Nadja

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,
André Breton
Nadja
Tradução
Ivo Barroso
Apresentação
Eliane R obert Moraes
P o ~ f á c i o
Annie Le Brun
COSACNAIFY
Breton diante da e . ~ / i n g e por Eliane Robert Moraes, 7
NADJA, 17
Apêndice
Híst6ría de um desastre por Annie Le Brun, 149
Panorama crítico, 157
Sugestões de leitura, 175
Breton diante da esfinge por Eliane Robert Moraes
Nada dos inóspitos rochedos de outrora, onde criaturas mons-
truosas ameaçavam solitários viajantes. Quando André Breton
publica Nadja, em 1928, os enigmas humanos já ecoam em novo
endereço há muito tempo. É nas cidades que eles repercutem,
quase sempre nos ouvidos de caminhantes entregues aos próprios
devaneios em meio ao burburinho da multidão.
Pelo menos desde meado do século XIX, as modernas capi-
tais européias se converteram em espaço privilegiado das grandes
interrogações metafisicas, acolhendo a inquietude dos espíritos
sensíveis que não cessam de explorar suas esquinas mais obscuras.
N essa cartografia, de referências a um só tempo concretas e ima-
ginárias, a cidade de Paris ocupa um lugar especial, sobretudo nos
escritos literários que não raro a envolvem em misteriosa aura.
Breton e seus amigos são herdeiros de toda uma geração de
autores oitocentistas - entre eles, Zola, Victor Hugo e Eugene
Sue - que vasculhava as ruas da capital francesa buscando vias
de acesso às regiões mais secretas da alma humana. Porém, os
"mistérios de Paris" que inspiram as incansáveis caminhadas do
grupo surreal pela cidade se encontram, antes de tudo, nos rotei-
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ros esboçados por Lautréamont, Huysmans e Nerval. Influências
declaradas do criador de Nadja, esses escritores se distinguem por
sondar os aspectos mais banais do dia--a-dia parisiense sob as pode-
rosas lentes da imaginação.
A afinidade com o autor dos Cantos de Maldoror passa pela
obsessão por passagens, becos e vielas que cortam o centro da ca-
pital, cujos acessos seu insólito personagem descobre por acaso, ao
perambular nas calçadas dos grandes bulevares. Além disso, o recur-
so sistemático a metáforas aquáticas nas referências de Lautréa-
mont à cidade também inspira o mentor do movimento, que se
vale delas com particular deleite. Na Paris falsamente artificial de
Huysmans, por sua vez, o que lhe atrai é o inventário minucioso
dos tesouros ocultos no cotidiano urbano. Percebendo aí uma
disposição de espírito que antecipa uma visada resolutamente
surrealista, Breton reconhece nele "maneiras tão iguais às minhas
de apreciar tudo quanto se nos apresenta".
Para além dos ecos de Lautréamont e Huysmans, o que pre-
valece em Nadja é a Paris onírica de Nerval. A começar pelo
itinerário escolhido, evocando locais de intensa significação para
o criador de Aurélia, a exemplo da Place Dauphine, que desperta
sentimentos igualmente ambíguos no narrador: "Cada vez que
estive lá, senti que me abandonava pouco a pouco o desejo de sair,
precisando argumentar comigo mesmo para escapar desse enlace
tão suave, tão agradável e insistente demais e, em última instância,
aflitivo".Ambigüidade que ecoa num trocadilho da personagem,
jogando com o nome da praça e a palavra dauphin [golfinho], o
animal com que os surrealistas identificavam o escritor num dos
jogos que o grupo praticava.
Ao divisar um elo secreto entre lugares e palavras, Breton
vai revelando não só a natureza do passeio surreal mas também o
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intento de um livro que pretende explorar os pontos de contato
entre a vida e o sonho. Para tanto, ele captura a paisagem citadina
com o mesmo olhar oblíquo de seus inspiradores, no empenho
de decifrar os signos urbanos como mensagens secretas que lhe
dizem respeito.
Assim, passando do plano real ao imaginário como quem
troca de calçada, o caminhante surrealista também se deixa levar
por forças incógnitas, alheias a seu entendimento: "Não sei por
que é para lá, de fato, que meus passos me levam, que vou para lá
quase sempre sem objetivo determinado, sem nada de decisivo a
não ser esse dado obscuro de saber que ali vai acontecer isto (?)".
Inquietação que sua parceira de errância esclarece numa fórmula
tão breve quanto categórica: "Mas não existe passo perdido".
A disponibilidade para os mistérios da cidade - que o surrealismo
herda do .fiâneur de Baudelaire e do poeta em état de surprise de
Apollinaire -, será decisiva para o aparecimento de uma tópica
central do movimento: a noção de "encontro fortuito". Central
também em Nadja, ela traduz um dos fundamentos da atividade
do grupo, dando origem à idéia de "acaso objetivo", que Breton
cria inspirado nas teses de Hegel em torno do "lugar geométrico
das coincidências". Na base de tal conceito está o desejo de con-
frontar o acaso e a necessidade, visando a investigar as ocorrên-
cias subterrâneas que precipitam os encontros significativos.
Acaso objetivo exemplar ocorre na calçada de uma das
grandes artérias parisienses, quando o autor vislumbra a des-
concertante figura de Nadja, com a qual vai empreender um
percurso iniciático tão intenso quanto transformador. O lugar
do encontro indica uma das diagonais que orientam a Paris dos
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surrealistas: a rua La Fayette - que Breton insiste em grafar como
Lafayette, instaurando uma geografia imaginária -, localizada em
uma região conhecida pelas ocupações de sua população femini-
na.Vale dizer, um bairro que se tornara popular por suas videntes
- tais como Mlle. Couesdon ou Mme. Thebes, célebres carto-
mantes da época, que acolhem as incertezas de uma geração de
artistas ávidos por descobrir os segredos do futuro -, ou por suas
prostitutas, cujos "olhos violeta" atraem mas também assustam o
escritor, que associa a cor à idéia de violação ou de violência.
Dificil imaginar paisagem mais adequada para reunir esses
dois caminhantes que um local destinado às práticas da adivi-
nhação e do erotismo, ambas suscitando o mesmo sentimento de
fascínio e medo que dá o tom do relato.Aliás, a relação do par se
sustenta o te1npo todo nesse ponto de togue entre a vidência e o
amor, abrindo ao .fiâneur surreal as portas de uma cidade mágica
e decididamente feminina. Nela, o autor vai cruzar com outras
mulheres improváveis que, a exemplo de sua heroína, antecipam
traços daquela mulher-vidente exaltada em L'Amour fou (1937) e
Arcane 17 (1945).
Pitonisa moderna por excelência, Nadja interpela Breton
com interrogações enigmáticas desde sua primeira aparição, tal
qual uma esfinge cosmopolita. Não surpreende, portanto, que
seja ela a orientar o labiríntico passeio do escritor pelas ruas de
Paris, à procura de uma resposta para o enigma que preside o
romance desde a primeira frase: "Quem sou?".
A figura da esfinge é recorrente neste livro, embora quase sempre
se apresente de forma cifrada, fazendo jus ao mito que a n.otabi-
lizou. Basta lembrar a insistência com que o autor indaga a pró-
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pria identidade, não raro por meio de enunciados obscuros. Basta
recordar ainda a alusão ao insólito Hotel Sphinx, onde a heroína
supostamente se hospedara ao chegar à capital - sem contar o
fato de que esse era também o nome de um bordel de luxo fre-
qüentado pelos parisienses de r926 .. . Some- se a isso a sugestão do
ser mitológico nas palavras e nos desenhos de Nadja, em franca
sintonia com o interesse que ele suscita na consciência surreal.
"Não sabíamDs nós, de longa data, que o enigma da esfinge
diz muito mais, e coisa bem distinta, do que parece dizer?" - a
questão formulada por Breton em Víe légendaire de l\!fax Ernst
(1942) resume tal interesse, confir mando sua determinação em
propor novas interpretações para os enigmas colocados pela per-
sonagem mítica que, por seu caráter sombrio, parece tramar laços
profundos com a sensibilidade moder113.A reinvenção do mons-
tro passa, antes de tudo, pela dessacralização das tradições que o
sustentam na qualidade de uma simbólica acabada: "Nós dispen-
samos os tesouros da imaginação. Figurar a esfinge como um
leão com cabeça de mulher pode ter sido poético outrora. Espe-
ro que unia verdadeira mitologia moderna estej a em formação"
- observava o autor desde Les Pas perdus (1924).
Convicção partilhada por vários membros do grupo, que
não poupam esforços para liber tar a criatura de suas formas
convencionais, rejeitando a simbólica fixada pelo modelo grego.
Contudo, o alvo dessa recusa não é o mito enquanto tal, mas o
falacioso "culto aos antigos'', que os surrealistas desprezam na
esperança de criar uma nova mitologia, contemporânea aos dile-
mas de seu tempo.
Paul Éluard, por exemplo, ao evocar o legendário monstro
numa tela de Picasso - "A massa enorme e escultural dessa mulher
em sua poltrona, a cabeça grande como a da Esfinge, os seios era-
II
vados no peito"-, esboça uma caracterização que apaga em defi-
nitivo as referências antigas: "O rosto de traços miúdos, a cabeleira
ondulada, a axila deliciosa, as costelas salientes, a camisa vaporosa,
a poltrona doce e confortável, o jornal cotidiano". Livre das refe-
rências tradicionais, a nova esfinge será encontrada nos locais mais
prosaicos da cidade, sempre em sintonia com a dinâmica transi-
tória da vida cosmopolita. Errante e provisória, ela vai ostentar
vários rostos para, então, revelar as múltiplas faces do enigma.
Entende-se por que, justo num livro em que a fotografia é tão
importante quanto o texto, não haja uma só imagem a identificar
os traços de sua heroína: portadora de uma interrogação, Nadja
não pode se confinar aos contornos de um rosto. Melhor dizen-
do, o que se mostra nela é precisamente o mistério, assim como
ocorre com "as esfinges desconhecidas", evocadas por Aragon em
O camponês de Paris (1926), "que interrompem o caminhante so-
nhador quando conseguem atrair sua distração meditativa, que
não lhe propõem questões mortais. Mas se souber adivinhá-las,
esse sábio que então as interroga terá diante de si, graças àqueles
monstros, seus próprios abismos para sondar de novo".
Não é de estranhar, portanto, que os dois amigos acabem su-
cumbindo à mesma aparição, como registrado em Les Pas perdus,
quando percorrem em vão um bairro de Paris à procura de uma
desconhecida, justificando sua peregrinação pelo fato de "não
poderem renunciar a conhecer a palavra do enigma". Intui-se
nessas passagens sentimento semelhante ao que Breton confiden-
cia quatro anos depois em Nadja, ao recordar "o apelo irresistível
que nos levou, a Aragon e a mim, a retornar aos mesmos pontos
onde nos havia aparecido aquela verdadeira esfinge sob a aparên-
cia de uma jovem encantadora, indo de urna calçada a outra, a
interrogar as pessoas que passavam".
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De fato, a trama sinuosa da narrativa, marcada pela peram-
bulação de seus protagonistas, repousa sob o signo de uma busca
incessante que jamais encontra termo. Tema recorrente em di-
versas obras do surrealismo, e onipresente neste livro, que con-
clui a nostálgica procura ao constatar "a falta de resultados dessa
perseguição, que o tempo decorrido teria tornado sem esperança
- foi a isso que Nadja chegou de imediato".
Curioso notar que a aparição da personagem na vida do
escritor, de certa forma motivada pela interrogação sobre si ~ e s ­
mo, acaba por lançá-lo na incógnita da alteridade. É ele mesmo
a admiti-lo, no exato momento em que depara a esfinge da rua
Lafayette, ao substituir sua questão inicial por "uma pergunta que
r e s u m ~ e todas as demais": "uma pergunta", diz o autor, "que só
eu faria, sem dúvida, mas que, pelo menos uma vez, encontrou
resposta à altura: 'Quem é você?"'.
"Eu sou a alma errante" - responde Nadja sem hesitar, oferecendo
a Breton um espelho de múltiplas faces, que vai desmentir qual-
quer promessa de unidade do "eu" para lançar a indagação inicial
do romance ao seu ponto de fuga. Daí que, logo após o encontro
capital, o próprio autor vá recolocar sua dúvida em outros termos,
olhando para si como um estrangeiro. Prova disso está na deter-
minação de repensar seu lugar no Universo a partir dos outros,
perguntando-se: " O que, entre todos os demais, vim fazer neste
mundo, e qual é a mensagem ímpar de que sou portador, a ponto
de só a minha cabeça poder responder por seu destino?" .
Indiferente aos problemas da identidade, a resposta da jo-
vem esfinge lhe aponta um caminho oposto ao de Édipo, uma
vez que o herói fundante de nossa cultura representa a metáfora
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do homem que toma consciência de si , realizando os desígnios
da célebre inscrição grega "conhece- te a ti mesmo". Ao con-
trário, a irrestri ta adesão de Nadja à er rância supõe urna per-
sonalidade à mercê do transitório, e capaz de desdobrar-se em
diversos "outros" .
Desnecessário lembrar que a recusa do princípio de identi-
dade ' uma tópica central do movimento, explorada em vários
sentidos pelo grupo. Breton interpreta tais desdobramentos como
fatores determinantes na formação espir itual dos poetas moder-
nos, aos quais se devem as mudanças capitais da imaginação euro-
péia. Considerados "surrealistas avant la lettre" , eles teriam sido os
primeiros a expressar urna dúvida radical a respeito da afirmação
"Eu sou" , como se evidencia tanto no "je est un autre" de Ivm-
baud quanto, para nos limitarmos apenas a duas referências citadas,
nas transfi gurações da protagonista de Aurélia de Nerval ou nas
ver tiginosas mutações do Maldoror de Lautréamont.
Ora, a grande atração que a figura equívoca de N adj a vai
exercer sobre o mentor do surrealismo deve- se sobretudo ao fato
de ela manifestar, no plano existencial, essa mesma inquietação
que, desde o século xrx , vai alterar em definitivo a consciência
da identidade. Instável por definição, a jovem ostenta um esta-
do mental vago e ambivalente, como se abrigasse den tro de si
aquele "hóspede desconhecido" de Les Vases communicants (1932) ,
ou a própria "teste111unha assombrada" que, no livro, descreve o
suj eito surpreendido consigo n1esmo.
Importa sublinhar que, ao deslocamen to fisi co dos per-
sonagens, marcado pela desorien tação e pela disponibilidade
para a surpresa, corresponde um deslocamento mental de se-
melhante porte e intensidade. Ao trajeto errante, uma alma
igualmente er rante.
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Assim, entre o o trajeto do caminhante surreal e o curso de
seu pensamento estabelecem-se nexos inesperados,já que ambos
recusam as rotas conhecidas em função da exploração do des-
conhecido. A perambulação pelas ruas de Paris supõe, portanto,
o desejo de soltar as rédeas do espírito, de abandonar-se a seus
ritmos incertos e hesitantes, de acolher enfim sua própria possi-
bilidade de errar. Exploração arriscada, que prescinde da orien-
tação de mapas e bússolas - mas que, por isso mesmo, conduz à
descoberta da poesia. Aos olhos de Breton, Nadja representa a
própria encarnação dessa aventura sensível.
"A beleza será CONVULSIVA, ou não será" - afirma o autor no
final do romance, numa expressão que associa, em definitivo, sua
singular personagem ao paradigma fundamental da poética sur-
realista. Em L'Arnourfou, ele retornaria ao tema, para reiterar seu
mote central, confirmando a primazia da beleza convulsiva como
fonte da criação artística. A máxima de Breton traduzia o senti-
mento estético de todo um grupo de escritores e artistas que, ao
dar as costas às exigências da identidade, se entregava com paixão
ao projeto de duvidar das formas e de deslocar continuamente
os sistemas de referência.
Mais tarde, inspirado no desfecho de Nadja, seria Max Ernst
a reconhecer nessa concepção de beleza uma notável ampliação
da consciência: "A identidade será convulsiva, ou não será". De
fato, no decorrer dos quase dez anos que separam as duas frases,
o surrealismo deixou de ser uma simples carta de princípios para
realizar uma das grandes subversões poéticas da modernidade. E
a desconcertante Nadja, encontrada ao acaso numa calçada de
Paris, deixou de ser apenas uma figura- chave da mitologia pessoal
de Breton para se tornar ela mesma um mito, a ecoar enigmas do
igualmente desconcer tante século xx.
15
Nadja
Antes e tudo
(telegrama retido)
Se, ao longo deste livro, o simples ato de escrever, para não men-
cionar o de publicar qualquer espécie de livro,já era classificado
na categoria das vaidades, que seria de pensar da complacência
do autor em querer, tantos anos depois, melhorar pelo menos
um pouco a sua forma! Contudo convém distinguir, para o bem ou
para o mal neste caso, entre o que se refere ao registro afetivo e se
prende exclusivamente a ele - o que é, sem dúvida, o essencial -,
e o que representa, no dia- a- dia, tão impessoal quanto possível, a
inter- relação dos mínimos acontecimentos numa forma determi-
nada (" ' euille de charmille", de Lequier, sempre voltamos a ti!).
Se é inevitável que a tentativa de retocar à distância a expressão
de um estado ern.ocional sem que se possa revivê-lo no presente,
resulte em dissonância e fr ustração Qá o vimos bastante em Valéry,
quando um insaciável anseio <le rigor o levou a rever seus "ver-
sos anti gos"), talvez não seja interdito querer obter um pouco
mais de adequação de termos e também de fl uidez.
Talvez convenha de modo especial a Nadja, em razão de um
dos dois principais imperativos "antiliterários" aos quais esta obra
obedece: assim corno a abundante ilustração fotográfica, que
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objetiva eliminar qualquer descrição - acusada de inanição no
Manifesto do surrealismo-, o tom adotado para a narrativa, que se
calca no da observação médica, principalmente neuropsiquiátrica,
em que a tendência é registrar tudo o que o exame e o interroga-
tório podem fornecer, sem a mínima preocupação com o estilo.
Vai-se observar, ao longo da leitura, que esta resolução, bus-
cando em nada alterar o documento "tomado ao vivo", se aplica
não apenas à pessoa de Nadja, mas ainda a terceiros, bem como
a mim mesmo. O despojamento voluntário de um escrito dessa
natureza contribui sem dúvida para a renovação de sua audiência,
ao deslocar seu ponto de fuga para além dos limites habituais.
Subjetividade e objetividade travam, ao longo de uma vida
humana, uma série de combates, nos quais a primeira costuma
sair-se inteiramente mal. Ao cabo de trinta e cinco anos (a fuli-
gem não é brincadeira) , os leves cuidados com que resolvo cer-
car a segunda testemunham apenas certa preocupação quanto à
melhor forma de expressar, que só a esta dizem respeito, de vez
que o maior valor da outra - que continua a me importar muito
mais - reside precisamente na carta de amor crivada de erros e
nos "livros eróticos sem ortografia".
Natal de 1962
20
Quem sou? Se excepcionalmente recorresse a um adágio, tudo
não se resumiria em saber "com guem ando"? Devo confessar
que essa expressão me perturba um pouco, pois tende a estabele-
cer entre mim e certos seres relações mais singulares, menos evi-
táveis, mais perturbadoras do que poderia imaginar. Diz muito
ínais do que quer dizer, me faz desempenhar em vida o papel
de um fantasma, alude evidentemente ao gue eu deveria deixar
de ser para ser quem sou. Tomando-a de forma um tanto abu-
siva nesta acepção, dá-me a entender gue tudo o que considero
manifestações objetivas de minha existência, manifestações mais
ou menos deliberadas, não passa, nos limites desta vida, de uma
atividade cujo verdadeiro campo permanece inteiramente des-
conhecido para mim. A representação gue tenho do "fantasma",
com o que ele apresenta de convencional, tanto em seu aspecto
como em sua cega submissão a certas contingências de tempo
e de lugar, vale, antes de mais nada, para mim, como a imagem
acabada de mn tormento gue pode ser eterno. É possível que
minha vida não passe de uma imagem desse tipo, e que esteja
condenado a voltar sobre meus passos, pensando, ao contrário,
21
que avanço, tentando conhecer o que d fato deveria r conhe-
cer, aprender uma escassa parceb cio que esqueci. Essa visão de
mim mesmo só me parece falsa na medida em que me pressupõe
em relação a mim mesmo, situando de modo arbitrário, num
plano de anteri oridade, uma figura definida do meu pensamento,
que n5o tem nenhum motivo para se coadunar con1 o tempo,
e impl icando concomitantemente urna idéia de perda irrepará-
vel, de penitência ou queda, cuja falta de funda mento moral não
poderia, no 111 u entender, admitir qualquer discussão. O impor-
tante é que as atitudes particulares que descubro lentamente aqui
no mundo não me distraem em nada da busca de uma atitude
geral, que me seria própria, e não concedida a mim. Além de
toda a espécie de singularidades que reconheço em mim, de afi-
nidades que sinto, de atrações que sofro, de acontecimentos que
me ocorram e ocorram somente a mim, além da quantidade
de movimentos que me vejo fazer, de emoções que somente
eu experimento, esforço- me, em relação aos outros hon1ens, por
saber em que consiste, ou pelo menos a que se dev , essa nlinha
diferenciação. Não será à medida exata que eu tomar consciência
dessa cliferenciação que poderei ficar sabendo o que, entre todos
os demais, vim fazer neste mundo, e qual a mensag m ímpar de
que sou portador, a ponto de só a minha cabeça poder responder
por seu destino?
Com base nessas reflexões é que gostaria de ver a crítica, renun-
ciando, é certo, às suas prerrogativas mais caras, mas propondo- se,
para tudo abarcar, um objetivo menos inútil que o da revisão
puramente mecânica das idéias, limitar-se a incursões eruditas no
que supõe ser o mais interdito de todos os domínios, ou seja, nas
22
exterioridades da obra, ali onde a pessoa do autor, exposta aos
fatos banais da vida cotidiana, se expressa com toda a indepen-
dência, não raro de maneira muito particular. Faz lembrar uma
história: Victor Hugo, já no fim da vida, ao fazer com Juliette
Drouet, pela milésima vez, o mesmo passeio, só interrompia sua
meditação silenciosa quando passavam diante de uma proprie-
dade cujo acesso se fazia por meio de duas portas, uma grande,
outra pequena, quando então, para indicar a porta grande a
Juliette, dizia: "Porta dos cavaleiros, rnadame", e ouvi-la, a mostrar
a pequena, responder: "Porta dos pedestres, monsieur"; depois, um
pouco mais além, diante de duas árvores que entrelaçavam os
ramos, tornar a dizer: "Filêmon e Báucis", sabendo que Juliette
não responderia, e a garantia gue nos dão de que essa pungente
cerimônia se repetiu cotidianamente, durante anos, como é que
o melhor estudo possível da obra de Hugo iria nos dar a este
ponto a inteligência e a espantosa sensação do que ele era, do
que ele é? Essas duas portas são como o espelho de sua força
e o de sua fragilidade, não se sabendo qual o de sua pequenez,
qual o de sua grandeza. E de que adiantaria todo o gênio do
mundo se não admitisse em si a adorável correção do amor, que
se sustém por inteiro na réplica de Juliette? O comentarista mais
sutil e mais entusiasta da obra de Hugo jamais me proporcionará
algo que valha esse supremo sentido de proporção. Como ficaria
contente de possuir sobre os grandes homens que admiro um
documento pessoal desse valor. À falta deles, poderia me conten-
tar com documentos de menor valor e pouco capazes de bastar
por si mesmos do ponto de vista afetivo. Não sou dos que cul-
tuam Flaubert e, no entanto, se me garantem que, segundo sua
própria afirmativa, ele quis, com Salammbô, apenas "dar a impres-
são do amarelo" e, com Madame Bovary, apenas "fazer algo que
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tivesse a cor do mofo daqueles cantos onde nascem tatuzinhos",
pouco se importando com o resto, preocupações assim, acima de
tudo extraliterárias, me predispõem a seu favor. A luz magrúfica
dos quadros de Courbet para mim é a da Place Vendôme, no
momento em que a coluna caiu. Hoje, se um homem como
De Chirico consentisse em revelar integralmente e, desnecessá-
rio dizer, sem arte, penetrando nos mais ínfimos, bem como nos
mais inquietantes detalhes, tudo o que o fez agir no passado, que
grande passo não teria feito avançar a exegese! Sem ele, ou melhor,
a despeito dele, apenas por meio de suas telas daquela época e de
um caderno manuscrito que tenho em mãos, só conseguiríamos
reconstituir de maneira imperfeita o que foi seu universo até
1917. É bem lamentável não se poder preencher essa lacuna, não
se poder abarcar plenamente tudo o que, em tal universo, vai de
encontro à ordem prevista, elabora uma nova escala de valores.
Chirico reconheceu então que só podia pintar surpreso (surpreso
antes) por certas disposições de objetos, e que todo o enigma da
revelação para ele se resumia nesta palavra: surpreso. É verdade
que a obra daí decorrente permanecia "ligada por estreitos laços
ao que provocara sua criação", mas sem se parecer com o motivo
a não ser "da estranha forma como dois irmãos se parecem, ou
antes como a imagem em sonho de determinada pessoa compa-
rada à pessoa real. É, e ao mesmo tempo não é, a mesma pessoa;
uma ligeira e misteriosa transfiguração se observa nas feições".
Aquém dessas disposições de objetos que apresentaram para ele
uma flagrância particular, ainda seria o caso de deter a atenção
crítica sobre esses próprios objetos e procurar o motivo por que,
em tão pequeno número, eles é que foram chamados a se dis-
por dessa forma. Nada poderemos dizer de Chirico se não nos
dermos conta de suas opiniões mais subjetivas sobre a alcachofra,
24.
a luva, o bolo seco ou o carretel. Pena não podermos, em seme-
lhante matéria, contar com sua colaboração!*
No que me diz respeito, mais importantes ainda que o encon-
tro de certas disposições de coisas para o espírito, me parecem as
disposições de um espírito em relação a certas coisas, duas espé-
cies de disposições que regem por si mesmas todas as formas da
sensibilidade. Assim é que vejo em Huysmans, no Huysmans de
En rade e de Là-bas, maneiras tão iguais às minhas de apreciar
tudo quanto se nos apresenta, de escolher com a parcialidade
do desespero entre o que é, g_ue, apesar do meu grande desgosto
de não tê-lo conhecido senão por sua obra, ele não deixa de
ser talvez o menos estranho de meus arrligos. Não foi ele quem,
mais que qualquer outro, fez de tudo para levar ao extremo essa
discrimjnação necessári a, vital, entre o anel, de aparência frágil,
que pode vir ao nosso auxílio, e o aparelho vertiginoso das for-
ças que conspiram para nos fazer ir a pique? Foi ele quem me
comunicou esse tédio vibrante que lhe causavam quase todos os
espetáculos; ninguém antes dele soube, se não me fazer assistir
a esse grande despertar do maquinal no terreno devastado das
possibilidades conscientes, pelo menos me convencer humana-
mente de sua absoluta fatalidade, e da inutilidade de procurar
nele escapatórias para mim mesmo. Que satisfação vejo nele em
me informar, sem se preocupar em produzir efeito, sobre tudo
o que o afeta, de que se ocupa, em suas horas de maior angústia,
no exterior de sua angústia, de não, como a maioria dos poe-
tas, "cantar" absurdamente essa angústia, mas de enumerar com
paciência, na sombra, as mínimas razões completamente involun-
* Pouco tempo depois, Chirico iria, em grande parte, atender a esse desejo (cf.
