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ROUGH FOR THEATRE I de Samuel Beckett TIPO - TEATRO DO ABSURDO

Personagens:

A: Um homem cego

B:

Esquina de uma rua. Ruínas

A, cego, sentado em um banquinho de montar, arranha um violino. A seu lado um estojo, meio aberto, de pé, entremeado por uma tigela de esmolas. A pára de tocar, vira sua cabeça para a direita do público, ouve. Pausa.

A : Uma esmola para um pobre velho. Uma esmola para um pobre velho. [Silêncio. Ele

volta a tocar, pára de novo, volta a sua cabeça para a direita do público, ouve. Entra B pela direita, em uma cadeira de rodas que ele movimenta com uma vara. B pára. Irritado.] Uma esmola para um pobre velho! [Pausa.]

B : Música! [Pausa.] Então não é sonho. Pelo menos! Nem uma visão, eles estão mudos e

eu também. [B avança, pára, olha para a tigela. Sem emoção.] Pobre coitado. [Pausa.] Agora eu posso voltar, o mistério está resolvido. [Ele se empurra para trás, pára.] A menos que fiquemos juntos, até que a morte chegue. [Pausa.] O que você diria sobre isso, Billy, posso te chamar de Billy, como meu filho? [Pausa.] Você gosta de companhia, Billy? [Pausa.] Você gosta de comida em lata, Billy?

A : Que comida em lata ?

B : Bife, Billy, somente bife. O suficiente para manter corpo e alma juntos, até o verão,

com cautela. [Pausa.] Não? [Pausa.] Umas batatas também, algumas poucas batatas. [Pausa.] Você gosta de batatas, Billy? [ Pausa.] A gente pode até deixar que elas brotem

e, quando chegar a hora, colocá-las na terra. A gente pode tentar. [Pausa.] Eu escolheria

o lugar e você as colocaria na terra. [Pausa.] Não?

A : Como estão as árvores?

B : Difícil de dizer. É inverno, você sabe. [Pausa.]

A : É dia ou noite?

B : Oh

teria perguntado. [Pausa.] Você está seguindo meu raciocínio? [Pausa.] Você tem

tutano, Billy, você ainda tem algum tutano?

[ele olha para o céu]

dia,

se você quiser. Sem sol, é claro, senão você não

A : Mas e a luz?

B : Sim. [Olha para o céu.] Sim, a luz, não há nenhuma outra palavra para isso. [Pausa.]

Quer que eu descreva para você? [Pausa.] Quer que eu tente te dar uma idéia sobre essa

luz?

A : Me parece que eu passo a noite inteira aqui, tocando e ouvindo. Às vezes eu sentia

uma luz forte e me aprontava. Colocava de lado o violino e a tigela e me punha de pé,

quando ela me tomou pela mão. [Pausa.]

B : Ela ?

A : Minha mulher. [Pausa.] Uma mulher. [Pausa.] Mas agora

B : Agora?

[Pausa.]

A : Quando parto eu não sei, quando chego eu não sei e enquanto estou aqui eu não sei,

se é dia ou noite.

B : Você não foi sempre assim. O que te aconteceu? Mulheres? Jogo? Deus?

A : Eu sempre fui assim.

B : Por favor!

A : [Violentamente.] Eu sempre fui assim, agachado no escuro, arranhando essa velha

joça aos quatro ventos.

B : [Violentamente.] Nós tivemos nossas mulheres, não tivemos? Você, a sua, pra te

levar pela mão e eu, a minha, pra me tirar da cadeira à noite e botar de volta pela manhã. E pra me empurrar até a esquina quando eu perdia a cabeça.

A : Aleijado. [Sem emoção.] Pobre coitado.

B : Havia somente um problema: a meia - volta. Eu sempre caía. Dizia que seria mais

rápido continuar e dar a volta ao mundo. Até o dia em que percebi que poderia voltar pra casa de ré. [Pausa.] Por exemplo, eu estou em A. [Ele se empurra um pouco para a frente, pára.] E vou para B. [Ele se empurra um pouco de volta, pára.] E eu volto para A. [Com élan.] A linha reta! O espaço vazio! [Pausa.] Está comovido?

A : Às vezes eu escuto passos. Vozes. Eu falo pra mim mesmo: - Eles estão voltando,

alguns deles estão voltando para ficar, ou para procurar por alguma coisa que eles

deixaram para trás. Ou alguém que eles deixaram para trás.

B : Voltar? [Pausa.] Quem iria querer voltar? [Pausa.] E você nunca chamou? [Pausa.]

Gritou? [Pausa.] Não?

A : Você não percebeu nada?

