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O Paradoxo do Corpo – Uma reflexão sobre José Gil.

“Não se sabe o que pode o corpo ou o que se pode deduzir da consideração única de sua
natureza.”1

Interessante notar os paralelos sugeridos pelo autor português José Gil no


tocante à presença do corpo e suas significações e especificidades. Em algumas áreas de
atividade onde o proponente, seja ele atleta, dançarino, ator ou artista plástico se
disponibiliza e disciplina seu próprio elemento físico para que este esteja a serviço de
uma situação ímpar.
Gil descreve situações estanques sob o qual o corpo torna-se protagonista e texto
principal de uma comunicação, quando descreve: “O espaço do corpo não é apenas
produzido pelos esportistas ou os artistas que utilizam o seu corpo. È uma realidade
muito geral, presente por toda parte e nasce a partir do momento em que há
investimento afetivo do corpo.” Sabemos que com relação aos afetos teremos que rever
Deleuze, porém, faz de forma muito simples e inteligível a relação do seu texto com a
questão dos afetos no referido autor quando reafirma que o corpo é movido por afecções
e que todos os corpos estão estimulados por esse impulso, tornando o corpo sem limites
e de caráter surpreendente e instigante.
Sempre curioso fazer levantamentos sobre os conflitos que nos levam a refletir
sobre a presença do corpo atuante, do corpo vivo e tentarmos especular quando
acontecem, o por que e que o tempo seja ele “natural ou não” provocam esse pedaço de
instante tão peculiar. Já que sabemos que não estamos de um tempo cronológico, mas
sim de um tempo criado por uma espécie de invólucro do corpo-anteparo.

1. Spinoza. Étique, livre III, 2sc [Ed.bras.: Baruch Espinosa. Ética, São Paulo:
Nova Cultural, 1991.]

1
Uma realidade nova se apresenta em função do tempo prolongado que esse
corpo atuante propõe e diante do espaço singular no qual ele vai atuar e sugerir, posto
que esse espaço torna-se muito próprio do tempo, quase que confundidos ou fundidos
um ao outro. Cria-se a fantasia do espaço sobre a ilusão do tempo.
Assim como um objeto manipulado ou conectado ao corpo se torna o
prolongamento dele mesmo, é como se fosse possível subverter o tempo-espaço real e
criar em torno dele mesmo um pedaço de tempo suspenso no ar pela força dominante
que o corpo e as proposições que surgem com ele e por ele fazem brotar nesse novo
mundo criado pelo tempo-espaço-corporal.
O alargamento e prolongamento do instante natural parecem condicionar a um
eterno devir de proposta não só de alargamento, assim como também dos limites de suas
condições e de sua atuação. A meu ver, essa nova proposição se coloca tanto a serviço
do cotidiano quanto de momentos que por assim dizer o corpo está inserido e assumido
como objeto e, ao mesmo tempo sujeito, artisticamente.
Essas características nos arremessaria ao eterno devir das coisas e do mundo em
movimento que alterna interior e exterior num ballét de ritornelos incansáveis, mas
dialeticamente não idênticos. Essa maneira de ver nos traz uma percepção de
irrepetibilidade desses instantes, por mais cientifizados ou psicanaliticamente
analisados, como em alguns casos. Ou seja, são passíveis de elaboração, criação e
reprodução, no entanto, aquela situação em que foi criado o tempo e espaço específicos
não poderão ser presenciados sob a mesma forma, pois a cada vez que for apresentado
terá seu momento único, determinante da sua especificação da captação do instante ao
qual pertence.
A intenção ou “energia” ou ainda o entusiasmo desprendido a favor dessas
ocasiões cria em si mesmo um modo de atuação do corpo onde ele se coloca em estado
diferenciado de ação.
Podemos então denominar ou reconhecer como artes plásticas um trabalho onde
o artista mistura movimentos reconhecidos da dança trazidos ao museu? Hoje em dia e
já há algum tempo, sim. Isso graças aos movimentos de vanguarda que desmistificaram
os estereótipos e formas e o elevaram a grau supremo até que se transformassem em
coisa nova, dando espaço a visões outrora inconcebíveis, como os happenings que mais
tarde desembocaram no que conhecemos hoje como performance.

2
“O corpo nu, o corpo vestido, as transformações que podem operar-se nele, são
exemplos das inúmeras possibilidades que se oferecem a partir do simples, do
imprevisto trabalho com o corpo. Porém, as performances e a body art particularizam o
corpo, da mesma forma que o arquiteto particulariza o espaço natural e o transforma em
espaço humano.“ 2

Esse diálogo peculiar e íntimo acaba por se estabelecer de forma tal onde o
corpo cria suas relações e entrelinhas subjetivas onde a palavra é suprimida por conta de
uma relação primordialmente e diametralmente análoga ao verbo, não deixando de
haver em oposição à palavra. A fala simbólica ou não do gesto. Quanto a isso diz Henri
Pierre Jeudy: “O corpo se torna colóquio de diferentes linguagens não-verbais, cujo
poder semântico não é mais sugestivo, mas particularmente ofensivo.”

O que dizer então do caráter de exibição nesses casos onde o artista se utiliza do
próprio corpo e dos conceitos e paradígmas criados ao longo do tempo com relação a
ele? Será sempre uma imposição narcísica como produto de investigação sobre si
mesmo ou forma de crítica ao mundo tendo em vista uma exacerbação de conceitos
morais estabelecidos?
Ou por outro lado, pode o corpo tornar-se reconhecido e destrinchado a ponto
de servir a todo e qualquer significado e que pode ele próprio tornar-se sinônimo dos
signos e representações existentes como num retorno primal a nosso mais antigo meio
de expressão? Esse ponto pode ter como base para essa defesa uma construção cultural
do nosso próprio corpo e sua nossa própria visão sobre ele e sobre os “outros” corpos
presentes no nosso cotidiano.

2. Glusberg, Jorge. “A arte da Performance”. São Paulo: Perspectiva, 2005.