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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro


O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto



A
João Luiz Ferreira
Engenheiro Civil




Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l’homme supérieur, c’est
que, si l’on y transporte les principes de l’idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort
souvent l’homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l’égoïsme ou la
routine vulgaire.

Renan, Marc-Auréle


PRIMEIRA PARTE


I
A Lição de Violão
Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às
quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de
Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às
vezes, e sempre o pão da padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim,
tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada
de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um
eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume
jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que
são horas; o Major Quaresma já passou.”
E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros
rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos
seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem
abastado.
Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o
julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única
desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia
admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”
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O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas
da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários
no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos
dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro,
pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou
a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?
E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram
um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante
da janela aberta do esquisito subsecretário.
Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o “pinho” na
posição de tocar, o major, atentamente, ouvia: “Olhe, major, assim.” E as cordas vibravam
vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ‘ré’, aprendeu?”
Mais não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão.
Mas que cousa? Um homem tão sério metido nessas malandragens!
Uma tarde de sol - sol de março, forte e implacável - aí pelas cercanias das quatro horas, as janelas
de uma erma rua de São Januário povoaram-se rápida e repentinamente, de um e de outro lado. Até
da casa do general vieram moças à janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o
Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo
do braço um violão impudico.
É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuário não lhe
escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso fato, a consideração e o respeito que o
Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa diminuíam um pouco. Estava
perdido, maluco, diziam. Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não
percebeu essa diminuição.
Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando
fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de
penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava.
Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o
queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de
fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um
figurino antigo de que ele sabia com precisão a época.
Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é,
andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!
O major descansou o chapéu-de-sol - um antigo chapéu-de-sol com a haste inteiramente de
madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola - e respondeu:
- Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é
um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o
instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em
Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um
inglês, muito o elogia.
- Mas isso foi em outro tempo; agora...
- Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos
genuinamente nacionais...
- Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias.
O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da
casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma
cadeira de balanço, descansando.
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Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era formado de estantes de
ferro.
Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem
examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o
espírito que presidia a sua reunião.
Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da
Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar
(todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um
dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major.
De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei
Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von
Brasilien), Melo Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou
menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o
Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o
Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville
e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes
tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.
Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, manuais, enciclopédias, compêndios, em vários
idiomas.
Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma
irremediável ignorância das línguas literárias da Europa; ao contrário, o major conhecia bem
sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se não falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os
correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no
forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o
amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento
sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou,
ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a
meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas,
com pleno conhecimento de causa.
Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul,
nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de
tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo
que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São
Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da
Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves - era tudo isso
junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.
Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se,
sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais
do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do
Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.
Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos
de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de
guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria.
Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua
história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de
minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes
exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de
todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais
rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival
do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e
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delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face
da do Nilo.
Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs, antes que a “Aurora,
com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”, ele se atracava até ao almoço com o
Montoya, Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com
afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo notícia
desse estudo do idioma tupiniquim, deram não se sabe por que em chamá-lo - Ubirajara. Certa vez,
o escrevente Azevedo, ao assinar o ponto, distraído, sem reparar quem lhe estava às costas, disse
em tom chocarreiro: “Você já viu que hoje o Ubirajara está tardando?”
Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua ilustração, a modéstia e honestidade de
seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que a alcunha lhe era dirigida, não perdeu a
dignidade, não prorrompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concentrou o pince-nez, levantou
o dedo indicador no ar e respondeu:
- Senhor Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridículo aqueles que trabalham em
silêncio, para a grandeza e a emancipação da Pátria.
Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café, quando os
empregados deixavam as bancas, transmitir aos companheiros o fruto de seus estudos, as
descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de riquezas nacionais. Um dia era o petróleo que
lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de
árvore de borracha que crescia no rio Pardo, em Mato Grosso; outra, era um sábio, uma
notabilidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela
corografia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegável, os melhoramentos insignificantes de
que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. Ele amava sobremodo os
rios; as montanhas lhe eram indiferentes. Pequenas talvez...
Os colegas ouviam-no respeitosos e ninguém, a não ser esse tal Azevedo, se animava na sua frente
a lhe fazer a menor objeção, a avançar uma pilhéria, um dito. Ao voltar as costas, porém,
vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de troças: “Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos
meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa.”
E desse modo ele ia levando a vida, metade na repartição, sem ser compreendido, e a outra metade
em casa, também sem ser compreendido. No dia em que o chamaram de Ubirajara, Quaresma ficou
reservado, taciturno, mudo, e só veio falar porque, quando lavavam as mãos num aposento próximo
à secretária e se preparavam para sair, alguém suspirando, disse: “Ah! Meu Deus! Quando poderei
ir à Europa!” O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e
persuasivo: “Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum
dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!”
O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major contestou-lhe com
estatísticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra.
Era um clima caluniado pelos viciosos que de lá vinham doentes...
Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar à sua residência, às quatro e quinze
da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes, exceto aos domingos, exatamente, ao jeito
da aparição de um astro ou de um eclipse.
No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aqueles que têm ambições políticas ou de
fortuna, porque Quaresma não as tinha no mínimo grau.
Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua biblioteca, o major abriu um livro e pôs-se a
lê-lo à espera do conviva. Era o velho Rocha Pita, o entusiástico Rocha Pita da História da América
Portuguesa. Quaresma estava lendo aquele famoso período: “Em nenhuma outra região se mostra o
céu mais sereno, nem madrugada mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os
raios mais dourados...” mas não pôde ir ao fim. Batiam à porta. Foi abri-la em pessoa.
- Tardei, major? perguntou o visitante.
- Não. Chegaste à hora.
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Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros, homem
célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera
limitada a um pequeno subúrbio da cidade, em cujos “saraus” ele e seu violão figuravam como
Paganini e a sua rabeca em festas de duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a
extensão dos subúrbios, crescendo, solidificando-se, até ser considerada como cousa própria a eles.
Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas aí qualquer, um capadócio.
Não: Ricardo Coração dos Outros era um artista a freqüentar e a honrar as melhores famílias do
Méier, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do
Tenente Marques, do Doutor Bulhões ou do “Seu” Castro, a sua presença era sempre requerida,
instada e apreciada. O Doutor Bulhões, até, tinha pelo Ricardo uma admiração especial, um delírio,
um frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em êxtase. “Gosto muito de canto”, dizia o doutor
no trem certa vez, “mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo.” Esse
doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios, não como médico, pois que nem óleo de rícino
receitava, mas como entendido em legislação telegráfica, por ser chefe de seção da Secretaria dos
Telégrafos.
Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É
uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios. Compõe-se em geral de
funcionários públicos, de pequenos negociantes, de médicos com alguma clínica, de tenentes de
diferentes milícias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões, assim
como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. Isto é só lá,
nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos,
olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um
prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço,
muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado - aí, julga ela, é que está a pedra de toque da
nobreza, da alta linha, da distinção.
Fora dos subúrbios, na Rua do Ouvidor, nos teatros, nas grandes festas centrais, essa gente míngua,
apaga-se, desaparece, chegando até as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que
deslumbram, quase diariamente, os lindos cavalheiros dos interminá- veis bailes diários daquelas
redondezas.
Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou à cidade,
propriamente. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo
convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua
poética...
Mas que vinha ele fazer ali, na casa de pessoas de propósitos tão altos e tão severos hábitos? Não é
difícil atinar. Decerto, não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poética, de
mineralogia e histórias brasileiras.
Como bem supôs a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão-somente ensinar o major a
cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais e é simples.
De acordo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a
expressão poético-musical característica da alma nacional. Consultou historiadores, cronistas e
filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade,
não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos
da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da
cidade e tomou lições com ele. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo
original de arte.
Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas antes disso, por convite especial do discípulo, ia
compartilhar o seu jantar; e fora por isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do
subsecretário.
- Já sabe dar o “ré” sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se.
- Já.
- Vamos ver.
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Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve tempo. Dona Adelaide, a irmã
de Quaresma, entrou e convidou-os a irem jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!
- O Senhor Ricardo há de nos desculpar, disse a velha senhora, a pobreza do nosso jantar. Eu lhe
quis fazer um frango com petit-pois, mas Policarpo não deixou. Disse-me que esse tal petit-pois é
estrangeiro e que eu o substituísse por guando. Onde é que se viu frango com guando?
Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e não fazia mal
experimentar.
- É uma mania de seu amigo, Senhor Ricardo, esta de só querer cousas nacionais, e a gente tem que
ingerir cada droga, chi!
- Qual, Adelaide, você tem certas ojerizas! A nossa terra, que tem todos os climas do mundo, é
capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente. Você é que deu para
implicar.
- Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa.
- É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras aí, fabricadas com gorduras de esgotos,
talvez não se estragasse... É isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...
- Em geral é assim, disse Ricardo.
- Mas é um erro... Não protegem as indústrias nacionais... Comigo não há disso: de tudo que há
nacional, eu não uso estrangeiro. Visto-me com pano nacional, calço botas nacionais e assim por
diante.
Sentaram-se à mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal e serviu dous cálices de
parati.
- É do programa nacional, fez a irmã, sorrindo.
- Decerto, e é um magnífico aperitivo. Esses vermutes por aí, drogas! Isto é álcool puro, bom, de
cana, não é de batatas ou milho...
Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito, levou-o aos lábios e foi como se todo ele
bebesse o licor nacional.
- Está bom, hein? indagou o major.
- Magnífico, fez Ricardo, estalando os lábios.
- É de Angra. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos... Qual Borgonha! Qual
Bordeaux! Temos no Sul muito melhores...
E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha, o toucinho
e o arroz; a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “é, é, não há dúvida”- rolando nas órbitas
os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero, forçando muito a sua
fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flor... Certamente não
se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manacás
melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o
major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias -
flores exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes, como
aquelas que ele tinha ali.
Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o crepúsculo vinha devagar,
muito vagaroso e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas
cousas a sua poesia dolente e a sua deliqüescência.
Mal foi aceso o gás, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a
escala, abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. Tirou alguns acordes, para experimentar;
e dirigiu-se ao discípulo, que já tinha o seu em posição:
- Vamos ver. Tire a escala, major.
Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua execução nem a firmeza, nem o
dengue com que o mestre fazia a mesma operação.
- Olhe, major, é assim.
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E mostrava a posição do instrumento, indo do colo ao braço esquerdo estendido, seguro levemente
pelo direito; e em seguida acrescentou:
- Major, o violão é o instrumento da paixão. Precisa de peito para falar... É preciso encostá-lo, mas
encostá-lo com macieza e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...
Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo ele fremindo de paixão pelo
instrumento desprezado.
A lição durou uns cinqüenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. Era
a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido; embora lisonjeado, quis a vaidade profissional
que ele, a princípio, se negasse.
- Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.
Dona Adelaide obtemperou então:
- Cante uma de outro.
- Oh! Por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac - conhecem? - quis fazer-me uma
modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, “seu” Bilac. A questão não está em escrever
uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e
deseja. Por exemplo: se eu dissesse, como em começo quis, n’ “O Pé” uma modinha minha: “o teu
pé é uma folha de trevo” - não ia com o violão. Querem ver?
E ensaiou em voz baixa, acompanhado pelo instrumento: o - teu - pé - é - uma - fo - lha - de - tre -
vo.
- Vejam, continuou ele, como não dá. Agora reparem: o - teu - pé - é - uma - uma - ro - sa - de - mir
- ra. É outra cousa, não acham?
- Não há dúvida, disse a irmã de Quaresma.
- Cante esta, convidou o major.
- Não, objetou Ricardo. Está velha, vou cantar a “Promessa”, conhecem?
- Não, disseram os dous irmãos.
- Oh! Anda por aí como as “Pombas” do Raimundo.
- Cante lá, Senhor Ricardo, pediu Dona Adelaide.
Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca:

Prometo pelo Santíssimo Sacramento
Que serei tua paixão...

- Vão vendo, disse ele num intervalo, quanta imagem, quanta imagem!
E continuou. As janelas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada
para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se interessava, Coração dos Outros foi apurando a
dicção, tomando um ar feroz que ele supunha ser de ternura e entusiasmo; e, quando acabou, as
palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando Dona Adelaide.
- Senta-te Ismênia, disse ela.
- A demora é pouca.
Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco a moça e continuou a dissertar sobre a modinha.
Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma perguntou à moça:
- Então, quando te casas?
Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ela então curvava do lado direito a sua triste cabecinha,
coroada de magníficos cabelos castanhos, com tons de ouro, e respondia:
- Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do ano e então marcaremos.
Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.
Não era feia a menina, a filha do general, vizinho de Quaresma. Era até bem simpática, com a sua
fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.
Aquele seu noivado durava há anos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava para dentista, um curso de
dous anos, mas que ele arrastava há quatro, e Ismênia tinha sempre que responder à famosa
pergunta: - “Então quando se casa?” - “Não sei... Cavalcanti forma-se para o ano e...”
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Intimamente ela não se incomodava. Na vida, para ela, só havia uma cousa importante: casar-se;
mas pressa não tinha, nada nela a pedia. Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo.
Após responder a Dona Adelaide, explicou o motivo da visita.
Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa dela.
- Papai, disse Dona Ismênia, gosta muito de modinhas... É do Norte; a senhora sabe, Dona
Adelaide, que a gente do Norte aprecia muito. Venham.
E para lá foram.

II
Reformas Radicais
Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. Na sua meiga e sossegada casa de São
Cristóvão, enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu
temperamento. De manhã, depois da toilette, e do café, sentava-se no divã da sala principal e lia os
jornais. Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa, a
sugestão de uma idéia útil à sua cara pátria. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo;
e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo às
nove e meia da manhã.
Acabado o almoço, dava umas voltas pela chácara em que predominavam as fruteiras nacionais,
recebendo a pitanga e o cambuim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia,
como se fossem bem cerejas ou figos.
O passeio era demorado e filosófico. Conversando com o preto Anastácio, que lhe servia há trinta
anos, sobre cousas antigas - o casamento das princesas, a quebra do Souto e outras - o major
continuava com o pensamento preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. Após uma
hora ou menos, voltava à biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto Histórico, no Fernão
Cardim, nas cartas de Nóbrega, nos anais da Biblioteca, no von den Stein e tomava notas sobre
notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os índios. Não fica bem dizer estudava,
porque já o fizera há tempos, não só no tocante à língua, que já quase falava, como também nos
simples aspectos etnográficos e antropológicos. Recordava (é melhor dizer assim), afirmava certas
noções dos seus estudos anteriores, visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que
se baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações sociais.
Para bem compreender o motivo disso, é preciso não esquecer que o major, depois de trinta anos de
meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava agora ao período da frutificação. A convicção
que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora
ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir,
de obrar e de concretizar suas idéias. Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si
mesma (era a sua opinião), a grande pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à
Inglaterra.
Tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras de
cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo - o que
precisava mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, dúvidas não flutuavam mais no seu
espírito, mas no que se referia à originalidade de costumes e usanças, não se tinham elas dissipado,
antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do “Tangolomango”, numa festa que o
general dera em casa.
Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veio despertar no general e na
família um gosto pelas festanças, cantigas e hábitos genuinamente nacionais, como se diz por aí.
Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar à maneira popular dos velhos tempos.
Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua infância; Dona Maricota, sua
mulher, até ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz,
viram na cousa um pretexto de festas e, portanto, aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. A
modinha era pouco; os seus espíritos pediam cousa mais plebéia, mais característica e extravagante.
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Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma chegança, à moda do Norte,
por ocasião do aniversário de sua praça. Em casa do general era assim: qualquer aniversário tinha a
sua festa, de forma que havia bem umas trinta por ano, não contando domingos, dias feriados e
santificados em que se dançava também.
O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e danças tradicionais, entretanto viu logo a
significação altamente patriótica do intento. Aprovou e animou o vizinho. Mas quem havia de
ensaiar, de dar os versos e a música? Alguém lembrou a tia Maria Rita, uma preta velha, que
morava em Benfica, antiga lavadeira da família Albernaz. Lá foram os dous, o General Albernaz e
o Major Quaresma, alegres, apressados, por uma linda e cristalina tarde de abril.
O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a
sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse
relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante-de-ordens, assistente,
encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo
Militar, quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua
inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de
tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai,
para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos.
O altissonante título de general, que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e
dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única
preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do
Colégio Militar. Contudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Ele
mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episódio de guerra, uma
anedota militar. “Foi em Lomas Valentinas”, dizia ele... Se alguém perguntava: “O general assistiu
a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vésperas. Mas soube
pelo Camisão, pelo Venâncio, que a cousa esteve preta.”
O bonde que os levava até à velha Maria Rita percorria um dos trechos mais interessantes da
cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo término de um picadão que ia ter a
Minas, se esgalhava para São Paulo e abria comunicações com o Curato de Santa Cruz.
Por aí em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os
chamados gêneros do país. Não havia ainda cem anos que as carruagens d’El Rei Dom João VI,
pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali para
irem ter ao longínquo Santa Cruz. Não se pode crer que a cousa fosse lá muito imponente; a Corte
andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados,
tristemente montados em “pangarés” desanimados, o prestígio devia ter a sua grandeza, não por ele
mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar à sua lamentável
majestade.
Entre nós tudo é inconsciente, provisório, não dura. Não havia ali nada que lembrasse esse passado.
As casas velhas, com grandes janelas, quase quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de há
bem poucos anos, menos de cinqüenta.
Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminiscências e foram até ao ponto. Antes
perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e
coudelarias de animais de corridas, tendo grandes ferraduras, cabeça de cavalos, panóplias de
chicotes e outros emblemas hípicos, nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda
parte onde tais distintivos fiquem bem e dêem na vista.
A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação da estrada de ferro
Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro, negro de moinha de
carvão de pedra, medas de lenha e imensas tulhas de sacos de carvão-vegetal se acumulavam; mais
adiante um depósito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob
pressão.
Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera seco e por isso se
podia andar por ele. Para além do caminho, estendia-se a vasta região de mangues, uma zona
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imensa, triste e feia, que vai até ao fundo da baía e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas
azuis de Petrópolis. Chegaram à casa da velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas
portuguesas. Ficava um pouco afastada da estrada. À direita havia um monturo: restos de cozinha,
trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira - um sambaqui a fazer-se para gáudio de
arqueólogo de futuro remoto; à esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto à cerca, no mesmo
lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta.
- Que desejam?
Disseram o que queriam e aproximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:
- Vovó estão aí dous “moços” que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor - disse ela
depois, dirigindo-se ao general e ao seu companheiro.
A sala era pequena e de telha-vã. Pelas paredes, velhos cromos de folhinhas, registros de santos,
recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima até dous terços da altura.
Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Vítor Emanuel com enormes bigodes
em desordem; um cromo sentimental de folhinha - uma cabeça de mulher em posição de sonho -
parecia olhar um São João Batista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma
lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.
Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descarnado,
enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a
marcha, com a mão esquerda pousada na perna correspondente.
- Boas-tardes, tia Maria Rita, disse o general.
Ela respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. O general atalhou:
- Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.
- Ah! É sô coroné!... Há quanto tempo! Como está nhã Maricota?
- Vai bem. Minha velha, nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.
- Quem sou eu, ioiô!
- Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o “Bumba-meu-Boi”?
- Quá, ioiô, já mi esqueceu.
- E o “Boi Espácio”?
- Cousa véia, do tempo do cativeiro - pra que sô coroné qué sabê disso?
Ela falava arrastando as sílabas, com um doce sorriso e um olhar vago.
- É para uma festa... Qual é a que você sabe?
A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa, deixando perceber
rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados:
- Vovó já não se lembra.
O general, que a velha chamava coronel, por tê-lo conhecido nesse posto, não atendeu a observação
da moça e insistiu:
- Qual esquecida, o quê! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia?
- Só sei o “Bicho Tutu”, disse a velha.
- Cante lá!
- Ioiô sabe! Não sabe? Quá, sabe!
- Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Policarpo, se
sei.
Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo
em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor
recordar-se, e entoou:

É vem tutu
Por detrás do murundu
Pra cumê sinhozinho
Cum bucado de angu.

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- Ora! Fez o general com enfado, isso é cousa antiga de embalar crianças. Você não sabe outra?
- Não, sinhô. Já mi esqueceu.
Os dous saíram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições
de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as
suas canções? Era bem um sinal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daqueles
povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das
tradições, mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes...
Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar, e escapava-
lhe. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma
delas já estava garantida, graças a Deus!
O crepúsculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.
A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismênia, informou que nas imediações
morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a ele. Era
um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos, homem doce e ingênuo que se deixara
esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar coleções, que ninguém lia, de
contos, canções, adágios e ditados populares.
Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores. Quaresma estava
animado e falou com calor; e Albernaz também, porque via na sua festa, com um número de
folklore, meio de chamar a atenção sobre sua casa, atrair gente e... casar as filhas.
A sala em que foram recebidos era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de
livros, pastas, latas, que mal se podia mover nela. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos; numa
pasta: São Bonifácio do Cabresto.
- Os senhores não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas
ela reserva!... Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. Querem
ver?
O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:

Se Deus enxergasse pobre
Não me deixaria assim:
Dava no coração dela
Um lugarzinho pra mim.
O amor que tenho por ela
Já não cabe no meu peito;
Sai-me pelos olhos afora
Voa às nuvens direito.

- Não é bonito?... Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco, a coleção de
histórias que o povo tem sobre o símio?... Oh! Uma verdadeira epopéia cômica!
Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um
semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do folclorista, tinha mais
inteligência no olhar com que o encarava.
O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo, numa pasta; e foi logo à outra, donde tirou
várias folhas de papel. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes:
- Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco, das muitas que o povo conta... Só eu já
tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las, sob o título Histórias do Mestre Simão.
E, sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:
“O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando de árvore em
árvore, nas bordas de uma grota. Eis senão quando um deles vê no fundo uma onça que lá caíra. Os
macacos se enternecem e resolvem salvá-la. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem,
amarraram a corda assim feita à cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça. Com o
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esforço reunido de todos, conseguiram içá-la e logo se desamarraram, fugindo. Um deles, porém,
não pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente.
- Compadre Macaco, disse ela, tenha paciência. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de
deixar-se comer.
O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexível. Simão então lembrou que a
demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a ele; o macaco sempre agarrado pela onça. É
juiz de direito entre os animais o jabuti, cujas audiências são dadas à borda dos rios, colocando-se
ele em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco expôs as suas razões.
O jabuti ouviu-o e no fim ordenou:
- Bata palmas.
Apesar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que
também expôs as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:
- Bata palmas.
A onça não teve remédio senão largar o macaco, que se escapou, e também o juiz, atirando-se
n’água.”
Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:
- Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção, muita criação, verdadeiro
material para fabliaux interessantes... No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa
forma imortal!... Ah! Então!
Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos
abrolhavam duas lágrimas furtivas.
- Agora, continuou ele, depois de passada a emoção, vamos ao que serve. “O Boi Espácio” ou o
“Bumba-meu-boi” ainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos devagar, começar pelo mais
fácil... Está aí o “Tangolomango”, conhecem?
- Não, disseram os dous.
- É divertido. Arranjem dez crianças, uma máscara de velho, uma roupa estrambólica para um dos
senhores, que eu ensaio.
O dia chegou. A casa do general estava cheia. Cavalcanti viera; e ele e a noiva, à parte, no vão de
uma janela, pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia. Ele, falando muito, cheio de
trejeitos no olhar; ela, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de
gratidão.
Quaresma fez o “Tangolomango”, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do general, pôs uma imensa
máscara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de báculo, e entrou na sala. As dez
crianças cantaram em coro:

Uma mãe teve dez filhos
Todos os dez dentro de um pote:
Deu o Tangolomango nele
Não ficaram senão nove.

Por aí, o major avançava, batia com o báculo no assoalho, fazia hu! hu! hu!; as crianças fugiam,
afinal ele agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala,
quando, pela quinta estrofe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista escura e caiu. Tiraram-lhe a máscara,
deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.
O acidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore. Comprou livros, leu todas as
publicações a respeito, mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo.
Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras; o próprio “Tangolomango” o era também.
Tornava-se, portanto, preciso arranjar alguma cousa própria, original, uma criação da nossa terra e
dos nossos ares.
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Essa idéia levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéia traz outra, logo ampliou o
seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de relações, de cumprimentos, de
cerimônias domésticas e festas, calcado nos preceitos tupis.
Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram à porta, em
meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os
cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio
também, e o compadre e a filha, pois eram eles, ficaram estupefatos no limiar da porta.
- Mas que é isso, compadre?
- Que é isso, Policarpo?
- Mas, meu padrinho...
Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:
- Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão.
Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que
faziam os tupinambás.
O seu compadre Vicente, a filha e Dona Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O
homem estaria doido? Que extravagância!
- Mas, Senhor Policarpo, disse-lhe o compadre, é possível que isto seja muito brasileiro, mas é bem
triste, compadre.
- Decerto, padrinho, acrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...
Este seu compadre era italiano de nascimento. A história das suas relações vale a pena contar.
Quitandeiro ambulante, fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos. O major já
tinha as suas idéias patrióticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de
vê-lo suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de
europeu recém-chegado. Mas um belo dia, ia Quaresma pelo Largo do Paço, muito distraído, a
pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim, quando veio a encontrar-se
com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquela simplicidade d’alma que era bem sua, e notou
que o rapaz tinha alguma preocupação séria. Não só, de onde em onde, soltava exclamações sem
ligação alguma com a conversa atual, como também cerrava os lábios, rilhava os dentes e crispava
raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um
seu colega, estando disposto a matá-lo, pois perdera o crédito e em breve estaria na miséria. Havia
na sua afirmação uma tal energia e um grande e estranho acento de ferocidade, que fizeram
empregar o major toda a sua doçura e persuasão para dissuadi-lo do propósito. E não ficou nisto só:
emprestou-lhe também dinheiro. Vicente Coleoni pôs uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-
se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veio a ter aquela filha, que foi levada à pia pelo seu
benfeitor. Inútil é dizer que Quaresma não notou a contradição entre as suas idéias patrióticas e o
seu ato.
É verdade que ele não as tinha ainda muito firmes, mas já flutuavam na sua cabeça e reagiam sobre
a sua consciência como tênues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos,
veleidades que não tardariam tomar consistência e só esperavam os anos para desabrochar em atos.
Fora, pois, ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga que ele recebera com o mais legítimo
cerimonial guaitacás, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o
não tê-lo. Estava até à mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.
- Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre ele os seus olhos muito
luminosos.
Havia entre os dous uma grande afeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar
os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas. Adivinhava-se, entretanto,
que a moça ocupava-lhe no coração o lugar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina
vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua afeição tanto mais que
sentia confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade em seguir
um sonho, uma idéia, um vôo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a
ver em ninguém do mundo que freqüentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a
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comum às moças de seu nascimento. Vinha de um pendor próprio, talvez das proximidades
européias do seu nascimento, que a fizeram um pouco diferente das nossas moças.
Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho:
- Então, padrinho, lê-se muito?
- Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.
Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos
livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta
segurança, ele que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar - que diabo! Não, não
era possível... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos - uma alegria de
matemático que resolveu um problema, de inventor feliz!
- Não se vá meter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.
- Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violências...
Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão
encapotado em camurça. O major fez as apresentações.
- Já o conhecia de nome, Senhor Ricardo, disse Olga.
Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento. A sua fisionomia minguada
dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cútis, que era ressecada e de tom de velho
mármore, como que ficou macia e jovem. Aquela moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o -
que satisfação! Ele que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das
moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a língua, amaciava a voz e ficava
numeroso e eloqüente.
- Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
- Não tive esse prazer, mas li, há meses, uma apreciação sobre um trabalho seu.
- No Tempo, não foi?
- Foi.
- Muito injusta! acrescentou Ricardo. Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação.
Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. Vossa
Excelência sabe que os versos para música têm alguma cousa de diferente dos comuns, não é? Não
há, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra métrica e outro
sistema, não acha?
- Decerto, disse a moça. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música para
os versos.
E ela sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, enquanto Ricardo,
desconfiado, lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo.
Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:
- O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.
- Eu sei, padrinho. Eu sei...
- Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a sério essas tentativas
nacionais, mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquele poeta
que escreveu em francês popular?
- Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francês popular; é o provençal, uma verdadeira língua.
- Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao
violão, estou fazendo o mesmo.
Olhou triunfante para um e outro circunstante; e Olga dirigindo-se a ele disse:
- Continue na tentativa, Senhor Ricardo, que é digno de louvor.
- Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um belo instrumento e tem grandes
dificuldades. Por exemplo...
- Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Há outros mais difíceis.
- O piano? perguntou Ricardo.
- Que piano! O maracá, a inúbia.
- Não conheço.
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- Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis, os únicos que o são
verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquela gente valente que se bateu e ainda
se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!
- Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.
- De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir... Se é por
ser de caboclo, o violão também não vale nada - é um instrumento de capadócio.
- De capadócio, major! Não diga isso...
E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpresa, espantada, sem atinar, sem
explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu padrinho, até ali tão sossegado e
tão calmo.

III
A Notícia do Genelício
- Então quando se casa, Dona Ismênia?
- Em Março. Cavalcanti já está formado e...
Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há
quase cinco anos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento
para daí a três meses. A alegria foi grande na família; e, como em tal caso, uma alegria não podia
passar sem baile, uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática.
As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia
que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado, e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se
casassem.
Noiva havia quase cinco anos, Ismênia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto à sua
natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ela, não era
negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéia, uma pura idéia.
Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor, o prazer dos sentidos,
uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer:
“Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”... ou senão “Você precisa aprender a pregar
botões, porque quando você se casar”...
A todo instante e a toda a hora, lá vinha aquele - “porque quando você se casar”... - e a menina foi-
se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações
íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar.
De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na
rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se;
não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa”; ou então: “A Zezé está
doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!”...
A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéias, o nosso próprio direito à
felicidade, foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe
representou cousa importante, uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-
lhe um crime, uma vergonha.
De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem
quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto, na sua inteligência a idéia de “casar-
se” incrustou-se teimosamente como uma obsessão.
Ela não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho malfeito, mas galante, não
muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva, de indolência de corpo, de
idéia e de sentidos - era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam - “bonitinhas”.
O seu traço de beleza dominante, porém, eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos, com
tons de ouro, sedoso até ao olhar.
Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti, e à fraqueza de sua vontade e ao temor de
não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.
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O pai fez má cara. Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre, Maricota -
dizia ele - quem são. Olho vivo!... É melhor prevenir que curar... Pode ser um valdevinos e...”
Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista?
perguntava ele de si para si. Um cidadão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um
oficial, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito,
e ele acedeu.
Começou então Cavalcanti a freqüentar a casa na qualidade de noivo “paisano”, isto é, que não
pediu, não é ainda “oficial”.
No fim do primeiro ano, tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar
os estudos, o general foi generosamente em seu socorro. Pagou-lhe taxas de matrículas, livros e
outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, Dona Maricota viesse ao
marido e dissesse: “Chico, arranja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma
Anatomia.”
O general era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretensão marcial, não havia no seu caráter a
mínima falha. Demais, aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor quando se tratava
dos interesses delas.
Ele ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despesas ao futuro genro,
convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali.
Enfim - dizia Albernaz à mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos - a cousa vai acabar.
Felizmente, respondia-lhe Dona Maricota, vamos descontar esta letra.
A satisfação resignada do general era porém falsa; ao contrário: ele estava radiante. Na rua, se
encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia ele:
- É um inferno, esta vida! Imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!
Ao que Castro interrogava:
- Qual delas?
- A Ismênia, a segunda, respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.
- Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malícia, aprendi a receita. Por que não fizeste o mesmo?
Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazéns, às lojas de louça, comprava mais pratos,
mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de
abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.
Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido, Dona Maricota amanheceu cantando. Era raro
que o fizesse; mas nos dias de grande alegria, ela cantarolava uma velha ária, uma cousa do seu
tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela, pedindo-lhe isto ou
aquilo.
Muito ativa, muito diligente, não havia dona-de-casa mais econômica, mais poupada e que fizesse
render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôs tudo em
atividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota foram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as
raparigas na arrumação das salas e dos quartos, enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa, dispô-
la com muito gosto e esplendor. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A
alegria de Dona Maricota era grande; ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar
casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e
desonroso para a família. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra,
como ela dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família.
Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente.
- Mas, minha filha, dizia ela, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí
uma “mosca-morta”.
- Mamãe, que quer que eu faça?
- Não é bonito rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas também assim como você está! Eu
nunca vi noiva assim.
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Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a
pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-
a e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria.
Veio muita gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general o
Contra-Almirante Caldas, o Doutor Florêncio, engenheiro das Águas, o Major honorário Inocêncio
Bustamante, o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas
importantes. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença
dele em festa séria; Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.
Às seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não sem um
pouco de inveja no olhar.
Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
- Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.
Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras,
as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam a par.
A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
- Eu, ontem, vi na Rua da Constituição um dormitório de casal, muito bonito, você por que não vai
ver, Ismênia? Parece barato.
A Ismênia era a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas; e, se as respondia, era por
monossílabos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. Estefânia, a
doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num
dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou
de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e
quentes, e disse alto:
- Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...
Ela aludia à resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê!
Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam
Cavalcanti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.
- Então, Doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.
- É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos - fui de um
heroísmo!...
- Conhece o Chavantes? perguntava um outro.
- Conheço. Um crônico, um pândego...
- Foi seu colega?
- Foi, isto é, ele é do curso de Medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano.
Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de
outro.
- É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no
Deve e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.
- Atualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas
academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo!
Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares
poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...
- Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabéns. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho,
quando se formou: vá furando!
- Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.
- Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.
- Boa carreira.
Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente
sobrenatural.
Para aquela gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma
cousa sagrada e de essência superior; e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as
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cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nela de modo
algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a ser vulgar, comum, na aparência, mas a sua
substância tinha mudado, era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente
fora da natureza terrestre, quase divina.
Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O general
ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com ele o
Contra-Almirante Caldas, o Major Inocêncio, o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros
Segismundo.
Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação
militar. O contra-almirante era interessantíssimo. Na Marinha, por pouco que não fazia pendant
com Albernaz no Exército. Nunca embarcara, a não ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo
por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi
aos poucos se metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos
e sem amigos nos altos lugares, se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. É
curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento, mas só se as dá aos
protegidos.
Certa vez, quando era já capitão-tenente, deram-lhe um embarque em Mato Grosso. Nomearam-no
para comandar o couraçado “Lima Barros”. Ele lá foi, mas, quando se apresentou ao comandante
da flotilha, teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio. Indagou daqui e dali e
houve quem aventurasse que podia ser que o tal “Lima Barros” fizesse parte da esquadrilha do
Alto-Uruguai. Consultou o comandante.
- Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande.
Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai, onde chegou enfim, depois de uma penosa e fatigante
viagem. Mas aí também não estava o tal “Lima Barros”. Onde estaria então? Quis telegrafar para o
Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais que não andava em cheiro de santidade.
Esteve assim um mês em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um
dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe,
apresentou-se às altas autoridades da Marinha. Foi preso e submetido a conselho.
O “Lima Barros” tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguai.
Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. Todos o tinham
na conta de parvo, de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos quatro
pontos cardeais. Deixaram-no “encostado”, como se diz na gíria militar, e ele levou quase quarenta
anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. Reformado no posto imediato, com
graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de
estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referisse a promoções de oficiais. Comprava
repertórios de legislação, armazenava coleções de leis, relatórios, e encheu a casa de toda essa
enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação de sua
reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam meses o infinito rosário de repartições e
eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar.
Ultimamente constituíra advogado junto à justiça federal e lá andava ele de cartório em cartório,
acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juízes e advogados - esse poviléu rebarbativo do foro
que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.
Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil
e humilde. Antigo voluntário da pátria, possuindo honras de major, não havia dia em que não fosse
ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asilo
dos Inválidos, noutro honras de tenente-coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha
nenhum, ia ver a dos outros.
Não se pejou mesmo de tratar do pedido de um maníaco que, por ser tenente honorário e também
da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais
outros dous fazem quatro - o que quer dizer: major.
Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante, Bustamante fez a sua consulta.
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- Assim de pronto, não sei. Não é a minha especialidade o Exército, mas vou ver. Isto também anda
tão atrapalhado!
Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos, que lhe davam um ar de
“comodoro” ou de chacareiro português, pois era forte nele o tipo lusitano.
- Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!
- Não há mais gente que preste, disse Bustamante.
Segismundo por aí aventurou também a sua opinião, dizendo:
- Eu não sou militar, mas...
- Como não é militar? fez Albernaz com ímpeto. Os senhores é que são os verdadeiros: estão
sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?
- Decerto, decerto, fez o almirante cofiando os favoritos.
- Como ia dizendo, continuou Segismundo, apesar de não ser militar, eu me animo a dizer que a
nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?
- Não há mais, meu caro, confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio.
- Não sei por quê, pois tudo hoje não vai pela ciência?
Fora Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor:
- Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti, hein, Caldas? hein,
Inocêncio?
O Doutor Florêncio era o único paisano da roda. Engenheiro e empregado público, os anos e o
sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da
escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de
Albernaz, era raro que não viesse toda a tarde jogar o solo com o general. O Doutor Florêncio
perguntou:
- O senhor assistiu, não foi, general?
O general não se deteve, não se atrapalhou, não gaguejou e disse com a máxima naturalidade:
- Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o
Venâncio...
Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janela da sala onde estavam, não se via nem
um monte. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas com as suas
cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava
tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desaparecido do horizonte e as
tênues luzes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás das
vidraças.
Bustamante quebrou o silêncio:
- Este país não vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de tenente-
coronel, está no ministério há seis meses!
- Uma desordem, exclamaram todos.
Era noite. Dona Maricota chegou até onde eles estavam, muito ativa, muito diligente e com o rosto
aberto de alegria.
- Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico, sim?
Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma
cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto,
nestes termos:
- Se não dançam é porque não querem. Estou pegando alguém?
Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou:
- Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguém tira par, ninguém toca. Estão lá tantas moças,
tantos rapazes, é uma pena!
- Bem; eu vou lá, disse Albernaz.
Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile.
- Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
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E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: “Não, general, já tenho par”, dizia uma moça. “Não
faz mal”, retrucava ele, “dance com o Raimundinho; o outro espera.”
Depois de ter dado início ao baile, veio para a roda dos amigos, suando, mas contente.
- Isto de família! Qual! A gente até parece bobo, dizia. Você é que fez bem, Caldas; não se quis
casar!
- Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
- Vamos jogar o solo, convidou Albernaz.
- Somos cinco, como há de ser? observou Florêncio.
- Não, eu não jogo, disse Bustamante.
- Então jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz.
As cartas vieram e também uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a
sorte para ver quem dava. Coube a Florêncio dar. Começaram. Albernaz tinha um ar atento quando
jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de
reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante
numa partida de whist. Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a
cabeça do lado para fugir à fumaça. Bustamante fora à sala ver as danças.
Tinham começado a partida, quando Dona Quinota, uma das filhas do general, atravessou a sala e
foi beber água. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou à moça:
- Então, Dona Quinota, quedê o Genelício?
A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor:
- Ué! Sei lá! Ando atrás dele?
- Não precisa zangar-se, Dona Quinota; é uma simples pergunta, advertiu Caldas.
O general, que examinava atentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:
- Eu passo.
Dona Quinota retirou-se. Este Genelício era o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se
como certo o seu casamento na família. A sua candidatura era favorecida por todos. Dona Maricota
e o marido enchiam-no de festas. Empregado do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos
de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do
que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que
podia. Quando saía, remancheava, lavava três ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o diretor
na porta. Acompanhava-o, conversava com ele sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava
este ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um
ministro, fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso; nos
aniversários de nascimento, era um soneto que começava sempre por - “Salve” - e acabava também
por - “Salve! Três vezes Salve!”
O modelo era sempre o mesmo; ele só mudava o nome do ministro e punha a data.
No dia seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto.
Em quatro anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de
Contas, a se fundar, num posto acima.
Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio. Não se limitava ao soneto,
ao discurso; buscava outros meios, outros processos. No intuito de anunciar aos ministros e
diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornais longos
artigos sobre contabilidade pública. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas
aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses.
Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e ele vivia
na seção cercado do respeito de um gênio, um gênio do papelório e das informações. Acresce que
Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar; e tantos títulos
juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal
Albernaz.
Fora da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico, mas que a
convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. Um empregado modelo!
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O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das “mãos” fazia-se um breve
comentário ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo,
bolo, melhoro, passo”. Feitas elas, jogava-se em silêncio; da sala, porém, vinha o ruído festivo das
danças e das conversas.
- Olhem quem está aí!
- O Genelício, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?
Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado,
chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo ele traía a profissão, os seus gostos e hábitos.
Era um escriturário.
- Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negócios.
- Vão bem? perguntou Florêncio.
- Quase garantido. O ministro prometeu... Não há nada, estou bem “cunhado”!
- Estimo muito, disse o general.
- Obrigado. Sabe de uma cousa, general?
- O que é?
- O Quaresma está doido.
- Mas... o quê? Quem foi que te disse?
- Aquele homem do violão. Já está na casa de saúde...
- Eu logo vi, disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.
- Mas não é só, general, acrescentou Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.
- É o que eu dizia, fez Albernaz.
- Quem é? perguntou Florêncio.
- Aquele vizinho, empregado do Arsenal; não conhece?
- Um baixo, de pince-nez?
- Este mesmo, confirmou Caldas.
- Nem se podia esperar outra cousa, disse o Doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de
leitura...
- Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.
- Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
- Ele não era formado, para que meter-se em livros?
- É verdade, fez Florêncio.
- Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Segismundo.
- Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros.
Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?
- Decerto, disse Albernaz.
- Decerto, fez Caldas.
- Decerto, disse Segismundo.
Calaram-se um instante, e as atenções convergiram para o jogo.
- Já saíram todos os trunfos?
- Contasse, meu amigo.
Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala
triunfantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano. Zizi acompanhava.
Tossiu e, com a sua voz metálica, apurando muito os finais em “s”, começou:

A vida é uma comédia sem sentido,
Uma história de sangue e de poeira
Um deserto sem luz...

E o piano gemia.

22
IV
Desastrosas Conseqüências de
um Requerimento
Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da mesa de solo, na
tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de Ismênia, se tinham desenrolado
com rapidez fulminante. A força de idéias e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado
em atos imprevistos com uma seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão. O primeiro fato
surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma
extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.
Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sessão da Câmara, o
secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular e que veio a ter uma fortuna de
publicidade e comentário pouco usual em documentos de tal natureza.
O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável ao elevado trabalho de
legislar não permitiram que os deputados o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam próximo à
Mesa, ao ouvi-lo, prorromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes à majestade do lugar.
O riso é contagioso. O secretário, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o
presidente, ria-se o oficial da ata, ria-se o contínuo - toda a Mesa e aquela população que a cerca
riram-se da petição, largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão fraca
alegria que as lágrimas vieram.
Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de trabalho, de sonho
generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquele rir inofensivo diante
dela. Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava à Mesa da
Câmara, mas não aquele recebimento hilárico, de uma hilaridade inocente, sem fundo algum, assim
como se se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta
de clown.
Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nele um motivo para riso franco e sem
maldade. A sessão daquele dia fora fria; e, por ser assim, as seções dos jornais referentes à Câmara,
no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.
Era assim concebida a petição:

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é
emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo
no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas
dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores,
com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se,
diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma - usando
do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-
guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia, pede
vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua
criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento
e conseqüência a sua emancipação idiomática.
Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima, aglutinante, é a única capaz
de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se
perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e
ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos,
evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de
uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal - controvérsias
que tanto empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica.
Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida
e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade
23
P. e E. deferimento.”

Assinado e devidamente estampilhado, este requerimento do major foi durante dias assunto de
todas as palestras. Publicado em todos os jornais, com comentários facetos, não havia quem não
fizesse uma pilhéria sobre ele, quem não ensaiasse um espírito à custa da lembrança de Quaresma.
Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quis mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era
casado, se era solteiro. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na
rua.
Os pequenos jornais alegres, esses semanários de espírito e troça, então! eram de um
encarniçamento atroz com o pobre major. Com uma abundância que marcava a felicidade dos
redatores em terem encontrado um assunto fácil, o texto vinha cheio dele: o Major Quaresma disse
isso; o Major Quaresma fez aquilo.
Um deles, além de outras referências, ocupou uma página inteira com o assunto da semana.
Intitulava-se a ilustração: “O matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma”, e o desenho
representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. Um
outro referia-se ao caso pintando um açougue, “O açougue Quaresma”; legenda: a cozinheira
perguntava ao açougueiro:
- O senhor tem língua de vaca?
O açougueiro respondia: - Não, só temos língua de moça, quer?
Com mais ou menos espírito, os comentários não cessavam e a ausência de relações de Quaresma
no meio de que saíam fazia com que fossem de uma constância pouco habitual. Levaram duas
semanas com o nome do subsecretário.
Tudo isso irritava profundamente Quaresma. Vivendo há trinta anos quase só, sem se chocar com o
mundo, adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor
cousa. Nunca sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade, vivia imerso no seu sonho, incubado e
mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fora deles, ele não conhecia ninguém; e, com as pessoas
com quem falava, trocava pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o
seu coração nada tinham de ver.
Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que a todos.
Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo, às competições, às
ambições, pois nada dessas cousas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu
temperamento.
Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a
candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa, os grandes estudiosos,
os sábios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas
das poesias de outras épocas.
É raro encontrar homens assim, mas os há e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de
loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser homem e mais
esperança na felicidade da raça.
A continuidade das troças feitas nos jornais, a maneira com que o olhavam na rua, exasperavam-no
e mais forte se enraizava nele a sua idéia. À medida que engolia uma troça, uma pilhéria, vinha-lhe
meditar sobre a sua lembrança, pesar-lhe todos os aspectos, examiná-la detidamente, compará-la a
cousas semelhantes, recordar os autores e autoridades; e, à proporção que fazia isso, a sua própria
convicção mostrava a inanidade da crítica, a ligeireza da pilhéria, e a idéia o tomava, o avassalava,
o absorvia cada vez mais.
Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio, a
repartição ficou furiosa. Nos meios burocráticos, uma superioridade que nasce fora deles, que é
feita e organizada com outros materiais que não os ofícios, a sabença de textos de regulamentos e a
boa caligrafia, é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja.
É como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade, ao anonimato
papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de interesse pecuniário; há uma questão de amor-
24
próprio, de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele galé como eles, sujeito aos
regulamentos, aos caprichos dos chefes, às olhadelas superiores dos ministros, com mais títulos à
consideração, com algum direito a infringir as regras e os preceitos.
Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o assassino marquês
que matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o
burguês trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu
humilde colega de desgraça.
Assim, quando surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua
nomeação, aparecem as pequeninas perfídias, as maledicências ditas ao ouvido, as indiretas, todo o
arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do
que ela.
Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres nas informações, na redação,
na assiduidade ao trabalho, mesmo os doutores, os bacharéis, do que os que têm nomeada e fama.
Em geral, a incompreensão da obra ou do mérito do colega é total e nenhum deles se pode capacitar
que aquele tipo, aquele amanuense, como eles, faça qualquer cousa que interesse os estranhos e dê
que falar a uma cidade inteira.
A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e
superiores. Já se viu! dizia o secretário. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa!
Pretensioso! O diretor, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não
cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista era o menos terrível, mas
chamou-o logo de doido.
O major sentia bem aquele ambiente falso, aquelas alusões e isso mais aumentava o seu desespero e
a teimosia na sua idéia. Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades,
essa má vontade geral; era uma cousa inocente, uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o
assentimento de todo o mundo; e meditava, voltava à idéia, e a examinava com mais atenção.
A extensa publicidade, que o fato tomou, atingiu o palacete de Real Grandeza, onde morava o seu
compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construções de prédios, viúvo, o antigo
quitandeiro retirara-se dos negócios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e
tinha todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha, um imenso
monograma sobre a porta da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e outros
detalhes equivalentes.
A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, tinha um razoável jardim na
frente, que avançava pelos lados, pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo
calor os pássaros morriam tristemente. Era uma instalação burguesa, no gosto nacional, vistosa,
cara, pouco de acordo com o clima e sem conforto.
No interior o capricho dominava, tudo obedecendo a uma fantasia barroca, a um ecletismo
desesperador. Os móveis se amontoavam, os tapetes, as sanefas, os bibelots e a fantasia da filha,
irregular e indisciplinada, ainda trazia mais desordem àquela coleção de cousas caras.
Viúvo, havia já alguns anos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha, quem o
encaminhava nas distrações e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tirania. Queria
casar a filha, bem e ao gosto dela, não punha, portanto, nenhum obstáculo ao programa de Olga.
Em começo, pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre, uma espécie de arquiteto que não
desenhava, mas projetava casas e grandes edifícios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou
resistência, mas não encontrou também assentimento. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da
menina, aquele seu ar distante de heroína, a sua inteligência, o seu fantástico não se dariam bem
com as rudezas e a simplicidade campônias de seu auxiliar.
Ela quer um doutor - pensava ele - que arranje! Com certeza, não terá ceitil, mas eu tenho e as
cousas se acomodam.
Ele se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquês ou o barão de sua terra natal. Cada terra
tem a sua nobreza; lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito aceitável
comprar a satisfação de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis.
25
Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos da menina. Gostando de dormir
cedo, tinha que perder noites e noites no Lírico, nos bailes; amando estar sentado em chinelas a
fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de
modas atrás da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um frasco
de perfume.
Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas cheio de complacência de pai que quer enobrecer o filho,
a dar opinião sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de
sentimento daquelas cousas que se adivinhava até no pagá-las. Mas ele ia, demorava-se e
esforçava-se por entrar no segredo, no mistério, cheio de tenacidade e candura perfeitamente
paternais.
Até aí ele ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam bastante as visitas, as colegas da
filha, suas irmãs, com seus modos de falsa nobreza, os seus desdéns dissimulados, deixando
perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade das amigas e das colegas de
Olga.
Não se aborrecia, porém, muito profundamente; ele assim o quisera e a fizera, tinha que se
conformar. Quase sempre, quando chegavam tais visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da
casa. Entretanto, não lhe era sempre possível fazer isso; nas grandes festas e recepções tinha que
estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta nobreza da terra que o
freqüentava. Ele ficara sempre empreiteiro, com poucas idéias além do seu ofício, não sabendo
fingir, de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de casamentos, de bailes de festas e
passeios caros.
Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e sempre perdia. Chegou
mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e
muito, mas não foi isso que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos - uma ninharia! A
questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso,
pareceu-lhe simples distração do distinto jornalista e famoso advogado. Um homem honesto não ia
fazer aquilo! E na segunda, seria também? E na terceira?
Não era possível tanta distração. Adquiriu a certeza da trampolinagem, calou-se, conteve-se com
uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez
e o passe foi posto em prática, Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade
deste mundo:
- Os senhores sabem que há agora, na Europa, um novo sistema de jogar o poker?
- Qual é? perguntou alguém.
- A diferença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos parceiros, somente.
Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar, e a ganhar, despediu-se à meia-noite cheio de
delicadeza, fez alguns comentários sobre a partida e não voltou mais.
Conforme o seu velho hábito, Coleoni lia de manhã os jornais, com o vagar e a lentidão de homem
pouco habituado à leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.
Ele não compreendeu bem o requerimento, mas os jornais faziam tanta troça, caíam tão a fundo
sobre a cousa, que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa, tendo
praticado, por inadvertência, alguma falta grave.
Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mas daí quem sabe?
Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilhéria...
Apesar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nele não
só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício, como um duplo respeito pelo major,
oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio.
Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos
camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado; e, como, apesar dos bastos anos de
Brasil, ainda não sabia juntar o saber aos títulos, tinha em grande consideração a erudição do
compadre.
26
Não é, pois, de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que os
jornais reprovavam. Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que ele queria dizer. Chamou
a filha.
- Olga!
Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque; mas, quando falava português, punha nas
palavras uma rouquidão singular, e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões
italianas.
- Olga, que quer dizer isto? Non capisco...
A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal o requerimento e os comentários.
- Che! Então?
- O padrinho quer substituir o português pela língua tupi, entende o senhor?
- Como?
- Hoje, nós não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi.
- Tutti?
- Todos os brasileiros, todos.
- Ma che cousa! Não é possível?
- Pode ser. Os tchecos têm uma língua própria, e foram obrigados a falar alemão, depois de
conquistados pelos austríacos; os lorenos, franceses...
- Per la madonna! Alemão é língua, agora esse acujelê, ecco!
- Acujelê é da África, papai; tupi é daqui.
- Per Bacco! É o mesmo... Está doido!
- Mas não há loucura alguma, papai.
- Como? Então é cousa de um homem bene?
- De juízo, talvez não seja; mas de doido, também não.
- Non capisco.
- É uma idéia, meu pai, é um plano, talvez à primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas não de
todo doido. É ousado, talvez, mas...
Por mais que quisesse, ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai. Neste falava
o bom senso e nela o amor às grandes cousas, aos arrojos e cometidos ousados. Lembrou-se de que
Quaresma lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de
admiração pelo atrevimento do major, não foi decerto o de reprovação ou lástima; foi de piedade
simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia há tantos anos,
seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.
- Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.
E ele tinha razão. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita
de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. Em princípio, o subsecretário
suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o supunham insciente no tupi, irritou-se,
encheu-se de uma raiva surda, que se continha dificilmente. Como eram cegos! Ele que há trinta
anos estudava o Brasil minuciosamente; ele que, em virtude desses estudos, fora obrigado a
aprender o rebarbativo alemão, não saber tupi, a língua brasileira, a única que o era - que suspeita
miserável!
Que o julgassem doido - vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações, não! E ele
pensava, procurava meios de se reabilitar, caía em distrações, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa
quotidiana. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo o dia, e a outra, na
preocupação de provar que sabia o tupi.
O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fora grande e
ele mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre cousas
de Mato Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da
sala, com acento escarninho:
- Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
27
Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na
minuta, fosse pela alusão do funcionário Carmo, o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a
peça oficial para o idioma indígena.
Ao acabar, deu com a distração, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram,
para que ele examinasse. Novas preocupações afastaram a primeira, esqueceu-se e o ofício em tupi
seguiu com os companheiros. O diretor não reparou, assinou e o tupinambá foi dar ao ministério.
Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que língua era? Consultou-se o Doutor
Rocha, o homem mais hábil da secretaria, a respeito do assunto. O funcionário limpou o pince-nez,
agarrou o papel, voltou-o de trás para diante, pô-lo de pernas para o ar e concluiu que era grego, por
causa do “yy”.
O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio, porque era bacharel em direito e não dizia
cousa alguma.
- Mas, indagou o chefe, oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas estrangeiras?
Creio que há um aviso de 84... Veja, senhor Doutor Rocha...
Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de legislação, andou-se de mesa em mesa
pedindo auxílio à memória de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Doutor Rocha,
após três dias de meditação, foi ao chefe e disse com ênfase e segurança:
- O aviso de 84 trata de ortografia.
O diretor olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de
empregado zeloso, inteligente e... assíduo. Foi informado de que a legislação era omissa no tocante
à língua em que deviam ser escritos os documentos oficiais; entretanto não parecia regular usar
uma que não fosse a do país.
O ministro, tendo em vista esta informação e várias outras consultas, devolveu o ofício e censurou
o Arsenal.
Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam furiosamente, os contínuos andavam numa
dobadoura terrível e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em chegar.
Censurado! monologava o diretor. Ia-se por água abaixo o seu generalato. Viver tantos anos a
sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um
escriturário!
Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
O secretário chegou, foi ao gabinete do diretor. Inteirado do motivo, examinou o ofício e pela letra
conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. Mande-o cá, disse o coronel. O major encaminhou-
se pensando nuns versos tupis que lera de manhã.
- Então o senhor leva a divertir-se comigo, não é?
- Como? fez Quaresma espantado.
- Quem escreveu isso?
O major nem quis examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distração e confessou com firmeza:
- Fui eu.
- Então confessa?
- Pois não. Mas Vossa Excelência não sabe...
- Não sabe! que diz?
O diretor levantou-se da cadeira, com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. Tinha
sido ofendido três vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de
ensino que freqüentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento científico do
mundo. Além disso escrevera no Pritaneu, a revista da escola, um conto - “A Saudade” - produção
muito elogiada pelos colegas. Dessa forma, tendo em todos os exames plenamente e distinção, uma
dupla coroa de sábio e artista cingia-lhe a fronte. Tantos títulos valiosos e raros de se encontrarem
reunidos, mesmo em Descartes ou Shakespeare, transformavam aquele - não sabe - de um
amanuense em ofensa profunda, em injúria.
- Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de
Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática, Astronomia, Física, Química, Sociologia e Moral?
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Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho aí,
pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo, 10 em Mecânica, 8 em Astronomia, 10 em
Hidráulica, 9 em Descritiva? Então?!
E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava
fuzilado.
- Mas, senhor coronel...
- Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.
Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fora seu propósito duvidar da sabedoria do seu diretor.
Ele não tinha nenhuma pretensão a sábio e pronunciara a frase para começar a desculpa; mas,
quando viu aquela enxurrada de saber, de títulos, a sobrenadar em águas tão furiosas, perdeu o fio
do pensamento, a fala, as idéias e nada mais soube nem pôde dizer.
Saiu abatido, como um criminoso, do gabinete do coronel, que não deixava de olhá-lo
furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser.
Saiu afinal. Chegando à sala do trabalho nada disse; pegou no chapéu, na bengala e atirou-se pela
porta afora, cambaleando como um bêbado. Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros.
Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros.
- Cedo, hein major?
- É verdade.
E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo avançou algumas
palavras:
- O major, hoje, parece que tem uma idéia, um pensamento muito forte.
- Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
- É bom pensar, sonhar consola.
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens...
E os dous separaram-se. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a Rua do Ouvidor,
com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canelas, sobraçando o violão na sua armadura
de camurça.

V
O Bibelot
Não era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de
pedra, com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e Nossa Senhora da
Piedade; penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas, atravessara o átrio ladrilhado, deixando à
esquerda e à direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério da loucura; subira
outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no
seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso
dever de amizade, visitando Quaresma. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao
certo; uns três ou quatro meses, se tanto.
Só o nome da casa metia medo. O hospício! É assim como uma sepultura em vida, um semi-
enterramento, enterramento do espírito, da razão condutora, de cuja ausência os corpos raramente
se ressentem. A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida,
prolongar a existência, quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde.
Com que terror, uma espécie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de inimigo invisível e
onipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes
uma boa morte, diziam.
No primeiro aspecto, não se compreendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo por
aquela casa imensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janelas
gradeadas, a se estender por uns centos de metros, em face do mar imenso e verde, lá na entrada da
baía, na Praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos,
como monges em recolhimento e prece.
29
De resto, com aquela entrada silenciosa, clara e respeitável, perdia-se logo a idéia popular da
loucura; o escarcéu, os trejeitos, as fúrias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali.
Não havia nada disso; era uma calma, um silêncio, uma ordem perfeitamente naturais. No fim,
porém, quando se examinavam bem, na sala de visitas, aquelas faces transtornadas, aqueles ares
aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheados e mergulhados em um sonho
íntimo sem fim, e via-se também a excitação de uns, mais viva em face à atonia de outros, é que se
sentia bem o horror da loucura, o angustioso mistério que ela encerra, feito não sei de que
inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real, para se apossar e viver das aparências das
cousas ou de outras aparências das mesmas.
Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado,
sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer cousa ele nos invade, nos
toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós
mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais
semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após.
E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Com o seu
padrinho, como fora? A princípio, aquele requerimento... Mas que era aquilo? Um capricho, uma
fantasia, cousa sem importância, uma idéia de velho sem conseqüência. Depois, aquele ofício? Não
tinha importância, uma simples distração, cousa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura
declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa...
Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de
imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do
seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava
fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde saía, de que ponto
do seu ser tomava conhecimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um
cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça, e enchia-o de indiferença para tudo mais
que não fosse o seu próprio delírio.
A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. Para ele, nada disso valia,
nada disso tinha existência e importância. Eram sombras, aparências; o real eram os inimigos, os
inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar. A velha irmã, atarantada,
atordoada, sem direção, sem saber que alvitre tomar. Educada em casa sempre com um homem ao
lado, o pai, depois o irmão, ela não sabia lidar com o mundo, com negócios, com as autoridades e
pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiência e ternura de irmã, oscilava entre a
crença de que aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples.
Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava, chamando a si
os interesses da família e evitando a demissão de que estava ameaçado, transformando-a em
aposentadoria, que seria dele? Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado,
honesto, com emprego seguro, tinha uma aparência inabalável; entretanto bastou um grãozinho de
sandice...
Estava há uns meses no hospício, o seu padrinho, e a irmã não o podia visitar. Era tal o seu abalo de
nervos, era tal a emoção ao vê-lo ali naquela meia-prisão, decaído dele mesmo que um ataque se
seguia e não podia ser evitado.
Vinham ela e o pai, às vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram só os três a visitá-lo.
Aquele domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo, nas proximidades do
mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda. O ar era macio e docemente o sol
faiscava nas calçadas.
O pai vinha lendo os jornais e ela, pensando, de quando em quando folheando as revistas ilustradas
que trazia para alegrar e distrair o padrinho.
Ele estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ela teve um certo pudor em se
misturar com os visitantes.
Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias; recalcou porém, dentro de si,
esse pensamento egoísta, o seu orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em destaque
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a sua elegância natural. Amava esses sacrifícios, essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza
deles, e ficou contente consigo mesma.
No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Como
em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda a gente, de várias condições,
nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam
também a sua rasoura pelas distinções que inventamos.
Os bem-vestidos e os mal-vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e os bonitos, os inteligentes e
os néscios, entravam com respeito, com concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se
penetrassem noutro mundo.
Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas, fumo, meias, chinelas, às
vezes livros e jornais. Dos doentes uns conversavam com os parentes; outros mantinham-se
calados, num mutismo feroz e inexplicável; outros indiferentes; e era tal a variedade de aspectos
dessas recepções que se chegava a esquecer o império da doença sobre todos aqueles infelizes,
tanto ela variava neste ou naquele, para se pensar em caprichos pessoais, em ditames das vontades
livres de cada um.
E ela pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos tristes que
de alegres, e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e como que dá o
próprio movimento da vida.
Verificando isso, quase teve satisfação, pois a sua natureza inteligente e curiosa se comprazia nas
mais simples descobertas que seu espírito fazia.
Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer
completamente. Chocando-se com aquele meio, houve logo nele uma reação salutar e necessária.
Estava doido, pois se o punham ali...
Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do
bigode já grisalho. Tinha emagrecido um pouco, os cabelos pretos estavam um pouco brancos, mas
o aspecto geral era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar, mas
quando a mania lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado. Ao vê-los disse amavelmente:
- Então vieram sempre... Estava à espera...
Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada.
- Como está Adelaide?
- Bem. Mandou lembranças e não veio porque... adiantou Coleoni.
- Coitada! disse ele, e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste; em seguida,
perguntou:
- E o Ricardo?
A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e alegria. Via-o já escapo à semi-
sepultura da insânia.
- Está bom, padrinho. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase acabada.
Coleoni tinha-se sentado. Quaresma também e a moça estava de pé, para melhor olhar o padrinho
com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar. Guardas, internos e médicos passavam
pelas portas com a indiferença profissional. Os visitantes não se olhavam, pareciam que não
queriam conhecer-se na rua. Lá fora, era o dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melancólico,
as montanhas a se recortar num céu de seda - a beleza da natureza imponente e indecifrável.
Coleoni, embora mais assíduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com satisfação que
errava na sua fisionomia, num ligeiro sorriso. Num dado momento aventurou:
- O major já está muito melhor; quer sair?
Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:
- É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incomodar-te tanto, mas vocês que têm sido tão
bons, hão de levar tudo isso para conta da própria bondade. Quem tem inimigos deve ter também
bons amigos...
O pai e a filha entreolharam-se; o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas queriam
rebentar. A moça interveio de pronto:
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- Sabe, padrinho, vou casar-me.
- É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos preveni-lo.
- Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.
- É um rapaz...
- Decerto, interrompeu o padrinho sorrindo.
E os dous acompanharam-no com familiaridade e contentamento. Era um bom sinal.
- É o Senhor Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez Olga gentilmente.
- Então é para depois do fim do ano.
- Esperamos que seja por aí, disse o italiano.
- Gostas muito dele? indagou o padrinho.
Ela não sabia responder aquela pergunta. Queria sentir que gostava, mas estava que não. E por que
casava? Não sabia... Um impulso do seu meio, uma cousa que não vinha dela - não sabia... Gostava
de outro? Também não. Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo que a ferisse, não
tinham o “quê”, ainda indeterminado na sua emoção e na sua inteligência, que a fascinasse ou
subjugasse. Ela não sabia bem o que era, não chegava e extremar na percepção das suas inclinações
a qualidade que ela queria ver dominante no homem. Era o heróico, era o fora do comum, era a
força de projeção para as grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos,
quando as idéias e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher e registrar esse
anelo, esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino.
E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção. É tão difícil ver nitidamente num homem,
de vinte a trinta anos, o que ela sonhara que era bem possível tomasse a nuvem por Juno... Casava
por hábito de sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a
sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho:
- Gosto.
A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rápida, não convinha fatigar a
atenção do convalescente. Os dous saíram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos.
Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde. Como não estivesse o veículo no ponto,
foram indo ao longo da fachada do manicômio até lá. Em meio do caminho, encontraram,
encostada ao gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ela:
- Que tem, minha velha?
A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar, úmido e doce, cheio de uma irremediável
tristeza e respondeu:
- Ah, meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!
E continuou a chorar. Coleoni começou a comover-se; a filha olhou-a com interesse e perguntou no
fim de um instante:
- Morreu?
- Antes fosse, sinhazinha.
E por entre lágrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, não lhe respondia às
perguntas; era como um estranho. Enxugou as lágrimas e concluiu:
- Foi “cousa-feita”.
Os dous afastaram-se tristes, levando n’alma um pouco daquela humilde dor.
O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas
brancas. O Pão de Açúcar erguia-se negro, hirto, solene, das ondas espumejantes, e como que
punha uma sombra no dia muito claro.
No Instituto dos Cegos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair
daquelas cousas todas, da sua tristeza e da sua solenidade.
O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no Largo da Carioca. É bom ver-se a
cidade nos dias de descanso, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os
passos ressoam como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhe as
carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma loja ou
32
outra, os filhos do negociante brincam em velocípedes, atiram bolas e ainda mais se sente a
diferença da cidade no dia anterior.
Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos e só encontravam, por vezes, casais que
iam apressadamente a visitas, como eles agora. O Largo de São Francisco estava silencioso e a
estátua, no centro daquele pequeno jardim que desapareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes
chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que
os levasse à casa de Quaresma. Lá foram. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras já
apareciam nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros, grupos de caixeiros
com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas antediluvianas ao lado de
vestidos pesados de cetim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentárias; e o
domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a
ostentação dos tolos.
Dona Adelaide não estava só. Ricardo viera visitá-la e conversavam. Quando o compadre de seu
irmão bateu no portão, ele contava à velha senhora o seu último triunfo:
- Não sei como há de ser, Dona Adelaide. Eu não guardo as minhas músicas, não escrevo - é um
inferno!
O caso era de pôr um autor em maus lençóis. O Senhor Paysandón, de Córdova (República
Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escrito, pedindo exemplares de suas
músicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escritos, mas a música não. É
verdade que as sabia de cor, porém, escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua
força.
- É o diabo! continuou ele. Não é por mim; a questão é que se perde uma ocasião de fazer o Brasil
conhecido no estrangeiro.
A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação que se fizera,
vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admitir que ele
preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, suportava a mania de
Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos
suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. Os
pequenos serviçais e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo de Ricardo, que os
desempenhara com boa vontade e diligência.
Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo. É um trabalho
árduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria burocrática. Aposentado o sujeito,
solenemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser
ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou
fazendo o cálculo; e a cousa demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica celeste.
Coleoni era o procurador do major, mas não sendo entendido em cousas oficiais, entregou ao
Coração dos Outros aquela parte do seu mandato.
Graças à popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a resistência da máquina burocrática e
a liquidação estava anunciada para breve.
Foi isso que ele anunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha. Pediram, tanto ele como
Dona Adelaide, notícias do amigo e do irmão.
A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou compreendendo melhor; mas o
sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.
Ricardo Coração dos Outros gostava do major, encontrara nele certo apoio moral e intelectual de
que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples diletantes; mas
o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra.
De resto, ele agora sofria particularmente - sofria na sua glória, produto de um lento e seguido
trabalho de anos. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar
força e já era citado ao lado do seu.
Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das
suas teorias.
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Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso
tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento. Se o seu rival
tocasse piano e por isso ficasse célebre, não havia mal algum; ao contrário: o talento do rapaz
levantava a sua pessoa, por intermédio do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o
inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso violão que ele tanto
estimava. E além disso com aquelas teorias! Ora! Quer que a modinha diga alguma cousa e tenha
versos certos! Que tolice!
E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um
obstáculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua glória. Precisava afastá-lo, esmagá-lo,
mostrar a sua superioridade indiscutível; mas como?
A réclame já não bastava; o rival a empregava também. Se ele tivesse um homem notável, um
grande literato, que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra, a vitória estava certa. Era difícil
encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francesas...
Pensou num jornal, O Violão, em que ele desafiasse o rival e o esmagasse numa polêmica.
Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, atualmente recolhido ao hospício,
mas felizmente em via de cura. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo
estava melhor.
- Não pude ir hoje, disse ele, mas irei domingo. Está mais gordo?
- Pouca cousa, disse a moça.
- Conversou bem, acrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.
- Vai casar-se, Dona Olga? Parabéns.
- Obrigada, fez ela.
- Quando é, Olga? perguntou Dona Adelaide.
- Lá para o fim do ano... Tem tempo...
E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento.
E ela se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações, impudentes e irritantes;
queria fugir à conversa, mas voltavam ao mesmo assunto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide,
mais loquaz e curiosa que comumente. Esse suplício que se repetia em todas as visitas, quase a
fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. Por fim, achou um subterfúgio, perguntando:
- Como vai o general?
- Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Ele deve andar bem, a Ismênia é que anda triste,
desolada - coitadinha!
Dona Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do general. Cavalcanti,
aquele Jacó de cinco anos, embarcara para o interior, há três ou quatro meses, e não mandara nem
uma carta nem um cartão. A menina tinha aquilo como um rompimento; e ela, tão incapaz de um
sentimento mais profundo, de uma aplicação mais séria de energia mental e física, sentia-o muito,
como cousa irremediável que absorvia toda a sua atenção.
Para Ismênia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. Arranjar outro
era problema insolúvel, era trabalho acima de suas forças. Cousa difícil! Namorar, escrever
cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios - ela não podia mais com isso. Decididamente, estava
condenada a não se casar, a ser tia, a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a
apavorava. Quase não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz
duro e fortemente ósseo; independente da memória dele, vinha-lhe sempre à consciência, quando,
de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, essa outra idéia: não casar. Era um castigo... A
Quinota ia casar-se, o Genelício já estava tratando dos papéis; e ela que esperara tanto, e fora a
primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia até que ambos estavam
contentes com aquela fuga inexplicável de Cavalcanti. Como eles se riam durante o carnaval!
Como eles atiraram aos seus olhos aquela sua viuvez prematura, durante os folguedos
carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar bem claro a
felicidade de ambos, aquela marcha gloriosa e invejada para o casamento, em face do seu
abandono.
34
Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles que lhe parecia indecente e hostil; mas o escárnio
da irmã que lhe dizia constantemente: “Brinca, Ismênia! Ele está longe, vai aproveitando” - metia-
lhe raiva, a raiva terrível de gente fraca, que corrói interiormente, por não poder arrebentar de
qualquer forma.
Então, para espantar os maus pensamentos, ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua, marchetada
de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem à
sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquele ruído de atabaques e adufes, de tambores
e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como que a idéia que a
perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.
De resto, aqueles vestuários extravagantes de índios, aqueles adornos de uma mitologia
francamente selvagem, jacarés, cobras, jabutis, vivos, bem vivos, traziam à pobreza de sua
imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas imensas, lugares de sossego e pureza que a
reconfortavam.
Também aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro e de uma grande indigência melódica,
vinham como reprimir a mágoa que ia nela, abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão
de gritos, mas para o que não lhe sobrava força bastante e suficiente.
O noivo partira um mês antes do carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior.
Sem hábitos de leitura e de conversa, sem atividade doméstica qualquer, ela passava os dias
deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.
Nas horas da entrega da correspondência, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a carta
não vinha, e voltava ao seu pensamento: não casar.
Dona Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismênia, comentou:
- Merecia um castigo isso, não acham?
Coleoni interveio com brandura e boa vontade:
- Não há razão para desesperar. Há muita gente que tem preguiça de escrever...
- Qual! fez Dona Adelaide. Há três meses, Senhor Vicente!
- Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.
- E ela ainda o espera, Dona Adelaide? perguntou Olga.
- Não sei, minha filha. Ninguém entende essa moça. Fala pouco, se fala diz meias palavras... É
mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.
- É orgulho? perguntou ainda Olga.
- Não, não... Se fosse orgulho, ela não se referia de vez em quando ao noivo. É antes moleza,
preguiça... parece que ela tem medo de falar para que as cousas não venham a acontecer.
- E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni.
- Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incômodo do general não é grande e Dona Maricota
julga que ela deve arranjar “outro”.
- Era o melhor, disse Ricardo.
- Eu creio que ela não tem mais prática, disse sorrindo Dona Adelaide. Levou tanto tempo noiva...
E a conversa já tinha virado para outros assuntos, quando a Ismênia veio fazer a sua visita diária à
irmã de Quaresma.
Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava. O sofrimento dava-lhe mais atividade à
fisionomia.
As pálpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão.
Indagou da saúde de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim Dona Adelaide lhe
perguntou:
- Recebeste carta, Ismênia?
- Ainda não, respondeu ela, com grande economia de voz.
Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veio atirar ao chão uma
figurinha de biscuit, que se esfacelou em inúmeros fragmentos, quase sem ruído.