Hebdomeros, éd. du Carrefour, Paris, 1929). [N. A., r962.J
25
tárias que ainda encontra para ser, e ser, não sabe bem por quê,
aquele que fala! Ele também é objeto de uma dessas solicitações
perpétuas que parecem vir de fora e nos imobilizam por alguns
instantes diante de um desses arranjos fortuitos, de caráter mais
ou menos novo, cujo segredo parece que encontraríamos em nós
mesmos, se nos indagássemos devidamente. Como o distingo, é
necessário dizer, de todos os empíricos do romance, que pre-
tendem pôr em cena personagens distintos deles mesmos e os
exibem fisicamente, moralmente, à sua maneira, por necessidade
de alguma causa que se prefere ignorar. De um personagem real,
do qual acham ter algum conhecimento, fazem dois persona-
gens de sua história; de dois, sem maiores dificuldades, fazem
um. E as pessoas se dão o trabalho de discutir! Alguém sugeriu
a um autor conhecido meu, a propósito de uma obra sua que ia
ser lançada e cuja heroína podia ser perfeitamente reconhecida,
que pelo menos mudasse a cor dos cabelos dela. Loura, ela teria
a possibilidade, ao que parece, de não trair uma mulher morena.
Pois bem, não acho isso pueril, acho escandaloso. Persisto em
reclamar os nomes, a só me interessar pelos livros escancarados,
e dos quais não temos que procurar a chave. Por sorte os dias da
literatura psicológica com fabulação romanesca estão contados.
Estou certo de que o golpe que a derrubou de vez terá sido dado
por Huysmans. De minha parte, continuarei a habitar minha casa
de vidro, de onde se pode ver a todo instante quem vem me
visitar, onde tudo o que está pendurado no teto ou nas paredes
se sustém como que por encanto, onde repouso à noite, sobre
um leito de vidro com lençóis de vidro, onde quem eu sou me
aparecerá cedo ou tarde, gravado à diamante. É verdade, nada
me subjuga mais do que o desaparecimento total de Lautréa-
mont oculto por trás de sua obra, e tenho sempre presente no
26
espírito seu inexorável "Tiques, tiques e tiques" . Mas existe para
mim algo de sobrenatural nas circunstâncias de um apagamento
humano tão completo. Afirmá- lo seria demasiado vão, e eu me
persuado faciln1ente de que essa ambição, por parte daqueles que
se entrincheiram nela, só t stemunha algo pouco honroso.
Tenho a intenção de narrar, à margem do relato que vou empreen-
der, apenas os episódios marcantes de minha vida tal como posso con-
cebê-la fora de seu plano ou seja, na própria medida em que
ela está confiada aos acasos, dos menores aos maiores, e, refogando
a idéia comum que dele faço, introduzir- me num mundo como
que proibi do, que é ô das aproximações repentinas, das petrifi-
cantes coincidências, dos reflexos que vencem qualquer outro
impulso mental, de acordes batidos como no piano, de clarões que
fariam ver, mas ver de fato, se não fo sem ainda mais rápidos
que os demais. Trata- se de fatos com um valor intrínseco pouco
verificável, sem dúvida, mas que, por seu caráter absolutamente
inesperado, violentamente incidental, e pelo gênero de associações
de idéias suspeitas que despertam, são um modo de nos fazer pas-
sar das filandras à teia de aranha, ou seja, ao que seria a coisa mais
cintilante e graciosa do mundo, não estivesse a aranha no canto,
ou ali por perto; trata- se de fatos que, ainda que sejam simples-
mente constatados, a cada vez apresentam todas as aparências de
um sinal, sem que se possa dizer ao certo de que sinal; que fazem
com que, em plena solidão, eu descubra cumpli cidades inverossímeis,
que me convencem de minha ilusão toda vez que acredito estar
sozinho ao leme do navio. Seria preciso hierarquizar esses fatos, do
mais simples ao mais complexo, a partir do movimento especial,
indefinível, que a visão de objetos muito raros nos provoca, ou
27
nossa chegada em tal ou qual lugar, acompanhados da sensação
muito nítida de que para nós alguma coisa de grave, de essencial,
depende disso, até a ausência completa de paz, provocada por cer-
tos encadeamentos, certos concursos de circunstâncias que ultra-
passam em muito o nosso entendimento, e que só admitem nosso
retorno a uma atividade racional quando, na maioria dos casos,
apelamos para o instinto de conservação. Ser ia possível estabelecer
uma infinidade de intermediários entre esses fatos-escorregões e
esses fatos-precipícios. Entre esses fatos, dos quais não chego a ser,
para mim mesmo, mais do que a testemunha assombrada, e outros,
dos quais me orgulho discernir as circunstâncias e, de certo modo,
presumir as conseqüências, há talvez a mesma distância que vai de
uma dessas afirmações, ou de um desses conjuntos de afirmações
que constituem a frase ou o texto "automático", à afirmação ou
ao conjunto de afirmações que, para o mesmo observador, cons-
tituem a frase ou o texto cujos termos foram todos maduramente
refletidos e pesados por ele. Sua responsabilidade não lhe parece,
por assim dizer, comprometida no primeiro caso; mas compro-
metida no segundo. Ele está, em compensação, infinitamente mais
surpreso, mais fascinado pelo que acontece lá do que pelo que
acontece aqui. Sente-se mais altivo, o que não deixa de ser singular,
acha-se mais livre. O mesmo acontece com certas sensações eleti-
vas de que falei, e cuja parte de incomunicabilidade é ela própria
uma fonte de prazeres inigualáveis.
Não se espere de mim a prestação de contas do que me foi dado
experimentar nesse domínio.Vou limitar-me aqui a lembrar, sem
esforços, de fatos que, independentemente de qualquer iniciativa
de minha parte, já ocorreram comigo, e que me clã.o, por vias
insuspeitáveis, a medida da graça e da desgraça particulares de que
sou objeto; deles falarei sem ordem preestabelecida e conforme o
capricho da hora que trouxer à tona o que vier à tona.
Vou tomar como ponto de partida o Hôtel des Grands Hom-
mes, na Place du Panthéon, onde morava por volta de 1918, e
como etapa o Manoir d'Ango, em Varengeville-sur-Mer, onde
me encontro, absolutamente o mesmo, em agosto de 1927, o
Manoir d'Ango, onde puseram à minha disposição, para não ser
incomodado, uma cabana coberta pelo mato, na orla do bosque,
de onde eu poderia, enquanto me ocupasse, à minha vontade, de
meus afazeres, também caçar o bufo-real. (Acaso poderia ser
de outra forma,já que eu queria escrever Nadja?) Pouco importa
que, aqui ou ali, um erro ou omissão mínima, e até mesmo
alguma confusão ou um esquecimento sincero lancem sombra
sobre o que estou contando, sobre o que, no conjunto, não esta-
ria sujeito a confirmação. Gostaria, por fim, que não se levassem
tais acidentes do pensamento à sua injusta proporção de notícias
de jornal, e que se digo, por exemplo, que em Paris a estátua de
Étienne Dolet, na Place Maubert, sempre me atraiu e ao mesmo
tempo me causou o mais insuportável mal-estar, não se vá dedu-
zir daí imediatamente que eu deva, em tudo e por tudo, ser jul-
gado pela psicanálise, método que aprecio e que penso não visar
a nada menos que a expulsar o homem de si mesmo, e da qual
espero mais do que as meras funções de oficial de justiça. Além
disso, estou certo de que ela não está em condições de enfrentar
tais fenômenos, assim como, a despeito de seus grandes méritos,
j á é lhe fazer honras demais admitir que esgote o problema do
sonho ou que não ocasione simplesmente novas falhas de atos a
29
Vou tomar como ponto de partida o Hôtel des Grands Hommes ... (p. 29)
O Manoir d'Ango, o pombal ... (p. 29)
Se digo, por exemplo, que em Paris a estátua de Étienne Dolet,
na Place Ma11bert, sempre me atraiu e ao mesmo tempo me causou
um mal-estar insuportá11el .. . (p. 29)
partir de sua explicação dos atos falhos. Chego a isso por minha
própria experiência, ao que é para mim, sobre mim mesmo, um
assunto apenas intermitente, de meditações e devaneios.
No dia da primeira representação de Couleur du ternps, de Apolli-
naire, no Conservatório Renée Maubel, enquanto eu conversava
no balcão com Picasso durante o intervalo, um jovem se aproxima
de mim, balbucia algumas palavras e por fim me dá a entender
que me havia tomado por um de seus amigos, dado como morto
durante a guerra. A conversa terminou aí. Pouco tempo depois,
por intermédio de Jean Paulhan, passei a me corresponder com
Paul Éluard, sem que um tivesse a menor idéia da aparência fisica
do outro. Por ocasião de uma licença, Éluard veio me visitar: tinha
sido ele quem se aproximara de mim na Couleur du temps.
As palavras BOIS-CHARBONs,* que se destacam na última página de
Champs magnhiques, me permitiram, num domingo em que passeava
com Soupault, exercer um inusitado talento para a prospecção de
todas as lojas por elas designadas. Creio que podia dizer, em qualquer
rua por onde fôssemos, a que altura, à direita ou à esquerda, essas
lojas surgiriam. E isso sempre se confirmava. Eu era avisado, guiado,
não pela imagem alucinatória das palavras em questão, mas sim pela
imagem das pequenas achas de madeira serrada que aparecem tosca-
mente pintadas em formato de pilha, dos dois lados da porta, de cor
uniforme, com uma parte mais escura. Em casa, essa imagem conti-
nuou a me perseguir. A música de um carrossel de cavalinhos, que
*
"Lenha- carvão." [N. T.]
33
Paul Éluard ... (p. 33)
As palavras BOIS-CHARBONS ... (p. 33)
vinha do Carrefour Médicis, tinha para mim o efeito de ainda ser
aquela acha. E, de minha janela, também o crânio de Jean-Jacques
Rousseau, cuja estátua me aparecia de costas e a dois ou três andares
abaixo. Recuei precipitadamente, cheio de medo.
Ainda na Place du Panthéon, numa noite bem tarde. Batem à porta.
Entra uma mulher cuja idade aproximada e fisionomia agora me
escapam. De luto, acho eu. Está à procura de um número da revista
Littérature, que havia prometido levar para alguém em Nantes, no
dia seguinte. Esse número ainda não tinha saído, mas era dificil
convencê-la disso. Logo fica evidente que o objetivo da sua visita
é "me recomendar" a pessoa que a enviou, e que em breve virá
a Paris, fixar residência. (Guardei a expressão: "que gostaria de se
lançar na literatura", que, desde então, sabendo a quem se aplicava,
achei tão curiosa, tão comovente.) Mas. quem me encarregava
· assim, de maneiTa mais do que quimérica, de acolher, de aconse-
lhar? Alguns dias depois, era Benjamin Péret que chegava.
Nantes: talvez seja, com Paris, a única cidade da França onde tenho
a impressão de que me pode acontecer alguma coisa que valha a
pena, onde certos olhares queimam sozinhos, pelo excesso de
fogos (voltei a constatar isso no ano passado, quando atraves-
sava Nantes de automóvel e vi essa mulher, uma operária, creio,.
acompanhando um homem, e que ergueu os olhos; tive de parar),
onde para mim a cadência da vida não é a mesma que em outros
lugares, onde um espírito de aventura além de todas as aventuras
ainda habita certos seres, Nantes, de onde ainda podem vir ami-
gos, Nantes, onde adoro um parque: o Pare de Procé.
36
Alguns dias depois, era Benjamin Péret que chegava ... (p. 36)
Revejo agora Robert Desnos ... (p. 39)
Revejo agora Robert Desnos na época chamada, por nós que
a conhecemos, época dos sonos. Ele "dorme", mas escreve, fala.
É noite, na minha casa, no ateliê, em cima do Cabaret du Ciel.
Lá fora, alguém berra: "Vamos entrar, vamos entrar no Chat
Noir!". E Desnos continua a ver o que não vejo, o que só
vejo à medida que ele me mostra. Para isso, costuma adquirir
a personalidade do mais raro, mais infixável, mais escorrega-
dio homem vivo que existe, o autor de Cirnetiere des unifor-
mes et livrées, Marcel Duchamp, que ele nunca viu na realidade.
O que de Duchamp passava por ser o mais inimitável como
alguns misteriosos jogos de palavras (Rrose Sélavy), é encon-
trado em Desnos em toda a sua pureza, e adquire subitamente
uma amplitude extraordinária. Quem não viu seu lápis pôr
no papel, sem a menor hesitação e com uma rapidez prodi-
giosa, essas espantosas equações poéticas, sem estar certo como
eu de que elas não haviam sido preparadas com antecedência,
mesmo se for capaz de apreciar sua perfeição técnica e avaliar
seu maravilhoso tremular, não pode fazer uma idéia de tudo
o que isso representava então, do valor absoluto de oráculo
que isso adquiria. Seria preciso que alguém que assistiu a uma
dessas inúmeras sessões se desse ao trabalho de descrevê-las
com precisão, situá-las em sua verdadeira atmosfera. Mas ainda
não chegou a hora em que se poderá evocá-las sem paixão. De
tantos encontros que Desnos, de olhos fechados, me marcou
para mais tarde, com ele ou com outra pessoa, não há nenhum
a que eu tivesse coragem de faltar, nem um só, nos lugares e
horas mais inverossímeis, e em que eu não estivesse certo de
encontrar quem ele me disse.
39
Pode-se, esperando, ter a certeza de encontrar comigo em Paris,
de não passar mais do que dois ou três dias sem que me veja
indo e vindo, lá pelo fim da tarde, pelo Boulevard Bonne-
N ouvelle, entre a gráfica do Matin e o de Stras-
bourg. Não sei por que é para lá, de fato, que meus passos
me levam, que vou para lá quase sempre sem objetivo deter-
minado, sem nada de decisivo a não ser esse dado obscuro de
saber que ali vai acontecer isto (?). Quase não vejo, nesse per-
curso rápido, o que poderia, mesmo sem eu saber, constituir
para mim um pólo de atração, nem no espaço, nem no tempo.
Não: nem mesmo a belíssima e inutilíssima Porte Saint-Denis.
Nem mesmo a lembrança do oitavo e último episódio de um
filme que vi passar ali, bem perto, no qual um chinês, que
havia encontrado não sei que meio de se multiplicar, invadia
Nova York sozinho, com alguns milhões de exemplares de si
mesmo. Entrava, seguido por si mesmo, e por si mesmo, e por
si mesmo, e por si mesmo, na sala de despachos do presidente
Wilson, que tirava o pincenê. Esse filme, de longe o que mais
me impressionou, chan1ava-se: O abraço do polvo.
Com o sistema que consiste em j amais consultar o programa
antes de entrar num cinema - o que, afinal de contas, não adian-
taria muito, já que não consigo guardar o nome de mais que
cinco ou seis intérpretes - corro evidentemente mais risco de
me dar mal do que os outros, embora deva confessar aqui o meu
fraco pelos filmes franceses completamente idiotas. Compreendo,
de resto, bastante mal, sigo vagamente demais. Às vezes isso acaba
por me aborrecer, então pergunto aos vizinhos de poltrona. Não
impede que salas de cinema do xeme Arrondissement me
40
' '
Não: nem mesmo a belissíma e inutílíssíma Porte Saint-Denis .. . (p. 40)
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Esse fi lme, de longe o que mais me impressionou ... (p. 40)
pareçam locais particularmente indicados para que eu crie apego
por elas, como no tempo em que, com Jacques Vaché, na platéia
da antiga sala das Folies-Dramatiques, nos instalávamos para jan-
tar, abríamos pacotes, cortávamos o pão, tirávamos a rolha das
garrafas e falávamos alto, como à mesa, para grande estupefação
dos espectadores, que nada ousavam dizer.
O Théâtre Moderne, situado ao fundo da passagem da Opéra,
hoje destruída, além de as peças ali representadas terem ainda
menos importância, não poderia corresponder melhor ao meu
ideal, nesse sentido.A representação canhestra dos atores, levando
em conta muito relativa seus papéis, sem se preocuparem muito
uns com os outros, e ocupadíssimos em se relacionar com a
platéia, composta por umas quinze pessoas se tanto, nunca pas-
sou para mim de um pano de fundo. Mas o que encontrarei de
melhor para essa imagem, a mais fugaz e a mais alerta de mim
mesmo, para essa imagem com que agora me entretenho, que
valha o aconchego daquela sala de grandes espelhos gastos, deco-
rados embaixo por cisnes cinzentos deslizando por entre cani-
ços amarelos, de camarotes gradeados, totalmente privados de ar,
de luz, tão confiáveis, daquela sala onde, durante o espetáculo,
os ratinhos farejavam, roçando pelos nossos pés, onde se podia
escolher, ao chegar, entre uma poltrona furada ou uma poltrona
cambaia! E entre o primeiro e o segundo ato, pois seria compla-
cência demais esperar pelo terceiro, que jamais irei ver com estes
olhos que viram o bar do primeiro andar, igualmente sombrio,
com seus impenetráveis caramanchões, "um salão no fundo de
um lago", não é mesmo? Por ir lá com freqüência, acabei, ao
preço de tantos horrores, os piores que se imaginem, guardando
43
uma quadrinha perfeitamente pura. Era uma mulher, ainda por
cima bonita, que cantava:
Meu coração de contente
Abre as portas ao porvir.
Não há nada que eu lamente,
Belo esposo, podes vir*
Sempre desejei incrivelmente encontrar à noite, num bosque, uma
mulher bela e nua, ou antes, já que um desejo assim, uma vez
expresso, perde o sentido, lamento incrivelmente não tê-la encon-
trado. Supor um encontro desses não é tão delirante, afinal de con-
tas: seria possível. Parece-me que tudo iria deter-se de repente, ah!,
e eu não estaria escrevendo o que escrevo. Adoro essa situação
em que eu teria, mais que em todas, faltado com
a presença de espírito. Não teria nem mesmo, creio, a idéia de fugir.
(Os que riem desta última frase são porcos.) Num fim de tarde, no
ano passado, nas galerias ao lado do Electric-Palace, uma mulher
nua, que só deve ter precisado se desfazer de um casaco, andava de
um .extremo ao outro, muito branca.Já era perturbador. Longe, no
entanto, de ser muito fora do comum, pois aquele canto do Elec-
tric era um lugar de depravação sem maior interesse.
Mas, para mim, descer verdadeiramente ao basjonds do espírito, lá
onde já não importa que a noite caia e se levante (então é o dia?), é
voltar à Rue Fontaine, ao Théâtre des Deux-Masques, que pouco
depois se transformou num cabaré. Enfrentando meu pouco gosto
* Variante: Um novo amor, já podes vir. [N. A.]
44
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Sobre o Théâtre Moderne ... (p. 43)

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Sobre o Théâtre Moderne ... (p. 43)
pelo palco, fui lá no passado, na convicção de que a peça que estava
em cartaz não poderia ser má, tanto a crítica se mostrava encar-
niçada contra ela, a ponto de pedir sua interdição. Entre as piores
do gênero Grand-Guignol, que constituíam o grosso do repertório
da sala, esta pareceria gravemente deslocada: o que, convenhamos,
recomenda. Não me demorarei mais em dizer a admiração sem
limites que experimentei por Les Détraquées,* que é e será por muito
tempo a única obra dramática (quer dizer: feita unicamente para o
palco) de que eu queira me lembrar.A peça, insisto, e este não é um
de seus aspectos mais estranhos, perde quase tudo se não for vista, ou
pelo menos se cada intervenção dos personagens não for em mímica.
Feitas estas ressalvas, não me parece vão expor o seu enredo.
A ação se desenvolve num pensionato de meninas: o pano
sobe mostrando o gabinete da diretora. Essa pessoa, loura, de
uns quarenta anos, ar imponente, está só e demonstra grande
nervosismo. É véspera de férias e ela espera com ansiedade a
chegada de alguém: "E a Solange já devia ter chegado ... ". Cami-
nha febrilmente de um lado para o outro da sala, mexendo
nos móveis, nos papéis. De vez em quando vai até a janela
que dá para o jardim, onde começa o recreio. Ouve-se a sineta,
depois, aqui e ali, gritos alegres das meninas que logo se per-
dem no vozerio distante. Um jardineiro abobalhado, que sacode
a cabeça e se expressa de maneira intolerável, com imensos
retardos de compreensão e vícios de pronúncia, o jardineiro do
pensionato, permanece agora junto à porta, balbuciando pala-
vras vagas e sem parecer disposto a ir embora. Está chegando da
estação e não encontrou a senhorita Solange à descida do trem:
"A dona So-lange ... ".Arrasta as palavras como se fossem chinelos.
*
"As desequilibradas." [N. T.]
47
Também ficamos impacientes. Nesse meio-tempo, uma senhora
idosa, que acaba de se fazer anunciar, é trazida à cena. Havia
recebido da neta uma carta bastante confusa, na qual lhe pedia
que fosse buscá-la o mais rápido possível. A senhora deixa-se
convencer facilmente: nessa época do ano as meninas estão
sempre meio nervosas. Além do mais, basta chamar a menina e
lhe perguntar se tem alguma queixa de alguém ou de alguma
coisa. Ei-la que entra. Beija a avó. Logo se percebe que seus
olhos não conseguirão mais se afastar dos olhos de quem a
interroga. A menina se limita a alguns gestos de negação. Por
que não haveria de esperar a distribuição de prêmios, que se
realizará dentro de alguns dias? Sente-se que ela não se atreve
a falar. Concorda em ficar.A menina se retira, submissa.Vai em
direção à porta. No umbral, um grande conflito interior parece
apossar-se dela. Sai correndo. A avó agradece e se despede. De
novo, a diretora fica só. A espera absurda, terrível, onde não
se sabe que objeto mudar de lugar, que gesto repetir, o que
fazer para que aconteça o que se espera ... Por fim, o barulho
de um carro ... A face que observávamos se ilumina. Diante da
eternidade. Uma mulher adorável entra sem bater. É ela.Afasta
levemente os braços que a apertam. Morena, cabelos castanhos,
já nem sei.Jovem. Olhos esplêndidos, onde há langor, desespero,
sutileza, crueldade. Esbelta, trajada sobriamente, um vestido de
cor escura, meias de seda preta. E esse toque de falta de classe
que tanto apreciamos. Não se diz o que ela foi fazer lá; ela se
desculpa por estar atrasada. Sua grande frieza aparente contrasta
o máximo possível com a recepção que lhe foi dada. Fala, com
uma indiferença que tem certa afetação, do que foi sua vida,
coisa pouca, desde o ano anterior, quando, nessa mesma época,
lá esteve. Não há indicações claras quanto à escola onde ensina.
Mas (aqui a conversa vai adquirir um tom irifinitamente mais Íntimo)
fala-se agora das boas relações que Solange conseguiu estabele-
cer com certas alunas mais atraentes que as outras, mais bonitas,
melhor dotadas. Ela devaneia. Suas palavras são ouvidas muito
próximo dos lábios. De repente, ela se interrompe, mal a vemos
entreabrir a bolsa e, descobrindo uma coxa maravilhosa, ali, um
pouco acima da cinta-liga escura ... "Que é isso! Você não se
drogava! - Não, mas agora, que remédio." A resposta é dada
num tom de lassidão lancinante. Como que se reanimando,
Solange indaga, por sua vez: "E você ... como vai? Conte-me".
Também aqui apareceram novatas muito bonitas. Principal-
mente uma. Tão meiga. "Veja só, querida." As duas se debruçam
demoradamente à janela. Silêncio. UMA BOLA CAI DENTRO DA
SALA. Silêncio. "Foi ela! E vem cá buscar. - Você acha?" Ambas
de pé, encostadas na parede. Solange fecha os olhos, relaxa, sus-
pira, fica imóvel. Batem na porta. A menina de há pouco entra
sem dizer nada, dirige- se lentamente para a bola, olhos nos
olhos da diretora; caminha na ponta dos pés. Cai o pano. - No
ato seguinte, é noite, numa ante-sala. Passaram-se algumas horas.
Um. médico, com sua maleta. Foi constatado o desaparecimento
de uma das meninas. Tomara que não lhe tenha acontecido
alguma infelicidade! Todo mundo se agita, a casa e o jardim
são vasculhados de cima a baixo. A diretora, mais calma ainda
que antes. "Uma menina tão meiga, meio triste talvez. Meu
Deus, e a avó dela, que há poucas horas estava aqui! Acabo de
mandar chamá-la." O médico, desconfiado: em dois anos con-
secutivos, um acidente no momento da partida das alunas. No
ano passado, a descoberta de um cadáver no poço. Este ano ... O
jardineiro, vaticinando e balindo. Tinha ido procurar no poço.
"Engraçado; por ser engraçado, é que é engraçado." O médico
49
A menina de há pouco entra sem d1:zer nada ... (p. 49)
interroga o jardineiro sempre em vão: "Engraçado". Percorreu
todo o jardim com uma lanterna. Também é impossível que a
menina tenha saído. As portas estão bem fechadas. Os muros. E
nada, na casa inteira. O imbecil continua a argumentar con-
sigo mesmo, ruminando miseravelmente as mesmas coisas de
maneira cada vez menos inteligível. O médico, por assim dizer,
já nem ouve. "Engraçado. Ano passado. Num vi nada. Amanhã
vou acender uma vela ... Onde é que essa menina se infiô? Ô,
seu doutor. Pois é, seu doutor. Engraçado mesmo. Bem agora,
que a dona Solange acabou ontem di chegar que ... - O quê,
você diz, a senhorita Solange, aqui? Tem certeza? (Ah!, então a
coincidência ainda é maior do que eu pensava em relação ao
ano passado.) Deixa comigo." A emboscada do médico atrás
de uma pilastra. Ainda não amanheceu. Passagem de Solange,
que atravessa o palco. Não parece participar da excitação geral,
segue em frente como um autômato. - Pouco mais tarde. Todas
as buscas foram em vão. Novamente no gabinete da diretora.A
avó da menina acaba de sentir-se mal no parlatório. É preciso
cuidar dela com rapidez. Não resta dúvida que as duas mulhe-
res parecem ter a consciência tranqüila. Olhamos para o médico.
O delegado. Os empregados. Solange.A diretora ... Esta, à procura
de um cordial, vai na direção do armário de curativos, abre ... O
corpo ensangüentado da menina aparece, de cabeça para baixo,
e despenca no chão. O grito, o grito inesquecível. (Na represen-
tação, acharam por bem advertir o público de que a artista que
interpretava o papel da criança tinha dezessete anos completos.
O essencial é que parecia ter onze.) Não sei se o grito de que
falo punha exatamente fim à peça, mas espero que os autores
(foi escrita em colaboração pelo ator cômico Palau e, acho eu,
por um cirurgião de nome Thiéry, mas também, sem dúvida, por
51
algum demônio)* não tenham querido que Solange passasse por mais
provações e que essa personagem, tentadora demais para ser verdadeira,
devesse sofrer uma aparência de castigo que ela, aliás, nega com todo
o seu esplendor. Acrescentarei apenas que o papel era desempenhado
pela mais admirável e sem dúvida a única atriz daquele tempo, a quem
vi representar no Deux-Masques em várias outras peças, em que não
estava menos bela, mas de quem, talvez para minha grande vergonha,**
no entanto, nunca mais ou vi falar: Blanche Derval.
