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P rojeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(7n memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanca a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenga católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


- ■ Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
''i controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
i dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abencoar
este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca depositada


em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xl Julho 1999
Fidelidade

O 66g milagre em Lourdes reconhecido pela Igreja

Curia Romana: Que é?

O Movimento do Alimento Glorioso

"Os caminhos do Espirito Santo", por James Parker

"O exemplo de urna esposa", por James F. Heady

Ainda o ex-Rabino Zolli

"Meu pai nunca deixou de ser um judeu"

Ainda Pió XII e os judeus

"O Sonho da Paz", por Marcelo Barros


PERGUNTE E RESPONDEREMOS JULHO1999

Publicagáo Mensal NM46

SUMARIO
Diretor Responsável
Estéváo Bettencourt OSB Fidelidade 289
Autor e Redator de toda a materia Ajnda QS mi|agres:

publicada neste periódico 0 66s milagre em Lourdes reconhecido


pela Igreia 290
Oiretor-Administrador:
D. Hildebrando P. Martins OSB Ju.st.a curiosldade:
Curia Romana: Que e? 296
Administrado e Distribuicáo: Naoa

Edicóes 'Lumen Christi' O Movimento do Alimento Glorioso 301


Rúa Dom Gerardo, 40 - 5o andar-sala 501 Os mistérios da graca divina:
Tel.: (021) 291-7122 «Os caminhos do Espirito Santo" por
Fax (021) 263-5679 James Parker 306

Endereco para
Ed. -Lumen Chnsti
Correspondencia:
Templo de urna esposa» por
James F Heady 312

Caixa Postal 2666


CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
317

Visite o MOSTEIRO DE SAO BENTO Judeus e Cristáos em Diálogo:


e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" "Meu pa¡ nunca deixou de ser
na INTERNET: http://www.osb.org.br um judeu" 325
e-mail: LUMEN.CHRISTI @ PEMAIL.NET Fala o ex-rabino Israel Zolli:
Aínda Pió XII e os judeus 329

Relativismo:
"O Sonho da Paz", por Marcelo Barros.. 332

COM APROVAQÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

O Sinal da Cruz. - Se tudo fosse permitido,... - Homem e Mulher: complementaridade. -


Unificacáo da Data da Páscoa. - "A Vida dos Direitos Humanos" (varios autores). - "A
Luz do Além" (Raymond Moody Jr.). - Aberto o Processo de Madre Teresa de Calcuttá. -
O Fenómeno Joáo Paulo II.

(PARA RENOVACÁO OU NOVA ASSINATURA: R$ 30,00).


(NÚMERO AVULSO RS 3,00).

O pagamento poderá ser á sua escolha:

1. Enviar em Carta, cheque nominal ao MOSTEIRO DE SAO BENTO/RJ.

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C/C 31.304-1 do Mostefro de S. Bento/RJ, enviando em seguida por carta ou fax,
comprovante do depósito, para nosso controle.

3. Em qualquer agencia dos Correios, VALE POSTAL, enderecado as EDICÓES "LUMEN


CHRISTI" Caixa Postal 2666 / 20001-970 Rio de Janeiro-RJ

Obs.: Correspondencia para: Edicóes 'Lumen Christi'


Caixa Postal 2666
20001-970 Rio de Janeiro - RJ y
FIDELIDADE

Trinta e quatro anos após o Concilio do Vaticano II (1962-1965) aínda se


fala de católicos conservadores e católicos progressistas. Conservadores seri-
am os apegados á tradicáo e ao passado a ponto de rejeitarem inovacoes,
ainda que sadias. Progressistas seriam aqueles que se lancam em direcáo do'
futuro sem levar na devida conta o passado. A distincáo pode suscitar discus-
sóes e litigios, que geralmente sao mais deletérios do que construtivos.
Na verdade, o passado, o presente e o futuro da Igreja háo de ser consi
derados como um todo indissolúvel, pois a Igreja é o Corpo de Cristo (Cl 1,24)
e, como organismo vivo, deve desenvolver a riqueza de suas virtualidades na
medida em que novos campos de apostolado se Ihe apresentem, todavía sem
perder o contato com o pasado e sem quebrar a continuidade do seu desabro-
chamento. Um organismo que nao mostra as suas potencialidades quando
exigidas pelas circunstancias, está esclerosado e tende á mumificacáo. Da
mesma forma, o organismo que se atira para o futuro esquecendo as suas
origens, corre o risco de se descaracterizar e destruir. Eis por que nem
conservadurismo nem progressismo sao atitudes corretas. O fiel católico sabe
que qualquer rotulacáo depende do ponto de vista de quem a aplica; tem um
tanto de subjetivismo e relativismo.

Em conseqüéncia, o qualificativo correto do bom católico é o da FIDELI


DADE... Fidelídade a quem? - A Cristo na Igreja, á qual o Senhor prometeu
sua assisténcia infalível (cf. Jo 14, 25s; 16, 13-15). Ser fiel a Cristo que fala e
age pela Igreja é o grande propósito do bom católico.

Como se compreende, tal atitude requer fé. Isto nao surpreende, visto
que fidelidade vem de fides (fé, em latim); fidelidade é fé protraída corajosa
mente. A fé ensina que a Igreja nao é urna sociedade como outra qualquer,
mas é um sacramento, ou seja, o ámbito visível no qual Cristo continua a
exercer a sua acáo redentora. Eis por que o católico deposita confianca ñas
diretrizes que Ihe vém da Igreja; sabe que ela permanecerá sempre na verda
de, pois Cristo Iho prometeu, dando como criterio de autenticidade a sucessáo
apostólica: "Estarei convosco (Apostólos) até a consumacáo dos séculos" (Mt
28, 20). As falhas cometidas por membros da Igreja nao extinguem o poder
santíficador de Cristo, que se serve dos meios que Ele quer para salvar os que
O procuram.

A fidelidade supóe também humildade da parte de quem a pratica; nao


posso crer que tenho "um melhor Espirito Santo" do que aquele que Cristo
. concedeu á sua Igreja.

A fidelidade implica outrossim amar a Igreja, sentir com Ela, vibrar com
Ela, sofrercom Ela, trabalhar com Ela, em vez de arrolar casos sombríos como
faria um frió observador.

Quem tem consciéncia disto, jamáis esquecerá as palavras de S. Cipriano:


"Nao pode ter Deus por Pai no céu quem nao tem a Igreja por Máe na térra".
E.B.

289
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

AnoXL-Ns446-Julhode1999

Aínda os milagres:

O 662 MILAGRE EM LOURDES RECONHECIDO


PELA IGREJA

Em síntese: O Sr. Bispo de Angouléme {Franca), Mons. Claude


Dagens, publicou, aos 9/2/99, urna Nota oficial pela qual reconhece a
cura milagrosa do Sr. Jean-Pierre Bély, obtida aos 9/10/1987 e devida-
mente examinada por médicos e teólogos. As diversas pericias efetuadas
levaram á conclusáo de que se trata de fato inexplicável pela ciencia e
realizado em resposta do Senhorás oragoes do beneficiado e de quantos
Ihe asslstiram. A seguir, vai publicado o texto de Mons. Dagens acompa-
nhado de noticias sobre o procedimento adotado para averiguar a possi-
bilidade de algum milagre em Lourdes.
* * *

Sabe-se que em nossos dias duas atitudes se defrontam frente a


possíveis milagres: há os que nao Ihes dáo crédito algum, como também
existem os que fácilmente acreditam em portentos. A Igreja a propósito é
prudente: sem negar a possibilidade de milagres, ela deseja certificar-se,
com todos os recursos humanos, de que cada caso apregoado é real
mente inexplicável pela ciencia e pode ser tido como resposta do Senhor
Deus as preces humildes e confiantes das pessoas interessadas.
Como espécimen da maneira como a autoridade eclesiástica pro
cede perante a noticia de eventual milagre, vai a seguir publicada a De-
claracáo de Mons. Claude Dagens.Bispo de Angouléme (Franca), relati
va á cura total e subitánea de um diocesano seu, o Sr. Jean-Pierre Bély.
- Á guisa de ilustracáo, seráo indicados mais pormenorizadamente os
trámites do exame médico realizado em cada caso de apregoado milagre.

I. A Declaracáo do Sr. Bispo de Angouléme

«Esta Declaracáo versará sucessivamente sobre:

290
O 66" MILAGRE EM LOURDES RECONHEC1DO PELA IGREJA 3

- o fato da cura;

- a ¡nterpretacáo deste fato segundo a fé crista;

- a responsabilidade própria da Igreja ao autenticar o fato.

1. O fato da cura

Na sexta-feira 9 de outubro de 1987, em Lourdes, no decorrer da


peregrinacáo do Rosario, da qual participava, o Sr. Jean-Pierre Bély, de
51 anos de idade naquela época, foi curado de grave molestia, que o
invalidava, e de que sofría havia varios anos. Tal molestia foi identificada
pelos médicos que dele tratavam, como sendo urna esclerose em placas
evoluída em fase severa e avancada.

Todos os médicos que examinaram o paciente após o aconteci-


mento ocorrido em Lourdes aos 9 de outubro de 1987, verificaram que a
cura do Sr. Bély foi subitánea, completa e duradoura.

2. A Interpretacáo Crista da Cura

Como Bispo da diocese de Angouiéme, em que o Sr. Bély continua


a residir, trago hoje a responsabilidade de tornar pública a ¡nterpretacáo
que a Igreja se julga autorizada a dar a essa cura subitánea e inesperada.
Tal ¡nterpretacáo apoia-se sobre o testemunho prestado pelo Sr.
Bély mesmo após o acontecimento ocorrido em favor dele na cidade de
Lourdes aos 9 de outubro de 1987. Comporta a leitura e urna compreen-
sáo desse testemunho á luz da fé.

a) É certo que o Sr. Bély foi total e duradouramente curado em


Lourdes, ou seja, foi isento da molestia de que sofría, e restaurado efeti-
vamente em seu estado normal.

Essa libertacáo em relacáo á molestia e esse reerguimento podem


ser considerados como um dom pessoal de Deus a tal homem ou como
um derramamento da graca e um sinal de Cristo Salvador.

b) O derramamento da graca ocorreu em Lourdes por ocasiáo de


urna peregrinacáo, durante a qual o Sr. Bély pode receber o sacramento
da Reconciliacáo e o da Uncáo dos Enfermos. É necessárío reconhecer
o íntimo nexo existente entre os sinais sacramentáis e o fato da cura. O
amor de Deus para com o enfermo se manifestou através dos atos sacra
mentáis da Igreja.

c) A intercessáo da Virgem Maria também foi decisiva para a cura


do Sr. Bély.

O relato que ele mesmo fez dos dias passados em Lourdes, permi-

291
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

te-nos perceber a peculiar atencáo materna da Virgem Maria para com o


doente gravemente afetado e fiel á oracáo do Rosario.
Por conseguinte, o fato da cura do Sr. Bély nao deve ser separado
nem dos sacramentos recebidos durante a peregrinacáo nem da prece
dirigida a Nossa Senhora de Lourdes. A cura do Sr. Bély, mesmo que
tenha sido instantánea, nao caiu do céu; ela se insere no contexto da
Igreja real, que vive dos sacramentos do Cristo e que roga á Virgem Ma
ria, a Mae de Jesús Cristo, o Salvador.
3. A Responsabilidade Própria da Igreja

A imprevista cura do Sr. Bély suscitou múltiplas pericias médicas


de ordem neurológica e psiquiátrica; estas foram submetidas, durante
perto de dez anos, a Comissáo Médica (Bureau Medical) de Lourdes e
ao Comité Médico Internacional de Lourdes (CMIL).
No decorrerde sua última reuniáo, esse Comité Médico Internacio
nal absteve-se de fomecer pravas médicas absolutas da cura, mas expri-
miu o desejo de que a Igreja formulasse o seu juízo próprio. Ora tal é o
objetivo desta Declaracáo.

a) O discernimento pastoral que tenho a responsabilidade de tor


nar público, como Bispo da diocese de Angouléme, nao é dissociável do
discernimento médico tal como toi formulado pelo Comité Médico Inter
nacional.

Com efeito, pode-se reconhecer que o fato dessa cura subitánea e


imprevista escapa aos trámites habituáis e naturais da doenga
diagnosticada.

b) Levando em conta esses elementos, a Igreja goza da liberdade,


reconhecida pelo próprio Comité Internacional, de formular o seu discer
nimento próprio pastoral, que se apoia sobre o testemunho do Sr. Bély e
sobre a Comissáo Canónica, constituida de sacerdotes e leigos qualifi-
cados, principalmente de médicos, que reuni em Angouléme na segun-
da-feira 4 de Janeiro de 1999.

Em nome da Igreja, portanto, reconheco publicamente a índole


auténtica da cura obtida pelo Sr. Jean-Pierre Bély em Lourdes na sexta-
feira 9 de outubro de 1987.

Essa cura subitánea e completa é um dom pessoal de Deus a tal


homem e um sinal efetivo do Cristo Salvador, que se realizou pela inter-
cessáo de Nossa Senhora de Lourdes.

c) Esta Declaracáo pública foi proclamada no decurso de duas ce-


lebracóes eucarísticas na quinta-feira 11 de fevereiro de 1999, na festa

292
O 66a MILAGRE EM LOURDES RECONHECIDO PELA IGREJA 5

de Nossa Senhora de Lourdes, festa que também é, na Igreja Católica, o


Dia Mundial de Oracáo pelos Enfermos.

Em Lourdes, a Eucaristía foi celebrada ás 10h e 30min na basílica


de Sao Pió X sob a presidencia de Monsenhor Jacques Perrier, Bispo de
Tarbes e Lourdes.

Em Angouléme a Eucaristía foi celebrada ás 20h 30min na igreja


de Nossa Senhora de Obezine. Presídi-lhe como Bispo de Angouléme. O
Sr. Bély déla participou com a familia e os amigos.

d) Convido todos os fiéis a que déem gracas pela cura, como o faz
o Sr. Bély mesmo, ou seja, segundo o espirito das bem-aventurancas,
com a consciéncia de sermos pobres criaturas amadas por Deus e certas
de poder contar com o amor de Deus.

Convido especialmente os doentes a que sejam, entre nos, as tes-


temunhas dessa confianca, nao simplesmente numa atitude de resigna-
cáo diante do sofrimento, mas desejosos de que se realize a nova cria-
cao, liberta da doenca, do pecado e da morte. Pois 'as criaturas todas
gemem até agora as dores do parto' (Rm 8, 22).

Que a Virgem Maria, Nossa Senhora de Lourdes, nos ensine a


participar, mesmo em nossos corpos, desse parto de urna humanidade
nova, transformada pelo Amor de Deus em Cristo.

Mons. Claude Dagens


Bispo de Angouléme
9 de fevereiro de 1999»

II. Os Trámites da Pesquisa Médica

Para averiguar as apregoadas curas de doencas em Lourdes, exis


te nessa cidade o chamado Bureau Medical (Comissáo Médica). Esta
nao se destina a atender aos doentes que comparecem como peregrinos
e precisam de consulta médica. Para este fim, existem médicos e enfer-
meiras/enfermeiros disponíveis para acompanhar os doentes em suas
carencias. Existem também farmacias e ambulatorios prontos a dar o
socorro médico ou farmacéutico necessário a peregrinos e visitantes da
cidade.

O Bureau Medical tem sua estrutura concebida como servico des


tinado a averiguar a autenticidade de alguma apregoada cura. É com
posto por médicos residentes em Lourdes e por outros profissionais da
saúde interessados em verificar a genuinidade da declaracáo de cura
feita por pacientes beneficiados. Alias, desde a época das aparigóes em
1858 os médicos tiveram papel importante em Lourdes. Com relacáo á

293
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

vidente Bernadete, por exemplo, o Dr. Dozous, médico de Lourdes, teve


a oportunidade de averiguar a ¡ntegridade física e mental da jovem; algo
de semelhante se deu quando as primeiras pessoas beneficiadas -
Catherine Letapie e Louis Bouriette, entre outros - proclamaram ter rece-
bido urna graca especial em Lourdes.

A partir de 1998 o Bureau Medical está sob a responsabilidade do


Dr. Theillier.

Pergunta-se agora:

Como se dá o controle de urna cura?

Antes do mais, sejam apresentados os criterios que indicam a cura:

Para que a pesquisa médica possa concluir estar diante de urna


cura certa, definitiva e médicamente inexplicável (os médicos nao falam
de milagre), requer-se

- que se apure claramente o tipo de molestia de que sofría o paci


ente antes de chegar a Lourdes; exige-se diagnóstico preciso, sem o
qual nao prossegue a pesquisa;

- que a cura tenha sido subitánea, sem convalescenca, completa


e definitiva;

- que o tratamento prescrito pelos médicos nao possa ser tido como
causa da cura nem mesmo como fator que a tenha favorecido de algum
modo.

Eis as etapas da tramitacáo do processo:

Os pacientes que váo a Lourdes, geralmente levam consigo um


atestado médico que declara exatamente qual é o seu estado de saúde.

