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Dissertação de Getúlio Malveira

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  • INTRODUÇÃO
  • CAPÍTULO 1 FOUCAULT, A ARQUEOLOGIA E A HISTÓRIA
  • 1.1 Uma perspectiva foucaultiana da historiografia
  • 1.2 A arqueologia como método de análise histórica
  • 1.3 Um programa historiográfico: a história geral
  • CAPÍTULO 2 FOUCAULT, A GENEALOGIA E A HISTÓRIA
  • 2.1 A genealogia como método de análise histórica
  • 2.2 A filosofia e a história: o enfrentamento de 1978
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • REFERÊNCIAS

GETÚLIO DIAS MALVEIRA

FOUCAULT REVOLUCIONA A HISTÓRIA?

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS MONTES CLAROS Junho/2013

GETÚLIO DIAS MALVEIRA

FOUCAULT REVOLUCIONA A HISTÓRIA?
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Montes Claros, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em História.

Área de concentração: História Social

Linha de Pesquisa: Cultura, relações sociais e gênero.

Orientador(a): Prof. Dr. Ildenilson Meireles Barbosa.

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS MONTES CLAROS Junho/2013

Ao meu pai (in memorian)

Deste trabalho e dos muitos anos de paciente auxilio resta ao Dr. que novas e importantes vias me abriram a entendimento da questão proposta. À primeira. Marcos Nali. . sem as quais certamente minha pesquisa não teria encontrados os parcos resultados que aqui apresento. agradeço aos demais professores do programa e aos colegas historiadores que souberam receber um estrangeiro em sua pátria. sou grato ainda por todas as pertinentes colocações por ocasião da qualificação. cujas faltas se devem unicamente ao ouvido. meu orientador neste trabalho. minha gratidão está. sou grato por todas as questões levantadas a propósito de sua defesa. com a minha mãe cujo esforço e incansável incentivo trouxe-me até aqui. Por fim. Por isso. por vezes. À confiança dele tributo o que há de bom nesta empresa.Nada pode o esforço da razão sem o amor que impulsiona mesmo aquilo que desconhece. presto o devido agradecimento pelo entendimento acerca das difíceis questões da Ciência Histórica que pude obter a partir das discussões e perspectivas a que tive acesso nos dois últimos anos. sobre todos. Drª Cláudia Maia e ao Dr. cujos cursos tive a oportunidade de assistir. Aos examinadores. E em seu nome. agradeço a todos os amigos na Academia e fora dele cujo convívio respeitoso na diversidade de opiniões tem me permitido construir uma melhor perspectiva dos problemas humanos. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Montes Claros. Ildenilson. pouco dado aos seus conselhos. mais do que a gratidão do discípulo para com o mestre senão uma amizade profunda e admiração sincera pelo caminhar tranquilo do sábio em que busquei me espelhar por vezes sem suficientes forças.

ainda menos. Não se realiza uma exegese de uma obra filosófica e.RESUMO A presente dissertação resulta de uma investigação sobre as relações entre o filósofo Michel Foucault e a comunidade historiográfica francesa. de outro pontuamos a diferença de projetos intelectuais que ocasionaram uma ruptura de parte a outra. No momento em que se assiste um novo e renovado interesse pelo trabalho de Foucault no Brasil e no exterior. Trata-se de um conjunto de convergências e divergências que se podem fazer sentir ainda hoje naqueles historiadores que de algum modo se apropriam de aspectos do trabalho do filósofo francês em apoio. ao seu ofício. assinala-se as ligações que o próprio Foucault confessa com a Escola dos Annales. Annales. PALAVRAS-CHAVE: Historiografia. Trata-se somente de assinalar a dispersão que a caracteriza e os principais pontos de contato com a historiografia na esperança de contribuir para um debate mais frutífero entre historiadores e filósofos. História Serial. se por um lado. Arqueologia. De modo que. tenta-se traduzir essa obra num conjunto de recomendações práticas. nomeadamente a chamada Escola dos Annales. Genealogia . teórico ou metodológico. é útil ponderar o quanto esse trabalho esteve de fato próximo do trabalho efetivo dos historiadores.

genealogy. It is a set of convergences and divergences that can be f elt even today those historians who somehow appropriating aspects of the work of the French philosopher in support. . Is not it an exegesis of a philosophical work. theoretical or methodological. we point to another difference in intellectual projects that caused a rupture of the other. Annales. it is noted that the links Foucault himself confesses to the Annale’s School. KEY-WORDS: Historiography.ABSTRACT This dissertation is the result of an investigation about the relationship between the philosopher Michel Foucault and historiographical French community. on the one hand. Serial History. It is only to point out that characterizes the dispersion and the main points of contact with the historiography in the hope of contributing to a more fruitful debate among historians and philosophers. it is useful to consider how this work was in fact close to the actual work of historians. we are witnessing a new and renewed interest in the work of Foucault in Brazil and abroad. and even fewer attempts to translate this work into a set of practical recommendations. Now. particularly the socalled Annale’s School. So. to his office. Archeology.

...................................82 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................30 1.............. A GENEALOGIA E A HISTÓRIA .....................................................................3 Foucault e os historiadores: o futuro de uma desilusão ......2 A filosofia e a história: o enfrentamento de 1978 ..............11 1............................................................................1 Uma perspectiva foucaultiana da historiografia........................................................................54 2..................1 A genealogia como método de análise histórica.....................91 ......................73 2.... A ARQUEOLOGIA E A HISTÓRIA .....89 REFERÊNCIAS .....49 CAPÍTULO 2 – FOUCAULT............SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................07 CAPÍTULO 1 – FOUCAULT......................................3 Um programa historiográfico: a história geral ...........................................................................................................54 2................2 A arqueologia como método de análise histórica ..................................11 1.....................

1909. uma resposta diferente é concebida. “Que é isso – a história?” – interrogam-se sem cessar os historiadores. mas aí o sentido é completamente outro: a História moderna não se faz sem uma perturbação interior acerca de sua própria natureza 1 : não se coloca mais a questão dos gêneros literários e da estilística. os fatos históricos” (SEIGNOUBOS. bastante aflitivo é que. 2). dos filósofos. Desde o século XIX. . Mas o que é novo e. ou melhor. 1909. os diversos consensos sobre os significados do termo “história” e da prática a que dá lugar. a partir de Gibbon. 1895. e. foram substituídos por uma variedade de concepções distintas. les documents et les faits . a história cruzou seu limiar de epistemologização2. 2 Segundo Foucault (1972. 226). As funções são também perfeitamente demarcáveis: “A história se propõe três objetos principais: criticar as tradições. de modo que. alcance e validade do conhecimento histórico. p. de crítica ou verificação). p. mas dos princípios e métodos. mas o problema da construção. devolver a vida ao passado”3 (MONOD. ou pretendendo utilizar-se de métodos rigorosos. mas que não concebam mais.7 INTRODUÇÃO Nenhuma outra categoria de intelectuais. quer fazer valer uma pretensão de conhecimento sobre esse domínio e exercer uma função social determinada. o significado e a função de seu ofício. É verdade que no princípio do século XX. 7). usem diferentes métodos e tenham diferentes perspectivas sobre as categorias com as quais lida. para cada época. portanto. dégager la philosophie des actions humaines en découvrant les lois scientifiques qui les régissent. à exceção. se debruçou tanto sobre o significado do próprio ofício quando o historiador. 1 O próprio Sthephens (1905. descobrindo as leis científicas que as regem. univocamente. p. da história literária. utilizando-se. de certo modo. Em fins do século XIX e início do século XX tem-se aparentemente uma clareza consolidada da disciplina enquanto ciência: a história é “ciência que estuda certa categoria de fatos. rendre la vie au passe ». 1). os documentos e os fatos. o Syllabus de Stephens (1905) ainda proclama e define a História como “narrativa do passado”. p. desde o século XVII. desde a partir da década de 1970. “a ciência dos fatos humanos do passado” (SEIGNOUBOS. talvez. não mais estritamente a questão da escrita da história. dando-se um domínio restrito de objetos de estudo. esclarecer a filosofia das ações humanas. o que é novo não é que diferentes historiadores trabalhem de modo distinto. 3 Livre tradução de : « L'histoire se propose trois objets principaux : critiquer les traditions. p. uma formação discursiva cruza seu limiar de epistemologização quando “pretende fazer valer (mesmo sem consegui -lo) normas de verificação e de coerência e que exerce face ao saber uma função dominante (de modelo. 16) reconhece a cisão que separa a história moderna.

p. em qualquer sentido que se queira emprestar à palavra “fato”. dizer o que é história. A partir daí.. só se poderia. ” (FOUCAULT. p. O Mediterrâneo de Fernand Braudel abriu a possibilidade para que a paisagem geográfica e os eventos da natureza fossem integrados na análise histórica. Marc Bloch (2001. na mesma linha: “por essência. p. mas. ou. igualmente. afinal. e partidário da história serial conceberá. Michel Foucault dirá: “a história é. de direito. um pressuposto difícil de ser abandonado: o de que. 1986. é desde o interior desta constatação. Essa concepção representará. seguindo por essa via. uma certa maneira de dar estatuto de elaboração à massa documental de que ela não se separa. se bem que não necessariamente de fato. por aquilo através do qual um objeto pode ser referido.] do uso de processos correctos na elaboração e no tratamento destes ‘factos’” (FURET. mais do que as ações individuais dos homens. 12). pois que são construídos pelo trabalho sobre as fontes. já que qualquer coisa que tenha acontecido (acontecimento natural ou humano. também. mas também os fatos naturais poderiam ser objeto de análise histórica.14). passa a conceber o fato histórico todo e qualquer fato humano. Não só os fatos sociais.55). certamente um grande avanço. 1972. Resta que só haveria uma maneira de se delimitar o campo de atuação do historiador. que os fatos não individuam a história. onde não se remete o acontecimento à sua dimensão social não se faz análise histórica. escrevendo o tratado teórico sobre sua Arqueologia do Saber em 1969. que. os positivistas já o tinham feito. 71) .” François Furet. independente de ser constituído por ações: “História é a ciência dos homens – ou melhor. no domínio de objetos da história. isto é. o objeto de estudo histórico. pelo menos.8 Rompendo com essa concepção. então. Paul Veyne (1995. Do mesmo modo. arraigará junto aos seguidores de Bloch e Febvre. em 1971. acontecimento humano que é ação ou que é algo que escapa completamente à percepção e à consciência de seus contemporâneos) devia ter um lugar. membro da Escola dos Annales. se poderá pensar a história para além de seu caráter de ciência humana. de modo que “o historiador já não pode escapar à consciência de que construiu os seus ‘factos’ e de que a objectividade da investigação depende [. p. escreverá. que não visava a fatos humanos. das sociedades humanas no tempo” A inovação aqui não está em conceber o caráter antropológico da história. o documento.. Uma nova ruptura dá-se na década de 1950. Le Roy Ladurie (1976) concebeu a possibilidade de uma “história do clima”. a história é conhecimento mediante documentos. não um boa análise histórica. E. mas seu caráter “social”: são as sociedades. para uma sociedade.

o levaram mais longe. Desde então e mesmo depois de sua morte em 1984. A vocação interdisciplinar dos annales – herança do projeto de síntese histórica de Henri Berr – a perspicácia filosófica de um Veyne ou um De Certeau e o projeto de história dos sistemas de pensamento de Foucault convergiam para o que este último chamou de “história geral”. alguns desenvolvimentos internos na Escola dos Annales e as pesquisas e constatações epistemológicas de historiadores que não integravam essa escola como Paul Veyne e Michel de Certeau. imediatamente se instala uma polêmica que deixará claro que. seguimos a perspectiva do próprio Foucault que por diversas vezes evocou os historiadores dos Annales como partidários de uma “nova história” capaz de romper com os privilégios da consciência e os temas antropológicos. Nesse sentido. Daí que o debate entre Foucault e os historiadores em 1978 tenha ainda seu valor e interesse para a história da historiografia e para a teoria da história. porém. avaliar os limites e possibilidades do diálogo histórico-filosófico por aqueles autores que. ao capítulo 1. Entretanto. precursor do paradigma pós-moderno e do irracionalismo ou projetista de uma nova história da civilização ocidental. É um momento de convergência que permite vislumbrar não só um interesse dos historiadores por áreas antes negligenciadas. Num segundo momento.9 No fim da década de 1960 e início da década de 1970. portanto. enfim. Ele nos permite realizar uma série de tarefas de interesse comum a filósofos e historiadores: ponderar o quanto de fato a história do pensamento pode ser integrada à história dos historiadores. Em grande parte. No primeiro momento. sob a aparência de interesses comuns. dividimos a exposição em dois momentos. orientando-nos pela hipótese de que este tenha herdado certos aspectos metodológicos da Escola dos Annales. encontramos um ponto de contato entre o trabalho de Michel Foucault. filósofo da história ou do ofício do historiador. viabilizando um novo sistema de pensamento. buscamos traçar as linhas de convergência entre a historiografia francesa e o trabalho arqueológico de Michel Foucault. um abismo ainda se abria entre o filósofo e os historiadores. analisamos as reorientações da pesquisa foucaultiana ao longo da década de 1970 e as divergências que vieram à tona por ocasião do . permite. Foucault foi chamado a ocupar certos papeis junto à comunidade historiográfica tanto entre seus simpatizantes quanto entre seus detratores: historiador revolucionário ou historiador reformista. mas também um interesse filosófico pela historiografia. analisar as possibilidades que ainda hoje se abrem para filósofos e historiadores a partir do trabalho de Michel Foucault. teórico do discurso. do poder ou da sexualidade. a nosso ver. quanto Foucault publica a primeira síntese de suas pesquisas no College de France no livro Vigiar e Punir em 1975.

não pretendemos substituí-la por uma melhor. uma história capaz de responder aos problemas do presente. então. buscamos apenas os meios de responder à série de questões que se podem propor acerca da relação desses procedimentos com a disciplina histórica. Apresentando a arqueologia e a genealogia como procedimentos metodológicos. . determinar a raiz dessas divergências a partir do esclarecimento das diferenças entre o interesse real dos historiadores e aquela perspectiva revolucionária que Foucault nutria deles. Todas essas questões podem ser resumidas naquela proposição de Paul Veyne (1995) sob a forma da pergunta: “Foucault revolucionou a história?”.10 debate com os historiadores. isto é. principalmente naquela que é a grande referência para quase todos os exegetas – a leitura Dreyfus & Rabinow (1995) –. Pelo contrário. a leitura que fazemos do trabalho de Foucault – em grande parte guiados pelas leituras de Paul Veyne e Gilles Deleuze – permanece muito aquém de uma exegese completa e exaustiva. Procuramos. Não que pretendamos responde-la assertivamente quando o próprio Veyne (2011) teve que constatar a dificuldade de recepção do trabalho de Foucault junto aos historiadores. e mostrar o quanto as divergências e convergências entre Foucault e os historiadores pertencem intrinsecamente ao projeto de uma filosofia histórica e de uma história teórica. Por fim. dessa dificuldade mesma. Maiores que sejam as deficiências que possamos encontrar nas grandes sínteses da filosofia foucaultina. devemos esclarecer que este trabalho não pretende ser uma exegese da obra de Foucault. Gostaríamos de partir dessa segunda realidade.

2001). de certo modo. segunda a qual um discurso sério é analisável tendo em conta seu domínio de objetos. A ARQUEOLOGIA E A HISTÓRIA 1. encontramo-nos. Para evitar uma circularidade viciosa deixaremos de lado essa questão. de sua perspectiva sobre a história e a historiografia para traçar a relação entre suas pesquisas e a dos historiadores profissionais. também. assim. partir da própria visão de Foucault. já. Não tentaremos mostrar que Foucault foi um historiador. nem julgar se fazia boa ou má história. Dentre os dois riscos. mantém esse empreendimento numa posição ora revolucionária (VEYNE. tentar encontrar na própria obra de Foucault os elementos de uma história do discurso historiográfico para analisar as convergências e divergências que asseguraram um lugar privilegiado desse discurso no empreendimento foucaultiano. . as transformações de um discurso e os diversos limiares que transpõe através do tempo se processam através de transformações desses elementos. sob o risco evidente de uma visão fechada em si mesma e auto-referencial desse método. diferentemente. A escolha se faria. ou. Partiremos. como não pertinente. realizando como que uma “leitura externa” do fenômeno. optamos pelo segundo: decidimos.11 CAPÍTULO 1 FOUCAULT. mas que.1 Uma perspectiva foucaultiana da historiografia Uma vez engajados na tentativa de compreender a relação entre os trabalhos de Michel Foucault e a historiografia profissional que lhe era contemporânea. permanecer o mais próximo possível de nosso objeto. de modo que aplicaremos. diante do seguinte dilema: partir de uma das correntes majoritárias da historiografia. de modo que aplicaremos no presente capítulo os elementos básicos da analítica dos discursos sérios desenvolvida por Foucault principalmente no tratado sobre A Arqueologia do Saber. entre a tentativa de neutralidade em que se arrisca perder justamente os elementos que nos permitiriam esclarecer essa relação e uma circularidade interna no qual a suposição de um método histórico específico em Foucault figuraria tanto como objeto quanto como arcabouço teórico da pesquisa. do pressuposto de que a arqueologia se aplica ao campo da história intelectual e que a história da historiografia pertence a esse campo. por outro lado. 1995) ora idiossincrática (HUNT. sua modalidade enunciativa. tomar das próprias pesquisas de Foucault os elementos que permitiriam iluminar a relação delas com a historiografia profissional. qualquer que seja sua real importância. se campo conceitual e as escolhas teóricas a que dá lugar. pois. De modo que.

veículo da tradição. (FOUCAULT. e é somente em 1842 que aparece o Cours d’estudes historiques de Pierre Daunou em que vemos constituída essa disciplina paralela. ela emerge como uma vontade de saber a partir de uma vontade de poder. transmission de la Parole et de l’Exemple. tão recente quanto elas. » 4 . 378) A partir do século XIX. 1966. o discurso histórico existe como discurso específico desde a Grécia Clássica: É verdade que a história existe bem antes da constituição das ciências humanas. Com Heródoto vemos o nascimento de um novo tipo de discurso muito diverso da poesia de Hesíodo ou da filosofia. mas ainda muito distante da história contemporânea. desde o fundo da idade grega. Ciência humana. que elemento permitiu à história cruzar o limiar de positividade em meados do século XIX. depuis le fond de l’âge grec. anticipation sur le futur ou promesse d’un retour. primeiramente. ela exerceu na cultura ocidental um certo número de funções maiores: memória. a teoria da história. pois a pretensão de exercer um poder qualificador sobre o presente dependerá da presunção de deter um saber sobre o passado: Livre tradução de: « Il est vrai que l’Histoire a existé bien avant la constitution des sciences humaines . “ciência dos homens no tempo”. desqualificar e requalificar eventos e personagens em vistas do presente. p. Isso porque. A história. a história é. encontra sua origem em Heródoto assim como o discurso filosófico em Tales ou o discurso médico em Hipócrates. É durante a primeira metade do século XIX que os trabalhos de Augustin Thierry e Jules Michelet desenham os contornos de um saber autônomo e positivado. é que veremos aparecer todos esses problemas que constituem o campo da “teoria da história”: questões de método ou de objeto. Prova disso é que. déchiffrement du destin de l’humanité. elle a exercé dans la culture occidentale un certain nombre de fonctions majeures : mémoire. por um lado. às Histórias de Heródoto. de sua aptidão para a verdade e de sua relação com o mundo que lhe é contemporâneo. prática regulada e especializada com pretensões de cientificidade. somente nesse século. contudo. véhicule de la tradition. mito. transmissão da Palavra e do Exemplo. todas essas funções do discurso histórico desaparecem e dão lugar a uma única função: discriminar o passado. conscience critique du présent. mythe.12 Consideremos. deixar os séculos de tateamento empírico e intersecções com a filosofia para constituir-se como discurso sério. o discurso historiográfico. consciência crítica do presente. antecipação sobre o futuro ou promessa de um retorno4. Sabemos que a história convencional das origens da historiografia remonta o discurso historiográfico à Grécia Clássica. Mais antiga que todas as ciências humanas. toda uma inquietação sobre o estatuto desse saber. decifração do destino da humanidade. a história é bem mais recente: remonta ao século XIX. contudo.

Mas isso não explica ainda como essa vontade de saber pode desenvolver-se na figura positiva da ciência história que já vemos plenamente constituída na segunda metade do século XIX. em todo caso. por que a comunidade historiográfica desde Thierry e seus adversários jamais foi um mar tranquilo de desinteresse científico. requalificar outros. tornar politicamente desejáveis ou historicamente inválidos certo número de acontecimentos. 2010. ao front interno do discurso. teremos que admitir que a positivação do discurso histórico no século XIX foi produto de uma descoberta da historicidade do homem? Não se seguirmos a análise . o que devemos validar e o que. a irrupção de uma dominação sempre renovada. muito menos. quais deles são determinantes nas transformações do discurso histórico ao longo do século XX. repelir. fio condutor que permita desqualificar. a guerra onde se localizava a concórdia. define as modalidades de enunciação aceitáveis e as escolhas teóricas possíveis. através da história do terceiro estado ou do povo. segundo Foucault. Se hoje se fala de “paradigmas rivais” para opor uma história moderna e racion alista a uma história pós-moderna e supostamente irracionalista. 130) Essa função política do discurso histórico. uma espécie de fio condutor que permita decifrar tanto o passado quanto o presente. parece-me que o discriminante político do passado e da atualidade foi menos a análise jurídico-política dos regimes e dos Estados do que a própria história. eles tentam encontrar. esse poder específico que os historiadores detêm e não deixam de exercer ainda hoje. Primeiro. no que acontece. uma qualificação/requalificação do presente. poderia ser requalificado? Ou ainda: como reconhecer. explica. à pergunta: que parte da Revolução devemos salvar? Ou ainda: o que. muito pelo contrário. devemos repelir? Para responder a todas essas perguntas. um campo de batalha em que as escolhas teóricas excludentes travam uma luta perpétua em torno do homem e de sua história. Quando Edgar Quinet faz a história do terceiro estado e quando Michelet faz a história do povo. ao contrário. que dá. mas. se se pode sem muito embaraço reescrever a história da historiografia como uma disputa a cada vez renovada entre “paradigmas” (positivismo contra historicismo. pois. marxismo contra os Annales) é porque desde o século XIX a história é “polêmica”: implica sempre. (FOUCAULT. a título de elemento discriminante foi a história. não explica que elementos desse discurso foram reorganizados ou construídos para que a história adquirisse a forma pela qual a conhecemos e. ali onde a vontade de saber organiza um domínio de objetos e de conceitos. a forma geral da vontade de saber da história. em grande parte. o que foi proposto. pelo menos teoricamente. o caráter “polêmico” de um discurso que mostra sempre a disparidade onde a crônica narrava a harmonia. Isto é. ao contrário. no Antigo Regime. mais ainda. Voltemos. É. de processos e. de personagens. p. desde a desqualificação/requalificação do passado.13 Depois da Revolução francesa do fim do século XVIII.

o lugar primeiro da formação da história como saber positivado. et ruine d’entrée de jeu leur prétention à valoir dans l’élément de l’universalité. de l’histoire des mots » 6 Livre tradução de : L’Histoire forme donc pour les sciences humaines un milieu d’accueil à la fois privilégié et dangereux. uma das características marcantes da história que se constitui no século XIX é a relação que ela entretém com as ciências humanas: A História forma então para as ciências humanas um lugar de acolhimento às vezes privilegiado e perigoso. (FOUCAULT. Do mesmo modo. É somente no final do século XIX que a tentativa mais contundente da Escola Metódica por um lado e do historicismo por outro para constituir a história como ciência é que os conceitos de fato histórico e tempo histórico adquirem relevância. Foucault localizava nesse papel da história como discriminante político o motor fundamental da construção do conhecimento histórico. ele mesmo. e arruína de entrada sua pretensão a valer no elemento da universalidade. da história das palavras”5 (FOUCAULT. Mas rapidamente observamos que a história não pode ser caracterizada. » 5 . l’insertion géographique – où on peut reconnaître à ce savoir sa validité . 381).14 de Foucault (1966). A cada ciência do homem ela dá um pano de fundo que a estabiliza. 1966. Mas mesmo considerando tudo o que a história herdou das ciências humanas. Uma segunda hipótese: a história se constituiria como uma formação discursiva a partir do momento em que pudesse dispor de uma rede própria de conceitos. não ao menos primariamente. Primeiro porque os conceitos mais próprios do discurso historiográfico aparecem bastante tardiamente. pelo conjunto de conceitos dos quais lança mão. p. o domínio das escolhas teóricas parece ter sido relevante desde o princípio da constituição do saber histórico moderno. 1966. p. mais elle les cerne d’une frontière qui les limite. para ele. histórico” e “ele só se constitui como sujeito da história por uma sobreposição da história dos seres. Por outro lado. a inserção geográfica – onde se pode reconhecer a esse saber sua validade. da história das coisas. mas ela lhes cerca de uma fronteira que as limitam. A historicidade do próprio homem é uma “descoberta” tardia: o homem que aparece ao século XIX “não é. Como já ressaltamos. 382)6 Esse papel da história em relação às ciências humanas é realmente importante e o será cada vez mais ao longo do século XX. de l’histoire des choses. lui fixe un sol et comme une patrie : elle détermine la plage culturelle – l’épisode chronologique. lhe fixa um sol e como uma pátria: ela determina o intervalo cultural – o episódio cronológico. A chaque science de l’homme elle donne un arrière-fond qui l’établit. essa relação não é ainda suficiente para explicar a positivação Livre tradução de: « l’homme n’est pas lui-même historique (…) il ne se constitue comme sujet d’Histoire que par la superposition de l’histoire des êtres. De modo que em vão procuraríamos numa reorganização do domínio de objetos do discurso histórico.

p. O próprio Foucault o dirá em uma entrevista de 1967: Quando se fizer. será preciso evidentemente utilizar os textos sobre a linguagem. por exemplo. Assim. todo discurso aparece sobre um fundo de desaparecimento de qualquer acontecimento”. a partir da formação da concepção moderna do documento. p. “ o que chamamos de fonte ou documento é. 75) explica o privilégio que a história detém em suas pesquisas: Em nossa cultura.. (. seguiremos por essa outra via. Enquanto a maior parte da pesquisas em história da historiografia privilegia as transformações no domínio de objetos da história. grande ou pequeno: o documento pode ser definido como todo acontecimento que deixou. 1995.. com todo o saber relativo à sagrada escritura e à tradição histórica” (FOUCAULT. 66) “Quando se fizer.. em grande parte. ou não tivesse sido feito ainda. p. tentando mostrar que essas transformações só se tornam possíveis a partir de modificações na relação da pesquisa histórica com sua básica documental. elaborar um discurso sobre os acontecimentos a partir dos quais se constituíram. se influenciaram. p. se substituíram. se opuseram. um acontecimento. Mas. os documentos. contudo. o que é o documento para a história? Ainda segundo Veyne. a arqueologia do saber histórico. dirá Paul Veyne (1984.. Concepção bastante similiar encontramos quando Foucault (2008.” – daí que isso não tenha sido feito. uma marca material” (VEYNE. pelo menos há vários séculos. até nós. então. já permitem entrever a concepção que Foucault (1972.15 da história no século XIX e suas transformações posteriores. p. apenas indicados. Há certamente uma lacuna em As palavras e as coisas. A história se constitui. . da “distinção entre fontes e realidade”. portanto. apesar da onipresença da história em nossa cultura há vários séculos. 37). analisando esses objetos. Esses elementos. é somente no século XIX que o documento se destaca da realidade e que vemos surgir um saber cuja função é. e será necessário correlaciona-los com as técnicas de exegese. uma certa maneira de dar estatuto de elaboração à massa documental de que ela não se separa”. Traçar a arqueologia da história é. seu próprio estatuto permanece indeterminado. 14) fazia do discurso histórico: “A história é. se engendraram e foram acumuladas. pois enquanto a história é chamada para responder em parte pelo estatuto das ciências humanas. 124).) em uma cultura como a nossa. os discursos se encadeiam sob a forma de história: recebemos as coisas que foram ditas como vindas de um passado no qual elas se sucederam. da crítica das fontes. 2008. para uma sociedade. acompanhar a emergência e transformações da função documental no discurso histórico. antes de tudo.

