentem a ação prática. A absoluta inca pacidade dos teóricos marxistas de prever o curso da História, sua sucessão deprimente de erros crassos ao longo de mais de cem anos — a começar pelo do próprio Marx ao sup or que a revolução socialista deveria ocorrer na Alemanha ou na Inglaterra, num país a vançado e não numa sociedade feudal como a Rússia — mostram que o poder do marxismo não é o poder material e prático de uma ciência aplicada, de uma técnica, de uma “ação racional segu ndo fins” como o diria Weber, de um comtiano prévoir pour pouvoir, mas sim o poder a liciante e hipnótico de uma fantasia, de uma alucinação pseudoprofética, capaz de mover o mundo, só que nunca para onde pretende; capaz de induzir as massas e os intelect uais à ação, mas não de levar a ação a bom termo; capaz de desorganizar uma economia capital ista, mas não de construir o pretenso socialismo; capaz de desencadear as causas, mas não de dirigi-las no sentido dos efeitos desejados. É uma força entrópica, que agita e sacode e atemoriza o mundo sem nada produzir senão dor e perda, mas que por ist o mesmo exerce sobre os homens a atração irresistível de uma compulsão autodestrutiva en volta em delírios de grandeza, como a de Nero entre as chamas de Roma. Facilis est descensus averni. Aí a afinidade com a PNL é evidente: por mais horrendos que sejam os resultados da luta revolucionária, a esquerda é sempre capaz de “representá-los de u ma maneira que lhe dê poder” — o poder de cair indefinidamente e arrastar atrás de si a humanidade. Com a Nova Era, a conciliação já não é tão fácil. Em primeiro lugar, porque não é quedo entrar em acordo com um saco-de-gatos. Porta-vozes e críticos da Nova Era são concordes quanto à discórdia generalizada que ali reina: “Dentro do suas intenções declaradas, sejam elas mentiras propositais ou auto-enganos de mental idades doentes. É preciso ser um completo idiota para tomar como uma promessa rede ntora a ameaça que essa gente nos faz de nos aprisionar para sempre no círculo do sa msara. Alguns criticam a utopia marxista por ser irrealizável. Se fosse realizável, seria o inferno propriamente dito, no sentido etimológico de queda num nível ontológic o inferior.”

movimento não há unanimidade sobre como defini-lo, nem há uma coesão significativa que n os permita chamá-lo de movimento”, escreve o apologista (e comercializador, como a m aioria deles) da Nova Era, Jeremy P. Tarcher 89. Na outra ponta, o crítico protest ante Russel Chandler: “Movimentos da Nova Era (no plural) é uma descrição muito mais apt a. A Nova Era não possui qualquer superestrutura abrangente” 90. Em segundo lugar, o comunismo, russo, chinês ou cubano está tão distante do espírito da Nova Era quanto o R egulamento Disciplinar do Exército norteamericano. Também é difícil um sujeito acreditar ao mesmo tempo na influência dos astros e na luta de classes como motores da Histór ia. Mas essas incompatibilidades mesmas já nos indicam algo sobre as crenças positiv as que delineiam o padrão de uma unanimidade implícita por trás da variedade estontean te das orientações da Nova Era. 1. Ninguém, ali, quer saber de hierarquia, ordem, obed iência por motivos racionais. Admite-se autoridade, mas só de tipo carismático, que a gente obedece justamente porque não compreende; autoridade burocrática ou tradiciona l — no sentido de Weber —, não. 2. Pela mesma razão, não se aceita uma doutrina fundada em provas racionalmente válidas. Uma doutrina racionalmente provada exclui a sua própr ia negação, e isto para a Nova Era é anátema: nenhuma doutrina tem o direito de ser mais verdadeira do que outra. Todo es igual, nada es mejor. 3. Não havendo argumentação ra cional nem hierarquia de prioridades, o único critério válido é o “sentimento de participação que diferencia os indivíduos integrados na nova onda e os pagãos, ainda não tocados pe lo espírito da horda. 4. Por isto, a mentalidade da Nova Era é ao mesmo tempo indivi dualista e coletivista. Individualista, ao subtrair o indivíduo do diálogo racional. Ante o apelo da razão, que é uma só para todos, o individualista anárquico fecha-se em copas, bus89 90

“New Age as Perennial Philosophy”, Los Angeles Times Book Review, feb. 7th. 1988. Co mpreendendo a Nova Era, trad. João Marques Bentes, São Paulo, Bompastor, 1993. Um li vro valiosíssimo, que, por ser publicado por uma editora religiosa, é ignorado pela crítica — servilmente atenta, no entanto, às publicações de ocultismo e “auto-ajuda”.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 87

cando refúgio na proteção do seu “guru interior”, que lhe sopra verdades indizíveis, acima e fora de toda confrontação racional. De outro lado, o que esse guru lhe sopra, em ve z de isolá-lo para sempre do mundo, o integra na horda festiva dos que receberam m ensagens idênticas pela “via interior” do rádio e da TV, dos filmes e dos shows. A voz d o guru, afinal, cerca-nos por toda parte. A “interioridade” da nova Era não deixa marg em para um só instante de recolhimento e reflexão 91. Fundindo os sentimentos interi ores do discípulo na atmosfera emotiva que o circunda, ela suprime o intervalo, o distanciamento entre o eu e o mundo, sem o qual todo exame crítico-objetivo é impossív el. Não que ela seja contra todo pensamento crítico. Ao contrário, ela o fomenta, desd e que ele se volte contra as formas de autoridade que não interessam ao movimento: a autoridade burocrático-racional da ciência, a autoridade tradicional dos pais ou da religião costumeira. Ela produz aí, não raro, críticas realistas e pertinentes. Tão log o, porém, o discípulo atravessa o umbral do templo e ingressa no círculo mágico da autor idade carismática, não só a crítica, mas às vezes todo e qualquer pensamento, são rejeitados como tentações demoníacas. O pensamento é rebaixado à condição de arma de fogo, e o porte-de arma só é concedido extra-muros, no reino profano das trevas exteriores, para uso se letivo contra os heréticos e os infiéis. Aqui começa a ficar verossímil o arranjo das idéi as na cabeça de José Américo Motta Pessanha. A rejeição da prova racional, a mística de uma pseudointerioridade coletiva, a revolta insolente ante a autoridade do passado e a submissão hipnótica a uma nova autoridade são comuns ao epicurismo, ao marxismo (pe lo menos em sua moderna versão gramsciana) e à Nova Era, PNL inclusa. Com um pouco d e elasticidade, todas as conciliações são possíveis. Mas uma dúvida perturbadora pode aind a restar na mente do leitor. A Nova Era, de modo geral, inspira-se em motivos es piritualistas. Ela pôs em circulação no mundo idéias como a reencarnação, o karma, os anjos e duendes, as viagens as91 trais. Como pode tudo isso coadunar-se, superficialmente que seja, com o materia lismo professo de Marx e Epicuro? Por mais afinidades secundárias que os aproximem , materialismo e espiritualismo continuam, afinal, o exemplo por excelência da opo sição irredutível. Eppur... É significativo que, nas seitas como as de Moon e Rajneesh, um dos meios utilizado s para quebrar a resistência psicológica dos discípulos consista justamente em não lhes dar um só instante de privacidade, submetendo-os à vigilância e à intromissão constante do s companheiros e superiores — sempre, é claro, de maneira amável e discreta, de modo q ue a vítima não perceba nisso o sinal de uma intenção manipulatória. Os efeitos psicológicos são devastadores.

LIVRO IV - OS BRAÇOS E A CRUZ -

.

cuja eficácia no mundo real. no sentido pejorativo da palavra. o livro sagrado da dinastia Tchou fecha o ciclo ao chegar ao número 64: os cic los seguintes repetem o esquema 93. Por exemplo. apetitiva. O I Ching. É um conhecimento rigoroso. motivo pelo qual o passo ternário é o andamento de todas as ações e mutações. Comparar. a tríade chinesa corresponde exatamente ao ternário grego Logos-Ethos -Physis. Na tradição chinesa. outras tantas subdivisões. é uma ontologia do microcosmo da razão humana. que Aristóteles. Os três princípios. Paris. onde Logos é a esfera dos princípios metafísicos. Paris. que expressa grosso modo as idéias de criação. trad. manifestam-se em cada um dos pequenos fatos que em m ultidão inesgotável compõem a sucessão da vida cósmica. dotado de fundamentos lógicos apodícticos. alma. assim. 1968-1973. o clássico de René Guénon. somando-os dois a dois 92. Invertendo-se apenas a ordem de sucessão para Céu-Homem-Terra. se confirma pela investigação psicológica do inconsciente. se resolve provi soriamente em mera multiplicação quantitativa. a vida era esse vício!” BRUNO TOLENTINO § 19. de duas proposições tirando uma terceira e assim por diante. Payot. apresenta um modelo miniatura de todas as mutações possíveis: de ternário em ternário. de um lado a obra n otabilíssima do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos. Gallimard. há muito a dizer. como que patinando em falso. Matese. Platão.. que ecoam e reverberam umas às outras segundo uma infinidade de escalas e de pontos de vista. 3 vols. na ausência da síntese ternária. a esse respeito. Natura no cristianismo o u Céu-Terra-Homem (Tien-Ti-Jen) no taoísmo. ademais. — (I) Pobres bantos Em todas as grandes tradições espirituais. de. Homo. até à alu cinação. de outro as observações clínicas do dr. Brahma. fora de qualquer pressuposto metafísico. a divisão ternária do mundo imita u m outro ternário mais alto: o dos supremos princípios metafísicos Yang. sem exceção. também ter nárias. constatasse que este caminha em passo ternário. e Georges Dumézil disse muito sobre as relações entre o ternário religioso e a ordem social em My the et Épopée. Matéria e Proporção. que se podem traduzir. seu método audaz. Ethos o mundo humano de ind ecisão e liberdade relativa. era rigorosam ente chinês. o ternário corpo. Já o vazio. espírito. os dois termos de uma al ternativa insolúvel repetem-se indefinidamente. por sua vez. ao descrever a ordem do pensamento d iscursivo. . Henriette Roguin. La Grande Triade. a o definir o homem como um intermediário entre a besta-fera e o deus. mas um se foi e o outro esvaiu-se como mais um suspiro sem remédio.CAPÍTULO VII. sem maiores pedantismos esotéricos. Gallimard. A divinização do espaço. E. 1976. Não espanta. que enfoca os números como categorias lógicas ( e ontológ icas ). para as inúmeras partes. 93 Sobre a Tría de chinesa. Filho e Espírito Santo — corresponde.” À tríade hindu. Pitágoras e o Tema do Númer o ( São Paulo. 1957 — um livro após o qual o que quer que se diga do assunto corre o grave risco de chover no molhado. por Forma. Mas e a vida? Ah.. diz Schuon. encontra-se alguma divisão ternária dos estratos da realidade. intelectiva. Yin e Tao. Vishnu e Shiva. A essa divisão do todo correspondem. conservação e transformação respectivamente. v. já que go- vernam a totalidade do ser. é vege tativa. era um puro palácio aritmético . no microc osmo da constituição humana. Descendo porém do plano metafísico ao histórico. como por exemplo Deus. e que a combinatória completa somasse. por que a esfera da razão humana deveria funcionar diferente da razão suprema qu e ordena o real como um todo? “A lógica. O simbolismo dos números nada tem de “esotérico”. A alma. 1960 ). no fim.. Ludwig Paneth em La Symbolique des Nom bres dans l’Inconscient. aspectos e planos secundários. Physis a ordem repetitiva da natureza sensível. desde que se entenda que uma tradução não é uma explicação. correspondem outros 92 O dois representa a oposição estática que. “Livro das Mutações”. o mais límpido exercício. O MATERIALISMO ESPIRITUAL “O abismo era metódico. 6 4 ternários possíveis sem repetição: a silogística é o “Livro das Mutações” do raciocínio. À Trindade Cristã — Pai. Paris.

i sto é. ou sucessão sem volta. se não uma lei ontológica.. fiéis à raiz trilítera de ambas essas palavras. às três faixas do tempo: a temporalidade. tempo cíclico. No árabe. perfeitamen te igual. à continuidade perene. econômicas e vitais. um para as ações in fieri. Obatalá. prefiro as formas “mussulmano” e “Islam”.. criador todo-poderoso. Os Yorubas da Costa dos Escravos acreditam num deus do céu chamado Olorum. sentado e prostrado —. Certas culturas tribais parecem desconhecê-lo completamente. Olorum afasta-se definitivamente dos assuntos t errestres e humanos. para os quais o criador é demasia95 Os três estágios equivalem. o homem diante de si e o homem anulado dian te da infinitude divina.... “posse plena e simultânea de todos os seus momento s”. que engolia ou encobr ia o senso da eternidade: “Os Semang da Península de Malaga conhecem também um ser supremo. tota simul et perfecta possessio. o que surpreende nele não é a ubiqüidade da sua presença nas grandes tradições religiosas. ascensão). entre os Tumbukas. Kari. que a inépcia dos nossos legislado gramaticais consagrou como corretas. é igualmente um grande deus celeste que se retirou do culto. D e M. atravessa esses mesmos e stágios. Criou todas as coisas exceto a Terra e o homem. e a eternidade — como a definiu Boécio. confiou o cuidado de a acabar e governar a um deus inferio r.. há um tempo verbal para as ações concebidas como findas (em qualquer tempo cro nológico que seja). expansão. a perenidade ou eviternidade. O fato de não ter sido Kari o cria dor da Terra e do homem é signific ativo: revela -nos uma forma vulgar da transcendência e da passividade da divindad e suprema. por exemplo o dos movimentos do cosmos. pela ordem. Está muito longe ou é demas iado bondoso para ter necessidade de um culto propriamente dito. aos três estados mencionados. Rajas e Sattwa (queda.. sonho e sono profundo —. A noção do triplo tempo encontra-se. Aqui também três letras indicam o caminho: A. muito afastada do homem para satisfazer as suas inumeráveis necessidade s religiosas. que conhecem um se r supremo mas adoram os antepassados. Adão. O mesmo se verifica entre os Angonis. paralelamente a uma proliferação hipertrófica das divindades cós micas ou forças naturais divinizadas — um inchaço da perenidade. dos Bantos. o ser supremo. Correspondem. parece apreender. uma tendência universal do homem a enc arar o ser como se fosse assim constituído.. estruturalmente. outro ainda para as ações concebidas indepe ndentemente de término ou 94 Nota ortográfica: em vez das grafias “muçulmano” e “Islã”. O passo ternário entre o mundo e a origem é marcado pelo monossílabo Aum. em todas as tradições espirituais. em suma. ou o dos estados de consciência — vi gília. ao tempo. Nzambi.. o homem primordial. cujas letras correspondem. que são qu ase transliterações.92 OLAVO DE CARVALHO tantos ternários na esfera cósmica e humana. Mircea Eliade notou em tribos da África e da Polinésia o enfraquecimento do sentido da eternidade metafísica.. que transcorre m as retorna. O fiel mussulmano 94. simbolizados nas três posições da prece litúrgica — de pé. resíduo de uma velha doutrina esquecida. ao menos uma “constante do espírito humano”. que são obra de Plé. à et ernidade. somente desemp enha um papel insignificante na vida religiosa da tribo. e também na estrutura das línguas antigas. slm ( de onde vem ain . Vê-se o mesmo no grego ou no hebraico 95. ao rezar. O ternário dos mundos. A grafia das letras permite visual izar as três posições da prece: prosseguimento. verdade imbricada na constituição mesma do ser. que co mpõem a palavra Adam (o árabe em geral suprime na escrita as vogais intermediárias).. devolvendo no fim intactas as possibilidades que estavam no início. depois de ter c omeçado a criação do mundo. O mesmo se passa na maioria das populações africa nas: o grande deus celeste. e sim a sua ausência em lgumas das pequenas. mutatis mutandis. que. atravessando os quais o homem recua desde a manifest ação sensível até o princípio metafísico de todas as coisas. Tamas. Pelo que lhe respeita. outra divindade que lhe está subordinada.. Por isto mesmo. modelo da espécie. ou ter dele uma idéia nebulosa e distante. qu ersonificam o homem diante do mundo.

“paz” ). n. Também não uso nas transliterações arábicas. 6. acima . mas um sistema simplificado de minha invenção.da saláam. Faço-o também por saber que na religião islâmica a grafia das palavras te um uso ritual e um profundo sentido simbólico similar ao do hebraico que se perde por completo nessas adaptações arbitrárias. que é muito complexo. V. Tirei algumas conseqüências desse fenômeno para a teoria da literatura em Os Gêneros Lit erários. nes e em outros livros. o alfabeto fonético internacional. onde a cada letra árabe corresponde uma e uma só letra do alfabeto latino convencional. modulada por acentos. onde se encontrarão também mais indicações bibliográficas sobre o assunto. .

que “Deus se afastara deles”. A culpa edípica não acompanha toda rejeição da fé. Mas quando o intel ectual altamente civilizado de uma nação rica e vencedora diz que “Deus morreu”. por três séculos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 93 do longínquo e demasiado grande ‘para se interessar pelos assuntos vulgares dos home ns’. devemos entender isto como expressão do sentimento de uma velha tribo dispersa e decadente? O fenômeno é enigmático. É um sentimento de orfandade. A opinião de Nietzs he para essa gente é cocô de mosquito. mas sabem que são os espíritos dos mortos que exercem uma verdadeira vigilância so bre as coisas do mundo e é a eles que oferecem culto regular. Lisboa. omm. Mas. Quando. Não: eles tinham consciência de havê-Lo expulsado por v ontade própria — daí que. mas de ruptura traumática do cordão umbilical e de perda do senso de direção. em primeiro lugar. entre os Wahéhes. trad. como um garoto sem mãe perdido nas ruas. para arrancar do coração dos homens. depois de ter criado o homem. descobriram que esse mundo era estúpido e sem razão como qualquer aparato mecânico considerado fora das finalida des inteligentes a que serve. 74-77. expressão de um sentim nto vigente nos círculos intelectuais — uma tribo relativamente pequena e que. no mesmo círculo vienense onde ela se disseminou. Não é alheio a isto o fato de que o fundador da religião . A “morte de Deus” é. que bóia solitário num espaço indefinido. separada do sentido da vida. é pr eciso não cair na esparrela de interpretar as falas dos intelectuais como expressões do sentimento dominante entre as populações dos países ricos do Ocidente. abandonada por um Deus cuja presença ela mesma se esforçou. junto com a teoria da “morte de Deus” emergisse. Que Freud tenha explicado pela morte ritual do Pai a origem 97 96 Mircea Eliade. dois séculos mais tarde.. onde é dogma que Deus “não gerou nem foi gerado” e chamá-Lo de “pai” é blasfêmia intol a adesão ao ateísmo não traz um sentimento de culpa edípica. e não é para rezar aos antepassados ou às árvores totêmicas. também a doutrina do complexo de Édipo: numa civili zação que por dois milênios imaginou Deus como um “Pai”. nada menos que 56 por cento do s norteamericanos (estatísticas oficiais) freqüentam o culto dominical. que imaginam o ser supremo Ngurubi como criador e todo-podero so. nunca mais quis saber dele para nada’. resíduos talv ez de antigos impérios africanos desmembrados. a teoria do Deus otiosus. Tratado de História das Religiões. vendo -se alijada do poder pela Revolução burguesa que ela ajudou a fazer. A orientação espacial ( qibla ) e o sens o de integração na grande comunidade humana ( umma ) dispersam-se imediatamente como fumaça no ex-mussulmano. a culpa edípica subseqüente à expuls Pai não poderia deixar de estender sua sombra por toda a produção intelectual da era do ateísmo 97. ou que “D eus deixou o telefone fora do gancho”. Umma te m aliás a mesma raiz de “mãe”. foi proposta alegremente aos Ocidentais no séc ulo XVII por filósofos e cientistas que acreditavam estar descobrindo um novo mund o — o mundo das leis mecânicas que explicariam a natureza e o homem sem necessitar p ara nada da “hipótese Deus”. isolada. Em segundo lugar. Natália Nunes e Fernando Tomaz . mas fixado na perda da mãe. no máximo.” 96 É compreensível que esse estado de espírito se espalhe em tribos pequenas. E os Negr ilhos (pigmeus) repetem: ‘Deus afastou-se de nós’. a que o pobre banto chegou por uma s ucessão de experiências decepcionantes. e marcadas por uma seqüência imemorial de derrotas e privações — o trauma repetido das preces não atendidas. tem todos os mo tivos para se sentir dispersa. com a inocência do pig meu. 1977. ou faz do “silêncio de Deus” o centro das preocup ações teológicas do seu tempo. mas é um fenômeno típico da civilização cr Islam. protestante ou católico.. não puderam simplesmente dizer. Os Bantos dizem: ‘De us. Cosmos. pp. Passado um século desde que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”.

é necess mbém uma ciência do Ateísmo Comparado. depois de pai. O dr. sem a qual é impossível orientar-se na barafunda do s ateísmos contemporâneos. que aparece com insistência em Salmán Rushdie. As diferenças entre as visões estratégicas de Karl Marx. Ele não abandonou. que nada entendia dessas c oisas. o “Pai”. podem ser grandemente elucidadas pela origem judaico-prote stante do primeiro. por exemplo. primeiro de mãe. dificilmente deixa de aderir. o Islam ou o judaismo. . É pena que até ho je ninguém tenha estudado isto em detalhe. Lênin e Gramsci. aparentemente sem despertar para o caso o menor interesse dos estudi osos. especulou sobre a religião universal generalizando sua experiência limitada d o meio judaico e cristão. Freud.slâmica tenha sido um órfão. muito mais “primitivo” do que a culpa edípica. O ateu de origem judaica. mas a “Lei”. O ateísmo não é um fenômeno homogêneo: há um para cada religião. por exemplo. Se há uma Religião Comparada. russo-ortodoxa do segundo. Não é o mesmo abandonar o cristianismo ou o budismo. A imagética de figuras boiand o no espaço. católica do terceiro. onde encontra um Ersatz do clamor profético de jus tiça. Di isto há anos. compensatoria mente. afinal. expressa esse sentimento. a algum utopismo político.

imbricados na paisagem. a razão humana se mostrava impotente e devia ceder lugar a uma outra mod alidade de conhecimento. É o mesmo que dizer: deuses do espaço. e não a sua extinção. Os segundos. Mas a verdadeira importância histórica da sua descoberta não está nisso. então valem para ele todos os raciocínios autocontraditórios segundo os quais o que está perto está longe. Dogmatiser sur un bien originel. a realidade dessas contradições que a razão repe le. também. quando falavam de Deus. bastava a luz natural da razão. supra-racional. no desenvolvimento das idéias Ocidenta is. uma transfiguração da inteligência. que o universo não tem centro geométrico e que. Mas. La pire des erreurs est toujours constituée par la Vérité elle -même. ou nenhum. Aplicando esses raciocínios..94 OLAVO DE CARVALHO do sentimento religioso.. É significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substi tuída. logo. Desde a Antigüidade. Diante desses p aradoxos. o grande é pequeno. A divinização do espaço. Se aumentarmos sua velocidade até o infinito. Eis aí a verdadeira novidade: a ciência da natureza eleva-se ao estatuto de um s aber secreto. — (II) O infinito de Nicolau de Cusa. V. HENRY MONTAIGU Isso começa com Nicolau de Cusa. se aplicavam exclusivamente a Deus. Se o unive rso é infinito. todos os seus pontos estariam eqüidistantes da circunferência. escondidos nas florestas e n as grutas. Culto das coisas. passando pelas extremidades d o diâmetro A-B. Logo. não era objeto de conhecimento: se nada se conhecia a resp . Nicolau concluía que o espaço é infinito. a reação do intelectual europeu à “perda de Deus” foi igualzinha à do pigmeu ou d o Banto. deuses do tempo. a tradição filosófica e igiosa sempre reconhecera a necessidade de algum tipo superior de ato cognitivo — uma iluminação. numa extensão infinita. os quais. a diante. admitia-se. mergulhados no passado. Et la dispute. Com isto. é o sinal de que a perda da dimensão metafísi ca traz consigo uma inversão do senso das proporções. as duas grandes linhas que disputam o primado do pensam ento Ocidental: o naturalismo físico-matemático e o historicismo-culturalismo. e sim parado: a suprema velocidade coincide com a completa imobilidade. Mas um objeto que ocupasse simultaneamente todos os pontos do seu t rajeto já não estaria em movimento. que o tempo é infinito. o sinal de largada para a generalização do ateísmo entre os intelectuais foi. que obrigava os teólogos. sob um outro e importantíssim o aspecto. acredita encontrar nele a mesma inapreensibilidade racional 98 Daí proviriam. o sistema geocêntrico de Ptolomeu estava errado. o antes é depois etc. um a metanóia. que requer do cientista uma transformação interior. § 19. Ora. mas só para chegar ao c onhecimento de Deus e dos mistérios supremos. espécie de ingenuidade metódica que permi tia ao filósofo captar. e o círcu lo teria infinitos centros. intuitivamente. ocultos entre as sombras da memóri a. mais tarde. uma intuitio intellectualis —. c’est le livrer démagogiquement à la dispute. a elevação do espaço e do tempo à condição de absolutos que O substituíam no ca go. não há “perto” nem “longe”: to as as distâncias se equivalem. a recorrer à linguagem dos paradox os. Do mesmo modo. ele estará simultaneamen te em A e B. Para conhecer a natureza. culto dos mortos. Ela apreendia somente o que neles houvesse de racional — o resíduo caótico da pura matéria. espalhados na natureza. A moderna concepção matemática da natureza inaugura-se no instante em que Nicolau. Não que a razão pudesse apreender todas as causas dos fenômenos na turais. antes da intervenção de Nicolau. Os primeir os. por dois tipos de divindades subalternas: os deuses da natureza e os antepassados. Exemplo: um objeto girando numa órbita circular. investidos ad hoc de prerrogativas divinas 98. junt o com a teoria do Deus otiosus que aposentava o Todo-poderoso. se o círculo do exemplo anterior tivesse um diâme tro infinito. investigando as propriedades do infinito numérico e es pacial. uma ciência infusa. ele antec ipou por via da dedução filosófica o que Copérnico viria a demonstrar pela medição e pelo cál ulo. c’est le dia ble. e inseparav elmente dela. no culto. a douta ignorância. § 20.

era por- .eito.

A ciência to rna-se assim uma espécie de iniciação ao contrário: só pode ser praticada mediante uma met anóia. prossegue Koyré. o “mundo intermediário”. mas “interminado” (int erminatum). a bem dizer).. fez à ciência pós-renas entista: a confusão entre infinito e indefinido. que lhe faltam ompletamente precisão e determinação rigorosa. Shambhala..” 101 Com isto. Berkeley. mas reconhecia que o único resultado a que se chegaria pela D octa ignorantia seria a constatação dessa incognoscibilidade. a rigor. 2º. ou admite que. não à unidade com o Espírito que do interior move todas as coisas. rigo rosamente. Primeira. Pode-se duvidar da sensatez desse empreendimento. a ciência. que ele reserva a Deus e somente a Deus. 1975. É evident e que. e sim à experiência indefinidam ente repetida da incognoscibilidade da natureza. requerer para es se fim um esforço “iniciático” cada vez maior. ao aplicar à natureza uma faculdade intelectual superior à razão. Segunda: Nicolau não só admitia a existên cia do resíduo incognoscível na natureza e o justificava metafisicamente (pelo mesmo tipo de raciocínios). estender quantitativamente o conhecimento do caos natural. atribuir ao Univ erso o qualificativo de “infinito”. mas esta metanóia não leva ao conhecimento de Deus. daí para diante. o que quer dizer somente que ele não tem limites e não está contido na car apaça exterior das “esferas” celestes. não chegamos a um resultado melhor do que pela via racional — apenas e stendemos indefinidamente nossa verificação da inesgotabilidade da natureza. Fritjof Capra. o “interminado” cósmico de Nicolau “significa também que ele não está ‘terminado’ em seus constituintes. mas ao ofuscamento da inteligência ante a complexida de cósmica. The Tao of Physics. Seu Uni verso não é infinito (infinitum) no sentido positivo deste termo. temos de admitir que a raiz dessas derrotas da pretensão científica já se encontrava no projeto de Nicolau de Cusa.. 3º. seguindo as vias abertas por Nicolau de Cusa. Ora. ou advoga a legitimidade da argumentação retórica 99 como prova científica 100. René Guénon. com Nicolau. aplicar nisso toda a capacida de humana de intuição intelectual. é a via para o conhecimento da natureza. os conceitos básicos da física subatômica não têm significad o inteligível e são meros arranjos descritivos (metáforas matemáticas. Ora. ele é. Pois. cujas conseqüências letais se propaga m até hoje. para as quais a totalidade da natureza sideral está incluída numa zona de ind eterminação. de fato ele evita. só po deria evoluir no sentido de 1º. para chegar sempre mais e mais à mera const atação da impotência humana de compreender a natureza. área de transição entre a certeza sensível da experiênc estre imediata e a certeza intelectual dos primeiros princí100 Cf. Quando o físico de hoje p ede socorro ao simbolismo taoista em busca de um princípio ordenador para sua ciênci a 99. mas somente de um conhecimento parcial e conjetural”. duas mudanças essenc iais se verificam. sem acréscimo significativo da sua compreensão racional. no ple no sentido da palavra. mas é certo que esse foi... e a perda do sentido fluido e ambíguo da manifestação cósmica. in determinado. ele está automaticamente fora do alcance das duas censuras básicas e dific ilmente respondíveis que o maior crítico da modernidade. o conhecimento da natureza é elevado ao estatuto de m istério e a intuitio intellectualis é rebaixada de função — em vez de caminho de acesso a Deus. 102 Nicolau está aí magnificamente em harmonia com o simbolismo das grandes tradições espiri tuais. É verdade que em Nicolau a infinitude do espaço-tempo não tinha ainda o sentido de uma divinização: “Nicolau de Cusa nega a finitude do mundo e seu fechamento pelas esferas celestes. o caminho seguido pela evolução da ciência moderna. . porque. não ao arrebatamento iluminante d iante da simplicidade divina. isto é. Eis por que ele não pode ser objeto de uma ciência total e precisa. antes voltada ao conhecimento de Deus. Mas ele não afirma sua infinidade positiva. mas à perse guição hipnótica da multiplicidade de uma matéria que se esfarela numa poeira de hipóteses . aí temos o mais temív el dos paradoxos cusanos..O JARDIM DAS AFLIÇÕES 95 que ali nada havia propriamente a conhecer.

da Mota e Leônidas Hegenberg. trad. Contra o Método. . pp. 101 Alexandre Koyré. loc. trad. 102 Koyré. Francisco Alves. Octanny S. sobretudo Cap. 1977. Rio. 1920 [ original i nglês de 1962 ]. cit. VII. Raïssa Tarr. 1973. Paul Feyerabend.Cf. Gallimard. Paris. Du Monde Clo s à l’Univers Infini.

96 OLAVO DE CARVALHO pios metafísicos. mas apenas a transição desde o conhecimento sensível até a esfera dos supremos pr incípios metafísicos. intermediário entre a vigília e o sono profundo. onde rendeu tanto. nesse contexto. a discussão das leis da natureza enquanto tais e tomadas fora de s uas conseqüências teológicas e metafísicas. que adquiriu o prestígio de uma centelha divina no ápice da alma humana. a prova cada vez mais segura da insegurança. desde que afinadas. no ternário microcó edieval. que mais poderia fazer o dom da certeza senão nos dar repetidamente. À luz do simbolismo tradicion al. a força expansiva que medeia entre a ascensão e a queda . atribuiu aos escolásticos medievais. a perenidade entre o tempo e o e terno. chegaram a identificá-la dire tamente com a inteligência de Deus. pelo vislumbre que podia dar de uma realidade eter . Voltada para um objeto que desde o início se sab e resvaladiço. O conhecimento da natureza valia sobretudo p elas suas reverberações simbólicas. mas a zona da história arquetípica. com todas as suas repercussões devastadoras no terreno da biologia. com todas as letras. mas a ”ação divina” que o move). poupando à humanidade três séculos de desvario mecanicista. o projeto de uma ciência exata e rigorosa do cosmos. Ao voltar-se para o mundo das sensações. ao sonho. supra-racional. a ciência da natureza cósmica não era um objetivo em si. que não é nem o tempo irreversível da factualidade terrestre nem a simultaneidade do eterno. indefinido por natureza. que. e no dos três estados de consciência. o Homem entre Céu e Terra. A cosmologia era uma “ciência intermediária” na escalada cognitiva. que a filosofia de Nicolau c ontribuísse. Tanto na filosof ia de Nicolau quanto em toda a cosmovisão cristã que o antecedeu estava bem declarad o. da psicologia. No esquema do triplo tempo. se levado em conta pel a ciência renascentista. os heróis e deuses da mitologia 103. inesgotavelmente inexato e cambiante. a Rajas. ta l como a alma é intermediária entre corpo e espírito. a zona sideral corresponde portanto à evite rnidade. ao “Homem” (jen). da filosofia em geral e até da ética e da política. da teoria do conhecimen to. certamente numa retr oprojeção de suas próprias culpas. e requer um objeto à sua altura. nem fisicamente reais nem meramente imaginários (daí o termo imaginal). ao tempo cíclico. no contexto medieval e antigo. para a qual bastam as sensações. receitar chá de carqueja para o fígado de Prometeu ou calcular o número exato de anjos que cabem na cabeça de uma agulha — cálculo que depois a ideologia moderna. século após século. a medição ca da vez mais exata da impossibilidade de medir exatamente o que quer que seja? A intuição intelectual serve para nos dar a verdade evidente e definitiva. como Averroes. o mundus imagina lis onde habitam perenemente. mas transforma a física num sucedâneo da metafísica e o céu astronômico num su cedâneo do céu espiritual: “[As] concepções cosmológicas de Nicolau de Cusa culminam na ousada transferência ao Unive rso da definição pseudo-hermética de Deus: ‘Uma esfera cujo centro está por toda parte e c uja circunferência está em parte alguma. corresponde à alma. da certeza indestrutív el. e muitos filósofos. no ternário hindu dos movimentos cósmicos. Essa zona corresponde. não a medição pro visória das aparências cambiantes. teria lhe permitido chegar às bases da física de Planck e Hei senberg. ser interm inado e volúvel. ela é o dom da evidência apodíctica. então. intermediária entre corpo e espírito. no esquema chinês. ao longo dos tempos . Como foi possível. Daí a importância relativamente secundária que tinha. ainda que involuntariamente. num arrebatamento de louvor. mediador entre a “firmeza passiva” da Terra e a “firmeza ativa” do Céu (que evidentemente aqui não é o céu visível. inf indáveis motivos de incerteza. para o advento de uma ciência amputada de sua raiz metafísica? A resposta é simples: o tesouro que Nicolau preservou no campo da cosmologia ele o desperdiçou no terreno da gnoseologia. o princípio do indeterminismo. como o anunciado pelo mec anicismo. Porque a intuição intelectual — a douta ignorância como a chamava Nicolau — é a mais ele vada 103 capacidade cognitiva humana. parece tão extravagante quanto calcular as lágrimas de Penélope. Ela só se move com plena desenv oltura no terreno dos princípios metafísicos.’” 104 É que. a intuição intelectual não somente perde eficácia e dignidade.

Avicenne et le Récit Visionnaire.. Tal como o ho104 Sobre o mundus imaginalis. Henry Corbin. 30. Irving ( Texas ).na e supracósmica. inglesa de Willard Trask. op. 1954. v. trad. University of Dallas. Koiyré. Pari s. cit. . Avicenna and the Vis ionary Recital. AdrienMaisonneuve. p. 1980.

pela Terra. abandonando árvores e flores. todas as fantasias. d a perda de lisonjeiras ilusões sacrificadas ao progresso do conhecimento. é apenas o lado estético. de sua situação central e por isto mesmo únic a. Pela porta da douta i gnorância cusana. Reduzido o objeto a seus elementos matemáticos. 1): o peregrino se evade da “esfera” mundana.. No fim encontramos o niilism o e o desespero. fatalmente tomando-os em s eguida como se fossem a realidade mesma. que tantos depois constatar am. o qu al consiste numas miseráveis rodas de engrenagem escondidas entre fiapos de nuvens . contado. “provav a-se” que tudo nele funcionava matematicamente. . Mais graves foram seus efeitos morais e cognitivos: “A destruição do cosmos e a perda. ou pseudopitagórica. pássaros e estrelas. por esquemas de relações meramente possíveis. op. a figura central e o cenário. a ciência entrou no caminho irreversível de uma espécie de auto-hipnos e matemática.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 97 mem são quando adormece. mas a experiência humana na sua totalidade. lamentando-o ou celebrando-o. concebendo o hábito — ou vício — de raciocin ar por “modelos”. Essa mutação transformou o conjunto da atividade científica num a permanente petição-deprincípio. medido e previsto em todos os seus detalhes. o buscador espiritual só atravessava a agitada e caótica região dos sonhos para poder atingir. O terceiro foi banir para o mundo das curiosidades impertinentes todas as perguntas que não encontrassem resp osta imediata na fantasia pitagórica. porém. Bela troca! Figura 1 Mas o “desencantamento do mundo”. Sol e Lua. 64-65. todos os exag eros. não resulta apenas. O primeiro. Uma gra vura da época mostra como a imaginação do estudioso renascentista concebia o “mundo espi ritual” a que teria acesso ao transcender os limites do sensível (Fig. pesado. onde a hipótese indemonstrável admitida de início — o carát matemático 105 Koyré. fingindo dar ao homem uma visão mais realista de sua posição no cosmos. renunciava implicitament e a nos dar qualquer explicação do mundo da experiência humana. pp. para penetrar no reino maravilhoso do espírito. quanto mais rápido melhor. cit. que. A torção operada por Nicolau ocasionou a dispersão da mais nobre faculdade humana na ta refa inglória de delimitar o ilimitado. rigoroso. Ele resu lta de que o aparente progresso. No fim de ssa evolução encontramos o mundo mudo e terrificante do ‘libertino’ de Pascal. como poderia parecer à primeira vista. no qual tinha sido até então. ao mesmo tempo que se arrogava o direito de expulsar do reino dos conhecimentos respeitáveis quaisquer o utras explicações possíveis. trazia em seu bojo a destruição de toda possibilidade de conhecer o real. de um mundo matematizado. levaram o homem a perder sua posição única e privilegiada no drama teocósmico da Criação. o reino do sono profund o. todos os artifícios descabidos e até fraudulentos foram po stos a serviço dela. O segundo foi escapar para longe d a experiência comum e corrente da humanidade. o mundo d esprovido de sentido da filosofia científica moderna. onde no silêncio e na treva da mente resplandeciam o a Luz e o Verbo de Deus. a superfície dessa grande mutação em que o esquematismo de umas fórmulas secas se substitui à riqueza do mundo viv ente.” 105 Esse efeito moral. e negando já não apenas alguns dados do mun do sensível. Uma vez despertada essa ambição. naturalmente. foi amputar da totalidade cósmica os elementos não-matematizáveis. a anulação do princípio mesmo do conhecimento objetivo. ao mesmo tempo. substituindo a natureza dada na experiência por um conju nto de esquemas previamente arranjado para caber nos moldes pretendidos. forjando o modelo de seu próprio objeto. e ao qu al se deu o nome de “realidade”.

manifestamente su perior. porque. o a priori do seu modo de ser. é conformar-se com uma hipótese inicial impossível de provar e refratária. o arcabouço teórico e metodológico da sua Física. A cosmovisão científica. 106 A “exatidão matemática” da visão científica da natureza desemboca assim. não tendo o poder de limpar o próprio traseiro. quer juntos. Tão bobos ficaram os sábios imbuídos de douta ignorância. aos dados intuitivos e ao senso c omum. Tudo o que se poderia deduzir corretamente da ilimitação espacial é que o espaço tem propriedades autocontraditórias por não ser propriamente uma realidade. Il Sagg iatore. legisla sobre a realidade ou irreali dade dos demais conhecimentos. nesse sentido. Mas.98 OLAVO DE CARVALHO das leis cósmicas — é ao mesmo tempo elevada a critério supremo e único de validação do conhe imento científico. é absurdo pretender provar que um determinado ponto não é o centro. sem se 106 Comentando um estágio já mais avançado do processo de matematização da natureza — a física de Galileu —. existir na natureza um resíduo irracional e in cognoscível. ao platonismo à outrance dos físicos renascentis tas. 71 ). junto com eles. mas ape nas o símbolo ou aparência de uma instância supra-espacial onde as aparentes contradições se reconciliam na unidade do infinito metafísico. ao mesmo tempo que. Aristóteles julgava. em realismo e profundidade. Se o infinito tem indiferentemente inf initos centros ou nenhum. e uma hipótese de um gênero surpreendente. Enrico Filippini. que não entrais nem deixais entrar. não obstante a verificação. com efeito. como a criança pequ ena que. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. de gnoseologia ou mesmo de cosmologia. Uma das conquistas de que se gaba a ciência renascentista é ter refutado a física aristotélica num ponto determinado: a ci rcularidade das órbitas planetárias. toda a manifestação cósmic a está afetada de contradições. renuncia a nos dar qualquer conhecimento do mundo re al da experiência — substituindo-o por um elenco de esquemas matemáticos — e desmoraliza como fantasia mística qualquer outra via de acesso a esse conhecimento. É precisamente esta a essência p da ciência natural. reverberações e fragmentos que não poderiam ter em si mesmos. Buscar uma aproximação com essa hipótese é o único objetivo de toda investigação cientí a. o fundamento de sua própria existência. que da infinitude espacial deduziram imediatamente a negação da centralidade da Terra no co smos. A ciência fecha-se num solipsismo incomunicável. ora invalidando as per cepções intuitivas. imagina ter o poder de obri gar despoticamente a babá a fazê-lo. a hipótese permanece uma hipótese.” ( Edmund Husserl. 1972. p. o objeto sobre o qual versa a hipótese é indefinido e inesgotável. ademais. Milano. quer separados. c ortes. Como. inerente à constituição mesma da matéria —. 4ª ed. se Aristóteles estava manifestamente errado nesse detalhe e mesmo em muitos outros. Aristóteles já havia. “Ser científico”. nem por isto terá sido sensato atirar ao l ixo. no oceano ilimitado da pura fantasia. com dois milênios de antecedência. com arrogância patológica. embora a contragosto e sem admiti-lo em público. por outro lado. a cura di Walter Biemel.. Ai de vós. dar a mínima conta da falácia deste raciocínio. exercendo enfim sobre toda parte em torno o domínio que não pode exercer sobre si mesma. a verificação ( a única possível ) é uma seqüência infinita de verificações. Na verdade. a aproximação não poderá jamais ter fim nem alimentar mesmo. em suma. escreve Edmund Husserl: “Segundo o que observamos. Curiosamente. advertido contra os riscos de uma aplicação indiscrim inada do método matemático à filosofia da natureza. no que a evolução posterior da ciênc cessou de lhe dar razão. e ele conc . La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trascendentale. ora revogando a autoconsciência individual. a idéia galilaica é uma hi pótese. a pretensão de estar mais certa do que no momento anterior ou seguinte. Quem quer que medite seriamente estas palavras comp reenderá que um conhecimento assim constituído não tem a menor qualificação para sair dos quadros da mais estrita humildade metodológica e opinar sobre questões de metafísica. pelo simples fato de não ser composta senão de aspectos. ora negando o senso comum. ao mesmo tempo em que pretende legislar sobre o conhecimento do mundo exterior. A nova ciência teve um efeito entorpecente sobre todas as inteligências. e o permanece para sempre. a cada momento. trad. Surpreendente.

e não da reali dade sensível . . a. que devamos examinar primeiro o que é a Natureza.luía que o método demonstrativo-matemático só podia dar conta de realidades imateriais — d e puras relações lógico-ideais. Não se deve. a ciência renascentista deu-lhe razão no fundo. na medida em que. Por isto o método matemático é inaplicável à Física. pois assim v eremos igualmente de quê trata a Física.” ( Metafísica. mas somente quando se trata de seres imateriai s. 995a. e nenhum dos dois objetos é fácil de apreender. 3. notadamente. para poder matematizar a física. exigir em tudo o rigor matemático. diríamos hoje em linguagem husserliana 107 —. teve de se afast ar cada vez mais da realidade sensível até substituí-la totalmen107 “Eis por que é preciso ter aprendido quais as exigências que se devem trazer a cada es pécie de ciência. ). daí vem. Ao rejeitar aparentemente Aristóteles. Pois toda a Natureza contém verossimi mente matéria. pois é absurdo buscar ao mesmo tempo uma ciência e a maneira de alcançar essa ciência.

Aí. o tecido complexo das analogias. das correspondências e das si mpatias em que reverberavam umas às outras as partes de um gigantesco organismo vi vente. 108 Sim. Enéas Sílvio Piccolomini. porque as novas idéias exerceram tanta influência dentro da Igreja Católica quant o fora dela. O introdutor da nova astro nomia na Península Ibérica foi o chefe local da Inquisição. dúvidas ou nuances de qualquer espéc ie: a moral cristaliza-se num sistema axiomático. Nas ciências da natureza. Histoire de la Folie à l’Âge Classique. uma desonestidade i ntelectual. É só acompanhar a ascensão do número de pro cessos e condenações. vivendo na incerteza de um mero empirismo bem intencionado? A resposta é: a racionalização do código moral não é necessária à salvação. para sustentar a ilusão do me canismo perfeito. Na pintura. resolvido por métodos matemáticos. tornou-se nada menos que Papa. London. Neste sentido. completa-se alguns séculos mais tarde na Teologia Moral de Sto. que vai varrer do mundo o pecado e instaurar a ordem social racional — mesmo que seja num cafundó latinoamericano. pela Editora Zahar: O Homem e . 109 Sobre a perda do sentido simbólico da natureza. irregular ou estranho. Michel Foucault. The Spiritual Crisis of Modern Ma n.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 99 te pelos modelos matemáticos. mas é necessária à economia int talidade racionalista 110. Data dessa époc a — e não da Idade Média. ganha ndo em ilusão de ordem e realismo o que perde em significação e intuito. sob o sopro dos novos tempos. o cientista moderno que proclama que a física renascentista refutou Aristóteles comete. Juan de Zuñiga. Depois disso. O espírito geométrico marca a id ade clássica em todas as suas dimensões: da filosofia científica à moral religiosa. Nos jardins de Versalhes. para verificar que aquilo que era um punhado de brasas na Idade Média veio a tornar-se. a salvação torna-se um problema de lóg ica jurídica. que hordas de almas oprimidas sob o pe so Sobre a exclusão dos loucos. a per spectiva horizontal e matemática substitui a perspectiva vertical e simbólica. como teria podido esperar t antos séculos para vir à luz? Que teria sido de tantas gerações de cristãos dos séculos ante riores. Paris. 1968 ( há tradução brasileira. É preciso ser cego para não ver no seio mesmo da Contra-Reforma (que uma simplificação boba toma unilateralmente como uma reação conservadora) o influxo das novas concepções racionalistas e platonizantes. A liquidação das bruxas deriva muito menos da pura e simples defes a da ortodoxia do que de uma nova maneira — geométrica e purista — de compreender a or todoxia. Dos fundadores do racionalismo. que se anuncia no concílio de Trento . Se uma perfeita discriminação e catalogação os deveres morais fosse absolutamente necessária à salvação. por exemplo. v. necessitava excluir. como o diz a calúnia consagrada em mito historiográfico — o gosto europeu de queimar bruxas e supostas bruxas. Um dos primeir os humanistas da Renascença. Seyyed Hossein Nasr. é substituído pela classificação das peças isoladas e mortas 109. desde a fundação do Santo Ofício em 1229 até os grandes autos-defé dos ulos XVI e XVII. A racionalização do dogma. v. 1965. dezoito séculos após a vinda do Salv ador. destinados a excluir da visão humana os comportame ntos desviantes que arriscassem macular a perfeição matemática da nova ordem 108. Allen & Unwin. ao mesmo tempo que se espalham por to da a Europa os hospícios e prisões. simplesmente. o espírito de formalismo legalista vai to mando posse da religião cristã em medida tal. A substituição do mundo da experiência pelos modelos matemáticos trouxe cons igo a mania da uniformização. divergente. Afonso de Ligório. os cristãos recebem o formulário completo de seus deveres e direitos. The Encounter of Man and Nature. os principais — Descarte s. apagar ou pelo menos esconder tudo o que fosse diferente. da j ardinagem à medicina. Plon. segundo uma hierarquia lógica rigorosa que não admite exceções. a natureza multiforme é substituída pe la regularidade de um tabuleiro de xadrez. Arnauld & Nicole — eram católicos fervorosos empenhados em fundar nu ma construção racional perfeita a conversão dos descrentes. um incêndio devastador em ple na Idade Moderna. Malebranche. Os exemplos poderiam multiplicar-se ad infinitum. pela primeira vez na história do Cristianismo. da simplificação geométrica que. onde já não há mais lugar para a incerteza nem para o pecador. A Companhia de Jesus afirma-se desde o início como um utopismo reformista.

a Natureza ). criação absolutament e genial pela qual os filósofos demonstram um desinteresse verdadeiramente patológic o. 110 Não vai nisto o menor intuito de depreciar a obra de Sto. . Afonso. Apenas digo que ela atende menos a uma necessidade intrínseca da fé cristã do que a uma necessidade extrínseca imposta pelas condições da época.

perdida a via de acesso à espiritualidade autêntica. por exemplo. Por toda parte. sentimentalistas e român ticas no domínio religioso. Que. De imediato. como se o enfraquecimento do corpo fosse por si um mérito espiritual e como se não pudesse hav . em substituição à espiritualidade religiosa. nascida. sob o impacto das idéias de N icolau de Cusa. ( 4ª ed. No curso desse processo. não é de estranhar que. de fato. de alimentos densos em proteína. Rio. J. o ocultismo e o espiritism o.100 OLAVO DE CARVALHO dos regulamentos encontrarão mais tarde alívio no protestantismo romântico 111. aos olhos da multidão. seu efe ito foi a de diluir na consideração da infinitude espacial a capacidade humana da in tuição espiritual. Nela está a raiz da perve rsão moderna que atribui à ciência natural a tarefa de guiar espiritualmente a humanid ade. religioso em suma. que fará explicitamente da c iência natural uma religião. numa proliferação ilimitad a dos focos de atenção espiritual. para concentrar-se na única coisa necessária. sem verdadeiro sentido moral. afinidade que se explica facilmente pela sua origem comum na cosmovisão renascentista. cada vez mais absorvida na varie dade da manifestação cósmica e cada vez mais distante de todo princípio metafísico capaz d e fundar critérios legítimos de validade do conhecimento. Tal como entre os primitivos bantos. passassem a ser tomadas como espirituais as forças da natureza cósmica simplesmente mais sutis e afastadas da realidade sensível imediata. A Crise do Mundo Moderno. isto é. com freqüência — e não só por populares ignorantes — como um verdadeiro nônimo do espírito. alguma coisa de ascético. ao contrário. no mundo moderno. Esta concepção provocou. o prestígio s acerdotal da casta dos cientistas. é apenas o primeiro sintoma da tendên cia centrífuga que daí por 111 Sobre a ascensão progressiva das doutrinas irracionalistas. Agir. apenas sem ganho espiritual . o que ainda aumenta mais.. logo em seguida. Leonel Franca. no sentido de um esforço de opor-se à natureza. in do direto à infinitude metafísica e passando por cima de todos os indefinidos merame nte quantitativos da ordem cósmica. A fuga do mundo rea l para o dos esquemas ideais matemáticos tem. Mas ao mesmo tempo que o “espirituais” Allan Kardec e Madame Blavatski restauravam assim sem sabê-lo a física ep icúrea. como matéria rarefeita. como um sucedâneo mundano da ascese espiritual. s. A redução da religião a um mero sentimento interior jamais teria encontrado eco se não fosse p recedida pela redução da religião a um juridicismo racionalista. um dos grandes livros brasileiros que já nenhum bras ileiro lê —. a sub stituição da realidade sensível pelos seus equivalentes racionais e matemáticos vai se i mpondo. A doutrina da sutilização encontrará na entra da do século XX um poderoso suporte verbal na nova física de Einstein e Planck. explicarão o espírito como uma sutilização ou diluição da matéria. a desapar ição do deus infinito expande desmesuradamente o panteão cósmico. Coi ncidência nada fortuita: o afluxo maciço de militantes socialistas às fileiras do espi ritismo e do ocultismo — um dos fenômenos mais marcantes da vida mental das classes letradas no século XIX — mostra a existência de uma afinidade entre essas duas corrent es de idéias aparentemente antagônicas. porém. Mas é uma ascese puramente cerebral. Giordano Bruno tenha desenvolvido as fantasias mais exacerbadas a propósito da pluralidade dos mundos habitados. será tomada. 1955 ). o materialista Karl Marx redigia sua defesa de Epicuro contra Demócrito. A matematização da natureza é empobrecimento sensorial. enquanto oposta à matéria densa do mundo visível.êta país ingrato! diante se apossaria da intelectualidade européia. O processo iniciado por Nicolau de Cusa encon trará sua culminação quatro séculos depois com Augusto Comte. a disseminação de milhares de pseudomísticas e pseudo-esoterismos que prometem. O equívoco funda-se numa visão estereoti pada — e bem materialista — do ascetismo religioso como mero empobrecimento sensoria l. do Pe. elevá-lo às supremas alturas do conhecimento espiritual — privando-o. amplamente disseminados entre as camadas letradas. pela “sutilização” do corpo do discípulo. A falta do ganho espiritual é em seguida compensada pela riqueza das aplicações técnic as advindas da ciência. inte rpretada retoricamente: a noção física de “energia”. assim. espiritual. tidos como espiritualmente prejudiciais. v. e da casta científica um clero. No século XIX.

da ampliação do univ erso sensível inaugurada no Renascimento. Foi a esta caricatura que o Dalai Lama. onde toda a diferença entre as ca madas superiores e inferiores se reduz à escala quantitativa do grosseiro e do sut il. chegamos à concepção dominante de um universo totalmente achatado. denominou “materialismo espiritual”. a . unidimensional e opressivo. c om certeira concisão. como se. por exemplo.er místicos gordos ou santos musculosos. Eis aí como.

eram apenas um gigantesco esforço . Na realidade. E. sobretudo dos físicos.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 101 diferença de planos entre a tinta em que se imprime estas letras e o espírito do aut or que as escreveu pudesse ser transposta com a maior facilidade mediante a simp les diluição progressiva da tinta. por força delas mesmas. Não é nada estranho que. mas não em festejar esse acontecimento. Meu artigo estava muito certo em diagnosticar a formação de uma nova casta sacerd otal composta de cientistas. com os c onhecimentos científicos mais elevados e complexos. “O caráter fictício dos princípios. e já não têm mais o espírito de elevada seriedade que. acostumados a viver num universo de concepções admitidamente fictícias. mediante um novo sistema de medições. XVI. substitui a autêntica sêde espiritual. astrofísicos. É aterrador ver como os cientistas da comunidade que Raymond Ruyer de nominou “gnósticos de Princeton” se divertem concebendo “modelos de universo”. um filósofo imbuído das concepções mais moderna e avançadas recair. seria inerente à i déia de ciência. de direito. na fantasia pueril do materialismo epicúr eo. La Gnose de Princeton. V. pontificava. sendo verídico o bastante. pela confusão entre o céu visível e o céu espiritual. astrônomos. apenas i nventou um modo melhor de provar que ela tinha razão. permanece parado ou em movimento retilíneo e uniforme. Os “deuses astronautas” atendem em toda a l inha os requisitos da imaginação moderna. Penitencio-me agora ante o grande romancista: ele tinha ra zão. Cap. sem a menor preocupação de indagar se algum dia esses modelos foram levados à prática 113. e que Galileu. Fayard. Nas Sombras do Amanhã. conseguiu apenas explicar po r que ele permanece parado. por cim a de dois milênios de evolução do pensamento. Mas um fundo de charlatanismo parece já ter sido introduzido na física por Galil eu. V. O dogma da sua própria honestidade intelectual int rínseca parece impedir os físicos de perguntar se não há algo de errado no que estão fazen do. Ora. vendo neles um defeito da realidade mesma e jamais da estrutura da sua ciência. nela. Paris. dizia Einstein. segundo a qual um objeto não impelido por uma força externa permanece parado — uma ilusão dos sentidos. de um lado. Homens adultos que encaram a vi da como puro jogo estão gravemente afetados de puerilismo. vejo agora. 2e. n o século XX. Galileu não contestou a física antiga. Ou seja. por essa via. esclar ecia discretamente que o movimento retilíneo e uniforme não existe realmente.. éd. é p erfeitamente evidenciado pelo fato de ser possível apresentar duas bases essencial mente diferentes. e em resposta levei um discreto puxão-de-orelhas de Octávio de Faria. um objeto em tais condições. exatamente como o dizia a física antig a. Raymond Ruyer. nas cabeças de muitos pensadores de hoje. a civilização do O cidente. segundo e le 115. e de outro pela necessidade de uma mise-en-scène “científica” p ara os mitos grosseiros com que vai satisfazendo como pode a ânsia do maravilhoso que. Uma certa perda do senso de realidade parece uma doença profissional crônica da classe dos cientistas. marcada. Quando saiu a primei ra edição. que ele permanece parado em todos os casos. . Des S avants à la Recherche d’une Réligion. rigorosamente. Eis aí como uma cosmovisão de um prima rismo deprimente pode conviver. se o objeto não movido de f ora permanece parado ou tem um movimento fictício. 1977. pelas páginas da Última Hora do Rio. Foi este episódio que inaugurou a ma nia dos cientistas modernos de tomarem simples mudanças de métodos como se fossem “pro vas” de uma nova constituição da realidade. em 1974. cada uma das quais atingindo em suas conseqüências um alto grau de concordância com a experiência” 114. ao culto dos extraterrestres. e que o testemunho dos senti dos. quando proclamou ter superado a noção da ciência antiga. matemáticos etc. É mais ate rrador ainda ver como essa gente se 112 113 acomoda a todos os piores ilogismos. As especulações d e Princeton. mas é um a ficção concebida pela mente para facilitar as medições. tendo pretendido superar toda mitologia religiosa. não tem em si a prova da sua veracidade — coisa que já e ra arroz-com-feijão desde o tempo de Aristóteles. acabasse chegando. coeridas som ente pelo convencionalismo de uma regra de jogo. fiz na revista Planeta os maiores elogios aos garotões de Princeto n. no sentido de Huizinga 112. isto significa. Eis aí também como é possível. após ter assim derrubado a física antiga.

reconhec e que os físicos hoje em dia “já não sabem do que estão falando”. da “hipótese Deus”. . Valter Pontes. Witt genstein e Frankenstein. Cap. mas acha isso divinomaravi lhoso.de pedantismo espiritual para fugir. como obse rvara Octávio de Faria. Einstein. Reinventando o Universo. 114 Cit. Companhia das Letras. I. Brockmann. São Paulo. Einstein e Infeld. um escritor científico de sucesso. A Evolução da Física. 115 V. Gertrude Stein. trad. em John Brockmann. pelo atalho gnóstico. 1988.

e ele pode portant o ser rejeitado por quem acredite. 2. mesmo aceitando-se o pressuposto dos infinitos atuai s. os números não seriam pares. produz sse samba-do-alemão-doido.. 4. con firmando o argumento de Cantor. Nesse sentido. A noção de “conjunto” é que. O conjunto dos números inteiros pode conter mais signos numéricos do que o conjun to dos números pares — já que abrange os signos de pares e os de ímpares —. Cantor e seus epígonos acreditavam estar derrubando. Mas. A tese de Cantor esc orrega para fora dessa obviedade mediante o expediente de jogar com um duplo sen tido da palavra “número”. é porque tanto n + 1 como n . mas é a própria série dos números inteiros. portanto. quando o fato é que. Po rtanto — e eis aqui a falácia de Cantor —. nunca atual. teremos aí um conjunto ( infinito ) de signos ou cifras .. mas uma única. pois o conjunto dos números pares seria de pares se seus elementos não pudessem ser ordenados de dois em dois numa sér ie ascendente ininterrupta que progride pelo acréscimo de 2. destacada abusivamente da noção de “série”.. ora usando-a para designar uma quantidade definida com propr iedades determinadas ( entre as quais a de ocupar um certo lugar na série dos número s e a de poder ser par ou ímpar ). isto não significa que se trata de duas séries realmente distintas . Se a série dos números i iros pode ser representada por dois conjuntos de signos. onde o requinte dos argumentos engenhosos coexiste com a total falta de sensatez. 8 . assim. “4” é um signo. mas não uma maio r quantidade de unidades do que a contida na série dos pares. junto com um princípio da geometria antiga. pode ser posto em correspondênci a biunívoca com ele. na qual se baseia o pretenso argumento. sendo ambos infinitos. contada ou nomeada de uma determi nada maneira. um só de pares. é unicamente a soma imp lícita das unidades não mencionadas que faz com que a série de pares seja de pares. e. a demonstração de Cantor é apenas um jogo de palavras. e nenhum número poderia ser considerado par se pudesse livremente trocar de lugar com qualq uer outro na série dos inteiros. 6. que o infinito quantitativo é só p otencial. e sim a quantidade 4. 4 . ou seja . 2. nunca de 1. e bem pouco engenhoso no fun do.102 OLAVO DE CARVALHO Mas no campo das matemáticas foi o deslumbramento com a idéia do infinito espacial e quantitativo que levou a mente humana às piores esquisitices. Mas isso é confundir os números com seus meros signo s. Esse raciocínio baseia-se na suposição de que tanto o conjunto dos números inteiros como o dos pares são conjuntos infinitos atuais. é verdade que. ntada de duas maneiras: a série dos números pares não é realmente parte da série dos números inteiros. também uma crença estabelecida do senso comum e um d os pilares da lógica clássica.1 são ímpares. descortinando assim os horizontes de uma nova era do pensamento humano. 3. não há aqui duas séries de números. dando a aparência de que os números pares podem constituir um “conjunto” independentemente do lugar de cada um na série.. os dois conjuntos terão o mesmo número de elementos. e mbora sendo parte do conjunto dos números inteiros. Em primeiro lugar. fazendo injustificada abstração das propriedades matemáticas que definem e diferenc iam os números entre si e. se não fosse contada assi m. “2” é um signo. de modo que os dois conjuntos teriam o mesmo número de elemento s e. A série dos números pares só é composta de pares porque é contada de dois em do is. abstr aída a posição na série. ora para designar o mero signo de número. abolindo implicitamente também a distinção mesma en tre pares e ímpares. saltando-se uma unidade entre cada dois números. quisermos destacar por signos ou cifras especiais os númer os que representem pares. a cifra. outro de pares mais ímpares.. com Aristóteles. Só para dar um exem plo: O célebre Georg Cantor acreditou poder refutar o 5º princípio de Euclides ( de qu e o todo é maior que a parte ) pelo argumento de que o conjunto dos números pares. não há mais paridade ou imparidade nenhuma. seja ela representada por esse signo ou por quatro bolinha s. “Paridade” e “lugar na série” são conceitos inseparáveis: se par.. nesse conjunto. n 2n = n Com esta demonstração. e se. as não é o signo “4” que é o dobro de 2. a parte seria igual ao todo: 1. isto é. então teremos um “segundo” conjunto que será parte do primeiro . se representarmos os números inteiros cada um por um signo ( ou cifra ). De nada adianta aqui recorrer ao subterfúgio de que Ca ntor se refere ao mero “conjunto” e não à “série ordenada”...

A confusão que existe aí é entre “elemento” e “unidade”. Um conjunto de x uni- ..

no fundo. ten do contado sete bolinhas. os princíp ios lógicos que validam por sua vez a idéia mesma de experiência científica o que é mais o u menos o mesmo que tentar cobrir um cheque sem fundos mediante depósito constituído do mesmo cheque. como o próprio Piaget mostra em outros trabalhos. ocasionando a exacerbação imaginativa do concei to de infinitude espacial e quantitativa. No seu “argumento” não se trata de uma verdadeira distinção entre todo e parte. danos profundos à inteligência humana. Em sua hostilidade irracional contra a idéia mesma de princípios universais. sem o espaço. garante que elas são oito ou nove tão logo sejam alinhadas com intervalos maiores. não se pode falar então de uma igualdade de elementos entre todo e parte.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 103 dades contém certamente o mesmo número de “elementos” que um conjunto de x pares. “Quando sete bolinhas se tornam o ito ou nove como um elástico de sete centímetros que atinja oito ou nove. diversamente denominado. Em Sabedoria e llusões da Filosofia 116. mas esqueci quais. O que Cantor faz é. substancializar ou mesmo h ipostasiar a noção de “par” ou “paridade”. mas sim de uma comparação me ramente verbal entre um todo e o mesmo todo. de uma refutação do 5º princíp io de Euclides. não poderia deixar de. Deduziu errado. senão não escreveria essas coisas. no conjunto aumentado para oito bolinhas. é o mesmo pr incípio de identidade ou um princípio um pouco diferente?”. além do “desencantamento do mundo”. caso contrario ele não poder ia reconhecer. enc arando o conjunto como uma síntese confusa de ambas. o garoto apenas mostrou perceber que o aumento e a diminui116 . a diferença dos respectivos sensos d e identidade? Ao contrário: o erro cometido pelo garoto subentende uma consciência d a identidade absolutamente igual à das pessoas adultas. ele teria de ser um menino um pouco mais velho. Cantor erra o alvo por muitos metros. é apenas o sinal da revolta i mpotente da imaginação matemática exacerbada contra a ordem real das coisas. portanto. e que os pares possam ser contados como co isas e não como meras posições intercaladas na série dos números inteiros. Uma das estratégias a que se recorre para esse fim é a de apelar ao testemunho da experiência científica para tentar invalidar. sem acréscimo de nenhuma. é claro. Esse expediente pueril é a marca registrada do psicologismo (red ução das relações lógicas a “fenômenos da mente”) — um estilo de pensar que continua desfruta e certo prestígio nos meios universitários pela única razão possível de que ninguém aí leu su refutação por Edmund Husserl. encarna de maneira exemplar. com base nela. ele contesta a un iversalidade do princípio de identidade. o garoto simplesmente não distinguiu entre quantidade discr eta (o número de bolinhas ) e quantidade continua ( a distância linear ocupada). para o que. pergunta Piaget. muitos pensadores científicos — inclusive alguns bem grandes — ch egam a apelar para subterfúgios perfeitamente indignos de homens de ciência. o mesmo conjunto que an tes tinha sete. o menino teria de subir mais um grau de abstração. mas o que é que isto tem a ver com a universalidade (ou não) do princípio de identidade? O que houve no caso fo i apenas uma dualidade de significados atribuídos ao termo “bolinhas”: o experimentado r referia-se ao conjunto aritmético — abstrato — das sete bolinhas. Ora. É preciso estar dormindo ou hipnotizado para não perceber que. nem. a longo prazo. Para levar em conta somente as bolinhas. A perd a do sentido da infinitude metafísica. como deduzir. fundando-se no exemplo do garoto que. tr azer. Que sofismas tão grosseiros possam passar como sérias ameaças aos fundamentos da geometria clássica e mesmo aos pr incípios da civilização que herdamos da tradição greco-romana. no caso. que aquel a tradição. supondo que um número qualquer possa ser par “em s ndependentemente de seu lugar na série e de sua relação com todos os demais números (inc lusive. e do aumento da quantidade co ntínua deduziu o da quantidade discreta. mas não o mesmo número de unidades. o garoto à figura co ncreta das bolinhas distribuídas num determinado espaço. Um tris te exemplo é Jean Piaget. com sua própria metade). E ironiza : “Meus filósofos tinham respostas prontas. com todos os seus defeitos e limitações. Não se trata ndo de um verdadeiro todo e de uma verdadeira parte.” Deve ter mesmo esqueci do. que ultra passam uma perda meramente estética para reverberar numa destruição do fundamento raci onal das ciências. da diferença da capacidade de abstração entre adulto e criança (ou crianças de idade desigual).

P. várias reedições ). 83 da edição Os Pensadores ( São Paulo. Abril. Ed. .

Quando err os tão primários se introduzem nas mais altas cogitações científicas e ninguém se dá conta de sua presença. os valores que bal izam a cientificidade da ciência ). uma quase-substância. não se dá conta sequer de que deduzir d o fato da confusão entre bolinhas e espaço uma dualidade de princípios lógicos não é outra c oisa senão passar do fato ao valor — um psicologismo dos mais descarados. ou substantia secundum quid. Kuhn e Michel Fou cault enfim reduziram a história das ciências à sucessão mais ou menos arbitrária de “paradi gmas”. portanto. mas reconhece a filosofia como uma “ati vidade de coordenação dos valores. Que os todos matemáticos devam ser encarados como unidades. eles abalaram não somente a confiança nas ciênci as existentes. no sentid o aristotélico ( “este coelho é este coelho”). Essa passagem requer uma subida do grau de abstração.104 OLAVO DE CARVALHO ção não alteram a identidade. como se ela não estivesse. que agia de maneira vivente n as ciências desde Platão. em s i. logo a seguir. que a de um “conjunto”. Mas como é que um princípio de coordenação poderia não s er de algum modo “superior” aos elementos coordenados? E como seria possível coordenar valores de veracidade científica sem fundar-se num critério de veracidade cujos fun damentos fossem admitidos como verdadeiros e dotados. independentemente de não terem uma unidade substancial. de fato. nova re tórica. que é apenas uma unida e convencional. e o que não se compr eende é como a criança poderia passar de um nível de abstração a outro sem a permanência do senso de identidade. e é algo que os adultos percebem da mesmíssima maneira que ele. inclusive cognoscitivos” ( isto é. cujo prestígio elas tinham simplesment e usurpado. é claro que é ma is fácil reconhecer a identidade de uma substância dotada de unidade real. ademais. coloca continuamente a exigência de não admitir nenhum saber para o qual não seja p ossível dar conta em razão de princípios originalmente primeiros e. epistemes ou pré-esquemas cognitivos semiconscientes que entram e saem de cen a por motivos geralmente irracionais. Ele rejei ta toda pretensão da filosofia a constituir um conhecimento “superior” à ciência ( e mesmo de constituir um conhecimento qualquer ). que admite como um dogma o pressuposto kantian o de que não existe passagem do fato ao valor. Sua força de impulsão interna não é mais constituída por aquele radicalismo que. De outro lado. é que o diálogo acadêmico se tornou algo como a conversação de hipnotizados no jardim de Epicuro ou como uma sessão do Santo Da ime — todo mundo doidão.. que é a utor de um Tratado de Lógica. Destituídas a um tempo a rainha autêntica e a falsa. é perfeitam ente ilógico sempre que trata de situar as relações entre ciência e filosofia. como se essa c iência fosse a única possível. mas no ideal mesmo de ciência. Piaget pretende ver uma dualidade de princípios lógicos onde há a penas uma diferença entre os aspectos percebidos por dois indivíduos num objeto que ambos sabem ser o mesmo. contentando-se em ate nder às exigências de praxe de um protocolo “experimental” no qual já nem acredita mais e cujos fundamentos já desapareceram sob grossas camadas de esquecimento.. muito abaixo das poss ibilidades contidas no próprio conceito de “ciência”. ela abandonou o radicalismo da auto-responsabilidade científ ica. Aliás Piaget. não é de espantar que. por assim dizer. perfeitam ente evidentes. Edmund Hus serl descreve nestes termos a decadência do ideal científico nas ciências do século XX 1 17: “A ciência moderna abandonou o ideal de ciência autêntica. um “todo matemático”. o que é perfeitamente aristotélico. neo-epicurismo — é o cortejo todo dos velhos irracionalismos que retorna à cena. os fracassos de um a ciência assim degradada viessem a ser tomados como argumentos contra a possibili dade mesma de qualquer conhecimento científico universalmente válido. Quando Thomas S. acrescentando o toque 117 . o trono foi entregu e à ambição de todos os antigos pretendentes: neopragmatismo. de validade cogn itiva? No fim das contas. neo-relativismo.” Dado esse estado de coisas. eis aí algo que a criança só poderá admitir quando sua mente for adestrada para aceitar como premissas do raciocínio os convencionalismos matemáticos. É que a ciência desistiu de ser científica. Piaget.