*
A verdadeira identidade dos autores só foi estabelecida trinta anos depois. Foi
somente em r956 que a revista Le Surréalísme, Même teve condições de publicar o
texto integral de Détraquées, com posfácio de P.-L. Palau 'esclarecendo a gênese da
peça: "A idéia inicial foi inspirada por incidentes bastantes equívocos num pensio-
nato para meninas num subúrbio parisiense. Considerando todavia o teatro para
o qual se destinava - o Deux-Masgues - onde se cultivava um gênero aparentado
ao Grand-Guignol, tive necessidade de elaborar o aspecto dramático permane-
cendo na mais absoluta verdade cienúfica: o aspecto escabroso a ser abordado me
obrigava a isso. Tratava-se de um caso de loucura circular e periódica, mas para
levá-lo a bom termo eu precisava de luzes de que não dispunha. Foi então que um
amigo, o professor Paul Thiéry, cirurgião dos grandes hospitais, me pôs em conta-
to com o eminente Joseph Babinski, que mostrou satisfação em iluminar o meu
caminho, º . que me permitiu tratar sem erros a parte por assim dizer científica do
drama". Foi grande a minha surpresa ao saber que o dr. Babinski tomara parte na
elaboração de Détraquées. Guardo do ilustre neurologista uma bela recordação, por
tê-lo observado, na qualidade de estagiário residente, por um bom tempo, na sua
equipe da Pitié. Sempre me senti honrado com a simpatia que me demonstrava
- exagerada a ponto de me predizer um grande futuro no campo da medicina! - e,
à minha maneira, creio ter tirado partido de seus ensinamentos, aos quais rende
homenagem o final do primeiro Manifesto do surrealismo. (N. A., r962]
** O que eu quis dizer com isso? Que deveria ter me aproximado dela, a qual-
quer preço, para tentar descobrir a mulher real que ela era. Para tanto, teria sido
necessário superar uma certa prevenção que eu tinha contra as atrizes, em de-
corrência das lembranças de Vigny, de Nerval. Penitencio-me de haver falhado
diante da "atração passional" . (N. A., 1962]
52
B/anche Derval ... (p. 52)
(Terminando ontem de contar o que precede, deixei-me entregar
novamente às conjecturas que costumavam me ocorrer a cada vez
que revi essa peça, seja em duas ou três sessões, seja naquelas
em que a representei para mim mesmo. A falta de indicações sufi-
cientes sobre o que acontece depois da caída da bola na sala, sobre
Solange e sua parceira poderem perfeitamente ser a presa e se trans-
formarem em soberbas predadoras, continua até hoje, por excelên-
cia, o que mais me confunde. De manhã, ao despertar, tive mais tra-
balho que de costume para me desvencilhar de um sonho bastante
infame, que não vejo a menor necessidade de transcrever aqui, pois
decorre em grande parte de conversas que tive ontem, sobre um
assunto inteiramente diverso. Esse sonho me pareceu interessante na
medida em que era sintomático da repercussão que tais lembranças,
por menos que a elas nos entreguemos com violência, podem ter
sobre o curso do pensamento. É notável, desde logo, observar que
o sonho de que se trata não expunha senão o lado penoso, repug-
nante, ou mesmo atroz, das considerações a que eu me entregara,
destruindo cuidadosamente todo o fabuloso valor que essas con-
siderações representam para mim, tal como um extrato de âmbar
ou de rosa que atravessasse os séculos. Por outro lado, é preciso
admitir que se eu me desperto, vendo com exfrema lucidez o que
aconteceu por último: Um inseto verde-musgo, de uns cinqüenta
centímetros, que havia tomado o lugar de um velho, e avança em
direção a uma espécie de aparelho automático; põe uma moeda
na ranhura, uma em vez de duas, o que me parece constituir uma
fraude particularmente repreensível, a tal ponto que, como que por
descuido, lhe ter dado uma bengalada e tê-lo feito cair na minha
cabeça - tive tempo de perceber as bolas de seus olhos brilharem
na aba de meu chapéu, depois me engasguei, e custaram a retirar
da minha garganta duas de suas patas aveludadas, enquanto eu sen-
54
tia uma repugnância inexprinúvel -, é claro que, superficialmente,
isto guarda uma relação sobretudo com o fato de existir, no forro
do estúdio onde fiquei nesses últimos dias, um ninho, em torno do
qual se agita um passarinho meio assustado com a minha presença,
a cada vez que traz lá dos campos, piando, alguma coisa como um
gafanhoto verde, mas é indiscutível que na transposição, na intensa
fixação, na passagem, de outra forma inexplicável, de uma imagem
desse tipo do plano da observação sem interesse para o plano emo-
tivo, concorrem em primeiro lugar a evocação de certos episódios
de Détraquées e a volta àquelas conjecturas de que havia falado. Por-
que a produção de imagens de sonho depende sempre pelo menos
desse duplo jogo de espelhos, nela encontramos a indicação do papel
muito especial, sem dúvida eminentemente revelador, no mais alto
grau "supradeterrninante", no sentido freudiano, que certas impres-
sões muito fortes são chamadas a desempenhar, nada contamináveis
pela moralidade, verdadeiramente percebidas "acima do bem e do
mal" no sonho e, em seguida, no que lhes opomos muito sumaria-
mente sob o nome de realidade.)
O poder de encantação* que Rimbaud exercia sobre mim por
volta de 1915, e que, desde logo, se substanciou em poemas tais
*
Nada menos que isso: a palavra encantação deve ser tomada ao pé da letra.
Para mim o mundo exterior se compunha a todo instante com seu mundo, ou,
melhor ainda, que aplicado sobre ele formava uma rede: em meu percurso co-
tidiano pelos arredores de uma cidade que era Nantes, se instauravam com o
dele, em outro lugar, fulgurantes correspondências. Um ângulo das residências,
o recuo de seus jardins, tudo isso eu "reconhecia" como que através dos olhos
dele, criaturas aparentemente bem vivas um segundo antes de se desfazerem de
repente em seu rastro etc. [N. A., 1962]
55
como "Devoção" foi, sem dúvida, naquela época, o que me valeu,
um dia em que passeava sozinho, sob uma forte pancada de chuva,
ao encontrar uma moça, a que primeiro me dirigiu a palavra; sem
preâmbulos, ao darmos alguns passos, se ofereceu a recitar-me
um de seus poemas preferidos: "O adormecido do vale". Foi tão
inesperado, tão extemporâneo. Agora, bem recentemente, como
no domingo, indo com um amigo ao mercado das pulgas de
Saint-Ouen (sempre vou lá à procura desses objetos que não se
encontram em nenhuma outra parte, fora de moda, fragmentados,
inúteis, quase incompreensíveis, perversos, enfim, no sentido que
entendo e amo, como, por exemplo, esta espécie de semicilindro
branco, irregular, envernizado, apresentando relevos e depressões
sem significado para mim, com estrias horizontais e verticais ver-
melhas e verdes, preciosamente acomodado num estojo, com uma
divisa em língua italiana, que levei para casa e depois de examinar
bem acabei por admitir que representava apenas a estatística, figu-
rada em três dimensões, da população de uma cidade do ano tal
ao ano tal, o que nem por isso o torna mais legível), nossa aten-
ção se voltou simultaneamente para um exemplar bem recente
das Obras completas de Rimbaud, perdido numa estreita vitrina de
trapos, fotografias amareladas do século passado, livros sem valor
e colheres de ferro. Mal decidido a folheá-lo, logo encontro duas
folhas de papel intercaladas nele: uma cópia à máquina de um
poema em versos livres, outra de anotações a lápis com reflexões
sobre Nietzsche. Mas a pessoa que atende, bastante distraída, do
meu lado, não me dá tempo de saber mais a respeito. O livro
não está à venda, os documentos que abriga pertencem a ela. É
moça, ainda, e muito sorridente. Continua a falar animadamente
com alguém que deve ser um operário seu conhecido, e que a
escuta, ao que parece, com satisfação. À nossa vez, começamos
56
Indo ao mercado das pulgas de Saint-Ouen ... (p. 56)
Perversos como essa espécie de cilindro branco, irregular ... (p. 56)
a conversar com ela. Muito culta, não tem a menor dificuldade
em nos falar de suas preferências literárias, que a inclinam para
Shelley, Nietzsche e Rimbaud. Espontaneamente, fala-nos até
dos surrealistas, e do Camponês de Paris de Louis Aragon, que ela
não conseguiu ler até o fim, tendo parado nas variações sobre a
palavra Pessimismo. Em tudo o que diz, transmite uma grande fé
revolucionária. De muito bom grado, ela me entrega o poema de
sua autoria que eu havia entrevisto e acrescenta alguns outros,
de não menor interesse. Ela se chama Fanny Beznos.*
Recordo-me também da sugestão, feita um dia, por brincadeira, a
uma senhora, em frente a mim, de ofertar à Central Surrealista uma
das surpreendentes luvas azul-celeste que usava nessa visita que ela
fazia à Central, do meu pânico quando a vi a ponto de concordar,
das súplicas que tive de lhe dirigir para que não fizesse nada daquilo.
Não sei o que poderia haver então para mim de terrivelmente, de
maravilhosamente decisivo nessa idéia de ver a luva abandonando
para sempre aquela mão. O fato só adquiriu suas maiores e verda-
deiras proporções, quer dizer, as proporções que guardou, a partir
do momento em que a dama planejou voltar para depositar sobre
a mesa, no lugar onde tanto esperei que não deixasse a luva azul,
outra luva, de bronze, que ela possuía e que depois vi em sua casa,
igualmente uma luva de mulher, de punho dobrado, e dedos nada
* Ao passar os olhos aqui e ali em certas anotações como esta, sinto antes de mais
nada um pouco de decepção: o que eu poderia realmente esperar daquilo? É que
o surrealismo ainda estava se procurando, ainda estava bem longe de se estabelecer
como uma concepção do mundo. Sem poder prejulgar o tempo que tinha à sua
frente, avançava tateando, e sem dúvida saboreava com demasiada complacência as
primícias de seu esplendor. Sem fuso de sombra não há fuso de luz. [N. A., 1962)
59
espessos, luva que nunca pude deixar de sopesar, sempre surpreen-
dido com seu peso, e com o único propósito, me parece, de medir a
força exata com que ela se apóia sobre o que a outra não se apoiou.
Não faz muitos dias, Louis Aragon fez-me observar que o letreiro
de um hotel de Pourville, com as palavras MAISON ROUGE em
caracteres vermelhos, tinha as letras compostas de tal maneira e
distribuídas de tal forma que, numa certa obliqüidade, da estrada, a
palavra MAISON se apagava e lia-se POLICE no lugar de ROUGE.* Essa
ilusão de óptica não teria nenhuma importância se, no mesmo dia,
uma ou duas horas depois, a senhora que ficamos chamando de
a dama da luva não me tivesse levado diante de uni quadro, cam-
biante como eu jamais havia visto igual, pertencente à mobília da
casa que ela acabara de alugar. É uma gravura antiga que, vista de
frente, representa um tigre, mas que, com uma divisão perpendi-
cular em relação à superfície, resultante da fragmentação de outro
motivo, representa, ao darmos uns. poucos passos à esquerda, um
vaso, e poucos passos à direita, um anjo. Para terminar, assinalo
esses dois fatos porque para mim, nessas condições, sua aproxima-
ção era inevitável, e porque me pareceu particularmente impossí-
vel estabelecer uma correlação racional entre um e outro.
*
"Sob certa obliqüidade": a proximidade inteiramente fortuita dessas duas
palavras postas em causa deverá esperar alguns anos para impor, durante certos
"processos", a evidência de sua colusão, dramática no mais alto grau. O bicho
que vai se mostrar de frente nas linhas seguintes é, na verdade, aquele que a
convenção pública considera "sedento por sangue". - Que seja precisamente
esse índice que se aponta no letreiro de Pourville não deixa de ter, à distância,
urna ironia bastante cruel. (N. A., 1962]
60
Igualmente uma Luva áe mulher. .. (p. 59)
Espero, de todo modo, que a apresentação de uma série de
observações dessa ordem e da que se segue seja de natureza a
precipitar alguns homens na rua, depois de tê-los feito adquirir
consciência, se não do nada, pelo menos da grave insuficiência
de qualquer cálculo pretensamente rigoroso sobre si mesmos, de
toda ação que exija uma aplicação permanente, e possa ter sido
premeditada. De nenhum fato, por menor que seja, restará coisa
alguma, se ele é verdadeiramente imprevisto. E não me venham,
depois disso, falar do trabalho, quer dizer, do valor moral do tra-
balho. Sou forçado a aceitar a idéia do trabalho como necessi-
dade material, e nesse aspecto sou o mais favorável possível à
sua melhor, à sua mais justa repartição. Que ele me seja imposto
pelas sinistras obrigações da vida, vá lá, mas que me peçam para
acreditar nele, reverenciar o meu ou o dos outros, jamais. Prefiro,
de novo, caminhar na noite a pensar que sou aquele que cami-
nha no dia. De nada serve estarmos vivos durante o tempo em
que trabalhamos. O acontecimento que cada um de nós está no
direito de esperar que seja a revelação do sentido de sua própria
vida, acontecimento que eu talvez ainda não tenha encontrado,
mas no canúnho do qual me procuro, não virá ao preço do trabalho.
Mas me antecipo, pois talvez seja aqui, acima de tudo, o que a
seu tempo me fez entender e o que justifica, sem mais tardança,
a entrada em cena de Nadja.
Eis que afinal explode a torre do Manoir d'Ango, e toda uma
neve de plumas, que cai de suas pombas, se derrete ao tocar o chão
do grande pátio até recentemente calçado com cacos de telhas e
agora coberto de sangue de verdade!
62
No dia 4 de outubro último,* ao fim de uma dessas tardes intei-
ramente desocupadas e sombrias, das que conheço o segredo
de como passar, estava eu na Rue Lafayette: depois de deter-me
por alguns minutos diante da vitrina da livraria do L' Humanité
e de ter adquirido o último livro de Trótski, continuei meu
caminho sem rumo certo, seguindo em direção à Opéra. Os
escritórios, as lojas iam se esvaziando, as portas corrediças se
fechavam, as pessoas na rua se despediam com apertos de mão,
e ainda assim começava a ter mais gente ali. Observava, sem
querer, as expressões, as roupas, a maneira de andar. Ora, não
seriam aqueles que estariam prontos para fazer a Revolução.
Eu tinha acabado de atravessar aquele cruzamento cujo nome
esqueço ou ignoro, ali, em frente a uma igreja. De repente,
ainda que estivesse a uns dez passos de mim, vindo no sentido
oposto, vejo uma moça, pobremente vestida, que também me
vê, ou tinha me visto. Vai de cabeça erguida, ao contrário de
todos os passantes. Tão frágil que mal toca o solo ao pisar. Um
* Estamos em 1926. (N. A., 1962)
63
A livraria do L'Humanité ... (p. 63)
sorriso imperceptível erra talvez em seu rosto. Curiosamente
maquiada, como alguém que, tendo começado pelos olhos, não
teve tempo de chegar ao fim, deixando o contorno dos olhos
muito escuro para uma loura. O contorno, e não a pálpebra (tal
efeito se obtém, e só se obtém, quando se passa com cuidado o
lápis apenas sob a pálpebra. É interessante notar, a propósito,
que Blanche Derval, no papel de Solange, mesmo vista muito de
perto não parecia nem um pouco maquiada. Será que isso quer
dizer que a meus olhos o que é levemente permitido nas ruas,
mas é recomendável no teatro, só tem valor por ter passado o
limite do que é proibido num caso e recomendado no outro?
Talvez). Eu nunca tinha visto uns olhos assim. Sem hesitar,
dirijo a palavra à desconhecida, já esperando, como seria previ-
sível, o pior. Ela sorri, mas muito misteriosamente e, eu diria,
com conhecimento de causa, embora naquele momento eu não
pudesse acreditar em nada disso. Alega estar indo a um cabelei-
reiro do Boulevard Magenta (digo: alega, porque imediata-
mente fico em dúvida, e porque admite logo em seguida que
andava sem rumo). Continua a falar com certa insistência das
dificuldades financeiras por que está passando, mas, ao que
parece, mais como urna desculpa, e para explicar o enorme des-
pojamento de seus trajes. Paramos na varanda de um café pró-
ximo da Gare du Nord. Observo-a melhor. O que poderia
haver de tão extraordinário naqueles olhos? O que se reflete ali,
ao mesmo tempo de obscuramente miserável e luminosamente
altivo? Foi esse o enigma que determinou o início da confissão
que, sem me perguntar mais nada, com uma confiança que
poderia (ou antes, não poderia?) ser mal interpretada, ela me
faz. Em Lille, onde nasceu e de onde saiu há dois ou três anos,
conheceu um estudante a quem talvez amas.se, e que a amava.
65
Um belo dia, resolve abandoná-lo quando ele menos esperava,
e isso "por temor de incomodá-lo". Foi então que veio para
Paris, de onde escrevia para ele a intervalos cada vez maiores,
sem nunca lhe dar seu endereço. Mais ou menos um ano depois,
no entanto, ela o encontrou por acaso: ambos ficaram muito
surpresos. Tomando-lhe as mãos, ele não pôde deixar de dizer o
quanto a achava mudada e, ao olhar para as suas mãos, admirou-
se de vê-las tão bem-cuidadas (agora quase não são mais). Então,
maquinalmente, ela olhou por sua vez para uma das mãos que
seguravam as suas, e não pôde reprimir um grito ao perceber
que os dois últimos dedos estavam inseparavelmente grudados.
"Você se feriu!" Foi absolutamente necessário que o rapaz lhe
mostrasse a outra mão, que apresentava a mesma malformação.
Nesse ponto, muito emocionada, ela me interroga por um bom
tempo:"Será possível? Ter vivido tanto tempo com alguém, tendo
todas as ocasiões possíveis para observá-lo, empenhada em des-
cobrir suas menores particularidades fisicas ou outras, para que
no final o conheça tão mal, a ponto de nunca ter percebido
aquilo! O senhor acredita ... acredita que o amor pode fazer essas
coisas? E ele, que ficou tão constrangido, é claro, pois só conse-
gui ficar calada, aquelas mãos ... Em seguida ele me disse alguma
coisa que não compreendi bem, onde havia uma palavra que
não entendo, ele disse: 'Zote! Vou voltar para a Alsácia-Lorena.
Só lá, as mulheres sabem amar'. Por que: zote? Não sabe?".
Como se pode imaginar, reagi muito vivamente: "Não importa.
Mas acho odiosas essas generalizações sobre a Alsácia-Lorena;
esse indivíduo com certeza era um perfeito idiota etc. Agora
ele foi embora, e não voltou a vê-lo, não é? Melhor assim". Ela
me diz seu nome, o que escolheu para si mesma: "Nadja, por-
que em russo é o começo da palavra esperança, e porque é só o
66
começo dela". Estava simplesmente imaginando um modo de
me perguntar quem sou (no sentido mais restrito das palavras).
Digo-lhe. Ela volta a falar do passado, fala sobre o pai, a mãe
dela. Se enternece principalmente ao lembrar-se do primeiro:
"Um homem tão fraco! Se soubesse como sempre foi fraco.
Quando era moço, veja só, quase nada lhe era recusado. Os pais
dele estavam muito bem. Ainda não havia automóveis, mas
tinham lá sua carruagem, com cocheiro e tudo ... Mas com o
meu pai, tudo foi por água abaixo, imagine só. Gosto tanto dele.
Cada vez que penso nele, vejo o quanto é fraco ... Ah, mãe é
outra coisa. Uma boa mulher, é isso, uma boa* mulher, como se
diz vulgarmente. De modo algum a mulher de que meu pai
precisava. Em nossa casa, claro que tudo era muito limpo, mas
meu pai não foi feito para vê-la de avental ao voltar do trabalho.
É verdade que sempre encontrava a mesa servida, ou prestes a
ser servida, mas não o que se chama (com uma expressão irô-
nica de avidez e um gesto galhofeiro) uma mesa posta. Ah,
minha mãe, gosto muito dela, não queria que ela sofresse por
nada deste mundo. Por isso, quando vim para Paris, ela sabia
que eu tinha uma carta de recomendação para as irmãs de Vau-
girard. É claro que nunca a utilizei. Mas, toda vez que escrevo
para ela, termino a carta dizendo: 'Espero te ver em breve', e
acrescento: 'se Deus quiser, como diz a irmã ... ', e ponho um
nome qualquer. E ela, então, deve ficar contente! Nas cartas
que recebo dela, o que mais me comove, o que vale mais que
tudo, é o PS. Ela sempre acha necessário acrescentar: 'Eu me
pergunto o que você deve estar fazendo em Paris'. Coitada da
* O texto joga com o duplo sentido da palavra bonne, que tanto significa "boa"
quanto "empregada" , "criada". [N. T.]
minha mãe, se ela soubesse!" O que Nadja faz em Paris, ela
mesma se faz essa pergunta. Bem, à noite, lá pelas sete, ela gosta
de estar num vagão de segunda classe do metrô. A maioria dos
passageiros é gente saindo do trabalho. Ela se senta entre eles,
procura descobrir no rosto deles o motivo de suas preocupa-
ções. Pensam necessariamente no que acabam de deixar até
amanhã, só até amanhã, e também no que os espera à noite,
algo que os desanuvia ou que os deixa ainda mais preocupados.
Nadja fixa alguma coisa no ar: "Tem gente admirável". Mais
emocionado do que gostaria de parecer, desta vez eu me zango:
"Coisa nenhuma. Além do mais, não se trata disso. Essas pessoas
não podem ser interessantes, já que suportam o trabalho, com
ou sem todas as outras misérias. Como é que isso poderia elevá-
las, se nelas a revolta, a mais forte, não está de todo? Naquele
momento, eles estão sendo vistos, mas eles nem sequer a vêem.
Odeio com todas as forças essa servidão que querem me fazer
aceitar. Lamento que o homem esteja condenado a ela, que em
geral não possa se ver livre dela, mas não é a dureza da pena
que vai me dispor em seu favor: é, e só poderia ser, a veemência
de seu protesto. Sei que no forno de uma fábrica, ou diante de
uma dessas máquinas inexoráveis que impõem o dia inteiro,
com alguns segundos de intervalo, a repetição do mesmo gesto,
ou em qualquer outro lugar, sob as ordens mais inaceitáveis, ou
na prisão, ou diante de um pelotão de fuzilamento, mesmo
assim podemos nos sentir livres, mas não é o martírio que
sofremos que cria essa liberdade. Eu quero que a liberdade seja
uma permanente quebra de grilhões: contudo, para que essa
quebra seja possível, constantemente possível, é necessário que
'
as correntes não nos esmaguem, como fazem com muitos
daqueles. a quem se refere. Mas a liberdade também é, e huma-
'; .
68

namente talvez ainda mais, uma seqüência de passos mais ou
menos longa, porém maravilhosa, que o homem pode dar fora
dos grilhões. Acha que eles seriam capazes de dar esses passos?
Terão pelo menos tempo para dá-los? Terão coragem suficiente?
Pessoas admiráveis, me disse, está certo, admiráveis como aque-
las que se deixaram matar na guerra, não é mesmo? Para encur-
tar, os heróis: são muitos infelizes e uns poucos imbecis. Quanto
a mim, posso afirmar, esses passos são tudo. Aonde eles vão, eis a
verdadeira questão. Acabarão por traçar um caminho, e quem
sabe se nesse caminho não aparecerá o meio de libertar ou de
ajudar a libertar os que não conseguiram seguir adiante? Só
então será conveniente demorar um pouco, mas sem voltar
atrás". (Por aí se vê o que sou capaz de dizer sobre o assunto,
por menos predisposto que esteja a tratá-lo de maneira con-
creta.) Nadja ouve sem tentar me contradizer. Talvez tenha
querido fazer apenas a apologia do trabalho. Ela vem me falar
de sua saúde, bem comprometida. O médico com quem se
consultou, e que tinha escolhido, ao preço de todo o dinheiro
que lhe restava, de modo a poder confiar nele, prescreveu uma
partida imediata para Mont-Dore. A idéia a encanta, pelo fato
de tal viagem ser para ela irrealizável. Mas ela se convenceu de
que um trabalho manual permanente poderia suprir de certo
modo essa cura que ela não pode fazer. Foi com esse espírito que
procurou emprego em confeitarias, ou melhor, casas de frios,
onde julga, de maneira puramente poética, haver maior garan-
tia de se dar bem do que em qualquer outra parte. Em todos os
lugares, ofereceram salários irrisórios. Aconteceu também de
olharem duas vezes para ela antes de darem a resposta. O dono
de uma padaria, que prometeu dezessete francos por dia, depois de
deitar novamente os olhos nela, voltou a oferecer: dezessete ou
dezoito. E ela, muito debochada: "Eu disse a ele: por dezessete,
venho; por dezoito, não".Vamos chegando, ao acaso dos nossos
passos, na Rue du Faubourg-Poissonniere. À nossa volta as pes-
soas se apressam, está na hora do jantar. Como faço menção de
me despedir, ela pergunta quem está à minha espera. "Minha
mulher. - Casado! Ah!, já se vê ... ", e, em outro tom, muito
grave, muito recolhido: "Tanto pior. Mas ... e aquela grande
idéia? Agora que eu tinha começado a vê-la. Era de fato uma
estrela, uma estrela em cuja direção o senhor ia. Não tinha
como não chegar nessa estrela. Ao ouvi-lo falar, senti que nada
o impediria: nada, nem mesmo eu ... Jamais poderá ver essa
estrela como eu a via. Não pode compreender: ela é como o
coração de uma flor sem coração". Fico extremamente como-
vido. Para mudar de assunto, pergunto onde ela vai jantar. E de
repente aquela leveza que só vi nela, aquela liberdade, para ser
mais preciso: "Onde? (apontando o dedo:) ali, ou lá (os dois
restaurantes mais próximos), onde eu estiver. É sempre assim".
No instante de ir embora, quero lhe fazer uma pergunta que
resume todas as demais, uma pergunta que só eu faria, sem
dúvida, mas que, pelo menos uma vez, encontrou resposta à
altura: "Quem é você?". E ela, sem hesitar: "Eu sou a alma
errante". Combinamos nos ver no dia seguinte, no bar da
esquina da Rue Lafayette com a Rue du Faubourg-Poisson-
niere. Ela gostaria de ler um ou dois dos meus livros, e insiste
na mesma proporção em que sinceramente ponho em dúvida o
interesse que possa ter por eles. A vida é diferente do que se
escreve. Ela me retém por alguns instantes, para me dizer o que
mais a atrai em mim. É, no meu pensamento, na minha lingua-
gem, em todo o meu modo de ser, ao que parece, e este é um
dos elogios que mais me sensibilizaram na vida, a simplicidade.
70
5 de outubro. - Nadja, que chegou primeiro, adiantada, não é mais
a mesma. Muito elegante, de vermelho e preto, um chapéu que
lhe fica muito bem, e que ela tira, mostrando os cabelos de aveia
que renunciaram à sua incrível desordem; usa meias de seda e está
adequadamente calçada. A conversação torna-se, contudo, mais
dificil, e a princípio não consegue se desenvolver, da sua parte,
sem hesitação. Até que ela agarra os livros que eu trouxe (Os pas-
sos perdidos, Manifesto do surrealismo):" Os passos perdidos? Mas não
existe passo perdido". Folheia a obra com grande curiosidade.
Sua atenção recai sobre um poema de Jarry aí citado:
Parmi les bruyeres, péníl des menhirs ... •
Longe de inibi-la, o poema, que lê uma primeira vez de maneira
bastante rápida, e depois examina bem de perto, parece emo-
cioná-la vivamente. No fim da segunda quadra, seus olhos se
umedecem e se preenchem com a visão de uma floresta. Vê o
poeta que passa perto dessa floresta, daria para dizer que pode
segui-lo de longe: "Não, ele dá voltas em torno da floresta, não
consegue entrar, não entra". Depois, ela o perde de vista e volta
ao poema, um pouco à frente do ponto onde havia parado,
interrogando as palavras que a surpreendem mais, dando a
inflexão da inteligência, do assentimento exato que cada uma
delas reclama.
