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Microsoft Word - O que é teologia

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I Parte 1. A trajetória da teologia cristã
“A autoridade exige a fé e prepara o homem para a reflexão”. “Os acontecimentos temporais são mais para serem cridos do que entendidos”. Santo Agostinho As discussões e os debates sobre teologia são cada vez mais comuns. Nos círculos acadêmicos ou nos domínios públicos, se fala em teologia, se faz teologia, se discute teologia. No Brasil não poderia ser diferente, já que nossas tradições culturais estão diretamente ligadas à religião e às expressões sagradas que se manifestam em todos os grupos sociais, desde o descobrimento dessa terra. Portanto, não importa a pertença do indivíduo, se é de origem indígena, negra ou branca, se é do gênero masculino ou feminino, se tem ou não dinheiro. O assunto teologia passeia por entre as gentes e permeia a cultura, seja ela erudita ou popular. Por isso, a teologia ultrapassa os limites impostos pelas paredes das igrejas e vai transbordar nas ruas, nas casas, nos bares, nas telas de cinema, nas peças de teatro, nas mais diversas literaturas e em muitos outros espaços. A teologia reivindica para si o status de disciplina democrática, pois especialmente nos dias de hoje “está na boca de todos e de todas”. Mas nem sempre foi assim. A teologia como disciplina surgiu há muito tempo e inicialmente estava circunscrita à erudição clássica antiga. A palavra “teologia” é termo de origem grega. O tema da palavra, Theos, significa Deus, e Logia indica o sentido de estudo. Portanto, poderíamos dizer de modo simples que, teologia é o estudo sobre Deus ou sobre as coisas concernentes à divindade. Assim como o sentido da palavra teologia encontra sua raiz na tradição cultural do mundo grego, existem outras relações entre a teologia e a cultura grega. O filósofo grego Platão, em sua obra Política, foi o primeiro a usar a palavra teologia. Depois disso, Aristóteles também usou esse termo em sua obra intitulada Metafísica. Nesta ocasião, Aristóteles apresentou a idéia que o motor do mundo é Deus ("o que tudo move e não é movido" – XII 6-10) e a disciplina teologia foi se caracterizando como estudo especulativo sobre a divindade e, assim, fez par com a filosofia. No mundo grego, assim como em outras tradições culturais do Mediterrâneo Antigo (sumérios, acádios, babilônios, egípcios, romanos e outros), as religiões e seus rituais se originavam dos mitos – histórias sagradas – que serviam aos povos tanto para doar sentido para as suas vidas, como para ajudá-los em suas organizações sociais e políticas. A vida

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quotidiana das pessoas estava relacionada com seus mitos sagrados. Os atos de plantio e colheita, a pesca, os casamentos, os nascimentos, a organização das comunidades e a economia dos grupos estavam ligados à vontade dos deuses e das deusas. Se havia chuva ou sol, se as batalhas seriam vencidas ou não, as decisões mais importantes eram tomadas de acordo com a orientação divina. As histórias sagradas, os mitos, sustentavam as civilizações antigas que por meio de liturgias com celebrações e rituais, procuravam dramatizar essas histórias para mantê-las vivas e ao mesmo tempo, agradar seus deuses e deusas. Mas aos poucos a explicação para a origem do cosmos e da humanidade baseada na vontade soberana da divindade foi perdendo a força. À medida que compreendia mais sobre o mundo e sobre si mesmo, a humanidade também perdia sua fé e, em contrapartida, adquiria mais confiança em suas descobertas. Com o avanço da filosofia rumo à razão, a fé e a crença cederam lugar ao discurso, em outras palavras, à retórica. A retórica era usada pelos filósofos, amigos do saber, como recurso pedagógico para ensinar e muitas vezes convencer sua audiência sobre determinado assunto. A filosofia é a disciplina que mais pergunta, que está sempre curiosa e atenta. Enquanto os mitos eram envoltos pela áurea do nebuloso e as religiões antigas mantinham segredos, a filosofia trouxe clareza e desvendou os mistérios. A retórica teve origem na cultura grega e desde o princípio foi responsável pela formulação de perguntas filosóficas acerca da vida, do dia a dia, da morte, dos possíveis sentidos para o ser humano. Por meio da retórica é possível conhecer traços fundamentais e distintivos da tradição desse povo. O termo retoriké é afim dos termos retor, orador, e retoreia, discurso público caracterizado pela eloqüência. Por conseguinte, pode-se dizer que retórica é a “arte oratória”, ou a disciplina que versa sobre a arte de falar bem. Com isso, é possível dizer que os gregos migraram da “crença” para a “razão”, mas, como defendem alguns historiadores, jamais afirmar que isso os marcava como superiores em relação aos outros povos. Atualmente, quando se fala a respeito de tradições culturais é consenso recusar categorias valorativas para a descrição das civilizações, isto é, cada povo tem suas manifestações culturais e religiosas, e em todas há valor e especificidades que merecem respeito. Mas de fato, apesar da conhecida separação entre mito / religião e filosofia / ciência, a teologia foi quem fez primeiro as perguntas sobre existência humana e origem do mundo, e essas perguntas emergiram do quotidiano das pessoas que acreditavam nas histórias sagradas e formulavam suas religiões. Não contente com respostas religiosas, a filosofia segue adiante, mas volta-se a encontrar com a teologia em outras oportunidades.

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No mundo cristão dos primeiros séculos, apesar da influência determinante da tradição judaica e de outras culturas mediterrâneas, por volta do século III quando a igreja consolidou seu status de instituição e grandes teólogos se destacaram por causa de seus pensamentos e discussões, pode-se notar claramente a influência da cultura grega, especialmente da filosofa e da retórica. A teologia dos primeiros cristãos foi grandemente influenciada pela filosofia grega e isso pode ser percebido já entre os cristãos do I século e posteriormente na Idade Média. Na Idade Média, os chamados Pais da Igreja deram origem ao período que ficou conhecido como Patrística. Os Pais da Igreja elaboraram grandes tratados teológicos para a defesa da regra e da fé cristã e, para isso, foram buscar inspiração e muitos fundamentos na filosofia grega. Justino Mártir, Clemente Irineu e outros teólogos dessa época são exemplos disso, além, é claro, de Agostinho que tanto é considerado grande teólogo como grande filósofo. Durante todo o período da Idade Média, esses pensadores desenvolveram célebres tratados teológicos que marcaram a experiência religiosa e consolidaram a base da fé cristã. Sua influência pode ser atestada até os dias de hoje. Por isso, nas próximas linhas, apresentaremos a teologia dos Pais da Igreja e sua estreita relação com a filosofia ganhará destaque em breve exposição.

1. 1 A teologia dos Pais Apostólicos
Os chamados Pais Apostólicos são considerados os primeiros teólogos cristãos. Seus escritos, do final do século I e início do II, nos dão idéia de como era a prática cristã inicialmente. Tais tratados eram dirigidos aos neófitos, iniciantes na fé cristã, e nem sempre mostram a totalidade da reflexão teológica da época. Mas, em geral, denunciam preocupações com os costumes, as orientações, as dúvidas e os problemas mais freqüentes. Nestes escritos, diferentes da literatura do Novo Testamento, podemos encontrar como temas importantes: Moralismo (nomismo). Em geral, os escritos eram dirigidos a novas congregações e pessoas que há pouco tempo tinham deixado as religiões pagãs. Eles apresentavam Cristo como legislador e modelo para a salvação. Justiça. Tema que apresentava Deus como único de realizá-la. Salvação. É apresentada como a imortalidade, a indestrutibilidade mediada por Cristo, único capaz de mostrar o conhecimento da verdade. Pecado. É destacado como corrupção, maus desejos e cativeiro sobre o poder da morte. Não se acentua muito a questão da culpa.

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Graça. É vista como dom que Deus concede aos seres humanos em Cristo. Os Pais salientavam a crença em um único Deus e embora o dogma da trindade ainda não estivesse bem desenvolvido aparecia em algumas liturgias. Eles enfatizavam a divindade de Cristo e combatiam os outros grupos religiosos que negavam o valor salvífico da morte e ressurreição de Cristo. No Século II, aqueles que se ocupavam em defender o cristianismo das acusações e heresias de sua época, eram chamados de apologistas. Eles dedicavam-se a desenvolver conceitos e respostas cristãs utilizando termos filosóficos. Também procuravam defender cristãos de acusações como impiedade, hábitos anormais e inimizade ao estado. Tinham a filosofia em alta estima. Justino, um dos principais, via a filosofia como forma de proporcionar o verdadeiro conhecimento de Deus. O cristianismo era visto como filosofia por excelência, capaz de proporcionar verdadeiro conhecimento de Deus. Os apologistas defendiam que era filosofia, pois se fundamentava na revelação divina e não em especulações racionais. Desde o princípio se revelava certa tendência de intelectualizar a fé. Por isso, algumas pessoas consideram que a principal contribuição dos Pais foi tentar realizar a aproximação entre fé cristã e intelectualidade grega. a) Cristianismo judaico e gnosticismo Cristianismo judaico era o termo usado para identificar grupos sectários que derivavam da congregação de Jerusalém depois de sua transferência para a região ao leste do Jordão. Uma das características deste cristianismo (chamado ebionita) é a “mistura” de elementos judaicos e cristãos. Eles defendiam a validade da lei mosaica e o estabelecimento do reino messiânico em Jerusalém. Também negavam a interpretação do apóstolo Paulo da Lei de Moisés e não reconheciam a autoridade das epístolas escritas por esse apóstolo. Para eles, Jesus Cristo tinha a mesma importância que os profetas. Eles negavam a pré-existência de Jesus Cristo e seu nascimento virginal e não aceitavam a salvação por meio da cruz. Acreditavam que a salvação seria possível apenas com a segunda vinda de Cristo, ocasião que se estabeleceria o seu reino em Jerusalém. Estas idéias não exerceram grande influência no cristianismo, mas são fundamentais para se entender o islamismo posteriormente. Hoje em dia, o termo cristianismo judaico é utilizado também em outro sentido, pois se reconhece que os primeiros cristãos foram grandemente influenciados pelos judeus. Essa influência constitui a base do cristianismo, de onde muitas práticas religiosas e conceitos

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advém. A separação entre judaísmo e cristianismo, principalmente no século I, praticamente não existiu já os judeus que se “converteram” aos ensinamentos do homem de Nazaré continuaram vivendo de acordo com sua cultura. Gnosticismo. Esse movimento formado por judeus convertidos ao cristianismo e espalhados pelo império até o norte da África, mesclava as culturas judaicas, gregas e coptas (região da África). O que se sabe dos gnósticos ainda é pouco. O conhecimento que se tem atualmente veio por meio da pesquisa em textos gnósticos datados aproximadamente entre os séculos I e IV descobertos na região de Nag-Hammadi (Egito) em 1945. Dentre os textos gnósticos mais conhecidos está o Evangelho de Tomé (EvT), escrito em língua copta. A interpretação gnóstica acerca dos ensinos de Jesus e de Paulo não foi completamente aceita pela igreja cristã dos inícios. Por causa dessas diferenças, os gnósticos foram considerados hereges. A acusação afirmava que o gnosticismo era a tentativa de enquadrar o cristianismo dentro da filosofia da época e que era caracterizado por especulações místicas e cosmológicas, o dualismo entre matéria e espírito. É provável que o gnosticismo já existisse antes do cristianismo, isto é, de origem oriental, e em Samaria assumiu características judaicas. Com Simão, o mágico, teve maior visibilidade, mas apresentava-se de várias formas, era constituído por inúmeras tendências. Dentre seus ensinos principais, podemos destacar: Dualismo. De concepção dualista, isto é, os gnósticos acreditavam que havia matéria e espírito, que o mundo se dividia em bem e mal. O deus supremo (longe do mundo) se contrapunha a um deus inferior (criador deste mundo-material). Nesta concepção, Jesus Cristo foi responsável pela libertação desse mundo mal, ele teve a função de restaurar a condição do mundo material. Esta salvação dependia do conhecimento superior reservado apenas aos espirituais (pneumáticos), os gnósticos. Cristo era considerado o salvador por ter trazido o verdadeiro conhecimento ao mundo. Entretanto, esse não era o mesmo Cristo da Bíblia, afinal ele não poderia ter assumido forma material e ser espiritual. Segundo os gnósticos, já que a matéria é má, o filho de Deus não poderia assumir forma humana porque essencialmente a carne é má (docetismo). Assim, defendiam que a salvação poderia ser obtida pela participação nos mistérios (ceia e batismo) que possibilitavam o verdadeiro conhecimento. Em função desse dualismo, a ética dos gnósticos era ascética, isto é, zelavam pela purificação espiritual e de seus corpos, por isso, eles praticavam a continência sexual, a vida solitária e celibatária.