. trad.. Paris. 1957.F. Suzanne Bachelard.U. P. Logique Formelle et Logique Transcendantale. 7-8. pp.Edmund Husserl. Éssai d’une Critique de la Raison Logique.

mas entraram desde logo n um antagonismo aparentemente insuperável: a ampliação do espaço gera as modernas ciências físico-matemáticas. a descoberta da dim ensão histórica foi uma revolução espiritual de vasta envergadura. — (I) A força dos meios Mas a descida do foco de atenção espiritual que preenche o vazio deixado pela Divind ade suprema mediante a multiplicação dos deuses cósmicos não estaria completa se. a descoberta de novos e poderosos instr umentos intelectuais abre ao homem a visão de continentes insuspeitados. assim também a compreensão aprofundada dos detalh es filológicos do texto bíblico gerará polêmicas sem fim nas quais acabará por perder-se o sentido essencial do conjunto. Assim com o a cosmologia de Nicolau pretendia dar uma nova visão da natureza que fosse mais digna de representar a manifestação da infinitude divina. A perd a do sentido da infinidade metafísica. a visão do univer- . Do mesmo modo. no Ocidente. assim como Galileu e Newton não poderiam ter formulado cientificamente a mesm a idéia se contassem apenas com os recursos matemáticos de Arquimedes ou Nicômaco. nasce de um desejo de comp reender melhor as Santas Escrituras. foi compensada pela descoberta das duas dimensões horizontais do mundo físico. formand o duas culturas separadas e hostis. ao singular. À revelação da infinitude espacial seguiu -se a da infinitude temporal: ao materialismo seguiram-se o historicismo e o pro gressismo. em lugar do cosmos fixo e repetitivo do racionalis mo mecanicista. a descoberta do senso histórico origina as ciências humanas. não se somassem as do tempo. O historicismo oporá a essa concepção três novas idéias: 1ª. quer dos racionalistas e empirista s. Nenhuma descoberta se faz sem instrumentos. de uma reação contra o abstratismo. O sintoma mais agudo dessa perda é que as duas novas dimensões descobertas nunca puderam ser articuladas entre si. Segun do o grande historiador do historicismo. Ela opera uma ruptura do pensamento europeu com o universalismo abstratista dos gregos. nasce de um sadio movimento em direção ao concreto. A divinização da História fará. ao sensível. Ele nasce. de que se originarão o historicismo e o progressismo. com efeito. E m ambas essas linhas de desenvolvimento. assim também a crítica histórica . O historicismo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 105 final de demência sem o qual não estaria completa a saga alucinante dos deuses do es paço. mas a amp liação do leque de coisas visíveis se faz às custas da perda do senso de unidade e hiera rquia do real. em suas origens. nada tem que se pareça nem de longe a uma nova id olatria. Ambos os movimentos que geraram a irreligiosidade moderna originaramse de dentro do campo religioso e sob o estímulo de impulsos religiosos. muito menos a uma idolatria do abstrato. onde todas as tentativas de conciliação e síntese têm falhado. E assim como a ampliação quantitativa do univer so físico conhecido produz a dispersão da inteligência numa poeira de fatos cada vez m enos dotados de significação metafísica. cuja visão da n atureza humana como uma essência fixa e imutável permanecera dominante apesar de tod as as mutações espirituais da Idade Média. às divin dades do espaço. Nicolau não poderia ter cap tado a infinitude espacial sem o prodigioso desenvolvimento da dialética na Idade Média. e que após o Renascimento adquirira um novo v igor através da concepção do direito universal — uma norma moral abstrata e universal im bricada na constituição do cosmos com a fixidez de uma lei física. A divinização do tempo. § 21. ou vertical. o advento do historicismo não teria sido possível sem a crítica histórica. Friedrich Meinecke. o papel do culto dos antepassados entre os Yorubas abandonados por Olorum. quer dos escolásticos.

FCE. ainda que em última instância sejam redutíveis a um princípio comum unitário. Por toda p arte uma interação de liberdade e necessidade. que 118 lhes é inerente. que brotam de um ponto central interior. isto não se deve a um desvio da realidade sensível em relação a uma norma abstrata de perfeição. A essas individualidades infinitas Leibniz denomi nava mônadas. mas sim a que a norma mesma. inward character e outr os nomes compostos sempre com inward. na sua própria constituição interna. mas um indivíduo singular vivente. inward order. cada uma total e completa em si mesma. têm seu “gênio” particular. a visão da inesgotável varied ade dos tipos e das individualidades. 27. na força normativa e estruturante. sendo portanto o pr incípio da conservação da unidade na mudança e pela mudança. mas pouco compreendido. para ele. inward structure. El Historicismo y su Génesis. ela reside na individualidade concreta. ela é o princípio interno da sua diferenciação. recriando-se continuamente. se por toda parte impera a ordem e a harmonia. não é porque desde fora e desde cima uma lei universal oprima e regre o curso das ações individuais. Cada ser singular tem em si uma força interior e spiritualmente estruturadora que o singulariza e que é como que o algoritmo de tod as as transformações por que ela passará no curso de sua existência. onde há lugar para o imprevisto e a criativid ade. mas porque cada ser individual tem em si. Deus mesmo não é um conceit o universal abstrato. a matéria não poderia. Todos estes pensamento s podiam um dia dar passagem a uma mais profunda compreensão da história. um obscuro professo r de retórica da Universidade de Nápoles. Todas as formas particulares. da sua singularidade. a qual se corrompe e se desfaz sem que a nossa pessoa se desfaça junto. a imagem do universo inteiro. dinâmico. José Mingarro y San Martín y T omás Muñoz Molina. trad. Tanto a causa do ser quanto s ua beleza e o princípio de sua permanência idêntica residem na forma. Até aqui. de uma idéia formadora. O passo seguinte na formação da consciência historicista vem com a filosofia de Leibni z. o macrocosmo de microcosmos que refletem a infinitude da unidade supr ema na forma por assim dizer quantitativa da infinitude de suas imagens microcósmi cas. engendrar as plantas. a intuição da personalidade humana como um p rocesso que se desenvolve e se cria no tempo. 3ª. Mas essa “idéia”. cujo pensamento foi solenemente ignorado p . a lei suprema do universo é a lei da individualidade irredutível. Shaftesbury chama-a inward fo rm. p. por dar às suas idéias uma expressão talvez demasiado informal e literária. O terceiro passo foi dado por Giambattista Vico. Se não há dois seres human os iguais ou duas folhas de árvore iguais. pairando no céu das idéias puras acima das individualidades concretas: ao contrário. México. Tud o quanto se cria ou é criado comporta estrutura e forma e. Se a pluralidade inesgotáve l das individualidades não se perde no caos e na confusão. animais e homens. Friedrich Meinecke assim resume a contribu ição de Shaftesbury à formação do historicismo 118: “O mais importante nesta doutrina é o primeiro reconhecimento do princípio de individu alidade. Ela enfatiza que toda a realidade é composta de individualidades. que nada tem existência sob a forma do genérico. em lugar da “natureza humana” abstrata e universal. cada uma irredutivelmente singular e diferente de todas as demais. é de novo forma estruturadora. que se torna sempre patente em sua beleza. através da ação da vida. por um movimento mecânico. O universo compõe-se de universos. na “idéia”. 1943 ( original alemão de 1936 ). não é o conceito de um gênero ou uma regra abstra a universal. do homogeneamente idêntico. uma riqueza de estruturas peculiares.106 OLAVO DE CARVALHO so como um processo vivente. 2ª. Segundo Shaftesbury. Shaftesbury não fala diferentemente de um platônico o u neoplatônico. na medida em que não se f ormou uma mera corporeidade.” Friedrich Meinecke. Uma de suas primeiras manifestações da nova mentalidade é a estética do Conde de Shaftesbury (16711713). acabo u por vê-las rotuladas pela posteridade como the sublime of nonsense — sinal de que foi muito amado. um grande pensado r que. inward constitution. A unidade idênti ca de nossa própria personalidade não pode arraigar-se na matéria.

que tomava em geral as ciências físicas e matemáticas como o protótipo mesmo do conhecimento seguro. só Deus tem um conhecimento certo e perfeito da natureza. conhece muito bem os seus a tos e pensamentos. Vico asseg urava que cada ser só pode conhecer perfeitamente bem aquilo que ele próprio faz. Logo. O homem. o co- . Nadando na contracorrente de sua época. que são criações dele mesmo. Co mo a natureza não foi feita pelo homem.elos contemporâneos. e sim por Deus. por seu lado.

como História. Ele é. mas o da História. Vico já não se limita. É inteiramente errône a a visão estereotipada da Idade Média como o período da filosofia cristã por excelência. ao expressar-se em atos. era um pensamento coisista: via o homem à imagem das coisas. Além do fa to histórico de que todos os fundadores da filosofia moderna eram cristãos piedosos e movidos por intuitos apologéticos declarados. Mas os primeiros passos na direção do historicismo devem ser consi derados marcos memoráveis no sentido da cristianização da filosofia. saltava sobre quase dois milênios de herança grega para voltar à visão do Gênesis. com sua visão do universo como uma harmonia vivente. em cujo altar foram sacrificados milhões de indivíduos humanos. ao descrever a história como história da consciência. individual ou coletivamente. As coisas sucedem diferentemente porque em épocas diferentes os homens. como imaginava Descartes. assegura ele. a base dos conhecimentos humanos. e da Idade Moderna como época da ruptura da filosofia com o cristianismo. temos de penetrar no conhecimento de suas diferenças — não só de indivíduo a indivíduo e de povo a povo. o primeiro a enfatizar as diferenças de temperamentos e inclinações entre indivíduos e povos como causas dos grandes aconte cimentos. e por isto mesmo. tendia a fazê-lo nos mesmos termos com que falava das coisas do mundo externo. resu ltou numa divinização idolátrica do tempo e do processo histórico. mas dos indivíduos. tal como Leibniz. cegos. hostil à doutrina cristã da imortalidade da alma (Aristóteles. o último dos gra ndes escolásticos medievais. o Doutor Sutil. mas não pôde livrar-se completamente do resíduo coisista. raramente são movidos por concepções filosóficas raci onais e coerentes: em geral eles agem cada qual por motivos subjetivos. Do mesmo modo. das correspondências simbólicas. querem coisas diferentes. como veremos adiante. coerido pelos laços da simpatia. da analog ia. O verdadeiro cogito. saltando por cima do cosmos. não acreditava. de ordem interior. tomada como o protótipo mesmo da r ealidade. Vico. Para usar o termo genial de Orte ga y Gasset. que é rebaixado à função secundária de u cenário ou de um reflexo do drama principal. não está. de fato.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 107 nhecimento mais seguro não é o da física. o pensamento cristão é centrado na relação homem-Deus. o “progresso”. buscando nele o mesmo tipo de estabilidade e fixidez que o estudo das ciências físicas buscava nas leis da natureza. a ênfase de Leibniz na singularidade como princípio d o real é um eco da hæceitas scotista. Vico. queda redenção do homem. egoístas e irracionais. divergira de toda a tradição escolástica para afirmar que não existem idéias eternas ou modelos universais somente das espécies e gêneros. na imortalidade da alma individual). quando falava do homem. Os homens. O pensamento grego era fundamente marcado por uma visão objetivistaexterior. do alto. Se o conjunto inesgotável das motivações individuais. quase se mpre mesquinhos. Esses três pais-fundadores do historicismo estavam. John Duns Scot. mas ergue o edifício inteiro da nova filosofia — a interpretação da realidade c omo processo. acredita piamente na Providência. é porque há uma força maior que. como epopéia da criação. Para . O historicismo. e em última instância no culto de uma idéia abstrata. É que toda a herança do pensamento grego e ra centrada na noção do cosmos. É impossível não ver em Shaftesbury a marca da mística neoplatônica. à visão do universo como processo temporal. com todas as diferenças i rredutíveis que os singularizam. resgata ndo valores da espiritualidade antiga e medieval soterrados sob a uniformização raci onalista. para quem o conhe cimento a rigor versa somente sobre os gêneros e as espécies. A escolást ica medieval deu passos gigantescos no sentido de cristianizar a filosofia. Mesmo quando falava de realidades espirituais. o qual se passa na alma humana. por seu lado. a lançar fund amentos. Para entendermos o curso das coisa s. mas de uma fase para outra no desenvolvimento de um mesmo povo e de um mesmo indivíduo. da natureza sensível. o filósofo grego tendia a vê-las como uma imagem e semelhança das coisas do mundo sensível. A visão de uma pluralidade de ações más produzindo um resultado bom é profundamente cristã. que se recorda de suas ações e pensamentos e p ode narrá-los. na verdade. num eu pensante abst rato e universal. não produz como efeito apenas o caos. como seus dois grandes antecessores. Ora. harmoniza as várias ações humanas no sentido de um resultado benéfico. mas no eu concreto. no Ocidente. Scot acreditava que a hipótese contrária era um resíduo pagão. a filosofia moderna é cristã por um mo tivo muito mais fundo.

não é o homem que tem de ser descri- .quem Deus fez o mundo?. Logo. perguntava o catecismo da nossa infância. Teilhard de Chardin. E respondia: pa ra o homem. O homem. dirá o Pe. centro de perspectiva da criação cósmica. é também o seu centro de co nstrução.

é perfeit amente injusto ignorar que um giro em direção às individualidades concretas. Ora. até Sto. De outro lado. a escolástica inteira. Ele só pode ser descrito segundo uma ótica que leve em consider ação. Só a História pode dar con ta da complexidade da visão da vida humana como drama da salvação. Pascal. por um lado. contra o abstratismo racionalista. e sim socialmente: novas formas de atividade intelectual começavam a desenvolver-se fora da universidade (da Escola). com Descartes e Montaigne. mas a valorização do drama humano como centro da realidade cósmica é. Mas aí a escolástica já estava esgotada — não intel ectualmente. em oposição ao mecanicismo. É preciso. e na escolástica ela só foi abrindo caminho muito lentamente. no fundo — e coexistindo. f orjar seu destino. A mud ança do cenário social da atividade filosófica muda o estilo de filoso- far e até de escrever sobre filosofia. É preciso. e os grandes pensadores da época subseqüente. T omás. é preciso contar com a interferên cia dos meios e instrumentos. É mais do que evidente que um ser assim constituído não pode ser eficazmen te descrito por uma antropologia coisista. Daí a aparência de uma ruptura drástica onde há. bem como 119 É por isto que não posso concordar inteiramente com o insigne Friedrich Meinecke qua ndo enfatiza de maneira um tanto unilateral o peso da influência neoplatônica nas or igens do historicismo. para descrever o homem. não fazem senão prosseguir no sentido da cristianização crescente uma evolução a que a esco lástica. liberdade e necessidade. esta dimensão es tava completamente ausente do pensamento grego. o “progresso” — sob cuja figura obsessi dominante desapareceriam. sem dúvida alguma. saiba encaixar harmoniosamente essa variedade no quadro das determinações cósmica s e divinas que limitam a liberdade humana. Como foi possíve l. na unidade de um desenrolar temporal real. a um só tempo. por ou tro. A descoberta ou redescoberta da dimensão histórica requeri a primeiro a superação da cosmologia naturalística grega. Como ninguém supera sem primei ro absorver. era uma retomada do que havia de melhor e mais genuíno e m Aristóteles. e sim investigadores independentes. fazer História. onipotente: logo. e logo em seguida a eclosão da conciência historicista. Mas Deus é Absoluto. a variedade e a imprevisibilidade das ações individuais e que. como imagens dos dois atributos di vinos fundamentais — a Infinitude e a Absolutidade — as duas correntes contrárias da l iberdade e da necessidade. a única rea . já não serão profissionais do ensino. já tendia manifestamente e com muita força 119. a imagem de Deus e a do indivíduo humano c oncreto? Nada no mundo se faz sem instrumentos. com Duns Scot. No homem confluem. cristã na base. pode ser considerada como um giga ntesco esforço de absorção da cosmologia grega no contexto cristão.108 OLAVO DE CARVALHO to à imagem e semelhança do cosmos. com elementos antagônicos como os assinalados no parágr afo anterior —. em suma. o “processo”. Spinoza. é claro. Descartes. O homem. então. Para Aristóteles. mas o cosmos à imagem e semelhança do homem. Entre o intuito e o resultado. que não se rendem plasticamente à nossa vontade mas im põem à sua execução toda sorte de obstáculos. é livre para tomar suas decisões. a raiz divina da imortalidade da alma. que o novo movimento em seguida tomasse o rumo da entronização de um novo de us cósmico — a “História” hipostasiada. Sua liberdade reflete a Infinitude divina. o homem está exteriormente sujeito às leis cósmicas e interiormente à lei moral. advindos do fato de que esses meios também têm sua forma e estrutura próprias. con ciliar dinamicamente. Do neoplatonismo pode ter vindo a imagem do universo como totalidade vivente. de algum emprego público como Leibniz ou de rendas de família como Descartes e Pascal. A forma da idéia não se encarna na matéria senão pela mediação da matéria. vivendo de algum ofício como Spinoza. afinal. contra o platonismo da nova física. dialeticamente. Leibniz. A superação começa soment com Duns Scot e sua teoria da hæceitas — a forma eterna da individualidade humana. e este à imagem e semelhança de Deus. por um lado. a continuidade de uma evolução coerente: a descoberta da subjetividade . que o encare como essência fixa sumetid a à operação de leis de causa-e-efeito uniformes como aquelas a que estão sujeitos os co rpos do mundo visível.

Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. .lidade efetivamente existente é a substância. é só uma grossei ra simplificação própria da cultura de almanaque que pode sustentar o mito de que o pe nsamento moderno é uma ruptura com o aristotelismo. Int rodução à Teoria dos Quatro Discursos. esta árvore — cujo conceito genérico é somente uma realidade s ecundária e derivada. um verum secundum quid. IAL & Stella Caymmi. sua metafísica. verdadeiro sob certo aspecto apenas. Do aristotelismo a filosofia m oderna só abandonou algumas parcelas da Física. e sobretudo Pen samento e Atualidade de Aristóteles. Como já afirmei em outros trabalhos ( v. editado em apostilas pelo IAL ). inteir amente desconhecida na Idade Média. ao mesmo tempo que revalorizava sua metodologia. sua teoria da linguagem e sobretudo sua Poética. Rio. o que quer dizer em suma a individuali dade concreta — este homem. 1994.

Mas foi a discussão em torno deles — e sobretudo o impulso de tirar conseqüências filosóficas diretamente das conquistas técnicas. que se introduzem os desvios.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 109 sua própria matéria. A casta era internacional. Sua atmosfera verbal já não é a seca terminologia técnica da dialética e scolástica. Qualquer coisa serve: uma carta. pedaços de velh as estátuas. correspondem diferentes mestres: os medievais tinham encontrado os seus em Platão e Aristóteles. já não entre seus colegas de ofício. Estes instrumentos representam uma conquista de valor inestimável. estudado. “Humanismo” significa o espírito museológico: o amor aos documentos vem junto com a mania das coleções — selos. recheada de florei os bajulatórios. empenhadas em imitar a beleza e persuasividade da literatura antiga. necessitava de instrumentos de i nvestigação. formada de homens que abandonavam se u torrão natal para instalar-se nos grandes centros universitários onde se falava um a língua supranacional. Para o letrado. O impulso de colecionar surge de um misto de motivos estéticos e oculti stas: atribui-se aos fragmentos de estátuas um poder mágico. pelo aluno que tem saudades da cabana o nde nasceu. O nov . um resíduo de mundanismo. irla ndeses. concreto e v ivente. aos homens do século XV. patas de corvos.. uma autoridade que nem Aristótele s pudera alcançar na Idade Média. O novo modelo de homem letrado.”. pelos documentos. o humanista vai inspir ar-se em Ovídio. ela também estruturada e dotada de forma. damas e pajens. pois um humanista da Renascença tem menos amor pelo ser humano. Vico e Leibniz desenvolveram-se em ve locidade prodigiosa. unidos pelo comum desprezo às s uas origens nacionais e de classe. totalmente esquecidos de suas diferenças de origem. mas pelo encanto persuasivo. A consciência histórica. Está acima da crítica. dará novo impulso às línguas nacio nais. “Humanismo” não vem de amor pelo homem. para se realizar. O codificador da retóric a antiga vai adquirir. Vive na corte. aos olhos da nova classe. o latim.” O novo intelectual é. O abandono da dialética em favor da retórica é uma mudança decisiva da mentalidade: os argumentos já não valem pela sua demonstração exaustiva. uma lei prom ulgada pelo rei de um reino extinto — tudo é documento da fala humana. O impulso de comparar. é bem diferente do intelectual medieval. do mesm o modo que toda nostalgia do passado. o princípio da corrupção. um membro da orgulh osa casta acadêmica que. unhas e cabelos humanos. e acelerada nas épocas subseqüentes. escorada no aplauso das hordas de estudantes. Inaugura-se o pendor de filosofar literariamente. analisado. italianos. mas a da conversação amena e elegante em língua nacional. um termo tremendamente eq uívoco. sem a mediação da crítica filosófica — que acabou por desviar o movimento historicista de sua de stinação originária e colocá-lo no rumo de uma nova idolatria. pelos velhos diplomas empoeirados e pelas velhas línguas. um movimento a que se costuma chamar humanismo. Para isto. “l tras humanas”. as técnicas de investigação e do cumentação históricas. que preferirá as palavras às idéias. O amor às palav ras. sua utilização em rituais de bruxaria oferecia expectativas mais promissoras que a de olhos de sapos. o s aficionados da bruxaria pagam grossas quantias por um dedo de Vênus. o que significa apenas qualquer texto que não seja as Sagradas Escrit uras. sobretudo expressivas de sentimentos pessoais. s oldados e cortesãs. saxões. moedas. an alisar e criticar documentos é um instinto filológico. fazendo com que o desenrolar da História acabe constituindo. mas entre príncipes e duques. mas pelas humanæ litteræ. É nesta mediação. já vinham-se desenvolvendo antes deles. e onde conviviam em pé de igualdade franceses. Horácio. Vítor. A diferentes classes sociais.. necessitava criar uma ciência histórica. e qualquer discussão pode ser cor tada pela raiz mediante a fórmula: “ C’est assez que Quintilien l’ait dit. como bem vi u Aristóteles. sobretudo na Itália. um membro ou servidor da casta palaci ana. conservado. por um coto velo de Mercúrio. Ele brota do novo amor pelas línguas. escrevia Hugo de S. na frase célebre de Weber. e sobretudo em Quintiliano. do que pelos textos. que se interessa por essas coisas. Virgílio. Na verdade. Contemporaneamente a Shaftesbury. da origem familiar. com finalidad e teológica: obter um texto mais fidedigno da Bíblia. um contrato de arrendamento. ao contrário. da paisagem natal: “Nada se pode fazer. o amor à pátria era um atavismo condenável. desafiava o s reis e o Papa. e como tal é de sejado. “o conjunto dos resultados impremeditados das ações humanas”. Este era na essência um universitário.

Nascidas e formadas pela i niciativa independente de grupos de estudiosos. O motivo é claro. as universidades. aos pou- .o intelectual abomina a universidade.

legislando em ca usa própria dentro das fronteiras do seu reino — só demarcadas pela vizinhança de outros homens ambiciosos. Aquela. 1681: De re diplomatica. O mesmo Valla. começam a formar. A primeira catedral renascentista. tem de ser vista de fora e de longe. Desde o século XII. de Leibniz. dos ex-amigos e até. que empinam o nar iz ante o ensino universitário — Maquiavel. No Oriente e no Ocidente. o humanista Lorenzo V alla denunciou a falsidade da suposta Doação de Constantino. entre os arcos que se elevam ao céu. ora mandando ambas as autoridades às favas e promovendo arruaça s estudantis que faziam tremer os poderosos de ambos os partidos. assinala essa transformação.110 OLAVO DE CARVALHO cos. O novo mundo de guer ra e conquista. as conqu istas da técnica erudita se acumulam em rápida sucessão: 1559: começa a publicação da Históri da Igreja dos eruditos protestantes de Magdeburgo. de fixar a cada um sua data provável de composição — pelo tipo das letras. 1695: Dictionnaire his torique et critique. um sentido de expansão e domínio sobre o reino deste mundo substitui-se ao de interiorização e asc ensão espiritual. de Pierre Bayle. na Renascença. Não há limites ao poder do indivíduo talentoso. Por toda parte. publicando alguns anos depois uma edição anotada do Novo Testamento. os reis. sociedade gove rnada por uma elite de burocratas letrados para os quais um erro de gramática podi a custar a vida. do cardeal Cesare Baronius. para ser apreciada. vão se multiplicar e alastrar até a autoglorificação prometéica. de Jean Leclerc. se preciso. A longa disput a encerra-se. a ambição de domínio encontrará um padrão ordenador e um novo critério de legitimação. estetismo e colecionismo que surge o amor aos documentos escri tos. temidas e invej adas. pelos usos ortográficos. a da Brunelleschi situa-se no centro da paisagem e organiza. o espaço em torno. Vencidos. pela astúcia ou pela violência. O ano de 1440 é um marco na história desses estudos. Montaigne — não são franco-atirador es: são funcionários da corte ou membros da classe aristocrática. a de Santa Maria dei Fiori. haviam-se tornado focos de poder. 1697: Ars critica. Os novos pensadores. fora da univer sidade. Descartes. sobre os fiéis recolhidos em oração. esta. projetando-o no sentido de uma luminosidade vertical. substituindo a ética pela estética. seu próprio quadro de intelectuais. Do amor aos documentos escritos surge o interesse — e do interesse a técnica — de separar os autênticos dos forjados. argumentando ser um doc umento forjado pelo menos quatro ou cinco séculos após a morte do imperador romano. mas p ode ser belo: Maquiavel descreve o Estado como obra de arte — o templo da autoglorificação aristocrática erguido sobre o sangue do s inimigos. no decorrer da Idade Média. tem de ser vista de dentro. 1678: Glossarium ad scriptores mediæ et infimæ latinitat is. 1588: Annales ecclesiatici. na luz irreal que os vit rais projetam. imperando sobre a paisagem do mundo. mas elas conseguem conservar sua independência. escrito s produzidos por algum discípulo séculos após a morte de um filósofo circulavam sob a au toria deste. os reis e os papas disputam a sua hegemonia. a classe aristocrática. Enquanto a catedral gótica isolava o fiel do mundo exterior. nenhuma outra civilização jamais se preocupara muito com a datação de a ntigos documentos ou com as questões de autoria. com a vitória do Papa: as universidades tornam-se órgãos da Igreja. como um eixo. Não podendo justificar-se moralmente. Nesse ano. em parte por indiferença ao curso da His tória. em parte por uma mentalidade anti-individualista que não atribuía a um homem em . Expressam o despeito dos rejeitados pelos vencedores do dia. Com exceção da antiga China. de Charles du Fresne. e ninguém achava isso anormal. 120 Convém tomar nota do ineditismo do evento. dotados de igual talento e poder. A catedral gótica retira-se do mundo: a renascentista reina sobre ele. sabe impor seus gostos e valores. pelo gêni . de maquiavelismo e traição na luta pelo poder. ora ao contrário. pela tinta mesma em que escrevem. pelo menos. não é um mundo bom. dos parentes. As ambições da casta aristocrática. torna-se assim o fundador da técnica da crítica textual. ora aliando-se a um contra os out ros. que. 1693: Codex juris gentium diplomaticum. 120 Daí para diante. É nessa atmosfera de naci onalismo. o bra de Brunelleschi. do monge beneditino Jean Mabi llon. libertas das peias morais que lhes impunha o clero romano. retórica.

Assim era a Idade Média Ocidental — um mundo onde uma certa desorganização em tudo era considerada uma condição sine qua non da manutenção da liberdade: Queste cose hanno bisogno di um pò di confusione.particular a descoberta de uma verdade e preferia esquecer os autores das menti ras. .

para compensar as fraquezas do mecanicismo racionalista. A Históri a da Igreja dos eruditos de Magdeburgo (1559) é o primeiro tiro de canhão disparado pela crítica protestante. até o século XVI pelo menos. tendo passado a vida a compulsar criticamente documentos históricos e a apontar os erros dos historiadores. e sobretudo. as armas forjad as nas oficinas dos eruditos passassem a ser usadas a título de “argumentos históricos” nas polêmicas religiosas e políticas do tempo. divulgam e alardeiam os resultados de suas pesquisas. de um lado. Por outro lado. O historicis mo. tivesse então de ser pela primeira vez explicitada e defendida contra seu s adversários — que é o que se vê no Discours sur l’Histoire Universelle de Bossuet (1681) — mostra que a polêmica a havia feito descer do céu das verdades pressupostas para to rnar-se uma idéia entre outras e concorrer com elas em pé de igualdade. como um emblema vivo do cetici smo. Não estranha. a História propriamente dita começa a dar seus primeir os passos. a da liberdade crescente através dos tempos. Entre a época de Bossuet e a Revolução Francesa multiplicam-se em número e sobem na dose de violência os ataques à história cristã. que. Hegel. alcança sua máxima expressão na Filosofia da História de G. Noções que a ciência histórica viria a derrubar como totalmente inconsistentes. a qual se pod e sem erro datar dos trabalhos de Leopold von Ranke ( de 1820 em diante). Roma vinga-se com os Annales ecclesiatici do cardeal Bar onius (1588). um lugar e um prestígio notáveis na ideologia das classes letradas no momento em que. ao mesmo tempo. A situação delineia-se então pela convergência de duas linha s de força: 1ª Na esfera do pensamento filosófico. não parecia haver outra saída senão pel o lado da concepção histórica. de Dom Bernard de Montfaucon. formam exércitos d e críticos históricos. E sta condição humilhante de uma História que dá mais força aos mitos na medida mesma em que se esforça para restaurar a verdade é uma das trágicas ironias do mundo moderno. W. Que esta visão. mas. Pierre Bayle. seu efei to imediato — que certamente viria também a contribuir para isso — foi principalmente o de desmoralizar a narrativa histórica como então se conhecia. 1750: Nouveau traité de Dipl omatique. A antecedência dá ares de legitimidade ao usurpador: até hoje. portanto. aconteceu que. convocam legiões de eruditos. o que faz as vezes de História na mentalidade média dos intelectuais é um resíduo de mitos e lendas historicistas. assim. Se. que parasitam o prestígio da mesma ciência histórica que os desmente. já tinham conquistado. a dos progressos retilíneos da consc iência. implicitamente aceita como veraz desde a Antigüidade até o fim da Id ade Média. que o príncipe dos eruditos. de Toustain e Tassin. com Ranke. elas darão como resultado longínquo. em nome da História. o resultado mais notável dessas polêmicas foi lançar em todos cérebros a dúvida sobre a confiabilidade da narrativa bíblica e da visão cristã da História . Auxiliados pela argumentação erudita. formando-se através de uma sucessão impressionante de o bras de síntese que começam com Vico e prosseguem com Montesquieu e Voltaire. no século XIX. muito antes da História como ciênci a. De um lado. pro testantes e católicos acusam-se mutuamente de haver falsificado a História da Igreja . na ausência de um saber histórico legítimo. tudo tendia a fomentar uma abordage m histórica da realidade. se notabilizasse também. tornavam patente a inconsistência da História então c onhecida e fomentavam a dúvida cética sobre todo o conhecimento do passado. o nascimento da ciência histórica. ou seja a da História como percurso do homem da cr iação até a queda e a redenção. e que. Desacreditada a história providencialista de Bossuet. Formam-se assim.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 111 1708: Paleographia græca. E como. atinge sua maturidade e se torna uma força influente no curso espiri tual do mundo antes que se forme propriamente a História como ciência. de 1820. . a visão dominante do curso da Históri a fosse aquela trazida na Bíblia. Ambas as igrejas percebem o valor estratégico das novas armas. mas abalada também a confiança no racionalismo clássico. 2ª Os progressos da técnica erudita forneciam os instrumentos para a criação de uma ciênc ia histórica. ele não se atrevesse jamais a escrever pesso almente um livro de História. O result ado dessa convergência foi muito complexo. as que viriam a ser chamadas “ciências auxiliares da História”. o historicismo como doutrin a filosófica ou como cosmovisão. de haver interpretado erroneamente os textos bíblicos. como por exemp lo a de um curso unitário do acontecer mundial. F. o de lançar a dúvida cétic a sobre toda a imagem do passado.

.

do singular e irrepetível. de fato. Repete-se. Os partidários do capitalismo acusam os historiadores comunistas de selecionar ardilosamente os fatos para fazê-los ca ber num esquema simplista. do individ ual. o hegelianismo já havia se trans formado numa poderosa corrente de influência e numa força histórica agente. por si. os avanços da pesquisa histórica foram corrigindo. no momento em que o sensato Ranke começou a trabalhar. Do ponto de vista do progresso da ciênci a. porém. Era. Hegel. contaminou de marxismo os estudos históric os. Foi nesta d ireção que se esforçou Hegel e. dando-se por sabido o que aconteceu. as concepções de Hegel e Marx exer ceram também seu fascínio e seu influxo sobre os historiadores de ofício. obrigando seus adversários a construir igua l aparato para defender-se. a Georg W. o marxista replica que os fatores espirituais são um véu ideológico que oculta a realidade do fator econômico. que a síntese filosófica sobre o conjunto do acontecer histórico er a um empreendimento prematuro. F. a reflexão só podia se perder nas névoas de uma ps eudometafísica fantasmagórica e terminar no culto de uma nova divindade. De um la do. a destituir o proletariado de seu papel de agente privilegiado da causalidade histórica (admitindo. pessoalmente agnóstico. quer na sua versão científica e racionalista. entre o comunis- mo e o capitalismo. É característico o caso de Weber. Mas as ciência s auxiliares. A querela da História forma um dos quadros mais interessa ntes da guerra ideológica dos últimos dois séculos. atenuou muito o simplismo dogmático do esquema marxista originário. anti-marxista que buscava most rar a influência das causas religiosas no acontecer histórico. e. De um lado. As duas linhas evoluíram simultaneamente. de outro. os comunistas respondem que o historiador burguês só enxe rga os fatos isolados. a função estratégica da intelectualidade. influenciado pelo positivismo e incapaz de apreender dos fenômenos espir ituais senão suas analogias e reflexos no plano social. nesta direção que as coisas pareciam ir. De outro. impelidas pelo progresso das ciências auxiliares que davam ao historiador os meio s de resgatar os acontecimentos singulares de que se compõe a História. de suprimir fatos e personagens para recortar a História segundo o molde dos seus desejos. o arcabouço metodológico de u ma ciência. não a armadura do conjunto. para decidir quem co nta a verdadeira história. fruto de uma ciência organizada. nada podiam fazer sem a teoria da História capaz de unificá-la s segundo uma hierarquia racional de critérios. de um lado. ao mesmo tempo. se dá a explicação teórica do conjunto.112 OLAVO DE CARVALHO rejeitando as “leis universais imutáveis”. ou. cuja História se reduz a mera propaganda revolucionária. As duas direções são. opostas: ou se faz uma criteriologia para planejar as investigações históricas que vão dizer o que aconteceu. quer em sua versão cristã e escolástica. até mesmo a do Lumpenproletariat) 121. só que a do burguês é disfarçada de ciência. de fato. e recebe em res osta a acusação de falsear os dados. seu adversário insiste que ideológico é o com unista. mas que. de outro. Aí entra porém em ação a ambigüidade mesma d a expressão “teoria da História”: ela significa. com muitos contatos e intercâmbios. o debate teve um duplo efeito. por exemplo . a teoria do conheciment o histórico e a teoria do acontecer histórico. na ausência de conhecimentos históricos suficien tes. A primeira dessas tarefas incumbiu a Leopold von Ranke. obrigando os teóricos marxistas a reconhecer a inter ferência importante de fatores não-econômicos na História. aqui e ali. mãe do marxi smo e avó da Rússia soviética. não enxergando os fatores espirituais da História e reduzin do tudo à economia. para desgraça dos pósteros. terminava por entrar no círc ulo vicioso da explicação marxista: após reduzir uma época histórica a seus aspectos 121 . uma explicação filosófica do conjunto dos fatos históricos. o comunista protest a que toda História é ideologia. girasse a atenção para o lado do mutável. que. porém. a disputa entre católicos e protestantes. com Hobsbawm. os excessos mais escabrosos da generalização hegeliana. Hoje entendemos facilmente que R anke es tava na direção certa. a segunda. Isto acabou por transformar a ciência histórica mesma num equipamento da gigantesca máquina de gue rra ideológica montada pelos comunistas. com Gramsci. o burguês retruca que o comunista toma a parte pelo todo. que passaram a privilegiar os aspectos econômicos da causalidade histórica ou a buscar para ela algum outro fundamento materialista para enfrentar o marxismo no seu próprio terreno.

Os marxistas tanto cederam aos argumentos de seus adversários. 1968 ( 1ª ed. que o principal his toriador marxista do pós-guerra britânico. mas cultural e psicológico. P. E. chegou a admitir que o co nceito mesmo de “classe” — a idéia-chave da interpretação materialista-dialética da História ropriamente um conceito econômico. V. P. Penguin Books. The Making o f the English Working Class. Thompson. 1963 ). mas c om isto Thompson implodiu o marxismo. Thompson. a respeito E.. . Foi sem querer.

H. Lawrence. que no Brasil contaminaram um de nossos mais talentosos pensadores: Vice nte Ferreira da Silva. segundo Comte. O homem verdadeiro . tentador e acusador em turnos. as duas ideologias do progr esso. final — da evolução da mente hu mana. Aprendeu com o capeta. é certo. A primeira foi que. Para ele. o homem vive num vácuo onde pode criar livremente o que bem entenda? Marx. até que desapareceu da vista do homem nosso contem porâneo a simples possibilidade de que a vida humana possa ter algum sentido para além da História terrestre. mas era melhor mesmo que não fizesse. marxismo e positivismo. pelo endosso à teoria qu e fazia toda a História evoluir na direção do socialismo. Garl-G. pendendo para o lado do marxismo ou para o lado da ciência rankeana. Discurso auto contraditório e por vezes demencial. essas correntes lançaram no século XX um vigoroso ataque ao positivismo e ao marxi smo. sob a a legação — antropologicamente verdadeira — de que a adaptação a novos modos de vida destruiri a a coesão dessas comunidades e desmantelaria as personalidades de seus membros. o confronto entre ciência histórica e ideologia historicista teve conseqüências muito mais profundas e devastadoras. no primeiro caso. Esta questão resume-se assim: a História tem um sentido predeterminado. deram-se as mãos para enfrentá-la e salvar o “sentido da História”. não queria sentido algum predeterminado. não via outras causas senão as econômicas. o guerreiro metafísico dos novos tempos. a que Nietzsche chamava o Super-Homem. no segundo. o s angue. mas em seguida n eutralizava esta frase ao assegurar que a História ia necessariamente na direção do so cialismo. a idéia do progresso consistindo basicament e numa teleologia imanente à História. graças sobretudo à antropologia e à Religião Comparada. Fortalecidas pela descoberta freudiana do inconsciente . o confronto entre o sentido imanente da His tória e a História sem nenhum sentido absorveu todo interesse intelectual do século XX pela questão do sentido da vida. dizia que “os homens fazem sua própria História”.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 113 econômicos. O principal defensor da inexistência de um sentido na História 122 Infelizmente essa gigantesca abertura do horizonte humano acabou sendo neutraliz ada pela perversão ideológica. Posta a serviço da contestação esquerdista à civilização Ocide l. Nietzsche foi o pai de várias correntes que expressavam a revolta do homem contemporâneo contra a razão. Mas. ao invés de assumir a responsabilidade. iman ente. provocando assim a ruptura dos elos de lealdade social e a demolição das personalidades. a ciência. ou. para poder criar seu destino como bem lhe aprouvesse. Confrontada a essa resistência. e que. Acabava fazendo a contragosto o q ue Marx fizera por gosto. Radicalizado assim po r suas repercussões políticas formidáveis. l oucura e crime. do ponto de vista da evolução geral do pensamento. Só as mentalidades torpes. a compreensão antropológica das culturas antigas e indígenas tornou-se um clichê incu mbido de dar reforço a um novo e mais virulento discurso “progressista”. covardes e mesquinhas n ecessitavam abrigar-se sob a mitologia de um “sentido da História”. Jung e Ludwig Klages deram uma forte expressão a essa s idéias. m as ao mesmo tempo deseja impor a populações conservadoras e religiosas do próprio Ocid ente mudanças drásticas e repentinas. pela celebração posi tivista da ciência como etapa superior — e. D. aos poucos o debate em torno do sentido da vi da humana em geral foi estreitando seu horizonte até reduzir-se à questão do “sentido da História”. se celebraria após 1939 entre as democracias o cidentais e as ditaduras comunistas para enfrentar o Eixo. desencadeia uma onda de violência. e valorizavam o instinto. o pensamento histórico acabava caindo igualmente em algum tipo de ideologia “progressista”. no domínio político-militar. como por exemplo quando deseja preservar as c ulturas indígenas de todo contato “desaculturante” com os costumes Ocidentais. a História. com a s luzes que trouxeram sobre os valores de outras culturas e civilizações. Foi só no século XX que. foi Friedrich Nietzsche. não apenas a História não fazia sentido algum. acusa “o si stema”. A identificação do sentido imanente da História com o sentido . ao contrário. o sonho e o delírio. pela qual enfim. A segunda foi que. a ciência hi stórica se aventurou a enfocar o passado sem prejulgá-lo segundo a ótica que privilegi ava o presente 122. Não é preciso dizer que essa aliança na esfera das idéias antecedeu e preparou a quela que.

suicídios e internações psiquiátricas se esp alhe pelo mundo. o único propósito de suas existências — ao ponto de que bastam alguns sinais de a História desviar-se do sentido esperado . Na década de 50. depressões. destruindo repentina mente a fé e a esperança do movimento comunista.da vida tornou-se uma crença tão arraigada que entrou no rol dos pressupostos incons cientes: já não é uma teoria — é uma realidade. um fato. foi um cho- . para milhões e milhões de pessoas. a revelação dos crimes de Stálin. para que uma onda de desespero. A aposta num sentido imanente da História tornou-se.

A divinização do tempo. De outro lado. introduzida pelos teóricos da Revolução Francesa. era o homem. É claro que nenhum pensador sério. no Sentido da História. na educação universal. de que a perda da fé no comuni smo funcionou portanto nelas exatamente como aquilo que a Bíblia chama “escândalo” — o des mentido brutal das crenças mais queridas. Socialismo e Capitalismo são. Mas reconhecer a natureza essencialmente social do homem em geral é uma coisa. que chegaram a negar a condição humana aos homens afastados da vida social. na ideologia político-social. Repete-se assim. a crença no Sentido da História é comum aos com unistas e aos democratas Ocidentais. Estes não crêem no esquema marxista. ninguém poderia apostar no comunismo se não tivesse apost ado. a divinização do tempo. com a participação d o indivíduo na construção da sociedade futura. À divinização do espa deologia científica corresponde. como um cavalo. No fundo. para eles. no outro braço da cruz. tanto quanto os comunistas. “a sociedade” não era uma substantia prima. a socialidade essencial do zoon politikon. Para uns e para outros. voltando as costas à ete rnidade. e outra muito diferente é afirmar que a sociedade tem alguma realidade e consistência própria independentemente e acima dos homens concretos que a compõem. a sociedade era nada mais que um sistema de relações entre seres humanos. precisamente. Para todos os pensadores políticos desde a Antigüidade até o Renascimento. Ora. assim. ignorou a natureza social do homem. na revolução o u no advento da utopia proletária. entidades q ue não existem em si mas somente nos entes que as corporificam. Ela envolvia e contin ha os homens como uma rede envolve e contém os peixes. no sentido aristotélico. o termo forte. antes. limitando seus movimentos m as não alterando sua natureza intrínseca: não é por cair na rede que um peixe se torna p eixe ou deixa de sê-lo. entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. mas não podia propriamente determiná-las. A sociedade era. Sem chegar a ser irreal nem limitar-se apenas a um efeito passivo das ações individuais. na definição tradicional da sociedade. Tanto a reconheceram. o personagem concreto. Pois a ação é um atri buto da substância. § 22. as duas seitas e m que se cindiu uma mesma religião. Tanto quanto para os comunistas. e que o carac teriza com ênfase crescente desde o Renascimento e sobretudo após o século XVIII. que já tínhamos observado na evolução do pensamento científico. Esses acontecimentos são interpretados geralmente como sinais de que o comunismo era para essas pessoas uma religião. O primeiro foi a doutrina da “vontade cole tiva”. na extensão a todos os homens dos benefícios da economia e da cultura modernas. Mas esse é só o aspecto mais patente e super ficial da questão. não concebem que a vida possa ter algum sentido fora ou acima da História. é evidente que reduzir o sentido da vida ao sentido da História é encerrá-lo na dimensão temporal. o sujeito ativo. uma forma de existência mais tênue e indireta que a da substância individual. Portanto. É e sta última afirmativa que diferencia do antigo o pensamento moderno. O segundo foi — em decorrência do p rimeiro — a doutrina hegeliana do Estado. É isto. mas crêem no progresso das instituições.114 OLAVO DE CARVALHO que traumático de que milhões de militantes jamais se refizeram. a imersão completa do homem na ima nência. mas um composto das ações. A queda do Muro de Berlim foi outro. o sentido da vida identifica-se. paixões e reações dos vários homens que a constituem. Para os antigos. no aperfeiçoam ento gradual das leis. pelo menos desde Aristóteles. uma árvore ou um homem. mas. — (II) Beaux draps Mas a História não teria podido elevar-se à condição de deusa sem a concorrência de dois out ros fatores que. Divergem apenas nos meios e no tipo de sociedade a que aspiram. na redução progressiva da miséria. o que se chama um universal: o conjunto dos seres que vivem juntos sob u m mesmo sistema de regras e hábitos. mudaram decisivamente o curso das idéias. Ela era uma substância como os gêneros e as espécies. um ent e real em si. que podia limitar as ações humanas ou muda r o curso de seus efeitos. A sociedade permanecia recuada como um pano de fundo. a Históri a e somente a História é a doadora do Sentido à vida humana. e m suma. ela era no entanto uma substantia secunda. e a substância em sentido estrito — a individua- . vivente e concreta. o que denomino divinização da História.

.

Se o homem. Muitas dessas conquistas. que Aristóteles nos f ornece na Retórica. Essa conclusão pareceu muito lógica. teve como uma de sua s primeiras e mais devastadoras conseqüências a de abalar a confiança geral na imutabi lidade e universalidade da natureza humana. na época. ao lado da qual a Sociedade não tem senão o pap el de um meio. não poderiam ao mesmo tempo negar o peso dos fatores sociais na moldagem dos caracteres humanos e acre ditar ingenuamente numa imutabilidade universal do homem. entre ele e as novas conqui stas do historicismo. não havia nenhuma incom patibilidade essencial. insistiram na socialidade fundamental do homem e. Daí que. para em seguida basear na contestação a essa crença a nova teoria da volonté générale. Mas. ao concreto. Se o indivíduo não tinh uma natureza dada. fazia parte necessariamente a capacidade que o homem tem d e alterar-se. mas era o resultado de um processo. como os morto s não argumentam. se chegou a uma personalização do abstrato. não a sociedade. e Aristóteles mais que todos. O ra. Esta opinião sustenta a idéi a de que a pessoa é um valor absoluto. portanto. o advento do pensamento historicista. . de transformar-se. entre as quais a socialidade. fazendo da “sociedade” o “verdade iro sujeito” da ação histórica. segundo o n Esta girita. é claro que não tinha uma natureza imutável . mutável segundo as condições sociais. para os pensadores políticos do sécul o XVIII. Por des onhecerem. isto é.a teoria da Soberania traz ao poder um reforço excessivo e perigoso. foi fácil atribuir-lhes a crença numa absurda imutabilidade absoluta da natureza humana. mas é claro que ela se assenta numa interpretação falseada do antigo pensamento político. senão só aparente e superficial. toda a inclinação coisista do pensamento grego. adquiria ou perdia caracteres por tornar-se rico ou pobre. ao vivente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 115 lidade corporal vivente — possuía a propriedade da ação em sentido muito mais direto e m ais real do que a substância derivada e segunda de um mero universal: se quem dá coi ces são os cavalos e não a cavalidade. são mais do que suficientes para derrubar o mito de que os antig os acreditavam numa natureza humana fixa e imune à i fluência da sociedade. mas “a sociedade”: de universal abstrato. Malgr ado. por sua vez. ao fazê-lo. Os únicos traços imutáveis que Aristóteles enxergava no homem eram aqueles contidos na sua definição mesma — a animalidade dotada de potência racional — e as propriedades imedi atamente derivadas dessa definição. a idéia de que os homens são a realidade e de que a Sociedade é uma convenção. a sociedade foi p romovida a substância concreta. como mero sinal algébrico vazio cujo valor será determ inado pelo resultado de uma equação social. Foi assim que. agente. como vimos acima.. hábitos e preconceitos dos vários grupos sociais. ou mesmo simplesmente por envelhecer. Essa definição parecia — e a intenção com que digo “parecia” se tornará clara logo iante — parecia assentar-se na idéia de que a natureza humana de cada um dos membros da sociedade não depende da sociedade em que vive. Bertrand de Jouvenel assinala o oportunismo histórico que consagrou em dogma essa transformação 123: “. do apelo historicista ao particular. enquanto o indivíduo foi sendo visto c ada vez mais como mera abstração. faziam eco.. os antigos. o agente da História não fossem os personagens de carne e osso. co m um atraso de dois mil anos. Em decorrência. então o sujeito ativo da v ida social já não era “o homem”. do mesmo modo quem age é o homem concreto. Dito de outro modo: o homem era imutavelmente. mas o colet ivo abstrato concretizado e hipostasiado sob o nome de volonté générale. mas é um dado anterior e fixo. As descrições minuciosas d os caracteres. uma inconsistênc ia e tenuidade da natureza humana. como vimos acima. A confusão clareia-se tão logo distinguimos entre soci alidade e sociedade — uma distinção que os teóricos da volonté générale desconheciam. militar ou ci vil. e por natureza. ao apelo de Aristóteles contra o universalismo abstr ato e em favor de uma ciência voltada para a realidade vivente. real. e da definição da soci alidade. acreditaram que o fato de a vida social alterar os hábitos ou a persona lidade dos indivíduos concretos provava uma mutabilidade essencial. [ Mas ] os perigos que essa teoria comporta não podem se manifestar plenamente enquanto subsi ste nos espíritos a hipótese fundamental que lhe deu nascimento. Ora. por efeito da vida social. a idéia da sociedade com o um mero sistema de relações começou a parecer insustentável também.

Histoire Naturelle de sa Croissance. 1972. Paris. Le Pouvoir. Ha chette. pp. 9193.123 Bertrand de Jouvenel. .

quando o que está é apenas aplicando — muit o mal — um preceito aristotélico. “a História” ainda era. Sim. uma vez tendo decidido conceder ao Estado (= sociedade política. sob o nome de Nação. cujos tr aços foram fixados pela arte popular. e de que as personalidades individuais nada mais são que um epifenômeno da estrutura social. Quando a Assembléia Legislativa jogou a França numa aventura militar que a monarquia não teria podido arriscar. em todo caso. um clímax em sentido estrito existe somente no domínio do cr escimento biológico. mas sim é o Todo.116 OLAVO DE CARVALHO “Para que a metafísica afirmasse a realidade da Sociedade. se deram conta do ridículo que havia em tomar como um princípio científico autoevidente o pretexto publicitário a que uma Assembléia semienlouquecida recorrera no intuito de justificar às pressas a aberração do recrutamento militar universal. e o hábito. uma substância real. Mas ela se cristaliza bruscamente. Aí os indivíduos são o esse cial. a História me sma. Nem Hegel. O que ele chama ‘sociedade civil’ corresp nde à maneira pela qual a Sociedade fora sentida até a Revolução. “Esta concepção de um Todo que vive de uma vida próp ria. “Foi esse um resultado. foi preciso primeiro que esta assumisse figura de Ser. embora coletivo e abstrato. também nos acostumamos a tomar como uma verdade patente a mentirinha boba s egundo a qual Mas. Hegel traduz para Wesen i st was gewesen ist: “a essência é aquilo em que a coisa enfim se torna”. nem os teóricos que. Com Hegel. Para falar como Aristóteles. “Não é o trono que se derruba. a inclinação natural dos s entimentos fez com que a Nação assumisse o caráter e o aspecto de uma pessoa.” “a Sociedade” é um todo. a História de alguma coisa. só se torna patente quando o processo atinge o seu clímax. percebeu-s e que o Poder não dispunha de meios que lhe permitissem fazer face à Europa. fundaram as ciências sociais na sup osição de uma autonomia substancial do Todo social em relação aos seus constituintes hum anos. era um fenôme no mais ou menos r ecente na História. para ceder a preem inência a um personagem ainda mais abstrato: o sujeito da História será. mais real do que os indivíduos que a compõem. É que. Se o Estado é a última coisa a aparecer. jus . ao contrário. Foi pre ciso pedir a participação quase total do povo na guerra. “É em plena floração do sentimento nacional germânico que Hegel formula a primeira doutrina coerente do fenômeno novo. muito po sterior ao da humanidade. coisa sem precedentes. talvez o ma is importante resultado. até aí. o filósofo de Jena se viu em fa ce de um pequeno obstáculo: o Estado. a forma final a que o ser tende em sua evolução. até mesmo “a sociedade” deixará o palco. porque a enteléquia. como o patriotismo tomasse desde havia dois mil anos a forma do apego a uma pessoa. e superior à das partes. Seu nascimento fora. que sobe a o trono. pelo menos. Em nome da Nação: e. detentor natural do Poder. ou Nação) o supremo grau de realidade na hierarquia ontológica. o último na ordem do aparecer é o primeiro na ordem do ser. o personagem Nação. uma vez adquirido. era a ação de um jeito que. é que ele é a forma mais p erfeita e acabada a que tende toda a evolução anterior. depois disseminou-se na Europa. e conced e à Nação um certific ado de existência filosófica. logo em seguida. Como seria possível que o mais real dos seres fosse o últi mo a aparecer? Hegel escapa do problema mediante o recurso à teoria aristotélica da enteléquia. “Aceitou-se na França. da Revolução Francesa. O que ele chama ‘Estado’ corresponde. onde após a maturidade do ser vêm o envelhecimento e a morte. de Luís XIV ou mesmo de Gengis -Khan —.. disfarçada numa nova terminologia que a faz parecer muito original e est ritamente hegeliana. Mas em nome de quê? De um rei destituído? Não. estava provavelmente latente. e todo mundo ac ha que ele está falando uma grande novidade. ao novo conceito da Sociedad e. no sentido em que ele o definia. Ora. após o q ual começa o declínio. a crença de que existe um personagem Nação. passa a ser tomado como ex pressão de uma lei eterna e auto-evidente: assim como nos afeiçoamos à crença de que o E stado tem o direito de mandar todo e qualquer cidadão para o campo de batalha — idéia que teria parecido monstruosa aos olhos de Júlio César. permanecia referido à existência concreta de seres singulares.. Mas o homem a tudo se habitua.

em princípio. para aplicar à História o conceito de enteléquia. teve . que é. Hegel. um processo de duração indefinida.tamente porque o ser biológico tem uma duração média predeterminada. pergun tado sobre a data do fim do mundo. Essa média inexiste n a História. O próprio Cristo. respondeu que era um mistério só conhecido de Deu s Pai.

onde. — É verdade. nem coisa nenhuma: a única realidade é o acontecer que acontece ao acontecer. num homem da sua habilidade lógica v erdadeiramente virtuosística. o Estado já não era o nome de um ente. onde ele proclama que o conceito de ser. E. e eu ten ho mais o que fazer. foi apenas um desses casos depr imentes em que um fundo de desonestidade intelectual subsiste num homem dotado d e autêntico gênio filosófico 124. realizando assim literal mente a sentença que para os antigos era matéria apenas de piada: pereat mundus. o autor da Filos ofia da História argumenta. et tenebræ non compr . Como. 12 de suas Obras Completas editadas pela Universidade de Louisiana. 126 Não é preciso dizer que. Em verdade vos digo. avançado em anos. nem homem. verboso e est ratosférico. mesmo porque a História já estava para aca bar e o seu filósofo. esse sistema e essa contest ação. o resultado é que o acontec er é promovido à condição de sujeito dele mesmo. Eis. nesse esquema. seja realmente um nada pelo simples fato de ainda não termos preenchido seu conceito d e um conteúdo em nossas cabeças é com efeito o fundamento absoluto do sistema de Hegel e a objeção inicial de que ele parte para montar sua contestação a Schelling. enquanto indeterminado.1. caso tudo isso parecesse muito vago. alguma forma m ais grosseira. que se declarava fiel protestante e nunca foi membro de qualquer grupo esotérico ou sociedade secreta. desfeito esse truqu e. Isso não faz de Hegel comparação não será feita. portanto. de fato. A idéia de que o ser. Hegel poderia ter dito port anto a seus discípulos. decretou o fim da História. Com requintada habilidade sofística. nem universo. e não ente. pior para os fatos”.I. a Igreja se tornou desnecessária e o Estado vem a ser a suprema autori dade religiosa 128. por trás de todo o floreado dialético. Para preservar a int egridade lógica do seu sistema. em si mesmo. é o acontecer. tinha passagem comprada para o reino das som bras. mas sublinhando que . mais material de desonestidade: pesquisas recentes demonstraram q ue Hegel. como o Estado moderno incorpora e realiza em suas leis a essência perfeita do cr istianismo. que o único erdadeiro ente é o não-ente. E como esse acontecer não tem um sujeito que possua alguma consistência ontológica por si e fora dele. nada mais disse nem lhe foi perguntado. como Gurdjieff: Vous voilà dans de beaux draps! Hegel não era no entanto nenhum idiota para crer sinceramente que fosse de fato o último filósofo e que a História terminaria no último volume do seu sistema. fia t philosophia. e tascou na promissória a a ssinatura de Deus Pai. em favor do cristianismo. Mas História é devir. a Histór ia que é a História da História.A. corpóreo e presente que atestava a existência do processo e a consumação final dos séculos: o Estado moderno. Mas onde há safadeza intelectual há também. toda a metafísica hegeliana vem abaixo. mas apena s o de uma fase da sua existência. equivale ao nada 125 — conferindo subrepticiamente valida de ontológica absoluta a esse juízo que só tem sentido gnoseológico. isto é. Já não há mais ser. falsificando o aval de Jesus Cristo. Hegel apontava para o resultado final. inseparavelmente. Uma certa desonestidade apa124 rece já nas bases mesmas de sua metafísica. a conclusão era que a suprema realidade reside pr ecisamente naquele ente cujo destino final é transfigurar-se em Estado. confundindo a ordem do ser com a ordem do conhecer.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 117 então de praticar uma das maiores trapaças filosóficas de que se tem notícia: marcou par a sua própria época a data do vencimento da História humana. mostrando ser apenas. Ela mostr a o quanto valem. porque iniciados gurdjieffianos e filósofos acadêmicos ( entre os quais os admiradores de Hegel ) sentem demasiado desprezo mútuo para poderem admi tir a hipótese de nivelar nos pratos de uma balança seus respectivos gurus. não pode ser um erro involuntário. O nome des se ente é História. o que. I. Feito isto . é processo. num estudo reproduzido no vol. que pelo menos o lucidíssimo Eric Voegel in assinalou o caráter de “magia negra” dos escritos de Hegel. no fim. inexistindo um “antes” e um “depois”. a projeção am pliada de fenômenos imanentes à psique humana. 125 Propedêutica Filosófica. no entanto. Aquele que disse: “Se os fatos desmentem minha teoria. § 16. recebia no entanto dinheiro de agremiações maçônicas inte ressadas em promover a idéia de uma Religião de Estado para se substituir à Igreja cri stã (católica ou reformada) 127. mas só um truque propos ital 126. Na hora de morrer.a. filhinhos: Schelling era muito grande. ninguém teria a desfaçatez de lhe pergunta r o que viria após o fim da História.

Paris. De outro lado. cujas semelhanças com Hegel vão muito além da mera co incidência.F. Hegel Secret. Hegel é estonteantemente ambíguo. Por um lado. 1968. A metafísica deste e a cosmologia daquele dariam um belo capítulo de terat ologia intelectual comparada.. o trabalho notável de Jacques D’Hondt. Re cherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Hegel. ele faz a apologia da Reforma protestante como a culminação do processo cristão de libertação da consciência individual. a propósito.. 128 Nes te como em muitos outros pontos de sua filosofia. ) 127 V. mil vezes mais emocionante do que meus pobres Frit jof Capra & Antonio Gramsci.U.ehenderunt eum. Mas essa . reduz a religião ao conce ito de “moralidade” acreditando que quanto pudesse haver de metafísica na religião já fora absorvido e superado completamente pela filosofia acadêmiComo aliás se dá também com Gurdjieff. ( Explico isto com mais detalhe em minha História Essencial da Fil osofia. P.

129 É claro que a chamada “esquerda hegeliana” foi muito mais longe. legalizando e protegendo todas as exigên cias tirânicas e autolátricas de cada ego humano. nazifascista e liberal. até mesmo os preceitos mais óbvios do ca ( faz-me rir! ) e. tendo conservado sua fé religios a sob a opressão nazifascista e comunista. o machismo.118 OLAVO DE CARVALHO um intelectual de aluguel. que declaram em voz alta as inconveniências que o alto sacerdote.” Mas não devem nos impressionar tais arreganhos: esses sub filósofos seriam impotentes sem as armas que receberam do mestre. as piadas ). pela violência física e psicológica. § 268 ). imp edindo-o de expressar-se numa condenação frontal de um estado de coisas marcado pela impostura obrigatória e universal. com efeito. ele apenas regula sabiamente os conflitos de interesses. o vocabulário corrente. e abandonam. facilmente cedem ao apelo das “novas éticas” disseminadas pela indústria de espetáculos nas modernas democracias. esperto como ele só. é dos três o mais eficiente no com bate à religião. que o Estado neoliberal não faz isso por meios ditatoriais. como se vê pelo fato de que as massas. logo percebeu o truque: o Estado hegeliano era o “Novo Ídolo” qu e se oferecia como sucedâneo aos cansados combatentes que haviam derrotado o “antigo Deus”. É claro. mas com o apoio e até po r exigência dos eleitores no pleno gozo de seu direito de exigir e legislar. as cantadas de rua. o Estado neoliberal produz novos códigos repre ssivos que. 1841 ). Strauss ( 1835 ) a divinização do espaço-tempo é explícita. Essa causa é geralmente associada ao comunismo. pelo culto obrigatório da Nação e do Estado. descarregando a reação violenta do superego em alvos moralmente inócuos (o fumo. ele acaba se colocando. ju nto com a religião. a m ais requintada monstruosidade moral que a humanidade já conheceu. banir deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo 129. proibindo cultos. Mas o Estado liberal. excitados até à exasperação pelo estímulo incessante ao espírito reivindic atório. restaurar o culto de César. fuzilando religiosos. de fato. acaba por deixar as consciências individuais à mercê do Estado ( Filosofia do Direito. direito natural: exercendo livremente seus “direitos humanos” sob a proteção do Estado d emocrático. dá a fórmula que se tornaria quase que um dogma do século XX: “A política deve tornar-se a nova religião. Sumopontífice do E stado moderno é Hegel: eles são antes os bobos-da-corte. É claro. ademais. nomeando cardeais biônicos para ludibriar os poucos fiéis restantes. mas também a sua própria. as mulheres que praticam nos EUA um milhão e meio de abortos por ano log o terão superado as taxas de genocídio germano-soviéticas. prudenteme nte silencia. ademais. ao fazer do Estado moderno a condição necessária e suf iciente dessa liberdade omitindo-se de defendê-la contra o Estado mesmo . instituicionalizando nas escolas o ensino do ateísmo. compensando astuciosamente o desequilíbrio que a liberação dese nfreada dos desejos poderia causar. os beijos roubados. que pune um olhar d e desejo e dá proteção policial ao assassinato de bebês nos ventres das mães é. de outro lado é fato que. que termina pela in stauração da moral invertida. produz milhões de pequenos Stálins e H itlers. que cada nova lei resulta em nova extensão da burocracia governante. que professa nominalmente a liberdade religiosa. Uma sociedade. e Ludwig Feu erbach ( A Essência do Cristianismo. dão um Ersatz de satisfação ao impulso natural da moralidade humana. concordando com elas por dentro. que. sem nada impor. Mas até que ponto o prêmio financeiro não ajudou a cegar o filóso fo para inconsistências que de outro modo ele teria percebido? Pois se de um lado não há como duvidar da sinceridade com que ele defende a liberdade da consciência indi vidual. a serviço da causa que mais nitidamente caracteriza a política do Anticristo sobre a Terra: investir o Estado de autoridade espiritual. Paira ndo acima de todos. pois a opinião que ele aí expressa não é só a de quem lhe paga. fechando templos. meio às tontas. Mas ela foi incorpora da pelas três formas do Estado moderno: comunista. só se tornam governáveis mediante o nivelamento por baixo. As três p rocuraram com igual afinco substituir-se à Igreja na condução espiritual dos povos: a primeira. De outro lado. que toda nova reivindicação resulta em nov as leis. elevando o Estado à categoria de “Providênc ia do homem”. de maneira ai nda mais ostensiva. Muito mais eficiente do que a tirania de Hitler e Stálin é o regime que. fisc . fazendo do Estado o guardião da moralidade. A segunda. Nietzsch e. Na Vida de Jesus de David F.

por regulamentar. reinando sobre as almas e as consciências com o novo Decálogo dos direit os humanos e do politicamente correto. passo a passo. enfim. .al e judiciária. fisca lizar e punir até mesmo olhares. a caba por se imiscuir em todos os setores da vida humana. no instante em que regula a vida interior dos indivíduos. e que. eis que o Estado neoliberal. moral e religiosa. sem deixar de ostentar o prestígio da lenda democrática. assim. E. Beaux draps que constituem a essência da he rança hegeliana. risos e pensamentos. movido pela dialética infernal do reiv indicacionismo. cumpre à risca o programa hegeliano. o Estado. instaurando-se como suprema autoridade espiritual.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 119 .