Caso o enfermo se julgue restabelecido, apresenta-se á Comissáo


Médica (Bureau Medical) com o seu acervo documentarlo; contacta as-
sim o médico-chefe da equipe e todos os médicos presentes em Lourdes
desejosos de participar do exame do caso.

Esse primeiro contato nao permite conclusáo alguma. Apenas é


feito o registro do caso e convida-se a pessoa a voltar á presenca da
Comissáo Médica no ano seguinte ou em época posterior.

Se varios exames sucessivos resultam favoráveis ao laudo de cura,


o caso é transferido para o Comité Médico Internacional (desde que %
dos médicos presentes aos exames da Comissáo Médica o desejem).

A segunda instancia (perante o Comité Médico Internacional) so é


praticada a partir de 1947. O próprio Bureau Medical de Lourdes, com-

294
O 66* MILAGRE EM LOURDES RECONHECIDO PELA IGREJA 7

posto de médicos franceses apenas em suas origens, tornou-se interna


cional em 1954. A grande Comissáo Internacional consta de aproxima
damente trinta especialistas: cirurgióes, professores, agregados de di
versos países, que se reúnem uma vez por ano. Está atualmente sob a
presidencia do Dr. Prof. Jean-Louis Armand-Laroche.

Podem decorrer muitos anos antes que os especialistas profiram


algum jufzo sobre determinado caso; interessa-lhes, antes do mais, con
trolar a evolucáo da saúde dos pacientes ou a duracáo do estado de
cura.

Se o Comité Internacional emite um laudo favorável, este é levado


ao conhecimento da autoridade eclesiástica. Desde 1947, cerca de 1.300
dossiés foram apresentados ao Comité Internacional. Entre 1947 e 1998
o Comité levou 29 dossiés á autoridade eclesiástica; 19 deles foram re-
conhecidos como casos de cura milagrosa. Antes da criacáo do Comité
Internacional, a Igreja havia reconhecido 46 milagres obtidos em Lourdes
desde 1858. Ora 46 + 19 = 65 casos anteriores ao do Sr. Jean-Pierre
Bély.

Como dito, tendo passado por Comissóes Médicas com o qualifi-


cativo de "científicamente inexplicável", o caso é apresentado á autorida
de eclesiástica. Toca entáo ao Bispo da diocese em que reside a pessoa
agraciada, pronunciar-se sobre o assunto. Para tanto, o prelado reúne
uma Comissáo de sacerdotes, canonistas e teólogos, que deve orientar
seu procedimento pelas normas estabelecidas em 1734 pelo futuro Papa
Bento XIV em seu Tratado sobre a Beatificacáo e Canonizacáo dos
Servos de Deus (Livro IV, Parte I, capítulo VIII, n9 2).

Em poucas palavras, essas normas exigem que nao se encontré


explicagao válida de ordem médica, científica, natural para o caso em
foco. Tendo sido isto bem averiguado, compete aos canonistas convoca
dos pelo Bispo investigar se a cura esteve isenta de qualquer trago de
desonestidade ou coisa indigna de uma intervencáo divina.

Desde que o Bispo diocesano receba todos os laudos favoráveis,


ele se manifesta definitivamente e propóe aos seus diocesanos, como ao
mundo católico todo, que vejam em tal cura um "sinal de Deus".

Já observamos que a cura do Sr. Jean-Pierre Bély foi a 66a reco


nhecida pela Igreja desde 1858. A anterior ocorreu aos 24 de dezembro
de 1976 e foi reconhecida aos 28 de junho de 1989: tratava-se de uma
jovem italiana, de doze anos de idade na época de seu restabelecimento
de saúde.

295
Justa Curiosidade:

CURIA ROMANA: QUE É?

Em sintese: A Curia Romana é o conjunto de organismos e pesso-


as destinados a colaborar com o Papa no governo da Igreja tanto na
ordem espiritual como na material. Consta de tres Oficios superiores, nove
Congregagóes (quase Ministerios) e onze Conselhos, além de instancias
de menos relevo. Embora o nome "Curia Romana" date do sáculo XII, a
realidade respectiva teve orígem nos primeiros sáculos da Igreja, quando
os Papas sentiram a necessidade de terjunto a si pessoas que os auxili-
assem a desempenhar dignamente as suas fungoes. No sáculo XVI a
Curia foi estruturada nos termos que hoje permanecem; vem sofrendo,
porém, as reformas exigidas pelo desenrolar dos tempos.

Por definicáo, a Curia Romana é considerada o conjunto de


Dicastérios (quase Ministerios), Oficios, Conselhos e Comissóes, que
assistem ao Papa no exercício das suas funcoes de Supremo Pastor da
Igreja; tem em vista servir nao somente ao Sumo Pontífice, mas á Igreja
inteira e a cada urna de suas dioceses. De tal maneira sao corroboradas
a unidade da fé, a observancia da disciplina eclesiástica e se promove a
missáo evangelizadora da Igreja.

Somente no comeco do sáculo XII comecou a ser utilizada a desig-


nacáo "Curia Romana" e somente em 1588 (há 411 anos) a Curia foi
estruturada em sua complexidade característica. A realidade, porém, data
dos primeiros séculos, pois desde cedo os Papas sentiram a necessida
de de convocar administradores que os ajudassem. Já em meados do
século III as crónicas relativas ao Papa Fabiano (236-250), mostram que
ele tinha, como auxiliares, Bispos, presbíteros e diáconos.

É de notar que até 1870, nos séculos em que existia o vasto Esta
do Pontificio, os Papas precisavam de numerosos oficiáis que exerces-
sem a gestao dos encargos temporais que tal condicáo impunha.

O primeiro documento que define a estrutura da Curia Romana é a


Constituicáo Apostólica Immensa Aeterni Dei de Sixto V datada de 22
de Janeiro de 1588. Na Introducáo respectiva o Papa recorda Moisés,
que chamou a si andaos de Israel que Ihe assistissem no governo do
povo (cf. Dt 1, 9-15); a mesma caréncic. se impóe ao Papa. Em conseqü-
éncia foram instituidas quinze Congregacóes confiadas á chefia de Carde-

296
CURIA ROMANA: QUE É?

ais: (1) a Santa Inquisicáo; (2) o índex dos Livros Proibidos; (3) a Signatura
Apostólica, destinada a dispensas e questóes de ordem jurídica; (4) a
Congregacáo para a Liturgia; (5) a Congregacáo para os Dias Santos; (6)
a Congregacáo para os Consistorios; (7) a Congregacáo para a Interpre
tado e a Aplicacáo do Concilio de Trento; (8) a Congregacáo para a
Consulta dos Bispos; (9) a Congregacáo para as Universidades e os Es-
tudos Teológicos e (10) a Congregacáo para a Imprensa Vaticana. - Ha-
via cinco outros Dicastérios voltados para a administracáo do Estado
Pontificio: (11) a Anona ou Departamento de Assisténcia aos Pobres;
(12) a Congregacáo para a Marinha do Estado Pontificio; (13) o Departa
mento de Financas; (14) a Congregacáo para o Bem-Estar Público; e
(15) a Congregacáo para a Justica Civil e Criminal.

Em 1908 a Curia precisava de reforma, pois o Estado Pontificio


caira em 1870 sob os golpes do reino da Italia, e diversos Dicastérios
haviam perdido sua razáo de ser. Em conseqüéncia, o Papa Sao Pió X
remodelou a Curia mediante a sua Constituicáo Sapienti Consilio. Fo-
ram extintos todos os Oficios destinados a tratar de assuntos políticos do
Vaticano; o Papa assumiu a si algumas atribuicoes anteriormente dele
gadas a Cardeais e outros oficiáis. Novas competencias foram atribuidas
a novos Departamentos suscitados pelo fato de que o Papa se julgava
prisioneiro no Vaticano, á espera de solucáo da famosa Questáo Roma
na.

Em 1967, dois anos após encerrado o Concilio do Vaticano II, táo


marcante para a vida da Igreja, Paulo VI, pela Constituicáo Apostólica
Regimini Ecclesiae Universae, reformou mais urna vez a Curia, adap
tando-a as circunstancias pós-conciliares.

Ainda mais recentemente, em 1988, Joáo Paulo II, mediante a Cons


tituicáo Apostólica Pastor Bonus, refez a organizacáo da Curia Roma
na, procurando acentuar o seu objetivo de servio pastoral. Num discur
so a Cardeais, disse S. Santidade: "A igreja hoje se vé diante de tarefas
de extensáo, importancia e variedade talvez nunca atingidas outrora".
Por esta razáo, quería o Papa que "a Curia correspondesse fielmente á
Eclesiologia do Concilio do Vaticano II, fosse adaptada em tudo á missáo
pastoral da Igreja e capaz de ir ao encontró das necessidades concretas
da sociedade religiosa e civil".

A atual configuracáo da Curia Romana é apresentada á p. 300 deste


fascículo.

Em 1996 o arcebispo John Quinn, de San Francisco (U.S.A.) e entáo


presidente da Conferencia dos Bispos norte-americanos, fez urna pro
posta pública de reforma (que, segundo ele mesmo disse, seria urna re-

297
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

volucáo) da Curia Romana. Tinha em vista facilitar a re-uniáo dos cris-


táos separados; todavía o projeto tiraría do Papa os meios de governar a
I g reja. A proposta agradou a ce tíos ambientes progressistas católicos,
dos quais foi porta-voz a revista italiana JESÚS. Os editores da revista
propugnavam maior espago para o exercício da colegialidade na Igreja,
a ponto mesmo de apelar para um futuro Concilio do Vaticano III, que
deveria ampliar a estrutura colegial do governo da Igreja1.

Enquanto tais críticas ressoam, outros pensadores, mesmo


anticlericais, reconhecem o singular valor do regíme centralizado da Igre
ja Católica. Eis, por exemplo, o que escreveu Ernesto Galli Della Loggia,
editorialista do muito difundido jornal italiano Corriere della Sera, edicáo
de 16 de outubro de 1998:

"É tato que durante os dois mil anos de sua existencia a Igreja
Católica permaneceu fundamentalmente fiel ao modelo de autoridade
centralizada na pessoa de um único responsável. Verdade é que, dentro
da estrutura da Igreja, fazem-se ouvir grupos e correntes que exprimem
pontos de vista diversos. Apesar disto, o Papa aínda segura táo firme
mente as rédeas do poder em suas máos que se pode dizer que é o único
monarca absoluto que subsistiu através dos tempos no hemisferio oci-
dental. Isto pode parecer anacrónico a nos, homens modernos. Doutro
lado, o pontificado de Joño Paulo II é um espécimen das vantagens des-
se sistema quando a lideranga toca a um individuo excepcional como é o
atual Pontífice... As monarquías absolutas ñas máos de personalidades
salientes tornam-se fontes de eficaz atividade no curso da historia e po-
dem acarretar mudangas ou novas orientagóes que seriam inconcsbiveis
em outro contexto. Um ponto favorável á Igreja é que, embora o seu po
der centralizado seja absoluto, o cargo de Supremo Pastor nao é heredi
tario, mas eletivo; ao menos nos dois últimos sáculos nao houve a míni
ma sombra de nepotismo na sucessao dos Papas".

1 Via Internet chegou a PR aínda a seguirte noticia:


Card. Koenig, Descentralizar o poder do Papa
Cidade do Vaticano, 29 mar (SN) - É necessáría urna gradual descentraüzagáo do
poder do Papa e da Curia Romana a favor da corresponsabilidade dos bispos em
diregáo a toda a Igreja, inclusive na nomeagio dos própríos bispos. A tese, larga
mente partilhada pelos "progressistas" durante e após o Concilio Vaticano II, foi
relangada pelo card. Franz Koenig, arcebispo emérito de Viena, um dos "grandes
eleitores" do atual Papa, aínda muíto estimado e respeitado, apesar dos seus 94
anos. Numa longa carta intitulada "A minha visáo da Igreja do futuro", para o jornal
inglés "The Tablet", o Cardeal, citando o Vaticano II, revela que a aplicagáo que
estáo dando deste evento eclesialJoao Paulo lie a Curia é "restritiva" em relagáo ao
que dizia Paulo VI.

298
CURIA ROMANA: QUE É? 11

Alias, é de notar que o governo da Igreja nao se deve a urna esco-


Iha ou instituicáo humana. Tem sua origem no Evangelho mesmo, em
que Jesús designa Pedro como o portador das chaves do reino, prome-
tendo-lhe ligar nos céus o que ele (e seus sucessores) liguem na térra e
desligar nos céus o que ele (e seus sucessores) desliguem na térra (cf.
Mt 16,16-19). Além disto, em Le 22, 31 s Jesús confiou a Pedro a missáo
de confirmar seus irmáos na fé e em Jo 21, 15-17 entregou a Pedro o
encargo de apascentar as ovelhas do Senhor. Desde o inicio do Cristia
nismo os fiéis compreenderam que Pedro e seus sucessores estavam
pessoalmente comissionados para reger a Igreja sem sofrer contestacáo
da parte dos subalternos. O primado de Pedro foi-se manifestando pau
latinamente com expressóes sempre mais significativas. Tal regime é
intocável da parte dos homens, de mais a mais que, para permanecer fiel
á sua missáo e evitar qualquer desvio doutrinário, goza da assisténcia do
Espirito Santo prometido por Jesús á sua Igreja, conforme Jo 14, 26; 16,
13-15. O próprio Cristo assegurou aos Apostólos e seus sucessores até
o fim dos séculos a sua presenca que garante aos pastores da Igreja a
fidelidade aos principios do Evangelho; cf. Mt 28, 18-20.

Compreende-se que o Papa tenha direito a dispor dos órgaos ad


ministrativos necessários para que cumpra devidamente a sua missáo
de tamanha responsabilidade. Nao é raro ouvir-se dizer que os oficiáis
da Curia Romana sao pessoas de reconhecida capacitacáo e experien
cia, á diferenca do que ocorre ñas equipes de Governo de muitos países.

Segue-se o gráfico-estrutura da Curia Romana:

299
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

SUMO PONTÍFICE

Papa JoSo Paulo II

ASSUNTOS GERAIS SECRETARIO DE ESTADO RELACIONAMENTO COM


Arcebispo OUTROS ESTADOS
Ciovanni Battista Re Cardeal Angelo Sodano ArcebispoJean-Louis Tauran

PENITENCIARIA APOSTÓLICA SUPREMO TRIBUNAL DA ROTA ROMANA


Cardeal SIGNATURA APOSTÓLICA Arcebispo
William Weakfield Baum Arcebispo Zenon Grocholenski Mario Francesco Pompeda

TRIBUNAIS
(FUNCÓESJUDICIAIS)

CONSELHOS PONTIFICIOS
t CONGREGARES
■ DICASTÉRIOS -
(FUNC.ÓES PROMOCIONAIS) (FUNCÓES EXECUTIVAS)

LEIGOS DOUTRINADAFÉ IGREJAS ORIENTÁIS


Cardeal CardealJoseph Cardeal Achule
James Francis Stafford Ratzinger Silvestrini

UNIDADE CRISTA FAMÍLIA CULTO DIVINO E SACRAMENTOS


Cardeal Edward Cardeal Alfonso Cardeal Jorge Arturo
Ioris Cassidy López Trujillo Estevez Medina

JUSTINA E PAZ COR UNUM (OBRAS DE CAUSAS DOS SANTOS


Arcebispo Francois CARIDADE) Arcebispo
Xavier Nguyen Van Arcebispo Paúl José Saraiva Martins
Timan Josef Cordes
B1SPOS
MIGRANTES E ATENDLMENTO PASTOIUL Cardeal Lucas Moreira
VIAJANTES DOS AGENTES DE SAÚDE Neves
Arcebispo Stephan Arcebispo Javier
Fumio Hamao Barragán Lozano EVANGELIZADO DOS POVOS
(OOTRORA PROPAGANDA FIDE)
INTERPRETADO DE DIÁLOGO ÍNTER- Cardeal Jozef Tomko
TEXTOS LECISLVTIVOS RELIGIOSO
Arcebispo Julián Cardeal Francis CLERO
Ilerranz Arinzc Cardeal Dario Hoyos
Castrillón
CULTURA
Cardeal Paúl Poupard
INSTITUTOS DE EDUCACÁO CATÓLICA
VIDA CONSAGRADA (SEMINARIOS E
COMUNICARES SOCIAIS
Cardeal Eduardo INSTITUTOS ACADÉMICOS)
Arcebispojohn PatrickFoley
Martínez Somalo Cardeal Pío Laghi

300
Nao a

O MOVIMENTO DO ALIMENTO GLORIOSO

Em síntese: O Movimento do Alimento Glorioso foi fundado pela


Sra. Debra Geileskey na Australia e tem-se propagado pelo Brasil e por
outros países, deixando interrogagóes abertas sobre a ortodoxia dessa
Campanha, pois propaga estranhas modalidades de devogáo á Eucaris
tía. - O Sr. Bispo de Toowoomba (Australia) emitiu a propósito urna De-
claragáo que rejeita esse Movimento; pede, porém, aos fiéis que nao
deixem de cultuar, com o mesmo fervor, a S. Eucaristía.