o empreendimento dos primeiros Annales que contestaram o privilégio de certos objetos (grandes acontecimentos. “O documento que. daí decorrente. se transformou ao longo dos séculos. grandes homens. duração curta. onde faltasse ou escasseasse. para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX. embora se pudesse admitir o uso de documentos não escritos. sua modalidade enunciativa. é necessário que estabeleçamos certos parâmetros muito elementares que possam figurar como índices comparativos e fatores de transformação. será o fundamento do fato histórico. p. 1990. conceitos e paradigmas. reconhecemos três elementos primários a partir dos quais um discurso qualquer pode ser analisado: seu domínio de objetos. p. 536) o que implica uma concepção judiciária do ofício dos historiadores que explica ao mesmo tempo a prevalência do documento escrito. Assim.16 Le Goff (1990) analisou detalhadamente a questão num ensaio de História e Memória. por razões de economia lógica. Os critérios para determina-los foram estabelecidos conforme exigências pragmáticas e teóricas subjacentes a presente investigação: a) que sejam facilmente identificáveis em cada trabalho histórico. para usar um termo genérico. voltamo-nos para o modelo de investigação arqueológica. sob a indicação que Foucault fez na introdução de A Arqueologia do Saber acerca da relação entre a prática dos historiadores da época (especialmente da história serial) e a função do documento enquanto monumento. Na medida. sua grade conceitual . sobretudo. etc. A relação entre o fato histórico e o documento para a escola positivista é bastante conhecida: o documento é prova. O historiador francês mostra como a relação entre os historiadores e suas “fontes”. 536). eventos políticos.” (LE GOFF. 19) chamou de “domínio virtual” da história Desde então. como bem observa Le Goff (1990. porém. parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica. c) que não sejam. As transformações na historiografia podem de fato se acompanhadas através desses quatro elementos: objetos. muito numerosos. p. implicou a liberação do que Veyne (1995.) desenvolve-se na constatação de que “tudo é histórico”. ainda que resulte da escolha. b) que sejam variáveis reais inquestionáveis da prática historiográfica. a própria história desvanecia. que temos a necessidade de observar práticas historiográficas distintas e as transformações de uma prática ao longo do tempo. como a alteração no conceito de documento. d) que sejam derivados do modelo de investigação arqueológica de Michel Foucault. cuja força probatória parece maior que qualquer testemunho. o documento escrito está no centro da investigação histórica. fontes. como a dilatação da função documental correspondeu à emergência dos novos objetos da História. Aplicando-se o último critério. mas. de uma decisão do historiador.

pois é questionável que hajam conceitos universalmente acionados por toda e qualquer investigação histórica. admitiremos que uma investigação história se refere a um domínio específico de objeto. se elaborados alhures. eliminamos as variáveis que não são pertinentes na presente investigação: a grade conceitual e as opções teóricas. certas escolhas teóricas. social). Resta. desde que tenham sido elaborados ou. quanto. de tal modo que os antigos domínios de investigação do historiador agora convivem com novos campos inteiramente novos ou derivados. a pluralidade das possibilidades historiográficas sobre um mesmo fenômeno é hoje um pressuposto basilar da Teoria da História. daqueles antigos campos. o discurso da teoria da história.17 e as opções teóricas a que dá lugar. p. De modo que. que ela institui como seus “fatos”. que tipo de explicação se dará ao fim para este ou aquele fenômeno. uma pesquisa histórica se faz a partir de certos parâmetros. 7). nem inequivocamente ao critério “b”. . para a história da própria disciplina histórica. Diante dessa diversidade. metodológico e técnico. não está claro ainda que tipos de conceitos são requisitados pela prática historiográfica e qual a sua origem –. dos pensamentos. das atividades intelectuais. ainda. quanto para a história intelectual (das ideias. Tal é verdadeiro para a histórias de objetos convencionais (história política. o universo dos historiadores se expandiu a uma velocidade vertiginosa” – constata Peter Burke (1992. primeiramente. cumpre ao historiador escolher um método e segui-lo de acordo com os objetivos que atribui à pesquisa histórica. mas focar a análise no interior de uma dada escolha teórica. “Mais ou menos na última geração. por fragmentação. A segunda também é aqui tida por impertinente uma vez que não se trata de fazer a arqueologia do discurso histórico. aquela da Escola dos Annales. que relações serão procuradas. econômica. A primeira porque não atende ao critério “a” – embora seja hoje comum falar de conceitos em história. analisar a historiografia dos Annales comparativamente ao trabalho de Foucault com base unicamente nos respectivos domínios de objeto e modalidades enunciativas. Que essas sejam variáveis reais da prática historiográfica é-nos facilmente evidenciado por uma peculiaridade do discurso histórico: uma dobra que produz no interior mesmo dessa prática discursiva. epistemológico. portanto. Por “teoria da história” entendemos aqui o conjunto bastante diversificado de pronunciamentos de caráter metafísico. Constatação aparentemente trivial. Subsequentemente. da filosofia e da ciência). que determinam em grande parte que elementos serão levados em consideração. recebidos e assimilados no interior da prática historiográfica na forma de manuais práticos ou tratados de método. e talvez mais ainda. um discurso paralelo autoreferente.

De modo que. pensando nos primeiros Annales. Segundo um testemunho de Jacques Le Goff (2003). os parâmetros da comparação entre o trabalho de Foucault e o dos historiadores. De modo que. Quanto à primeira questão. assim. p. que representávamos uma nova geração” (LE GOFF. é preciso distinguir entre duas categorias diferentes de historiadores: aqueles que romperam com a história tradicional e dos quais Foucault é um herdeiro e aqueles que eram contemporâneos ao filósofo. tanto quanto possível. a visão de Foucault acerca da “Escola dos Annales” é ligeiramente diferente da visão convencional que a divide em três gerações. para entender a relação entre Foucault e a historiografia francesa.18 Então. faremos a comparação entre suas pesquisas empíricas e as pesquisas dos historiadores com base no domínio de objetos que elas delimitam e nas decisões metodológicas a partir das quais se constituem. já antecipamo-la na introdução: utilizaremos. ou aos historiadores da ciência. 118): O débito de Foucault em relação aos Annales pode ter sido menor do que deve a Nietzsche. os parâmetros da arqueologia do discurso fornecidos pelo tratado de método de Foucault e. mas em um corte que passava por Braudel: “ele não colocava os Annales como um todo. segundo. Como não pretendemos recorrer à categoria de “influência”. mas de maneiras distintas. quais são os trabalhos historiográficos em relação aos quais se tentará a aproximação com Foucault. em seguida Braudel. o próprio Le Goff –. resolvemos partir de uma hipótese muito simples que encontramos em Peter Burke (1997. 2003. como Georges Canguilhem (através de quem tomou conhecimento da noção de descontinuidade intelectual). Foucault se interessava tanto pela primeira quanto pela segunda geração dos Annales. mas que emergem da comparação entre o trabalho dos historiadores e o trabalho do filósofo. mas é mais substancial do que ele próprio jamais admitiu. se fazemos referência aos “interesses” de Foucault. Dito isso é preciso deixar claro dois pontos: primeiro. quanto ainda pelos Annales que lhe eram contemporâneos – entre eles. só o fazemos na medida em que esses interesses de fato se traduzem em relações que podem ser observadas na comparação entre sua metodologia e a metodologia dos historiadores. assim também deixamos de lado a questão de se Foucault reconheceu ou não sua dívida com os Annales. em seguida Leroy Ladurie e eu. 202). Menos interessado em uma . Quanto à segunda questão. p. Estamos mais interessados nas relações que se pode estabelecer entre as pesquisas do filósofo e a historiografia dos Annales – relações estas que não dependem de um reconhecimento de parte a parte.

mas ainda por Braudel. enquanto os historiadores criticavam o ídolo da origem venerado pela historiografia tradicional. mas sobe de novo. Lucien Febvre. Nietzsche criticava a falta de sentido histórico dos filósofos. Com a diferença que. confessava nelas a tentativa de dar continuidade ao empreendimento do autor da Genealogia da Moral. primeiramente. representado pela historia serial. o livro inacabado de Marc Bloch. O que o interessava no período dos primeiros Annales? Ele encontrou explicitamente aí duas noções. mas a ideia ali estava. é a convergência entre um princípio da genealogia de Nietzsche e um dos mais evidentes princípios da metodologia dos primeiros Annales: o abandono do ídolo da origem. herdeiros e continuadores dessa revolução. . Ele contém o vivo ataque de Marc Bloch contra o mito das origens. Ele nos trouxe uma justificativa suplementar ao que nós havíamos apreendido de uma lição dos Annales e em particular de Marc Bloch: partir do presente para nossa reflexão. 2003. pois a genealogia parte do presente.19 distribuição com base em quem dirige a revista do grupo e mais em transformações epistemológicas. Ontem. uma perversão intelectual. 203) Foucault se definia como nietzschiano e já muito antes de empregar o termo “genealogia” para descrever suas pesquisas. é a genealogia. ao incorporar “novos objetos”. no qual do domínio de objetos da história adquire um caráter geral. neste texto de Le Goff. reencontro aqui uma das noções que foi muito esclarecedora para nós historiadores – essencialmente o grupo da sexta sessão e dos Annales. a uma outra noção. e um segundo. representado por Marc Bloch. (LE GOFF. principalmente. segundo Foucault. desce. Sem que a palavra existisse em Marc Bloch. não nos Annales propriamente ditos. no qual as concepções de fato histórico e documento são profundamente alteradas. Arlette Farge excelentemente nos lembrou o quanto essa busca das origens parecia a ele um erro epistemológico. O que é interessante. Nesta exposição feita de lembranças e releituras. A genealogia. Assim. Foucault havia chegado. a revolução operada pelos Annales na historiografia se divide em dois momentos: um primeiro. publicado nessa época já há uma boa dezena de anos. Mas dando à ideia da origem uma extensão e uma fecundidade ainda maiores. Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien. mas nisso que foi o seu complemento. por meio dessa crítica da origem. p. Pois o pensamento e a obra de Foucault foram para nós de enorme importância. por Le Goff e Le Roy Ladurie. que suscitava mesmo seus sarcasmos. Foucault analisa um limiar aquém do qual ocorre a ruptura com a história tradicional – uma revolução em torno do domínio de objetos e da relação com os documentos – e além do qual se situam os “novos” historiadores. e essa concepção está ligada à questão e à crítica das origens. Este é um procedimento histórico fundamental.

os historiadores das colônias. que ele havia feito uma certa crítica da noção braudeliana de ‘longa duração’. em que este dizia que a multiplici dade e . para voltar-se a concepção do tempo histórico em Marc Bloch: A noção de ‘longa duração’ o interessava – ele disse – mas essencialmente porque ela permitia. e às “histórias quase imóveis ao olhar” (FOUCAULT. uma vitória. seguindo ainda o testemunho de Le Goff (2003. pouco posterior. (FOUCAULT. das sociedades mostraram que a história era feita de um grande número de estruturas permanentes. i. se a história tout court de que Foucault fala ali é. 146) especifica a quais historiadores se referia: Marc Bloch. A tarefa do historiador era a de trazer à luz essas estruturas. no trabalho de Lucien Febvre. Contra esse tipo de história. é partir dessa clivagem que Foucault se afasta da concepção de Braudel. ao mesmo solo epistemológico que a história das mentalidades de Febvre ou a história rural de Bloch. de Marc Bloch e de outros. defenderemos. aquela praticada pelos Annales. segundo Foucault. Eis aí alguma coisa à qual ele ainda estava muito sensível. no século XIX. com Braudel figurando como uma ponte entre a primeira e a segunda geração dos Annales – clivagem esta que. É um objetivo que encontramos. Foucault sabia que a história que ele “admirava”. que marca a historiografia do século XIX.20 Mas. Foucault creditava à Bloch e Febvre o abandono de uma concepção restrita dos acontecimentos.. para longos períodos” (FOUCAULT. seria esse o único interesse de Foucault na primeira geração dos Annales? A resposta será não se aceitarmos a interpretação que Le Goff fazia da introdução d’A Arqueologia do Saber. p. p. 9). 10) não deixa dúvida de que ele se refere também a Fernand Braudel. “Há dezenas de anos que a atenção dos historiadores se voltou (de preferência). Lucien Febvre. era uma batalha. as rupturas. que parecia julgar insatisfatória. pensar melhor as descontinuidades. justamente. p. por outro. p. 1972. A referência. e é a ele que devo por ter voltado a atenção a esse texto.e. 250) De certo modo. integrando-o num mesmo movimento com os primeiros Annales. Eu me lembro. Fernand Braudel. Entretanto. em favor de uma concepção mais ampla que integrava estruturas de longa duração: O que os historiadores chamavam de acontecimento. E embora não se identificasse com esse tipo de história. à “civilização material”. sobretudo. o folhear das diversas durações temporais. 2012. a história estrutural de Braudel pertence ainda. separa a história estrutural da história serial. para usar a expressão de Le Goff. p. Chaunu. remontando a um texto de Marc Bloch em Apologie pour l’histoire. a morte de um rei. 202) uma clivagem entre Boch e Febvre de um lado e ele próprio. Ladurie. Foucault (2008. ou qualquer coisa dessa ordem. na França. Falando do tratado ainda no de sua publicação. então. 1972. fora construída a partir dessa história estrutural: havia para Foucault.

2003. quando é evidente que “nenhuma lei da história impõe qu e os anos cujos milésimos se determinam pelo algarismo 1 coincidam com os pontos críticos da evolução humana” (BLOCH. Lucien Febvre. e mesmo a distribuição em três durações. “Em suma”. 146) volta à questão: “De fato. conhecer apenas zonas marginais. segundo um rigoroso ritmo pendular.” . p. este é “difícil problema da periodização”. Foucault (2008. 2003. ele conclui uma reflexão que coloca de modo absolutamente definitivo o problema das periodizações em história – questão que Foucault insistentemente evocará até meados da década de 1970. p. realidades às quais essa regularidade é completamente estranha. a melhor forma possível de recorte” 7 . suas classificações às “próprias linhas do real”: o que é propriamente a finalidade última de toda ciência. de Le Roy Ladurie” como “trabalhos que asseguram uma aventura nova no saber”. os historiadores – e penso certamente na escola dos Annales. Embora nesse momento (trata-se de uma entrevista de 1967). 153) A importância desse texto está em que. porque a realidade assim o quer. não poderia ser para Foucault “a” solução do problema. 149). portanto. p. não era sempre. p. como limites. metodologicamente. escandida pelas revoluções políticas. permanecerá sempre rebelde tanto à implacável uniformidade como ao acontecimento rígido do tempo do relógio. p. (LE GOFF.21 a heterogeneidade dos tempos da história não se limitava a esses três grandes ritmos que definida Braudel. p. Faltam-lhe medidas adequadas à variabilidade de seu ritmo e que. Marc Bloch. Para Foucault (2008. a ênfase dada por Braudel na “longa duração”. em resumo. (BLOCH. 2001. já em 1969 e a propósito do recém lançado A arqueologia do saber. De modo que não é o mesmo século XVIII. não é ao mesmo período que nos referiríamos caso se tratasse do “século XVIII filosófico” ou do político. segundo as palavras de Bergson. “parece que distribuímos. É apenas ao preço dessa plasticidade que a história pode esperar adaptar.. p. hoje em dia. 63) Cada periodização recorta na história um certo nível de acontecimentos e. [. aceitem frequentemente. múltipla. 150) Segundo Foucault (2008. embora aponte na direção correta.” (BLOCH. Bloch crítica. 7 Em outra entrevista. p.] Marc Bloch insistia. de Furet e de Denis Richt. cada estrato de acontecimentos exige sua própria periodização. 205-206) O texto a que se refere Le Goff é o que se segue: O tempo humano. inicialmente. 62).. 62) se refira aos trabalhos “de Braudel. a confusão entre limites de períodos históricos e limites cronológicos arbitrários contados em séculos. afirma Bloch. Foucault (2008. uma vez que “percebeu-se que a periodização manifesta. opostamente. Fernand Braudel – tentam ampliar as periodizações que os historiadores praticam habitualmente. como observou Le Goff. arbitrariamente escolhido. sobre o fato de que era alguma coisa muito mais complexa. 2001.

p. mesmo de muito longa duração” (BRAUDEL. est sans doute assemblage.10 (BRAUDEL. 1958. acceptée ou non – une notion de plus en plus précise de la multiplicité du temps et de la valeur exceptionnelle du temps long. o problema vai estar justamente nessa “precisão”. a historiografia braudeliana. 1958.”8 (BRAUDEL. na qual a estrutura9 é o mais relevante. será preciso delimitar periodizações diferentes. à metodologia complexa das descontinuidades. atingir-se-ão níveis diferentes. mais plus encore une réalité qu e le temps use mal et véhicule très longuement. » 9 “Pour nous. tous les milliers d’éclatements du temps de l’histoire se comprennent à partir de cette profondeur.consciente ou não. sobre a relação entre a história e as ciências sociais. 1958. tudo gravita em torno dela. à multiplicidade ternária das escolhas realmente feitas pelos historiadores até o momento: a escolha tradicional pelo “tempo curto”. p. de cette semi -immobilité . » 8 . mas também algo de programático. conforme a periodização que se dê. A historiografia prevalente à época. architecture. sem dúvida. Escrevendo em 1958. tout gravite autour d’elle. de acordo com o nível escolhido. não apresenta de fato essa abertura para a multiplicidade de durações. pois. p. Tous les étages. se teoricamente ele supõe uma multiplicidade aberta de tempos. 727) Ora. o problema das periodizações. 727). a escolha da história econômica pelo tempo cíclico e a preferência dos Annales pela “história de longa. historiens. mas uma extensão limitada da duração tradicional através do tempo conjuntural e da longa duração. 1958. já que. todos os milhares de estágios. tous les milliers d’étages. Acede-se. todas as milhares de rajadas do tempo da história se comprendem a partir dessa profundidade. conjuntura e evento. aceita ou não – uma noção mais e mais precisa da multiplicidade do tempo longo. Braudel reduz a multiplicidade das periodizações que dependem unicamente de uma escolha metodológica do historiador.22 Trata-se de um conjunto de problemas delicados. Todos os estágios. é por relação a esses tipos de história lenta que se pode pensar a totalidade da história como a partir de uma infraestrutura. De modo que na caracterização que Foucault então faz do trabalho dos historiadores há algo descritivo. Segundo Foucault. não pode ser resolvido por uma teoria que estabeleça um número finito de “ritmos” possíveis. 731) 10 Livre tradução de: « En tout cas. uma vez que permite retomar a noção de totalização: Em todo caso. c’est par rapport à ces nappes d’histoire lente que la totalité de l’histoire peut se repenser comme à partir d’une infrastructure. assim. mas que não resolve a priori o problema proposto por Marc Bloch. de fato. mas já como uma aquisição da historiografia da qual as ciências sociais poderiam tirar proveito: “Das experiências e tentativas recentes da história. p. e. nem Livre tradução de : “Des expériences et tentatives récentes de l’histoire. » (BRAUDEL. De modo que. 734) Escolha metodológica válida. se lança. dessa semiimobilidade. pragmaticamente a distribuição se encaminha para a partição entre estrutura. se dégage – consciente ou non. Braudel propõe a questão não mais como um problema.

do espírito ou da mentalidade de uma época. de se dobrar a uma cronometragem muito rígida. As transformações da estrutura social. ou melhor. da economia. em que não cabiam teorias antecipatórias da experiência empírica. certamente. pelo contrário. 150) Assim. seu decimal específico. para cada “nível” de acontecimentos. portanto. só há oposição entre Foucault e Braudel na medida em que supomos que eles respondem ao mesmo problema – o que não é rigorosamente correto: Braudel estabelece o privilégio da “longa duração” na medida em que. Mas. a história era uma ciência de pura observação. Foucault. ele permaneceria em aberto para cada pesquisa. Do mesmo modo. portanto. Para Foucault o importante era considerar . à natureza do fenômeno considerado. a cada vez. certas histórias (da psiquiatria e da loucura. as relações entre os fenômenos. ao contrário.23 uma hierarquia entre eles. 2001. abarcadas naquela categoria de “devaneio pitagórico” todas as tentativas de estabelecer periodicidades fixas que permitiram agrupar fenômenos diversos sob um mesmo tempo: “Só a observação permite apreender os pontos em que a curva muda de orientação” (BLOCH. que só podem ser estabelecidos a posteriori. das crenças. quer de coincidência. Uma certa imprecisão. 2001. p. quer de oposição só podem surgir sob a condição de “não terem sido postuladas previamente” (BLOCH. (BLOCH. 151). fenômenos de tipos diferentes tem uma evolução diferente. como em seu Mediterrâneo. sem um desagradável artifício. 2001. Podem ser. O fato é que. seu mérito é indicar o caminho da multiplicação das periodizações possíveis e não fixar de vez quais as periodizações corretas ou a hierarquia entre elas. etc) para as quais a expressão “período clássico” não tem a mesma delimitação. introduz-se uma outra noção de precisão: A verdadeira exatidão consiste em se adequar. se introduz forçosamente nesse tipo de história. 152). Foucault permanece mais próximo da visão de Marc Bloch de uma história que propõe ao mesmo tempo os problemas e os termos para resolvê-los do que daquela história de Braudel no qual a compreensão de um período ou fenômeno sempre se daria por remissão às estruturas sociais de longa duração. pretendeu estudar sucessivamente certos problemas. afirma Bloch. por assim dizer. Foucault via de fato na ênfase braudeliana na “longa duração” um elemento importante de ampliação das periodizações em história. mas de fenômenos que delimitam eles próprios uma época a partir de “ritmos” aproximados. Pois cada tipo tem sua densidade de medida particular e. das ciência humanas e do indivíduo moderno. p. do comportamento mental não seriam capazes. Para Foucault não importa a tentativa de compreensão total de um período. para Bloch. pretende estudar uma época. embora tenha dado certa ênfase ao período clássico.

fenômenos maciços de alcance secular e plurissecular. as . Parece. Ou melhor. É verdade. dos decretos. porém. através dele. por levar o poder de resolução da análise histórica até as mercuriais. A história. mas não é para reencontrar estruturas anteriores. sem especificar o modo de análise da qual ela depende. implica num retorno ao acontecimento. Certamente a história há muito tempo não procura mais compreender os acontecimentos por um jogo de causas e efeitos na unidade informe de um grande devir. Mas. às atas notariais. que permitem circunscrever o ‘lugar’ do acontecimento. sem querer determinar as condições das quais dependem. ao contrário. sem cessar. 2008. às vezes. que vai de certo modo em sentido oposto ao de Braudel. na qual acontecimentos e conjuntos de acontecimentos constituem o tema central. já há algumas décadas. ao contrário. aos arquivos portuários seguidos ano a ano. novas camada. às vezes. sem procurar conhecer a regularidade dos fenômenos e os limites de probabilidade de sua emergência. Não estou certo. numerosos. hostis ao acontecimento. mas superficiais ou mais profundas. divergentes muitas vezes. dois movimentos marcam a historiografia desde o século XIX: o primeiro conduz do primado do acontecimento (entendido como evento político ou diplomático) às estruturas subjacentes à sociedade. não penso que haja como que uma razão inversa entre a contextualização do acontecimento e a análise lógica da longa duração. é ampliada pela noção de “série”. densos e intercambiáveis. inalterados. contudo. Foucault (2005a) deixa ainda mais clara sua visão do desenvolvimento da historiografia desde a ruptura com os privilégios dos eventos políticos e diplomáticos até o momento em que os desenvolvimentos autônomos na história tout court e na história intelectual podem convergir: Atribui-se muitas vezes à história contemporânea ter suspendido os privilégios concedidos outrora ao acontecimento singular e ter feito aparecer as estruturas de longa duração. que foi por estreitar ao extremo o acontecimento. sem interrogar-se sobre as variações. É para estabelecer as séries diversas. Foucault o encontrava na história serial. que se viu desenhar para além das batalhas. não se desvia dos acontecimentos. começou-se a praticar uma história dita “serial”. raros e decisivos: das variações cotidianas de preço chega-se às inflações seculares. semana a semana. alarga sem cessar o campo dos mesmos. mas não autônomas. entrecruzadas. p. (FOUCAULT. isola sempre novos conjuntos onde eles são. das dinastias ou das assembleias. Para Foucault. de que o trabalho dos historiadores tenha siso realizado precisamente nessa direção. cuja significação. Na conferência “Retornar à História” de 1972. 290) Na aula inaugural no College de France. como praticada hoje.24 cada fenômeno em sua duração própria para a seguir correlaciona-los. Foucault é bastante claro quanto a essa clivagem: Há o hábito de dizer que a história contemporânea se interessa cada vez menos pelos acontecimentos e cada vez mais por certos fenômenos amplos e gerais que atravessariam de qualquer forma o tempo e se manteriam. neles descobre. o segundo. estranhas. aos registros paroquiais. Mas o importante é que a história não considera um elemento sem definir a série da qual ele faz parte. vagamente homogêneo ou rigidamente hierarquizado. as inflexões e a configuração da curva. Esse trabalho.

É provavelmente nisso que ele pensa. 1972. não certamente com a temática tradicional que os filósofos de ontem tomam ainda como a história “viva”.. mas com o trabalho efetivo dos historiadores. 10) Assim. São as do acontecimento e da série. as condições de sua aparição (FOUCAULT. transformação. p.) . pois ainda envolve Braudel e.. determinação unívoca. (. regularidade. dizia Foucault (1972. (FOUCAULT. finalmente à história serial: As noções fundamentais que se impõem agora não são mais as da consciência e da continuidade (com os problemas que lhes são correlatos. mas não somente”. os historiadores retornam aos acontecimentos e buscam ver de que maneira a evolução econômica ou a evolução demográfica podem ser tratadas como acontecimentos. 56-57) “Há dezenas de anos”. de cronologia ampla. Foucault vê seu trabalho se alinhar à prática efetiva dos historiadores: O fato de eu considerar o discurso como uma série de acontecimentos nos situa automaticamente na dimensão da história. 2005a. 9) n’Arqueologia do Saber. dependência. 54-56). de modo geral. “a atenção dos historiadores se voltou (de preferência). p. Mas o que importa a Foucault é o resultado dessa ênfase: a transformação do conjunto de problemas da análise história que se realiza plenamente na história serial: As velhas questões da análise tradicional (que ligação estabelecer entre acontecimentos dispares? Como estabelecer entre eles uma sequência necessária? Qual a continuidade que os atravessa ou a significação de conjunto que acabam por formar? Pode-se definir uma totalidade ou é preciso se limitar a reconstituir encadeamentos?) são substituídas agora em diante por interrogações de outro tipo: quais estratos é preciso isolar uns dos outros? Quais tipos de série instaurar? Quais critérios de periodização adotar para cada uma delas? Qual sistema de relações (hierarquia. da liberdade e da causalidade). Foucault se refere aos primeiros Annales: “Dezenas de anos? Os primeiros Annales. a ênfase na “longa duração” é ainda predominante na escola dos Annales. com o jogo de noções que lhes são ligadas. não são também as do signo e da estrutura. Trata-se de um movimento que conduz primeiro da história eventual à história estrutural e desta. 205) não tem dúvidas. escalonamento. (. causalidade circular) pode-se descrever de uma a outra? Quais séries de séries pode-se estabelecer? E em que quadro. 2005a. dominância. para longos períodos”. pode-se determinar seqüências distintas de acontecimentos? (FOUCAULT. Pode-se dizer que. p. casualidade.25 margens de sua contingência. aquilo fazia dezenas de anos. é por esse conjunto que essa análise dos discursos sobre a qual estou pensando se articula.) Hoje. Le Goff (2003. descontinuidade. Esse texto data de 1969. p.. p. sem dúvida. desde 1929..

2005. são insistentemente evocadas no tratado sobre A arqueologia do saber. como o utilizado atualmente pelos historiadores. ao supor que os historiadores e Foucault compartilhariam de um mesmo método. essas noções oriundas da estatística descritiva perderão importância tanto no trabalho de Foucault quanto na comunidade historiográfica. É verdade que. p. resta claro que Foucault tem a Escola dos Annales.” (DELEUZE. entre a década de 1960 e 1970 sua presença era constante: era o apogeu da análise estrutural. embora não tenha nomeado nenhum historiador ou escola na introdução d’A arqueologia do saber. segundo Foucault. 2012. enquanto a história serial trabalha com séries de documentos. que. dominada pela relação entre o historiador e o documento – o “fato formal” da escola metódica. então. quanto por Deleuze. Foucault. segundo. da história serial e quantitativa e do trabalho de Foucault. Apenas um método serial. em que as séries começam a divergir e se distribuem em um novo espaço: é por onde passa o corte. de aplicar ao campo da história intelectual conceitos que. de fato. em outras direções. a modalidade enunciativa da história. em certo momento. mas os historiadores e eu temos um comum interesse pelo acontecimento. desde a História da Loucura. a referência à noção de série e correlatas manifesta a ênfase que Foucault atribuía à história serial. dominavam então a história tout court. “função” e “dispersão”. (FOUCAULT. tal coisa – um método serial? Parece-nos. Método serial fundado sobre as singularidades e as curvas. ao nível de outros pontos. a referência à longa duração não deixa dúvida de que Foucault se refere ao trabalho de Braudel e seus seguidores. há. Há sempre um momento. à primeira vista. ou locais. 31) Mas. Temos. essencial. Tratava-se. pois. permite a construção de uma série na proximidade de um ponto singular. É preciso. em sua tentativa de aproximação com os historiadores. principalmente. parece negligenciada tanto por Foucault. 250-251) Há de se notar que: primeiro. então. Essa distinção. saber a qual . Assim. e a busca de outras séries que a prolonguem. se detém em séries de acontecimentos. mas nesse momento. principalmente sua “segunda geração” como parâmetro para falar do desenvolvimento autóctone na historiografia.26 Não sou historiador no sentido estrito do termo. p. As noções matemáticas de “série”. dois parâmetros para analisar o desenvolvimento do discurso historiográfico: aquele que se refere ao domínio de objetos desse discurso – o que os historiadores da escola metódica chamavam de “fato material” – e aquele que se refere à atividade do historiador. no fim da década de 1970 e durante a década de 1980.

em boa parte. 59) já evocam. A revista dos Annales foi renomeada cinco vezes ao longo de sua existência: fundada como Annales d’histoire économique et sociale em 1929 foi renomeada pela primeira vez para Annales d’histoire sociale em 1940.) 3. (. e.. Ora. Sciences Sociales. a esmagadora maioria (entre 80 e 85) versam sobre história econômica. Esse espaço. a ambição e os trabalhos de certos historiadores economistas”. é preciso fazer uma distinção entre história serial e história quantitativa. p. p. ao início do século XX. Histoire. geralmente anuais. para medir a real proximidade entre o projeto foucaultiano e a historiografia. em 1940. quando já é discutido nas primeiras edições da revista Annales. O termo ‘história quantitativa’ designa igualmente. 59-60) Importante assinalar que a atualização de métodos quantitativos em história remonta. a ambição ao mesmo tempo mais geral e mais elementar da história quantitativa é de construir o facto histórico e séries temporais de unidades homogéneas e comparáveis. em grande parte. um desenvolvimento interno da Escola dos Annales. assim.. 11 . Segundo François Furet (1986) havia três conjuntos de procedimentos que. p. A história serial e quantitativa é. (FURET. 1986. a história quantitativa e a história serial aparecem ao mesmo tempo ligadas e diferentes. volta a se chamar Annales d’histoire sociale durante o ano de 1945. a questão da aplicação da estatística às pesquisas históricas. Isso se deve. Não somente isso: já no primeiro número da revista um espaço específico é reservado para o problema da documentação econômica. Économies. [Em primeiro lugar] diz respeito aos processos de tratamento dos dados históricos quantitativos. é chamada Annales. 34). Escrevendo já à Annales d’histoire sociale11. ao qual os Annales darão grande atenção nos anos subsequentes. devido. emerge o problema histórico dos preços. 1997. Labrousse já trabalha com a noção de série de preços.27 desses domínios se refere a noção de série em Foucault e nos historiadores.) 2. em França. parte à necessidade de tratar de fenômenos de longa duração. De fato. no ano seguinte. entre outras. desde 1994. Assim definidas. (. é renomeada em 1946 para Annales.. De início. de 1929. eram chamados “história quantitativa”: 1. poder medir-lhes a evolução em determinados intervalos de tempo. ao domínio da história econômica durante o período em que Bloch foi seu diretor (BURKE.. em grande. de todas as contribuições à revista no ano de sua fundação. Sociétés et Civilisations. para a pesquisa sobre a documentação da história econômica é mantido nos quatro primeiros números da mesma. Ao inaugurá-lo Febvre e Bloch (1929. pelo menos em França. para Mélanges d’histoire sociale em 1942. Finalmente.

12) Apesar disso. 1978. 1978. mais to ut aussi bien culturel ou économique) qu’à l’élément répété. 1972. é o sinal de uma promoção »14 (CHAUNU. 22) Finalmente. com aplicação a todos os domínios e não somente ao da história econômica. p. ela é um desenvolvimento ulterior do princípio básico da escola dos Annales segundo o qual era preciso procurar fatos que ultrapassassem a dimensão individual. est le signe d’une promotion. das ciências e técnicas sociais. ou seja. estritamente falando. bem entendido. pour nous. a aplicação dos métodos de análise estatística a problemas de psicologia coletiva. et même come la recherche fondamentale. É o que se depreende da definição que Pierre Chaunu manteve praticamente intacta durante vários anos: Uma história que se interessa menos pelo fato individual (fato político. 1978. forneceria uma básica sólida construída de índices quantitativos. como um prolongamento da demografia teremos o que Chaunu chama de “quantitativo ao terceiro nível”. par excellence.28 Quanto à história serial. mas igualmente cultural ou econômico) que pelo elemento repetido. p. partant intégrable dans une série homogène. de modo que “a história seriada é a generalização e sistematização da história estatística. enfim. uma história. doit être considérée comme recherche fondamentale. É nesse ponto que as pesquisas de Foucault poderão entrar em contato com as pesquisas dos historiadores profissionais. ela deve ser considerada como pesquisa fundamental. e mesmo como al pesquisa fundamental. por excelência. Quatro anos mais tarde. escrevendo aos Cadernos Vilfredo Pareto. portanto integrável em uma série homogênea. 304) Esse caráter estatístico garantiria uma “utilidade” à história em relação as demais ciências humanas uma história que a cada uma das ciências humanas. susceptible. 11-12) Assim. tal como pensava Chaunu se adequava melhor. suscetível de em seguida usar os processos matemáticos clássicos de análise de séries. para nós. qui. é à economia fundamentalmente que a história serial. susceptible de porter ensuite les procédés mathématiques classiques d’analyse des séries. des sciences et techniques sociales » 14 Livre tradução de : « Une histoire que serait à même de répondre totalement à cette demande de la réflexion économique mériterait pleinement le titre de science auxiliaire de l’économique. Não por Livre tradução de : « Une histoire qui s’intéresse moins au fait individuel (fait politique. que.12 (CHAUNU. p.”13(CHAUNU. surtout d’être recordée aux séries qu’utilisent couramment les autres sciences de l’homme » 13 Livre tradução de : «utile. “útil”: “útil porque serial.” (MAURO. o historiador « confessa » esse propósito de « servir » à economia: « uma história que responderia totalmente a essa demanda da reflexão econômica merecendo plenamente o título de ciência auxiliar da economia. parce que sérielle. suscetível sobretudo de ser ligada às séries que utilizam correntemente as outras ciências do homem. » 12 . bien sûr. p. de fato o que ficará conhecido como história serial é uma história estatística.

para où le monde des idées puisse reprendre dans nos esprits le co ntact qu’il avait tout naturellement avec le monde des réalités. E contudo problema da relação entre a história dos sistemas de pensamento e a história social e econômica não era novo. Jacques Le Goff – exceção feita à Paul Veyne. une porte de communication.quand il vivait » 15 . a noção de “série” podia servir de ponte entre os trabalh os de Foucault e a linha encabeçada por Chaunu. e uma dessas grandes catedrais de ideias como aquelas que Etienne Gilson nos descreve em seu Livre tradução de: Je ne demande certes pas à l’historien des doctrines de se faire. De certo modo. Trata-se de mostrar que uma catedral gótica. Georges Duby e Jacques Revel. Philipe Aries. Ainda menos de submetê-lo à ação dos interesses. p. contudo. para usar a expressão ainda mais imprecisa de Febvre então. no grupo de historiadores que se dedicavam à história serial de terceiro nível se encontram praticamente todos os historiadores com que Foucault conviveu ou cujo trabalho admirava até meados da década de 1970: o próprio Chaunu. 161) E. no mesmo “clima”. toujours. da filosofia. sob a aparente simplicidade dessa exigência se encontrava o problema realmente difícil de integrar uma produção intelectual singular no mesmo espaço espiritual de um época. Veyne. de fato. num mesma mentalidade ou. Je lui demande de tenir ouverte. essa proximidade no domínio de objetos que aliás também se verificava com historiadores que não aderiram à história quantitativa – Le Goff. por onde o mundo das ideias possa tomar em nossos espíritos o contato que ele teve natutalmente com o mundo das realidades – em que ele viveu. 1946. Eu o peço que mantenha aberta. entre esse “terceiro nível” de que fala Chaunu. . etc.15 (FEBVRE. sempre. É provável que Foucault esperasse que seus trabalhos se integrassem perfeitamente nessa zona de transição entre a história praticada por Aries ou Ladurie e a história intelectual. da ciência. a solução então sugerida por Febvre fundará. François Furet. e a história intelectual praticada fora da comunidade historiográfica. uma porta de comunicação. Surge então o problema da relação. Duby – não é suficiente para falarmos de uma interação em termos metodológicos. o dogma segundo o qual a historia intelectual deve ser reduzida à história social: Não se trata de subestimar o papel das ideias na história. Entretanto. Ele havia sido proposto já por Lucien Febvre a respeito do trabalho de Etienne Gilson: Eu certamente não peço ao historiador das doutrinas se fazer. a história das ideias. a despeito das pontuações do historiador.29 coincidência. se improvisar historiador das sociedades políticas e econômicas. e integração. vitimas da eterna barbárie. É preciso verificar o quanto. as esferas de Ypres. de s’improviser historien des sociétés politiques et économiques.

p. que deixou-se ver como historiador. ligado à escola de epistemologia histórica de Canguilhem tentará avançar esse projeto na direção dos procedimentos então utilizados pelos historiadores a partir de sua própria visão da evolução da historiografia francesa de sua época. é rechaçado como uma filósofo a entremeter-se nos assuntos da historiografia. podemos passar à descrição do modelo de pesquisa arqueológico. 1972) e na aula inaugural de Foucault no College de France. Foucault é reconhecido como um inovador. E à medida em que os “novos” objetos já deixavam de ser “novos” é a este segundo Foucault. mas a uma bivalência no próprio empreendimento foucaultiano. é neste ensaio de 1968. pois. p. 161) Podemos dizer. que a atenção dos historiadores há de voltar-se. les balles d’Ypres. exposto teoricamente na Resposta ao círculo de epistemologia (FOUCAULT. 2005a). 2008). et une de ces grandes cathédrales d’idées comme celles qu’Etienne Gilson nous décrit dans son livre – ce sont les filles d’une même temps. 1946. 1. tal como pensa Noiriel (1994). Foucault. Il s’agit de montrer qu’une cathédrale gothique. na segunda. Portanto. A maior parte dos textos e pronunciamentos adicionais relevantes consta no segundo volume da tradução brasileira dos Ditos e Escritos (FOUCAULT. 2008). mesmo por seus adversários. Filhas dos mesmos 16 homens (FEBVRE. 16 . filósofo e “filósofo do ofício do historiador”. portanto. O Nascimento da Clínica (1977b) e As Palavras e as Coisas (FOUCAULT. Encore moins de le subordonner à l’action des intérêts. no tratado sobre A Arqueologia do Saber (FOUCAULT. Les filles des mêmes hommes. em torno de uma nova abordagem da prática historiográfica. que as relações entre Foucault e os historiadores se deram em duras frentes bem diversas: uma que se dá em torno dos “novos objetos” e outra. As obras empíricas de referência são: A História da Loucura na Idade Clássica (FOUCAULT. para usar a expressão precisa de Le Goff. Não ligamos. Em sua Resposta ao círculo de epistemologia17.2 A arqueologia como método de análise histórica Tendo essas conclusões em vista. victimes de l’éternelle Barbarie. em que Foucault pretende responder a uma série de questões do “Círculo de Epistemologia de Paris” a respeito de As Livre tradução de: “ Il ne s’agit pas de sous-estimer le rôle des idées dans l’Histoire. 1966).30 livro – são filhas de um mesmo tempo. Na primeira. 1999). 17 Doravante “Resposta”. Foucault (2008. publicada sob o título A ordem do discurso (FOUCAULT. a ambiguidade da posição de Foucault junto aos historiadores ainda hoje a uma má-compreensão dos propósitos de um filósofo. 112) define a arqueologia como “análise das formações discursivas e de seus sistemas de positividade em relação ao elemento saber”.

O conjunto genealógico corresponde à própria descrição arqueológica. é ainda da arqueologia que se trata (FOUCAULT. descontinuidade e ruptura eram bem familiares. uma ocasião para que Foucault fizesse sua primeira investida contra os que fizeram do livro um assassínio do homem e da história ou dos que viam nele um “estruturalismo sem estruturas” (PIAGET. coloca em questão as formas de exclusão. 21 Tal possibilidade de extensão já se encontrava prevista no tratado de 1969 sobre A arqueologia do saber. 1999. 1979. à liberação do discurso das unidades formadas por todos esses procedimentos. porém. 20 Aparece como sinônimo de “genealogia” no curso de 1975 ( FOUCAULT. é estranho a ela”. p. estendida. o termo “arqueologia” não é mais prevalente 20 . 16). 51) e uma única vez no curso de 1976 (FOUCAULT. pp. 2. 4. p. guiado pelo princípio de inversão. 2005a. Michel Serres. 171-173) enumera quatro características que distinguem a arqueologia da história das ideias: 1. se de fato uma reorientação metodológica ocorre.69)19. A partir da aula inaugural de Foucault no College de France. Martial Guéroult. uma clivagem nas pesquisas de Foucault e. Já em A arqueologia do saber. . De modo que seria bastante incorreto localizar em A ordem do discurso. Isso não significa que o procedimento por ele nomeado tenha sido abandonado. p. O método descrito aí comporta um conjunto crítico e um conjunto genealógico. era formado por membros da escola de epistemologia histórica francesa18 para os quais as noções de limiar. Correspondem. na qualidade de monumento”. mas como procedimento específico complementar à “genealogia”. p. mas. de limitação e de apropriação do discurso. 18 A escola de epistemologia histórica francesa se formou a partir da herança de Gaston Bachelard. 60). Seus principais representantes foram: Georges Canguilhem. Foucault (1972. enquanto razão de ser de uma obra e princípio de sua unidade. François Dagonet. 3. “é a descrição sistemática de um discurso-objeto”. 19 Em geral a crítica contundente de Jean Piaget (1979. que em grande parte elabora as noções já presentes na Resposta. grosso modo. para abarcar as demais regiões do Arquivo: à região da política e da sexualidade21. 66-69) ao livro As palavras e as coisas parte da pressuposição de que Foucault tentou desenvolver um tipo de epistemologia estruturalistas e que as epistemes são estruturas epistemológicas – pressuposto este que será enfaticamente negada por Foucault no tratado sobre A arqueologia do saber.31 palavras e as coisas. ela ocorrerá ao longo das pesquisas feitas no âmbito do College de France. 2010. pois. Dominique Lecourt. suscitando. O “círculo”. evidentemente. “é uma análise diferencial das modalidades de discurso”. O conjunto crítico. pois. p. apesar do termo. que os dois principais operadores da arqueologia (formações discursivas e sistemas de positividade) aparecerão pela primeira vez. “dirige-se ao discurso em seu volume próprio. “A instância do sujeito criador.

A aplicação da categoria da descontinuidade à história intelectual supõe. 1972. 31). segundo o autor. Foucault desenvolve em toda sua extensão um modelo teórico22 de análise histórica voltado especificamente 23 para as disciplinas “que se chamam história das ideias. “é preciso se inquietar também diante de c ertos recortes ou grupamentos com que nos familiarizamos. não deve nos enganar: trata-se. as noções de desenvolvimento e de evolução: elas permitem reagrupar uma sucessão de acontecimentos dispersos. de todo modo. 100). influência. que domina três quartos do tratado.. 1972. ou do pensamento. as considerações do tratado não estão em mesmo nível que as considerações “teóricas” presentes nos trabalhos empíricos..32 Em A arqueologia do Saber.. 22 A aplicação do modelo. que constituem uma pragmática do método. “palavra”) é o conjunto de formulações que se individuam de modo mais ou menos arbitrário. que em cada pesquisa empírica deve ser complementado por regras pragmáticas de pesquisa.] ora domínio geral de todos os enunciados. 31). [. ora grupo individualizável de enunciados. 1972. 1988). como esclarece Foucault (1972. usando termos um pouco arcaicos. ou das ciências. (FOUCAULT. que se possa romper “com as noções que diversificam. Digamos para simplificar que o que se desenvolve em A arqueologia do saber é o modelo teórico. 31) levanta questões de procedimento. o que não impede que. filosofia. história. submetê-los ao poder exemplar da vida [. 1972. mas que. 31-32) Em segundo lugar. cada uma à sua maneira. Se é bem certo que o modelo tal como será exposto é aplicável somente aos discu rsos “sérios”.]. 24 N’A arqueologia há dois termos que se traduzem igualmente por “discurso”: parole e discours... aqueles nos quais não há uma pretensão de racionalidade científica e que constituem na maior parte das vezes o acervo documental das pesquisas históricas. .. de rutura. 1984) e História da Sexualidade III (FOUCAULT. ora prática regulamentada dando conta de certo número de enunciados” (FOUCAULT. Assim. no sentido formal de prática regulamentada o termo “discurso” é equivalente ao termo “formação discursiva”. História da Sexualidade I (FOUCAULT.] ciência. Logo. em número de quadro: tradição. 1985) 23 Foucault não pretende que o modelo aí desenvolvido se aplique a pesquisas da história tout court. ou dos conhecimentos” (FOUCAULT. o tema da continuidade” (FOUCAULT. mentalidade/espírito: A noção de tradição [. p. se dá ao nível da linguagem. de série. p.. na analítica do discurso. em primeiro lugar.. relacioná-los a um único e mesmo princípio organizador. parole (literalmente.. 31) para nelas aplicar os “conceitos de descontinuidade. ele significa “[. religião. literatura.] permite repensara dispersão da história na forma do mesmo [. O primeiro não é objeto específico da arqueologia. as noções de ‘mentalidade’ ou de ‘espírito’ que permitem estabelecer entre os fenômenos simultâneos ou sucessivos de uma época dada uma comunidade de sentido. a noção de influência que fornece um suporte – demasiado mágico para poder ser bem analisado – aos fatos de transmissão e de comunicação [. 1972. O modelo é desenvolvido com vistas a história que se pode chamar “intelectual” (dos discursos sérios).]. resta em aberto a questão de que modificações seriam necessárias no mesmo para dar conta dos discursos “não -sérios”. 2009). O segundo termo é um conceito específico de Foucault.. esta analítica do discurso possa se aplicada a problemas da história dos historiadores. p. de transformação” (FOUCAULT.. De modo que. podem ser verificadas em cada uma das obras posteriores do autor: Vigiar e Punir (FOUCAULT. desenvolvimento/evolução. diríamos que o primeiro e o terceiro sentido são formais e o segundo é material. O tema do “discurso” 24. do desenvolvimento de um modelo teórico de análise histórica. História da sexualidade II (FOUCAULT. p. de limiar. Elas são. que são colocadas sempre por ocasião da pesquisa empírica. É este modelo que passaremos a descrever agora. Tais regras..]. sempre. p. p. ao menos em parte.

etc. e os primeiros se distinguem dos segundos. Consideremos a questão do seguinte modo: a medicina é o que os médicos fazem dela. 256). 27 “À falta de outros testemunhos (. mas devemos cuidar do nosso jardim” (VOLTAIRE. cujos limites e aplicabilidade são. etc? Não seria preciso.” (BLOCH. contém tanto enunciados históricos 26 quanto enunciados metodológicos27 e teóricos28. p. para analisar o que se diz de fato. p. enquanto que o domínio de O enunciado “cuidemos de nosso jardim” aparece ao fim do romance Cândido de Voltaire como um último remate do personagem Cândido contra o otimismo de seu antigo professor Panglos que representa a filosofia de Leibniz. a filosofia e a religião. p. a história o que os historiadores fazem dela.” (BLOCH. por possuírem um domínio de objetos completamente diferente: referem-se a acontecimentos numa época específica (período medieval). nos equivocaríamos se deduzíssemos que tudo o que um historiador faz é história ou que tudo que um médico faz é medicina. 1982. 1982. já que é no livro e na obra que os historiadores do pensamento. de ferreiros. de escultores em madeira e de comerciantes.. 1972.)” (BLOCH.. Dito de modo mais simples: um livro de história ou as obras completas de um historiador. o que se faz (a prática) define o que é feito (a obra) e só se pode explicar o que é feito pelo que se faz. de Marc Bloch. como bem explicitou Paul Veyne (1995. contêm uma variedade de enunciados que não podem todos pertencer ao discurso histórico ou médico. 33). todas essas unidades (algumas das quais disciplinarizadas) não podem valer como delimitações legítimas de um parentesco. p. afirma Bloch: “Estes Vikings. 117) 28 “Na verdade. p. 1982. 45) 25 . respectivamente. Considere-se o enunciado “tudo está muito bem. tal como de guerreiros. a história e a filosófica. segundo o autor. 236): prescrição irônica contra Leibniz. p. que os campos de pilhagem do Ocidente atraíam. Um livro como A sociedade Feudal.. logo à primeira vista. “as unidades que é preciso por em suspenso são as que se impõe da maneira mais imediata: as do livro e da obra” (FOUCAULT. Mas. 26 Caracterizando os normandos. a história e a política. acreditam ter de buscar a coerência de um projeto de racionalidade.33 ficção. 1983. mas. como os indivíduos estão envolvidos em diversas práticas. das ideias. p. deixar em suspenso por um instante esses grandes rótulos? Ao menos para a arqueologia do discurso. pertenciam a um povo de camponeses. 33). um tratado médico ou as obras completas de um Pinel ou Esquirol. Ainda aqui. E. não o podem fazer sob o mesmo estatuto. estas agendas não são os únicos trabalhos históricos legados por uma época muito preocupada com o passado. é preciso liberar o enunciado dessas classificações. da filosofia e da ciência. Ou seja. bastante precários. Em terceiro lugar. trata-se de unidades que são colocadas em jogo principalmente pela história intelectual. certamente. 38). devemos considerá-la como parte da filosofia de Voltaire ou um experiente literário?25 Será que de fato estamos certos sobre as fronteiras que separam a filosofia e a literatura. mesmo os que podem. 1972.” (FOUCAULT.

de início restituir ao enunc iado sua singularidade de acontecimento” (FOUCAULT. quer a um domínio de objetos ideais (a concepção da história que o historiador compartilha). o segundo. em um material qualquer e segundo uma forma determinada. Isso não significa que todas essas unidades que a arqueologia põe em suspenso sejam por ela tomadas como ficções ou ilusões. o conceito genealógico da emergência: “o que se tenta observar é essa incisão que ele constitui. domínio este que “é constituído pelo conjunto de todos os enunciados efetivos (quer tenham sido falados ou escritos). p. a arqueologia se caracteriza. é preciso romper com dois temas ligados ao postulado de continuidade que domina a historia intelectual tradicional: o tema da origem e o tema das significações ocultas. e. em sua dispersão de acontecimentos e na instância que é própria a cada um” [. em consequência. supõe que “[. Não é um trabalho linguístico. Enquanto procedimento analítico. como “uma descrição pura dos acontecimentos discursivos” (FOUCAULT. 1972. Finalmente. o pesquisador estará diante de “uma população de acontecimentos dispersos” (FOUCAULT. p. mas ao nível do enunciado e do discurso. p. 1972.. a irrupção de um acontecimento verdadeiro”. por tentar fazer aparecer a emergência de um fenômeno a partir de um sistema de regularidades..34 objetos dos enunciados da teoria da história refere-se. p. p.. na ordem do discurso. coletivo) que faz surgir. portanto. quer a acontecimentos do presente do autor (a prática de se voltar a testemunhos involuntários. essa irredutível – e muito frequentemente minúscula – emergência” (FOUCAULT. 36) Foucault insurge-se contra o tema da origem e a ele já opõe. 38). o primeiro “destina a análise histórica do discurso a ser busca e repetição de uma origem que escapa a toda determinação histórica. 1972. e justamente. De modo que. quer a um domínio de objetos fictícios (possibilidades não desenvolvidas ainda). 2008. 1972.] é a população de acontecimentos no espaço do discurso em geral (FOUCAULT. 1972. realizada essa primeira tarefa. Trata-se de uma decisão metodológica que “permite. portanto. o grupo de signos: 29 . 93). 32). o trabalho do historiador-arqueólogo consiste em liberar o domínio em que irá trabalhar. O primeiro. A arqueologia se define. Sua Importante distinguir a “formulação” ou “enunciação” do enunciado: uma formulação é “o ato individual (ou. “quer que jamais seja possível assinalar. a rigor.. Neste primeiro momento. 38). não opera ao nível das formulações29 e do texto ou dito (parole).] todo discurso manifesto repousaria secretamente sobre um já-dito”. por exemplo). o outro a destina a ser interpretação ou escuta de um já-dito que seria ao mesmo tempo um não-dito” (FOUCAULT. com os quais é preciso aceitar trabalhar. 39). p. desde aqui.

. 1972. a formulação é um acontecimento que. e de “controle”. econômica. 39 Liberado o campo dos acontecimentos discursivos. Foucault (1972. é sempre demarcável segundo coordenadas espácio-temporais” (FOUCAULT. 1972. p. e não outro em seu lugar?” (FOUCAULT. 30 Na verdade. a partir do sistema de relações discursivas que efetivamente os delimitam e os tornam possíveis: trata-se de desenhar. de três ordens distintas: [1ª] Relações dos enunciados entre si [. política). (FOUCAULT. p. p. de fixar seus limites da forma mais justa. de estabelecer suas correlações com outros enunciados a que pode estar ligado. Por mais importante que seja o sentido ou a produção de sentido. 1972. p. p. Tais operações. contudo. Uma tarefa. de determinar suas condições de existência. a formação na qual e a partir da qual podem emergir. entretanto.. quer-se. 39). p. 2005a. pelo menos de direito. a partir dos discursos tomados para análise e que foram decompostos num primeiro momento. são. E o domínio do enunciado deve ser liberado. 134). justamente porque. “que têm por função conjurar seus poderes e perigos” (FOUCAULT.]. parece ter de se colocar previamente30: a da descrição do enunciado. a arqueologia não conduz sua análise nessa dimensão em que as significações emergem. outros tipos de relações” (FOUCAULT. as formações discursivas que os permitem individuar. 40). 9). p. por . p. esquivar sua pesada e temível materialidade” (FOUCAULT. 9). o discurso é atravessado por um certo número de “princípios de exclusão”. que a arqueologia deve poder fazer aparecer. porém. 41) De modo que o modelo arqueológico determina que as relações entre os enunciados sejam analisadas a fim de fazer aparecer as condições que tornam esses enunciados possíveis. em nossa sociedade ao menos. nesta fase. portanto. que visam “dominar seu acontecimento aleatório. 2005a.. social. 1972. a tarefa da arqueologia é “apreender outras formas de regularidade. nosso propósito formalista requer que estabeleçamos uma ordem entre uma e outra análise.35 questão fundamental é: “como apareceu um determinado enunciado. 41) que não estão ligados a “operadores de sínteses que sejam puramente psicológicos” (FOUCUALT. de mostrar que formas de enunciação excluiu (FOUCAULT. 1972. 146) concebia a tarefa da descrição dos enunciados e a tarefa da descrição das relações entre agrupamentos de enunciados (formações discursivas) como correlativas. 1972. E. Achamos por bem. p. sua tarefa é compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de seu acontecimento. [2ª] relações entre grupos de enunciados assim estabelecidos [. reconstituir os discursos que se haviam esfacelado.. [3º] relações entre enunciados ou grupos de enunciados e acontecimentos de uma ordem inteiramente diferente (técnica.].

o enunciado deve ser definido como uma “[. Por outro lado. . de que são signo. p.36 É preciso buscar. O enunciado não pertence à ordem das coisas.. Mas é aí que começam as dificuldades: pois um conjunto de signos.] um átomo do discurso” (FOUCAULT.. 1972.. primeiro. em particular. o ato de fala)..] um grão que aparece na superfície de um tecido de que é o elemento constituinte. 109) razões que se tornarão claras ao fim deste tópico. Num primeiro momento supõe-se que o enunciado seja uma unidade ao lado destas outras que nos são familiares.] um ponto sem superfície mas que pode ser demarcado em planos de repartição em formas específicas de grupamentos. Mais ainda: [. pois que a especificidade do modelo da arqueologia depende... Ele então apareceria como “[. nem sempre poderá constituir um enunciado. [. pela análise ou pela intuição. “[. em sua incontornável existência material.. fundamentalmente. segundo que regra se sucedem ou se justapõem. senão a sequência de caracteres da máquina de escrever seria um enunciado tanto quanto a transcrição que a reduplica. 1972. 100). p.] é uma função de existência que pertence. e a partir da qual pode-se decidir. o que Foucault entende por “enunciado”.. Mas o enunciado também não pertence à ordem da linguagem: não está ao lado das unidades familiares da frase ou da proposição. certamente. enunciado da ordem de disposição das letras do alfabeto em um teclado segundo a convenção adotada. em seguida. enunciados: enunciado de uma sequência aleatória de signos. 1972.. 108). não são de modo algum enunciados. a propósito de uma série de signos. e que espécie de ato se encontra efetivado por sua formulação (oral ou escrita) (FOUCAULT.] qualquer série de signos. fazer a descrição intrínseca do enunciado preceder a descrição das formações discursivas. um apanhado de caracteres tipográficos ou as teclas de uma máquina de escrever. Nesse caso. para usar os exemplos do autor. Com relação às unidades de que a análise da língua e a análise lógica fazem aparecer. [. se ‘fazem sentido’ ou não. da existência dessa entidade e de sua diferenciação em relação a outras unidades de análise mais ou menos familiares (a frase.. a transcrição desses signos aleatoriamente num papel ou na ordem em que aparecem em um teclado serão. 1972. se elas estão aí presentes ou não” (FOUCAULT. 106). p. de figuras. a proposição. de grafismos ou de traços – qualquer que seja sua organização ou probabilidade – basta para constituir um enunciado” (FOUCAULT..] função que se exerce verticalmente em relação às diversas unidades e que permite dizer. que se transcreve como exemplo de uma sequência aleatória de signos. aos signos..

sem deixar por isso de ser uma . a instância de diferenciação dos indivíduos ou dos objetos. o campo de emergência. De modo que é essa relação que se deve procurar para individuar uma função. a condição. a partir e apesar dele. No caso da função enunciativa. 114): Está antes ligado a um ‘referencial’ que não é constituído de ‘coisas’. da proposição ou do ato de fala. ele próprio. De modo que. Entre o referencial de um enunciado. (FOUCAULT. 111) Importante não confundir esta “outra coisa” com a qual o enunciado mantém relação. e por isso mesmo. tendem a elidir o espaço próprio do enunciado. É o referencial que permite decidir se uma proposição tem ou não um referente. O referencial de uma função enunciativa (que podemos denotar pela letra “r”) forma.37 Dito em outras palavras. primeiramente: Uma série de signos se tornará um enunciado com a condição de que tenha com ‘outra coisa’ (que pode ser-lhe estranhamente semelhante.e não à sua causa nem a seus elementos. este correlato. contorná-lo. a verdade ou falsidade de uma proposição. p. e quase idêntica como no exemplo escolhido) uma relação específica que é concernente a ela mesma. Pois bem. designados ou descritos. Mas é justamente. para as relações que aí se encontraram afirmadas ou negadas. Ao descrever a função enunciativa. sua expressão conterá as condições de existência do enunciado. com o sentido de uma frase ou o referente de uma proposição. ou de ‘seres’.. que a lógica. é a partir da função enunciativa que se pode reconhecer a existência da frase. O enunciado. Sabe-se que uma função é uma relação de dependência entre duas variáveis. o sentido ou não de uma frase. mas de leis de possibilidade. p. a análise da língua e do ato de fala. de regras de existência para os objetos que aí se encontram nomeados. uma função que define “[. Daí a tarefa do historiador-arqueólogo: voltar-se para essa função específica que define uma modalidade de existência histórica de uma sequência de signos.] um conjunto de domínios em que tais objetos podem aparecer e em que tais relações podem ser assinaladas” (FOUCAULT. de ‘fatos’. esclarece Foucault (1972. Foucault forneceu as variáveis para a expressão que a define. as regularidades que permitem individuá-lo e discerni-lo de qualquer outro enunciado. 1972. o referente de uma proposição e o sentido de uma frase.. 1972. p. dos estados de coisas e das relações postas em jogo pelo próprio enunciado. a relação não é nem de semelhança nem de paralelismo. Foucault afirma que o enunciado é uma função. . ao menos para encontrar. de ‘realidades’. a emissão ou não de um ato de fala. 114). O referencial do enunciado forma o lugar.

“é preciso saber a que se refere o enunciado. na medida ainda que [c] um único e mesmo indivíduo pode ocupar alternadamente. que permanecem frase e proposição. 120). para a análise do enunciado. “um enunciado tem sempre margens povoadas de outros enunciados” (FOUCAULT. até certo ponto. 1972. 1972. de posições subjetivas possíveis. definível ele próprio por uma função.38 proposição. varia” (FOUCAULT. por outro. mas o espaço que esse indivíduo deve poder ocupar para ser capaz de emitir um enunciado específico.] é constituído de início [a] pela série das outras formulações no interior das quais o enunciado se inscreve e forma um elemento [.. 1972. espaço determinado ou completamente indiferenciado.. [b] é uma função vazia. 1972. certamente. o sujeito aparecerá como uma função que define um espaço vazio. 119).. “um lugar determinado e vazio que pode ser efetivamente ocupado por indivíduos diferentes. Assim.. deve-se admitir que “é no interior de uma relação enunciativa determinada e bem estabilizada que a relação de uma frase com seu sentido pode ser assinalada” (FOUCAULT. pelo conjunto . mesmo isoladas do texto ou do conjunto teórico de que fazem parte. p. O sujeito de um enunciado é. se uma frase tem ou não sentido. para poder dizer se uma proposição tem ou não um referente” (FOUCAULT. por convenção.. Ao contrário da frase e da proposição. 112). em uma série de enunciados. podendo ser ocupada por indivíduos. 1972.]. 117) Nesse caso. indiferentes. quando chegam a formular o enunciado. Por um lado. De modo que o sujeito de um enunciado é a função que define tal espaço: “[. p. mas que não é forçosamente a mesma de um enunciado a outro. mas esse lugar. 1972. para que haja enunciado.] o sujeito do enunciado é [a] uma função determinada. Não é.. p. é preciso que se possa reconhecer um domínio vazio. O campo “[. sem deixar por isso de ser uma frase. 113). o indivíduo que pronuncia uma formulação. [b] É constituído também pelo conjunto das formulações a que o enunciado se refere (implicitamente ou não) [. qual é seu espaço de correlações. o enunciado não existe senão em função de um campo enunciativo a ele associado. de um livro ou de uma obra. p.]. Em segundo lugar. ainda. 122). determinado ou indiferenciado.. [c] É constituído. um enunciado se define pela “existência de um domínio associado” (FOUCAULT. na concepção do autor. a ser ocupado por indivíduos. o qual denotaremos.. e assumir o papel de diferentes sujeitos” (FOUCULT. diferentes posições. p. Em terceiro lugar. pela letra “a”. em lugar de ser definido de uma vez por todas e de se manter uniforme ao longo de um texto. p.

a materialidade de um enunciado está ligada à função que define u m “campo de utilização”. 47). Secundariamente. de seu afas tamento. [d] É constituído.” (FOUCAULT. p. p. 1972. comentário. do mesmo modo. p. 1972.” (FOUCAULT. seria preciso procurá-la “junto à sua emergência simultânea e sucessiva. a qual se constitui pela “constância do enunciado. [b] as regras de emprego. primariamente. a qual. p. À descrição do enunciado se segue a descrição das relações entre enunciados e. da distância que os separa e. a manutenção de sua identidade através dos acontecimentos singulares das enunciações.. 1972. e não pela permanência e singularidade de um objeto” (FOUCAULT. particularmente. De modo que é preciso agora determinar como uma formação discursiva deve ser estabelecida e analisada..] tentar-se-ia analisar o jogo de seus aparecimentos e de sua dispersão” (FOUCAULT. p. “possibilidades de reinscrição e de transcrição (mas também limiares e limites)” (FOUCAULT. Foucault é aqui perfeitamente didático e nos oferece um quadro bastante nítido das variáveis que. a função que define a materialidade de um enunciado será complexa.]. Por fim. para os domínios analisados por Foucault até então. 1972. p. uma formação discursiva é um sistema de dispersão. seria equivocado buscar a unidade de um discurso no “sistema dos conceitos permanentes e coerentes que aí se encontram postos em jogo?” (FOUCAULT. 48). todo enunciado possui uma existência material. Ora. seus desdobramentos através da identidade das formas” (FOUCAULT. no mesmo sentido. é preciso analisar no âmbito da arqueologia.. a descrição das formações discursivas. [. mas. antes. finalmente. suas virtualidades estratégicas constituem. se decompõe em “[a] esquemas de utilização. 123) Por último. pelo conjunto das formulações de que o enunciado em questão divide o estatuto. repetição.39 das formulações cujo enunciado propicia a possibilidade ulterior [. 1972. p. pelo estilo da enunciação (descrição.. cuja unidade não está na referência a um mesmo objeto. eventualmente. ao invés de tentar estabelecer a unidade discursiva de um grupo de enunciados na identidade e . 1972. p. e para que “uma sequência de elementos linguísticos possa ser considerada e analisada como um enunciado. Novamente. para os enunciados. 1972. mas no “espaço onde diversos objetos se perfilam e continuamente se transformam. para cada discurso. 129). ainda. 47) a forma e o tipo de encadeamento das formulações. comporta a subfunção que define um campo de estabilização. 1972. p. precisa preencher uma quarta condição: deve ter existência material” (FOUCAULT. 45). de sua incompatibilidade. comportando. [c] as constelações em que podem desempenhar um papel. mas “conjunto de regras que tornaram possíveis” (FOUCAULT. a unidade de um discurso não está. por sua vez. na forma específica que seus enunciados assumem. finalmente. 129).). 1972. 131). etc. 125).

p. p. de alienação. entendidas como “condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objetos. 51-52). a tarefa se torna aqui consideravelmente complexa. 2010. uma delimitação do patológico. da prática judiciária. 50). de manutenção. 33 Cf. chamar-se-á “formação discursiva”: No caso em que se pudesse descrever. Se se quer. recorrem ao saber psiquiátrico e a ele entregam o que lhes parece estranho ou exterior. 56). correlações. e que. instâncias de delimitação” (FOUCAULT. 51) Essa descrição deve ser feita pelo estabelecimento das regras de formação. p. se poderia definir uma regularidade (uma ordem. “C) Analisar finalmente as grades de especificação” (FOUCAULT. 183. no âmbito da família32. “A) Seria preciso inicialmente demarcar as superfícies primeiras de emergência” (FOUCAULT. além disso. de anomalia. de demência. o campo de emergência de objetos que constituirão o domínio da psicopatologia do século XIX: antes de ser apropriada pela psiquiatria. [. 2010. conceitos. de neurose ou de psicose. 1972. 55). FOUCAULT.40 persistência dos mesmos temas e teorias. a convulsão surge na instituição religiosa31. os conceitos. os tipos de enunciação. dir-se-á. Quanto aos objetos. portanto. pois as regras de formação de cada domínio (objetos. transformações). a título de exemplo. Consideremos. é preciso se dirigir às instância que operam. 1972. o instinto33. modalidades de enunciação. 112. (FOUCAULT. é preciso interrogar todas “essas diferenças individuais que. p. semelhante sistema de dispersão. 56). desde si mesmas. embora neles presentes: é a Igreja que se desgarra da 31 32 Cf. por convenção. 201. vão receber o estatuto de doença. que. assim unificado. 2010. no caso em que entre os objetos. seria preciso analisar a “dispersão dos pontos de escolha que deixa livres” (FOUCAULT. p. p. para descrever o discurso psicopatológico do século XIX. Em segundo lugar.. modalidades. FOUCAULT. p. temas) são bastante variadas.” (FOUCAULT. 1972. A tarefa do arqueólogo é. entre um certo número de enunciados. analisar o objeto da psicopatologia do século XIX. como no caso da descrição do enunciado. p. 55). 1972.] condições de existência (mas também de coexistência. a sexualidade. de degenerescência. descrever os sistemas de dispersão que dão conta da unidade de um discurso. p. segundo os graus de racionalização. pois. . que se trata de uma formação discursiva. de modificação e de desaparecimento) em uma repartição discursiva dada” (FOUCAULT. posições e funcionamentos. 1972. os códigos conceituais e os tipos de teoria. conceitos. De modo que. 1972. as escolhas temáticas. etc. Cf. 1972.. “B) Seria necessário descrever. escolhas temáticas). FOUCAULT. p. por isso mesmo.

]. p. já que não é uma medicina em sentido próprio. FOUCAULT. 2010. correlacionálas a relações de outras ordens: relações reais ou primárias. Mas isso não encerra a tarefa do arqueólogo no domínio dos objetos do discurso analisado. que ao fim.. mas o corpo inteiramente doente.. p.41 possessão. É essa relação. p. 62) É o modo. 1972. nem também o ponto de emergência deles ou seu modo de caracterização. o domínio inteiro de todas as condutas dos indivíduos”. FOUCAULT. a vida e a história dos indivíduos 35 [. relações reflexivas ou secundárias: assim se abre todo um espaço articulado de descrições possíveis: sistema das relações primárias ou reais. aquelas em que são delimitados e aquelas em que são especificados. 1972. portanto.]. como domínio de sua ingerência possível. que. considerada a especificidade das relações discursivas descritas. 2010. respectivamente. 1972. p. pois uma “formação é assegurada por um conjunto de relações estabelecidas entre instâncias de emergência. mantendo-nos no exemplo do discurso psicopatológico. A este nível.. p. em que podem se delimitar.].. 137. 36 A psicopatologia do anormal só pode se constituir e se ligar à medicina. que torna possível a constituição de um domínio de objetos. O problema é fazer aparecer a especificidade dessas últimas e seu jogo com as duas outras”. se relacionam. p. o corpo [.. Contudo. 60) 34 35 Cf. 1972. 1972. trata-se de descrever. de delimitação e de especificação” (FOUCAULT. mas o relacionamento das superfícies em que podem aparecer. os jogos de correlações neuro-psicológicas 36 [.. o comportamento do indivíduo durante toda sua história que atesta a presença da anomalia. O que está em questão para a psicopatologia não é mais a doença que se infiltra no corpo. 137. É possível ainda. como as instâncias em que os objetos emergem. Estabelecidas essas regras. . 193-194. 56). p. 187-192 e p. sistema das relações secundárias ou reflexivas. em que podem-se analisar e especificar”. e sistema das relações que se pode chamar propriamente discursivas. “a psiquiatria vê finalmente se abrir diante de si. podem se especificar: “a alma [. FOUCAULT.. tampouco o simples estabelecimento deste conjunto de regras não seria suficiente para dar conta da constituição dos objetos em um discurso como o da psicopatologia. através de uma “disciplina articulatória que é a neurologia”. o que tem por consequência que. Finalment e. 56).] (FOUCAULT. de tal forma que: não são os objetos que permanecem constantes. o sobrenatural do anormal” (FOUCAULT.. 2010. o espiritual do corporal. 59). nenhuma dessas instâncias é capaz de formar um objeto para a psicopatologia. nenhuma das regras que se pode encontrar para o discurso que se queira analisar constitui por si mesma o objeto desse discurso. é preciso estabelecer a relação entre elas. as instâncias em que as diversas formas de loucura. como domínio de suas valorizações sintomatológicas. nem o domínio que formam. mas reivindica a “aparição”34. p. portanto “separa o místico do patológico. (FOUCAULT. (FOUCAULT.

como explica o autor no prefácio à edição inglesa de Les mots et les choses. específico. o campo multidimensional... em sua função.42 Que se passe ao domínio das modalidades enunciativas. que caracterizam o modo pelo qual o sujeito-que-sabe se relaciona como domínio de objetos de seus saber. como o da medicina clínica. portanto. um conjunto complexo de funções como os demais domínios.] “C) “As posições do sujeito [. 187). p. O domínio de formação das modalidades enunciativas é. é preciso um certo olhar. (FOUCAULT. que. em sua capacidade de percepção e em suas possibilidades práticas por condições que os dominam. O estatuto médico permite e supõe uma atuação social específica. A modalidade enunciativa é. não se vê nem mesmo que não se vê”. é preciso dar as condições que permitem os únicos tipos de enunciação possíveis. Não basta ter coisas diante de si. 133): “quando não se vê o que não se vê. para ficar no exemplo do autor. em que alguns tipos de enunciação são possíveis e outros impossíveis. mas tudo o que está aquém e além dessa condição jurídica. p. para que esses objetos possam aparecer. não é somente uma qualificação (hoje atestada por um documento.. é a luz sob a qual um objeto aparece e as condições sob as quais pode ser um objeto determinado de um discurso. o qual possui seus privilégios legais). [b] posições que o sujeito pode ocupar na rede de informações.] “B) É preciso também descrever os lugares institucionais” [. em primeiro lugar. Quando apareceu a medicina clínica. Mais do que descrever os tipos de enunciação possíveis em um dado discurso e os efeitos que a escolha de um estilo possam ter sobre um discurso. por exemplo. o estatuto . ser designados. e mesmo os esmagam (FOUCAULT. A modalidade enunciativa não é simplesmente um estilo de enunciação. 2008.] [as quais são definidas por:] [a] situação que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos. O estatuto médico. tratava-se de saber “se os sujeitos responsáveis pelo discurso científico não são determinados em sua posição. mas o lugar. Assim. o domínio das modalidades será determinado pela qualificação do sujeito-que-fala. como bem disse Veyne (1984. em todo caso. pp.. analisados. dependem dessa relação específica. o diploma. 1972. que uma certa relação com os objetos possa ser estabelecida.. em primeiro lugar. a visibilidade própria que um domínio de objetos possui numa relação discursiva. quando esta evocou os temas da epidemia e das constituições. mas também de uma intervenção.. Ou. 66-68) De modo que. sofrer intervenções. e cujas regras de formação são as seguintes: A) Primeira questão: quem fala? [estatuto do sujeito]” [.

Ou seja. “poder médico sobre o não patológico” (FOUCAULT. 1993.]. [. p. etc. 41 FOUCAULT. onde se formam suas modalidades enunciativas. tal como se encontra na psiquiatria clássica (de Esquirol e Pinel). 37 .. que o campo de visibilidade da psicopatologia – e.. 39 Cf. Cf. guiado pelo artigo 64 do Código Penal francês e a psiquiatria da alienação entram em “curto-circuito”. do qual Esquirol foi perito. 1977.] com outros indivíduos ou outros grupos de indivíduos que têm eles próprios seus estatutos [. móvel. em todos os momentos do tempo. FOUCAULT. p..” (FOUCAULT. Sobre o momento em que o estatuto jurídico. 2010. o trabalho. conforme se forme o discurso médico. p. A partir de 1850. 38 “E como se não bastasse a implantação dos médicos. pede-se que a consciência de cada indivíduo esteja medicalmente alerta. o laboratório [.43 médico pôde incorporar toda uma função de vigilância37 e de pedagogia38. a prática privada41 [.]. sistemas. então. finalmente. Seja. o que o indivíduo. por exemplo..]. a família. p. Comporta também um certo número de traços que definem seu funcionamento em relação ao conjunto da sociedade (FOUCAULT. 1977. requisitava que o médico fosse chamado ao tribunal somente para dizer se o acusado estava ou não delirando no momento em que cometeu o crime39. 27. 123). pronunciada no Instituto de Medicinal Social do Rio de Janeiro em 1978. portanto. p. 105ss. normas pedagógicas. 27. Para o discurso médico.. FOUCAULT. é “o hospital40 [. FOUCAULT. 40 “O domínio hospitalar é aquele em que o fato patológico aparece em sua singularidade de acontecimento e na série que o cerca. 2010.]” (FOUCAULT. pronunciada na mesma situação que a anterior. 66). Utilizemos um exemplo simples: o estatuto dos alienistas. instituições.. E cada prático deverá acrescentar à sua atividade de vigilante uma atividade de ensino. diferenciada”. pois a melhor maneira de evitar que a doença se propague ainda é difundir a medicina. ”.. investido como sujeito de um discurso como o da medicina. 271). 67).. Cf.]. 1972. é formado também por todos os espaços onde o sujeito (a posição subjetiva) do discurso pode retirar seus instrumentos e receber sua legitimidade. 1972. Mas o campo de visibilidade de um discurso. da possibilidade de intervenção da psiquiatria – praticamente cobrirá todo o corpo social: é o poder psiquiátrico tal como o vemos atuar sobre a legislação. 1977. 34. Em suma. segundo Foucault. será preciso que cada cidadão esteja informado do que é necessário e possível saber em medicina.. 65). p.. p.. FOUCAULT. tal estatuto supõe em nossa sociedade: critérios de competência e de saber.. 2010. a religião.]. 1993. 107-120. Essa variável do discurso médico será ainda analisada por Foucault na conferência Incorporação do Hospital à tecnologia moderna . é capaz e obrigado a fazer para sustentar-se como tal? São os “Começa-se a conceber uma presença generalizada dos médicos.85-105: trata-se da conferência História da medicalização. o estatuto médico da psiquiatria se modificará de tal modo. o que se pode chamar ‘biblioteca’ ou o campo documentário [. uma vigilância constante. Variável. cujos olhares cruzados formam uma rede e exercem em todos os lugares do espaço.. a terceira dimensão do domínio das modalidades enunciativas: “as posições que lhe é possível ocupar em relação aos diversos domínios ou grupos de objetos” (FOUCAULT. FOUCAULT. 2010.. a justiça. p. um sistema de diferenciação e de relações [. o caso Henriett Cornier. p.

.99ss. [c] domínio de memória.44 modos de percepção autorizados e requeridos por um discurso específico 42 que se devem descrever e. formas de sucessão.. [b] campo de concomitância [. [b] tipos de dependência [. (FOUCAULT. mas que são recompostos em um novo conjunto sistemático. mas que passa rapidamente a exercer funções de controle sobre o saber médico e o sobre o corpo social: “órgão de controle das epidemias. [d] meios utilizados para aumentar a aproximação dos enunciados [. [. uma instância de registro e de julgamento de toda atividade médica ”.. p.. uma função complexa.].. 1972.. Do mesmo modo que no caso do domínio dos objetos trata-se de descrever o “relacionamento entre elementos diferentes” (FOUCAULT.. p. o domínio em que se formam os conceitos de um discurso.. p.. [f] a maneira pela qual se transfere um tipo de enunciado de um campo de aplicação a outro [.] C) Pode-se. 1977. Considere-se. Cf...].] [a] campo de presença[. que se define seu campo de estabilização e de utilização. torna -se. agora. 71-74) 42 43 Para o discurso da medicina clínica. “o conhecimento mínimo do qual ele é objeto deve naturalmente explicitar-se numa proposição”.. o conceito é o elemento que carrega a materialidade do enunciado. pouco a pouco. p.] [a] técnicas de reescritura [. “as posições que o sujeito pode ocupar numa rede das informações” (FOUCAULT..” [. (FOUCAULT. [h] os métodos de redistribuição dos enunciados já ligados uns aos outros. [g] os métodos de sistematização de proposições que já existem [. FOUCAULT. ela própria.. [c] esquemas retóricos..].. 67)43.. [a] as diversas ordens das séries enunciativas [. p. a integração do discurso médico a uma instituição como a Sociedade Real de Medicina. um local de centralização do saber. cujo objetivo primeiro era o controle de epidemias. [c] modos de tradução. FOUCAULT.. pp.]. 23). Por exemplo. Ou seja.]. O domínio de formação dos conceitos de um discurso é regrado pelas seguintes variáveis: A) Essa organização comporta inicialmente. .]... Para a arqueologia. é a partir dele que se dão as possibilidade de reinscrição e transcrição dos enunciados.. “elemento de construção.]. 29. [. diz o filósofo. definir os procedimentos de intervenção. p. Daí que a terceira variável é.. E. 68). do lugar institucional de onde ele pronuncia seu discurso e das posições que assume.. 1972... e de um corpo médico privilegiado sobre um conjunto de práticos”. [e] maneira pela qual se delimita novamente – por extensão ou restrição – o domínio de validade dos enunciados [. [b] métodos de transição [. enfim. não basta estabelecer as regras que dão conta do estatuto do sujeito.]. donde “se estabelece um duplo controle: das in stâncias políticas sobre o exercício da medicina. 1977.]. 30). entre elas.] B) A configuração do campo enunciativo comporta também formas de coexistência [. só tem sentido pleno numa construção”. adicionalmente. epistemologicamente...]. diz Bachelard (2004.. 1972. é preciso estabelecer a relação entre essas diferentes variáveis. 1977. “O conceito”.

.] 3. 1972. pp. 84-85). p. pois o sistema de formação é definido “por uma certa maneira constante de relacionar possibilidades de sistematização interiores a um discurso. Essa instância se caracteriza. diz o próprio autor. estabelecidas as regras de formação. Como ocorreu nos casos anteriores. les autres. Até o momento em que Foucault escreveu A Arqueologia. a análise arqueológica precisa. de início. Consideremos. oposição ou complementariedade [. 1972. p. [..] instâncias específicas de decisão [.] 2.]. os outros. “sua demarcação permaneceu sumária e a análise de sua formação não foi demorada” (FOUCAULT. pois. a oposição estratégica entre a Fisiocracia e o Utilitarismo: Os Fisiocratas e seus adversários percorrem de fato o mesmo segmento teórico. [b] pontos de equivalência. mas em um sentido oposto: uns se perguntam em que condições – e a que custo – um bem pode tornar-se um valor em um sistema de trocas. p. 74). 85).. de interesses e de desejos” (FOUCAULT. Determinar os pontos de difração possíveis do discurso [. p. em que condições um juízo de apreciação pode se transformar em preço no mesmo sistema de trocas” (FOUCAULT. o domínio de formação das estratégias permaneceu bastante subdesenvolvido em relação aos demais domínios. 1966. [c] posições possíveis do desejo em relação ao discurso. seja o domínio da formação das escolhas teóricas ou estratégias. Finalmente.. não discursivo. é preciso passar à relação entre elas já que “o que pertence propriamente a uma formação discursiva e o que permite delimitar o grupo de conceitos.. [. [c] relações de delimitação recíproca.. 1972. p.]. primeiramente.... Tal análise ocorre em As palavras e as coisas. à quelle condition um julgement d’appréciation peut se transformer em prix dans ce même système d’échanges” (FOUCAULT.45 Novamente. mas..] [a] pontos de incompatibilidade. o mesmo princípio correlativo se aplica.]. de apropriação. 209)44 Livre tradução de: “Les Physiocrates et leurs adverrsaires parcourent en fait le meme segment théorique.. pela [a] função que deve exercer o discurso estudado em um campo de práticas não discursivas. 1972. 1. [c] ponto de junção de uma sistematização. [.. que lhe são específicos.. p.] [b] regime e processos de apropriação do discurso [.] [a] economia da constelação discursiva [. 209) 44 . de práticas. é a maneira pela qual esses diferentes elementos são relacionados uns aos outros” (FOUCAULT. A determinação das escolhas teóricas realmente efetuadas depende também de uma outra instância. [. apesar de díspares.. [b] relação de analogia.. outros discursos que lhe são exteriores e todo um campo.. estabelecidas tais regularidades.. 82-84) De modo que “uma formação discursiva será individualizada se se pode definir o sistema de formação das diferentes estratégias que nela se desenrolam” (FOUCAULT. 82). mais dans un sens oppose: les uns se demandent à quelle condition – et à quel coût – um bien peut devenir une valeur dans uns système d’échanges. 1972. por exemplo. Com respeito a ele.. é preciso correlacioná-las. (FOUCAULT. 1966.

46 Assim. 209)46. talvez. justamente por isso – as pesquisas subsequentes ao tratado de 1969 se concentrarão no domínio das estratégias do discurso. Menger. p. et parfois complementaires” (FOUCAULT. No tratado do método de 1969. e a história das raças do século XVIII como um operador tático. Para uma visão ampla sobre o problema dos bens e do valor desde o pensamento grego. o operador da difração que separa uns de outros. Por outro lado. integrar um terceiro estágio: o do estabelecimento dos fatos comparativos. Cf. às vezes complementares” (FOUCAULT. 1983. há também pontos de equivalência: “as análises dos Fisiocratas e aquelas dos utilitaristas são frequentemente muito próximas e. para não nos estendermos exageradamente no exemplo. 1966. Nesse sentido. uma De modo um pouco simplista. uma formação discursiva tem o aspecto de uma rede de relações que o trabalho de descrição arqueológica é capaz de estabelecer para os discursos que analisa. Foucault (1972. tal como Foucault a apresentou no curso de 1976: o que interessa então é. contra a confusão que se seguiu à publicação daquele livro. conclui-se que a descrição do domínio das estratégias em As palavras e as coisas resume-se à descrição da primeira de suas funções constituintes. uma “teoria do valor” pretende determinar por que certas coisas são apreciáveis como bens e outras não. 193) distingue três domínios de fatos comparativos que a arqueologia tem de analisar: a) um discurso em relação a seus limites cronológicos. o domínio justamente em que o saber intercepta a figura do poder. como o segundo desses domínios (b) já se encontra previsto no modelo de descrição das formações discursivas. a teoria do valor fisiocrata45 ou a teoria do valor utilitarista pertencem a uma mesma formação discursiva. resta integrar a relação colateral entre vários discursos e a relação de um discurso com respeito a seus limites cronológicos para se complementar a descrição do modelo de pesquisa arqueológico. Foucault (1972. na medida em que é um mesmo sistema regular de discursividade em torno do problema da troca. Por outro lado – e. Logo. Resta. Comecemos pela tarefa tão visível e tão criticada em Les mots et les choses: o estabelecimento de relações entre diferentes discursos. Primeiramente. Considere-se a arqueologia do discurso histórico. 209) 45 . as instâncias de especificação de decisão e as relações exteriores desses discursos não são analisadas. 46 Livre tradução de: “les analyses des Physiocrates et celles des utilitaristes sont souvent si proches. p. Ora. c) um discurso em relação a outros discursos. pp. b) um discurso em relação aos domínios nãodiscursivos. para completar o modelo arqueológico. 194-195) esclarece que a categoria da episteme não denota uma estrutura. justamente. 1966. e aquilo que daí se segue. tomar a história como do ponto de vista estratégico. p. por que alguns bens são preferíveis a outros. De modo que.

o qual consiste de regras de correlação entre os discursos em questão. p.47 racionalidade unitária. Ela toma. 198). 1972. mesmo que sejam indicados sob “uma única e mesma noção (eventualmente designada por uma única e mesma palavra)” (FOUCAULT. Mas a episteme. é um vetor que precisa ser estabelecido pela análise. a partir desse conjunto sempre limitado. por tarefa descrever um “conjunto interdiscursivo” (FOUCAULT. que se imporia sobre as formulações dos sujeitos. uma forma geral de cientificidade. ou seja. tão próprio à historiografia contemporânea. em relação a um conjunto limitado de discursos. dispõem-se ou não conforme o mesmo modelo nos diferentes tipos de discurso” (FOUCAULT. ou seja. A terceira função permite ao arqueólogo “indicar os afastamentos arqueológicos”. relações de subordinação ou de complementariedade” (FOUCAULT. Assim. a análise . Finalmente. a priori. só pode ser obtida se a considerarmos uma função complexa. p. não é um dado a partir do qual todo o sistema anterior de relações interdiscursivas pode ser estabelecido. ao problema. De modo que a análise arqueológica parte de um conjunto específico de discursos. numa posição sempre ulterior. o produto de uma análise a posteriori da relação entre esses discursos e não uma entidade transcendental. p. primeiro. 197). 1972. Primeiramente. a análise arqueológica permite constituir a episteme como uma “configuração interdiscursiva”. Uma segunda permite “definir o modelo arqueológico de cada formação”. uma primeira função descreve o conjunto de “isomorfismos arqueológicos”. a descrição do discurso em relação a seus limites cronológicos e a delimitação de uma época: em outras palavras. da periodização. 1972. 197). 194). p. que está. para o nível dos discursos.. ou construída. ou seja. uma última função permite “estabelecer correlações arqueológicas”. p. incluindo entre esses discursos outros “tipos de discurso”. mesmo que não tenham o mesmo nível de positivação. Daí. o espírito. conjunto de “relações internas e externas” que caracterizam as formações discursivas que se analisa. levando em consideração que as regras de formação dos enunciados em uma formação discursiva “não se modificam a cada oportunidade”. 198). Logo. ao contrário.]. estabelecer “de uma positividade a outra [. de modo que essas regras análogas “se encadeiam ou não na mesma ordem. com seus sistemas de formação próprios. 1972. a visão de mundo ou a mentalidade de uma época. na descrição da episteme.. A periodização. de princípio. 1972. a relação em que “elementos discursivos inteiramente diferentes podem ser formados a partir de regras análogas” (FOUCAULT. Daí um tema conexo. A episteme é um fato discursivo construído a partir de um conjunto limitado de discurso. em relação ao conjunto de relações anteriores. a episteme é implicada.

p. Descendo aos níveis elementares. p. a arqueologia se dá por tarefa a demarcação dos “vetores temporais de sucessão” (FOUCAULT. segundo o autor (FOUCAULT. Ao nível dos próprios acontecimentos discursivos (enunciados) ela tenta definir a “embreagem” dos mesmos. seus conceitos e suas escolhas teóricas. “se fala dela. é uma constante. p. se uma formação discursiva se definia pela forma regular em que forma seus objetos. 1972. uma época só se define a posteriori e em relação ao conjunto específico e limitado de discursos que foram analisados. 209). pode-se. evidentemente. pelo que definimos uma regularidade discursiva: Finalmente. uma vez que “há relações. a arqueologia. é sempre a propósito de práticas discursivas determinadas e como resultado de suas análises” (FOUCAULT. em que se dão as regras de formação de um discurso. p. 185-186). encarar o problema de constituir uma periodização. 1972. O problema da mudança. para dar-lhe o estatuto analisável da transformação” (FOUCAULT. 206). a análise arqueológica busca descrever “o sistema das transformações em que consiste a ‘mudança’. 210). ramificações. mas cujo propósi to é “fazer aparecer relações que caracterizam a temporalidade das formações discursivas e articulam-na em séries cujo entrecruzamento não impede a análise” (FOUCAULT. derivações que são temporalmente neutras. tenta elaborar esta noção vazia e abstrata. suas modalidades enunciativas. enquanto outras são temporalmente neutras. que se operavam no interior do discurso científico diferentes tipos de mudança – mudanças que não intervinham no mesmo nível. 1972. nem obedeciam às mesmas leis” (FOUCAULT. 1972. há outras que implicam uma direção temporal determinada”. que se pode estabelecer para um período arbitrário. “que é específica para cada formação discursiva” (FOUCAULT. e. Subindo agora ao nível mais geral em que as diversas formações discursivas são descritas a partir de suas relações mútuas. 205). 1972. p. p. 1972.48 arqueológica deve operar uma “suspensão das sequências temporais”. p. 2008. então. Em termos formais. se converte no problema de se saber que tipo de transformação ela dá lugar. pode-se. 1972. Tomando-se as relações interdiscursivas. 214). entendendo a análise tentar delimitar um quadro da época é definir . e internamente em cada domínio. de modo que a relação entre esses domínios. “plano em que se efetua a substituição de uma formação discursiva por outra (ou do aparecimento e do desaparecimento puro e simples de uma positividade)” (FOUCAULT. Pode-se a partir disso. 205-206). em que nível e qual a sua extensão: “Pareceu -me de saída. não progrediam no mesmo ritmo. 204). quando eles existem. reconhecer que algumas dessas regras implicam num vetor de sucessão.

vermos desenhar-se mais do que uma descrição do desenvolvimento da história dos . já que a função que define uma época não é mais que o reverso da função da zona interdiscursiva descrita. Logo. à medida em que os historiadores retomavam o projeto de psicologia social do início do século a partir de métodos quantitativos e que Foucault avançava seu próprio projeto interceptando o domínio das instituições sociais.49 a época pela constância de sua racionalidade. a partir de certo número de descrições. As fronteiras.3 Um programa historiográfico: a história geral É verdade que negamos categoricamente que as críticas a uma certa concepção de história presentes no tratado sobre A arqueologia do saber fossem dirigidas à comunidade historiográfica. justamente. Michele Perrot e Michel de Certeau). da psiquiatria ou da economia política. por exemplo. um enfrentamento que resultaria na rejeição do projeto foucaultiano por grande parte da comunidade historiográfica e críticas violentas do filósofo às convenções acadêmicas dessa comunidade. mas como o número de formações discursivas é indeterminado. Pode-se fazer um esforço para estender o quanto se queira essa análise. em Foucault. observaremos dois fenômenos diametralmente opostos: de um lado. E. mas sempre com respeito aos discursos efetivamente analisados. de certo parentesco entre os regimes de verdade cronologicamente próximos. O desenvolvimento metodológico da arqueologia está ligado exclusivamente aos problema suscitados no interior da história intelectual praticada fora dessa comunidade. entre a modernidade e a idade clássica não são lineares: a periodização não é a mesma. Arlette Farge. caso se trate da história ou da biologia. contudo. de outro. também é indeterminado o limite dessa descrição. não se refere a uma estrutura ou um espírito que se imporia sobre todo e qualquer discurso de um período. como já observamos. um diálogo entre o filósofo e os historiadores tornou-se inevitável. 1. Se se pode falar de uma racionalidade clássica ou moderna é no estrito limite das formações discursivas que foram efetivamente analisadas. o sentido da expressão “época”. Foucault poderá situar certas clivagens na vontade de verdade característica das sociedades ocidentais. se via ligado. com representantes próximos à Escola dos Annales. O curioso é que este enfrentamento se dá. à qual Foucault. então. uma colaboração sob um projeto comum entre Foucault e alguns historiadores (Paul Veyne. Por volta da metade da década de 1970. Entretanto. Se agora retomamos a concepção da história presente n’A arqueologia do saber.

os pressupostos de ordem metafísica que sub-repticiamente se introduzem na análise história a partir do momento em que nos situamos em tal empreendimento. De modo que: O projeto de uma história global é o que procura reconstituir a forma de conjunto de uma civilização. supor que ordens de fenômenos tão díspares (a econômica. De modo que. mas em derivar deste ou daquela campo legítimo de análise um princípio que sirva. para que o projeto de história global seja viável. a partir da oposição entre história global e história geral. devese poder estabelecer um sistema de relações homogêneas: rede de causalidade que permita derivar de cada um deles relações de analogia que mostrem como eles se simbolizam uns aos outros. um programa que permitiria a integração de um domínio à outro ou. a artística. qualquer vantagem na substituição de um princípio global de explicação econômica. (FOUCAULT. p. – o que se chama metaforicamente o “rosto” de uma época. o princípio – material ou espiritual – de uma sociedade. é preciso antes de toda análise empírica. Assim. 17) . 17) Foucault não veria. a lei que explica sua coesão. para Foucault (1972). Mas a crítica de Foucault não se dirige à pretensão desse projeto. a saber. a científica.50 historiadores em paralelo com a história intelectual. (FOUCAULT. para entendermos o projeto de uma história geral é preciso antes compreender o que Foucault chama “história global”. em fazer história econômica ou psicologia histórica. por um princípio global de explicação psicológica. para uma “compreensão” geral de um período. p. sua emergência e persistência como projeto historiográfico prevalente. etc) refletem umas às outras pelo simples fato de coexistirem. 1972. A história global. supõe-se que entre todos os acontecimentos de uma área espaço-temporal bem definida. a significação comum a todos os fenômenos de um período. assim. entre todos os fenômenos de que se encontrou o rastro. a social. O problema não está. mas às presunções que ele comporta. à tentativa de conhecer o todo de um período. que a um realismo compreensivo no qual uma apreensão conjunta e parcialmente intuitiva de um período seria a chave para a explicação de todo e qualquer fenômeno desse período. de fato. em outras palavras. a priori. está menos ligada a um sonho epistemológico de compreensão total que não cessa de ser criticado e combatido por historiadores das mais diversas vertentes. 1972. a elisão da fronteira entre história cultural e epistemologia histórica. ou como exprimem todos um único e mesmo núcleo central.

Tanto é verdade que Burke (1997. De modo que não parece correto direcionar à crítica da história global de Foucault a Braudel e a história estrutural que ele praticou: falta-lhe aquela suposição de homogeneidade entre os fenômenos. caso contrário de um campo uniforme e homogêneo. (FOUCAULT. é preciso que a totalidade dos fenômenos de um período receba sua significação de um princípio comum. mesmo no capítulo dedicado a ‘Civilizações’” (BURKE. 51). porém. observando. por mais que Braudel desejasse “ver as coisas em sua inteireza. tenha sido interpretado em termos de totalização e de um projeto de história global. valores. Mas para que o projeto de história global seja coerente. teríamos que passar a seguir para campos heterogêneos: alguns fenômenos se conservariam junto ao seu princípio de inteligibilidade enquanto outros desapareceriam e outros ainda apareceriam requisitando um princípio absolutamente diverso. determinar que grau de afastamento o projeto historiográfico de Foucault estabelece em relação à historiografia que ele recorrentemente cita como revolucionária.. 17) Finalmente. transformação. 1972. e submete-os todos aos mesmo tipo de transformação (FOUCAULT. 1997. pois. p. é preciso que sua evolução. a partir dos dois postulados anteriores é possível supor “que a própria história pode ser articulada em grandes unidades – ou fases – que detêm em si mesmas seu princípio de coesão”.. aparecimento ou desparecimento seja também correlativo. a inércia das mentalidades. as estabilidades sociais. É preciso. antes de avançarmos na caracterização do projeto de história geral. supõe-se. da suposição de homogeneidade entre fenômenos decorre esta outra: .51 De onde decorre um segundo pressuposto: se os fenômenos em um campo histórico são homogêneos entre si. integrar o . torna ainda mais importante essa distinção. o que quer dizer que podemos ter princípios de inteligibilidade diversos sucessivos mas jamais simultâneos. p. com suas categorias de época e episteme. necessitamos agora comparar essa crítica à história global aos grandes projetos desenvolvidos pela Escola dos annales até a década de 1970: a história estrutural de Fernand Braudel e a história serial de Pierre Chaunu. Parece inegável que o projeto historiográfico de Braudel esteja ligado a uma tentativa de compreensão total. Assim. por outro lado. que uma única e mesma forma de historicidade prevaleça sobre as estruturas econômicas. os hábitos técnicos. p. 1972. 130) assinala essa pretensão do Mediterrâneo. os comportamentos políticos. ou mentalidades coletivas. Braudel muito pouco tinha a dizer sobre atitudes. Mas. pois. 17) O fato de que o livro As palavras e as coisas. que “apesar de sua aspiração de atingir o que chamava de ‘história total’.

ou. produzir uma história dos “sistemas de civilização”. Uma descrição global cinge todos os fenômenos em torno de um centro único – princípio. De modo que a crítica de Foucault à história global tinha como alvo a história marxista e seu reducionismo econômico. p. Basicamente. p. como se depreende da seguinte passagem da introdução d’A arqueologia do saber: Contra o descentramento operado por Marx – pela análise histórica das relações de produção. a Foucault não é tanto que se busque estabelecer a posteriori um “sistema de civilização” ou que se tome a resolução de só trabalhar com dados passíveis de serem homogeneizados para a análise estatística. no final do século XIX. forma de conjunto. o político e o cultural na história ‘total’” não se infere daí que ele postulasse não haver diferenças entre esses domínios. o que importa é que o domínio dos objetos da história não seja previamente estruturado por um princípio de unidade que remeteria a função da consciência. de umas para as outras. à organização de uma visão de mundo. 17) segundo a qual a história é um conhecimento acerca de um domínio de fenômenos limitado apenas pelo fato de . 1972. espírito. importa chegar naquela concepção nominalista que Foucault compartilhava com Paul Veyne (1995. o espaço de uma dispersão (FOUCAULT. de que efeito podem ser os deslocamentos. em que conjuntos distintos certos elementos podem figurar simultaneamente. p. o jogo das correlações e das dominâncias. em outros termos. portanto. 1972. as diversas permanências. em que todas as diferenças de uma sociedade poderiam ser conduzidas a uma forma única. não somente que séries mas que “séries de séries”. ao contrário. visão de mundo. a um tipo coerente de civilização. Dito de outro modo.52 econômico. O que importa. Pelo mesmo motivo não poderíamos direcionar essa crítica a pretensão de Chaunu de. qual é. em resumo. ao estabelecimento de um sistema de valores. à procura de uma história global. que sistema vertical elas são suscetíveis de formar. as temporalidades diferentes. aplicando as técnicas de análise estatística ao domínio cultural. a pretensão de Chaunu (1978) ainda é a mesma de Braudel e só diverge dela pela aposta nos meios quantitativos para realizar a articulação entre acontecimentos. o social. conjuntura e estrutura e viabilizar a integração entre domínios de fenômenos com periodizações diferentes. 21) É contra essa história que Foucault vê levantar-se a história serial. uma história geral desdobraria. cujo caráter relacional permitiria livrar a história dos princípios globais de explicação: O problema que se apresenta então – e que define a tarefa de uma história geral – é de determinar que forma de relação pode ser legitimamente descrita entre essas diferentes séries. das determinações econômicas e da luta de classes – deu lugar. que “quadros” é possível constituir. (FOUCAULT. 18). significação.

traduzir ou compreender a partir do arquivo.53 terem acontecidos e que o trabalho do historiador não consista em transpor. mas seja justamente uma elaboração metódica do arquivo com a finalidade de resolver certos problemas. .

E. mais especificamente. Temos. Haveríamos de laborar em erro. Genealogia. 2009b). Mas. nesse domínio tão vasto. se transformam e desaparecem. portanto. Mas. Em suma. 2008). modificação em sua tipologia. não podemos ver senão uma ampliação do domínio de objetos das pesquisas: das práticas discursivas e. Essas discrepâncias são de três ordens: 1) uma renovada ênfase sobre relações não discursivas. Em . o qual está exposto teoricamente no ensaio Nietzsche. 2) quanto ao conjunto documental utilizado pelo autor. funcionam. no prefácio de História da Sexualidade I (FOUCAULT. teremos que.54 CAPÍTULO 2 FOUCAULT. no primeiro capítulo de Vigiar e Punir (FOUCAULT. nas relações de poder. analisando essas pesquisas. contudo. Supúnhamos ainda agora que em termos de método não se pode reconhecer diferenças profundas entre a arqueologia e a genealogia. políticas. se negássemos as discrepâncias entre as obras que precedem e que se seguem a entrada do autor no College de France. médicas. a História (FOUCAULT. 3) em termos metodológicos. principalmente. a Genealogia. em A ordem do discurso (FOUCAULT. portanto. 1988). as relações de poder e os mecanismos de poder que se formam. das práticas: continua-se a analisar práticas discursivas sérias (jurisdicionais. por exemplo). como foco de análise. A leitura-padrão vê aqui uma modificação do objeto de pesquisa de Foucault. determinar se elas constituem uma ruptura na trajetória metodológica do autor. mas passa-se também a analisar praticas discursivas não-sérias (a biblioteca azul em Vigiar e Punir. o domínio se amplia para as práticas em geral. do domínio de objetos da arqueologia/genealogia. deste ao da convulsão para os alienistas e da convulsão para o instinto da psiquiatria) e.1 A genealogia como método de análise histórica Passemos ao procedimento genealógico. como analítica das práticas não-discursivas. A GENEALOGIA E A HISTÓRIA 2. da caça às bruxas ao problema eclesiástico da possessão. consultando os livros a partir de Vigiar e Punir e a transcrição dos cursos no College de France. 2005a). uma especial atenção para o poder. eclesiásticas). das práticas discursivas ao domínio não-discursivo (dos suplícios ao aprisionamento. em primeiro lugar uma reorganização. das práticas discursivas no elemento do saber. fazer uma analítica das práticas em geral supõe que se possa a partir de através de práticas discursivas (documentos) passar-se ao domínio do não-discursivo. passagem do problema da emergência para o problema da procedência. stritu sensu.

É claro que. de uma visibilidade – ele próprio é uma visibilidade. formações discursivas). que é interrogada sobre fenômenos que lhe escapam. uma memória. justamente. ou melhor. a biblioteca azul. na série em que é alocada pelo pesquisador. escaparam a consciência de seus contemporâneos. trata-se de analisar formações discursivas. mudança na base material da pesquisa: em As Palavras e as Coisas e. os dados e os fatos dessa história eram constituídos inteiramente no domínio discursivo. ele é um dado discursivo. é ainda. ainda. e esta é a inovação de Foucault. relatos apócrifos de todos os tipos. cuja positividade era evidente e bem delineável: elas eram. trabalhada como monumento. Aqui a crítica do documento é inversa: trata-se de mostrar que todo documento é um “fato que deixou um vestígio material”. foi em vistas deles. 2) para a história do discurso. então. um campo de visibilidade que constitui por si mesmo um dado de referência e um problema. memórias de casos). um conjunto de dados que permitem a individuação dos acontecimentos discursivos (enunciados. 3) ele é ainda um fato para a história das práticas não discursivas. o documento é.55 segundo lugar. Para a história intelectual tradicional. porque. contudo. para termo arcaicos da teoria da história. O autor desenvolvia. documentos que não eram. em parte. elidir o momento do referente. o documento é aí uma “fissura no silêncio”. já que essa referência só se torna possível a partir do “encontro com o poder”. como o objeto formal (aquilo a partir de que se fala. o documento) da pesquisa. que Foucault desenvolveu o modelo de análise das formações discursivas que descrevemos anteriormente. tanto o objeto material (aquilo de que se fala). que o constituiu. porém. é uma memória. um trabalho bastante específico na ordem da história intelectual. nesses caso. exigiram que ele lidasse com um novo tipo de documento. A crítica empreendida então contra essa história visava dissociar esses dois elementos. mas que só pôde fazer através e a partir de certo poder. de uma relação de poder. A especificidade desses discursos não pode ser negada: eram discursos com preensões de racionalidade científica e. um dado e o próprio fato. ao mesmo tempo. Os problemas que Foucault se coloca a partir da década de 1970. portanto. o fato de que tal e tal coisa possa ter sido dita em determinado lugar e momento – fato discursivo. porque é sintoma de uma prática. Mais ainda. chamada a responder pelo que testemunha involuntariamente. em parte ao menos. em História da Loucura e em Nascimento da Clínica. já que é em sua própria espessura que a trama das ideias se desenvolve. Assim. para essa analítica geral. oriundos de formações discursivas bem positivadas (são as Lettres de chachet. um conjunto de dados que permitem individuar uma prática regular e rara . o documento volta a exercer sua função de memória. a saber. o documento exerce uma série de funções: 1) ele um fato para a história do discurso. Era possível. então. 4) para esta história. pois os problemas.

contudo. jamais como uma “história” já constituída que devesse ser julgada verdadeira ou falsa. nem falso. à exceção da história eclesiástica. essa história jamais se proporá questões do tipo: Grandier era de fato culpado? As freiras de Loudun foram de fato possuídas pelo demônio? – Qualquer que seja o grau de seriedade e importância que esse tipo de questão possa ter ainda. elas simplesmente não podem ser colocadas pela história geral. a vastíssima documentação do caso. Quatro funções do documento. que correspondem aos quatro vetores de análise que. por sua vez. a duplicidade com que os documentos relativos às possessões demoníacas (principalmente o dossiê preparado e apresentado por De Certeau (2005) sobre a possessão de Loudun). Elas parecem reintroduzir. significantes ou insignificantes. constituirão o método de Foucault e seu projeto de história geral. algo que se nos torna visível através dos documentos. que envolveu certos personagens e acontecimentos – e. Considere-se. É muito evidente. . eles podem ser tomados como dados para a descrição do fenômeno de possessão e para a sua integração numa genealogia que lhe indique a procedência (dos mecanismos de direção da consciência. Os relatos sobre Loudun não são verdadeiros nem falsos. como um conjunto de sintomas que permite descrever uma prática. não podem ser colocadas seriamente por nenhuma outra forma de história. por exemplo. mas marcas materiais complexas de um fenômeno. de modo que não necessitamos retomar esse ponto. em tudo que lhe é mais singular. de modo que. ora a apropriação desse problema pela psiquiatria. Assim. em seus elementos. permanecem problemáticas. são tomados por Foucault em seu curso de 1975: por um lado. a partir daí. indica a visibilidade que o mesmo adquiriu à sua época e sempre renovadamente. o documento indica que o fenômeno de possessão se manifestou naquele lugar e naquela época. ainda que fosse possível. portanto. mas exatamente o que a palavra diz uma “aparição”. E. o fenômeno. segundo a tese de Foucault) e descendência (o fenômeno da convulsão para a medicina). que estão em questão o fenômeno de possessão em geral (do qual cada caso é uma manifestação singular). a história do referente tal como fora rejeitada pela arqueologia. e esse é o ponto importante. o fenômeno da possessão demoníaca. contudo. Em segundo lugar. Parece-nos que as funções (1) e (2) foram suficientemente analisadas quando do estudo da arqueologia. ou interpretada para revelar-lhe o verdadeiro sentido. As funções (3) e (4).56 num momento qualquer. por uma peripécia sutil. cada um desses documentos é sintoma de uma visibilidade distinta que indica ora um problema para a igreja da época. tal como. como não há qualquer razão para ser nutrir ceticismo sobre esses detalhes. um caso individual é aí sempre tomado. não é nem verdadeiro. para o historiador. conjunto de elementos a partir do qual um fenômeno pode ser reconstruído.

deixa inteiramente ao leitor a responsabilidade de julgar. em termos metodológicos. Daí que os casos singulares (Heriette Cornier. etc). aconteceram de fato. os fenômenos que os constituem e ultrapassam. portanto. das sociedades passadas e do conhecimento. não se pôde condenar Cornier. pelo contrário. que se pode ver aí a gênese de “certa terapêutica aplicada. 86 -87). p. por fim. XIX) “a qual do mesmo modo. terão sua hereditariedade assinalada. Daí também a necessidade de se publicar esses documentos47. Pierre Riviere. em favor do corpo. à imperfeição das instituições passadas. dissipadores. logo. homossexuais. retorno ao vetor da procedência. parece ter sido o primeiro de uma série de dossiês que se tornaram comuns na década de 70 e 80 e que marcam. é ainda nesse espaço. mas que não tem nenhum interesse histórico) – de modo que o que escapa aos documentos. segundo Chartier. volta-se “ao mesmo tempo contra a doença e contra a saúde. alquimistas. as práticas duvidosas destinadas ao seu tratamento. “humanamente” arrancada por Esquirol. São as familiaridades que o desatinado cria com: 1) devassos (doentes venéreos. Não se necessita da história para realinhar esses fatos ao anacronismo natural da consciência: qualquer um poderá dizer que se devem aos costumes primitivos. etc). já parcialmente desenvolvido em História da Loucura. Ali. 2) blasfemadores (supostos feiticeiros. mas. Genealogia. criminalistas e psiquiatras. igualmente condenado e que. qualquer que seja nosso julgamento atual sobre eles. 47 Eu Pierre Riviere. mas às custas da carne” (FOUCAULT. portanto. isso nada acrescentaria ao conhecimento do fenômeno. de desobrigar o historiador desses juízos de valor que nada acrescentam à sua ciência: a escrita dessa história. Demiens. Herculine Barbin. É porque o alienado de Esquirol provém do mesmo espaço de constituição e diferenciação do doente venéreo. a figura polimorfa do doente mental entregue a psiquiatria moderna tem de ser decomposta. à loucura. como analítica das visibilidades históricas. 2009. sua emergência tem de ser assinalada no espaço do internamento geral da qual será. que são singulares. que os caracteres dos doentes mentais e. não para encenar um tribunal fictício no qual a justiça poderia lhes ser tardiamente concedida: não se necessita ser historiador para se fazer esses julgamentos que não mudam o fato de que Demiens foi supliciado de forma atroz. no decorrer do séc. . Necessita-se da história para fazer surgir através desses casos.57 “transportar-se para outro presente”. escapa à história é justamente o que não tem nenhum interesse histórico. e. adúlteros. um retorno dos historiadores ao arquivo. que. em gradação. que Riviere foi. embora pudesse acrescentar muito ao conhecimento do caso (o que pode ser de interesse dos padres. sejam apresentados não para ser refazer o julgamento sobre eles. Em terceiro lugar. mágicos. se achar necessário. com sua análise e conclusões.

e (3) libertinos (pensamentos extraviantes). ou re-extensão. a pouca inteligibilidade que os livros de Foucault adquirem isoladamente. procedência) do internamento a partir do modelo de exclusão do leproso. que envolve a análise das emergências. para cada figura. p. etc). Mas essa tripla extensão.e. certamente. que concedem ao alienado moderno certas características e evoca certos tratamentos comuns (FOUCAULT. já que “pode-se dizer que esse gesto [o gesto de proscrição do louco] foi criador de alienação” (FOUCAULT. também sua emergência e dinastia próprias. sejam analisados tanto em sua formação atual quanto em períodos em que não se encontram. p. mas uma continuidade em termos de transformações amplificadoras. e o discurso competente. se relacionam. 2010. p. o incorrigível e a criança masturbadora). e. quer a base material dessas pesquisas. a grande dinástica da anormalidade. 2009. . História da Loucura. a complexidade do método que consiste analisar as emergências e dar-lhes a procedência. até as formações de saber-poder em que emergem e se conectam. não encontraremos nada que se pareça com uma ruptura ou substituição: a continuidade é evidente. Assim.58 profanadores. Muitos outros exemplos são encontrados: genealogia (i. o anormal. 2009. 83). Primeiro. até certo ponto. de fato. mas a faz a serviço das análises de procedência. sua emergência a partir do discurso dos alienistas (de Esquirol e Pinel até por volta de 1850). De modo que o primeiro trabalho “genealógico” do autor foi. Genealogia. portanto como dinástica das práticas e dos discursos. Daí. como explanou o autor. certamente. tanto para o resultado dessas pesquisas. 194). implica que esse figura. se conectam e tem a mesma natureza das pesquisas empreendidas por Foucault a partir de 1970. quanto para a recepção das mesmas. não devemos ver senão como retomada desse procedimento amplo. mas dos quais dos os seus gens provêm: do anormal em sua triplicidade (o mostro humano. quer os procedimentos que ela aciona. como sua procedência a partir do “entrelaçamento e essa batalha entre o poder eclesiástico e o poder médico” (FOUCAULT. torna praticamente impossível individuar as pesquisas para fazê-las caber na forma clássica do livro. Isso teve várias consequências. da constituição de uma dinástica. Consultemos Os Anormais. mas como seu necessário prolongamento. transcrição das aulas de 1975. quer consultemos o domínio de objetos das pesquisas que Foucault empreende a partir da década de 1970. 81). poderoso e ridículo sobre o anormal (FOUCAULT. e encontraremos tanto a análise do discurso psiquiátrico de Charcot e seus sucessores. entre tantas outras análises ou conclusões que. A dinástica não está para a arqueologia como um elemento estranho ou cruzado. Trata-se. 2010. 3-23). e o que a leitura-padrão vê como ruptura.

deixando. 3ª) complexidade da análise de emergência e da análise de procedência. temos então de lidar agora com um modelo teórico que engloba e absorve o modelo da arqueologia do saber. finalmente. Primeiro. virá se somar um conjunto de imprecisões cronológicas. portanto. história do século XVIII etc. necessitamos precisar o método de formalização que empregamos na pesquisa e cujos resultados são os que se seguem. Em suma. justamente pela ausência de um tratado teórico. Neste caso. À pouca inteligibilidade das obras isoladamente. a ausência de uma exposição formal por parte do autor das teorias que balizam o procedimento: quando lidávamos com o modelo de descrição arqueológica. mas extravagantes (ensaios. ou pronunciadas por Foucault depois de 1970. como quarta dificuldade. Ajunte-se a isso. Isso porque. assim individuados.). são comparados às indicações teóricas propostas nessas pesquisas ou. como analítica do poder. considerada a hipótese de extensão metodológica com a qual trabalhos. da descrição de uma formação histórica e de sua dinástica. em contraposição a ênfase dada ao saber em Nascimento da Clínica e As palavras e as coisas. mas somente das pesquisas empíricas e de indicações metodológicas presentes nas mesmas. constantes dos Ditos e Escritos. Finalmente. os procedimentos novos. o conjunto de procedimentos assim delimitado e comparado aos procedimentos do modelo de descrição .59 que integra o procedimento arqueológico no projeto de uma história geral. na falta ou em complemento a estes. uma terceira característica marcante das pesquisas da década de 1970: a ênfase sobre o elemento do poder. não dispomos de nenhum tratado teórico. em pronunciamentos formais. artigos) e. subsidiariamente. 2ª) complexidade da função documental. retomamos as pesquisas publicadas. tínhamos a disposição uma exposição formal do mesmo. em pronunciamentos informais (entrevistas). Foucault invade o terreno da história dos historiadores – “barbaridade” que não passará despercebida por muito tempo. e raiz donde todas as dificuldades provêm. principalmente. terá consequências interessantes para a relação entre Foucault e a comunidade historiográfica. Isso implica um certo número de dificuldades para o trabalho de formalização: 1ª) Complexidade da correlação discursivo-não-discursivo. e a forma hiperbólica que as conclusões dessa história geral aparentam quando vistas pelo olhar das histórias particulares (história da França. no que elas não podem ser assimiladas ao método proposto n’A Arqueologia do Saber. de certo modo. Genealogia. resenhas. agora. a tranquilidade do domínio da história intelectual. nem ficará sem resposta – para estender seu projeto para além do seu domínio de formação. história da Revolução Francesa. ao que somente traduzimos para uma linguagem ainda mais formalizada. jamais reivindicado pela comunidade historiográfica.

ou. à plástica. as formações históricas não podem ser antecipadas pela razão. mas eles mantém entre si relações complexas e embaralhadas. Nessa etapa final. Ora. em primeiro lugar. Há aqui. 234-235). portanto. toda formação histórica. escrito por Foucault. aqueles que possuem o mesmo nível de generalidade recebem uma formalização similar. em primeiro lugar. seu modo de ser. mas não uma ruptura radical em relação ao projeto metodológico exposto n’A Arqueologia. não é a uma ruptura que nos referimos. um deslocamento de objetos. A Arqueologia do Saber. p. essa correlação só poderia ser estabelecida se primeiro as próprias práticas fossem analisadas por si mesmas. A genealogia é. intervém uma hipótese de simetria. tanto quanto for possível é preciso fazer a genealogia espelhar (por continuidade ou transformação) os vetores da arqueologia – uma vez que. cada um. 2005b. uma analítica das práticas. é ainda ao próprio tratado de 1969 que recorremos para caracterizar a prática: elas são raras. teoricamente. O que interessa a Foucault são as práticas. o tratado de 1969 previa que a analítica dos discursos devia correlaciona-los a práticas não-discursivas e. 80). outra vez. . Tem-se também proximidade entre As palavras e as imagens: “O discurso e a figura têm. conforme previsão d’A arqueologia do saber (FOUCAULT. exteriores e acumulativas. como bem ressaltou Paul Veyne. todo fato. a partir de casos. o que é característico dessas práticas estudadas por Foucault ao longo da década de 1970 é a correlação entre o saber e o poder: as práticas serão aí sempre tomadas em um sentido político. p. conserva-se o mesmo modelo de descrição do procedimento arqueológico. Há toda uma região em que práticas e discursos dão lugar à figuração. de que se poderia fazer a arqueologia e a genealogia. como repisamos. De modo que. porque. mas à generalização que leva da análise de uma prática específica (a prática discursiva) às práticas em geral. pois a razão é naturalmente aistórica: 48 As práticas não recobrem inteiramente o domínio do não discursivo. Nesse sentido. metodologicamente falando. quando falamos de uma modificação do domínio de objetos das pesquisas de Foucault em meados da década de 1970. é uma organização singular. não encontraremos nada de especialmente novo no empreendimento: trata-se de analisar fenômenos com base em casos dos quais se dispõe de relatos. É seu funcionamento recíproco que se trata de descrever” (FOUCAULT. certamente. ou seja. As práticas são raras.48 Com relação às práticas discursivas. Nesse caso. um primeiro passo nesse sentido está na caracterização do discurso como uma prática: dizer é fazer alguma coisa. E. e as práticas são fenômenos que se podem reconstruir. De fato. a partir de relatos de casos. é que detém a autoridade última sobre esse assunto. regulares. o deslocamento de perspectiva para o domínio do não-discursivo implicará a sobreposição da análise à esfera da história propriamente dita. um fazer próprio que não atualiza a figura ideal de si mesmo que já estaria disponível à razão.60 arqueológica e. como único tratado de método. no entanto. Mas.

Trata-se de conceitualizar o fenômeno e. que sempre reconhecível nos casos individuais através dessas quatro características. 2010. o bispo. 44). pelo contrário. a exclusão solene da Igreja. o penitente. a não participação nos sacramentos. há um vazio em torno deles para os outros fatos que o nosso saber nem imagina. pois. E o que a penitência visa em todo caso (5) é a “remissão dos pecados (. como bem observa Veyne (2011. a imposição de jejuns rigorosos. finalmente. 239-240) Considere-se a análise da prática da penitência no cristianismo primitivo: muito diferentemente do que ocorre atualmente na Igreja Latina. os fatos humanos são arbitrários. etc.) em função da severidade das penas” (FOUCAULT. 146). 2010. um sacramento e não comportava a ritualística da confissão. a interrupção de toda e relação sexual e a obrigação de sepultar os mortos” (FOUCAULT.. não descrevem. no entanto parecem tão evidentes aos olhos do contemporâneos e mesmo de seus historiadores que nem uns nem outros sequer os percebem. a penitência não era. tal estatuto somente poderia ser adquirido em uma cerimônia própria: “numa cerimônia pública. p. Finalmente. 2010. (4) que só pode ser outorgado ou revogado de um determinado modo. o estatuto de penitente” (FOUCAULT. p. 147). 147). 2010. a interdição dos cuidados de limpeza. 147). no sentido de Mauss. atribuído a um (2) indivíduo. 2010. em todo caso na comunhão. a Igreja pôde prescindir desse uso brutal em favor de um mecanismo de remissão de pecados mais humano e civilizado. de hábitos especiais. durante a qual o penitente era ao mesmo tempo repreendido e exortado” (FOUCAULT. e somente o bispo. a quem o podia.61 os fatos humanos são raros. p. Só o . uso do silício. Esses quatro elementos.. que Foucault abstrai da obra A History of Auricular Confession and Indulgences in the Latin Church de Henry Charles Lea. que tinha o direito de conferir. um ato solene de quem o atribuiu. não há nada aqui de estritamente diferente do que faz todo historiador: “escr ever história é conceitualizar”. Ela consistia em um conjunto de atividades que o penitente tinha que realizar: “o uso do cilício. nem são a interpretação de nenhum caso particular de penitência primitiva. através de um sujeito qualificado. não são óbvios. estatuto. 1995. p. p. p. mas a reconstrução de um fenômeno raro (fadado a desaparecer por volta do século IX) e regular. pois o que é poderia ser diferente. no cristianismo primitivo. Essa conceitualização não visa mostrar que a verdade da penitência foi perdida sob as reformas da Igreja Latina ou que. Primeiro elemento: “a penitência era um estatuto que as pessoas adotavam de forma deliberada e voluntária” (FOUCAULT. não estão instalados na plenitude da razão. Quatro características portanto: 1) é um estatuto. (VEYNE. Mais ainda: “era o bispo. 147). (3) o qual consiste em um conjunto de atos por parte do penitente. p.

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que se quer, nesta descrição, é mostrar a diferença desse fenômeno, a penitência no cristianismo primitivo, para os fenômenos que sucessivamente emergirão na Igreja Latina e que recebem o mesmo nome. Por detrás de uma característica supostamente universal dessa parcela do cristianismo, o que se encontra é uma multiplicidade de práticas singulares, cujos elementos e a relação entre seus elementos as isola umas das outras. Voltemos a um caso mais complexo: a investida do demônio em Loudun. Com base no dossiê preparado por Michel de Certeau (2005), Foucault (FOUCAULT, 2010, p. 177) toma Loudun como caso princeps do fenômeno da possessão, que se reconhece também em Saint-Médard e Aix. Como no caso anterior, o fenômeno é reconstruído em seus elementos singulares e diferenciais (em relação aos casos de feitiçaria, que os antecede, e aos casos de aparições que os sucedem): a) “a possuída é a que confessa”, em contraposição à feiticeira “que é denunciada” (FOUCAULT, 2010, p. 176); b) o espaço da possessão é o “foco interno” do catolicismo, enquanto que a feitiçaria “aparece nos limites exteriores” (FOUCAULT, 2010, p. 177) dele; c) a relação na feitiçaria é dual e jurídica, representada pelo pacto que a feiticeira faz com o demônio; já na possessão, tem se uma relação triangular: o diabo, claro; a religiosa possuída, na outra ponta; mas, entre os dois, triangulando a relação, vamos ter o confessor” (FOUCAULT, 2010, p. 177); d) finalmente, a possessão é um fenômeno da carne, não mais “um ato sexual transgressivo”, mas a “penetração do diabo no corpo” (FOUCAULT, 2010, 179). Deve-se a esses quatro elementos, um quinto, que consiste na revivicação, ainda que bastante transitória, da feitiçaria: alguém deve ser o responsável pela possessão e, não se podendo, pelas características do fenômeno fazer recair a culpa sobre a própria possuída, ele deve ser o confessor, Padre Grandier, “sagrado feiticeiro e sacrificado como tal” (FOUCAULT, 2010, p. 186). Vê-se, portanto, que a análise do fenômeno da possessão implica simplesmente na decomposição dos elementos dos relatos do caso recolhidos por De Certeau, desde que possam também ser reconhecidos em outros casos, e na descrição diferencial do mesmo em relação a fenômenos que se encontram no mesmo domínio, o do “sobrenatural” na Igreja Latina. Se agora compararmos a descrição foucaultiana com a apresentação do caso Loudun feita por Michel de Certeau (2005), certamente diferenças marcantes, não tanto quanto à “compreensão” do caso e do fenômeno da possessão, mas quanto à série em que o fenômeno deve ser alocado, quanto ao problema de cuja resposta é elemento. Para De Certeau o quadro no qual o assalto dos diabos de Loudun se inscreve é o que faz cruzar a religiosidade política, marcada pelo enfrentamento entre católicos e huguenotes e o da política religiosa de

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Luis XIII e, principalmente, do Cardeal Richelieu. É na convergência entre o poder político e o poder religioso que a possessão emerge como um novo episódio das guerras religiosas que assolavam a França. Para Foucault, por outro lado, o que interessa são os elementos intrínsecos do caso: o fenômeno da possessão é um fenômeno intrinsecamente religioso e, portanto, é no interior da dinâmica do poder religioso que ele deve ser caracterizado. Essa descrição intrínseca tem, no entanto, por objetivo colocar o fenômeno da possessão no cruzamento entre a série do poder eclesiástico e do poder médico – objeto do curso de Foucault em 1975. De modo que entre a breve, porém audaciosa tese de Foucault sobre a possessão, e a análise meticulosa do caso Loudun por De Certeau, há uma diferença historiográfica marcante que se decompõe em elementos que aproximam e, ao mesmo tempo, isolam dois modos de fazer histórico: De Certeau pretende analisar o caso Loudun e Foucault pretende analisar o fenômeno geral da possessão na Igreja Latina; por isso, o trabalho de De Certeau tende à exaustividade enquanto a tese de Foucault é pontual; por fim, La possession de Loudun de De Certeau é a base da tese de Foucault, o fundo a partir do qual esta adquire sua viabilidade historiográfica; a breve caracterização do fenômeno da possessão em Os Anormais, por outro lado, é complementar em relação ao trabalho de De Certeau: desenvolve-lhe elementos pontuais e permite ulteriores desenvolvimentos, mas não se opõe a ele. Do mesmo modo, o fenômeno da possessão e o caso Loudun poderiam entrar em outras séries, outras histórias; e outros elementos, seriam, então enfatizados. De modo que, os elementos que se enfatiza, com que se reconstrói um fenômeno histórico, dependem, evidentemente, do problema que o historiador se propõe a resolver. A inteligibilidade que um fenômeno adquire num trabalho histórico é uma inteligibilidade relativa, não à pessoa do historiador, mas à problemática escolhida. Grosso modo, porém, a descrição das práticas enfatizará os caracteres elementares: a) quem é qualificado ou competente para a prática? b) qual é a “cena” (lugar, instituição, tradição, período) em que a prática emerge? c) que conjunto de “atos” permite reconhecer a prática? d) que discurso a atravessa? Assim, para o fenômeno da possessão os sujeitos (a) são pessoas religiosas; a modalidade da prática (b) se individua por suas características urbanas e eclesiásticas; a atividade (c) sob a qual se manifesta consiste em tudo que a possuída faz (como age, o que sente, etc) e fala (toda sorte de blasfêmias) que permitem caracterizar o desenrolar da possessão como um “jogo de consentimento” (FOUCAULT, 2010, p. 180), uma batalha na espessura do corpo (FOUCAULT, 2010, p. 182); finalmente, o fenômeno é atravessado por discursos que ora o

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recodificam no antigo sistema da Inquisição, ora o expurgam da competência eclesiástica (FOUCAULT, 2010, p. 183). A regularidade de uma prática, portanto, poderá ser estabelecida por esses quatro elementos: sujeito, modalidade, atividade e discurso. O modelo de análise do discurso já se encontra estabelecido pelo procedimento arqueológico. Já o sujeito da prática, por simetria ao sujeito do enunciado, será uma posição vazia, determinada ou indeterminada: dada uma certa prática, alguns sujeitos estarão qualificados para figurar como um de seus elementos enquanto outros não o poderão. O sujeito não é, assim, aquele que “funda” uma prática, mas um elemento, indispensável certamente, para que uma prática se estabeleça. Considere-se um terceiro exemplo, o do verdugo na arte do suplício. Ele é encarregado de executar a sentença do tribunal, agir sobre o corpo do condenado e destruí-lo. Mas esse ofício simples, carrega, no interior do suplício um conjunto de regras do “fazer” a partir das quais a eficácia do mecanismo de que ele é uma engrenagem está em questão: matar, certamente, mas não de qualquer modo: ele deve ser um artista, em todo caso, um artífice da “arte quantitativa do sofrimento” (FOUCAULT, 2009, p. 36), arte
cruel, certamente, mas não selvagem. Trata-se de uma prática regulamentada, que obedece a um procedimento bem definido, com momentos, duração, instrumentos utilizados, comprimento das cordas, peso dos chumbos, numero de cunhas, intervenções magistrado que interroga, tudo segundo os diferentes hábitos, cuidadosamente codificados (FOUCAULT, 2009, p. 41)

Além de artífice, o carrasco deve ser um ator, um doublé do Rei, pois “na punição [deve haver] pelo menos uma parte, que é do príncipe” (FOUCAULT, 2009, p. 48). E, sendo o suplício “a manifestação excessiva” da força da soberania, a atrocidade que vem anular o atroz (FOUCAULT, 2010, p. 71), “o executor não é simplesmente aquele que aplica a lei, mas o que exibe a força” (FOUCAULT, 2009, p. 51). É aí onde as virtudes, as qualificações, do carrasco devem aparecer: o papel, no sentido teatral, que ele tem de encenar é o do próprio príncipe em uma “justa” cujo desfecho é incerto: “Se o carrasco triunfa, se consegue fazer saltar com um golpe a cabeça que lhe mandaram abater” (FOUCAULT, 2009, p. 51) ele triunfa e com ele o poder do soberano; se, pelo contrário, “ele fracassa, se não consegue matar como devia, é passível de punição. Foi o caso do carrasco de Damiens, que, como não soubesse esquartejá-lo de acordo com as regras, teve que cortá-lo com a faca; confiscaram, em proveito dos pobres, os cavalos dos suplícios que lhe tinham prometido”. (FOUCAULT, 2009, p. 52). Em suma, havia toda uma série de regulamentações, prescrições, costumes e

E toda essa distinção dava lugar a reações bastante diferenciadas: o suplício foi aplicado à sodomia perfeita.. a molesa [. 2010. ao que podemos chamar de aspecto relacional da sexualidade” (FOUCAULT. p. se o sujeito não tem a obrigação de se casa com a virgem que deflorou.. etc. 52).]” (FOUCAULT. intelectual.]. o que está em questão na acusação contra Sócrates é justamente a de inverter essa regra: seduzir a juventude.. na relação. mas. na linguagem atual. para muitas dessas práticas subversivas. 159). 2010. A prática do amor pelos rapazes não é transitiva.. caso se tratasse de uma afeição entre elas. p.. só há incesto se o sujeito é parente do parceiro até o quarto grau de consanguinidade ou afinidade. o estu pro [. não supõe o amor dos rapazes. a qualificação de quem as pratica é essencial: assim..]. se era praticado entre um homem e uma mulher. de certo modo. só pode ser. só há adultério. ama-se os rapazes. o efebo.65 proibições cercando “esse “ofício muito necessário’. ou dos sujeitos. Considere-se o sexo anal na prática da confissão do século XVII: o sexo entre dois homens. moral. em relação ao estatuto do sujeito. O que o autor observa é que a “filtragem das obrigações ou das infrações sexuais concerne quase inteiramente.]. 188). no mais das vezes. jurídico. só há fornicação se nenhum dos praticantes é casado e se não estão ligados por voto ou casamento. que não pertence “à prática mesma”. mas “contrário à natureza’” (FOUCAULT. Uma regra básica da erótica grega em relação aos “rapazes” é justamente de que a relação se dê entre um cidadão e um efebo e que.. mas não às outras práticas. O que está em questão em toda prática é o estatuto do praticante: estatuto social. a sodomia [. se eram duas mulheres. os estatutos sociais de ambos sejam conservados: o cidadão deve ser.. se o sujeito é casado ou consumou o ato sexual com uma pessoa casada. 159). o rapto [. 2009. o adultério [. “ativo”... que é simplesmente uma “repressão”. Uma prática sexual só é subversiva.]. só há estupro.. religioso. mas meramente por um desejo pelo sexo feminino. quase exclusivamente.]. ou se tratava do menos grave pecado de descarregar a libido (explenda libido) ou. p. técnico. era sodomia perfeita. E. não passava de uma copulatio fornicaria. então é uma sodomia imperfeita” (FOUCAULT. se o desejo do homem se dirigia “a um gosto particular pelas partes posteriores. O que implica que. a bestialidade [. envolvidos. de sodomia imperfeita. 2010.. Pode-se argumentar que o estatuto do sujeito é como que uma qualificação imposta “de fora”.. Outro exemplo: as “regras sexuais” às quais o penitente entre os séculos XII e XVI. “passivo”. para que algumas dessas práticas sexuais possam ser consideradas “pecados”. tinham que responder: “a fornicação [.]. não se é amado por eles. E a primeira questão da analítica das práticas deve ser então: quem é preciso ser para fazer tal coisa? . então: o amor grego. o estatuto. Vamos a um último exemplo.. p.

um executor.] depois o tronco e o resto foram cobertos de achas e gravetos de lenha [. do mínimo ao máximo: primeiro Damiens devia “pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça.. 9).. era preciso não só que o bispo. 2009.] os cavalos deram arrancada [. depois a coxa. p. Além de um “voluntário”. a penitência no cristinismo primitivo exigia uma “cerimônia pública. vê-se facilmente que ali o poder de punir se exerce de modo teatral: o punição é para ser exibida. em seguida os mamilos [. atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita. 147). daí passando às duas partes da barriga do braço direito. Não bastava. a prática é um fazer. o carrasco Samson e o que lhe havia atenazado tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo[.] sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio” (FOUCAULT. No dia .. mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. nu. Depois.. 2009. etc. a todos os graus de dor física. Se agora nos voltarmos ao exemplo do suplício de Damiens. tem seus atores. carregando uma tocha de cera acesa de duas libras [. 2010.] a seguir fizeram o mesmo com os braços [. ele foi levado à praça onde encontrou um caldeirão de água fervendo. muito mais atroz em resposta a maior atrocidade do crime. com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos. um jogo se se preferir. durante a qual o penitente era ao mesmo tempo repreendido e exortado” (FOUCAULT. tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc.. no qual foi enfiado o braço com que desferira o golpe. depois sobre o patíbulo erguido frente à igreja. p. enfim.] Depois de duas ou três tentativas.. e somente o bispo..66 Em segundo lugar. uma prática é constituída por tudo que ela requer para existir: um lugar.. das pernas e dos braços [.. de camisola.] o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. Em seguida. é um conjunto de atos específicos.. foram lançados numa fogueira preparada [..] mas sem resultado algum [. 10-11).. um parceiro. uma vez soltos das cordas dos cavalos.. do assassino de Guilherme de Orange: O assassino de Guilherme de Orange foi supliciado durante dezoito dias: “No primeiro dia. de mangas arregadas acima dos cotovelos.. um ritual. Mas. não menos necessários que aqueles.] Em cumprimento da sentença. medindo cerca de um pé e meio de comprimento. Acendeu-se o enxofre. mas também seus espectadores. sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas.. Compare-se agora ao suplício. O suplício não se faz de qualquer modo: vai da infâmia pública (que se reverte na glória da soberania) à dor física.. portanto. tudo foi reduzido a cinzas (FOUCAULT. o autoriza-se a isso e presidisse o ritual a partir do qual o fiel adquiria a condição de penitente..] os quatro membros . O suplício é um grande teatro de atrocidade. p. que o sujeito resolvesse tornar-se penitente.

para seus contemporâneos. palavras vazias. Não é que cada época dê uma configuração diversa a esses fatos gerais da condição humana: amar. dá lugar a uma certa tática e. fazer a guerra. 72) E o que nossa consciência (necessariamente a-histórica) não compreende é a singularidade formada por essa sucessão de atos. O que se quer dizer. foi atenazado por trás. aos efeitos sobre o corpo do condenado e sobre a massa de espectadores: é uma prática específica e datada que só existe cercada de uma infinidade de práticas e discursos que lhe são correlatos. do assassino de Guilherme. É evidente que supliciar é uma prática que se investe e toda uma maquinaria de poder que tem por efeito finalístico a reativação do poder soberano (poder de deixar viver e fazer morrer). que “matar” e “amar” são. matar. ao analisar cada momento. mais erudita responde: “sim. ele ainda pedia água. E assim. esse homem foi martirizado no espaço de dezoito dias. o que a analítica quer fazer aparecer é sua singularidade. que camuflam a singularidade da prática do suplício. enfim. uma variedade de práticas que. mas eles foram executados segundo o que prescrevia a lei penal dessa época bárbara que não é a nossa”. No quarto. matar e executar. punir. p. cada ato da prática. entre estas. foi atenazado pela frente nos mamilos e na parte dianteira do braço. historiar. até mesmo. estrangulando-o. Ao cabo de seis horas.67 seguinte o braço foi cortado. tendo caído a seus pés. solicitou-se ao tenente-penal que pusesse fim a ele. No terceiro dia. se não constitui por si mesma uma estratégia na guerra perpétua do poder. Enfim. etc) quando tudo se podia fazer com seus corpos e nada eles próprios . por fim. historicamente. de cima a baixo da escada. Voltemos ao suplício. logo. parecerá absurdo falar de uma prática do supliciado (de Damiens. Mas são justamente essas palavras. A prática é algo complexo. executar é algo que a justiça penal faz. e matar de forma brutal é algo que as pessoas fazem. é que a história mostra uma diversidade infindável de práticas que. aos instrumentos. nada tinham em comum. no braço e nas nádegas. que não lhe deram. o qual. mas gostaríamos de analisa-la agora da parte de baixo: o suplício como prática do supliciado. é que não se mata de qualquer jeito como não se ama de qualquer jeito. e. curar. 2010. esses objetos naturais ou parcialmente naturais. dominar. comer e andar. no último dos quais foi submetido à roda e ao corpete. Supliciar supõe um conjunto de atos que obedecem a uma regularidade própria quanto ao lugar. recebem o mesmo nome. consecutivamente. com que a consciência sintetiza um conjunto de práticas muito heterogêneas: práticas presentes com práticas desaparecida. para que sua alma não desesperasse” (FOUCAULT. E. e. ele teve de empurrar com o pé. às vezes. ao que a consciência. ao tempo. Matar. ao menos pode dar lugar a uma. Ela diz: “esses homens foram mortos de forma brutal”. Toda prática.

falaram-lhe outra vez. tende piedade de mim.] Tendo voltado os confessores. . na palavra e na ação do condenado. 64) 49 Assim.] O senhor Le Bretton aproximou-se outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada: disse que não. Os carrascos se reuniram.. 9-11) Reduzido a cinzas. o que dá lugar a um conflito entre a autoridade civil e a penitência religiosa : “O condenado se tornava herói pela enormidade de seus crimes” e se “era mostrado arrependido. aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer.68 podiam fazer. [. da forma como costumamos ver representados os condenados: “Perdão.. que Foucault analisar na aula de 1975 (FOUCAULT. seguindo fielmente a regra de confissão49 do suplício. e a Deus somente. Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima.. Não é bem assim: Damiens está morto. beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam. a sua maneira. Mas não é bem assim. 2010) e n’A vontade de saber. que a palavra do supliciado estabelece sua primeira tática. nem é preciso dizer que ele gritava. o poder soberano ainda não assegurou seu triunfo. O senhor cura de Saint-Paul não teve coragem. Segundo o relato em que Foucault se apoia. mas o de Marsilly passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o na testa. como um santo” (FOUCAULT. que cumprissem seu ofício. com cada tortura. pois não lhes queria mal por isso..] Ele levantava a cabeça e se olhava. escrivão. que Foucault analisa em Vigiar e Punir (FOUCAULT. morria. [. 2009.. apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis. ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. [.. o supliciado está acabado e o poder soberano triunfa. ou ao menos. a passividade aparente de Damiens constitui uma prática específica: Afirma-se que. meu Deus! Perdão Senhor”. e Damiens dizia-lhes que não blasfemassem. É no interstício desses dois mecanismos.. p. em fazer o poder eclesiástico se voltar contra. e muitas vezes repetia: “Meu Deus. perdendo o corpo. p. aos olhos de Deus. A primeira tática consiste. Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente. era visto purificado. O supliciado confessa e se redime. que o deveria lançar na infâmia. a confissão funciona em dois registros diferentes: da prática penal nos rituais de suplício. reverendo”. embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador. Jesus socorrei-me” [. . Disse que não. entrar em um tipo de oposição com o poder civil. que ele pede perdão. aceitando o veredicto.. pedindo perdão a Deus e aos homens por seus crimes. 2009) e da prática eclesiástica no mecanismo da penitência. ganha sua alma: e é sempre a Deus. 2009. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar): “Beijem-me. Damiens. acaba por elevá-lo. estendia os lábios e dizia sempre: “Perdão Senhor”.] O senhor Le Bretton. mas não reduzido a nada. rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao cura de Saint-Paul que rezasse por ele na primeira missa” (FOUCAULT. nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios.

Território. a analítica do poder se baseia em dois postulados fundamentais: o postulado da bi-implicação poder-saber e o postulado da estratégia. . p. dos almanaques.69 Em segundo lugar. Em Defesa da Sociedade. 5) O segundo postulado. naturalmente este é o primeiro postulado que Foucault elabora para a análise das relações de poder: a análise do saber reivindica uma análise do poder. não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber. de modo que já no primeiro curso no College de France (Lições sobre a vontade de saber). o poder como estratégia. p. não apenas no momento em que é pronunciado. ou seja. enfim. 2009. 1999. dos dispositivos de saber” (FOUCAULT. defensor do verdadeiro direito ou força indomável. acaba por voltar-se outra vez contra ele. é daí que podem surgir essas “práticas populares que contrariam. Foucault (2011) esboça uma análise da correlação dos saberes e dos poderes que lhes são correlatos na Grécia Antiga e da “elisão entre poder e saber”. b) o modelo geral das relações de poder não é a soberania. finalmente. Segurança. ano em que Foucault ingressa no College de France. o personagem principal é o povo. na elaboração que lhe é dada em Vigiar e Punir. das novelas. 45). das bibliotecas azuis” (FOUCAULT. 56) E. O postulado aparece. 1988.. que: [a] “o poder produz saber [. 30). População (FOUCAULT. Tendo partido da analítica do discurso e do saber na década de 60. o criminoso dos folhetins. 2009. falta considerar o terceiro “parceiro” da prática do suplício: o povo.]. intrinsecamente. p. 2010. p. mas relacional. [b] nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder” (FOUCAULT. p. 2009. uma “analítica do poder”. previsto e requerido pelo mecanismo do suplício. no Curso de 1975 sobre Os Anormais (FOUCAULT. “a transformação grega”. 29) caracteriza. 40). perturbam e desorganizam muitas vezes o ritual dos suplícios” (FOUCAULT. 2005a). p. 65) A genealogia é. Construída entre 1970. p. no curso de 1976. O primeiro. e 1975. 58). em segundo lugar. no Curso de 1977. porque “nas cerimônias do suplício. implicando na orientação da análise “para o âmbito. p. ou da revolta e da obstinação. que constitui a forma geral da vontade de saber no Ocidente (FOUCAULT. em que aparece Vigiar e Punir. afirma. mas daí por diante na “lembrança”: o corpo esmagado pelo poder faz surgir um “herói negro ou criminoso reconciliado.. com o qual Foucault (2009. também. contudo. segundo a definição dada em História da Sexualidade I. uma “definição do domínio específico formado pelas relações de poder e a determinação dos instrumentos que permitem analisá-lo” (FOUCAULT. O discurso da confissão e da contrição. 80). implica em proposições fundamentais: a) o poder não é substancial. cuja presença real e imediata é requerida para sua realização” (FOUCAULT. 2008. 2009. e.

. um mecanismo que produz efeitos de poder sobre individualidades humanas. p. da tecnologia de governo das almas (Pastoral) que o Concílio de Trento instituiu. centrado no ritual da confissão. Foucault estava interessado em descrever formações discursivas no interior das quais certos acontecimentos discursivos (enunciados) tornam-se possíveis e nenhuns outros em seu lugar. O que interessa a Foucault – e é aqui que seu procedimento começará a se especificar – é a formação na qual o fenômeno da possessão poderá tomar seu lugar. por fim. Se. [. é o mecanismo do qual é um produto e uma engrenagem.. a tecnologia na qual está envolvido. definem inúmeros pontos de luta. a táticas.[b] que lhe seja dado como modelo antes a batalha perpétua que o contrato que faz uma cessão ou a conquista que se apodera de um domínio. contudo. sob o conceito teórico de mecanismo ou dispositivo de poder Embora alguns pronunciamentos de Foucault pareçam endossar essa tese. de lutas e de inversão pelo menos transitória da relação de forças. nos deparamos com um problema de ordem exegética. inversamente. A penitência é uma prática de sujeitos. via de regra. sempre em atividade. (FOUCAULT. c) o poder constitui uma relação recíproca. dentre outros. uma prática sobre sujeitos. a técnicas. [. focos de instabilidade comportando cada um seus riscos de conflito. mas a disposições. o qual não poderemos contornar: nas análises de Foucault o poder tem sempre um caráter mecânico? Inicialmente acreditávamos que a partir das pesquisas da década de 1970 Foucault teria introduzido um método de análise mecânica das relações de poder.. a manobras. anteriormente.70 mas a guerra. na Igreja Tridentina é um mecanismo. trata-se de descrever formações históricas que dispõem o espaço no qual certos fenômenos podem emergir: tais formações são. Aqui. De modo que. considerar o poder como estratégia significa: [a] que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma ‘apropriação’.. é. a funcionamentos.]. Foucault reafirma a orientação nominalista de sua analítica do discurso: fenômenos históricos não são objetos naturais pre-disponíveis à descoberta da historiador nem fatos estabelecidos que requerem uma explicação em termos causais. mecanismos de poder. 2009. mas conjuntos de relações que a pesquisa histórica tem de traçar. agora. que se desvende nele sempre uma rede de relações sempre tensas. a respeito das análises desenvolvidas em Vigiar e Punir: . mas é também. O sacramento da penitência. Consideremos novamente o fenômeno da possessão.] [c] Finalmente. pesa contra ela o seguinte trecho de sua resposta a Léonard. não são unívocas. 29-30) Ao dizer que o poder é relacional.

no sentido político. no século XVIII. Assim. Foucault utiliza o termo “arte de punir” (FOUCAULT. 2009. Se consideramos o modo como Foucault se refere ao suplício em Vigiar e Punir. p. etc. é a pesquisa teórica e prática de tais mecanismos. p. de organizar semelhantes dispositivos que constituem o objeto da análise. 2012. “cerimônia” (FOUCAULT. 2009. p. Mutação técnica. 99): “é a passagem de uma arte de punir a outra.” (FOUCAULT. das relações entre racionalidade e exercício do poder. quando tem de falar da mutação que leva do espetáculo ao mecanismo. 2009. Contudo. embora o pronunciamento em A poeira e a nuvem não seja inequívoco nesse sentido. em particular. “ritual” (FOUCAULT. p. 55) ou diretamente para denotar o suplício como “mecanismo da atrocidade” (FOUCAULT. uma nova ‘economia’ das relações de poder. 333) Assim. p. 2009. 86). é deixar as noções de “mecanismo” e “dispositivo” valerem como conceitos empíricos construídos historiograficamente e fazer o termo “tecnologias” ou “técnicas” denotar o objeto geral da analítica do poder. são organizadas por certas “tecnologias políticas . e assim poder formalizar o instrumento de análise das práticas não-discursivas. mas globalmente ainda. mas principalmente os termos “espetáculo” (FOUCAULT. É estudar o desenvolvimento de um tema tecnológico que acho importante na história da grande reavaliação dos mecanismos de poder no século XVIII. em alguns momentos Foucault parece utilizar o termo mecanismo no sentido geral (FOUCAULT. 241). 2009. da transparência. o único modo de evitar a confusão entre o conceito empírico e o conceito teórico. 2009. Ficando entendido. não menos científica que ela. p. do olhar. não é dizer nem que o poder é uma máquina. Do mesmo modo. mostrar o papel importante que nele ocupou o tema da máquina. p. Nesse sentido. no século XVIII. 14). de que um tal poder seria possível e almejável. Mas é a idéia. é claro. o caráter mecânico dos dispositivos em que ele toma corpo não é absolutamente a tese do livro. p ode-se afirmar que as práticas não-discursivas. como se concebeu.71 A automaticidade do poder. 2009. 55). 56).. importante também no nascimento de estruturas institucionais próprias às sociedades modernas. nem que tal idéia nasceu maquinalmente. importante enfim para compreender a gênese ou o crescimento de certas formas de saber. p. 50). é a vontade incessantemente manifestada. que permanece aberta toda uma série de domínios conexos: o que aconteceu com os efeitos dessa tecnologia quando se tentou fazê-las funcionar? (FOUCAULT. p. da vigilância. Estudar a maneira como se quis racionalizar o poder. 2009. como as ciências humanas. resta claro que “mecanismos” e “dispositivos” são conceitos empíricos construídos para descrever uma organização específica das “técnicas de poder” a partir do século XVIII. mas não como “mecanismo de poder”. Fala ainda de uma “nova economia e uma nova tecnologia do poder de punir” (FOUCAULT. na história geral das técnicas de poder e. então. veremos que em momento algum ele utiliza termos mecânicos para descrevê-lo.

se questiona o Foucault (2011. na forma de um prolongamento do questionamento da morfologia histórica da vontade de saber: “em que medida”. nos autoriza a tomar. 49) Mas não se deve tomar a “dinástica” como sinônimo de “genealogia”. e o sábio. ou seja. o panopticismo. mantém com ela uma relação de dependência na especificidade. Por outro lado. uma dinástica: traça-lhes a árvore genealógica e aponta as familiaridades mesmo as mais improváveis. ou através. O que não significa que seja um vetor autônomo. ele se articula com o projeto arqueológico. O termo aparece pela primeira vez. o direito das palavras. em primeiro lugar. para todos os fatos discursivos ou não. portanto. 5). em conclusão a este ponto. pp. um vetor formalmente isolável das pesquisas foucaultinas. a genealogia. De fato. a analítica das relações de poder decorre da analítica das práticas e. Inversamente. a dinástica como um caso particular de genealogia. está o jogo de forças que torna possível essa emergência: relações de poder. as condições políticas de seu aparecimento e de sua formação. Ainda que a genealogia e a dinástica estejam centradas no elemento procedência. um bem valioso. p. A genealogia estabelece. todo poder remete a uma tekné (arte. o primeiro como arte do espetáculo. que não necessariamente segue um modelo mecânico e cuja descrição nem sempre será mecânica. as condições econômicas. na entrevista Da Arqueologia à dinástica. técnica). em nossa cultura. A analítica das relações de poder é. definido como “a relação que existe entre esses grandes tipos de discurso que podem ser observados em uma cultura e as condições históricas. 2012. a analítica do poder é uma analítica das práticas sobre o ponto de vista das relações de poder. Assim. no âmbito desse elemento. Finalmente. uma vez que o poder é o elemento a partir do qual a procedência de uma prática pode ser determinada. para usar uma expressão cara a Foucault.72 específicas”: o suplício. Em segundo lugar. É o caso de traçar uma dinástica quando e somente quando seu objeto possui uma dignidade específica: o discurso portador de um saber possui uma dinástica porque o saber é. a analítica das relações de poder se articula com a dinástica. por trás. o segundo como mecanismo punitivo. em 1972.” (FOUCAULT. a um modo de se exercer. “é possível articular essa vontade de saber com os processos reais de luta e dominação que se desenrolam na história das sociedades?”. um dignitário. como a vemos Foucault praticar no fim da década de 70 é um desenvolvimento dessa “dinástica do saber” que visava encontrar a procedência do . da emergência de uma prática.

o empreendimento de Foucault ainda estava. p. não necessariamente entre filosofia e história.8). mais do que saber o quanto uma proposição histórica é correta ou equivocada. é preciso se perguntar o quanto o historiador compreende do passado que ele evoca. 6). todas as realidades do passado”. a clivagem ou mesmo a oposição entre filósofos e historiadores. 78). Seja. que documenta um enfrentamento no qual. mas entre filós ofos e historiadores: “Por algumas insinuações. pois. a relação entre Foucault e a comunidade historiográfica continuo promissor até o fim da década de 1970 quando o debate um debate em torno de Vigiar e Punir acabaria por resultar em uma “ruptura”. L’impossible prision. a primeira crítica já aponta para uma diferença de natureza. apesar da proximidade aparente. de um passado. se dá conta de que Foucault não percebe sempre. mais do que se saber quem tinha razão. senão as próprias palavras de Léonard. é preciso encontrar os elementos que mostram como. 8). revelam é a concepção de que a história seja o “conhecimento do passado” (LÉONARD. 2. historiador especialista em história da medici na. por alguns sarcasmos mal sufocados. a necessidade de ter-se que se colocar em um desses campos. Conjuntamente. O título do texto já indica o fundo sobre o qual trabalha Léonard. p. Signo dessa ruptura é o livro de Michele Perrot. particularmente do século XIX. afirma Léonard (1982. primeiramente. desde dentro. arqueologia e genealogia perfazem um método único de pesquisa em vista de uma história que sirva como “etnologia interna da nossa cultura” (FOUCAULT. largas horas meditativas no mesmo. a política e a estética) e se levarmos em conta que não há prática que não seja atravessada pelo pensamento. o texto que desencadeou o debate: o artigo “O historiador e o Filósofo” de Jacques Léonard. O que Falta a Foucault. segundo Léonard (1982. ou seja. após um breve prólogo elogioso. 2008. Daí que. por delegação. 1982. da qual decorre a impossibilidade de um domínio comum ao pensamento filosófico e ao trabalho dos historiadores. E o que essa crítica. p. . é um “conhecimento íntimo e como intuitivo” de um período determinado. que o historiador só adquire quando “vive. p. e permaneceu. muito distante do trabalho efetivo dos historiadores. se por pensamento entendermos mais que o discurso sério (incluindo a ética. de um período determinado. ou melhor.73 discurso típico das ciências humanas e cujo resultado é a tese da relação entre estas e a tecnologia política do exame exposta em Vigiar e Punir. A arqueologia é a história dos sistemas de pensamento.2 A filosofia e a história: o enfrentamento de 1978 Apesar de divergências pontuais.

Tanto é verdade que. 16) De modo que há o século XIX de Foucault e o século XIX dos historiadores: “O século XIX dos historiadores. porque não se detém em um período. e cabe. então. 1982. das questões médicas para “levantar a poeira dos fatos concretos contra a tese da normalização massiva” (LÉONARD. aqui. da qual inferimos que o domínio sobre um objeto é essencial para Léonard. Depois de evocar os julgamentos que os historiadores do século XVIII ou XIX fizeram sobre o livro. 1982. Mas isso não é tudo. agora. a segunda. um certo parâmetro de interpretação. nem sobre um objeto. mas resta ainda a questão do “método” de análise. Leonard desloca o problema para a questão dos objetos e convoca os historiadores da sociedade francesa. contentar-se ou descontentar-se com o tratamento que “seu” período recebeu. finalmente. povoado de intenções subjetivas. Um historiador as teria levantado. nas omissões quanto aos objetos estudados. justamente ao fato de que não provém de um historiador. fazer história é estudar um período. afirma Léonard. aos especialistas em cada século levantá-las. Reconsideremos. nem um controle maquiavélico. e a crítica avança para uma segunda caracterização do historiador. 10) O trabalho de Foucault é insatisfatório. certamente. 18) não é um mecanismo de planificação. 12) Foucault. aponta-las. Assim. p. afirma Léonard (1982. (LÉONARD. se devem. p. já que “apenas as últimas setenta páginas se referem a seu período”. 1982. do trabalho. 1982. as três críticas e o que elas nos revelam da concepção historiográfica de Léonard. a terceira evoca a ausência do parâmetro de interpretação social. mas um conjunto de lutas políticas e sociais articuladas”. p. 8) e todos os erros e omissões dos quais Vigiar e Punir é culpado. sob cuja ausência “nos vemos situados em um mundo kafkiano” (LÉONARD. “os historiadores do século XIX” eram “os mais insatisfeitos”. da educação. segundo Léonard. dos assuntos militares. Léonar d entende por “método”. enquanto os novos historiadores do século XVIII estavam relativamente “lisonjeados” com o livro. um historiador se . um princípio de razão suficiente que permitiria nos situarmos no livro como em um mundo vivo. p. não detém domínio sobre um período. A primeira se detém na falta de erudição de Foucault a respeito do século XIX. da qual decorre que o problema do método em história consiste em utilizar um parâmetro de explicação determinado. donde se depreende que para Léonard. se para Léonard. do maquinista das maquinas. Assim. todas as questões que não são colocadas ou resolvidas pelo texto. portanto. a crítica se dirige ao lugar vazio do estrategista das estratégias. Aparentemente.74 De modo que a “a rapidez fulgurante das análises” (LÉONARD. uma passado reconstruído. mas isso decorre do fato de que Foucault não detém um período.

317) A primeira crítica de Léonard evocava a falta de equidade entre os períodos tratados. p.75 qualifica como tal na medida em que compreende um período. os mesmos defeitos em relação aos objetos tratados. “os pequenos fatos verdadeiros contra as grandes ideias vagas: a poeira desafiando a nuvem. talvez a reação de Foucault e o debate que se seguiu nos possa ajudar a entender a posição incerta que seus trabalhos ainda hoje detêm junto aos historiadores profissionais.. 2012. que elabora na forma de três questões teóricas: 1) Da diferença de procedimento entre a análise de um problema e o estudo de um período. Nesse sentido. 2012. paralelamente. talvez. Foucault é um historiador. a reação deste não deixou de ser “violenta” e suscitar uma “tempestade num copo d’agua” (VEYNE. 18). o século XIX. Talvez. nem de longe. uma referência a oposição entre os fatos concretos e as abstrações. “A poeira e a Nuvem”. e um historiador incontestavelmente original. Diante do texto de Léonard. embora a avaliação final de Léonard parece francamente favorável à Foucault. a resposta de Foucault veio já como um título sarcástico. sua conclusão é a contrária: “o Sr. o enfrentamento que se seguiu provido de um malentendido. o trabalho de um historiador. que nos interessa escutar” (LÉONARD. nem se pode entreter com ele as relações convencionais que entre historiadores e filósofo. Como. ele deveria ter concluído que o trabalho de Foucault não é. evidentemente. a falta de exaustividade em relação a um universo determinado. Por outro lado. 3) Da distinção a ser feita entre a tese e o objeto de uma análise. É de se notar que Foucault dispensa sumariamente a avaliação favorável da segunda parte do artigo de Léonard e se detém nas três críticas dos historiadores. diz Foucault. 2) Do uso do princípio de realidade em história. o “nós” se refere aos historiadores. porém. resta. Curiosamente. da avaliação positiva que se segue.. buscar contribuições pontuais desse trabalho que não se pôde devidamente qualificar para o trabalho perfeitamente delimitável do historiador.317).” (FOUCAULT. essas exigências são legítimas só e somente só se se entende que a pesquisa versava sobre um período ou uma instituição determinada: “Para . E. 1982. Ora. a falta de “demora” em sua análise. domina exaustivamente um objeto e explica fenômenos com base nas intenções efetivas dos agentes e em fenômenos sociais como as lutas. o problema permanece: Que os historiadores podem esperar de Foucault? Foucault não pode ser integrado na comunidade historiográfica. (FOUCAULT. p. apesar. 2011). resta que a fórmula retoma a disjunção do título de uma maneira bastante ambígua. portanto.

Para Foucault. focalização da análise sobre os elementos suscetíveis de resolvê-lo. A questão do “princípio de realidade em história” é suscitado a partir do problema em torno do “objeto” do livro e do parâmetro de explicação. na visão de Foucault. gostaria de estudar um período. (FOUCAULT. diametralmente opostos de análise. que. já haviam com bons resultados adotado essa forma de análise. Seu objeto de estudo. o domínio de objeto que é preciso percorrer para resolvê-lo. São os próprios historiadores dos Annales. deste ponto de vista. (FOUCAULT. estabelecimento das relações que permitem essa solução.. é um problema. de fato. 2012. ou ao menos uma instituição durante um dado período. p. a partir daí.” (FOUCAULT. 320) Assim. p. primeiramente. [. deve seguir outras regras: escolha do material em função dos dados do problema. o problema é que o historiador de Léonard tem uma concepção muito restrita do real: É preciso desmistificar a instância global do real como totalidade a ser restituída. enquanto que para Léonard uma análise histórica se produz a partir de uma determinação prévia do período e do objeto que se quer estudar. portanto: “uma que consiste em se dar um objeto e em tentar resolver os problemas que ele pode causar. surgido em um dado momento. para o qual a periodização só pode ser estabelecida a posteriori: Quem. Dois tipos.. 2012. não é porque buscasse prescrever uma novidade aos historiadores. quer tratar de um problema. 2012. Não há “o” real do qual se iria ao encontro sob a condição de falar . alguns deles pelo menos. A outra que consiste em tratar um problema e em determinar. duas regras entre outras se imporiam: tratamento exaustivo de todo o material e equitativa repartição cronológica do exame. 320).76 quem. afirma Foucault. 319). é a “racionalidade prática” que é posta em questão na reutilização do internamento como procedimento punitivo. Mas se Foucault considerava essa segunda forma de análise igualmente legítima historiograficamente. para Foucault o que se coloca. em contrapartida. cujos elementos servem de princípio de delimitação de um domínio de objetos em relação ao qual se pode selecionar a documentação pertinente e determinar a periodização dos fenômenos que a ele pertencem. p.] O trabalho assim concebido implicava um recorte segundo um recorte segundo pontos determinantes. Mas a exigência é impertinente e impossível de ser realizada – Léonard implicitamente concorda quando afirma que um batalha de historiadores seria necessário para analisar o livro – quando se trata de levantar um problema. e uma extensão segundo relações pertinentes: o desenvolvimento das práticas de adestramento e de vigilância nas escolas do século XVIII me pareceu. mais importante do que os efeitos da lei de 1832 sobre a aplicação da pena de morte.

um programa. Enquanto Foucault deseja estabelecer o debate sobre decisões metodológicas que perfazem praticas historiográficas diferentes. crucial para o desenvolvimento de uma ciência. pouco se reconheciam. e que falharíamos. O convite final de Foucault (2012. portanto.77 de tudo ou de certas coisas mais “reais” que as outras. a distinção entre objeto e tese. . tudo isso é algo do real. E a gênese dessa realidade. Um tipo de racionalidade. 2. se anteriormente recusamos a “instância global” do real? Foucault. se nos restringíssemos a fazer aparecer outros elementos e outras relações. 327) é abandonar as convenções acadêmicas de cada disciplina. de retomar a desinteligência entre Foucault e a comunidade historiográfica francesa. de que a única realidade a que a história deveria aspirar é a própria sociedade. então pouco inclinados a discussões epistemológicas. contudo. mas igualmente legítimas. E. nem “a” socie dade inteira. talvez. Foi quando a ruptura entre Foucault e os historiadores liberou o diálogo sem fim entre duas disciplinas que. mas pela disputa metodológica. objetivos definidos e perseguidos. em benefício de abstrações inconsistentes. portanto. p. a última questão. interrogar também o princípio. ou seja. p. com frequência implicitamente admitido. não porque se vise à biografia dos nomes próprios nela envolvidos. Gostaríamos. a da relação entre Filosofia e História. que aí se entrevê. transforma as críticas feitas especificamente ao seu livro em questões gerais de análise histórica. uma maneira de pensar. querem discutir os resultados de um pesquisa específica em relação às decisões metodológicas consideradas corretas do ponto de vista da história social. fruto de muitos acasos. por mais que se cruzassem. mesmo se isso não pretende ser a própria “realidade”. pode ser levantada e não cansa de sê-lo desde uma data e um lugar muito precisos: França. é uma forma de colocar em questão o princípio de inteligibilidade em história: que conceitos.3 Foucault e os historiadores: o futuro de uma desilusão Foucault: historiador ou filósofo? É uma questão ociosa. De uma parte a outra o encontro entre historiadores e filósofos foi algo de improvável. do momento em que nela fazemos intervir os elementos pertinentes. 1978. 322) Finalmente. instrumentos para alcança-los etc. que aparato teórico nos permitiria entender um fenômenos histórico. um conjunto de esforços racionais e coordenados. através dela a verdadeira questão. os historiadores. Seria preciso. é perfeitamente legítima. uma técnica. desviar o debate da relação entre filósofos e historiadores ou entre filosofia e história para o debate sobre a construção de um método de análise além das determinações disciplinares. 2012.. (FOUCAULT. mais do que de uma “necessidade”. à primeira vista.

” Mesmo adversários da suposta crítica de Foucault ao conhecimento histórico reconhecem a penetração dos questionamentos do filósofo junto ao grupo dos Annales a partir 50 Margareth Rago (1995. da “nova história” da escola de Braudel. ou seja.288. NOIRIEL. fazer valer o desenvolvimento dessa como desenvolvimento da própria disciplina história enfim liberada do “sono antropológico”. 1994. apesar das diferenças em relação a vários procedimentos desta escola. os Annales se mantiveram indiferentes ao campo da “história das ideias” e das ciências. 1972. numa perspectiva sobretudo descritiva do arquivo. esteve sempre mais ligada à história do que à lógica. Foucault responde com uma defesa intransigente. tese de doutoramento de Foucault. e que desenharia no percurso aberto o próprio objeto da investigação”. é defendida junto à comunidade representante dessa tradição que já adotara uma perspectiva histórica que a aproximava da Escola dos Annales. por exemplo. . Entretanto. 1994. a História Serial. pareciam falar a mesma língua ou. 70) interpreta neste mesmo sentido a referência contida na introdução de A Arqueologia do Saber: “Foucault se filiou aos Annales e. apud DOSSE. patrocinada por Philippe Aries e sob os elogios de Robert Mandrou e mesmo Fernand Braudel. p. (DOSSÉ. 1994. usando do artifício de ignorar a existência de um programa rival (a historiografia marxista). polemizando explicitamente com marxistas e existencialistas. História da Loucura. 548) Esse espaço foi mantido até o fim da década de 70. p. p. até a publicação de História da Loucura. Foucault e os historiadores . p. e até pouco realista. diretor da tese de Foucault. p. Canguilhem. no princípio dos anos 70. pois. como a toma como única representante legítima da historiografia. 2008. Não se deve. como observou Ladurie (1969. publicara um estudo que se pode retrospectivamente reconhecer como de “longa duração” sobre as transformações do conceito de normal. como conclui Dosse (1994. 295). À abertura oferecida pela comunidade historiográfica. “prevalece então um certo positivismo. ao menos aqueles que ele levava em consideração. ignorar o que há de programático na constatação de que “os historiadores desertaram há muito tempo dessa velha fortaleza [da história antropológica] e partiram para trabalhar fora” (FOUCAULT. ao aderir-se à posição de Foucault que consiste em apreender mais o como do que o porquê. 23). defendeu uma história-problema. p. como ele mesmo observou certa vez (FOUCAULT. mas. Em A Arqueologia do Saber. 269). em comparação com a tradição anglo-saxã. um trabalho de pesquisa histórica que servisse para iluminar e responder a uma problematização colocada pelo historiador. 352).78 Michel Foucault se formou na tradição da filosofia da ciência e epistemologia francesas que. p. Foucault pretendia não apenas definir e defender um tipo de História. não apenas reitera sua filiação à historiografia braudeliana50.

do mesmo modo. (VANIFAS. p. o desenvolvimento do “olhar médico”. ficou quase despercebida por muito tempo. Em 1975 Foucault publica Vigiar e Punir. já indicava a necessidade de um trabalho dessa natureza 52 . a oportunidade de uma real abertura junto aos historiadores que Deleuze (2005. no entretanto. e. na dissolução do projeto de uma história global: Poder-se-ia objetar que Foucault custou a ser assimilado pela historiografia francesa. o diálogo Foucault-historiadores deixou a esfera virtual para se efetivar em um debate aberto. 34) acentua esse caráter liminar da obra: “Esse livro pode ser lido como uma sequência dos livros anteriores de Foucault ou como marco de um novo progresso decisivo”. que teria repercutido. direção que as pesquisas foucaultianas acabaram por não tomar. Mas o fato é que pouco a pouco sua obra filosófica e “historiográfica” foi penetrando nas pesquisas dos historiadores profissionais. dos micropoderes. fazendo renascer antigas preocupações de Febvre e de Bloch com os discursos e rituais. pois. Sob o aspecto historiográfico. citado por Dossé (1994. Certamente. segundo Dosse. no fim da década de 70. como o da sexualidade. que pode ser caracterizada. de 1961. quando. finalmente. “ Surveiller et punir é. inegável que a relação de Foucault com a comunidade historiográfica francesa tenha de ser concebida como de dupla familiaridade: muitos dos aspectos do projeto foucaultiano derivam do empreendimento da primeira e segunda geração dos Annales. De fato outra nota indica a necessidade de desenvolvimento de uma história do mal. lembrando que Histoire de la folie (História da Loucura). como complemento aos trabalhos empíricos anteriores. deixava por elaborar as condições técnicoinstitucionais (complementares ao espaço interdiscursivo das empiricidades) sob as quais essas disciplinas puderam aparecer. E. 1997. e estimulando novos temas. ao traçar a arqueologia das ciências humanas. por outro. p.79 do fim da “era Braudel”. da doença. por um lado. 136). 283). analisado em O Nascimento da Clínica. requisitava a elaboração de um trabalho sobre os espaços de visibilidade nos quais esse olhar pode se constituir. contra todas as expectativas do filósofo e dos historiadores que lhe eram mais próximos (Veyne e Revel. não foi possível. a compreensão do “Grande Internamento” requisitava a constituição de um capítulo da história da penalidade e uma nota de História da Loucura. etc. p. 51 . fundamentalmente. muitos aspectos da terceira geração desta escola encontram na obra de Foucault precedentes empíricos ou justificações teóricas. evitar uma decepção mútua: restou claro que faltava uma linguagem comum no qual os mútuos questionamentos pudessem transitar. com efeito. As Palavras e as Coisas. como desenvolvimento do conceitual e analítico do projeto foucaultiano 51 . principalmente). das prisões. Parece. 52 Essa observação se deve a Daniel Defert. Isso não significa que o livro Vigiar e Punir já estivesse planejado.

a passagem do projeto arqueológico. um dos historiadores que se encontraram com Foucault em 78. Carlo Ginzburg. sua aplicação a um campo concomitante àquele cultivado pelos historiadores sob outros princípios teve por efeito revelar a disparidade de dois modos muito distintos de encarar a história. ao que conclui: “É um populismo às avessas. certamente. encaminhava Foucault diretamente ao domínio cultivado pelos historiadores – o que não ocorria com a história intelectual a qual a comunidade historiográfica jamais tivera interesse em reivindicar. Perrot publicará a polêmica sob o título “L’impossible prision”. ao projeto genealógico.” (DOSSE. Noiriel (1994) preferirá chamar o episódio de “l’impossible dialogue”. com a qual Foucault 53 Em 1977 e 1978 Foucault tentou responder a uma série de objeções que se seguiram à publicação de Vigiar e Punir. como questão fundamental da filosofia. contrastam com a irritação. 1994. dotando-os de um caráter historiográfico que não pretendiam ter. o que se tornou claro foi o caráter filosófico do empreendimento foucaultiano que nasceu e se desenvolveu a partir de questões internas à comunidade filosófica francesa e pouco tinha a ver com as preocupações dos historiadores. p. Assim. Entretanto. e em torno destes textos foi organizado um encontro em maio de 78. expressou bem a insatisfação diante de um a história que vedava. com a escola dos Annales.80 confirma a aproximação efetiva. as declarações de Foucault de que seu problema sempre foi o do discurso verdadeiro e falso. os exclusos. que converte o projeto de uma “arqueologia do silêncio em silêncio puro e simples”. . E.1987. esse espaço amistoso dá lugar a uma polêmica 53 em que não faltaram mal-entendidos e decepções mútuas. na medida em que implicava o ultrapassamento da esfera estrita do discurso sério. Primeiro. foram os historiadores simpáticos a certos aspectos de seus livros que se enganaram. Para Noirel (1994). um populismo negro – mas ainda assim um populismo” (GINZBURG. Foi a oportunidade de Foucault precisar seu programa de pesquisa e. um pouco menos. p. malgrado não se possa dizer que o debate tenha chegado a bom termo: Veyne (2011) fala de uma ruptura e se M. a partir de L’Arqueologie Du savoir. nos levariam a crer que. Foucault responde com “A poeira e a nuvem”. essa interpretação conciliadora. por outro lado. portanto desde 1969. Em Histoire de la Folie já estava implícita a trajetória que levaria Foucault a escrever Les mots et les Choses e L’Arqueologie Du savoir”. apesar da recepção favorável entre historiadores sociais e historiadores engajados nas lutas anti-institucionais. os textos dessa pequena “querela de métodos” nos ajudam a traçar as linhas de continuidade e divergência entre as pesquisas foucaultianas e o trabalho dos historiadores profissionais. entretanto. porque. embora os princípios básicos da genealogia não fossem diferentes da arqueologia. manifestada com sarcasmo e ironia. ou parecia vedar. Ao texto de Jacques Leonard “L’historien et le philosophe”. 292) E. de fato. como o tom conciliador que Foucault adota na resposta a Agulhon. na verdade. a possibilidade de cognição direta da vivência dos sujeitos históricos: “O que interessa a Foucault são os gestos e critérios de exclusão. 22-24).

não era uma elite de espírito aberto cuja reputação era internacional? Não estavam preparados para admitir que tudo era histórico. 2011. nenhum fato reconhecido. Furet considera que a partir do desenvolvimento dos projetos de história quantitativa. [. a esse passado. aquilo de que fala e. desde a introdução de A Arqueologia do Saber. na medida em que coloca seu projeto de uma história dos modos de produção da verdade. depositava todas as esperanças nela. o problema bem colocado são mais importantes – e são mais raros! – do que a habilidade ou a paciência em trazer à luz do dia um facto desconhecido. Veyne.. somente com a História Serial os problemas que o historiador deve se colocar aparecem como princípio de organização da pesquisa. herdeira da concepção monumental do documento que emerge com a História Serial. como corolário do percurso destes. o historiador Está consciente de que escolhe. até mesmo a verdade? Que não existiam invariantes transhistóricos? (VEYNE. mas marginal. Essa prerrogativa dada ao problema. p. acima de tudo. às objeções o seu modo de fazer história. nas quais. se não se determinou primeiro o problema de que se quer tratar. e que terá de resolver [. a reação de Foucault às críticas vindas dos Annales. portanto. ponto de partida inevitável devido ao caráter do método. que se tornaria seu principal interloculor historiador na década de 80. certas características fundamentais da pesquisa histórica puderam finalmente ser reconhecidas. p. Desde então.. reafirma a ligação que Foucault sempre acreditou manter com a historiografia de ponta. o conjunto dos acontecimentos.. nenhuma série pode ser construída.] a boa questão. ele aponta desenvolvimentos análogos nos Annales e em outros grupos de historiadores fora da França. quando Foucault se volta para o mundo greco-romano. (FURET. embora a noção de “história-problema” seja intrínseca à constituição da Escola de Annales. assim fazendo. já que a parir daí tudo é histórico. questões seletivas. 43) Nesse sentido. uma História-Problema. A História Arquegenealógica é. E. 1986.84) Na História Quantitativa. Foucault acreditava que o desenvolvimento da história não-factual deveria conduzir à adoção. coloca. nenhum dado tem significação. passando por várias referências em entrevistas.] constrói o seu objecto de estudo delimitando não só o seu período. de um programa de pesquisa histórico de caráter nominalista e problematizante – donde a referência ao tratado de Veyne no debate de 78.81 enfrentou a ruptura de 78. mas também os problemas colocados por esse período e por esses acontecimentos. nesse passado. da qual decorre a necessidade de . não tem dúvidas quanto às ambições de Foucault e a decepção com que recebeu as objeções dos historiadores: Foucault esperava ver a escola histórica francesa abrir-se às suas ideias..

para Foucault (2006. de fato. a seguinte: determinar o período. Idade Média. deve seguir outras regras: escolha do material em função dos dados do problema. a polêmica é plenamente compreensível: os historiadores são incapazes de reconhecer Foucault como um de seus membros plenos porque individuam sua ciência a partir de objetos ou períodos os quais deveriam ser estudados até a saturação. já que não é a que foi seguida pela História Serial. reaparece na resposta dada por Foucault a Léornard em 1978. 326): “Quem [. Para este. distinguir os objetos e resolver os problemas que daí decorrem. Foucault não questiona a legitimidade dessa forma de se fazer história. 290). Foucault acaba por repetir quase que identicamente o modo como Furet (1986) caracteriza o procedimento da História Serial. . mas não a única possível. a saber. tanto não o é. Uma das mais importantes questões então levantadas foi a da relação ordenada entre objeto. uma das características fundamentais da História Serial é justamente deslocar o foco dos eventos para os problemas que os documentos levantam sobre os passado. paciente e meticulosamente. a qual “define seu objeto a partir de um conjunto de documentos dos quais ela dispõe” (FOUCAULT. Para Léonard importa estudar um período e os objetos que. Do mesmo modo. Léornard e Foucault estabelecem ordens distintas entre esses elementos fundamentais da pesquisa histórica. dessa História serial. pensa a si mesmo como um continuador da mutação na disciplina histórica de que fala Furet. ao tentar mostrar que uma ordem inversa. p.] quer tratar de um problema. 2006. Foucault. ou ao menos uma instituição durante um período. estabelecimento das relações que permitem essa solução” Apesar da aspereza com que Foucault responde a seus críticos. A ordem metodológica desses elementos para o historiador esteriotípico de Léonard é. em economia. o historiador consegue com muito esforço. A História assim se “especializa” de dois modos: segundo os objetos (especialistas em Revolução Francesa. somente aponta que essa ordem não é necessária e. Antigo Regime. etc). duas regras entre outras importam: tratamento exaustivo de todo o material e equitativa repartição cronológica do exame” (FOUCAULT. problemática e conceitual. em mentalidades.. distinguir. período e problema. portanto. gostaria de estudar um período. partindo do problema para a determinação dos objetos e posteriormente dos períodos. E. por outro lado. p. em mulheres. A resposta irônica de Foucault é que. surgido em um dado momento.. o historiador encenado por Léonard. XVIII. 2008. p.82 determinação dos conceitos. etc) ou segundo períodos (século XVII. o “cavaleiro da exatidão” implica numa prática historiográfica específica. de fato. focalização da análise sobre os elementos suscetíveis de resolvê-lo.326). Ela é certamente justificável e implica em suas exigências próprias: “P ara quem.

(problema-objeto-período). se suas pesquisas são integralmente empíricas. Entretanto. O que Foucault responde é que não está fazendo uma “história da prisão”. poucos conseguiram admitir a extensão de seus princípios básicos para a totalidade da prática histórica. tratar-se-ia de uma história centrada em um objeto determinado. A segunda categoria inclui a especialização em períodos. períodos da história. na última categoria. de forma absoluta. está a história que principia por se colocar algum problema. três modalidades do fazer histórico derivadas da escolha metodológica por uma das seguintes ordens: (objeto-período-problema). portanto. (período-objeto-problema).83 Embora todo historiador reconheça a História Serial como uma vertente legítima da historiografia. Finalmente. legítima certamente. elaborava uma imagem inaceitável do século das luzes. a tese de uma normalização maciça concomitante. dos camponeses. A primeira categoria inclui. etc. se Foucault foi o primeiro historiador completamente positivista. a história das mentalidades. que não há nenhuma unidade homogênea que nos permita individuar. das mulheres. parecia legítimo objetar a Foucault que sua “história das prisões” não levava em consideração os próprios presos 54 e que. mas que implicaria em exigências metodológicas diferentes. como quer Veyne. contrapondo à filosofia da Aufklärung. A questão que nos propomos agora é a seguinte: tal escolha é arbitrária ou a análise das consequências desses modos de individuação poderia nos levar a determinar a alternativa ótima do ponto de vista metodológico? Embora Foucault não confronte diretamente a comunidade historiográfica nesse ponto. na visão de Foucault. como ele mesmo as via. tentar-se-ia reformar o entendimento que se tem do século das Luzes. No primeiro caso. Tem-se. no segundo caso. Enquanto teria sido absurdo objetar a um historiador econometrista a ausência de uma análise sobre o conjunto indeterminado das pessoas supostas numa relação econômica. . o que explica sua conturbada relação com a comunidade historiográfica? Falamos de um 54 Essa reserva ao método foucaultiano é compartilhada mesmo pelos historiadores que lhe são mais simpáticos. está inscrita no próprio projeto de liberar a história do tema antropológico. quer sejam séculos. sua escolha por uma história problema parece se balizar na exclusão das demais alternativas através de dois pressupostos: que não há objetos naturalmente dados. épocas ou durações delimitadas por eventos específicos (Antigo Regime. contudo. nem uma nova história do século XVIII. dos operários. de modo geral. Tal desumanização da história. II República. por exemplo. etc). retira-la do meio das “ciências humanas”. Ela pode ser diacrônica ou sincrônica (caso em que um período é determinado concomitantemente ao objeto). Mas este também não é o objetivo alegado de Foucault. na qual se encontra a História Serial e que Foucault pretende também integrar.

se inicialmente os historiadores gostaria de permanecer eles mesmos. mesmo. tal como o desenvolvido por pelos “analistas do discurso” (ORLANDI. A ruptura entre Foucault e os historiadores em 78. Passemos por alto as relações que Foucault ainda manteve com os historiadores fora dos Annales (Perrot. dos seus escritos) e a comunidade dos historiadores é fundamental para avaliar o que se pode esperar do desenvolvimento atual de um novo paradigma historiográfico. 2002). A leitura que vê em Foucault um crítico do conhecimento histórico foi desenvolvida principalmente por Hyden White (2001) em torno da noção de “anti -história” e acompanhada principalmente pelos críticos mais recentes do historiador Foucault. não se poderia ter muita esperança de ver esse programa ser aceito de desenvolvido. p. como Ronaldo Vainfas (1997. p. É que o projeto focaultiano “modifica a relação da história com o passado. 1988. se manifestou. O “efeito Foucault” sobre a historiografia. entre outras. nesta e a partir desta relação que foucaultianos. como era de sua vontade.84 programa foucaultiano para a História e. contudo. ao incluir Foucault entre os “pós-modernos”. o modo com se deu e evoluiu a relação entre Foucault (e depois de sua morte. fundamentalmente. portanto. chama a um reexame dos objetos próprios da pesquisa histórica” (POSTER. depois de sua morte prematura. Pelo contrário. De fato há um número crescente de trabalhos de “inspiração foucaultiana”. 2002) e Ciro Flamarion Cardoso (1997). “esquecer Foucault” se tornou cada vez mais difícil. De modo que. Farge. Pois é. Alguns projetos são de clara hibridização. a julgar pela relação entre Foucault e os historiadores. Outros. para os quais cabe levar em consideração a filosofia de Foucault. prepara uma reorientação teórica da histórica como disciplina. hoje perfeitamente natural. Veyne). as leituras de VEYNE (2011). o fim do diálogo entre o pensamento foucaultiano e a historiografia. e talvez sobretudo. POSTER (1988) e RAGO (2002). 46) aos poucos pode se observar uma reorientação da comunidade historiográfica em direção aos questionamentos por ele propostos no debate com a escola francesa. Reconsiderar. anti-foucaultianos e herdeiros de Foucault se situam com relação ao seu trabalho. para usar a expressão de Margareth Rago (1995). contudo. 354). trabalhando-a desde o interior e não um crítico do conhecimento histórico56. perigosamente beiram a conversão do foucaultinismo em uma nova filosofia da 55 56 Vão nessa linha explicitamente. como afirma Veyne (2011. Não parece restar dúvida de que Foucault tenha pretendido ser um reformador da disciplina histórica55. . por vezes assimilando-a a outros autores sob a rubrica do pósmodernismo. cujas relações efetivas com o pensamento e o trabalho histórico de Foucault são difíceis de demarcar. pela produção da relação. entre a História e a Filosofia. não significou.

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história a substituir o hegelianismo. E Nisso seguem, basicamente, a leitura de Hyden White (2001, p. 279), para quem Foucault foi um “metafísico”. Há, por outro lado, assimilações mais sutis e diálogos menos unilaterais, principalmente no campo da Nova História Cultural. Roger Chartier, um dos ícones dos atuais annalistes, desde muito tempo, reconheceu certa dívida para com a crítica foucaultiana dos objetos naturais, na elaboração que lhe deu Paul Veyne no ensaio de 78, provavelmente devido à atenção que Le Goff lhe dispensou:

Após Foucault, é bastante claro, com efeito, que não se pode considerar esses ‘objetos intelectuais’ como ‘objetos naturais’, cujas modalidades históricas de existência seriam as únicas a mudar. A loucura, a medicina, o Estado não são categorias pensáveis sobre o modo do universal e cujo conteúdo cada época particularizaria. Por detrás da permanência enganosa de nosso vocabulário, deve-se reconhecer não objetos, mas objetivações que constroem a cada vez uma figura original. (CHARTIER, 2002, p. 58)

Para Peter Burke, a História Cultural da terceira geração dos Annales, principalmente a desenvolvida por Chartier, mostra-se claramente devedora dos

questionamentos levantados por Foucault à época do debate com a comunidade historiográfica:
Apesar da crítica de Foucault à ideia de influência, torna-se difícil não utilizar o termo para descrever os efeitos de seus livros sobre os historiadores do grupo dos Annales. Graças a ele, descobriram a história do corpo e os liames entre essa história e a história do poder. Importante também no desenvolvimento intelectual de muitos historiadores da terceira geração foi sua crítica aos historiadores, em razão de sua “pobre idéia do real”; em outras palavras, a redução do real ao domínio do social, deixando de fora o pensamento. A recente virada em direção à “história cultural da sociedade”, bem exemplificada com Chartier, deve muito à obra de Foucault. (BURKE, 1997, p. 98-99)

Ainda no âmbito da Nova História Cultural, Patricia O’Brien, reconhece certos princípios básicos do procedimento foucaultiano úteis para a história cultural; mais ainda, que “com sua ‘microfísica do poder’, Foucault estava construindo uma história da cultura que explicava como se constituíam os sujeitos, ainda que ele não estivesse absolutamente preocupado com a atuação humana – para ele, tratava-se de uma questão irrelevante” (O’BRIEN, 2001, p. 61). Desse modo, embora não chegue ao extremo de afirmar a existência de um método foucaultiano positivo, tal como Paul Veyne, reconhece a validade da atitude epistemológica de recusar todos os pressupostos e centraliza a caracterização do método de Foucault na genealogia: “O genealogista/historiador busca o começo, não a origem. Para

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Foucault, essa era uma distinção fundamental. As origens implicam causas; os começos implicam diferenças.” (O’BRIEN, 2001, p. 49). De modo que, “Foucault não procurava a evolução ou a recorrência. O método dele consistia, basicamente, em isolar as diferenças e procurar as inversões” (O’BRIEN, 2001, p.49). Considerando o problema de se saber como essa operação se dá na prática, a historiadora chama a atenção para a justaposição que faz aparecer os objetos em caráter diferencial: “Foucault usou reiteradamente o recurso da justaposição para introduzir e sustentar suas histórias. [...] um instrumento para minar os pressupostos progressistas sobre a transformação” (O’BRIEN, 2001, p. 50). E, no entanto, a historiadora não avança a análise ao ponto de reconectar esse procedimento com o método de produção de séries da História Serial, o que obscurece as condições pragmáticas de ativação do mesmo. Desse modo, nas palavras da historiadora americana, “ainda não est á absolutamente claro quanto a obra de Foucault será importante para forjar uma nova prática” (O’BRIEN, 2001, p. 60) ou, que de modo geral, como aponta Lynn Hunt, na introdução da coletânea, “seu programa permanece idiossincrático em termos gerais” (HUNT, 2001, p. 11), O’Brien conclui que “para a escrita da história, talvez a melhor utilização da obra de Foucault esteja não em tentar encontrar uma teoria onde não existe nenhuma, ou impor rígidos limites onde existe plasticidade, mas, antes, em deformar sua obra, fazê-la gemer e protestar.” (O’BRIEN, 2001, p. 61) É claro que, ao lado dessas possibilidades há também toda uma gama de historiadores que se mantém, por razões diversas, hostil a tudo o que se refere ao filósofo francês. Esses historiadores que costumam se auto-denominar “racionalistas” para se opor a um pretenso “irracionalismo” corrente, frequentemente alinhando-se, explicita ou

implicitamente, à posições neo-racionalistas (tal como a de Habermas), já não acusam tanto as deficiências historiográficas dos trabalhos empíricos de Foucault. Geralmente, tomando Foucault inexplicavelmente como alguém que contestou as pretensões de conhecimento da História, engajam-se, sem o querer, no debate epistemológico que Foucault havia proposto em 78 e que fora recusado por Agulhon. Por fim, tem-se um conjunto de trabalhos de historiadores que não fazem uso da terminologia foucaultiana, nem sem preocupam em se dizerem explicitamente foucaultianos, mas, cujos projetos historiográficos podem ser reconhecidos, formalmente, estando dentro do “programa foucaultiano”. Entre eles está, obviamente, o trabalho de Paul Veyne, explícito ao aventar esse direcionamento ao menos desde a pesquisa Acreditavam os deuses em seus mitos?.

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Tendo adotado essa perspectiva no presente trabalho, resta considerar o fato de que o programa foucaultiano implica, no âmbito da epistemologia histórica, a substituição de um regime de verdades parciais por um regime de verdades provisórias. Seu sucesso, paradoxalmente, implicaria no abandono provável das teses substanciais das pesquisas foucaultianas por teses mais corretas, em tentativas de refutação das posições foucaultianas sobre temas empíricos. Nesse sentido, não é improvável que os livros de Foucault contenham grandes equívocos, que a reavaliação dos problemas mostre, afinal, que suas teses empíricas devem ser corrigidas ou mesmo abandonadas. François Dosse (1994, p. 381) encontra para cada pesquisa de Foucault ao menos um historiador que conteste seus resultados: À Histoire de la Folie opõe La pratique de l’espirit humain. L’insttution asilaire et La revolution democratique de M.Gauchet e GI. Swain; à La Volonté de Savoir opõe Le Pénis ou La Démoralisation de l’Occident de Jean-Paul Aron e Roger Kempf. Por outro lado, a respeito das polêmicas levantadas pela História da Sexualidade de Foucault, Engel (1997, p. 303) levanta, muito pertinentemente a questão, de se esta “irritação” provocada por Foucault não seria uma de suas maiores contribuições à historiografia:
Suas ideias – quer sejam aceitas integral ou parcialmente, quer sejam refutadas de forma mais ou menos consistente – têm o mérito indiscutível de abalar e mexer com os pressupostos, concepções, certezas sobre as quais calmamente se assentavam muitas da perspectivas da análise histórica.

A conclusão de Veyne (2011, p. 146) é ainda mais favorável ao falecido amigo:
Quando dizia e repetia que seus livros não passavam de ‘caixas de ferramentas’, não era para convir modestamente que eles não tivessem tesouros; ele entendia por essas palavras que desejava ter alunos (ele teria dito em estilo universitário), e convidava seus leitores de boa vontade a utilizar seus métodos e a continuar seu empreendimento assim como faz o físico com alunos que são seus continuadores (VEYNE, 2011, p. 146)

De modo que a contribuição de Foucault a ciência histórica foi e permanece sendo metodológica. Ao retomar o tema da relação entre Foucault e a comunidade historiográfica, quisemos passar do sintoma à sua causa, da desavença entre intelectuais franceses ao dissenso que separa programas diferentes em uma ciência. Restou claro que a impossibilidade de um acordo entre Foucault e a Escola Francesa se baseava em uma mútua incompreensão: os historiadores não percebia a obra de Foucault como extensão metodológica da História Serial; Foucault, por seu lado, tomava a História Serial como única possibilidade epistemológica para

mantendo um interesse também renovado pelas “histórias” de Foucault. não se pode dizer que o problema tenha se evanescido pela morte do filósofo ou pelos novos rumos tomados pela historiografia. Passadas mais de quatro décadas desde essa pequena methodenstreit.88 o desenvolvimento das disciplinas históricas. desprezando todo programa que ainda se ligasse aos temas antropológicos. . a questão do programa (ou “paradigma” como preferem dizer a maioria dos autores que tratam do assunto) a ser adotado pelos historiadores se renova indefinidamente. principalmente de tradição francesa. Ao contrário.

podemos agora retomá-la a fim de tecer nossas últimas considerações. tal como há uma geografia geral ao lado das geografias regionais. à ambição de Foucault.89 CONSIDERAÇÕES FINAIS Inicialmente tomamos a proposição de Paul Veyne (1995). evocando um ou outro historiador que parece trabalhar nessa linha (Boltanski. 1995. De um . o chão dos historiadores desabou. essa contribuição parecerá bastante modesta. (RAGO. Levando em consideração que a crítica de Foucault ao uso do princípio de realidade em história estava ligada ao projeto de uma história geral ao lado das histórias regionais. Thévenot. Outros historiadores como Jacques Le Goff (1990). pois já não contávamos nem com um passado organizado. prefere sonhar com “jovens historiadores que sonhariam escrevê-la [a história] como ele” (VEYNE. efetuando a “descrição da dispersão”. Rosanvallon e Roger-Pol Droit). 35). p. Roger Chartier (2002) ou Margareth Rago (1995). repentinamente. porém. E. ao invés de partirmos em busca da síntese e da totalidade. De todo modo. “Foucault revoluciona a história”. cujas formas poderiam ser reconhecidas ao longo do tempo. ligaram a recepção de Foucault a um ultrapassamento da concepção de realidade então vigente na história social. julgava que as pesquisas de Foucault promoveriam uma reviravolta na maneira como os historiadores encaravam a realidade histórica. 47). nem com objetos prontos. uma vez que ela representa a tese mais ousada no interior do problema que nos propomos. a seguinte constatação: Ora. Quando Veyne (1995) acrescentou o ensaio sobre Foucault à segunda edição de seu tratado de epistemologia. 73) Comparado. esperando para ser “desvelado”. nem tampouco com o fio da continuidade que nos permitia pensar de uma maneira mais sofisticada em termos de processos históricos e sociais. p. O próprio Paul Veyne (2011. nem com sujeitos determinados. aliás. mesmo quando assimilam alguns conceitos de Foucault. como um fio condutor para analisar as relações entre os trabalhos do filósofo e a historiografia francesa. É desta última. 2011. É verdade que em nenhum momento pretendemos demonstrá-la positiva ou negativamente. no Brasil. a prática efetiva dos historiadores em geral não parece ter se alterado drasticamente. deveríamos aprender a desamarrar o pacote e mostrar como fora constituído. podemos constatar que as relações entre Foucault e os historiadores e a própria dinâmica de assimilação das propostas foucautianas na historiografia conservam aquelas dificuldades próprias do diálogo entre filósofos e historiadores. mas.

inclusive conjuntamente. . do período e tratamento exaustivo das fontes pertinentes. continuará a ser uma referência metodológica importante no desenvolvimento da historiografia neste século XXI. Foucault superestimou declarações teóricas dos historiadores. De todo modo. à medida em que as incompreensões mútuas que marcaram a relação de Foucault com a comunidade historiográfica são desfeitas graças aos trabalhos de historiadores e filósofos. podemos concluir que a obra de Foucault. abstraiu princípios epistemológicos e metodológicos de suas práticas. De modo que suas construções ainda hoje são consideradas deficientes por ignorarem este ou aquele aspecto dos objetos de que trata. essa ou aquela documentação considerada indispensável. mas subestimou as convenções disciplinares. incluindo as dificuldades que comporta e os debates acalorados que suscita.90 lado. Sua proposta de história geral ia de encontro a requisitos bem aceitos na comunidade historiográfica acerca de como uma boa pesquisa deve ser realizada: delimitação precisa do objeto.

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