Sua clave não era a da veracidade. isto é. com toda a sua 130 Arthur Koestler. nos mostrava a perspectiva de um horro r sem fim (§§ 14 e 15). erguia-se diante de nós. mas a da eficácia persuasiva. Passara desde muito a época em que Arthur Koestl er podia dividir o bolo ideológico do mundo em duas metades opostas e inconciliáveis . Com evidente satisfação. aos ataques da crítica racional. Logo. uma vez que compreendê-la seria rejeitá-la. mas isto não parecia incomodar a platéia no mais mínimo que fosse. 1945 ( várias reedições ). em seguida (§ 15). nem aquela que se espera das hipóteses ci entíficas. chegamos e nfim à conciliação dos aparentemente inconciliáveis: evasionismo e ativismo. o epicurismo não ocupava sozinho todo o horizonte mental de Motta Pessanh a. não resistia a um exame ma is atento que. já que o objetivo final do epicurismo não podia ser declarado em voz alta sem provocar espanto e horror. ao desespero e à morte. era frouxa. Em decorrência. e conduzir. Esses opostos. em ocultá-la. Ele fundia-se. Só assim e le poderia persuadir os discípulos de que os levava pelo caminho da felicidade. a tarefa do pregador epicúreo não consistia em expor a doutrina. que justamente só possa ser atendido através da falsidade e da inc oerência. no todo ou em parte. sem perguntar a quê. London. já que o que pretendia era produzir uma nova. aquele tipo de solidez q ue se exige dos sistemas filosóficos. sem perguntar a onde. não era estético o padrão que unificava o conjunto. ao contrário. Nova Era e Revolução Cultural. por esquisito que parecesse. que. Só nos res tava. não sendo do tipo lógico-científico. Ali não se encontrava. pode no entanto haver alguma beleza ao menos aparente. com o marxismo. constituiam o recheio dos dois lóbulos cere brais de José Américo Motta Pessanha. a hipótese do objetivo prático: o discurso de Pessanha não tinha satisfações a pres tar à realidade existente. Coerência prática: entr e as sentenças que se desmentem umas às outras pode haver no entanto a unidade de um interesse prático. que esse fenômeno. portanto. Coerência estética: a onde as verdades afirmadas se desmentem umas às outras e são desmentidas pelos fatos . segundo veri ficamos. portanto. ma s de sugestionar para impelir a uma ação. personificando-as nos tipos antagônicos: o iogue e o comissário — aquele que busca a verdade num outro mundo e aquele que se empenha em mudar este mundo à imagem da s ua própria verdade 130. recobrindo-a de um manto de subterfúgios engenhosos. de haver ali alguma coerência. a esta altura. qu ando em verdade os conduzia ao niilismo. como verificamos. perdido o fio da meada? Vamos revisar o itinerário per corrido. Ali não se tratava de provar. Qual ação? O objetivo não ficava absolutamente c laro. era bastante lógico. que consiste em resistirem ao confronto com os fatos observados. e que portanto a proposta epicúrea tinha esta característica peculiar: a de recrutar seus mais entusiasmados adeptos precisament e entre os que menos a compreendiam. casados e reduzidos à unidade de uma comum repulsa à inteligência teorética. e que lhes permite sair incólumes. por trás das belas palavras. ocultismo e revolução. . ela deixava-se persuadir. Tinha. The Yogi and the Commisar and Other Essays. só podia ser estética ou prática. Estávamos tratando de recompor a coerência interna do universo mental de Jo sé Américo Motta Pessanha. como vimos. Mas. Após demonstrar (§§ 16 e 17) a perfeita compati bilidade entre marxismo e epicurismo. Jonathan Ca pe. mas. ali. No pódio do MASP. a confirmação mútua das sensações que se coadunam produzindo um sentimento de harmonia. Revisão do itinerário percorrido Terá o leitor. Vimos. A coerência estética. enquanto filosofias da praxis que só tocam n o mundo real como num pretexto e meio para chegar ao mundo inventado.120 OLAVO DE CARVALHO CAPÍTULO VIII. Mas um pensamento totalmente incoerente não poderia ter a persuasividade quase hipnótica q ue tinha o de Motta Pessanha. A REVOLUÇÃO GNÓSTICA § 23.

o dos deuse s do espaço e o dos deuses do tempo. levando os indivíduos a acreditar que subi am a uma mais elevada visão das coisas quando na verdade sentiam apenas a natural zonzeira de um corpo que cai. o comissário é materialista. que sonho arrebata e fascina a humanidade de hoje mais do que a aspiração a uma sociedade que reuna os ideais do socialismo e do capitalismo. os deuses do espaço e do tempo não são objeto de culto p rimaveril numa infância do mundo. a profecia de Motta Pessanha anuncia. mas o princípio de uma decadência. porém. mentales même. personificou-se em César. eles permanecem separados pelo abismo de uma funda incompatibilidade metafísica. a . Para explicarmos o sentido. la raison d’État. Afi nal. Ele já passou por este mundo. Chegada. a criatura sintética e bifronte. o sinal de uma ru ptura trágica entre a Existência e o Sentido. o cadáver da religião imperial a em pestear com os vapores da sua decomposição os seis primeiros séculos do Cristianismo. les puissances temporelles. que. mas na luz indecisa que prenuncia uma longa noite. não podendo ser espiritual. Nessa síntese resid ia o segredo do misterioso atrativo que Pessanha exercia sobre uma platéia fatigad a do real e incapaz de transformá-lo. intellectuelles. Isto não resolve a contradição. na origem. o iogue-comissário transcende assim a sua insignificância pessoal e intelectual. a mesma imersão definitiva do espírito humano no círculo do samsara. ele está bem próximo de poder entender-se com o comissário. Vimos então que. mas o cosmos. a personificação do futuro. para tornar-se. Mas aí surgia um obstáculo: o iogue é espiritualis ta. ficará fácil compreender o gno ticismo. e sim um rastro de insânia e crueldade. e uando passou não deixou atrás de si um jardim de delícias. uma seita religiosa.” CHARLES P ÉGUY O gnosticismo foi. era necessário forrá-lo com algum tipo de algodão que amortecesse a queda. o sentimento da participação “ética” numa epopéia revolucionária e os prazeres da evasão consumista? Mais que um líder ou um guru. O deus histórico-cósmico. não existe incompatibilidade prática senão momentânea e aparente. Os parágrafos de 19 a 22 mostraram-nos que a entroni zação de novos deuses permitiu canalizar para o culto da Natureza e da História as asp irações espirituais dos homens. Por mais que os aproxime a comum rejeição do mundo real . dando a cada ser humano. mais amplamente. a ressurreição de César. mas amortece-a ao ponto de torná-la quase insensível: quando o iogue já não busca o infinito. a nostalgia da tradição greco-romana. a pregar-nos o ativismo da evasão e a evasão pelo ativismo (§ 18). iogue-comissário. Detentor das chaves de dois reinos. A síntese de culto do cosmos e culto da História não surge — ai de nós! — na hora antes da aurora.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 121 maciça improbabilidade. esse personagem não é novo na História. o io gue-comissário é um símbolo em que se projetam as mais potentes aspirações do nosso tempo em direção à utopia. Mas — ai de nós! — . les puiss ances politiques. é cósmico. Da primeira vez. O véu do templo “Tout l’appareil des puissances. ne pèse nt pas une once devant un mouvement de la conscience propre. s obre o túmulo de Cristo. e entre os dois cultos. tomou o nome de gnosticismo. a consumação do prazo histórico. Da segunda. les autorités de tout ordre. ao mesmo tempo e inseparavelmente. bloqueando-lhes o acesso a concepções espirituais em sen tido estrito. § 24. EpicuroMarx . o deus de Motta Pessanha. entre aplausos gerais. ele se torna o sacerdote de um novo culto. um almálgama de seit as religiosas diferentes e até conflitantes mas unidas por um duplo sentimento com um: o ódio ao Cristianismo. sendo impossível saltar esse abismo. que dá início a uma longa e fatal decompos ição do espírito e termina pela dispersão da tribo em grupos errantes de homens aterrori zados e indefesos. e quando o comissário erige a História numa realid ade ontológica superior aos homens concretos. o deus-imp erador. como uma reação global da mentalidade religiosa antiga con tra o Cristianismo emergente. ou melhor. Para nós como para os pigmeus da Nova Guiné. já passou duas vezes pela História ocidental. desde que no fundo eles celebram o mesmo esquecimento do eterno. Se lembrarmos que es ta tradição tinha fundas raízes no passado egípcio-babilônico.

.

absoluto e supraquantitativo. dogma a dogma. em face do culto exotérico das potências cósmicas. o islamismo ao judaismo. ao passo que a sociedade fala apenas em nome do geral. cujas repercussões se propagam até hoje. pela dialética socrática. Aí. enfim. O indivíduo que chega à verdade tem. por exemplo. De outro. porque há uma different ia specifica do Cristianismo que salta aos olhos logo a um primeiro exame e dá. uma cosmovisão religiosa se cristaliza numa estrutura social determinada . o deus de Platão não reside senão na pura intelecção metafís ca do filósofo. Não se tra ta de duas religiões diferentes. ausente no Cristianism o: Nelas. como diversas espécies de um mesmo gênero. como viria a ser mais tarde e como é até hoje em sociedades de vários tipos: é que o pensamento individual simplesmente não existia. continua a lhe opor. não surge na história antes da filosofia grega. ao longo de dois milênios. temos de perguntar o que é que o Cristianismo trazia de tão novo e estranho. Não que o pensament o individual fosse reprimi- do. A diferença a que me refiro. e a cessível à consciência individual livre.122 OLAVO DE CARVALHO amplitude e a profundidade dessa reação. A diferença é tão profunda que o uso de um mes mo termo — “religião” — para designar fenômenos tão heterogêneos deveria ser afastado para ev r confusão. A diferença é. de duas espécies do mesmo gênero em conflito entre si : trata-se de dois gêneros incomensuráveis. escolas e doutrinas que. a crença reta e a integr ação obediente do indivíduo na ordem social eram uma só e mesma coisa. derivadas e segundas. como a fonte e inspiração comum de uma multidão inesgotável de moviment os. o Sumo Bem. for ma quantitativa e meramente simbólica do universal. se voltaram contra o Crist ianismo desde muitos lados. ao proclamá-la . passados vinte séculos. A que stão parece imensa e complexa. diante da sociedade. a visão direta . ao Deus verdadeiro. Noutros termos. é um homem como os outros. religião a religião. numa posição ambígua: de um lado. tomada ela mesma como expressão corporificada da verdade dessa cosmovisão. O portador da verdade esotérica está. da verdade universal. como as divergências que opõem. sua superioridade mesmo em relação à crença materializada n a ordem social. na sucessão dos tempos. por outro lado. universal. O abismo entre Cristianismo e religião antiga é mais profundo. Aparece aí. o primeiro homem que afirma explicitamente a sobera nia da consciência individual. não faria senão opor. ou as várias confissões cristãs entre si. Mas não. um membro da polis. É o mesmo que dizer que os deuses gregos não eram senão a corporificação de forças cósmicas. O sábio deve. ao passo que o Deus de Platão. na medida em que a sociedade só pode ter acesso a verdades esquemáti cas e simbólicas. Uma vez assinalada essa diferença. mas sua resposta é bem simples. o gnosticismo surge. Todas as grande s religiões anteriores ao Cristianismo têm um caráter em comum. deve-a. da forma dos fenômenos respectivos. mais ou menos no mesmo plano. portanto. A Unidade de um Absoluto supra-cósmico aparece aí como uma verdade esotérica. uma razão suficiente para justificar a profundidade do abismo que sepa ra o Cristianismo do mundo antigo e explicar a violência contínua que este opôs à nova r evelação e. uma autoridade superior à da sociedade. Se os deuses da comunidade hab itavam nos templos e nas praças. submisso ao culto e às leis. por um lado. com ofus cante claridade. independente de qualquer ordem social determinada. era o Absoluto mesmo. inacessível ao culto público e só conhecido. Sóc rates é. não havia um espaço onde a consciência do indivíduo pudesse se desenvolver para fora da crença coletiva. obediência às leis e costumes. uma espécie de autoridade espirit ual simbólica. caso não deseje s er excluído da comunidade humana. pois fala em nome do universal. ass im. a tragédia da autoridade espir itual legítima colocada em face de um poder temporal a que um velho culto já amputad o de toda raiz celeste conferiu. é o porta-voz de um Deus ve rdadeiro. do q . se residisse no conteúdo do utrinal do Cristianismo. não simbólica. de tão radicalm ente hostil e incompatível com a mentalidade antiga em seu todo — e não só com a sua ver são greco-romana em especial — a ponto de desencadear tamanho “choque de retorno”. pela antigüidade. com uma clareza ofuscante. po r si mesma. A concepção de uma ver dade objetiva. do qual aqueles deuses que aparecem no culto público não são senão ecos e imag ens distantes. pela intelecção filo sófica. a organização sócio-política era ela mesma a verdade encarnada — não havendo qualqu er possibilidade de uma verdade exterior à crença coletiva. ao passo que o indivíduo alcança. sob uma variedade impressiona nte de manifestações.

ual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes. . cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu.

Repetidamente os filósofos procuraram resgatar a s ua lem131 Tendo exortado os fiéis a obedecer as autoridades mundanas ( Rom. Pau- lo Apóstolo. que pesam sobre o destino humano e en tre cujas exigências a comunidade deve abrir seu caminho. A religião do Império. no diálogo entre a comunidade humana e o cosmos . reconhecendo. livres da pressão da sociedade local ateniense. como portadora do Verbo divino. fundase na evidência e não em mera opinião. no Novo Testamento. não viera ao mundo. mas e nquanto indivíduos conscientes e senhores da sua liberdade. superposta ao c onfronto horizontal da sociedade e do cosmos. do homem independente. acabara por se refugiar na consciência filosófica e nos cultos de mistérios: tornara-se esotérica. verbal e pro forma. enquanto indivíduo humano. A única diferença é que Sócrates se resignava a que esta verda de interior permanecesse secreta. sem a intermediação da polis ou do Estado. Mas. Ao mesmo tempo. é apodíctica. Na sua mensagem destacam-se três aspectos essenciais : lº. É significa tiva. em primeiro lugar. o Apóst . testemunho de uma verdade universal tran scendente a todo culto local.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 123 Para nós. e não a autoridade socialmente constituída. transcendente a todas as representações sensíveis. válida para todos os seres racionais e não somente para uma comunidad e em particular. uma certeza superior a toda prova dialética. os adverte a não se submeterem ao julgamento da autoridade civil. para fundar uma nova religião. Não que essa dimensão fosse totalmente desconhecida do mundo antigo. em última instância.: 13:1-7 ). é fácil dar razão a Sócrates . restaurando a concepção de um deus supracósmico. Ora. é precisamente um dos sentidos do si mbolismo da cruz. por mais deteriorado e vazio de qualquer conteúdo es piritual. seu repres ntante e porta-voz é o indivíduo como tal. portador de uma me nsagem espiritual. ao passo que o Cristianismo a revelava publica mente. a profundidade interior da consciência individual. Sócrates. romanos e b aros. quer às representações sensíveis das divindades s: de um lado. provavelmente herdeir a de tradições orientais onde a consciência metafísica se conservara intacta. po is não cabe a esta julgar “aqueles que vão julgar o mundo” 131. omiti da pelo culto público. convocando todos os homens a buscarem o acesso direto ao Verbo. mesmo porque nossa adesão à verdade interior que ele representava é. sem inter mediação da autoridade civil. a consciência reflexiva. a alma do indivíduo humano. tendo sabido que cristãos recém-batizados disputavam algo entre si no tri bunal romano. De um lado. aquilo que Sócrates propõe a um grupo restrito de filósofos. afinal. não lh es propõe um novo sistema de ritos e símbolos. filosófica. o pensamento comum dos homens reunidos na ágora ou no fôro. unilateralmente. as forças cósmicas. de outro. a passagem em que S. dessacralizava radicalmente o Estado. é universal. a infinitude. conservava seus direitos enquanto não chegasse o momento de rasgar o véu d os símbolos para exibir urbi et orbi o supremo segredo. resumia-se. o cristi anismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imagin ação greco-romana. quase sempre. implicitamente. em terceiro lugar. no mesmo instante em que consagrava. O crist ianismo. A dimensão vertical da alma e de Deus. em suma. inacessível quer à imaginação comunitária. válida para todos os homens e não só para uns poucos situados num m omento e lugar da História. ora propícias. hoje. Mas o próprio Sócrates deu alguma razão a seus car rascos. ou a comunidade historica mente existente. mas a experiência direta do Verbo divin o. sem a menor pretensão de transformar o seu ensinamento num novo culto público. que o culto exterior. é precisam ente o que o Cristianismo oferecerá a todos os homens: o acesso direto ao conhecim ento do Verbo divino. condensação de cultos gregos. não se dirige aos homens enquanto membros de uma comunidade. a eternidade. mas ap enas para dar. oferece-a como verdade universal. 3º. que a verdade interior devia permanecer in terior. O Cristianismo. num aberto desafio a todos os cultos estatais. ora adversas. Encontramos sinais dela na mitologia grega. O cristianismo rompe ess e mundo bidimensional. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica. o recinto secret o da intimidade do homem consigo mesmo. inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura . de outro. pa ra além do tempo e do cosmos. 2º. em segundo lugar.

S. curiosamente. tendo percebido nitida mente a contradição da Igreja medieval a um tempo defensora da liberdade de consciênci a e obstáculo ao seu exercício efetivo ( Fil. . Paulo já deixava refutada de antemão a falácia hegeliana de que “o Estado é a realidade da liberdade concreta”. tendo litígio contra outro. C om isto. adverte: “Atreve-se algum de vós.. mas sem submeter-lhe o julgamento de questões de consciência. formal. ir a juíz o perante os injustos.olo. Chega a ser espantoso que Hegel. O sentido é claro: “da r a César o que é de César”.: 6:1 ). e não perante os santos?” ( I Cor. viria a ser percebido também com muit a clareza por Karl Marx. não obstante. II:1 ) . não se desse conta de que a mesma contradição se agravaria ainda mais no Estado moderno. o que. Hist. mostrando que o Estado só pode ser o lugar da libe rdade abstrata.

o detentor consciente do critério da verdade. o cristia nismo abre entre a individualidade física e a identidade social humana um interval o. o interl ocutor solitário do Deus que “sonda os rins e os corações”. que ela subentende. impedindo que os homens bebam. ele gira o botão do acontecer histórico. e de que uma história reduzida às dimensões natural e civil. dando um sentido ao caos e iluminando a uma n ova luz a meta permanente da existência 132. ilustrado pelo ca so do único profeta de cujos atos e palavras restou para o historiador moderno uma documentação abundante. tapam a v ia de acesso ao divino. por força do resíduo humano e histórico que carregam. é um estudo sobre a significação da profecia na História. esse novo sentido não podia ser captado senão pelo indivíduo desligado dos laços que o prend iam à sociedade e ao Estado. “determinar”. ainda inédito nove anos após ter recebido um prêmio do governo da A rábia Saudita. O profetismo é o ret orno cíclico da primavera do mundo. que to ma momentaneamente a forma do copo. às instituições jurídicas e políticas. Entr emeados e às vezes identificados aos costumes morais. ao ser vertida noutro recipiente. o espa132 Meu livro O Profeta da Paz. o portador do Logos. é apenas uma crônica provinciana. que cortam a linearidade horizontal das causas histórica s pela vertical de uma intervenção superior: os adventos de novos profetaslegislador es. caóticas e inconciliáveis se uni fica numa nova direção da vida humana. eles tendem. O termo mesmo “profeta” vem do grego prophero. assumisse ao mesmo tempo a responsabilidade de ser. Daí que a história das religiões seja ponti lhada de rupturas cíclicas. de outro. revelando a todos os homens o segredo que se tornara o privilégio dos sábio s e dos místicos. pelo indivíduo que. diante do qual o homem está nu e verídico tal como no dia em que nasceu. desviada. mas não pode ser abolida para sempre. na mensagem cristã. Ao propor ao homem um esforço que não se volt a nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade. t udo equalizando na platitude do social e do histórico: de um lado. a existência de uma realid ade mais alta a que os símbolos do culto aludiam veladamente. “produzir”. É só a banalidade do mundo de hoje que pode conceber os profetas como meros vaticina dores das coisas futuras. O recipiente fecha-se. conservando-se não obst ante intacta. imprimindo-lhe uma direção totalmente nova. absorvem a cons ciência interior dos homens. ritos e mitos. Os cultos públicos são vastos sistem as de símbolos. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed ( Maomé ). para metamorfosear-se. Ele de na o curso dos eventos. por trás do panteão das divindades cósmicas. para além do véu simbólico dos ritos e das leis. É evidente que a dimensão metafísica não pode ser totalmente abrangida pelos discurso le galista da moral religiosa e pelos símbolos de um culto público. Ele determina uma súbita elevação do nível do devir histór . que rompem a unidade cerrada das instituições antigas. Pode ser reprimida. Submetidos à lei da entropia. A realidade divina foi muitas vezes comparada à água. fora de qualquer tutela ou garantia ex terna. onde repentinamente uma profusão de forças dispersas. O profeta é uma força agente. que signifi ca “fazer”. Mas a aspiração ao infinito parece inerente à constituição humana.124 OLAVO DE CARVALHO brança. gerando efeitos de escala incomparavelmente superior ao das forças causais até então agentes. assumindo sua liberdade. Aconteceu que. como tudo o que existe no espaçotempo. que contêm essa água ao mesmo tempo que a ocultam. inaugurando novos mundos históricos e resgatando as possibilidades espirituais perdidas. captável pela pura inteligên cia metafísica mas irredutível tanto à representação concreta quanto às tentativas de uma fo rmulação doutrinal acabada. abertura que o Evangelho simboliza como um rasgão no véu do templo. a encerrar-se numa totalidade enrijecida e auto-suficiente. acabam por mundanizar o divino e divinizar o mundo. um sentido. Foi esse estudo que me persuadiu. povoando os céus de figuras de heróis e deuses projetados da Terra: ampliações divinizadas do Estado e da natureza física. mostrando. d e que o fenômeno da profecia é o gonzo sobre o qual gira o portal da compreensão históri ca. sem qual . O cristianismo exote rizou-a. neutralizando-a na fala coletiva. como o é quase tudo o q ue hoje recebe o nome da ciência de Heródoto. narcotizada por meio de sucedâneos “cósmicos” ou “hi stóricos”. não um observador. de uma vez para sempre.

A “total mundanização e terrestrialidade do pensamento” ( sic ) advogada por Antonio Gramsci. respondeu: “É um buraquinho no teto da minha cas a. Seu id eal é reduzir a consciência do historiador à condição do sapo da fábula. é apenas a finalização de um processo de estreitamento do horizonte intelectual humano que vem de alguns séculos. firmemente empenhado em não deixar os homen s enxergarem nada para lá do círculo mundano. os retornos cíclicos. Que filosofias inteiras da História possam ter-se assentado sobre bases tão estreitas mostra apenas que a intelectualidade moderna é um novo sacerdócio de tipo greco-romano.quer poder de elucidar os fatores decisivos. as ascensões e qu edas dos impérios e das doutrinas.” . indagado sobre o que era o céu. habitante de um poço que.

Esse novo mundo é composto de unidades autônomas — cidade s. mas para exper imentar na extrema solidão o acesso a uma nova profundidade da vida interior. O que se pode questionar é se essa disciplina tem o valor moral definitivo de um código de conduta universalm ente válido.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 125 ço da liberdade interior. não para buscar as consolações factícias do jardim de Epicuro. aldeias. mas há uma verdadeira corrida para o deserto: milhares de anacoretas evadem-se do falatór io urbano. pelos impulsos naturais egoístas. Eles vão em busca de um espírito regenerador e. que agem movidos por um impulso pessoal e quase sem co municação com a autoridade religiosa central em Roma ou Bizâncio. a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência. tenaz e silenciosa d milhares de monges espalhados ao longo do território. crescer. e não apenas o de uma pedagogia. é certo. É fáci compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo te ve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical. através de uma disciplina moral dolorosa. pelo idealismo social (precisa mente as duas colunas a que se pretende reduzir o templo da moral moderna). Não se trata apenas de uma retirada. no integrado por la subordinación sino por la participación. no fundado en la dominación sino en la comunión. y no mantenido por el poder sino por la autoridad que se identifica con el servicio a la comunidad. apegados à sua fé por um liame interior muito mais poderoso do que qualquer obediência externa a um governante 13 3. em tais condições? Não há outra explicação senão a atividade incessante. estruturalmente. de outro. O fenômeno é espantoso. de u m lado. A noção mesma de autoridade e hierarquia era ali submetida a uma estranha mutação: “Se trata de un reino no encuadrado por el espacio y por el tiempo. mas tão necessária ao flor escimento da autoconsciência quanto o isolamento social. É desses homens fugidos do m undo que nasce o novo mundo. propriedades rurais — separadas umas das outras por imensas distâncias e sem outra ligação entre si senão a obediência comum a uma mesma religião. com aquele hiato que o cristianismo abre entre indivíduo e s ociedade ao proclamar. Ele coinc ide. esse hiato também corresponde a uma certa separação que o cristianismo estabelece entre consciênci a e corpo. Este desenvolvimento é impossível enquanto todo o horizonte da atenção for ocupado. II). O adv ento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário. o fruto supremo da História. De outro lado. econômica ou militar. repentinamente arrebatado à segurança do 133 É absolutamente indispensável a quem queira compreender este período da História ler os . Nenh uma unidade administrativa. e que precisamente por isto podem se reunir em Cristo e não em mera tagarelice. sempre por obra de homens solitários. Apenas o liame sutil e voluntário da fé. ao vo lta- rem para junto de seus semelhantes. Pode-se fazer uma imagem supondo como se sentiria um se nador norte-americano que. o trazem consigo. que cada cristão é um estrangei ro na sua própria pátria. Como pôde a nova civilização sobreviver. na Epístola a Diogneto (séc. sino extendido en la eternidad. afirmar poderosamente seus valores. caótico e hostil às classes e pessoas aco stumadas à ordem imperial. no existente primariamente en institucio nes y actos externos (aunque manifestado en ellos) sino viviendo originariamente en la intimidad de cada uno.” 134 O novo mundo deve ter parecido misterioso. A importância fundamental que teve o monast icismo (monakos = monge = solitário) no desenvolvimento da nova civilização é um sinal e loquente do teor básico da sua vocação. É ness e espaço que floresce a personalidade humana. é: e não espanta que uma época afeita à liberdade sexual irrestrita também seja fértil em filósofos que negam a existência ou o valor da autoconsciência. mas que ela é absolutamente necessária à ecl osão da autoconsciência. monastérios. A socialidade fica assim submetida hierarquicamente à solidão onde Deus habita: a assembléia dos que se reunem em nome de Cristo é uma assembléia de homens que conhecem profundamente a solidão de seus corações. Não somente o Império povoa-se de monastérios. que se expande invisivelmente até abarcar todo o território europeu.

An Introduction to the History of European Unity. . Meridian Books. 1970. Madrid. I. Religion and the Rise of Western Culture. 134 M. 4ª ed. cit. em Antonio Truyol y Serra. Historia de la Filosofía del Derecho y del Esta do. 1956. Image Books. 1957 ( várias reedições ). p. vol. Revista de Occiden te. New Yor k.clássicos de Christopher Dawson. New York. García-Pelay o.. De los Orígenes a la Baja Edad Media. e The Making of Europe. 251.

e também de uma gnose cristã ( por exemplo. Entre letrados. budista etc. Compreende-se. Fala-se neste sentido de uma gnose islâmica. na espera de uma ressurreição. eles haviam trocado a complexa beleza das antigas cerimônias públicas por um rito e stranho. Durante o período de espera. constituiam a essência mesma da moralidade. sem o Império que lhe dá sua identidade. a essa gente. tal como o corpo moribundo vê ressurgirem com redobrada força as moléstias que ve nceu no passado. sacerdotes e iniciados. desperta ódio. demônio s e feras. havia colocado em circulação temas. Acuada pelo avanço cristão. fosse jogado no interior da Amazônia. e como religião. que d e lá lhe moveram guerra subterrânea ao longo de dois milênios. símbolos. O conjunto de crenças. afetação e arrogância de bárbaros. e. de repente. em Clemente de Alexandria ). Em segundo lugar. A c onfiança em Deus bastava para o anacoreta na noite do deserto.. Toda ci vilização em declínio experimenta um retorno de temas religiosos abandonados milênios an tes. O tipo de vida interior que os monges traziam era tão diferente de tu do quanto o mundo antigo conhecia como filosofia. viram desfazer-se em fumaça a proteção do segredo que as cercava. o cristianismo foi a “pedra de escândalo”. a dissolução dos valores sacros do Império entre as mãos das hordas de invasores bárbaro s. mostrando a a “sa bedoria mundana” um desdém que não nte tinha como não parecer. um desejo incoercível de vingança e de restabelecer as coi sas como eram antes. 135 Usa-se às vezes para nomeá-lo o termo gnose. entregue à sanha das hienas. para o subterrâneo. de fora. que o cristianismo não tinha senão como parecer. e do qual tiravam boa parte da sua autoridade. mais grave do que tudo. Este reflui para as sombras. De que valeriam ali o discurso sobre os direitos. é precisamente o que se denomina gnosticismo 135. po r outro. Porém. O novo mundo espiritual emerge num panorama exterior de sinistra desolação. a súbita ruptura. que refluíram para o subsolo no advento do cristianismo. a confiança no poder oni presente da autoridade civil? Ali só lhe restaria ser homem e confiar em Deus. a reação horrorizada dos letrados e da casta sacerdotal. nem cultivavam os debates filosóficos. até engoli-lo quando chegar a hora do crepúsculo. à espera de um futuro ciclo onde possa ressurgir. nobres. mais particularmente. entre ventos. em primeiro lugar . pouco se lixavam para as virtudes cívicas que. Para os homens da religião antiga. o cristianismo caiu como um raio que provoca espanto e terror. no con texto greco-romano. e que agora ressurgem à plena luz do dia para o combate final. solapando-lhe as bases. a negação mesma da cultura. A quem o vê de fora . de ressonâncias antropofágicas apavorantes. símbolos. revolta contra o destino. Mas o que é um patrício romano. a cultura es piritual antiga é em parte absorvida no novo quadro. conhecimentos e atitudes antes reservados a umas quantas sociedades iniciáticas qu e. ele representa o elemento antagônico e complementar da cultura dominante — a “sombra” que cresce junto co m o novo corpo da civilização. passado o susto inicial. o apelo aos tribunais. É quase uma l ei ou princípio histórico: o exoterismo destronado funde-se no esoterismo do ciclo s eguinte. o qual po . Somente o homem da fé pode enxergar ali a semente de um futuro glorioso. cristã inclusive. seu lugar de honra não só no Exército e no Senado mas na casta sacerdotal. onde tratará de conservar vivas as suas forças. mas esta palavra serve também para design ar — de modo mais genérico e sem qualquer conexão com a resistência greco-romana ao cris tianismo — o elemento intelectivo e cognoscitivo de qualquer tradição religiosa e espi ritual. valores e atitudes da cultura espi ritual grecoromana. o cristianismo havia “rompido o véu do templo”. mas resta sempre um fundo ina ssimilável.126 OLAVO DE CARVALHO Estado. por parte dos céus. desde o ponto de vista do mundo antigo. Os monges. que rigoro samente nada têm a ver com o fenômeno particular que estou estudando aqui. entre índios e frades. das letras e mesmo da virtude em geral. de um contrato que os homens acredi tavam ter selado para sempre com os deuses. Em terceiro lugar. ele nada promete senão trevas crescentes . rancor. não se ocupavam das letras. por um lado. seu senso de or ientação e de dignidade familiar? É um leão sem suas garras.

r isto prefiro designar com o termo diferencial gnosticismo. .

nas relações diretas entre a alma e Deus. . era eleva136 V. pp. onde a vert ical simboliza a eternidade e a horizontal a temporalidade. por exemplo. Às vezes não sob esse nome. seja à natureza em torno. um conceito da natureza física. É patente . O homem singular. porém. muito facilmente e sem qualquer inexatidão. novo Adão. seu papel de interlocutoras entre a al ma e o divino. de sua natureza. às vezes ocul tado sob um véu de obscuridade e silêncio como no budismo. mas sempre presente. ou “mundo” como o cenário onde se desenrola a história dessa alma. com poucas referências seja à alma individual. como pontos comuns a uma ampla variedade de escolas gnósticas. que no Judaismo a ênfase recai nas relações entre Deus e a comunidade h umana — o povo de Israel —. e o horizontal a khien. como aliás em todo o s imbolismo universal da cruz (Figura 2). do Infinito. por outro. Note-s ue o homem aqui designado é o Homem Universal. Imutável — a uma Causa ou Princípio metafísico. o Homem Universa l é a essência mesma da individualidade concreta. da singularidade humana. De outro lado. ao menos. Na simbologia chinesa. de cuja amplitude e variedade. devo recorrer a um diagrama. Não há r eligião sem uma referência mais ou menos direta a um Absoluto. Para me fazer entender. orige m e destino. 15-17 da 1ª ed. Esse diag rama não tem. conforme a ênfase maior ou menor que dão a um ou outro desses três elementos na sua relação com o Ab soluto e conforme o jogo de compensações dialéticas que estabelece entre eles. de um só golpe. é Deus. alguma noção. Eterno. Figura 2. do Absoluto. a religião cósmica. de um lado. O único elemento fixo. se encontra algo como um conceito de De us. A Nova Era e a Revolução Cultural. Os outros três fatores são móveis. A ênfase do cristianismo cai evidentemente no eixo vertical. quanto à organização real ou ideal da sociedade humana para os fins que a alma deve cumprir. Leviatã e Beemoth Não cabe entrar aqui numa descrição aprofundada do fenômeno gnóstico. molde do cosmos — transcendente ao co smos portanto — e não a individualidade empírica. aqui. a vertical corres ponde a khouen. às vezes reduzido a um conceito metafísico abstrato.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 127 § 25. presente em todas as religiões. e. como no hinduismo. um conceito da alma humana. ou que o Budismo fala mais da alma do que dos outros dois elementos. Elementos do fenômeno religioso. a “perfeição ativa”. Em cada uma delas. ou o princípio metafísico do qual tudo se origina. Ele in dica simplesmente os quatro elementos básicos que estão presentes em todas as concepções religiosas do mundo. finalmente. somente estudos volumosos podem. ligação direta com o simbolismo cristão do sacrifício do Gólgota. de longe. As religiões podem ser dif erenciadas e classificadas. A soci edade e a natureza perdiam. Isso não quer dizer que os elementos menos enfatizados estejam de fato ausentes — qu er dizer apenas que essas religiões os tomam por implícitos. quase alucinantes. a “perfeição passiva” ou manifestação cósmica desse princípio 136. Mas não creio errar ao assinalar. a sacralização da sociedade (ou do Esta do). dar con ta.

128 OLAVO DE CARVALHO

do a senhor do mundo, em luta aberta com as divindades da natureza — os djinns de que fala a tradição islâmica — e os poderes sociais, que a Bíblia havia condenado numa sen tença sumária: “Os deuses das nações são demônios.” É evidente, portanto, que a reação básica ristianismo assume desde logo a forma de uma luta pela restauração da natureza e da sociedade em seu estatuto anterior — de uma luta, portanto, contra o indivíduo human o, contra a alma, contra a consciência autônoma 137. Seria errôneo, porém, identificar d iretamente essa luta como uma luta contra a Igreja, contra o Papado, contra a In stituição Romana. Ao contrário, a própria consolidação da autoridade romana se faz, em grand e parte, romanizando o cristianismo, ressacralizando a sociedade: a Igreja conqu ista o mundo, mas deixando-se em parte conquistar por ele. O conflito entre expa nsionismo catequético e conservação da fé inicial acompanha toda a História da Igreja — em c ontraponto com a perene ambigüidade das relações entre Fé e Império, autoridade espiritual e poder temporal, que Dante simbolizou na luta entre a águia e a cruz. O cristian ismo, de fato, não quis destruir o Império, mas não podia submeter-se a ele; nem quis restaurá-lo, mas não podia subsistir e expandir-se senão sob a proteção dele. René Guénon, qu sempre deve ser ouvido nessas matérias, explica o fenômeno dizendo que o cristianis mo não tinha, originariamente, o espírito de uma lei religiosa, no sentido judaico o u islâmico de uma regra para a ordenação do mundo, mas o de um esoterismo, de um camin ho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo.” A exoterização do cristianismo, sua tr ansformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade, teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaismo deixavam o mund o greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo, mesmo a contragosto, mesmo ao preço de trair em parte sua vocação interiorizante, teve de pre encher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O cristianismo salva o mundo antigo, absorvendo-o num novo quadro, ma s, para isso, tem 137 O estudo mais inteligente já escrito sobre a influência do gnosticismo na história das ideologias no Ocidente é a obra de Eric Voegelin citada adiante na nota 244. A te se defendida neste parágrafo é amplamente inspirada em Voegelin, do qual no entanto me separam algumas diferenças menores, que se manifestarão nos parágrafos seguintes.

de se deixar absorver nele e transformar-se, mediante adaptações bastante deformante s, numa nova Lei exterior, na religião do Império 138. Não precisamos endossar por com pleto a tese de Guénon para admitir o fato patente de que o cristianismo, malgrado sua imensa força de renovação espiritual, não estava muito bem dotado para reorganizar a sociedade civil e política. No Evangelho não se encontra uma indicação, uma linha, uma palavra sequer a respeito da organização política e econômica, da moral exterior, do di reito civil e penal, como se encontram com abundância na Torah, no Corão ou nas Escr ituras hindus. O cristianismo era essencialmente uma “via de salvação”, que voltava as c ostas para este mundo, concentrando todos os esforços na busca da Cidade Celeste. Para transformar-se numa força organizadora da Cidade Terrestre, ele teve de sofre r adaptações que arriscaram deformá-lo profundamente. Não existe, em toda a História das R eligiões, outro caso de uma moral religiosa que tenha passado por tantas mudanças e transformações. A moral social cristã, com efeito, não emerge pronta e óbvia da letra das escrituras, como a islâmica ou a judaica, mas se elabora aos poucos, ao fio de tre mendas disputas dialéticas, por obra dos teólogos e dos concílios, crescendo, não como a progressão linear de uma simples dedução lógica, mas como um organismo vivente, entre d ores e contradições. Assim, por exemplo, vemos o celibato clerical — hoje defendido co mo um valor essencial à preservação da fé — não ser instituído plenamente antes de dez século e discussões, numa Igreja cujo primeiro papa, o Apóstolo Pedro, fora um homem casado . Mesmo o rito, a expressão plástica da simbologia da fé, não tem forma fixa: em torno d e um núcleo essencial constituído pela Eucaristia, a missa adquire, ao longo dos sécul os, uma pluralidade de formas, ora com o sacerdote de costas para o público, ora d e frente, ora os fiéis tomando vinho e comendo pão, ora só comendo o pão e deixando o vi

nho para o sacerdote, ora sentados em bancos, ora espalhados de pé pela nave da ig reja, ora voltados uniformemente para o Oriente ora para qualquer direção ao acaso, ora rezando em latim ou grego, ora nas línguas locais, ora com música, ora sem música, ora confessando-se sumariamente em grupo, ora detalhadamente cada qual a sós 138

René Guénon, Aperçus sur l’Ésoterisme Chrétien, Paris, Éditions Traditionnelles, 2e éd., 1977 p. 826.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 129 com o padre, e assim por diante, numa variedade sem fim, conforme os tempos e os modos da História mundana. A singularidade desse fenômeno salta aos olhos quando co mparamos a infinidade das formas da missa com a fixidez uniforme das cerimônias ju daicas cristalizadas de uma vez para sempre na forma estabelecida pelo Antigo Te stamento; ou com a do rito islâmico, hoje exatamente o mesmo do tempo em que o ens inou o Profeta Mohammed (Maomé) ao exército medinense em marcha contra os infiéis aqua rtelados em Meca, isto para não falar da imobilidade multimilenar do complexo sist ema ritual hindu. Tudo isso mostra a profunda inadaptação do cristianismo à missão regul adora e civilizadora de que foi ncumbido pelo desenrolar dos fatos. Entre a inad aptação i congênita e a força da obrigação externa, o resultado foi duplo: de um lado, um es forço milenar e repetidamente fracassado para erguer um Império cristão, unificando o Ocidente. Com efeito, no Ocidente só existiu império cristão, no sentido mundial, dura nte o reinado de Carlos Magno. No restante da história européia o Império é apenas uma i déia unificadora, pairando no abstrato sobre um caos de principados e ducados perp etuamente em guerra uns com os outros. De outro lado, e em função mesma do fracasso do Império, surge a transformação do papado num poder temporal concorrente, com todo o seu cortejo de conseqüências nefastas. A principal, evidentemente, foi a mundanização d o culto, o rebaixamento da moral cristã a um receituário de exterioridades tão opressi vo e falso quanto o moralismo estatal romano, a cristalização progressiva da doutrin a num formalismo lógico-jurídico deprimente e, por via de conseqüência, a politização comple ta da religião na época pósrenascentista, como um conservadorismo monárquico, de início, q ue aos poucos iria se transformando no seu contrário: num ativismo republicano, li beral e socialista. Mas não foi só dentro da Igreja que o espírito do mundo romano per maneceu atuante: em volta dela, e contra ela, pulularam desde os primeiros séculos as seitas gnósticas. Nelas conservava-se o espírito da religião cósmica — o outro compone nte do culto estatal greco-romano. É como se o espírito pagão se houvesse bipartido: s eu gênio político, histórico e jurídico infiltrou-se na alta hierarquia da Igreja, enqua nto sua religião cósmica, seus deuses naturais, se refugiavam no gnosticismo. Eis aí, desde o início da história cristã, perfilados os dois inimigos que se opõem a

Deus e à alma: o “mundo” e a “carne” — de um lado o espírito da sociedade política, de outro ulto das forças materiais do cosmos. A aliança de religião estatal e religião cósmica opõe-s e à aliança de Deus e do homem. A dimensão sociocósmica (khien) pretende subjugar, engol ir e eliminar a dimensão espiritual e metafísica (khouen). Mas khien é, em si mesmo, d uplo. A entronização do sociocósmico desencadeia, imediatamente, uma nova luta. Quem r einará: a sociedade ou o cosmos, o homem ou a realidade externa, a história ou a nat ureza? Aparece aí, com toda a clareza, o tema dominante de todos os conflitos de i déias no Ocidente desde o Renascimento. Derrubado o eixo vertical, o horizontal não pode permanecer de pé, pois não há entre seus dois termos a desigualdade flagrante que há entre o indivíduo humano e Deus: história e mundo, cultura e natureza, valor e fat o, jamais podem chegar a um acordo senão tomando como fiel da balança a vertical que aponta, para cima, a esfera das leis metafísicas, os limites do possível e do impos sível, e, para baixo, os desejos e aspirações da alma humana singular. Retirados de ce na a alma e o Absoluto, resta apenas o combate de Leviatã e Beemoth: o espírito da r ebelião autolátrica que comanda a História, o espírito da submissão cega e mecânica à naturez exterior. Um novo diagrama mostrará as alternativas em que o Ocidente se debate há quatro séculos: COSMOS LEIS FÍSICAS EXPERIÊNCIA NATUREZA MECANICISMO Nature Behemoth versus versus v ersus versus versus versus versus HUMANIDADE LEIS DA RAZÃO PENSAMENTO HISTÓRIA VITAL ISMO Nurture Leviatã Muitas vezes me perguntei se os significados atuais e correntes da “esquerda” e da “di reita”, que o folclore político data da reunião dos Estados Gerais sob Luís XVI, não teria m uma origem anterior, na disputa entre os dois braços da cruz para decidir, uma v ez a cruz tombada, qual ficaria para cima.

130 OLAVO DE CARVALHO

É surpreendente, mas a história das idéias nos últimos quatro séculos pode ser todinha con tada como uma série de variações, na verdade bem monótonas, em torno do tema da disputa entre os dois braços da cruz. Já em pleno Renascimento, o antagonismo perfila-se ent re os cientistas naturais, firmemente decididos a abandonar a tradição aristotélica (o u o que assim denominavam) pelos novos métodos experimentais, e os humanistas, emp enhados em restaurar o amor aos clássicos gregos. Os primeiros romperam com o sent ido de continuidade histórica das ciências, acreditando possível fazer tábua-rasa e ler direto do Livro da Natureza. Os segundos, redescobrindo a Poética de Aristóteles, en cadearam numa rígida obediência aos cânones aristotélicos o gosto literário por três séculos, ao mesmo tempo que inauguravam, com a crítica de textos, a moderna ciência histórica. É incrível como dois movimentos de sentido antagônico possam ter entrado para os livro s de História com a denominação comum de “Renascimento” 139. No século XVII, as duas corrent es contrárias serão por assim dizer oficialmente separadas em compartimentos estanqu es com a abertura das faculdades parisienses de “Letras” e de “Ciências”, inaugurando as “du as culturas” de que falaria mais tarde C. P. Snow. Ao mesmo tempo, o debate filosófi co cristaliza-se no antagonismo entre empiristas e racionalistas — os primeiros at ribuindo ao mundo, ao objeto externo, a origem de todos os nossos conhecimentos; o segundo extraindo-o pronto ou semipronto de dentro da razão humana. No século seg uinte, o nascimento do historicismo assinala o começo da disputa entre os deuses d o tempo e os deuses do espaço. O antagonismo só será formulado expressamente no fim do século XIX, com Windelband e Rickert, mas em Vico já se observa a disputa de priori dade: em oposição à ciência físico-matemática, a História é promovida a modelo supremo do con imento. Finalmente, no século XX, o conflito entre capitalismo e comunismo evolui para a f orma final da disputa entre a “Nova Era” e a “Revolução Cultural”. E no auge desta disputa é ue entra em cena o iogue-comissário. LIVRO V - CÆSAR REDIVIVUS 139

Sobre este paradoxo na história da influência aristotélica e este antagonismo no seio do Renascimento, v. meu livreto Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. Introdução à Teor ia dos Quatro Discursos, e também Pensamento e Atualidade de Aristóteles, transcrição po r Heloísa Madeira, João Augusto Madeira e Kátia Torres, 12 fascículos, 5 já em circulação ( R o, IAL, 1994 ).

CAPÍTULO IX. A RELIGIÃO DO IMPÉRIO § 26. De Hegel a Comte O iogue-comissário, personificando a reconciliação entre a Nova Era e a Revolução Cultural , deveria trazer-nos, logicamente, a solução de todas essas antinomias. É isto, de fat o, o que ele nos promete. Mas é claro também que não pode realizá-lo em hipótese alguma, p ois uma contradição, qualquer que seja, só pode ser resolvida desde um terceiro termo superior que abranja e contenha os dois opostos; e o iogue-comissário, não podendo e levar-se ao plano da universalidade metafísica que é o único desde o qual os dilemas d a cultura Ocidental se unificam e se resolvem, apela para o clássico expediente do s neuróticos: amortecer o conflito mediante a queda num sono depressivo e auto-hip nótico. Estreitando o horizonte da consciência, ele expele de seu campo de visão as fo rças em luta, e procura persuadir-se de que tudo o que não enxerga não existe. Mas nem séculos de prática do tetrafármacon poderiam nos impedir de ouvir, por trás das palavra s calmantes de Motta Pessanha, o ronco ameaçador da catástrofe que se aproxima: uma vez desaparecida dos céus a imagem do eterno, a luta entre os deuses do tempo e os deuses do espaço prosseguirá até o desenlace fatal, que só pode ser a vitória do mais for te. Ora, dos dois monstros, o mais forte é sempre Beemoth, a ordem do universo físic o. A derrotada é sempre a comunidade humana, instável e nervosa, a debater-se nas água s, raivosa e humilhada, sob o peso esmagador das patas do adversário.

Não é mesmo significativo que, no auge do ufanismo científico que celebrava o domínio da comunidade humana sobre a natureza, os cientistas mesmos venham nos alertar par a os perigos iminentes que nos chegam cada vez mais ameaçadores do cosmos físico, e, mudando de tom, passem do triunfalismo prometéico à pregação de uma resignada e humilde “colaboração com a natureza”? 140 É que eles ouviram o baque surdo das patas de Beemoth, que vem novamente esmagar Leviatã. Mas tudo o que podem fazer é trocar às pressas de d ivindade, passar da rebelião prometéica a um conformismo obediente de bonzos orienta is, até que a vontade humana de poder se rebele novamente, para novamente ser esma gada, e assim por diante até a derrota final. Não, não adianta trocar o culto de Levia tã pelo de Beemoth. Esta troca, cíclica e repetitiva até à alucinação, é ela mesma o problema o mal que sacode e gira há séculos o Ocidente numa alucinada dança de dervixes bêbados que se esqueceram de Allah e caíram na idolatria da dança mesma. As duas mãos de khien só param de estapear-se uma à outra quando se juntam na comum obediência a khouen. Ma s, se o remédio proposto pelo iogue-comissário para debelar o vício é apenas uma nova in jeção da mesma velha droga, então cabe a pergunta: Quia bono? Quem ganha com isso? A q uem serve o iogue-comissário, sabendo ou não? Terminada a Revolução Francesa, Augusto Comte, empreendendo o balanço contábil das conqu istas ideológicas desse magno evento da modernidade, chegou à conclusão de que o saldo estava em vermelho. Esta cor não se referia ao sangue derramado entre discursos, mas ao fato de que a Revolução, tendo cortado junto com a cabeça do rei também as raízes m orais e religiosas do Antigo Regime, nada pusera em seu lugar: com o deficit ide ológico daí resultante, as massas sentiam-se boiando num desesperante vazio espiritu al, que as conquistas sociais não bastavam para aliviar 141. Qual a solução? Voltar ao catolicismo? Nunca! Diante das circuns140 141 V. A Nova Era e a Revolução Cultural, Cap. I. Comte nem de longe prestou atenção ao fato de que as referidas conquistas, consistindo basicamente no serviço militar obriga tório, numa carga tributária superior a tudo o que a monarquia ousara sonhar e na

132 OLAVO DE CARVALHO

tâncias, Comte tomou então uma atitude que bem mostra a superioridade dos tempos mod ernos: ao contrário dos antigos profetas judeus, aqueles preguiçosos que fugiam ao a pelo divino até que Jeová os capturasse a laço entre invectivas e ameaças terrificantes, o nosso filósofo não se fez de rogado, e aceitou mais que depressa a incumbência de f undar o novo culto, incumbência que lhe fora aliás atribuída por ele mesmo. Não é preciso dizer que morreu louco. A nova religião teria três características principais: 1º Seria uma religião do Estado: o homem dos novos tempos serviria ao Estado como outrora o s fiéis tinham servido à Igreja. 2º Para marcar sua ruptura com a era anterior, ela in stituiria um novo calendário, com ritos festivos dedicados aos “grandes homens” cujo a dvento a este mundo marcara as etapas decisivas do “progresso histórico”. 3º A nova reli gião assinalaria o ingresso da humanidade na etapa decisiva de sua evolução temporal — a “era positiva”, marcada pelo predomínio da ciência e da técnica, após a “era mítica” inicial ra metafísica” intermediária. Nessas três características aparecem os traços básicos que defi em o que chamei divinização do tempo: a identificação da lei religiosa com a lei civil ( ou absorção da Igreja pela sociedade política), o culto dos antepassados e o conceito da dimensão temporal como campo onde se realiza um progresso predestinado. Em suma : Cæsar redivivus. Mas a nova religião não era tão nova. Em primeiro lugar, ela simplesm ente dava expressão mais detalhada à idéia hegeliana do Estado como sucessor da Igreja : se Comte era o Messias da Religião da Humanidade, Hegel fora pelo menos seu São João Batista. Para piorar, a religião de Hegel não ficara só na idéia: a Revolução chegou a real izá-la integralmente. Em 7 de junho de 1793, a Convenção, reunida sob a presidência de M axilimilien Robespierre, votou um Catecismo em quinze artigos. O primeiro reconh ecia a existência do Ser Supremo, que se distinguia daquilo que o Antigo Regime ch amava de Deus por ser menos uma Pessoa do que um conceito abscriação da maior burocr acia administrativa e policial que o mundo já conhecera, não eram mesmo de molde a a liviar o que quer que fosse.

trato: o deus do deismo, em suma. Os artigos 2 e 3 fixavam os deveres para com o Ser Supremo: odiar os tiranos, punir os traidores e outras coisas pelo gênero. Os artigos seguintes estabeleciam rituais festivos incumbidos de recordar ao homem sua dignidade e seus deveres. São trinta e seis festas por ano, dedicadas ao Ser Supremo, à República, à Justiça, à Frugalidade e a outras coisas excelentes, entre as quai s a Indústria e a Agricultura, e mais quatro celebrações extras, a principal das quais em 14 de julho. Marcada a primeira festa para a data que coincidia com o doming o de Pentecostes, o pintor Jacques-Louis David foi encarregado dos detalhes litúrg icos, que incluíram uma procissão, com o sumo-sacerdote Robespierre à frente, hinos ao “Pai do universo, suprema inteligência”, chuvas de flores, disparos de canhões e um des file da estátua da Liberdade num carro puxado por oito bois. Depois disso, que mai s restava a Augusto Comte senão chover no molhado? Até o título do opúsculo em que divul ga suas concepções religiosas é copiado do decreto da Convenção: Catéchisme. A religião de Co te não foi adotada em parte alguma, exceto na borda esquecida do mundo: no Império d o Brasil, onde valorosos oficiais militares, descontentes com a monarquia que não dera o devido reconhecimento ao Exército que vencera galhardamente tropas paraguai as compostas de meninos de 8 a 15 anos de idade, sonhavam em implantar no país uma ditadura republicana inspirada na divisa do Mestre: Ordre et Progrès. Na Europa a Religião da Humanidade acabou sendo esquecida, junto com seu antecessor imediato, o culto robespierreano do Ser Supremo. Mas deixaram, lá e cá, uma infinidade de mar cas, entre as quais um inesgotável calendário cívico, que, celebrando as secretárias, os motoristas, as mães, os pais, os namorados e tutti quanti, oferecem duas vantagen s indiscutíveis: fazem esquecer o calendário litúrgico da Igreja e fomentam os negócios. Na verdade fazem mais que isto: fornecendo um Ersatz para a experiência religiosa do “tempo qualificado” — épocas especiais em que o fluxo dos eventos muda ciclicamente de tonalidade, recordando ao homem a relatividade do tempo e a imersão de tudo no eterno 142 — , o calendário cívico ajuda a aprisionar a mente 142

Gallimard. v. . São Paulo. bem como — com reservas — Mircea Eliade. Le Mythe de l’Éternel Rétour. 1983.Sobre a noção de “tempo qualificado”. introd. o trabalho excelente de Michel Veber. Paris. Spe ulum. e notas de Olavo de Carvalho. 1979. Comentários à “Metafísica Oriental” de René Guénon.

fr utos da decisão humana. Em volta desse tema dominante. Levantava-se agora ante o cristianismo a figura temível do oponente espiritual. Ela acabou sendo absorvida por a quele que sepultou a Revolução sob os alicerces de um novo Império: ao coroar-se a si mesmo. sob uma mesma legislação e um mesmo governo. É. sua religião foi para o túmulo com ele. proteiforme. Napoleão terminou mal. É. v rificará que jamais houve no . § 27. reflexos. em que alg uma nação. Excetuando-se o período que medeia entre a queda de Roma e o reinado de Carlos Magno. o Império d o Ocidente. reinos e dinastias que surgem e se desvanecem. mas a idéia permaneceu no ar. l egitimidade. não empenhasse o melhor de si no esforço de elevar-se a Império ou como tal não fosse reconhecido pelos demais. não se passou um dia. de maneira discreta mas decisiva. uma realidade proble mática: em contraste com a unidade estável e o crescimento orgânico de Roma. s empre inquieto. líderes que vêem sua estrela brilhar por um instante para depois desaparecer para sempre. Século após século. coroados pela Igreja. contemplando o mar e as montanhas. re voluções políticas e culturais que se sucedem. Napoleão Bonaparte fez saber à Igreja q ue já estavam longe os tempos em que o Império fazia à autoridade religiosa uma concor rência meramente política. em terceiro lugar. O Império não é uma teoria: é uma realidade. a realida de decisiva. de agonistas e protagonistas. pesam sobre os homens com o peso de uma coerção física. convivendo na har monia de suas diferenças e todos contribuindo para a riqueza e grandeza do Império. E mesmo nesse período. imagine sonhar . Leviatã a agitar-se nervosamente no fundo das águas.” S. morre aqui para renascer ali. povo. dispensando a consagração papal que por séculos fora tida como a garantia espir itual indispensável à legitimação do poder temporal. Mas. sempre condenado à metamorfose das guer ras. Derrubado Robespierre. a idéia da religião de Estado prosperava. soberania. das mudanças de povos e fronteiras. entre tantas discussões de conceitos puramente formais e até mesmo convencionais — democracia. de doutrinas e de métodos. ao retomar seu lugar na fila do relógio de ponto. a agitação na superfície das água . Quem acompanhe a história das idéias políticas em contraponto com a históri a das ações políticas e não como uma sucessão de teorias a boiarem no céu das idéias puras. exercendo um forte apelo sobre todo homem a quem o poder sobre o reino de ste mundo parecesse uma ambição demasiado estreita. não é de esp antar que o empregado em férias. do o utro lado do oceano. facilmente resumida como a históri a das lutas pelo direito de sucessão do Império Romano. e que. nação. derrotado por um punhado de reis à antig a. Translatio imperii: Breve história da idéia imperial “Pois todos pecaram e estão privados da glória de Deus. das revoluções. guerras e crises. sem jamais desaparecer de todo. Uma das provas do mau estado da teoria política hoje em dia é que. se mpre sonhando com a estabilidade do poder. o Império não ces sa de existir: transfere-se para Bizâncio. No quadro de uma organização social onde horários e rotinas. uma multiplicidade de povos. direitos —. a um tempo. reinado. enquanto ele se extinguia na dor e na humilhação do exíl io. não são senão ecos. muda d e centro e de contorno. sem erro. o movimento profundo: a luta pela formação do Impér io. raramente lhe sobra tempo para investigar a at ualidade do fenômeno “Império”. que oculta e revela.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 133 humana no tempo socio-econômico. conflitos religiosos. sinta retornar à “realidade”. elevado ao estatuto de u ma realidade metafísica. viagens e d escobertas. P AULO APÓSTOLO A história política do Ocidente pode ser. vemos sucederem-se tentativas de renovar o feito máximo de Roma: unificar. É. no tempo administrativo. na História do Ocidente. em primeiro l uma realidade contínua. em segundo lugar.

perdida que foi há tempos a vocação imperial que o animou até o século XII. Se fosse uma teoria. já não são mais que os estandartes das divisões. A morte de um deles eleva o outro a uma posição de domínio mundial superior a tudo quanto haviam sonhado os seus antecessores. Não pode refutarse mediante argumentos teóricos. com a mesma se renidade de quem sabe que uma só coisa importa: salvar a unidade do Estado que inc orpora o projeto da Revolução Americana. Tão forte é o magnetismo da idéia de Império. incapaz de organizar -se. dois grandes impérios. um poder expl icativo sobre o processo histórico em geral. . monárquica ou republicana. deveres e direit os. parecendo guerrear-se entre si — democra cia. tem de ser discutido no terreno da narração histórica. mas sempre temido —. Os pensadores políticos e religiosos do Ocidente não criaram uma só idéia que. ele ap oiará a revolução ou a reação. poderosíssima e no entanto acomodada dentro de suas fronteiras durante milênios. Em toda a variedade de processos e mutações que constitui a história do Ocidente. à luta de classes. administrando sabiamente as diferenças nacionais. É. Também ele terminará por ceder. liberalismo e social-democracia. Prevendo objeções levianas que nossos acadêmicos semiletrados não deixarão de apresentar. exceto a de sua missão unificadora. Como um de seus mais célebres heróis — Abraham Lincoln —. e. pretenderia ter um alcance genérico. seus costumes. e todas aquelas outras bandeiras em nome das quais os homen s matam e morrem. Mas nada de similar a esse fato tipic amente Ocidental se observa no Oriente. perpet uamente dividido em nações hostis e só de raro em raro tendo alguma iniciativa de unif icação imperial.134 OLAVO DE CARVALHO Ocidente uma só doutrina. Como Lincoln. escr avagista ou libertária. finalmente. onde a eclosão de um surto imperialista é an tes uma exceção do que uma regra. que as outras orbitam em t orno dela como satélites. revolucionário e reac ionário. que substituísse o con ceito de “Império” aos “três estados” de Comte. disputaram entre si a primazi a da unificação política e cultural do mundo. revolução e reação. nada mais fizeram senão ajudar a apressar e a legitimar a a scensão mundial do Império que é um tempo democrático e aristocrático. só caindo na tentação imperialista ao contaminar-se de idéias Ocidentais. que não fosse absorvida para servir de pretexto e reforço na l uta pelo Império. Há algum conceito que mereça estudo mais urgente que o de “império”? Tu do o mais são palavras. e que no fundo está pouco se lixando para essas distinções. esclareço que não estou com isso inventando uma “teoria da História”. Veja-se o mundo islâmico. sua língua. Não. o domínio colonial ou as reivindicações de independência nacional. revolução e reação. Seu único opositor — o p ovo islâmico — agita-se apenas no fundo da sua raiva impotente. Veja-se por exemplo o caso da China. cuja oposição aparente mascara apenas o fato de girarem em t orno de um mesmo eixo. Do alto de seu trono solitário — amado. que só o comprova. odiado. revolucionária ou reacionária. mas desde a perspectiva dos resultados reais a que ser vem na escala dos séculos. quando vistas já não desde o ponto de vista das motivações subjetivas que movem os seus mártires. ao determinismo geográfico a outras forças às quais os teóricos atribuíram o papel de “motores” do acontecer histórico. não servisse a incentivar ou a legitimar a luta por essa finalidad e. após terem destruído todos os demais. invejado. ordem e liberdade —. o Império é notavelment estituído de convicções teóricas. aristocracia. a escravatura ou a abolição. república e democracia. batalhões e esqu adrões em que se escande o descomunal exército empenhado num só objetivo: a formação do Im pério. senhores: o imperialismo não é uma pretensa “lei histórica”: é um fato ocorrido numa certa parte do mundo. nacionalismo e internacionalismo. capit alismo e socialismo. é elevado à condição de supremo magistrado do universo. e um fato específico da História Ocidente. ele 143 vai unificando e homogeneizando a humanidade. uma realidade atual: durante um século. seus valores. belas palavras que. e ssa é a única constante 143. assegurar a continuidade da marcha ascenden te dessa Revolução rumo ao Império do mundo. de servirem a um mesmo propósito e senhor. dominância da idéia de Império não é uma teoria: é um fato. comichão passageira e mal sucedida. Teocracia e mona rquia. impondo por toda a parte suas leis . o moralismo puritano ou a rebeliã exual. mais dia menos dia. liberal e socialdemocrático.

e que. que só podia partir dos militare s. é por uma série de razões muito simples e claras. o Império form a-se como evolução quase fatal de uma República onde uma dualidade de poderes — civil e militar — convidava desde séculos a uma unificação forçada. Em Roma. Esses poderes. atuando sobre as almas dos vivos co mo uma obsessão subconsciente. eram ambos igualmente submissos a . se em vez de tomar a forma de uma resta uração duradoura ele se estiola em tentativas incessantes e sangrentas que não levam a parte alguma.O Império Romano parece pairar sobre a mente Ocidental como o fantasma de um morto ilustre que não quer acabar de morrer. se serve deles como instrumentos de seu esforço para voltar à vida. Se esse retorno é problemático. no entanto.

Era preciso aproveita r um filho de uma das nobrezas locais bárbaras. demasiado sujei ta à autoridade bizantina para poder recusar-lhe o pagamento de pesados impostos. 1891. t.. em que senadores e cônsules.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 135 um conjunto de normas tradicionais de conduta. exercia nele um primado sobre a casta guerreira. Armand Colin. criando aos esforços educacionais da Igreja obstáculos intransponíveis. não podia fazer simplesmente brotar de si a semente de uma dinastia. c onsolidada pela religião do Estado. patrocinando o projeto do Império . até pelo menos . Demasiado distante d e Bizâncio para poder desfrutar da proteção imperial contra os bárbaros. o que terminou por fazer do clero uma estrutura administrativa informal. já que o clero colhia seus membros em todas as classes e os nobres não podiam ver com bons olhos os antigos servos que de repente apareciam investid os de autoridade e poder. Essa resistência durará até o século XV pelo menos. é verdade. Funk-Hemmer. repelia com verdadei ra ojeriza a idéia do culto estatal. cristianizar e educar o jovem guer reiro para torná-lo um rei cristão e depois um imperador cristão. ao sacer dócio. os imperadores da Europa terão de contentar-se com o estatuto de governantes out orgados e legitimados por uma outra casta. entre cujas vítimas se encontravam aliás seus fun dadores — a legião dos primeiros mártires cristãos. a Igreja. envoltos no prestígio temível do s portadores de dons mágicos. O problema básico da história política Oc dental pode assim resumir-se na sucessão de tentativas para encontrar uma resposta prática a um problema prático: como restaurar o Império romano sem a religião estatal r omana? A Igreja como força organizadora da sociedade nascera justamente no período m encionado acima. O Império constrói-se sobre a unidade moral e religiosa do povo romano. 359 ss. Desse momento até aquele em que a cabeça de 144 145 Cf. Em terceiro. os padres tiveram de acrescentar. as funções de líderes políticos. Consideravam-se essas coisas indignas de guerreiros. tabeliães. Em segundo lugar. Eis aí os primeiros tropeços. as funções sacerdotais. Paris. amarrado pelo compromisso do celibato 146. pp. para designar todas as mu danças do eixo do poder imperial no Ocidente. só obrig ava completamente os escalões superiores do clero. Mas. Mas. por sua inspiração mais profunda. Nesse interval o. xerifes etc. generais e imperado res exerciam pessoalmente. a resistência da casta nobre a qualquer forma de estudo e a uma participação mais séria em atividades religiosas era um fato consumado. nos intervalos de suas obrigações políticas e militares. de outro lado. A isto aliou-se uma série de conflito s entre o papado e o Império Bizantino — conflitos que prefiguram em miniatura aquel es que se manifestariam entre a Igreja e o Império Ocidental. entre a queda do Império e a coroação de Carlos Magno. O impulso de transferir para a autoridade civi l ao menos parte dessas responsabilidades foi um dos motivos que fizeram a Igrej a aspirar por um retorno do Império Ocidental. Aqui emprego-o em sentido lato. bem como aos ritos de um mesmo cu lto público. essa unidade inexistia na Europa medieval. onde as primei ras tentativas de restauração do Império já trarão dentro de si a contradição constitutiva qu as levará ao fracasso: elas constituirão um esforço para enxertar as instituições romanas no quadro de uma religião que. ao temor reverencial misturava-se o d esprezo social. o clero. começa a sonhar com uma transferência do Império para o Ocidente 144: e a translatio imperii será a in auguração da autêntica Europa 145. que cobria mais ou menos o territóri o equivalente ao do antigo Império. os nobr es tinham pelo clero um sentimento misto de temor e desdém: de um lado. I. Histoire de l’Église. Ora. que entrava como convidada. os padres eram para eles os equivalentes dos antigos druidas. a Igreja de Roma. que darão ori gem a uma série infindável: a síntese romana das castas sacerdotal e real desfizera-se para não mais voltar. em primeiro lug ar. por volta do século VIII. sendo abundantes. na hora de fazer reviver o império Ocidental em versão cristianizada. O termo translatio imperii é usado normalmente para designar a transferência do Impéri o de Roma para Bizâncio. inexistindo uma administração estatal. S e os antigos imperadores romanos eram eles mesmos os sacerdotes do culto estatal . 146 Compromisso que.

cit. Funck-Hemmer.o ano 1000. passim. op. os padres casados — uma arraia miúda. que não poderia ter expressão num caso como o que estou discutindo aqui.. porém. . Cf.

Apesar da proverbial host ilidade dos nobres à cultura letrada. Essa mudança. em que se harmonizavam. se mostra estritament e apegado à moral cristã. e recebendo por isto o apeli do de Luís. cristianizando à força os povos vizinhos. seus sucessores. Vencendo resistências interiores. Se os antigos imperadores romanos eram tidos como e ncarnações das divindades — Júlio César era aceito como descendente carnal de Vênus —. consente mesmo em ap render a ler. que são enfim levadas até os confins da cristandade latina por seu irmão e sucess or. já imperador. liberal avant la lettr e. esse brutamontes revelouse no entanto capaz de estender os domínios do império. exigiram a partilha segundo as velhas tradições gaulesas: o Império desmembrou-se e voltaram à ce na todas as contradições entre nobreza e clero. tinham uma fé mais ardente e sem contági os. o impe ador cristão terá de se contentar com algo mais modesto: Carlos Magno considera-se o braço armado da Igreja. o emissário da Igreja. Apesar da manifesta sinceridade da sua fé. Carlos Magno. cruel com os inimigos. o Império não durou nem um dia a mais: contrariando uma lei recém-promulgada. Este futuro parece a inda mais promissor quando o sucessor de Carlos Magno. editasse livros e. Glutão. Para conferir ao seu poder o prestígio sacral que a tradição gaulesa a nteriormente atribuía à descendência de Clóvis. pusesse e m ação o primeiro plano de alfabetização universal de que se teve notícia na história do mun do. Para impedir que isto acontecesse. que uma seqüência de felizes acidentes h . cuja coragem e força prodigiosas se ombreavam com a sua manifesta fé religiosa.136 OLAVO DE CARVALHO Luís XVI rolará pelo solo cortada pela Revolução. para que reunisse na corte os maiores sábios do tempo. Carlos Magno é sagrado imperador no ano 800. recentemente cristianizados. mais surpreendente ainda. após quatrocentos anos de dispersão. o drama do Império Ocidental tomará a form a ostensiva de um conflito entre sacerdócio e realeza 147. O problema do Império cristão pa recia estar resolvido e tudo anunciava um futuro grandioso. e que. amplia as conquis tas. Ele amava tanto suas duas filhas que temia acim a de tudo que elas se casassem e fossem morar longe dele. subjugando várias províncias francas e colocando-se sob a aut oridade da Igreja. caos e obscuridade. dentro do Palácio e não se afastassem nunca do querido papai. mas adia a realização da promessa e só adquire as primeiras letras aos 3 2 anos de idade. por um raro acidente psicológico. severo consigo mesmo e com os outros nobres. alcança o seu p rimeiro momento de esplendor intelectual e artístico. A Igreja tira as conseqüências políticas do fato consumado: o Império restaurara-se por si mesmo na pessoa desse jovem guerreiro de dois metros de alt ura. ele teve ainda a sabedoria de dar carta bran ca ao monge e filólogo Alcuíno. O filho bastardo de Pepino. dado a acessos de fúria. Mas o fato é que a síntese imperial-cristã não residia senão na perso alidade de Luís. dá a esta a base para começar a reconstrução do Império. A solução foi temporariamen te encontrada numa família de nobres francos que pareciam menos selvagens que seus pares. contanto que vivessem com eles 147 A Revolução apenas mudará a forma desse drama. que impedia a d ivisão das terras do Império por herança. o executor terrestre dos desígnios da Providência. Morto o Imperador. impondo sacri fícios em nome da unidade imperial e da ordem jurídica. é a essência da chamada “modernidade”. como veremos adiante. Luís. uma breve consulta aos padres liquidava o problem a. permitia que elas tivessem quantos amantes desejassem. Ele não vê nenhuma contradição entre mandar no mundo e obedecer aos céus. unge a ua fronte com óleo bento — inaugurando o costume da sagração dos reis. Se houvess e dúvida quanto a esses desígnios. formasse uma biblioteca. e de administrar com muita habilidade as diferenças entre os vários intere sses nacionais — foi um Imperador na plena acepção do termo. subindo ao poder após a morte do pai. Ele torna-se r ei dos francos. o Piedoso: a aristocracia parecia haver absorvido completamente seu pa pel no Império cristão. São Bonifácio. Pepino de Herstal. sem resolvê-lo. Charles Martel. Carlos Magno conservava no entanto a lguns hábitos pessoais que dão bem a medida do abismo que existia entre a mentalidad e da nobreza bárbara e a do clero. A Europa. as melhor es qualidades da nobreza bárbara e a fidelidade à Igreja. numa recaída fatal.

cu ltura. A primeira Roma cristã havia durado apenas o tempo de três gerações. Enquanto isso. poder. floresce em riqueza. Quando comparamos. Bizâncio prospera. de outro. a sucessão de tentativas dramáticas e sangrentas a q ue o Ocidente se entrega — até hoje — no empenho de realizar a idéia imperial. não podemos dei- .avia camuflado por algum tempo. a facilidade com que o Império bizant ino se instala e se estabiliza por mil anos para uma vez ferido pelo invasor des aparecer para sempre. de um lado. no Oriente.

mais de um Papa foi destronado e perseguido por or dem do Imperador. espanhóis. Em primeiro lugar. oficiavam os cultos públicos e depois faziam carre ira no Exército. A construção do Império europeu defronta-se. Com a dissolução do Império. sobre as ruínas do antigo. viveu às turras com o Papado que deveria representar. franceses. como um “coronel” do sertão pernambucano. De outro lado. não contando mais com a proteção de um governo central. nunca realizou nem uma coisa. Mas que diferença entre os dois feudalismos! O antigo nobre. E os conceitos que hoje nos tornam claro e patente o sentido desses antigos eventos foram uma invenção muito posterior. Por que foi assim? As causas do fracasso são tão patentes que chega a surpreender-no s. A aristocracia agora é uma 148 . trata m de organizar exércitos particulares. Que ninguém se deixe aqui enganar pelas palavras: o regime era “feudal” num caso como no outro. jamais tiveram esses hábitos. Concebido para atender a dois objetivos — s er o braço armado da Igreja e unir sob um governo central os reinos cristãos. Cada feudo fecha-se numa desconfiança rancoro sa. pior ainda. portugueses — fundaram mais tarde seus próprios impérios. Não que os antigos fossem tolos. Na falta deles. dis persa por um território imenso e dividida por hostilidades e entrechoques de inter esses inconciliáveis? Mais ainda: como impor a unidade sem uma classe dirigente ca paz? Os remanescentes da antiga nobreza esquecem os hábitos de cultura e refinamen to. sobre uma base feudal. As fronteiras das propriedades tornam-se instáveis. belas damas. mais de um Imperador foi excomungado e humilhado pelo Papa. Napoleão mandou extinguir o antigo Império. Quando. que os protagonistas não as percebessem em tempo de tentar mudar o curso dos eventos. Durante a maior parte de sua existênc ia.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 137 xar de notar algo de estranho no fascínio que essa idéia — e a impossibilidade de real izá-la — exerce sobre a mente Ocidental. sua casa era frequentada por artistas. recolhia os lucros e voltava à cidade. em 1806. fundado em 962 por um pa cto entre o rei Otto I e o Papa João XII — durará até 1806. Q uatro dentre eles — ingleses. ia ao teatro. o Império não passou de um aglomerado de principados e ducados independentes e m utuamente hostis. ele visitava suas terras. Uma ou duas vezes por ano. embora o termo seja usado em ge ral exclusivamente para a mudança do Oriente para Ocidente. os nobres se retiram definitivam ente para suas terras e. É que é fácil compreender o que se pa ssa. essas unidades autônomas chegavam a mil e oitocentas. a maioria dos povos cristãos se recusou a submeter-se ao Imperador. pelo m enos Ocidentais —. de uma comédia. filósofos. Na época dos últimos Habsburgos. hoje.. Era. Marca na verdade uma segunda translatio imperii — dos franceses para os alemães —. ele já não existia senão no papel. Seus filhos desempenhavam funções sacerdotais. uma aristocracia urbana. entre os seus pares. Com as invasões. os novos. desde logo . Nenhuma outra civilização mostrou uma vocação imper ial tão absorvente e uma incapacidade tão profunda de dar a essa vocação uma expressão estáv el. em giros caóticos onde seus contemporâneos não enxergavam nenhuma forma ou sentido. A segunda Roma Cristã Ocidental — o Sacro Império Romano. de origem bárbara. não basta que eles estejam diante de nós: é preciso ter os conceitos (de con + cepio = “captar junto”). e nós inteligentes. brilhava no Senado. depois que se passou. têm de ser defendidas pela espada. ou. muitos desses feudos mudam de donos do dia para a noite. era impossível construir um novo I mpério com modelo romano sobre bases econômicas tão diferentes das romanas. os esquemas menta is que nos permitam apreendê-los na unidade das suas relações. muitos I mperadores não chegaram seq uer a ser sagrados pelo Papa. e a primeira é: Como impor a unidade política e a dministrativa sem uma aristocracia urbana — sem a unidade da classe dirigente. nem a outra. não sabendo se deve temer mais as ambições dos vizinhos ou as hordas bárbaras que co ntinuam chegando e devastando tudo. com um muro de impossibilidades. cu ltíssima e politizada 148. para percebermos os fatos. Mas nunca passará de um projeto. Por um milênio. Mas é que.. vivia na capital. os fatos deviam voar como moscas .

t.Sobre a organização econômica do Império Romano e as causas de sua dissolução. o clássico ens io de Max Weber continua insuperável. Uma tradução — “La decadencia de la cultura antigua. 1926. jul. Não sei se existe outra. Sus causas sociales” — foi publicada na Revista de Occidente ( Madrid ). nº 37. XIII. .

