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Dicionário de Política - Norberto Bobbio

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I. DEFINIÇÃO. — "Ao nível de máxima
generalização, a Alienação pode ser definida como o
processo pelo qual alguém ou alguma coisa

(segundo Marx, a própria natureza pode ficar
envolvida no processo de Alienação humana) é
obrigado a se tornar outra coisa diferente daquilo que
existe propriamente no seu ser" (P. Chiodi). O uso
corrente do termo designa, freqüentemente em forma
genérica, uma situação psicossociológica de perda da
própria identidade individual ou coletiva, relacionada
com uma situação negativa de dependência e de falta
de autonomia. A Alienação, portanto, faz referência a
uma dimensão subjetiva e juntamente a uma dimensão
objetiva histórico-social. Neste sentido se fala: de
Alienação mental como estado psicológico conexo
com a doença mental; de Alienação dos colonizados
enquanto sofrem e interiorizam a cultura e os valores
dos colonizadores; de Alienação dos trabalhadores
enquanto são integrados, através de tarefas puramente
executivas e despersonalizadas, na estrutura técnico-
hierárquica da empresa individual, sem ter nenhum
poder nas decisões fundamentais; de Alienação das
massas enquanto objeto de heterodireção e de
manipulação através do uso dos mass media, da
publicidade, da organização mercificada do tempo
livre; de Alienação da técnica como instrumentação
dos aparelhos para que funcionem segundo uma lógica
de eficácia e de produtividade independente do
problema dos fins e do significado humano de seu
uso. A definição do termo em relação aos diferentes
estados de despersonalização e de perda de autonomia
por parte dos sujeitos envolvidos nos processos em
questão corresponde a uma banalização do conceito,
mas também à complexidade de semântica que ele
tem na cultura filosófico-política moderna dentro da
qual ele foi elaborado.

II. DE ROUSSEAU A MARX. — A doutrina
contratualista transfere o conceito de Alienação do
âmbito originariamente jurídico (alienatio como
cessão de uma propriedade) para o âmbito filosófico-
político a fim de explicar o fundamento do Estado e da
sociedade política. Hobbes fala de "cessão" (to give
up
) do direito de o soberano se governar a si mesmo,
através do pacto que marca a saída do Estado de
natureza. Rousseau introduz o termo de Alienação
para indicar a cláusula fundamental do contrato social
que consiste na "Alienação total de cada associado
com todos os seus direitos a toda comunidade", de
modo que "cada um, unindo-se a todos, não obedeça,
todavia, senão a si mesmo e fique tão livre quanto o
era antes" (Contrato Social, I, 6). A Alienação se
apresenta, portanto, como o ato de cessão positiva que
institui a vontade geral.
Hegel rejeita a teoria contratualista de formação do
Estado e da Alienação como relação recíproca de
cessão e troca. O argumento mais substancial

ALIENAÇÃO

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é o fato de que para ele o sujeito da história não são os
indivíduos mas é o espírito absoluto ou
autoconsciência; a multiplicidade e a alteridade (alter)
aparecem como momentos derivados e negativos em
relação à unidade do espírito (e de seus titulares: o
espírito do povo, o Estado). Praticamente Hegel aplica
no campo histórico-social o núcleo conceituai próprio
da teologia neoplatônica, isto é, o Uno que se divide e
se multiplica num processo necessário de Alienação-
estranhamento

(respectivamente:
Entäusserung/Veräusserung e Entfremdung). A
fenomenologia do espírito é
inteiramente construída
sobre a demonstração do necessário processo da
Alienação-estranhamento do espírito, através do
encadear-se das figuras históricas, e da necessária
superação do ser-outro e do estranhamento na
totalidade do devir e na unidade do absoluto. O termo
final é o saber absoluto como consciência de que o
objeto é produzido pela autoconsciência e nela se
resolve. Por isto, diz Hegel, a Alienação da
autoconsciência "tem sentido não somente negativo
mas também positivo" enquanto necessário processo
de auto-afirmação pela cisão e pela produção das
formas da alteridade histórico-objetiva. Na perspectiva
desta elaboração lógico-ontológica, Hegel desenvolve,
também, uma análise de grande eficácia do mundo
moderno vendo-o como "espírito que se estranhou". O
termo de referência é a idealização (presente também
em Rousseau) da unidade de indivíduo e comunidade
na . O mundo moderno é o rompimento desta unidade,
por causa especialmente da riqueza que destrói a
universalidade do Estado e faz com que a realidade
social, ao invés de ser realização, apareça à
consciência como "inversão" e "perda da essência".
São estas evoluções analíticas que Marx tem em
consideração nos Manuscritos econômico-filosóficos
de 1844
para afirmar que .na Fenomenologia de Hegel
estão contidos, embora numa forma idealística e
mistificada, "todos os elementos de crítica". "O
importante na Fenomenologia hegeliana e no seu
resultado final — a dialética da negatividade como
princípio motor e gerador — é, portanto, que Hegel
entende o autoproduzir-se do homem como um
processo, o objetivar-se como um opor-se, como
Alienação e supressão dessa Alienação; ele capta,
então, a essência do trabalho..." (Terceiro manuscrito,
XXIII). Na história do trabalho, como objetividade
alienada do ser do homem (enquanto estranhamento
das forças essenciais da humanidade, estranhamento
que se realizou sob o signo da propriedade privada), o
jovem Marx encontra a chave interpretativa para
reformular os resultados da economia política clássica
em sentido antropológico. Hegel entendeu que a
história é a

