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Dicionário de Política - Norberto Bobbio

Dicionário de Política - Norberto Bobbio

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I. DEFINIÇÃO. — Por Movimento operário se
entende o conjunto dos fatos políticos e
organizacionais relacionados com a vida política,
ideológica e social da classe operária ou, mais em
geral, do mundo do trabalho. Tem como primeira
condição a subsistência de um proletariado industrial,
isto é, de um conjunto de homens que baseiam sua
existência econômica no trabalho assalariado, estando
privados da posse dos meios de produção, em oposição
aos quais se encontram os detentores desses meios,
isto é, o capital.
A concepção do Movimento operário, tal como se
foi desenvolvendo, no curso de quase dois séculos,
nos países economicamente avançados de todo o
mundo, se foi paulatinamente identificando com os
conceitos de proletariado e de classe operária e hoje o
Movimento operário pode ser definido como a
expressão de todo o proletariado (de um determinado
país, de uma região, etc), numa certa época ou como a
expressão atuante e combativa, isto é, como o
momento dinâmico da classe operária (também, de um
certo país, de uma região, etc). Isto significa que no
Movimento operário tomam consistência e se exaltam
as instâncias de combatividade e todas as organizações,
instituições e opções de ação que o proletariado adotou
na sua evolução histórica e que ainda adota, não de
forma esquemática nem dogmática, mas procurando
sempre adequar aos tempos e lugares as múltiplas
manifestações organizativas elaboradas, preocupando-
se com a atualização constante da problemática ideal,
querendo analisar de modo sempre novo e original a
sociedade, dentro da qual se encontra a atuar, e
partindo sempre, em suas avaliações, de dois
princípios: a) da opressão e do abuso exercidos pelo
capital, isto é, pelos proprietários que dão trabalho,
em relação ao trabalho assalariado, isto é, aos
operários que trabalham, e b) da conseqüente divisão
em "classes" da sociedade industrial moderna. Destes
dois pressupostos nasce a "necessidade" da luta de
classe, de que se tornaram

intérpretes e fautores (de forma diferenciada e mais
ou menos atenuada) todas as organizações que direta
ou indiretamente se ligam ao Movimento operário:
partidos, sindicatos, cooperativas, associações de
massa, que se propõem como finalidade ou a
contestação ou a reforma ou, pelo menos, a
substancial transformação da sociedade presente, ou
de uma parte dela, e da sua substituição por uma nova
sociedade socialista, a ser realizada imediata ou
mediatamente ou, enfim, a longo prazo.

II. A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE
MOVIMENTO OPERÁRIO. — O Movimento
operário como tal inicia a sua existência social com a
época industrial: não é possível falar de Movimento
operário na era pré-industrial; quando muito, nos
podemos referir a "movimentos" que tiveram como
participantes operários: movimentos camponeses,
movimentos de artesãos, etc. De fato, o Movimento
operário moderno tem como contexto de ação a
sociedade industrial, na qual opera e domina a
burguesia capitalista: a sua evolução começa quando o
operário individual, típico das economias ainda não
industrializadas e que se expressava especialmente nas
imagens do mestre e do jovem aprendiz, começa a
tomar consciência de si e, contemporaneamente, o seu
trabalho não é mais usado isoladamente,
independentemente do trabalho análogo e estritamente
ligado de outros indivíduos, mas se insere num
processo que encontra sua principal expressão na
fábrica industrial capitalista. A esta evolução
substancial, efeito e causa da Revolução Industrial, se
vincula o fato político da emancipação burguesa,
consumada mediante a Revolução Francesa, que,
portanto, pode ser considerada o verdadeiro ponto de
partida de um movimento que é qualificado de
"operário".

Nos decênios seguintes, e cada vez com maior força
à medida que nos vamos aproximando de meados do
século XX, o Movimento operário foi recebendo
integralmente as propostas de emancipação política
apresentadas pela burguesia, o Terceiro Estado, desde
1789-1794, mas transferiu-as para a estrutura social,
rejeitando-lhes o absolutismo teórico mas não a
possível limitação no plano prático, e estendendo-as,
em contrapartida, a todos os setores da' vida social, e
mesmo a qualquer sociedade e a qualquer coletividade
atuante no presente, sem distinções de censo, de poder
econômico, ou de raça (esta é a exemplificação
convincente proposta por Wolfgang Abendroth).
Pelos motivos acima expostos se pode falar de
movimento, de corrente política, que foi e é expressão
de uma particular condição

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MOVIMENTO OPERÁRIO

econômico-social, com necessidades autônomas
próprias, com exigências de poder ou simplesmente
com posições defensivas independentes quanto à
gestão existente do poder: um movimento que, desde
os seus primórdios, apresentou soluções alternativas
próprias à sociedade capitalista, fundada na posse
"privada" dos meios de produção, e que, como tal,
elaborou doutrinas de diversos tipos, reformistas ou
revolucionárias, mas sempre ligadas a concepções
socialistas, coletivistas ou comunitárias, isto é,
negadoras de uma gestão meramente privada da
economia.

