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COLÉGIO MILITAR

ABERTURA SOLENE DO ANO LECTIVO


2005-2006

LIÇÃO INAUGURAL

O COLÉGIO MILITAR:
UMA ESCOLA DE
EXCELÊNCIA,
ESTRUTURANTE DA
HISTÓRIA DE PORTUGAL
Autor : T.Cor. Fernando Policarpo

04 de Novembro de 2005
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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1. Intróito

Incumbiu-me a Ex.ma Direcção da missão, nada fácil, de providenciar


à Lição Inaugural com que, tradicionalmente, se inicia o ano escolar.
Sendo eu professor de História, não se espere de mim que discorra
sobre matérias alheias, ou que aborde problemáticas do tempo presente, com
o intuito de influenciar acontecimentos. Falar de História, é falar do passado -
e o passado nunca se repete. Esta é uma evidência, que umas vezes nos
provoca nostalgia e outras vezes, alívio. Aquilo que aconteceu há muito,
mostra-se de tal modo difícil, a nossos olhos, que a sua repetição significaria,
para nós, uma verdadeira tragédia. Porém, apesar de difícil, parece,
outrossim, tão perfeito e sedutor que nos traz saudades e nos leva, quantas
vezes, a querer repetir, no presente, aquelas soluções que tanto sucesso
tiveram no seu tempo! Hoje, encontram-se narradas nos livros e povoam a
nossa imaginação e a nossa memória!
Ficai, pois, tranquilos! Aquilo de que iremos falar, aconteceu há muito,
pelos princípios de Oitocentos. Com toda a certeza, não voltará a repetir-se,
quer isso traga nostalgia para uns, quer seja um enorme alívio para outros,
concretamente para vós, Alunos!
Contudo, nunca devemos ignorar as raízes dos acontecimentos ou das
Instituições, nem os imperativos que lhes deram origem. Nós, adultos, e vós
jovens, apanhámos este “Barco” em andamento, vindo de muito longe…
Temos curiosidade em saber de que porto partiu, por qual motivo partiu, com
que tripulação levantou âncora e que rumo tomou. É importante avaliarmos
hoje se o rumo continua correcto e se a tripulação mantém o mesmo sonho e
a mesma determinação.
O “Barco” atrás referido é, obviamente, o CM. É legítimo que tenhais
curiosidade sobre o seu nascimento, sobre os seus primeiros passos e o seu
crescimento, até à idade adulta, conduzido pela experiência sábia e
personalidade austera do Coronel, depois Marechal, António Teixeira
Rebelo.
Tentarei dizer em voz alta aquilo que, hoje, inúmeros Portugueses,
incluindo dirigentes com responsabilidades, balbuciam e muitos outros
calam: O Colégio Militar é a única Escola Portuguesa existente, onde se
perpetuam vivos e activos os paradigmas do modelo de ensino e
formação, que criaram excelentes elites de serviço, sustentáculos e
garantes da Nação e do Estado, desde o século XVII. Passo a enumerá-los:
- A Formação do Carácter nas dimensões ética, humana e moral;
- A Competência Intelectual, Científica e Técnica;
- A Disciplina, a Autonomia e o Espírito de Sacrifício, como via para
o sucesso;
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- O sentido do Serviço à Comunidade, como modelo de vida


- O valor das Tradições que atravessaram os tempos e alumiam o ca-
minho que trilhamos.

O CM enfrentou, com notável solidez, as grandes mudanças operadas


na vida nacional, ritmadas pelos acontecimentos políticos. Assistiu, atento,
às rupturas sociológicas, culturais e mentais que emergiram no contexto
nacional e internacional. Sobreviveu a bruscas e radicais alterações no
modelo educativo e escolar. Superou a convivência intrínseca,
incontornável, com a dimensão confessional predominante. Adoptou,
posteriormente, sem sobressaltos, a dinâmica laica na condução das
políticas educativas. Sobreviveu a todas as bruscas mudanças de Regime.
Serviu com igual empenho e lealdade, a Monarquia e a República.
Distanciou-se de golpes de estado e de revoluções. Já depois da Revolução
de 1974, assistiu com apreensão à extinção dos Liceus, instituições
tradicionais de ensino criadas em 1837, tão decisivas, como o Colégio, para
a formação de cidadãos competentes, bem esclarecidos e conscientes dos
seus deveres para com a comunidade.
Os Liceus, tomavam a designação de grandes vultos da Cultura e da
Ciência, os quais significavam para a família liceal, o mesmo que a figura
do «Patrono» significa para o CM e para os estabelecimentos militares em
geral. Eles foram, em todo o país, promotores de uma matriz educativa
elevada e de tradições estruturantes, quase familiares. Foram substituídos
pelas impessoais Escolas Básicas e Secundárias, desprovidas de tradições,
vítimas da apressada modernidade. É hoje generalizada a convicção de que
estas novas escolas não irmanam os alunos num convívio estreito e
duradoiro. Não constituem espaços onde eles possam sentir prazer em
trabalhar, desenvolver projectos formativos ou lúdicos, nem são uma
atraente alternativa de convívio e de socialização, complementar da família.
O CM atravessou dois Séculos de vicissitudes sem adulterar a sua
matriz essencial e apresentou-se ao Século XXI como uma alternativa
educativa muito válida, por associar, com eficácia, a tradição e a
modernidade. É, aliás, na tradição que reside o segredo do seu sucesso, pois
na sua prática educativa, como Escola e como «segunda casa de família»,
preocupou-se sempre, e antes de tudo, por inculcar nos seus alunos os
valores perenes, sólidos e incorruptíveis, que devem guiar os homens e as
sociedades na esperança e na adversidade, em qualquer tempo e situação.
Esses pilares, que sustentam o seu Projecto Educativo, radicam no
tempo longo da sua existência, nele encontrando o cimento e o ferro que
fortalecem a estrutura para resistir aos mais variados abalos.
É, pois, do lançamento desses «Pilares» e da construção desse
«Edifício» que desejo falar-vos um pouco, para adquirirdes a noção de que
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a Casa que hoje vos educa foi construída com muito amor, dedicação e
sofrimento, pedra a pedra, por todos os antepassados que, desde 1802,
abraçaram esta causa e foram passando o testemunho e a missão, de geração
em geração, até aos nossos dias.

