P. 1
História da Cultura Material - José Assunção Barros

História da Cultura Material - José Assunção Barros

|Views: 3|Likes:
Publicado porCarlúcio Baima

More info:

Published by: Carlúcio Baima on Sep 18, 2013
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

05/28/2015

pdf

text

original

HISTÓRIA

DA CULTURA MATERIAL – NOTAS SOBRE UM CAMPO HISTÓRICO EM SUAS RELAÇÕES INTRADISCIPLINARES E INTERDISCIPLINARES1

José D’Assunção Barros2 Resumo Busca-se esclarecer e discutir alguns aspectos relacionados à História da Cultura Material, definida enquanto modalidade historiográfica que coloca em primeiro plano a vida material de uma sociedade e que se desenvolve em interrelação com outros campos historiográficos e outras disciplinas externas à História. O artigo remete a obra recentemente publicada pelo autor deste texto, cujo principal objetivo é o de elaborar uma visão panorâmica das diversas modalidades da História nos dias de hoje. Palavras-chave: História da Cultural Material, Arqueologia, objetos materiais. Abstract This article attempts to clarify and discuss some aspects related to the History of Material Culture, defined as an historical modality that brings in first plain the material life of the society, and as an historical field that is developed in interaction with other historical fields and disciplines external to History. The article refers to a recently publicized work of the author of this text, witch principal subject was to elaborate a panoramic view of the various fields in which ones the historical knowledge is divided nowadays. Key Words: History of Material Culture; Archeology, material objects. Quando estendemos sobre a historiografia ocidental do século XX um olhar panorâmico e crítico, talvez um dos fenômenos mais significativos a serem percebidos seja a crescente especialização do historiador moderno, que passou a se auto-representar a partir de inúmeros campos, abordagens e domínios historiográficos. Assim, se até o século XIX o historiador pôde construir uma imagem de si mesmo até certo ponto una, é um dado bastante sintomático deste “século de especializações” o de que a partir daqui começam a se definir como domínios bem próprios e específicos as mais diversas modalidades internas ao Campo Histórico. Setores do saber historiográfico como a História Econômica, a História Social, a História das Mentalidades, a História Regional, a Micro-História e inúmeros outros irão como que requisitar de aqui em diante os seus próprios especialistas. Esta hiper-especialização do conhecimento histórico tem sido na verdade simultaneamente objeto de culto e objeto de crítica – e refletir permanentemente sobre o que significa cada um destes inúmeros campos
1

O presente artigo remete, como referência principal, a um livro publicado pelo autor, e que se refere a um estudo das várias modalidades da História. Referências: José D’Assunção Barros, O Campo da História – Especialidades e Abordagens, Petrópolis: Vozes, 2004, 222pp. 2 Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Professor da Universidade Severino Sombras (USS) de Vassouras, nos Cursos de Mestrado e Graduação em História, nos quais leciona disciplinas ligadas ao campo da Teoria e Metodologia da História. Publicou, nos últimos anos, os livros: O Campo da História (2004). O Projeto de Pesquisa em História (2005); Cidade e História (2007) e A Construção Social da Cor (2008).

1

Para entender este aspecto. 2004. na mesma medida em que um historiador político estuda o poder nas suas múltiplas formas e um historiador demográfico orienta o seu trabalho em torno da noção que lhe é central de “população”. a História Cultural. Desta maneira. Desta maneira. a História Política ou a História Demográfica – com toda a amplitude de possibilidades que pode envolver cada uma destas sub-especialidades da História – devem ser mais adequadamente localizadas no campo das dimensões historiográficas. a Demografia. na História Política. teríamos na História Econômica. Antes de mais nada. e assim por diante. e os domínios. Petrópolis: Vozes. aos 3 José D’Assunção BARROS.que hoje se abrem ao profissional de História tem surgido como uma tarefa particularmente importante para o próprio historiador que reflete sobre o seu ofício. ou na História das Mentalidades campos do saber histórico relativos às dimensões ou aos enfoques priorizados pelo historiador. cumprindo notar que aqui teremos não apenas contrastes. Apenas para dar um exemplo. valerá lembrar aqui uma proposta ensaística recente. um historiador cultural estuda em primeiro plano os fatos da cultura. as abordagens. mas também um diálogo muito vivo da História da Cultura Material com algumas destas várias modalidades. a Economia. referindo-se aos métodos e modos de fazer a História. Um segundo grupo de critérios para estabelecer divisões no saber histórico é aquele que chamamos de abordagens. será bastante útil situar este campo histórico na rede mais ampla de modalidades historiográficas que se desenvolveram a partir do século XX. Falaremos aqui de três tipos fundamentais de critérios geradores de modalidades historiográficas: as dimensões. O Campo da História. A História da Cultura Material deve ser classificada como uma modalidade historiográfica relacionada às diversas dimensões da História que são trazidas a primeiro plano pelo historiador em sua análise. a Cultura. cujo objetivo foi o de avançar na compreensão mais sistemática dos critérios que presidiriam a divisão do saber historiográfico nas suas diversas modalidades3. 2 . O primeiro critério gerador de divisões da história em modalidades mais específicas refere-se ao que chamaremos de dimensões. Neste artigo abordaremos um campo histórico que se refere mais particularmente à interação do Homem com a própria materialidade que envolve mais diretamente a sua existência: a História da Cultura Material. correspondendo àquilo que o historiador traz para primeiro plano no seu exame de uma determinada sociedade: a Política.