Enquanto na Revolução Francesa o Movimento
operário era ainda fragmentário e não tinha estrutura
nem fins orgânicos, nos primeiros decênios do século
XIX ele se definiu e estabeleceu objetivos mais
precisos na Inglaterra e nos Estados Unidos da
América, onde começou a se afirmar no campo
sindical e no campo teórico, rejeitando a economia
"clássica" e capitalista. Nos anos seguintes à
revolução de julho (1830), desenvolveu-se e
amadureceu politicamente o Movimento operário
francês, que desenvolveu a sua luta, quer no plano
revolucionário da contestação geral do sistema, quer
no plano da luta sindical, quer no da elaboração
teórica de uma nova perspectiva comunista —
comunitária, negadora do presente burguês e
capitalista. Na Alemanha, enfim, também nos anos
seguintes a 1830, se acentuaram as instâncias de
classe, sintetizadas em propostas organizativas que não
eram somente sindicais mas que começavam a ser
políticas, isto é, "partidárias". Todo este movimento
de gestação se concluiu em 1848, com a criação do
Movimento operário da época contemporânea, através
do processo delineado por Marx e Engels no
Manifesto comunista (1848), cujos termos resultam
ainda hoje válidos, pelo menos sob o aspecto
metodológico, se relacionados com os nossos dias.

Com o desenvolvimento da indústria capitalista,
dizem Marx e Engels, o proletariado não cresce,
somente numericamente: o fato de se agruparem em
grandes massas e de enfrentarem de forma
necessariamente comunitária problemas análogos, faz
crescer, de um lado, a sua conciência e, do outro, os
conflitos ofensivos e defensivos. Daí o surgir da
conciência de classe através das lutas, onde o que
conta não são tanto os efeitos, muitas vezes efêmeros,
mas especialmente a organização que se gera: "O
verdadeiro resultado das lutas não é o sucesso
imediato, mas a união cada vez mais extensa dos
operários"; disto se conclui que toda a "luta de classe é
luta política". Além disso, o Movimento operário não
age mais egoisticamente, como acontecera no passado
com todas as classes que tinham assumido o domínio
político da sociedade: ele junta em si as exigências de

toda a coletividade humana do presente e do' futuro e
nele se identificam todos os que pertencem atualmente
a outras classes, destinadas a desaparecer como tais e a
ser absorvidas pelo proletariado, quando este se tiver
tornado classe dominante. A este propósito, o
Manifesto proclama que o Movimento proletário é o
"movimento independente" da grande maioria no
interesse da grande maioria", isto é, que "o
proletariado, que é a camada mais baixa da sociedade
atual, não pode sublevar-se nem elevar-se, sem que
toda a superestrutura das camadas que constituem a
sociedade oficial seja destruída".

III. O MOVIMENTO OPERÁRIO NA SUA
ESTRUTURA HISTÓRICA. — Nos anos de 1848-49,
o Movimento operário (pelo menos o europeu que
estava na vanguarda no plano da ação) se manifesta
como componente primário da evolução histórica e se
afirma ideológica e politicamente, provando haver
adquirido já então consciência de classe, propondo e
pondo em prática a própria organização como partido
político (portanto, como todo o conjunto de órgãos
colaterais) e iniciando um processo cuja primeira fase
poderá considerar-se concluída com o fim da Primeira
Internacional (1872-1876); no decurso deste processo o
Movimento operário se apresenta já em seus contornos
atuais, que precisarão somente ser atualizados com a
evolução das relações sociais e com o próprio
desenvolvimento científico e tecnológico, mantendo-
se, contudo, íntegros em seu núcleo fundamental,
classista de um lado e ambivalentemente reformista-
revolucionário do outro.
É especialmente, por inspiração de Marx e de Engels
que a alemã e internacionalista Liga dos Comunistas,
nos seus Estatutos de 1847, fixa os conceitos básicos
sobre os quais se fundam ainda hoje os partidos e os
movimentos relacionados com o proletariado
revolucionário e com o Movimento operário,
prefigurando dessa forma, pelo menos em linha de
princípio, o partido político da classe operária na sua
estrutura atual. Diz assim o art. l.° dos Estatutos: "A
finalidade da Liga é a destruição da burguesia, o
domínio do proletariado, a abolição da velha
sociedade burguesa baseada no antagonismo entre as
classes e a fundação de uma nova sociedade sem
classes e sem propriedade privada". Ali a luta de classe
é extensiva a toda a sociedade, é própria do movimento
operário na sua oposição alternativa ao sistema, e é
condição quer para a sobrevivência do próprio
movimento como força política, quer para o seu
próprio progresso social. Essas teses encontram uma
confirmação em todo o internacionalismo operário, tal
como ele se manifesta nos anos da Primeira
Internacional (1864-1872), que