2. Os Primeiros Passos

Por volta de 1802, o CM começou a criar forma algures na Feitoria,


local onde, actualmente, os alunos podem passar férias reconfortantes. A
Feitoria era a área do Regimento de Artilharia da Corte (RartCorte) onde se
armazenavam e administravam os produtos, alimentares e não alimentares,
necessários à vida da Unidade. Ali, no mesmo terreno, mas noutros
edifícios, substituídos com o tempo, nasceu o Colégio da Feitoria, parte
integrante do Regimento, como se de uma Companhia se tratasse. Era
comandado por um Capitão. Os professores, eram os Oficiais da Unidade
que acumulavam as funções docentes com as missões normais do Quartel,
de forma completamente gratuita.
Havia no Exército, desde D. João V, a tradição de incorporar nos
Regimentos, a partir dos 5 anos de idade, os filhos de Oficiais mortos em
combate, de Oficiais grandes deficientes, em resultado de ferimentos em
combate e de Oficiais condecorados ou louvados, por Serviços Distintos
prestados à Pátria. Esses meninos, eram designados de «Cadetes». Os pais,
ou as mães viúvas, vivendo, na sua maioria, com grandes dificuldades
económicas, requeriam a S.M. que concedesse a seus filhos o privilégio de
serem incorporados como «Pensionistas», ou seja, gratuitamente. S.M.
concedia-lhes uma pensão mensal de 160 réis, com a qual pagavam as
despesas escolares e de alojamento, no Regimento.
O Exército empenhava-se em prepara-los para o honroso, mas difícil,
Serviço das Armas. Ali chegavam pouco mais que bebés. Ali aprendiam a
ler, a escrever e a contar e se familiarizavam, brincando, com a arte e
técnica militares, com as armas, com a disciplina e com os valores que
deviam moldar o carácter dos cidadãos que envergavam uniforme. Pouco a
pouco, aprendiam a fazer de tudo o que à vida militar dizia respeito. No
futuro, eles seriam Oficiais do Exército.
O Relatório do Conselho Militar Nacional, reunido em Janeiro de
1801, para estudar a Reestruturação do Exército, à semelhança dos
modernos exércitos europeus, propôs ao governo, entre outras medidas, a
criação de um Colégio Militar, destinado a preparar os jovens cadetes para
a carreira de Oficial de Engenharia e de Oficial de Artilharia, cujo
desempenho exigia rigorosa preparação em Matemática, Física, Geografia e
Cartografia.
Os Colégios internos eram muito frequentes na época. Haviam sido
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criados pelos Jesuítas no Século XVII. A Reforma Pombalina do Ensino


confiscou-os à Ordem Inaciana, laicizou-os e submeteu-os à autoridade do
Director Geral dos Estudos. A Par com uma rede de Escolas Primárias, o
governo de Pombal empreendeu a criação de um Colégio interno em cada
capital de Distrito para permitir estudos médios e pré-universitários aos
alunos das vilas e aldeias que quisessem e pudessem prosseguir estudos.
O Colégio da Feitoria nasceu em resultado da recomendação do
Conselho Militar, transmitida ao Governo em Fevereiro de 1802. A sua
criação foi ditada pela necessidade de uniformizar a formação escolar e
militar dos meninos-cadetes de modo a que, quando chegassem ao patamar
de entrada no Oficialato, dispusessem todos da mesma formação, dos
mesmos hábitos, princípios e valores. Esse objectivo só se atingiria criando
uma escola específica para isso. Era, pois, uma necessidade nacional.
Havia, então, no RArt Corte cerca de 40 meninos-cadetes, entre os 05
e os 14 anos. Escolheram-se 20, dos melhores, com idades compreendidas
entre os 09 e os 14 anos e com eles se fundou o «Colégio da Feitoria». No
ano seguinte, a selecção foi alargada aos cadetes do Real Corpo de
Engenheiros. O efectivo colegial foi fixado em 60 Colegiais – o máximo
que as instalações podiam suportar – sendo 45 vagas reservadas para os
Pensionistas e as outras 15, destinadas a filhos de Oficiais, não louvados
nem condecorados e a civis, que aceitassem pagar a sua estadia.
Designavam-se estes Colegiais de «Porcionistas». A sua estadia completa
no Colégio custava a cada um 13$600 Réis por mês, ou seja, o equivalente
a cerca de 480 euros na moeda actual. Na prática, nunca se foi além dos 45
Colegiais, entre Pensionistas e Porcionistas. O Colégio da Feitoria manteve
este efectivo até transitar para o Edifício da Luz, em 1813.
O somatório das pensões dos alunos Pensionistas, com as
mensalidades dos alunos Porcionistas, era a única fonte de receita de que o
Regimento dispunha para cobrir as despesas com o funcionamento do
Colégio. É fácil compreender que esse montante era manifestamente
insuficiente, provocando situações de grande aflição, impedindo esses
meninos de terem acesso aos equipamentos indispensáveis a uma vida
minimamente confortável. O mobiliário era muito escasso e rudimentar; o
material didáctico era simbólico; a roupa, gastava-se até ao último fio; a
comida era frugal e às vezes insuficiente; os sapatos andavam rotos; as
bolas eram de trapos!
O Governo apoiou a fundação do Colégio, mas não lhe atribuiu
outros meios financeiros. Todos os meses, os Oficiais do Regimento
cotizavam-se dos seus magros vencimentos, voluntariamente, para comprar
livros, cadernos, lápis, penas e tinteiros; ou até mesmo carteiras – para que
aos meninos/cadetes não faltasse o indispensável. Assim viveu o Colégio
da Feitoria até 1805, ano em que, finalmente, S. M. contemplou o Regi-
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mento com uma verba suplementar para reforçar as posses do Colégio.