Chasse de leur acier la martre et l'hermine.**
* Tradução literal:"Entre as urzes, o púbis dos menires ... ". [N. T.]
** Tradução literal:"Expulsa de seu aceiro a marta e o arminho". [N. T.]
71
"De seu aceiro? A marta ... e o arminho. É isso, entendi: os covis
cortantes, os rios gelados: De seu aceíro." Um pouco mais abaixo:
En mangeant le bruit des hannetons, C'havann*
(Com pavor, fechando o livro:) "Oh! Isto aqui é a morte!"
A relação de cores entre as capas dos dois volumes a sur-
preende e seduz. Parece que "combinam" comigo. Sem dúvida
que fiz de propósito (um pouco). Depois fala-me de dois
amigos que teve: o primeiro, ao chegar a Paris, que costuma
designar pelo nome de "Grande amigo", era assim que ela o
chamava, e ele sempre quis que ela ignorasse quem ele era,
ela ainda demonstra uma imensa veneração por ele, era um
homem de quase setenta e cinco anos, que serviu muito tempo
nas colônias, e lhe disse ao ir embora que estava voltando para
o Senegal; o segundo, um americano que parece ter inspirado
nela sentimentos bem diferentes: "Além de tudo, ele me cha-
mava de Lena, em memória da filha que tinha morrido. É tão
afetivo, tão comovente, não é? Mas eu acabei não suportando que
me chamasse assim, como quem sonha: Lena, Lena ... Então eu
passava a mão várias vezes diante dos olhos dele, bem perto
dos olhos dele, desse j eito, dizendo: Lena, não, Nadja". Saímos.
Ela continua a falar: "Posso ver a sua casa. Sua mulher. Morena,
naturalm.ente. Pequena. Bonita. Olha, um cachorro perto dela.
Também um gato talvez, mas em outro lugar (exato). Por ora,
* Tradução literal: "Comendo o ruído dos besouros, Z'um um" . Os comen-
taristas de Jarry não encontraram uma explicação satisfatória para a expressão
C'havann, alguns julgando ser um termo regional, outros onornatopéico, opção
que adotamos. [N. T.]
72
é o que estou vendo". Resolvo voltar para casa, Nadja vem
comigo no táxi. Ficamos algum tempo em silêncio, brusca-
mente ela passa a me chamar de você: "Uma brincadeira: diga
qualquer coisa. Feche os olhos e diga uma coisa qualquer. Não
importa, um número, um nome. Assim (ela fecha os olhos):
Dois, duas, duas o quê? Duas mulheres. Como estão vestidas?
De preto. Onde estão? Num parque ... E, depois, o que fazem?
Vamos lá, é tão fácil, por que você não quer brincar? Pois
bem, é assim que falo comigo mesma quando estou sozinha,
que conto para mim mesma todo tipo de histórias. E não só
histórias de mentira: é exatamente desse jeito que eu vivo". *
Deixo-a à porta de minha casa: "E eu, agora? Aonde vou? Mas
é tão fácil descer devagar na direção da Rue Lafayette, o Fau-
bourg-Poissonniere, e começar retornando ao mesmo lugar
onde nós estávamos".
6 de outubro. - A fim de não ter que flanar por muito tempo,
saio lá pelas quatro, com a intenção de ir a pé até La Nouvelle
France, onde devo encontrar Nadja às cinco e meia. O tempo
para uma volta pelos bulevares até a Opéra, onde tenho que
dar uma passada rápida. Contrariamente a meu costume, esco-
lho seguir pela calçada direita da Rue de la Chaussée-d' Antin.
Umá das primeiras passantes com quem me apresto a cruzar é
Nadja, com o mesmo aspecto do primeiro dia. Ela vai seguindo,
como se não quisesse me ver. Como no primeiro dia, volto
meus passos e a acompanho. Mostra- se incapaz de explicar sua
* Não atingimos com isso o ponto extremo da aspiração surrealista, a sua
mais avançada idéia-limite? [N. A.]
73
À La Nouvelle France .. . (p. 73)
presença naquela rua aonde, para evitar maiores perguntas,
me diz ter ido à procura de balas holandesas. Sem nem pensar,
já fizemos meia-volta, entramos no primeiro café que surge.
Nadja guarda em relação a mim certas distâncias, mostra-se
até mesmo desconfiada. É assim que ela revira meu chapéu,
sem dúvida para ler as iniciais no forro, embora pretenda
fazer isso maquinalmente, pelo hábito de determinar, à reve-
lia deles, a nacionalidade de certos homens. Confessa que
tinha a intenção de faltar ao encontro marcado. Observei, ao
encontrá-la, que trazia na mão o exemplar de Os passos perdi-
dos que eu lhe havia emprestado. Coloca-o agora sobre a
mesa, e a julgar pela lateral, noto que só algumas pági nas
foram cortadas. Vejamos: as do artigo intitulado "O espírito
novo", onde relato precisamente· mn encontro impressio-
nante, ocorrido um dia, com alguns minutos de intervalo,
com Louis Aragon, André Derain e eu. A indecisão de que
cada um de nós deu prova naquelas circunstâncias, o emba-
raço em gue ficamos alguns instantes depois, na mesma mesa,
nos trouxe a preocupação de compreender o que se havia
passado conosco, o irresistível apelo que nos levou, a Aragon
e a mim, a voltar aos pontos onde surgira para nós aquela
verdadeira esfinge sob as formas de uma jovem encantadora
que ia de uma calçada à outra, a interrogar os passantes,
aquela esfinge que nos havia saltado, um após o outro, e, à
procura dela, tivemos que percorrer todas as linhas que, mesmo
muito caprichosamente, pudessem ligar aqueles pontos - a
falta de resultados dessa perseguição, que o tempo decorrido
teria tornado sem esperança, foi a isso que Nadja chegou de
imediato. Está surpresa e decepcionada de que o relato dos
curtos acontecimentos daquele dia me parecesse dispensar
75
comentários. Força-me a explicar-lhe o exato sentido que
atribuo a ele como tal e, já que o publiquei, sobre o grau de
objetividade que lhe empresto. Devo responder que não sei
nada a respeito disso, que nesse campo o direito de constatar
me pareceu ser tudo o que era permitido, que fui a primeira
vítima desse abuso de confiança, se é que há abuso de con-
fiança, mas percebo logo que ela não se dá por satisfeita, leio
em seu olhar a impaciência, em seguida a consternação. Talvez
imagine que estou mentindo: um constrangimento bastante
grande continua a reinar entre nós. Como fala em voltar para
casa, ofereço-me para levá-la. Ela dá ao motorista o endereço
do Théâtre des Arts, que, segundo diz, fica a poucos passos da
casa onde mora. No trajeto, me encara demoradamente, em
silêncio. Depois fecha e abre os olhos muito depressa, como
quando a gente encontra alguém que não vê faz tempo, ou
que não esperava mais ver, como que para significar "não acre-
dito no que meus olhos estão vendo". Uma certa luta também
parece se travar nela, mas de repente se entrega, fecha total-
mente os olhos, me oferece os lábios .. . Fala agora do meu
poder sobre ela, da faculdade que tenho de fazê-la pensar e
fazer o que eu quiser, talvez até mais do que eu julgo querer.
Suplica, desta forma, que eu não faça nada contra ela. Parece-
lhe que jamais teve segredos para mim, antes mesmo de me
conhecer. Uma curta cena dialogada, que se encontra no final
de Peixe solúvel, e que parece ser tudo o que leu do Manifesto,
cena à qual, aliás, nunca soube atribuir um sentido preciso, e
cujos personagens também me são estranhos, e igualmente
ininterpretável a agitação deles, como se tivessem sido trazidos
e levados por uma torrente de areia, lhe dá a impressão de ter
realmente participado dela, e até de ter desempenhado o papel,
no mínimo obscuro, de Hélene.* O lugar, a atmosfera, as atitu-
des respectivas dos atores eram bem o que eu havia concebido.
Ela queria me mostrar "onde aquilo acontecia": proponho jan-
tarmos juntos. Uma certa confusão deve ter se estabelecido
em seu espírito, pois ela nos manda rumar, não para a ilha
Saint-Louis, como supunha, mas para a Place Dauphine, onde
se localiza, coisa curiosa, um outro episódio de Peixe solúvel:
"Um beijo logo se esquece". (A Place Dauphine é de fato um
dos lugares mais profundamente ermos que conheço, um dos
piores terrenos baldios que existem em Paris. Cada vez que estive
lá, senti que me abandonava pouco a pouco o desejo de sair, pre-
cisando argumentar comigo mesmo para escapar desse enlace
tão suave, agradável e insistente demais, e, em última instância,
aflitivo. Além disso, morei por algum tempo num hotel que
confina com essa praça, o City Hotel, onde as idas e vindas a
qualquer hora, para quem não se satisfaz com soluções sim-
plistas, são suspeitas.) Cai a noite. Para estarmos sós, pedimos
na casa de vinhos que nos sirvam do lado de fora. Pela pri-
meira vez, durante a refeição, Nadja se mostra bastante frívola.
Um bêbado não pára de rondar a nossa mesa. Pronuncia bem
alto palavras incoerentes, em tom de protesto. Entre essas pala-
*
Não conheci pessoalmente nenhuma mulher com esse nome, que sempre
me desgostou e pareceu insípido, da mesma forma como sempre me seduziu o
de Solange. Contudo, Mme. Sacco, vidente estabelecida à Rue des Usines, n ~ 3,
que nunca se enganou a meu respeito, me assegurava, no princípio daquele
ano, que meu pensamento estava grandemente ocupado por uma "Hélene".
Teria sido por isso que, pouco tempo depois, me interessei vivamente por
tudo quanto dizia respeito a Hé/ene Smith? A conclusão a ser tirada daí estaria
na mesma ordem daquela que me foi imposta precedentemente pela fusão
num sonho de duas imagens bastante distanciadas uma da outra. "Hélene sou
eu", dizia Nadja. [N. A.]
77
Mme. Sacco, vidente, Rue des UJines, n ~ 3 ... (p. 77)
vras, uma ou duas obscenidades nas quais ele se apóia.A mulher
dele, que o vigia por baixo das árvores, limita-se a gritar de
vez em quando: "Então, você vem ou não?". Tento afastá-lo
varias vezes, mas em vão. Como chega a sobremesa, Nadja
começa a olhar a seu redor. Está certa de que sob os nossos pés
passa um subterrâneo que vem do Palais de Justice (ela mostra
de que parte do Palais, à direita da escadaria branca), e con-
torna o Hôtel Henri IV. Fica perturbada com a idéia do que já
aconteceu naquela praça e do que ainda acontecerá. Onde,
àquela hora, não mais que dois ou três casais se perdem na
sombra, ela parece ver uma multidão. "E os mortos, os mortos!"
O bêbado continua a zombar lugubremente. O olhar de Nadja
agora percorre as casas. "Está venci.o, lá em cima, aquela janela?
Está às escuras, que nem todas as outras. Olhe bem. Daqui a
um minuto ela vai se acender. Vai ficar vermelha." Passa o
minuto. A janela se acende. Há, de fato, cortinas vermelhas.
(Lamento que isto talvez ultrapasse os limites da credibilidade,
mas nada posso fazer. No entanto, em sernelhante assunto, gos-
taria de tomar partido: limito-me a concordar que, estando
escura, a janela em seguida se acendeu, nada mais.) Confesso
que aqui fico tomado pelo medo, e Nadja também. "Que hor-
ror! Está vendo o que acontece com as árvores? O azul e o
vento, o vento azul. Só vi esse vento azul passar por estas mes-
mas árvores uma outra vez. Foi de lá, de uma das janelas do
Hôtel Henri rv,* e o meu amigo, o segundo de que lhe falei,
tinha ido embora. Havia também uma voz que dizia: Você vai
morrer, vai morrer. Eu não queria morrer, mas senti uma ver-
* Que fica defronte à casa de que se trata aqui, para beneficio dos amantes das
soluções simplistas. (N. A.]
79
Pedimos na casa de vinhos que nos sirvam do lado de fora .. . (p. 77)
tigem daquelas ... Com certeza teria caído da janela se alguém
não tivesse me segurado." Acho que já passou da hora de dei-
xarmos o lugar. Ao longo do Sena, sinto-a toda trêmula. Foi
ela quem quis voltar na direção da Conéiergerie. Está muito
entregue, muito segura de mim. No entanto ela procura
alguma coisa, faz questão absoluta de que entremos num pátio
interno, o pátio de uma delegacia qualquer, que ela explora
rapidamente. "Não é aqui ... Mas, me diga, por que você tem
que ir para a cadeia? O que foi que fez? Eu também já fui
presa. Quem era eu? Ah, faz séculos. E você, quem era você,
então?" Passamos de novo pela grade quando de súbito Nadja
se recusa a continuar. Havia ali, à direita, uma janela em nível
inferior dando para a vala, uma vista da qual ela não consegue
se desprender. É diante dessa janela meio estropiada que temos
imperativamente de esperar. É de lá que tudo pode vir. É lá
que tudo começa. Mantém as mãos agarradas à grade, para que
eu não possa arrastá-la. Quase não responde mais às minhas
perguntas. Cansado de insistir, acabo esperando que ela conti-
nue o caminho por vontade própria. A idéia do subterrâneo
não a abandonou, e com certeza imagina estar em uma de suas
saídas. Pergunta-se quem poderia ter sido, na corte de Maria
Antonieta. Os passos dos transeuntes fazem- na estremecer
demoradamente. Fico nervoso e, desprendendo as mãos dela,
uma após outra, acabo por forçá-la a me seguir. Passamos mais
de meia hora nisso. Depois de cruzar a ponte, vamos rumo ao
Louvre. Nadja continua distraída. Para trazê-la de volta a mim,
recito um poema de Baudelaire, mas as inflexões da minha voz
lhe causam novo pavor, agravado pela lembrança que guardou
do beijo de pouco antes: "Um beijo no qual existe uma ameaça".
Pára de novo, apóia os cotovelos na amurada de pedra, de onde
81
o seu olhar e o meu mergulham no rio, nessa hora faiscante de
luzes: "Esta mão, esta mão sobre o Sena, por que esta mão que
arde sobre as águas? É verdade que o fogo e a água são a mesma
coisa. Mas o que dizer desta mão? Como é que a interpreta?
Deixe ver melhor esta mão. Por que quer que a gente vá
embora? Tem medo de quê? Acha que estou muito doente,
não é? Não estou doente. Mas o que isso significa para você: o
fogo sobre a água, a mão de fogo sobre a água? (Brincando:)
Boa sorte não é, com certeza: o fogo e a água são a mesma
coisa; o fogo e o ouro, coisas bem diferentes". Lá pela meia-
noite chegamos às Tulherias, onde ela quer que nos sentemos
por um momento. Diante de nós derrama-se um chafariz cuja
curvatura ela parece acompanhar. "São os seus pensamentos e
os meus. Olha de onde eles vêm, até onde se devam, e como
é mais bonito ainda quando caem. Logo em seguida se fun-
dem, se refazem com a mesma força, e recomeça esse arre-
messo que se despedaça, essa queda ... e assim indefinidamente."
Fico assustado: "Mas, Nadja, como isso é estranho! Onde é que
você foi buscar justamente essa imagem, que está expressa
quase da mesma forma num livro que você não pode ter
conhecido, e que acabei de ler?". (Sou levado a explicar que se
trata de uma vinheta, no alto do terceiro dos Dialogues entre
Hylas e Philonous, de Berkeley, na edição de 1750, onde vem
acompanhada da legenda: "Urget aquas vis sursum eadem .fiectit
que deorsum",* que no final do livro, do ponto de vista da defesa
da atitude idealista, ganha uma significação capital.) Mas ela
não me ouve, atenta que está às manobras de um homem que
* Tradução literal:"A mesma força lança as águas para os céus e as faz retornar
à terra". [N. r.]
Diante de nós derrama-se um chefariz
cuja curvatura ela parece acompanhar. .. (p. 82)
,
TROISIEME
HILONOUS. Hé bic11, H.Jl"
que Is font les fruics de vos n:

,h.
vnn•
No alto do terceiro dos Dialogues entre Hylas et Philonous ... (p. 82)
passa várias vezes na nossa frente e ela supõe conhecer, pois
não é a primeira vez que se encontra a tais horas neste jardim.
Esse homem, se é o mesmo, se ofereceu para casar com ela.
Isto a faz pensar na filhinha, uma criança de cuja existência ela me
informa com toda a precaução, e que ela adora, principalmente
porque não é uma criança como as outras, "com a mania de
arrancar os olhos das bonecas para saber o que há por trás
deles". Ela sabe que sempre atrai as crianças: onde quer que
esteja, elas tendem a se agrupar em torno dela, a vir sorrir para
ela. Fala agora como se estivesse sozinha, tudo o que diz tam-
bém não me interessa; está com a cabeça virada para o lado
oposto, e começo a me cansar daquilo. Mas, sem que eu tenha
dado qualquer sinal de impaciência: "Só mais uma coisa. Senti
de repente que ia fazê-lo sofrer. (Voltando-se para mim:) Aca-
bou." Ao sairmos do jardim, nossos passos nos levam pela Rue
Saint-Honoré, a um bar que ainda não havia encerrado o
expediente. Ela diz que viemos da Dauphine para o Dauphin.
(Na brincadeira de analogia com a categoria animal eu costu-
mava ser identificado com o delfim.) Mas Nadja se assusta
com uma faixa de azulejos que se prolonga do balcão até o
chão, e tivemos que sair dali na mesma hora. Combinamos nos
encontrarmos na Nouvelle France, somente depois de amanhã
à noite.
7 de outubro. - Sofri uma terrível dor de cabeça que, com ou
sem razão, atribuo às emoções daquela noitada e também ao
esforço de atenção, de acomodaçã.o que tive de fazer. Passei
a manhã inteira, no entanto, contrariado por causa de Nadja,
recriminando-me por não ter marcado encontro com ela para
85
hoje. Estou descontente comigo mesmo. Acho que a observo
demais, mas como agir de outra forma? Como será que ela me
vê, ou julga? É imperdoável que continue a vê-Ja se não a amo.
Ou será que não amo? Sinto, perto dela, que estou mais próxi-
mo das coisas que estão perto dela do que dela. No estadq em
que se encontra, ela vai necessariamente precisar de mim, de
um jeito ou de outro, de uma hora para outra. Não importa o
que me peça, recusar-lhe seria odioso, tão pura que ela é, livre
de todos os vínculos terrestres, pelo pouco, porém maravilhoso
apego que tem à vida. Ontem tremia, talvez de frio. Com uma
roupa muito leve. Seria igualmente imperdoável que eu não
lhe desse segurança sobre o tipo de interesse que tenho por
ela, que não a convença de que para mim ela nunca seria um
objeto de curiosidade, como poderia pensar, um simples capricho.
O que fazer? Resolver esperar até amanhã à noite é impossível. O
que fazer até lá, se não a vir? E se não voltar a vê-la? Não saberia
mais nada. Teria, então, merecido não saber. E isso nunca volta-
ria a acontecer. Pode haver esses falsos anúncios, essas graças de
um dia, verdadeiros precipícios da alma, abismo, abismo onde
mergulha para sempre o pássaro esplendidamente triste da adi-
vinhação. O que posso fazer senão ir, por volta das seis da tarde,
ao bar onde já tínhamos nos encontrado? Nenhuma possibilidade
de que lá esteja, naturalmente, a menos que ... Mas "a menos
que", não é aí que reside a grande possibilidade de intervenção
de Nadja, muito além da sorte? Saio por volta das três, com
minha mulher e uma amiga; no táxi, continuamos a falar de
Nadja, como j á havíamos feito durante o almoço. De repente,
sem que estivesse prestando a menor atenção nos transeun-
tes, sei lá que mancha rápida, ali, na calçada da esquerda, na
entrada da Rue Saint-Georges, me faz quase mecanicamente
86
bater no vidro do carro. Era como se Nadj a tivesse acabado
de passar. Corro, ao acaso, para uma das três direções que ela
pudesse tomar. É ela, de fato, agora parada, conversando com
um homem que, me pareceu, havia pouco a acompanhava. Ela
o despede bem rápido e vem se juntar a mim. No café, a con-
versa começa mal.Já sã.o dois dias consecutivos que a encontro:
é claro que está à minha mercê. Depois de dizer isto, mostra-se
muito reticente. Sua situação material é de fato desesperadora,
pois para poder restabelecê-la teria sido necessário não me
conhecer. Faz-me pegar em seu vestido, para mostrar quan-
to é encorpado, "mas isso em detrimento de todas as outras
qualidades". Não consegue pagar suas dívidas e tem sido alvo
das ameaças do gerente do hotel e de suas insinuações pavo-
rosas. Não faz nenhum mistério sobre o meio que empregaria,
se eu não existisse, para arranjar dinheiro, embora não tenha
nem mesmo a soma necessária para ir ao cabeleireiro e depois
entrar no Claridge, onde, fatalmente .. . "O que você quer", diz,
sorrindo, "o dinheiro foge de mim.Aliás, agora, para mim tudo
está perdido. Uma única vez na vida estive na posse de vinte
e cinco mil francos, que o meu amigo deixou para mim. Me
garantiram que em poucos dias seria facílimo triplicar a quantia,
com a condição de ir a Haia e trocar por cocaína. Deixaram
mais trinta e cinco mil francos comigo, destinados ao mesmo
fim. Tudo correu bem. Dois dias depois eu voltava com cerca
de dois quilos da droga na bolsa. A viagem se realizou nas me-
lhores condições. Mas, ao descer do trem, ouço uma voz me
dizer: Você não vai conseguir passar. Mal desci na estação, um
senhor, completamente desconhecido, avança ao meu encontro.
'Perdão, diz ele, não é com a senhorita D .. . que tenho a honra
de falar? - Sim, sou eu, mas o senhor vai me desculpar, não o
conhe ... - Não tem importância, aqui está minha identidade',
e me levou para o posto policial. Lá, perguntaram o que eu
trazia na bolsa. Eu disse o que era, naturalmente, abrindo-a. Foi
tudo. Fui solta no mesmo dia, com a intervenção de um ami-
go, advogado ou juiz, chamado G . • . Não me perguntaram mais
nada, e eu, alterada como estava, esqueci de avisar que nem
tudo vinha na bolsa, também tinham que procurar debaixo da
fita do meu chapéu. Mas o que iriam encontrar ali não valeria
a pena. Guardei para mim. Juro que acabou faz um tempão."
Amarrota uma carta na mão, que em seguida me mostra. É de
um homem que encontrara num domingo, na saída do Théâtre
Français. Sem dúvida, diz ela, um empregado, "pois levou vários
dias para me escrever, e só resolveu no princípio do mês". Ela
poderia, naquele instante, telefonar para ele, ele ou a qualquer
outro, mas não se decide. É mais que certo, o dinheiro foge dela.
De quanto precisaria imediatamente? Quinhentos francos. Não
tenho esse dinheiro comigo, mas é só prometê-lo para o dia
seguinte e toda a sua inquietação se dissipa. Saboreio mais uma
vez essa adorável mistura de leviandade e fervor. Com respeito,
beijo seus lindíssimos dentes e ela então, lenta e gravemente,
diz, pela segunda vez, num tom pouco mais alto que na primei-
ra: "A comunhão acontece em silêncio ... A comunhão acontece
em silêncio". É que esse beijo, ela me explica, a deixa com a
impressão de alguma coisa sagrada, em que seus dentes "fazem
as vezes de hóstia".
8 de outubro. - Abro, ao acordar, uma carta de Aragon, que a en-
viou da Itália, e na qual incluiu uma reprodução fotográfica do
detalhe central de um quadro de U cello que eu não conhecia.
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A obra se intitula A profanação da hóstia.* Quase ao fim do dia, que
transcorrera sem mais incidentes, vou até o bar de costume (À
La Nouvelle France), onde em vão espero por Nadja. Temo seu
desaparecimento mais do que nunca. Meu único recurso é ten-
tar descobrir onde ela mora, nas proxirnidades do Théâtre des Arts.
Consigo achar, sem muito esforço: é o terceiro hotel a que me
dirijo, o Hôtel du Théâtre, na Rue de Chéroy. Não a encontrando,
deixo uma carta pedindo que indique a melhor maneira de lhe
fazer chegar o que prometi.
9 de outubro. - Nadja telefonou na minha ausência. À pessoa
que atendeu, e que a meu pedido perguntou onde encontrá-la,
ela respondeu: "Não sou encontrável". No entanto, uma hora
mais tarde, por carta expressa, ela me convida para dar uma
passada no bar às cinco e meia. Lá estava ela, de fato. Sua ausência
da véspera deveu-se a um mal-entendido: tínhamos marcado,
excepcionalmente, um encontro no La Régence, e eu 1ne es-
queci. Entrego-lhe o dinheiro.** Ela chora. Estamos sozinhos no
bar quando de repente entra um velho pedinte, como nunca vi
igual em lugar nenhum. Oferece umas pobres gravuras sobre a
história da França. A que ele estende para mim, insistindo para
que a compre, um episódio qualquer dos reinados de Luís vr
e Luís vn (acabo precisamente de me ocupar dessa época, em
função dos " Cours d' Amour", e vivia imaginando com todo o
* Só alguns meses depois é que o vi reproduzido por inteiro. Pareceu carregado
de intenções ocultas e, no final das contas, de interpretação bastante difícil. [ N. A.]
** O triplo da importância prevista, o que também não deixa de ser coinci-
dência, como agora percebo. [N. A.]
A da hóstia ... (p. 89)
vigor o que poderia ser a concepção de vida naquela época) . O
velho comenta de maneira bastante confusa cada uma das ilus-
trações, e não chego a entender o que diz sobre Suger.* Pelos
dois francos que lhe dou, e em seguida, mais dois, para que ele
se vá, faz questão de nos deixar todas as gravuras, bem como
uma dezena de cartões-postais acetinados a cores, representan-
do mulheres. Impossível dissuadi-lo. Retira-se, andando para
trás: "Deus a abençoe, senhorita. Deus o abençoe, cavalheiro".
Agora Nadja me faz ler umas cartas que foram recentemente
enviadas, e que não me agradam nada. Eram lamuriosas, de-
clamatórias, ridículas, assinadas por e ... , de quem já tratamos.
G ... ? Mas sim, é o nome do presidente do Tribunal de Justiça
que, faz alguns dias, no processo de uma tal Sierri, acusada de
ter envenenado o amante, permitiu-se uma expressão ignóbil,
admoestando a indigitada por não ter nem mesmo "o reco-
nhecimento do ventre (risos)". Paul Éluard tinha precisamente
pedido que encontrássemos esse nome, que ele havia esque-
cido, e o deixara em branco no manuscrito da " resenha da
imprensa", destinada à La Révolutíon Surréaliste. Observo com
desagrado que, no verso dos envelopes que tenho sob meus
olhos, há, impressa, uma balança.
10 de outubro. - Jantamos no Quai** Malaquais, no restaurante De-
laborde. O garçom chama a atenção por sua extrema falta de
jeito: daria para dizer que estava fascinado por Nadja. Ocupa-se
* Quand le maigre Suger se hâtaít vers la Seine (Guillaume Apollinaire). [N. A.,
1962) Tradução literal:"Quando o magro Suger corria rumo ao Sena". [N. r.)