a Micro-História e tantas outras. Examinando um espaço de atuação onde os homens desenvolvem suas relações sociais. Também a História Regional poderia ser classificada como modalidade historiográfica ligada a uma abordagem. vida privada). por exemplo. Para além das modalidades relacionadas a dimensões e abordagens. São já áreas de estudo mais específicas. a uma História de Sexualidade. Estaremos falando de domínios quando nos referimos a uma História da Mulher. lida com fontes orais e depende de técnicas como a das entrevistas. mais generalista ou mais distanciado. A Micro-História refere-se a abordagens que reduzem a escala de observação do historiador. a História Serial. a uma História Rural. políticas e culturais. Alguns domínios podem se referir aos ‘agentes históricos’ que eventualmente são examinados (a mulher. o marginal. religiosidade. direito. a História Regional viabiliza através de sua abordagem um tipo de saber historiográfico que permite estudar uma ou mais dimensões nesta região que pode ser analisada tanto no que concerne a desenvolvimentos internos. urbano. dentro das quais se inscreverá a 3 .tipos de fontes e também às formas de tratamento de fontes com os quais lida o historiador. as massas anônimas). Os exemplos sugeridos são apenas indicativos de uma quantidade de campos que não teria fim. São divisões da História relativas a abordagens a História Oral. a uma História do Direito. sexualidade). Tal como dissemos. outros aos ‘ambientes sociais’ (rural. Vários domínios da História têm surgido e mesmo desaparecido no horizonte de saber desta complexa disciplina que é a História. como no que se refere à inserção em universos mais amplos. e a outras tantas possibilidades. Os domínios da História são na verdade de número indefinido. o trabalhador. o jovem. procurando captar em uma sociedade aquilo que habitualmente escapa aos historiadores que trabalham com um ponto de vista mais panorâmico. a História Serial trabalha com fontes seriadas – documentação que apresente um determinado tipo de homogeneidade e que possa ser analisada sistematicamente pelo historiador. no sentido de que elege um campo de observação específico para a construção da sua reflexão ao construir ou encontrar historiograficamente uma “região”. os critérios de classificação que estabelecem domínios da História referem-se primordialmente às temáticas (ou campos temáticos) escolhidas pelos historiadores. outros aos ‘âmbitos de estudo’ (arte. e que se referem a campos temáticos privilegiados pelos historiadores. A História Oral. e qualquer um poderá começar a pensar por conta própria as inúmeras possibilidades. podemos pensar finalmente nas divisões da História que chamaremos de domínios.

incluindo os objetos e materiais que constituem a base desta cultura material gerida e organizada socialmente. são quase tão antigos quanto a própria História – como é o caso da História Religiosa e da História Militar – e tendem a ser perenes na sua durabilidade. a Cultura. A História da Cultura Material é deste modo uma modalidade historiográfica definida por critérios similares àqueles que presidem a geração de modalidades como a História Política ou a História da Cultura. Se nestas modalidades o historiador traz a primeiro plano. as relações de poder (história política) e a cultura em sentido amplo (a história cultural). pode ser definida como o campo histórico que estuda fundamentalmente os objetos materiais em sua interação com os aspectos 4 . uma ‘História da Sexualidade’ não poderia surgir na Inglaterra Puritanista. respectivamente.problemática constituída pelo ato historiográfico. a mulher começa a conquistar o mercado de trabalho e surgem os movimentos feministas e de valorização social da mulher). no século XX. definiremos como uma ‘dimensão’ historiográfica. a História da Arte ou a História da Literatura podem ser eventualmente consideradas sub-especialidades da História Cultural (embora se deva chamar atenção para uma História Social da Arte. Alguns domínios surgem e desaparecem ao sabor das modas historiográficas – motivados por eventos sociais e políticos. Assim. as Mentalidades. o Imaginário. dada a natureza dos temas por eles abarcados. por fim. a História da Cultura Material traz para primeiro plano a própria vida material dos homens que vivem em sociedade. Outros domínios. de acordo com a tripartição de critérios acima descrita. Dentro deste quadro mais amplo. Quando avalia uma sociedade do ponto de vista da Cultura Material. ou mesmo por ditames editoriais e tendências de mercado. e uma ‘História da Mulher’ não poderia surgir senão quando. o que o historiador está trazendo a primeiro plano é uma dimensão tão importante como a Política. ou uma História Social da Literatura. A maioria dos domínios históricos sintoniza-se com os trabalhos que se referem às diferentes dimensões históricas. Mas existem domínios que têm mais afinidade com determinada dimensão. ou as várias outras dimensões que dão origem a campos históricos desta natureza. que não deixam de ser possibilidades dentro da História Social). A História da Cultura Material. desta maneira. Este é um campo que. Outros surgem quando para eles se mostra preparada a sociedade na qual se insere a comunidade de historiadores (por exemplo. poderemos agora nos deter mais especificamente neste campo histórico habitualmente denominado História da Cultura Material. e certamente abre-se às várias abordagens.

todas as modalidades historiográficas definidas a partir de “dimensões” trazem por trás de si uma noção muito forte: na História Política é o Poder. como do tipo perecível. na História Cultural é a Cultura. o historiador buscará não um exaustivo inventário dos vários gêneros alimentícios. A noção fundamental que atravessa este campo é a da “matéria” (ou do ‘objeto material’. na contrapartida. da moradia e das condições materiais do trabalho humano. este campo deve examinar não o objeto material tomado em si mesmo. como aquelas que eram tão típicas da Idade Média e do princípio da modernidade. às demarcações políticas que por vezes se colam a uma determinada roupa que os indivíduos de certas minorias podem ser obrigados a utilizar em sociedades que aproximam os critérios da “diferença” e da “desigualdade”. Ao perceber a materialidade de uma cidade – os seus monumentos. Ao examinar uma cidade murada. dos regimes imaginários que podem estar associados a certos padrões habitacionais.mais concretos da vida humana. às oscilações da moda. Desta forma. o historiador da cultura material não estará atento apenas aos tecidos e objetos da indumentária. do vestuário. como no caso dos alimentos)4. na História Demográfica 5 . mas também aos modos de vestir. os seus espaços de circulação. como no caso dos monumentos e dos utensílios. que pode ser tanto o de tipo durável. mas uma compreensão dos seus modos de consumo. os seus espaços de trancafiamento. das relações entre público e privado. a sua importância econômica e a sua necessidade social e cultural. procurará extrair uma compreensão da vida familiar. as técnicas envolvidas na sua manipulação. mas sim os seus usos. a noção de “cultura” também não deixa de atravessar este campo. Da variedade de habitações. os seus compartimentos lícitos e ilícitos – o historiador estará buscando perceber os modos de vida da sociedade que a habita. Contudo. que sensações de segurança contribuirão para o 4 Tal como se disse. Com relação aos alimentos. Afinal. da segregação social que pode ser estabelecida a partir de determinadas configurações de espaço. as expectativas dos seus habitantes. desdobrando-se por domínios históricos que vão do estudo dos utensílios ao estudo da alimentação. tentará compreender o que significa este tipo de “viver murado”. das expectativas simbólicas de cada alimento. que medos aparecem a reboque desta espécie de enclausuramento urbano ou. das formas de armazenamento e intercâmbio dos gêneros alimentícios. da correlação entre os vários tipos de bens imóveis e os grupos sociais a que pertencem os seus possuidores. as suas apropriações sociais. às suas variações conforme os grupos sociais. dos regimes alimentares que predominam nos diversificados grupos sociais e profissionais.