Após visitá-lo demoradamente, D. João VI ficou muito entusiasmado com o
que viu, e, ali mesmo, decidiu aumentar a pensão dos Cadetes-alunos de
160 para 400 Réis, respectivamente, o equivalente em moeda actual, de
4,50, para 11,50 Euros.
Ao leme desta nova Escola do Exército encontramos o Cor. Teixeira
Rebelo, Comandante do Regimento. A sua vida ligou-se à do Colégio,
desde a fundação, até à sua morte em 1825. A sua energia e a sua
competência venceram todas as dificuldades surgidas e permitiram-lhe
construir, passo a passo, uma Escola, rapidamente reconhecida entre as
cinco melhores do país. Porém, era a única, cujo Projecto Pedagógico tinha
como objectivo ministrar a Educação Básica e Média em ambiente militar,
a cadetes que se destinavam ao Oficialato.
Batendo a todas as portas possíveis, desdobrando-se em cartas e
ofícios para o governo e para a Corte, conseguiu concretizar o seu sonho de
transformar o Colégio da Feitoria numa organização independente do
RArtCorte, com instalações autónomas e comando próprio.
Por decisão governamental de 1813, o Colégio foi transferido para o
edifício da Luz. A Portaria que o transferiu para aqui, alterou-lhe também o
nome, determinando que passasse a designar-se «Real Colégio Militar».
Foi, desde então, um Estabelecimento Militar independente. Nesse mesmo
ano, reconhecendo a sua tenacidade e dedicação, S.M. convidou o Cor
Teixeira Rebelo para Director do novo Colégio – cargo que ele aceitou sem
hesitar, abandonando o comando do RArtCorte e transferindo toda a sua
vida para o Colégio da Luz.

3. Os Novos Regulamentos de 1814 de 1816

O ano escolar de 1813/1814, começou na Luz com os 45 Colegiais


vindos da Feitoria e continuou a reger-se pelas regras antigas. Mas foi por
pouco tempo, pois no início de 1814, O Director apresentou ao Governo um
Projecto de Novos Estatutos, regulador de toda a actividade da nova
instituição, cujos assuntos apareciam arrumados do seguinte modo: A
organização do Corpo Colegial; A Disciplina; O Corpo Docente; O
Sistema de Ensino; A Economia; O Pessoal.
O Ministro da Guerra, D. Miguel Pereira Forjaz1, gostou tanto do seu
Projecto que o aceitou sem qualquer alteração, levando-o à Corte, com
urgência, para aprovação Régia. 30 dias depois de ter saído do RCM. O
Estatuto Provisório regressou à Luz com todas as aprovações necessárias.

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1
D. Miguel Pereira Forjaz é citado num Ofício de Agosto de 1802, do Director, Cor. Teixeira
Rebelo, como sendo o “Patrono do Colégio da Feitoria” . In A.H.do C.M.
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Foi publicado na “Ordem do Dia para o RCM”, de 16 Janeiro de 1814,


entrando imediatamente em vigor.
Não cabe aqui, obviamente, analisar esse Regulamento Provisório.
Diremos apenas que entrou em vigor com a condição de ser experimentado,
para avaliar da sua bondade. Após dois anos lectivos de experimentação e
aperfeiçoamento, passou a Regulamento definitivo, com a publicação em
Decreto Real, a 16 de Maio de 1816.
O Regulamento aumentou o Efectivo Colegial de 50 para 200
Colegiais, por as novas instalações o permitirem. 100 Vagas destinavam-se
a Pensionistas e as outras 100, a Porcionistas. O Corpo de Colegiais passou
a articular-se em Companhias, Divisões e Secções (Vide Doc. 1).
Tentaremos explicar a organização que esse Regulamento consagrou,
acompanhando o pulsar do seu funcionamento no interior do RCM.
Teremos oportunidade de apreciar como era a vida dos alunos, nesses
primeiros 23 anos de vida, até à morte de Teixeira Rebelo.

4. Um dia na vida dos Alunos

O ano escolar começava na primeira semana de Outubro e terminava


no final de Agosto. Vigorava um horário de Outono/Inverno, entre Outubro
e Abril, e outro de Primavera/Verão, entre Abril e Outubro.
O dia de trabalho começava cedo e acabava tarde. No horário de
Outono/Inverno, a alvorada era ás 06H00, executada pelo rufar poderoso de
uma Caixa de Guerra que os Colegiais baptizaram de «Garrida», por ser
orlada de fitas azuis e brancas, as cores da Bandeira Nacional. O recolher era
ás 22H00 e o apagar da luz ás 22h15, seguido de rigoroso silêncio. Os
colegiais repousavam 07H45 (Vide Doc. 2).
No horário de Primavera/Verão, a alvorada acontecia ás 05H00 e o
apagar da Luz ás 22H15. Os Colegiais repousavam apenas 06H45. Parece
muito pouco! Mas, a verdade, é que repousavam mesmo! Qualquer quebra
de silêncio, durante a noite, nas camaratas, era severamente punida. Havia
sempre um elemento da Polícia2 do Colégio vigilante toda a noite e o
Oficial de Dia passava revista de hora a hora.
Tomando como exemplo o horário de Outono/Inverno, verificamos
que ás 06H15 começava a missa na capela, de presença obrigatória. Seguia-
se o almoço entre as 07H15 e as 07H45, após o qual se seguia a revista. Às
08H00 começavam as aulas. O horário atribuía, a cada ano do curso, a partir
do 2º Ano, três blocos de 1H30 de aulas por dia, que se prolongavam até ás
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1
A Polícia do RCM era formada por um corpo de funcionários responsáveis pela manutenção,
conservação e asseio do edifício e móveis. Cada camarata de alunos dispunha de um “Chefe de
Polícia” que era o primeiro responsável pela limpeza e guarda de todos os artigos pertencentes
aos alunos. Eram coadjuvados pelos “Fâmulos”, serviçais domésticos responsáveis pela limpeza
das camaratas.
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Doc. 1

CORPO
DE
COLLEGIAES

Primeiro Comandante
(Oficial Superior/Capitão)

Segundo Comandante
(Oficial Superior/Capitão
mais moderno)

1ª 2ª 3ª 4ª
Companhia Companhia Companhia Companhia
(50 Alunos) (50 Alunos) (50 Alunos) (50 Alunos)