Tem-se espalhado pelo Brasil e por outros países a devogáo dita


"do Alimento Glorioso". Propaga o culto á S. Eucaristía em termos estra-
nhos. A fundadora do Movimento é a senhora australiana Debra Geileskey,
que tem viajado pelo mundo, difundindo suas idéias. Tal forma de pieda-
de vem suscitando interrogacóes...

Em abril pp. chegou á Redacáo de PR, por FAX, urna Declaracáo


do Sr. Bispo de Toowoomba (Australia), Mons. William Morris, que escla
rece a questáo, concluindo que o Movimento do Alimento Glorioso nao
tem a aprovacáo desse Sr. Bispo como parece nao ter a cháncela da
Igreja Católica. - Vai, a seguir, apresentada a traducáo portuguesa de tal
documento como chegou á Redacáo de PR.

1. A Declaracáo do Sr. Bispo

BISHOP'S HOUSE
73 Margaret Street
PO Box 768
Toowoomba Oíd 4350
Australia
Tel.: (076) 324277
Fax.: (076) 392251

1ThMay,1996 (17/05/96)

Caro Padre,

O Movimento do Alimento Glorioso, sob a diregáo de sua fundado


ra Debra Geileskey, fez com que muitas questóes fossem levantadas nao

301
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

somente nesta Diocese, mas por toda a Australia e em varios outros pa


íses.

Questoes tais como se Debra e o seu Movimento tém ou nao a


aprovagáo da Igreja, questoes sobre a posigáo doutrinária de alguns
ensinamentos e práticas do Movimento, sobre a sua base fínanceira e a
respeito das alegadas revelagóes privadas e dos milagres.

A confusáo reina no que se relaciona a possibilidade da Santa Sé


estar ou nao investigando Debra e o seu Movimento e sobre quem seria
o seu Bispo. Meias-verdades e inconsistencias em varias declaracóes e
relatónos a respeito de Debra e seu Movimento tornam difícil saber o que
é ou nao verdade e, conseqüentemente, causam confusáo na mente das
pessoas com relagáo á sua autenticidade. Alegagoes de perseguigao e
de falta de abertura e aceitagáo por parte da Igreja Oficial também vém
sendo feitas.

Com vistas a ajudar a resolver esta confusa situagáo, eu gostaria


de declarar o seguinte. Debra nunca foi perseguida pela Igreja local. Eu
tenho estado, comumente, em termos amistosos com Debra e seu mari
do Gordon e, até recentemente, Debra e Gordon visitaram-me de forma
regular e nos discutimos algumas preocupagóes e inquietagóes que eu
//Ve, como as relacionadas as alegadas revelagóes privadas de Debra,
aos alegados milagres e a alguns ensinamentos e práticas do seu Movi
mento. Portanto, a porta sempre esteve aberta e aínda está.

No dia 28 de margo, eu recebi urna carta do Arcebispo Franco


Brambilla, Pró-Núncio Apostólico, informando-me que ele recebera urna
comunicagáo da Santa Sé que declarava nao haver nenhuma evidencia
de qualquer informagáo a respeito de Debra Geileskey e de suas ativida-
des, e que nao havia indicios de qualquer sindicáncia por parte da Santa
Sé.

Na edigáo de maio do boletim do Movimento do Alimento Glorioso


é relatado que Roma teña finalmente anunciado urna nova substituigáo
do Bispo e que o Bispo escolhido era Mons. Irsani Darwish, o novo Patri
arca de Saint Michael's de Sidney para os Gregos Melquitas' Católicos.

' Melquitas (do hebraico melek, reí) é o nome que os monofisitas (hereges do sécu-
lo V) deram aos cristaos da Siria e do Egito que ficaram fiéis á fé ortodoxa professa-
da pelo Imperador (melek) de Bizáncio ou fiéis á doutrina ortodoxa definida pelo
Concilio de Calcedonia em 451. Os melquitas se separaram de Roma após o cisma
de Bizáncio patrocinado pelo Patriarca Miguel Cerulário em 1054. Todavía conversa-
cóes posteriores levaram a constituir urna comunidade melquita unida a Roma. Hoje
em dia o nome melquitas designa únicamente os gregos católicos agrupados nos
tres Patriarcados de Antioquia, Jerusalém e Alexandria e presentes em países es-
trangeiros. (Nota da Redagáo).

302
O MOVIMENTO DO ALIMENTO GLORIOSO 15

O Pró-Núncio Apostólico informou-me que isto nao era verdade e que


nenhum anuncio sobre este assunto tinha sido feito.

Devo reafirmar o fato de que nao há aprovagáo oficial da Igreja


para o Movimento do Alimento Glorioso ou para as alegadas revelagóes
privadas e visdes de Debra, algumas das quais sao bastante aterrorizantes
e, acredito, contrarias a doutrina.

Nao houve resposta a minha solicitagáo a Debra sobre os estatu


tos segundo os quais o Movimento do Alimento Glorioso opera, nem hou
ve qualquer esclarecimento a respeito de sua situagáo financeira.

O Movimento nao tem permissáo para conservar o Santíssimo Sa


cramento em sua nova sede no antigo convento em Heltdon, nem para
realizar celebragoes eucan'sticas em locáis públicos. Nao há aprovagáo
nem béngáo da Igreja para a nova Ordem Religiosa que Debra está su-
postamente fundando; todo aquele que ingressar na referida "ordem" o
fará se/77 a béngáo da Igreja, porque o Movimento é um Movimento de
caráter privado, patrocinado por Debra, pertencente a Debra, e nao ten-
do absolutamente nada a ver com a Igreja.

A confusáo e os danos que circundam Debra e seu Movimento


entristecem-me, porque tem havido muitos que, através da devogáo ver-
dadeira á Eucaristía e a María, tém experimentado a conversáo do cora-
gao e o aprofundamento de sua fé no Senhor Ressuscitado.

Infelizmente, por causa das meias-verdades, das inconsistencias


e, em alguns casos, da falta de alinhamento com a doutrina estabelecida
concernente a aspectos de declaragóes feitas e a práticas realizadas, eu
devo pedir que a devogáo ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora
sob os auspicios do Movimento do Alimento Glorioso cesse dentro da
Diocese de Toowoomba. Eu apóio foríemente essas devogóes e pego
que elas continuem sob a diregáo e com o suporte das comunidades
católicas locáis, em consonancia com os ensinamentos litúrgicos aprova-
dos pela Igreja.

A partir deste momento, e até ulterior pronunciamento, o Movimen


to do Alimento Glorioso nao tem crédito dentro desta Diocese.

Seu irmáo em Cristo.

WILLIAM M. MORRIS DD
BISHOP OF TOOWOOMBA (BISPO DE TOOWOOMBA)

Na base desta Declarado, pode-se crer que estejam dissipadas


as dúvidas existentes em alguns fiéis a respeito da devogáo do Alimento
Glorioso. A piedade eucarística continua a merecer o máximo apreco

303
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

dos fiéis católicos, que, de resto, nao precisam de revelacóes particula


res pouco ortodoxas para se nutrir espiritualmente. A Tradicáo católica
costuma citar fatos milagrosos que corroboram a antiga fé eucarística do
povo de Deus; entre esses, há o de Lanciano, que é dos mais famosos e
do qual foi enviada urna versáo a PR; publicamo-la a seguir, pois parece
completar harmoniosamente quanto o Sr. Bispo de Toowoomba recomen-
da aos seus diocesanos:

2. O Milagre de Lanciano

Por volta dos anos 700, na cidade italiana de Lanciano, viviam no


mosteiro de S. Legoziano os monges basilianos e, entre eles, havia um
cuja fé parecía vacilante; era perseguido todos os dias pela dúvida de
que a hostia consagrada fosse o verdadeiro Corpo de Cristo e o vinho o
Seu Verdadeiro Sangue.

Ora, certa manhá, celebrando a Santa Missa, mais do que nunca


atormentado pela dúvida, após proferir as palavras da Consagracáo, ele
viu a hostia converter-se em Carne viva e o vinho em Sangue vivo. Sen-
tiu-se confuso e dominado pelo temor diante de táo espantoso milagre;
permaneceu muito tempo transportado a um éxtase verdadeiramente
sobrenatural. Até que em meio a transbordante alegría, o rosto banhado
em lágrimas, voltou-se para as pessoas presentes e disse: "Ó bem-aven-
turadas testemunhas diante de quem, para confundir minha incredulida-
de, o Santo Deus quis desvendar-se neste Santíssimo Sacramento e tor-
nar-se visível aos vossos olhos. Vinde, irmáos, e admirai o nosso Deus,
que se aproximou de nos. Eis aquí a Carne e o Sangue do nosso Cristo
muito amado!". A estas palavras, os fiéis se precipitaram para o altar e
comecaram também a chorar e a pedir misericordia. Logo a noticia se
espalhou por toda a pequeña cidade, transformando o monge em um
novo Tomé.

Aos reconhecimentos eclesiásticos do milagre, a partir de 1574 veio


juntar-se o pronunciamento da Ciencia Moderna através de minuciosas e
rigorosas provas de laboratorio. Foi em novembro de 1970 que os Fra-
des Menores Conventuais, sob cuja guarda se mantém a Igreja do Míla-
gre (desde 1252 chamada de S. Francisco), decidiram, com autorizagáo
de Roma, confiar a dois médicos de renome profissional e idoneidade
moral a análise científica das reliquias. Para tanto, convidaram o Dr.
Odoaldo Lineli, Chefe de Servico dos Hospitais de Arezzo e livre-docente
de Anatomía e Histología Patológica e de Química e Microscopía Clínica,
para, assessorado pelo Prof. Ruggero Bertelli, Prof. Emérito de Anato
mía Humana na Universidade de Siena, proceder aos exames.

Após alguns meses de trabalho, exatamente a 4 de margo de 1971,

304
O MOVIMENTO DO ALIMENTO GLORIOSO 17

os pesquisadores publicaram um relatório contendo o resultado das aná-


lises:

- a Carne é verdadeira carne e o Sangue é verdadeiro sangue;


- a Carne é do tecido muscular do coracáo (miocardio);

- a Carne e o Sangue sao do tipo AB e pertencem á especie hu


mana;

- a conservagao da Carne e do Sangue, deixados ao natural por


doze séculos e expostos á acáo de agentes atmosféricos e biológicos,
íica sendo um fenómeno extraordinario.

Outro detalhe inexplicável: pesando-se as gotas de sangue coagu


lado (e todas sao de tamanho e forma diferentes), cada urna délas tem
exatamente o mesmo peso das cinco gotas juntas. Deus parece brincar
com o peso normal dos objetos.

Depois que foram conhecidas as conclusóes dessa pesquisa cien


tífica, os peregrinos váo de toda parte venerar a Hostia que se fornou
Carne, e o Vinho consagrado que se tomou Sangue.

Assim o Movimento do Alimento Glorioso dá ocasiáo a que o povo


de Deus repense sua devocáo eucarística e renové ainda mais conscien
temente a sua piedade.

Cura-te a ti mesmo. Terapia real, por Tikumagawa Hiroshi, 63


edicáo. - Editora Madras, Sao Paulo 1998, 140x210mm, 81 pp.

O autor, de origem japonesa, confessa terpassado a adolescencia


"atrás de um balcáo de farmacia, num bairro de Sao Paulo". Depois tor-
nou-se instrumentador cirúrgico em varios hospitais e se decepcionou
com a medicina. Em conseqüéncia, procurou a macrobiótica e finalmente
a Terapia Real (assim chamada porque praticada por muitos reis de ou-
trora); esta consiste em utilizar a urina como remedio. O autor descreve
tongamente os beneficios que ele atribuí á urina. Nao é nosso intuito
debater esta temática. Apenas registramos que o autor adota urna filoso
fía religiosa de fundo panteísta, á qual se mesclam referencias bíblicas.
Assim julga ele que "o universo é divino" (p. 65), regido por "urna Lógica
Divina ou pela Freqüéncia de Deus" (p. 16). Todavía a p. 28 cita Prover
bios 5, 15-17, texto que fala de agua, como se falasse de urina; as pp.
63s cita o Pai-Nosso e o Evangelho; á p. 54 refere-se a Deus, ao anjo da
agua e a Sata... Será preciso, portanto, distinguir entre as receitas médi
cas apresentadas por Hiroshi e a sua filosofía; enquanto aquetas sao
aceitáveis aos olhos da fé católica, esta nao condiz com o Cristianismo.

305
Os misterios da graga divina:

"OS CAMINHOS DO ESPIRITO SANTO"


por James Parker

Em síntese: As páginas que se seguem, relatam o itinerario espiri


tual de um sacerdote anglicano que se tornou católico por reconhecer a
autenticidade da Igreja fundada por Cristo. Mesmo quando anglicano,
era anglo-papal, julgando que o cisma anglicano no século XVI se deu
mais por razóes políticas do que por motivos doutrínáríos. A sua adesáo
á fé católica se tornou pública quando verificou que certos Sínodos
angiicanos se desviavam da linha tradicional do Evangelho, com detri
mento para a reta fé. Urna vez católico, foi ordenado presbítero e tornou-
se assessor do Cardeal Bernardo Law, encarregado, nos Estados Uni
dos, de atenderás soHcitagoes de outros ministros angiicanos desejosos
de se tornar católicos e ser ordenados presbíteros.

A Editora Quadrante {Rúa Iperoig, 604,05016-000 Sao Paulo, SP)


publicou a obra "Jornadas Espirituais" aos cuidados de Robert Baran,
traduzida do inglés por Roberto Vidal da Silva Martins. Contém 21 relatos
de conversáo ao Catolicismo por parte de judeus, cristáos ortodoxos e
protestantes, cada qual com seu itinerario muito expressivo da acáo da
graca de Deus. Cada qual de tais historias póe o leitor em presenca do
misterio do relacionamento existente entre o apelo divino e a liberdade
humana, dando a ver a riqueza do psiquismo humano e a maior riqueza
dos caminhos da Providencia Divina.

De tal obra vai extraído o relato de James Parker, que, de sacerdo


te anglicano, se tornou presbítero católico por refletir sobre a historia do
Cristianismo e verificar que o cisma anglicano no século XVI ocorreu mais
por motivos políticos do que por razóes doutrinárias. Os caminhos do
Espirito Santo por ele descritos dáo materia de reflexáo ao leitor. Ver pp.
190-196 da obra citada.

O TESTEMUNHO DE JAMES PARKER

«Recebi a ordenacáo como sacerdote da Igreja Católica Romana


na solenidade de Sao Pedro e Sao Paulo, em 1982, em Springfield,
Missouri, das máos do bispo (hoje cardeal) Bernard F. Law. A minha es
posa, Mary Alma, e eu tínhamos sido recebidos em plena comunháo com
a Igreja Católica na semana de Pentecostés de 1981, e ela obviamente

306
"OS CAMINHOS DO ESPÍRITO SANTO" 19

esteve presente quando me ordenei um ano depois. Foi assim que me


tornei o primeiro sacerdote casado de rito romano nos Estados Unidos,
de acordó com urna dispensa aprovada pelo Papa Joáo Paulo II e posta
em prática pela Congregacio para a Doutrina da Fé.
A minha peregrinacáo foi longa - com efeito, em certo sentido, durou
quatrocentos anos - e o fato de ter atingido a meta foi urna alegría. O
caminho nao foi inteiramente isento de dificuldades e o objetivo na ver-
dade foi alcancado de maneira inesperada. Deus é um Deus de surpre-
sas incessantes e traz-nos a todos grapa e felicidade.

Quando me tornei sacerdote católico, fazia vinte e cinco anos que


era sacerdote episcopaliano e vinte e nove que estava casado. Desde
aquele dia de junho de 1982, muitos outros sacerdotes episcopalianos,
casados e celibatários, foram ordenados em dioceses católicas do país
inteiro, e o seu número continua a crescer, gracas a urna Provisáo Pasto
ral solicitada pelos bispos dos EUA e outorgada pela Santa Sé como
resposta para urna necessidade de consciéncia concreta.

Esta situacáo, nova e única na Historia, tem raízes profundas. Dentre


as diversas correntes de opiniáo existentes no anglicanismo, aceitei a
que argumentava que, durante a Reforma do século XVI, ao contrario do
que acontecerá no continente europeu', a Igreja Católica da Inglaterra
tinha experimentado urna reviravolta de natureza antes política do que
teológica13. Nos estágios iniciáis da divisáo, as provincias eclesiásticas
inglesas de Canterbury e York tinham incorrido em cisma em relacáo á
Sé de Pedro, mas nao em heresia. Ainda de acordó com esta teoría, os
sucessivos Livros de oragáo comum, se bem que em alguns pontos nao
com toda a clareza, podiam muito bem ser interpretados como fiéis á
doutrina católica, embora tentassem ao mesmo tempo acomodar-se as
influencias teológicas alheias á tradicáo da Igreja que provinham do ou-
tro lado do Canal da Mancha, a fim de nao ferir a harmonía política.
Como "anglo-papal", aceitava o cisma como um fato consumado,
embora cresse com fervor na necessidade de reparar essa ruptura e de

1 Onde ganharam corpo as doutrinas luteranas e calvinistas (N. do A.).


10 Na Inglaterra reinou Henrique VIII de 1509 a 1547. O reí quis separarse de sua
esposa Catarina de Aragao para unirse á cortesa Ana de Boleyn. Todavía o Papa
nao Ihe concedeu o divorcio. Em conseqüéncia o monarca separouse de Roma,
levando consigo os crístáos da Inglaterra; foi proclamado pelo Parlamento Chefe
Supremo da Igreja Anglicana em 1534. Assim teve origem o que hoje se chama "a
Comunhao Anglicana". - A principio o Anglicanismo visava apenas á independencia
frente a Roma, mas aos poucos houve infíltracáo doutrináría dos reformadores do
continente na Inglaterra. Com efeito, os sucessores de Henrique VIII chamaram teó
logos calvinistas para reestruturar a Igreja na Inglaterra. Em conseqüéncia originou-
se entre os anglicanos urna mentalidade protestante. (Nota de PR).

