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Eonesa © mosteio pa Fin pa Rosa, ruxpavo xm 1356 A Flor da Rosa ‘4 baixa de extensa planicie, limitada ao Noise sas mc oti nhaes ¢ olivedos, para alem dos quaes 0 horizonte se fecha com 0 recorte azulado das serras, existiu outr’ora o solar de Alvaro Gon- galves Pereira, do qual ainda no dia 7 de fe- Vereiro de 1804 restava de pé a antiga egrej fendida de alto a baixo, formando o Hlanco avangado d'um castello em ruinas. A certa dis- tancia assemelhaya-se ella, com as suas mura- Ihas lisas, sem aberturas, coroadas por cachor- rada rustica a uma fortaleza medieval, sempre receosa d'um ataque, ¢ onde o silencio pode ser considerado como estratagema defensive contra as surpresas de qualquer inimigo, que 86 do alto dos eirados poder ser visto ao longe. La em cima, no angulo d'uma das muralhas, que era por certo o fundo do arco eruzeiro, salientava-se, j4 destrocada, a varanda d’um mata-cées, indicando que se da egreja podiam subir oracdes a Deus, alli podiam precipitar-se a destruigiio € morte, sobre quem quer que se atrevesse a chegar com voz de contrario. Entrava-se no recinto murado da velha mansio por uma porta ogival, baixa, de gros- sas hombreiras talhadas em granito negro, que © tempo tem esboroado. Em a nossa frente assentava um vasto terreiro, em volta do qual ainda existiam as divisées de alvenaria, que outr’ora cram logares de venda des panneirei- ros, por occasido das feiras, ¢ cujo aluguel foi uma das fontes da receita privilegiada do cas- tello. A egreja ficava @ direita, e ia-se a ella atravessando o terreiro em diagonal. Junto da porta a haste d’uma cruz de pedra, sobre degraus deslocados, por entre as gretas dos quaes fogem assustadas as lagartixas, que es- tavam gosando o sol quente da primavera, que com a sua intensa luz illumina de chapa as velhas paredes solarengas. Silencio profundo, apenas perturbado pelo chilrear de mil pardacs, aninhando jubilosos nos vaos dos grossos enxilhares limpos da ar- amassa, O yento esta parado, ¢ nem o: equer uma folha dos novos rebentos. Se nao fora o sol que vivifica tudo sobre que espalha a sua luz, dir-se-hia que tanto 0 castello-con- A Flér da Rosa 99 ania Pw \ LAS eee Auran M6n xo ceozkino 0 roMvLo pe D. Dioco FeRxaNpss DE ALMEma, Prion Do CraTo ALLECIDO RM 1508 vento, como a paizagem estavam petrificados. ivo portal da egreja desappareceu com as restauragées do seculo xvii € 0 que o substituiu, aberto entre o corpo avangado de tum dos bracos do cruzeiro ¢ a torre, era mo- derno, com o caracteristico deste seculo, mas sem belleza de linhas ou delicadeza de por- menores que 0 recommendasse. Fa restaura- 40, que fez desapparecer a antiga porta, foi @ mesma que nas muralhas do convento sub- stituiu as estreitas frestas lancioladas pelas grandes janellas, quasi em quadrado, com 100 hombreiras finas de marmore claro ¢ rijo. Dando-se uma volta a0 redor da velha mo- radia, compungia ver a que ruina ¢ abandono tudo chegara. As janellas eram enormes bura- cos escancarados ; a5 portas tinham sido mu- radas a pedra secca para evitar que 14 por dentro se acoutassem feras e bandidos. Os ventos, a5 chuvas e 0 sol reduziram as arga- massas a p6, deixando as grossas pedras jun- tas ¢ sotopostas, com os intervallos vazios, donde saiam heras robustas e parasitas des” truidoras. Serdes todos os insultos do tempo e incuria dos ho- mens, como os seus fundadores resistiram em vida. Entretanto, os que por momentos podem viver do passado acham isto menos aviltante do que encontra-los reduzidos a quartel, como acontece a maioria d'elles. Haja vista o de Al- cobaga, em cuja ampla bibliotheca, viuva dos seus codices, se installou um dormitorio de ca- vallarias, cheirando a estrame ¢ a pontas de cigarro. Lembrar-se a gente que onde os Bran- does estudaram e trabalharam as nossas chro- nicas nacionaes, se occupam os alferes na Tuswio no rexpapon, Anvako Gongatves Pentima, raion po Hosprran, PAE DO CONDENTAVED NuX'ALVARES PEREIRA Quando alli cheguci, 0 sacristio j4 se nfo achava na egreja. Tinha ajudado a aviar a ce- remonia da imposicio das cinzas, e, pegando na espingarda, partira para a charneca di cata de lebre ou perdiz, com que se preparasse para © jcjum da sardinha quaresmal em que ia en- trar. A mulher delle, porém, prestou-se a abrir as portas, dando'me plena liberdade de vista, emquanto ia aproveitando 0 tempo var- rendo a egreja, compondo os altares ¢ esp. vitando as lampadas. E’ doloroso visitar os velhos euificios a que se acha ligado 0 melhor e mais cavalheiroso da nossa historia, e encontra-los votados a0 abandono, caindo a pedagos, mas resistindo a composieio do rancho ¢ os sargentos nos map- pas da companhia, dé vontade de pedir a S. Bento e aS. Bernardo que voltem a terra ¢ renovem a facanha com que livraram as mon- jas de Evora dos maleficios do feiticeiro, que se thes introduzia na cerca do mosteiro. A egreja da Flér da Rosa era em f6rma de cruz latina, com as altas paredes nuas, ¢ s6, além do altar-mér, com outros dois nd topo dos bracos cruzeiros. Os tectos subiam em abobada’ de lanceta, Ao meio da nave er- guia-se, sem epitaphio, 0 tumulo do fundador da casa, 0 prior Alyaro Goncalves Pereira, tendo apenas como indicacio duas cruzes na