Orgânica
1º CMDT ALUNO

2º CMDT ALUNO

1ª Divisão 2ª Divisão
(1CMDT Aluno) (1 CMDT Aluno)

1ª Secção 2ªSecção 1ªSecção 2ªSecção


1 CMDT Aluno 1 CMDT Aluno 1 CMDT Aluno 1 CMDT Aluno

+ 11 Alunos + 10 Alunos + 11 Alunos + 10 Alunos


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HORÁRIO GERAL DIÁRIO


1802 a 1825
Doc. 2
Horário Horário
de Outono-Inverno Primavera-Verão

Acções Dias Domingos Dias Domingos


Lectivos e Feriados Lectivos e Feriados
Alvorada 06H00 06H30 05H00 05H00
Missa 06H30-07H15 10H00-10H45 05H45-06H15 10H00-10H30
Almoço 07H15-07H45 07H15-07H45 06H15-06H45 07H30-08H00
Revista 07H45 09H30-10H00 06H45 09H30-10H00
Aulas 1ª - 08H00-09H30 - 1º - 07H00-08H30 Tempo
2ª - 09H30-11H00 2ª - 08H30-10H00 Livre
3ª - 11H30-13H00 3ª - 10H30-12H00
Jantar 13H15 13H45 12H30 12H30
Recreio Até às 15H00 - Até às 14H30
1º Estudo 15H00-17H00 O 14H30-16H30
Merenda 17H15 16H30-17H00 17H00-17H30
Desporto 17H30-18H45 M 17H00-19H00 Passeio
2º Estudo 19H00-20H30 E 19H00-20H45
Terço 20H45-21H15 S 09H00-09H30
Ceia 21H30-22H00 M 09H30-22H00 O
Recolher 22H00 O 22H00 Mesmo
Silêncio 22H15 22H15

13 horas. O Corpo Colegial marchava, então, para o Refeitório onde, a partir


das 13H15 era servido o jantar. Seguia-se um período de recreio/tempo livre.
Ás 15H00 começava o primeiro estudo do dia que se prolongava até às
17H00. Seguia-se a merenda, e um período de recreio, entre as 17H15,
18H45. Ás 19H00 começava o segundo período de estudo, até às 20H30.
Estes dois períodos de estudo eram para todos, sem excepção, e decorriam
debaixo de rigorosa disciplina e precioso silêncio. O Corpo Colegial
avançava, então, para o Terço, que terminava cerca das 21H15. Marchava,
seguidamente para o refeitório, onde era servida a Ceia, a partir das 21H30.
Às 22H00 tocava a recolher.
As tarefas previstas nos dois horários eram as mesmas. A hora
sobrante, ganha pela antecipação da Alvorada no horário Primavera/Verão,
era usada na prática de actividades desportivas. Ao Domingo, havia passeio,
realizado fora das instalações. Fardados com a farda de sair, Os Colegiais
partiam cerca das 17H00, em coluna de marcha, percorrendo itinerários
previamente definidos, com destino ás povoações de Sete Rios ou Benfica,
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onde compravam rebuçados, visitavam monumentos e contactavam com a


vida urbana. Outras vezes, iam desenvolver jogos de exterior em matas e
outros locais previamente seleccionados. O passeio era, em qualquer dos
casos, um raro e precioso momento lúdico de descompressão de todo o
pesado sistema do internato. Regressavam ao Colégio às 20H45, retomando
o horário normal.
No interior da Instituição, os Colegiais deslocavam-se sempre em
formatura. A revista era diária, efectuada pelos Comandantes de Companhia
e de Secção. Incidia, sobretudo, no aprumo pessoal e no grau de limpeza de
todos os elementos do uniforme: verificava-se o corte de cabelo, a limpeza
da roupa, a higiene das unhas. Era inspeccionado o modo de fazer da cama,
bem como o estado e a higiene dos adereços. Era, igualmente, revistado o
armário, sua limpeza, ordenação das peças de roupa e outros objectos de uso
pessoal.
Trimestralmente, realizavam-se as Mostras. Perante todo o Estado-
Maior do Corpo, o Colegial devia mostrar todo o seu enxoval, material
escolar e outros pertences. O objectivo era verificar se haviam, ou não,
extraviado peças do mesmo e puni-los, ou louvá-los, por isso.
O Serviço à mesa não era livre. Os Fâmulos colocavam as terrinas e
as travessas no topo da mesa, mas os alunos não podiam servir-se. Eram os
Comandantes de Companhia e de Divisão que serviam os pratos ás Secções
para garantir a distribuição equitativa da comida.
4.1. Férias e Visitas de Familiares

Os Colegiais não tinham direito a férias de Natal e de Páscoa e no


Verão, só dispunham do mês de Setembro. Durante o ano escolar, só eram
autorizados a ausentar-se do Colégio 2 ou 3 vezes por ano, a pedido das
famílias e por períodos de 2 dias, normalmente para passar o dia de Natal, de
Páscoa e de Aniversário.
Os familiares vinham visitar os filhos ao Colégio. O cerimonial dessas
visitas era muito rígido, não podendo os alunos permanecer a sós com os
seus. Toda a visita era acompanhada pelo 2º Comandante do Corpo, ou pelo
Chefe da Polícia e decorria em sala própria.
Para além destas visitas esporádicas, os Colegiais utilizavam a carta
postal para contactar com os parentes. Depois de escritas, as cartas eram
entregues, abertas, ao Comandante de Companhia, que as levava ao
Comandante do Corpo, o qual podia lê-las, se o entendesse, mandando
depois fechá-las e remetê-las. O mesmo acontecia com a correspondência
entrada no Real Colégio, destinada aos alunos.
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4.2. Natureza do Regulamento Disciplinar