embora estes domínios também possam ser partilhados por historiadores voltados predominantemente para outras dimensões ou enfoques. pode-se dizer que. Por outro lado. além da noção de “materialidade”. Neste sentido. na História do Imaginário é a Imagem. O historiador da cultura material que trabalha com a História Urbana tem muito a perceber dos seus objetos citadinos. com destino a determinados grupos de consumidores que por estes bens terão de pagar em moeda sonante . O historiador da cultura material estará freqüentemente estudando os domínios da vida cotidiana. No caso da História da Cultura 6 .. e darão dar a conhecer outros tipos de sociedades.. não se limitando a coletar resíduos de civilizações. é precisamente a entrada em cena de uma História da Cultura Material (assim definida conceitualmente) o que atua mais fortemente no sentido de incorporar a comunidade arqueológica na comunidade historiadora. matérias primas que darão luz a objetos manufaturados. a Arqueologia vincula-se mais coerentemente a uma segunda ordem de critérios que se definem pelas ‘abordagens’ utilizadas pelo historiador. objetos decorativos. e assim por diante. se tradicionalmente a Arqueologia vinha sendo tratada como ciência distinta da História. uma outra noção marcante que muito freqüentemente atravessa este campo histórico é a de “cotidiano”. mas do ponto de vista da categorização das modalidades historiográficas esta última designação refere-se preferencialmente a uma ‘abordagem’ relacionada ao levantamento e à decifração de fontes da cultura material. todo bom arqueólogo é também um historiador da Cultura Material. para um historiador. gerando uma dimensão corporativa própria (a dos arqueólogos). O estudo atento dos objetos da cultura material faz com que esta especificidade da história esteja intimamente associada à Arqueologia. veículos que os transportarão ao longo de grandes avenidas e estradas. Móveis. da vida privada. ao se mostrar relacionada a um ‘modo’ de desvendar vestígios materiais e de conectá-los para reconstruir a História. a Arqueologia remete sobretudo aos ‘métodos arqueológicos’ que eventualmente serão empregados para levantar fontes e dados empíricos no decorrer da pesquisa – fontes e dados sobre os quais o historiador fará incidir depois um é a População. ferramentas. A cidade aberta. vale lembrar que. com outros tipos de problemas. e não tanto à ‘dimensão’ de vida social que é trazida por estas fontes. Rigorosamente. inspirará reflexões distintas. como é também o caso da História das Mentalidades. Pode-se perceber que. De qualquer modo.alívio do habitante murado frente aos riscos de invasão externa. máquinas. para considerar a tábua de critérios que estamos utilizando para visualizar as partições internas ao campo historiográfico. tudo pode ser objeto de uma História da Cultura Material.

a ‘espada’ também se abre imagisticamente para o gesto do ‘ordenamento social’. “As tendências para “conter”. implica imediatamente uma outra clivagem possível das tendências: coser para conter dá o vaso de casca. “História da Cultura Material” In Jacques LE GOFF (org. 1990. As estruturas antropológicas do imaginário. a canoa ou o telhado. São Paulo: Martins Fontes. p. Michel. teríamos a noção de “matéria”. “a imaginação de um movimento reclama a imaginação de uma matéria”6 A partir de um enfoque que não deixa de ser similar. 1943. 7 A. O vaso. Paris: Corti. 8 A.) A História Nova.202 [orig. a “matéria” e a “imagem” podem ser examinadas nas suas interrelações. Mas. mas devemos aprender com elas. Ela estende-se para o gesto que corta. que compartimenta — que ordena o social. Relacionando gestos. 5 Jean-Marie PESEZ. Gilbert DURAND. seria uma materialização da tendência geral de conter fluidos7. “flutuar”. imagens e objetos materiais. LEROI-GOURHAN. Leroi-Gourhan analisa determinados objetos. visando estabelecer curiosas interconexões. por exemplo. que separa. Evolution et Technique: L’Homme et la matière. Paris: A. 1989.18. apud. coser para abrigar dá a casa de pranchas cozidas”8. os objetos e artefatos são encarados como complexos de tendências ou “redes de gestos” por Leroi-Gourhan – que de algum modo não deixa de ser simultaneamente um antropólogo da cultura material e do imaginário que se dedicou mais particularmente às culturas paleolíticas. p. Estas divagações podem parecer demasiado abstratas à primeira vista. Assim. coser para vestir dá a veste de peles. enfim. de qualquer maneira. 1943. o símbolo incorpora com a sugestão do ‘ordenamento social’ mais esta outra função representativa. op. As relações entre os objetos da cultura material e o imaginário podem ser exploradas criativamente pelos historiadores de um ou outro destes campos. Independente de ser um símbolo bélico. e conseqüentemente um historiador pode associar os campos da História da Cultura Material e da História do Imaginário. LEROI-GOURHAN. a História da Cultura Material e a Arqueologia freqüentemente andam juntas5.determinado enfoque que pode ou não ser o da História da Cultura Material. 7 . que descrimina. L’Air et les songes. como a “casca”. Se este vaso de casca é cozido.cit. para além do Material. Lisboa: Presença. Também a História da Cultura Material pode atuar na conexão com campos historiográficos definidos por outras dimensões ou enfoques. 6 Gaston BACHELARD.340 sqs. p. Neste sentido. p.38. “cobrir” particularizadas pelas técnicas do tratamento da casca dão o vaso.: 1978]. enfim. Segundo Gaston Bachelard (1943).