35
SEGUNDA PARTE


1
No “Sossego”
Não era feio o lugar, mas não era belo. Tinha, entretanto, o aspecto tranqüilo e satisfeito de quem se
julga bem com a sua sorte.
A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau, formando a subida para a maior altura
de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da cerca, olhava
uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regato de águas paradas e sujas
cortava-a paralelamente à testada da casa; mais adiante, o trem passava vincando a planície com a
fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e de outro lado, saía da esquerda e
ia ter à estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A habitação de Quaresma tinha
assim um amplo horizonte, olhando para o levante, a “noruega”, e era também risonha e graciosa
nos seus caiados. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas de campo,
possuía, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janelas, e uma varanda com uma colunata
heterodoxa. Além desta principal, o sítio do “Sossego”, como se chamava, tinha outras construções:
a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria
coberta de sapê.
Não havia três meses que viera habitar aquela casa, naquele ermo lugar, a duas horas do Rio, por
estrada de ferro, após ter passado seis meses no hospício da praia das Saudades. Saíra curado?
Quem sabe lá? Parecia; não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora,
sob tal aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se irá a loucura,
mas o sonho que cevara durante tantos anos. Foram mais seis meses de repouso e útil seqüestração
que mesmo de uso de uma terapêutica psiquiátrica.
Quaresma viveu lá, no manicômio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde
via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sábios a maldizer da sabedoria,
ignorantes a se proclamarem sábios; mas, deles todos, daquele que mais se admirou, foi de um
velho e plácido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha Átila. Eu, dizia o pacato velho,
sou Átila, sabe? Sou Átila. Tinha fracas notícias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou
Átila, matei muita gente - e era só.
Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as cousas tristes de ver, no
mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente.
Aquela continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo imperceptível, mas profundo e
quase sempre insondável, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que
nós, que nos guia, que nos impele e em cujas mãos somos simples joguetes. Em vários tempos e
lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera
de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é
alguém que vê por ele, interpreta as cousas por ele, está atrás dele, invisível!...
Quaresma saiu envolvido, penetrado da tristeza do manicômio. Voltou a sua casa, mas a vista das
suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. Embora nunca
tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento moral,
e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedicava a
modestas culturas.
Não fora ele, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe à idéia aquele doce acabar
para a sua vida. Vendo-o naquele estado de abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sair,
enclausurado em sua casa de São Cristóvão, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e
filialmente:
- O padrinho por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas, ter o seu pomar, a
sua horta... não acha?
36
Tão taciturno que ele estivesse, não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia à
lembrança da moça. Era um velho desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna;
e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu à afilhada:
- É verdade, minha filha. Que magnífica idéia tens tu! Há por aí tantas terras férteis sem emprego...
A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo... O milho pode dar até duas colheitas e
quatrocentos por um...
A moça esteve quase arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia atear no espírito do
padrinho manias já extintas.
- Em toda a parte - não acha, meu padrinho? - há terras férteis.
- Mas como no Brasil, apressou-se ele em dizer, há poucos países que as tenham. Vou fazer o que
tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata-inglesa... Tu irás ver as minhas culturas, a
minha horta, e meu pomar - então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras!
A idéia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado e só esperava uma boa
semente. Não lhe voltou a alegria que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento
moral, e veio-lhe a atividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou dos
preços correntes das frutas, dos legumes, das batatas, dos aipins; calculou que cinqüenta laranjeiras,
trinta abacateiros, oitenta pessegueiros, outras árvores frutíferas, além dos abacaxis (que mina!),
das abóboras e outros produtos menos importantes, podiam dar o rendimento anual e mais de
quatro contos, tirando as despesas. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus cálculos,
baseados em tudo que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional. Levou
em linha de conta a produção média de cada pé de fruteira, de hectare cultivado, e também os
salários, as perdas inevitáveis; e, quanto aos preços, ele foi em pessoa ao mercado buscá-los.
Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos.
Encarou-a por todas as faces, pesou as vantagens e ônus; e muito contente ficou em vê-la
monetariamente atraente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma
demonstração das excelências do Brasil.
E foi obedecendo a essa ordem de idéia que comprou aquele sítio, cujo nome - “Sossego” - cabia
tão bem à nova vida que adotara, após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. Não
ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor
demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho agrícola. Esperava grandes
colheitas de frutas, de grãos, de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores,
estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro, virente e abundante a
dispensar os argentinos e europeus.
Com que alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São Januário, agora
propriedade de outras mãos, talvez destinada ao mercenário mister de lar de aluguel... Não sentiu
que aquela vasta sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos anos, fosse servir para salão de
baile fútil, fosse testemunhar talvez rixas de casais desentendidos, ódios de família - ela tão boa, tão
doce, tão simpática, com o seu teto alto e as suas paredes lisas, em que se tinham incrustado os
desejos de sua alma e toda ela penetrava da exalação dos seus sonhos!...
Ele foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano, tirado da
terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria
ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho?
Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico,
sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre,
alegre e saudável?
E era agora que ele chegava a essa conclusão, depois de ter sofrido a miséria da cidade e o
emasculamento da repartição pública, durante tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que
não pudesse, antes da morte, travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das
terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas
instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida, era uma forte base
37
agrícola, um culto pelo seu solo ubérrimo, para alicerçar fortemente todos os outros destinos que
ela tinha de preencher.
Demais, com terras tão férteis, climas variados, a permitir uma agricultura fácil e rendosa, este
caminho estava naturalmente indicado.
E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras em flor, olentes, muito brancas, a se enfileirar
pelas encostas das colinas, como teorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar
com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis
coroados que nem reis, recebendo a unção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores
carnudas cheias de pólen; as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado; os pêssegos
veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas capitosas; e dentre tudo aquilo surgia uma
linda mulher, com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um
imaterial sorriso demorado de deusa - era Pomona, a deusa dos vergéis e dos jardins!...
As primeiras semanas que passou no “Sossego”, Quaresma as empregou numa exploração em regra
da sua nova propriedade. Havia nela terra bastante, velhas árvores frutíferas, um capoeirão grosso
com camarás, bacurubus, tinguacibas, tabebuias, munjolos, e outros espécimes. Anastácio, que o
acompanhara, apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava
os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.
O major logo organizou um museu dos produtos naturais do “Sossego”. As espécies florestais e
campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares, e quando era possível com os
científicos. Os arbustos, em herbário, e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e
transversalmente.
Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a
Quaresma sólidas noções de Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia.
Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inventário; os animais também, mas
como ele não tinha espaço suficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado,
Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas de
tatus, cutias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, avinhados, coleiros, tiês, etc. A parte mineral
era pobre, argilas, areia e, aqui e ali, uns blocos de granito esfoliando-se.
Acabado esse inventário, passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma relação
de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura.
Encomendou livros nacionais, franceses, portugueses; comprou termômetros, barômetros,
pluviômetros, higrômetros, anemômetros. Vieram estes e foram arrumados e colocados
convenientemente.
Anastácio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta cousa, tanto livro, tanto
vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A dúvida do preto velho não durou
muito. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviômetro, Anastácio, ao lado, olhava-o espantado,
como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado e disse:
- Sabes o que estou fazendo, Anastácio?
- Não “sinhô”.
- Estou vendo se choveu muito.
- Para que isso, patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco... Isso de
plantar é capinar, pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar.
Ele falava com a sua voz mole de africano, sem “rr” fortes, com lentidão e convicção.
Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o conselho de seu empregado. O
capim e o mato cobriam as suas terras. As laranjeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos,
cheios de galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabeleira de erva-de-passarinho; mas como
não fosse época própria à poda e ao corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os
pés das fruteiras. De manhã, logo ao amanhecer, ele mais o Anastácio, lá iam, de enxada ao ombro,
para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão estava no auge, mas Quaresma era
inflexível e corajoso. Lá ia.
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Era de vê-lo, coberto com um chapéu de palha de coco, atracado a um grande enxadão de cabo
nodoso, ele, muito pequeno, míope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de
guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento
agrícola. Anastácio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto andar naquele sol a
capinar sem saber?... Há cada cousa neste mundo!
E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rápido, raspando o mato rasteiro, com a mão
habituada, a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo, destruindo a erva má;
Quaresma, furioso, a arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada arbusto e,
às vezes, quando o golpe falhava e a lâmina do instrumento roçava a terra, a força era tanta que se
erguia uma poeira infernal, fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de
cavalaria. Anastácio, então, intervinha humildemente, mas em tom professoral:
- Não é assim, “seu majó”. Não se mete a enxada pela terra adentro. É de leve, assim.
E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento de trabalho.
Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usá-lo da maneira
ensinada. Era em vão. O flange batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar
uma piada irônica: bem-te-vi! O major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, suava, enchia-se
de raiva e batia com toda a força; e houve várias vezes que a enxada, batendo em falso, escapando
ao chão, fê-lo perder o equilíbrio, cair, a beijar a terra, mãe dos frutos e dos homens. O pince-nez
saltava, partia-se de encontro a um seixo.
O major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia à tarefa que se impusera; mas,
tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado trabalho de tirar o sustento de
nossa vida, que não foi impossível a Quaresma acordar nos seus o jeito, a maneira de empregar a
enxada vetusta.
Ao fim de um mês, ele capinava razoavelmente, não seguido, de sol a sol, mas com grandes
repousos de hora em hora que a sua idade e falta de hábito requeriam.
Às vezes, o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos, lado a lado, à sombra de uma fruteira
mais copada, ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das
árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. Então, aí por depois do meio-
dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira, é que o velho
major percebia bem a alma dos trópicos, feita de desencontros como aquele que se via agora, de um
sol alto, claro, olímpico, a brilhar sobre um torpor de morte, que ele mesmo provocava.
Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente sobre um improvisado
fogão de calhaus, e o trabalho ia assim até à hora do jantar. Havia em Quaresma um entusiasmo
sincero, entusiasmo de ideólogo que quer pôr em prática a sua idéia. Não se agastou com as
primeiras ingratidões da terra, aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incompreensível
ódio pela enxada fecundante. Capinava e capinava sempre até vir jantar.
Esta refeição ele fazia mais demorada. Conversava um pouco com a irmã, contava-lhe a tarefa do
dia, consistindo sempre em avaliar a área já limpa.
- Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará nem mais uma touceira de mato.
A irmã, mais velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas cousas da roça.
Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo.
Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a
sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera
deputado? Era tão bonito... Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira!
Seguira-o ao “Sossego” e, para entreter-se, criava galinhas, com grande alegria do irmão cultivador.
- Está direito, dizia ela, quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. Não vá ficares
doente... Neste sol todo o dia...
- Qual, doente, Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí... Se adoecem, é
porque não trabalham.
Acabado o jantar, Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro e atirava migalhas de pão
às aves.
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Ele gostava desse espetáculo, daquela luta encarniçada entre patos, gansos, galinhas, pequenos e
grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos prêmios que ela comporta. Depois, fazia
indagações sobre a vida do galinheiro:
- Já nasceram os patos, Adelaide?
- Ainda não. Faltam oito dias ainda.
E logo a irmã acrescentava:
- Tua afilhada deve casar-se sábado, tu não vais?
- Não. Não posso... Vou incomodar-me, luxo... mando um leitão e um peru.
- Ora, tu! Que presente!
- Que é que tem? É da tradição.
Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa
roceira, quando Anastácio veio avisar-lhe que se achava um cavalheiro na porteira.
Desde que ali se instalara, nenhuma visita batera à porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do
lugar, a pedir isso ou aquilo, esmolando disfarçadamente. Ele mesmo não travara conhecimento
com ninguém, de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.
Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Ele já subia a pequena escada da frente e
penetrava pela varanda adentro.
- Boas-tardes, major.
- Boas-tardes. Faça o favor de entrar.
O desconhecido entrou e sentou-se. Era um tipo comum, mas o que havia nele de estranho era a
gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto desonesto. Parecia que a fizera de
repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a
de um lagarto que entesoura enxúndia para o inverno ingrato. Através da gordura de suas
bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era
naquela idade, com pouco mais de trinta anos, sem dar tempo que todo ele engordasse; porque, se
as duas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ágeis.
O visitante falou:
- Eu sou o Tenente Antonino Dutra, escrivão da coletoria...
- Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
- Nenhuma, major. Já sabemos quem o senhor é; não há novidade nem nenhuma exigência legal.
O escrivão tossiu, tirou um cigarro, ofereceu outro a Quaresma e continuou:
- Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incomodá-lo... Não é
cousa de importância... Creio que o major...
- Oh! Por Deus, tenente!
- Venho pedir-lhe um pequeno auxílio, um óbulo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de
cuja irmandade sou tesoureiro.
- Perfeitamente. É muito justo. Apesar de não ser religioso, estou...
- Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do lugar que devemos manter.
- É justo.
- O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade também, de
forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já,
portanto, major...
- Não. Espere um pouco...
- Oh! major, não se incomode. Não é para já.
Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fora e acrescentou:
- Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, major?
- Muito bem.
- Pretende dedicar-se à agricultura?
- Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
- Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sítio já foi uma lindeza, major! Quanta fruta!
Quanta farinha! As terras estão cansadas e...
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- Qual cansadas, Seu Antonino! Não há terras cansadas... A Europa é cultivada há milhares de anos,
entretanto...
- Mas lá se trabalha.
- Por que não se há de trabalhar aqui também?
- Lá isso é verdade; mas há tantas contrariedades na nossa terra que...
- Qual, meu caro tenente! Não há nada que não se vença.
- O senhor verá com o tempo, major. Na nossa terra não se vive senão de política, fora disso,
babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...
Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a
ingênua fisionomia de Quaresma.
- Que questão é? indagou Quaresma.
O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
- Então não sabe?
- Não.
- Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto, moço honesto, bom orador; mas
entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se hão de sobrepor ao
governo, só porque o Senador Guariba rompeu com o governador; e - zás - apresentaram um tal
Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influência... Que pensa o senhor?
- Eu... Nada!
O serventuário do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no
município de Curuzu, não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o governador do
Estado! Não era possível! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse ele consigo, este malandro
quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem dificuldade. Estava tirando sardinha com
mão de gato... Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas daquele
“estrangeiro”, que vinha não se sabe donde!
- O major é um filósofo, disse ele com malícia.
- Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de penetrar
nas tenções ocultas do major, apagou a fisionomia e disse em ar de despedida:
- Então o major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
- Decerto.
Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno
castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desapareceu na estrada, e o major
ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais,
como se nelas houvesse qualquer cousa de vital e importante. Não atinava por que uma rezinga
entre dous figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da
esfera daqueles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não exigia ela uma árdua luta
diária? Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos, de atas, no
trabalho de fecundá-la, de tirar dela seres, vidas - trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo
estar a pensar em governadores e guaribas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ela quer
carinho, luta, trabalho e amor...
O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo.
O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa
de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicações com o resto do mundo. Há
uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se
também más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mistério, e traz, além de notícias gerais,
boas ou más, também o gesto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e estão longe.
Quaresma esperou o trem. Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação afora à
luz forte do sol poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e saiu a levar notícias, amigos,
riquezas, tristezas por outras estações além. O major pensou ainda um pouco como aquilo era bruto
41
e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os
nossos educadores de dous mil anos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava à estação. Vinha
um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o
homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquele chapéu dobrado, como um morrião...
Aquele fraque comprido... Passo miúdo... Um violão! Era ele!
- Adelaide, está aí o Ricardo.

II
Espinhos e Flores
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. A
topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram,
porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas
surgiam como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas
delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos
inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante, outras se afastam, e deixam
de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas
sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar
uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os
gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e
acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha
rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-
se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da
qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo
pouco classificável, que parece vexada a querer ocultar-se, diante daquela onda de edifícios
disparatados e novos.
Não há nos nossos subúrbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades
européias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e
cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque
os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios em
certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma
importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre
um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal
juntos.
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes
empane o brilho do vestido; há operário de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de
chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa
mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.
Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no
espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito.
Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos
aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos,
é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um
rigor londrino.
Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas.
Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fabricantes de
rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros,
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catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas
pequena e grande burguesias não podem adivinhar. Às vezes, num cubículo desses se amontoa uma
família, e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem.
Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. Não era
das sórdidas, mas era uma casa de cômodos dos subúrbios.
Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina, olhando da
janela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos.
Vistos assim do alto, os subúrbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de
branco, de oca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali,
um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho
das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática, de solidariedade perfeita entre as
gentes que as habitavam; e o trem minúsculo, rápido, atravessa tudo aquilo, dobrando à esquerda,
inclinando-se para a direita, muito flexível nas suas grandes vértebras de carros, como uma cobra
entre pedrouços.
Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triunfos e
também os seus sofrimentos e mágoas.
Ainda agora estava ele lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a
vista uma grande parte daquela bela, grande e original cidade, capital de um grande país, de que ele
a modos que era e se sentia ser, a alma, consubstanciado os seus tênues sonhos e desejos em versos
discutíveis, mas que a plangência do violão, se não lhes dava sentido, dava um quê de balbucio, de
queixume dorido da pátria criança ainda, ainda na sua formação...
Em que pensava ele? Não pensava só, sofria também. Aquele tal preto continuava na sua mania de
querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival dele,
Ricardo; outros já afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais -
ingratos! - já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do
levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infância, daquela sua aldeia sertaneja, da casinha
dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitelos... E o queijo? Aquele queijo tão substancial,
tão forte, feio como aquela terra, mas feraz como ela tanto que bastava comer dele uma pequena
fatia para se sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o
Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: “Irás longe, Ricardo. A viola. A viola quer teu
coração.”
Por que então aquele encarniçamento, aquele ódio contra ele - ele que trouxera para esta terra de
estrangeiros a alma, o suco, a substância do país!
E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá
longe... Era bela a terra, era linda, era majestosa, mas parecia ingrata e áspera no seu granito
onipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das árvores.
E ele estava ali só, só com a sua glória e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só
como um deus ou como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
Sofria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no solo
indiferente. Por aí, lembrou-se dos famosos versos:

Se choro... bebe o pranto a areia ardente...

Com a lembrança, ele baixou um pouco o olhar à terra e viu, que, no tanque da casa, um tanto
escondida dele, uma rapariga preta lavava. Ela abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o
seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro à pedra, e recomeçava. Teve pena daquela pobre
mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua cor. Veio-lhe um afluxo de ternura e, depois,
pôs-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleado no enigma do nosso
miserável destino humano.
A rapariga não o viu, distraída com o trabalho; e se pôs a cantar:
43

Da doçura dos teus olhos
A brisa inveja já tem

Era dele. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher, abraçá-la...
E como eram as cousas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga; era a sua humilde e dorida voz que
vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos do padre Caldas, esse seu
antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas:

Lereno alegrou os outros
E nunca teve alegria...

Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:
- Vai bem, Dona Alice, vai bem! Se não fosse, por que eu lhe pedia bis?
A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
- Não sabia que o senhor estava aí, senão não cantava na vista do senhor.
- Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
- Deus me livre! Para o senhor me “acriticar”...
Embora insistisse muito, a rapariga não quis continuar. As mágoas pareciam ter passado do
pensamento de Ricardo. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção de escrever.
O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível. Havia uma rede com franjas de rendas, uma
mesa de pinho, sobre ela objetos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a
uma parede, o violão na sua armadura de camurça. Havia também uma máquina para fazer café.
Sentou-se e quis começar uma modinha sobre a Glória, essa cousa fugace, que se tem e se pensa
que não se tem, alguma cousa impalpável, incolhível como um sopro, que nos alanceia, queima,
inquieta e abrasa como o Amor.
Tentou começar, dispôs o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha
sido lavrada, baralhada, com a idéia daquele furto que se queria fazer ao seu mérito. Não conseguiu
assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a música zumbir no ouvido.
A manhã ia alta. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar
e o céu estava de um azul ligeiro”, tênue, fino. Quis sair, procurar um amigo, espairecer com ele,
mas quem? Ainda se o Quaresma... Ah! o Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.
É verdade que ultimamente esse seu amigo se achava pouco interessado pela modinha; mas assim
mesmo compreendia o seu propósito, os fins e o alcance da obra a que ele, Ricardo, se propunha.
Ainda se o major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dous mil-
réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram à porta. Traziam-lhe uma carta.
Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:
“Meu caro Ricardo - Saúde - Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ela e o
noivo fazem muito gosto que você apareça. Se o amigo não estiver comprometido com alguém,
agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco - Seu amigo Albernaz.”
O trovador, à proporção que lia, ia mudando de fisionomia. Até então estava carregada e dura;
quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ela, descia e subia, ia de uma face a
outra. O general não o abandonara; para o respeitável militar, Ricardo Coração dos Outros ainda
era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um
pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um ídolo benfazejo.
Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o último brinde havia sido levantado e
todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. Dona Maricota vestia seda malva e o
seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquele tecido caro que parece requerer
corpos elegantes e flexíveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ela era alta, de feições
mais regulares que a irmã Ismênia, mas menos interessante e mais comum de temperamento e
alma, embora faceira. Lalá, a terceira filha do general, que já se ajeitava a moça, tinha muito pó-de-
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arroz, estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem
cotado e esperado. Genelício dava o braço à noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha
bem à mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.
Ricardo não os viu passar, pois, ao entrar, a fila estava no general, metido num segundo uniforme
dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem
tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante
Caldas. Fora padrinho e estava irrepreensível na sua casaca do uniforme. As âncoras reluziam como
metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e
pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismênia estava de rosa e
andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando
providências. O Lulu, o único filho do general, impava no seu uniforme do Colégio Militar, cheio
de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, graças aos empenhos do pai.
O general não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou,
agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um - “sou muito feliz...” - deitando a cabeça de lado e
sorrindo para o chão, sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel.
Deram começo às danças e o general, o almirante, o Major Inocêncio Bustamante, que também
viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorário, o Doutor Florêncio, Ricardo e dous
convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
O general estava satisfeito. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e enfim
pela primeira vez via realizado esse anseio.
A Ismênia foi aquela desgraça... O ingrato!... Mas para que recordar?
Os cumprimentos se repetiram.
- É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e enquanto o limpava,
respondeu, olhando com aquele jeito dos míopes:
- Estou muito contente.
Por aí pôs o pince-nez, endireitou o trancelim e continuou:
- Creio que casei bem minha filha: rapaz formado, bem encaminhado e inteligente.
O almirante acudiu:
- E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dois anos primeiro escriturário do
Tesouro, é cousa nunca vista.
- O Genelício não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florêncio.
- Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recém-
casado.
De fato, Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só isso que o decidira a casar-se.
Tendo escrito uma - Síntese de Contabilidade Pública Científica - viu-se, sem saber como,
cumulado de elogios pela “imprensa desta capital”. O ministro, atendendo ao mérito excepcional da
obra, mandou-lhe dar dous contos de prêmio, tendo sido a edição feita à custa do Estado, na
Imprensa Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas páginas, tipo doze, escrito em estilo de
ofício com uma vasta documentação de decretos e portarias, ocupando dous terços do livro.
A primeira frase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico, fora
até muito notada e gabada pelos críticos, não só pela novidade da idéia, como também pela beleza
da expressão.
Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa
e receita do Estado.”
Além do prêmio e da transferência, ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga.
Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados novos, o major não pôde
deixar de observar:
- Depois da militar, a melhor carreira é a da Fazenda, não acham?
- Sim... Bem entendido, fez o Doutor Florêncio.
- Eu não quero falar dos formados, apressou-se o major. Esses...
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Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira frase que lhe veio
aos lábios:
- Quando se prospera, todas as profissões são boas.
- Não é assim tanto, obtemperou o almirante, alisando um dos favoritos. Não é para desfazer das
outras, mas a nossa, hein, Albernaz? hein, Inocêncio?
Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou:
- É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um,
grita outro como em Curupaiti, então...
- O senhor esteve lá, general? perguntou o convidado amigo de Genelício.
- Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi - você sabe,
não é, Inocêncio?
- Se estive lá...
- Polidoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores à esquerda e “nós” caímos sobre os paraguaios. Mas
os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
- Foi “seu” Mitre, disse Inocêncio.
- Foi. Atacamos com fúria. Era ribombar de canhões que metia medo, bala por todo o canto, os
homens morriam como moscas... Um inferno!
- Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
Todos se entreolharam admirados, exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai
excepcional.
- Foram os paraguaios, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa
profissão é bela, mas tem as suas “cousas”...
- Isso não quer dizer nada. Também na passagem de Humaitá... ia dizendo o almirante.
- O senhor estava a bordo?
- Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque
equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaitá...
Na sala de visitas as danças continuavam com animação. Era raro que alguém viesse de dentro até
onde eles estavam. Os risos, a música, e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens
das suas preocupações belicosas.
O general, o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos, contando batalhas
em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.
Não há como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para
apreciar as narrações de guerra. Ele só vê a parte pitoresca, a parte por assim dizer espiritual das
batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de somenos. A Morte mesmo,
nas narrações feitas assim, perde a sua importância trágica: três mil mortos, só!!!
De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a cousa ficava
edulcorada, uma guerra bibliothèque rose, guerra de estampa popular, em que não aparecem a
carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normais.
Estavam Ricardo, o Doutor Florêncio, o exato empregado como engenheiro das Águas, aqueles
dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das
proezas imaginárias daqueles três militares, um honorário, talvez o menos pacífico dos três, o único
que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira - quando Dona Maricota chegou
sempre diligente, ativa, dando movimento e vida à festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda
inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo
enorme. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido:
- Então, Chico, que é isso? Ficou aí e eu que faça sala, que anime as moças... Pra sala todos!
- Já vamos, Dona Maricota, disse alguém.
- Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, “seu” Caldas, “seu” Ricardo, os senhores!
E foi empurrando um a um pelo ombro.
- Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, “seu”
Ricardo!
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- Pois não, minha senhora. É uma ordem...
E foram. No caminho o general parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
- Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
- Vai bem.
- Tem-lhe escrito?
- Às vezes. Eu queria, general...
O general suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cair, e perguntou:
- O quê?
Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma
ligeira hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder as palavras:
- Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vê-lo.
O general esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabelo e disse:
- Isso é difícil, mas você apareça lá, na repartição, amanhã.
E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros acrescentou:
- Estou com saudades dele, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem
nome...
- Vá lá amanhã.
Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:
- Vocês não vêm!
- Já vamos, fez o general.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
- Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta
anos, que não pego em livro...
Chegaram à sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos
retratos a óleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava
completa. Da mobília não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dançantes.
A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas
casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo pôde
ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os
“serenos”, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o
Tenente Fontes. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar. Foi ao piano, colocou a partitura e começou.
Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem-
educada. Acabou. Palmas gerais, mas frias, soaram.
O Doutor Florêncio que ficara atrás do general, comentou:
- Tem uma bela voz esta moça. Quem é?
- É a filha do Lemos, o Doutor Lemos da Higiene, respondeu o general.
- Canta muito bem.
- Está no último ano do Conservatório, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o vilão, afinou-o, correu a escala;
em seguida, tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa:
“Senhoritas, senhores e senhoras.” Parou. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus
braços’. Modinha de minha composição, música e versos. É uma composição terna, decente e de
uma poesia exaltada.” Seus olhos, por aí, quase saíam das órbitas. Emendou: “Espero que nenhum
ruído se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui... to ‘dê-li-
cá-do’. Bem.”
A atenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebundo, macio e longo, como soluço de
onda; depois, houve uma parte rápida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um
andamento e outro, a modinha acabou.
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Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens.
As palmas foram ininterruptas. O general abraçou-o, Genelício levantou-se e deu-lhe a mão.
Quinota, no seu imaculado vestido de noiva, também.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu à sala de jantar. No corredor chamavam-no: “Senhor
Ricardo, Senhor Ricardo!” Voltou-se. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia
uma cópia da modinha.
- Não se esqueça, dizia ela com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão
ternas, tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar.
A noiva de Cavalcanti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome perguntou:
- Que é Dulce?
A outra explicou-se. Ela aceitou a incumbência e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz
dolente:
- “Seu” Ricardo, quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide?
- Depois de amanhã, espero eu.
- Vai lá?
- Vou.
- Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.

III
Golias
No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e
giboso Genelício, glória e orgulho do nosso funcionalismo público, Olga casara-se. A cerimônia
correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos
parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que
não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não
encontrar dentro de si motivo para aquele ato, mas, aparentemente, nenhuma vontade estranha à sua
influíra para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta
que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo médico, cheio de talento nas notas e recompensas
escolares, via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. Não
tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal título um foral de nobreza, equivalente àqueles com
que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees.
Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe
dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e
medalhas, a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”.
Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título, o pergaminho; é verdade que foi, não
tanto pelo título, mas pela sua simulação de inteligência, de amor à ciência, de desmedidos sonhos
de sábio. Tal imagem que dele fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inércia da sociedade, a
sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ela,
de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a ele igual, e o melhor era não adiar.
Era por isso que ela não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade,
embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela.
Apesar da pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. Não obstante as origens puramente
européias, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma fisionomia
irradiante de felicidade; e, desse modo, ela desaparecia dentro do vestido, dos véus e daqueles
atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. De resto, a sua beleza não era a
grande beleza - aquela que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas
clássicas.
No seu rosto, nada de grego, desse grego autêntico ou de pacotilha, ou também dessa majestade de
ópera lírica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua fisionomia era profunda e
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própria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quase cobriam toda a cavidade orbitária,
fazia fulgurar o seu rosto móbil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade,
malícia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.
Ao contrário do costume, não saíram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não fora à festa, mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa carta. O
sítio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-
se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se
começasse a desertar da batalha.
O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veio
distraí-lo um pouco, sem desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas.
Passou um mês com o major, e foi um triunfo. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo
o município o disputava e festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a
estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de
rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros,
cortava planícies e rios em toscas pontes. A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga,
determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação da velha com a
estrada de ferro. Elas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras
partiam delas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até
acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova,
Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro, partia a da
Matriz, que ia ter à igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesuítico. À esquerda da
estação, num campo, a Praça da República, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas,
ficava a Câmara Municipal.
Era um grande paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas de grade de ferro, puro estilo
mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma
natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média.
Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro, Salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O
fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes, um
deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado.
Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos, presidente da
Câmara, festa que teria lugar na quarta-feira próxima.
Chegara sábado e fora passear à vila domingo.
Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. A concorrência nunca é grande na roça, mas
Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas e tristes, ataviadinhas, cheias de
laços, descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo
entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. Foi na saída da missa
que lhe apresentaram o Doutor Campos.
Era o médico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de “aranha” com a sua filha,
Nair, assistir o ofício religioso.
O trovador e o médico estiveram um instante conversando, enquanto a filha, muito magra, pálida,
com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua.
Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil.
À festa do Doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a
alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se bem que o major
tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente
nacional. As conseqüências desastrosas do seu re- querimento em nada tinham abalado as suas
convicções patrióticas. Continuavam as suas idéias profundamente arraigadas, tão-somente ele as
escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens.
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Gozava, portanto, a fulminante vitória de Ricardo, que indicava bem naquela população a
existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos
estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Doutor
Campos, Presidente da Câmara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquela manhã até
esperava um dos cavalos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a
Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:
- Major, foi uma boa idéia vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
- Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas.
- Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha?
- Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra.
- Até aí não vou. Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu
levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo, você
vai ser deputado”, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais
desferir os trenos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vaza, major.
- Cada um tem as suas teorias.
- Decerto. Outra cousa, major: conhece o Doutor Campos?
- De nome.
- Sabe que ele é presidente da Câmara?
Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. O menestrel não notou o
gesto do amigo e emendou:
- Mora daqui a uma légua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele.
- Fazes bem.
- Ele quer conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui?
- Podes.
Um camarada do Doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido.
Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora
dous, pois, além do Anastácio, que não era bem um empregado, mas agregado, admitira o
Felizardo.
Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura.
Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre
aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros.
Esvoaçavam tiés-vermelhos, bandos de coleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas
negras no verdor das árvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento,
parece que tinham saído à luz, não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza.
Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fora para auxiliar esse
serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas
pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma aparência de fraqueza
muscular, não havia ninguém mais valente que ele a roçar. Com isto era um tagarela incansável. De
manhã, quando chegava, aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do município.
O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado norte do sítio, que o capão invadira. Obtido
ele, o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervalos batatas-
inglesas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro
estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno,
eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais
grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele removia para longe, onde então
queimaria em coivaras pequenas.
Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas prometia dar
um rendimento maior ao plantio.
Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Há quem cante, ele
falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção.
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- Essa gente anda acesa por aí, disse Felizardo logo que o major chegou.
Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa, raras não. Anastácio era
silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa
postura hierática de uma pintura mural tebana. O major perguntou ao Felizardo:
- Que é que há, Felizardo?
O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e
respondeu com a sua fala branda e chiante:
- Negócio de política... “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”.
- Onde?
- Na estação.
- Por quê?
- Negócio de partido. Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô
Campo” é pelo “senadô”... Um “sarcero”, patrão!
- E você, por quem é?
Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a
remover. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador.
Respondeu afinal:
- Eu! Sei lá... Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro “sinhô”.
- Eu sou como você, Felizardo.
- Quem me dera, meu “sinhô”. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”.
Afastou-se com o pau; e, quando voltou, Quaresma indagou assustado:
- Quem disse?
- Não sei, não “sinhô”. Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol, tanto assim que “doutô
Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade.
- Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a
ninguém... Qual amigo!
- “Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão “tá” é varrendo a testada.
Apesar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a idéia de
que ele fosse amigo do Marechal Floriano. “Conheci-o no meu emprego” - dizia o major; Felizardo
sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.”
Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquilo? Demais, as palavras
de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo
fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos; os entusiasmos dele,
entretanto, junto à vontade de ser bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum
perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em
breve, porém, esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando foi jantar, já nem mais se
lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem
sombra alguma de cogitações por parte dele.
Dona Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se à cabeceira; Quaresma à
direita e à esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador.
- Gostou muito do passeio, Senhor Ricardo?
Não havia meio dela dizer “seu”. A sua educação de “senhora” de outros tempos não lhe permitia
usar esse plebeísmo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portuguesa, dizer “senhor” e
continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
- Muito. Que lugar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
E ele tomava aquela atitude de arroubo; uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz
cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
- Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
- Hoje acabei uma modinha.
- Como se chama? indagou Dona Adelaide.
- “Os lábios da Carola”.
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- Bonito! Já fez a música?
Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo à boca; deixou-o suspenso
entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:
- A música, minha senhora, é a primeira cousa que faço.
- Hás de no-la cantar logo.
- Pois não, major.
Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio. Fora essa a única
concessão que ao amigo fizera Policarpo, no tocante ao regime de seus trabalhos agrícolas. Levava
sempre o pedaço de pão, que esfarelava em migalhas no galinheiro, para ver a atroz disputa entre as
aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquelas vidas, criadas, mantidas e protegidas para
sustento da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e
ávidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do peru, imponente, fazendo roda, a dar estouros
presunçosos. Em seguida ia ao chiqueiro; assistia Anastácio dar a ração, despejando-a nos cochos.
O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se, dificilmente, e solenemente vinha
mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham
com a mãe chafurdar-se na comida.
A avidez daqueles animais era deveras repugnante, mas os seus olhos tinham uma longa doçura
bem humana que os fazia simpáticos.
Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos
esquecidos a contemplá-las numa demorada interrogação muda. Sentavam-se a um tronco de
árvore; e Quaresma olhava o céu alto, enquanto Coração dos Outros contava qualquer história.
A tarde ia adiantada. A terra já começava a amolecer, pelo fim daquele beijo ardente e demorado do
sol. Os bambus suspiravam; as cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos,
o major voltou-se. Padrinho! Olga!
Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro, com as
mãos presas. E vieram aquelas estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos: Quando
chegaste? Não esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous; Anastácio
tirara o chapéu e olhava a “sinhazinha”, com o seu terno e vazio olhar de africano.
Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passou a vista pelos quatro pontos
e Quaresma perguntou:
- Quedê teu marido?
- O doutor?... Está lá dentro.
O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. Não lhe parecia bem aquela intimidade
com um sujeito sem título, sem posição brilhante e sem fortuna. Ele não compreendia como o seu
sogro, apesar de tudo um homem rico, de outra esfera, tinha podido manter e estreitar relações com
um pequeno empregado de uma repartição secundária, e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário
se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade
nacional. Mas, em definitivo, quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito, de
uma particular consideração, ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram trocadas
e satisfeitas.
Dona Adelaide, mulher velha, do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar, possuía em
si uma particular reverência, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difícil demonstrá-lo
quando se viu diante do Doutor Armando Borges, de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia.
Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquele seu
sobre-humano prestígio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, à
proporção que conversava, talvez para que o efeito não se dissipasse, virava com a mão direita o
grande anelão “simbólico”, o talismã, que cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito de
marquise.
Conversaram muito. O jovem par contou a agitação política do Rio, a revolta da fortaleza de Santa
Cruz; Dona Adelaide, a epopéia da mudança, móveis quebrados, objetos partidos. Pela meia-noite
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todos foram dormir com uma alegria particular, enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o
seu grave hino à transcendente beleza do céu negro, profundo e estrelado.
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o
doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o título. Era o O Município,
órgão local, hebdomadário, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; ele
aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Pôs o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e
descobriu o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente.
Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda
descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele - “verdadeiros estrangeiros que se
vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense, perturbando-lhe a paz e a
tranqüilidade”.
Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre
versos.
Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas:

POLÍTICA DE CURUZU

Quaresma, meu bem, Quaresma!
Quaresma do coração!
Deixa as batatas em paz
Deixa em paz o feijão.

Jeito não tens para isso
Quaresma, meu cocumbi!
Volta à mania antiga
De redigir em tupi.

Olho vivo.

O major ficou estuporado. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava, não achava o
motivo e o fundo de semelhante ataque. A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma
estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: “Lê isto, Adelaide.”
A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. Ela tinha aquela
ampla maternidade das solteironas; pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da
mulher pelas dores dos outros. Enquanto ela lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com
política? E coçava os cabelos já bastante encanecidos.
Dona Adelaide disse então docemente:
- Sossega, Policarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho:
- O senhor se meteu algum dia nessa política daqui?
- Eu nunca!... Vou até declarar que...
- Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
- Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. Notaram a
alteração de Quaresma. Estava pálido, tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça.
- Que há, major? indagou o troveiro.
As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois contou o que ouvira
na vila. Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de fazer política, tanto assim que
dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuía remédios homeopáticos... O
Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo.
- E não desmentiste? perguntou Quaresma.
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Ricardo afirmou que sim, mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus propósitos de
ataque.
O major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo com seu gênio, incubou nos
primeiros tempos a impressão, e, enquanto estiveram com ele os seus amigos, não demonstrou
preocupação.
Olga e o marido passaram no “Sossego” cerca de quinze dias. O marido, ao fim de uma semana, já
parecia cansado. Os passeios não eram muitos. Em geral, os nossos lugarejos célebres, assim como
na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica.
Em Curuzu, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas léguas da casa de
Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Doutor
Campos já travara relações com o major e, graças a ele, houve cavalos e silhão que também
permitisse à moça ir à cachoeira.
Foram de manhã, o presidente da Câmara, o doutor, sua mulher e a filha de Campos. O lugar não
era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em três partes,
pelo flanco da montanha abaixo. A água estremecia na queda, como que se enrodilhava e vinha
pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que
toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre
a água ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde
mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações daquele salão fantástico.
Olga pôde ver tudo isso bem à vontade, andando de um para outro lado, porque a filha do
presidente era de um silêncio de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre
novidades medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético?
O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o
ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros idéia de que eram
felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e
não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de
varas, como o esqueleto de um doente. Por que ao redor dessas casas não havia culturas, uma horta,
um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era
raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador.
Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um
milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça
só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar
relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda a parte, os casais, as famílias, as tribos,
plantam um pouco algumas cousas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões
desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles
párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!...
Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos, indagaria,
observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. Aquilo era uma situação do
camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face
humana e voz articulada...
Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho, aproveitou a ocasião para interrogar a
respeito o tagarela Felizardo. A faina do roçado ia quase no fim; o grande trato da terra estava
quase inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do sítio.
Olga encontrou o camarada cá embaixo, cortando a machado as madeiras mais grossas; Anastácio
estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas caídas. Ela lhe falou:
- Bons-dias, “sá dona”.
- Então trabalha-se muito, Felizardo?
- O que se pode.
- Estive ontem no Carico, bonito lugar... Onde é que você mora, Felizardo?
- É doutra banda, na estrada da vila.
- É grande o sítio de você?
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- Tem alguma terra, sim, senhora, “sá dona”.
- Você por que não planta para você?
- “Quá, sá dona!” O que é que a gente come?
- O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.
- “Sá dona tá” pensando uma cousa e a cousa é outra. Enquanto planta cresce, e então? “Quá, sá
dona”, não é assim.
Deu uma machadada; o tronco escapou; colocou-o melhor no picador e, antes de desferir o
machado, ainda disse:
- Terra não é nossa... E “frumiga”?... Nós não “tem” ferramenta... isso é bom para italiano ou
“alamão”, que o governo dá tudo... Governo não gosta de nós...
Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas partes, quase iguais, de um
claro amarelado, onde o cerne escuro começava a aparecer.
Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara, mas não pôde.
Era certo. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionais; para os
outros todos os auxílios e facilidades, não contando com a sua anterior educação e apoio dos
patrícios.
E a terra não era dele? Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela
vira até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse acaparamento, esses latifúndios
inúteis e improdutivos?
A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar mais no problema. Foi vindo para casa, tanto mais
que era hora de jantar e a fome lhe chegava.
Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquele perdera um pouco da sua morgue; havia
mesmo ocasião em que era até natural. Quando ela chegou, o padrinho exclamava:
- Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do
mundo!
- Mas se esgotam, major, observou o doutor.
Dona Adelaide, calada, seguia com atenção o crochet que estava fazendo; Ricardo ouvia, com os
olhos arregalados; e Olga intrometeu-se na conversa:
- Que zanga é essa, padrinho?
- É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos... Isto é até uma
injúria!
- Pois fique certo, major, se eu fosse o senhor, aduziu o doutor, ensaiava uns fosfatos...
- Decerto, major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar violão, não queria aprender
música... Qual música! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje vejo que é preciso... É assim,
resumia ele.
Todos se entreolharam, exceto Quaresma que logo disse com toda a força d’alma:
- Senhor doutor, o Brasil é o país mais fértil do mundo, é o mais bem-dotado e as suas terras não
precisam “empréstimos” para dar sustento ao homem. Fique certo!
- Há mais férteis, major, avançou o doutor.
- Onde?
- Na Europa.
- Na Europa!
- Sim, na Europa. As terras negras da Rússia, por exemplo.
O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante:
- O senhor não é patriota! Esses moços...
O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. À noite, o
menestrel cantou a sua última produção: “Os Lábios da Carola.” Suspeitava-se que Carola fosse
uma criada do Doutor Campos; mas ninguém aludiu a isso. Ouviram-no com interesse e ele foi
muito aclamado. Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide; e, antes das onze horas, estavam
todos recolhidos.
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Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, pôs-se a ler um
velho elogio das riquezas e opulências do Brasil.
A casa estava em silêncio; do lado de fora, não havia a mínima bulha. Os sapos tinham suspendido
um instante a sua orquestra noturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer
esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinário! pensou. Da despensa, que ficava
junto a seu aposento, vinha um ruído estranho. Apurou o ouvido e prestou atenção. Os sapos
recomeçaram o seu hino. Havia vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia à outra,
num dado instante todas se juntaram num uníssono sustentado. Suspenderam um instante a música.
O major apurou o ouvido; o ruído continuava. Que era? Eram uns estalos tênues; parecia que
quebravam gravetos, que deixavam outros cair ao chão... Os sapos recomeçaram; o regente deu
uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas
cinco páginas. Os batráquios pararam; a bulha continuava. O major levantou-se, agarrou o castiçal
e foi à dependência da casa donde partia o ruído, assim mesmo como estava, em camisa de dormir.
Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do pé. Quase
gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à
sua pele magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe
tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes
tinham sido deixados abertos por inadvertência. O chão estava negro, e carregadas com os grãos,
elas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterrânea.
Quis afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez mais o exército
aumentava. Veio uma, mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés,
subindo pelo seu corpo. Não pôde agüentar, gritou, sapateou e deixou a vela cair.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquele ínfimo inimigo que,
talvez, nem mesmo à luz radiante do sol, o visse distintamente...

IV
“Peço Energia, Sigo Já”
Dona Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro anos mais que ele. Era uma bela velha, com
um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquela pátina da grande velhice, uma espessa
cabeleira já inteiramente amarelada e um olhar tranqüilo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de
inteligência lúcida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; contudo, nunca
houve entre eles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ela não entendia
nem procurava entender a substância do irmão, e sobre ele em nada reagia aquele ser metódico,
ordenado e organizado, de idéias simples, médias e claras.
Ela já atingira aos cinqüenta e ele para lá marchava; mas ambos tinham ar saudável, poucos
achaques, e prometiam ainda muita vida. A existência calma, doce e regrada que tinham levado até
ali concorrera muito para a boa saúde de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos
quarenta e ela nunca tivera qualquer.
Para Dona Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma casa, jantar e almoço,
vestuário, tudo modesto, médio. Não tinha ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara
príncipes, belezas, triunfos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu
necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ela sempre se sentiu completa.
O seu aspecto tranqüilo e o sossego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda,
emolduravam e realçavam naquele interior familiar a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.
Não se vá supor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Felizmente não. Na aparência
até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se
examinassem os seus hábitos, gestos e atitudes logo se havia de ver que o sossego e a placidez não
moravam no seu pensamento.
Ocasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe o horizonte, perdido em
cisma; outras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o
olhar no chão, demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava depois um
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muxoxo, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação
ou uma frase.
Anastácio, em tais instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os sabia
mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custódio com o Manduca
da venda; e o trabalho marchava.
Inútil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras
horas do dia, eles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ela superintendendo o
serviço doméstico.
As outras pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do
major, pelo simples motivo de que estavam longe.
Ricardo havia seis meses que não lhe visitara e da afilhada e do compadre as últimas cartas que
recebera datavam de uma semana, não vendo aquela há tanto tempo, quanto ao trovador, e aquele
desde quase um ano, isto é, o tempo em que estava no “Sossego”.
Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras. Os
seus hábitos não foram mudados e a sua atividade continuava sempre a mesma. É verdade que
deixara de parte os instrumentos de meteorologia.
O higrômetro, o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações
registradas num caderno. Dera-se mal com eles. Fosse inexperiência e ignorância das bases teóricas
deles, fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia, baseada em
combinações dos seus dados, saía errada. Se esperava tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava
chuva, lá vinha seca.
Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos, com aquele grosso e
cavernoso sorriso de troglodita:
- “Quá” patrão! Isso de chuva vem quando Deus “qué”.
O barômetro aneróide continuava a um canto a dançar o seu ponteiro sem ser percebido; o
termômetro de máxima e mínima, legítimo Casella, jazia pendurado na varanda sem receber um
olhar amigo; a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de bebedouro às aves; só o
anemômetro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no alto do mastro, como se
protestasse contra aquele desprezo pela ciência que Quaresma representava.
Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora tendo deixado de
ser pública, lavrava ocultamente. Havia no seu espírito e no seu caráter uma vontade de acabá-la de
vez, mas como? Se não o acusavam, se não articulavam nada contra ele diretamente? Era um
combate com sombras, com aparências, que seria ridículo aceitar.
De resto, a situação geral que o cercava, aquela miséria da população campestre que nunca
suspeitara, aquele abandono de terras à improdutividade encaminhavam sua alma de patriota
meditativo a preocupações angustiosas.
Via o major com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade, de apoio
mútuo. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados, isolados, em famílias geralmente
irregulares, sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, tinham bem perto
o exemplo dos portugueses que, unidos aos seis e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado
roças de certa importância, lucrar e viver. Mesmo o velho costume do “moitirão” já se havia
apagado.
Como remediar isso?
Quaresma desesperava...
A tal afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má fé ou estúpida, e estúpido ou
de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares, sem se preocupar com os que já
existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado, fossem
introduzidas mais três, para aumentar o estrume!...
Pelo seu caso, ele via bem as dificuldades, os óbices de toda a sorte que havia para fazer a terra
produtiva e remunerada. Um fato veio mostrar-lhe com eloqüência um dos aspectos da questão.
Vencendo a erva-de-passarinho, os maus-tratos e o abandono de tantos anos, os abacateiros de suas
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terras conseguiram frutificar, fracamente é verdade, mas de forma superior às necessidades de sua
casa.
A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra,
sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro
que os queria comprar por preços ínfimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Andou de
porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Senhor Azevedo
no Mercado, o rei das frutas. Lá foi.
- Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
- Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia
cinco mil-réis.
- Em porção, o senhor sabe que... É isso... Enfim, se quer mande-os...
Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôs uma das mãos na cava do colete e quase de costas
para o major:
- É preciso vê-los... O tamanho influi...
Quaresma os mandou e, quando lhe veio o dinheiro, teve a satisfação orgulhosa de quem acaba de
ganhar uma grande batalha imortal. Acariciou uma por uma aquelas notas encardidas, leu-lhes bem
o número e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa e muito tempo levou
sem ânimo de trocá-las.
Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões, o salário
dos auxiliares e, após esse cálculo que não era laborioso, teve a evidência de que ganhara mil e
quinhentos réis, nem mais nem menos. O Senhor Azevedo tinha-lhe pago pelo tanto a quantia com
que se compra uma dúzia.
Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e ele viu naquele ridículo lucro objeto para maior
contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
Foi, portanto, com redobrada atividade que se pôs ao trabalho. Para o ano, o lucro seria maior.
Tratava-se agora de limpar as fruteiras. Anastácio e Felizardo continuavam ocupados nas grandes
plantações; contratou um outro empregado para ajudá-lo no tratamento das velhas flores frutíferas.
Foi, pois, com o Mané Candeeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores, os galhos mortos e
aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. Era árduo e difícil o trabalho. Tinham às
vezes que subir às grimpas para a extirpação do galho atingido; os espinhos rasgavam as roupas e
feriam as carnes; e em muitas ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o
camarada.
Mané Candeeiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de caça; mas cantava que nem
passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingênuas, onde com surpresa o major
não via entrar a fauna, a flora locais, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente
sensuais e muito ternas, melosas até; por acaso lá vinha uma em que um pássaro local entrava;
então o major escutava:

Eu vou dar a despedida
Como deu o bacurau,
Uma perna no caminho
Outra no galho de pau.

Este bacurau que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. A observação
popular já começava a interessar-se pelo espetáculo ambiente, já se emocionava com ele e a nossa
raça deitava, portanto, raízes na grande terra que habitava. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de
São Cristóvão. Felizardo dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso, pois todas aquelas caçadas
de caititus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poético, principalmente no
desafio: o moleque é bom!
Ele era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amolecidas pelo
sangue africano.
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Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços; mas,
sinceramente, não a encontrou.
Com auxílio de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras daquele
velho sítio abandonado há quase dez anos. Quando o serviço ficou pronto, ele viu com tristeza
aquelas velhas árvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Parecia sofrer e ele
se lembrou das mãos que as tinham plantado há vinte ou trinta anos, escravos, talvez, banzeiros e
desesperançados!...
Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse, e o renascimento das árvores como
que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tiés-
vermelhos, com o seu pio pobre, espécie de ave tão inútil e tão bela de plumas que parece ter
nascido para os chapéus das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão
capinado; pelo correr do dia, eram os sanhaçus a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens
de coleiros; e de tarde como que todos eles se reuniam, piando, cantando, chilreando, pelas altas
mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do
velho Major Quaresma.
Não durou muito essa alegria. Um inimigo apareceu inopinadamente, com a rapidez ousadíssima de
um general consumado. Até ali ele se mostrara tímido, parecia que somente mandava
esclarecedores.
Desde aquele ataque às provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas
reapareceram; mas, naquela manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a
alma, e ficou sem ação e as lágrimas lhe vieram aos olhos.
O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera
cerca de meio palmo acima da terra; o major até mandara buscar o sulfato de cobre para a solução
em que ia lavar a batata-inglesa a plantar nos intervalos dos pés.
Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de
coma cor de vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos
tinham sido cortados e levados para longe! “A modo que é obra de gente” disse Felizardo;
entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima
do trabalho com uma rapacidade turca... Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo,
descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal.
Passaram-se dias; os inimigos pareciam derrotados, mas, certa noite, indo ao pomar para melhor
apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as
folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... Acendeu um fósforo e o que viu, meu
Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos
troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e
vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropelos, de
confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas
cortavam as folhas pelo pecíolo; cá embaixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram
carregadas por terceiras, levantando-as acima da descomunal cabeça, em longas fileiras pelo trilho
limpo, aberto entre a erva rasteira.
Houve um instante de desânimo na alma do major. Não tinha contato com aquele obstáculo nem o
supusera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade inteligente, organizada, ousada e tenaz
com quem se tinha de haver. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se nós não
expulsássemos as formigas, elas nos expulsariam.
O major não estava lembrado ao certo se eram essas as palavras, mas o sentido era, e ficou
admirado que só agora ela lhe ocorresse.
No dia seguinte, tinha recobrado o ânimo. Comprou ingredientes e ei-lo mais o Mané Candeeiro a
abrir picadas, a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os redutos centrais, as “panelas” dos
insetos terríveis. Então era como se os bombardeassem: o sulfeto queimava, estourava em tiros
seguidos, mortíferos, letais!
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E daí em diante, foi uma batalha sem tréguas. Se aparecia uma abertura, um “olho”, logo se lhe
aplicava o formicida, pois, do contrário, nenhuma plantação era possível, tanto mais que extintos os
das suas terras, não tardariam os formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar
canículos para o seu terreno.
Era um suplício, um castigo, uma espécie de vigilância a dique holandês e Quaresma viu bem que
só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um acordo entre os cultivadores, podia levar a
efeito a extinção daquele flagelo pior que a saraiva, que a geada, que a seca, sempre presente,
inverno ou verão, outono ou primavera.
Não obstante essa luta diária, o major não desanimou e pôde colher alguns produtos das plantações
que tinha feito. Se por ocasião das frutas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda
ela foi quando viu partir para a estação, em sucessivas carretas, as abóboras, os aipins, as batatas-
doces, em cestos cobertos com sacos cosidos. Os frutos, em parte, eram de outras mãos; as árvores
não tinham sido plantadas por ele; mas aquilo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu
trabalho!
Ele ainda foi ver aqueles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a
glória e para a vitória. Recebeu o dinheiro dias depois, contou-o e esteve deduzindo os lucros.
Não foi à roça nesse dia; o trabalho de guarda-livros roubou o de cultivador. A sua atenção, já um
tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio-dia, pôde dizer à irmã:
- Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
- Não. Menor do que o dos abacates?
- Um pouco mais.
- Então... Quanto?
- Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando sílaba por sílaba.
- O quê?
- Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil e quinhentos.
Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois,
levantando o olhar:
- Homem, Policarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!
- Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura,
aproveitar as nossas terras feracíssimas...
- É isto... Queres sempre ser a abelha-mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrifícios?... Vê
lá se fazem! Histórias... Metem-se no café que tem todas as proteções...
- Mas, faço eu.
A irmã prestou mais atenção à costura, Policarpo levantou-se, foi até a janela que dava para o
galinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Ele concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
- Oh! Adelaide! Aquilo não é uma galinha morta?...
A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até à janela e verificou com a vista:
- É... É já a segunda que morre hoje.
Após esta leve conversa, Quaresma voltou à sua sala de estudos. Meditava grandes reformas
agrícolas. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. Tinha já em mente uma charrua dupla, um
capinador mecânico, um semeador, um destocador, grades, tudo americano, de aço, dando o
rendimento efetivo de vinte homens. Até então, não quisera essas inovações; as terras mais ricas do
mundo não precisavam desses processos, que lhe pareciam artificiais, para produzir; estava, porém,
agora disposto a empregá-los como experiência. Aos adubos, entretanto, o seu espírito resistia.
Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia a Quaresma uma profanação estar a empregar
nitratos, fosfatos ou mesmo estrume comum, numa terra brasileira... Uma injúria!
Quando se convencesse de que eram necessários, parecia-lhe que todo o seu sistema de idéias ia
por terra e os móveis de sua vida desapareceriam. Estavam assim a escolher arados e outros
“Planets”, “Bajacs” e “Brabants” de vários feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe anunciou a
visita do Doutor Campos.
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O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão e o seu grande corpo. Era alto e gordo,
pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quase à flor do rosto, uma testa média e reta; o nariz,
malfeito. Um tanto trigueiro, cabelos corridos e já grisalhos, era o que se chama por aí um caboclo,
embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera em Curuzu, era da Bahia ou de Sergipe, habitava,
porém, o lugar há mais de vinte anos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher e à sua
atividade clínica. Com esta, não gastava grande energia mental: tendo de cor uma meia dúzia de
receitas, ele, desde muito, conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário.
Presidente da Câmara, era das pessoas mais consideráveis de Curuzu, e Quaresma o estimava
particularmente pela sua familiaridade, pela sua afabilidade e simplicidade.
- Ora viva, major! Como vai isto por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais.
Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade, mas contente com a alegria
comunicativa do doutor. Ele continuava a falar com desembaraço e naturalidade:
- Sabe o que me traz aqui, major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obséquio seu.
O major não se espantou; simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos.
- Como o major sabe...
Agora a sua voz era doce, flexível, sutil; as palavras caíam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se,
coleavam-se:
- Como o major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A vitória é “nossa”. Todas as
mesas estão conosco, exceto uma... Aí mesmo, se o major quiser...
- Mas, como? se eu não sou eleitor, não me meto, nem quero meter-me em política? perguntou
Quaresma ingenuamente.
- Exatamente por isso, disse o doutor com voz forte; e em seguida brandamente: a seção funciona
na sua vizinhança, é ali, na escola, se...
- E daí?
- Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o major quer responder (é melhor já) que
não houve eleição... Quer?
Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavanhaque e respondeu claramente,
firmemente:
- Absolutamente não.
O doutor não se zangou. Pôs mais unção e macieza na voz, aduziu argumentos: que era para o
partido, o único que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexível; disse que não,
que lhe eram absolutamente antipáticas tais disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse
não iria afirmar uma cousa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade.
Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre cousas banais e despediu-se
com o ar amável, com a jovialidade mais sua que era possível.
Isto se passou na terça-feira, naquele dia de luz fosca e irritante. À tarde houve trovoada, choveu
muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o major foi surpreendido com a visita de
um sujeito com um uniforme velho e lamentável, portador de um papel oficial para ele, proprietário
do “Sossego”, conforme mesmo disse o tal homem fardado.
Em virtude das posturas e leis municipais, rezava o papel, o Senhor Policarpo Quaresma,
proprietário do sítio “Sossego”, era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e
capinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas.
O major ficou um tempo pensando. Julgava impossível uma tal intimação. Seria mesmo?
Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assinatura do Doutor Campos. Era certo... Mas que
absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil e duzentos metros, pois seu
sítio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de
oitocentos metros - era possível!?
A antiga corvéia!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio. Consultando a irmã, ela lhe
aconselhou que falasse ao Doutor Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com
ele dias antes.
- Mas és tolo, Policarpo. Foi ele mesmo...
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A luz se lhe fez no pensamento... Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas
mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de
suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhe a iniciativa e a
independência, abatendo-as e desmoralizando-as.
Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se encostavam
nos portais das vendas preguiçosamente; viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas, d’olhos
baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquelas terras abandonadas, improdutivas,
entregues às ervas e insetos daninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, ativo e
trabalhador, sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe
passava pelas mãos - este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do
relâmpago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
Vinha viva e alegre. Contava pequenas histórias de sua vida, a viagem próxima do papai à Europa,
o desespero do marido no dia em que saiu sem anel, pedia notícias do padrinho, de Dona Adelaide
e, sem desrespeito, recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de
arminho da “Duquesa”.
A “Duquesa” era uma grande pata branca, de penas alvas e macias ao olhar, que, pela lentidão e
majestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse apelido nobre. O
animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas dúzias de patos,
levara a “Duquesa” também. Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas, depois o resto do
corpo. Três dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico colado ao chão, atacada pelas
formigas, o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico,
espantando as moscas que a importunavam na sua última hora.
Era de ver como aquela vida tão estranha à nossa, naquele instante penetrava em nós e sentíamos-
lhe o sofrimento, a agonia e a dor.
O galinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou galinhas, perus, patos; ora sobre uma
forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
E não havia quem soubesse curar. Numa terra cujo governo tinha tantas escolas que produziam
tantos sábios, não havia um só homem que pudesse reduzir com as suas drogas ou receitas aquele
considerável prejuízo.
Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador entusiástico dos primeiros
meses; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos. Adquiriu
compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas agrícolas descritas nos
catálogos.
Uma tarde, porém, estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado,
quando lhe apareceu à porta um soldado de polícia com um papel oficial. Ele se lembrou da
intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incomodou muito.
Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da coletoria, cujo escrivão,
Antonino Dutra, conforme estava no papel, intimava o Senhor Policarpo Quaresma a pagar
quinhentos mil-réis de multa, por ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos
respectivos impostos.
Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as
cousas gerais, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta quilômetros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas?
Depois de Turgot, da Revolução, ainda havia alfândegas interiores?
Como era possível fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio
dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado, como era possível tirar da terra a
remuneração consoladora?
E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-
lhe de novo, mais tétrico, mais sombrio, mais lúgubre; e anteviu a época em que aquela gente teria
de comer sapos, cobras, animais mortos, como em França os camponeses, em tempos de grandes
reis.
62
Quaresma veio a recordar-se do seu tupi, do seu folklore, das modinhas, das suas tentativas
agrícolas - tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessário refazer a administração.
Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo todos esses óbices, esses entraves,
Sully e Henrique IV, espalhando sábias leis agrárias, levantando o cultivador... Então sim! O
celeiro surgiria e a pátria seria feliz.
Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar à estação, e lhe disse:
- Seu patrão, amanhã, não venho “trabaiá”.
- Por certo; é dia feriado... A Independência.
- Não é por isso.
- Por que então?
- Há “baruio” na Corte e dizem que vão “arrecrutá”. Vou pro mato... Nada!
- Que barulho?
- “Tá” nas “foias”, sim “sinhô”.
Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e
intimado ao Presidente a sair do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um
governo forte, até à tirania... Medidas agrárias... Sully e Henrique IV...
Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse à
irmã, tomou o chapéu, e dirigiu-se à estação.
Chegou ao telégrafo e escreveu:
“Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já. - Quaresma.”