O Regulamento Disciplinar tinha por objectivo premiar o bom


comportamento e punir o desleixo, a indisciplina e a insubordinação.
Os prémios variavam desde a “Citação em Ordem ao RCM”, à
concessão de dias de dispensa e à atribuição de prémios diversos – todos
visando distinguir o desempenho geral do Colegial no aproveitamento
literário, físico e comportamental. Não há notícia, neste período, da
atribuição de Medalhas.
Os castigos eram de tipo e intensidade muito variáveis. Incluíam
castigos de efeito psicológico, de punição física e de privação de liberdade.
Os castigos psicológicos incluíam as «advertências» nas aulas e nas
formaturas, a «exposição continuada com rótulo» e as punições
institucionais, desde a «desgraduação», até à «expulsão» (Vide Doc. 3).
Os castigos físicos incluíam a «privação parcial de alimentação» e
aplicação de «palmatoadas».
Os castigos de privação de liberdade, incluíam a «retenção forçada»
nas camaratas e a «prisão efectiva», simples ou rigorosa, distinguindo-se
estas pela imposição, ou não, de ferros nos pés, para limitar os movimentos.
Seria cansativo caracterizar as faltas que originavam cada um destes
castigos. Se compararmos a coluna da esquerda com a coluna da direita, do
Documento 3, facilmente se identificam quais delas dariam palmatoadas ou
prisão.
Creio também que qualquer de vós, sendo bom conhecedor do actual
Regulamento Disciplinar, conseguirá, facilmente, identificar os castigos que
correspondem ás faltas, bem como comparar o castigo antigo, com o actual,
para o mesmo tipo de falta.
Gostaria, porém, de caracterizar três situações concretas:

a) Exposição Pública com Rótulo:


Era uma punição que visava envergonhar os alunos preguiçosos
perante os seus camaradas, principalmente aqueles que, possuindo
reconhecida capacidade intelectual, raramente apresentavam resultados
satisfatórios. Era aplicada, igualmente, àqueles que desprezavam a prática
diária da cuidada higiene, limpeza e aprumo pessoal. Os primeiros, deviam
ostentar, permanentemente, em parte bem visível do corpo, como seja no
peito e nas costas, um letreiro com a menção de «Mandrião»; os segundos,
um letreiro semelhante com a menção de «Porco». Aqueles, deviam
ostentá-lo até o aproveitamento ser considerado satisfatório; estes, até
apresentarem hábitos sustentados de higiene.
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TABELA DE FALTAS E CASTIGOS


Doc. 3
Tipo Faltas Disciplinares Castigos
- Inquietos e conversar nas formaturas - Advertência Particular (A e/ou B)
do Corpo Collegial
- Conversar e contender com os collegas - Advertência nas Companhias (A)
durante as marchas
- Pouca delicadeza à meza do Refeitório - Advertência nas Aulas (B)
U - Conversas que perturbem boa ordem - Exposição em frente a formatura particular do
das refeições Corpo Colegial (C)
S - Faltas de attenção às advertências dos - Privação de sobremesa, merenda, ou ambas C)
Superiores (
U - Rezar com pouca devoção - Privação parcial de recreio ou passeio (A)
- Inquietos e conversar nas aulas - Privação total de recreios e/ou passeios (A e C)
A - Faltas de applicação nas aulas - Dieta Ordinária (C)
- Distracções ás horas dos estudos - Dieta Rigorosa (C e D)
I - Distracções na Explicação do Latim - Retenção na Camarata até um dia (A)
- Distracções nas aulas de Doutrina - Retenção na Camarata por mais de um dia (C)
S - Distracções nas aulas práticas
- Inquietos nos alojamentos das Comp. - Prisão Ordinária até cinco dias (C)
- Faltas de execução d’ordens - Prisão Ordinária por mais de cinco dias (D)
- Faltas d’attenção para com os seus - Repreensão à frente do Corpo Colegial em
graduados format. geral, com assistência do E.Maior (D)
- Pouco cuidado na conservação dos seus - Palmatoadas até seis, em um dia (A ou B)
livros, objectos de vestuário e outros
- Palmatoadas até doze, num dia (C)
- Palmatoadas até vinte e quatro, num dia (C)
E - Deterioração premeditada de mobília, - Palmatoadas de nº superior a 24 por dia (D)
X de vidros e destruição de roupa/cama
T - Bater/maltratar aos seus companheiros - Qualquer nº de palmatoadas, superior a 24
R por dia, em diversos dias (E)
A - Praticar acções de indecência - Prisão rigorosa ( a ferros) por mais de 8 dias (E)
O - Tratar mal de palavras aos polícias e - Exposição com rótulo, até 3 dias, nos Gerais
R Fâmulos ou nas Aulas (C)
D - Maneiras pouco respeitosas para com - Exposição por mais de 20 dias, com rótulo,
I os Officiaes e Professores nos Gerais ou nas Aulas (D)
N - Falta de decência às prácticas religiosas - Expos. com rótulo no refeitório, ou noutro lo-
A e Officios Divinos cal concorrido do Colégio, por + de 20 dias (D)
R - Relaxados em seus deveres e costumes - Desgraduação Temporária ou Espectante (D)
I - Incorrigibilidade em sua conducta civil - Desgraduação Absoluta ou de Incorrigibilida-
A e literária de (E)
S - Insubordinação - Expulsão do Real Colégio Militar (F)
- Dezerção
Competência: A- Qualquer Oficial do EM do Corpo; B -Professores; C- Sub-Director; D- Director;
E- Director, depois de ouvir o Conselho de Disciplina; F- Governo (Min. Da Guerra)
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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b) A Desgraduação:
Acontecia por faltas muito graves, que demonstrassem não possuir o
Colegial idoneidade e perfil para exercer o comando, junto dos Colegiais
mais novos. Nestas faltas, podemos incluir, entre outras, a insubordinação e
o desrespeito claro praticado para com os superiores.
A desgraduação aparecia sempre como a última punição, imposta
depois de uma longa lista de outras punições que denunciavam o Colegial
graduado como não merecedor de exercer as respectivas funções. Podia ser
temporária, ou definitiva. Havendo razões para desgraduar, mais razões
havia para punir. Era habitual as baixas de graduação serem acompanhadas
da punição de prisão rigorosa por período variável, entre os 10 e os 30 dias.