e portanto relacionada a sistemas simbólicos. Moles e Jean Baudrillard. Para além da França e da Europa continental. os objetos materiais privilegiados para estudo serão as ferramentas. da justiça9. ou que até mesmo os definem). vem sendo enfatizada já há bastante tempo pela tradição antropológica. teremos como objetos da cultura material importantes as “moedas”. representação da força mas também. pontos focais para estudos de cultura material. Sem contar as ‘técnicas’. Les caractères originaux de l’histoire rurale française. encontrando formulação explícita em alguns de seus principais representantes. Clifford Geertz e Marshall Sahlins. simbologia. A espada torna-se um símbolo polissêmico. que vai desde estas obras 9 A articulação entre Cultura Material e imaginário. David Kingery. são infinitos. 1952 (original de 1931). que também se tornam objeto de interesse da História da Cultura Material (usos que se incorporam a determinados objetos. levando-se em conta que teria empreendido uma modalidade de História da Cultura Material ao analisar a ‘paisagem rural’ na medievalidade francesa11. conforme veremos mais adiante. Quanto aos objetos ligados ao Consumo. Neste caso. Na esfera econômica da Circulação. Enfim. como as de Thomas Schlereth. Por outro lado. Annales d’histoire économique et sociale. Economia e Capitalismo. terá como um dos seus três setores básicos de preocupações o estudo da esfera da Produção. De igual maneira. Baron Isherwood e outros. 8 . as máquinas. Um exemplo de incorporação à análise historiográfica de enfoques relacionados à História da Cultura Material foi concretizado por Braudel. Existem também artigos de Marc Bloch que examinam os instrumentos e as técnicas utilizados pelos camponeses medievais (“Avènement et conquête du moulin à l’eau” e “Les inventions médievales”. Steven Lubar. o tratamento historiográfico da Cultura Material pode ser identificado através de um longo desenvolvimento. Marc Bloch pode ser considerado um precursor. como Claude Lévi-Strauss.enfrentamento do inimigo. entre os quais Jean-Pierre Warnier. São Paulo: Martins Fontes. 10 Fernando BRAUDEL. que têm buscado avançar para além das abordagens semióticas já clássicas da cultura material tal como as que são encaminhadas por autores como A. Civilização Material. a consciência de que “cultura material” é sobretudo “cultura”. motricidade. Dominique Poulot e Françoise Choay. para utilizar a terminologia marxista. em um dos volumes de Civilização Material. de história econômica e novamente do imaginário (se o historiador ocupar-se também do estudo da simbologia de suas efígies). Paris: A. a matéria prima – ou. Colin. que. técnicas corporais e gestualidade também tem sido examinada por diversos outros pesquisadores no âmbito das Ciências Humanas. 3 vol. entre outros. W. 1935). As interrelações mais imediatas da História da Cultura Material afirmar-se-ão provavelmente com a História Econômica. Arjun Appadurai. no decurso deste último século. também nos EUA e no mundo anglo-saxão surgem contribuições extremamente importantes para o desenvolvimento dos estudos de Cultura Material. os ‘meios’ e ‘instrumentos de produção’. 1997 [edição francesa original: 1967].VII. Economia e Capitalismo (1967)10. t. 11 Marc BLOCH.

história visual. São Paulo: Brasiliense. luz e aquecimento. de uma História da Cultura Material motivada por uma preocupação típica da História Social da Cultura. Bezerra de. São Paulo. com Raízes do Brasil). Eis aí. Rio de Janeiro: Rocco. São Paulo. o fornecimento de água. os utensílios (como a rede de dormir) ou os instrumentos (como o arado utilizado no trabalho rural) . Ulpiano T. em Caminhos e Fronteiras 14 o seu enfoque é precisamente a ‘vida material’ da região de São Paulo no período colonial. p. Se em Visões do Paraíso13 o sociólogo-historiador aborda o Imaginário. 2003. 2.. v. Mais recentemente. Entrevista: Para que serve um museu. a partir de uma problematização sociocultural mais ampla. (3) MENESES. ver (1) MENESES. 11-36.pioneiras até as obras mais recentes. Balanço provisório. compreendida aqui no seu sentido mais específico. História das Coisas Banais – nascimento do consumo (sec. Caminhos e Fronteiras.. p. Fontes visuais. como a História das Coisas Banais de Daniel Roche12 – obra que examina para a sociedade européia do século XVII ao XIX diversificados aspectos como a alimentação. uma rede complexa que envolve objetos. técnicas e consumo. a produção de alimentos. registraremos o pioneirismo dos estudos de História da Cultura Material com a obra Caminhos e Fronteiras (1956) de Sérgio Buarque de Holanda. Visões do Paraíso. um autor que certamente contribuiu enormemente para o desenvolvimento deste campo no Brasil15. uma história do ocidente moderno através dos objetos e dos seus usos. Revista Brasileira de História. inscrevendo-os em uma teia de relações humanas que deve ser captada para que a História da Cultura Material não se transforme em um mero inventário descritivo de bens diversos e de suas formas de consumo. As técnicas rurais. especialmente no que se refere Daniel ROCHE. 23. eis aqui os materiais para uma autêntica História da Cultura Material que procura reconstruir. 2001 [original: 1957] 15 Entre outros textos. igualmente fundamentais para a História da Cultura Material no Brasil foram as contribuições de Ulpiano Bezerra de Menezes. Ulpiano Bezerra de. a produção de objetos e o seu consumo. XVII-XIX).1994a (Nova Série). jan. cultura visual. Anais do Museu Paulista. n. 2000. 2. Na verdade. portanto. Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. 13 Sérgio Buarque de HOLANDA.-dez. Revista de História da 12 9 . Bezerra de. propostas cautelares. 45. o vestuário e aparência. (2) MENESES. Para além da contribuição exemplar de Sérgio Buarque de Holanda. I. portanto. a indústria caseira e o artesanato urbano. São Paulo: Companhia das Letras. No Brasil. Ulpiano T. 1994 [original: 1959] 14 Sérgio Buarque de HOLANDA. n. os móveis e utensílios e. a paisagem rural assinalada pelos trigais. 9-42. v. de uma maneira geral. Trata-se. Sérgio Buarque focaliza a vida material como meio para perceber a interação entre colonizadores de origem européia e ameríndios (o confronto cultural é a sua preocupação básica desde 1936.