307
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

restaurar a plena comunháo com a Sé de Pedro. Como anglicano, acei-


tava e ensinava a fé católica íntegra, incluidas as prerrogativas do Papa
e os dogmas marianos. No entanto, permanecía no anglicanismo porque
alimentava sinceramente o desejo de que a reunificacao fosse corporativa*
e porque me sentía parte de urna corrente que havia quatrocentos anos
rezava e preservava a fé a fím de possibilitar o retorno de Canterbury a
Roma. Podia ser urna meta irrealizável dentro do curto prazo da minha
vida pessoal, mas as aspiracóes dos Papas nesse sentido pareciam ter
recebido enfím um forte respaldo no movimento ecuménico do século XX.
Os anos setenta e oitenta, porém, trouxeram para a Igreja anglicana
de todo o mundo urnas mudancas por que nunca tinha passado ao longo
da sua historia. Já nao se podía argumentar que determinadas doutrinas
anómalas e náo-católicas nao eram a doutrina oficial anglicana. Os anglo-
católicos e os anglo-papais já nao podiam afirmar que certas práticas
litúrgicas ¡ncorretas representavam apenas a opiniáo individual de aiguns
pastores insuficientemente instruidos. Os principáis concilios da comu
nháo anglicana, em nome de necessidades administrativas, tomaram
decisóes teológicas importantes que afetam o próprio núcleo da fé cató
lica e, em conseqüéncia, o compromisso dos que se guiavam por essa
fé: primeiro, a Igreja episcopaliana dos Estados Unidos emendou o Direi-
to Canónico para permitir que os divorciados tornassem a casar-se, con
trariando diretamente o preceito da indissolubilidade; a seguir, a Igreja
episcopaliana, a Igreja anglicana do Canadá e mais tarde as outras as-
sembléias anglicanas nacionais comecaram a aceitar a ordenacáo de
mulheres, ferindo a natureza do sacerdocio; e, porfim, essas Igrejastam-
bém abriram máo dos principios mais básicos do senso moral católico
com relacáo ao aborto, ao homossexualismo e á contracep?áp, outrora
firmemente condenada por todos os bispos anglicanos na Conferencia
de Lambeth.

Essas e outras preocupacóes levaram-nos, a mim e a outros anglo-


papais, a por em dúvida as nossas bases. Submetemos ansiosamente a
revisáo o nosso modo de compreender a fé, urna vez que a reunificacao
corporativa deixava de ser urna possibilidade real, como tinha parecido
durante quase quatrocentos anos.

A partir de coméeos de 1976, ajudei a preparar peticóes dirigidas á


Santa Sé para solicitar a reconciliacáo desses anglicanos. Fui durante
muitos anos vigário provincial norte-americano da Sociedade da Santa
Cruz, urna fraternidade sacerdotal ou instituto secular anglicano fundado
por John Henry Newman antes da sua conversáo ao catolicismo. O

1 Isto é, que a Igreja anglicana voltasse a plena comunháo com Roma enquanto
Igreja, e nao apenas por iniciativa pessoal de aiguns dos seus membros (N. do A.)

308
"OS CAMINHOS DO ESPÍRITO SANTO"

propósito dessa Fraternidade era a forma9áo espiritual dos seus mem-


bros, e ela exigía deles um serio compromisso com a causa da reunificacáo
com Roma. Um sínodo provincial da Sociedade autorizou-me por unani-
midade a apresentar ao arcebispo Jean Jadot, entáo Delegado Apostóli
co em Washington, um pedido para que se admitissem ao ministerio sa
cerdotal da Igreja Católica Romana sacerdotes episcopalianos casados,
e para transmitir-lhe também as ardentes esperancas de alguns peque-
nos grupos de episcopalianos que desejavam conservar a sua uniáo fra
terna e alguns elementos da sua heranca anglicana mesmo no seio da
Igreja Católica. Essa missáo delicada foi muito bem recebida pelo repre
sentante do Papa, que a levou pessoalmente a Roma.

Durante muitos anos, a possibilidade e as conseqüéncias de um


pedido tao singular foram consideradas e discutidas em Roma e ñas reu-
nióes da Conferencia Nacional dos Bispos Católicos dos Estados Uni
dos. D. Bernard Law representou tanto a Conferencia Nacional dos Bis
pos como a Sagrada Congregacáo para a Doutrina da Fé ñas conversas
que manteve com a Sociedade da Santa Cruz e com os outros grupos
episcopalianos que alimentavam aspiracóes semelhantes. Dois Papas
morreram durante esses anos de estudo e, com freqüéncia, o nosso pe
dido pareceu destituido de esperanca; pessoalmente, porém, nunca du-
videi de que a Igreja Católica haveria de encontrar um caminho para re
mediar as nossas necessidades. O número de pessoas que aderiam á
nossa petigáo crescia continuamente, todos imbuidos do desejo de che-
gar á plena comunháo com Roma; e esperávamos firmemente que serí
amos aceitos para o ministerio ativo como sacerdotes da Igreja Católica.
Foi urna peregrinacáo na fé como poucas na historia moderna da Igreja.

Em 1980, a Sagrada Congregacáo para a Doutrina da Fé anunciou


que a Santa Sé tinha decidido acoiher favoravelmente as solicitacoes
previas dos episcopalianos que Ihe tinham sido apresentadas formalmente
por meio de um pedido da Conferencia Nacional dos Bispos1. Embora

1 O documento oficial da Sagrada Congregacao dizia: "Em junho de 1980, a Santa


Sé, mediante a Sagrada Congregacáo para a Doutrina da Fé, aceitou a solicitagáo
de plena comunháo com a Igreja Católica apresentada pelos bispos dos Estados
Unidos da América em favor de alguns clérigos e leigos que pertenceram ou continu-
am a pertencer a Igreja episcopaliana (anglicana). A resposta da Santa Sé a iniciati
va desses episcopalianos incluí a possibilidade de urna provisáo pastoral que pro
porcionará, para os que o desejarem, urna identidade comum que refuta certos ele
mentos da sua própría tradigáo.
"A entrada dessas pessoas na Igreja Católica deve ser entendida como urna recon-
ciliacio de individuos que desejam urna plena comunháo católica de que fala o De
creto sobre o Ecumenismo (n. 4) do Concilio Vaticano II.
"Ao aceitar antigos sacerdotes episcopalianos casados no sacerdocio católico, a
Santa Sé especificou que esta excegáo á norma do celibato é concedida individual-

309
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

isto possa parecer urna atitude inteiramente nova por parte da Igreja
Católica e aparentemente tenha conseqüéncias ecuménicas, é impor
tante conhecer duas declarares feitas pela Igreja antes da nossa solici-
tacio de 1976 e da resolucáo de 1980:

1. No Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio do Con


cilio Vaticano II, os Padres conciliares haviam deixado constar, com elo-
qüéncia e sinceridade, o seu desejo de promover a caridade e o diálogo
ecuménicos. E tinham dito também: "No entanto, é evidente que o traba-
Iho de preparacáo e reconciliacáo dos que desejam urna comunhao ple
na com a Igreja Católica é, por natureza, distinto da acáo ecuménica.
Mas nao existe oposicáo entre as duas, já que ambas procedem do ma-
ravilhoso caminho de Deus".

2. No que dizia respeito á admissáo ao ministerio sacerdotal da


Igreja Católica de antigos sacerdotes episcopalianos casados, o Papa
Paulo VI, na sua Encíclica Sacerdotalis caelibatus, datada de 24.06.67,
já se tinha antecipado á Provisáo Pastoral escrevendo: "Em virtude da
norma fundamental de governo da Igreja Católica á qual aludimos ácima,
enquanto por um lado permanece imutável a lei que exige dos que sao
admitidos as Sagradas Ordens um celibato perpetuo e livremente esco-
Ihido, por outro podem-se estudar as circunstancias particulares de mi
nistros sagrados casados procedentes de outras Igrejas ou comunida
des cristas separadas da Comunhao Católica, bem como a possibilidade
de admitir as funcoes sacerdotais aqueles que desejarem aderir á pleni-
tude da comunhao e continuar a exercer o ministerio sagrado. No entan
to, as circunstancias devem ser tais que nao prejudiquem a disciplina
existente no que se refere ao celibato.

"O recente Concilio Ecuménico, que prevé a possibilidade de con


ferir o diaconato a homens de idade madura ejá casados, é um exemplo
claro de que a autorídade da Igreja nao hesita em exercer o seu poder
nesta materia. Isto nao significa, no entanto, um relaxamento da lei em
vigor nem deve ser interpretado como um preludio para a sua aboligáo.
Existem coisas melhores a fazer do que promover essa hipótese, que
destrói a vitalidade e o amor dos quais o celibato extrai a sua firmeza e
felicidade e obscurece a verdade da doutrína que justifica a sua existen-

mente a essas pessoas e nao deve ser entendida como urna mudanga na convicgáo
da Igreja sobre o valor do celibato sacerdotal, que continuará a ser a regra para
todos os futuros candidatos procedentes desse grupo".
"Em pleno acordó com a Conferencia Nacional dos Bispos Católicos, a Congrega-
gao para a Doutrína da Fé nomeou o Revmo. D. Bernard F. Law, blspo de Springfield-
Cape Girardeau, Delegado da Santa Sé para esta questáo. Caber-lhe-á estabelecer
urna proposta da Santa Sé, supervisionar a sua execugáo e estudar, juntamente com
a Congregagáo para a Doutrína da Fé, as questóes que dizem respeito á admissáo
dos antigos sacerdotes episcopalianos ao sacerdocio católico" (N. do A).

310
"OS CAMINHOS DO ESPÍRITO SANTO" 23

cia e exalta o seu esplendor. Seria muito melhor promover estudos serios
em defesa do sentido espiritual e do valor moral da virgindade e do celi
bato" (ns. 42-43).

O nosso objetivo tinha sido alcanzado. Tínhamos conseguido por


fim, caso por caso, aquilo que havíamos procurado corporativamente com
tanta diligencia. Abrira-se o caminho e os obstáculos já nao existiam. O
¡menso coracáo pastoral do Papa Joio Paulo II sentira-se tocado com a
causa dos antigos anglicanos formados na fé católica e que desejavam
ardentemente a plenitude da fé em uniáo com o Pastor universal do reba-
nho de Cristo.

Era o momento de ir adiante, e foi o que fiz, sem deixar por isso de
amar o anglicanismo, a Igreja em que fora batizado, que me ensinara a
religiáo católica e que por tanto tempo me amamentara na fé. Em comé
eos de 1981, renunciei ao cargo de pároco da igreja episcopaliana de
Saint Mark, em Albany, na Georgia, onde havia passado os que foram
talvez, até entáo, os anos mais felizes do meu ministerio. Mary Alma e eu
mudamo-nos para Springfield, onde fomos recebidos na plena comunháo
e onde comecei a trabalhar como assistente de D. Law, já nomeado en
táo Delegado da Santa Sé para a aplicacáo da Provisáo Pastoral. Alguns
meses antes, as nossas duas filhas, já adultas, tinham sido recebidas na
Igreja Católica por um sacerdote de Atlanta, que também fora
episcopaliano e meu colega de seminario; como era solteiro, pudera
corresponder ¡mediatamente á chamada de Deus para voltar ao seio de
Roma.

Nasci em 1930, em Charleston, onde cursei o segundo grau numa


academia militar. Licenciei-me pela Universidade da Carolina do Sul. Ao
sair da Universidade, Mary Alma Colé, de Memphis, e eu nos casamos e
entrei no seminario episcopaliano de Virginia, em Alexandria. A minha
ordenacáo sacerdotal na Igreja Católica ocorreu duas semanas antes do
que teriam sido as minhas bodas de prata no ministerio anglicano. Fui
acolhido na diocese de Charleston por D. Ernest L. Unterkoefler. Apesar
de ter passado a ser sacerdote da igreja local de Charleston, gracas á
delicada permissáo do bispo, pude continuar a trabalhar na aplicacáo da
Provisáo Pastoral e mudei-me para a Nova Inglaterra com D. Law, quan-
do ele foi nomeado arcebispo de Bostón. Em 1985, tive a oportunidade
de estar em Roma quando D. Law recebeu a púrpura cardinalícia.

A minha historia e a Provisáo Pastoral nao sao um retrato do


ecumenismo, tal como muitas vezes nos é pintado. No entanto, os cami-
nhos do Espirito Santo nao sao os caminhos dos homens e, com muita
freqüéncia, Ele responde as oracóes do modo que menos esperamos, a
fim de que todos possamos vir a ser um só».

311
Testemunho:

'O EXEMPLO DE UMA ESPOSA"


por James F. Heady

Em síntese: James F Heady trabalha como agente administrativo


numa Companhia de Seguros. Formou-se em Economía pela Universi-
dade de Stanford. Casado em 1955, converteu-se ao Catolicismo sete
anos mais tarde. Mora em Ventura County, California, com a esposa,
Helen. Tém tres filhas, duas délas Religiosas. Tanto ele como a sra. Heady
sao membros ativos da sua paróquia.

Folheando ainda a obra "Jornadas Espirituais", citada á p. 306 des-


te fascículo, encontramos o depoimento de James F. Heady, profunda
mente marcado pelo testemunho de sua esposa, em conseqüéncia do
qual se tornou católico. Bem ilustra a palavra de Sao Paulo que fala da
comunháo de bens espirituais existente entre esposo e esposa; no lar
cristáo (¡greja doméstica) cada qual dos dois cónjuges santifica o outro;
cf. 1 Cor 7,14. - Dada a importancia desta verdade vivenciada por James
Heady, publicamos, a seguir, o seu relato, extraído das pp. 88-93 da obra
citada.

O ITINERARIO ESPIRITUAL DE JAMES F. HEADY


«Nasci em abril de 1933, e fui o primeiro de quatro irmáos e o único
filho homem.

O meu pai tinha sido jogador de futebol americano durante o se


gundo grau e rejeitara diversas vezes o conselho de cursar alguma Fa-
culdade. Preferiu alistar-se na Marinha a fim de conhecer o mundo. No
ano em que nasci, trabalhava como cronometrista para a WPA (Wbrk
Projects Administraron), durante os piores anos da Depressao.

Por volta de 1940, mudamo-nos para urna casa na rúa 32, em


Portland, Oregon, onde os meus país moram até hoje. Na época, papai
conseguirá um "emprego de verdade": trabalhava como cronometrista
para a companhia que estava construindo a ferrovia Southern Pacific.
Continuaría nessa empresa ocupando cargos diversos até aposentar-se,
trinta e cinco anos depois.

Como era agnóstico, a nossa educacáo religiosa foi deixada a car


go da minha máe, que nao pertencia a nenhuma Igreja em particular,

312
"O EXEMPLO DE UMA ESPOSA" 25

mas pensava que era importante termos algum tipo de formacáo religio
sa. A nossa nova casa ficava a apenas um quarteiráo de urna igreja
congregacionalista. Quando comecamos a ir á respectiva escola, come-
camos também a participar da escola dominical.

Ali tínhamos livros e marcavam-nos ligóes de casa de verdade. A


minha máe cuidava de que fizéssemos os deveres e assistíssemos ás
aulas, embora nem ela mesma nem papai jamáis tivessem posto os pés
nessa igreja.

Essa comunidade tinha urna forte orientacáo fundamentalista1. A


Biblia era a pedra angular, e na escola dominical enfatizava-se o seu
estudo, que incluía a memorizacáo dos nomes de todos os livros que a
compóem.

Até iniciar o segundo grau, grande parte das minhas atividades


sociais girava em torno da igreja. A cada veráo, assistíamos aos cursos
bíblicos de ferias e organizávamos lanches e piqueniques. Urna igreja
quaker, The Friends ("Os Amigos"), tinha algum tipo de acordó de coope-
racáo mutua com a nossa. Durante o ano escolar, havia palestras cultu
ráis e oficinas de trabalhos artesanais de que éramos incentivados a par
ticipar.

O dinheiro era escasso, de forma que essas atividades extra-


curriculares foram de grande ajuda para evitar que nos metéssemos em
encrencas. Na igreja ensinavam-nos que Deus era um Deus pessoal,
que tudo via e sabia. Era proibido beber e fumar (nao fumo até hoje). E,
embora nao se proibissem totalmente, os filmes de cinema e os bailes
desaconselhavam-se.