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Negação do Credo. Os gnósticos negavam os três artigos do Credo: a criação, a redenção pela morte e ressurreição e o Espírito Santo. b) Os Pais Antignósticos O conflito com os gnósticos deixou marcas na trajetória da igreja cristã que ainda podem ser identificadas nas pregações e comportamentos de muitos cristãos. Por mais que a pesquisa teológica e a história mostrem que o século I não foi berço apenas de um cristianismo, mas vários, as igrejas cristãs ainda exaltam o cristianismo primitivo como o ideal e estigmatizam os grupos de cristãos que não se adequavam à teologia oficial, da igreja. De acordo com essa perspectiva, observamos na igreja considerada ortodoxa (a verdadeira, em oposição aos hereges), maior desenvolvimento da doutrina da criação, da encarnação, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo. Outra característica dessa igreja e de sua teologia é o moralismo acentuado que visava fazer frente ao anti-nomismo gnóstico. Irineu. Este antignóstico se ocupava de atacar Valentino por tentar diminuir a distância entre cristianismo e religiões pagãs. Irineu é considerado o primeiro dogmático da igreja. Rejeitou a filosofia (ao contrário dos apologistas) e se baseava apenas na Bíblia como norma de fé e de vida. Ele não fazia distinção entre a tradição e a escritura, mas foi o primeiro a fazer sucessão apostólica do Papa com o fim de identificar quem participava da verdadeira igreja. Ele se opôs doutrinariamente aos gnósticos e enfatizava que o processo de salvação ocorria dentro da história e não fora dela, como queriam os gnósticos. Na sua reflexão teológica, procurou demonstrar que o mesmo Deus que criou o mundo também o salvou, em oposição à doutrina gnóstica dos dois deuses. Para Irineu a salvação seria a restauração da criação de acordo com a vontade divina que estava reservada. Assim, quando o homem fora criado, Deus não o fizera à sua semelhança, mas por meio do processo de salvação esse humano poderia atingir a semelhança de Cristo. Quanto à redenção, Cristo restaurou a lei original. Para Irineu, vida e morte estavam relacionadas na redenção. Quando o homem obedece aos mandamentos recebe a vida de Deus, se desobedece recebe a morte. A salvação concederia a imortalidade. Jesus Cristo representava o segundo Adão, no entanto, era o avesso de Adão porque era perfeito e submisso à vontade de Deus Pai. Irineu falava da salvação por meio do termo recapitulatio, pois se trata da repetição do ato criador de Deus.

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Tertuliano. Em geral, Tertuliano é considerado o fundador da teologia ocidental por causa de seu interesse pelas questões práticas e por relacioná-las à realidade. Defendeu o cristianismo do gnosticismo e de outros movimentos considerados pagãos. Atacou com veemência a filosofia por considerar distintas a fé e a razão. Entretanto, é possível identificar em outras partes de sua reflexão teológica certa visão mais positiva a respeito da razão humana. Defendeu o conhecimento natural de Deus e acreditava no traducionismo (doutrina que afirmava que a alma era transmitida de pai para filho) convicção teológica que se opunha ao criacionismo (doutrina que afirmava que a alma era criada diretamente por Deus). Tertuliano foi responsável em parte pelo desenvolvimento da doutrina da Trindade e da Cristologia. De acordo com seu pensamento, Cristo é um com Deus, mas distinto e subordinado ao Pai. Para a defesa dessa tese, Tertuliano usava termos como “substância” e “Persona”, essa era a Doutrina Econômica da Trindade. Assim, Jesus Cristo teria sido formado por duas substâncias diferentes (espiritual e material), reunidas na mesma pessoa. Ele era o novo legislador que ensinava como andar nos caminhos de Deus. Deste modo, a relação entre o ser humano e Deus era compreendida em termos judiciais. Para Tertuliano, a corrupção era própria da natureza humana e era transmitida desde o nascimento, portanto, a graça era dom de Deus e única capaz de auxiliar o ser humano a viver. Hipólito. Bispo de Roma que desenvolveu uma coleção enciclopédica de heresias e procurou combatê-las por meio do que considerava ser a doutrina verdadeira para a igreja cristã. c) A Teologia de Alexandria No mundo antigo, Alexandria ocupava lugar de destaque. Era uma espécie de centro urbano ao norte do Egito e por isso, era o local onde importantes transações comerciais aconteciam assim como se encontrava grande diversidade e riquezas culturais. A teologia que se produziu em Alexandria foi a primeira tentativa sistemática da junção entre cristianismo e filosofia grega. Os teólogos de Alexandria procuravam se manter fiéis à tradição da igreja e baseavamse na literatura bíblica, porém inseriam a revelação nos contextos que consideravam apropriados. Nesta ocasião surge o método alegórico de interpretação. Um dos protagonistas desse modelo é Orígines, contemporâneo de Plotino. Ambos foram alunos do professor Amônio Sacas e, por isso, obtiveram grande influência platônica. Foi com os teólogos de Alexandria que Deus passou a ser visto como completamente transcendente, acima de tudo e de todos.

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Clemente. Defendia a pedagogia de Deus. Segundo ele, a alma caída necessitava de educação para ascender ao divino. Isto deveria acontecer por meio da disciplina e do castigo, admoestações e instruções e por causa disto, o mundo material existia. Esta educação teve seu ponto mais importante no exemplo dado por Cristo, mas para Clemente a pedagogia do homem teve outras fases. A lei judaica e a filosofia grega seriam fases preparatórias para a vinda de Jesus Cristo e, com ele, teriam sido ultrapassadas. Para Clemente o conhecimento ficava acima da fé. Orígines. Apesar de ser considerado por alguns como herege, sua teologia teve grande influência principalmente na reflexão teológica da região oriental. Ele acreditava existir um sentido espiritual específico em cada texto da escritura Para Orígines, assim como o ser humano era composto de corpo, de alma e de espírito, a escritura sagrada era literal, moralista e espiritual. Além disto, achava que pequenos detalhes citados na escritura revelavam grandes verdades universais. Orígines enfatizou a educação como meio divino de restaurar e providenciar a divindade às criaturas racionais aprisionadas em seus corpos. Defendia o livre arbítrio e concebia Deus como ser elevado e distante do material. A doutrina do subordicionismo aparece em sua teologia, doutrina segundo a qual o homem havia caído do mundo inteligível (mundo espiritual) e para se re-encontrar com Deus era necessário voltar para este mundo. Cristo era fundamental neste processo. Por meio de Jesus Cristo é que se revelava o mistério da fé, contudo, Orígenes negava a ressurreição do corpo. Em função de tantas discussões e escolas de teologia que se formavam, no início do século III foi necessária a convocação de um concílio que reuniu os clérigos e teólogos de expressão da época. A essa altura, existiam várias questões pendentes. A igreja cristã crescia e era preciso estabelecer os cânones da igreja em prol de sua unidade. Mas será que isso seria possível?

1. 2 O surgimento das doutrinas clássicas da teologia cristã
a) O concílio de Nicéia Em 310, Ário foi bispo de Alexandria. O mestre de Ário foi seguidor de Paulo de Samósata. Essa influência ocasionou a compreensão de que Jesus não poderia ser Deus na acepção completa do termo, pois era criação de Deus. Assim, segundo o arianismo Jesus era alguém que estava entre Deus e os seres humanos. Ele foi criado primeiro e por meio dele, Deus criou o mundo.

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Tais afirmações desestabilizaram a igreja e diante da ameaça à unidade, Ário foi excomungado em 320. Em 325, Constantino convocou um concílio em Nicéia. Lá havia três grupos diferentes: Arianos puros, Arianos moderados e anti-arinanos. Basicamente foram feitas duas críticas a Ário: 1) introdução de idéias politeístas e adoração da criatura ao invés da adoração ao criador e 2) destruição da base da fé cristã com a negação da divindade de Cristo. Ao fim do concílio foi adotada uma posição intermediária, segundo a qual Jesus era reconhecido como filho de Deus, mediador da salvação e digno de adoração. Com isso, o credo foi reformulado no final do século IV. b) Atanásio e a formação da Doutrina Trinitária Atanásio é conhecido por ter sido um dos maiores opositores ao arianismo. Ele procurou formular a doutrina trinitária a partir da Bíblia e negou o uso de sistemas filosóficos fechados para entender e explicar a fé cristã. Atanásio negava a interpretação legalista da literatura bíblica e afirmava que sua compreensão deveria ser buscada a partir do seu centro, Cristo. O seu entendimento da trindade tinha como centro a salvação operada por Cristo. Assim como Irineu, ele entendia a doutrina da salvação em íntima conexão com a criação. Para ele, o principal sentido da salvação era que o pecado e a morte foram retirados do ser humano graças à morte e ressurreição de Cristo. A manifestação de Jesus possuía duas funções: o perdão de pecados e a afirmação de que o governo do mundo era exercido pelo lógos (a palavra, o conhecimento). Basicamente foram três os que seguiram a linha de pensamento de Atanásio: Basílio, o Grande que foi o principal artífice na teologia proto-nicena, Gregório de Nissa que desenvolveu a doutrina ortodoxa de modo mais especulativa e Gregório Nazianzo, que desenvolveu o aspecto mais retórico da teologia de Atanásio. Foram eles que sistematizaram a idéia que três pessoas distintas (Pai, Filho e Espírito) formavam uma unidade. Também foram responsáveis pela distinção entre o termo ousía (essência, o que todos os seres humanos têm em comum) e hipóstasis (o que cada ser humano tem de particular). Esta distinção desenvolvida no Oriente influenciou Agostinho para o desenvolvimento da doutrina trinitária no Ocidente. Posteriormente, o credo Atanasiano foi elaborado por algum seguidor de Agostinho, já nos séculos IV ou V. Na forma de seu credo é possível se identificar certa unidade enquanto nos outros credos aparecem divididos em três partes correspondentes às três pessoas. c) O problema cristológico

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Basicamente poderíamos dizer que a cristologia é a doutrina da pessoa e da obra de Cristo. Mas antes de se formular tal definição, houve uma pergunta que foi fundamental para o surgimento da cristologia. Como o lógos de Deus, Cristo, que é uma só substância com o Pai pôde aparecer em forma humana? Para resolver esse problema, muitos teólogos se debruçaram sobre as escrituras a fim de encontrar uma resposta satisfatória. O teólogo Apolinário acreditava que o corpo de Cristo não foi formado por Maria. Cristo teria trazido um corpo celestial até o ventre de Maria que, assim, serviu apenas como local de passagem. Deste modo, Jesus Cristo possuía apenas a natureza divina, o lógos. Em contrapartida, seus opositores afirmavam que Cristo não somente tinha corpo humano como também alma, afinal corpo e alma formam a essência humana. Foi a escola de Antioquia que combateu Apolinário e, para isto, enfatizou que a natureza humana de Cristo durante seu ministério e obra passou por certo processo que o uniu cada vez mais à divindade. Este processou foi concluído por ocasião da ressurreição. A teologia deste período foi marcada por grandes discussões entre grupos que formavam as escolas de pensamento teológico. Havia duas grandes escolas neste tempo: a de Antioquia (que enfatizava o aspecto histórico do Cristo humano) e a de Alexandria (que enfatizava a compreensão metafísica enraizada na filosofia grega). Como representante da escola de Antioquia, apresentamos Nestório. Comumente ele é acusado de ter ensinado a doutrina segundo a qual haveria dois Cristos: um divino e um humano. Contudo, é provável que seu opositor, Cirilo, o tenha interpretado de modo errôneo e a partir disto se deu o conflito entre ambos. Nestório se opôs à teologia alexandrina que denominava Maria a mãe de Deus sem pecado e, assim, cooperava para o culto a virgem Maria, já crescente. Para Nestório, a divindade de Cristo não tinha ligação com Maria e, por isso, foi acusado de negar a divindade de Cristo. Basicamente, o problema é que suas afirmações dão a entender que não havia união simultânea entre a natureza divina e a natureza humana de Jesus Cristo. Cirilo era o bispo de Alexandria e objetivava primazia teológica no Oriente. Foi ele quem venceu Nestório, por ocasião do Concílio de Éfeso, quando Maria foi reconhecida como origem de Deus. Cirilo defendia que havia duas naturezas em Cristo e cada uma delas possuía suas próprias qualidades.