V
O Trovador
- Decerto, Albernaz, não é possível continuar assim... Então, mete-se um sujeito num navio, assesta
os canhões pra terra e diz: sai daí “seu” presidente; e o homem vai saindo?... Não! É preciso um
exemplo...
- Eu penso também da mesma maneira, Caldas. A República precisa ficar forte, consolidada... Esta
terra necessita de governo que se faça respeitar... É incrível! Um país como este, tão rico, talvez o
mais rico do mundo, é, no entanto, pobre, deve a todo o mundo... Por quê? Por causa dos governos
que temos tido que não têm prestígio, força... É por isso.
Vinham andando, à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado; ambos
fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervalo, continuou:
- Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por aí, que o não chamasse de
“banana” e outras cousas... Saía no carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se
como um intruso.
- E era um bom homem, observou o almirante. Amava o seu país... Deodoro nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos
os lados, acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:
- Morreu arrependido... Nem com a farda quis ir para a cova!... Aqui para nós que ninguém nos
ouve: foi um ingrato; o imperador tinha feito tanto por toda a família, não acha?
- Não há dúvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele
tempo, digam lá o que disserem...
- Quem diz o contrário? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco?
- E mais justiça mesmo, disse com firmeza o almirante. O que eu sofri, não foi por causa do
“velho”, foi a canalha... Demais, tudo barato...
- Eu não sei, disse Albernaz com particular acento, como há ainda quem se case... Anda tudo pela
hora da morte!
Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando.
Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre
árvores tão soberbas, tão belas, tão tranqüilas e seguras de si, como aquelas que espalhavam sob os
63
seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em
terra própria, delas, da qual nunca sairiam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e
esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O
solo sobre o qual cresciam era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos, cerrando
e tecendo a folhagem, para dar à boa mãe frescura e proteção contra a inclemência do sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas quase beijavam o chão. As
jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléia, e cobriam a
terra com uma ogiva verde...
O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina. Eles lhe viam o fundo, aquela parte de
construção mais antiga, joanina, com a torre do relógio um pouco afastada e separada do corpo do
edifício.
Não era belo o palácio, não tinha mesmo nenhum traço de beleza, era até pobre e monótono. As
janelas acanhadas daquela fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo
ele, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco comum nas nossas
habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas
para anos, para séculos... As palmeiras cercavam-no, erectas, firmes, com os seus grandes penachos
verdes, muito altos, alongados para o céu...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e função.
Albernaz interrompeu o silêncio:
- Em que dará isto tudo, Caldas?
- Sei lá.
- O “homem” deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custódio... hum!
- O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda à estação de São Cristóvão. Atravessaram o velho parque imperial
transversalmente, desde o portão da Cancela até à linha da estrada de ferro. Era de manhã, e o dia
estava límpido e fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de saírem da quinta,
deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada!
camarada! O soldado levantou-se estremunhado; e, dando com aqueles dous oficiais superiores,
concertou-se rapidamente, fez a continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné, um
instante firme, mas logo bambeou.
- Abaixe a mão, fez o general. Que faz você aqui?
Albernaz falou em tom ríspido e de comando. A praça, falando a medo, explicou que tinha estado
de ronda ao litoral toda a noite. A força se recolhera aos quartéis; ele obtivera licença para ir em
casa, mas o sono fora muito e descansava ali um pouco.
- Então como vão as cousas? perguntou o general.
- Não sei, não “sinhô”.
- Os “homens” desistem ou não?
O general esteve um instante examinando o soldado. Era branco e tinha os cabelos alourados, de
um louro sujo e degradado; as feições eram feias: malares salientes, testa óssea e todo ele anguloso
e desconjuntado.
- Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
- Do Piauí, sim “sinhô”.
- Da capital?
- Do sertão, de Paranaguá, sim “sinhô”.
O almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado, respondendo
tropegamente. Caldas, para acalmá-lo, resolveu falar-lhe com doçura.
- Você não sabe, camarada, quais são os navios que “eles” têm?
- O “Aquidabã”... A “Luci”.
- A “Luci” não é navio.
- É verdade, sim “sinhô”. O “Aquidabã”... Um “bandão” deles, sim, “sinhô”.
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O general interveio então. Falou-lhe com brandura, quase paternal, mudando o tratamento de você
para tu, que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores:
- Bem, descansa, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te o sabre e estás na “inácia”.
Os dous generais continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma da estação. A
pequena estação tinha um razoável movimento. Um grande número de oficiais, ativos, reformados,
honorários moravam-lhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades
competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências. O general era
mais conhecido, em virtude de seu emprego; o almirante, não. Quando passavam, ouviam
perguntar: “Quem é este almirante?” Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto
e do seu incógnito.
Havia uma única mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua
filha Ismênia... Coitada!... Ficaria boa?
Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas, mas ele as conteve com força.
Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que
parecia fugir aos poucos do cérebro da moça.
A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrépito, apitando com fúria e deixando
fumaça pesada pelos ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o monstro, pejado de
soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
Bustamante apareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para apresentar-se. Trazia o seu
velho uniforme do Paraguai, talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. A barretina era
um tronco de cone que avançava para a frente; e, com aquela banda roxa e casaquinha curta,
parecia ter saído, fugido, saltado de uma tela de Vítor Meireles.
- Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorário.
- Viemos pela quinta, disse o almirante.
- Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me importa morrer, mas
quero morrer combatendo; isso de morrer por aí, à toa, sem saber como, não vai comigo...
O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo olharam-no com mal
disfarçada censura. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente:
- Conheço bem esse negócio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em
Curuzu...
- A cousa foi terrível, acrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veio chegando manso, vagaroso; a locomotiva, muito negra, bufando,
suando gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de ciclope, avançava que
nem uma aparição sobrenatural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de oficiais; a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil
homens. Os militares palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados.
Se falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de trás.
A cidade andava inçada de secretas, “familiares” do Santo Ofício Republicano, e as delações eram
moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a mínima crítica, para se perder o emprego, a liberdade, - quem sabe? - a vida também.
Ainda estávamos no começo da revolta, mas o regime já publicara o seu prólogo e todos estavam
avisados. O chefe de polícia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distinção de posição e
talentos. Mereciam as mesmas perseguições do governo um pobre contínuo e um influente senador;
um lente e um simples empregado de escritório. Demais surgiam as vinganças mesquinhas, a revide
de pequenas implicâncias... Todos mandavam; a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função pública alguma,
prendia e ai de quem caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo angustiosos suplícios de uma
imaginação dominicana. Os funcionários disputavam-se em bajulação, em servilismo... Era um
terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão
e sem responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier-Tinville.
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Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães.
Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão
e a companhia, a todo esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro,
desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo
tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as
ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e
também ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com
fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis, o paraíso, enfim, com inscrições em escritura
fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para justificar as suas idéias de governo,
em tudo semelhantes aos canatos e emirados orientais.
A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que, naqueles tempos, amedrontava toda
a gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o
positivismo, como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também
para a Anglicana. O prestígio dele era, portanto, enorme.
O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter à praça da República. O almirante, cosido com
as paredes, seguiu para o Arsenal de Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel-
General. Penetraram no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de toques de cornetas; o
grande pátio estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, feixes de armas ensarilhadas, baionetas
reluzindo ao sol oblíquo...
No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vaivém de fardas, dourados,
fazendas multicores, uniformes de várias corporações e milícias, no meio dos quais os trajes
escuros dos civis eram importunos como moscas. Misturavam-se oficiais da guarda nacional, da
polícia, da armada, do exército, de bombeiros e de batalhões patrióticos que começavam a surgir.
Apresentaram-se e, depois de tê-lo feito ao ajudante-general e ministro da Guerra, a um só tempo,
ficaram a conversar nos corredores, com bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente
Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo.
O general porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque aprendia com ele alguma
cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
Fontes estava indignado, todo ele era horror, maldição contra os insurrectos, e propunha os piores
castigos.
- Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do marechal, se os pegasse... ai deles!
O tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era positivista e tinha da sua
República uma idéia religiosa e transcendente. Fazia repousar nela toda a felicidade humana e não
admitia que a quisessem de outra forma que não aquela que imaginava boa. Fora daí não havia boa
fé, sinceridade; eram heréticos interesseiros, e, dominicano do seu barrete frígio, raivoso por não
poder queimá-los em autos-de-fé, congesto, via passar por seus olhos uma série enorme de réus
confidentes, relapsos, contumazes, falsos, simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por aí...
Albernaz não tinha tanta fúria contra os adversários. No fundo d’alma, ele os queria até, tinha
amigos lá, e essas divergências nada significavam para a sua idade e experiência.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na ação do marechal. Estando em apuros financeiros,
não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do
Moura, esperava obter uma outra comissão, que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o
enxoval de Lalá.
O almirante, também, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano. A
sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a em primeira instância, estava gastando muito dinheiro... O
governo precisava de oficiais de Marinha, quase todos estavam na revolta; talvez lhe dessem uma
esquadra a comandar... É verdade que... Mas, que diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma
esquadra a cousa não era difícil; bastava coragem para combater.
Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim que, para apoiá-lo e
defender o seu governo, imaginava organizar um batalhão patriótico, de que já tinha o nome
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“Cruzeiro do Sul” e naturalmente seria o seu comandante, com todas as vantagens do posto de
coronel.
Genelício, cuja atividade nada tinha de guerreira, esperava muito da energia e da decisão do
governo de Floriano: esperava ser subdiretor e não podia um governo sério, honesto e enérgico,
fazer outra cousa, desde que quisesse pôr ordem na sua seção.
Essas secretas esperanças eram mais gerais do que se pode supor. Nós vivemos do governo e a
revolta representava uma confusão nos empregos, nas honrarias e nas posições que o Estado
espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações supririam os títulos e habilitações para ocupá-
las; além disso, o governo, precisando de simpatias e homens, tinha que nomear, espalhar,
prodigalizar, inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O próprio Doutor Armando Borges, o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando estudante,
colocava na revolta a realização de risonhos anelos.
Médico e rico, pela fortuna da mulher, ele não andava satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo
de nomeada esporeavam-no. Já era médico do Hospital Sírio, onde ia três vezes por semana e, em
meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro dava-lhe informações, o doutor ia, de
cama em cama, perguntando: “Como vai?” “Vou melhor seu doutor”, respondia o sírio com voz
gutural. Na seguinte, indagava: “Já está melhor?” E assim passava a visita; chegando ao gabinete
receitava: “Doente nº 1, repita a receita; doente 5... quem é?”... “É aquele barbado”... “Ahn!” E
receitava.
Mas médico de um hospital particular não dá fama a ninguém: o indispensável é ser do governo,
senão ele não passava de um simples prático. Queria ter um cargo oficial, médico, diretor ou
mesmo lente da faculdade.
E isso não era difícil, desde que arranjasse boas recomendações pois já tinha certo nome, graças à
sua atividade e fertilidade de recursos.
De quando em quando, publicava um folheto. O Cobreiro, Etiologia, Profilaxia e Tratamento ou
Contribuição para o Estudo da Sarna no Brasil; e, mandava o folheto, quarenta e sessenta páginas,
aos jornais que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano; o “operoso Doutor Armando Borges,
o ilustre clínico, o proficiente médico dos nossos hospitais”, etc., etc.
Obtinha isso graças à precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da
imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que não havia nada de próprio,
mas ricos de citações em francês, inglês e alemão.
O lugar de lente é que o tentava mais; o concurso, porém, metia-lhe medo. Tinha elementos, estava
bem relacionado e cotado na congregação, mas aquela história de argüição apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francês, inglês e italiano; tomara até um professor
de alemão, para entrar na ciência germânica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a
sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em biblioteca. As paredes estavam forradas
de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. À noite, ele abria as janelas das venezianas,
acendia todos os bicos-de-gás e se punha à mesa, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O sono não tardava a vir ao fim da quinta página... Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da
mulher. Eram romances franceses, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam
dormir da mesma maneira que os tratados. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises,
daquelas descrições, o interesse e o valor delas, revelando a todos, à sociedade, a vida, os
sentimentos, as dores daqueles personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa ciência e a
pobreza de sua instrução geral faziam-no ver naquilo tudo, brinquedos, passatempos, falatórios,
tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros.
Precisava, porém, iludir-se, a si mesmo e à mulher. De resto, da rua, viam-no e se dessem com ele a
dormir sobre os livros?!... Tratou de encomendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas
com títulos trocados e afastou o sono.
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A sua clínica, entretanto, prosperava. De comandita com o tutor, chegou a ganhar uns seis contos,
tratando de um febrão de uma órfã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrava na sua simulação de inteligência, mas aquela manobra
indecorosa indignou-a. Que necessidade tinha ele disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha
o privilégio de um título universitário? Tal ato pareceu à moça mais vil, mais baixo, que a usura de
um judeu, que o aluguel de uma pena...
Não foi desprezo, nojo que ela teve pelo marido; foi um sentimento mais calmo, menos ativo;
desinteressou-se dele, destacou-se de sua pessoa. Ela sentiu que tinham cortado todos os laços de
afeição, de simpatia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, enfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquelas cousas de amor ao estudo, de interesse pela ciência,
de ambições de descobertas, nele, eram superficiais, estavam à flor da pele; mas desculpou. Muitas
vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare
e saímos Mal das Vinhas. Era perdoável, mas charlatão? Era demais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quase indignidade?... Todos os homens
deviam ser iguais; era inútil mudar deste para aquele...
Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande alívio, e a sua fisionomia se iluminou de novo
como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
Naquela carreira atropelada para o nome fácil, ele não deu pelas modificações da mulher. Ela
dissimulava os seus sentimentos, mais por dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro
motivo; e a ele faltavam a sagacidade e finura necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo.
Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quanto estavam longe um do outro!...
A revolta veio encontrá-los assim; e o doutor, desde três dias, pois há tanto ela rebentara, meditava
a sua ascensão social e monetária.
O sogro suspendera a viagem à Europa, e, naquela manhã, após o almoço, conforme o seu hábito,
lia recostado numa cadeira de viagem os jornais do dia. O genro vestia-se e a filha ocupava-se com
sua correspondência, escrevendo à cabeceira da mesa de jantar. Ela tinha um gabinete, com todo o
luxo, livros, secretária, estantes, mas gostava pela manhã de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe
parecia mais clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade ao pensamento
e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
Ela escrevia e o pai lia; num dado momento ele disse:
- Sabes quem vem aí, minha filha?
- Quem é?
- Teu padrinho. Telegrafou ao Floriano, dizendo que vinha... Está aqui, n’O País.
A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir de fato sobre as idéias e sentimentos de
Quaresma. Quis desaprovar, censurar; sentiu-o, porém, tão coerente com ele mesmo, tão de acordo
com a substância da vida que ele mesmo fabricara, que se limitou a sorrir complacente:
- O padrinho...
- Está doido, disse Coleoni, Per la madonna! Pois um homem que está quieto, sossegado, vem
meter-se nesta barafunda, neste inferno...
O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca fúnebre e a cartola reluzente na mão.
Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia, exceto onde o grande bigode punha sombras. Ainda
ouviu as últimas palavras do sogro, pronunciadas com aquele seu português rouco:
- Que há? perguntou ele.
Coleoni explicou e repetiu os comentários que já fizera:
- Mas não há tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que tem a idade? Quarenta e poucos
anos, não é lá velho... Pode ainda bater-se pela República...
- Mas não tem interesse nisso, objetou o velho.
- E há de ser só quem tem interesse que se deve bater pela República? interrogou o doutor.
A moça que acabava de ler a carta que tinha escrito, mesmo sem levantar a cabeça, disse:
- Decerto.
- É vem você com as suas teorias, filhinha. O patriotismo não está na barriga...
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E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava.
- Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros? É monopólio de vocês o patriotismo? fez Olga.
- Decerto. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade, a entorpecer, a
desmoralizar a ação da autoridade constituída.
- Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os fuzilamentos, toda a série de
violências que se vêm cometendo, aqui e no Sul?
- Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor, fechando a discussão.
Ela não deixava de ser. A simpatia dos desinteressados, da população inteira era pelos insurgentes.
Não só isso sempre acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a múltiplos
fatores, há de ser assim normalmente.
Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da
simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam
a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e
mudanças.
Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e Coleoni, estrangeiro e
conhecendo, graças à sua vida, as nossas autoridades, calasse as suas simpatias num mutismo
prudente.
- Não me vá comprometer, hein, Olga?
Ela se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, deitou-lhe o seu grande olhar
luminoso, e com os finos lábios um pouco franzidos:
- Você sabe bem que eu não te comprometo.
O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus à mulher,
que lhe seguia a saída, debruçada na varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingências terrenas.
Ricardo vivia ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios, cuja vista ia de Todos os Santos à
Piedade, abrangendo um grande trato de área edificada, um panorama de casas e árvores.
Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa tinha assentado.
Por esses dias o triunfo desfilava sem contestação. Toda a cidade o tinha na consideração devida e
ele quase se julgava ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo
de obter.
Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em publicar mais outro.
Há dias vivia em casa, pouco saindo, organizando o seu livro. Passava confinado no seu quarto,
almoçando café, que ele mesmo fazia, e pão, indo à tarde jantar a uma tasca próximo à estação.
Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que jantavam nas mesas sujas,
abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados; mas não deu importância...
Apesar de popular no lugar, não encontrara pessoa alguma conhecida durante os três últimos dias;
ele mesmo evitava falar e, em sua casa, limitava-se ao “bom-dia” e à “boa-tarde” trocados com os
vizinhos.
Gostava de passar assim dias, metido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornais para
não distrair a atenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de
ser mais uma vitória para ele e para o violão estremecido.
Naquela tarde estava sentado à mesa, corrigindo um dos seus trabalhos, um dos últimos, aquele que
compusera no sítio de Quaresma - “Os lábios de Carola”.
Primeiro, leu toda a produção, cantarolando; voltou a lê-la, agarrou o violão para melhor apanhar o
efeito e empacou nestes:

É mais bela que Helena e Margarida,
Quando sorri meneando a ventarola.
Só se encontra a ilusão que adoça a vida
Nos lábios de Carola.
69
Nisto ouviu um tiro, depois, outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio
estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde encontrava a ilusão
que adoça a vida...


TERCEIRA PARTE


I
Patriotas
Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande salão do palácio, vendo o marechal, mas
sem lhe poder falar. Quase não se encontravam dificuldades para se chegar à sua presença, mas
falar-lhe, a cousa não era tão fácil.
O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente. Não era
raro ver-se pelos divãs, em outras salas, ajudantes-de-ordens, ordenanças, contínuos, cochilando,
meio deitados e desabotoados. Tudo nele era desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de
aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira de rua mal varrida.
Quaresma não pudera vir logo, como anunciara no telegrama. Fora preciso pôr em ordem os seus
negócios, arranjar quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide mil objeções à sua
partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade e superiores à sua
força; ele, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável, necessário que
toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse
posto à disposição do governo, para então!... oh!
Aproveitara os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nele expunham-se as
medidas necessárias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos
da grande propriedade, das exações fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das
violências políticas.
O major apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquela
planície feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e
transparentes, lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e plácidos que o viram partir com
uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento, era do
Anastácio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal
doméstico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas órbitas as escleróticas
muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça...
Não lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas sinais de
dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o chamasse. Era
cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o palito na
boca.
Falou em primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham oferecer o seu braço e o seu
sangue em defesa das instituições e da pátria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto,
gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nela que uma escondia
a outra, furtando toda ela a uma classificação honesta.
Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes olhos que despediam chispas.
Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era como se temesse derreter-se ao calor
daquele olhar que queimava mais sedução que patriotismo. Fugia encará-la, abaixava o rosto como
um adolescente, batia com os dedos na mesa...
Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com
um grosso e difícil sorriso de roceiro, declinou da oferta, visto a República ainda dispor de bastante
força para vencer.
70
A última frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente. As damas despediram-se; o
marechal girou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma:
- Então, Quaresma? fez ele familiarmente.
O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais
subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. Não se ouvia o que
diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espáduas. O marechal quase
não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossílabo, cousa que Quaresma percebia
pela articulação dos lábios.
Começaram a sair. Apertavam a mão do ditador e, um deles, mais jovial, mais familiar, ao
despedir-se, apertou-lhe com força a mão mole, bateu-lhe no ombro com intimidade, e disse alto e
com ênfase:
- Energia, marechal!
Aquilo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial da República, que
ninguém, nem o próprio Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns até sorriram alegres
por ver o califa, o cã, o emir, transmitir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno
desabusado. Não se foram todos imediatamente. Um deles demorou-se mais a segredar cousas à
suprema autoridade do país. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa, talim
e sabre de praça de pré.
Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada.
Tinham todos os privilégios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o ditador e
abusavam dessa situação de esteio do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira.
Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade especial
brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a
República, em artigo e fé, em feitiço, em ídolo mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes
eram oblatas dignas e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá estava...
Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem que ia feixar em suas mãos, durante
quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando
tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas fraquezas e vontades, nem nas leis,
nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma
grande “mosca”; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que
fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de
expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era
gelatinoso - parecia não ter nervos.
Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o
temperamento. Essas cousas não vogam, disse ele de si para si.
O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de
enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um
pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma
ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade
predominante: tibieza de ânimo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum,
essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação
nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que
passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos.
Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o expediente respectivo;
e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava meses e meses sem lá ir, deixando tudo
por assinar, pelo que “legou” ao seu substituto um trabalho avultadíssimo.
Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de Guilherme
I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso
florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas,
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certamente necessárias deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e
influísse na marcha das cousas governamentais e administrativas.
Dessa preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos monossílabos,
levados à altura de ditos sibilinos, as famosas “encruzilhadas dos talvezes”, que tanto reagiram
sobre a inteligência e imaginação nacionais, mendigas de heróis e grandes homens.
Essa doentia preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele aspecto de calma superior, calma
de grande homem de Estado ou de guerreiro extraordinário.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo. A braços com o
levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um
inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra
sedição, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais, ninguém pode admitir um homem forte, um César, um Napoleão, que permita aos
subalternos aquelas intimidades deprimentes e tenha com eles as condescendências que ele tinha,
consentindo que o seu nome servisse de lábaro para uma vasta série de crimes de toda a espécie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atmosfera de má vontade Napoleão assumiu o
comando do exército da Itália. Augereau, que o chamava “general de rua”, disse a alguém, após lhe
ter falado: “O homem meteu-me medo”; e o corso estava senhor do exército sem batidelas no
ombro, sem delegar tácita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsáveis.
De resto, a lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra bem a incerteza, a
vacilação de vontade de um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos que estavam às
suas ordens.
Há uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, atos e gestos. Era
o seu amor à família, um amor entranhado, alguma cousa de patriarcal, de antigo que já se vai
esvaindo com a marcha da civilização.
Em virtude de insucessos na exploração agrícola de duas das suas propriedades, a sua situação
particular era precária, e não queria morrer sem deixar à família as suas propriedades agrícolas
desoneradas do peso das dívidas.
Honesto e probo como era, a única esperança que lhe restava repousava nas economias sobre os
seus ordenados. Daí lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensável
para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se tenazmente à Presidência da
República. A hipoteca do “Brejão” e do “Duarte” foi o seu nariz de Cleópatra...
A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse
“homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi
transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que
vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo.
Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam
sido possíveis, depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se
ter “fabricado” à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos.
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de
uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande, o portar-se mal
era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim,
porém, prisão e morte. Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação,
assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água.
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil,
raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo
pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus
auxiliares e asseclas.
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo
foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande
obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao
72
organismo aniquilado da pátria, que o major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de
uns tempos para cá, já tivesse dúvidas a certos respeitos.
Decerto, ele não negaria tais esperanças e a sua ação poderosa havia de se fazer sentir pelos oito
milhões de quilômetros quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança, proteção aos fracos,
assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de espera, desde que o
marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar aquele homem pequenino, taciturno, de
pince-nez e foi-se chegando, se aproximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quase como um
terrível segredo:
- Eles vão ver o “caboclo”... O major há muito que o conhece?
Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara só e
Quaresma avançou.
- Então, Quaresma? fez Floriano.
- Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.
O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu com dificuldade, mas,
levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão a razão
boa de sua causa.
- Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias, nomes, empregos, situações dos subalternos
com quem lidava. Tinha alguma cousa de asiático; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias, medidas
tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. O marechal ouviu-o distraído, com
uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios.
- Trazia a Vossa Excelência até este memorial...
O presidente teve um gesto de mau humor, um quase “não me amole” e disse com preguiça a
Quaresma:
- Deixa aí...
Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:
- Que há, Bustamante? E o batalhão, vai?
O homem aproximou-se mais, um tanto amedrontado:
- Vai bem, marechal. Precisamos de um quartel... Se Vossa Excelência desse ordem...
- É exato. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete.
Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma, e assim mesmo,
sobre aquela ponta de papel, a lápis azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra. Ao
acabar é que deu com a desconsideração:
- Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito... Não faz mal... Era a parte de cima, não tinha nada escrito.
O major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:
- Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
- Eu! fez Quaresma estupidamente.
- Bem. Vocês lá se entendam.
Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. Até à rua
nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o
movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração apreciável. Havia a mesma agitação de
bondes, carros e carroças; mas nas fisionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo
ameaçava todos e parecia estar suspenso no ar.
Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel, velho amigo do
marechal, seu companheiro do Paraguai.
- Mas nós nos conhecemos! exclamou ele.
Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos
espertos, mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia.
- Não me recordo... Donde?
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- Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
Policarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão
patriótico “Cruzeiro do Sul”.
- O senhor quer fazer parte?
- Pois não, fez Quaresma.
- Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos
auxiliar o governo... Não convém sangrar o Tesouro, não acha?
- Certamente, disse com entusiasmo Quaresma.
- Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um
rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil-réis, um tenente
com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não é?
Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério do
Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca tendo
pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major, e a cousa pegou. A princípio,
protestou, mas como teimassem deixou.
- Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major.
- Qual é a minha quota?
- Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita?
- Pois não.
Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se jovialmente:
- Então, major, às seis, no quartel provisório.
A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant’Ana. Quaresma
pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em
Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando
em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do quartel-general
saía uma força, armas ao ombro, baionetas caladas, dançando nos ombros dos recrutas, faiscando
com um brilho duro e mau.
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos fuzis. Não
durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros
tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais.
Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o
vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro. Voltou-se.
- Oh! general!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um prazer,
uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação
qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não trazia espada e o pince-nez
continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda.
- Então veio ver a cousa?
- Vim. Já me apresentei ao marechal.
- “Eles” vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A
República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O “caboclo” é de ferro... No
Paraguai...
- O senhor conheceu-o lá, não, general?
- Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como
encarregado das munições... É o fino o “caboclo”: não me quis no litoral. Sabe muito bem quem
sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote
que eu não examine... É necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se
muita cal por pólvora - não sabia?
- Não.
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- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o “homem” quer que eu fique
com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá...
Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um instante. Quaresma
perguntou:
- Como vai a família?
- Bem. Sabe que Quinota casou-se?
- Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai?
A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto:
- Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura
mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um
olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra em imbecilidade; mas vinha
uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: “Apronta-me,
mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento.” Outras vezes recortava papel, em
forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu
casamento.
O general já consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um
feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava
o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não atingira,
aniquilando-se, porém, o seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e,
quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com todos os cuidados, à custa de
todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras dançavam,
um instante esquecidas da irmã que sofria.
Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emoção e continuou no tom mais
natural, naquele seu tom familiar e íntimo que usava com todos:
- Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país. E os prejuízos? Um porto destes
fechado a comércio nacional quantos anos de retardamento não representa!
O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossível
a reprodução de levantes e insurreições.
- Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que
mau efeito!
O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao
Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. Não foi indiferença que
sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar.
Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o
mesmo homem baixo, pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do
pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que ela
conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma força
estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que ele entrara naturalmente,
com o seu passo miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirara a
sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se
fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa
impressão da sua entrada:
- Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo.
De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o “clássico” um grande artigo
sobre “Ferimentos por arma de fogo”. O seu último truc intelectual era este do clássico. Buscava
nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e
romances nos jornais. Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma
que eles. A sua sabedoria superior e o seu título “acadêmico” não podiam usar da mesma língua,
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dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéia
do clássico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje,
em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar,
ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de
ao invés, em-pós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus
pares e ao público em geral.
Gostava muito da expressão - às rebatinhas; usava-a a todo o momento e, quando a punha no
branco do papel, imaginava que dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos e às suas
idéias uma suficiência transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o
sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em pleno Seiscentos,
prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado.
A sua tradução estava quase no fim, já estava bastante prático, pois com o tempo adquirira um
vocabulário suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade, logo na primeira escrita.
Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como
teimasse em não encontrar um equivalente clássico para “orifício”, julgou útil a interrupção. Queria
pôr “buraco”, mas era plebeu; “orifício”, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na
volta talvez encontrasse, pensou: e subiu à sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu grande
bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma
discussão sobre autoridade.
Dizia ela:
- Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se
governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar
os governantes?
O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar de objetar:
- Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se for
assim, tudo vai por água abaixo.
Quaresma acrescentou:
- É em virtude das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela existe...
Nas formigas, nas abelhas...
- Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de
assassínios, exações e violências?
- Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo:
- Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica iremos
buscar normas de vida entre insectos?
- Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do
fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Ele não tinha acabado a explicação e já Olga refletia:
- Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá; mas não; de que vale?
- Há de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidá-la.
Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a sua próxima
incorporação ao batalhão “Cruzeiro do Sul”. O doutor teve uma ponta de inveja, quando ele se
referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu.
Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os
empregados se moviam como em um subterrâneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua
da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma
multidão. Eram os avançados, os “jacobinos”, a guarda abnegada da República, os intransigentes a
cujos olhos a moderação, a tolerância e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de
lesa-pátria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O
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estrangeiro era sobretudo o português, o que não impedia de haver jornais “jacobiníssimos”
redigidos por portugueses da mais bela água.
A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a Rua do Ouvidor era a mesma. Os namoros se
faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céu azul, luminoso, as moças davam
gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes,
o sangue a subir às faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.
Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel, que funcionava provisoriamente num velho
cortiço condenado pela higiene, lá pelos lados da Cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar térreo e
sobrado, ambos divididos em cubículos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma
varanda de grade de pau e uma escada de madeira levava até lá, escada tosca e oscilante, que gemia
à menor passada. A casa da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio, já sem
as cordas de secar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrelas e da água de sabão,
servia para a instrução dos recrutas. O instrutor era um sargento reformado, um tanto coxo, e
admitido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa: “om - brô”...
armas!
O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento.
Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã era verde-garrafa e tinha uns vivos azul-
ferrete, alamares dourados e quatro estrelas prateadas, em cruz, na gola.
Uma gritaria fê-los vir até à varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a
implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
- É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, coronel? continuou ele com interesse
e piedade.
Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu depois de algum tempo:
- Conheço... É um voluntário recalcitrante, um patriota rebelde.
Os soldados subiram com o “voluntário” e Ricardo logo que deu com o major, suplicou-lhe:
- Salve-me, major!
Quaresma chamou de parte o coronel, rogou-lhe e suplicou-lhe, mas foi inútil... Há necessidade de
gente... Enfim, fazia-o cabo.
Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:
- Eu sirvo sim, sim, mas dêem-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
- Restituam o violão ao cabo Ricardo!

II
Você, Quaresma, É um Visionário
Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado da terra, mal se enxergam as partes
baixas dos edifícios próximos; para o lado do mar, então, a vista é impotente contra aquela treva
esbranquiçada e flutuante, contra aquela muralha de flocos e opaca, que se condensa ali e aqui em
aparições, em semelhanças de cousas. O mar está silencioso: há grandes intervalos entre o seu fraco
marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odor da maresia parece
mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mistério. Entretanto,
aquela pasta espessa, de uma claridade difusa, está povoada de ruídos. O chiar das serras vizinhas,
os apitos de fábricas e locomotivas, os guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manhã
indecifrável e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Acredita-
se, dentro daquele decoro, que é Caronte que traz a sua barca para uma das margens do Estige...
Atenção! Todos perscrutam a cortina de névoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do
seio da bruma, vão surgir demônios...
Não se ouve a bulha: o escaler afastou-se. As fisionomias respiram aliviadas...
Não é noite, não é dia; não é o dilúculo, não é o crepúsculo; é a hora da angústia, é a luz da
incerteza. No mar, não há estrelas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro às
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paredes brancas das casas. A nossa miséria é mais completa e a falta daqueles mudos marcos da
nossa atividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.
Os ruídos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da terra ou são alucinações
auditivas. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes
intervalos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro à areia da praia, suja de bodelhas, algas e
sargaços.
Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia.
Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que lhes umedece o
rosto.
O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle à cintura e gorro à cabeça, sentado numa pedra, está
de parte, sozinho, e olha aquela manhã angustiosa.
Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ela faz sentir toda a sua força de
desesperar. Em geral, ele só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes;
aquele amanhecer brumoso e feio era uma novidade para ele.
Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquela vida solta da caserna vai-lhe bem
n’alma; o violão está lá dentro e, em horas de folga, ele o experimenta, cantarolando em voz baixa.
É preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não poder, de quando em
quando, soltar o peito.
O comandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
O major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu estudo predileto é agora
artilharia. Comprou compêndios; mas, como sua instrução é insuficiente, da artilharia vai à
balística, da balística à mecânica, da mecânica ao cálculo e à geometria analítica; desce mais a
escada; vai à trigonometria, à geometria e à álgebra e à aritmética. Ele percorre essa cadeia de
ciências entrelaçadas com uma fé de inventor. Aprende uma noção elementaríssima após um
rosário de consultas, de compêndio em compêndio; e leva assim aqueles dias de ócio guerreiro
enfronhado na matemática, nessa matemática rebarbativa e hostil aos cérebros que já não são
moços.
Há no destacamento um canhão Krupp, mas ele nada tem a ver com o mortífero aparelho; contudo,
estuda artilharia. É encarregado dele o Tenente Fontes, que não dá obediência ao patriota major.
Quaresma não se incomoda com isso; vai aprendendo lentamente a servir-se da boca-de-fogo e
submete-se à arrogância do subalterno.
O comandante do “Cruzeiro do Sul”, o Bustamente da barba mosaica, continua no quartel,
superintendendo a vida do batalhão. A unidade tem poucos oficiais e muito poucas praças; mas o
Estado paga o pré de quatrocentas. Há falta de capitães, o número de alferes está justo, o de
tenentes quase, mas já há um major, que é Quaresma, e o comandante, Bustamente, que, por
modéstia, se fez simplesmente tenente-coronel.
Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma comanda, três alferes, dous tenentes; mas os
oficiais pouco aparecem. Estão doentes ou licenciados e só ele, o antigo agricultor do “Sossego”, e
um alferes, Polidoro, este mesmo só à noite, estão a postos. Um soldado entrou:
- Senhor comandante, posso ir almoçar?
- Pode. Chama-me o cabo Ricardo.
A praça saiu capengando em cima de grandes botinas; o pobre homem usava aquela peça protetora
como um castigo. Assim que se viu no mato, que levava a sua casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o
sopro da liberdade.
O comandante chegou à janela. A cerração se ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como um
disco de ouro fosco.
Ricardo Coração dos Outros apareceu. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. A
blusa era curtíssima, sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente; e as calças eram
compridíssimas e arrastavam no chão.
- Como vais, Ricardo?
- Bem. E o senhor, major?
78
- Assim.
Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo e demorado:
- Andas aborrecido, não é?
O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante:
- Não... Para que dizer, major, que sim... Se a coisa for assim até ao fim, não é mau... O diabo é
quando há tiro... Uma coisa, major; não se poderia, assim, aí pelas horas em que não há que fazer, ir
nas mangueiras, cantar um pouco...
O major coçou a cabeça, alisou o cavanhaque e disse:
- Eu, não sei... É...
- O senhor sabe que isso de cantar baixo é remar em seco... Dizem que no Paraguai...
- Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o major recordou:
- Manda-me trazer o almoço.
Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro também dormir. As refeições eram-lhe
fornecidas por um “frege” próximo e ele dormia em um quarto daquela edificação imperial. Porque
a casa em que se acantonara o destacamento era o pavilhão do imperador, situado na antiga Quinta
da Ponta do Caju. Ficavam nela também a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e
barulhenta serraria. Quaresma veio até à porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o imperador
a quisesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
As formas das cousas saíam modeladas do seio daquela massa de névoa pesada; e, satisfeitas, como
se o pesadelo tivesse passado. Primeiro surgiam as partes baixas, lentamente; e por fim, quase
repentinamente, as altas.
À direita, havia a Saúde, a Gamboa, os navios de comércio: galeras de três mastros, cargueiros a
vapor, altaneiros barcos à vela - que iam saindo da bruma, e, por instantes, aquilo tudo tinha um ar
de paisagem holandesa; à esquerda, era o saco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a
ilha do Governador, os Órgãos azuis, altos de tocar no céu; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os
seus depósitos de carvão; e, alongando a vista pelo mar sossegado, Niterói, cujas montanhas
acabavam de recortar-se no céu azul, à luz daquela manhã atrasada.
A neblina foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse à terra; era uma aleluia. Aqueles
chiados, aqueles apitos, os guinchos tinham um acento festivo de contentamento.
Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções.
- Mais duas? fez admirado o major.
- Sim, senhor. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista.
- Faça a parte.
Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quase nunca dormia ali;
pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as cousas como iam.
Uma madrugada, ele não estava. A treva ainda era profunda. O soldado de vigia viu lá ao longe um
vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as águas do mar. Não trazia luz alguma: só
o movimento daquela mancha escura revelava uma embarcação, e também a ligeira fosforescência
das águas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento pôs-se a postos e Quaresma apareceu.
- O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante. E em seguida, nervoso, recomendou:
- Esperem um pouco.
Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas. Demorou-se e a lancha avançava, os
soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
Quaresma reapareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar:
- Viram bem... a distância... a alça... o ângulo... É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo.
Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
- Ora, major, você pensa que está em um polígono, fazendo estudos práticos... Fogo para diante!
E assim era. Quase todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas
para o mar; e, tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas.
79
Lá vinha uma ocasião, porém, que acertavam, então os jornais noticiavam: “Ontem, o forte
Acadêmico fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, meteu uma bala no ‘Guanabara’.” No
dia seguinte, o mesmo jornal retificava, a pedido da bateria do cais Pharoux, que era a que tinha
feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida, quando aparecia uma carta
de Niterói, reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma
trincheira de fardo de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos de palha, como as goelas de
um animal feroz oculto entre ervas.
Olhava o horizonte, depois de exame atento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras, quando
ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:

Prometo pelo Santíssimo Sacramento...

Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo quadro: à sombra de
uma grande árvore, os soldados deitados ou sentados em círculo, em torno de Ricardo Coração dos
Outros, que entoava endechas magoadas.
As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção de
Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial.
- Que é isto? disse ele severamente.
Os soldados levantaram-se todos, em continência; e Ricardo, com a mão direita no gorro, perfilado,
e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão, desculpou-se:
- “Seu” tenente, foi o major quem permitiu. Vossa Senhoria sabe que se nós não tivéssemos ordem,
não iríamos brincar.
- Bem. Não quero mais isto, disse o oficial.
- Mas, objetou Ricardo, o Senhor Major Quaresma...
- Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do
major do “Cruzeiro do Sul”. Quaresma continuava no seu estudo, um rolar de Sísifo, mas
voluntário, para a grandeza da pátria. Fontes foi entrando e dizendo:
- Que é isto, “Seu” Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento?
O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. Ele
repetiu:
- Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço?
- Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
- E a disciplina? E o respeito?
- Bem, vou proibir, disse Quaresma.
- Não é preciso. Já proibi.
Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:
- Fez bem.
Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma fração decimal; o rapaz
ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de
Lalá, a terceira filha do general Albernaz, e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento.
Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato familiar a que estavam
ligados aqueles estrondos, aqueles tiros, aquela solene disputa entre duas ambições. Subitamente, a
corneta feriu o ar com a sua voz metálica. Fontes assestou o ouvido; o major perguntou:
- Que toque é?
- Sentido.
Os dous saíram. Fontes perfeitamente fardado; e o major apertando o talim, sem encontrar jeito,
tropeçando na espada venerável que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. Os soldados já
estavam nas trincheiras, armas à mão; o canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha
avançava lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um
80
golfão de fumaça espessa: Queimou! - gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto,
zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida. Além dos soldados, havia
curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara: queimou!
E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço;
em outras, um cidadão qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá
licença que dê um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a
pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se anunciava
um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Público se enchia. Era como se fosse uma noite
de luar, no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos,
vendo o astro solitário pratear a água e encher o céu.
Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o
bombardeio como uma representação de teatro: “Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá
vai!” E dessa maneira a revolta ia, familiarmente, entrando nos hábitos e nos costumes da cidade.
Nos cais Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornais, engraxates, quitandeiros ficavam
atrás das portadas, dos urinários, das árvores, a ver, a esperar a queda das balas; e quando acontecia
cair uma, corriam todos em bolo, a apanhá-la como se fosse uma moeda ou guloseima.
As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de relógios, lapiseiras, feitas com
as pequenas balas de fuzis; faziam-se também coleções das médias e com os seus estojos de metal,
areados, polidos, lixados, ornavam os consolos, os dunkerques das casas médias; as grandes, os
“melões” e as “abóboras”, como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou
estátuas.
A lancha continuava a atirar; Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projétil, recuou um pouco
e logo foi posto em posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a
fumaça, lá longe, no navio, jorrar devagar, muito pesada, gritavam: queimou!
Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade. Chamavam-no “Trinta-Réis”;
os jornais do tempo ocuparam-se com ele, fizeram-se subscrições a seu favor. Um herói! Passou a
revolta e foi esquecido, tanto ele como a “Luci”, uma bela lancha que chegou fazer-se entidade na
imaginação da urbs, a interessá-la, a criar inimigos e admiradores.
A embarcação deixou de provocar a fúria do posto do Caju, e Fontes deu instruções ao seu chefe da
peça, e foi-se embora.
Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. Os mais dias que
passou naquele extremo da cidade não eram diferentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e
a guerra caía na banalidade da repetição dos mesmos episódios.
A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, saía. Descia a cidade e deixava o posto entregue a
Polidoro ou a Fontes, se estava.
Raras vezes o fazia de dia, porque Polidoro, o mais assíduo, marceneiro de profissão e em atividade
numa fábrica de móveis, só vinha à noite.
No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o governo pagava soldos
dobrados, e, às vezes, gratificações, além do que havia também a morte sempre presente; e tudo
isso estimulava o divertir-se. Os teatros eram freqüentados e os restaurants noturnos também.
Quaresma, porém, não se metia naquele ruído de praça semi-sitiada. Ia às vezes ao teatro, à
paisana, e, logo acabado o espetáculo, voltava para o quarto da cidade ou para o posto.
Em outras tardes, logo que Polidoro chegava, saía a pé, pelas ruas dos arredores, pelas praias até o
Campo de São Cristóvão.
Ia vendo aquela sucessão de cemitérios, com as suas campas alvas que sobem montanhas, como
carneiros tosquiados e limpos a pastar; aqueles ciprestes meditativos que as vigiam; e como que se
lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte.
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As casas tinham um aspecto fúnebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava lugubremente na
ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste
e lúgubre.
A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer
sentir nela tão forte aspecto funéreo.
Foi vindo até ao Campo; aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do
General Albernaz. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de jantar e jantara com o general, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o
comandante de Quaresma, o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante.
Bustamante era um comandante ativo, mas dentro do quartel. Não havia quem como ele se
interessasse pelos livros, pela boa caligrafia com que eram escritos os livros mestres, as relações de
mostra, os mapas de companhia e outros documentos. Com auxílio deles, a organização do seu
batalhão era irrepreensível; e, para não deixar de vigiar a escrituração, aparecia de onde em onde
nos destacamentos do seu corpo.
Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, ele logo perguntou ao major:
- Quantas deserções?
- Até hoje, nove, disse Quaresma.
Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu:
- Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
- Fazem muito bem... Ora! disse o almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha
dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia
vice-almirante. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo
rumor que corria, ele não comandaria nem uma divisão. Uma iniqüidade! Era velho um pouco, é
verdade; mas, por não ter nunca comandado, nessa matéria ele podia despender toda uma energia
moça.
- O almirante não deve falar assim... A pátria está logo abaixo da humanidade.
- Meu caro tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
- Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros,
continuou Fontes persuasivo.
- Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas.
Bustamente, o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um
tanto sorridentes com a fúria de Caldas, que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos
favoritos brancos. O tenente respondeu:
- Muito, almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de
felicidade e evolução moral.
- Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas.
- Eu também penso assim, acrescentou Albernaz.
- Isto há de sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.
O major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquelas contestações, ao
contrário dos seus congêneres de seita, não se agastou. Ele era magro e chupado, moreno carregado
e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nasal, agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários, depois de
ouvir todos, falou com unção:
- Houve já um esboço: a Idade Média.
Ninguém ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma.
E a sua afirmação fez calar todos, embora no íntimo duvidosos. É uma curiosa Idade Média, essa de
elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que ano? Se a gente diz: “No tempo de
Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame
mais a mulher deste e filhos” - o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o
ascendente da igreja.” “São Luís”, diremos logo nós, “quis executar um senhor feudal porque
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mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas.” Objeta o fiel: “Você
não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a
decadência”... Citam-se as epidemias de moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as
ladroagens à mão armada dos barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos
Magno fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido
o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desaparecido.
Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. O almirante criticava
severamente o governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros à toa; na sua opinião, já devia ter feito todo o esforço para
ocupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue. Bustamente não tinha opinião
assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma
improficuidade patente. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso, e veio a fazê-lo assim:
- Mas nós reconhecemos Humaitá, e por pouco!
- Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturais eram outras e assim mesmo o
reconhecimento foi perfeitamente inútil... O senhor sabe, esteve lá!
- Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão disse-me que foi arriscado.
Quaresma voltara ao silêncio. Ele procurava ver Ismênia. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e
o major se sentia por qualquer cousa preso à moléstia da moça. Viu todos: Dona Maricota, sempre
ativa e diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa interminável, e as outras que
vinham, de quando em quando, da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. Por fim, não se
conteve, perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior, cada vez mais abismada na
sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O general contou tudo com franqueza a Quaresma e quando
acabou de narrar aquela sua desgraça íntima, disse com um longo suspiro:
- Não sei, Quaresma... Não sei.
Eram dez horas quando o major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta do Caju. Saltou e
recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da perturbação especial que põe em nós o luar que
estava lindo, terno e leitoso, naquela noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de delíquio;
parece que nos tiram o envoltório material e ficamos só alma, envolvidos numa branda atmosfera
de sonhos e quimeras. O major não colhia bem a sensação transcendente, mas sofria sem perceber o
efeito da luz pálida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não por sono, mas em virtude
daquela doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos.
Dentro em pouco Ricardo veio chamá-lo: o marechal estava aí. Era seu hábito sair à noite, às vezes,
de madrugada, e ir de posto em posto. O fato se espalhou pelo público que o apreciava
extraordinariamente, e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista
consumado.
Quaresma veio ao seu encontro. Floriano vestia chapéu de feltro mole, abas largas, e uma curta
sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de família em aventuras
extraconjugais.
O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque que fora feito ao seu posto, há dias
passados. O marechal respondia por monossílabos preguiçosos e olhava ao redor. Quase ao
despedir-se, falou mais, dizendo vagarosamente, lentamente:
- Hei de mandar pôr um holofote aqui.
Quaresma veio acompanhá-lo até ao bonde. Atravessaram o velho sítio de recreio dos imperadores.
Um pouco afastada da estação uma locomotiva, semi-acesa, resfolegava. Semelhava roncar,
dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, sossegados como que dormiam.
As anosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente de prata.
O luar estava magnífico. Os dous andavam, o marechal perguntou:
- Quantos homens tem você?
- Quarenta.
83
O marechal mastigou um: “não é muito”; e voltou ao mutismo. Num dado momento, Quaresma
viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe mais simpática a fisionomia do ditador. Se lhe
falasse...
Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronunciá-la. Continuaram a andar. O major
pensou: que é que tem? não há desrespeito algum. Aproximaram-se do portão. Num dado momento
como que houve uma bulha atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quase não o fez.
Os edifícios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco luar. O major continuou a
mastigar a sua pergunta; urgia, era indispensável; o portão estava a dous passos. Tomou coragem,
ousou e falou:
- Vossa Excelência já leu o meu memorial, marechal?
Floriano respondeu lentamente, quase sem levantar o lábio pendente:
- Li.
Quaresma entusiasmou-se:
- Vê Vossa Excelência como é fácil erguer este país. Desde que se cortem todos aqueles
empecilhos que eu apontei, no memorial que Vossa Excelência teve a bondade de ler; desde que se
corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável às condições do país, Vossa
Excelência verá que tudo isto muda, que, em vez de tributários, ficaremos com a nossa
independência feita... Se Vossa Excelência quisesse...
À proporção que falava, mais Quaresma se entusiasmava. Ele não podia ver bem a fisionomia do
ditador, encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de feltro; mas, se a visse,
teria de esfriar, pois havia na sua máscara sinais do aborrecimento mais mortal. Aquele falatório de
Quaresma, aquele apelo à legislação, a medidas governamentais, iam mover-lhe o pensamento, por
mais que não quisesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
- Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não
havia exército que chegasse...
Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
- Mas, não é isso, marechal. Vossa Excelência, com o seu prestígio e poder, está capaz de
favorecer, com medidas enérgicas e adequadas, o aparecimento de iniciativas, de encaminhar o
trabalho, de favorecê-lo e torná-lo remunerador... Bastava, por exemplo...
Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava lindo, plástico e opalescente.
Um grande edifício inacabado que havia na rua parecia terminado, com vidraças e portas feitas com
a luz da lua. Era um palácio de sonho.
Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; ele se despediu do major, dizendo
com aquela sua placidez de voz:
- Você, Quaresma, é um visionário...
O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava fisionomia às cousas, fazia nascer sonhos em nossa
alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz emprestada...

III
...E Tornaram Logo Silenciosos...
- Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não há meio!
- Já a levou a um médico especialista?
- Já. Tenho corrido médicos, espíritas, até feiticeiros, Quaresma!
E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez. Os dous se haviam encontrado na
pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant’Anna, a pé, andando a pequenos passos e
conversando. O general era mais alto que Quaresma, e enquanto este tinha a cabeça sobre um
pescoço alto, aquele a tinha metida entre os ombros proeminentes, como cotos de asas. Albernaz
reatou:
- E remédios! Cada médico receita uma cousa; os espíritas são os melhores, dão homeopatia; os
feiticeiros tisanas, rezas e defumações... Eu não sei, Quaresma!
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E levantou os olhos para o céu, que estava um tanto plúmbeo. Não se demorou, porém, muito nessa
postura; o pince-nez não permitia, já começava a cair.
Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio.
Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:
- Por que não a recolhe a uma casa de saúde, general?
- Meu médico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, no estado em que a
menina está, não vale a pena...
Falava da filha, da Ismênia, que, naqueles últimos meses, piorava sensivelmente, não tanto da sua
moléstia mental, mas da saúde comum, vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo,
definhando, marchando a passos largos para o abraço frio da morte.
Albernaz dizia a verdade; para curá-la tanto de sua loucura como da atual moléstia intercorrente,
lançara mão de todos os recursos, de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.
Era de fazer refletir ver aquele homem, general, marcado com um curso governamental, procurar
médiuns e feiticeiros, para sarar a filha.
Às vezes até levava-os em casa. Os médiuns chegavam perto da moça, davam um estremeção,
ficam com uns olhos desvairados, fixos, gritavam: “Sai, irmão!” - e sacudiam as mãos, do peito
para a moça, de lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre ela os
fluidos milagrosos.
Os feiticeiros tinham outros passes e as cerimônias para entrar no conhecimento das forças ocultas
que nos cercam eram demoradas, lentas e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam,
acendiam um fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa
esquisita, batiam com feixes de ervas, ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras
ininteligíveis. O ritual era complicado e tinha a sua demora.
Na saída, a pobre Dona Maricota, um tanto já diminuída da sua atividade e diligência, olhando
ternamente aquele grande rosto negro do mandingueiro, onde a barba branca punha mais veneração
e certa grandeza, perguntava:
- Então, titio?
O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as últimas comunicações do que não
se vê nem se percebe, e dizia com a sua majestade de africano:
- Vô vê, nhãnhã... Tô crotando mandinga...
Ela e o general tinham assistido à cerimônia e o amor de pais e também esse fundo de superstição
que há em todos nós levavam a olhá-la com respeito, quase com fé.
- Então foi feitiço que fizeram à minha filha? perguntava a senhora.
- Foi, sim, nhanhã.
- Quem?
- Santo não qué dizê.
E o preto obscuro, velho escravo, arrancado há um meio século dos confins da África, saía
arrastando a sua velhice e deixando naqueles dous corações uma esperança fugaz.
Era uma singular situação, a daquele preto africano, ainda certamente pouco esquecido das dores do
seu longo cativeiro, lançando mão dos resíduos de suas ingênuas crenças tribais, resíduos que tão a
custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses - e empregando-os na
consolação dos seus senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua infância e de sua raça,
aqueles sanguinários manipansos da África indecifrável, quisessem vingá-lo à legendária maneira
do Cristo dos Evangelhos...
A doente assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles trejeitos e passes de tão
poderosos homens que se comunicavam, que tinham às suas ordens os seres imateriais, as
existências fora e acima da nossa.
Andando, ao lado de Quaresma, o general lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo
contra a ciência, contra os espíritos, contra os feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos
poucos sem piedade e comiseração.
85
O major não sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecia-lhe toda e qualquer
palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:
- General, o senhor permite que eu a faça ver por um médico?
- Quem é?
- É o marido de minha afilhada... o senhor conhece... É moço, quem sabe lá! Não acha? Pode ser,
não é?
O general consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Cada médico
que consultava, cada espírita, cada feiticeiro reanimava-o, pois de todos eles esperava o milagre.
Nesse mesmo dia, Quaresma foi procurar o Doutor Armando.
A revolta já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas. No
Sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas
páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro de suas
trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque
era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar
verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte.
A ilha do Governador tinha sido ocupada e Magé tomado; os revoltosos, porém, tinham a vasta baía
e a barra apertada, por onde saíam e entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.
As violências, os crimes que tinham assinalado esses dous marcos de atividade guerreira do
governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria.
Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de móveis, roupas e outros haveres. O que
não podia ser transplantado, era destruído pelo fogo e pelo machado.
A ocupação deixou lá a mais execranda memória e até hoje os seus habitantes ainda se recordam
dolorosamente de um capitão, patriótico ou da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e
insofrido gosto pelo saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe, e o
capitão chamava o pobre homem:
- Venha cá!
O homem aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava:
- Quanto quer por isso?
- Três mil-réis, capitão.
Ele sorria diabolicamente e familiarmente regateava:
- Você não deixa por menos?... Está caro... Isso é peixe ordinário... Carapebas! Ora!
- Bem, capitão vá lá por dous e quinhentos.
- Leve isso lá dentro.
Ele falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em pé, demonstrando que
esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho:
- Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.
Entretanto, Moreira César deixou boas recordações de si e ainda hoje há lá quem se lembre dele,
agradecido por este ou aquele benefício que o famoso coronel lhe prestou.
As forças revoltosas pareciam não ter enfranquecido; tinham, porém, perdido dous navios, sendo
um destes o “Javari”, cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra
detestavam-no particularmente. Era um monitor, chato, raso com a água, uma espécie de sáurio ou
quelônio de ferro, de construção francesa. A sua artilharia era temida; mas o que sobremodo
enraivecia os adversários, era ele não ter quase borda acima d’água, ficar quase ao nível do mar e
fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas máquinas não funcionavam e a grande tartaruga
vinha colocar-se em posição de combate com auxílio de um rebocador.
Um dia em que estava nas proximidades de Villegaignon, foi a pique. Não se soube e até hoje não
foi esclarecido por que foi. Os legalistas afirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os
revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma válvula ou um outro acidente qualquer.
Como o do seu irmão, o “Solimões”, que desapareceu nas costas de cabo Polônio, o fim do “Javari”
ainda está envolvido no mistério.
86
Quaresma permanecia de guarnição no Caju, e viera receber dinheiro. Deixara lá Polidoro, pois os
outros oficiais estavam doentes ou licenciados, e Fontes, que, sendo uma espécie de inspetor-geral,
ao contrário de seus hábitos, dormira aquela noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até à
tarde.
Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da proibição de tocar violão, andava macambúzio.
Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco
de árvore maldizendo no fundo de si a incompreensão dos homens e os caprichos do destino.
Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto, obrigara a Bustamante a fazê-lo
sargento. Não foi sem custo, porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa graduação
e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes.
A vida do pobre menestrel era assim de um melro engaiolado; e, de quando em quando, ele se
afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos
disparos.
Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu demorar-se mais, e,
após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a casa do seu compadre, a fim de cumprir a
promessa que fizera ao general.
Coleoni ainda não decidira a sua viagem à Europa. Hesitava, esperando o fim da rebelião que não
parecia estar próximo. Ele nada tinha com ela; até ali, não dissera a ninguém a sua opinião; e, se era
muito instado, apelava para a sua condição de estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. Mas,
aquela exigência de passaporte, tirado na chefatura de polícia, dava-lhe susto. Naqueles tempos,
toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os estrangeiros,
tanta arrogância nos funcionários que ele não se animava a ir obter o documento, temendo que uma
palavra, que um olhar, que um gesto, interpretados por qualquer funcionário zeloso e dedicado, não
o levassem a sofrer maus quartos de hora.
Verdade é que ele era italiano e a Itália já fizera ver ao ditador que era uma grande potência, mas no
caso de que se lembrava, tratava-se de um marinheiro, por cuja vida, extinta por uma descarga das
forças legais, Floriano pagara a quantia de cem contos. Ele, Coleoni, porém, não era marinheiro e
não sabia, caso fosse preso, se os representantes diplomáticos de seu país tomariam interesse pela
sua liberdade.
De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade, quando o governo provisório expediu o
famoso decreto de naturalização, era bem possível que uma ou outra parte se ativessem a isso, para
desinteressar-se dele ou mantê-lo na famosa galeria nº 7, da Casa de Correição, transformada, por
uma penada mágica, em prisão de Estado.
A época era de susto e temor, e todos esses que ele sentia, só os comunicava à filha, porque o genro
cada vez mais se fazia florianista e jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos
estrangeiros.
E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fora nomeado médico do Hospital de
Santa Bárbara, na vaga de um colega, demitido a bem do serviço público como suspeito por ter ido
visitar um amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéu do mesmo nome, dentro da
baía, em frente à Saúde e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos, ele nada tinha que
fazer, pois até agora o governo não aceitara os seus oferecimentos de auxiliar o tratamento dos
feridos.
O major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha saído, ido dar volta pela cidade, dar arras
de sua dedicação à causa legal, conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não
esquecendo também de passear pelos corredores do Itamarati, fazendo-se ver pelos ajudantes-de-
ordens, secretários e outras pessoas influentes no ânimo de Floriano.
A moça viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava
ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do
seu destacamento, a passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente,
como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento qualquer em que a morte
não estivesse presente.
87
Tanto mais que o via apreensivo, deixando perceber numa frase e noutra o desânimo e
desesperança.
Na verdade o major tinha um espinho n’alma. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças de
reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a idéia que ele fazia do
ditador. Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o
chamava de visionário, que não avaliava o alcance dos seus projetos, que os não examinava sequer,
desinteressado daquelas altas cousas de governo como se não o fosse!... Era pois para sustentar tal
homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem
que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não
se interessava pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do país, o
progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural?
Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma raiva de si mesmo; mas
em seguida considerava: o homem está atrapalhado, não pode agora; mais tarde com certeza ele
fará a cousa...
Vivia nessa alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreensões, desânimo e desesperança,
notados por sua afilhada na sua fisionomia já um pouco acabrunhada.
Não tardou, porém, que, abandonando os episódios da sua vida militar, Quaresma explicasse o
motivo de sua visita.
- Mas qual delas? perguntou a afilhada.
- A segunda, a Ismênia.
- Aquela que estava para casar com o dentista?
- Esta mesmo.
- Ahn!...
Ela pronunciou este “ahn” muito longo e profundo, como se pusesse nele tudo que queria dizer
sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da moça, mas via melhor a causa, naquela obrigação
que incrustam no espírito das meninas, que elas se devem casar a todo o custo, fazendo do
casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma desonra, uma injúria, ficar solteira.
O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada disso: é simplesmente casamento,
uma coisa vazia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades.
Graças à frouxidão, à pobreza intelectual e fraqueza de energia vital de Ismênia, aquela fuga do
noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nela se abismou nessa idéia desesperada.
Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando lutava pela fortuna se
fez duro e áspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem
que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo.
Ultimamente o major tinha diminuído um pouco o interesse pela moça; andava atormentado com o
seu caso de consciência, entretanto, se não tinha um constante e particular pensamento pela desdita
da filha de Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.
Não se demorou muito na casa do compadre; ele queria, antes de voltar ao Caju, passar pelo quartel
do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no
“Sossego”, e de quem tinha notícias, por carta, três vezes por semana. Eram elas satisfatórias,
contudo ele tinha necessidade de ver tanto ela como o Anastácio, fisionomias com quem se
encontrava diariamente há tantos anos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituísse a
calma e a paz de espírito.
Na última carta que recebera de Dona Adelaide, havia uma frase de que, no momento, se lembrava
sorrindo: “Não te exponhas muito, Policarpo. Toma muita cautela.” Pobre Adelaide! Estava a
pensar que esse negócio de balas é assim como a chuva?!...
O quartel ainda ficava no velho cortiço condenado pela higiene, lá para as bandas da Cidade Nova.
Assim que Quaresma apontou na esquina, a sentinela deu um grande berro, fez uma imensa bulha
com a arma e ele entrou, tirando o chapéu da cabeça baixa, pois estava a paisana e tinha
abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as susceptibilidades republicanas dos
jacobinos.
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No pátio, o instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados gritos:
ombroôô... armas! mei-ããã volta... volver! subiam no céu e ecoavam longamente pelos muros da
antiga estalagem.
Bustamente estava no seu cubículo, mais conhecido por gabinete, irrepreensível no seu uniforme
verde-garrafa, alamares dourados e vivos azul-ferrete. Com auxílio de um sargento, examinava a
escrita de um livro quarteleiro.
- Tinta vermelha, sargento! É como mandam as instruções de 1864.
Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.
Logo que viu Quaresma entrar, o comandante exclamou radiante:
- O major adivinhou!
Quaresma descansou placidamente o chapéu, bebeu um pouco d’água, e o Coronel Inocêncio
explicou a alegria:
- Sabe que temos de marchar?
- Para onde?
- Não sei... Recebi ordem do Itamarati.
Ele não dizia nunca do quartel-general, nem mesmo do ministro da Guerra; era do Itamarati; do
Presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava mais importância a si mesmo e ao seu
batalhão, fazia-o uma espécie de batalhão da guarda, favorito e amado do ditador. Quaresma não se
espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossível obter a licença e também necessário
mudar os seus estudos: da artilharia, tinha que passar para a infantaria.
- O major é que vai comandar o corpo, sabia?
- Não, coronel. E o senhor não vai?
- Não, disse Bustamante, alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado esquerdo.
Tenho que acabar a organização da unidade e não posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...
Começava a tarde, quando Quaresma saiu do quartel. O instrutor coxo continuava, com força,
majestade e demora, a gritar: om-brôôô... armas! A sentinela não pôde fazer a bulha da entrada,
porque só viu o major quando já ia longe. Ele desceu até à cidade e foi ao correio. Havia alguns
tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação
definitiva da República.
Antes de chegar ao correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a uma livraria e comprou
livros sobre infantaria; precisava também dos regulamentos: arranjaria no quartel-general.
Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Niterói? Não sabia... Não sabia... Ah! se isso fosse para
realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...
E passou o dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias.
O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general. Ele levava a íntima
convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma cousa; mas assim não se deu.
A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco atenuada, o seu organismo caía.
Estava magra e fraca, a ponto de quase não poder sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto
a ela vivia; as irmãs se desinteressavam um pouco, pois as exigências de sua mocidade levavam-nas
para outros lados.
Dona Maricota, tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes, estava sempre no
quarto da filha, a consolá-la, animá-la e, às vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um
tanto culpada pela sua infelicidade.
A moléstia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia, tinha-lhe diminuído a lassidão, tirado o
mortiço dos olhos e os seu lindos cabelos castanhos, com reflexos de ouro, mais belos se faziam
quando cercavam a palidez de sua face.
Raro era falar muito; e assim foi que, naquele dia, se espantou muito Dona Maricota com a
loquacidade da filha.
- Mamãe, quando se casa Lalá?
- Quando se acabar a revolta.
- A revolta ainda não acabou?
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A mãe respondeu-lhe e ela esteve um instante calada, olhando o teto, e, após essa contemplação
disse à mãe:
- Mamãe... Eu vou morrer...
As palavras saíram-lhe dos lábios, seguras, doce e naturais.
- Não diga isso, minha filha, adiantou-se Dona Maricota. Qual morrer! Você vai ficar boa; seu pai
vai levar você para Minas; você engorda, toma forças...
A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como se se tratasse de uma
criança. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente:
- Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa à senhora...
A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta
semicerrada e levantou-se para fechá-la. Quis ainda ver se a dissuadia daquele pensamento;
Ismêndia, porém, continuava a repeti-lo pacientemente, docemente, serenamente:
- Eu sei, mamãe.
- Bem. Suponho que é verdade: o que é que você quer?
- Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.
Dona Maricota ainda quis brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, pôs-se a
dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, comovida, com lágrimas nos olhos e
a secreta certeza de que a filha falava a verdade.
Não tardou muito a se verificar. O Doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela quarta
vez; ela parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento, sentava-se à cama e
conversava com prazer.
Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs. Elas foram lá ao
quarto várias vezes e parecia dormir. Distraíram-se.
Ismênia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve
vontade de vê-lo mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplá-lo.
Chegou-lhe o desejo de vesti-lo. Pôs a saia; e, por aí, vieram recordações do seu casamento falhado.
Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas
não se recordou com ódio, antes como se fosse um lugar visto há muito tempo, e que a tivesse
impressionado.
De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. Iludindo sua mãe, acompanhada por uma
criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indiferença ela lhe respondeu: não volta!
Aquilo doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah! Acabou de abotoar a saia em cima do
corpinho, pois não encontrara colete; e foi ao espelho. Viu os seu ombros nus, o seu colo muito
branco...Surpreendeu-se. Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. O
véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueza, uma
cousa, deu um ai e caiu de costas na cama, com as pernas para fora... Quando a vieram ver, estava
morta. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.
O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia, como nos dias de
suas melhores festas.
Quaresma foi ao enterro; ele não gostava muito dessa cerimônia; mas veio, e foi ver a pobre moça,
no caixão, coberta de flores, vestida de noiva, com um ar imaculado de imagem. Pouco mudara,
entretanto. Era ela mesma ali; era a Ismênida dolente e pobre de nervos, com os seus traços miúdos
e os seus lindos cabelos, que estava dentro daquelas quatro tábuas. A morte tinha fixado a sua
pequena beleza e o seu aspecto pueril; e ela ia para a cova com a insignificância, com a inocência e
a falta de acento próprio que tinha tido em vida.
Contemplando aqueles tristes restos, Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do cemitério,
atravessar pelas ruas de túmulos - uma multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na
estreiteza da várzea e nas encostas das colinas. Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e
se queriam aproximar; em outras, transparecia repugnância por estarem perto. Havia ali, naquele
mudo laboratório de decomposições, solicitações incompreensíveis, repulsões, simpatias e
antipatias; havia túmulos arrogantes, vaidosos, orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muito,
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ressumava o esforço, um esforço extraordinário, para escapar ao nivelamento da morte, ao
apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
Quaresma ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as
esculturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e inscrições, em alguns túmulos; noutros, eram
pirâmides de pedra tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, cousas
barrocas e delirantes, para fugir ao anonimato do túmulo, ao fim dos fins.
As inscrições exuberam: são longas, são breves; têm nomes, têm datas, sobrenomes, filiações, toda
a certidão de idade do morto que, lá embaixo, não se pode mais conhecer e é lama pútrida.
E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem uma celebridade, uma
notabilidade, um desses nomes que enchem décadas e, às vezes, mesmo já mortos, parece que
continuam a viver. Tudo é desconhecido; todos aqueles que querem fugir do túmulo para a
memória dos vivos são anódinos felizes e medíocres existências que passaram pelo mundo sem ser
notadas.
E lá ia aquela moça por ali afora para o buraco escuro, para o fim, sem deixar na vida um traço
mais fundo de sua pessoa, de seus sentimentos, de sua alma!
Quaresma quis afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. Ele estivera na sala
de visitas, onde Dona Maricota também estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe
diziam. O Lulu, fardado do colégio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As irmãs iam e
vinham. Na sala de jantar, estava o general silencioso, tendo ao lado Fontes e outros amigos.
Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou, pôde ouvir o
almirante dizer:
- Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O governo está exausto.
O major ficou na janela que dava para o quintal. O tecido do céu se tinha adelgaçado; o azul estava
sedoso e fino; e tudo tranqüilo, sereno e calmo.
A Estefânia, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que levava, de
quando em quando, o lenço aos olhos já secos, a quem aquela dizia:
- Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao “Bonheur des Dames”... Dizem que tem
cousas boas e é pechincheiro.
O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. Tinha uma tranqüilidade quase
indiferente. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. Todo de preto, ele tinha afivelado ao
rosto a mais profunda máscara de tristeza. O seu pince-nez azulado também parecia de luto.
Não lhe fora possível deixar de ir trabalhar; um serviço urgente fizera-o indispensável na
repartição.
- É isto, general, disse ele, não está lá o Doutor Genelício, nada se faz... Não há meio da Marinha
mandar os processos certos... É um relaxamento...
O general não respondeu; estava deveras combalido. Bustamente e Caldas continuavam a conversar
baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. Quinota chegou à sala de jantar.
- Papai, está aí o coche.
O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou à mulher que se ergueu com a face
contraída, exprimindo uma grande contensão. Os seus cabelos já tinham muitos fios de prata. Não
deu um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. Todos estavam vendo
sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelício tomou um partido: foi retirando os círios de ao
redor do caixão. A mãe levantou-se, veio até ao esquife, beijou o cadáver: minha filha!
Quaresma adiantou-se, foi saindo com o chapéu na mão. No corredor, ainda ouviu Estefânia dizer a
alguém: o coche é bonito.
Saiu. Na rua parecia que havia festa. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e faziam
inocentes comentários sobre os dourados e enfeites. As grinaldas foram aparecendo e sendo
penduradas nas extremidades das colunas do coche: “À minha querida filha”, “À minha irmã”. As
fitas roxas e pretas, com letras douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.
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Apareceu o caixão, todo roxo, com guarnições de galões dourados, muito brilhantes. Tudo aquilo ia
pra terra. As janelas se povoaram, de um lado e doutro da rua; um menino na casa próxima gritou
da rua para o interior: “Mamãe, lá vai o enterro da moça!”
O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuário, cujos cavalos, ruços, cobertos com
uma rede preta, escarvavam o chão cheios de impaciência.
Aqueles que iam acompanhar até ao cemitério procuravam os seus carros. Embarcaram todos, e o
enterro rodou.
A esse tempo, na vizinhança, alguns pombos imaculadamente brancos, as aves de Vênus, ergueram
o vôo, ruflando estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos, quase
sem bater asas, para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses...