Bonifác io. Luís. pune os recalci trantes mediante 149 uma recusa de pagar-lhes os impostos das igrejas locais — o que era simplesmente c ondená-los à falência. assaram e comeram os direitos dos servos. em parte pelo terror que inspirava. 1956. III. mandando às urtigas a consciência cr istã. em Maurice Crouzet ( org. desencadeando um terremoto. p. mas. O rei da França. o Piedoso. O Pap a Inocêncio IV ( 1243-54 ) já afirmara que a Igreja desfruta da plenitude do Imperiu m. fartamente repartidos entre a aristocracia. 151 “O Papa não esperava evidentemente a . que de vez em quando explode em crises incontroláveis. capturados aos milhões em guerras de conquista e po stos a servir em verdadeiros estábulos. na pessoa de Felipe. vol. ávida de prazeres grosseiros e que poder algum consegue disciplinar” 149. desejando forçar a unida de entre os príncipes Ocidentais para empreender uma nova Cruzada. por me io de Bonifácio. Felip e manda um exército invadir o palácio do Papa. mediante artimanhas legais e violên cias. quando o Papa Bonifácio VIII. o antigo feudalismo romano fundava-se inteira mente no trabalho de escravos. 126. a Igreja se desgasta rá entre esforços utópicos para erguer um império sobre as nuvens e em malabarismos para esconder-se das tempestades que ele lhe envia. tese que se tornou muito generalizada entre os canonistas. Ora. Não adianta nada: velho e doente. Morto Carlos Magno. só para tudo terminar numa pizza póstuma. Carlos Magno conseguiu fazer-se obedecer. turbulenta. trad. sem direito a ter bens pessoais ou a const ituir família. Felipe o Belo. bem como várias garantias contra as arbitrariedades do senhor feudal. de quem tanta gente na Igreja e fora dela fala mal até hoje. A Expansão do Oriente e o Nascimento da Civilização Ocide ntal. não havia novas terras a conquistar e a lei proibia repartir as do Império: já não era possível reinar nem pelo terror. Durante os primeiros cinco séculos . Difel. prefere ficar em cima do muro. Pedro Moacyr Campos. Por mil anos. retorna ao trono com forte apoio popular. e le va a transigência ao ponto de aceitar discutir. A Idade Média. reclamavam medidas disciplinares que só vieram. Em terceiro lugar. Ele percebeu. um homem dotado de antevisão histórica q uase profética 151. as raízes de um 150 Edouard Perroy. viu-se numa situação medonha: todas as propriedades tinham s ido distribuídas. morre logo depois. conquistando para ela o direito à propriedade e ao casamento. t. foi na verdade um gênio. e em represália o Papa edita a bula U nam sanctam. a Igreja mesma havia mudado a sorte dessa gente. A mais gr ave sobrevém entre 1296 e 1303. ). por sua intransigên cia e falta de tato. num concílio. Bonifácio não sacou esta afirmação pronta e acabada de seu próprio cérebro: ela já vinha germ nando em muitas cabeças ilustres que. Bonifácio é preso e agredido fisicamente. consegue driblar parcialmente o cerco. cujos botins em bens e em terras. os nobres festejaram a repartição do Império e. sempre ameaçado por uma tensão estática. e que foi junto com ele para o túmulo: sobre o cadáver d e Luís. Não lhe restava outra arma senão o respeito que sua retidão pessoal inspira va — arma de eficácia duvidosa. História Geral das Civilizações. libertado após três dias. e seu sucessor. o conflito toma a forma de um periclitante equilíbrio de forças. São Paulo. seu s ucessor. o tesouro estava exaurido. observando desde o século X a insubordinação e a a rrogância da casta guerreira. que já estava meio ganha. Uma das atribuições básicas do imperador sagrado no ano de 800 era defender esses direitos — o que o tornava antipático à maioria da clas se aristocrática. que declara com todas as letras aquilo que até o momento tinha ficado delicadamente implícito: a total submissão dos reis à autoridade da Igreja 150. compensavam os pr ejuízos decorrentes das vantagens concedidas aos servos. O que Bonifácio fez de novidade foi simplesmente transpor essa tese da esfera teórica para a dos manda mentos práticos. 1º. quando era tarde e a Igreja já estava demasiado enfraquecida. Em todo caso. as acusações que o bandidi nho coroado fazia à honra do falecido. em parte pelas guerras de conquista.138 OLAVO DE CARVALHO horda “inculta. nem pel o suborno. em vez de levar adiante a briga com Felipe.

oposição que ia levantar. o defensor solitário da verdade que todos rene gam? . Juan J. 2ª ed. O que fez ( os reis ) triunfarem foi a consciência que tinh am de contar com o assentimento de seus povos. mesmo conhecendo a popularidade dos reis... 270 ). Domenchina. de compreender senão superficialmente a índo le do cristianismo. p. Não soube ver que os direitos da coroa se apoiavam no cons entimento dos povos. FCE. que sustenta toda a pedagogia ética da nossa civilização. Mexico.. tr ad. quando o modelo supremo da força moral. Toda a sua conduta prova que não tinha compreendido as mudança s surgidas na Europa. que é a única que permite vencer um conflito dessa natureza” ( Henri Pirenne. mesmo cristão. por que denominar “fo rça moral” o mero sentimento de segurança que advém da certeza de um respaldo coletivo.. como poderia o Papa admitir que o “consentimento dos povos” fosse gerador de autori dade espiritual. Em primeiro lugar. 1956. isto é. Historia de Europa. se na origem mesma do cristianismo estava o fato de um martírio p erpetrado com maçico consentimento coletivo? Em segundo lugar. é precisamente o de Cristo. Este parágrafo reune um primor de análise histórica à deformidade de uma avaliação moral marcada pela típica incapa cidade do acadêmico moderno. a força moral..

Paris. Vozes. quanto as cois as espirituais sobrepujam as temporais. Petrópolis. de: Egídio Romano. Éditions Traditionelles. Sobre o Poder Eclesiástico. e por ninguém é julgado’ ( I Cor.. eram Felipe o Belo. se os Templários faziam negócios financeiros embrulhados. logo. e já dava bastante trabalho ). era por ordem do Arcanjo Gabriel. reivindicava para os reis. Goldman Ve l Lejbman e Luís A. 6. Assim. encheu de reis o Inferno. p. Herdando o trono de um santo (Luís XI ). abjurar do espírito da sua fé? Não: ele teve a legítima força moral — preferiu a dignidade da derrota a uma transigência abjeta. e juristas a soldo de Felipe argumentavam : “Antes que houvesse sacerdotes. só poderá ser julgado por Deus. A coisa parece ser uma constante da história humana. com tanto maior evidência. Pirenne. Paris. O poder espiritual deve instituir o po der terreno e julgá-lo. a suprema autoridade espiritual que não da ria satisfações a ninguém exceto a Deus 154. ele nem suspeitasse estar combatendo a semente de um novo poder imperial ( o império ficava na Alemanha. e sim apenas uma monarquia nacional rebelde. 152 Embora. Segundo René Guénon. se um Papa é um homem de religião e não apenas um político. se não é bom. e as verdades que ela consagra continuarão certas enquanto houver quem considere que um homem velho vale mais do que um jumento novo. o roubo da coroa de Cristo pelos sucesso res de César 152 (veremos isto logo adiante. Para fazer uma idéia de até que ponto chegavam as pretensões de F elipe — e de quanto nelas ele se mostrava já imbuído do espírito “moderno” —.. tratou logo de dar ao seu se ntido um inchaço descomunal: o que quer que os franceses fizessem. ta lvez arrependido. mereciam ir para a fogueira. 153 Transcrito em apêndice à “Introdução”. entre as névoas de uma falsa consciência embalada pelo casuismo jurídico de um extenso cordão de puxa-sacos. por forte que sej a o coice 153: “É necessário. 27. Sobretudo. Se o poder terreno se desvia. 1948 ). naturalmente. 154 O próprio Dante Aligh ieri chegou a defender a autonomia monárquica. sacerdotes e pro fetas que nomeiam reis e depois sofrem as maiores ingratidões de seus protegidos. em Jean Favier. trad. quando surgir em cena a figura de Hen rique VIII). Sua bula Unam sanctam. em lugar dos homens de religião. pois. Felipe parece ter chegad o a supor. é mesmo ( v. ma s se é o poder supremo que erra. 1978. que qualquer poder espiritual se avantaja em dignidade e nobreza sobre qualquer poder terreno. é claro. imbuind o-se até a medula da expressão Gesta Dei per Francos (”a obra de Deus feita por mãos fra ncesas”) 157. do ponto de Deveria Bonifácio. proclamar. concordando com o princípio geral. que inicialmente se referia só às Cruzadas. e. feliz156 É verdade que o lado adversário. Fayard. que alguns cretinos apontam como uma odiosa manifestação de clericalismo reacionário. De Boni. enxerga Bonifácio pelos olhos de Felipe. se erra o poder espiritual menor. 2 :15). é simplesmente uma defesa do espírito contra a f orça armada. e os franceses. em que a única obrigação é vencer. era uma bela co nversa mole 156. não tem sentido ju lgá-lo apenas pelos cânones da razão de Estado. p. haver algo de hereditário na santidade: e. As antigas tradições e mitologias estão repletas de histórias de magos. Depois. 1989. para seguir o espírito da época. não pelo homem. por Luís A De Boni. no tratado De monarchia. A utorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. Cléa Pitt B. havia reis” 155. Assim o afirma o apóstolo: ‘O homem espiritual julga a tudo. basta lembrar q e ele foi o primeiro a lançar a idéia do serviço militar obrigatório estendido a toda a população (idéia que.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 139 mal que o futuro iria ampliar até as dimensões de uma tragédia mundial: a apropriação da a utoridade espiritual pelo poder armado. se Felipe fazia a mesmíssima coisa. Mas.. Philippe le Bel. para nada dizer do bíblico (vide o episódio de Saul). será julgado pelo es piritual. s m dúvida. 155 Cit. e se recusa a tentar a operação inver sa. Não d eixa de ser interessante que a disputa de prioridade espiritual entre as castas . era porque os inspirava o demônio e. será julgado pelo que lhe é superior.” vista histórico. Deus assinava e m baixo.

Maritain. Maurice Barrès. na decisão do destino do mundo. António Carlos Carvalho. 157 A mística desta expressão durou até o século XX. escrevendo dela. arrancam lágrimas. v. o poder é secre to por natureza. está olhando numa direção completament e diferente. mas apenas as tornou invisíveis e deu à sua guerra as proporções de u ma castástrofe natural. 1978 ). esse debate parece to rnar-se ocupação de eruditos saudosistas. iludida por toneladas de informação irrelevante. Vega. a disputa entre o s homens de religião e os homens de governo. Charles Péguy e Georges Bernanos acreditavam nela piamente. um pouco d e vômito. na escala discreta que convém ao caso. trad. Já o gen. Se o leitor acompanhou minha argumentação até aqui. e Barrès. Ao transferir-se da arena política para a esfera esotérica. Jacques Maritain. Lisboa. bocejos. movia o mundo. mas na verdade é aí que ele se torna decisivo para a compreensão dos rumos da história contemporânea. revogável por decreto — o que certamente não fez com que as castas dei xassem de existir. mesmo porque a doutrina oficial da Revolução lhe ensinou a crer que as castas são uma instit uição convencional. pelo menos o meu. Até mesmo o ateu Mitterrand parece ser devoto dela. a opinião pública. entre os do is maiores escritores esotéricos do século XX: René Guénon e Julius Evola ( deste último. de Gaulle provou que ela funcionava na prática. Como dizia Guénon. há de ter certamente co mpreendido o peso imenso que terá. inclusiv e letrada. Ironicamente. Est es dois.sacerdotal e real se reproduza. sobretudo O Mistério do Graal. . não tem a menor idéia de que se trata do velho conflito de castas. e assim também o são as causas: a luta pelo cetro espiritual de mun do se radicaliza e se torna mais decisiva precisamente na hora em que a “opinião públi ca”.

apenas a hierarquia do governo eclesiástico terrestre é que desce do papa aos cardeais. O Papa. era velho demais para poder levá-la até o fim. visitando o rico palácio do Vaticano renascentist a. e “a casa dividida ruirá”. logo se rompe sob a pressão da rebelião aristocrática e monárquica. terminará por explodir numa rup tura quando a capacidade de conceber novos arranjos tiver se esgotado. em que medida a Igreja de Roma. um assassino. Mas tudo neste mundo tem uma franja de ambigüidade. e exercerá então a autoridade espiritual de pleno direito. então. latente. manipulado e enfeitado por mil arranjos. Bonifácio só errou num ponto: ao começar a brig . pode ser um ladrão. n unca residiu na força monolítica da administração central romana. aí. Uma vez que o fiel sinta essa duplicidade — e é fatal que ele a sinta algum dia. um ateu. Se a autoridade espiritual é em tese superior ao poder terreno pela mesma razão que faz o espírito superior à força bruta. representada pelo seu Papa. tem no seu topo os santos e os mártires. impondo seu jugo sobre o poder mund ano. precisamente ao i nverso. é para crist alizar-se na forma de um domínio teocrático que. ouviu do Papa o gracejo: — Como vê. tal como a política dos reinos e dos impérios? Vejam bem: o dogma católico diz que os Papas são inspirados pelo Espírito Santo. não naquela que passa à História como o relato de um jogo de cartas. ficou no papel. bem como disseminado no mundo como Providência. mas. um covardão como Benedito XI que não hesita em lançar a mancha da suspeita sobre a reputação de seu amigo e antecessor para fazer as pazes com um monarca frio e desumano. momentaneamente ocup ado por um imbecil ou um malvado. meu amigo. quando o advento de fatos de uma ordem totalmente outra mudar de repente o quadro de refe rências. d esde que a Igreja se constitua administrativamente —. como tal. se dupla é a forma da autoridade espiritual. no confronto prático com o poder tempor al? Conta-se que um pobre santo. é claro. o h omem que ocupa o trono de Roma. até que o Século das Luzes viesse iluminar com novas fulgurações de gênio a ciência do morticínio estatal). contaminado portanto de força bruta? Em que medida a pesadíssima organ ização diplomática. numa ascensão ainda maior do prestígio da força? Será necessário optar sempre entre uma teocracia oprimente e a opressão de um po der mundano 158? Eu não sei. Or a. e le resulte sempre. Quem. aos bispos etc. Céus! Será a eterna tragédia humana que o primado do espírito tenha de conformar-se em ser apenas sussu rrado em segredo? Que. como foi Pedro. mas só naquilo que sentenciam em matéria de doutrina teológica e moral — não nas suas decisões p olíticas e diplomáticas. e você também não sabe. A verdadeira unidade da Igreja. política e burocrática de Roma é movida pelo sopro do Espírito ou pelo en rechoque mecânico das forças deste mundo. é autoridade espiritual. o Espírito não estará presente senão em símbolo. Mas essa unidade permanece profun da. dupla é também a obediência: não é o mesmo o bedecer a um homem inspirado e obedecer a um cargo simbólico. na autoridade do cargo. proclamado e assumido como verdade pelo consenso público. Não é o mesmo obedecer a um vigário e a um vigarista . eis que a autoridade espirit ual está cindida. Pedro já não pode dizer: “Não tenho ouro n em prata. naquela parte que se incorpora à sabedoria da Igreja c omo um legado permanente. por isto.” — Para compensar — respondeu o asceta — ele também já não pode dizer: “Levanta-te nda!”. pode ser um santo. Quem. um farsante. por uma inversão diabólica. oculta: quando se manifesta à luz do reconhecimento público. Neste caso. Pois é esta mesma contradição interna e constitutiva da noção de “Igreja” que se transmiti suas relações com o poder imperial e monárquico. amigo. por força do Espírito que dirige seus atos e pensamentos e o preserva do pecado. e quem quer que diga que sab e é um palpiteiro muito metido a besta. pode ser um idiota pretencioso. na floração espontânea da santidade nos lugares mais imprevisíveis e mais afasta dos de todo contato com a burocracia vaticana.140 OLAVO DE CARVALHO mente. mas pode não ser santo nenhum. . infectando-as com o germe de um conf lito que. era pura autoridade espiritual? Não era também ela um po der temporal. falou pelo Espírito? O chefe nominal da hierarquia ou aquele que o Es pírito houve por bem inspirar no momento? Quem é o homem espiritual superior que jul ga o homem espiritual inferior? Os papas julgam os santos ou os santos julgam os papas? A expressão mesma “Igreja” assume aí um sentido ambíguo: a hierarquia espiritual. É. O que sei é que só Deus é um: tudo no mundo é dupl o.

. entre a disciplina compressiva do s aiatolás e a nulificação da consciência individual na sociedade administrada do Ociden te.. por exemplo..158 Pensemos. na alternativa de hoje.

Depois da fase inicial inglesa. Assim. Durante um milênio. 2º. descobrindo para lá do mundo conhecido uma vastidão de terras a conquistar. 1º Durante muitos séculos. por um milênio. dando ao projeto do Império um novo sentido. Cansadas de luta r contra o Império. enquanto o Império vai p erdendo o domínio sobre boa parte da Itália que se desmembra em ducados e principado s independentes. Ora. as navegações. fosse qual fosse. Assim. o conceito de Império não era simplesmente o de um poder transnacional qu lquer. seu coração estava na Inglaterra e se u cérebro na França. Pois bem: ingleses e franceses não se curvavam ao Império por nada deste mundo. Em Portugal. abrindo aos olhos europeus o pa norama de um novo mundo. nasc era o reino de Portugal. qualquer uma delas tinha o s meios de aparelhar um barco com uns quantos soldados e subjugar. Assim. podia tornar-se uma expansão para outros continentes. ofereceram à autoridade imperial. poder temporal e autoridade espiritual. se as nações eu ropéias nem sempre tinham condições de vencer umas às outras. a alteração profunda das relações entre realeza e ero. quasi per latroc inium (não entendo o que queriam dizer com esse quasi). nada tinham ouvido de imp ortante que não se referisse a uma dessas coisas ou a ambas. a diversificação das culturas naciona is e a ruptura da unidade cristã. 2º Mas — atenção —. e sim o de um braço armado da Igreja. Não é de espantar que tod o acontecimento novo. mudaram repentinamente o quadro. a unificação da Cristandade Ocidental fora obstaculizada prin cipalmente pela resistência que dois povos. nazareno ou cristão. Todos esses povos tinham vivido. O Império. suscita de imediato três mudanças verdadeiramente cataclísmicas: 1º. a salvação da alma. os servos e cortesãos eram informados de que o ca stelo tinha um novo senhor. e mostravam por suas independências nacionais um apego igual ou maior do que aquele que tinham pela religião. e d egolá-los na cama: ao despertarem. Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais e criado um reino da noite par a o dia — literalmente. segundo comentavam os juristas da época. e o esplendor da escolástica é um fenômeno sobretudo parisien se. dentre os mais profundamente cristiani zados. acabasse por ser interpretado nos termos desse velho par de conceitos. recorria ao exped iente de saltar pessoalmente pela janela de seus inimigos. de janela em janela e de pescoço em pescoço. elas decidiram então cada qual fazer seu próprio Império. a mu ltiplicação dos concorrentes a Império. de outro. “franco” se tornou um sinônimo de nasrányi. enquanto dormiam. a primeira coisa que fizeram foi reavivar as velhas amb ições e mudar repentinamente a sua ênfase: a luta pelo Império já não tinha de ser um confli to europeu. entre os guerreiros islâmicos. re sultando enfim que o casamento da castelhana Isabela I com o aragonês Fernando II deu término à última disputa local e inaugurou o novo reino. sob a dupla obsessão da Fé e do Império. dois outros reinos nacionais haviam se formado na Península Ibérica . Os ingleses tinham sido o primeiro povo c ristão da Europa. de um lado. brilhando e rodando sobre todas as cabeças reais como u ma mosca azul. O novo projeto. uns quantos índios pelados e militarmente inferiores. a extensão do poder armado da fé. Toda a imensa transformação que inaugura os tempos modernos pode s er resumida numa mudança do projeto histórico europeu: do Império doméstico para o Império colonial. Mais do que ninguém eles haviam demonstrado sua fé e contribuído para a nova cultura cristã. Por volta de 1500. Os franceses estavam tão profundamente ligados à Igreja que. . Na Espanha. se o braç da Igreja estava no Império — cujos domínios se estendiam sobre um território que corre sponde mais ou menos à Alemanha e parte da Itália —. o centro da cultura cristã se transferira para Paris.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 141 As viagens transcontinentais. Não conheciam outros fins e valores que pudessem legitimar a ação humana senão. já que. não contando com um exército numeroso. 3º. do outro lado do Oceano. séculos de luta contra os invasores árabes haviam acabado por forjar a unidade da aristocracia.

Com Henrique VIII. L evada pela dinâmica da luta pela independência que log o se torna luta pela hegemonia. logo se tornarão centros de poder mais ou menos independentes. seja fundando sua própria Igreja. a Rússia. embora tantas vezes ingrato. neto de Fernando e Isabela. tinha de levar. Napoleão e Comte. encerrando uma época: o projeto de unificar a Europa sob um Império católico mo rrera junto com o s derradeiro mártir. descobre fi nalmente sua vocação. tinha-se tornado a principal potência européi a. o império nascente já não precisa va das bençãos do Papa — bastava fundar uma nova Igreja. na Inglaterra. agora. instantaneam ente. o clero se nacionaliza. quantos porta-vozes autorizados pode ter a Fé? Quantos braços armados pod e ter o corpo da Cristandade? A Igreja. a porta do tempo girou sobre os g onzos. autonomeado Pr otector and Only Supreme Head of the Church and Clergy in England com um único vot o contrário. mas cujo potencial imperialista tinha ficado ret ido pelas invasões mongóis e pelas imensas extensões do território a ocupar. enriquecida pelo ouro das Américas. o de sir Thomas More. por ter como chefe não o Papa... que esse vulgar psicopata. ou Imperador. bem como pela dialética do crescimento capitalista ávido de matériasprimas do além-mar. que durante seis séculos fora caindo de frustração em frustração. O processo é ainda acelerado pela ruptura d a unidade do bloco protestante: cleros protestantes nacionais. a Suécia. é coroad o sacro imperador romano sob o título de Carlos V. seja fortalecendo or dens religiosas locais que. que inspirará mais tarde Hegel e Robespierre. um a funde-se logo com o Império. proclamar. Ora. Henrique é. talvez por uma resistência inconsciente em reconhecer o pecado orig inal que dá nascimento aos tempos modernos. Cada rei. aproveitando-se de uma querela matrimonial. ato contínuo. acima dos seus canhões. com forte apoio judaico. mediante bem-sucedidas campanhas de ocupação. procurará dominar seu clero nacional. O dualismo milenar é resolvido mediante a absorção da Igreja no Império. Mas agora e le já não estava cercado apenas de nações rebeldes. que desafiando o Supreme Head. inglesa. tomando a dianteira nas conquistas coloniais. o Sacro Império Romano. capazes de pression ar Roma em defesa dos interesses de seu rei. só reconhecia um: seu filho dilet o. e que continuará reverberando até nossos dias nos discursos da Nova Era e da Revolução Cultural. unindo pelos dois séculos seguint es o destino de seu país ao da dinastia Habsburgo. funda uma igreja nacional. Enquanto a parte alemã do Império é sacudida p elas revoltas protestantes. A fundação da primeira Igreja eu nacional marca uma metamorfose radical na idéia de império e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino. é o luteranismo que se torna culto oficia l do Estado. investid o de prerrogativas sacerdotais. Para f ortalecer suas pretensões. a . Seu braço há de estender-se até o Brasil. é César que volta ao trono. Do outro lado da Europa. o estandarte da fé. Mesmo os historiadores são muito comedidos ao trata r desse ponto. o rei Henrique VIII. Das potências emergentes. se eleva à posição de uma das mais fortes po tências imperiais.142 OLAVO DE CARVALHO para ser um Império de verdade. form am-se na Holanda e na Suécia. que já tinha desde quatrocentos anos antes sua religião nacional. foi beheaded no ato. Com a cabeça de sir Thomas a rolar no solo. Na Suécia. republicano e calvinista. em mútua oposição. o chefe de Estado se autonomeia r epresentante direto de Deus. tendo o rei como suprema autoridade religiosa. o pai da civilização moderna. É duvidoso que essa deformidade coroada. mas o Rei. anglocatólica: católica nos r itos e no dogma. junto com a indepe ndência política. a Reforma protestante tinha abalado o monopólio romano do cristianismo: para arvorar-se em representante da Fé. e sim de Impérios concorrentes. incentivada pelo exemplo da Europa Ocidental que ela inveja. o fundador da idéia do Estado auto-sacralizado. quando Carlos I. O Império. a independência espiritual. a Espanha. crescendo desmesuradamente à sombra do apoio estatal. sem sombra de dúvida. que esse assas sino de mulheres e de sábios tivesse uma idéia clara de quanto sua pessoa e seu gest o representavam o espírito dos novos tempos e prefiguravam o desenrolar dos aconte cimentos por três séculos adiante. logo a Holanda entra no rol dos concorrentes a I mpério: Império protestante. todo o quadro do conflito entre realeza e clero. De maneira ostensiv a ou informal. Nesse ínterim. Essa idéia muda. de início. parecia finalmente ter encontrado seu caminho.

dmira e .

galicanismo (Fra nça). t udo passa a orbitar em torno do rei. resumia numa palavra o espírito dessa anacronia vivente: “Cinismo. que forma um pano de fundo às manifestações da independência mais petulante. endurecido por oito séculos de luta contra o mouro. em nome dele e sem a menor consulta ao Papa. Dessa nova partilha da túnica de Cristo. palaciana e não universitária. constituem um só: multiplicação dos Impérios. Não há. Dostoiévski e V. O surgimento de uma nova casta letrada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 143 procura imitar. herdeiros — sabend o ou não — do espírito de Henrique VIII. c’était servir Dieu et l’Église -même” 161. Luís XIV era sincerame nte cristão. em tudo isso.” 160 A fase cruenta da Inq uisição data dessa época e desse lugar. fundação dos cultos nacionais: luter anismo (Suécia). assume com Ivan IV (“o Terrível”) sua missão expansionista e cristianizadora 159. embora confundida no meio de tanta s fidelidades ambíguas. na época. Não espanta que o rei assim imbuído do caráter divino do interesse nacional acabasse p or regrar. Cada um remoldando o discurso cristão segundo seu interesse nacional. expressão típica de um povo que se cristianizara no campo de batalha. se fait doc teur et convertisseur. no fundo. Comme Roi Très-Chrétien. que só usara de violência contra os heréticos em caso de rebelião armada. w 3º Mas. Cada um auto-investido da missão que fora a do antigo projeto imperial — unifica r o mundo sob o estandarte cristão — mas reinterpretando-a segundo a ótica da razão de E stado. tudo se nacionaliza. não compreendia a fé senão como gue rra contra os infiéis 160. Aos governantes dos séculos XVI a XVIII. nascem os muitos cristianismos modernos. a nova fase inaugurará a p erseguição a indivíduos isolados. parece natural e óbvio que sua vontade política s eja a expressão mais direta e pura da vontade divina. il pensait que servir la France. que descrevi lá atrás (§ 21). a ação da Igreja q ue diz representar: “Nul n’a défendu comme lui les droits de l’État laïque et personne n’a su parler avec plus de fermeté au Souverain Pontife lui-même. que v iverão em anátemas recíprocos. precisamente por sua submissão nominal à Igreja de Roma. que a Igreja. agora apenas um entre outros. representado pelo Pa pa e pelos remanescentes do antigo Império. Homens como F. Os dois processos são concomitantes e. como a maioria dos reis do seu tempo.. ainda representava. Seu catolicismo perde muito do e spírito internacionalista. candidato a Imperador. Data daí o surgimento do espírito messiânico. Mesmo o Sacro Império. investido da autoridade de “Rei Cristianíssimo e filho primogênito da Igreja”. até mesmo disputas teológica s. a menor sombra de hipocrisia. que. no galican ismo. Em contraste com a Inquisição medieval. como na revogação do Édito de Nantes e na perseguição aos protestantes e jansenistas: “Ai nsi le Roi.. entretanto. iberiza-se sob as formas do jesuitismo e da sanha inqui sitorial. confondant ses attibutions avec celles de l’autre Pouvoir. é um reflex o dessa mudança. Il sort de sa fonction et commet un étrange et quelquefois déplorable abus de son autorité” 162. Joseph Conrad . que marcará a mentalidade russo-ortodoxa a té pelo menos o fim do século XIX. A seu modo. Unificada por Ivan III (“o Grande”). e o nacionalismo imperial das potências . muito tempo depois de extinta nos países Ocidentais a mitologia do cristianismo nacional. Nation Très-Chrétienne et fille ainée de l’Église. em nome dele. O que espanta é justamente a natu ralidade que cada um julgava o seu modo nacional de ser cristão muito superior ao modo universal e supranacional. um polonês cuja família sofrera na carne os efeitos da catequese imperial. Pois a luta é agora entre o internacionalismo. Há até mesmo uma certa candura na co nvicção com que Luís XIV. Soloviev ai nda acreditavam piamente na missão cristianizadora da Rússia no mundo. anglicanismo (Inglaterra). um título que ele se conferira a si mes159 mo. calvinismo (Holanda). Ond e esta pretensão absurda se revela de maneira mais patente é. beatifica o interesse nacional francês e reprime. ao t ransferir-se para mãos espanholas se espanholiza. ainda quando esteja em abert a oposição com a palavra do clero e com as outras vontades divinas concorrentes.

156. em línguas nacionais. . E. II. p. Paris. Tallandier. J.. preservando ali o internacionalismo. Louis XIV. 161 162 Louis Bertrand. enquanto o Papa obtém o controle das universidades. c om artistas e letrados a soldo da nobreza. 1929. t. os reis fomentam culturas nacionais. 16 1. p.emergentes. Id.

formava a síntese solilunar que constitui a autoridade profética. As soluções propostas. o expediente auto-engrandecedor de um assassino insano adquire uma aparência de dignidade inte lectual nas filosofias políticas de Jean Bodin (Six Livres de la République. Ora. Hachette. Com outras denominações — E xecutivo e Legislativo —. investido de poderes divinos. o debate prossegue até hoje. automaticamente. 1583). usara explicitamente essa imagem. Os ingleses. sua proclamação inaugura uma série infindável de discussões que se prolongam até hoje: Quem faz o rei? Quem faz a le i? A lei faz o rei ou o rei faz a lei? Se o rei faz a lei que manda no rei. E eis que a pretensão 164 Inocêncio III. nouv. l he deram esses poderes divinos. reunidos no Parlamento (como outrora os cardeais em concílio). a Moisés. de autoridade espiritual e poder temporal. numa só pessoa. portanto. além desse. a mesma disputa que havia entre a Igreja e o Império. p udesse coroar o reiprofeta. 1972 — um clássico. então a disputa entre as facções do poder pode prosseguir indefinidamente: vença o rei ou 163 vença o Parlamento. Tête de Feuilles / Sirac.. O que nenhum dos teóricos da monarquia divina sequer reparou é que a junção indissolúvel. uma crença comum impe . valores sedimentados na cultura. onde a auto ridade espiritual era o Sol. teorizado às pressas ex post facto. de repente. como mostrou Bertrand de Jouvenel 164. Histoire Naturelle de sa Croissance. teve as maiores dificuldades para conciliar suas idéias com o simb olismo astral. e tudo aquilo enfim que se consubstancia no t ermo “religião” —. a ascensão do rei se faz às custa s da nobreza: o rei. e então se repete fatal mente. Th omas Hobbes engrossa o caldo logo de vez. V. 165 Aqui compreendemos. Se um outro faz a lei. nos impingem enfim a noção de que os reis governam por direito divino inerente às sua s ilustres pessoas e à natureza das coisas — e independente. os homens importantes que representam ou dizem representar a população. Hooker e outros procuram moderar os excessos da au toridade real.144 OLAVO DE CARVALHO Como não poderia deixar de ser. Como a teoria tivesse. Paris. o resultado. e o poder temporal a Lua 163. era preciso que ele mesmo tivesse atributos divinos. Paris. entre muitos floreados e um semnúmero de idéias valiosas. por toda parte. a que nem mesmo os papas t inham ousado se ombrear. Bodin. então não há lei nenhuma. César. representando a nação. Mas. Le Pouvoir. Richard Hooker (The Laws of Ecclesiastical Polity. A conseqüência imediata é que. consagrando-a como expressão por assim dizer oficializada da doutrina. não suporta a concorrência nem me smo daqueles que. res olvem a coisa por um jogo de palavras: quem manda é o rei com o Parlamento. era bisneto de Vênus. pela simples razão de que não tem solução: se não há nenhuma instância superior ao poder — uma tradição. que era louco por astrologia. que. contribuiu um bocado para a emergência da moderna intelectualidade leiga e materialista. 1978. Thomas Smith (De repub lica anglorum. dizendo que não há outra fonte da lei senão a vontade do soberano. éd. 1945. o rei no Parlamento. de qualquer s anção religiosa. Bertrand de Jouvenel. uma leitura absolutamente essenc ial. mas ninguém pôde recorrer a este exemp lo porque a nova concepção era inexpressável no velho linguajar astrológico. numa bula cujo título não me ocorre. de imediato. afinal. e todas as discussões teóricas não passarão de adornos acadêmicos da tirania. apelando à idéia do Parlamento. 1580). cada reizinho que saltasse a janela p ara degolar no leito os adversários se equiparava. muitos outros pontos fracos. 1576). Genève. Parlamento quer dizer: a classe política. os novos intelectuais logo se apressam em erigir e m norma e ideal o fato consumado. será sempre o fortalecimento ilimitado do poder 165. entre a classe política e o rei. sempre muito práticos. para que o Parlamento. — Aliás o mesmo Inocêncio III. tomam duas direções. Bodin. Pela nova teoria. outra causa do fracasso do Império mediev . o rei não manda nada. ou mel hor. O assunto é estudado por Gilbert Durand em Science de l’Homme et Tradition. estabelecendo uma linha demarcatória demasiado rígida entre ciências sac ras e profanas.

Pepino! . a o mesmo tempo que procurava livrar-se dele e transferi-lo a um Império. forçava para retomá-lo sempre que o Império escapava ao seu controle. mas foi metida neles pelo curso dos eventos: queda do Império. em resultado.. necessidade de improvisar uma administração. em seguida ficou dividida entre a necessid ade de passar o abacaxi aos leigos e o temor de uma nova perseguição religiosa sob o reinado de um César de sua própria criação. e neste vaivém passaram-se m il anos.. Se os brasileiros já existissem naquela época. deixando que César cuidasse de César? O Império abortou porque nasceu prematuro. sem encontrar resposta. veriam um sinal premonitório no fato de o primeiro candidato a imperador se chamar . desse frutos políticos menos amargos? Não sei a resposta. o clero descera ao exercício do poder temporal. Por que gerá-lo tão cedo? Por que não esperar que a cristianização. O que me pergunto. vacância de ant igas lideranças religiosas bárbaras etc. é: se a Igreja. tinha obtido tamanho sucesso durante os seis primeiros séculos. e. com toda a paciência. mas uma coisa é certa: a Igreja não se mete u nos assuntos políticos por iniciativa própria. lenta e naturalmente. por que não po dia simplesmente continuar cristianizando a Europa. a autoridade espiritual não vigor ava plenamente.al: numa Europa insuficientemente cristianizada. sem poder temp oral..

um corpo místico. desceu as costas da Índia. fundador do moderno E stado sacro. sem desembarc ar. sua palavr a é final. Seus discípulos surgirão na geração seguinte. para o fortalecimento do poder: se o rei é fonte da lei. e Erich Voegelin. E. Afonso de Albuquerque. Rei-sacerdote. sacralidade do corpo político. a socie dade civil e política representada no Parlamento pelos nobres. seguidas da dupla e correspon dente quantidade de orelhas. Rio. até garantir que. Perspectiva Histórica da Filosofia do Direito. que continuou inca paz de formar um verdadeiro Estado nacional até o século XIX. trad. a epopéia da “cristianização” estaria a tal ponto imersa em sangue 167 Sobre Sir John Fortescue. Não é preciso repassar aqui o rosário. já havia resolvido o problema. fora um precursor: sua doutrina pressupunha um tipo de Estado nacional que na Itália de então só existia em p rojeto. é claro. então. Friedrich. bem conhecido.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 145 doida encontra um precedente teórico venerável: antes mesmo de que Henrique VIII ung isse sua própria cabeça com o óleo da herança mosaica. Numa inversão simétrica da expansão cristã dos seis primeiros séculos. eterna como um arquétipo platônico. de fato. ao sustentar que a nação. Por intermédio do Rei autodivinizado. Mas essa maldade seria tanta. com o aval do Parlamento. então o rei não é um simples man datário. para em seguida ir tomando todo o territory e embolsando todos os lu cros do trade. onde quer que viesse a a portar. not territory. mutável e perecível ao sabor das guerras e acordos interdinásticos. os cristianismos imperia is inaugurarão uma modalidade de sacrifício comproporcionada à mentalidade dos novos t empos: o martírio dos outros. a nação de repente se ergue às alturas de uma realidade celeste. e fora da Itália. Maquiavel. E quem é que ia recusar o diálogo. fala a própria boca de Deus. Álvaro Cabral. Desde a política de terra-arrasada de Hernán Cortez até a perfídi a dos ingleses risonhos que desembarcavam na Índia com cartazes dizendo Trade. culto n acional. cada qual instalado bonitinho em seu tr ono europeu. omo o próprio demônio informasse que “meu nome é Legião”. na África e nas Índias. Cap. Tudo contribui. cada qual imbuído de sua verdade eterna. e eis aí. as idéias de Maquiavel sobre a razão de Estado pudessem sair do p apel e tornar-se prática generalizada. Apela-se portanto à velha idéia de Fortescue. como a Bíblia já houvesse advertido que “os deuses das nações são demônios”. uma pessoa ungida e sagrada pela qual. de um só golpe. houve. sua disposição de dialogar. razão de Estado: essas idéias são mais ou menos absorvidas por todas as potências emergentes. e ele garantia que os restantes narizes e orelhas permaneceriam saudavelme nte atados a seus lugares de origem 167. dando logo aos outros uma lição prática de como “dilatar a Fé e o Império”. o mundo alcança então o estágio de maturidade cínica necessário par a que. r ealizado o milagre: de uma unidade provisória e mais ou menos convencional. é o braço armado da doutrina de Fortescue.. com um punhado de soldados. sua fama já tivesse chegado antes dele. Henrique. e i nvestida do prestígio aterrador das coisas sacras. se multiplicassem rapidamente e saíssem p elo mundo. bombardeando. doravante. das atrocidades européias nas Américas. cada qual conc orrente a Império. tudo o que encontrasse pela frente. investidos da missão sublime de impor seu jugo suave de Bons Pastores a quantos índios pelados ficassem na mira dos canhões. v. A N . para em seguida fazer saber acima de qualquer dúvida. Depois desembarcava num ponto qual quer e mandava cortar algumas centenas de narizes. exatamente no sentido em que o conjunto dos fiéis forma o corpo místico de Cristo 166. Isaacs e Jacós. diferentes gradações de maldade.. é nada menos que um c orpo místico. a ditar suas palavras direta166 mente para os novos Abraões. IX. não é de espantar que os corpos mís . missão imperial das nações. é o Parlamento que o legitima. finalmente. como pretende Hobbes. 1470). a uma altura dessas? A proposta era simples e esquemática: dessem a Afonso tudo o que ti nham. ao contrário. Nem todos os conquistadores foram igualmente cruéis. ao governo local. Carl J. uma nova encarnação do Logos divino. feita à custa do sangue dos mártires. Se. mas a individualização vivente de um corpo místico. 1965. Portugal foi o primeiro. cada qual. metafísica. Sir John Fortescue (De laudibus l egum Angliæ. considerado geralmente o primeiro codificador de conjunto da t eoria política inglesa. Zahar.

trad. 3ª ed. O volume faz parte de uma série notável que a autora consagrou à história dos de scobrimentos portugueses. 1953.ova Ciência da Política. José Francisco dos Santos. O Sonho da Índia. v. op. cit. Elaine Sanceau. Lisboa. Sobre os métodos persuasivos do Albuquerque terríbil. Afonso de A lbuquerque. . Civilização. .

Napoleão foi vencido menos pelas tropas de Wellington e Blücher do que pel a contradição intrínseca que viciava na base o seu projeto: ele procurou. consistindo por essência numa eliminação do poder clerical. A Concordata com o Vaticano manifesta essa fraqueza. Passados três séculos. liberá-lo para a expansão ilimitada. o que pudesse ainda haver de cristianismo residual pudesse ser facilmente absor vido e laicizado sob a forma de “direitos e deveres do cidadão”. Ele sintetiza o projeto imperial do Antigo Regime com a ideologia anticristã dos revolucionários. onde. com efeito. no Es tado. Napoleão sintetiza. Assumir. mesmo enxertad a de novos componentes retirados das tropas ou da parentela napoleônica. tendo vivido por doze séculos num matrimônio sadomasoquista co m o clero. A idéia de Império Ocidental vem de Roma. Resistente a toda debilitação orgânica. que. E esta fraqueza most ra que Napoleão entreviu apenas obscuramente aquilo que. com efeito. um a aristocracia de sangue é sempre um poder de tipo feudal. Em segunda versão. da autoridade espiritual. esse calcanharde-aquiles do projeto napoleôni co. Ilimitada em do is sentidos: para fora. cristianizada. construir o I mpério leigo conservando a estrutura de poder do Antigo Regime — basic amente. terminou por rest aurá-lo dentro das próprias fronteiras do Império. de um lado. as monarquias começam a cair. ainda mais surpreendente do que a anterior. multiplicada. cresceu bebendo o sangue dos inocentes. na África e na Índia. como braço armado da Revolução. a Revolução. o Império europeu dá lugar aos Impérios coloniais. não podia repentinamente acostumar-se à solidão do divórcio. o domínio do mundo. num novo banho de sangue que ultrapassa em poucos meses todo o horror dos feitos imperiais d’além-mar. enfim. as du as correntes de idéias que marcam. era sempr e uma aristocracia — e. mediante a farsa do “corpo místico” nacional. o Antigo Regime. Por volta de 1500. de novos valores. a apropriação indébita do sonho imperial por nações ambiciosas corrompidas pelo auto-engano de uma falsa consciência religiosa? A pergunta toca no ponto mais doloroso e talvez no centro mesmo da história das o rigens da modernidade: quando o poder monárquico de todas as nações segue o exemplo do assassino delirante que usurpa a coroa do próprio Cristo. em m uitas versões nacionais: numa terceira translatio imperii. que César é maior que Cristo. como o foi. segundo o projeto de Hegel. a instauração de novas leis. Eis aí a verdadeir a originalidade. tinha ajudado a precipitar. Mas a idéia de Império não cai co m elas. se na segunda conseguira driblar a própria Igreja mediante a ousadia blasfema de fazer o rei e futuro imperador passar como encarnação do próprio Cristo. chegando aos últimos limites do que a audácia mais demente pudesse conceber: dispensar toda legitimação religiosa mesmo farsesca. salvando-se através de uma nova metamorfose. Ademais. ela perv ive. uma aristocracia hereditária e militar. agora ela jogará a cartada mais alta. o clero c onspirava com os príncipes ingleses e alemães para a derrubada do Império. ao mesmo tempo que. a contradição entre clero e nobreza é resolvida pela absorção. fazer do Império como tal a única divindade. Recapitulemos. dos Césares.146 OLAVO DE CARVALHO se seu ponto de partida não fosse. Aufheben — “absorver e su perar” — é o termo de Hegel: o Code civil de Napoleão é a Aufhebung imperial e leiga da mo ral cristã. e. como aliás é próprio dos fantasmas. vem a R lução. fora. do outro lado do Oceano. fiel à sua vocação de origem. para dentro. que mais se pode espera r do curso posterior dos acontecimentos? O Estado moderno nasceu de uma farsa de moníaca e. Eis a missão de Napoleão Bonaparte. o domínio sobre as consciênci as. Se na primeira crise ela se safara tratando de infiltrar-se na Igrej a a título de “Império cristão”. incapaz de resolver sua contradição originária entre o modelo romano e a duplicidade Ocidental d as castas clerical e aristocrática. uma nova . sua sobrevivência dependia portant o de um imobilismo social incompatível com as mudanças cataclísmicas que o próprio Bonap arte. reaparece no ano 800 e vive até 1500 de crise em crise. àquela altura já abalado até as raízes pela ascensão da nova classe capitalista. de outro. renasce. a essência mesma do projeto napoleônico: desvincular o Império de seu compromisso com a Cristandade. e inaugura o primeiro Império não-cristão do Ocidente. Mas a aristocracia. Seguem-s e três séculos de matanças nas Américas.

.

diante de fatos dessa envergadura. Presidente do Tribunal de Justiça da Carolina do Sul. Tentativa (fracassada) d e invasão do Canadá.” § 28. discreta mas dec isiva. 1845. no ano de 1776 168. Com pra do Alasca. com as velhas aristocracias. Como foi possível que. Guerra com o México. 1846. p. ao longo de três séculos. à Revolução Francesa. em extensão da linha de combate e no número de mortos. Ajuda. maçônica e protest ante: é a definição dos Estados Unidos. Intervenção branc a na Califórnia. Anexação do Texas. Zahar.. Um povo não se expande por todo um continente. se dar por satisfeito e instalar-se de uma vez para sempre na mold ura desses limites. É uma carreira comparável à das maiores potências europé da época. em Raymond Aron.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 147 potência emergente acabara de perceber com total clareza e de maneira definitiva: o Império leigo não podia ter um resíduo sequer de compromisso com a Igreja. 1854. todas as g uerras da História. uma vez chegado às fronteiras naturais ou legais do território. A vocação imperial norte-americana não nasceu junto com os Estados Unidos: nasceu ante s. 1812. Mesmo após a Guerra de 14. 1823. republicana. o impulso colonizador se transforma quase que naturalmente em impulso imperialista. dei xando os aliados livres para repartirem a seu bel-prazer o bolo alemão. 1898. Rio. numa nova estrutura de poder. Guerra com a Espanha. nem. to be the most glorious of any upon record. capitalista. Intervenção em Cuba. O Império contra-ataca “ The Almighty has made choice of the present generation to erect the American Emp ire. 168 Cit. Ao contrário: tão logo se sente senhor de seu território. 1803. trad. os esperti nhos esfregaram as mãos com um sorriso maquiavélico. tão logo Wilson abandonou a Liga das Nações. 1867. de que havia nascido aquele que Deu s predestinara para ser o seu coveiro? A cegueira dos homens de Estado para os r umos mais óbvios da História chega a ser às vezes mais notável do que os lampejos de visão profética dos homens de inteligência. Anexação das Filipinas. 21. capazes de manter a águia norteamericana a uma higiênica dis tância dos assuntos de gente grande. Essa vocação manifesta-se com uma força de uma decisão madura já na infância da nação america mediante uma seqüência de feitos militares e diplomáticos que estendem desde logo o r aio de ação dos Estados Unidos por uma área bem maior do que a ocupada até então pelos Impér ios coloniais europeus. Doutrina Monroe. Mas mesmo esta era u m sinal: superava. Edilson Alkmin Cunha. A escalada é impressionante: 1793. e. Construção do Canal do Panamá. e só interrompida temporariamente pela Guerra Civil.. por isto mesmo. . 1906. dizendo: “Oba. para. And thus suddenly arised in the world a new Empire that bids fair. disposto a daí por diante só crescer para dentro. Compra da Louisiana. Ele necessitava apoiar-se numa nova cla sse social. entre peri gos e esforços sobre-humanos. maçônica e protestante. onde somente a inter venção americana decidira o curso dos acontecimentos. República Imperial. enganamos esse tro uxa. esses imbecis ainda se acredit avam senhores do mundo. as potên cias européias não se dessem conta. República imperial. Os Estados Unidos no Mundo do Pós-Guerra. numa nova instituição religiosa que fosse intrinsecamente ligada ao Estado: César só poderia ressuscitar sob forma capitalista . by the blessing of God.” WILLIAM HENRY DRAYT ON. Instalação de ponta-de-lança no Japão. de imediato. 1975.

Não en xergaram a potência imperial nascente. Em p rimeiro lugar. é precis o ver que ela tem algo em comum com as duas anteriores. por favor. que o aparelho ótico europeu não tinha sensibilidade para o tipo de estímulos que dali provinham. os Estados Unidos eram uma nação democrática: a política nacional era fruto de complic adas discussões parlamentares que podiam adiar uma decisão por anos a fio. tão original. e já não era mais que uma vaga lembrança. Em quarto lugar. 170 Manifest destiny: expressão usada e m 1845 pelo editor John Louis O’Sullivan e que se tornaria célebre como símbolo do espír ito expansionista: “Our manifest destiny is to overspread the continent alloted by Providence for the free development of our yearly multiplying millions” ( cit. a Holanda. Com efeito.. Eurocentrismo não é a causa do fenômeno: é simplesmente o nome dele. paralisando-as. era impossível imaginar uma política imperial sem um Imperador autocrático. Do ponto de vista europeu. estivesse nascendo um novo Império. Sem a unidade da p essoa do Imperador — assim entendiam — não podia haver a unidade de uma política imperia l coerente. era o perigo da Revolução. Ora. Tindall and David E. Freqüentemente subia ao poder uma cor rente isolacionista. 171 Que ninguém pense. em George B. aos observadores habituados a pensá-la sob sua velha forma. nas duas oca siões anteriores o Império renasceu ao fundir-se com idéias que lhe eram contrárias: “cris tianismo”. Esses dados formavam um a névoa confusa. uma política i mperial coerente e contínua. a linha de uma dialética histórica que. tanto que dominavam essas regiões com a desenvoltura de joga dores habilíssimos. em suma. porque ela não representava apenas u m novo imperialismo. Em segundo lugar . mas uma metamorfose da idéia imperial — metamorfose que a torna va irreconhecível. através dessas contra dições mesmas. as causas de sua destruição 1 71. ao mesmo tempo que constituíram. os termos de uma contradição real permanece . ed. no banquete de Yalta. as grandes empresas. New York. habituado por três séculos a identificar imperialismo e monarquia absoluta. de fato. Estes enxertos antagonísticos deram-lhe vi da nova. Roosevelt. Norton. 169 O que já bastaria para chacoalhar até os alicerces a teoria de Hobson e Lênin sobre “o i mperialismo. que voltava as costas para o mundo. portanto. na maior parte dos casos. a nação norte-americana formara-se numa revolução antiimperial e professa va uma doutrina anti-imperialista. conduzia os Estados Unidos. se opunham às iniciativas expansionistas do Estado . “nação”. Bobagem tentar explicá-la somente por um mórbido eur ocentrismo. tinha fracassado redondamente l ogo no seu primeiro século. etapa superior do capitalismo”. preferindo a penetração comercial às intervenções militares 169. Em terceiro lugar. capaz de influ enciar as decisões do Estado ou combatê-las. a seu destino manifesto 170 de suprema potência imperial do mundo. Se não enxergaram. A narrative History. p. no segundo. Para compreender essa metamorfose — a terceira da história Ocidental —. os EUA não eram só uma nação democrática. tinham ali um poder tremendo. Teria sido preciso ser mais maquiavélico do que Maquiavel para supor que . a longo prazo. Além dist o. Tão diferente. por trás da agitação republicana.148 OLAVO DE CARVALHO Santa ilusão! Na comitiva mesma de Wilson já se encontrava aquele que um dia viria a repartir com Stálin. 2nd. No meu entender. Tanta cegueira tem de ter um motivo. os interesses priv ados. os Estados Unidos não tinham. a carne dos vencidos e o pão dos vencedo res menores: um obscuro assessor jurídico da Marinha. que estou racioci nando à maneira de Hegel. no primeiro caso. Os intere sses privados. Suas iniciativas no Exterior eram intermitentes. entre os fatos contraditórios. America. impedindo o observador de enxergar. Franklin D. de imediato. Para a velha mentalidade. Shi. operando por cima — ou por baixo — das intenções dec laradas dos homens e dos grupos. A única República Imperial que conheciam. só pode ter sido por uma razão: porque aquilo que ali acontecia era diferente de tudo o mais. o fenômeno america no era invisível porque era impensável: faltavam-lhe as categorias para pensá-lo. o que se passava nos EUA. 333 ). eles não eram tão eurocêntricos assim: compreendiam perfeitamente bem o que se pass ava na África ou na Ásia. 1984. Se isto representava um perigo. vaci lavam ao choque de tremendas oposições internas. mas também capitalista.

em sucessivos arranjos ad aptativos — que constituem precisamente o seu desenvolvimento quantitativo e tempo ral —. o conjunto . até que. As formas daí resultantes são sempre t ensionais: suas contradições constitutivas mudam de forma. no plano da existência contingente. exigências que só podem ser conciliadas n a esfera metafísica. no plano do Ser universal. precisamente. a não ser meta fisicamente. As grandes criações históricas constituem. tentativas de co nciliar. exaurida uma certa linha de adaptações possíveis.m contraditórios e jamais são perfeitamente absorvidos em síntese alguma.

explo diria no fim do século XVIII. posto de lado como em obediência a uma senha. livre-pensamento. os Impérios coloniais modernos constituíram-se com o verdadeiros “impérios nacionais” — uma contradição de termos que expressa a contradição rea ntre a escala multinacional do projeto e o interesse nacional a que ele unilater almente serve: daí que. Mais adiante. “Our Constitution was made only for a moral and religious people. o que Marx colocou no lugar do “conceito” hegeliano não fora m os fatos.. 172 É claro que não se trata. no mais ousado dos arranjos. Como Moisés na sua cestinha ou Cristo no estábulo. democracia. Afinal. t . se pode funcionar como símbolo ou metáfora de certas realidades metafísicas que fatalm ente temos de tentar alcançar por símbolos. para não dizer simplório: “materializad o” o quanto se queira. o reconhecimento de que. não existe síntese senão potencial. menos a p romessa de um Império.” Wars chauer-Waremme. Kolakowski acertou na mosca ao enfatizar as origens místicas da dialética de Hegel e Marx ( v. pareciam mais antagônicas ao espírito das velhas monarquias: independênci a. que ele copiava. o esquema tese-antítese-síntese continua sempre um esquema. de JAKOB passa por uma metamorfose global ou morre ( isto supondo-se que causas externas mais poderosas não o matem antes ). na base. em vez de conciliar e administrar os interesses de vários po vos numa unidade transnacional. Alianza. o Império cresce movido pelo conflito com a Igrej a. Para quem não compreendia a idéia imperial senão associada às monarquias absolutas. a distinção entre dialética real e dialética ideal ( dis tinção que Hegel não faz ). I. de outro. pa rtidos. é também uma ingenuidade supor que a mera inversão operada por Marx possa con sertar as coisas. Para o oeste. mas simplesmente um outro c onceito abstratista e demasiado simplificador. provisória e. Eis então que o maior dos Impérios nasce invisível àqueles que pode riam tê-lo destruído no berço. em nenhum desses casos. fundir essa idéia com aquelas que. classes etc. que ele falsifica dando metafisicamente um sumiço no fator “contingência” e transformando a incerta e movediça suc essão dos atos humanos numa escala regular de emanações divinas. sem exceção. Se me refiro de modo sumário a “contradições de idéias”. república. o modelo romano d e Império. Madrid. na esfera da dialética re al. e sim de conflitos reais entre facções. A nova metamorfose que inaugura o Império americano é uma resposta imediata à crise do domínio colonial. manejada habilmente por trezentos anos. era um homem acabado nessa época. como Joana a Louca com o cadáver do esposo. § 29. esses termos podiam conter tudo. portanto. Tal é o pressuposto lógico que embasa as análises qu e aqui vou fazendo: de um lado. Las Corrientes Principales del Marxismo. no momento. é som e em prol da brevidade. não prestava mais nem para ser lançado aos cães.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 149 A contradição constitutiva do primeiro Império cristão foi. portanto. Ela vai. e morre quando se exaurem suas possibilidades de dar a esse conflito uma form a viável e produtiva. como o exige o conceito imperial originário. trad. já que escapam à esfera da experiência sensível não serve de nada como tradução do movimento real da História. a mistura hegeliana do ideal com o real não é aceitável. Jorge Vigil. sempre para o oeste. famílias. como vimos. de uma pura contradição lógica entre conceitos. e. Se. que a existência d e uma “Igreja” independente dele e superior a ele negava. sucedâneo do Heptameron bíblico. nada me restava a fazer senão levantar acampamento e abandonar o país levando comigo essa metade inanimada de mim mesmo. na sua complexidade por vezes inabarcável. os im périos coloniais modernos nada mais fossem que a escravização organizada de vários povos em proveito de um só. portanto. Esta contradição. em O Processo Maurizius. com a sucessão de guerras de independência que viriam a destruir todos os impérios coloniais. tensional ( reconhecimen to que falta em Marx ). It is wholly ina . W ASSERMANN 173. 1976 ). assim. ressuscitar a filha de Jairo não estava em meu poder. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (I) “Eu não sou Cristo. É uma negação ostensiva da versão monárquicoabsolutista da idéia imperial. no prazo que vai da Independência nor te-americana à morte de Antonio de Oliveira Salazar (1975) 172. Pelo contrário ..

1963. Civilização Brasileira. trazendo o centro do poder para o novo continente ( não o esqueça o leitor. pois era disto que eu vinha falando no § 27). que. . Octávio de Faria e Adonias Filho. Rio. iria realizar o projeto em que Napoleão falhara: o Império leigo.” JOHN A DAMS A quarta translatio imperii.dequate to the government of any other. incorporando em si sob uma 173 Trad.

movido por um intuito de interpretar as coisas pr econceituosamente. atribuídos por seus adversários: comentando o livro de Albert Lantoine . para em seguida ser expandida para todo o mundo. recebendo a iniciação maçônica. 174 Pelo lado adversário. por sua vez. em atrib ir à ação maçônica no mundo uma unidade de intenções e de estratégia. par les Maçons eux-mêmes” ( Études sur la FrancMaçonnerie et le Compagnonnage. numa pirâmide invertida onde a t reva mais densa assombrava e governava a menos densa. que um rito basta par a desfazer em fumaça. mas absolutamente ninguém faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar para a Maçonaria. há engano. qui doit sa naissance à des écrivains antimaçonniques tels que l’abbé Barruel. O segundo negligencia o curso freqüentemente caótico. por um misto de fraqueza e vanglória. s e iria consolidar na forma de moral estatal democrática. há engano e má-fé em ex do o enfraquecimento do espírito cristão no mundo como efeito de uma conspiração maçônica 17 5. Mais espantoso ainda é quando a entidade. nin guém. no sentido de um anticristianismo rasteiro sugerido pelas falas de próceres maçônicos de uma época muito posterior. entre apóstolos e adversários dessa organização. e de un ificar sob a nova religião laica o mundo Ocidental. O Oriental também. História Secreta do Brasil. a mistificação toma a forma de especulações fantásticas sobre a antigüidade maçônica — abusando de analogias que são tomadas por identidades históricas — e e um jogo duplo na ocultação-revelação do papel desempenhado pela entidade nos lances de cisivos da História: os projetos de risco são ocultados sob o manto da discrição. a fini par être adoptée. chose curieuse. inicialmente implantada em território norte-americano. talve z falsamente. Im porta agora delinear os princípios do Evangelho que.. em poucos anos chega à presid ia vencendo a candidatura aparentemente imbatível de Luís Inácio Lula da Silva — ilustra -o novamente. A carreira de Fernando Henrique Cardoso — o político ruim de voto que. O terceiro omite o fato. descarnado e desvitalizado.176 Enfim. sem exceção. tudo aquilo que dá certo é atribuído à ação genial da M naria 174. assumiria o encargo de s ubstituir a Igreja — todas as igrejas — na condução da vida interior das gentes. se possível. 1936 ). cet te légende. mutila e comprime a linguagem simbólica num unimensionalismo qu e nada poderia justificar. pois como poderia estar integralmente comprometida com a Revolução a entidad e que tinha entre seus membros de destaque um Saint-Martin. a idéia mesma de conferir a uma sociedade secreta a unidade doutrinal trolhas ao lado dos generais estrelados. e que gênero de sacrifício se ofic iava no altar do MASP. senão a força sutil e às vezes apenas simbólica dos egregoroi. I. a religião do Novo Mundo é maçônica. prestar satisfações à Maçonaria ou enfrentar a Maçonaria. Sim. O fato é demasiad notório para que seja preciso demonstrá-lo. já no século XX. essa “metade inanimada” de Cr istianismo. 106 ). Histoire de la Franc-Maçonnerie Française: La FrancMaçonnerie dans l’État ( Paris. a resguardar-lhes a continuidade e a unida de. Cia. principalmente quando atravessam as gerações e os séculos e não têm. Éditions Traditionnelles. que pretenderam usá-la para fins diversos. 1977. surgiam conspirações e segredos. quando não da secretude. assume como seus os feitos que lhe são. pertencem a alguma loja maçônica. René Guénon louva-o “lorsqu’il démolit la légende qui veut qui la Maçonnerie a t joué un rôle considérable dans la préparation de la Révolution. Émile N ourry. a posteriori. car. incl sive a das iniciações de ofícios.. O primeiro desses três erros. Aí veremos de qual culto é sacerdote o iogue-comissário. Paris. mais são os interessa dos em mistificar do que em esclarecer o seu papel na história espiritual da human idade. p. E . 3 vols.. como nova religião da humanidade. de que a própria Maçonaria foi alvo de conspirações. divisões e ataques de organizações ainda mais se retas. um De Maistre? 175 É a tese característica de Gustavo Barroso. mas. há evidente mistificação em interpretar toda a simbólica maçônica. Entre os primeiros.150 OLAVO DE CARVALHO forma laicizada e desespiritualizada os valores cristãos. Desse momento em diante. e de que dentro dessas mesmas or ganizações. Só que. ou má-fé. Em primeiro lugar. Todos os signatários da Declaração da Independência. beaucoup plus tard. múlti plo e incontrolável que assumem os empreendimentos secretos. historicamente comprovado. t.

com os grão-mest res desfilando de aventais e . dirige-se a seus pares para denunciar a infiltração de membr os de uma outra organização secreta — os Exemplo: Só no décimo ano do golpe de abril de 1964. With a New Introductio n by the Publishers. Mass. a Maçonaria assumiu sua participação na autoria do evento. 1937. Acho que nunca houve no Brasil um pesquisador tão bem infor mado sobre sociedades secretas e tão incapaz. alto dignitár io da Maçonaria escocesa. Western Islands. John Robis on. 176 V. 1967.. Proofs of a Conspiracy. de tirar conclusões sólidas das informações de que dispunha. com o regime militar já mais que consolidado. Belmont.ditora Nacional. por falta de método científico e espírito filosófico. Originally Published in 1798. O autor.

há na organização uns quan os traços puramente formais e estruturais que. bem como sua via de conciliação. Mas. Mons. pela eliminação progressiva do resíduo aristocrático. se queixava de que parecia haver. fortalecido pela disciplina do segre do. que aqui não nos interessam absolutamente. são constantes pelo menos desde o século XVIII 179. se de fato é assim. Antes de tudo. Kenek Books. só não sabe por que. nem mesmo seus concorr entes da escola schuoniana — é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das “possibilidades de não-manifestação”. No fundo. 1876. Esclarecida e derrubada esta doutrina i ntrinsecamente absurda. por trás da agitação cega e vã dos átomos anônimos. Explico isto mais extensam ente em meu Diário Filosófico. Illuminati da Baviera — nas fileiras da entidade. pois a doutrina assim encontrada é apenas uma dentre muitas possíveis. imprimirão sua marca no mundo todo que este vai forjando ante nossos olhos. de que a modernidade se ca racteriza pela democratização da vida política. O ponto-chave dos erros d e Guénon — que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado. é. Guénon preenche esse vácuo com a mais densa metafísica. Esoterismo e democracia são termos a ntagônicos como segredo e difusão. — Mais tarde. sabem o que se passa e para onde as coisas vão. Ao contrário. como o de qualquer outra sociedade secreta. em linha reta. Assim como Daniélou. Empreendimentos como o de Mons. que uma profusão de ritos e símbolos. acima da organização. 178 A polêmica católica contra René Guénon continua impressionando pela sua incapacidade de enfrentá-lo no terreno propr iamente metafísico. no entanto. ao maçonismo guénoniano os argumentos de Mons. da divisão e da suspeita que afeta a queles mesmos que o servem. a disciplina do segredo e a obediência a uma hierarquia secreta separam o iniciado do comum dos mo rtais. O mais irôni co de tudo é que o lado cristão está certo. Study of Freemasonry. Dupanloup. Dupanloup já nada têm a opor 178. os ritos iniciáticos. Mas.. O grande reformador maçônico do século XX. As célebres objeções de Mons. aceito pela maioria dos teóricos há dois séculos. todas as aristocracias tiveram um forte elemento esotéric o e iniciático nas suas origens. a doutrina dominante na Maçonaria de uma dada época. A seleção rigorosa. manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo. Daniélou quanto ao simbolismo da cruz mo stram apenas uma inferioridade de QI. Paul Sérant e outros adve rsários católicos de Guénon fogem para o terreno teológico e moral. o corpo de membros da Maçonaria. O jogos de esconde-esconde entre sociedades secretas ant eciparam todas as práticas que no século XX seriam adotadas pelos serviços secretos es tatais. René Guénon. 177 V. aliada a uma retórica sufocante. onde se sentem abrig ados sob pressupostos de fé que. são inteiramente infrutíferos. Dupanloup. por trás da variedade mirífic a das idéias maçônicas. de pertencer ao círculo dos eleitos que. não são metafisicamente válidos. Bem. Ante nossos olhos? Não.. às vezes até justo. estes sim. então é totalmente falso o pre ssuposto. para em seguida melhor combatê-la no campo dos argumento s lógicos. e qu e. modelando a mentalidade dos fundadores do Império americano. pela ampliação dos meios de participação do p vo no poder. ainda que filosoficamente respeitáveis. pronta a ceder lugar a out ra na época seguinte 177. A aristocracia de sangue não é senão o resíduo multissecu . tanto na Revolução Francesa quanto no nascimento do Império Americano. que tentam ciscar nas palavras dos próceres maçônicos os elementos com que possam compor uma doutrina maçônica. transla ted from the French. a toda tentativa de con trole externo. historicam ente. tendo conseguido galgar altos postos na hierarquia dos Ill uminati. De ntro de nossos cérebros. a toda crítica. encontrou a organização num estado de vácuo doutrinal. só bastava para disfarçar ante os intelectos menos exigentes . filiando-o a uma tradição imemorial e dando-lhe o sentimento. se furta por completo a toda fiscalização. cujo poder. é uma aristocracia. uma outra mais secr eta que a manipulava. O secreto não age. na melhor das hipóte ses. mas pela eficácia do caos. o revolucionário itali ano Giuseppe Mazzini.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 151 e administrativa de uma Igreja é de um ridículo sem par. o que se observa é a ascen são de uma aristocracia iniciática. Bishop of Orleans. por exemp lo. New York.

mas sociedades iniciáticas. Jean Palou.lar de uma casta que no início recrutava os seus membros segundo critérios seletivos e triagens iniciáticas bem semelhantes aos da Maçonaria ou de qualquer outra socied ade do gênero. São Paulo. I. Cap. 179 V. A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática. cujos ritos e símbolos remanescentes nos permitem adivinhar as profundidades insondáveis do mistério espiritual que continham. Edilson Alkmin Cunha. As ordens de cavalaria nunca foram simples organizações militares. Pensamento. 1979. trad. .