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Já em 451, Leão I convocou um concílio que foi realizado em Calcedônia com o fim de decidir a questão cristológica. Finalmente, as doutrinas que consideravam haver “dois filhos” foram excluídas, assim como as que afirmavam haver duas naturezas. Este concílio teve bastante importância por ter sido responsável pela unificação entre as diferentes cristologias, entretanto, não foi suficiente para sanar as controvérsias que circulavam sobre a vontade de Cristo, se seria divina ou humana, se seria uma ou duas. Para alguns, a vontade de Cristo era a do lógos, mas para outros havia duas vontades. A vontade divina que controlava a vontade humana. Com João de Damasco VIII o ciclo de controvérsias cristológicas foi fechado ainda que não satisfatoriamente. Para isto, utilizou a filosofia aristotélica e a neoplatônica e afirmou a unidade do corpo de Cristo. Ele salientava as diferenças entre as duas naturezas e afirmava que em função da unidade que havia entre o divino e o humano em Cristo, ocorria também certa penetração mútua. Assim, o lógos assumia a natureza humana e lhe comunicava seus atributos, mas a divindade não foi tocada pelo sofrimento. Os inícios da teologia cristã são caracterizados, portanto, por várias discussões. Os primeiros teólogos defendiam pontos de vistas que variavam principalmente de acordo com suas origens, em geral, Ocidentais ou Orientais. Mas, dentre “as teologias” surgidas neste momento, destacamos a reflexão de Santo Agostinho. d) Santo Agostinho Agostinho foi batizado em Milão, na Páscoa de 387. Por sua decisão, retirou-se para a vida monástica na África, entretanto, por ocasião de uma viagem de outono no mesmo ano, em Óstia, recebeu a notícia do falecimento de sua mãe. Com isso, resolveu permanecer em Roma, em sua cidade natal Tagaste. Conseguiu realizar seu objetivo de vida recolhida e de estudo por apenas dois anos, logo foi chamado de presbítero na cidade de Hipona quando esteve lá fazendo uma visita. Agostinho foi responsável por sintetizar a cultura da Antigüidade e a herança das idéias sobre o cristianismo originário. Ele conheceu profundamente o cristianismo por meio de Ambrósio, possuidor de grande influência da filosofia oriental, e que tinha em alta estima a justificação pela fé em Cristo. Após sua conversão ao cristianismo, ainda é possível identificar traços neoplatônicos em sua vida e obra. Para ele, por meio dessas concepções platônicas era possível enxergar o cristianismo, contudo, para compreender antes era necessário crer.

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Agostinho acreditava que o cristianismo proporcionava a resposta ao que a filosofia perguntava. Para ilustrar isso, o teólogo dizia que o neo-platonismo afirmava que todo esforço humano tinha como alvo a felicidade. Ora, para Agostinho, isso apenas refletia que o ser humano sempre desejou: algo transcendente, permanente e imutável. O teólogo não pregou o desprezo ao mundo, mas afirmava que o mundo não deveria ocupar primeiro lugar na lista de preocupações de cada ser humano. Quanto à criação, fez a distinção entre usar e fruir (no sentido de deleitar) o mundo. Para ele, a criação de Deus deveria ser usada e com deleite, isto é, como objeto de amor capaz de conduzir ao objetivo final, o bem supremo. Esta distinção foi a base para o amplo sistema que formalizou qual deveria ser a conduta humana em relação a Deus e ao mundo. O ser humano, criação divina, deveria procurar a felicidade fora dela. Já que sua natureza é corrupta tende a buscar a felicidade nas coisas mundanas, entretanto, somente após a conversão é possível se encontrar a verdade. O ser humano por si só é incapaz de obter felicidade e realização. De modo que precisa de uma força exterior, o Espírito Santo. Jesus Cristo realiza a graça de Deus quando se torna humano, é ele quem faz a mediação entre a divindade e a humanidade. Doutrina da Igreja em Agostinho. Agostinho defendia que a validade do sacramento não dependia de quem oficiava a celebração. Ele fez distinção entre o sacramento em si e a eficácia do sacramento, com isso, resolveu o problema do batismo realizado entre hereges e na igreja ortodoxa. Segundo o teólogo, os sacramentos eram sinais externos de uma realidade espiritual (influência do neoplatonismo). Neste sentido, para Agostinho, a igreja estava presente em todo lugar onde a Palavra e os sacramentos fossem administrados de modo correto. De acordo com a obra agostiniana Cidade de Deus e Cidade dos Homens, existem duas sociedades em conflito, desde a fundação do mundo. A Cidade de Deus representa a comunhão dos santos, a igreja interna e não a hierarquia. A Cidade dos Homens é composta por homens ímpios, não necessariamente os governantes. Essa idéia de Agostinho cooperou para que oficialmente o Estado se subordinasse ao poder exercido pela igreja, autoridade instituída por Deus na terra. Doutrina do Pecado e da Graça. Pelágio foi o grande defensor do livre-arbítrio. Ele afirmava que por meio do livre-arbítrio todo ser humano teria condições para escolher entre o bem e o mal. Deste modo, o pecado consistia em atos isolados da vontade, portanto, não seriam defeitos da natureza, mas da vontade humana. As crianças, portanto, estariam livres do pecado. Para ele a graça de Deus auxiliava o ser humano na escolha mais rápida entre bem e mal.

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Quanto ao livre-arbítrio, Agostinho definiu em quatro estágios esse processo humano: antes da queda, depois da queda, depois da conversão e na perfeição. Para ele, os pecados não são apenas atos isolados, antes se trata da total corrupção (depravação) da natureza humana que resultou em vontades deturpadas herdadas desde Adão. Por isso, as crianças não batizadas estavam sujeitas à condenação. No processo de salvação o ser humano não tinha nenhum tipo de participação. Essa obra só poderia se realizar por intermédio da graça de Deus revelada em Cristo. Ele seria o único capaz de conceder perdão para os pecados e regenerar o humano para a obediência aos mandamentos divinos. Segundo Agostinho, a salvação é resultado do perdão de pecados, mediante a fé, independente do mérito humano, afinal não há nada que o homem possa fazer por si mesmo para a obtenção da salvação. Ao lado da graça, Agostinho também reconheceu a importância do amor que Deus derramou no coração das pessoas e que merece destaque por ser a causa da transformação de cada indivíduo. Aqui se reconhece a doutrina da predestinação, que mais tarde será defendida pelo protestante João Calvino. Segundo essa doutrina, a graça é a vontade e decreto de Deus em favor da humanidade. Deste modo, todas as pessoas predestinadas à salvação jamais se perderão, portanto, se alguém não for salvo, esta é a vontade e o decreto de Deus. Depois desse período de intensos debates teológicos, brevemente apresentados, seguiram-se outros caracterizados já como parte da Idade Média. Nesta outra ocasião, a igreja, a teologia, os clérigos e os teólogos se envolveram profundamente com questões políticas. A igreja e seus ensinos promovidos pelo pensamento teológico da época adquiriram grande poder e muitas das decisões e direcionamentos tomados nesta altura da história mancharam a trajetória da igreja e da teologia cristã. Por isso, muitos historiadores denominaram esse período como Idade das Trevas.

1. 3 A transição do período Antigo ao Medieval
Neste período, os germanos ascenderam ao domínio político e os líderes da igreja davam cada vez menos atenção às questões teológicas. A seguir, alguns acontecimentos que merecem destaque: 1) Boécio traduziu algumas obras de Aristóteles que foram utilizadas na Idade Média (IM), 2) Dionísio, o Areopagita, expõe a cosmovisão e a religião neo-platônica, 3) Cassiodoro apresenta-se como colecionador e enciclopedista e 4) Isidoro de Servilha reuniu o conhecimento científico e teológico daquela época, foi ele que tornou acessível o saber teológico às gerações seguintes.

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Em Roma, o ex-prefeito Gregório assumiu o papado e passou a ser considerado divisor de águas entre Antigüidade e IM. Ele aceitava a doutrina da graça de Agostinho, entretanto, acrescentou que a finalidade da graça era produzir boas obras que pudessem ser recompensadas. Essa idéia permeou toda a IM. Segundo essa teologia, Cristo era o exemplo de entrega, abnegação e sacrifício necessários a todo ser humano e a ceia simbolizava o novo sacrifício. Entre seus escritos destaca-se o comentário ao livro de Jó. Nesta obra, lançou idéias norteadoras para a ética medieval, especialmente, sobre o asceticismo. Além disso, concedeu destaque aos milagres realizados por santos homens e que influenciaram toda a IM. Ele foi capaz de combinar tradição teológica e piedade popular. Como um dos rituais mais importantes da igreja e elemento que trazia populares até a igreja, a ceia obteve lugar de destaque nas reflexões da época. A questão principal se relacionava ao seu sentido, se a presença de Cristo neste ato deveria ser interpretada de modo real ou simbolicamente. Enquanto por um lado se acreditava que após a consagração os elementos (pão e vinho) se transformavam efetivamente em corpo e sangue de Jesus, por outro lado, outros, de acordo com Agostinho, interpretavam a ceia apenas simbolicamente, isto é, como memorial que tinha por intenção rememorar o sacrifício de Jesus. Ainda na primeira parte da IM, a igreja discutia a penitência. Inicialmente, a penitência significava a readmissão dos que haviam caído em pecado após o batismo público e realizável apenas uma vez. Entretanto, gradualmente (em 800, esse significado já havia desaparecido) este sentido se perdeu e passou a ser um ato privado de confissão ao sacerdote, de satisfação e de readmissão. Este modelo de penitência se desenvolveu em terras Celtas e tornou-se popular rapidamente. Basicamente a penitência dividia-se em contrição, confissão (feita ao sacerdote), absolvição e satisfação. Algumas vezes a absolvição vinha antes da satisfação e, com isso, o confessionário tornou-se o meio mais importante para disciplinar o povo, o vínculo mais forte entre o sacerdote e o povo. Contudo, é certo que entre o clero e os populares na IM havia certa relação de opressão. A igreja aos poucos foi se tornando o poder central e, com isso, se distanciou dos populares. Para sustentar seu poder, valia-se da autoridade que dizia ser instituída por Deus e por meio da teologia procurava explicitar a vontade divina a todos e todas. Talvez a grande contradição deste período seja seu ensino que pregava o sofrimento, a humildade e a resignação aos desígnios de Deus. Enquanto afirmava que a pobreza seria recompensada, o clero enriquecia a base das taxas e dos dízimos que imputava as massas populares.