IV
O Boqueirão
O Sítio de Quaresma, em Curuzu, voltava aos poucos ao estado de abandono em que ele o
encontrara. A erva daninha crescia e cobria tudo. As plantações que fizera tinham desaparecido na
invasão do capim, do carrapicho, das urtigas e outros arbustos. Os arredores da casa ofereciam um
aspecto desolador, apesar dos esforços de Anastácio, sempre vigoroso e trabalhador na sua forte
velhice africana, mas baldo de iniciativa, de método, de continuidade no esforço.
Um dia capinava aqui, noutro dia ali, outro pedaço, e assim ia saltando de trecho em trecho, sem
fazer trabalho que se visse, permitindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto
de desleixo que não condizia com o seu trabalho efetivo.
As formigas voltaram também, mais terríveis e depredadoras, vencendo obstáculos, devastando
tudo, restos de seara, brotos de fruteiras, até os araçazeiros depenavam, com uma energia e bravura
que sorriam aos fracos expedientes da inteligência crestada do antigo escravo, incapaz de achar
meios eficazes de batê-las ou afungentá-las.
Entretanto ele cultivava. Era a sua mania, o seu vício, uma teimosia de caduco. Tinha uma horta
que disputava diariamente às saúvas; e, como os animais da vizinhança a tivessem um dia invadido,
ele a protegeu pacientemente com uma cerca de materiais mais inconcebíveis: latas de querosene
desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, tábuas de caixão, não obstante ter à mão bambus à
vontade.
Na sua inteligência havia uma necessidade do tortuoso, do aparentemente fácil; e, em tudo ele
punha esse jeito de sua psique, tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava,
irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo à regularidade, ao paralelismo, à simetria, com um
horror artístico.
A revolta tinha tido sobre a política local efeito pacificador. Todos os partidos se fizeram
dedicadamente governistas, de forma que, entre os dous poderosos contendores, o Doutor Campos
e o Tenente Antonino, houve um traço-de-união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso
que ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que pôs em perigo a
segurança de ambos e eles se puseram em expectativa, um instante unidos.
O candidato foi imposto pelo governo central e as eleições chegaram. É um momento bem curioso
esse das eleições na roça. Não se sabe bem donde saem tantos tipos exóticos. De tal forma são eles
esquisitos que se pode mesmo esperar que apareçam calções e bofes de renda, espadins e gibão. Há
sobrecasacas de cintura, há calças boca de sino, há chapéus de seda - todo um museu de
indumentária que aqueles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas
esburacadas e estradas poeirentas das vilas e lugarejos. Não faltam também os valentões, com
calças bombachas e grandes bengalões de pequiá, à espera do que der e vier.
Para a monótona vida que levava Dona Adelaide, esse desfile de manequins de museu, por sua
porteira, em direção à seção eleitoral que lhe ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ela
passava longos e tristes dias naquele isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de
Felizardo, a Sinhá Chica, uma velha cafuza, espécie de Medéia esquelética, cuja fama de rezadeira
pairava por sobre todo o município. Não havia quem como ela soubesse rezar dores, cortar febres,
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curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais: a língua-de-vaca, a silvina, o cipó-
chumbo - toda aquela drogaria que crescia pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de
árvores.
Além desse saber que a fazia estimada e respeitável, tinha também a habilidade de assistir partos.
Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo remediada, todos os nascimentos se faziam aos
cuidados de suas luzes.
Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento doméstico em cruz, repetidas
vezes, sobre a sede da dor ou da tarefa, rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam
o espírito maligno que estava ali. Contavam-se dela milagres, vitórias extraordinárias,
denunciadoras do seu estranho poder quase mágico, sobre as forças ocultas, que nos perseguem ou
nos auxiliam.
Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e a toda a hora, consistia no afastamento das
lagartas. Os vermes haviam dado num feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o
proprietário já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes
de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôs cruzes de gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse
uma cerca de invisível material que nelas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta e colocou-se
na oposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. Os vermes, num rebanho moroso e
serpejante, como se fossem tocados pela vara de um pastor, foram saindo na sua frente, devagar,
aos dous, aos quatro, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.
O Doutor Campos não tinha absolutamente nenhuma espécie de ciúme dessa rival. Armou-se de
um pequeno desdém pelo poder sobre-humano da mulher, mas não apelou nunca para o arsenal de
leis, que vedava o exercício de sua transcendente medicina. Seria a impopularidade; ele era
político...
No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as duas medicinas coexistem sem
raiva e ambas atendem às necessidades mentais e econômicas da população.
A da Sinhá Chica, quase grátis, ia ao encontro da população pobre, daquela em cujos cérebros, por
contágio ou herança, ainda vivem os manitus e manipansos, sujeitos a fugirem aos exorcismos,
benzeduras e fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente pobre da terra, ali
nascida ou criada; havia mesmo recém-chegados de outros ares, italianos, portugueses e espanhóis,
que se socorriam da sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contágio das crenças
ambientes, mas também por aquela estranha superstição européia de que todo o negro ou gente
colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria.
Enquanto a terapêutica fluídica ou herbácea de Sinhá Chica atendia aos miseráveis, aos pobretões, a
do Doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina
regular e oficial.
Às vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas moléstias graves, nas complicadas, nas
incuráveis, quando as ervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pílulas do doutor
eram impotentes.
Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradável. Vivia sempre mergulhada no seu sonho
divino, abismada nos misteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos
baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de múmia, tanto ela era encarquilhada e
seca.
Não esquecia também os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, as orações ortodoxas;
embora não soubesse ler, era forte no catecismo e conhecia a história sagrada aos pedaços,
aduzindo a eles interpretações suas e interpolações pitorescas.
Com o Apolinário, o famoso capelão das ladainhas, era ela o forte poder espiritual da terra. O
vigário ficava relegado a um papel de funcionário, espécie de oficial de registro civil, encarregado
dos batizados e casamentos, pois toda a comunicação com Deus e o invisível se fazia por
intermédio de Sinhá Chica ou do Apolinário. É de dever falar em casamento, mas bem podiam ser
esquecidos, porque a nossa gente pobre faz uso reduzido de tal sacramento e a simples mancebia,
por toda a parte, substitui a solene instituição católica.
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Felizardo, o marido dela, aparecia pouco em casa de Quaresma; e, se aparecia, era à noite, passando
os dias pelos matos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o
barulho já tinha acabado.
Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janela e embrenhando-se na capoeira, à
menor bulha ouvida.
Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam à depressão moral dos pais uma pobreza
de vigor físico e uma indolência repugnante. Eram dous rapazes: o mais velho, José, orçava pelos
vinte anos; ambos inertes, moles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, das rezas e
benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pai.
Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho contínuo. De
quando em quando, assim de quinze em quinze dias, faziam uma talha de lenha e vendiam ao
primeiro taverneiro pela metade do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de
cores vivas, um vidro de água-de-colônia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda neles
gostos bastantes selvagens.
Passavam então uma semana em casa, a dormir ou perambular pelas estradas e vendas; à noite,
quase sempre nos dias de festa e domingos, saíam com a “harmônica” a tocar peças, no que eram
exímios, sendo a presença deles muito requestada nos bailes da vizinhança.
Embora seus pais vivessem em casa de Quaresma, raramente lá apareciam; e, se o faziam, era
porque de todo não tinham que comer. Levavam o descuido da vida, a imprevidência, a ponto de
não terem medo do recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e bondade,
mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes à natureza, como uma pena ou castigo.
Essa atonia da nossa população, essa espécie de desânimo doentio, de indiferença nirvanesca por
tudo e todas as cousas cercam de uma caligem de tristreza desesperada a nossa raça e tira-lhe o
encanto, a poesia e o viço sedutor de plena natureza.
Parece que nem um dos grandes países oprimidos, a Polônia, a Irlanda, a Índia apresentará o
aspecto cataléptico do nosso interior. Tudo aí dorme, cochila, parece morto; naqueles há revolta, há
fuga para o sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...
A ausência de Quaresma trouxera para o seu sítio essa atmosfera geral da roça. O “Sossego”
parecia dormir, dormir de encantamento, à espera que o príncipe o viesse despertar.
Máquinas agrícolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a etiqueta da casa. Aqueles
arados de ponta de aço, que tinham chegado com a relva reluzente, de um brilho azulado e doce,
estavam hediondos e morriam de tédio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente
para o céu mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no galinheiro, o esvoaçar dos
pombos - todo esse hino matinal de vida, de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras
rosadas e com o chilreio álacre do passaredo; e ninguém sabia ver as paineiras em flor; com as suas
lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, caíam docemente como aves feridas.
Dona Adelaide não tinha nem gosto nem atividade para superintender aqueles serviços e fruir a
poesia da roça. Sofria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os
gêneros na venda e não se incomodava com as cousas do sítio.
Ansiava pela volta do irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, às quais ele respondia aconselhando
calma, fazendo promessas. A última recebida, porém, tinha de sopetão outro acento; não era mais
confiante, entusiástica, traía desânimo, desalento, mesmo desespero.
“Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi há quase duas semanas.
Justamente quando ela me chegou às mãos, acabava de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas
que me levou à cama e tratar-me-á uma convalescença longa. Que combate, milha filha! Que
horror! Quando me lembro dele, passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má. Fiquei
com um horror à guerra que ninguém pode avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas,
chorões sinistros, imprecações - e tudo isto no seio da treva profunda da noite... Houve momentos
que se abandonaram as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta, a coronhadas, a machado, a facão.
Filha: um combate de trogloditas, uma cousa pré-histórica... Eu duvido, eu duvido, duvido da
justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de
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nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos
milenários combates com as feras, quando disputávamos a terra a elas... Eu não vi homens de hoje;
vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem
amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo também fez
das suas, também foi descobrir dentro de si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade...
Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o
inimigo arquejava a meus pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei
a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguém enfim... Não imaginas como isto faz-me sofrer...
Quando caí embaixo de uma carreta, o que doía não era a ferida, era a alma, era a consciência; e
Ricardo, que foi ferido e caiu ao meu lado, a gemer e pedir - “capitão, meu gorro; meu gorro!” -
parecia que era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino...
Esta vida é absurda e ilógica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não
sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de
sol para sol...
O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes encargos, irei viver na
quietude, na quietude mais absoluta possível, para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das
cousas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade, que mais
me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver...
Além do que, penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Tudo o que nele pus de
pensamento não foi atingido; e o sangue que derramei, e o sofrimento que vou sofrer toda a vida
foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralizados em prol
de uma tolice política qualquer...
Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo,
maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade.”
..................................................................................................
Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era, porém, delicado e exigia tempo
para uma cura completa e sem perigos. Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o
sofrimento de Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era físico e não se
cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até à posição de combatente.
Os hospitais em que se tratavam estavam separados pela baía, agora intransponível, exigindo a
viagem de uma margem à outra bem doze horas por estrada de ferro.
Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela estação em que morava. O
trem, porém, não parava, e ele se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para
aquele seu “Sossego”, de terras pobres e árvores velhas, onde sonhara repousar calmamente por
toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrível das aventuras.
E ele perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro sossego, onde se poderia
encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo qual tanto ansiava, depois dos sacolejamentos por que
vinha passando - onde? E o mapa dos continentes, as cartas dos países, as plantas das cidades,
passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou um país, uma província, uma cidade, uma rua
onde o houvesse.
A sua sensação era de fadiga, não física, mas moral e intelectual. Tinha vontade de não mais
pensar, de não mais amar; queria, contudo, viver, por prazer físico, pela sensação material pura e
simples de viver.
Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma visita, sem ver uma
face amiga.
Coleoni e família se haviam retirado para fora; o general, por preguiça e desleixo, não viera vê-lo.
Vivia só, envolvido na suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas idéias e
mais que tudo nas suas desilusões.
Entretanto, a revolta na baía chegava ao fim; toda a gente já pressentia isso e queria esse alívio.
O almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com tristeza. O
primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta para o quadro; e o
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general sentia perder a sua comissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhorar a
situação da família.
Naquela manhã, bem cedo, Dona Maricota acordara o marido:
- Chico, levanta-te! Olha que tens que ir à missa do Senador Clarimundo...
Ouvindo a recomendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito. Era preciso não faltar. A sua
presença se impunha e significava muito. Clarimundo fora um republicano histórico, agitador,
tribuno temido, no tempo do Império; após a República, porém, não apresentara aos seus pares do
Senado nada de útil e benfazejo. Embora assim, a sua influência ficara sendo grande; e, com
diversos outros, era chamado patriarca da República. Há nos próceres republicanos uma
necessidade extraordinária de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que eles se
recomendam com teimoso interesse.
Clarimundo era um desses próceres e, durante a comoção, não se sabia bem por quê, o seu prestígio
cresceu e já se falava nele para substituir o marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir
a sua missa era quase uma afirmação política.
A dor da morte da filha já se esvaíra muito na sua memória. O que o fazia sofrer era aquela
semivida da moça, mergulhada na loucura e na moléstia. A morte tem a virtude de ser brusca, de
chocar, mas não corroer, como essas moléstias duradouras nas pessoas amadas; passado que é o
choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido, uma boa fisionomia sempre
presente aos nossos olhos.
Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando
insensivelmente.
Obediente à mulher, preparou-se, vestiu-se e saiu. Conquanto se estivesse ainda em plena revolta,
esses ofícios fúnebres se faziam nas igrejas do centro da cidade. O general chegou a tempo e à hora.
Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assinar as listas de presença. Não tanto que
quisessem atestar à família do morto esse ato delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter
os nomes nos jornais.
Albernaz não deixou de atirar-se também a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia; e,
quando ia assinar, alguém lhe falou. Era o almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram
entrar na nave cheia, e ficaram a um vão da janela, na sacristia, conversando.
- Então acaba breve, hein?
- Dizem que a esquadra já saiu de Pernambuco.
Fora Caldas quem falara primeiro e a resposta do general fê-lo sorrir irônico dizendo:
- Enfim...
- A baía está cercada de canhões, continuou o general, após uma pausa, e o marechal vai intimá-los
a renderem-se.
- Já era tempo, fez Caldas... Comigo, a cousa já estava acabada... levar quase sete meses para dar
cabo de uns calhambeques!...
- Você exagera, Caldas; a cousa não era tão fácil assim... E o mar?
- Que fez, a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! Se fosse com este seu criado,
tinha logo partido e atacado... Sou pelas decisões prontas...
O padre, no interior da igreja, continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador
Clarimundo. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz
e da bondade, não os demovia dos seus pensamentos guerreiros.
- Entre nós, aduziu Caldas, não há mais gente que preste... Isto é um país perdido, acaba colônia
inglesa...
Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. Albernaz avançou,
meio sarcástico:
- Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma era de progresso vai abrir-se
para o Brasil.
- Qual o quê! Onde é que você viu um governo...
- Mais baixo, Caldas!
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- ...onde é que se viu um governo que não aproveita as aptidões, abandona-as, deixa-as por aí
vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à toa!
A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma porção de homens, todos de
negro, ajoelhados, contritos, batendo nos peitos, a confessar de si para si: mea culpa, mea maxima
culpa...
Uma réstia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças.
Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa,
mea maxima culpa...
A missa veio a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. A nave rescendia a incenso e
tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade.
Todos tinham um grande ar de compunção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos
pareciam sofrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da igreja, apanharam
no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelício também viera; ele tinha o vício das missas das pessoas importantes, dos cartões de
pêsames, dos cumprimentos em dias de aniversário. Temendo que a memória não lhe ajudasse,
possuía um caderninho onde as datas aniversárias estavam assentadas e as residências também. O
índice era organizado com muito cuidado. Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem
importante que, em dia de aniversário, não recebesse os seus parabéns, e, por morte, não o levasse à
igreja em missa de sétimo dia.
O seu traje de luto era de pano grosso, pesado; e, olhando-o, lembrava-nos logo de um castigo
dantesco.
Na rua, Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao almirante:
- A cousa está pra acabar!... Breve...
- E se resistirem? perguntou o general.
- Qual! Não resistem. Corre que já propuseram rendição... É preciso arranjar uma manifestação ao
marechal...
- Não acredito, fez o almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se entrega assim...
Genelício ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente; teve medo que ele
falasse mais alto, desse na vista e o comprometesse. Calou-se; Albernaz, porém, avançou:
- Não há orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
- Forte! Uns calhambeques, homem!
Caldas continha a custo a fúria que lhe ia n’alma. O céu estava azul e calmo. Havia nele nuvens
brancas, leves, esgarçadas, que se moviam lentamente, como velas, naquele mar infinito. Genelício
olhou-o um pouco e aconselhou:
- Almirante não fale assim... Olhe que...
- Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
- Bom, fez Genelício, eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e...
Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão com o seu pince-nez
azulado, palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso.
Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada
um com o seu desgosto e a sua decepção.
Tinham razão: a revolta veio a acabar daí a dias. A esquadra legal entrou; os oficiais revoltosos se
refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano ficou senhor da baía.
No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da população abandonou
a cidade, refugiando-se nos subúrbios, por baixo das árvores, na casa de amigos ou nos galpões
construídos adrede pelo Estado.
Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias, a ânsia e a angústia também. Levavam
trouxas, samburás, pequenas malas; crianças de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de
estimação, o passarinho que de há muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
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O que mais metia medo era o famoso canhão de dinamite, do “Niterói”, uma espalhafatosa
invenção americana, instrumento terrível, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos
das montanhas graníticas do Rio.
As crianças e as mulheres, mesmo fora do alcance de seu poder, temiam ouvir o seu estrondo;
entretanto, esse fantasma yankee, esse pesadelo, essa quase força da natureza, foi morrer
abandonado num cais, desprezado e inofensivo.
O fim do levante foi um alívio; a cousa já estava ficando monótona e o marechal ganhou feições
sobre-humanas com a vitória.
Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha
das Enxadas. Inocêncio Bustamente continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior
do seu gabinete, na estalagem condenada que lhe servia de quartel. A escrituração estava em dia e
era feita com a melhor letra.
Policarpo aceitou com repugnância o papel de carcereiro, pois na ilha das Enxadas estavam
depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus tormentos d’alma mais cresceram com o exercício
de tal função. Quase os não olhava; tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre eles um
conhecia o segredo de sua consciência.
De resto, todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. Não
encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. Sentia também que o seu pensamento motriz não
residia em nenhuma das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos
políticos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos,
se não havia baixo interesse, existia uma adoração fetíchica pela forma republicana, um exagero
das virtudes dela, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar
justo. Era grande a sua desilusão.
Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. Havia
simples marinheiros; havia inferiores; havia escreventes e operários de bordo. Brancos, pretos,
mulatos, caboclos, gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha metido em tal
aventura pelo hábito de obedecer, gente inteiramente estranha à questão em debate, gente arrancada
à força aos lares ou à calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por miséria;
gente ignara, simples, às vezes cruel e pervesa como crianças inconscientes; às vezes, boa e dócil
como um cordeiro, mas, enfim, gente sem responsabilidade, sem anseio político, sem vontade
própria, simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê do
vencedor.
De tarde, ele ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a
pescar. Os barcos passavam. Ora eram lanchas fumarentas que lá iam para o fundo da baía; ora
pequenos botes ou canoas, roçando carinhosamente a superfície das águas, pendendo para lá e para
cá, como se as suas alvas velas enfunadas quisessem afagar a espelhenta superfície do abismo. Os
Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial que
inebriava, embriagava, como um licor capitoso.
Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade que entrava na sombra,
aos beijos sangrentos do ocaso.
A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, meditando, pensando, sofrendo
com aquelas lembranças de ódios, de sangueiras e ferocidade.
A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do exemplo delas vinham os
crimes que aquela punia, castigava e procurava restringir. Eram negras e desesperadas, as suas
idéias; muita vez julgou que delirava.
E então se lamentava por estar sozinho, por não ter um companheiro com quem conversar, que lhe
fizesse fugir àqueles tristes pensamentos que o assediavam e se estavam transformando em
obsessão.
Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras; e, mesmo que ali estivesse, os rigores da disciplina
não lhe permitiriam uma conversa mais amigável. Vinha a noite inteiramente, e o silêncio e a treva
envolviam tudo.
98
Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da baía, onde quase não havia
luzes que interrompessem a continuidade do negror noturno.
Fixava bem os olhos para lá, como se os quisesse habituar a penetrar nas cousas indecifráveis e
adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito
desaparecer.
Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insônia e, se queria ler, a atenção recusava
fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro.
Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veio acordá-lo pela madrugada:
- Senhor major, está aí o “home” do Itamarati.
- Que homem?
- O oficial que vem buscar a turma do Boqueirão.
Sem atinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante. O homem já estava no
interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava à porta. Seguiam-se algumas praças, das quais
uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarelada. A vasta sala estava
cheia de corpos, deitados, seminus, e havia todo o íris das cores humanas. Uns roncavam, outros
dormiam somente; e, quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho gemeu - ai!
Cumprimentaram-se, Quaresma e o emissário do Itamarati, e nada disseram. Ambos tiveram medo
de falar. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: “Levem este.”
Seguiu adiante e despertou outro: - “Onde você esteve?” “Eu” - respondeu o marinheiro - “na
‘Guanabara’”... “Ah! patife” acudiu o homem do Itamarati... “Este também... Levem!”...
Os soldados condutores iam até à porta, deixavam o prisioneiro e voltavam.
O oficial passou por uma porção deles e não fez reparo; adiante, deu com um rapaz claro, franzino,
que não dormia. Gritou então: “Levante-se!” O rapaz ergueu-se tremendo - “Onde esteve você?”
perguntou - “Eu era enfermeiro”, retrucou o rapaz. - “Que enfermeiro!” fez o emissário. “Levem
este também”...
- Mas, “seu” tenente, deixe-me escrever à minha mãe, pediu o rapaz quase chorando.
- Que mãe! respondeu o homem do Itamarati. Siga! Vá!
E assim foi uma dúzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, a embarcar num batelão
que uma lancha logo rebocou para fora das águas da ilha.
Quaresma não atinou de pronto com o sentido da cena e foi após o afastamento da lancha que ele
encontrou uma explicação.
Não deixou de pensar então por que força misteriosa, por que injunção irônica ele se tinha
misturado em tão tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regime...
A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro às pedras do cais. A esteira
da embarcação estrelejava fosforescente. No alto, num céu negro e profundo, as estrelas brilhavam
serenamente.
A lancha desapareceu nas trevas do fundo da baía. Para onde ia? Para o Boqueirão...

V
A Afilhada
Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço. Pois ele, o
Quaresma plácido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos, merecia aquele triste
fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que ele pudesse pressentir o seu
extravagante propósito, tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com
os seus atos passados, com as suas ações encadeadas no tempo, que fizera com que aquele velho
deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos que
venceram a ele, Quaresma, e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não
sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se baralhavam, se emaranhavam e a conclusão
certa e exata lhe fugia.
99
Não estava ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo cálculo
aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca
luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira nada lhe quisera dizer; e, desde
que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira
nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao
presidente, protestando contra a cena que presenciara na véspera.
Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo, para
uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos
todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele
escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou
claro, franca e nitidamente.
Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus
semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado
com os seus detritos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha,
no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para
qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a
liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e
senti-la bem na consciência cousa sua, própria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara
toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir
para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora
que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava?
Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não
pandegara, não amara - todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza
necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar
inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe
contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele
tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas
agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma
decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os
livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara?
Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois
não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série,
melhor, um encadeamento de decepções.
A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete.
Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que
existia de fato era a do Tenente Antonino, a do Doutor Campos, a do homem do Itamarati.
E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua
vida norteado por uma ilusão, por uma idéia a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma
deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa idéia nascera da amplificação da crendice dos
povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso
alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de
Coulanges... Lembrou-se de que essa noção nada é para a Menenanã, para tantas pessoas...
Pareceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores
das nossas subserviências psicológicas, no intuito de servir às suas próprias ambições.
100
Reviu a história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si
para si: como um homem que vivesse quatro séculos, sendo francês, inglês, italiano, alemão, podia
sentir a Pátria?
Uma hora, para o francês, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado
momento, a Alsácia não era, depois era e afinal não vinha a ser.
Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá manes
dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa?
Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.
Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera
atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a pressentiu logo e se deixou
enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o
seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço
seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer
uma asneira!
Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso.
Contudo, quem sabe se os outros que lhe seguissem as pegadas não seriam mais felizes? E logo
respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar, se nada dissera e não prendera o seu
sonho, dando-lhe corpo e substância?
E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade traria enfim para a terra alguma
felicidade? Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo, sacrificando e as
cousas ficaram na mesma, a terra na mesma miséria, na mesma opressão, na mesma tristeza.
E ele se lembrava que há bem cem anos, ali, naquele mesmo lugar onde estava, talvez naquela
mesma prisão, homens generosos e ilustres estiveram presos por quererem melhorar o estado de
cousas de seu tempo. Talvez só tivessem pensado, mas sofreram pelo seu pensamento. Tinha
havido vantagem? As condições gerais tinham melhorado? Aparentemente sim; mas, bem
examinado, não.
Aqueles homens, acusados de crime tão nefando em face da legislação da época, tinham levado
dous anos a ser julgados; e ele, que não tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria
simplesmente executado!
Fora bom, fora generoso, fora honesto, fora virtuoso - ele que fora tudo isso, ia para a cova sem
acompanhamento de um parente, de um amigo, de um camarada...
Onde estariam eles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples, e tão inocente na sua mania
de violão, ele não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse, para mandar à sua irmã o último
recado, ao preto Anastácio um adeus, à sua afilhada um abraço! Nunca mais os veria, nunca!
E ele chorou um pouco.
Quaresma, porém, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltá-lo. Teve
notícia do exato motivo dela; mas não se intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco,
pois a indignação no palácio contra Quaresma fora geral. A vitória tinha feito os vitoriosos
inclementes e ferozes, e aquele protesto soou entre eles como um desejo de diminuir o valor das
vantagens alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais simpatia, nem respeito pela vida
humana; o que era necessário era dar o exemplo de um massacre à turca, porém clandestino, para
que jamais o poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. Era a filosofia social da época,
com forças de religião, com os seus fanáticos, com os seus sacerdotes e pregadores, e ela agia com
a maldade de uma crença forte, sobre a qual fizéssemos repousar a felicidade de muitos.
Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influências de amigos. Ao entrar no Largo de São
Francisco encontrou Genelício. Vinha da missa da irmã da sogra do Deputado Castro. Como
sempre, trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava subdiretor e o seu
trabalho era agora imaginar meios e modos de ser diretor. A cousa era difícil; mas trabalhava num
livro: Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos - o qual, demonstrando uma erudição superior,
talvez lhe levasse ao alto lugar cobiçado.
Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
101
- Doutor, Vossa Excelência dá licença que lhe dê uma palavra?
Genelício perfilou-se todo e, como tivesse péssima memória das fisionomias humildes, perguntou
com solenidade e arrogância:
- Que deseja, camarada?
Coração dos Outros estava com a sua farda do “Cruzeiro do Sul” e não ficava bem a Genelício dar-
se como conhecido de soldado. O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:
- Não me conhece mais, doutor?
Genelício fechou um pouco os olhos por detrás do pince-nez azulado e disse secamente:
- Não.
- Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que cantou no seu casamento.
Genelício não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
- Ah! É o senhor! Bem: que deseja?
- O senhor não sabe que o major Quaresma está preso?
- Quem é?
- Aquele que foi vizinho do seu sogro.
- Aquele maluco... Ahn!... E daí?
- Eu queria que o senhor se interessasse...
- Não me meto nessas cousas, meu amigo. O governo tem sempre razão. Passe bem.
E Genelício seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das botas, enquanto Ricardo
ficava de pé a olhar o largo, a gente que passava, a estátua imóvel, as casas feias, a igreja... Tudo
lhe pareceu hostil, mau ou indiferente; aquelas caras de homens tinham cataduras de feras e ele quis
por um momento chorar de desespero por não poder salvar o amigo.
Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procurá-lo. Não era longe, mas o general ainda não
tinha chegado. Ao fim de uma hora o general chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
- Que há?
O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o fato. Albernaz concertou o
pince-nez, ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com doçura:
- Meu filho, eu não posso... Você sabe; sou governista e parece, se eu for pedir por um preso, que já
não o sou bastante... Sinto muito, mas... que se há de fazer? Paciência.
E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do seu plácido uniforme de
general.
Os oficiais continuavam a entrar e a sair; as campainhas soavam; os contínuos iam e vinham; e
Ricardo procurava entre todas aquelas fisionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e ele
desesperava. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o comandante; e foi ter com o Coronel
Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao garboso “Cruzeiro do Sul”.
O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a revolta no porto do Rio de
Janeiro era preciso mandar forças para o Sul; de forma que os batalhões não tinham sido
dissolvidos e um dos apontados para partir era o “Cruzeiro”.
O alferes coxo, no ensaboado pátio da antiga estalagem, continuava na sua faina de instrutor dos
novos recrutas. Om - brôôô... armas! Mei - ãã volta!
Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscilante escada do velho cortiço e logo que chegou ao
cubículo do comandante, gritou: “Com licença, comandante!”
Bustamante andava de mau humor. Aquele negócio de partir para o Paraná não lhe agradava. Como
é que havia de superintender a escrita do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas
e contramarchas? Isso era uma tolice do comandante marchar; o chefe devia ficar a resguardo, para
providenciar e dirigir a escrituração.
Ele pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença.
- Entre, disse ele.
O bravo coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dólmã desabotoado e acabava de calçar um
dos pés de botina, para com mais decência receber o inferior.
102
Ricardo expôs o seu pedido e esperou com paciência a resposta, que custou a vir. Por fim,
Inocêncio disse, sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio de severidade:
- Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
E apontou com o dedo a porta da saída num gesto marcial e enérgico. O cabo não se demorou mais.
No pátio o instrutor coxo, veterano do Paraguai, continuava com solenidade a encher a arruinada
estalagem com as suas vozes de comando: Om-brôôô... armas! Meia-ãã... volta... volver!
Ricardo veio andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor. Ele que
sempre decantara nas suas modinhas a dedicação, o amor, as simpatias, via agora que tais
sentimentos não existiam. Tinha marchado atrás de cousas fora da realidade, de quimeras. Olhou o
céu alto. Estava tranqüilo e calmo. Olhou as árvores. As palmeiras cresciam com orgulho e
titanicamente pretendiam atingir o céu. Olhou as casas, as igrejas, os palácios e lembrou-se das
guerras, do sangue, das dores que tudo aquilo custara. E era assim que se fazia a vida, a história e o
heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos.
Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo e que era necessário dar mais uns passos.
Quem poderia? Consultou sua memória. Viu um, viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de
Quaresma, e foi procurá-la na Real Grandeza.
Chegou, narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreensões. Ela estava só, pois o marido cada vez mais
trabalhava para aproveitar os despojos da vitória; não perdia um minuto, andando atrás de um e de
outro.
Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, da tenacidade que punha
em seguir as suas idéias, da sua candura de donzela romântica...
Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir. Pareceu-
lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao sofrimento do padrinho;
mas bem cedo o viu ensangüentado - ele, tão generoso, ele, tão bom, e pensou em salvá-lo.
- Mas que fazer, meu caro Senhor Ricardo, que fazer? Eu não conheço ninguém... Eu não tenho
relações... Minhas amigas... A Alice, a mulher do Doutor Brandão, está fora... A Cassilda, a filha
do Castrioto, não pode... Não sei, meu Deus!
E acentuou estas últimas palavras com grande e lancinante desespero. Os dous ficaram calados. A
moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre as mãos e as suas unhas longas e aperoladas
engastaram-se nos seus cabelos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.
- Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ela.
Pela primeira vez, ela sentiu que a vida tinha cousas desesperadoras. Possuía a mais forte
disposição de salvar seu padrinho; faria sacrifício de tudo, mas era impossível, impossível! Não
havia um meio; não havia um caminho. Ele tinha que ir para o posto de suplício, tinha que subir o
seu Calvário, sem esperança de ressurreição.
- Talvez seu marido, disse Ricardo.
Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caráter do esposo; mas, em breve, viu bem que o
seu egoísmo, a sua ambição e sua ferocidade interesseira não permitiriam que ele desse o mínimo
passo.
- Qual, esse...
Ricardo não sabia o que aconselhá-la e olhava sem pensamentos os móveis e a montanha negra e
alta que se avistava da sala onde estavam. Queria encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!
A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar a mesa em que repousavam
os seus cotovelos. O silêncio era augusto.
Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
- Se a senhora fosse lá...
Ela levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto lhe ficou rígido. Pensou um
pouco, um nada, e falou com firmeza:
- Vou.
Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.
103
Ele então pensou com admiração naquela moça que por simples amizade se dava a tão arriscado
sacrifício, que tinha a alma tão ao alcance dela mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo,
deste nosso egoísmo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de
reconhecimento.
Não tardou que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas, na sala de jantar, quando o marido
entrou. Vinha radiante, com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si
mesmo. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direto à mulher:
- Vais sair?
Ela, afogueada pela ânsia desesperada de salvar Quaresma, disse com certa vivacidade:
- Vou.
Armando ficou admirado de vê-la falar daquele modo. Voltou-se um instante para Ricardo, quis
interrogá-lo, mas logo, dirigindo-se à mulher, perguntou com autoridade:
- Onde vais?
A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o trovador:
- Que faz o senhor aqui?
Coração dos Outros não teve ânimo de responder; adivinhava uma cena violenta que ele teria
querido evitar, mas Olga adiantou-se:
- Vai acompanhar-me ao Itamarati, para salvar da morte meu padrinho. Já sabe?
O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasórios, poderia evitar que a mulher
desse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Falou docemente:
- Fazes mal.
- Por quê? perguntou ela com calor.
- Vais comprometer-se. Sabes que...
Ela não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grande olhos cheios de escárnio;
mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um pouco e disse:
- É isto! “Eu”, porque “eu”, porque “eu”, é só “eu”, para aqui, “eu”para ali... Não pensas noutra
cousa... A vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu
(agora digo “eu”também) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na
minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou alguma cousa como um
móvel, um adorno, não tenho relações, não tenho amizades, não tenho caráter? Ora!...
Ela falava, ora vagarosa e irônica, ora rapidamente e apaixonada; e o marido tinha diante de suas
palavras um grande espanto. Ele vivera sempre tão loge dela que não a julgara nunca capaz de tais
assomos. Então aquela menina? Então aquele bibelot? Quem lhe teria ensinado tais cousas? Quis
desarmá-la com uma ironia e disse risonho:
- Está no teatro?
Ela lhe respondeu logo:
- Se é só no teatro que há grandes cousas, estou.
E acrescentava com força:
- É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do meu direito.
Apanhou a sombrinha, concertou o véu e saiu solene, firme, alta e nobre. O marido não sabia o que
fazer. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sair pela porta fora.
Em breve, estava no palácio da Rua Larga. Ricardo não entrou: deixou que a moça o fizesse e foi
esperá-la no Campo de Sant’Anna.
Ela subiu. Havia um imenso burburinho, uma agitação de entradas e saídas. Toda a gente queria
mostrar-se a Floriano, queria cumprimentá-lo, queria dar mostras de sua dedicação, provar os seus
serviços, mostrando-se co-participante na sua vitória. Lançavam mão de todos os meios, de todos
os planos, de todos os processos. O ditador tão acessível antes, agora se esquivava. Havia quem lhe
quisesse beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e ele já tinha nojo de tanta
subserviência. O califa não se supunha sagrado e aborrecia-se.
104
Olga falou aos contínuos, pedindo ser recebida pelo marechal. Foi inútil. A muito custo conseguiu
falar a um secretário ou ajudante-de-ordens. Quando ela lhe disse a que vinha, a fisionomia terrosa
do homem tornou-se de oca e sob as suas pálpebras correu um firme e rápido lampejo de espada:
- Quem, Quaresma? disse ele. Um traidor! Um bandido!
Depois, arrependeu-se da veemência, fez com certa delicadeza:
- Não é possível, minha senhora. O marechal não a atenderá.
Ela nem lhe esperou o fim da frase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe as costas e teve vergonha
de ter ido pedir, de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com
o seu pedido. Com tal gente, era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu
qualquer, mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua
personalidade moral, sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte, que de
algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo.
Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já
tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de
dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa,
as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma
linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... Tinha havido grande e
inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes
modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e
seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

Todos os Santos (Rio de Janeiro), janeiro - março de 1911.

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O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo. Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria? E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janela aberta do esquisito subsecretário. Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o “pinho” na posição de tocar, o major, atentamente, ouvia: “Olhe, major, assim.” E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ‘ré’, aprendeu?” Mais não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério metido nessas malandragens! Uma tarde de sol - sol de março, forte e implacável - aí pelas cercanias das quatro horas, as janelas de uma erma rua de São Januário povoaram-se rápida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do general vieram moças à janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico. É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuário não lhe escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso fato, a consideração e o respeito que o Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa diminuíam um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição. Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava. Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão a época. Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando: - Janta já? - Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco. - Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito! O major descansou o chapéu-de-sol - um antigo chapéu-de-sol com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola - e respondeu: - Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês, muito o elogia. - Mas isso foi em outro tempo; agora... - Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionais... - Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias. O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descansando.

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Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era formado de estantes de ferro. Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião. Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major. De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente. Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, manuais, enciclopédias, compêndios, em vários idiomas. Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediável ignorância das línguas literárias da Europa; ao contrário, o major conhecia bem sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se não falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa. Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves - era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro. Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar. Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria. Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e

a não ser esse tal Azevedo. Chegaste à hora. se algum dia puder. a modéstia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. Nesse dia. o major pouco conversou. metade na repartição. exceto aos domingos. taciturno. nem madrugada mais bela a aurora. a sua ilustração. Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs. se animava na sua frente a lhe fazer a menor objeção. disse em tom chocarreiro: “Você já viu que hoje o Ubirajara está tardando?” Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade. Era costume seu. Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar à sua residência. porque Quaresma não as tinha no mínimo grau. Quaresma ficou reservado. as descobertas que fazia. era um sábio. não perdeu a dignidade. Na repartição. em Mato Grosso. Ao voltar as costas. distraído. quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo. antes que a “Aurora.Ubirajara. cobrindo-o de troças: “Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico. e queres visitar a dos outros! Eu. Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí. Certa vez. não seja leviano. sem ser compreendido. e só veio falar porque. amanuenses e escreventes. como sendo encontrado na Bahia. disse: “Ah! Meu Deus! Quando poderei ir à Europa!” O major não se conteve: levantou o olhar. e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. para a grandeza e a emancipação da Pátria. era um novo exemplar de árvore de borracha que crescia no rio Pardo.4 delicado. e quando não tinha descoberta a trazer. o entusiástico Rocha Pita da História da América Portuguesa.. cuja bisavó era brasileira. .. as montanhas lhe eram indiferentes. . a avançar uma pilhéria. o major ficava agitado e malcriado.. Era um clima caluniado pelos viciosos que de lá vinham doentes. contava o curso dos rios.” mas não pôde ir ao fim. Sentindo que a alcunha lhe era dirigida. ao assinar o ponto. também sem ser compreendido. Não queira levar ao ridículo aqueles que trabalham em silêncio. os pequenos empregados.. sem reparar quem lhe estava às costas. às quatro e quinze da tarde. vingavam-se da cacetada. a não ser aqueles que têm ambições políticas ou de fortuna. porém. Foi abri-la em pessoa. não prorrompeu em doestos e insultos.Não. ao jeito da aparição de um astro ou de um eclipse. mudo. o escrevente Azevedo. os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. quando os empregados deixavam as bancas. outra vez. como todas as tardes. Era o velho Rocha Pita. tendo notícia desse estudo do idioma tupiniquim.” E desse modo ele ia levando a vida. Endireitou-se. quando lavavam as mãos num aposento próximo à secretária e se preparavam para sair. de riquezas nacionais. No dia em que o chamaram de Ubirajara. uma notabilidade. tão rica.. assim pela hora do café. o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios mais dourados. Os colegas ouviam-no respeitosos e ninguém. com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”. um dito.Tardei. concentrou o pince-nez. Pequenas talvez. Ele amava sobremodo os rios. Um dia era o petróleo que lera em qualquer parte. Arre! Não tem outra conversa. o major contestou-lhe com estatísticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. e a outra metade em casa.. ele se atracava até ao almoço com o Montoya. levantou o dedo indicador no ar e respondeu: . entrava pela corografia. Batiam à porta. o major abriu um livro e pôs-se a lê-lo à espera do conviva. major? perguntou o visitante. No mais. . outra. bem ao centro de sua biblioteca. sem erro de um minuto. alguém suspirando. transmitir aos companheiros o fruto de seus estudos. a sua extensão navegável.. deram não se sabe por que em chamá-lo .. exatamente. no seu gabinete de trabalho. concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: “Ingrato! Tens uma terra tão bela. Quaresma estava lendo aquele famoso período: “Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno. hei de percorrer a minha de princípio ao fim!” O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos. era um homem como todos os outros.Senhor Azevedo. Sentado na cadeira de balanço.

entretanto. Não se julgue. Estava nisso tudo a quo.Já sabe dar o “ré” sustenido. um frenesi e. É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios. crescendo. não como médico. extravasou e passou à cidade. Nada mais e é simples. por ser chefe de seção da Secretaria dos Telégrafos. quase diariamente. O Doutor Bulhões. Isto é só lá. de poética. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo convidá-lo-ia. mas. homem célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. até. tinha pelo Ricardo uma admiração especial.. De acordo com a sua paixão dominante.. foi tomando toda a extensão dos subúrbios. nas festas e nas ruas.5 Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço. assim como nas festas e nos bailes. Ricardo. Fora dos subúrbios. nas grandes festas centrais. não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia. Seguro dessa verdade. “Gosto muito de canto”. Piedade e Riachuelo.aí. Compõe-se em geral de funcionários públicos. . Como bem supôs a vizinhança.” Esse doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios. com o tempo. quando o trovador cantava. Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poético-musical característica da alma nacional.Vamos ver. da distinção.veis bailes diários daquelas redondezas. julga ela. assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um prato de comida. na Rua do Ouvidor. depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia. um delírio. muito feijão. Mas que vinha ele fazer ali. muito ensopado . é que está a pedra de toque da nobreza. com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. na casa de pessoas de propósitos tão altos e tão severos hábitos? Não é difícil atinar. pois que nem óleo de rícino receitava. nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões. . “mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo. Consultou historiadores. Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. a sua fama estivera limitada a um pequeno subúrbio da cidade. essa gente míngua. solidificando-se. Não: Ricardo Coração dos Outros era um artista a freqüentar e a honrar as melhores famílias do Méier. dizia o doutor no trem certa vez. demoradamente. em cujos “saraus” ele e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de duques. os lindos cavalheiros dos interminá. que Ricardo fosse um cantor de modinhas aí qualquer. a sua presença era sempre requerida. de mineralogia e histórias brasileiras. da alta linha. Fosse na casa do Tenente Marques. desaparece. instada e apreciada. Decerto. Dessa maneira. de tenentes de diferentes milícias. ia compartilhar o seu jantar. muita carne-seca. major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se. cronistas e filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. mas como entendido em legislação telegráfica. pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poética. e fora por isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do subsecretário. apaga-se. nos teatros. aos poucos. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo original de arte. um capadócio. mas antes disso. do Doutor Bulhões ou do “Seu” Castro. nos bailes. onde se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos. não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos da modinha. de médicos com alguma clínica. ficava em êxtase. mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade e tomou lições com ele. olha-o da cabeça aos pés. até ser considerada como cousa própria a eles. de pequenos negociantes. . propriamente. Em começo. o Coração dos Outros vinha ali tão-somente ensinar o major a cantar modinhas e a tocar violão. Ricardo vinha justamente dar-lhe lição. chegando até as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que deslumbram. Rara era a noite em que não recebesse um convite.Já. . por convite especial do discípulo.

Tirou alguns acordes. entrou e convidou-os a irem jantar.Decerto. major. chi! . como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra. a pobreza do nosso jantar. forçando muito a sua fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação. apertou as cravelhas. fabricadas com gorduras de esgotos. talvez não se estragasse. mais expressivas. Nada de rosas. quaresmas lutulentas. franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero.É de Angra. Disse-me que esse tal petit-pois é estrangeiro e que eu o substituísse por guando. que tem todos os climas do mundo. e é um magnífico aperitivo. é assim. .. . Eu lhe quis fazer um frango com petit-pois. . como aquelas que ele tinha ali. Não protegem as indústrias nacionais. Tire a escala. o toucinho e o arroz. . drogas! Isto é álcool puro. manacás melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. pondo nas cousas a sua poesia dolente e a sua deliqüescência. palmas-de-santa-rita. de magnólias flores exóticas.rolando nas órbitas os olhos pequenos. levou-o aos lábios e foi como se todo ele bebesse o licor nacional.Qual. e dirigiu-se ao discípulo. que já tinha o seu em posição: . mais olentes. de cana. hein? indagou o major. para experimentar. correu a escala. Você é que deu para implicar. major.Em geral é assim.Magnífico.. muito vagaroso e lento. seria uma novidade e não fazia mal experimentar. . Como em tudo o mais. Ricardo! Não querem nada da nossa terra.Está bom. é. A sopa já esfriava na mesa. não é de batatas ou milho. É isto. disse a velha senhora.. . esta de só querer cousas nacionais.. Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito.. o major era em jardinagem essencialmente nacional. abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. Dona Adelaide. quando o crepúsculo vinha devagar. bom. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal e serviu dous cálices de parati. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos. .É porque é de leite.Vamos ver. nesse tom.Mas é um erro. Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala. e a gente tem que ingerir cada droga.. mas não havia na sua execução nem a firmeza.O Senhor Ricardo há de nos desculpar. fez a irmã. as nossas terras tinham outras mais belas.Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa. Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores. Quaresma preparou os dedos.. a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “é. sorrindo. a irmã de Quaresma. fez Ricardo. . não tinha nem uma flor. calço botas nacionais e assim por diante..Olhe. Acabado o jantar foram ver o jardim. Sentaram-se à mesa.6 Dizendo isto. Visto-me com pano nacional. Esses vermutes por aí.. disse Ricardo.. estalando os lábios.É uma mania de seu amigo. você tem certas ojerizas! A nossa terra. E o jantar correu assim. que fossem! . Comigo não há disso: de tudo que há nacional.. mas Policarpo não deixou. se fosse como essas estrangeiras aí. Era uma maravilha. nem o dengue com que o mestre fazia a mesma operação... foi desencapotar o seu sagrado violão. não há dúvida”. . mas não houve tempo. .. eu não uso estrangeiro. é capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente. de crisântemos. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha.É do programa nacional. Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade.. afinou a viola. Senhor Ricardo. o mestre de violão empunhou o instrumento. . Mal foi aceso o gás. Onde é que se viu frango com guando? Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom.. Adelaide. .

e respondia: ...“Então quando se casa?” .. indo do colo ao braço esquerdo estendido. disse ele num intervalo.não ia com o violão. acompanhado pelo instrumento: o . Ricardo ficava loquaz. cheio de sentenças. Está velha. As janelas estavam abertas. Diante do violão. Coração dos Outros foi apurando a dicção. Não era feia a menina. mas encostá-lo com macieza e amor. minha senhora! Eu só canto as minhas.conhecem? . . O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse.Cante lá.pé .Não há dúvida.Vejam.fo .. quanta imagem. conhecem? . . as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando Dona Adelaide. olhou um pouco a moça e continuou a dissertar sobre a modinha. objetou Ricardo. a noiva. seguro levemente pelo direito.pé . Ricardo aprumou-se na cadeira. um curso de dous anos.. Isto era dito arrastado.Senta-te Ismênia. como não dá.Oh! Anda por aí como as “Pombas” do Raimundo.uma . o noivo.Oh! Não tenho nada novo. se negasse.Oh! Por Deus.mir . Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca: Prometo pelo Santíssimo Sacramento Que serei tua paixão.de . Agora reparem: o . todo ele fremindo de paixão pelo instrumento desprezado. n’ “O Pé” uma modinha minha: “o teu pé é uma folha de trevo” . disse a irmã de Quaresma.tre vo. É outra cousa. e em seguida acrescentou: . a princípio.quis fazer-me uma modinha. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido. e Ismênia tinha sempre que responder à famosa pergunta: . Cavalcanti forma-se para o ano e..sa .“Não sei.Então.Não. .é .ra. eu não aceitei.teu . coroada de magníficos cabelos castanhos. É preciso encostá-lo. Aquele seu noivado durava há anos. quando acabou. pediu Dona Adelaide. . “seu” Bilac. uma composição minha. . estudava para dentista. com a sua fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade. Dona Adelaide obtemperou então: .Não. vou cantar a “Promessa”.A demora é pouca. O Bilac .. o violão é o instrumento da paixão. você não entende de violão.lha .” . embora lisonjeado..Vão vendo. . Senhor Ricardo. Ela então curvava do lado direito a sua triste cabecinha. . a filha do general.é . o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. Querem ver? E ensaiou em voz baixa. A lição durou uns cinqüenta minutos.. como em começo quis. Por exemplo: se eu dissesse. com uma preguiça de impressionar.Major.. disseram os dous irmãos. Aproveitando uma pausa. quanta imagem! E continuou.de . com tons de ouro. como se fosse a amada.uma .uma . Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se interessava.Cante uma de outro. convidou o major. quis a vaidade profissional que ele. disse ela.. Precisa de peito para falar. continuou ele. Cavalcanti forma-se no fim do ano e então marcaremos.7 E mostrava a posição do instrumento. mas que ele arrastava há quatro.teu . o tal Cavalcanti. . quando te casas? Era a pergunta que se lhe fazia sempre. vizinho de Quaresma. não acham? .Não sei. . . para que diga o que sentimos. A questão não está em escrever uns versos certos que digam cousas bonitas. e.Cante esta. tomando um ar feroz que ele supunha ser de ternura e entusiasmo..ro . a irmã de Quaresma perguntou à moça: . Era até bem simpática.

Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veio despertar no general e na família um gosto pelas festanças. porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa. convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa dela. dúvidas não flutuavam mais no seu espírito. os seus espíritos pediam cousa mais plebéia. numa festa que o general dera em casa.o major continuava com o pensamento preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. não só no tocante à língua. em nome do pai.o que precisava mais? Tempo e um pouco de originalidade. Viera.o casamento das princesas. que lhe servia há trinta anos. Estudava os índios. Conversando com o preto Anastácio. voltava à biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto Histórico.8 Intimamente ela não se incomodava. . a senhora sabe. como se diz por aí. porque em si mesma (era a sua opinião). gosta muito de modinhas. Já agarrara um noivo. . no von den Stein e tomava notas sobre notas. A modinha era pouco. até ainda se lembrava de uns versos de Reis. sobre cousas antigas . lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua infância. a grande pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à Inglaterra. mais característica e extravagante. sentava-se no divã da sala principal e lia os jornais. Portanto. Tinha todos os climas. a gente mais valente. as melhores terras de cultura. Lia diversos. sua mulher. Na vida. aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. viram na cousa um pretexto de festas e. portanto. Acabado o almoço. Para bem compreender o motivo disso. não se tinham elas dissipado. nada nela a pedia. que a gente do Norte aprecia muito. Recordava (é melhor dizer assim). de poetar à maneira popular dos velhos tempos. como se fossem bem cerejas ou figos. a sugestão de uma idéia útil à sua cara pátria. Após responder a Dona Adelaide. cantigas e hábitos genuinamente nacionais. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. De manhã. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir. explicou o motivo da visita. O passeio era demorado e filosófico. mas pressa não tinha. todos os frutos.Papai. mais inteligente e mais doce do mundo . nos anais da Biblioteca. o general. nas cartas de Nóbrega.. para os não perder. mas no que se referia à originalidade de costumes e usanças. Venham. simples toques. antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do “Tangolomango”. Houve em todos um desejo de sentir. continuava a tomar a primeira refeição de garfo às nove e meia da manhã. chegava agora ao período da frutificação. de sonhar. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo. enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu temperamento. e os seus filhos. depois da toilette. é preciso não esquecer que o major. É do Norte. guardando-as numa pequena pasta ao lado. Após uma hora ou menos. para ela. visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que se baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações sociais. afirmava certas noções dos seus estudos anteriores. e do café. embora estivesse de férias. de obrar e de concretizar suas idéias. como também nos simples aspectos etnográficos e antropológicos. mais hospitaleira. todos os minerais e animais úteis. Albernaz.. porque já o fizera há tempos. no Fernão Cardim. de estudos e reflexões. que já quase falava. Dona Adelaide. recebendo a pitanga e o cambuim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia. dava umas voltas pela chácara em que predominavam as fruteiras nacionais. o resto era questão de tempo. e. Eram pequenos melhoramentos. Não fica bem dizer estudava. depois de trinta anos de meditação patriótica. cinco moças e um rapaz. só havia uma cousa importante: casar-se. Dona Maricota. Na sua meiga e sossegada casa de São Cristóvão. disse Dona Ismênia. a quebra do Souto e outras . E para lá foram. II Reformas Radicais Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa.

de tática ou de história militar. Antes perlustraram a zona do turfe. Mas soube pelo Camisão. Entre nós tudo é inconsciente. mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar à sua lamentável majestade. Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita.9 Quaresma ficou encantado. Lá foram ter. Lá foram os dous. não tivera um comando. medas de lenha e imensas tulhas de sacos de carvão-vegetal se acumulavam. com grandes janelas. Mas quem havia de ensaiar. por toda parte onde tais distintivos fiquem bem e dêem na vista. por uma linda e cristalina tarde de abril. uma zona . tristemente montados em “pangarés” desanimados. escriturário. Sobre um largo terreiro. Em casa do general era assim: qualquer aniversário tinha a sua festa. se esgalhava para São Paulo e abria comunicações com o Curato de Santa Cruz. cabeça de cavalos. não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. não viu uma única batalha. Adoeci e vim para o Brasil. antiga lavadeira da família Albernaz. a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai. que morava em Benfica. contava um episódio de guerra. Para além do caminho. Passaram pela estação. Aprovou e animou o vizinho. Fora sempre ajudante-de-ordens. almoxarife. negro de moinha de carvão de pedra. O altissonante título de general. mais adiante um depósito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob pressão. o General Albernaz e o Major Quaresma. entretanto viu logo a significação altamente patriótica do intento. pesadas como naus.. nos pilares dos portões. percebendo o seu ar muito civil. que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares. Não se pode crer que a cousa fosse lá muito imponente. a Corte andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Ele mesmo. dizia ele. de forma que havia bem umas trinta por ano. o prestígio devia ter a sua grandeza. nas almofadas das portas. menos de cinqüenta. e vidraças de pequenos vidros eram de há bem poucos anos. A casa da velha preta ficava além do ponto. de onde em onde. medíocre. “Foi em Lomas Valentinas”. para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminiscências e foram até ao ponto. para as bandas da estação da estrada de ferro Leopoldina. quando se reformou em general. uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animais de corridas. à moda do Norte. Ia pelo Pedregulho. antigo término de um picadão que ia ter a Minas. dias feriados e santificados em que se dançava também. quando Albernaz falou em organizar uma chegança. a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas. As casas velhas. de estratégia. Nada entendia de guerras.. cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do Colégio Militar. pelo Venâncio. O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e danças tradicionais. por ocasião do aniversário de sua praça. tendo grandes ferraduras. dos Turennes e dos Gustavos Adolfos. O general nada tinha de marcial. nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. provisório. assistente. e era secretário do Conselho Supremo Militar. panóplias de chicotes e outros emblemas hípicos. apressados.” O bonde que os levava até à velha Maria Rita percorria um dos trechos mais interessantes da cidade. nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. alegres. Se alguém perguntava: “O general assistiu a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. uma preta velha. Contudo. nas vésperas. O tempo estivera seco e por isso se podia andar por ele. Não havia ali nada que lembrasse esse passado. encarregado disso ou daquilo. não dura. de dar os versos e a música? Alguém lembrou a tia Maria Rita. estendia-se a vasta região de mangues. não contando domingos. passavam por ali para irem ter ao longínquo Santa Cruz. quase quadradas. bonachão. Durante toda a sua carreira militar. uma velha porta da cidade. não por ele mesmo. Por aí em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os chamados gêneros do país. ficava mal naquele homem plácido. uma anedota militar. Não havia ainda cem anos que as carruagens d’El Rei Dom João VI. Não obstante os soldados remendados. que a cousa esteve preta.

Não tardou vir a velha. disse o general. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha. . havia um retrato de Vítor Emanuel com enormes bigodes em desordem. tia Maria Rita.. Minha velha. Entrem.Vai bem. .Boas-tardes. Era baixa. do tempo do cativeiro .. Pergunte aqui ao meu amigo. mostrando o peito descarnado. velhos cromos de folhinhas. . . No alto da porta que levava ao interior da casa. dirigindo-se ao general e ao seu companheiro.. havia um pé de arruda. já mi esqueceu.. por tê-lo conhecido nesse posto. como para melhor recordar-se. . À direita havia um monturo: restos de cozinha. façam o favor ..Qual esquecida. ioiô.Não sei. Pelas paredes.É para uma festa. talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa. O general atalhou: .pra que sô coroné qué sabê disso? Ela falava arrastando as sílabas. Ficava um pouco afastada da estrada.Cante lá! . uma lamparina. com a mão esquerda pousada na perna correspondente.Vovó já não se lembra.. Bateram.E o “Boi Espácio”? .Cousa véia. .Vovó estão aí dous “moços” que querem falar com a senhora. pedaços de louça caseira . Qual é a que você sabe? A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa. crescia um mamoeiro e bem junto à cerca. Há quanto tempo! Como está nhã Maricota? . você não perde nada. no mesmo lado.Só sei o “Bicho Tutu”. numa cantoneira.Que desejam? Disseram o que queriam e aproximaram-se. um cromo sentimental de folhinha . Entrou em camisa de bicos de rendas. recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima até dous terços da altura. conchas de mariscos. Ela respondeu. não atendeu a observação da moça e insistiu: . morre ao sopé das montanhas azuis de Petrópolis. e entoou: É vem tutu Por detrás do murundu Pra cumê sinhozinho Cum bucado de angu.10 imensa. ergueu a cabeça. A sala era pequena e de telha-vã. o quê! Deve saber ainda alguma cousa. Se eu soubesse não vinha aqui. se sei.Quem sou eu. que vai até ao fundo da baía e.Ioiô sabe! Não sabe? Quá.disse ela depois. o Major Policarpo. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta. O general. titia? . você não sabe o “Bumba-meu-Boi”? . . sabe! .uma cabeça de mulher em posição de sonho parecia olhar um São João Batista ao lado. nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.Não me conhece mais? Sou o General. deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados: . tia Maria Rita. não é. . ioiô! .Ora! Vamos. triste e feia. enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. com um doce sorriso e um olhar vago.. A moça gritou para o interior da casa: . no horizonte. Chegaram à casa da velha. disse a velha.Ah! É sô coroné!. à esquerda. trapos. cante. farta e rica.Quá. mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava.. o Coronel Albernaz. Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha. caiada e coberta com as pesadas telhas portuguesas. que a velha chamava coronel. enchia de fuligem a Conceição de louça. registros de santos.um sambaqui a fazer-se para gáudio de arqueólogo de futuro remoto.

e Albernaz também. Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. das quatro. Com o . A sala em que foram recebidos era ampla. atrair gente e. porém.. um momento contagiado pela paixão do folclorista. de contos. Cavalcanti. O amor que tenho por ela Já não cabe no meu peito.. Albernaz vinha contrariado. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia. e agora se entretinha em publicar coleções. Os dous saíram tristes.Ora! Fez o general com enfado. pastas.. latas. começou: “O macaco perante o juiz de direito. Sai-me pelos olhos afora Voa às nuvens direito. Era um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos.. que ninguém lia. E. numa pasta: São Bonifácio do Cabresto. informou que nas imediações morava um literato. a coleção de histórias que o povo tem sobre o símio?. Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco.Não. mas estava tão cheia de mesas. graças a Deus! O crepúsculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora. emendaram-nos bem. canções. sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir. Os macacos se enternecem e resolvem salvá-la.. teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. das muitas que o povo conta. que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas ela reserva!. Foram a ele. sob o título Histórias do Mestre Simão. e escapavalhe. demorou dias. nas bordas de uma grota. A decepção. tinha mais inteligência no olhar com que o encarava.. amarraram a corda assim feita à cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça. Querem ver? O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu: Se Deus enxergasse pobre Não me deixaria assim: Dava no coração dela Um lugarzinho pra mim. sinhô. meio de chamar a atenção sobre sua casa. pulando de árvore em árvore. desenvolver o culto das tradições. casar as filhas. isso é cousa antiga de embalar crianças.. adágios e ditados populares. Quaresma estava animado e falou com calor. . pejadas de livros. uma demonstração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir.. e Albernaz. porque via na sua festa. O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo. Para isso.Não é bonito?. Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las. arrancaram cipós.11 .Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar. Quaresma vinha desanimado. com um número de folklore. .. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes: . mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes. e foi logo à outra. Oh! Uma verdadeira epopéia cômica! Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um semelhante no deserto. homem doce e ingênuo que se deixara esquecer em vida. numa pasta. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza. donde tirou várias folhas de papel. disse o velho poeta.. porque uma delas já estava garantida. o noivo de Ismênia. Já mi esqueceu. Eis senão quando um deles vê no fundo uma onça que lá caíra. Você não sabe outra? . que mal se podia mover nela. Andava um bando de macacos em troça.. estantes. como poeta.Os senhores não sabem.. Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores.

como da primeira vez. O acidente.12 esforço reunido de todos. mas a onça parecia inflexível. cujas audiências são dadas à borda dos rios. pela quinta estrofe. atirando-se n’água. não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore. deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si. e também o juiz.. meio fria. porém. colocando-se ele em cima de uma pedra.Compadre Macaco. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer.Bata palmas.. um olhar de gratidão. verdadeiro material para fabliaux interessantes. O macaco rogou. preciso arranjar alguma cousa própria.” Acabando a leitura. Um deles. Tornava-se. vamos ao que serve. quando. fugindo. falando muito. Apesar de seguro pela onça. uma máscara de velho. agarrou-se a um bordão curvo. . É melhor irmos devagar. o macaco pôde assim mesmo bater palmas. . conhecem? . que também expôs as suas razões e motivos. . uma roupa estrambólica para um dos senhores. em forma de báculo. as crianças fugiam. O dia chegou.. brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lágrimas furtivas.. continuou ele. fazia hu! hu! hu!. batia com o báculo no assoalho. pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia. depois de passada a emoção.Não. Assim ia executando com grande alegria da sala. Cavalcanti viera. que eu ensaio. entretanto.. O jabuti ouviu-o e no fim ordenou: . Arranjem dez crianças. o velho dirigiu-se aos dous: . Chegou a vez da onça. Os dous chegaram e o macaco expôs as suas razões. muita criação. cheio de trejeitos no olhar. disse ela. vestiu uma velha sobrecasaca do general. Está aí o “Tangolomango”. original. Ah! Então! Dizendo isto.Agora. o próprio “Tangolomango” o era também. no vão de uma janela. lhe faltou o ar. O juiz. conseguiram içá-la e logo se desamarraram. Quaresma fez o “Tangolomango”. para o noivo. portanto.É divertido. começar pelo mais fácil. afinal ele agarrava uma e levava para dentro. e entrou na sala. A casa do general estava cheia.. ela. É juiz de direito entre os animais o jabuti. lhe ficou a vista escura e caiu. Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras.. deitando de quando em quando. e ele e a noiva. Foram a ele. Ele. Comprou livros.Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção. uma criação da nossa terra e dos nossos ares. A onça não teve remédio senão largar o macaco. tenha paciência. As dez crianças cantaram em coro: Uma mãe teve dez filhos Todos os dez dentro de um pote: Deu o Tangolomango nele Não ficaram senão nove. No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa forma imortal!. mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo. Simão então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. leu todas as publicações a respeito. Por aí. instou. “O Boi Espácio” ou o “Bumba-meu-boi” ainda é muita cousa para vocês. o macaco sempre agarrado pela onça. Tiraram-lhe a máscara. o major avançava.. que se escapou. à parte. disseram os dous. chorou. pôs uma imensa máscara de velho. . isto é.Bata palmas. não pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente. determinou ao felino: .