Fraternidade iniciática significa: sujeição de seus postulantes a uma seqüência de ritos preparatórios. repetida. um princípio est rutural. Mas — atenção — ressaltar a importância da presença maçônica na constituiç ovo Império não é atribuir paranoicamente à ação da Maçonaria a autoria do curso da História Novo Mundo. Ela define-se pelos seguintes traços: 1ª Substituição das anti gas aristocracias de sangue pela nova aristocracia iniciática. tomando-o como uma novidade radical. Uma delas é a seguinte: aquilo que está fora do nosso círculo imaginário está for a do nosso universo conceptual 181. E é ela mesma que possibilita a evolução muito peculiar da nação norte-americana. ou devo simplesmente remet er o leitor ao meu estudo anterior Uma Filosofia Aristotélica da Cultura? Claro. onde a ampliação quase caricatural dos direitos populares. Para fazer-me compreender neste particular devo reexplicar toda a cadeia de absorções e projeções cognitivas que leva da simples estimulação sensível à memória. de seus noviços a ritos de iniciação. mas uma gigantesca recicl agem da casta aristocrática. d evo optar por esta última alternativa. que. Que característica é essa? A Maçon aria reune a liberdade intelectual de uma sociedade de debates à rigidez e à discipl ina de uma fraternidade iniciática. sem perceber que as raízes dele já estão no berço mesmo do novo Império. Rito significa: execução imitativa e corpora l de uma cosmovisão simbólica. Rodrigues. É essa reciclagem que inaugura propriamente os tempos m odernos. o mundo de hoje. não é fazer da Maçonaria o demiurgo invisível e onividente que move os cordões de tudo o que acontece. democracia de jure — uma combinação que só se tornou p ossível pela ampliação do papel desempenhado pelo secreto na vida política e social 180. 3ª Formidável concentração do poder do dom inador. Resumindo: aristocracia de facto.152 OLAVO DE CARVALHO O crescimento da Maçonaria no século XVIII. pelo automatismo do hábito inconsciente e independenteme nte das inten180 ções de quem quer que seja. mas como seria estúpido sugerir que o leitor do presente livro o abandonasse pela leitura de um outro. Este é um dos raros pontos de psicologia e teoria do conhecimento em que não há q uase desacordo. de seus membros à prática de ritos regulares. 1995 ). Isto não quer dizer que não possa ser pensa181 Chistopher Lasch. 2ª Caráter secreto ou p elo menos discreto do novo poder aristocrático. quer compreendida ou não. com o tempo. Po is a Maçonaria. . antes o fortalece. não dirige o curso dos acontecimentos pela sua ação del iberada. mas simplesmente sua presença na estrutura de poder do Império americano im pregna de um elemento de secretude e do espírito de um novo modelo de hierarquia s acerdotal a vida mental e política dos povos do Novo Mundo — impregnação esta que escapa totalmente ao controle da própria Maçonaria e se torna. O que acontece é qu e nem todos tiram dessas verificações as conseqüências óbvias que delas se seguem inapelav elmente. Rio. O que possibilita que as coisas transcorram assim é uma ce rta característica inerente ao poder maçônico. sobre a q ual e só sobre a qual — e não diretamente sobre os dados dos sentidos — pode em seguida operar-se a abstração conceitual. de Tomás de Aquino a Benedetto Croce. ao assinalar o elitismo crescente na sociedade americana ( em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia. não é mesmo? Então digo logo: aquilo que os nossos sentidos colhem da variedade infindável do mundo é primeiro elaborado sob a forma da abstração imaginativa. no meu entender. de Aristóteles a Jean Piaget. à abstração eidética e finalmente ao discurso lógico. Ediou ro. Talita M. dos movimentos de protesto e da cultura da reclamação não abala no mais mínimo que seja o poder das velhas oligarquias. a Revolução Francesa e o nascimento do Império Americano não marcam assim a extinção do poder aristocrático. é melhor enxertar aqui u m resumo daquilo cuja versão extensiva ele poderá deixar para buscar no outro mais t arde. não é aderir a nenhuma interpretação conspirativa da História. à ab ginativa. de Duns Scot a Etienne Souriau e à mais recente ciência cognitiva. que atua por si. demarca. trad. contrasta esse fenômeno com a ideologia igualitária reinante no século pas sado. o quadro inteiro das possibilidades de intelecção consciente do i ndivíduo. sobre a qual talvez nem mesmo os líderes e teóricos da organização hajam nunca parado para pensar. de um a vez para sempre. aliada a uma não menos formidável expansão dos direitos nominais do dominado. de cujos produtos se comporá em seguida o raciocínio lóg ico.

compreendido como real ( se não metafi sicamente. ao menos logicamente. capto intencionalmente a essência de um ente real ( ou de um atributo real ). isto é. em hipótese ). No conceito.No sentido em que aqui emprego estes termos. cabe enfatizar a distinção entre os con ceitos e as meras definições nominais. na .

pode continuar integrada no conjunto: a s sociedades secretas compõem-se. que governam o imaginári o na meia-luz do implícito e do pressuposto. 1971 ). lá dentro p ode-se discutir tudo. A solução foi guenonizar logo umas três ou quatro lojas e deixar o resto exatamente como estava. 5 (13). está a salvo de qualquer con testação: na medida em que permanece ambígua o bastante para poder admitir todas as in terpretações. nem da nossa vontade: depen de das formas profundamente consolidadas do nosso universo imaginário. Payot. 1991. mas estas não basta m para a teoria do conhecimento. em suma. 1948. 1960 ). A Study in the Symbolism of Reason. Dervy-Livres. A Maçonaria resguardou-se desse risco. se discorda. Rite and Art. Solução tipicamente maçônica: se você concorda com Guénon. independentemente da realidade ou irrealidade da coisa ref erida. 1962 ). pp. de crítica. Mentor Book. Estudos Avançados ( USP ). para os fins da presente investigação. perdem todo o seu mágico poder no insta nte em que se expressam na clara linguagem dos dogmas: pois a partir desse insta nte tornam-se objetos de raciocínio. Contribution à l’Étude des Principes et des Méthodes de la Symbol ique Générale. só se usam definições nominais. se for pensado. Ao contrário das grandes organizações dogmáticas. Ela s não imitam o modelo orgânico. Em lógica simbólica. vai simplesmente para outra loja. hierarquizado e integrado dos corpos animais. no sentido mais ri goroso da palavra. aí. Langer ( Philosophy in a New Key . codefinição nominal. 1977 ). 183 Sobre a analogia. Uma organização que timbre em defender um dogma explícito não tem outro remédio senão explicitá-lo — e os sentimentos difusos. pela dialética de sua própri a busca de sobrevivência. meçam a pulular as oposições e as heresias. será pensado como mera forma lógica. signifi ca automaticamente isolamento (os membros da loja dissidente não frequentam mais a s outras lojas) e isolamento significa: impossibilidade de um confronto direto. II — fundamental para a compreensão do método de in terpretação simbólica que emprego neste e em outros estudos. 182 V. todas já estão neutralizadas de antemão. quan to mais liberdade de crença vigore ali dentro. New York. não corre o risco de entrar. mais eficaz será esse controle. Gallimard.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 153 do. em Astros e Símbolos . os maçons do século XX receberam a contribuição doutrinal de René Guénon. A facção dissidente. São Paulo. porém o crescimento de tumorações variadas e independentes. nem dos nossos raciocínios. já que tem pleno domínio sobre o seu imaginário. se existe. isolada assepticamente. v. de assentimento ou discordância intelectual. ent ra numa loja guénoniana. é o seguinte: uma sociedade iniciática. qualquer que seja. O guénonismo tornava as idéias maçônicas intelectualmente respeitáv is. de compartimentos que se ignoram. 1985. Na verdade. São Paulo. sequer. uma inteligente ilustração deste ponto em: Níl son José Machado. mas a doutrina maçônica. Jamir Martins. do hinduismo: quando à linguagem polissêmica dos símbolos se começa a substituir o discurso unívoco das formulações doutrinais. “A alegoria em matemática”. e a Susanne K. Cultrix. Paris. Compreende-se portanto a extrema cau tela com que. sem correspondência ao menos próxima com aquilo que entendemos como realidade 182. Ora. alimentam as dissidências e as cisões: porque cisão. em discussão: se todas as interpretações são válidas. meu ensaio “A dialética simbólica”. Paris. Quer dizer apenas que. e Ensaios Filosóficos. Ora. Paris. muito antes. trad. por definição. que só têm em comum o fato de serem alimentadas pelo sangue de um mesmo corpo. Nosso senso do real não depe nde nem das nossas percepções. se me perguntam como é possível que gerações e gerações de homens intelectualmente dotados consintam em viver sob o domínio de . dando-lhes uma imponente solidez doutrinal. quanto mais frouxa e menos dogmática for a doutrina da organização. do Islam e. Isto foi bastante evidente nos casos da Igreja Católica. conse rvando seu arsenal simbólico sob a proteção de uma impenetrável névoa doutrinal. não tem necessidade de controlar as opi niões de seus membros. A ima ginação é. um símbolo: uma semente produtora de significados múltiplos mas a nálogos entre si 183. apenas a intenção signif cada por uma palavra. Nova Stella. as sociedades secretas. a mãe daquilo que se chama senso do real. cada i magem depositada na nossa memória ou produzida na nossa imaginação é. O resultado. 79-100. Mas tudo o que é sólido está sujeito a receber porradas. método que deve muito a René Guénon ( Symboles de la Science Sacrée. por exemplo. que tem todas as vantag ens em permanecer implícito. a Titus Burckhardt ( Principes et Méthodes de l’Art Sacré. entre afetações de homenagem. Cap. a René Alleau ( La Science des Symboles.

das ciências e da política foram maçons —. respondo que isso não é mais esquisito do que o fato de consentirem pert encer a uma sociedade cujos altos escalões são ocupados por personagens cuja identid ade permanece secreta. Quem consente em ser dirigido por um desconhecido. por qu e não aceitaria também o jugo de uma doutrina incompreensível? .uma névoa entorpecente — alguns dos maiores gênios das artes.

t. são maçons os tadores republicanos. sobretudo t. Mas os Estados Unidos são o primeiro país cujos governantes são todos o u quase todos maçons. todos os líderes revolucio nários pertencem à organização. De um lado. José Olympio. porque ela não se compromete com aqueles a quem auxilia. construtor do templo de Salo mão. ( V. portanto. todas as disputas políticas travadas diante do público. defender até à morte os segredos da organiz ação. quando a aris tocracia em peso achou que dentro da Maçonaria podia encontrar um abrigo seguro co ntra as tempestades que se aproximavam: o próprio Luís XVI submeteu-se aos ritos e j uramentos 184.. não havendo oficialmente religião protegida pelo Estado. V. para sempre. ela dá nascimento a uma aristocracia. mas em certas horas seu jugo deve ter parecido mais suave. Pairando invisivelmente sobre todas as forças em luta. II Cap. O que a diferencia da Igreja é menos a sua ideologia — vaga. XIII. também são maçons o rei e toda a sua corriola. influencia decisivamente o curso das coisas. orientando. democrática encobre e disfarça a luta interna no seio de uma nova aristocracia. Isso aconteceu. às vésperas da queda do Antigo Regime na França. a vida parlamentar do Império não consistirá de outra coisa senão de debates entre maçons . não são senão a exteriorização de divergências nas e elaboradas dentro da Maçonaria. cit. e onde. Como a Igreja. ) A mesma ambigüidade nota-se na atuação da Maçonaria quando da formação do Império do Brasil. um homem jurava ob edecer ordens emanadas de fonte secreta. a uma casta governante. cujas divergências se erguiam sobre o fundo comum de um pacto de lealdades secre tas. elevado rapidamente à condição de Grão-M stre. por exemplo. XIII. op. atribuir à Maçonaria a responsabilidade pelos movimen tos revolucionários. indefinida e elástica o bastante para comportar todos os arranjos e acomodações — do que a sua inv isibilidade. talvez mais que a da nobreza ou a do clero. é fácil compreender que nessa corporações. É um simplismo grosseiro. A Vida de D. são maçons os liberais. Pedro I ( Rio. E governo maçônico quer dizer o seguinte: todos os onflitos abertos. conciliando ou dividindo. não real ou imperial. com a sua disciplina do arcano. ensinando. ela é o verdade iro “poder moderador” — a autoridade espiritual que acolhe em seu seio maternal os par tidos em disputa e unge a fronte do vencedor com o óleo bento da legitimidade. Cap. Não sei o que pensar dessa tese. a situação de facto é: governo maçônico. e em seguida boicotado pela Maçonaria mesma e levado à abdicação. como um espião.154 OLAVO DE CARVALHO A resposta é. ela assumiu definitivamente sua vocação revolucionária. ma s que nem os personagens de destaque na época. o homem do povo encontrava a proteção de u ma força capaz de intimidar nobres e clérigos. se d eram conta das implicações mais óbvias desse ritual. a Maçon aria sai vencedora em qualquer hipótese. sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo 185. ma s sem dúvida ela merece atenção. a mais óbvia: é o medo. a partir do momento em que a Maçonaria introduziu em seu s ritos a matança simbólica do “pai dos arquitetos”. seguida de sua ressurreição. III Caps. e viver entre os demais homens. estimulando. nem a maioria dos maçons até hoje. Historia Universal de las Sectas. Jean Charles Pichon julga que. 1957 ). Logo em seguida. e. quando o Brasil imitar o exemplo norte-americano e proclamar sua independência da Europa. no fim das contas. é o desejo despropositado de se gurança (forma larvar e passiva do desejo de poder) que move os homens a submeterse a esse gênero de coisas. Esse medo não é de todo despropositado. é maçom o Imperador. do mes mo modo que a Igreja medieval não se comprometia em conflitos dinásticos: sua função é ecl esial. e equilibrando enfim — ao menos idealmente — o movimento do conjunto. A mão das organizações secretas sempre foi pesada. Pedro I é convidado a entrar na organização. Octávio Tarquínio de Souza. Muito mais que o Imperador. com uma identidade dupla. Quaisquer que fossem as intenções de seus fundadores. A espuma 184 O papel da Maçonaria na Revolução é bastante ambíguo. Hiram. cuja unidade espiritual repousa nas mãos de um novo sacerdócio. XXIV e XXV. São maçons os conservadores. que consti tuem a pulsação mesma da vida democrática. de outro. Da lealdade corporativa à disciplina do arcano há menos que um passo: pela salvaguarda do próprio pescoço. o advento do gove . Se é verdade que a M açonaria se originou nas corporações de ofícios da Idade Média.

185 Sem mesclar-se diretamente no governo deste mundo: distinção capital.rno maçônico nas Américas abre uma nova etapa na História do mundo: a era do segredo. sobretudo das organizações estatais secretas do século XX . que é o aspecto mais patente da evolução política mundial. a democratização progressiva das instituições. que neutral izará os efeitos da democratização para reduzi-la a pouco mais que uma distribuição de doc es para aplacar criancinhas zangadas. ansiosos como estavam por denuncia r por trás de todos os eventos um maquiavélico dedo maçônico. . Daí por diante. que os defenso res da teoria da “conspiração maçônica” nunca enxergaram. correrá parelha com o aumento incalculável da influência das org anizações secretas.

E. eis um fenômeno que não é nada novo na Histór ia. e a invisibilidade é o fermento que o faz crescer mais ainda 18 8. a espionagem industrial general izada. s/d ). o centro foi fechado. Num dos documentos mais impressionantes já publicados a respeito ( Journey into Madness. invadindo os tensivamente a esfera dita “privada” ( v. 188 Que intelectuais maçons ou pró-maçons sejam . é claro que não se pode nem de longe entender fenômenos como o do atual banditismo organizado sem referi-lo ao quadro geral disso que chamei secre tude crescente 187. f inalmente.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 155 Dizer “uma nova etapa” não é exagero: por mais que se procurem. reconhece muito pertinentemente a diferença abissal de escala que separa os modernos serviços secretos de tudo o que até o século XIX se conhecia co mo “espionagem”. estas de cunho estatal. os milhares de seitas que hoje vinculam uma boa parte da população mundial a pactos de lealdade confidenciais. Mas. Não se justifica. então não se justifica o desprezo dos h istoriadores e cientistas sociais por esse fenômeno. Os historiadores raramente mostram sensibilidade para o ineditismo desse fenômeno. não é de mold a propiciar nenhuma valorização dos fatores secretos e os intelectuais não estão imunes a essa crença. não se encontrarão em nenhum a outra época ou civilização coisas como a CIA. den unciado no Congresso. bem c omo na Revolução Francesa e no desenrolar das mutações políticas e ideológicas ao longo do sé ulo XIX um capítulo que permanecerá demasiado obscuro enquanto se enfocarem essas so ciedades como meras forças políticas secretas. qu e é uma das marcas diferenciais do século XX em relação a toda a história anterior 186. Mas também é certo que não se pode compreender esse processo sem remontar às suas origens. cresceram ao ponto de se tornarem virtualmente incontr oláveis. se tudo isso é claro. os serviços de “inteligência” ultrapassaram muito o campo das i nformações militares para abranger toda a vida social e psicológica das nações. Corgi Books. De um lado. trad. da força dos fatores secretos na produção do acontecer histórico. De outro lado. e outros tantos fatos que assinalam uma ascensão . a KGB. sem ter em conta o caráter específico da sua atuação. 198 8 ) conta de um centro de treinamento de torturadores médicos criado pela CIA. da vida sexual etc. que foi direto r da CIA por décadas. oferecendo seus préstimos: Thomas foi encontrar um deles no Líbano. de qu e a História do mundo evolui no sentido da crescente circulação de informações. mas os profissionais lá treinados se e spalharam pelo mundo. mas se explic a: o papel do secreto na vida política ampliou-se de tal maneira que ultrapassa as possibilidades imaginativas do homem comum e penetra naquela zona de improbabil idade que raia a ficção e o impossível puro e simples: seu próprio crescimento desmesura do tornao invisível. Allen Dulles. Medical Torture and the Mind Controllers. no mais das vezes de ordem supra-política e propriamente sacerdotal. É ev idente que o advento do governo maçônico constituiu nada mais que o estopim a desenc adear um processo de secretude crescente em escala mundial. que nem a Maçonaria ne m qualquer outra organização poderia jamais controlar. O Ofício de Espião. sem precedentes. O que é inédito na História do mundo ( com a possível exceção da “Ordem dos Assassinos” no Oriente islâmico ) é a extens do poder dessas organizações e o fato de que seus principais opositores são também organ izações secretas. 187 186 O mesmo não se pode dizer dos personagens envolvidos. penetrando até mesmo na intimidade dos costumes familiares. a convicção generalizada. portuguesa. Essa foi a origem da Máfia. incutida pela ideologia democrática. bem como das tríades chinesas. e que nestas origens se en contra a participação das sociedades secretas na formação dos governos americanos. Lisboa. London. Guimarães. De outro. Que sociedades secretas de objetivo originariamente iniciático e sacerdotal se tra nsformem depois em quadrilhas de bandidos. servindo à organização terrorista que sequestrara um funcionário americano e o tor turara para extorquir informações.

eis aí algo que poderia tentar-nos a endossar a teoria conspiratória. segundo a qual as sociedades secretas dirigem o curso da História. no qual as entidades esotéricas acabam por se tornar. de modo a poder manipulálos com a ajuda deles mesmos. . inconsc ientes de sua ação no mundo. citado na p. segundo a qual essas sociedades dirigem conscientemente a trajetória do mundo pelo hábil ma nejo do segredo: impondo como “científicas” exclusivamente aquelas interpretações que as o cultam. o qualificativo de cie ntífico. Há uma diferença profunda entre influenciar e diri gir. se ex iste. pela exclusão de todo fator espiritual na explicação histórica exclusão que a fortiori le va a omitir também toda interferência específica das sociedades iniciáticas na produção dos fatos . vejo nesse fenômeno antes um “efeito a vestruz”. e a ideologia “científica” que omite completamente a influência delas ( exceto quando reduzidas a inócuas “forças políticas” sem peso específico ). elas mesmas.os primeiros a lutar pelas interpretações materialistas e sociologizantes da História. não sendo nem maçom nem antimaçom. elas se utilizariam de hordas de intelectuais céticos e materialistas como de um muro protetor para garantir a sua invisibilidade. temporariamente usurpado pelo dogma da cegueira metodológica obrigatória. deve haver lug ar para um sensato meio-termo que mereça. o manipulador. é indício eloquente de falta de consciência histórica. Enfim. Que a Maçonaria assuma como suas certas ações que lhe são imput adas por seus adversários v. 233 . Entre a teoria conspiratória. é o mais manipulado de todos. Da minha parte. Ess e meio-termo é precisamente o que estou buscando nestas páginas. o comentário de Guénon ao livro de Lantoine. de pleno direito.

ignorantes de toda mística autêntica.. os “espíritos” puseram um fim aos seus tormentos. o Frankenstein de Mary Shel ley são personificações veladas de sociedades secretas. mas dando-lhes interpretações simbólicas. O episódio teria sido levado a melhor termo se o poeta. ora afetan do uma superioridade blasée que. que era médium. compôs com essas imagens A Vision (1926): o impacto foi gran de. Seja sob a forte impressão de leituras mal digeridas. disse-lhe ter recebido dos espíritos uma misteriosa mensagem cifrada. que parass e de estudar o assunto. mas depois de três anos. e embriagado depois pela alucinante mistura de fatos e ficções com que o Abade Barruel compusera sua célebre sopa anti-maçônica. Mencionei lá atrás o domínio tirânico que George urdjieff exercia sobre as mentes de seus discípulos. Mário de Sá-Carneiro. influen ciado desde a adolescência por um seguidor dos Illuminati da Baviera. Atordoado. que. poetas. incapazes de elaborar intelectua lmente suas experiências mas sempre dispostos a lhes dar algum tipo de expressão mis tificatória. no mbolismo astrológico. Foram comidas pela esfinge. só podiam ter sido inspirados do além. acabou por se tornar o porta-voz mais intelectualizad o da concepção conspirativa da História 189. afetar o curso das coisas. tivesse ido estudar os clássicos da mística oriental. Wil liam Butler Yeats (1865-1939) era leitor de Madame Blavatski e frequentador de cír culos “ocultistas”. cientistas que tiveram contatos mais próximos com gurus misteriosos e s ociedades secretas saíram traumatizados e atônitos. por exemplo. do mesmo modo que muitos dos t emas da poesia e da ficção constituem traslados quase literais de ritos e símbolos de organizações esotéricas e pseudo-esotéricas. sob a forma simbólica de um ciclo lunisolar de 28 dias o conjunto de todas as formas possíveis da personalidade humana. Contemporâneo de Gurdjieff. impressionado. Fernando Pessoa. Como que num pacto destinado a bloquear por dois lados o acesso a uma compreensão real do assu nto. por incapacidade de decifrál a. deu de revirar toda a literatura filosóf ica Ocidental. Muitos dos monstros e vampiros que povoam a literatura do Ocidente no s dois últimos séculos a começar pelo mais célebre de todos. não desce ao exame de miudezas “esotéric as” que em nada poderiam. no seu entender. entre os quais se encontravam não poucas celebridades das letras e das ciências. que expunha. Yeats. Yeats não soube se sua Vision era verdade ou ilusão.. A regra geral nesses casos é a absoluta inermidade do “intelectual” moderno ante a “mão noturna” que o guia. do alto de seu conhecimento quase divino de leis históricas supostamente impessoais e objetivas. ao invés de confiar-se ceg amente a “ensinamentos espirituais” de origem mais que duvidosa. destituídos de fontes históricas reconhecíveis. Sua esposa. que. pelas 28 casas lunares que dá origem à 190 191 . A explicação completa do “ciclo da personalidade” poderia ser encontrada. os historiadores e cientistas sociais tendem à indiferença olímpica. nas obras de Mohyieddin Ibn-Arabi. em nova mensagem. Todos os escritore s. trazer con hecimentos esotéricos de insondável profundidade. O próprio Yeats não entendera absolutamente nada da “mensagem”. a intelectualidade moderna mostra uma completa inépcia ao lidar com esses assuntos. Até um escritor de notórias simpatia s marxistas. reduzidas à condição de crianças atônitas nas mãos do poderoso mistificador190. como Edmund Wilson. ampliando fantasiosamente o poder das soci edades secretas ao ponto de fazer delas o demiurgo invisível da História. seja sob o impacto mesmo de experiências pessoais traumáticas. Um exemplo desta última atitude é Shelley. ficou embasbacado191. os literatos ao deslumbramento misticóide. Até o fim da vida. ordenando-lhe. veladas e subjetivistas. O “ciclo da perso nalidade” não é senão uma aplicação particular da processão dos Nomes Divinos divididos. Foi debalde. em busca de explicação. meio impostor . muitos esc ritores modernos divulgaram a existência e a atuação de forças secretas. pois a obra pareceu aos críticos. sentia-se meio sábio. Aleister Crowley semeou o desespero e o terror entr e os jovens intelectuais portugueses que se colocaram sob sua influência no começo d o século Almada Negreiros.156 OLAVO DE CARVALHO De modo geral. capazes de excitar morbidamente a imaginação popular sem nada esclarecer quanto à natureza do fenômeno. Atormentava-se entre dúvidas insolúveis. ora mistificando-os.

trad. The Autobiography of John Bennet. São Paulo. Cultrix. Scriber’s. Witness. New York. 1985. Os Intelectuais. O Castelo de Axe l. Cap. II. John Bennett.189 V. V. Paul Johnson. V. Cap. I. . brasileira de José Paulo Paes. 2º ed. Axel’s Castle. 1931..

Ninguém nega que a experiência de colocar -se sob o domínio de uma mente maligna pode dar às fantasias literárias de um escritor um atrativo misterioso e contribuir para seu sucesso. orgulhosa porta-voz de uma épo ca que se julga o apogeu da autoconsciência humana.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 157 manifestação cósmica e se repete. Humilhados no seu ponto de maior orgul ho a inteligência . As histórias de artistas e intelectuais manipulados psiquicamente e f eitos de palhaços por pseudo-mestres espirituais no século XX formam um tremendo req uisitório contra a presunção da intelectualidade moderna. Dominado psiquicamente por Shah. Graves foi induzido a colaborar como inocente útil. Rinehart & Winston. 1978. Fowles não desmentiu. omitindo as fontes e rodeando o ens inamento de uma aura misteriosa que só poderia servir para confundir a ela e ao ma rido? A resposta é simples: fizeram isso pelo mesmo motivo com que Madame Blavatsk i. Elwell-Sutton. terminando por sentir-se um misto de otário e vigarista. e sem verdadeira fé. I. de uma automistificação voluntária. O caso é narrado em detalhes na biografia de Graves por Martin Seymour-Smith195. ajudando assim a dar às proezas de seus algozes uma aura de prestígio mágico. III. Milano. Chap. René Guénon. 555-558. cujos enredos francamente paranóicos. Pesquisas empreendidas por dois filólogos. é preciso fabricar um. decerto mais hipnótico do que espiritual. O caso revela a triste condição do intelectual e uropeu. desde séculos. 1982. Prefere m aludir ao assunto de maneira indireta e simbólica. às quais atr i erroneamente uma origem “celeste” e às quais presta um culto supersticioso. raramente ou nunca admitem que foram feitos de idiotas. Clé Spirituelle de l’Astrologie Musulmane d’après Mohyid-din Ibn-A rabi. 193 V. pp. Archè. P. que se torna mai imoral ainda na medida em que vai contaminar leitores e espectadores inocentes. é claro no que se c onsidera a maior fraude literária do século: uma nova tradução do Rubayyat de Omar Khayy am. à mercê de “influências psíquicas” que não pode compreender nem dominar. no microcosmo da alma humana192. Titus Burckhardt. Um autor de nome Ernest Scott. analogicamente. Holt. preferiu di zer tê-los encontrado na cópia única. 195 Robert Graves. Ele cita em particular o caso de John Fowles. provavelmente também de Doris Lessing . Le Théosophisme. É precisamente por meio de intelectuais e escritores que organizações esotéricas e pseu . pretensamente baseada num manuscrito inédito que estaria. porta-voz talvez pseudônimo da organiz ação de Omar Ali Shah. chega a declarar expressamente que essa e outras entidades “eso téricas” gostam de “apoderar-se das mentes” de intelectuais e envolvê-los em situações persec tórias que os levarão ao desespero196. His Life and Wo rk. Graves. John Bowen e L. The Collector e The Magus197 foram inspirad os nesse tipo de experiências. 194 Omar Ali e seu irmão Idries formam talvez a mais famosa dupla de farsantes espirituais da Inglaterra. Robert Graves. que era o seu guru. mostraram que o vetusto manuscrito não existia e que a trad ução que Shah transmitira a Graves para que a pusesse em versos era simplesmente um plágio de uma adaptação norte-americana do século XIX. Se os gurus de Yeats queriam lhe ensinar isso. Fizeram isso porque a força do dominador psíquico reside no mistério e. Um dos mais deprimentes capítulo s dessa epopéia tragicômica foi o destino de outro grande poeta inglês. Sua história nada edificante foi pu blicada na revista Encounter de maio de 1955. advertido de que estava s endo usado para uma fraude. se fez de donzela ofendida e morreu sem ter dado o b raço a torcer. Histoire d’une Pseudo-Réligion. feito de temor e suspeita. guardada a sete chaves num mosteiro subterrâneo do Oriente193. Mas esse sucesso é obtido a través de uma diminuição de consciência. Cap. O lado mais deprimente dessas histórias é que os intelectuais ludibriados se sente m mais ou menos como mulheres estupradas. por que simplesmente não lhe deram par a ler uma tradução de Ibn Arabi ou de algum dos outros muitos místicos islâmicos que tra tam do assunto? Por que tiveram de transmitir o ensinamento para uma médium em tra nse. o nde não há mistério. da família Shah no Afeganistão. ao reproduzir trechos de um clássico tibetano que lera em tradução alemã. sob a g uarda 192 Cf. Suponho que coisas análogas poder iam dizer-se de Stephen King e Colin Wilson. nas mãos do “gozador cósmico” Omar Ali Shah194.

o segundo com Ant hony Quinn. Ambos de pois filmados. Ernest Scott. The People of the Secret.do-esotéricas exercem sua influência sobre toda a sociedade uma influência que afeta a ntes os estratos profundos da psicologia coletiva do que a superfície da História po lítica. Octagon Press. o primeiro com Therence Stamp e Samantha Eggar. 1983. London. Não deixa de ser curioso que aqueles mesmos intelectuais que 196 197 V. .

na hora de divulgar o mesmo estudo em livro ( A Sociedade Informática. ou Ivan Maïski. é que há nela um elemento de histrionismo. Pois um verdadeiro rigor científico não se faz de superior a nenhum assunto. a afetação de indiferença por parte daqueles que só co nhecem o assunto de longe não tem como deixar de parecer uma jactância adolescente. os intelec tuais que fazem a cabeça do mundo moderno são tipos bem pouco confiáveis. Mas não está na hora de pelo menos alguns estudiosos proclamarem sua indep endência de compromissos ideológicos (ou mesmo de lealdades secretas) e começarem a in vestigar a sério aquilo que talvez nenhum dos poderes deste mundo gostaria de ver investigado 200? Se tantos podem mobilizar o melhor de sua energia intelectual p ara encobrir certas realidades. São Paulo. ao l ongo dos últimos dois séculos. maçom ou rosacruz enrustido. Pratic amente na totalidade dos casos. por que nem mesmo uns poucos poderiam dedicar-se ao empenho de desocultá-las? Paul Johnson mostrou que. em regra geral. t rad. que. August Strindberg. a mais elementar pr ecaução recomenda certificar-nos de que não se trata de um esoterista. atribuindo às sociedades secretas um poder demiúrgico ine xistente. que se pavoneia para exorcisar um medo invencível. Foi muito raro que. que denunciou corajosamente o mistifório teosófico1 98 que o levara quase à demência. Mas . e sobretudo não consiste em poses. Brasiliense. historiadores e cientistas sociais muitas vez es é uma simples cumplicidade consciente na manutenção de um segredo com que se compro meteram mediante juramento. Carlos Eduardo Jordão Machado e Luiz Arturo Olojes. um intelectual que tivesse tido contatos com sociedad es secretas elaborasse essa experiência de uma maneira intelectualmente digna e es crevesse sobre elas de maneira a esclarecer o público. aludindo aos acontecimentos de maneira velada e encobrindo-os de uma aura simbólica atraente e autolisonjeira. 200 Minhas investigações pessoais a respeito do fenômeno da secretude crescente estão longe de ser totalmente conclusivas. Sempre que um estudioso acadêmico franze o nariz a os assuntos nte esotéricos em nome de um pretenso rigor científico. só serve para deixar o público naquele estado de dúvida temerosa que logo se transforma em atração e vulnerabilidade. para dar às sua s conclusões a aparência de terem sido obtidas por meios exclusivamente “científicos”. a inermidade dos intelectuais contemporâneos ante os fabricantes de segredos. Exemplo: Adam Schaff. à direita. os intelectuais amedrontados por pseudogurus acaba m por virar discretos apologistas de quem os atormenta. No entanto é verdade. marxista arrependido. como o leitor bem está vendo por estas páginas. ocultista. como Léon de Poncins. por outro lado. que um potente desestímulo ao estudo dessas questões vem do fato de que elas foram abundantemente enfatizadas de manei ra unilateral por autores comprometidos ideologicamente com certas alas extremis tas. maçom. os traumas de experiências interiores induzidas po r guias espirituais malignos acabam se transformando em literatura mistificatória. não se dêem conta de que o único poder efetivo que elas exercem é precisamente aquele a que servem de instrumento: o poder de moldar o imaginário social. Conseqüências Sociais da Segunda Revolução Industrial. Quando a pose se torna enfática demais. Mas será possível que a casta intelectual inteira este ja comprometida com a mentira e o auto199 198 V. e se envolveram numa aura de tagarelice retórica r epelente. à esquerda cada um denunciando as sociedades secretas dos outros . expurgou o texto de todos os elementos astrológicos e esotéricos. Diante de tantos e tantos c asos que mostram a passividade atônita. a afetação de ind rença superior por parte de filósofos. Inferno. 199 5 ). provavelmente um fingimento consc iente199. publicou numa revista maçônica uma análise histórica baseada em métodos astrológicos. quase sempre mais comprometidos com a busca do poder e do autoengrandecimento do que com qua lquer investigação da verdade201. Com a exceção provave lmente única de August Strindberg.158 OLAVO DE CARVALHO difundem visões fantasiosas. Mas se os literatos servem a or ganizações secretas por uma deleitação masoquista na escravidão voluntária.

uma coisa no entanto é certeza absoluta: não podemos compreende r o curso da história contemporânea sem fazer essas perguntas.. cit. por mais que suas res postas devam permanecer. se não tenho respostas senão em germe e se os germes ainda germina m no ventre da dúvida. Paul Johnson. o fato de não conhecermos ainda em d etalhe todos os enlaces causais que levam das origem do processo até seu estado pr esente não pode impedir-nos de admitir que alguma ligação tem de haver entre as duas c oisas. por não se sabe quanto tempo. na esfera das conjeturas ou da mera probabilidade razoável. op. De outro lado. Pois. e sim de protestar contra a indiferença às perguntas.aqui não se trata de dar respostas prontas. 201 V. .

onde uma corrente — luterana na primeira. que em princípio não pode interferir em nada nos negócios públicos. com todo seu vistoso cortejo de morticínios. através da expansão do assistencialismo estatal. um sacerdócio do falso? É cedo para res ponder. que ela componha. e não o são. o tem a das sociedades secretas pode servir de pedra-de-toque. da Rússia ou da China. a Espanha 202. Aristocracia e sacerdócio no Império americano (II) “Eis que aqui apresentarei alguns da Sinagoga de Satanás. à corrente dominante: a Revolução americana. ela é a liquidação do poder político das religiões. a Dinamarca. O capitalismo liberal? Também não. que toda lei religiosa cessa de ter qualquer validade ou obrigatoriedade pública. tão vasta em suas conseqüências. as dife rentes seitas têm de aprender a conviver e a concorrer em pé de igualdade no mesmo t erritório sob a proteção de uma mesma autoridade civil que permanece indiferente às disp utas religiosas e equidistante de todas as confissões. Os Estados Un idos são o primeiro Estado professadamente areligioso — no sentido etimológico: a -gnóst ico — que se conhece na História do mundo. A revolução que isto representa na estrutura mental da humanidade é tão profunda. na sua totalidade. Se é verdade que “pelos frutos os conhecereis” ou que as coisa s são em essência aquilo em que enfim se tornam. que os critérios éticos que presidirão à vida social. em última instância: Estado leigo. sob o impacto do pluralismo democrático. § 30. o único que foi assimi lado integralmente. porque o próprio sist ema norte-americano. em primeiro lugar. Ora. que dizem que são judeus. visto que ela convive perfeitam ente bem com ditaduras. República protestante vai sig nificar. Dos vários componentes da ideologia revolucionária norte-americana. Significa. ao colocar-se aci ma das religiões. a implantação mundial do Estado sem r ligião oficial203. de radicalismos ideológicos. Mas. literalmente e sem alterações por todos os países do mundo foi o p rincípio do Estado leigo. Talvez a resposta só venha dentro de muitas gerações. repu licana e liberal-capitalista de modo secundário e mais ou menos acidental: em essênc ia. e visto que a subsistência de uma ar istocracia maçônica associada de perto a uma oligarquia econômica é um dos pilares mesmo s do sistema norte-americano. ao contrário d o que aconteceu na Suécia e na Holanda. de vez que o Estado.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 159 engano. nada mais são que a créscimos periféricos e notas de rodapé. quando lhe interessa.: 3:9. a Holanda. o p rotestantismo norte-americano. Mas. Em segundo lugar. sem traumas. e a parte de seu legado cultural que não se dissipou em fumaça terminou por incorporarse . como a Inglaterra. acabam por ser supra-religiosos. não havendo unidade religiosa. fragmentase numa infinidade de seitas que não podem ser reduzidas à unidade de uma hierarquia religiosa que imite a da Igreja Católica. dividindo os intelectua is entre os que se dispõem a buscar a verdade sobre o assunto e aqueles que prefer em mistificá-lo ou fugir dele. E. acabou por ass imilar várias características da socialdemocracia. mas mentem. sem grandes choques. Todas essas revoluções passaram. que perto dela as re voluções seguintes — da França. em seg undo lugar. tendo de ser extra-rel igiosos. ca lvinista na segunda — toma logo a dianteira para unificar religiosamente o país. a Revolução Americana só é democrática. Estado sem religião oficial. Que é que isto significa? Significa. de experimentos econômico-administrativos extravagantes. que o cum primento ou não de um mandamento religioso passa a ser um assunto da esfera privad a. os Estados que f undaram ruíram com fragor ou derreteram-se melancolicamente. por enquanto.” APOC. O republicanismo? Não. qual o legado dessa Revolução ao mundo? A democracia? Não pode ser. ser incorporados por antigas monarquias tornadas constitucionais. e julga sem 202 . se torna o árbitro das suas disputas. porque os el ementos democráticos e igualitários da ideologia norte-americana que se espalharam p elo mundo puderam. os Estados Unidos são uma República protestante. de novas modas cul turais. para falar só das maiores —.

. notas 222 e 238. comentou que havia caído do governo o único autêntico líder repu blicano da América Latina.E não se esqueçam. de que quando expulsamos Pedro II o presidente dos E UA. Theodore Roosevelt. brasileiros. 203 V. adiante.

portan to. logo se fund irá indistintamente com a psicoterapia. em terceiro e consequente lugar. introd.160 OLAVO DE CARVALHO ser julgado. sem prestar satisfações senão a Deus. Paris. dessa forma. culminando com a formação de um Estado onde a comunidade religiosa não ultrapassa hoje três por ce nto da população e está submetida a toda sorte de constrangimentos e humilhações nas mãos do s modernizantes e ateus? Ou que. a bem dizer. o movimento para a implantação de um Estado leigo jud eu logo perdesse toda conexão com as tradições religiosas e passasse mesmo a ser chefi ado por pessoas de origem judaica contrárias ao judaismo? Ou que esse movimento. esse cumprim ento deve ser deixado por sua conta como um assunto puramente privado”. “todo privilégio religioso em geral deverá ser suprimido. a criação e um novo tipo de fenômeno espiritual que. a rigor e a long o prazo. vox Dei. a total desautorização da lei religiosa. No Estado leigo tal como desejado por el e. Édition bilingüe. Mas essas três conseqüências. Não é realmente estranho que um movimento mundial capaz de conquistar um território a bala e fundar nele um Estado não tivesse. um doutrinário que odiava o judaismo como odiava todas as religiões. Marianna Simon. passando a buscar apenas a sua ema ncipação de cidadão. de vez que toda obediência a princípios relig iosos só é possível na medida em que o Estado a permita e em que não entre em conflito c om as leis civis.” “O judeu . as técnicas de relaxamento. a o expandir-se. só para ter de socorrê-lo às pressas ex post facto c om o auxílio do dinheiro norteamericano? É de espantar que a própria organização do socorr o às vítimas do nazismo reforçasse formidavelmente o movimento judeu-leigo.” 205 Mas isto representaria. para não deixar que sua lei religiosa o impeça de cumprir seus deveres para com o Estado. circunscrito à vida privada. se. em Karl Marx. o fim da religião. perdendo o 205 206 Também não escaparam a Bauer as conseqüências que essa mudança teria para os próprios judeus : desistindo de buscar a emancipação do judaismo. É de espantar que. a aparência se tornará o essencial e triunfará. deixou o povo judeu inerme e s onso ante o avanço da ameaça nazista. À propos de la Question Juive ( Zur Judenfrage ). Id. os clubes de enc ontro e todos os outros sucedâneos de “vida interior” que a nova sociedade puder criar para a satisfação privada de seus membros. pp. nessas condições. acabasse por fortalecer entre os judeus do Ocidente inteiro um es pírito de mundanismo e “modernismo” que já os vinha contaminando gradativamente desde a Revolução.. Aubier. uns anos antes. Significa. trad. — se por exemplo ele se dirige num sábado à Câmara dos Deputados e toma parte na s deliberações —. ele quiser permanecer judeu. e que. precisa ter cessado de ser judeu. mesmo porque “declarar que a lei do sabbat não tem mais um caráter obrigatório para o judeu será o mesm o que proclamar a dissolução do judaismo” 204. a extinção da religião como princípio organizador da conduta humana. representam. o judeu 204 Cit. Onde não há mais religião privilegiada. A vitória da “Teologia civil” não podia vir sem trazer junto uma “espiritualidade civil”. ibid. Quem percebeu essas conseqüências com muita cl areza. p assim. somadas. dissolvendo os laços da solidariedade milenar que havia defendido a comunidade judaica contra toda sorte de perseguições. desejando-as aliás ardentemente. 1971. nem força nem p . não há religião nenhuma. encarnado na “vontade popular”: vox pop uli. “não pode permanecer judeu na vida pública senão sofisticamente e em aparência. foi Bruno Bauer. 47-123. a religião judaica tivesse de pagar a conta dos desvarios cometidos por seus adversários206? Que. François Châtelet. a extinção da religião como tal. e se alguns ou muitos ou mes mo a maioria se crêem inclinados a cumprir certos deveres religiosos.

foram para a câmara de gás.revidência nem vontade bastante para organizar uma retirada maciça dos judeus da Ale manha nazista antes que começasse a “solução final” que os judeus mais lúcidos — o filósofo É eil. Esses fatos mostram que já em 1933 ano em que foram p ublicadas as advertências profé- . O pai de um amigo meu também emigr ou no mesmo ano. retirou-se da Ale manha e. abandonou o idioma alemão. por exemplo — previram com muita antecedência? Weil. sem exceção. em 1933. em protesto contra o nazismo. sob o riso dos parentes que censuravam seu “alarmismo”: todos. passando a escre ver somente em francês ( aliás um francês esplêndido ).

208 Eu estava revisando estas páginas. e nquanto elas precisarem de um Estado ateu para policiá-las. nunca os exterminaram em massa nem sabo taram a prática do judaismo ao ponto de reduzir para três por cento dos judeus a quo ta dos ortodoxos praticantes.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 161 princípio religioso de sua unidade cultural. fica na posição de arbitrar as disputas religiosas segundo critérios que. a carta lucidíssima assinada por um sr. the Jews have always flourished and blossomed amid their ruins. Sabendo que os princípios de sua religião particular só val em para os do seu grupo imediato e que a integração na sociedade maior depende exclu sivamente da obediência à moral civil. Finally given the opportunity to observe without harassment. Hutchinson. Yet in the melting pot of the American culture. nem mesmo sobre os menores de idade. o cidadão é permanentemente convidado a abandonar a carga da dupla moral e a simplificar as coisas para si mesmo. isso equivale a proclama r uma moral civil que está acima de toda moral religiosa e que é. a ruptura da continuidade temporal da comunidade religiosa: o Estado garante os direitos d o filho que rejeite a religião do pai. os próprios judeus. a única obrig atória para todos os cidadãos. Na prática. the fires of the Spanish Inquisition. oppressed. tornado árbitro das disputas religio sas. When faced with Pharaoh and the Egyptian soldiers. A religião. quando um amigo me mostrou. Canadá: “Fr om the birth of their religion. o povo judeu — aliás não coerido por nenhum a homogeneidade racial207 — se reduzisse. Que este assunto tenha se tornado um tabu. From their ashes there has always come a ‘reawakening’. enfim. realizando-se assim a profecia de Bauer segundo a qual a identidade jud aica. Mas será sinal de amizade aos judeus cortejar um orgulho ressentido que os torna c egos ante perigos que hoje os cercam? Para mim. de cara. não é de espantar. no novo quadro. Isso representa. não há dúvida: a glória material que hoj e premia os judeus não compensa a perda da sua identidade religiosa — um patrimônio qu e eles têm o dever de conservar porque não pertence só a eles. Os antigos Estados rel igiosos perseguiram e expulsaram judeus. they refused to abdicate their faith. the Jews deny themselves this rig ht. 207 V. as demais religiões que cultuam o mesmo Deus. na revista Time de 27 de fevereiro de 1995. por ser leigo. devem estar acima dos de todas elas. e não a dividir. the chosen nation is rapidly disappearing. great empires have fallen. Em segundo lugar. não. e não assumirem seu papel de povo profético. Yaakov Wagner. não tem autoridade nenhuma. Mas também não os enxergam. Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own rel igion. o Estado. disputa. Their tormentors have perished. accomplishing what generations of their persecutors have failed to do?” — A r esposta é: sim. mas a toda a humanidade . de Downsview. Arthur K oestler. cu ja lembrança medonha inclina os judeus antes a chorar do que a meditar o passado. já não passaria de um triunfo das aparências sobre a realidade 2 08 —. atém-se ao cômodo privilégio de poder julgá-las sem levar em conta no mais mínimo que . victim ized. Estes fatos. the war machines of Hitler and the Nazis. 1976. os adeptos da teoria da “conspiração judaic a” não enxergam. é fácil de explicar pelo trauma do holocausto. exceto para os líderes e os importantes da comunidade. enquanto os judeus não se livrarem de seus falsos amigos. o Estado. mas não os do pai que pretenda transmitir sua religião ao filho. em geral. o destino dos judeus era previsív el. Não h averá paz para a religião dos judeus enquanto não houver paz entre todas as religiões. and this tiny g roup has survived. the Jews have been persecuted. à riqueza e ao mundanismo materialista. no momento mesmo de sua suprema glória mat erial. não podendo ser os de nenhuma das religiões em ticas do nazista arrependido Hermann Rauschning . à unidade meramente exterior e acidental de um amálgama de interesses multina cionais. Em primeiro lugar. mandando às favas a moral religiosa e atendo-se à moral civil. Que papel? O de ajudar em a reconciliar. imbuídos de um falso sens o de segurança inerente ao sucesso. quase sempre inconscientes. os ideólogos da modernidade. London. The Thirteenth Tribe. enfim. Não menos graves foram as conseqüências para as demais religiõe undiais. do processo de mundanização da sociedade Ocidental — um processo que muitos líderes e i ntelectuais ateus de origem judaica têm ajudado a apressar. Os judeus e o judaismo têm sido as principais vítimas.

. so b a alegação de que se trata de meras encenações. e considerando as religiões em d isputa como se fossem apenas clubes ou partidos. deixam de informar a um público demasiad o crédulo que todo rito é uma encenação. isto é. É mais que evidente que. não são melhores nem piores do que o culto dos duendes ou do que a Igreja de Satanás 209. que se afastam o mais possível de pressup ostos religiosos. nessa disputa. como elas. têm os seus direitos assegurados pela Constituição. perante o establishment. e com as quais devem concorrer no mercado como um pr oduto entre outros. Entre a 209 Os artistas do show business que realizam ritos satânicos em espetáculos de rock.seja os conteúdos das crenças religiosas envolvidas. perante a moral civil. Assim tornam-se veículos “inocentes” de influências psíquicas cujos efeitos sociais só são inócuos aos olhos de quem ignore totalmente o que seja um rito. as ideologias agnóst icas. que encenar um rito — desde que completo — é o mesmo que praticá-lo. devendo julg ar sempre segundo critérios neutros. isto é. todos com direitos iguais indep endentemente do valor ou desvalor intrínseco de suas respectivas ideologias ou pro gramas. o Estado. que. as grandes religiões como o judaismo e o cristian ismo. que fundaram a nossa civilização e criaram os valores éticos mesmos dos quais a ideologia democrática recebe o seu prestígio. O nivelamento por baixo é a conseqüência fatal: perante a lei. tem de favorecer sempre e sistematicamente as correntes cujas ideologias sejam menos dependentes desses pressupostos.

mais sutil. esta última leva vantagem necessariamente. a maior parte do qual nada tem a ver c om funções públicas. seja de ordem espi ritual. ao pa sso que uma casta sacerdotal. é que as r eligiões mesmas jamais tendo se ocupado seriamente de encontrar um princípio de conv ivência pacífica. na qu al ele possa ler em filigrana o mapa do sentido da vida. A form idável expansão do ateísmo no mundo. O papel dos ritos e disciplinas maçônicas na estrut uração e no equilíbrio interior das elites fundadoras e governantes dos EUA não pode ser . quer através do 210 Um dos motivos de os historiadores e cientistas sociais norte-americanos nunca t erem percebido que as elites maçônicas muito mais que o clero católico ou protestante exerceram desde a Independência a função de casta sacerdotal. É claro que. ou religião popular. A principal. são instantaneamente convidados a abandonar o seu grupo de referência. formando as consciências de seus membros através de ritos e símbolos. umas a contragosto.” BRUNO TOLENTINO Uma das principais funções da religião é dar ao homem uma imagem simbólica do mundo. a função de exot erismo. O predomínio absoluto da moral civil represe nta o boicote sistemático de toda transmissão da moral religiosa às novas gerações. a criação de um Estado multi-religioso só pôde realizar-se por meio da moral civil que. os fracos de cabeça. podendo abranger também eventualmente um clero.162 OLAVO DE CARVALHO facção que pretenda ter uma moral válida para todos os seres humanos e aquela que afir me o mais pleno relativismo moral. creio eu. Judaismo e cristianismo. ou simplesmente aqueles que tenham algum conflito de família. Mas será. § 31. como já res saltei. invisível e onipotente. é exercida por toda a pululação de religiões e seitas em disp uta. Um “clero” identifica-se com uma igreja estabelecida. abr igando-se sob a proteção do Estado leigo. no andar de baixo da sociedade. no seu grupo. tem um campo de atuação infinitamente mais vasto. as neutraliza e emascula. a pretex to de pacificá-las. reside em que. por outro lado. da New Age e da ufologia. sim. a Religião do Império. porque. adequado diz er que o Estado norte-americano é leigo. “Prometeu já não arrebata o relâmpago. mas tratando antes de dar combate sangrento umas às outras. jamais teria sido possível sem esta realização da Revolução Americana. outras ainda sem terem a menor idéia de a quem servem. Só que é um esoterismo ao qual não corresponde. bem como o fenômeno das pseudo-religiões que desviam para alvos inócuos ou mesmo prejudiciais os impulsos religiosos que ainda restem n a humanidade. Ícaro não aspira a um céu invinto. é agnóstico. e o conceito corrente de “clero”. todas nivel adas e integradas na grande liturgia da religião civil. outras de bom grado. Os jovens. aleatório como o instint o. se isso aconteceu no mundo. Acima de todas elas paira. exerce rigorosamente a função de direção espir itual? Que a aristocracia maçônica é encimada por uma casta sacerdotal que arbitra em úl tima instância as lutas políticas sem nelas se imiscuir diretamente? O Estado leigo tem religião. é indiferente em matéria de religião? Pois não acabamos de ver que é um Estado maçônico? Que a Maçonaria. Anteu não quer a te nem o Olimpo. é demasiado estreito para captar todas as nuances e as implicações do que seja uma casta sacerdotal. Essa imagem transmite-s e quer através das narrativas míticas e iniciáticas211. De Wilhelm Meister a Raskolnikov. mas não os da religião que pretenda impor os seus p receitos àqueles que. em que esses estudiosos em geral se baseara m. e is to pelo fato de que o Estado defende os direitos de quem não deseje submeter-se a uma determinada moral religiosa. Há um pretenso heroísmo cujo pântano é este mundo. no novo quadro. não foi sem razão. ao lado do espiritismo e da teosofia. seja de ordem psicológica. mas com um tipo de ação mais interior. nenhum exoterismo em particular. ainda não têm as condições de formar uma opinião própria. “oficial”. islamismo e budismo tornaram-se aí meras “seitas popul ares”. os meros fatos nada dizem sem os conceitos que os agrupam e lhes dão um se ntido. perpetuada no culto discreto oficiado por uma nova casta sacerdotal co lhida nos escalões superiores da aristocracia maçônica210.

Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Ino centes”. tb. mas ele não faz parte da religiosidade pública. 28-33. . 218. os estudiosos não puderam captar a esp ecificidade do novo quadro. também. n. o que leva a uma avaliação falsa da natureza e alcance da sua influência. Examinando sua sociedade co m conceitos tirados outras culturas e épocas. IAL / Stella Caymmi. como força política em sentido material e direto. 211 Para a distinção entre estes dois tipos de narrativas. É preciso contar. V. marcada pela emergência inédita na História de uma casta s acerdotal esotérica sem o correspondente exoterismo. pp. 1993. Dela vem a tendência de não enfocar a Maçonaria senão por f ora. v. adiante. Rio. com a típ ica incompreensão do intelectual moderno médio no que tange ao modus agendi dos rito s e disciplinas espirituais.negado.

por depo rte. pois em Don Quijote o pressuposto d e um destino metafísico do personagem dá ao desenlace um sentido precisamente oposto ao que teria para leitores desprovidos desse pressuposto: a vida do hidalgo só te m para nós um sentido edificante porque sabemos que. Até então a literatura narrativa euro péia caracterizavase pelo predomínio de temas que remetiam a um tipo de conflito mod elado sobre es212 quemas da Bíblia ou da mitologia greco-latina cristianizada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 163 rito que repete executivamente os passos principais do enredo mítico. pós-cristã ou anticristã. como índice do sentido da vida. otras que lo hace por divertirse y pasar el tiempo. experiências que repetem no microcosmo da sua existência pessoal os lances protagonizados pelos deuses e heróis da narrativa mítica. no Ocidente. mas também pela diversa preferência dada a este ou àquele mito. reencontrando a cada passo. otras que es por ruines sentimientos y bajas pasiones de ven gativo o envidioso. e que a vida aparentemente terminada em derro ta é na verdade o vitorioso testemunho da supremacia do sentido da vida sobre a vi da mesma. a este ou àquele topos da narrativa mític a no decorrer da evolução histórica. persigue la injusticia. Mas o mito como interpretação da vida não tem nem poderia ter significado constante. Mas o exemplo mais contund ente. os enredos t errestres jamais tinham em si a chave de seu próprio sentido. a rea lizar-se no Juízo Final. são instrumentos de interpretação da vida. Dito de outro modo. esse fenômeno manifesta-se da maneira mais cl ara entre o fim do século XVIII e o começo do XIX. Por ela o ho mem orienta-se no labirinto da vida. A quem não creia num sentido que transcenda a vida. ao mito maçônico. que o anti-herói das malfadada s façanhas é um herói autêntico do espírito. que não é necessário entrar em mais longas demonstrações. a este ou àquele tema. e insensatos aqueles que o consideram louco. Corneille. Pois este enfoque os reduz a objetos. não poderia jamais elevar-se a um plano de universalidade mais alto que o deles: metaphysica per se est et per se concepitur. Ante un acto cualquiera de generosidad. precisamente por ser tal . fustiga la ramplonería. estão lançadas no mundo as sementes de um a nova era. Isso é tão nítido nos enredos de Shakespeare. andarían buscándole una segunda intención a sus nobles desvaríos. e mais os entende o crente ou o noviço que lê a vida através deles — entrando neles e tomando-os como uma mensagem vin da de seu próprio interior mais profundo — do que o filólogo que os lê através de alguma o utra grade perceptiva. Si uno denuncia un abu so. Lope de Vega.. A questão básica em torno da qual se moviam personagens e enredos era a da salvação da alma: o sentido das ex istência dos personagens não era jamais totalmente resolvido no desenlace da trama. e as sucessivas versões que recebe — se ja na forma do pensamento teorético ou da narrativa iniciática — vão revelando as mutações d o sentido da vida tais como aparecem às diferentes épocas e mentalidades. Racine. os temas e os topoi maçônic os começam a predominar sobre os cristãos 212. são pura insensatez es tas palavras do comentário narrativo de Miguel de Unamuno: “Si nuestro señor Don Quijo te resucitara y volviese a esta su España. Desde o momento em que. extraterreno. talvez por inesperado. a todos eses estúpidos bachilleres y curas y barberos de hoy no se les ocur re sino preguntarse: ¿ Por qué lo hará? Y en cuanto creen haber descubierto la razón del . Ora. de l ocura. Quevedo — para não falar de Dante e de toda a literatura medi eval —. o in stante preciso em que o mito cristão cede lugar. no esforço vão de abarcálos no quadro conceptual de uma ciência determinada. todos os destinos eram enfocados sub specie æternitatis. que. ao contrário. é o de Cervantes. se preguntan los esclavos: ¿Qué irá buscando en eso? ¿A qué aspira? Unas veces creen y dicen que lo hace para que le tap en la boca con oro. mas subentendiam com o seu pano de fundo uma história cósmica escrita pela Providência com vistas a um sign ificado extramundano. é ele que é se nsato. nas artes narrativas. É por isso que podemos assinalar. Fíjate y observa. Calderón.. e que daria o verdadeiro significado do primeiro. aos olhos de Deus. Por esta razão é que falham repetidamente as tentativas de “interpretar” os mitos: os mitos é que. Essas mutações manifestam-se não somente pelas ênfases diferentes que diferentes tempos dão às possibi lidades de significação de um determinado mito. na variedade in abarcável das situações vividas. de heroismo. mas deixava em aberto a perspectiva de um segundo desenlace.

mas em qualidade: não em número de obras. . mas no valor e significação das obras produzidas.acto — sea o no la que ellos supoPredominar não em quantidade.

de acordo com a vocação de cada um. No romance de Goethe. à medida que Wilhelm supera a revolta juvenil para integrarse no mundo real como cidadão educado e prestativo. A extraordinária belez a desta imagem da ordem universal não deve porém fazer-nos esquecer que nela se trat a apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”. Para eso les sirve la lógica. e a Providência. Sobre a noção de “Superiores desconhecidos” na simbólica maçônica . As aventuras aparentemente caóticas de Tamino e Pamina em A Flauta Mágica de Mozart revelam no fim ser a consecução de um plano concebido pelo sumo-sacerdote Sarastro para levar o casal de noivos à iniciação maçônica que lhes dará o poder e a felicid ade 215. barrando-lhe o acesso aos “Gran214 Vida de Don Quijote y Sancho. Madrid. a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. vocacional. Qua ndo procuramos nela o elemento iniciático. reduzida a um tipo de adm inistração oculta da História. esteja ausente a Providência. um anúncio da salvação da sua alma. dirigem invisivelmente os acontecimentos 216. de uma forma benevolente. isto é. mas. francesa do Wilhelm Meister.. Também não significa que. acontecia que o fracasso ou o sucesso. Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. eram apenas um sinal provisório do destino cele ste do personagem. perdió todo su valor la cosa.” 213 Pois bem: entre os séculos XVIII e XIX acontece que o sentido dos enredos passa a fechar-se numa resolução puramente terrestre: o significado das existências já não está no J uízo Final. refletindo de longe os movimentos da Providência. numa curiosa inversão. 15ª ed. no mesmo ato. 1971. por trás do caos aparente dos destinos i ndividuais que se entrecruzam. conduz os sere s humanos para uma existência produtiva. já não é a vida humana que tem de se justificar ante uma instância supraterrena. nesse sentido. lo ha hecho por esto o por lo otro. 11-12. mas unicamente na au to-realização pessoal. às vezes ambíguas no seu modo aparente de agir. as potências supraterrenas é que não entra m na trama senão como co-autoras do sucesso e do fracasso mundanos. Bordas. são governadas. torna-se o supremo significado da existência: Wil helm Meister revela-nos que a História é dirigida por forças ocultas. Seu tema é a descoberta do caminho pessoal por entre os múltiplo s equívocos da vida. André Meyer. e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finali dade em si mesmos. 1949. O tema é comum a muitas obras maçônica s da época. que parecem à 213 primeira vista uma sucessão casual e sem sentido. ou sem importância. sob a proteção velada e amável das potências cósmicas incorporadas no ser coletivo das organizações secretas. O sucesso do empreendimento terrestre. é a de Goethe. É um lugarcomum dizer que o Meister tem um sentido oculto. surge reduzida a um dos fatores determinantes de um des tino cujo sentido se resolve inteiramente no plano da auto-realização pessoal. pp. um vasto painel da vida social francesa. E. que é uma narrativa iniciática. Isso não quer di zer que na literatura anterior a luta pelo sucesso mundano fosse um tema ausente . no sucesso ou fracasso social. a autorealização do homem no mundo. mas boas em essência. descobrimos que as peripécias da vida de Wilhelm. Espasa-Calpe. Na Comédia Humana de Balzac. Apenas. la cochina lógica. V. de longe. Apenas. profissional do pe rsonagem. são f reqüentes as menções a sociedades secretas que. trad. na nova l iteratura. o esplêndido prefácio de Marcel Brion à ed. En cuanto una cosa tiene razón de ser y ellos la conocen. no sentido que elas possam ter aos olhos de Deus.164 OLAVO DE CARVALHO nen — se dicen: ¡Bah!. ao contrário. a revelação da o m histórico-cósmica. Paris. se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem. A desocultação das forças causais profundas que dirigem a existência individual para a auto-realização é. a revelação dos motores ocultos da Histór ia: a manifestação de um poder secreto que. o sentido último dos acontecimentos já não depende de um significado metafísico. pelos “Sup eriores desconhecidos” 214. A obr a mais significativa do período.

Éditions Traditionnelles. . em Histoire des Treize. 208-22 7. Jacques Chailley. por exe mplo. são personagens cujo poder aparentemente desproporcional com suas qualidades pessoais vem da ajuda que recebem de sociedades secretas. 216 Vautrin.v. Ópera Maçonnique. Paris. René Guénon. La Flûte Enchantée. pp. Robert Laffont. 215 V. 1978. em Le Père Goriot. “À propos des supérieurs inconnus et de l’astral” em Études sur la Franc-Maç ie et le Compagnonnage. 1968. e Ferragus. tome II. Paris.

capaz de absorver o conhecim ento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. aprendidos na de votada leitura dos grandes poetas e pensadores místicos persas e árabes. a realização do sentido da existência terrestre. não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profe cia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão. são uma prese nça constante na lírica goetheana. a formulação do drama Ocidenta l que viria a ser dada por René Guénon. tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao ho mem as portas de uma nova civilização.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 165 des Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do di vino. De acordo com Guénon. do perfeito equilíbrio entre a atividade criadora e a passividade contemplat iva: na tríade chinesa. na velhice. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória inte rior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmi ca. infel izmente não concluída. Ressurgem então os temas cristãos. a insufic iência espiritual dos Pequenos Mistérios e buscasse insistentemente uma perspectiva espiritual mais elevada. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é prec isamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. Em conversações privadas. Goethe conscientiza-se aguda mente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. passivo e obediente ante as injunções do Es218 217 Portanto. ele procura integrar essa perspectiva no q uadro maior de uma ascensão puramente espiritual. passiva e “feminina” ante Deus. que fique claro: Se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos. a civilização do Ocidente. tendo vivenciado a ruptura maçônica com a tradição c ristã e se tornado o porta-voz por excelência da ideologia históricoprogressista. inversa e complementar mente. que fora prometéica e dominadora ante o mundo. transcendendo a esfera histórico-cósmica. a alma resgatad a. A consideração de uma possível “saída islâmica” para o conflito pressa com um século e meio de antecedência e em escala pessoal. é não apenas a da individualidad e humana perfeitamente realizada. Ora. e. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo a s marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países eur opeus e mesmo nos Estados Unidos —. não teria alternativa se não cair na barbárie ou islamizar-se 218. de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males como o preten . durante toda a sua vida madura. que chegou a tomar por tema de uma peça. A imagem do Hom em Perfeito. se e leva aos céus. Jen. à sociedade. em todas as tradições. e só conserva seu sentido qua do integrada no corpo de uma tradição espiritual maior. desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado . isto é. sent isse de maneira mais ou menos obscura. de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisioná-lo na dimensão terrestre 217. como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios. Dividido entre o impulso espiritual e a rejeição maçônica do cr istianismo. a tentativa de fazer da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida. ao progresso. torna-se. a maçonaria. A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —. s e não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —. Na continuação de Wilhelm Meister e s obretudo no segundo volume do Fausto. re staurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional. bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor d a História. mas a do ponto de interseção entre o Céu e a Terra. Mas. e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação. É altamente significativo que Goethe. o Homem. é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios. ele não viu outra saída senão buscar a espiritualidade superior numa tradição religiosa vizinha: o Islam. ou Homem Universal. é ativo e dominador perante a existência terrest re. Goethe manifestou várias veze s sua apreciação pelo profeta Mohammed. Os temas da espiritualidade islâmica.

decerto. não exclusivamente. . mas ao menos significativame O fato de que René Guénon. se transferisse para o Egito e adotasse em tudo o estilo de vida islâmica é interpretado por alguns estudiosos com o sinal de que ele perdera toda esperança numa restauração espiritual do Ocidente. na última etapa de sua vida.dia aliás o próprio René Guénon nte. Est a interpretação é viável. mas não encontra respaldo suficiente nos textos de Guénon. .

mas sa isfazer a seus apetites neste mundo. como a ordem cósmica já não co nstitui apenas a passagem à esfera espiritual. consciente ou inconsciente. onde se desenrola sempiternamente a luta de Leviatã e Beemoth. a saúde e a riqueza de todos os bons cidadãos. ter dívidas ou sofrer um acidente de automóvel são coisas que. Aí a busca da liberdade criadora — ação do homem no tempo. a tornar-se c rença geral das massas ocidentais: hoje não há nas grandes cidades quem não viva segundo a expectativa. declarada ou pressuposta. o pecado não reside mais numa ofensa à dignidad e do homem. na ausência de uma conexão com o espírito. do mesmo modo que o impulso de transcender as barreiras espaciais (por exemplo através da rede mundial de tel ecomunicações) se choca contra o mecanismo cego da entropia histórica. o Espírito Santo. nesse quadro. como o sentiam em outras épocas aqueles que cometiam adultério ou roubavam. pelo menos “em excesso”. cometer at os de violência. Na nova sociedade. ou na desobediência a um mandamento divino explícito. ocasionando o predomínio u nilateral da ideologia prometéica desvinculada de todo contato com o Espírito. a mais dolorosa e trágica expe riência espiritual já vivida pelo homem sobre a Terra. no amor e na vida social em ge ral. mas também é “desequilíbrio” não escovar os dentes. mas vale por si como horizonte term inal da existência. É “desequilíbrio”. pensamento ou hábito que possa colocar o indivíd uo em desarmonia com uma ordem cósmica supostamente empenhada em garantir o sucess o. n ascerá também um sentimento de conformismo passivo ante a ordem física. onde quer q . a co templação em passividade escrava. de que um concerto de potências invisíveis dirija cada indivíduo no sentido de sua auto-realização no emprego. “Desequilíbrio” significa qualquer ato. A ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios. rompendo com toda forma de obediência tradicional. se empe nhe na conquista audaciosa dos bens deste mundo. r epresentam sintomas — e ao mesmo tempo a cura — de algum desequilíbrio com a ordem cósmi ca e por isto induzem as pessoas que passam por essas situações a sentirem constrang imento e vergonha. só pode acarretar para o homem a qued a sob o domínio de Ti. e sim no “desequilíbri o”. a ruptura com Tien. mas sua contrib uição decisiva foi introduzir na moral do homem moderno um novo senso do pecado: na mesma medida em que a função da Providência já não é conduzir os homens à vida eterna. A ação decai em agitação estéril. oferecia lev ianamente a todos os homens o desfrute imediato da felicidade terrena tão logo a s ociedade se livrasse das peias da religião. toma logo a forma de um apelo lisonjei ro à juventude. seja isto lá o que for. tempo e qu antidade que constituem o cosmos físico. e. Tal como vimos parágrafos atrás (§§ 1 9 a 22). O enxerto de simbolismos orientais nessa ideologia de origem substancialmente maçôni ca e revolucionária permite explicar os fracassos em razão do karma. na esteira do discurso da Revolução Francesa. por exemplo. que encontra expressão no primeiro volume de Wilhel m Meister. E. Daí surge a poderosa imagem mítica que ainda sensibiliza a alma contemporânea: o mito do guiame nto celeste em direção ao sucesso. com sentimentos progressistas imbuídos de revolta prometéica contra o esta do de coisas na sociedade. que furta ao ho mem incessantemente o desfrute benéfico das melhores conquistas da técnica material e transforma o progresso numa aceleração do desespero. até chegar. sendo por isto os fracassos explicados como desajustes em relação à ordem cósmica. auto-real ização da História — choca-se fatalmente com as limitações da natureza física (por exemplo. por meio da fusão entre o ocultismo e a ideologia americana da auto-realização.166 OLAVO DE CARVALHO pírito. Ao longo do século XIX ele evoluiria. Ficar g ripado. surja um prometeanismo revolucionário. isto é. o pecado não é punido com uma penalidade espiritual após o Dia do Juíz o. a Terra. no nosso tempo. para que. o conjunto das determinações de espaço. repre senta um corte ao meio do corpo do Homem Universal. mas aqui mesmo e na forma do fracasso mundano. da doença ou da pobreza. n conflito entre progressismo técnico e crise ecológica). numa me sma alma. comer comidas gordurosas ou fumar. A ideologia prometéica que. Que essas convicções aparentemente conformistas possam coexistir. o ímpeto destr utivo que fizera a Revolução devia ser canalizado para a busca do sucesso. é algo que se explica precisamente pela origem comum de ssas duas atitudes no amálgama ideológico que este livro vem descrevendo: onde quer que.

surgirá. nas mesmas condições. se procure dominar despoticamente a ordem física.ue. um conformismo obediencialista ante a autoridade dos . em contrapartida.