os diversos ensaios de vários autores incluídos em FUNARI. São Paulo: Contexto. emerge com especial destaque o nome de Pedro Paulo Funari16. A. p. a cultura material pode ser estudada em fontes das mais diversas naturezas. In FUNARI. Estudos Históricos.115 (Nova Série). em seguida. (2005) . (5) MENESES. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor / (5) Ver ainda. P. n. Rio de Janeiro: FGV. Campinas. São Paulo. Rio de Janeiro. S. n. julho-dezembro de 1983. 46-51. é inevitável ressaltar também que a História da Cultura Material em sua associação mais estreita com a Arqueologia apenas começou a se desenvolver mais recentemente no Brasil. Para visualizar alguns aspectos deste desenvolvimento mais recente.Patrimônio Histórico e Cultural.Os desafios da destruição e conservação do património cultural no Brasil. A cultura material no estudo das sociedades antigas.. DOMINGUEZ. Revista de História. 1998.às relações entre Cultura Material e Arqueologia. p. C. P. os lugares mais habituais onde o historiador da cultura material poderá encontrar suas fontes e desenvolver a base principal de sua pesquisa. C. . É neste sentido que a Arqueologia se apresenta como a ciência co-irmã da História da Cultura Material. A. . Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/ UNICAMP. A. L. n. v. 2. P. ver (1) FUNARI. B. Cultura Material.Fontes Históricas. 2007. Teoria e método na Arqueologia contemporânea: o contexto da Arqueologia Histórica. (2001) . In PINSKI. p. Memória e Cultura Material: documentos pessoais no espaço público. A. é relativamente recente em nosso país e no resto da América do Sul. pelo menos para os períodos mais recuados da História. P. São Paulo. Campinas: Unicamp/IFCH. 23-32. Pedro Paulo de Abreu (org). 19.Patrimônio e cultura material. A cultura material no estudo das sociedades antigas. Contudo. n. assim como um conjunto de receitas pode apresentar ao historiador os hábitos culinários de determinado povo em certa região e temporalidade. Porto.. Ulpiano Toledo Bezerra de. p.103-117. P. a matéria sem a mediação do discurso escrito – teremos de recorrer de alguma maneira às já mencionadas práticas arqueológicas. Obviamente que. para além de outros importantes estudiosos das relações entre História.. Myrian Sepúlveda dos Santos e Regina Abreu. (Coleção Idéias). A. 41:1-2. P.. tal como Mário Chagas. p. Ed. abr.. P. Uma coleção de catálogos de modas pode colocar o historiador diante do universo indumentário de determinado período histórico. 1998-1 e (6) MENESES. Examinemos. Se pudemos contar com as já mencionadas obras pioneiras que na historiografia brasileira já se direcionavam para uma História da Cultura Material com razoável grau de consciência. PELEGRINI. 2006. tendendo a se confundir com ela em alguns casos. FERREIRA. A.Fontes arqueológicas: os historiadores e a cultura material. Esta óbvia parceria. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. P. L. Ulpiano Toledo Bezerra de.115 (Nova Série). contudo. julhodezembro de 1983. (4) MENESES. 82-110 / (4) FUNARI. Ulpiano Toledo Bezerra de. 16 Entre outros textos importantes. P. 10 . P. (2006) . p. Cultura material e arqueologia histórica. Revista de História. 317 pp. M. Memória e Patrimônio. tal como registramos com o exemplo pioneiro de Sérgio Buarque de Holanda. seria possível mencionar alguns campos de interesse que têm se oferecido mais habitualmente Biblioteca Nacional.103-117. / (2) FUNARI. particularmente esclarecedora para as relações entre Cultura Material e Arqueologia. 15-22 / (3) FUNARI. se quisermos falar em fontes estritamente materiais – isto é.21.

e assim por diante). Mas ele estará mais especificamente atuando dentro do âmbito da Arqueologia Urbana no momento em que estiver lidando com os processos e métodos mais típicos da Arqueologia.como cenário privilegiado para os historiadores que têm se dedicado ao estudo da cultura material. inclusive a documentação de arquivo. De igual maneira. narrando através das palavras a espacialidade e a materialidade de determinada cidade ou de uma propriedade urbana mais específica. ou de qualquer outro ambiente. é um dado a se considerar. Este trabalho complementar de fontes. Os procedimentos arqueológicos podem ajudar o historiador da cultura material urbana. e se for possível entrecruzar estes dados e análises interpretativas com documentação de arquivo. em níveis muitos diversos e com vistas à percepção dos mais variados aspectos da vida social. será possível recuperar um quadro bem vivo da vida de uma cidade 11 . os estudos da cultura material urbana – e mais especificamente a arqueologia urbana – têm se mostrado como um campo de especial destaque. freqüentemente o historiador da cultura material que se dedica aos estudos urbanos pode contar com um entrecruzamento eficaz de fontes materiais levantadas a partir de escavação ou de outros procedimentos arqueológicos com fontes de natureza diversa. De resto. fotografias para os períodos em que já possuímos a fotografia. Assim. em certo sentido. uma escavação pode trazer à tona desde fragmentos de cerâmica até restos de comida que permitam identificar um determinado padrão de consumo alimentar. Desta maneira. como por exemplo as fontes documentais com as quais os historiadores lidam mais tradicionalmente em seu ofício. Assim. Aqui teremos. como por exemplo as escavações. se nem sempre é possível levantar com maior precisão o contexto material de determinada espacialidade urbana em determinada época em vista da necessidade de se contar apenas com uma escavação parcial (para que não se veja afetada a vida urbana que se desenvolve na contemporaneidade do arqueólogo) este contexto material pode ser contraponteado com o estudo de mapas antigos e de outros materiais iconográficos (pinturas da época examinada que tenham tematizado cenas urbanas. basta lembrar que existe em arquivos tradicionais farta documentação descritiva que busca dar conta da espacialidade nos sucessivos contextos temporais. Entre estes. enfim. Em tempo: um historiador da cultura material pode estudar a cultura material urbana a partir de fontes diversificadas. a materialidade filtrada através do discurso. para além da própria base material urbana assinalada pelo traçado das ruas e pelas ruínas e evidências de prédios. de diversas maneiras o cotidiano social que se desenvolvia sobre uma determinada espacialidade histórica pode ser trazido à tona por escavações.

