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CATADORES

OS URIZEN DA METRÓPOLE

CATADORES OS URIZEN DA METRÓPOLE O trabalho dos catadores passa por um conceito fundamental: a padronização.

O trabalho dos catadores passa por um conceito fundamental: a padronização. Na matéria prima com a qual

trabalham reina o caos. Os resíduos recicláveis da cidade que são descartados por cada unidade não possuem

nenhum tipo de seleção que vá além da dualidade orgânico/inorgânico. Essa mistura, massa disforme, ainda

é potencializada pelo grande volume que ganha quando os resíduos são coletados individualmente e unidos

aos das outras unidades. Em meio a essa não padronização, a esse aparente vazio metafísico, a esse caos, a figura do catador se apre- senta.

Toda criação surge a partir da distinção. O início da arquitetura segundo Platão em Timeu é o espaço vazio,

a mãe e receptáculo de todas as coisas criadas e visíveis e de certa forma sensíveis. A arquitetura distingue o

cheio do vazio, o interior do exterior

No livro do Gêneses o mundo antes da criação divina é sem forma e vazio. É o caos. Caos que começa a ceder quando a luz é separada da escuridão. E assim o é em diversos mitos sobre a criação do mundo. William Blake, no quadro O Ancião dos Dias, retrata Urizen, ente que se auto criou a partir da eternidade,

personificação da racionalidade, criando o mundo. Urizen carrega um compasso. Urizen converte o caos. Cria

E assim se dá, analogamente, para todos os tipos de coisas criadas.

a

partir da divisão. Cria a partir da distinção. O arquiteto do universo.

O

catador é o Urizen do micro caos que a cidade gera todos os dias. Em meio a massa disforme, em meio ao

caos criado a partir da ordem, os resíduos, o catador padroniza. O catador distingue. O catador cria. Ordem. Padrão. Talvez por força das condições sociais o ímpeto da criação aconteceu. E aquilo que era caos virou ordem. E aquilo que era vazio ganhou forma.

E os Urizen podiam agora viver.