Por ser eu o filho mais velho e o único varáo, desde muito cedo tive
de aprender certas nocóes práticas de economía. Esperava-se de mim
que poupasse tudo o que ganhava distribuindo jomáis, cortando grama-
dos, trabalhando como empacotador numa mercearia, etc.

Tive um bom desempenho escolar e cheguei a ser dispensado de


cursar um ano. Quando comecei o colegial, porém, os meus pais disse-
ram-me que nao teriam dinheiro suficiente para pagar-me urna Universi-
dade; tudo o que pudessem poupar teria de ser destinado aos gastos
com as minhas irmás. Compreendi perfeitamente a situacao, sem criar
maiores ressentimentos, mas lembro-me de ter passado muitas noites
insones a refietir, inquieto, sobre o que haveria de fazer da minha vida.

Nesse meio tempo, na igreja, tinha passado da escola dominical

1 Fundamentalista é a atitude de quem lé a Biblia interpretando-a sempre ao pé da


letra, sem reconhecer os géneros literarios e os expressionismos da Hnguagem
semítica ou helenística de outrora. (Nota de PR).

313
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

para a participacao regular nos servicos religiosos. Estes assemelhavam-


se aos das outras igrejas protestantes. Incluíam as longas oracoes feitas
pelo ministro e, como é evidente, também um comprido sermáo. A cada
tres meses, tínhamos um servico com comunháo, em que se passavam
bandejas com uns páezinhos e uns cálices de vinho a fim de simbolizar a
Última Ceia.
A igreja parecía urna sala de reunióes com vidros coloridos ñas
janelas. Nao havia quadros nem ¡magens. Olhando em retrospectiva, tudo
isso me parece hoje que era extremamente frío, embora as pessoas fos-
sem afáveis e acolhedoras. Os sermoes davam a impressáo de nao aca
bar nunca e consistiam em longas e confusas admoestacóes para "ev¡-
tarmos o pecado", ou, caso contrario, para "sentar-nos e esperar que
chegasse a hora de ir para o inferno e a condenacáo".

Por volta da época em que comecei o colegial, fui batizado com


urna aspersáo de agua feita pelo pastor numa sala de reunióes da igreja.
Tornei-me membro do Christian Endeavor (Compromisso Cristáo), um
grupo de estudos bíblicos para secundaristas, e passei a participar das
atividades sociais da igreja.

Todos esses anos estiveram repletos de preocupacoes e dúvidas


sobre as minhas capacidades pessoais por causa de um grave complexo
de inferioridade que sofria. Rezei intensamente e durante muito tempo,
pedindo a Deus que me ajudasse e me desse as respostas aos meus
problemas. Este hábito persistiu depois de adulto. Por vezes, as respos
tas que Deus mandava nao me agradavam muito, mas o fato é que, no
fim das contas, tudo foi adiante.

Finalmente, com a ajuda de Deus e com muito esforco, terminei o


segundo grau em junho de 1950, como primeiro da turma e com urna
bolsa de estudos custeada pelo Programa de Treinamento para Oficiáis
da Marinha dos Estados Unidos. Entrei na Universidade de Stanford no
outono daquele ano, com a ¡ntencáo de formar-me em Engenharia. No
entanto, ao fim de dois anos, o meu interesse por Economía cresceu a tal
ponto que mudei de curso. Por outro lado, como estava longe de casa, os
vínculos com a Igreja foram-se afrouxando, embora aínda rezasse com
freqüéncia na cápela da Universidade.

Em Janeiro de 1955, formei-me em Economía. Entreí na Marinha e,


cinco meses mais tarde, hum baile de oficiáis em San Diego, conheci
Helen. Era também marinheíra, mas da costa Leste. Comecamos a na-
morar. Depois de alguns encontros, contou-me que era católica. Eu co-
nhecia superficialmente outros católicos, mas ela foi a primeira que co
nheci mais de perto.

A Igreja congregacionalista pregava que o protestantismo era a

314
"O EXEMPLO DE UMA ESPOSA" 27

melhor das religióes, mas a gradual ruptura de lacos com a minha antiga
igreja de Portland, bem como os meus estudos de Historia em Stanford -
que seguiam a tendencia liberal - tinham-me ensinado a aceitar de men
te mais aberta outros pontos de vista.

O meu interesse pela Igreja crescia na medida em que aumentava


o meu interesse por Helen. Quería estar com ela o máximo de tempo
possível. E ela tinha tal devocáo pela Igreja Católica que também eu
desejei conhecer cada vez melhor essa religiio. Muito antes de nos ca-
sarmos, comecei a assistir á Missa juntamente com ela. Foi idéia minha.
Ela nunca me insinuou sequer que se tratava de urna condicáo necessá-
ria para continuarmos a namorar, mas deixou claro que eu seria muito
bem recebido se quisesse ir. Obviamente, no comeco tudo me pareceu
muito estranho e diferente. Ainda nao se tinha traduzido o texto latino da
Missa para o inglés, mas, usando o missal latim-inglés, podía acompa-
nhar razoavelmente bem as cerimónias.

Em setembro de 1955, casamo-nos em San Diego. Como náo-ca-


tólico, recebi algumas aulas em que se explicava o que a Igreja esperava
de quem contraía um "matrimonio misto". Cerca de um ano depois, nas-
ceu a nossa primeira fílha. O meu projeto era ficar na Marinha, mas os
longos seis meses de separacáo que se seguiram ao casamento custa-
ram demais a passar. Acabei por deixar a Marinha e, logo a seguir, fui
trabalhar numa Companhia de Seguros Agrícolas, onde continuo ao cabo
de vinte e oito anos.

Helen nunca me empurrou em di re cao do catolicismo. Mas o seu


exemplo e a minha assídua assisténcia á Missa fizeram-me experimen
tar urna atracao crescente pela Igreja. Faltava aiguma coisa na minha
vida, aiguma coisa que nao sabia identificar. Depois do nosso casamen
to, essa ¡nquietacáo cresceu consideravelmente. Por fim, Helen pergun-
tou-me se nao gostaría de fazer com ela urna "novena" de cinqüenta e
quatro dias á Santíssima Vírgem. Explicou-me que tinha muita devocáo a
María e fazia essa novena quando precisava muito de ajuda. Até entáo,
as suas oracoes sempre tinham sido atendidas, talvez nem todas as ve-
zes nos termos em que ela quería, mas sempre no sentido de oferecer-
Ihe a melhor solucao.

Concordei com comecar a novena. No segundo día, foi como se


me tivessem tirado urna venda dos olhos. Disse a Helen que quería ser
instruido na fé católica. Compreendi que era o que devia fazer, e nem
mesmo entáo ela me forcou a nada. Fui eu que telefonei ao nosso pá-
roco.

Esse padre teve a amabilidade de me dar aulas particulares de


doutrina na casa paroquial, urna vez por semana. Comecei a minha for-

315
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

magáo em outubro, e em abril do ano seguinte, no dia do aniversario da


minha filha mais nova, recebi o Batismo na Igreja. Isso foi uns sete anos
depois de Helen e eu nos termos casado.

A partir do momento em que comecei a receber as aulas, passei a


sentir-me muito mais em paz. Tinha uma sensacáo de seguranga, de
bem-estar e de aconchego que nao me Iembrava de ter experimentado
antes. Todos os meus anos de formacao na Igreja congregacionalista,
todos os cursos bíblicos e mais a escola dominical tinham-me ensinado muitas
coisas sobre Deus e sobre a Biblia, mas algo estivera faltando até entáo.

O meu gosto pela Historia suscitara em mim serias dúvidas sobre o


elo de continuidade ñas Igrejas protestantes. Já a Igreja Católica surgiu
na época de Cristo e até entáo permanecía coerente consigo mesma.
Quando os membros de uma congregacao protestante percebem que há
qualquer coisa de errado na sua congregacao, abandonam-na por sua
conta e formam um novo ramo. Isso nunca me pareceu correto. Na épo
ca de Martinho Lutero, houve realmente muitos problemas internos na
Igreja Católica, mas, depois daqueles anos de turbulencias, a Igreja aca-
bou por reformar-se sem constituir diversas Igrejas católicas competindo
urnas com as outras. A continuidade - desde os tempos de Cristo até aos
dias atuais - permanece inquebrantável. E isto é algo que me atrai pode
rosamente, devido ao meu senso de disciplina.

O nosso casamento foi abengoado com tres filhas, todas elas


educadas no seio da Igreja. A mais velha está casada; as outras duas
fizeram os votos perpetuos como Religiosas. Menciono-o para mostrar a
profundidade do compromisso que a minha esposa e eu temos com a
Igreja. Foi o amor a Deus que levou essas nossas duas filhas a fazer
essa escolha. Nao as desencorajamos de forma alguma, porque nao
queríamos negar nada a Deus, se Ele realmente quería que elas se en-
tregassem ao seu servigo.

Deus vem-nos abengoando e premiando ao longo de toda a nossa


vida de casados. Temos tido as dificuldades e provagoes normáis que
acometem qualquer casamento, mas gragas á fé católica sempre conse
guimos superá-las. Lembramo-nos com freqüéncia de que Cristo prome-
teu que nunca seríamos tentados ácima das nossas forgas (cf. 1 Cor 10,13).

Gragas á oragáo diaria e á assisténcia regular á Missa, experimen


to paz e tranqüilidade todos os dias da minha vida. Dou gragas a Deus
pela minha conversáo. Se Ele nao me tivesse conduzido até a minha
esposa, e sem o bom exemplo déla, ainda estaría buscando em váo o
sentido da minha vida. Ao concluir estas lembrangas, vém-me á cabega
as palavras de Cristo no Evangelho: De modo que vos digo: Pedí e
recebereís, buscai e acharéis, batei e abrir-se-vos-á (Le 11, 9)».

316
Esclarecendo fatos controvertidos:

AÍNDA O EX-RABINO ZOLLI

Em síntese: O Pe. Arthur Klyber C.SS.R é um judeu convertido,


que escreveu um artigo sobre o ex-rabino Israel Zolli, convertido ao Cato
licismo em 1945. O artigo tem importancia, pois esclarece a controvertida
questao da conversáo do rabino: foi sincera; foi mesmo o
desabrochamento natural da fé judaica de Israel Zolli, que sofreu graves
represalias por ter abandonado a Sinagoga.
* * *

O Pe. Arthur Klyber nasceu em 1900, de familia judaica, nos Esta


dos Unidos. Com 17 anos de idade serviu á Marinha norte-americana e
participou da primeira guerra mundial. Foi batizado em 1920 e entrou na
Congregacáo Redentorista, onde foi ordenado sacerdote em 1932. Em
1945 escreveu um artigo intitulado The Chief Rabbi's Conversión, pu
blicado na revista redentorista The Liguori em 1945 mesmo. Eis a tradu-
cao brasileira desse escrito, muito elucidativo para se compreender o
relacionamento entre cristáos e judeus.

«A Conversáo do Rabino-Chefe

Aos 17 de fevereiro de 1945, Israel Zolli, o rabino-chefe de Roma,


e sua esposa foram batizados na basílica de Santa Maria dos Anjos por
Mons. Luigi Traglia. Zolli foi o rabino-chefe de Trieste durante 25 anos
antes de partir para Roma. O seu profundo conhecimento das Escrituras
e da literatura semítica é atestado pelos muitos livros que publicou. Eru
ditos católicos reconheceram a sua sabedoria anos antes que se conver-
tesse, quando o convidaram para colaborar com a Pontificia Comissao
Bíblica assim como na confeccáo da Enciclopedia Católica Italiana.

Aos 65 anos de idade (em 1945), o ex-rabino goza de saúde vigo


rosa. Nasceu na Polonia. Sua máe era urna judia alema; do lado da fami
lia déla, havia urna tradicáo rabínica de 130 anos.

Nao é raro encontrarmos nos jomáis comentarios avessos ao ges


to de Zolli... É desrespeitoso e ofensivo considerar a sua conversáo "urna
religiosa mancada", pois na verdade foi o ponto final de um processo que
durou ao menos treze anos de seria reflexáo e estudo... Como rabino-
chefe de Roma, esse homem corajoso se ofereceu como refém aos na
zistas que entáo ocupavam a cidade, caso aceitassem soltar algumas
centenas de seus companheiros judeus. Seria esta a conduta de um so-
nhador? Nao seria antes a atitude de um abnegado pastor, dotado de
bom senso prático?

317
"PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

Os judeus, principalmente os rabinos da corrente ortodoxa nao se


convertem ao Cristianismo sem um poderoso auxilio da graca divina. A
experiencia tem demonstrado que aquele que tenciona converter-se do
judaismo para o Cristianismo, deve sempre contar com a prospectiva de
severos boicotes da parte de sua familia, seus amigos e todas as associ-
acoes israelitas. Se é ortodoxo, saiba que até pai e máe se voltarao amar
gamente contra ele. Háo de rechacá-lo de sua casa e apagar de sua
memoria o nome do filho. Se o convertido é membro de algum ramo mais
brando do judaismo, como sao os conservadores e os liberáis1, mesmo
assim sofrerá duras penalidades por se converter.
Israel Zolli e sua esposa tiveram que enfrentar muitos desses ma
les. Objetaram ao ex-rabino que se conveliera por interesses materiais;
ao que ele respondeu: "Nenhum interesse egoísta me levou a converter
me. Quando minha mulher e eu abracamos o Cristianismo, perdemos
tudo o que possuíamos neste mundo. Agora temos que procurar traba-
Iho. Deus nos ajudará a encontrá-lo".

Por isto, quando um judeu deseja assumir uma tal cruz como preco
de sua conversáo, ele realiza tal corte com o seu passado somente por
que tem a conviccao firme como a rocha de que está fazendo a vontade
de Deus e o faz somente por efeito do poder divino. Isto fica bem claro no
caso de Zolli, se se considera a defesa que ele fez de sua decisio.
Quando perguntaram ao generoso rabino por que havia abando
nado a Sinagoga para entrar na Igreja, respondeu mostrando nítida com-
preensáo do que fez:

'Eu nao abandone'! a Sinagoga. O Cristianismo é a plenitude (consu-


magao oucoroa) da Sinagoga. Com efeito, a Sinagoga era uma promessa, e
0 Cristianismo é o cumplimento dessa promessa. A Sinagoga aponía para o
Cristianismo; o Cristianismo pressupóe a Sinagoga. Como vocé percebe,
um nao pode existir sem o outro. Eu me convertí para o Cristianismo vivo'.'
Perguntou o entrevistador: 'Entáo o Sr. eré que o Messias (o Cris
to) jáveio?'

Respondeu Zolli: 'Sim, de fato. Eu acredite'! nisso durante muitos


anos. Mas agora estou táo firmemente convencido desta verdade que
posso enfrentar o mundo inteiro e defender minha fé com a certeza e a
solidez das montanhas'.

- 'Mas por que o Sr. nao procurou alguma das denominagóes pro
testantes, que também sao cristas?'

- 'Porque protestar nao é atestar. Eunáo tenciono incomodar quem


quer que seja, perguntando: 'Por que esperar 1500 anos para protestar?'
1 Podem-se distinguir no judaismo tres correntes: a dos ortodoxos (muito rígidos), a
dos conservadores ou reformados (mais abertos) e a dos liberáis (muito aberto's).
318
aínda o ex-rabino zolli 31

A igreja Católica foi reconhecida por todo o mundo cristáo como a ver-
dadeira Igreja de Deus durante quinze séculos consecutivos. Ninguém,
sem se embaragar seriamente, pode chegarao final desses 1500 anos é
dizer que a Igreja Católica nao é a Igreja de Cristo. Eu só posso aceitar a
Igreja que foi apregoada a todas as criaturas pormeus antepassados, os
doze Apostólos, que, como eu, sairam da Sinagoga.

Estou convicto de que, após esta guerra (1939-45), o único meio


de resistir as forgas da destruigáo e de empreender a reconstrugáo da
Europa será a aceitagáo do Catolicismo, isto é, a idéia, apregoada por
Cristo, referente a Deus e a fraternidade entre os homens, nao urna
fraternidade baseada em raga e super-homens, pois 'nao hájudeu nem gre-
go, nem escravo nem livre, visto que sois todos um só em Cristo' (Gl 3,28).

Eu era um católico de coragáo já antes que a guerra estourasse.


Em 1942 prometí a Deus que eu me tornaría cristáo se eu sobrevivesse a
guerra. Ninguém jamáis tentou converter-me. Minha conversao deve-se
a urna lenta evolugáo íntima. Há anos atrás, sem que eu tivesse a inten-
gao, dei tal caráter cristáo aos meus escritos que um Arcebispo em Roma
disse a respeito do meu livro The Nazarene: 'Todos podemos errar, mas,
na medida em que posso perceber, como Bispo eu subscrevería esse
livro'. Estou comegando a entender que por muitos anos eu fui natural
mente cristáo. Se eu tivesse dito isto em público trinta anos atrás, o que
acontece agora teña acontecido entáo'.