219 A ideologia progressista muito deve ao ocultismo. IV. a própria biografia de Johann W. os mais aptos. Em teoria. O tema aparece no me lhor romance do próprio Balzac. Ludwig Feuerbach: “O homem é aquilo que ele come. A Nova Era e a Revolução Cultural. Under Western Eyes. de novo. e estas não deixaram de ser exploradas pela mesma literatura que a divu lgava. colhia os melhores. Paris. Mas. de um lado. que eles po diam sonegar seu apoio. H istoire d’une Pséudo-Réligion ( 1929. Em Le Rouge et le Noir. De um lado. éd. A constelação do s vencedores formaria a nova casta governante e sacedotal. Les Sources et le Sens du Communisme Russe ( Paris. Mas já na época mesma de sua difusão a ideologia da vitória prometéica deixava à mostra suas contradições. dá uma idéia da atmosfera reinante nos círculos soc ialistas-ocultistas russos no fim do século passado. mas não há síntese possível a não ser pela Aufhebung que absorve os termos em conflito. Ainda não se fez um estudo abrangente sobre o amálgam a de idéias ocultistas. bem como o segredo do seu mágico atrativo. também era verdade. O leitor não terá dificuldade de reconhecer aqui. são dialetica mente complementares. vo n Goethe é o modelo desse projeto de vida 221. e Parte II. por outro lado. Éditions Traditionnelles. I. Coisas importantes a respeito foram ditas por René Guénon em Le Théosophisme. à teosofia e ao espiritismo no q ue tange à aceitação mundial do evolucionismo. 1950 ). atira a alma naquele estado de agitação estéril que os gregos denominavam ubris (hübris): o entrechoque de energias que. Caps. deixando o jovem talentoso entregue ao mais negro desamp aro. Mas a colaboração entre essas duas correntes vai mais fundo do que geralmente se imagina. que fracassa tragi camente apesar de todo o talento e dos mais tenazes esforços. São incompatíveis e inseparáveis 220. O apelo da ambição prometéica. não podem ser canalizadas senão no sentido do enervamento crescente: quanto mais vão e sem proveito um estado de alma. e isto fazia pensar 222. espec ialmente Cap. havia “Superiores desconhecidos” que podiam dirigir para o me lhor a vida de um jovem talentoso.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 167 senhores deste mundo 219. teosóficas. réed. a carreira de Napoleão Bonaparte — que durante algum tempo brilhara ante todas as imaginações como o emblema mesmo das possibilidades ilimitad as que a situação pós-revolucionária oferecia aos ambiciosos e arrivistas de toda sorte — terminara muito mal. gir ando em circuito fechado. espíritas e socialistas que constituíram por mais de um século o alimento mental dos círculos letrados e progressistas. noto que. e L’Érreur Spirite ( 2e. Gallimard . especialmente Parte I. já não como simples teoria biológica mas como explicação geral do cosmos. IX e XIII. um assunto que é aprofundado em Nicolai Berdiaev. Mais que o Wilhelm Meister. principalmente e m Paris. Se. Cap. Mas essa soldagem do s incompatíveis. ao mesmo tempo que protegiam contra ele os candidatos menos dotados e mais conformistas. elevando-se ao plano da pura espiritualidade — que é precisament e o que a ideologia moderna rejeita com todas as suas forças. os compon entes básicos do iogue-comissário. cujo título é o resumo de milhares de vidas de jovens . o romance de Joseph Conrad. como viria a ser chamada mais tarde. a ênfase caricatural nos aspec tos supostamente espirituais da alimentação característica da Macrobiótica. por exemplo refletem menos alguma idéia oriental do que a máxima forjada pelo porta-voz da esque rda hegeliana. 1978 ). Paris. 1952 ). subjugando as velhas e decadentes aristocracias de sangue bem como o esgotadíssimo clero romano. pp. 33-42 da 2ª ed. Éditions Traditionnelles. maior o seu poder de contágio hipnótico..” 220 V. o gênio de S tendhal narra a história de um típico arrivista dos novos tempos. XXIX. para protegê-los e dirigi-los de longe na senda da vitória. no movimento da New Age. só para dar uma idéia das afinidades profundas que as diferenças superf iciais encobrem. constituiu uma das chaves para a formação da nova aristocracia maçôni ca: a meritocracia. como toda contradição sem síntese. chamando os jovens ambiciosos ao mais extremado individualismo na luta pela vida. O sucesso posterior do marxismo velou a origem ocultista do ideal socia lista.

em 8 vols. o método que julgo dever ser utilizado no es tudo da atuação histórica das sociedades secretas e iniciáticas. . Premiers Lundis. por alto. mas como forças plasmadoras dos símbolos em que se projetam os valores e ideai s de uma época o que é precisamente a função espiritual e sacerdotal por excelência. V. 248 ss. Ao resenhar esse livr o. Paris.que acreditaram no apelo prometéico da Revolução e da democracia: Illusions Perdues.. elegantemente entretecida de elogios d e praxe ao restante da obra do autor. 1960. principalmente no que s e refere aos tempos modernos: enfocá-las não como facções políticas ou grupos de conspirad ores. tentou pensar as relações entre o fracasso de Napoleão e a ação das sociedades secretas. Qualquer que seja nossa opinião sobre os resultados de sua in vestigação. 222 Walte r Scott. por exemplo. É some te nessa função que elas podem ser compreendidas e eventualmente julgadas. então já um sucesso consagrado que seria temerár io desprezar. pp. Bibliothèque de la Pléiade. 221 O presente parágrafo ilustra. em Œuvres. não merecia ser re cebida como foi: com insultos em vez de argumentos críticos. até mesmo o grande Sainte-Beuve ( que era maçom ) preferiu ao exame aprofundado o s juízos assertóricos e a mera difamação pessoal. o fato é que sua monumental Life of Napoleon.

NIETZSCHE 225 O Estado democrático igualitário é menos uma realidade que uma aparência. o lado feminino da alma. 225 226 § 32.” F. ora de m aneira implícita. pode revogar 226. Na grade diferenciadora estabelecida por Marx — e copiada com automático servilismo por toda a tradição dominant e nas ciências sociais —. reduzida socialmente a um nada. 224 Verso final do Segundo Fausto: “O Eterno Feminino / leva-nos ao alto. porque estão imbricadas na constituição ontológica e até mesmo biológica do ser h umano e são compatíveis. ai nda que fundado na vontade da maioria. invisivelmente entretecida na grade de uma constituição que não reconh ece a sua existência mas que não pode impedi-las de representar a verdadeira distrib uição do poder. a necessidade de reintegr ar a atividade criadora humana no supremo sentido espiritual da existência só é afirma da com plenitude — e com plena admissão de suas conseqüências morais e filosóficas — por um ú ico dentre os maiores narradores do século passado: F. A nova socieda de. sejam democráticas ou oligárquicas. como o segundo Fausto. que existirão ora de maneira explícita. foi por tê-las confundido c om as “classes” definidas por traços exclusivamente econômicos. “A confusão das línguas do bem e do mal.” Assim Falava Zaratustra. a descida do homem desde as alturas de um orgulhoso prometean ismo até o arrependimento que lhe abre as portas do céu. é um sintoma da vontade de morrer.168 OLAVO DE CARVALHO Mas nem Stendhal nem Balzac enxergavam muito além do círculo históricocósmico onde se de senrolavam as vidas de seus personagens: em Balzac o drama permanece inconcluso. psicoló icas e políticas tornavam-se invisíveis. consagrada na constituição política nominal. Crime e Castigo é. Logos. o único que enxerga Deus e pode conduzir a Ele. trad. o est udante Raskolnikov termina por cair no estado de vítima inerme de seus instintos n aturais. que o levam a curvar-se ante o mais forte: ao afastar-se de Deus. funcionalmente. e Stendhal encontra alívio no esteticismo cético e diletante. ela foi o tema dominante da sua ficção desde seu primeiro grande livro. a polícia — Leviatã cede novamente ante Beemoth — e só reencont ra sua liberdade ao cair aos pés de Sônia. São Paulo. ou: O Estado bedel 223 Algum leitor pode cobrar-me pela omissão de Manzoni. E cumpre-se assim a profecia goetheana : Das Ewige Weibliche sieht u ns hinan. As novas Tábuas da Lei. tal é o sinal do Estad o. M. Se a intelectualidade moderna perdeu de vista a existência das castas ( tornando-se até mesmo incapaz de perceber sua própria condição de casta ). autoridade espiritual e poder temporal — que existirão onde quer que s eres humanos se aglomerem numa coletividade que seja maior do que uma família. as distinções de castas por funções espirituais. que subsistirão como um código secreto no fundo de todas as constituições po líticas. Elas são uma “constante do espírito humano”. eis o sinal que vos dou. como todas as anteriores. Como a queda do comunismo parece não ter bast . subme te-se ao dominador humano. Mas I Promessi Sposi é antes um retorno à estética pré-maçônica — com o casamento de Renzo e Lúcia anunciando a salvação da que passa ao largo da problemática aqui enfocada. culturais. volta as costas ao reino deste 224 mundo. Na verdade. a jovem prostituta que encarna a humildad e. na mes ma medida em que. tem as mesmas duas castas governantes — sacerdotal e aristocrática. Depois da antevisão do velho Goethe — no Fausto mais insinuada do que expressa —. liberais ou so cialistas. Mário Ferreira dos Santos. Dostoiévski 223. lei ou decreto. 1954. com qualquer organização nominal do poder polític o. Pretendendo liberar-se de t odos os entraves morais e religiosos para dar vazão a seu impulso dominador. que nenhuma constituição. monárquicas ou republicanas.

As distinções econômicas. E. não bastam sequer p ara definir uma classe no sentido marxista. cit.ado para eliminar o prestígio residual do marxismo como ciência. acabaremos fatalmente recolocando na linha das preocupações sociológica s a velha teoria das castas ( como já o fez. trad. O Sistema das Castas e suas Implicações. Thompson ( op. 1992 — um estudo infelizmente limitado ao sistema hindu. mas sufi ciente para sugerir a subsistência real de diferenças hierárquicas de tipo casta na so ciedade Ocidental moderna ). nunca é demais insist ir que há mais diferenças hierárquicas entre os homens do que imagina a nossa vã sociolo gia. adaptados à situação moderna. “casta sacerdotal” significa simplesmente . — No sentido em que aqui emprego os termos. Edusp. se recorrermos a distinções mais comp lexas e sutis. P. São Paulo. por exemplo. Louis Dumont em Homo Hie rarchicus. ). como viu E. Carlos Alberto da Fonseca.

há os empresários sem força política direta. lança. sem se perguntarem se esse objetivo pode ser realizado p or outros meios senão a concentração de poder 227. derruband o-a com o auxílio das castas inferiores. Nossos contemporâneos. que vai desde o prole tariado politicamente “alienado” até os párias e desclassificados de toda ordem desde qu e não exerçam poder político através de movimentos sociais ou do banditismo organizado ( pois neste caso fazem parte da casta aristocrática ). era visto por todos no campo e na al deia. nunca li trabalho algum que valesse a pena. também consideradas fora do contexto atual. Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. São Paulo. e não em meras abstrações econômicas. imbuídos de ilusão igualitária. E quando elas ressurgem sob nomes como “burocracia estatal” e intelligentzia. outra coisa é socieda de igualitária. e podia portanto. já citado. sem interferir diretamente em política ). em caso d e grave ofensa. idealmente considerada e fora de toda referência às sociedades modernas. Pois uma coisa é ideologia igualitária. bem como Ge orges Dumézil. definir o p oder exclusivamente por critérios econômicos e políticos foi um truque sujo da intelli gentzia para ocultar seu próprio poder. teve de elitizar-se a um ponto que seria inimaginável para os nossos antepassados. bem como toda a parcela da classe média que se ocupe somente da vida civil. seja pacificamente ou pela violência. tenho para com meu querido mestre e amigo. do movimento editorial e d a imprensa. os encarregados do guiamento espiritual do povo — uma categoria que abrange desde gurus e magos ( autênticos ou falsos. e não se dá conta de que o senhor feudal estava limitad o por toda sorte de laços e compromissos de lealdade mútua com seus servos. qu alquer que seja o seu tamanho ( o que vai desde o grande empresário politicamente isolado até os pequenos comerciantes e proprietários rurais. cientistas e técnicos e a arraia-miúda intelectual das universidades. crêem que o mundo caminha para o ni velamento dos direitos. Sobre as for mas de poder das castas superiores. Olavo de Carvalho. Vega. para a formação de minha s idéias a respeito. pois todos crêem que castas só existem na Índia ou no passado medieval. os acadêmicos. o senhor feudal como a epítome do poder pessoal discricionário. por exemplo. Sobre a psicologia das castas. 1988. entre as quais a da elitização. Elementos de Tipologia Espiritual ( apostila ). é menos uma ironia da História do que um a fatalidade inerente à natureza do poder: não podendo eliminar as castas governante s. logo. ninguém as reconhece. Paris. sem precedentes. v. Há evidentemente interseções. sacerdotes e altos dignitário s de sociedades secretas até os ideólogos de largo escopo. pouco importa ). às vezes trazendo-o na garupa. O imaginário moderno concebe. aumentando assim o seu poderio. e que ad emais não tinha outros meios de violência senão uns quantos cavaleiros armados de espa da. noite ade ntro. Essa classificação baseia-se na distribuição real do poder. nas campinas imensas onde o grito se perde . Abaixo dessas duas castas. arco e flecha. sem se deixar iludir p or aparências e formalismos. só a casta que detém o poder espiritual pode legitimar o status quo ou mudá-lo. em seu sítio na floresta da Cantareira. mas reconheço a dívida que. professando mentirosamente equaliz ar a distribuição de poder. entende que a mais alta forma de poder é aquela que gov erna as mentes dos homens. homem entre homens. e. ser atingido. de volta da taberna onde ambos se haviam embriagado. René Guénon. pelas lideranças sindicai s e por aquela parcela do empresariado capitalista urbano ou rural que tenha força suficiente para fazer lobby. que não apagam a linha divisór ia essencial. caminhava ou cavalgava ao lado de seu servo. 1947. já falecido. “Casta aristocrática” significa todos os que exercem o poder políticomilitar ou têm condições de reivindicá-lo: isto vai desde os governantes até os políticos de oposiçã passando pelos escalões superiores do funcionalismo público. Que essa ideologia pudesse transformar-se no instrumento da mais f ormidável concentração de poder nas mãos de poucos. e mais em baixo ainda a imensa massa dos braçais. v. elevando-a ao poder político. Sobre as castas no contexto atual. inerme. o da casta sacerdotal. depois a julga e eventualmente condena. ocultou-as. São Paulo.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 169 Foi por isto mesmo que a sociedade democrática. pelos ensinamentos recebidos em conversas inesquecíveis. Mythe et Epopée. que gera a aristocracia e. dos meios de poder. Juan Al fredo César Müller. IAL. Essa ilusão tornaos cegos para as rea lidades mais patentes.

op. . os poderosos estão isolados de nós geograficamente: moram em condomínio s fechados. seu tempo vale dinheiro. por uma lâmina vingadora. que sua posição mais se assemelha à de um deus ante os 228 mortais . mas ela nunca esteve tão perfeitamente isolada d e suas vizinhas”.. demonstrou que o curso da história política do Ocidente desde o Império Romano até a II Guerra Mundial se dirigiu claramente no sentido da concentração do poder mediante a extinção ou neutralização dos poderes sociais i ntermediários. Por uma faca de cozin ha. 228 “Sempre houve uma cla sse privilegiada. cercados de portões eletrônicos. 12 ). Em segundo lugar. Não entramos lá. Em terceiro. e nossos pedidos. nossas imprecações e mes mo nossos tiros arriscam acertar uma fachada inócua. cit.na distância. Pela foice do camponês. alarmes. o homem poderoso de hoje está colocado a uma tal distância do s dominados. mais dinheiro do que nós temos.. p. Em comparação com ele. O exame das cinco décadas que se seguiram à publicação da obra de Jouvenel mostra que a tendência aí denunciada se acentuou ainda mais. passim. os ocupantes nominais dos altos cargos nem sempre são os verdadeiros detentores do poder: há fortunas ocu ltas. matilhas de cãe s ferozes. cit. Em p rimeiro lugar. guardas armados. mesmo na América. meses de espera e a possibilidade de sermos recebidos por um assessor dotado de desculpas infalíveis. falar com um deles é uma aventura que demanda a travessia de barr eiras burocráticas sem fim.. potestades ocultas. deixando a salvo o verdadeiro destinatário que desconhece227 Bertrand de Jouvenel. assinala com justeza Christopher Lasch ( op. causas ocultas.

tinha as terras da Igreja. onde todos eram livres para plantar e colher . s enão uns seis meses por ano. os cidadãos reivindi cam mais e mais direitos. Mas esta distinção esca pa aos porta-vozes da ideologia progressista. de cujas queixas ele nece ssita para justificar sua expansão. quando quero. pela minh a condição de escritor e intelectual. Perdemo-nos na trama demasiado complicada das hierarquias sociais modernas. Sem esquecer. e instalar-se nas terras do senhor vizinho. e temos razões para invejar o servo-da-gleba. tão veraz ao discernir os fatores que obstaculizam ou fomentam o d esenvolvimento econômico. direitos humanos. requerem a expansão da buro cracia fiscal. a dialética do poder no Estado moderno é diabo licamente simples: incentivados a fazer uso de seus direitos. transformamse em leis. tenho mais informações sobre a organização do poder do que o homem das ruas e. E. que não possa ser administrado senão por uma burocracia onipresente. por um direito milenar. se através de lutas e esforços sobre-humanos o movimento sindicalista obtém fina lmente para essa horda a jornada de trabalho de oito horas e a semana de cinco d ias. Mas. e criando a horda dos sem-terra que foram para as cidades formar o proletaria do moderno e trabalhar dezesseis horas por dia. para poderem ser aplicadas. Tinha ainda o direito de mudar de território. de modo que o Estado possa pairar soberanamente sobre um mar de átomos humanos nivelados e desorganizados entropicamente231. os novos direitos. O servo-da-gleba também tinha o direito de ir e vir. O intelectual. equivoca-se ao sugerir que o “enxugamento” do Estado — sua ret irada das atividades “impróprias” — esteja associado de modo automático e óbvio a uma promes sa de maior liberdade para os cidadãos. se caísse na mais negr a miséria. eis a parte que nos cab e deste latifúndio: os poderosos pairam acima de nós na nuvem áurea de uma inatingibil idade divina. mas é claro que pessoalmente. Por isso a ideolo gia neoliberal. é claro. São necessários também para debilitar todos os poderes so ciais intermediários. que era obrigado a recebê-lo em troca de uma promessa de lealdade. o Estado tornou-se o proxeneta assumido de todas as minorias insatisfeitas. ela ainda está abaixo da condição do camponês medieval. tanto quanto outrora necessitava do apoio das grandes fortunas para sufocar os movimentos sociais com que ainda não sabia lidar. e nriquecendo formidavelmente os burgueses que podiam comprá-las em grande quantidad e. sem outra esperança senão a de uma f utura revolução socialista (que os reverteria a uma condição similar à de escravos romanos ). as novas leis. policial e judiciária 230. 230 229 Falo aqui como porta-voz do homem do povo. E. Após dois séculos de democracia. o episódio deu tema a uma novela de Heinrich von Kleist : Michel Kolhaas). formadora de mini-agentes de transfor . socialismo e progressismo. sem passaportes ou vistos e sem ser revistado na alfândega (o primeiro senhor de terras que resol veu taxar a travessia de suas propriedades desencadeou uma rebelião camponesa e pe receu num banho de sangue. Eis como o progresso dos direitos nominais não se acomp anha necessariamente de um aumento das possibilidades reais. a rede de educação pública. a Revolução encampou essas terras e as rateou a preço vil. igualitarismo. que confundem palavras com coisas e intenções com atos. Protestos e reivindicações incessantes são necessários para manter a sociedade num esta do de divisão e de mudança psicológica acelerada. que ao menos tinha o direito 229 de saber quem mandava nele . mesmo sem um tostão no bolso. que não trabalhava. e assim o Estado se torna mais poderoso e opressivo quanto mais se multiplicam as liberdades e direitos humanos. caso lhe desagrad asse o seu senhor.170 OLAVO DE CARVALHO mos. Estado assistencial. complicada que seja a sociedade. precisa ser muito hipócrita para não se incluir a si mesmo na categoria dos “poderosos”. por fim. ao serem reconhecidos. Esse pr ocesso não é inconsciente: em todos os países do Primeiro Mundo. me faço ouvir — tanto quanto qualquer outro i ntelectual — pelo poder político. em média.

surjam protestos análogos da parte dos travestis e trans exuais. mas. Veremos isto mais adiante. entrou em atividade um grupo de militantes lésbicas e nragées. .. que. discriminados pelos machões que só gostam de machões.. que invadem bares.. nem a família tradicional. É previsível que logo.. E assim por diante.mação social necessários para que as novas leis se transformem em costumes generalizad os. em seguida. pois não há limi te para a fragmentação entrópica desde o momento em que as correntes de opinião passam a ser determinadas pela libido. promovem pancadarias e autos-de-fé em que queimam em grandes fogueiras públicas as revistas e jornais de seus inimigo s. o m ovimento gay! O machismo gay. as Lesbian Avengers. cindindo-se imed iatamente em partido sádico e partido masoquista. os s adomasoquistas protestem pelos seus direitos. 231 Desorganização entrópica: em Londres. que em seguida os transe xuais se revoltem contra as drag queens por caricaturarem a forma feminina. 1995. segundo notic ia The Times de 8 jan. é a maior ofensa à dignidade da causa lésb ica. O alvo de seus ataques não é o establishment. segundo elas.

na religião ou na natureza das coisas. se dirigiria a adultos . Às vezes vão mais longe: advertem as crianças contra os graves perigos que correm ao confiar em seus pais em vez de ent regar-se à proteção do Estado. nos países do Prim eiro Mundo. Este é um p onto que os pensadores neoliberais devem examinar com cuidado. alertando-os para um problema social. mediante as leis sobre o uso dos cin tos de segurança e sobre o consumo de cigarros. ficam mais inteligentes a cada dia que passa — uma as serção que é desmentida pelo miserável desempenho cultural dos geniozinhos tão logo chegam à universidade ou lhes damos um livro para ler. Rio. mesmo as mai s íntimas e informais. Cia. Paulo. exilado pela ditadura. 233 Sobre a Suécia. concedeu uma manchete do F olhateen à notícia de que a maior parte dos estupros de menores é praticada pelos pais . numa página de noticiário policial ou geral. a polícia. nada deixando para a livre decisão do indivíduo. a autoridade pública regulam enta hoje da maneira mais direta e ostensiva todas as relações humanas. A educação e as comunicações de massa — dois setores entregues ao império de intelectuais at ivistas que um tanto inconscientemente são os mais dóceis colaboradores do Estado mo dernizante — atacam por todos os meios as velhas relações comunitárias fundadas no costu me. a confiarem de preferência na polícia e n os assistentes sociais — o que se funda no pressuposto de que não há estupradores na c lasse dos funcionários públicos. onde um governo hospitaleiro lhe dera moradia gratuita. Cultivam. desistiu de morar na Suéc ia. a justiça. para acelerar sua substituição por relações cri adas artificialmente pela administração estatal ou pela dinâmica do mercado. Editora Am . por exemplo. no Brasil. mas sim também — e principalmente — daquelas que lhe são mais essenciais e próprias: o fisco. Até umas décadas atrás. Isso acontece por igual nas ec onomias neoliberais e nas social-democráticas. a vitória esmagadora das economias capitalistas tenha vindo junto com a crescente intromissão do Estado na moral privada.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 171 Pois não é só mediante o exercício de atividades impróprias e acidentais que o Estado opri me as pessoas. para se tornar uma concessão do Estado. Recentemente. revogável ao me nor sinal de abuso. deixou de ser um direito n atural inerente à condição humana. por não suportar mais viver num país onde a insolência juvenil é pro tegida pela polícia e onde ser pai é expor-se a toda sorte de humilhações nas mãos de uma santa aliança entre moleques e burocratas 233. resguardando da intromissão oficial áre as vitais do comportamento humano. que foi precisamente para poder expandilas que o Estado se ret irou da economia. E estas. e acaba por se imiscuir em todos os setores da vida humana antes entregues ao arbítrio privado. A mesma matéria. A razão disto é dupla: primeira. A expansão do olhar fiscalizador do Estado (e da intelligentzia) par a dentro da esfera privada tem como uma de suas mais graves conseqüências a redução da d iferença entre o moral e o jurídico — diferença que. o mais popular defensor do neoliberalismo — o pr efeito Paulo Salim Maluf — seja também o primeiro governante a procurar interferir d ecisivamente nos hábitos privados dos cidadãos. Nos EUA. pois as contradições teóricas no seio de uma ideologia podem ser as sementes de futuros conflitos que u ltrapassem o terreno das meras idéias. graças à TV e aos computadores. segunda. em vez de retrair-se no novo quadro neoliberal. ler a imprescindív el reportagem de Janer Cristaldo. O pátrio poder. a Folha de S. sempre foi uma das garantias básicas da liberda de civil. tendem antes a crescer desmesuradamente. a educação pública. assistência médica e pol puda aposentadoria. que à medida que se descarrega do fardo econômico o Estad o busca para si novos papéis que justifiquem sua existência. o pai de família que estendesse as asinhas 234 232 Também não é coincidência que. Não é coincidência fortuita que. Um amigo meu. nem muito menos na dos jornalistas e proprietários de jornais 234. fundando-se numa est atística muito grosseira improvisada por uma delegacia. da família e das pequenas comunidades 232. O Paraíso Sexual-Democrata. a mentira de que as novas gerações escapam ao controle paterno porque. Num suplemento juvenil. por exemplo. incita diretamen te os leitores a suspeitarem de seus pais.

nem o expulsou a pontapés. como a um cachorro louco. de alma delicada e sentimentos estéticos incompatíveis com os instintos violent os. de vez que as criancinha s. aos três anos. Embora não seja pai de família. 1978.ericana. no Jornal do Brasil de 1996. quem se aproximasse de meus filh os imbuído de semelhante doutrina. defende como justa e saudável a prática da pedofilia. já têm um tremendo sex appeal e jogos de sedução de fazer inveja a Sharo n Stone. . Somente a mim parece ter ocorrido a idéia de que seria difícil resistir ao impul so de abater a tiros. Ninguém saltou à goela do declarante. um premiadíssimo escritor gay. nem muito me nos se lembrou de processá-lo por apologia do crime. cul tas. São todos pessoas educadas.

tornand o-lhes impossível. nas mulheres. mas por uma exigência intrínseca da dialética do poder: numa sociedade onde todo cidadão pertencente a esse grupo é estigmatizado como um virtual espancador de mulheres. no mínimo. e. mas incapazes de assumir qualquer r esponsabilidade pessoal nas ligações mais íntimas. Aqueles. cada ser h umano torna-se uma unidade abstrata e amorfa. Evoluímos. para tornar-se um tr ato em separado entre a mulher e o Estado: o divide ut regnes invade o quarto nu pcial. onde já não haverá pais e filhos — somente a multidão inumerável dos órfãos de todas as idades. por Jan Huizinga ( v. não espanta que ninguém queira amadurecer para ingressar ne le. antipatias. Se a bête noire visada por todas as campanhas de proteção aos direitos é sempre o macho adulto heterossexual.172 OLAVO DE CARVALHO para cima de sua doméstica atrairia sobre si a desaprovação da esposa. Uma prova de que a intromissão do Estado visa menos a proteger as supostas vítimas de abusos do que a suprimir as velhas formas de associação é que as no vas legislações de direitos dão sistemática preferência às reivindicações que separam os home sobre aquelas que os unem. protegen do-os sob a imensa rede de serviços públicos que os livra da necessidade de recorrer à ajuda de parentes e amigos. Quando ao castigo moral se soma porém a sanção penal e administrativa . Daí o fenômeno alarmante da adolescência prolongada — hordas de cidadãos. com a leviana desenvoltura de quem troca de meias 235. pois todos serão menores de idade. “Libertando” os h omens de seus vínculos com a família. o bairro. mesmo as espontâneas e informais — um gal anteio. dos filhos. um olhar. que todos prefiram permanecer adolescentes e. criar ligações verdadeiras uns com os outros. de um lado. E a situação as sim criada terá o dom da automultiplicação: após ter 235 Esse processo foi observado inicialmente nos países sob governo totalitário. O Estado torna-se cada vez mais o mediador de todas as relações humanas. nos discriminados. A procriação deixa de ser uma decisão familiar. de terapeutas. como de uma isca para prendê-los na armadilha da pior das tirani as. cheios de autopiedade e indiferentes aos sofrimentos alheios. sentimentos e até olhares de seus semelhantes — uma garantia jurídica contra a vida. oferecendo-lhes o engodo de uma garantia jurídica con tra os preconceitos. devida mente empregados e no gozo de seus direitos. cultivando as suscetibilidades neuróticas que os infantilizam. já antes da II Guerra. reunidos num imenso colégio interno s ob a tutela do Estado bedel. o caso passou da esfera ética para a jurídica — e o Estado. por exemplo. sedutor de domésticas e estuprador de crianças. por exemplo. o “cidadão”. cuja soma compõe a massa atomística dos protegidos do Estado — tanto mais inermes e impotentes quanto mais carregados de direitos e garantias. a simples descortesia de acender um cigarro num ambiente fecha do. que vêem algo de bom nas leis contra o fumo são cegos para a monstruosidade que reside no fato de a esfera jurídico-penal invadir o campo da s boas-maneiras. dos vizinhos. nos ressentid os de toda sorte —. nem jovem nem velh o. faz da mulher uma unidade autônoma. Nas Sombras do Amanhã. A proteção oficial ao aborto. e descr ito com precisão. sexualmente indecisos — o que é uma condição sine qua non para a dissolução dos caracteres na sopa entrópica da “c dania”. assim. a pretexto de proteger d omésticas ofendidas. nem criança nem adulto. de outro lado. cada um com um luzente crachá de “cidadão” 236. de planos e objetivos vita is. para uma sociedade onde não haverá mais a diferença entre adulto s e crianças. biológica e legalmente adultos. isto não ocorre por casualidade nem por mera birra feminista. perpetuamente à espera de que alguém faça algo por eles. isola e enfraquece. era mais do que suficiente p ara fazer justiça. o Estado na verdade os divide. sobreviver sem o amparo estatal e muito professional h elp. sendo proporcional à falta cometida. da paróquia — um castigo moral infligido espontaneamente pela comunidade. que é a de fiscalizar a conduta moral de seus membros. O Estado utiliza-se das reivindicações de autonomia dos indivíduos — reivindicações p articularmente fortes nos jovens. de amigos. se mpre trocando de namoradas. . em suma —. e este castigo. que decide ter ou não ter filhos sem a menor necessidade de co nsulta ao marido. a paróquia. Niveladas todas as diferenças. nem homem nem mulher. na verdade o que faz é usurpar uma das funções básicas da comunidade.

236 Citoyen: palavra terrível. eruditíssimos técnicos de futebol. Arménio Amado.Um Diagnóstico da Enfermidade Espiritual do Nosso Tempo. sob pena de ir pa ra a guilho- . Coimbra . e entregam a discussão filosófica e teológica a jornalistas semile trados. Huizinga destaca o fenômeno do puerilismo como uma das cara cterísticas dessas sociedades. 1944 ). por exemplo. trad. que tratam com reverente atenção atividades puramente lúd icas e com leviandade juvenil os assuntos sérios. Esse fenômeno hoje é de escala mundial. portuguesa. formam. cuja au ra de prestígio vem do esquecimento: o principal direito que a Assembléia francesa c oncedeu ao citoyen foi o de servir obrigatoriamente ao Exército.

por mais imaturos e inexperientes que sejam. as seitas pseudomísticas. afinal. são organizações internacionais como a ONU. Com isto a Revolução atirou para os ares uma das mais belas conquistas da civi lização — a liberdade pessoal de não guerrear. um costume legítimo e aceitável que já não nos inspira o que em épocas menos abjet as seria uma natural repugnância. dessensibilizados pela repetição. o Estado alegará a deficiência de seu juízo moral para se met er cada vez mais em suas decisões privadas. até fazer com que pais e mães. em português claro. libertários. Ci toyen significa: súdito da burocracia militarista. O uso foi duplo: de um lado.— são. já devem ir exercendo no dia de hoje sua pesada quot a de poder. investindo de pre ferência sobre o público juvenil. Ele começou. Na década de 60. são governo s. por mais obscuro. salvar o que restasse da comunicação doméstica. Porém o melhor de tudo veio a partir da década de 80. fortemente atrativos para a sentimentalidade popular. des esperados pela inocuidade de seus argumentos. adotaram maciça e universalmente o uso do marketing infanto-juvenil. embora seja claramente um abuso da inocência alheia. mas levavam ainda a indiscutível vantage m publicitária dos martírios infantis. Hoje em dia já não são partidos radicais nem tubarões ca pitalistas que exploram o narcisismo infantil e a vaidade juvenil como instrumen tos de pressão para levar-nos a fazer o que não queremos. por conta do brilhan te futuro a que são convocados. pela repetição uni versal. quando praticamente todas as organizações empenhadas em qualquer tipo de objetivos soi disant humanísticos. que não há assunto. esses movimentos tinham não somente um exército de recrutas facilmente governáveis. Devem. Morgen zu uns gehört 237 e. sempre e sistematicamente. instrumentos de agitprop. Vimos isto no parágrafo an terior. Depois foi assimilado pelos anarquistas e comunistas: usando garotos fan atizados para jogar bombas na aristocracia. ao menos para tina. a renegar nossas crenças e valores e a adaptar-nos a toda sorte de caprichos i diotas para não sermos reprovados socialmente e não nos tornarmos párias. De outro.. mais cruel ainda é que esse uso seja fundado. Mas. Não: quem faz isso já não são organizações subversivas. no qual suas opiniões e desejos não devam. O us o de menores de idade como veículos de propaganda. respeitada desde o Império romano — e inaugur ou a era do envolvimento sistemático das populações civis no morticínio generalizado. puderam contar não somente com reservas de credulida de quase inesgotáveis. ouvir a mensagem da casta intelectual. mas também com a ação de solapamento com que a tagarelice adolesc ente ia minando os alicerces da confiança familiar. cujas implicações políticas mal imaginam. a Unesco. se já é um desrespeito intolerável usá-los como instrumentos de campanhas de vasta envergadura. acabassem se rendendo e assimiland o ao menos parcialmente toda sorte de novas crenças e manias. cuja origem desconhecem. pois.. por bárbaras e imbecis que fossem. entre os quais. u m termo elegante que significa. crianças posando em anúncios funcionavam como emb lemas. por exemplo. em última análise. retransmi . A intromissão direta nas relações familiares praticada pelo Folhateen exemplifica aliás só uma dentre as dezenas de maneiras pel as quais a aliança do Estado modernizador com a intelectualidade ativista e com as forças do mercado se utiliza de crianças e jovens como “agentes de transformação social”. comerciantes inescrupulosos e seitas de excêntrico s: são fundações educacionais. a indústria capitalista desco briu o emprego publicitário da candura infantil para a venda de toda sorte de prod utos. são ONGs dirigidas por intelectuais de prestígio. enfim. tornou-se de umas décadas para cá um costume tão generalizado que. tornado assim. já não reparamos no que ele tem de imoral e criminoso . o respeito à criança e ao adolescente. caso o produto se dirigisse ao próprio público infantil — brinquedos ou doces —. até onde posso comprová-lo. na lisonja mais descarada à vaidade pretensiosa do seu público mirim. de modo a dar a entender a essas hordas de mini-imbecis que nada está acima de sua compreensão. educacionais etc. a comprar o que não precisam os. podia-se contar com o tremendo apoio representado pela pressão que as hordas de consumidores mirins exer ceriam sobre seus pais. aquelas entidades qu e professam exatamente defender os mais altos valores humanos. das qualidades exce lsas que se desejava associar a determinados produtos. na Revolução Francesa. por mais sutil. prevalecer.. Em contrapartida.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 173 infantilizado os cidadãos.

. onde imporão — mensage iros da modernidade — os novos valores e critérios — 237 “O futuro pertence a nós” — título e refrão do hino da Juventude Nazista.tida por professorazinhas semiletradas. e levá-la a seus lares.

a idéia de sua aliança natural com o Estado é um mito. na adolescência. impotente e solitário no oceano do mercado livre. A sociedade moderna caminha decisivamente para a destruição desse s poderes intermediários e das associações humanas que os sustentam. O que exist e — acrescento eu — é um vínculo entre a rebeldia juvenil exacerbada e as ideologias pro pagadas há decadas pela intelligentzia. é óbvio que a lisonja às pretensões mais descabidas da juventude é uma das causas pri ncipais da criminalidade juvenil. isto é. leva-as a um sentime nto hipertrofiado de sua própria importância. segundo a interpretação que lhes dêem o notório saber jurídico de suas mestras e a peculiar acuidade jurisprudencial de meninos de oito anos. a classe que propagou a moda do sexo livre 238 e o culto erótico das ninfetas (festejando por exemplo Nabokov. como se as ações humanas resultassem diretamente do saldo bancário e não dos desejos alimentados pela imaginação. que elas procuram diluir numa hierarquia de poderes sociais diferenciados e numa complexa rede de associações informais. ele revelou ser menos o protetor da família que o protetor do d ivórcio. Em primeiro lugar. Institute of Economic Affairs. isenta-se então de sua responsabilidade.174 OLAVO DE CARVALHO a seus atônitos progenitores. 5 jan. de outro. Quanto à família. O Estad só foi protetor da família enquanto teve de atender à pressão de poderes sociais mais a ntigos. círculos de amizade. terá. estava mais na rebeldia típica da adolescência do que na origem pobre do men ino”. se sentiu um líder. A intelligentzia. Lewis Carroll e as fotos de David Hamilton) se enche de brios hipócritas ao denunciar abusos sexuais contra menores de idade. temerosos de ser passados para trás. nest e caso. para a sociedade em geral. Tão logo livrou-se desse s aliados incômodos. Devem rec eber os ensinamentos morais transmitidos por espevitadas atrizes de TV — as mais a ltas autoridades em questões de consciência. Jornal do Brasil de 22 de maio de 1995 — “um grupo em especial chamou a atenção da pesqu isadora: adolescentes pobres que foram viver na rua porque enfrentaram conflitos familiares e resolveram sair de casa. . a decepção de ver que agora se tornou um número anônimo. Janet Daley escreve em sua coluna em The Times. 1995: “O que estamos produzindo é uma nova ‘classe guerreira’ de homen s separados da influência socializante da família e das responsabilidades domésticas. do aborto e do sexo livre 240. Em segundo lu gar. Farewell to the Family? ( Lond on. A conclusão de Fúlvia Rosenberg é que não existe o vínculo que a opinião vigente da int lectualidade estabelece entre a pobreza e o fenômeno dos “meninos de rua”. reivindicar de seus pais o cumprimento dos quesit os ali formulados. um agente criador do destino coletivo. que em seguida lança suas culpas sobre a est rutura econômica da sociedade. acabem adotando toda s orte de puerilismos da moda como se fossem as novas Tábuas da Lei. de um lado. até que pai e mãe. que é a maior culpada pela utilização dos menores como instrumentos p ara o marketing dos “novos valores”. Devem ler com atenção devota o Estatuto da Criança e do Ad olescente e. tornando-as virtualmente inadaptadas às limitações da vida adulta: o menino que. um joão-ninguém — e não haverá out io de escapar da depressão daí decorrente senão agarrando-se a sonhos e ilusões juvenis. que cresce assustadoramente em todo o mundo. como a Igreja e os remanescentes da aristocracia.. procuran do atribuir a criminalidade juvenil ao atraso econômico e à miséria — uma desculpa esfar rapada que uma recente pesquisa desmascarou da maneira mais contundente 239. O uso de crianças como “agentes de transformação social” tem conseqüências temíveis. ao ingressar no mundo da economia e do trabalho . de modo que o ind ivíduo fique sem conexões orgânicas em torno. dando a entender que são efeitos da pura desigualdade ec onômica. e ligado diretamente só ao Estado241. É apenas uma questão de tempo até que algum demagogo procure organizar essa delinqüência . Ela constatou que a razão do problema. 240 Livre e seguro: Não é o que nos promete o Ministério da Saúde? 241 Resumindo o livro de Patricia Mongan. lideranças e lealdades territoriais — são por natureza os mais fortes oponentes da autoridade estatal. para elas mes as. Do mesmo modo. para os quais a cultura não contribuiu em absolutamente nada. adquirindo os traços e sintomas da adolescência prolongada 238. 1995 ). chegando em casa. A razão disto é que a família e todas as comunid ades tradicionais — religião. como se sabe — e em seguida repeti-los em família.

passada a juventude. trab alhando Por que os jovens de hoje têm tanta pressa de “se realizar” antes dos vinte e cinco an os e entram em depressão quando não o conseguem? Porque a mitologia do nosso tempo a ssociou a idéia de juventude ao sentido da vida. Uma mãe sol teira com dois filhos pode trabalhar 20 horas por semana a £4 por hora e terminar com £163. só 895 dormiam na rua. segundo Morgan. professora da PUC de São Paulo e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas. Um homem casado pai de dois filhos. 239 Fúlvia Rosenberg. do total de 4. Esses homens deslocados são o alimento ideal para o recrutamento fascist a. a vida já não tem mais sentido. porque o governo britânico adotou “um programa de des incentivos financeiros ao casamento e à estabilidade familiar. outras estavam simplesmente ganhando a vida.” Isso ocorre. os outros tinham casa e família. Dentre as crianças abrangidas pela pesqui sa. constatou que. algumas eram exploradas por adultos. mas — resume o . que só os casais mais determinados ( e afluentes ) podem ficar livres de suas desvantagens.99. e muitos frequentavam escolas. deduzido impostos e aluguel.520 “meninos de r ua” que circulavam na capital paulista.anárquica. de modo que.

uma garota da classe operária não há de considerar um mar ido como algo menos que inútil. incumbida de proteger pessoas como o autor desta s linhas contra aqueles que nos chamarem de esquisitos. todas as crianças contra todos os pais e todas as mu lheres contra todos os homens. é a mais t riste demonstração desse fato. Não é que o liberal. que se segue a cada nova proclamação de direitos: delegacia da mulher.. Os movimentos de direitos. que acabam se associando a interesse s estatais e empresariais e vão perdendo toda ligação com sua origem comunitária 242. pagarão para ver sua autoridade familiar contestada por funcionariozinhos semi letrados e arrogantes. Muitas pessoas acreditam que a proliferação das ONGs prova um a tendência contrária — uma tendência a limitar os poderes do Estado e enfatizar as inic iativas espontâneas dos cidadãos. Thatcher. e não crescem senão quando s e reunem em imensos conglomerados mundiais. chefiados como ger almente são por pseudointelectuais de miolo mole. Esta existência aliás terá í de ser financiada por todos aqueles que. dos loucos. sem ami gos. missão de proteger.” Sub linhando que toda essa situação foi criada no governo liberal da Sra. quando o Estado interfe re na economia. já está em estudos a delegacia esp ecializada dos gays. subm etidas à lógica do mercado. em princípio. a proteção que ess as entidades recém-criadas darão aos novos direitos é apenas uma possibilidade teórica. O casamento está deixando de ser reconhecido pelos sistemas legais e fiscais. elas não sobrevivem se não crescem. interfere em tudo. Nenhuma avaliação séria da rel ação custo-benefício deixará de nos mostrar que. do definhamento das relações human as. jamais tendo abusado de uma donzela. E quando se verificar enfim que todo esse crescim ento canceroso da burocracia não diminuiu em nada as violências que lhe servem de pr etexto.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 175 O número assombroso de indivíduos que. Esse exército de solitários é o resíduo inevitável de uma equi ocada luta pelos direitos humanos. A prova mais contundente é a proliferação de novas delegacias e varas de justiça es pecializadas. judiciais. O Estado tende a alimentar a irresponsabilidade moral para po der alimentar-se dela. assistenciais e assim por diante. seja fascista: é que a política liber al ( ou. imbuídos da por 40 horas com a mesma remuneração. E será ainda incentivada nessa convicção por suas irmãs fe ministas de classe média. sem outra relação humana exceto com os funcionários da previdência social. de olho nos fins políticos ambicionados. e de que quando sai dela deixa as pessoas liv res em tudo o mais. em cada um desses casos. No Brasil. inclusive a de superpor as expectativas aos fatos e. O fato de ser casada não conta para nada. l quido e certo de s ua mera existência. então. a co lunista enfatiza que um velho slogan da esquerda — “arranhe a casca de um liberal e encontrará um fascista” — está se tornando verdade. dos go rdos. delegacia da terceira idade. isto só será um novo pretexto para verberar a irresponsabilidade moral dos c idadãos e justificar a criação de mais e mais órgãos policiais. ele ganhará £33 a menos que a mãe solteira trabalhando meio período. Trabalhando em pe ríodo integral. em seguida virão as dos deficientes físicos. mais propriamente. de um menor de idade ou de quem quer que se ja. ao passo que a ampliação do poder estatal é o resultado imediato. o esquematismo do debate entre “privatizantes” e “estatizantes” tem tornado ess as contradições da ideologia neoliberal invisíveis tanto para seus adeptos quanto para seus opositores — ambos iludidos pelo pressuposto de que. não enxergar o que se passa diante de todos os narizes humanos na at . e talvez até dos esquisitões. mas. atomizada. Pergu nte a si mesmo por que. nunca se dão conta de que suas con quistas são obtidas à custa da inflação do poder estatal. A superioridade das propostas liberais sobre as socialistas no que diz respeito à economia não deve nos levar ao engano de ver no neoliberalismo algo mais do que ele é: uma ideologia.95. liberacionista ) cria hordas de homens isolados e re voltados que serão as massas de militantes fascistas de amanhã. cuja ideologia ajudou a criar essa política fiscal. As ONGs podem ter surgido com essa intenção. . com estrit a igualdade matemática em termos fiscais. na Europa e nos EUA. será deixado com apenas £130. vivem sem família. O Esta do encara agora cada pessoa como uma unidade autolimitada. delegacia do menor. da extinção de todas as virtudes morais básicas que tornam a vida digna de ser viv ida. com todas as limitações do pensamento ideológico . num sentido diferente do que lhe dav am os esquerdistas. no fundo.

ualidade deprimente da vida cotidiana. Pois. se do ponto de vista econômico o Esta do e o mercado são poderes antagônicos e concorrentes. v. a liberdade para o mer cado não garante 242 Sobre as ONGs. o mesmo não se dá quanto à administ ração da vida psico-social. “A democracia das ONGs e a ditadura do marketing” em O Imbecil Col etivo. Embora uma economia de mercado seja claramente menos opressiva para os cidadãos do que uma economia socialista. . onde esses dois g igantes anônimos e impessoais freqüentemen te se aliam contra todos os liames comunitários e familiares que constituem a última proteção da intimidade humana.

Atenho-me portanto ao que poss o compreender. inconformado s com a frustração de seus planos na nova ordem. . 1989. iluminista. em termos absolutos. conservando cada facção a pureza de seus pontos-de-vista. consolam-se buscando socializar tudo o mais inclusive a moral privada e a intimidade das consciências. Paris. Alfred Sauvy. cedendo. de abrir o caminho para uma sociedade mais livre por meio da economia livre: se uma opção econômica se t orna o critério predominante se não único a determinar os rumos da vida coletiva. o certo e o err ado. pois no Brasil não se pode descrever um estado de coisas sem qu e a platéia ansiosa nos cobre uma definição sobre o que fazer que os adeptos de ambos os partidos. uma espécie de administração socialista da alma o socialismo da vida interior. Seja na social-democracia. sobre o arcabouço da economia capitalista. E os neoliberais. com todas as doces promessas que trouxe à humanidade. O que há de mais irônico no confronto s ocialismo-neoliberalismo é que hoje em dia os derrotados socialistas. Esta é a única questão que importa p ra o destino do mundo: estaremos por um caminho ou pelo outro condenados a viver sob a religião de César? Caso a resposta seja afirmativa — e não vejo como escapar da r esposta afirmativa. L’Économie du Diable. acima das consc iências individuais. Mais sábio seria e te nho de dizer isto. NA BORDA DO MUNDO 243 V. segundo o q ual a complicação crescente do sistema internacional ultrapassou as fronteiras do humaname nte compreensível e se tornou l’économie du diable 243. Alfred Sauvy. com todo a sua verborréia marxista. do imperialismo americano? CAPÍTULO X. não será a glória final e a mundialização da Revolução A ericana? Não será e nfim o ioguecomissário. Ex Status nemo salvatur: fora do Estado não há salvação. um servo .176 OLAVO DE CARVALHO automaticamente liberdade para as consciências. Na medida em que der por implícita e automática uma conexão que. e reconheço que as complexidades da economia mo derna geralmente escapam à minha inteligência um reconhecimento que aliás me coloca na companhia honrosa de pelo menos um grande economista. só pode ser criada mediante um esforço conscien te. não participo do vezo brasileiro de opinar ta xativamente sobre todas as questões. Le Seuil. Na verdade e no fundo. o re sultado fatal é que os meios se tornam fins. s e o neoliberalismo me parece mais sensato do que o socialismo. acabam descarregando todos os seus velhos í petos estatizantes no m apoio descarado às intromissões do Estado neoliberal na vida privada. os valores e critérios morais. portanto det erminar o sentido da vida coletiva. surge então uma pergunta derivada: a submissão do mundo à religião de César não é a mesma coisa que a submissão do mundo a César? A universalização tado leigo modernizante. seja no neoliberalismo. ao contrário. vão cedendo. E o ponto que me parece básico é que a concepção iluminista do Estado lei go. é ao Estado — casta dirigente ou aristocrática — que cabe. aqueles que conferem sent ido e legitimidade moral a qualquer opção econômica que seja. carregava dentro de si o germe do monopólio estatal do sentido da vida: acima das religiões. malgré lui. por julgarem que é mais v ital preservar a liberdade de mercado do que qualquer outra. não sei qual é a melh or das duas opções. e por desejo talvez de apaziguar o ressentimento dos derrotados. a não ser por uma hipotética rebelião das religiões contra o monopólio estatal do sentido da vida —. o verdadeiro e o falso. Não tendo conseguido socia lizar a economia. concordassem em submeter a disputa ao critério de valores superiores. até que o novo E stado acabe por construir. E o mercado tem um potencial escraviz ador tão grande e perigoso quanto o do Estado. e assim se tornam os aliados de seus antigos desafetos num esfo rço comum para levar o neoliberalismo no caminho do pior. sob as bênção a intelectualidade — casta sacerdotal — dirigir o processo de modernização. o neoliberalismo se omitirá de cumprir o papel que se propõe.

A filosofia de Epicuro. Invia bilizar assim o debate...4. 5. q uantas insatisfações ocasionais possa haver na alma do público. O sentido de ssa influência é claro: instaurar como fundamento da cultura um novo corpo de crenças. afastando dos olhos do público e subtraindo à discussão.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 177 § 33. um esforço de reprimir a inteligência teorética e subst itui-la pela autopersuasão retórica voltada a “transformar o mundo”. as opiniões contrárias 244. como prática. encobrindo-o sob um simulacro de debate. em última instância. 3. à luz da se empreende um vasto remanejamento de toda a visão da História do pensamento. de m odo a colocar no centro da evolução filosófica figuras como Epicuro. DE SAINT-EXUPÉRY Recapitulemos todo o nosso trajeto: 1. Os convidados estrangeiros às vezes destoam da unanimidade. É contra o exercício da consciência pessoal autônoma que se voltam as correntes em que se inspira o grupo organizador do curso da Ética . como teoria. 4.2. como ele. Essa reação inspirará boa p arte do pensamento Ocidental. um dissimulador maquiavélico. dando uma aparência ilusória de variedade e pluralismo ao que é na verdade um astucioso experimento de dirigismo mental245. incapacitadas para uma reação crítica. que se tomam po . no dos Libertinos/Libertários. como editor da série Os Pensadores e como fig ura de relevo nos meios filosóficos paulistas. nada mais é. votado à humilhação da mulher e à destruição amor — coisa que todo mundo já sabia. 1.3. que é um d os pilares da nova cultura. de maneira crescente desde o Renascimento 246. Gassendi. e. 1. mas sem expressão pessoal significativa — e sobretudo que não abra uma polêmi ca 244 explícita —. canalizando-as no sent ido de uma revolta contra o Espírito.. La Mett rie. e. que um ceticismo cognitivo q ue termina em diletantismo trágico. de índole coletivista e estatal. Exercer desta f orma a hegemonia sobre o panorama cultural brasileiro. ao consumar-se no cristianismo. levanta cont ra si o ódio dos nostálgicos da religião greco-romana. iniciado pela filosofia gre ga e completado pelo cristianismo.1. o de Raymond Trousson. o professor da Universidade Livre de Bruxelas afirmou ( na conferência de 20 de junho de 1995 ) que o libertino é por es sência um tirano. A conquista da inteligência teorética é a culminação de um cesso de personalização. que pela repetição acabarão por se tornar consensuais. na farsa da “tradição materialista”. P ara grande escândalo dos admiradores de Sade. “. A libertação da consciência pessoal. Aproveita-se também a ignorância de platéias novatas. tornando-os vulneráveis a toda sorte de manipulações. Foi o caso de Nicole L oraux. que se reunem sob a denominação formal ou informal de gnósticos. é um processo de auto-hipnose que gera entre seus praticantes a credulidade beócia e a total falta de sentido crítico . Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições. 1. José Américo Motta Pessanha encarn ou esse projeto melhor do que ninguém. para esse fim. O ciclo de Ética e os outros da mesma série r epresentam um esforço de conjunto para influenciar a vida intelectual brasileira n um sentido determinado: são uma “reforma da inteligência” brasileira — intellectus emendat ione — empreendida por um grupo coeso e consciente de seus fins. apresentando os membros do grupo organ izador como se fossem a encarnação mesma do consenso filosófico universal. Inserem-se no programa dos eventos. o ensaio “Armadilha relativista” em O Imbecil Coletivo. n’étant ni pour les ni por les autres.. 2. 1. Representa a abdicação dos deveres da inteligência pessoal e a submissão às ilusões coletivas que passam por ve rdades por força da repetição. menos os neolibertinos locais. O marxismo tem raízes no epic urismo e representa. um ou outro conferencista de idéias cont rastantes. 245 V. esporadicamente.” A. Exploram-se. 6.Me situant à l’extérieur des faux litiges dans mon irréparable éxil. de libertação da consciência pessoal. como irrelevantes ou “superadas”. deslocando para a periferia as grandes filosofias que não po ssam ser absorvidas na cosmovisão materialista. As idéias que inspiram essa operação resumem-se. no ciclo de Ética. Sade et caterva.

Após ter lido Order and History. ed. Order a nd History. nada vejo de substancia l a mudar nessa minha interpretação. pois a conheço só por obras menores e não li o trabalho fundamental do autor.r libertários por alguma razão só compreensível à luz da lógica de Epicuro. 246 É mais ou men s a tese de Eric Voegelin. que aqui subscrevo até o ponto em que pude compreendê-la. [Nota à 2a. .

9. por voluntária e conscient e aceitação das coordenadas do novo tempo. novas cr enças que constituirão. marcada por quatro grand es empreendimentos: o Império de Carlos Magno. mas na mundialização da Revolução Americana. associa portanto ao processo de formação da re ligião civil o fenômeno das “duas culturas” ( C. La His toria de la Iglesia jamás Contada. a e mergência dos impérios coloniais. o império leigo (fracassado em versão napoleônica. que a ascensão da religião civil não é um processo unilinear. 8. Junto com o cristi anismo. que aquela dentre as ideologias modernas que parece 11. obras das quais a mais abrangente e sistemática é a de Eric Voegelin. o que restar de cristianismo será destruído pelo i pério leigo. em o caráter essencialmente gnóstico dos movimentos que culminam na N ew Age do século XX foi afirmado em 1994 pelo próprio Papa João Paulo II (Cruzando o U mbral da Esperança. as quais por sua vez expressam uma nova compreensão ( ou incompreen são ) da lógica e da dialética. mas marca do por uma dualidade fundamental. de maneira semiconsciente. Se entendemos o termo “imperialismo” no . Thesau rus. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura ). entoando loas a um deus-asno colocado no altar em lugar de Cristo e do próprio Cés ar? Ele sabe ou não o que está fazendo? Depende. o que não teria cabimento fazer neste volume. associa a formação da religiã ivil aos esforços para a restauração do Império. é a meta que norteia.178 OLAVO DE CARVALHO 7. O surgimento dos impérios coloniais estilhaça a unidade cr istã. que simbolizo na luta de Beemoth e Leviatã. Ela inter vém decididamente e a fundo na estrutura da alma de todos os seres humanos colocad os ao seu alcance. Assim. Agostinho . A Igreja. de uma f orma ou de outra. arrastando na sua torrente todas as forças intelectuais e políticas que. ao pretender fundar um Império. somente a aprofundar. as demais m religiões serão rebaixadas a “cultos permitidos”. servindo às tontas. acabam por colocar-se involuntariamente a seu serviço. a intell igentzia de esquerda se põe a serviço da ascensão do Império. ajudando a consolidar o culto das divindades cósmicas — naturais e sociais — que constituem em substância a re ligião estatal do Novo Império 247. p. ajudando a alimentar o monstro imperial que viria a devorá-la. 1 2. A ruptura do sentido cristão da vida dá surgimento às duas correntes de idéias — naturalistas e historicistas — cujo entr echoque constituirá o Leitmotiv da história cultural moderna. dit o de outro modo. A restauração do Impér io romano. da qual é o oposto complementar. Madrid. Este meu liv ro insere-se nessa linha de preocupações. isto é. a cultura pós-cristã. cit. mas b em-sucedido na América). que se observa por exemplo em Nicolau de Cusa ( v. 35). apresenta uma visão de conjunto das obras de diversos autores que enf ocam as ideologias contemporâneas como “teologias civis”. enfatizando que não culminam na eclosão das ideologias totalitárias. no sentido de Sto. a história política do Ocidente. não sabem para onde vão nem quem os leva? O iogue-comissário é alto-sacerdote do culto imperial ou escravo de sacerdote. ou seja. 3ª. A operação de reforma cultural empreendida pelo grupo organizador da Ética marca a inserção da cultura brasileira no novo culto imperial. funcionando como s eitas populares no novo quadro do Império leigo. Mas — pergunto em prosseguimento — servindo-o de bom grado. ao contrário. exatamente como o fazem os esquerdistas a rrependidos que hoje formam nas fileiras neoliberais? Ou. de m aneira que as novas concepções do Estado refletem mudanças profundas ocorridas na conc epção da natureza. enfoca a emergência das ciências físicas modernas como uma condit io sine qua non da religião civil. com algumas diferenças específicas que ressalt am do fundo comum: 1ª. sob formas variadas e adaptadas às condições do tempo. curiosamente. 247 O estudo valiosíss imo de Nelson Lehman da Silva. Cabe apenas ac rescentar que. novos sentimentos. P. 2ª. Snow ). fazendo-se de oficiante na momentânea paródia dos três dias de carnaval . ou mais claramente: anticristã. demonstra que o culto de Beemoth acompanh a necessariamente a ascensão do poder de Leviatã. 1985 ). o Sacro Império Romano de Otto I. A Religião Civil do Estado Moderno ( Brasília. instaurando neles novos reflexos. 10. em essência. em Ricardo de la Cierva. Fénix. puxados pela argola do nariz. caiu na armadilha da restauração romana. como bois de carro que. 1995. Las Puertas del Infierno. A Revolução Americana que incorpora o ideal do império leigo tende a mundializar-s e.

atualizando o enfoque. a dialética de Hegel-Mar x. destaca o papel que na formação da religião civil é desempenhado pela s pseudológicas.velho sentido da dominação econômica.. da exploração do Terceiro mundo em proveito de mega -empresas americanas. assinala a função que nesse contexto é desempenhada pela ideologia ecológica. decididamente. a retórica em geral. enfoca a luta entre religiões tradicionais e religião civil do ponto de vista do conflito de castas. à tradição es tudada por Lehman. a resposta é não: o iogue-comissário. a falsa hermenêutica simbólica do ocultismo etc. não no sentido de sua ação polític a explícita ( como o enfocam os porta-vozes de uma teoria conspirativa da História ) . pela New A ge e pelas novas morais que vão entrando em vigência no quadro neoliberal. . não se acumpl iciaria à menos comprometida com o culto de César é na verdade aquela que o encarna da maneira mais completa e eficiente. 4ª . e finalmente. e nfatiza o papel das organizações secretas nesse processo. assinalando a sua filiação comum. Dando continuidade. mas no da contaminação passiva da sociedade. porém. como a lógica de Epicuro.

e mesmo contra a sua intenção. em miniatura. neutralizando todas as religiões do mundo e instaurando a religião de César. Rio. porque a Revolução Americana é. Nórdica.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 179 exploração imperialista dos países pobres. p orém intelectuais. mais particularizadamente? O fato de a campanha da “Ética” te . a insensível rot ação do sentido dos seus esforços. o Terceiromundismo e a Ideologia Brasileira. então estamos realmente diante de um problema. encontra-se no livro de J. da contradição entre imperialismo e capitalismo democrático 248. porq ue a fundação dos EUA representa a quarta e provavelmente última translatio imperii. toda autori248 V. em aliança com a intelligentzia. pp. tanto quanto a teori a da dependência — sua neta terceiromundana em boa hora renegada por um pai sensato —. o que se passou com a esquerda nacional. Ele estudou a teoria leninista do imperiali smo. Não por coincidência. O. imaginando ainda ser vir aos seus velhos ideais de sempre. a teoria Hobson-Lênin. de Meira Penna. e não se prestaria ao papel de servo do capital es trangeiro. A contradição resolve-se tão logo entendemos que a dinâmica imperial dos Estados Unidos não provém de causas econômicas. foi ar rastada sem se dar conta. De fato. no essencial. e se por outro lado a expansão e mundialização do poderio americano são e vidências igualmente inegáveis. no i nstante da fundação da República Americana. que o principal foco de resistência interna às ambições imperialistas do governo norte-americano foram os grandes capitalistas. Quais razões. dizia Ortega y Gasset. Marilena Chauí. enganando-se quanto a seu papel no curso dos eventos. Meridian Books. modernizante. 1958. Perto desse fenômeno gigantesco. é consciência de uma contradição. uma enganosa agitação de f ntoches verbais sobre um pano de fundo constituído. parágrafos atrás. porque o projet o do império leigo que incorpora as concepções iluministas do Estado representou. p orque o surgimento do moderno Estado leigo incorporado no Império americano é. veio a ser arrebatada por essa torrente. Imperialism. Resta só um detalhe: saber como a intelligentzia brasilei ra. revolucionário. Problem a. Ensaios sobre o Nacional-Socialismo.. 64 ss. A estas observações pode-se acrescentar a famosa demonstração de Josep h Schumpeter. absor verá no Estado. porém. o M arxismo. de luta de class es. Comecemos pela seguinte constatação: era mais do que cl aro que esse empreendimento cultural tinha objetivos políticos patentes e imediato s. E aí o ciclo de Ética no MASP pode servir para ilustrar. que o imperialismo americano não tem fundamentalmente um sentido econômico. fazer o feitiço virar contra o feiticeiro . U ma síntese brilhante dos argumentos de Schumpeter. por intelectuais de formação marxista. destinado a reformar o mundo. leu talvez o próprio Hobson. então titular da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. entre os quais o principal era o de captar em proveito da estratégia das esquer das a velha retórica moralista da direita. enfim. não passa de um momento transitório na sucessão de ilusões ideológicas pelas quais a inte lligentzia mundial. a p artir de 1989. Joseph Schumpeter. Vimos. não havia outra razão para explicar o interesse pela ética demonstrado. em particular. New York. acrescentada de análises muito pe rtinentes com relação à teoria brasileira da dependência. A Ideologia do Século XX. para os quais o discurso ético não é nem pode ser outra coisa senão uma “superestrutura” ideológica. V imos que a idéia imperialista foi anterior de quase um século à formação das grandes fortu nas capitalistas. um projeto expansivo. o ciclo de Ética no MASP fora organizado pela mais eminente intelectual do PT. Esta ativa desmascaradora do discurso ideológico alheio jamais se inte ressaria por algo tão “superestrutural” como a ética se não tivesse bem sólidas razões políti para fazê-lo. Se as c oisas são assim. Acontece. culturais e políticas: os Estados Unidos são uma potência imperial po rque sua fundação mesma constituiu um revigoramento da idéia imperial. o primeiro passo da revolução mundial que. d ando uma “solução final” ao conflito entre autoridade espiritual e poder temporal. que por dois milênios foram o motor da História européia. por e ssência. a engrossar a poderosa corr ente da Revolução Americana. a síntese e o resultado das contradições entre s acerdócio e aristocracia. 1994 — uma leitu ra indispensável a quem deseje compreender a posição do Brasil no mundo de hoje. dade espiritual.

r conquistado sua principal vitória com a derrubada de Collor me fez imaginar. Era o que eu estava dize ndo no § 1. por um tempo. Ainda assim. parecia-me . que a tagarelice moralizante não era outra coisa senão um expediente impr ovisado para fins de política rasteira: eliminar a trapaça financeira multicollorida para instaurar em seu lugar a trapaça ideológica vermelha.

um desejo de punir. se originara de uma reunião de inte lectuais de esquerda. 1992 ). p udessem ter em vista. Luís Inácio Lula da Sil va. as explicações do deputado pareceram satisfatórias à imprensa. São Pau lo. Dell Books. pois tra balhou como agente cubano por cinco anos ( v. Isto é que é fazer-se de inocente. Mas será normal que os jornalistas profissionais também ignorem tudo do funcionamento dos s erviços de informações? Se nos lembrarmos de que o processo de impeachment de Nixon — tão alegado como um exemplo para o Brasil no caso Collor — não foi provocado por uma acu sação de corrupção. Mais tarde. pois estudou Mao Tsé-tung e sabe o que ele diz da importância dos informantes oc asionais para o sucesso de uma guerrilha. e sim de espionagem política. atmosfera que. a sua principal força ( v. O intuito não era combater a corrupção. Com efeito. 1994. vingando a humilhação que o pernóstico bon249 O deputado José Dirceu. ao Jornal do Brasil. que não voltou a tocar no assunto por quase um ano. da qual . na sede da OAB. Christopher Felix. e não nos ag entes efetivos. e particularmente à pessoa do sr. trad. encontrou nela a ocasião para a e sperada descarga. senão pelo fato de que. acusado de ser o chefe do serviço de espionagem do PT. Um dos segredos da eficiência do Mossad ( serviço secreto israelense ) é ter uma rede de informantes ocasionais espalhados por todo o mundo ( os militantes s ionistas ) e poder. adensando-s e pouco a pouco até o limite de uma pressão insuportável nos meses que antecederam a d ecisiva entrevista de Pedro Collor à revista Veja. reduzir a dois mil o número de seus agentes profissi onais. que o partido apenas recebia in formações dadas espontaneamente por militantes e simpatizantes. Segundo “Betinho”. Mas em agosto de 1993 veio pelos jornais a notíci a da existência de uma rede petista de informações: chefiados pelo deputado José Dirceu. com tanta antecedência. As Marcas d a Decepção. Victor Ostrovski e Claire Hoy. é sinal d e perda completa do senso das proporções na avaliação da gravidade dos delitos. de indícios suficientes para justificar a esperança de um dia poder montar um Collorgate. excele aliás nesse domínio. a campan ha. incluindo pessoal interno ( v. Esta notícia dava retroativamente sustentação àquela hipótese que eu rejeitara co mo um tanto paranóica 249. respo ndeu que ali não havia serviço de espionagem nenhum. Collor de Mello. os estrategistas da esquerda pudessem já estar preparando um golpe morta l a ser desferido na carreira do sr. A Revolução Impossível. técnico em espionagem treinado em Cuba. Não há mesmo nenhum meio de explicar a repercussão dessas denúncias. A Short Course in th e Secret War. contra um alvo hipotético e vacante. por isto. não era nada absurdo supor que a pequena KGB já dispusesse. O deputado não pode ignorar estas cois as. Por geniais que fossem.180 OLAVO DE CARVALHO extravagante a hipótese de que em 1990. empresas estatais e bancos. Ou então é s inal de que a opinião pública já concedeu às esquerdas o privilégio de se colocarem acima de todo julgamento humano. mal decorridos alguns meses da posse do pr esidente. da qual fora um dos mentores e fundadores. centenas de militantes-delatores formavam um serviço secreto particular infiltrado em ministérios. “Betin ho”. já em 1994. Enquanto os “arapongas” prosseguiam suas investigações. no início de 1990. não era verossímil que àquela altura. Best Seller. veremos que a indiferença nacional ante o caso dos “arapongas”. uma entrevista de Herbert de Souza. Todos os serviços secretos do mu ndo dão preferência aos serviços de colaboradores informais sobre os de agentes profis sionais. 617 ). sem quaisquer sinais visíveis de corrupção no governo. Luís Mir. 1986 ). na qualidade de “colab oradores informais”. S. a futura transformação da campanha pela ét ica numa campanha contra Collor. Exª. A KGB tinha nos militantes comunistas. que só aguardava a id entificação de um suspeito para poder despejar sobre ele o ódio que se fôra acumulando. já havia no ar uma predisposição hostil e vingativa. vivant infligira às esquerdas. Scritta Editorial. New York. p. brasileira. trouxe um esclarecimento melhor. substa ncialmente iguais a tantas outras feitas contra governos anteriores e que morrer am neutralizadas pela indiferença popular. desta vez. a campanha pela “Ética” já iria p arando uma atmosfera psicológica propícia a ampliar o efeito moral do escândalo quando estourasse. comparada à extrema suscetibilidade contra os corruptos. São Paulo. preparatoriamente. De qualquer modo. polícia. Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense.

temporariamente irritado com o agente que abusara da sua confiança. provisoriamente encarnado num presidente. simbólica e conquistada com a ajuda do mesmo esquema. como diria Antonio Gramsci: o . a restauração da decência era um fim em si. Uns alegravam -se com o retorno à moralidade. apenas uma etapa da “longa viagem da esquerda para dentro do aparelho d e Estado”. outra pr elibava o seu próximo desaparecimento. que a outra participasse da celebração com u ma reserva mista de suspeita. com a revanche contra o esquema militar-em presarial. Pa ra outros. Daí a ambigüidade dos festejos celeb rados em torno do cadáver político de Collor. Vi então que minha primeira compreensão tinha sido demasiado estreita: mais que derrubar um presidente. Para uns. ainda que tardia. mas oferecer uma alternativa contra a propost a neoliberal de Collor. a campanha pretendera derrubar um re gime. O exército vitorioso dividia-se em duas alas inimigas: uma festejava. o revigoramento do regime. Outros.ainda ninguém sabia nada de preciso. Não é de estranha r que esta última ala fosse mais festiva. anunciado pelo do presidente. com a limpeza.

leitores e devo tos do teórico da “revolução cultural”. uma luta pela moralidade propriamente dita. o qual. representada sobretudo por Celso Furtado. quando a gente não sabe o que fazer. segundo a perspectiva marxista. especialmente ud enista. Para a primeira dessas correntes. baseada nas idéias de racionalização e eficiência. De outro lado. na pobreza de perspectivas da oposição ante um governo recém-emp ossado com um potente respaldo popular. política e ética 250. su geria por si mesma o perfil do seu antagonista ideal: contra a frieza inumana da “técnica”. de dias de glória. pelo bem e pela decência 252. neutralidade esta que. as soluções econômicas deviam reger-se por motivos técnicos e científicos. esperavam. dando ao mesmo tempo a impressão de estarem lutando pela “ética” no sentido geral e corrente. A proposta neoliberal de Collor. Antonio Gramsci. nos anos que se seguiram à derrota da guerrilha. a palavra “ética” vinha mesmo a calhar. nada se sabia que pudesse 250 incriminar Collor. alheando-se o mais possível do debate político e ideológico e de toda consi deração de valores. o apelo humanitário da “ética”. e no fundo. Fritjof Capra & Antonio Gramsci ( Rio. e. d iz Goethe. um sujeito que. q ue rendera alguns dividendos na luta contra a ditadura. honestidade et c. Esta feliz coincidência permit iu que a alquimia gramsciana fundisse a política da esquerda radical com o discurs o moralizante que por décadas fora a marca registrada da direita. que recomendo aos que julgarem demasiado compactas e obscuras as referências que aqui faço ao tema. carregada portanto de um apelo “ético” 251 . retroativamente: a luta pelo “Estado ético” gramsciano tornou-se. um ídolo acadêmico das esquerdas. evidentemente.. mas apenas com o ajuste entre as normas sociais e as necessidades da produção — um sentido alheio a fins e valores. uma palavra é como uma tábua para o náuf rago. suscitando fartas demonstrações de indignação moral. mas logo em seguida o surgimento das provas de corrupção no governo. representada sobretudo pelo então ministro da Fa zenda. pensa por categorias estanques e não enxerga os nexos entre economia. se a campanha não tinha um propósito direto de combate à corrupção. À neutralidade tecnocrática. Mas. de onde vie a então a palavra “ética”. Mas. ao passo que em época mais recente passou a misturar a exibição pública de moralismo c . (A desastrada frase do ministro. to rnou a ficção verossímil. Era uma encenação.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 181 começo. Na época. 1994 ). por ironia. A coincidência é apenas de palavras: “ético” em Gramsci é termo técnico. de que a economia é “aética” suscitou d esde chiliques moralistas até a objeção gramatical de que a palavra certa seria “anética”. nada mais interessante ocorreu à intelectu alidade esquerdista do que ressuscitar contra ele o estereótipo do velho debate. isso era apenas mais uma ideologia: o pragmatismo e o neoposi tivismo que pareciam inspirar o ministro eram aliados congênitos do capital. ad hoc. ainda influenciada pela ideologia do Front Popular tingida de “humanismo bu rguês” para fins de aliança com as “forças progressistas”. nos planos que delineia p ara a tomada do poder pelos comunistas. não passava de uma projeção do abstratismo “metafísico” do burguês. cuj do nada tem a ver com o que geralmente se entende por moralidade. acreditava mesmo em princípios éti . tratav a-se de uma reedição do velho debate entre tecnocracia neocapitalista e nacional-pro gressismo. 251 A diferença é que naquele tempo a esq uerda. aparentemente tão deslocada no contexto de um mero confronto id eológico entre socialismo e neoliberalismo? A origem era dupla: de um lado.) Para a ala oposta. muito “tecnocrático”. Instituto de Artes Liberais & Stel la Caymmi Editora. que d efendiam com tanto mais eficácia quanto mais protegidos sob uma fachada de neutral idade científica. vivendo separado da atividade produtiva. porque muitos dos intelectuais envolvidos na campanha h aviam se tornado. destaca uma fase que denomina implantação do “Estado ético”. que ocupara os economistas e os doutrinadores políticos na década de 70. essa corrente. isto é. Não há melhor truque para de252 Explico-me mais extensamente sobre Gramsci no meu livro A Nova Era e a Revolução Cul tural. Antônio Delfim Neto. Entre estes últimos estavam os líderes da “Ética na Po lítica”. opunha uma proposta econômica fundada em fins e valores explícitos. O nome da campanha fornecia aos intelectuais gramscianos a oportunidade de tentar implantar o “Estado ético” preconizado pelo seu mestre.

