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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanca a todo aquele que no-la pedir
{1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenga católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


■ ■ Responderemos propoe aos seus leitores:
, aborda questóes da atualidade
J¡ controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
i dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abengoar
~~ este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada


em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xl Setembro 1999 4
"O justo vive da fé (Rm 1,17)

As Obras Caritativas de Joáo Paulo II

"Ele está no meio de nos" por urna equipe da


CNBB

A Igreja e a escravidáo no Brasil. I. O indio


Ressurreicáo dentro de 21 dias?

Mais urna vez a Data de Páscoa

A Igreja Católica na Rússia atual

Padres casados na República Tcheca

"Minha vida nao tem sentido..."

A pílula do dia seguinte


PERGUNTE E RESPONDEREMOS SETEMBRO1999
Publicagáo Mensal N°448

Diretor Responsável SUMARIO


Estéváo Bettencourt OSB "0 Justo vive da Fé" (Rm 1, 17) 385
Autor e Redator de toda a materia A solicitude do Pastor:
publicada neste periódico As Obras Caritativas de Joáo Paulo II.. 386

Diretor-Administrador: Racionalismo na exegese bíblica:


"Ele está no meio de nos" por urna
D. Hildebrando P. Martins OSB
equipe da CNBB 393

Administracáo e Distribuicáo: Em retrospectiva serena e objetiva:


Edicóes "Lumen Christi" A Igreja e a escravidáo no Brasil.
I. O indio 399
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar-sala 501
Tel.: (021) 291-7122 Quando e como será?
Fax (021) 263-5679 Ressurreicáo dentro de 21 dias? 410
Continuando o noticiario:
Endereco para Correspondencia: Mais urna vez a Data de Páscoa 417
Ed. "Lumen Christi"
Minoría ameacada:
Caixa Postal 2666
A Igreja Católica na Rússia atual 421
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
Como?
Visite O MOSTEIRO DE SAO BENTO Padres casados na República Tcheca.. 427
e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" Para que viver?
na INTERNET: http://www.osb.org.br "Minha vida nao tem sentido..." 429
e-mail: LUMEN.CHRISTI @ PEMAIL.NET Sim ou Nao?
A pílula do dia seguinte 431

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Os Silencios de Deus. - «O Evangelho segundo Jesús (Stephen Mitchell)». -A Igreja e


a Escravidáo no Brasil. II: O Africano. - Beatificado o Pe. Pió de Pietralcina. - Ainda a
«Folha Universal». - Pode um macom ser padrinho de Batismo católico?

(PARA RENOVACÁO OU NOVA ASSINATURA: R$ 30,00).


(NÚMERO AVULSO R$ 3,00).

O pagamento poderá ser á sua escolha:

1. Enviar em Carta, cheque nominal ao MOSTEIRO DE SAO BENTO/RJ.

2- R?J?ófíí0» ei" £lualt1uer agencia do BANCO DO BRASIL, para agencia 0435-9 Rio na
C/C 31.304-1 do Mosteiro de S. Bento/RJ, enviando em seguida por carta ou fax
comprovante do depósito, para nosso controle.

dos Correios, VALE POSTAL, enderecado as


2666 / 20001-970 Rio de Janeiro-RJ

Obs.: Correspondencia para: Edicóes "Lumen Christi"


Caixa Postal 2666
20001-970 Rio de Janeiro - RJ
"O JUSTO VIVE DA FÉ"
(Rm1,17)

"O justo vive da fe". É Sao Paulo quem o diz tres vezes (Rm 1,17; Gl 3,11
e Hb 10,38, citando alias o Profeta Habacuque 2,4). A fé assim vem a ser a viga
central da vida crista.

E que é a fé?

É o ato mais nobre que a criatura humana possa realizar. Sim; é ato da
inteligencia, movida pela vontade, aplicando-se ao objeto mais elevado que pos
sa haver: Deus. Tal adesáo a Deus ocorre na penumbra ou no claro-escuro de
urna caminhada de peregrino, que vai desembocar "naquilo que o olho jamáis
viu, o ouvido jamáis ouviu e o coracáo do homem jamáis percebeu" (1 Cor 2,9). A
situacáo do caminheiro é incómoda; gostaria de andar as claras; ele vé apenas a
próxima etapa de sua jomada, nao vé aínda aonde deve chegar. Isto deixa o viandante
ansioso e sofregó,... sofregó por urna sadiasofreguidáo, inquieto por urna sadia inqui-
etacio: a de chegar seguro e quanto antes ao termo da caminhada. Feliz é quem
experimenta essa ansia, e desgranado é quem nao a experimenta, mas se acomoda
na estrada, contentando-se com a contemplacáo das flores e boiboletas das bordas.
Todavía o incómodo da fé vai cedendo, aos poucos, a profunda alegría,
pois a fé vai desabrochando naqueles que tém a coragem de a vivendar coeren-
temente; ela se abre sempre mais para o seu Termo Final, que é Deus. Na verda-
de, o Deus da eternidade, que faz a bem-aventuranca dos justos no céu, é o
Deus do tempo, com toda a riqueza de sua vida e suas perfeicóes. A única dife-
renca entre o tempo e a etemidade é que no tempo Ele se faz presente através
de véus, ao passo que na eternidade Ele se manifesta face-a-face como a Beleza
Infinita a ser desfrutada sem contestado nem entrave.
O segredo dessa descoberta (tirar a coberta ou o véu) é a generosidade
do cristáo no doar-se aos apelos de Deus. Sao Paulo afirma sabiamente que
"Deus ama a quem dá com alegría" (2Cor 9,7), com grandeza dalma, sem pusi-
lanimidade. O mesmo Apostólo exorta a que "nao entristecamos o Espirito Santo
de Deus" (Ef 4, 30); em linguagem antropomórfica, dizemos que Ele pode ser
entristecido pela mesquinhez da criatura que tem medo de ser "invadida" pela graca
de Deus. Foi esse segredo da grandeza dalma que abriu os santos para o océano da
vida divina e os fez tranquilos e felizes em meio ás tempestades da caminhada.

S. Agostinho comenta estas verdades num de seus sermóes:

"O que nos foi prometido? 'Seremos semelhantes a Ele, porque O vere
mos como é'. A Ifngua o disse como pode. O coracáo imagine o restante... Já que
nao podéis ver agora, prenda-vos o desejo. A vida inteira do bom cristáo é desejo
santo. Aquilo que desejas, aínda nao o vés. Mas, desejando, adquires a capad-
dade de ser saciado ao chegar a visáo. Se queres, por exemplo, encher um
recipiente e sabes ser muito o que tens a derramar, alargas o bojo... Se o alarga
res, ele ficará com maior capacidade. Deste mesmo modo Deus, com o adiar,
amplia o desejo..."(In 1 Jo 4, 6).
E.B.

385
PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XL - Ns 448 - Setembro de 1999

A Solicitude do Pastor:

AS OBRAS CARITATIVAS DE JOÁO PAULO II

Em síntese: Anualmente a Santa Sé publica um relatórío das ativi-


dades caritativas do Santo Padre, mostrando assim como é aplicado o
dinheiro que os fiéis, em algumas ocasióes do ano, enviam á Santa Sé. O
artigo que se segué, apresenta o relatórío concernente ao ano de 1998.
* * *

Todos os anos, aos 29 de junho, faz-se a Coleta do Óbolo de Sao


Pedro, destinada a prover as atividades da Santa Sé. Além disto, outras
coletas e doacoes sao realizadas e enviadas ao Santo Padre, em vista
das necessidades nao só da Igreja, mas também da humanidade inteira.
Joáo Paulo II acompanha, na medida do possível, cada segmento da
populacáo mundial em suas carencias. Para tanto, dispóe de tres orga
nismos: o Pontificio Conselho Cor Unum, a Fundacáo Joáo Paulo II para
o Sahel e a Fundacáo Populorum Progressio para as comunidades
pobres da América Latina e do Caribe.

Anualmente a Santa Sé publica um relatório que demonstra como


é aplicado o dinheiro dos fiéis. A seguir, vai reproduzindo o relatório
concernente ao ano de 1998.

1. Pontificio Conselho Cor Unum

O Pontificio Conselho Cor Unum se interessa tanto por situacóes


de emergencia, resultantes de calamidades públicas, como por obras de
promocáo humana e crista. Daí a dupla prestacáo de contas abaixo:

1.1. Situacóes de Emergencia

Por ocasiáo das graves calamidades que afetam numerosos paí


ses, o S. Padre confia a Cor Unum a iniciativa de sustentar programas
de re-habilitacáo de pessoas prejudicadas ou de recuperacáo de bens
danificados ou destruidos, como se verá a seguir:

386
AS OBRAS CARITATIVAS DE JOÁO PAULO II

PAÍS SETOR FUNDOS BENEFICIARIO


ENVIADOS

CAMARÓES Incendio na Esta- US$ 20.000 Familias das Vi timas


gao Ferroviaria de
Yaoundé

CONGO Desordens internas US$ 15.000 Arquidiocese de Kisangani e


diocese de Isangi, em favor
dos refugiados

GUINÉ-BISSAU Emergencias liga US$ 20.000 Diocese de Bissau em favor


das á saúde pública das populacdes atetadas

GUIÑÉ Inundacóes US$ 15.000 Arquidiocese de Malabo em


EQUATORIAL prol das vítimas

QUÉNIA Inundagdes US$ 10.000 Dioceses de Mombassa e


Garissa em favor das pesso-
as carentes

MOCAMBIQUE Desmoronamentos US$ 20.000 Caritas Nacional em vista dos


socorros de urgencia

REPÚBLICA Desordens internas US$ 35.000 Representado Pontificia em


DEMOCRÁTICA favor dos refugiados
DO CONGO

SOMALIA InundacÓes US$ 20.000 Diocese de Mogadiscio para


as populacdes mais atetadas

ANTÍGUA Erupgáo vulcánica US$ 10.000 Diocese de Montserrat para


os desabrigados

BOLÍVIA Terremoto US$ 10.000 Populacdes flageladas nos


territorios de Aiquila, Tortora
e Mizque

BRASIL Incendio no Estado US$ 25.000 Conferencia Episcopal do


de Roraima Brasil em favor das vítimas

EQUADOR Fenómeno US$ 50.000 Programas assistenciais das cir-


climático El Niño cunscricoes eclesiásticas de
Esmeralda, Macacha, Baba-
hoyo, Portoviejo e Guayaquil

EQUADOR Terremoto US$ 15.000 Programa diocesano em favor


das vítimas na cidade de Bahía

EL SALVADOR Furacáo Mitch US$ 30.000 Conferencia Episcopal


Nacional em prol das popula
cdes mais atetadas

GUATEMALA Furacáo Mitch US$ 30.000 Conferencia Episcopal


Nacional em prol das popula-
góes mais atetadas

387
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

GUIANA Seca US$ 10.000 Diocese de Georgetown em proi


das pessoas mais atingidas

HAITÍ Furacáo Georges US$ 10.000 Nunciatura Apostólica em proi


das populagóes mais atetadas

HONDURAS Furacáo Mitch US$ 30.000 Conferencia Episcopal


Nacional para os atendimen-
tos de urgencia

NICARAGUA Tempestade US$ 80.000 Conferencia Episcopal


tropical Mitch Nacional em vista das
populagóes mais atingidas

PARAGUAI Fenómeno US$ 20.000 Socorro de urgencia as popu


climático El Niño lagóes das provincias de
Chaco, Nembucu e Itaque

PERÚ Fenómeno US$ 65.000 Circunscrigóes eclesiásticas


climático El Niño de Piura (US$ 20.000), lea
(US$ 20.000), Chosica (USS
15.000), Paróquia de
Chacas (US$10.000)

BANGLADESH Inundagóes US$ 10.000 Caritas Nacional para as


pessoas mais carentes

CHINA Terremoto US$ 15.000 Caritas Hong-Kong

FILIPINAS Seca US$ 30.000 Caritas Nacional para as po


pulagóes das circunscrigóes
eclesiásticas de Marbel,
Kidapawa e Dipolong

FILIPINAS Ciclones US$ 15.000 Caritas Nacional para as


populagóes mais atingidas

CORÉIA DO Inundagóes e fome US$ 15.000 Caritas Hong-Kong para os


NORTE atendimentos de urgencia

ALBANIA Situagóes de emer US$ 20.000 Representado Pontificia em


gencia para socorrer favor dos refugiados
aos refugiados do
Kosovo

FEDERACÁO Inundacóes em US$ 10.000 Representagáo Pontificia em


RUSSA Yakutia proi das pessoas mais
carentes

ITALIA InundagÓes e US$ 65.000 Circunscrigóes eclesiásticas


Desmoronamentos de Salerno. Campanha-
na Campanha Acerno, Nocera Inferior-
Samo e Ñola

MONTENEGRO Refugiados do US$ 5.000 Soberana Órdem Militar de


Kosovo Malta para a Assisténcia
Sanitaria

388
AS OBRAS CARITATIVAS DE JOÁO PAULO

POLONIA Inundacóes US$ 10.000 Diocese de Wroclaw e


Tarnów para os atendimen-
tos de urgencia

REPÚBLICA Inundares US$ 10.000 Diocese de Hradeckralove


TCHECA para os socorros de urgencia

REPÚBLICA Refugiados do US$ 10.000 Representado Pontificia para


FEDERAL Kosovo os socorros de emergencia
IUGOSLÁVIA
ROMÉNIA Inundares US$ 10.000 Caritas Nacional para os
socorros de urgencia

UCRANIA Refugiados US$ 10.000 Representacáo Pontificia


para os socorros de emer
gencia

LÍBANO Refugiados caldeus US$ 8.000 Diocese de Beirute dos


caldeus

NOVA Refugiados US$ 10.000 Diocese de Numéia para os


CALEDÓNIA vietnamitas primeiros socorros

PAPUÁSIA E Maré alta US$ 18.000 Circunscricóes eclesiásticas


NOVA GUIÑÉ de Aitape e Vanimo para os
primeiros socorros as vítimas

36 Países US$781.000

1.2. Promocáo Humana e Crista

Ainda através do Pontificio Conseiho Cor Unum o Santo Padre quis


oferecer ajuda á promocáo moral e material de certas comunidades me
diante formacáo espiritual e profissional assim como através de assis-
téncia as crianzas e as pessoas idosas.