** Quai: avenida às margens do Sena. [N. r.J
91
inutilmente de nossa mesa, catando migalhas imaginárias na toa-
lha, trocando a bolsa de lugar sem o menor motivo, mostrando-se
inteiramente incapaz de decorar o pedido. Nadja ri à socapa e
me informa que a coisa ainda não acabou. De fato, enquanto
ele serve normalmente as mesas vizinhas, na nossa deixa o vi-
nho derramar por fora do copo e, tomando todas as precauções
possíveis para colocar um prato diante de um de nós, empurra o
outro, que cai e quebra. Do começo ao fim da refeição (entramos
novamente no reino do incrível), conto onze pratos quebrados.
Cada vez que vem da cozinha, e ainda que surja bem à nossa
frente, não pode evitar uma olhada para Nadja e parece tomado
de vertigem. A coisa é ao mesmo tempo burlesca e dolorosa. De-
cide não ousar se aproximar mais da nossa mesa, e temos enorme
dificuldade em terminar o jantar. Nadja não demonstra a menor
surpresa. Conhece esse poder sobre certos homens, entre outros,
os da raça negra, que, onde quer que esteja, sempre são levados a
vir a falar com ela. Conta que às três horas, no guichê da estação
de metrô Le Peletier, lhe deram de troco uma moeda nova de
dois francos, que ela manteve fechada entre as mãos todo o tem-
po em que ia pela escada. Ao empregado que perfura os bilhetes,
perguntou: "Cara ou coroa?". Ele respondeu coroa. Acertou. "A
senhorita estava querendo saber se daqui a pouco vai ver o seu
amigo. Pois vai ." Pela calçada à margem do Sena chegamos à
altura do Institut. Ela volta a me falar daquele homem a quem
chama de "Grande amigo", de quem se diz devedora por ser
quem é. "Sem ele, hoje eu seria a última das putas." Fico sabendo
que ele a punha para dormir toda noite, depois do jantar. Ela
levou vários meses para se dar conta disso. Ele a fazia contar os
mínimos detalhes de seu dia, aprovava o que julgava bom, cen-
surava o resto. E em seguida uma indisposição fisica, localizada
92
1 o!.., .._.,.c.i .. .tdc.. 0 1 1l q de Cl• • muni ( PI• ''" 1 C1011'"' r.orM h..1n I_, t C101•!•d•
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Acabo precisamente de me ocupar dessa época .. . (p. 89)
51 ltt!rn rd
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na cabeça, sempre a impedia de voltar a fazer o que ele devia ter
proibido. Aquele homem, perdido em sua barba branca, desejo-
so de que ela ignorasse tudo a seu respeito, funcionava para ela
como um rei. Em todos os lugares onde entrava com ele, tinha a
impressão de que a sua passagem despertava um movimento de
atenção muito respeitosa. No entanto, pouco depois, ela o viu
uma noite, sentado num banco de uma estação de metrô, e achou-
º cansado, desleixado, envelhecido.Viramos na Rue de Seine, pois
Nadja se recusava a seguir em linha reta. Parece novamente muito
alheia e me diz que está acompanhando no céu o relâmpago que
desenha lentamente uma forma de mão. "Sempre essa mão." Ela
me mostra realmente essa mão, num cartaz, um pouco além da
livraria Dorbon. Lá existe mesmo, bem acima de nós, essa mão
rubra, indicador em riste, louvando sei lá o quê. É absolutamente
necessário que ela toque essa mão, que ela tenta alcançar dando
saltos e que consegue espalmar contra a sua. "A mão de fogo, isso
é com você, bem sabe, ela é você." Fica algum tempo silenciosa,
creio que tem lágrimas nos olhos. De súbito, postando-se à minha
frente, parando-me quase, com aquela maneira extraordinária de
me chamar, como quem chama por alguém, de sala em sala, num
castelo vazio: "André? André? ... Você vai escrever um romance
sobre mim. Garanto. Veja só: tudo se esvai, tudo desaparece. É
preciso que reste algo de nós ... Mas isso pouco importa: você
arranja outro nome: que nome, quer que eu diga, isso é muito
importante. Tem que ser um pouco o nome do fogo, pois é sem-
pre o fogo que aparece quando se trata de você. A mão também,
mas é menos essencial que o fogo. O que vejo é uma chama que
começa no punho, como aqui (com o gesto de fazer uma carta
desaparecer) e que faz com que a mão se queime e desapareça
num piscar de olhos. Você vai encontrar um pseudônimo, latino
94
ou árabe.* Promete. É indispensável". Serve-se de uma imagem
nova para me fazer entender como vive: igual de manhã, ao to-
mar banho, quando seu o corpo se afasta enquanto ela contempla
a superficie da água. "Sou a idéia do banho no quarto sem espe-
lhos." Tinha esquecido de me contar a estranha aventura que lhe
ocorrera na noite anterior, lá pelas oito horas, quando, julgando
estar sozinha, ia cantando a meia-voz, enquanto esboçava alguns
passos de dança numa galeria do Palais-Royal. Uma velha surgiu
do umbral de uma porta fechada e ela achou que ia lhe pedir
dinheiro. Mas estava apenas querendo arranjar um lápis. Nadja
emprestou o dela, a outra fez menção de rabiscar algumas pala-
vras num cartão de visita, antes de enfiá-lo por baixo da porta.
Na mesma ocasião, entregou a Nadja um cartão igual, enquanto
explicava que viera consultar-se com Madame Camée, e que esta
infelizmente não estava. Isto aconteceu diante da loja em cujo
frontão liam-se as palavras: CAMÉES DURs.** Aquela mulher, segun-
do Nadja, só podia ser uma feiticeira. Examino o cartão de visita
de formato minúsculo que ela me estende e insiste em deixar
comigo: "Madame Aubry-Abrivard, femme de lettres, 20, Rue de
Varenne, 3': étage, porte à droite". (Esta história precisava ser es-
clarecida.) Nadja, que jogou uma aba da capa por cima do ombro,
ganha, com impressionante facilidade, ares de Diabo, tal como ele
aparece nas gravuras românticas. Está muito escuro e muito frio.
Ao me aproximar, assusto-me ao constatar que ela treme, mas
literalmente, "que nem uma folha".
* Contaram-me que sobre a porta de muitas casas árabes vê-se uma mão ver-
melha, num desenho mais ou menos esquematizado: a "mão de Fátima". [N. A.]
** "Camafeus duros." [N. T.]
95
CAMÉES DURS . . . (p. 95)
11 de outubro. - Paul Éluard foi até o endereço do cartão: nin-
guém. Na porta indicada havia um envelope espetado de cabeça
para baixo, com as palavras: "Hoje, II de outubro, Mme. Aubry-
Abrivard virá mais tarde, mas com certeza virá". Sinto-me in-
disposto após uma entrevista que se prolongou inutilmente pela
tarde. Além do mais, Nadja se atrasou, e não espero dela nada
de excepcional. Deambulamos pelas ruas, um ao lado do ou-
tro, mas bastante separados. Ela repete várias vezes, escandindo
cada vez mais as sílabas: "O tempo é implicante. O tempo é
implicante porque tudo tem que acontecer na hora certa". ico
impaciente ao vê- la ler o cardápio na porta dos restaurantes
e brincar com o nome d certos pratos. Aborreço- me. Passa-
mos, no Boulevard Magenta, diante do Sphinx Hotel. Nadja me
mostra o letreiro luminoso com estas palavras, que a levaram a
descer ali, na noite em que chegou a Paris. Ali permaneceu por
vários meses, recebendo apenas a visita do "Grande amigo", que
passava por tio dela.
12 de outubro. - Será que Max Ernst, a quem falei a respeito dé
Nadja, aceitaria fazer o retrato dela? Mme. Sacco, ele me disse,
viu no destino dele uma Nadia ou Natacha de quem ele não iria
gostar - seus termos foram mais ou menos estes -, e que causaria
um mal físico à mulher que ele ama: esta contra-indicação nos
pareceu suficiente. Pouco depois das quatro, num café do Bou-
levard des Batignolles, mais uma vez, devo fingir que tomo co-
nhecimento das cartas de G ... , cheias de súplicas e acompanhadas
de poemas estúpidos, decalcados de Musset. Depois Nadja me
mostra um desenho, o primeiro dela que vejo, feito outro dia,
no Régence, enquanto me esperava. Insiste em esclarecer alguns
97
No Boulevard Magenta, diante do Sphinx Hotel ... (p. 97)
de seus elementos, com exceção da máscara retangular, sobre a
qual não pode dizer nada além de que é assim que a vê. O ponto
negro no meio da testa da máscara é a cabeça do prego com o
qual é fixada; ao longo da linha pontilhada encontra-se primeiro
um gancho; a estrela negra, na parte superior, representa a idéia.
Mas o que constitui, para Nadja, o interesse principal da página,
sem que eu consiga fazê-la dizer por quê, é a forma caligráfica
dos L. - Depois do jantar, nas imediações dos jardins do Fa-
lais-Royal, o sonho dela adquiriu um caráter mitológico que
eu ainda não conhecia. Compõe num momento, com bastante
arte, até dar uma ilusão bem singular, a personagem de Melusi-
na. À queima-roupa, me pergunta: "Quem matou a Górgona?
Anda, vamos". Tenho cada vez mais dificuldade em seguir seu
solilóquio, que com longos silêncios acaba se tornando intradu-
zível para mim. Para nos distrair, sugiro sairmos de Paris. Gare
Saint-Lazare: rumo a Saint-Germain, mas o trem parte diante de
nossos olhos. Ficamos restritos, durante quase uma hora, a andar
na estação, de um lado para o outro. De repente, como no outro
dia, um bêbado começa a rondar à nossa volta. Reclama que
não sabe o caminho e quer que eu o leve pela rua. Nadja por
fim se aproxima. Como me faz observar, é certo que todos, até
os mais apressados, se viram para nos ver, que não é só para ela
que olham, é para nós. "Está vendo? Não podem acreditar, não se
conformain de nos verem juntos. Tão rara essa chama que você
tem, que eu tenho no olhar." No compartimento do trem, onde
estamos sozinhos, toda a sua confiança, toda a sua atenção, toda
a sua esperança se voltam para mim. E se descermos em Vésinet?
Ela sugere um passeio na floresta. Por que .não? Mas, ao beijá-la,
de repente ela dá um grito. "Olha (mostrando o alto da vidraça
da porta do vagão), alguém lá em cima.Acabo de ver muito ela-
99
tamente uma cabeça virada para baixo." Acalmo-a como posso.
Cinco minutos depois, a mesma história: "Estou dizendo que
tem um homem ali, com um quepe na cabeça. Não, não é uma
visão". Debruço-me para fora: ninguém no estribo, nem na esca-
dinha do vagão vizinho. No entanto Nadja afirma que não está
enganada. Fixa obstinadamente o alto do vidro e continua bas-
tante nervosa. Por desencargo de consciência, debruço-me para
fora mais uma vez. Bem a tempo de ver, muito distintamente,
recolher-se a cabeça de um homem que estava deitado de bru-
ços no teto do nosso vagão, bem acima de nós, e que de fato usa
um quepe de uniforme. Sem dúvida um empregado da ferrovia,
que se deu ao trabalho de vir lá do teto do vagão vizinho nos
espionar. Na estação seguinte, Nadja se detém à porta do vagão;
fico de olho, através da vidraça, na silhueta dos viajantes; um ho-
mem sozinho, antes de deixar a estação, manda um beijo para ela.
Outro procede da mesma forma, e um terceiro. Ela aceita com
benevolência e gratidão essas espécies de homenagem que nun-
ca lhe faltam e de que ela parece gostar muito. Em Vésinet, todas
as luzes apagadas, impossível conseguir fazer com que nos abram
qualquer porta. A perambulação pela floresta já não se mostra
tão empolgante. Somos obrigados a esperar o próximo trem, que
nos levará a Saint-Germain em mais ou menos uma hora. Pas-
sando em frente ao castelo, Nadja viu-se no papel de Mme. de
Chevreuse; com que graça escondia o rosto sob a pluma pesada
e inexistente do chapéu!
Poderia terminar aqui essa perseguição desvairada? Perseguição
de quê, eu não sei, mas perseguição, para assim recorrer a todos os
100
*
..9..tct.
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·'"'

--f.

'------:::....._\
Com exceção da máscara retangular,
sobre a qual não pode dizernada ... (p. 99)
artificias da sedução mental. Nada - nem o brilho de metais in-
comuns como o sódio ao serem cortados - nem a fosforescência
das pedreiras de certas regiões - nem o brilho do faiscar admirá-
vel que sobe dos poços - nem o crepitar da madeira de um reló-
gio de pêndulo que atiro ao fogo para que morra dando as horas
- nem a atração a mais que o Embarque para Citera exerce ao
verificarmos que, sob diversas atitudes, só um casal está em cena
- nem a majestade das paisagens de represas - nem o encanto de
um ornamento de parede com seus florões e os panos das cha-
minés, prédios em demolição: nada disso, nada do que para mim
constitui minha luz própria, nada foi esquecido. Quem éramos
nós diante da realidade, esta realidade que agora vejo deitada aos
pés de Nadja, como um cão vadio? Em que latitude nós podería-
mos estar bem, assim entregues ao furor dos símbolos, presas do
demônio da analogia, nós que nos víamos como objetos de ins-
tâncias últimas, de atenções singulares, especiais? Vem daí o fato
de que, projetados juntos, de uma vez por todas, tão longe da
terra, nos curtos intervalos que o nosso maravilhoso estupor per-
mitia, termos podido trocar algumas impressões incrivelmente
harmônicas por cima dos escombros fumegantes do velho pensa-
mento e da vida sempiterna? Do primeiro ao último dia, tomei
Nadja por um gênio livre, algo como um desses espíritos do ar
que certas práticas de magia permitem focar momentaneamente,
mas jamais submeter. Sei que ela, com toda a força do termo,
chegou a me tomar por um deus, a crer que eu era o sol. Lembro
também - e nada naquele instante poderia ter sido ao mesmo
tempo mais belo e mais trágico-, lembro de ter aparecido a ela
negro e frio, como um homem fulminado aos pés da Esfinge.Vi
seus olhos de avenca se abrirem de manhã, para um mundo em
que as batidas de asas da imensa esperança pouco se distinguiam
102
dos outros ruídos, que são o do terror, e neste mundo eu não via
senão olhos se fecharem. Sei que esta partida, para Nadja, desse
ponto aonde já é tão raro, tão temerário querer chegar, se rea-
lizava com o desprezo de tudo o que se convencionou invocar
no momento em que estamos perdidos, voluntariamente já bem
distantes da última jangada, à custa de tudo o que constitui as
falsas mas quase irresistíveis compensações da vida. Lá, no alto
do castelo, na torre da direita, há um cômodo que, sem dúvida,
nunca pensariam nos fazer visitar, que talvez visitássemos mal
- não há nem como tentar - mas que, para Nadja, é tudo o que
precisaríamos conhecer em Saint-Germain, por exemplo.* Admiro
muito esses homens que se deixam trancar num museu à noite
para poder contemplar à vontade, em tempo ilícito, um retrato
de mulher que iluminam com uma lanterna. Como é que, depois,
eles não iriam saber sobre essa mulher muito mais do que nós
sabemos? É possível que a vida peça para ser decifrada como um
criptograma. Escadas secretas, molduras cujos quadros deslizam
rapidamente e desaparecem;para dar lugar a um arcanjo de espa-
da em punho, ou para dar passagem aos que devem sempre avan-
çar, botões que apertamos muito indiretamente e provocam o
deslocamento em altura, em comprimento, de toda uma sala, e a
mais rápida mudança de cenário: é permitido conceber a grande
aventura do espírito como uma viagem desse gênero ao paraíso
das ciladas. Quem é a verdadeira Nadja, essa que me garante ter
errado por uma noite inteira, em companhia de um arqueólogo,
pela floresta de Fontainebleau, à procura de sei lá que vestígios
de pedra, os quais, admitamos, seria bem mais fácil encontrar du-
* Foi Luís VI quem, no início do século XII, mandou construir na floresta de Laye
um castelo real, origem do castelo atual e da cidade de Saint-Germain. [N. A.]
ro3
Seus olhos de avenca ... (p. 102)
rante o dia - mas se era essa a paixão daquele homem! -, ou seja,
a criatura sempre inspirada e inspiradora que só gostava de estar
na rua, para ela o único campo válido de experiências, na rua,
ao alcance da interrogação de qualquer ser humano que se lan-
ça sobre uma grande quimera, ou (por que não reconhecê-lo?)
daquela que caía, às vezes, porque afinal outros, que se acharam
no direito de lhe dirigir a palavra, não souberam ver nela senão
a mais pobre das mulheres, e de todas a mais mal defendida?
Houve um momento em que reagi com uma violência horrível
à narrativa circunstanciada demais que ela me fazia de certas
cenas de sua vida passada, das quais eu achava, sem dúvida muito
exteriormente, que a dignidade dela não poderia ter saído de
todo ilesa. A história de um murro que levou na cara e que fez
esguichar sangue, um dia, num salão da cervejaria Zimmer, do
murro recebido de um homem a quem ela se dera o malvado
prazer de se recusar, só porque era baixinho - e gritou por so-
corro várias vezes, não sem deixar de aproveitar, ao fugir, para
ensangüentar as roupas dele - quase me levou, no começo da
tarde de 13 de outubro, enquanto ela me contava essa história,
sem motivo, a me afastar dela para sempre. Não sei que senti-
mento de absoluta irremediabilidade essa horrível aventura me
fez provar, mas o certo é que chorei por um bom tempo depois
de tê-la ouvido, como já não acreditava mais que fosse capaz de
chorar. Chorava à idéia de que não devia mais ver Nadja, não,
eu não podia. Não queria mal a ela, de jeito nenhum, por não
ter escondido de mim aquilo que agora me desolava; antes, eu
me mostrava grato, mas por ela um dia ter podido passar por
aquilo, que para ela repontassem no horizonte, quem sabe, mais
dias como aqueles, eu não teria coragem de enfrentar. Ela estava,
naquele momento, tão tocante, sem fazer nada para quebrar a
105
Lá, no alto do castelo, na torre da direita . .. (p. 103)
resolução que eu havia tomado, mas, ao contrário, extraindo de
suas lágrimas a força para me exortar a seguir essa resolução! Ao
me dizer adeus, em Paris, ela não conseguiu, no entanto, deixar
de acrescentar, muito baixo, que era impossível, mas nada fez
para o tornar mais impossível. Se foi impossível em definitivo, só
dependeu de mim.
Voltei a ver Nadja muitas vezes, seu pensamento ficou ainda mais
claro para mim, e sua expressão ganhou em leveza, em originali-
dade, em profundidade. É possível que, ao mesmo tempo que o
desastre irreparável, que arrastou uma parte dela mesma, a mais
humanamente definida, desastre de que eu tivera noção naquele
dia, tenha me afastado pouco a pouco dela. Por mais maravilhado
que eu continuasse por aquela forma de se governar, fundamen-
tada apenas na mais pura intuição e operando permanentemente
com o prodígio, eu ficava também cada vez mais alarmado por
sentir que, assim que a deixava, ela era tragada novamente pelo
turbilhão da vida que prosseguia lá fora, obstinada em obrigá-
la, entre outras concessões, a que comesse, que dormisse. Ten-
tei durante algum tempo fornecer-lhe os meios, já que ela só
os esperava de mim. Mas como em certos dias parecesse viver
exclusivamente da minha presença, sem dar a mínima atenção
às minhas palavras, nem mesn10 quando conversava sobre coisas
indiferentes ou se calava, sem qualquer consideração para com
o meu dissabor; duvido muito da influência que eu pudesse ter
tido sobre ela para ajudá-la a resolver normalmente esse tipo de
dificuldade. Seria vão multiplicar aqui os exemplos de fatos de or-
dem inabitual, que pareciam dizer respeito somente a nós e que
me predispunham, no final das contas, a um certo finalismo que
permitiria explicar a particularidade de cada coisa,* de fatos, re-
pito, de que Nadja e eu fomos testemunhas no mesmo instante,
ou que apenas um de nós tenha testemunhado. Quero lembrar,
no correr dos dias, apenas de algumas frases, pronunciadas diante
de mim ou escritas de um jato sob os meus olhos por ela, as fra-
ses onde melhor encontro o tom de sua voz e cuja ressonância
em mim permanece intensa:
"O fim do meu fôlego é o começo do seu."
"Se você quisesse, eu não seria nada, ou apenas um traço,
para você."
"A garra do leão estreita o seio da vinha."
"O rosa é melhor que o negro, mas os dois combinam."
"Diante do mistério. Homem de pedra, compreende-me."
"Você é meu mestre. Não passo de um átomo que respira
no canto de seus lábios ou que expira. Quero tocar a serenidade
com o dedo molhado de lágrimas."
"Por que essa balança que oscilava na obscuridade de um
buraco cheio de bolas de carvão?"
"Não sobrecarregar os pensamentos com o peso dos sapatos."
"Eu sabia tudo, de tanto que buscava ler nos meus riachos
de lágrimas."
Nadja inventou para rmm uma flor maravilhosa: "a Flor dos
Amantes". Foi por ocasião de um almoço no campo que essa
flor apareceu para ela, que tentou reproduzi-la com grande ina-
bilidade.Voltou ao desenho várias vezes, para melhorá-lo e dar a
* Qualquer idéia de justificação teleológica nesse terreno, pensando bem, fi-
caria afastada de antemão. (N. A.]
I08
(

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(
''A. Flor dos Amantes" ... (p. rn8)
ambos os olhares uma expressão diferente. É essencialmente sob
esse signo que se deve considerar o tempo que passamos juntos,
e ele ficou como o símbolo gráfico que deu a Nadja a chave dos
demais. Várias vezes ela tentou fazer meu retrato, com os ca-
belos arrepiados para cima, como se aspirados por um vento das
alturas, feito enormes labaredas. Essas labaredas formavam igual-
mente o ventre de uma águia cujas asas pesadas caíam de um lado
e de outro da minha cabeça. Na seqüência de uma observação
inoportuna que lhe fiz sobre um de seus últimos desenhos, sem
dúvida o melhor, ela infelizmente rasgou toda a parte inferior,
de longe a mais insólita. O desenho, datado de 18 de novembro de
1926, representa um retrato simbólico dela e meu: a sereia, forma
sob a qual ela sempre se via, de costas, e naquele ângulo, tendo à
mão um rolo de papel; o monstro de olhos fulgurantes surge de
uma espécie de vaso que termina em cabeça de águia, cheio de pe-
nas, que representam as idéias. "O sonho do gato", que representa
o animal de pé sobre as patas traseiras, tentando fugir sem per-
ceber que está retido no chão por um peso, e suspenso por uma
corda que é ao mesmo tempo a mecha desmesuradamente gros-
sa de uma lamparina voltada para baixo, permanece para mim o
mais obscuro: é um corte apressado, obtido a partir de uma apa-
rição. Corte igualmente, mas em duas partes, de modo a poder
variar a inclinação da cabeça, é o conjunto constituído pela mão
e um rosto de mulher. "A saudação do Diabo", como o "O sonho
do gato", diz respeito a uma aparição. Um desenho em forma
de boné, assim como outro, que tem por título "Um persona-
gem nebuloso", que não se prestaria a ser reproduzido, são de ou-
tra inspiração: correspondem ao gosto de se procurar identificar
nas ramagens de um tecido, nos nós da madeira, nas rachaduras
de velhos paredões, silhuetas facilmente imagináveis. Neste aqui
IIO
,.
NAO. ,,
Um retrato simbólico dela e meu ... (p. no)
O sonho do gato ... (p. n o)
De modo a poder variar a inclinação da cabeça .. . (p. no)
pode-se distinguir sem dificuldades as feições do Diabo, uma
cabeça de mulher cujos lábios um pássaro vem bicar, a cabeleira,
o torso e a cauda de uma sereia vista de costas, uma cabeça de
elefante, um lobo-marinho, o rosto de outra mulher, uma ser-
pente, várias outras serpentes, uma espécie de cabeça de boi ou
de búfalo, os ramos da árvore do bem e do mal, e mais uns vin-
te elementos que a reprodução deixa um pouco à parte, mas que
constituem um verdadeiro escudo de Aquiles.Vale insistir sobre
a presença de dois chifres de animal, no ângulo superior direito,
presença que nem mesmo Nadja sabia explicar, pois sempre se
apresentava assim para ela, e como remetessem a algo cuja na-
tureza buscasse mascarar obstinadamente o rosto da sereia (isso
é particularmente sensível no desenho que existe no verso do
cartão-postal). De fato, alguns dias depois, Nadja, vindo à minha
casa, reconheceu os chifres como sendo os de uma grande máscara
da Guiné, que pertencera a Henri Matisse e que sempre admi-
rei e temi, por causa de seu paquife monumental, que evocava
uma sinaleira de ferrovia, mas que s6 do interior da biblioteca ela
poderia ver como os via. Na mesma ocasião, reconheceu num
quadro de Braque (O violonista) o prego e a corda exteriores ao
personagem, que sempre me intrigaram, e no quadro triangular
de Chirico (A angustiante viagem ou O enigma da fatalidade), a
famosa mão de fogo. Uma máscara cônica, feita de medula de
sabugueiro e de caniços, da Nova Bretanha, a fez gritar:"Olha só,
Chimene! ",.a estatueta de um cacique sentado pareceu-lhe mais
ameaçadora que as demais; discorreu bastante sobre o sentido
particularmente dificil de um quadro de Max Ernst (Mas os ho-
mens nada saberão), e de modo inteiramente conforme à legenda
minuciosa que figura no verso da tela; outro amuleto de que
depois me desfiz representava para ela o deus da maledicência;
II4
/
/ I f 1
! . (
1
•I
Desenhos de Nadja ... (p. rro)
Um verdadeiro escudo de Aquiles ... (p. u4)
No verso do cartão-postal ... (p. n4)
O prego e a corda exteriores ao personagem,
que sempre me intrigaram ... (p. rr4)
A angustiante viagem ou O enigma da fatalidade ... (p. n4)
"Olha só, Chímene!" ... (p. u4)
Mas os homens nada saberão ... (p. u4)
de outro, da ilha de Páscoa, o primeiro objeto selvagem que pos-
suí, ela dizia: "Eu te amo, te amo". Nadja representou-se também
muitas vezes sob os traços da Melusina, de todas as personalidades
míticas a de que se sentia mais próxima. Cheguei a vê-la tentando
transportar o que fosse possível dessa semelhança para a vida real,
obtendo a qualquer preço que o cabeleireiro distribuísse os cabe-
los em cinco tufos bem distintos, de modo a deixar uma estrela no
alto da testa. Além disso, deviam ser emolados, para terminar na
frente das orelhas, em chifres de carneiro, e esse enrolar de cabelo
em forma de chifre era um dos assuntos aos quais ela voltava com
mais freqüência. Gostava de figurar-se sob a forma de uma bor-
boleta cujo corpo era formado por uma lâmpada Mazda (Nadja)
em cuja direção se erguia uma serpente encantada (e desde então
não consegui mais ver sem embaraço o piscar do anúncio lumi-
noso das lâmpadas Mazda, nos grandes bulevares, que ocupa quase
toda a fachada do antigo teatro Vaudeville, onde precisamente dois
carneiros saltitantes se enfrentam, numa luminosidade de arco-íris).
