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Dicionário de Política - Norberto Bobbio

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Uma das primeiras e mais conhecidas afirmações
do conceito político de Povo está muito ligada ao
Estado romano, até mesmo na fórmula que o define.
De fato, o único modo conhecido de definição da
respublica romanorum está na fórmula dominante
Senatus populusque romanus que exprimia, nessa
aproximação não disjuntiva, os dois componentes
fundamentais e permanentes da civitas romana: o
Senado, ou núcleo das famílias gentilícias originárias
representadas pelos paires, e o Povo, ou grupo
"dêmico" progressivamente integrado e urbanizado
que passou a fazer parte do Estado com a queda da
monarquia.

O populus, guiado pelos seus tribunos, capaz de
atingir o consulado — que na sua bipolaridade
representava numericamente os dois componentes
básicos do Estado romano — é deveras um dos pilares
do Estado, chamado a votar por meio dos comitia,
presente em armas nas legiões, titular de amplos e
plenos direitos civis. A importância «do Povo está
bem manifesta no papel decisivo do partido que se
referia ao grupo popular e o representava, o partido
exatamente denominado "democrático", e na
constante aspiração dos outros populi da Itália romana
a serem admitidos, mediante o reconhecimento da
civilitas, a fazer parte do populus romanus.
Com o surgimento do Principado, primeiro, e,
depois, do Dominado, apoiados pelo Povo, este viu
amplamente diminuídos seu papel e funções, sendo
pouco a pouco confundido com a realidade popular
muito mais vasta do Império, com as gentes
diversíssimas reunidas sob o cetro de Roma,
especialmente depois do ato formal — a Constitutio
antoniana
de 212 d.C. — com que Caracala concedia
a cidadania a todos os súditos do Império, tornando-os
membros do populus romanus.

Um papel político preciso teve-o de novo o Povo
nas organizações barbarescas instaladas nas terras do
Império com a destruição do mundo romano,
organizações caracterizadas por instituições de cunho
verdadeiramente popular. Estruturas tribais onde
estava mal definido o papel e até mesmo o título do
poder, elas se baseavam exclusivamente no consenso
ativo e na plena e marcante presença do Povo nas
decisões da guerra e da paz, ao legislar e ao julgar. O
Povo germânico era apenas constituído pelos homens
armados, ou seja, pelos varões capazes, e enquanto
capazes, de portar as armas e combater; era
representado por uma assembléia específica, a dos
homens armados, dos "heermänner", isto é, dos
homens do exército.

Ali o Povo deliberava e decidia ao clangor da
"gairethinx", ou seja, ao som do golpe das armas sobre
os escudos, ali exercia o seu poder eletivo, de mistura,
no entanto, com elementos da nobreza, chefes
militares e dirigentes religiosos, grupos que, com o
andar do tempo, tomarão de fato em suas mãos (e de
direito entre os francos) a exclusiva direção da
assembléia. Mas, no caráter das instituições, nas
estruturas políticas, nos costumes, perdurará por muito
tempo a influência decisiva e original do Povo na vida
das gentes germânicas no Ocidente.
A progressiva estratificação social da época feudal
(v. FEUDALISMO)

foi depois interrompida,
especialmente na Itália, pela organização comunal (v.
COMUNA), de base local e urbana. Se as

PRÁXIS

987

primeiras comunas eram ainda totalmente feudais e
alto-burguesas, elas começaram depois a ser
fortemente pressionadas pelo elemento popular que
constituía a sua base social e pretendia fazer parte da
estrutura política da cidade. Nasceu assim aquele
instrumento político que as fontes definem com o
nome romano de Populus; surgiu o Povo como
organização de um complexo núcleo social, como
partido dentro da comuna.
O Povo como partido derivava, em realidade, da
organização econômica corporativa e trazia, portanto,
consigo todas as limitações dela: às Artes estavam
adscritos tanto os chefes de oficina, os titulares do
negócio, como os prestadores de serviço associados;
mas o poder de decisão, as opções fundamentais,
estavam reservados aos magistri, aos autores de
empreendimentos, aos titulares dos diversos negócios
produtivos, em cujas mãos estava a parte mais
relevante do comércio e da vida econômica da cidade.
O Povo vinha a constituir assim um partido
formado predominantemente por pequenos homens de
negócios, comerciantes e artesãos, ao qual se ligavam
importantes interesses e vastas massas populares, mas
de que se excluíam as contribuições políticas e
decisórias dos não inscritos nas Artes, que constituíam
uma simples faixa de trabalhadores meramente
dependentes, afastada de qualquer forma de
participação política.
Com estas limitações, o Populus comunal bem
depressa se fez notar como força capaz duma enorme
iniciativa e pressão política. Isso se evidenciou, por
exemplo, na constituição de uma comuna própria, o
Commune populi, organizada primeiro como
alternativa da comuna urbana tradicional, mas depois,
de fato, a ela sobreposta. Da metade do século XIII
em diante, a comuna popular torna-se realidade
decisiva e dominante nos centros médios e grandes da
Itália setentrional e central.
O Capitaneus populi converte-se em órgão superior
ao antigo potestas comunal, e o Conselho do Povo,
especialmente o mais restrito, o chamado Consilium
ancianorum,
bem depressa veio a constituir o
verdadeiro instrumento das decisões supremas na vida
da cidade. Foi em geral através da utilização
inescrupulosa destes órgãos que se chegou à Senhoria
após as numerosíssimas tensões internas do século
XIV (v. SENHORIAS E PRINCIPADOS), quando, na
realidade, a vida econômica e política da cidade
entrou em progressiva crise de desenvolvimento
produtivo e político.
O Dominus, o Senhor, excluiu pouco a pouco o
Povo da vida política, que se foi concentrando num
núcleo restrito de grupos sociais e políticos,
enclausurados numa aristocracia rigidamente
determinada pela norma desenvolvida e conservada
apenas por autocooptação. O Povo tornou a ser deste

modo uma mera designação social, realidade
subalterna e disgregada, fundamentalmente excluída
da gestão do poder, primeiro na senhoria, depois no
principado, presente tão-só como massa manobrável, e
em momentos esporádicos e infrutíferos de rebelião.

Foi só com a redescoberta romântica do Povo, já
em coincidência com uma visão política nacional, que
identificava o Estado com a nação e, portanto, dava
novo e maior valor a tudo o que compunha a realidade
nacional, que ele começou outra vez a ser sentido
como possível sujeito de vida política. Mas a sua
revelação havia de estar depois concretamente ligada
aos grandes processos de transformação econômico-
social iniciados com a era industrial no século XIX e
com a consequente formação de grandes partidos
políticos populares.

BIBLIOGRAFIA - G. DE VERGONTTINI. Scritti di storia
del diritto italiano,
ao cuidado de G. Rossi. I.
Seminário giuridico dell'Università di Bologna
LXXXIV, Giuffrè. Milano 1977, pp. 387-467; O. VON
GIERKE, Das deutsche Genosseschaftsrecht, I,
Rechtsgeschichte der deutschen Genosseschaft,

Weidmann. Berlim 1868 (Nachdruck Graz 1954).

[PAOLO COLLIVA]

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