PAÍS SETOR FUNDOS BENEFICIARIO


ENVIADOS

ANGOLA Médico-sanitario US$ 30.000 Clínica da arquidiocese de


Luanda

CAMARÓES Pastoral dos US$ 5.000 Dois sacerdotes e um semi


Imigrantes narista

MADAGASCAR Sustento das US$ 16.000 Carmelitas de Antanaranvo,

Religiosas de Fianarantosa, Mahajanga e


Clausura Toliary

MADAGASCAR Transportes US$ 15.000 Irmas Trinitarias de


Ansamandran

389
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

TANZANIA Forma9áo da US$ 20.000 Arquidiocese de Dar-Es-


Juventude Salaam

TOGO Formacáo profissio- US$ 15.000 Instituto das Irmas do


nal de Mofas Sagrado Coracáo de Jesús
Agonizante

UGANDA Educacáo US$ 10.000 Escola Secundaría na


diocese de Masaka

ZÁMBIA Formacáo Religiosa US$ 10.000 Noviciado das Irmas do Bom


Pastor

BOLÍVIA Liturgia US$ 8.000 Diocese de Oruro

CHILE Formacáo profissiona US$ 10.000 Comunidade de La Matriz

CHILE Promocáo Humana US$ 5.000 Centro da Sagrada Familia

COLOMBIA Promocáo de US$ 10.000 Casa de Emaús das Irmas


Mulheres carentes Servidoras de Cristo Sacerdote

CUBA Assisténcia a US$ 2.500 Associacáo Frater


pessoas deficientes

CUBA Assisténcia a US$ 25.000 Conferencia Episcopal


pessoas ¡dosas e Nacional •
doentes

GUATEMALA Formacáo dos US$ 2.000 Comissáo Episcopal para a


Jovens Juventude

MÉXICO Formacáo dos US$4.100 Circunscribo Eclesiástica


Jovens de Puebla

PERÚ Cultura US$ 5.000 Centro de Formacáo na


Amazonia

PERÚ Formacáo tecnoló US$ 5.000 Jovens da Provincia de


gica dos jovens Chinea

FILIPINAS Vida Contemplativa US$ 20.000 Mosteiro de Tunkong Manga

FILIPINAS Hidráulica US$ 10.000 Centro Sanitario de Manilha

CAZAQUISTÁO Médico-sanitario US$ 20.000 Farmacia gratuita da paróquia


de S. José em Karaganda

VIETNAM Promocáo da US$ 20.000 Associacáo Til nos de


Juventude riekong"

IRAQUE Médico-sanitario US$ 10.000 Hospital Sao Rafael de Bagdad

USBEQUISTÁO Médico-sanitario US$ 20.000 Missáo sui iuris de Hospital


de agentes culturáis

ALBANIA Construcáo de US$ 15.000 Centro Polivalente de Máes


edificio

390
AS OBRAS CARITATIVAS DE JOAO PAULO I

GEORGIA Alimentagáo US$ 10.000 Cantina Ecuménica de Tiblis

ITALIA Vida contemplativa US$ 2.000 Irmas do Ssmo. Sacramento


de Cuomo

ITALIA Estudantes refugia US$3.150 Centro Internacional Joáo


dos XXIII

ITALIA Educacáo e USS 6.500 Agostinianas Servas do


Catequese Senhor

ITALIA Restaurado de US$ 18.000 Arquidiocese de Spoleto-


locáis de culto Núrsia

ITALIA Formagáo US$ 5.000 Associagáo Internacional da


Caridade Política

LETÓNIA Pastoral US$ 9.000 Diocese de Rezekne-Agiona

ROMÉNIA Transportes USS 10.000 Criangas aidéticas

TURQUÍA Igreja USS 10.000 Vicariato Apostólico da


Anatólia

TURQUÍA Igreja USS 8.000 Arquidiocese de Diarbekir,


Amida dos Caldeus

LÍBANO Formagáo sacerdo USS 8.000 Antonianos maronitas -


tal Roma

INTERNACIO Formagáo de USS 20.000 Movimento Fé e Luz


NAL Pessoas Deficien
tes

2. Fundacáo Joáo Paulo II para o Sahel

A Fundacáo para o Sahel foi constituida pelo Papa Joáo Paulo II


aos 22 de fevereiro de 1984. É confiada a um Conselho Administrativo
integrado por nove representantes do episcopado respectivamente dos
nove países da regiáo do Sahel: Burkina Faso, Cabo Verde, Tchad,
Gámbia, Guiné-Bissau, Malí, Mauritania, Nigeria e Senegal. Em 1998 tal
Conselho se reuniu na cidade de Praia (Cabo Verde) de 9 a 16 de feve
reiro. O Secretario de Cor Unum, Mons. Karel Kasteel, tomou parte na
reuniáo juntamente com urna delegacao da Conferencia Episcopal Italia
na e outra da Conferencia dos Bispos da Alemanha.

Foram aprovados 21 grandes projetos destinados á formacáo de


pessoal num total de 2.682.399 francos franceses. Foram outrossim apro
vados 51 grandes projetos de realizacáo de obras no setor hidro-agrícola
num total de 10.001.782 francos franceses. A quantia total destinada a

391
8 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

esses projetos é de 12.684.191 francos franceses ou 3.750.000.000 de


liras italianas.

3. Funda?áo Populorum Progressio

Esta Fundacáo foi criada pelo Papa Joáo Paulo II aos 13 de feve-
reiro de 1992. Destina-se ao servido das comunidades afro-americanas,
mesticas e camponesas pobres da América Latina e do Caribe. O Con-
selho Administrativo reuniu-se em 1998 na cidade de Oaxaca (México)
sob a presidencia do Presidente de Cor Unum Mons. Cordes, acompa-
nhado do Sub-secretário do mesmo Conselho, Mons. Francisco Azcona.
Foram entáo aprovados 196 micro-projetos num total de cerca de US$
1.700.000 ou 3.000.000.000 de liras italianas.

Trata-se de trabalho paciente, realizado por pessoas dedicadas


provenientes tanto do Episcopado como de Congregacóes Religiosas,
Organizacoes, Associagoes e Movimentos da Igreja, que trabalham tan
to no continente americano quanto em outras partes do' mundo, sob a
inspiracao do Pontificio Conselho Cor Unum.

Diz o Senhor no Evangelho: "Brilhe a vossa luz diante dos homens,


para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está
nos céus" (Mt 5,16). Assim possa o mundo de hoje reconhecer na figura
carismática de Joáo Paulo II a face do Bom Pastor, solícito pelo bem dos
homens nao somente de países católicos, mas também pelos irmáos de
nacóes nao católicas ou até hostis ao Catolicismo! O elenco atrás pro-
posto bem demonstra que foram beneficiados povos oficialmente distan
tes da Igreja Católica.

Darwin, Teilhard de Chardin e Cia. A Igreja e a Evolucáo, por


Jacques Arnould. Traducáo de Benóni Lemos - Ed. Paulus, Sao Paulo
140x210mm, 212 pp.

O autor, jovem frade dominicano e dentista, percorre a historia das


posicóes da Teología católica frente as doutrínas evolucionistas nos dois
últimos sáculos. Mostra como Charles Darwin, ao propor á evolugao apli
cada ao ser humano em meados do sáculo passado, provocou reservas
e recusas dos teólogos por sua índole filosófica mecanicista ou
ateleológica; a evolucáo tendía a tornarse um clima de pensamento, que
relativizaria a verdade como tal e a própría fé. Aos poucos, porém, as
restrigóes á evolugao foram-se dissipando, pois, de um lado, se veríficou
o fato da evolugao mediante a descoberta de novos e novos fósseis e, de
outro lado, os teólogos perceberam que os dados empíricos nao estavam
necessariamente associados a urna filosofía materialista; eram, sim,
conciliáveis com a concepgáo de um Deus Criador que terá incutido a
(continua na pág. 426)

392
Racionalismo na exegese bíblica:

"ELE ESTA NO MEIO DE NOS"


por urna equipe da CNBB

Em síntese: O livro "Ele está no meto de nos" pretende ser urna


apresentagáo do texto do Evangelho segundo Mateus em estilo popular.
Todavía está profundamente impregnado de concepgóes racionalistas,
que distorcem o conteúdo do Evangelho; este exprimiría o que as comu
nidades antigás pensavam a respeito de Jesús, nao, porém, o que Jesús
disse e fez. O "Jesús da fé" seria diferente do "Jesús da historia". Entre
Jesús e o leitor moderno havería urna barreira intransponível, que seria o
modo de pensar dos antigos cristáos e dos evangelistas. Além do mais,
os autores do livro em foco sao seguidores da Teología da Libertagáo, de
modo que tudo véem em fungáo dos "excluidos a ser libertados no plano
sócio-económico". O livro é gravemente falho aínda a outro título: os au
tores parecem ignorar totalmente os documentos da Tradigao e da
papirologia, que incutem ter sido Mateus o autor do primeiro Evangelho
em época assaz recuada (talvez meados do século I) e nao em 80. A
tradugáo do texto aramaico para o grego terá ocorrido por volta de 80.

A Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil publicou um comen


tario popular do Evangelho segundo Sao Mateus da autoría da Irma Enilda
de Paula Pedro e do Pe. Shegeyuki Nakanose, com o título "Ele está no
meio de nos!" (ed. Paulus 1999).

O livro, louvavelmente voltado para interesses pastorais, nao pre-


enche a sua finalidade; antes, suscita serios questionamentos, como se
depreenderá de quanto segué.

1. A orígem do Evangelho de Mateus

Segundo os respectivos autores do comentario, o Evangelho se


gundo Mateus seria obra de mutiráo realizado por comunidades cristas
(em maioria, provenientes do judaismo) na Siria ou, mais precisamente,
em Antioquia, na década de oitenta, ou seja decenios após a Ascensáo
do Senhor:

«Como a maioria dos textos bíblicos, o Evangelho de Mateus é


fruto de um grande mutiráo. Descreve a vivencia das comunidades do
norte da Galiléia e da Siria. Nao é possível saber quem foi o redator final
dessas experiencias, que mais tarde recebeu o nome de Evangelho de

393
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

Mateus. Algumas indicagóes encontradas no texto nos levam a concluir


que se trata de comunidades constituidas básicamente de judeus cris-
táos (13, 52).

O estilo e a problemática levantada pelo Evangelho de Mateus nos


dáo a entender que seus redatores deviam ser pessoas responsáveis
pela coordenacáo, preocupadas com problemas comunitarios concretos
(16, 17-28). Dentro desse grupo havia gente muito entendida ñas Escri
turas, como os rabinos cristáos (5, 17-18), que ajudavam a sacudir a
comunidade da sua 'soñolencia' (25, 5) e a assumir a prática do Senhor
baseada no amor e na misericordia.
O local mais provável é Antioquia, na Siria (cf. At 13). Nessa re-
giáo, havia muitos judeus e pagaos, presenga marcante no Evangelho de
Mateus. Em Antioquia, aconteceu o famoso atrito entre Paulo e Pedro (Gl
2, 11-14), que levou a comunidade a olhar Paulo com reserva e a apoiar
Pedro. Isso fica claro no destaque que o Evangelho de Mateus dá a pes-
soa de Pedro (14, 28-31; 15, 15; 16, 22-23; 17, 24-27; 18, 21; 19, 27).
Pedro representa a mentalidade dos judeus cristáos, preocupados com a
observancia da Leí, e aínda ligados ao Templo e ao culto. Paulo repre
senta o pensamento helenista que relativizava a Lei, o Templo e os rituais
de culto. As comunidades de Mateus estavam de acordó com Paulo quanto
ao culto e ao Templo. Mas elas eram mais cautelosas em relagáo a Lei.
O Evangelho de Mateus brotou do chao da vida destas comunida
des» (pp. 30s).

2. O Conteúdo da Obra

O Evangelho de Mateus seria o eco das controversias ocorrentes


entre tais comunidades e o "judaismo formativo":

"A/o contexto da reorganizagáo do judaismo após a destruigáo do


Templo, as comunidades cristas disputavam com os grupos do judaismo
formativo a lideranga dos grupos de judeus. ... O Evangelho de Mateus
foi escrito nesse clima de brigas entre irmáos... Este certamente nao foi o
contexto de Jesús" (p. 28).

Já aqui aparece um traco que percorre todo o comentario: o texto


do Evangelho informa o leitor a respeito do que houve nos primeiros tem-
pos do Cristianismo, mas nao precisamente sobre o que Jesús disse e
fez. Constantemente os autores se referem a pretensas tensóes existen
tes entre as primeiras comunidades; seriam elas a peneira pela qual pas-
sou a mensagem de Jesús, dificultando ao leitor o acesso ao próprio
Jesús (anterior a tais tensóes). É típico o trecho seguinte:
"O Evangelho de Mateus, que nasceu em comunidades constitui
das em sua maloria porjudeus cristáos, retrata a tensáo existente no seu

394
"ELE ESTÁ NO MEIO DE NOS"

meio a respeito da abertura aos gentíos, ou seja, estrangeiros. Inicial-


mente, eram comunidades fechadas que compreendiam a missáo e a
proposta de Jesús como restrita 'as ovelhas perdidas da casa de Israel'
(10, 6; 15, 24) e aceitavam a exclusao dos 'pagaos e cobradores de im-
postos' (18, 17). Porisso diminuíram, pouco a pouco, a receptividade aos
gentíos em algumas das tradigóes que receberam de Marcos (por exem-
pío, comparar Me 7, 14-23 com Mt 15, 10-20 ou Me 7, 24-30 com Mt 15,
21-28). Mas estas comunidades, ao longo de sua historia, nos conflitos
com o judaismo formativo e com o Imperio Romano, tiveram de entrar em
diálogo e relacionarse com outras comunidades cristas e abrirse a pro
postas mais abrangentes e solidarias. Desta forma, o Evangelho de Ma-
teus termina com Jesús falando "... váo e fagam com que todos os povos
se tornem meus discípulos' (Mt28, 19)" (p. 29).

Todo o Evangelho de Mateus é interpretado em funcáo de tais pre-


missas. Assim:

"As tres tentagóes de Jesús refletem o clima apocalíptico, as ex


pectativas messiánicas do povo da Palestina de tornar Israel urna grande
nagáo, um sonho muito presente ñas comunidades dé Mateus mesmo
depois de tantos anos da morte e ressurreigáo de Jesús" (p. 55).

"A barca onde está Jesús e seus discípulos corre perigo. Há urna
grande agitagáo no mar e as ondas cobrem o barco. 'Jesús porém, esta-
va dormindo' (8,24). Há resistencia do mundo pagáo a missáo de Jesús.
A comunidade parece que vai ser destruida e o pessoal tem a sensagáo
de que Jesús está ausente. Os discípulos só se dáo conta da presenga
de Jesús em seu meio quando a situagáo se torna realmente insustentá-
vel. Mas esta presenga é o suficiente para manter a perseveranga da
comunidade. Jesús é o Senhor do mundo e da historia. É preciso fazer
crescer a pequeña fé naquele que tem o poder de salvar (8,25-26)" (p. 81).

Após ler este texto, pode-se perguntar: afinal Jesús acalmou a tem-
pestade no lago de Genesaré? Em suma, quem lé o texto do livro em
foco, tem a impressáo nítida de que o Evangelho de Mateus reflete o que
acontecía ñas comunidades cristas da Siria; o Jesús proposto pelo
evangelista seria o Jesús tal como foi concebido pelos primeiros cristios
de tal regiáo, nao, porém, o Jesús real tal como Ele foi. Em síntese o
Jesús da fé seria diferente do Jesús da historia; entre o Jesús da realida-
de histórica e nos haveria a mediacáo, nem sempre fiel, das comunida
des cristas antigás. Ora tal é a tese da crítica liberal racionalista, que nao
leva em conta a acáo do Espirito Santo na redacáo dos Evangelhos, nem
pondera o papel dos Apostólos, que nao queriam ser mais do que teste-
munhas do que haviam visto e ouvido (cf. At 1, 21 s) e censuravam seve
ramente quem ousasse pregar um Evangelho diferente do que eles, Apos
tólos, haviam pregado.

395
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

3. Refletindo...

A obra em foco sugere ponderacoes.

3.1. A origem do Evangelho de Mateus

A tese segundo a qual o Evangelho de Mateus data do ano de 80 e


se deve a um mutiráo de gente anónima situada em Antioquia, encontra
serios obstáculos por parte da Tradicáo e da papirologia.

3.1.1. A Tradicáo

A tradicáo atribuí a Mateus a redagáo do primeiro Evangelho. Te-


nha-se em vista o mais antigo testemunho, que é o de Pápias, bispo na
Frigia, datado de 130 aproximadamente: "Mateus, por sua parte, pos em
ordem os logia (dizeres) na língua hebraica, e cada um depois os tradu-
ziu (ou interpretou) como pode" (ver Eusébio, Historia da Igreja III 39,16).

Neste texto Pápias designa o primeiro Evangeiho como dizeres,


"logia", visto que realmente nesse livro chamam a atencao os discursos
de Jesús, dispostos de maneira ordenada ou sistemática. Este Evange
lho, escrito em língua hebraica ou, melhor, aramaica i]á que o hebraico
caira em desuso no séc. VI a.C), foi logo por diversos pregadores tradu-
zido para o grego, já que o hebraico só era usual na térra de Israel. Vé-
se, pois, que Mateus escreveu no próprio país de Jesús, tendo em vista
leitores cristáos convertidos do judaismo.

O texto aramaico de Mateus se perdeu, pois só era utilizado na


térra de Israel, donde os judeus foram expulsos em 70 d.C. Varias tradu
ces foram feitas para o grego, das quais urna, datada de 80 aproxima
damente, foi oficializada. Nao se conhece o autor dessa traducao.

S. Irineu (t 200 aproximadamente) também testemunha: "Mateus


compós o Evangelho para os hebreus na sua língua, enquanto Pedro e
Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja" (Adv.
Haereses III 1,1).

Outros testemunhos poderiam ser citados. Procuremos, porém, no


primeiro Evangelho indicios da personalidade do seu autor.