MOVIMENTO OPERÁRIO

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representa exatamente a tentativa de desenvolver, um
plano supranacional, a luta revolucionária pela
conquista do poder político, embora respeitando as
peculiaridades e as características originais locais de
cada movimento, expressas nos partidos políticos
nacionais e nos sindicatos (e nas demais organizações
de massa, entre as quais as cooperativas, sempre,
porém, unidas aos partidos). As teses de Marx e
Engels, que o Movimento operário internacional
assumiu, são as teses notórias de que a emancipação
da classe operária "deve ser obra da própria classe
operária" e de que a luta conduzida pelo Movimento
operário não é luta "para privilégios de classe e
monopólios", mas "para estabelecer igualdade de
direitos e de deveres e para abolir qualquer domínio
de classe" num plano internacional; a luta deve ser
sobretudo social, porque "o social" engloba em si
qualquer outra manifestação, mais precisamente, "a
emancipação econômica da classe operária é o grande
objetivo a que deve estar subordinado, como meio,
qualquer movimento político" (vejam-se os estatutos
gerais da Internacional nas versões de 1864 e de
1871).

Dentro dessas fórmulas teóricas e organizacionais
se foi constituindo o Movimento operário como força
classista independente de influxos externos (embora
com não poucas exceções) em quase todos os países
economicamente desenvolvidos e em alguns países
atrasados ou pelo menos subdesenvolvidos. A
confirmação prática da necessidade orgânica do
Movimento operário se encontra, desde 1871, na
Comune de Paris, que — embora fora de qualquer
esquema preconstituído e de qualquer ideologização
abstrata — representa a primeira forma efetiva de
gestão de um poder proletário por parte do Movimento
operário em cada um dos seus componentes, e que
demonstra, segundo a análise de Marx em Guerra
civil na França
(1871), que, nos lugares onde "a luta
de classe toma uma certa consistência", o Movimento
operário pode atingir o seu objetivo imediato que é o
de "debelar o despotismo do capital sobre o trabalho",
na busca do grande objetivo de construir uma
sociedade de tipo novo, de "democracia proletária"
(substancial, isto é, anti-burocrática e antimilitarista),
através do instrumento da ditadura do proletariado,
que conduzirá à sociedade sem classes, onde as classes
já dominantes e opressoras serão, por sua vez,
"oprimidas" e eliminadas como classes: isto é, levará
ao socialismo.

Embora apoiando-se nas colocações marxistas, na
experiência da Comuna e nas primeiras tentativas
válidas de organização do Movimento operário, a
Segunda Internacional, fundada em 1889 e agrupando
os numerosos partidos socialistas

nacionais que se tinham constituído ou que iriam
sendo criados nos anos seguintes, não atende ao seu
objetivo de assegurar ao Movimento operário um
plano de desenvolvimento progressivo para o
socialismo, contrapondo uma frente supranacional
compacta contra a potência econômica do capitalismo.
Embora as finalidades políticas fracassem perante a
explosão da guerra de 1914 (tanto R. Luxemburg
como Lenin já tinham demonstrado o fracasso da
Internacional nos anos anteriores à guerra), se pode
afirmar que o Movimento operário, pelo seu
"desenvolvimento em amplitude", pela extensão de
sua força organizativa e pela sua profunda penetração
como componente indestrutível das relações
econômico-sociais e do debate político da Idade
Contemporânea, tirou da nova experiência histórica a
maior vantagem possível e, mesmo nas sucessivas
cisões e divisões, demonstrou, em geral, sua vitalidade,
apesar das diversas opções realizadas: de uma parte,
as opções decididamente revisionistas mais do que
reformistas das social-democracias européias, não
mais alternativas em relação aos sistemas burguês-
capitalistas, mas neles politicamente integradas, e, de
outra parte, as opções revolucionárias ou
propensamente reformistas — de acordo com os
lugares e os tempos e muito diferenciadas entre si —
do Comunismo de inspiração bolchevista, aceitas
desde o fim de 1919 até 1943 nas fileiras da Terceira
Internacional.