processos de comunicação. Seguindo adiante com outros exemplos possíveis. trazidas à tona pelas escavações arqueológicas. A sua junção para constituir o bronze – sem falar na tecnologia que será requerida para efetivação da fusão – pressupõe que um destes dois componentes originais tenha sido importado ou que tenha sido obtido em uma rede trocas mais ampla – o que pressupõe meios de transporte. indelevelmente entrelaçadas na sua matéria. a tecnologia da fusão do bronze requer uma especialização que só pode ocorrer no seio de uma divisão mais complexa de trabalho. culturais. Os restos e fragmentos de cerâmica. enfim. a própria matéria fala por si. Da mesma maneira. ou mesmo os restos de comida trazidos à tona em escavações arqueológicas. O cobre e o estanho só mais raramente ocorrem juntos em uma localidade específica. A própria hierarquização social pode ser. podem ser vistos como materializações de processos sociais – e isto coloca a História da Cultura Material em direta conexão com a História Social. também podem contar por exemplo a história de processos de aculturação – para pensar mais especificamente no caso das culturas indígenas – e aqui teremos um diálogo destacado da História da Cultura Material com a História Cultural propriamente dita ou com a História Antropológica. econômicos e tecnológicos. Um objeto de cultura material é na verdade a materialização de uma sucessão de processos sociais. progressos discursivos relacionados à capacidade de obter alianças. Neste caso. desde que examinados a partir de uma leitura adequada. o que faz contrastar o machado de bronze em relação ao machado de pedra quando pensamos que a feitura deste 12 . as diferentes ocupações de uma determinada localidade nas sucessivas temporalidades que se sucedem. “escavada” – no sentido de que as diferenças sociais existentes no interior de um mesmo conjunto humano podem ser observadas a partir dos diversos níveis de cultura material que separam os grupos sociais presentes em um mesmo espaço material. Para não ir muito longe e citar um exemplo dos mais conhecidos. Os objetos. A possibilidade de lidar simultaneamente com as práticas arqueológicas e com a documentação historiográfica mais tradicional é por isto mesmo um dos desafios mais instigantes para os historiadores da cultura material. por assim dizer. o que é a passagem do machado de pedra ao machado de bronze senão a materialização de uma série de transformações processuais que se deram em diversas das dimensões da vida social de um determinado povo? A feitura de um machado de bronze pressupõe simultaneamente uma estrutura social e uma estrutura econômica mais complexa. políticos. podem revelar processos migratórios ao historiador da cultura material que trabalha em conexão com a História Demográfica.em um período remoto.

deve ser entendido como metáfora para a compreensão do que pode significar um objeto de cultura material em termos de materialização de processos sociais. pois esta instituição tem suas armadilhas no que se refere às possibilidades de recuperação de um determinado contexto historiográfico. alguns cuidados devem ser tomados pelo historiador da cultura material que adentra o Museu. Freqüentemente os 13 . no sentido de que os objetos de cultura material que nele são reunidos acabam se mostrando como um grande resumo da sociedade. na sua situação contemporânea. culturais. O Museu tende a ser visto nas sociedades ocidentais como um grande documento. e orientar a construção de uma certa Identidade. O Museu mesmo. Todo Museu foi construído ou instituído um dia. econômicos e tecnológicos17. A determinação do que deve ou não deve ser lembrado atende por diversas vezes a poderes muito específicos. introduz já a sua própria leitura e impõe os seus próprios deslocamentos a uma leitura da sociedade que lhe foi anterior. Contudo.último – à parte a própria existência de todos os seus materiais no próprio local – pode ser realizada no intervalo do plantio ou de outras formas básicas de trabalho. à preservação de determinados interesses sociais. Dito de outra maneira. a passagem do machado de pedra ao martelo de bronze tem muito a dizer ao historiador da cultura material mesmo que só estejamos considerando os materiais envolvidos. de certa maneira – pelo menos como uma de suas funções mais primordiais – para induzir lembrança. Prossigamos na reflexão sobre os lugares privilegiados para a busca historiográfica de objetos da cultura material. Este exemplo. bastante simples por sinal. outro universo significativo onde poderá encontrar as suas fontes materiais é o Museu. sendo esta leitura ou leituras primordiais uma construção sobre a qual se organiza uma outra. Mas de que resumo estaremos falando? Uma sala destinada a recuperar determinado contexto sócio-material em um Museu reproduz habitualmente a ‘leitura de uma sociedade’ que interessou a determinados poderes institucionais vigentes – particularmente na época em que se decidiu transformar estes objetos específicos em memória social – e depois disto sucessivas leituras podem continuar a se desenvolver modificando de alguma maneira essa leitura pelo simples deslocamento de objetos e mecanismos de classificação já no interior da instituição museológica. à glorificação ou depreciação de outros. Se o local passível de ser vasculhado arqueologicamente fornece ao historiador da cultura material um campo por excelência para se aproximar da sociedade que pretende investigar. concretizar memória social.