c) A Expulsão:
Desde o início, que algumas deserções do Colégio da Feitoria foram
punidas com expulsão. Porém, a partir de 1814, passou a ser prática normal.
Todos os Colegiais que fugissem do RCM eram expulsos, mesmo que
regressassem arrependidos. A reincidência continuada em determinadas
faltas extraordinárias, poderiam também conduzir à expulsão. É o caso, por
exemplo, da “prática de acções indecentes” e de “…incorrigibilidade em
sua conducta…”.
As expulsões eram decretadas, obrigatoriamente, pelo Ministro da
Guerra, mediante proposta do Director do Colégio

4.3. Excessos Disciplinares

Havia um rigor disciplinar muito extenso e ás vezes até, aplicado em


inequívoco desrespeito pelas normas regulamentares. É citado,
frequentemente, o uso das varadas e do chicote nos Colegiais mais velhos,
à semelhança dos castigos aplicados aos soldados nos Regimentos. Chegou
a haver queixas anónimas para o Ministro da Guerra, referindo este tipo de
castigos e a prisão a ferros, como sendo enormidades praticadas com
crianças – como é o caso desta que aqui se transcreve:

“O Comandante do Collegio, a exemplo do Comandante do Regimento,


pela mais piquena falta os amiaça de os castigar com um pao ou com um
chicote, coisas que se não praticam nem com os simples soldados (…) E
para obstar esta dezordem espera-se que V.Exª lhe dê um prompto
remédio, mandando ao Brigadeiro e Comandante absterem-se de
similhantes procedimentos tão impróprios para os homens de bem…”
(1810)

Teixeira Rebelo saia sempre em defesa dos seus oficiais e


professores, argumentando que os alunos usavam todos os meios, mesmo
os mais ilícitos para se furtarem à autoridade colegial, a qual tinha a obri-
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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gação moral e patriótica de conter e sancionar os seus excessos de


libertinagem
Esta forma de encarar os castigos físicos como instrumento
educativo, não era exclusiva do RCM. Trata-se do modelo de disciplina que
era usado em todos os estabelecimentos internos de ensino nacionais, bem
como na educação familiar, onde o pai chamava a si a aplicação dos
castigos, de forma semelhante ás escolas, com a mesma dureza, ou maior,
que os Oficiais do Corpo Colegial. A mentalidade geral da época acreditava
ser este o melhor método de educar cidadãos válidos e competentes.
Um certo Colegial, de apelido Lacerda, escreveu ao pai a queixar-se
da dureza dos castigos e das atitudes dos Superiores (Vide Doc. 4). O pai
recebeu a carta, leu-a atentamente, e ficou revoltado com a atitude do filho,
por ele estar a queixar-se e a denunciar a disciplina, afinal a melhor coisa
que o RCM possuía! O que fez o pai? Enviou ao Ministro da Guerra a carta
do filho, acompanhada de um requerimento a solicitar que, como castigo
pela atitude indigna de acusar os seus superiores, desejava que ele fosse
privado de ir passar o Natal a casa, devendo permanecer no Colégio – para
além, obviamente, da punição que as autoridades colegiais decidissem
aplicar-lhe:
CARTA DO COLEGIAL LACERDA PARA SEU PAI:
“O Brigadeiro aqui disse diante de todos que lhe tinha chegado à mão
um requerimento onde se queixavam que o Colégio obrigava a muitos
garotos (…) e onde representavam ao governo os castigos que ele tinha
dado e certificou que sabia de certo quem o tinha feito e o disse com
tanta cólera e com demonstrações tais que me obrigaram a acreditar que
ele falava de mim, pois chegou a dizer que era feito com vingança do
que tinha sofrido e por espírito de maldade (…) jurou que o tal seria
Doc.4 expulso do Colégio, n’uma Ordem do Dia, por conspirador, e intrigante
com o Colégio e os seus superiores…)
“…Portanto peço-lhe meu querido pai, que evite alguma maroteira de
um semelhante homem; (…) em quanto aqui estiver, estou à ira e à
vingança de dois homens que à porfia hão-de procurar (…) me
atormentarem (…) persuadido ele que fui eu que o fiz, há-de vingar-se
de mim (…) ainda que seja mentindo ao governo que acreditará talvez o
que ele disser (…). Torno a pedir-lhe com toda a instância que procure
livrar-me e ao mano José, principalmente, deste labirinto em que
estamos metidos sem termos cometido crime algum. O meu pai melhor
do que eu pode avaliar o perigo em que me acho…” 1
Maio de 1810

Notamos aqui uma perfeita sintonia entre a Família, o RCM e o


Governo, no que respeita à defesa dos métodos correctivos para educar vas-
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1
Arquivo Histórico Militar ,Caixa 7, Proc. 3, 3ª Sec, 5ª Div. Datada de 1810
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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salos competentes e disciplinados.


Teixeira Rebelo nunca negou que no RCM se praticava um
Regulamento Disciplinar austero. Confirmou e defendeu-o, acusando
mesmo alguns pais de não colaborarem na defesa desse padrão de
exigência. Os Colegiais queixavam-se, é verdade. Mas isso – afirmava o
Director – devia-se, antes de mais, “à má educação de alguns pais que
levados de hum mal entendido amor escutam seus filhos que não ansehão
se não a huma cega liberdade para desafogo das suas paixões…” 1.
Estes métodos são hoje inaceitáveis. Nenhum de nós, pais,
professores e graduados, comungará desta metodologia para educar e
formar, pela desumanidade, ou até crueldade, que esses procedimentos hoje
representam, aplicados em crianças ou adolescentes de tenra idade.
Não tendo eu a presunção de querer proferir qualquer juízo de valor
sobre as práticas e métodos em uso naquele tempo, não posso, porém,
deixar de discordar daqueles que, porventura, defendam ainda a sua
utilização no quadro actual dos direitos universais das crianças e dos
adolescentes. O modelo de formação do RCM baseava-se então, e deve
continuar a basear-se, numa acentuada formação do carácter e na aquisição
de hábitos de obediência e disciplina pessoal, o que obrigava, e obriga, a
tratar a todos por igual, independentemente da sua proveniência social, com
firmeza - mas sem violência.