O Movimento operário, contudo, não mudou sua
estrutura classista e, apesar dos muitos momentos de
integração temporária ou de desistência da luta, quer
quando se encontrou em situações dominantes e
emergentes, quer quando manteve as posições
tradicionais de oposição, continuou a desenvolver, de
formas diferentes e embora com erros, fraquezas e até
culpas, a sua polêmica de ruptura contra o
capitalismo. Foi especialmente mérito de Lenin ter
continuado a elaboração doutrinária iniciada por Marx
e Engels, no que se refere particularmente aos meios
de ação e às táticas do Movimento operário.

IV. O MOVIMENTO OPERÁRIO NO SÉCULO
XX. — O Movimento operário no século XX, tanto
antes como depois da revolução de outubro, apresenta
sempre duas inspirações que repercutem na sua ação
organizativa e na sua ação política: de um lado, a
inspiração reformista, que acentua o momento
organizativo com vistas a uma pura e simples política
de reformas, e, do outro, a inspiração revolucionária,
também inteiramente apoiada no fato organizativo,
mas com uma perspectiva política de raio mais amplo.
São estas, de fato, as duas expressões de maior relevo
do Movimento operário contemporâneo, às quais, a
partir

784

MOVIMENTO OPERÁRIO

de Lenin, fazem referência todas os que foram
dirigentes do mesmo movimento, e especialmente os
grupos e partidos que se inspiram no socialismo. O
Movimento operário, de fato, se identifica
politicamente com os partidos socialistas (ou, depois,
comunistas), embora não se assemelhe totalmente a
eles, por apresentar em certas situações tanto
características especificamente nacionais, como
manifestações operário-corporativistas (é o que
acontece no caso mais relevante do trabalhismo inglês
ou em outros de menor importância de "partidos
operários" fechados em si mesmos). As formas de
organização mudam evidentemente com o tempo,
embora os módulos básicos sejam sempre os da Liga
dos Comunistas de 1848: trata-se de organizações que
tendem a pôr em claro a independência do movimento
de qualquer outro grupo, ou momento, ou partido
atuante na cena político-social de cada país. Dessa
forma, no Movimento operário (seguindo os princípios
lançados por Lenin em O que fazer? de 1902 e depois
reafirmados e atualizados numa série de outros
escritos até Extremismo, doença infantil do
comunismo,
de 1920) privilegia-se a organização
partidária, guiada por "revolucionários de profissão",
que se coloca na vanguarda da classe, embora sendo a
ela profundamente conatural: o simples
reinvindicacionismo, as coalizões, as manifestações
espontâneas encontram um primeiro enquadramento
na organização sindical, mas esta está limitada, quer
na ação pelo interesse imediato dos objetivos, quer
nas suas próprias enunciações teóricas, enquanto
engloba em si, não as perspectivas unitárias de classe,
mas mais genericamente as do setor. O partido, ao
invés, rejeitando qualquer espontaneísmo abstrato,
mas aceitando a espontaneidade das massas, constitui
a organização revolucionária do Movimento operário
para a consecução do fim da construção socialista, e é
a sua "vanguarda" embora nunca ficando separado
dele, a menos que fracasse totalmente em sua ação.
Após Lenin, de fato, o partido e o Movimento operário
se apresentaram como coincidentes: as divisões que
historicamente aconteceram salvaguardaram sempre
essa coincidência e tanto os partidos social-
democráticos, quanto os partidos socialistas
revolucionários e comunistas tiveram sempre a
presunção de expressar globalmente todo o
Movimento operário de um determinado país. As
divisões — que se deram quer no plano da tática quer
no dos objetivos — salvaram o princípio da unidade
do Movimento operário e tiveram como objeto de
discussão e diferenciação os meios de intervenção a
serem adotados em relação à sociedade capitalista (luta
dentro dela ou conflito desde fora), ou a própria ação
social da classe