Policarpo? . Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa. de cumprimentos. A irmã correu lá de dentro. padrinho. um vôo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a ver em ninguém do mundo que freqüentava. é possível que isto seja muito brasileiro. pois.Mas.. Havia na sua afirmação uma tal energia e um grande e estranho acento de ferocidade. . o Anastácio também. se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo. Havia entre os dous uma grande afeição. motivo não foi o não tê-lo. compadre. e o compadre e a filha.Que é isso. a berrar. Queriam que eu apertasse a mão. mas já flutuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciência como tênues desejos. fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos. que foi levada à pia pelo seu benfeitor. Não só. fezse logo empreiteiro.. mas faltava-lhe tempo para despir-se. e notou que o rapaz tinha alguma preocupação séria. disse-lhe o compadre. muito distraído. uma ânsia de ideal. estando disposto a matá-lo. logo ampliou o seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de relações. Este seu compadre era italiano de nascimento. e. enriqueceu. A menina vivaz. Enxugou as lágrimas e. meu padrinho. Ele ainda chorou um pouco.Mas que é isso. com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recém-chegado. Senhor Policarpo. Recebera a . Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas. rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. como também cerrava os lábios. veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos. Inútil é dizer que Quaresma não notou a contradição entre as suas idéias patrióticas e o seu ato. mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vê-lo suado. . uma tenacidade em seguir um sonho. ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga que ele recebera com o mais legítimo cerimonial guaitacás. E não ficou nisto só: emprestou-lhe também dinheiro. Quitandeiro ambulante. deitando sobre ele os seus olhos muito luminosos. Estava até à mão. que fizeram empregar o major toda a sua doçura e persuasão para dissuadi-lo do propósito. quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos. ficaram estupefatos no limiar da porta. de onde em onde. mas não apertou a mão. Fora.. mas é bem triste. pois perdera o crédito e em breve estaria na miséria.Lê-se muito. Mas um belo dia. a pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim. entretanto. habituada a falar alto e desembaraçadamente.Mas. que a moça ocupava-lhe no coração o lugar dos filhos que não tivera nem teria jamais. É verdade que ele não as tinha ainda muito firmes. Falou-lhe com aquela simplicidade d’alma que era bem sua. como se tivesse perdido a mulher ou um filho.Decerto. calcado nos preceitos tupis. ganhou uns contos de réis. em meio de seu trabalho. ia Quaresma pelo Largo do Paço. veio a ter aquela filha. Vicente Coleoni pôs uma quitanda. pois eram eles. parece até agouro. O major já tinha as suas idéias patrióticas. veleidades que não tardariam tomar consistência e só esperavam os anos para desabrochar em atos. sem saber o que dizer. casou. era assim que faziam os tupinambás.. O homem estaria doido? Que extravagância! . Essa admiração não lhe vinha da educação. depois. Abriu. como uma idéia traz outra. a arrancar os cabelos. Desandou a chorar. e. padrinho? perguntou-lhe a afilhada. a filha e Dona Adelaide entreolharam-se. de cerimônias domésticas e festas. Adivinhava-se.13 Essa idéia levou-o a estudar os costumes tupinambás. uma idéia. curvado ao peso dos cestos. . quando (era domingo) lhe bateram à porta.Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. não escondia a sua afeição tanto mais que sentia confusamente nele alguma coisa de superior. compadre? . A história das suas relações vale a pena contar. soltava exclamações sem ligação alguma com a conversa atual. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu colega. O seu compadre Vicente. explicou com a maior naturalidade: . acrescentou a moça com vivacidade.

. enquanto Ricardo.Foi. padrinho... deixando parado o seu olhar luminoso. Eu sei. interveio: . confirmou Ricardo. desconfiado. que o violão é um belo instrumento e tem grandes dificuldades. Olga.uma alegria de matemático que resolveu um problema. E ela sorriu devagar.Não se vá meter em alguma conspiração. há meses. Quaresma.. que é digno de louvor. Aquela moça parecia rica. São. Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação. .. lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo.Continue na tentativa. . Senhor Ricardo. é isso. O major fez as apresentações. Como é que se chama. Pois o Mistral não é considerado.. Vossa Excelência sabe que os versos para música têm alguma cousa de diferente dos comuns. e a sua cútis.Não conheço. Olhou triunfante para um e outro circunstante. a inúbia. . na Europa.Eu sei. e Olga dirigindo-se a ele disse: . talvez das proximidades européias do seu nascimento.Muito. não foi? . acudiu Quaresma.. que a fizeram um pouco diferente das nossas moças.Não te assustes por isso. Senhor Ricardo. fossem de que condição fossem. minha senhora.Leu então os meus versos. como que ficou macia e jovem.Decerto. de inventor feliz! . é um artista. falou Coração dos Outros. . A cousa vai naturalmente.No Tempo. feitos para violão. Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho: .O Ricardo. Há outros mais difíceis. Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça. mas. disse Olga. ele que antigamente era tão modesto. .Mistral. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música para os versos. Por exemplo. quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos .. mas são versos para violão. disse a moça gracejando. ..Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. . é o provençal. padrinho. Fique certa. uma verdadeira língua. Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. Mas. que até ali se conservava calado.. amaciava a voz e ficava numeroso e eloqüente.Então. mas não é francês popular.O piano? perguntou Ricardo. no tocante ao violão.. mas li.Obrigado. soltava a língua. Falava agora com tanta segurança. todos respeitam e auxiliam. era fina e bonita. . hesitante mesmo no falar . quando se encontrava diante das moças. uma reforma. sigam outra métrica e outro sistema. não acha? . minha senhora? . Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento. . não é. Imagina que medito grandes obras. não é preciso violências.Sim.. portanto. a emancipação de um povo. . . A sua fisionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais.. não é? Não há. aquele poeta que escreveu em francês popular? .14 comum às moças de seu nascimento.que diabo! Não. . Dizem que os meus versos não são versos.Não tive esse prazer. Vinha de um pendor próprio. minha filha. que era ressecada e de tom de velho mármore. estou fazendo o mesmo. minha senhora. conhecia-o que satisfação! Ele que era sempre um tanto parvo e atrapalhado. animava-se. sim.Entre nós. não se levam a sério essas tentativas nacionais. nada a admirar que os meus versos. disse a moça. .Muito injusta! acrescentou Ricardo. . uma apreciação sobre um trabalho seu. enigmaticamente. Tenta e trabalha para levantar o violão. respeitado? Eu.Que piano! O maracá. não era possível. lê-se muito? .Já o conhecia de nome. major..

Parecia que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado.. a vida se resumia numa cousa: casar. ou senão “Você precisa aprender a pregar botões. o mundo. Zizi. e à fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou. a maternidade. não era negócio de paixão. na sua inteligência a idéia de “casarse” incrustou-se teimosamente como uma obsessão. sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente. o nosso próprio direito à felicidade. .. Quinota. eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos. Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti. Esse sentimento junto à sua natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria. como em tal caso.“bonitinhas”.. daquela gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. espantada. Desde menina. as satisfações íntimas. E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça. com os seus traços acanhados. e.. o violão também não vale nada . Ela não era feia.De capadócio. na rua. No colégio. lá vinha aquele . para ela. foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho. Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há quase cinco anos. major! Não diga isso. As irmãs da noiva. De natureza muito pobre. sem explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu padrinho. com tons de ouro. Ismênia já se sentia meio casada. surpresa. uma tal ou qual liberdade. uma pura idéia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor. . uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática. mas é tão feia. a variedade intensa dos sentimentos.. estavam mais contentes que a irmã nubente.Instrumento de caboclo. que não se casar. Ficou no mesmo. até o noivo. e.Então quando se casa. uma vergonha.De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir. Casar.. a alegria. ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso. meu Deus!”.. até ali tão sossegado e tão calmo. parecialhe um crime.. ficar solteira.e a menina foise convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéia. uma espécie de dever. a Lili casou-se. sedoso até ao olhar. de indolência de corpo. em casa das famílias conhecidas. A vida. o prazer dos sentidos. ou então: “A Zezé está doida para arranjar casamento. sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto. porém.Em Março. porque quando você se casar”.Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis.. não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. De resto. instrumentos dos nossos antepassados. A todo instante e a toda a hora.era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam . “tia”.. Dona Maricota. não fez grande negócio.“porque quando você se casar”. de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante. III A Notícia do Genelício . os únicos que o são verdadeiramente. tudo isso era inútil. Os caboclos! . não muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva. A alegria foi grande na família. de idéia e de sentidos . Lalá e Vivi. mas galante. das idéias. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para daí a três meses. Dona Ismênia? .. . o narizinho malfeito.. ora! disse Ricardo. Noiva havia quase cinco anos.é um instrumento de capadócio. “Sabe. e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem. Se é por ser de caboclo. só se falava em casar. sem atinar.15 . A instrução.. pois parece que o noivo não é lá grande cousa”. porque quando você se casar”. . O seu traço de beleza dominante.. Cavalcanti já está formado e. amorenada. uma alegria não podia passar sem baile.

Olho vivo!.” O general era leal. A alegria de Dona Maricota era grande.Qual delas? . Um cidadão semiformado. pedindo-lhe isto ou aquilo. Enfim . Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre. Preferia um oficial. Vivi e Quinota foram para os doces. ela cantarolava uma velha ária. mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. se encontrava um camarada.. a segunda. a falta de arrimo. .Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malícia. esta vida! Imagina tu.. coçava a cabeça e dava o dinheiro.. tinha montepio e meio soldo. aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor quando se tratava dos interesses delas. porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento. Que é um dentista? perguntava ele de si para si. Dona Maricota amanheceu cantando. Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido. Maricota dizia ele . arranja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia. mas também assim como você está! Eu nunca vi noiva assim. Não era raro que após uma longa conversa com a filha. Não eram só os perigos a que se achava exposta. Muito ativa. não havia no seu caráter a mínima falha. livros e outras cousas. ao contrário: ele estava radiante.quem são. Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos. dizia ela. e a filha fria e indiferente. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra.Mamãe.Não é bonito rir-se muito. . isto é.Mas. às lojas de louça. nervosa e alegre.. o velho Albernaz corria aos armazéns. Ela arrumava a mesa. um centro de mesa. como ela dizia. que ainda por cima tenho que casar uma filha! Ao que Castro interrogava: .” Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista. comprava mais pratos. minha filha. que quer que eu faça? . até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí uma “mosca-morta”. No fim do primeiro ano. mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito. Pode ser um valdevinos e. na noite do pedido. e ele acedeu. o general foi generosamente em seu socorro. dispôla com muito gosto e esplendor. respondia-lhe Dona Maricota. mas nos dias de grande alegria. .. as criadas e as filhas. aprendi a receita. A satisfação resignada do general era porém falsa. quando já recolhidos . Felizmente. respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos. vamos descontar esta letra. É melhor prevenir que curar. convidou-o a jantar em casa todo o dia. enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa. não gostou muito. . ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos. Demais. uma espécie de barbeiro. lá dizia ele: . mais compoteiras. bom e generoso. a não ser a sua pretensão marcial. e assim o namoro foi correndo até ali.dizia Albernaz à mulher. Era raro que o fizesse. no primeiro momento azado. pôs tudo em atividade. que não pediu. uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela. não havia dona-de-casa mais econômica. Ele ouvia a mulher.a cousa vai acabar. não é ainda “oficial”. Pagou-lhe taxas de matrículas. Por que não fizeste o mesmo? Despedindo-se. Logo que despertou. e até para evitar despesas ao futuro genro. parecia-lhe feio e desonroso para a família. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. Na rua. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família. Dona Maricota viesse ao marido e dissesse: “Chico. andar aí como uma sirigaita.16 O pai fez má cara. Castro. Começou então Cavalcanti a freqüentar a casa na qualidade de noivo “paisano”..É um inferno.A Ismênia. muito diligente.

É muito bonito ser formado.Em engenharia.Conheço. dou-lhe meus parabéns. Quaresma o fora. não vale nada. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti. Quando deixou de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito. Ela aludia à resposta que. tinham os olhos no piano. Irene. Os senhores não imaginam os tropeços. os embargos . davam conselhos. chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. que tinha nos dedos um anel.Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.É verdade! Trabalhei. num dado momento. e outras pessoas importantes. A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos: . guarda-livros. dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes. A Ismênia era a menos entusiasmada. acudiram ao convite do general o Contra-Almirante Caldas.Foi seu colega? . embora solteiras. como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal. à sua confidência. todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural. Às seis horas. muito bonito. mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza. Um crônico.. o Doutor Florêncio.Eu. aparelhos.Pois doutor. meu caro senhor.. com tantas pedras que nem uma joalheria.Boa carreira. Nos intervalos da conversa. . a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia. uma alourada e alta. o Major honorário Inocêncio Bustamante. um pândego.. quase não respondia às perguntas. torço a orelha e não sai sangue.. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho. não sem um pouco de inveja no olhar. acudia um outro. sabiam as casas barateiras. Para aquela gente toda. . se as respondia. e Cavalcanti jantara com os futuros sogros. Se eu tivesse ouvido meu pai. hein? dizia este a jeito de um cumprimento..Foi. Todas elas. Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo! Um curso difícil e caro. Cavalcanti não era mais um simples homem.. isto é. ainda parente de Dona Maricota. Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê! Todas elas. .. quando se formou: vá furando! . vi na Rua da Constituição um dormitório de casal. na Estrada de Caxias. o Senhor Bastos.fui de um heroísmo!. Está no Maranhão.. bons professores. a doutora. não estava agora a quebrar a cabeça no Deve e Haver.Eu. Além das moças e as respeitáveis mães. .Conhece o Chavantes? perguntava um outro.. . Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro. ele é do curso de Medicina. conversando. Todas dizem que não. aconselhava: . mas não viera. . .. . e disse alto: . cumprimentando-a. Estavam a par. muito solene. e o natural do seu temperamento venciaa e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria.Atualmente. .. Eu sei. Doutor. Estefânia. Veio muita gente. que exige cadáveres. Com essas academias livres. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. acabou.17 Durante uma hora. Ismênia? Parece barato. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria. Hoje. e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as . dentro de um grande fraque preto. Tratava-se do enxoval. normalista. se fosse você. as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas.Então.. incapaz de vibração sentimental. você por que não vai ver. engenheiro das Águas. . dizia modestamente Cavalcanti. Matriculamo-nos no mesmo ano.Eu quero ver isso.. comprava tudo no Parque.. era por monossílabos. ontem. e. a moça esforçou-se por parecer muito alegre. era homem e mais alguma cousa sagrada e de essência superior.

quando era já capitão-tenente. Logo que se viu primeiro-tenente. apresentou-se às altas autoridades da Marinha. quando não tinha nenhum. noutro honras de tenente-coronel. disse-lhe o superior. ia ver a dos outros. cercado dos mais titulados e dos mais velhos. o Major Inocêncio.esse poviléu rebarbativo do foro que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos. não havia dia em que não fosse ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Ele lá foi. a não ser na guerra do Paraguai. abandonando a roda dos camaradas. sem receber soldo e sem saber que destino tomar. todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis. O general ficara na sala de jantar. mas a sua substância tinha mudado. juízes e advogados . Deixaram-no “encostado”. Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação militar. . mas. Consultou o comandante. deram-lhe um embarque em Mato Grosso. por ser tenente honorário e também da Guarda Nacional. nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. vieram os menos importantes. acotovelando-se com meirinhos. e aquele tipo. Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania demandista. conforme a praxe. e ele levou quase quarenta anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. quando se apresentou ao comandante da flotilha. e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Caldas foi aos poucos se metendo consigo. possuindo honras de major. O contra-almirante era interessantíssimo. visto que dous galões mais outros dous fazem quatro . armazenava coleções de leis. noutro tal ou qual medalha. porém.Eu. Nomearam-no para comandar o couraçado “Lima Barros”. se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. O “Lima Barros” tinha ido a pique. mas assim mesmo por muito pouco tempo. que se achava na sala de visitas. Todos o tinham na conta de parvo. Não se pejou mesmo de tratar do pedido de um maníaco que. Onde estaria então? Quis telegrafar para o Rio de Janeiro. como se diz na gíria militar. para alguns. por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exército. na aparência. requereu lhe fosse passada a patente de major. teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio. quase divina. de forma que. . e. com graduação do seguinte. não era dele. Bustamante fez a sua consulta. avisos. mas só se as dá aos protegidos. mas teve medo de ser censurado. Para o lado de Cavalcanti.o que quer dizer: major. pedindo a modificação de sua reforma. alvarás. Isto não entrava nela de modo algum. hesitante. Na Marinha. Embora absolvido. Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai. tanto mais que não andava em cheiro de santidade. Nunca embarcara. que se referisse a promoções de oficiais.18 cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fora da natureza terrestre. Os requerimentos. A culpa. Certa vez. choviam sobre os ministros da Marinha. Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante. de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos quatro pontos cardeais. decretos. comum. Era renitente. Esteve assim um mês em Itaqui. teimoso. Ultimamente constituíra advogado junto à justiça federal e lá andava ele de cartório em cartório. Mas aí também não estava o tal “Lima Barros”. fumando. Um dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio. Antigo voluntário da pátria. sem empenhos e sem amigos nos altos lugares. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal “Lima Barros” fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguai. É curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento. mas servil e humilde. Comprava repertórios de legislação. onde chegou enfim. consultas. o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros Segismundo. no seu caso. Corriam meses o infinito rosário de repartições e eram sempre indeferidos. durante a guerra do Paraguai. continuava a ser vulgar. depois de uma penosa e fatigante viagem. sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. Num pedia inclusão no Asilo dos Inválidos. Reformado no posto imediato. partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande. relatórios. Foi preso e submetido a conselho. Estavam com ele o Contra-Almirante Caldas. escrivães.

Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor: . Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile. ninguém toca.. . onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. pedindo honras de tenentecoronel. Todos se calaram e olharam a noite que chegava. observou Albernaz. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas..Não há mais. Era noite. Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre.O senhor assistiu.Não há mais gente que preste. . O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar. sim? Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala. uma valsa! . pois tudo hoje não vai pela ciência? Fora Caldas quem falara. nestes termos: .Eu queria ver esses meninos bonitos. depois voltou aos amigos e. não se atrapalhou.19 . Engenheiro e empregado público. Estão lá tantas moças. dizendo: . tentando a ironia. não se via nem um monte. Estou pegando alguém? Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou: . muito diligente e com o rosto aberto de alegria. hein. está no ministério há seis meses! . Imaginem que o meu requerimento. não foi.Como ia dizendo.Uma desordem.Como não é militar? fez Albernaz com ímpeto. fez o almirante cofiando os favoritos..Eu não sou militar. mas vou ver. Segismundo por aí aventurou também a sua opinião. não gaguejou e disse com a máxima naturalidade: . suas chaminés e o piar de pintos. Morando perto de Albernaz. . Ouviu a mulher. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão. não sei.. . Inocêncio? O Doutor Florêncio era o único paisano da roda.Vamos. as grandes vistas sem fim. eu vou lá. O Doutor Florêncio perguntou: . . Quanta ordem! Quanta disciplina! . general? O general não se deteve. disse Albernaz. meu caro. não acha Caldas? . é uma pena! . exclamaram todos. tantos rapazes. mas. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Onde está um Porto Alegre. muito ativa. decerto. Bustamante quebrou o silêncio: . falou alto.Se não dançam é porque não querem. um Caxias? .Este país não vale mais nada.Ah! meu tempo. confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio. ninguém tira par. apesar de não ser militar.Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico. Isto também anda tão atrapalhado! Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos. Não é a minha especialidade o Exército. no meio do caminho. Os senhores é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente. o Venâncio. cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti.Não assisti.Bem. os anos e o sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da escola.Não sei por quê. era raro que não viesse toda a tarde jogar o solo com o general. disse Bustamante. Dona Maricota chegou até onde eles estavam. que lhe davam um ar de “comodoro” ou de chacareiro português. pois era forte nele o tipo lusitano.Assim de pronto. meninas! Então o que é isso? Zizi. continuou Segismundo.Os senhores sabem: se a gente não animar. Da janela da sala onde estavam.Decerto. . Caldas? hein. eu me animo a dizer que a nossa força está muito por baixo. O sol já tinha desaparecido do horizonte e as tênues luzes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás das vidraças.

Acompanhava-o. que examinava atentamente as cartas recebidas. disse Bustamante. tinha-se como certo o seu casamento na família. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante numa partida de whist. moço de menos de trinta anos. interrompeu a conversa com voz grave: . atravessou a sala e foi beber água.” Depois de ter dado início ao baile. Caldas. dizia.Isto de família! Qual! A gente até parece bobo. já tenho par”. Parente ainda de Caldas. “dance com o Raimundinho. e deixava-o no bonde. . criticava este ou aquele colega. mas que a convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. coçando um dos favoritos. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. Empregado do Tesouro. retrucava ele. buscava outros meios. tinha verdadeiramente gênio. remancheava. um gênio do papelório e das informações. dava pareceres e opiniões. até poder apanhar o diretor na porta. lavava três ou quatro vezes as mãos. outros processos. As cartas vieram e também uma pequena mesa de tripeça. deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor: . advertiu Caldas. nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia.Ué! Sei lá! Ando atrás dele? . O general.e acabava também por . uma das filhas do general. é uma simples pergunta. tinham em grande conta o seu saber e ele vivia na seção cercado do respeito de um gênio. era um soneto que começava sempre por . fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. conversava com ele sobre o serviço. salpicadas aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses. convidou Albernaz. Interessante é que os companheiros o respeitavam. com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para fugir à fumaça. Fora da repartição. já no meio da carreira. perguntou à moça: . Coube a Florêncio dar. eu não jogo.20 E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: “Não. Eram meras compilações de bolorentos decretos. Acresce que Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar.Então. mas contente. tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico. Bustamante fora à sala ver as danças. Tinham começado a partida. nos aniversários de nascimento. de quando em quando desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. Dona Quinota retirou-se. Começaram. Caldas. ao discurso. veio para a roda dos amigos. No intuito de anunciar aos ministros e diretores que tinha uma erudição superior. Este Genelício era o seu namorado. a se fundar.Não. ele só mudava o nome do ministro e punha a data. Um empregado modelo! .“Salve! Três vezes Salve!” O modelo era sempre o mesmo.Vamos jogar o solo. dizia uma moça. Nenhum pudor. No dia seguinte.“Salve” . “Não faz mal”. .Não precisa zangar-se. Você é que fez bem. Na bajulação e nas manobras para subir.Então jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz. .Mas tenho mais filhos que você. Dona Quinota. Albernaz tinha um ar atento quando jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. e os primos? . oito. general.Somos cinco. os jornais falavam do seu nome. . e tantos títulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal Albernaz.Eu passo. num posto acima. Em quatro anos. e publicavam o soneto. se o homem ia para casa. Só sobrinhos. o outro espera. Segismundo jogava com todo o cuidado. Dona Quinota. como há de ser? observou Florêncio. Dona Maricota e o marido enchiam-no de festas. ameaçava ter um grande futuro. quando Dona Quinota. Não se limitava ao soneto. suando. Quando entrava um ministro. A sua candidatura era favorecida por todos. tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas. Quando saía. não se quis casar! . quedê o Genelício? A moça virou o rosto com faceirice.

fez Albernaz. E o piano gemia. fez Caldas. general? . . Calaram-se um instante.Já saíram todos os trunfos? . com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano.Quase garantido. jogava-se em silêncio. Não há nada. . os seus gostos e hábitos.Estimo muito.O que é? . . . acrescentou Genelício.O Quaresma está doido. No fim das “mãos” fazia-se um breve comentário ou outro.Mas. empregado do Arsenal. disse o Doutor Florêncio. confirmou Caldas.Telha de menos. . meu amigo.Aquele homem do violão. vinha o ruído festivo das danças e das conversas. . disse Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.Decerto. .Isto de livros é bom para os sábios. Feitas elas. . passo”. todo ele traía a profissão. .21 O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. não conhece? .O Genelício.Vão bem? perguntou Florêncio. a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. . Aqueles livros. e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo. porém. Uma história de sangue e de poeira Um deserto sem luz. Não acham? .É verdade..Contasse. rapaz? Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. com um pince-nez azulado. disse Albernaz. . apurando muito os finais em “s”.. com a sua voz metálica. disse Segismundo. Onde estiveste. . Zizi acompanhava. de pince-nez? .Eu logo vi. Cavalcanti ia recitar. Genelício atalhou com autoridade: .Olhem quem está aí! .Obrigado. . disse Albernaz. . para que meter-se em livros? . bolo. disse o general.Mas não é só. fez Caldas.Pra que ele lia tanto? indagou Caldas. estou bem “cunhado”! . . Já está na casa de saúde. general. Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio.Aquele vizinho. . meus amigos! Estou tratando dos meus negócios.Um baixo. O ministro prometeu..Nada.Quem é? perguntou Florêncio. observou Segismundo.. Evitavam-se assim essas desgraças. fez Florêncio... chupado de rosto. aquele requerimento era de doido. Sabe de uma cousa.Decerto. disse Florêncio..Ele não era formado.Nem se podia esperar outra cousa.. da sala. Era um escriturário. . Pequeno. melhoro. . começou: A vida é uma comédia sem sentido.Decerto.Este mesmo.. para os doutores. . e as atenções convergiram para o jogo.É o que eu dizia. aquela mania de leitura. Tossiu e. . já um tanto curvado.. Atravessou a sala triunfantemente. o quê? Quem foi que te disse? .Devia até ser proibido.

pelo fim. de sonho generoso e desinteressado. de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais. mas não aquele recebimento hilárico. o secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular e que veio a ter uma fortuna de publicidade e comentário pouco usual em documentos de tal natureza. Senhores Congressistas. cidadão brasileiro. uma pequena mania. havia de sentir uma penosa tristeza. é a sua criação mais viva e original. mas vieram outros e outros. no meio da leitura. vendo-se.toda a Mesa e aquela população que a cerca riram-se da petição. ao ouvi-lo. os autores e os escritores. A sessão daquele dia fora fria. porém. por esse fato. e. havendo em alguns tão fraca alegria que as lágrimas vieram. funcionário público. Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento. Os que riam. por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem. discretamente. ria-se. O primeiro fato surpreendeu. certamente inconvenientes à majestade do lugar. oriundas de uma difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal . não lhe sabiam a causa e só viam nele um motivo para riso franco e sem maldade. sobretudo no campo das letras. ódio. Merecia raiva. por ser assim. o documento que chegava à Mesa da Câmara. portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos. com especialidade os gramáticos. portanto. sabendo. língua originalíssima. porém. ria-se o oficial da ata. no dia seguinte. que.22 IV Desastrosas Conseqüências de um Requerimento Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da mesa de solo. ouvindo aquele rir inofensivo diante dela. e. os jornalistas. A força de idéias e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em atos imprevistos com uma seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão.usando do direito que lhe confere a Constituição. certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil. que estavam próximo à Mesa. pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo. sem fundo algum. ria-se o contínuo . o tupi-guarani. na tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de Ismênia. se apresentou logo em insânia declarada. deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia. vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupiguarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. dentro do nosso país. Demais. as seções dos jornais referentes à Câmara. se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua. prorromperam em gargalhadas. aglutinante. se tinham desenrolado com rapidez fulminante. além. um deboche de inimigo talvez. Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço. evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais. surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma . querendo sempre conter o riso. O secretário. certo também de que. O suplicante. largamente. o falar e o escrever em geral. ao abrir-se a sessão da Câmara. assim como se se estivesse a rir de uma palhaçada. O riso é contagioso. já ria-se o presidente. publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons. é a única capaz de traduzir as nossas belezas. Era assim concebida a petição: “Policarpo Quaresma. de forma que o que pareceu no começo uma extravagância. O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável ao elevado trabalho de legislar não permitiram que os deputados o ouvissem. de trabalho. a emancipação política do país requer como complemento e conseqüência a sua emancipação idiomática. de uma hilaridade inocente. de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta de clown. diariamente. não se entendem no tocante à correção gramatical. Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade .controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica.

À medida que engolia uma troça. quando se os encontra. Nunca sofrera críticas. e E. mais orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça. compará-la a cousas semelhantes.Não. há uma questão de amor- . vivendo numa reserva de sonho. adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor cousa. esses semanários de espírito e troça. se era solteiro. e os inventores. então! eram de um encarniçamento atroz com o pobre major. e.O senhor tem língua de vaca? O açougueiro respondia: . Um outro referia-se ao caso pintando um açougue. Os pequenos jornais alegres. de glória e posição. não havia quem não fizesse uma pilhéria sobre ele. a sabença de textos de regulamentos e a boa caligrafia.” Assinado e devidamente estampilhado. A continuidade das troças feitas nos jornais. Indagou-se quem era. embora a estimasse mais que a todos. e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. os grandes estudiosos. Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio. nunca se atirou à publicidade. sem se chocar com o mundo. a gente sente mais simpatia pela nossa espécie. mesmo tocados de um grão de loucura. Vivendo há trinta anos quase só. Com uma abundância que marcava a felicidade dos redatores em terem encontrado um assunto fácil. com comentários facetos. Nos meios burocráticos. Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva. vivia imerso no seu sonho. ele não conhecia ninguém. ao anonimato papeleiro. e a idéia o tomava. de que vivia. se era casado. Levaram duas semanas com o nome do subsecretário. segundo o Major Quaresma”. uma superioridade que nasce fora deles. quer? Com mais ou menos espírito. vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança. pois nada dessas cousas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu temperamento. gente que fica mais terna. quem não ensaiasse um espírito à custa da lembrança de Quaresma. às ambições. só temos língua de moça. o avassalava. Fora deles. o texto vinha cheio dele: o Major Quaresma disse isso. pesar-lhe todos os aspectos. É raro encontrar homens assim. deferimento. Tudo isso irritava profundamente Quaresma. Intitulava-se a ilustração: “O matadouro de Santa Cruz. adquirira a candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa. é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja. uma pilhéria. Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo. Não ficaram nisso. e. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na rua. ditos de todo o dia. ocupou uma página inteira com o assunto da semana. além de outras referências. Um deles. a maneira com que o olhavam na rua. de interesse pecuniário. o Major Quaresma fez aquilo. às competições. exasperavam-no e mais forte se enraizava nele a sua idéia. que é feita e organizada com outros materiais que não os ofícios. os comentários não cessavam e a ausência de relações de Quaresma no meio de que saíam fazia com que fossem de uma constância pouco habitual. examiná-la detidamente. a repartição ficou furiosa. recordar os autores e autoridades. à proporção que fazia isso. “O açougue Quaresma”. mais inocente que as donzelas das poesias de outras épocas. mas os há e. legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro: . mais ingênua. Desinteressado de dinheiro. incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. cousas com que a sua alma e o seu coração nada tinham de ver. Publicado em todos os jornais. a ligeireza da pilhéria. a curiosidade malsã quis mais.23 P. o absorvia cada vez mais. trocava pequenas banalidades. a sua própria convicção mostrava a inanidade da crítica. com as pessoas com quem falava. Não há só uma questão de promoção. os sábios. este requerimento do major foi durante dias assunto de todas as palestras. É como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade.

Cada terra tem a sua nobreza. tinha um razoável jardim na frente. Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres nas informações. cara. Queria casar a filha. olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. faça qualquer cousa que interesse os estranhos e dê que falar a uma cidade inteira. A extensa publicidade. aos caprichos dos chefes. Assim. elevava-se sobre um porão alto. vistosa. pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre. o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e superiores. pouco de acordo com o clima e sem conforto. mas chamou-o logo de doido. e meditava. dous cães de louça. pontilhado de bolas multicores. Já se viu! dizia o secretário. Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o assassino marquês que matou a mulher e o amante. onde pelo calor os pássaros morriam tristemente. ainda o nobre e o burguês trazem o ar do seu mundo. a incompreensão da obra ou do mérito do colega é total e nenhum deles se pode capacitar que aquele tipo. Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades.pensava ele . de sentimentos feridos. vendo aquele colega. aquelas alusões e isso mais aumentava o seu desespero e a teimosia na sua idéia. mas não encontrou também assentimento. é doutor. mesmo os doutores. é visconde. essa má vontade geral. viúvo. a um ecletismo desesperador. Não encontrou resistência. uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo. Em começo. o seu fantástico não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade campônias de seu auxiliar. na redação. irregular e indisciplinada. varanda. aquele amanuense. onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construções de prédios. e julgou muito aceitável comprar a satisfação de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis. as maledicências ditas ao ouvido. um imenso monograma sobre a porta da entrada. um viveiro. voltava à idéia. não terá ceitil. sujeito aos regulamentos. Era uma instalação burguesa. bacharel ou dentista. um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu humilde colega de desgraça. portanto. como eles. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da menina. com algum direito a infringir as regras e os preceitos. quem o encaminhava nas distrações e nas festas. os bibelots e a fantasia da filha. as indiretas. Em geral. as sanefas. era uma cousa inocente. os tapetes. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretensioso! O diretor. tudo obedecendo a uma fantasia barroca. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tirania. todo o arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do que ela. do que os que têm nomeada e fama. O colega arquivista era o menos terrível. A casa ficava ao centro do terreno. no gosto nacional. às olhadelas superiores dos ministros. No interior o capricho dominava. O major sentia bem aquele ambiente falso. havia já alguns anos. nenhum obstáculo ao programa de Olga. Ela quer um doutor . a sua inteligência. Viúvo.que arranje! Com certeza. uma espécie de arquiteto que não desenhava. era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha. ao passar pela secretaria. Ambos são assassinos. Os móveis se amontoavam. na assiduidade ao trabalho. não punha. aqui. que avançava pelos lados. A brusca popularidade de Quaresma. nos pilares do portão da entrada e outros detalhes equivalentes. Primeiro sondou a filha.24 próprio. Ele se havia habituado a ver no doutor nacional. aquele seu ar distante de heroína. mesmo na prisão. lá. bem e ao gosto dela. o antigo quitandeiro retirara-se dos negócios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e tinha todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha. os bacharéis. que o fato tomou. quando surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua nomeação. mas eu tenho e as cousas se acomodam. . mas. com mais títulos à consideração. aparecem as pequeninas perfídias. o marquês ou o barão de sua terra natal. ainda trazia mais desordem àquela coleção de cousas caras. aquele galé como eles. mas projetava casas e grandes edifícios. atingiu o palacete de Real Grandeza. e a examinava com mais atenção.

achar este mais bonito. tinha que se conformar. e esperou. Até aí ele ia bem e calcava a contrariedade. a dar opinião sobre o tecido. tinha que perder noites e noites no Lírico. Só o contrariavam bastante as visitas. muito profundamente. pareceu-lhe simples distração do distinto jornalista e famoso advogado. Não se aborrecia. nos bailes. Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. conteve-se com uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro. Ele não compreendeu bem o requerimento. caíam tão a fundo sobre a cousa. nas grandes festas e recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta nobreza da terra que o freqüentava. com poucas idéias além do seu ofício. Apesar de ter enriquecido. de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de casamentos. demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo. quando chegavam tais visitas. Coleoni afastava-se. A primeira vez que Coleoni deu com isso. Quase sempre. com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado à leitura. Pacheco deu-se por desentendido. calou-se. Perdeu e muito. um dos parceiros. tinha em grande consideração a erudição do compadre. ia para o interior da casa.25 Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos da menina. como um duplo respeito pelo major.Os senhores sabem que há agora. Um homem honesto não ia fazer aquilo! E na segunda. Ele ficara sempre empreiteiro. seria também? E na terceira? Não era possível tanta distração. as colegas da filha.uma ninharia! A questão. mas os jornais faziam tanta troça. e a ganhar. Mas ele ia. amando estar sentado em chinelas a fumar cachimbo.A diferença é pequena: joga-se com seis cartas. deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade das amigas e das colegas de Olga. fez alguns comentários sobre a partida e não voltou mais.. na Europa. os seus desdéns dissimulados. Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker. Conforme o seu velho hábito. Havia nele não só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício. era obrigado a andar horas e horas pelas ruas. como. uns grampos e um frasco de perfume. Europeu. porém. de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. e. mas daí quem sabe? Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilhéria. guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado.Qual é? perguntou alguém. somente. com uma falta de sentimento daquelas cousas que se adivinhava até no pagá-las. Adquiriu a certeza da trampolinagem. é que Pacheco jogava com seis cartas. não sabendo fingir. despediu-se à meia-noite cheio de delicadeza. alguma falta grave. continuou a jogar. não lhe era sempre possível fazer isso. Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas cheio de complacência de pai que quer enobrecer o filho. porém. Que perdia? Uns contos . . Coleoni lia de manhã os jornais. oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio. Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha.. no mistério. um novo sistema de jogar o poker? . ele assim o quisera e a fizera. de origem humilde e aldeã. Entretanto. que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa. suas irmãs. mas não foi isso que o fez suspender o jogo. comparar um com outro. com seus modos de falsa nobreza. cheio de tenacidade e candura perfeitamente paternais. . aceitava e sempre perdia. saltitando de casa em casa de modas atrás da filha. Chegou mesmo a formar uma roda em casa. ainda não sabia juntar o saber aos títulos. apesar dos bastos anos de Brasil. de bailes de festas e passeios caros. isto é. Gostando de dormir cedo. quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal. por inadvertência. para no fim do dia ter comprado meio metro de fita. Quando vieram a jogar outra vez e o passe foi posto em prática. tendo praticado. Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade deste mundo: .

. quando o Carmo disse lá do fundo da sala. isolado. O expediente fora grande e ele mesmo redigira e copiara uma parte. obscuro e tenaz. mas. E ele tinha razão. punha nas palavras uma rouquidão singular. também não. que quer dizer isto? Non capisco. pois. de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que os jornais reprovavam.Non capisco.Ma che cousa! Não é possível? .Per Bacco! É o mesmo. Em princípio. mas não de todo doido. papai. fora dos moldes. papai. fora obrigado a aprender o rebarbativo alemão. meu pai. a língua brasileira. mas de doido. não! E ele pensava. Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação.. o subsecretário suportou bem a tempestade. mas tendo adivinhado que o supunham insciente no tupi. com acento escarninho: .De juízo. é um plano. e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de admiração pelo atrevimento do major. . em virtude desses estudos.vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações. talvez não seja. Neste falava o bom senso e nela o amor às grandes cousas. caía em distrações. . não saber tupi. Chamou a filha. mas.Como? Então é cousa de um homem bene? . talvez. que se continha dificilmente. agora esse acujelê. . . depois de conquistados pelos austríacos. isto de saber é uma cousa.Homero. foi de piedade simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia há tantos anos. talvez à primeira vista absurdo. irritou-se. nós não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo o dia.Acujelê é da África. encheu-se de uma raiva surda.Che! Então? .Tutti? . . A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal o requerimento e os comentários. e foram obrigados a falar alemão.É uma idéia. todos. tupi é daqui. .Como? .O padrinho quer substituir o português pela língua tupi. seguindo o seu sonho. Os tchecos têm uma língua própria. aos arrojos e cometidos ousados.. ele que.Todos os brasileiros. Por mais que quisesse.Mas não há loucura alguma.Olga! Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque.Olga. e a outra. É ousado. observou Coleoni. na preocupação de provar que sabia o tupi.que suspeita miserável! Que o julgassem doido . .. .. mas não entendeu o que ele queria dizer.Isto vai causar-lhe transtorno.26 Não é. procurava meios de se reabilitar. . Leu de novo o requerimento. onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã. os lorenos. franceses. Está doido! . a única que o era . Como eram cegos! Ele que há trinta anos estudava o Brasil minuciosamente. Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre cousas de Mato Grosso.. quando falava português. O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. dizer é outra.Hoje. . ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai. . mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. não foi decerto o de reprovação ou lástima..Pode ser.. entende o senhor? ..Per la madonna! Alemão é língua. e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões italianas. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. ecco! .

a respeito do assunto. com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. voltou-o de trás para diante. Censurado! monologava o diretor. lembrou-se da distração e confessou com firmeza: . disse o coronel.. um conto ..Mas.Fui eu. O diretor não reparou. Viu a letra.O aviso de 84 trata de ortografia.. talvez por causa da molecagem de um escriturário! Ainda se a situação mudasse. Viver tantos anos a sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim. Veja. transformavam aquele . para que ele examinasse.não sabe . pô-lo de pernas para o ar e concluiu que era grego. oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas estrangeiras? Creio que há um aviso de 84.produção muito elogiada pelos colegas. Além disso escrevera no Pritaneu. em injúria. mesmo em Descartes ou Shakespeare. Tantos títulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos. Sociologia e Moral? . após três dias de meditação.. O ministro. Dessa forma. mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram. Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de legislação.27 Quaresma nem levantou os olhos do papel.Como? fez Quaresma espantado. uma dupla coroa de sábio e artista cingia-lhe a fronte. Enfim. .Não sabe! que diz? O diretor levantou-se da cadeira. entretanto não parecia regular usar uma que não fosse a do país. O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio. assinou e o tupinambá foi dar ao ministério. por causa do “yy”.. a escola da Praia Vermelha. Tinha sido ofendido três vezes: na sua honra individual. Física.“A Saudade” . O diretor olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de empregado zeloso. . Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá.Então o senhor leva a divertir-se comigo. esqueceu-se e o ofício em tupi seguiu com os companheiros..Então confessa? . . Ao acabar.. Astronomia. agarrou o papel.Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática. foi ao chefe e disse com ênfase e segurança: . Ia-se por água abaixo o seu generalato. Mas Vossa Excelência não sabe. Inteirado do motivo. inteligente e. andou-se de mesa em mesa pedindo auxílio à memória de cada um e nada se encontrara a respeito. fosse pela alusão do funcionário Carmo. . . Que língua era? Consultou-se o Doutor Rocha. foi ao gabinete do diretor. o primeiro estabelecimento científico do mundo. devolveu o ofício e censurou o Arsenal. Química.. O funcionário limpou o pince-nez. tendo em vista esta informação e várias outras consultas. O major encaminhouse pensando nuns versos tupis que lera de manhã.. . não é? . assíduo. tendo em todos os exames plenamente e distinção. o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a peça oficial para o idioma indígena.Quem escreveu isso? O major nem quis examinar o papel. os contínuos andavam numa dobadoura terrível e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em chegar. a revista da escola. indagou o chefe.de um amanuense em ofensa profunda. o Doutor Rocha. Mande-o cá. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na minuta. Foi informado de que a legislação era omissa no tocante à língua em que deviam ser escritos os documentos oficiais..Pois não. examinou o ofício e pela letra conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. senhor Doutor Rocha. Novas preocupações afastaram a primeira. Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam furiosamente. porque era bacharel em direito e não dizia cousa alguma. Mas qual! O secretário chegou. o homem mais hábil da secretaria. deu com a distração. na honra de sua casta e na do estabelecimento de ensino que freqüentara.

Entrava-se. . de títulos. deixando à esquerda e à direita. que não deixava de olhá-lo furiosamente. bom e modesto. até segunda ordem. quando viu aquela enxurrada de saber. um semienterramento. com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canelas. . a Caridade e Nossa Senhora da Piedade. pegou no chapéu. talvez. as idéias e nada mais soube nem pôde dizer. perdeu o fio do pensamento. 10 em Hidráulica. como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser. Saiu abatido.É verdade. meio prisão. meio hospital. E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito.Não tem mas. filho. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao certo. quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde. em face do mar imenso e verde. sobraçando o violão na sua armadura de camurça. suas janelas gradeadas. Ricardo avançou algumas palavras: . a se estender por uns centos de metros. da razão condutora. espanto de inimigo invisível e onipresente. Quaresma era doce. na bengala e atirou-se pela porta afora. Pinel e Esquirol.Cedo. . a fala. subira outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima. com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro. do gabinete do coronel. como um criminoso. meditando sobre o angustioso mistério da loucura. hoje. No primeiro aspecto. cambaleando como um bêbado. V O Bibelot Não era a primeira vez que ela vinha ali. Chegando à sala do trabalho nada disse. hein major? . prolongar a existência. uns três ou quatro meses. uma espécie de pavor de cousa sobrenatural. de cuja ausência os corpos raramente se ressentem. esse espanto. pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo. ferozmente. A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida. Deu umas voltas. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a Rua do Ouvidor.28 Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho aí. mas de há muito tempo. aos domingos. como monges em recolhimento e prece. Com que terror. triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. se tanto. diziam. Seu pai a trazia às vezes. indignadamente. enterramento do espírito. parece que tem uma idéia. Saiu afinal. 10 em Mecânica. O hospício! É assim como uma sepultura em vida. severa e grave. lá na entrada da baía. visitando Quaresma. não se compreendia bem esse pasmo. .É bom pensar. quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade.O major. mas. penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas. um pensamento muito forte.Consola. não tem nada! Considere-se suspenso. na Praia das Saudades. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de pedra. .Tenho. Ele não tinha nenhuma pretensão a sábio e pronunciara a frase para começar a desculpa. não de hoje. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros. meditabundos. . E os dous separaram-se. sonhar consola. . cava abismos entre os homens.. viam-se uns homens calmos. foi ao livreiro buscar uns livros.. 8 em Astronomia.. Só o nome da casa metia medo. não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte. mas faz-nos também diferentes dos outros.. com seu alto gradil. esse terror do povo por aquela casa imensa. pensativos. atravessara o átrio ladrilhado. Nunca fora seu propósito duvidar da sabedoria do seu diretor. a sobrenadar em águas tão furiosas. 9 em Descritiva? Então?! E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava fuzilado. senhor coronel.Mas.

que o fazia tremer todo. um silêncio.. os trejeitos.. quando se examinavam bem. Eram sombras.. Enfim. aquela agitação desordenada. O pai vinha lendo os jornais e ela. mas. alguns idiotas e sem expressão. era uma calma. feito não sei de que inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real. Ele estava como pensionista. o angustioso mistério que ela encerra. de imaginar como inimigos. Depois. transformando-a em aposentadoria. desde os pés à cabeça. nos toma. nada disso valia. o seu padrinho. cousa sem importância. um falar que não se sabia donde vinha. atarantada. A velha irmã. que nos rebaixa. nada disso tinha existência e importância. algumas vezes Ricardo. Ao mesmo tempo.. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra. e eram só os três a visitá-lo. não se sente quando começa e quase nunca acaba. e agora entrava naturalmente. a loucura declarada. a exaltação do eu. pensando. os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar. ela não sabia lidar com o mundo. outros como alheados e mergulhados em um sonho íntimo sem fim. cousa que acontece a cada passo.29 De resto. embora assim. principalmente em Botafogo. honesto. dentro de si. porém. pondo em destaque . com emprego seguro. na sua inexperiência e ternura de irmã. o pai. com aquela entrada silenciosa. aquelas faces transtornadas.. uma fantasia. de se dizer perseguido. uma idéia de velho sem conseqüência. e via-se também a excitação de uns. recalcou porém. Vinham ela e o pai. o seu orgulho de classe. era tal a emoção ao vê-lo ali naquela meia-prisão. no começo. aparências. sem direção. E enfim? A loucura declarada. sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados. Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava. tinha uma aparência inabalável. donde saía. decaído dele mesmo que um ataque se seguia e não podia ser evitado. dos outros e do mundo. Não havia nada disso. na sala de visitas. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio. o escarcéu. depois o irmão.. ela teve um certo pudor em se misturar com os visitantes. nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda.. chamando a si os interesses da família e evitando a demissão de que estava ameaçado. sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer cousa ele nos invade. uma simples distração. o real eram os inimigos. os amigos. de quando em quando folheando as revistas ilustradas que trazia para alegrar e distrair o padrinho. os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. com as autoridades e pessoas influentes. No fim. esse pensamento egoísta. entretanto bastou um grãozinho de sandice. e a irmã não o podia visitar. Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado. A casa. às vezes o pai só. oscilava entre a crença de que aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples. os melhores. o entrechoque de tolices ditas aqui e ali. aqueles ares aparvalhados. Aquele domingo estava particularmente lindo. que seria dele? Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado. uma ordem perfeitamente naturais. Para ele. a mania de não sair. Com o seu padrinho. clara e respeitável. sem saber que alvitre tomar. as fúrias. atordoada. de que ponto do seu ser tomava conhecimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclismo. perdia-se logo a idéia popular da loucura. é que se sentia bem o horror da loucura. regrado.. mais viva em face à atonia de outros. para se apossar e viver das aparências das cousas ou de outras aparências das mesmas. E essa mudança não começa. aquele falar sem nexo. Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias. Era tal o seu abalo de nervos. Educada em casa sempre com um homem ao lado. aquele requerimento. nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos. Mas que era aquilo? Um capricho. Estava há uns meses no hospício. e enchia-o de indiferença para tudo mais que não fosse o seu próprio delírio. O ar era macio e docemente o sol faiscava nas calçadas. como fora? A princípio. com negócios. aquele ofício? Não tinha importância.

Ao vê-los disse amavelmente: . para se pensar em caprichos pessoais. Guardas. Verificando isso. para melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar. tinha o sentimento da grandeza deles. e ficou contente consigo mesma. de várias condições. às vezes livros e jornais. Estava doido. tanto ela variava neste ou naquele. perguntou: . nascimentos e fortunas. Lá fora.a beleza da natureza imponente e indecifrável. com concentração. a loucura.Está bom. o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos. pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente: .. . pois a sua natureza inteligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu espírito fazia. num ligeiro sorriso. mas o aspecto geral era o mesmo. Quem tem inimigos deve ter também bons amigos. Os bem-vestidos e os mal-vestidos. Como em todas as portas dos nossos infernos sociais.E o Ricardo? A afilhada apressou-se em responder ao padrinho. os inteligentes e os néscios. era o dia lindo.Bem. entravam com respeito. Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do bigode já grisalho. notava as melhoras do compadre com satisfação que errava na sua fisionomia.Então vieram sempre. embora mais assíduo nas visitas. o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas queriam rebentar. chinelas.Coitada! disse ele. Não é só a morte que nivela. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar. Via-o já escapo à semisepultura da insânia. internos e médicos passavam pelas portas com a indiferença profissional. em ditames das vontades livres de cada um... com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem noutro mundo. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer completamente.. os cabelos pretos estavam um pouco brancos. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase acabada. e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste. e era tal a variedade de aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o império da doença sobre todos aqueles infelizes. No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado. Amava esses sacrifícios. Coleoni. em seguida. outros indiferentes. Tinha emagrecido um pouco.. os feios e os bonitos. Mandou lembranças e não veio porque. os elegantes e os pobres. Sinto incomodar-te tanto. outros mantinham-se calados. pareciam que não queriam conhecer-se na rua. A moça interveio de pronto: . e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e como que dá o próprio movimento da vida. . as montanhas a se recortar num céu de seda . Quaresma estava melhor. quer sair? Quaresma não respondeu logo. fumo.É melhor esperar um pouco.. num mutismo feroz e inexplicável. meias. Quaresma também e a moça estava de pé. O pai e a filha entreolharam-se. mas vocês que têm sido tão bons. Vou melhor. como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres.30 a sua elegância natural. padrinho. essas abnegações. hão de levar tudo isso para conta da própria bondade. quase teve satisfação.. Os visitantes não se olhavam.O major já está muito melhor. Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada.. Chocando-se com aquele meio. Num dado momento aventurou: . pois se o punham ali. os ares macios... Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas. havia de toda a gente.Como está Adelaide? . .. houve logo nele uma reação salutar e necessária. adiantou Coleoni. E ela pensava como esta nossa vida é variada e diversa. Dos doentes uns conversavam com os parentes. com alvoroço e alegria.. o mar infinito e melancólico. Estava à espera. Coleoni tinha-se sentado.

solene. das ondas espumejantes. Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo que a ferisse. .Que tem.Decerto. Desceram no Largo da Carioca. Coleoni. Enxugou as lágrimas e concluiu: . mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos. E por que casava? Não sabia. confirmou o pai.Ah.Gosto. ainda indeterminado na sua emoção e na sua inteligência. interrompeu o padrinho sorrindo.. Era o heróico.. É bom ver-se a cidade nos dias de descanso.É verdade. uma velha preta a chorar. Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde. . levando n’alma um pouco daquela humilde dor. . O dia estava fresco e a viração. A visita não se demorou muito mais. com as suas lojas fechadas. Ela não sabia bem o que era.Morreu? . doutorando..É um rapaz. sinhazinha. sempre bom. Como não estivesse o veículo no ponto. minha velha? A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar. e como que punha uma sombra no dia muito claro. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho: . Um filho. não chegava e extremar na percepção das suas inclinações a qualidade que ela queria ver dominante no homem. de vinte a trinta anos.. vou casar-me. o que ela sonhara que era bem possível tomasse a nuvem por Juno.Antes fosse.. Queria sentir que gostava.31 . Era conveniente que fosse rápida. coitado! E continuou a chorar. encontraram. O Pão de Açúcar erguia-se negro. tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair daquelas cousas todas. Era um bom sinal. Ela não sabia responder aquela pergunta.Então é para depois do fim do ano. era como um estranho.. esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino. de carroças e gente. não convinha fatigar a atenção do convalescente. .É o Senhor Armando Borges. O bonde tardou um pouco.Quem é teu noivo? perguntou Quaresma. encostada ao gradil. a filha olhou-a com interesse e perguntou no fim de um instante: . E por entre lágrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais. A Olga vai casar-se e nós vínhamos preveni-lo. Está satisfeito. não tinham o “quê”. uma cousa que não vinha dela . cheio de uma irremediável tristeza e respondeu: . . o movimento de carros. disse o italiano. É triste. meu sinhô!. Coleoni começou a comover-se.Foi “cousa-feita”. mas estava que não. Gostava de outro? Também não. Um impulso do seu meio. da sua tristeza e da sua solenidade. A cidade é como um esqueleto. hirto.não sabia. padrinho.Sabe. padrinho? fez Olga gentilmente. as suas estreitas ruas desertas.. Tomaram. era o fora do comum. enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. úmido e doce. Olga não podia colher e registrar esse anelo. No Instituto dos Cegos. .Gostas muito dele? indagou o padrinho. quando as idéias e os desejos se entrelaçam e se embaralham.. Os dous saíram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos. É tão difícil ver nitidamente num homem.. chegou-se a ela: . Os dous afastaram-se tristes.. era a força de projeção para as grandes cousas. Casava por hábito de sociedade. onde os passos ressoam como em claustros silenciosos. tão bom. Na porta de uma loja ou . Em meio do caminho. que começava a soprar. um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade. que são a agitação. não lhe respondia às perguntas. . E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção. . E os dous acompanharam-no com familiaridade e contentamento.. que a fascinasse ou subjugasse.Esperamos que seja por aí. foram indo ao longo da fachada do manicômio até lá. Chegou.. faltam-lhe as carnes.

quando este entrou seguido da filha. É verdade que as sabia de cor. parecia um simples enfeite. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. de Córdova (República Argentina). Graças à popularidade de Ricardo. autor muito conhecido na mesma cidade. porém.32 outra. Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos e só encontravam. vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida. De resto. mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. casais que iam apressadamente a visitas. . pedindo exemplares de suas músicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escritos. mas o sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura. com a crise não o ficou compreendendo melhor. como se se tratasse de mecânica celeste. entretanto. escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua força. Eu não guardo as minhas músicas. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu. ficaram a cargo de Ricardo. ele contava à velha senhora o seu último triunfo: . envergados em corpos fartos de matronas sedentárias. É um trabalho árduo. Os outros gostavam de ouvir o seu canto. Coleoni era o procurador do major. Pediram. Ricardo viera visitá-la e conversavam.sofria na sua glória. Delicada. a questão é que se perde uma ocasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro. ele agora sofria particularmente .é um inferno! O caso era de pôr um autor em maus lençóis. Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo. suportava a mania de Ricardo. meninas em cassas bem engomadas. mas não sendo entendido em cousas oficiais. lhe tinha escrito. Foi isso que ele anunciou a Coleoni. tanto ele como Dona Adelaide. no centro daquele pequeno jardim que desapareceu. mas a música não. mais até. apreciavam como simples diletantes. Aposentado o sujeito. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o cálculo. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros. Ricardo Coração dos Outros gostava do major. O Senhor Paysandón. com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos.Não sei como há de ser. A sua educação que se fizera. que os desempenhara com boa vontade e diligência. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. cartolas antediluvianas ao lado de vestidos pesados de cetim negro. produto de um lento e seguido trabalho de anos. por vezes. Não é por mim. Aborrecia-se com o rival. e segundo: por causa das suas teorias. Dona Adelaide. como eles agora. A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão.É o diabo! continuou ele. entregou ao Coração dos Outros aquela parte do seu mandato. Lá foram. os passos para ali e para aqui. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras já apareciam nas janelas. encontrara nele certo apoio moral e intelectual de que precisava. mas o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra. Os pequenos serviçais e trabalhos. não escrevo . . atiram bolas e ainda mais se sente a diferença da cidade no dia anterior. como se diz na gíria burocrática. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão. não podia admitir que ele preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem. A irmã nunca entendera direito o irmão. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse à casa de Quaresma. por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto. O Largo de São Francisco estava silencioso e a estátua. vencera a resistência da máquina burocrática e a liquidação estava anunciada para breve. os filhos do negociante brincam em velocípedes. grupos de caixeiros com flores estardalhantes. e da sua lhaneza. solenemente por um decreto. notícias do amigo e do irmão. a cousa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser ultimada. esse de liquidar uma aposentadoria. e a cousa demora um mês. Dona Adelaide não estava só. e o domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes.

dos seus olhos esgazeados. Cavalcanti. era o inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa. impudentes e irritantes. Parecia até que ambos estavam contentes com aquela fuga inexplicável de Cavalcanti.. e não mandara nem uma carta nem um cartão. não só Ricardo. vinha-lhe sempre à consciência. . de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos. Olga? perguntou Dona Adelaide..coitadinha! Dona Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do general... O Violão. fez ela. como cousa irremediável que absorvia toda a sua atenção. o Genelício já estava tratando dos papéis. Esse suplício que se repetia em todas as visitas. Era difícil encontrar.Conversou bem. em que ele desafiasse o rival e o esmagasse numa polêmica. . fazer acenos. tanto as perguntas como as considerações. a ser tia. de uma aplicação mais séria de energia mental e física. durante os folguedos carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas. de manhã. não havia mal algum.Como vai o general? . acrescentou Coleoni. Ele deve andar bem. mas felizmente em via de cura.Quando é.. há três ou quatro meses. por intermédio do instrumento considerado. dançar. em face do seu abandono. esmagá-lo. Tem tempo. e ela que esperara tanto.Pouca cousa. embarcara para o interior. do seu nariz duro e fortemente ósseo. E além disso com aquelas teorias! Ora! Quer que a modinha diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice! E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um obstáculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua glória. mas irei domingo. que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão. Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma. .33 Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. Está mais gordo? . Como eles se riam durante o carnaval! Como eles atiraram aos seus olhos aquela sua viuvez prematura. estava condenada a não se casar. Precisava afastá-lo. tocando violão. sentia-o muito. Decididamente. Arranjar outro era problema insolúvel. mas a filha sempre vem aqui.Não o tenho visto. essa outra idéia: não casar. e fora a primeira a noivar-se ia ficar maldita. mas voltavam ao mesmo assunto. mas. atualmente recolhido ao hospício. escrever cartinhas. Dona Olga? Parabéns. rebaixada diante de todas. E ela se sentia vexada. mostrar a sua superioridade indiscutível. ir a passeios . aquele Jacó de cinco anos. ao contrário: o talento do rapaz levantava a sua pessoa. era trabalho acima de suas forças. era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. A Quinota ia casar-se..Obrigada. o rival a empregava também. quase a fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. . julgava. E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento. achou um subterfúgio.. Era um castigo.Vai casar-se. era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento.Lá para o fim do ano.. disse a moça. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se. a Ismênia é que anda triste. tão incapaz de um sentimento mais profundo. Pensou num jornal. e ela. um grande literato. perguntando: . A menina tinha aquilo como um rompimento. a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a apavorava. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor. o estafeta não lhe entregava carta. desolada . Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse célebre. . Se ele tivesse um homem notável. . desmoralizava o misterioso violão que ele tanto estimava.Não pude ir hoje. disse ele. independente da memória dele. Para Ismênia. quando. aquela marcha gloriosa e invejada para o casamento. Quase não se lembrava das feições do noivo. Por fim. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francesas. queria fugir à conversa. Cousa difícil! Namorar. a vitória estava certa. mais loquaz e curiosa que comumente. mas a velha Adelaide. .ela não podia mais com isso. mas como? A réclame já não bastava.

se fala diz meias palavras.. eram os cordões. por não poder arrebentar de qualquer forma. . abafada.É orgulho? perguntou ainda Olga. Senhor Vicente! . Talvez? Mas a carta não vinha. não acham? Coleoni interveio com brandura e boa vontade: . aqueles vestuários extravagantes de índios. . parece que ela tem medo de falar para que as cousas não venham a acontecer.Eu creio que ela não tem mais prática. num ritmo duro e de uma grande indigência melódica.. marchetada de papeluchos multicores. sem atividade doméstica qualquer. Ricardo moveu-se na cadeira. com grande economia de voz. Sem hábitos de leitura e de conversa.Merecia um castigo isso. e voltava ao seu pensamento: não casar. aquele ruído de atabaques e adufes. jabutis. .Não volta. veio atirar ao chão uma figurinha de biscuit. . É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua.Não. É antes moleza. Por fim Dona Adelaide lhe perguntou: .Qual! fez Dona Adelaide. quando a Ismênia veio fazer a sua visita diária à irmã de Quaresma.E ela ainda o espera. vinham como reprimir a mágoa que ia nela. e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas. para espantar os maus pensamentos. que se esfacelou em inúmeros fragmentos. preguiça. Há três meses.Não sei bem. cobras. Também aquelas cantigas gritadas. vai aproveitando” .. berradas. contida. Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava. respondeu ela. tinha ainda uma alegre esperança. que corrói interiormente. As pálpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão. Ismênia! Ele está longe.Ainda não. Batendo com o braço num dunkerque. Há muita gente que tem preguiça de escrever.. . acabando de contar o desastre da triste Ismênia. jacarés. o incômodo do general não é grande e Dona Maricota julga que ela deve arranjar “outro”. não. Levou tanto tempo noiva. que pedia uma explosão de gritos. sentada. Mas pelo que pude perceber. ela não se referia de vez em quando ao noivo. disse sorrindo Dona Adelaide. Dona Adelaide? perguntou Olga. Ninguém entende essa moça. mas o escárnio da irmã que lhe dizia constantemente: “Brinca. comentou: . Dona Adelaide.. Fala pouco...E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni. Então. Nas horas da entrega da correspondência.34 Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles que lhe parecia indecente e hostil.. Se fosse orgulho. florestas imensas. O sofrimento dava-lhe mais atividade à fisionomia. aqueles adornos de uma mitologia francamente selvagem. lugares de sossego e pureza que a reconfortavam. minha filha. . mas não fala. Mergulhando nessa barulheira.Não há razão para desesperar. quase sem ruído. vivos. traziam à pobreza de sua imaginação imagens risonhas de rios claros. disse Ricardo. . mas para o que não lhe sobrava força bastante e suficiente.Não sei. mas o que fazia bem à sua natureza pobre. o seu pensamento repousava e como que a idéia que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.. disse Ricardo sentenciosamente. Era-lhe doce chorar. . de tambores e pratos. ela passava os dias deitada.Recebeste carta. Ismênia? . a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. comprimida. Sente-se a sua tristeza. . O noivo partira um mês antes do carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior. a raiva terrível de gente fraca. comprimida. . bem vivos. E a conversa já tinha virado para outros assuntos. Indagou da saúde de Quaresma e depois calaram-se um instante. De resto.metialhe raiva.Era o melhor..

tinha outras construções: a velha casa da farinha..O padrinho por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas. vastas salas. entretanto. daquele que mais se admirou. Quaresma saiu envolvido. com um desarranjo imperceptível. com casas. muito abatimento moral. possuía. Tinha. olhava uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe.. onde se dedicava a modestas culturas. que nos impele e em cujas mãos somos simples joguetes. triste e taciturno. uma espécie de degrau. Além desta principal. o sítio do “Sossego”. Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e filialmente: . De todas as cousas tristes de ver. se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo. formando a subida para a maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. a “noruega”. e uma varanda com uma colunata heterodoxa. pensamos logo que já não é ele quem fala. a duas horas do Rio. olhando para o levante.. é alguém que vê por ele. Quaresma viveu lá. penetrado da tristeza do manicômio. Vendo-o naquele estado de abatimento. Aquela continuação da nossa vida tal e qual. o aspecto tranqüilo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte. a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes. Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. sabe? Sou Átila. um carreiro. sábios a maldizer da sabedoria. não acha? . todos com janelas. mas. por estrada de ferro. mas o sonho que cevara durante tantos anos. que a inutiliza inteiramente. ter o seu pomar. Tinha fracas notícias da personagem. de um e de outro lado. a loucura foi considerada sagrada. quem se lembrara. mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. como se chamava. ignorantes a se proclamarem sábios. interpreta as cousas por ele. resignadamente. e uma estrebaria coberta de sapê. Em vários tempos e lugares. sou Átila. Não fora ele. a sua horta. no manicômio. por entre os bambus da cerca. Não havia três meses que viera habitar aquela casa. que nos guia. invisível!. foi de um velho e plácido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha Átila. a mais triste é a loucura. sabia o nome e nada mais. está atrás dele. mais adiante. mas não era belo. conversando com os seus companheiros. sem coragem de sair. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas de campo. saía da esquerda e ia ter à estação. deles todos. Voltou a sua casa.. e era também risonha e graciosa nos seus caiados. Em frente. onde via ricos que se diziam pobres. que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada.e era só. A habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte. dizia o pacato velho. Foram mais seis meses de repouso e útil seqüestração que mesmo de uso de uma terapêutica psiquiátrica. já não se irá a loucura. faz pensar em alguma cousa mais forte que nós. é a mais depressora e pungente. porém. mas profundo e quase sempre insondável.35 SEGUNDA PARTE 1 No “Sossego” Não era feio o lugar. matei muita gente . amplos quartos. Sou Átila. sob tal aparência. pobres que se queriam ricos. Embora nunca tivesse sido alegre. Eu. atravessando o regato e serpeando pelo plaino. e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando. não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora. no mundo. enclausurado em sua casa de São Cristóvão. um regato de águas paradas e sujas cortava-a paralelamente à testada da casa. A casa erguia-se sobre um socalco. ao vermos um louco desarrazoar. o trem passava vincando a planície com a fita clara de sua linha capinada. e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça. fora a afilhada que lhe trouxe à idéia aquele doce acabar para a sua vida. porém. naquele ermo lugar. Saíra curado? Quem sabe lá? Parecia. após ter passado seis meses no hospício da praia das Saudades.

docemente. mas por haver nisso mais uma demonstração das excelências do Brasil. outras árvores frutíferas.36 Tão taciturno que ele estivesse. Com que alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São Januário.há terras férteis. farta. com o seu teto alto e as suas paredes lisas. Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos. baseados em tudo que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional.. talvez destinada ao mercenário mister de lar de aluguel.não acha. Não sentiu que aquela vasta sala. Era um velho desejo seu. a alegria e a fortuna. as perdas inevitáveis. meu padrinho? . travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras. de hectare cultivado. e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu à afilhada: . não por ambição de fazer fortuna. dos aipins.. cujo nome . Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus cálculos. Encarou-a por todas as faces.. sem ar. não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia à lembrança da moça. dos legumes. facilmente. apodrecer numa banca. Levou em linha de conta a produção média de cada pé de fruteira. estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro. era uma forte base . minha filha. nasceriam mil outros cultivadores. do carinho. a batata-inglesa. Pareceu-lhe que ia atear no espírito do padrinho manias já extintas. sustentar-se de maus alimentos. calculou que cinqüenta laranjeiras. A moça esteve quase arrependida da sua lembrança. Que magnífica idéia tens tu! Há por aí tantas terras férteis sem emprego. pesou as vantagens e ônus. sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas. mas não a ponto de que não pudesse.então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras! A idéia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. tão simpática. cultivar o milho. ódios de família . de legumes.. respirar um ambiente epidêmico... tirando as despesas.ela tão boa.Mas como no Brasil.cabia tão bem à nova vida que adotara. O milho pode dar até duas colheitas e quatrocentos por um. Então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida.. depois de ter sofrido a miséria da cidade e o emasculamento da repartição pública. trinta abacateiros.. tão doce. ele foi em pessoa ao mercado buscá-los. em que se tinham incrustado os desejos de sua alma e toda ela penetrava da exalação dos seus sonhos!. a minha horta. de grãos. podiam dar o rendimento anual e mais de quatro contos. livre.É verdade. no trabalho agrícola. e. após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. criar. sem luz. e muito contente ficou em vê-la monetariamente atraente. esse de tirar da terra o alimento. . alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado público. há poucos países que as tenham. Esperava grandes colheitas de frutas.. Não lhe voltou a alegria que jamais teve. Ele foi contente. A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo. Indagou dos preços correntes das frutas. Vou fazer o que tu dizes: plantar.. antes da morte. além dos abacaxis (que mina!). abandonado. e também os salários.“Sossego” . fosse testemunhar talvez rixas de casais desentendidos. quanto aos preços. das abóboras e outros produtos menos importantes. apressou-se ele em dizer. Tu irás ver as minhas culturas. agora propriedade de outras mãos. alegre e saudável? E era agora que ele chegava a essa conclusão. e do seu exemplo. e meu pomar .Em toda a parte . por assim dizer. durante tanto tempo! Chegara tarde. . quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz. oitenta pessegueiros. Não ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado. abrigo calmo dos seus livros durante tantos anos. de outros tempos. virente e abundante a dispensar os argentinos e europeus. fosse servir para salão de baile fútil. o feijão. das batatas. O terreno estava amanhado e só esperava uma boa semente. tirado da terra. E foi obedecendo a essa ordem de idéia que comprou aquele sítio. e veio-lhe a atividade mental cerebrina.. mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral.. para melhor demonstrar a força e o poder da tenacidade.

um capoeirão grosso com camarás. E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras em flor. sem abandonar o instrumento. passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma relação de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura. Mineralogia e Geologia. barômetros. O major logo organizou um museu dos produtos naturais do “Sossego”. Vieram estes e foram arrumados e colocados convenientemente. um culto pelo seu solo ubérrimo. os abacateiros. Anastácio? . tanto vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A dúvida do preto velho não durou muito. velhas árvores frutíferas. as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos. as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado. Zoologia. e as madeiras. tinguacibas. tiês. . Quaresma. Encomendou livros nacionais. . areia e. lá iam. as abobreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de pólen. o verão estava no auge. Quaresma as empregou numa exploração em regra da sua nova propriedade. por onde sabia que as terras eram povoadas de tatus. bacurubus. de enxada ao ombro.Não “sinhô”.Para que isso. portugueses.37 agrícola. Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. os abacateiros. O capim e o mato cobriam as suas terras. etc. patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco. para o trabalho do campo. logo ao amanhecer. climas variados. como quem assiste a um passe de feitiçaria. higrômetros. Demais. De manhã. tabebuias. os animais também. saracuras. Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel. uns blocos de granito esfoliando-se. As espécies florestais e campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares. Os arbustos. O sol era forte e rijo. as mangas capitosas. Acabado esse inventário. munjolos. franceses. de troncos rugosos. pôr a semente na terra. Anastácio assistia a todos esses preparativos com assombro.era Pomona. cutias. a lhe sorrir agradecida. e era quem ensinava os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras. a sopesar com esforço os grandes pomos verdes. coleiros. este caminho estava naturalmente indicado. apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda. para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ela tinha de preencher. que o acompanhara. e cobertos de uma medusina cabeleira de erva-de-passarinho. pluviômetros.Estou vendo se choveu muito.. tomou em consideração o conselho de seu empregado. Havia nela terra bastante. aqui e ali. Isso de plantar é capinar. com terras tão férteis. cobras variadas. tanto livro. Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inventário.. recebendo a unção quente do sol. mas Quaresma era inflexível e corajoso. com lentidão e convicção. como teorias de noivas. mas como não fosse época própria à poda e ao corte dos galhos. ele mais o Anastácio. e quando era possível com os científicos. deixar crescer e apanhar. em herbário. Para que tanta cousa. olentes. a se enfileirar pelas encostas das colinas. com um imaterial sorriso demorado de deusa .Sabes o que estou fazendo. e dentre tudo aquilo surgia uma linda mulher. as mangueiras estavam sujos. O patrão notou o espanto do criado e disse: . mas como ele não tinha espaço suficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado. a permitir uma agricultura fácil e rendosa. preás. muito brancas. e outros espécimes. olhava-o espantado. . argilas. Anastácio. A parte mineral era pobre. Anastácio. sem “rr” fortes. os abacaxis coroados que nem reis. anemômetros. as jacas monstruosas. avinhados. Lá ia.. cheios de galhos mortos. As laranjeiras. Ele falava com a sua voz mole de africano. a deusa dos vergéis e dos jardins!. comprou termômetros. seccionados longitudinal e transversalmente. os pêssegos veludosos. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviômetro. ao lado. Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a Quaresma sólidas noções de Botânica. com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu.. As primeiras semanas que passou no “Sossego”. em pequenos tocos. sanãs. os jambos.

rápido. comidas do dia anterior. assim.. míope. entusiasmo de ideólogo que quer pôr em prática a sua idéia. quando o golpe falhava e a lâmina do instrumento roçava a terra. destruindo a erva má. quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. junto ao patrão. tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado trabalho de tirar o sustento de nossa vida. aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incompreensível ódio pela enxada fecundante. Conversava um pouco com a irmã. enchia-se de raiva e batia com toda a força. amanhã estarão as laranjeiras limpas. olhava-o com piedade e espanto. com grande alegria do irmão cultivador... . Não se agastou com as primeiras ingratidões da terra. a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro e atirava migalhas de pão às aves. punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usá-lo da maneira ensinada. que não foi impossível a Quaresma acordar nos seus o jeito. furioso. Andar com livros. mãe dos frutos e dos homens. olímpico. É de leve. Decerto. mais velha que ele. Adelaide. muito pequeno. para entreter-se. Era em vão. Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí. A irmã.Sabes. suava. contava-lhe a tarefa do dia.. Quaresma. Havia em Quaresma um entusiasmo sincero. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. às vezes. Anastácio. mas em tom professoral: .. mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de hábito requeriam. intervinha humildemente. raspando o mato rasteiro. à sombra de uma fruteira mais copada. lado a lado. feita de desencontros como aquele que se via agora. que um pequeno instrumento agrícola.. ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. O pince-nez saltava. ele capinava razoavelmente. partia-se de encontro a um seixo. coberto com um chapéu de palha de coco. fatigava-se. consistindo sempre em avaliar a área já limpa. escapando ao chão. com a mão habituada. é que o velho major percebia bem a alma dos trópicos. Ao fim de um mês. e o trabalho ia assim até à hora do jantar. . A sua enxada mais parecia uma draga. que ele mesmo provocava.Qual. Não vá ficares doente. Se adoecem. Neste sol todo o dia. não partilhava aquele seu entusiasmo pelas cousas da roça. para não ser nada. cair. fê-lo perder o equilíbrio. mas não o compreendia. a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma piada irônica: bem-te-vi! O major enfurecia-se. Capinava e capinava sempre até vir jantar. quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira. fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de cavalaria. claro. mas. Às vezes. Considerava-o silenciosa.. “seu majó”. ele. de um sol alto. a brilhar sobre um torpor de morte. a força era tanta que se erguia uma poeira infernal. a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo. não seguido. anos e anos. dali. demorando-se muito em cada arbusto e. é porque não trabalham. aquecidas rapidamente sobre um improvisado fogão de calhaus. e houve várias vezes que a enxada. a maneira de empregar a enxada vetusta. . um escavador. Acabado o jantar. ela o estimava. atracado a um grande enxadão de cabo nodoso. Almoçavam mesmo no eito. Quaresma agarrava-o. . a beijar a terra. criava galinhas. doente. não ficará nem mais uma touceira de mato.. Por gosto andar naquele sol a capinar sem saber?. Então. e. o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos. se viera viver com ele. O major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia à tarefa que se impusera.Não é assim. ligeiro. Não se mete a enxada pela terra adentro. Há cada cousa neste mundo! E os dous iam continuando. a arrancar torrões de terra daqui.38 Era de vê-lo. batendo em falso. aí por depois do meiodia. de sol a sol. Esta refeição ele fazia mais demorada. que doideira! Seguira-o ao “Sossego” e. então. não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo. Anastácio.. tentava outra vez..Está direito. dizia ela. O velho preto. E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento de trabalho. O flange batia na erva.