4.4. Actividades Escolares

Até 1814, o plano de estudos seguido tinha a preocupação de ensinar


aos alunos os conteúdos essenciais na área das Letras, das Matemáticas e
dos Conhecimentos Militares. A distribuição das disciplinas reflecte essa
preocupação.
O curso desenrolava-se ao longo de 4 anos. A partir de 1814, o Novo
Regulamento Provisório reordenou o Plano de Estudos, aumentando-o para
6 anos. Foram acrescentadas ao Currículo as Línguas Latina e Inglesa, a
História e a Geografia, a Filosofia e na Matemática, a Aritmética, a
Geometria, a Álgebra e a Trigonometria. Foi muito ampliado o Estudo do
Desenho, incluindo-o em todos os anos do curso. Foram reestruturados,
também, os Estudos Militares, valorizando, por igual, a formação teórica e
os exercícios práticos. (Vide Doc. 4)
Os Professores das disciplinas não militares eram, a maioria, Oficiais
do Exército. Os Docentes civis constituíam uma pequena parcela (cerca de
20%). Todos, porém, deviam demonstrar certificação académica emitida
pela Universidade de Coimbra, única entidade nacional responsável pela
habilitação de Professores. Deviam ser portadores do certificado de Lentes.
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1
Arquivo Histórico Militar ,Caixa 7, Proc. 3, 3ª Sec, 5ª Div. Datada de 1810
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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Doc 4 DISCIPLINAS QUE COMPUNHAM O PLANO DE ESTUDOS


De 1802 a 1814 De 1814 a 1824
- Primeiras Letras (ler, escrever e contar) - Primeiras Letras (Ler,escrever e contar)
1º - Dezenho - Dezenho de Figura
ANO - Música - Destreza Physica
- Destreza Physica - Doutrina Christã
- Doutrina Christã
- Grammatica Portugueza - Grammatica Portugueza
- Geometria e Arithmetica - Grammatica Franceza
2º - Grammatica e Lingoa Francesa - Dezenho de Figura
ANO - Música - Destreza Physica
- Destreza Physica - Esgrima
- Esgrima - Doutrina Christã
- Doutrina Christã
- Fortificação - Philosophia Racional e Moral
- Táctica - Grammatica Latina
3º - Exercícios Militares - Dezenho de Figura
ANO - Esgrima (Jogos de Florete) - Destreza Physica
- Música - Esgrima
- Destreza Physica - Doutrina Christã
- Dança
- Doutrina Christã
- Exercícios de Infantaria - Arithmetica e Álgebra
- Exercícios de Cavalaria - Geometria e Trigonometria
4º - Destreza Physica - Grammatica Inglesa
ANO - Música - Dezenho de Architectura
- Esgrima - Destreza Physica
- Dança - Esgrima
- Doutrina Christã - Doutrina Christã
- Princípios e Noções Gerais de Mecânica
- Geographia e História
- Dezenho de Architectura
5º - Evoluções e Manobras Militares
ANO - Destreza Physica
- Esgrima /Dansa
- Doutrina Christã

- Princ.e Noções Gerais de Táct. Elementar


- Dezenho de Architectura
6º - Evoluções e Manobras Militares
ANO - Destreza Physica
- Esgrima/Dansa
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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- Doutrina Christã

Só assim podiam ser admitidos a concurso1.


O Método de Ensino era muito diferente do actual. Os alunos
sentavam-se nas suas carteiras de trabalho, munidos do livro da Disciplina,
de caderno, pena com tinteiro, ou lápis. Utilizando o Manual, o Professor
“lia” a lição do dia e explicava-a, oralmente, ponto por ponto. Não havia
quadros nas salas de aula para demonstrar os raciocínios matemáticos, as
construções gramaticais, ou outro tipo de conceitos. O aluno devia ouvir a
explicação com atenção e depois fazer no seu caderno os exercícios que o
professor construía e ditava. O Lente ia, então, de carteira em carteira,
verificar se o aluno havia discorrido correctamente. Ou então o Lente
designava um aluno para demonstrar, oralmente, a resolução do exercício
ou problema. O aluno interpelado, devia responder de pé.
Era o método da época em todas as escolas. Ele obrigava os alunos a
um grande esforço de atenção para compreender as matérias e a um enorme
volume de tarefas de treino para se prepararem para os momentos de
avaliação.
Para além da aprendizagem nas aulas, os colegiais dispunham, como
já anteriormente afirmámos, de dois estudos diários, totalizando 3H30.
Ao sábado, os alunos cumpriam um programa de revisões das
matérias da semana, vulgarmente designadas de “Sabatinas”, no horário da
tarde. Reviam intensamente todos os conteúdos apreendidos nessa semana e
exercitavam-se arduamente na resolução de problemas e dificuldades.

4.4. Avaliação

A Avaliação baseava-se, exclusivamente, em exames anuais,


realizados no final do ano escolar. Ao longo do ano, porém, os colegiais
eram sujeitos a avaliação de diagnóstico. Na tarde da última 6ª feira de cada
mês, realizavam provas de aferição de conhecimentos. Na gíria colegial,
essas provas eram conhecidas por “Mensais”.
Não havia notas de período. As «Mensais» procuravam fazer uma
avaliação do andamento da aprendizagem por parte de cada aluno e treiná-
los para a resolução de provas em ambiente de exame.
Mensalmente, o Director remetia à Secretaria de Estado da Guerra um
relatório detalhado, contendo apreciações de natureza escolar e
comportamental sobre todo o Corpo Colegial.
Os exames anuais realizavam-se habitualmente durante todo o mês de
Agosto. Todos os alunos prestavam provas orais, por disciplina, perante um
júri composto por 3, 4 ou 5 professores. O exame tinha uma duração mínima
__________________________
1
Lentes: Pessoas formadas pela Universidade de Coimbra, que ficavam habilitadas para exercer
a docência nas Universidades e em Escolas Médias de reconhecido prestígio. Os Oficiais do
Exército frequentavam a Universidade para obter o certificado.
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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de 30 m, mas podia prolongar-se consoante o desempenho dos alunos. A


duração da prova era regulada por relógio de água, ou areia (Clepsidra).
Após terminar a prova, o júri votava a classificação final do aluno que
podia ser uma de três:
- Aprovado por Unanimidade
- Aprovado por Maioria
- Reprovado

Aos alunos que reprovavam em Agosto, era-lhes dada a possibilidade


de repetirem o exame em Outubro. Se superassem, transitavam para o ano
seguinte; se voltassem a reprovar, repetiriam o ano.
Em cada ano o aluno só podia reprovar em duas disciplinas, quaisquer
que elas fossem. Se reprovasse dois anos seguidos, era expulso do RCM.