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Entre a igreja e o fiel crescia uma grande distância que se expressava nas diferenças entre a religiosidade oficial (da igreja) e a religiosidade popular. Havia muitos religiosos que estudavam e isto era privilégio restrito a poucos. Em contrapartida, a esmagadora maioria das massas de populares era constituída por analfabetos que sequer tinham visto na vida um livro. Nos monastérios, reclusos, os padres e os seminaristas discutiam questões teológicas e filosóficas que há muito não faziam diferença para as pessoas em seus quotidianos. A fase que privilegiou o conhecimento e os estudos teológicos é conhecida como Escolástica. Esse movimento e sua teologia surgiram por volta do século XI juntamente com as universidades ocidentais. A característica principal dos escolásticos é o emprego da filosofia. Eles usavam o método dialético que conduzia à divisão infinita dos problemas teológicos, isto é, a discussão das questões teológicas nunca cessava. É importante notar que embora a Escolástica tenha sido um só movimento, ela não representou única escola. Havia várias tendências motivadas pela renovação da igreja e pela utilização da filosofia na educação da época. Vários nomes podem ser destacados: Anselmo, Pedro Abelardo, Hugo de S. Vitor, Pedro Lombardo e outros, mas infelizmente não poderemos nos deter nos detalhes desse produtivo período teológico. Vale dizer, entretanto, que a Escolástica teve dois períodos importantes divididos em Alta e Baixa Escolástica. Já na sua faze final, os escolásticos admitiram as influências filosóficas gregas em sua teologia e deram grande ênfase ao modelo aristotélico. Contudo, nem todos os clérigos se satisfizeram com tal erudição teológica. Por isso, houve discórdia principalmente entre dominicanos (dados à reflexão) e franciscanos (amantes da prática piedosa). Neste período, outro grande teólogo se destaca, trata-se de Tomás de Aquino que fica conhecido pelo seu universalismo. Com todas as controvérsias e “brigas” teológicas acerca da salvação, da trindade, dos sacramentos e das doutrinas da igreja, aos poucos a instabilidade começou a adquirir maior proporção com as crises políticas que se abateram sobre a igreja. Um pouco antes de haver o cisma ocasionado pela Reforma Protestante, entretanto, merece destaque a figura dos chamados místicos medievais. Esse misticismo teve origem na teologia agostiniana e na piedade monacal. Os místicos não eram contrários à escolástica, antes se relacionavam com ela e enfatizavam a experiência

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religiosa pessoal. Os maiores místicos medievais eram os dominicanos alemães ligados à teologia de Tomás de Aquino. Destacaram-se Eckhart de Hochheim e João Tauler. Eckhart aproximava-se muito do panteísmo (a palavra panteísmo tem origem no grego. Pan significa “tudo” e Theós, “deus”, por isso, panteístas acreditavam que tudo era Deus. De acordo com essa doutrina, Deus é o cabeça da totalidade e o mundo é o seu corpo), mas dá especial destaque à encarnação. Segundo ele, o homem se salvaria quando morresse para o mundo e se recolhesse para dentro de si a ponto de se unir completamente com o divino. Isto poderia ocorrer em três etapas: 1) Purificação: arrependimento; 2) Iluminação: Imitação dos sofrimentos de Cristo. Fazer o que é bom, contemplar os sofrimentos de Cristo; 3) União total com Deus, negação do mundo e de si mesmo. De acordo com os místicos, Deus era a única validade e a criação significava o nada. O ser humano pertenceria ao nada e deveria objetivar a união com Deus. Alvo que só alcançaria mediante a negação das coisas do mundo e dos desejos maus. Entretanto, não é a primeira vez que tais idéias povoam o imaginário dos cristãos. Essas idéias sobre mundo mal e mundo bom, materialidade e espiritualidade, negação e contemplação são motivos que pode-se identificar em toda a história cristã desde a sua fundação no seio judaico. Por trás de tais idéias, se movimentava a insatisfação que alguns religiosos mantinham com relação ao envolvimento da igreja com o poder político e financeiro. O descontentamento aliado às motivações pessoais que se arrastavam desde o século XII, contribuiu para que no século XVI houvesse um racha na igreja cristã, até então católica. A partir de então, com a Reforma Protestante, a teologia cristã dividiu-se também em duas: a teologia católica e a teologia protestante que posteriormente serviu como base ao chamado mundo evangélico.

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II Parte 2. A teologia protestante
“Só a Fé Salva”. Martinho Lutero “Deus criou vasos para a salvação e vasos para a danação eterna. Se a Mão de Deus estiver sobre a tua cabeça tu será beneficiado aqui na terra com muita saúde e prosperidade. Por este indício compreenderás que estás predestinado à salvação”. João Calvino

O surgimento da teologia protestante está diretamente ligado ao contexto de efervescência que caracterizou o século XVI, mas antes disso já havia intensos debates teológicos entre os teólogos católicos. Neste sentido, a Escolástica demonstrou que mesmo entre as ordens religiosas, especialmente, entre os dominicanos e os franciscanos, existia pluralidade de opiniões e de certo modo, as tais divergências contribuíram para o descontentamento que gerou a Reforma Protestante protagonizada por Martinho Lutero. Obviamente, outras cenas importantes serviram e impulsionaram os teólogos da reforma. A descoberta e implementação da imprensa teve enorme participação nesse processo, desde o século XII-XIII, a informação em forma de texto circulava com muito mais facilidade e, deste modo, ultrapassava os domínios do clero e das elites eruditas. Embora não se possa dizer que o povo mais simples tivesse condições plenas de estudo é bem provável que tivessem algum acesso a literatura. A partir da escassa leitura que faziam, obtinham novas formas de compreender o mundo ao seu redor e, com isso, condições de reflexão a respeito das estruturas e relações de poder que perpassavam o quotidiano popular. A esse respeito, recentemente Carlo Guinsburg, famoso historiador italiano, escreveu a obra intitulada O Queijo e os Vermes. Neste livro é contada a história de certo moleiro que sofreu acusação de heresia pela igreja católica e viveu o processo inquisitório. É provável que Menochio, como era chamado, tenha feito ao longo de sua vida apenas duas leituras, mas foi a partir delas que elaborou a sua própria teologia acerca da criação do mundo. Essa história indica que mesmo as pessoas mais simples desse período, por meio da leitura e do acesso à informação, reformularam algumas de suas concepções sobre as condições de vida naquele tempo. As mudanças de comportamento que estavam acontecendo, portanto, atingiram não só âmbitos sociais e políticos, mas influenciaram também as artes e a religião que sempre se manifestaram conjuntamente.

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O século XVI estava envolto em divergências. A instituição católica se contradizia e a insatisfação com a diferença entre a pregação e a ascensão econômica do clero incomodava muitas pessoas, desde os comerciantes até os trabalhadores do campo, e artesãos. Enquanto se pregava, por um lado, a pobreza e a humildade, por outro, se vendiam indulgências. Não raro, historiadores e teólogos católicos admitem que a prática de indulgências, no passado, foi abusiva. E esse abuso gerou o episódio de 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero afixou na Igreja de Wittemberg (Alemanha) as 95 teses escritas em latim que criticavam os dogmas da Igreja Católica. Dentre as severas críticas do monge (ordenado em 1507 no Mosteiro Agostiniano de Erfurt) e, posteriormente, professor de filosofia moral (da Universidade de Wittenberg), destaca-se o problema da venda de indulgências promovida pelo Papa Leão X para o financiamento da construção da Basílica de São Pedro, em Roma. Entretanto, é provável que o objetivo inicial de Lutero tenha sido apenas tornar públicas as suas idéias. As disputas, como eram chamadas, eram práticas comuns da vida universitária. Tratava-se de um debate que envolvia professores e estudantes, e aqueles que não podiam comparecer enviavam suas opiniões por escrito, a fim de que fossem lidas. As teses do teólogo geraram uma espécie de cisma e acarretaram em diversas outras discussões. Lutero passou várias disputas teológicas com agentes enviados pelo Papa Leão X e, em 21 de janeiro de 1521, foi redigida sua carta de excomunhão que recebeu algum tempo depois. O impacto que essas teses ocasionou no meio religioso da época provocou o “racha” da instituição católica. Para alguns, a reforma trouxe novo enfoque para a teologia Contudo, a perspectiva dos reformadores não se diferenciou dos católicos em relação às questões mais básicas do cristianismo. Por exemplo, o reconhecimento da divindade de Jesus Cristo e de seu papel como salvador da humanidade. As divergências surgem principalmente com a aplicação de princípios hermenêuticos para a compreensão da Bíblia, ou seja, os princípios utilizados para a interpretação dos textos sagrados. Com Lutero, as Escrituras Sagradas assumem papel central na interpretação de seus próprios textos: Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura (Só pela graça, só pela fé, só pela escritura). A Bíblia é interpretada por si mesma, mediante a graça e a fé em Deus. Os reformadores, críticos da teologia católica, rejeitaram a influência filosófica sobre a interpretação e formulação da teologia e abandonaram o que os medievais chamavam de o Quid da natureza

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mesma de Deus. Para eles importava somente o Qualis: aquilo que Deus é quando se revela a humanidade. Neste período, a teologia passou a ser considerada revelação especial de Deus nas Escrituras Sagradas. Os teólogos dessa época acreditavam que em função da natureza decaída do ser humano (por causa do pecado original), havia separação entre Criador e criatura. Para que essa separação fosse superada, Deus havia se revelado a todos e todas por meio das palavras escritas na Bíblia e, assim, por causa de Sua graça e pela fé em Jesus, considerada dom de Deus, a união entre humanidade e divindade poderia ser restaurada com o entendimento das Sagradas Escrituras. Outra figura de importância para a teologia da Reforma é a de João Calvino. Muito embora as idéias desse teólogo sejam diferentes de Lutero em alguns pontos, o seu pensamento e reflexão podem ser considerados expoente do século XVI. Calvino era francês e herdou o interesse pela religião de seu pai que era católico. Mostrou vocação desde criança e por isso foi colocado no Colégio dos Capeto e, posteriormente, admitido entre os filhos do Senhor de Mommor. De 1523 até 1533 estudou teologia e direito. Foi provavelmente na Universidade de Orleães e de Bourges que surgiu seu interesse pelo luteranismo e o desinteresse pelo catolicismo. Em 1533, estudante em Paris, Calvino se destaca pela escrita de discursos cujo conteúdo apresenta-o crítico e herético do ponto de vista da igreja católica. Em 1536 publica em latim Institutio Religionis Christianae e a mesma obra em francês, no ano de 1941. Passados alguns anos, o pensamento teológico calvinista se institui de modo acentuado em Genebra, região forte do protestantismo. Seu sistema é caracterizado por ser doutrina influente e amplamente aceita. Basicamente sua teologia era teocêntrica, isto é, compreendia que Deus era o centro de toda a reflexão e percepção das coisas relacionadas à religião e à sociedade. Todavia, opôs-se ao grupo dos católicos, descordou dos luteranos e assinalou pontos considerados importantes, como: a existência da Trindade, a encarnação do filho de Deus (Jesus Cristo), o nascimento virginal de Jesus, a natureza humana e divina do filho de Deus (dupla natureza), a graça de Deus, a predestinação e o pecado original. Para Calvino, a Bíblia era a única e fundamental fonte de fé e regra de vida para os cristãos. Mas o ensino das Sagradas Escrituras estava reservado somente aos pastores, aos mestres, aos presbíteros (anciãos) e aos diáconos. Deste modo, ficava excluída a categoria episcopal e cada comunidade (congregação local) seria independente e administrada por uma espécie de

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conselho de pastores. Os sacramentos do batismo e da comunhão (eucaristia) foram entendidos por ele como símbolos que, respectivamente, indicavam que aquele que reconhece o senhorio de Jesus era nascido para a nova vida e, portanto, salvo. No ato da eucaristia, quando se come pão e se bebe vinho, objetivava-se lembrar do sacrifício de Jesus que entregou seu corpo e seu sangue, simbolizados pelo pão e pelo vinho, para a remissão dos pecados dos seres humanos. Contudo, essa salvação não era direcionada a toda humanidade. Somente os escolhidos por Deus herdarão o reino dos céus. Essa é a chamada doutrina da predestinação até hoje muito debatida e nem sempre aceita. Outros pontos do pensamento calvinista que geraram bastante discussão são: não aceitação da confissão auricular feita somente com a figura do padre (para a remissão dos pecados), não aceitação dos votos e do celibato, a negação das indulgências (à semelhança de Lutero) e da existência do purgatório. A obra de Calvino é vasta e compreende comentários bíblicos, preleções e sermões. Em as suas produções podemos identificar alguns pressupostos: A autoridade das Escrituras. Deus se dirige e se revela à humanidade por meio das Escrituras Sagradas. É por intermédio da leitura desses textos que as pessoas têm a oportunidade de conhecer a Deus e a Sua mensagem verdadeira de salvação. A necessidade de iluminação. O Espírito Santo é responsável por esclarecer o conteúdo das escrituras: "a palavra nunca terá crédito nos corações humanos até que seja confirmada pelo testemunho interno do Espírito" (1.7.4). Assim, somente com atitude de humildade e fé é possível interpretar adequadamente os textos bíblicos. O alvo da interpretação. A interpretação dos textos bíblicos deve almejar o fortalecimento e amadurecimento dos cristãos envolvidos na igreja. Portanto, essa atividade deveria ser desenvolvida com dedicação e compromisso com a verdade. Neste sentido, a expressão favorita de Calvino aparece: “A Escritura é sua própria intérprete” e não necessita de outros recursos para sua clarificação. A interpretação humana só é válida se for submetida à inspiração do Espírito Santo, mediante a graça de Deus. A reflexão desenvolvida pelos reformadores foi de extrema importância no cenário teológico. De certo modo, ela cooperou para que a teologia rompesse os muros dos monastérios e avançasse rumo às ruas, as tabernas e as casas. Seus pressupostos podem ser identificados em muitas igrejas de tradição protestante e em especial nas igrejas evangélicas. Mas além da efetiva

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atuação de Lutero e Calvino, devemos dar destaque também a Ulrich Zuínglio, Menno Simos e outros que apesar de muito criticados ainda hoje, foram grandes teólogos, tiveram coragem para desfiar autoridades, são ainda mal interpretados, mas souberam viver bem suas vidas. A seguir queremos apresentar algumas questões que nortearam a reflexão teológica e estabeleceram alguns paradigmas para essa disciplina.