operaria, manifesta através dos meios mais diversos,
desde a greve até o boicote e à luta sindical
generalizada, ou os fins da transformação gradual ou
violenta da própria sociedade.
Mesmo quando, como aconteceu em tempos
recentes na social-democracia alemã com o congresso
de Bad Godesberg (1959), se procurou separar o
partido do Movimento operário, tendo em vista uma
integração da classe operária na sociedade massificada
das classes médias, se quis sobretudo interpretar
teoricamente certas avaliações sociológicas típicas de
momentos bem definidos, válidas circunstancialmente,
mas desmentidas pela ação política e pela prática
sindical dominantes.
Em conclusão, pode-se, portanto, recalcar a
eficácia da análise de Marx e Engels: é que, como
demonstrou ainda recentemente Abendroth, os
operários da época contemporânea se reconhecem
como "classe social dependente dos proprietários dos
meios de produção". E, nos países de capitalismo
amadurecido, 80% da população ativa é formada por
trabalhadores dependentes.
Movimento operário, partidos socialistas de classe
e organizações de massa constituem, pois, um todo
unitário, não estático no tempo, mas atuante de
modos diferentes nas diversas situações históricas,
que tem de ser por isso interpretado dinamicamente,
fora de qualquer esquema rígido, mas também sem
esquecer a essência classista do Movimento operário,
modelada pela sua própria existência dentro da
sociedade burguês-capitalista (hoje tardo-capitalista),
em cujo surgimento baseia a sua principal razão de
ser.

V. O MOVIMENTO OPERÁRIO E A SOCIEDADE
ATUAL. — Definir o que é o Movimento operário
atual significa analisar sociologicamente a condição
operária, deduzindo daí seus padrões de
comportamento, sempre, porém, no quadro da
aquisição de uma consciência de classe. Com isso não
se quer afirmar que, se os problemas sociais com que
se enfrenta hoje o Movimento operário, após a
revolução tecnológica e a automatização, são diferentes
em relação aos de há cento e cinqüenta anos, se as
atitudes, objetivas e subjetivas, das classes burguesas e
do mundo empresarial mudaram, se, enfim, se
modificaram as condições de vida e o próprio modo de
exploração da classe operária, não diminuíram nem a
exploração nem a opressão capitalistas, nem mudaram
os objetivos de poder alternativamente propostos pelo
mundo operário em relação à gestão neocapitalista da
sociedade. Desta forma, o Movimento operário atual,
nos países onde reflete predominantemente o
proletariado industrial de fábrica, ele, mais do que no
passado, desempenha a sua

MOVIMENTO OPERÁRIO

785

função de vanguarda e tração, partindo, em sua
reivindicação do poder, das exigências salariais,
assistenciais e normativas mais imediatas e próximas,
mesmo através das lutas setorizadas e surgidas
espontaneamente da base, mas generalizando a seguir
essas lutas, passando do plano egoístico e corporativo
ao da totalidade, ou seja, contrapondo-se
politicamente ao sistema atual com propostas
destrutivas, no que se refere às formas deste sistema, e
substitutivas, quanto ao que está intimamente ligado à
sua substância estrutural. Nos países avançados, o
Movimento operário se serve, com absoluta
"maturidade", das táticas de luta, utilizando os
instrumentos tradicionais, o partido e o sindicato de
classe, mas fazendo deles um uso que superou a cisão
entre reformas e revolução (ou entre reformismo e
revolucionarismo) e procurando realizar ou fazer com
que se realizem as reformas, mediante o uso correto
das instituições existentes; rejeita, contudo, a
aceitação teórica de um abstrato reformismo.

Em contraposição, devido às conquistas econômico-
sociais cada vez maiores e mais decisivas que levaram
as contradições do neocapitalismo a níveis cada vez
mais altos, o movimento operário hodierno tem
acentuado os seus objetivos de revolução total da
sociedade e de oposição ao poder, de gestão da
sociedade desde a base. A classe operária dos países
desenvolvidos não só não se integrou nesta ação, coisa
que deveria acontecer tanto segundo a teorização da
sociologia política e industrial do neocapitalismo
como segundo as interpretações intelectualistas do
irracionalismo ultra-revolucionário de esquerda, mas
se robusteceu sob o ponto de vista orgânico e
combativo. Mostrou-se vã e puramente abstrata a
contraposição entre um Movimento operário
totalmente "institucionalizado" e atuante dentro do
pequeno espaço permitido pelo Estado e pelo grande
capital, e a ação operária espontânea, de maior relevo,
por exprimir as reais aspirações revolucionárias da
nossa época: com efeito,, é fácil observar que os dois
modos de ação indicados não são senão componentes
diversos de um único movimento e que privilegiar um
em prejuízo do outro ou negar este significa
desvirtuar-lhe toda a ação.