Que diz o texto?

a) Observemos o catálogo dos apostólos como se acha em Me 3,


16-19; Le 6,14-16 e Mt 10, 2-4. Verificaremos que os nomes se dispóem
em pares; ora, no quarto par, Mateus vem antes de Tomé, conforme Me e
Le; mas vem depois de Tomé, segundo Mt. Note-se ainda que somente
em Mt o apostólo é mencionado com o aposto "cobrador de ¡mpostos" ou
"publicano", o que era pouco honroso para um judeu. Quem terá tratado
Mateus dessa maneira se nao o próprio Mateus?

396
"ELE ESTÁ NO MEIO DE NOS" 13

b) Em Mt 22, 19, ao narrar a disputa de Jesús com os fariseus a


propósito do tributo a ser pago a César, Mt usa termos técnicos em gre-
go, que Me e Le nao utilizam.

c) Mt é o único a narrar o episodio do imposto do templo, em Mt 17,


24-27, o que demonstra o interesse do autor pelos tributos.

Em conclusáo, compreende-se que, se havia no grupo dos Apostó


los um homem, e um só, habituado á arte de escrever, calcular e dispor
dados, este tenha sido o primeiro indicado (talvez mesmo pelos outros
Apostólos) para redigir um resumo da catequese pregada pelos Apostó
los. Os outros estavam acostumados á pesca: tinham as máos mais adapta
das as redes, aos remos e ao barco do que ao estilete e ao pergaminho.

3.1.2. A Papirologia

Estao em foco tres pequeños fragmentos, do tamanho de selos do


correio cada qual; apresentam dez linhas fragmentadas do capítulo 26
do Evangelho segundo Sao Mateus, de acordó com recentes pesquisas.

Com efeito; tais fragmentos foram descobertos pela primeira vez


em Luxor (Egito) no ano de 1901 pelo capelao inglés que lá vivia, o Rev.
Charles Huleatt. Foram doados á Biblioteca do Magdalen College de
Oxford (Inglaterra). O Rev. Huleatt morreu por ocasiáo do grande terre
moto da Sicilia em 1908, sem ter deixado ¡nformacóes sobre o paño de
fundo de suas descobertas, que ele também parece nao ter divulgado.

Os fragmentos do Magdalen College foram inicialmente tidos como


oriundos do ano 200 aproximadamente, como alias 37 outros papiros do
Novo Testamento, existentes no comeco deste século, eram datados dos
séculos II e III. Esta hipótese foi posta em xeque quando em 1994 o Prof.
Carsten Peter Thiede, Diretor do Instituto de Pesquisas Básicas
Epistemológicas de Paderborn (Alemanha), visitou Oxford e examinou
minuciosamente os manuscritos da Biblioteca do Magdalen College.

As conclusóes do Prof. Thiede datavam esses fragmentos do sé-


culo I ou, mais precisamente, do ano 70 ou até mesmo de anos anterio
res a 70. O seu argumento principal era deduzido do tipo de letra utiliza
da pelo escritor; trata-se de caracteres verticais, comuns aos manuscri
tos gregos da primeira metade do século I; após os tempos de Cristo (27-
30) tal tipo de letra comecou a cair em desuso. Thiede valeu-se da
paleografía comparativa, segundo a qual um manuscrito sem data pode
ser datado pelo confronto com outros manuscritos de data segura (ou
relativamente segura); no caso o Prof. Thiede tomou como referenciais
alguns manuscritos gregos descobertos em Qumran junto ao Mar Morto,
em Pompei e Herculano (Italia) e que foram reconhecidos recentemente
como textos do século I.

397
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

Segundo os principios de sua teoría, o Prof. Thiede poderia datar o


Evangelho segundo Mateus de poucos anos após o governo de Póncio
Pilatos, que terminou em 36. Preferiu, porém, urna data um pouco mais
tardía.

A historia da descoberta e as ponderacóes do Prof. Carsten Peter


Thiede encontram-se delineadas na obra "Testemunha Ocular de Jesús.
Novas Pravas em Manuscrito sobre a Origem dos Evangelhos", da auto
ría de Carsten Peter Thiede e Matthew D'Ancona, edicáo brasileira da
Imago Editora, Rio de Janeiro 1996.

Estes dados evidenciam a inconsistencia da sentenca do livro "Ele


está no meio de nos!", que atribuí origem tardía e anónima ao primeiro
Evangelho.

3.2. Pontos particulares

A tendencia geral dos autores da obra, que minimizam a historí-


cidade dos relatos evangélicos, se manifesta em pontos particulares:

P. 39: "Assim como todo o Evangelho, as historias da infancia de


Jesús nao sao biografía". - Esta afirmacáo é ambigua. Dizemos que o
evangelista registra fatos históricos pondo em relevo o seu sentido teoló
gico; é o que se chama "midraxe", midraxe que nao é lenda nem contó,
mas a verdade histórica feita catequese.

P. 187: Os relatos da Paixáo e Morte de Jesús "nao sao urna des


enlio histórica". - Eis outra afirmacáo ambigua, á qual se devem fazer
as observacóes ácima registradas.

P. 199: Em Mt 27, 50 lé-se que Jesús, antes de morrer, "deu um


grande grito", - Isto era ¡mpossível, conforme os autores do livro. A nega-
cáo é gratuita.

P. 124s: As palavras de Jesús a Pedro em Mt 16,16-19 valem para


toda a comunidade crista. "As comunidades dos simples e pequeños tam-
bém sao chamadas a usar a chave do reino,... para abrir o reino a todos
os que se dispóem a aceitá-lo". O primado de Pedro é assim apagado.
Alias, é a comunidade toda que professa: "Tu és o Messias, o Filho do
Deus vivo!" (Mt 16, 16).

P. 112 e 121: Nao há multiplicacáo dos páes, mas partilha dos


mesmos. Tal exegese, nao rara em nossos dias, contraria os dizeres dos
textos e se deve á tendencia racionalista de negar os milagres.

Estas poucas observacóes sejam suficientes para mostrar que o


livro "Ele está no meio de nos!" está longe de ser um auténtico comenta
rio do Evangelho de Mateus; é, antes, obra redigida segundo os precon-
ceitos da crítica protestante liberal.

398
Em retrospectiva serena e objetiva:

A IGREJA E A ESCRAVIDÁO NO BRASIL

I. O ÍNDIO

Em síntese: O presente artigo expóe sumariamente o histórico da


escravatura desde os tempos pré-cristáos até a época contemporánea. A
seguir, explana as razóes pelas quais a escravatura pode parecer legíti
ma nao só aos povos anteriores a Cristo, mas também aos povos cris-
táos. Por último, analisa-se a posigáo da Igreja frente a escravizacáo dos
indios no Brasil; documentos papáis e gestos de bispos e sacerdotes
jesuítas sao citados a fim de evidenciar o interesse da Igreja no tocante
as populagoes aborígenes (na medida em que esse respeito podia ser
entendido dentro dos parámetros culturáis dos séculos XVI-XVIII).

Aproximando-se o 500° aniversario da descoberta do Brasil vem-


se comentando em publicacóes diversas o papel da Igreja Católica frente
á escravatura de indios e negros no Brasil. Há quem acuse a Igreja de
inercia e conivéncia no caso; terá mesmo contribuido para agravar a sor-
te dos escravos. Estes lances da imprensa recente tém levado historia
dores católicos á pesquisa de fontes e documentos do passado a fim de
averiguarem a realidade dos fatos. Ñas páginas seguintes, proporemos:
1) breve histórico do escravagismo, 2) reflexoes sobre o tema, 3) dados
concretos que ilustram a atitude da Igreja perante o escravismo indíge
na. Em próximo artigo de PR voltar-nos-emos para a Igreja e a escrava
tura negra.

1. Tragos históricos

A escravidáo é fenómeno, infelizmente, quase táo antigo quanto o


género humano. Estava associada as guerras. Com efeito, o guerreiro
vencido era tornado propriedade do vencedor. Também se prendía á condi-
cáo de insolvencia; quem nao pudesse pagar as suas dividas, vendía a
sua pessoa ou os seus filhos e familiares ao respectivo credor. Na Grecia
praticava-se o rapto, especialmente de criancas: havia homens e mulhe-
res especializados nesta tarefa, que eles executavam principalmente nos
lugares de grande afluencia pública: feiras, festas, etc. As criangas ex
postas ou abandonadas pelos país podíam ser recolhidas como escra
vos. No período áureo de Atenas, havia na Grecia 15% de homens livres
e 85% de escravos.

399
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

Na Mesopotámia havia escravos de certo nivel cultural (eram prisi-


oneiros de guerra!): assim no novo Imperio babilónico (séculos VII-VI
a.C.) encontravam-se escravos dados aos negocios em mercados, ban
cos, sitios, em nome do seu senhor ou por conta própria,... escravos que
chegavam a ter escravos a seu servico.

No Imperio Romano, os escravos, além de executar trabalhos do


mésticos, também podiam desempenharfuncóes administrativas e buro
cráticas, assimiladas aqueles por implicarem dependencia das ordens
de outrem. Entre os Secretarios de Estado podia haver escravos - o que
muito desagradava á aristocracia senatorial.

Certos proprietários de escravos cediam-nos em aluguel; neste caso


ao escravo podia tocar urna parte da renda que cabia ao patráo. A alguns
escravos era permitido trabalhar por conta própria, pagando ao patráo
urna parte de seus emolumentos. Desta maneira conseguiam juntar um
peculio, mediante o qual compravam oportunamente a sua liberdade.

Nos séculos ll-l a.C. em Roma a escravatura atingiu o auge. Os


escravos, numerosos e baratos, eram utilizados nos grandes latifundios
em trabalhos agrícolas. Nesse período verificam-se as revoltas de escra
vos: na Sicilia em 135-131 a.C. e 104-100 a.C, em Espártaco em 73-71
a.C.

Em suma, pode-se dizer que a agricultura e a industria, o comer


cio, a construcáo civil e outras atividades da civilizacáo antiga estavam
estritamente na dependencia da escravatura; sem esta, nem a vida públi
ca nem a doméstica se sustentarían! no Imperio Romano; pode-se dizer
que a sociedade romana se baseava sobre o trabalho escravo.

Este fato explica que o Cristianismo, embora apregoasse a igual-


dade de todos os homens (cf. Gl 3,28; Rm 10,12; Cl 3,11; 1 Cor 12,13),
nao tenha podido abolir ¡mediatamente a escravatura no Imperio Roma
no. De resto, a própria Biblia no Antigo Testamento reconhecia a escravi-
dáo de estrangeiros (cf. Lv 25, 44-55); este precedente bíblico, associa-
do aos costumes romanos, constituía um legado de peso para os cris-
táos; este legado, que vinha a ser um traco da cultura da época, era um
referencial que se impunha a todo judeu e todo cristáo do Imperio Roma
no. O próprio Apostólo Sao Paulo dava instrucoes a senhores e escravos
a fim de que convivessem em harmonía (cf. Ef 6,5-9; Cl 3,22-41; 1 Cor 7,
21-23; Tt 2, 9s); o escravo Onésimo, fugitivo e depois batizado por Sao
Paulo, foi devolvido pelo Apostólo a seu patráo Filemon com urna carta, que
pedia ao amo cristáo um tratamento fraterno para o escravo cristáo (Fm).

Na Idade Media, a antiga escravidáo cruel e desumana cede, em


parte, a urna instituicáo muito mais branda, que foi a dos servos da gleba;

400
A IGREJA E A ESCRAVIDÁO NO BRASIL 17

estes se obrigavam a f¡xar-se no territorio do senhor feudal para o qual


trabalhavam, mas recebiam em troca tutela e abrigo contra invasores,
piratas, guerreiros...; isto redundava em beneficio do pequeño agricultor,
que nao teria possibilidade de sobreviver de outra maneira; grande parte
dos escravos assim transformaram-se em colonos - o que bem pode ser
atribuido, entre outros fatores, á influencia humanitaria do Cristianismo.

Alias, o Concilio de Nicéia I (325) dá-nos noticia de que escravos


haviam sido admitidos ao sacerdocio. O Papa S. Calisto, por exemplo,
era um escravo liberto.

Os medievais, contudo, continuavam a fazer, de seus prisioneiros


de guerra, escravos. Precisamente no século IX surgiu no latim medieval
a palavra sclavu, outra forma de slavus, que se tornou esclave (escra
vo) no francés do século XIII. Isto se explica pelo fato de que as popula-
cóes eslavas dos Baleas forneciam o principal contingente dos escravos
do Ocidente.

Nos séculos XIII-XIV o tráfico de escravos aumentou notavelmente


nos países mediterráneos, preparando a época de intensa escravidáo
praticada pelos povos colonizadores da América a partir do século XVI.
Alias, na península ibérica as guerras de reconquista, movidas contra os
árabes ocupantes da península, ocasionaram a freqüente utilizacáo de
muculmanos capturados em guerra como escravos. A partir de 1444 os
portugueses adquiriram diretamente escravos negros do Sudao (África).
A época moderna se abre com a descoberta de novas térras no
Oriente e no Ocidente. A fim de trabalhar no continente americano, os
colonos portugueses comecaram por valer-se dos indígenas. Estes, po-
rém, mostraram-se pouco dóceis, muito dados á fuga e propensos a
molestias transmitidas pelo europeu ou contraídas por efeito do pesado
trabalho a que eram submetidos. Esbocaram-se entáo os primeiros con-
flitos entre os colonos, desejosos de máo-de-obra, e os missionários,
que se opunham á escravizacáo dos aborígenes ou, ao menos,
propugnavam tratamento mais brando.

O bispo de Chiapas, Frei Bartolomeu de las Casas (1474-1566),


levantou-se em defesa dos indios e sugeriu que se aproveitassem ne
gros já reduzidos á escravidáo; alias, isto já vinha sendo praticado na
América Central em pequeña escala. Note-se, de resto, que entre os
africanos mesmos era, nao raro, usual a escravidáo, se bem que limitada
quase exclusivamente aos trabalhos domésticos.

O apogeu do tráfico de escravos ocorreu, na América em geral,


entre 1750 e 1790, principalmente de 1781 a 1790; neste período con-
tam-se cerca de 82 mil escravos importados por ano, dos quais 35 mil

401
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

por ingleses, 24 mil por franceses, 18 mil por portugueses, 4 mil por ho
landeses e mil por dinamarqueses. Foi também no século XVIII que teve
inicio o movimento abolicionista; o Reino Unido da Gra-Bretanha, país
que mais praticara o tráfico de escravos, foi também o que mais se em-
penhou pela sua abolicáo. Esta foi ocorrendo aos poucos nos diversos
países da América (no Brasil, entre 1883 e 1888). Contudo entre certos
povos a escravidáo perdura até o século XX; somente em 1962 foi ofici
almente abolida na Arabia Saudita. Um relatório apresentado em 1955
em sessáo da ONU asseverava a existencia de indicios de escravidáo e
práticas semelhantes ainda em determinadas regioes, como a península
arábica, o Sudeste asiático, a África e a América do Sul! Recentemente
espalharam-se noticias de que no Sudao (África) tem plena vigencia a
escravatura.

Estes trapos históricos foram aqui recordados para ilustrar quáo


arraigado esteve, e está, o fenómeno da escravatura na mente dos ho-
mens através dos séculos. Passemos agora a urna reflexáo sobre os
fatos.

2. Refletindo...

Quem olha hoje para o fenómeno da escravatura na historia do


Brasil (para nao dizer: ... na historia universal), nao pode deixar de
experimentar urna atitude de indignacáo e repulsa. - Na verdade, é
preciso reconhecer abusos e crimes cometidos contra a pessoa hu
mana na historia da escravidáo; houve maldade, porque todo homem
está sujeito a cair em erros. Todavía nao basta tal julgamento como se
abarcasse toda a realidade do passado escravagista. Se o observa
dor contemporáneo nao quer cometer ¡njustiga, nao pode simplesmente
condenar todos os antepassados a partir de premissas que sao claras
em nossos dias, mas nao eram familiares aos antigos; deve, antes,
procurar entender os fatos pretéritos dentro dos referenciais de que
dispunham os antepassados.

Por conseguinte, merecam ponderacao os seguintes dados:

1) Os antigos, os medievais e os modernos até época recente jul-


gavam freqüentemente que os negros e os indios nao eram plenamente
seres humanos; por conseguinte, nao gozavam dos mesmos direitos que
os homens brancos. Esta concepcáo, sustentada de boa fé, atenuava a
culpabilidade dos escravagistas.