2. 1 Questões sobre a Teologia
a) Qual(is) o(s) objetivo(s) da teologia? Não é tarefa fácil delimitar os objetivos da teologia. Mas, de antemão pode-se dizer que esses objetivos são fixados por quem faz ou estuda a teologia. Em geral, essa disciplina requer conhecimentos de outras áreas como antropologia, sociologia, história, psicologia e filosofia, como exposto anteriormente. Ao contrário do que dizem alguns teólogos, a teologia não é uma ciência autônoma, isto é, ela recorre ao instrumental de outras ciências humanas para desenvolver sua reflexão. Embora muitas pessoas discutam teologia em diversos espaços e independente da classe social, da etnia ou do sexo, as motivações e as intenções de cada estudante e pesquisador(a) são muito diferentes. Há aqueles que se prestam ao estudo teológico por convicção religiosa – a vocação – outros(as), pela curiosidade em relação ao sagrado e ainda outros(as), pela tentativa de compreender a si mesmos e a existência humana. Também é possível dizer que o teólogo e a teóloga cristã objetivam compreender a revelação de Deus e, para isso, buscam interpretar o texto bíblico. Deste modo, a tarefa de quem faz teologia é a de hermeneuta, isto é, intérprete da Palavra de Deus revelada nas Sagradas Escrituras e na Sua criação. Ora, as coisas relacionadas ao sagrado não são tão facilmente compreensíveis ao humano. Tradicionalmente, “o conceito tradicional de Sagrado aponta para o intocável, isto é, o transcendente, inalcançável humanamente. Esse ser ideal cercado pela áurea do mistério, do nebuloso, passou a ser acessível a outros grupos, que não só os eclesiásticos, com o advento da Reforma (...)” que até então controlava a interpretação dos textos bíblicos. “Com a eclosão das idéias reformistas, algumas das idéias lançadas no cenário religioso são: Cada crente é um sacerdote (o Sacerdócio Universal)”. Assim, “cada indivíduo pode se comunicar com Deus (...) A Bíblia é a mensagem de Deus para a humanidade, é a

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revelação da vontade divina para todos e todas, portanto, deve ser disponibilizada na língua de cada tradição” (RODRIGUES, 2003, p.48-49). Quando o teólogo cristão e ou a teóloga cristã se aproximam do texto bíblico, buscam compreender tal escritura à luz de certos elementos, como contexto histórico, linguagem, cultura e outros pressupostos do(a) autor(a). Mas ainda existem os pressupostos do próprio hermeneuta que podem ser considerados “filtros culturais”. Esses filtros às vezes ajudam e outras vezes atrapalham porque dificultam a clareza e a neutralidade de quem busca a compreensão do texto. Entretanto, pode-se dizer que a linguagem bíblica é o recurso que expressa mais plenamente o inefável: Deus. A interpretação bíblica, portanto, torna-se um belo jogo que vela e revela o Sagrado que, assim, permanece sempre envolto em áurea de mistério. “A reforma proporcionou certa autonomia para a teologia e religião, mas não extinguiu o mistério” (RODRIGUES, p.52). A teologia, por intermédio do(a) hermeneuta, busca fazer o lógos (conhecimento) de Deus. Porém, o intérprete é impedido ao defrontar-se com os limites estabelecidos pelo próprio texto. A teologia tenta abstrair intelectualmente o Sagrado ou as coisas sagradas, mas só pode alcançar noções a respeito do sagrado. Pois seu foco de estudo é nebuloso, é superiormente infinito em relação à razão limitada do ser humano. Com isso, poderíamos dizer que a teologia e a hermenêutica se confundem ou até mesmo que a teologia é pura hermenêutica. b) A teologia pode ser chamada de ciência? Toda ciência estuda um objeto. De modo simples, pode-se dizer que o objeto de estudo da sociologia é a interação social humana ou as relações sociais entre seres humanos. Então seria natural compreender que no caso da teologia, o objeto de estudo é Deus ou a revelação de Deus, simplesmente. Mas como dito antes, não é tão simples assim. Além de Deus superar os limites racionais humanos e que, portanto, não pode ser apreendido totalmente, existem ainda diferentes abordagens teológicas. Na Idade Média, como vimos, na época conhecida como Escolástica e que foi protagonizada pelos teólogos católicos, a tendência era fazer teologia de modo acadêmico. Neste período, deu-se o surgimento das Universidades (primeiro em Paris, Oxford) e os mestres dessas escolas eram absolutamente exigentes na formação de seus alunos. Historiadores como Jacques Le Goff, afirmam que a Escolástica e as universidades devem ser compreendidas

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como instituições interligadas. Neste caso, a teologia era de um rigor acadêmico estóico e só as pessoas ligadas à igreja católica poderiam estudar teologia. Mas, nem toda teologia tem formato acadêmico. Hoje em dia, a teologia circula também por ambientes não acadêmicos e se expressa livremente entre religiosos leigos, isto é, que não possuem cargos de sacerdócio, e entre pessoas comuns, muitas vezes não participantes de igreja alguma. Essas abordagens teológicas podem ser chamadas: Teologia Pastoral e Teologia Popular. No primeiro caso, a teologia pastoral visa o cuidado com o fiel da igreja, portanto, é uma teologia de caráter prático, pois visa dar suporte espiritual àqueles(as) que se consideram religiosos(as). No segundo caso, a teologia popular, ou que faz leitura popular, visa proporcionar ao fiel, condições para compreender os textos sagrados e seus diversos contextos para a vida quotidiana, sem que sejam necessários os aprofundamentos teóricos, filosóficos e ou acadêmicos. Durante muito tempo algumas pessoas quiseram estabelecer modelos formais para a teologia e para isso atribuíram-lhe regras e metodologias. Como exemplo, pode-se citar o caso das ciências da natureza ou ciências empíricas. Atualmente ainda se pode verificar a influência dessas ciências na teologia e função do período iluminista. Em resumo, essa agregação da teologia a outras disciplinas, sempre aconteceu e seguindo a história, já nos séculos XVIII e XIX, a teologia sofreu o impacto de várias mudanças no cenário mundial que cooperaram para alterações significativas também na sua compreensão de Deus e da humanidade. Neste período, o lugar de excelência da teologia passou a ser a Alemanha, pois nessa região surgiram muitas reflexões teológicas importantes, tanto entre católicos como entre protestantes. É importante notar que o contexto histórico do século XIX e seus conturbados acontecimentos constituiu o pano de fundo da teologia de muitos teólogos alemães. Os fatos ocorridos neste período são, sem dúvida, os agentes causadores da reflexão crítica que contribuiu para que pesquisa e construção teológica parecessem mais com ciência. Portanto, entende-se que a visão de mundo desses teólogos foi grandemente influenciada pelo terror presenciado em acontecimentos como a I e II Guerras Mundiais, causadoras da depressão social, da miséria, das tragédias e das bestialidades que explodiram nesse momento histórico. Até então a teologia em voga enfocava entre outras coisas “a imanência de Deus e o ser humano como agente moral e livre, a centralidade de Deus, a religião ética, fé racional e experimental, o criticismo bíblico e a escatologia otimista e progressista”. É importante observar que essa teologia, como qualquer reflexão desenvolvida dentro de determinado

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contexto histórico, tendia para a ênfase filosófica da época, a saber, o cientificismo ou o racionalismo. Essa teologia propunha que as pessoas poderiam chegar ao conhecimento de Deus por meio da revelação geral; isto é, por meio da contemplação da natureza e de sua razão. O contraste que se impunha entre essa perspectiva teológica e as atrocidades provocadas pelas guerras de então, provocadas pela disputa do poder, conduziram não só pensadores de teologia como de outras áreas também ao negativismo. O colapso que essa crise gerou permitiu que muitos pensadores(as) considerassem a realidade de modo pessimista e com isso, cresceu o interesse pelo existencialismo. O clima de vazio e falta de sentido fez com que diversas pessoas perguntassem: Como conciliar as descobertas tecnológicas com a tragédia da maldade humana? O mundo dos estudos teológicos se dividiu em dois blocos: Ortodoxia e liberalismo. O primeiro grupo era formado basicamente pelos(as) teólogos(as) de formação conservadora que, em resumo, retomavam a autoridade das Escrituras Sagradas e sua inerrância, a inspiração e infalibilidade dos textos bíblicos, a dupla natureza de Jesus e seu sacrifício vicário, a doutrina da trindade e outras doutrinas que ressaltavam sobretudo a superioridade de Deus e de sua vontade para a humanidade. O segundo grupo, formado pelos liberais, rejeitava os elementos sobrenaturais e de transcendência dos textos bíblicos porque não poderiam ser explicados pela razão. Por conseguinte, a ação sobrenatural de Deus no mundo, os sinais, os milagres e a própria ressurreição de Jesus eram considerados não como feitos prodigiosos, mas como narrativas – literaturas – típicas da tradição judaico-cristã e com funções religiosas e de organização social e política. Para os teólogos liberais, por exemplo, os ensinos de Jesus apresentados nos textos do Novo Testamento serviam como catálogos de regras éticas e de orientação moral para todas as pessoas. Neste estrato da história pode-se perceber que a teologia é reflexão que se pauta no tempo e na cultura. Ela é dinâmica e viva. Portanto, é um tipo de saber que se desenvolve a partir das perguntas que o(a) teólogo(a) faz. Deste modo, ela pretende o conhecimento de Deus ou em relação às coisas de Deus à medida que aproxima a divindade do humano. Ela possui traços de ciência porque é conhecimento produzido na inter-relação do sujeito (que pode ser crente ou não) com o Sagrado. Mas a teologia não é um tipo de ciência reclusa às bibliotecas e aos laboratórios. Ela brota juntamente com as novas perguntas que surgem no quotidiano. Por

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isso, ela é formulada livremente e nos dois casos recebe influência de outras ciências, culturas, contextos históricos etc. c) Traços da teologia Quando a teologia é caracterizada pelo modelo formal da pesquisa acadêmica pode apresentar traços de: (1) criticidade, (2) sistematicidade, (3) dinamicidade. No entanto, a teologia é sui generis porque sua base – a revelação – nas Escrituras ou na Criação é completamente diferente dos objetos de estudo de outras ciências. Ela tem como princípios o saber transcendente (princípio objetivo) e a fé (princípio subjetivo). Mas mesmo esses elementos são examinados por alguns critérios. Criticidade. Assim como toda ciência, a teologia é saber crítico, ou seja, saber que opera sobre si mesmo, que é consciente de seus procedimentos e de suas limitações. Por isso, volta-se para si mesma com olhar atento a fim de verificar possíveis lapsos e refazê-los na expectativa do acerto. A criticidade é, portanto, movimento que se dá de dentro para fora. No caso do(a) teólogo(a) cristão(ã), se busca compreender determinadas doutrinas à luz do exame de toda a Escritura e, se possível, com olhar neutro, a fim de se detectar lapsos, acréscimos ou deturpações do sentido original do texto bíblico. Sistematicidade. A teologia como outras ciências tem determinado conjunto de saberes estruturados para dar forma a certa arquitetura teórica coerente. Além disso, ela lida com a fé, elemento da subjetividade humana. Portanto, em resumo, deve ser colocada em termos coerentes, considerando conjuntamente os saberes e a fé. A função principal do método teológico cristão é arrumar os dados em sistemas que dêem conta, tanto quanto possível, dos conhecimentos sobre o sagrado e a fé. A sistemacidade é a qualidade que paradoxalmente menos convém à teologia porque por mais amplas e orgânicas que sejam as sínteses teológicas, nunca se consegue encerrar a revelação. Ela escapa por todas as direções. Por isso, as sínteses teológicas, mesmo as mais prestigiadas acabam sempre “morrendo na praia”. Dinamicidade. Todas as ciências possuem como traço fundante a dinamicidade de onde provém a idéia de progresso. Mas é importante notar que a dinâmica que está por trás da teologia não despreza conhecimentos anteriores, antes sempre os coloca em debate para que sejam reformulados. Esse desenvolvimento pode se dar em dois níveis: em extensão, quando consegue explicar mais uma parte ou fragmento de seu objeto teórico, e em compreensão, quando aprofunda um conhecimento ou compreende mais um segmento do mesmo objeto.