A classe operária, com suas vanguardas, partido
(ou partidos) e sindicato, evolve na sociedade tardo-
capitalista, para o Movimento operário, não apenas
quando dirige a sua luta contra os detentores dos
meios de produção e suas expressões políticas, mas
também quando combate conceptual e organicamente
todos os grupos e núcleos que, desviados do contexto
da classe e operando em planos abstratos, se
autoproclamam avançada extremista, mas que têm por
único objetivo destruir-lhe as manifestações
organizativas e

impedir-lhe tanto os intentos reformistas quanto a
ação revolucionária.
Após tal constatação, é também oportuno salientar
que historicamente, nos anos mais recentes e nos
países de mais elevado desenvolvimento industrial, os
métodos de organização do Movimento operário ou
seguiram com freqüência caminhos diversos dos
traçados pela "tradição" classista, ou deram
indiscutivelmente lugar a fenômenos de aparente
degeneração corporativa, entre os quais se podem
contar tanto algumas manifestações de trade-
unionismo enclausurado em si mesmo, quanto
variadas expressões sindicalistas ou partidárias
particulares, tais como o peronismo.
Não obstante, o método e os esquemas de origem
marxista ainda hoje servem para definir o status social
do Movimento operário. Mas nem sempre são capazes
de lhe delinear as atitudes políticas, quer se refiram às
massas, quer aos indivíduos. Intervém então outros
instrumentos culturais ou cognitivos que deveriam
permitir uma abordagem mais precisa da situação do
Movimento operário na época contemporânea e
mostrar, de modo peremptório, as condições de vida do
trabalhador e das classes dos trabalhadores
dependentes. Esses instrumentos são-nos oferecidos
pelas ciências sociais: com eles se estudam e
observam os comportamentos dos trabalhadores dos
países industrialmente mais avançados (por exemplo,
Estados Unidos da América, Suécia, Alemanha
ocidental, etc). O resultado da pesquisa é que, mesmo
abandonando o mais das vezes qualquer perspectiva
revolucionária e toda a independência no plano
político, o Movimento operário e os trabalhadores
dependentes mantêm uma autonomia psico-intelectual
e uma série de comportamentos semelhantes ou
paralelos que fazem com que se conserve também
uma independência e uma unidade de necessidades
internas e externas e de regras individuais e coletivas
que coincidem, afinal, com a visão tradicional e
marxista da "classe". Esta se expressa na teorização da
luta de classes, que é ainda hoje conatural ao mundo
hodierno, se bem que tenha de adaptar-se às mudanças
estruturais que vão constantemente ocorrendo.
Testemunhamos assim a recuperação integral, entre os
temas do Movimento operário, de objetivos a realizar
não já em tempos indeterminados, mas dentro de
prazos preciosos, como: a autogestão e o "autogoverno
dos produtores", a co-gestão, uma nova forma de
associonismo cooperativo, a democracia direta na
fábrica (democracia industrial), etc. Todos estes
projetos e propostas se hão de inserir em contextos
nacionais e sociais diversos, e têm recebido e
continuam recebendo soluções várias. Mas ajudam
sempre a

786

MOVIMENTO POLÍTICO

comprovar a validade da ação autônoma do
Movimento operário e demonstram, em suma, a
continuidade da sua essência classista e globalmente
alternativa, embora com todas as suas contradições
internas, tanto em relação às sociedades burguês-
capitalistas como às burocrático-coletivistas.
É precisamente no mundo de hoje que se obtém a
confirmação da análise marxista, historicamente
relacionada com o ano de 1848 e com a Comuna de
1871, para a qual o Movimento operário se afirma, em
sua perspectiva revolucionária e em suas propostas
socialistas: a) quando do mundo desenvolvido, onde
podem surgir confluências socialistas, passa ao
mundo atrasado, onde os problemas da sobrevivência
são decisivos; b) quando repele toda a hipótese de
impaciência revolucionária que negue o presente, sem
querer partir diretamente dele para a construção do
futuro; c) quando atua imediatamente no plano das
reformas para alcançar e efetuar, revolucionariamente,
dentro de um breve ou longo prazo, conforme as
condições político-sociais e econômicas, a
transformação integral da sociedade.

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[GIAN MARIO BRAVO]

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