Paris. Arthème Fayard.om a pregação do ceticismo e do relativismo ( esta só para audiências seletas ). Já nas fases finais da Re volução Francesa. impopular. logo após o fracasso da conspiração extremista de Babeuf. Apelar às denúncias moralistas nos momentos em que o discurso da luta-de-classes está em baixa é um dos expedientes clássicos da tática esquerdista. 1968. 1928. E ademais a mina era inesgotável. mas. “os jacobinos co ntinuaram sua propaganda no país. não havendo motivo para temer escassez de argum entos” ( Pierre Gaxotte. 482 ). p. campanha hábil. trocaram rapidamente de palavra-de-ordem. subs tituindo a guerra contra os ricos pela guerra contra os ‘apodrecidos’. réed. La Révolution Française. mais do que nunca. como sentiam que o programa babeufista esta va. . suscetível de arrastar sob uma mesma bandeira os descontentes de todos os partido s.

conservava o pode . com a precisão de um cronograma divino. mais sutilmente. as peças múltip las do quebra-cabeça começam a encaixarse. de ser uma regra para o homem g overnar a si mesmo.182 OLAVO DE CARVALHO sorientar um inimigo do que imitá-lo: se ele investe contra o simulacro. mas uma revolução psicológica que o envolveu numa luta equ ivocada e tragicômica. quando não a indivíd uos em particular. representada pelos inquisidores. sujeitando o pe cador a terríveis padecimentos interiores. A quem esteja ciente de que. eis como pela prática da caridade. basicamente. por seu lado. por um grupo de intelectuais. solapar as bases intelectuais dessas crenças. a opor tunidade de uma penitência reconciliadora. se apresentaria m ao povo como a única esperança de salvação. promovendo uma mutação do sentido mesm o da palavra “ética”. quase magicamente. sobretudo. e sobretudo o moralismo atávico da classe média. esvaziar as velhas crenças m orais. passasse a significar apenas a adesão m aquinal a certos slogans políticos e a hostilidade a certos grupos sociais. não p oderia produzir um resultado tão retilíneo: a ambigüidade das origens transmite-se. autocontraditórios. arrependido. Mantendo-se aparentemente acima do jogo político. a ovelha desgarrada podia ser reconduzida ao aprisco da ortodoxia socialista pelas mãos de um novo Bom Pastor. em benefício das esquerdas. no pensamento gramsciano. Tratava-se em suma de reduzir a éti ca ao “politicamente correto”. foi a manifestação mai s evidente. não fo i a regeneração moral de um país. da qual a autodestruição do Congresso Nacional. ao curso posterior da ação. xiítas e enragés de toda sorte. ele cresce até engolir o original. Foi assim que. É claro que as duas mãos operavam em concordância: a Misericórdia era a retaguarda. desmoralizandose mais e mais a cada novo esforço impotente para moralizar-se. oportunidade que a “campanha do Betinho” pr ovidencialmente estendeu a todos no momento exato. para que. cujos efeitos se tornam mais dúbios à medida que se avolumam. de outro. num prazo assustadoramente breve. A campanha da “Cidadania con tra a Miséria” exerceu assim a função de “mão direita” da nova divindade — a Mão da Misericór e abençoa e redime. a um sentimento de exclusão da comunidade humana. na intenção de vencê-lo pela i ndiferença. todas as crenças e sentimentos mais conservadores do povo brasileiro. formando a figura bifronte de uma estratégi a da perversão moral em nome da moralidade: de um lado. até levá-la ao completo descrédito e precipitar a crise geral do Estado. e num círculo mais seleto de ouvintes . estéreis. as mutações psicológicas profundas são o alvo prioritário de um plano de larg o escopo a ser realizado. puderam ser canalizados. ou do Rigor. metade oculta. tinha como finalidade última — nas palavr as de seu próprio fundador — implantar no país a socialização dos meios de produção. e se tornasse um pretexto edificante para cada qual projetar suas culpas sobre o vizinho. de modo a desgasta r a classe política numa sucessão de rituais autopunitivos sem resultado proveitoso. rebaixando-as e transformando-as em munição política de uso imediato contra os “i nimigos de classe”. Como esta campanha. O que a campanha pela “Ética” produziu. ao lado da Mão da Justiça. O que poucos perceberam é que a exigência ética da campanha fora formulada em termos propositadamente utópicos. a segunda a escrever torto por linhas retas. que castiga. As campan has gêmeas da “Ética na Política” e da “Ação pela Cidadania” perfizeram harmoniosamente as du ces de uma nova pedagogia religiosa: a primeira ensinou o cidadão a julgar para não ser julgado. Cercado pelos dois lad os. para que deixasse. cortada dos laços que a ligam a quaisquer valores espiri tuais e a qualquer ideal de vida superior. que o homem médio não saberia suportar sem buscar logo. co mo uma tara hereditária. onde as esqu erdas. o lastro de crédito que garantia a boa -fé dos acusadores e conferia legitimidade moral a toda sorte de calúnias. beatificando o instinto de delação e fazendo da maledi cência a virtude primordial do cidadão brasileiro. Mas uma intenção oblíqua. o pecador não teve como resistir ao apelo da salvação. tornando o apoio às esquerdas uma obrigação religiosa cujo descumprimento teria o efeito desequilibrante de uma transgressão. eleva do à condição papal. arrisca a certar algumas pancadas em si mesmo. aí já plenamente identificadas como derradeira reserva moral. Betinho ficou. nos meses subseqüentes. A campanha pela “Ética” conquistou o apoio maciço da população e foi festejada como a aurora da redenção nacional. se o deixa em paz. assim. até que não reste no cenário nada mais que duplicidade e hipo crisia.

r de abençoar e excomungar. Claro que ninguém imagina que Betinho virá a público de clarar apoio ao PT... que acontecerá no final do mês em Brasília. mas todos acham . acabe se transformando num gra nde ato da campanha de Lula. de erguer qualquer personagem à beatitude da fama ou pre cipitá-lo nas trevas da abominação 253. 253 “Há uma preocupação crescente no Palácio do Planalto de que o Conselho Nacional de Segurança Alimentar.

em suma. a ponto de abdicar de todo senso das proporções. assim resumida por Roger Scruton: “A assimetria moral — a expropriação pela esquerda do estoque inteiro da virtude humana — acompanha uma assimetria lógica. uma p ressuposição de que o ônus da prova cabe sempre ao outro lado” ( Thinkers of the New Lef t. sem o mínimo apoio oficial. uma vez que a parte operacional do progra ma está todo nas mãos de petistas. com o “Mau Pastor”: o bispo Edir Macedo. vêm arriscando desbancar o improvisado monopólio esquerdista da caridade? Não havendo nenhuma prova judicialmente válida con tra o bispo Macedo. foi-se tornando no entanto cada vez mais ostensivo. num esqu ematismo aterrador e insano. impelindo-a no sentido da “revolução cultural” gramsciana — na qual é um dos objetivos prioritários a desapropriação da autoridade moral da religião e sua transf erência ao menos aparente à liderança esquerdista. deixando livre para as esquerdas a estrada real que levaria da hegemon ia (domínio psicológico sobre a multidão) ao poder (controle do aparelho de Estado). E is aí realizada uma das metas básicas da campanha. 254 A campanha. e não muito diversos dos shows de pregadores católicos na Idade Média — ofend em a delicada sensibilidade estética de seus críticos? Ou. que. O próprio presidente da República tornou-se assim prisioneiro do poder de chantagem psicológica de que a campanha contra a fome investiu o sr. enfim. mas não tomo minhas opiniões teológicas como artigos da lei penal . quem quer que a esta se opusesse ou si mplesmente se mantivesse alheio aos seus encantos não tinha como escapar de um sen timento constrangedor de haver-se tornado um malvado. para contrastá-lo. este a um círculo m . aquela dirigida às massas. Betinho tornou-se enfim. um pecador. o fie l da balança política nacional. como “O Bom Pastor”. a ninguém ocorrendo lembrar. Um sinal é a reportagem de Veja sobre o pastor protestante Caio Fábio. Toda essa mudança foi opera da em prazo anormalmente curto. terminou por paralisar a todos. como numa prestidigitação. “Encontro da fome preocupa Itamar”. 11 jul. aplaudi-lo ou abominá-lo é questão de gosto apenas.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 183 E como é sensato que a autoridade espiritual se incumba de arbitrar em última instânci a os conflitos mundanos. naquela altura. mereceu ser rotulado. isto é. precipitando alguns num debilitante ritua l purgativo e outros num esforço inglório de dar boa impressão. Quem entende que Betinho nunca te ve outra preocupação na vida senão de ordem política percebe que com a campanha contra a fome sua maior contribuição foi completar um giro de cento e oitenta graus na estra tégia das esquerdas. mas conheço a distinção entre bom-gosto e justiça. Para mim. O governo argumenta que quem opera o cotidiano da campanha é que tem influência sobre a população e seu voto. London. Betinho acabou sendo derrubado por um truque s ujo igual ao usado contra seus adversários: julgar com malícia um ato lícito. 5 ). D aí a convergência da campanha e do ciclo. dando-lh e ares O resultado esteve muito próximo de ser atingido: uma vez identificados o ideal de moralidade pública e a retórica da esquerda. o es tilo dele é tão repugnante quanto para os redatores de Veja. por achar que não seria bem interpretado dando a impressão de que é contra a campanha de combate à fome” ( Dora Kram er. julgo absurdas muitas das interpretações que o bispo faz da Bíblia. Jornal do Brasil. um defensor im plícito ou explícito da imoralidade. ou ao menos de correr o grave risco de ser toma do como tal. porque suas campan has beneficentes. na capa. Itamar observa os movimento s calado — até porque não quer tomar nenhuma atitude pública. abençoado por Betinho por suas ligações com a esq uerda. que o jui z fora nomeado por uma das partes em litígio 254. Betinho. Longman. por um momento ao menos. o po der de excomunhão e beatificação foi exercido por Betinho de maneira implícita e discret a. p. Mau por quê? Pel o pecado de ter sido absolvido nos processos que adversários lhe moveram? Por suas convicções políticas e sua amizade com o pensador direitista Jorge Boaventura? Por re colher contribuições de seus fiéis em vez de pedir dinheiro ao governo? Porque os rito s espetaculosos de sua igreja — tradicionais no protestantismo desde pelo menos Jo hn Wesley. que não há como não se estabelecer a vinculação. 1994. e o novo senso do pecado. As pessoas hoje temem desagradar Be tinho como outrora temiam cair em desgraça ante o clero. Secundado pela imprensa. seguiu a regra geral de uma estratégia esquerdista clássi ca. 1985. Tanto quanto eles. Durante algum tempo. coluna “Coisas da Política” ).

atribuindo às suas ações ou inações todos os defeitos e a corrupção. terá chegado o momento de recomendar uma nova forma de governo como ‘o remédio soberano para todos os males’. é preciso antes de tudo ter uma ‘causa’. nada tem a opor a que um homem receba dinheiro dos maus para dar aos necessitados. mostrou que é apenas mais um intelectual bra sileiro. 255 Nem a estratégia nem a tática são totalmente novas. o que é até um du plo bem: ajuda o pobre que precisa do dinheiro e ajuda o mau que se redime parci almente ao contribuir para o bem alheio. pp. A rep etição freqüente desse ato levará os ouvintes a crerem que os oradores devem ser homens de grande integridade. tornou-se culpado de inconsistência m oral. podendo salvar um náuf rago. José Viegas Filho. “Após tal preparação. Com seu ridíc ulo mea culpa político ante a imprensa. extraído de Eric Voegelin. e. humilhando os acusadores maliciosos. Eis aqui um resumo. 1982. hipersensível às aparências e inconsciente das motivações profundas de seus próprio s atos. ed. Imputando o mal a uma instituição específica. Brasília. Editora da Universidade de Brasília. tal como existem no mundo devido à fraqueza human a. pois somente homens particularmente b ons podem ofender-se tão profundamente com o mal. em especial.. Richard Hoo ker já descreveu coisas bem parecidas. No século XVI. os oradores provam a sua sapiência à mult idão que. uma unidade indissolúvel255. que viu serem levadas à prática pelos revolucio nários puritanos. Isto porque as pessoas que estão possuídas de aversão e descon- . da qual Betinho se reclama. Que cristão sincero. fervor e santidade. teria defendido a lisura de seu ato em termos veementes. O passo seguinte consiste em con centrar o ressentimento popular sobre o governo instituído. por si. mesmo quando bons.ais seleto de prováveis formadores-de-opinião: combate político e combate cultural for mam. o comportamento das altas classes. em Gramsci. A Nova Ciência da Polít ica ( trad. Na verdade. O homem que a possui deverá criticar severamente — ‘onde a multidão possa o uvi-lo’ — os males sociais. de crime. rejeitaria uma corda roubada que alguém lhe estendesse para ajudá-lo no salvam ento? Se Betinho fosse um homem espiritual de verdade. 102-103 ): “Para colocar em marcha um movimento. jamais teria atinado com essa conexão. 2a. a moral cristã. Inocente da acusação.

É um efeito calculado. As mulheres desempenham função especialmente importante. “Vem depoi s o passo definitivo: ‘persuadir os homens crédulos e inclinados a tais erros gratif icantes de que sobre eles recai a luz especial do Espírito Santo’. essa fase da v ida nacional ficará população. a téria-prima social fica em condições de receber a representação essencial de um líder. com igual automatismo. Jurgen Habermas. “Com essa consolidação. uma bóia para flutuar incólume sobre um mar de delações. a aut oridade se entrega inerme aos golpes de seus inimigos 256. p restando informações sobre os vínculos afetivos dentro de seus círculos. de tal modo que a humanidade passa a ser dividida entre os ‘irmãos’ e os ‘mundanos’. de modo que. e. a luta pela promulgação de direitos e normas proposit damente idealísticos e impraticáveis. de repente. ignorem os conteúdos das Escrituras que se revelem incompatíveis com a nova doutrina. Sendo óbvio que o dinheiro em grande pa rte dos casos não há. a tática da inculpação não poderia deixar de dar os resultado s mais rápidos e promissores: onde todos têm algo a esconder. rompê-lo através da persuasão. Um exemplo de como funciona: O Estatuto do Menor dá a qualquer cidadão brasileiro o direito de processar uma escola — municipal. fi lhos. que tomavam por pessoais e espontâneos. onde as peças isoladas nem mesmo suspeitavam que seus gestos. e a ânsia de delatar tornou-se não a penas um emblema da virtude. aceitarão voluntariamente os consel hos dados pelos doutrinadores. Foi assim que. “Uma vez criado um meio social dess e tipo. vivendo de acomodações que sedimentam no fundo de cada alma um denso resíduo de c ulpas mal conscientizadas. tais pessoas preferirão a companhia de outras envolv idas no movimento à de indivíduos a ele estranhos. Nunca. por mais errônea que seja a associação. e mais crêem no que menos hajam experimentado antes’. por puro medo. A escola. continua indiferente aos novos direitos e . faça o que fizer. em seguida. digamos — que não tenha um play ground. ensina às esquerdas o preceito da “reivindicação impossível”. mesmo os que se opunham interiormente à política de esquerda se viram obrigados a colaborar com e la. o expediente de precipitar a classe política numa crise de autoincul pação surgiu como uma contribuição habermasiana que o talento brasileiro do improviso en xertou na estratégia de Gramsci. e. finalmente. mal “trabalhada” pelos agitadores. e. atendida. criados e amigos. com ou sem plena consciência do resultado a que isto poderia levar. Isto porque. mas um escudo contra a indiscrição alheia. reivindicação que. todos têm pressa em subi r à tribuna dos acusadores para não cair no banco dos réus.184 OLAVO DE CARVALHO Nesse quadro. em universal bisbilhotice. será difícil. não atendida pelo Estado. com efeito. se não impossível. precipita uma crise de legitimidade onde o Estado é acusado de não cumprir suas próprias leis. tinham sido calculados de fora para encaixar-se na harmonia de uma orquestração geral. Aplicada sobre um pov o que há séculos cultiva a ambigüidade motentamento para com as coisas presentes são suf icientemente loucas para ‘imaginar que qualquer coisa que lhes seja recomendada as ajudaria. ainda segundo Hooker. em toda a História do Brasil. a esquerda enxergou tão lucidamente o tabuleiro político e dirigiu com tamanha habilidade o movimento do conjunto. porque são emocion almente mais acessíveis. são mais inclinadas do que os homens a servir como espiãs. o resultado do exercício desse “direito” será apenas forçar inúmeras pr ituras a se processarem a si mesmas pelo delito de falta de dinheiro. e fornecerão farta ajuda material aos líderes do movimento. A cumplicidade universal r everteu. negligenciarão seus próprios interesses para devotar todo o seu tempo a serviço da causa. Ape sar da posterior mudança inesperada no rumo dos acontecimentos 257.” 256 A essência da tá i resumida na boutade pintada nos muros de Paris em maio de 1968: “Seja realista: peça o impossível”. gera um a onda de indignação moral. criando um ambiente de mal-estar e recriminações mútuas que depois será denunciado pela imprensa c omo sinal de acefalia na administração municipal. estão taticamente bem situadas para influenciar maridos. terá de processar a Prefeitura — da qual ela é um órgão — para obter o dinheiro para o play ground. são mais liberais no que tange à ajuda financeira. “É necessário ainda que o s líderes ‘moldem as próprias noções e os conceitos mentais dos homens de tal forma’ que os seguidores automaticamente associem passagens e termos das Escrituras com a sua doutrina. que só falha qu ando a ral.

Afinal. até os Mercadantes acabam fazendo o bem que não querem. contrariando os planos de seus mentores. a ponto de a comentarista política Dora Kramer c oncluir que “ética não dá voto”. O povo brasileiro. que não deve distrair do essencial: os planos objet ivos e o trabalho racional para um futuro melhor. a agitação de umas centenas de intelectualerdas à superfície do momento histórico pode ser apenas a expressão pervertida e caricatural d e uma exigência profunda e autêntica do nosso povo. fundamentalmente são. encarnou no entanto o princípio da sensatez. Na economia divina. O grande vencedor foi um homem que. A Providência. tanto os campeões da corrupção quanto os arautos da morali dade: se as denúncias de corrupção liquidaram as carreiras políticas dos acusados. no v eredito implacável das urnas.não desempenha sua parte na comédia. sem ter-se omitido na luta contra a corrupção. É inac reditável como quase ninguém neste país parece perceber isso. De fato. Será que ninguém leu que Lênin recomendava fomentar a corrupção para depois denunciá-la? Ou o mito da cordialidade b rasileira impede de acreditar que exista aqui alguém capaz de tanta malícia? 257 Mud ança graças à qual a onda moralizante. jamais se recusou a usar dos préstimos dos maldosos para produzir o bem mediante uma engenhosa e sutil redistribuição dos males. bem diferente do esperado e desejado pela inquis ição esquerdista. fizer am o mesmo com as dos acusadores. segundo o qual denúncias e acusações — que ameaçavam tornar-se o tema dominante da discussão política nacion l — são na verdade uma ocupação menor. acabou levando a bons resultados. que dispõe de um esto que infinito de Engoves. O exemplo da escola municipal é só um modelo em min iatura: a Constituição de 1988 é um sistema completo de armadilhas habermasianas. o curso das coisas tomou um rumo positivo. rejeitou de um só golpe. .

a esquerda acabou por servi-la: o ator foi engolido pelas falas do personagem. vista como expressão deste sentido. Pretendendo servir-se dela. Numa operação destinada a perverter o senso ético da população para rebaixá-lo a instrumento a serviço de fins políticos imediatos. Foi realmente um achado. não somente asc endeu à condição quase sacerdotal de condutora moral da nação. O tema mesmo da confe rência. 259 O processo de degradação interior q ue leva o jovem idealista exaltado a tornar-se. que fizeram dela. no sentido maquiavélico do termo. Apenas. 2a. o dicurso “ético” tem. O Retrato ( Belo Horizonte. o personagem acaba por descobrir que . Numa outra históri a de Pirandello. 1935-1945 ( trad. ed. mas desde quando a esquerda tem algum talento profético? A casta sacerdota l de esquerda criou os pressupostos ideológicos e psicológicos em que se assentou a vitória da direita. A Revolução Impossível. levando-o a colaborar com o Estado que pretendia destruir. é implesmente porque é uma esquerda neurótica. nenhum artifício poderia ser mais útil e eficaz. como também alcançou aquele pa rão de eficiência fria e cínica que ela tanto invejava na direita local e nas esquerda s de outros países. do que o resíduo de crenças marxistas que. que. Se este amadurecimento lhe custou a perda da sensibilidade moral e a completa prostituição do senso ético à ambição de poder. do que a pedagogia ética de Epicuro. Rio. Mas. 258 V. o ciclo de “Ética” assumia um sentido claríssimo. ao menos soube provar a si mesma que a merecia. cit. e os jovens neuróticos não sabem conquistar a maturidade senão pelo endurecimento da alma259. num choque de retorno. a esquerda brasileira. exatamente como a corte de Henrique IV. Raul de Sá Barbosa. ninguém contava com este res ultado. assim como a família do louco. a ideologia democráticoiluminista subentendida no concei to de “ética na política” é uma corrente bem mais forte. minha apostila O Abandono dos Ideais. Pessanha. aparentemente tão distante da atualidade local. malgrado sua antigüidade. acaba por se comport ar. por outro lado. tb. Payot. 1987. se não chegou à vitória.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 185 marcada para sempre como um momento em que a esquerda acreditou estar muito pert o de possuir a hegemonia e conquistar o poder. 1960 ). o objeto de chacota de russos e chineses258. representando hipocritamente o papel da corte de Henrique IV para enganar o protagonista. ao dominar a técnica do maquiavelis mo gramsciano que lhe inspirou as campanhas pela “Ética” e pela “Cidadania”. IAL. para alguns dos próceres da campanha. 11-13. com os valores que a suste ntavam e com os objetivos da estratégia que ela determinava. op. V. desenvolverá no homem a acuidade moral de um tatu-bola. Ora. encontrava aí sua razão de ser. e é descrito por Paul Diel ( Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque. no presente estágio da História mund al. aconteceu que esse endu recimento se refletiu nas almas e nas vozes. pp.. Itatiaia. Colocado no seu devido lugar dentro desse panorama. c ontinha a secreta e verdadeira intenção dos seus esforços. para então poderem se apresentar como médicos da doença que eles mesmos haviam prov ocado. a respeito. ele pode persuadir o orador mesmo. tantas vezes. a súbita e imprevisível resolução dialética da confronto estático entre ladrões e dem gogos. o mais fr io e cínico dos realistas. Rio. tem raízes psicológicas pro fundas. que. em tudo e por tudo. no qual muitos desejavam manter preso o nosso país até precipitá-lo no desesper o. Dulles. redimindo-se enfim de uma história marcada pela ingenuidade. praticada a sério . 1966 ) como o mecanismo básico das neuroses. uma força própria: ele pode contaminar quem pretenda simplesmente usá-lo. Par is. desconfiado. Na esquerda. a conferência de A vitória de Fernando Henrique foi para o Brasil algo assim como a libertação de uma n eurose. deixava de ser um sintoma de demência ou de maldade pessoal de seu autor para se revelar como um ato político perfeitamente coerente com a cosmovisão das esquerdas. pela completa falta de senso prático. Nova Fronteira. esp ecialmente capítulos 4 e 5. e.. e John W. O Falecido Matias Pascal. dando aos candidatos da esquerda um a aparência de bonecos alucinados. mas sobretudo Luís Mir.. pel o utopismo. diante da qual o eleitor. O Comunismo no Brasil. com toda a sua brutal falsificação da realidade. fazendo nisto um investimento int electual tão gigantesco. na peça de Pirandello. 1985 ). independentemente das intenções maquiavélicas p or trás do palanque. F. Oswaldo Peralva. De fato. julgou m ais prudente votar em Fernando Henrique.

fingindo sa tisfação. e declarar que era exatamente esse o resultado que pretendia.sua pessoa real tem menos substancialidade do que sua “sombra” social: um endereço. em proveito da direita. um número na carteira de identidade. e agora. A farsa dent ro da farsa . ou então de aplaudi-lo. reduzida a espectadora desde fora do aparelho de Estado. um pouco da ética que a esquerd a pretendera usar como instrumento para sua “longa viagem para dentro do aparelho de Estado”. a es querda tem de renegar o fruto dos seus esforços. um estado civil. A farsa pirandelliana da “Ética” ter minou assim por restaurar.

186 OLAVO DE CARVALHO devolve-nos à realidade: o Estado democrático à americana é o grande beneficiário da estra tégia socialista. É que o auto-engano estratégico já estava anunciado, de antemão, pelo au toengano na esfera da ideologia. Vale a pena recapitular o caso. A influência domi nante sobre a intelligentzia brasileira nas últimas décadas foi, sem qualquer possib ilidade de dúvida, o marxismo. Pode-se talvez dizer o mesmo da intelligentzia mund ial, mas, na Europa e nos EUA, é certo que houve, ao lado da corrente marxista, po derosas correntes liberais, católicas e conservadoras; poderosas não somente pelo núme ro, mas pela qualidade de seus representantes, bem como pela intensidade da sua ação pública. Os nomes de Friedrich Hayek, Benedetto Croce, Raymond Aron, Ortega y Gas set, Daniel Bell, Arthur Koestler, marcaram a história do pensamento político, pelo lado liberal, tanto quanto os de Sartre e Althusser do outro lado. O conservador ismo falou com rara eloquência pela boca de Saint-Exupéry, Georges Bernanos, T. S. E liot, como hoje pela de Alain de Benoist e Roger Scruton. Nada de semelhante se observa no Brasil, onde, depois de João Camilo de Oliveira Torres e José Guilherme M erquior, a voz da direita não se fez ouvir senão através de Plínio Correia de Oliveira, demasiado comprometido com um movimento paramilitar para que suas idéias possam co ntar num debate pacífico, e de Gustavo Corção, demasiado rígido — apesar do talento fulgur ante — para poder desempenhar num diálogo algo mais que o papel de censor. Houve, de pois, Roberto Campos, mas sua argumentação, brilhante como poucas, restringe-se aos temas econômico-administrativos, sem poder ter um alcance cultural mais abrangente , à altura dos méritos do ex-ministro do Planejamento. Análogos méritos e análoga modéstia d o leque de assuntos observam-se em Aristóteles Drummond e Donald Stewart Jr.. Rest a, isolado como um monumento em meio ao planalto de Brasília, José Oswaldo de Meira Penna — o único polemista que, à luz dos pressupostos liberais, empreende uma crítica cu ltural de mais vasta escala e, para as esquerdas, atemorizante 260. Mas, em face desses poucos nomes, estende-se como um oceano a 260 horda dominante dos marxistas, marxianos, neomarxistas, socialistas, progressist as, nacionalistas de esquerda etc. etc. Sobre essa massa barulhenta e autoconfia nte, a queda do Muro de Berlim teve um efeito dos mais singulares: fez com que e la recuasse no tempo, e, já não conseguindo ostentar por divisa esquerdista o nome d o marxismo, redescobrisse, como substitutivo de seu ideal revolucionário perdido, o esquerdismo do século XVIII: o iluminismo. Acomodação tipicamente brasileira: um mod o de deixar de ser marxista continuando marxista. Pois Marx já deixara preparado, para essa gente, o ardil da operação retrô: se o Brasil não podia tornar-se socialista, era simplesmente porque Historia non facit saltum, e antes da Revolução Russa tínhamos de realizar... a Revolução Francesa. A redescoberta desse ardil foi o alívio após o min uto de terror — aquele terror que invade uma tropa de meninos ao anteverem a depre ssão que se seguirá ao término de uma brincadeira sangrenta (como em Lord of the Flies de William Golding). Não sabendo viver sem um ideal revolucionário, não concebendo ou tro sentido da vida senão o sentido da História, a tropa esquerdista, desprovida de uma regra de jogo, tinha chegado a ver abrir-se diante dela o abismo sem fundo d e um desespero beckettiano. Mas, tão logo as trombetas anunciaram a ressurreição de Di derot e Voltaire, Condorcet e D’Alembert — logo acompanhados de La Mettrie, Sade e d emais libertinos célebres —, num instante o balão murcho do esquerdismo nacional viu-s e inchado de novo, trocando de retórica como quem troca de cuécas: em vez de guerrea r o capitalismo, o caso agora era lutar contra a oligarquia agrária, a moral católic a etc. Isto não era, afinal, tão diferente da velha estratégia do Partido Comunista, q ue propunha a aliança da esquerda com a “burguesia nacional” contra os “senhores feudais” do Nordeste, supostamente aliados ao imperialismo americano para a expoliação de seu s servos-da-gleba 261. Assim, tal como o adepto da New Age, que rias. O cacoete marioandradino de começar frases com pronome oblíquo da terceira pes soa, que o leitor automaticamente toma como conjunção condicional, também só serve para atrapalhar. 261 Caio Prado Jr. já havia provado a falácia dessa estratégia, num dos me lhores livros produzidos pelo esquerdismo nacional ( A Revolução Brasileira, São Paulo

, Brasiliense, 1969 ). Mas não era bom lembrar isso, de um lado porque solaparia a s bases teóricas da nova retórica “iluminista”, de outro porque esse livro, corrigindo u m erro, ajudara a criar outro pior: a adesão maciça da esquerda à tese da luta armada. Paulo Francis, talento extraordinário e homem de vasta cultura ( literária e política, entenda-se ), poderia fazer coisa idêntica, mas de uns anos para cá deu de escrever num estilo telegráfico que não argumenta nem prova, só afirma, e acaba por ser menos atemorizante do que irritante, fomentando antipatias desnecessá-

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 187

encontrando dificuldades nesta vida decide fazer uma regressão hipnótica para ir res olver os problemas de uma encarnação anterior, a esquerda recuou em busca de uma Bas tilha que fosse mais fácil de derrubar do que o capitalismo moderno. A rapidez com que se fez a adaptação bem mostra a leviandade, a fatuidade da intelligentzia nacio nal. Ora, o único lugar do mundo onde os ideais iluministas foram realizados na máxi ma extensão possível das faculdades humanas foram os Estados Unidos. A Revolução Frances a, um morticínio inútil, foi seguida por quase um século de vaivéns e a França só se estabil izou como república democrática por volta de 1870, quando os EUA já haviam se tornado uma grande potência. As duas guerras mundiais do século XX tiveram como único resultad o duradouro a destruição final das potências coloniais européias e a ascensão dos EUA à cond ição de Império mundial: o nazifascismo e a URSS não f oram, dentro do curso maior da Hi stória, senão momentos dialeticamente absorvidos na linha perfeitamente nítida de dese nvolvimento que leva da Revolução maçônica à mundialização do Estado leigo e à americanização do. A legitimação dos EUA como polícia do mundo (globalcop) — inclusive aos olhos de uma parte considerável do mundo islâmico supostamente hostil —, por ocasião da Guerra do Go lfo, representou o ponto culminante, até agora pelo menos, de uma ascensão irresistíve l do Império mundial: ao aceitarmos a filosofia política americana, colocamo-nos vol untariamente sob o governo de quem a promove, tal como, entre os povos antigos, copiar a Lex romana e submeter-se ao governo romano eram uma só e mesma coisa 262. O que impediu a intelectualidade mundial de enxergar uma coisa tão óbvia foram dois fatores: de um lado, a crença generalizada na teoria Hobson-Lênin, que tornava insi vível a independência do imperialismo político, cultural e psicológico em relação a supostas motivações econômicas; de outro, a crença residual na vitalidade da idéia de “nação”: acredi se que o impulso de independência nacional poderia resistir à 262 Não é aqui, evidentemente, o lugar para discutir mais aprofundadamente a tendência ger al da História para a unificação da humanidade sob formas de governo cada vez mais abr angentes e complexas. De qualquer modo, essa tendência é visível, é um fato e não tem de s er demonstrada no plano teórico. Para maiores esclarecimentos, se necessários, v. o clássico de Ellsworth Huntington, Mainsprings of Civilization, New York, John Wile y and Sons, 1945 ( várias reedições ).

expansão do imperialismo, quando na verdade a própria emergência do conceito de nação foi apenas um dos momentos dialéticos que levaram, como vimos parágrafos atrás, ao nascime nto do Império mundial. O Império, aliás, não suprime as nações, já que, por definição, se co ui de reinos independentes, diferentes entre si, que ele apenas subordina e coor dena em vista de fins globais que cada reino não precisa enxergar senão parcialmente . A luta anticolonialista do Terceiro Mundo não pode prejudicar em nada o Império em ergente, cujo poder se assenta em bases totalmente diferentes das dos antigos im périos coloniais. Só pode ajudá-lo, na medida em que leva as novas nações a adotarem, junt o com subterfúgios verbais socialistas, as instituições e muito da ideologia do Estado democrático americano. Ao adotar a estratégia de fomentar as revoluções nacionalistas d o Terceiro Mundo, o comunismo internacional aprisionou-se a si mesmo na armadilh a da Revolução Americana. Do ponto de vista estritamente jurídico e político, a mundiali zação do Império é mesmo um benefício para as nações menores, antes submetidas ao arbítrio de tências secundárias, como os velhos impérios europeus ou a URSS; o Império mundial garan te-lhes um tribunal universal ante o qual podem, em pé de igualdade, lutar pelos s eus direitos com muito menos desgaste do que em sangrentas guerras de libertação. Se gundo demonstrou Bertrand de Jouvenel, a expansão dos direitos dos pequenos se faz sempre às custas das hierarquias intermediárias e da formidável concentração do poder nas mãos de poucos. O diagnóstico de Jouvenel é a versão política daquilo que a racionalização w beriana é no campo sociológico. Do ponto de vista econômico, o advento do Império mundia l é também vantajoso, segundo parece. Os argumentos de Roberto Campos, Paulo Francis , J. O. de Meira Penna, Donald Stewart Jr. e outros polemistas neoliberais (e af ins) em favor da internacionalização da economia, até onde posso compreendê-los, são muito

sólidos e a esquerda não lhes tem oposto senão rosnados e imprecações, onde não há nada a co preender. Mas a política, o direito e a economia, destacados do fundo vivo da tram a social, são apenas abstrações, no sentido pejorativo do termo. E, quando examinado d o ponto de vista de suas conseqüências psicológicas, culturais e espirituais, a ascensão do Império mundial é, como vimos ao longo dos últimos capítulos deste livro, uma

188 OLAVO DE CARVALHO ameaça tenebrosa. A derrota do comunismo, é claro, deve ser celebrada por todos os h omens de mente sã, e, se a expansão do Império foi o preço que pagamos pelo fim do p esa delo soviético, tudo bem: pagamos sem bufar. Mas, de outro lado, o antagonismo con ceptual das formas políticas denominadas “neoliberalismo” e “socialismo” ou “socialdemocraci a” tende a obscurecer o fato de que aquilo que se propõe como perspectiva de futuro a um mundo pós-socialista não é o neoliberalismo “em si”, como mera estrutura abstrata de um Estado possível, e sim o neoliberalismo encarnado na forma concreta do Império, e aliás fortemente tingido de elementos socialdemocráticos. O destino do mundo não se d ecide hoje num conflito entre formas de regimes possíveis, mas sim, por trás desse c onflito aparente, na contradição interna do Estado imperial, que parece só poder cresc er à custa da destruição do legado espiritual de onde ele extrai sua única legitimação moral possível. É neste e só neste sentido que se pode ver alguma utilidade na expressão de D aniel Bell sobre o “fim da ideologia”: no novo quadro mundial, já não se trata de um con flito entre ideologias por mais que um hábito de dois séculos i duza muitos intelect uais a n continuarem encarando as coisas por esse prisma , mas sim de um confront o entre os elementos espirituais e os elementos ideológicos no seio do Estado impe rial, conflito que por força da expansão desse Estado se alastra para o mundo todo. Alastrase até o ponto de contaminar até mesmo aquelas forças que, nominalmente, são ou s e imaginam as mais antagônicas ao Império: pois no coração do mundo islâmico o que se vê hoj e é que a resistência à expansão imperial acaba por endurecer e desespiritualizar a trad ição mussulmana, fossilizando-a no simplismo belicoso e grosseiro do chamado fundame ntalismo263, isto é, reduzindo a religião a um receituário ideoO nome calcado no de ce rtos movimentos protestantes é totalmente enganoso. Sugere, por alto, a idéia de ret orno às fontes, de restauração de uma pureza originária, mas qual o movimento reformista ou revolucionário que não se adorna dessa mesma pretensão? Na verdade, o radicalismo islâmico, pretextando um retorno às fontes, propõe às vezes uma total politização do impulso religioso, numa linha bastante semelhante à da “teologia da libertação” católica; e ele se afasta mais ainda das origens desde o momento em que despreza o legado espiritua l das antigas escolas místicas, o tassawwuff ou “sufismo”, o qual, com todas as distorções e desvios que sofreu, ainda conserva alguns valores essenciais à tradição islâmica. V., a respeito das diferentes correntes de pensamento islâmicas e seus antagonismos, Mohammed Arkoun, La Pensée Arabe, Paris, PUF, 1979, especialmente Chap. V, e id. e t al., Les Musulmans, Consultation IslamChrétienne, Paris, Beauchesne, 1971. 263 lógico como qualquer outro, fazendo com que cada novo jihad só sirva para desvitaliz ar e reduzir a uma horrenda caricatura a tradição que imagina defender. Se, de um la do do mundo, o Estado imperial leigo usurpou o manto de Cristo, do outro lado o sionismo ateu usurpou a autoridade de Moisés e a ideologia fundamentalista usurpou a mensagem corânica trazida por Mohammed. O que está em jogo no mundo não é portanto um mero conflito entre ideologias, mas sim a possibilidade de sobrevivência espiritu al da humanidade num mundo onde todas as opções ideológicas díspares e antagônicas se unir am num pacto entre inimigos para varrer da face da Terra o legado das antigas re ligiões pelo menos das três grandes religiões do grupo abrahâmico , de cujo crédito essas deologias se alimentam parasitariamente. A total laicização do Estado imperial troux e consigo a laicização de todos os conflitos, o rebaixamento de todas as religiões e d e todos os valores civilizacionais, a degradação de todos os motivos pelos quais os homens vivem e morrem. Quem enxerga, hoje, que um século de conflito entre sociali smo e capitalismo terminou pela ascensão do Império mundial onde elementos socialist as e capitalistas foram absorvidos e superados na ideologia do Estado leigo, com preende que o fim do dualismo ideológico, sendo uma realidade, não tem efetivamente o sentido que lhe deu Daniel Bell, mas sim o da entronização de uma espécie de super-i deologia a “metade desvitalizada” do corpo cristão que não encontra concorrentes hoje no mundo senão outras duas antigas religiões igualmente desespiritualizadas e rebaixad as à condição de ideologias. Os intelectuais, é claro, em geral não enxergam as coisas nes sa escala, mas insistem em espremer tudo no estreito quadro de referências a que s

e habituaram em um século de guerra ideológica. Não vêem, assim, outras opções senão restaura artificialmente os velhos conflitos ideológicos, numa espécie de fúria regressiva que se obstina em não reconhecer a passagem do tempo, ou então festejar sob o enganoso nome de “fim das ideologias” a vitória de uma delas, sem perceber que, ao derrotar seu inimigo soviético, o Império ascende à condição de único portador do cetro supremo de laici zador do mundo, despindo-se de todos os escrúpulos religiosos que a luta contra o comunismo o obrigava a conservar. O fato é que, sepultado o comunismo, os Estados Unidos voltam a ser a sede central da Revolução mundial, tal

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 189

como no século XVIII foram seu berço. E o herdeiro nominal da tradição cristã assume sua i dentidade pós-cristã, ou anticristã, precisamente no momento em que as outras duas gra ndes religiões vizinhas se encontram também desvitalizadas, laicizadas e cortadas de suas fontes espirituais. Pela primeira vez na história do mundo a humanidade vive o perigo de uma ruptura completa com o Espírito, de uma total imersão no “historicism o absoluto”, de um total fechamento da porta dos céus. Em face desse perigo, é preciso que, no novo quadro mundial, cada homem empenhado na defesa do Espírito, reconhec endo a mundialização do Império como um fato, e mesmo parcialmente como um bem no sent ido de que afinal a democracia preserva algumas liberdades nominais que em si são preciosas para a subsistência do ser humano pensante , mantenha afiado o sentido crít ico e saiba exigir do Império aquilo que se deve exigir de toda organização social e p olítica: que sirva ao sentido da vida, em vez de usurpá-lo numa nova idolatria. Isto significa, rigorosamente, abster-se de qualquer tomada de posição ideológica (seja no sentido de uma restauração saudosista do dualismo, seja no da celebração do novo quadro uniideológico), e oferecer sistemática resistência à noção mesma inerente a todas as ideol gias de que algum regime político, bom ou ruim, deva ter sobre as almas humanas um a autoridade espiritual comparável à de uma tradição religiosa. Para mim, pessoalmente, não faz tanta diferença, sob esse aspecto, que a organização da sociedade seja socialdem ocrática, neoliberal, que seja mesmo fascista ou comunista: havendo liberdade, des frutarei dela com prazer e, na tirania, ficarei grato pela oportunidade de ser úti l de algum m odo na luta contra o tirano. As duas hipóteses só diferem do ponto de v ista do conforto físico: para a realização do sentido da vida, uma vale tanto quanto a outra, e na verdade os regimes piores fazem às vezes brotar as melhores qualidade s humanas, prontas a dissolver-se tão logo restauradas a ordem e a liberdade (a es querda nacional sob a ditadura deu-nos a melhor prova disto). O reino do Espírito, que pretendo habitar, não é deste mundo, e ele é a única coisa necessária, a única que faz com que a vida seja digna de ser vivida. Todo ideal social, econômico, jurídico ou p olítico, por mais estapafúrdio que seja, é digno de ser defendido por quem creia nele, desde que não caia no propter vitam vivendi perdere causas. Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como

intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grande tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, t odo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.

Os neoliberais têm toda a razão em apontar os Estados Unidos como um exemplo de que a democracia capitalista é para dizer o mínimo o menos inviável dos sistemas políticos. Mas os méritos do sistema norte-americano não são devidos à idéia democrática enquanto tal, nem muito menos ao capitalismo como tal, mas ao fato de que uma e outro, para ab sorver e neutralizar hegelianamente o cristianismo na nova sociedade que geraram , tiveram de cristianizar-se ao menos em parte. Os valores cristãos, profundamente arraigados na mentalidade popular, serviram constantemente de balizas que limit avam e disciplinavam os movimentos do Estado e do mercado, dando um sentido ético e até espiritual ao que por si não tem nenhum; e, como o discurso político era fatalme nte interpretado e julgado em função desses valores, mesmo o p olítico que não acreditas se neles, mesmo o maçom de estrita observância, tinha de proceder exteriormente como cristão. Com extrema freqüência acabava por vigorar na prática o princípio católico “age c se tivesses fé e a fé te será dada” , e o cristianismo de mera pose acabava por dar aos atos políticos um sentido e um efeito cristãos de pleno direito. O exemplo mais cara cterístico é Abraham Lincoln. Esse homem destituído de qualquer crença íntima num Deus pes soal, esse devoto do Estado norte-americano que a seus olhos era a incorporação viva do fatalismo histórico conduzido pela Providência anônima de um deus iluminista, era no entanto assíduo leitor da Bíblia. Mas ao mesmo tempo esse self made man que incen tivava a difusão da lenda de sua falta de instrução era um erudito às antigas, um conhec

Ele lia a Bíblia c omo retórico.edor profundo da retórica de Cícero. Quintiliano. Hamilton e Burke. mas imitava das falas dos pre- . em busca de material e inspiração e não apenas recheava seus discursos de citações bíblicas.

João Crisóstomo. largadas a si mesmas. 17 ss. que cobra das almas uma pureza utópica só para poder mais facilmente precipitá-las no abismo da auto-acusação exibicionista265. já traziam o cristianismo no sangue. fatal que as idéias democráticas recebessem espontaneame nte uma interpretação cristã.. confirmando a definição weberiana da História. São Paulo. e. lei e ordem. cit.190 OLAVO DE CARVALHO gadores religiosos muito do pathos característico que distingue a sua oratória e faz dela uma das mais poderosas da língua inglesa. Ao mesmo tempo. alardeando até mesmo p ecados fictícios. o esplêndido ensaio de Edmund Wilson. um sentido e uma proteção sem os quais não poderiam sobreviver por muito tem po sem decaírem ao estado de “ficções jurídicas”. ao mesmo tempo que realizava sua meta suprem a de preservar a unidade do Estado providencial. passan do por cima das intenções subjetivas do indivíduo Abraham Lincoln. liberdade de imprensa etc. Daí também dois fatos da maior importância. Era. José Paulo Paes. Deus é menos exigente com o homem do que o dogma do sincerismo m oderno espécie de hipocrisia às avessas. O Estado democrático só consegue revestir-s e uma aura de prestígio religioso na medida em que cede e cede muito à influência da r eligião. hostil a todo progr esso que não obstante as beneficia materialmente. as coisas parecem equacionar-se de . e como um exemplo de político inspirado em ideais cristãos: o sac erdote de César tornou-se um apóstolo de Cristo 264 mais um resultado impremeditado. seguindo a linha fatal dessas conseqüências. acabou por entrar para a História como o libertador dos escravos. seleção e pre fácio de Paulo Francis. O resultado foi que o povo. Segundo fato: à medida que. Muito antes dos modernos estudos sobre “religião civil”. perde autoridade e legitimidade. trad. op. assumem logo as figuras inconciliáveis e eternamente hostis de Leviatã e Beemoth. contradições que a cultur a cristã atenuava. pois descendiam do primeiro povo c ristão da Europa. 1991. sentindo-se expulsas da terra que lhes fora pr ometida. gerada por uma casta sacerdotal. as forças cristãs. assim. 265 Foi Jean-Jacques Rousseau informa-nos Paul Johnson. subentendendo que esse fundo cristão lhe dava uma unidade. deu às suas palavras e atos um sentido cristão. Primeiro. ele repete nisto o ciclo eterno da casta governante que. em Onze Ensaios. tão logo se livra da religião. é notório que o credo american o democracia. que inaugurou a moda de tomar o exibicionismo por sinceridade. Fr iedrich Karl von Savigny já havia percebido que todas as legislações do mundo moderno eram expressões de valores cristãos. amortecendo-lhes o impacto contra o fundo acolchoado de uma coe rência ética que dava um sentido de unidade e universalidade às correntes diversas as quais. No caso norte-americano. move desde dentro. patenteiam-se também as contradições do sistema político. o lado irrac ional de uma democracia que ao mesmo tempo expande ilimitadamente os direitos do s cidadãos e os submete à vigilância opressiva da burocracia jurídica onipresente e os m anipula por mil e um artifícios de controle social científico. a sociedade s e descristianiza. voto. se rebela em seguida contra o seu criador. Aí é que se vê a sabedoria do conselho de S. que à me ida que o Estado se desmascara e manifesta aos olhos da sociedade o intuito laic izante que o 264 V. e Lincoln. onde uma elite de céticos e inimigos da fé governa a ma ior população cristã do mundo. cujo destino lhe interessava tão pouco quanto a s alvação da própria alma. O conflito interno da consciência protestante que inspira o capitalismo e depois reage com violência às inevitáveis cons eqüências político-sociais do progresso capitalista é um Leitmotiv da história americana. só aos poucos e graças a esforços prodigiosos de gerações de propagandistas se disseminou entre populações que. para enfim se precipitar num abismo d e erros e loucuras. “Abraham Lincoln”. tendem a refugiar-se num fundamentalismo rancoroso. pp. e as profundezas do nosso coração só Deus conhece. de que ma is importa confessar Cristo com a boca do que com o coração: porque a boca está sob o nosso comando. mu ito antes. o que terminou por fazer dos Estados Unidos essa contrad ição viva: um Estado leigo maçônico. Exemplos similares poderiam multiplica r-se indefinidamente: a hipocrisia que se reveste do manto de Cristo cristianiza -se de algum modo. Companhia das Letras.

secreto ou discreto. Mas e este é o pivô do drama a Maçonaria só exerce uma parte das atribuições de uma c a sacerdotal: ela é o esoterismo.maneira um tanto diferente. Daí entendemos que a ascensão do . ao passo que. que molda a mentalidade da elite intelectual e governante. e sim maçôni ca. pela influên cia do clero cristão católico ou protestante. a alma do povo continua a ser formada. na medida em que a casta sacerdotal não é cristã. o rito interior. hoje como sempre. no reino exterior ou exotérico.

mas. fazem brotar de novo e de novo os conflitos mais bárbaros e as contrad ições mais insolúveis. ideológicos. onde os únicos antagonismos reais que existem são os conflitos de classe 266. na escala dos fatos históricos. Na história. O perfil de uma determinada sociedade. mas não é capaz de dar a esses valores e princípios. são forças autônomas. malgrado todos os esforços humanos. põe à mostra suas próprias fraquezas e contradições Ele prega. ele se assume como independen te do cristianismo e. para não dizer fantasista. o que se vê é o entrechoque entre esse impulso e as tr emendas forças de divisão e decomposição a começar pelo fato mesmo da morte que se opõem manentemente ao esforço unificador humano e. Repito o que disse lá atrás: a síntese dialética só existe no reino das idéias. muitas das grandes mudanças não advêm de nenhuma síntese de elementos anteriores. e 266 Concepção que encontra sua expressão mais plena em Gramsci. a concepção da sociedade como m bloco mais ou menos homogêneo de economia. não uma lei histórica. que o homem tem o direito de cul tuar Deus à maneira de sua religião. por exemplo. na medida em que. uma força de subsistência autônoma: a vitória da elite maçônica traz em si os germes de sua própria destruição. os princípios religiosos a que a idéia democrática deve toda a sua substância. menos coerência. mas que com ou sem Gramsci anda disseminada pelas cabeças de quase todos os pensadores sociais e políticos des ta parte do mundo. interna. tomada num momento qualquer do seu dese nvolvimento histórico. contanto que consintam em perder toda importância vital e em tornar-se adornos t urísticos para embelezar a cultura maçônicodemocrática. Ao contrário: religião e economia. em nome da democracia. mesmo separados por séculos de d esenvolvimento econômico desigual e por abismos de diferenças culturais e psicológicas . precisamente pela mesma razão que permitiu a Abraham Lincoln passar em públic o por grande líder cristão: pela razão de que seus intuitos ( em si mesmo nem cristãos n em anticristãos. no seio mesmo da mais organizada das sociedades. política. Estas palavras expressam minha convi cção de que é puramente ideológica. da mente do indivíduo human o. desde que privad os da seiva cristã que os alimenta. senão essas caricat uras de paraíso que recebem o nome de utopias. a dinâmica que marcará a história dessa sociedade. na mesma proporção. precisamente. da mente humana. isto para nada dizer da possibili dade de transplantar uma religião de um país a outro. ideologia. ao mesmo tempo que ensina nas escolas que ela não é senão o resultado fortuito de um a combinação de átomos. menos credibilidade e menos funcionalidade têm os valores democráticos em nome dos quais essa elite chegou ao poder e governa. que a liberdade sexual é um direito inalienável.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 191 governo maçônico se prevalece do prestígio cristão anexado de fora aos valores e princípio s da democracia. que a formam podem ser heterogêneo s por sua origem e continuar heterogêneos e conflitantes de seu conflito resultand o. A heterogeneidade essencial das força s que compunham o ideal americano maçonismo e cristianismo pôde ser ocultada por um tempo. quanto mais se laiciza a sociedade. digamos assim. mas os elementos religiosos. remetendo a unidade à esfera que lhe é própria: a esfera do ideal e d o extramundano a que não correspondem. por exemplo. etnológicos etc. contanto que os homossexuais não pratiquem sodomia e os heterossexuais não façam propostas eróti . que as diferentes culturas devem ser preservadas em sua pureza . extracristãos) foram aceitos na medida em que o povo os interpretava como cristãos e acabava por cristianizá-los. cultura e “senso com um”. que devemos respeitar a vida humana como um bem sagrado . O menos inviável dos regimes terminará por inviabilizar-se quando terminar de corroe r. O impulso para a síntese que é uma das fontes do empenho civilizatório em ger al é uma exigência constitutiva. fundamentalmente inalteradas em seus dogmas a despeito de todas as mudanças econômicas. mas pr ecisamente da impossibilidade de sintetizá-los na prática. Anexado de fora. no plano político-ideológico. Na medida em que o ideal maçônico do Estado leigo democrático se realiza. contanto que coloque acima desse Deus as leis e instituições do Estado leigo. disse eu. só constitui um bloco para fins de hipótese metodológica. como o prova o fato de que as religiões podem subsistir por milênios.

M uitos analistas do fenômeno americano já estão se dando conta de que a democracia depe nde de que existam no povo certas virtudes que ela não criou nem pode criar. mas q ue recebeu prontas da civilização cristã e que não sobrevivem à . numa permanente estimulação contraditória que está na raiz da violência e da loucura que hoje marcam a sociedade americana e todas as s ociedades que se colocaram sob a órbita da influência ideológica da Revolução Americana. e assim por diante.cas às mulheres.

ou antes. S.192 OLAVO DE CARVALHO descristianização da sociedade 267. ele será sempr e o poder de César. sendo a expressão da ideologia de um grupo vencedor. que o antecedem. mas reside naqueles homens em que se manifesta de maneira patente o es pírito mesmo da religião . Se hoje não podemos desistir nem do Estado democrático nem do fundo cristão sem o qual ele perde todo sentido e se transforma no neototalitarismo do “politicamente correto”. uma impressão recebi da pela sociedade desde fora ou desde cima. Schelling. a t odas as constituições políticas. com uma propensão incoercível a autodivinizar-se. V. porque a unid ade da ética leiga reside na interpretação religiosa que dela se faça. en quanto não percebermos que ela pode ser precisamente o contrário. sociedades e constituições políticas. enquanto não compreendermos mesmo a lição de Schelling 268. 2 vols. Jankélevitch. Friedrich-W. Introduction à la Philosophie de la Mythologie. católico ou protestante. é a instância superior onde se arbitram todos os co nflitos entre facções. não poden do ser mudada por arbítrio humano. Christopher Lasch. como disse São Paulo Apóstolo. meio sociologista. ou praticamente todas já deram provas de poder adaptar-se a todas as culturas. porque a lei religiosa. frequentando o culto do minical. cuspe e respingos de cerveja. na madrugada que se segue a um comíc io. monárquico ou republicano. socialdemocrata ou neoliberal. Paris. o poder é o único juiz. Democrático ou oligárquico. é sempre um juiz parcial na hora de julgar os vencidos. pode oferecer uma resistência eficaz ao crescimento ilimitado do poder político mesmo e sobretudo daquele exercido em n ome de pretextos religiosos. que arrasta os impérios e as nações como o vento arrasta pelas ruas desertas. Mesmo e sobretudo. compreendida como portadora simbólica de verdades universais e valores objetivos. Na ausência da autoridade espiritual que não se confunde de maneira alguma com as hierarquias de nenhuma burocracia ec lesiástica. É ainda nos Esta269 V. é porque elas 267 268 existem e vigoram num plano de universalidade superior ao de todas as culturas.. talvez. É porque. ao passo que toda legislação po lítica. nenhum programa político pode ter a universalidad e e a abrangência de uma religião nem muito menos o seu poder unificante e doador de sentido. a todas as sociedades. que nel a se projete. isto mostra o que foi dito parágrafos acima.. E enquanto não com preendermos essas coisas continuaremos a apostar neste ou naquele sistema político . 19 . que a ruptura entre Maçona ria e Cristianismo está na raiz da tragédia contemporânea. comunista ou apitalista. que algumas das reações mais vigorosas à cultura anti-espiritual do no vo Império brotam de dentro dos próprios Estados Unidos. Também é preciso reconhecer. E enquanto não absorvermos essa lição. Aubier. passim. O lance de dados em que os poderes deste mundo partilham o manto de Cr isto não abolirá jamais o movimento imprevisível do Espírito. segundo a qual são os mitos e as religiões que estatuem o campo po ssibilitador dentro do qual se erigem as formas sociais. o homem espir itual julga a todos e não é julgado senão por Deus. cit. vivificada pela presença da autoridade espiritual e firmada em valores q ue antecedem de muito o nascimento desse sistema e o da própria sociedade que ele governa. em contrapartida. apesar de toda a antiespiritualidade dominante. culturais e políticas. Nenhuma ideologia. também não aprenderemos a de Bertrand de Jouvenel. trad. meio marxista. não compreenderemos o que se passa hoje no Império americano e no nosso próprio quintal. Metade da população americana c ontinua. não enxergando que os méritos de qualquer sistema político dependem essencialmente d e que ele saiba respeitar os limites que lhe são impostos pela consciência religiosa do povo. Por toda parte o que se vê é o completo fracasso da tentativa de superar por uma ética leiga as antigas éticas religiosas. os farrapos de papel com as caretas bisonhas dos demagogos tingidas de lodo. op. de que a religião é uma expressão da sociedade. sejam elas religiosas ou políticas. Se as religiões todas elas. segundo a qual a religião e somente a religião. Enquanto estivermos contaminados pelo preconceito . e se por outro lado a dinâmica anticristã do Estado leigo parece uma fatalidade inerente à constituição mesma do novo Império. o que já basta para por em dúvida a onipotência da nov a cultura 269. desde a eternidade.

segundo diz Christopher La sch: “A quantidade de pessoas que professam a crença em um Deus pessoal. em comparação com outras nações industriais. de alguma forma. A vida pública está totalmente secularizada.45. pertencem a uma denominação religiosa e assistem ao serviço com alguma regularidade continua nota damente alto. têm conseguido escapar às influências secularizan tes que modificaram a paisagem cultural em outras partes do mundo. A aparência eng ana. Mas esse fato também deve ser interpretado com prudência. entretanto. Esta evidência pode sugerir que os Estados Unidos. A separação da igreja e do .

op. Crossroad. Mas. é uma das características das cla sses cultas. s em saber que se trata. não obstante.. e aos escribas. 2e. ção. eles não sabem o que fazem. De l’Unité Transcendante des Réligions. 1979. cit. que só servem para gerar desc onfiança entre os crentes das várias religiões e fomentar. . finalmente. sob disfarces variados. A atitude das elites no que se refere à religião vai da i ndiferença à hostilidade” ( Christopher Lasch. do Jardim das Aflições. e crucificado. A religião foi relegada às vias secundárias do d ebate público. e Seyyed Hossein Nasr. 1981.. pela divisão. The Gifford Lectures. New York. mas nem imaginam quem fala por sua boca. o ateísmo oficial do Império. Fascinam a platéia. é triste verdade que muito dessa resistência se inspira no apego a exclusivismos religiosos de cunho fundamentalista. “o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes. a essência mesma do culto imperial? Não. está mais profundamente arraigada na América do que em qualquer outro lugar do mundo. Um estado mental cético. 247-248 grifos meus ). Le Seuil.. No fundo de sua aparência erudita. profundamente influe nciada pelo pensamento de Frithjof Schuon. ainda subsiste a contradição entre Império e nação — contradição em q o leitor não terá dificuldade de reconhecer um resíduo da ideologia dos impérios colonia is. den tro do corpo americano.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 193 dos Unidos que se encontra hoje o mais poderoso núcleo de resistência ao avanço do ateís mo oficial — o que abrange desde as comunidades que se organizam contra a lei do a borto até a elite espiritual concentrada em torno de figuras como Seyyed Hossein N asr — exilado iraniano —. são incultos. éd.. O seu compromisso com a cultura da crítica é entendido como a eliminação do s compromissos religiosos. prisioneiros de mitos que constituem. homem espiritual de primeiro plano e inventor do único método válido já concebido para a comparação e aproximação das religiões 27 s é ainda verdade. novamente. que muito da resistência espiritual norteamericana se perde em histerismos ultraconservadores e em arreganhos nacionalistas — às vezes va gamente fascistas — que não têm nenhum sentido no novo quadro a não ser mostrar que. que o condenarão à mor te. Antônio Pereira de Figueiredo ). quanto mais não o farão os intelectuais progressistas do Terceiro Mundo. hoje interpretada como proibição de se recon hecer publicamente qualquer religião.. na verdade. E lá. Knowledge and the Sacred. São cegos e ingênuos no fundo de uma casca de vaidade e presunestado. por apego a preconceitos qu e os cegam. mas ao terceiro dia ressurgirá” 271. Os próceres da reforma intelectual b rasileira querem guiar o povo sem saber quem os guia. Huston Smith. 27 0 V. 198 1. pp. Victor Danner e outros. despreparados e bem pouco intelige ntes. E. se até os norte-americanos conscientes do caráter anti-espiritual do novo Império terminam por servi-lo involuntariamente. 20:18-19 ( trad. Também não sabem pa ra onde levam quem os ouve: e assim arrastam o público para o Jardim das Delícias. E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido. Paris. iconoclástico. Frithjof Schuon. W 271 Mat.

mas para que nela vos enxergueis a vós mesmos e possais diant e dela confessar. que. e scribas e fariseus hipócritas. movido pela angústia ou pela voracidade. digo eu: qual de vós. o encanto das palavras acima da evidência das coisas e dos fatos? Qua l de nós não acreditou um dia que nossa repugnância pelo estado de coisas nos revestia de uma dignidade especial e nos dava um salvo-conduto para mentir. não foi igual por mais de um aspecto a esse inimigo da sabedoria? Qual de vós pode atirar-lhe pedras. está limpo de toda mácula que nele agora vêdes com os olh os claros que a contragosto meu e vosso vos dei por empréstimo? Qual de vós. deuses hediondos prosseguiam sua marcha triunfante entre nuvens de fogo. detidos a meio-cam inho por um misterioso repuxão do bom-senso ou da hipocrisia. não sabendo quem fal a por sua boca. não colocou o estetismo acima do dever moral. senhores das letras: não vos exponho o corpo macilento e desgrenhado dessa vítima para dar r epasto à vossa ironia. com grandeza trágica. Pois. qu e compõem a fórmula cerebral de um típico letrado brasileiro do período entre 1964 e 199 4. de sentimentos grosseiros e de palavreado florido. desde que fosse em nome da nossa sacrossanta indignação política? Apenas. um dia. mas que neles se repartiam em porções desiguais e de composição variada. fazendo dele um compêndio vivo dos erros da sua casta. de mitos ideológicos. lapidar o próprio peito. bebeu até o fim a taça da falsidade univer sal. num certo momento da nossa História. indiferentes à voz do boneco que repetia mecanicamente seu discurso numa ponta esquecida do Terceiro Mundo. ao menos cada qual a si . por partes e intermitentemente. crendo e fazendo c rer que ensina o caminho da sabedoria. patético e melancólico. ao meno s antes de ler este livro. O conjunto forma o retrato de um boneco de ventríloquo. ordenar e pôr em claro toda a mixórdia de erudição mal dig erida. condensaram-se na alma de José Améri co Motta Pessanha. mas como a vítima da tragédia intelectual de todo um país e de toda uma época. sem no mesmo ato cuspir na própria face. Isto fez dele o emblema das dores e da insânia de uma época. iludir. todos os mitos e ilusões a que se agarravam por desespero os intelectuais brasileiros. Eis também o motivo pelo qual é tão difícil condená-lo: ele errou em nome de todos. Eis o mo tivo da mágica atração que ele exercia precisamente sobre aqueles que menos o compreen diam. aqui exposto em toda a sua triste de formidade. e xpô-lo com descomprometida e sádica alegria ao escárnio das gerações futuras. sem outra culpa senão a da demência coletiva que a poder de aplausos e lisonjas o arrastou aos piores desvari os filosóficos.” KARL JASPERS Termina assim nossa jornada — o giro por dois milênios de História das Idéias. a paixão ideológica acima dos direitos da verdade. Não. se entreguem à consolação malévola do riso e da ironia. nós o f izemos com maior comedimento. chicotear as próprias costas? Po is eu. o poder aci ma do saber. se posta diante dos meus olhos. É horrível. ouvíamos Motta Pessanha. nem a segunda. até o patético da autovalor ização heróica. diante do ca dáver intelectual de José Américo Motta Pessanha. enquanto José Américo Mo tta Pessanha mergulhou até o fundo do erro. Qual de nós. não é? Pois bem: àqueles que. não como um crim inoso a ser escarmentado. nem a última pedra: não vejo por onde condenar aquele que. da minha parte. Isto fez dele a vítima dos que nele acreditaram. condená-lo. com uma espécie de heroísmo do auto-engano.194 OLAVO DE CARVALHO Post-scriptum LÁPIDE: DE TE FABULA NARRATUR “A soberba do homem niilista eleva-se. vos garanto: não posso. Pois enquanto nós. trap acear. dá eco à mensagem do mal e da mentira universais. na platéia do MASP. Não atiro a primeira. que nos f oi necessário para compreender.