2) Acontece outrossim que muitos dos escravos eram pessoas que


teriam sido condenadas á morte por seus próprios compatriotas e que,
compradas na qualidade de escravos, escapavam á morte cruel. Os co
lonos os resgatavam, julgando praticar obra de misericordia ao poupá-

402
A IGREJA E A ESCRAVIDAO NO BRASIL 19

los de serem pasto de festins canibalescos. Alguns capturavam os indi


os, alegando que eram pagaos e, por isto, era um beneficio levá-los para
junto das povoacóes dos cristáos, onde poderiam aprender a mensagem
da fé e ser batizados1. - Hoje diríamos que o amor cristáo mandava por
em liberdade os escravos comprados, em vez de os obrigar á vida escra-
va; todavía na antigüidade este gesto ulterior nao passava fácilmente
pela mente de um cídadáo, vistas as ponderacóes anteriores e dado que
toda a organízacao da sociedade dependía da máo-de-obra escrava.

3) Mais: durante sáculos homens e mulheres, hoje universalmente


reconhecidos como heroicos e cheios de generosidade, conviveram com
o fato da escravatura sem que Ihes ocorresse a idéia de mover urna revo-
lucáo, violenta ou nao, contra a mesma. Pode-se comee,ar a enumeracáo
por S. Paulo Apostólo: este, embora tenha professado os principios que
lógicamente levariam á extincáo da escravatura, nao viu em sua época
as condicóes para propugnar explícitamente tal conseqüéncia. O mesmo
aconteceu com S. Agostinho (t 430), S. Tomás de Aquino (t 1274), S.
Francisco de Assis (f 1226), S. Teresa de Ávila (t 1582)... Em sua cons-
cíéncia subjetiva nao chegavam a ver na escravatura um mal a ser incon-
dicionalmente combatido como hoje é combatido.

4) Muitos dos que criticam o passado, detém sua atencáo apenas


sobre os traeos sombríos ou negativos do mesmo; baseados em consi-
deracóes unilaterais, condenam as geracóes pretéritas. Ora é preciso
por em relevo a verdade na sua íntegra; esta apresenta, além de elemen
tos sinistros, atítudes nobres dos homens e mulheres do passado. Nem
mesmo a socíedade que hoje censura os antenatos, está isenta de cen
suras: ela traz em seu bojo diversos males, como o consumismo, ou a
cobíca do lucro, do bem-estar, que eoloeam o dinheiro ácima do próprio
homem, o desprezo da pessoa e a violacáo dos direitos alheios, o desca
so da vida humana desde o seio materno até a idade avancada, o comer
cio de tóxicos, a poluieáo da natureza, do meio-ambiente, diversas for
mas de massíficacáo devidas, em grande parte, aos meios de comunica-
cáo social e, aínda, o elevado grau de pornografía sórdida ou meramente
instintiva e irracional. Talvez muitos convivam com esses males sem ob
servar que poderiam ser removidos ou que havería expressóes mais au
ténticas da dignídade humana; até que ponto sao tais pessoas subjetiva
mente culpadas?

Dito isto, importa que nos voltemos para certos fatos que evídenci-
am a atítude da Igreja díante da escravatura na historia do Brasil.

1 É obvio que hoje nenhum cristáo justificaría tal procedimento nem reconheceria tais
alegacóes.

403
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

3. Atitude da Igreja

Distinguindo a escravidáo do indígena e a do negro, neste artigo


abordaremos apenas a do indígena; ficará a do negro para o próximo
número de PR.

3.1. As incursóes dos senhores

Os precedentes históricos ou o hábito inveterado de recorrer a es-


cravos levou os portugueses a procurar servir-se do indio para prover
aos trabalhos bracais de que precisavam1. As tribos que se chocavam
em guerras, prontificavam-se a vender aos brancos os seus prisioneiros
em troca de quinquilharias e bugigangas. Caso isto nao ocorresse, con-
denavam-nos a morrer para servir á prática da antropofagia em banque
tes canibalescos.

Nao contentes com isto, os brancos faziam ¡ncursóes entre os indi


os, isto é, assalteavam-nos ou salteavam-nos a fim de os capturar como
escravos que trabalhariam ñas fazendas.

Merece especial atencáo o ocorrido com os indios Caetés. Mata-


ram e devoraram o bispo D. Pedro Fernandes, tres cónegos e cerca de
cem outras pessoas, vítimas de naufragio. E vangloriavam-se disto, pro
clamando que haviam matado o chefe religioso dos brancos; ora tal atitu
de foi tomada como ignominia ao nome cristáo. Em conseqüéncia, o
Governador Mem de Sá (1557-1572) mandou contra os Caetés urna ex-
pedicáo, determinando que fossem reduzidos á escravidáo em castigo
modelar. Este fato desencadeou, da parte dos colonos, outros assaltos a
indios de tribos diversas, como se todos fossem réus do mesmo crime -
o que mereceu ¡mediata reprovacáo do Governador.

Diante dos fatos, registraram-se protestos da parte das autorida


des eclesiásticas e de autoridades civis.

3.2. As medidas tomadas

Sabe-se que no inicio do século XVI o dominicano Frei Domingos


de Minaja viajou da América Espanhola a Roma, a fim de relatar ao Papa
Paulo III os abusos ocorrentes com relacáo aos indios. Em conseqüén
cia, o Pontífice escreveu a Bula Veritas Ipsa de 2/6/1537. Nesta o Pontí
fice expóe o equívoco subjacente á instituigáo da escravatura:

1 "Rara sería entáo a casa nobre de Portugal onde nao houvesse escravos mouros
apreendidos ñas guerras de Marrocos; e desde o lempo do infante, como na antiga
Roma, os negros da África eram objeto de comercio. No censo de Lisboa em 1551
os escravos eram 9,95% da populagáo" (Herbert Wetzel, A escravatura e os Jesu
ítas no Brasil colonial, em "O Arquidiocesano", 7/01/1979, p. 3).

404
A IGREJA E A ESCRAVIDAO NO BRASIL 21

"O comum inimigo do género humano, que sempre se opoe as boas


obras para que peregam, inventou um modo, nunca dantes ouvido, para
estorvar que a Palavra de Deus nao se pregasse as gentes, nem elas se
salvassem.

Para isso moveu alguns ministros seus que, desejosos de satisfa-


zer as suas cobigas, presumem afirmar a cada passo que os indios das
partes ocidentais e meridionais e as mais gentes que nestes nossos tem-
pos tém chegado á nossa noticia, háo de ser tratados e reduzidos a nos-
so servigo como animáis brutos, a título de que sao inábeis para a Fé
católica; e, com pretexto de que sao incapazes de recebé-la, os póem em
dura servidao em que tém suas bestas, apenas é táo grande como aque-
la com que afligem a esta gente".

Neste texto merece atenfáo especial a mencáo de indios e das


mais gentes, que sao os africanos. A uns e outros Paulo III quer defen
der. Por isto acrescenta:

"Pelo teor das presentes determinamos e declaramos que os ditos


indios e todas as mais gentes que daqui em diante vierem a noticia dos
cristáos, aínda que estejam fora da fé crista, nao estáo privados, nem
devem sé-lo, de sua liberdade, nem do dominio de seus bens, e nao
devem ser reduzidos a servidao".

As determinac5es da Bula lograram efeitos positivos, mormente


porque observadas pelos jesuítas, como atesta o ouvidor Pero Borges a
El-Rey:

"Agora que, a requerimento destes padres apostólos (os jesuítas)


que cá andam, homens a quem nao falta nenhuma virtude, eu mando por
em liberdade os gentíos que foram salteados, e nao tomados em guerra,
estáo os gentíos contentes e parece que Ihes vai a coisa de verdade e
mais porque véem que se Ihes fazjustiga, e a fazem a eles, quando al
guns cristáos os agravam; e parece-me que será causa para nao haver ai
guerras" (citado por H. Wetzel, A escravatura e os jesuítas no Brasil
colonial, em "O Arquidiocesano", 7/01/1979, p. 3).

Na aldeia de Sao Paulo da Bahía, os moradores brancos perturba-


vam os indios, pois, como escreve o Pe. Nóbrega a Tomé de Souza,
«tomavam-lhes as suas térras e rocas em que sempre estiveram de pos-
se e nunca fizeram por donde as perdessem, antes na guerra passada
estes ajudaram aos cristáos contra os seus próprios... E porque nisto o
Governador e eu estorvamos esta tiranía, contra mim conceberam má
vontade». - Ora a rainha Da Catarina deu razáo ao Pe. Nóbrega, escre-
vendo ao Governador Mem de Sá:

405
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

"Encomendo-vos consultéis estas coisas (da distribuicáo de térras)


com os padres da Companhia, que nessa Capitanía estiverem, e facais
isso de maneira que vos parecer que convém ao bem e aumento da con-
versáo e conservacáo dos ditos gentíos, e nao seja escándalo a outras
partes e a todos se oucam de justíca e igualdade". O Governador deveria
até devolver as térras que Ihes foram tomadas e dadas a outrem sem
justa causa, o que "seria grá consolacáo e quietacáo" (citado por H. Wetzel,
ib.)-

A 30 de julho de 1609 El-Rey promulgou nova lei, que abolía por


completo a escravidao indígena:

"Declaro todos os gentíos daquelas partes do Brasil por livres, con


forme o direito e seu nascimento natural, assim os queja foram batizados
e reduzidos a nossa santa fé católica, como os que ainda servirem como
gentíos, conforme a pessoas livres como sao".

Aos 22/4/1639 o Papa Urbano VIII publicou o Breve «Commissum


Nobis» incutindo a liberdade dos indios da América. Este documento
chegou ab Rio por meio do Pe. Francisco Días, que iría até Buenos Aires
com mais trinta companheiros. Trazia também uma nova leí de Sua Ma-
jestade, que mandava dar a liberdade a todos os cativos sob pena de
castigos do Santo Oficio e de confiscacáo dos bens. - No seu Breve, o
Papa mandava, sob pena de excomunháo reservada ao Pontífice, que
ninguém prendesse, vendesse, trocasse, doasse ou tratasse como cati
vos os indios da térra. Dispunha outrossim que a ninguém seria lícito
ensinar ou apregoar o aprisionamento dos mesmos.

Sabedores disto, os oficiáis da Cámara e alguns homens do povo


reuniram uma Junta no Convento do Carmo do Rio de Janeiro para tratar
do assunto. No dia seguinte, o Reitor do Colegio dos jesuítas publicou o
Breve pontificio. Insurgiram-se entáo «alguns homens da Cámara e do
povo, e de assuada com motim formado vieram ao Colegio e, arromban-
do-lhe com machados as portas, entraram dentro com intento, como cla-
mavam e mostravam bem as infamias que diziam aos padres, de os
matarem ou botarem fora da térra; e o fizeram se nao acudirá o Governo
a os moderar».

Os amotinados escreveram um libelo inflamado contra os padres,


que se viram toreados a recorrer a Lisboa para se defender das acusa-
coes.

Na Capitanía de Sao Vicente o mesmo Breve Pontificio também


provocou tumultos. Na Casa do Conselho de Sao Vicente reuniram-se
dez procuradores das vilas daquela Capitanía em sessáo que durou tres
dias. «Concluíram que botassem fora de toda aquela Capitanía aos pa-

406
A IGREJA E A ESCRAVIDÁO NO BRASIL 23

dres da Companhia, porque, vendo-se os padres da Companhia avexados


e oprimidos com desejo de tornarem as suas casas e Colegio, haveriam
de Sua Santidade a suspensáo da Bula, e de Sua Santidade e Majestade
licenca para os poderem ter como cativos, e liberdade de consciéncia
para poderem fazer suas entradas no sertao».

Na sexta-feira 13 de julho de 1640, as 2 horas da madrugada man-


daram os membros da Cámara de Sao Paulo tocar os sinos para reunir o
povo da vila. O procurador Joáo Fernandes Saavedra leu a sentenca da
Junta de Sao Paulo que desterrava os padres da Companhia; estes fo-
ram ¡mediatamente expulsos aos empurróes pelo povo. Os padres dirigi-
ram-se para Santos, onde chegaram no día seguinte. Somente em 1643,
tres anos mais tarde, voltaram para Sao Paulo.

Em Santos houve semelhantes tumultos por causa da publicacáo


do Breve sustentado pelos jesuítas. Estes foram expulsos da vila no dia 3
de agosto de 1640. Dois anos mais tarde, em 1642, voltaram para lá, por
ordem do rei D. Joáo IV.

No Maranháo registraram-se também motins contra a determina-


cáo pontificia. Em 1684, a insurreicáo era chefiada por Lisboa Manuel
Bequimáo. O povo dirigiu-se ao Colegio dos jesuítas, intimando-os a sair
do Maranháo por serem nocivos á térra em virtude da protecáo que dis-
pensavam aos indios. Redigiram um protesto com cerimónias judiciais,
cuja substancia brevemente resumida é a seguinte: que o povo do
Maranháo os lancava fora nao por escándalo algum em seu comporta-
mentó e vida religiosa, nem mesmo por faltarem ao cuidado da salvacáo
das almas. Que a razáo, motivo e principal fundamento desta resolucáo
era «porque os padres tinham a administracáo temporal dos indios, no
que experimentava aquele povo intoleráveis apertos. Que Ihes pediam e
intimavam juntamente nao pretendessem jamáis voltar para a térra, que
de nenhum modo os quería, e de que já haviam sido lancados duas ve-
zes e intentados lancar outra». - Os jesuítas foram embarcados em duas
naus: a primeira, transportando quinze Religiosos, chegou a Pernambuco
aos 18/5/1684; a outra, onde se achavam doze, ficou detida no Ceará
com o mastro tendido. - No ano seguinte, 1685, o novo Governador Go
mes Freiré de Andrade trazia instrucoes da Corte para restabelecer a
ordem antes vigente: os jesuítas puderam entáo voltar ao Maranháo em
23/9/1685.

Voltando ao secuto XVI... Sabe-se que o segundo bispo do Brasil,


D. Pedro Leitáo (1559-1573), assinou aos 30/7/1566 na Bahia com o
Governador Mem de Sá (1557-1572) e o Ouvidor Dr. Brás Fragoso uma
Junta em defesa dos indios; defendia-os contra os abusos dos brancos e
dava maior apoio aos aldeamentos instaurados pelos jesuítas. O Pe.

407
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

Anchieta elogiou o bispo pelo zelo em prol da liberdade dos aborígenes.


Outro jesuíta escreveu: «O Bispo prega e repreende acremente aos que
maltratam e fazem desaforos aos indios» (dados extraídos do livro de A.
Rubert, A Igreja no Brasil, vol. I, p. 288).

Também o primeiro prelado do Rio de Janeiro, Padre Dr. Bartolomeu


Simóes Pereira (1578-1603), foi rígido defensor dos indios, sempre con
trario á escravidáo dos mesmos; por isto sofreu graves dissabores. O
quarto prelado do Rio de Janeiro, o Pe. Dr. Lourenco de Mendonca, dizia
que «mandou guardar as Constituigoes Eclesiásticas dos antecessores...
que sempre se opuseram a estas táo iníquas vendas (de escravos)» (Ins
tituto Histórico e Geográfico do Brasil, L 219, de. 17).

As autoridades governamentais da colonia também se interessa-


ram pela defesa dos indios. Assim Mem de Sá, desejoso de garantir a
liberdade dos aborígenes, deu a estes térras para o seu cultivo; os jesu
ítas entáo se empenharam por que fossem boas e férteis. Por isto entra-
ram em confuto com os brancos, que reclamavam para si as melhores
térras. Em conseqüéncia, foram levadas a Portugal queixas contra os
jesuítas. Eni 1559 escrevia o Padre Provincial de Lisboa, Manuel de Tor
res, ao Pe. Nóbrega, exortando-o a procurar a amizade de todos e ser
mensageiro de paz.

O monarca determinava aínda que o trabalho nao fosse forcado e que


o salario fosse pago como a todas as demais pessoas livres. Mandavam
outrossim que todos os indios escravizados fossem postos em liberdade.