Como era de esperar, a noticia da conversao provocou grande agi-


tacáo nos círculos religiosos. De um dia para o outro, o venerável e eru
dito rabino, que oferecera sua vida por suas ovelhas, para alguns tornou-
se um desconhecido e, para todos, um herege e traidor. A Sinagoga de
Roma proclamou dias de jejum em desagravo pela desercáo de Zolli e
pranteou-o como se tivesse morrido; ao mesmo tempo era ele denuncia
do como meschumad {apóstata, ferido por Deus) e foi excomungado.
Eis ai um espécimen da veeméncia com que um judeu podia ser lancado
fora da Sinagoga nos dias em que os dirigentes judeus ainda eram capa-
zes de manusear o machado.

Nao ficou claro se algum documento a respeito de Zolli foi lido em


alta voz na Sinagoga; mesmo, porém, que nao tenha sido lido, podemos
estar certos de que os ditos sentimentos ardiam nos coracóes dos judeus
de Roma para com alguém que eles sinceramente consideravam ser um
traidor de Deus e do povo judeu. O mesmo tipo de condenacáo foi lanca
do contra o filósofo Baruch Spinoza em Amsterdam no ano de 1656, por
causa de seus heréticos conceitos relativos a Deus:

'De acordó com o julgamento dos anjos, e a sentenga dos santos,


anatematizamos, execramos, amaldigoamos e rechagamos Baruch
Spinoza, tendo o apoio de toda a sagrada comunidade... que pronuncia

319
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

contra ele a maldicáo escrita no livro da Lei. Seja amaldígoado de dia e


amaldigoado de noite; amaldigoado quando se delta e quando se levan
ta; amaldigoado quando sai e amaldigoado quando entra. Possa o Se-
nhorjamáis o reconhecer, possa a ira e o desagrado do Senhor acender-
se a partir de agora contra esse homem; carregue-o com todas as maldi-
góes escritas no livro da Lei. Seja o seu nome apagado debaixo do céu.
Possa o Senhor eliminá-lo das tribos de Israel.

Em conseqüéncia, todos sao exortados a que nao tenham conver


sa com ele nem porpalavra da boca nem por escrito. Ninguém está auto
rizado a Ihe prestar algum servigo; ninguém habite debaixo do mesmo
teto que ele; ninguém chegue menos de quatro cubitos em torno dele; e
ninguém leía algum documento ditado por ele ou escrito por sua máo'.
A um cristáo desinformado isto pode parecer excessivamente se
vero, mas os judeus acreditavam que Spinoza merecía tal punicáo; acre-
ditam que o rabino Zolli merece a mesma coisa. Embora a muitos pareca
espantoso fanatismo condenar um homem como Zolli, devemos evitar
condenar, odientos, os judeus por causa de tal atitude. A Igreja Católica
também excomungou hereges com severas penalidades.

O rabino Zolli, como outros que se tornaram cristáos, foi condena


do pelos andaos judeus porque, segundo o modo de ver deles, violara o
nome de Deus acreditando que o homem Jesús é Deus. A bem da verda-
de, devemos crer que os judeus de Roma julgaram estar sendo honestos
no caso da conversáo do seu rabino.
Ademáis os judeus tém longa memoria. Eles ainda estáo padecen-
do pelas ¡numeras perseguicóes do passado. Em nossos dias os seus
pobres corpos estao sofrendo o mais horrendo morticinio de massa ou
de milhóes na Europa.

Por certo, os cristáos deveriam resistir á tentacáo de censurar os


judeus pelo modo como trataram Zolli e outros convertidos. Ao contrario,
deveriam compadecer-se e rezar pelos judeus, como o ex-rabino e sua
esposa estáo fazendo.

Incoerentemente (ou coerentemente, diría alguém?) os judeus nao


ortodoxos de nossos dias consideram Baruch Spinoza o mais famoso
judeu dos tempos modernos. Tal julgamento efetuado pelos judeus mo
dernos nao tem raízes na ortodoxia judaica do passado e do presente.
Os 'judeus reformados', talvez sem o perceberem eles mesmos abando-
naram a fé revelada que seus antepassados professaram; sao capazes
de ensinar quase qualquer coisa e pó-la em prática. Já que muitos deles
nutrem dúvidas a respeito do Adonai Echod (o Único Deus), em teste-
munho do qual os seus Pais entregaram a própria vida, nao nos deve sur-
preender o fato de os encontrarmos louvando agora aqueles que seus ante
passados condenaram. Einstein, o dentista, cometeu o mesmo crime espi-

320
AÍNDA O EX-RABINO ZOLLI 33

ritual que Spinoza; nao obstante, ele agora é elogiado e reverenciado pelos
judeus reformados. A Ortodoxia condenou também Einstein, ao menos si
lenciosamente; bem desejariam os ortodoxos condená-lo em público, como
fizeram com Zolli, mas com razáo hesitam, pois sentem que o povo israelita
está sofrendo muito; além do qué, Einstein nao professou ser cristáo.
Todas as diferencas entre as crencas religiosas dos judeus devo
tos e as dos católicos consistem em urna só questáo: 'Esse Jesús que o
mundo inteiro cultua como Deus, é realmente o Messias cuja vinda foi
predita pelos profetas de Israel e da antiga Lei?'.

Os católicos que obstinadamente negam que Jesús seja o Filho de


Deus, sao excomungados pela Igreja e se acham em perigo de eterna
condenacáo a menos que se retratem. Paralelamente, um judeu que pro-
fesse que Jesús é o Messias, será alijado da Sinagoga como Zolli foi. Os
judeus ortodoxos de hoje acreditam que suas antigás doutrinas sao per-
feitas e firmes, como os católicos acreditam ser o ensinamento da Igreja.
É necessário assinalar, para o bem da paz, que, embora os judeus
repudiem os seus compatriotas que se tornam cristáos, eles ensinam
tranquilamente que os nao judeus (gentíos) que créem no único Deus do
céu e da térra e cumprem a vontade dele, podem entrar na vida eterna,
mesmo que a sua compreensao do único Deus seja por vezes manchada
por nocoes concernentes a Jesús e sua missáo.

A filha de Zolli, aínda nao convertida, afirma em defesa de seu pai:


'Nao sinto que a conversáo de meu pai tenha sido urna traicáo do judais
mo. O fato de que meu paí pode viver quarenta anos ensinando Judais
mo, prova que ele bem sabia relacionar entre si as duas religioes'. O
próprio Zolli disse com tristeza: 'Eu continuo a manter inalterado todo o
meu amor pelo povo de Israel; e na minha dor pela desgraca que recaiu
sobre eles, eu nunca deixarei de amar os judeus. Nao abandonei os ju
deus ao tornar-me católico'.

'Urna vez judeu, sempre judeu' é um shibbolet1 freqüentemente

1 A palavra shibbolet quer dizer em hebraico espiga de trigo. Depois que Jefté
venceu os efraimitas, tal palavra foi utilizada como teste para distinguir e capturar os
efraimitas que fugiam através dos vaus do rio Jordáo. Os efraimitas nao conseguiam
pronunciar "Chibolet", mas diziam "Sibolet", de modo que eram assim detectados.
Eis o que se le em Jz 12, 4-6:
"Jefté reuniu todos os homens de Galaad, ofereceu batalha a Efrafm, e os homens
de Galaad feriram Efraim... Os homens de Galaad tomaram a Efraím os vaus do
Jordáo, de maneira que, quando um fugitivo de Efraím dizia: 'Deixai-me passar', os
galaaditas Ihe perguntavam: 'És efraimita?'. Se dizia 'Nao!', respondiam-lhe: 'Entáo
dize Chibolet'. Ele dizia 'Sibolet', porque nao conseguía pronunciar de outro modo.
Entáo agarravam~no e matavam-no nos vaus do Jordáo".
Na linguagem moderna, o vocábulo shibbolet pode ser empregado como sinal
distintivo. (Nota do Tradutor).

321
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

citado por judeus bem orientados como testemunho de que um judeu


nunca pode, no fundo do seu coragáo, tornar-se um cristáo. Quando Isra
el Zolli foi interrogado a respeito de se considerar ainda judeu, ele res-
pondeu citando tal expressáo; atribuiu-lhe, porém, um significado corre
to: 'Será que Pedro, Tiago, Joáo, Mateus, Paulo e centenas de judeus
como eles deixaram de ser judeus por terem seguido o Messias e se
haverem tornado cristaos? Evidentemente, nao1.

Um judeu que aceita o Messias hoje, fica sendo táo judeu quanto
aquele que aguarda um futuro Messias para aderir a ele onde e quando
ele vier. Com outras palavras, um judeu que aceita Jesús como seu Mes
sias, aceita um judeu e fica sendo ele mesmo judeu. Isto pode parecer
estranho e até heterodoxo a católicos que tenham apenas um conheci-
mento superficial da historia profética do Judaismo e do ensinamento
católico respectivo. Um judeu convertido aceita como o seu Messias o
judeu Jesús, cuja genealogía recua até o rei Davi sem ruptura; pode al-
guém ser mais judeu do que tal judeu? O judeu convertido aceita um
Messias judeu que provou que sua missáo vinha de Deus fazendo cente
nas de coisas que os profetas predisseram; entre estas, estáo os seus
incontestáveis e numerosos milagres e a sua ressurreicáo dentre os
mortos. Os seus milagres continuam e se multiplicam na sua Igreja até o
momento presente. Terá algum Messias jamáis feito o mesmo? Pode
algum judeu realizar algo de mais significativo do que colocar o selo de
Deus sobre os seus ensinamentos?

Quando um devoto judeu se torna um seguidor de Jesús, ele nao


muda de nacionalidade (que fica sendo hebréia), nem de religiáo, que
fica sendo o Judaismo. Mas entao que faz ele?

Ele apenas leva a sua religiáo até a consumacáo, como Zolli de-
monstrou. Ele colhe a fruta madura da árvore que Deus plantou. Tal foi a
razáo pela qual o ex-rabino pode afirmar que nao abandonou a Sinagoga
para entrar na Igreja, pois um nao pode existir sem o outro. Esta também
é a razáo pela qual ele repetiu corretamente: 'Urna vez judeu, sempre
judeu'. Se há alguma nocáo que deva ser incutida tanto a judeus como a
cristaos, é precisamente a concepcáo de que Jesús nao pregou no mun
do urna nova religiáo, mas apenas trouxe urna nova Alianca ou um novo
Testamento referente á antiga Religiáo que o próprio Deus entregou ao
povo de Israel. A natureza mesma de Deus rejeita a idéia de que ele
possa ter dado ao mundo mais do que urna religiáo ou um caminho de
vida e adoracáo".

REFLETINDO...

O artigo é interessante e precioso, pois trata do delicado problema


da conversáo dos judeus ao Cristianismo. Sugere algumas considera-
cóes, que váo, a seguir, propostas:

322
AÍNDA O EX-RABINO ZOLLI 35

1) O articulista é um judeu convertido, que se fez sacerdote católi


co na Congregacáo do Santíssimo Redentor. Seu objetivo é demonstrar
que tornar-se cristáo, para um israelita, nao é traicáo nem desabono da
religiáo judaica, mas, ao contrario, significa abracar o Judaismo até as
últimas conseqüéncias, pois a religiáo de Israel é essencialmente a ex
pectativa do Messias prometido aos Patriarcas de Israel; é colher o fruto
maduro da árvore que o próprio Deus plantou. Vale, pois, o axioma: "Urna
vez judeu, sempre judeu". Existem atualmente no mundo algumas cor-
rentes de israelitas que reconhecem Jesús como o seu Messias, profes-
sando adesao a Cristo em sua Igreja ou fora da Igreja Católica; a respeito
ver PR 375/1993, pp. 345-356 e 377/1993, pp. 455-461.

2) O autor do artigo ilustra a sua tese comentando o caso do ex


rabino Israel Zolli, cuja conversáo foi mal compreendida. O Pe. Arthur
Klyber lembra as declaracóes pelas quais Zolli afirmava que, mediante o
estudo mesmo das Escrituras, se convencerá de que Jesús é o Servo
Sofredor descrito por Is 53; durante treze anos Zolli refletiu sobre as pro
fecías bíblicas e assim preparou o seu pedido de Batismo. Nao tinha em
vista qualquer vantagem de ordem temporal, pois a sua passagem para
o Cristianismo Ihe valeu desemprego e necessidade de procurar sobrevi-
ver dignamente.

3) Podendo escolher entre as varias denominacóes cristas, Zolli


optou pela Igreja Católica. Por qué? - Foi esta que o judeu Jesús fundou;
foi esta que os primeiros judeu-cristáos - Mateus, Marcos, Tiago, Joáo,
Paulo... - apregoaram; foi esta que durante quinze séculos os povos con-
sideraram a Igreja de Cristo. No século XVI houve um protesto, que Zolli
julga tardío e incapaz de extinguir a autenticidade da Igreja fundada por
Jesús.

4) O Pe. Klyber se refere as represalias dos judeus ortodoxos


dirigidas contra os irmáos que se convertem á fé católica... É oportuno
lembrar que entre os judeus há tres correntes: 1) a ortodoxa, extrema
mente fiel á Lei de Moisés e fechada ao messianismo cristáo; 2) a refor
mada, mais aberta e 3) a indiferente, que guarda por vezes a observan
cia de alguns ritos tidos como característicos da nacionalidade hebréia.

Os ortodoxos reagem severamente contra os irmáos que se tor-


nam cristáos ou que apostatam da fé dita "javista" (fé em Javé). Fazem-
no por dever de consciéncia, diz Klyber. Acrescenta o autor que também
a Igreja Católica pune os hereges. A propósito convém notar:

Os cristáos medievais julgavam dever, em consciéncia, condenar


os hereges; faziam-no de acordó com os procedimentos habituáis na-
quela época. Sejam entendidos dentro dos parámetros da cultura medie
val e ainda pós-medieval. Em nossos dias a Teología se vale da distincáo
entre pecado formal e pecado material:

323
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

- pecado formal é aquele que alguém comete consciente e volun


tariamente; sabe que está errando e quer errar. Quem assim procede, se
afasta de Deus; mas nem por isto se pode dizer que já está condenado
ao inferno, pois até o fim desta vida terrestre a graca de Deus pode con
verter tal individuo, fazendo-o voltar ao camínho devido;

- pecado material é a falta cometida por alguém que nao sabe


estar errando ou, se o sabe, nao o quer (é violentado). Tal pessoa pode
estar de boa fé, ou de consciéncia candida, no erro; Deus nao Ihe pedirá
contas daquilo que tal pessoa, sem culpa própria, nao sabia ou nao po-
dia realizar. As causas do pecado material sao, entre outras, a ignorancia
religiosa e o deficiente aprendizado das verdades da fé. Quem nao co-
nhece ou quem conhece mal o Credo que professa, pode deixar-se ar-
rastar pelo erro religioso; se a sua ignorancia ou o seu aprendizado defi
ciente sao totalmente inculpados, a sua apostasia nao é culpada. Na
prática, porém, sabe-se que há muita negligencia culposa no tocante á
formacáo religiosa de numerosos fiéis católicos.

Sao estas as principáis considerares que o artigo do Pe. Arthur


Klyber nos sugere. A temática toca o misterio do povo judeu, por cuja
cegueira o Apostólo Sao Paulo muito sofria:

"Digo a verdade em Cristo, nao minto, e disto me dá testemunho a


minha consciéncia no Espirito Santo: sinto uma grande tristeza e uma dor
incessante em meu coracáo. Quisera eu mesmo ser anatema, separado
de Cristo, em favor de meus irmáos, de meus parentes segundo a carne,
que sao os israelitas, aos quais pertencem a adogáo filial, a gloria, as
aliangas..." (Rm 9, 1-4).

A título de complemento, vai transcrita uma noticia extraída da re


vista REB, marco de 1999, p. 207:

"Judeus messiánicos": presentes em muitos países. - Os "ju-


deus messiánicos" - judeus que veneram a Cristo como o Messias pro
metido por Deus - somam hoje mais de 350 comunidades, presentes em
mais de dez países, principalmente nos EUA. Em Israel, inclusive, há
uma significativa presenga de "Judeus messiánicos": ao todo 50 grupos.
Admitem que Jesús é o Messias prometido por Deus (chamam a Jesús
de "Yoshuah há Mashiah"); reúnem-se ao menos uma vez por semana,
geralmente aos sábados ("Jesús observava o sábado"- dizem eles), para
estudarem a Tora e lerem o Evangelho; circuncidam os meninos no oita-
vo dia; e quando fazem oragáo, usam símbolos judaicos, pois conside-
ram os símbolos cristáos um residuo empobrecido da clássica heranga
simbólica do povo eleito. Nos EUA, onde os judeus messiánicos sao mais
numerosos, há tres grandes associagóes: a Uniáo das Comunidades Ju-
deu-Messiánicas, a Alianga Judeu-Messiánica da América, e a Federa-
gao das Comunidades Messiánicas.

324
Judeus e Cristáos em Diálogo:

"MEU PAI NUNCA DEIXOU DE SER UM JUDEU!"


(M. Zolli)

Em síntese: O grao-rabino Israel Zolli converteu-se ao Catolicis


mo aos 17 de fevereiro de 1945, deixando de chefiara sinagoga de Roma.
O fato provocou calorosos comentarios, que em parte acusavam o cris-
táo Zolli de covardia e neurose. A Sra. Miriam Zolli, filha do ex-rabino,
deu importante depoimento a respeito, talando para a revista Inside the
Vatican, edigáo de fevereiro de 1999. O texto é valioso por apresentar o
testemunho de alguém que acompanhou de ¡mediato os acontecimentos.
* * *

É notorio o fato de que o gráo-rabino de Roma, Dr. Israel Zolli, se


converteu ao Catolicismo, recebendo o Batismo das máos de Mons. Luigi
Traglia na basílica de Santa Maria dos Anjos, aos 17 de fevereiro de
1945. O fato suscitou numerosos comentarios, especialmente da comu-
nidade judaica mundial; houve mesmo quem julgasse ter o ex-rabino
cedido á covardia, á ambicáo e á neurose; o seu trabalho intelectual foi
depreciado, de tal modo que o gesto de Zolli {que no Batismo tomou o
nome de Eugenio, em homenagem ao Papa Pió XII) foi por muitos tido
como insignificante.

Todavía a revista norte-americana Inside the Vatican houve por


bem aprofundar a questáo, pois se relaciona também com a atitude de
Pió XII frente aos judeus perseguidos. Em conseqüéncia, a reportagem
deste periódico foi procurar a filha de Eugenio Zolli (já falecido), que ti-
nha vinte anos quando o pai se converteu ao Evangelho, e pediu-lhe
depoimentos e ¡mpressoes sobre os marcantes acontecimentos do pas-
sado. O texto resultante foi publicado em Inside the Vatican, edigáo de
fevereiro de 1999, pp. 79-81. Vai abaixo traduzido.
"MEU PAI NUNCA DEIXOU DE SER UM JUDEU!"

"Miriam Zolli caminhava lentamente através da Praca, apoiada no


braco de sua filha Maura. Atrás délas via-se a fachada da igreja de Santa
Maria in Trastevere1. Estávamos na primavera de 1998. Pouco antes, o
Vaticano publicara o seu documento (alias, muito aguardado) relativo ao
Holocausto (Shoah). A imprensa apresentava fartos comentarios a respeito
das relacóes entre católicos e judeus bem como no tocante ao alegado 'si
lencio' de Pió XII e da Igreja em geral frente ao genocidio cometido por Hitler.
' O Trastevere é, até hoje, um bairro muito habitado por judeus.

325
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

Com 76 anos de idade, a fitha do rabino Israel Zolli estava enfasti


ada pela polémica. Poucos dias antes, havia respondido a um chamado
telefónico de Stefano Zurio, repórter de II Giornale e - rompendo a sua
norma de nao comentar - tinha falado longamente a propósito de seu
pai, da conversáo dele e da sua atitude frente a Pió XII. A sua entrevista,
em que ela havia defendido seu pai e Pió XII, fora publicada aos 21 de
margo. No momento mostrava-se extremamente cansada; dentro de pou-
cas semanas sofreria um ataque cardíaco, nao faial, mas debilitante. Co-
mecou Miriam: 'Lembro-me muito claramente do que meu pai dizia a res-
peito do Papa Pió XII. Afirmava ele: Voces veráo que nao de censurar o
Papa Pió XII por ter-se calado diante dos crimes do nacional-socialismo1.
Apesar de seus cábelos brancos, a voz de Miriam Zolli era firme. Parecía
mobilizar toda a energía para falar a propósito dos anos em que Roma
esteve ocupada pelos nazistas e a Gestapo se preparava para deportar a
comunidade judaica toda.

'A controversia concernente ao documento do Vaticano sobre o


Holocausto está demasiado fundamentada sobre emogóes', disse Miriam.
'Quase ninguém está dando a devida atengáo as circunstancias próprías
daqueles anos'.

Tornou-se claro que Miriam julgava que a historia completa de seu


pai nunca fora contada; já que despertava tantas emogóes, foi 'enterra
da' com o consentimento de todos.

Em 1945, Israel Zolli, chefe de urna das mais antigás comunidades


judaicas da Diáspora pediu o Batismo e tomou o nome de Eugenio como
testemunho de admiracáo pelo Papa Eugenio Pacelli, que ajudara os
judeus da capital durante os trágicos dias de outubro de 1943.

Zolli foi muito claro. Em seu livro Antisemitismo {hoje quase ¡m-
possível de ser encontrado, como todas as suas obras), ele escreveu:

'Os judeus do mundo inteiro tém grande divida de gratidáo a S.


Santidade Pió XII pelos seus repetidos e prementes apelos em favor da
justiga para com os judeus e por seus firmes protestos contra leis e pro-
cedimentos iniquos'.

Miriam disse ser um mito a imagem do Pontífice encarcerado por


suas próprias angustias no Vaticano.

'Quando os nazistas exigiram 50 quilos de ouro para poupar a vida


dos moradores do Pórtico d'Ottawa (quarteirao judaico do centro de Roma),
meu pai, quase desesperado, correupara o Vaticano e falou com o ecó
nomo do Vaticano, Mons. Nogara. Mediante Nogara, Pió XII assegurou a
meu pai que o Vaticano poria á sua disposigáo os 15 quilos que estavam
faltando. A partir daquele momento, meu pai travou um relacionamento
de simpatía humana, quase de identificagáo, com Pacelli'.

326
"MEU PAI NUNCA DEIXOU DE SER UM JUDEU!" 39

Infelizmente o ouro nao foi suficiente para aplacar os nazistas. En


tre 15 e 16 de outubro, os alemáes arrebanharam os judeus do ghetto.

'Meu pai, lembra Miriam, compreendeu muito bem como as coisas


haviam de terminar. Ele nao confiava na policía alema e por isto sugeriu
aos responsáveis da comunidade judaica que queimassem seus docu
mentos e providenciassem a fuga do povo para longe da cidade. Os re-
ceios de meu pai foram tidos como exagerados; ele foi considerado um
profeta da perdigáo. Tal conceito era em parte devido ao fato de que os
judeus haviam recebido garantías do Chefe de Policía de Roma, o sr.
Carmine Senise. Afinal de coptas, quase todos morreram'.

Zolli nasceu em Brodj, na Galicia (Polonia), aos 17 de setembro de


1881. A sua língua materna era o alemáo; -seus irmáos moravam na Aus
tria e na Alemanha.

'Talvez por causa disto meu pai compreendeu, antes de muitos


outros, a natureza do nacional-socialismo e de Hitler, disse Miriam. Deu-
se o mesmo no caso de Pacelli, que compreendia períeitamente a cultura
alema, pois passara muitos anos em Munique e Berlim como Nuncio Pa
pal. Já na década de 1930 meu pai trabaihou duramente em Trieste na
fungáo de grao-rabino, para salvar os judeus alemáes que fugiam do Reich.
Ajudou muitos deles a embarcar em duas naves de Trieste que pertenci-
am ao Lloyd de Londres, gozando da tutela do rei da Italia e de Mussolini.
Ele costumava comentar o procedimento de Hitler com um sarcasmo fe
roz, plenamente yiddish. Por exemplo, ceño día em Trieste, um violinista
de Café se apresentou ao meu pai com o brago quebrado; disse entáo
meu pai: 'Hitler ganhou um grande Vitoria, fazendo de um péssimo violi
nista um excelente schnorer (mendigo)'.

O destino do rabino Zolli estava entrelazado com o do Papa Pió


XII: 'Os personagens históricos tém que ser considerados no contexto da
época em que viveram, disse Miriam. Pacelli e meu pai foram figuras
trágicas num mundo em que toda referencia moral se perderá. Um abis
mo de mal se escancarara, mas o comum dos homens nao acreditava
nisso e os maiorais - Roosevelt, Stalin, de Gaulle - permaneciam silenci
osos. Pió XII compreendeu que Hitler nao faria pacto com quem quer que
fosse; a sua demencia era tal que podía explodir em qualquer diregáo,
tanto para massacrar os católicos da Alemanha como para bombardear
Roma; Pío XII tinha que pautar sua conduta por tal conhecimento da situ-
agáo. O Papa era alguém obrigado a se mover na solídáo entre os luná
ticos de um asilo de doentes. Ele fez o que pode. O seu silencio há de ser
considerado nesse contexto como urna atitude de prudencia e nao de
covardia'.

Em 1945 Zolli e sua esposa foram batizados; no ano seguinte Miriam


os seguiu.

327
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

O rabino, um exegeta da Biblia, estudando os textos de Isaías 53


relativos ao Servo de Javé, convenceu-se de que o Crucificado era o
próprio Servo. Em 1945 ele deu o grande passo, que ele explicou com
poucas e passionais palavras em sua autobiografía Antes da Aurora:
'Um homem nao se converte no momento que ele escolhe, mas na hora
em que ele recebe o chamado de Deus. E, quando ele ouve esse chama
do, aquele que o recebe só tem urna coisa a fazer: obedecer'.

A conversáo de Zolli suscitou enorme escándalo. Disse a II Giornale


o Cardeal Paolo Dezza, atualmente com 96 anos de idade: 'Um vazio se
criou em torno de Zolli. O seu nome foi cancelado da lista dos rabinos de
Roma, o jornal judaico foi publicado com urna tarja negra como ñas oca-
sióes de luto, e a familia de Zolli, que morava a poucospassos da sinago
ga, recebeu telefonemas cheios de insultos e ameagas. Teve que mudar
de residencia. Entrementes, eu hospedeiZolli na Universidade Gregoriana,
da qual eu era o Reitor, enquanto sua esposa e sua filha encontraram
abrigo em um convento de freirás'.

'Eu sou pobre', disse Zolli a Dezza. 'Os nazistas levaram tudo o que
era meu. Nao importa. Quero viver pobre e morrer pobre. Confio na Pro
videncia'.

Quando Eugenio Zolli encontrou Eugenio Pacelli (conversaram em


alemáo da primeira á última palavra) o ex-rabino pediu ao Bispo de Roma
que tirasse da Liturgia da sexta-fe ira santa o adjetivo pérfidos atribuido
aos judeus. O Papa respondeu declarando publicamente que em latim
perfidi significa incrédulos, nao trapaceiros. Naquela época o Papa
nao podia fazer mais do que isto.

Zolli faleceu aos 2 de marco de 1956. Foi logo vítima do esqueci-


mento. Miriam, urna psicanalista, ainda mora em Roma, no Trastevere,
cultivando tranquilamente a memoria de seu pai.

'É importante que o Sr. torne bem claro que meu pai nunca abando-
nou o judaismo, disse Miriam. Ele sabia ser umjudeu que havia chegado
a crer no Messias judeu. Nao houve rejeigáo das suas raízes judaicas
nem do povo judaico. Muitos julgam que é impossível compreender isto'.

'Nos dias próximos passados, quando a polémica referente ao si


lencio de Pió XII comegou a arder, pensei em mandar urna carta aberta
aos jomáis, mas depois abandonei a idéia. Na última vez que falei com
um jornalista, anos atrás, o meu pensamento foi distorcido'.

É melhor nao falar a respeito de Zolli, mesmo quarenta anos após


a sua morte".

328
Fala o ex-rabino Israel Zolli:

AÍNDA PIÓ XII E OS JUDEUS

Em síntese: O próprio ex-rabino Israel Zolli dá seu testemunho


eloqüente de quanto o Papa Pió XII e, com ele, a Igreja Católica fizeram
pelos judeus e perseguidos em geral durante a segunda guerra mundial
(1939-45). Zolli foi rabino em Roma durante a ocupagáo nazista e pode
esclarecer com autoridade única a verdade dos fatos.
* * *

O ex-rabino Israel Zolli escreveu sua autobiografía intitulada Before


the Dawn (Antes da Aurora). No capítulo 17 desta obra recorda o que o
Papa Pió XII fez em favor dos judeus durante a perseguigao nacional
socialista. O testemunho de Zolli dissipa as acusagóes de covardia ou
mesmo de transigencia com o nazismo levantadas contra o Papa. Eis por
que abaixo transcrevemos em tradugáo portuguesa parte do citado capí
tulo.

A SOLICITUDE DE PIÓ XII

"Nao será que o Sr. se converteu por gratidáo para com o Papa,
que tanto fez em favor dos judeus da Italia durante a perseguicáo nazis
ta?". Esta pergunta foi-me dirigida - e ainda é - por repórteres. Em mui-
tas entrevistas (por falta de cuidado ou por gosto de ficgáo) descrevem-
me como se tivesse respondido afirmativamente. Por qué? - Suponho
que para agradar aos leitores, oferecendo-lhes urna precisa e interes-
sante explicagáo do fato. Na verdade, a minha resposta sempre foi nega
tiva, mas isto nao deve ser interpretado como falta de gratidáo...

Na hora precisa em que o terrível rito de sacrificio teve inicio, a


destruigáo em massa em nome da raga, da nagáo, do Estado, fatores
concentrados num único elemento: sangue - precisamente entáo, entre
tantos fanáticos, o grande Pontífice, único, sereno e sabio, exclamou:

"O amorjusto e legítimo á patria nao deve fechar os olhos dos cida-
dáos para a universalidade da caridade crista, que também considera os
outros e a sua prosperídade na luz pacificadora do amor!"
... Poderíamos escrever volumes a respetto das múltiplas e varia
das obras de socorro praticadas por Pió XII... Quem poderá jamáis dizer
o que foi feito? A regra da clausura religiosa dos conventos cedeu; tudo
foi colocado ao servigo da caridade. Na medida em que os sofrimentos

329
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

cresciam, crescia também a luz do Coracao de Cristo e do seu Vigário.


Jovens levitas e sacerdotes encanecidos, Religiosos de todas as Ordens,
em todos os países, dedicadas Irmas, todos se aplicavam á prática das
boas obras e se mostravam prontos para o sacrificio. Nao havia barrei-
ras, nao havia diferencas. Todos os que sofriam, eram considerados fi-
Ihos de Deus aos olhos da Igreja, filhos em Cristo, para os quais e com
os quais todos sofriam e morriam. Nenhum herói da historia jamáis co-
mandou um tal exército. Nenhuma milicia foi mais atuante, nenhuma foi
mais combatida, nenhuma foi mais heroica do que essa conduzida por
Pió XII em nome da cidade crista.

Um velho sacerdote, que nada mais podia fazer, reuniu em torno


de si na igreja as mulheres e as criancas da aideia (os homens haviam
sido sacrificados fora da aideia) a fim de que pudessem morrer juntos na
presenca do Crucifixo. Um exército de sacerdotes trabalhava ñas cida-
des e ñas pequeñas aldeias a fim de providenciar pao para os persegui
dos e passaportes para os foragidos. As Irmas se deslocavam para abri
gos nao aquecidos a fim de poder dar hospedagem a mulheres refugia
das. Orfáos de todas as nacóes e religioes eram recolhidos e tratados.
Nenhum sacrificio monetario era considerado grande demais, desde que
se tratasse de ajudar os inocentes a fugir para térras estrangeiras, longe
daqueles que os procuravam matar. Um religioso e erudito homem traba-
Ihou ¡ncessantemente para salvar os judeus e ele mesmo morreu mártir.
As Irmas padeciam fome para poder alimentar os refugiados. Os Superi
ores dos conventos saíam durante a noite para encontrar soldados es-
trangeiros que procuravam vítimas. Procediam, com o risco de sua pró-
pria vida, de modo a dar a impressáo de que nao abrigavam nenhum
refugiado, quando na verdade tinham muitos debaixo dos seus cuidados.

O sótáo de urna das grandes igrejas no centro de Roma foi dividido


em varias seccóes, cada qual trazendo o nome do Santo em cuja honra o
altar abaixo fora dedicado. Para a distribuicáo de alimentos, os refugia
dos foram repartidos em grupos de acordó com os nomes desses San
tos. Nao se terá regozijado a alma de cada um desses Santos ao receber
tal homenagem? Escolas, Repartieres Administrativas, igrejas, conven
tos, todos receberam seus hospedes...

Na primeira hora do seu pontificado exclamou Pió XII:

"Precisamente em tempos como os nossos, aquele que permane


ce firme na fé e forte em seu coragáo, sabe que Cristo Rei nunca está tao
perto quanto no momento da tentacao, que é o momento da fidelidade.
Com o coragáo quebrantado pelo sofrimento de tantos de seus filhos,
mas com a coragem e firmeza que provém da fé ñas promessas do Se-
nhor, a Esposa de Cristo (a Igreja) enfrenta a tempestade que se aproxi-

330
AÍNDA PIÓ XII E OS JUDEUS 43

ma. Ela sabe que a verdade que ela anuncia, a caridade que ela ensina e
pratica seráo os únicos conselheiros e colaboradores dos homens de
boa vontade para a reconstrugáo do mundo na justiga e na caridade,
depois que o género humano, cansado de caminharpela estrada do erro,
tiver provado o fruto amargo do odio e da violencia".

Muitos sao os üvros escritos por cultores de estatísticas, generáis,


jornalistas, e muitos sao os memoriais de pessoas concernentes á gran
de guerra. Os arquivos encerram enorme quantidade de material para os
futuros historiadores. Mas quem, além de Deus no céu, recolheu em seu
coracáo as tristezas e os gemidos de todos aqueles que foram injuria
dos? Como sentinela vigilante diante da sagrada heranca do sofrimento
humano estava o Pastor Angélico, Pió XII. Ele percebeu o abismo da
desgraca para a qual a humanidade caminhava. Ele dimensionou e pre-
disse a amplidáo da tragedia. Ele mesmo se fez o arauto de voz serena
da justi$a e o defensor da verdadeira paz...