.Perfeitamente. Já sabemos quem o senhor é.Ora. O desconhecido entrou e sentou-se.. Não é cousa de importância. Não posso. Ele mesmo não travara conhecimento com ninguém. mas tinha um aspecto desonesto.. normal.. olhou um pouco lá fora e acrescentou: . major? .Pretende dedicar-se à agricultura? . escrivão da coletoria. guardou o lenço. . major. Desde que ali se instalara. a pedir isso ou aquilo. Era assim como a de um lagarto que entesoura enxúndia para o inverno ingrato. Enxugou o suor.Eu sou o Tenente Antonino Dutra.. um óbulo.. a gente daqui é muito pobre e a irmandade também. mas o que havia nele de estranho era a gordura.. Espere um pouco.Isto hoje não presta.Tua afilhada deve casar-se sábado. Parecia que a fizera de repente e comia. major. . Faltam oito dias ainda. galinhas. É uma tradição do lugar que devemos manter. . tenente! .. não há novidade nem nenhuma exigência legal. . tu! Que presente! . continuou o escrivão. ofereceu outro a Quaresma e continuou: . Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa roceira. via-se perfeitamente a sua magreza natural. . Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos prêmios que ela comporta. Através da gordura de suas bochechas. Era um tipo comum.Pretendo.Uma cousa nada tem com a outra. Ele já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda adentro. de cuja irmandade sou tesoureiro. de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.. . esmolando disfarçadamente.Oh! Por Deus. .Muito bem. e se devia ser gordo não era naquela idade. para a festa da Conceição.Boas-tardes. O escrivão tossiu. Faça o favor de entrar.39 Ele gostava desse espetáculo. a não ser a gente pobre do lugar. Depois.Não.Oh! major. tu não vais? . com pouco mais de trinta anos..O senhor sabe. É muito justo. .Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Apesar de não ser religioso. . as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ágeis. se as duas faces eram gordas. Tem-se dado bem. tirou um cigarro.. Adelaide? . Não era desmedida ou grotesca. a nossa padroeira.Ainda não. Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal.. . O visitante falou: .. . ..Nenhuma. a mais não poder. nenhuma visita batera à porta de Quaresma. major! Quanta fruta! Quanta farinha! As terras estão cansadas e. Não é para já.. sem dar tempo que todo ele engordasse. daquela luta encarniçada entre patos. E logo a irmã acrescentava: . . gansos. estou.Venho pedir-lhe um pequeno auxílio...É justo. Creio que o major..Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui.. portanto. luxo.. Desde já.Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma. porque.Não.Já nasceram os patos. mando um leitão e um peru. pequenos e grandes.. quando Anastácio veio avisar-lhe que se achava um cavalheiro na porteira. major. mas noutro tempo!.Que é que tem? É da tradição. Vou incomodar-me. de forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados. . com medo de a perder de um dia para outro. fazia indagações sobre a vida do galinheiro: . tomei a iniciativa de vir incomodá-lo. não se incomode. .. Este sítio já foi uma lindeza.Boas-tardes. e foi mesmo por isso que vim para a roça.

para depois arranjar-se sem dificuldade.Decerto. Ao dizer isto. disse ele com malícia.apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influência. luta.. Apitou de novo e saiu a levar notícias.Então não sabe? .O senhor verá com o tempo. Que pensa o senhor? .. de tirar dela seres.Por que não se há de trabalhar aqui também? . este malandro quer ficar bem com os dous. Havia no mundo um homem que. a voz das pessoas que amamos e estão longe. meu caro tenente! Não há nada que não se vença. . desanimado de penetrar nas tenções ocultas do major.Qual. vidas . tristezas por outras estações além.Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto. além de notícias gerais. Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno castanho. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas. Nada! O serventuário do fisco ficou espantado. Não atinava por que uma rezinga entre dous figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente. Não se demorou muito. entretanto. só porque o Senador Guariba rompeu com o governador. não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o governador do Estado! Não era possível! Pensou e sorriu levemente. Na nossa terra não se vive senão de política. babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados.40 .Mas lá se trabalha. major.. O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo. Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão. O trem ou o vapor como que vem do indeterminado. Aquilo devia ser um ambicioso matreiro. . . luzidio de suor..trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guaribas. e traz.zás . também o gesto.. gordo e vivo.. era preciso cortar as asas daquele “estrangeiro”. trabalho e amor. .....Lá isso é verdade.Então o major não se recusa a concorrer para a nossa festa. desapareceu na estrada.. Com certeza. Os dous se despediram.. fora disso.. O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria: . e o major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas. apagou a fisionomia e disse em ar de despedida: . A alternativa angustia. riquezas.Não. O escrivão afastou-se. nessas tricas eleitorais.. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não exigia ela uma árdua luta diária? Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos. essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicações com o resto do mundo. sabendo e morando no município de Curuzu. moço honesto.. bom orador. Estava tirando sardinha com mão de gato.Eu. Debruçado na varanda. de atas. pensam-se também más. como se nelas houvesse qualquer cousa de vital e importante. mas. O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar.O major é um filósofo.Qual cansadas. mas entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se hão de sobrepor ao governo. um sorriso. disse ele consigo. quando a nossa vida pede tudo à terra e ela quer carinho. que vinha não se sabe donde! . e . É uma emoção especial de quem mora longe. mas há tantas contrariedades na nossa terra que. do Mistério. Há uma mescla de medo e de alegria... não é? . .Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma. A Europa é cultivada há milhares de anos. o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a ingênua fisionomia de Quaresma. O major pensou ainda um pouco como aquilo era bruto . boas ou más.. cuja vida estava tão fora da esfera daqueles. . Quaresma esperou o trem. amigos. Seu Antonino! Não há terras cansadas. . no trabalho de fecundá-la.Que questão é? indagou Quaresma. Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação afora à luz forte do sol poente.

. diante daquela onda de edifícios disparatados e novos.. mais caprichoso. Além dos serventes de repartições. feios e desleixados. mais influíram. é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida.. os azares das construções.. caprichosamente montuosa. Olhou a estrada que levava à estação. são em geral pobres. pode ser imaginado. Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. com varanda e colunas de estilo pouco classificável.. compradores de garrafas vazias. está aí o Ricardo. Aquele fraque comprido. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas. nas ruas. quando essa gente volta do trabalho ou do passeio. subdivididas. dão voltas. e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.. mais sem plano qualquer. podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros. Além disto.41 e feio. cães e galos. é uma velha casa de roça. sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico.. Casas que mal dariam para uma pequena família. sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino. Nada mais irregular. com sedas e brocados. A topografia do local. que parece vexada a querer ocultar-se.. Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que caminhava com pressa. como um morrião. II Espinhos e Flores Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. a mescla se faz numa mesma rua. de repente se nos depara uma casa burguesa. há mulheres de chita. a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. alugados à população miserável da cidade. as ruas se fizeram.. Passo miúdo. evitando a custo que a lama ou o pó lhes empane o brilho do vestido. Um violão! Era ele! . Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets. humildes e acanhados.Adelaide. algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. com as suas vilas de ar repousado e satisfeito.. são divididas. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos. castradores de gatos. parede de frontal. os subúrbios têm mais aspectos interessantes. há operário de tamancos. logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva. aparadinhos. contínuos de escritórios. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas. e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. cuidadinhos. mandingueiros. coberta de zinco ou mesmo palha. Não há nos nossos subúrbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européias. porque os nossos. e assim pela tarde. olhase acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique.. há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora. influiu decerto para tal aspecto. Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas. dessas de compoteiras na cimalha rendilhada. Vinha um sujeito. Há pelas ruas damas elegantes. Passada essa surpresa. as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas. porém. circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado. Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante. Às vezes. as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito. Num trecho. Aí. penteados.. em torno da qual formiga uma população. outras se afastam. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento e. e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os nossos educadores de dous mil anos atrás nos legaram. Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. nem mesmo se encontram aqueles jardins. e os minúsculos aposentos assim obtidos. de porta e janela. nesses caixotins humanos.. Quem era? Aquele chapéu dobrado. Dirigia-se para a sua casa. num quarteirão. há passeios em certas partes e outras não. se os há. conforme as casas. adiante. há peralvilhos à última moda.

o suco. Ela abaixava o corpo sobre a roupa. um coqueiro ou uma palmeira. Em que pensava ele? Não pensava só.. outros já afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros. consubstanciado os seus tênues sonhos e desejos em versos discutíveis. de oca.. as suas satisfações. com a mão em concha no queixo. bebe o pranto a areia ardente. ainda na sua formação. no tanque da casa. tão forte.” Por que então aquele encarniçamento. que. mas parecia ingrata e áspera no seu granito onipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das árvores. duas vezes triste na sua condição e na sua cor. sem amor. Ricardo lembrava-se de sua infância. Com a lembrança.42 catadores de ervas medicinais. da casinha dos seus pais. o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do levantamento da modinha e do violão. como uma cobra entre pedrouços. E o queijo? Aquele queijo tão substancial. só como um deus ou como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova... como aprendeu? O seu mestre. batia-a de encontro à pedra. pôs-se a pensar no mundo. Aquele tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa. olhando da janela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. a alma. ensaboava-a ligeira. num cubículo desses se amontoa uma família. atravessa tudo aquilo. um tanto escondida dele. sem amigo. distraída com o trabalho. feio como aquela terra. capital de um grande país. sem confidente. se não lhes dava sentido. não lhe predissera o futuro: “Irás longe. pintadas de azul. Com o olhar perdido. a substância do país! E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. mas feraz como ela tanto que bastava comer dele uma pequena fatia para se sentir almoçado. o Maneco Borges. fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática.. e tinha adeptos. uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não podem adivinhar. ficando um instante enleado no enigma do nosso miserável destino humano. tendo de permeio. e recomeçava. de queixume dorido da pátria criança ainda.. os seus triunfos e também os seus sofrimentos e mágoas. As casas pequeninas. de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitavam. Veio-lhe um afluxo de ternura e. A viola quer teu coração.já esqueciam os trabalhos. E o violão. de que ele a modos que era e se sentia ser. grande e original cidade. inclinando-se para a direita. só com a sua glória e o seu tormento. Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. e nem nomeavam o abnegado obreiro. Por aí.ele que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma. dobrando à esquerda. Ricardo. Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias. Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina.. daquela sua aldeia sertaneja. engastadas nas comas verde-negras das mangueiras.. alta e soberba.. Às vezes.. dava um quê de balbucio. farejou o mar lá longe. e o trem minúsculo. aqui e ali. com seu curral e o mugido dos vitelos. depois. muito flexível nas suas grandes vértebras de carros. Sofria em não ter um peito amado. Ainda agora estava ele lá. Não era das sórdidas. sofria também.. de branco. Ricardo. Teve pena daquela pobre mulher.. Alguns já o citavam como rival dele. lembrou-se dos famosos versos: Se choro. mas que a plangência do violão. era majestosa. e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem. E as festas? Saudades. ele baixou um pouco o olhar à terra e viu. uma rapariga preta lavava. era linda. enfim. Vistos assim do alto. debruçado no peitoril. Olhou um pouco as montanhas. amigo em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no solo indiferente. os subúrbios têm a sua graça.. e se pôs a cantar: . e alguns mais ingratos! . mas era uma casa de cômodos dos subúrbios.. carregava todo o seu peso. rápido. Era bela a terra. nas desgraças. aquele ódio contra ele . A rapariga não o viu. E ele estava ali só. colhendo com a vista uma grande parte daquela bela. A viola.

que já se ajeitava a moça. pendurado a uma parede. o violão na sua armadura de camurça.Seu amigo Albernaz. Não reconheceu a letra. uma mesa de pinho. por que eu lhe pedia bis? A rapariga estendeu a cabeça. Bateram à porta. baralhada. demoradamente. Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz. A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter: . Ela era alta. e. Ah! o Quaresma! Esse. a rapariga não quis continuar. mas assim mesmo compreendia o seu propósito. espairecer com ele. . trazia-lhe conforto e consolo. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher. rasgou o envelope com emoção..43 Da doçura dos teus olhos A brisa inveja já tem Era dele.Deus me livre! Para o senhor me “acriticar”. inquieta e abrasa como o Amor.. Embora insistisse muito. tênue. Havia uma rede com franjas de rendas. O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível. vai bem! Se não fosse. Traziam-lhe uma carta. Até então estava carregada e dura. naquele tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexíveis.Não sabia que o senhor estava aí. A manhã ia alta. sim. começava a esquentar e o céu estava de um azul ligeiro”. Ricardo.. os fins e o alcance da obra a que ele. O general não o abandonara. muito bom. um sorriso brincava por toda ela. Sentou-se e quis começar uma modinha sobre a Glória. mas não pôde. sentir a música zumbir no ouvido.Vai bem. Que seria? Leu: “Meu caro Ricardo .. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado. abraçá-la.Saúde . Lalá. E como eram as cousas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga. o último brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. . era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos do padre Caldas. senão não cantava na vista do senhor. quando acabou de ler o bilhete. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção de escrever. procurar um amigo. As mágoas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. a terceira filha do general. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. queima. Ainda se o major estivesse perto. uma cadeira. mas menos interessante e mais comum de temperamento e alma. para o respeitável militar.. com a idéia daquele furto que se queria fazer ao seu mérito. É verdade que ultimamente esse seu amigo se achava pouco interessado pela modinha. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Contemplou um pouco o violão. mas tão longe! Consultou as algibeiras. apanhar as palavras no ar. à proporção que lia. quinta-feira.Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom. Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Dona Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado. que nos alanceia. embora faceira. incolhível como um sopro. Cante. essa cousa fugace. Enfim era uma missão!. mais socado. mas quem? Ainda se o Quaresma. agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco . Se o amigo não estiver comprometido com alguém. Não conseguiu assentar o pensamento...” O trovador.. de feições mais regulares que a irmã Ismênia. ternamente. reconheceu quem falava e disse: . fino. Quis sair. descia e subia. dispôs o papel.. Não chegava a dous milréis a sua fortuna. ia mudando de fisionomia. ia de uma face a outra. se propunha. Dona Alice. Como ir? Arranjaria um passe e iria.Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã. uma estante com livros. que se tem e se pensa que não se tem. toda a sua natureza tinha sido lavrada. tinha muito pó-de- . esse seu antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas: Lereno alegrou os outros E nunca teve alegria. sobre ela objetos de escrever. Havia também uma máquina para fazer café. agradecidamente como se fosse um ídolo benfazejo. A emoção tinha sido forte. Tentou começar.. Ela e o noivo fazem muito gosto que você apareça. alguma cousa impalpável.

que era da amizade do recémcasado. respondeu. alargavam a sua face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim.Estou muito contente. não passou? perguntou Florêncio. apressou-se o major.Síntese de Contabilidade Pública Científica . e enquanto o limpava. bem encaminhado e inteligente. O general não tardou em vir falar com Ricardo.O Genelício não está no Tribunal de Contas. . o Doutor Florêncio. olhando com aquele jeito dos míopes: . agradeceram-lhe muito. atendendo ao mérito excepcional da obra. tanto mais que passara de ano. o seu novo genro. quem tinha um ar importante. ao mesmo tempo palaciano. O ingrato!. estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. é cousa nunca vista. e até Quinota disse um .Sim. o general e os convidados novos.. dando providências. .. mandou-lhe dar dous contos de prêmio.É um rapagão. De fato. Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa e receita do Estado. o Major Inocêncio Bustamante.” Além do prêmio e da transferência. O Lulu. não só pela novidade da idéia. ocupando dous terços do livro. o almirante. Deram começo às danças e o general. muito penteados. Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só isso que o decidira a casar-se. fora até muito notada e gabada pelos críticos. Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco. mas com trinta e dois anos primeiro escriturário do Tesouro. O general estava satisfeito. metido num segundo uniforme dos grandes dias. Um casamento bem cotado e esperado. . ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga.deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão..44 arroz. com o seu vagar.. O ministro.“sou muito feliz. . endireitou o trancelim e continuou: . disse um dos convidados novos. graças aos empenhos do pai. encasacado numa casaca mal talhada. sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel. Por aí pôs o pince-nez.. que punha bem à mostra a sua gibosidade. Fora padrinho e estava irrepreensível na sua casaca do uniforme... Mas para que recordar? Os cumprimentos se repetiram. ao entrar. A Ismênia foi aquela desgraça. Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante. pois. As âncoras reluziam como metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos.. sem saber como. replicou o outro convidado novo. Bem entendido. com a sua banda roxa de honorário. o único filho do general. marcial e navegado.E que carreira! Não é por ser meu parente. impava no seu uniforme do Colégio Militar. Tendo escrito uma .Passou.” . e os noivos. O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e enfim pela primeira vez via realizado esse anseio. escrito em estilo de ofício com uma vasta documentação de decretos e portarias. . Ismênia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente.viu-se. Esses. cheio de dourados e cabelos. O almirante acudiu: . mas é a mesma cousa. tipo doze. com os seus gestos lentos. Era um grosso volume de quatrocentas páginas. o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico.Eu não quero falar dos formados. que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado.. quando o trovador os cumprimentou. na Imprensa Nacional. tendo sido a edição feita à custa do Estado. cumulado de elogios pela “imprensa desta capital”.Depois da militar. o major não pôde deixar de observar: . não acham? . e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz. a melhor carreira é a da Fazenda. como também pela beleza da expressão.Creio que casei bem minha filha: rapaz formado. era o Contra-Almirante Caldas. fez o Doutor Florêncio. mas. que também viera de uniforme. Genelício dava o braço à noiva.. a fila estava no general. A primeira frase da primeira parte. Ricardo não os viu passar.

os senhores! E foi empurrando um a um pelo ombro.O senhor estava a bordo? . tinha ainda inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena.Então. . Adoeci e vim para o Brasil.Foi “seu” Mitre. O general. Pra sala todos! . ....Não. hein. que anime as moças.. fez com rapidez a dona da casa. “seu” Caldas. Era raro que alguém viesse de dentro até onde eles estavam.. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido: .Depressa.. . fogo daqui. alisando um dos favoritos. perde a sua importância trágica: três mil mortos. os tiros são os de salva e se matam é cousa de somenos. Flores à esquerda e “nós” caímos sobre os paraguaios. é já. dando movimento e vida à festa. então.. nas narrações feitas assim. .45 Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira frase que lhe veio aos lábios: . bem comido. A Morte mesmo. . mas a nossa. bala por todo o canto. exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai excepcional.. mas tem os seus percalços.Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.. disse alguém. Ele só vê a parte pitoresca.. e depois é o senhor.. ia dizendo o almirante. Mas o Camisão. que nunca tinha visto a guerra. Chico. . a música. que é isso? Ficou aí e eu que faça sala. todas as profissões são boas. guerra de estampa popular. .Isso não quer dizer nada. a cousa ficava edulcorada. Era mais moça que o marido. . que a filha do Lemos vai cantar. Na sala de visitas as danças continuavam com animação. não é..Se estive lá..Já vamos. Dona Maricota. o Doutor Florêncio. Está ouvindo.Foram os paraguaios..Foi. tinham aproveitado o tempo. e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens das suas preocupações belicosas. Mas. obtemperou o almirante.Quando se prospera. “seu” Ricardo! .quando Dona Maricota chegou sempre diligente.Não. Não há como um cidadão pacato. depressa. Todos se entreolharam admirados.. a brutalidade e a ferocidade normais. grita outro como em Curupaiti.O senhor esteve lá. . tiro dali. em que não aparecem a carniçaria. Mas os malandros estavam bem entrincheirados. Um inferno! .. o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos. “seu” Ricardo. embevecidos. contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram. Estavam Ricardo. Era ribombar de canhões que metia medo. a parte por assim dizer espiritual das batalhas. general? perguntou o convidado amigo de Genelício. Albernaz? hein. Os risos.. Vamos.. mas tem as suas “cousas”. na passagem de Humaitá. Não imaginam o que foi .Não é assim tanto. Inocêncio? . um honorário. talvez o menos pacífico dos três. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado. . os homens morriam como moscas. o exato empregado como engenheiro das Águas. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bela. tendo tomado alguns vinhos generosos. Também na passagem de Humaitá. disse Inocêncio.. isto é.Polidoro tinha ordem de atacar Sauce.É. eu fui mais tarde. boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginárias daqueles três militares. o único que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira .. aqueles dous recentes conhecimentos de Albernaz. para apreciar as narrações de guerra.. Não é para desfazer das outras. só!!! De resto.você sabe. . Inocêncio? Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou: . porque o embarque equivalia a uma promoção.Não estive. uma guerra bibliothèque rose. Quando se está numa trapalhada. dos encontros.. morre um. ativa. que contrastava tanto com o seu corpo enorme. contadas pelo General Albernaz. Atacamos com fúria. repeliram o nosso ataque.

Às vezes. coçou o cabelo e disse: . música e versos. Eu queria.Está no último ano do Conservatório. Acabou. A moça... . algumas sobrecasacas e muitos fraques.” Seus olhos. A casa era alta e tinha jardim. observou ainda Albernaz. ajuntou: . O Doutor Florêncio que ficara atrás do general. Deu começo. Ricardo pôde ver a rua.. O general suspendeu a cabeça. com medo de perder as palavras: . Chegou a vez de Ricardo. o Doutor Lemos da Higiene. ..Isso é difícil. respondeu de um jacto. a modinha acabou.O quê? Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. O general esteve uns instantes de cabeça baixa. agarrou o vilão. no vão de uma sacada. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bemeducada. quase saíam das órbitas. É o violão instrumento muito.É a filha do Lemos. Principiou brando..Vá lá amanhã. E continuaram a andar. mas você apareça lá. Ele ocupou um canto da sala. um espelho oval e alguns quadrinhos. mas frias. e a decoração estava completa. poucas casacas. levantou um pouco o pince-nez que começava a cair. dispôs-se a cantar. soaram. em que o violão estalava. .Vai bem...Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma? . porque senão a inspiração se evola. . É isto! Eu. general. para ir vê-lo. depois.” Parou.Pois não. tinha sido retirada. E depois. decente e de uma poesia exaltada..46 . Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas. Coração dos Outros acrescentou: .Tem-lhe escrito? . Chegaram à sala. Palmas gerais. É uma composição terna. A calçada defronte estava cheia. em seguida. to ‘dê-licá-do’. Da mobília não se podia julgar.Canta muito bem. como soluço de onda.. Por entre as cortinas de uma janela. por aí. amanhã.” A atenção era geral. dirigindo-se a Ricardo.Tem uma bela voz esta moça. correu a escala. senhores e senhoras. Alternando um andamento e outro. saltitante. mas foi meter-se com livros. para dar mais espaço aos dançantes. Quem é? . depois tenho certos desgostos. Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada: . um passe. respondeu o general.. É uma ordem. e perguntou: ... afinou-o. na repartição.Já vamos. Bem. fez o general. colocou a partitura e começou. . chegou-se a Coração dos Outros e perguntou: . tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa: “Senhoritas. Havia um ou outro decote.. Emendou: “Espero que nenhum ruído se ouça.Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem. mui.. conversava com o Tenente Fontes. Depois de uma ligeira hesitação. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador... Foi ao piano. Era vasta.. que não pego em livro. O senhor sabe: um homem que tem nome. E foram.Estou com saudades dele.. No caminho o general parou um pouco. houve uma parte rápida. macio e longo. minha senhora.Aquele Quaresma podia estar bem. podiam ver alguma cousa da festa. a famosa filha do Lemos. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus braços’. Modinha de minha composição. os “serenos”. gemebundo. comentou: . furiosos retratos a óleo de Albernaz e da mulher. há bem quarenta anos. Ainda andando.Vocês não vêm! . só de lá os curiosos. Lalá.

ouvindo falar em seu nome perguntou: .Que é Dulce? A outra explicou-se. . depois foi a inércia da sociedade. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics. dos véus e daqueles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. e. No seu rosto. com uma fisionomia irradiante de felicidade. durara instantes em Olga. A noiva de Cavalcanti aproximava-se e. Ricardo correu à sala de jantar. desse grego autêntico ou de pacotilha. Ela aceitou a incumbência e. embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela.Vou. mas a sua fisionomia era profunda e . E limpou os olhos furtivamente. Era por isso que ela não ia para a igreja.. espero eu. nenhuma vontade estranha à sua influíra para isso. Apesar da pompa. ela desaparecia dentro do vestido. De resto. mas.. segundo o modelo das estampas clássicas. de desmedidos sonhos de sábio. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia uma cópia da modinha. a sua beleza não era a grande beleza .. mas pela sua simulação de inteligência. era pequena. quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide? . Não obstante as origens puramente européias. em algum lugar deste Brasil. Havia nos seus traços muita irregularidade. com o seu pequenino lenço rendado.Depois de amanhã. mas com a volta que a sua vida ia tomar. o pergaminho. . mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns.Pois então diga-lhe que me escreva.. a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”.Vai lá? . pensava que se não fosse este. também. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquele ato. esteve longe de ser uma noiva majestosa. ao lado do noivo. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.47 Aquilo tinha ido ao fundo de todos. perguntou a Ricardo com a sua voz dolente: . A cerimônia correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. cheio de talento nas notas e recompensas escolares. Genelício levantou-se e deu-lhe a mão.. Gosto tanto das suas modinhas. Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar. . alto. dizia ela com meiguice. desse modo. Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. equivalente àqueles com que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. duque de plenamentes e medalhas.. o sogro lhe dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo. é verdade que foi. e o melhor era não adiar. III Golias No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e giboso Genelício. O general abraçou-o. a sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. não se esqueça.aquela que nós exigimos das noivas ricas. O marido é que estava contente. Tal imagem que dele fizera. glória e orgulho do nosso funcionalismo público. No corredor chamavam-no: “Senhor Ricardo. Tanto mais que ela.Não se esqueça. muito mesmo. via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. seria outro a ele igual. Não tinha fortuna alguma. não tanto pelo título. nada de grego. Ficando rico e sendo médico. As palmas foram ininterruptas. Para fugir aos cumprimentos. com o desprezo de um duque. ou também dessa majestade de ópera lírica. Senhor Ricardo!” Voltou-se.“Seu” Ricardo. Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí. Não seria muito com a noiva. São tão ternas. por sua vez. que não a aborreceram. em virtude de uma determinação certa de sua vontade. de si para si. no seu imaculado vestido de noiva. de amor à ciência. aparentemente. tão delicadas. Eu queria tanto receber uma carta. Quinota. erecto. Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título. Olga casara-se. tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. mas julgava o seu banal título um foral de nobreza.

cortava planícies e rios em toscas pontes. espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas. num campo. Tinha duas ruas principais: a antiga. e foi um triunfo.. a Praça da República. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média. Nair. Se bem que o major tivesse abandonado o violão. À esquerda da estação. festa que teria lugar na quarta-feira próxima. olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Marechal Floriano. onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. À festa do Doutor Campos. Continuavam as suas idéias profundamente arraigadas. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé. Quaresma não fora à festa. O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Não só a luz dos seus grandes olhos negros. que ia ter à igreja. com uns longos braços descarnados. Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro. A fama do seu nome precedia-o. descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja. pálida. não saíram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro. partia a da Matriz. O sítio empolgara-o. fora. Ao contrário do costume. cheias de laços. O fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. pela estrada de rodagem. Elas se encontravam em T. linfáticas e tristes. cheio de caldeirões. de um desenho fino. muito magra. ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente nacional. janela com sacadas de grade de ferro. A concorrência nunca é grande na roça. cuja origem veio da ligação da velha com a estrada de ferro. sendo o braço vertical o caminho da estação. exprimia bondade. ataviadinhas. Chegara sábado e fora passear à vila domingo. cimalha. enquanto a filha. que subia e descia morros. As outras partiam delas. determinada pelo velho caminho de tropas. mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa carta. fazia fulgurar o seu rosto móbil. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. um deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado.querimento em nada tinham abalado as suas convicções patrióticas. A viagem seria breve. em campo. o calor ia passar. para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens. depois iam espaçando. ao alto de uma colina.48 própria. malícia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade. como a sua pequena boca. de forma que todo o município o disputava e festejava. até acabar em mato. A antiga chamava-se Marechal Deodoro. Era o médico do lugar. morava. que quase cobriam toda a cavidade orbitária.. ex-Imperador. das semeaduras. vinha a época das chuvas. O trovador e o médico estiveram um instante conversando. Foi na saída da missa que lhe apresentaram o Doutor Campos. era como se começasse a desertar da batalha. presidente da Câmara. A visita de Ricardo veio distraí-lo um pouco. sem desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas. O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos. e a nova. feia e pobre no seu estilo jesuítico. e fez a barba. mas Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior. Era um grande paralelepípedo de tijolo. . puro estilo mestre-de-obras. a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas. e não queria afastarse de suas terras. ex-Imperatriz. na sua fazenda. se assim se pode chamar um trilho. Passou um mês com o major. Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. tão-somente ele as escondia. Quaresma não o acompanhava. seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Havia certos circunstantes. e a nova. As conseqüências desastrosas do seu re. mas mesmo assim. as casas juntavam-se urbanamente no começo. A vila!. Quando eles partiram. assistir o ofício religioso. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro. perdendo um dia ou dous. ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil. mas gozava a sua vitória. ficava a Câmara Municipal. espaçando. Salão Rio de Janeiro. porém. e viera de “aranha” com a sua filha.

Naquela manhã até esperava um dos cavalos do edil.De nome. Até as flores. foi dizendo a Quaresma. se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo. porém. Um camarada do Doutor Campos. portanto. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra. que o capão invadira. . o senhor pensa que eu não aceitava. Há quem cante. Vive-se bem e pode-se subir.Sei. Isso levava tempo. e. sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora. neste instante. não acha? ...Cada um tem as suas teorias. É. mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual.Major. O Doutor Campos. rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros. os galhos miúdos e folhas. você vai ser deputado”. não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza. ele removia para longe.Fazes bem. Era este um camarada magro.49 Gozava. que indicava bem naquela população a existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos estrangeiros. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas. De manhã. Outra cousa. aí pelas seis horas. todos os favores. .Não tenho nenhum desejo disso. Tinha a face cor de cobre.. ele falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção. entretanto. O menestrel não notou o gesto do amigo e emendou: . parece que tinham saído à luz. meu caro Ricardo.Sabe que ele é presidente da Câmara? Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. . Obtido ele. . Presidente da Câmara. para dar um passeio ao Carico. e fora para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. cultura nova em que depositava grandes esperanças.Podes. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos. Evitava assim calcinar o terreno. major: conhece o Doutor Campos? . não lhe quisera atear fogo.. como um símio. que ainda não tinha partido para o eito: . Olhe. por parte de todos os partidos. no momento.Conforme. . não devemos rejeitar. entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido. foi uma boa idéia vir para a roça. Esvoaçavam tiés-vermelhos. major. Eram agora dous. . Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto. bandos de coleiros.Decerto. mas. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele. não havia ninguém mais valente que ele a roçar. O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato. mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura. para aproveitar como lenha. esperando. essas tristes flores dos nossos campos. . sob uma aparência de fraqueza muscular.Mora daqui a uma légua. já sabia todas as intriguinhas do município. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. major: eu gosto muito de violão. faziam um roçado. quando nos oferecem. que não era bem um empregado. e nos intervalos batatasinglesas. quando chegava. Durante o trabalho. Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre aquele rumor de vida. Não digo que se peça. . no lado norte do sítio. admitira o Felizardo. onde então queimaria em coivaras pequenas. era quem mais o cumulava de homenagens. custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos. mas agregado. Ricardo recebia todas as honras. se não! Não se deve perder vaza. Era manhã de verão. longas pernas. eliminando dele os princípios voláteis ao fogo.Até aí não vou. o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho. Com isto era um tagarela incansável. Quaresma.Ele quer conhecê-lo. pois. anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das árvores. a barba rala e.. alto. além do Anastácio. . de longos braços. a fulminante vitória de Ricardo. Posso trazê-lo aqui? . mas prometia dar um rendimento maior ao plantio. Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe..

Mas é falso. uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada. dizer “senhor” e continuava a dizer.Quem disse? . incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos. . A sua educação de “senhora” de outros tempos não lhe permitia usar esse plebeísmo generalizado. patrão! .. já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural. Ricardo? indagou Quaresma. gente ainda fortemente portuguesa. O patrão “tá” é varrendo a testada. . Que queria dizer aquilo? Demais. E ele tomava aquela atitude de arroubo.Negócio de política. Que maravilha! Aqui. quando foi jantar. “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”. na roça. Qual amigo! . as palavras de Ricardo. Quaresma indagou assustado: . tanto assim que “doutô Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a remover. Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador. as suas insinuações pela manhã. limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante: . Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel.. Felizardo? O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte. Ricardo. sentava-se à cabeceira. Senhor Ricardo? Não havia meio dela dizer “seu”. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”.E você. é que se tem inspiração. . “Conheci-o no meu emprego” . podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum perverso. . .Por quê? .Não sei. entretanto. sempre com a sua matinée creme e saia preta... não “sinhô”.Tens composto muito. À tarde.Negócio de partido.50 ... Nada dizia: trabalhava e. Apesar de todo o esforço de Quaresma.. por quem é? Felizardo não respondeu logo.Eu sou como você. .. em breve.Na estação.. mas sem sombra alguma de cogitações por parte dele. os entusiasmos dele. E nunca disse isso aqui a ninguém.“Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro.Eu! Sei lá. .Quem me dera.Muito. Conheci-o. Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol. atendia-lhe a conversa. Quaresma ficou um instante pensativo. e. porém. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador.Como se chama? indagou Dona Adelaide... numa postura hierática de uma pintura mural tebana. Um “sarcero”. . considerava.Que é que há. Eu não sou amigo cousa alguma. junto à vontade de ser bom amigo. Anastácio era silencioso e grave. parava. Felizardo. . Isso é bom pro “sinhô”. Dona Adelaide. sem fingimento.Hoje acabei uma modinha..Essa gente anda acesa por aí. Quaresma à direita e à esquerda. Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô Campo” é pelo “senadô”. quando voltou.. naturalmente. O major perguntou ao Felizardo: . Afastou-se com o pau...“Os lábios da Carola”.. Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra. Vira os pais. nem muito triste. . Felizardo. Respondeu afinal: .dizia o major.Gostou muito do passeio. deixando de remover os galhos cortados. raras não.” Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma.Onde? . Que lugar! Uma catadupa. de quando em quando. meu “sinhô”. nem muito alegre. . . esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. disse Felizardo logo que o major chegou. não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a idéia de que ele fosse amigo do Marechal Floriano.

as rolas gemiam amorosamente. é a primeira cousa que faço. O jovem par contou a agitação política do Rio. abraçaram-se. com as mãos presas. criadas. fazendo roda. Sentavam-se a um tronco de árvore. depois passou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou: . ficava um instante a considerar aquelas vidas. mas Quaresma ficava minutos esquecidos a contemplá-las numa demorada interrogação muda. Os bambus suspiravam. A tarde ia adiantada. para ver a atroz disputa entre as aves. à proporção que conversava. virava com a mão direita o grande anelão “simbólico”. É longe. muito vivos e ávidos.. o talismã. e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro. Ouvindo passos. minha senhora. Após o jantar. assistia Anastácio dar a ração. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se. as cigarras ciciavam. com o seu terno e vazio olhar de africano. O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. A avidez daqueles animais era deveras repugnante. Dona Adelaide. tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundária. possuía em si uma particular reverência. e Quaresma olhava o céu alto. E vieram aquelas estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos: Quando chegaste? Não esperava. era justo. a dar estouros presunçosos. móveis quebrados. Acabando. a revolta da fortaleza de Santa Cruz. sentenciosamente. Ricardo levava agora o garfo à boca. o major voltou-se. objetos partidos. Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous. Sorria para os frangos. enquanto Coração dos Outros contava qualquer história. major. Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor. um culto pelo doutorado. Fora essa a única concessão que ao amigo fizera Policarpo. Padrinho! Olga! Mal se viram. dogmaticamente. apesar de tudo um homem rico. pelo fim daquele beijo ardente e demorado do sol. agarrava os pintinhos. ainda implumes. mulher velha. Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida. pois. Levava sempre o pedaço de pão. mas os seus olhos tinham uma longa doçura bem humana que os fazia simpáticos. Mas.Bonito! Já fez a música? Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar.51 . de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia. e. noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe chafurdar-se na comida.. Está lá dentro. de outra esfera..Pois não. no tocante ao regime de seus trabalhos agrícolas. mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade nacional. do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar. e demorava-se a apreciar a estupidez do peru. deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção: . ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram trocadas e satisfeitas. em definitivo. que cobria a falange do dedo indicador esquerdo. que esfarelava em migalhas no galinheiro. mantidas e protegidas para sustento da sua. gozando aquele seu sobre-humano prestígio. imponente. e solenemente vinha mergulhar a cabeça na caldeira. Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio. Em seguida ia ao chiqueiro.O doutor?. de uma particular consideração. dificilmente. Dona Adelaide. ao jeito de marquise. Pela meia-noite . .Quedê teu marido? . Passada a emoção. sem posição brilhante e sem fortuna... Conversaram muito. A terra já começava a amolecer.A música. despejando-a nos cochos.Hás de no-la cantar logo.. a moça se debruçou sobre o chiqueiro. Não lhe parecia bem aquela intimidade com um sujeito sem título. e não lhe foi. Ele não compreendia como o seu sogro. difícil demonstrá-lo quando se viu diante do Doutor Armando Borges. talvez para que o efeito não se dissipasse. quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito. . ia conversando pausadamente. Anastácio tirara o chapéu e olhava a “sinhazinha”. e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário se desse. a epopéia da mudança.

Estava na varanda. A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada. Adelaide.E não desmentiste? perguntou Quaresma.Sossega. Uma satisfação. profundo e estrelado. Quaresma! Quaresma do coração! Deixa as batatas em paz Deixa em paz o feijão. Começou a leitura. Quaresma não foi logo para o trabalho. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal.Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo. Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de fazer política. Por isso só?. major? indagou o troveiro. filiado ao partido situacionista. Nunca! O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações.. ajuntando a irmã: . deixava o povo fazer lenha no seu mato.. Notaram a alteração de Quaresma. tanto assim que dava esmolas.. distribuía remédios homeopáticos.. Tomou café e esteve conversando com o doutor. . tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça.Isto seria uma covardia. o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente. Ora! A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho: .. hebdomadário. Jeito não tens para isso Quaresma. enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hino à transcendente beleza do céu negro. quando lhe pareceu ler seu nome entre versos.52 todos foram dormir com uma alegria particular. órgão local. Pôs o pince-nez... Ricardo depois contou o que ouvira na vila. não achava o motivo e o fundo de semelhante ataque. . O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele . Acordaram cedo. perturbando-lhe a paz e a tranqüilidade”. . O major ficou estuporado. Rasgou a cinta e leu o título.” A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. Enquanto ela lia. Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com política? E coçava os cabelos já bastante encanecidos.Eu nunca!. ele aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Vou até declarar que. Estava pálido. Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas: POLÍTICA DE CURUZU Quaresma. Olho vivo. Policarpo. meu cocumbi! Volta à mania antiga De redigir em tupi. Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: “Lê isto. O doutor se havia afastado.. pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores dos outros.. recostou-se na cadeira de balanço e descobriu o jornal. Dona Adelaide disse então docemente: .. Era o O Município.. As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler.“verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense.. . Ela tinha aquela ampla maternidade das solteironas.O senhor se meteu algum dia nessa política daqui? . O Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo. meu bem. Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava.Que há.

o doutor. abatido da gente pobre. Era raro uma cabra. a falta de cultivo. e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias. para uso próprio.É doutra banda. Por quê? Mesmo nas fazendas. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade. sorumbáticos!. na Índia. Olga pôde ver tudo isso bem à vontade. Por que ao redor dessas casas não havia culturas.. aqui e ali. A faina do roçado ia quase no fim. como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra. como o esqueleto de um doente. plantam um pouco algumas cousas para eles. redondas ou oblongas. O major ficou profundamente impressionado com tudo. Pensou em ser homem. incubou nos primeiros tempos a impressão. juntando. . Havendo tanto barro. os nossos lugarejos célebres. graças a ele. pelo flanco da montanha abaixo. houve cavalos e silhão que também permitisse à moça ir à cachoeira. Onde é que você mora. uma horta. as tribos. nem grande nem pequeno. Anastácio estava no alto. o seu desejo de saber. assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica. o espetáculo não era mais animador. O marido. A água estremecia na queda. para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro.Então trabalha-se muito. de um verde mais claro. despenhava-se em três partes. bonito lugar.Bons-dias. Em geral. Foram de manhã. um pomar? Não seria tão fácil. ao fim de uma semana. na estrada da vila.. a ancinho. a pobreza das casas. ela tinha dos roceiros idéia de que eram felizes. uma cachoeira distante duas léguas da casa de Quaresma.. as folhas caídas. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre a água ou sobre as pedras em pequenas manchas. o homem tem sempre energia para trabalhar relativamente. o passeio afamado era o Carico. mas. na Cochinchina. o grande trato da terra estava quase inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do sítio. andando de um para outro lado. aproveitou a ocasião para interrogar a respeito o tagarela Felizardo. e. . os casais. Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho. mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus propósitos de ataque. Felizardo? . Na África.É grande o sítio de você? . de uns quinze metros de altura. baixas. Aquilo era uma situação do camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face humana e voz articulada.O que se pode. Olga encontrou o camarada cá embaixo. Não podia ser preguiça só ou indolência. quase sem o pomar olente e a horta suculenta. observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. O lugar não era feio. outra indústria agrícola. na orla do mato.. por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de varas. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos. . mal alojados.. o presidente da Câmara. um carneiro. Uma pequena cachoeira. Todas soturnas. trabalho de horas? E não havia gado. indagaria. saudáveis e alegres. porque a filha do presidente era de um silêncio de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre novidades medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético? O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral. Ela lhe falou: . O Doutor Campos já travara relações com o major e. mugindo e roncando. Educada na cidade. Felizardo? . Para o seu gasto. Os periquitos. não demonstrou preocupação. A não ser o café e um milharal. pousados nos galhos eram como as incrustações daquele salão fantástico. talvez com fome. maltrapilhos. o ar triste. em toda a parte. cortando a machado as madeiras mais grossas.Estive ontem no Carico. Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores.53 Ricardo afirmou que sim. tanta água.. Os passeios não eram muitos. as famílias. Em Curuzu. “sá dona”. Olga e o marido passaram no “Sossego” cerca de quinze dias. de acordo com seu gênio. ela não pôde ver outra lavoura. já parecia cansado. sua mulher e a filha de Campos. enquanto estiveram com ele os seus amigos.

Enquanto planta cresce.. Aquele perdera um pouco da sua morgue. Isto é até uma injúria! . colocou-o melhor no picador e. .. aduziu o doutor.54 .Senhor doutor. o padrinho exclamava: . sim. obtemperou Ricardo. O jantar correu mais calmo.Tem alguma terra.” Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Doutor Campos. e então? “Quá. .Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do mundo! . onde o cerne escuro começava a aparecer. havia mesmo ocasião em que era até natural. com as casas em ruínas. resumia ele. antes das onze horas. e.. sá dona”. . observou o doutor. Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara. Por que esse acaparamento. Governo não gosta de nós.Há mais férteis. é o mais bem-dotado e as suas terras não precisam “empréstimos” para dar sustento ao homem. Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide.. Ouviram-no com interesse e ele foi muito aclamado.. mas não pôde..Onde? . com os olhos arregalados.. para os outros todos os auxílios e facilidades. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionais.. As terras negras da Rússia.. major. “sá dona”. E a terra não era dele? Mas de quem era então. sá dona!” O que é que a gente come? .. Todos se entreolharam. e o rugoso tronco se abriu em duas partes. Hoje vejo que é preciso.. Quando ela chegou.O senhor não é patriota! Esses moços. antes de desferir o machado. Desferiu o machado. Nós não “tem” ferramenta.Sim. Era certo.“Quá. o menestrel cantou a sua última produção: “Os Lábios da Carola.Mas se esgotam.Decerto. Eu. major... O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante: .Que zanga é essa. . ensaiava uns fosfatos. Fique certo! .. Foi vindo para casa. Dona Adelaide. o Brasil é o país mais fértil do mundo. não queria aprender música.Na Europa! . Encontrou o marido e o padrinho a conversar..Você por que não planta para você? .. de um claro amarelado. se eu fosse o senhor. padrinho? . firme.É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos. isso é bom para italiano ou “alamão”. Ricardo ouvia.Terra não é nossa. Deu uma machadada. quase iguais. senhora. tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava. esses latifúndios inúteis e improdutivos? A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar mais no problema. que o governo dá tudo. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. estavam todos recolhidos. seguro. mas ninguém aludiu a isso... por exemplo.Na Europa. ..O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro. major. e Olga intrometeu-se na conversa: .Pois fique certo. Qual música! Qual nada! A inspiração basta!. major. À noite.. não contando com a sua anterior educação e apoio dos patrícios. ainda disse: . avançou o doutor.. exceto Quaresma que logo disse com toda a força d’alma: . tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela vira até fazendas fechadas. É assim. não é assim... calada. o tronco escapou.“Sá dona tá” pensando uma cousa e a cousa é outra. na Europa. quando comecei a tocar violão. . seguia com atenção o crochet que estava fazendo. E “frumiga”?..

. se mais vagarosamente se examinassem os seus hábitos. Estava no escuro. era viver. outras. Havia vozes baixas. porém. Tudo na nossa terra é extraordinário! pensou. Quis afugentá-las. vinte. Os sapos recomeçaram o seu hino. contudo. achou e correu daquele ínfimo inimigo que. Abriu a porta. cem. tinha uns quatro anos mais que ele. Quaresma pôde ler umas cinco páginas. outras mais altas e estridentes. o visse distintamente. perdido em cisma. poucos achaques. Suspenderam um instante a música. Veio uma. sapateou e deixou a vela cair. Não se vá supor que Quaresma andasse transtornado como um doido. uma espessa cabeleira já inteiramente amarelada e um olhar tranqüilo. nunca houve entre eles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. que deixavam outros cair ao chão. Os batráquios pararam. pôs-se a ler um velho elogio das riquezas e opulências do Brasil. nada viu. cujos recipientes tinham sido deixados abertos por inadvertência. com um corpo médio. talvez. durante minutos seguidos. Que era? Eram uns estalos tênues. paixões. tudo modesto. ao longe o horizonte. do lado de fora. Sigo Já” Dona Adelaide. e sobre ele em nada reagia aquele ser metódico. O major apurou o ouvido. Os sapos recomeçaram. Na aparência até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ela nunca tivera qualquer. gestos e atitudes logo se havia de ver que o sossego e a placidez não moravam no seu pensamento. elas. despiu-se. mordeu-o. não sonhara príncipes. sem imaginação. O major levantou-se. o ruído continuava. isto é. IV “Peço Energia. por um buraco no assoalho. pelos pés. fincava o olhar no chão. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à sua pele magra. Apurou o ouvido e prestou atenção. parecia que quebravam gravetos. a bulha continuava. calmo e doce. Se não casou foi porque não sentiu necessidade disso. Fria. triunfos. o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ela sempre se sentiu completa. e carregadas com os grãos. Ela não entendia nem procurava entender a substância do irmão. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orquestra noturna. dava depois um . Demoraram muito. em que suspendia todos os movimentos. em tudo formava um grande contraste com o irmão. O seu aspecto tranqüilo e o sossego dos seus olhos verdes. Felizmente não. Para Dona Adelaide. Quaresma lia. agarrou o castiçal e foi à dependência da casa donde partia o ruído. mas eram milhares e cada vez mais o exército aumentava. subindo pelo seu corpo. enfiou a camisa de dormir e. em camisa de dormir. Matou uma. isso quando no trabalho da roça. de um brilho lunar de esmeralda. assim mesmo como estava. Não pôde agüentar. Moça. Quase gritou. de inteligência lúcida e positiva. lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão. doce e regrada que tinham levado até ali concorrera muito para a boa saúde de ambos. O chão estava negro. Debatia-se para encontrar a porta. Da despensa. e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. ordenado e organizado.55 Quaresma chegou a seu quarto. vestuário. médias e claras. coçando uma mão com a outra. ter uma casa. a vida era cousa simples. gritou. Eram formigas que. deitado. A existência calma. dez. Ela já atingira aos cinqüenta e ele para lá marchava. a irmã de Quaresma.. belezas.. em pelotões cerrados. emolduravam e realçavam naquele interior familiar a agitação e a inquietude. Era uma bela velha. o regente deu uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. quando sentiu uma ferroada no peito do pé. que ficava junto a seu aposento. e o foram mordendo pelas pernas. mas ambos tinham ar saudável. Ia procurar nos cantos. Ocasiões havia em que ficava a olhar. o alanceado do irmão. uma se seguia à outra. desejos. num dado instante todas se juntaram num uníssono sustentado. Descobriu a origem da bulha. demorava-se assim um instante. uma tez que começava a adquirir aquela pátina da grande velhice. duas. nem mesmo à luz radiante do sol. jantar e almoço. mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterrânea. depois outra. vinha um ruído estranho. médio. e prometiam ainda muita vida. nem mesmo um marido. Não tinha ambições.. A casa estava em silêncio. de idéias simples. não havia a mínima bulha.

Via o major com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade. A tal afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má fé ou estúpida. que seria ridículo aceitar. e estúpido ou de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares. fossem introduzidas mais três. em famílias geralmente irregulares. ele via bem as dificuldades. e aquele desde quase um ano. Dera-se mal com eles. a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de bebedouro às aves. Pelo seu caso. sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. já sem fio. a não ser no jantar e nas primeiras horas do dia. o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações registradas num caderno. para aumentar o estrume!. com aparências. saía errada. e o trabalho marchava. lavrava ocultamente. Se esperava tempo seguro. Entretanto. o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia. e nada dizia.“Quá” patrão! Isso de chuva vem quando Deus “qué”. Os seus hábitos não foram mudados e a sua atividade continuava sempre a mesma. a situação geral que o cercava. de apoio mútuo. tinham bem perto o exemplo dos portugueses que. no alto do mastro. e ela superintendendo o serviço doméstico.56 muxoxo. lucrar e viver. em tais instantes.. As outras pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do major. Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras. continuava o trabalho. como se protestasse contra aquele desprezo pela ciência que Quaresma representava. Havia no seu espírito e no seu caráter uma vontade de acabá-la de vez. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados. Anastácio. conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importância. O barômetro aneróide continuava a um canto a dançar o seu ponteiro sem ser percebido. O higrômetro. olhava por baixo dos olhos o patrão. Um fato veio mostrar-lhe com eloqüência um dos aspectos da questão. se não articulavam nada contra ele diretamente? Era um combate com sombras. Quaresma vivia assim. aquela miséria da população campestre que nunca suspeitara. se esperava chuva.. eles viviam separados. Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos. e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma frase. nas plantações. legítimo Casella. pelo simples motivo de que estavam longe.. quanto ao trovador. mas como? Se não o acusavam. O antigo escravo não os sabia mais fixar. embora tendo deixado de ser pública. o termômetro de máxima e mínima. Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custódio com o Manduca da venda. fosse porque fosse. sem se preocupar com os que já existiam. Inútil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso. os abacateiros de suas . só o anemômetro continuava teimosamente a rodar. jazia pendurado na varanda sem receber um olhar amigo. mesmo porque. a rodar. De resto. É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia. unidos aos seis e mais. aquele abandono de terras à improdutividade encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preocupações angustiosas. Ricardo havia seis meses que não lhe visitara e da afilhada e do compadre as últimas cartas que recebera datavam de uma semana. Fosse inexperiência e ignorância das bases teóricas deles. Vencendo a erva-de-passarinho. os óbices de toda a sorte que havia para fazer a terra produtiva e remunerada.. isto é. não vendo aquela há tanto tempo. o tempo em que estava no “Sossego”. Mesmo o velho costume do “moitirão” já se havia apagado. Como remediar isso? Quaresma desesperava. isolados. com aquele grosso e cavernoso sorriso de troglodita: . baseada em combinações dos seus dados. lá vinha seca. os maus-tratos e o abandono de tantos anos. Era como se no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado. Durante esse tempo. Quaresma na roça. sentindo que a campanha que lhe tinham movido. lá vinha chuva.

pôs uma das mãos na cava do colete e quase de costas para o major: . .É preciso vê-los. cesarianas. Acariciou uma por uma aquelas notas encardidas. Para o ano. o custo dos caixões. leu-lhes bem o número e a estampa.. O tamanho influi. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de São Cristóvão. Enfim. Tratava-se agora de limpar as fruteiras. tilintou a pesada corrente de ouro. Andou de porta em porta. de estrada de ferro e carroça.. um tanto amolecidas pelo sangue africano. o senhor sabe que.Abacates! Ora! Tenho muitos. portanto. os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes. Tinham às vezes que subir às grimpas para a extirpação do galho atingido. Pela primeira vez. A observação popular já começava a interessar-se pelo espetáculo ambiente. Eram vaporosamente sensuais e muito ternas.. mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria comprar por preços ínfimos. então o major escutava: Eu vou dar a despedida Como deu o bacurau. Lá foi. descontou o frete. nem mais nem menos. teve a satisfação orgulhosa de quem acaba de ganhar uma grande batalha imortal.. sempre mãe e sempre virgem. eram muitos.. pois. Mané Candeeiro falava pouco. o lucro seria maior. ingênuas. jacus. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Senhor Azevedo no Mercado. principalmente no desafio: o moleque é bom! Ele era claro e tinha umas feições regulares. Para avaliar o lucro. Estava a serrar. a flora locais.. já se emocionava com ele e a nossa raça deitava. o salário dos auxiliares e. Foi. a não ser que se tratasse de cousas de caça. pois todas aquelas caçadas de caititus. mas cantava que nem passarinho. Uma perna no caminho Outra no galho de pau. o rei das frutas. mas de forma superior às necessidades de sua casa. fracamente é verdade.. teve a evidência de que ganhara mil e quinhentos réis. Este bacurau que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. . por acaso lá vinha uma em que um pássaro local entrava. Com decisão foi ao Rio procurar comprador.. contratou um outro empregado para ajudá-lo no tratamento das velhas flores frutíferas.Entretanto. quando lhe veio o dinheiro.. se quer mande-os. melosas até.Em porção. Felizardo dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso. É isso. Anastácio e Felizardo continuavam ocupados nas grandes plantações. Era árduo e difícil o trabalho. e em muitas ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada. ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia cinco mil-réis. arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa e muito tempo levou sem ânimo de trocá-las.. Foi. Estão muito baratos! . Depois. Não queriam. . estava a cantar trovas roceiras. respeitava o seu talento poético. ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra. onças eram patranhas. O Senhor Azevedo tinha-lhe pago pelo tanto a quantia com que se compra uma dúzia. raízes na grande terra que habitava. Tratou de vender. os galhos mortos e aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. com o Mané Candeeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores. Quaresma os mandou e. disse Quaresma.57 terras conseguiram frutificar. onde com surpresa o major não via entrar a fauna. após esse cálculo que não era laborioso. A sua alegria foi grande. os costumes das profissões roceiras. Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e ele viu naquele ridículo lucro objeto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado... mas. duras e fortes. portanto. com redobrada atividade que se pôs ao trabalho.

aberto entre a erva rasteira. Desde aquele ataque às provisões de Quaresma. as nuvens de coleiros. oscilando ao vento. Com auxílio de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras daquele velho sítio abandonado há quase dez anos. os terríveis himenópteros.. Não durou muito essa alegria.. em longas fileiras pelo trilho limpo. nada de atropelos. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo pecíolo. piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho com uma rapacidade turca. outras desciam. naquela manhã. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. talvez. as “panelas” dos insetos terríveis. E era perto. mas. mortíferos. muito verde. Quaresma ouviu uma bulha esquisita. levantando-as acima da descomunal cabeça. de confusão. elas nos expulsariam.. letais! . Não tinha contato com aquele obstáculo nem o supusera tão forte.. piando. mas.. organizada. Um inimigo apareceu inopinadamente. crescera cerca de meio palmo acima da terra. ousada e tenaz com quem se tinha de haver. entretanto. as rolas pardas e caboclas em bando. cantando. mariscando. com uma timidez de criança. pelas altas mangueiras. pelos abacateiros. e ficou sem ação e as lágrimas lhe vieram aos olhos. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! “A modo que é obra de gente” disse Felizardo. indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada.. Parecia sofrer e ele se lembrou das mãos que as tinham plantado há vinte ou trinta anos.. esvoaçavam os tiésvermelhos. certa noite. chilreando. os inimigos pareciam derrotados. Havia delas às centenas. cá embaixo. pequenino. mas. logo afugentadas. pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se. e de tarde como que todos eles se reuniam.58 Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços.. os papa-capins. como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores. e o renascimento das árvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. pelos cajueiros. Quaresma pôs-se logo em campo. Até ali ele se mostrara tímido. sinceramente. com a rapidez ousadíssima de um general consumado. ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho.. no chão capinado. Quando o serviço ficou pronto. quando contemplou o seu milharal. andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam. moviam-se. Comprou ingredientes e ei-lo mais o Mané Candeeiro a abrir picadas. Era preciso combatê-los. Então era como se os bombardeassem: o sulfeto queimava. e ficou admirado que só agora ela lhe ocorresse. Houve um instante de desânimo na alma do major. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas. foi como se lhe tirassem a alma. parecia que somente mandava esclarecedores. banzeiros e desesperançados!. tinha recobrado o ânimo. O milho que já tinha repontado. mas o sentido era. a fazer esforços de sagacidade. Agora via bem que era a uma sociedade inteligente. No dia seguinte. para descobrir os redutos centrais. eram os sanhaçus a cantar nos galhos altos. estourava em tiros seguidos. com folhas aqui e sem folhas ali.. tinham sido as saúvas. de desordem. naquela. ele não viu nada mais.. Passaram-se dias. não a encontrou. não mais as formigas reapareceram. com o seu pio pobre. entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma. Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse. pelo correr do dia. outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por terceiras.. ele viu com tristeza aquelas velhas árvores amputadas. Acendeu um fósforo e o que viu. o major até mandara buscar o sulfato de cobre para a solução em que ia lavar a batata-inglesa a plantar nos intervalos dos pés. espécie de ave tão inútil e tão bela de plumas que parece ter nascido para os chapéus das damas. escravos. O major não estava lembrado ao certo se eram essas as palavras. De manhã. Um estalido. meu Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. mutiladas. Toda a manhã.