Mas os últimos desenhos, então inacabados, que Nadja me mostrou
por ocasião de nosso último encontro e que iriam desaparecer na
tormenta que a engolfou, testemunham uma outra ciência. (An-
tes de nos encontrarmos ela jamais havia desenhado.) Neles, sobre
uma mesa, diante de um livro aberto, um cigarro que descansa no
cinzeiro deixa escapar insidiosamente uma serpente de fumaça,
um mapa-múndi seccionado para poder conter lírios, entre as
mãos de uma mulher muito bonita; tudo estava verdadeiramente
disposto para permitir a descida do que ela chamava o refletor hu-
mano, mantido fora de alcance por umas garras, e que ela dizia ser
"o melhor de tudo".
122
"Eu te ~ m o , te amo" ... (p. 122)
O anúndo luminoso das IJmpadas Mazda,
nos grandes bulevares ... (p. 122)
Fazia um bom tempo que eu havia deixado de me entender com
Nadja. Para falar a verdade, talvez nunca tenhamos nos entendido,
pelo menos quanto à maneira de encarar as coisas simples da vida.
Ela havia resolvido de uma vez por todas não dar importância
a coisa alguma, desinteressar-se pelo tempo, não fazer qualquer
diferença entre os propósitos ociosos que lhe ocorriam e outros,
que tanto me importavam, não se preocupando em absoluto com
as minhas disposições passageiras, nem com a maior ou menor
dificuldade que eu tinha em suportar suas piores distrações. Não
se irritava, conforme eu disse a ela, em me contar, sem ter a bon-
dade de omitir nenhum detalhe, as mais lamentáveis peripécias de
sua vida, de se entregar aqui e ali a caprichos sem propósito, de me
obrigar a esperar, o cenho bem franzido, até que quisesse passar
a outros exercícios, pois é claro que estava fora de cogitação que
ela pudesse se tornar normal. Quantas vezes, não agüentando mais,
já sem esperanças de poder conduzi-la a uma concepção real do
seu valor, eu quase fugi, pronto para encontrá-la no dia seguin-
te, tal como sabia ser quando ela mesma não estava desesperada,
recriminar meu próprio rigor e lhe pedir perdão! Apesar desses
fatos deploráveis, é preciso confessar, contudo, que ela me tratava
cada vez pior, que eu só cedia após discussões violentas, as quais
ela agravava lhes atribuindo motivos banais, que não existiam.
Tudo o que nos faz poder viver da vida de outra pessoa, sem
querer obter dela mais do que nos dá, bastando-nos vê-la se mo-
vimentar ou permanecer imóvel, falar ou se calar, velar ou dor-
mir, para mim também não existia mais, nunca existiu: eu não
tinha a menor dúvida. Nem podia ser de outra forma, conside-
rando o mundo de Nadja, em que tudo tomava imediatamente a
aparência da ascensão e da queda. Mas estou julgando a posteriori,
e me aventuro ao dizer que não dava para ser de outra forma. Por
125
mais vontade que tivesse, e quem sabe alguma ilusão também, eu
talvez não estivesse à altura do que ela me propunha. Mas afinal,
o que ela me propunha? Não importa. Só o amor, no sentido em
que o compreendo - ou seja, o misterioso, o improvável, o único,
o confundível e indubitável amor -, o amor a toda prova, teria
permitido, neste caso, a realização do milagre.
Vieram, há poucos meses, me informar que Nadja estava louca.
Na seqüência de, ao que parece, excentricidades a que tinha se
entregado nos corredores de seu hotel, acabou tendo que ser
internada no hospício de Vaucluse. Outros argumentarão de ma-
neira inútil sobre esse fato, que não lhes deixará de parecer o
desfecho fatal de tudo o que precede. Os mais bem-informados
se apressarão em procurar a parte que convém atribuir, no que
relatei sobre Nadja, às idéias já delirantes, e talvez atribuirão à
minha intervenção em sua vida, intervenção praticamente favo-
rável ao desenvolvimento dessas idéias, um terrível valor deter-
minante. No que diz respeito aos "Ah!, pois é", aos "Estava ven-
do", aos "Bem que eu dizia", de todos os cretinos de baixo nível,
não preciso dizer que prefiro deixá-los em paz. O essencial é que
acredito não haver para Nadja uma extrema diferença entre o
interior e o exterior de um hospício. Deve, contudo, haver alguma
diferença, por causa do ruído irritante de uma chave que gira na
fechadura, da miserável vista de um jardim, de ser interrogado por
uma cambada que não serviria nem mesmo para nos engraxar os
sapatos, como o professor Claude, do Hospital de Saint-Anne,
com sua fronte ignara e o ar teimoso que o caracterizam. ("Não
gostam de você, não é mesmo? - Não, não senhor. - Está men-
tindo; na semana passada me disse que queriam o seu mal", ou
126
Como o professor Claude, do Hospital de Sainte-Anne ... (p. 126)
.
J •
4.
':..í '
\
"A alma do trigo" (desenho de Nadja).
ainda: "Então você ouve vozes? Agora me diga, são vozes iguais
à minha? - Não, senhor. - Pois bem, está com alucinações audi-
tivas" etc.), por causa do uniforme, abjeto como todos os unifor-
mes, do esforço necessário até para se adaptar àquele ambiente,
porque apesar de tudo se trata de um ambiente, e como tal, exige
em certa medida que se adapte a ele. Não é preciso ter entrado
alguma vez num asilo para saber que é lá que se fazem os loucos,
bem como se fazem os bandidos nas casas de correção. Haverá
algo mais odioso que esses aparelhos ditos de conservação social
em que, por qualquer pecadilho, à mínima falta externa ao deco-
ro ou ao senso comum, um sujeito qualquer é atirado em meio a
outros cuja proximidade só pode ser nefasta para ele, e sobretu-
do privando-o sistematicamente do relacionamento com todos
aqueles cujo senso moral ou prático é mais firme que o seu?
Os jornais informam que no último congresso internacional de
psiquiatria,já na primeira sessão, todos os delegados presentes se
puseram de acordo para combater a persistente idéia popular
de que ainda hoje não se sai dos asilos com mais facilidade do
que no passado safa-se dos conventos; que neles estão encerradas
para sempre pessoas que nada tinham a fazer ali, ou que já não
têm o que fazer ali; que em geral a segurança pública não esteja
tão ameaçada como se acredita. E que cada um dos alienistas,
para se promover, citava um ou dois casos em proveito do seu
ativo, fornecendo sobretudo, com grande alvoroço, exemplos de
catástrofes ocasionadas pela volta à liberdade inoportuna ou pre-
matura de certos doentes graves. Com a responsabilidade mais
ou menos comprometida nessas aventuras, deixam. entender que,
na dúvida, prefeririam se abster. A questão, no entanto, me pa-
rece mal colocada .dessa forma. A atmosfera dos asilos não pode
deixar de exercer a mais debilitante, a mais perniciosa influência
129
sobre aqueles que lá se abrigam, e isso no próprio sentido a que
sua debilidade inicial os conduziu. Isto, complicado ainda pelo
fato de que qualquer reclamação, qualquer protesto, qualquer
movimento de intolerância só concorre para que se seja tachado
de insociabilidade (porque, por mais paradoxal que pareça, pede-
se, ainda nesse caso, que alguém seja sociável), só serve para criar
um novo sintoma que lhe é contrário, de natureza não somente a
impedir sua cura, se esta afinal devesse sobrevir, mas ainda a não
permitir que seu estado permaneça estacionário e não se agrave
com rapidez. Daí essas evoluções tragicamente repentinas que se
pode verificar nos asilos e que, com muita freqüência, não devem
ser as de uma só doença. É o caso de denunciar, em matéria de
doenças mentais, o processo dessa passagem quase fatal do agudo
para o crônico. Dada a infância extraordinária e tardia da psi-
quiatria, não saberíamos em nenhum grau falar de cura realizada
nestas condições. Por fim, penso que nem mesmo os alienistas
mais conscienciosos se importam. Não há mais, no sentido em
que se acostumou entendê-lo, a internação arbitrária, concordo,
pode até ser,já que um ato anormal que se prestou à constatação
objetiva e que assume um caráter delituoso a partir do instante
em que foi cometido em via pública, está na origem dessas de-
tenções mil vezes mais pavorosas que as outras. Mas, na minha
opinião, todas as internações são arbitrárias. Continuo a não ver
por que privar um ser humano de liberdade. Prenderam Sade;
prenderam Nietzsche; prenderam Baudelaire. O processo que
consiste em virem surpreender você à noite, em meterem você
na camisa-de-força ou em subjugarem de qualquer outra ma-
neira, equivale ao da polícia, quando enfiam um revólver no seu
bolso. Sei que, se fosse louco, logo depois de internado aprovei-
taria uma remissão que meu delírio me permitisse para assassinar
130
com frieza um desses, de preferência o médico, que me caísse nas
mãos. Com isso eu ganharia pelo menos, como acontece com os
loucos furiosos, o privilégio de ocupar uma solitária. Talvez assim
me deixassem em paz.
O desprezo que em geral tenho em relação à psiquiatria, às
suas pompas e obras, é tamanho que ainda não me atrevi a pro-
curar saber o que aconteceu com Nadja. Eu disse por que estava
pessimista quanto à sua sorte, assim como à de outras pessoas
do mesmo tipo. Se fosse tratada numa clínica particular, com
todos os cuidados que são dispensados aos ricos, sem se submeter
a qualquer promiscuidade que pudesse prejudicá-la, mas, pelo
contrário, confortada nos momentos oportunos pela presença de
amigos, satisfeita além do possível em seus gostos, reconduzida
gradativamente a um sentido aceitável da realidade, o que exigi-
ria não tratá-la de modo brusco, dando-se ao trabalho de fazê-la
regredir por conta própria à origem de sua perturbação, talvez
me precipite, mas tudo me faz acreditar que ela sairia desse mau
passo. Mas Nadja era pobre, o que, no tempo em que vivemos, é
suficiente para condená-la, a menos que perceba que não estava
inteiramente em harmonia com o código imbecil do bom senso
e dos bons costumes. Além disso, era só: "Há momentos em que
é terrível estar só a esse ponto. Só tenho vocês como amigos",
disse ela à minha mulher, ao telefone, da última vez. Era muito
forte, afinal, e muito fraca, como se pode ser, na convicção que
sempre teve, e na qual a mantive por tempo demais, ajudan-
do-a demais, talvez, a avançar o passo: ou seja, que a liberdade,
adquirida neste mundo ao preço de mil renúncias, as mais difi-
ceis, exige que desfrutemos dela sem restrições enquanto nos for
dada, sem consideração pragmática de nenhuma espécie, e isso
porque a emancipação humana, concebida em definitivo sob a
131
sua mais simples forma revolucionária, que não passa da eman-
cipação humana sob todos os aspectos, entendamos bem, segundo os
meios de que cada um dispõe, continua sendo a única causa digna a
que servir. Nadja foi feita para servir a essa causa, nem que fosse
só para demonstrar que se deve fomentar em torno de cada ser
uma conspiração muito particular, que não existe apenas na sua
imaginação, a qual seria conveniente, do simples ponto de vista
do conhecimento, levar em consideração, e também, mas muito
mais perigosamente, para passar a cabeça, depois um braço, entre
as grades assim afastadas da lógica, ou seja, da mais odiável das
prisões. Foi na via dessa última empreitada, talvez, que eu devesse
tê-la retido, mas antes teria sido preciso tomar consciência do
perigo que ela corria. Ora, jamais supus que ela pudesse perder
ou já tivesse perdido o dom desse instinto de conservação - ao
qual já me referi - e que faz com que todos os meus amigos e eu,
por exemplo, agüentemos - limitando-nos a desviar a cabeça - à
passagem de uma bandeira, que em todas as ocasiões não acuse-
mos a quem bem se entenda, que não nos concedamos a alegria
sem igual de cometer algum belo "sacrilégio" etc. Mesmo que
não seja digno do meu discernimento, confesso que não me pa-
receria exorbitante, entre outras coisas, que acontecesse de Nadja
me entregar um papel assinado por "Henri Becque", no qual
este lhe dava conselhos. Se esses conselhos fossem desfavoráveis a
mim, eu me limitaria a responder:" Impossível que Becque, um
homem inteligente, tenha dito isto". Mas compreendia perfeita-
mente, já que ela estava atraída pelo busto de Becque, na Place
Villiers, e gostava da expressão de seu rosto, e que insistisse e
obtivesse, sobre certos assuntos, a opiniã.o dele. Pelo menos não
há nada de mais irracional do que interrogar um santo ou uma
divindade qualquer sobre o que se deve fazer.As cartas de Nadja,
132
O busto de Becque, na Place Vílliers ... (p. 132)
que eu lia com os mesmos olhos com que leio qualquer tipo de
texto poético, também não poderiam apresentar para mim nada
de alarmante. Acrescentarei, em minha defesa, apenas algumas pa-
lavras. A bem conhecida ausência de fronteira entre a não-loucura
e a loucura não me dispõe a conceder um valor diferente às per-
cepções e idéias que são o fato de uma e de outra. Há sofismas
infinitamente mais significativos e mais pesados que as verdades
menos contestáveis: revogá-los por serem sofismas é ao mesmo
tempo desprovido de grandeza e de interesse. Se eram s o f i s ~ a s ,
devo a eles pelo menos ter podido me lançar em mim mesmo,
àquele que vem de mais longe a meu encontro, o grito, sempre
patético, de "Quem vem lá?"* Quem vem lá? É você, Nadja? É
verdade que o além, todo o além esteja nesta vida? Nada escuto.
Quem vem lá? Serei apenas eu? Serei eu mesmo?
*
Em francês, o grito dos sentinelas ("Qui vive?") adquire um significado
maior pela presença do verbo vivre (viver). [N. 1:]
134
Invejo (é modo de dizer) todo aquele que tem tempo de prepa-
rar algo assim como um livro e, depois de concluí-lo, ainda con-
segue interessar-se pela sorte dessa coisa ou pela sorte que afinal
de contas essa coisa lhe traz. Não venham me dizer que, durante
a sua elaboração, não se apresentou pelo menos uma verdadeira
oportunidade de renunciar a ele! O autor conseguiu ultrapassá-la,
e poderíamos esperar que nos desse a honra de dizer por quê. Pelo
que eu possa ter sido tentado a empreender, algo de grande fôlego,
estou seguro demais de desmerecer a vida tal corno a amo e ela se
oferece: vida de perder o fôlego. Os súbitos espaçamentos das palavras
numa frase, mesmo impressa, o traço que se risca ao falar por baixo
de certo número de proposições de que não seria o caso fazer a
soma, a elisão completa dos acontecimentos que, de um dia para o
outro, ou a algum outro, transtornam de cima a baixo os dados de
um problema cuja solução imaginávamos poder esperar, o indeter-
minável coeficiente afetivo de que se carregam e descarregam ao
longo do tempo as idéias mais longínquas que já sonhamos emitir,
bem como as lembranças mais concretas, fazem com que só tenha
coragem de me debruçar sobre o intervalo que separa estas últimas
135
In11ejo (é modo de dizer) todo aquele que tem tempo
de preparar algo assim como um livro .. . (p. 135)
linhas daquelas que, folheando o livro, pareciam acabar duas páginas
antes.* Intervalo muito curto, negligenciável para o leitor apressado
e mesmo para outros, mas, é preciso dizê-lo, desmesurado e de preço
incalculável para mim. Como poderia me fazer entender? Se relesse
esta história, com os olhos pacientes e de certa forma desinteressa-
dos que certamente teria, não sei muito bem, para ser fiel à minha
atual apreciação de mim mesmo, o que eu deixaria sobrar. Não faço
questão de saber. Prefiro pensar que de fins de agosto, data de sua
interrupção, a fins de dezembro, quando esta história, que me en-
contra curvado ao peso de uma emoção que desta vez interessa ain-
da mais ao coração do que ao espírito, se desprende de mim com o
risco de me deixar trêmulo, vivi mal ou bem - como se pode viver
- das melhores esperanças que ela preservara e, acredite quem quiser,
da própria realização, sim, da inverossímil realização dessas esperan-
ças. É porque a voz que nela passa ainda me parece humanamente
capaz de se erguer, porque não repudio alguns dos raros acentos
que nela incluí.Agora que Nadja, a pessoa de Nadja, está tão longe .. .
Assim como algumas outras. E que, trazido, ou quem sabe já mesmo
apreendido pelo Maravilhoso, o Maravilhoso que da primeira à úl-
tima página deste livro não terá mudado nem um pouco, ressoe em
meus ouvidos um nome que não é mais o dela.
* Planando recentemente no cais do Vieux-Port, em Marselha, pouco antes do
pôr-do-sol, um pintor estranhamente escrupuloso lutava com habilidade e rapidez
para terminar sua tela com a luz declinante. A mancha correspondente à do sol
descia devagar, junto com o sol. Em pouco tempo, nada restava. De súbito o pintor
se viu muito atrasado. Eliminou o vermelho de uma parede, empalideceu um ou
dois brilhos que permaneciam na água. Seu quadro, para mim e para ele o mais
inacabado do mundo, me pareceu muito triste e muito bonito. [N. A.]
137
Comecei por rever vários dos lugares a que este relato conduz;
fazia questão, na verdade, tanto em relação a algumas pessoas
como a objetos, de tornar uma imagem fotográfica do mesmo
ângulo especial em que eu próprio as havia considerado. Na oca-
sião, constatei que com raras exceções eles se defendiam mais
ou menos de minha iniciativa, de forma que a parte ilustrada
de Nadja acabou ficando, na minha opinião, insuficiente: Becque
rodeado por tapumes sinistros, a diretoria do Théâtre Moderne es-
condida na encolha, Pourville morta e desilusionante como ne-
nhuma outra cidade da França, o desaparecimento de quase tudo
o que diz respeito a O abraço do polvo e, principalmente, pois fazia
absoluta questão de que neste livro não fosse de outra forma, a
impossibilidade de obter autorização para fotografar a adorável
atração, no Musée Grévin, que é aquela mulher fingindo apertar
furtivamente, no escuro, a cinta-liga, e que em sua pose imutável
é a única estátua, que eu saiba, a ter olhos: os próprios olhos da
provocação.* Embora o Boulevard Bonne-Nouvelle, infelizmen-
* Até agora não me havia sido dado extrair tudo o que, na atitude de Nadja em
relaçã.o a mim, decorre da aplicação de um princípio de subversão total, mais ou
menos consciente, do qual darei como exemplo apenas este fato: uma noite, eu
estava ao volante de um carro na estrada de Versalhes a Paris, tendo ao meu lado
uma mulher que era Nadja, mas que poderia ter sido, não é mesmo, qualquer
outra, e mesmo aquela outra, enquanto o pé dela mantinha o meu apertado contra
o acelerador e, com as mãos, buscava tap:ir meus olhos, no esquecimento que um
beijo sem fim proporciona; queria que não existíssemos mais, sem dúvida parn
sempre, a não ser um para o outro, que partíssemos assim, a toda a velocidade-, de
encontro às belas árvores. Que prova de amor, é verdade .. Inútil acrescentar que
não atendi a esse desejo. Todos sabem onde eu estava então, onde, segundo sei,
quase sempre estive com Nadja. Não sou menos grato a ela por ter me revela-
do, de maneira terrivelmente penetrante, aonde um reconhecimento mútuo do
amor teria nos levado naquela hora. Eu me sinto cada vez menos capaz de resistir
No Musée Grévin ... (p. 138)
te, numa das minhas ausências de Paris, tivesse, por ocasião das
magníficas jornadas de pilhagem conhecidas como "Sacco-Van-
zetti", parecido corresponder a uma expectativa que foi minha,
se constituindo verdadeiramente como um dos grandes pontos
estratégicos que procuro em matéria de desordem, e sobre os
quais persisto em acreditar que me sejam obscuramente forne-
cidos certos indícios - a mim como a todos aqueles que cedem
de preferência a instâncias semelhantes, desde que o sentido mais
absoluto do amor ou da revolução esteja em jogo e implique a
negação de tudo o mais-; embora o Boulevard Bonne-Nouvelle,
com as fachadas de seus cinemas repintadas, tenha desde então se
imobilizado para mim, como se a Porte Saint-Denis acabasse de
fechar, vi renascer e de novo morrer o Théâtre des Deux-Mas-
ques, que era agora apenas o Théâtre du Masque e, sempre na
Rue Fontaine, ficava no meio do caminho da minha casa. Etc. É
engraçado, como dizia aquele abominável jardineiro. Mas lá se vai,
não é mesmo, do mundo exterior, esta história de dormir em pé.
Com o tempo que faz, um tempo de não se pôr um cão lá fora.
Não sou quem vai meditar sobre o que advém da "forma de
uma cidade", nem mesmo da verdadeira cidade, alheia e abstrata,
daquela em que moro, por força de um elemento que seria para
a semelhante tentação ern todos os casos. O mínimo que posso fazer é dar graças,
nesta recordação derradeira, àquela que me fez compreender a quase necessidade
disso. É com uma extrema potência de desafio que certas pessoas muito raras, que
podem esperar ou temer tudo umas das outras, se reconhecerão sempre. Pelo me-
nos do ponto de vista ideal, não raro me encontro, de olhos vendados, ao volante
daquele carro selvagem. Meus amigos, os mesmos que me dariam refúgio em sua
casa se mínha cabeça valesse o seu peso em ouro e corressem um risco enorme
em me esconder - só me devem essa esperança trágica que deposito neles -, da
mesma forma, em matéria de amor, seria para mim apenas uma questão, com
todas as condições requeridas, de voltar àquele passeio noturno. [N. A.]
a minha mente o que o ar é para a vida. Sem nenhum arre-
pendimento, nesta hora eu a vejo tornar-se diferente e até fugir.
Resvala, se incendeia, afunda no redemoinho de suas barricadas,
no sonho das cortinas de seus quartos, onde um homem e uma
mulher continuarão a se amar indiferentes. Deixo sob forma de
esboço essa paisagem mental, cujos limites me desencorajam, a
despeito do seu espantoso prolongamento para os lados de Avig-
non, onde o Palácio dos Papas não sofreu com as noites de inver-
no e as pancadas de chuva, onde uma velha ponte acabou caindo
com o peso de uma canção infantil, onde uma intraível e mara-
vilhosa mão apontou, não faz muito tempo, uma enorme placa
indicativa azul-celeste, com estas palavras: LES AUBES.* A despeito
desse prolongamento e de todos os outros, que me servem para
plantar uma estrela no próprio coração do findo. Adivinho, e isto
não deixa estabelecido que eu já tenha adivinhado. Não impede
que, se for preciso esperar, se for preciso querer ter certeza, se
for preciso tomar precauções, se for preciso dar ao fogo a parte
do fogo, e somente parte, eu me recuse absolutamente. Que a
grande inconsciência viva e sonora que inspira meus próprios
atos probatórios disponha para sempre de tudo o que sou. Su-
primo com prazer a oportunidade de tomar de volta tudo o que
aqui lhe dou de novo. Só a ela quero mais uma vez reconhecer,
só quero contar com ela, e quase preguiçosamente percorrer seus
molhes imensos, fixando eu mesmo um ponto brilhante que sei
haver no meu olho, e que me impede de chocar contra esses
palermas da noite.
Contaram-me certa vez uma história tão idiota, tão sombria,
tão emocionante. Um senhor chega um dia a um hotel e pede
*
"As alvoradas." [N. T.]
141
Uma enorme placa indicativa azul-celeste ... (p. 141)
um quarto. Dão-lhe o 35.Alguns minutos depois, desce e entre-
ga a chave na portaria: "Por favor", diz ele, "minha memória é
péssima. Se o senhor permite, toda vez que eu chegar, vou dizer
meu nome: senhor Delouit.* E a cada vez o senhor me repetirá o
número do quarto. - Pois não, senhor". Pouco depois, ele volta e
se dirige à portaria: "Senhor Delouit. - É o quarto 35. - Obriga-
do". Dali a um minuto, um homem extraordinariamente agitado,
as roupas cobertas de lama, ensangüentado e quase sem feições
humanas, se dirige à portaria: "Senhor Delouit. - Como? Senhor
Delouit? Não me venha com esta. O Sr. Delouit acabou de subir.
- Desculpe, sou eu mesmo .. . É que caí pela janela. O número do
meu quarto, por favor?".
Foi essa história que, eu também, obedeci ao desejo de te contar,
embora mal te conhecesse, a ti que agora não podes mais lembrar,
mas que, tendo sabido, como que por acaso, do princípio deste li-
vro, vieste intervir de maneira tão oportuna, violenta e eficaz jun-
to a mim, com certeza para me lembrar que eu o queria "escan-
carado como uma porta", e que por essa porta eu só veria entrar
a ti. Entrar ou sair, senão a ti. Tu, que de tudo o que eu disse aqui
só terás recebido um pouco de chuva em tua mão, erguida para
"LES AUBES" . Tu, que me fazes lamentar tanto ter escrito aquela
frase absurda e irretratável sobre o amor, o único amor, "o que só
pode ser a toda prova". Tu, que, para todos aqueles que me ouvem,
não deves ser uma entidade, mas uma mulher, tu, que não passas
de uma mulher, apesar de tudo o que em ti me levou e me leva
* Ignoro a grafia correta deste nome. [N. A.]
143
a crer que seja a Quimera. Tu, que fazes admiravelmente tudo o
que fazes, e cujas razões esplêndidas, sem confinar para mim com
a sem-razão, cintilam e caem mortalmente como os raios. Tu, a
criatura mais viva, que só parece ter sido posta no meu caminho
para que eu prove com todo o rigor a força de tudo o que não foi
provado em ti. Tu, que só conheces o mal por ouvir dizer. Tu, é
claro, idealmente bela. Tu, que tudo leva ao romper do dia, e que
por isso mesmo eu talvez jamais eu volte a ver. ..
Sem ti, o que eu faria deste amor, do talento que sempre reco-
nheci em mim, em nome do qual não pude fazer menos que tentar
alguns reconhecimentos aqui e ali? Eu me gabo de saber onde reside
esse talento, quase em saber no que consiste, e o considerava capaz
de conciliar todos os outros grandes ardores. Creio cegamente em
teu talento. Não será sem tristeza que retirarei essa palavra, se ela te
espanta. Mas quero bani-la de uma vez por todas. O talento ... o que
eu ainda poderia esperar de alguns possíveis intercessores que me
apareceram sob esse signo e que deixei de ter perto de ti!
Sem ser de propósito, mas tomaste o lugar das formas que
me eram mais familiares, bem como o de várias figuras de meu
pressentimento. Nadja era dessas últimas, e está perfeito que as
tenhas ocultado de mim.
Só sei que essa substituição de pessoas termina em ti, pois és
insubstituível, e que para mim seria à tua frente, por toda a eterni-
dade, que essa sucessão de enigmas teria fim.
Não és um enigma para mim.
Afirmo que me desvias do enigma para sempre.
Já que existes, como só tu sabes existir, talvez não fosse ne-
cessário que este livro existisse. Pensei que pudesse decidir de outra
forma, em memória da conclusão que eu queria dar a ele antes
de te conhecer, e que a meus olhos a tua irrupção na minha vida
144
não tornou vã. Esta conclusão, aliás, só adquire o seu verdadeiro
sentido e toda a sua força através de ti.
Ela sorri para mim como às vezes me sorriste, por trás de
grandes efusões de lágrimas. "Isto também é o amor", você dizia,
e mais injustamente chegaste a dizer: "Tudo ou nada".