auto-produção alienada que o homem faz de si no
trabalho, mas entende o trabalho como atividade
espiritual de um sujeito absoluto. A crítica
antiespeculativa de Feuerbach denunciou a negação
idealista do sujeito e do predicado e repropôs
vigorosamente o sujeito como ser natural, sensível e,
portanto, a objetividade e a alteridade como dimensões
positivas em linha de direito, rejeitando a confusão
hegeliana entre objetivação e Alienação. Ele, porém,
não entendeu a produtividade histórica de Alienação
enquanto premissa necessária do seu superamento
histórico no comunismo. O superamento da Alienação
gira em torno do eixo que é a abolição da propriedade
privada e do trabalho estranhado. A Alienação do
trabalho nos Manuscritos é analisada como: a)
estranhamento do operário do produto do trabalho; b)
estranhamento da atividade produtiva, que de primeira
necessidade se tornou atividade coata; c)
estranhamento da essência humana enquanto a
objetivação do gênero humano está degradada em
atividade instrumental em vista da mera existência
particular; d) estranhamento dos homens entre si em
relações de antagonismo e concorrência.
A partir da Ideologia alemã (1845-46), Marx,
enquanto aprofunda a análise do estranhamento
através de uma história da propriedade privada como
divisão do trabalho, começa a caracterizar o
comunismo filosófico e o seu conceito-chave: a
Alienação da essência humana. De fato, Marx e Engels
estão elaborando os conceitos fundamentais do
materialismo histórico e aquela crítica da essência da
economia política que se tornará teoria do mundo de
produção capitalista, como estrutura baseada na
produção da mais-valia. Daí a tese de alguns
intérpretes que expõem a teoria da Alienação do jovem
Marx como "pré-marxista" (L. Althusser). A questão é
muito controvertida, porque: a) se é verdade que no
Capital não se encontra mais uma referência
consistente à Alienação é também verdade que partes
inteiras, como a IV secção do primeiro livro,
percorrem a história da indústria como crescente
estranhamento dos trabalhadores em relação à
concentração dos instrumentos de trabalho, saber e
força combinada do trabalho num aparelho objetivo, a
eles estranho e contraposto enquanto capital. Existe,
em particular, continuidade entre o conceito juvenil de
trabalho estranhado e o maduro de trabalho abstrato;
b) é inegável a estreita correlação entre a análise do
trabalho alienado e a análise do fetichismo e da
reificação (cap. I do livro I e cap. 48 do livro III), isto
é, do "caráter mistificatório que transforma as relações
sociais, para as quais os elementos materiais servem de
depositários na produção, em propriedade destas
mesmas coisas (mercadoria) e, ainda, em forma

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ALIENAÇÃO

mais acentuada, a própria relação de produção em
uma coisa (dinheiro)"; c) são especialmente o termo e
o conceito de Alienação que ocorrem muito
freqüentemente e em trechos decisivos dos cadernos
dos Grundrisse, trabalhos preparatórios para a crítica
da economia política elaborados por Marx nos anos de
1857-58; d) mas é também verdade que, nas
passagens de mais estreita correlação com a teoria
juvenil, o Marx maduro só raramente retorna à
elaboração conceituai de um sujeito (o trabalho ou o
homem) que se aliena ou reifica, enquanto
habitualmente fala de uma estrutura (o modo
capitalista de produção) no interior da qual as
relações sociais assumem necessariamente a
aparência fetichista de coisas. Não deve ser, portanto,
minimizada a deslocação epistemológica efetuada; de
modo especial é de assinalar o fato de que a
desalienação ou a reapropriação aparecem como
efeitos de mudanças estruturais no processo de
transição para um modo diferente (comunista) de
produção.