Recebeu o dinheiro dias depois. Meditava grandes reformas agrícolas.59 E daí em diante. . seguindo a costura que fazia. com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a glória e para a vitória. . as terras mais ricas do mundo não precisavam desses processos. Menor do que o dos abacates? . Até então.. podia levar a efeito a extinção daquele flagelo pior que a saraiva.É. o trabalho de guarda-livros roubou o de cultivador.. A velha senhora ergueu-se com a costura.O quê? .Mas. o major não desanimou e pôde colher alguns produtos das plantações que tinha feito. levantar a agricultura. Policarpo levantou-se. em parte. depois. A irmã prestou mais atenção à costura. quando o seu pequeno copeiro lhe anunciou a visita do Doutor Campos. Era um suplício. . as batatasdoces. Já viste os grandes fazerem esses sacrifícios?. nenhuma plantação era possível. agora disposto a empregá-los como experiência.. Policarpo. um castigo. Adelaide? . grades. da sua iniciativa. as árvores não tinham sido plantadas por ele. não quisera essas inovações. fosfatos ou mesmo estrume comum.Não.Então. .. tanto mais que extintos os das suas terras. estava..É isto. não lhe favorecia a tarefa das cifras. foi até a janela que dava para o galinheiro. ou um acordo entre os cultivadores... mas aquilo não. dando o rendimento efetivo de vinte homens.Dous mil quinhentos e setenta réis. Não foi à roça nesse dia. Aos adubos..Foi isso. aproveitar as nossas terras feracíssimas. os aipins. faço eu.Homem. o seu espírito resistia.. Uma injúria! Quando se convencesse de que eram necessários. Tens gasto muito dinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. mais expressiva e mais profunda ela foi quando viu partir para a estação. vinha do seu suor. as abóboras. foi até à janela e verificou com a vista: . . Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo.Um pouco mais.... Se por ocasião das frutas. do contrário. porém.. parecia-lhe que todo o seu sistema de idéias ia por terra e os móveis de sua vida desapareceriam. logo se lhe aplicava o formicida. levantando o olhar: . Vê lá se fazem! Histórias. um governo qualquer. Após esta leve conversa. É já a segunda que morre hoje.. um semeador. de aço. Quanto? . parecia a Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos. que a seca. numa terra brasileira. em cestos cobertos com sacos cosidos. “Bajacs” e “Brabants” de vários feitios.Sabes qual foi o lucro.. Tinha já em mente uma charrua dupla. sempre presente. Terra virada. pôde dizer à irmã: .. destacando sílaba por sílaba. em sucessivas carretas. tudo americano. Quaresma voltou à sua sala de estudos. Só com as formigas! . Ele concertou o pince-nez. foi uma batalha sem tréguas. uma espécie de vigilância a dique holandês e Quaresma viu bem que só uma autoridade central. que a geada.. Se aparecia uma abertura. um “olho”. contou-o e esteve deduzindo os lucros.. entretanto. dizia Felizardo. um capinador mecânico.Ora. outono ou primavera. não tardariam os formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar canículos para o seu terreno. A sua atenção. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil e quinhentos. o melhor é deixares isso. eram de outras mãos... esteve olhando e de lá falou: . e só pelo meio-dia. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. a sua alegria foi grande... Não obstante essa luta diária. pois. Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos. para produzir. terra estrumada. um destocador. Estavam assim a escolher arados e outros “Planets”. Queres sempre ser a abelha-mestra. que lhe pareciam artificiais. Metem-se no café que tem todas as proteções. já um tanto gasta...Oh! Adelaide! Aquilo não é uma galinha morta?. respondeu Quaresma. inverno ou verão. Os frutos. do seu trabalho! Ele ainda foi ver aqueles cestos na estação.

.E daí? . Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil e duzentos metros. proprietário do “Sossego”.. A vitória é “nossa”. era das pessoas mais consideráveis de Curuzu.. exceto uma.Mas és tolo. Não nascera em Curuzu. Todas as mesas estão conosco.. quase à flor do rosto.60 O edil entrou com a sua jovialidade. simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos. conversou um pouco sobre cousas banais e despediu-se com o ar amável. Pôs mais unção e macieza na voz. pela sua afabilidade e simplicidade. malfeito. que lhe eram absolutamente antipáticas tais disputas. desde muito. O doutor não se zangou. as eleições se devem realizar por estes dias. onde casara e prosperara. sob as penas das mesmas posturas e leis. na escola. tinha os olhos castanhos. Consultando a irmã. é ali. Era certo.Mas. firmemente: . rezava o papel.... sutil.. Isto se passou na terça-feira... dia em que o major foi surpreendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentável. proprietário do sítio “Sossego”. coçou um instante o cavanhaque e respondeu claramente. mas contente com a alegria comunicativa do doutor. Presidente da Câmara. Campos não deu mostras de aborrecimento. Aí mesmo. Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade. era da Bahia ou de Sergipe. dirigida ao senhor. pançudo um pouco. se o major quiser. O tempo só levantou na quinta-feira. viu a assinatura do Doutor Campos.. Foi ele mesmo.Como o major sabe. o lugar há mais de vinte anos. porém. que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria afirmar uma cousa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade. não me meto. Se o major quer responder (é melhor já) que não houve eleição. e em seguida brandamente: a seção funciona na sua vizinhança. ele. como? se eu não sou eleitor. Em virtude das posturas e leis municipais. Leu de novo o papel. era intimado. Quaresma foi inflexível. e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade. .Exatamente por isso.Sabe o que me traz aqui. Com esta. Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio.Absolutamente não.. a sua mansidão e o seu grande corpo. embora o seu bigode fosse crespo. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com ele dias antes. dobravam-se. a roçar e capinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas. as palavras caíam-lhe da boca adocicadas. com a jovialidade mais sua que era possível. .. uma testa média e reta.. . se. choveu muito. Agora a sua voz era doce. À tarde houve trovoada.. era o que se chama por aí um caboclo. . não gastava grande energia mental: tendo de cor uma meia dúzia de receitas. nem quero meter-me em política? perguntou Quaresma ingenuamente. habitava. disse o doutor com voz forte. coleavam-se: . flexível.era possível!? A antiga corvéia!. ela lhe aconselhou que falasse ao Doutor Campos. Era alto e gordo.Como o major sabe.Ora viva. naquele dia de luz fosca e irritante.. Policarpo. pois seu sítio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros .. cabelos corridos e já grisalhos. major? Não sabe. o único que pugnava pelo levantamento da lavoura. disse que não.Tenho aqui uma carta do Neves. Ele continuava a falar com desembaraço e naturalidade: . O major ficou um tempo pensando. o Senhor Policarpo Quaresma. conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário. não é? Preciso de um pequeno obséquio seu. major! Como vai isto por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais. . conforme mesmo disse o tal homem fardado. Quer? Quaresma olhou o doutor com firmeza. portador de um papel oficial para ele. graças ao dote da mulher e à sua atividade clínica. Um tanto trigueiro. o nariz... Seria mesmo? Brincadeira. O major não se espantou. . aduziu argumentos: que era para o partido. Julgava impossível uma tal intimação.

Vinha viva e alegre. Era de ver como aquela vida tão estranha à nossa. Estava disposto a resistir. e só se apagou de todo. a esmolar disfarçadamente pelas estradas. a viagem próxima do papai à Europa. animais mortos. A “Duquesa” era uma grande pata branca. viu aquelas terras abandonadas. perus. Não vinha mais da municipalidade. depois o resto do corpo. levara a “Duquesa” também. patos. a agonia e a dor. o desespero do marido no dia em que saiu sem anel. mas o seu pensamento voou logo para as cousas gerais. O galinheiro ficou como uma aldeia devastada. nas mãos desses regulotes. Três dias levou a agonizar. por ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos. de Dona Adelaide e. voltoulhe de novo. Contava pequenas histórias de sua vida. O animal tinha morrido havia dias. com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado. em tempos de grandes reis. ainda havia alfândegas interiores? Como era possível fazer prosperar a agricultura. quando lhe apareceu à porta um soldado de polícia com um papel oficial. com o pescoço alto e o passo firme. ativo e trabalhador. de tais caciques. que. quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara. Ele se lembrou da intimação municipal. E não havia quem soubesse curar. Adquiriu compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas agrícolas descritas nos catálogos. pedia notícias do padrinho. Recebeu o papel e leu. pela lentidão e majestade do andar. a peste atacou galinhas. ora sobre outra. mais sombrio. quando recebeu a intimação da municipalidade. sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos . merecera de Olga esse apelido nobre. A quarenta quilômetros do Rio. com o bico colado ao chão. Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se encostavam nos portais das vendas preguiçosamente. não havia um só homem que pudesse reduzir com as suas drogas ou receitas aquele considerável prejuízo. se transformava em potro. oprimir as populações. como em França os camponeses. abatendo-as e desmoralizando-as. levado pelo seu patriotismo profundo. de códigos e de preceitos. crestar-lhe a iniciativa e a independência. viu ainda o desespero de Felizardo. E que morte! Uma peste que lhe levara duas dúzias de patos.este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relâmpago. pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot. recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da “Duquesa”. sem desrespeito. Esses contratempos. essas contrariedades abateram muito o cultivador entusiástico dos primeiros meses. não se incomodou muito. conforme estava no papel. Deitada sobre o peito. Uma tarde. em instrumento de suplícios para torturar os inimigos. ora sobre uma forma. mais tétrico. espantando as moscas que a importunavam na sua última hora. Antonino Dutra. homem bom.. até reduzir a sua população a menos de metade. cobras. intimava o Senhor Policarpo Quaresma a pagar quinhentos mil-réis de multa. . porém. naquele instante penetrava em nós e sentíamoslhe o sofrimento. o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico.. Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas. em polé. de penas alvas e macias ao olhar. da Revolução. improdutivas. e anteviu a época em que aquela gente teria de comer sapos. Numa terra cujo governo tinha tantas escolas que produziam tantos sábios. cujo escrivão. entregues às ervas e insetos daninhos. viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas. mais lúgubre.61 A luz se lhe fez no pensamento. matando. atacada pelas formigas. de posturas. Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha. Aquela rede de leis. d’olhos baixos. entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos. mas da coletoria. estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado. foi ceifando. como era possível tirar da terra a remuneração consoladora? E o quadro que já lhe passara pelos olhos.

.Seu patrão. é dia feriado. Não! É preciso um exemplo.. das suas tentativas agrícolas . Vou pro mato. tão rico. disse com firmeza o almirante. é... o Pedro II.Que barulho? . Imaginava um governo forte. amanhã.Você viu o imperador. Albernaz.. Saía no carnaval. Onde está um Caxias? um Rio Branco? . assesta os canhões pra terra e diz: sai daí “seu” presidente. inteligente. A Independência.E mais justiça mesmo. A República precisa ficar forte. . Anda tudo pela hora da morte! Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial.Quem diz o contrário? Havia mais moralidade. Sully e Henrique IV.. ambos fardados e de espada. o imperador tinha feito tanto por toda a família.. mete-se um sujeito num navio. Rio. O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados... consolidada. depois de um curto intervalo. Nem com a farda quis ir para a cova!. Não havia jornaleco. Aqui para nós que ninguém nos ouve: foi um ingrato. e dirigiu-se à estação. O que eu sofri. um governo forte.Quaresma.... força.. talvez o mais rico do mundo. Era preciso trabalhos maiores.. Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar à estação. Então sim! O celeiro surgiria e a pátria seria feliz. removendo todos esses óbices. pueril. infantil. tomou o chapéu.Eu penso também da mesma maneira. Os seus olhos brilhavam de esperança. não é possível continuar assim. continuou: .. esses entraves. no entanto. Foi ao interior da casa.. pasquim por aí. Peço energia..tudo isso lhe pareceu insignificante. Por quê? Por causa dos governos que temos tido que não têm prestígio. por onde vinham atravessando. . acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa: .Não é por isso. você quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele tempo... Deodoro nunca soube o que fez...Morreu arrependido. foi a canalha.. Demais. observou o almirante.. não venho “trabaiá”.. Medidas agrárias. como há ainda quem se case. Caldas. É por isso.Não há dúvida nenhuma!. sim “sinhô”.. .. Sigo já... e o homem vai saindo?. pobre. Nada! . nada disse à irmã.Decerto.. até à tirania.62 Quaresma veio a recordar-se do seu tupi. tão belas. que o não chamasse de “banana” e outras cousas. .E era um bom homem. Sully e Henrique IV.. agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre árvores tão soberbas.. à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado. Então. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás. deve a todo o mundo. Nunca as tinham contemplado.. tornava-se necessário refazer a administração. ..Por que então? .. É incrível! Um país como este. espalhando sábias leis agrárias.. Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.. respeitado. . Albernaz. não foi por causa do “velho”. Albernaz. levantando o cultivador. tudo barato. das modinhas... Continuavam a andar. Despediu o empregado... e...Há “baruio” na Corte e dizem que vão “arrecrutá”. do seu folklore. Chegou ao telégrafo e escreveu: “Marechal Floriano. Amava o seu país. . mais profundos..” V O Trovador .. Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sair do poder. disse Albernaz com particular acento.... digam lá o que disserem.“Tá” nas “foias”. Vinham andando. tão tranqüilas e seguras de si. não acha? .Eu não sei. . como aquelas que espalhavam sob os . e lhe disse: .Por certo. Esta terra necessita de governo que se faça respeitar....

Da capital? . alongados para o céu.. e.O poder é o poder. concertou-se rapidamente. não “sinhô”.. camarada.Você não sabe. . Caldas? . sim. Vinham andando em demanda à estação de São Cristóvão. agora o Custódio. deram com um soldado a dormir numa moita. mas para anos. tinha uma tal ou qual segurança de si.O “homem” deve estar atrapalhado. . cerrando e tecendo a folhagem. As janelas acanhadas daquela fachada velha. Era de manhã. um ar de confiança pouco comum nas nossas habitações.. fez o general. sim “sinhô”.. guarda orgulhosa do seu mister e função. As mangueiras eram as mais gratas. Albernaz.Não sei. Que faz você aqui? Albernaz falou em tom ríspido e de comando.. de Paranaguá. . Caldas. alguma cousa de quem se sente viver. Não era belo o palácio.63 seus grandes ramos uma vasta sombra.. com a torre do relógio um pouco afastada e separada do corpo do edifício. Eram como que a guarda da antiga moradia imperial. de um louro sujo e degradado. firmes. explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. . Pouco antes de saírem da quinta. aquela parte de construção mais antiga. As palmeiras cercavam-no.É verdade.. sim “sinhô”.. A praça. um instante firme. quais são os navios que “eles” têm? . . sim “sinhô”. falando a medo. .. .Do Piauí. de um lado e outro da aléia. ele obtivera licença para ir em casa. resolveu falar-lhe com doçura. e o dia estava límpido e fresco.A “Luci” não é navio. “sinhô”. para acalmá-lo. da qual nunca sairiam desalojadas a machado.. . era até pobre e monótono. A “Luci”. mas o sono fora muito e descansava ali um pouco..Do sertão. respondendo tropegamente. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente. para séculos. O “Aquidabã”.Os “homens” desistem ou não? O general esteve um instante examinando o soldado. mas logo bambeou. uma certa dignidade. joanina. com os seus grandes penachos verdes. os ramos longos e cheios de folhas quase beijavam o chão. . e cobriam a terra com uma ogiva verde. . e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. A força se recolhera aos quartéis. fez a continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné. O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina. O almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado. Albernaz interrompeu o silêncio: . testa óssea e todo ele anguloso e desconjuntado. Era branco e tinha os cabelos alourados.Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz... dando com aqueles dous oficiais superiores. Eles lhe viam o fundo. as feições eram feias: malares salientes. As jaqueiras se espreguiçavam. .O “Aquidabã”. mas sem pressa. porém. Um “bandão” deles. hum! .Em que dará isto tudo. Pareciam que medravam sentindo-se em terra própria. Já tinha o Rio Grande.. O solo sobre o qual cresciam era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos. os andares de pequena altura impressionavam mal. muito altos. erectas. . Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado. não tinha mesmo nenhum traço de beleza. para dar à boa mãe frescura e proteção contra a inclemência do sol. os bambus se inclinavam.Abaixe a mão.Então como vão as cousas? perguntou o general. desde o portão da Cancela até à linha da estrada de ferro. para edificação de casebres. deliciosa e macia. delas. Caminhavam com pequenos passos seguros.Sei lá. todo ele. não para um instante.

sofrendo angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana. muito negra... Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ismênia. O chefe de polícia organizara a lista dos suspeitos. ouviam perguntar: “Quem é este almirante?” Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incógnito. Os militares palravam alegres. em breve. avançava que nem uma aparição sobrenatural.. Bustamante apareceu. Podem furtar-te o sabre e estás na “inácia”. um olho de ciclope.Bem. sem coragem. Um grande número de oficiais.. para se perder o emprego. a revide de pequenas implicâncias. Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que parecia fugir aos poucos do cérebro da moça.. Não me importa morrer. às ocultas. que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores: . à toa. mudando o tratamento de você para tu. . para apresentar-se. Demais surgiam as vinganças mesquinhas.. quase paternal. muitas fardas de oficiais. sem desculpa. esses bondes andam muito perto do mar. qualquer oficial. Bustamante. Trazia o seu velho uniforme do Paraguai. e mesmo apavorados. olhando com precaução para os bancos de trás. um lente e um simples empregado de escritório. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências. mas quero morrer combatendo. Havia uma única mulher na estação. Não havia distinção de posição e talentos. o comboio estremeceu todo e parou por fim. uma moça.a vida também.. acrescentou Bustamante.. A bulha de um expresso. A cidade andava inçada de secretas. a autoridade estava em todas as mãos... . Em nome do Marechal Floriano. Estava repleto. fugido. Veio chegando manso. Mereciam as mesmas perseguições do governo um pobre contínuo e um influente senador. Os funcionários disputavam-se em bajulação. e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas. era cochichando.. O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo olharam-no com mal disfarçada censura. prendia e ai de quem caía na prisão. ainda estremeciam. meu filho. vagaroso. sangrento. mas o regime já publicara o seu prólogo e todos estavam avisados. não vai comigo.. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente: . depois de ter passado. sem função pública alguma. um terror baço. morava nos arredores e vinha tomar o trem. . em virtude de seu emprego.. e os civis vinham calados e abatidos. “familiares” do Santo Ofício Republicano. de uniformes e os trilhos.Viemos pela quinta. com aquela banda roxa e casaquinha curta. sem grandeza. afastou-o de pensar na filha. não. suando gordurosamente. que. ativos. sem razão e sem responsabilidades. Você sabe. estavam na plataforma da estação.. mas não houve nunca um Fouquier-Tinville.quem sabe? . o almirante. chocalhando ferragens com estrépito. pejado de soldados. reformados. talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. lá ficava esquecido. com a sua grande lanterna na frente.Nada.Então por aqui?. honorários moravam-lhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades competentes. O general era mais conhecido.. . sem saber como. apitando com fúria e deixando fumaça pesada pelos ares que rompia.. A pequena estação tinha um razoável movimento. Quando passavam. A barretina era um tronco de cone que avançava para a frente. saltado de uma tela de Vítor Meireles. Houve execuções. ou mesmo cidadão. descansa. isso de morrer por aí. Passou o monstro.64 O general interveio então. Foi chegando. Bastava a mínima crítica.. . a locomotiva.. Se falavam. Era um terror.A cousa foi terrível.. a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens.. meus amigos. parecia ter saído. em Curuzu. Falou-lhe com brandura. Os dous generais continuaram o seu caminho e. Que é isto? indagou o honorário. É melhor ires para casa.. bufando. disse o almirante. mas ele as conteve com força. Coitada!...Conheço bem esse negócio de balas. Já vi muito fogo. Ainda estávamos no começo da revolta. Ficaria boa? Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas. Todos mandavam. em servilismo.. a liberdade. . e. O trem atracava na estação.

Apresentaram-se e. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia. cosido com as paredes. parou ainda em uma estação e foi ter à praça da República.. sinceridade.. feixes de armas ensarilhadas. também. limitado e estreito. ficaram a conversar nos corredores. todos os assassínios. no meio do retinir de espadas. simulados. pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo. todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem. como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também para a Anglicana. Fora daí não havia boa fé. O prestígio dele era. desinteresse e sinceridade.. imaginava organizar um batalhão patriótico. ai deles! O tenente não era feroz nem mau. portanto.. com inscrições em escritura fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!. uma certa esperança na ação do marechal. havia um vaivém de fardas. e Bustamante porque aprendia com ele alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.. de toques de cornetas. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o positivismo. dourados. mas. os tenentes e os capitães. da polícia. No fundo d’alma. e.. tanto assim que. No sobrado. com bastante prazer. tinha amigos lá. depois de tê-lo feito ao ajudante-general e ministro da Guerra. Estando em apuros financeiros. bandeiras. talvez lhe dessem uma esquadra a comandar. lá diz ele.65 Os militares estavam contentes. baionetas reluzindo ao sol oblíquo. não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do Moura. soltos por aí. raivoso por não poder queimá-los em autos-de-fé. O almirante.. mas era positivista e tinha da sua República uma idéia religiosa e transcendente. naqueles tempos. Piratas! Bandidos! Eu. A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que. estava gastando muito dinheiro. Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para justificar as suas idéias de governo. sem samarra. que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o enxoval de Lalá. eram heréticos interesseiros. antes bom e até generoso. um pedantismo tirânico. enorme.. via passar por seus olhos uma série enorme de réus confidentes. Albernaz e Bustamante entraram no QuartelGeneral.. condição necessária. que justificava todas as violências. de bombeiros e de batalhões patrióticos que começavam a surgir. O almirante. se os pegasse. maldição contra os insurrectos. O trem correu. Fontes estava indignado. com fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis.Hão de ver o resultado. contumazes. em tudo semelhantes aos canatos e emirados orientais. nas proximidades do gabinete do ministro. a um só tempo. no caso do marechal. É verdade que. a todo esse rebanho de civis. do exército. Misturavam-se oficiais da guarda nacional. ele os queria até. fictos e confictos. dominicano do seu barrete frígio. no meio dos quais os trajes escuros dos civis eram importunos como moscas. O governo precisava de oficiais de Marinha. a adoração do grão-fetiche. Penetraram no grande casarão. ao progresso e também ao advento do regime normal. de que já tinha o nome . uniformes de várias corporações e milícias. entretanto. todo ele era horror. canhões. Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto.. O general porque já era noivo de sua filha Lalá. fazendas multicores. Mas. quase todos estavam na revolta. . o paraíso. a religião da humanidade. Perdera-a em primeira instância. para apoiá-lo e defender o seu governo. que diabo! Se fosse um navio. relapsos. tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano.. especialmente os pequenos. enfim. os alferes. Fazia repousar nela toda a felicidade humana e não admitia que a quisessem de outra forma que não aquela que imaginava boa.. bastava coragem para combater.. em outros muitos havia sentimento mais puro. da armada. Albernaz não tinha tanta fúria contra os adversários. Depositava. o grande pátio estava cheio de soldados. e propunha os piores castigos... A sua causa não ia lá muito bem. falsos. amedrontava toda a gente. e essas divergências nada significavam para a sua idade e experiência. então sim: mas uma esquadra a cousa não era difícil. esperava obter uma outra comissão.. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo. seguiu para o Arsenal de Marinha. congesto.

com todas as vantagens do posto de coronel. quarenta e sessenta páginas. A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em biblioteca. Genelício. onde ia três vezes por semana e. prodigalizar. à sociedade. Chegava. em meia hora. graças à sua atividade e fertilidade de recursos.66 “Cruzeiro do Sul” e naturalmente seria o seu comandante. a si mesmo e à mulher. Anatole France. todo de branco com um livro aberto sob os olhos. quem é?”. ordenados. brinquedos. de cama em cama. um mundo! O seu pedantismo. o ilustre clínico. perguntando: “Como vai?” “Vou melhor seu doutor”. repita a receita. tinha que nomear. ele abria as janelas das venezianas.... fazer outra cousa. em que não havia nada de próprio. Não contente com isso escrevia artigos. ele não andava satisfeito. Não havia dia em que não comprasse livros. Nós vivemos do governo e a revolta representava uma confusão nos empregos. Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. etc. honesto e enérgico. falatórios. promoções e gratificações. daquelas descrições. doente 5. À noite. O lugar de lente é que o tentava mais. . o governo. Queria ter um cargo oficial. mas ricos de citações em francês. as dores daqueles personagens. viam-no e se dessem com ele a dormir sobre os livros?!.. Maupassant. mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante. O sono não tardava a vir ao fim da quinta página... “Ahn!” E receitava. Mas médico de um hospital particular não dá fama a ninguém: o indispensável é ser do governo. Etiologia. Obtinha isso graças à precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa. a vida.. tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros. estava bem relacionado e cotado na congregação. Profilaxia e Tratamento ou Contribuição para o Estudo da Sarna no Brasil. chegando ao gabinete receitava: “Doente nº 1. colocava na revolta a realização de risonhos anelos.. tomara até um professor de alemão. indagava: “Já está melhor?” E assim passava a visita. mas aquela história de argüição apavorava-o. espalhar. diretor ou mesmo lente da faculdade. O próprio Doutor Armando Borges. mandava o folheto. Essas secretas esperanças eram mais gerais do que se pode supor. esperava muito da energia e da decisão do governo de Floriano: esperava ser subdiretor e não podia um governo sério. acendia todos os bicos-de-gás e se punha à mesa. A ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-no. aos jornais que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano. via trinta e mais doentes.. desde que arranjasse boas recomendações pois já tinha certo nome. Daudet. cuja atividade nada tinha de guerreira. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações supririam os títulos e habilitações para ocupálas. E isso não era difícil. Tratou de encomendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com títulos trocados e afastou o sono. iludir-se. nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando estudante. respondia o sírio com voz gutural. De quando em quando. inglês e italiano. etc. além disso. De resto. precisando de simpatias e homens. metia-lhe medo. para entrar na ciência germânica. em francês. estiradas compilações. passatempos. desde que quisesse pôr ordem na sua seção. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises. da rua. senão ele não passava de um simples prático. inventar.. Médico e rico. Já era médico do Hospital Sírio. inglês e alemão. Eram romances franceses. o “operoso Doutor Armando Borges. pela fortuna da mulher. publicava um folheto. Na seguinte. Precisava. o enfermeiro dava-lhe informações. porém.. a sua falsa ciência e a pobreza de sua instrução geral faziam-no ver naquilo tudo. os sentimentos. o concurso. que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. Tinha elementos. O Cobreiro. médico. Goncourt. o doutor ia. porém. o proficiente médico dos nossos hospitais”. revelando a todos. e. As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. o interesse e o valor delas. criar e distribuir empregos. “É aquele barbado”.

dizendo que vinha. mesmo sem levantar a cabeça. A revolta veio encontrá-los assim.. verificara que aquelas cousas de amor ao estudo. O patriotismo não está na barriga. não é lá velho. Ela dissimulava os seus sentimentos... tratando de um febrão de uma órfã rica.Quem é? . O sogro suspendera a viagem à Europa. que a usura de um judeu. mas quanto estavam longe um do outro!. minha filha? . ao lado do pai.Mas não tem interesse nisso. desinteressou-se dele. Pode ainda bater-se pela República. ele não deu pelas modificações da mulher.... Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias forças e capacidades. O genro vestia-se e a filha ocupava-se com sua correspondência. Naquela carreira atropelada para o nome fácil. filhinha.. mas aquela manobra indecorosa indignou-a. disse: . enfim. feia e esmagadora.E há de ser só quem tem interesse que se deve bater pela República? interrogou o doutor.Sabes quem vem aí. disse Coleoni. Ela sentiu que tinham cortado todos os laços de afeição. que o aluguel de uma pena. mas charlatão? Era demais! Passou-lhe um pensamento mau. porém. naquela manhã. Telegrafou ao Floriano. dava mais seriedade ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.Mas não há tal. Que necessidade tinha ele disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha o privilégio de um título universitário? Tal ato pareceu à moça mais vil.67 A sua clínica. escrevendo à cabeceira da mesa de jantar. sonhamos ser Shakespeare e saímos Mal das Vinhas. com todo o luxo. Ela escrevia e o pai lia. num dado momento ele disse: . mas desculpou. neste inferno. objetou o velho. É o dever de todo o patriota.. após o almoço. que mesmo por qualquer outro motivo. Era perdoável. o modo de agir e reagir de fato sobre as idéias e sentimentos de Quaresma. pois há tanto ela rebentara. com a sobrecasaca fúnebre e a cartola reluzente na mão..Está doido. tão de acordo com a substância da vida que ele mesmo fabricara..... A moça adivinhou logo o motivo. Que tem a idade? Quarenta e poucos anos. toda a ligação moral. Todos os homens deviam ser iguais. estantes. estavam à flor da pele. secretária.. A moça que acabava de ler a carta que tinha escrito. e a ele faltavam a sagacidade e finura necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo. n’O País. e a sua fisionomia se iluminou de novo como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos. Está aqui. censurar.. livros. exceto onde o grande bigode punha sombras.. Não foi desprezo. prosperava. mais por dignidade e delicadeza. de ambições de descobertas. Mesmo quando noiva. A sala lhe parecia mais clara. tão coerente com ele mesmo. O doutor voltava já inteiramente vestido. Desde muito que a mulher lhe entrava na sua simulação de inteligência. menos ativo. . De comandita com o tutor.Que há? perguntou ele. . Per la madonna! Pois um homem que está quieto. sossegado. que se limitou a sorrir complacente: .É vem você com as suas teorias. sentiu-o. vem meter-se nesta barafunda. desde três dias. e.. Quis desaprovar.. foi um sentimento mais calmo. conforme o seu hábito. Continuavam a viver como se nada houvesse. de simpatia. mais baixo. e o doutor. mas de que valeria essa quase indignidade?. nele. a vista para a montanha. Ela tinha um gabinete. .. de interesse pela ciência. que prendiam ambos. eram superficiais.. entretanto.Decerto. destacou-se de sua pessoa.Teu padrinho. Ainda ouviu as últimas palavras do sogro. Coleoni explicou e repetiu os comentários que já fizera: . pronunciadas com aquele seu português rouco: . chegou a ganhar uns seis contos. meditava a sua ascensão social e monetária.O padrinho. era inútil mudar deste para aquele... . sentiu um grande alívio. Quando chegou a esta conclusão. mas gostava pela manhã de escrever ali. . lia recostado numa cadeira de viagem os jornais do dia. disse o doutor. Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia. nojo que ela teve pelo marido.

as deportações. Toda a cidade o tinha na consideração devida e ele quase se julgava ao termo da sua carreira. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma vitória para ele e para o violão estremecido.68 E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava. que lhe seguia a saída. Não só isso sempre acontece em toda a parte. levam a prometer o que não podem fazer. e com os finos lábios um pouco franzidos: .Não me vá comprometer. organizando o seu livro. metido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Faltava o assentimento de Botafogo. Não era. aqui e no Sul? . as nossas autoridades. cantarolando. .Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros? É monopólio de vocês o patriotismo? fez Olga. de forma a criar desesperados. atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus à mulher.Deviam continuar a presenciar as prisões. mas estava certo de obter. . cuja vista ia de Todos os Santos à Piedade. corrigindo um dos seus trabalhos. que pedem sempre mudanças e mudanças. que ele mesmo fazia. Olga? Ela se tinha levantado para acompanhar o marido.Você.. Naquela tarde estava sentado à mesa. Não lia jornais para não distrair a atenção do seu trabalho. Há dias vivia em casa. . da população inteira era pelos insurgentes. calasse as suas simpatias num mutismo prudente. Já publicara mais de um volume de canções. ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele.. Ricardo vivia ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios. Apesar de popular no lugar. A simpatia dos desinteressados. Primeiro. com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias.Decerto. no Brasil. Notara que sempre que chegava. Ela não deixava de ser. hein. e demais. e pão. há de ser assim normalmente. Gostava de passar assim dias. deitou-lhe o seu grande olhar luminoso. é uma revoltosa. abrangendo um grande trato de área edificada. conforme o ritual dos bem ou mal casados. Por esses dias o triunfo desfilava sem contestação. limitava-se ao “bom-dia” e à “boa-tarde” trocados com os vizinhos. a entorpecer. esquecidos de sua vital impotência e inutilidade. . graças à sua vida. que jantavam nas mesas sujas. pois. Só se encontra a ilusão que adoça a vida Nos lábios de Carola. e. agora pensava em publicar mais outro. de admirar que a moça tendesse para os revoltosos. . almoçando café. fechando a discussão. agarrou o violão para melhor apanhar o efeito e empacou nestes: É mais bela que Helena e Margarida. os carroceiros e trabalhadores. e Coleoni. como particularmente.Você sabe bem que eu não te comprometo. O doutor desceu a escada da varanda. Passava confinado no seu quarto. no fundo. toda a série de violências que se vêm cometendo. não encontrara pessoa alguma conhecida durante os três últimos dias. abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados. Os governos. devido a múltiplos fatores. Parou um pouco. Quando sorri meneando a ventarola. estrangeiro e conhecendo. mas não deu importância. pouco saindo. indo à tarde jantar a uma tasca próximo à estação. voltou a lê-la. aquele que compusera no sítio de Quaresma . disse o doutor.“Os lábios de Carola”. um dos últimos. ele mesmo evitava falar e. debruçada na varanda. leu toda a produção. em sua casa. os fuzilamentos. Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa tinha assentado. um panorama de casas e árvores. Por esse tempo. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade. a desmoralizar a ação da autoridade constituída. Coração dos Outros sonhava desligado das contingências terrenas.

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Nisto ouviu um tiro, depois, outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde encontrava a ilusão que adoça a vida... TERCEIRA PARTE I Patriotas Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande salão do palácio, vendo o marechal, mas sem lhe poder falar. Quase não se encontravam dificuldades para se chegar à sua presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão fácil. O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente. Não era raro ver-se pelos divãs, em outras salas, ajudantes-de-ordens, ordenanças, contínuos, cochilando, meio deitados e desabotoados. Tudo nele era desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira de rua mal varrida. Quaresma não pudera vir logo, como anunciara no telegrama. Fora preciso pôr em ordem os seus negócios, arranjar quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide mil objeções à sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade e superiores à sua força; ele, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável, necessário que toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse posto à disposição do governo, para então!... oh! Aproveitara os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nele expunham-se as medidas necessárias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade, das exações fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violências políticas. O major apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquela planície feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes, lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e plácidos que o viram partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento, era do Anastácio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal doméstico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas órbitas as escleróticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas sinais de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!... Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o palito na boca. Falou em primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham oferecer o seu braço e o seu sangue em defesa das instituições e da pátria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita. Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nela que uma escondia a outra, furtando toda ela a uma classificação honesta. Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes olhos que despediam chispas. Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquele olhar que queimava mais sedução que patriotismo. Fugia encará-la, abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na mesa... Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com um grosso e difícil sorriso de roceiro, declinou da oferta, visto a República ainda dispor de bastante força para vencer.

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A última frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente. As damas despediram-se; o marechal girou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma: - Então, Quaresma? fez ele familiarmente. O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espáduas. O marechal quase não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossílabo, cousa que Quaresma percebia pela articulação dos lábios. Começaram a sair. Apertavam a mão do ditador e, um deles, mais jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão mole, bateu-lhe no ombro com intimidade, e disse alto e com ênfase: - Energia, marechal! Aquilo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial da República, que ninguém, nem o próprio Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns até sorriram alegres por ver o califa, o cã, o emir, transmitir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno desabusado. Não se foram todos imediatamente. Um deles demorou-se mais a segredar cousas à suprema autoridade do país. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa, talim e sabre de praça de pré. Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada. Tinham todos os privilégios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o ditador e abusavam dessa situação de esteio do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira. Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a República, em artigo e fé, em feitiço, em ídolo mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes eram oblatas dignas e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade. O cadete lá estava... Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem que ia feixar em suas mãos, durante quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas fraquezas e vontades, nem nas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana. Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande “mosca”; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso - parecia não ter nervos. Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse ele de si para si. O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza de ânimo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos. Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava meses e meses sem lá ir, deixando tudo por assinar, pelo que “legou” ao seu substituto um trabalho avultadíssimo. Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas,

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certamente necessárias deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e influísse na marcha das cousas governamentais e administrativas. Dessa preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos monossílabos, levados à altura de ditos sibilinos, as famosas “encruzilhadas dos talvezes”, que tanto reagiram sobre a inteligência e imaginação nacionais, mendigas de heróis e grandes homens. Essa doentia preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele aspecto de calma superior, calma de grande homem de Estado ou de guerreiro extraordinário. Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra sedição, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas. Demais, ninguém pode admitir um homem forte, um César, um Napoleão, que permita aos subalternos aquelas intimidades deprimentes e tenha com eles as condescendências que ele tinha, consentindo que o seu nome servisse de lábaro para uma vasta série de crimes de toda a espécie. Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atmosfera de má vontade Napoleão assumiu o comando do exército da Itália. Augereau, que o chamava “general de rua”, disse a alguém, após lhe ter falado: “O homem meteu-me medo”; e o corso estava senhor do exército sem batidelas no ombro, sem delegar tácita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsáveis. De resto, a lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra bem a incerteza, a vacilação de vontade de um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos que estavam às suas ordens. Há uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, atos e gestos. Era o seu amor à família, um amor entranhado, alguma cousa de patriarcal, de antigo que já se vai esvaindo com a marcha da civilização. Em virtude de insucessos na exploração agrícola de duas das suas propriedades, a sua situação particular era precária, e não queria morrer sem deixar à família as suas propriedades agrícolas desoneradas do peso das dívidas. Honesto e probo como era, a única esperança que lhe restava repousava nas economias sobre os seus ordenados. Daí lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensável para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se tenazmente à Presidência da República. A hipoteca do “Brejão” e do “Duarte” foi o seu nariz de Cleópatra... A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse “homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo. Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possíveis, depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se ter “fabricado” à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos. A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande, o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água. Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas. Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao

com um pouco de satisfação. .Aproveita Quaresma no teu batalhão. O dia estava claro e quente...Eu! fez Quaresma estupidamente.... que o major se habituara a crer a mais rica do mundo.. ele não negaria tais esperanças e a sua ação poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Bustamante deu-se a conhecer.Vai bem. vai? O homem aproximou-se mais. situações dos subalternos com quem lidava. . segurança. Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma. .. Quaresma? fez Floriano. marechal. levando-lhes estradas. se aproximando e. um espanto. levemente. Um seu companheiro de espera. de uns tempos para cá.. o movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração apreciável. . Havia a mesma agitação de bondes. carros e carroças.Agradeço-te muito. ficara só e Quaresma avançou. desde que o marechal lhe falou familiarmente. escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra.. .. o presidente.É exato. Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. era cruel e paternal ao mesmo tempo. a lápis azul. Que posto queres? . Vocês lá se entendam.Mas nós nos conhecemos! exclamou ele. Donde? . .Então.Não me recordo.Deixa aí.Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito. O marechal ouviu-o distraído.. empregos.Que há.Trazia a Vossa Excelência até este memorial. Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal. Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora: . um quase “não me amole” e disse com preguiça a Quaresma: .Bem. Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias. porém. Bustamante? E o batalhão. alguma cousa de tremendo ameaçava todos e parecia estar suspenso no ar.. Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa. mas.Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.72 organismo aniquilado da pátria. disse a Quaresma. embora. voltando-se para Bustamante: . quando já perto. um tanto amedrontado: . Ao acabar é que deu com a desconsideração: . Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro. Tinha alguma cousa de asiático. em seguida. mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia. proteção aos fracos.. seu companheiro do Paraguai.Eles vão ver o “caboclo”. um terror. sorriu com dificuldade. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar.. quase como um terrível segredo: . O major confirmou e o presidente. com uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios.. agora Tenente-Coronel.. medidas tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. começou a considerar aquele homem pequenino. taciturno. com uma grande barba mosaica e olhos espertos. não tinha nada escrito. mas nas fisionomias. Quaresma vinha um pouco frio. nomes. ... Até à rua nada disseram um ao outro. O presidente teve um gesto de mau humor. Era o Major Bustamante. Não faz mal.. sobre aquela ponta de papel. já tivesse dúvidas a certos respeitos. Decerto. O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem. Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos.. Era a parte de cima. e assim mesmo. Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias. de pince-nez e foi-se chegando. . Precisamos de um quartel. velho amigo do marechal. Ou antes: leva-lhe este bilhete. O major há muito que o conhece? Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta. Se Vossa Excelência desse ordem. assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.

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- Da casa do General Albernaz... Não se lembra? Policarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão patriótico “Cruzeiro do Sul”. - O senhor quer fazer parte? - Pois não, fez Quaresma. - Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos auxiliar o governo... Não convém sangrar o Tesouro, não acha? - Certamente, disse com entusiasmo Quaresma. - Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil-réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não é? Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério do Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major, e a cousa pegou. A princípio, protestou, mas como teimassem deixou. - Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major. - Qual é a minha quota? - Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita? - Pois não. Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se jovialmente: - Então, major, às seis, no quartel provisório. A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant’Ana. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar. A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do quartel-general saía uma força, armas ao ombro, baionetas caladas, dançando nos ombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e mau. Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais. Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro. Voltou-se. - Oh! general! O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não trazia espada e o pince-nez continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda. - Então veio ver a cousa? - Vim. Já me apresentei ao marechal. - “Eles” vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O “caboclo” é de ferro... No Paraguai... - O senhor conheceu-o lá, não, general? - Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como encarregado das munições... É o fino o “caboclo”: não me quis no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote que eu não examine... É necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita cal por pólvora - não sabia? - Não.

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- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o “homem” quer que eu fique com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá... Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou: - Como vai a família? - Bem. Sabe que Quinota casou-se? - Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai? A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto: - Vai no mesmo. O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: “Apronta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento.” Outras vezes recortava papel, em forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu casamento. O general já consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não atingira, aniquilando-se, porém, o seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor. Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com todos os cuidados, à custa de todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras dançavam, um instante esquecidas da irmã que sofria. Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquele seu tom familiar e íntimo que usava com todos: - Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país. E os prejuízos? Um porto destes fechado a comércio nacional quantos anos de retardamento não representa! O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossível a reprodução de levantes e insurreições. - Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que mau efeito! O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário. Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. Não foi indiferença que sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o mesmo homem baixo, pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que ela conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma força estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que ele entrara naturalmente, com o seu passo miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirara a sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada: - Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo. De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o “clássico” um grande artigo sobre “Ferimentos por arma de fogo”. O seu último truc intelectual era este do clássico. Buscava nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e romances nos jornais. Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que eles. A sua sabedoria superior e o seu título “acadêmico” não podiam usar da mesma língua,

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dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéia do clássico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, em-pós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral. Gostava muito da expressão - às rebatinhas; usava-a a todo o momento e, quando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos e às suas idéias uma suficiência transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em pleno Seiscentos, prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado. A sua tradução estava quase no fim, já estava bastante prático, pois com o tempo adquirira um vocabulário suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade, logo na primeira escrita. Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente clássico para “orifício”, julgou útil a interrupção. Queria pôr “buraco”, mas era plebeu; “orifício”, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu à sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre autoridade. Dizia ela: - Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes? O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar de objetar: - Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se for assim, tudo vai por água abaixo. Quaresma acrescentou: - É em virtude das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela existe... Nas formigas, nas abelhas... - Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de assassínios, exações e violências? - Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma. O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo: - Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica iremos buscar normas de vida entre insectos? - Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura. Ele não tinha acabado a explicação e já Olga refletia: - Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá; mas não; de que vale? - Há de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidá-la. Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a sua próxima incorporação ao batalhão “Cruzeiro do Sul”. O doutor teve uma ponta de inveja, quando ele se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu. Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterrâneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor davam-lhe saudades. A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os “jacobinos”, a guarda abnegada da República, os intransigentes a cujos olhos a moderação, a tolerância e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-pátria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O

É um voluntário recalcitrante. em cruz. A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado. o Mistério. os apitos de fábricas e locomotivas. dentro daquele decoro. Enfim. corriam para dentro das lojas. as aves morrem de encontro às . lá pelos lados da Cidade Nova. Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã era verde-garrafa e tinha uns vivos azulferrete.Conheço. Quaresma. Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados: . na terra. de longe. esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes. mas dêem-me o meu violão.. Não é noite.brô”. mas foi inútil. mas com as pedras manchadas das barrelas e da água de sabão. Vê-se da praia um pequeno trecho. rogou-lhe e suplicou-lhe. coronel? continuou ele com interesse e piedade. No mar. alamares dourados e quatro estrelas prateadas. é a luz da incerteza. sujo.. aquela pasta espessa. e o odor da maresia parece mais forte com a neblina. suplicou-lhe: . mal se enxergam as partes baixas dos edifícios próximos. havia uma varanda de grade de pau e uma escada de madeira levava até lá. é a hora da angústia. É um Visionário Oito horas da manhã. Entre soldados entrava um homem. O instrutor era um sargento reformado. Uma gritaria fê-los vir até à varanda. depois da palidez do medo. então. sim. na gola. não é dia. Do lado da terra.Salve-me. escada tosca e oscilante. coberto de algas. em semelhanças de cousas. e admitido no batalhão com o posto de alferes. As fisionomias respiram aliviadas. parece que. Não se ouve a bulha: o escaler afastou-se. .. O chiar das serras vizinhas. vão surgir demônios. ambos divididos em cubículos do tamanho de camarotes de navio.. No sobrado.É o Ricardo! exclamou Quaresma. as moças davam gritinhos de gata. Entretanto. seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou: . um patriota rebelde. de uma claridade difusa. do seio da bruma. levando de quando em quando uma reflada. que gritava com uma demora majestosa: “om . ao mesmo tempo. Se uma bala zunia no alto céu azul. já sem as cordas de secar ao sol a roupa. um tanto coxo. não é o dilúculo.. Tinha o tal cortiço andar térreo e sobrado. Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel. que funcionava provisoriamente num velho cortiço condenado pela higiene. está povoada de ruídos. que é Caronte que traz a sua barca para uma das margens do Estige. Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu depois de algum tempo: . armas! O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento. a vista é impotente contra aquela treva esbranquiçada e flutuante. o que não impedia de haver jornais “jacobiníssimos” redigidos por portugueses da mais bela água. A cerração ainda envolve tudo.Eu sirvo sim. A casa da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio. luminoso. para o lado do mar. não é o crepúsculo. Ricardo. major! Quaresma chamou de parte o coronel. os guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manhã indecifrável e taciturna. e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar.. O senhor não o conhece. que se condensa ali e aqui em aparições.. servia para a instrução dos recrutas. a chorar e a implorar. contra aquela muralha de flocos e opaca. que gemia à menor passada... a Rua do Ouvidor era a mesma. é o desconhecido.. a se debater.Restituam o violão ao cabo Ricardo! II Você. Atenção! Todos perscrutam a cortina de névoa pastosa... fazia-o cabo. Os rostos estão alterados. Os soldados subiram com o “voluntário” e Ricardo logo que deu com o major.76 estrangeiro era sobretudo o português.. Para a esquerda e para a direita. Acreditase.. não há estrelas nem sol que guiem. o sangue a subir às faces pouco e pouco. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham. Há necessidade de gente. O mar está silencioso: há grandes intervalos entre o seu fraco marulho.

mas ele nada tem a ver com o mortífero aparelho. Em geral. após o rumor dos remos. major? . Já se via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco. fracamente. parece que vêm do fundo da terra ou são alucinações auditivas.Pode. vai à trigonometria.Como vais. Estão doentes ou licenciados e só ele. Assim que se viu no mato. este mesmo só à noite. O seu estudo predileto é agora artilharia. aquele amanhecer brumoso e feio era uma novidade para ele. em horas de folga. O comandante do “Cruzeiro do Sul”.77 paredes brancas das casas. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista. à geometria e à álgebra e à aritmética. A blusa era curtíssima. continua no quartel. que levava a sua casa. mas já há um major. A nossa miséria é mais completa e a falta daqueles mudos marcos da nossa atividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa. Comprou compêndios. Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma comanda. e leva assim aqueles dias de ócio guerreiro enfronhado na matemática. por modéstia. de compêndio em compêndio. mas o Estado paga o pré de quatrocentas. sungada. O seu pequeno aborrecimento é não poder. que é Quaresma. posso ir almoçar? . talvez. dous tenentes. . A unidade tem poucos oficiais e muito poucas praças. consentisse. o menestrel não se aborrece.. que não dá obediência ao patriota major.. nessa matemática rebarbativa e hostil aos cérebros que já não são moços. os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia.Bem. sozinho. soltar o peito. Um soldado entrou: . É preciso não enferrujar os dedos. o pobre homem usava aquela peça protetora como um castigo. o Bustamente da barba mosaica. de rifle à cintura e gorro à cabeça. estão a postos.. algas e sargaços. Chama-me o cabo Ricardo. o de tenentes quase. o número de alferes está justo. e um alferes. tenuemente. que. marulhando com grandes intervalos. está de parte. mas os oficiais pouco aparecem. o antigo agricultor do “Sossego”. Ricardo? . como nada se vê. macias e fragrantes. da mecânica ao cálculo e à geometria analítica. Os ruídos continuam. Alguns já cochilam. A praça saiu capengando em cima de grandes botinas. É encarregado dele o Tenente Fontes. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. Sob o fardamento de cabo. Aquela vida solta da caserna vai-lhe bem n’alma. o violão está lá dentro e. ele só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas. Ele percorre essa cadeia de ciências entrelaçadas com uma fé de inventor. sentado numa pedra. O major está no interior da casa que serve de quartel. O comandante chegou à janela. se fez simplesmente tenente-coronel. suja de bodelhas. tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade. onde ela faz sentir toda a sua força de desesperar. os punhos lhe apareciam inteiramente. lendo. O cabo Ricardo Coração dos Outros. Polidoro. contudo. vai aprendendo lentamente a servir-se da boca-de-fogo e submete-se à arrogância do subalterno. Há no destacamento um canhão Krupp. estuda artilharia. e o comandante. a medo. três alferes. Aprende uma noção elementaríssima após um rosário de consultas. Quaresma não se incomoda com isso. e olha aquela manhã angustiosa.. E o senhor. ele o experimenta. mas.Senhor comandante. cantarolando em voz baixa. da artilharia vai à balística. da balística à mecânica. e. Ricardo Coração dos Outros apareceu. O comandante do destacamento é Quaresma que. Bustamente. desce mais a escada. Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar. de quando em quando. superintendendo a vida do batalhão. outros procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que lhes umedece o rosto. A cerração se ia dissipando. Há falta de capitães. de encontro à areia da praia. como sua instrução é insuficiente. e as calças eram compridíssimas e arrastavam no chão. Aos grupos.

os Órgãos azuis.Não.. e. cargueiros a vapor. Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo e demorado: . aqueles apitos.que iam saindo da bruma.Sim.. As formas das cousas saíam modeladas do seio daquela massa de névoa pesada. e das fortalezas para o mar. Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas. vinha ver as cousas como iam. recomendou: ... . à esquerda. senhor. Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito: . lentamente. fazendo estudos práticos. olhou a praia suja e ficou admirado que o imperador a quisesse para banhos.. os guinchos tinham um acento festivo de contentamento.Ora.Viram bem.Andas aborrecido. Primeiro surgiam as partes baixas. . os navios de comércio: galeras de três mastros.. Quase todas as tardes havia bombardeio...... O Tenente Fontes. . e disse. pernoitava em casa. Niterói.... quase repentinamente. não sei.. Quaresma almoçava. A cerração se ia dissipando inteiramente. as altas. e.Bem. Cante lá. não se poderia. A neblina foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse à terra.... O soldado de vigia viu lá ao longe um vulto que se movia dentro da sombra. Para que dizer.Assim. satisfeitas. e.. Uma coisa. Porque a casa em que se acantonara o destacamento era o pavilhão do imperador. Uma madrugada. . À direita. . a ilha do Governador. alongando a vista pelo mar sossegado. não é mau. Quaresma reapareceu correndo. o homem do canhão. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista. a ilha dos Ferreiros. tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas. Dizem que no Paraguai.. Não era raro também dormir.. o pequeno destacamento pôs-se a postos e Quaresma apareceu. do mar para as fortalezas. altaneiros barcos à vela . a Gamboa. É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo.Manda-me trazer o almoço. como se o pesadelo tivesse passado. e. resvalando sobre as águas do mar. aquilo tudo tinha um ar de paisagem holandesa. e por fim. alisou o cavanhaque e disse: . o Retiro Saudoso. Quase nunca dormia ali. à luz daquela manhã atrasada. cantar um pouco. Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. havia a Saúde. ir nas mangueiras. Demorou-se e a lancha avançava. e também a ligeira fosforescência das águas. nervoso. hein? Calaram-se um pouco. chegou. Se a coisa for assim até ao fim.. em frente. assim. . E em seguida. É. entrecortado pelo resfolegar: . . As refeições eram-lhe fornecidas por um “frege” próximo e ele dormia em um quarto daquela edificação imperial.. que sim.Esperem um pouco.O senhor sabe que isso de cantar baixo é remar em seco. O soldado deu rebate. Ricardo ia partir quando o major recordou: ..Mais duas? fez admirado o major. cujas montanhas acabavam de recortar-se no céu azul.. a distância.Faça a parte.78 . a alça. O diabo é quando há tiro. não é? O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante: . situado na antiga Quinta da Ponta do Caju. O major coçou a cabeça. você pensa que está em um polígono. altos de tocar no céu. com os seus depósitos de carvão. Não trazia luz alguma: só o movimento daquela mancha escura revelava uma embarcação. por instantes. o ângulo. durante o dia. major. a Sapucaia horrenda. e. ele não estava. mas não grite. Fogo para diante! E assim era.O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante.. aí pelas horas em que não há que fazer. Aqueles chiados. major.. era o saco da Raposa. Quaresma veio até à porta. Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções. assustado. A treva ainda era profunda. major..Eu. os soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a. era uma aleluia. Ficavam nela também a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e barulhenta serraria.

Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato familiar a que estavam ligados aqueles estrondos. desculpou-se: . Não quero mais isto. e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial. Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma fração decimal. segurando o violão.. reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz. que era a que tinha feito o disparo certeiro. em torno de Ricardo Coração dos Outros. perfilado. e Ricardo. O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. a terceira filha do general Albernaz. não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura: . Fontes perfeitamente fardado. a corneta feriu o ar com a sua voz metálica. meteu uma bala no ‘Guanabara’. quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia: Prometo pelo Santíssimo Sacramento. . Com o canhão tal. Não quero. As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga. objetou Ricardo.. foi o major quem permitiu. ao encontro do major do “Cruzeiro do Sul”. a pedido da bateria do cais Pharoux. Subitamente. o forte Acadêmico fez um maravilhoso disparo.Que toque é? . armas à mão. Uma lancha avançava lentamente.. aqueles tiros. mas voluntário. Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo quadro: à sombra de uma grande árvore. o mesmo jornal retificava. sem encontrar jeito.Que é isto.Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha. vou proibir. que repousava no chão. o major perguntou: . .Bem. Os soldados já estavam nas trincheiras. tropeçando na espada venerável que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. os soldados deitados ou sentados em círculo. e o major apertando o talim. Havia uma trincheira de fardo de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos de palha. aquela solene disputa entre duas ambições. De repente. Os dous saíram.E a disciplina? E o respeito? . Quaresma continuava no seu estudo. o rapaz ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Os soldados levantaram-se todos.. então os jornais noticiavam: “Ontem. disse Quaresma. que entoava endechas magoadas. um rolar de Sísifo.79 Lá vinha uma ocasião. para a grandeza da pátria.. já disse! Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial. . e a esquerda. Fontes era noivo de Lalá. Fontes assestou o ouvido. o canhão tinha ao lado a munição necessária. Vossa Senhoria sabe que se nós não tivéssemos ordem. “Seu” Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento? O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. . não iríamos brincar.“Seu” tenente.Não temos aqui Major Quaresma. em continência. . . o Senhor Major Quaresma. com a proa alta assestada para o posto. quando aparecia uma carta de Niterói.” No dia seguinte. que acertavam. como as goelas de um animal feroz oculto entre ervas. porém. saiu de sua borda um .Não é preciso. com a mão direita no gorro.Que é isto? disse ele severamente. em pleno serviço? . depois de exame atento ao canhão. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida. e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento.Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão. disse o oficial. e considerava a ilha das Cobras. Fontes foi entrando e dizendo: . Olhava o horizonte. Ele repetiu: .Fez bem.Bem. Já proibi..Sentido.Mas. Quaresma não se deu por agastado.

Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. um divertimento da cidade. No centro da cidade. a ver. saía a pé. faziam-se também coleções das médias e com os seus estojos de metal. recuou um pouco e logo foi posto em posição. os dunkerques das casas médias. em outras. A lancha continuava a atirar. Chamavam-no “Trinta-Réis”. Ia às vezes ao teatro. com as suas campas alvas que sobem montanhas. a revolta passou a ser uma festa. e tudo isso estimulava o divertir-se. Fontes fez um disparo. Eram alfinetes de gravata. a apanhá-la como se fosse uma moeda ou guloseima. se estava. marceneiro de profissão e em atividade numa fábrica de móveis. guarneciam os jardins. como chamavam. Um herói! Passou a revolta e foi esquecido. a noite era alegre e jovial. como vasos de faiança ou estátuas. um cidadão qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O oficial acedia. quando o aborrecimento lhe vinha. e Fontes deu instruções ao seu chefe da peça. o governo pagava soldos dobrados. . as grandes. lixados. cantando. às trincheiras. tanto ele como a “Luci”. vendo o astro solitário pratear a água e encher o céu. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa. logo que Polidoro chegava. Todos se abaixaram. dos urinários. jorrar devagar. muito pesada. e. como carneiros tosquiados e limpos a pastar. só vinha à noite. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou! Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças. Mal viam o fuzilar breve e a fumaça. e foi-se embora. num segundo. O canhão vomitou o projétil. e quando acontecia cair uma. A lancha continuava a avançar impávida. engraxates. Descia a cidade e deixava o posto entregue a Polidoro ou a Fontes. a assistir o tiroteio. os “melões” e as “abóboras”. e. familiarmente. gratificações. Quaresma. aqueles ciprestes meditativos que as vigiam. voltava para o quarto da cidade ou para o posto. Os teatros eram freqüentados e os restaurants noturnos também. Raras vezes o fazia de dia. fizeram-se subscrições a seu favor.gritou uma voz. pelas praias até o Campo de São Cristóvão. gritavam: queimou! Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade. Além dos soldados. seguiam o bombardeio como uma representação de teatro: “Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá vai!” E dessa maneira a revolta ia. areados. a bala passou alto. não se metia naquele ruído de praça semi-sitiada. Em outras tardes. o mais assíduo. berloques de relógios. os jornais do tempo ocuparam-se com ele. no navio. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra caía na banalidade da repetição dos mesmos episódios.80 golfão de fumaça espessa: Queimou! . Os mais dias que passou naquele extremo da cidade não eram diferentes deste. a interessá-la. logo acabado o espetáculo. e fora um destes que gritara: queimou! E assim sempre. lá longe. feitas com as pequenas balas de fuzis. às vezes.. os rapazes como as velhas. pelas ruas dos arredores. porque Polidoro. lapiseiras.. Havia muito dinheiro. havia curiosos. a criar inimigos e admiradores. Quando se anunciava um bombardeio. Era como se fosse uma noite de luar. os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia. uma bela lancha que chegou fazer-se entidade na imaginação da urbs. entrando nos hábitos e nos costumes da cidade. inofensiva. a esperar a queda das balas. além do que havia também a morte sempre presente. porém. no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos. corriam todos em bolo. saía. A embarcação deixou de provocar a fúria do posto do Caju. atrapalhando o serviço. à paisana. Ia vendo aquela sucessão de cemitérios. A espaços. quitandeiros ficavam atrás das portadas. os pequenos garotos. vendedores de jornais. garotos. polidos. o terraço do Passeio Público se enchia. Com o tempo. Nos cais Pharoux. e como que se lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte. ornavam os consolos. zunindo. As balas ficaram na moda. das árvores.

. que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos favoritos brancos. Fontes. o comandante de Quaresma. Acabavam de jantar e jantara com o general. Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu: . as relações de mostra. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores. mas dentro do quartel.Eu também penso assim. em que ano? Se a gente diz: “No tempo de Clotário. embora no íntimo duvidosos. A pátria está logo abaixo da humanidade. pela boa caligrafia com que eram escritos os livros mestres. Caldas andava aborrecido.. entretanto. pelo rumor que corria. Havia dez dias que Quaresma o não via.. ao contrário dos seus congêneres de seita.Quantas deserções? . que a gente não sabe onde fica.. .. ele logo perguntou ao major: . Ora! disse o almirante. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma. . depois de ouvir todos. Não havia quem como ele se interessasse pelos livros.Meu caro tenente. Após os cumprimentos.Isto há de sempre ser o mesmo. nessa matéria ele podia despender toda uma energia moça. aparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo. Ninguém ali lhe podia contestar. A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda. Ele era magro e chupado. Com auxílio deles. diremos logo nós. E a sua afirmação fez calar todos. o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a fúria de Caldas. falou com unção: . O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia vice-almirante. É uma curiosa Idade Média. em face daquelas contestações..” “São Luís”. Falta-lhes patriotismo! . Bustamente.Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas. Não trabalhamos para nós. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra. de felicidade e evolução moral. parecia desinteressado da conversa. Com a sua voz arrastada e nasal.Muito. mas. ele não comandaria nem uma divisão.O almirante não deve falar assim. não se agastou. e. . para não deixar de vigiar a escrituração. . nove. acrescentou Albernaz..81 As casas tinham um aspecto fúnebre.. essa de elevação moral. moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali. aduziu ceticamente Bustamante. o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa. o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante..Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas. disse Quaresma. Bustamante era um comandante ativo.Fazem muito bem.. Uma iniqüidade! Era velho um pouco... o senhor é moço. recolhidas e concentradas. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha dado cousa alguma. a organização do seu batalhão era irrepreensível.Até hoje. almirante. aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do General Albernaz. os mapas de companhia e outros documentos. para fazer sentir nela tão forte aspecto funéreo. O tenente respondeu: . é verdade. e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lúgubre. pessimista. continuou Fontes persuasivo. com suas mãos. . mas para os outros e para os vindouros. atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos” . de ordem. Foi vindo até ao Campo.. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo. agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários. além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas. . O major nada disse. por não ter nunca comandado. as palmeiras ciciavam doridas.Eu não sei o que tem essa gente..Houve já um esboço: a Idade Média. ele próprio.Não se deve desesperar. “quis executar um senhor feudal porque . É um desertar sem nome.o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja. Eu sei o que são essas cousas..

com o olhar. enfraquecendo-se de corpo. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e o major se sentia por qualquer cousa preso à moléstia da moça..Quantos homens tem você? . vestido. Eram dez horas quando o major se despediu. de quando em quando. . O fato se espalhou pelo público que o apreciava extraordinariamente. o marechal perguntou: . semi-acesa. com falta de galhos aqui e ali.. Atravessaram o velho sítio de recreio dos imperadores. as ladroagens à mão armada dos barões. abas largas. Deitou-se um pouco. não por sono. muito quietos. Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil. Semelhava roncar. envolvidos numa branda atmosfera de sonhos e quimeras. Citam-se as epidemias de moléstias nervosas.” Objeta o fiel: “Você não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a decadência”. Bustamente não tinha opinião assentada. resfolegava. Lalá... não se conteve. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. e as outras que vinham. Ele procurava ver Ismênia. Voltou de bonde para a Ponta do Caju. mas em virtude daquela doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos. Quaresma. esteve lá! . mas o Camisão disse-me que foi arriscado. Era seu hábito sair à noite.Isto é. O senhor sabe. Quase ao despedir-se. naquela noite. O major não colhia bem a sensação transcendente.Não sei. O luar estava magnífico. e veio a fazê-lo assim: . Viu todos: Dona Maricota. disse com um longo suspiro: . e por pouco! . na sua opinião. Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior. cada vez mais abismada na sua mania. pareciam polvilhadas preciosamente de prata. O general contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquela sua desgraça íntima. Quaresma voltara ao silêncio. Vinha cheio da perturbação especial que põe em nós o luar que estava lindo. o noivo da conversa interminável. e ir de posto em posto. da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. Quaresma veio acompanhá-lo até ao bonde. os carros. Por fim. Dentro em pouco Ricardo veio chamá-lo: o marechal estava aí. falou mais. banhados pelo luar.Mas nós reconhecemos Humaitá.Hei de mandar pôr um holofote aqui. de delíquio. já devia ter feito todo o esforço para ocupar a ilha das Cobras. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de família em aventuras extraconjugais. Não tinha plano algum. disse Fontes. dormindo..82 mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas.. Não sei.Entretanto. mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma improficuidade patente. outra que ele já tinha desaparecido. As anosas mangueiras. parece que nos tiram o envoltório material e ficamos só alma. a miséria dos campônios. a arrancar.. pequenos. Quaresma veio ao seu encontro. não a tomaram.. perguntou. O marechal respondia por monossílabos preguiçosos e olhava ao redor. eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja. Um pouco afastada da estação uma locomotiva. as alucinações do milênio. as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos saxões. há dias passados. O almirante criticava severamente o governo. lentamente: . dizendo vagarosamente. levava a dar tiros à toa. de madrugada. Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. embora isso custasse rios de sangue. sempre ativa e diligente. e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista consumado. Os dous andavam. terno e leitoso. As condições naturais eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inútil. Floriano vestia chapéu de feltro mole. às vezes. mas sofria sem perceber o efeito da luz pálida e fria do luar. O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque que fora feito ao seu posto. e uma curta sobrecasaca surrada. sossegados como que dormiam.Quarenta. É uma emoção de desafogo do corpo.

era indispensável.E remédios! Cada médico receita uma cousa.Mas. marechal? Floriano respondeu lentamente. Quaresma espantou-se. A lua povoava os espaços. À proporção que falava. Quaresma.. mas não sei.Já. dão homeopatia.. como cotos de asas. não há meio! . Quaresma. encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de feltro... aquele apelo à legislação. O luar continuava lindo. Aproximaram-se do portão. a medidas governamentais. Quaresma voltou-se. O bonde chegou. O presidente aborrecia-se. . Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O general era mais alto que Quaresma. que. Eu não sei. Vossa Excelência.Já a levou a um médico especialista? . disse: . Continuaram a andar.Eu tenho experimentado tudo. espíritas..Vossa Excelência já leu o meu memorial. Bastava. pensa você. a pé. mas Floriano quase não o fez. mas não teve coragem de pronunciá-la. Aquele falatório de Quaresma. Preparou a pergunta. Um grande edifício inacabado que havia na rua parecia terminado.. está capaz de favorecer. Pareceu-lhe mais simpática a fisionomia do ditador. Tenho corrido médicos. com a sua luz emprestada. Quaresma. marechal. os feiticeiros tisanas.Mas. dizendo com aquela sua placidez de voz: . que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não havia exército que chegasse. os espíritas são os melhores. III ..Você. ousou e falou: . em vez de tributários. Era um palácio de sonho. e voltou ao mutismo... ficaremos com a nossa independência feita. Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. Albernaz reatou: . com medidas enérgicas e adequadas. se a visse. não é isso..83 O marechal mastigou um: “não é muito”. quase sem levantar o lábio pendente: . mas.... Num dado momento.. Num dado momento como que houve uma bulha atrás.Vê Vossa Excelência como é fácil erguer este país. teria de esfriar. até feiticeiros. tanto era o branco luar... Ele não podia ver bem a fisionomia do ditador.. fazia nascer sonhos em nossa alma. iam mover-lhe o pensamento. o portão estava a dous passos. Quaresma entusiasmou-se: . Tomou coragem. mas retorquiu: . de encaminhar o trabalho. Os dous se haviam encontrado na pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant’Anna. Quaresma! E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez. enfim.. aquele a tinha metida entre os ombros proeminentes. Vossa Excelência verá que tudo isto muda.Li. é um visionário.. O bonde partiu. com o seu prestígio e poder. urgia. Num dado momento. desde que se corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável às condições do país. enchia a vida.. de favorecê-lo e torná-lo remunerador. titubeou. Se lhe falasse. dava fisionomia às cousas.. o aparecimento de iniciativas. por exemplo. andando a pequenos passos e conversando. Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua... plástico e opalescente. e enquanto este tinha a cabeça sobre um pescoço alto. Se Vossa Excelência quisesse. ele se despediu do major. pois havia na sua máscara sinais do aborrecimento mais mortal. por mais que não quisesse. mais Quaresma se entusiasmava. no memorial que Vossa Excelência teve a bondade de ler. rezas e defumações. O major pensou: que é que tem? não há desrespeito algum. Desde que se cortem todos aqueles empecilhos que eu apontei. O major continuou a mastigar a sua pergunta. com vidraças e portas feitas com a luz da lua. Os edifícios da serraria pareciam cobertos de neve. Quaresma! .E Tornaram Logo Silenciosos..