Os moradores da térra insurgiram-se contra tais ¡njuncóes. Eis o


que relata o Pe. Provincial Henrique Gomes ao Pe. Geral dos jesuítas:

No dia 28 de junho de 1610, na Bahia, "convocaram o povo á Cá


mara, onde sendo todos juntos, tratando-se a materia, houve varios pa
receres e entre eles alguns que nos embarcassem a todos para Portugal,
por inimigos do bem comum e da república... Foi tal o motim do povo que
o Procurador dos indios correu o risco de ser morto só por dizer nesta
ocasiáo que se informassem da verdade e achariam que os padres nao
tinham culpa alguma" (H. Wetzel, A escravatura e os jesuítas no Brasil
colonial, em "O Arquidiocesano", 28/01/79, p. 3).

Neste episodio verifica-se que os jesuítas sofreram também por


prestarem obediencia as ordens do rei que defendiam os indios.

4. Conclusao

Estáo assim expostos alguns dos fatos históricos mais importantes


para se reconstituir o papel desempenhado pela hierarquia da Igreja frente
á escravidáo dos indios. Houve empenho por respeitar tal populacao - o

408
A IGREJA E A ESCRAVIDÁO NO BRASIL 25

que exigiu sacrificios da parte de clérigos. Verdade é que esse esforco


nao se voltou contra a escravatura como tal; nem se deve crer que os
clérigos nao tiveram escravos a servíco das suas obras; nao Ihes passa-
va pela mente a idéia de abolir por completo o trabalho escravo, pois
redundaría em colapso tanto da vida civil e económica da sociedade como
das atividades humanitarias e evangelizadoras da Igreja.

Importa, porém, registrar que, dentro das categorías de pensamento


e cultura dos séculos XVI-XVIII, a Igreja opós resistencia á exploracáo
dos indígenas na medida em que esta podía parecer ilegítima a um cris-
táo da época (de consciéncia bem formada).

A propósito muito nos valemos dos artigos do Pe. Herbert Wetzel


S.J. publicados sobre «A escravatura e os jesuítas no periodo colonial»,
em «O Arquidiocesano» de Mariana (MG), ao 7/01, 14/01, 21/01, 28/01,
4/02, 11/02, 18/02/1979. Deste impressos foram extraídas as citagoes
aqui transcritas (desde que nao seja ocasionalmente indicada fonte própria).

Ver ainda:

HAUBERT, MÁXIME, L'Eglise et la défense des 'sauvages': le


Pére Antonio Vieira au Brasil. Bruxelles 1964.

HOORNAERT, EDUARDO, Teología e acáo pastoral em Antonio


Vieira: 1652-1661, em "Historia da Teología na América Latina", Sao
Paulo 1981.

LAS CASAS, BARTOLOMEU DE, Historia de las Indias, em "Bi


blioteca de Autores Españoles". XCVI. Madrid 1961.

LEITE, SERAFIM, Historia da Companhia de Jesús no Brasil.


Rio de Janeiro 1938-1950 {10 volumes).

VINCENT, ANDRÉ, L'íntuition fundaméntale de Las Casas et la


doctrine de Saint Thomas, em "Nouvelle Revue Théologique" 1972, 944-952.

GUILHERME E. MANSELL PASSERI


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409
Quando e como será?

RESSURREIQÁO DENTRO DE 21 DÍAS?

Em síntese: Vai, a seguir, analisada a tese segundo a qual a res


surreigáo dos corpos ocorre dentro de vinte e um días a partir do momen
to em que a pessoa comega a morrer; no prazo desses vinte e um dias o
corpo humano perecfvel estaría cedendo lugar a um corpo imperecível —
o que equivaleria á ressurreigáo de que fala a fé crista. - Tal teoría é
contraria a mensagem da Escritura e da Tradigáo: além do qué é arbritária
ou destituida de fundamento.

Vía internet a Redapáo de PR recebeu a seguinte mensagem:

«Tenho 16 anos, sou católico convicto e sempre procuro conhecer


melhora doutrína da religiáo que euprofesso. No dia 05/05 próximo pas-
sado, eu assisti o programa de entrevistas 'JÓ SOARES ONZE E MEIA'
do SBT. Neste dia, um dos entrevistados era o Pe. Osear Quevedo SJ. A
entrevista constou de dois blocos e foimuito interessante. O Pe. Quevedo
falou de parapsicología e fé. Como sempre, ele, com bases racionáis,
defendeu a fé católica; falou o quanto é irracional acreditar nos médiuns.
No final da entrevista, o Pe. Quevedo disse algo que me deixou com
dúvidas. Como eu gravei a entrevista, resolví transcrever o trecho. Sao
palavras do próprío Pe. Quevedo: 'Nao há espfritos de morios. Nao exis
te alma viva de planta sem a planta. Nao há alma humana sem corpo. Há
homens vivos e homens ressuscitados. Dizer que a alma humana se se
para do corpo, é urna heresia. No primeiro concilio ecuménico de Nicéia,
já se definía: 'A ALMA HUMANA SEM CORPO NAO AGE, NAO EXISTE'.
Neste momento o apresentador do programa interrompe o Pe. Quevedo
dizendo: 'O que acontece com a pessoa quando ela morre?' - O entrevis
tado responde: 'É o que nos explica muito bem Sao Paulo. Á medida que
vamos morrendo, vamos ressuscitando. Vamos deixando um corpo cor-
ruptível, e vamos ressuscitando num corpo incorruptivel. Se consumou
totalmente a moríe até a última célula, se consumou a ressurreigáo. En-
tao somos corpo e alma durante toda a eternidade. Nao existem espíritos
de mortos. Teremos um corpo glorioso. Na vida demoramos 6 meses em
trocar urna energía material por outra material; na morte demoramos 21
días para morrermos por completo e ressuscitarmos por completo. Alma
sem corpo é herético, é absurdo. É um erro antropológico, filosófico, etc'.
Depois o Pe. Quevedo acrescenta: 'O corpo glorioso nao tem tamanho. O

410
RESSURREIgÁO DENTRO DE 21 DÍAS? 27

corpo glorioso é: claro, ágil, sutil e impassivel. Tem as características do


espiritualizado'. Estas palavras me perturbaram. Tinham lógica, mastudo
o que eu aprendí sobre a doutrina católica, nao combina muito bem com
as palavras do Pe. Quevedo. Eupensava que, quando a pessoa morre, a
sua alma vai ao encontró de Deus, enquanto ela espera a Parusia, quan
do Deus reunir novamente a alma ao respectivo corpo, na ressurreigáo
dos mortos. Os homens que estivessem no Céu (os justos), teriam corpo
glorioso, enquanto os homens que estivessem no inferno (os reprobos),
teriam um corpo tenebroso. Esta é a minha dúvida: Quem está ceño? Eu
ou o Pe. Quevedo? Tudo o que eu pensava estar certo, na verdade está
errado? Pego urgente um esclarecimento, pois acho que muita gente tem
dúvidas sobre os Novíssimos».

Que responder?

Proporemos sete pontos em resposta ao estimado interlocutor.

1) Alma espiritual

A teoría em pauta nega que a alma humana se possa separar do


corpo. Por isto afirma que a ressurreigáo comega logo após a morte e
termina vinte e um días após o falecimento da pessoa. Parece que tam-
bém se poderia crer que o individuo só acaba de morrer vinte e um dias
depois que comecou a falecer; concluido este prazo, estará ressuscitado
num corpo novo sutil e impassivel.

Ora tal sentenca nao leva em conta o fato de que a alma humana é
espiritual. Sendo espiritual, é ¡mortal por sua própria natureza. Nao mor
re, mesmo quando o corpo se desgasta e destrói. Verdade é que a alma
humana foi por Deus criada para vivificar o corpo, mas as suas
virtualidades nao se esgotam quando a corporeidade nao tem mais con-
dicoes para ser por ela vivificada.

Dado que é espiritual, a alma humana nao pode ser comparada


com o principio vital da planta nem com o do animal irracional. Os seres
¡nfra-humanos vivos tém principio vital material, que é eduzido da mate
ria quando sao gerados e que é re-absorvido pela materia quando pere-
cem. Daí "nao haver principio vital de planta sem planta", mas há princi
pio vital ou alma humana sem corpo. Por conseguinte, evite-se confundir
vegetal e animal irracional com o ser humano.

2) Alma sem corpo

O autor da tese em foco chega a dizer que seria heresia condena


da pelo Concilio de Nicéia I (325) a afirmacáo de que a alma humana
subsiste sem corpo. Infelizmente o Pe. Quevedo nao cita canon algum
do Concilio de Nicéia I que fundamente a sua afirmacáo, a qual é total-

411
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

mente gratuita. Quevedo atribuí á Igreja o contrario do que ela realmente


ensina, como se depreende da Declaracáo da Congregacáo para a Dou-
trina da Fé datada de 17/5/79:

"A Igreja afirma a sobrevivencia e a subsistencia, depois da morte,


de um elemento espiritual, dotado de consciéncia e de vontade, de tal
modo que o eu humano subsista, aínda que sem corpo. Para designar
esse elemento, a Igreja emprega a palavra alma consagrada pelo uso
que déla fazem a S. Escritura e a Tradicáo. Sem ignorar que este termo é
tomado na Biblia em diversos sentidos, Elajulga, nao obstante, que nao
existe qualquer razáo sería para o rejeitar e considera mesmo ser absolu
tamente indispensável um instrumento verbal para sustentara fé dos cris-
táos"(n°2).

3) Ressurreicáo no fim dos tempos

A ressurreicáo se dará no dia final da historia, quando Cristo volta-


rá para o juízo universal. A Escritura o diz mais de urna vez, e com muita
clareza, afastando a tese segundo a qual a ressurreicao comeca a acon
tecer logo após a morte ou durante um processo de vinte e um días. Eis
os textos bíblicos correspondentes:

1Cor 15,22s: "Assim como todos morrem em Adáo, em Cristo todos


receberáo a vida. Cada um, porém, em sua ordem. Como primicias, Cristo;
depois, os que pertencem a Cristo por ocasiáo da sua vinda (parusia)".

1 Ts 4,16: "Quando o Senhor, ao sinal dado, a voz do arcanjo e ao


som da trombeta divina, descer do ceu, entáo os morios em Cristo res-
suscitarlo primeiro. Em seguida, nos, os vivos, seremos arrebatados
com eles ñas nuvens".

Jo 6,44: "Nínguém pode vira Mim, diz o Senhor, se o Pai que me


enviou, nao o atrair, e eu o ressuscitarei no último dia".

Jo 6,54: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a


vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

Por conseguinte, nao resta dúvída de que a ressurreicao se dará


no fim da historia da humanidade, como alias sempre ensinou a Igreja.
Quem hoje afirma o contrarío, faz contraste com a doutrina da fé católica,
baseada ñas fontes da Revelacáo. De resto, para nao deíxar hesitacáo
sobre o assunto, a citada Declaracáo da Congregacáo para a Doutrina
da Fé quis confirmar o pensamento clássico:

"A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a glo


riosa manifestagáo de Nosso Senhor Jesús Cristo, que Ela considera
como distinta e diferida em relagáo áquela condigno própria do homem
¡mediatamente após a morte" (n° 5).

412
RESSURREIgÁO DENTRO DE 21 DÍAS? 29

"A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem após a


morte, excluí qualquer expiicacáo que tire o sentido a Assungáo de Nos-
sa Senhora naquilo que ela tem de único, ou seja, o lato de ser a glorifi-
cagáo corporal da Virgem Santíssima urna antecipagáo da glorificacáo
que está destinada a todos os outros eleitos" (n° 6).

O Catecismo da Igreja Católica, em seu § 1001, diz o mesmo:

"Quando ressuscitaráo os mortos? Definitivamente no último día


(Jo 6, 39.40.44.54; 11,24), no fim do mundo. Com efeito, a ressurreicáo
dos mortos está intimamente associada á parusia de Cristo: 1Ts 4, 16".

Enquanto Cristo nao volta, as almas dos fiéis defuntos estáo no


além separadas do respectivo corpo, colhendo os frutos da semeadura
que fizeram na térra.

De resto, pergunta-se: com que fundamento se pode dizer que a


ressurreicáo ocorre paulatinamente dentro do prazo de vinte e um dias?
Donde sai tal concepcáo? Donde sai tal número?

4) Dualismo, nao. Dualidade, sim

A distincáo entre corpo e alma nao implica dualismo (como existe


entre o bem e o mal), mas dualidade. Dualismo significa contraste e
antagonismo, ao passo que dualidade é distincáo entre duas partes que
nao se opoem urna á outra, mas se complementam mutuamente (como
homem e mulher). Para escapar do dualismo, nao se deve recorrer ao
monismo necessariamente, pois há a dualidade.

Como dito, a alma separada do corpo, entre o dia da morte e o da


ressurreicáo final, goza da sorte que Ihe compete, ou colhe os frutos da
semeadura realizada na vida presente: o céu ou o purgatorio (estágio
previo á bem-aventuranca celeste) ou o inferno.

5) Etemidade, nao. Evo, sim

Nao se diga que a alma humana, deixando o tempo, entra na eter-


nidade. - A eternidade é exclusivamente de Deus, pois é duracáo sem
comeco nem fim; a alma humana tem comeco, mas nao terá fim; por isto
a sua duracáo é ¡mortal, nao eterna, e tem o nome de evo. O evo é o
intermediario entre o tempo (duracáo que tem comeco e fim) e a eterni
dade (duracáo que nao tem comeco nem fim); o evo tem comeco, mas
nao terá fim; consiste numa serie continua de atos do intelecto e da von-
tade (no céu, visáo de Deus sempre novo e deleite sempre renovado).

A alma humana, sendo espiritual, nao é gerada pelos país. Ela nao
provém das almas dos pais, que nao emitem sementé vital, visto que sao

413
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

espirituais. Cada alma humana é criada diretamente por Deus para ser o
principio vital deste ou daquele individuo preciso.

6) Como será o corpo ressuscitado?

Nunca alguém viu um corpo ressuscitado, mas pode-se conjeturar


o que será, considerando-se o corpo de Cristo, ao qual seráo configura
dos todos os justos. Pode-se entáo afirmar que o corpo dos justos res-
suscitados será ¡mortal, glorioso e íntegro ou nao mutilado. Esta última
prerrogativa merece atencio especial:

Os ressuscitados, tanto justos como reprobos, possuirao todos os


órgáos e membros, todas as faculdades que o corpo humano por nature
za possui, embora hajam sido mutilados ou disformes neste mundo. Con-
servaráo também a distincáo de sexos.

Esta proposicáo decorre igualmente do fato de que o homem res-


suscitará, conforme o plano de Deus, a fim de atingir a sua consumacao.
Por conseguinte, deverá gozar de tudo aquilo que pertence á natureza
humana como tal; Deus, portanto, restaurará nos corpos ressuscitados
os órgaos amputados ou mutilados nesta vida; dará até mesmo os que o
individuo nunca tenha possuído (olhos, por exemplo, ao cegó de nasci-
mento; o desdentado recuperará todos os dentes). Sto. Agostinho e S.
Tomás ensinam que também as unhas e os cábelos integraráo o novo
corpo, estes, porém, em quantidade normal, nem deficiente (o que seria
a calvicie) nem excessiva1. É verdade que muitos órgaos só tém funcao
ñas circunstancias da vida terrestre e nao seráo utilizados após a ressur-
reicáo; todavía, já que pertencem á integridade da natureza, nao poderáo
faltar.

Na antiguidade houve quem quisesse negar a ressurreicáo de to


dos os membros, asseverando que os corpos futuros seráo arredonda
dos. Esta sentenca dos chamados "origenistas" foi condenada pelo sínodo
regional de Constantinopla, reunido em 543 (cf. D.S. n° 407 [207]). Os

1 Cf. S. Teol. Supl. 80, 1 e2


S. Agostinho compraz-se em pormenores:
"Nada de defeituoso haverá nos corpos ressuscitados. Os que tiverem sido obesos
e gordos, nao retomaráo toda a quantidade de seus corpos, mas o que exceder o
normal será tratado como supéríluo. Ao contrarío, tudo que a doenca ou a velhice
tiverem consumido nos corpos, será restaurado por Cristo com poder divino; o mesmo
se verificará nos que, por magreza, tiverem sido demasiado esguios; com eteito,
Cristo nao somente nos restituirá o corpo, mas aínda restaurará tudo que nos hou-
ver sido subtraido pelas miserias desta vida" (De civ. Dei 22, 19). "O homem nao
retomará a cabeleira que tiver tido, mas a que Ihe convier ter... 'Todos os cábelos
de vossa cabega estao numerados' (Mt 10, 30), e segundo a Sabedoria Divina háo
de ser restaurados" (Enchirídion 89).