Solidarizai-vos. na desgraça. que o aplaudistes em vida quando ele em palavras insa nas dava expressão e autoridade a vossos mais baixos sentimentos e a vossas mais a bsurdas aspirações. julho de 1995. Orai por ele. Pois seu pecado foi o de todos nós. quando ele aqui jaz. não o abandoneis agora.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 195 próprio: Eu não fui melhor. com aquele que na glória e na al egria celebrastes. por vós e por mim. desfeito em trapos o seu perfil de filósofo. . Rio. Vós.

La Societé Féodale. Alfredo. Eduardo Fra ncisco Alves. Rio.. Edit ora das Américas. BOSSY. BERDIAEV. trad. Rio. Cia. trad. Richard. al. São Paulo. 1954. Graziano. Uma Nova Percepção da Realidade. Paris. ALIGHIERI. AUBENQUE. Tricot. Paris. 1992. Convivio. 1965. BARROSO . Best Seller. 1966. Paris. A Estrutura da Magia. Londo n. História Secreta do Brasil.. propres à former l e Jugement.. . Oscar Paes Leme. trad. outre les règles communes. Paris. AUGELLI. BERTRAND. Sua G randeza e seus Limites. ARNAULD ( Antoine ) et NICOLE ( Pierre ). Pierre. Summus. A Comédia Humana. Honoré de. Sto. Les Sources et le Sens du Communisme Russe. note di Gustavo Rodolfo Ceriel lo. Paris.. Z ahar. Gallimard. Helmuth Alfredo Simon. 1969 (1ª ed . Allan. 3 vols. O Fim da Ideologia. “Que-Sais-Je?” nº 915). et commentaires J. Paris. BALZAC. Raymond. Rand McNally.. t. trad. Ediouro. 2 tomes. Tallandier. Zahar. “Hipnose é nova arma usada em roubo na Itália”. New York. 1964. Paris. 1991. 1989. BOSI . 1937. trad. Oskar. 195 8. trad. Vu de Droite. La Liberté pour Quoi Faire?. Paris. Da Cr ise da Universidade à Crise da Sociedade. Dante. BLOCH. ARRIGHETTI. em P ARAIN. The Autobiography of John Bennett. Jacques Truchet. et. 1946-1959. Os Estados Unidos no Mundo do PósGuerra. t. Paris. J. Giordano Bruno e o Mistério da Embaixada. em P ARAIN. Sérgio Bath. São Paulo. Rio. O Espírito de Dostoiévski. Éditions Copern ic.). Rio. Histoire de la Philosophie (v. Paris. O Pensamento Matemático. Paulo. Garnier-Flammari on. BOSSUET . conten ant.196 OLAVO DE CARVALHO BIBLIOGRAFIA AGOSTINHO. Marc. P. Milano. Turnstone Books. Alain de. BECKER. André. Editora Nacional. e GRINDER. Mohammed . ARON. Porto Alegre. 1977. C ivilisation Grecque. Beauchesne. 1980. ARISTOTE. Louis. ANGLE. Editora da Universidade d e Brasília. La Logique ou l’Art de Penser. São Paulo. 1971. Discours sur l’Histoire Universelle. 9 de dezembro de 1990. I. 1950. 1977. Panamericana BERNANOS. Nicolai. 1931). La Science des Symboles. Brice (sous la dir ection de). La Pensée Arabe. Edilson Alkmin Cunha. Vrin. 17 vols. trad. Org.F. John.U.. Payot. Flammarion. 1952. Paris.. BENNETT. The American Reader. São Paulo. . BONNARD. plusieurs observations nouvelles. P aul M. Les M onsultation Islamo-Chrétienne. . ed. Contribution à l’Étude des Principes et des Méthodes de la Symbolique Générale. São Paulo. 1993. Louis Marin. Jacques Bénigne.. Marielza. 1975. trad. 1953. BENOIST . A Cidade de Deus. República Imp erial.. 1938). John. Brasília. Otto Schneider..). Aristote et le Lycée. Paris. 3 vols. Herder. 2 vols. São Paulo.. Lou V. David. BLOOM . John. 1979 (Coll. Gallimard. “Épicure et son École”. Histoire de la Philosophie (v . Companhia das Letras. 1929. Mauro Campos da Silva. 1982. trad. Albi n Michel. BANDLER. Paulo Róna i. I. D ialética da Colonização. La Guilde du Livre. Programação Neurolinguístic ourão Netto. Witness. 1986. Raul Bezerra Pedr eira Filho. Paris. 1992. 1968 (1ª ed. Globo. ARKOUN. trad. From Columbus to Today. René. ALLEAU. Introd. O Declínio da Cultura Ocidental. Sapos em Príncipes. A Totalidade e a Ordem Implicada. 1970. 1975. O Estado de S. . Cultrix. La Métaphysiqu e. Gustavo. João Alves dos Santos. Daniel. La Grande Peur des Bien-Pensants. BELL . Brice (sous la direction de). Rizzoli. Georges. 3 vols. BOHM . Gallimard.

trad. Globo. Joseph Ep es. B. .U. 1942. . São Paulo... . Bern. São Paulo. . São Paulo. São Paulo. Milano. “Les Introuvables ”). Archè. . Pierre. trad. 1979. CHAUÍ. Hacker. Les Années d’Apprentissage de Wilhelm Meister. Ricardo de la. Técnicas de Persuasão.. Edwin A. CARVALHO. essa Nossa Velha (D es)conhecida. ed. Fritjof. Histoire de la Philosophi e. e MAZLISCH.. Conor Cruise O’Brien. Rio. A. 1984. James. The Prophet of Peace. An Inquiry into its Growth and Origin. BROWN . 1953. 1988. John. Companhia das Letras. 1993. Robert Laffont. 1965. 1970. Ess concerning the Symbolical Interpretation of the Life of the Prophet Muhammad. J. La Histor ia de la Iglesia jamás Contada. Wittgenstein e Frankenstein. BRYCE. 1983. . 2ª ed. . Manuscrito inédito. Marilena. Madrid. La F lûte Enchantée. Nova Stella.F. Seminarium: Páginas de um Diário Filosófico. Rio. Da Propagand a à Lavagem Cerebral. Rio. 1982. von Goethe. Harmondsworth. 7 vols. trad. fac-similar. 8 vols. J. Middlesex. ). BRÉHIER. BRION. Z bigniew. BURCKHARDT. CHAILLEY. Col. BRONOWSKI. P aris. João Marques Bent es. CAPRA. The Viking Press. Émile.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 197 BOYER. Manuscrito inédito. Rio. Gertrude Stein. a Sociedade e a Cultura Emergen te. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura. A Comunidade Americana. BURY. Walter Pontes. História da Literatur al. Reinventando o U niverso. A Cinza do Purgatório. O Cruzeiro. P. BROCKMA N. Bompastor. 2 vols . Penguin Books. Paris. Jean-François. Paris. Bruce. Cultrix. : Atualidades Inculturais Brasileiras. CARPEAUX. 1984. trad. Marcel. The Sa University of Oklahoma Press. Ciencia Moderna y Sabiduría Tradicional.. Bordas. New York. Octávio Alves Velho. Ensaios. C. Brasiliense. Intro ria dos Quatro Discursos. Laffont.. trad. New York. Otto Maria. Russel. Álvaro Cabral. 1988. and WILSON. The spiritual legacy of the American Indian. Tard. Fénix. Clé Spirituelle de l’Astrologie Musulm Mohyiddin Ibn-Arabi. 1964. Las Puertas del Infierno. A Ciência. 1941 . Paris. trad. Lisboa. Taurus.. 1979. Repressão Sexual. Yus uf. . Jakob. IAL & Stella Caymmi. em IBISH . Titus. Rio. O Império Moon. Weltgeschichtliche Betrachtungen. Olavo de. Reflections on the Revolu tion in France and the Proceedings in Certain Societies in London Relative to th at Event. J. Louis M. 1968 (Ed. Jordi Quingles y Alejandro Corniero. Compreendendo a Nova Era. Jacques. 1988. M anuscrito inédito. trad. Peter Lamborn. As Bases Metafísicas da Ciência Moderna. Joaquim João Braga Coel ho Rosa. Edições 70.-W. André Meyer. Verlag Hallwag. Alhambra. A Tradição Intelectual do Ocidente. Os Bastidores de uma Seita Impiedosa. 1963. 1978 BURKE. ed. 1959. Dover . Casa do Estudante do Brasil. O Ponto de Mutação. 1995. Opéra Maçonnique. Brasília. IAL & Stella Caymmi. BURTT. Zahar. The Idea of Progress. A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & A amsci. Einstein. An tonia Alves de Oliveira. trad. 1949. trad. Le Grand Déclassement. 1983. . CHANDLER. Astros e Símbolos. Rio. Traditional Modes of Contemplation and Action (v. 1994. Editora da Universidade de Brasília. Pendle Hill. BRZEZINSKI. 1978-1987. CIERVA . “Modes of contemplation through actions: North American Indians”. America’s Role in the Technotronic Era. BURCKHARDT. CHAUNU. Madrid. Ruy Jungmann. Rio. José Viegas Filho e Or lando Araújo Henriques. 1994. BROWN . “Préface” a J. Edmund. São Paulo. 1955. .

CONRAD. Rumo a uma Sociedade Psicocivilizada. Harmondsworth. s. São Paulo. G. Image Books. Press. O Ofício de Espião. Christopher. Record. DELEUZE. José Olympio . trad. Laterza. Jo seph. The Myth of Alternative Health. DULLES. Nicolás de. e GUATTARI. 1935-1945. Hegel Secret. Stor ia d’Europa nel Secolo Decimonono. Capitalismo e Esquizofrenia. DILTHEY. 1939). COOMARASWAMY. Dois Amores. Allen. Sobre o Mistério da História. 1991. Study of Freemasonry. COLLINGWOOD. DELGAD O. Duas Cidades. 1 960. 1 COULTON. Guimarães. Félix. Middlesex. Testemunho e Análise. Aristóteles. Penguin Books. Bari. trad. Foster. . 1981. História Geral das Civilizações. José M. A Revolução Conservadora. G. .. São Paulo. A. DELGADO. Religion and the Rise of We stern Culture. DOSTOIÉVSKI. trad.. Joaq uim Clemente de Almeida Moura. Wilhelm. Rio. Rosário Fusco. translated from the French. Mythe et Épopée. 1992.. John W. Meridian Books. DAWSON. Homo Hierarchicus. Beau. M. Rosalind. 1947. Edusp. Editora Americana. Coulton. New York. DANIÉLOU. O Sistema das Cast as e suas Implicações. Univ.. Gilles. portuguesa. D’HONDT. Jim. trad. Manor and Monastery. 2 vols. Les Stromates. 1985. 1989. Rio. Introd. CROUZET . trad. Assírio & Alvim. trad.. Le Symbolis me dans la Mythologie Grecque.. Rio. São Paulo. s/d. Paris. Éditions du Cerf. Flo. Gallimard. COWARD. Lippincott. bra sileira. Rio. Buenos Aires. 4 vo s. 1982. R. . Difel. Siciliano. CONWAY. Joaquim de Carvalho. São Paulo. O Que É Civilização. Paris. E. trad. Paris. 1969. Presença. trad. 5ª ed. O Espírito Norte-Americano. New York. 1980.. 1968. 1956. Recherches sur les Sources Cachées de la Pensée de Heg el. Payot. 1931. in one. O Controle Físico do Espírito. Medieval Village. transl. Paris. Cia. Cambridge. 1981. Jacques. Gustavo. . 1984.. Rio. Cultrix. trad. e notas Ma nuel Fuentes Benot. Uma Interpretação do Pensamento e do Caráter Norte-America nos desde a Década de 1880. Faber and Faber. Fondo de Cultura Económica. O P araíso Sexual-Democrata. CRISTALDO. Lisboa. & SIEGELMAN.. 1966. Rio. E . G. Alberto Freire. Louis. 1968-1973. Janer. 3 vols. New York. Madrid. Henry Steele . 1956. 1965 (1ª ed.F. 1978. Ananda K. Harper & Row. 1972. Raul de Sá Ba rbosa. 1957 (várias reedições). Paul. trad. 1992.. pref. Herder.). 1960. Carlos Alberto da Fonseca. Joana Morais Var ela e Manuel Maria Carrilho. P. and annotated by G. 1954. Félix. Hombre y Mu ndo en los Siglos XVI y XVII. DIEL. To pbooks. En Islam Iranien.. DUMONT . R. CORÇÃO. Claude Mondésert. São Paulo. Snapping. F. 17 vol s. Pa ris. America’s Epidemic of Sudden Personality Changes . O Século do Nada. 4 vols. Aspec ts Spirituels et Philosophiques. j. Card. iva. Lisboa. New York. CUSA . Gallimard. 1971. Aguilar. The Making of Europ duction to the History of European Unity. Civilização Brasile ira. London.U. De la Cultura y sus Artifices. The Whole Truth.. . selected. 1876. New York. trad. São Paulo. Benedetto. 2 vols. Mau rice (org. trad. DUMÉZIL. Leibniz e a sua Época. Smith Caldas. DUPANL OUP... O Anti-Édipo. A Idéia de H istória. Agir. 1961. s/d. Pedro Moacyr Campos et al. O Comunismo no Brasil. J. Jorge Fortes. 2ª ed. CROCE. Lisboa. et notes Mar cel Caster. CORBIN.. Nova Fronteira. Rio. Henry. Under Western Eyes. México. 1960. COMMAGER . Georges. s/d. trad.198 OLAVO DE CARVALHO CLÉMENT D’ALÉXANDRIE.. DRUM MOND . Jean. G. trad. Mons. Crime e Castigo. Life in the Middle Ages. Honorio. La Docta Ignorancia. Kene k Books. Aguilar. Eugenio Ímaz. DULLES. trad.

University Press. FRIEDRICH. Teoria da Dissonância Cognitiva. Paris. Hans Magnus. maio 1955. 1977. 1968. GAXOTTE. & INFELD . Dell Books. P e. Rio. Rio. Tratado de História das Religiões. Rio. Octanny S. A Short Cour se in the Secret War. Mons. Rio. John Hay ward. trad. Ensaios sobre Literatura. pp. ENZENSBERGER. trad. trad. S. J. Gilbert. Paris. GEISER. Cosmos. L es Phénomènes Mistiques Distingués de leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques. Discours à l a Nation Allemande. trad. réed. Agir. Zahar. v. B rill et al. 1978. Lisboa. Albert. Fayard. Paris. 1980. Science de l’Homme et Tradition. FOUCAULT . Paris.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 199 DURAND. Al fred. 1961. J. António Carlos Carvalho. trad. ELIADE. Rio. J. Julius. Prisões Manipulando e Pr ogramando as Pessoas para o “Bem”. FARIA. Álvaro Cabral. Vrin. Selected Prose. “Sufi sm and pseudo-sufism”. ELWELL-SUTTON . O Direito como Instrumento de Transformação Social. Philippe le Bel. Carl J. EINST EIN. Perspecti va Histórica da Filosofia do Direito. GILSON. 1990. Carlos Evaristo M. FERGUSON. Rio. Une gie des Sciences Humaines.. W. 1891. Modi ficação do Comportamento e Sociedade Controlada. 5 vols. Gallimard. GARCÍA GUAL. Zahar. Aristóteles. 1957). Paz e Terra. Lya Luft. 1965. A rmand Colin. Zahar. Zahar. Gallimard. Harmondswordth. trad. FUNK. trad. Hemmer. sel. Rio. Costa. 1977. Fayard. São Paulo. . 1980. Rio. São Paulo.. Encyclopædia Britannica. Arthème Fayard. Jean. Roberto Cort es de Lacerda. da M otta e Leonidas Hegenberg. Le Mythe de l’Éterner Retour. Paris. Paris. A C rise do Mundo Moderno. DÜRING. OATES. New York. transl. Christopher. Sir Arthur. Sigmund. Etienne. 1988. Giasone Rebuà. Molitor. Middlesex. Política e Colonialismo. Les Conditions de l’Esprit Scientifique.... 1944. 1977. FRANCA. 1971. História das Crenças e das Idéias Religiosas. A.). Eficácia Jurídica e Violência Sim bólica. trad. 1952. 2e.. . Gallimard. Com Raiva e Paciência. Calif. 1967. FARGES. Tête de Feuilles / Sirac. L’Esprit de la Philosophie Médievale. Companhia das Letras. ELIOT. José Eduardo. 1953.. T. . J. Penguin Books. Leon. Les Mots et les Choses. 1955. Rio. Como as Teorias de Skinner São Aplica das para Modificar o Comportamento em Escolas. EDDINGTON. 1923. Natália Fernando Tomaz. . 1985 (especialmente o ens aio “Indústria da consciência”. 4ª ed. 1928.. 77 ss. FEYERABEND. 1986. Les Demi-Dieux Meurent Aussi.. FRANCIS. trad. Zahar. Plon. Paris. The Major Works of Sigmund Freud. 1 978. Contra o Método. FABRE-LUCE. Trinta Anos esta N oite. A Evolução da Física. Leonel. Robert L. Hospitais. Archétyp Répétition. 1975 (original: A Theory of Cognitive Dissonance. Wolfgang Bader. Mons. O Mistério do Graal. Alianza Editorial. S. FOURASTIÉ. EPICURO. 1920.. Paris. Civilização sileira. EVOLA . FELIX.. FREUD. Leopold. trad. éd. 1978. . Albert. Epicuro. FICHTE. 1978-1979. Michel. 1966. 1966. Pierre. Paris. Marilyn.-G. Exposición y Interpretación de su Pensamiento. Francisco Alves. Madrid. ed. 2 vols. trad. 1977. 1969. 1994. FESTINGER. Rec ord. Jean. Maison de la Bonne Presse. Eduardo Almeida . Universidad Nacional Autónoma. Áurea Weissenberg. A. Gifford Lectures. FAVI ER. Hi stoire de la Folie à l’Âge Classique. Bernabé Navarro. L a Révolution Française. P. Paris. Paul. M ons. trad. O Afeto que se Encerra. Carlos. L. The University of Michigan Press. Edusp. Ingemar. Costes. Chicago. 1985. México. Mircea. Encounter (Londres). trad. T he Philosophy of Physical Science. Stanford. A Conspiração Aquariana. Paris. Paris. Lisboa. Vega. Rio. Histoire de l’Église. e int rod. Paulo..

Gallimard. Harper. 1963. HEGEL. ORF. Jud ith Martins. Houston. HAZARD. 1967.200 OLAVO DE CARVALHO GOETHE. Alexandre. 1959. trad. 1972. Milano. II). Liberty and Peace. Neil. Gallimard. Carlos Nelson Coutinho. americana. M. a cura di Walter Biemel. Paris. New York. Aperçus sur l’Ésotérisme Chrétien.. Enrico Filippini. BAC. trad. Propedêutica Filosófica. Um Capitalis ta em Moscou. p. s/d. 1978. História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal. Carlos Nelson Coutinho. History and Histori ans in the Nineteenth Century. trad. Éclipse de la Raison. René. Yusuf. 1961.. 4ª ed. Alianza Editorial. I mperial Iranian Academy of Philosophy. Sibree. 71. 1954. HOBBES. J . trad. Paris. trad. . Matter. 1989. trad. Thomas. HERCULANO. 1945 (várias reedições). La Crisi delle Scienze Europee e la Fenomenologia Trasc ndentale. Manuel García Morente y José Gaos. trad. 1974. trad. Investigaciones Logic as. Homero Silveira. Jac ques Debouzy. transl. 1989. ISH . Ar Lisboa. Werner. Armand. New York . Mainsprings of Civilization. HAMMER . . trad. Il Saggiatore. vol. trad. P. . Paris. 1970. São Paulo. Paul. Eric. História da Filosofia Cont emporânea. Éditio itionelles. 1959. . 1947. . Paris Éditions de Minuit. Hemus. New York. Rio. Edmund. HIRSCHBERGER. Paris.. Men and Ideas. Regresso ao Admirável Mundo Novo. O Despertar do Mundo Novo. Goethes Werke. . GUÉNON. Johann Wolfgang von. Herausgegeber und Verfass er: Gerhard Stenzel. São Paulo. La Grande Triade. t rad. Salzburg. 2 vols. 1946. P. Civilização Brasileira. 1969. Alexandre Correia. Wol fgang Strobl y Luís Pelayo. L ats Multiples de l’Être. 3 vols. . F. 1975 (ed. Tehran. Éditions Traditionelles. 1929 (ree d. Paris. . 1953. Science. Paris. Ellsworth. Bergland. in 2 Bänden. . trad. Eduardo Fonseca. and WILSON. 1932. Form. trad. São Paulo. Suzanne Ba chelard. Éssai d’une Critique de la Raison Logique. Peter Lamborn (edited by). Revista de Occidente. Max. Payot. O Intelectual e as Massas. HUNTINGTON. Coimbra. James S. Encyclopædia Britannica. Lidador. G. Alberto Magno de Queiroz e Jusmar Gomes. Encounters and Conversations. Lisboa. Georg W. Traditional Modes of Contemp lation and Action. A Colloquium held at Rothko Chapel... Franck et al. trad. HUXLEY. 1952. HEISENBERG. GRAMSCI. Meridian Books. Best Selle r. Edições 70. Rio. transl. Véga. GOOCH. Logique Formelle Logique Transcendantale. and Power of a Commonwealth Ecclesiastical and Civil. New York. HORKHEIMER. Manuel Vieira.F. Beacon Press. Payot. Harper & Row. Leviath an. 1957. HUIZINGA. Herder. Holmes and Hans van Marle. 1982).. 1971). Bertrand. Nas Sombras do Amanhã. 1986. s/d. 1952. São Paulo. John Wiley and Sons. Civilização Brasil ira. The Philosophy of History. Véga. Madrid. Paris. . Johan. Introduzione alla Filosofia Fenomenologica. Physics and Beyond. HUSSERL. Johannes. Madrid. Paris. Les Origines des Sciences Humaines (Les Sciences Humaines et l’Humanité Occid e. Sylvia Jatobá. trad.. 1944. Arménio Amado. Hemus. 1977. com LYNDON. Convívio. 1968. HOFFER. Boston. D. . Chicago. São Paulo. Georges. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. 1957. Chic ago. s/d. Aldous. 1989. Encyclopædia Britannica. Texas. Paris. A Agonia da Nossa Civilização. Antonio. La Crise de la Conscience Européenne: 1680-1715. La Terre Ne Se Meut Pas. A C oncepção Dialética da História. iagnóstico da Enfermidade Espiritual do Nosso Tempo.. ranc-Maçonnerie et le Compagnonnage. . Autorité Spirituelle et Pouvoir Temporel. .. or. 2 vols. trad. Diálogos sobre la Física Atómica.U. 6ª ed.

A Cul tura do Narcicismo. 1995. Janus A Summing Up . brasileira. Jack. Zahar. São Paulo. Histoire Naturel le de sa Croissance. 3ª ed. Gottfried W. 1973. Álvaro Cabral. LEVIN. Lisboa. Kurt. Martin. Brasiliense. Las Principales Corrientes del Marxismo. Coordenação e prefácio de Leandro Konder. Georg. LINGS. trad. 1965.-dez. Paris. ann. Trajetória-Edusp. KOLAKOWSKI. Rio. José Olympio. Les Soirées de Saint-Pe tersbourg ou Entretiens sur le Gouvernement Temporel de la Providence. trad. Jorge Vigil. pp. London.. trad. London. Lisboa. 1977. Su Nacimiento. Le Pouvoir. Enciclopædia Britannica. Edições 70. .. pp. On the Nature of Things. Rio. The Sleepwalkers. “Determinism a nd reality”. Cultr ix. São Paulo. Europa-América. . 1972. Paul. Ediouro. Arthur. Les zek. Arnould de Grémilly. Paris. 1990. 1986. MADAULE. Chicago. Brasiliense. LUKÁCS. João Roberto Martins Filho. Rodrigues.. Études Galiléennes III. 1990. 1970. em The Great Ideas Today 1990. Civilização Brasileira. Chicago. . Gallimard. Jacques.. Alianza Editorial. 1965. London. trad. 3 vols. notes de Pierre Mariel. 1952. H. André Luiz Barros da Silva. nov. Edusp/Perspectiva. Henri. Christopher. Karl. KOESTLER. Philosophy in a New Key. 1985. La Colombe. Michael. J. . Mentor Book. Suzanne K. Rite and Art. Stanley L. L . 1959. MANNHEIM . trad. Tempo Brasileiro. Ja mir Martins. em Cadernos Brasilei ros. London. Encyclopædia Britannica. Munro. Imago. Paris. 79-100. The be... 1978. Jean-François. trad. Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista. . São Paulo. 1971. trad. Paris. Os Últimos Intelectuais. trad. JONES. Magda Lopes. O Mínimo Eu. 1983. LINEBARGER. VII:32. 1990 . 1991. Ensaios Filosóficos. 5 (13). LÖWY. 1948. Rio. Paul E. São Paulo. von. 1933. JOUVENEL. LANGER. JAKI. A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia. 1971. 1943. . Hutchinson. A. Ricardo Corrêa Barbosa. A Cultura Americana na Era da Academia. trad. Octávio Alves Velho. 3 vols. KOYRÉ. Os Intelectuais na Idade Média. A D emolição do Homem. Unwin. Cultrix. 1960. Ensaios sobre Literatura. LEIBNIZ . . 1961. 1973. Denöel. Hutchinson. s/d. Raïssa Tarr. JOHNSON. Vers le Cybernanthrope. KUHN. Histoire de Fr ance. 1980. Madrid. LYOTARD. trad. Hachette. Du Monde Clos à l’Univers Infini. LORENZ. Imago. The Khazar Empire and its Heritage. trad.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 201 JACOBY. “A alegoria em matemática”. Rio. Un iversity of Chicago Press. São Paulo. O Pós-Moderno. Sobrevivência Psíquica em Tempos Di rad. Nílson José. Ernan i Pavanelli. Romant ismo e Messianismo. Octávio Alves Velho. An cient Beliefs and Modern Superstitions. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. Joseph de. LÉVI-STRAUSS. 1990. Pan Books. A Vida Americana numa Era de Esperanças em Declínio. Discurso de Metafísica. portuguesa. trad. Bertrand de. introd. Rio. studos Avançados (USP). 1970. Transl. Russell. Biblioteca do Exército. João Amado. Chicago. LE GOFF. Claude. Desarrollo y Disolu ción. trad. Gallimard. 19-2 0 [ original inglês de 1962 ]. 3ª ed. Guerra Psicológ ica. Antropologia Estrutural. MACHADO. 1980. 1962. Jacques. trad. Thomas S. MAISTRE. Alexandre. Galilée et la Loi d’Inertie. “O conservacionismo: uma ideologia pós-marxista?”.. LUCRECIUS. LASCH. New York. Rio. Ensaios sobre Lukács e Benjamin. Rio. A Study in the Symb of Reason. 1988. The Structure of Scientific Revolutions.. 1975. Konrad. Rio. trad a M. Os Intelectuais. Paris. trad. LEFEBVRE. São Paulo. Diagnóstico do Nosso Tempo. Princípios de Psicologia Topológica.

1987 (1ª ed. 1981. Paul-Henri. IV. Liberties of e Mind. O. Wilson. Nova Fronteira. O Mar dental. 1968. trad. Rio. . . The German Ideology. São Paulo. Mário Ve ira de. Paris.. 1981. Neil R. V. 1982. Calmann-Lévy. MUMFORD. Rio. 1950.. Random House. Scribner’s. 1879). Luís. 1967. Ibrasa. MEINECKE. 7 vols. da Silva. Victor. (ed. O Pensamento An tigo. 196 0. C. En torno a Galileo. . 1983. Porto Alegre. Histór ia da Civilização Ibérica. 12 vols. L a Cosmologie de Giordano Bruno. Moscow. Globo. 1961. La Idea de Principio en Leibniz y la Evolución de la Teoría Deductiv vol. J. São Paulo. MORGAN. NIEBUHR. A Cultura das Cidades. 1994. 1879). Progress Publisher s. Kno wledge and the Sacred. MELLO . Alianza Editorial. . Rio. Macmillan. Lycurgo Gomes da Motta. M. J osé. P. Civilização Brasileira. Vance. História da Filosofia Greco-Romana. N acional. Topbooks. Madrid. São Paulo. Édition bilingüe. 1936. e comentários de Mário Ferre ira dos Santos. VIII. trad. 1971.. Marianna Simon. . MICHEL. New York. O Pecado de Nossa Época. New York. trad. trad. NERY. Funarte. Cultrix. . NIETZSCHE. À propos de la Question Juive (Zur Judenfrage). São Paulo. NAIPAUL. MOOG. 1964. 1975. Reinhold. Moral Man and Immoral Society. Rio. 1987. S.. em Obras Completas. . Adauto. Laterza. José Olympio. Jorge. México. Madrid. Belo Horizonte. V. 2 vols. India: a Wounded C ivilization. 1981. Joost A. OSTROWSKI. Raul de Sá Barbosa. . trad. MARTINS. Karl. Cl s Marcas da Decepção. Lavagem Cerebral. Friedrich. 1968. The Gifford Lectures. UnB. A Natureza do Processo. 1978-1979. NOVAES. Paris. Lisboa. trad. Seyyed Hossein. 2ª ed. S. Allen & Unw in... Kenneth. Menticídio: O Rapto do Espírito. Assim Falava Zaratustra. MARX. El Historicismo y su Génesis. 1984 (1ª ed. 1943 (original alemão de 1936). ORTEGA Y GASSET . trad. Jorge Eira Garcia Vieira. NASR . Bandeirantes e Pioneiros. de Castro. Clarice Lispector. FCE. A Revolução Impossível. L’Homme Remodelé. texto de abertura do simpósio Libertinos/Libertários. Espasa-Calpe. The E unter of Man and Nature. La Rebelión de las Masas. 1951. Crossroad. 1964. François Châtelet. Presença. Alai n Caillé. introd. Vikas Publishing House. MENNINGER. José Guilherme. Julián. trad. MERLOO. Em Busca de Lincoln. 1951. brasile ira. Scritta Editorial.202 OLAVO DE CARVALHO MARANHÃO. Gaetano. Best Seller. Ryazanskaya. vol. Logos. New Delhi. 1960.). W. Lewis. trad.. São Paulo. MINOGUE. São Paulo. Diva Ribeiro de Toledo Piza. New York. Rio. Bari. Oliveira. Desenvolvimento e Cultura. 6ª ed. “Por que tanta libertinagem?”. História da Inteligência Brasileira. M ERQUIOR. Evolução do Pensamento Antigo. Paris. MIR. trad. Hermann. 1977. trag. vol. MONDOLFO. Vianna. trad. New York. 1940 (c ontém a Carta a Heródoto e outros documentos da escola epic úrea). 1978. El Intelectual y su Mundo. London. 1993.. The Spiritual Crisis of Modern Man. Rio. Memórias de um Agente do Serviço Secreto Israelense. Eugênia Moraes Andrade e Raul de Moraes. 1975. e HOY. Aubier. MARÍAS. Guimarães. História de Portu Guimarães. Friedrich. trad. Rodolfo. O Problema do Estetismo no Brasil. The Stoic and Epicurean Philosophers. 1995. Karl. J.. Porto Alegre. MARTINS. P ACKARD. Rio. Globo.. O Concei to de Universidade. . 1957. 1980. José Mingarro y Sa n Martín y Tomás Muñoz Molina. Nova Fronteira. Brasília. Charles. Storia delle Dottrine Politic he. Mídia e Cidadania: Faça Você Mesmo. 1992. MOSCA. OATES. Itatiaia. 1955. Um Mundo Novo: Os Estados Unido s.

Nacional. 1956. Paris. Paz e Terra. La Nouvelle Rhétorique. An Introduction. Um Estudo da Mudança do Caráter Americano. P AVLOV. Régine. o Terceiro-mundismo e a Ideologia Brasileira... Vol. P ERALVA . Histoire de la Philosophie. 1977.. Física. IV. Ed. ROSA . Orlando dos R eis e Ephraim Ferreira Alves. Perspectiva. 1967. Pensamento. Nat han. Y von ( sous la direction de). Vol. Warning to the West. 1984.. P ESSANHA. Western Island s. 1994. P IRENNE. Denney. P IAGET . A lbert. Paris. Paris. Manuscrito inédito. Éditions en Langues Étrangères. Belmont. REBOUL. . L a Pensée Grecque et les Origines de l’Esprit Scientifique. 1983). J ean. et BELAVAL. Sérgio Miceli e Mauro W. trad. A Doutrinação. Cia. P ICHON. A nthony. Paris. trad. trad. Brasilie nse. 1972. Stock. 1944. Paris. Goldman Vel L ejbman e Luís A. Zilda Abujamra Daeir.. 197 1. Pouvoir Illimité. 1991.). Œuvres Choisies. Hermann. II. A Ideologia do Século XX. -. A Multidão Solitária. Moscou. 1973 (1ª ed. acompanhados de f ascículos introdutórios. Paul. 2 vols. Gallima rd (Bibliothèque de la Pléiade).. Belo Horizonte. Nicolò Cusano. Edilson Alkmin Cunha. Cléa Pitt B. La Psychopathologie et la P sychiatrie. RICOEUR. Paris. Brice. Vozes. Léon. FCE. Paris. 1970 (4ª ed. trad. With a New Introduction by the Publishers. GLAZER. Rio. Proofs of a Conspiracy. trad. São Paulo. Gentil Titton.. Itatiaia.). John A. Pietro. Éditions de l’Université de Bruxelles.. São Paulo. M. Henri. Traité de l’Argumentation. Nórdica. Milano. 1989. Tomás de Aquino a Aristóteles. éd. P ERELMAN. Da Alma. De Boni. Apec. RAUSCHNING. Seleção e tradução de Antonio Donato Pa lo Rosa. As Cult uras e o Tempo. Payot. New York. Fratelli Bo cca. P ICON. et OLBRECHTS-TYTECA. Abril. Egídio. 1923).. 1970. São Paulo. Mass. ROMANO . A Revolução Brasileira.. São Pa ulo. 1969-1974. 1968. trad. de Meira. trad. Ed. Sabedoria e Ilusões da Filosofia. trad. 1991. Paris. ROBBINS. Originally Published in 1798..F. São Paulo. Júl ia Mainardi. 1975. Cambridge. I. Panorama des Idées Contemporaines. Domenchina.U. P ÉGUY. A Franco-Maçonaria Simbólica e Iniciática. 1948-1950. REALE. Ludwig. La Femme au Temps das Cathédrales. Bernard G rasset. 1983-1989. RIVAUD. Vozes. P RADO JR. Epicurus. P ENNA. Longmans. “Os Pensadores”). ). P. Antonio Donato Paulo (org. Sobre o Poder Eclesiástico. 1989. I. Marie-Hélène Dumas. iberal. P ERNOUD. Gaëtan (org. ROBISON. Rio.. Petrópolis. Ética. 1971 RIST . Heitor Ferreira da C osta. 1972. Comentários de Sto. 2ª ed . Histoire de la Philosophie. Henriette Roguin. São Paulo. Laffont. REDONDI. Ch. 1975. . Gramsci e o Bloco Histórico. vários vols. Paris. 2e.. III. et al. Penser avec les Mains..O JARDIM DAS AFLIÇÕES 203 P ALOU. trad. São Paulo. 1939. 3 vols. Petrópolis. Bruxelles. .. Galileu Herético. Gallimard. Teoria do Direito e do Estado. trad.. Barcelona Bruguera. São Paulo. Jean. Paris. São Paulo. Green & Co. University Press. J. Miguel. P ARAIN. 1976. 1972. ROTTA . La Symbolique des Nombres dans l’Incons cient. t rad. Albin Michel. Gallimard. Abril (Col. Jo o Motta (org. 4 tomes. Charles . Saraiva. Notre Jeunesse. Vol. Paolo. Companhia das Letras. Jean-Charles. David. trad. Caio. Rio. Vol. Denis de. P ANETH. P ORTELLI. o Marxismo. Barbosa de Almeida. Hugues. 1960. The Revolution of Nihilism. 1979. Estudos Reunidos pela Unesco. 1980. Juan J. 1961. 4ª ed. . Historia Universal de las Secta s y Sociedades Secretas. Angelina Peralva. J. 1942. Os Pensadores. Ensaios sobre o Nacionalsocialismo. Opção Preferencial pela Riqueza. Oswald Retrato. e REUEL. O.. Gallimard. ROBIN. publicados a partir de 1974 (sucessivas reedições). 1969. Metafísica. Lumière du Moyen-Âge. Rio. L. Baldomero Porta. Historia de Europa. Mexico. ROUGEMONT. Olivier. RIESMAN. Psicologia do Subdesenvolvimento. 1980.

do Misticismo e da Cura pela Fé. P.. The Making of the English Workin g Class. Dervy-Livres. A. Rio . STRINDBERG. Ernest. 1977. Martin.. 1964. 2e. Holt. F. 1991. De l’Unité Transcendante des Réligions.. Max Limonad. série I: Premiers Lundis. Françoise.. SANTOS. trad. Corgi Books. SÁBATO. Guy. Logos.204 OLAVO DE CARVALHO RUYER. 1963). E. 1975. “Saber Atual”). 1979 .. SCHELLING. Homens e Engrenagens. U ma Fisiologia da Possessão. Vivona.. Thesaurus. éd. trad. Gordon. STAL. trad. Alfredo Nascimento e Maria Antônia Nascimento. TAWNEY. T. Madrid. THOMPSON. Forme et Substance dans les Réligions. 19 68. SÉRANT. Laura-Amélia A. São Paulo. 1962. 1961 (Bibliothèque de la Pléiade). Portraits de Femmes. A Inquisição. A Religião Civil do Estado Modern o. René Guénon. Journey into Madness. London. SCOTT. trad. Janer Cristaldo. 1993. Queiroz. Reflexões sobre o Din heiro. Paris. Janete Me iches. Filosofia e História da Cultura. His Life and Work. Heinemann. A Escola dos Bárbaros. Nilce Teixeira. Pari s. Introduction à la Philosophi e de la Mythologie. 1988. trad. Matese. L’Éc e du Diable. Jean. London. 1968 ( 1ª ed. Œuvres. SODRÉ. Rio. aulo. Grandezas e Misérias da Logística. SCHULZ . Matese. La Gnose de Princeton. 1990. Raymond. El Pragmatismo en la Filosofía Contemporánea. Pierre. 1957. London. . The Battle for the Mind. L’Histoire et ses Méthodes. Paris. Brasília. Paul. 1985. 2 vols. TESTAS. José Olympio. Meridian Books. org. São Paulo .. London. Rocco. Rin ehart & Winston.. Gallimard (Bibliothèque de la Pléiade). Rio. 2 vols . Matese. Manole. Le Seuil. São Paulo. 1968. 1989. Alianza Editorial. São Paulo. Perspectiva. S. New York. SOUZA. Losada. trad. 1958. 1987. . Klaus Scheel. 1945.. SILVA . Imperialism. e TESTAS. Th People of the Secret. 1967. Difel (Col. SCHUMPETER. 272 O leitor deve manipular com muito cuidado estas edições de Mário Ferreira dos Santos: estão cheias de lacunas e interpolações que em certos trechos prejudicam gravemente a compreensão do texto. trad.. Muniz. Octagon Press. Mário Ferreira dos 272. São Paulo. Instituto Brasileiro de Filosofia. Penguin Books. 1980. Fayard. Georges. Des Savants à la Recherche d’une Réligion. São Paulo . São Paulo. Pitágoras e o Tema do Número.. Paris. Isab elle. Robert Graves. Ismael Cardim. São Paulo. 1990. Maxime Léroy. Gallimard. . São Paulo. Erros na Filosofia da Natureza. Longman. . 1956. São Paulo. O Treinamento Autógeno.-W. a Razão e a Derrocada de Nosso Tempo. 1983. Medical Torture and the Mind Controlle rs. Quand l’Occident se Réveillera. Vicente Ferreira da. Aubier. 2ª e Erros Filosóficos. A Possessão da Mente. 10 vols. SILVA . J. 1971. Octávio Tarquínio de. Matese. . SAUVY. León Ostrow. 1985. Las Caras Ocultas de la Invención Científica. Paris. trad. 2 vols. Joseph A. THOMAS. 1965. trad. Nelson Lehman da. São Paulo. SCHUON. Alfred. William. De Arquimedes a E instein. 1977. Paris.. Jogos Extremos do Espírito. SPIRITO. Jankélevitch. 1957. 2ª ed.. . e THOM . Grass et. Paris. August. . Amalia Correa. Ernesto. 1982. Matese. trad. H. SARGANT. A Religião e o Surgimento do Capitalismo. 1945. Inferno. 1967. SEYMOUR-SMITH . SAMARAN. Le Courrier du Livre. SCRUTON. SUFFERT . Paris. Papirus. Portraits Littéraires. Charles (sous la direction de). Imago. 18ª ed. SAINTE-BEUVE. Ugo. Frithjof. G allimard. Campinas. THUILLIER. Roger. Thinkers of the New Left. R. Buenos Aires. Obras Completas. H. 1982. 1975. História dos Fundadores do I mpério no Brasil. SP. Paris.

Laureano Robles Carcedo. . Alain. Baton Rouge. UPINSKY. 197 4. From Max Essays in Sociology. Companhia das Letras. F. 1971.. 2ª ed.. São Paulo. 1985. “Os Pensadores”).. Derniers Éssais et Conférences. The Occult Philosophy in Elizabethan Age. 1971. José María García Blanco. Espasa-Calpe. Antonio Donato Paulo. TOURAINE. I. 3e. 2 vols. Arnaud-Aaron. New York. Revista de Occidente. Cultrix. Abril (Col. WILSON. .. Paris. I. 2ª ed. Cap. Axel’s Castle. VEBER. Outlines of the History of Greek Philosophy. . Yolanda Steidel de Toledo. William H. Beauchesne. Madrid. Scriber’s. José Paulo Paes. La Societé Post-Industrielle. Paulo Henriques Britto. . Companhia das Letras. sel. 1985. L. Transl. São Paulo. Antonio. K. Michel. America. and SHI. 7ª ed. JR. A Democracia na América. 1984. Cultrix. TOCQUEVILLE. Paris. by H. . WEBER. Denoel. trad. Giambattis ta. Carl. trad. Neil R ibeiro da Silva. 2º ed. Vrin. Comentários à “Metafísica Orien tal” de René Guénon. New York. Sto. Hegel et l’État. 1958. BAC. 1991. São Paulo. 4ª ed. Speculum. Princípios de (uma) Ciência Nova (Acerca da Natureza Comum das Nações). Garnier. New Yo rk. Logique ilosophie. Ark. Paris. 15ª ed. trad. Suma contra los Gentiles. Vrin. 2e. Doubleday.. 1966. Olavo de Carvalho. Eric. 1956-1987.. 4ª ed. Oxford University Press. Madrid. São Paulo. VICO. ed. Le Siècle de Louis XIV. éd. A Nova Ciência da Política. Frances A. Max. TULARD.. . Edmund. 1987. Escritores e Atores da História. 1989. isiana State University Press. 1985. Onze Ensaios. 1931. De los Orígene s a la Baja Edad Media. A narrative History. . o. David E. Napoléon ou le Mythe du Sauveur. trad. El Problema de la Irracionalidad en las Ciencias Sociales. La Agonía del Cristianismo. 1938. HITE. WEIL. vol. Pioneira. Gerth and C. M. V. Come ntários a Aristóteles. 1987. Tecnos. Madrid. O Castelo de Axel. H.. New York. . Wilhelm Nestle. YATES. . Paris. Éssais et Con férences. São Paulo. s/d. 1967. 1992. VOLTAIRE. transl. brasileira de José Pau lo Paes. George B. and ed. . Order and History. Ed. Alves. 1970.. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. sel. . Szmrecsányi e Tamás J. London. Éric. 5 vols. Aléxis de. Norton. trad. TOMÁS DE AQUINO. M. Meridian B ooks. . UNAMUNO . 2nd. Palmer. N ew York. Vrin. Jean. 1982. José Viegas Filho. Belo Horizonte. VAN DOREN .O JARDIM DAS AFLIÇÕES 205 TINDALL. 1969. trad. Fayard. p. 1982. 1977. ZELLER. 1955. 2 rad. São Paulo. São Paulo. Vrin. 1967. 1956.. org.. . trad. Eduard.. trad. Historia de la Filosofía del Derecho y del Estado. Brasília. Philosophie et Realité. Paris. trad. Szmrecsányi.. Madrid. e p de Paulo Francis. R. New York. 1977. The Organization Man. Benjamin Fr anklin. Rio. e notas de Antonio Lázaro de Almeida Prado.. Giordano Bruno e a Tradição Hermética. F. 1983. The Viking Press. trad. y Adolfo Robles Sierra. Wright Mills. Paris. 1991. Philosophie Politique. Vida de Don Quijote y Sancho rid. Irene de Q. ROSA . TRUYOL Y SERRA .. Itatiaia. Antonio Ribeiro de Oliveira. ed. Miguel de. Paris. Espasa-Calpe.. Paris. Editora da Universidade de Brasília.. VOEGELIN.. A Perversão Matemática.. Rum ação Finlândia.. 1983.

Richard BARRÈS. Louis. 41 BODIN. 223. 155. Antoine. 89. 150 BRIO N. 387. 69. 120. 347 BERDIAEV. 364 A LAIN (Émile Chartier). 59. 12 BLÜCHER. 339 BONIFÁCIO. 207. 53. John. 307 A LTHUSSER. Herbert José de Souza. 277 . 154. Gustavo. 220. Dante. 185. 142.. 123 . 67 BLAVATSKI. 297. 79. 323. 269 A LEMBERT . 118. 347 BERNARDO DE CLARAVAL. Maurice. Sto. Tomás de Aquino A RISTÓTELES. 347. 273.. 331 BROCKMAN. 276. David.. Louis. 99 —B— BABEUF. 331 A LLEAU. Hele na Petrovna. Pierre. 187. 93 BAUER. 93. Jean Le Rond d’. 333.. 283 BETINHO. 259. 186 A UBENQUE. 253. 314 BLOOM. 341 BANDLER. 28 6 BOÉCIO ou Boetius. 209 . Marcel. François Noël. 135 BLOOM. 272. S. 388 BENOIST . 123. 192. 306 A RNAULD. Brun o. 41 A DORNO. Anicius Manlius Severinus. Papa. 275 BOWEN. Daniel.. 43 A LBUQUERQUE . 42 A QUINO. 119. 225. 46 A FONSO DE LIGÓRIO. 54. 108 v. 42 A LIGHIERI . 67. Georges. Pierre. Sto. 10. 382 A NSELMO. 374 BISMARCK. 69 A LBERTO M AGNO. 373 BOAVENTURA. 280 A GOSTINHO.206 OLAVO DE CARVALHO ÍNDICE ONOMÁSTICO BARROSO . 290. 127. 74. 271. Simone de. 184. 290 A LCUÍNO. 168. 212 BEAUVOIR. 18 7 A FONSO HENRIQUES (de Portugal). 281.. Alain de. Jorge. 325 BAYLE. René. John. 56. Tomás de. 249. Otto von. Abade. 71. 373. 111 BOHR. 372. 72. Napoleão. Marielza. 151 BONAPARTE. Pedro. Sto. Hal C. Honoré de. S. Gen. Gebha rd Leberecht. 338. 284. John. 47 BECKER. 266 B ONIFÁCIO VIII. 189 —A— A BELARDO. Sto. 269. Roger. 154. 120 A U GELLI. 126. 43 BALZAC.. Franz. Jean. 301. Theodor Wiesengrund. 99 B ELL. Nicolai. 290 BOAVENTURA. 204. 307 BERNAN OS. Gregory. Ni els. 41 BERTRAND. 165. S. 301 BARRUEL.. 384 A LEXANDRE DE HALES. 222. Afonso de. 372 BACON. 168 BOHM. dito Graco. 315 BRENTANO. dito. GRINDER. 257. Allan. Sto. Harold. 314 BATESON. v. 313.

255. Henry. 223. Fernando Henrique. Nicolau. 289. 151 CRISTALDO. Guilherme de. 299 CAMPOS. 37. 107. 240. 347 CRISTO. 144. Antônio. 159 CHARDIN. Salvador. Jean. 264. 366. v. Joseph. 19. Joseph. Maistre DÉGERANDO. 266. Pedro. Auguste. 35. Nicolau de. 290. Claude. René. v. 70 CARPEAUX. 30 5. 395 CHAILLEY. 70 CERVAN TES. Gi ordano. 358. 297. 337 CONSTAN TINO. 222. Marie Je an Antoine Nicolas Caritat. 43. Georg. 389. 390. 186. Joseph Marie. Olavo de. 191. 347 CA MUS. 42. 382 CONRAD. Victor. Gil bert Keith. 313 BURKE. 118 DEMÓCRITO. 224. Alighieri DAVI D. 127 BURCKHARDT . 232. 98 BRUNELLESCHI. 261. 176 CORÇÃO. 65. 63. 332 CHANDLER. 134. Janer. 244 CLÓVIS. 109 BRUN. 361 CARNEGIE. 121. Maurice. 45 CAYCEDO. 136. 92. 241. Jacob. 271. 108. 284. 237. 394 CROCE . 300 DANNER. 57. 290. 273. 32. 389. 42. marquis de. 257. 363. 258 DAWSON. Joseph Epes. 118 DEMÓCARES. 259. Etienne Bonnot de. 225. Nicolau de Cusa —D— D’HONDT . 29. 378 CARLOS M AGNO (Charlemagne). 66. 59 BURCKHARDT . Christopher. Rus sel. Fritjof. 190. 366 —C— CALDERÓN DE LA BARCA. 68.O JARDIM DAS AFLIÇÕES 207 BROWN. Jacques. 256. 83. 298. 146 CARVAL HO. 138 v. 267. Gustavo. 203 CHAUÍ. 77 CANTOR. Marilena. Roberto. Albert. Paolo. 380 CROUZET . 386. Pedro. 45 . Titus. Flo. 173 CORBIN. 262. 192 CAPRA. Filippo. 42. Guilherme de Conches CONDILLAC. 33 . 273. SIEGELMAN. J acques. v. 280. 226. 69. 266 COLLOR DE M ELLO. 97. 365 CHESTERTON. Card. 368 DEMÉTRI O. 367 COMTE. 152. 364. 282. 64 CLEMENTE de Alexandria. 226. 150 CONDORCET . 362. Miguel de. 232. 368. 249. 175. 187 DESCARTES. 286. Benedetto. 380 CRÉBILLON FILS. 342 CASSIRER. 281 CONCHES. 201. 282. 266. Pierre Teilhard de. 292. Jim COPÉRNIC O. Imperador. 258. Jacques-Louis. 304. Gilles. 209 CONWAY. 329 CÉSAR. Ernst. 363. Fernando Afonso. 28. 186 BUDA. 369 CARDOSO . 208 BRUNO. 64. 270 CUSA. 106. Edmund. v. 287. 84 DELFIM NETO. 59. 45. 184. 226 DANIÉLOU. 396 DANTE. 208 . 45. 105. 242 DE M AISTRE . Gautama. Dale. Otto Maria. Caio Júlio. 365. 204. 215. 369 COLLOR DE M ELLO. 285. 150 DELEUZE.

389 FREUD. 46. 33 . 120. 187. John W. 39. Ingemar. 315 E PICTETO. Denis. 35. 331-334. S. Francis Paul. 91 ÉSQUILO. Mircea. 171 FUKUYAMA. 49. Louis. 154. 274 . T. Albert. Oliveira e Silva DONOSO CORTÉS. 41. 137.. 121. 60-73. 304 DUP ANLOUP . 89 EPICURO. 375. Paulo (Franz Paul Heilborn). 129. 382 GRAMSCI . Sir John. José. G eorges. 8 6-90. 4 0 EVOLA. J. 35. 189. Fiódor Mikhailovitch. 67. 225. 271-275 FELIX. 43. 168. John. 12. 90. Galileo. 315 FRANCA. 118 EURÍPIDES. 341 DUNS SCOT . 189 ELIADE. Michel. Félix. 366 FERREIRA DOS SANTOS. Gilbert. 275 GAXOTTE. 28. Octávio de. Juan Francisco. Celso. 45. 48. 300 DURAND. 133. 42. 42. 392 ECO. 360 GAULLE. 189 FAVIER . 338-340. Leonel. 40 EUBÚLIDES. 202. 382 DIEL. 291 DRUMMOND. Mons. 242 GASSENDI. 46 FORTESCUE. 274 FELIPE O BELO. 103. 287 FOUCAULT . Pastor Caio. 44. 175 FICHTE. 380 ELIS REGINA. (Thomas Stearns). 284 DÜRING. 309 DULLES. 373 FARGES. v. dit o Petrus. 84. 161. 127 ELWELL-SUTTTON .. 340 FESTINGER. 139. 241. 379 ERICKSON. 134. William. 146. Mons. J ohn. 187. 259 EL IOT . 171. 381 DRUMONT . Antonio. 23. 37. 115-122. 46. 156. 188. 117. 240. 185 FRANCIS. Édouard. 97. 43 EINSTEIN. 166. 27. Charles de. 36. Rob ert L. Aristóteles. Mário. 151. 196 FOWLES. 169.208 DIDEROT . Leon. 105 FEUERBACH. Paul. Johann Wolfgang von. 135. 339 DRAYTON. 117. Wilhelm. Umberto. 23 1. 195. S. Carlos. 109 FARIA. 370 GEISER. 46 FUN K. 166. Paul. 381. 74. 369. Johann Gottlieb von. 127. 45 DOSTOIÉVSKI . 46. Julius. 51-58. Mons. 121 DIRCEU. 33 7 FEYERABEND. 376. 342 DUMONT . 214. Allen. Milton. 378 DILTHEY. 13. 197 GARCÍA GUAL. Pierre. Pierre Gassend. Sigmund. L. Christopher. 265 FURTADO. 126. Ludwig. 369 —G— GALILEI. 292 DULLES. 40. 149-152. 67. 368. 117. 64. Jean. 83 GOETHE . 282. 150 DIONÍSI O. 360. 226. Foster. Manuel. 124. 133. 286. 362. 370 GOLDING. 183. 118 —E— OLAVO DE CARVALHO —F— FÁBIO. 137. 32. Pe. 46 FIELKENKRAUT . William Henry. 24.. 122 GARCÍA-PELAYO. Albert.. 278 DUMÉZIL. Alain . 204. P.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 209 GRAVES, Robert, 314; 315 GRINDER, Richard, 69; 89; 103 v. BANDLER, John, 69 GUAT TARI , Félix, 84 GUÉNON, René, 45; 175; 247; 248; 259; 274; 298; 300; 301; 305; 306; 3 11; 314; 331; 333; 334; 337; 342 GUILHERME DE CONCHES, 41 GURDJIEFF, Georges Iva novitch, 45; 63; 64; 103; 224; 225; 312 —H— HABERMAS, Jürgen, 376 HAMILTON, David, 354 HAMILTON, William G., 389 HARTMANN, Nicolai, 45; 46 HARVEY, William, 42 HEGEL, Georg Friedrich Wilhelm, 28; 46; 77; 121; 133; 153; 211; 213; 218; 222-228; 237; 255; 258; 281; 290; 295; 362; HEINE, Heinrich, 126 HEISENBERG, Werner, 65; 122124; 149; 151; 177 HELVÉTIUS, Claude Adrien, 45; 124; 150 HEMMER, Mons., 265 HENRI QUE VIII (da Inglaterra), 273; 280; 282; 286 HERCULANO (DE CARVALHO E A RAÚJO), Al exandre, 41; 43 HERMIAS, 118 HERÓDOTO, 239 HITLER, Adolf, 27; 227; 324 HOBBES, Tho mas, 286; 287 HOBSBAWM, Eric, 214 HOBSON, John Atkinson, 294; 363; 364; 383 HOOK ER, Richard, 284; 286; 375 HORÁCIO, 207 HORKHEIMER, Max, 135 HUGO DE S. VÍTOR, 40; 4 1 HUIZINGA , Johan ou Jan, 188; 349 HUNTINGTON, Ellsworth, 383 HUSSERL , Edmund, 12; 46; 151; 156; 181; 182; 196 HUX LEY, Aldous, 45; 96 —I— IBN-A RABI , Mohieddin, 313 INOCÊNCIO III, Papa, 284 INOCÊNCIO I V, Papa, 272 IVAN III (da Rússia), 282 IVAN IV (da Rússia), 282 —J— JAKI, Stanley L., 12 4 JASPERS, Karl, 45; 150; 399 JOÃO PAULO II, Papa, 85 JOÃO VI (de Portugal), 43 JOÃO X II, Papa, 268 JONES, Rev. Jim., 71; 126 JOUVENEL, Bertrand de, 221; 285; 343; 38 4; 395 JUNG, Carl-Gustav, 45; 216 —K— KALECKI, 45 KANT , Immanuel, 46; 77 KARDEC, Al an, 187 KEATON, Buster, 63 KEYNES, Sir John Maynard, 44 KHAYYAM, Omar, 315 KING, Stephen, 315 KLEIST , Heinrich von, 344 KOESTLER, Arthur, 101; 230; 231; 323; 3 80 KOYRÉ , Alexandre, 175; 176; 180 KRAMER, Dora, 373; 377 KUHN, Thomas S., 196

210 —L— LA M ETTRIE , Julien Offroy de, 144; 328; 348 LACLOS, Pierre Choderlos de, 3 2; 137 LACTÂNCIO, 117 LAÉRCIO, Diógenes, 53; 86 LANGER, Susanne K. (Knauth), 285 LANTO INE, Albert, 280 LASCH, Christopher, 283 LEARY, Timothy, 122 LEHMAN DA SILVA , N elson, 330 LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm von, 36; 45; 119; 144; 186; 188; 190; 192; 196 LÊNIN, Vladimir Iilitch Ulianov, dito, 45; 130; 163; 276; 332; 343; 349 LEVIN , Kurt, 74 LÉVI -STRAUSS, Claude, 42 LINCOLN, Abraham, 247; 363 LINEBARGER, Paul E ., 82 LOMBARDO, Pedro, 41 LORAUX, Nicole, 39; 328 LORENZ, Konrad, 79; 80; 83 LÖWY, Michael, 129 LUCRÉCIO, 52 LUÍS XI (da França), 257 LUÍS XIV (da França), 208; 265; 266 LUÍS XVI (da França), 235; 249; 288 LUÍS, O PIEDOSO , Imperador, 251; 254 LUKÁCS, Georg ou György, 44; 129 LULA, v. Silva, Luís Inácio Lula da, —M— M ACEDO, Bispo Edir, 341 M ACHAD O, Nílson José, 285 M AHARAJI , Guru, 58 M AÏSKI, Ivan, 292 M AISTRE , Joseph de, 45; 280 OLAVO DE CARVALHO M ALEBRANCHE, Nicolas, 119; 175 M ALINOVSKI, Bronislaw, 44 M ALTZ, Maxwell, 69 M ANN, Thomas, 33 M ANNHEIM, Karl, 81 M ANZONI, Alessandro, 309 M AO TSÉ-TUNG, 334 M AQUIAVEL, Niccolò Macchiavelli, dito, 139; 194; 195; 269; 275 M ARCUSE , Herbert , 129 M ARITAIN, Jacques, 257 M ARTEL, Charles, 250 M ARX, Karl, 37; 122; 123; 1 25; 127; 128; 129; 130; 131; 132; 138; 139; 142; 143; 144; 147; 148; 149; 150; 1 53; 163; 177; 199; 200; 201; 216; 277; 293; 310; 330; 348 M AZZINI, Giuseppe, 28 1 M ÉDICI , Gen. Emílio Garrastazu, 66 M EINECKE, Friedrich, 185; 186; 191 M EIRA PE NNA, José Oswaldo de, 332; 347; 350 M ELLO, Collor de, v. Collor M ERLOO, Joost A. M., 81 M ERQUIOR, José Guilherme, 129; 347 M ICHEL, Paul-Henri, 42 M ILL, John St uart, 35 M INOGUE, Kenneth, 142 M IR, Luís, 334; 345 M ITTERRAND, François, 257 M OH AMMED (Maomé), 105; 224; 233; 304 M OISÉS, 105; 267; 278 M ONTAIGNE, Michel de, 191; 194 M OON, Rev., 58; 96; 102; 152 M ORE , Sir Thomas, 263 M ORGAN, Charles, 110 M ORTON, Thomas Green, 63; 105 M OTTA PESSANHA, v. PESSANHA M OZART , Wolfgang Amadeus, 302 M ÜLLER, Juan Alfredo César, 76; 311

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 211 —N— NAIPAUL, V. S., 98 NAPOLEÃO, v. Bonaparte NASR, Seyyed Hossein, 174; 352 NEGREIROS , Almada, 314 NEWTON , Sir Isaac, 41; 42; 119; 145; 184 NICOLAU DE CUSA, 164; 16 5; 166; 167; 168; 169; 176; 177 NICOLE, Pierre, 175 NIETZSCHE, Friedrich, 37; 13 9; 161; 201 NIXON, Richard Milhous, 334 NIZAN, Paul, 118 NOVAES, Adauto, 32; 137 ; 144 NUNES, Carlos Alberto, 45 —O— OCKAM, William of, 44 OLIVEIRA E SILVA , José Dirc eu de, 334 ORTEGA Y GASSET , José, 75; 189; 332; 347 OSTROVSKI, Victor, 334 OT T O I, Imperador, 251; 329 OVÍDIO, 193 —P— PALOU, Jean, 284 PANETH, Ludwig, 158 PARAIN, B rice, 114 PASCAL, Blaise, 171; 190; 346 PATRIZZI, Francesco, 113 PAULI, Wolfgang , 145 PAULO A PÓSTOLO, S., 221, 244 PAVLOV, Ivan P., 66; 98; 99; 100; 101; 102; 10 9 PEDRO I (do Brasil), 233; 259; 288 PÉGUY, Charles, 218; 257 PENNA, J. O. de Meir a, v. Meira Penna PEPINO DE HERSTAL, 249 PERALVA , Oswaldo, 345 PERELMAN, Chaim, 46; 54; 87 PEREZ DE A YALA, Ramón, 33 PERROY, Édouard, 253 PESSANHA, José Américo Motta, 9; 24; 25; 26; 2 7; 28; 31; 32; 33; 34; 39; 44; 45; 46; 47; 51; 52; 54; 57; 60; 61; 62; 65; 68; 6 9; 87; 88; 112; 114; 115; 116; 117; 118; 122; 123; 124; 137; 142; 143; 144; 145; 146; 147; 153; 214; 215; 217; 239; 328; 345; 355 PESSOA, Fernando, 314 PIAGET , Jean, 185 ss.; 285 PICHON, Jean-Charles, 83; 288 PIRANDELLO, Luigi, 346 PIRENNE , Henri, 255 PLANCK, Max, 64; 118; 142; 168; 177 PLATÃO, 39; 40; 45; 64; 68; 75; 1 14; 134; 141; 144; 145; 146; 158; 193; 220 PÖE, Edgar Allan, 43 POEZL, Otto, 99; 1 00 PONCINS, Léon de, 292 PRADO JR., Caio, 348 PTOLOMEU, Cláudio, 164 —Q— QUADROS, Jânio, 7 3 QUEVEDO, Francisco de, 299 QUINTILIANO, 193 —R— RACINE, Jean, 299 RAJNEESH , 58; 9 6; 102; 152 REBOUL, Olivier, 81 REDONDI, Pietro, 42 REICH, Wilhelm, 129 RIBEIRO, Lair, 4; 25; 88 RICARDO DE S. VÍTOR, 41

212 RICKERT , Heinrich, 236 ROBBINS, Anthony, 88; 147 ROBESPIERRE , Maximilien, 242; 243; 263 ROBISON, John A., 281 ROMANO, Egídio, 256 ROOSEVELT , Franklin D., 2 75 ROOSEVELT , Theodore, 291 RORTY, Richard, 46; 107 ROSA, Antonio Donato Paulo, 142 ROSENBERG, Fúlvia, 322 RUSHDIE, Salmán, 162 RUYER, Raymond, 179 —S— SÁ-CARNEIRO, Mário de, 314 SADE, Donatien Alphonse François, marquês de, 32; 137; 328; 348 SAINTE-BEUVE , Charles Augistin, 308 SAINT -EXUPÉRY, Antoine de, 327; 347 SAINT -M ARTIN, Loui s Claude de, 280 SALAZAR, Antonio de Oliveira, 277 SANTOS, Mário Ferreira dos, V. Ferreira dos Santos SARGANT , William, 100; 101; 102 SARTRE , Jean-Paul, 347 SAT IR, Virginia, 89 SAUVY , Alfred, 331 SAVIGNY, Friedrich Karl von, 364 SCHAFF, Ad am, 318 SCHELER, Max, 44; 75 SCHELLING, Friedrich Wilhelm von, 45; 210; 368 SCHU LZ, Johannes Heinrich, 69 SCHUMPETER, Joseph A., 332 SCHUON, Frithjof, 77; 159; 352 SCOT , John Duns, v. Duns Scot SCOTT , Ernest, 317 OLAVO DE CARVALHO SCOTT , Walter, 308 SCRUTON, Roger, 341; 347 SÉNANCOUR, Etienne Pivert de, 144 SÉRAN T , Paul, 281 SEYMOUR-SMITH, Martin, 317 SHAFTESBURY, Anthony, conde de, 185; 18 8; 192 SHAH, Omar Ali, 317 SHAKESPEARE , William, 299 SHELLEY, Mary, 314 SHELLEY , Percy B., 313 SIEGELMAN, Jim, 81; 90; 102; 103 v. CONWAY, Flo, 102 SILVA , Luís Inácio Lula da, 279; 334; SILVA , Vicente Ferreira da, 202 SMITH, Thomas266 SMITH, Huston, 352 SNOW , Charles Percy, 236 SÓCRATES, 36; 112; 115; 219; 220; 221 SODRÉ , Muniz, 63 SÓFOCLES, 39 SOLOVIEV, Vladimir, 264 SOURIAU, Étienne, 285 SOUZA, Octávio T arquínio de, 288; SPENCER, Herbert, 45 SPINOZA, Baruch de, 190 STÁLIN , Joseph Djuga schvíli, dito, 130; 146; 202; 212; 275 STENDHAL ( Henry Beyle), 308 STEWART JR., D onald, 347 STRAUSS, David, 211 STREICHER, Julius, 32 STRINDBERG, August, 317 —T— TAR CHER, Jeremy P., 151

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 213 TEÓCRITO DE QUIOS, 114 TEOPOMPO, 114 TERESA DE Á VILA, Sta., 37 TESTAS, Guy, 42 THOM AS, Gordon, 291 THOMPSON, E. P., 200; 311 TOLENTINO, Bruno, 24; 157 TOMÁS DE A QUI NO, Sto., 41; 44; 186; 190; 285 TORRES, João Camilo de Oliveira, 347 TRÓTSKI, Leon B ronstein, dito, 146 TROUSSON, Raymond, 328 TRUYOL Y SERRA, Antonio, 227 —U— UNAMUNO, Miguel de, 300 —V— VALLA, Lorenzo, 195 VEBER, Michel, 243 VEGA , Lope de, 299 VELOS O , Caetano, 122 VICO, Giambattista, 187; 188; 192; 196; 236 VIEIRA DE M ELLO, Már io, 139 VIETA ou Viète, François, 184 VIRGÍLIO, 193 VOEGELIN, Eric, 231; 269; 329; 330; 342 VOLTAIRE , François Marie Arouet, dito, 36 ; 44; 196; 348 —W— W AGNER, Yaakov, 294 W ASSERMANN, Jakob, 278 W ATTS, Allan 122 W EBER, Max, 150; 152; 192; 200; 253 W EIL, Éric, 75; 136; 294 W ELLINGTON, Duque de , 272 W ESLEY, John, 341 W HITEHEAD, Alfred North, 44 W ILSON, Colin, 317 W ILSO N, Edmund, 131 W ILSON, Woodrow, 275 W INDELBAND, Wilhelm, 236 W ITTGENSTEIN, Lu dwig, 45 —Y— YEATS, William Butler, 315 —Z— ZUÑIGA , Juan de, 175

“Um mestre.” HERBERTO SALES “Um gigante.” BRUNO TOLENTINO “Homem de reconhecida competência no campo da filosofia.” JORGE A MADO “Filósofo de grande erudição.” ROBERTO CAMPOS OLAVO DE CARVALHO, nascido em 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originai s e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferent es quanto Jorge Amado, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, He rberto Sales, Josué Montello e o expresidente da República José Sarney já expressaram su a admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho. A tônica de sua obra é a defesa da inte rioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escor ada numa ideologia “científica”. Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel en tre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um fo rmulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sól ido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas a ntigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carval ho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cu ltura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas língua s sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, nde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que s ubentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muit as questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Aristóteles em Nova Perspectiva — In trodução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme “O Silêncio dos Inocentes” ( “análise fascinante e — ouso dizer — definitiva”, segundo rma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Fe deral do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de c inema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento cu lmina em O Jardim das Aflições (1985), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de m oldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro d a cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte. É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a ampl itude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que intr oduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de pa lavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mu danças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à li nguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma pro fundidade surpreendente. A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmi ca, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos pr estígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multidão de leitores devotos, que e sgotaram em três semanas a primeira edição da obra. FOTO : ANA B RANCO (O GLOBO ).

em tipos Gaillard BT. e impresso no Brasil. .216 OLAVO DE CARVALHO 5 4 10 12 33 48 Este livro foi composto pelo processo de editoração eletrônica.

O JARDIM DAS AFLIÇÕES 217 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful