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MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro


O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto



A
João Luiz Ferreira
Engenheiro Civil




Le grand inconvénient de la vie réelle et ce qui la rend insupportable à l’homme supérieur, c’est
que, si l’on y transporte les principes de l’idéal, les qualités deviennent des défauts, si bien que fort
souvent l’homme accompli y réussit moins bien que celui qui a pour mobiles l’égoïsme ou la
routine vulgaire.

Renan, Marc-Auréle


PRIMEIRA PARTE


I
A Lição de Violão
Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às
quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia. Saindo do Arsenal de
Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às
vezes, e sempre o pão da padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e quarenta, por aí assim,
tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada
de São Januário, bem exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um
eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão Cláudio, onde era costume
jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava à criada: “Alice, olha que
são horas; o Major Quaresma já passou.”
E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e tendo outros
rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um trem de vida superior aos
seus recursos burocráticos, gozando, por parte da vizinhança, da consideração e respeito de homem
abastado.
Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o
julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única
desafeição que merecera fora a do Doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia
admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!”
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O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas
da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários
no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos
dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro,
pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou
a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?
E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram
um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante
da janela aberta do esquisito subsecretário.
Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o “pinho” na
posição de tocar, o major, atentamente, ouvia: “Olhe, major, assim.” E as cordas vibravam
vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ‘ré’, aprendeu?”
Mais não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão.
Mas que cousa? Um homem tão sério metido nessas malandragens!
Uma tarde de sol - sol de março, forte e implacável - aí pelas cercanias das quatro horas, as janelas
de uma erma rua de São Januário povoaram-se rápida e repentinamente, de um e de outro lado. Até
da casa do general vieram moças à janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o
Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo
do braço um violão impudico.
É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuário não lhe
escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso fato, a consideração e o respeito que o
Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa diminuíam um pouco. Estava
perdido, maluco, diziam. Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não
percebeu essa diminuição.
Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando
fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de
penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava.
Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o
queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de
fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um
figurino antigo de que ele sabia com precisão a época.
Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando:
- Janta já?
- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco.
- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é,
andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito!
O major descansou o chapéu-de-sol - um antigo chapéu-de-sol com a haste inteiramente de
madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola - e respondeu:
- Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é
um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o
instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em
Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um
inglês, muito o elogia.
- Mas isso foi em outro tempo; agora...
- Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos
genuinamente nacionais...
- Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias.
O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da
casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma
cadeira de balanço, descansando.
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Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era formado de estantes de
ferro.
Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem
examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o
espírito que presidia a sua reunião.
Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da
Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar
(todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um
dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major.
De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei
Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von
Brasilien), Melo Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou
menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o
Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o
Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville
e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes
tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.
Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, manuais, enciclopédias, compêndios, em vários
idiomas.
Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma
irremediável ignorância das línguas literárias da Europa; ao contrário, o major conhecia bem
sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se não falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os
correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no
forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o
amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento
sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou,
ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a
meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas,
com pleno conhecimento de causa.
Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul,
nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de
tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo
que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São
Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da
Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves - era tudo isso
junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.
Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se,
sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais
do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do
Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.
Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos
de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de
guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria.
Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua
história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de
minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes
exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de
todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais
rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival
do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e
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delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face
da do Nilo.
Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs, antes que a “Aurora,
com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”, ele se atracava até ao almoço com o
Montoya, Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com
afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo notícia
desse estudo do idioma tupiniquim, deram não se sabe por que em chamá-lo - Ubirajara. Certa vez,
o escrevente Azevedo, ao assinar o ponto, distraído, sem reparar quem lhe estava às costas, disse
em tom chocarreiro: “Você já viu que hoje o Ubirajara está tardando?”
Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade, a sua ilustração, a modéstia e honestidade de
seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que a alcunha lhe era dirigida, não perdeu a
dignidade, não prorrompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concentrou o pince-nez, levantou
o dedo indicador no ar e respondeu:
- Senhor Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridículo aqueles que trabalham em
silêncio, para a grandeza e a emancipação da Pátria.
Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café, quando os
empregados deixavam as bancas, transmitir aos companheiros o fruto de seus estudos, as
descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de riquezas nacionais. Um dia era o petróleo que
lera em qualquer parte, como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de
árvore de borracha que crescia no rio Pardo, em Mato Grosso; outra, era um sábio, uma
notabilidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha descoberta a trazer, entrava pela
corografia, contava o curso dos rios, a sua extensão navegável, os melhoramentos insignificantes de
que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. Ele amava sobremodo os
rios; as montanhas lhe eram indiferentes. Pequenas talvez...
Os colegas ouviam-no respeitosos e ninguém, a não ser esse tal Azevedo, se animava na sua frente
a lhe fazer a menor objeção, a avançar uma pilhéria, um dito. Ao voltar as costas, porém,
vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de troças: “Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos
meninos de tico-tico... Arre! Não tem outra conversa.”
E desse modo ele ia levando a vida, metade na repartição, sem ser compreendido, e a outra metade
em casa, também sem ser compreendido. No dia em que o chamaram de Ubirajara, Quaresma ficou
reservado, taciturno, mudo, e só veio falar porque, quando lavavam as mãos num aposento próximo
à secretária e se preparavam para sair, alguém suspirando, disse: “Ah! Meu Deus! Quando poderei
ir à Europa!” O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e
persuasivo: “Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum
dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!”
O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major contestou-lhe com
estatísticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra.
Era um clima caluniado pelos viciosos que de lá vinham doentes...
Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar à sua residência, às quatro e quinze
da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes, exceto aos domingos, exatamente, ao jeito
da aparição de um astro ou de um eclipse.
No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aqueles que têm ambições políticas ou de
fortuna, porque Quaresma não as tinha no mínimo grau.
Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua biblioteca, o major abriu um livro e pôs-se a
lê-lo à espera do conviva. Era o velho Rocha Pita, o entusiástico Rocha Pita da História da América
Portuguesa. Quaresma estava lendo aquele famoso período: “Em nenhuma outra região se mostra o
céu mais sereno, nem madrugada mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os
raios mais dourados...” mas não pôde ir ao fim. Batiam à porta. Foi abri-la em pessoa.
- Tardei, major? perguntou o visitante.
- Não. Chegaste à hora.
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Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros, homem
célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Em começo, a sua fama estivera
limitada a um pequeno subúrbio da cidade, em cujos “saraus” ele e seu violão figuravam como
Paganini e a sua rabeca em festas de duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a
extensão dos subúrbios, crescendo, solidificando-se, até ser considerada como cousa própria a eles.
Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas aí qualquer, um capadócio.
Não: Ricardo Coração dos Outros era um artista a freqüentar e a honrar as melhores famílias do
Méier, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do
Tenente Marques, do Doutor Bulhões ou do “Seu” Castro, a sua presença era sempre requerida,
instada e apreciada. O Doutor Bulhões, até, tinha pelo Ricardo uma admiração especial, um delírio,
um frenesi e, quando o trovador cantava, ficava em êxtase. “Gosto muito de canto”, dizia o doutor
no trem certa vez, “mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo.” Esse
doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios, não como médico, pois que nem óleo de rícino
receitava, mas como entendido em legislação telegráfica, por ser chefe de seção da Secretaria dos
Telégrafos.
Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É
uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios. Compõe-se em geral de
funcionários públicos, de pequenos negociantes, de médicos com alguma clínica, de tenentes de
diferentes milícias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões, assim
como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. Isto é só lá,
nos bailes, nas festas e nas ruas, onde se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos,
olha-o da cabeça aos pés, demoradamente, assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um
prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço,
muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado - aí, julga ela, é que está a pedra de toque da
nobreza, da alta linha, da distinção.
Fora dos subúrbios, na Rua do Ouvidor, nos teatros, nas grandes festas centrais, essa gente míngua,
apaga-se, desaparece, chegando até as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que
deslumbram, quase diariamente, os lindos cavalheiros dos interminá- veis bailes diários daquelas
redondezas.
Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou e passou à cidade,
propriamente. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo
convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua
poética...
Mas que vinha ele fazer ali, na casa de pessoas de propósitos tão altos e tão severos hábitos? Não é
difícil atinar. Decerto, não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia, de poética, de
mineralogia e histórias brasileiras.
Como bem supôs a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão-somente ensinar o major a
cantar modinhas e a tocar violão. Nada mais e é simples.
De acordo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a
expressão poético-musical característica da alma nacional. Consultou historiadores, cronistas e
filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade,
não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos
da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da
cidade e tomou lições com ele. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo
original de arte.
Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas antes disso, por convite especial do discípulo, ia
compartilhar o seu jantar; e fora por isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do
subsecretário.
- Já sabe dar o “ré” sustenido, major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se.
- Já.
- Vamos ver.
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Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado violão; mas não houve tempo. Dona Adelaide, a irmã
de Quaresma, entrou e convidou-os a irem jantar. A sopa já esfriava na mesa, que fossem!
- O Senhor Ricardo há de nos desculpar, disse a velha senhora, a pobreza do nosso jantar. Eu lhe
quis fazer um frango com petit-pois, mas Policarpo não deixou. Disse-me que esse tal petit-pois é
estrangeiro e que eu o substituísse por guando. Onde é que se viu frango com guando?
Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma novidade e não fazia mal
experimentar.
- É uma mania de seu amigo, Senhor Ricardo, esta de só querer cousas nacionais, e a gente tem que
ingerir cada droga, chi!
- Qual, Adelaide, você tem certas ojerizas! A nossa terra, que tem todos os climas do mundo, é
capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente. Você é que deu para
implicar.
- Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa.
- É porque é de leite, se fosse como essas estrangeiras aí, fabricadas com gorduras de esgotos,
talvez não se estragasse... É isto, Ricardo! Não querem nada da nossa terra...
- Em geral é assim, disse Ricardo.
- Mas é um erro... Não protegem as indústrias nacionais... Comigo não há disso: de tudo que há
nacional, eu não uso estrangeiro. Visto-me com pano nacional, calço botas nacionais e assim por
diante.
Sentaram-se à mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal e serviu dous cálices de
parati.
- É do programa nacional, fez a irmã, sorrindo.
- Decerto, e é um magnífico aperitivo. Esses vermutes por aí, drogas! Isto é álcool puro, bom, de
cana, não é de batatas ou milho...
Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito, levou-o aos lábios e foi como se todo ele
bebesse o licor nacional.
- Está bom, hein? indagou o major.
- Magnífico, fez Ricardo, estalando os lábios.
- É de Angra. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos... Qual Borgonha! Qual
Bordeaux! Temos no Sul muito melhores...
E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha, o toucinho
e o arroz; a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “é, é, não há dúvida”- rolando nas órbitas
os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero, forçando muito a sua
fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.
Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; não tinha nem uma flor... Certamente não
se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manacás
melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais, o
major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada de rosas, de crisântemos, de magnólias -
flores exóticas; as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes, como
aquelas que ele tinha ali.
Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala, quando o crepúsculo vinha devagar,
muito vagaroso e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo nas
cousas a sua poesia dolente e a sua deliqüescência.
Mal foi aceso o gás, o mestre de violão empunhou o instrumento, apertou as cravelhas, correu a
escala, abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. Tirou alguns acordes, para experimentar;
e dirigiu-se ao discípulo, que já tinha o seu em posição:
- Vamos ver. Tire a escala, major.
Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas não havia na sua execução nem a firmeza, nem o
dengue com que o mestre fazia a mesma operação.
- Olhe, major, é assim.
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E mostrava a posição do instrumento, indo do colo ao braço esquerdo estendido, seguro levemente
pelo direito; e em seguida acrescentou:
- Major, o violão é o instrumento da paixão. Precisa de peito para falar... É preciso encostá-lo, mas
encostá-lo com macieza e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos...
Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo ele fremindo de paixão pelo
instrumento desprezado.
A lição durou uns cinqüenta minutos. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. Era
a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido; embora lisonjeado, quis a vaidade profissional
que ele, a princípio, se negasse.
- Oh! Não tenho nada novo, uma composição minha.
Dona Adelaide obtemperou então:
- Cante uma de outro.
- Oh! Por Deus, minha senhora! Eu só canto as minhas. O Bilac - conhecem? - quis fazer-me uma
modinha, eu não aceitei; você não entende de violão, “seu” Bilac. A questão não está em escrever
uns versos certos que digam cousas bonitas; o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e
deseja. Por exemplo: se eu dissesse, como em começo quis, n’ “O Pé” uma modinha minha: “o teu
pé é uma folha de trevo” - não ia com o violão. Querem ver?
E ensaiou em voz baixa, acompanhado pelo instrumento: o - teu - pé - é - uma - fo - lha - de - tre -
vo.
- Vejam, continuou ele, como não dá. Agora reparem: o - teu - pé - é - uma - uma - ro - sa - de - mir
- ra. É outra cousa, não acham?
- Não há dúvida, disse a irmã de Quaresma.
- Cante esta, convidou o major.
- Não, objetou Ricardo. Está velha, vou cantar a “Promessa”, conhecem?
- Não, disseram os dous irmãos.
- Oh! Anda por aí como as “Pombas” do Raimundo.
- Cante lá, Senhor Ricardo, pediu Dona Adelaide.
Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca:

Prometo pelo Santíssimo Sacramento
Que serei tua paixão...

- Vão vendo, disse ele num intervalo, quanta imagem, quanta imagem!
E continuou. As janelas estavam abertas. Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada
para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua se interessava, Coração dos Outros foi apurando a
dicção, tomando um ar feroz que ele supunha ser de ternura e entusiasmo; e, quando acabou, as
palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando Dona Adelaide.
- Senta-te Ismênia, disse ela.
- A demora é pouca.
Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco a moça e continuou a dissertar sobre a modinha.
Aproveitando uma pausa, a irmã de Quaresma perguntou à moça:
- Então, quando te casas?
Era a pergunta que se lhe fazia sempre. Ela então curvava do lado direito a sua triste cabecinha,
coroada de magníficos cabelos castanhos, com tons de ouro, e respondia:
- Não sei... Cavalcanti forma-se no fim do ano e então marcaremos.
Isto era dito arrastado, com uma preguiça de impressionar.
Não era feia a menina, a filha do general, vizinho de Quaresma. Era até bem simpática, com a sua
fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.
Aquele seu noivado durava há anos; o noivo, o tal Cavalcanti, estudava para dentista, um curso de
dous anos, mas que ele arrastava há quatro, e Ismênia tinha sempre que responder à famosa
pergunta: - “Então quando se casa?” - “Não sei... Cavalcanti forma-se para o ano e...”
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Intimamente ela não se incomodava. Na vida, para ela, só havia uma cousa importante: casar-se;
mas pressa não tinha, nada nela a pedia. Já agarrara um noivo, o resto era questão de tempo.
Após responder a Dona Adelaide, explicou o motivo da visita.
Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa dela.
- Papai, disse Dona Ismênia, gosta muito de modinhas... É do Norte; a senhora sabe, Dona
Adelaide, que a gente do Norte aprecia muito. Venham.
E para lá foram.

II
Reformas Radicais
Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. Na sua meiga e sossegada casa de São
Cristóvão, enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu
temperamento. De manhã, depois da toilette, e do café, sentava-se no divã da sala principal e lia os
jornais. Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa, a
sugestão de uma idéia útil à sua cara pátria. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo;
e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo às
nove e meia da manhã.
Acabado o almoço, dava umas voltas pela chácara em que predominavam as fruteiras nacionais,
recebendo a pitanga e o cambuim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia,
como se fossem bem cerejas ou figos.
O passeio era demorado e filosófico. Conversando com o preto Anastácio, que lhe servia há trinta
anos, sobre cousas antigas - o casamento das princesas, a quebra do Souto e outras - o major
continuava com o pensamento preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. Após uma
hora ou menos, voltava à biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto Histórico, no Fernão
Cardim, nas cartas de Nóbrega, nos anais da Biblioteca, no von den Stein e tomava notas sobre
notas, guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os índios. Não fica bem dizer estudava,
porque já o fizera há tempos, não só no tocante à língua, que já quase falava, como também nos
simples aspectos etnográficos e antropológicos. Recordava (é melhor dizer assim), afirmava certas
noções dos seus estudos anteriores, visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que
se baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações sociais.
Para bem compreender o motivo disso, é preciso não esquecer que o major, depois de trinta anos de
meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava agora ao período da frutificação. A convicção
que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora
ativos e impeliram-no a grandes cometimentos. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir,
de obrar e de concretizar suas idéias. Eram pequenos melhoramentos, simples toques, porque em si
mesma (era a sua opinião), a grande pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à
Inglaterra.
Tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras de
cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo - o que
precisava mais? Tempo e um pouco de originalidade. Portanto, dúvidas não flutuavam mais no seu
espírito, mas no que se referia à originalidade de costumes e usanças, não se tinham elas dissipado,
antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do “Tangolomango”, numa festa que o
general dera em casa.
Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veio despertar no general e na
família um gosto pelas festanças, cantigas e hábitos genuinamente nacionais, como se diz por aí.
Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar à maneira popular dos velhos tempos.
Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua infância; Dona Maricota, sua
mulher, até ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz,
viram na cousa um pretexto de festas e, portanto, aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. A
modinha era pouco; os seus espíritos pediam cousa mais plebéia, mais característica e extravagante.
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Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma chegança, à moda do Norte,
por ocasião do aniversário de sua praça. Em casa do general era assim: qualquer aniversário tinha a
sua festa, de forma que havia bem umas trinta por ano, não contando domingos, dias feriados e
santificados em que se dançava também.
O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e danças tradicionais, entretanto viu logo a
significação altamente patriótica do intento. Aprovou e animou o vizinho. Mas quem havia de
ensaiar, de dar os versos e a música? Alguém lembrou a tia Maria Rita, uma preta velha, que
morava em Benfica, antiga lavadeira da família Albernaz. Lá foram os dous, o General Albernaz e
o Major Quaresma, alegres, apressados, por uma linda e cristalina tarde de abril.
O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a
sua carreira militar, não viu uma única batalha, não tivera um comando, nada fizera que tivesse
relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. Fora sempre ajudante-de-ordens, assistente,
encarregado disso ou daquilo, escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo
Militar, quando se reformou em general. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua
inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. Nada entendia de guerras, de estratégia, de
tática ou de história militar; a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai,
para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos.
O altissonante título de general, que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e
dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão, cuja única
preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do
Colégio Militar. Contudo, não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Ele
mesmo, percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episódio de guerra, uma
anedota militar. “Foi em Lomas Valentinas”, dizia ele... Se alguém perguntava: “O general assistiu
a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vésperas. Mas soube
pelo Camisão, pelo Venâncio, que a cousa esteve preta.”
O bonde que os levava até à velha Maria Rita percorria um dos trechos mais interessantes da
cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo término de um picadão que ia ter a
Minas, se esgalhava para São Paulo e abria comunicações com o Curato de Santa Cruz.
Por aí em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os
chamados gêneros do país. Não havia ainda cem anos que as carruagens d’El Rei Dom João VI,
pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam por ali para
irem ter ao longínquo Santa Cruz. Não se pode crer que a cousa fosse lá muito imponente; a Corte
andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados,
tristemente montados em “pangarés” desanimados, o prestígio devia ter a sua grandeza, não por ele
mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar à sua lamentável
majestade.
Entre nós tudo é inconsciente, provisório, não dura. Não havia ali nada que lembrasse esse passado.
As casas velhas, com grandes janelas, quase quadradas, e vidraças de pequenos vidros eram de há
bem poucos anos, menos de cinqüenta.
Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminiscências e foram até ao ponto. Antes
perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e
coudelarias de animais de corridas, tendo grandes ferraduras, cabeça de cavalos, panóplias de
chicotes e outros emblemas hípicos, nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda
parte onde tais distintivos fiquem bem e dêem na vista.
A casa da velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação da estrada de ferro
Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro, negro de moinha de
carvão de pedra, medas de lenha e imensas tulhas de sacos de carvão-vegetal se acumulavam; mais
adiante um depósito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob
pressão.
Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera seco e por isso se
podia andar por ele. Para além do caminho, estendia-se a vasta região de mangues, uma zona
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imensa, triste e feia, que vai até ao fundo da baía e, no horizonte, morre ao sopé das montanhas
azuis de Petrópolis. Chegaram à casa da velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas
portuguesas. Ficava um pouco afastada da estrada. À direita havia um monturo: restos de cozinha,
trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira - um sambaqui a fazer-se para gáudio de
arqueólogo de futuro remoto; à esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto à cerca, no mesmo
lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta.
- Que desejam?
Disseram o que queriam e aproximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:
- Vovó estão aí dous “moços” que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor - disse ela
depois, dirigindo-se ao general e ao seu companheiro.
A sala era pequena e de telha-vã. Pelas paredes, velhos cromos de folhinhas, registros de santos,
recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima até dous terços da altura.
Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Vítor Emanuel com enormes bigodes
em desordem; um cromo sentimental de folhinha - uma cabeça de mulher em posição de sonho -
parecia olhar um São João Batista ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma
lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.
Não tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descarnado,
enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. Capengava de um pé e parecia querer ajudar a
marcha, com a mão esquerda pousada na perna correspondente.
- Boas-tardes, tia Maria Rita, disse o general.
Ela respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. O general atalhou:
- Não me conhece mais? Sou o General, o Coronel Albernaz.
- Ah! É sô coroné!... Há quanto tempo! Como está nhã Maricota?
- Vai bem. Minha velha, nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.
- Quem sou eu, ioiô!
- Ora! Vamos, tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o “Bumba-meu-Boi”?
- Quá, ioiô, já mi esqueceu.
- E o “Boi Espácio”?
- Cousa véia, do tempo do cativeiro - pra que sô coroné qué sabê disso?
Ela falava arrastando as sílabas, com um doce sorriso e um olhar vago.
- É para uma festa... Qual é a que você sabe?
A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa, deixando perceber
rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados:
- Vovó já não se lembra.
O general, que a velha chamava coronel, por tê-lo conhecido nesse posto, não atendeu a observação
da moça e insistiu:
- Qual esquecida, o quê! Deve saber ainda alguma cousa, não é, titia?
- Só sei o “Bicho Tutu”, disse a velha.
- Cante lá!
- Ioiô sabe! Não sabe? Quá, sabe!
- Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Policarpo, se
sei.
Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo
em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor
recordar-se, e entoou:

É vem tutu
Por detrás do murundu
Pra cumê sinhozinho
Cum bucado de angu.

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- Ora! Fez o general com enfado, isso é cousa antiga de embalar crianças. Você não sabe outra?
- Não, sinhô. Já mi esqueceu.
Os dous saíram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições
de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as
suas canções? Era bem um sinal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daqueles
povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das
tradições, mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes...
Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar, e escapava-
lhe. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma
delas já estava garantida, graças a Deus!
O crepúsculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.
A decepção, porém, demorou dias. Cavalcanti, o noivo de Ismênia, informou que nas imediações
morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Foram a ele. Era
um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos, homem doce e ingênuo que se deixara
esquecer em vida, como poeta, e agora se entretinha em publicar coleções, que ninguém lia, de
contos, canções, adágios e ditados populares.
Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores. Quaresma estava
animado e falou com calor; e Albernaz também, porque via na sua festa, com um número de
folklore, meio de chamar a atenção sobre sua casa, atrair gente e... casar as filhas.
A sala em que foram recebidos era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de
livros, pastas, latas, que mal se podia mover nela. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos; numa
pasta: São Bonifácio do Cabresto.
- Os senhores não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas
ela reserva!... Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. Querem
ver?
O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:

Se Deus enxergasse pobre
Não me deixaria assim:
Dava no coração dela
Um lugarzinho pra mim.
O amor que tenho por ela
Já não cabe no meu peito;
Sai-me pelos olhos afora
Voa às nuvens direito.

- Não é bonito?... Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco, a coleção de
histórias que o povo tem sobre o símio?... Oh! Uma verdadeira epopéia cômica!
Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um
semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do folclorista, tinha mais
inteligência no olhar com que o encarava.
O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo, numa pasta; e foi logo à outra, donde tirou
várias folhas de papel. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes:
- Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco, das muitas que o povo conta... Só eu já
tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las, sob o título Histórias do Mestre Simão.
E, sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:
“O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando de árvore em
árvore, nas bordas de uma grota. Eis senão quando um deles vê no fundo uma onça que lá caíra. Os
macacos se enternecem e resolvem salvá-la. Para isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem,
amarraram a corda assim feita à cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça. Com o
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esforço reunido de todos, conseguiram içá-la e logo se desamarraram, fugindo. Um deles, porém,
não pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente.
- Compadre Macaco, disse ela, tenha paciência. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de
deixar-se comer.
O macaco rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexível. Simão então lembrou que a
demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a ele; o macaco sempre agarrado pela onça. É
juiz de direito entre os animais o jabuti, cujas audiências são dadas à borda dos rios, colocando-se
ele em cima de uma pedra. Os dous chegaram e o macaco expôs as suas razões.
O jabuti ouviu-o e no fim ordenou:
- Bata palmas.
Apesar de seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas. Chegou a vez da onça, que
também expôs as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:
- Bata palmas.
A onça não teve remédio senão largar o macaco, que se escapou, e também o juiz, atirando-se
n’água.”
Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dous:
- Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção, muita criação, verdadeiro
material para fabliaux interessantes... No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa
forma imortal!... Ah! Então!
Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos
abrolhavam duas lágrimas furtivas.
- Agora, continuou ele, depois de passada a emoção, vamos ao que serve. “O Boi Espácio” ou o
“Bumba-meu-boi” ainda é muita cousa para vocês... É melhor irmos devagar, começar pelo mais
fácil... Está aí o “Tangolomango”, conhecem?
- Não, disseram os dous.
- É divertido. Arranjem dez crianças, uma máscara de velho, uma roupa estrambólica para um dos
senhores, que eu ensaio.
O dia chegou. A casa do general estava cheia. Cavalcanti viera; e ele e a noiva, à parte, no vão de
uma janela, pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia. Ele, falando muito, cheio de
trejeitos no olhar; ela, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar de
gratidão.
Quaresma fez o “Tangolomango”, isto é, vestiu uma velha sobrecasaca do general, pôs uma imensa
máscara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de báculo, e entrou na sala. As dez
crianças cantaram em coro:

Uma mãe teve dez filhos
Todos os dez dentro de um pote:
Deu o Tangolomango nele
Não ficaram senão nove.

Por aí, o major avançava, batia com o báculo no assoalho, fazia hu! hu! hu!; as crianças fugiam,
afinal ele agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala,
quando, pela quinta estrofe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista escura e caiu. Tiraram-lhe a máscara,
deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.
O acidente, entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore. Comprou livros, leu todas as
publicações a respeito, mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo.
Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras; o próprio “Tangolomango” o era também.
Tornava-se, portanto, preciso arranjar alguma cousa própria, original, uma criação da nossa terra e
dos nossos ares.
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Essa idéia levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéia traz outra, logo ampliou o
seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de relações, de cumprimentos, de
cerimônias domésticas e festas, calcado nos preceitos tupis.
Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram à porta, em
meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os
cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio
também, e o compadre e a filha, pois eram eles, ficaram estupefatos no limiar da porta.
- Mas que é isso, compadre?
- Que é isso, Policarpo?
- Mas, meu padrinho...
Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:
- Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão.
Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que
faziam os tupinambás.
O seu compadre Vicente, a filha e Dona Adelaide entreolharam-se, sem saber o que dizer. O
homem estaria doido? Que extravagância!
- Mas, Senhor Policarpo, disse-lhe o compadre, é possível que isto seja muito brasileiro, mas é bem
triste, compadre.
- Decerto, padrinho, acrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...
Este seu compadre era italiano de nascimento. A história das suas relações vale a pena contar.
Quitandeiro ambulante, fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos. O major já
tinha as suas idéias patrióticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de
vê-lo suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de
europeu recém-chegado. Mas um belo dia, ia Quaresma pelo Largo do Paço, muito distraído, a
pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim, quando veio a encontrar-se
com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquela simplicidade d’alma que era bem sua, e notou
que o rapaz tinha alguma preocupação séria. Não só, de onde em onde, soltava exclamações sem
ligação alguma com a conversa atual, como também cerrava os lábios, rilhava os dentes e crispava
raivosamente os punhos. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um
seu colega, estando disposto a matá-lo, pois perdera o crédito e em breve estaria na miséria. Havia
na sua afirmação uma tal energia e um grande e estranho acento de ferocidade, que fizeram
empregar o major toda a sua doçura e persuasão para dissuadi-lo do propósito. E não ficou nisto só:
emprestou-lhe também dinheiro. Vicente Coleoni pôs uma quitanda, ganhou uns contos de réis, fez-
se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veio a ter aquela filha, que foi levada à pia pelo seu
benfeitor. Inútil é dizer que Quaresma não notou a contradição entre as suas idéias patrióticas e o
seu ato.
É verdade que ele não as tinha ainda muito firmes, mas já flutuavam na sua cabeça e reagiam sobre
a sua consciência como tênues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos,
veleidades que não tardariam tomar consistência e só esperavam os anos para desabrochar em atos.
Fora, pois, ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga que ele recebera com o mais legítimo
cerimonial guaitacás, e, se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o
não tê-lo. Estava até à mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.
- Lê-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre ele os seus olhos muito
luminosos.
Havia entre os dous uma grande afeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar
os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas. Adivinhava-se, entretanto,
que a moça ocupava-lhe no coração o lugar dos filhos que não tivera nem teria jamais. A menina
vivaz, habituada a falar alto e desembaraçadamente, não escondia a sua afeição tanto mais que
sentia confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade em seguir
um sonho, uma idéia, um vôo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a
ver em ninguém do mundo que freqüentava. Essa admiração não lhe vinha da educação. Recebera a
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comum às moças de seu nascimento. Vinha de um pendor próprio, talvez das proximidades
européias do seu nascimento, que a fizeram um pouco diferente das nossas moças.
Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho:
- Então, padrinho, lê-se muito?
- Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.
Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos
livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Falava agora com tanta
segurança, ele que antigamente era tão modesto, hesitante mesmo no falar - que diabo! Não, não
era possível... Mas, quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos - uma alegria de
matemático que resolveu um problema, de inventor feliz!
- Não se vá meter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.
- Não te assustes por isso. A cousa vai naturalmente, não é preciso violências...
Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão
encapotado em camurça. O major fez as apresentações.
- Já o conhecia de nome, Senhor Ricardo, disse Olga.
Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento. A sua fisionomia minguada
dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cútis, que era ressecada e de tom de velho
mármore, como que ficou macia e jovem. Aquela moça parecia rica, era fina e bonita, conhecia-o -
que satisfação! Ele que era sempre um tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das
moças, fossem de que condição fossem, animava-se, soltava a língua, amaciava a voz e ficava
numeroso e eloqüente.
- Leu então os meus versos, não é, minha senhora?
- Não tive esse prazer, mas li, há meses, uma apreciação sobre um trabalho seu.
- No Tempo, não foi?
- Foi.
- Muito injusta! acrescentou Ricardo. Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação.
Dizem que os meus versos não são versos... São, sim; mas são versos para violão. Vossa
Excelência sabe que os versos para música têm alguma cousa de diferente dos comuns, não é? Não
há, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para violão, sigam outra métrica e outro
sistema, não acha?
- Decerto, disse a moça. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música para
os versos.
E ela sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, enquanto Ricardo,
desconfiado, lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo.
Quaresma, que até ali se conservava calado, interveio:
- O Ricardo, Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.
- Eu sei, padrinho. Eu sei...
- Entre nós, minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a sério essas tentativas
nacionais, mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam... Como é que se chama, major, aquele poeta
que escreveu em francês popular?
- Mistral, acudiu Quaresma, mas não é francês popular; é o provençal, uma verdadeira língua.
- Sim, é isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante ao
violão, estou fazendo o mesmo.
Olhou triunfante para um e outro circunstante; e Olga dirigindo-se a ele disse:
- Continue na tentativa, Senhor Ricardo, que é digno de louvor.
- Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o violão é um belo instrumento e tem grandes
dificuldades. Por exemplo...
- Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. Há outros mais difíceis.
- O piano? perguntou Ricardo.
- Que piano! O maracá, a inúbia.
- Não conheço.
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- Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis, os únicos que o são
verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassados, daquela gente valente que se bateu e ainda
se bate pela posse desta linda terra. Os caboclos!
- Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.
- De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir... Se é por
ser de caboclo, o violão também não vale nada - é um instrumento de capadócio.
- De capadócio, major! Não diga isso...
E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpresa, espantada, sem atinar, sem
explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu padrinho, até ali tão sossegado e
tão calmo.

III
A Notícia do Genelício
- Então quando se casa, Dona Ismênia?
- Em Março. Cavalcanti já está formado e...
Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há
quase cinco anos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento
para daí a três meses. A alegria foi grande na família; e, como em tal caso, uma alegria não podia
passar sem baile, uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática.
As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia
que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado, e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se
casassem.
Noiva havia quase cinco anos, Ismênia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto à sua
natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ela, não era
negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéia, uma pura idéia.
Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor, o prazer dos sentidos,
uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer:
“Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”... ou senão “Você precisa aprender a pregar
botões, porque quando você se casar”...
A todo instante e a toda a hora, lá vinha aquele - “porque quando você se casar”... - e a menina foi-
se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações
íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar.
De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na
rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se;
não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa”; ou então: “A Zezé está
doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!”...
A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéias, o nosso próprio direito à
felicidade, foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe
representou cousa importante, uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-
lhe um crime, uma vergonha.
De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem
quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto, na sua inteligência a idéia de “casar-
se” incrustou-se teimosamente como uma obsessão.
Ela não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho malfeito, mas galante, não
muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva, de indolência de corpo, de
idéia e de sentidos - era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam - “bonitinhas”.
O seu traço de beleza dominante, porém, eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos, com
tons de ouro, sedoso até ao olhar.
Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti, e à fraqueza de sua vontade e ao temor de
não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.
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O pai fez má cara. Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre, Maricota -
dizia ele - quem são. Olho vivo!... É melhor prevenir que curar... Pode ser um valdevinos e...”
Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista?
perguntava ele de si para si. Um cidadão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um
oficial, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito,
e ele acedeu.
Começou então Cavalcanti a freqüentar a casa na qualidade de noivo “paisano”, isto é, que não
pediu, não é ainda “oficial”.
No fim do primeiro ano, tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar
os estudos, o general foi generosamente em seu socorro. Pagou-lhe taxas de matrículas, livros e
outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, Dona Maricota viesse ao
marido e dissesse: “Chico, arranja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma
Anatomia.”
O general era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretensão marcial, não havia no seu caráter a
mínima falha. Demais, aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor quando se tratava
dos interesses delas.
Ele ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despesas ao futuro genro,
convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali.
Enfim - dizia Albernaz à mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos - a cousa vai acabar.
Felizmente, respondia-lhe Dona Maricota, vamos descontar esta letra.
A satisfação resignada do general era porém falsa; ao contrário: ele estava radiante. Na rua, se
encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia ele:
- É um inferno, esta vida! Imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha!
Ao que Castro interrogava:
- Qual delas?
- A Ismênia, a segunda, respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.
- Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malícia, aprendi a receita. Por que não fizeste o mesmo?
Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazéns, às lojas de louça, comprava mais pratos,
mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de
abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.
Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido, Dona Maricota amanheceu cantando. Era raro
que o fizesse; mas nos dias de grande alegria, ela cantarolava uma velha ária, uma cousa do seu
tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela, pedindo-lhe isto ou
aquilo.
Muito ativa, muito diligente, não havia dona-de-casa mais econômica, mais poupada e que fizesse
render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôs tudo em
atividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota foram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as
raparigas na arrumação das salas e dos quartos, enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa, dispô-
la com muito gosto e esplendor. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A
alegria de Dona Maricota era grande; ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar
casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e
desonroso para a família. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra,
como ela dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família.
Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente.
- Mas, minha filha, dizia ela, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí
uma “mosca-morta”.
- Mamãe, que quer que eu faça?
- Não é bonito rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas também assim como você está! Eu
nunca vi noiva assim.
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Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a
pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-
a e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria.
Veio muita gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general o
Contra-Almirante Caldas, o Doutor Florêncio, engenheiro das Águas, o Major honorário Inocêncio
Bustamante, o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas
importantes. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença
dele em festa séria; Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.
Às seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não sem um
pouco de inveja no olhar.
Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
- Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque.
Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras,
as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam a par.
A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
- Eu, ontem, vi na Rua da Constituição um dormitório de casal, muito bonito, você por que não vai
ver, Ismênia? Parece barato.
A Ismênia era a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas; e, se as respondia, era por
monossílabos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. Estefânia, a
doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num
dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou
de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e
quentes, e disse alto:
- Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei...
Ela aludia à resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê!
Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam
Cavalcanti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.
- Então, Doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.
- É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos - fui de um
heroísmo!...
- Conhece o Chavantes? perguntava um outro.
- Conheço. Um crônico, um pândego...
- Foi seu colega?
- Foi, isto é, ele é do curso de Medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano.
Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de
outro.
- É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no
Deve e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.
- Atualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas
academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo!
Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares
poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...
- Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabéns. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho,
quando se formou: vá furando!
- Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.
- Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.
- Boa carreira.
Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente
sobrenatural.
Para aquela gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma
cousa sagrada e de essência superior; e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as
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cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nela de modo
algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a ser vulgar, comum, na aparência, mas a sua
substância tinha mudado, era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente
fora da natureza terrestre, quase divina.
Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O general
ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com ele o
Contra-Almirante Caldas, o Major Inocêncio, o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros
Segismundo.
Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação
militar. O contra-almirante era interessantíssimo. Na Marinha, por pouco que não fazia pendant
com Albernaz no Exército. Nunca embarcara, a não ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo
por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi
aos poucos se metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos
e sem amigos nos altos lugares, se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. É
curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento, mas só se as dá aos
protegidos.
Certa vez, quando era já capitão-tenente, deram-lhe um embarque em Mato Grosso. Nomearam-no
para comandar o couraçado “Lima Barros”. Ele lá foi, mas, quando se apresentou ao comandante
da flotilha, teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio. Indagou daqui e dali e
houve quem aventurasse que podia ser que o tal “Lima Barros” fizesse parte da esquadrilha do
Alto-Uruguai. Consultou o comandante.
- Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande.
Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai, onde chegou enfim, depois de uma penosa e fatigante
viagem. Mas aí também não estava o tal “Lima Barros”. Onde estaria então? Quis telegrafar para o
Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais que não andava em cheiro de santidade.
Esteve assim um mês em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um
dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe,
apresentou-se às altas autoridades da Marinha. Foi preso e submetido a conselho.
O “Lima Barros” tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguai.
Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. Todos o tinham
na conta de parvo, de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos quatro
pontos cardeais. Deixaram-no “encostado”, como se diz na gíria militar, e ele levou quase quarenta
anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. Reformado no posto imediato, com
graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de
estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referisse a promoções de oficiais. Comprava
repertórios de legislação, armazenava coleções de leis, relatórios, e encheu a casa de toda essa
enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação de sua
reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam meses o infinito rosário de repartições e
eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar.
Ultimamente constituíra advogado junto à justiça federal e lá andava ele de cartório em cartório,
acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juízes e advogados - esse poviléu rebarbativo do foro
que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.
Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil
e humilde. Antigo voluntário da pátria, possuindo honras de major, não havia dia em que não fosse
ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asilo
dos Inválidos, noutro honras de tenente-coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha
nenhum, ia ver a dos outros.
Não se pejou mesmo de tratar do pedido de um maníaco que, por ser tenente honorário e também
da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais
outros dous fazem quatro - o que quer dizer: major.
Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante, Bustamante fez a sua consulta.
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- Assim de pronto, não sei. Não é a minha especialidade o Exército, mas vou ver. Isto também anda
tão atrapalhado!
Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos, que lhe davam um ar de
“comodoro” ou de chacareiro português, pois era forte nele o tipo lusitano.
- Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!
- Não há mais gente que preste, disse Bustamante.
Segismundo por aí aventurou também a sua opinião, dizendo:
- Eu não sou militar, mas...
- Como não é militar? fez Albernaz com ímpeto. Os senhores é que são os verdadeiros: estão
sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?
- Decerto, decerto, fez o almirante cofiando os favoritos.
- Como ia dizendo, continuou Segismundo, apesar de não ser militar, eu me animo a dizer que a
nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?
- Não há mais, meu caro, confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio.
- Não sei por quê, pois tudo hoje não vai pela ciência?
Fora Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor:
- Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti, hein, Caldas? hein,
Inocêncio?
O Doutor Florêncio era o único paisano da roda. Engenheiro e empregado público, os anos e o
sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da
escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de
Albernaz, era raro que não viesse toda a tarde jogar o solo com o general. O Doutor Florêncio
perguntou:
- O senhor assistiu, não foi, general?
O general não se deteve, não se atrapalhou, não gaguejou e disse com a máxima naturalidade:
- Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o
Venâncio...
Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janela da sala onde estavam, não se via nem
um monte. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas com as suas
cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava
tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desaparecido do horizonte e as
tênues luzes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás das
vidraças.
Bustamante quebrou o silêncio:
- Este país não vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de tenente-
coronel, está no ministério há seis meses!
- Uma desordem, exclamaram todos.
Era noite. Dona Maricota chegou até onde eles estavam, muito ativa, muito diligente e com o rosto
aberto de alegria.
- Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico, sim?
Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma
cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto,
nestes termos:
- Se não dançam é porque não querem. Estou pegando alguém?
Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou:
- Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguém tira par, ninguém toca. Estão lá tantas moças,
tantos rapazes, é uma pena!
- Bem; eu vou lá, disse Albernaz.
Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile.
- Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
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E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: “Não, general, já tenho par”, dizia uma moça. “Não
faz mal”, retrucava ele, “dance com o Raimundinho; o outro espera.”
Depois de ter dado início ao baile, veio para a roda dos amigos, suando, mas contente.
- Isto de família! Qual! A gente até parece bobo, dizia. Você é que fez bem, Caldas; não se quis
casar!
- Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
- Vamos jogar o solo, convidou Albernaz.
- Somos cinco, como há de ser? observou Florêncio.
- Não, eu não jogo, disse Bustamante.
- Então jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz.
As cartas vieram e também uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a
sorte para ver quem dava. Coube a Florêncio dar. Começaram. Albernaz tinha um ar atento quando
jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de
reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante
numa partida de whist. Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a
cabeça do lado para fugir à fumaça. Bustamante fora à sala ver as danças.
Tinham começado a partida, quando Dona Quinota, uma das filhas do general, atravessou a sala e
foi beber água. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou à moça:
- Então, Dona Quinota, quedê o Genelício?
A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor:
- Ué! Sei lá! Ando atrás dele?
- Não precisa zangar-se, Dona Quinota; é uma simples pergunta, advertiu Caldas.
O general, que examinava atentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:
- Eu passo.
Dona Quinota retirou-se. Este Genelício era o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se
como certo o seu casamento na família. A sua candidatura era favorecida por todos. Dona Maricota
e o marido enchiam-no de festas. Empregado do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos
de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do
que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que
podia. Quando saía, remancheava, lavava três ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o diretor
na porta. Acompanhava-o, conversava com ele sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava
este ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um
ministro, fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso; nos
aniversários de nascimento, era um soneto que começava sempre por - “Salve” - e acabava também
por - “Salve! Três vezes Salve!”
O modelo era sempre o mesmo; ele só mudava o nome do ministro e punha a data.
No dia seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto.
Em quatro anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de
Contas, a se fundar, num posto acima.
Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio. Não se limitava ao soneto,
ao discurso; buscava outros meios, outros processos. No intuito de anunciar aos ministros e
diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornais longos
artigos sobre contabilidade pública. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas
aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses.
Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e ele vivia
na seção cercado do respeito de um gênio, um gênio do papelório e das informações. Acresce que
Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar; e tantos títulos
juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal
Albernaz.
Fora da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico, mas que a
convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. Um empregado modelo!
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O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das “mãos” fazia-se um breve
comentário ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo,
bolo, melhoro, passo”. Feitas elas, jogava-se em silêncio; da sala, porém, vinha o ruído festivo das
danças e das conversas.
- Olhem quem está aí!
- O Genelício, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?
Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado,
chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo ele traía a profissão, os seus gostos e hábitos.
Era um escriturário.
- Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negócios.
- Vão bem? perguntou Florêncio.
- Quase garantido. O ministro prometeu... Não há nada, estou bem “cunhado”!
- Estimo muito, disse o general.
- Obrigado. Sabe de uma cousa, general?
- O que é?
- O Quaresma está doido.
- Mas... o quê? Quem foi que te disse?
- Aquele homem do violão. Já está na casa de saúde...
- Eu logo vi, disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.
- Mas não é só, general, acrescentou Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.
- É o que eu dizia, fez Albernaz.
- Quem é? perguntou Florêncio.
- Aquele vizinho, empregado do Arsenal; não conhece?
- Um baixo, de pince-nez?
- Este mesmo, confirmou Caldas.
- Nem se podia esperar outra cousa, disse o Doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de
leitura...
- Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.
- Telha de menos, disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
- Ele não era formado, para que meter-se em livros?
- É verdade, fez Florêncio.
- Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Segismundo.
- Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros.
Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?
- Decerto, disse Albernaz.
- Decerto, fez Caldas.
- Decerto, disse Segismundo.
Calaram-se um instante, e as atenções convergiram para o jogo.
- Já saíram todos os trunfos?
- Contasse, meu amigo.
Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala
triunfantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano. Zizi acompanhava.
Tossiu e, com a sua voz metálica, apurando muito os finais em “s”, começou:

A vida é uma comédia sem sentido,
Uma história de sangue e de poeira
Um deserto sem luz...

E o piano gemia.

22
IV
Desastrosas Conseqüências de
um Requerimento
Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da mesa de solo, na
tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de Ismênia, se tinham desenrolado
com rapidez fulminante. A força de idéias e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado
em atos imprevistos com uma seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão. O primeiro fato
surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma
extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.
Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sessão da Câmara, o
secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular e que veio a ter uma fortuna de
publicidade e comentário pouco usual em documentos de tal natureza.
O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável ao elevado trabalho de
legislar não permitiram que os deputados o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam próximo à
Mesa, ao ouvi-lo, prorromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes à majestade do lugar.
O riso é contagioso. O secretário, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o
presidente, ria-se o oficial da ata, ria-se o contínuo - toda a Mesa e aquela população que a cerca
riram-se da petição, largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão fraca
alegria que as lágrimas vieram.
Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de trabalho, de sonho
generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquele rir inofensivo diante
dela. Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava à Mesa da
Câmara, mas não aquele recebimento hilárico, de uma hilaridade inocente, sem fundo algum, assim
como se se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta
de clown.
Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nele um motivo para riso franco e sem
maldade. A sessão daquele dia fora fria; e, por ser assim, as seções dos jornais referentes à Câmara,
no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.
Era assim concebida a petição:

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é
emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo
no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas
dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores,
com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se,
diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma - usando
do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-
guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia, pede
vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua
criação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como complemento
e conseqüência a sua emancipação idiomática.
Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima, aglutinante, é a única capaz
de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se
perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e
ainda vivem, portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos,
evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de
uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal - controvérsias
que tanto empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica.
Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida
e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade
23
P. e E. deferimento.”

Assinado e devidamente estampilhado, este requerimento do major foi durante dias assunto de
todas as palestras. Publicado em todos os jornais, com comentários facetos, não havia quem não
fizesse uma pilhéria sobre ele, quem não ensaiasse um espírito à custa da lembrança de Quaresma.
Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quis mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era
casado, se era solteiro. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na
rua.
Os pequenos jornais alegres, esses semanários de espírito e troça, então! eram de um
encarniçamento atroz com o pobre major. Com uma abundância que marcava a felicidade dos
redatores em terem encontrado um assunto fácil, o texto vinha cheio dele: o Major Quaresma disse
isso; o Major Quaresma fez aquilo.
Um deles, além de outras referências, ocupou uma página inteira com o assunto da semana.
Intitulava-se a ilustração: “O matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma”, e o desenho
representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. Um
outro referia-se ao caso pintando um açougue, “O açougue Quaresma”; legenda: a cozinheira
perguntava ao açougueiro:
- O senhor tem língua de vaca?
O açougueiro respondia: - Não, só temos língua de moça, quer?
Com mais ou menos espírito, os comentários não cessavam e a ausência de relações de Quaresma
no meio de que saíam fazia com que fossem de uma constância pouco habitual. Levaram duas
semanas com o nome do subsecretário.
Tudo isso irritava profundamente Quaresma. Vivendo há trinta anos quase só, sem se chocar com o
mundo, adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor
cousa. Nunca sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade, vivia imerso no seu sonho, incubado e
mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fora deles, ele não conhecia ninguém; e, com as pessoas
com quem falava, trocava pequenas banalidades, ditos de todo o dia, cousas com que a sua alma e o
seu coração nada tinham de ver.
Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que a todos.
Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo, às competições, às
ambições, pois nada dessas cousas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu
temperamento.
Desinteressado de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a
candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa, os grandes estudiosos,
os sábios, e os inventores, gente que fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas
das poesias de outras épocas.
É raro encontrar homens assim, mas os há e, quando se os encontra, mesmo tocados de um grão de
loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser homem e mais
esperança na felicidade da raça.
A continuidade das troças feitas nos jornais, a maneira com que o olhavam na rua, exasperavam-no
e mais forte se enraizava nele a sua idéia. À medida que engolia uma troça, uma pilhéria, vinha-lhe
meditar sobre a sua lembrança, pesar-lhe todos os aspectos, examiná-la detidamente, compará-la a
cousas semelhantes, recordar os autores e autoridades; e, à proporção que fazia isso, a sua própria
convicção mostrava a inanidade da crítica, a ligeireza da pilhéria, e a idéia o tomava, o avassalava,
o absorvia cada vez mais.
Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio, a
repartição ficou furiosa. Nos meios burocráticos, uma superioridade que nasce fora deles, que é
feita e organizada com outros materiais que não os ofícios, a sabença de textos de regulamentos e a
boa caligrafia, é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja.
É como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade, ao anonimato
papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de interesse pecuniário; há uma questão de amor-
24
próprio, de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele galé como eles, sujeito aos
regulamentos, aos caprichos dos chefes, às olhadelas superiores dos ministros, com mais títulos à
consideração, com algum direito a infringir as regras e os preceitos.
Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o assassino marquês
que matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o nobre e o
burguês trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu
humilde colega de desgraça.
Assim, quando surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua
nomeação, aparecem as pequeninas perfídias, as maledicências ditas ao ouvido, as indiretas, todo o
arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do
que ela.
Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres nas informações, na redação,
na assiduidade ao trabalho, mesmo os doutores, os bacharéis, do que os que têm nomeada e fama.
Em geral, a incompreensão da obra ou do mérito do colega é total e nenhum deles se pode capacitar
que aquele tipo, aquele amanuense, como eles, faça qualquer cousa que interesse os estranhos e dê
que falar a uma cidade inteira.
A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e
superiores. Já se viu! dizia o secretário. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa!
Pretensioso! O diretor, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não
cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista era o menos terrível, mas
chamou-o logo de doido.
O major sentia bem aquele ambiente falso, aquelas alusões e isso mais aumentava o seu desespero e
a teimosia na sua idéia. Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades,
essa má vontade geral; era uma cousa inocente, uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o
assentimento de todo o mundo; e meditava, voltava à idéia, e a examinava com mais atenção.
A extensa publicidade, que o fato tomou, atingiu o palacete de Real Grandeza, onde morava o seu
compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construções de prédios, viúvo, o antigo
quitandeiro retirara-se dos negócios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e
tinha todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha, um imenso
monograma sobre a porta da entrada, dous cães de louça, nos pilares do portão da entrada e outros
detalhes equivalentes.
A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, tinha um razoável jardim na
frente, que avançava pelos lados, pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo
calor os pássaros morriam tristemente. Era uma instalação burguesa, no gosto nacional, vistosa,
cara, pouco de acordo com o clima e sem conforto.
No interior o capricho dominava, tudo obedecendo a uma fantasia barroca, a um ecletismo
desesperador. Os móveis se amontoavam, os tapetes, as sanefas, os bibelots e a fantasia da filha,
irregular e indisciplinada, ainda trazia mais desordem àquela coleção de cousas caras.
Viúvo, havia já alguns anos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha, quem o
encaminhava nas distrações e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tirania. Queria
casar a filha, bem e ao gosto dela, não punha, portanto, nenhum obstáculo ao programa de Olga.
Em começo, pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre, uma espécie de arquiteto que não
desenhava, mas projetava casas e grandes edifícios. Primeiro sondou a filha. Não encontrou
resistência, mas não encontrou também assentimento. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da
menina, aquele seu ar distante de heroína, a sua inteligência, o seu fantástico não se dariam bem
com as rudezas e a simplicidade campônias de seu auxiliar.
Ela quer um doutor - pensava ele - que arranje! Com certeza, não terá ceitil, mas eu tenho e as
cousas se acomodam.
Ele se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquês ou o barão de sua terra natal. Cada terra
tem a sua nobreza; lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito aceitável
comprar a satisfação de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis.
25
Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos da menina. Gostando de dormir
cedo, tinha que perder noites e noites no Lírico, nos bailes; amando estar sentado em chinelas a
fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de
modas atrás da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um frasco
de perfume.
Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas cheio de complacência de pai que quer enobrecer o filho,
a dar opinião sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de
sentimento daquelas cousas que se adivinhava até no pagá-las. Mas ele ia, demorava-se e
esforçava-se por entrar no segredo, no mistério, cheio de tenacidade e candura perfeitamente
paternais.
Até aí ele ia bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam bastante as visitas, as colegas da
filha, suas irmãs, com seus modos de falsa nobreza, os seus desdéns dissimulados, deixando
perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade das amigas e das colegas de
Olga.
Não se aborrecia, porém, muito profundamente; ele assim o quisera e a fizera, tinha que se
conformar. Quase sempre, quando chegavam tais visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da
casa. Entretanto, não lhe era sempre possível fazer isso; nas grandes festas e recepções tinha que
estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta nobreza da terra que o
freqüentava. Ele ficara sempre empreiteiro, com poucas idéias além do seu ofício, não sabendo
fingir, de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de casamentos, de bailes de festas e
passeios caros.
Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e sempre perdia. Chegou
mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e
muito, mas não foi isso que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos - uma ninharia! A
questão, porém, é que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso,
pareceu-lhe simples distração do distinto jornalista e famoso advogado. Um homem honesto não ia
fazer aquilo! E na segunda, seria também? E na terceira?
Não era possível tanta distração. Adquiriu a certeza da trampolinagem, calou-se, conteve-se com
uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra vez
e o passe foi posto em prática, Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade
deste mundo:
- Os senhores sabem que há agora, na Europa, um novo sistema de jogar o poker?
- Qual é? perguntou alguém.
- A diferença é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos parceiros, somente.
Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar, e a ganhar, despediu-se à meia-noite cheio de
delicadeza, fez alguns comentários sobre a partida e não voltou mais.
Conforme o seu velho hábito, Coleoni lia de manhã os jornais, com o vagar e a lentidão de homem
pouco habituado à leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal.
Ele não compreendeu bem o requerimento, mas os jornais faziam tanta troça, caíam tão a fundo
sobre a cousa, que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa, tendo
praticado, por inadvertência, alguma falta grave.
Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mas daí quem sabe?
Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilhéria...
Apesar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nele não
só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício, como um duplo respeito pelo major,
oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio.
Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos
camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado; e, como, apesar dos bastos anos de
Brasil, ainda não sabia juntar o saber aos títulos, tinha em grande consideração a erudição do
compadre.
26
Não é, pois, de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que os
jornais reprovavam. Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que ele queria dizer. Chamou
a filha.
- Olga!
Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque; mas, quando falava português, punha nas
palavras uma rouquidão singular, e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões
italianas.
- Olga, que quer dizer isto? Non capisco...
A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal o requerimento e os comentários.
- Che! Então?
- O padrinho quer substituir o português pela língua tupi, entende o senhor?
- Como?
- Hoje, nós não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi.
- Tutti?
- Todos os brasileiros, todos.
- Ma che cousa! Não é possível?
- Pode ser. Os tchecos têm uma língua própria, e foram obrigados a falar alemão, depois de
conquistados pelos austríacos; os lorenos, franceses...
- Per la madonna! Alemão é língua, agora esse acujelê, ecco!
- Acujelê é da África, papai; tupi é daqui.
- Per Bacco! É o mesmo... Está doido!
- Mas não há loucura alguma, papai.
- Como? Então é cousa de um homem bene?
- De juízo, talvez não seja; mas de doido, também não.
- Non capisco.
- É uma idéia, meu pai, é um plano, talvez à primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas não de
todo doido. É ousado, talvez, mas...
Por mais que quisesse, ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai. Neste falava
o bom senso e nela o amor às grandes cousas, aos arrojos e cometidos ousados. Lembrou-se de que
Quaresma lhe falara em emancipação; e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de
admiração pelo atrevimento do major, não foi decerto o de reprovação ou lástima; foi de piedade
simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia há tantos anos,
seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.
- Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.
E ele tinha razão. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita
de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. Em princípio, o subsecretário
suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o supunham insciente no tupi, irritou-se,
encheu-se de uma raiva surda, que se continha dificilmente. Como eram cegos! Ele que há trinta
anos estudava o Brasil minuciosamente; ele que, em virtude desses estudos, fora obrigado a
aprender o rebarbativo alemão, não saber tupi, a língua brasileira, a única que o era - que suspeita
miserável!
Que o julgassem doido - vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações, não! E ele
pensava, procurava meios de se reabilitar, caía em distrações, mesmo escrevendo e fazendo a tarefa
quotidiana. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo o dia, e a outra, na
preocupação de provar que sabia o tupi.
O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fora grande e
ele mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre cousas
de Mato Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da
sala, com acento escarninho:
- Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
27
Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na
minuta, fosse pela alusão do funcionário Carmo, o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a
peça oficial para o idioma indígena.
Ao acabar, deu com a distração, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram,
para que ele examinasse. Novas preocupações afastaram a primeira, esqueceu-se e o ofício em tupi
seguiu com os companheiros. O diretor não reparou, assinou e o tupinambá foi dar ao ministério.
Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. Que língua era? Consultou-se o Doutor
Rocha, o homem mais hábil da secretaria, a respeito do assunto. O funcionário limpou o pince-nez,
agarrou o papel, voltou-o de trás para diante, pô-lo de pernas para o ar e concluiu que era grego, por
causa do “yy”.
O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio, porque era bacharel em direito e não dizia
cousa alguma.
- Mas, indagou o chefe, oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas estrangeiras?
Creio que há um aviso de 84... Veja, senhor Doutor Rocha...
Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de legislação, andou-se de mesa em mesa
pedindo auxílio à memória de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Doutor Rocha,
após três dias de meditação, foi ao chefe e disse com ênfase e segurança:
- O aviso de 84 trata de ortografia.
O diretor olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de
empregado zeloso, inteligente e... assíduo. Foi informado de que a legislação era omissa no tocante
à língua em que deviam ser escritos os documentos oficiais; entretanto não parecia regular usar
uma que não fosse a do país.
O ministro, tendo em vista esta informação e várias outras consultas, devolveu o ofício e censurou
o Arsenal.
Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam furiosamente, os contínuos andavam numa
dobadoura terrível e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em chegar.
Censurado! monologava o diretor. Ia-se por água abaixo o seu generalato. Viver tantos anos a
sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um
escriturário!
Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
O secretário chegou, foi ao gabinete do diretor. Inteirado do motivo, examinou o ofício e pela letra
conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. Mande-o cá, disse o coronel. O major encaminhou-
se pensando nuns versos tupis que lera de manhã.
- Então o senhor leva a divertir-se comigo, não é?
- Como? fez Quaresma espantado.
- Quem escreveu isso?
O major nem quis examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distração e confessou com firmeza:
- Fui eu.
- Então confessa?
- Pois não. Mas Vossa Excelência não sabe...
- Não sabe! que diz?
O diretor levantou-se da cadeira, com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. Tinha
sido ofendido três vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento de
ensino que freqüentara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento científico do
mundo. Além disso escrevera no Pritaneu, a revista da escola, um conto - “A Saudade” - produção
muito elogiada pelos colegas. Dessa forma, tendo em todos os exames plenamente e distinção, uma
dupla coroa de sábio e artista cingia-lhe a fronte. Tantos títulos valiosos e raros de se encontrarem
reunidos, mesmo em Descartes ou Shakespeare, transformavam aquele - não sabe - de um
amanuense em ofensa profunda, em injúria.
- Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de
Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática, Astronomia, Física, Química, Sociologia e Moral?
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Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho aí,
pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo, 10 em Mecânica, 8 em Astronomia, 10 em
Hidráulica, 9 em Descritiva? Então?!
E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava
fuzilado.
- Mas, senhor coronel...
- Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.
Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fora seu propósito duvidar da sabedoria do seu diretor.
Ele não tinha nenhuma pretensão a sábio e pronunciara a frase para começar a desculpa; mas,
quando viu aquela enxurrada de saber, de títulos, a sobrenadar em águas tão furiosas, perdeu o fio
do pensamento, a fala, as idéias e nada mais soube nem pôde dizer.
Saiu abatido, como um criminoso, do gabinete do coronel, que não deixava de olhá-lo
furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser.
Saiu afinal. Chegando à sala do trabalho nada disse; pegou no chapéu, na bengala e atirou-se pela
porta afora, cambaleando como um bêbado. Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros.
Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros.
- Cedo, hein major?
- É verdade.
E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo avançou algumas
palavras:
- O major, hoje, parece que tem uma idéia, um pensamento muito forte.
- Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
- É bom pensar, sonhar consola.
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens...
E os dous separaram-se. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a Rua do Ouvidor,
com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canelas, sobraçando o violão na sua armadura
de camurça.

V
O Bibelot
Não era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de
pedra, com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e Nossa Senhora da
Piedade; penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas, atravessara o átrio ladrilhado, deixando à
esquerda e à direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério da loucura; subira
outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no
seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso
dever de amizade, visitando Quaresma. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao
certo; uns três ou quatro meses, se tanto.
Só o nome da casa metia medo. O hospício! É assim como uma sepultura em vida, um semi-
enterramento, enterramento do espírito, da razão condutora, de cuja ausência os corpos raramente
se ressentem. A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida,
prolongar a existência, quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde.
Com que terror, uma espécie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de inimigo invisível e
onipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes
uma boa morte, diziam.
No primeiro aspecto, não se compreendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo por
aquela casa imensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janelas
gradeadas, a se estender por uns centos de metros, em face do mar imenso e verde, lá na entrada da
baía, na Praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos,
como monges em recolhimento e prece.
29
De resto, com aquela entrada silenciosa, clara e respeitável, perdia-se logo a idéia popular da
loucura; o escarcéu, os trejeitos, as fúrias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali.
Não havia nada disso; era uma calma, um silêncio, uma ordem perfeitamente naturais. No fim,
porém, quando se examinavam bem, na sala de visitas, aquelas faces transtornadas, aqueles ares
aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheados e mergulhados em um sonho
íntimo sem fim, e via-se também a excitação de uns, mais viva em face à atonia de outros, é que se
sentia bem o horror da loucura, o angustioso mistério que ela encerra, feito não sei de que
inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real, para se apossar e viver das aparências das
cousas ou de outras aparências das mesmas.
Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado,
sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer cousa ele nos invade, nos
toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós
mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais
semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após.
E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Com o seu
padrinho, como fora? A princípio, aquele requerimento... Mas que era aquilo? Um capricho, uma
fantasia, cousa sem importância, uma idéia de velho sem conseqüência. Depois, aquele ofício? Não
tinha importância, uma simples distração, cousa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura
declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa...
Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de
imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do
seu delírio, aquela agitação desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava
fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde saía, de que ponto
do seu ser tomava conhecimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um
cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça, e enchia-o de indiferença para tudo mais
que não fosse o seu próprio delírio.
A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. Para ele, nada disso valia,
nada disso tinha existência e importância. Eram sombras, aparências; o real eram os inimigos, os
inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar. A velha irmã, atarantada,
atordoada, sem direção, sem saber que alvitre tomar. Educada em casa sempre com um homem ao
lado, o pai, depois o irmão, ela não sabia lidar com o mundo, com negócios, com as autoridades e
pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiência e ternura de irmã, oscilava entre a
crença de que aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples.
Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava, chamando a si
os interesses da família e evitando a demissão de que estava ameaçado, transformando-a em
aposentadoria, que seria dele? Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado,
honesto, com emprego seguro, tinha uma aparência inabalável; entretanto bastou um grãozinho de
sandice...
Estava há uns meses no hospício, o seu padrinho, e a irmã não o podia visitar. Era tal o seu abalo de
nervos, era tal a emoção ao vê-lo ali naquela meia-prisão, decaído dele mesmo que um ataque se
seguia e não podia ser evitado.
Vinham ela e o pai, às vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram só os três a visitá-lo.
Aquele domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo, nas proximidades do
mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda. O ar era macio e docemente o sol
faiscava nas calçadas.
O pai vinha lendo os jornais e ela, pensando, de quando em quando folheando as revistas ilustradas
que trazia para alegrar e distrair o padrinho.
Ele estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ela teve um certo pudor em se
misturar com os visitantes.
Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias; recalcou porém, dentro de si,
esse pensamento egoísta, o seu orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em destaque
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a sua elegância natural. Amava esses sacrifícios, essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza
deles, e ficou contente consigo mesma.
No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Como
em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda a gente, de várias condições,
nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia passam
também a sua rasoura pelas distinções que inventamos.
Os bem-vestidos e os mal-vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e os bonitos, os inteligentes e
os néscios, entravam com respeito, com concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se
penetrassem noutro mundo.
Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas, fumo, meias, chinelas, às
vezes livros e jornais. Dos doentes uns conversavam com os parentes; outros mantinham-se
calados, num mutismo feroz e inexplicável; outros indiferentes; e era tal a variedade de aspectos
dessas recepções que se chegava a esquecer o império da doença sobre todos aqueles infelizes,
tanto ela variava neste ou naquele, para se pensar em caprichos pessoais, em ditames das vontades
livres de cada um.
E ela pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos tristes que
de alegres, e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e como que dá o
próprio movimento da vida.
Verificando isso, quase teve satisfação, pois a sua natureza inteligente e curiosa se comprazia nas
mais simples descobertas que seu espírito fazia.
Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer
completamente. Chocando-se com aquele meio, houve logo nele uma reação salutar e necessária.
Estava doido, pois se o punham ali...
Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do
bigode já grisalho. Tinha emagrecido um pouco, os cabelos pretos estavam um pouco brancos, mas
o aspecto geral era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar, mas
quando a mania lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado. Ao vê-los disse amavelmente:
- Então vieram sempre... Estava à espera...
Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada.
- Como está Adelaide?
- Bem. Mandou lembranças e não veio porque... adiantou Coleoni.
- Coitada! disse ele, e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste; em seguida,
perguntou:
- E o Ricardo?
A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e alegria. Via-o já escapo à semi-
sepultura da insânia.
- Está bom, padrinho. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase acabada.
Coleoni tinha-se sentado. Quaresma também e a moça estava de pé, para melhor olhar o padrinho
com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar. Guardas, internos e médicos passavam
pelas portas com a indiferença profissional. Os visitantes não se olhavam, pareciam que não
queriam conhecer-se na rua. Lá fora, era o dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melancólico,
as montanhas a se recortar num céu de seda - a beleza da natureza imponente e indecifrável.
Coleoni, embora mais assíduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com satisfação que
errava na sua fisionomia, num ligeiro sorriso. Num dado momento aventurou:
- O major já está muito melhor; quer sair?
Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:
- É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incomodar-te tanto, mas vocês que têm sido tão
bons, hão de levar tudo isso para conta da própria bondade. Quem tem inimigos deve ter também
bons amigos...
O pai e a filha entreolharam-se; o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas queriam
rebentar. A moça interveio de pronto:
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- Sabe, padrinho, vou casar-me.
- É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos preveni-lo.
- Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.
- É um rapaz...
- Decerto, interrompeu o padrinho sorrindo.
E os dous acompanharam-no com familiaridade e contentamento. Era um bom sinal.
- É o Senhor Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez Olga gentilmente.
- Então é para depois do fim do ano.
- Esperamos que seja por aí, disse o italiano.
- Gostas muito dele? indagou o padrinho.
Ela não sabia responder aquela pergunta. Queria sentir que gostava, mas estava que não. E por que
casava? Não sabia... Um impulso do seu meio, uma cousa que não vinha dela - não sabia... Gostava
de outro? Também não. Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo que a ferisse, não
tinham o “quê”, ainda indeterminado na sua emoção e na sua inteligência, que a fascinasse ou
subjugasse. Ela não sabia bem o que era, não chegava e extremar na percepção das suas inclinações
a qualidade que ela queria ver dominante no homem. Era o heróico, era o fora do comum, era a
força de projeção para as grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos,
quando as idéias e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher e registrar esse
anelo, esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino.
E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção. É tão difícil ver nitidamente num homem,
de vinte a trinta anos, o que ela sonhara que era bem possível tomasse a nuvem por Juno... Casava
por hábito de sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a
sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho:
- Gosto.
A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rápida, não convinha fatigar a
atenção do convalescente. Os dous saíram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos.
Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde. Como não estivesse o veículo no ponto,
foram indo ao longo da fachada do manicômio até lá. Em meio do caminho, encontraram,
encostada ao gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ela:
- Que tem, minha velha?
A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar, úmido e doce, cheio de uma irremediável
tristeza e respondeu:
- Ah, meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!
E continuou a chorar. Coleoni começou a comover-se; a filha olhou-a com interesse e perguntou no
fim de um instante:
- Morreu?
- Antes fosse, sinhazinha.
E por entre lágrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, não lhe respondia às
perguntas; era como um estranho. Enxugou as lágrimas e concluiu:
- Foi “cousa-feita”.
Os dous afastaram-se tristes, levando n’alma um pouco daquela humilde dor.
O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas
brancas. O Pão de Açúcar erguia-se negro, hirto, solene, das ondas espumejantes, e como que
punha uma sombra no dia muito claro.
No Instituto dos Cegos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair
daquelas cousas todas, da sua tristeza e da sua solenidade.
O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no Largo da Carioca. É bom ver-se a
cidade nos dias de descanso, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os
passos ressoam como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhe as
carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma loja ou
32
outra, os filhos do negociante brincam em velocípedes, atiram bolas e ainda mais se sente a
diferença da cidade no dia anterior.
Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos e só encontravam, por vezes, casais que
iam apressadamente a visitas, como eles agora. O Largo de São Francisco estava silencioso e a
estátua, no centro daquele pequeno jardim que desapareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes
chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que
os levasse à casa de Quaresma. Lá foram. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras já
apareciam nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros, grupos de caixeiros
com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas antediluvianas ao lado de
vestidos pesados de cetim negro, envergados em corpos fartos de matronas sedentárias; e o
domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a
ostentação dos tolos.
Dona Adelaide não estava só. Ricardo viera visitá-la e conversavam. Quando o compadre de seu
irmão bateu no portão, ele contava à velha senhora o seu último triunfo:
- Não sei como há de ser, Dona Adelaide. Eu não guardo as minhas músicas, não escrevo - é um
inferno!
O caso era de pôr um autor em maus lençóis. O Senhor Paysandón, de Córdova (República
Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escrito, pedindo exemplares de suas
músicas e canções. Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escritos, mas a música não. É
verdade que as sabia de cor, porém, escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua
força.
- É o diabo! continuou ele. Não é por mim; a questão é que se perde uma ocasião de fazer o Brasil
conhecido no estrangeiro.
A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação que se fizera,
vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não podia admitir que ele
preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, suportava a mania de
Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos
suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. Os
pequenos serviçais e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo de Ricardo, que os
desempenhara com boa vontade e diligência.
Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo. É um trabalho
árduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria burocrática. Aposentado o sujeito,
solenemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser
ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou
fazendo o cálculo; e a cousa demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica celeste.
Coleoni era o procurador do major, mas não sendo entendido em cousas oficiais, entregou ao
Coração dos Outros aquela parte do seu mandato.
Graças à popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a resistência da máquina burocrática e
a liquidação estava anunciada para breve.
Foi isso que ele anunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha. Pediram, tanto ele como
Dona Adelaide, notícias do amigo e do irmão.
A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou compreendendo melhor; mas o
sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.
Ricardo Coração dos Outros gostava do major, encontrara nele certo apoio moral e intelectual de
que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples diletantes; mas
o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra.
De resto, ele agora sofria particularmente - sofria na sua glória, produto de um lento e seguido
trabalho de anos. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar
força e já era citado ao lado do seu.
Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por causa das
suas teorias.
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Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso
tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento. Se o seu rival
tocasse piano e por isso ficasse célebre, não havia mal algum; ao contrário: o talento do rapaz
levantava a sua pessoa, por intermédio do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o
inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso violão que ele tanto
estimava. E além disso com aquelas teorias! Ora! Quer que a modinha diga alguma cousa e tenha
versos certos! Que tolice!
E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um
obstáculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua glória. Precisava afastá-lo, esmagá-lo,
mostrar a sua superioridade indiscutível; mas como?
A réclame já não bastava; o rival a empregava também. Se ele tivesse um homem notável, um
grande literato, que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra, a vitória estava certa. Era difícil
encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francesas...
Pensou num jornal, O Violão, em que ele desafiasse o rival e o esmagasse numa polêmica.
Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma, atualmente recolhido ao hospício,
mas felizmente em via de cura. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo
estava melhor.
- Não pude ir hoje, disse ele, mas irei domingo. Está mais gordo?
- Pouca cousa, disse a moça.
- Conversou bem, acrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.
- Vai casar-se, Dona Olga? Parabéns.
- Obrigada, fez ela.
- Quando é, Olga? perguntou Dona Adelaide.
- Lá para o fim do ano... Tem tempo...
E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento.
E ela se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações, impudentes e irritantes;
queria fugir à conversa, mas voltavam ao mesmo assunto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide,
mais loquaz e curiosa que comumente. Esse suplício que se repetia em todas as visitas, quase a
fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. Por fim, achou um subterfúgio, perguntando:
- Como vai o general?
- Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Ele deve andar bem, a Ismênia é que anda triste,
desolada - coitadinha!
Dona Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do general. Cavalcanti,
aquele Jacó de cinco anos, embarcara para o interior, há três ou quatro meses, e não mandara nem
uma carta nem um cartão. A menina tinha aquilo como um rompimento; e ela, tão incapaz de um
sentimento mais profundo, de uma aplicação mais séria de energia mental e física, sentia-o muito,
como cousa irremediável que absorvia toda a sua atenção.
Para Ismênia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. Arranjar outro
era problema insolúvel, era trabalho acima de suas forças. Cousa difícil! Namorar, escrever
cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios - ela não podia mais com isso. Decididamente, estava
condenada a não se casar, a ser tia, a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a
apavorava. Quase não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz
duro e fortemente ósseo; independente da memória dele, vinha-lhe sempre à consciência, quando,
de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, essa outra idéia: não casar. Era um castigo... A
Quinota ia casar-se, o Genelício já estava tratando dos papéis; e ela que esperara tanto, e fora a
primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia até que ambos estavam
contentes com aquela fuga inexplicável de Cavalcanti. Como eles se riam durante o carnaval!
Como eles atiraram aos seus olhos aquela sua viuvez prematura, durante os folguedos
carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar bem claro a
felicidade de ambos, aquela marcha gloriosa e invejada para o casamento, em face do seu
abandono.
34
Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles que lhe parecia indecente e hostil; mas o escárnio
da irmã que lhe dizia constantemente: “Brinca, Ismênia! Ele está longe, vai aproveitando” - metia-
lhe raiva, a raiva terrível de gente fraca, que corrói interiormente, por não poder arrebentar de
qualquer forma.
Então, para espantar os maus pensamentos, ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua, marchetada
de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem à
sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquele ruído de atabaques e adufes, de tambores
e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como que a idéia que a
perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.
De resto, aqueles vestuários extravagantes de índios, aqueles adornos de uma mitologia
francamente selvagem, jacarés, cobras, jabutis, vivos, bem vivos, traziam à pobreza de sua
imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas imensas, lugares de sossego e pureza que a
reconfortavam.
Também aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro e de uma grande indigência melódica,
vinham como reprimir a mágoa que ia nela, abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão
de gritos, mas para o que não lhe sobrava força bastante e suficiente.
O noivo partira um mês antes do carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior.
Sem hábitos de leitura e de conversa, sem atividade doméstica qualquer, ela passava os dias
deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.
Nas horas da entrega da correspondência, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a carta
não vinha, e voltava ao seu pensamento: não casar.
Dona Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismênia, comentou:
- Merecia um castigo isso, não acham?
Coleoni interveio com brandura e boa vontade:
- Não há razão para desesperar. Há muita gente que tem preguiça de escrever...
- Qual! fez Dona Adelaide. Há três meses, Senhor Vicente!
- Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.
- E ela ainda o espera, Dona Adelaide? perguntou Olga.
- Não sei, minha filha. Ninguém entende essa moça. Fala pouco, se fala diz meias palavras... É
mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não fala.
- É orgulho? perguntou ainda Olga.
- Não, não... Se fosse orgulho, ela não se referia de vez em quando ao noivo. É antes moleza,
preguiça... parece que ela tem medo de falar para que as cousas não venham a acontecer.
- E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni.
- Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incômodo do general não é grande e Dona Maricota
julga que ela deve arranjar “outro”.
- Era o melhor, disse Ricardo.
- Eu creio que ela não tem mais prática, disse sorrindo Dona Adelaide. Levou tanto tempo noiva...
E a conversa já tinha virado para outros assuntos, quando a Ismênia veio fazer a sua visita diária à
irmã de Quaresma.
Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava. O sofrimento dava-lhe mais atividade à
fisionomia.
As pálpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão.
Indagou da saúde de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim Dona Adelaide lhe
perguntou:
- Recebeste carta, Ismênia?
- Ainda não, respondeu ela, com grande economia de voz.
Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veio atirar ao chão uma
figurinha de biscuit, que se esfacelou em inúmeros fragmentos, quase sem ruído.


35
SEGUNDA PARTE


1
No “Sossego”
Não era feio o lugar, mas não era belo. Tinha, entretanto, o aspecto tranqüilo e satisfeito de quem se
julga bem com a sua sorte.
A casa erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau, formando a subida para a maior altura
de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambus da cerca, olhava
uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regato de águas paradas e sujas
cortava-a paralelamente à testada da casa; mais adiante, o trem passava vincando a planície com a
fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e de outro lado, saía da esquerda e
ia ter à estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A habitação de Quaresma tinha
assim um amplo horizonte, olhando para o levante, a “noruega”, e era também risonha e graciosa
nos seus caiados. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas de campo,
possuía, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janelas, e uma varanda com uma colunata
heterodoxa. Além desta principal, o sítio do “Sossego”, como se chamava, tinha outras construções:
a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria
coberta de sapê.
Não havia três meses que viera habitar aquela casa, naquele ermo lugar, a duas horas do Rio, por
estrada de ferro, após ter passado seis meses no hospício da praia das Saudades. Saíra curado?
Quem sabe lá? Parecia; não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora,
sob tal aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se irá a loucura,
mas o sonho que cevara durante tantos anos. Foram mais seis meses de repouso e útil seqüestração
que mesmo de uso de uma terapêutica psiquiátrica.
Quaresma viveu lá, no manicômio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde
via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sábios a maldizer da sabedoria,
ignorantes a se proclamarem sábios; mas, deles todos, daquele que mais se admirou, foi de um
velho e plácido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha Átila. Eu, dizia o pacato velho,
sou Átila, sabe? Sou Átila. Tinha fracas notícias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou
Átila, matei muita gente - e era só.
Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as cousas tristes de ver, no
mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente.
Aquela continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo imperceptível, mas profundo e
quase sempre insondável, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que
nós, que nos guia, que nos impele e em cujas mãos somos simples joguetes. Em vários tempos e
lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera
de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é
alguém que vê por ele, interpreta as cousas por ele, está atrás dele, invisível!...
Quaresma saiu envolvido, penetrado da tristeza do manicômio. Voltou a sua casa, mas a vista das
suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. Embora nunca
tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento moral,
e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedicava a
modestas culturas.
Não fora ele, porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe à idéia aquele doce acabar
para a sua vida. Vendo-o naquele estado de abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sair,
enclausurado em sua casa de São Cristóvão, Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e
filialmente:
- O padrinho por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas, ter o seu pomar, a
sua horta... não acha?
36
Tão taciturno que ele estivesse, não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia à
lembrança da moça. Era um velho desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna;
e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu à afilhada:
- É verdade, minha filha. Que magnífica idéia tens tu! Há por aí tantas terras férteis sem emprego...
A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo... O milho pode dar até duas colheitas e
quatrocentos por um...
A moça esteve quase arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia atear no espírito do
padrinho manias já extintas.
- Em toda a parte - não acha, meu padrinho? - há terras férteis.
- Mas como no Brasil, apressou-se ele em dizer, há poucos países que as tenham. Vou fazer o que
tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata-inglesa... Tu irás ver as minhas culturas, a
minha horta, e meu pomar - então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras!
A idéia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado e só esperava uma boa
semente. Não lhe voltou a alegria que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento
moral, e veio-lhe a atividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou dos
preços correntes das frutas, dos legumes, das batatas, dos aipins; calculou que cinqüenta laranjeiras,
trinta abacateiros, oitenta pessegueiros, outras árvores frutíferas, além dos abacaxis (que mina!),
das abóboras e outros produtos menos importantes, podiam dar o rendimento anual e mais de
quatro contos, tirando as despesas. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus cálculos,
baseados em tudo que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional. Levou
em linha de conta a produção média de cada pé de fruteira, de hectare cultivado, e também os
salários, as perdas inevitáveis; e, quanto aos preços, ele foi em pessoa ao mercado buscá-los.
Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos.
Encarou-a por todas as faces, pesou as vantagens e ônus; e muito contente ficou em vê-la
monetariamente atraente, não por ambição de fazer fortuna, mas por haver nisso mais uma
demonstração das excelências do Brasil.
E foi obedecendo a essa ordem de idéia que comprou aquele sítio, cujo nome - “Sossego” - cabia
tão bem à nova vida que adotara, após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. Não
ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado, para melhor
demonstrar a força e o poder da tenacidade, do carinho, no trabalho agrícola. Esperava grandes
colheitas de frutas, de grãos, de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores,
estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro, virente e abundante a
dispensar os argentinos e europeus.
Com que alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São Januário, agora
propriedade de outras mãos, talvez destinada ao mercenário mister de lar de aluguel... Não sentiu
que aquela vasta sala, abrigo calmo dos seus livros durante tantos anos, fosse servir para salão de
baile fútil, fosse testemunhar talvez rixas de casais desentendidos, ódios de família - ela tão boa, tão
doce, tão simpática, com o seu teto alto e as suas paredes lisas, em que se tinham incrustado os
desejos de sua alma e toda ela penetrava da exalação dos seus sonhos!...
Ele foi contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano, tirado da
terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria
ser empregado público, apodrecer numa banca, sofrer na sua independência e no seu orgulho?
Como é que se preferia viver em casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico,
sustentar-se de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta, livre,
alegre e saudável?
E era agora que ele chegava a essa conclusão, depois de ter sofrido a miséria da cidade e o
emasculamento da repartição pública, durante tanto tempo! Chegara tarde, mas não a ponto de que
não pudesse, antes da morte, travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das
terras brasileiras. Então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas
instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida, era uma forte base
37
agrícola, um culto pelo seu solo ubérrimo, para alicerçar fortemente todos os outros destinos que
ela tinha de preencher.
Demais, com terras tão férteis, climas variados, a permitir uma agricultura fácil e rendosa, este
caminho estava naturalmente indicado.
E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras em flor, olentes, muito brancas, a se enfileirar
pelas encostas das colinas, como teorias de noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar
com esforço os grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis
coroados que nem reis, recebendo a unção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores
carnudas cheias de pólen; as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado; os pêssegos
veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas capitosas; e dentre tudo aquilo surgia uma
linda mulher, com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um
imaterial sorriso demorado de deusa - era Pomona, a deusa dos vergéis e dos jardins!...
As primeiras semanas que passou no “Sossego”, Quaresma as empregou numa exploração em regra
da sua nova propriedade. Havia nela terra bastante, velhas árvores frutíferas, um capoeirão grosso
com camarás, bacurubus, tinguacibas, tabebuias, munjolos, e outros espécimes. Anastácio, que o
acompanhara, apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda, e era quem ensinava
os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras.
O major logo organizou um museu dos produtos naturais do “Sossego”. As espécies florestais e
campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares, e quando era possível com os
científicos. Os arbustos, em herbário, e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal e
transversalmente.
Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a
Quaresma sólidas noções de Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia.
Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inventário; os animais também, mas
como ele não tinha espaço suficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado,
Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram povoadas de
tatus, cutias, preás, cobras variadas, saracuras, sanãs, avinhados, coleiros, tiês, etc. A parte mineral
era pobre, argilas, areia e, aqui e ali, uns blocos de granito esfoliando-se.
Acabado esse inventário, passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma relação
de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura.
Encomendou livros nacionais, franceses, portugueses; comprou termômetros, barômetros,
pluviômetros, higrômetros, anemômetros. Vieram estes e foram arrumados e colocados
convenientemente.
Anastácio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta cousa, tanto livro, tanto
vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A dúvida do preto velho não durou
muito. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviômetro, Anastácio, ao lado, olhava-o espantado,
como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado e disse:
- Sabes o que estou fazendo, Anastácio?
- Não “sinhô”.
- Estou vendo se choveu muito.
- Para que isso, patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco... Isso de
plantar é capinar, pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar.
Ele falava com a sua voz mole de africano, sem “rr” fortes, com lentidão e convicção.
Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o conselho de seu empregado. O
capim e o mato cobriam as suas terras. As laranjeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos,
cheios de galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabeleira de erva-de-passarinho; mas como
não fosse época própria à poda e ao corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os
pés das fruteiras. De manhã, logo ao amanhecer, ele mais o Anastácio, lá iam, de enxada ao ombro,
para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão estava no auge, mas Quaresma era
inflexível e corajoso. Lá ia.
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Era de vê-lo, coberto com um chapéu de palha de coco, atracado a um grande enxadão de cabo
nodoso, ele, muito pequeno, míope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de
guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento
agrícola. Anastácio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto andar naquele sol a
capinar sem saber?... Há cada cousa neste mundo!
E os dous iam continuando. O velho preto, ligeiro, rápido, raspando o mato rasteiro, com a mão
habituada, a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo, destruindo a erva má;
Quaresma, furioso, a arrancar torrões de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada arbusto e,
às vezes, quando o golpe falhava e a lâmina do instrumento roçava a terra, a força era tanta que se
erguia uma poeira infernal, fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de
cavalaria. Anastácio, então, intervinha humildemente, mas em tom professoral:
- Não é assim, “seu majó”. Não se mete a enxada pela terra adentro. É de leve, assim.
E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento de trabalho.
Quaresma agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usá-lo da maneira
ensinada. Era em vão. O flange batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar
uma piada irônica: bem-te-vi! O major enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, suava, enchia-se
de raiva e batia com toda a força; e houve várias vezes que a enxada, batendo em falso, escapando
ao chão, fê-lo perder o equilíbrio, cair, a beijar a terra, mãe dos frutos e dos homens. O pince-nez
saltava, partia-se de encontro a um seixo.
O major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia à tarefa que se impusera; mas,
tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado trabalho de tirar o sustento de
nossa vida, que não foi impossível a Quaresma acordar nos seus o jeito, a maneira de empregar a
enxada vetusta.
Ao fim de um mês, ele capinava razoavelmente, não seguido, de sol a sol, mas com grandes
repousos de hora em hora que a sua idade e falta de hábito requeriam.
Às vezes, o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos, lado a lado, à sombra de uma fruteira
mais copada, ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das
árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. Então, aí por depois do meio-
dia, quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira, é que o velho
major percebia bem a alma dos trópicos, feita de desencontros como aquele que se via agora, de um
sol alto, claro, olímpico, a brilhar sobre um torpor de morte, que ele mesmo provocava.
Almoçavam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente sobre um improvisado
fogão de calhaus, e o trabalho ia assim até à hora do jantar. Havia em Quaresma um entusiasmo
sincero, entusiasmo de ideólogo que quer pôr em prática a sua idéia. Não se agastou com as
primeiras ingratidões da terra, aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incompreensível
ódio pela enxada fecundante. Capinava e capinava sempre até vir jantar.
Esta refeição ele fazia mais demorada. Conversava um pouco com a irmã, contava-lhe a tarefa do
dia, consistindo sempre em avaliar a área já limpa.
- Sabes, Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará nem mais uma touceira de mato.
A irmã, mais velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas cousas da roça.
Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo.
Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a
sua agitação interna. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera
deputado? Era tão bonito... Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira!
Seguira-o ao “Sossego” e, para entreter-se, criava galinhas, com grande alegria do irmão cultivador.
- Está direito, dizia ela, quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. Não vá ficares
doente... Neste sol todo o dia...
- Qual, doente, Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí... Se adoecem, é
porque não trabalham.
Acabado o jantar, Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro e atirava migalhas de pão
às aves.
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Ele gostava desse espetáculo, daquela luta encarniçada entre patos, gansos, galinhas, pequenos e
grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos prêmios que ela comporta. Depois, fazia
indagações sobre a vida do galinheiro:
- Já nasceram os patos, Adelaide?
- Ainda não. Faltam oito dias ainda.
E logo a irmã acrescentava:
- Tua afilhada deve casar-se sábado, tu não vais?
- Não. Não posso... Vou incomodar-me, luxo... mando um leitão e um peru.
- Ora, tu! Que presente!
- Que é que tem? É da tradição.
Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa
roceira, quando Anastácio veio avisar-lhe que se achava um cavalheiro na porteira.
Desde que ali se instalara, nenhuma visita batera à porta de Quaresma, a não ser a gente pobre do
lugar, a pedir isso ou aquilo, esmolando disfarçadamente. Ele mesmo não travara conhecimento
com ninguém, de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.
Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Ele já subia a pequena escada da frente e
penetrava pela varanda adentro.
- Boas-tardes, major.
- Boas-tardes. Faça o favor de entrar.
O desconhecido entrou e sentou-se. Era um tipo comum, mas o que havia nele de estranho era a
gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto desonesto. Parecia que a fizera de
repente e comia, a mais não poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a
de um lagarto que entesoura enxúndia para o inverno ingrato. Através da gordura de suas
bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se devia ser gordo não era
naquela idade, com pouco mais de trinta anos, sem dar tempo que todo ele engordasse; porque, se
as duas faces eram gordas, as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ágeis.
O visitante falou:
- Eu sou o Tenente Antonino Dutra, escrivão da coletoria...
- Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.
- Nenhuma, major. Já sabemos quem o senhor é; não há novidade nem nenhuma exigência legal.
O escrivão tossiu, tirou um cigarro, ofereceu outro a Quaresma e continuou:
- Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incomodá-lo... Não é
cousa de importância... Creio que o major...
- Oh! Por Deus, tenente!
- Venho pedir-lhe um pequeno auxílio, um óbulo, para a festa da Conceição, a nossa padroeira, de
cuja irmandade sou tesoureiro.
- Perfeitamente. É muito justo. Apesar de não ser religioso, estou...
- Uma cousa nada tem com a outra. É uma tradição do lugar que devemos manter.
- É justo.
- O senhor sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade também, de
forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde já,
portanto, major...
- Não. Espere um pouco...
- Oh! major, não se incomode. Não é para já.
Enxugou o suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fora e acrescentou:
- Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, major?
- Muito bem.
- Pretende dedicar-se à agricultura?
- Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a roça.
- Isto hoje não presta, mas noutro tempo!... Este sítio já foi uma lindeza, major! Quanta fruta!
Quanta farinha! As terras estão cansadas e...
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- Qual cansadas, Seu Antonino! Não há terras cansadas... A Europa é cultivada há milhares de anos,
entretanto...
- Mas lá se trabalha.
- Por que não se há de trabalhar aqui também?
- Lá isso é verdade; mas há tantas contrariedades na nossa terra que...
- Qual, meu caro tenente! Não há nada que não se vença.
- O senhor verá com o tempo, major. Na nossa terra não se vive senão de política, fora disso,
babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados...
Ao dizer isto, o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a
ingênua fisionomia de Quaresma.
- Que questão é? indagou Quaresma.
O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
- Então não sabe?
- Não.
- Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto, moço honesto, bom orador; mas
entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se hão de sobrepor ao
governo, só porque o Senador Guariba rompeu com o governador; e - zás - apresentaram um tal
Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influência... Que pensa o senhor?
- Eu... Nada!
O serventuário do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e morando no
município de Curuzu, não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o governador do
Estado! Não era possível! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse ele consigo, este malandro
quer ficar bem com os dous, para depois arranjar-se sem dificuldade. Estava tirando sardinha com
mão de gato... Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas daquele
“estrangeiro”, que vinha não se sabe donde!
- O major é um filósofo, disse ele com malícia.
- Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.
Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de penetrar
nas tenções ocultas do major, apagou a fisionomia e disse em ar de despedida:
- Então o major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
- Decerto.
Os dous se despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno
castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desapareceu na estrada, e o major
ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais,
como se nelas houvesse qualquer cousa de vital e importante. Não atinava por que uma rezinga
entre dous figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora da
esfera daqueles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não exigia ela uma árdua luta
diária? Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos, de atas, no
trabalho de fecundá-la, de tirar dela seres, vidas - trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo
estar a pensar em governadores e guaribas, quando a nossa vida pede tudo à terra e ela quer
carinho, luta, trabalho e amor...
O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo.
O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa
de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicações com o resto do mundo. Há
uma mescla de medo e de alegria. Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas, pensam-se
também más. A alternativa angustia...
O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mistério, e traz, além de notícias gerais,
boas ou más, também o gesto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e estão longe.
Quaresma esperou o trem. Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação afora à
luz forte do sol poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e saiu a levar notícias, amigos,
riquezas, tristezas por outras estações além. O major pensou ainda um pouco como aquilo era bruto
41
e feio, e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os
nossos educadores de dous mil anos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava à estação. Vinha
um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o
homem que caminhava com pressa... Quem era? Aquele chapéu dobrado, como um morrião...
Aquele fraque comprido... Passo miúdo... Um violão! Era ele!
- Adelaide, está aí o Ricardo.

II
Espinhos e Flores
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. A
topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influíram,
porém, os azares das construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas
surgiam como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas
delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos
inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante, outras se afastam, e deixam
de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há casas amontoadas umas
sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar
uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. Há casas de todos os
gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e
acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha
rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-
se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da
qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo
pouco classificável, que parece vexada a querer ocultar-se, diante daquela onda de edifícios
disparatados e novos.
Não há nos nossos subúrbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades
européias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e
cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque
os nossos, se os há, são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios em
certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma
importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre
um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal
juntos.
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes
empane o brilho do vestido; há operário de tamancos; há peralvilhos à última moda; há mulheres de
chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa
mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.
Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no
espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito.
Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos
aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos,
é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um
rigor londrino.
Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas.
Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos deparar velhas fabricantes de
rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros,
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catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas
pequena e grande burguesias não podem adivinhar. Às vezes, num cubículo desses se amontoa uma
família, e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem.
Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. Não era
das sórdidas, mas era uma casa de cômodos dos subúrbios.
Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina, olhando da
janela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos.
Vistos assim do alto, os subúrbios têm a sua graça. As casas pequeninas, pintadas de azul, de
branco, de oca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali,
um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho
das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática, de solidariedade perfeita entre as
gentes que as habitavam; e o trem minúsculo, rápido, atravessa tudo aquilo, dobrando à esquerda,
inclinando-se para a direita, muito flexível nas suas grandes vértebras de carros, como uma cobra
entre pedrouços.
Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triunfos e
também os seus sofrimentos e mágoas.
Ainda agora estava ele lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo com a
vista uma grande parte daquela bela, grande e original cidade, capital de um grande país, de que ele
a modos que era e se sentia ser, a alma, consubstanciado os seus tênues sonhos e desejos em versos
discutíveis, mas que a plangência do violão, se não lhes dava sentido, dava um quê de balbucio, de
queixume dorido da pátria criança ainda, ainda na sua formação...
Em que pensava ele? Não pensava só, sofria também. Aquele tal preto continuava na sua mania de
querer fazer a modinha dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival dele,
Ricardo; outros já afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais -
ingratos! - já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do
levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infância, daquela sua aldeia sertaneja, da casinha
dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitelos... E o queijo? Aquele queijo tão substancial,
tão forte, feio como aquela terra, mas feraz como ela tanto que bastava comer dele uma pequena
fatia para se sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? O seu mestre, o
Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: “Irás longe, Ricardo. A viola. A viola quer teu
coração.”
Por que então aquele encarniçamento, aquele ódio contra ele - ele que trouxera para esta terra de
estrangeiros a alma, o suco, a substância do país!
E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. Olhou um pouco as montanhas, farejou o mar lá
longe... Era bela a terra, era linda, era majestosa, mas parecia ingrata e áspera no seu granito
onipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das árvores.
E ele estava ali só, só com a sua glória e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só
como um deus ou como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
Sofria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no solo
indiferente. Por aí, lembrou-se dos famosos versos:

Se choro... bebe o pranto a areia ardente...

Com a lembrança, ele baixou um pouco o olhar à terra e viu, que, no tanque da casa, um tanto
escondida dele, uma rapariga preta lavava. Ela abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o
seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro à pedra, e recomeçava. Teve pena daquela pobre
mulher, duas vezes triste na sua condição e na sua cor. Veio-lhe um afluxo de ternura e, depois,
pôs-se a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleado no enigma do nosso
miserável destino humano.
A rapariga não o viu, distraída com o trabalho; e se pôs a cantar:
43

Da doçura dos teus olhos
A brisa inveja já tem

Era dele. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher, abraçá-la...
E como eram as cousas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga; era a sua humilde e dorida voz que
vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos do padre Caldas, esse seu
antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas:

Lereno alegrou os outros
E nunca teve alegria...

Enfim era uma missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:
- Vai bem, Dona Alice, vai bem! Se não fosse, por que eu lhe pedia bis?
A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
- Não sabia que o senhor estava aí, senão não cantava na vista do senhor.
- Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
- Deus me livre! Para o senhor me “acriticar”...
Embora insistisse muito, a rapariga não quis continuar. As mágoas pareciam ter passado do
pensamento de Ricardo. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção de escrever.
O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível. Havia uma rede com franjas de rendas, uma
mesa de pinho, sobre ela objetos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a
uma parede, o violão na sua armadura de camurça. Havia também uma máquina para fazer café.
Sentou-se e quis começar uma modinha sobre a Glória, essa cousa fugace, que se tem e se pensa
que não se tem, alguma cousa impalpável, incolhível como um sopro, que nos alanceia, queima,
inquieta e abrasa como o Amor.
Tentou começar, dispôs o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha
sido lavrada, baralhada, com a idéia daquele furto que se queria fazer ao seu mérito. Não conseguiu
assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a música zumbir no ouvido.
A manhã ia alta. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a esquentar
e o céu estava de um azul ligeiro”, tênue, fino. Quis sair, procurar um amigo, espairecer com ele,
mas quem? Ainda se o Quaresma... Ah! o Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.
É verdade que ultimamente esse seu amigo se achava pouco interessado pela modinha; mas assim
mesmo compreendia o seu propósito, os fins e o alcance da obra a que ele, Ricardo, se propunha.
Ainda se o major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras. Não chegava a dous mil-
réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram à porta. Traziam-lhe uma carta.
Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu:
“Meu caro Ricardo - Saúde - Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ela e o
noivo fazem muito gosto que você apareça. Se o amigo não estiver comprometido com alguém,
agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco - Seu amigo Albernaz.”
O trovador, à proporção que lia, ia mudando de fisionomia. Até então estava carregada e dura;
quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ela, descia e subia, ia de uma face a
outra. O general não o abandonara; para o respeitável militar, Ricardo Coração dos Outros ainda
era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um
pouco o violão, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um ídolo benfazejo.
Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o último brinde havia sido levantado e
todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. Dona Maricota vestia seda malva e o
seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquele tecido caro que parece requerer
corpos elegantes e flexíveis. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ela era alta, de feições
mais regulares que a irmã Ismênia, mas menos interessante e mais comum de temperamento e
alma, embora faceira. Lalá, a terceira filha do general, que já se ajeitava a moça, tinha muito pó-de-
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arroz, estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem
cotado e esperado. Genelício dava o braço à noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha
bem à mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.
Ricardo não os viu passar, pois, ao entrar, a fila estava no general, metido num segundo uniforme
dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem
tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante
Caldas. Fora padrinho e estava irrepreensível na sua casaca do uniforme. As âncoras reluziam como
metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua face e
pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim. Ismênia estava de rosa e
andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando
providências. O Lulu, o único filho do general, impava no seu uniforme do Colégio Militar, cheio
de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, graças aos empenhos do pai.
O general não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou,
agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um - “sou muito feliz...” - deitando a cabeça de lado e
sorrindo para o chão, sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel.
Deram começo às danças e o general, o almirante, o Major Inocêncio Bustamante, que também
viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorário, o Doutor Florêncio, Ricardo e dous
convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
O general estava satisfeito. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e enfim
pela primeira vez via realizado esse anseio.
A Ismênia foi aquela desgraça... O ingrato!... Mas para que recordar?
Os cumprimentos se repetiram.
- É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e enquanto o limpava,
respondeu, olhando com aquele jeito dos míopes:
- Estou muito contente.
Por aí pôs o pince-nez, endireitou o trancelim e continuou:
- Creio que casei bem minha filha: rapaz formado, bem encaminhado e inteligente.
O almirante acudiu:
- E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dois anos primeiro escriturário do
Tesouro, é cousa nunca vista.
- O Genelício não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florêncio.
- Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recém-
casado.
De fato, Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só isso que o decidira a casar-se.
Tendo escrito uma - Síntese de Contabilidade Pública Científica - viu-se, sem saber como,
cumulado de elogios pela “imprensa desta capital”. O ministro, atendendo ao mérito excepcional da
obra, mandou-lhe dar dous contos de prêmio, tendo sido a edição feita à custa do Estado, na
Imprensa Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas páginas, tipo doze, escrito em estilo de
ofício com uma vasta documentação de decretos e portarias, ocupando dous terços do livro.
A primeira frase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico, fora
até muito notada e gabada pelos críticos, não só pela novidade da idéia, como também pela beleza
da expressão.
Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa
e receita do Estado.”
Além do prêmio e da transferência, ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga.
Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados novos, o major não pôde
deixar de observar:
- Depois da militar, a melhor carreira é a da Fazenda, não acham?
- Sim... Bem entendido, fez o Doutor Florêncio.
- Eu não quero falar dos formados, apressou-se o major. Esses...
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Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira frase que lhe veio
aos lábios:
- Quando se prospera, todas as profissões são boas.
- Não é assim tanto, obtemperou o almirante, alisando um dos favoritos. Não é para desfazer das
outras, mas a nossa, hein, Albernaz? hein, Inocêncio?
Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou:
- É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um,
grita outro como em Curupaiti, então...
- O senhor esteve lá, general? perguntou o convidado amigo de Genelício.
- Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi - você sabe,
não é, Inocêncio?
- Se estive lá...
- Polidoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores à esquerda e “nós” caímos sobre os paraguaios. Mas
os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
- Foi “seu” Mitre, disse Inocêncio.
- Foi. Atacamos com fúria. Era ribombar de canhões que metia medo, bala por todo o canto, os
homens morriam como moscas... Um inferno!
- Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
Todos se entreolharam admirados, exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai
excepcional.
- Foram os paraguaios, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa
profissão é bela, mas tem as suas “cousas”...
- Isso não quer dizer nada. Também na passagem de Humaitá... ia dizendo o almirante.
- O senhor estava a bordo?
- Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque
equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaitá...
Na sala de visitas as danças continuavam com animação. Era raro que alguém viesse de dentro até
onde eles estavam. Os risos, a música, e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens
das suas preocupações belicosas.
O general, o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos, contando batalhas
em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.
Não há como um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para
apreciar as narrações de guerra. Ele só vê a parte pitoresca, a parte por assim dizer espiritual das
batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se matam é cousa de somenos. A Morte mesmo,
nas narrações feitas assim, perde a sua importância trágica: três mil mortos, só!!!
De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a cousa ficava
edulcorada, uma guerra bibliothèque rose, guerra de estampa popular, em que não aparecem a
carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normais.
Estavam Ricardo, o Doutor Florêncio, o exato empregado como engenheiro das Águas, aqueles
dous recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das
proezas imaginárias daqueles três militares, um honorário, talvez o menos pacífico dos três, o único
que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira - quando Dona Maricota chegou
sempre diligente, ativa, dando movimento e vida à festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda
inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena, que contrastava tanto com o seu corpo
enorme. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido:
- Então, Chico, que é isso? Ficou aí e eu que faça sala, que anime as moças... Pra sala todos!
- Já vamos, Dona Maricota, disse alguém.
- Não, fez com rapidez a dona da casa, é já. Vamos, “seu” Caldas, “seu” Ricardo, os senhores!
E foi empurrando um a um pelo ombro.
- Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo, “seu”
Ricardo!
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- Pois não, minha senhora. É uma ordem...
E foram. No caminho o general parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
- Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
- Vai bem.
- Tem-lhe escrito?
- Às vezes. Eu queria, general...
O general suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez que começava a cair, e perguntou:
- O quê?
Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma
ligeira hesitação, respondeu de um jacto, com medo de perder as palavras:
- Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vê-lo.
O general esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabelo e disse:
- Isso é difícil, mas você apareça lá, na repartição, amanhã.
E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos Outros acrescentou:
- Estou com saudades dele, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem
nome...
- Vá lá amanhã.
Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:
- Vocês não vêm!
- Já vamos, fez o general.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
- Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta
anos, que não pego em livro...
Chegaram à sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas, furiosos
retratos a óleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração estava
completa. Da mobília não se podia julgar, tinha sido retirada, para dar mais espaço aos dançantes.
A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas
casacas, algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo pôde
ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e tinha jardim; só de lá os curiosos, os
“serenos”, podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o
Tenente Fontes. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar. Foi ao piano, colocou a partitura e começou.
Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bem-
educada. Acabou. Palmas gerais, mas frias, soaram.
O Doutor Florêncio que ficara atrás do general, comentou:
- Tem uma bela voz esta moça. Quem é?
- É a filha do Lemos, o Doutor Lemos da Higiene, respondeu o general.
- Canta muito bem.
- Está no último ano do Conservatório, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o vilão, afinou-o, correu a escala;
em seguida, tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa:
“Senhoritas, senhores e senhoras.” Parou. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus
braços’. Modinha de minha composição, música e versos. É uma composição terna, decente e de
uma poesia exaltada.” Seus olhos, por aí, quase saíam das órbitas. Emendou: “Espero que nenhum
ruído se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão instrumento muito... mui... to ‘dê-li-
cá-do’. Bem.”
A atenção era geral. Deu começo. Principiou brando, gemebundo, macio e longo, como soluço de
onda; depois, houve uma parte rápida, saltitante, em que o violão estalava. Alternando um
andamento e outro, a modinha acabou.
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Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens.
As palmas foram ininterruptas. O general abraçou-o, Genelício levantou-se e deu-lhe a mão.
Quinota, no seu imaculado vestido de noiva, também.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu à sala de jantar. No corredor chamavam-no: “Senhor
Ricardo, Senhor Ricardo!” Voltou-se. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia
uma cópia da modinha.
- Não se esqueça, dizia ela com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão
ternas, tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar.
A noiva de Cavalcanti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome perguntou:
- Que é Dulce?
A outra explicou-se. Ela aceitou a incumbência e, por sua vez, perguntou a Ricardo com a sua voz
dolente:
- “Seu” Ricardo, quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide?
- Depois de amanhã, espero eu.
- Vai lá?
- Vou.
- Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.

III
Golias
No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e
giboso Genelício, glória e orgulho do nosso funcionalismo público, Olga casara-se. A cerimônia
correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos
parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que
não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. Continuava a não
encontrar dentro de si motivo para aquele ato, mas, aparentemente, nenhuma vontade estranha à sua
influíra para isso. O marido é que estava contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta
que a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo médico, cheio de talento nas notas e recompensas
escolares, via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. Não
tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal título um foral de nobreza, equivalente àqueles com
que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees.
Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe
dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e
medalhas, a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”.
Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título, o pergaminho; é verdade que foi, não
tanto pelo título, mas pela sua simulação de inteligência, de amor à ciência, de desmedidos sonhos
de sábio. Tal imagem que dele fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inércia da sociedade, a
sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ela,
de si para si, pensava que se não fosse este, seria outro a ele igual, e o melhor era não adiar.
Era por isso que ela não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua vontade,
embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela.
Apesar da pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. Não obstante as origens puramente
européias, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma fisionomia
irradiante de felicidade; e, desse modo, ela desaparecia dentro do vestido, dos véus e daqueles
atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. De resto, a sua beleza não era a
grande beleza - aquela que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas
clássicas.
No seu rosto, nada de grego, desse grego autêntico ou de pacotilha, ou também dessa majestade de
ópera lírica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua fisionomia era profunda e
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própria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros, que quase cobriam toda a cavidade orbitária,
fazia fulgurar o seu rosto móbil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade,
malícia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade.
Ao contrário do costume, não saíram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não fora à festa, mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa carta. O
sítio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-
se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou dous, era como se
começasse a desertar da batalha.
O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de Ricardo veio
distraí-lo um pouco, sem desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas.
Passou um mês com o major, e foi um triunfo. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo
o município o disputava e festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a
estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada de
rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio de caldeirões, que subia e descia morros,
cortava planícies e rios em toscas pontes. A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga,
determinada pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação da velha com a
estrada de ferro. Elas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da estação. As outras
partiam delas, as casas juntavam-se urbanamente no começo, depois iam espaçando, espaçando, até
acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova,
Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro, partia a da
Matriz, que ia ter à igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesuítico. À esquerda da
estação, num campo, a Praça da República, a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas,
ficava a Câmara Municipal.
Era um grande paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas de grade de ferro, puro estilo
mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma
natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média.
Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro, Salão Rio de Janeiro, e fez a barba. O
fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes, um
deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado.
Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos, presidente da
Câmara, festa que teria lugar na quarta-feira próxima.
Chegara sábado e fora passear à vila domingo.
Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. A concorrência nunca é grande na roça, mas
Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas e tristes, ataviadinhas, cheias de
laços, descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo
entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. Foi na saída da missa
que lhe apresentaram o Doutor Campos.
Era o médico do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de “aranha” com a sua filha,
Nair, assistir o ofício religioso.
O trovador e o médico estiveram um instante conversando, enquanto a filha, muito magra, pálida,
com uns longos braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua.
Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil.
À festa do Doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a
alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se bem que o major
tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente
nacional. As conseqüências desastrosas do seu re- querimento em nada tinham abalado as suas
convicções patrióticas. Continuavam as suas idéias profundamente arraigadas, tão-somente ele as
escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens.
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Gozava, portanto, a fulminante vitória de Ricardo, que indicava bem naquela população a
existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos
estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O Doutor
Campos, Presidente da Câmara, era quem mais o cumulava de homenagens. Naquela manhã até
esperava um dos cavalos do edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a
Quaresma, que ainda não tinha partido para o eito:
- Major, foi uma boa idéia vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
- Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas.
- Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha?
- Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra.
- Até aí não vou. Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu
levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo, você
vai ser deputado”, o senhor pensa que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não podia mais
desferir os trenos do instrumento? Ora, se não! Não se deve perder vaza, major.
- Cada um tem as suas teorias.
- Decerto. Outra cousa, major: conhece o Doutor Campos?
- De nome.
- Sabe que ele é presidente da Câmara?
Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. O menestrel não notou o
gesto do amigo e emendou:
- Mora daqui a uma légua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele.
- Fazes bem.
- Ele quer conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui?
- Podes.
Um camarada do Doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido.
Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora
dous, pois, além do Anastácio, que não era bem um empregado, mas agregado, admitira o
Felizardo.
Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura.
Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por entre
aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros.
Esvoaçavam tiés-vermelhos, bandos de coleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas
negras no verdor das árvores. Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no momento,
parece que tinham saído à luz, não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza.
Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fora para auxiliar esse
serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas
pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma aparência de fraqueza
muscular, não havia ninguém mais valente que ele a roçar. Com isto era um tagarela incansável. De
manhã, quando chegava, aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do município.
O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado norte do sítio, que o capão invadira. Obtido
ele, o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervalos batatas-
inglesas, cultura nova em que depositava grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro
estava aberto; Quaresma, porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno,
eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais
grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele removia para longe, onde então
queimaria em coivaras pequenas.
Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas prometia dar
um rendimento maior ao plantio.
Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Há quem cante, ele
falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção.
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- Essa gente anda acesa por aí, disse Felizardo logo que o major chegou.
Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa, raras não. Anastácio era
silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa
postura hierática de uma pintura mural tebana. O major perguntou ao Felizardo:
- Que é que há, Felizardo?
O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e
respondeu com a sua fala branda e chiante:
- Negócio de política... “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”.
- Onde?
- Na estação.
- Por quê?
- Negócio de partido. Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô
Campo” é pelo “senadô”... Um “sarcero”, patrão!
- E você, por quem é?
Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a
remover. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador.
Respondeu afinal:
- Eu! Sei lá... Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro “sinhô”.
- Eu sou como você, Felizardo.
- Quem me dera, meu “sinhô”. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”.
Afastou-se com o pau; e, quando voltou, Quaresma indagou assustado:
- Quem disse?
- Não sei, não “sinhô”. Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol, tanto assim que “doutô
Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade.
- Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma... Conheci-o... E nunca disse isso aqui a
ninguém... Qual amigo!
- “Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão “tá” é varrendo a testada.
Apesar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a idéia de
que ele fosse amigo do Marechal Floriano. “Conheci-o no meu emprego” - dizia o major; Felizardo
sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.”
Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquilo? Demais, as palavras
de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo
fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos; os entusiasmos dele,
entretanto, junto à vontade de ser bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum
perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em
breve, porém, esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando foi jantar, já nem mais se
lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem
sombra alguma de cogitações por parte dele.
Dona Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se à cabeceira; Quaresma à
direita e à esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador.
- Gostou muito do passeio, Senhor Ricardo?
Não havia meio dela dizer “seu”. A sua educação de “senhora” de outros tempos não lhe permitia
usar esse plebeísmo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portuguesa, dizer “senhor” e
continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.
- Muito. Que lugar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
E ele tomava aquela atitude de arroubo; uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz
cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
- Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
- Hoje acabei uma modinha.
- Como se chama? indagou Dona Adelaide.
- “Os lábios da Carola”.
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- Bonito! Já fez a música?
Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. Ricardo levava agora o garfo à boca; deixou-o suspenso
entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:
- A música, minha senhora, é a primeira cousa que faço.
- Hás de no-la cantar logo.
- Pois não, major.
Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio. Fora essa a única
concessão que ao amigo fizera Policarpo, no tocante ao regime de seus trabalhos agrícolas. Levava
sempre o pedaço de pão, que esfarelava em migalhas no galinheiro, para ver a atroz disputa entre as
aves. Acabando, ficava um instante a considerar aquelas vidas, criadas, mantidas e protegidas para
sustento da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito vivos e
ávidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do peru, imponente, fazendo roda, a dar estouros
presunçosos. Em seguida ia ao chiqueiro; assistia Anastácio dar a ração, despejando-a nos cochos.
O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se, dificilmente, e solenemente vinha
mergulhar a cabeça na caldeira; noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham
com a mãe chafurdar-se na comida.
A avidez daqueles animais era deveras repugnante, mas os seus olhos tinham uma longa doçura
bem humana que os fazia simpáticos.
Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos
esquecidos a contemplá-las numa demorada interrogação muda. Sentavam-se a um tronco de
árvore; e Quaresma olhava o céu alto, enquanto Coração dos Outros contava qualquer história.
A tarde ia adiantada. A terra já começava a amolecer, pelo fim daquele beijo ardente e demorado do
sol. Os bambus suspiravam; as cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos,
o major voltou-se. Padrinho! Olga!
Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro, com as
mãos presas. E vieram aquelas estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos: Quando
chegaste? Não esperava... É longe... Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous; Anastácio
tirara o chapéu e olhava a “sinhazinha”, com o seu terno e vazio olhar de africano.
Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passou a vista pelos quatro pontos
e Quaresma perguntou:
- Quedê teu marido?
- O doutor?... Está lá dentro.
O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. Não lhe parecia bem aquela intimidade
com um sujeito sem título, sem posição brilhante e sem fortuna. Ele não compreendia como o seu
sogro, apesar de tudo um homem rico, de outra esfera, tinha podido manter e estreitar relações com
um pequeno empregado de uma repartição secundária, e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário
se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade
nacional. Mas, em definitivo, quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito, de
uma particular consideração, ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram trocadas
e satisfeitas.
Dona Adelaide, mulher velha, do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar, possuía em
si uma particular reverência, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difícil demonstrá-lo
quando se viu diante do Doutor Armando Borges, de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia.
Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquele seu
sobre-humano prestígio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, à
proporção que conversava, talvez para que o efeito não se dissipasse, virava com a mão direita o
grande anelão “simbólico”, o talismã, que cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito de
marquise.
Conversaram muito. O jovem par contou a agitação política do Rio, a revolta da fortaleza de Santa
Cruz; Dona Adelaide, a epopéia da mudança, móveis quebrados, objetos partidos. Pela meia-noite
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todos foram dormir com uma alegria particular, enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o
seu grave hino à transcendente beleza do céu negro, profundo e estrelado.
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o
doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o título. Era o O Município,
órgão local, hebdomadário, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; ele
aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Pôs o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e
descobriu o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente.
Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda
descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele - “verdadeiros estrangeiros que se
vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense, perturbando-lhe a paz e a
tranqüilidade”.
Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre
versos.
Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas:

POLÍTICA DE CURUZU

Quaresma, meu bem, Quaresma!
Quaresma do coração!
Deixa as batatas em paz
Deixa em paz o feijão.

Jeito não tens para isso
Quaresma, meu cocumbi!
Volta à mania antiga
De redigir em tupi.

Olho vivo.

O major ficou estuporado. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava, não achava o
motivo e o fundo de semelhante ataque. A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma
estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: “Lê isto, Adelaide.”
A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. Ela tinha aquela
ampla maternidade das solteironas; pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da
mulher pelas dores dos outros. Enquanto ela lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com
política? E coçava os cabelos já bastante encanecidos.
Dona Adelaide disse então docemente:
- Sossega, Policarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho:
- O senhor se meteu algum dia nessa política daqui?
- Eu nunca!... Vou até declarar que...
- Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
- Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. Notaram a
alteração de Quaresma. Estava pálido, tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça.
- Que há, major? indagou o troveiro.
As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois contou o que ouvira
na vila. Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de fazer política, tanto assim que
dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuía remédios homeopáticos... O
Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo.
- E não desmentiste? perguntou Quaresma.
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Ricardo afirmou que sim, mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus propósitos de
ataque.
O major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo com seu gênio, incubou nos
primeiros tempos a impressão, e, enquanto estiveram com ele os seus amigos, não demonstrou
preocupação.
Olga e o marido passaram no “Sossego” cerca de quinze dias. O marido, ao fim de uma semana, já
parecia cansado. Os passeios não eram muitos. Em geral, os nossos lugarejos célebres, assim como
na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica.
Em Curuzu, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas léguas da casa de
Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Doutor
Campos já travara relações com o major e, graças a ele, houve cavalos e silhão que também
permitisse à moça ir à cachoeira.
Foram de manhã, o presidente da Câmara, o doutor, sua mulher e a filha de Campos. O lugar não
era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em três partes,
pelo flanco da montanha abaixo. A água estremecia na queda, como que se enrodilhava e vinha
pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que
toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre
a água ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde
mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações daquele salão fantástico.
Olga pôde ver tudo isso bem à vontade, andando de um para outro lado, porque a filha do
presidente era de um silêncio de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre
novidades medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético?
O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o
ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros idéia de que eram
felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e
não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de
varas, como o esqueleto de um doente. Por que ao redor dessas casas não havia culturas, uma horta,
um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era
raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador.
Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um
milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola. Não podia ser preguiça
só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar
relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda a parte, os casais, as famílias, as tribos,
plantam um pouco algumas cousas para eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões
desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles
párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!...
Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos, indagaria,
observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. Aquilo era uma situação do
camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face
humana e voz articulada...
Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho, aproveitou a ocasião para interrogar a
respeito o tagarela Felizardo. A faina do roçado ia quase no fim; o grande trato da terra estava
quase inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do sítio.
Olga encontrou o camarada cá embaixo, cortando a machado as madeiras mais grossas; Anastácio
estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas caídas. Ela lhe falou:
- Bons-dias, “sá dona”.
- Então trabalha-se muito, Felizardo?
- O que se pode.
- Estive ontem no Carico, bonito lugar... Onde é que você mora, Felizardo?
- É doutra banda, na estrada da vila.
- É grande o sítio de você?
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- Tem alguma terra, sim, senhora, “sá dona”.
- Você por que não planta para você?
- “Quá, sá dona!” O que é que a gente come?
- O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.
- “Sá dona tá” pensando uma cousa e a cousa é outra. Enquanto planta cresce, e então? “Quá, sá
dona”, não é assim.
Deu uma machadada; o tronco escapou; colocou-o melhor no picador e, antes de desferir o
machado, ainda disse:
- Terra não é nossa... E “frumiga”?... Nós não “tem” ferramenta... isso é bom para italiano ou
“alamão”, que o governo dá tudo... Governo não gosta de nós...
Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas partes, quase iguais, de um
claro amarelado, onde o cerne escuro começava a aparecer.
Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara, mas não pôde.
Era certo. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionais; para os
outros todos os auxílios e facilidades, não contando com a sua anterior educação e apoio dos
patrícios.
E a terra não era dele? Mas de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela
vira até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse acaparamento, esses latifúndios
inúteis e improdutivos?
A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar mais no problema. Foi vindo para casa, tanto mais
que era hora de jantar e a fome lhe chegava.
Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquele perdera um pouco da sua morgue; havia
mesmo ocasião em que era até natural. Quando ela chegou, o padrinho exclamava:
- Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do
mundo!
- Mas se esgotam, major, observou o doutor.
Dona Adelaide, calada, seguia com atenção o crochet que estava fazendo; Ricardo ouvia, com os
olhos arregalados; e Olga intrometeu-se na conversa:
- Que zanga é essa, padrinho?
- É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos... Isto é até uma
injúria!
- Pois fique certo, major, se eu fosse o senhor, aduziu o doutor, ensaiava uns fosfatos...
- Decerto, major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar violão, não queria aprender
música... Qual música! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje vejo que é preciso... É assim,
resumia ele.
Todos se entreolharam, exceto Quaresma que logo disse com toda a força d’alma:
- Senhor doutor, o Brasil é o país mais fértil do mundo, é o mais bem-dotado e as suas terras não
precisam “empréstimos” para dar sustento ao homem. Fique certo!
- Há mais férteis, major, avançou o doutor.
- Onde?
- Na Europa.
- Na Europa!
- Sim, na Europa. As terras negras da Rússia, por exemplo.
O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante:
- O senhor não é patriota! Esses moços...
O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. À noite, o
menestrel cantou a sua última produção: “Os Lábios da Carola.” Suspeitava-se que Carola fosse
uma criada do Doutor Campos; mas ninguém aludiu a isso. Ouviram-no com interesse e ele foi
muito aclamado. Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide; e, antes das onze horas, estavam
todos recolhidos.
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Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, pôs-se a ler um
velho elogio das riquezas e opulências do Brasil.
A casa estava em silêncio; do lado de fora, não havia a mínima bulha. Os sapos tinham suspendido
um instante a sua orquestra noturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer
esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinário! pensou. Da despensa, que ficava
junto a seu aposento, vinha um ruído estranho. Apurou o ouvido e prestou atenção. Os sapos
recomeçaram o seu hino. Havia vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia à outra,
num dado instante todas se juntaram num uníssono sustentado. Suspenderam um instante a música.
O major apurou o ouvido; o ruído continuava. Que era? Eram uns estalos tênues; parecia que
quebravam gravetos, que deixavam outros cair ao chão... Os sapos recomeçaram; o regente deu
uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas
cinco páginas. Os batráquios pararam; a bulha continuava. O major levantou-se, agarrou o castiçal
e foi à dependência da casa donde partia o ruído, assim mesmo como estava, em camisa de dormir.
Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do pé. Quase
gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à
sua pele magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe
tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes
tinham sido deixados abertos por inadvertência. O chão estava negro, e carregadas com os grãos,
elas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterrânea.
Quis afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez mais o exército
aumentava. Veio uma, mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés,
subindo pelo seu corpo. Não pôde agüentar, gritou, sapateou e deixou a vela cair.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquele ínfimo inimigo que,
talvez, nem mesmo à luz radiante do sol, o visse distintamente...

IV
“Peço Energia, Sigo Já”
Dona Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro anos mais que ele. Era uma bela velha, com
um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquela pátina da grande velhice, uma espessa
cabeleira já inteiramente amarelada e um olhar tranqüilo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de
inteligência lúcida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; contudo, nunca
houve entre eles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ela não entendia
nem procurava entender a substância do irmão, e sobre ele em nada reagia aquele ser metódico,
ordenado e organizado, de idéias simples, médias e claras.
Ela já atingira aos cinqüenta e ele para lá marchava; mas ambos tinham ar saudável, poucos
achaques, e prometiam ainda muita vida. A existência calma, doce e regrada que tinham levado até
ali concorrera muito para a boa saúde de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos
quarenta e ela nunca tivera qualquer.
Para Dona Adelaide, a vida era cousa simples, era viver, isto é, ter uma casa, jantar e almoço,
vestuário, tudo modesto, médio. Não tinha ambições, paixões, desejos. Moça, não sonhara
príncipes, belezas, triunfos, nem mesmo um marido. Se não casou foi porque não sentiu
necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ela sempre se sentiu completa.
O seu aspecto tranqüilo e o sossego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda,
emolduravam e realçavam naquele interior familiar a agitação e a inquietude, o alanceado do irmão.
Não se vá supor que Quaresma andasse transtornado como um doido. Felizmente não. Na aparência
até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém, se mais vagarosamente se
examinassem os seus hábitos, gestos e atitudes logo se havia de ver que o sossego e a placidez não
moravam no seu pensamento.
Ocasiões havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe o horizonte, perdido em
cisma; outras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia todos os movimentos, fincava o
olhar no chão, demorava-se assim um instante, coçando uma mão com a outra, dava depois um
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muxoxo, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação
ou uma frase.
Anastácio, em tais instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os sabia
mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custódio com o Manduca
da venda; e o trabalho marchava.
Inútil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras
horas do dia, eles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ela superintendendo o
serviço doméstico.
As outras pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do
major, pelo simples motivo de que estavam longe.
Ricardo havia seis meses que não lhe visitara e da afilhada e do compadre as últimas cartas que
recebera datavam de uma semana, não vendo aquela há tanto tempo, quanto ao trovador, e aquele
desde quase um ano, isto é, o tempo em que estava no “Sossego”.
Durante esse tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras. Os
seus hábitos não foram mudados e a sua atividade continuava sempre a mesma. É verdade que
deixara de parte os instrumentos de meteorologia.
O higrômetro, o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações
registradas num caderno. Dera-se mal com eles. Fosse inexperiência e ignorância das bases teóricas
deles, fosse porque fosse, o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia, baseada em
combinações dos seus dados, saía errada. Se esperava tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava
chuva, lá vinha seca.
Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos, com aquele grosso e
cavernoso sorriso de troglodita:
- “Quá” patrão! Isso de chuva vem quando Deus “qué”.
O barômetro aneróide continuava a um canto a dançar o seu ponteiro sem ser percebido; o
termômetro de máxima e mínima, legítimo Casella, jazia pendurado na varanda sem receber um
olhar amigo; a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de bebedouro às aves; só o
anemômetro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já sem fio, no alto do mastro, como se
protestasse contra aquele desprezo pela ciência que Quaresma representava.
Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora tendo deixado de
ser pública, lavrava ocultamente. Havia no seu espírito e no seu caráter uma vontade de acabá-la de
vez, mas como? Se não o acusavam, se não articulavam nada contra ele diretamente? Era um
combate com sombras, com aparências, que seria ridículo aceitar.
De resto, a situação geral que o cercava, aquela miséria da população campestre que nunca
suspeitara, aquele abandono de terras à improdutividade encaminhavam sua alma de patriota
meditativo a preocupações angustiosas.
Via o major com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade, de apoio
mútuo. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados, isolados, em famílias geralmente
irregulares, sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. Entretanto, tinham bem perto
o exemplo dos portugueses que, unidos aos seis e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado
roças de certa importância, lucrar e viver. Mesmo o velho costume do “moitirão” já se havia
apagado.
Como remediar isso?
Quaresma desesperava...
A tal afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má fé ou estúpida, e estúpido ou
de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares, sem se preocupar com os que já
existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado, fossem
introduzidas mais três, para aumentar o estrume!...
Pelo seu caso, ele via bem as dificuldades, os óbices de toda a sorte que havia para fazer a terra
produtiva e remunerada. Um fato veio mostrar-lhe com eloqüência um dos aspectos da questão.
Vencendo a erva-de-passarinho, os maus-tratos e o abandono de tantos anos, os abacateiros de suas
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terras conseguiram frutificar, fracamente é verdade, mas de forma superior às necessidades de sua
casa.
A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra,
sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro
que os queria comprar por preços ínfimos. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Andou de
porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Senhor Azevedo
no Mercado, o rei das frutas. Lá foi.
- Abacates! Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
- Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia
cinco mil-réis.
- Em porção, o senhor sabe que... É isso... Enfim, se quer mande-os...
Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, pôs uma das mãos na cava do colete e quase de costas
para o major:
- É preciso vê-los... O tamanho influi...
Quaresma os mandou e, quando lhe veio o dinheiro, teve a satisfação orgulhosa de quem acaba de
ganhar uma grande batalha imortal. Acariciou uma por uma aquelas notas encardidas, leu-lhes bem
o número e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa e muito tempo levou
sem ânimo de trocá-las.
Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões, o salário
dos auxiliares e, após esse cálculo que não era laborioso, teve a evidência de que ganhara mil e
quinhentos réis, nem mais nem menos. O Senhor Azevedo tinha-lhe pago pelo tanto a quantia com
que se compra uma dúzia.
Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e ele viu naquele ridículo lucro objeto para maior
contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
Foi, portanto, com redobrada atividade que se pôs ao trabalho. Para o ano, o lucro seria maior.
Tratava-se agora de limpar as fruteiras. Anastácio e Felizardo continuavam ocupados nas grandes
plantações; contratou um outro empregado para ajudá-lo no tratamento das velhas flores frutíferas.
Foi, pois, com o Mané Candeeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores, os galhos mortos e
aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. Era árduo e difícil o trabalho. Tinham às
vezes que subir às grimpas para a extirpação do galho atingido; os espinhos rasgavam as roupas e
feriam as carnes; e em muitas ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o
camarada.
Mané Candeeiro falava pouco, a não ser que se tratasse de cousas de caça; mas cantava que nem
passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingênuas, onde com surpresa o major
não via entrar a fauna, a flora locais, os costumes das profissões roceiras. Eram vaporosamente
sensuais e muito ternas, melosas até; por acaso lá vinha uma em que um pássaro local entrava;
então o major escutava:

Eu vou dar a despedida
Como deu o bacurau,
Uma perna no caminho
Outra no galho de pau.

Este bacurau que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. A observação
popular já começava a interessar-se pelo espetáculo ambiente, já se emocionava com ele e a nossa
raça deitava, portanto, raízes na grande terra que habitava. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de
São Cristóvão. Felizardo dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso, pois todas aquelas caçadas
de caititus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poético, principalmente no
desafio: o moleque é bom!
Ele era claro e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e fortes, um tanto amolecidas pelo
sangue africano.
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Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços; mas,
sinceramente, não a encontrou.
Com auxílio de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras daquele
velho sítio abandonado há quase dez anos. Quando o serviço ficou pronto, ele viu com tristeza
aquelas velhas árvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali... Parecia sofrer e ele
se lembrou das mãos que as tinham plantado há vinte ou trinta anos, escravos, talvez, banzeiros e
desesperançados!...
Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse, e o renascimento das árvores como
que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De manhã, esvoaçavam os tiés-
vermelhos, com o seu pio pobre, espécie de ave tão inútil e tão bela de plumas que parece ter
nascido para os chapéus das damas; as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão
capinado; pelo correr do dia, eram os sanhaçus a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens
de coleiros; e de tarde como que todos eles se reuniam, piando, cantando, chilreando, pelas altas
mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do
velho Major Quaresma.
Não durou muito essa alegria. Um inimigo apareceu inopinadamente, com a rapidez ousadíssima de
um general consumado. Até ali ele se mostrara tímido, parecia que somente mandava
esclarecedores.
Desde aquele ataque às provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas
reapareceram; mas, naquela manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a
alma, e ficou sem ação e as lágrimas lhe vieram aos olhos.
O milho que já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança, crescera
cerca de meio palmo acima da terra; o major até mandara buscar o sulfato de cobre para a solução
em que ia lavar a batata-inglesa a plantar nos intervalos dos pés.
Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de
coma cor de vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos
tinham sido cortados e levados para longe! “A modo que é obra de gente” disse Felizardo;
entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima
do trabalho com uma rapacidade turca... Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo,
descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal.
Passaram-se dias; os inimigos pareciam derrotados, mas, certa noite, indo ao pomar para melhor
apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as
folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... Acendeu um fósforo e o que viu, meu
Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos
troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e
vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam; nada de atropelos, de
confusão, de desordem. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Lá em cima umas
cortavam as folhas pelo pecíolo; cá embaixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram
carregadas por terceiras, levantando-as acima da descomunal cabeça, em longas fileiras pelo trilho
limpo, aberto entre a erva rasteira.
Houve um instante de desânimo na alma do major. Não tinha contato com aquele obstáculo nem o
supusera tão forte. Agora via bem que era a uma sociedade inteligente, organizada, ousada e tenaz
com quem se tinha de haver. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se nós não
expulsássemos as formigas, elas nos expulsariam.
O major não estava lembrado ao certo se eram essas as palavras, mas o sentido era, e ficou
admirado que só agora ela lhe ocorresse.
No dia seguinte, tinha recobrado o ânimo. Comprou ingredientes e ei-lo mais o Mané Candeeiro a
abrir picadas, a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os redutos centrais, as “panelas” dos
insetos terríveis. Então era como se os bombardeassem: o sulfeto queimava, estourava em tiros
seguidos, mortíferos, letais!
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E daí em diante, foi uma batalha sem tréguas. Se aparecia uma abertura, um “olho”, logo se lhe
aplicava o formicida, pois, do contrário, nenhuma plantação era possível, tanto mais que extintos os
das suas terras, não tardariam os formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar
canículos para o seu terreno.
Era um suplício, um castigo, uma espécie de vigilância a dique holandês e Quaresma viu bem que
só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um acordo entre os cultivadores, podia levar a
efeito a extinção daquele flagelo pior que a saraiva, que a geada, que a seca, sempre presente,
inverno ou verão, outono ou primavera.
Não obstante essa luta diária, o major não desanimou e pôde colher alguns produtos das plantações
que tinha feito. Se por ocasião das frutas, a sua alegria foi grande, mais expressiva e mais profunda
ela foi quando viu partir para a estação, em sucessivas carretas, as abóboras, os aipins, as batatas-
doces, em cestos cobertos com sacos cosidos. Os frutos, em parte, eram de outras mãos; as árvores
não tinham sido plantadas por ele; mas aquilo não, vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu
trabalho!
Ele ainda foi ver aqueles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a
glória e para a vitória. Recebeu o dinheiro dias depois, contou-o e esteve deduzindo os lucros.
Não foi à roça nesse dia; o trabalho de guarda-livros roubou o de cultivador. A sua atenção, já um
tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo meio-dia, pôde dizer à irmã:
- Sabes qual foi o lucro, Adelaide?
- Não. Menor do que o dos abacates?
- Um pouco mais.
- Então... Quanto?
- Dous mil quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando sílaba por sílaba.
- O quê?
- Foi isso. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil e quinhentos.
Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois,
levantando o olhar:
- Homem, Policarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as formigas!
- Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar a agricultura,
aproveitar as nossas terras feracíssimas...
- É isto... Queres sempre ser a abelha-mestra... Já viste os grandes fazerem esses sacrifícios?... Vê
lá se fazem! Histórias... Metem-se no café que tem todas as proteções...
- Mas, faço eu.
A irmã prestou mais atenção à costura, Policarpo levantou-se, foi até a janela que dava para o
galinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Ele concertou o pince-nez, esteve olhando e de lá falou:
- Oh! Adelaide! Aquilo não é uma galinha morta?...
A velha senhora ergueu-se com a costura, foi até à janela e verificou com a vista:
- É... É já a segunda que morre hoje.
Após esta leve conversa, Quaresma voltou à sua sala de estudos. Meditava grandes reformas
agrícolas. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. Tinha já em mente uma charrua dupla, um
capinador mecânico, um semeador, um destocador, grades, tudo americano, de aço, dando o
rendimento efetivo de vinte homens. Até então, não quisera essas inovações; as terras mais ricas do
mundo não precisavam desses processos, que lhe pareciam artificiais, para produzir; estava, porém,
agora disposto a empregá-los como experiência. Aos adubos, entretanto, o seu espírito resistia.
Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia a Quaresma uma profanação estar a empregar
nitratos, fosfatos ou mesmo estrume comum, numa terra brasileira... Uma injúria!
Quando se convencesse de que eram necessários, parecia-lhe que todo o seu sistema de idéias ia
por terra e os móveis de sua vida desapareceriam. Estavam assim a escolher arados e outros
“Planets”, “Bajacs” e “Brabants” de vários feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe anunciou a
visita do Doutor Campos.
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O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansidão e o seu grande corpo. Era alto e gordo,
pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quase à flor do rosto, uma testa média e reta; o nariz,
malfeito. Um tanto trigueiro, cabelos corridos e já grisalhos, era o que se chama por aí um caboclo,
embora o seu bigode fosse crespo. Não nascera em Curuzu, era da Bahia ou de Sergipe, habitava,
porém, o lugar há mais de vinte anos, onde casara e prosperara, graças ao dote da mulher e à sua
atividade clínica. Com esta, não gastava grande energia mental: tendo de cor uma meia dúzia de
receitas, ele, desde muito, conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário.
Presidente da Câmara, era das pessoas mais consideráveis de Curuzu, e Quaresma o estimava
particularmente pela sua familiaridade, pela sua afabilidade e simplicidade.
- Ora viva, major! Como vai isto por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais.
Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade, mas contente com a alegria
comunicativa do doutor. Ele continuava a falar com desembaraço e naturalidade:
- Sabe o que me traz aqui, major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obséquio seu.
O major não se espantou; simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos.
- Como o major sabe...
Agora a sua voz era doce, flexível, sutil; as palavras caíam-lhe da boca adocicadas, dobravam-se,
coleavam-se:
- Como o major sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A vitória é “nossa”. Todas as
mesas estão conosco, exceto uma... Aí mesmo, se o major quiser...
- Mas, como? se eu não sou eleitor, não me meto, nem quero meter-me em política? perguntou
Quaresma ingenuamente.
- Exatamente por isso, disse o doutor com voz forte; e em seguida brandamente: a seção funciona
na sua vizinhança, é ali, na escola, se...
- E daí?
- Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o major quer responder (é melhor já) que
não houve eleição... Quer?
Quaresma olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cavanhaque e respondeu claramente,
firmemente:
- Absolutamente não.
O doutor não se zangou. Pôs mais unção e macieza na voz, aduziu argumentos: que era para o
partido, o único que pugnava pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflexível; disse que não,
que lhe eram absolutamente antipáticas tais disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse
não iria afirmar uma cousa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade.
Campos não deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre cousas banais e despediu-se
com o ar amável, com a jovialidade mais sua que era possível.
Isto se passou na terça-feira, naquele dia de luz fosca e irritante. À tarde houve trovoada, choveu
muito. O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o major foi surpreendido com a visita de
um sujeito com um uniforme velho e lamentável, portador de um papel oficial para ele, proprietário
do “Sossego”, conforme mesmo disse o tal homem fardado.
Em virtude das posturas e leis municipais, rezava o papel, o Senhor Policarpo Quaresma,
proprietário do sítio “Sossego”, era intimado, sob as penas das mesmas posturas e leis, a roçar e
capinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas.
O major ficou um tempo pensando. Julgava impossível uma tal intimação. Seria mesmo?
Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assinatura do Doutor Campos. Era certo... Mas que
absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil e duzentos metros, pois seu
sítio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de
oitocentos metros - era possível!?
A antiga corvéia!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio. Consultando a irmã, ela lhe
aconselhou que falasse ao Doutor Campos. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com
ele dias antes.
- Mas és tolo, Policarpo. Foi ele mesmo...
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A luz se lhe fez no pensamento... Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de preceitos, nas
mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em instrumento de
suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações, crestar-lhe a iniciativa e a
independência, abatendo-as e desmoralizando-as.
Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se encostavam
nos portais das vendas preguiçosamente; viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas, d’olhos
baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas; viu aquelas terras abandonadas, improdutivas,
entregues às ervas e insetos daninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, ativo e
trabalhador, sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe
passava pelas mãos - este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do
relâmpago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara.
Vinha viva e alegre. Contava pequenas histórias de sua vida, a viagem próxima do papai à Europa,
o desespero do marido no dia em que saiu sem anel, pedia notícias do padrinho, de Dona Adelaide
e, sem desrespeito, recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de
arminho da “Duquesa”.
A “Duquesa” era uma grande pata branca, de penas alvas e macias ao olhar, que, pela lentidão e
majestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme, merecera de Olga esse apelido nobre. O
animal tinha morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levara duas dúzias de patos,
levara a “Duquesa” também. Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas, depois o resto do
corpo. Três dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico colado ao chão, atacada pelas
formigas, o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico,
espantando as moscas que a importunavam na sua última hora.
Era de ver como aquela vida tão estranha à nossa, naquele instante penetrava em nós e sentíamos-
lhe o sofrimento, a agonia e a dor.
O galinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou galinhas, perus, patos; ora sobre uma
forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua população a menos de metade.
E não havia quem soubesse curar. Numa terra cujo governo tinha tantas escolas que produziam
tantos sábios, não havia um só homem que pudesse reduzir com as suas drogas ou receitas aquele
considerável prejuízo.
Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador entusiástico dos primeiros
meses; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos. Adquiriu
compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas agrícolas descritas nos
catálogos.
Uma tarde, porém, estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado,
quando lhe apareceu à porta um soldado de polícia com um papel oficial. Ele se lembrou da
intimação municipal. Estava disposto a resistir, não se incomodou muito.
Recebeu o papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da coletoria, cujo escrivão,
Antonino Dutra, conforme estava no papel, intimava o Senhor Policarpo Quaresma a pagar
quinhentos mil-réis de multa, por ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos
respectivos impostos.
Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as
cousas gerais, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta quilômetros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas?
Depois de Turgot, da Revolução, ainda havia alfândegas interiores?
Como era possível fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio
dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado, como era possível tirar da terra a
remuneração consoladora?
E o quadro que já lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-
lhe de novo, mais tétrico, mais sombrio, mais lúgubre; e anteviu a época em que aquela gente teria
de comer sapos, cobras, animais mortos, como em França os camponeses, em tempos de grandes
reis.
62
Quaresma veio a recordar-se do seu tupi, do seu folklore, das modinhas, das suas tentativas
agrícolas - tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessário refazer a administração.
Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo todos esses óbices, esses entraves,
Sully e Henrique IV, espalhando sábias leis agrárias, levantando o cultivador... Então sim! O
celeiro surgiria e a pátria seria feliz.
Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar à estação, e lhe disse:
- Seu patrão, amanhã, não venho “trabaiá”.
- Por certo; é dia feriado... A Independência.
- Não é por isso.
- Por que então?
- Há “baruio” na Corte e dizem que vão “arrecrutá”. Vou pro mato... Nada!
- Que barulho?
- “Tá” nas “foias”, sim “sinhô”.
Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e
intimado ao Presidente a sair do poder. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás; um
governo forte, até à tirania... Medidas agrárias... Sully e Henrique IV...
Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada disse à
irmã, tomou o chapéu, e dirigiu-se à estação.
Chegou ao telégrafo e escreveu:
“Marechal Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já. - Quaresma.”

V
O Trovador
- Decerto, Albernaz, não é possível continuar assim... Então, mete-se um sujeito num navio, assesta
os canhões pra terra e diz: sai daí “seu” presidente; e o homem vai saindo?... Não! É preciso um
exemplo...
- Eu penso também da mesma maneira, Caldas. A República precisa ficar forte, consolidada... Esta
terra necessita de governo que se faça respeitar... É incrível! Um país como este, tão rico, talvez o
mais rico do mundo, é, no entanto, pobre, deve a todo o mundo... Por quê? Por causa dos governos
que temos tido que não têm prestígio, força... É por isso.
Vinham andando, à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado; ambos
fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervalo, continuou:
- Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por aí, que o não chamasse de
“banana” e outras cousas... Saía no carnaval... Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se
como um intruso.
- E era um bom homem, observou o almirante. Amava o seu país... Deodoro nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos
os lados, acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:
- Morreu arrependido... Nem com a farda quis ir para a cova!... Aqui para nós que ninguém nos
ouve: foi um ingrato; o imperador tinha feito tanto por toda a família, não acha?
- Não há dúvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele
tempo, digam lá o que disserem...
- Quem diz o contrário? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco?
- E mais justiça mesmo, disse com firmeza o almirante. O que eu sofri, não foi por causa do
“velho”, foi a canalha... Demais, tudo barato...
- Eu não sei, disse Albernaz com particular acento, como há ainda quem se case... Anda tudo pela
hora da morte!
Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando.
Nunca as tinham contemplado; e, agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre
árvores tão soberbas, tão belas, tão tranqüilas e seguras de si, como aquelas que espalhavam sob os
63
seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em
terra própria, delas, da qual nunca sairiam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e
esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. O
solo sobre o qual cresciam era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos, cerrando
e tecendo a folhagem, para dar à boa mãe frescura e proteção contra a inclemência do sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas quase beijavam o chão. As
jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléia, e cobriam a
terra com uma ogiva verde...
O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina. Eles lhe viam o fundo, aquela parte de
construção mais antiga, joanina, com a torre do relógio um pouco afastada e separada do corpo do
edifício.
Não era belo o palácio, não tinha mesmo nenhum traço de beleza, era até pobre e monótono. As
janelas acanhadas daquela fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo
ele, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco comum nas nossas
habitações, uma certa dignidade, alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante, mas
para anos, para séculos... As palmeiras cercavam-no, erectas, firmes, com os seus grandes penachos
verdes, muito altos, alongados para o céu...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e função.
Albernaz interrompeu o silêncio:
- Em que dará isto tudo, Caldas?
- Sei lá.
- O “homem” deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custódio... hum!
- O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda à estação de São Cristóvão. Atravessaram o velho parque imperial
transversalmente, desde o portão da Cancela até à linha da estrada de ferro. Era de manhã, e o dia
estava límpido e fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de saírem da quinta,
deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada!
camarada! O soldado levantou-se estremunhado; e, dando com aqueles dous oficiais superiores,
concertou-se rapidamente, fez a continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné, um
instante firme, mas logo bambeou.
- Abaixe a mão, fez o general. Que faz você aqui?
Albernaz falou em tom ríspido e de comando. A praça, falando a medo, explicou que tinha estado
de ronda ao litoral toda a noite. A força se recolhera aos quartéis; ele obtivera licença para ir em
casa, mas o sono fora muito e descansava ali um pouco.
- Então como vão as cousas? perguntou o general.
- Não sei, não “sinhô”.
- Os “homens” desistem ou não?
O general esteve um instante examinando o soldado. Era branco e tinha os cabelos alourados, de
um louro sujo e degradado; as feições eram feias: malares salientes, testa óssea e todo ele anguloso
e desconjuntado.
- Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
- Do Piauí, sim “sinhô”.
- Da capital?
- Do sertão, de Paranaguá, sim “sinhô”.
O almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado, respondendo
tropegamente. Caldas, para acalmá-lo, resolveu falar-lhe com doçura.
- Você não sabe, camarada, quais são os navios que “eles” têm?
- O “Aquidabã”... A “Luci”.
- A “Luci” não é navio.
- É verdade, sim “sinhô”. O “Aquidabã”... Um “bandão” deles, sim, “sinhô”.
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O general interveio então. Falou-lhe com brandura, quase paternal, mudando o tratamento de você
para tu, que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores:
- Bem, descansa, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te o sabre e estás na “inácia”.
Os dous generais continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma da estação. A
pequena estação tinha um razoável movimento. Um grande número de oficiais, ativos, reformados,
honorários moravam-lhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades
competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências. O general era
mais conhecido, em virtude de seu emprego; o almirante, não. Quando passavam, ouviam
perguntar: “Quem é este almirante?” Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto
e do seu incógnito.
Havia uma única mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua
filha Ismênia... Coitada!... Ficaria boa?
Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas, mas ele as conteve com força.
Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que
parecia fugir aos poucos do cérebro da moça.
A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrépito, apitando com fúria e deixando
fumaça pesada pelos ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o monstro, pejado de
soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.
Bustamante apareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para apresentar-se. Trazia o seu
velho uniforme do Paraguai, talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. A barretina era
um tronco de cone que avançava para a frente; e, com aquela banda roxa e casaquinha curta,
parecia ter saído, fugido, saltado de uma tela de Vítor Meireles.
- Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorário.
- Viemos pela quinta, disse o almirante.
- Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me importa morrer, mas
quero morrer combatendo; isso de morrer por aí, à toa, sem saber como, não vai comigo...
O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo olharam-no com mal
disfarçada censura. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente:
- Conheço bem esse negócio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em
Curuzu...
- A cousa foi terrível, acrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veio chegando manso, vagaroso; a locomotiva, muito negra, bufando,
suando gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de ciclope, avançava que
nem uma aparição sobrenatural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de oficiais; a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil
homens. Os militares palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados.
Se falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de trás.
A cidade andava inçada de secretas, “familiares” do Santo Ofício Republicano, e as delações eram
moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a mínima crítica, para se perder o emprego, a liberdade, - quem sabe? - a vida também.
Ainda estávamos no começo da revolta, mas o regime já publicara o seu prólogo e todos estavam
avisados. O chefe de polícia organizara a lista dos suspeitos. Não havia distinção de posição e
talentos. Mereciam as mesmas perseguições do governo um pobre contínuo e um influente senador;
um lente e um simples empregado de escritório. Demais surgiam as vinganças mesquinhas, a revide
de pequenas implicâncias... Todos mandavam; a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função pública alguma,
prendia e ai de quem caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo angustiosos suplícios de uma
imaginação dominicana. Os funcionários disputavam-se em bajulação, em servilismo... Era um
terror, um terror baço, sem coragem, sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão
e sem responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier-Tinville.
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Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os capitães.
Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão
e a companhia, a todo esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento mais puro,
desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo
tirânico, limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as
ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá diz ele, ao progresso e
também ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a adoração do grão-fetiche, com
fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis, o paraíso, enfim, com inscrições em escritura
fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para justificar as suas idéias de governo,
em tudo semelhantes aos canatos e emirados orientais.
A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que, naqueles tempos, amedrontava toda
a gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o
positivismo, como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também
para a Anglicana. O prestígio dele era, portanto, enorme.
O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter à praça da República. O almirante, cosido com
as paredes, seguiu para o Arsenal de Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel-
General. Penetraram no grande casarão, no meio do retinir de espadas, de toques de cornetas; o
grande pátio estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, feixes de armas ensarilhadas, baionetas
reluzindo ao sol oblíquo...
No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vaivém de fardas, dourados,
fazendas multicores, uniformes de várias corporações e milícias, no meio dos quais os trajes
escuros dos civis eram importunos como moscas. Misturavam-se oficiais da guarda nacional, da
polícia, da armada, do exército, de bombeiros e de batalhões patrióticos que começavam a surgir.
Apresentaram-se e, depois de tê-lo feito ao ajudante-general e ministro da Guerra, a um só tempo,
ficaram a conversar nos corredores, com bastante prazer, pois que tinham encontrado o Tenente
Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo.
O general porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque aprendia com ele alguma
cousa de nomenclatura dos armamentos modernos.
Fontes estava indignado, todo ele era horror, maldição contra os insurrectos, e propunha os piores
castigos.
- Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do marechal, se os pegasse... ai deles!
O tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era positivista e tinha da sua
República uma idéia religiosa e transcendente. Fazia repousar nela toda a felicidade humana e não
admitia que a quisessem de outra forma que não aquela que imaginava boa. Fora daí não havia boa
fé, sinceridade; eram heréticos interesseiros, e, dominicano do seu barrete frígio, raivoso por não
poder queimá-los em autos-de-fé, congesto, via passar por seus olhos uma série enorme de réus
confidentes, relapsos, contumazes, falsos, simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por aí...
Albernaz não tinha tanta fúria contra os adversários. No fundo d’alma, ele os queria até, tinha
amigos lá, e essas divergências nada significavam para a sua idade e experiência.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na ação do marechal. Estando em apuros financeiros,
não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do
Moura, esperava obter uma outra comissão, que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o
enxoval de Lalá.
O almirante, também, tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano. A
sua causa não ia lá muito bem. Perdera-a em primeira instância, estava gastando muito dinheiro... O
governo precisava de oficiais de Marinha, quase todos estavam na revolta; talvez lhe dessem uma
esquadra a comandar... É verdade que... Mas, que diabo! Se fosse um navio, então sim: mas uma
esquadra a cousa não era difícil; bastava coragem para combater.
Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim que, para apoiá-lo e
defender o seu governo, imaginava organizar um batalhão patriótico, de que já tinha o nome
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“Cruzeiro do Sul” e naturalmente seria o seu comandante, com todas as vantagens do posto de
coronel.
Genelício, cuja atividade nada tinha de guerreira, esperava muito da energia e da decisão do
governo de Floriano: esperava ser subdiretor e não podia um governo sério, honesto e enérgico,
fazer outra cousa, desde que quisesse pôr ordem na sua seção.
Essas secretas esperanças eram mais gerais do que se pode supor. Nós vivemos do governo e a
revolta representava uma confusão nos empregos, nas honrarias e nas posições que o Estado
espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações supririam os títulos e habilitações para ocupá-
las; além disso, o governo, precisando de simpatias e homens, tinha que nomear, espalhar,
prodigalizar, inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O próprio Doutor Armando Borges, o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando estudante,
colocava na revolta a realização de risonhos anelos.
Médico e rico, pela fortuna da mulher, ele não andava satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo
de nomeada esporeavam-no. Já era médico do Hospital Sírio, onde ia três vezes por semana e, em
meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro dava-lhe informações, o doutor ia, de
cama em cama, perguntando: “Como vai?” “Vou melhor seu doutor”, respondia o sírio com voz
gutural. Na seguinte, indagava: “Já está melhor?” E assim passava a visita; chegando ao gabinete
receitava: “Doente nº 1, repita a receita; doente 5... quem é?”... “É aquele barbado”... “Ahn!” E
receitava.
Mas médico de um hospital particular não dá fama a ninguém: o indispensável é ser do governo,
senão ele não passava de um simples prático. Queria ter um cargo oficial, médico, diretor ou
mesmo lente da faculdade.
E isso não era difícil, desde que arranjasse boas recomendações pois já tinha certo nome, graças à
sua atividade e fertilidade de recursos.
De quando em quando, publicava um folheto. O Cobreiro, Etiologia, Profilaxia e Tratamento ou
Contribuição para o Estudo da Sarna no Brasil; e, mandava o folheto, quarenta e sessenta páginas,
aos jornais que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano; o “operoso Doutor Armando Borges,
o ilustre clínico, o proficiente médico dos nossos hospitais”, etc., etc.
Obtinha isso graças à precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da
imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que não havia nada de próprio,
mas ricos de citações em francês, inglês e alemão.
O lugar de lente é que o tentava mais; o concurso, porém, metia-lhe medo. Tinha elementos, estava
bem relacionado e cotado na congregação, mas aquela história de argüição apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francês, inglês e italiano; tomara até um professor
de alemão, para entrar na ciência germânica; mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a
sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em biblioteca. As paredes estavam forradas
de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. À noite, ele abria as janelas das venezianas,
acendia todos os bicos-de-gás e se punha à mesa, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O sono não tardava a vir ao fim da quinta página... Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da
mulher. Eram romances franceses, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam
dormir da mesma maneira que os tratados. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises,
daquelas descrições, o interesse e o valor delas, revelando a todos, à sociedade, a vida, os
sentimentos, as dores daqueles personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa ciência e a
pobreza de sua instrução geral faziam-no ver naquilo tudo, brinquedos, passatempos, falatórios,
tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros.
Precisava, porém, iludir-se, a si mesmo e à mulher. De resto, da rua, viam-no e se dessem com ele a
dormir sobre os livros?!... Tratou de encomendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas
com títulos trocados e afastou o sono.
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A sua clínica, entretanto, prosperava. De comandita com o tutor, chegou a ganhar uns seis contos,
tratando de um febrão de uma órfã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrava na sua simulação de inteligência, mas aquela manobra
indecorosa indignou-a. Que necessidade tinha ele disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha
o privilégio de um título universitário? Tal ato pareceu à moça mais vil, mais baixo, que a usura de
um judeu, que o aluguel de uma pena...
Não foi desprezo, nojo que ela teve pelo marido; foi um sentimento mais calmo, menos ativo;
desinteressou-se dele, destacou-se de sua pessoa. Ela sentiu que tinham cortado todos os laços de
afeição, de simpatia, que prendiam ambos, toda a ligação moral, enfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquelas cousas de amor ao estudo, de interesse pela ciência,
de ambições de descobertas, nele, eram superficiais, estavam à flor da pele; mas desculpou. Muitas
vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare
e saímos Mal das Vinhas. Era perdoável, mas charlatão? Era demais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quase indignidade?... Todos os homens
deviam ser iguais; era inútil mudar deste para aquele...
Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande alívio, e a sua fisionomia se iluminou de novo
como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
Naquela carreira atropelada para o nome fácil, ele não deu pelas modificações da mulher. Ela
dissimulava os seus sentimentos, mais por dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro
motivo; e a ele faltavam a sagacidade e finura necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo.
Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quanto estavam longe um do outro!...
A revolta veio encontrá-los assim; e o doutor, desde três dias, pois há tanto ela rebentara, meditava
a sua ascensão social e monetária.
O sogro suspendera a viagem à Europa, e, naquela manhã, após o almoço, conforme o seu hábito,
lia recostado numa cadeira de viagem os jornais do dia. O genro vestia-se e a filha ocupava-se com
sua correspondência, escrevendo à cabeceira da mesa de jantar. Ela tinha um gabinete, com todo o
luxo, livros, secretária, estantes, mas gostava pela manhã de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe
parecia mais clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade ao pensamento
e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
Ela escrevia e o pai lia; num dado momento ele disse:
- Sabes quem vem aí, minha filha?
- Quem é?
- Teu padrinho. Telegrafou ao Floriano, dizendo que vinha... Está aqui, n’O País.
A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir de fato sobre as idéias e sentimentos de
Quaresma. Quis desaprovar, censurar; sentiu-o, porém, tão coerente com ele mesmo, tão de acordo
com a substância da vida que ele mesmo fabricara, que se limitou a sorrir complacente:
- O padrinho...
- Está doido, disse Coleoni, Per la madonna! Pois um homem que está quieto, sossegado, vem
meter-se nesta barafunda, neste inferno...
O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca fúnebre e a cartola reluzente na mão.
Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia, exceto onde o grande bigode punha sombras. Ainda
ouviu as últimas palavras do sogro, pronunciadas com aquele seu português rouco:
- Que há? perguntou ele.
Coleoni explicou e repetiu os comentários que já fizera:
- Mas não há tal, disse o doutor. É o dever de todo o patriota... Que tem a idade? Quarenta e poucos
anos, não é lá velho... Pode ainda bater-se pela República...
- Mas não tem interesse nisso, objetou o velho.
- E há de ser só quem tem interesse que se deve bater pela República? interrogou o doutor.
A moça que acabava de ler a carta que tinha escrito, mesmo sem levantar a cabeça, disse:
- Decerto.
- É vem você com as suas teorias, filhinha. O patriotismo não está na barriga...
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E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava.
- Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros? É monopólio de vocês o patriotismo? fez Olga.
- Decerto. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade, a entorpecer, a
desmoralizar a ação da autoridade constituída.
- Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações, os fuzilamentos, toda a série de
violências que se vêm cometendo, aqui e no Sul?
- Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor, fechando a discussão.
Ela não deixava de ser. A simpatia dos desinteressados, da população inteira era pelos insurgentes.
Não só isso sempre acontece em toda a parte, como particularmente, no Brasil, devido a múltiplos
fatores, há de ser assim normalmente.
Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da
simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam
a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e
mudanças.
Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para os revoltosos; e Coleoni, estrangeiro e
conhecendo, graças à sua vida, as nossas autoridades, calasse as suas simpatias num mutismo
prudente.
- Não me vá comprometer, hein, Olga?
Ela se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, deitou-lhe o seu grande olhar
luminoso, e com os finos lábios um pouco franzidos:
- Você sabe bem que eu não te comprometo.
O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus à mulher,
que lhe seguia a saída, debruçada na varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das contingências terrenas.
Ricardo vivia ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios, cuja vista ia de Todos os Santos à
Piedade, abrangendo um grande trato de área edificada, um panorama de casas e árvores.
Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa tinha assentado.
Por esses dias o triunfo desfilava sem contestação. Toda a cidade o tinha na consideração devida e
ele quase se julgava ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo
de obter.
Já publicara mais de um volume de canções; e, agora pensava em publicar mais outro.
Há dias vivia em casa, pouco saindo, organizando o seu livro. Passava confinado no seu quarto,
almoçando café, que ele mesmo fazia, e pão, indo à tarde jantar a uma tasca próximo à estação.
Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que jantavam nas mesas sujas,
abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados; mas não deu importância...
Apesar de popular no lugar, não encontrara pessoa alguma conhecida durante os três últimos dias;
ele mesmo evitava falar e, em sua casa, limitava-se ao “bom-dia” e à “boa-tarde” trocados com os
vizinhos.
Gostava de passar assim dias, metido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornais para
não distrair a atenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de
ser mais uma vitória para ele e para o violão estremecido.
Naquela tarde estava sentado à mesa, corrigindo um dos seus trabalhos, um dos últimos, aquele que
compusera no sítio de Quaresma - “Os lábios de Carola”.
Primeiro, leu toda a produção, cantarolando; voltou a lê-la, agarrou o violão para melhor apanhar o
efeito e empacou nestes:

É mais bela que Helena e Margarida,
Quando sorri meneando a ventarola.
Só se encontra a ilusão que adoça a vida
Nos lábios de Carola.
69
Nisto ouviu um tiro, depois, outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio
estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde encontrava a ilusão
que adoça a vida...


TERCEIRA PARTE


I
Patriotas
Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande salão do palácio, vendo o marechal, mas
sem lhe poder falar. Quase não se encontravam dificuldades para se chegar à sua presença, mas
falar-lhe, a cousa não era tão fácil.
O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente. Não era
raro ver-se pelos divãs, em outras salas, ajudantes-de-ordens, ordenanças, contínuos, cochilando,
meio deitados e desabotoados. Tudo nele era desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de
aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira de rua mal varrida.
Quaresma não pudera vir logo, como anunciara no telegrama. Fora preciso pôr em ordem os seus
negócios, arranjar quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide mil objeções à sua
partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade e superiores à sua
força; ele, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável, necessário que
toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse
posto à disposição do governo, para então!... oh!
Aproveitara os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nele expunham-se as
medidas necessárias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos
da grande propriedade, das exações fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das
violências políticas.
O major apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquela
planície feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e
transparentes, lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e plácidos que o viram partir com
uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento, era do
Anastácio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal
doméstico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas órbitas as escleróticas
muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça...
Não lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas sinais de
dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o chamasse. Era
cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o palito na
boca.
Falou em primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham oferecer o seu braço e o seu
sangue em defesa das instituições e da pátria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto,
gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita.
Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nela que uma escondia
a outra, furtando toda ela a uma classificação honesta.
Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes olhos que despediam chispas.
Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era como se temesse derreter-se ao calor
daquele olhar que queimava mais sedução que patriotismo. Fugia encará-la, abaixava o rosto como
um adolescente, batia com os dedos na mesa...
Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com
um grosso e difícil sorriso de roceiro, declinou da oferta, visto a República ainda dispor de bastante
força para vencer.
70
A última frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente. As damas despediram-se; o
marechal girou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma:
- Então, Quaresma? fez ele familiarmente.
O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais
subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. Não se ouvia o que
diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espáduas. O marechal quase
não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossílabo, cousa que Quaresma percebia
pela articulação dos lábios.
Começaram a sair. Apertavam a mão do ditador e, um deles, mais jovial, mais familiar, ao
despedir-se, apertou-lhe com força a mão mole, bateu-lhe no ombro com intimidade, e disse alto e
com ênfase:
- Energia, marechal!
Aquilo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial da República, que
ninguém, nem o próprio Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns até sorriram alegres
por ver o califa, o cã, o emir, transmitir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno
desabusado. Não se foram todos imediatamente. Um deles demorou-se mais a segredar cousas à
suprema autoridade do país. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa, talim
e sabre de praça de pré.
Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada.
Tinham todos os privilégios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o ditador e
abusavam dessa situação de esteio do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira.
Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade especial
brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a
República, em artigo e fé, em feitiço, em ídolo mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes
eram oblatas dignas e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá estava...
Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem que ia feixar em suas mãos, durante
quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando
tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas fraquezas e vontades, nem nas leis,
nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.
Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma
grande “mosca”; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que
fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de
expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era
gelatinoso - parecia não ter nervos.
Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o
temperamento. Essas cousas não vogam, disse ele de si para si.
O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de
enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um
pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma
ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade
predominante: tibieza de ânimo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum,
essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação
nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que
passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos.
Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o expediente respectivo;
e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava meses e meses sem lá ir, deixando tudo
por assinar, pelo que “legou” ao seu substituto um trabalho avultadíssimo.
Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de Guilherme
I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso
florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas,
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certamente necessárias deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e
influísse na marcha das cousas governamentais e administrativas.
Dessa preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos monossílabos,
levados à altura de ditos sibilinos, as famosas “encruzilhadas dos talvezes”, que tanto reagiram
sobre a inteligência e imaginação nacionais, mendigas de heróis e grandes homens.
Essa doentia preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele aspecto de calma superior, calma
de grande homem de Estado ou de guerreiro extraordinário.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo. A braços com o
levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um
inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra
sedição, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais, ninguém pode admitir um homem forte, um César, um Napoleão, que permita aos
subalternos aquelas intimidades deprimentes e tenha com eles as condescendências que ele tinha,
consentindo que o seu nome servisse de lábaro para uma vasta série de crimes de toda a espécie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atmosfera de má vontade Napoleão assumiu o
comando do exército da Itália. Augereau, que o chamava “general de rua”, disse a alguém, após lhe
ter falado: “O homem meteu-me medo”; e o corso estava senhor do exército sem batidelas no
ombro, sem delegar tácita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsáveis.
De resto, a lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra bem a incerteza, a
vacilação de vontade de um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos que estavam às
suas ordens.
Há uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, atos e gestos. Era
o seu amor à família, um amor entranhado, alguma cousa de patriarcal, de antigo que já se vai
esvaindo com a marcha da civilização.
Em virtude de insucessos na exploração agrícola de duas das suas propriedades, a sua situação
particular era precária, e não queria morrer sem deixar à família as suas propriedades agrícolas
desoneradas do peso das dívidas.
Honesto e probo como era, a única esperança que lhe restava repousava nas economias sobre os
seus ordenados. Daí lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensável
para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se tenazmente à Presidência da
República. A hipoteca do “Brejão” e do “Duarte” foi o seu nariz de Cleópatra...
A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse
“homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi
transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que
vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo.
Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam
sido possíveis, depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se
ter “fabricado” à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos.
A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de
uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande, o portar-se mal
era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim,
porém, prisão e morte. Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação,
assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água.
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil,
raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo
pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus
auxiliares e asseclas.
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo
foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande
obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao
72
organismo aniquilado da pátria, que o major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de
uns tempos para cá, já tivesse dúvidas a certos respeitos.
Decerto, ele não negaria tais esperanças e a sua ação poderosa havia de se fazer sentir pelos oito
milhões de quilômetros quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança, proteção aos fracos,
assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro de espera, desde que o
marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar aquele homem pequenino, taciturno, de
pince-nez e foi-se chegando, se aproximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quase como um
terrível segredo:
- Eles vão ver o “caboclo”... O major há muito que o conhece?
Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara só e
Quaresma avançou.
- Então, Quaresma? fez Floriano.
- Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.
O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu com dificuldade, mas,
levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão a razão
boa de sua causa.
- Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.
Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias, nomes, empregos, situações dos subalternos
com quem lidava. Tinha alguma cousa de asiático; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias, medidas
tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. O marechal ouviu-o distraído, com
uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios.
- Trazia a Vossa Excelência até este memorial...
O presidente teve um gesto de mau humor, um quase “não me amole” e disse com preguiça a
Quaresma:
- Deixa aí...
Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora:
- Que há, Bustamante? E o batalhão, vai?
O homem aproximou-se mais, um tanto amedrontado:
- Vai bem, marechal. Precisamos de um quartel... Se Vossa Excelência desse ordem...
- É exato. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar... Ou antes: leva-lhe este bilhete.
Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma, e assim mesmo,
sobre aquela ponta de papel, a lápis azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra. Ao
acabar é que deu com a desconsideração:
- Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito... Não faz mal... Era a parte de cima, não tinha nada escrito.
O major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:
- Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
- Eu! fez Quaresma estupidamente.
- Bem. Vocês lá se entendam.
Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. Até à rua
nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente; o
movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração apreciável. Havia a mesma agitação de
bondes, carros e carroças; mas nas fisionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo
ameaçava todos e parecia estar suspenso no ar.
Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel, velho amigo do
marechal, seu companheiro do Paraguai.
- Mas nós nos conhecemos! exclamou ele.
Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos
espertos, mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia.
- Não me recordo... Donde?
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- Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
Policarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão
patriótico “Cruzeiro do Sul”.
- O senhor quer fazer parte?
- Pois não, fez Quaresma.
- Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos
auxiliar o governo... Não convém sangrar o Tesouro, não acha?
- Certamente, disse com entusiasmo Quaresma.
- Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um
rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil-réis, um tenente
com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não é?
Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério do
Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca tendo
pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major, e a cousa pegou. A princípio,
protestou, mas como teimassem deixou.
- Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major.
- Qual é a minha quota?
- Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita?
- Pois não.
Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se jovialmente:
- Então, major, às seis, no quartel provisório.
A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant’Ana. Quaresma
pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em
Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando
em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do quartel-general
saía uma força, armas ao ombro, baionetas caladas, dançando nos ombros dos recrutas, faiscando
com um brilho duro e mau.
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos fuzis. Não
durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros
tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais.
Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o
vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro. Voltou-se.
- Oh! general!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um prazer,
uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação
qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não trazia espada e o pince-nez
continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda.
- Então veio ver a cousa?
- Vim. Já me apresentei ao marechal.
- “Eles” vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A
República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O “caboclo” é de ferro... No
Paraguai...
- O senhor conheceu-o lá, não, general?
- Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como
encarregado das munições... É o fino o “caboclo”: não me quis no litoral. Sabe muito bem quem
sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote
que eu não examine... É necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se
muita cal por pólvora - não sabia?
- Não.
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- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o “homem” quer que eu fique
com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá...
Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um instante. Quaresma
perguntou:
- Como vai a família?
- Bem. Sabe que Quinota casou-se?
- Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai?
A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto:
- Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura
mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um
olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra em imbecilidade; mas vinha
uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: “Apronta-me,
mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento.” Outras vezes recortava papel, em
forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu
casamento.
O general já consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um
feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava
o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não atingira,
aniquilando-se, porém, o seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e,
quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com todos os cuidados, à custa de
todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras dançavam,
um instante esquecidas da irmã que sofria.
Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emoção e continuou no tom mais
natural, naquele seu tom familiar e íntimo que usava com todos:
- Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país. E os prejuízos? Um porto destes
fechado a comércio nacional quantos anos de retardamento não representa!
O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossível
a reprodução de levantes e insurreições.
- Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que
mau efeito!
O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao
Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. Não foi indiferença que
sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar.
Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o
mesmo homem baixo, pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do
pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que ela
conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma força
estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que ele entrara naturalmente,
com o seu passo miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirara a
sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se
fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa
impressão da sua entrada:
- Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo.
De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o “clássico” um grande artigo
sobre “Ferimentos por arma de fogo”. O seu último truc intelectual era este do clássico. Buscava
nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e
romances nos jornais. Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma
que eles. A sua sabedoria superior e o seu título “acadêmico” não podiam usar da mesma língua,
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dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéia
do clássico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje,
em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar,
ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de
ao invés, em-pós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus
pares e ao público em geral.
Gostava muito da expressão - às rebatinhas; usava-a a todo o momento e, quando a punha no
branco do papel, imaginava que dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos e às suas
idéias uma suficiência transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o
sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em pleno Seiscentos,
prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado.
A sua tradução estava quase no fim, já estava bastante prático, pois com o tempo adquirira um
vocabulário suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade, logo na primeira escrita.
Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como
teimasse em não encontrar um equivalente clássico para “orifício”, julgou útil a interrupção. Queria
pôr “buraco”, mas era plebeu; “orifício”, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na
volta talvez encontrasse, pensou: e subiu à sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu grande
bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma
discussão sobre autoridade.
Dizia ela:
- Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se
governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar
os governantes?
O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar de objetar:
- Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se for
assim, tudo vai por água abaixo.
Quaresma acrescentou:
- É em virtude das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela existe...
Nas formigas, nas abelhas...
- Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de
assassínios, exações e violências?
- Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo:
- Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica iremos
buscar normas de vida entre insectos?
- Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do
fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Ele não tinha acabado a explicação e já Olga refletia:
- Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá; mas não; de que vale?
- Há de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidá-la.
Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a sua próxima
incorporação ao batalhão “Cruzeiro do Sul”. O doutor teve uma ponta de inveja, quando ele se
referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu.
Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os
empregados se moviam como em um subterrâneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua
da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma
multidão. Eram os avançados, os “jacobinos”, a guarda abnegada da República, os intransigentes a
cujos olhos a moderação, a tolerância e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de
lesa-pátria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O
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estrangeiro era sobretudo o português, o que não impedia de haver jornais “jacobiníssimos”
redigidos por portugueses da mais bela água.
A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a Rua do Ouvidor era a mesma. Os namoros se
faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céu azul, luminoso, as moças davam
gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes,
o sangue a subir às faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.
Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel, que funcionava provisoriamente num velho
cortiço condenado pela higiene, lá pelos lados da Cidade Nova. Tinha o tal cortiço andar térreo e
sobrado, ambos divididos em cubículos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma
varanda de grade de pau e uma escada de madeira levava até lá, escada tosca e oscilante, que gemia
à menor passada. A casa da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio, já sem
as cordas de secar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrelas e da água de sabão,
servia para a instrução dos recrutas. O instrutor era um sargento reformado, um tanto coxo, e
admitido no batalhão com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa: “om - brô”...
armas!
O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento.
Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã era verde-garrafa e tinha uns vivos azul-
ferrete, alamares dourados e quatro estrelas prateadas, em cruz, na gola.
Uma gritaria fê-los vir até à varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a
implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
- É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, coronel? continuou ele com interesse
e piedade.
Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu depois de algum tempo:
- Conheço... É um voluntário recalcitrante, um patriota rebelde.
Os soldados subiram com o “voluntário” e Ricardo logo que deu com o major, suplicou-lhe:
- Salve-me, major!
Quaresma chamou de parte o coronel, rogou-lhe e suplicou-lhe, mas foi inútil... Há necessidade de
gente... Enfim, fazia-o cabo.
Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:
- Eu sirvo sim, sim, mas dêem-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
- Restituam o violão ao cabo Ricardo!

II
Você, Quaresma, É um Visionário
Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado da terra, mal se enxergam as partes
baixas dos edifícios próximos; para o lado do mar, então, a vista é impotente contra aquela treva
esbranquiçada e flutuante, contra aquela muralha de flocos e opaca, que se condensa ali e aqui em
aparições, em semelhanças de cousas. O mar está silencioso: há grandes intervalos entre o seu fraco
marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odor da maresia parece
mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mistério. Entretanto,
aquela pasta espessa, de uma claridade difusa, está povoada de ruídos. O chiar das serras vizinhas,
os apitos de fábricas e locomotivas, os guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manhã
indecifrável e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Acredita-
se, dentro daquele decoro, que é Caronte que traz a sua barca para uma das margens do Estige...
Atenção! Todos perscrutam a cortina de névoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do
seio da bruma, vão surgir demônios...
Não se ouve a bulha: o escaler afastou-se. As fisionomias respiram aliviadas...
Não é noite, não é dia; não é o dilúculo, não é o crepúsculo; é a hora da angústia, é a luz da
incerteza. No mar, não há estrelas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro às
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paredes brancas das casas. A nossa miséria é mais completa e a falta daqueles mudos marcos da
nossa atividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.
Os ruídos continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da terra ou são alucinações
auditivas. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista, marulhando com grandes
intervalos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro à areia da praia, suja de bodelhas, algas e
sargaços.
Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia.
Alguns já cochilam; outros procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que lhes umedece o
rosto.
O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle à cintura e gorro à cabeça, sentado numa pedra, está
de parte, sozinho, e olha aquela manhã angustiosa.
Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ela faz sentir toda a sua força de
desesperar. Em geral, ele só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes;
aquele amanhecer brumoso e feio era uma novidade para ele.
Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquela vida solta da caserna vai-lhe bem
n’alma; o violão está lá dentro e, em horas de folga, ele o experimenta, cantarolando em voz baixa.
É preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno aborrecimento é não poder, de quando em
quando, soltar o peito.
O comandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
O major está no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu estudo predileto é agora
artilharia. Comprou compêndios; mas, como sua instrução é insuficiente, da artilharia vai à
balística, da balística à mecânica, da mecânica ao cálculo e à geometria analítica; desce mais a
escada; vai à trigonometria, à geometria e à álgebra e à aritmética. Ele percorre essa cadeia de
ciências entrelaçadas com uma fé de inventor. Aprende uma noção elementaríssima após um
rosário de consultas, de compêndio em compêndio; e leva assim aqueles dias de ócio guerreiro
enfronhado na matemática, nessa matemática rebarbativa e hostil aos cérebros que já não são
moços.
Há no destacamento um canhão Krupp, mas ele nada tem a ver com o mortífero aparelho; contudo,
estuda artilharia. É encarregado dele o Tenente Fontes, que não dá obediência ao patriota major.
Quaresma não se incomoda com isso; vai aprendendo lentamente a servir-se da boca-de-fogo e
submete-se à arrogância do subalterno.
O comandante do “Cruzeiro do Sul”, o Bustamente da barba mosaica, continua no quartel,
superintendendo a vida do batalhão. A unidade tem poucos oficiais e muito poucas praças; mas o
Estado paga o pré de quatrocentas. Há falta de capitães, o número de alferes está justo, o de
tenentes quase, mas já há um major, que é Quaresma, e o comandante, Bustamente, que, por
modéstia, se fez simplesmente tenente-coronel.
Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma comanda, três alferes, dous tenentes; mas os
oficiais pouco aparecem. Estão doentes ou licenciados e só ele, o antigo agricultor do “Sossego”, e
um alferes, Polidoro, este mesmo só à noite, estão a postos. Um soldado entrou:
- Senhor comandante, posso ir almoçar?
- Pode. Chama-me o cabo Ricardo.
A praça saiu capengando em cima de grandes botinas; o pobre homem usava aquela peça protetora
como um castigo. Assim que se viu no mato, que levava a sua casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o
sopro da liberdade.
O comandante chegou à janela. A cerração se ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como um
disco de ouro fosco.
Ricardo Coração dos Outros apareceu. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. A
blusa era curtíssima, sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente; e as calças eram
compridíssimas e arrastavam no chão.
- Como vais, Ricardo?
- Bem. E o senhor, major?
78
- Assim.
Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo e demorado:
- Andas aborrecido, não é?
O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante:
- Não... Para que dizer, major, que sim... Se a coisa for assim até ao fim, não é mau... O diabo é
quando há tiro... Uma coisa, major; não se poderia, assim, aí pelas horas em que não há que fazer, ir
nas mangueiras, cantar um pouco...
O major coçou a cabeça, alisou o cavanhaque e disse:
- Eu, não sei... É...
- O senhor sabe que isso de cantar baixo é remar em seco... Dizem que no Paraguai...
- Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o major recordou:
- Manda-me trazer o almoço.
Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro também dormir. As refeições eram-lhe
fornecidas por um “frege” próximo e ele dormia em um quarto daquela edificação imperial. Porque
a casa em que se acantonara o destacamento era o pavilhão do imperador, situado na antiga Quinta
da Ponta do Caju. Ficavam nela também a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e
barulhenta serraria. Quaresma veio até à porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o imperador
a quisesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
As formas das cousas saíam modeladas do seio daquela massa de névoa pesada; e, satisfeitas, como
se o pesadelo tivesse passado. Primeiro surgiam as partes baixas, lentamente; e por fim, quase
repentinamente, as altas.
À direita, havia a Saúde, a Gamboa, os navios de comércio: galeras de três mastros, cargueiros a
vapor, altaneiros barcos à vela - que iam saindo da bruma, e, por instantes, aquilo tudo tinha um ar
de paisagem holandesa; à esquerda, era o saco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a
ilha do Governador, os Órgãos azuis, altos de tocar no céu; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os
seus depósitos de carvão; e, alongando a vista pelo mar sossegado, Niterói, cujas montanhas
acabavam de recortar-se no céu azul, à luz daquela manhã atrasada.
A neblina foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse à terra; era uma aleluia. Aqueles
chiados, aqueles apitos, os guinchos tinham um acento festivo de contentamento.
Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções.
- Mais duas? fez admirado o major.
- Sim, senhor. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista.
- Faça a parte.
Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quase nunca dormia ali;
pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as cousas como iam.
Uma madrugada, ele não estava. A treva ainda era profunda. O soldado de vigia viu lá ao longe um
vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as águas do mar. Não trazia luz alguma: só
o movimento daquela mancha escura revelava uma embarcação, e também a ligeira fosforescência
das águas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento pôs-se a postos e Quaresma apareceu.
- O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante. E em seguida, nervoso, recomendou:
- Esperem um pouco.
Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas. Demorou-se e a lancha avançava, os
soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
Quaresma reapareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar:
- Viram bem... a distância... a alça... o ângulo... É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo.
Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
- Ora, major, você pensa que está em um polígono, fazendo estudos práticos... Fogo para diante!
E assim era. Quase todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas
para o mar; e, tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas.
79
Lá vinha uma ocasião, porém, que acertavam, então os jornais noticiavam: “Ontem, o forte
Acadêmico fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, meteu uma bala no ‘Guanabara’.” No
dia seguinte, o mesmo jornal retificava, a pedido da bateria do cais Pharoux, que era a que tinha
feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida, quando aparecia uma carta
de Niterói, reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma
trincheira de fardo de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos de palha, como as goelas de
um animal feroz oculto entre ervas.
Olhava o horizonte, depois de exame atento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras, quando
ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:

Prometo pelo Santíssimo Sacramento...

Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo quadro: à sombra de
uma grande árvore, os soldados deitados ou sentados em círculo, em torno de Ricardo Coração dos
Outros, que entoava endechas magoadas.
As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção de
Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial.
- Que é isto? disse ele severamente.
Os soldados levantaram-se todos, em continência; e Ricardo, com a mão direita no gorro, perfilado,
e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão, desculpou-se:
- “Seu” tenente, foi o major quem permitiu. Vossa Senhoria sabe que se nós não tivéssemos ordem,
não iríamos brincar.
- Bem. Não quero mais isto, disse o oficial.
- Mas, objetou Ricardo, o Senhor Major Quaresma...
- Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do
major do “Cruzeiro do Sul”. Quaresma continuava no seu estudo, um rolar de Sísifo, mas
voluntário, para a grandeza da pátria. Fontes foi entrando e dizendo:
- Que é isto, “Seu” Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento?
O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. Ele
repetiu:
- Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno serviço?
- Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
- E a disciplina? E o respeito?
- Bem, vou proibir, disse Quaresma.
- Não é preciso. Já proibi.
Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:
- Fez bem.
Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma fração decimal; o rapaz
ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de
Lalá, a terceira filha do general Albernaz, e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento.
Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato familiar a que estavam
ligados aqueles estrondos, aqueles tiros, aquela solene disputa entre duas ambições. Subitamente, a
corneta feriu o ar com a sua voz metálica. Fontes assestou o ouvido; o major perguntou:
- Que toque é?
- Sentido.
Os dous saíram. Fontes perfeitamente fardado; e o major apertando o talim, sem encontrar jeito,
tropeçando na espada venerável que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. Os soldados já
estavam nas trincheiras, armas à mão; o canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha
avançava lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um
80
golfão de fumaça espessa: Queimou! - gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto,
zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida. Além dos soldados, havia
curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara: queimou!
E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço;
em outras, um cidadão qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá
licença que dê um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a
pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se anunciava
um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Público se enchia. Era como se fosse uma noite
de luar, no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos,
vendo o astro solitário pratear a água e encher o céu.
Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o
bombardeio como uma representação de teatro: “Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá
vai!” E dessa maneira a revolta ia, familiarmente, entrando nos hábitos e nos costumes da cidade.
Nos cais Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornais, engraxates, quitandeiros ficavam
atrás das portadas, dos urinários, das árvores, a ver, a esperar a queda das balas; e quando acontecia
cair uma, corriam todos em bolo, a apanhá-la como se fosse uma moeda ou guloseima.
As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de relógios, lapiseiras, feitas com
as pequenas balas de fuzis; faziam-se também coleções das médias e com os seus estojos de metal,
areados, polidos, lixados, ornavam os consolos, os dunkerques das casas médias; as grandes, os
“melões” e as “abóboras”, como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou
estátuas.
A lancha continuava a atirar; Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projétil, recuou um pouco
e logo foi posto em posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a
fumaça, lá longe, no navio, jorrar devagar, muito pesada, gritavam: queimou!
Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade. Chamavam-no “Trinta-Réis”;
os jornais do tempo ocuparam-se com ele, fizeram-se subscrições a seu favor. Um herói! Passou a
revolta e foi esquecido, tanto ele como a “Luci”, uma bela lancha que chegou fazer-se entidade na
imaginação da urbs, a interessá-la, a criar inimigos e admiradores.
A embarcação deixou de provocar a fúria do posto do Caju, e Fontes deu instruções ao seu chefe da
peça, e foi-se embora.
Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. Os mais dias que
passou naquele extremo da cidade não eram diferentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e
a guerra caía na banalidade da repetição dos mesmos episódios.
A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, saía. Descia a cidade e deixava o posto entregue a
Polidoro ou a Fontes, se estava.
Raras vezes o fazia de dia, porque Polidoro, o mais assíduo, marceneiro de profissão e em atividade
numa fábrica de móveis, só vinha à noite.
No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o governo pagava soldos
dobrados, e, às vezes, gratificações, além do que havia também a morte sempre presente; e tudo
isso estimulava o divertir-se. Os teatros eram freqüentados e os restaurants noturnos também.
Quaresma, porém, não se metia naquele ruído de praça semi-sitiada. Ia às vezes ao teatro, à
paisana, e, logo acabado o espetáculo, voltava para o quarto da cidade ou para o posto.
Em outras tardes, logo que Polidoro chegava, saía a pé, pelas ruas dos arredores, pelas praias até o
Campo de São Cristóvão.
Ia vendo aquela sucessão de cemitérios, com as suas campas alvas que sobem montanhas, como
carneiros tosquiados e limpos a pastar; aqueles ciprestes meditativos que as vigiam; e como que se
lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte.
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As casas tinham um aspecto fúnebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava lugubremente na
ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes era triste
e lúgubre.
A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer
sentir nela tão forte aspecto funéreo.
Foi vindo até ao Campo; aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do
General Albernaz. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de jantar e jantara com o general, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o
comandante de Quaresma, o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante.
Bustamante era um comandante ativo, mas dentro do quartel. Não havia quem como ele se
interessasse pelos livros, pela boa caligrafia com que eram escritos os livros mestres, as relações de
mostra, os mapas de companhia e outros documentos. Com auxílio deles, a organização do seu
batalhão era irrepreensível; e, para não deixar de vigiar a escrituração, aparecia de onde em onde
nos destacamentos do seu corpo.
Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, ele logo perguntou ao major:
- Quantas deserções?
- Até hoje, nove, disse Quaresma.
Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu:
- Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
- Fazem muito bem... Ora! disse o almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha
dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia
vice-almirante. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo
rumor que corria, ele não comandaria nem uma divisão. Uma iniqüidade! Era velho um pouco, é
verdade; mas, por não ter nunca comandado, nessa matéria ele podia despender toda uma energia
moça.
- O almirante não deve falar assim... A pátria está logo abaixo da humanidade.
- Meu caro tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
- Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros,
continuou Fontes persuasivo.
- Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas.
Bustamente, o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um
tanto sorridentes com a fúria de Caldas, que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos
favoritos brancos. O tenente respondeu:
- Muito, almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de
felicidade e evolução moral.
- Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas.
- Eu também penso assim, acrescentou Albernaz.
- Isto há de sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.
O major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquelas contestações, ao
contrário dos seus congêneres de seita, não se agastou. Ele era magro e chupado, moreno carregado
e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nasal, agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários, depois de
ouvir todos, falou com unção:
- Houve já um esboço: a Idade Média.
Ninguém ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma.
E a sua afirmação fez calar todos, embora no íntimo duvidosos. É uma curiosa Idade Média, essa de
elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que ano? Se a gente diz: “No tempo de
Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame
mais a mulher deste e filhos” - o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o
ascendente da igreja.” “São Luís”, diremos logo nós, “quis executar um senhor feudal porque
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mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas.” Objeta o fiel: “Você
não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a
decadência”... Citam-se as epidemias de moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as
ladroagens à mão armada dos barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos
Magno fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido
o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desaparecido.
Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. O almirante criticava
severamente o governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros à toa; na sua opinião, já devia ter feito todo o esforço para
ocupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue. Bustamente não tinha opinião
assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma
improficuidade patente. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso, e veio a fazê-lo assim:
- Mas nós reconhecemos Humaitá, e por pouco!
- Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturais eram outras e assim mesmo o
reconhecimento foi perfeitamente inútil... O senhor sabe, esteve lá!
- Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão disse-me que foi arriscado.
Quaresma voltara ao silêncio. Ele procurava ver Ismênia. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e
o major se sentia por qualquer cousa preso à moléstia da moça. Viu todos: Dona Maricota, sempre
ativa e diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa interminável, e as outras que
vinham, de quando em quando, da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. Por fim, não se
conteve, perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior, cada vez mais abismada na
sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O general contou tudo com franqueza a Quaresma e quando
acabou de narrar aquela sua desgraça íntima, disse com um longo suspiro:
- Não sei, Quaresma... Não sei.
Eram dez horas quando o major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta do Caju. Saltou e
recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da perturbação especial que põe em nós o luar que
estava lindo, terno e leitoso, naquela noite. É uma emoção de desafogo do corpo, de delíquio;
parece que nos tiram o envoltório material e ficamos só alma, envolvidos numa branda atmosfera
de sonhos e quimeras. O major não colhia bem a sensação transcendente, mas sofria sem perceber o
efeito da luz pálida e fria do luar. Deitou-se um pouco, vestido, não por sono, mas em virtude
daquela doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos.
Dentro em pouco Ricardo veio chamá-lo: o marechal estava aí. Era seu hábito sair à noite, às vezes,
de madrugada, e ir de posto em posto. O fato se espalhou pelo público que o apreciava
extraordinariamente, e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista
consumado.
Quaresma veio ao seu encontro. Floriano vestia chapéu de feltro mole, abas largas, e uma curta
sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de família em aventuras
extraconjugais.
O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque que fora feito ao seu posto, há dias
passados. O marechal respondia por monossílabos preguiçosos e olhava ao redor. Quase ao
despedir-se, falou mais, dizendo vagarosamente, lentamente:
- Hei de mandar pôr um holofote aqui.
Quaresma veio acompanhá-lo até ao bonde. Atravessaram o velho sítio de recreio dos imperadores.
Um pouco afastada da estação uma locomotiva, semi-acesa, resfolegava. Semelhava roncar,
dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar, muito quietos, sossegados como que dormiam.
As anosas mangueiras, com falta de galhos aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente de prata.
O luar estava magnífico. Os dous andavam, o marechal perguntou:
- Quantos homens tem você?
- Quarenta.
83
O marechal mastigou um: “não é muito”; e voltou ao mutismo. Num dado momento, Quaresma
viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe mais simpática a fisionomia do ditador. Se lhe
falasse...
Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronunciá-la. Continuaram a andar. O major
pensou: que é que tem? não há desrespeito algum. Aproximaram-se do portão. Num dado momento
como que houve uma bulha atrás. Quaresma voltou-se, mas Floriano quase não o fez.
Os edifícios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco luar. O major continuou a
mastigar a sua pergunta; urgia, era indispensável; o portão estava a dous passos. Tomou coragem,
ousou e falou:
- Vossa Excelência já leu o meu memorial, marechal?
Floriano respondeu lentamente, quase sem levantar o lábio pendente:
- Li.
Quaresma entusiasmou-se:
- Vê Vossa Excelência como é fácil erguer este país. Desde que se cortem todos aqueles
empecilhos que eu apontei, no memorial que Vossa Excelência teve a bondade de ler; desde que se
corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável às condições do país, Vossa
Excelência verá que tudo isto muda, que, em vez de tributários, ficaremos com a nossa
independência feita... Se Vossa Excelência quisesse...
À proporção que falava, mais Quaresma se entusiasmava. Ele não podia ver bem a fisionomia do
ditador, encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de feltro; mas, se a visse,
teria de esfriar, pois havia na sua máscara sinais do aborrecimento mais mortal. Aquele falatório de
Quaresma, aquele apelo à legislação, a medidas governamentais, iam mover-lhe o pensamento, por
mais que não quisesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
- Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não
havia exército que chegasse...
Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
- Mas, não é isso, marechal. Vossa Excelência, com o seu prestígio e poder, está capaz de
favorecer, com medidas enérgicas e adequadas, o aparecimento de iniciativas, de encaminhar o
trabalho, de favorecê-lo e torná-lo remunerador... Bastava, por exemplo...
Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava lindo, plástico e opalescente.
Um grande edifício inacabado que havia na rua parecia terminado, com vidraças e portas feitas com
a luz da lua. Era um palácio de sonho.
Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; ele se despediu do major, dizendo
com aquela sua placidez de voz:
- Você, Quaresma, é um visionário...
O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava fisionomia às cousas, fazia nascer sonhos em nossa
alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz emprestada...

III
...E Tornaram Logo Silenciosos...
- Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não há meio!
- Já a levou a um médico especialista?
- Já. Tenho corrido médicos, espíritas, até feiticeiros, Quaresma!
E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez. Os dous se haviam encontrado na
pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant’Anna, a pé, andando a pequenos passos e
conversando. O general era mais alto que Quaresma, e enquanto este tinha a cabeça sobre um
pescoço alto, aquele a tinha metida entre os ombros proeminentes, como cotos de asas. Albernaz
reatou:
- E remédios! Cada médico receita uma cousa; os espíritas são os melhores, dão homeopatia; os
feiticeiros tisanas, rezas e defumações... Eu não sei, Quaresma!
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E levantou os olhos para o céu, que estava um tanto plúmbeo. Não se demorou, porém, muito nessa
postura; o pince-nez não permitia, já começava a cair.
Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio.
Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:
- Por que não a recolhe a uma casa de saúde, general?
- Meu médico já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, no estado em que a
menina está, não vale a pena...
Falava da filha, da Ismênia, que, naqueles últimos meses, piorava sensivelmente, não tanto da sua
moléstia mental, mas da saúde comum, vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo,
definhando, marchando a passos largos para o abraço frio da morte.
Albernaz dizia a verdade; para curá-la tanto de sua loucura como da atual moléstia intercorrente,
lançara mão de todos os recursos, de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.
Era de fazer refletir ver aquele homem, general, marcado com um curso governamental, procurar
médiuns e feiticeiros, para sarar a filha.
Às vezes até levava-os em casa. Os médiuns chegavam perto da moça, davam um estremeção,
ficam com uns olhos desvairados, fixos, gritavam: “Sai, irmão!” - e sacudiam as mãos, do peito
para a moça, de lá para cá, rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre ela os
fluidos milagrosos.
Os feiticeiros tinham outros passes e as cerimônias para entrar no conhecimento das forças ocultas
que nos cercam eram demoradas, lentas e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam,
acendiam um fogareiro no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa
esquisita, batiam com feixes de ervas, ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras
ininteligíveis. O ritual era complicado e tinha a sua demora.
Na saída, a pobre Dona Maricota, um tanto já diminuída da sua atividade e diligência, olhando
ternamente aquele grande rosto negro do mandingueiro, onde a barba branca punha mais veneração
e certa grandeza, perguntava:
- Então, titio?
O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as últimas comunicações do que não
se vê nem se percebe, e dizia com a sua majestade de africano:
- Vô vê, nhãnhã... Tô crotando mandinga...
Ela e o general tinham assistido à cerimônia e o amor de pais e também esse fundo de superstição
que há em todos nós levavam a olhá-la com respeito, quase com fé.
- Então foi feitiço que fizeram à minha filha? perguntava a senhora.
- Foi, sim, nhanhã.
- Quem?
- Santo não qué dizê.
E o preto obscuro, velho escravo, arrancado há um meio século dos confins da África, saía
arrastando a sua velhice e deixando naqueles dous corações uma esperança fugaz.
Era uma singular situação, a daquele preto africano, ainda certamente pouco esquecido das dores do
seu longo cativeiro, lançando mão dos resíduos de suas ingênuas crenças tribais, resíduos que tão a
custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses - e empregando-os na
consolação dos seus senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua infância e de sua raça,
aqueles sanguinários manipansos da África indecifrável, quisessem vingá-lo à legendária maneira
do Cristo dos Evangelhos...
A doente assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles trejeitos e passes de tão
poderosos homens que se comunicavam, que tinham às suas ordens os seres imateriais, as
existências fora e acima da nossa.
Andando, ao lado de Quaresma, o general lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo
contra a ciência, contra os espíritos, contra os feitiços, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos
poucos sem piedade e comiseração.
85
O major não sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecia-lhe toda e qualquer
palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:
- General, o senhor permite que eu a faça ver por um médico?
- Quem é?
- É o marido de minha afilhada... o senhor conhece... É moço, quem sabe lá! Não acha? Pode ser,
não é?
O general consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Cada médico
que consultava, cada espírita, cada feiticeiro reanimava-o, pois de todos eles esperava o milagre.
Nesse mesmo dia, Quaresma foi procurar o Doutor Armando.
A revolta já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas. No
Sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas
páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro de suas
trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque
era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar
verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte.
A ilha do Governador tinha sido ocupada e Magé tomado; os revoltosos, porém, tinham a vasta baía
e a barra apertada, por onde saíam e entravam, sem temer o estorvo das fortalezas.
As violências, os crimes que tinham assinalado esses dous marcos de atividade guerreira do
governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria.
Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de móveis, roupas e outros haveres. O que
não podia ser transplantado, era destruído pelo fogo e pelo machado.
A ocupação deixou lá a mais execranda memória e até hoje os seus habitantes ainda se recordam
dolorosamente de um capitão, patriótico ou da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade e
insofrido gosto pelo saque e outras vexações. Passava um pescador, com uma tampa de peixe, e o
capitão chamava o pobre homem:
- Venha cá!
O homem aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava:
- Quanto quer por isso?
- Três mil-réis, capitão.
Ele sorria diabolicamente e familiarmente regateava:
- Você não deixa por menos?... Está caro... Isso é peixe ordinário... Carapebas! Ora!
- Bem, capitão vá lá por dous e quinhentos.
- Leve isso lá dentro.
Ele falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em pé, demonstrando que
esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho:
- Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano.
Entretanto, Moreira César deixou boas recordações de si e ainda hoje há lá quem se lembre dele,
agradecido por este ou aquele benefício que o famoso coronel lhe prestou.
As forças revoltosas pareciam não ter enfranquecido; tinham, porém, perdido dous navios, sendo
um destes o “Javari”, cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas. As forças de terra
detestavam-no particularmente. Era um monitor, chato, raso com a água, uma espécie de sáurio ou
quelônio de ferro, de construção francesa. A sua artilharia era temida; mas o que sobremodo
enraivecia os adversários, era ele não ter quase borda acima d’água, ficar quase ao nível do mar e
fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas máquinas não funcionavam e a grande tartaruga
vinha colocar-se em posição de combate com auxílio de um rebocador.
Um dia em que estava nas proximidades de Villegaignon, foi a pique. Não se soube e até hoje não
foi esclarecido por que foi. Os legalistas afirmaram que foi uma bala de Gragoatá; mas os
revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma válvula ou um outro acidente qualquer.
Como o do seu irmão, o “Solimões”, que desapareceu nas costas de cabo Polônio, o fim do “Javari”
ainda está envolvido no mistério.
86
Quaresma permanecia de guarnição no Caju, e viera receber dinheiro. Deixara lá Polidoro, pois os
outros oficiais estavam doentes ou licenciados, e Fontes, que, sendo uma espécie de inspetor-geral,
ao contrário de seus hábitos, dormira aquela noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até à
tarde.
Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da proibição de tocar violão, andava macambúzio.
Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco
de árvore maldizendo no fundo de si a incompreensão dos homens e os caprichos do destino.
Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto, obrigara a Bustamante a fazê-lo
sargento. Não foi sem custo, porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa graduação
e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes.
A vida do pobre menestrel era assim de um melro engaiolado; e, de quando em quando, ele se
afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos
disparos.
Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu demorar-se mais, e,
após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a casa do seu compadre, a fim de cumprir a
promessa que fizera ao general.
Coleoni ainda não decidira a sua viagem à Europa. Hesitava, esperando o fim da rebelião que não
parecia estar próximo. Ele nada tinha com ela; até ali, não dissera a ninguém a sua opinião; e, se era
muito instado, apelava para a sua condição de estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. Mas,
aquela exigência de passaporte, tirado na chefatura de polícia, dava-lhe susto. Naqueles tempos,
toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os estrangeiros,
tanta arrogância nos funcionários que ele não se animava a ir obter o documento, temendo que uma
palavra, que um olhar, que um gesto, interpretados por qualquer funcionário zeloso e dedicado, não
o levassem a sofrer maus quartos de hora.
Verdade é que ele era italiano e a Itália já fizera ver ao ditador que era uma grande potência, mas no
caso de que se lembrava, tratava-se de um marinheiro, por cuja vida, extinta por uma descarga das
forças legais, Floriano pagara a quantia de cem contos. Ele, Coleoni, porém, não era marinheiro e
não sabia, caso fosse preso, se os representantes diplomáticos de seu país tomariam interesse pela
sua liberdade.
De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade, quando o governo provisório expediu o
famoso decreto de naturalização, era bem possível que uma ou outra parte se ativessem a isso, para
desinteressar-se dele ou mantê-lo na famosa galeria nº 7, da Casa de Correição, transformada, por
uma penada mágica, em prisão de Estado.
A época era de susto e temor, e todos esses que ele sentia, só os comunicava à filha, porque o genro
cada vez mais se fazia florianista e jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos
estrangeiros.
E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fora nomeado médico do Hospital de
Santa Bárbara, na vaga de um colega, demitido a bem do serviço público como suspeito por ter ido
visitar um amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéu do mesmo nome, dentro da
baía, em frente à Saúde e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos, ele nada tinha que
fazer, pois até agora o governo não aceitara os seus oferecimentos de auxiliar o tratamento dos
feridos.
O major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha saído, ido dar volta pela cidade, dar arras
de sua dedicação à causa legal, conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não
esquecendo também de passear pelos corredores do Itamarati, fazendo-se ver pelos ajudantes-de-
ordens, secretários e outras pessoas influentes no ânimo de Floriano.
A moça viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava
ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do
seu destacamento, a passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente,
como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento qualquer em que a morte
não estivesse presente.
87
Tanto mais que o via apreensivo, deixando perceber numa frase e noutra o desânimo e
desesperança.
Na verdade o major tinha um espinho n’alma. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças de
reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a idéia que ele fazia do
ditador. Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o
chamava de visionário, que não avaliava o alcance dos seus projetos, que os não examinava sequer,
desinteressado daquelas altas cousas de governo como se não o fosse!... Era pois para sustentar tal
homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem
que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não
se interessava pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do país, o
progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural?
Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma raiva de si mesmo; mas
em seguida considerava: o homem está atrapalhado, não pode agora; mais tarde com certeza ele
fará a cousa...
Vivia nessa alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreensões, desânimo e desesperança,
notados por sua afilhada na sua fisionomia já um pouco acabrunhada.
Não tardou, porém, que, abandonando os episódios da sua vida militar, Quaresma explicasse o
motivo de sua visita.
- Mas qual delas? perguntou a afilhada.
- A segunda, a Ismênia.
- Aquela que estava para casar com o dentista?
- Esta mesmo.
- Ahn!...
Ela pronunciou este “ahn” muito longo e profundo, como se pusesse nele tudo que queria dizer
sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da moça, mas via melhor a causa, naquela obrigação
que incrustam no espírito das meninas, que elas se devem casar a todo o custo, fazendo do
casamento o pólo e fim da vida, a ponto de parecer uma desonra, uma injúria, ficar solteira.
O casamento já não é mais amor, não é maternidade, não é nada disso: é simplesmente casamento,
uma coisa vazia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades.
Graças à frouxidão, à pobreza intelectual e fraqueza de energia vital de Ismênia, aquela fuga do
noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nela se abismou nessa idéia desesperada.
Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando lutava pela fortuna se
fez duro e áspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que se revestira, pois percebia bem
que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo.
Ultimamente o major tinha diminuído um pouco o interesse pela moça; andava atormentado com o
seu caso de consciência, entretanto, se não tinha um constante e particular pensamento pela desdita
da filha de Albernaz, abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.
Não se demorou muito na casa do compadre; ele queria, antes de voltar ao Caju, passar pelo quartel
do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma pequena licença, para visitar a irmã que deixara lá, no
“Sossego”, e de quem tinha notícias, por carta, três vezes por semana. Eram elas satisfatórias,
contudo ele tinha necessidade de ver tanto ela como o Anastácio, fisionomias com quem se
encontrava diariamente há tantos anos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituísse a
calma e a paz de espírito.
Na última carta que recebera de Dona Adelaide, havia uma frase de que, no momento, se lembrava
sorrindo: “Não te exponhas muito, Policarpo. Toma muita cautela.” Pobre Adelaide! Estava a
pensar que esse negócio de balas é assim como a chuva?!...
O quartel ainda ficava no velho cortiço condenado pela higiene, lá para as bandas da Cidade Nova.
Assim que Quaresma apontou na esquina, a sentinela deu um grande berro, fez uma imensa bulha
com a arma e ele entrou, tirando o chapéu da cabeça baixa, pois estava a paisana e tinha
abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as susceptibilidades republicanas dos
jacobinos.
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No pátio, o instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados gritos:
ombroôô... armas! mei-ããã volta... volver! subiam no céu e ecoavam longamente pelos muros da
antiga estalagem.
Bustamente estava no seu cubículo, mais conhecido por gabinete, irrepreensível no seu uniforme
verde-garrafa, alamares dourados e vivos azul-ferrete. Com auxílio de um sargento, examinava a
escrita de um livro quarteleiro.
- Tinta vermelha, sargento! É como mandam as instruções de 1864.
Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante.
Logo que viu Quaresma entrar, o comandante exclamou radiante:
- O major adivinhou!
Quaresma descansou placidamente o chapéu, bebeu um pouco d’água, e o Coronel Inocêncio
explicou a alegria:
- Sabe que temos de marchar?
- Para onde?
- Não sei... Recebi ordem do Itamarati.
Ele não dizia nunca do quartel-general, nem mesmo do ministro da Guerra; era do Itamarati; do
Presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava mais importância a si mesmo e ao seu
batalhão, fazia-o uma espécie de batalhão da guarda, favorito e amado do ditador. Quaresma não se
espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossível obter a licença e também necessário
mudar os seus estudos: da artilharia, tinha que passar para a infantaria.
- O major é que vai comandar o corpo, sabia?
- Não, coronel. E o senhor não vai?
- Não, disse Bustamante, alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado esquerdo.
Tenho que acabar a organização da unidade e não posso... Não se assuste, mais tarde irei lá ter...
Começava a tarde, quando Quaresma saiu do quartel. O instrutor coxo continuava, com força,
majestade e demora, a gritar: om-brôôô... armas! A sentinela não pôde fazer a bulha da entrada,
porque só viu o major quando já ia longe. Ele desceu até à cidade e foi ao correio. Havia alguns
tiros espaçados; no Café do Rio, os levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação
definitiva da República.
Antes de chegar ao correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a uma livraria e comprou
livros sobre infantaria; precisava também dos regulamentos: arranjaria no quartel-general.
Para onde ia? Para o Sul, para Magé, para Niterói? Não sabia... Não sabia... Ah! se isso fosse para
realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?... Podia ser... talvez... Mais tarde...
E passou o dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias.
O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general. Ele levava a íntima
convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma cousa; mas assim não se deu.
A moça continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco atenuada, o seu organismo caía.
Estava magra e fraca, a ponto de quase não poder sentar-se na cama. Era sua mãe quem mais junto
a ela vivia; as irmãs se desinteressavam um pouco, pois as exigências de sua mocidade levavam-nas
para outros lados.
Dona Maricota, tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes, estava sempre no
quarto da filha, a consolá-la, animá-la e, às vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um
tanto culpada pela sua infelicidade.
A moléstia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia, tinha-lhe diminuído a lassidão, tirado o
mortiço dos olhos e os seu lindos cabelos castanhos, com reflexos de ouro, mais belos se faziam
quando cercavam a palidez de sua face.
Raro era falar muito; e assim foi que, naquele dia, se espantou muito Dona Maricota com a
loquacidade da filha.
- Mamãe, quando se casa Lalá?
- Quando se acabar a revolta.
- A revolta ainda não acabou?
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A mãe respondeu-lhe e ela esteve um instante calada, olhando o teto, e, após essa contemplação
disse à mãe:
- Mamãe... Eu vou morrer...
As palavras saíram-lhe dos lábios, seguras, doce e naturais.
- Não diga isso, minha filha, adiantou-se Dona Maricota. Qual morrer! Você vai ficar boa; seu pai
vai levar você para Minas; você engorda, toma forças...
A mãe dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como se se tratasse de uma
criança. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente:
- Qual, mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa à senhora...
A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta
semicerrada e levantou-se para fechá-la. Quis ainda ver se a dissuadia daquele pensamento;
Ismêndia, porém, continuava a repeti-lo pacientemente, docemente, serenamente:
- Eu sei, mamãe.
- Bem. Suponho que é verdade: o que é que você quer?
- Eu quero, mamãe, ir vestida de noiva.
Dona Maricota ainda quis brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, pôs-se a
dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, comovida, com lágrimas nos olhos e
a secreta certeza de que a filha falava a verdade.
Não tardou muito a se verificar. O Doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela quarta
vez; ela parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento, sentava-se à cama e
conversava com prazer.
Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs. Elas foram lá ao
quarto várias vezes e parecia dormir. Distraíram-se.
Ismênia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve
vontade de vê-lo mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplá-lo.
Chegou-lhe o desejo de vesti-lo. Pôs a saia; e, por aí, vieram recordações do seu casamento falhado.
Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti; mas
não se recordou com ódio, antes como se fosse um lugar visto há muito tempo, e que a tivesse
impressionado.
De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. Iludindo sua mãe, acompanhada por uma
criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indiferença ela lhe respondeu: não volta!
Aquilo doeu-lhe... Que mulher má! Desde esse dia... Ah! Acabou de abotoar a saia em cima do
corpinho, pois não encontrara colete; e foi ao espelho. Viu os seu ombros nus, o seu colo muito
branco...Surpreendeu-se. Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. O
véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueza, uma
cousa, deu um ai e caiu de costas na cama, com as pernas para fora... Quando a vieram ver, estava
morta. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.
O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia, como nos dias de
suas melhores festas.
Quaresma foi ao enterro; ele não gostava muito dessa cerimônia; mas veio, e foi ver a pobre moça,
no caixão, coberta de flores, vestida de noiva, com um ar imaculado de imagem. Pouco mudara,
entretanto. Era ela mesma ali; era a Ismênida dolente e pobre de nervos, com os seus traços miúdos
e os seus lindos cabelos, que estava dentro daquelas quatro tábuas. A morte tinha fixado a sua
pequena beleza e o seu aspecto pueril; e ela ia para a cova com a insignificância, com a inocência e
a falta de acento próprio que tinha tido em vida.
Contemplando aqueles tristes restos, Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do cemitério,
atravessar pelas ruas de túmulos - uma multidão que trepava, se tocava, lutava por espaço, na
estreiteza da várzea e nas encostas das colinas. Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e
se queriam aproximar; em outras, transparecia repugnância por estarem perto. Havia ali, naquele
mudo laboratório de decomposições, solicitações incompreensíveis, repulsões, simpatias e
antipatias; havia túmulos arrogantes, vaidosos, orgulhosos, humildes, alegres e tristes; e de muito,
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ressumava o esforço, um esforço extraordinário, para escapar ao nivelamento da morte, ao
apagamento que ela traz às condições e às fortunas.
Quaresma ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as
esculturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e inscrições, em alguns túmulos; noutros, eram
pirâmides de pedra tosca, retratos, caramanchões extravagantes, complicações de ornatos, cousas
barrocas e delirantes, para fugir ao anonimato do túmulo, ao fim dos fins.
As inscrições exuberam: são longas, são breves; têm nomes, têm datas, sobrenomes, filiações, toda
a certidão de idade do morto que, lá embaixo, não se pode mais conhecer e é lama pútrida.
E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem uma celebridade, uma
notabilidade, um desses nomes que enchem décadas e, às vezes, mesmo já mortos, parece que
continuam a viver. Tudo é desconhecido; todos aqueles que querem fugir do túmulo para a
memória dos vivos são anódinos felizes e medíocres existências que passaram pelo mundo sem ser
notadas.
E lá ia aquela moça por ali afora para o buraco escuro, para o fim, sem deixar na vida um traço
mais fundo de sua pessoa, de seus sentimentos, de sua alma!
Quaresma quis afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. Ele estivera na sala
de visitas, onde Dona Maricota também estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe
diziam. O Lulu, fardado do colégio, com fumo no braço, cochilava a uma cadeira. As irmãs iam e
vinham. Na sala de jantar, estava o general silencioso, tendo ao lado Fontes e outros amigos.
Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou, pôde ouvir o
almirante dizer:
- Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui... O governo está exausto.
O major ficou na janela que dava para o quintal. O tecido do céu se tinha adelgaçado; o azul estava
sedoso e fino; e tudo tranqüilo, sereno e calmo.
A Estefânia, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que levava, de
quando em quando, o lenço aos olhos já secos, a quem aquela dizia:
- Eu, se fosse você, não comprava lá... É caro! Vai ao “Bonheur des Dames”... Dizem que tem
cousas boas e é pechincheiro.
O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. Tinha uma tranqüilidade quase
indiferente. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. Todo de preto, ele tinha afivelado ao
rosto a mais profunda máscara de tristeza. O seu pince-nez azulado também parecia de luto.
Não lhe fora possível deixar de ir trabalhar; um serviço urgente fizera-o indispensável na
repartição.
- É isto, general, disse ele, não está lá o Doutor Genelício, nada se faz... Não há meio da Marinha
mandar os processos certos... É um relaxamento...
O general não respondeu; estava deveras combalido. Bustamente e Caldas continuavam a conversar
baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. Quinota chegou à sala de jantar.
- Papai, está aí o coche.
O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou à mulher que se ergueu com a face
contraída, exprimindo uma grande contensão. Os seus cabelos já tinham muitos fios de prata. Não
deu um passo; esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. Todos estavam vendo
sem saber o que fazer; alguns choravam; Genelício tomou um partido: foi retirando os círios de ao
redor do caixão. A mãe levantou-se, veio até ao esquife, beijou o cadáver: minha filha!
Quaresma adiantou-se, foi saindo com o chapéu na mão. No corredor, ainda ouviu Estefânia dizer a
alguém: o coche é bonito.
Saiu. Na rua parecia que havia festa. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e faziam
inocentes comentários sobre os dourados e enfeites. As grinaldas foram aparecendo e sendo
penduradas nas extremidades das colunas do coche: “À minha querida filha”, “À minha irmã”. As
fitas roxas e pretas, com letras douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.
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Apareceu o caixão, todo roxo, com guarnições de galões dourados, muito brilhantes. Tudo aquilo ia
pra terra. As janelas se povoaram, de um lado e doutro da rua; um menino na casa próxima gritou
da rua para o interior: “Mamãe, lá vai o enterro da moça!”
O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuário, cujos cavalos, ruços, cobertos com
uma rede preta, escarvavam o chão cheios de impaciência.
Aqueles que iam acompanhar até ao cemitério procuravam os seus carros. Embarcaram todos, e o
enterro rodou.
A esse tempo, na vizinhança, alguns pombos imaculadamente brancos, as aves de Vênus, ergueram
o vôo, ruflando estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos, quase
sem bater asas, para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses...

IV
O Boqueirão
O Sítio de Quaresma, em Curuzu, voltava aos poucos ao estado de abandono em que ele o
encontrara. A erva daninha crescia e cobria tudo. As plantações que fizera tinham desaparecido na
invasão do capim, do carrapicho, das urtigas e outros arbustos. Os arredores da casa ofereciam um
aspecto desolador, apesar dos esforços de Anastácio, sempre vigoroso e trabalhador na sua forte
velhice africana, mas baldo de iniciativa, de método, de continuidade no esforço.
Um dia capinava aqui, noutro dia ali, outro pedaço, e assim ia saltando de trecho em trecho, sem
fazer trabalho que se visse, permitindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto
de desleixo que não condizia com o seu trabalho efetivo.
As formigas voltaram também, mais terríveis e depredadoras, vencendo obstáculos, devastando
tudo, restos de seara, brotos de fruteiras, até os araçazeiros depenavam, com uma energia e bravura
que sorriam aos fracos expedientes da inteligência crestada do antigo escravo, incapaz de achar
meios eficazes de batê-las ou afungentá-las.
Entretanto ele cultivava. Era a sua mania, o seu vício, uma teimosia de caduco. Tinha uma horta
que disputava diariamente às saúvas; e, como os animais da vizinhança a tivessem um dia invadido,
ele a protegeu pacientemente com uma cerca de materiais mais inconcebíveis: latas de querosene
desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, tábuas de caixão, não obstante ter à mão bambus à
vontade.
Na sua inteligência havia uma necessidade do tortuoso, do aparentemente fácil; e, em tudo ele
punha esse jeito de sua psique, tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava,
irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo à regularidade, ao paralelismo, à simetria, com um
horror artístico.
A revolta tinha tido sobre a política local efeito pacificador. Todos os partidos se fizeram
dedicadamente governistas, de forma que, entre os dous poderosos contendores, o Doutor Campos
e o Tenente Antonino, houve um traço-de-união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso
que ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que pôs em perigo a
segurança de ambos e eles se puseram em expectativa, um instante unidos.
O candidato foi imposto pelo governo central e as eleições chegaram. É um momento bem curioso
esse das eleições na roça. Não se sabe bem donde saem tantos tipos exóticos. De tal forma são eles
esquisitos que se pode mesmo esperar que apareçam calções e bofes de renda, espadins e gibão. Há
sobrecasacas de cintura, há calças boca de sino, há chapéus de seda - todo um museu de
indumentária que aqueles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas
esburacadas e estradas poeirentas das vilas e lugarejos. Não faltam também os valentões, com
calças bombachas e grandes bengalões de pequiá, à espera do que der e vier.
Para a monótona vida que levava Dona Adelaide, esse desfile de manequins de museu, por sua
porteira, em direção à seção eleitoral que lhe ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ela
passava longos e tristes dias naquele isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de
Felizardo, a Sinhá Chica, uma velha cafuza, espécie de Medéia esquelética, cuja fama de rezadeira
pairava por sobre todo o município. Não havia quem como ela soubesse rezar dores, cortar febres,
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curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais: a língua-de-vaca, a silvina, o cipó-
chumbo - toda aquela drogaria que crescia pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de
árvores.
Além desse saber que a fazia estimada e respeitável, tinha também a habilidade de assistir partos.
Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo remediada, todos os nascimentos se faziam aos
cuidados de suas luzes.
Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento doméstico em cruz, repetidas
vezes, sobre a sede da dor ou da tarefa, rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam
o espírito maligno que estava ali. Contavam-se dela milagres, vitórias extraordinárias,
denunciadoras do seu estranho poder quase mágico, sobre as forças ocultas, que nos perseguem ou
nos auxiliam.
Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e a toda a hora, consistia no afastamento das
lagartas. Os vermes haviam dado num feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o
proprietário já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes
de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôs cruzes de gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse
uma cerca de invisível material que nelas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta e colocou-se
na oposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. Os vermes, num rebanho moroso e
serpejante, como se fossem tocados pela vara de um pastor, foram saindo na sua frente, devagar,
aos dous, aos quatro, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.
O Doutor Campos não tinha absolutamente nenhuma espécie de ciúme dessa rival. Armou-se de
um pequeno desdém pelo poder sobre-humano da mulher, mas não apelou nunca para o arsenal de
leis, que vedava o exercício de sua transcendente medicina. Seria a impopularidade; ele era
político...
No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as duas medicinas coexistem sem
raiva e ambas atendem às necessidades mentais e econômicas da população.
A da Sinhá Chica, quase grátis, ia ao encontro da população pobre, daquela em cujos cérebros, por
contágio ou herança, ainda vivem os manitus e manipansos, sujeitos a fugirem aos exorcismos,
benzeduras e fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente pobre da terra, ali
nascida ou criada; havia mesmo recém-chegados de outros ares, italianos, portugueses e espanhóis,
que se socorriam da sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contágio das crenças
ambientes, mas também por aquela estranha superstição européia de que todo o negro ou gente
colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria.
Enquanto a terapêutica fluídica ou herbácea de Sinhá Chica atendia aos miseráveis, aos pobretões, a
do Doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina
regular e oficial.
Às vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas moléstias graves, nas complicadas, nas
incuráveis, quando as ervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pílulas do doutor
eram impotentes.
Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradável. Vivia sempre mergulhada no seu sonho
divino, abismada nos misteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos
baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de múmia, tanto ela era encarquilhada e
seca.
Não esquecia também os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, as orações ortodoxas;
embora não soubesse ler, era forte no catecismo e conhecia a história sagrada aos pedaços,
aduzindo a eles interpretações suas e interpolações pitorescas.
Com o Apolinário, o famoso capelão das ladainhas, era ela o forte poder espiritual da terra. O
vigário ficava relegado a um papel de funcionário, espécie de oficial de registro civil, encarregado
dos batizados e casamentos, pois toda a comunicação com Deus e o invisível se fazia por
intermédio de Sinhá Chica ou do Apolinário. É de dever falar em casamento, mas bem podiam ser
esquecidos, porque a nossa gente pobre faz uso reduzido de tal sacramento e a simples mancebia,
por toda a parte, substitui a solene instituição católica.
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Felizardo, o marido dela, aparecia pouco em casa de Quaresma; e, se aparecia, era à noite, passando
os dias pelos matos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o
barulho já tinha acabado.
Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janela e embrenhando-se na capoeira, à
menor bulha ouvida.
Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam à depressão moral dos pais uma pobreza
de vigor físico e uma indolência repugnante. Eram dous rapazes: o mais velho, José, orçava pelos
vinte anos; ambos inertes, moles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, das rezas e
benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pai.
Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho contínuo. De
quando em quando, assim de quinze em quinze dias, faziam uma talha de lenha e vendiam ao
primeiro taverneiro pela metade do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de
cores vivas, um vidro de água-de-colônia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda neles
gostos bastantes selvagens.
Passavam então uma semana em casa, a dormir ou perambular pelas estradas e vendas; à noite,
quase sempre nos dias de festa e domingos, saíam com a “harmônica” a tocar peças, no que eram
exímios, sendo a presença deles muito requestada nos bailes da vizinhança.
Embora seus pais vivessem em casa de Quaresma, raramente lá apareciam; e, se o faziam, era
porque de todo não tinham que comer. Levavam o descuido da vida, a imprevidência, a ponto de
não terem medo do recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e bondade,
mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes à natureza, como uma pena ou castigo.
Essa atonia da nossa população, essa espécie de desânimo doentio, de indiferença nirvanesca por
tudo e todas as cousas cercam de uma caligem de tristreza desesperada a nossa raça e tira-lhe o
encanto, a poesia e o viço sedutor de plena natureza.
Parece que nem um dos grandes países oprimidos, a Polônia, a Irlanda, a Índia apresentará o
aspecto cataléptico do nosso interior. Tudo aí dorme, cochila, parece morto; naqueles há revolta, há
fuga para o sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...
A ausência de Quaresma trouxera para o seu sítio essa atmosfera geral da roça. O “Sossego”
parecia dormir, dormir de encantamento, à espera que o príncipe o viesse despertar.
Máquinas agrícolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a etiqueta da casa. Aqueles
arados de ponta de aço, que tinham chegado com a relva reluzente, de um brilho azulado e doce,
estavam hediondos e morriam de tédio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente
para o céu mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no galinheiro, o esvoaçar dos
pombos - todo esse hino matinal de vida, de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras
rosadas e com o chilreio álacre do passaredo; e ninguém sabia ver as paineiras em flor; com as suas
lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, caíam docemente como aves feridas.
Dona Adelaide não tinha nem gosto nem atividade para superintender aqueles serviços e fruir a
poesia da roça. Sofria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os
gêneros na venda e não se incomodava com as cousas do sítio.
Ansiava pela volta do irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, às quais ele respondia aconselhando
calma, fazendo promessas. A última recebida, porém, tinha de sopetão outro acento; não era mais
confiante, entusiástica, traía desânimo, desalento, mesmo desespero.
“Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi há quase duas semanas.
Justamente quando ela me chegou às mãos, acabava de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas
que me levou à cama e tratar-me-á uma convalescença longa. Que combate, milha filha! Que
horror! Quando me lembro dele, passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má. Fiquei
com um horror à guerra que ninguém pode avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas,
chorões sinistros, imprecações - e tudo isto no seio da treva profunda da noite... Houve momentos
que se abandonaram as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta, a coronhadas, a machado, a facão.
Filha: um combate de trogloditas, uma cousa pré-histórica... Eu duvido, eu duvido, duvido da
justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de
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nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos
milenários combates com as feras, quando disputávamos a terra a elas... Eu não vi homens de hoje;
vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem
amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo também fez
das suas, também foi descobrir dentro de si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade...
Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o
inimigo arquejava a meus pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei
a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguém enfim... Não imaginas como isto faz-me sofrer...
Quando caí embaixo de uma carreta, o que doía não era a ferida, era a alma, era a consciência; e
Ricardo, que foi ferido e caiu ao meu lado, a gemer e pedir - “capitão, meu gorro; meu gorro!” -
parecia que era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino...
Esta vida é absurda e ilógica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não
sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de
sol para sol...
O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes encargos, irei viver na
quietude, na quietude mais absoluta possível, para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das
cousas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade, que mais
me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver...
Além do que, penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Tudo o que nele pus de
pensamento não foi atingido; e o sangue que derramei, e o sofrimento que vou sofrer toda a vida
foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralizados em prol
de uma tolice política qualquer...
Ninguém compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir; passo por doido, tolo,
maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade.”
..................................................................................................
Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era, porém, delicado e exigia tempo
para uma cura completa e sem perigos. Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o
sofrimento de Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era físico e não se
cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até à posição de combatente.
Os hospitais em que se tratavam estavam separados pela baía, agora intransponível, exigindo a
viagem de uma margem à outra bem doze horas por estrada de ferro.
Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela estação em que morava. O
trem, porém, não parava, e ele se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para
aquele seu “Sossego”, de terras pobres e árvores velhas, onde sonhara repousar calmamente por
toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrível das aventuras.
E ele perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro sossego, onde se poderia
encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo qual tanto ansiava, depois dos sacolejamentos por que
vinha passando - onde? E o mapa dos continentes, as cartas dos países, as plantas das cidades,
passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou um país, uma província, uma cidade, uma rua
onde o houvesse.
A sua sensação era de fadiga, não física, mas moral e intelectual. Tinha vontade de não mais
pensar, de não mais amar; queria, contudo, viver, por prazer físico, pela sensação material pura e
simples de viver.
Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma visita, sem ver uma
face amiga.
Coleoni e família se haviam retirado para fora; o general, por preguiça e desleixo, não viera vê-lo.
Vivia só, envolvido na suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas idéias e
mais que tudo nas suas desilusões.
Entretanto, a revolta na baía chegava ao fim; toda a gente já pressentia isso e queria esse alívio.
O almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com tristeza. O
primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta para o quadro; e o
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general sentia perder a sua comissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhorar a
situação da família.
Naquela manhã, bem cedo, Dona Maricota acordara o marido:
- Chico, levanta-te! Olha que tens que ir à missa do Senador Clarimundo...
Ouvindo a recomendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito. Era preciso não faltar. A sua
presença se impunha e significava muito. Clarimundo fora um republicano histórico, agitador,
tribuno temido, no tempo do Império; após a República, porém, não apresentara aos seus pares do
Senado nada de útil e benfazejo. Embora assim, a sua influência ficara sendo grande; e, com
diversos outros, era chamado patriarca da República. Há nos próceres republicanos uma
necessidade extraordinária de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que eles se
recomendam com teimoso interesse.
Clarimundo era um desses próceres e, durante a comoção, não se sabia bem por quê, o seu prestígio
cresceu e já se falava nele para substituir o marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir
a sua missa era quase uma afirmação política.
A dor da morte da filha já se esvaíra muito na sua memória. O que o fazia sofrer era aquela
semivida da moça, mergulhada na loucura e na moléstia. A morte tem a virtude de ser brusca, de
chocar, mas não corroer, como essas moléstias duradouras nas pessoas amadas; passado que é o
choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido, uma boa fisionomia sempre
presente aos nossos olhos.
Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando
insensivelmente.
Obediente à mulher, preparou-se, vestiu-se e saiu. Conquanto se estivesse ainda em plena revolta,
esses ofícios fúnebres se faziam nas igrejas do centro da cidade. O general chegou a tempo e à hora.
Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assinar as listas de presença. Não tanto que
quisessem atestar à família do morto esse ato delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter
os nomes nos jornais.
Albernaz não deixou de atirar-se também a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia; e,
quando ia assinar, alguém lhe falou. Era o almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram
entrar na nave cheia, e ficaram a um vão da janela, na sacristia, conversando.
- Então acaba breve, hein?
- Dizem que a esquadra já saiu de Pernambuco.
Fora Caldas quem falara primeiro e a resposta do general fê-lo sorrir irônico dizendo:
- Enfim...
- A baía está cercada de canhões, continuou o general, após uma pausa, e o marechal vai intimá-los
a renderem-se.
- Já era tempo, fez Caldas... Comigo, a cousa já estava acabada... levar quase sete meses para dar
cabo de uns calhambeques!...
- Você exagera, Caldas; a cousa não era tão fácil assim... E o mar?
- Que fez, a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! Se fosse com este seu criado,
tinha logo partido e atacado... Sou pelas decisões prontas...
O padre, no interior da igreja, continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador
Clarimundo. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz
e da bondade, não os demovia dos seus pensamentos guerreiros.
- Entre nós, aduziu Caldas, não há mais gente que preste... Isto é um país perdido, acaba colônia
inglesa...
Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. Albernaz avançou,
meio sarcástico:
- Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma era de progresso vai abrir-se
para o Brasil.
- Qual o quê! Onde é que você viu um governo...
- Mais baixo, Caldas!
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- ...onde é que se viu um governo que não aproveita as aptidões, abandona-as, deixa-as por aí
vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à toa!
A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma porção de homens, todos de
negro, ajoelhados, contritos, batendo nos peitos, a confessar de si para si: mea culpa, mea maxima
culpa...
Uma réstia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças.
Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa,
mea maxima culpa...
A missa veio a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. A nave rescendia a incenso e
tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade.
Todos tinham um grande ar de compunção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos
pareciam sofrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da igreja, apanharam
no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelício também viera; ele tinha o vício das missas das pessoas importantes, dos cartões de
pêsames, dos cumprimentos em dias de aniversário. Temendo que a memória não lhe ajudasse,
possuía um caderninho onde as datas aniversárias estavam assentadas e as residências também. O
índice era organizado com muito cuidado. Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem
importante que, em dia de aniversário, não recebesse os seus parabéns, e, por morte, não o levasse à
igreja em missa de sétimo dia.
O seu traje de luto era de pano grosso, pesado; e, olhando-o, lembrava-nos logo de um castigo
dantesco.
Na rua, Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao almirante:
- A cousa está pra acabar!... Breve...
- E se resistirem? perguntou o general.
- Qual! Não resistem. Corre que já propuseram rendição... É preciso arranjar uma manifestação ao
marechal...
- Não acredito, fez o almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se entrega assim...
Genelício ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente; teve medo que ele
falasse mais alto, desse na vista e o comprometesse. Calou-se; Albernaz, porém, avançou:
- Não há orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
- Forte! Uns calhambeques, homem!
Caldas continha a custo a fúria que lhe ia n’alma. O céu estava azul e calmo. Havia nele nuvens
brancas, leves, esgarçadas, que se moviam lentamente, como velas, naquele mar infinito. Genelício
olhou-o um pouco e aconselhou:
- Almirante não fale assim... Olhe que...
- Qual! Não tenho medo... Porcarias!...
- Bom, fez Genelício, eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e...
Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão com o seu pince-nez
azulado, palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso.
Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada
um com o seu desgosto e a sua decepção.
Tinham razão: a revolta veio a acabar daí a dias. A esquadra legal entrou; os oficiais revoltosos se
refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano ficou senhor da baía.
No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da população abandonou
a cidade, refugiando-se nos subúrbios, por baixo das árvores, na casa de amigos ou nos galpões
construídos adrede pelo Estado.
Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias, a ânsia e a angústia também. Levavam
trouxas, samburás, pequenas malas; crianças de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de
estimação, o passarinho que de há muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.
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O que mais metia medo era o famoso canhão de dinamite, do “Niterói”, uma espalhafatosa
invenção americana, instrumento terrível, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos
das montanhas graníticas do Rio.
As crianças e as mulheres, mesmo fora do alcance de seu poder, temiam ouvir o seu estrondo;
entretanto, esse fantasma yankee, esse pesadelo, essa quase força da natureza, foi morrer
abandonado num cais, desprezado e inofensivo.
O fim do levante foi um alívio; a cousa já estava ficando monótona e o marechal ganhou feições
sobre-humanas com a vitória.
Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha
das Enxadas. Inocêncio Bustamente continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior
do seu gabinete, na estalagem condenada que lhe servia de quartel. A escrituração estava em dia e
era feita com a melhor letra.
Policarpo aceitou com repugnância o papel de carcereiro, pois na ilha das Enxadas estavam
depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus tormentos d’alma mais cresceram com o exercício
de tal função. Quase os não olhava; tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre eles um
conhecia o segredo de sua consciência.
De resto, todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. Não
encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. Sentia também que o seu pensamento motriz não
residia em nenhuma das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos
políticos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos,
se não havia baixo interesse, existia uma adoração fetíchica pela forma republicana, um exagero
das virtudes dela, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar
justo. Era grande a sua desilusão.
Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. Havia
simples marinheiros; havia inferiores; havia escreventes e operários de bordo. Brancos, pretos,
mulatos, caboclos, gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha metido em tal
aventura pelo hábito de obedecer, gente inteiramente estranha à questão em debate, gente arrancada
à força aos lares ou à calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por miséria;
gente ignara, simples, às vezes cruel e pervesa como crianças inconscientes; às vezes, boa e dócil
como um cordeiro, mas, enfim, gente sem responsabilidade, sem anseio político, sem vontade
própria, simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê do
vencedor.
De tarde, ele ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a
pescar. Os barcos passavam. Ora eram lanchas fumarentas que lá iam para o fundo da baía; ora
pequenos botes ou canoas, roçando carinhosamente a superfície das águas, pendendo para lá e para
cá, como se as suas alvas velas enfunadas quisessem afagar a espelhenta superfície do abismo. Os
Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial que
inebriava, embriagava, como um licor capitoso.
Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade que entrava na sombra,
aos beijos sangrentos do ocaso.
A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, meditando, pensando, sofrendo
com aquelas lembranças de ódios, de sangueiras e ferocidade.
A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do exemplo delas vinham os
crimes que aquela punia, castigava e procurava restringir. Eram negras e desesperadas, as suas
idéias; muita vez julgou que delirava.
E então se lamentava por estar sozinho, por não ter um companheiro com quem conversar, que lhe
fizesse fugir àqueles tristes pensamentos que o assediavam e se estavam transformando em
obsessão.
Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras; e, mesmo que ali estivesse, os rigores da disciplina
não lhe permitiriam uma conversa mais amigável. Vinha a noite inteiramente, e o silêncio e a treva
envolviam tudo.
98
Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da baía, onde quase não havia
luzes que interrompessem a continuidade do negror noturno.
Fixava bem os olhos para lá, como se os quisesse habituar a penetrar nas cousas indecifráveis e
adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito
desaparecer.
Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insônia e, se queria ler, a atenção recusava
fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro.
Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veio acordá-lo pela madrugada:
- Senhor major, está aí o “home” do Itamarati.
- Que homem?
- O oficial que vem buscar a turma do Boqueirão.
Sem atinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante. O homem já estava no
interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava à porta. Seguiam-se algumas praças, das quais
uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarelada. A vasta sala estava
cheia de corpos, deitados, seminus, e havia todo o íris das cores humanas. Uns roncavam, outros
dormiam somente; e, quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho gemeu - ai!
Cumprimentaram-se, Quaresma e o emissário do Itamarati, e nada disseram. Ambos tiveram medo
de falar. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: “Levem este.”
Seguiu adiante e despertou outro: - “Onde você esteve?” “Eu” - respondeu o marinheiro - “na
‘Guanabara’”... “Ah! patife” acudiu o homem do Itamarati... “Este também... Levem!”...
Os soldados condutores iam até à porta, deixavam o prisioneiro e voltavam.
O oficial passou por uma porção deles e não fez reparo; adiante, deu com um rapaz claro, franzino,
que não dormia. Gritou então: “Levante-se!” O rapaz ergueu-se tremendo - “Onde esteve você?”
perguntou - “Eu era enfermeiro”, retrucou o rapaz. - “Que enfermeiro!” fez o emissário. “Levem
este também”...
- Mas, “seu” tenente, deixe-me escrever à minha mãe, pediu o rapaz quase chorando.
- Que mãe! respondeu o homem do Itamarati. Siga! Vá!
E assim foi uma dúzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, a embarcar num batelão
que uma lancha logo rebocou para fora das águas da ilha.
Quaresma não atinou de pronto com o sentido da cena e foi após o afastamento da lancha que ele
encontrou uma explicação.
Não deixou de pensar então por que força misteriosa, por que injunção irônica ele se tinha
misturado em tão tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regime...
A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro às pedras do cais. A esteira
da embarcação estrelejava fosforescente. No alto, num céu negro e profundo, as estrelas brilhavam
serenamente.
A lancha desapareceu nas trevas do fundo da baía. Para onde ia? Para o Boqueirão...

V
A Afilhada
Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço. Pois ele, o
Quaresma plácido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos, merecia aquele triste
fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que ele pudesse pressentir o seu
extravagante propósito, tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com
os seus atos passados, com as suas ações encadeadas no tempo, que fizera com que aquele velho
deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos que
venceram a ele, Quaresma, e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não
sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se baralhavam, se emaranhavam e a conclusão
certa e exata lhe fugia.
99
Não estava ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo cálculo
aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca
luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira nada lhe quisera dizer; e, desde
que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém, não vira
nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao
presidente, protestando contra a cena que presenciara na véspera.
Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo, para
uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos
todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele
escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou
claro, franca e nitidamente.
Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus
semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado
com os seus detritos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha,
no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para
qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a
liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e
senti-la bem na consciência cousa sua, própria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara
toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir
para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora
que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava?
Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não
pandegara, não amara - todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza
necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar
inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem... Em que lhe
contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele
tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas
agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma
decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os
livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara?
Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois
não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série,
melhor, um encadeamento de decepções.
A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete.
Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que
existia de fato era a do Tenente Antonino, a do Doutor Campos, a do homem do Itamarati.
E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua
vida norteado por uma ilusão, por uma idéia a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma
deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa idéia nascera da amplificação da crendice dos
povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso
alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de
Coulanges... Lembrou-se de que essa noção nada é para a Menenanã, para tantas pessoas...
Pareceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores
das nossas subserviências psicológicas, no intuito de servir às suas próprias ambições.
100
Reviu a história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si
para si: como um homem que vivesse quatro séculos, sendo francês, inglês, italiano, alemão, podia
sentir a Pátria?
Uma hora, para o francês, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num dado
momento, a Alsácia não era, depois era e afinal não vinha a ser.
Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá manes
dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa?
Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.
Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera
atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade, não a pressentiu logo e se deixou
enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele, dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o
seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço
seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer
uma asneira!
Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso.
Contudo, quem sabe se os outros que lhe seguissem as pegadas não seriam mais felizes? E logo
respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar, se nada dissera e não prendera o seu
sonho, dando-lhe corpo e substância?
E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade traria enfim para a terra alguma
felicidade? Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo, sacrificando e as
cousas ficaram na mesma, a terra na mesma miséria, na mesma opressão, na mesma tristeza.
E ele se lembrava que há bem cem anos, ali, naquele mesmo lugar onde estava, talvez naquela
mesma prisão, homens generosos e ilustres estiveram presos por quererem melhorar o estado de
cousas de seu tempo. Talvez só tivessem pensado, mas sofreram pelo seu pensamento. Tinha
havido vantagem? As condições gerais tinham melhorado? Aparentemente sim; mas, bem
examinado, não.
Aqueles homens, acusados de crime tão nefando em face da legislação da época, tinham levado
dous anos a ser julgados; e ele, que não tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria
simplesmente executado!
Fora bom, fora generoso, fora honesto, fora virtuoso - ele que fora tudo isso, ia para a cova sem
acompanhamento de um parente, de um amigo, de um camarada...
Onde estariam eles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples, e tão inocente na sua mania
de violão, ele não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse, para mandar à sua irmã o último
recado, ao preto Anastácio um adeus, à sua afilhada um abraço! Nunca mais os veria, nunca!
E ele chorou um pouco.
Quaresma, porém, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltá-lo. Teve
notícia do exato motivo dela; mas não se intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco,
pois a indignação no palácio contra Quaresma fora geral. A vitória tinha feito os vitoriosos
inclementes e ferozes, e aquele protesto soou entre eles como um desejo de diminuir o valor das
vantagens alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais simpatia, nem respeito pela vida
humana; o que era necessário era dar o exemplo de um massacre à turca, porém clandestino, para
que jamais o poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. Era a filosofia social da época,
com forças de religião, com os seus fanáticos, com os seus sacerdotes e pregadores, e ela agia com
a maldade de uma crença forte, sobre a qual fizéssemos repousar a felicidade de muitos.
Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influências de amigos. Ao entrar no Largo de São
Francisco encontrou Genelício. Vinha da missa da irmã da sogra do Deputado Castro. Como
sempre, trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava subdiretor e o seu
trabalho era agora imaginar meios e modos de ser diretor. A cousa era difícil; mas trabalhava num
livro: Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos - o qual, demonstrando uma erudição superior,
talvez lhe levasse ao alto lugar cobiçado.
Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
101
- Doutor, Vossa Excelência dá licença que lhe dê uma palavra?
Genelício perfilou-se todo e, como tivesse péssima memória das fisionomias humildes, perguntou
com solenidade e arrogância:
- Que deseja, camarada?
Coração dos Outros estava com a sua farda do “Cruzeiro do Sul” e não ficava bem a Genelício dar-
se como conhecido de soldado. O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:
- Não me conhece mais, doutor?
Genelício fechou um pouco os olhos por detrás do pince-nez azulado e disse secamente:
- Não.
- Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que cantou no seu casamento.
Genelício não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
- Ah! É o senhor! Bem: que deseja?
- O senhor não sabe que o major Quaresma está preso?
- Quem é?
- Aquele que foi vizinho do seu sogro.
- Aquele maluco... Ahn!... E daí?
- Eu queria que o senhor se interessasse...
- Não me meto nessas cousas, meu amigo. O governo tem sempre razão. Passe bem.
E Genelício seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das botas, enquanto Ricardo
ficava de pé a olhar o largo, a gente que passava, a estátua imóvel, as casas feias, a igreja... Tudo
lhe pareceu hostil, mau ou indiferente; aquelas caras de homens tinham cataduras de feras e ele quis
por um momento chorar de desespero por não poder salvar o amigo.
Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procurá-lo. Não era longe, mas o general ainda não
tinha chegado. Ao fim de uma hora o general chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
- Que há?
O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o fato. Albernaz concertou o
pince-nez, ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com doçura:
- Meu filho, eu não posso... Você sabe; sou governista e parece, se eu for pedir por um preso, que já
não o sou bastante... Sinto muito, mas... que se há de fazer? Paciência.
E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do seu plácido uniforme de
general.
Os oficiais continuavam a entrar e a sair; as campainhas soavam; os contínuos iam e vinham; e
Ricardo procurava entre todas aquelas fisionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e ele
desesperava. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o comandante; e foi ter com o Coronel
Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao garboso “Cruzeiro do Sul”.
O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a revolta no porto do Rio de
Janeiro era preciso mandar forças para o Sul; de forma que os batalhões não tinham sido
dissolvidos e um dos apontados para partir era o “Cruzeiro”.
O alferes coxo, no ensaboado pátio da antiga estalagem, continuava na sua faina de instrutor dos
novos recrutas. Om - brôôô... armas! Mei - ãã volta!
Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscilante escada do velho cortiço e logo que chegou ao
cubículo do comandante, gritou: “Com licença, comandante!”
Bustamante andava de mau humor. Aquele negócio de partir para o Paraná não lhe agradava. Como
é que havia de superintender a escrita do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas
e contramarchas? Isso era uma tolice do comandante marchar; o chefe devia ficar a resguardo, para
providenciar e dirigir a escrituração.
Ele pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença.
- Entre, disse ele.
O bravo coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dólmã desabotoado e acabava de calçar um
dos pés de botina, para com mais decência receber o inferior.
102
Ricardo expôs o seu pedido e esperou com paciência a resposta, que custou a vir. Por fim,
Inocêncio disse, sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio de severidade:
- Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
E apontou com o dedo a porta da saída num gesto marcial e enérgico. O cabo não se demorou mais.
No pátio o instrutor coxo, veterano do Paraguai, continuava com solenidade a encher a arruinada
estalagem com as suas vozes de comando: Om-brôôô... armas! Meia-ãã... volta... volver!
Ricardo veio andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor. Ele que
sempre decantara nas suas modinhas a dedicação, o amor, as simpatias, via agora que tais
sentimentos não existiam. Tinha marchado atrás de cousas fora da realidade, de quimeras. Olhou o
céu alto. Estava tranqüilo e calmo. Olhou as árvores. As palmeiras cresciam com orgulho e
titanicamente pretendiam atingir o céu. Olhou as casas, as igrejas, os palácios e lembrou-se das
guerras, do sangue, das dores que tudo aquilo custara. E era assim que se fazia a vida, a história e o
heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos.
Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo e que era necessário dar mais uns passos.
Quem poderia? Consultou sua memória. Viu um, viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de
Quaresma, e foi procurá-la na Real Grandeza.
Chegou, narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreensões. Ela estava só, pois o marido cada vez mais
trabalhava para aproveitar os despojos da vitória; não perdia um minuto, andando atrás de um e de
outro.
Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, da tenacidade que punha
em seguir as suas idéias, da sua candura de donzela romântica...
Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir. Pareceu-
lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao sofrimento do padrinho;
mas bem cedo o viu ensangüentado - ele, tão generoso, ele, tão bom, e pensou em salvá-lo.
- Mas que fazer, meu caro Senhor Ricardo, que fazer? Eu não conheço ninguém... Eu não tenho
relações... Minhas amigas... A Alice, a mulher do Doutor Brandão, está fora... A Cassilda, a filha
do Castrioto, não pode... Não sei, meu Deus!
E acentuou estas últimas palavras com grande e lancinante desespero. Os dous ficaram calados. A
moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre as mãos e as suas unhas longas e aperoladas
engastaram-se nos seus cabelos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.
- Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ela.
Pela primeira vez, ela sentiu que a vida tinha cousas desesperadoras. Possuía a mais forte
disposição de salvar seu padrinho; faria sacrifício de tudo, mas era impossível, impossível! Não
havia um meio; não havia um caminho. Ele tinha que ir para o posto de suplício, tinha que subir o
seu Calvário, sem esperança de ressurreição.
- Talvez seu marido, disse Ricardo.
Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caráter do esposo; mas, em breve, viu bem que o
seu egoísmo, a sua ambição e sua ferocidade interesseira não permitiriam que ele desse o mínimo
passo.
- Qual, esse...
Ricardo não sabia o que aconselhá-la e olhava sem pensamentos os móveis e a montanha negra e
alta que se avistava da sala onde estavam. Queria encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!
A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar a mesa em que repousavam
os seus cotovelos. O silêncio era augusto.
Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
- Se a senhora fosse lá...
Ela levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto lhe ficou rígido. Pensou um
pouco, um nada, e falou com firmeza:
- Vou.
Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.
103
Ele então pensou com admiração naquela moça que por simples amizade se dava a tão arriscado
sacrifício, que tinha a alma tão ao alcance dela mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo,
deste nosso egoísmo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de
reconhecimento.
Não tardou que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas, na sala de jantar, quando o marido
entrou. Vinha radiante, com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si
mesmo. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direto à mulher:
- Vais sair?
Ela, afogueada pela ânsia desesperada de salvar Quaresma, disse com certa vivacidade:
- Vou.
Armando ficou admirado de vê-la falar daquele modo. Voltou-se um instante para Ricardo, quis
interrogá-lo, mas logo, dirigindo-se à mulher, perguntou com autoridade:
- Onde vais?
A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o trovador:
- Que faz o senhor aqui?
Coração dos Outros não teve ânimo de responder; adivinhava uma cena violenta que ele teria
querido evitar, mas Olga adiantou-se:
- Vai acompanhar-me ao Itamarati, para salvar da morte meu padrinho. Já sabe?
O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasórios, poderia evitar que a mulher
desse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Falou docemente:
- Fazes mal.
- Por quê? perguntou ela com calor.
- Vais comprometer-se. Sabes que...
Ela não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grande olhos cheios de escárnio;
mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um pouco e disse:
- É isto! “Eu”, porque “eu”, porque “eu”, é só “eu”, para aqui, “eu”para ali... Não pensas noutra
cousa... A vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu
(agora digo “eu”também) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na
minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada, nada! Sou alguma cousa como um
móvel, um adorno, não tenho relações, não tenho amizades, não tenho caráter? Ora!...
Ela falava, ora vagarosa e irônica, ora rapidamente e apaixonada; e o marido tinha diante de suas
palavras um grande espanto. Ele vivera sempre tão loge dela que não a julgara nunca capaz de tais
assomos. Então aquela menina? Então aquele bibelot? Quem lhe teria ensinado tais cousas? Quis
desarmá-la com uma ironia e disse risonho:
- Está no teatro?
Ela lhe respondeu logo:
- Se é só no teatro que há grandes cousas, estou.
E acrescentava com força:
- É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do meu direito.
Apanhou a sombrinha, concertou o véu e saiu solene, firme, alta e nobre. O marido não sabia o que
fazer. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sair pela porta fora.
Em breve, estava no palácio da Rua Larga. Ricardo não entrou: deixou que a moça o fizesse e foi
esperá-la no Campo de Sant’Anna.
Ela subiu. Havia um imenso burburinho, uma agitação de entradas e saídas. Toda a gente queria
mostrar-se a Floriano, queria cumprimentá-lo, queria dar mostras de sua dedicação, provar os seus
serviços, mostrando-se co-participante na sua vitória. Lançavam mão de todos os meios, de todos
os planos, de todos os processos. O ditador tão acessível antes, agora se esquivava. Havia quem lhe
quisesse beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e ele já tinha nojo de tanta
subserviência. O califa não se supunha sagrado e aborrecia-se.
104
Olga falou aos contínuos, pedindo ser recebida pelo marechal. Foi inútil. A muito custo conseguiu
falar a um secretário ou ajudante-de-ordens. Quando ela lhe disse a que vinha, a fisionomia terrosa
do homem tornou-se de oca e sob as suas pálpebras correu um firme e rápido lampejo de espada:
- Quem, Quaresma? disse ele. Um traidor! Um bandido!
Depois, arrependeu-se da veemência, fez com certa delicadeza:
- Não é possível, minha senhora. O marechal não a atenderá.
Ela nem lhe esperou o fim da frase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe as costas e teve vergonha
de ter ido pedir, de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com
o seu pedido. Com tal gente, era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu
qualquer, mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua
personalidade moral, sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte, que de
algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo.
Saiu e andou. Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas terras, já
tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de
dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa,
as casas, as igrejas: viu os bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma
linda parelha, atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... Tinha havido grande e
inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido grandes
modificações nos aspectos, na fisionomia da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e
seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

Todos os Santos (Rio de Janeiro), janeiro - março de 1911.

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O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo. Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria? E, na mesma tarde, uma das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga, e ambas levaram um tempo perdido, de cá pra lá, a palmilhar o passeio, esticando a cabeça, quando passavam diante da janela aberta do esquisito subsecretário. Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito, empunhando o “pinho” na posição de tocar, o major, atentamente, ouvia: “Olhe, major, assim.” E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia: “É ‘ré’, aprendeu?” Mais não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major aprendia a tocar violão. Mas que cousa? Um homem tão sério metido nessas malandragens! Uma tarde de sol - sol de março, forte e implacável - aí pelas cercanias das quatro horas, as janelas de uma erma rua de São Januário povoaram-se rápida e repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do general vieram moças à janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico. É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o vestuário não lhe escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso fato, a consideração e o respeito que o Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa diminuíam um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu essa diminuição. Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma cousa, os seus olhos tomavam, por detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse ir à alma da pessoa ou da cousa que fixava. Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo de que ele sabia com precisão a época. Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta, perguntando: - Janta já? - Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje conosco. - Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito! O major descansou o chapéu-de-sol - um antigo chapéu-de-sol com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola - e respondeu: - Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo o homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês, muito o elogia. - Mas isso foi em outro tempo; agora... - Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionais... - Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias. O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descansando.

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Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era formado de estantes de ferro. Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião. Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major. De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares, Gândavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal, Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo Moraes, Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou menos famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes tocavam no Brasil, resumida ou amplamente. Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, manuais, enciclopédias, compêndios, em vários idiomas. Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não lhe vinha de uma irremediável ignorância das línguas literárias da Europa; ao contrário, o major conhecia bem sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se não falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os correntemente. A razão tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa. Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo: Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves - era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro. Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a “terra que o viu nascer”. Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar. Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria. Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do “seu” rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e

. antes que a “Aurora. Nesse dia. porque Quaresma não as tinha no mínimo grau. Ao voltar as costas. Pequenas talvez. Arte y diccionario de la lengua guaraní ó más bien tupí. o entusiástico Rocha Pita da História da América Portuguesa..” mas não pôde ir ao fim. Na repartição. Quaresma estava lendo aquele famoso período: “Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno. ao assinar o ponto.. para a grandeza e a emancipação da Pátria.. entrava pela corografia. o major pouco conversou. as montanhas lhe eram indiferentes. se algum dia puder. outra. hei de percorrer a minha de princípio ao fim!” O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos. era um novo exemplar de árvore de borracha que crescia no rio Pardo. os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz às nascentes. quando os empregados deixavam as bancas. Era o velho Rocha Pita. Todas as manhãs.Ubirajara.Não. e só veio falar porque. como todas as tardes. tão rica. o major abriu um livro e pôs-se a lê-lo à espera do conviva. Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. contava o curso dos rios. com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”. se animava na sua frente a lhe fazer a menor objeção. disse em tom chocarreiro: “Você já viu que hoje o Ubirajara está tardando?” Quaresma era considerado no Arsenal: a sua idade. levantou o dedo indicador no ar e respondeu: . outra vez. Chegaste à hora.. a sua ilustração. . disse: “Ah! Meu Deus! Quando poderei ir à Europa!” O major não se conteve: levantou o olhar. . Sentindo que a alcunha lhe era dirigida.Senhor Azevedo. quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo. . e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. os pequenos empregados. concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: “Ingrato! Tens uma terra tão bela. era um sábio. Batiam à porta. distraído. assim pela hora do café. Era um clima caluniado pelos viciosos que de lá vinham doentes. não seja leviano. o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios mais dourados. o major ficava agitado e malcriado. deram não se sabe por que em chamá-lo .” E desse modo ele ia levando a vida. Sentado na cadeira de balanço. o escrevente Azevedo.. vingavam-se da cacetada.. metade na repartição. não perdeu a dignidade. No dia em que o chamaram de Ubirajara. Ele amava sobremodo os rios. as descobertas que fazia. Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar à sua residência. concentrou o pince-nez. Certa vez. Foi abri-la em pessoa. também sem ser compreendido. sem erro de um minuto. transmitir aos companheiros o fruto de seus estudos.. alguém suspirando. sem reparar quem lhe estava às costas. tendo notícia desse estudo do idioma tupiniquim. Os colegas ouviam-no respeitosos e ninguém. Não queira levar ao ridículo aqueles que trabalham em silêncio. em Mato Grosso. de riquezas nacionais. o major contestou-lhe com estatísticas e até provou exuberantemente que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. No mais. Quaresma ficou reservado. nem madrugada mais bela a aurora. como sendo encontrado na Bahia. ele se atracava até ao almoço com o Montoya. a não ser aqueles que têm ambições políticas ou de fortuna. Um dia era o petróleo que lera em qualquer parte. não prorrompeu em doestos e insultos. Era costume seu. e quando não tinha descoberta a trazer. major? perguntou o visitante. exceto aos domingos. às quatro e quinze da tarde. taciturno. e a outra metade em casa. ao jeito da aparição de um astro ou de um eclipse. sem ser compreendido. Arre! Não tem outra conversa.4 delicado. porém. a sua extensão navegável. bem ao centro de sua biblioteca. cuja bisavó era brasileira. mudo. cobrindo-o de troças: “Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico. era um homem como todos os outros. amanuenses e escreventes. a não ser esse tal Azevedo. e queres visitar a dos outros! Eu. quando lavavam as mãos num aposento próximo à secretária e se preparavam para sair. Endireitou-se. no seu gabinete de trabalho. exatamente.Tardei. uma notabilidade. a modéstia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. um dito. a avançar uma pilhéria.

Dessa maneira. olha-o da cabeça aos pés. O Doutor Bulhões. Ricardo vinha justamente dar-lhe lição. do Doutor Bulhões ou do “Seu” Castro.aí. mas.. demoradamente. solidificando-se. instada e apreciada. da distinção. um delírio. é que está a pedra de toque da nobreza. Não se julgue. de médicos com alguma clínica. com mais força que a burguesia de Petrópolis e Botafogo. mas como entendido em legislação telegráfica. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em breve (ele o esperava) Botafogo convidá-lo-ia. ficava em êxtase. Fora dos subúrbios. “mas só duas pessoas me enchem as medidas: o Tamagno e o Ricardo. De acordo com a sua paixão dominante. na casa de pessoas de propósitos tão altos e tão severos hábitos? Não é difícil atinar. propriamente. . Piedade e Riachuelo. dizia o doutor no trem certa vez. nos teatros. muita carne-seca. major? perguntou Ricardo logo ao sentar-se. Isto é só lá. Seguro dessa verdade. nas grandes festas centrais. ia compartilhar o seu jantar.Já. homem célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão. Nada mais e é simples. crescendo.veis bailes diários daquelas redondezas. Compõe-se em geral de funcionários públicos. . o Coração dos Outros vinha ali tão-somente ensinar o major a cantar modinhas e a tocar violão. não vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia. com o tempo.Vamos ver. foi tomando toda a extensão dos subúrbios. muito feijão. quando o trovador cantava. um frenesi e. de pequenos negociantes.. depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia. da alta linha. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo o dia jantar e almoço. extravasou e passou à cidade. por convite especial do discípulo. Quaresma estivera muito tempo a meditar qual seria a expressão poético-musical característica da alma nacional. . Consultou historiadores. Não: Ricardo Coração dos Outros era um artista a freqüentar e a honrar as melhores famílias do Méier. um capadócio. essa gente míngua. por ser chefe de seção da Secretaria dos Telégrafos. assim como nas festas e nos bailes. de poética.” Esse doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios. chegando até as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que deslumbram. muito ensopado . entretanto. tinha pelo Ricardo uma admiração especial. não teve dúvidas: tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos da modinha. aos poucos. nos bailes. É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios. pois os jornais já falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poética. apaga-se. não como médico. onde se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo original de arte. desaparece. cronistas e filósofos e adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo violão. a sua presença era sempre requerida. nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regiões. Mas que vinha ele fazer ali. . a sua fama estivera limitada a um pequeno subúrbio da cidade. na Rua do Ouvidor. nas festas e nas ruas. assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um prato de comida. mas antes disso. Como bem supôs a vizinhança. Estava nisso tudo a quo. de mineralogia e histórias brasileiras. julga ela. Em começo. Ricardo. “Gosto muito de canto”. pois que nem óleo de rícino receitava. e fora por isso que o famoso trovador chegou mais cedo à casa do subsecretário.5 Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos Outros. Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. de tenentes de diferentes milícias. quase diariamente. em cujos “saraus” ele e seu violão figuravam como Paganini e a sua rabeca em festas de duques.Já sabe dar o “ré” sustenido. mas procurou saber quem era o primeiro executor e cantor da cidade e tomou lições com ele. Fosse na casa do Tenente Marques. Rara era a noite em que não recebesse um convite. até. até ser considerada como cousa própria a eles. Decerto. que Ricardo fosse um cantor de modinhas aí qualquer. os lindos cavalheiros dos interminá.

muito vagaroso e lento. Agora tu vais ver que magnífico vinho do Rio Grande temos. Era uma maravilha. que tem todos os climas do mundo. . o toucinho e o arroz. franzindo a testa diminuta que se sumia no cabelo áspero.Vamos ver.. de magnólias flores exóticas. Quaresma exaltando os produtos nacionais: a banha. disse a velha senhora. Senhor Ricardo. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal e serviu dous cálices de parati. foi desencapotar o seu sagrado violão. como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra. o major era em jardinagem essencialmente nacional. quando o crepúsculo vinha devagar. nesse tom. .. nem o dengue com que o mestre fazia a mesma operação. que já tinha o seu em posição: . de cana. Tirou alguns acordes.É de Angra.. pondo nas cousas a sua poesia dolente e a sua deliqüescência. .O Senhor Ricardo há de nos desculpar.. se fosse como essas estrangeiras aí. esta de só querer cousas nacionais.Em geral é assim.Decerto. Certamente não se podia tomar por tal míseros beijos-de-frade. . afinou a viola.É uma mania de seu amigo.Está bom. mais expressivas.. e é um magnífico aperitivo. manacás melancólicos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados. Como em tudo o mais.. Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores. Dona Adelaide. major. .É do programa nacional. Quaresma preparou os dedos. . e dirigiu-se ao discípulo. e a gente tem que ingerir cada droga.Magnífico. Ricardo agarrou o cálice com delicadeza e respeito. que fossem! . disse Ricardo. Ricardo ainda uma vez concordou e os dous entraram na sala. é assim.. . de crisântemos. Esses vermutes por aí.rolando nas órbitas os olhos pequenos. estalando os lábios. É isto. calço botas nacionais e assim por diante. . é.. como aquelas que ele tinha ali. Eu lhe quis fazer um frango com petit-pois. Disse-me que esse tal petit-pois é estrangeiro e que eu o substituísse por guando.Olhe. não tinha nem uma flor. . mas não havia na sua execução nem a firmeza.6 Dizendo isto. a irmã fazia pequenas objeções e Ricardo dizia: “é. Comigo não há disso: de tudo que há nacional.. você tem certas ojerizas! A nossa terra. Adelaide. não há dúvida”. A sopa já esfriava na mesa.Qual.Mas é um erro. drogas! Isto é álcool puro.É porque é de leite... entrou e convidou-os a irem jantar. Tire a escala.. . seria uma novidade e não fazia mal experimentar. não é de batatas ou milho. Não protegem as indústrias nacionais. Você é que deu para implicar. mais olentes.. palmas-de-santa-rita. sorrindo. bom. . abaixando-se sobre ele como se o quisesse beijar. hein? indagou o major. E o jantar correu assim. Mal foi aceso o gás. forçando muito a sua fisionomia miúda e dura a adquirir uma expressão sincera de delicadeza e satisfação.. para experimentar.. Ricardo! Não querem nada da nossa terra. as nossas terras tinham outras mais belas. a pobreza do nosso jantar. apertou as cravelhas. Acabado o jantar foram ver o jardim. mas não houve tempo. Sentaram-se à mesa. mas Policarpo não deixou. o mestre de violão empunhou o instrumento. eu não uso estrangeiro. talvez não se estragasse. . fez Ricardo. Nada de rosas.. a irmã de Quaresma. quaresmas lutulentas. chi! .Exemplo: a manteiga que fica logo rançosa. é capaz de produzir tudo que é necessário para o estômago mais exigente. fabricadas com gorduras de esgotos. correu a escala. fez a irmã. Visto-me com pano nacional. Onde é que se viu frango com guando? Coração dos Outros aventou que talvez fosse bom. levou-o aos lábios e foi como se todo ele bebesse o licor nacional. major.

. . vou cantar a “Promessa”. coroada de magníficos cabelos castanhos. Cavalcanti forma-se no fim do ano e então marcaremos.de . conhecem? . Não era feia a menina. o violão é o instrumento da paixão. É outra cousa. Precisa de peito para falar.teu .tre vo. . “seu” Bilac. Moças e rapazes começaram a se amontoar na calçada para ouvir o menestrel. Ricardo aprumou-se na cadeira. Dona Adelaide obtemperou então: . vizinho de Quaresma.mir .Oh! Anda por aí como as “Pombas” do Raimundo. disseram os dous irmãos. uma composição minha.Cante esta. . não acham? . cheio de sentenças.. e. . o essencial é achar-se as palavras que o violão pede e deseja. disse ele num intervalo.de .Então. o noivo.Senta-te Ismênia. e em seguida acrescentou: . acompanhado pelo instrumento: o .ra. minha senhora! Eu só canto as minhas. Aproveitando uma pausa.A demora é pouca.ro .7 E mostrava a posição do instrumento. um curso de dous anos. Ricardo ficava loquaz. .conhecem? . todo ele fremindo de paixão pelo instrumento desprezado. pediu Dona Adelaide. continuou ele.Oh! Por Deus. como não dá. A questão não está em escrever uns versos certos que digam cousas bonitas.. n’ “O Pé” uma modinha minha: “o teu pé é uma folha de trevo” . você não entende de violão. Querem ver? E ensaiou em voz baixa. Está velha.. como em começo quis. Isto era dito arrastado. com a sua fisionomia de pequenos traços mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.Vejam. Coração dos Outros foi apurando a dicção.não ia com o violão. Sentindo que a rua se interessava. estudava para dentista. Ela então curvava do lado direito a sua triste cabecinha... tomando um ar feroz que ele supunha ser de ternura e entusiasmo. indo do colo ao braço esquerdo estendido. Por exemplo: se eu dissesse. quanta imagem! E continuou. para que diga o que sentimos.é . objetou Ricardo.Major.lha . com tons de ouro. disse ela. o tal Cavalcanti.quis fazer-me uma modinha.” . Era até bem simpática. quis a vaidade profissional que ele. seguro levemente pelo direito.Cante uma de outro. . e Ismênia tinha sempre que responder à famosa pergunta: . . quanta imagem. Era a primeira vez que Quaresma lhe fazia esse pedido. Aquele seu noivado durava há anos. disse a irmã de Quaresma. A lição durou uns cinqüenta minutos. a noiva. eu não aceitei.uma . O Bilac . e respondia: . a princípio. Diante do violão. quando acabou. quando te casas? Era a pergunta que se lhe fazia sempre.Não.Não há dúvida. O major sentiu-se cansado e pediu que o mestre cantasse. .sa .Não sei.é .pé .uma . Ricardo Coração dos Outros por fim afinou ainda uma vez o violão e começou em voz fraca: Prometo pelo Santíssimo Sacramento Que serei tua paixão.Vão vendo. se negasse.fo .. convidou o major.teu . As janelas estavam abertas. Senhor Ricardo.“Não sei. É preciso encostá-lo.. as palmas soaram do lado de fora e uma moça entrou procurando Dona Adelaide.“Então quando se casa?” . Agora reparem: o . olhou um pouco a moça e continuou a dissertar sobre a modinha..Cante lá. mas encostá-lo com macieza e amor. mas que ele arrastava há quatro.Não...Oh! Não tenho nada novo. como se fosse a amada. Cavalcanti forma-se para o ano e. ..uma . embora lisonjeado. a filha do general.pé . a irmã de Quaresma perguntou à moça: . com uma preguiça de impressionar..

até ainda se lembrava de uns versos de Reis. a grande pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à Inglaterra. Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao bravo militar veio despertar no general e na família um gosto pelas festanças. visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que se baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações sociais. no von den Stein e tomava notas sobre notas. o resto era questão de tempo. lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua infância. Já agarrara um noivo. a quebra do Souto e outras . como se diz por aí. . todos os minerais e animais úteis. Acabado o almoço. depois da toilette. em nome do pai. II Reformas Radicais Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. Eram pequenos melhoramentos. que a gente do Norte aprecia muito. chegava agora ao período da frutificação. cantigas e hábitos genuinamente nacionais. embora estivesse de férias. no Fernão Cardim. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir. voltava à biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto Histórico.. E para lá foram. guardando-as numa pequena pasta ao lado. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo. De manhã. mas pressa não tinha. cinco moças e um rapaz. nos anais da Biblioteca. como se fossem bem cerejas ou figos. explicou o motivo da visita. os seus espíritos pediam cousa mais plebéia. que lhe servia há trinta anos. Para bem compreender o motivo disso. simples toques. de estudos e reflexões. Dona Adelaide. Albernaz. Após uma hora ou menos. sobre cousas antigas . só havia uma cousa importante: casar-se. todos os frutos. sua mulher. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos.Papai. Lia diversos. é preciso não esquecer que o major. Na vida.o casamento das princesas. Venham. depois de trinta anos de meditação patriótica. não se tinham elas dissipado. mais inteligente e mais doce do mundo . de poetar à maneira popular dos velhos tempos. viram na cousa um pretexto de festas e. o general. É do Norte. Portanto. portanto. Estudava os índios. disse Dona Ismênia. Na sua meiga e sossegada casa de São Cristóvão. de sonhar. nas cartas de Nóbrega. dúvidas não flutuavam mais no seu espírito. as melhores terras de cultura. gosta muito de modinhas.o major continuava com o pensamento preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu temperamento. e. nada nela a pedia. de obrar e de concretizar suas idéias. mais característica e extravagante. a senhora sabe. O passeio era demorado e filosófico. continuava a tomar a primeira refeição de garfo às nove e meia da manhã. . a sugestão de uma idéia útil à sua cara pátria. Dona Maricota. sentava-se no divã da sala principal e lia os jornais. Recordava (é melhor dizer assim). porque em si mesma (era a sua opinião). para os não perder. aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. que já quase falava. convidar Ricardo Coração dos Outros a cantar em casa dela. como também nos simples aspectos etnográficos e antropológicos. para ela. a gente mais valente. Após responder a Dona Adelaide. afirmava certas noções dos seus estudos anteriores. Não fica bem dizer estudava. não só no tocante à língua. porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa. mas no que se referia à originalidade de costumes e usanças. Houve em todos um desejo de sentir. e os seus filhos. mais hospitaleira. antes se transformaram em certeza após tomar parte na folia do “Tangolomango”.8 Intimamente ela não se incomodava. porque já o fizera há tempos. e do café. numa festa que o general dera em casa. Tinha todos os climas. A modinha era pouco. dava umas voltas pela chácara em que predominavam as fruteiras nacionais. Viera. Conversando com o preto Anastácio.o que precisava mais? Tempo e um pouco de originalidade. recebendo a pitanga e o cambuim os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia..

de onde em onde. estendia-se a vasta região de mangues. mais adiante um depósito de locomotivas e sobre os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob pressão. encarregado disso ou daquilo. Não havia ali nada que lembrasse esse passado. Não obstante os soldados remendados. O tempo estivera seco e por isso se podia andar por ele. Mas soube pelo Camisão. se esgalhava para São Paulo e abria comunicações com o Curato de Santa Cruz. não viu uma única batalha. menos de cinqüenta. à moda do Norte. que a cousa esteve preta. medíocre.. O major pensara até ali pouco nessas cousas de festas e danças tradicionais. nas vésperas. ficava mal naquele homem plácido. o General Albernaz e o Major Quaresma. uma pequena porção da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animais de corridas. dias feriados e santificados em que se dançava também. cabeça de cavalos. entretanto viu logo a significação altamente patriótica do intento. pelo Venâncio.. contava um episódio de guerra. por uma linda e cristalina tarde de abril. “Foi em Lomas Valentinas”. Por aí em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda ultimamente os chamados gêneros do país. As casas velhas. nos pilares dos portões. provisório. Os seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito diferente dos seus hábitos. não tivera um comando. escriturário. assistente. panóplias de chicotes e outros emblemas hípicos.9 Quaresma ficou encantado. Passaram pela estação. bonachão. quando se reformou em general. Mas quem havia de ensaiar. A casa da velha preta ficava além do ponto. antigo término de um picadão que ia ter a Minas. tristemente montados em “pangarés” desanimados. Antes perlustraram a zona do turfe. uma preta velha. pesadas como naus. o prestígio devia ter a sua grandeza. e vidraças de pequenos vidros eram de há bem poucos anos. por toda parte onde tais distintivos fiquem bem e dêem na vista. Não havia ainda cem anos que as carruagens d’El Rei Dom João VI. a sua sabedoria a tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai. mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos tinham que dar à sua lamentável majestade. de dar os versos e a música? Alguém lembrou a tia Maria Rita. Não se pode crer que a cousa fosse lá muito imponente. de forma que havia bem umas trinta por ano. Para além do caminho. não era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Entre nós tudo é inconsciente. para ele a maior e a mais extraordinária guerra de todos os tempos. Ia pelo Pedregulho. percebendo o seu ar muito civil. Ele mesmo. Contudo. não dura. por ocasião do aniversário de sua praça.” O bonde que os levava até à velha Maria Rita percorria um dos trechos mais interessantes da cidade. Se alguém perguntava: “O general assistiu a batalha?” Ele respondia logo: “Não pude. quase quadradas. para as bandas da estação da estrada de ferro Leopoldina. não por ele mesmo. não contando domingos. Lá foram ter. Durante toda a sua carreira militar. Fora sempre ajudante-de-ordens. Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminiscências e foram até ao ponto. nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. a Corte andava em apuros de dinheiro e o rei era relaxado. O altissonante título de general. Adoeci e vim para o Brasil. Em casa do general era assim: qualquer aniversário tinha a sua festa. antiga lavadeira da família Albernaz. nas almofadas das portas. de tática ou de história militar. e era secretário do Conselho Supremo Militar. alegres. O general nada tinha de marcial. medas de lenha e imensas tulhas de sacos de carvão-vegetal se acumulavam. apressados. uma zona . com grandes janelas. Nada entendia de guerras. Sobre um largo terreiro. que lembrava cousas sobre-humanas dos Césares. Lá foram os dous. de estratégia. almoxarife. dos Turennes e dos Gustavos Adolfos. que morava em Benfica. cuja única preocupação era casar as cinco filhas e arranjar “pistolões” para fazer passar o filho nos exames do Colégio Militar. tendo grandes ferraduras. a balouçarem-se sobre as quatro rodas muito separadas. negro de moinha de carvão de pedra. nada fizera que tivesse relação com a sua profissão e o seu curso de artilheiro. dizia ele. passavam por ali para irem ter ao longínquo Santa Cruz. uma velha porta da cidade. quando Albernaz falou em organizar uma chegança. uma anedota militar. Aprovou e animou o vizinho.

com a mão esquerda pousada na perna correspondente. titia? . caiada e coberta com as pesadas telhas portuguesas.E o “Boi Espácio”? .um sambaqui a fazer-se para gáudio de arqueólogo de futuro remoto. dirigindo-se ao general e ao seu companheiro. No alto da porta que levava ao interior da casa. .Quá. tia Maria Rita. havia um retrato de Vítor Emanuel com enormes bigodes em desordem. Entrou em camisa de bicos de rendas. À direita havia um monturo: restos de cozinha.disse ela depois.Não me conhece mais? Sou o General. O general atalhou: .Vovó estão aí dous “moços” que querem falar com a senhora. ergueu a cabeça. mostrando o peito descarnado. . Há quanto tempo! Como está nhã Maricota? . enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas. Chegaram à casa da velha. você não sabe o “Bumba-meu-Boi”? . ioiô.Cante lá! . .. recortes de ilustrações de jornais baralhavam-se e subiam por elas acima até dous terços da altura. registros de santos.. que vai até ao fundo da baía e. Pergunte aqui ao meu amigo. tia Maria Rita. você não perde nada. por tê-lo conhecido nesse posto. triste e feia. . no mesmo lado. Uma pretinha moça apareceu na janela aberta. à esquerda.Qual esquecida.10 imensa. .. cante. Qual é a que você sabe? A neta que até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma cousa. façam o favor .Ah! É sô coroné!.Cousa véia. disse a velha.É para uma festa. havia um pé de arruda. o Major Policarpo.Ora! Vamos.. do tempo do cativeiro . deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados: . Capengava de um pé e parecia querer ajudar a marcha. sabe! .. no horizonte.Vai bem. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha. que a velha chamava coronel. Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha. Se eu soubesse não vinha aqui.Não sei. Não tardou vir a velha. uma lamparina. disse o general. o quê! Deve saber ainda alguma cousa.uma cabeça de mulher em posição de sonho parecia olhar um São João Batista ao lado.Ioiô sabe! Não sabe? Quá.Vovó já não se lembra. mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava. um cromo sentimental de folhinha .Só sei o “Bicho Tutu”. A moça gritou para o interior da casa: . velhos cromos de folhinhas.. se sei. já mi esqueceu. trapos. numa cantoneira.Que desejam? Disseram o que queriam e aproximaram-se. talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa. Pelas paredes. . Bateram.. . ioiô! . Ficava um pouco afastada da estrada. o Coronel Albernaz.Boas-tardes. com um doce sorriso e um olhar vago. morre ao sopé das montanhas azuis de Petrópolis.Quem sou eu. Era baixa. Minha velha. não atendeu a observação da moça e insistiu: . crescia um mamoeiro e bem junto à cerca. nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.. e entoou: É vem tutu Por detrás do murundu Pra cumê sinhozinho Cum bucado de angu. pedaços de louça caseira . como para melhor recordar-se. farta e rica. enchia de fuligem a Conceição de louça. conchas de mariscos. Entrem.pra que sô coroné qué sabê disso? Ela falava arrastando as sílabas. O general. Ela respondeu. . não é. A sala era pequena e de telha-vã.

porém. numa pasta.Não é bonito?. que mal se podia mover nela... tinha mais inteligência no olhar com que o encarava. mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes. arrancaram cipós. Veio até junto aos dous visitantes e disse-lhes: . A sala em que foram recebidos era ampla. informou que nas imediações morava um literato.Os senhores não sabem. porque via na sua festa. Cavalcanti. Eis senão quando um deles vê no fundo uma onça que lá caíra. que riqueza é a nossa poesia popular! Que surpresas ela reserva!. das quatro. O velho poeta guardou a canção de Urubu-de-Baixo... a coleção de histórias que o povo tem sobre o símio?. Os dous saíram tristes. e agora se entretinha em publicar coleções. Foram a ele. . casar as filhas..Vou ler aos senhores uma pequena história do macaco. como poeta. meio de chamar a atenção sobre sua casa. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar. isso é cousa antiga de embalar crianças. E.. uma demonstração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir. sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir.. sinhô.Ora! Fez o general com enfado. o noivo de Ismênia. de contos. Albernaz vinha contrariado. canções. mas estava tão cheia de mesas. Para isso. pejadas de livros. Já mi esqueceu. estantes. um momento contagiado pela paixão do folclorista. pulando de árvore em árvore. e escapavalhe. que ninguém lia. donde tirou várias folhas de papel. Os macacos se enternecem e resolvem salvá-la. com um número de folklore. Você não sabe outra? . Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza. graças a Deus! O crepúsculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora. e foi logo à outra. latas. Sai-me pelos olhos afora Voa às nuvens direito.. A decepção. demorou dias. Andava um bando de macacos em troça. Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las. desenvolver o culto das tradições. porque uma delas já estava garantida. nas bordas de uma grota. numa pasta: São Bonifácio do Cabresto. disse o velho poeta. das muitas que o povo conta. e Albernaz. Quaresma estava animado e falou com calor. homem doce e ingênuo que se deixara esquecer em vida. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos. O amor que tenho por ela Já não cabe no meu peito. Era um velho poeta que teve sua fama aí pelos setenta e tantos.11 .. emendaram-nos bem. Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores.. e Albernaz também. amarraram a corda assim feita à cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça. teimoso cultivador dos contos e canções populares do Brasil. Quaresma vinha desanimado. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que se ia. Oh! Uma verdadeira epopéia cômica! Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um semelhante no deserto. Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco. Querem ver? O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu: Se Deus enxergasse pobre Não me deixaria assim: Dava no coração dela Um lugarzinho pra mim. adágios e ditados populares.. Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda canção. sob o título Histórias do Mestre Simão. Com o .Não.. pastas. começou: “O macaco perante o juiz de direito. . atrair gente e.

batia com o báculo no assoalho. Assim ia executando com grande alegria da sala. A onça não teve remédio senão largar o macaco. e também o juiz. pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia. O juiz. vamos ao que serve. Chegou a vez da onça.. deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si. A casa do general estava cheia. o major avançava.” Acabando a leitura.É divertido. pôs uma imensa máscara de velho. conhecem? . . ela. uma máscara de velho. Comprou livros. muita criação. lhe ficou a vista escura e caiu. e entrou na sala.. brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos abrolhavam duas lágrimas furtivas. “O Boi Espácio” ou o “Bumba-meu-boi” ainda é muita cousa para vocês.Bata palmas. conseguiram içá-la e logo se desamarraram. que também expôs as suas razões e motivos. mas a onça parecia inflexível. Ele. quando. . meio fria. O macaco rogou. que eu ensaio. Está aí o “Tangolomango”. deitando de quando em quando. As dez crianças cantaram em coro: Uma mãe teve dez filhos Todos os dez dentro de um pote: Deu o Tangolomango nele Não ficaram senão nove. Um deles. agarrou-se a um bordão curvo. um olhar de gratidão. que se escapou. Quaresma fez o “Tangolomango”. O acidente. Tornava-se. É juiz de direito entre os animais o jabuti. o macaco pôde assim mesmo bater palmas. disseram os dous. afinal ele agarrava uma e levava para dentro.Agora. começar pelo mais fácil. à parte.Bata palmas. como da primeira vez. portanto.Não acham interessante? Muito! Há no nosso povo muita intenção. atirando-se n’água. leu todas as publicações a respeito. o macaco sempre agarrado pela onça. .. fazia hu! hu! hu!. Estou com fome e você vai fazer-me o favor de deixar-se comer. no vão de uma janela. não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore. Foram a ele.Não. mas a decepção lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo. pela quinta estrofe. . Quase todas as tradições e canções eram estrangeiras. colocando-se ele em cima de uma pedra. o velho dirigiu-se aos dous: . original. lhe faltou o ar. e ele e a noiva. Por aí. Arranjem dez crianças. instou. O dia chegou. depois de passada a emoção. em forma de báculo. entretanto. Cavalcanti viera. Ah! Então! Dizendo isto. determinou ao felino: . isto é.. Apesar de seguro pela onça.12 esforço reunido de todos. cheio de trejeitos no olhar. cujas audiências são dadas à borda dos rios.Compadre Macaco. fugindo.. Simão então lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. chorou. uma criação da nossa terra e dos nossos ares. uma roupa estrambólica para um dos senhores. O jabuti ouviu-o e no fim ordenou: . vestiu uma velha sobrecasaca do general. as crianças fugiam. continuou ele. o próprio “Tangolomango” o era também. porém. para o noivo.. No dia em que aparecer um literato de gênio que o fixe numa forma imortal!. disse ela. Os dous chegaram e o macaco expôs as suas razões. tenha paciência. Tiraram-lhe a máscara. falando muito.. não pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente. verdadeiro material para fabliaux interessantes. preciso arranjar alguma cousa própria. É melhor irmos devagar..

que a moça ocupava-lhe no coração o lugar dos filhos que não tivera nem teria jamais.Lê-se muito. O seu compadre Vicente. mas já flutuavam na sua cabeça e reagiam sobre a sua consciência como tênues desejos. Senhor Policarpo... como também cerrava os lábios. como se tivesse perdido a mulher ou um filho. e notou que o rapaz tinha alguma preocupação séria. pois. O major já tinha as suas idéias patrióticas. Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos. fezse logo empreiteiro. curvado ao peso dos cestos. não escondia a sua afeição tanto mais que sentia confusamente nele alguma coisa de superior. O homem estaria doido? Que extravagância! .Mas. Ele ainda chorou um pouco. a berrar. que foi levada à pia pelo seu benfeitor. veleidades que não tardariam tomar consistência e só esperavam os anos para desabrochar em atos. sem saber o que dizer. veio a ter aquela filha. casou.Decerto. Não só.. é possível que isto seja muito brasileiro. soltava exclamações sem ligação alguma com a conversa atual. estando disposto a matá-lo. mas faltava-lhe tempo para despir-se. ia Quaresma pelo Largo do Paço. uma tenacidade em seguir um sonho. Inútil é dizer que Quaresma não notou a contradição entre as suas idéias patrióticas e o seu ato. Estava até à mão. e o compadre e a filha. habituada a falar alto e desembaraçadamente. fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos. depois.Que é isso. ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga que ele recebera com o mais legítimo cerimonial guaitacás. A história das suas relações vale a pena contar. de cumprimentos. deitando sobre ele os seus olhos muito luminosos. Policarpo? . ficaram estupefatos no limiar da porta. a filha e Dona Adelaide entreolharam-se. padrinho. muito distraído. Fora. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas. A menina vivaz. que fizeram empregar o major toda a sua doçura e persuasão para dissuadi-lo do propósito. compadre. . Abriu. Quitandeiro ambulante. e. padrinho? perguntou-lhe a afilhada. de cerimônias domésticas e festas. logo ampliou o seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de relações. mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até gostava de vê-lo suado. Havia entre os dous uma grande afeição. Havia na sua afirmação uma tal energia e um grande e estranho acento de ferocidade. Interrogou-o e veio a saber que tivera uma questão de dinheiro com um seu colega. compadre? . Queriam que eu apertasse a mão.Mas. . pois perdera o crédito e em breve estaria na miséria. era assim que faziam os tupinambás. se não envergara o traje de rigor de tão interessante povo. Enxugou as lágrimas e. entretanto. mas não apertou a mão. enriqueceu. Recebera a .13 Essa idéia levou-o a estudar os costumes tupinambás.. Mas um belo dia. Este seu compadre era italiano de nascimento. ganhou uns contos de réis. de onde em onde. A irmã correu lá de dentro. .Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das cousas da nossa terra. a arrancar os cabelos. E não ficou nisto só: emprestou-lhe também dinheiro. Falou-lhe com aquela simplicidade d’alma que era bem sua. Adivinhava-se. a pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim. pois eram eles. Desandou a chorar. calcado nos preceitos tupis. mas é bem triste. explicou com a maior naturalidade: . com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu recém-chegado. quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. meu padrinho. rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos. uma ânsia de ideal. e. Desde dez dias que se entregava a essa árdua tarefa. Essa admiração não lhe vinha da educação. em meio de seu trabalho. como uma idéia traz outra. um vôo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a ver em ninguém do mundo que freqüentava. Vicente Coleoni pôs uma quitanda. parece até agouro. motivo não foi o não tê-lo. disse-lhe o compadre. acrescentou a moça com vivacidade. veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos. o Anastácio também. uma idéia. É verdade que ele não as tinha ainda muito firmes.Mas que é isso. quando (era domingo) lhe bateram à porta.

confirmou Ricardo. Olhou triunfante para um e outro circunstante. que é digno de louvor.No Tempo. quando se encontrava diante das moças. .Não se vá meter em alguma conspiração. mas são versos para violão. . não era possível.que diabo! Não.. padrinho.Obrigado. . . é o provençal.Não tive esse prazer. hesitante mesmo no falar . mas não é francês popular. Vossa Excelência sabe que os versos para música têm alguma cousa de diferente dos comuns.Entre nós. não se levam a sério essas tentativas nacionais. Mas. Pois o Mistral não é considerado. é isso. uma reforma. minha senhora. a emancipação de um povo. amaciava a voz e ficava numeroso e eloqüente. estou fazendo o mesmo. nada a admirar que os meus versos.Já o conhecia de nome. Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dous conversavam a sós na sala dos livros. conhecia-o que satisfação! Ele que era sempre um tanto parvo e atrapalhado. São. A sua fisionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito. que até ali se conservava calado.Muito injusta! acrescentou Ricardo. padrinho.Então.Eu sei. A cousa vai naturalmente. Vinha de um pendor próprio. E ela sorriu devagar. Fique certa. ele que antigamente era tão modesto...Muito. Tenta e trabalha para levantar o violão. mas. Senhor Ricardo. Imagina que medito grandes obras.. todos respeitam e auxiliam. enquanto Ricardo. . . de inventor feliz! . soltava a língua. . desconfiado. deixando parado o seu olhar luminoso. mas li. Falava agora com tanta segurança. não acha? . A afilhada notou que Quaresma tinha alguma cousa de mais. Nisto Ricardo Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu violão encapotado em camurça.. Coração dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento. minha filha. é um artista. Por exemplo. há meses.. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música para os versos. Aquela moça parecia rica. enigmaticamente.Não te assustes por isso. e Olga dirigindo-se a ele disse: .Sim. lhe sondava a intenção com os olhinhos vivos e miúdos de camundongo. Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho: . minha senhora? . . não é preciso violências.14 comum às moças de seu nascimento. talvez das proximidades européias do seu nascimento. na Europa. O major fez as apresentações.Que piano! O maracá. quem sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos .Mistral.Continue na tentativa.O Ricardo. . Dizem que os meus versos não são versos. acudiu Quaresma. minha senhora. .. Senhor Ricardo. uma verdadeira língua. .Leu então os meus versos. como que ficou macia e jovem. que era ressecada e de tom de velho mármore. sigam outra métrica e outro sistema... que a fizeram um pouco diferente das nossas moças. . Todos os críticos se atêm a essa questão de metrificação. Eu sei. major. fossem de que condição fossem. disse a moça.. falou Coração dos Outros. Olga.. não é? Não há. lê-se muito? .Não conheço. . não foi? . era fina e bonita.... Como é que se chama. animava-se.Decerto.Foi. disse a moça gracejando. interveio: . não é. a inúbia.O piano? perguntou Ricardo. respeitado? Eu. Há outros mais difíceis. Quaresma. . feitos para violão. sim. portanto. e a sua cútis. no tocante ao violão. que o violão é um belo instrumento e tem grandes dificuldades. aquele poeta que escreveu em francês popular? . disse Olga.uma alegria de matemático que resolveu um problema.Qual! interrompeu Quaresma abruptamente. uma apreciação sobre um trabalho seu.

a variedade intensa dos sentimentos. com tons de ouro. porém. não fez grande negócio. o violão também não vale nada . Lalá e Vivi. e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem.. como em tal caso. lá vinha aquele . ou senão “Você precisa aprender a pregar botões. Casar. na sua inteligência a idéia de “casarse” incrustou-se teimosamente como uma obsessão. A todo instante e a toda a hora. pois parece que o noivo não é lá grande cousa”. em casa das famílias conhecidas. porque quando você se casar”. “tia”. Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti. Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há quase cinco anos. não era negócio de paixão. porque quando você se casar”. .. a alegria. sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente. Os caboclos! . Ela não era feia.Instrumento de caboclo. as satisfações íntimas. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para daí a três meses. As irmãs da noiva.. de idéia e de sentidos .. a maternidade. uma espécie de dever. de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante. . nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéia. A instrução. a vida se resumia numa cousa: casar.“porque quando você se casar”.. major! Não diga isso.. e.é um instrumento de capadócio. ou então: “A Zezé está doida para arranjar casamento.. uma alegria não podia passar sem baile. para ela. com os seus traços acanhados. uma tal ou qual liberdade. E os dous ainda discutiram acaloradamente diante da moça. a Lili casou-se. na rua. uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática.era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam . Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor. mas é tão feia.De capadócio.. “Sabe. sedoso até ao olhar. e. não muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva.De caboclo! Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir. sem atinar.Não conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis. parecialhe um crime. . estavam mais contentes que a irmã nubente. Dona Maricota. Quinota.15 . tudo isso era inútil. Parecia que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado. não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. daquela gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra. e à fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou. Ismênia já se sentia meio casada. Dona Ismênia? . amorenada. até ali tão sossegado e tão calmo. De natureza muito pobre. meu Deus!”. uma pura idéia. A alegria foi grande na família. o prazer dos sentidos. .. mas galante.e a menina foise convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento.Em Março. os únicos que o são verdadeiramente. O seu traço de beleza dominante. surpresa. foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho. sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto. ora! disse Ricardo. sem explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu padrinho. Noiva havia quase cinco anos. Esse sentimento junto à sua natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria. No colégio.. Se é por ser de caboclo. o narizinho malfeito.. das idéias. ficar solteira. instrumentos dos nossos antepassados. espantada.. o nosso próprio direito à felicidade. III A Notícia do Genelício . Cavalcanti já está formado e.. A vida. que não se casar. eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos. de indolência de corpo. o mundo.“bonitinhas”. ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso. uma vergonha. De resto.. só se falava em casar. Zizi.Então quando se casa. até o noivo. Ficou no mesmo. Desde menina.

Dona Maricota viesse ao marido e dissesse: “Chico.Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malícia. e a filha fria e indiferente. e assim o namoro foi correndo até ali.. esta vida! Imagina tu. mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito. não havia dona-de-casa mais econômica. Felizmente. Era raro que o fizesse. ao contrário: ele estava radiante. Ele ouvia a mulher. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra. coçava a cabeça e dava o dinheiro. aprendi a receita. Ela arrumava a mesa. Não eram só os perigos a que se achava exposta. nervosa e alegre. ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada.A Ismênia.Mas. Começou então Cavalcanti a freqüentar a casa na qualidade de noivo “paisano”.quem são. Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre. mas também assim como você está! Eu nunca vi noiva assim. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família. minha filha. . se encontrava um camarada. livros e outras cousas. mais compoteiras. parecia-lhe feio e desonroso para a família. e até para evitar despesas ao futuro genro. Vivi e Quinota foram para os doces. É melhor prevenir que curar. a segunda. dizia ela. quando já recolhidos . o velho Albernaz corria aos armazéns. Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos. andar aí como uma sirigaita. Na rua. Que é um dentista? perguntava ele de si para si. mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. que não pediu. no primeiro momento azado. as criadas e as filhas. vamos descontar esta letra.dizia Albernaz à mulher. na noite do pedido. aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor quando se tratava dos interesses delas.Não é bonito rir-se muito. Preferia um oficial. Maricota dizia ele . Pode ser um valdevinos e. Um cidadão semiformado.16 O pai fez má cara. Por que não fizeste o mesmo? Despedindo-se. respondia-lhe Dona Maricota. No fim do primeiro ano. lá dizia ele: . uma espécie de barbeiro.. que quer que eu faça? . como ela dizia. dispôla com muito gosto e esplendor.Mamãe.” O general era leal.É um inferno. comprava mais pratos. Logo que despertou.. a falta de arrimo. arranja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. pedindo-lhe isto ou aquilo. A satisfação resignada do general era porém falsa. Olho vivo!. . . respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos. Muito ativa.. Demais. Dona Maricota amanheceu cantando. não havia no seu caráter a mínima falha. mas nos dias de grande alegria. isto é. A alegria de Dona Maricota era grande. que ainda por cima tenho que casar uma filha! Ao que Castro interrogava: . porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento. Pagou-lhe taxas de matrículas.. às lojas de louça. um centro de mesa. uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela. não é ainda “oficial”. Não era raro que após uma longa conversa com a filha. .Qual delas? . pôs tudo em atividade. enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa. o general foi generosamente em seu socorro.” Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista. convidou-o a jantar em casa todo o dia. muito diligente.a cousa vai acabar. até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí uma “mosca-morta”. Castro. tinha montepio e meio soldo. bom e generoso. Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido. não gostou muito. Enfim .. tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos. ela cantarolava uma velha ária. e ele acedeu. a não ser a sua pretensão marcial.

. que exige cadáveres. meu caro senhor.Foi seu colega? . . Cavalcanti não era mais um simples homem. ele é do curso de Medicina.. uma alourada e alta.Foi. Para aquela gente toda. aparelhos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono.Atualmente. um pândego.. à sua confidência. Se eu tivesse ouvido meu pai.Pois doutor. se as respondia. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti. guarda-livros.Em engenharia. acabou. como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal. mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza. Ismênia? Parece barato. Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê! Todas elas.fui de um heroísmo!.Conheço. e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as . Veio muita gente. dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes. normalista. acudia um outro. incapaz de vibração sentimental. isto é.. Além das moças e as respeitáveis mães.É muito bonito ser formado. Tratava-se do enxoval. ontem. não vale nada. as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. embora solteiras. dizia modestamente Cavalcanti.. Irene. A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos: . torço a orelha e não sai sangue. a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia.Boa carreira. se fosse você. o Doutor Florêncio. . Todas dizem que não. Ela aludia à resposta que. não sem um pouco de inveja no olhar. muito bonito. e o natural do seu temperamento venciaa e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria. Hoje. Eu sei. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho. na Estrada de Caxias. todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural. comprava tudo no Parque.. mas não viera. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria.. muito solene. Nos intervalos da conversa. você por que não vai ver. engenheiro das Águas. vi na Rua da Constituição um dormitório de casal. quando se formou: vá furando! . Com essas academias livres. e Cavalcanti jantara com os futuros sogros.. dentro de um grande fraque preto. os embargos . hein? dizia este a jeito de um cumprimento.Eu.. Quaresma o fora. conversando. e outras pessoas importantes. . dou-lhe meus parabéns. a doutora. chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. bons professores.. A Ismênia era a menos entusiasmada. aconselhava: .Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti. era por monossílabos. Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro. Está no Maranhão.Eu. era homem e mais alguma cousa sagrada e de essência superior. . não estava agora a quebrar a cabeça no Deve e Haver. ainda parente de Dona Maricota. . . Às seis horas. Quando deixou de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito. Estavam a par. davam conselhos. a moça esforçou-se por parecer muito alegre. Doutor. Um crônico. .Então. Os senhores não imaginam os tropeços. . num dado momento.17 Durante uma hora. sabiam as casas barateiras. que tinha nos dedos um anel. cumprimentando-a. . quase não respondia às perguntas.. Estefânia. . tinham os olhos no piano.É verdade! Trabalhei. Todas elas.. e. Matriculamo-nos no mesmo ano. o Senhor Bastos.. e disse alto: . acudiram ao convite do general o Contra-Almirante Caldas. o Major honorário Inocêncio Bustamante.Conhece o Chavantes? perguntava um outro.Eu quero ver isso.. com tantas pedras que nem uma joalheria. Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo! Um curso difícil e caro.

Na Marinha. e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. no seu caso.18 cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis. Corriam meses o infinito rosário de repartições e eram sempre indeferidos. Estavam com ele o Contra-Almirante Caldas. Mas aí também não estava o tal “Lima Barros”. na aparência. visto que dous galões mais outros dous fazem quatro . Os requerimentos. que se referisse a promoções de oficiais. não havia dia em que não fosse ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. apresentou-se às altas autoridades da Marinha. mas só se as dá aos protegidos. alvarás. Não se pejou mesmo de tratar do pedido de um maníaco que. teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio.Eu. conforme a praxe. como se diz na gíria militar. Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante. pedindo a modificação de sua reforma. Ele lá foi. porém. possuindo honras de major. fumando. por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exército. Esteve assim um mês em Itaqui.o que quer dizer: major. para alguns. É curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento. Embora absolvido. Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai. de forma que. que se achava na sala de visitas. noutro tal ou qual medalha. juízes e advogados . e ele levou quase quarenta anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. onde chegou enfim. Certa vez. mas. requereu lhe fosse passada a patente de major. consultas. e. Num pedia inclusão no Asilo dos Inválidos. . quase divina. Bustamante fez a sua consulta. escrivães. choviam sobre os ministros da Marinha. Nomearam-no para comandar o couraçado “Lima Barros”. de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos quatro pontos cardeais. sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. A culpa. a não ser na guerra do Paraguai. O contra-almirante era interessantíssimo. quando era já capitão-tenente. Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania demandista. sem empenhos e sem amigos nos altos lugares. Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação militar. avisos. disse-lhe o superior. Um dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio. . abandonando a roda dos camaradas. o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros Segismundo. Para o lado de Cavalcanti. hesitante. comum. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal “Lima Barros” fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguai. mas assim mesmo por muito pouco tempo. sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Isto não entrava nela de modo algum. deram-lhe um embarque em Mato Grosso. depois de uma penosa e fatigante viagem. mas a sua substância tinha mudado. teimoso. Era renitente. Deixaram-no “encostado”. cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Antigo voluntário da pátria. se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. armazenava coleções de leis. mas servil e humilde. Reformado no posto imediato. por ser tenente honorário e também da Guarda Nacional. relatórios. era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fora da natureza terrestre. continuava a ser vulgar. Foi preso e submetido a conselho. com graduação do seguinte. partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande. não era dele. decretos. quando se apresentou ao comandante da flotilha. mas teve medo de ser censurado.esse poviléu rebarbativo do foro que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos. Logo que se viu primeiro-tenente. ia ver a dos outros. vieram os menos importantes. o Major Inocêncio. Consultou o comandante. noutro honras de tenente-coronel. Nunca embarcara. acotovelando-se com meirinhos. tanto mais que não andava em cheiro de santidade. Todos o tinham na conta de parvo. durante a guerra do Paraguai. Ultimamente constituíra advogado junto à justiça federal e lá andava ele de cartório em cartório. O “Lima Barros” tinha ido a pique. Onde estaria então? Quis telegrafar para o Rio de Janeiro. e aquele tipo. Comprava repertórios de legislação. quando não tinha nenhum. O general ficara na sala de jantar. Caldas foi aos poucos se metendo consigo.

Engenheiro e empregado público.Não sei por quê. dizendo: . mas.Ah! meu tempo. ninguém toca.Uma desordem. pois era forte nele o tipo lusitano.Bem. eu vou lá. Não é a minha especialidade o Exército.Como não é militar? fez Albernaz com ímpeto. não sei. Isto também anda tão atrapalhado! Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos.. Ouviu a mulher.Se não dançam é porque não querem. as grandes vistas sem fim.19 . não se atrapalhou.Eu não sou militar. meu caro. decerto. disse Albernaz. hein. Quanta ordem! Quanta disciplina! . onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão. cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti. Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile. no meio do caminho. que lhe davam um ar de “comodoro” ou de chacareiro português. muito ativa. Onde está um Porto Alegre.Assim de pronto. os anos e o sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da escola. não se via nem um monte. Era noite.Decerto. pois tudo hoje não vai pela ciência? Fora Caldas quem falara. depois voltou aos amigos e.. muito diligente e com o rosto aberto de alegria. era raro que não viesse toda a tarde jogar o solo com o general. observou Albernaz. general? O general não se deteve. ninguém tira par. O Doutor Florêncio perguntou: . .. . Dona Maricota chegou até onde eles estavam. Estou pegando alguém? Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou: . é uma pena! . disse Bustamante. tantos rapazes. Inocêncio? O Doutor Florêncio era o único paisano da roda. .Vamos. pedindo honras de tenentecoronel. .Eu queria ver esses meninos bonitos. está no ministério há seis meses! . não gaguejou e disse com a máxima naturalidade: .Como ia dizendo.O senhor assistiu. não foi. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar. .Não assisti. Da janela da sala onde estavam. confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio. Todos se calaram e olharam a noite que chegava.Não há mais gente que preste. . mas vou ver. exclamaram todos. o Venâncio. Caldas? hein.Este país não vale mais nada.Os senhores sabem: se a gente não animar. não acha Caldas? . continuou Segismundo. eu me animo a dizer que a nossa força está muito por baixo. Morando perto de Albernaz. Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre. O sol já tinha desaparecido do horizonte e as tênues luzes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás das vidraças. Imaginem que o meu requerimento. suas chaminés e o piar de pintos. Estão lá tantas moças. tentando a ironia. nestes termos: .Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico.. Segismundo por aí aventurou também a sua opinião. apesar de não ser militar. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. falou alto.Não há mais. sim? Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. um Caxias? . uma valsa! . Os senhores é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente. meninas! Então o que é isso? Zizi. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor: . Bustamante quebrou o silêncio: . fez o almirante cofiando os favoritos.

e os primos? . uma das filhas do general.Então jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz. Acresce que Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar. tinha-se como certo o seu casamento na família.Não precisa zangar-se. já no meio da carreira. general. Segismundo jogava com todo o cuidado. e deixava-o no bonde. Em quatro anos. Acompanhava-o. outros processos. “dance com o Raimundinho. já tenho par”. Você é que fez bem. tinham em grande conta o seu saber e ele vivia na seção cercado do respeito de um gênio. Caldas. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. atravessou a sala e foi beber água. Dona Quinota. Tinham começado a partida.Vamos jogar o solo. Quando saía. de quando em quando desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. não se quis casar! .Somos cinco. conversava com ele sobre o serviço. ao discurso. Bustamante fora à sala ver as danças. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. nos aniversários de nascimento.Não. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante numa partida de whist. lavava três ou quatro vezes as mãos. e publicavam o soneto. fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso. Interessante é que os companheiros o respeitavam. mas contente. eu não jogo. criticava este ou aquele colega. Eram meras compilações de bolorentos decretos. Este Genelício era o seu namorado. Na bajulação e nas manobras para subir.Mas tenho mais filhos que você. moço de menos de trinta anos. num posto acima. dava pareceres e opiniões. Nenhum pudor. que examinava atentamente as cartas recebidas. quando Dona Quinota. disse Bustamante. . e tantos títulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal Albernaz. se o homem ia para casa. Só sobrinhos. tinha verdadeiramente gênio. ameaçava ter um grande futuro. No dia seguinte. oito.“Salve” . um gênio do papelório e das informações.20 E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: “Não. interrompeu a conversa com voz grave: . retrucava ele. Parente ainda de Caldas. como há de ser? observou Florêncio. Não se limitava ao soneto.“Salve! Três vezes Salve!” O modelo era sempre o mesmo. era um soneto que começava sempre por . veio para a roda dos amigos. As cartas vieram e também uma pequena mesa de tripeça. Dona Maricota e o marido enchiam-no de festas. Coube a Florêncio dar. perguntou à moça: . . Dona Quinota. Fora da repartição. salpicadas aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses. dizia. nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. advertiu Caldas. é uma simples pergunta. A sua candidatura era favorecida por todos. Quando entrava um ministro. coçando um dos favoritos. No intuito de anunciar aos ministros e diretores que tinha uma erudição superior. ele só mudava o nome do ministro e punha a data. Dona Quinota retirou-se. dizia uma moça. a se fundar. convidou Albernaz. .Eu passo. . Começaram. Albernaz tinha um ar atento quando jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. até poder apanhar o diretor na porta. Caldas. quedê o Genelício? A moça virou o rosto com faceirice. tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico. mas que a convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. Um empregado modelo! . O general.Ué! Sei lá! Ando atrás dele? . “Não faz mal”. com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para fugir à fumaça. suando. buscava outros meios. tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas.” Depois de ter dado início ao baile. os jornais falavam do seu nome.e acabava também por .Então.Isto de família! Qual! A gente até parece bobo. remancheava. deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor: . o outro espera. Empregado do Tesouro.

empregado do Arsenal.Nada. para que meter-se em livros? . . Não há nada. fez Caldas. jogava-se em silêncio. confirmou Caldas.. disse Genelício. meus amigos! Estou tratando dos meus negócios..É verdade. Tossiu e. os seus gostos e hábitos. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro. ..21 O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. melhoro. Aqueles livros. . . e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo. não conhece? ...Nem se podia esperar outra cousa. e as atenções convergiram para o jogo. disse Albernaz. disse Florêncio. meu amigo. fez Florêncio. fez Caldas.. todo ele traía a profissão. Feitas elas. general.Isto de livros é bom para os sábios.Pra que ele lia tanto? indagou Caldas. . acrescentou Genelício. Pequeno. Genelício atalhou com autoridade: . Sabe de uma cousa.Quase garantido. disse Albernaz.Contasse. . disse Segismundo. Calaram-se um instante. passo”.Mas não é só. No fim das “mãos” fazia-se um breve comentário ou outro. . . o quê? Quem foi que te disse? .O Genelício.Devia até ser proibido.Vão bem? perguntou Florêncio. .O que é? . Zizi acompanhava.. vinha o ruído festivo das danças e das conversas.Um baixo. . . Evitavam-se assim essas desgraças. general? . Onde estiveste. . . porém.Mas.Já saíram todos os trunfos? . . observou Segismundo. disse o general. estou bem “cunhado”! . Uma história de sangue e de poeira Um deserto sem luz. bolo. com a sua voz metálica.Estimo muito.. E o piano gemia.É o que eu dizia. Cavalcanti ia recitar. Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio. . aquela mania de leitura.Decerto. com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano. aquele requerimento era de doido. rapaz? Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. com um pince-nez azulado. começou: A vida é uma comédia sem sentido. fez Albernaz.Decerto. .. O ministro prometeu.Obrigado.Aquele homem do violão. para os doutores.O Quaresma está doido. de pince-nez? .Telha de menos. Era um escriturário. Não acham? .Quem é? perguntou Florêncio.Este mesmo. da sala. já um tanto curvado. . Atravessou a sala triunfantemente. a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros.Aquele vizinho. . apurando muito os finais em “s”.Olhem quem está aí! ..Ele não era formado. Já está na casa de saúde. . disse o Doutor Florêncio. .Decerto.Eu logo vi. chupado de rosto.

no dia seguinte. no meio da leitura.22 IV Desastrosas Conseqüências de um Requerimento Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da mesa de solo. dentro do nosso país. os autores e os escritores. e. por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem. portanto possuidores da organização fisiológica e psicológica para que tendemos. Era assim concebida a petição: “Policarpo Quaresma. de trabalho.toda a Mesa e aquela população que a cerca riram-se da petição. uma pequena mania. é a sua criação mais viva e original. largamente. Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento. ria-se o oficial da ata. prorromperam em gargalhadas. é a única capaz de traduzir as nossas belezas. o documento que chegava à Mesa da Câmara.controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica. portanto. mas não aquele recebimento hilárico. na tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de Ismênia. de uma hilaridade inocente. o falar e o escrever em geral. o tupi-guarani. com especialidade os gramáticos. que estavam próximo à Mesa.usando do direito que lhe confere a Constituição. ao abrir-se a sessão da Câmara. O secretário. não se entendem no tocante à correção gramatical. Senhores Congressistas. e. as seções dos jornais referentes à Câmara. O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável ao elevado trabalho de legislar não permitiram que os deputados o ouvissem. certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil. vendo-se. deixando de parte os argumentos históricos que militam em favor de sua idéia. mas vieram outros e outros. Demais. A força de idéias e sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em atos imprevistos com uma seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão. Os que riam. ao ouvi-lo. ria-se o contínuo . havendo em alguns tão fraca alegria que as lágrimas vieram. aglutinante. Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade . Merecia raiva. sem fundo algum. ria-se. havia de sentir uma penosa tristeza. os jornalistas. Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço. querendo sempre conter o riso. discretamente. pelo fim. por ser assim. oriundas de uma difícil adaptação de uma língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal . O suplicante. certo também de que. ódio. de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta de clown. diariamente. que. por esse fato. não lhe sabiam a causa e só viam nele um motivo para riso franco e sem maldade. de forma que o que pareceu no começo uma extravagância. O primeiro fato surpreendeu. porém. certamente inconvenientes à majestade do lugar. se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua. ouvindo aquele rir inofensivo diante dela. funcionário público. sabendo. evitando-se dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais. assim como se se estivesse a rir de uma palhaçada. além. de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais. de sonho generoso e desinteressado. surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma . a emancipação política do país requer como complemento e conseqüência a sua emancipação idiomática. sobretudo no campo das letras. cidadão brasileiro. já ria-se o presidente. língua originalíssima. o secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular e que veio a ter uma fortuna de publicidade e comentário pouco usual em documentos de tal natureza. pede vênia para lembrar que a língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo. se tinham desenrolado com rapidez fulminante. um deboche de inimigo talvez. vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupiguarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. porém. A sessão daquele dia fora fria. se apresentou logo em insânia declarada. O riso é contagioso. publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.

o Major Quaresma fez aquilo. gente que fica mais terna. à proporção que fazia isso.Não. Nunca sofrera críticas. os sábios. sem se chocar com o mundo. a gente sente mais simpatia pela nossa espécie. não havia quem não fizesse uma pilhéria sobre ele. a sabença de textos de regulamentos e a boa caligrafia. Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue. vivia imerso no seu sonho. e a idéia o tomava. Nos meios burocráticos. quando se os encontra. mesmo tocados de um grão de loucura. se era casado. às competições. mais ingênua. deferimento. pois nada dessas cousas que fazem os ódios e as lutas tinha entrado no seu temperamento. incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Indagou-se quem era. ditos de todo o dia. e os inventores. de que vivia. vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança. a repartição ficou furiosa. mas os há e. Não há só uma questão de promoção. esses semanários de espírito e troça. se era solteiro. além de outras referências. É raro encontrar homens assim. com comentários facetos.23 P. examiná-la detidamente. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na rua. o texto vinha cheio dele: o Major Quaresma disse isso. o absorvia cada vez mais. e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. quer? Com mais ou menos espírito. “O açougue Quaresma”. Vivendo há trinta anos quase só. os comentários não cessavam e a ausência de relações de Quaresma no meio de que saíam fazia com que fossem de uma constância pouco habitual. é recebida com a hostilidade de uma pequena inveja. com as pessoas com quem falava. vivendo numa reserva de sonho. o avassalava. cousas com que a sua alma e o seu coração nada tinham de ver. a curiosidade malsã quis mais. às ambições. embora a estimasse mais que a todos. legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro: . e E. A continuidade das troças feitas nos jornais. adquirira a candura e a pureza d’alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa. recordar os autores e autoridades. trocava pequenas banalidades. então! eram de um encarniçamento atroz com o pobre major.O senhor tem língua de vaca? O açougueiro respondia: . À medida que engolia uma troça. pesar-lhe todos os aspectos. os grandes estudiosos. Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio. a sua própria convicção mostrava a inanidade da crítica. quem não ensaiasse um espírito à custa da lembrança de Quaresma. Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva. Desinteressado de dinheiro. só temos língua de moça. este requerimento do major foi durante dias assunto de todas as palestras. nunca se atirou à publicidade. Fora deles. ao anonimato papeleiro. uma superioridade que nasce fora deles. mais inocente que as donzelas das poesias de outras épocas. É como se se visse no portador da superioridade um traidor à mediocridade. Levaram duas semanas com o nome do subsecretário. ocupou uma página inteira com o assunto da semana. a ligeireza da pilhéria. mais orgulho de ser homem e mais esperança na felicidade da raça. e. de glória e posição. Os pequenos jornais alegres. que é feita e organizada com outros materiais que não os ofícios. Com uma abundância que marcava a felicidade dos redatores em terem encontrado um assunto fácil. de interesse pecuniário. ele não conhecia ninguém. uma pilhéria. a maneira com que o olhavam na rua. Publicado em todos os jornais. há uma questão de amor- . Tudo isso irritava profundamente Quaresma. adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor cousa. Um deles.” Assinado e devidamente estampilhado. compará-la a cousas semelhantes. e. segundo o Major Quaresma”. Não ficaram nisso. exasperavam-no e mais forte se enraizava nele a sua idéia. Intitulava-se a ilustração: “O matadouro de Santa Cruz.

quando surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua nomeação. na assiduidade ao trabalho. ainda trazia mais desordem àquela coleção de cousas caras. Era uma instalação burguesa. uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o assentimento de todo o mundo. era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha. um resto da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu humilde colega de desgraça. mas projetava casas e grandes edifícios. não punha. Assim. Ele se havia habituado a ver no doutor nacional. Ela quer um doutor . um imenso monograma sobre a porta da entrada. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma cousa! Pretensioso! O diretor. viúvo. pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre. A extensa publicidade. o seu sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e superiores. cara. irregular e indisciplinada. mas. aquele galé como eles. os bacharéis. que avançava pelos lados.que arranje! Com certeza. olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. Ambos são assassinos. havia já alguns anos. com algum direito a infringir as regras e os preceitos. tinha um razoável jardim na frente. A casa ficava ao centro do terreno. não terá ceitil. pouco de acordo com o clima e sem conforto. uma espécie de arquiteto que não desenhava. com mais títulos à consideração. um viveiro. mas chamou-o logo de doido. bem e ao gosto dela. mas eu tenho e as cousas se acomodam. a sua inteligência. a um ecletismo desesperador. todo o arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do que ela. os bibelots e a fantasia da filha. onde morava o seu compadre Coleoni. Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres nas informações.pensava ele . No interior o capricho dominava. que o fato tomou. tudo obedecendo a uma fantasia barroca.24 próprio. nos pilares do portão da entrada e outros detalhes equivalentes. Rico com os lucros das empreitadas de construções de prédios. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da menina. mas não encontrou também assentimento. dous cães de louça. é doutor. bacharel ou dentista. na redação. lá. mesmo na prisão. às olhadelas superiores dos ministros. as indiretas. Não encontrou resistência. . aquele amanuense. O major sentia bem aquele ambiente falso. era uma cousa inocente. varanda. pontilhado de bolas multicores. Já se viu! dizia o secretário. quem o encaminhava nas distrações e nas festas. Em começo. aqui. onde pelo calor os pássaros morriam tristemente. elevava-se sobre um porão alto. essa má vontade geral. o seu fantástico não se dariam bem com as rudezas e a simplicidade campônias de seu auxiliar. a incompreensão da obra ou do mérito do colega é total e nenhum deles se pode capacitar que aquele tipo. e julgou muito aceitável comprar a satisfação de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis. o marquês ou o barão de sua terra natal. A brusca popularidade de Quaresma. Coleoni aceitava de bom coração esta doce tirania. ainda o nobre e o burguês trazem o ar do seu mundo. portanto. Em geral. sujeito aos regulamentos. e a examinava com mais atenção. e meditava. Primeiro sondou a filha. os tapetes. atingiu o palacete de Real Grandeza. voltava à idéia. do que os que têm nomeada e fama. mesmo os doutores. as sanefas. Queria casar a filha. é visconde. faça qualquer cousa que interesse os estranhos e dê que falar a uma cidade inteira. O colega arquivista era o menos terrível. nenhum obstáculo ao programa de Olga. aos caprichos dos chefes. vistosa. no gosto nacional. de sentimentos feridos. as maledicências ditas ao ouvido. aparecem as pequeninas perfídias. Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades. ao passar pela secretaria. Cada terra tem a sua nobreza. o antigo quitandeiro retirara-se dos negócios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e tinha todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha. Os móveis se amontoavam. Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o assassino marquês que matou a mulher e o amante. como eles. Viúvo. aquelas alusões e isso mais aumentava o seu desespero e a teimosia na sua idéia. aquele seu ar distante de heroína. vendo aquele colega.

cheio de tenacidade e candura perfeitamente paternais. Mas ele ia. quando chegavam tais visitas. Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker. mas os jornais faziam tanta troça. Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. não sabendo fingir. . mas não foi isso que o fez suspender o jogo. tendo praticado. Até aí ele ia bem e calcava a contrariedade. e. guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado. comparar um com outro. deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade das amigas e das colegas de Olga. tinha em grande consideração a erudição do compadre. Ele não compreendeu bem o requerimento. Conforme o seu velho hábito. as colegas da filha. despediu-se à meia-noite cheio de delicadeza. um dos parceiros. com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado à leitura. Quase sempre. não lhe era sempre possível fazer isso. na Europa. ele assim o quisera e a fizera. continuou a jogar. Não se aborrecia. a dar opinião sobre o tecido. . Um homem honesto não ia fazer aquilo! E na segunda. de origem humilde e aldeã. ia para o interior da casa. aceitava e sempre perdia. caíam tão a fundo sobre a cousa. Que perdia? Uns contos . que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa. Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade deste mundo: . Pacheco deu-se por desentendido. Quando vieram a jogar outra vez e o passe foi posto em prática. Entretanto.. alguma falta grave. Gostando de dormir cedo. de bailes de festas e passeios caros. de que fazia parte o conhecido advogado Pacheco. como um duplo respeito pelo major. oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio. de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de casamentos. Adquiriu a certeza da trampolinagem. saltitando de casa em casa de modas atrás da filha. achar este mais bonito. seria também? E na terceira? Não era possível tanta distração. é que Pacheco jogava com seis cartas.A diferença é pequena: joga-se com seis cartas. por inadvertência. como. Europeu. tinha que se conformar. Coleoni afastava-se. tinha que perder noites e noites no Lírico. Apesar de ter enriquecido. A primeira vez que Coleoni deu com isso. Perdeu e muito. suas irmãs. isto é. apesar dos bastos anos de Brasil. Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas cheio de complacência de pai que quer enobrecer o filho. com uma falta de sentimento daquelas cousas que se adivinhava até no pagá-las. para no fim do dia ter comprado meio metro de fita. um novo sistema de jogar o poker? . porém. os seus desdéns dissimulados. conteve-se com uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro. somente. Ele ficara sempre empreiteiro. porém. mas daí quem sabe? Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilhéria. e a ganhar. Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha. quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do Arsenal. calou-se.Os senhores sabem que há agora. Só o contrariavam bastante as visitas. ainda não sabia juntar o saber aos títulos.Qual é? perguntou alguém. demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo. Coleoni lia de manhã os jornais. nos bailes. era obrigado a andar horas e horas pelas ruas.uma ninharia! A questão. com seus modos de falsa nobreza. Havia nele não só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício. com poucas idéias além do seu ofício. e esperou. fez alguns comentários sobre a partida e não voltou mais.25 Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos da menina. amando estar sentado em chinelas a fumar cachimbo. no mistério. Chegou mesmo a formar uma roda em casa. nas grandes festas e recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta nobreza da terra que o freqüentava. uns grampos e um frasco de perfume.. muito profundamente. pareceu-lhe simples distração do distinto jornalista e famoso advogado.

.Per la madonna! Alemão é língua.Che! Então? . depois de conquistados pelos austríacos. seguindo o seu sonho. . não! E ele pensava.Como? .Mas não há loucura alguma. Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação. ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai. que quer dizer isto? Non capisco.De juízo.Todos os brasileiros. e a outra.Hoje. irritou-se. Leu de novo o requerimento. e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões italianas. observou Coleoni. franceses. onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã.Como? Então é cousa de um homem bene? .. obscuro e tenaz. quando o Carmo disse lá do fundo da sala. todos. A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal o requerimento e os comentários.Homero. . É ousado. Como eram cegos! Ele que há trinta anos estudava o Brasil minuciosamente.vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações. entende o senhor? .. tupi é daqui. Por mais que quisesse. quando falava português.. Vivia dividido em dous: uma parte nas obrigações de todo o dia. .26 Não é. Em princípio.Acujelê é da África. punha nas palavras uma rouquidão singular.Pode ser. na preocupação de provar que sabia o tupi.Per Bacco! É o mesmo. Está doido! . a língua brasileira. papai. ele que. encheu-se de uma raiva surda. mas tendo adivinhado que o supunham insciente no tupi. foi de piedade simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia há tantos anos. procurava meios de se reabilitar. Neste falava o bom senso e nela o amor às grandes cousas.Isto vai causar-lhe transtorno. . E ele tinha razão. fora obrigado a aprender o rebarbativo alemão.Olga. os lorenos. mas de doido. .Non capisco. de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que os jornais reprovavam. papai. ... dizer é outra.. e foram obrigados a falar alemão. caía em distrações. .Tutti? . não foi decerto o de reprovação ou lástima. com acento escarninho: . Tinha começado a passar a limpo um ofício sobre cousas de Mato Grosso. . o subsecretário suportou bem a tempestade. Chamou a filha. também não. ecco! . meu pai.Olga! Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque. mas não entendeu o que ele queria dizer.. mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. isolado. mas. agora esse acujelê.O padrinho quer substituir o português pela língua tupi. .. isto de saber é uma cousa. é um plano. não saber tupi. . nós não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi. O expediente fora grande e ele mesmo redigira e copiara uma parte. talvez não seja. que se continha dificilmente.que suspeita miserável! Que o julgassem doido .Ma che cousa! Não é possível? . O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. mas. mas não de todo doido.É uma idéia. e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de admiração pelo atrevimento do major. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. aos arrojos e cometidos ousados. talvez. a única que o era . em virtude desses estudos. talvez à primeira vista absurdo. . pois. Os tchecos têm uma língua própria. fora dos moldes.

em injúria. .produção muito elogiada pelos colegas. fosse pela alusão do funcionário Carmo. Sociologia e Moral? . Viu a letra. a escola da Praia Vermelha. Dessa forma. o primeiro estabelecimento científico do mundo.Não sabe! que diz? O diretor levantou-se da cadeira. Enfim.27 Quaresma nem levantou os olhos do papel. O diretor não reparou.Então o senhor leva a divertir-se comigo. oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas estrangeiras? Creio que há um aviso de 84. deu com a distração. lembrou-se da distração e confessou com firmeza: . Censurado! monologava o diretor. um conto . a respeito do assunto. Viver tantos anos a sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim. para que ele examinasse. talvez por causa da molecagem de um escriturário! Ainda se a situação mudasse. disse o coronel.de um amanuense em ofensa profunda..Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática. uma dupla coroa de sábio e artista cingia-lhe a fronte. foi ao gabinete do diretor. voltou-o de trás para diante.. . Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam furiosamente. devolveu o ofício e censurou o Arsenal. .Pois não. Além disso escrevera no Pritaneu. tendo em todos os exames plenamente e distinção. . Mande-o cá. por causa do “yy”. não é? . Tantos títulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos. após três dias de meditação. senhor Doutor Rocha..Mas. o homem mais hábil da secretaria.Fui eu.Quem escreveu isso? O major nem quis examinar o papel. O diretor olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades de empregado zeloso.O aviso de 84 trata de ortografia. Veja. O funcionário limpou o pince-nez. os contínuos andavam numa dobadoura terrível e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em chegar.. porque era bacharel em direito e não dizia cousa alguma.“A Saudade” . tendo em vista esta informação e várias outras consultas. com os lábios brancos e a mão levantada à altura da cabeça. Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de legislação. a revista da escola. Ao acabar. mesmo em Descartes ou Shakespeare. mas logo vieram outros empregados com o trabalho que fizeram. foi ao chefe e disse com ênfase e segurança: .. Novas preocupações afastaram a primeira. assinou e o tupinambá foi dar ao ministério..Como? fez Quaresma espantado.. O major encaminhouse pensando nuns versos tupis que lera de manhã. Química. o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a peça oficial para o idioma indígena. pô-lo de pernas para o ar e concluiu que era grego. Astronomia.Então confessa? . Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar lá. na honra de sua casta e na do estabelecimento de ensino que freqüentara. Inteirado do motivo. Que língua era? Consultou-se o Doutor Rocha. esqueceu-se e o ofício em tupi seguiu com os companheiros.. Mas Vossa Excelência não sabe. indagou o chefe. entretanto não parecia regular usar uma que não fosse a do país. Física. Tinha sido ofendido três vezes: na sua honra individual. O ministro. O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio. Mas qual! O secretário chegou. o Doutor Rocha... examinou o ofício e pela letra conheceu que fora Quaresma quem o escrevera. inteligente e. . agarrou o papel. Fosse pelas palavras em tupi que se encontravam na minuta. Foi informado de que a legislação era omissa no tocante à língua em que deviam ser escritos os documentos oficiais. Ia-se por água abaixo o seu generalato. transformavam aquele . andou-se de mesa em mesa pedindo auxílio à memória de cada um e nada se encontrara a respeito. assíduo.não sabe . .

lá na entrada da baía. de cuja ausência os corpos raramente se ressentem. pegou no chapéu. indignadamente. sonhar consola. aos domingos.. esse espanto. não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte. esse terror do povo por aquela casa imensa. E os dous separaram-se. . Ricardo avançou algumas palavras: .. uma espécie de pavor de cousa sobrenatural. O hospício! É assim como uma sepultura em vida. com o seu passo acanhado e as calças dobradas nas canelas. deixando à esquerda e à direita. mas. hein major? . não tem nada! Considere-se suspenso. espanto de inimigo invisível e onipresente. Quaresma era doce. No primeiro aspecto. de títulos. como um criminoso.. talvez.. em face do mar imenso e verde. severa e grave. um pensamento muito forte. atravessara o átrio ladrilhado. E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Nunca fora seu propósito duvidar da sabedoria do seu diretor.É bom pensar.Tenho. quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para onde. Chegando à sala do trabalho nada disse. a fala. 10 em Mecânica. Ele não tinha nenhuma pretensão a sábio e pronunciara a frase para começar a desculpa. ferozmente. . a Caridade e Nossa Senhora da Piedade. na bengala e atirou-se pela porta afora. hoje. enterramento do espírito. Mais de uma dezena já subira aquela larga escada de pedra. . com seu alto gradil. 10 em Hidráulica. que não deixava de olhá-lo furiosamente. como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser. senhor coronel. na Praia das Saudades. da razão condutora. 9 em Descritiva? Então?! E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava fuzilado. pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em Cálculo. cava abismos entre os homens. meditando sobre o angustioso mistério da loucura. triste e absorvido no seu sonho e na sua mania. mas faz-nos também diferentes dos outros. penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas. quando viu aquela enxurrada de saber.Mas. prolongar a existência. Saiu abatido. quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade. filho. subira outra escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima. . a se estender por uns centos de metros. perdeu o fio do pensamento. V O Bibelot Não era a primeira vez que ela vinha ali. meio hospital. suas janelas gradeadas. um semienterramento. uns três ou quatro meses. .28 Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho aí. foi ao livreiro buscar uns livros. com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro. A saúde não depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida. parece que tem uma idéia. as idéias e nada mais soube nem pôde dizer. meio prisão. sobraçando o violão na sua armadura de camurça. meditabundos. mas de há muito tempo. Com que terror. Só o nome da casa metia medo. viam-se uns homens calmos.Consola. não de hoje. 8 em Astronomia. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros. como monges em recolhimento e prece. . visitando Quaresma. diziam. . do gabinete do coronel. cambaleando como um bêbado. Entrava-se. até segunda ordem. bom e modesto. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado a Rua do Ouvidor. não se compreendia bem esse pasmo. Saiu afinal. pensativos. Pinel e Esquirol.Cedo.É verdade. a sobrenadar em águas tão furiosas. Seu pai a trazia às vezes. Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao certo.Não tem mas.O major. se tanto. Deu umas voltas.

decaído dele mesmo que um ataque se seguia e não podia ser evitado.. perdia-se logo a idéia popular da loucura. aqueles ares aparvalhados. um silêncio.. uma idéia de velho sem conseqüência. na sala de visitas. o seu orgulho de classe. e eram só os três a visitá-lo. o entrechoque de tolices ditas aqui e ali. a mania de não sair. um falar que não se sabia donde vinha. o angustioso mistério que ela encerra. chamando a si os interesses da família e evitando a demissão de que estava ameaçado. os melhores. oscilava entre a crença de que aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples. transformando-a em aposentadoria. as fúrias.. depois o irmão. Mas que era aquilo? Um capricho. dentro de si. para se apossar e viver das aparências das cousas ou de outras aparências das mesmas. na sua inexperiência e ternura de irmã. com negócios. no começo. os amigos. de que ponto do seu ser tomava conhecimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclismo. Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias. era tal a emoção ao vê-lo ali naquela meia-prisão.. O pai vinha lendo os jornais e ela. outros como alheados e mergulhados em um sonho íntimo sem fim. de se dizer perseguido. sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados. O ar era macio e docemente o sol faiscava nas calçadas. de quando em quando folheando as revistas ilustradas que trazia para alegrar e distrair o padrinho. o real eram os inimigos. Estava há uns meses no hospício. Ao mesmo tempo.. porém. aquela agitação desordenada.29 De resto. Aquele domingo estava particularmente lindo. nada disso valia. com emprego seguro. A velha irmã. dos outros e do mundo. alguns idiotas e sem expressão. No fim. uma fantasia. Não havia nada disso. a loucura declarada. e agora entrava naturalmente. desde os pés à cabeça. como fora? A princípio. uma ordem perfeitamente naturais. recalcou porém. os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não chegava a criar. ela teve um certo pudor em se misturar com os visitantes.. A casa. nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda. às vezes o pai só. que o fazia tremer todo. pondo em destaque . Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado. atarantada. e a irmã não o podia visitar. sem direção. mas. e via-se também a excitação de uns. Vinham ela e o pai. clara e respeitável. cousa que acontece a cada passo. aquele falar sem nexo. pensando. donde saía. sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer cousa ele nos invade. regrado. Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava. Ele estava como pensionista. Depois. Eram sombras. o pai. com as autoridades e pessoas influentes. entretanto bastou um grãozinho de sandice. principalmente em Botafogo. que nos rebaixa. atordoada. algumas vezes Ricardo. embora assim.. feito não sei de que inexplicável fuga do espírito daquilo que supõe o real. nada disso tinha existência e importância.. Educada em casa sempre com um homem ao lado. E enfim? A loucura declarada. nos toma. era uma calma. a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra. mais viva em face à atonia de outros. aquele ofício? Não tinha importância. aquele requerimento. é que se sentia bem o horror da loucura. Para ele. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio. uma simples distração. quando se examinavam bem. os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. esse pensamento egoísta. cousa sem importância. aquelas faces transtornadas. ela não sabia lidar com o mundo. Com o seu padrinho. a exaltação do eu. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após. que seria dele? Como é fácil na vida tudo ruir! Aquele homem pautado. aparências. o escarcéu. de imaginar como inimigos. tinha uma aparência inabalável. Enfim. E essa mudança não começa. e enchia-o de indiferença para tudo mais que não fosse o seu próprio delírio. não se sente quando começa e quase nunca acaba. nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos. sem saber que alvitre tomar. os trejeitos. Era tal o seu abalo de nervos. com aquela entrada silenciosa. honesto. o seu padrinho.

mas vocês que têm sido tão bons.30 a sua elegância natural. Guardas. pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente: .Bem. meias. o mar infinito e melancólico. havia de toda a gente. num ligeiro sorriso. às vezes livros e jornais. Mandou lembranças e não veio porque. Coleoni tinha-se sentado.. . com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem noutro mundo.. e era tal a variedade de aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o império da doença sobre todos aqueles infelizes. o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que inventamos. para se pensar em caprichos pessoais. de várias condições. Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo do bigode já grisalho. como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar. Ao vê-los disse amavelmente: . hão de levar tudo isso para conta da própria bondade.Como está Adelaide? . entravam com respeito. Lá fora. para melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar... Sinto incomodar-te tanto. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer completamente. num mutismo feroz e inexplicável.Então vieram sempre. Chocando-se com aquele meio.. outros indiferentes. essas abnegações. mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado. O pai e a filha entreolharam-se.E o Ricardo? A afilhada apressou-se em responder ao padrinho.a beleza da natureza imponente e indecifrável.. Como em todas as portas dos nossos infernos sociais. o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas queriam rebentar. os elegantes e os pobres.É melhor esperar um pouco. tanto ela variava neste ou naquele.Está bom. Os bem-vestidos e os mal-vestidos. as montanhas a se recortar num céu de seda . tinha o sentimento da grandeza deles. pareciam que não queriam conhecer-se na rua. os inteligentes e os néscios. Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada. os cabelos pretos estavam um pouco brancos. os feios e os bonitos. Quem tem inimigos deve ter também bons amigos. a loucura.. em seguida. Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas. A moça interveio de pronto: .. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase acabada. chinelas. padrinho. Vou melhor. Não é só a morte que nivela. Quaresma também e a moça estava de pé. pois se o punham ali. houve logo nele uma reação salutar e necessária. Coleoni. internos e médicos passavam pelas portas com a indiferença profissional. Tinha emagrecido um pouco. com concentração. Via-o já escapo à semisepultura da insânia. Quaresma estava melhor. os ares macios. embora mais assíduo nas visitas. em ditames das vontades livres de cada um. mas o aspecto geral era o mesmo. quer sair? Quaresma não respondeu logo.O major já está muito melhor. .. com alvoroço e alegria. outros mantinham-se calados.. Verificando isso. adiantou Coleoni.Coitada! disse ele. No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio. Dos doentes uns conversavam com os parentes.. era o dia lindo. perguntou: . e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste. e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e como que dá o próprio movimento da vida. Os visitantes não se olhavam. Amava esses sacrifícios. Estava doido. Estava à espera. pois a sua natureza inteligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu espírito fazia. . nascimentos e fortunas. Num dado momento aventurou: . E ela pensava como esta nossa vida é variada e diversa.. fumo. notava as melhoras do compadre com satisfação que errava na sua fisionomia. quase teve satisfação. e ficou contente consigo mesma.

Os dous afastaram-se tristes.Que tem. . não convinha fatigar a atenção do convalescente.Sabe. sinhazinha. e como que punha uma sombra no dia muito claro. . . que começava a soprar. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho: . meu sinhô!.. foram indo ao longo da fachada do manicômio até lá. Olga não podia colher e registrar esse anelo.É o Senhor Armando Borges. No Instituto dos Cegos. ainda indeterminado na sua emoção e na sua inteligência. Queria sentir que gostava.. mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos. que são a agitação. É tão difícil ver nitidamente num homem.31 . cheio de uma irremediável tristeza e respondeu: .não sabia. interrompeu o padrinho sorrindo. padrinho.Antes fosse. hirto. doutorando. as suas estreitas ruas desertas. tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia sair daquelas cousas todas. É bom ver-se a cidade nos dias de descanso. disse o italiano. . O dia estava fresco e a viração.Ah. vou casar-me. o movimento de carros. da sua tristeza e da sua solenidade. Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde.. levando n’alma um pouco daquela humilde dor. Ela não sabia bem o que era. uma velha preta a chorar. E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção. Casava por hábito de sociedade.Esperamos que seja por aí. era o fora do comum. com as suas lojas fechadas. sempre bom. das ondas espumejantes. quando as idéias e os desejos se entrelaçam e se embaralham. E os dous acompanharam-no com familiaridade e contentamento. E por que casava? Não sabia.Decerto. a filha olhou-a com interesse e perguntou no fim de um instante: .. A visita não se demorou muito mais. Na porta de uma loja ou .É um rapaz... O bonde tardou um pouco.Gostas muito dele? indagou o padrinho. Coleoni começou a comover-se. minha velha? A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar. Gostava de outro? Também não. E por entre lágrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais. Os dous saíram sem esconder que iam esperançados e satisfeitos. Um filho.Morreu? . que a fascinasse ou subjugasse. O Pão de Açúcar erguia-se negro. era a força de projeção para as grandes cousas. padrinho? fez Olga gentilmente. Em meio do caminho.. mas estava que não.. Coleoni. onde os passos ressoam como em claustros silenciosos. não tinham o “quê”. É triste.Foi “cousa-feita”. . Era conveniente que fosse rápida. Enxugou as lágrimas e concluiu: .. . era como um estranho. Tomaram. Era um bom sinal. o que ela sonhara que era bem possível tomasse a nuvem por Juno. confirmou o pai. solene. Desceram no Largo da Carioca.É verdade. Como não estivesse o veículo no ponto. de vinte a trinta anos. encostada ao gradil. encontraram. tão bom.. A cidade é como um esqueleto.Gosto. .Quem é teu noivo? perguntou Quaresma. não lhe respondia às perguntas. faltam-lhe as carnes.. uma cousa que não vinha dela . esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino. A Olga vai casar-se e nós vínhamos preveni-lo. chegou-se a ela: . coitado! E continuou a chorar. não chegava e extremar na percepção das suas inclinações a qualidade que ela queria ver dominante no homem. de carroças e gente.Então é para depois do fim do ano. Ela não sabia responder aquela pergunta. . úmido e doce.. Um impulso do seu meio. um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade. enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. Chegou. Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo que a ferisse. Era o heróico. Está satisfeito.

A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. Não é por mim. solenemente por um decreto. mas não sendo entendido em cousas oficiais. Nada há mais grave do que a gravidade com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o cálculo. envergados em corpos fartos de matronas sedentárias. . tanto ele como Dona Adelaide. encontrara nele certo apoio moral e intelectual de que precisava. De resto. como se se tratasse de mecânica celeste. Ricardo Coração dos Outros gostava do major. e a cousa demora um mês. A irmã nunca entendera direito o irmão.é um inferno! O caso era de pôr um autor em maus lençóis. A sua educação que se fizera. cartolas antediluvianas ao lado de vestidos pesados de cetim negro. Os pequenos serviçais e trabalhos. Aposentado o sujeito. Dona Adelaide não estava só. Lá foram. ficaram a cargo de Ricardo.Não sei como há de ser.sofria na sua glória. Ricardo viera visitá-la e conversavam. os passos para ali e para aqui. Os outros gostavam de ouvir o seu canto. Nasceu-lhe essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão. no centro daquele pequeno jardim que desapareceu. . produto de um lento e seguido trabalho de anos. apreciavam como simples diletantes. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros. e da sua lhaneza. a cousa corre uma dezena de repartições e funcionários para ser ultimada. Coleoni era o procurador do major. e o domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos humildes. Tinha os versos escritos. grupos de caixeiros com flores estardalhantes. vencera a resistência da máquina burocrática e a liquidação estava anunciada para breve. os filhos do negociante brincam em velocípedes. com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos.É o diabo! continuou ele. vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida. Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo. Aborrecia-se com o rival. por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto. Graças à popularidade de Ricardo. autor muito conhecido na mesma cidade. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras já apareciam nas janelas. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. de Córdova (República Argentina). como eles agora. escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua força. É verdade que as sabia de cor. por vezes. O Largo de São Francisco estava silencioso e a estátua. Pediram. porém. notícias do amigo e do irmão. Delicada. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse à casa de Quaresma. atiram bolas e ainda mais se sente a diferença da cidade no dia anterior. com a crise não o ficou compreendendo melhor. ele contava à velha senhora o seu último triunfo: . quando este entrou seguido da filha. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu. suportava a mania de Ricardo. mas a música não. É um trabalho árduo. entregou ao Coração dos Outros aquela parte do seu mandato. pedindo exemplares de suas músicas e canções. Eu não guardo as minhas músicas. casais que iam apressadamente a visitas. esse de liquidar uma aposentadoria. e segundo: por causa das suas teorias. Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos e só encontravam. não podia admitir que ele preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem. parecia um simples enfeite. Foi isso que ele anunciou a Coleoni. mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. meninas em cassas bem engomadas. lhe tinha escrito. ele agora sofria particularmente . a questão é que se perde uma ocasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro. Dona Adelaide. Ricardo estava atrapalhado. entretanto. não escrevo . que os desempenhara com boa vontade e diligência.32 outra. O Senhor Paysandón. como se diz na gíria burocrática. mas o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra. mais até. mas o sentira profundamente com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.

Como vai o general? . Era um castigo. Cavalcanti.Obrigada. Precisava afastá-lo. como cousa irremediável que absorvia toda a sua atenção.33 Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos.ela não podia mais com isso. tocando violão. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francesas. essa outra idéia: não casar. não havia mal algum.Não o tenho visto. Era difícil encontrar. Cousa difícil! Namorar. .Lá para o fim do ano. . Por fim. rebaixada diante de todas. Tem tempo. em face do seu abandono. mostrar a sua superioridade indiscutível. embarcara para o interior..Não pude ir hoje. era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento. ao contrário: o talento do rapaz levantava a sua pessoa. .. Esse suplício que se repetia em todas as visitas. mas a velha Adelaide. do seu nariz duro e fortemente ósseo. de uma aplicação mais séria de energia mental e física. era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. achou um subterfúgio. estava condenada a não se casar. e ela que esperara tanto. julgava. mas como? A réclame já não bastava. e fora a primeira a noivar-se ia ficar maldita. queria fugir à conversa.Vai casar-se. E além disso com aquelas teorias! Ora! Quer que a modinha diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice! E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um obstáculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua glória. fazer acenos. O Violão. Ele deve andar bem. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor. impudentes e irritantes. tão incapaz de um sentimento mais profundo. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão.. Pensou num jornal. tanto as perguntas como as considerações. mas a filha sempre vem aqui. . atualmente recolhido ao hospício. dançar.. Decididamente. A Quinota ia casar-se.Pouca cousa. de manhã. Se ele tivesse um homem notável. a ser tia. E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o casamento. a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a apavorava.coitadinha! Dona Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do general. quase a fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. e não mandara nem uma carta nem um cartão. e ela.. vinha-lhe sempre à consciência. disse a moça. . mas irei domingo. Dona Olga? Parabéns. Para Ismênia. o rival a empregava também. Parecia até que ambos estavam contentes com aquela fuga inexplicável de Cavalcanti. por intermédio do instrumento considerado. A menina tinha aquilo como um rompimento. quando. . aquela marcha gloriosa e invejada para o casamento. aquele Jacó de cinco anos. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse célebre. um grande literato. Quase não se lembrava das feições do noivo. acrescentou Coleoni.. Como eles se riam durante o carnaval! Como eles atiraram aos seus olhos aquela sua viuvez prematura. escrever cartinhas.. era trabalho acima de suas forças.Quando é. de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos. fez ela. ir a passeios . perguntando: . o estafeta não lhe entregava carta. há três ou quatro meses. mas felizmente em via de cura. a vitória estava certa. sentia-o muito. independente da memória dele.Conversou bem. E ela se sentia vexada. esmagá-lo. Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma. mas voltavam ao mesmo assunto. Olga? perguntou Dona Adelaide.. dos seus olhos esgazeados. durante os folguedos carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas. Arranjar outro era problema insolúvel. mais loquaz e curiosa que comumente. era o inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa. que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra. disse ele. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se. Está mais gordo? . em que ele desafiasse o rival e o esmagasse numa polêmica. não só Ricardo. desmoralizava o misterioso violão que ele tanto estimava. desolada . mas. a Ismênia é que anda triste. o Genelício já estava tratando dos papéis. .

traziam à pobreza de sua imaginação imagens risonhas de rios claros. que corrói interiormente. E a conversa já tinha virado para outros assuntos.É orgulho? perguntou ainda Olga. quando a Ismênia veio fazer a sua visita diária à irmã de Quaresma.Não sei. tinha ainda uma alegre esperança. disse Ricardo. lugares de sossego e pureza que a reconfortavam. . comentou: . comprimida... acabando de contar o desastre da triste Ismênia.Recebeste carta.. Fala pouco. Por fim Dona Adelaide lhe perguntou: . Sente-se a sua tristeza. jabutis.Merecia um castigo isso.Qual! fez Dona Adelaide. bem vivos. por não poder arrebentar de qualquer forma. . Era-lhe doce chorar. Ismênia? . sentada. Há três meses. florestas imensas. disse Ricardo sentenciosamente. cobras.. Mas pelo que pude perceber. Levou tanto tempo noiva. parece que ela tem medo de falar para que as cousas não venham a acontecer. As pálpebras estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e expansão. Ricardo moveu-se na cadeira. contida.metialhe raiva. Também aquelas cantigas gritadas. não acham? Coleoni interveio com brandura e boa vontade: . berradas.Era o melhor. ela passava os dias deitada. vinham como reprimir a mágoa que ia nela.. . O sofrimento dava-lhe mais atividade à fisionomia. com grande economia de voz.. respondeu ela. mas o que fazia bem à sua natureza pobre. mas para o que não lhe sobrava força bastante e suficiente. num ritmo duro e de uma grande indigência melódica. . Senhor Vicente! . mas o escárnio da irmã que lhe dizia constantemente: “Brinca. De resto. O noivo partira um mês antes do carnaval e depois do grande festejo carioca a sua tortura foi maior.E ela ainda o espera. marchetada de papeluchos multicores. ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua. vivos. sem atividade doméstica qualquer. mas não fala. veio atirar ao chão uma figurinha de biscuit. eram os cordões. Indagou da saúde de Quaresma e depois calaram-se um instante. aqueles vestuários extravagantes de índios. .Ainda não.34 Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles que lhe parecia indecente e hostil. abafada. disse sorrindo Dona Adelaide. Sem hábitos de leitura e de conversa. Talvez? Mas a carta não vinha. e voltava ao seu pensamento: não casar. a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Dona Adelaide? perguntou Olga.Não sei bem. . aquele ruído de atabaques e adufes. minha filha. É antes moleza. Se fosse orgulho. que se esfacelou em inúmeros fragmentos. Há muita gente que tem preguiça de escrever. Então. não. Mergulhando nessa barulheira. Ismênia! Ele está longe. . preguiça. Batendo com o braço num dunkerque..Não há razão para desesperar. . É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos.. que pedia uma explosão de gritos. ela não se referia de vez em quando ao noivo. aqueles adornos de uma mitologia francamente selvagem. se fala diz meias palavras. de tambores e pratos.. o incômodo do general não é grande e Dona Maricota julga que ela deve arranjar “outro”. Nas horas da entrega da correspondência.Não. quase sem ruído.Não volta.. Dona Adelaide. para espantar os maus pensamentos. o seu pensamento repousava e como que a idéia que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça. a raiva terrível de gente fraca. Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava. . comprimida. e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas. jacarés. Ninguém entende essa moça. vai aproveitando” . .Eu creio que ela não tem mais prática.E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni.

e uma estrebaria coberta de sapê. muito abatimento moral. A habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte. no mundo. um carreiro. por estrada de ferro. Embora nunca tivesse sido alegre. Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. com um desarranjo imperceptível. a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes. está atrás dele.e era só. conversando com os seus companheiros. que nos impele e em cujas mãos somos simples joguetes. penetrado da tristeza do manicômio. Eu. Olga dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e filialmente: . ter o seu pomar. quem se lembrara. Foram mais seis meses de repouso e útil seqüestração que mesmo de uso de uma terapêutica psiquiátrica. e uma varanda com uma colunata heterodoxa. Quaresma saiu envolvido. já não se irá a loucura. atravessando o regato e serpeando pelo plaino. formando a subida para a maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos. mas o sonho que cevara durante tantos anos. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas de campo. enclausurado em sua casa de São Cristóvão. sabia o nome e nada mais. pobres que se queriam ricos. De todas as cousas tristes de ver. Voltou a sua casa. a sua horta. mais adiante. triste e taciturno. é alguém que vê por ele. Além desta principal. o sítio do “Sossego”. onde se dedicava a modestas culturas. é a mais depressora e pungente. mas. tinha outras construções: a velha casa da farinha. interpreta as cousas por ele. Em vários tempos e lugares. sem coragem de sair. faz pensar em alguma cousa mais forte que nós. todos com janelas. ao vermos um louco desarrazoar. não acha? . o aspecto tranqüilo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte. com casas. um regato de águas paradas e sujas cortava-a paralelamente à testada da casa. se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo. a duas horas do Rio. no manicômio. a “noruega”.. matei muita gente . naquele ermo lugar. sábios a maldizer da sabedoria. entretanto. resignadamente. sabe? Sou Átila. a loucura foi considerada sagrada. Não fora ele. pensamos logo que já não é ele quem fala. porém. como se chamava. e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando. A casa erguia-se sobre um socalco. Quaresma viveu lá. Vendo-o naquele estado de abatimento. vastas salas. que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada. de um e de outro lado. Aquela continuação da nossa vida tal e qual. sou Átila. Não havia três meses que viera habitar aquela casa. mas não era belo. Saíra curado? Quem sabe lá? Parecia. que nos guia. sob tal aparência.O padrinho por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas. possuía.. deles todos. por entre os bambus da cerca. olhando para o levante. e era também risonha e graciosa nos seus caiados. e foi para levantar o ânimo que se recolheu àquela risonha casa de roça. Sou Átila. Em frente. saía da esquerda e ia ter à estação. mas a vista das suas cousas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha impregnado. a mais triste é a loucura. Tinha fracas notícias da personagem. mas profundo e quase sempre insondável. dizia o pacato velho.. Tinha. não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem comum embora. daquele que mais se admirou. fora a afilhada que lhe trouxe à idéia aquele doce acabar para a sua vida. que a inutiliza inteiramente. após ter passado seis meses no hospício da praia das Saudades. invisível!. o trem passava vincando a planície com a fita clara de sua linha capinada. ignorantes a se proclamarem sábios. uma espécie de degrau. porém. amplos quartos..35 SEGUNDA PARTE 1 No “Sossego” Não era feio o lugar. onde via ricos que se diziam pobres. foi de um velho e plácido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha Átila. olhava uma planície a morrer nas montanhas que se viam ao longe.

a minha horta. e. tão simpática. Ele foi contente.. minha filha. antes da morte.. cujo nome . alegre e saudável? E era agora que ele chegava a essa conclusão. docemente.“Sossego” . o feijão. e também os salários.Em toda a parte . sem ar.Mas como no Brasil.. no trabalho agrícola.É verdade. travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras. agora propriedade de outras mãos. Esperava grandes colheitas de frutas. dos aipins. Não sentiu que aquela vasta sala. durante tanto tempo! Chegara tarde. há poucos países que as tenham. era uma forte base . sem luz. de outros tempos. fosse servir para salão de baile fútil. com o seu teto alto e as suas paredes lisas. Que magnífica idéia tens tu! Há por aí tantas terras férteis sem emprego. de grãos. quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz. Vou fazer o que tu dizes: plantar. O terreno estava amanhado e só esperava uma boa semente. ele foi em pessoa ao mercado buscá-los. para melhor demonstrar a força e o poder da tenacidade.. Então pensou que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas instituições e costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida. e muito contente ficou em vê-la monetariamente atraente. farta. de legumes. tirando as despesas. calculou que cinqüenta laranjeiras. criar. A moça esteve quase arrependida da sua lembrança. e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu à afilhada: . e do seu exemplo. Não lhe voltou a alegria que jamais teve. por assim dizer. Não ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado. a alegria e a fortuna.então é que te convencerás como são fecundas as nossas terras! A idéia caiu-lhe na cabeça e germinou logo. ódios de família . fosse testemunhar talvez rixas de casais desentendidos. trinta abacateiros. talvez destinada ao mercenário mister de lar de aluguel.ela tão boa. após a tempestade que o sacudira durante quase um ano. apodrecer numa banca. das batatas. nasceriam mil outros cultivadores. E foi obedecendo a essa ordem de idéia que comprou aquele sítio. Planejou a sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus projetos. quanto aos preços.cabia tão bem à nova vida que adotara. oitenta pessegueiros. Encarou-a por todas as faces. e meu pomar . Pareceu-lhe que ia atear no espírito do padrinho manias já extintas. . mas por haver nisso mais uma demonstração das excelências do Brasil. não por ambição de fazer fortuna. respirar um ambiente epidêmico. tão doce.36 Tão taciturno que ele estivesse. a batata-inglesa... além dos abacaxis (que mina!).. meu padrinho? . sustentar-se de maus alimentos. abrigo calmo dos seus livros durante tantos anos. facilmente. Com que alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São Januário. Seria ocioso trazer para aqui os detalhes dos seus cálculos. depois de ter sofrido a miséria da cidade e o emasculamento da repartição pública. tirado da terra. em que se tinham incrustado os desejos de sua alma e toda ela penetrava da exalação dos seus sonhos!.não acha.. pesou as vantagens e ônus.há terras férteis. abandonado. A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo.. de hectare cultivado. esse de tirar da terra o alimento. . mas não a ponto de que não pudesse. das abóboras e outros produtos menos importantes. Tu irás ver as minhas culturas. cultivar o milho. Indagou dos preços correntes das frutas. e veio-lhe a atividade mental cerebrina. apressou-se ele em dizer. podiam dar o rendimento anual e mais de quatro contos. dos legumes. outras árvores frutíferas. Levou em linha de conta a produção média de cada pé de fruteira. do carinho. as perdas inevitáveis. baseados em tudo que vem estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional.. mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral. estando em breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro. não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia à lembrança da moça. alegremente! Oh! terra abençoada! Como é que toda a gente queria ser empregado público. O milho pode dar até duas colheitas e quatrocentos por um. sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em casas apertadas. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por ano.. Era um velho desejo seu. virente e abundante a dispensar os argentinos e europeus. livre..

as mangas capitosas. para o trabalho do campo.37 agrícola. Demais. Zoologia. Ele falava com a sua voz mole de africano. Lá ia. bacurubus. o verão estava no auge. Anastácio? . este caminho estava naturalmente indicado.. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviômetro. e cobertos de uma medusina cabeleira de erva-de-passarinho. . as abobreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de pólen. ao lado. preás. de troncos rugosos. um capoeirão grosso com camarás. por onde sabia que as terras eram povoadas de tatus. A parte mineral era pobre. as jacas monstruosas. Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel. areia e. os jambos.. apelava para as suas recordações de antigo escravo de fazenda. os abacateiros. avinhados. os animais também. cheios de galhos mortos. . As primeiras semanas que passou no “Sossego”. sem “rr” fortes. De manhã. as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos. e dentre tudo aquilo surgia uma linda mulher. os pêssegos veludosos. O major logo organizou um museu dos produtos naturais do “Sossego”. O capim e o mato cobriam as suas terras. com terras tão férteis. deixar crescer e apanhar. logo ao amanhecer. patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco.Não “sinhô”. mas como não fosse época própria à poda e ao corte dos galhos. aqui e ali. a se enfileirar pelas encostas das colinas.Estou vendo se choveu muito. Não foram só os vegetais que mereceram as honras de um inventário. olhava-o espantado. Mineralogia e Geologia. Anastácio. recebendo a unção quente do sol. a permitir uma agricultura fácil e rendosa. Encomendou livros nacionais. cutias. em pequenos tocos. Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. as melancias de um verde tão fixo que parecia pintado. velhas árvores frutíferas. e outros espécimes. as mangueiras estavam sujos. como teorias de noivas. coleiros. Acabado esse inventário. e era quem ensinava os nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e sabido em cousas brasileiras. tabebuias. olentes. para alicerçar fortemente todos os outros destinos que ela tinha de preencher. As laranjeiras. Havia nela terra bastante. Vieram estes e foram arrumados e colocados convenientemente. mas Quaresma era inflexível e corajoso. ele mais o Anastácio. Os arbustos. saracuras. sem abandonar o instrumento. portugueses. Quaresma. tanto vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A dúvida do preto velho não durou muito. como quem assiste a um passe de feitiçaria. barômetros. sanãs. pluviômetros. Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata dera a Quaresma sólidas noções de Botânica. Isso de plantar é capinar. muito brancas. pôr a semente na terra. os abacateiros. seccionados longitudinal e transversalmente. tanto livro. O patrão notou o espanto do criado e disse: . de enxada ao ombro. passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma relação de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura. etc. O sol era forte e rijo. Anastácio assistia a todos esses preparativos com assombro. com o regaço cheio de frutos e um dos ombros nu. com um imaterial sorriso demorado de deusa . anemômetros. Anastácio. . franceses. mas como ele não tinha espaço suficiente e a conservação dos exemplares exigia mais cuidado.. cobras variadas. a deusa dos vergéis e dos jardins!.Para que isso. E ele viu então diante dos seus olhos as laranjeiras em flor. climas variados. tomou em consideração o conselho de seu empregado. munjolos. uns blocos de granito esfoliando-se. e as madeiras.era Pomona. As espécies florestais e campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares. comprou termômetros. argilas. higrômetros. e quando era possível com os científicos. Quaresma as empregou numa exploração em regra da sua nova propriedade. tinguacibas. os abacaxis coroados que nem reis. um culto pelo seu solo ubérrimo. Para que tanta cousa. a lhe sorrir agradecida. em herbário. a sopesar com esforço os grandes pomos verdes. tiês.. que o acompanhara. lá iam. com lentidão e convicção.Sabes o que estou fazendo.

mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de hábito requeriam. Esta refeição ele fazia mais demorada. escapando ao chão. a brilhar sobre um torpor de morte. Não chegava a entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado trabalho de tirar o sustento de nossa vida. intervinha humildemente. A irmã. doente. olímpico. ligeiro. dali. rápido. Ao fim de um mês. aquecidas rapidamente sobre um improvisado fogão de calhaus. cair. a arrancar torrões de terra daqui. demorando-se muito em cada arbusto e.38 Era de vê-lo. Não vá ficares doente. à sombra de uma fruteira mais copada. Era em vão. fê-lo perder o equilíbrio.. enchia-se de raiva e batia com toda a força. dizia ela. mas. . mas não o compreendia.. Quaresma. não foi senão pelo hábito de acompanhá-lo. Almoçavam mesmo no eito. Acabado o jantar. junto ao patrão. O pince-nez saltava. Havia em Quaresma um entusiasmo sincero. com grande alegria do irmão cultivador. é que o velho major percebia bem a alma dos trópicos. . Considerava-o silenciosa. É de leve.. raspando o mato rasteiro. muito pequeno. furioso. que não foi impossível a Quaresma acordar nos seus o jeito. míope.Está direito. O velho preto. não ficará nem mais uma touceira de mato. destruindo a erva má. partia-se de encontro a um seixo. Anastácio. a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo. a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. um escavador. para não ser nada. o fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos. Então. . assim. criava galinhas. Não se mete a enxada pela terra adentro. mais velha que ele. suava. mas em tom professoral: . fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de cavalaria. Quaresma agarrava-o. tentava outra vez. não partilhava aquele seu entusiasmo pelas cousas da roça. Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro e atirava migalhas de pão às aves. e. anos e anos. mãe dos frutos e dos homens. Às vezes. . feita de desencontros como aquele que se via agora. se viera viver com ele. batendo em falso.Sabes. lado a lado.. a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma piada irônica: bem-te-vi! O major enfurecia-se. Decerto. ela o estimava. atracado a um grande enxadão de cabo nodoso. a maneira de empregar a enxada vetusta. Adelaide. às vezes. fatigava-se. a força era tanta que se erguia uma poeira infernal. “seu majó”. que doideira! Seguira-o ao “Sossego” e.. que ele mesmo provocava. a beijar a terra. amanhã estarão as laranjeiras limpas. ele capinava razoavelmente.. contava-lhe a tarefa do dia. E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento de trabalho. coberto com um chapéu de palha de coco. entusiasmo de ideólogo que quer pôr em prática a sua idéia. aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incompreensível ódio pela enxada fecundante. Por que não seguira ele o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito. Conversava um pouco com a irmã. e o trabalho ia assim até à hora do jantar. de sol a sol. para entreter-se.. ele. ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que enrodilhava as folhas das árvores e punha nas cousas um forte acento de resignação mórbida. que um pequeno instrumento agrícola. consistindo sempre em avaliar a área já limpa.. olhava-o com piedade e espanto. O flange batia na erva. punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usá-lo da maneira ensinada. Se adoecem. Não se agastou com as primeiras ingratidões da terra. comidas do dia anterior. quando o calor parecia narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira. quando o irmão lhe contava as cousas do seu trabalho. aí por depois do meiodia. então. Neste sol todo o dia. Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí. de um sol alto. não seguido. Andar com livros.Qual. Capinava e capinava sempre até vir jantar.Não é assim. A sua enxada mais parecia uma draga. é porque não trabalham. quando o golpe falhava e a lâmina do instrumento roçava a terra.. O major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia à tarefa que se impusera. Por gosto andar naquele sol a capinar sem saber?. Anastácio. claro.. e houve várias vezes que a enxada. com a mão habituada. Há cada cousa neste mundo! E os dous iam continuando.

Adelaide? . luxo. não há novidade nem nenhuma exigência legal.Oh! Por Deus. com pouco mais de trinta anos. sem dar tempo que todo ele engordasse. mas tinha um aspecto desonesto.. É uma tradição do lugar que devemos manter. a nossa padroeira. fazia indagações sobre a vida do galinheiro: .Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui. Depois..Boas-tardes. ofereceu outro a Quaresma e continuou: .. Parecia que a fizera de repente e comia. Não posso. Vou incomodar-me.Que calor! Um verão como este nunca vi aqui. Era assim como a de um lagarto que entesoura enxúndia para o inverno ingrato.Tua afilhada deve casar-se sábado. estou. . mas noutro tempo!. a pedir isso ou aquilo.. Não é cousa de importância. continuou o escrivão.. e se devia ser gordo não era naquela idade. . Não era desmedida ou grotesca. . via-se perfeitamente a sua magreza natural. . não se incomode. Enxugou o suor.Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma. . Tem-se dado bem. a mais não poder. . galinhas. major? . as suas mãos continuavam magras com longos dedos fusiformes e ágeis. normal.Já nasceram os patos. tomei a iniciativa de vir incomodá-lo. pequenos e grandes.... de cuja irmandade sou tesoureiro.Que é que tem? É da tradição.. . esmolando disfarçadamente...Uma cousa nada tem com a outra...Pretendo. guardou o lenço. Este sítio já foi uma lindeza. nenhuma visita batera à porta de Quaresma. Ele mesmo não travara conhecimento com ninguém. se as duas faces eram gordas.. tu não vais? . Apesar de não ser religioso. olhou um pouco lá fora e acrescentou: . para a festa da Conceição. de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.O senhor sabe. . . mando um leitão e um peru. major.Nenhuma. mas o que havia nele de estranho era a gordura..Perfeitamente. Espere um pouco. É muito justo. E logo a irmã acrescentava: . major. porque. tenente! .Boas-tardes. Creio que o major.Não.. Desde que ali se instalara. gansos.. de forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais remediados.Venho pedir-lhe um pequeno auxílio.Isto hoje não presta.Oh! major. .Não. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos prêmios que ela comporta. .Eu sou o Tenente Antonino Dutra. Era um tipo comum. Faltam oito dias ainda. major. Não é para já. Desde já. portanto.Ora. com medo de a perder de um dia para outro. Faça o favor de entrar. . quando Anastácio veio avisar-lhe que se achava um cavalheiro na porteira. . O desconhecido entrou e sentou-se. escrivão da coletoria. . e foi mesmo por isso que vim para a roça. Já sabemos quem o senhor é... O visitante falou: .Muito bem. Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal..Ainda não. a gente daqui é muito pobre e a irmandade também. Ele já subia a pequena escada da frente e penetrava pela varanda adentro. tirou um cigarro. um óbulo. Através da gordura de suas bochechas. tu! Que presente! . daquela luta encarniçada entre patos.39 Ele gostava desse espetáculo.Pretende dedicar-se à agricultura? . a não ser a gente pobre do lugar. major! Quanta fruta! Quanta farinha! As terras estão cansadas e.. . Justamente estavam nesse dia assim a conversar os dous irmãos na sala de jantar da velha casa roceira. O escrivão tossiu..É justo.

Os dous se despediram.Então o major não se recusa a concorrer para a nossa festa. nessas tricas eleitorais. Estava tirando sardinha com mão de gato. Nada! O serventuário do fisco ficou espantado.. babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de deputados. essa de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicações com o resto do mundo. entretanto. . e traz.. não é? . Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas. desapareceu na estrada.Então não sabe? . O trem apitou e ele demorou-se a vê-lo chegar. pensam-se também más. disse ele com malícia. e . o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar pesquisador sobre a ingênua fisionomia de Quaresma. A alternativa angustia.. . major. não se incomodasse com a briga do Senador Guariba com o governador do Estado! Não era possível! Pensou e sorriu levemente. além de notícias gerais. Há uma mescla de medo e de alegria.Por que não se há de trabalhar aqui também? . também o gesto. Com certeza.. .Não. Apitou de novo e saiu a levar notícias. para depois arranjar-se sem dificuldade. de tirar dela seres.O senhor verá com o tempo. bom orador. luzidio de suor.. moço honesto.. no trabalho de fecundá-la. fora disso. quando a nossa vida pede tudo à terra e ela quer carinho. Aquilo devia ser um ambicioso matreiro. Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno castanho. luta. Havia no mundo um homem que. gordo e vivo. O sufrágio universal pareceu-lhe um flagelo. riquezas.Eu lhe explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto. como se nelas houvesse qualquer cousa de vital e importante... É uma emoção especial de quem mora longe.Eu.. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não exigia ela uma árdua luta diária? Por que não se empregava o esforço que se punha naqueles barulhos de votos. O major pensou ainda um pouco como aquilo era bruto . e o major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas. mas há tantas contrariedades na nossa terra que. .. cuja vida estava tão fora da esfera daqueles. Que pensa o senhor? .trabalho igual ao de Deus e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guaribas. Não atinava por que uma rezinga entre dous figurões importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente. Quaresma esperou o trem. . Na nossa terra não se vive senão de política.Lá isso é verdade. Ao dizer isto. Debruçado na varanda. Seu Antonino! Não há terras cansadas. um sorriso. era preciso cortar as asas daquele “estrangeiro”.Que questão é? indagou Quaresma. Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão.. boas ou más. mas entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se hão de sobrepor ao governo. que vinha não se sabe donde! .Mas lá se trabalha.Decerto... disse ele consigo.40 . Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação afora à luz forte do sol poente.Qual cansadas. O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria: .. . vidas . este malandro quer ficar bem com os dous. mas. meu caro tenente! Não há nada que não se vença. trabalho e amor. . sabendo e morando no município de Curuzu.Qual. de atas. a voz das pessoas que amamos e estão longe. só porque o Senador Guariba rompeu com o governador. O escrivão afastou-se. amigos. A Europa é cultivada há milhares de anos.apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao partido e nenhuma influência. tristezas por outras estações além.Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma. apagou a fisionomia e disse em ar de despedida: .. Não se demorou muito..zás .. O trem ou o vapor como que vem do indeterminado.. desanimado de penetrar nas tenções ocultas do major.O major é um filósofo. do Mistério.

Aquele fraque comprido. outras se afastam. Às vezes se sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante. adiante. logo adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva. Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais caixinhas. parede de frontal. em torno da qual formiga uma população.. são em geral pobres. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas. Além disto.Adelaide. há passeios em certas partes e outras não. evitando a custo que a lama ou o pó lhes empane o brilho do vestido. alugados à população miserável da cidade. Num trecho. há peralvilhos à última moda.. influiu decerto para tal aspecto. num quarteirão. é uma velha casa de roça. dessas de compoteiras na cimalha rendilhada. a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento e. dão voltas. Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets. e assim pela tarde. humildes e acanhados. podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros. Quem era? Aquele chapéu dobrado. os subúrbios têm mais aspectos interessantes. A topografia do local. Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem que caminhava com pressa. olhase acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique. são divididas. Um violão! Era ele! . feios e desleixados. algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. e como as invenções do nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os nossos educadores de dous mil anos atrás nos legaram. de repente se nos depara uma casa burguesa. circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.. porque os nossos. coberta de zinco ou mesmo palha... porém. é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida. compradores de garrafas vazias. e deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas.. penteados. há operário de tamancos. Há casas de todos os gostos e construídas de todas as formas. Olhou a estrada que levava à estação. que parece vexada a querer ocultar-se. II Espinhos e Flores Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa cousa em matéria de edificação de cidade. Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. há mulheres de chita. com sedas e brocados. conforme as casas. com varanda e colunas de estilo pouco classificável. Nada mais irregular. nem mesmo se encontram aqueles jardins. Aí.. como um morrião. quando essa gente volta do trabalho ou do passeio. Passo miúdo. as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas. Há pelas ruas damas elegantes. subdivididas. se os há. nesses caixotins humanos.41 e feio. castradores de gatos. e os minúsculos aposentos assim obtidos. cães e galos. as ruas se fizeram. está aí o Ricardo. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre um rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos. contínuos de escritórios.. há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora. de porta e janela. Além dos serventes de repartições. caprichosamente montuosa. pode ser imaginado.. e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa. mandingueiros.. Passada essa surpresa. sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino. mais sem plano qualquer. as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito. Às vezes. cuidadinhos. aparadinhos. mais caprichoso. nas ruas. Vinha um sujeito. .. com as suas vilas de ar repousado e satisfeito. Não há nos nossos subúrbios cousa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades européias.. Dirigia-se para a sua casa. a mescla se faz numa mesma rua. sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico. diante daquela onda de edifícios disparatados e novos. Casas que mal dariam para uma pequena família. mais influíram. Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento. os azares das construções.

fazem a vista boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe no programa um sabor de confusão democrática. farejou o mar lá longe. como aprendeu? O seu mestre. sem confidente. de branco. outros já afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Coração dos Outros. muito flexível nas suas grandes vértebras de carros. As casas pequeninas. um coqueiro ou uma palmeira. Ricardo. rápido.. como uma cobra entre pedrouços. Ela abaixava o corpo sobre a roupa. colhendo com a vista uma grande parte daquela bela. as suas satisfações.” Por que então aquele encarniçamento.. ensaboava-a ligeira. Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias. e recomeçava. se não lhes dava sentido. ainda na sua formação. Por aí. o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do levantamento da modinha e do violão. olhando da janela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos.. que. Era bela a terra. ele baixou um pouco o olhar à terra e viu. batia-a de encontro à pedra. feio como aquela terra. Ainda agora estava ele lá. Aquele tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma cousa. de que ele a modos que era e se sentia ser. amigo em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no solo indiferente. mas parecia ingrata e áspera no seu granito onipresente que se fazia negro e mau quando não era amaciado pela verdura das árvores. engastadas nas comas verde-negras das mangueiras. duas vezes triste na sua condição e na sua cor. de oca.ele que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma. carregava todo o seu peso. Com o olhar perdido. aqui e ali.. num cubículo desses se amontoa uma família. Com a lembrança. dava um quê de balbucio. e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel do trem. um tanto escondida dele. distraída com o trabalho.. no tanque da casa. sem amor. Ricardo lembrava-se de sua infância. mas era uma casa de cômodos dos subúrbios. a alma. Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina. uma rapariga preta lavava. pôs-se a pensar no mundo. Olhou um pouco as montanhas.. Às vezes. aquele ódio contra ele . de queixume dorido da pátria criança ainda. A viola. Ricardo.. consubstanciado os seus tênues sonhos e desejos em versos discutíveis. grande e original cidade. os seus triunfos e também os seus sofrimentos e mágoas. só como um deus ou como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova. A viola quer teu coração.. e tinha adeptos. lembrou-se dos famosos versos: Se choro. mas feraz como ela tanto que bastava comer dele uma pequena fatia para se sentir almoçado. e se pôs a cantar: . com a mão em concha no queixo. atravessa tudo aquilo. Não era das sórdidas.. E o violão. A rapariga não o viu. Veio-lhe um afluxo de ternura e.. e alguns mais ingratos! . uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não podem adivinhar. tendo de permeio. depois.42 catadores de ervas medicinais. sem amigo. não lhe predissera o futuro: “Irás longe. pintadas de azul.. E ele estava ali só.já esqueciam os trabalhos. E o queijo? Aquele queijo tão substancial.. mas que a plangência do violão. o suco. a substância do país! E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. ficando um instante enleado no enigma do nosso miserável destino humano. capital de um grande país. o Maneco Borges. inclinando-se para a direita. enfim. alta e soberba. Alguns já o citavam como rival dele. era majestosa. Sofria em não ter um peito amado. bebe o pranto a areia ardente. Em que pensava ele? Não pensava só. debruçado no peitoril. Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. os subúrbios têm a sua graça. só com a sua glória e o seu tormento. de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitavam. da casinha dos seus pais. com seu curral e o mugido dos vitelos. Vistos assim do alto. nas desgraças. dobrando à esquerda. Teve pena daquela pobre mulher. tão forte. era linda. E as festas? Saudades. sofria também... daquela sua aldeia sertaneja. e o trem minúsculo. e nem nomeavam o abnegado obreiro.

dispôs o papel. sentir a música zumbir no ouvido. Havia uma rede com franjas de rendas. o violão na sua armadura de camurça. tinha muito pó-de- . o último brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. abraçá-la. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção de escrever. mas menos interessante e mais comum de temperamento e alma. queima. E como eram as cousas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga.. Dona Alice. naquele tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexíveis. Havia também uma máquina para fazer café. Ela e o noivo fazem muito gosto que você apareça. os fins e o alcance da obra a que ele..Deus me livre! Para o senhor me “acriticar”. que já se ajeitava a moça. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher. reconheceu quem falava e disse: .. Sentou-se e quis começar uma modinha sobre a Glória. sim. era a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos do padre Caldas. sobre ela objetos de escrever. que nos alanceia.Vai bem. Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Não reconheceu a letra. Se o amigo não estiver comprometido com alguém. Tentou começar.Saúde . agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco . muito bom. Ainda se o major estivesse perto. Bateram à porta. Ah! o Quaresma! Esse. mas assim mesmo compreendia o seu propósito. se propunha. a terceira filha do general. inquieta e abrasa como o Amor. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado. senão não cantava na vista do senhor. Dona Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado. a rapariga não quis continuar. Enfim era uma missão!. mas quem? Ainda se o Quaresma. Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz. trazia-lhe conforto e consolo. espairecer com ele. fino. alguma cousa impalpável. vai bem! Se não fosse. quinta-feira.. toda a sua natureza tinha sido lavrada. As mágoas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. tênue. uma estante com livros. esse seu antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas: Lereno alegrou os outros E nunca teve alegria. começava a esquentar e o céu estava de um azul ligeiro”. com a idéia daquele furto que se queria fazer ao seu mérito. Não conseguiu assentar o pensamento. Iria e arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. descia e subia. Que seria? Leu: “Meu caro Ricardo .” O trovador. essa cousa fugace. e.Não sabia que o senhor estava aí. ternamente. Traziam-lhe uma carta. baralhada. para o respeitável militar. um sorriso brincava por toda ela.. .. quando acabou de ler o bilhete.Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom. apanhar as palavras no ar. uma cadeira. ia de uma face a outra. A manhã ia alta. mas não pôde. por que eu lhe pedia bis? A rapariga estendeu a cabeça. agradecidamente como se fosse um ídolo benfazejo. embora faceira.. pendurado a uma parede. que se tem e se pensa que não se tem. Contemplou um pouco o violão. É verdade que ultimamente esse seu amigo se achava pouco interessado pela modinha. mas tão longe! Consultou as algibeiras. A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter: .. incolhível como um sopro. O general não o abandonara. uma mesa de pinho. O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível.Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã. à proporção que lia. Não chegava a dous milréis a sua fortuna. . Como ir? Arranjaria um passe e iria.. demoradamente. mais socado. de feições mais regulares que a irmã Ismênia. Quinota estava radiante no vestido de noiva. Lalá. Cante. Ela era alta. Até então estava carregada e dura.Seu amigo Albernaz.43 Da doçura dos teus olhos A brisa inveja já tem Era dele. procurar um amigo. ia mudando de fisionomia. rasgou o envelope com emoção. Ricardo. Quis sair. Embora insistisse muito.. A emoção tinha sido forte.

o único filho do general. Esses...deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão. Por aí pôs o pince-nez. o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico. mas. impava no seu uniforme do Colégio Militar. A primeira frase da primeira parte. era o Contra-Almirante Caldas. o Major Inocêncio Bustamante. O ministro. não passou? perguntou Florêncio. muito penteados. bem encaminhado e inteligente. encasacado numa casaca mal talhada. endireitou o trancelim e continuou: . metido num segundo uniforme dos grandes dias. o general e os convidados novos.viu-se.” Além do prêmio e da transferência. com a sua banda roxa de honorário. quando o trovador os cumprimentou. . quem tinha um ar importante. não só pela novidade da idéia. e enquanto o limpava. tipo doze. apressou-se o major. e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz. O ingrato!.É um rapagão.Creio que casei bem minha filha: rapaz formado. que também viera de uniforme. com o seu vagar. olhando com aquele jeito dos míopes: . replicou o outro convidado novo. que era da amizade do recémcasado. fora até muito notada e gabada pelos críticos. o major não pôde deixar de observar: . ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga.O Genelício não está no Tribunal de Contas.Depois da militar.. Deram começo às danças e o general.Eu não quero falar dos formados. agradeceram-lhe muito. dando providências... . graças aos empenhos do pai.. o Doutor Florêncio. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e enfim pela primeira vez via realizado esse anseio. fez o Doutor Florêncio. e até Quinota disse um . que lhe ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado. Genelício dava o braço à noiva. na Imprensa Nacional. O general não tardou em vir falar com Ricardo. O general estava satisfeito. Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante. Mas para que recordar? Os cumprimentos se repetiram. Fora padrinho e estava irrepreensível na sua casaca do uniforme.Síntese de Contabilidade Pública Científica . pois. . As âncoras reluziam como metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos. Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só isso que o decidira a casar-se. O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro. escrito em estilo de ofício com uma vasta documentação de decretos e portarias.Sim. mandou-lhe dar dous contos de prêmio.. o almirante. cheio de dourados e cabelos.E que carreira! Não é por ser meu parente.44 arroz. ao mesmo tempo palaciano.. disse um dos convidados novos. Ismênia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente. mas com trinta e dois anos primeiro escriturário do Tesouro.“sou muito feliz. que punha bem à mostra a sua gibosidade. ocupando dous terços do livro. sem saber como. o seu novo genro.. Era um grosso volume de quatrocentas páginas. De fato. atendendo ao mérito excepcional da obra. Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa e receita do Estado. a melhor carreira é a da Fazenda. O Lulu. O almirante acudiu: . e os noivos. estava sempre a concertar o penteado e a sorrir para o Tenente Fontes. é cousa nunca vista.Estou muito contente. . como também pela beleza da expressão. com os seus gestos lentos. ao entrar. marcial e navegado. tendo sido a edição feita à custa do Estado. sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel.” . . tanto mais que passara de ano. A Ismênia foi aquela desgraça. Tendo escrito uma . a fila estava no general. não acham? .Passou. respondeu. alargavam a sua face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim. mas é a mesma cousa. Bem entendido.. cumulado de elogios pela “imprensa desta capital”. Ricardo não os viu passar. Um casamento bem cotado e esperado. Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.

então. o exato empregado como engenheiro das Águas. talvez o menos pacífico dos três.Polidoro tinha ordem de atacar Sauce. contadas pelo General Albernaz. para apreciar as narrações de guerra. disse alguém. porque o embarque equivalia a uma promoção. O general. Vamos. general? perguntou o convidado amigo de Genelício. Ele só vê a parte pitoresca. um honorário. . não é. Mas o Camisão. todas as profissões são boas. mas a nossa. .. obtemperou o almirante.Então. mas tem os seus percalços....Depressa. .quando Dona Maricota chegou sempre diligente. . . Inocêncio? . Na sala de visitas as danças continuavam com animação.. mas tem as suas “cousas”. o único que tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira . que anime as moças. que é isso? Ficou aí e eu que faça sala. Era raro que alguém viesse de dentro até onde eles estavam.... Os risos. exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai excepcional. que contrastava tanto com o seu corpo enorme. tendo tomado alguns vinhos generosos. Flores à esquerda e “nós” caímos sobre os paraguaios. alisando um dos favoritos. Adoeci e vim para o Brasil. a parte por assim dizer espiritual das batalhas. na passagem de Humaitá. dando movimento e vida à festa. .O senhor estava a bordo? . ia dizendo o almirante. Também na passagem de Humaitá. Estavam Ricardo. depressa.Isso não quer dizer nada. Mas. Era ribombar de canhões que metia medo. a cousa ficava edulcorada. Não é para desfazer das outras. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido: . Mas os malandros estavam bem entrincheirados. Pra sala todos! . boquiabertos e invejosos diante das proezas imaginárias daqueles três militares. isto é. morre um. os senhores! E foi empurrando um a um pelo ombro.Foi. contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.O senhor esteve lá. que a filha do Lemos vai cantar. perde a sua importância trágica: três mil mortos. fez com rapidez a dona da casa. embevecidos. e depois é o senhor.Não estive.. . fogo daqui. uma guerra bibliothèque rose. a brutalidade e a ferocidade normais. só!!! De resto. Albernaz? hein.45 Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira frase que lhe veio aos lábios: . Chico.Não. que nunca tinha visto a guerra. “seu” Ricardo. . “seu” Ricardo! . Todos se entreolharam admirados. eu fui mais tarde. A Morte mesmo. guerra de estampa popular. bala por todo o canto.Quando se prospera. aqueles dous recentes conhecimentos de Albernaz. Era mais moça que o marido. Está ouvindo. Atacamos com fúria. .Se estive lá. Não há como um cidadão pacato. a música. disse Inocêncio.....Foram os paraguaios. Quando se está numa trapalhada.. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bela. os tiros são os de salva e se matam é cousa de somenos. nas narrações feitas assim. Um inferno! . o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos.Quem venceu? perguntou um dos convidados novos. em que não aparecem a carniçaria. tinha ainda inteiramente pretos os cabelos na sua cabeça pequena. o Doutor Florêncio. hein. tiro dali.É. repeliram o nosso ataque. ativa. grita outro como em Curupaiti.. tinham aproveitado o tempo.Já vamos.. Dona Maricota. e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens das suas preocupações belicosas.Foi “seu” Mitre. “seu” Caldas.você sabe. dos encontros.... ... Não imaginam o que foi . é já. .Não é assim tanto.Não. Inocêncio? Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou: .. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado. bem comido. os homens morriam como moscas.

Aquele Quaresma podia estar bem. depois tenho certos desgostos. Palmas gerais.. .. com medo de perder as palavras: . A casa era alta e tinha jardim. É uma ordem. só de lá os curiosos. Modinha de minha composição.É a filha do Lemos. comentou: .. poucas casacas. O senhor sabe: um homem que tem nome. mas frias. Por entre as cortinas de uma janela..Pois não. macio e longo. O general esteve uns instantes de cabeça baixa.. general. O general contemplou-os e abençoou-os com um olhar aprovador. a modinha acabou. A moça. respondeu de um jacto. coçou o cabelo e disse: . em seguida. decente e de uma poesia exaltada. Coração dos Outros acrescentou: . Era vasta.Está no último ano do Conservatório.Isso é difícil. respondeu o general. fez o general.Tem uma bela voz esta moça. tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou com voz grossa: “Senhoritas. mui. e a decoração estava completa. senhores e senhoras. na repartição.46 . E foram. em que o violão estalava. observou ainda Albernaz. que não pego em livro. colocou a partitura e começou.Vocês não vêm! . agarrou o vilão. Depois de uma ligeira hesitação. afinou-o.Estou com saudades dele. Eu queria.” A atenção era geral.. música e versos. Havia um ou outro decote. a famosa filha do Lemos.. E depois. soaram. algumas sobrecasacas e muitos fraques. Emendou: “Espero que nenhum ruído se ouça. há bem quarenta anos. e perguntou: . houve uma parte rápida. . Da mobília não se podia julgar. E continuaram a andar.” Seus olhos. furiosos retratos a óleo de Albernaz e da mulher. Ainda andando... saltitante.Vá lá amanhã. conversava com o Tenente Fontes.. Concertou a voz e continuou: “Vou cantar ‘Os teus braços’. um passe. Deu começo.. ajuntou: . mas foi meter-se com livros. . Bem. A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa... o Doutor Lemos da Higiene. dispôs-se a cantar. dirigindo-se a Ricardo. mas você apareça lá.Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma? ..Já vamos. Lalá. O Doutor Florêncio que ficara atrás do general. podiam ver alguma cousa da festa..Canta muito bem. porque senão a inspiração se evola. Ele ocupou um canto da sala.Vai bem. depois. Principiou brando. para ir vê-lo. É isto! Eu. to ‘dê-licá-do’. tinha sido retirada. Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada: . Alternando um andamento e outro.. Chegou a vez de Ricardo. no vão de uma sacada. amanhã. minha senhora. quase saíam das órbitas.” Parou. O general suspendeu a cabeça. os “serenos”. Acabou.. A calçada defronte estava cheia. chegou-se a Coração dos Outros e perguntou: . Tinha dous grandes retratos em pesadas molduras douradas. gemebundo. É uma composição terna.Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem. . É o violão instrumento muito. um espelho oval e alguns quadrinhos. para dar mais espaço aos dançantes.Tem-lhe escrito? . como soluço de onda. Ricardo pôde ver a rua. Chegaram à sala.. por aí. correu a escala. . Foi ao piano. Quem é? . No caminho o general parou um pouco. levantou um pouco o pince-nez que começava a cair.O quê? Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta.Às vezes. Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto de uma moça bemeducada.

tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. de amor à ciência. E limpou os olhos furtivamente. Não seria muito com a noiva.aquela que nós exigimos das noivas ricas. nada de grego. embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela... Para fugir aos cumprimentos. Tal imagem que dele fizera. que não a aborreceram. de si para si. Tanto mais que ela. Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquele ato. depois foi a inércia da sociedade. a receber homenagens de um vilão que não “roçou os bancos de uma Academia”. equivalente àqueles com que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. Ficando rico e sendo médico. também.Não se esqueça. alto. O general abraçou-o. ouvindo falar em seu nome perguntou: . esteve longe de ser uma noiva majestosa.Pois então diga-lhe que me escreva. Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro por aí. Genelício levantou-se e deu-lhe a mão. em virtude de uma determinação certa de sua vontade. muito mesmo. No seu rosto. era pequena. As palmas foram ininterruptas. . e o melhor era não adiar. cheio de talento nas notas e recompensas escolares. dizia ela com meiguice.47 Aquilo tinha ido ao fundo de todos. no seu imaculado vestido de noiva. Quinota. mas a sua fisionomia era profunda e . seria outro a ele igual. quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide? . tão delicadas. Senhor Ricardo!” Voltou-se. é verdade que foi. e. Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título.Vai lá? . segundo o modelo das estampas clássicas. . com o seu pequenino lenço rendado.Depois de amanhã.Vou. com uma fisionomia irradiante de felicidade. desse modo. Olga casara-se. A noiva de Cavalcanti aproximava-se e.“Seu” Ricardo.Que é Dulce? A outra explicou-se. a sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a levaram ao casamento. dos véus e daqueles atavios obsoletos com que se arreiam as moças que se vão casar. Gosto tanto das suas modinhas. A cerimônia correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. Não foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade. não se esqueça. ou também dessa majestade de ópera lírica. glória e orgulho do nosso funcionalismo público. erecto. durara instantes em Olga.. mas pela sua simulação de inteligência. a sua beleza não era a grande beleza . nenhuma vontade estranha à sua influíra para isso. o pergaminho. em algum lugar deste Brasil. por sua vez. ao lado do noivo. não tanto pelo título.. “Que ordena minha senhora?” Era uma moça que lhe pedia uma cópia da modinha. mas com a volta que a sua vida ia tomar. De resto. espero eu. desse grego autêntico ou de pacotilha.. Havia nos seus traços muita irregularidade. duque de plenamentes e medalhas. ela desaparecia dentro do vestido. Ricardo correu à sala de jantar. III Golias No sábado da semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e giboso Genelício. São tão ternas. o sogro lhe dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo. mas que não a encheram lá de satisfação maior que as noivas comuns. O marido é que estava contente. Olhe: dê aqui a Ismênia para me entregar. com o desprezo de um duque. Eu queria tanto receber uma carta. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics. Era por isso que ela não ia para a igreja. aparentemente. Ela aceitou a incumbência e. perguntou a Ricardo com a sua voz dolente: .. mas. Não tinha fortuna alguma. pensava que se não fosse este. Não obstante as origens puramente européias. mas julgava o seu banal título um foral de nobreza. No corredor chamavam-no: “Senhor Ricardo. via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na indústria clínica. Apesar da pompa. . Talvez nem mesmo essa ela tivesse. de desmedidos sonhos de sábio.

Era o médico do lugar. A fama do seu nome precedia-o. não saíram da cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro. Elas se encontravam em T. Salão Rio de Janeiro. ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente nacional. ex-Imperador. porém. Chegara sábado e fora passear à vila domingo. janela com sacadas de grade de ferro. Nair. Marechal Floriano. que quase cobriam toda a cavidade orbitária. feia e pobre no seu estilo jesuítico. num campo. que ia ter à igreja. As conseqüências desastrosas do seu re. fazia fulgurar o seu rosto móbil. pela estrada de rodagem. enquanto a filha. Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile do Doutor Campos. A visita de Ricardo veio distraí-lo um pouco. Era um grande paralelepípedo de tijolo. ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil. assistir o ofício religioso. As outras partiam delas. fora. Ao contrário do costume. O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. mas Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior. cheio de caldeirões. Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro. depois iam espaçando. À esquerda da estação. com uns longos braços descarnados. exprimia bondade.. partia a da Matriz. e foi um triunfo. Foi na saída da missa que lhe apresentaram o Doutor Campos. mas mesmo assim.48 própria. era como se começasse a desertar da batalha. olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando eles partiram. . Havia certos circunstantes. até acabar em mato. O seu primeiro trabalho foi ir à vila.. ataviadinhas. O sítio empolgara-o. A antiga chamava-se Marechal Deodoro. cortava planícies e rios em toscas pontes. cimalha. e viera de “aranha” com a sua filha. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Continuavam as suas idéias profundamente arraigadas. A concorrência nunca é grande na roça. sem desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas. descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja. ficava a Câmara Municipal. tão-somente ele as escondia. ex-Imperatriz. cuja origem veio da ligação da velha com a estrada de ferro. malícia e o seu ar geral era de reflexão e curiosidade. puro estilo mestre-de-obras. Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída. a que ia dar uma rua mal esboçada por espaçadas casas. O trovador e o médico estiveram um instante conversando. para não sofrer com a incompreensão e maldade dos homens. Se bem que o major tivesse abandonado o violão. e a nova. presidente da Câmara. e não queria afastarse de suas terras. seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. o calor ia passar. onde iriam passar uma semana de reclusão e tédio. espaçando. perdendo um dia ou dous. determinada pelo velho caminho de tropas. Passou um mês com o major. e fez a barba. espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas. O fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. A vila!. se assim se pode chamar um trilho. cheias de laços. Não só a luz dos seus grandes olhos negros. ao alto de uma colina. sendo o braço vertical o caminho da estação. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé. Tinha duas ruas principais: a antiga. morava. como a sua pequena boca. mas gozava a sua vitória. Quaresma não o acompanhava. pálida. muito magra. a Praça da República. mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa carta. linfáticas e tristes. das semeaduras. À festa do Doutor Campos. as casas juntavam-se urbanamente no começo. e a nova. de um desenho fino. de forma que todo o município o disputava e festejava. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro. Quaresma não fora à festa. vinha a época das chuvas. festa que teria lugar na quarta-feira próxima.querimento em nada tinham abalado as suas convicções patrióticas. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da mesma natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade Média. na sua fazenda. um deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado. A viagem seria breve. em campo. que subia e descia morros.

Até as flores. .Não tenho nenhum desejo disso. longas pernas.Até aí não vou.Major. se não! Não se deve perder vaza. Era este um camarada magro. Era manhã de verão. pois. alto. major: eu gosto muito de violão. não acha? . o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho. ele falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção. que ainda não tinha partido para o eito: . se amanhã o Presidente dissesse: “Seu Ricardo. onde então queimaria em coivaras pequenas. para aproveitar como lenha. aí pelas seis horas.Decerto. que indicava bem naquela população a existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das modas e gostos estrangeiros. Durante o trabalho. meu caro Ricardo. entrava pela porteira trazendo o cavalo prometido. Presidente da Câmara. cultura nova em que depositava grandes esperanças. De manhã. O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato. Há quem cante. essas tristes flores dos nossos campos. custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos. .Cada um tem as suas teorias.. major: conhece o Doutor Campos? . Com isto era um tagarela incansável. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus dous empregados. o senhor pensa que eu não aceitava. foi uma boa idéia vir para a roça. Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces. Vive-se bem e pode-se subir. Ricardo recebia todas as honras. além do Anastácio.Podes.. Obtido ele.Sabe que ele é presidente da Câmara? Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança. os galhos miúdos e folhas.De nome.. O menestrel não notou o gesto do amigo e emendou: . Isso levava tempo. . não devemos rejeitar. Quaresma foi caminhando por entre aquele rumor de vida.Sei. e nos intervalos batatasinglesas. Eram agora dous. parece que tinham saído à luz. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele. . para dar um passeio ao Carico. porém. portanto. mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual.Conforme. . ele removia para longe. Evitava assim calcinar o terreno. Tinha a face cor de cobre. mas agregado. Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe.49 Gozava. Quaresma. major. não somente para a fecundação vegetal mas também para a beleza. Um camarada do Doutor Campos. anuns voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das árvores. . quando chegava. por parte de todos os partidos. Não digo que se peça. e fora para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos. admitira o Felizardo. e. todos os favores. entretanto. quando nos oferecem. sob uma aparência de fraqueza muscular. Naquela manhã até esperava um dos cavalos do edil. Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora. que não era bem um empregado. . faziam um roçado. a barba rala e. mas. era quem mais o cumulava de homenagens.. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra. esperando. . mas prometia dar um rendimento maior ao plantio. de longos braços. mas as chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura. não havia ninguém mais valente que ele a roçar. Posso trazê-lo aqui? . Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto. no lado norte do sítio. que o capão invadira. foi dizendo a Quaresma.Fazes bem. no momento. a fulminante vitória de Ricardo.Mora daqui a uma légua.. Você sabe como me são estranhas todas essas cousas. como um símio. bandos de coleiros. Outra cousa. . rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros. eliminando dele os princípios voláteis ao fogo. não lhe quisera atear fogo.. Olhe. Esvoaçavam tiés-vermelhos. você vai ser deputado”. já sabia todas as intriguinhas do município. É.Ele quer conhecê-lo. neste instante. O Doutor Campos.

. já nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural. na roça. Qual amigo! .. podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum perverso. as suas insinuações pela manhã. Que lugar! Uma catadupa. não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a idéia de que ele fosse amigo do Marechal Floriano.. ... .Tens composto muito. Afastou-se com o pau. Inda “trasantonte” ouvi “dizê” que o patrão é amigo do “marechá”. . Felizardo. por quem é? Felizardo não respondeu logo.Mas é falso. . . Senhor Ricardo? Não havia meio dela dizer “seu”.Negócio de partido.. Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel. e. meu “sinhô”. .Como se chama? indagou Dona Adelaide.50 . Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas. disse Felizardo logo que o major chegou. sentava-se à cabeceira.Que é que há. considerava. Vira os pais.. Apesar de todo o esforço de Quaresma..” Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. O major perguntou ao Felizardo: . os entusiasmos dele. Que maravilha! Aqui. Conheci-o. nem muito triste. Felizardo? O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte. patrão! . A sua educação de “senhora” de outros tempos não lhe permitia usar esse plebeísmo generalizado.“Quá!” fez Felizardo com um riso largo e duro. . de quando em quando. é que se tem inspiração. sempre com a sua matinée creme e saia preta. “Conheci-o no meu emprego” . incapaz de lhe estar armando laços para passar maus momentos. Felizardo. porém. dizer “senhor” e continuava a dizer.E você. junto à vontade de ser bom amigo.. raras não. Respondeu afinal: . não “sinhô”. Eu não sou amigo cousa alguma. Nada dizia: trabalhava e. Ouvi a modo de “dizê” lá na venda do espanhol.Muito. E nunca disse isso aqui a ninguém.Hoje acabei uma modinha. sem fingimento.. “Seu” Tenente Antonino quase briga ontem com “seu dotô Campo”. Era a velha quem sempre puxava a língua do trovador.dizia o major. .Onde? .Eu! Sei lá.. O patrão “tá” é varrendo a testada.Não sei. as palavras de Ricardo..Quem me dera. Anastácio estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro palrador. parava.Gostou muito do passeio. gente ainda fortemente portuguesa.. Quaresma indagou assustado: . Pelo que ouvi: “seu” Tenente Antonino é pelo “governadô” e “seu dotô Campo” é pelo “senadô”.Negócio de política. esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. Quaresma à direita e à esquerda.. quando voltou. entretanto. Que queria dizer aquilo? Demais. Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: “Quá! o patrão é fino que nem cobra.. mas sem sombra alguma de cogitações por parte dele. . . deixando de remover os galhos cortados. limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante: . Isso é bom pro “sinhô”.Eu sou como você.Na estação. Quaresma ficou um instante pensativo. uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada. E ele tomava aquela atitude de arroubo. Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. quando foi jantar. À tarde. numa postura hierática de uma pintura mural tebana. Anastácio era silencioso e grave. nem muito alegre. tanto assim que “doutô Campo tá” inchado que nem sapo com a sua amizade.Essa gente anda acesa por aí. Um “sarcero”. Dona Adelaide. atendia-lhe a conversa.. .Quem disse? . Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o tronco a remover. Ricardo? indagou Quaresma.Por quê? .“Os lábios da Carola”. em breve. naturalmente.. Ricardo.

51 . a moça se debruçou sobre o chiqueiro. era justo.. O jovem par contou a agitação política do Rio. Os bambus suspiravam. A terra já começava a amolecer. Sorria para os frangos. Acabando. criadas. dogmaticamente. Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida. Conversaram muito. dificilmente. difícil demonstrá-lo quando se viu diante do Doutor Armando Borges. fazendo roda. Dona Adelaide. noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham com a mãe chafurdar-se na comida. um culto pelo doutorado. Mas. Fora essa a única concessão que ao amigo fizera Policarpo. agarrava os pintinhos. o talismã. móveis quebrados. tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundária. . com as mãos presas. quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito. do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar. possuía em si uma particular reverência. Anastácio tirara o chapéu e olhava a “sinhazinha”. Ele não compreendia como o seu sogro. no tocante ao regime de seus trabalhos agrícolas. .. e solenemente vinha mergulhar a cabeça na caldeira. Ricardo levava agora o garfo à boca. e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro. Em seguida ia ao chiqueiro. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se. ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram trocadas e satisfeitas. Passada a emoção. à proporção que conversava. Levava sempre o pedaço de pão. minha senhora. pois. major. sem posição brilhante e sem fortuna. imponente. deixou-o suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção: . muito vivos e ávidos. apesar de tudo um homem rico. ficava um instante a considerar aquelas vidas. e demorava-se a apreciar a estupidez do peru.. mulher velha. as cigarras ciciavam. objetos partidos. E vieram aquelas estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos: Quando chegaste? Não esperava. sentenciosamente. É longe. para ver a atroz disputa entre as aves. talvez para que o efeito não se dissipasse. e. depois passou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou: . assistia Anastácio dar a ração. Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dous. em definitivo. pelo fim daquele beijo ardente e demorado do sol. Não lhe parecia bem aquela intimidade com um sujeito sem título. Após o jantar. ia conversando pausadamente. Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio. a revolta da fortaleza de Santa Cruz. mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade nacional. a epopéia da mudança. Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor. despejando-a nos cochos. que esfarelava em migalhas no galinheiro. de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia. Ouvindo passos. a dar estouros presunçosos. Está lá dentro. abraçaram-se. virava com a mão direita o grande anelão “simbólico”.Hás de no-la cantar logo. mas Quaresma ficava minutos esquecidos a contemplá-las numa demorada interrogação muda. O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. Sentavam-se a um tronco de árvore. de outra esfera..Quedê teu marido? . Padrinho! Olga! Mal se viram. que cobria a falange do dedo indicador esquerdo. Dona Adelaide. A tarde ia adiantada. mas os seus olhos tinham uma longa doçura bem humana que os fazia simpáticos. gozando aquele seu sobre-humano prestígio. Pela meia-noite . com o seu terno e vazio olhar de africano. A avidez daqueles animais era deveras repugnante. o major voltou-se.. e Quaresma olhava o céu alto. de uma particular consideração..Bonito! Já fez a música? Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. ao jeito de marquise. ainda implumes.A música. as rolas gemiam amorosamente.O doutor?. e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário se desse.Pois não. enquanto Coração dos Outros contava qualquer história. mantidas e protegidas para sustento da sua. é a primeira cousa que faço. e não lhe foi.

Adelaide. Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco. tinha os olhos úmidos e coçava sucessivamente a cabeça. Ela tinha aquela ampla maternidade das solteironas. ele aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Enquanto ela lia.” A velha senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. filiado ao partido situacionista.. pois parece que a falta de filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores dos outros. Nunca! O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. . O major ficou estuporado. O Antonino afirmava que havia de desmascarar semelhante tartufo. Ora! A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho: .. órgão local.O senhor se meteu algum dia nessa política daqui? .E não desmentiste? perguntou Quaresma.Que há. o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente.. Rasgou a cinta e leu o título.52 todos foram dormir com uma alegria particular... O correio chegou e trouxe-lhe um jornal.. perturbando-lhe a paz e a tranqüilidade”. Jeito não tens para isso Quaresma. . major? indagou o troveiro. Estava na varanda.Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo.Eu nunca!... Ricardo depois contou o que ouvira na vila.. Policarpo. meu cocumbi! Volta à mania antiga De redigir em tupi. Quaresma! Quaresma do coração! Deixa as batatas em paz Deixa em paz o feijão. quando lhe pareceu ler seu nome entre versos.“verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometer na vida particular e política da família curuzuense. Quaresma não foi logo para o trabalho. Pôs o pince-nez. Dona Adelaide disse então docemente: . tanto assim que dava esmolas. enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hino à transcendente beleza do céu negro.. O doutor se havia afastado. . Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo: “Lê isto. hebdomadário. Começou a leitura. Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas: POLÍTICA DE CURUZU Quaresma. Era o O Município. As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Estava pálido.Sossega. Notaram a alteração de Quaresma. Por isso só?. Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com política? E coçava os cabelos já bastante encanecidos.Isto seria uma covardia. meu bem. Olho vivo. distribuía remédios homeopáticos. Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de fazer política. O artigo de fundo intitulava-se “Intrusos” e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no lugar que moravam nele .. . Uma satisfação. deixava o povo fazer lenha no seu mato. Acordaram cedo. Tomou café e esteve conversando com o doutor. Vou até declarar que. recostou-se na cadeira de balanço e descobriu o jornal. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não atinava. não achava o motivo e o fundo de semelhante ataque. profundo e estrelado. ajuntando a irmã: .. A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada.

Onde é que você mora. Olga encontrou o camarada cá embaixo. Foram de manhã. o ar triste. nem grande nem pequeno. mas. os nossos lugarejos célebres. redondas ou oblongas. O marido. e.É doutra banda. tanta água. as famílias. para uso próprio. indagaria. A faina do roçado ia quase no fim. O Doutor Campos já travara relações com o major e. Anastácio estava no alto. como o esqueleto de um doente.Bons-dias. Na África. enquanto estiveram com ele os seus amigos. o grande trato da terra estava quase inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do sítio. . o passeio afamado era o Carico. Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores. de acordo com seu gênio. Os periquitos. ela não pôde ver outra lavoura. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade. o doutor. mugindo e roncando. Em geral. o espetáculo não era mais animador.. o seu desejo de saber. porque a filha do presidente era de um silêncio de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre novidades medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético? O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral. a falta de cultivo. andando de um para outro lado. Por que ao redor dessas casas não havia culturas. na estrada da vila. uma horta. Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho. Havendo tanto barro. houve cavalos e silhão que também permitisse à moça ir à cachoeira. cortando a machado as madeiras mais grossas. observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus propósitos de ataque. Era raro uma cabra. ela tinha dos roceiros idéia de que eram felizes. Felizardo? . aproveitou a ocasião para interrogar a respeito o tagarela Felizardo. ao fim de uma semana. A não ser o café e um milharal. os casais. Pensou em ser homem.É grande o sítio de você? . Aquilo era uma situação do camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal de La Bruyère que tinha face humana e voz articulada. saudáveis e alegres. talvez com fome.. Por quê? Mesmo nas fazendas. na orla do mato. na Cochinchina. as tribos. O major ficou profundamente impressionado com tudo. Todas soturnas. aqui e ali. um carneiro. outra indústria agrícola.O que se pode. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre a água ou sobre as pedras em pequenas manchas. maltrapilhos. a pobreza das casas. trabalho de horas? E não havia gado. para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro. Não podia ser preguiça só ou indolência. Educada na cidade. assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica. pousados nos galhos eram como as incrustações daquele salão fantástico. plantam um pouco algumas cousas para eles. “sá dona”. abatido da gente pobre. Olga e o marido passaram no “Sossego” cerca de quinze dias. na Índia. graças a ele. Os passeios não eram muitos. quase sem o pomar olente e a horta suculenta. incubou nos primeiros tempos a impressão. como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra. pelo flanco da montanha abaixo. Para o seu gasto. Felizardo? . Olga pôde ver tudo isso bem à vontade. e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias.53 Ricardo afirmou que sim. juntando. por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de varas. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos. despenhava-se em três partes.Estive ontem no Carico. o presidente da Câmara. sua mulher e a filha de Campos. de um verde mais claro. sorumbáticos!. não demonstrou preocupação. Em Curuzu. um pomar? Não seria tão fácil. O lugar não era feio. bonito lugar. A água estremecia na queda.. em toda a parte. mal alojados. o homem tem sempre energia para trabalhar relativamente. . já parecia cansado....Então trabalha-se muito. a ancinho. . Ela lhe falou: . uma cachoeira distante duas léguas da casa de Quaresma. as folhas caídas. Uma pequena cachoeira. baixas. de uns quinze metros de altura.

. . Fique certo! . Dona Adelaide. .. major. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. havia mesmo ocasião em que era até natural..Onde? . e Olga intrometeu-se na conversa: .. com as casas em ruínas...Na Europa. Foi vindo para casa. Isto é até uma injúria! . o menestrel cantou a sua última produção: “Os Lábios da Carola. Hoje vejo que é preciso..” Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Doutor Campos.Sim. E “frumiga”?. exceto Quaresma que logo disse com toda a força d’alma: ... Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide.. Por que esse acaparamento. À noite. Ricardo ouvia. As terras negras da Rússia.. o padrinho exclamava: . . ensaiava uns fosfatos.É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos. É assim. e o rugoso tronco se abriu em duas partes.. Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara. E a terra não era dele? Mas de quem era então.Mas se esgotam. é o mais bem-dotado e as suas terras não precisam “empréstimos” para dar sustento ao homem.. Deu uma machadada. seguro.. antes de desferir o machado. ainda disse: .. calada.Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do mundo! . Nós não “tem” ferramenta. não é assim. tanto mais que era hora de jantar e a fome lhe chegava. se eu fosse o senhor.“Sá dona tá” pensando uma cousa e a cousa é outra. com os olhos arregalados. não contando com a sua anterior educação e apoio dos patrícios. mas não pôde. que o governo dá tudo.. . Era certo. Governo não gosta de nós. de um claro amarelado. firme. por exemplo. tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela vira até fazendas fechadas. O jantar correu mais calmo. mas ninguém aludiu a isso.. esses latifúndios inúteis e improdutivos? A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar mais no problema. resumia ele. e. observou o doutor. Encontrou o marido e o padrinho a conversar..Que zanga é essa. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só para os nacionais.Decerto. colocou-o melhor no picador e.Você por que não planta para você? . Qual música! Qual nada! A inspiração basta!. avançou o doutor... isso é bom para italiano ou “alamão”. sim.Tem alguma terra. Todos se entreolharam. “sá dona”.. obtemperou Ricardo. Ouviram-no com interesse e ele foi muito aclamado. padrinho? . na Europa.54 .O senhor não é patriota! Esses moços. major. e então? “Quá. . .Na Europa! . estavam todos recolhidos.Há mais férteis.Terra não é nossa. Aquele perdera um pouco da sua morgue.Pois fique certo. sá dona!” O que é que a gente come? .Senhor doutor. o Brasil é o país mais fértil do mundo. o tronco escapou. Quando ela chegou. quando comecei a tocar violão. Desferiu o machado. major. Enquanto planta cresce. antes das onze horas. sá dona”.. seguia com atenção o crochet que estava fazendo. não queria aprender música. aduziu o doutor.O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro. onde o cerne escuro começava a aparecer.. senhora.“Quá. quase iguais. major. para os outros todos os auxílios e facilidades. O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante: .. Eu.

sem imaginação. deitado. não havia a mínima bulha. vestuário. e o foram mordendo pelas pernas. achou e correu daquele ínfimo inimigo que. Felizmente não. contudo. Para Dona Adelaide. outras. Ia procurar nos cantos. Era uma bela velha. elas. Quaresma lia. A existência calma. médias e claras. médio. tudo modesto.. ao longe o horizonte. Os sapos recomeçaram o seu hino. Da despensa. Apurou o ouvido e prestou atenção. de inteligência lúcida e positiva. O major levantou-se. nem mesmo à luz radiante do sol. e sobre ele em nada reagia aquele ser metódico. Eram formigas que. uma se seguia à outra. Fria. belezas. duas. gritou. em que suspendia todos os movimentos. A casa estava em silêncio. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ela nunca tivera qualquer. mas eram milhares e cada vez mais o exército aumentava. uma espessa cabeleira já inteiramente amarelada e um olhar tranqüilo. dava depois um . porém. não sonhara príncipes. IV “Peço Energia. Os batráquios pararam. cem. a irmã de Quaresma. de idéias simples. o regente deu uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. Quaresma pôde ler umas cinco páginas. fincava o olhar no chão. demorava-se assim um instante. nada viu. Na aparência até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma. quando sentiu uma ferroada no peito do pé.55 Quaresma chegou a seu quarto. vinha um ruído estranho. gestos e atitudes logo se havia de ver que o sossego e a placidez não moravam no seu pensamento. que deixavam outros cair ao chão. pôs-se a ler um velho elogio das riquezas e opulências do Brasil. perdido em cisma. Moça. isto é. calmo e doce. era viver. despiu-se. e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinário! pensou. se mais vagarosamente se examinassem os seus hábitos. Descobriu a origem da bulha. vinte. enfiou a camisa de dormir e. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a fúria à sua pele magra. mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterrânea. do lado de fora. Ela não entendia nem procurava entender a substância do irmão. desejos. Debatia-se para encontrar a porta. Ela já atingira aos cinqüenta e ele para lá marchava. em pelotões cerrados. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orquestra noturna. isso quando no trabalho da roça. num dado instante todas se juntaram num uníssono sustentado. parecia que quebravam gravetos. por um buraco no assoalho. emolduravam e realçavam naquele interior familiar a agitação e a inquietude. Havia vozes baixas. Suspenderam um instante a música. depois outra. de um brilho lunar de esmeralda. a vida era cousa simples. talvez. Demoraram muito. outras mais altas e estridentes. Sigo Já” Dona Adelaide. assim mesmo como estava. doce e regrada que tinham levado até ali concorrera muito para a boa saúde de ambos. ter uma casa. pelos pés. ordenado e organizado. jantar e almoço. Veio uma. nunca houve entre eles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. coçando uma mão com a outra. Que era? Eram uns estalos tênues. com um corpo médio. Os sapos recomeçaram. subindo pelo seu corpo. Não se vá supor que Quaresma andasse transtornado como um doido. o ruído continuava. Se não casou foi porque não sentiu necessidade disso. o visse distintamente. Não pôde agüentar. Não tinha ambições. Quis afugentá-las. O seu aspecto tranqüilo e o sossego dos seus olhos verdes.. mordeu-o. Quase gritou. paixões. cujos recipientes tinham sido deixados abertos por inadvertência. dez. durante minutos seguidos. mas ambos tinham ar saudável. triunfos. e prometiam ainda muita vida. sapateou e deixou a vela cair. O major apurou o ouvido. a bulha continuava. Estava no escuro. Matou uma. o alanceado do irmão. nem mesmo um marido. poucos achaques. lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão. em camisa de dormir. uma tez que começava a adquirir aquela pátina da grande velhice. e carregadas com os grãos.. tinha uns quatro anos mais que ele. O chão estava negro. Abriu a porta.. Ocasiões havia em que ficava a olhar. que ficava junto a seu aposento. em tudo formava um grande contraste com o irmão. agarrou o castiçal e foi à dependência da casa donde partia o ruído. o sexo não lhe pesava e de alma e corpo ela sempre se sentiu completa.

a não ser no jantar e nas primeiras horas do dia. eles viviam separados. sem se preocupar com os que já existiam. o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações registradas num caderno. lá vinha seca. mas como? Se não o acusavam. saía errada. conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa importância. Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos. jazia pendurado na varanda sem receber um olhar amigo. Quaresma na roça. a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de bebedouro às aves. lucrar e viver. Ricardo havia seis meses que não lhe visitara e da afilhada e do compadre as últimas cartas que recebera datavam de uma semana. Um fato veio mostrar-lhe com eloqüência um dos aspectos da questão. baseada em combinações dos seus dados. nas plantações. unidos aos seis e mais. se não articulavam nada contra ele diretamente? Era um combate com sombras. fosse porque fosse. Felizardo continuava a contar a fuga da filha do Custódio com o Manduca da venda. a rodar. em famílias geralmente irregulares. a situação geral que o cercava. fossem introduzidas mais três. O barômetro aneróide continuava a um canto a dançar o seu ponteiro sem ser percebido. aquele abandono de terras à improdutividade encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preocupações angustiosas.. continuava o trabalho. tinham bem perto o exemplo dos portugueses que. isto é. o certo é que toda a previsão que Quaresma fazia..“Quá” patrão! Isso de chuva vem quando Deus “qué”. Os seus hábitos não foram mudados e a sua atividade continuava sempre a mesma. mesmo porque. e nada dizia. olhava por baixo dos olhos o patrão. para aumentar o estrume!. Entretanto.56 muxoxo. os óbices de toda a sorte que havia para fazer a terra produtiva e remunerada. Havia no seu espírito e no seu caráter uma vontade de acabá-la de vez. Se esperava tempo seguro. e o trabalho marchava. como se protestasse contra aquele desprezo pela ciência que Quaresma representava. Mesmo o velho costume do “moitirão” já se havia apagado. lá vinha chuva. Quaresma vivia assim. e ela superintendendo o serviço doméstico. com aquele grosso e cavernoso sorriso de troglodita: . no alto do mastro. se esperava chuva. os maus-tratos e o abandono de tantos anos. e mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma frase. isolados. embora tendo deixado de ser pública. de apoio mútuo. quanto ao trovador. legítimo Casella. Não se associavam para cousa alguma e viviam separados. Vencendo a erva-de-passarinho. Como remediar isso? Quaresma desesperava. Inútil é dizer que a irmã não fazia reparo nisso. lavrava ocultamente. O higrômetro. Era como se no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de gado. As outras pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do major. aquela miséria da população campestre que nunca suspeitara. já sem fio. Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras. Durante esse tempo. em tais instantes. sem sentir a necessidade de união para o trabalho da terra. o termômetro de máxima e mínima. Via o major com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade. De resto.. e estúpido ou de má fé era o Governo que os andava importando aos milhares. Fosse inexperiência e ignorância das bases teóricas deles. sentindo que a campanha que lhe tinham movido. Pelo seu caso. O antigo escravo não os sabia mais fixar.. o tempo em que estava no “Sossego”. só o anemômetro continuava teimosamente a rodar. É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia. não vendo aquela há tanto tempo. os abacateiros de suas . A tal afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má fé ou estúpida. Anastácio. Dera-se mal com eles. pelo simples motivo de que estavam longe. e aquele desde quase um ano. que seria ridículo aceitar. com aparências. ele via bem as dificuldades.

mas cantava que nem passarinho. a flora locais. Para avaliar o lucro. o lucro seria maior.. por acaso lá vinha uma em que um pássaro local entrava.. sempre mãe e sempre virgem. os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes. principalmente no desafio: o moleque é bom! Ele era claro e tinha umas feições regulares. ingênuas. portanto. e em muitas ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada. Foi.Em porção. com o Mané Candeeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores. o custo dos caixões.. fracamente é verdade. já se emocionava com ele e a nossa raça deitava. . melosas até. ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a terra.. Não queriam. se quer mande-os.. teve a satisfação orgulhosa de quem acaba de ganhar uma grande batalha imortal. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de São Cristóvão. mas de forma superior às necessidades de sua casa. O tamanho influi. respeitava o seu talento poético. então o major escutava: Eu vou dar a despedida Como deu o bacurau. Tratou de vender. Enfim... cesarianas.Abacates! Ora! Tenho muitos. pôs uma das mãos na cava do colete e quase de costas para o major: .57 terras conseguiram frutificar. um tanto amolecidas pelo sangue africano. Andou de porta em porta. os costumes das profissões roceiras. Felizardo dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso. leu-lhes bem o número e a estampa. nem mais nem menos. raízes na grande terra que habitava. onças eram patranhas. disse Quaresma. Depois.. o senhor sabe que. duras e fortes. Tratava-se agora de limpar as fruteiras. . Estava a serrar. Uma perna no caminho Outra no galho de pau.Entretanto.É preciso vê-los. tilintou a pesada corrente de ouro. pois todas aquelas caçadas de caititus. estava a cantar trovas roceiras. mas. Pela primeira vez. Tinham às vezes que subir às grimpas para a extirpação do galho atingido. teve a evidência de que ganhara mil e quinhentos réis. jacus. Com decisão foi ao Rio procurar comprador. Estão muito baratos! . quando lhe veio o dinheiro. com redobrada atividade que se pôs ao trabalho. Foi. descontou o frete. O Senhor Azevedo tinha-lhe pago pelo tanto a quantia com que se compra uma dúzia. os galhos mortos e aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia cinco mil-réis. Para o ano. eram muitos. Assim mesmo o seu orgulho não diminuiu e ele viu naquele ridículo lucro objeto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.. Ensinaram-lhe que procurasse um tal Senhor Azevedo no Mercado. É isso. a não ser que se tratasse de cousas de caça.. de estrada de ferro e carroça. mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria comprar por preços ínfimos. o salário dos auxiliares e. A observação popular já começava a interessar-se pelo espetáculo ambiente.. onde com surpresa o major não via entrar a fauna. contratou um outro empregado para ajudá-lo no tratamento das velhas flores frutíferas. Era árduo e difícil o trabalho. após esse cálculo que não era laborioso. pois. Quaresma os mandou e. Acariciou uma por uma aquelas notas encardidas.. Este bacurau que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. o rei das frutas. Lá foi. portanto. Anastácio e Felizardo continuavam ocupados nas grandes plantações. arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa e muito tempo levou sem ânimo de trocá-las. Eram vaporosamente sensuais e muito ternas. . Mané Candeeiro falava pouco. A sua alegria foi grande.

para descobrir os redutos centrais. e o renascimento das árvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. pelos abacateiros.. crescera cerca de meio palmo acima da terra. No dia seguinte. não a encontrou. pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se. e ficou sem ação e as lágrimas lhe vieram aos olhos. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! “A modo que é obra de gente” disse Felizardo. não mais as formigas reapareceram. talvez.. Desde aquele ataque às provisões de Quaresma. ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor de vinho. Até ali ele se mostrara tímido. mortíferos. cá embaixo. espécie de ave tão inútil e tão bela de plumas que parece ter nascido para os chapéus das damas. naquela. Parecia sofrer e ele se lembrou das mãos que as tinham plantado há vinte ou trinta anos. O major não estava lembrado ao certo se eram essas as palavras. ele não viu nada mais. indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada. muito verde. de desordem. Havia delas às centenas.. entretanto. ele viu com tristeza aquelas velhas árvores amputadas. outras desciam. Agora via bem que era a uma sociedade inteligente. logo afugentadas. tinham sido as saúvas. mariscando. Um inimigo apareceu inopinadamente. no chão capinado. em longas fileiras pelo trilho limpo. piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho com uma rapacidade turca. de confusão. ousada e tenaz com quem se tinha de haver. Quando o serviço ficou pronto. pelos cajueiros.58 Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou nos mestiços. Houve um instante de desânimo na alma do major. os terríveis himenópteros. com o seu pio pobre. Passaram-se dias. eram os sanhaçus a cantar nos galhos altos. Comprou ingredientes e ei-lo mais o Mané Candeeiro a abrir picadas. chilreando. quando contemplou o seu milharal... os papa-capins. moviam-se. mas.. as rolas pardas e caboclas em bando. Toda a manhã. a fazer esforços de sagacidade.. elas nos expulsariam. Com auxílio de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras daquele velho sítio abandonado há quase dez anos. com a rapidez ousadíssima de um general consumado. pelo correr do dia. escravos. organizada. estourava em tiros seguidos. outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por terceiras. Não tinha contato com aquele obstáculo nem o supusera tão forte. Não durou muito essa alegria. foi como se lhe tirassem a alma. nada de atropelos. mas.. letais! . mas o sentido era. e ficou admirado que só agora ela lhe ocorresse. banzeiros e desesperançados!.. De manhã. O milho que já tinha repontado. parecia que somente mandava esclarecedores. aberto entre a erva rasteira. oscilando ao vento. O trabalho como que era regulado a toques de corneta. Um estalido. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo pecíolo. as nuvens de coleiros. E era perto. e de tarde como que todos eles se reuniam.. sinceramente. Acendeu um fósforo e o que viu. com folhas aqui e sem folhas ali. pequenino. esvoaçavam os tiésvermelhos. mas. naquela manhã. descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de Saint-Hilaire: se nós não expulsássemos as formigas.. levantando-as acima da descomunal cabeça. mutiladas. Então era como se os bombardeassem: o sulfeto queimava. Quaresma pôs-se logo em campo. Mas não tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse. como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores. as “panelas” dos insetos terríveis. entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma. tinha recobrado o ânimo. andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam. Quaresma ouviu uma bulha esquisita. pelas altas mangueiras. certa noite. os inimigos pareciam derrotados. piando. meu Deus! Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. cantando. Era preciso combatê-los. o major até mandara buscar o sulfato de cobre para a solução em que ia lavar a batata-inglesa a plantar nos intervalos dos pés.. com uma timidez de criança.

Foi isso.. A velha senhora ergueu-se com a costura. É já a segunda que morre hoje.É. Já viste os grandes fazerem esses sacrifícios?. quando o seu pequeno copeiro lhe anunciou a visita do Doutor Campos. . parecia a Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos. Era um suplício. outono ou primavera. esteve olhando e de lá falou: . já um tanto gasta. tanto mais que extintos os das suas terras. os aipins. o seu espírito resistia. Recebeu o dinheiro dias depois. logo se lhe aplicava o formicida.. ou um acordo entre os cultivadores.. Policarpo levantou-se. Terra virada.O quê? . pois. Queres sempre ser a abelha-mestra.Não.. Adelaide? .. Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos.. Estavam assim a escolher arados e outros “Planets”. A irmã prestou mais atenção à costura.Sabes qual foi o lucro. Ele concertou o pince-nez. Só de frete paguei cento e quarenta e dous mil e quinhentos. Quaresma voltou à sua sala de estudos. as abóboras. foi até a janela que dava para o galinheiro.. da sua iniciativa.. agora disposto a empregá-los como experiência. as batatasdoces. levantar a agricultura. Vê lá se fazem! Histórias.Ora. do contrário. a sua alegria foi grande... em sucessivas carretas.É isto. depois.Então.Homem.. A sua atenção. Metem-se no café que tem todas as proteções. foi uma batalha sem tréguas. faço eu. não tardariam os formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar canículos para o seu terreno.. estava. Até então. Se por ocasião das frutas. em cestos cobertos com sacos cosidos. eram de outras mãos. parecia-lhe que todo o seu sistema de idéias ia por terra e os móveis de sua vida desapareceriam. sempre presente. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. grades.Dous mil quinhentos e setenta réis. Tens gasto muito dinheiro.59 E daí em diante. contou-o e esteve deduzindo os lucros. o major não desanimou e pôde colher alguns produtos das plantações que tinha feito. uma espécie de vigilância a dique holandês e Quaresma viu bem que só uma autoridade central. dando o rendimento efetivo de vinte homens.. um semeador. com a ternura de um pai que vê partir seu filho para a glória e para a vitória. destacando sílaba por sílaba. nenhuma plantação era possível. . dizia Felizardo. Não foi à roça nesse dia. . podia levar a efeito a extinção daquele flagelo pior que a saraiva.. o trabalho de guarda-livros roubou o de cultivador. respondeu Quaresma. terra estrumada. inverno ou verão.. que a seca. aproveitar as nossas terras feracíssimas..Mas. as árvores não tinham sido plantadas por ele. as terras mais ricas do mundo não precisavam desses processos. Se aparecia uma abertura. vinha do seu suor. Uma injúria! Quando se convencesse de que eram necessários. um destocador. não lhe favorecia a tarefa das cifras. do seu trabalho! Ele ainda foi ver aqueles cestos na estação. de aço. Meditava grandes reformas agrícolas.. um “olho”. Só com as formigas! . tudo americano. mais expressiva e mais profunda ela foi quando viu partir para a estação. Menor do que o dos abacates? . seguindo a costura que fazia. Fazia um dia fosco e irritante. não quisera essas inovações. o melhor é deixares isso.. em parte. entretanto. um governo qualquer. “Bajacs” e “Brabants” de vários feitios. . que lhe pareciam artificiais. Quanto? ... mas aquilo não. um capinador mecânico.. pôde dizer à irmã: .. para produzir.Um pouco mais. fosfatos ou mesmo estrume comum. porém. . Aos adubos. levantando o olhar: . Policarpo. e só pelo meio-dia. Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo. Não obstante essa luta diária. Após esta leve conversa. numa terra brasileira..Oh! Adelaide! Aquilo não é uma galinha morta?.. Os frutos. um castigo. Tinha já em mente uma charrua dupla. foi até à janela e verificou com a vista: . que a geada.

major? Não sabe... mas contente com a alegria comunicativa do doutor. Isto se passou na terça-feira. porém. e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade. não me meto. Seria mesmo? Brincadeira. disse o doutor com voz forte. Quer? Quaresma olhou o doutor com firmeza. naquele dia de luz fosca e irritante. dirigida ao senhor.Mas. nem quero meter-me em política? perguntou Quaresma ingenuamente. é ali..era possível!? A antiga corvéia!. Campos não deu mostras de aborrecimento. simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos. cabelos corridos e já grisalhos. Leu de novo o papel. O doutor não se zangou. com a jovialidade mais sua que era possível. habitava. as palavras caíam-lhe da boca adocicadas... . Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na extensão de mil e duzentos metros. exceto uma. firmemente: . que lhe eram absolutamente antipáticas tais disputas. pois seu sítio dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros . tinha os olhos castanhos.Ora viva. sutil. . era das pessoas mais consideráveis de Curuzu. disse que não. flexível. conversou um pouco sobre cousas banais e despediu-se com o ar amável. Se o major quer responder (é melhor já) que não houve eleição. O major não se espantou. Era alto e gordo.E daí? .60 O edil entrou com a sua jovialidade. Foi ele mesmo. Era certo.. Ele continuava a falar com desembaraço e naturalidade: . não gastava grande energia mental: tendo de cor uma meia dúzia de receitas. se o major quiser. coçou um instante o cavanhaque e respondeu claramente.. desde muito. choveu muito. aduziu argumentos: que era para o partido. onde casara e prosperara. o Senhor Policarpo Quaresma. Em virtude das posturas e leis municipais. dia em que o major foi surpreendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentável.. . na escola. conseguira enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário. Consultando a irmã.. embora o seu bigode fosse crespo. coleavam-se: . como? se eu não sou eleitor.Tenho aqui uma carta do Neves. o lugar há mais de vinte anos.. dobravam-se. a roçar e capinar as testadas do referido sítio que confrontavam com as vias públicas. ele.Exatamente por isso.Sabe o que me traz aqui. O tempo só levantou na quinta-feira. Agora a sua voz era doce. proprietário do sítio “Sossego”.. ela lhe aconselhou que falasse ao Doutor Campos.. as eleições se devem realizar por estes dias.Como o major sabe.Absolutamente não. pançudo um pouco. . major! Como vai isto por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais. quase à flor do rosto. Julgava impossível uma tal intimação.Como o major sabe. Contou-lhe então Quaresma a conversa que tivera com ele dias antes. Policarpo. . Aí mesmo. proprietário do “Sossego”. À tarde houve trovoada.. Presidente da Câmara. viu a assinatura do Doutor Campos. Não nascera em Curuzu. rezava o papel. . .. A vitória é “nossa”. era da Bahia ou de Sergipe. Todas as mesas estão conosco. sob as penas das mesmas posturas e leis. conforme mesmo disse o tal homem fardado.. graças ao dote da mulher e à sua atividade clínica. e em seguida brandamente: a seção funciona na sua vizinhança. Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade.. malfeito. era intimado. pela sua afabilidade e simplicidade. o nariz. se. Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio. que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria afirmar uma cousa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade. Um tanto trigueiro. Com esta. era o que se chama por aí um caboclo. a sua mansidão e o seu grande corpo.Mas és tolo... não é? Preciso de um pequeno obséquio seu. Quaresma foi inflexível. uma testa média e reta. Pôs mais unção e macieza na voz. O major ficou um tempo pensando. o único que pugnava pelo levantamento da lavoura. portador de um papel oficial para ele.

ainda havia alfândegas interiores? Como era possível fazer prosperar a agricultura. Era de ver como aquela vida tão estranha à nossa. foi ceifando. de códigos e de preceitos. Numa terra cujo governo tinha tantas escolas que produziam tantos sábios. a viagem próxima do papai à Europa. por ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos. em polé. viu ainda o desespero de Felizardo. quando teve que ler a carta que a sua afilhada lhe mandara. se transformava em potro. Adquiriu compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas agrícolas descritas nos catálogos. A quarenta quilômetros do Rio. de Dona Adelaide e. homem bom. não havia um só homem que pudesse reduzir com as suas drogas ou receitas aquele considerável prejuízo. entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos. atacada pelas formigas. perus. em instrumento de suplícios para torturar os inimigos. com o pescoço alto e o passo firme.este quadro passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relâmpago. de tais caciques. Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas. com tantas barreiras e impostos? Se ao monopólio dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado. a agonia e a dor. de posturas. sem desrespeito. ora sobre outra. Ele se lembrou da intimação municipal. Contava pequenas histórias de sua vida. levado pelo seu patriotismo profundo. a esmolar disfarçadamente pelas estradas.. O galinheiro ficou como uma aldeia devastada. O animal tinha morrido havia dias. cujo escrivão. como em França os camponeses. como era possível tirar da terra a remuneração consoladora? E o quadro que já lhe passara pelos olhos. voltoulhe de novo. Esses contratempos. sem ânimo de plantar um grão de milho em casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos . pela lentidão e majestade do andar. pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas? Depois de Turgot. matando. abatendo-as e desmoralizando-as. o desespero do marido no dia em que saiu sem anel. que. naquele instante penetrava em nós e sentíamoslhe o sofrimento. estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado. recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o manto de arminho da “Duquesa”. . viu aquelas terras abandonadas. mais tétrico. A “Duquesa” era uma grande pata branca. animais mortos. patos. E que morte! Uma peste que lhe levara duas dúzias de patos. a peste atacou galinhas. essas contrariedades abateram muito o cultivador entusiástico dos primeiros meses. em tempos de grandes reis. e só se apagou de todo. E não havia quem soubesse curar. ativo e trabalhador. não se incomodou muito. merecera de Olga esse apelido nobre. Não vinha mais da municipalidade. depois o resto do corpo. Vinha viva e alegre. Uma tarde. mais sombrio. de penas alvas e macias ao olhar.. intimava o Senhor Policarpo Quaresma a pagar quinhentos mil-réis de multa. pedia notícias do padrinho. Estava disposto a resistir. improdutivas. Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se encostavam nos portais das vendas preguiçosamente. entregues às ervas e insetos daninhos. mais lúgubre. com o bico colado ao chão. Aquela rede de leis.61 A luz se lhe fez no pensamento. porém. Recebeu o papel e leu. o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico. e anteviu a época em que aquela gente teria de comer sapos. viu também aquelas crianças maltrapilhas e sujas. oprimir as populações. até reduzir a sua população a menos de metade. ora sobre uma forma. Viu bem o que havia nisso de vingança mesquinha. Antonino Dutra. conforme estava no papel. Três dias levou a agonizar. levara a “Duquesa” também. crestar-lhe a iniciativa e a independência. espantando as moscas que a importunavam na sua última hora. cobras. d’olhos baixos. nas mãos desses regulotes. quando recebeu a intimação da municipalidade. mas da coletoria. da Revolução. Deitada sobre o peito. mas o seu pensamento voou logo para as cousas gerais. quando lhe apareceu à porta um soldado de polícia com um papel oficial.

. deve a todo o mundo. mais profundos. das modinhas.Não é por isso. observou o almirante. continuou: . sim “sinhô”... e. pueril.... levantando o cultivador. A Independência. É incrível! Um país como este. esses entraves. Onde está um Caxias? um Rio Branco? .. tornava-se necessário refazer a administração.. Então sim! O celeiro surgiria e a pátria seria feliz.. Albernaz. força..Por certo. depois de um curto intervalo. assesta os canhões pra terra e diz: sai daí “seu” presidente. agora parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre árvores tão soberbas... tão tranqüilas e seguras de si..62 Quaresma veio a recordar-se do seu tupi.. pasquim por aí...Você viu o imperador.. . . ambos fardados e de espada.Eu penso também da mesma maneira.E era um bom homem. à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado. tão belas. no entanto..“Tá” nas “foias”. Rio. disse Albernaz com particular acento. Anda tudo pela hora da morte! Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial. pobre.. o Pedro II. Medidas agrárias. não é possível continuar assim..Há “baruio” na Corte e dizem que vão “arrecrutá”. inteligente.. .. disse com firmeza o almirante.Quem diz o contrário? Havia mais moralidade. mete-se um sujeito num navio. . um governo forte. como há ainda quem se case. tão rico. não foi por causa do “velho”. infantil. e dirigiu-se à estação. por onde vinham atravessando.Quaresma.. Então.E mais justiça mesmo. não acha? . Sully e Henrique IV.Por que então? . nada disse à irmã. Não! É preciso um exemplo. O que eu sofri.Morreu arrependido. e lhe disse: . como aquelas que espalhavam sob os .. Vinham andando.. A República precisa ficar forte. Nada! .. . até à tirania... O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para todos os lados.Não há dúvida nenhuma!.. Chegou ao telégrafo e escreveu: “Marechal Floriano. foi a canalha. Demais. removendo todos esses óbices. Não havia jornaleco.. Albernaz. Nunca as tinham contemplado. ..tudo isso lhe pareceu insignificante. das suas tentativas agrícolas . e o homem vai saindo?... Esta terra necessita de governo que se faça respeitar.. você quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele tempo. é. Amava o seu país. talvez o mais rico do mundo. Peço energia.. que o não chamasse de “banana” e outras cousas. Aqui para nós que ninguém nos ouve: foi um ingrato. espalhando sábias leis agrárias. consolidada. tudo barato.. não venho “trabaiá”. Vou pro mato... digam lá o que disserem. Sully e Henrique IV.Que barulho? . tomou o chapéu. o imperador tinha feito tanto por toda a família.. Foi ao interior da casa. Deodoro nunca soube o que fez. respeitado. Lembrou-se das suas reflexões de instantes atrás.. do seu folklore. Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.. amanhã. Sigo já.. Despediu o empregado.. Os seus olhos brilhavam de esperança..... Saía no carnaval.. . Por quê? Por causa dos governos que temos tido que não têm prestígio. Continuavam a andar. Caldas. Albernaz. Nem com a farda quis ir para a cova!. Felizardo entregou-lhe o jornal que toda a manhã mandava comprar à estação. acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa: . Abriu o jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam insurgido e intimado ao Presidente a sair do poder.Decerto. É por isso.Eu não sei.” V O Trovador ..Seu patrão. Era preciso trabalhos maiores... Imaginava um governo forte. é dia feriado.

. de Paranaguá.O “Aquidabã”. sim “sinhô”. camarada. Albernaz.Da capital? . .. os andares de pequena altura impressionavam mal. para edificação de casebres. Era branco e tinha os cabelos alourados. mas logo bambeou. O almirante até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado. aquela parte de construção mais antiga. cerrando e tecendo a folhagem. mas sem pressa. As janelas acanhadas daquela fachada velha. e o dia estava límpido e fresco. muito altos.Do sertão. . O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina. Pouco antes de saírem da quinta. agora o Custódio. . .Do Piauí. com a torre do relógio um pouco afastada e separada do corpo do edifício. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente.O poder é o poder. de um louro sujo e degradado. guarda orgulhosa do seu mister e função. explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. Vinham andando em demanda à estação de São Cristóvão.. um instante firme.Não sei. O solo sobre o qual cresciam era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos.. . .63 seus grandes ramos uma vasta sombra.Então como vão as cousas? perguntou o general. delas. Que faz você aqui? Albernaz falou em tom ríspido e de comando. A praça. Caminhavam com pequenos passos seguros. deram com um soldado a dormir numa moita.. concertou-se rapidamente.Sei lá.. Caldas.. Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado. As jaqueiras se espreguiçavam. os bambus se inclinavam. Pareciam que medravam sentindo-se em terra própria. As palmeiras cercavam-no. erectas. para dar à boa mãe frescura e proteção contra a inclemência do sol. Albernaz interrompeu o silêncio: . mas para anos. todo ele. .Abaixe a mão.. respondendo tropegamente.. e. “sinhô”. desde o portão da Cancela até à linha da estrada de ferro. Um “bandão” deles... sim. não “sinhô”. A força se recolhera aos quartéis. deliciosa e macia. . . Não era belo o palácio. fez a continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné. um ar de confiança pouco comum nas nossas habitações.Você não sabe. As mangueiras eram as mais gratas.É verdade. quais são os navios que “eles” têm? . A “Luci”. para acalmá-lo. alongados para o céu.. falando a medo. os ramos longos e cheios de folhas quase beijavam o chão. hum! . de um lado e outro da aléia. sim “sinhô”.Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.. as feições eram feias: malares salientes. mas o sono fora muito e descansava ali um pouco.A “Luci” não é navio. não para um instante. Já tinha o Rio Grande.. Eles lhe viam o fundo. não tinha mesmo nenhum traço de beleza. e cobriam a terra com uma ogiva verde.Os “homens” desistem ou não? O general esteve um instante examinando o soldado. sim “sinhô”. resolveu falar-lhe com doçura. fez o general.Em que dará isto tudo. firmes. da qual nunca sairiam desalojadas a machado. dando com aqueles dous oficiais superiores. Eram como que a guarda da antiga moradia imperial.. . era até pobre e monótono. Caldas? . . tinha uma tal ou qual segurança de si. joanina. ele obtivera licença para ir em casa. para séculos. testa óssea e todo ele anguloso e desconjuntado. Era de manhã. porém.O “homem” deve estar atrapalhado. alguma cousa de quem se sente viver. e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de se expandirem. com os seus grandes penachos verdes. uma certa dignidade. O “Aquidabã”.

uma moça. Havia uma única mulher na estação. muitas fardas de oficiais..Então por aqui?. Podem furtar-te o sabre e estás na “inácia”. acrescentou Bustamante. mas o regime já publicara o seu prólogo e todos estavam avisados.. o comboio estremeceu todo e parou por fim. reformados.. Era um terror. avançava que nem uma aparição sobrenatural. sem razão e sem responsabilidades.quem sabe? . Que é isto? indagou o honorário. que. Se falavam. Não me importa morrer.Nada. Em nome do Marechal Floriano. honorários moravam-lhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades competentes. fugido. sem saber como. a autoridade estava em todas as mãos.. mas quero morrer combatendo.Viemos pela quinta. meu filho. O chefe de polícia organizara a lista dos suspeitos. Coitada!. A pequena estação tinha um razoável movimento. Não havia distinção de posição e talentos. Já vi muito fogo. parecia ter saído. ativos. a avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens. Ainda estávamos no começo da revolta. para se perder o emprego... sem desculpa. Passou o monstro. lá ficava esquecido. talhado segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. para apresentar-se. vagaroso. Mereciam as mesmas perseguições do governo um pobre contínuo e um influente senador. com aquela banda roxa e casaquinha curta.Bem.. O trem atracava na estação. apitando com fúria e deixando fumaça pesada pelos ares que rompia. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente: . mudando o tratamento de você para tu. Um grande número de oficiais.64 O general interveio então. ainda estremeciam. Bustamante. que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores: . sangrento. sem coragem.. estavam na plataforma da estação. Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que parecia fugir aos poucos do cérebro da moça. sem função pública alguma. a liberdade. Trazia o seu velho uniforme do Paraguai. prendia e ai de quem caía na prisão. em virtude de seu emprego. saltado de uma tela de Vítor Meireles. quase paternal. “familiares” do Santo Ofício Republicano. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências.. pejado de soldados. Ficaria boa? Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas. Bastava a mínima crítica. . meus amigos. Demais surgiam as vinganças mesquinhas. olhando com precaução para os bancos de trás.. . e. descansa. A bulha de um expresso.. suando gordurosamente.. bufando. ou mesmo cidadão. de uniformes e os trilhos. . Estava repleto. Veio chegando manso. Os funcionários disputavam-se em bajulação. um terror baço. Falou-lhe com brandura... não. isso de morrer por aí. . . disse o almirante. mas não houve nunca um Fouquier-Tinville. não vai comigo. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ismênia. o almirante. Todos mandavam. morava nos arredores e vinha tomar o trem. em Curuzu. Os militares palravam alegres.Conheço bem esse negócio de balas..a vida também. muito negra. em breve. É melhor ires para casa. a locomotiva. à toa. afastou-o de pensar na filha. A barretina era um tronco de cone que avançava para a frente. às ocultas. chocalhando ferragens com estrépito. Você sabe. Houve execuções. em servilismo. com a sua grande lanterna na frente.A cousa foi terrível..... qualquer oficial. era cochichando. e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas. um lente e um simples empregado de escritório.. Quando passavam. . sem grandeza. O general era mais conhecido. O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo olharam-no com mal disfarçada censura. Bustamante apareceu. um olho de ciclope. mas ele as conteve com força. e mesmo apavorados. a revide de pequenas implicâncias. sofrendo angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana. Os dous generais continuaram o seu caminho e. ouviam perguntar: “Quem é este almirante?” Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incógnito. esses bondes andam muito perto do mar... A cidade andava inçada de secretas. depois de ter passado.. Foi chegando. e os civis vinham calados e abatidos..

relapsos. com fanhosas músicas de cornetins e versos detestáveis. no meio dos quais os trajes escuros dos civis eram importunos como moscas. com bastante prazer.65 Os militares estavam contentes. tinha grande confiança nos talentos guerreiros e de estadista de Floriano. nas proximidades do gabinete do ministro. É verdade que. Misturavam-se oficiais da guarda nacional.. todos os assassínios. contumazes. parou ainda em uma estação e foi ter à praça da República.. também. O almirante. Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para justificar as suas idéias de governo..... antes bom e até generoso. os tenentes e os capitães. desinteresse e sinceridade. não lhe dando o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do Moura. raivoso por não poder queimá-los em autos-de-fé. e propunha os piores castigos.. baionetas reluzindo ao sol oblíquo. de toques de cornetas. eram heréticos interesseiros. da polícia. amedrontava toda a gente. dominicano do seu barrete frígio. seguiu para o Arsenal de Marinha. fazendas multicores. e Bustamante porque aprendia com ele alguma cousa de nomenclatura dos armamentos modernos. com inscrições em escritura fonética e eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!. simulados. no meio do retinir de espadas. entretanto. um pedantismo tirânico. depois de tê-lo feito ao ajudante-general e ministro da Guerra. Fontes estava indignado. que justificava todas as violências. do exército. Piratas! Bandidos! Eu. condição necessária. que diabo! Se fosse um navio. Fazia repousar nela toda a felicidade humana e não admitia que a quisessem de outra forma que não aquela que imaginava boa. o grande pátio estava cheio de soldados. feixes de armas ensarilhadas. ficaram a conversar nos corredores. que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o enxoval de Lalá. se os pegasse. de bombeiros e de batalhões patrióticos que começavam a surgir. bandeiras. Mas. a adoração do grão-fetiche. Apresentaram-se e. sinceridade. da armada. cosido com as paredes. enorme.. todo ele era horror. talvez lhe dessem uma esquadra a comandar.. soltos por aí. No sobrado. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade sobre o pelotão e a companhia. pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo. a todo esse rebanho de civis.. tinha amigos lá.. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e criada para o positivismo. . esperava obter uma outra comissão. O general porque já era noivo de sua filha Lalá. todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem.Hão de ver o resultado. ao progresso e também ao advento do regime normal. Perdera-a em primeira instância. maldição contra os insurrectos. e essas divergências nada significavam para a sua idade e experiência. lá diz ele. O almirante. Albernaz não tinha tanta fúria contra os adversários.. em tudo semelhantes aos canatos e emirados orientais. quase todos estavam na revolta. O governo precisava de oficiais de Marinha. os alferes. estava gastando muito dinheiro. de que já tinha o nome . bastava coragem para combater. em outros muitos havia sentimento mais puro. mas.. a um só tempo. O trem correu. Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto. sem samarra. Depositava. enfim. via passar por seus olhos uma série enorme de réus confidentes. naqueles tempos. especialmente os pequenos. uma certa esperança na ação do marechal. para apoiá-lo e defender o seu governo. A sua causa não ia lá muito bem. e. O prestígio dele era. tanto assim que.. como se a Bíblia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Católica e não também para a Anglicana. o paraíso. dourados. ele os queria até.. ai deles! O tenente não era feroz nem mau. A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório que. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo. no caso do marechal. mas era positivista e tinha da sua República uma idéia religiosa e transcendente. Albernaz e Bustamante entraram no QuartelGeneral. então sim: mas uma esquadra a cousa não era difícil. canhões. Fora daí não havia boa fé. No fundo d’alma. limitado e estreito. imaginava organizar um batalhão patriótico. falsos. a religião da humanidade. congesto. havia um vaivém de fardas. Estando em apuros financeiros. fictos e confictos. Penetraram no grande casarão. portanto.. uniformes de várias corporações e milícias.

prodigalizar. ele não andava satisfeito. senão ele não passava de um simples prático.. o concurso. . iludir-se. Ele não compreendia a grandeza daquelas análises... o interesse e o valor delas. brinquedos. Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher.. Já era médico do Hospital Sírio. Nós vivemos do governo e a revolta representava uma confusão nos empregos. estava bem relacionado e cotado na congregação. o doutor ia.. o enfermeiro dava-lhe informações. honesto e enérgico. nas honrarias e nas posições que o Estado espalha. acendia todos os bicos-de-gás e se punha à mesa. tinha que nomear. o “operoso Doutor Armando Borges. metia-lhe medo. “É aquele barbado”. onde ia três vezes por semana e. De quando em quando. pela fortuna da mulher.. o proficiente médico dos nossos hospitais”. desde que quisesse pôr ordem na sua seção. estiradas compilações. a sua falsa ciência e a pobreza de sua instrução geral faziam-no ver naquilo tudo. os sentimentos. A ambição de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-no. Anatole France. ordenados. o ilustre clínico. falatórios. mas ricos de citações em francês. porém. perguntando: “Como vai?” “Vou melhor seu doutor”. em que não havia nada de próprio. inglês e italiano. Eram romances franceses. repita a receita. espalhar. em meia hora. O Cobreiro. médico. E isso não era difícil. desde que arranjasse boas recomendações pois já tinha certo nome. respondia o sírio com voz gutural.66 “Cruzeiro do Sul” e naturalmente seria o seu comandante. Tinha elementos. etc. Médico e rico. à sociedade. um mundo! O seu pedantismo. Daudet. fazer outra cousa. À noite. Mas médico de um hospital particular não dá fama a ninguém: o indispensável é ser do governo. passatempos. revelando a todos. inventar. promoções e gratificações. publicava um folheto. Não havia dia em que não comprasse livros. via trinta e mais doentes. em francês. o governo. Chegava. viam-no e se dessem com ele a dormir sobre os livros?!. Genelício. Goncourt. Obtinha isso graças à precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa.. todo de branco com um livro aberto sob os olhos. mas aquela história de argüição apavorava-o. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações supririam os títulos e habilitações para ocupálas... O sono não tardava a vir ao fim da quinta página. De resto. tomara até um professor de alemão. com todas as vantagens do posto de coronel. mas faltava-lhe energia para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena que tivera quando estudante.. doente 5. indagava: “Já está melhor?” E assim passava a visita. aos jornais que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano. Maupassant. que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. as dores daqueles personagens. cuja atividade nada tinha de guerreira. mandava o folheto. além disso. esperava muito da energia e da decisão do governo de Floriano: esperava ser subdiretor e não podia um governo sério. O lugar de lente é que o tentava mais. da rua. A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em biblioteca. Não contente com isso escrevia artigos. diretor ou mesmo lente da faculdade. ele abria as janelas das venezianas. Essas secretas esperanças eram mais gerais do que se pode supor. etc. Etiologia. Queria ter um cargo oficial. chegando ao gabinete receitava: “Doente nº 1. para entrar na ciência germânica. quem é?”. quarenta e sessenta páginas. colocava na revolta a realização de risonhos anelos. Precisava. Tratou de encomendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com títulos trocados e afastou o sono. “Ahn!” E receitava. graças à sua atividade e fertilidade de recursos. precisando de simpatias e homens. tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros. Profilaxia e Tratamento ou Contribuição para o Estudo da Sarna no Brasil. criar e distribuir empregos. a vida. de cama em cama. e. porém. O próprio Doutor Armando Borges. a si mesmo e à mulher. inglês e alemão. o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando estudante. Na seguinte. As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados.. daquelas descrições.

tão coerente com ele mesmo. disse: . A moça que acabava de ler a carta que tinha escrito.É vem você com as suas teorias. enfim. que o aluguel de uma pena. Telegrafou ao Floriano..Que há? perguntou ele. de interesse pela ciência.. disse o doutor. mais baixo. Ela tinha um gabinete. filhinha. que mesmo por qualquer outro motivo. mas de que valeria essa quase indignidade?.. Per la madonna! Pois um homem que está quieto. Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias forças e capacidades. censurar.Sabes quem vem aí.. Ela escrevia e o pai lia. A revolta veio encontrá-los assim. Mesmo quando noiva. estantes... ao lado do pai. . mas desculpou. era inútil mudar deste para aquele. após o almoço. neste inferno.. mas aquela manobra indecorosa indignou-a. Vinha irradiante e o seu rosto redondo reluzia.. com a sobrecasaca fúnebre e a cartola reluzente na mão. É o dever de todo o patriota.E há de ser só quem tem interesse que se deve bater pela República? interrogou o doutor.. De comandita com o tutor.. conforme o seu hábito. de ambições de descobertas.. Era perdoável. toda a ligação moral.. disse Coleoni. eram superficiais. mas quanto estavam longe um do outro!.. Naquela carreira atropelada para o nome fácil. entretanto. O sogro suspendera a viagem à Europa. mais por dignidade e delicadeza. Ela sentiu que tinham cortado todos os laços de afeição. pois há tanto ela rebentara. sentiu-o. A sala lhe parecia mais clara.Decerto. exceto onde o grande bigode punha sombras. mas charlatão? Era demais! Passou-lhe um pensamento mau. Continuavam a viver como se nada houvesse.. a vista para a montanha.67 A sua clínica. Coleoni explicou e repetiu os comentários que já fizera: . Não foi desprezo.. tão de acordo com a substância da vida que ele mesmo fabricara. feia e esmagadora. que se limitou a sorrir complacente: . dava mais seriedade ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever. .Mas não há tal. sentiu um grande alívio. e. A moça adivinhou logo o motivo. estavam à flor da pele.. Que tem a idade? Quarenta e poucos anos. e a sua fisionomia se iluminou de novo como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos. Está aqui. desinteressou-se dele. . lia recostado numa cadeira de viagem os jornais do dia. num dado momento ele disse: . ele não deu pelas modificações da mulher. escrevendo à cabeceira da mesa de jantar. pronunciadas com aquele seu português rouco: .Quem é? .. Ela dissimulava os seus sentimentos. menos ativo. Desde muito que a mulher lhe entrava na sua simulação de inteligência. e a ele faltavam a sagacidade e finura necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo. tratando de um febrão de uma órfã rica. sonhamos ser Shakespeare e saímos Mal das Vinhas. Pode ainda bater-se pela República. não é lá velho. Todos os homens deviam ser iguais. n’O País. destacou-se de sua pessoa. mas gostava pela manhã de escrever ali. minha filha? . O doutor voltava já inteiramente vestido.Está doido. de simpatia. porém. secretária. sossegado. O patriotismo não está na barriga. o modo de agir e reagir de fato sobre as idéias e sentimentos de Quaresma.. chegou a ganhar uns seis contos. nojo que ela teve pelo marido.Teu padrinho. livros. e o doutor.. Ainda ouviu as últimas palavras do sogro. Quis desaprovar. verificara que aquelas cousas de amor ao estudo. foi um sentimento mais calmo. nele. vem meter-se nesta barafunda. . mesmo sem levantar a cabeça. desde três dias.. que prendiam ambos. Que necessidade tinha ele disso? Não era já rico? Não era moço? Não tinha o privilégio de um título universitário? Tal ato pareceu à moça mais vil.. naquela manhã. prosperava.. dizendo que vinha. objetou o velho.O padrinho. O genro vestia-se e a filha ocupava-se com sua correspondência. com todo o luxo. Quando chegou a esta conclusão. .Mas não tem interesse nisso. que a usura de um judeu. meditava a sua ascensão social e monetária.

Primeiro. Ricardo vivia ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios. é uma revoltosa. com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias. e demais. metido em si mesmo e ouvindo o seu coração.Você. graças à sua vida. conforme o ritual dos bem ou mal casados. que ele mesmo fazia. agarrou o violão para melhor apanhar o efeito e empacou nestes: É mais bela que Helena e Margarida. mas estava certo de obter. leu toda a produção. Olga? Ela se tinha levantado para acompanhar o marido. no fundo. de admirar que a moça tendesse para os revoltosos. há de ser assim normalmente. pouco saindo. hein. cuja vista ia de Todos os Santos à Piedade. Há dias vivia em casa. O doutor desceu a escada da varanda. pois. . Gostava de passar assim dias. esquecidos de sua vital impotência e inutilidade. as nossas autoridades. Só se encontra a ilusão que adoça a vida Nos lábios de Carola. e Coleoni. não encontrara pessoa alguma conhecida durante os três últimos dias. que lhe seguia a saída. Coração dos Outros sonhava desligado das contingências terrenas. Parou um pouco. fechando a discussão. disse o doutor. voltou a lê-la. Por esses dias o triunfo desfilava sem contestação. Não só isso sempre acontece em toda a parte. corrigindo um dos seus trabalhos. Não lia jornais para não distrair a atenção do seu trabalho. e. A simpatia dos desinteressados. agora pensava em publicar mais outro. em sua casa. Apesar de popular no lugar. aquele que compusera no sítio de Quaresma . e pão. limitava-se ao “bom-dia” e à “boa-tarde” trocados com os vizinhos. as deportações. indo à tarde jantar a uma tasca próximo à estação. deitou-lhe o seu grande olhar luminoso. que pedem sempre mudanças e mudanças. a desmoralizar a ação da autoridade constituída. aqui e no Sul? . Ela não deixava de ser.Você sabe bem que eu não te comprometo. Por esse tempo. cantarolando. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma vitória para ele e para o violão estremecido... Notara que sempre que chegava. Naquela tarde estava sentado à mesa. no Brasil.Não me vá comprometer. Faltava o assentimento de Botafogo. .Decerto. a entorpecer. que jantavam nas mesas sujas. um dos últimos. . almoçando café. os fuzilamentos. devido a múltiplos fatores.Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros? É monopólio de vocês o patriotismo? fez Olga.Deviam continuar a presenciar as prisões. os carroceiros e trabalhadores. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade.“Os lábios de Carola”. mas não deu importância. abrangendo um grande trato de área edificada. um panorama de casas e árvores. . Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa tinha assentado. como particularmente. da população inteira era pelos insurgentes. Os governos.68 E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava. organizando o seu livro. atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus à mulher. de forma a criar desesperados. Já publicara mais de um volume de canções. toda a série de violências que se vêm cometendo. Toda a cidade o tinha na consideração devida e ele quase se julgava ao termo da sua carreira. estrangeiro e conhecendo. abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados. Quando sorri meneando a ventarola. e com os finos lábios um pouco franzidos: . calasse as suas simpatias num mutismo prudente. debruçada na varanda. . Não era. ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele. Passava confinado no seu quarto. ele mesmo evitava falar e. levam a prometer o que não podem fazer.

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Nisto ouviu um tiro, depois, outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde encontrava a ilusão que adoça a vida... TERCEIRA PARTE I Patriotas Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande salão do palácio, vendo o marechal, mas sem lhe poder falar. Quase não se encontravam dificuldades para se chegar à sua presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão fácil. O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente. Não era raro ver-se pelos divãs, em outras salas, ajudantes-de-ordens, ordenanças, contínuos, cochilando, meio deitados e desabotoados. Tudo nele era desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia uma poeira de rua mal varrida. Quaresma não pudera vir logo, como anunciara no telegrama. Fora preciso pôr em ordem os seus negócios, arranjar quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide mil objeções à sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade e superiores à sua força; ele, porém, não se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável, necessário que toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse posto à disposição do governo, para então!... oh! Aproveitara os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nele expunham-se as medidas necessárias para o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade, das exações fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violências políticas. O major apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto daquela planície feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes, lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos verdes e plácidos que o viram partir com uma impassibilidade que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento, era do Anastácio, o seu preto velho, do seu longo olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal doméstico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas órbitas as escleróticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto nas cousas sinais de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!... Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o palito na boca. Falou em primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham oferecer o seu braço e o seu sangue em defesa das instituições e da pátria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado na mão direita. Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nela que uma escondia a outra, furtando toda ela a uma classificação honesta. Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes olhos que despediam chispas. Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquele olhar que queimava mais sedução que patriotismo. Fugia encará-la, abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na mesa... Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e, com um grosso e difícil sorriso de roceiro, declinou da oferta, visto a República ainda dispor de bastante força para vencer.

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A última frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente. As damas despediram-se; o marechal girou o olhar em torno do salão e deu com Quaresma: - Então, Quaresma? fez ele familiarmente. O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. Não se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas espáduas. O marechal quase não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um monossílabo, cousa que Quaresma percebia pela articulação dos lábios. Começaram a sair. Apertavam a mão do ditador e, um deles, mais jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com força a mão mole, bateu-lhe no ombro com intimidade, e disse alto e com ênfase: - Energia, marechal! Aquilo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial da República, que ninguém, nem o próprio Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns até sorriram alegres por ver o califa, o cã, o emir, transmitir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno desabusado. Não se foram todos imediatamente. Um deles demorou-se mais a segredar cousas à suprema autoridade do país. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa, talim e sabre de praça de pré. Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada. Tinham todos os privilégios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o ditador e abusavam dessa situação de esteio do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira. Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a República, em artigo e fé, em feitiço, em ídolo mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes eram oblatas dignas e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade. O cadete lá estava... Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem que ia feixar em suas mãos, durante quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas fraquezas e vontades, nem nas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana. Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande “mosca”; os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso - parecia não ter nervos. Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o temperamento. Essas cousas não vogam, disse ele de si para si. O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país, manhoso talvez um pouco, uma espécie de Luís XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausência total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza de ânimo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos. Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava meses e meses sem lá ir, deixando tudo por assinar, pelo que “legou” ao seu substituto um trabalho avultadíssimo. Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II, de Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não compreende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas,

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certamente necessárias deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e influísse na marcha das cousas governamentais e administrativas. Dessa preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos monossílabos, levados à altura de ditos sibilinos, as famosas “encruzilhadas dos talvezes”, que tanto reagiram sobre a inteligência e imaginação nacionais, mendigas de heróis e grandes homens. Essa doentia preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele aspecto de calma superior, calma de grande homem de Estado ou de guerreiro extraordinário. Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra sedição, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas. Demais, ninguém pode admitir um homem forte, um César, um Napoleão, que permita aos subalternos aquelas intimidades deprimentes e tenha com eles as condescendências que ele tinha, consentindo que o seu nome servisse de lábaro para uma vasta série de crimes de toda a espécie. Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atmosfera de má vontade Napoleão assumiu o comando do exército da Itália. Augereau, que o chamava “general de rua”, disse a alguém, após lhe ter falado: “O homem meteu-me medo”; e o corso estava senhor do exército sem batidelas no ombro, sem delegar tácita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsáveis. De resto, a lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra bem a incerteza, a vacilação de vontade de um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos que estavam às suas ordens. Há uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, atos e gestos. Era o seu amor à família, um amor entranhado, alguma cousa de patriarcal, de antigo que já se vai esvaindo com a marcha da civilização. Em virtude de insucessos na exploração agrícola de duas das suas propriedades, a sua situação particular era precária, e não queria morrer sem deixar à família as suas propriedades agrícolas desoneradas do peso das dívidas. Honesto e probo como era, a única esperança que lhe restava repousava nas economias sobre os seus ordenados. Daí lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensável para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se tenazmente à Presidência da República. A hipoteca do “Brejão” e do “Duarte” foi o seu nariz de Cleópatra... A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em resultado esse “homem-talvez” que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo. Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possíveis, depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se ter “fabricado” à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos. A sua concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande, o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água. Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas. Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao

Que posto queres? . Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. porém. Era o Major Bustamante. Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati... o presidente. um tanto amedrontado: . Bustamante deu-se a conhecer. nomes. ficara só e Quaresma avançou. Um seu companheiro de espera.Vai bem. Se Vossa Excelência desse ordem. O major há muito que o conhece? Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta. O marechal ouviu-o distraído. embora. a lápis azul. . se aproximando e. Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias.. Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa. de pince-nez e foi-se chegando.Bem. . .Deixa aí. proteção aos fracos.. voltando-se para Bustamante: . Até à rua nada disseram um ao outro. medidas tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. Donde? .Mas nós nos conhecemos! exclamou ele. sorriu com dificuldade. Quaresma vinha um pouco frio.Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.Eu! fez Quaresma estupidamente..72 organismo aniquilado da pátria.Que há. Vocês lá se entendam. seu companheiro do Paraguai. com uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios. desde que o marechal lhe falou familiarmente. O presidente teve um gesto de mau humor. . mas. . mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia. de uns tempos para cá. taciturno.Agradeço-te muito.Então. ele não negaria tais esperanças e a sua ação poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. já tivesse dúvidas a certos respeitos.Eles vão ver o “caboclo”. quase como um terrível segredo: . em seguida.. velho amigo do marechal.. um espanto. sobre aquela ponta de papel. Bustamante? E o batalhão.. carros e carroças. agora Tenente-Coronel. que o major se habituara a crer a mais rica do mundo. levemente. Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda agora: .. Decerto.. Precisamos de um quartel. segurança. O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem. . . O dia estava claro e quente. não tinha nada escrito.. alguma cousa de tremendo ameaçava todos e parecia estar suspenso no ar. Havia a mesma agitação de bondes. era cruel e paternal ao mesmo tempo. Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma. o movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração apreciável. Tinha alguma cousa de asiático.Aproveita Quaresma no teu batalhão.Não me recordo. mas nas fisionomias.Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito. com uma grande barba mosaica e olhos espertos. Ou antes: leva-lhe este bilhete. começou a considerar aquele homem pequenino. Era a parte de cima. situações dos subalternos com quem lidava. vai? O homem aproximou-se mais. um terror.. Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro. disse a Quaresma. marechal. um quase “não me amole” e disse com preguiça a Quaresma: . Ao acabar é que deu com a desconsideração: . O major confirmou e o presidente.Trazia a Vossa Excelência até este memorial.. e assim mesmo. Não faz mal. . escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra..... empregos. levando-lhes estradas. quando já perto. Quaresma? fez Floriano. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar. Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias.. Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal... com um pouco de satisfação.É exato. assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.

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- Da casa do General Albernaz... Não se lembra? Policarpo então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão patriótico “Cruzeiro do Sul”. - O senhor quer fazer parte? - Pois não, fez Quaresma. - Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos auxiliar o governo... Não convém sangrar o Tesouro, não acha? - Certamente, disse com entusiasmo Quaresma. - Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com cem mil-réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não é? Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério do Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major, e a cousa pegou. A princípio, protestou, mas como teimassem deixou. - Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major. - Qual é a minha quota? - Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante... Aceita? - Pois não. Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se jovialmente: - Então, major, às seis, no quartel provisório. A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant’Ana. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar. A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de quando em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão central do quartel-general saía uma força, armas ao ombro, baionetas caladas, dançando nos ombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e mau. Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais. Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro. Voltou-se. - Oh! general! O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não trazia espada e o pince-nez continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda. - Então veio ver a cousa? - Vim. Já me apresentei ao marechal. - “Eles” vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O “caboclo” é de ferro... No Paraguai... - O senhor conheceu-o lá, não, general? - Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como encarregado das munições... É o fino o “caboclo”: não me quis no litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote que eu não examine... É necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita cal por pólvora - não sabia? - Não.

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- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o “homem” quer que eu fique com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá... Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou: - Como vai a família? - Bem. Sabe que Quinota casou-se? - Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai? A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto: - Vai no mesmo. O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: “Apronta-me, mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje o meu casamento.” Outras vezes recortava papel, em forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu casamento. O general já consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua vida, a que não atingira, aniquilando-se, porém, o seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor. Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com todos os cuidados, à custa de todas as promessas, era levada para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras dançavam, um instante esquecidas da irmã que sofria. Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquele seu tom familiar e íntimo que usava com todos: - Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país. E os prejuízos? Um porto destes fechado a comércio nacional quantos anos de retardamento não representa! O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar impossível a reprodução de levantes e insurreições. - Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos. E no estrangeiro que mau efeito! O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram. Quaresma foi direitinho ao Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário. Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. Não foi indiferença que sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o mesmo homem baixo, pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que ela conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma força estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto, verificou que ele entrara naturalmente, com o seu passo miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que a acanhava, que lhe tirara a sua alegria de ver pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito. Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada: - Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo. De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o “clássico” um grande artigo sobre “Ferimentos por arma de fogo”. O seu último truc intelectual era este do clássico. Buscava nisto uma distinção, uma separação intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e romances nos jornais. Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que eles. A sua sabedoria superior e o seu título “acadêmico” não podiam usar da mesma língua,

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dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então a idéia do clássico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, em-pós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral. Gostava muito da expressão - às rebatinhas; usava-a a todo o momento e, quando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos e às suas idéias uma suficiência transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em pleno Seiscentos, prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado. A sua tradução estava quase no fim, já estava bastante prático, pois com o tempo adquirira um vocabulário suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade, logo na primeira escrita. Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente clássico para “orifício”, julgou útil a interrupção. Queria pôr “buraco”, mas era plebeu; “orifício”, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu à sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre autoridade. Dizia ela: - Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes? O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar de objetar: - Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se for assim, tudo vai por água abaixo. Quaresma acrescentou: - É em virtude das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela existe... Nas formigas, nas abelhas... - Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de assassínios, exações e violências? - Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma. O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo: - Que temos nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica iremos buscar normas de vida entre insectos? - Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura. Ele não tinha acabado a explicação e já Olga refletia: - Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá; mas não; de que vale? - Há de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidá-la. Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a sua próxima incorporação ao batalhão “Cruzeiro do Sul”. O doutor teve uma ponta de inveja, quando ele se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu. Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterrâneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor davam-lhe saudades. A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os “jacobinos”, a guarda abnegada da República, os intransigentes a cujos olhos a moderação, a tolerância e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-pátria, sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O

fazia-o cabo. A casa da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio. mas foi inútil. que se condensa ali e aqui em aparições. Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã era verde-garrafa e tinha uns vivos azulferrete. mal se enxergam as partes baixas dos edifícios próximos.. luminoso. Os namoros se faziam e as moças iam e vinham... contra aquela muralha de flocos e opaca. A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado. alamares dourados e quatro estrelas prateadas. que gritava com uma demora majestosa: “om . o Mistério. O instrutor era um sargento reformado. então. Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados: . esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes. sim. coronel? continuou ele com interesse e piedade. Entre soldados entrava um homem.É o Ricardo! exclamou Quaresma. Os soldados subiram com o “voluntário” e Ricardo logo que deu com o major. a Rua do Ouvidor era a mesma. levando de quando em quando uma reflada. do seio da bruma. aquela pasta espessa. que é Caronte que traz a sua barca para uma das margens do Estige. a chorar e a implorar. o que não impedia de haver jornais “jacobiníssimos” redigidos por portugueses da mais bela água. Há necessidade de gente. é o desconhecido. parece que. armas! O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do fardamento. que funcionava provisoriamente num velho cortiço condenado pela higiene. Não se ouve a bulha: o escaler afastou-se. havia uma varanda de grade de pau e uma escada de madeira levava até lá.. de longe.. No sobrado. corriam para dentro das lojas. Os rostos estão alterados. Acreditase. A cerração ainda envolve tudo. é a hora da angústia. e o odor da maresia parece mais forte com a neblina. não é dia. é a luz da incerteza. Tinha o tal cortiço andar térreo e sobrado. major! Quaresma chamou de parte o coronel.Salve-me. para o lado do mar. . Do lado da terra.. a vista é impotente contra aquela treva esbranquiçada e flutuante. as aves morrem de encontro às . Atenção! Todos perscrutam a cortina de névoa pastosa. que gemia à menor passada. vão surgir demônios. Entretanto. As fisionomias respiram aliviadas. No mar. os guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manhã indecifrável e taciturna. O chiar das serras vizinhas..Conheço. está povoada de ruídos.Eu sirvo sim. suplicou-lhe: . as moças davam gritinhos de gata. mas com as pedras manchadas das barrelas e da água de sabão.. servia para a instrução dos recrutas. e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. não é o dilúculo. Ricardo.. ao mesmo tempo. depois da palidez do medo. seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou: . escada tosca e oscilante.76 estrangeiro era sobretudo o português. ambos divididos em cubículos do tamanho de camarotes de navio. Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel...Restituam o violão ao cabo Ricardo! II Você. um patriota rebelde. Uma gritaria fê-los vir até à varanda. os apitos de fábricas e locomotivas. lá pelos lados da Cidade Nova. de uma claridade difusa. na gola. rogou-lhe e suplicou-lhe.brô”. Enfim.. mas dêem-me o meu violão.. Não é noite. dentro daquele decoro. o sangue a subir às faces pouco e pouco. já sem as cordas de secar ao sol a roupa. não é o crepúsculo. Para a esquerda e para a direita. não há estrelas nem sol que guiem. coberto de algas. sujo. É um voluntário recalcitrante. e admitido no batalhão com o posto de alferes. um tanto coxo. Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu depois de algum tempo: .. Vê-se da praia um pequeno trecho. O mar está silencioso: há grandes intervalos entre o seu fraco marulho. em semelhanças de cousas. É um Visionário Oito horas da manhã. na terra. em cruz. a se debater. Quaresma. O senhor não o conhece. Se uma bala zunia no alto céu azul.

estuda artilharia. Estava engraçado dentro do seu fardamento de caporal. A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista. O comandante do “Cruzeiro do Sul”. os punhos lhe apareciam inteiramente. A praça saiu capengando em cima de grandes botinas. Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar. tenuemente. A blusa era curtíssima. Um soldado entrou: . Alguns já cochilam. da balística à mecânica. O seu pequeno aborrecimento é não poder. se fez simplesmente tenente-coronel. algas e sargaços. consentisse. Aos grupos. após o rumor dos remos. lendo. três alferes. contudo. que não dá obediência ao patriota major. e.77 paredes brancas das casas. que é Quaresma. parece que vêm do fundo da terra ou são alucinações auditivas.. o violão está lá dentro e. Comprou compêndios. de quando em quando. mas ele nada tem a ver com o mortífero aparelho. Assim que se viu no mato. à geometria e à álgebra e à aritmética. Já se via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco. sentado numa pedra. e as calças eram compridíssimas e arrastavam no chão. E o senhor. como sua instrução é insuficiente. o menestrel não se aborrece. continua no quartel. marulhando com grandes intervalos. que. o antigo agricultor do “Sossego”. posso ir almoçar? . o de tenentes quase. O comandante chegou à janela. sungada. nessa matemática rebarbativa e hostil aos cérebros que já não são moços.Pode. aquele amanhecer brumoso e feio era uma novidade para ele. desce mais a escada. vai à trigonometria.. talvez. Em geral. de encontro à areia da praia. Os ruídos continuam. como nada se vê.Bem. fracamente. O seu estudo predileto é agora artilharia. Há falta de capitães. Ricardo? . superintendendo a vida do batalhão. está de parte.. ele o experimenta. Aquela vida solta da caserna vai-lhe bem n’alma. É preciso não enferrujar os dedos. É encarregado dele o Tenente Fontes. A cerração se ia dissipando. de compêndio em compêndio. Estão doentes ou licenciados e só ele. macias e fragrantes. cantarolando em voz baixa. vai aprendendo lentamente a servir-se da boca-de-fogo e submete-se à arrogância do subalterno. suja de bodelhas.Como vais. e leva assim aqueles dias de ócio guerreiro enfronhado na matemática. A nossa miséria é mais completa e a falta daqueles mudos marcos da nossa atividade dá mais forte percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa. Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma comanda. tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade. mas. Ricardo Coração dos Outros apareceu. . a medo. Chama-me o cabo Ricardo. major? . os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia. em horas de folga. O comandante do destacamento é Quaresma que. o pobre homem usava aquela peça protetora como um castigo. de rifle à cintura e gorro à cabeça. Bustamente. que levava a sua casa. Há no destacamento um canhão Krupp. mas o Estado paga o pré de quatrocentas. o número de alferes está justo. dous tenentes. Aprende uma noção elementaríssima após um rosário de consultas. ele só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas. este mesmo só à noite. mas os oficiais pouco aparecem. O major está no interior da casa que serve de quartel.. Quaresma não se incomoda com isso. da artilharia vai à balística. por modéstia. estão a postos. Polidoro. e o comandante. e olha aquela manhã angustiosa. mas já há um major. A unidade tem poucos oficiais e muito poucas praças. e um alferes. Sob o fardamento de cabo. O cabo Ricardo Coração dos Outros. onde ela faz sentir toda a sua força de desesperar. sozinho.Senhor comandante. o Bustamente da barba mosaica. Ele percorre essa cadeia de ciências entrelaçadas com uma fé de inventor. soltar o peito. outros procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que lhes umedece o rosto. da mecânica ao cálculo e à geometria analítica.

os soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.. o homem do canhão... as altas. Quaresma almoçava. O diabo é quando há tiro. à luz daquela manhã atrasada. major. Quaresma reapareceu correndo... assustado. senhor.. .O senhor sabe que isso de cantar baixo é remar em seco. e das fortalezas para o mar. em frente.Esperem um pouco. .Sim. .. Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. fazendo estudos práticos. e. major. . e. e disse. os guinchos tinham um acento festivo de contentamento. É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo. à esquerda. o pequeno destacamento pôs-se a postos e Quaresma apareceu. lentamente. o Retiro Saudoso. O major coçou a cabeça. alisou o cavanhaque e disse: .. como se o pesadelo tivesse passado..78 .. cantar um pouco. satisfeitas.. e. O soldado de vigia viu lá ao longe um vulto que se movia dentro da sombra. não sei. O Tenente Fontes. os navios de comércio: galeras de três mastros. cujas montanhas acabavam de recortar-se no céu azul. cargueiros a vapor. quase repentinamente. major. Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo e demorado: . aqueles apitos. .Não. alongando a vista pelo mar sossegado.Mais duas? fez admirado o major. nervoso. a ilha do Governador.Viram bem. A neblina foi-se e um galo cantou. era uma aleluia. que sim. do mar para as fortalezas.Assim. a alça..Manda-me trazer o almoço. ele não estava. assim. À direita. Fogo para diante! E assim era. Porque a casa em que se acantonara o destacamento era o pavilhão do imperador. altaneiros barcos à vela . era o saco da Raposa. Ficavam nela também a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e barulhenta serraria. vinha ver as cousas como iam. durante o dia. a Sapucaia horrenda. hein? Calaram-se um pouco. havia a Saúde. . com os seus depósitos de carvão. Cante lá.Eu. chegou. não é? O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante: . O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista.. Quase todas as tardes havia bombardeio.. Uma coisa. Primeiro surgiam as partes baixas.. entrecortado pelo resfolegar: . e. situado na antiga Quinta da Ponta do Caju. e. altos de tocar no céu. Não trazia luz alguma: só o movimento daquela mancha escura revelava uma embarcação. mas não grite. aí pelas horas em que não há que fazer. resvalando sobre as águas do mar. Ricardo ia partir quando o major recordou: .que iam saindo da bruma. e por fim. O soldado deu rebate.. Dizem que no Paraguai... Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito: ..O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante. a distância.. É. você pensa que está em um polígono.. Para que dizer. As formas das cousas saíam modeladas do seio daquela massa de névoa pesada. . e também a ligeira fosforescência das águas. os Órgãos azuis.Bem. recomendou: .. Demorou-se e a lancha avançava.. a ilha dos Ferreiros. As refeições eram-lhe fornecidas por um “frege” próximo e ele dormia em um quarto daquela edificação imperial. Era como se a alegria voltasse à terra. olhou a praia suja e ficou admirado que o imperador a quisesse para banhos.Faça a parte. aquilo tudo tinha um ar de paisagem holandesa. Não era raro também dormir. E em seguida.. Quaresma veio até à porta.. o ângulo.Andas aborrecido. por instantes. pernoitava em casa. A cerração se ia dissipando inteiramente.. Uma madrugada... Aqueles chiados. ir nas mangueiras. Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções. Se a coisa for assim até ao fim. Quase nunca dormia ali. A treva ainda era profunda. Niterói.Ora. a Gamboa. Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas. não é mau. tanto os navios como os fortes saíam incólumes de tão terríveis provas. não se poderia.

. Fontes perfeitamente fardado. aquela solene disputa entre duas ambições. De repente. em torno de Ricardo Coração dos Outros. o mesmo jornal retificava. Fontes foi entrando e dizendo: . reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz. o canhão tinha ao lado a munição necessária. o major perguntou: .Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão. “Seu” Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento? O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço. Fontes assestou o ouvido. disse o oficial. disse Quaresma. Não quero. em pleno serviço? . e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial.. quando aparecia uma carta de Niterói. os soldados deitados ou sentados em círculo. desculpou-se: . e a esquerda. As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga. aqueles tiros. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida.” No dia seguinte. depois de exame atento ao canhão. não iríamos brincar. armas à mão. segurando o violão. Olhava o horizonte. a terceira filha do general Albernaz. já disse! Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial. Vossa Senhoria sabe que se nós não tivéssemos ordem.Bem. Ele repetiu: . que era a que tinha feito o disparo certeiro. Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma fração decimal. como as goelas de um animal feroz oculto entre ervas. Fontes era noivo de Lalá. vou proibir. para a grandeza da pátria. porém. e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento. . perfilado. meteu uma bala no ‘Guanabara’.. ao encontro do major do “Cruzeiro do Sul”. com a mão direita no gorro. Havia uma trincheira de fardo de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos de palha. tropeçando na espada venerável que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. o Senhor Major Quaresma. Os soldados levantaram-se todos.Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha.. e o major apertando o talim. que repousava no chão. não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura: . Uma lancha avançava lentamente. .. Quaresma não se deu por agastado.E a disciplina? E o respeito? . . .Que toque é? . que acertavam. Com o canhão tal. e considerava a ilha das Cobras. Não quero mais isto. mas voluntário. o forte Acadêmico fez um maravilhoso disparo.79 Lá vinha uma ocasião.“Seu” tenente. um rolar de Sísifo. foi o major quem permitiu. e Ricardo. o rapaz ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. que entoava endechas magoadas. Os soldados já estavam nas trincheiras. saiu de sua borda um .Não é preciso. Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo quadro: à sombra de uma grande árvore.Que é isto? disse ele severamente. quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia: Prometo pelo Santíssimo Sacramento.Mas.Que é isto. a corneta feriu o ar com a sua voz metálica..Sentido. O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato familiar a que estavam ligados aqueles estrondos. . Subitamente. sem encontrar jeito.Bem.Não temos aqui Major Quaresma.. Os dous saíram. com a proa alta assestada para o posto. Quaresma continuava no seu estudo. Já proibi. a pedido da bateria do cais Pharoux. objetou Ricardo. então os jornais noticiavam: “Ontem. em continência.Fez bem.

a interessá-la. se estava. dos urinários. a assistir o tiroteio. Ia vendo aquela sucessão de cemitérios. fizeram-se subscrições a seu favor. às vezes. feitas com as pequenas balas de fuzis. vendedores de jornais. os “melões” e as “abóboras”. só vinha à noite. saía a pé. à paisana. um cidadão qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O oficial acedia. Raras vezes o fazia de dia. o mais assíduo. Os teatros eram freqüentados e os restaurants noturnos também. A lancha continuava a avançar impávida. os rapazes como as velhas. em outras. das árvores. ornavam os consolos. pelas praias até o Campo de São Cristóvão. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra caía na banalidade da repetição dos mesmos episódios. as grandes. Descia a cidade e deixava o posto entregue a Polidoro ou a Fontes. Com o tempo. A embarcação deixou de provocar a fúria do posto do Caju. o terraço do Passeio Público se enchia. Um herói! Passou a revolta e foi esquecido. Todos se abaixaram. Ia às vezes ao teatro. havia curiosos. Quando se anunciava um bombardeio. porque Polidoro. No centro da cidade. os pequenos garotos. jorrar devagar. como chamavam.. pelas ruas dos arredores. Era como se fosse uma noite de luar. quando o aborrecimento lhe vinha. um divertimento da cidade. O canhão vomitou o projétil. saía. e foi-se embora. Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças. com as suas campas alvas que sobem montanhas. e. quitandeiros ficavam atrás das portadas. Nos cais Pharoux. lixados. tanto ele como a “Luci”. inofensiva. no tempo em que era do tom apreciá-las no velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos. voltava para o quarto da cidade ou para o posto. e Fontes deu instruções ao seu chefe da peça. porém. entrando nos hábitos e nos costumes da cidade. aqueles ciprestes meditativos que as vigiam. Em outras tardes. muito pesada. além do que havia também a morte sempre presente. num segundo. A espaços. a noite era alegre e jovial. marceneiro de profissão e em atividade numa fábrica de móveis. logo que Polidoro chegava. não se metia naquele ruído de praça semi-sitiada.80 golfão de fumaça espessa: Queimou! . e quando acontecia cair uma. Chamavam-no “Trinta-Réis”.gritou uma voz. os jornais do tempo ocuparam-se com ele. gratificações. garotos. Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros. . a esperar a queda das balas. o governo pagava soldos dobrados. a criar inimigos e admiradores. seguiam o bombardeio como uma representação de teatro: “Queimou Santa Cruz! Agora é o ‘Aquidabã’! Lá vai!” E dessa maneira a revolta ia. a revolta passou a ser uma festa.. Havia muito dinheiro. engraxates. recuou um pouco e logo foi posto em posição. lapiseiras. A lancha continuava a atirar. atrapalhando o serviço. lá longe. como vasos de faiança ou estátuas. e tudo isso estimulava o divertir-se. às trincheiras. uma bela lancha que chegou fazer-se entidade na imaginação da urbs. Os mais dias que passou naquele extremo da cidade não eram diferentes deste. As balas ficaram na moda. como carneiros tosquiados e limpos a pastar. polidos. os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia. e. Mal viam o fuzilar breve e a fumaça. Quaresma. e fora um destes que gritara: queimou! E assim sempre. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou! Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. faziam-se também coleções das médias e com os seus estojos de metal. familiarmente. Eram alfinetes de gravata. Além dos soldados. a bala passou alto. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa. areados. corriam todos em bolo. vendo o astro solitário pratear a água e encher o céu. berloques de relógios. e como que se lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio da morte. cantando. a ver. logo acabado o espetáculo. zunindo. a apanhá-la como se fosse uma moeda ou guloseima. guarneciam os jardins. os dunkerques das casas médias. Fontes fez um disparo. no navio. gritavam: queimou! Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade.

Quantas deserções? . nessa matéria ele podia despender toda uma energia moça. acrescentou Albernaz. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores. Não havia quem como ele se interessasse pelos livros. Uma iniqüidade! Era velho um pouco. A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda. . mas dentro do quartel.Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas. as relações de mostra. aduziu ceticamente Bustamante. depois de ouvir todos. e. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia vice-almirante. para fazer sentir nela tão forte aspecto funéreo. embora no íntimo duvidosos.Fazem muito bem. pessimista. O tenente respondeu: . ao contrário dos seus congêneres de seita. que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos favoritos brancos. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha dado cousa alguma. ..81 As casas tinham um aspecto fúnebre. . que a gente não sabe onde fica.Eu não sei o que tem essa gente. Acabavam de jantar e jantara com o general.. Foi vindo até ao Campo. em face daquelas contestações. as palmeiras ciciavam doridas. . Bustamente... Bustamante era um comandante ativo.Houve já um esboço: a Idade Média. Havia dez dias que Quaresma o não via.Até hoje. aparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo..O almirante não deve falar assim.Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas. Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu: . o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa..Meu caro tenente. Caldas andava aborrecido. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo.. mas para os outros e para os vindouros. pelo rumor que corria. Eu sei o que são essas cousas. os mapas de companhia e outros documentos. a organização do seu batalhão era irrepreensível... . essa de elevação moral. diremos logo nós. Ele era magro e chupado. por não ter nunca comandado. A pátria está logo abaixo da humanidade. o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante. falou com unção: . de felicidade e evolução moral. O major nada disse. . é verdade. Com a sua voz arrastada e nasal. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra. E a sua afirmação fez calar todos. É uma curiosa Idade Média. Falta-lhes patriotismo! . o comandante de Quaresma. atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos” .o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja.. em que ano? Se a gente diz: “No tempo de Clotário. ele não comandaria nem uma divisão. o senhor é moço. o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a fúria de Caldas. continuou Fontes persuasivo.Não se deve desesperar. ele logo perguntou ao major: . moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali. Após os cumprimentos. recolhidas e concentradas.” “São Luís”. com suas mãos. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma. e até o tilintar da campainha dos bondes era triste e lúgubre. Ninguém ali lhe podia contestar. de ordem.Muito. além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas. Não trabalhamos para nós. nove. almirante. não se agastou.. É um desertar sem nome. aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do General Albernaz...Eu também penso assim. pela boa caligrafia com que eram escritos os livros mestres. para não deixar de vigiar a escrituração. ele próprio. mas. agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários. . Fontes. Com auxílio deles. Ora! disse o almirante. “quis executar um senhor feudal porque .. disse Quaresma. entretanto. parecia desinteressado da conversa.Isto há de sempre ser o mesmo.

O almirante criticava severamente o governo.Mas nós reconhecemos Humaitá. parece que nos tiram o envoltório material e ficamos só alma. Ele procurava ver Ismênia. na sua opinião. e o Presidente teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista consumado.Isto é.. de delíquio. eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja. os carros. as alucinações do milênio.. com o olhar.Entretanto. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e o major se sentia por qualquer cousa preso à moléstia da moça. e as outras que vinham. embora isso custasse rios de sangue. não se conteve. e ir de posto em posto. Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil.. Dentro em pouco Ricardo veio chamá-lo: o marechal estava aí. Semelhava roncar. O fato se espalhou pelo público que o apreciava extraordinariamente. o marechal perguntou: . Quaresma. resfolegava. da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. Por fim. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso. sempre ativa e diligente. Quaresma voltara ao silêncio. mas em virtude daquela doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos. É uma emoção de desafogo do corpo. Quaresma veio acompanhá-lo até ao bonde. falou mais. as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos saxões.” Objeta o fiel: “Você não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a decadência”. mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma improficuidade patente. há dias passados. e uma curta sobrecasaca surrada. sossegados como que dormiam. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de família em aventuras extraconjugais. enfraquecendo-se de corpo. envolvidos numa branda atmosfera de sonhos e quimeras. disse Fontes.Hei de mandar pôr um holofote aqui. Citam-se as epidemias de moléstias nervosas. O luar estava magnífico. O major não colhia bem a sensação transcendente. Eram dez horas quando o major se despediu.. As anosas mangueiras. cada vez mais abismada na sua mania. Era seu hábito sair à noite. pequenos. a miséria dos campônios. Quaresma veio ao seu encontro. a arrancar. Atravessaram o velho sítio de recreio dos imperadores.Não sei. disse com um longo suspiro: . lentamente: . Floriano vestia chapéu de feltro mole. e por pouco! . Um pouco afastada da estação uma locomotiva. Viu todos: Dona Maricota. O senhor sabe. Bustamente não tinha opinião assentada. vestido. dizendo vagarosamente. Não sei. Os dous andavam. Lalá. já devia ter feito todo o esforço para ocupar a ilha das Cobras. naquela noite. Não tinha plano algum. Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior.. o noivo da conversa interminável. mas sofria sem perceber o efeito da luz pálida e fria do luar. . às vezes. não por sono. Vinha cheio da perturbação especial que põe em nós o luar que estava lindo. muito quietos. levava a dar tiros à toa. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Voltou de bonde para a Ponta do Caju. de quando em quando. com falta de galhos aqui e ali. Deitou-se um pouco. de madrugada. outra que ele já tinha desaparecido.Quantos homens tem você? . não a tomaram. O marechal respondia por monossílabos preguiçosos e olhava ao redor. semi-acesa. pareciam polvilhadas preciosamente de prata. banhados pelo luar. As condições naturais eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inútil.82 mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas. e veio a fazê-lo assim: . dormindo. O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque que fora feito ao seu posto. mas o Camisão disse-me que foi arriscado.Quarenta. Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. esteve lá! . terno e leitoso. O general contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquela sua desgraça íntima. abas largas.. perguntou.. Quase ao despedir-se. as ladroagens à mão armada dos barões..

. e voltou ao mutismo. encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de feltro. Os dous se haviam encontrado na pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant’Anna. Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua.. Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. Os edifícios da serraria pareciam cobertos de neve. Um grande edifício inacabado que havia na rua parecia terminado. O luar continuava lindo.... O major continuou a mastigar a sua pergunta. dava fisionomia às cousas. plástico e opalescente.. dão homeopatia. a medidas governamentais. dizendo com aquela sua placidez de voz: . A lua povoava os espaços. até feiticeiros.83 O marechal mastigou um: “não é muito”. Quaresma espantou-se. ficaremos com a nossa independência feita. iam mover-lhe o pensamento. se a visse. Preparou a pergunta. de encaminhar o trabalho.. Eu não sei. com o seu prestígio e poder. por exemplo..Vossa Excelência já leu o meu memorial.. O bonde chegou. mas não sei. III . Quaresma! . desde que se corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável às condições do país. mas retorquiu: ...Você. À proporção que falava. Vossa Excelência verá que tudo isto muda. urgia. não há meio! ..... por mais que não quisesse. Pareceu-lhe mais simpática a fisionomia do ditador. Continuaram a andar.. como cotos de asas... mas. disse: . no memorial que Vossa Excelência teve a bondade de ler. ousou e falou: . titubeou. não é isso.E Tornaram Logo Silenciosos. aquele apelo à legislação. Quaresma. com a sua luz emprestada. mas não teve coragem de pronunciá-la.Vê Vossa Excelência como é fácil erguer este país. Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. que. com vidraças e portas feitas com a luz da lua. espíritas.. O presidente aborrecia-se. aquele a tinha metida entre os ombros proeminentes. rezas e defumações. Aproximaram-se do portão. Tenho corrido médicos. tanto era o branco luar.Mas. Ele não podia ver bem a fisionomia do ditador. quase sem levantar o lábio pendente: . o aparecimento de iniciativas. teria de esfriar. Tomou coragem.Eu tenho experimentado tudo.Mas. de favorecê-lo e torná-lo remunerador. O major pensou: que é que tem? não há desrespeito algum. o portão estava a dous passos. Quaresma. enchia a vida. Num dado momento. Aquele falatório de Quaresma. Bastava. Se lhe falasse. . Quaresma. que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?! Não havia exército que chegasse.. era indispensável. andando a pequenos passos e conversando.E remédios! Cada médico receita uma cousa. O general era mais alto que Quaresma. está capaz de favorecer. O bonde partiu. os feiticeiros tisanas.Li.Já a levou a um médico especialista? . Era um palácio de sonho. ele se despediu do major. é um visionário. pois havia na sua máscara sinais do aborrecimento mais mortal. a pé. enfim. Quaresma! E os olhos do velho se orvalhavam por baixo do pince-nez. e enquanto este tinha a cabeça sobre um pescoço alto.. Vossa Excelência. fazia nascer sonhos em nossa alma. Desde que se cortem todos aqueles empecilhos que eu apontei. Num dado momento. em vez de tributários. mas Floriano quase não o fez.Já. Albernaz reatou: . marechal.. Se Vossa Excelência quisesse. mais Quaresma se entusiasmava. pensa você. Quaresma voltou-se. Num dado momento como que houve uma bulha atrás. os espíritas são os melhores. Quaresma entusiasmou-se: . marechal? Floriano respondeu lentamente.. com medidas enérgicas e adequadas..

a pobre Dona Maricota. . rapidamente. Os feiticeiros tinham outros passes e as cerimônias para entrar no conhecimento das forças ocultas que nos cercam eram demoradas. velho escravo. onde a barba branca punha mais veneração e certa grandeza. não vale a pena. tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra cousa esquisita. Quaresma abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do passeio. contra os espíritos. procurar médiuns e feiticeiros. A mulher não quer e agora mesmo. para curá-la tanto de sua loucura como da atual moléstia intercorrente. marchando a passos largos para o abraço frio da morte. Andando. general? ... Tô crotando mandinga. o pince-nez não permitia. do peito para a moça. quase com fé. Falava da filha. irmão!” . que. Como que os deuses de sua infância e de sua raça.. porém. Levantou o olhar ao fim de algum tempo. a daquele preto africano. mas da saúde comum. lentas e acabadas. um tanto já diminuída da sua atividade e diligência. já começava a cair. lançando mão dos resíduos de suas ingênuas crenças tribais... quisessem vingá-lo à legendária maneira do Cristo dos Evangelhos. e dizia com a sua majestade de africano: .Então. naqueles últimos meses. . E o preto obscuro. Os médiuns chegavam perto da moça. que tinham às suas ordens os seres imateriais. Ela e o general tinham assistido à cerimônia e o amor de pais e também esse fundo de superstição que há em todos nós levavam a olhá-la com respeito. gritavam: “Sai. eram pretos africanos. saía arrastando a sua velhice e deixando naqueles dous corações uma esperança fugaz.Por que não a recolhe a uma casa de saúde. da Ismênia. sempre febril.. as existências fora e acima da nossa.Então foi feitiço que fizeram à minha filha? perguntava a senhora.. Em geral.Foi. no intuito de descarregar sobre ela os fluidos milagrosos. O ritual era complicado e tinha a sua demora. ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras ininteligíveis. nhanhã.. fixos. piorava sensivelmente. Chegavam. como se estivesse recebendo as últimas comunicações do que não se vê nem se percebe. general. Não se demorou. não tanto da sua moléstia mental.Meu médico já me aconselhou isso. de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse. ao lado de Quaresma. arrancado há um meio século dos confins da África. Era de fazer refletir ver aquele homem.. nervosamente. ainda certamente pouco esquecido das dores do seu longo cativeiro. lançara mão de todos os recursos. sim. acendiam um fogareiro no quarto. o general lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento amargo contra a ciência. Albernaz dizia a verdade. resíduos que tão a custo tinham resistido ao seu transplante forçado para terras de outros deuses .84 E levantou os olhos para o céu. Era uma singular situação. muito nessa postura. de lá para cá. Às vezes até levava-os em casa. e disse: . A doente assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles trejeitos e passes de tão poderosos homens que se comunicavam. titio? O preto considerava um instante. Na saída. davam um estremeção. no estado em que a menina está.Santo não qué dizê. nhãnhã. aqueles sanguinários manipansos da África indecifrável. perguntava: .. vivendo de cama. . contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos sem piedade e comiseração. . ficam com uns olhos desvairados. enlanguescendo. batiam com feixes de ervas. para sarar a filha.e sacudiam as mãos.Vô vê. que estava um tanto plúmbeo. marcado com um curso governamental.Quem? . contra os feitiços.e empregando-os na consolação dos seus senhores de outro tempo. olhando ternamente aquele grande rosto negro do mandingueiro. definhando.

quem sabe lá! Não acha? Pode ser. capitão. e só a Lapa resistia tenazmente. cada espírita. Carapebas! Ora! . por onde saíam e entravam. os revoltosos. Os legalistas afirmaram que foi uma bala de Gragoatá.Quanto quer por isso? . mas os revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma válvula ou um outro acidente qualquer. mas o que sobremodo enraivecia os adversários. e o capitão chamava o pobre homem: . É moço. tinham.Três mil-réis. uma das poucas páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões.. Um dia em que estava nas proximidades de Villegaignon. pois de todos eles esperava o milagre. Nesse mesmo dia.. cuja reputação na revolta era das mais altas e consideradas. o fim do “Javari” ainda está envolvido no mistério. . demonstrando que esperava o dinheiro. de construção francesa. Isso é peixe ordinário.. Era um monitor. Ele falava na porta de casa. A sua artilharia era temida.É o marido de minha afilhada.. com uma tampa de peixe. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte. A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro. confiante e justo. não é? O general consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas. Ortiz..Leve isso lá dentro.85 O major não sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecia-lhe toda e qualquer palavra de consolo parva e idiota. que desapareceu nas costas de cabo Polônio. uma espécie de sáurio ou quelônio de ferro. Afinal disse: . tinham a vasta baía e a barra apertada. verdadeiramente isso. Como o do seu irmão. perdido dous navios. A ilha do Governador tinha sido ocupada e Magé tomado..Dinheiro! hein? Vá cobrar ao Floriano. a insurreição chegava às portas de São Paulo. Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudança de móveis. As forças de terra detestavam-no particularmente.Bem. Cada médico que consultava. sem temer o estorvo das fortalezas. chato. sendo um destes o “Javari”. roupas e outros haveres. Moreira César deixou boas recordações de si e ainda hoje há lá quem se lembre dele. era ele não ter quase borda acima d’água. As suas máquinas não funcionavam e a grande tartaruga vinha colocar-se em posição de combate com auxílio de um rebocador. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho: . cada feiticeiro reanimava-o.Quem é? . Entretanto.. agradecido por este ou aquele benefício que o famoso coronel lhe prestou. As violências.. os crimes que tinham assinalado esses dous marcos de atividade guerreira do governo.. patriótico ou da guarda nacional. uma vontade. O que não podia ser transplantado. O pescador voltava e ficava um tempo em pé. Não se soube e até hoje não foi esclarecido por que foi. era destruído pelo fogo e pelo machado. uma energia..General.Venha cá! O homem aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava: . Ele sorria diabolicamente e familiarmente regateava: . A revolta já tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram problemáticas. As forças revoltosas pareciam não ter enfranquecido. . foi a pique. o “Solimões”. Está caro.Você não deixa por menos?. o senhor conhece. o senhor permite que eu a faça ver por um médico? . No Sul. porém. ficar quase ao nível do mar e fugir assim aos tiros incertos de terra. chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria. porém. A ocupação deixou lá a mais execranda memória e até hoje os seus habitantes ainda se recordam dolorosamente de um capitão. Quaresma foi procurar o Doutor Armando. porque era sereno. raso com a água. pela sua ferocidade e insofrido gosto pelo saque e outras vexações. Passava um pescador. capitão vá lá por dous e quinhentos.

A época era de susto e temor. em frente à Saúde e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos. só os comunicava à filha. secretários e outras pessoas influentes no ânimo de Floriano. apelava para a sua condição de estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. temendo que uma palavra. porque o genro cada vez mais se fazia florianista e jacobino. que um olhar. que um gesto. Hesitava. se era muito instado. a passagem de balas. obrigara a Bustamante a fazê-lo sargento.86 Quaresma permanecia de guarnição no Caju. andava macambúzio. e. encaminhou-se para a casa do seu compadre. . transformada. era bem possível que uma ou outra parte se ativessem a isso. Tinham-lhe tirado o sangue. ido dar volta pela cidade. Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue. A vida do pobre menestrel era assim de um melro engaiolado. por cuja vida. já obtivera uma graça governamental. pois os outros oficiais estavam doentes ou licenciados. não esquecendo também de passear pelos corredores do Itamarati. Ricardo Coração dos Outros. e. Mas. esperando o fim da rebelião que não parecia estar próximo. Verdade é que ele era italiano e a Itália já fizera ver ao ditador que era uma grande potência. aquela exigência de passaporte. caso fosse preso. Fontes notara a sua tristeza. interpretados por qualquer funcionário zeloso e dedicado. e passava os dias taciturno. Naqueles tempos. ele se afastava um pouco e ensaiava a voz. toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. na vaga de um colega. pois até agora o governo não aceitara os seus oferecimentos de auxiliar o tratamento dos feridos. fazendo-se ver pelos ajudantes-deordens. o motivo de viver. Como o hospital. A moça viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava ultimamente. e. porém. Ele nada tinha com ela. desde o dia da proibição de tocar violão. dar arras de sua dedicação à causa legal. de quando em quando. para minorar-lhe o desgosto. não era marinheiro e não sabia. resolveu demorar-se mais. e viera receber dinheiro. Havia tanta má vontade com os estrangeiros. as descargas das lanchas. o doutor tinha saído. quando o governo provisório expediu o famoso decreto de naturalização. demitido a bem do serviço público como suspeito por ter ido visitar um amigo na prisão. dentro da baía. Floriano pagara a quantia de cem contos. a fim de cumprir a promessa que fizera ao general. De resto. e Fontes. extinta por uma descarga das forças legais. simplesmente. sendo uma espécie de inspetor-geral. porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa graduação e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes. Fora nomeado médico do Hospital de Santa Bárbara. não o levassem a sofrer maus quartos de hora. dormira aquela noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até à tarde. até ali. de uma justa. mas no caso de que se lembrava. que. O major foi encontrar pai e filha em casa. da Casa de Correição. em prisão de Estado. porém. tratava-se de um marinheiro. Coleoni ainda não decidira a sua viagem à Europa. E o doutor tinha razão. ele nada tinha que fazer. naturalmente. encostado a um tronco de árvore maldizendo no fundo de si a incompreensão dos homens e os caprichos do destino. e todos esses que ele sentia. Coleoni. e. tirado na chefatura de polícia. ficasse no ilhéu do mesmo nome. e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento. Deixara lá Polidoro. por uma penada mágica. tanta arrogância nos funcionários que ele não se animava a ir obter o documento. Ele. não tendo protestado manter a sua nacionalidade. como se fossem feições de uma festa. de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos estrangeiros. dava-lhe susto. não dissera a ninguém a sua opinião. Não foi sem custo. conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio. se os representantes diplomáticos de seu país tomariam interesse pela sua liberdade. após despedir-se de Albernaz. ao contrário de seus hábitos. para desinteressar-se dele ou mantê-lo na famosa galeria nº 7. de um divertimento qualquer em que a morte não estivesse presente. para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos.

pois estava a paisana e tinha abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as susceptibilidades republicanas dos jacobinos. tirando o chapéu da cabeça baixa. entretanto. quando lutava pela fortuna se fez duro e áspero.. .Esta mesmo. . uma coisa vazia. naquela obrigação que incrustam no espírito das meninas. que os não examinava sequer. no momento. desânimo e desesperança. uma raiva de si mesmo. aquela fuga do noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nela se abismou nessa idéia desesperada. Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Graças à frouxidão. O casamento já não é mais amor. uma injúria.Aquela que estava para casar com o dentista? . fisionomias com quem se encontrava diariamente há tantos anos e cuja contemplação lhe fazia falta e talvez lhe restituísse a calma e a paz de espírito. pois percebia bem que só se pode ser bom quando se é forte de algum modo. abandonando os episódios da sua vida militar. Na última carta que recebera de Dona Adelaide. desinteressado daquelas altas cousas de governo como se não o fosse!. deixando perceber numa frase e noutra o desânimo e desesperança. passar pelo quartel do seu batalhão. Eram elas satisfatórias.87 Tanto mais que o via apreensivo. perdeu a dureza de que se revestira. Sendo bom de fundo.. e de quem tinha notícias.A segunda. não é maternidade. que. Na verdade o major tinha um espinho n’alma.” Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negócio de balas é assim como a chuva?!. como se pusesse nele tudo que queria dizer sobre o caso. Ultimamente o major tinha diminuído um pouco o interesse pela moça. se não se interessava pela sorte deles. Ela pronunciou este “ahn” muito longo e profundo. à pobreza intelectual e fraqueza de energia vital de Ismênia. Não se demorou muito na casa do compadre.. que não avaliava o alcance dos seus projetos. Assim que Quaresma apontou na esquina. Via bem o que fazia o desespero da moça. não é nada disso: é simplesmente casamento.. notados por sua afilhada na sua fisionomia já um pouco acabrunhada. no “Sossego”. abrangia-a ainda na sua bondade geral. . a sentinela deu um grande berro. porém. contudo ele tinha necessidade de ver tanto ela como o Anastácio.. três vezes por semana.. Policarpo. se lembrava sorrindo: “Não te exponhas muito. . que elas se devem casar a todo o custo.. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças de reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a idéia que ele fazia do ditador. mas via melhor a causa. antes de voltar ao Caju. O quartel ainda ficava no velho cortiço condenado pela higiene. lá para as bandas da Cidade Nova. Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar com um presidente que o chamava de visionário. se não tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de Albernaz. andava atormentado com o seu caso de consciência. a ponto de parecer uma desonra. Era pois para sustentar tal homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era.Mas qual delas? perguntou a afilhada. Não tardou. Quaresma explicasse o motivo de sua visita. pela sua vida feliz e abundante. por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos. havia instantes que lhe vinha um mortal desespero. não pode agora. sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades. fez uma imensa bulha com a arma e ele entrou. pelo enriquecimento do país. mas logo que se viu rico. Ia ver se arranjava uma pequena licença. havia uma frase de que. pois. para visitar a irmã que deixara lá. mais tarde com certeza ele fará a cousa.Ahn!. o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural? Pensando assim.. Toma muita cautela. a Ismênia. por carta. mas em seguida considerava: o homem está atrapalhado. Vivia nessa alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreensões. larga e humana. fazendo do casamento o pólo e fim da vida. ficar solteira. . ele queria.

. Ah! se isso fosse para realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?. às vezes. examinava a escrita de um livro quarteleiro.Quando se acabar a revolta.O major adivinhou! Quaresma descansou placidamente o chapéu. pois as exigências de sua mocidade levavam-nas para outros lados.. Para onde ia? Para o Sul. animá-la e. Bustamente estava no seu cubículo. tinha-lhe diminuído a lassidão.. majestade e demora. do Presidente. era do Itamarati.. .A revolta ainda não acabou? . Não se assuste. irrepreensível no seu uniforme verde-garrafa. E passou o dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias. se a mania parecia um pouco atenuada. . armas! A sentinela não pôde fazer a bulha da entrada. Tenho que acabar a organização da unidade e não posso. coronel. Ele levava a íntima convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma cousa. alamares dourados e vivos azul-ferrete.. Estava magra e fraca. tinha que passar para a infantaria. as irmãs se desinteressavam um pouco. Ele não dizia nunca do quartel-general..Mamãe. tirado o mortiço dos olhos e os seu lindos cabelos castanhos. O instrutor coxo continuava. A moça continuou a definhar. com reflexos de ouro. Começava a tarde. Não sabia. Podia ser. . e..O major é que vai comandar o corpo. mais tarde irei lá ter. . fazia-o uma espécie de batalhão da guarda... Quaresma lembrou-se de sua partida. favorito e amado do ditador. estava sempre no quarto da filha. Recebi ordem do Itamarati. mas assim não se deu. porque só viu o major quando já ia longe. Mais tarde. Correu a uma livraria e comprou livros sobre infantaria. Havia alguns tiros espaçados. o instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados gritos: ombroôô... Dona Maricota. quando se casa Lalá? .Não. tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes.Para onde? .. armas! mei-ããã volta.. sargento! É como mandam as instruções de 1864. e o Coronel Inocêncio explicou a alegria: . E o senhor não vai? . para Niterói? Não sabia. para Magé. Tratava-se de uma emenda ou de cousa semelhante. talvez... a gritar: om-brôôô.. quando a olhava muito. mais conhecido por gabinete. disse Bustamante. volver! subiam no céu e ecoavam longamente pelos muros da antiga estalagem. do chefe supremo. a consolá-la. Com auxílio de um sargento. Logo que viu Quaresma entrar. sabia? . Era sua mãe quem mais junto a ela vivia.. alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado esquerdo. Parecia que assim dava mais importância a si mesmo e ao seu batalhão.. o comandante exclamou radiante: ..88 No pátio. a ponto de quase não poder sentar-se na cama.. com força. Ele desceu até à cidade e foi ao correio. mais belos se faziam quando cercavam a palidez de sua face. bebeu um pouco d’água. Percebeu que era impossível obter a licença e também necessário mudar os seus estudos: da artilharia.Sabe que temos de marchar? . Quaresma não se espantou.. como que se sentia um tanto culpada pela sua infelicidade.Tinta vermelha. precisava também dos regulamentos: arranjaria no quartel-general.. Antes de chegar ao correio. naquele dia. O marido de Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general.. os levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação definitiva da República. se espantou muito Dona Maricota com a loquacidade da filha. no Café do Rio. A moléstia tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia. quando Quaresma saiu do quartel. e assim foi que. o seu organismo caía.Não sei. nem mesmo do ministro da Guerra. nem se aborreceu.. Raro era falar muito.Não.

se tocava. como um adejo de borboleta. você engorda. mamãe! Eu sei: vou morrer e peço uma cousa à senhora. Ah! Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho. pois não encontrara colete. por aí.. Elas foram lá ao quarto várias vezes e parecia dormir. com as pernas para fora. solicitações incompreensíveis. continuava a repeti-lo pacientemente. Quaresma foi ao enterro. Sinhá. Ismêndia. transparecia repugnância por estarem perto.. e. toma forças. e foi ver a pobre moça. Não tardou muito a se verificar. com os seus traços miúdos e os seus lindos cabelos. no caixão. e que a tivesse impressionado.Qual. Lembrou-se do seu noivo. Iludindo sua mãe. Distraíram-se. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente: .Surpreendeu-se.Eu quero. doce e naturais. Viu os seu ombros nus.. orgulhosos. ele não gostava muito dessa cerimônia. saltava-lhe do corpinho. Pôs a saia. e de muito.. Quis ainda ver se a dissuadia daquele pensamento. . Havia ali.. por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto. A morte tinha fixado a sua pequena beleza e o seu aspecto pueril.. Teve uma fraqueza. Chegou-lhe o desejo de vesti-lo.. simpatias e antipatias. A mãe saiu do quarto. seguras. Eu vou morrer. Com que indiferença ela lhe respondeu: não volta! Aquilo doeu-lhe. adiantou-se Dona Maricota. Que mulher má! Desde esse dia. Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs. Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do cemitério.uma multidão que trepava. deu um ai e caiu de costas na cama. com lágrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha falava a verdade. voltou-se para o outro lado. Pouco mudara.. estava morta.. deu com a porta semicerrada e levantou-se para fechá-la. O Doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela quarta vez. mas veio. do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcanti. atravessar pelas ruas de túmulos . Quando a vieram ver. a filha. com um ar imaculado de imagem.. . porém. o seu colo muito branco. serenamente: . antes como se fosse um lugar visto há muito tempo. Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e se queriam aproximar. muito branco e redondo. olhando o teto. falava com discernimento. Olhou em redor.89 A mãe respondeu-lhe e ela esteve um instante calada.. havia túmulos arrogantes. Ismênia despertou: viu. porém. Era ela mesma ali.Não diga isso. com a inocência e a falta de acento próprio que tinha tido em vida.. na estreiteza da várzea e nas encostas das colinas. mamãe. Era dela aquilo tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. mamãe. alisando-lhe a face com a mão. Teve vontade de vê-lo mais de perto. A mãe ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. vieram recordações do seu casamento falhado. troçar. As palavras saíram-lhe dos lábios. lutava por espaço. Dona Maricota ainda quis brincar. mas não se recordou com ódio. repulsões. Contemplando aqueles tristes restos. e foi ao espelho. humildes. A mãe dizia-lhe tudo isso devagar. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para contemplá-lo. docemente..Mamãe.. em outras. O véu afagou-lhe as espáduas carinhosamente. naquele mudo laboratório de decomposições. e. Qual morrer! Você vai ficar boa.. vaidosos.. pôs-se a dormir. entretanto. ir vestida de noiva. coberta de flores. seu pai vai levar você para Minas. acompanhada por uma criada. com um leve respirar espaçado. vestida de noiva. De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. e ela ia para a cova com a insignificância. tinha conseguido consultar Mme. uma cousa. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio. Suponho que é verdade: o que é que você quer? . sentava-se à cama e conversava com prazer. comovida. ela parecia melhor.Bem. era a Ismênida dolente e pobre de nervos. como se se tratasse de uma criança. alegres e tristes. desde alguns dias. como nos dias de suas melhores festas. . que estava dentro daquelas quatro tábuas. minha filha. após essa contemplação disse à mãe: .Eu sei. O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dous dias cheia. o seu traje de noiva.

. chorando. não comprava lá. alguns choravam. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. “À minha irmã”.Papai. As irmãs iam e vinham. Não há meio da Marinha mandar os processos certos. moviam-se lentamente ao leve vento que soprava. . Não lhe fora possível deixar de ir trabalhar. Dizem que tem cousas boas e é pechincheiro. são breves. As inscrições exuberam: são longas. Tinha uma tranqüilidade quase indiferente.. nada se faz. caramanchões extravagantes. o lenço aos olhos já secos. As grinaldas foram aparecendo e sendo penduradas nas extremidades das colunas do coche: “À minha querida filha”. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e faziam inocentes comentários sobre os dourados e enfeites. lá embaixo. onde Dona Maricota também estava. todos aqueles que querem fugir do túmulo para a memória dos vivos são anódinos felizes e medíocres existências que passaram pelo mundo sem ser notadas. e quando Quaresma passou. pôde ouvir o almirante dizer: . É caro! Vai ao “Bonheur des Dames”. para fugir ao anonimato do túmulo. beijou o cadáver: minha filha! Quaresma adiantou-se. sem deixar na vida um traço mais fundo de sua pessoa... um esforço extraordinário. As fitas roxas e pretas. Não deu um passo.. a de olhos maliciosos e quentes. esteve um instante parada e logo caiu na cadeira. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. com letras douradas. Saiu. uma notabilidade.É isto. O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. e tudo tranqüilo. . estava o general silencioso. um desses nomes que enchem décadas e. disse ele. ele tinha afivelado ao rosto a mais profunda máscara de tristeza. O major voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. Quaresma ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as esculturas que se amontoavam. estava deveras combalido. Genelício tomou um partido: foi retirando os círios de ao redor do caixão. que levava. têm nomes. Quinota chegou à sala de jantar. cochilava a uma cadeira. Na rua parecia que havia festa.. a quem aquela dizia: . tendo ao lado Fontes e outros amigos. E se sente um desespero em não se deparar com um nome conhecido. têm datas. com vasos. noutros. sobrenomes. de sua alma! Quaresma quis afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. parece que continuam a viver.. Bustamente e Caldas continuavam a conversar baixo. Todos estavam vendo sem saber o que fazer. para o fim. toda a certidão de idade do morto que. O general não respondeu. afastados. sereno e calmo. general. A mãe levantou-se. nem uma celebridade. mesmo já mortos. para escapar ao nivelamento da morte. tendo ao lado Lalá. O Lulu. em alguns túmulos. Ele estivera na sala de visitas. retratos. O seu pince-nez azulado também parecia de luto. às vezes. É um relaxamento. se fosse você. Na sala de jantar. está aí o coche. ainda ouviu Estefânia dizer a alguém: o coche é bonito. de seus sentimentos.. ao fim dos fins. ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas.. eram pirâmides de pedra tosca. Caldas e Bustamante conversavam baixo.. com fumo no braço. No corredor. cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. filiações. Os seus cabelos já tinham muitos fios de prata. complicações de ornatos. O major ficou na janela que dava para o quintal. O tecido do céu se tinha adelgaçado. O governo está exausto. E lá ia aquela moça por ali afora para o buraco escuro. . não se pode mais conhecer e é lama pútrida. Tudo é desconhecido.. a doutora. fardado do colégio. veio até ao esquife. exprimindo uma grande contensão. Falou à mulher que se ergueu com a face contraída.Qual! Os homens estão dentro em pouco aqui. passou. de quando em quando. cousas barrocas e delirantes.. um serviço urgente fizera-o indispensável na repartição. A Estefânia. cruzes e inscrições. foi saindo com o chapéu na mão. o azul estava sedoso e fino.Eu. não está lá o Doutor Genelício.90 ressumava o esforço. Todo de preto.

deram volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos. lá vai o enterro da moça!” O caixão foi afinal amarrado fortemente no carro mortuário. cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o município. É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Embarcaram todos. o Doutor Campos e o Tenente Antonino. do aparentemente fácil. A revolta tinha tido sobre a política local efeito pacificador. todo roxo. até os araçazeiros depenavam.todo um museu de indumentária que aqueles roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e estradas poeirentas das vilas e lugarejos. As janelas se povoaram. menores ali. tanto no falar. há chapéus de seda . . entre os dous poderosos contendores. de método. noutro dia ali. voltava aos poucos ao estado de abandono em que ele o encontrara. e assim ia saltando de trecho em trecho. em direção à seção eleitoral que lhe ficava nas proximidades. espécie de Medéia esquelética. das urtigas e outros arbustos. brotos de fruteiras. uma teimosia de caduco. na vizinhança. Não se sabe bem donde saem tantos tipos exóticos. e o enterro rodou. Os arredores da casa ofereciam um aspecto desolador. irregulares. foi um divertimento. ele a protegeu pacientemente com uma cerca de materiais mais inconcebíveis: latas de querosene desdobradas. com uma energia e bravura que sorriam aos fracos expedientes da inteligência crestada do antigo escravo. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de Felizardo. de forma que. para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses. por sua porteira. Tinha uma horta que disputava diariamente às saúvas. com um horror artístico. espadins e gibão. Não faltam também os valentões. esse desfile de manequins de museu. Na sua inteligência havia uma necessidade do tortuoso. mais terríveis e depredadoras. como nos canteiros que traçava. um instante unidos. sem fazer trabalho que se visse. e. Entretanto ele cultivava. e. com guarnições de galões dourados. alguns pombos imaculadamente brancos. vencendo obstáculos. folhas de coqueiros. sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana. De tal forma são eles esquisitos que se pode mesmo esperar que apareçam calções e bofes de renda. caibros bons. tábuas de caixão. incapaz de achar meios eficazes de batê-las ou afungentá-las. ao paralelismo. Todos os partidos se fizeram dedicadamente governistas. em tudo ele punha esse jeito de sua psique. As formigas voltaram também. muito brilhantes. Ela passava longos e tristes dias naquele isolamento..91 Apareceu o caixão. A erva daninha crescia e cobria tudo. O candidato foi imposto pelo governo central e as eleições chegaram. cortar febres. permitindo que as terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que não condizia com o seu trabalho efetivo. escarvavam o chão cheios de impaciência. do carrapicho. não obstante ter à mão bambus à vontade. ergueram o vôo. um menino na casa próxima gritou da rua para o interior: “Mamãe. uma velha cafuza. houve um traço-de-união que os reconciliou e os fez entenderem-se. mas baldo de iniciativa. à simetria. Um dia capinava aqui. de um lado e doutro da rua. com calças bombachas e grandes bengalões de pequiá. A esse tempo. IV O Boqueirão O Sítio de Quaresma. Não havia quem como ela soubesse rezar dores. Ao osso que ambos disputavam encarniçadamente.. com grandes rodeios. As plantações que fizera tinham desaparecido na invasão do capim. chegou um outro mais forte que pôs em perigo a segurança de ambos e eles se puseram em expectativa. as aves de Vênus. fugindo à regularidade. Era a sua mania. ruflando estrepitosamente. Aqueles que iam acompanhar até ao cemitério procuravam os seus carros. há calças boca de sino. restos de seara. a Sinhá Chica. de continuidade no esforço. maiores aqui. o seu vício. devastando tudo. como os animais da vizinhança a tivessem um dia invadido. ruços. em Curuzu. Tudo aquilo ia pra terra. quase sem bater asas. cobertos com uma rede preta. Há sobrecasacas de cintura. apesar dos esforços de Anastácio. outro pedaço. cujos cavalos. Para a monótona vida que levava Dona Adelaide. à espera do que der e vier.

havia mesmo recém-chegados de outros ares. No interior. espécie de oficial de registro civil. mas bem podiam ser esquecidos. era nas moléstias graves. sentada sobre as pernas cruzadas. . todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes. Os vermes haviam dado num feijoal. Enquanto a terapêutica fluídica ou herbácea de Sinhá Chica atendia aos miseráveis. Não esquecia também os santos. foram saindo na sua frente. pelas capoeiras. e era contado em toda a parte e a toda a hora. vitórias extraordinárias. parecendo esmalte de olhos de múmia. aos milheiros. fixos. e um só não ficou.. sujeitos a fugirem aos exorcismos. Com o Apolinário. olhos baixos. aos dous. ele era político. era forte no catecismo e conhecia a história sagrada aos pedaços. italianos. Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino. sobre a sede da dor ou da tarefa. a santa madre igreja. benzeduras e fumigações.. ia ao encontro da população pobre. daquela em cujos cérebros. Não tardou o milagre a verificar-se. aos vinte. por contágio ou herança. É de dever falar em casamento. nas incuráveis. que vedava o exercício de sua transcendente medicina. O Doutor Campos não tinha absolutamente nenhuma espécie de ciúme dessa rival. repetidas vezes. A velha lá foi. abismada nos misteriosos poderes dos feitiços. substitui a solene instituição católica. a do Doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos. e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro. deixou uma extremidade aberta e colocou-se na oposta a rezar. Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradável. porque a nossa gente pobre faz uso reduzido de tal sacramento e a simples mancebia. O vigário ficava relegado a um papel de funcionário. um de um grupo passava para o outro. Na redondeza. aos quatro. portugueses e espanhóis. rezando em voz baixa. de fraco brilho. e pelos troncos de árvores. como se fossem tocados pela vara de um pastor. entretanto. não se resumia só na gente pobre da terra. embora não soubesse ler. entre a gente pobre e mesmo remediada. sobre as forças ocultas. balbuciando preces que afugentavam o espírito maligno que estava ali. os mandamentos. denunciadoras do seu estranho poder quase mágico. as duas medicinas coexistem sem raiva e ambas atendem às necessidades mentais e econômicas da população. aos dez. Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento doméstico em cruz. mas também por aquela estranha superstição européia de que todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria. tinha também a habilidade de assistir partos. Seria a impopularidade. ali nascida ou criada. o proprietário já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes de Sinhá Chica. assim como se fizesse uma cerca de invisível material que nelas se apoiasse. ainda vivem os manitus e manipansos. Às vezes. Um dos mais curiosos. devagar. não tanto pelo preço ou contágio das crenças ambientes. era ela o forte poder espiritual da terra. a silvina. por toda a parte. Além desse saber que a fazia estimada e respeitável. quase grátis. mas não apelou nunca para o arsenal de leis. aos cinco.toda aquela drogaria que crescia pelos campos. Contavam-se dela milagres. cobrindo as folhas e os colmos. encarregado dos batizados e casamentos. o cipóchumbo . o famoso capelão das ladainhas. tanto ela era encarquilhada e seca. A da Sinhá Chica. que se socorriam da sua força sobrenatural. consistia no afastamento das lagartas. que nos perseguem ou nos auxiliam. cuja evolução mental exigia a medicina regular e oficial. aos pobretões. A sua clientela. Os vermes. nas complicadas. num rebanho moroso e serpejante.92 curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais: a língua-de-vaca. quando as ervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pílulas do doutor eram impotentes. Pôs cruzes de gravetos pelas bordas da roça. pois toda a comunicação com Deus e o invisível se fazia por intermédio de Sinhá Chica ou do Apolinário. Armou-se de um pequeno desdém pelo poder sobre-humano da mulher. aduzindo a eles interpretações suas e interpolações pitorescas. as orações ortodoxas.

. sem força e sem crenças. escrevia-lhe cartas desesperadas. a machado. repugnava-lhes à natureza. naqueles há revolta. Comprava os gêneros na venda e não se incomodava com as cousas do sítio. à menor bulha ouvida. o marido dela. entusiástica.. o esvoaçar dos pombos . faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade do valor. acabava de ser ferido. que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pai. O “Sossego” parecia dormir.. Parece que nem um dos grandes países oprimidos. a Índia apresentará o aspecto cataléptico do nosso interior. De quando em quando. se o faziam. há fuga para o sonho. das rezas e benzeduras. porém.todo esse hino matinal de vida. passo as mãos pelos olhos como para afastar uma visão má. milha filha! Que horror! Quando me lembro dele. todo o dia. com um lenço de cores vivas. parece morto. Filha: um combate de trogloditas. entretanto. essa espécie de desânimo doentio. Tinham dous filhos. Justamente quando ela me chegou às mãos. sendo a presença deles muito requestada nos bailes da vizinhança. no nosso. fazendo promessas. duvido da justiça disso tudo.. à noite. Uma confusão. traía desânimo. de trabalho. A ausência de Quaresma trouxera para o seu sítio essa atmosfera geral da roça. de lealdade e bondade. a espaços. no que eram exímios. a dormir ou perambular pelas estradas e vendas.. eu duvido.. Ansiava pela volta do irmão. mesmo desespero. nem mesmo a da feitiçaria. Aqueles arados de ponta de aço. desalento. De manhã.. a facão. e ninguém sabia ver as paineiras em flor. bugigangas que denunciavam ainda neles gostos bastantes selvagens. de um brilho azulado e doce.. a coronhadas. passando os dias pelos matos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já tinha acabado. à espera que o príncipe o viesse despertar. voltavam para casa alegres. Eu duvido. uma cousa pré-histórica. um espelho. aparecia pouco em casa de Quaresma. ferimento ligeiro é verdade. como uma pena ou castigo. a imprevidência. a Irlanda. duvido que seja certo e necessário ir tirar do fundo de . e.. Passavam então uma semana em casa. mas o trabalho continuado. A última recebida. Embora seus pais vivessem em casa de Quaresma. moles. mas que me levou à cama e tratar-me-á uma convalescença longa. Tudo aí dorme. imprecações . dormir de encantamento. que tinham chegado com a relva reluzente. não era mais confiante. duvido da sua razão de ser. bracejando angustiosamente para o céu mudo. a poesia e o viço sedutor de plena natureza. era à noite. ambos inertes. Eram dous rapazes: o mais velho. saíam com a “harmônica” a tocar peças. José.93 Felizardo.. de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o chilreio álacre do passaredo. às quais ele respondia aconselhando calma. Fiquei com um horror à guerra que ninguém pode avaliar. se aparecia. Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta. Levavam o descuido da vida. “Querida Adelaide. Máquinas agrícolas. assim de quinze em quinze dias. Só agora posso responder-te a carta que recebi há quase duas semanas. Essa atonia da nossa população.e tudo isto no seio da treva profunda da noite. mas que tristeza de gente! Ajuntavam à depressão moral dos pais uma pobreza de vigor físico e uma indolência repugnante. caíam docemente como aves feridas. raramente lá apareciam. e. era porque de todo não tinham que comer. cochila. de indiferença nirvanesca por tudo e todas as cousas cercam de uma caligem de tristreza desesperada a nossa raça e tira-lhe o encanto. dormia vestido. orçava pelos vinte anos. a Polônia. enferrujavam com a etiqueta da casa.. chorões sinistros. um infernal zunir de balas. Vivia num constante pavor. capazes de dedicação. a ponto de não terem medo do recrutamento. Sofria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na cidade. estavam hediondos e morriam de tédio no abandono em que jaziam. dorme-se. um vidro de água-de-colônia. quase sempre nos dias de festa e domingos. Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho contínuo. não se ouvia mais o cacarejar das aves no galinheiro. galgando a janela e embrenhando-se na capoeira. Dona Adelaide não tinha nem gosto nem atividade para superintender aqueles serviços e fruir a poesia da roça. que não haviam ainda servido. Eram. Que combate. tinha de sopetão outro acento. Oh!. com as suas lindas flores rosadas e brancas que.. satisfeitos.

E ele perguntava de si para si.. Não imaginas como isto faz-me sofrer.... penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil... a matar... O primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta para o quadro. minha irmã. Adelaide. Tenho medo.. sem sonhos generosos. delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos. a que homem...... Coleoni e família se haviam retirado para fora. vi homens de Cro-Magnon. quando disputávamos a terra a elas..... pelo qual tanto ansiava. meu gorro. convalesceu longamente.. Como Quaresma dizia na carta.. não parava. porque não sabemos para onde vamos. Entretanto.. melancolicamente. o de Coração dos Outros era físico e não se cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara até à posição de combatente...... sem amor. a que Deus... e o sofrimento que vou sofrer toda a vida foram empregados.. E se o sofrimento de Quaresma era profundamente moral. toda a gente já pressentia isso e queria esse alívio. aquela ferocidade que se fez e se depositou em nós nos milenários combates com as feras. por prazer físico.. sem uma visita. Tudo o que nele pus de pensamento não foi atingido. Eu matei. contudo. fora ferido mais gravemente. onde....... e Ricardo. de não mais amar.... maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua brutalidade e fealdade.. que foi ferido e caiu ao meu lado.. uma cidade...” .. Esta vida é absurda e ilógica. Quando caí embaixo de uma carreta... nas idéias e mais que tudo nas suas desilusões. foram vilipendiados e desmoralizados em prol de uma tolice política qualquer. muita crueldade. exigindo a viagem de uma margem à outra bem doze horas por estrada de ferro. ferido como estava. Tanto na ida como na volta.. Assim. as cartas dos países... sempre a matar. queria.. o que doía não era a ferida.. era a consciência.. passo por doido.. ambos pelos mesmos motivos. sem ver uma face amiga. demoradamente... Ninguém compreende o que quero.. muita ferocidade. O trem. uma rua onde o houvesse. Tinha vontade de não mais pensar.. o que faremos amanhã. por preguiça e desleixo. Além do que. foram estragados. Adelaide. o lançara na mais terrível das aventuras. sem piedade. pela sensação material pura e simples de viver. não viera vê-lo.. e ele se limitou a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquele seu “Sossego”.. meu gorro!” parecia que era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino... porque preciso de perdão e não sei a quem pedir. que mais me façam sofrer e tirem o doce sabor de viver. A sua sensação era de fadiga.... onde sonhara repousar calmamente por toda a vida. o general. a alguém enfim. para que do fundo de mim mesmo ou do mistério das cousas não provoque a minha ação o aparecimento de energias estranhas à minha vontade.. Ricardo. observavam esse fim com tristeza.... não encontrou um país.. e. uma província.. também foi descobrir dentro de si muita brutalidade. e o sangue que derramei. viver... onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo.. O melhor é não agir. a gemer e pedir .......... Vivia só. eu matei! E não contente de matar. tolo.... Quaresma passara pela estação em que morava... porém. depois dos sacolejamentos por que vinha passando .onde? E o mapa dos continentes.. ninguém deseja penetrar e sentir... não física. e desde que o meu dever me livre destes encargos. na quietude mais absoluta possível.. era. envolvido na suavidade da convalescença.. eu já tenho medo de viver.. a pensar no Destino. e o .. este.. do Neanderthal armados com machados de sílex.. a revolta na baía chegava ao fim. Este teu irmão que estás vendo também fez das suas. O almirante e Albernaz...“capitão.. Os hospitais em que se tratavam estavam separados pela baía. de terras pobres e árvores velhas... passavam-lhe pelos olhos e não viu. mas moral e intelectual. estava o verdadeiro sossego.. era a alma.. as plantas das cidades. entretanto..... de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol.. na sua vida. Eu não vi homens de hoje..... o seu ferimento não era grave. irei viver na quietude. agora intransponível. ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus pés. porém..94 nós todos a ferocidade adormecida. foram gastos. na terra..... Perdoa-me! Eu te peço perdão.

levanta-te! Olha que tens que ir à missa do Senador Clarimundo. a esperança de ter os nomes nos jornais. Albernaz ergueu-se logo do leito... fez Caldas. durante a comoção. O que o fazia sofrer era aquela semivida da moça. era chamado patriarca da República. vai ficando em nós uma suave recordação do ente querido. esses ofícios fúnebres se faziam nas igrejas do centro da cidade. após uma pausa.Mais baixo. Caldas! . Isto é um país perdido. Há nos próceres republicanos uma necessidade extraordinária de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro. não há mais gente que preste. hein? . preparou-se. uma boa fisionomia sempre presente aos nossos olhos. de chocar.Dizem que a esquadra já saiu de Pernambuco. não se sabia bem por quê. aduziu Caldas. você não me dirá? Ah! Se fosse com este seu criado. e o marechal vai intimá-los a renderem-se. bem cedo. Não tanto que quisessem atestar à família do morto esse ato delicado. continuou o general. levar quase sete meses para dar cabo de uns calhambeques!. Albernaz conhecera-o vagamente.. Fora Caldas quem falara primeiro e a resposta do general fê-lo sorrir irônico dizendo: . além disso.Já era tempo.Que fez. e uma era de progresso vai abrir-se para o Brasil... Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. a cousa não era tão fácil assim... A missa ia começar.Enfim. acaba colônia inglesa. Caldas.. após a República. o seu prestígio cresceu e já se falava nele para substituir o marechal. e. Ouvindo a recomendação da mulher. . a sua influência ficara sendo grande.Entre nós. quando ia assinar. mas não corroer. na sacristia. . não os demovia dos seus pensamentos guerreiros.. consolidada. mas ambos evitaram entrar na nave cheia. tribuno temido.Você exagera. . continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador Clarimundo. mergulhada na loucura e na moléstia.. . como essas moléstias duradouras nas pessoas amadas.. e ficaram a um vão da janela. . Albernaz avançou. Albernaz não deixou de atirar-se também a uma das listas que andavam pelas mesas da sacristia. A morte tem a virtude de ser brusca. Naquela manhã. a esquadra tanto tempo no Recife.Agora não.. dominava-os. A dor da morte da filha já se esvaíra muito na sua memória. não apresentara aos seus pares do Senado nada de útil e benfazejo.. no tempo do Império.. com diversos outros.Chico. a cousa já estava acabada. . agitador. agora a autoridade está prestigiada.Qual o quê! Onde é que você viu um governo. Era o almirante.. tinha logo partido e atacado. mas assistir a sua missa era quase uma afirmação política. Obediente à mulher. meio sarcástico: . Havia uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assinar as listas de presença.. O padre. Embora assim. .. Clarimundo fora um republicano histórico. passado que é o choque. no interior da igreja. Clarimundo era um desses próceres e. Conquanto se estivesse ainda em plena revolta. cujos rendimentos faziam de forma tão notável melhorar a situação da família. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume. porém. vestiu-se e saiu.. Sou pelas decisões prontas. votivo ao Deus da paz e da bondade..Então acaba breve.95 general sentia perder a sua comissão. Era preciso não faltar.. e. A sua presença se impunha e significava muito. a que eles se recomendam com teimoso interesse. Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram voltando insensivelmente. Comigo. Dona Maricota acordara o marido: . alguém lhe falou.A baía está cercada de canhões. O general chegou a tempo e à hora.. conversando.. E o mar? .

onde é que se viu um governo que não aproveita as aptidões. e.E se resistirem? perguntou o general. logo que penetraram no corpo da igreja. dos cumprimentos em dias de aniversário. pesado.. Tinham razão: a revolta veio a acabar daí a dias. a ânsia e a angústia também. olhando o chão com o seu pince-nez azulado. porém. naquele mar infinito.. avançou: . Genelício também viera. e. desse na vista e o comprometesse. não o levasse à igreja em missa de sétimo dia. possuía um caderninho onde as datas aniversárias estavam assentadas e as residências também.Qual! Não tenho medo... A nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade. acreditando que houvesse canhoneio. Genelício olhou-o um pouco e aconselhou: . na sacristia.. . O seu traje de luto era de pano grosso. .. leves. O céu estava azul e calmo. o papagaio querido.Não há orgulho que resista a uma esquadra mais forte.Não acredito. parentes.. todos de negro. Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à toa! A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. tia. é orgulhoso e não se entrega assim.. Albernaz e Caldas... em dia de aniversário.. levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa. os dous.Qual! Não resistem.A cousa está pra acabar!. No dia da entrada. conhecidos e desconhecidos pareciam sofrer igualmente... Não havia sogra.. olhando-o. Porcarias!. A esquadra legal entrou... cada um com o seu desgosto e a sua decepção. fez Genelício. o passarinho que de há muito quebrava a tristeza de uma casa pobre. palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso. não recebesse os seus parabéns. É preciso arranjar uma manifestação ao marechal. a chorar. de homem importante que. ajoelhados... esgarçadas. Calou-se. fez o almirante. Corre que já propuseram rendição. Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos. via-se uma porção de homens. . apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no ao rosto. .. Breve. curvado. . pequenas malas. samburás. Genelício ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente. A missa veio a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. lembrava-nos logo de um castigo dantesco.Bom.. prima. Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias.. eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e.. dos cartões de pêsames. por baixo das árvores.96 . ele tinha o vício das missas das pessoas importantes. Albernaz. como velas. Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo. Conheço muito o Saldanha.. Havia nele nuvens brancas. batendo nos peitos. Levavam trouxas. a confessar de si para si: mea culpa.. deixa-as por aí vegetar?. mea maxima culpa. Insensivelmente. Na rua. refugiando-se nos subúrbios. uma grande parte da população abandonou a cidade. . Uma réstia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas cabeças. Pela porta. Olhe que. mea maxima culpa. teve medo que ele falasse mais alto.. os oficiais revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano ficou senhor da baía... na casa de amigos ou nos galpões construídos adrede pelo Estado. por morte. Todos tinham um grande ar de compunção: amigos. que se moviam lentamente. O índice era organizado com muito cuidado. Temendo que a memória não lhe ajudasse. . homem! Caldas continha a custo a fúria que lhe ia n’alma. crianças de peito.Forte! Uns calhambeques.Almirante não fale assim... abandona-as. o cachorro de estimação. Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao almirante: . cunhada. contritos.

sem anseio político. De tarde. Mesmo entre os moços. castigava e procurava restringir. muita vez julgou que delirava. De resto. esse pesadelo. um exagero das virtudes dela. foi morrer abandonado num cais. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos políticos. que lhe fizesse fugir àqueles tristes pensamentos que o assediavam e se estavam transformando em obsessão. Os seus tormentos d’alma mais cresceram com o exercício de tal função. sem vontade própria. os rigores da disciplina não lhe permitiriam uma conversa mais amigável. Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras. gente de todas as cores e todos os sentimentos. Inocêncio Bustamente continuava a superintender o corpo com muito zelo. um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações não podiam achar justo. Havia simples marinheiros. mesmo que ali estivesse. gente inteiramente estranha à questão em debate. mesmo fora do alcance de seu poder. meditando. enfim. do interior do seu gabinete. do “Niterói”. ora pequenos botes ou canoas.97 O que mais metia medo era o famoso canhão de dinamite. aos beijos sangrentos do ocaso. A viração soprava ainda e as gaivotas continuavam a pescar. olhando o mar. . Ora eram lanchas fumarentas que lá iam para o fundo da baía. pequeninos. capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das montanhas graníticas do Rio. desprezado e inofensivo. uma espalhafatosa invenção americana. essa quase força da natureza. gente sem responsabilidade. ou por interesse. existia uma adoração fetíchica pela forma republicana. gente ignara. Ficava assim um tempo longo. pretos. a ver. pendendo para lá e para cá. nada de superior os animava. Eram negras e desesperadas. Vinha a noite inteiramente. e. caboclos. embriagava. tinha vexame. esse fantasma yankee. e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. às vezes cruel e pervesa como crianças inconscientes. Os barcos passavam. ele ficava a passear. todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado. como se as suas alvas velas enfunadas quisessem afagar a espelhenta superfície do abismo. Sentia também que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma das pessoas que encontrara. sofrendo com aquelas lembranças de ódios. Era grande a sua desilusão. As crianças e as mulheres. e o resto era azul. de sangueiras e ferocidade. as suas idéias. Policarpo aceitou com repugnância o papel de carcereiro. pois na ilha das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. pensando. por não ter um companheiro com quem conversar. tenros. gente arrancada à força aos lares ou à calaçaria das ruas. A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar. se não havia baixo interesse. instrumento terrível. simples. na estalagem condenada que lhe servia de quartel. Os Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia. às vezes. temiam ouvir o seu estrondo. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV. E então se lamentava por estar sozinho. e o silêncio e a treva envolviam tudo. a cousa já estava ficando monótona e o marechal ganhou feições sobre-humanas com a vitória. como um licor capitoso. entretanto. olhava a cidade que entrava na sombra. A escrituração estava em dia e era feita com a melhor letra. mas. e quando se voltava. Quase os não olhava. Brancos. gente que se tinha metido em tal aventura pelo hábito de obedecer. ou que se haviam alistado por miséria. um azul imaterial que inebriava. havia escreventes e operários de bordo. A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas. Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos aspirantes. e imaginou que do exemplo delas vinham os crimes que aquela punia. mulatos. roçando carinhosamente a superfície das águas. piedade e parecia-lhe que dentre eles um conhecia o segredo de sua consciência. boa e dócil como um cordeiro. Quaresma teve alta por esse tempo. simples autômatos nas mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê do vencedor. havia inferiores. que eram muitos. O fim do levante foi um alívio.

ia dormir.“Eu era enfermeiro”. e. Certa noite em que ia dormindo melhor. tão aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus atos passados. Sem atinar bem do que se tratava. “Este também. No alto. as duas cousas se baralhavam.. o recorte das ilhas que a noite tinha feito desaparecer. Seguiam-se algumas praças. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. adiante.“Onde esteve você?” perguntou .98 Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar..... .Senhor major. tinha insônia e..ai! Cumprimentaram-se. A esteira da embarcação estrelejava fosforescente. deu com um rapaz claro. “Levem este também”. com as suas ações encadeadas no tempo.. Ambos tiveram medo de falar. Quaresma. o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos. Pois ele. Siga! Vá! E assim foi uma dúzia. Fatigado.Que mãe! respondeu o homem do Itamarati. onde quase não havia luzes que interrompessem a continuidade do negror noturno..O oficial que vem buscar a turma do Boqueirão. A vasta sala estava cheia de corpos. levantou-se e foi ao encontro do visitante. .. Levem!”. seminus. Não deixou de pensar então por que força misteriosa. outros dormiam somente. que fizera com que aquele velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam sido os fatos externos que venceram a ele... A embarcação não ia longe.. as estrelas brilhavam serenamente. quando Quaresma entrou. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse para as praças: “Levem este. olhando o fundo da baía.“Onde você esteve?” “Eu” . “Ah! patife” acudiu o homem do Itamarati. pediu o rapaz quase chorando. escolhida a esmo. Gritou então: “Levante-se!” O rapaz ergueu-se tremendo . .. como se os quisesse habituar a penetrar nas cousas indecifráveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas. quando teimava em pensar. um inferior veio acordá-lo pela madrugada: . e.. ao acaso. deitados. assistindo ao sinistro alicerçar do regime. num céu negro e profundo. franzino. cercada pela escolta.“na ‘Guanabara’”. Uma escolta estava à porta. a atenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro. Uns roncavam. Quaresma e o emissário do Itamarati. e fizeram-no escravo da sentença da onipotente divindade? Ele não sabia. deixe-me escrever à minha mãe.” Seguiu adiante e despertou outro: . se emaranhavam e a conclusão certa e exata lhe fugia. Fixava bem os olhos para lá. das quais uma levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna amarelada.respondeu o marinheiro . e nada disseram.Mas. está aí o “home” do Itamarati. o Quaresma plácido. houve alguém que em sonho gemeu . retrucou o rapaz. “seu” tenente. O mar gemia demoradamente de encontro às pedras do cais. V A Afilhada Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço. Para onde ia? Para o Boqueirão. merecia aquele triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali. deixavam o prisioneiro e voltavam. . Nem sempre dormia bem. e havia todo o íris das cores humanas. a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fora das águas da ilha.Que homem? . por que injunção irônica ele se tinha misturado em tão tenebrosos acontecimentos. . A lancha desapareceu nas trevas do fundo da baía. O oficial passou por uma porção deles e não fez reparo. se queria ler. que não dormia.“Que enfermeiro!” fez o emissário. Os soldados condutores iam até à porta. Quaresma não atinou de pronto com o sentido da cena e foi após o afastamento da lancha que ele encontrou uma explicação. sem que ele pudesse pressentir o seu extravagante propósito.

falou claro. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria. não amara . Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. O importante é que ele tivesse sido feliz. franca e nitidamente. Nada omitiu do seu pensamento. como ela o premiava. A pátria que quisera ter era um mito. sofrendo umidade. por amá-la e querê-la muito. a sua virilidade também. A que existia de fato era a do Tenente Antonino.. quase sem comer. Nem a física.. Outra decepção. o que achara? Decepções. era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. . Gastara sua mocidade nisso. o escárnio. havia. trazer sossego às suas dúvidas.. trancafiado. ele não provara. o oficial que o conduzira nada lhe quisera dizer.. A sua vida era uma decepção.. ele não vira. com paixão. escolhidos a esmo. das suas tentativas agrícolas. sem base. falara fundo a todos os seus sentimentos. no intuito de servir às suas próprias ambições. e. Por que estava preso? Ao certo não sabia. quando o seu patriotismo se fizera combatente. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem. melhor. sem apoio.. no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. O tempo estava de morte. Lembrou-se das suas cousas de tupi. nem a moral. Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada. como ela o recompensava. desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade humana. desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras. de fruir. a desoras. para tantas pessoas. isolado dos seus semelhantes como uma fera. protestando contra a cena que presenciara na véspera. E.. para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência cousa sua. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte. Não se pudera conter. um encadeamento de decepções. inúmeros? Outra decepção. na sua vida? Tudo. imaginava podiam ser onze horas. pusera diante dos seus olhos todos os seus princípios morais. mais esta que aquela. não pandegara. a do Doutor Campos. engaiolado. misturado com os seus detritos. no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. agora que estava na velhice. nem o próprio Ricardo que lhe podia. ele não experimentara. por uma idéia a menos. e ele escrevera a carta com veemência. E a agricultura? Nada. Não havia base para qualquer hipótese. mesmo na sua pureza. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros.. Uma decepção. e levou-o à loucura. de gozar. como um criminoso. e. E o que não deixara de ver. Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra. a do homem do Itamarati.. todos tinham sede de matar. para uma carniçaria distante. como ela o condecorava? Matando-o. não trocara palavra com ninguém. Não brincara. nem a política que julgava existir. com um gesto. de carnificina. Lembrou-se de que essa noção nada é para a Menenanã. e altamente honrosa. Fora preso pela manhã. bem pensando. logo ao erguer-se da cama. uma série. Entretanto. com um olhar. própria. E. a mofa. nem a intelectual.99 Não estava ali há muitas horas. Iria morrer. ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente. sepultado na treva. e. por um Deus ou uma deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa idéia nascera da amplificação da crendice dos povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Coulanges. pelo cálculo aproximado do tempo.todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária. indignado. pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia consultá-lo à fraca luz da masmorra. Pareceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviências psicológicas. Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma! O tupi encontrou a incredulidade geral. o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua vida norteado por uma ilusão.. do folk-lore. não vira nenhum conhecido no caminho. quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada.. Aquela leva de desgraçados a sair assim. Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha. Foi? Não. o riso..

de um camarada. Já estava subdiretor e o seu trabalho era agora imaginar meios e modos de ser diretor. naquele mesmo lugar onde estava. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltá-lo. o Franco-Condado era terra dos seus avós. ia para a cova sem acompanhamento de um parente. mas não se intimidou. Onde estariam eles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros. sem um amor. Teve notícia do exato motivo dela. Não havia mais piedade. para mandar à sua irmã o último recado. sem nenhum mesmo. com os seus fanáticos. para o francês. italiano. que não tinha crime algum. ele não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse. porventura. Sabia perfeitamente que corria grande risco. sem um filho.100 Reviu a história. Ricardo. sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso sofremos qualquer mágoa? Certamente era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista. dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o seu isolamento. envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade. não havia mais simpatia. enganava-se em parte. os acréscimos em todos os países históricos e perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos. a terra na mesma miséria. trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. o seu esquecimento de si mesmo. na mesma opressão. sem um beijo mais quente. com forças de religião. fora honesto. sacrificando e as cousas ficaram na mesma.o qual. sobre a qual fizéssemos repousar a felicidade de muitos. quem sabe se os outros que lhe seguissem as pegadas não seriam mais felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar. e aquele protesto soou entre eles como um desejo de diminuir o valor das vantagens alcançadas. Ricardo não se deteve. porém. mas. outra não era. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe: . Quaresma. mas sofreram pelo seu pensamento. procurou influências de amigos. sem deixar traço seu. Era a filosofia social da época. dando-lhe corpo e substância? E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade traria enfim para a terra alguma felicidade? Há quantos anos vidas mais valiosas que a dele se vinham oferecendo. e assim é que ia para a cova. podia sentir a Pátria? Uma hora. depois era e afinal não vinha a ser. para que jamais o poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. à sua afilhada um abraço! Nunca mais os veria. Mas. se nada dissera e não prendera o seu sonho. fora virtuoso . e. bem examinado. A cousa era difícil. homens generosos e ilustres estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo. ali. Aqueles homens. gastara o seu tempo. ao preto Anastácio um adeus. acusados de crime tão nefando em face da legislação da época. não. não se amedrontou. tinham levado dous anos a ser julgados. Vinha da missa da irmã da sogra do Deputado Castro. talvez naquela mesma prisão. inglês. nem era julgado: seria simplesmente executado! Fora bom. e ela agia com a maldade de uma crença forte. Contudo.. nem era ouvido. absorver-se nele. mas trabalhava num livro: Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos . Ao entrar no Largo de São Francisco encontrou Genelício. como é que ele tão sereno. a Alsácia não era. e tão inocente na sua mania de violão. Talvez só tivessem pensado. num dado momento. Como sempre. empregara sua vida. pois a indignação no palácio contra Quaresma fora geral. tão simples. porém clandestino. A vitória tinha feito os vitoriosos inclementes e ferozes. não a pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo. com os seus sacerdotes e pregadores. nunca! E ele chorou um pouco. e ele. demonstrando uma erudição superior. viu as mutilações. de um amigo. nem respeito pela vida humana. tão lúcido. Tinha havido vantagem? As condições gerais tinham melhorado? Aparentemente sim. entretanto.ele que fora tudo isso. e sem sequer uma asneira! Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso. alemão. E ele se lembrava que há bem cem anos. o que era necessário era dar o exemplo de um massacre à turca. talvez lhe levasse ao alto lugar cobiçado.. sendo francês. Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos. Vendo-o. fora generoso. na mesma tristeza.

Sinto muito. Vossa Excelência dá licença que lhe dê uma palavra? Genelício perfilou-se todo e. Ahn!. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o comandante. eu não posso. perguntou: . se eu for pedir por um preso. meu amigo. dentro do seu plácido uniforme de general. que se há de fazer? Paciência.. ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com doçura: . sou governista e parece. comandante!” Bustamante andava de mau humor. na velha estalagem que servia de quartel ao garboso “Cruzeiro do Sul”. fez com humildade Ricardo.brôôô. E daí? .. O alferes coxo... Om . camarada? Coração dos Outros estava com a sua farda do “Cruzeiro do Sul” e não ficava bem a Genelício darse como conhecido de soldado. de Albernaz.Entre.. Não havia e ele desesperava. Tudo lhe pareceu hostil. Como é que havia de superintender a escrita do batalhão. doutor? Genelício fechou um pouco os olhos por detrás do pince-nez azulado e disse secamente: . no fervor de batalhas... a igreja. Lembrou-se. subiu rapidamente a oscilante escada do velho cortiço e logo que chegou ao cubículo do comandante.. . o chefe devia ficar a resguardo. Não era longe. para com mais decência receber o inferior. .. mau ou indiferente.Não me meto nessas cousas. a estátua imóvel.Eu. E entrou para o seu gabinete prazenteiro. continuava na sua faina de instrutor dos novos recrutas. E Genelício seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das botas.Meu filho.Quem é? . os contínuos iam e vinham.. armas! Mei . aquelas caras de homens tinham cataduras de feras e ele quis por um momento chorar de desespero por não poder salvar o amigo. Aquele negócio de partir para o Paraná não lhe agradava.Aquele maluco. . explicou-lhe com voz dorida todo o fato. gritou: “Com licença. . Ao fim de uma hora o general chegou e. Genelício não sorriu. para providenciar e dirigir a escrituração. a gente que passava. dando com Ricardo. muito seguro de si. disse ele.Não me conhece mais.. Os oficiais continuavam a entrar e a sair. nas desordens de marchas e contramarchas? Isso era uma tolice do comandante marchar. como tivesse péssima memória das fisionomias humildes..Não.101 .Que há? O trovador. quando Ricardo pediu licença. Embora terminada a revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o Sul. .Ah! É o senhor! Bem: que deseja? . bastante emocionado. O bravo coronel coçava a grande barba mosaica.ãã volta! Ricardo entrou..Doutor. que cantou no seu casamento. Ele pensava nessas cousas.Eu queria que o senhor se interessasse. porém. e correu a procurá-lo.O senhor não sabe que o major Quaresma está preso? . O governo tem sempre razão...Que deseja. sou Ricardo Coração dos Outros. e foi ter com o Coronel Bustamante. as casas feias. tinha o dólmã desabotoado e acabava de calçar um dos pés de botina. Você sabe.Aquele que foi vizinho do seu sogro. que já não o sou bastante. enquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo. e Ricardo procurava entre todas aquelas fisionomias uma que lhe pudesse valer. não deu mostras de alegria e limitou-se: . perguntou com solenidade e arrogância: . mas o general ainda não tinha chegado.. Passe bem. de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos apontados para partir era o “Cruzeiro”. no ensaboado pátio da antiga estalagem. O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Albernaz concertou o pince-nez. as campainhas soavam. mas. O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente: .

Ela levantou a cabeça. Olga lembrou-se bem do padrinho. sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio de severidade: . Ricardo estava de pé e aparvalhado. No pátio o instrutor coxo..ele. não pode. mas nada! A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar a mesa em que repousavam os seus cotovelos. demorou-se mais no exame do caráter do esposo. Pareceulhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo ao sofrimento do padrinho. e falou com firmeza: . das dores que tudo aquilo custara.. Ricardo ficou só e sentou-se. faria sacrifício de tudo.Que hei de fazer. O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor. volta.102 Ricardo expôs o seu pedido e esperou com paciência a resposta. Olhou o céu alto. . Eu não tenho relações. disse Ricardo... continuava com solenidade a encher a arruinada estalagem com as suas vozes de comando: Om-brôôô. Pela primeira vez. Ele tinha que ir para o posto de suplício. Minhas amigas. . não havia um caminho.Se a senhora fosse lá. andando atrás de um e de outro. A moça. tão bom. está fora. . e pensou em salvá-lo...Vai-te embora. meu Deus? repetiu ela. a mulher do Doutor Brandão.. com opressões e sofrimentos. mas era impossível. recordou que era preciso salvar o amigo e que era necessário dar mais uns passos. Queria encontrar um alvitre.. tão generoso. viu bem que o seu egoísmo. de quimeras. esse. Ela estava só. Tinha marchado atrás de cousas fora da realidade. porém. do sangue. que estava sentada.. do seu eterno sonhar. meu caro Senhor Ricardo. pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da vitória. a sua ambição e sua ferocidade interesseira não permitiriam que ele desse o mínimo passo. tinha que subir o seu Calvário.. via agora que tais sentimentos não existiam. Por fim. Os dous ficaram calados. senão mando-te prender! Já! E apontou com o dedo a porta da saída num gesto marcial e enérgico. Chegou. meu Deus! E acentuou estas últimas palavras com grande e lancinante desespero. ele. Quem poderia? Consultou sua memória. . O cabo não se demorou mais.. Viu um. O silêncio era augusto. Logo.Talvez seu marido.Vou. em breve. Estava tranqüilo e calmo.... sem esperança de ressurreição. mas bem cedo o viu ensangüentado ..Qual. Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse: .Mas que fazer. veterano do Paraguai.. Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade de agir. Pensou um pouco.. A Alice. da sua candura de donzela romântica. os palácios e lembrou-se das guerras. as igrejas. viu outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma. ela sentiu que a vida tinha cousas desesperadoras. impossível! Não havia um meio. da sua ternura. Pensou um pouco. Num dado momento. narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreensões. as simpatias.. Olhou as árvores. A Cassilda. Ricardo não sabia o que aconselhá-la e olhava sem pensamentos os móveis e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. mas.. Olga foi vestir-se. Olhou as casas. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam atingir o céu. Ele que sempre decantara nas suas modinhas a dedicação. um nada. os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto lhe ficou rígido. volver! Ricardo veio andando triste e desalentado. a história e o heroísmo: com violência sobre os outros. Inocêncio disse.. E era assim que se fazia a vida. não perdia um minuto. um conselho. que custou a vir... e foi procurá-la na Real Grandeza. . a filha do Castrioto. Possuía a mais forte disposição de salvar seu padrinho. da tenacidade que punha em seguir as suas idéias. armas! Meia-ãã. o amor. tomou a cabeça entre as mãos e as suas unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus cabelos negros. que fazer? Eu não conheço ninguém. Não sei.

o doutor interrogou o trovador: . Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sair pela porta fora. O marido não sabia o que fazer. para aqui. Nem fez menção de ter visto Ricardo e foi logo direto à mulher: . estou. Ela não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grande olhos cheios de escárnio. por sua vez. mostrando-se co-participante na sua vitória. de todos os planos. riu-se um pouco e disse: . não tenho caráter? Ora!.É isto! “Eu”. queria cumprimentá-lo. um adorno.. depois. estava no palácio da Rua Larga.. de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não sou nada. Não pensas noutra cousa. de provar a minha amizade.Está no teatro? Ela lhe respondeu logo: . disse com certa vivacidade: .Se é só no teatro que há grandes cousas. todos só devem viver para ti. Já sabe? O marido pareceu acalmar-se.Fazes mal. porque quero. Havia quem lhe quisesse beijar as mãos. uma agitação de entradas e saídas. dous minutos. dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar de reconhecimento. firme. Então aquela menina? Então aquele bibelot? Quem lhe teria ensinado tais cousas? Quis desarmá-la com uma ironia e disse risonho: . porque “eu”.Vou. . não tenho amizades. Ela falava. com os seus grandes bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. perguntou com autoridade: . Não tardou que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas. porque “eu”. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano. mas Olga adiantou-se: . agora se esquivava.. Sabes que.. nada! Sou alguma cousa como um móvel. adivinhava uma cena violenta que ele teria querido evitar. Apanhou a sombrinha. . porque é do meu direito. Em breve.É o que te digo: vou e vou. com meios suasórios. quis interrogá-lo. Voltou-se um instante para Ricardo. dirigindo-se à mulher. Ele vivera sempre tão loge dela que não a julgara nunca capaz de tais assomos. e ele já tinha nojo de tanta subserviência. Ricardo não entrou: deixou que a moça o fizesse e foi esperá-la no Campo de Sant’Anna. é só “eu”. “eu”para ali. E acrescentava com força: .Vais comprometer-se. Ela subiu. Lançavam mão de todos os meios. poderia evitar que a mulher desse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. porque devo. Falou docemente: . Armando ficou admirado de vê-la falar daquele modo.. mirou-o um. Muito engraçado! De forma que eu (agora digo “eu”também) não tenho direito de me sacrificar.. afogueada pela ânsia desesperada de salvar Quaresma. Vinha radiante. alta e nobre.Vais sair? Ela. concertou o véu e saiu solene. ora vagarosa e irônica. Havia um imenso burburinho.Onde vais? A mulher não lhe respondeu logo e. mas logo. ora rapidamente e apaixonada. Acreditou que.Que faz o senhor aqui? Coração dos Outros não teve ânimo de responder. provar os seus serviços.Por quê? perguntou ela com calor. para salvar da morte meu padrinho. como ao papa ou a um imperador. queria dar mostras de sua dedicação.103 Ele então pensou com admiração naquela moça que por simples amizade se dava a tão arriscado sacrifício. O ditador tão acessível antes.Vai acompanhar-me ao Itamarati.. A vida é feita para ti. não tenho relações.. que tinha a alma tão ao alcance dela mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo. na sala de jantar.. de todos os processos. . deste nosso egoísmo. e o marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. O califa não se supunha sagrado e aborrecia-se.. quando o marido entrou.

a sua personalidade moral. as árvores de Santa Teresa. deu-lhe as costas e teve vergonha de ter ido pedir. mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho.104 Olga falou aos contínuos. puxado por uma linda parelha. Quaresma? disse ele. Olhou o céu. Olhou de novo o céu. e seguiu serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros. Esperemos mais. as casas. Que fora aquele parque? Talvez um charco.Não é possível. as igrejas: viu os bondes passarem. pedindo ser recebida pelo marechal. era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu qualquer. talvez no clima.. por estas terras. sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte. Um traidor! Um bandido! Depois. já tinham errado tribos selvagens. Tinha havido grandes modificações nos aspectos. A muito custo conseguiu falar a um secretário ou ajudante-de-ordens. Ela nem lhe esperou o fim da frase. as árvores de Santa Teresa. janeiro . Ergueu-se orgulhosamente... uma locomotiva apitou. que de algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo. O marechal não a atenderá. fez com certa delicadeza: . e se lembrou que. na fisionomia da terra. quando já a entrar do campo. um carro. Saiu e andou.. Todos os Santos (Rio de Janeiro). das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Tinha havido grande e inúmeras modificações. os ares.março de 1911. Fora há quatro séculos. Foi inútil. minha senhora. de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. atravessou-lhe na frente. * * * . pensou ela. a sua doçura. Quando ela lhe disse a que vinha. a fisionomia terrosa do homem tornou-se de oca e sob as suas pálpebras correu um firme e rápido lampejo de espada: . Com tal gente. arrependeu-se da veemência.Quem. os ares.

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