414
RESSURREIgÁO DENTRO DE 21 DÍAS?

mesmos discípulos de Orígenes nao queriam admitir distincáo de sexos


na vida eterna; parecia-lhes que todos os individuos ressuscitaráo com
as características masculinas, já que S. Paulo escreve: "em vista da
edificacáo do corpo de Cristo, até que cheguemos todos á idade de ho-
mens feitos" (Ef 4, 12s). Erravam, porém, na interpretacáo do texto
paulino, que se refere nao ao sexo masculino como tal, mas á virilidade
de ánimo que possuiráo todos os justos ressuscitados, homens e mulhe-
res.

Quanto as características de idade dos corpos ressuscitados, de


novo um texto de S. Paulo prestou-se a conjeturas:"... até que chegue
mos todos á idade de homens feitos, á medida da estatura perfeita de
Cristo, a fim de que nao sejamos mais enancas flutuantes" (Ef 4, 13).
Ora, como se julga que Cristo tenha atingido a idade de trinta anos ou
pouco mais, afirmavam nao poucos antigos e medievais que os corpos
ressuscitados teráo todos indiferentemente o aspecto que em condicóes
normáis corresponde a esta idade; por conseguinte, os individuos faleci-
dos em idade infantil ou senil ressuscitaráo em idade madura. Procura-
vam corroborar tal tese fazendo notar que é aos trinta anos que o corpo
atinge a perfeicáo das suas formas, comecando, logo a seguir, um lento
declínio1. Esta sentenca nao é aceita pelos teólogos recentes; certamen-
te nao se pode fundar no texto paulino, que trata de crescimento sobre
natural. Há quem julgue mais conveniente que na aparéncia externa dos
corpos ressuscitados haja algo que lembre a sua vida na térra; assim, S.
Estanislau Kostka terá para sempre o seu aspecto gracioso de jovem, ao
passo que o velho Simeáo conservará sua aparéncia majestosa e
veneranda, confirmada por novo fulgor da graca.

Dada a sobriedade da Revelacáo no que se refere aos pormeno


res, nao se atribua demasiado peso ás conjeturas propostas. Contudo
nao se pora em dúvida que os corpos ressuscitados careceráo de qual-
quer vestigio de mutilacáo ou defeituosidade.

7) Catar as cinzas?

Desde os primeiros séculos da Igreja, levanta-se grave questáo:


como se há de conceber a identidade numérica do corpo ressuscitado

1 Cf. S. Tomás, S. Teol. Supi. 83, 1.


S. Agostinho, depois de proporas mesmas idéias, acrescenta a seguirte ressalva:
"Por conseguinte, ressurgiráo lodos na estatura que tinham ou haveriam de ter em
Idade juvenil. Contudo, nao há inconveniente em que a forma do corpo ressuscita
do seja também de enanca ou de anciáo, visto que nao subsistirá nenhum deleito
nem da mente nem do corpo. Portanto, se alguém sustenta que cada qual ressurgi-
rá na estatura que tiver tido ao morrer, nao se deve disputar ardorosamente com
ele" (De Civitate Dei 22, 16).

415
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

com o corpo mortal, visto que os cadáveres se dissolvem em poeira,


quicá espalhada pelos quatro ventos? Nao raro essa poeira é assimilada
por vegetáis, que por sua vez sao agregados a outros organismos vivos,
até mesmo humanos. E que dizer dos corpos daqueles que sao vítimas
da antropofagia de outros homens ou de peixes, peixes que os homens
sobreviventes consomem?

A propósito é de notar que, para que haja ressurreicao, nao se


requer que Deus recolha a poeira dos cadáveres, a fim de com ela plas
mar de novo os corpos. Lembremo-nos de que, já durante a vida terrestre
de um homem, a materia do respectivo corpo se vai renovando lenta
mente, de modo que, de sete em sete anos, cada qual tem outra consti-
tuicáo material; nao obstante, esta é realmente o mesmo corpo do indivi
duo. Ora, se o corpo de alguém pode ser o mesmo, embora conste de
materia diversa, a dificuldade atrás levantada se dissolve fácilmente. Deus
pode reconstituir o corpo de urna pessoa falecida a partir do que os filó
sofos chamam "materia prima"; esta, reunida á alma desse individuo,
torna-se o corpo mesmo de tal pessoa, com as suas notas típicas, visto
que a ¡dentidade da alma efetua a identidade das características do res
pectivo corpo. Tal processo tem sua analogía no fato de que o metabolis
mo de um homem mortal incorpora ao organismo respectivo materia nova;
esta vem a ser o corpo típico de tal pessoa, porque passa a ser animada
pelo mesmo principio vital ou pela mesma alma.

Eis o que se pode afirmar em resposta as teses do Pe. Quevedo.

(continuagáo da p, 432):

Há quem contra-argumente, lembrando que na Bosnia e no Congo


muitos e bons moralistas católicos aceitaram a liceidade da pílula anti
concepcional para evitar gravidez resultante de estupro; Religiosas ou
freirás, prevendo que seriam violentadas, tomaram um contraceptivo. -
Em resposta, observa-se que, nos casos citados, se tratava de evitar a
ovulacáo e assim, ¡ndiretamente, a gravidez; era a contracepcáo anterior
ao coito, portanto nao abortiva; ao contrario, a pílula do dia seguinte su-
poe cópula; toda contracepcáo após o coito ou é abortiva ou corre o risco
de ser abortiva. Justifica-se a pílula anovulatória como sendo a legítima
defesa de urna mulher que nao tem como evitar a agressáo que Ihe infli
ge um homem estranho; a mulher entáo sofre passivamente a cópula, á
diferenca da mulher que espontáneamente deseja a cópula, mas trunca
os efeitos da mesma violando a natureza mediante o artificio contraceptivo.
Cf. PR 378/1993, pp. 504-510.

Estéváo Bettencourt O.S.B.

416
Continuando o noticiario:

MAIS UMA VEZ A DATA DE PÁSCOA

Em síntese: O presente artigo retoma a questao relativa á unifica-


gao da data de Páscoa, acrescentando alguns dados novos, especial
mente urna tabela que póe em confronto as diversas maneiras de datar a
Páscoa no mundo católico, no ortodoxo e no judaico.
* * *

Mais urna vez voltamos a um tema já debatido em PR; cf. 423/


1997, pp. 346-349. A temática torna á baila com alguns dados novos,
que mais ilustram a questao relativa á unificacáo da data da Páscoa,
extraídos de um documento oficial do Conselho Ecuménico das Igrejas1,
datado de 7/4/99. Proporemos quanto ai se encontra de interessante,
sem repetir o paño de fundo da problemática. Apenas é de lembrar que a
data da Páscoa é marcada de acordó com as prescricoes de Ex 12,1-14:
celebre-se na noite da primeira Lúa cheia da primavera do hemisferio
Norte, ou após 21 de marco. Este principio dá origem a dois problemas,
que até hoje causam diferencas na estipuiacao anual da data de Páscoa:
1) o ciclo da Lúa e o ano lunar nao coincidem com o ano solar, de
modo que a adaptacáo do cálculo ao ano solar já pode causar dificuldades;
2) o próprio ano solar e o ano civil nao coincidem entre si; duas
reformas procuraram diminuir a diferenca de duracáo de um e de outro -
a reforma juliana em 46 a.C. e a gregoriana em 1582.
Ora os católicos e a grande maioria dos protestantes seguem o
calendario gregoriano, ao passo que os cristáos orientáis ditos "ortodo
xos" adotam ainda o calendario juliano...
Eis o que a propósito se lé no citado documento do Conselho
Ecuménico:
DUAS VEZES PÁSCOA?
Urna só vez a ressurreicáo, mas duas datas para a festa de Pás
coa. Como chegaram a isso?
- Seguindo dois calendarios diferentes: o calendario gregoriano,
que data do século XVI e é utilizado principalmente pelos cristáos do
1 Conselho Ecuménico ou Conselho Mundial das Igrejas é a Conferencia de cente
nas de comunidades protestantes, ortodoxas e outras assembléias cristas, nao in
cluida a Igreja Católica.

417
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

Ocidente, e o calendario juliano, mais antigo, do qual se servem as co


munidades ortodoxas para calcular a data de Páscoa.

A Sra. Dagmar Heller, Secretaria da Comissao de Fé e Constitui-


cáo do Conselho, explica:

"O calendario gregoriano está mais próximo da realidade astronó


mica do que o calendario juliano. Conforme o primeiro, o ano civil conta
26 segundos a mais do que a duragáo da Térra em torno do Sol, ao passo
que, segundo o calendario juliano, a diferenga é de 11 minutos e 14 se
gundos. Atualmente o calendario juliano acusa uma diferenga de 13 dias
em relagáo ao calendario gregoriano. No ano 2100, a diferenga será de
14 dias".

Ñas regióes em que cristáos de tradicáo ocidental e de tradicáo


oriental vivem lado a lado, e as vezes chegam a ser minoría, como no
Próximo Oriente, tal situacáo vem a ser especialmente dolorosa.
A Conferencia realizada em Alep (Siria) no mes de marco de 1997
sob os auspicios do Conselho Ecuménico das Igrejas e do Conselho das
Igrejas do Medio Oriente para caminhar no sentido de unificar a data de
Páscoa, foi, sem dúvida, um marco importante nos esforcos efetuados
para aplainar os obstáculos existentes. Reconheceram todos os partici
pantes que as diferencas nos métodos de cálculo da data de Páscoa nao
sao devidas a divergencias teológicas fundamentáis. Além disto, a Con
ferencia formulou diversas recomendacóes, a saber:

- continuaráo todos a fixar a data de Páscoa no domingo que se


segué á primeira Lúa cheia da primavera nórdica, segundo o método de
cálculo adotado pelas comunidades do Oriente e do Ocidente, método já
estipulado pelo Concilio de Nicéia I em 325;

- seráo calculados os dados astronómicos (o equinóxio da prima


vera nórdica e a Lúa cheia) conforme os meios científicos mais exatos
que possa haver;

- como base do cálculo tomar-se-á o meridiano de Jerusalém, lu


gar da morte e da ressurreicáo de Jesús.

Mais: a Conferencia de Alep exprimiu o desejo de que o novo mé


todo de cálculo seja por todos adotado no ano 2001: nesse ano, segundo
os dois calendarios (o juliano e o gregoriano), a data de Páscoa caira no
dia 15 de abril. Tal celebracáo de Páscoa na mesma data, declararam os
participantes, já nao deverá ser excecáo, mas sim a regra.

Do seu lado, a Oitava Assembléia do Conselho Ecuménico das


Igrejas reunida em Harare (Zimbabwe) no mes de dezembro de 1998

418
35

expressou em sua mensagem a esperarla de se chegar a urna data


comum de Páscoa:

"Regozijamo-nos pelo desenvoMmento da koinonia (comunháo)


entre crístáos em varias partes do mundo, e afirmamos, mais urna vez,
que Deus nos chamou para continuar a crescer nessa comunháo, a fim
de que se torne realmente visfvel. Alegramo-nos pelos sinais desse cres-
cimento, como, porexemplo, a esperanga de chegarmos a urna data úni
ca de Páscoa".
As primeiras reacoes das Comunidades Eclesiais foram favoráveis.
Ver¡f¡ca-se que muitas Comunidades e muitos grupos se dispuseram a
estudar seriamente a proposta de Alep. A Conferencia de Lambeth
(anglicana) e a Federacáo Luterana Mundial exortaram vivamente as suas
comunidades-membros a examinar as linhas da proposta. A Conferencia
das Igrejas Européias (KEK) fará a mesma coisa. Chegaram ao Secreta
riado de Fé e Constituido reacoes positivas também da parte de diver
sas Comunidades e Federacóes nacionais de Comunidades Eclesiais:
Batistas Igrejas üvres, Metodidas, Católicos Cristáos (Velhos-Catohcos),
Presbiterianos e Quakers. É de registrar outrossim a atitude positiva do
Pontificio Conselho para a Promocáo da Unidade dos Cristáos em Roma.
Todavia a reacáo do lado ortodoxo é mais diversificada. O Patriar
cado de Moscou se regozija pela iniciativa, mas, em virtude de dificulda-
des internas nao se vé em condicóes de abordar a questáo no momento
atual O Patriarcado Ecuménico de Istambul (Constantinopla) aprova a
iniciativa mas tem suas reservas no tocante á aplicacáo concreta da
mesma A Igreja Ortodoxa Grega mostra-se abertamente critica, ao pas-
so que a Igreja Ortodoxa Siria deseja ver a proposta de Alep tornar-se
realidade quanto antes.

No Secretariado de Fé e Constituicáo, Dagmar Heller preconiza a


paciencia assim como seu colega ortodoxo Peter Bouteneff; este, alias,
observou que o ciclo litúrgico ñas comunidades ortodoxas ja segué, ca e
lá também o calendario gregoriano. Acrescentou: "O debate entre ortodo
xos ainda nao chegou ao fim". De resto, tanto Dagmar Heller como Peter
Bouteneff julgam que o debate deverá continuar nos anos que se seguem.

Quanto ao lado ocidental, observa Dagmar Heller que "nao se trata


de impor um sistema ocidental as Comunidades Eclesiais Ortodoxas .
Em síntese, disse ela: "No Ocidente e no Próximo Oriente é preciso dar
pravas de mais paciencia, e, do lado ortodoxo, é necessário recorrer a
confianca".
Nova Conferencia sobre a data comum de Páscoa deverá ter lugar
no ano 2001. Terá a tarefa de avaliar os progressos efetuados ate entao,
419
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

e estabelecer as medidas adequadas a ser tomadas.

Segue-se a tabela de datacóes da festa de Páscoa para católicos,


ortodoxos e judeus entre 2001 e 2025:

Páscoa pelo Páscoa pelo Páscoa pelo 1a Lúa cheia Páscoa pelo
Ano cálculo calendario calendario da primavera calendario
astronómico gregoriano juliano nórdica judaico
2001 15 de abril 15 de abril 15 de abril 8 de abril 8 de abril

2002 31 de marco 31 de marco 5 de maio 28 de marco 28 de marco


2003 20 de abril 20 de abril 27 de abril 16 de abril 17 de abril

2004 11 de abril 11 de abril 11 de abril 5 de abril 6 de abril

2005 27 de marco 27 de marco 1 ° de maio 25 de marco 24 de abril

2006 16 de abril 16 de abril 23 de abril 13 de abril 13 de abril

2007 8 de abril 8 de abril 8 de abril 2 de abril 3 de abril

2008 23 de marco 23 de marco 27 de abril 21 de marco 20 de abril

2009 12 de abril 12 de abril 19 de abril 9 de abril 9 de abril


2010 4 de abril 4 de abril 4 de abril 30 de marco 30 de marco
2011 24 de abril 24 de abril 24 de abril 18 de abril 19 de abril

2012 8 de abril 8 de abril 15 de abril 6 de abril 7 de abril

2013 31 de marco 31 de marco 5 de maio 27 de marco 26 de marco

2014 20 de abril 20 de abril 20 de abril 15 de abril 15 de abril

2015 5 de abril 5 de abril 12 de abril 4 de abril 4 de abril

2016 27 de marco 27 de marco 1°de maio 24 de marco 23 de abril

2017 16 de abril 16 de abril 16 de abril 11 de abril 11 de abril


2018 1o de abril 1o de abril 8 de abril 31 de marco 31 de marco
2019 24 de marco 21 de abril 28 de abril 21 de marco . 20 de abril
2020 12 de abril 12 de abril 19 de abril 8 de abril 9 de abril

2021 4 de abril 4 de abril 2 de maio 28 de marco 28 de marco


2022 17 de abril 17 de abril 24 de abril 16 de abril 16 de abril
2023 9 de abril 9 de abril 16 de abril 6 de abril 6 de abril

2024 31 de marco 31 de marco 5 de maio 25 de marco 23 de abril

2025 20 de abril 20 de abril 20 de maio 13 de abril 13 de abril

420
Minoría ameagada:

A IGREJA CATÓLICA NA RÚSSIA ATUAL

Em síntese: Após a queda do regime comunista em 1989, a Igreja


Católica restabeleceu sua hierarquia na Rússia. Aos 23/5/99 foram orde
nados os tres primeiros sacerdotes e os tres primeiros diáconos
auctóctones no Seminario de Sao Petersburgo. A sobrevivencia desse
Seminario e da própria hierarquia católica na atual Rússia é problemáti
ca, pois os ocidentais nao sao bem vistos pelos russos, que os tém na
co'nta de capitalistas e colonizadores. Como quer que seja, com a ajuda
dos católicos de outros países, os católicos da Rússia procuram sobrevi-
ver e professara sua fé, dando um testemunho auténtico de fidelidade ao
Evangelho e de respeito as instituigoes. Procuram também, na medida
do possível, promover a unidade entre os cristáos, fomentando obras e
coloquios fraternos.
* * *

Após 1989, ano em que o comunismo deixou de governar a


U.R.S.S., a Igreja Católica se reorganizou na Rússia e ñas repúblicas
que cons'tituem a Federacáo oriunda do desmembramento da U.R.S.S..
Encontra dificuldades para sobreviven A fim de se compreender clara
mente a situacáo, proporemos o respectivo paño de fundo.
O Paño de Fundo

O povo russo se converteu ao Cristianismo no fim do sáculo X.