Jamais vou contradizer essa fórmula de que a paixão se ar-
mou definitivamente, colocando-se na defesa do mundo contra
ele mesmo. No máximo, trataria de interrogá-la sobre a natureza
desse "tudo" se, a esse respeito, por ser paixão, ela não devesse
estar fora da possibilidade de me entender. Os seus movimentos
diversos, mesmo na medida em que sou vítima deles - e que ela
seja ou não capaz de me cassar a palavra, de me retirar o direito à
existência -, como é que me arrancariam todo o orgulho de tê-
la conhecido, a humildade absoluta que quero para mim, diante
dela e apenas diante dela? Não vou apelar para as suas determina-
ções mais duras, mais misteriosas. Seria o mesmo que querer parar
o curso do mundo, em virtude de não sei que potência ilusória
que ela exerce sobre ele. O mesmo que negar que "cada um quer
e crê ser melhor do que seu mundo, mas aqueles que são melho-
res apenas exprimem melhor que outros este mesmo mundo".*
Daí decorre necessariamente uma certa atitude em relação à beleza,
ficando claro que aqui ela só foi considerada para fins passionais.
Nada estática, ou seja, encerrada em seu "sonho de pedra", perdida
para o homem na sombra daquelas Odaliscas, no fundo daquelas
tragédias que não pretendem abranger mais do que um dia, só um
*
Hegel. [N. A.]
145
pouco menos dinâmica, ou seja, submeti.da a este galope desenfreado,
após o qual começa, desenfreado, outro galope, ou seja, mais aturdi-
da que um floco na neve; ou seja, disposta, com medo de ser mal se-
gurada, a nunca se deixar abraçar: nem dinâmica nem estática, vejo
a beleza como te vi. Como vi o que, em dita hora, num dito tempo,
do qual espero, de toda a minha alma, que será novamente dito, te
concedia a mim. Ela é como um trem que resfolga sem cessar na
estação de Lyon, e que sei nunca vai partir, jamais partiu. É feita de
impulsos, muitos dos quais não têm a menor importância, mas que
sabemos ser destinados a provocar um Impulso, que tem importân-
cia. Que tem toda a importância que eu não gostaria de dar a mim
mesmo. O espírito reivindica.um pouco por toda parte direitos que
não tem. A beleza, nem dinâmica nem estática. O coração humano,
belo como um sismógrafo. Reino do silêncio ... Um jornal matuti-
no será suficiente para me dar notícias de mim mesmo:
X. .. , 26 de dezembro. - O operador encarregado da estação de telégrafo
sem fio situada na Ilha da Areia captou um fragmento de mensagem que
teria sido emitida domingo à· noite, às .tantas horas pelo ... A mensagem
dizia, resumidamente: 'Alguma.coisa não. vai bem', mas não indicava a
posição do avião no momento, e, devido às péssimas condições atmoiféricas
e a que se produziam, o operador não conseguiu compreen-
der nenhuma outra frase, nem entrar de novo em comunicação.
A mensagem foi transmitida num comprimento de onda de 625 me-
tros; por outro lado, consíderando a força da recepção, o operador considera
que o avião possa estar localizado num raio de oitenta quil8metros em
torno da Ilha da Areia.
A beleza será CONVULSIVA, ou não será.
Apêndice
História de um desastre por Annie Le Brun
A vantagem dos livros em relação aos monumentos históricos
é que podemos visitá-los sem guia, a qualquer momento e
com toda a liberdade. E, no entanto, a leitura de Nadja sempre
dependerá de um arrombamento.
O que não deixa de surpreender,já que, escrito há mais
de setenta anos, o livro é reconhecido por ter marcado a his-
tória da sensibilidade a ponto de tornar-se um mito. E seria
dificil não levar isso em conta, uma vez que, fato raríssimo,
desde a sua publicação, em 1928, alguns críticos não se dei-
xaram enganar, por vezes até mesmo apesar de seus parcos
recursos.
Se um deles observa, de início, uma estranha aliança entre
classicismo e novidade, pela qual o livro se situaria na tradi-
ção francesa da Princesa de Cleves, um outro insiste em citar, a
respeito da figura de Nadja, ao mesmo tempo Blake, Nerval,
William Cooper e Holderlin. Mas um artigo do início de 1929
resume todos aqueles que, confusamente ou não, souberam re-
gistrar o acontecimento: "De vez em quando sai um livro que
149
representa um marco na história da sensibilidade. Ontem, Des
Esseintes, Barnabooth
1
- hoje,. talvez, Nadja''.
2
Desde então, muitos comentadores, acadêmicos ou não, se
esforçaram em explicar a novidade de Nadja,. sem no entanto
realmente se dar conta
3
do quanto ele desmascara projeto roma-
nesco como falso diante da vida que se vai escrevendo, não mais
fora do tempo, mas na crista do tempo, feito uma linha de incan-
descência que, ao seguir o que às vezes nos leva a nos descobrir
no que há de mais distante em nós mesmos, iluminasse sozinha o
abismo onde os nossos dias e noites se confundir.
Sobre isso, não é inútil dizer uma vez mais que, ao contrário
do que já se afirmou,. Nadja é uma história verdadeira, vivida no
mais profundo de si mesmo, por aquele que empreendeu a nar-
rativa. Mas também que seu propósito é deliberadamente estra-
nho ao que costuma ser a matéria do romance, àquelas múltiplas
em nome das quais uns e outros acabam aceitando
os papéis que lhes são atribuídos, até conceber o mundo como o
cenário que convém a seu pífio destino. Ao começar, pelo con-
trário, perguntando "Quem sou eu?'', privando-se das habituais
comodidades da introspecção, da psicologia ou de alguma análise
dessa ordem, André Breton muda por inteiro a situação. Apenas
acontecimentos, impressões ou intuições, que têm em comum o
I. Des Esseintes: personagem principal de Ás avessas (1884), romance de J.-K.
Huysmans; Barnabooth: protagonista de A. O Barnabooth, ses oeuvres complêtes, e' est
à dire : un conte, ses poésies et son journal intime (1908-13), de Valery Larbaud. [N. T.];
2. Citado sem o nome do autor por Marguerite Bonnet em André Breton,
CEuvres complêtes. Paris: Gallímard, La Plêiade, 1988, t. l , p. 1520.Vamos nos refe-
rir à nota "Réception de 1'reuvre" (pp. r5r7-21) para as duas outras críticas aqui
mencionadas.
3. Exceto Marguerite Bonnet em sua apresentação do texto, op. cit.,pp. 1495-r5n .
150
fato de estarem na origem de emoções singulares que o levam
a se reconhecer através de ''sensações eletivas [ .. . ] cuja parte de
incomunicabilidade é uma fonte de prazeres inigualáveís".
Isso permitiria supor que escrever não teria outra serven-
tia senão a de evidenciar a coerência de tantos acontecimentos
habitualmente negligenciados por terem sido considerados ne-
gligenciáveis. Mas basta que o correr da pena se confunda com
o correr dos dias para que se revele, através de suas malhas até
então imperceptíveis, uma outra forma de estar no mundo.
Daí a violência com que André Breton ataca o romance,
cuja função falseadora, sob essa perspectiva; não dá margem a
nenhuma dúvida. A rigor, não se trata aqui, de modo algum, da
oposição de um gênero literário a outro, mas de uma inacreditá-
vel tentativa de desvio das potências da literatura, para interrogar a
pessoa humana à margem dela mesma, onde e quando o modelo
social dá lugar a tudo o que nos assombra. Em 1946, Georges
Bataille escrevia: ''Em matéría de separar o homem de si mesmo,
há o surrealismo e mais nada" .Vinte anos antes, a desconcertante
ilustração disso era dada por Na4ja.
Desconcertante,. mas também trágica, a tal ponto que nunca dei-
xarei de me surpreender diante da mania, que parece atingír
a maioria, de reduzir tudo à líteratura, para ficar só na poesia
da cidade nesse texto, só no lirismo da figura errante de Nadja,
enquanto, com uma evidência que chega a ser dilacerante, este
livro nasce sob os passos de dois personagens à deriva, presos na
atmosfera opressora de um labirinto do qual tanto um como o
outro tentam escapar, se encontrando e se perdendo. Pois Nadja
é, antes de mais nada, a história de um desastre.
Desastre cujo alcance hoje talvez nos seja dado avaliar, na
medida em que a ausência de perspectivas dos últimos anos nos
aproxima da situação em que se encontrava André Breton. Em
1926, a solução revolucionária como tal ainda não se impusera a
ele, mesmo sendo um simpatizante do marxismo. De todo modo,
sua preocupação se volta manifestamente ao drama interior das
pessoas, mais do que qualquer outro. Quanto à possibilidade de
superá-lo, ele só a considera por meio da idéia de "que deve
se fomentar em torno de cada ser um complô muito particular,
que não está somente na sua imaginação, e que, do mero ponto
de vista do conhecimento, deveria ser levado em conta", e isso,
à maneira de Nadja, até passar "a cabeça, depois um braço, entre
as grades assim entortadas da lógica, ou seja, da mais odiável das
prisões". Logo em seguida, André Breton percebe o perigo disso
- "É a caminho dessa última empreitada, talvez, que eu deveria tê-
la segurado, mas antes disso teria sido preciso tomar consciência
do perigo que ela corria"-, e será esta a medida de absoluto com
a qual ele não deixará mais de conceber a liberdade.
Loucura? Talvez, mas não é dificil reconhecer aí o sentido
ilimitado da liberdade, pelo qual Sade, Rimbaud, Jarry e alguns
outros pagaram com uma solidão sem saída. O drama de André
Breton - também poderíamos dizer sua ingenuidade ou seu de-
safio - é de querer fazer dela a medida das relações humanas para,
assim, tentar conjurar"a inaceitável condição humana". Seja o que
for, seu desejo maior é o de partilhar essa liberdade sem partilha.
E a novidade trágica de Nadja está aqui, nesta aposta indis-
sociável de um desespero ao qual até então nada pôde se opor,
nem o amor, nem a amizade, nem a revolução, muito menos a li-
teratura. Pois não devemos esquecer que André Breton tem trin-
ta anos, e que escreveu o Manifesto do surrealismo dois anos antes.
152
Assim, é em pleno conhecimento de causa que, desde o início de
sua narrativa, como que para anunciar a cor do horizonte mais
plúmbeo, ele evoca Huysmans, "o Huysmans de En rade e Là-
bas", para nele encontrar "maneiras tão iguais às minhas de apre-
ciar tudo o que se nos apresenta, de escolher com a parcialidade
do desespero entre o que é". E isto pela simples e terrível razão
de que a vida, a vida corriqueira, a vida na qual quase todos se
acomodam, é para ele uma prisão. De certo modo, ele não se
reconhece nela, a exemplo de Nadja, sentindo-se como que con-
denado a procurar, de sinais aos acasos, um caminho para sair dela.
Por essa mesma razão, ficou fácil acusá-lo de não ter visto o que,
desde o início, qualquer pessoa "normal" poderia ver: que Nadja
corria para sua própria perda, que era também a dele.
Essa normalidade, vale lembrar, feita de concessões sem fim,
de renúncias incomensuráveis, de pequenezes que se reprodu-
zem às ninhadas, André Breton a recusa profundamente. Não é
em nome dela que se justifica o injustificável, o qual consiste, en-
tão, para ele, tanto na servidão do trabalho assalariado quanto no
aprisionamento da loucura? E seria oportuno avaliar o que esta
concepção literal da alienação poderia ter de escandaloso, seten-
ta anos depois, nos meios revolucionários e em outros. Revolta
contra a ordem social, é claro, mas que não passa da conseqüência
de uma revolta incomparavelmente mais profunda, vasculhando
nas raízes do ser esta "sede insaciável do infinito" de que fala
Lautréamont e que nenhuma mudança social poderá satisfazer.
Daí a intolerável pergunta que André Breton faz de maneira
implícita: o que é que pode se sustentar diante de um tal desejo
de liberdade subitamente encarnado por Nadja? Nada, nem mes-
mo o amor, ele é levado a constatar, não sem pavor, numa carta a
sua mulher, de 8 de novembro de 1926: "O que fazer, já que não
153
amo esta mulher e que, possivelmente, não a amarei nunca? Só
ela é capaz, e você sabe como, de pôr em causa tudo o que eu
amo e o jeito que tenho de amar. Ela é perigosa a esse nível".
4
É este o obscuro ponto de fuga da procura perturbada que
começa com o encontro de Nadja, mas que vai prosseguir muito
além, como ele continuará a testemunhar em Les Váses communí-
cants e depois em L'Amour fou. E esse ponto tenebroso não deixa-
rá de determinar sua busca. Quisesse ele escapar à tal atração, não
conseguiria, sabendo o que seu encontro com Nadja lhe revela,
confonne escreve, de novo à sua mulher, na mesma c a r t ~ : "Esse
desastre, que é tanto meu como dela e de todos a quem amo".
5
Quer dizer então - tal como uma pergunta que vem do abismo
e a ele conduz - que o amor se opõe a esta liberdade de tirar o fô-
lego, na qual buscam se reconhecer as nossas mais belas sombras?
Se a vida quase sempre se encarrega de resolver tais questões,
André Breton terá tido o incomparável mérito de revelar as per-
guntas que a exaltação amorosa desde cedo buscou esconder, se
não negar. Sem dúvida, o ângulo muda completamente ao final
do livro, com o surgimento de um novo amor. Mas o ponto de
fuga é sempre o mesmo, arrebatando a paisagem com a ameaça
de uma imensa vertigem. Breton, aliás, está intimamente conven-
cido, até demais, de não se sentir devedor de Nadja, que lhe fez
entrever uma outra forma de amar, tão definitiva e fatal quanto
sua louca liberdade. Por uma inversão de perspectiva, tratar-se-ia
de nada menos que reinventar o amor, tal como Rimbaud havia
sonhado. Não tentando fazê-lo, mas se arriscando a perder cor-
po e bens no mais belo naufrágio: "Que a grande inconsciência
4. Citado por Marguerite Bonnet, op. cit. , p. r5r4.
5. Idem, p. r503.
154
viva e sonora que inspira meus únicos atos probatórios dispo-
nha para sempre de tudo o que sou. Afasto com prazer qualquer
oportunidade de tomar de volta o que aqui lhe dou mais uma
vez". Como se nada fosse possível esperar sem aceitar o preço
do desastre, nem que fosse o do amor.
Ao voltar 34 anos depois a essa narrativa numa introdução, André
Breton fala da fuligem. Ela é incontestável, mas cada um julgará
por conta própria. A grandeza de Nadja está na persuasiva ina-
tualidade de sua aposta 'passional, que nos deixa, como um barco
a seco, nos antípodas da literatura. Mas também da nossa época,
onde a felicidade mais pungente é reivindicada como um direito.
A tal ponto que a questão, hoje, é de saber se a revolta vinda do
mais fundo do ser, que conduz este livro de uma ponta à outra,
ainda pode ser percebida. Pois se eu mesma julguei adequado in-
sistir numa possível analogia, a setenta anos de distância, entre dois
horizontes igualmente nublados, a diferença é que tudo contribui
para nos fazer esquecer essa ausência de perspectivas por trás da
ilusão de uma multiplicidade de consensos de curto alcance, ou,
com o auxílio dos mais inacreditáveis disfarces culturais, a mesma
indestrutível normalidade se encontra a partir de agora coberta
pelas plumas da diversidade. Não seria com esse fim, então, que
nos aplicamos tanto a encerrar Nadja nos limites da literatura, jus-
tamente porque alguma coisa neste livro continua a derrubar as
barreiras com que se protege tudo o que se escreve?
É aqui que se faz necessário lembrar o que André Breton
já considerava preciso afirmar dois anos depois de Nadja, no Se-
gundo manifesto do surrealismo: "Está claro, também, que o surrea-
lismo não se interessa em levar em conta o que se produz a seu
155
lado a título de arte, ou até antiarte, filosofia ou antifilosofia, ou
seja, tudo o que não tem por fim o aniquilamento do ser num
brilhante, interior e cego, que não seja mais a alma do gelo que
a do fogo" .
Nadja deve ser lido a essa luz de arrombamento, que nos
coloca o mais perto possível de um homem que pensa na noite
de seu tormento. Tão perto que este livro parece ter sido escrito
só para aquele que está lendo. Também é aí que reside sua beleza
perigosa. Cuidado, pois você só o lerá de verdade se conseguir
arrombar aquilo que acredita ser.
Panorama crítico
Walter Benjamin, "Surrealismo: o último instantâneo da inteli-
gência européia"
1
No amor esotérico, a dama é de todos os seres o mais inessencial.
É o que ocorre com Breton. Ele está mais perto das coisas de que
Nadja está perto, que da própria Nadja. Quais são as coisas de que ela
está perto? Para o surrealismo, nada pode ser mais revelador que a
lista canônica desses objetos. Onde começar? Ele pode orgulhar-se
de uma surpreendente descoberta. Foi o primeiro a ter pressentido
as energias revolucionárias que transparecem no "antiquado", nas
primeiras construções de ferro, nas primeiras fábricas, nas primeiras
fotografias, nos objetos que começam a extinguir-se, nos pianos
de cauda, nas roupas de mais de cinco anos, nos locais mundanos,
quando a moda começa a abandoná-los. Esses autores compreen-
deram melhor que ninguém a relação entre esses objetos e a revo-
Trecho de "Surrealismo: o último instantâneo da inteligência européia"
(1926), in Obras escolhidas 1 - Magia e técnica, arte e poUtica: ensaios sobre literatura e
história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet (São Paulo: Brasiliense, 1985).
157
lução. Antes desses videntes e intérpretes de sinais, ninguém havia
percebido de que modo a miséria, não somente a social como a
arquitetônica, a miséria dos interiores, as coisas escravizadas e es-
cravizantes, transformavam-se em niilismo revolucionário. Para não
mencionar o Passage de l'Opéra, de Aragon, o casal Breton e Nadja
conseguiu converter, se não em ação, pelo menos em experiência
revolucionária, tudo o que sentimos em tristes viagens de trem (os
trens começam a envelhecer), nas tardes desoladas nos bairros pro-
letários das grandes cidades, no primeiro olhar através das janelas
molhadas de chuva de uma nova residência. Os dois fazem explodir
as poderosas forças "atmosféricas" ocultas nessas coisas. Imaginemos
como seria organizada uma vida que se deixasse determinar, num
momento decisivo, pela última e mais popular das canções de rua.
O truque que rege esse mundo de coisas - é mais honesto
falar em truque que em método - consiste em trocar o olhar his-
tórico sobre o passado por um olhar político. "Abri-vos, túmu-
los; mortos das pinacotecas, mortos adormecidos atrás de portas
secretas, nos palácios, nos castelos e nos mosteiros, eis o porta-
chaves feérico, que tendo às mãos um molho com as chaves de
todas as épocas, e sabendo manejar as fechaduras mais astucio-
sas, convida-vos a entrar no mundo de hoje, misturando-vos aos
carregadores, aos mecânicos enobrecidos pelo dinheiro, em seus
automóveis, belos como armaduras feudais, a instalar-vos nos
grandes expressos internacionais, a confundir-vos com todas es-
sas pessoas, ciosas dos seus privilégios. Mas a civilização fará delas
uma pronta justiça." Tal o discurso que Apollinaire atribui a seu
amigo Henri Hertz. Apollinaire foi o inventor dessa técnica. Ele
a aplicou em sua novela L'Hérésiarque com um calculismo ma-
quiavélico, para mandar pelos ares a religião católica, a que ele
interiormente continuava ligado.
No centro desse mundo de coisas está o mais onírico dos seus
objetos, a própria cidade de Paris. Mas somente a revolta desvenda
inteiramente o seu rosto surrealista (ruas desertas, em que a decisão é
ditada por apitos e tiros). E nenhum rosto é tão surrealista quanto o
rosto verdadeiro de uma cidade. Nenhum quadro de De Chirico ou
de Max Ernst pode comparar-se aos fortes traços de suas fortalezas
internas, que precisam primeiro ser conquistadas e ocupadas, antes
que possamos controlar seu destino e, em seu destino, no destino
das suas massas, o nosso próprio destino. Nadja é uma representante
dessas massas e daquilo que as inspira em sua atitude revolucioná-
ria: "Que a grande inconsciência viva e sonora que inspira meus
próprios atos probatórios disponha para sempre de tudo o que
sou": É aqui, portanto, que podemos encontrar o catálogo daque-
las fortalezas, que começavam na Place Maubert, onde mais que em
qualquer lugar a pátina conservou seu poder simbólico, e iam até o
Théâtre Moderne, que para meu desconsolo não conheci mais. Mas
na descrição do bar no primeiro andar, feita por Breton - "tão som-
brio, com seus impenetráveis caramanchões em forma de túneis, um
salão no fundo de um lago"-, existe algo que me faz recordar aquele
local, tão mal compreendido, no antigo Café Princesa. Era um quar-
to dos fundos no primeiro andar, com seus casais, banhados numa
luz azul. Nós o chamávamos "A anatomia"; era o último refúgio do
amor. Breton capta de forma singular, pela fotografia, lugares assim.
Ela transforma as ruas, portas, praças da cidade em ilustrações de um
romance popular, arranca a essa arquitetura secular suas evidências
banais para aplicá-las, com toda a sua força primitiva, aos episódios
descritos, aos quais correspondem citações textuais sob as imagens,
com números de página, como nos velhos romances destinados às
camareiras. E, em todos os lugares de Paris que aparecem aqui, o que
se passa entre essas pessoas se move como uma porta giratória.
159
Murilo Mendes," André Breton"
2
Fui hoje enterrar André Breton no cemitério les Batignolles
onde avistei um numeroso grupo de beatniks saudando pela últi-
ma vez o beatnik por excelência.A revolta permanente de Breton,
recusando cumplicidade com o sistema corrente do mundo, é
modelar; revolta de um asceta pelo avesso, formado na doutrina
de Freud que recriara e adaptara desde muito cedo, para seu uso
pessoal. C'était un grand monsieur.
*
Recapitulo nossos encontros parisienses de 1952 e 1953. Recordo a
gentileza e polidez daquele homem terrível, descendente dos maio-
res inconformistas de todos os tempos. Aproximou-nos Benjamin
Péret, que o informara sobre o Brasil e aspectos do nosso folclore.
A figura do tamanduá invocava Breton, como a da preguiça invoca-
ra antes Camus, que logo após chegar ao Rio precipitou-se comigo
para o Jardim Zoológico a fim de conhecer o famoso bicho.
Creio que no espírito de Breton o tamanduá assumia uma cate-
goria de tóteme. Por isso um dia ofereceu-me um exemplar de
Nadja com esta singular dedicatória:· À Murilo Mendes, sur les bandes
blanches du grand tamanoir j 'écris: de tout coeur son ami André Breton.
*
Na nossa primeira conversa ele me interrogou longamente sobre
episódios, homens e coisas que me tinham marcado mais, tanto
2 ln Retratos-relâmpago - Primeira série: 1965-1966. Incluído em Poesia completa
e prosa (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994).
160
no Brasil como na Europa; indicando- me certos lugares em Pa-
ris onde ainda era possível o encontro de algo imprevisto, bem
como alguns filmes "idiotas" dos tempos .do cinema mudo, que
de novo se projetavam na cinemateca francesa.
*
Reconstituí também épocas distantes, a década de 1920, quando
Ismael Nery, Mário Pedrosa, Aníbal Machado, eu e mais alguns
poucos descobríamos no Rio o surrealismo. Para mim foi um
coup de foudre.
Claro que pude escapar da ortodoxia. Quem, de resto, conseguiria
ser surrealista em regime de fali time? Nem o próprio Breton.
Abracei o surrealismo à moda brasileira, tomando dele o que
mais me interessava: além de muitos capítulos da cartilha in-
conformista, a criação de uma atmosfera poética baseada na
acoplagem de elementos díspares. Tratava-se de explorar o
subconsciente; de inventar um outro frisson nouveau, extraído à
modernidade; tudo deveria contribuir para uma visão fantástica
do homem e suas possibilidades extremas. Para isso reuniam-se
poetas, pensadores, artistas empenhados em ajustar a realida-
de a uma dimensão diversa. Os surrealistas, com efeito, não se
achavam fora da realidade. Reconhece-o - muito tarde! - o
dissidente Aragon, que nos recentíssimos Entretiens avec Fran-
cis Crérnieux faz justiça ao surrealismo e lhe atribui alta missão
histórica. Mas não resta dúvida que num primeiro tempo a ri-
gidez do método da escritura automática provocou numerosos
mal-entendidos.
16!
*
Breton era obsedado pela idéia da descoberta da coisa mágica,
do "sobrenatural" na vida cotidiana; grato a Huysmans cujos
livros muito o ajudaram a progredir neste terreno, e a quem ele
chamou "le moins étranger de mes amis", se bem que por outro
lado tantos motivos os separassem,já que o autor de Là-bas era
católico.
*
Enterrei portanto um personagem fabuloso da minha vida, que
me causava alternativamente atração e repulsa. Para um homem
de gosto eclético e tolerante como eu, a dureza do espírito de
Breton às vezes me irritava; mas isto é um detalhe de ordem
pessoal. Agora que ele penetrou no território do dépaysement
definitivo, agora que os gestos transitórios deste grande ator se
absorveram para sempre no corpo total da matéria, reconstruo
mais alta a figura do rebelde absoluto, envers et contre tous: sempre
pronto a disparar o duplo dispositivo da revolta contra o "mundo"
e do hurnour; desde cedo levado, segundo diria Frederico Schle-
gel, a sacrificar às divindades subterrâneas; elevando, acrescento
eu, a matéria-prima do subconsciente a um plano de contínua
vigília crítica. Sua vida constitui uma quête ininterrupta da poesia,
do insólito e do feérico.
162
Michel Beaujour, "O que é Nadja?"
3
Nadja é o produto de diversas táticas destinadas a frustrar o roma-
nesco e reavivar constantemente a crença do leitor.
Breton desliga a suspeita de romanesco agrupando elemen-
tos anedóticos em unidades maiores, no interior das quais a acu-
mulação e um fenômeno análogo ao da memória retiniana criam
a impressão de coerência no descontínuo. Sugerem a existência
de uma rede, em que cada elemento acaba de tomar, e confirma
pela proximidade, a autenticidade daqueles que o rodeiam e do
sistema como um todo. Outros elementos se somam à montagem
de anedotas e conseguem criar uma ilusão de cimentação do pla-
no do real, pois contêm múltiplos cortes. É o papel que se devol-
ve às 47 fotografias da edição revisada. Seria fastidioso analisá-las
em detalhe, mas podemos facilmente classificá-las em categorias:
retratos; lugares onde a ação se desenrola; objetos encontrados e
obras de arte; documentos como cartas, uma página de um livro
de Berkeley, um cartaz de cinema; desenhos de Nadja.