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Na teologia, essencialmente hermenêutica, a dinamicidade é bem acentuada, pois as categorias e definições usadas para “saturar” os sentidos, se revelam sempre curtas. Por isso, é sempre necessário que as explicações sejam retomadas no curso da história. Esses traços permitem que a teologia faça e re-faça continuamente seu discurso, sempre em busca de abstrair um pouco mais a respeito da divindade e avançar um pouco mais no seu conhecimento. Tais traços da teologia, ao mesmo tempo em que procuram delimitar o universo de compreensões do sagrado acabam por ampliar idéias a respeito Dele. d) Divisões na Teologia Basicamente, os estudos teológicos se dividem em alguns temas: Soteriologia – estudo sobre a salvação. Cristologia – estudo sobre Jesus Cristo. Pneumatologia – estudo sobre o Espírito Santo e seus dons. Eclesiologia – estudo sobre a Igreja. Escatologia – estudo sobre as últimas coisas. Antropologia teológica – estudo sobre a natureza humana. Angeologia – estudo sobre os anjos. Mariologia – estudo sobre Maria. Hagiologia – estudo sobre os estudo dos santos. Além dessas áreas de pesquisa há ainda as divisões dadas em função do instrumental de análise, são elas: Teologia Bíblica, Teologia Prática e Teologia Sistemática. Teologia Bíblica. O enfoque da teologia bíblica é estudar a literatura e a religião do mundo bíblico a partir da investigação das culturas do mundo Mediterrâneo Antigo, bem como de suas línguas e suas histórias. Essa teologia usa como recursos para a pesquisa que desenvolve, instrumentos da historiografia, das ciências sociais, métodos filológicos e processos exegéticos. Teologia Prática. O enfoque dessa teologia, como indica o nome, é a prática. Os métodos que possam ser aplicados as necessidades pastorais das igrejas e que façam “ponte” entre os ensinos bíblicos e o quotidiano dos fiéis são os mais indicados. Essa teologia visa concretizar na vida dos fiéis, as bem-aventuranças bíblicas. Em geral, os instrumentais mais utilizados para esse fim são as ciências pedagógicas e psicológicas.

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Teologia Sistemática. Essa teologia preocupa-se com a atualização hermenêutica da revelação e se aplica à pregação, importante atividade que deriva da teologia. Ao estudo sistemático compete a organização do corpo de doutrinas a ser transmitida aos catecúmenos e aos convertidos a fé cristã. O principal instrumento teórico da sistemática é a filosofia. Essas áreas da teologia ainda são condicionadas por outra classificação: a confessionalidade. As confissões cristãs divergem em alguns pontos da teologia e concordam em outros. Em geral, os conteúdos do Antigo Testamento e do Novo Testamento são os mesmos, com diferenças entre as Bíblias católicas e protestantes que possuem cânones (lista de livros bíblicos) diferentes. Assim, o olhar de cada grupo sobre o texto bíblico é feito de acordo com seu ponto de vista. E é sobre isso que falaremos a seguir. Na terceira parte deste livro, será apresentado breve panorama das teologias produzidas por grupos minoritários. Esses grupos foram ocultados das páginas da história oficial, mas conseguiram avançar em direção a claridade e, assim, deixaram de ser considerados minoritários. Em parte, graças aos pressupostos dos reformadores, a teologia assumiu um perfil mais popular. Embora tenha fugido brevemente dos sistemas filosóficos fechados, ela não deixou de transitar por esses círculos e já nesta fase contemporânea parece ter assumido novo “envolvimento” com os saberes filosóficos. Isto é o que veremos adiante.

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III PARTE 3. As faces da Teologia Contemporânea
Comumente a Teologia Contemporânea é datada a partir do século XX, mas para que suas faces possam ser compreendidas adequadamente é necessário que se faça breve retorno ao século XVIII e XIX. No final do século XVIII, o antigo ideal exegético de reconstruir o sentido original do texto ressurge com Schleiermacher. Este homem basicamente marca a passagem da hermenêutica para o status de filosofia e, assim, essa disciplina passa para o rol das ciências humanas. Dentre suas afirmações pode-se destacar que (a) entre o intérprete (sujeito) e o texto (objeto) não há separação, (b) a linguagem humana determina o seu horizonte de compreensão e de conhecimentos, (c) entre o todo (o mundo) e o particular (o texto) há uma relação de circularidade, (d) sempre existe um ponto de referência a partir do qual se institui certa compreensão. O desdobramento das afirmações de Schleiermacher tornou-se fundamental para a compreensão da literatura bíblica e posteriormente culminou na Teologia Liberal. a) Teologia Liberal Como vimos, a teologia liberal se desenvolveu por volta do século XX, na Alemanha. Essa teologia propõe a liberdade de expressão e o primado da razão em detrimento à autoridade clerical e às doutrinas absolutas sobre Deus. A teologia liberal se opõe à sistematização do dogma dado na forma de ortodoxias (século XVIII) e é marcada pelo otimismo em relação ao progresso do ser humano, auxiliado pela tecnologia e pela razão lógica. Há muito preconceito em torno da teologia liberal. Muitos afirmam sua maldição sem ao menos tentar compreender seus pressupostos. Mas, afinal, quem foram seus protagonistas e quais os seus objetivos? O que diziam os teólogos liberais e com o que estavam preocupados? Os teólogos liberais se concentraram na busca pelo Jesus Histórico já que enfatizavam o caráter ético e moral da mensagem cristã como válidos para o homem e a mulher da modernidade. Eles objetivavam responder às questões de seu tempo, pois para o ser humano moderno, a ciência proporcionava todo o conhecimento necessário acerca do universo e de si mesmo. Havia um clima positivista no ar e, deste modo, as explicações dadas a partir do mundo bíblico não passavam de narrativas lendárias e primitivas que, agora, cediam lugar ao “verdadeiro conhecimento”.

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A metodologia empregada por essa escola é conhecida como História das Religiões Comparada. Basicamente, é um método que compara diferentes tradições culturais em busca de elementos, imagens, símbolos e expressões recorrentes (elementos estruturais convergentes). Os rituais envolvendo água, por exemplo, aparecem em religiões de tradições diferentes. No entanto, muitas vezes a água é usada como elemento de purificação, num sentido parecido com o judaico-cristão. A História das Religiões Comparada considera os movimentos do judaísmo e do cristianismo dentro do contexto mais amplo formado por diversas tradições do Mundo Antigo, em especial, Mediterrâneo, e procura identificar mitos, símbolos e rituais estruturados a partir de elementos comuns e que, no processo de desenvolvimento das tradições culturais são re-elaborados ganhando significados diferentes. Esta escola teológica foi protagonizada inicialmente por alguns pensadores muito criticados por suas afirmações “bombásticas” no cenário da teologia conservadora. Dentre eles podemos destacar Hermann Samuel Reimarus (1694 – 1768), precursor dos estudos sobre a vida de Jesus em perspectiva histórica. Foi um dos responsáveis pela distinção entre a pregação de Jesus e a fé de seus apóstolos. Sua abordagem considerava que os ensinos de Jesus devem ser considerados à luz da herança judaica de seu tempo, e que o cristianismo foi uma “invenção” apostólica. Com David Friedrich Strauss (1808 – 1874), o conceito de mito foi aplicado pela primeira vez aos evangelhos. Ele interpretou a vida de Jesus como narrativa construída pelos discípulos, negou sua divindade e o valor salvífico de paixão. Seguindo adiante, Adolf von Harnack (1851-1930) é considerado último expoente do protestantismo liberal. Harnack, apesar de ser grande historiador de seu tempo também foi considerado excelente teólogo. Considerou o método histórico-crítico (séc. XIX) instrumento essencial para a interpretação da linguagem bíblica. Harnack, apesar de ser grande historiador de seu tempo também foi considerado excelente teólogo. Considerou o método histórico-crítico (séc. XIX) instrumento essencial para a interpretação da linguagem bíblica. Segundo Harnack, não há possibilidade de interpretação da Bíblia fora do método científico. Assim, considerou os dogmas frutos do processo de helenização do cristianismo e os milagres, produtos da mística judaica. Com isso, a teologia deu um salto: do extremo teocêntrico para o extremo antropocêntrico. A perspectiva de interpretação dos textos bíblicos passou a ser científica e regida por pressupostos acadêmicos. O texto bíblico perdeu seu caráter sacro e tornou-se efetivamente objeto. A inicial temeridade e reverência, típicas dos teólogos piedosos, cedeu lugar à

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dissecação do texto bíblico. O dogma foi exposto à crítica e, portanto, questionado quanto a sua autoridade. Mas é importante notar que nem todos teólogos classificados como liberais correspondem efetivamente ao estereótipo de “destruidores” da fé cristã. Existiram outros nomes, dentre os quais destacamos Rudolf Bultmann, que apesar de herdeiros da herança liberal alemã, avançaram em suas reflexões teológicas e, deste modo, não deveriam ser enquadrados vulgarmente no modelo liberal. Bultmann, assim como Karl Barth, são exemplos distintos, mas eficazes para a demonstração de que a perspectiva liberal foi fundante para o avanço da reflexão teológica. Resumidamente, Bultmann dialogou com categorias filosóficas (de Heidegger) para responder às questões de seu tempo. Barth, também preocupado com os problemas de seu quotidiano, recorreu à ortodoxia e re-tomou princípios hermenêuticos do século XVI. Foram duas respostas, diferentes, ao mesmo problema. Todavia, em ambos os casos, a preocupação central foi tornar a proclamação do Novo Testamento atual para a audiência. Teologias de libertação. Se por um lado, a Reforma “democratizou” a interpretação bíblica e a teologia liberal viabilizou o uso de outros instrumentos à exegese, por outro lado, a teologia sofreu certo impacto com essa abertura. Esses dois períodos, que se pode considerar estágios, cooperaram para a aproximação entre leitores(as) e texto sagrado que, em geral, era sempre intermediada por alguém: um padre, um pastor, um sacerdote, ou seja, uma figura de autoridade eclesiástica. A reflexão teológica liberal possibilitou ao intérprete da Bíblia e ou teólogo cristão apropriarse dos textos sagrados à luz de sua própria experiência e, com isso, lançar novo olhar sobre o texto. Sobretudo, lhe permitiu procurar respostas para questões específicas de certos grupos, que a teologia européia e alemã não atendia. Inscreve-se neste caso, os grupos marginalizados pela teologia “oficial”, são eles: indígenas, negros, mulheres, crianças, homossexuais e estrangeiros. Portanto, não existe apenas uma teologia de libertação, mas teologias de libertação que, basicamente, buscam re-visitar as tradições bíblicas buscando as imagens desses grupos “desapercebidos” pela teologia mais conservadora, feita por homens, brancos e de países super-desenvolvidos. Dentre as teologias de libertação, pode-se destacar a Teologia da Libertação que nomeou o movimento e a partir da qual surgiram a Teologia Feminista e a Teologia Negra. Por razão de espaço, neste livro abordaremos somente a Teologia da Libertação (TL) e a Teologia

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Feminista. Entendemos que ambas as teologias são de extrema importância no âmbito da América Latina e de certa maneira, contribuíram para o surgimento de outras reflexões teológicas crescentes, e em curso. Passemos então para a reflexão teológica “libertadora”. b) A Teologia da Libertação (TL) A TL causou verdadeiro impacto na história. Principalmente porque originariamente foi desenvolvida no solo latino-americano com enfoque característico das culturas desse continente, ou seja, à luz de suas realidades sócio-culturais e políticas. A América Latina foi e é colocada entre as regiões do chamado Terceiro Mundo, continente pobre e marcado pela mistura de culturas e cores. Seus contextos indicam grande diversidade de línguas, de riquezas naturais, de produção cultural, de políticas e de problemas sociais. Os países chamados subdesenvolvidos e que constituem o Terceiro Mundo, na verdade produzem e sustentam boa parte da economia mundial, mas em função de suas histórias passadas de colonização e exploração pelos países do Primeiro Mundo, hoje, sofrem ainda os reflexos das políticas “parasitas” e opressoras de que foram e são alvos. Portanto, a TL irrompeu num espaço geográfico e cultural não europeu e por meio de sua reflexão teológica, buscou desmontar as bases da teologia feita pelos dominadores, seus opressores. Podem-se destacar vários nomes que figuraram essa importante história. Dentre eles estão: Gustavo Gutiérrez (peruano), Juan Luís Segundo (uruguaio), Jon Sobrino (salvadorenho), Ronaldo Muñoz (chileno) e outros. Entre os brasileiros, Frei Betto, Leonardo e Clodovis Boff (católicos), Rubem Alves, Milton Schwantes e Jaci Maraschin (protestantes). Além destes, existem outros igualmente importantes. Grosso modo, a TL eclodiu em meados dos anos 60, no século XX. Este período, em particular, foi de extrema movimentação política, com destaque para o movimento socialista que teve grande força a partir da revolução liderada por Fidel Castro e o governo de Salvador Allende, no Chile. No Brasil, o panorama político foi conturbado com muitas movimentações de partidos políticos, de sindicalistas, de estudantes e de artistas. No geral, se reivindica condições de vida mais justas para a sociedade. Falava-se de igualdade de direitos e de liberdade de expressão, de reformas na estrutura política, de reforma agrária e outros assuntos. Entretanto, a realidade era controlada pelo governo ditatorial e militar. Houve várias manifestações, pessoas foram exiladas, outras censuradas e quase todas as expressões contrárias ao governo eram reprimidas com violência.