Todavía separou-se da Igreja Universal após o cisma bizantino declarado
por Miguel Cerulário em Constantinopla no ano de 1054. Faz parte assim
do bloco dito "cristáo ortodoxo"1, tendo á frente da Igreja o Patriarca de
Moscou com seu Sínodo. O Cristianismo Ortodoxo tornou-se, em épocas
passadas urna das notas que caracterizavam (e ainda caracterizam em
certa medida) o cidadáo russo, a tal ponto que Moscou se considerou a
"Terceira Roma" (a segunda terá sido Constantinopla, hoje Istambul). Em
conseqüéncia, o Catolicismo ocidental é minoría no territorio russo, de
vendo sua presenca principalmente a familias que, provenientes do es-
trangeiro, se domiciliaram na Rússia.

' Ortodoxo porque tais cristáos se mantiveram fiéis a reta fé durante os sáculos IV-
VIII, quando foram aprofundadas as principáis verdades da fé: a da Ssma. Tnndade
e a da Encamagáo.

421
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

Atualmente o ¡menso territorio russo é repartido em duas seccóes


de atividade pastoral da Igreja Católica: a Rússia da Europa e a Sibéria.
Cada qual destas seccóes tem um Bispo á sua frente, como também o
tem o Cazaquistáo. Desde 1998, estes dois Bispos tém cada qual um
auxiliar: Mons. Pickel, para a zona européia que fica ao Sul do rio Volga,
e Mons. Mazur para a Sibéria Oriental, que é o mais vasto territorio pas
toral do mundo. A Ucrania e a Bielo-rússia tem seus Bispos; outras repú
blicas federadas tém Administradores Apostólicos: assim a Georgia, a
Moldavia, e as repúblicas da Asia Central.

No momento presente contam-se cento e doze sacerdotes católi


cos para noventa e oito paróquias do territorio russo europeu; destas
paróquias somente cinqüenta tém um lugar adequado para o culto divino
e apenas vinte desses lugares de culto sao igrejas propriamente ditas.
A Rússia asiática nao tem mais do que cinqüenta sacerdotes. O
Cazaquistáo conta uns quarenta padres e igual número de lugares de
culto.

Pergunta-se agora: como sobrevive a Igreja Católica em térras rus-


sas, onde é minoritaria e desconsiderada?

A resposta nos é fomecida por um artigo do Pe. Pierre Dumoulin,


Vice-Reitor do Seminario católico de Sao Petersburgo, artigo que vai tra-
duzido ñas páginas subseqüentes e que aponta a luta e as esperancas
dos católicos na Rússia atual.

MINORÍA Á PROCURA DA UNIDADE


O Seminario onde ensino e do qual sou o Vice-Reitor, foi reaberto
em 1993 e transferido de Moscou para Sao Petersburgo em 1996. Pas-
sou por terríveis provacóes, particularmente a da fome, a do frió, a da
falta de espago e até a da prisáo para varios professores e alguns jovens,
nos primeiros tempos.

Aos 23 de maio deste ano (1999), por ocasiáo de Pentecostés,


celebraremos as primeiras ordenacóes sacerdotais de jovens formados
na Rússia: tres seráo ordenados presbíteros e tres diáconos. Atualmente
cinqüenta jovens moram no Seminario e vinte e sete outros ai estudam,
provenientes de Congregacóes Religiosas. Entre os seminaristas
diocesanos, contamos dois africanos e um peruano, que optaram por
servir á Igreja na Rússia. Temos tres candidatos para a Moldavia, tres
para a Georgia, dos quais um é de rito católico caldeu; oito se destinam á
Rússia da Asia e seis sao do Cazaquistáo. Entre os candidatos para a
Rússia européia, encontram-se varios bielo-russos, que nao querem es-
tudar em polonés no Seminario de Grodno. Os vinte professores, dos
422
39

quais seis sao educadores estáveis, pertencem a nacionalidades muito


diversas: sao italianos, belgas, argentinos, poloneses, eslovacos, cana-
denses, espanhóis, franceses...

Aos 24 de maio de 1998, foi consagrada a igreja catedral, que é a


do Seminario. Até o momento presente, só conseguimos recuperar o ter-
ceiro piso do edificio em que foram presos os últimos seminaristas e
sacerdotes em 1917, mas temos firme esperanca de conseguir o resto
no ano 2000. Em 1999 organizamos no Seminario varios Simposios aber-
tos ao público sobre Bioética, Doutrina Social, Liturgia, Direito Canónico.
Nao se apagam em urna só geracáo oitenta anos de comunismo
Como formador de jovens, trago certas inquietacóes no tocante ao
futuro da Igreja Católica. As conseqüéncias de oitenta anos de comunis
mo nao se apagam numa geracáo apenas; os jovens estáo profunda
mente marcados por mentalidade crítica e falta de senso de responsabi-
lidade. O celibato fora da vida monástica é algo de muito difícil a ser
realizado num país que nao conhece tal tradicáo. A solidáo dos sacerdo
tes é, por vezes, ¡mpressionante em virtude da falta de estruturas capa-
zes de os sustentar: poucos mosteiros, poucas reunióes, nenhuma for-
macáo... A falta de organizacáo e o individualismo caracterizam esse
territorio de missáo, dadas as gigantescas distancias que separam as
comunidades; alguns padres sao separados dos outros por milhares de
quilómetros e só encontram confrades algumas vezes por ano.

A oposicáo aos católicos é particularmente sensível, pois a Igreja


Romana é apresentada por alguns como um inimigo, um agente do Oci-
dente capitalista e colonizador. Muitas brochuras, homilías e jomáis fa-
lam dos católicos como sendo hereges e disseminam informacóes men
tirosas.

A nova lei sobre a liberdade de consciéncia tornou evidente urna


sensível hostilidade da hierarquia ortodoxa e do Parlamento á liberdade
religiosa. O recadastramento de todas as paróquias e organizares
eclesiais é um processo longo, exaustivo, que ameaca limitar considera-
velmente os direitos da Igreja. A lei mais recente, que limita a tres meses
o visto concedido aos sacerdotes estrangeiros, manifesta ainda mais essa
hostilidade em relacáo aos católicos, cujo clero é necessariamente es-
trangeiro, já que se requerem de seis a oito anos para preparar um minis
tro católico, ao passo que bastam, muitas vezes, alguns meses para pre
parar um ortodoxo. A radicalizacáo racionalista do Parlamento é sempre
mais acentuada e a propaganda de muitos líderes políticos é avessa aos
estrangeiros.

Além disto, a situacáo de crise económica leva o Governo a tomar

423
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

medidas protecionistas que dificultam a ajuda humanitaria; nao sabemos


por quanto tempo os católicos da Europa (principalmente os da Alema-
nha) teráo condicoes de nos auxiliar.

A fé frente a um tríplice desafio

Certo realismo político impóe-se: nao se apagam em dez anos tres


geracoes de deformacáo e contra-informacáo. É preciso ousar esperar e
agir sem querer resultados ¡mediatos, aparentemente perdendo tempo e
energía. Pois a fé do povo russo permanece profunda, mas é posta frente
a um tríplice desafio:

- cultural: a onda da maré ocidental vem carregada de publicida-


de, sexo, exaltacáo do dinheiro e do poder;

- intelectual: a religiáo ficou sendo afetiva, pois nao Ihe era possí-
vel desenvolver urna reflexáo teológica: ela nao está preparada para o
diálogo com o mundo contemporáneo e corre o risco de se fechar num
dogmatismo integrista;

- nacionalista: a Ortodoxia é um dos mais profundos esteios da


identidade russa. Pode-se recear que seja utilizada como suporte da aver-
sáo aos estrangeiros e do nacionalismo.

A Ortodoxia é a religiáo da Rússia? É o que nos perguntam as


vezes. Para responder a esta questáo, é preciso conhecer alguns fatos:

- o ateísmo do ambiente russo chega a 80% da populacáo;

- a Federacáo russa é constituida por urna multidáo de povos di


versos, dos quais varios nao tém cultura crista;

- o patrimonio cultural, artístico e teológico ortodoxo é ¡menso; pre


cisa de ser valorizado e protegido;

- o monaquismo russo representa urna potencialidade importante


para o futuro;

-a hierarquia ortodoxa goza de poder político; infelizmente ela muito


se comprometeu com as autoridades dos diversos partidos, também no
setor financeiro, tanto no passado como ainda recentemente. Nao se
pode esquecer que a maioria dos dirigentes ortodoxos foi nomeada sob
o regime comunista e com o beneplácito deste. Atualmente a Igreja Orto
doxa se apresenta como urna forca política, que pode colaborar e tam
bém pode exigir dos candidatos e dos Partidos subsidios de todo tipo.
O número de pessoas que se declaram ortodoxas tem baixado muito
rápidamente, segundo as sondagens realizadas após o surto dos primei-

424
41

ros anos de liberdade. Os ortodoxos tém poucas ¡nstituicóes de caridade


e de catequese, o que dá ocasiáo a que os católicos, promovendo as
suas instituicóes próprias, sejam acusados de proselitismo;
- o clero ortodoxo, dada a evidente necessidade de atender urgen
temente á deficiencia numérica, recebe insuficiente formacáo e receia o
diálogo; isto acontece mesmo entre os presbíteros que tém fé sincera.
Alguns desempenham simplesmente o papel de funcionarios do culto;
- mais de mil seitas atuam hoje em dia na Rússia;
- a presenca das comunidades protestantes tradicionais é fraca e
está principalmente ligada a grupos étnicos;
- a proporcáo de muculmanos está em constante aumento.

A Unidade dos Cristáos será possível?

Confessamos no Credo que a Igreja é UNA. Nao porque deva tor-


nar-se una, nao como se a unidade dependesse dos esforcos humanos
ou fosse urna meta a ser atingida. A Igreja é una por sua própria índole,
pois ela é unificada pela Trindade Santa e pelo Espirito de comunhao.
Ela é una, porque o amor e a verdade nela se encontram. Mas ela tende
a realizar de maneira visível o que ela já é misteriosamente. Viver a uni
dade é receber o dom do Amor e da Verdade.
O amor unifica, pois ele permite ver no outro urna pessoa e nao o
membro de urna organizacáo, irremediavelmente separado de mim por
sua confissáo religiosa. Antes de ser um protestante ou um católico, o
cristáo é um cristáo, um filho do mesmo Pai. Assim como o filho é filho
antes de ser estrábico ou miope, louro ou moreno ou... A verdade unifica,
pois ela é, antes do mais, urna atitude do espirito; ela implica o desejo e
o propósito de conformar a vida de cada um áquilo que cada um ere. A
verdade nao é tolerante, ela é compreensiva; ela nao se contenta com
dizer que 3 + 4 equivale a algo entre 5 e 10 nem com dizer que 3 + 4
valem mais do que 6, mas ela procura a exatidáo na escuta das objecoes
e na consideracáo dos dados objetivos da tradicáo. Podemos ler a pro
pósito belas páginas na encíclica Ut Unum Sint.
Mesmo que a Igreja Católica só represente urna ínfima parte da
populacáo e conste principalmente (nao, porém, únicamente) de cida-
dáos oriundos de minorías étnicas, o carisma da Igreja Católica e o de
ser a garantía da universalidade da Igreja. A liberdade de que goza o
sucessor de Pedro, incomoda aqueles que querem assujeitar a fe a polí
tica e ajuda a Igreja Ortodoxa a nao se deixar submergir pela ideología.
Frente aos ortodoxos abertos ao diálogo, toca-nos o papel de testemu-
nhas e de sustentáculo. Aceitamos toda forma de colaboracao para pos-

425
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

sibilitar á Igreja Ortodoxa que se desenvolva. Segundo a vontade do Va


ticano, seguimos a palavra de ordem: "Nao ao proselitismo"; eis por que
o rito oriental nao foi restabelecido entre nos. Cabe-nos também o papel
de formadores, papel que ultrapassa os limites do mundo católico, mos
trando que é preciso formar adequadamente sacerdotes e Ieigos para
que possam responder ás exigencias do mundo atual.

Empenhamo-nos também para que sejam abertos lugares de culto


onde estáo faltando: hospitais, aeroportos, portos marítimos...
A acáo caritativa dos católicos incita nossos irmaos a se mobilizar.
A Caritas alimenta mais de mil pessoas que estáo sem abrigo em Sao
Petersburgo; ela mantém um dispensario e um vestuario. Isto estimula
certos sacerdotes ortodoxos a preparar a ¡nauguracáo de outros centros
de atendimento sob a tutela das suas igrejas.

Em suma, tentamos promover o diálogo com membros de grupos


diversos, de origem crista, e convidamos os seminaristas a tratá-los sem-
pre com benevolencia.

É necessário crermos na forca do Espirito Santo; a unidade é um


dom de Deus; somente o Espirito faz a comunháo.

O que vem de Deus, nao pode morrer; o homem apenas pode re


tardar os acontecimentos. Deus nao abandonará seu povo, pois o núme
ro de mártires que derramaram seu sangue é muito grande. O movimen-
to de reforma de que Alexandre Men e seus discípulos foram os mais
célebres representantes, é combatido, perseguido hoje como ontem, mas
ele produz seus frutos paulatinamente e penetra imperceptivelmente as
novas geracóes. Os que estáo abertos á graca, entram no movimento de
comunháo que Deus suscita. A Igreja é una porque Cristo é uno. Nossas
divisoes humanas nao sao capazes de extinguir esta realidade.
A Virgem Ssma. anunciou em Fátima urna grande vitória, a vitória
do Coracáo Imaculado e, por conseguinte, a vitória da Igreja. É belo tra-
balhar para participar do seu triunfo no humilde servico de cada día.

(continuagáo da pág. 392)

materia primitiva as leis de sua evolugáo no plano da materia mesma (a


alma humana, sendo espiritual, deve provir diretamente de um ato cria
dor de Deus). O Pe. Teilhard de Chardin (f 1955) representa urna etapa
do processo de conciliagáo da fé com o evolucionismo, etapa ainda in
completa, que suscitou debates entre os pensadores católicos. Hoje em
día a Igreja aceita a evolugáo da materia, regida pelas leis do Criador,
ficando a alma humana reservada a origem por criagáo direta. - O livro
vem a ser um bom documentarlo sobre o problema em foco.