4.5. Encaminhamento dos Alunos

A permanência no Colégio só era permitida até aos 17 anos, quer os


alunos tivessem terminado o curso, quer não. Se completasse os 17anos
depois do Natal, poderia terminar esse ano escolar.
Após saírem do Colégio, todos os Pensionistas ingressariam,
obrigatoriamente, nos diversos Corpos do Exército. Os que tivessem
concluído o Curso Colegial seriam promovidos a Alferes durante os três
meses seguintes. Os que não o tivessem concluído, ingressavam nos Corpos
como simples cadetes e a sua ascensão ao Oficialato dependeria do seu
desempenho e aprumo. Poderiam demorar anos a ser promovidos e sua
promoção era sempre objecto de despacho uninominal do Ministro da
Guerra, sob proposta do General Comandante do Corpo em que esse cadete
estava integrado.

5. A Morte de Teixeira Rebelo

O passeio que temos vindo a fazer, no interior do Colégio, vai terminar com
a visita ao Marechal Director, Teixeira Rebelo. Encontrava-se acamado na
sua residência, por ter sido acometido, recentemente, de grave e
desconhecida «moléstia»1. S. Exª habitava parte do 2º piso do Claustro onde,
actualmente, se localizam as salas de aula do 3ºano. O seu estado agravou-se
bruscamente, tendo sido chamado o Capelão para lhe administrar
os últimos Sacramentos. Em boa hora o fez, pois acabou por falecer pelas

______________________________
1
Doença contagiosa, ou não, cuja natureza se desconhecia na época e que conduzia,
inevitavelmente à morte, por ausência de tratamento adequado. Exemplos: Tuberculose, Hepatite,
Meningite, vários tipos de cancro, etc.
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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05H00 da manhã seguinte, dia 06 de Outubro de 1825, quatro dias após o


início do Ano Escolar.
Por vontade própria, seria sepultado, nesse mesmo dia, pelas 20h00,
na Igreja do Corpo Santo dos Padres Irlandeses, em Lisboa. Antes, porém,
foi homenageado com exéquias dignas da sua condição de Oficial General,
de Conselheiro de Estado e de Director do RCM, por sinal, o primeiro. No
Colégio, as cerimónias decorreram como se descreve:

- O Corpo foi depositado na Capela pelas 14H00;

- Dois criados, postados, um de cada lado da urna, garantiram presença


permanente;

- À porta da Capela, permaneciam duas sentinelas;

- Foi celebrada missa de corpo Presente;

- Pelas 17H00, o Corpo Colegial formou duas alas desde a porta da Cape-
ela, até ao portão de saída;

- Às 18H00 saiu o féretro, por entre as alas, até ao Coche, transportado pe-
lo 1º e 2º Comandantes do Colégio, por um Lente, dois Professores e um
Colegial.

- Atrás da urna, seguia O T.Cor Cândido José Xavier, até agora Sub-Direc-
tor e a partir de agora, Director interino. Levava na mão a chave do Cai-
xão. Finalmente, o Corpo Colegial, cujas alas se reorganizavam em pelo-
tões, seguindo o cortejo.

- As caixas de guerra, cobertas de luto, ritmavam a marcha.

- Pôs-se o Coche fúnebre em movimento, seguido de 12 seges, em que segui-


am o Estado. Maior, o Corpo Docente e 4 alunos dos mais premiados, em
Grande Uniforme, com espada.
O Real Colégio Militar : Uma Escola Estruturante da História de Portugal – 1802/1825
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6. Epílogo

Com a morte de T. Rebelo, fechou-se o primeiro grande capítulo da


História do RCM.
Ao longo de 23 anos, O Marechal fundou e liderou o Colégio,
conseguiu transformá-lo num estabelecimento escolar independente, obteve
novas instalações e novo regulamento, implementou uma Escola de
prestígio, para o Exército e para o país. Ergueu os pilares … Construiu o
“edifício” e teve o cuidado de deixar abertas todas as portas para a
consolidação do projecto!
No dia 06 de Outubro de 1825 o “Barco”, ancorou para proceder à
“substituição do Comandante… e logo se fez ao mar, rumando ao futuro!
Aqui chegou, a 04 de Novembro 2005, transportando esta preciosa carga que
sois vós, caríssimos Alunos do Séc. XXI.

FUNERAL DO MARECHAL ANTÓNIO TEIXEIRA REBELO

“ Naquele mesmo dia, pelas 2 horas da tarde, foi o seu corpo depositado
na Capela, e postada à porta desta uma Guarda para fornecer duas
sentinelas, havendo dois criados que assistiam continuamente ao Corpo
(…) Pelas 5 horas da tarde, postou-se o Corpo Colegial em alas desde a
porta da Capela, até à da rua .(…) Às 6 horas da tarde saiu o Corpo, e foi
conduzido por entre as alas até ao coche, pelos dois comandantes do
Colégio, por um Lente, dois Professores, um dos Colegiais premiados.
Seguia-me eu ao caixão, acompanhado do Ajudante do Colégio; e
seguido pelo Corpo Colegial, cujas alas dobravam em pelotões,
cobrindo o Cortejo. As Caixas cobertas de Luto batiam a marcha até que
o coche se pôs em movimento. Atrás do coche seguiam-se 12 seges
em que ía o Estado-Maior e Corpo Instructivo do Colégio, e os 4
Colegiais premiados em rigoroso Uniforme e com as suas espadas.
Tais foram as honras fúnebres que este Colégio pode prestar ao seu
1
Fundador…”
(Adaptado)

RCM RCM RCM RCM RCM

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1
Ofício do Sub-Director, T.Cor Cândido José Xavier, para o Ministro da Guerra, de 07 de
Outubro de 1825)
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