Fiel a seu partido "antiliterário", Breton indica em seu prefá-
cio de 1962 que "a abundante ilustração fotográfica objetiva elimi-
nar qualquer descrição - acusada de inanição no Manifesto do surre-
alismo". Ora, a maioria dessas fotos não substitui nenhuma descri-
ção, que a narrativa não exige de modo algum: um leitor que por
acaso tivesse um exemplar sem ilustrações não desconfiaria dessa
ausência. Assim que o relato pede, Breton descreve. Um ou dois
exemplos bastam. Um dos primeiros episódios narra o estranho
Trecho de "Qu'est-ce que Nadja?", in André Breton et le mouvement surréa-
liste, La Nouvelle Revue Française, i72, abr. 1967, pp. 780-99. As traduções deste
"Panorama crítico" são de Paulo Werneck, exceto quando indicado.
dom que um dia permitiu a Breton adivinhar a localização das
lojas de carvão, designadas pelas palavras BOIS-CHARBONS. Encon-
tramos a seguinte de.sci-ição: "Eu era avisado, guiado, não pela ima-
gem alucinatória das palavras em: questão, mas sim pela imagem
das pequenas achas de madeira serrada que aparecem toscamente
pintadas em formato--de pilha, dos dois lados da porta, de cor uni-
forme, com uma parte mais escura". É mais do que evidente que a
foto que vem a seguir não serve como substituição dessa evocação
precisa de uma imagem alucinatória, mas como confirmação, e,
para usar a expressão deT. S. Eliot, como "correlativo objetivo" da
visão e da aventura. Ninguém esperava que Breton escrevesse: ...
de fato, as lojas de lenha e carvão têm, de cada lado da porta .. .Vale
o mesmo para a descrição de um objeto encontrado no mercado
de pulgas, que se trata de uma curva demográfica no espaço: "Esta
espécie de semicilindro branco, irregular, envernizado, apresen-
tando relevos e depressões sem significado para mim, com estrias
horizontais e verticais vermelhas e verdes" [p. 56] .Vem a fotografia:
ela confirma a descrição. O Objeto existe perfeitamente.
É óbvio, ainda por cima, que o mais obtuso leitor de roman-
ces não precisaria exigir a descrição da livraria do L' Humaníté,
mencionada de passagem,. ou a do castelo de Saint.,Germain.
Menos ainda a do Manoir d'Ango, onde o poeta está escre-
vendo, nem o retrato verbal de Éluard, de Desnos, de Péret, de
Mme. Sacco, vidente, ou·a do próprio autor. Ora, encontramos
em Nadja fotos desses lugares, dessas pessoas. Na maioria dos
casos, é possível verificar sua Logo, sua função é de
nos garantir que nada foi inventado nem transposto. As imagens
não substituem nada do que normalmente encontramos num
romance. Pelo contrário, quase a cada página, elas afirmam que
Nadja não é um romance.
Maurice Blanchot, "Le Demain joueur"
4
Nadja: não devemos nos afastar deste livro, livro "sempre futu-
ro", não apenas porque abriu um novo caminho para a literatu-
ra (como se contentar com uma inovação dessas, justo quando
é o futuro do futuro que está em jogo?), mas talvez porque,
passando a confiar a cada um de nós o cuidado de compreender
a ausência de obra que se designa como seu centro, ele nos
obriga a provar a partir de que falta e em virtude de que de-
feito toda escrita contém o que se escreve. Essa ausência - já
visada pela escritura de pensamento, onde ela se faz necessária
(e presente) pelo acaso - é tamanha que muda a possibilidade
de qualquer livro, fazendo da obra o que sempre deveria se
desobrigar,
5
uma vez que ela modifica as relações entre o pen-
samento, o discurso e a vida.
"A vida é diferente da que se escreve. " Como é que esse dife-
rente se manifesta em Nadja? Principalmente por essa frase: por
lacunas, silêncios, uma impossibilidade de dizer onde se revela
a provocação do perigo. O desentendimento - outro nome do
desarranjo - é um sinal dele. Esta enigmática alusão também:
"Por mais vontade que tivesse, e quem sabe alguma ilusão tam-
bém, eu talvez não estivesse à altura do que ela me propunha.
Mas, afinal, o que ela me propunha? Não importa" . Aqui o livro dá
uma guinada, um guinada brusca, poderíamos dizer, sob condi-
ção de entender, nesta pausa, aquilo que retém a obra antes que
ela se cumpra, e também antes que ela se desfaça. Depois vem a
4 Trecho de "Le Demain joueur'', in André Breton et le mouvement surréaliste,
La Nouvelle Revue Française, 172, abril 1967. pp. 863-88.
5 No origtnal, ''faisant de l'reuvre ce qui toujours devrait se désreuvrer". [N. T.]
165
loucura ("Vieram, há poucos meses ... "), contestada no direito de
perseguição que a sociedade se dá contra ela, sem que se recu-
sem nem sua potência de revelação, nem a deterioração mental
que ela talvez signifique. Depois, a interrogação final: "Quem
vem lá? É você, Nadja? É verdade que o além, todo o além, esteja
nesta vida? Não te ouço. Quem vem lá? Serei apenas eu? Serei
eu mesmo?", tão estranha e tão alterada, que responde, em eco,
às primeiras palavras do livro: "Quem sou eu?", de modo que
toda a narrativa não passa da duplicação de uma mesma questão,
mantida em sua diferença espectral. Por fim, o mais surpreendente:
ao mesmo tempo que o livro termina, ele recomeça, destruindo-se
a si mesmo, ao ofuscar quem foi Nadja (a excluída do entendimen-
to, a passante enigmática) com uma outra figura, celebrada como a
única vivente, porque amada e, assim, pura do enigma. Negação
das mais perturbadoras, tentativa ansiosa de fazer desaparecer da
vida do tempo e da vida da vida o que sempre separa o tempo e
desvia de viver, o que na verdade se exclui, tanto de qualquer re-
cordação como de qualquer possibilidade, de já ter vivido uma
vez: o encontro, ou seja, o aparecimento-desaparecimento, ou
seja, o espaço do perigo maior. É por esse aparecimento-desapa-
recimento e por esse chamado do perigo que Nadja permanece
o sinal do futuro do surrealismo: não mais o título de um livro,
mas o amanhãjogador,
6
o caminho que sempre quis romper o li-
vro, romper o saber e perturbar até mesmo o desejo, ao fazer do
livro, do saber e do desejo a resposta ao infinito, quando o único
tempo é entretempo.
6 O amanhã jogador ou brincalhão: tradução literal do título deste ensaio de
Blanchot, emprestado do Segundo manifesto do surrealismo. [N. T.]
166
Alejandra Pizarnik: "Uma releitura de Nadja, de André Breton"
7
A anotação, datada de II de outubro, de um breve deambular
com Nadja, informa o mal-estar que selou, para Breton, aquele
dia infuso do sentimento das horas perdidas que vão passando
para nada. Além disso, Nadja se atrasou, e não espero dela nada de
excepcional.
A que decifra as mensagens que o tempo emite: o tempo é
implicante porque é necessário que tudo chegue na hora certa.
Desejosa de proporcionar à sua frase um sentido-limite, Nadja a
reitera minuciosamente.
Sua sentença acerca do tempo não é excepcional nem sin-
gularmente memorável, mas oferece um grande interesse pois se
trata de uma das chaves da aventura labiríntica vivida por Breton
e Nadja ...
O tempo é implicante. O tempo é implicante porque tudo tem que
acontecer na hora certa.
Que coisa não chegou (ou não aconteceu) na hora em que
deveria chegar (ou acontecer)?
O encontro entre Nadja e Breton. Encontro que não teve
lugar porque Nadja chegou tarde demais. Nadja se atrasou ... , não
no dia em que Breton o anota, mas quando, deslumbrado por
seus olhos de avenca, se aproximou dela e se reconheceram (ela
havia sorrido como alguém que sabe).
Não chegou quando sua chegada era necessária, mas muito
mais tarde. Assim, em vez de um encontro excepcional, produziu-
se um encontro tardio.
7 Trecho de "Una de Nadja, de André Breton" (1968), in Prosa com-
pleta (Barcelona: Lumen, 2003) .
Antes do surgimento de Nadja em sua vida e em seu livro,
Breton declara, dentro da bela e inquietante série de observações,
um desejo seu, o mais profundo e o mais inseparável, de ardente
espera de consumação. Um desejo tão elevado perdeu a validade
para quem o transcreve.Já não passa de uma sombra, nem amável,
nem hostil: a lembrança de um desejo.
Sempre desejei incrivelmente encontrar à noite, num bosque, uma
mulher bela e nua, ou antes, já que um desejo assim, uma vez expresso,
perde o sentido, lamento incrivelmente não tê-la encontrado. Supor um
encontro desses não é tão delirante, afinal de contas: seria possível. Parece-
me que tudo iria deter-se de repente, ah!, e eu não estaria escrevendo o
que escrevo.Adoro essa situação em que eu provavelmente teria, mais que
em todas,faltado com a presença de espírito. Não teria nem mesmo,
creio, a idéia de fugir. (Os que riem desta última frase são porcos.)
É verdade que um encontro assim teria podido (e deveria)
se realizar. O contrário também é verdade: "Sonhe com ela, nã.o
busque mais respostas".
Se uma noite, pela graça de um acaso maravilhoso, tivesse
encontrado a bela nua do bosque (se tivesse efetuado o trânsito
do desejo à realidade), Breton não se acharia escrevendo Nadja.
É provável que a condição de poeta o leve, entre outras
coisas, a adotar o papel de fantasma (Breton se refere a ele
ao abrir seu relato). Um dos trabalhos forçados desse fantasma
poderia consistir em girar incessantemente em torno de um
bosque no qual não consegue entrar, como se o bosque fosse
um lugar vedado.
No fim da segunda quadra, seus olhos se umedecem e se preenchem
com a visão de uma floresta. Vê o poeta que passa perto dessa floresta,
daria para dizer que pode segui-lo de longe: "Não, ele dá voltas em torno
da floresta, não consegue entrar, não entra''.
168
Nadja, sentada a uma mesa de um café, na companhia de
Breton, lê com atenção máxima um poema de Alfred Jarry sobre
alguém (um poeta) que não faz nada além de dar voltas ao redor
de um bosque. Repentinamente, a enfeitiçada fecha o livro:
"Oh! Isto aqui é a morte!"
É possível que quem se encontre diante de Breton seja a que
vagueia nua no bosque de seu antigo desejo. Nadja parece saber
que a noite do bosque é o lugar do encontro marcado. Sabe, mes-
mo assim, que não seria mais possível entre eles um entendimen-
to diáfano, quer dizer, fundado exclusivamente no amor. Outro
vínculo os reuniria, belo sem dúvida, embora inferior a qualquer
desejo "incrível". Seria talvez um vínculo feito de jogos de alter-
nâncias: um movimento, luminoso e ilícito como todo amor ver-
dadeiro, e outro, contrário, que obrigaria a um salto para a morte.
Está vendo o que acontece com as árvores? O azul e o vento, o vento azul.
[ ... ] Havia também uma voz que dizia: Você vai morrer, vai morrer. Eu
não queria morrer, mas senti uma vertigem daquelas ...
Agora é tarde demais. Por mais que o poeta consiga entrar no
bosque e descobrir a desejada de antes, não perderia a presença de
espírito, e teria sido possível até mesmo fugir. Mas o que Breton
faz neste livro além de fugir? Foge de Nadja, é claro: e para ele
sobram motivos, começando pelo primeiro, a loucura de Nadja.
O atraso de Nadja significa, então, uma oferta preciosa de-
mais ao ministério de trop tard.
Uma noite, os amigos pegam o trem; quando o poeta, de
improviso, propõe descer em Vésinet, Nadja aceita e sugere um
passeio na floresta.
"Não, ele dá voltas em torno da floresta, não consegue entrar, não entra."
Tudo se torna um sinal de que chegaram atrasados. É tarde
demais. Em Vésinet, todas as luzes apagadas, impossível conseguir fazer
169
com que nos abram qualquer porta. A perambulação pela floresta já não
se mostra tão empolgante.
A sugestão de Nadja foi anulada com luzes negras, com portas
fechadas, com o fim impossível. Conjunção de um acaso e de um
chamado irremediável da parte do desastre. Para os passeantes no-
turnos de Vésinet, subsiste apenas uma possibilidade intacta e irôni-
ca: retornar de lugar nenhum, a fim de chegar a parte alguma.
No fim dessa aliança maravilhosa e impossível, Breton se
pergunta pela verdadeira Nadja. Não esquece a que narrava so-
fridas histórias de amores mortos e mercenários, mas destina toda
a sua devoção à outra Nadja, o perfeito contrário daquela que caía,
às vezes ...
O comentário de Breton sobre sua Nadja restitui à jovem
seus prestígios deslumbrantes e sua dignidade máxima. Ela é a
mediadora, a intercessora, a criatura sempre inspirada e inspiradora; é
um instrumento superior de visão e, simultaneamente, a passante
dos violentos que escolheu as ruas como espaço de aprendizado
e modo de conhecimento.
E é esta a Nadja que havia relatado a Breton um passeio
simples, embora comovente. A narração de Nadja atesta, mais
uma vez, que pertence a uma finíssima espécie humana, que não
tem lugar neste mundo. Mais que um passeio, trata-se de um
puro errar, embora seja noite, pela floresta de Fontainebleau, na
companhia de um arqueólogo exaltado, Fontainebleau, à procura
de sei lá que vestígios de pedra.
A pedra e suas implacáveis representações, a palavra vestígio,
a participação, enfim, do arqueólogo, compõem uma desventu-
rada cerimônia cujo centro é o reiterado trop tard, espécie de
never more de índole superior, adágio eficaz pelo canto da floresta
destinado à garota de olhos abertos.
Rosalind Krauss: "As condições fotográficas do surrealismo"
8
As contradições acerca da primazia da visão e da representação,
da presença e do signo, são típicas confusões internas da teoria
surrealista. E essas contradições ficam ainda mais nítidas quan-
do refletimos sobre a posição de Breton em relação à fotografia.
Dada a sua aversão pelas "formas reais de objetos reais" e a sua
insistência em experiências de outra ordem, seria de esperar que
Breton menosprezasse a fotografia. Realista por excelência, a fo-
tografia deveria ser um meio rejeitado pelo poeta, que insistia
que, "para uma total revisão dos valores reais, todos concorda-
rão que o trabalho plástico na arte vai passar a se referir pura-
mente a um modelo interior, ou deixará de existir".
Mas na verdade Breton tem uma curiosa tolerância pela
fotografia. Dos dois primeiros artistas que declarou propria-
mente surrealistas - Max Ernst e Man Ray -, um era fotógrafo.
E se engana quem imagina que Breton aceitou Man Ray pelo
suposto anti-realismo de seus raiógrafos. Breton protestou con-
tra a caracterização de raiógrafos como abstratos, ou contra a
ausência de distinção entre a fotografia sem câmera de Man
Ray e a produzida com lentes comuns. Mais ainda que seu
apoio a fotógrafos específicos, o que surpreende é o lugar que
Breton dá à fotografia, bem no centro das publicações surrea-
listas. Em 1925, ele perguntou: "E quando todos os melhores
livros, hoje sempre ilustrados com desenhos, passarão a sair ape-
nas com fotos?".
8 Trecho de "The Photographic Conditions of Surrealism" (r98r), in The
Originality oftheAvant-Garde and Other Modernist Myths (Cambridge:The MIT
Press, 1985).
171
Não era uma pergunta sem importância,já que as três grandes
obras de Breton seriam de fato "ilustradas" com fotografias. Nadja
(1928), traz imagens quase que exclusivamente de Boiffard; Les Váses
communicants (1932) tem alguns fotogramas e documentos fotográ-
ficos; e a maior parte do material ilustrado de L'Amourfou (1937)
divide-se entre Man Ray e Brassa"i. Na atmosfera altamente onírica
desses livros, a presença das fotos soa bastante extravagante - um
adendo ao texto que é tão misterioso em sua motivação quanto as
imagens, em si, são banais. Num escrito sobre o surrealismo, Walter
Benjamin trata da curiosa presença dessas "ilustrações".
Breton capta de forma singular, pela fotografia, lugares assim. Ela transfor-
ma as ruas, portas, praças da cidade em ilustrações de um romance popular,
arranca a essa arquitetura secular suas banais para aplicá-las,
com toda a sua força primitiva, aos episódios descritos, aos quais correspon-
dem citações textuais sob as imagens, com números de página, como nos
velhos romances destinados às camareiras.
[ ... ]Um dos efeitos da extraordinária exposição de 1978 na Hayward
Gallery, Dada and Surrealism Reviewed, foi começar a desviar a aten-
ção da produção pictórica e escultórica surrealista para focá-la nos
periódicos, demonstrando como as revistas foram a armadura desse
movimento. Assistindo ao desfile de revistas surrealistas - La R évo-
lution Surréaliste, Le Surréalisme au Service de la Révolution, Documents,
Minotaure, Marie, The International Surrealist Bulletin, VVV, Le Surréa-
lisme, Même, e muitas outras - nos convencemos de que elas, mais
do que qualquer outra coisa, são os verdadeiros objetos produzidos
pelo surrealismo. E com essa certeza vem uma associação inescapá-
vel com a mais importante declaração já feita sobre a vocação da
fotografia: "A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica", de
Walter Benjamin e, a partir daí, com o fenômeno de gue Benjamin
fala em seu exame do novo campo da arte-p6s-fotografia, a saber, a
revista ilustrada, guer dizer, fotografia mais texto.
Bem no momento em gue Benjamin fazia a sua análise, os
surrealistas estavam pondo isso em prática. E o que eles estavam
fazendo era algo que a história da arte tradicional, com os olhos
voltados para as belas-artes, tendeu a ignorar.
I73
Sugestões de leitura
Há poucas obras de André Breton à disposição do leitor brasileiro.
Ivo Barroso foi pioneiro ao traduzir Nadja no país pela primeira vez,
nos anos 1970, tradução que seria reeditada duas vezes nas décadas
seguintes, pela Guanabara e pela Imago. Barroso considera o texto
publicado na presente edição uma nova tradução. Maria Teresa de
Freitas e Rosa Maria Boaventura traduziram Arcano 17 (São Paulo:
Brasiliense, 1986). Os Manifestos do surrealismo foram objeto de duas
edições no país: a primeira traduzida por Luiz Forbes (São Paulo:
Brasiliense, 1985. Prefácio de Cláudio Willer) e a segunda por Sergio
Pachá, incluindo outros textos do movimento (Rio de Janeiro: Nau
Editora, 2001) . Em 2002, por ocasião da exposição Surrealismo, no
Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, foi produzida
uma caixa-catálogo fora do comércio que incluía o Peixe solúvel, tam-
bém por Ivo Barroso. Entre as traduções ·de Breton em Portugal, des-
tacamos André Breton - Entrevistas (Lisboa: Salamandra, 1994), O amor
louco (trad. Maria Luiza Neto Jorge. Lisboa: Estampa, 1971) e Poemas
(trad.Ernesto Sampaio.Lisboa:Assírio &Alvim, 1994). Os manifestos
também tiveram uma edição portuguesa, traduzida por Pedro Tamen
e com prefácio de Jorge de Sena (Lisboa: Morais, 1969).
175
Nadja está disponível em edições francesas de todos os ti-
pos: dos livros de bolso da coleção Folio à Bibliotheque de La
Pléiade, no primeiro volume das CEuvres complêtes, preparado por
Marguerite Bonnet (Paris: Gallimard, 1988), além de edições co-
mentadas, voltadas para uso em sala de aula. Essas edições surgi-
ram quando o livro foi adotado no currículo do ensino médio
francês e em provas do Baccalauréat.
Alguns ensaios importantes sobre André Breton e o mo-
vimento que liderou têm edição brasileira, como o de Walter
Benjamin "Surrealismo: o último instantâneo da inteligência eu-
ropéia", escrito no calor da hora, incluído em Obras escolhidas 1
- Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da
cultura (trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985).
Outro ensaio importante, com caráter de balanço, é "Revendo
o surrealismo'', de Theodor W Adorno, que saiu em Notas de
literatura 1 (trad. Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades/ Edi-
tora 34, 2003). Simone de Beauvoir faz um belo retrato do nosso
autor em "André Breton ou a poesia", incluído no primeiro vo-
lume de O segundo sexo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976).
Outro retrato interessante é o texto de Henri Cartier-Bresson,
"André Breton, roi soleil", in L'Imaginaire d'aprês nature (Mont-
pellier: Fata Morgana, 1995). Diversos escritos de Octavio Paz
também são valiosos, entre os quais "André Breton ou a busca
do início", incluído em Signos em rotação (trad. Sebastião Uchôa
Leite. São Paulo: Perspectiva, 1976), e Os filhos do barro (trad. Olga
Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994).
Para conhecer o movimento do ponto de vista histórico, o
leitor pode consultar dois clássicos: a História do surrealismo (São
Paulo: Perspectiva, 1985) que Maurice Nadeau publicou em 1945,
e De Baudelaire ao surrealismo (1933), de Marcel Raymond (São
176
Paulo: Edusp, 1997).Vale lembrar igualmente os títulos Surrealis-
mo, de Fiona Bradley (São Paulo: Cosac Naify, 1999), e Realismo,
racionalismo, surrealismo -A arte no entreguerras, de Briony Fer, Da-
vid Batchelor e Paul Wood (São Paulo: Cosac Naify, 1998), que
constituem boas introduções, oferecendo fontes de informação e
iconografia sobre o tema. Neste último, encontra-se uma análi-
se de Nadja, asssinada por Briony Fer no capítulo "Surrealismo,
mito e psicanálise".
No domínio internacional a bibliografia é bastante extensa.
Entre os franceses, André Breton, de Julien Gracq, distingue-se
por ser uma interpretação sensível que, escrita em 1948, mantém
seu frescor (Paris: José Corti, 1989). Não se pode deixar de citar
também o ensaio seminal da crítica Marguerite Bonnet, André
Breton, naissance de l' aventure surréaliste (edição revista. Paris: José
Corti, 1988). Diversos escritos de Annie Le Brun repensam o
movimento sob uma ótica contemporânea, como faz em Qui vive
- Considérations actuelles sur l'inactualité du surréalisme (Paris: Ram-
say/j.j. Pauvert, 1991). Henry Behar, autor de diversos trabalhos
sobre Breton e o movimento, publicou a biografia André Breton
- Le Grand Indésirable (Paris: Calmann-Lévy, 1990). Em abril de
1967, no ano seguinte à morte do nosso autor, saiu uma edição
especial da Nouvelle Revue Française, André Breton et le mouvement
surréaliste, com diversos textos e homenagens, entre os quais os
textos de Maurice Blanchot "Le Demain joueur", e "Qu' est-ce
que Nadja ?",de Michel Beaujour, ambos com trechos reprodu-
zidos no "Panorama crítico" desta edição.
Marguerite Bonnet também assina um dos principais tex-
tos sobre o surrealismo e a fotografia: "Le Regard et l' écriture",
incluído em André Breton: La Beauté convulsive (Paris: Éditions
du Centre Pompidou, 1991). "La Photographie dans Nadja", que
177
Jean Arrouye publicou na revista Mélusine n ~ 4, de 1982, é citado
com freqüência na bibliografia sobre surrealismo e fotografia. E
Dawn Ades também analisa o tema em "Photography and Sur-
realist Text", que Rosalind Krauss e Jane Livingston incluíram
em L' Amour fou: photography and surrealism (Nova York: Abbeville
Press, 1985).
Anna Balakian foi pioneira na crítica anglo-americana ao
dedicar diversos textos ao movimento, como The Literary Origins
of Surrealism, de 1947 (Nova York: NYU Press, 1965); Surrealism: the
Road to the Absolute, de 1959 (Chicago: Chicago University Press,
1986); e André Breton, Magnus of Surrealísm (Nova York: NYU Press,
1971). Seguindo a trilha aberta por Rosalind E. Krauss e Yves-
Alain Bois, tem destaque o ensaio de Mary Ann Caws intitulado
The Surrealist Look - An Erotics of the Encounter (Cambridge: MIT
Press, 1997), que focaliza o tema do feminino numa perspectiva
instigante, com várias incursões a Nadja. Também é de interesse
o livro Compulsive Beauty (Cambridge: MIT Press, 1993), de Hal
Poster, que propõe uma interpretação contemporânea do movi-
mento, dialogando com a psicanálise.
Embora a crítica brasileira tenha dado pouca atenção ao
grupo capitaneado por Breton, há alguns textos que merecem a
atenção do leitor. É o caso do volume introdutório André Breton
- A transparência do sonho, de José Geraldo Couto (São Paulo:
Brasiliense, 1984) e do extenso A aventura surrealista, de Sérgio
Lima (São Paulo/ Campinas/Petrópolis: Editora da Unesp/ Uni-
camp/Vozes, 1995). Mesmo breve, é interessante o texto de Má-
rio Pedrosa, crítico historicamente ligado .ao movimento, "Sur-
realismo ontem, super-realidade hoje", in Mundo, homem, arte em
crise (São Paulo: Perspectiva, 1975). Entre os estudos que abordam
as ressonâncias no Brasil, deve-se mencionar " O surrealismo na
brasileira", que José Paulo Paes publicou em Gregos e baianos (São
Paulo: Brasiliense, 1985), além dos escritos pioneiros de Floriano
Martins e de Claudio Willer sobre o tema; este último é autor da
narrativa A volta (São Paulo: Iluminuras, 1996), que propõe um
rico diálogo com Breton.
Por fim, não se pode esquecer que toda a coleção de arte,
livros, manuscritos, cartas, fotografias e outros objetos pessoais
do nosso autor está catalogada na internet, pelo Atelier André
Breton (www.atelierandrebreton.com), que permite navegação e
pesquisa livre e gratuita em mais de 25 mil documentos, incluin-
do cartas e desenhos de Nadja, como o reproduzido na quarta
capa desta edição.
179
, ..
© Cosac Naify, 2007
© Éditíons Gallímard, 1928
© do posfacio de Annie Le Brun, publicado em De l'Éperdu, Éditions Stock, 2000
© de "André Breton", de Murilo Mendes: Maria da Saudade Cortesão Mendes
Ouvrage publié avec le concours du Ministere Français chargé de la Culture - Centre
National du Livre
Publicado com apoio do ministério francês da Cultura - Centre National du Livre
A editora agradece a gentil colaboração do A telier André Breton
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Breton,André (1896-1966)
Nadja:André Breton
Título original: Nadja
Tradução: Ivo Barroso
Apresentação: Eliane Robert Moraes
Posfácio:Annie Le Brun
São Paulo: Cosac Naify, 2007, 184 pp.
[Coleção Prosa do Mundo; 21]
ISBN 978- 85- 7503-ro4-9 (obra completa)
ISBN 978-85-7503-598-6 (v. 2I)
r. Breton,André, 1896-1966 - Crítica e interpretação
2. Ficção francesa 3. Surrealismo (Literatura)
I. Moraes, Eliane Robert II. Le Brun,Annie III. Título
Índices para catálogo sistemático:
l. Ficção: Literatura francesa 843
COSAC NAIFY
Rua General Jardim, 770, ~ andar
01223-oro São Paulo SP
Te!. [55 11] 3218 1444
Fax [55 n] 3257 8164
www.cosacnaify.com. br
CDD-843
Atendimento ao professor [55 11] 3218 1473
Coleção Prosa do Mundo
Conselho editorial Augusto Massi e Davi Arrigucci Jr.
Projeto gráfico da coleção Fábio Miguez
Coordenação editorial Paulo Werneck
Capa Flávia Castanheira
Composição Jussara Fino e Flávia Castanheira
Revisão Alexandre Barbosa de Souza, Nelson Fonseca e Emílio Fraia
Imagens da sobrecapa: As mãos (1936), foto de Claude Cahun.
© Foto CNAC-MNAM; distribuição RMN ©Jacques Faujour I Other Images.
C'est moi, desenho de Nadja.
© Foto Atelier André Breton. Cortesia Aube Elléouet-Breton.
Foto dp autor: Eli Lotar, 1927. Musée National d'Art Moderne - Centre Georges
Pompidou, Paris. © Foto CNAC-MNAM; distribuição RMN I Other Images
FONTE Bembo
PAPEL Pólen Print 120 g/m
2
IMPRESSÃO RR Donnelley Moore
TIRAGEM J.000
"A beleza será CONVULSIVA, ou não será"
Tradução de Ivo Barroso

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