III. O CONCEITO DE ALIENAÇÃO NA
FILOSOFIA POLÍTICA CONTEMPORÂNEA. — O
marxismo da Segunda Internacional, embora
conhecendo em parte os escritos inéditos de Marx (o
Nachlass foi publicado em pequena parte por F.
Mehring), não atribui nenhuma importância ao
conceito de Alienação, como também, não obstante a
escrupulosa publicação dos Manuscritos em 1932 e
dos Grundrisse em 1939-41, a Alienação
substancialmente é um conceito estranho ao
marxismo-leninismo da Terceira Internacional, porque
ambos estão interessados nas tendências objetivas, na
crise geral do capitalismo e na transferência das forças
produtivas amadurecidas dentro da sociedade burguesa
do socialismo entendido como estatização dos meios
de produção. A retomada da problemática conceituai
referente ao nexo entre Alienação-fetichismo-
reificação acontece especialmente à margem das
correntes principais da tradição marxista,
freqüentemente por obra dos críticos desta tradição.
De modo particular o conceito de Alienação foi o
centro da filosofia política que pretendeu reformular
as categorias fundamentais hegeliano-marxistas
referentes à crítica do neocapitalismo, de um lado, e
do socialismo burocrático, do outro. A difusão da
problemática da Alienação se situa entre os anos de
1950-60 quando foram descobertos os primeiros
escritos de Lukács e de Korsch, e na altura em que os
estudos de Marcuse e de Sartre já tinham muitos
seguidores. Lukács (História e consciência de classe,
1923) vê o fenômeno da Alienação-reificação se
estender da fábrica taylorista a todos os setores da
sociedade — ao direito, à administração, à

indústria cultural, etc. — constituindo setores
autônomos,

fragmentários,

dirigidos

pela
racionalização baseada no cálculo e por uma
eficiência que tinha a si mesma como fim. A
Alienação, agora, não diz respeito somente ao.
trabalho nas condições capitalistas, mas também ao
mundo da ciência e da técnica formado no interior das
relações burguesas de produção. Encontramos em
Marcuse análoga extensão do conceito de Alienação
para o mundo do trabalho e, especialmente para a
civilização como um todo enquanto produto do
princípio de prestação e da racionalidade instrumental.
Para esse autor, "racionalmente o sistema de trabalho
deveria ser organizado mais com o objetivo de
economizar tempo e espaço para o desenvolvimento
individual além do mundo do trabalho,
inevitavelmente repressivo" (Eros e civilização, 1955,
IX). O conceito de Alienação desempenha também
uma função essencial no existencialismo marxista de
Sartre (Crítica da razão dialética, 1960) que insiste na
necessária recaída — no quadro da penúria — da
praxe individual e de grupo no mundo dos anônimos
aparelhos reificados, o mundo da serialidade e do
prático-inerte, no qual os fins se mudam
necessariamente em anônima contrafinalidade e os
homens se tornam objeto de processos que não
controlam.

Foi frisado (G. Bedeschi) o fato de que estes
autores privilegiam a conexão entre Hegel e Marx e
acabam por confundir Alienação e objetivação,
recaindo naquela posição idealista que o jovem Marx
critica em Hegel. É oportuno, porém, ter em
consideração o âmbito referencial específico, a
respeito do qual eles usam os conceitos de Alienação
e de reificação: a problematicidade das condições de
emergência da consciência revolucionária no
capitalismo desenvolvido (Lukács); o capitalismo
maduro como "sistema" que tudo compreende e
administra (Marcuse); a gênese, dentro do próprio
processo revolucionário, de aparelhos burocráticos e
repressivos (Sartre). Mais do que em Hegel, ficaria,
desse modo, distinta a estrutura lógico-ontológica do
conceito de Alienação e o seu uso parcialmente
heurístico na revelação de aspectos histórico-sociais
que constituem um problema para a filosofia política
de origem mais ou menos marxista.

BIBLIOGRAFIA. - L. ASTÚCIA, Per Marx (1965),
Editori Riuniti, Roma 1967;G. BEDESCHI. A. e
feticismo nel pensiero di Marx.
Laterza. Bari 1968;
Id., "A.", Enciclopédia Einaudi. Turim 1977, vol. I,
pp. 309-43; C. CAMPORESI, Il conceito di A. da
Rousseau a Sartre,
Sansoni. Firenze 1974; P. CHIODI,
Sartre e il marxismo, Feltrinelli, Milão 1965; I.
mesários, La teoria Della. m Marx (1970),

ANARQUISMO

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Editori Riuniti, Roma 1976; C. NAPOLEONI, Lezioni
sul Capitolo sesto inédito di Marx.
Boringhieri, Turim
1972.

[CESARE PIANCIOLA]

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