426
Como?

PADRES CASADOS NA REPÚBLICA TCHECA

Em síntese: O regime comunista que governou a Tchecoslováquia


após a segunda guerra mundial até 1989, perseguiu duramente a Igreja.
Eis por que um bispo local houve por bem conferir o presbiterato a ho-
mens casados, sem poder pedir a devida autorizagáo da Santa Sé. Es-
ses padres, que exerciam seu ministerio clandestinamente, tornaram-se
notorios após a queda do comunismo, dando ocasiáo a urna situacáo
inédita e surpreendente. A solugáo aplicada ao caso foi a criagáo de urna
diocese de rito oriental á qual tais sacerdotes foram incardinados (os
ritos orientáis, mesmo unidos a Roma, tém sacerdotes casados).
* * *

O regime comunista que governou a Tchecoslováquia após a se


gunda guerra mundial (1939-1945) até 1989, perseguiu duramente a Igreja
Católica Entre outros atos de represalia, restringiu o recrutamento do
clero dificultando as ordenacóes sacerdotais. Criou a Associacao dos
Padres Patrióticos, aliados ao Governo e, por isto, menos cerceados em
suas atividades, ao passo que os padres fiéis á Santa Sé e avessos ao
marxismo eram estritamente controlados; quem ousasse falar contra o
regime era severamente punido. Em 1968 a Uniáo Soviética invadiu a
Tchecoslováquia, suscitando mais problemas á Igreja. Foi por essa oca
siáo que os católicos criaram "A Igreja das Catacumbas" no país. O Sr.
Bispo de Brno D. Félix Davidek, que passara quatorze anos em cárceres
comunistas, resolveu ordenar secretamente alguns presbíteros para pre-
encher a lacuna sempre crescente de ministros do Senhor. Tais padres
durante o dia eram engenheiros, bibliotecarios, músicos além de se-
rem homens casados. A noite exerciam clandestinamente o seu ministe
rio sagrado, celebrando a S. Missa em casas de familia.
Entre outros, conta-se o caso do Sr. Jarmila, que se casou com a
Sta Hri Floran na cidade de Brno no mes de Janeiro de 1969; esposava
ela um técnico de televisáo. Todavía dois meses após o casamento seu
marido foi ordenado presbítero por D. Davidek, Bispo local; a cenmoma
ocorreu da maneira mais secreta possível, de modo que nem as tres
filhas foram posteriormente informadas a respeito. A esposa ajudava o
marido a organizar seus encontros litúrgicos; todavía, por mais que guar-
dasse o segredo, as meninas desde muito haviam suspeitado a realida-
de, quando foram claramente notificadas a respeito.
Tendo o comunismo cedido a um regime mais liberal nos países da
artiga Cortina de Ferro, veio á tona o fato de que na Tchecoslováquia havia
427
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

varios sacerdotes casados a exercer o ministerio. Colocou-se assim um pro


blema inédito para a Santa Sé, que insiste no celibato do clero. Verdade é
que D. Félix Davidek fora assaz perspicaz ao proceder á ordenacáo de tais
homens casados: incardinou-os no clero de rito oriental ucraniano, que reco-
nhece o ministerio de sacerdotes casados'; poderiam celebrar tanto a Litur
gia oriental quanto a romana. Os fiéis para os quais oficiavam a S. Missa
nao se ¡mportavam por sabé-los casados; a penuria de sacerdotes era tal
que o estado civil dos padres nao diminuía o fervor dos católicos locáis.
O problema foi sendo resolvido aos poucos. Em primeira instancia,
a Santa Sé pediu a tais padres que se abstivessem de celebrar a Liturgia
até que se descobrisse o alvitre certo no caso. Finalmente, após as devi
das investigacóes sobre a validade das ordenacóes conferidas, em 1997
foi criada na República Tcheca urna diocese de rito oriental, dotada de
clero casado: vinte sacerdotes outrora clandestinos se incardinaram nela,
com a faculdade de celebrar a S. Missa táo somente segundo a Liturgia'
oriental, embora estivessem frente a urna comunidade de rito romano; só
poderiam celebrar em cerimonial romano quando concelebrassem com
um sacerdote de rito romano. Atualmente já Ihes é concedido celebrar a
Liturgia romana, mesmo sem concelebrante. Refere-se entáo o caso do
Pe. Josef Javora, cujo filho Marcel, impressionado pelo testemunho de
seu pai, se tornou sacerdote de rito romano. Em tais condicóes podem
pai e filho concelebrar a S. Missa.

A situacao nao surpreende os católicos tchecos, que conhecem os


antecedentes e confiam nos seus padres, homens serios e experimenta
dos na resistencia heroica á perseguicáo.

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1 Distinguem-se "Familia Litúrgica" e "Rito".


"Familia Lirtúgica" sao as oracóes e as formas de celebracáo da Eucaristía: assim
existe a familia litúrgica romana, a mozarábica, a lionesa...
"Rito" diz mais: designa o conjunto de usos e normas culturáis, jurídicas, adminis
trativas... que costumam acompanhar determinada familia litúrgica. Assim os fiéis
católicos orientáis que celebram a liturgia ucraniana, tém seus costumes próprios
(casamentas dos clérigos, por exemplo); sao chamados "católicos de rito bizantino,
alexandrino, malabar..." O rito latino compreende diversas familias litúrgicas- a ro
mana, a mozarábica, a milanesa...

428
Para que viver?

"MINHA VIDA NAO TEM SENTIDO..."

Em síntese: O artigo que se segué, é a resposta a umjovem de 26


anos que pensa seriamente em suicidarse e só encontra paliativo no uso
da cerveia - Na verdade, todo homem precisa de saber por que e para
que vive- ora a experiencia ensina que todo ser humano tem a capacida-
de do Infinito e só no Infinito ou Absoluto encontra a satisfagao de seus
anseios. Esse Infinito é Deus, que "nos amou primeiro" (Uo 4, 19) e que
acompanha o homem em sua caminhada terrestre, mesmo quando tudo
parece perdido. A solugáo do problema proposto está em procurar al-
quém que Ihe fale claramente de Deus Pai revelado por Jesús Cristo. A
cerveia é má conselheira. que tem de ser deixada de lado sem demora.
Nao fuja o amigo de bons amigos, a comegar pelos pais. Um problema
compartilhado está ¡á meio-resolvido.
* * *

A revista PR recebeu um e-ma¡l cujo teor é muito importante e


merece ser divulgado com a respectiva resposta:
"Estou desanimado, com 26 anos de idade. Só pensó em por fim á
minha vida Afasto-me de meus pais, a quemjá comunique! meu desejo;
também fujo dos amigos. Tranque! a matrícula na Faculdade, sem o dizer
a meus pais. A única companheira que me atrai, é a cerveja; ela me ali
via mas creio que só por pouco tempo aínda. Que posso fazer? Nem
meus pais me entendem. Estou só, num drama ternvel".
RESPONDENDO AO AMIGO...

Caro amigo, com grande interesse dizemos-lhe o seguinte:


1) Em primeiro lugar, reconhecamos que a necessidade de saber o
sentido da vida é fundamental. Temos que saber por que e para que
vivemos. Sem isto nossa luta é desmotivada e perecemos.
2) Vocé perguntará: e como é que descobrirei o sentido da vida?
Parece um enigma. Há tanta gente dando cabecadas por ai - Respon-
do-lhe que só descobrimos o sentido da vida quando nos voltamos para
o além ou para o Infinito e Transcendental. Tudo o que vernos neste
mundo é pequeño demais para nos; fomos feitos para o Infinito e temos
o anseio do Infinito, ainda que seja latente e inconsciente. Por conse-
429
'PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999

guinte, procure aproximar-se de Deus e dos valores da fé pois é ai que


voce encontrará a razao para viver e lutar.

3) Dirá vocé: e como hei de me aproximar de Deus? Como O acha-


rei a Ele que é invisível? - Respondo: procure um sacerdote ou um ami
go firme na fe, alguém que tenha a experiencia do convivio com Deus e
que Ihe possa falar do Eterno com conhecimento de causa A funcáo do
padre é servir aos irmaos e fazer tudo para ajudá-los. Se nao encontrar
alguem ñas suas cercanías, disponha do ¡rmáo que Ihe escreve (fone-
021-291-7122). Use e abuse de quem o passa ajudar.
4) Digo-lhe aínda: nao se deixe dominar pela cerveja. Ela o tornará
dependente mórbido. Para se livrardela, nada melhor do que os Alcóolicos
Anónimos. Nao tenha vergonha de procurar um núcleo de A. A. Sao muito
acoihedores. O exemplo e o testemunho de uns dá coragem aos outros
Nao hesite; vá logo. Para nao ser tentado pela cerveja, procure ocupar
se ñas horas de beber: assista a um programa sadio de televisáo a urna
partida de futebol, a um filme educativo... Vocé tem que se ajudar a con
tornar o problema. Nao fique ocioso, á toa, pois, diz a S. Escritura "a
ociosidade é ¡nimiga da alma" (Eclo 33, 38s).

5) Faca um esforpo para voltar á Faculdade. Vocé terá urna ocupa-


pao metódica que Ihe fará muito bem. Vocé precisa de encontrar bons
colegas, bons amigos, com quem troque idéias e se distraía um pouco
Nao fuja de seus semelhantes bem orientados. Se vocé continuar fecha
do em si mesmo, o seu problema se avolumará, pois nao terá como se
diluir; sair de nossas quatro paredes é sempre salutar em tais casos.
6) Vocé diz que nao revelou aos seus pais o trancamento de matrí
cula. Nao é conveniente esconder-se a pais solícitos. Os pais geralmen-
te sao os maiores amigos que temos. Eles devem querer-lhe bem e esta-
rao dispostos a ajudá-lo.

Meu caro amigo, seu caso tem solupáo. Esteja esperancoso Deus
a ninguém abandona. Ore e pepa-Lhe luzes. Ele nao se esquece de vocé
Voce pode sair da fossa, caso faca esforpo para sacudir a inercia com a
grapa de Deus. Rezo por vocé e acompanho-o com muito carinho.

EXORCISMO
"Nao é lícito aos fiéis crístaos utilizar a fórmula de exorcismo
contra Satanás e os anjos apóstatas, contida no Rito que foi publi
cado por ordem do Sumo Pontífice Leáo XIII; muito menos Ihes é
licito aplicar o texto inteiro deste exorcismo. Os Srs. Bispos tratem
de admoestar os fiéis a propósito, desde que haja necessidade".
Congregapao para a Doutrina da Fé, 29/09/1985
430
Sim ou Nao?

A "PÍLULA DO DÍA SEGUINTE"

Em síntese: A Organizagáo Mundial da Saúde distribuiu a "pítula


do día seguinte", anticoncepcional e abortiva, as muiheres ameagadas
de estupro ou estupradas em Kosovo e ñas regióes ocupadas por solda
dos servios. O lato provocou calorosos debates, pois, em última analise,
equivale a aceitar o possível morticinio de numerosas criangas. A Moral
católica repele este procedimento, que alias se distingue do uso de anti
concepcional por parte de Religiosas na Bosnia e no Congo; os anticon-
cepcionais nao eram abortivos, mas tinham apenas a fungao de impedirá
ovulagáo em muiheres as quais tocava o direito de legítima defesa.
* * *

A Organiza9áo Mundial da Saúde, nos primeiros meses de 1999,


distribuiu as muiheres ameacadas de estupro ou estupradas nos Baleas
um kit portador da "pílula do dia seguinte" ou tetragynon. O fato provo
cou veementes debates, pois, ao lado dos que aceitaram tal procedimen
to, houve quem o condenasse em nome da defesa da vida de enancas
inocentes.

A seguir, proporemos o problema e o debate que provocou.

1. O Problema

Relata urna revista italiana datada de 24/4/99:


"Os atos de violencia derivados da guerra sao muito pavorosos.
Entre outros, há um tipo de violencia que fere, de modo especial as mu
iheres- o estupro sistemático. O Ministro británico do Exterior, o Sr. Robín
Cook declarou á imprensa internacional: 'As muiheres albanesasdo
Kosovo sao sistemáticamente violentadas pelas tropas de Slodoban
Milosevic Segundo as informagóes que continuam a chegar ate nos as
muiheres sao retiradas das respectivas familias e estupradas numa base
militar em Djacovica, peño da fronteira da Albania'.
Urna iovem de dezessete anos narrou a urna repórter do jornal La
Repubblica (10/4) que, sendo kosovar, conseguiu escapar do estupro
porque vestiu os trajes do seu pai pedreiro e sujou seu semblante o mais
possível com lama para parecer muito feia. 'Asjovens mais bonitas, con-
tou ela nao retornavam... Os soldados obrigavam-nas a descer do oni-
bus ou dos carros respectivos, arrancavam-lhes a roupa na presengade
todos e as arrastavam para campos retirados, onde as violentavam. Dis-
431
1! "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 448/1999
to resulta que, para as mulheres assim ameagadas, a morte parece pre-
fenvel. Na verdade, acontece que nao poucas optaram pelo suicidio".
Independentemente do que tem acontecido nos Baleas, a pílula do
día seguinte ou a "contracepeáo de urgencia" ou o estroprogestativo tem
sido lardada no mercado, onde é vendida por indicacáo médica- é um
sucedáneo do R. U. 486 (cf. PR 335/1990, pp. 177-181).
De que se trata propriamente?

2. A nova pílula: que é?

O tetragynon é um complexo de estrogénios e estroprogestativos


que, ingerido por via oral, atinge o sangue e causa total reviravolta no
delicado equilibrio hormonal da mulher; impede assim que seja prepara
da a mucosa do útero para acolher o embriáo eventualmente concebido;
este nao consegue implantar-se no endométrio modificado pelo fármaco
turbulento. Em conseqüéncia, deve-se dizer que se trata de uma técnica
abortiva; há de ser ingerida pela mulher dentro das 72 horas que se se-
guem á relacáo sexual.

A mulher pode fazer uso de tal pílula mesmo sem ter certeza de
estar grávida, admitindo cometer um eventual aborto.

Em defesa do tetragynon nao se pode alegar que a vida humana


so comeca dias após a concepeáo. Atualmente a ciencia nao hesita em
dizer que, logo após a fecundacáo do óvulo pelo espermatozoide, existe
uma nova criatura humana, cuja vida merece respeito como a de qual-
quer outro ser humano.

O recurso ao novo fármaco nao dispensa a mulher de sentir as


conseqüéncias psicológicas que os abortivos Ihe infligem; admitir que
possa estar matando o próprio filho é sempre profundamente traumatizante
para a mulher.

Verdade é que, no caso das mulheres kosovares, o drama por que


passaram sob a violencia dos soldados servios, parece muito mais pun
gente do que a possibilidade de estar tirando a vida de um inocente;
eram elas mesmas inocentes, que sofriam violencia. Como querque seja!
a Moral católica nao aceita o morticinio de uma criancinha nem mesmo
em tais circunstancias. O fim (a honra da mulher) nao justifica os meios
(o homicidio). Faz-se penoso dizé-lo, mas é questáo de lógica e coerén-
cia. A vida humana é sagrada; deve ser preservada mesmo ñas difíceis
contingencias da historia contemporánea.

(continua na p. 416)
432
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Enzo Bianchi, Giorgio Giurisato, Albert Vinnel. Edicáo do Mosteiro da Santa Cruz de
JuizdeFora, MG. 1999.160 páginas R$ 14,50.

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Waal. 1998. 165 páginas. Edicáo do Mosteiro da Santa Cruz de Juiz de Fora, MG.
(Sumario: Explicacáo. Prólogo da Regra de S. Bento. Um caminho de cura. O poder
do Paradoxo. Vivendo com as contradicóes. Vivendo comigo mesma. Vivendo com
os outros. Vivendo com o mundo. Juntos e separados. Dom e Graca. Deserto e feira.
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CIMBRA: 1998.137 páginas. Apresentacáo de Dom Ernesto Linka, OSB., Abade de
Sao Geraldo, Presidente da CIMBRA. Trecho da Apresentacáo:
"... Dada a proximidade do Jubileu do ano 2000, as Comunidades Monásticas da
Ordem de Sao Bento (OSB). Ordem Cisterciense (O. Cist.) e Ordem Cisterciense da
Estrita Observancia (Trapista, OCSO) reuniram-se para refletir sobre varios aspectos
'A Vida Monástica e o Terceiro Milenio: Desafios e Promessas1. O resultado do que
foi esse belo e rico mosaico da heterogénea Vida Monástica em sua dimensáo lati
no-americana. Deseja que todos os nossos leitores possam tirar muito proveito dele...".
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Pierre de Solesmes. Traduzido e adaptado para o Brasil pelos monges do Mosteiro
da Ressurreicáo. Mosteiro da Ressurreicáo, Edicóes. Prefacio da edicao brasileira
por Dom Joaquim de Arruda Zamith, OSB, Abade-Presidente da Congregacáo
Beneditina do Brasil. 1997. 423 páginas R$ 25,00.

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nesa Maronita (1828-1898) Beatificado em 5/12/1965 e Canonizado em 9/10/1977
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