jan. Um historiador. Rio de Janeiro. ver (1) ELIAS. Maria José.-dez. ver (1) ORSER. Sara (Org. Oficina de Livros. e não em outra direção. Ao penetrar no seu recinto. José Neves. e uma determinada coleção de objetos. e (2) OLIVEIRA. Vera. bem como os diversos ensaios de autores vários publicados em BITTENCOURT. Introdução à Arqueologia Histórica. 18 Sobre estes aspectos. por certos interesses de preservação da memória em uma. C. Freqüentemente. São Paulo: Contexto. O Museu. ou do Museu que traz de temporalidades anteriores uma coleção de determinados objetos da cultura material que podem ser consultados em uma determinada ordem e relação mútua. p. 2003. 1996. nascem envoltos por determinadas relações de poder e redirecionam-se logo em seguida como um instrumento do poder importante. Em outros casos. Estes silêncios falam. 2003. carrega determinados silêncios dentro de si que devem ser pacientemente perscrutados pelo historiador. o historiador poderá encontrar os seus objetos nos lugares mais diversos. E. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia. São Paulo. participa da construção do conhecimento histórico não apenas como fornecedor de materiais e fontes para o historiador. Os objetos de culto religioso. 105-126. Neste diálogo com o Museu (e não apenas com suas fontes) deve se inserir o historiador18. políticas ou culturais no sentido mais amplo. de obras de arte ou de objetos de uso. um determinado objeto material é sagrado no âmbito de um determinado rito religioso. não deve entrar ingenuamente em um Museu. ver a contribuição sempre importante de Myrian Sepúlveda dos Santos (A escrita do passado em museus históricos. TOSTES. é produtor de Discursos e. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional. materializam-se. e (2) FUNARI. Um Museu. Essas relações de poder que presidem a constituição dos Museus e das grandes coleções de objetos de cultura material precisam ser decifradas adequadamente pelo historiador da cultura material que se empenha em recuperar algo da vida de uma determinada sociedade através de seus objetos. enfim. portanto. podem trazer Para uma introdução à Arqueologia. P. destas e de outras maneiras. ele deverá partir da compreensão de que a coleção que irá examinar foi construída por certas relações de poder. são precisamente as alterações – menos ou mais significativas – que serão examinadas pelos historiadores como sinais evidentes de transformações sociais. 1992. e isto faz com que ele se transmita no tempo com menores variações ou mesmo sem modificações substanciais. Para um estudo de caso específico relacionado a um Museu Brasileiro. mas como agente que também produz as suas próprias leituras do conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista. 10-11. Cecilia Helena de Salles. Universidade de São Paulo. 17 14 . Museu Paulista: história e memória. P. enfim. Arqueologia. BENCHETRIT. v.museus. Letras e Ciências Humanas. gritam. São Paulo.) História representada: o dilema dos museus. Para além do sítio arqueológico onde se traz o objeto de cultura material através da escavação. nascidos de coleções de objetos materiais recolhidos na natureza ou de coleções de fragmentos vários do passado humano. Museu Paulista: espaço de evocação do passado e reflexão sobre a História. 2003. MinC IPHAN. como por exemplo nos ritos religiosos. 2006). Rio de Janeiro: Garamond.

Em que pese a pressão da tradição e dos rigores do culto para que os seus objetos se conservem tal como nos primórdios da tradição considerada. Para encurtar uma discussão que poderia seguir adiante indefinidamente. entrar em um recinto sagrado. lembraremos que para uma boa análise historiográfica o objeto é sempre o ponto de partida na pesquisa. Desta maneira. objetos e materiais prontos a favorecê-lo em sua viagem de conhecimento histórico. a verdade é que a transformação material de objetos de culto podem ser influenciadas por diversos fatores. já que ao historiador da cultura material apresentam-se inúmeros lugares. na sua interconexão com outros objetos. Entre tantos possíveis. identificar padrões de pensamento e processos de simbolização. por outro lado. Para além disto. na carga simbólica que carregam. materializam-se nos objetos de cultura material – de modo que estes podem ser examinados como sintomas das sociedades que os produziram. enfim. compreender as tensões que surgem entre a vida humana e a sua apropriação dos objetos e materiais que os homens encontram na natureza para transforme-los em seguida. é o grande desafio do historiador da cultura material. o historiador da cultura material também deve enfrentar conscientemente os desafios de buscar ler uma sociedade através dos seus objetos. enfim. para utilizar aqui a força de uma metáfora. em sua interação com a sociedade envolvente. Aqui. A tudo isto. perceber hierarquizações sociais e funcionais. enfim. Através do objeto. As transformações sociais. pode se apresentar ao historiador como uma verdadeira viagem através do tempo. 15 . deve estar atento o historiador da cultura material que se aproxima de um culto religioso com o fito de procurar entender a sociedade que instituiu as suas bases principais. deve se considerar a possibilidade de escassez de matérias-primas tradicionalmente usadas para confeccionar os objetos. seja um terreiro de umbanda ou uma Igreja católica. o historiador deve mostrar-se capaz de ler relações de poder.ao seu modo um passado histórico que remete o historiador aos momentos onde o culto foi instituído. um culto pode ir se modificando e conseqüentemente imprimindo novas modificações nos objetos de cultura material que utiliza. ou aos momentos em que este sofreu algumas de suas modificações mais significativas. a intervenção de novas técnicas e materiais novos pode trazer suas contribuições a esta superposição de temporalidades. Captar em um objeto simples toda a complexidade social. na maneira de utilizá-los. e não o resultado ou a ilustração dela. De igual maneira. porque neste caso teremos várias temporalidades que se superpõem.