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As políticas desenvolvidas pelos governos controversos e autoritários favoreciam pequenos grupos e em detrimento a essa realidade, outra bastante sofrida se instalava. As massas populares eram cada vez mais exploradas e conseqüentemente empobrecidas. A igreja cristã representada principalmente pelos católicos posicionou-se ao lado desses grupos desfavorecidos com a célebre “opção pelos pobres”. Os bispos latino-americanos na Conferência de Medellin decidiram encerrar o silêncio da igreja católica diante da injustiça social vigente. Com isso revisou o argumento de que a Igreja devia preocupar-se em guiar seu rebanho para o céu, sem se ocupar com questões materiais. A encíclica de João XXIII, de 1963, permitiu que teólogos, sacerdotes e religiosos católicos de todas as procedências se familiarizassem com a ideologia marxista, em busca de novos horizontes para a interpretação de textos bíblicos. Neste momento, Gustavo Gutiérrez desenvolveu uma importante perspectiva teológica acerca da posição que o ser humano ocupa em relação a Deus: a separação entre sagrado e profano não existe. A história divina e humana é única e Deus age, ao longo de toda a história, libertando-os dos diversos tipos de opressão. Gutiérrez deu caráter prático de libertação à teologia por meio dos fundamentos da teoria crítica marxista. A TL criticou a igreja e refletiu a respeito de seu papel social que legitimava, isto é, concordava com a opressão e a injustiça social. A igreja compreendeu que em função de sua pregação sobre o reino de Deus futuro, agia passivamente no presente e se omitia em relação à exclusão social, miséria e desigualdade. A partir da leitura de Marx, que considerou a igreja um instrumento opressor do Estado, alguns dos teólogos e dos sacerdotes re-pensaram suas idéias e posturas religiosas, e reconheceram antigas alianças com os ricos (quando pregavam que a resignação à vontade de Deus e o sofrimento na Terra era a garantia de vida eterna no paraíso). Para teólogos da libertação como Jorge Pixley, “Em termos abstratos e gerais, o reino de Deus significa na Bíblia uma sociedade de justiça, igualdade e abundância. Em termos concretos, esse reino orienta projetos históricos diferentes sob diferentes circunstâncias. Em dois momentos básicos, o reino significou libertação, luta contra os sistemas classistas que exploravam sistematicamente os trabalhadores de Israel (...) aceitar Iahweh como rei de Israel significava repudiar os reis que estavam explorando as aldeias produtivas e, juntamente com os reis, rejeitar a superestrutura religiosa que lhes deu legitimidade (...) o reino de Deus mais uma vez se transformou numa inspiração para revoltas e promessas de libertação (...)” (PIXLEY, 1986, p.117).

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A TL levou a cabo a prática libertadora. Neste sentido, o ato de evangelizar passou a significar libertação não só do pecado, mas também da vida alienada e resignada. A reflexão teológica passou a ter compromisso com as coisas do espírito e do corpo, a ver o ser humano integralmente. Assim, o pecado não era mais só o mal espiritual (a desobediência, a blasfêmia, a heresia, a descrença etc), era também a injustiça materializada em decisões individualistas que prejudicavam a vida humana. Com a TL, a hermenêutica dos textos do Antigo e do Novo Testamento adquiriu novo rosto. Temas como a salvação e o reino de Deus, que antes eram sempre “jogados” para o futuro, foram re-visitados e a leitura ganhou novas cores. A TL falava do movimento de Deus a libertar seu povo da escravidão do Egito, a restaurar sua dignidade e tradição, a derrotar os opressores do povo escolhido e a providenciar o pão da vida para o presente. De acordo com essa perspectiva, Jesus foi interpretado como o filho de Deus encarnado para o anúncio da libertação. Foi considerado o profeta, o líder revolucionário que subverteu a ordem do Império Romano e que andava entre os pobres, as mulheres, as crianças, as prostitutas e os parias da sociedade. Dentre alguns títulos de livros importantes, destacamos: Jesus Cristo Libertador, de Leonardo Boff (1972); Cristologia desde América Latina, de Jon Sobrino (1976), El hombre de hoy ante Jesús de Nazaret, de Juan L. Segundo (1982). Existem muitos outros livros e revistas especializadas em teologia que se tornaram meios importantes de divulgação da abordagem teológica libertária. Na grande maioria, o tema principal era a libertação dos pobres e a luta por sociedades mais justas e igualitárias. Mas essa teologia não circulou apenas entre teólogos. A grande expressão da TL se deu entre os populares e as lideranças leigas que se reuniam em Comunidades Eclesiais de Base (as CEBs) para a celebração da fé, a organização de cursos profissionalizantes, as palestras de conscientização e muitas outras atividades que objetivavam tornar cada mulher e homem, conscientes de seus direitos e de seus potenciais. Sem dúvida a TL constituiu grande marco na história da teologia, principalmente na América Latina. Sua reflexão abrangeu católicos e protestantes, esses últimos, criaram também a Teologia Evangelical e a Missão Integral. Espécie de contrapartida e resposta dos evangélicos ao movimento maciço de católicos e protestantes engajados na TL. A missão integral, como o próprio nome diz, buscava a salvação para o ser humano completo e para tanto, também se comprometeu com as necessidades sociais dos grupos marginalizados, mas sem abrir mão da mensagem teológica evangélica. Entre 1956 e 1962, várias igrejas evangélicas se reuniram na

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região nordeste brasileira e participaram de três conferências idealizadas por pastores preocupados com a situação política e social brasileira, principalmente com os pobres do norte e do nordeste brasileiro. Nesta ocasião, elaboraram um documento que foi intitulado “Cristo e o processo revolucionário brasileiro”. Alguns evangélicos não concordavam com a opção da TL pelas idéias marxistas e procuraram outros meios para expressar sua indignação com relação à desigualdade social, mas muitos deles não encontraram problema no movimento da TL que, assim, acabou por assumir e cooperar para o movimento ecumênico. A TL continua existindo nas reflexões teológicas publicadas em revistas como a RIBLA (Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana), especializada na reflexão teológica produzida neste continente, nas igrejas católicas e evangélicas espalhadas por todo o Brasil, onde se faz leitura popular dos textos bíblicos. A partir desse contato com a Bíblia, se busca auxiliar mulheres e homens de todas as etnias e idades a encontrarem sentido espiritual e material da literatura bíblica. b) A Teologia Feminista A teologia feminista emergiu do mesmo panorama da TL e buscou, em princípio, a libertação para as mulheres oprimidas, durante a longa jornada histórica. Essa abordagem teológica fundamentou-se nos pressupostos do movimento feminista do século XX, que em meados dos anos 50 ganhou notoriedade. Todavia, as discussões feministas avançaram rumo às relações de gênero e enfocaram mais do que a obrigatória e opressiva subordinação da mulher ao homem. Tais discussões objetivavam desconstruir o discurso patriarcal, isto é, os discursos que legitimavam a superioridade e a autoridade masculina sobre a mulher. O avanço está mais precisamente a partir da negação dessa estrutura, pois as críticas eram dirigidas não só aos homens, mas ao modelo de organização social e política hierárquica social que marginalizava e oprimia outros homens, mulheres, crianças etc. Podemos dizer que o pano de fundo que instigou a reflexão feminista foi o olhar masculino na edição histórica. Sabe-se que o estabelecimento da ordem social patriarcal se deu antes da formação da civilização ocidental, e instituiu o homem como norma e a mulher como desvio: “Gradualmente, ele institucionalizou os direitos dos homens para controlar e se apropriar dos serviços sexuais e reprodutivos das mulheres, estabelecendo formas de dominação, tais como a escravidão e instituindo um sistema funcional complexo de relacionamentos hierárquicos, tecendo um verdadeiro sistema de idéias” (LERNER, 1993, p. 3).

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Com exceção de algumas mulheres do período renascentista que se dedicaram à literatura, as mulheres em geral só obtinham oportunidade de estudo por meio da dedicação à vida eclesiástica e religiosa. Mesmo assim, a possibilidade de estudo para as mulheres foi limitada, no século XII, pelas reformas da igreja (difusão do celibato clerical, refinamento da lei canônica, hierarquia clerical privilegiada com educação e poder sobre a igreja). Em resumo, as mulheres foram relegadas à posição de inferioridade. As razões históricas do machismo também se encontram na Antigüidade Clássica. Neste período a concepção dualista se fortificou e propôs a separação entre mulher e homem, carne e espírito, bem e mal. Homem e mulher foram relacionados, respectivamente, à razão e à emoção, ao equilíbrio e a instabilidade. Por trás dessas idéias está a ideologia que associa o feminino à “carne” e a “concupisciência”, ou seja, ao que a igreja considera mal. Por isso, a mulher deve ser submetida ao racional representado pelo homem. Este conceito foi reforçado por Agostinho, nos seus comentários ao Gênesis. Na Idade Contemporânea, machismo passou a ser identificado mais claramente por meio da reflexão sobre as estruturas dos mitos com personagens femininos, escritos por homens. Em “O segundo sexo”, escrito por Simone de Beauvoir, a autora demonstrou que tais narrativas podem representar projeções da fantasia masculina a respeito das mulheres consideradas ideais ou malditas. De qualquer modo, o olhar sobre a edição histórica mostrou que a mulher não detinha de si mesma a concepção de identidade. A existência feminina foi sempre abordada a partir do ponto de vista patriarcal que a concebia como incapaz e débil. Inicialmente o feminismo surgiu no século XIX e ficou conhecido posteriormente como Feminismo Liberal. As feministas propunham sociedades igualitárias em que homens e mulheres tivessem os mesmos direitos e oportunidades. Nesta época, as mulheres eram privadas de alguns direitos como: o direito ao voto, o direito à propriedade (não controlavam bens herdados, pela lei os bens ficavam sob a tutoria de algum homem), o direito à educação, o direito de ir e vir (devia submeter-se às decisões do pai, irmão ou marido). Após a fase inicial, o feminismo liberal obteve conquistas relevantes. Entretanto, a inserção e os ganhos não foram plenamente satisfatórios. As mulheres empregadas, além de acumular duas funções (a de operárias e a de donas de casa) ocupavam cargos de pouca expressividade ou de remuneração inferior aos homens, às vezes, na mesma função. Tal situação gerou

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descontentamento que eclodiu em reivindicações como a extinção dos modelos patriarcais de religião, de casamento e outros. As feministas perceberam que os papéis sociais e religiosos podem ser construções culturais que tem por base, concepções machistas. Assim, em resumo, os homens seriam criados para serem “machos provedores” e as mulheres, “fêmeas procriadoras”. As duas caracterizações, entretanto, são nocivas às relações humanas e, por isso, opressoras, tanto para mulheres quanto para homens. À luz desta discussão, as teólogas feministas se re-aproximaram do texto bíblico a fim de identificar os elementos patriarcais produzidos pela cultura e, assim, reconhecer concepções de inferioridade e subordinação da mulher, em relação ao homem. Neste sentido, o relato de Gn 2:21-23 poderia ilustrar essa concepção. Para as exegetas feministas, os textos bíblicos justificam a opressão religiosa da mulher, p.ex. Ef 5: 22-24, Gn 3, II Cor 11: 3. Do ponto de vista das feministas, o fato de a Bíblia ter sido escrita na maior parte pela mão masculina caracteriza essa literatura como produção de uma cultura que privilegia os direitos dos homens e menospreza a mulher. Por isso, a figura feminina aparece sempre para ilustrar algo ligado ao mal ou como “mulher virtuosa”, que segundo a tradição patriarcal seria a mulher virgem ou a esposa nobre. As personagens bíblicas que exerceram algum tipo de liderança e se destacaram aparecem raramente, além de terem sido silenciadas, isto é, há poucos relatos que nos permitam conhecê-las melhor. A teologia feminista se propõe a resgatar a história dessas personagens que a história oficial silenciou e, com isso, construir uma leitura bíblica mais justa a fim de que tanto mulheres quanto homens sejam devidamente valorizados em seus papéis e funções. Dessa idéia de equilíbrio que aos poucos foi superando a inicial competição surgiu o ecofeminismo, outro estágio das discussões feministas. Nas religiões patriarcais, o sistema de símbolos promove a imagem masculina de Deus. Isso implica na concepção de que humanidade e natureza são realidades separadas e reforça a idéia de que o ser humano é superior a natureza. Deste modo, a idéia de que Deus transcende o mundo favorece o estabelecimento da hierarquia entre divindade e o mundo natural. Já que a Bíblia identifica Deus como do gênero masculino (“Criou, pois, Deus o homem à sua imagem”, Gn. 1: 27) se estabelece a relação de superioridade entre homem e natureza, homem e mulher. O ecofeminismo busca desconstruir esse tipo de leitura da Bíblia que promove a hierarquia, a desigualdade e a degradação do ser humano.