B : Oh, eu, você sabe, veja

das 24 horas do dia. [Violentamente.] O que você queria que eu percebesse? [Pausa.]

Você acha que nós poderíamos fazer um par, agora que você está me conhecendo

melhor?

Eu sento lá, no meu canto, na minha cadeira, no escuro, 23

A : Bife, você disse?

B : À propósito, do que você tem vivido esse tempo todo? Você deve estar faminto.

A : Há coisas, por aí.

B : Comestíveis?

A : Às vezes.

B : Por que você não se deixa morrer?

A : No fim das contas, eu tenho tido sorte. Outro dia tropecei num saco de castanhas.

B : Não!

A : Um saquinho, cheio de castanhas, no meio da rua.

B : Sim, tudo bem, mas por que você não se deixa morrer?

A : Tenho pensado nisso.

B : [Irritado] Mas você não se deixa!

A : Não sou infeliz o bastante. [Pausa.] Esta sempre foi minha maior infelicidade.

Infeliz, mas não infeliz o bastante.

B : Mas a cada dia você deve estar um pouco mais.

A : [Violentamente.] Não sou infeliz o suficiente! [Pausa.]

B : Se você me perguntar, fomos feitos um para o outro.

A : [Gesto compreensivo.] Como tudo se parece agora?

B : Oh, eu, você sabe

Eu nunca nem tinha vindo até aqui.

Eu nunca vou longe, um pouco pra lá e pra cá da minha porta.

A : Mas você olha em volta?

B : Não, não.

A : Depois de todas essas horas de escuridão você não -

B : [Violentamente.] Não! [Pausa.] É claro que se você quiser que eu olhe em volta, eu

olho. E se você não se importar de me empurrar, eu posso descrever a cena, enquanto

caminhamos.

A : Você quer dizer que me guiaria? Eu não me perderia mais?

B : Exatamente. Eu diria: - Devagar, Billy, tem um monte de merda alí na frente, vire

pra esquerda quando eu disser.

A : Você faria isso?!

B : [Enfatizando sua vantagem.] - Devagar, Billy, devagar, estou vendo uma lata ali na

sarjeta, talvez seja sopa ou feijão.

A : Feijão! [Pausa.]

B : Você está começando a gostar de mim? [Pausa.] Ou é só minha imaginação?

A : Feijão! [Ele se levanta, coloca a tigela e o violino de lado e vai até B.] Onde você está?

B : Aqui, amigo. [A toma conta da cadeira e começa a empurrar cegamente] Páre!

A : [Empurrando] É um milagre! Uma benção!

B : Pare! [B bate em A com a vara. A solta a cadeira, encolhe-se. Pausa. A tateia em

direção ao seu banco, pára, perdido.] Me perdoe! [Pausa]. Me perdoe!

A : Onde estou? [Pausa]. Onde eu estava?

B : Agora eu o perdi. Ele estava começando a gostar de mim e eu o acertei. Ele me

deixará e eu nunca mais irei vê-lo. Nunca mais verei ninguém. Nunca mais ouviremos a voz humana.

A : Você já não ouviu o bastante? Os mesmos velhos lamentos e queixas desde o berço

até o túmulo.

B : [Lamentando]. Faça alguma coisa por mim, antes de ir embora.

A : Olha lá! Está ouvindo? [Pausa. Gemendo]. Eu não posso ir! [Pausa]. Você está

ouvindo?

B : Você não pode ir?

A : Eu não posso ir sem as minhas coisas.

B : Para que elas te servem?

A : Para nada.

B : E você não pode ir sem elas?

A : Não. [Ele começa a tatear de novo, pára]. Eu as encontrarei no fim. [Pausa]. Ou as

deixarei para sempre. [Começa a tatear de novo].

B : Arrume o meu tapete, eu sinto o ar frio no meu pé. [A pára]. Eu mesmo arrumaria

mas, demoraria muito. [Pausa]. Faça isso por mim, Billy. E então, talvez eu volte e, entocado, novamente em meu buraco, eu diria: - Eu vi um homem pela última vez, bati nele e ele me socorreu. [Pausa] Eu deveria encontrar alguns pedaços de amor no meu coração e morrer de bem com a minha espécie [Pausa]. Por que você me olha desse jeito? [Pausa] Eu disse alguma coisa que não devia? [Pausa] Com que minha alma se parece? [A tateia na sua direção.]

A : Faça um som. [B faz. A tateia na sua direção, pára].

B : Você também não tem olfato?

A : É o mesmo fedor em todo lugar. [Ele estica sua mão]. Estou ao alcance da sua mão?

[Ele fica imóvel com a mão esticada]

B : Espera, você vai me ajudar por nada? [Pausa] Quero dizer, sem nenhum motivo?