2001. DOMINGUEZ. Estudos Históricos. A crise da memória. P.6. Cultura material e arqueologia histórica. MENESES. Maria José. (2001) . Rio de Janeiro: 7Letras. 1943. v.B. HOLANDA. P. P. A. 16 . Sao Paulo: Editora Unesp. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia. Arquivos. Rio de Janeiro. Fernando. Les Lieux de Mémoire. O mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Petrópolis: Vozes. (Seminários & Debates). de (org.. Gilbert. Ulpiano Toledo Bezerra de. 1943. MENESES. Paris: A. Ulpiano Toledo Bezerra de. MENESES. BLOCH. 3 vol. 1995. Ulpiano Toledo Bezerra de. São Paulo. BENCHETRIT. 1984. New York: 1971. cultura visual. 41:1-2. 23-32. FUNARI. Caminhos e Fronteiras. 1998-1. 2 vol. François. Nilson A.)..Paulo: Editora UNESP. São Paulo: Companhia das Letras. v. In: SILVA. Economia e Capitalismo.Patrimônio Histórico e Cultural. Memória e patrimônio: ensaios contemporâneos.115 (Nova Série). P. ELIAS. n. As estruturas antropológicas do imaginário. Universidade de São Paulo. 1988. A História em Migalhas. 45. Armelle. José D’Assunção. Técnicas de análise em demografia histórica. Lisboa: Presença. p. BRAUDEL. 23. DURAND. 1993. Estudos Históricos. Balanço provisório. FUNARI. MENESES.11. P.Patrimônio e cultura material. p. Maria Teresa T. história e documento: reflexões para um tempo de transformações. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/ UNICAMP. Michel. Gaston. L’Air et les songes. DOSSE. FUNARI.128-137. A alegoria do patrimônio. Lisboa: Gradiva. 2001. P. A cultura material no estudo das sociedades antigas. Campinas: Unicamp/IFCH. Raízes do Brasil. Arqueologia. p. Rio de Janeiro.21. 1998. Regina. Paris: A. Construindo o conceito de documento. n. dez anos depois. 317 pp. BRAUDEL. A. 1.. LEROI-GOURHAN. Sérgio Buarque.23. (2006) . Vera Lúcia D. (Coleção Idéias). Porto. v. FAPESP. Marc. FUNARI. HENRY. Faperj. 1999. Paris: Corti. Pedro Paulo de Abreu (org). Evolution et Technique: L’Homme et la matière. 1989. A. P. 1952 (original de 1931). Campinas. 2006.. 2003.95-115. A. In FUNARI. A problemática da Identidade Cultural nos Museus: de objetivo (de ação) e objeto de conhecimento Anais do Museu Paulista. Letras e Ciências Humanas. 1997. A. M. p. Françoise. Colin. Revista de História. p. São Paulo: Martins Fontes. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O Campo da História – especialidades e abordagens. BITTENCOURT. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional. S. MENESES. MORAES. n. CHOAY.Referências Bibliográficas ABREU. Museu Paulista: história e memória. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. São Paulo. José Neves. FERREIRA. propostas cautelares. Rio de Janeiro: DP & A.) História representada: o dilema dos museus. Memória e Cultura Material: documentos pessoais no espaço público. identidade e representação. N. São Paulo. GARCÍA CANCLINI. 2003. PELEGRINI. L. . HOLANDA. São Paulo: Contexto. BACHELARD. Zélia Lopes da (org. CHAGAS.103-117. S. Vera. LE ROY LADURIE.). patrimônio e memória. Memória. 11-36. n. TOSTES. Rio de Janeiro: FGV. Civilização Material. julho-dezembro de 1983. 1996. P.59-66. 1994. Fernando.). Ulpiano Bezerra de. BARROS. 15-22. Teoria e método na Arqueologia contemporânea: o contexto da Arqueologia Histórica. São Paulo: Editora Ensaio. Les caractères originaux de l’histoire rurale française. história visual. HOLANDA. Sérgio Buarque. São Paulo. P. São Paulo: Martins Fontes. Times of Feast Times Famine. n. Louis. São Paulo: Brasiliense.. 1994. A. C. P. Revista Brasileira de História. n. 2004. Trabalhos de Antropologia e Etnologia. Mario (Org. FUNARI. In: LEMOS. p. Ulpiano Toledo Bezerra de. Emmanuel. DODEBEI. 2003. 2003. p. 1994.11-29. ENDERS. Sérgio Buarque de Visões do Paraíso. 1. Fontes visuais.Os desafios da destruição e conservação do património cultural no Brasil. L. p. Sara (org. 2000. O patrimônio cultural e a construção imaginária do nacional. São Paulo: Companhia das Letras.

2000. Vera. jan. v. abr. Rio de Janeiro: Garamond. dez. Museu Paulista: espaço de evocação do passado e reflexão sobre a História. n. 159-190 (Rencontres de lécole du Louvre). p. Curators and culture: the museum movement in America. A escrita do passado em museus históricos. Acervo. Joel J. Dominique. Oficina de Livros. Ulpiano T. Jean-Marie. patrimoine 1789-1815. SANTOS. Cecilia Helena de Salles. Nação. Essai de biographie culturelle des monuments. n. TOSTES. p. Anais do Museu Paulista. v. Rio de Janeiro. Tuscaloosa: The University of Alabama Press. I. Bezerra de. 2006. OLIVEIRA. PESEZ. Myrian Sepúlveda dos. Bezerra de. 10. NORA. MENESES. Jacques (org. Daniel. In: BITTENCOURT. 2007. POULOT. Paris: Gallimard. p. 2. 2003. ORSER. OROSZ. POULOT. n. In: Lidolâtrie. Sara (Org. 1997. nation.-dez. 46-51. Museu. p. POULOT. Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico. ROCHE. Entre memória e história: a problemática dos lugares. XVII-XIX). Ulpiano T. MinC IPHAN.177-213. 19. 1990.-dez. Paris: La Documentation Française. Trad. jan. José Neves. p. São Paulo: Martins Fontes. 10-11. R. 2003. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional. BENCHETRIT. 17 .MENESES. 1740-1870. São Paulo. 1993. 9-42. 7-28. 105-126. F. Revista de História da Biblioteca Nacional.1994a (Nova Série). São Paulo.) A História Nova. 25-62. São Paulo. Projeto História: revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 1990. C.) História representada: o dilema dos museus. v. 2. Rio de Janeiro. Introdução à Arqueologia Histórica. 2. “História da Cultura Material” In LE GOFF. p. Willaume. p. História das Coisas Banais – nascimento do consumo (sec. Dominique. Rio de Janeiro: Rocco. 1992. Musée. Idoles et allégories: les images du passé en Révolution. 1990. Entrevista: Para que serve um museu. Pierre. Anais do Museu Paulista. Dominique. E.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->