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O ecofeminismo é um tipo de abordagem feminista que discute os gêneros. Sua crítica confronta as religiões cujas estruturas (de organização social, política e religiosa) inferiorizam a mulher e ou o homem. A autora Karren Warren afirmou a esse respeito: “O que todas as filósofas ecofeministas têm em comum (...) é a visão de que existem importantes conexões entre dominação das mulheres (e outros seres humanos subordinados) e a dominação da natureza, e que a falha em reconhecer estas conexões resulta em feminismos, ambientalismos, e filosofias ambientais inadequadas” (Do livro Ecological Feminist Philosophies). c) Teologias Pontuais Atualmente a reflexão teológica cresce cada vez mais, assim como as ferramentas metodológicas para desenvolvê-la. Seja nos círculos acadêmicos ou entre populares, nas igrejas, nas comunidades ou nas casas, a teologia assume contornos de ciência, mas permanece ao alcance de todos e de todas. Além disso, pode-se falar com tranqüilidade que a pesquisa teológica em países latino-americanos é tão qualificada quanto no norte da América, Europa e Alemanha. Ainda há falta de recursos e de incentivo, contudo, essas dificuldades não têm constituído grandes empecilhos para que o interesse pela teologia, pela religião e pelo sagrado se esvazie. O século XX testemunhou grande oferta de teologias. Cada uma delas, como dito, buscava cercar um aspecto pontual sobre o qual se julgava não ter havido muita ênfase e que, desta forma, poderia ser mais bem explicitada. Dentre elas, conhecemos a teologia dialética, a teologia existencial, a teologia hermenêutica, a teologia da cultura, a teologia da história, a teologia da cultura, a teologia das religiões e muitas outras. Neste sentido, já que a teologia contemporânea proporcionou mais possibilidades de diálogo e cooperou para que alguns dogmas cristalizados fossem re-vistos, a abertura favoreceu o surgimento de várias outras teologias que não poderão ser abordadas com cuidado aqui, mas ao fim desse livro, o leitor poderá encontrar uma bibliografia com indicações que poderão ser úteis, caso se queira continuar essa leitura. Vejamos brevemente três exemplos de teologias pontuais: Teologia da Cruz. Foi Lutero quem contrapôs expressamente a teologia da cruz à teologia da glória, essa última reconhecida como oficial pela classe dominante. Pode-se dizer que essa abordagem teológica é herança do Apóstolo Paulo. Tecer uma definição para essa teologia é tarefa complicada, mas podemos aceitar que a teologia da cruz enfatiza a centralidade do

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evento Cruz de Cristo. “É na cruz de Cristo e do cristão que se mostra o sentido mais profundo da ação de Deus junto ao mundo. A teologia da cruz é cristocêntrica. Para o cristão, Cristo é tudo, ele é o eixo central da reflexão teológica”. Assim, a marca da teologia de Lutero é a teologia da cruz. Teologia da Esperança. O enfoque central desta teologia é mostrar que a prática da fé se inflama graças à ressurreição de Jesus Cristo, isto é, a mensagem da ressurreição impele a todos e todas à decisão de transformar a comunidade, a sociedade e o mundo. Por isso, a liberdade conquistada graças ao sacrifício de Cristo e a mensagem do reino de Deus significam mais do que liberdade e santidade interiores. “Expressam sempre e por igual o ‘Shalon’ dirigido a todo homem e toda mulher em suas relações sociais” (Ganz Andere). Teologia da Prosperidade. A teologia da prosperidade é algo relativamente novo na história da igreja. Parece que nada assim já foi visto antes. Mas isso não quer dizer que ela tenha surgido de modo repentino ou aparecido totalmente formada. Como todo movimento, desenvolveu-se com o tempo, e isso significa que tem raízes ligadas a pessoas, épocas e lugares diversos. Pesquisas feitas nos Estados Unidos sobre a teologia revelam que existem duas raízes históricas e filosóficas da teologia da prosperidade: O pentecostalismo (Barron, 1987; Horn, 1989) e várias seitas metafísicas do início do século XX, que floresceram na região de Boston (McConnell, 1988). Dessas duas fontes, o pentecostalismo fornece a base ou o grupo onde essa teologia encontrou a maior parte de seus adeptos, enquanto os pressupostos filosóficos propriamente ditos foram fornecidos por pressupostos metafísicos. Sua doutrina é radical com relação ao homem físico e espiritual. A teologia da prosperidade afirma com constância que nem doenças nem problemas financeiros fazem parte da vontade de Deus para seus filhos. Portanto, o cristão que passa por tias situações não tem fé suficiente ou está em pecado. Outra característica dessa teologia e a chamada confissão positiva. Ela garante a realização dos pedidos do fiel desde que sejam realizados com fé. Neste sentido, o objeto de desejo do fiel deve ser reivindicado pelo cristão imperativamente. À luz das cenas quotidianas que constituem a grande maioria das realidades das pessoas nas ruas, nas casas e nas comunidades de que fazem parte, parece razoável que alguns religiosos exijam bênçãos de Deus. As necessidades são muitas e as ofertas também. Parece que a teologia da prosperidade apenas segue o modelo imediatista das sociedades de consumo ocidentais. Assim, tão fácil quanto se comprar um Big-Mac deve ser o alcance de

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uma vontade. Neste caso, Deus é o(a) atendente do balcão que gentilmente solicita ao cliente: “Faça seu pedido”. As teologias que aqui denominamos pontuais se caracterizam por priorizar determinados pontos em suas reflexões. Ora voltadas para aspectos mais filosóficos, ora para questões sociais e problemas políticos, hoje seria mais correto falar em teologias, no plural, e não mais teologia, no singular. De fato não apresentamos todas as reflexões teológicas, ainda poderíamos falar sobre a teologia das religiões, ligada a pluralidade e às discussões pósmodernas, também poderíamos trazer para o debate a recente teologia “queer”, ainda pouco conhecida no Brasil, mas bastante discutida. Entretanto, por razões de espaço e até mesmo limitações pessoais, consideramos ser razoável a espera de uma próxima oportunidade, quando poderemos tratar tais assuntos com mais cuidado e profundidade.

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IV Parte Considerações finais (intempestivas)
“O homem desesperado (...) se perde construindo castelos no ar e bate-se sempre contra moinhos de vento. Que brilho tem todas estas virtudes de fazedor de experiências! Por um momento encantam como um poema oriental (...) E são de fato lendárias, sem nada por detrás. Em seu desespero, o eu quer esgotar o prazer de se criar, de se desenvolver, de existir por si mesmo, reclamando as honras do poema, de trama a tal ponto magistral, em resumo, a glória de tão bem se ter sabido compreender. No entanto, o que isso significa para ele continua a ser enigma. No mesmo instante em que crê terminar o edifício, tudo pode, arbitrariamente, desvanecer-se no nada”. Sören Kierkegaard Após tantas incursões pelo mundo da teologia ou das teologias, não faremos mais nenhuma apresentação sistemática. Queremos apenas retomar a pergunta inicial: o que é teologia? Particularmente, consideramos a teologia construção paulatina do conhecimento humano acerca de Deus, sua mais profunda e eterna paixão. É em função dessa necessidade de explicar o mundo e de se explicar que os seres humanos vêm sistematicamente empreendendo buscas ora teológicas, ora filosóficas, ora científicas que arriscamos dizer que, assim como para Aristóteles, o princípio da filosofia era o thaumatso, isto é, a curiosidade, também para os teólogos o princípio da reflexão é a pergunta: Quem é Deus? No judaísmo ou no cristianismo, a busca por Deus, Javé, e os conhecimentos acerca dele sustentaram importantes decisões e concederam rumos para judeus e cristãos. Na primeira metade do século I, muitas pessoas confiaram suas vidas aos ensinamentos de Jesus, considerado o filho de Deus, o mestre de sabedoria, o profeta denunciador, o líder político... o salvador do mundo. Sua pregação foi tão significativa que dividiu a história da humanidade em antes e depois, e concedeu esperança para os que se aproximaram dele. Entretanto, após sua morte, as expectativas dos primeiros seguidores de Cristo se frustraram. Em parte porque as respostas até então obtidas não foram satisfatórias e, em parte, porque nem todos acreditaram na sua ressurreição. Com isso, foi preciso encontrar respostas para as novas perguntas. Havia cristãos com idéias em suas cabeças, havia gente com experiências religiosas diferentes e poucos eram os direcionamentos. Os próprios textos do Novo Testamento apontam que não havia apenas uma liderança instituída. O surgimento da teologia cristã se deu em meio às questões dos cristãos primitivos, como respostas aos problemas daquele tempo e com as informações que se tinha “à mão”. Havia

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judeus helenizados e convertidos, romanos e gregos convertidos, cristãos da Síria e da Antioquia, cristãos convictos, judeus simpatizantes, judeus opositores e muitos outros. O tempo era de grande efervescência e é provável que saibamos bem pouco desta época, já que são poucos os relatos extra-bíblicos acerca do século I e os escritos que temos são intermediados por autores bíblicos ou autoridades daquele tempo. No entanto, é de se supor que os primeiros teólogos tenham sido cristãos simples, e que os autores conhecidos como Lucas e Paulo, Pedro e Tiago tenham apenas cedido seus nomes às produções teológicas que se fazia nas comunidades cristãs. A teologia daquele tempo deve ter principiado nas soleiras das casas, nas agriculturas dos camponeses, nas feiras-livres e nos comércios das pequenas aldeias onde pescadores, artesãos, taberneiros, mulheres e crianças circulavam todos os dias. Nas suas conversas, homens e mulheres deveriam trocar impressões sobre os ensinos de Jesus à luz das histórias que ouviram de seus pais, judeus antigos, e das experiências religiosas dos gregos, dos romanos e de outros estrangeiros que se encontravam para fazer negócios, nas idas ao Templo ou na hora de pagar tributos. Pequenos relatos de histórias antigas, citações de ensinos judaicos e associações com o que os nazarenos viviam devem ter gerado muitas adesões e também recusas. Tais possibilidades nos levam a entender que esses fazedores de experiências impulsionaram o nascimento da teologia com suas idéias de esperança, de salvação, de reino de Deus e tantas outras sempre muito controvertidas. Tantas controvérsias que permearam toda a Antigüidade até o período medieval e, finalmente, invadiram a época contemporânea, tiveram seus inícios lá na diversidade cristã do I século. E foi a partir das experiências religiosas quotidianas desses homens e dessas mulheres que o cristianismo foi se formando o movimento e, posteriormente, uma das religiões mais importantes do mundo. Por causa desse brilho que ofusca e desvanece frente às situações que se impõem dia a dia. É provável que Deus continue a significar um enigma e que toda tentativa de se fazer o logos de Theos seja sempre frustrada, dada a limitação humana. Mas é neste ponto que reside a beleza magistral da teologia: “no instante em que se crê ter terminado o edifício, tudo pode, arbitrariamente, desvanecer-se no nada”. A teologia, portanto, permanece sem definição porque seu objeto permanece inominável. Elisa Rodrigues, setembro de 2004.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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