Nao hesito em responder negativamente a quem me pergunta se


me convertí por gratidáo a Pió XII e seus ¡números atos de caridade. Nao
obstante, sinto o dever de prestar homenagem e afirmar que a caridade
do Evangelho foi a luz que me mostrou o caminho para o meu velho e
cansado coracáo. É a caridade que tantas vezes brilha na historia da
Igreja e que se irradia plenamente na atividade do atual Pontífice".
As palavras de Eugenio (Israel) Zolli vém confirmar testemunhos
anteriores, já consignados em PR 434/1998, pp. 290-302; 438/1998, p.
528.

Satanás em Baixa, por Manuel Fraijó. Tradugáo de Orlando Soa-


res Moreira. - Ed. Loyola, Sao Paulo 1999, 120 x 170mm, 75 pp.

O autor defende, em tom zombeteiro, a tese de que o demonio nao


existe; seria a forga neutra do mal que atua no mundo. Póe-se assim em
abena contradigáo á doutrina da fé expressa pelo Catecismo da Igreja
Católica n" 391: "Por tras da opgáo de desobediencia de nossos primei-
ros país há urna voz sedutora, que se opóe a Deus, e que, porinveja, os
faz cair na morte. A Escritura e a Tradigáo da Igreja véem neste ser um
anjo destronado chamado Satanás ou Diabo. A Igreja ensina que ele
tinha sido anteriormente bom, criado por Deus... - Com efeito, o Diabo e
outros demonios foram por Deus criados bons em sua natureza, mas se
tornaram maus por sua própria iniciativa".

O assunto nao pertence a área de Filosofía, mas é estritamente um


tema de fé. Ver ulteriormente Catecismo n" 328.

331
Relativismo:

"O SONHO DA PAZ"


por Marcelo Barros

Marcelo Barros é um monge beneditino e sacerdote que, residente


num mosteiro em Goiás, vem dedicando seus esforcos á teoría e á prática
da uniáo de todos os Credos religiosos. Em vista disto, publicou recente-
mente o livro "O Sonho da Paz"1, no qual propóe idéias relativas ao tema.

Em seu afá de aplainar o caminho para a aproximacáo dos Cre


dos, o autor cede a um relativismo que, á primeira vista, é "simpático",
mas vem a ser urna traicáo á Verdade. A ninguém é lícito manipular arbi
trariamente a mensagem crista a fim de a tornar mais assimilável a quem
nao é cristáo. - A leitura do livro sugere varias reflexóes, das quais váo
abaixo propostas as duas seguintes:

1. Pecado e Salvacáo

Áp. 159 lé-se:


"Outro dia, numa entrevista, urna máe de santo declarou que no
candomblé nao se precisa de um salvador, porque nao se acredita em
pecado ou culpa, céu ou inferno no sentido cristáo. O candomblé é urna
religiáo que olha a vida mais positivamente e nos ensina a receberoaxé,
a forga vital da natureza e de Deus".

Em conseqüéncia, Marcelo Barros julga que se deveria seguir a


tese de Duns Scotus (t 1308), que afirma: Jesús é essencialmente o
Revelador do amor do Pai, que se tornou o Salvador do homem pecador.
Assim estaria posta na penumbra a nocáo de pecado e de redencáo do
pecador, e se facilitaria a adesáo de nao cristáos ao Evangelho.

A propósito deve-se dizer q je encobrir a nocáo de pecado existen


te no mundo é falsificar a realidade; guerras, crimes, assaltos, tráfico
humano, abusos da vida e da pessoa humana sao fatos patentes que a
imprensa apresenta diariamente. O homem moderno sente-se ansioso
por urna saída de mundo táo ingrato, a tal ponto que Nova Era e as seitas
modernas arrebanham numerosos adeptos somente pelo fato de propo-
rem urna sociedade nova, urna ¡ntervencáo do Divino na historia a fim de
salvar o cidadáo contemporáneo da inclemencia deste fim de século. Em
conseqüéncia, verifica-se que nao é despropositado falar de Jesús Sal-

1 Ed. Vozes, PetrópoHs, 135x210mm, 210 pp.

332
"O SONHO DA PAZ"

vador O que importa, é nao propor a imagem de um Cristianismo som


brío ameacador, mais negativo do que positivo. Diz muito sabiamente
Santo Agostinho: "Que o pecador se condoa do seu pecado, e se alegre
por conceber a dor do pecado". A última palavra do Cristianismo nao e o
pecado nem o inferno, mas a alegría de sabermos que Deus ama a sua
criatura antes que ela O ame, e ama irreversivelmente a ponto de assu-
mir a sorte do homem ferido pelo pecado para recriá-lo e leva-lo a parti
cipar da bem-aventuranca do próprio Deus. Como se ve, nao se deve
corrigír a auténtica doutrína crista, mas sim o modo imperfeito segundo o
qual ela é, por vezes, expressa.

2. "Como Deus atua ñas outras religióes"


As pp 161-164 o autor considera a salvacáo fora do Cristianismo.
Após citar a teoría segundo a qual somente quem pertence á Igreja visi-
vel é salvo (teoria nao aceitável), M. Barros cita duas outras:
- a visáo inclusiva, segundo a qual "só o Cristo salva, e salva o
mundo inteiro, mas nao salva a todos do mesmo modo. Aos cnstaos sal
va pela pertenca a urna Igreja. Aos nao cristáos, pela graca que misten-
osamenta associa estas pessoas a Cristo, mesmo que estas^naoCco-
nhecam" (p. 162). Por conseguinte fora da Igreja visível haveria muitos
cristáos anónimos.
Todavía M. Barros julga esta visáo insuficiente, porque cataloga
como cristáos os nao cristáos "para vé-los como objeto do amor e da
salvacáo de Deus" (p. 163). Donde se segué urna terceira teoría:
- a visáo pluralista, segundo a qual "Deus salva a todos emqual-
quer cultura e religíáo através dos caminhos próprios de cada religiao. E
Cristo quem salva presente em todas as religioes e culturas, mas sem
se impor, sem ser propríetário" (p. 163). «A pessoa humana de Jesús de
Mazaré' é sempre o sinal (sacramento) desta salvacao, que toma dife
rentes expressóes e nomes em outras religióes e culturas (p. 164 . Por-
tanto nao importam os nomes e a linguagem religiosos, nem os ritos ou
as ex^ressoes de culto (nao importa a religiáo); todos esses sinais sao
aceitáveís, porque secundarios; só Cristo salva atraves de qualquer cor-
rente religiosa ou qualquer Credo.
Esta visáo, como se vé, chega ao relativismo total; tanto faria ser
cristáo como ser muculmano, budista ou animista. Nao haveriai que pre
gar o Evangelho a ninguém. Tal posicáo fere a no5ao de verdade rel.g.o-
exoressáo inadecuada, para nao dizer. teológicamente falsa. Jesús nao

delnthaver em Jesús urna só Pessoa (um só Eu, um só suje,to) d,V,na e duas


naturezas (a divina e a humana).

333
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

£ subdita: Se9UÍ"te' "k^9*"0 "*• realWad6 Ob"


a) No plano objetivo existem verdade e erro no tocante á religiáo
como em qualquer outro campo do saber humano; o politeísmo (muitos
deuses), o panteísmo (tudo é deus) e o monoteísmo (há um só Deus que
do nada t.rou todos os seres vlsíveis) divergem e se contradizem entre si-
sementé o monoteísmo pode ser verídico, como ensina a própria razao
humana Tambem as diversas modalidades de Ética decorrentes de cada
Credo divergem entre si: poligamia, divorcio, prática do aborto do
homossexualismo, da eutanasia direta, manipulado da sementé vital
humana nao podem ser tidas como práticas moralmente válidas embora
aceitas em algumas correntes religiosas; nao sao válidas, porque ferem
a leí natural, que é anterior a qualquer sistema de Moral religiosa Ora se
ha verdade e erro nos diversos Credos, é indigno de Deus dizer que Ele
equipara verdade e erro como expressoes religiosas ou como caminhos
de salvacao. So pode haver uma forma religiosa verídica e plenamente
etica que o católico nao tem vergonha de dizer que se encontra na Igreja
Católica fundada por Cristo e confiada ao pastoreio de Pedro e seus
sucessores. Ao professar isto, o católico nao se arvora em dono da ver
dade nem pretende ser mais merecedor do que qualquer irmáo seu, mas
com humildade reconhece ter sido chamado por Deus a professar a ver-
dadeira fe, da qual ele deve dar lúcido testemunho perante o mundo
tornando-se missionário da sua crenca religiosa. O fiel católico, ao pre
gar o Evangelho, nao pretende "ganhar adeptos para o seu clube" mas
cumpre algo de espontáneo, já que "o bem é difusivo de si"; se alguém está
convicto de que conhece a Boa-Nova, deve ter alegría e interesse em que
seus semelhantes conhecam e vivenciem a mesma Boa-Nova- daí o zelo
evangelizador voltado para todos os homens, de acordó com Mt 28,18-20.
b) Acontece, porém, que, por insondável designio de Deus nao é
dado aos fiéis católicos fazer chegar a Boa-Nova a todos os homens Isto
nao pode significar que o Senhor queira condenar tais criaturas, as quais
Ele mesmo nao dá a graca de conhecer adequadamente Jesús Cristo e
sua única Igreja. A tais pessoas Deus pedirá contas da fidelidade de
cada urna ao Credo ou á filosofía religiosa que Ihes tiver dado a conhe
cer. Tais pessoas estaráó no erro religioso, professando e vivendo o erro
religioso (a poligamia, por exemplo), mas salvar-se-ao por sua boa fé ou
pela candura de sua consciéncia; poderáo chegar á bem-aventuranca
final se estiverem tranquilas e seguras (sem conceber a mínima dúvida)
no erro que professam; nao seráo salvas por causa do erro religioso
mas por causa da inocencia com que tiverem vivenciado o erro religioso'
Em sua consciéncia subjetiva, estarao sendo fiéis ao único Deus na
medida e nos moldes em que esse único Deus se digna revelar-se fora
do Evangelho. Tais pessoas salvam-se por Cristo e pela Igreja, á qual
334
"O SONHO DA PAZ"

oertencem nao de maneira visível, mas de maneira invisível. A Igreja é


inseparávelde Cristo; nao se pode dizer que Cristo salva semo seu Cor-
po Místico ou prolongado que é a Igreja; Ele é tronco de videira, mseparavel
de seus ramos {a Igreja visível e invisível); cf. Jo 15,1-6.
Á p 164 observa M. Barros "Quem salva, é Deus e nao a religiáo11.
- Tal afirmacáo nao se sustenta aos olhos do Cristianismo. Nao ha como
distinguir entre a fé em Deus e a fidelidade ao caminho religioso que
Deus instituiu. A religiáo salva na medida em que Deus se digna de agir
por ela, e certamente Ele nao age por caminhos objetivamente contradi-
torios ou confusos.
Na mesma página ainda se lé: "O cristianismo é urna experiencia
histórica particular da Paiavra de Deus, que é chamada a se abrir e tomar
expressóes diferentes em cada cultura humana". - Nao se pode d.zer
que o Cristianismo é urna entre outras expressóes da Paiavra de Deus,
sendo as diversas culturas igualmente expressivas da Paiavra de Deus.
O Catolicismo afirma que o Cristianismo é mais do que urna expressao
cultural; ele é a entrega do ser humano a Deus ou é algo que procede do
So de cada pesaba e que se exprime em formas culturáis aptas a
manifestar o encontró do homem com Deus mediante Jesús Cristo e sua
Iqreia Nem todas as expressóes da cultura humana sao adequadas para
esta finalidade. O Cristianismo preconiza a inculturacao no sentido de
que é oportuno manifestar a mensagem da fé em moldes cadente» como
também em moldes africanos e asiáticos, contanto que tais moldes reve-
lem auténticamente a fé e nao a equiparem ao folclore popular.
Sao estas algumas ponderales que o livro de M. Barros, entre
outras muitas, pode sugerir ao leitor.
Estéváo Bettencourt O.S.B.

A Imortalidade da Alma no Fédon de Platao, por Bento Silva


Santos O SB. Colegáo Filosófica 89. - EDIPUCRS, Porto Alegre 1999,
140x210, 127 pp.
O autor, já conhecido por suas obras exegéticas, publica asuadis-
sertacáo para obtengáo do título de Mestre em FllosoJ'aP%PUC.f'°n
Traído Fédon de Platáo, que narra o último dia da v.da de Sócrates.O
aZ se detém sobre o quarto argumento adundo por Sócrates para pro
vara imortalidade da alma; tal argumento tem sido mu,to debatidotoda
vía Silva Santos se empenha por mostrar a sua coerenca e ^nudade
(102-107b); "a concepgáo de urna alma verdaderamente mortal e
indestrutível foi esbogada de modo peritamente legitimo (p. 116) A
obra é de alto nivel intelectual, destinándose a quem se queira aprofundar
na bela temática da imortalidade.
335
i! "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 446/1999

O TEMPO
esta preciosidade

Todas as manhas, sao creditados para cada correntista 86.400 segundos


Todas as noites o saldo é debitado como perda.
Nao é permitido acumular este saldo para o día seguinte.
Todas as manhas a sua conta é reiniciada, e todas as noites as sobras do dia
se evaporam.

Nao há volta. Vocé precisa aplicar, vivendo no presente, o seu depósito diario
Invista, entáo, no que for melhor, em bens definitivos e nao fugazes.
Sucesso! O relógio está correndo;
Faca o melhor cada dia.
Paravocé perceber o valor de UM ANO, pergunte a um estudante que repetiu

um editor de um
Para vocé perceber o valor de UMA HORA, pergunte aos namorados que
estao esperando para se encontrar. H

Uma Pessoa

g CvTafum Lidentf
Para vocé perceber o valor de UM MILÉSIMO DE SEGUNDO, pergunte a
alguém que conquistou a medalha de prata em uma Olimpíada.
Valorize cada momento que vocé tem! E valorize mais porque vocé deve divi-
com vocé 6SPeCI eSPeC¡al ° SUfÍC¡ente Para 9aStar ° seu temP° Junt0
Lembre-se: o tempo nao espera por ninguém.
O dia de ontem é historia.
O de amanhá é um misterio.
O de hoje é uma dádiva.
Por isso é chamado PRESENTE!
"Vigiai, portanto, porque nao sabéis nem o dia nem a hora" (Mt 25 13)
E£°:ensar : na vida e nao
nao apenas
apenas correr
correr pela
pela vida,
vida, como
como senáofosse
senáo'fosse
l correr e pensar
pensar ao
ao mesmo
mesmo tempo.
tempo
p Caso
Casoo contrario, so
contrario,
tai so correríamos
correríamos
lugar nenhaumanam0S
aanam0S CamentS 8 emocionalmen^ o náó
áó chegaríamos
hí a
336
PUBLICACÓES MONÁSTICAS
A O NOS^TEMPO, D. Gregorio P.Wo. OBB. BJ-
SAO BENTO, UM MESTRE
Sao Bento - Salvador - -1996 112 P?Jf ■ j--^ atuai¡dade de Sao Bento,
da ^^"¿ tSS^S^ e de sua Vida, com

ed!!L 1996 Artpress - Sao Paulo. págs. R$ 12fS0<

Brinde: Urna Medalha de Sao Bento publiCar este ensaio sobre

causando lanlos estra90S'

nv R$ 30,00.
RENOVACÁO OU NOVA ASSINATURA (ANO DE 1999):., ~;;;;;;~ R$ 3,00.
NÚMERO AVULSO ——
— _ TE r r,eonr»MnPBFMOS ANOS: 1997 e 1998

INTERNET: e-mail: lumen chrlsti ® pemall.net


NOVIDADE!
_Acaba de sair um novo Jivro de: DOM BENTO SILVA SANTOS, O.s.B.
^ imortalidade da alma no "Fédon" de

12,0,

Sumario geral do livro:

PUBLICACÓES MONÁSTICAS

de Place, da Abadía de Note DarX* blbll09ra(la * ""*> Franfois


Mosleiro Trapista de Nossa Senhoída "í Brasil loi uma inída«Va *
Pauto, .endo o apoio dos íS * "a"nga' em Sá0

R,o

osa.

Italia. Franca. Portugal só ™ Aler">*a.


Córela e Filipinas, p»9, ¿
SAO BENTO E A PROF,SSÁO DE M0NGE. por Dom Jo5o ^^ ^

BE^™rsSoaureidetSrr¿dír
orisla. empanhado na prcJurforeTceme da lTc» S" 6 ^í^'8*1'de "m «*"*> de vida
«?* <«» *er hUmaPno reñaS 2o Sínáue ?Jí¡c,'íe££, ^ eSP*ada "a "*•
Sao Bento ou»e o chamado para ,azw-Se m^r^asíu^íS ^C *
Pedidos pelo Reembolso Postal ou pagamento conforme 2' capa.