[Pausa] Bom Deus! [Pausa. B pega a mão de A e o traz até ele].

A : Seu pé.

B : O quê?

A : Você disse seu pé.

B : Se eu pelo menos soubesse! [Pausa] Sim, meu pé, coloque ele pra dentro. [A se

inclina, tateia]. De joelhos. De joelhos você ficará mais confortável. [Ele o ajuda a

ajoelhar no lugar certo] Aí.

A : [Irritado] Solta minha mão! Você quer que eu te ajude e fica segurando a minha

mão!? [B solta a mão de A, que arruma o tapete]. Você só tem uma perna?

B : Só.

A : E a outra?

B : Ficou ruim e foi amputada. [A põe o pé pra dentro].

A : Assim tá bom?

B : Um pouco mais apertado. [A aperta mais]. Que mãos você tem! [Pausa].

A : [Tateando em direção ao tronco de B]. O resto está aí?

B : Você agora podia se levantar e me pedir um favor.

A : O resto todo está aí?

B : Nada mais foi tirado, se é isso que você quer saber. [A mão de A, tateando mais pra

cima, atinge o rosto de B, fica]

A : Este é o seu rosto?

B : Eu confesso que é. [Pausa]. Que mais poderia ser? [Os dedos de A passeiam no rosto

de B, páram]. Isso? Minha verruga.

A : Vermelha?

B : Violeta. [A retira sua mão, ainda ajoelhado]. Que mãos você tem! [Pausa].

A : Ainda é dia?

B : Dia? [Olha para o céu]. Se você quiser. [Olha]. Não há outra palavra pra isso.

A : A noite virá logo [B se inclina para A, sacode-o].

B : Vamos, Billy, levante-se, você está começando a me incomodar.

A : A noite virá logo? [B olha para o céu]

B : Dia

no coração do inverno e no cinza da noite. [B se inclina para A, sacode-o]. Vamos, Billy,

de pé, você está começando a me deixar constrangido.

Noite

[olha]. Às vezes me parece que a terra fica entalada, um dia sem luz,

A : Tem mato em algum lugar?

B : Eu não vejo nada.

A : [Vêemente]. Não há verde em nenhum lugar?

B : Tem um pouco de musgo. [Pausa. A junta as mãos no tapete e apóia a cabeça.] Bom

Deus! Não me diga que você vai rezar?

A : Não.

B : Ou chorar.

A : Não. [Pausa] Eu poderia ficar assim para sempre, com minha cabeça nos joelhos de

um velho homem.

B : Joelhos. [Sacudindo-o bruscamente] Levante-se! Vamos!

A : [Ajeitando-se mais confortavelmente]. Que paz! [B o empurra bruscamente, A cai

sobre suas mãos e joelhos.] Dora dizia, nos dias em que eu não havia ganho o bastante: - Você e sua harpa! É melhor você andar de quatro, com as medalhas do seu pai penduradas no seu rabo e uma caixa de esmolas em volta do pescoço. Você e sua harpa!

Quem você pensa que é ? E ela me fazia dormir no chão. [Pausa] Quem eu pensava que

eu era

[Pausa.] E então

eu nunca poderia

[Pausa. Ele se levanta.] Nunca poderia

[Começa a tatear em direção ao banco, pára, escuta.] Se eu ouvisse por bastante tempo,

eu escutaria, uma corda vibrando.

B : Harpa? [Pausa] Que estória é essa de harpa?

A : Uma vez tive uma pequena harpa. Fique quieto e deixe-me ouvir. [Pausa.]

B : Por quanto tempo você vai ficar assim?

A : Eu posso ficar horas ouvindo os os sons. [Eles ouvem]

B : Que sons?

A : Eu não sei o que eles são. [Eles ouvem.]

B : Eu posso vê-lo. [Pausa.] Eu posso -

A : [Implorando.] Você não vai ficar quieto?

B : Não! [A toma a cabeça de B em suas mãos] Eu posso ver claramente, lá, atrás do

banco. [Pausa.] E se eu o pegasse, Billy? E se eu o roubasse? [Pausa.] Ei, Billie, o que

você diria? [Pausa.] Talvez, algum dia, haja um outro velho que sairia do seu buraco e encontraria você, tocando gaita. Você diria a ele que uma vez teve um violino. [Pausa]. Ei, Billie? [Pausa.] Ei, Billie? O que você diria? [Pausa.] Resmungando ao vento de inverno, porque perdeu sua gaitinha. [B cutuca as costas de A com a sua vara] Ei, Billie? [A vira-se, pega a ponta da vara e a joga fora do alcance de B].

FIM

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