. do peito para a moça.. Como que os deuses de sua infância e de sua raça. eram pretos africanos. naqueles últimos meses. Às vezes até levava-os em casa. Era de fazer refletir ver aquele homem. sempre febril. lentas e acabadas.Santo não qué dizê.. Levantou o olhar ao fim de algum tempo. saía arrastando a sua velhice e deixando naqueles dous corações uma esperança fugaz..Então. um tanto já diminuída da sua atividade e diligência. que estava um tanto plúmbeo. ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras ininteligíveis. quase com fé. para sarar a filha. Os feiticeiros tinham outros passes e as cerimônias para entrar no conhecimento das forças ocultas que nos cercam eram demoradas. Albernaz dizia a verdade. ainda certamente pouco esquecido das dores do seu longo cativeiro. de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse. Tô crotando mandinga. que. para curá-la tanto de sua loucura como da atual moléstia intercorrente. Falava da filha. a pobre Dona Maricota. tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa esquisita. quisessem vingá-lo à legendária maneira do Cristo dos Evangelhos. e disse: . E o preto obscuro. de lá para cá. Em geral. já começava a cair. olhando ternamente aquele grande rosto negro do mandingueiro. mas da saúde comum. definhando. procurar médiuns e feiticeiros. general? . muito nessa postura. Andando.Então foi feitiço que fizeram à minha filha? perguntava a senhora. gritavam: “Sai. aqueles sanguinários manipansos da África indecifrável.. Não se demorou.. como se estivesse recebendo as últimas comunicações do que não se vê nem se percebe. resíduos que tão a custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses . lançara mão de todos os recursos. da Ismênia.. velho escravo. nhanhã. Ela e o general tinham assistido à cerimônia e o amor de pais e também esse fundo de superstição que há em todos nós levavam a olhá-la com respeito. lançando mão dos resíduos de suas ingênuas crenças tribais. . ficam com uns olhos desvairados.e sacudiam as mãos. marcado com um curso governamental. . acendiam um fogareiro no quarto. as existências fora e acima da nossa. não tanto da sua moléstia mental. contra os feitiços.Foi. contra os espíritos. rapidamente. nhãnhã.Vô vê. Era uma singular situação. A doente assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se comunicavam. titio? O preto considerava um instante. contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos sem piedade e comiseração. batiam com feixes de ervas.Quem? . sim. no estado em que a menina está. Chegavam. ao lado de Quaresma. general. no intuito de descarregar sobre ela os fluidos milagrosos. onde a barba branca punha mais veneração e certa grandeza. enlanguescendo. piorava sensivelmente. a daquele preto africano. O ritual era complicado e tinha a sua demora. vivendo de cama.Meu médico já me aconselhou isso. Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio. A mulher não quer e agora mesmo. e dizia com a sua majestade de africano: .. perguntava: . que tinham às suas ordens os seres imateriais. não vale a pena. porém..84 E levantou os olhos para o céu. Na saída.. ..Por que não a recolhe a uma casa de saúde. fixos. o general lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo contra a ciência. irmão!” . o pince-nez não permitia.e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro tempo. arrancado há um meio século dos confins da África. nervosamente. davam um estremeção. marchando a passos largos para o abraço frio da morte. Os médiuns chegavam perto da moça.

porém.85 O major não sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecia-lhe toda e qualquer palavra de consolo parva e idiota. A ocupação deixou lá a mais execranda memória e até hoje os seus habitantes ainda se recordam dolorosamente de um capitão. É moço. Como o do seu irmão. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho: . confiante e justo. mas os revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma válvula ou um outro acidente qualquer. raso com a água. o fim do “Javari” ainda está envolvido no mistério. A revolta já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas.. tinham. Os legalistas afirmaram que foi uma bala de Gragoatá. chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria.. uma energia. uma das poucas páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões. os crimes que tinham assinalado esses dous marcos de atividade guerreira do governo. As forças revoltosas pareciam não ter enfranquecido. Era um monitor. era destruído pelo fogo e pelo machado. Entretanto. Ele sorria diabolicamente e familiarmente regateava: .Você não deixa por menos?. As forças de terra detestavam-no particularmente.. cada espírita. O pescador voltava e ficava um tempo em pé. Quaresma foi procurar o Doutor Armando.Quem é? .Bem. mas o que sobremodo enraivecia os adversários. Carapebas! Ora! . o “Solimões”. era ele não ter quase borda acima d’água..Leve isso lá dentro. verdadeiramente isso. ficar quase ao nível do mar e fugir assim aos tiros incertos de terra. Ele falava na porta de casa.. com uma tampa de peixe. sendo um destes o “Javari”. e o capitão chamava o pobre homem: .Venha cá! O homem aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava: . quem sabe lá! Não acha? Pode ser. Cada médico que consultava. o senhor conhece. e só a Lapa resistia tenazmente.. uma espécie de sáurio ou quelônio de ferro. Está caro. o senhor permite que eu a faça ver por um médico? . Isso é peixe ordinário. foi a pique. Passava um pescador.. pois de todos eles esperava o milagre. . não é? O general consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. As violências. Não se soube e até hoje não foi esclarecido por que foi.Três mil-réis. capitão vá lá por dous e quinhentos. Moreira César deixou boas recordações de si e ainda hoje há lá quem se lembre dele. tinham a vasta baía e a barra apertada.. uma vontade.General. Nesse mesmo dia. os revoltosos. No Sul. de construção francesa. chato. demonstrando que esperava o dinheiro.Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.Quanto quer por isso? . porém. As suas máquinas não funcionavam e a grande tartaruga vinha colocar-se em posição de combate com auxílio de um rebocador. O que não podia ser transplantado. agradecido por este ou aquele benefício que o famoso coronel lhe prestou. Afinal disse: . roupas e outros haveres. porque era sereno. Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de móveis. A sua artilharia era temida. por onde saíam e entravam. A ilha do Governador tinha sido ocupada e Magé tomado. sem temer o estorvo das fortalezas. a insurreição chegava às portas de São Paulo. .É o marido de minha afilhada. Um dia em que estava nas proximidades de Villegaignon. Ortiz. patriótico ou da guarda nacional. pela sua ferocidade e insofrido gosto pelo saque e outras vexações. que desapareceu nas costas de cabo Polônio. cada feiticeiro reanimava-o. capitão. perdido dous navios. cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas.. A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro..

dar arras de sua dedicação à causa legal. tanta arrogância nos funcionários que ele não se animava a ir obter o documento. em frente à Saúde e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos. a passagem de balas. para desinteressar-se dele ou mantê-lo na famosa galeria nº 7. não era marinheiro e não sabia. era bem possível que uma ou outra parte se ativessem a isso. não esquecendo também de passear pelos corredores do Itamarati. quando o governo provisório expediu o famoso decreto de naturalização. Deixara lá Polidoro. Como o hospital. o doutor tinha saído. pois até agora o governo não aceitara os seus oferecimentos de auxiliar o tratamento dos feridos. para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos. e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento. encaminhou-se para a casa do seu compadre. Fora nomeado médico do Hospital de Santa Bárbara. Verdade é que ele era italiano e a Itália já fizera ver ao ditador que era uma grande potência. em prisão de Estado. Ele nada tinha com ela. que. de um divertimento qualquer em que a morte não estivesse presente. Coleoni ainda não decidira a sua viagem à Europa. de quando em quando. andava macambúzio. não o levassem a sofrer maus quartos de hora. toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. de uma justa. caso fosse preso. não tendo protestado manter a sua nacionalidade. Mas. Naqueles tempos. e viera receber dinheiro. ido dar volta pela cidade. Havia tanta má vontade com os estrangeiros. e todos esses que ele sentia. interpretados por qualquer funcionário zeloso e dedicado. temendo que uma palavra. E o doutor tinha razão. até ali. se era muito instado. A época era de susto e temor. ele nada tinha que fazer. pois os outros oficiais estavam doentes ou licenciados. mas no caso de que se lembrava. porém.86 Quaresma permanecia de guarnição no Caju. ele se afastava um pouco e ensaiava a voz. De resto. dentro da baía. após despedir-se de Albernaz. na vaga de um colega. por uma penada mágica. tirado na chefatura de polícia. simplesmente. Floriano pagara a quantia de cem contos. como se fossem feições de uma festa. e. se os representantes diplomáticos de seu país tomariam interesse pela sua liberdade. que um olhar. resolveu demorar-se mais. naturalmente. aquela exigência de passaporte. porém. Hesitava. secretários e outras pessoas influentes no ânimo de Floriano. demitido a bem do serviço público como suspeito por ter ido visitar um amigo na prisão. e. sendo uma espécie de inspetor-geral. ficasse no ilhéu do mesmo nome. e. Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue. só os comunicava à filha. porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa graduação e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes. da Casa de Correição. extinta por uma descarga das forças legais. para minorar-lhe o desgosto. de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos estrangeiros. dormira aquela noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até à tarde. não dissera a ninguém a sua opinião. A vida do pobre menestrel era assim de um melro engaiolado. ao contrário de seus hábitos. dava-lhe susto. Tinham-lhe tirado o sangue. tratava-se de um marinheiro. encostado a um tronco de árvore maldizendo no fundo de si a incompreensão dos homens e os caprichos do destino. esperando o fim da rebelião que não parecia estar próximo. Fontes notara a sua tristeza. . conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio. A moça viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava ultimamente. que um gesto. as descargas das lanchas. transformada. O major foi encontrar pai e filha em casa. e Fontes. apelava para a sua condição de estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. obrigara a Bustamante a fazê-lo sargento. e. Não foi sem custo. o motivo de viver. Ele. por cuja vida. e passava os dias taciturno. a fim de cumprir a promessa que fizera ao general. Ricardo Coração dos Outros. já obtivera uma graça governamental. fazendo-se ver pelos ajudantes-deordens. porque o genro cada vez mais se fazia florianista e jacobino. desde o dia da proibição de tocar violão. Coleoni.

Via bem o que fazia o desespero da moça. . uma injúria. por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos. mas via melhor a causa. larga e humana. não é nada disso: é simplesmente casamento. Ia ver se arranjava uma pequena licença..Esta mesmo.. perdeu a dureza de que se revestira. fisionomias com quem se encontrava diariamente há tantos anos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituísse a calma e a paz de espírito.A segunda. Ultimamente o major tinha diminuído um pouco o interesse pela moça. quando lutava pela fortuna se fez duro e áspero. aquela fuga do noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nela se abismou nessa idéia desesperada. Vivia nessa alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreensões. porém.. . O quartel ainda ficava no velho cortiço condenado pela higiene. três vezes por semana. por carta.” Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negócio de balas é assim como a chuva?!.87 Tanto mais que o via apreensivo.. não é maternidade. mas em seguida considerava: o homem está atrapalhado. sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades. Graças à frouxidão.. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a idéia que ele fazia do ditador. que os não examinava sequer. Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o chamava de visionário.Ahn!. lá para as bandas da Cidade Nova. e de quem tinha notícias. que não avaliava o alcance dos seus projetos. se não tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de Albernaz. contudo ele tinha necessidade de ver tanto ela como o Anastácio. notados por sua afilhada na sua fisionomia já um pouco acabrunhada. Era pois para sustentar tal homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era. . pelo enriquecimento do país. Eram elas satisfatórias. Na última carta que recebera de Dona Adelaide. Quaresma explicasse o motivo de sua visita. tirando o chapéu da cabeça baixa. fazendo do casamento o pólo e fim da vida.Aquela que estava para casar com o dentista? . havia uma frase de que. pela sua vida feliz e abundante. fez uma imensa bulha com a arma e ele entrou. . a ponto de parecer uma desonra. Policarpo. pois estava a paisana e tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as susceptibilidades republicanas dos jacobinos. mas logo que se viu rico. Toma muita cautela. pois percebia bem que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo. passar pelo quartel do seu batalhão.. Ela pronunciou este “ahn” muito longo e profundo.Mas qual delas? perguntou a afilhada. Sendo bom de fundo. naquela obrigação que incrustam no espírito das meninas. para visitar a irmã que deixara lá. Não tardou. ficar solteira. O casamento já não é mais amor. pois. andava atormentado com o seu caso de consciência.. Não se demorou muito na casa do compadre. ele queria. abrangia-a ainda na sua bondade geral. uma coisa vazia. que elas se devem casar a todo o custo. à pobreza intelectual e fraqueza de energia vital de Ismênia. que. havia instantes que lhe vinha um mortal desespero. Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se.. Na verdade o major tinha um espinho n’alma. . entretanto. Assim que Quaresma apontou na esquina. antes de voltar ao Caju. no momento. no “Sossego”. a Ismênia. o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural? Pensando assim. desinteressado daquelas altas cousas de governo como se não o fosse!. abandonando os episódios da sua vida militar. mais tarde com certeza ele fará a cousa. deixando perceber numa frase e noutra o desânimo e desesperança. se lembrava sorrindo: “Não te exponhas muito. se não se interessava pela sorte deles. uma raiva de si mesmo. não pode agora. desânimo e desesperança. como se pusesse nele tudo que queria dizer sobre o caso. a sentinela deu um grande berro.

a ponto de quase não poder sentar-se na cama. favorito e amado do ditador.. fazia-o uma espécie de batalhão da guarda. Correu a uma livraria e comprou livros sobre infantaria. Dona Maricota. mais belos se faziam quando cercavam a palidez de sua face. precisava também dos regulamentos: arranjaria no quartel-general. nem se aborreceu. tinha-lhe diminuído a lassidão.. do Presidente. sabia? . no Café do Rio. Quaresma não se espantou. Ele desceu até à cidade e foi ao correio. do chefe supremo. Não se assuste. Logo que viu Quaresma entrar. e o Coronel Inocêncio explicou a alegria: . era do Itamarati. as irmãs se desinteressavam um pouco. majestade e demora. Tenho que acabar a organização da unidade e não posso. O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general. Antes de chegar ao correio. tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes. . talvez. . Bustamente estava no seu cubículo. a consolá-la. sargento! É como mandam as instruções de 1864.Tinta vermelha. Havia alguns tiros espaçados. Quaresma lembrou-se de sua partida. Podia ser.. E o senhor não vai? . os levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação definitiva da República.. mas assim não se deu.... o instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados gritos: ombroôô. E passou o dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias. Ele levava a íntima convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma cousa. disse Bustamante.. armas! mei-ããã volta. .Para onde? . Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?.A revolta ainda não acabou? . o seu organismo caía. O instrutor coxo continuava. a gritar: om-brôôô. estava sempre no quarto da filha. e assim foi que. bebeu um pouco d’água.. . quando se casa Lalá? .. coronel.O major é que vai comandar o corpo.. Parecia que assim dava mais importância a si mesmo e ao seu batalhão. alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado esquerdo. examinava a escrita de um livro quarteleiro. Para onde ia? Para o Sul.. pois as exigências de sua mocidade levavam-nas para outros lados. Raro era falar muito.. Com auxílio de um sargento. o comandante exclamou radiante: . às vezes.Sabe que temos de marchar? .Mamãe. mais tarde irei lá ter. Era sua mãe quem mais junto a ela vivia. irrepreensível no seu uniforme verde-garrafa.. Percebeu que era impossível obter a licença e também necessário mudar os seus estudos: da artilharia.Não. armas! A sentinela não pôde fazer a bulha da entrada. Não sabia. com reflexos de ouro.. porque só viu o major quando já ia longe. volver! subiam no céu e ecoavam longamente pelos muros da antiga estalagem. para Magé. Recebi ordem do Itamarati... e.. como que se sentia um tanto culpada pela sua infelicidade.Não sei. se a mania parecia um pouco atenuada. tinha que passar para a infantaria.Quando se acabar a revolta. animá-la e.. tirado o mortiço dos olhos e os seu lindos cabelos castanhos. Ele não dizia nunca do quartel-general. mais conhecido por gabinete. quando a olhava muito. para Niterói? Não sabia... alamares dourados e vivos azul-ferrete. Começava a tarde...O major adivinhou! Quaresma descansou placidamente o chapéu. A moça continuou a definhar. quando Quaresma saiu do quartel.. Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante. naquele dia.88 No pátio. A moléstia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia. com força. nem mesmo do ministro da Guerra. se espantou muito Dona Maricota com a loquacidade da filha.Não. Estava magra e fraca. Mais tarde.

e foi ver a pobre moça. Pouco mudara. mamãe. coberta de flores. seu pai vai levar você para Minas. Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e se queriam aproximar. ela parecia melhor. A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs.uma multidão que trepava.. o seu colo muito branco. Iludindo sua mãe... vieram recordações do seu casamento falhado. Quando a vieram ver. As palavras saíram-lhe dos lábios. orgulhosos. deu um ai e caiu de costas na cama. e de muito. Teve uma fraqueza. e ela ia para a cova com a insignificância. como se se tratasse de uma criança. seguras. era a Ismênida dolente e pobre de nervos.89 A mãe respondeu-lhe e ela esteve um instante calada. docemente. com lágrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha falava a verdade. lutava por espaço.Bem. transparecia repugnância por estarem perto.. De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. e.Qual. Sinhá. estava morta.Mamãe. olhando o teto.Eu sei. com as pernas para fora. Suponho que é verdade: o que é que você quer? . do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti. vestida de noiva. falava com discernimento. você engorda.. continuava a repeti-lo pacientemente. Pôs a saia. A mãe saiu do quarto. Quis ainda ver se a dissuadia daquele pensamento. o seu traje de noiva. A mãe dizia-lhe tudo isso devagar. .. tinha conseguido consultar Mme. com um ar imaculado de imagem. Distraíram-se. Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio. mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa à senhora. mas veio. Era ela mesma ali. porém. se tocava. com os seus traços miúdos e os seus lindos cabelos. Ah! Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho. uma cousa. entretanto. alegres e tristes. Com que indiferença ela lhe respondeu: não volta! Aquilo doeu-lhe. porém. atravessar pelas ruas de túmulos . por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto. Ismênia despertou: viu. pois não encontrara colete. Contemplando aqueles tristes restos. Olhou em redor. serenamente: . por aí.. saltava-lhe do corpinho.Surpreendeu-se. Chegou-lhe o desejo de vesti-lo. ele não gostava muito dessa cerimônia. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente: . minha filha. Lembrou-se do seu noivo. Elas foram lá ao quarto várias vezes e parecia dormir. ir vestida de noiva. com a inocência e a falta de acento próprio que tinha tido em vida.. como nos dias de suas melhores festas. Qual morrer! Você vai ficar boa.Não diga isso. Havia ali. sentava-se à cama e conversava com prazer. toma forças.. na estreiteza da várzea e nas encostas das colinas. alisando-lhe a face com a mão. . Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplá-lo. com um leve respirar espaçado.. mas não se recordou com ódio. troçar. Ismêndia. acompanhada por uma criada. Não tardou muito a se verificar. Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do cemitério... O véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente. . no caixão.. adiantou-se Dona Maricota. havia túmulos arrogantes. e. como um adejo de borboleta. e que a tivesse impressionado. O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia. A morte tinha fixado a sua pequena beleza e o seu aspecto pueril. em outras. antes como se fosse um lugar visto há muito tempo. pôs-se a dormir. vaidosos. doce e naturais. que estava dentro daquelas quatro tábuas. Quaresma foi ao enterro. Teve vontade de vê-lo mais de perto. humildes.. muito branco e redondo.. Que mulher má! Desde esse dia. Dona Maricota ainda quis brincar. e foi ao espelho. após essa contemplação disse à mãe: .Eu quero. repulsões. Viu os seu ombros nus. desde alguns dias. a filha.. solicitações incompreensíveis. Eu vou morrer. O Doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela quarta vez. deu com a porta semicerrada e levantou-se para fechá-la. simpatias e antipatias. voltou-se para o outro lado. comovida. naquele mudo laboratório de decomposições. mamãe.

sobrenomes. exprimindo uma grande contensão. chorando. eram pirâmides de pedra tosca.Eu. No corredor. um esforço extraordinário. cruzes e inscrições. As grinaldas foram aparecendo e sendo penduradas nas extremidades das colunas do coche: “À minha querida filha”. e tudo tranqüilo. de quando em quando. O general não respondeu. passou.. com vasos. foi saindo com o chapéu na mão. Tudo é desconhecido. Todo de preto.. se fosse você. A mãe levantou-se. Não lhe fora possível deixar de ir trabalhar. o lenço aos olhos já secos. não comprava lá. As inscrições exuberam: são longas. E lá ia aquela moça por ali afora para o buraco escuro. não se pode mais conhecer e é lama pútrida. tendo ao lado Lalá. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e faziam inocentes comentários sobre os dourados e enfeites.. a de olhos maliciosos e quentes. . É um relaxamento. A Estefânia. As irmãs iam e vinham. cochilava a uma cadeira. de sua alma! Quaresma quis afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. onde Dona Maricota também estava.É isto.. está aí o coche. sereno e calmo.. . O seu pince-nez azulado também parecia de luto. Não há meio da Marinha mandar os processos certos. ao fim dos fins. “À minha irmã”. Genelício tomou um partido: foi retirando os círios de ao redor do caixão. Quaresma ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as esculturas que se amontoavam. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. É caro! Vai ao “Bonheur des Dames”. Na rua parecia que havia festa. de seus sentimentos. Na sala de jantar. ele tinha afivelado ao rosto a mais profunda máscara de tristeza. nem uma celebridade. mesmo já mortos. ainda ouviu Estefânia dizer a alguém: o coche é bonito. O governo está exausto. com letras douradas. para fugir ao anonimato do túmulo. disse ele. a doutora. Bustamente e Caldas continuavam a conversar baixo. afastados. não está lá o Doutor Genelício. um serviço urgente fizera-o indispensável na repartição. O tecido do céu se tinha adelgaçado. Caldas e Bustamante conversavam baixo. O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. . e quando Quaresma passou. moviam-se lentamente ao leve vento que soprava. As fitas roxas e pretas..Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui. Tinha uma tranqüilidade quase indiferente. O major ficou na janela que dava para o quintal. toda a certidão de idade do morto que. o azul estava sedoso e fino. O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. nada se faz. E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido. Ele estivera na sala de visitas. pôde ouvir o almirante dizer: . veio até ao esquife. que levava. cousas barrocas e delirantes. Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro. noutros. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua... esteve um instante parada e logo caiu na cadeira. são breves. estava o general silencioso. estava deveras combalido. beijou o cadáver: minha filha! Quaresma adiantou-se. ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas. Os seus cabelos já tinham muitos fios de prata. em alguns túmulos. têm datas.. todos aqueles que querem fugir do túmulo para a memória dos vivos são anódinos felizes e medíocres existências que passaram pelo mundo sem ser notadas.. retratos. filiações. Quinota chegou à sala de jantar. O Lulu. a quem aquela dizia: . sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa. têm nomes. fardado do colégio. lá embaixo.Papai. Falou à mulher que se ergueu com a face contraída. parece que continuam a viver. Não deu um passo. um desses nomes que enchem décadas e.. alguns choravam. Todos estavam vendo sem saber o que fazer. tendo ao lado Fontes e outros amigos.. com fumo no braço. uma notabilidade.90 ressumava o esforço. para escapar ao nivelamento da morte. Saiu. às vezes. general. caramanchões extravagantes. complicações de ornatos. para o fim.

o seu vício. à espera do que der e vier. de forma que. fugindo à regularidade.. ruflando estrepitosamente. Para a monótona vida que levava Dona Adelaide. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de Felizardo. como os animais da vizinhança a tivessem um dia invadido. não obstante ter à mão bambus à vontade. as aves de Vênus. houve um traço-de-união que os reconciliou e os fez entenderem-se. A revolta tinha tido sobre a política local efeito pacificador.. de método. Tinha uma horta que disputava diariamente às saúvas. com guarnições de galões dourados. alguns pombos imaculadamente brancos. tábuas de caixão. folhas de coqueiros. O candidato foi imposto pelo governo central e as eleições chegaram. cobertos com uma rede preta. a Sinhá Chica. entre os dous poderosos contendores. Tudo aquilo ia pra terra. uma teimosia de caduco. e assim ia saltando de trecho em trecho. um instante unidos. do aparentemente fácil. espadins e gibão. espécie de Medéia esquelética. e. IV O Boqueirão O Sítio de Quaresma. das urtigas e outros arbustos. com uma energia e bravura que sorriam aos fracos expedientes da inteligência crestada do antigo escravo. quase sem bater asas. o Doutor Campos e o Tenente Antonino. ruços. todo roxo. outro pedaço. uma velha cafuza. com calças bombachas e grandes bengalões de pequiá. Aqueles que iam acompanhar até ao cemitério procuravam os seus carros. em direção à seção eleitoral que lhe ficava nas proximidades. Era a sua mania. Não se sabe bem donde saem tantos tipos exóticos. e. As janelas se povoaram. ergueram o vôo. mas baldo de iniciativa. irregulares. mais terríveis e depredadoras. há chapéus de seda . tanto no falar. foi um divertimento. como nos canteiros que traçava. incapaz de achar meios eficazes de batê-las ou afungentá-las. devastando tudo. à simetria. de um lado e doutro da rua. A esse tempo. cujos cavalos.91 Apareceu o caixão.todo um museu de indumentária que aqueles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e estradas poeirentas das vilas e lugarejos. cortar febres. menores ali. vencendo obstáculos. Os arredores da casa ofereciam um aspecto desolador. É um momento bem curioso esse das eleições na roça. noutro dia ali. na vizinhança. com um horror artístico. Há sobrecasacas de cintura. por sua porteira. do carrapicho. apesar dos esforços de Anastácio. Não havia quem como ela soubesse rezar dores. ele a protegeu pacientemente com uma cerca de materiais mais inconcebíveis: latas de querosene desdobradas. caibros bons. restos de seara. A erva daninha crescia e cobria tudo. . voltava aos poucos ao estado de abandono em que ele o encontrara. Ela passava longos e tristes dias naquele isolamento. Ao osso que ambos disputavam encarniçadamente. Na sua inteligência havia uma necessidade do tortuoso. escarvavam o chão cheios de impaciência. deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos. chegou um outro mais forte que pôs em perigo a segurança de ambos e eles se puseram em expectativa. em Curuzu. Todos os partidos se fizeram dedicadamente governistas. Embarcaram todos. sem fazer trabalho que se visse. Entretanto ele cultivava. sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana. permitindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que não condizia com o seu trabalho efetivo. De tal forma são eles esquisitos que se pode mesmo esperar que apareçam calções e bofes de renda. até os araçazeiros depenavam. com grandes rodeios. lá vai o enterro da moça!” O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuário. há calças boca de sino. Não faltam também os valentões. Um dia capinava aqui. um menino na casa próxima gritou da rua para o interior: “Mamãe. em tudo ele punha esse jeito de sua psique. As plantações que fizera tinham desaparecido na invasão do capim. maiores aqui. para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses. cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o município. brotos de fruteiras. ao paralelismo. de continuidade no esforço. esse desfile de manequins de museu. muito brilhantes. As formigas voltaram também. e o enterro rodou.

. Enquanto a terapêutica fluídica ou herbácea de Sinhá Chica atendia aos miseráveis. Contavam-se dela milagres. o proprietário já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes de Sinhá Chica. um de um grupo passava para o outro. e era contado em toda a parte e a toda a hora. . Seria a impopularidade. abismada nos misteriosos poderes dos feitiços. sujeitos a fugirem aos exorcismos. Na redondeza. todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes. Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradável. o famoso capelão das ladainhas. ali nascida ou criada. não se resumia só na gente pobre da terra. encarregado dos batizados e casamentos. aos vinte. pois toda a comunicação com Deus e o invisível se fazia por intermédio de Sinhá Chica ou do Apolinário. por toda a parte. aos cinco. devagar. A velha lá foi. Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento doméstico em cruz. nas incuráveis. cobrindo as folhas e os colmos. portugueses e espanhóis. sentada sobre as pernas cruzadas. ainda vivem os manitus e manipansos. nas complicadas. embora não soubesse ler. entre a gente pobre e mesmo remediada. aos pobretões. entretanto. O Doutor Campos não tinha absolutamente nenhuma espécie de ciúme dessa rival. Às vezes. O vigário ficava relegado a um papel de funcionário. aos dez. sobre as forças ocultas. Os vermes haviam dado num feijoal. os mandamentos. quando as ervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pílulas do doutor eram impotentes. pelas capoeiras. Além desse saber que a fazia estimada e respeitável. mas também por aquela estranha superstição européia de que todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria.toda aquela drogaria que crescia pelos campos. italianos. A da Sinhá Chica. É de dever falar em casamento. balbuciando preces que afugentavam o espírito maligno que estava ali. Um dos mais curiosos. aduzindo a eles interpretações suas e interpolações pitorescas. porque a nossa gente pobre faz uso reduzido de tal sacramento e a simples mancebia. não tanto pelo preço ou contágio das crenças ambientes. deixou uma extremidade aberta e colocou-se na oposta a rezar. aos milheiros. A sua clientela. era ela o forte poder espiritual da terra. ele era político. benzeduras e fumigações. e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro. as duas medicinas coexistem sem raiva e ambas atendem às necessidades mentais e econômicas da população. que se socorriam da sua força sobrenatural. tinha também a habilidade de assistir partos. denunciadoras do seu estranho poder quase mágico. mas bem podiam ser esquecidos. num rebanho moroso e serpejante. olhos baixos. substitui a solene instituição católica. parecendo esmalte de olhos de múmia. aos quatro. repetidas vezes. aos dous.92 curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais: a língua-de-vaca. Os vermes. Não esquecia também os santos. sobre a sede da dor ou da tarefa. e um só não ficou. que vedava o exercício de sua transcendente medicina. cuja evolução mental exigia a medicina regular e oficial. quase grátis. o cipóchumbo . rezando em voz baixa.. era forte no catecismo e conhecia a história sagrada aos pedaços. a santa madre igreja. por contágio ou herança. a do Doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos. que nos perseguem ou nos auxiliam. vitórias extraordinárias. Pôs cruzes de gravetos pelas bordas da roça. era nas moléstias graves. Com o Apolinário. foram saindo na sua frente. assim como se fizesse uma cerca de invisível material que nelas se apoiasse. as orações ortodoxas. espécie de oficial de registro civil. fixos. ia ao encontro da população pobre. Armou-se de um pequeno desdém pelo poder sobre-humano da mulher. mas não apelou nunca para o arsenal de leis. tanto ela era encarquilhada e seca. daquela em cujos cérebros. Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino. a silvina. de fraco brilho. consistia no afastamento das lagartas. Não tardou o milagre a verificar-se. havia mesmo recém-chegados de outros ares. No interior. e pelos troncos de árvores. como se fossem tocados pela vara de um pastor.

e. tinha de sopetão outro acento. eu duvido. quase sempre nos dias de festa e domingos. Só agora posso responder-te a carta que recebi há quase duas semanas. a facão. Justamente quando ela me chegou às mãos. saíam com a “harmônica” a tocar peças.. duvido da sua razão de ser.. a imprevidência. moles. passando os dias pelos matos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já tinha acabado. Eram. ferimento ligeiro é verdade. não era mais confiante.93 Felizardo. cochila. bracejando angustiosamente para o céu mudo.. à noite. Dona Adelaide não tinha nem gosto nem atividade para superintender aqueles serviços e fruir a poesia da roça. e. era à noite. a machado. orçava pelos vinte anos. Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta. De quando em quando. Fiquei com um horror à guerra que ninguém pode avaliar. porém. Uma confusão. raramente lá apareciam. entretanto. fazendo promessas. A ausência de Quaresma trouxera para o seu sítio essa atmosfera geral da roça. chorões sinistros. Oh!. imprecações . que não haviam ainda servido. sendo a presença deles muito requestada nos bailes da vizinhança. uma cousa pré-histórica. no que eram exímios. Embora seus pais vivessem em casa de Quaresma. Tudo aí dorme. essa espécie de desânimo doentio. que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pai. que tinham chegado com a relva reluzente. a Índia apresentará o aspecto cataléptico do nosso interior. sem força e sem crenças. se aparecia. O “Sossego” parecia dormir. Vivia num constante pavor. no nosso. Essa atonia da nossa população. a coronhadas. de um brilho azulado e doce. há fuga para o sonho. naqueles há revolta. nem mesmo a da feitiçaria. a espaços.. a ponto de não terem medo do recrutamento. mas o trabalho continuado. Máquinas agrícolas. duvido da justiça disso tudo. Eu duvido. com um lenço de cores vivas. traía desânimo. faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade do valor. José. mas que me levou à cama e tratar-me-á uma convalescença longa. o marido dela. A última recebida. mesmo desespero. das rezas e benzeduras. “Querida Adelaide. passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má.todo esse hino matinal de vida. ambos inertes.. com as suas lindas flores rosadas e brancas que. caíam docemente como aves feridas. a Polônia.. a Irlanda. estavam hediondos e morriam de tédio no abandono em que jaziam. satisfeitos. repugnava-lhes à natureza. à menor bulha ouvida. o esvoaçar dos pombos . dormia vestido. Que combate. voltavam para casa alegres. Tinham dous filhos.. se o faziam. aparecia pouco em casa de Quaresma. um infernal zunir de balas. enferrujavam com a etiqueta da casa.. parece morto. de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o chilreio álacre do passaredo. todo o dia. um vidro de água-de-colônia. mas que tristeza de gente! Ajuntavam à depressão moral dos pais uma pobreza de vigor físico e uma indolência repugnante.. Comprava os gêneros na venda e não se incomodava com as cousas do sítio.. assim de quinze em quinze dias.. Filha: um combate de trogloditas. de trabalho. Parece que nem um dos grandes países oprimidos. bugigangas que denunciavam ainda neles gostos bastantes selvagens. Passavam então uma semana em casa. à espera que o príncipe o viesse despertar. desalento. a dormir ou perambular pelas estradas e vendas. Levavam o descuido da vida. como uma pena ou castigo. a poesia e o viço sedutor de plena natureza. entusiástica.. um espelho. Eram dous rapazes: o mais velho. Aqueles arados de ponta de aço. acabava de ser ferido. Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho contínuo. galgando a janela e embrenhando-se na capoeira. De manhã. Ansiava pela volta do irmão. duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de .e tudo isto no seio da treva profunda da noite. de indiferença nirvanesca por tudo e todas as cousas cercam de uma caligem de tristreza desesperada a nossa raça e tira-lhe o encanto. às quais ele respondia aconselhando calma. dorme-se. de lealdade e bondade. dormir de encantamento. capazes de dedicação. Sofria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. e ninguém sabia ver as paineiras em flor. era porque de todo não tinham que comer. milha filha! Que horror! Quando me lembro dele. não se ouvia mais o cacarejar das aves no galinheiro. escrevia-lhe cartas desesperadas.

Os hospitais em que se tratavam estavam separados pela baía.. passavam-lhe pelos olhos e não viu.... foram estragados. Assim.... a revolta na baía chegava ao fim.. porém...... toda a gente já pressentia isso e queria esse alívio.. delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos.... Eu matei. depois dos sacolejamentos por que vinha passando .. irei viver na quietude... meu gorro!” parecia que era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino.. a gemer e pedir .... onde sonhara repousar calmamente por toda a vida. pela sensação material pura e simples de viver. tolo... o seu ferimento não era grave. Não imaginas como isto faz-me sofrer.. O melhor é não agir.... observavam esse fim com tristeza... agora intransponível... eu já tenho medo de viver. Tanto na ida como na volta... Ricardo. Coleoni e família se haviam retirado para fora. demoradamente.. e o sofrimento que vou sofrer toda a vida foram empregados.. por preguiça e desleixo. nas idéias e mais que tudo nas suas desilusões. que foi ferido e caiu ao meu lado. muita ferocidade... minha irmã.. as cartas dos países. Tenho medo. de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol. meu gorro.. Esta vida é absurda e ilógica. porém... uma rua onde o houvesse. ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés. entretanto. era...onde? E o mapa dos continentes. de terras pobres e árvores velhas. fora ferido mais gravemente... pelo qual tanto ansiava. O almirante e Albernaz. o que faremos amanhã.... na terra. era a alma.. na sua vida. porque não sabemos para onde vamos. Quaresma passara pela estação em que morava.. Adelaide. contudo.“capitão.. Perdoa-me! Eu te peço perdão. exigindo a viagem de uma margem à outra bem doze horas por estrada de ferro..... Como Quaresma dizia na carta. foram gastos. Adelaide... do Neanderthal armados com machados de sílex... era a consciência.. A sua sensação era de fadiga. na quietude mais absoluta possível.. melancolicamente... Além do que.. mas moral e intelectual. sem uma visita... também foi descobrir dentro de si muita brutalidade. e o sangue que derramei. o general.. Ninguém compreende o que quero..... uma província. para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das cousas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade.... sem ver uma face amiga. não física.. a matar. envolvido na suavidade da convalescença. o que doía não era a ferida.. foram vilipendiados e desmoralizados em prol de uma tolice política qualquer. E ele perguntava de si para si. este. e. sem amor..... Eu não vi homens de hoje. Vivia só. sem piedade.. não encontrou um país... aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos milenários combates com as feras... Quando caí embaixo de uma carreta. E se o sofrimento de Quaresma era profundamente moral. não viera vê-lo.94 nós todos a ferocidade adormecida. Tinha vontade de não mais pensar. penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil.. sempre a matar..” .. o lançara na mais terrível das aventuras.. O primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta para o quadro. vi homens de Cro-Magnon. e desde que o meu dever me livre destes encargos... sem sonhos generosos. ambos pelos mesmos motivos.. ferido como estava.. Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido.. a pensar no Destino. porque preciso de perdão e não sei a quem pedir. uma cidade. e Ricardo. a alguém enfim. a que homem. viver... a que Deus. passo por doido. eu matei! E não contente de matar. queria. Entretanto. as plantas das cidades.. o de Coração dos Outros era físico e não se cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até à posição de combatente... estava o verdadeiro sossego. e o . quando disputávamos a terra a elas.. maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade. O trem. onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo.. não parava. por prazer físico... ninguém deseja penetrar e sentir. e ele se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquele seu “Sossego”... convalesceu longamente... onde... de não mais amar. Este teu irmão que estás vendo também fez das suas... que mais me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver. muita crueldade....

Albernaz avançou. com diversos outros....Que fez. e ficaram a um vão da janela. você não me dirá? Ah! Se fosse com este seu criado...Já era tempo.Então acaba breve.Mais baixo... O padre. mas assistir a sua missa era quase uma afirmação política. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume. . .A baía está cercada de canhões. no interior da igreja. . A missa ia começar. uma boa fisionomia sempre presente aos nossos olhos. quando ia assinar. Há nos próceres republicanos uma necessidade extraordinária de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro.Agora não. mas ambos evitaram entrar na nave cheia. a esperança de ter os nomes nos jornais.. A sua presença se impunha e significava muito. Albernaz conhecera-o vagamente. meio sarcástico: . após a República. Era o almirante. tinha logo partido e atacado.. mergulhada na loucura e na moléstia. após uma pausa. votivo ao Deus da paz e da bondade. Ouvindo a recomendação da mulher. . A morte tem a virtude de ser brusca.Chico. aduziu Caldas. e. .. levar quase sete meses para dar cabo de uns calhambeques!.. acaba colônia inglesa. preparou-se. Embora assim. Clarimundo fora um republicano histórico. não se sabia bem por quê.. O que o fazia sofrer era aquela semivida da moça. Albernaz ergueu-se logo do leito. a cousa não era tão fácil assim.Entre nós. bem cedo. passado que é o choque. Era preciso não faltar... Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assinar as listas de presença. conversando. Comigo. e. agora a autoridade está prestigiada. Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando insensivelmente.. durante a comoção. tribuno temido. levanta-te! Olha que tens que ir à missa do Senador Clarimundo. cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhorar a situação da família. A dor da morte da filha já se esvaíra muito na sua memória. a sua influência ficara sendo grande. Caldas! . a que eles se recomendam com teimoso interesse. a esquadra tanto tempo no Recife. fez Caldas.... Clarimundo era um desses próceres e. Albernaz não deixou de atirar-se também a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia. não os demovia dos seus pensamentos guerreiros. era chamado patriarca da República. hein? . e uma era de progresso vai abrir-se para o Brasil. vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido. esses ofícios fúnebres se faziam nas igrejas do centro da cidade.Dizem que a esquadra já saiu de Pernambuco. porém. não há mais gente que preste.95 general sentia perder a sua comissão.. e o marechal vai intimá-los a renderem-se. a cousa já estava acabada. O general chegou a tempo e à hora. continuou o general. agitador. Isto é um país perdido. Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. . o seu prestígio cresceu e já se falava nele para substituir o marechal. não apresentara aos seus pares do Senado nada de útil e benfazejo. de chocar. alguém lhe falou.. consolidada. .. Dona Maricota acordara o marido: . Não tanto que quisessem atestar à família do morto esse ato delicado.Enfim. Fora Caldas quem falara primeiro e a resposta do general fê-lo sorrir irônico dizendo: .Você exagera. no tempo do Império. Conquanto se estivesse ainda em plena revolta. Caldas. mas não corroer. Naquela manhã. além disso. Obediente à mulher. Sou pelas decisões prontas. dominava-os.. como essas moléstias duradouras nas pessoas amadas.Qual o quê! Onde é que você viu um governo. E o mar? . na sacristia. vestiu-se e saiu. continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador Clarimundo.

na casa de amigos ou nos galpões construídos adrede pelo Estado.Não há orgulho que resista a uma esquadra mais forte.. pesado.. não recebesse os seus parabéns. é orgulhoso e não se entrega assim. teve medo que ele falasse mais alto. fez o almirante. dos cumprimentos em dias de aniversário. os dous. logo que penetraram no corpo da igreja.. na sacristia. o passarinho que de há muito quebrava a tristeza de uma casa pobre. cunhada. apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto. A missa veio a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. a chorar. parentes. Temendo que a memória não lhe ajudasse.. Albernaz e Caldas. É preciso arranjar uma manifestação ao marechal. Genelício também viera. O seu traje de luto era de pano grosso.Forte! Uns calhambeques.onde é que se viu um governo que não aproveita as aptidões... como velas. por morte. que se moviam lentamente. O índice era organizado com muito cuidado.. por baixo das árvores. Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao almirante: . dos cartões de pêsames.Qual! Não resistem...Bom. crianças de peito. via-se uma porção de homens. Genelício ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente. ... Insensivelmente. Havia nele nuvens brancas. mea maxima culpa. .. porém. Não havia sogra. A nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade.. conhecidos e desconhecidos pareciam sofrer igualmente. Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo. samburás. prima. desse na vista e o comprometesse. . lembrava-nos logo de um castigo dantesco. homem! Caldas continha a custo a fúria que lhe ia n’alma.. não o levasse à igreja em missa de sétimo dia. acreditando que houvesse canhoneio. tia. os oficiais revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano ficou senhor da baía.. o cachorro de estimação.. Levavam trouxas. Olhe que.. abandona-as.Almirante não fale assim. contritos. Porcarias!... e.. ajoelhados. Corre que já propuseram rendição. a confessar de si para si: mea culpa. . refugiando-se nos subúrbios.. esgarçadas. Calou-se.A cousa está pra acabar!. possuía um caderninho onde as datas aniversárias estavam assentadas e as residências também. leves. O céu estava azul e calmo.96 . uma grande parte da população abandonou a cidade.. Pela porta. Genelício olhou-o um pouco e aconselhou: .. cada um com o seu desgosto e a sua decepção. Tinham razão: a revolta veio a acabar daí a dias. pequenas malas. o papagaio querido. todos de negro.Qual! Não tenho medo. a ânsia e a angústia também. Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à toa! A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. olhando o chão com o seu pince-nez azulado. mea maxima culpa... levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa. Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias.. Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos. curvado. ele tinha o vício das missas das pessoas importantes. .Não acredito. Todos tinham um grande ar de compunção: amigos. Na rua. e.. palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso. em dia de aniversário. Conheço muito o Saldanha. Albernaz. fez Genelício. No dia da entrada. eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e. Breve. .E se resistirem? perguntou o general. avançou: . batendo nos peitos.. naquele mar infinito. deixa-as por aí vegetar?. .. olhando-o. de homem importante que. A esquadra legal entrou. Uma réstia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças.

às vezes. Policarpo aceitou com repugnância o papel de carcereiro. Vinha a noite inteiramente. pretos. As crianças e as mulheres. a ver. as suas idéias. nada de superior os animava. gente sem responsabilidade. mulatos. pensando. O fim do levante foi um alívio. sem anseio político. como se as suas alvas velas enfunadas quisessem afagar a espelhenta superfície do abismo. roçando carinhosamente a superfície das águas. um exagero das virtudes dela. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos políticos. e quando se voltava. a cousa já estava ficando monótona e o marechal ganhou feições sobre-humanas com a vitória. às vezes cruel e pervesa como crianças inconscientes. e o silêncio e a treva envolviam tudo. do “Niterói”. pois na ilha das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Inocêncio Bustamente continuava a superintender o corpo com muito zelo. Mesmo entre os moços. e imaginou que do exemplo delas vinham os crimes que aquela punia. na estalagem condenada que lhe servia de quartel. simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê do vencedor. se não havia baixo interesse. Eram negras e desesperadas. piedade e parecia-lhe que dentre eles um conhecia o segredo de sua consciência. Ora eram lanchas fumarentas que lá iam para o fundo da baía. A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar. sofrendo com aquelas lembranças de ódios. tenros. esse pesadelo. pequeninos. instrumento terrível. mas. enfim. como um licor capitoso. A escrituração estava em dia e era feita com a melhor letra. ou por interesse. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. mesmo que ali estivesse. e. um azul imaterial que inebriava. gente ignara. por não ter um companheiro com quem conversar. . tinha vexame. havia escreventes e operários de bordo. Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras. esse fantasma yankee. olhava a cidade que entrava na sombra. do interior do seu gabinete. Sentia também que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma das pessoas que encontrara. ele ficava a passear. A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas. De resto. existia uma adoração fetíchica pela forma republicana. Os Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia. que eram muitos. embriagava. meditando. foi morrer abandonado num cais. E então se lamentava por estar sozinho. boa e dócil como um cordeiro. De tarde. essa quase força da natureza. Brancos. que lhe fizesse fugir àqueles tristes pensamentos que o assediavam e se estavam transformando em obsessão. Os seus tormentos d’alma mais cresceram com o exercício de tal função. sem vontade própria. gente que se tinha metido em tal aventura pelo hábito de obedecer. ou que se haviam alistado por miséria. Ficava assim um tempo longo. Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar justo. Quaresma teve alta por esse tempo. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Era grande a sua desilusão. gente de todas as cores e todos os sentimentos. todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. Os barcos passavam. e o resto era azul. muita vez julgou que delirava. uma espalhafatosa invenção americana. ora pequenos botes ou canoas. capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das montanhas graníticas do Rio. de sangueiras e ferocidade. gente inteiramente estranha à questão em debate. gente arrancada à força aos lares ou à calaçaria das ruas. entretanto. caboclos. pendendo para lá e para cá. os rigores da disciplina não lhe permitiriam uma conversa mais amigável. temiam ouvir o seu estrondo. olhando o mar.97 O que mais metia medo era o famoso canhão de dinamite. desprezado e inofensivo. Havia simples marinheiros. aos beijos sangrentos do ocaso. castigava e procurava restringir. havia inferiores. Quase os não olhava. simples. mesmo fora do alcance de seu poder.

ai! Cumprimentaram-se. Ambos tiveram medo de falar. olhando o fundo da baía. Gritou então: “Levante-se!” O rapaz ergueu-se tremendo . a atenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro. que não dormia. tinha insônia e. O oficial passou por uma porção deles e não fez reparo. um inferior veio acordá-lo pela madrugada: . se queria ler. “Este também. e. num céu negro e profundo. como se os quisesse habituar a penetrar nas cousas indecifráveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas.98 Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar. Siga! Vá! E assim foi uma dúzia. e.“na ‘Guanabara’”. Quaresma não atinou de pronto com o sentido da cena e foi após o afastamento da lancha que ele encontrou uma explicação.. . Quaresma.. seminus.Que mãe! respondeu o homem do Itamarati. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: “Levem este. outros dormiam somente. O mar gemia demoradamente de encontro às pedras do cais.. o recorte das ilhas que a noite tinha feito desaparecer. deu com um rapaz claro. onde quase não havia luzes que interrompessem a continuidade do negror noturno. quando Quaresma entrou.. ia dormir. quando teimava em pensar. deitados. “Ah! patife” acudiu o homem do Itamarati. houve alguém que em sonho gemeu .respondeu o marinheiro .“Eu era enfermeiro”.. Uma escolta estava à porta. Sem atinar bem do que se tratava. Certa noite em que ia dormindo melhor. A vasta sala estava cheia de corpos.Senhor major. A esteira da embarcação estrelejava fosforescente.. “Levem este também”. Quaresma e o emissário do Itamarati.“Que enfermeiro!” fez o emissário. cercada pela escolta. Seguiam-se algumas praças. Levem!”. pediu o rapaz quase chorando. sem que ele pudesse pressentir o seu extravagante propósito.. deixe-me escrever à minha mãe. levantou-se e foi ao encontro do visitante. Fatigado. . V A Afilhada Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço.. as estrelas brilhavam serenamente.O oficial que vem buscar a turma do Boqueirão. escolhida a esmo. franzino. as duas cousas se baralhavam.. A lancha desapareceu nas trevas do fundo da baía.“Onde você esteve?” “Eu” . o Quaresma plácido. No alto. Os soldados condutores iam até à porta. “seu” tenente.Que homem? .Mas. que fizera com que aquele velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos que venceram a ele. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Nem sempre dormia bem. Não deixou de pensar então por que força misteriosa. Uns roncavam. e havia todo o íris das cores humanas. A embarcação não ia longe. .. com as suas ações encadeadas no tempo. merecia aquele triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali. está aí o “home” do Itamarati. deixavam o prisioneiro e voltavam. Fixava bem os olhos para lá. adiante. Para onde ia? Para o Boqueirão. a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fora das águas da ilha. .” Seguiu adiante e despertou outro: . . por que injunção irônica ele se tinha misturado em tão tenebrosos acontecimentos.“Onde esteve você?” perguntou . se emaranhavam e a conclusão certa e exata lhe fugia. o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos. e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não sabia.. Pois ele. e nada disseram. ao acaso.. das quais uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarelada.. assistindo ao sinistro alicerçar do regime.. tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus atos passados. retrucou o rapaz.

A que existia de fato era a do Tenente Antonino. quando o seu patriotismo se fizera combatente. e levou-o à loucura. sofrendo umidade. bem pensando. a do homem do Itamarati. E. E a agricultura? Nada. o oficial que o conduzira nada lhe quisera dizer.todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária. O tempo estava de morte. por uma idéia a menos. Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada. E. própria. das suas tentativas agrícolas.. trazer sossego às suas dúvidas. inúmeros? Outra decepção. com paixão. como ela o recompensava. Gastara sua mocidade nisso. era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física. protestando contra a cena que presenciara na véspera. melhor.. e. para uma carniçaria distante. de carnificina. no intuito de servir às suas próprias ambições. Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha. Foi? Não. não amara . Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros. ele não experimentara. não pandegara. Uma decepção. nem o próprio Ricardo que lhe podia. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem. . Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte. não vira nenhum conhecido no caminho. nem a moral.. Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! O tupi encontrou a incredulidade geral. mais esta que aquela. Entretanto. de fruir. isolado dos seus semelhantes como uma fera. uma série. Outra decepção. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Não havia base para qualquer hipótese. desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana. Lembrou-se das suas cousas de tupi. mesmo na sua pureza... O importante é que ele tivesse sido feliz.99 Não estava ali há muitas horas. como ela o condecorava? Matando-o. A sua vida era uma decepção. a mofa. ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente. Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. por amá-la e querê-la muito. no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Não se pudera conter.. sem base. no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. o escárnio.. A pátria que quisera ter era um mito. com um olhar. todos tinham sede de matar. Por que estava preso? Ao certo não sabia. trancafiado. sem apoio. a sua virilidade também. ele não provara. nem a política que julgava existir. misturado com os seus detritos. e altamente honrosa. franca e nitidamente. pelo cálculo aproximado do tempo. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria. Aquela leva de desgraçados a sair assim. quase sem comer.. pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais. como ela o premiava. pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca luz da masmorra.. logo ao erguer-se da cama. o riso. quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. engaiolado. e. para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência cousa sua. desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras. na sua vida? Tudo. havia. não trocara palavra com ninguém. falara fundo a todos os seus sentimentos. agora que estava na velhice. imaginava podiam ser onze horas. por um Deus ou uma deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa idéia nascera da amplificação da crendice dos povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Coulanges. indignado. Lembrou-se de que essa noção nada é para a Menenanã. escolhidos a esmo. a do Doutor Campos. falou claro. para tantas pessoas.. o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma ilusão. Pareceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviências psicológicas. sepultado na treva. e. a desoras. E o que não deixara de ver.. ele não vira. nem a intelectual. o que achara? Decepções. Não brincara. como um criminoso. um encadeamento de decepções. de gozar. e ele escrevera a carta com veemência. Fora preso pela manhã.. Iria morrer. do folk-lore. Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra. com um gesto. Nada omitiu do seu pensamento.

nem respeito pela vida humana. depois era e afinal não vinha a ser. e assim é que ia para a cova. tão lúcido. tinham levado dous anos a ser julgados. envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade. ao preto Anastácio um adeus. a terra na mesma miséria. não havia mais simpatia. Mas. Ricardo não se deteve.o qual. sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa? Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista. o Franco-Condado era terra dos seus avós. inglês. Sabia perfeitamente que corria grande risco. os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos. sobre a qual fizéssemos repousar a felicidade de muitos. Aqueles homens. não. pois a indignação no palácio contra Quaresma fora geral. Ricardo. fora generoso. talvez naquela mesma prisão.ele que fora tudo isso. enganava-se em parte. na mesma opressão. num dado momento. sem um beijo mais quente. naquele mesmo lugar onde estava. como é que ele tão sereno. sacrificando e as cousas ficaram na mesma. demonstrando uma erudição superior. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltá-lo. à sua afilhada um abraço! Nunca mais os veria. E ele se lembrava que há bem cem anos. entretanto. ia para a cova sem acompanhamento de um parente. e ele. tão simples.100 Reviu a história. Vinha da missa da irmã da sogra do Deputado Castro. de um amigo. e.. mas não se intimidou. fora honesto. a Alsácia não era. empregara sua vida. se nada dissera e não prendera o seu sonho. nem era julgado: seria simplesmente executado! Fora bom. com forças de religião. Não havia mais piedade. A cousa era difícil. na mesma tristeza. viu as mutilações. mas sofreram pelo seu pensamento. Teve notícia do exato motivo dela. quem sabe se os outros que lhe seguissem as pegadas não seriam mais felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar. mas trabalhava num livro: Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos .. o seu esquecimento de si mesmo. ele não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse. Tinha havido vantagem? As condições gerais tinham melhorado? Aparentemente sim. sem nenhum mesmo. com os seus fanáticos. sem um filho. italiano. Vendo-o. para o francês. A vitória tinha feito os vitoriosos inclementes e ferozes. outra não era. acusados de crime tão nefando em face da legislação da época. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe: . e tão inocente na sua mania de violão. homens generosos e ilustres estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo. Como sempre. e sem sequer uma asneira! Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso. absorver-se nele. Era a filosofia social da época. bem examinado. alemão. para que jamais o poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. que não tinha crime algum. podia sentir a Pátria? Uma hora. e aquele protesto soou entre eles como um desejo de diminuir o valor das vantagens alcançadas. trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. não se amedrontou. sem um amor. para mandar à sua irmã o último recado. com os seus sacerdotes e pregadores. de um camarada. dando-lhe corpo e substância? E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade traria enfim para a terra alguma felicidade? Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo. Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos. procurou influências de amigos. não a pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo. porventura. porém clandestino. Já estava subdiretor e o seu trabalho era agora imaginar meios e modos de ser diretor. o que era necessário era dar o exemplo de um massacre à turca. Talvez só tivessem pensado. Quaresma. sem deixar traço seu. sendo francês. porém. talvez lhe levasse ao alto lugar cobiçado. Onde estariam eles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros. fora virtuoso . e ela agia com a maldade de uma crença forte. Ao entrar no Largo de São Francisco encontrou Genelício. ali. nem era ouvido. mas. Contudo. nunca! E ele chorou um pouco. gastara o seu tempo. dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o seu isolamento.

. mas.Eu queria que o senhor se interessasse. O alferes coxo. Tudo lhe pareceu hostil. O bravo coronel coçava a grande barba mosaica. explicou-lhe com voz dorida todo o fato.. no ensaboado pátio da antiga estalagem. comandante!” Bustamante andava de mau humor. para providenciar e dirigir a escrituração. os contínuos iam e vinham. Como é que havia de superintender a escrita do batalhão. e correu a procurá-lo.Aquele que foi vizinho do seu sogro. as campainhas soavam. E entrou para o seu gabinete prazenteiro. Passe bem. perguntou: . se eu for pedir por um preso.brôôô. como tivesse péssima memória das fisionomias humildes.. o chefe devia ficar a resguardo. ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com doçura: .Não. aquelas caras de homens tinham cataduras de feras e ele quis por um momento chorar de desespero por não poder salvar o amigo. porém. .O senhor não sabe que o major Quaresma está preso? . . que já não o sou bastante. tinha o dólmã desabotoado e acabava de calçar um dos pés de botina. Ao fim de uma hora o general chegou e.Que há? O trovador.Ah! É o senhor! Bem: que deseja? . subiu rapidamente a oscilante escada do velho cortiço e logo que chegou ao cubículo do comandante. mau ou indiferente. Sinto muito. Embora terminada a revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o Sul. que cantou no seu casamento. para com mais decência receber o inferior. . enquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo. quando Ricardo pediu licença.. as casas feias.. Albernaz concertou o pince-nez.. disse ele. que se há de fazer? Paciência. não deu mostras de alegria e limitou-se: . nas desordens de marchas e contramarchas? Isso era uma tolice do comandante marchar. continuava na sua faina de instrutor dos novos recrutas. . gritou: “Com licença. O governo tem sempre razão.... Não havia e ele desesperava. bastante emocionado. a igreja. camarada? Coração dos Outros estava com a sua farda do “Cruzeiro do Sul” e não ficava bem a Genelício darse como conhecido de soldado... Genelício não sorriu.Não me conhece mais. Você sabe. muito seguro de si.. Vossa Excelência dá licença que lhe dê uma palavra? Genelício perfilou-se todo e. Os oficiais continuavam a entrar e a sair. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o comandante. .. dando com Ricardo. Ele pensava nessas cousas.Meu filho.Eu.Entre. meu amigo. O batalhão ainda continuava em pé de guerra. E daí? . Om .Quem é? . de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos apontados para partir era o “Cruzeiro”. dentro do seu plácido uniforme de general. mas o general ainda não tinha chegado.101 . Aquele negócio de partir para o Paraná não lhe agradava. Lembrou-se. a estátua imóvel.Que deseja. perguntou com solenidade e arrogância: . e foi ter com o Coronel Bustamante. sou Ricardo Coração dos Outros. doutor? Genelício fechou um pouco os olhos por detrás do pince-nez azulado e disse secamente: . eu não posso. e Ricardo procurava entre todas aquelas fisionomias uma que lhe pudesse valer.Doutor.Não me meto nessas cousas. fez com humildade Ricardo..ãã volta! Ricardo entrou.. de Albernaz. Não era longe. no fervor de batalhas. Ahn!. sou governista e parece. O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente: . armas! Mei .Aquele maluco. a gente que passava.. na velha estalagem que servia de quartel ao garboso “Cruzeiro do Sul”. E Genelício seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das botas.

O silêncio era augusto. A moça. . meu Deus! E acentuou estas últimas palavras com grande e lancinante desespero. Ele tinha que ir para o posto de suplício. Ricardo ficou só e sentou-se. que estava sentada. Ele que sempre decantara nas suas modinhas a dedicação. Olhou as árvores. um nada. volta. Queria encontrar um alvitre. mas nada! A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar a mesa em que repousavam os seus cotovelos. disse Ricardo.. um conselho.102 Ricardo expôs o seu pedido e esperou com paciência a resposta. Num dado momento. do sangue.. porém. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam atingir o céu..Qual.. E era assim que se fazia a vida. Ela estava só. Ela levantou a cabeça.ele. Minhas amigas. O cabo não se demorou mais. da tenacidade que punha em seguir as suas idéias. . Pela primeira vez. O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor.. narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreensões. sem esperança de ressurreição.Vai-te embora. a mulher do Doutor Brandão. tão bom. Olhou o céu alto. andando atrás de um e de outro. o amor. A Alice. Olga foi vestir-se. Olhou as casas. tão generoso. a filha do Castrioto.. . os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto lhe ficou rígido. Ricardo estava de pé e aparvalhado.. Possuía a mais forte disposição de salvar seu padrinho. das dores que tudo aquilo custara. senão mando-te prender! Já! E apontou com o dedo a porta da saída num gesto marcial e enérgico. que fazer? Eu não conheço ninguém. veterano do Paraguai. Pensou um pouco. Os dous ficaram calados. Pensou um pouco. as igrejas. em breve. Olga lembrou-se bem do padrinho. a sua ambição e sua ferocidade interesseira não permitiriam que ele desse o mínimo passo. Estava tranqüilo e calmo.. recordou que era preciso salvar o amigo e que era necessário dar mais uns passos. não havia um caminho. está fora. de quimeras. . Ricardo não sabia o que aconselhá-la e olhava sem pensamentos os móveis e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. mas era impossível.Mas que fazer.. Logo. Viu um. volver! Ricardo veio andando triste e desalentado. . Quem poderia? Consultou sua memória. Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse: . a história e o heroísmo: com violência sobre os outros.. esse. as simpatias. da sua candura de donzela romântica. Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir... demorou-se mais no exame do caráter do esposo. ela sentiu que a vida tinha cousas desesperadoras.. pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da vitória. com opressões e sofrimentos. tomou a cabeça entre as mãos e as suas unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus cabelos negros. Tinha marchado atrás de cousas fora da realidade. meu Deus? repetiu ela. os palácios e lembrou-se das guerras. meu caro Senhor Ricardo.Vou.Que hei de fazer. mas bem cedo o viu ensangüentado .. Pareceulhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao sofrimento do padrinho.. continuava com solenidade a encher a arruinada estalagem com as suas vozes de comando: Om-brôôô. e foi procurá-la na Real Grandeza. mas. tinha que subir o seu Calvário.. e falou com firmeza: . Chegou. A Cassilda. Inocêncio disse. da sua ternura.. Por fim. via agora que tais sentimentos não existiam. não pode. faria sacrifício de tudo.Se a senhora fosse lá.Talvez seu marido. e pensou em salvá-lo.. que custou a vir. ele. viu bem que o seu egoísmo. impossível! Não havia um meio... sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio de severidade: . armas! Meia-ãã. Não sei. do seu eterno sonhar. Eu não tenho relações. viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma. não perdia um minuto... No pátio o instrutor coxo.

Sabes que.. Apanhou a sombrinha. estava no palácio da Rua Larga. depois. e o marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. riu-se um pouco e disse: .Vais sair? Ela. quis interrogá-lo. é só “eu”. porque “eu”. Falou docemente: . poderia evitar que a mulher desse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Muito engraçado! De forma que eu (agora digo “eu”também) não tenho direito de me sacrificar. de todos os planos. dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de reconhecimento.É isto! “Eu”. todos só devem viver para ti. para aqui..Se é só no teatro que há grandes cousas.É o que te digo: vou e vou. um adorno. mostrando-se co-participante na sua vitória. Voltou-se um instante para Ricardo. com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. agora se esquivava. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sair pela porta fora. Não tardou que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas. Ele vivera sempre tão loge dela que não a julgara nunca capaz de tais assomos.. Armando ficou admirado de vê-la falar daquele modo. .Que faz o senhor aqui? Coração dos Outros não teve ânimo de responder. de todos os processos.Vai acompanhar-me ao Itamarati. perguntou com autoridade: . Ricardo não entrou: deixou que a moça o fizesse e foi esperá-la no Campo de Sant’Anna.. concertou o véu e saiu solene. Ela falava. Acreditou que. A vida é feita para ti. firme. disse com certa vivacidade: . queria dar mostras de sua dedicação. mirou-o um. ora rapidamente e apaixonada.. E acrescentava com força: .Fazes mal.. estou. Lançavam mão de todos os meios.Vou. Ela não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grande olhos cheios de escárnio. para salvar da morte meu padrinho. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano. e ele já tinha nojo de tanta subserviência. dous minutos. Já sabe? O marido pareceu acalmar-se. alta e nobre. não tenho amizades.. o doutor interrogou o trovador: . Havia um imenso burburinho. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direto à mulher: .Vais comprometer-se.103 Ele então pensou com admiração naquela moça que por simples amizade se dava a tão arriscado sacrifício. mas logo. O marido não sabia o que fazer. O califa não se supunha sagrado e aborrecia-se. de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada. . porque quero. porque devo. Então aquela menina? Então aquele bibelot? Quem lhe teria ensinado tais cousas? Quis desarmá-la com uma ironia e disse risonho: .. . nada! Sou alguma cousa como um móvel. dirigindo-se à mulher. quando o marido entrou. não tenho relações. ora vagarosa e irônica. Vinha radiante. uma agitação de entradas e saídas. como ao papa ou a um imperador. porque é do meu direito. com meios suasórios.Onde vais? A mulher não lhe respondeu logo e. Ela subiu.Está no teatro? Ela lhe respondeu logo: .. na sala de jantar.. provar os seus serviços. que tinha a alma tão ao alcance dela mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo. não tenho caráter? Ora!. mas Olga adiantou-se: . O ditador tão acessível antes. Em breve. “eu”para ali. porque “eu”. de provar a minha amizade. queria cumprimentá-lo. Havia quem lhe quisesse beijar as mãos. adivinhava uma cena violenta que ele teria querido evitar. afogueada pela ânsia desesperada de salvar Quaresma. Não pensas noutra cousa. por sua vez.Por quê? perguntou ela com calor. deste nosso egoísmo.

Todos os Santos (Rio de Janeiro). a sua personalidade moral. deu-lhe as costas e teve vergonha de ter ido pedir. Olhou de novo o céu. por estas terras. as árvores de Santa Teresa. uma locomotiva apitou. mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho.Não é possível. pensou ela.. A muito custo conseguiu falar a um secretário ou ajudante-de-ordens. Ergueu-se orgulhosamente. Com tal gente. * * * . talvez no clima. que de algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo. Foi inútil.. já tinham errado tribos selvagens.março de 1911. e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros. um carro. atravessou-lhe na frente. a sua doçura. as igrejas: viu os bondes passarem. era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu qualquer. Saiu e andou.104 Olga falou aos contínuos. os ares.. sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte. Ela nem lhe esperou o fim da frase.. Fora há quatro séculos. Quando ela lhe disse a que vinha. O marechal não a atenderá. arrependeu-se da veemência. e se lembrou que. Quaresma? disse ele. puxado por uma linda parelha. Tinha havido grande e inúmeras modificações. Um traidor! Um bandido! Depois. fez com certa delicadeza: . Que fora aquele parque? Talvez um charco. janeiro . Esperemos mais. na fisionomia da terra.Quem. os ares. a fisionomia terrosa do homem tornou-se de oca e sob as suas pálpebras correu um firme e rápido lampejo de espada: . quando já a entrar do campo. pedindo ser recebida pelo marechal. minha senhora. Tinha havido grandes modificações nos aspectos. das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Olhou o céu. as árvores de Santa Teresa. de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. as casas.